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Resumo: Crime e costume na sociedade selvagem de B.

Malinowski

Visando desmitificar a ideia do estudo da antropologia e dos selvagens, como


sendo algo repleto de costumes e práticas absurdas ou excêntricas e cruéis, o
autor irá se focar no estudo da lei primitiva e entender como ela opera e como
ela se distingue da ideia de obediência espontânea a tradição estrita e inflexível.
(A Submissão automática ao costume e o problema real)
Em um primeiro momento do texto, Malinowski vai se focar no problema dos
mecanismos que fazem com que os selvagens obedeçam aos seus costumes e
vai abordar o problema da ideia mal concebida e submissão automática. Essa
ideia da submissão automática surge da acepção dos antropólogos que o
selvagem teria uma profunda reverencia pela tradição e costume, obedecendo
automaticamente suas ordens, por uma inercia mental e subserviência
espontânea, adicionando também o medo da punição sobrenatural e da opinião
pública. Assim, após uma revisão de literatura ele comenta que a opinião da
antropologia moderna tange para essa acepção da submissão automática ao
costume, ao passo que o autor aponta que isso se dá devido à dificuldade do
estudo da lei primitiva, pelo seu próprio caráter complexo e difuso, não tendo
maquinarias de sanção ou aplicação de leis muito bem definidas, faz com que a
explicação da submissão espontânea seja a mais lógica à primeira vista. Assim,
sustentam que a lei numa comunidade selvagem não tem necessidade de
execução, pois é seguida espontaneamente, fazendo com que alguns
antropólogos somente considerem que os selvagens tenham leis criminais, já
que se nota que há selvagens que rompem essas leis, quebrando essa ideia de
submissão espontânea e ensejando uma retribuição/punição.
O autor avança que ele defende que a observância das leis primitivas é,
normalmente, seguida mais parcialmente e condicionalmente, sendo sujeita a
evasões e que ela não é aplicada por medo de punição ou submissão geral à
tradição, mas sim por induzimentos psicológicos e sociais muito complexos.
(As regras definidas e classificadas do costume)
Desafiando essa ideia de submissão automática, que o autor também referencia
como a total incapacidade do selvagem de romper com a tradição/lei, ele explica
não se poderia ter nenhuma classificação de leis, pois classificamos e
entendemos as leis a partir de suas diferentes sanções e os motivos segundo os
quais elas são aplicadas. Então, se a ideia de submissão automática fosse
verdadeira, deve-se entender por correlação lógica que não se pode haver uma
classificação de leis na comunidade selvagem.
Assim, o autor usa-se da visão de alguns antropólogos para construir que,
enquanto que na sociedade civilizada todas as leis são bem separadas e
compartimentadas por gênero/assunto, na comunidade primitiva, demonstra-se
que existem leis, feitas a partir do costume que versa sobre diferentes tipos de
gêneros e assuntos. No entanto, o costume é mais emaranhado, não houve
necessidade de classificação, então ao fim, essa amalgama de costume pode
ser entendido como a lei civil das comunidades primitivas, já que todos esses
costumes vão dizer respeito à vida comum e tradicional da comunidade. Ele
encaixa nessa classificação (“lei civil”) todas àquelas regras obrigatórias que não
dotadas de caráter mítico e não aplicadas por medo de uma sanção
sobrenatural, tendo apenas como força vinculante uma força puramente social
(não se ridicularizar, ser malvisto aos olhos dos outros e de si mesmo): as regras
são seguidas devida à sua utilidade pratica que é reconhecida pela razão e
comprovada pela experiência. O autor ressalta ainda que a lei na comunidade
selvagem não é mais que uma categoria bem definida no grande acervo que é o
costume, e que todas as regras sociais não são necessariamente legais. Ele
atenta para a existência das normas ritualísticas ou sagradas, que diferem, pois,
sustentadas principalmente por sanções sobrenaturais e pelo forte sentimento
que o sagrado não deve ser adulterado. Mantidas por uma forte força moral, mas
também dizem respeito à preceitos do código de conduta social.
(Uma definição antropológica de lei)
As regras da lei se destacam das outras à medida que elas são sentidas e vistas
como sendo obrigações de uma pessoa e reivindicações legitimas de outras.
