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A perspetiva e o colonial – a revista Angola da LNA

Conteúdo
RESUMO .......................................... Erro! Marcador não definido.
PARTE I: colonial ........................................................................... 5
PARTE II: literatura ..................................................................... 14
Bibliografia ........................................................................................ 21
RESUMO
Falar acerca da Imprensa Colonial implica, desde logo, um desafio
teórico e prático estimulante. O desafio teórico vai centrar-se na
definição do colonial; o desafio prático é o de arrumar um grande
número de jornais, muito diferentes entre si. Começando por
encontrar um compromisso que possibilite essa arrumação funcional,
passo depois a considerar o que seja colonial na imprensa de uma
dada época.
Entendo que essa, como outras definições, não pode ser esquemática
e deve resultar de uma análise abrangente, que tome em conta
fenómenos diversos ocorrendo no mesmo tempo em espaços e entre
enredos de relações também diversos.
De há muitas décadas a esta parte, a conceptualização e classificação
do que seja colonial – na Imprensa como na Literatura e na História
das Culturas – vem sendo orientada pelo critério da perspetiva:
quando se deteta uma perspetiva colonial por parte dos protagonistas
(dos agentes culturais e artísticos no caso) nós temos documentos
coloniais; quando a perspetiva é anticolonial ou decolonial, estamos
perante documentos pós-coloniais, ou nacionais. Isso desloca o
problema da definição de o que é colonial para a definição de
'perspetiva colonial'. Mas não só.
Parece-me que o critério da perspetiva traz mais problemas do que
resolve e, desde logo, o problema de se definir o que é a perspetiva
neste caso. Nós não consciencializamos que a palavra funciona com
uma aceção vaga ou múltipla e mudamos-lhe o sentido, ou a nuance,
conforme nos dê jeito no contexto imediato. Porém, se formos a ver
como, por exemplo, a perspetiva se realiza e revela numa obra
concreta, nas páginas de um jornal, numa fotografia, precisamos
definir de que perspetiva estamos a falar e precisamos de articular as
várias aceções: a perspetiva ideológica, a tomada de vista, a
estruturação e semiotização dos instrumentos e elementos usados, as
funções atribuídas a tais elementos implicadas na leitura do ‘texto’,
etc..
Usando o critério da perspetiva ideológica revelada nas páginas de
jornais e romances, esse critério depressa se revela mais enganador e
nos mostra que há imprensa ou romance colonial feito por
colonizados, como imprensa e romance anticoloniais feitos por colonos
– isto, pelo menos, no caso de Angola, que será o nosso campo de
experimentação devido, precisamente, à complexa diversidade da sua
pequena comunidade literária e intelectual. Precisamos, então, de
recorrer a um critério menos enganador. Nós precisamos de levar em
conta a complexidade humana da própria situação colonial, tanto
quanto a semiosfera em que se cria e se torna a base incontornável de
diálogo e de publicação nas urbes coloniais. Um critério que nos leve
a analisar os mais diversos fatores, por exemplo: psicológicos, gráficos,
rítmicos, gestuais, tipos e modos de funcionalizar os materiais usados,
o lugar das estruturações previamente codificadas e o das imprevistas,
etc..
Analisando, por exemplo, as capas de livros narrativos da colónia e as
páginas do boletim-revista Angola da década de 1930-1940, vou pôr
em prova uma possível substituição do critério da perspetiva, que não
rejeito, mas acho parcial e a suscitar a sua depuração mesmo assim.

Palavras-Chave: Literatura, Imprensa, Colonial, Perspetiva

ABSTRACT
Talking about the Colonial Press implies, from the outset, a stimulating
theoretical and practical challenge. The theoretical challenge will focus
on the definition of colonial; the practical challenge is to organize a large
number of newspapers, very different from each other. Beginning with
finding a compromise that makes possible this functional arrangement,
I then consider what is colonial in the press of a given time.
I understand that this, like other definitions, can not be schematic and
must result from a comprehensive analysis, taking into account diverse
phenomena occurring at the same time in spaces and between different
relationship plots.
For many decades, the conceptualization and classification of what is
colonial - in the Press as in Literature and in the History of Cultures -
has been guided by the criterion of the perspective: when a colonial
perspective is perceived by the protagonists (of cultural agents and
artistic in the case) we have colonial documents; when the perspective
is anticolonial or decolonial, we are faced with postcolonial or national
documents. This shifts the problem from the definition of what is
colonial to the definition of 'colonial perspective'. But not only.
It seems to me that the criterion of the perspective brings more
problems than it solves and, from the outset, the problem of defining
what the perspective is in this case. We do not realize that the word
works with a vague or multiple meaning and we change its meaning or
nuance as it shapes us in the immediate context. But if we are to see
how, for example, the perspective is realized and revealed in a concrete
work, in the pages of a newspaper, in a photograph, we need to define
what perspective we are talking about and we need to articulate the
various approaches: the ideological, the structuring and semiotization of
the instruments and elements used, the functions attributed to such
elements implied in the reading of the text, etc.
Using the criterion of the ideological perspective revealed in the pages of
newspapers and novels, this criterion soon turns out to be more
misleading and shows us that there is a colonial press or novel made by
the colonized, such as anticolonial press and novels made by settlers -
this, at least in the case of Angola, which will be our field of
experimentation due precisely to the complex diversity of its small
literary and intellectual community. We need, then, to resort to a less
misleading criterion. We need to take into account the human
complexity of the colonial situation itself, as well as the semiosphere in
which it is created and becomes the indispensable basis for dialogue
and publication in colonial cities. A criterion that allows us to analyze
the most diverse factors, for example: psychological, graphical,
rhythmic, gestural, types and ways of functionalizing the materials
used, the place of previously codified structures and unforeseen
structures, etc.
Analyzing, for example, the narrative book covers of the colony and the
pages of the Angola magazine bulletin of the 1930s and 1940s, I will
test a possible substitution of the criterion of perspective, which I do
not reject, but I think partial and provoke its debugging anyway.

