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Espaço urbano, espaço de desintegração: as Cidades Sitiadas de Stephen Graham1

Pedro Rocha de Oliveira2

Cidades Sitiadas, de Stephen Graham3, é um vertiginoso inventário da diversidade de preocupantes


transformações que a vida urbana vem sofrendo – transformações essas que apontam para um
diagnóstico do sentido geral que o processo civilizatório capitalista assumiu em tempos mais ou
menos recentes. A ideia de que a cidade, espaço fundamental da socialização moderna, torna-se o
nexo de uma enxurrada de técnicas de dominação perpassa os nove capítulos. Os temas reincidentes
são a proliferação das fronteiras urbanas, a militarização da segurança pública, a ascensão das
guerras securitárias, e a sobreposição entre as redes e tecnologias de comunicação e consumo, de
um lado, e de vigilância e exercício de violência estatal, de outro.
A argumentação de Graham parte da descrição das “guerras assimétricas” que hoje
caracterizam o imperialismo norte-americano, e que têm nas cidades o espaço privilegiado de
operação. Tais guerras envolvem o confronto entre as mais poderosas Forças Armadas do mundo e
organizações desproporcionalmente mais fracas: desde militantes jihadistas até os chamados
“Estados fracassados” – termo que os teóricos conservadores, a cujo discurso Graham é muito
atento, usam para designar o que outrora chamava-se Terceiro Mundo. Para ter sucesso nesses
conflitos, o equipamento e a racionalidade de destruição norte-americanos precisam se adaptar às
ruelas estreitas, à tridimensionalidade dos edifícios de apartamentos, ao concreto que obstrui a
propagação das ondas eletromagnéticas usadas para rastreamento e comunicação, e daí por diante.
Graham guia o leitor pelo emaranhado de relações sinistras entre governos e empresas de
armamentos e de tecnologia que possibilitam a solução desses problemas através de gastos
astronômicos, e um gigantesco custo humano em termos de vidas, cerceamento de liberdades, e
instauração da experiência da ameaça no quotidiano da vida urbana.
Mas Graham mostra que tais preocupações e soluções, discutidas pelos think-tanks de
estratégia militar, são crescentemente ecoadas pelos tecnocratas que vêm oferecer, no âmbito da
administração pública, respostas para o “combate ao crime” e a segurança urbana nos espaços em
que não há guerra – afora quando se emprega o conflito bélico como metáfora de forma
irresponsável, mas nem por isso infrequente: no Rio de Janeiro, por exemplo, a mídia e os porta-
vozes do executivo falam frequentemente de “Guerra do Alemão”, “Operação de guerra na
Rocinha”, etc. Desviando da mistificação desses discursos, o que realmente preocupa o autor é que,
se na guerra assimétrica, que tem como “teatro de operações” o espaço urbano, a distinção entre
combatentes e cidadãos tendencialmente desaparece, seus princípios táticos e tecnológicos acabam
sendo diretamente traduzíveis para os problemas do policiamento – e vice-versa. Trata-se de uma
assimilação mútua entre a guerra e o policiamento, e não a simples identificação do segundo com a
primeira. É assim que as Forças Armadas brasileiras vêm sendo empregadas com bizarra
regularidade em funções de policiamento, os helicópteros empregados no Iraque também
sobrevoam as ruas de Los Angeles à noite, equipados com os mesmos sistemas de infravermelho, e
as polícias de vários países do mundo já empregam – a mais das vezes, coercitivamente, e sem
autorização judicial – os mesmos kits portáteis de coleta de material genético que os soldados norte-
americano usavam para profilar potenciais “insurgentes” nas vizinhanças problemáticas de Fallujah.
O Estado que se comporta de forma comparável em espaços de guerra e em espaços de paz exerce
um “poder securitário” que, se não se caracteriza pela deflagração do conflito armado generalizado
no território nacional, emprega continuamente práticas de mensuração de risco e eliminação
proativa de ameaças, discriminando grupos, indivíduos e espaços, e submetendo-os a uma
experiência urbana comparável àquela pela qual passam populações vivendo em territórios
militarmente ocupados.
Elemento fundamental para a funcionalidade dessas práticas securitárias, no sentido que lhes