Sancionadas por uma maquinaria social vinculante, baseadas na dependência
reciproca e realizadas nas combinações equivalentes de serviços recíprocos.,
em fios de relacionamentos múltiplos. A forma de execução que impõe controle
e critica publica também aumenta a força vinculante. [OBS: ESSA PARTE É
MAIS TRANSCRIÇÃO PQ É AQUI QUE TEM O PULO DE PGS] A ideia aqui é
que não há um juiz para aplicar a lei, mas que a própria comunidade e as
pressões sociais se encarregam do fator de dissuasão que a ameaça de pena
no sistema formal faria. [EXPLICAÇÃO PELO OQ EU ENTENDI, MAS NÃO
TENHO 100% PQ ELE EXPLICA ISSO NAS PAGINAS PULADAS AQUI ELE SO
REPEGA A CONCLUSÃO DESSE RACIOCINIO]
Ele reitera que o selvagem não obedece ás leis apenas por responsabilidade
social, mas que há um certo mecanismo de coerção, de pressão social em jogo.
Assim, o selvagem não é nem um individualista extremo, mas também não é um
coletivista extremo, ele se parece com qualquer ser humano. Ele explica também
que o ênfase dado à rigidez dos costumes tribais, das determinações negativas
da lei e do foco na existência única de lei criminal entre os selvagens é errado,
pois existe sim lei civil e lei feita a partir de determinações positivas, assim como
uma possibilidade de flexibilização do costume (ver adiante). Os apoiadores
dessa visão de rigidez absoluta dos costumes só pensavam em lei criminal pois
um costume absolutamente rígido não pode ser aplicado a vida, mas pode ser
rompido, daí somente a possibilidade criminal para esses autores. Também
erravam quanto ao ponto do sobrenatural e da magia, no sentido que criariam
uma atmosfera de terror quanto ao desrespeito de certas regras, o que não
ocorre, pois a exceções de regras ritualísticas e sagradas muito especificas, o
que fiscaliza essa aplicação de regras sociais é o complexo maquinário social.
O autor então explica que a lei é, em termos gerais, “o resultado especifico de
configuração das obrigações, que torna impossível para o nativo fugir da sua
responsabilidade sem sofrer por isto no futuro”. Também explica que a lei civil
seria então “a lei positiva que determina todas as fases da vida tribal, consiste
então de um corpo de obrigações vinculantes, vistas como um direito por uma
parte admitidas como dever pela outra, mantidas à força por um mecanismo
especifico de reciprocidade e publicidade inerentes à estrutura da sua
sociedade.” Elas são elásticas e tem certa extensão, oferecendo penalidades
pela falha, mas também prêmios pela superdose de comprimento. O seu rigor é
assegurado pela avaliação racional de causa e efeito pelos nativos, combinado
com vários sentimentos sociais e pessoais (auto aperfeiçoamento, amor,
lealdade, orgulho, etc). Assim, por força desses sentimentos, a vinculação é o
auto interesse, pois apela a sua vaidade/ambição etc. A FORÇA VINCULANTE
DA LEI CIVIL É A CONCATENAÇÃO DE OBRIGAÇÕES E SUA
ORGANIZAÇÃO EM CADEIAS DE SERVIÇOS MUTUOS E RECIPROCOS.
(Arranjos legais específicos)
Aqui o autor fala de arranjos legais particulares aos nativos da Melanésia, mas
que por mais que tenham aspecto legal, não são exclusivamente legais. Por
exemplo, há o yukala, que é uma reunião onde duas partes assistidas por
parentes e amigos se encontram e lançam e recebem incriminações. Isso
permite que as pessoas deem vazão aos seus sentimentos, ao mesmo tempo
sentido qual o lado da opinião pública. Nunca há sentença proferida por terceiro
e acordos são raros. Há também o kaytapaku, que é um tipo de proteção mágico
lançado em sua propriedade por meio de maldições condicionais (ex: quem for
furtar cocos da propriedade e ver que tem traços desse ritual sabe que o ladrão
poderá sofrer de doença). Há outras proibições, como a que impede a colheita
ou eu se coma um fruto especifico, ou que desencoraje sua exportação ou
mesmo tempo que encoraja sua importação, etc. Há também outro que é como
se fosse um contrato ritual, em que um líder de expedição faz uma distribuição
e todos que participam se beneficiam, porém estão na obrigação de auxiliar o
líder em seu empreendimento.