KEYWORDS: Literature, Press, Colonial, Perspective


PARTE I: colonial
A organização deste encontro torna incontornável a discussão do
‘colonial’ na ‘imprensa colonial’. Em primeiro lugar, uma questão prática,
de etiquetagem, de classificação para arrumar obras. É preciso arrumá-
las de forma a encontrá-las bem e depressa, numa biblioteca, num
computador, ou na rede. Por isso, a “questão prática” não deixa de ser
importante, porque ela trabalha com a própria arrumação mental dos
assuntos.
O mais simples é juntar todos os periódicos centrados em temas coloniais
e produzidos no tempo colonial, relativos a qualquer das colónias de um
país e às abordagens teóricas, ou meramente comparativas, consideradas
pertinentes para tais colónias e tal colonizador. Então, podia se chamar
isso de ‘imprensa colonial’, por exemplo imprensa colonial portuguesa.
Uma vez agregados os títulos todos, abrem-se secções internas para
organizar o conjunto – muito vasto. Secções como, por exemplo,
‘imprensa de colonos’, ‘imprensa de colonizados’, ‘imprensa colonialista’,
‘imprensa anti-colonialista’; ou, numa série diferente: ‘imprensa colonial
angolana’, ‘imprensa colonial metropolitana’, imprensa colonial
moçambicana’, etc..
Supondo que até aqui tudo seja pacífico, surgem os primeiros problemas:
há uma imprensa colonial angolana? Segunda questão: como classificar
os periódicos produzidos por colonizados que, entretanto, saíram da
colónia e do país colonizador e os fizeram enquanto lutavam pela
independência? Já não foram redigidos sob a censura autoritária do
colonialismo, porém são do período colonial ainda, mas não são
produzidos na colónia, nem na metrópole, nem com ‘espírito’ colonial.
Há um exemplo brasileiro (ou luso-brasileiro) do princípio do século XIX,
o que nos permite uma dupla comparação: no tempo e no espaço. Trata-
se de O correio braziliense – Correio Braziliense ou Armazém Literário – “a
primeira publicação regular” brasileira “livre de censura” e publicada em
Londres, mensalmente, sem interrupções, desde 1.6.1808 até Dezembro
de 1822. Era dirigida por um filho da colónia de Sacramento (hoje
Uruguai), de seu nome completo Hipólito José da Costa Pereira Furtado
de Mendonça – apelidos, curiosamente, ligados pelo menos às colónias
do Brasil e de Angola, sobretudo os Furtado de Mendonça. De certo modo,
era já a publicação de um Brasil independente, na medida em que nela
se escreveu sem a autocensura resultante da repressão colonialista à
imprensa. Porém, o seu responsável, ainda em Fevereiro de 1822, achava
perigoso o caminho da independência. O que nos devolve o problema:
Esses periódicos serão coloniais ainda? Serão já nacionais? Serão pós-
coloniais? Ou, simplesmente, para-coloniais? Para os integrarmos nas
nossas estantes, era preciso mudarmos o nome deles, passando a
“imprensa do período colonial”, em vez de só “imprensa colonial”. O
adjetivo desloca-se, portanto, para qualificar o período e não a imprensa.
Com tão pouco, talvez possamos resolver o nosso problema de arrumação
mental e arquivística.
Resolvido isso, quero colocar uma pergunta: a diferenciação (Andrade,
1969), trazida pela residência em um espaço de liberdade e de afirmação
alternativa, não é suficientemente forte para considerarmos que a
imprensa fora do espaço colonial já não é colonial? Ou será colonial por
se reportar ainda ao espaço colonial e se destinar aos habitantes da
colónia? Ou será colonial porque a orientação do periódico ainda não é,
claramente, a favor da independência (e, portanto, o redator ainda pensa
com mentalidade colonial?)
Duas respostas aparecem. Começo pela mais comum: se a perspetiva era
colonial, então o periódico também seria. Vamos debater este critério da
perspetiva e, como veremos, ele traz mais problemas do que resolve.
Penso numa segunda resposta a partir de outra pergunta: qual o peso da
receção pretendida, que importância tem o tipo de destinatário explícito
que o jornal convoca, para a definição de um periódico? Veremos que, a
um nível mais profundo de análise, o critério da receção não é
suficientemente nítido, fino, para dilucidar atitudes e estruturações. Mas
ele nos permite avançar bastante, sem dúvida.
Vamos ao critério da perspetiva, o mais comum nos ensaios que leio sobre
o assunto. Critério escorregadio, que usamos sem perceber que, para
cada um, perspetiva tem um significado próprio. Aparentemente, o que
está em jogo pode não ser tanto uma deslocação no espaço quanto a
veiculação, livre, de uma nova perspetiva, de uma visão nova do problema
colonial e de sujeitos que se colocam já num ponto de vista de cidadãos
livres de um futuro país. Então nos parece que uma imprensa praticada
por tais sujeitos é já pós-colonial.
Examinemos mais de perto. Neste ponto, o estudo da literatura nos pode
ajudar – e não tanto pela diferenciação forçada a partir de uma perspetiva
ideológica, não literária. Essa, à partida, se descarta, uma vez que não
estamos a classificar a imprensa pró- e anti- colonialista, mas sim
colonial ou não colonial. Houve, por exemplo em Angola, uma literatura
produzida por colonos que eram anticolonialistas e uma literatura
colonialista produzida por filhos da terra. Defrontámo-nos, durante
bastante tempo, com essa pedrada no charco e só quem não a quis ver
entendeu que não havia problema com o critério da perspetiva.
Procurando superar esse critério, para não cairmos em confusões
conceptuais, o estudo da literatura pode ajudar mais é com sua visão
crítica do historial das diferenciações, ou das tentativas de diferenciação
verificadas ao nível das estruturações, um nível ainda formal e que, por
isso mesmo, permite situar as diversas produções para além da
perspetiva ideológica assumida.
É certo que, da perspetiva ideológica assumida se deduzem simbolizações
que vinculam certos aspetos formais ao processo de conotação partidária.
Por exemplo, as cores que simbolizam Angola serão o vermelho das
acácias e o negro da noite, ou seja, o vermelho também da revolução e do
sangue, o negro também do sangue e da cor da pele. No mesmo sentido,
a partir do fim dos anos 40 do século XX, o recurso modernista (e,
portanto, global) do verso livre e branco, sem rima, passará a ser visto
como aproximação à poesia e à prosódia populares, passará a simbolizar
isso, tornando-se obrigatório ou, pelo menos, aconselhável. Então a
perspetiva determinou conteúdos e formas, escolhas estilísticas e
técnicas versificatórias.
Mas há formalizações e estruturações além dessas ideologicamente
marcadas, e que por isso mesmo escapam à vigilância partidária e à
autocensura militante do próprio escritor. Assim, o que talvez os estudos
literários possam aconselhar, para classificar determinada imprensa
como colonial ou não, é que, para além da perspetiva ideológica e da
focalização mais evidente, se analisem outros aspetos. Por exemplo: o
grafismo da imprensa colonial inclui modelos ‘modernos’ e modelos
‘clássicos’; o grafismo da imprensa não-colonial faz o mesmo? Caso não
faça, estabelece alguma semelhança entre a visualidade das letras e o
grafismo dos signos inscritos em madeira, ou escritos na areia, nas
sociedades para-coloniais ou pré-coloniais? Outro exemplo: a inserção
das imagens visuais (fotografias e desenhos) usa-as como interpretantes
das realidades que reportam ou somente como emblemas, ilustrações de
uma perspetiva dada à partida e inquestionável?