1 Publicado na Revista Margem Esquerda (Vol. 31 2018-2 pp. 159-162)


2 Professor Associado, Departamento de Filosofia, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Coautor do livro Até o último homem. Visões cariocas da administração armada da vida social (Boitempo, 2013).
3 Graham, Stephen. Cidades sitiadas. O novo urbanismo militar. São Paulo: Boitempo, 2016.
dá Graham, é uma ampliação e um aprofundamento do potencial informacional e de rastreamento
das tecnologias eletrônicas de consumo e serviços urbanos: os registros de telefonia, cartões de
crédito e cartões de transporte público; a introdução de software inteligente de reconhecimento
facial, de retina e de trejeitos pessoais nas redes de monitoramento por câmera; e o emprego de
todos esses sistemas avançados para a implementação armada de critérios de segregação – esses, já
antigos – étnica e econômica. Pois o autor percebe muito bem que as transformações na
administração urbanas implicadas pelo desenvolvimento de tais práticas são indissociáveis de
alterações mais profundas no sentido da gestão pública, ligadas sobretudo ao desmonte neoliberal
das redes de assistência social. As populações que antigamente constituíam os objetos primordiais
de tais redes – onde elas chegaram a existir – tornam-se “populações de risco”: rompendo com os
critérios modernos da cidadania nacional, o Estado cerceia e restringe a mobilidade dessas
populações segundo uma lógica de “multiplicação de fronteiras” que as mantém confinadas a
guetos caracterizados por uma geografia artificial de controlabilidade militar: entradas e saídas
facilmente bloqueáveis por veículos blindados e checkpoints. Em algumas cidades da Índia, o
perfilamento de DNA compulsório é aplicado a habitantes de favelas tidas como problemáticas –
mas não às áreas urbanas circundantes – enquanto que, no Rio de Janeiro, a criminalização da
pobreza, que durante décadas funcionou extraoficialmente, através da violência informal da polícia,
ganha perfis oficiais através da ocupação policial formal e judicialmente amparada das Unidades de
Polícia Pacificadora.
Nesse ponto, o leitor mais ou menos antenado com o que usualmente se chama de política de
segurança pública no Brasil, pressente que, se a mesma lógica de administração territorial armada é
empregada por aqui, em Oakland, e em Fallujah, é porque o papel econômico das populações
habitantes dos territórios segregados deve ser comparável. Tratam-se de populações que são tratadas
como descartáveis pelo regime de acumulação capitalista. A própria reflexão sobre a transformação
do espaço urbano sustenta essa ideia. Na origem da industrialização capitalista, a cidade era um
depósito de força de trabalho, que, no pós-guerra, passou a ser alvo de políticas de assistência para
sua preservação, reprodução e manutenção como produtores e consumidores. Em contraste, o que
assistimos hoje, a confiar na argumentação de Graham, é a proliferação de técnicas de controle e
dominação armada e tecnológica da população citadina e, em última análise, de “urbicídio”. Nesse
sentido, os dispositivos de discriminação socioeconômica e étnica, com expressão espacial,
trabalham nos interstícios das necessidades de circulação de mercadorias, recursos (inclusive
humanos) e dinheiro, ao mesmo tempo que procuram identificar a imobilizar setores crescentes da
população.
Com isso, chegamos àquele que, embora não seja o argumento central na obra, é, segundo
nos parece, o mais ousado e significativo de nosso autor: a reflexão a respeito da maneira como a
administração urbana securitária, que se desdobra na assimilação contemporânea entre a guerra e a
paz, está fundamentada numa determinada forma de operação econômica, ou regime de acumulação
capitalista. A reflexão sobre a guerra é que lança luz sobre esse tema. Por um lado, haveria um
aspecto imperialista na guerra contemporânea, segundo o qual, nos termos de teóricos do
expansionismo norte-americano, trata-se de “conectar” territórios e submetê-los aos interesses
econômicos defendidos pelo governo dos Estados Unidos e de seus aliados; por outro lado, o tipo
de conexão envolvida tem muito pouco a ver com aquela que resultava, por exemplo, do tipo de
conflito inter-Estatal que marcou a Segunda Guerra Mundial, que o autor chama de “guerra
keynesiana”. Aí, se os vitoriosos impuseram sanções econômica, ao mesmo tempo envolveram-se
intimamente, através de empréstimos vultuosos, com a reconstrução e o futuro desenvolvimento
econômico dos derrotados: com sua recuperação e reestabelecimento como sociedades capitalistas
de consumo. Contudo, no atual regime de “acumulação por espoliação” – Graham utiliza o conceito
de David Harvey – a conexão econômica não implica aquele desenvolvimento interdependente, mas
uma exploração predatória de recursos que é mediada pela administração militar direta do território
ou instauração de regimes clientelistas precários, funcionando com base na lógica securitária.
Nesse contexto, Graham evoca o bizarro conceito de desmodernização, usado pelos teóricos
conservadores para descrever as práticas militares relacionadas à destruição de infraestrutura civil.
Por um lado, o autor elenca as tecnologias e estratégias empregadas para tanto: sendo a vida urbana
especialmente dependente de serviços de transporte (inclusive de alimentos), comunicação,
tratamento de água, e da rede elétrica que os alimenta, trata-se de desenvolver armas – tais como os
bastonetes de carbono que, lançados de bombardeiros, causam curto-circuitos generalizados – e
escolher alvos que inviabilizem a simples reprodução da vida urbana. Isso porque, na guerra
assimétrica, a percepção é de que, como apontamos acima, a população urbana precisa ser tratada
potencialmente como combatente. Com base nesse raciocínio, por exemplo, representantes do
governo israelense declaram abertamente seu objetivo de “tornar a vida um inferno” nos territórios
palestinos, e investem na precarização da infraestrutura de Gaza, tanto através das operações
militares periódicas, quanto através do bloqueio econômico. A desmodernização de um território é a
decretação de que, nele, o desenvolvimento de uma população de consumidores e produtores de
mercadorias, embora não interrompido, estará propositalmente obstaculizado. Ou seja: exceto pelos
recursos naturais que contenham, tratam-se de territórios sobrantes para a acumulação capitalista
em sua forma contemporânea.
Nas favelas e periferias brasileiras, a mistura de administração territorial armada, retração da
(desde sempre parca) rede de serviços de assistência, e a precarização do trabalho e do consumo,
também aponta para o conceito de desmodernização. É isso que dá ao leitor brasileiro do Cidades
Sitiadas a sensação de familiaridade – amarga, porém cognitivamente proveitosa – diante das
descrições do urbicídio no gueto global que é palco da guerra securitária.

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