(Conclusão e prognóstico)
A função fundamental da lei é refrear algumas propensões naturais para cercar
e controlar os instintos humanos e impor um comportamento não espontâneo,
mas compulsório – assegurar um tipo de comportamento baseado em
concessões e sacrifícios mútuos com vista a fim comum. Por mais que os nativos
encarem todas as regras de sua tribo com reverencia e obrigatoriedade, por mais
triviais ou importantes, agradáveis ou desagradáveis, esses fatores não seriam
o suficiente para neutralizar as tentações ou desejos pessoais. Assim, ele explica
que há regras que tem sanções próprias, inclusive fala da sanção tribal, que é
uma reação de raiva e indignação de toda a comunidade, que serve para
salvaguardar valores específicos como a honra pessoal, vida e propriedade e
instituições como chefia, exogamia, casamento, posição social etc.
Por isso, o autor explica que não há essa “massa de costume tribal amorfa”
porque todas as regras enumeradas são diferentes umas das outras por suas
características especificas. As leis criminais seriam aquelas que salvaguardam
os valores da propriedade, vida humana e personalidade, mais enfatizadas pelos
antropólogos e desenraizadas do seu próprio contexto de outras regras legais.
Ele argumenta também que há regras que são penosas demais para se deixar a
boa vontade dos indivíduos e demasiadamente práticas para serem sustentadas
por sanções religiosas e muito vitais para serem obrigadas por ações abstratas.
Esse seria o domínio das regras legais e diz que a reciprocidade, frequência
sistemática, publicidade e ambição seriam os ditos fatores principais na
maquinaria vinculante da lei primitiva.
(A lei na violação e na restauração da ordem)
Fala da ideia do preconceito, do fascínio pelo horror/choque dos castigos e
crimes horripilantes e exotismo dos primitivos ainda muito presente na
antropologia, criando esses mitos sobre os primitivos: solidariedade
transcendente ao grupo de parentesco, desprovidos de autointeresse,
comunismo econômico e legal, submissão a uma lei tribal rígida e indiferenciada.
Retomando a ideia do primitivo como muito parecido ao indivíduo civilizado,
cujos direitos e deveres estão na principal preocupação do indivíduo que sabe
cuidar de seus interesses e percebe que tem que compensar suas obrigações.
A lei também é mantida por forças sociais e entendida como racionais,
necessárias e elásticas, capazes de ajustamento. Assim, o indivíduo estica a lei,
mas também é capaz de rompê-la.
Ele aponta que a própria comunidade é constituída por princípios legais, como a
família matrilinear. Ou seja, o direito materno vige, fazendo com que a criança é
corporalmente e moralmente ligada a sua mãe e somente ela. Esse princípio
determina toda a organização e sucessão econômica, legal, honrarias, posição
social, direitos e cidadania local do clã. Todo o sistema é baseado nisso, e essa
crença desse tipo de mito fundador e suas implicações mágico-religiosas
atravessam todas as instituições e costumes da tribo. Assim, como a constituição
da aldeia, posição do chefe, privilégios e deveres do feiticeiro são sistemas legais
independentes. No entanto, esses sistemas legais independentes podem entrar
em conflito. Agora vem alguns estudos de casos.
1) Um homem teve relações com uma prima, o que não provocou reações
até o rival insultá-lo publicamente numa tarde, acusando-o de incesto. Na
manhã seguinte, o menino se vestiu com os trajes e ornamentos festivos,
explicou suas ações para toda a comunidade, lançando uma acusação
velada contra o culpado, pois seria um dever da comunidade vinga-lo,
para depois lamentar-se em voz alta e se lançar de uma palmeira para
sua morte. A violação da exogamia totêmica do clã. Basicamente, todas
as mulheres dentro da tribo/aldeia são ditas irmãs dos homens e devem
ser consideradas como tal, fazendo com que se quiser se casar ou ter
relações sexuais deverá fazê-lo buscando uma mulher fora da tribo. Há
forte reação da comunidade além de punições sobrenaturais para esse
crime.