Vou colocar estas questões em análise prática para melhor esclarecer o


meu ponto de vista. Falei, mais atrás, em escritores colonos
anticolonialistas e escritores indígenas colonialistas. Aprofundo agora
esses casos e veremos, então, que, a perspetivação do problema colonial
e da resposta a dar-lhe não determina posturas e feituras artísticas
próprias ou típicas de uma literatura colonial ou de uma literatura local.
Surpreende, por exemplo, que, face à produção literária de referência
angolana, críticos e escritores portugueses, angolanos, luso-angolanos,
colonialistas e anticolonialistas tenham defendido posturas similares
estando em campos ideológicos e antropológicos opostos em suas
autorrepresentações e nos objetivos. Ou seja: a perspetiva em que
militavam era oposta, mas a maneira como davam a ver e os limites desse
olhar podiam ser idênticos nas suas funções e no seu desenho geral: uns
segregando, outros assimilando; uns criando compartimentos estanques,
outros abolindo as linhas de fronteira. Quem me ler, pensará: os colonos
segregavam, os colonizados aboliam fronteiras e assimilavam. Mas a
realidade é mais complexa, mais atrevida, exigindo alguma subtileza.
Atenhamo-nos à literatura colonial e a considerações acerca dela feitas
por escritores portugueses. Há dois modelos óbvios de escritor: o primeiro
representa (artisticamente) a perspetiva do colono; o segundo,
assumidamente, procura uma perspetiva contrária, nacional e
anticolonial. Até aí tudo bem. Mas alguns escritores insistem na
reclamação e na obrigação de um conhecimento autêntico do negro, do
colonizado, ou do africano, e na sua representação fiel em termos
psicológicos também. Estes autores têm como pressuposto, assumido
quase sempre, que um ‘branco’ não consegue retratar psicologicamente
um ‘negro’. Quem são eles e de que lado estavam?
Sintomaticamente, Fernando Monteiro de Castro Soromenho busca uma
representação psicológica autêntica e centra a narrativa em personagens
‘negras’, do mundo ‘selvagem’, dos ‘indígenas’. Isso acontece no período
da sua escrita considerado colonial e, no entanto, não foi por exotismo.
As obras desse período falam-nos de personagens locais com os seus
pensamentos e sentimentos transcritos por um autor omnisciente
(embora o narrador nem sempre o seja). Leia-se, por exemplo, Nhári: o
drama da gente negra (Soromenho, 1938). O livro recebeu, no ano
seguinte, o “2.º prémio da Agência Geral das Colónias” e o autor,
entretanto, resolveu nunca mais o publicar. Por estranho que pareça, na
‘Trilogia de Camaxinde’ (Soromenho, 1944; Soromenho, 1970;
Soromenho, 1957), que tão claramente denuncia e desmonta o poder
colonial no terreno, os ‘índígenas’ tendem a meros figurantes – ainda que
não boçais – e são remetidos ao cenário de fundo. É, portanto, no período
em que faz literatura colonial que o ficcionista retrata psicologicamente o
colonizado – elaborando um retrato profundamente humano, denso,
dramático, recordando a vida mental das personagens nas obras de
Augusto Bastos (1873-1936) e de Óscar Ribas (sobretudo em Uanga:
feitiço (Ribas, 1950; Ribas, 1969). Por esse retrato ele tenta pular os
limites do colono e do colonialismo e entrar na personagem, encarna-la,
viver a sua humanidade. O mesmo se passará, muitos anos depois e já
num quadro nacional, com as aproximações do antropólogo Ruy Duarte
de Carvalho, narradas pelo escritor homónimo – por exemplo em Vou lá
visitar pastores. É um citadino, urbano, com formação no ensino
superior, que tenta apreender o ser humano com o qual está a
confrontar-se. Ambos, afinal, por essa postura coerente e consequente,
constroem uma narrativa não colonial.
Por outro lado, um crítico assumidamente português e colonial, Jaime
Salinas de Moura, considerava impossível um português, ou um colono,
imitar ou representar o ‘ser negro’, a ‘alma negra’, dar-nos “o clima
interior do selvagem africano” (Moura, [1954?] [1948] p. 15). Isso só
poderia ser feito pelos próprios. Óbvio que, para Salinas de Moura, o
branco nascido em Angola, ou para lá ido quando pequeno (como foi o
caso de Castro Soromenho – nascido em Moçambique, de Luandino
Vieira, de Ruy Duarte de Carvalho e David Mestre) é sempre português e
não “selvagem africano”, mesmo que viva numa selva de África. O
ensaísta nega, portanto, a prática de vários escritores nacionalistas que
vieram pouco tempo depois, a começar pelo precursor de todos eles,
Alexandre Dáskalos (v. o poema «que é s. tomé»), e a culminar na
personalizada prosa de inspiração suburbana de João Vêncio.