No entanto, quando verificado na prática, a violação da exogamia por
meio de relações sexuais era bem tolerada pela população e não era raro,
por mais que hipócrita. A tolerância também diminui conforme a
proximidade entre os membros do casal, por ex, se for irmã de fato é
descrito como impensável e repugnante, mas se forem mais
distantemente ligados é menos grave. Se ninguém criasse problema, não
haveria problema, no máximo fofocas. Mas se houver escândalo, a
população se volta contra o casal, o que acaba a levar ao suicídio de um
ou de outro ou de ambos. Para as sanções sobrenaturais, o autor nota
que há um remédio, uma contra magia possível para evitar essas
consequências, o que ele chama de sistema bem estabelecido de evasão
à uma das leis mais fundamentais da comunidade. Nota também que a
magia é um ramo especifico que pode agir contra a lei e, portanto, é uma
parte da tradição que age contra a lei e o costume (magia para realizar
crime, como para afastar os porcos, seduzir mulher casada, estragar as
frutas de um coqueiro, etc).
2) Na mesma linha, pior é o casamento dentro do mesmo clã. Ele cita o caso
de um chefe influente que se casou com uma feiticeira de sua própria
aldeia, falando também de um caso notório de incesto entre irmão e irmã
que ocorreu no mesmo clã. Ele relaciona isso ao mito fundador desse clã
em especifico tratar-se de um incesto entre irmão e irmã como sendo fonte
da magia do amor.
(Bruxaria e suicídio como influências legais)
A bruxaria é praticada por poucas pessoas, normalmente homens inteligentes e
de personalidade excepcional, e podem exercê-la de próprio nome ou
profissionalmente mediante pagamento. A bruxaria traz poder, riqueza e
influência e usa para seu próprio interesse, no entanto as vezes age também de
forma benéfica e magnânima, atendendo por ex um pedido de uma pessoa
pobre, para não ser malvisto e não abusar de seu poder, pois se o for isso pode
trazer incomodo e consequências desagradáveis para ele. A magia negra atua
como força legal genuína, em cumprimento com a lei tribal, pois se uma parte
souber que um feiticeiro está agindo contra ele, em apoio a outra parte, pode ser
um fator decisivo para que ele resolva fazer um acordo equitativo.
Havia a prática de exumação do corpo após 12 ou 24 hrs de sua morte para
examiná-lo e descobrir se o homem foi morto por bruxaria. Porém, raramente se
chegava a um veredito e as análises eram muitas vezes divergentes e as marcas
pouco claras ou inexistentes. Por ex se o corpo é encontrado cheio de piolhos
(amantes compartilham piolhos, its a thing), ou com as pernas afastadas, ou com
arranhões nos ombros quer dizer que a pessoa morreu de bruxaria por causa de
suas inclinações sexuais, libertinagem, etc. Se o corpo é encontrado revirado, é
porque morreu porque era feiticeiro e abusou da feitiçaria. Isso acontece porque
qualquer proeminência, qualidade especial etc que esteja em desacordo com
posição social ou poder, são mal percebidas, pois acabam ofendendo os
poderosos (muitas vezes o chefe da aldeia). Só que o chefe da aldeia não pode
empregar a violência para punir essas violações da tradição pois seriam somente
suspeitas, não fortes o suficiente para justificar violência (diferente de adultério,
insulto, violação direto de etiqueta ritual...), então o chefe, na sua posição de
guardião da tradição, usa-se da magia negra do feiticeiro. Nesses casos
também, a morte é vista como justa então retira-se a necessidade de vendeta da
comunidade.
Por mais que a bruxaria fica mais do lado dos ricos e poderosos, ainda sim atua
no interesse da lei e ordem e é uma força conservadora indispensável para o
temor salutar da punição e da retribuição. Ela nunca é empregada em oposição
direta à lei, contudo pode ser usada para praticar injustiças de um homem mais
forte contra um mais fraco. O conservadorismo é a tendência mais importante
numa sociedade primitiva e a bruxaria funciona nesse ponto.