Coerente com esse manifesto ceticismo antropológico, em Ilustração de
Angola e Moçambique, em 1942, Salinas de Moura criticava a literatura
colonial pela sua falta de autenticidade e pela sua própria
impossibilidade, visto que só o negro, conforme diz, pode retratar o negro
fielmente (a sua negritude – faltava-lhe ainda a palavra). Penso que sem
querer, Salinas de Moura concordava com o que defendia um segmento
significativo dos ‘filhos da terra’, já em Angola, revista da Liga Nacional
Africana e até aos dias de hoje. Boa parte da lírica de Geraldo Bessa Victor
se destinava, precisamente, a denunciar a falsa representação do negro
e da negra na poesia colonial europeia (Victor, 2001), tentando mostrar,
ao mesmo tempo, que ninguém os retrataria tão bem quanto outro negro.
A oposição identitária, nessa imprensa, não se coloca tanto entre
angolanos e portugueses quanto entre negros e brancos, africanos e
europeus. Está implícito que Angola é terra de uns e Portugal, ou Europa,
terra dos outros (o mesmo implícito que lemos no Quissange de Tomás
Vieira da Cruz (Cruz, 2004)), o “príncipe dos poetas coloniais”. Negros e
brancos constituem dois blocos separados (com os mestiços incluídos no
bloco negro, como se fazia nos EUA) e, por assim dizer, isolados: a cada
um era vedado o ser do outro, num absoluto apartheid cognitivo.
É por isso, também, que Salinas de Moura, num conto de Natal intitulado
«Longe…», põe só protagonistas brancos, portugueses da ‘metrópole’,
reservando aos negros locais, ‘indígenas’, um papel de figurantes
estereotipados e boçais, como sucede com o romance anticolonialista de
Castro Soromenho. O autor de Viragem (1957) só não torna o negro boçal,
mas mantém-no à distância, no cenário de fundo, não explorando o
carater psicológico dos ‘indígenas’, aliás, não dando conta dele. O conto
de Salinas de Moura, no entanto, ganhou o segundo prémio do concurso
de A província de Angola e foi publicado em 1937 no Portugal colonial,
“revista de propaganda e expansão colonial” fundada por Henrique
Galvão (Moura, 6, 1937). Quanto a Castro Soromenho, como sabemos,
houve por bem exilar-se.
Vemos, portanto, no mesmo segmento (o colonial), duas perspetivas e
duas estratégias opostas. Ao mesmo tempo vemos, no outro bloco,
também duas perspetivas e duas estratégias opostas: a dos que põem a
tónica na Humanidade (como fizeram a maioria dos poetas da primeira
geração nacionalista) e a dos que põem a tónica na diferença racial, que
tornaria, a níveis mais profundos, as ‘raças’ incomunicáveis. A
organização das obras destes últimos é a mesma de Salinas de Moura: o
‘nós’ ocupa quase todo o palco, se não todo, por inteiro, como em O feitiço
da rama de abóbora, de Cikakata Mbalundu (Balundu, 1996); o ‘outro’
desaparece de cena, ou é remetido ao cenário de fundo (fica, portanto,
sem função narrativa própria) e muitas vezes diabolizado – como sucedia,
muitas vezes também, com a representação narrativa do ‘selvagem’. Em
contraposição, nos autores da primeira geração nacionalista, como no
Castro Soromenho da primeira fase, como no Óscar Ribas de Uanga, no
Colonizados e colonizadores de Raúl David e no João Vêncio de Luandino
Vieira, o que se tenta é mostrar a raiz e a complexidade das decisões
humanas com base numa análise psicológica profunda, que se aplicaria
a qualquer ser humano nas mesmas condições sociais. Um tal ser
humano, quer tenha a pele escura ou clara, está em condições de
assumir funções narrativas, incluindo a função de protagonista. Estes
escritores acabarão sempre construindo, por isso, personagens
transversais, cuja ação decorre numa semiosfera de fronteira.
A perspetiva segregadora é, na minha opinião, sempre colonial: ela
coloniza o seu bloco, o seu grupo, só lhe permitindo pensar-se e
representar-se de uma forma e nunca lhe permitindo pensar e
representar o outro, ou postular uma hipótese de interação cognitiva com
‘o outro’, visto sempre assim, nunca visto como o mesmo (o ser humano)
em posição diferente. Esse escritor, ou político, ou pensador, é colonial
por anulação de alteridade, como ocorre hoje com o novo racismo branco
e os novos segregacionistas negros nos EUA e na França. Ou, no que diz
respeito às religiões, com os novos fundamentalistas islâmicos, hindus e
cristãos.
O problema do critério da perspetiva começa a desenhar-se com maior
nitidez neste ponto. A perspetiva ideológica dos autores é oposta e a sua
prática narrativa é igual, orientada pela segregação cognitiva (ou seja:
pela crença na impossibilidade de se conhecer o que são pessoas
diferentes de nós, que por isso mesmo terão de ficar afastadas,
separadas, fora do nosso campo cognitivo, hermenêutico, heurístico e
epistemológico). Outras vezes, a perspetiva ideológica é partilhada, mas
a prática narrativa é contraditória. Assim vemos, por exemplo,
nacionalistas para quem os ‘brancos’, ou os ‘portugueses’, só podem ser
execráveis e não se representam com uma psicologia personalizada,
sofrendo uma caracterização plana, estática e igual para todos. E vemos
nacionalistas em que o ‘branco’, o ‘português’, ou simplesmente o inimigo
tem psicologia própria, humana, tratável – ainda quando condenável.
Se uma revista juntasse todos nas suas páginas, ficaríamos perplexos e
a perspetiva ideológica, não sendo estruturante nem determinando
nenhuma função narrativa, não serviria para nada. Essa revista seria
colonial ou anticolonial? Seria anticolonial por exprimir o ‘ser’ do
colonizado? Nesse caso, continuaria sendo mesmo que o ‘ser’ do
colonizado viesse defendesse o colonialismo, ou achasse a independência
perigosa? Quando Augusto Bastos, no princípio do século XX, retrata
num colonizado o colonizado que ele é também, ao mesmo tempo em que
defende o colonialismo (exemplar, idealizado, mas colonialismo), ele
escreve uma narrativa colonial, ou anticolonial, ou não colonial? A
pergunta faz sentido porque a sua focalização narrativa é a de um
colonizado, nomeadamente um filho da terra – por oposição ao reinol, ao
que veio do ‘Reino’. Ele conhece os colonizados ‘por dentro’, tanto quanto
os colonizadores, reconhece-lhes as personalidades, as motivações, os
medos, a ambos. É, por isso mesmo, um narrador descondicionado,
capaz de conceber e perceber os vários agentes da ação, venham de onde
vierem. Mas a perspetiva ideológica é a de um defensor do colonialismo e
o colonialismo retirava o protagonismo aos filhos da terra. Por outro lado,
em comum com os nacionalistas ele tem a clara noção de pertencer a um
setor intermédio, embora colonizado, que se distingue do ‘indígena’ tanto
quanto o colono também se distinguia do ‘selvagem’. É aquilo a que
habitualmente se chama um assimilado e os nacionalistas urbanos, os
primeiros a reclamar a unidade de todas as antigas nações daquele
espaço, também o foram. A literatura de um assimilado é, então, uma
literatura colonial ou não colonial? É não colonial mesmo que a sua
perspetiva antropológica e narrativa não coincida com a do ‘indígena’?
No boletim-revista Angola, da LNA, encontramos estes dois tipos de
postura – ainda que só um domine. Mas encontramos a postura do negro
que se exprime e define desmontando a visão exótica do europeu e,
simultaneamente, o mesmo escritor faz a defesa da sua integração no
império colonial português enquanto negro. O critério da perspetiva
podia-nos ajudar a resolver isto? É que a sua perspetiva é colonial (ele
quer participara da ‘civilização da África’), mas ele é africano e,
especificamente, negro, retratando-se como tal e não admitindo que
outros o retratem. Creio que não nos serve de nada, neste caso, o critério
da perspetiva. Ele nos iria levar, novamente, a uma encruzilha de
confusões que baralhou o próprio discurso nacionalista durante muitos
anos. O critério da perspetiva, denunciando uma classificação cómoda e
prática sem superar os limites dela, cria mais dificuldades do que resolve.
A estratégia seguida pela direção e pela revista da Liga não foi só de
angolanos. Ela se alinhava com outros africanos negros e com negros
não-africanos (não nascidos nem residentes em África), todos eles da
mesma época e de fonias diversas. Os resultados alcançados eram talvez
escassos: o poder colonial, na sua máxima força, nunca deixaria os filhos
da terra ganharem protagonismo, pelo menos em Angola. A estratégia,
apesar disso, rendeu participações ativas: encontramos o nome de
funcionários administrativos nativos (incluindo com cargos de chefia), na
colonização do planalto, ou genericamente das regiões de presença
administrativa portuguesa. Por causa do ajustamento necessário ao
discurso colonialista, quando publicavam os seus livros e textos, eles
eram lidos como de cariz colonial. Honestamente, não creio que fossem
tão coloniais assim, mas imitavam bem. Reporto-me a Augusto Bastos,
Alberto de Lemos e Lourenço Mendes da Conceição, por exemplo. Quando
Lourenço Mendes da Conceição visita os musseques de Luanda, o retrato
que faz dos habitantes, ‘indígenas’, é ‘por dentro’, não é exógeno, não os
segrega. Mas também não põe em causa que eles sejam colonizados. A
focalização é permeável, a perspetiva política não se questiona. Podíamos