Embora não sendo instituição judicial o suicídio possui uma característica legal
distinta. Ocorre quando se deseja escapar de uma situação inescapável e tem
um rito especifico. Serve também para reabilitar a imagem do suicida e angariar
um pouco de compaixão para seu lado, também invocando a vendeta contra
àquele que o forçou a isso. Normalmente, o suicídio ocorre, pois, forçado por
tornar público a uma ofensa séria, que leva a pessoa a vestir-se em trajes
festivos, fazer um lamento público, em que admite sua culpa e aceita as
consequências, para depois suicidar-se seja pulando de uma palmeira alta, seja
tomando o veneno incurável do baiacu (ou outro tipo mais brando que tem cura
sim). Acontece também para que a pessoa possa expiar seu
pecado/transgressão e reabilitar sua imagem e para que haja um protesto contra
àqueles que trouxeram a transgressão a público, deixando a situação
insuportável. Por exemplo, um marido no decorrer de uma briga insulta sua
mulher com um insulto insuportável e ela faz o ritual e vai pular da palmeira, o
que faz com que seu marido compreenda, e em seguida também vá lá e faça o
mesmo. O suicídio é um permanente amortecedor contra qualquer violência,
mesmo não sendo uma sanção criminal em si.
Assim, suicídio e bruxaria são formas de manter a lei e a ordem e são influencias
conservadoras, mesmo que não sendo legais, são capazes de manter a ordem
nem que seja parcial e imperfeitamente. O autor atenta também que não achou
qualquer prática ou forma de organização que possa ser classificado como
administração da justiça como o entendemos.
(Sistemas de lei em conflito)
Agora, iremos falar das práticas de evasão muito bem enraizadas e estruturadas
na sociedade e que são práticas legalizadas, quase tão fortes quanto a própria
lei.
A lei para os nativos consiste em uma série de sistemas mais ou menos
independentes, parcialmente ajustados uns aos outros. Cada um tem um campo
próprio, mas que pode ultrapassar seus limites legítimos (lei do casamento,
poder do chefe, matriarcado, etc)
Por exemplo, para questões de herança e poder familiar, já que a família é
matrilinear, para um homem seu parente mais próximo e seu herdeiro é seu
sobrinho por parte de sua irmã, seu filho não tem nenhuma relação reconhecida
com ele, não é visto como parente, a única relação que tem é com sua mãe.
Porém, na vida real o pai é muito mais ligado ao filho que ao sobrinho, por isso
as vezes o amor paternal triunfa sobre o sistema materno. Exemplo do caso de
um chefe muito influente, que aí a posição do seu filho pode ser tão forte quanto
a do sobrinho. No entanto, se houver algum embate entre comunidade e seu
filho ou entre o filho e sobrinho, a lei formal vige. Exemplo do chefe cujo filho
brigou com o sobrinho mais novo e bateu nele, e o sobrinho mais velho – herdeiro
legitimo do chefe – conseguiu o apoio de toda a população para pressionar em
publicamente pela expulsão do filho favorito, que não teve outra opção a não ser
sair, pois o sobrinho estava agindo em concordância com o seu direito.
Assim, esse favorecimento ao filho é frequente e não há problema: contanto que
não haja atrito entre sobrinho e filho por exemplo. Vemos a própria fundação da
lei tribal desafiadas, porque até nos mais pobres ocorre essa preferência, por ex,
o filho ao atingir a puberdade normalmente deveria ir para a guarda de seu tio
materno, em outra aldeia, porém há vários casos do filho continuar na aldeia a
pretexto de continuar ajudando o pai a prover para sua mãe e irmão/ãs, em nome
de seu tio, o que favorece a todos. Assim, percebe-se o afastamento da validade
legal em nome do laço afetivo, é uma instituição clandestina e irregular. No
entanto, há uma forma legal de contrabandear esse arranjo sucessório que é o
casamento entre primos cruzados: casamento do filho com a filha de sua irmã,
pois ele tem o direito de pedir essa menina em promessa de casamento para
seu filho, fazendo com que seus netos serão seus próprios herdeiros,
salvaguardando a posição do filho pois ele se tornará cunhado do herdeiro do
chefe. Assim, o prejudicado é proibido com isso de se ofender e também o vê
isso como seu próprio privilegio (não entendi 100% porquê, mas acho que é um
privilégio do homem de pedir a filha de sua irmã em casamento para o filho,
então seria legal, não entendi 100%). Logo, em torno do sentimento paterno,
organizaram-se práticas sancionadas pela tradição vistas como sendo o curso
natural da comunidade, mesmo sendo contrárias à lei e devendo ser afastadas
quando em conflito com esta.