mesmo lembrar escritores como Geraldo Bessa Victor ou Óscar Bento
Ribas, em passagens fáceis de identificar. Daí a pergunta pertinente de
Mário António: “Literatura Colonial: de colonizadores ou de colonizados?”
(Oliveira, 1997). E acrescentar-lhe uma questão à qual, de resto, ele não
fugiu: colonial em que sentido?
M. António separa bem as águas, ao contrário do que dizem os seus
detratores. No que diz respeito à diferença entre ‘filhos da terra’ e
‘portugueses’, está muito longe de os confundir e, perseguindo a
formação da literatura angolana, interessa-se bem mais e mais a fundo
pelo que fizeram os ‘filhos do país’ do que pelo que fizeram os colonos no
país. Isso mostra com que angolanidade ele fazia o historial da Formação
da literatura angolana. A questão da perspetiva não o atrapalha, nem o
condiciona. Pelo contrário, ao abordar o boletim Angola, com visão
própria de quem faz parte do meio, mostra que a ambiguidade política da
Liga Nacional Africana sempre se manteve e não impediu, muitas vezes
pelo contrário, permitiu sustentar a filiação explícita nos
protonacionalistas do século XIX, tanto quanto, mais proximamente, no
percurso de seus dois mais velhos António de Assis Júnior e Augusto
Bastos e no que M. António chamou de comunidade crioula de Luanda e
hinterland (Oliveira, 1997). Uma filiação que ainda Mário Pinto de
Andrade foi buscar para escrever a esmagadora maioria das páginas de
As origens do nacionalismo africano (Andrade, 1997) – e da qual a LNA
partia para se situar no panorama difícil da época, “porque fora também
um pretexto para a afirmação de indivíduos sem voz ou cujo silêncio era
forçado” (Costa, 2015).
M. António separa bem, em secções diferentes, a perspetiva colonialista
de A província de Angola e a perspetiva angolense da Liga e da revista
Angola – ambos imprensa colonial. Mas M. António é um estudioso que,
antes do tempo, podemos considerar interdisciplinar. A sua visão do
processo literário e cultural angolano recorre, efetivamente, a várias
disciplinas para construir uma imagem de conjunto que nos permita
perceber a complexa teia de variantes e de invariantes que determinou
esse comportamento, ora ambíguo, ora ambivalente. Isso o terá levado a
uma conceção diferente do que era canónico na época, entendendo os
fios que ligaram e desligaram ‘filhos da terra’ e ‘colonos’ na imprensa
colonial. E percebeu que essa imprensa era, toda ela, colonial, ainda que
alguma não fosse nem de colono, nem de colonialista, mas, em qualquer
dos casos, de colonizado.
A conceção do ‘colonial’ em ‘imprensa colonial’, ou ‘do império’,
necessitará também de um estudo comparativo com outras colónias de
outros impérios e com outras colónias portuguesas. Histórias como a de
Luanda eram casos raros ao sul do Sahara, sem dúvida, pela antiguidade
e urbanidade dos seus colonizados, atuando muitos deles, desde cedo,
com perfeito domínio da semiosfera europeia, que se pode notar até na
oralidade. Mas o próprio Portugal fez tábua rasa da sua experiência
passada e seguiu no século XX o modelo dos outros impérios, o francês
sobretudo, havendo proximidades igualmente com Espanha e mesmo
com Inglaterra, ou com a atuação de certos grupos brancos e negros dos
EUA. Por isso também, há proximidades e afinidades estratégicas entre
colonizados em Luanda, negros norte-americanos e colonizados
francófonos do Senegal e Daomé – todos defendendo acima de tudo os
interesses dos locais (e, na perspetiva norte-americana, dos negros), mais
do que a independência ou a separação de um território – objetivo adiado
ou silenciado. Alguma imprensa de ‘metropolitanos’ era também idêntica
nas colónias francesas neste período, feita por e para europeus,
estilizando negativamente os ‘indígenas’, meros figurantes aviltados no
cenário ao fundo. Essa comparação, hoje potenciada pela digitalização de
acervos antigos, implica, porém, um esforço tal que não posso realizá-lo
aqui, nem conseguiria realizá-lo sozinho. O que vejo de comum é que a
perspetiva do colonizado e a do colonizador não os impedir de focalizar e
estruturar as personagens a partir de um ponto de vista segregacionista.
E que a ultrapassagem desse ponto de vista na própria técnica narrativa
também se deu no interior da focalização do colonizado e do colono.
De onde que persiga, por metonímia, a literatura produzida no âmbito do
boletim-revista Angola, para fazer um estudo de caso. Dele extrairei
consequências que me permitirão definir como colonial a imprensa da
Liga, ainda que seja africana e de reivindicação ‘negra’.
PARTE II: literatura

Se repararmos na capa de Nhári, observamos um rosto feminino típico


mas não exótico, ou, pelo menos, um rosto ao centro que não constitui
meramente uma peça decorativa, como as estátuas, de um falso realismo
africano, para turistas estrangeiros e sem ‘alma’, sem conteúdo
psicológico.
Reparem no rigor artístico do desenho, assente ele todo sobre linhas
redondas e com domínio assinalável do jogo luz-sombra-volume. Ele
busca, também, expressividade. Os lábios são atravessados por um
sorriso quase imperceptível, irónico mas de uma ironia, também ela,
quase imperceptível e muito segura de si. Levantando o olhar para os
olhos, acentuam-se sorriso e ironia, mas esta já tem algo de acusativo.
É, pelo menos, um olhar perscrutador e questionador, além de irónico e
sorridente. É um retrato, sem dúvida, psicologicamente complexo e rico.
Isso combina com partes amplas e significativas do conteúdo do livro,
consequência da postura perquisitiva que o próprio autor cultivava.

Peço-vos que reparem agora nesta imagem da capa da revista Portugal


colonial, onde se publicou o conto «Natal», de Salinas de Moura. O
desenho que a encima é esclarecedor. Entretanto, sobretudo a
personagem que fica à nossa direita, ainda possui um resquício de
expressão no olhar.
Já na «Página literária» do mesmo periódico, as personagens são
completamente inexpressivas, estáticas, vazias, correspondendo a
posturas estereotipadas (v. imagem abaixo). O contraste com o retrato de
capa de Nhári também me parece claro. A estilizada imitação das pinturas
rupestres e da estatuária para turistas imobiliza as figurinhas ‘humanas’
da página literária do Portugal colonial, retira-lhes a sugestão de
movimento que muitas vezes possuem nas latitudes do Tchitundu-hulo,
onde são tendencialmente narrativas.
Isso, por acaso talvez, coincide com a postura de Salinas de Moura e o
seu conto onde, por causa da sua perspetiva, as personagens locais só
podem ser assim, estilizadas, estáticas.
Se conferirmos com a capa do primeiro livro de motivação africana de
Tomaz Vieira da Cruz, o contraste é nítido novamente. Há um exagero de
cor, de sangue, sugerindo o reflexo da fogueira. Ao fundo estará, penso,
a zona e praia do Quicombo. O conjunto recorda um dos seus poemas
mais fortes e críticos relativamente às consequências da escravatura e do
colonialismo que, em outros poemas, o autor exaltou pela figura do
colono ou a chegada do comboio. Mas o olhar é muito próprio, é quase o
de um riso, mas de um riso na desgraça, no meio do sofrimento atroz que
o vermelho acentua a par da sensualidade. Voltamos a uma personagem
humana, ainda que os seios à mostra e o quimbo ao fundo possam evocar
exotismo.
Posto isto, podemos ler agora um poema de Geraldo Bessa Victor:

EZUVI

Canto-te toda, ó sombra feita ser,


Ó corpo feito flor, ó flor da raça!
Eu canto ao mundo, ao mundo inteiro, a graça
Nativa do teu corpo de mulher.

Canto teus lábios – sedutora taça


Por onde o teu amor hei de beber.
E canto o perturbante rosicler
Do teu olhar de sonho que me enlaça…
Canto mais a tua alma, lindo abismo,
Para que o mundo saiba todo o heroísmo
Em que tua alma vívida se integra;

Para que o mundo inteiro se confunda


Perante o teu orgulho de bailunda,
O teu orgulho altivo de ser negra!

No seu conjunto, o soneto se articula com a capa de Nhári (aquela ironia


não é arrogante, mas é soberana) e com a capa de Quissange – saüdade
negra (onde nem falta o “perturbante rosicler” espalhando-se pelo corpo
no reflexo da fogueira). Articula-se porque faz um retrato vivo de uma
pessoa concreta. Mas o traço estático de Portugal colonial fica de fora.
Relendo a sequência poética, observamos uma típica estrutura de soneto
com chave de ouro. Isso é, também, comum. Mas a técnica da ‘chave de
ouro’ (concentrar a sugestão emotiva mais forte nos últimos versos,
apoiada sobre a rima, o ritmo e uma cautelosa progressão semântica) é
uma técnica rentabilizada aqui para outros lucros, outra finalidade.
Vejamos em pormenor:
O retrato que o autor faz da mulher é bem concreto, físico. Apesar da
afirmação “canto mais a tua alma”, a psicologia dessa personagem é
muito resumida – o que o poeta iria deplorar na poesia exótica dos
colonos… Dos três traços psíquicos evidentes, um reproduz um tópico
partilhado com alguns poetas coloniais, como Tomás Vieira da Cruz: a
adjetivação da alma da mulher negra como “lindo abismo”. Os outros dois
(“heroísmo” e “orgulho”) integram-na, altivamente, mais do que no
“abismo”, na “raça”, a raça “negra”. De maneira tal que os tópicos, o
retrato, eles podem repetir traços que a história literária recente já
tornara banais, pois o que importa é que eles concorram para a afirmação
altiva da raça.
Não só. Esses tópicos e a sua conotação com a ‘raça’ vão dar imagens e
conceitos aos últimos versos, ou seja, participam da composição da
‘chave de ouro’ que, neste caso, também ela, existe para afirmar o orgulho
identitário baseado na cor da pele.
Esta estruturação dos conteúdos iconiza bem as opções estratégicas da
Liga e a retórica subsequente. Ao mesmo tempo que o autor, formado
num ambiente literário conservador, mostra o seu domínio total do
soneto (a forma consagrada da cultura dos colonizadores), ele conduz as
imagens, metáforas, enfim as ‘figuras de conteúdo’ (e, por consequência,
a análise de conteúdo) para a valorização assumida do orgulho da ‘raça’
– equivalente, para a África negra, ao orgulho dos colonizadores em
relação à sua ‘raça’, muito comum nesse tempo e integrado no discurso
oficial.
O mesmo percurso fizera um dos fundadores da Liga anos antes, em
1934, em poema dedicado à mulher e à raça. O soneto de Bessa Victor
sai em Ao som das marimbas, de 1943, ou seja, nove anos mais tarde que
o de Justino Velasco de Miranda, o fundador de que falo. Este, que se
intitula «Negra», é um poema com traços modernistas, mas segue-se, nas
publicações do autor em Angola, a um soneto (primeiro) e a um poema
ao estilo de Tomás Vieira da Cruz, dedicado à “mulata”. O que monta
uma progressão do cânone europeu (soneto) para um novo cânone
(moderno e negro) passando pela transição que é a “mulata”. Portanto,
Justino Velasco de Miranda, ele também, mostra primeiro que domina a
técnica de composição dos colonizadores – embora não seja grande poeta.
No terceiro dos poemas, então, mostra conhecer a evolução da cultura
literária europeia no sentido do modernismo, acompanhada pela
literatura ‘negra’ dos EUA - mais uma vez, apesar de não ser grande
poeta. De certa forma, o poema de Velasco de Miranda concentra no final
o seu recado, a mensagem. É uma característica da nossa literatura até
hoje: raramente um poema deixa de se organizar em função da
transmissão de um recado, mensagem, que se pretende passar à
comunidade interpretativa e surge, como nos contos tradicionais, a
rematar a peça. Apesar do caráter não-interpretativo de várias
vanguardas globalizadas do século XX, entre nós o ‘recado’ manteve
pertinência, mesmo dominância. Também neste «Negra» e também no
final do poema, como sucede no soneto de Bessa Victor. Isto mostra bem
que a poesia de Bessa Victor é o fruto do exercício identitário de cidadania
feito na revista Angola, da Liga Nacional Africana. Para que possam
avaliar melhor o que digo, transcrevo o final do poema «Negra», de Justino
Velasco de Miranda:

Pois sem da côr o orgulho da mulher,


jamais, jamais levantará o dorso
o negro povo.

Escuta e atende à perenal verdade,


Ó feiticeira, divinal beldade!

Note-se como o léxico dos dois últimos destes versos remete para escolas
literárias antiquadas já, em particular o Romantismo, incluindo aí o
Romantismo angolano. Em contraposição, os versos da estrofe anterior
assimilam já imagens e traços estilísticos modernos e da ‘literatura
negra’, apesar da inversão sintática inicial.
Apesar da clara afirmação do orgulho da ‘raça’ – que se contrapunha,
naquele meio literário e social, à arrogante afirmação da ‘raça portuguesa’
– Justino Velasco de Miranda, como os outros co-fundadores da Liga
Nacional Africana, subscrevera a posição comum desse organismo, que
era a de reclamar a missão colonial dos filhos da terra no grande projeto
imperial português e europeu de ‘civilização da África’. Isso confirma a
proposição sugerida por Mário António, a de que houve uma literatura
colonial feita por… colonizados e uma imprensa de colonizados que era…
colonial. Daí que faça todo o sentido, num Encontro como este, acolher
estudos sobre a imprensa dos filhos da terra.
Porém, se a perspetiva era a dos filhos da terra, a feitura e a simbolização
do poema nos remetem para uma composição segregacionista e,
simultaneamente, ainda muito próxima dos cânones coloniais. O elogio
da mulher e da mulher enquanto motor da ‘raça’ podia ser feito por um
colono relativamente à sua mulher portuguesa, mudando o que houvesse
a mudar (a ‘cor da pele’, sobretudo – mas em ambos os casos a cor da
pele definindo a ‘raça’). O modelo das estrofes e o vocabulário
aproximavam-se, ao mesmo tempo, da literatura colonial e das ruturas
modernistas, tanto quanto o fazia a ‘literatura negra’. O que faz com que
essa poesia, nitidamente de transição, seja ainda própria de uma
imprensa do período colonial, tanto quanto a primeira poesia de Bessa
Victor. Ainda não era a poesia nacional angolana – a qual também
procurava compreender e legitimar a alteridade, oferecendo-lhe funções
e perfis narrativos próprios, personalizados. As soluções gráficas da
revista Angola, por sua vez, acompanhavam com moderação a renovação
dos modelos para a imprensa protagonizada por periódicos modernistas
de Portugal, Cabo Verde e Brasil – entre outros.
Outro aspeto a considerar, neste procedimento que visa superar (sem
renegar) o critério da perspetiva, é o da função das fotografias e do
desenho das letras. A inserção das fotografias em Angola, por exemplo,
tanto quanto na imprensa colonial, é meramente ilustrativa: ela visa
mostrar um modelo e não interpretar uma expressão ou uma paisagem.
A imagem fotográfica, nessas páginas, apresenta-se apenas como prova,
testemunho. Ela é, no pior dos sentidos, emblemática. O que ela ilustrava
era uma perspetiva diferente da do colono, mas limitava-se a ilustrar o
respetivo ponto de vista e não a interpretar personagens e paisagens,
como sucedia com o desenho de capa de Nhári, ou com os desenhos de
Luandino Vieira nas edições da Casa dos Estudantes do Império, que
reinterpretavam, inclusivamente, uma tradição gráfica que se podia
remontar às mais remotas origens, ou seja, às gravuras rupestres do
Tchitundu-hulu, passando pela panaria africanizada (mas de recuada
origem oriental), pela escultura narrativa em madeira, pela pintura
modernista estruturalmente africana (africana pela maneira de processar
a simbolização), que veio a ter mais tarde em Viteix um dos máximos
expoentes contemporâneos.
Francisco Soares.

Évora, 21-5-2017.

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Victor, Geraldo Bessa. 2001. Obra poética. Lisboa : IN-CM, 2001. -
Escritores dos países de língua portuguesa, 20.

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