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RESENHA

Capítulo 8 "O saber local: fatos e leis em uma perspectiva comparativa"

Jailson Estevão dos Santos[1]

1. APRESENTAÇÃO DO AUTOR E DA OBRA

GEERTZ, Clifford James. O saber local: novos ensaios em antropologia


interpretativa. Tradução de Vera Mello Joscelyne. 7 ed. Petrópolis, RJ. Ed.
Vozes, 2009.

*Do autor: USA 23/08/1926 – 30/10/2006). Antropólogo, encerrou sua


carreira de professor em Princeton. Realizou estudos na Indonésia. É
considerado o fundador da Antropologia Hermenêutica (Interpretativa ou
Simbólica).

2. BREVE SÍNTESE DA OBRA

O autor analisa a questão do direito a partir do ponto de vista da


antropologia interpretativa e dos fatos sociais que interagem com as leis.
Destaca que cada sociedade tem suas leis e estas se ajustam às crenças e
costumes, interferindo na hermenêutica jurídica e, portanto essa relação deve
ser considerada.
No capítulo oito Geertz analisa o direito como um fato cultural, tal qual a
arte e a religião, e considera que o mesmo é desenvolvido numa relação direta
com os contextos culturais. Ao abordar os valores permissivos de uma
cultura em relação às práticas de outras, comenta que nem o direito avançou
nas questões antropológicas, nem a antropologia e etnografia com as questões
jurídicas (p. 250, 251). O autor afirma que há uma necessidade de um “ir e vir”
hermenêutico entre o direito e o campo da antropologia e etnografia. (p. 253)
Os fatos e sua natureza (φίσις – νόμος – natureza e lei) tem sido objeto
foco da atenção de preocupação jurídica, pois já não “parecem realidades tão
puras”. O foco de atenção gira em torno da “explosão dos fatos, temor aos fatos
e esterilização dos fatos”. (p. 254)
Os fatos sociais que requerem interação com atos jurídicos indiciam aos
juízes de que já não basta conhecer somente as leis. (p.255). Por outro lado
precisa-se ter cuidado com as jurisprudências, pois essas podem afastar os fatos
da discussão, deixando-os ao juízo dos “guardiões da lei”. (p. 257). Geertz cita
como exemplo o livro Incommon Law, de Alen Patrick Hebert, Londres 1970 p.
350. (p.256), uma sátira ao livro Commom Law (jurisprudência - diferente de leis
criadas por legislação). Afirma que o que ocorre nos tribunais é o
fenômeno que é “a base de toda cultura: isto é o processo de representação”.
(p.259)
Para Geertz, descrever um fato para que o mesmo se submeta à defesa
do advogado, à audição do juiz e à solução dos jurados, é representá-lo.
Considera que o direito muda, conforme a época e o lugar, então os fatos
também se modificam. Para o direito é norma a representação dos fatos,
portanto, (...) o problema fundamental é descobrir como representar aquela
representação. (p. 260). Geertz acha isso difícil e compreende que talvez “se
espere por desenvolvimento na teoria da cultura”. Mas a sugestão mais viável
segundo ele, é considerar a linguagem lógica do “se então” e “como, portanto”
dos casos concretos (p. 260). Por esse ângulo, busca-se diferenciar leis
e fatos, e, então, o direito não é algo como uma lei espiritual, nem uma receita,
mas pode-se imaginá-lo como uma exibição num mercado público: à vista de
todos, accessível a todos, e susceptível ao saber local. (p. 261)
Para lembrar como a prática do Direito muda de acordo com cada cultura,
Geertz coloca:
1º) Um comentário de que “ao deparar-se com as leis de antipoluição, a
Toyota contratou mil engenheiros e a Ford mil advogados”. (p. 261)
2º) Um caso de um balinês que ele chama de “Regreg” que teve sua
esposa levada por outro homem da aldeia, e que mesmo tentando uma solução
perante o conselho local, não obteve êxito, pois as leis locais não previam
soluções para esse tipo de “problema”. Mais tarde, quando era a sua vez, por
obrigatoriedade, de assumir o cargo de um dos chefes do conselho, ele rejeitou
e como consequência foi completamente abandonado ao extremo. Ainda mais
tarde, o mais importante chefe político da Indonésia, considerado um deus, veio
ali intercedeu por Regreg, argumentou perante os conselheiros mostrando-lhes
o mundo moderno, mas ouviu a resposta: “vá plantar batatas”. (p. 267)
No caso relatado do “Regreg” a crença popular é mostrada como superior
a qualquer coisa. Apositivamente é lembrado pelo autor que “a teimosia de
Regreg nunca chegou a ser considerada como uma ameaça à ordem pública e
sim à etiqueta pública” (p. 270)
Por questões como as citadas, Geertz tenta despertar a atenção do leitor
para o que ele chama de antropologia interpretativa cultural como um recurso de
análise que possa facilitar a interação entre o direito, as leis e a cultural
autóctone. Considera a “declaração de fé” adaptada por P. H. Guliver e sugerida
por Max Gluckmand nas conferências Storr, de que “são os processos sociais
que, em grande parte, determinam o resultado de uma disputa e não a análise
dos processos de raciocínio através dos quais se dá prosseguimento às
negociações”. (p. 273). Aqui, a base é a fusão ontológica entre o normativo e o
real (p.281).
Três termos são evocados pelo autor provenientes de culturas diferentes:
haqq (verdade para os islâmicos), dharma (dever para os índicos), e adat
(prática) para os malaios. Além desses significados esses termos podem
significar muito mais em cada uma das dessas culturas e, que por fim, culminam
com o sentido de “justiça” no direito romano. Eles são lembrados para mostrar
que o conceito de justiça trilha por várias outras significações que abrangem
campos como moral, religião, ontologia, etc. e todos esses conceitos passam
pela representação e, portanto, subjazem ao relativismo cultural, ou seja,
dependem da visão de mundo desses povos.
O especialista em sânscrito J. Gonda diz que dharma (lei dever e direito) é
intraduzível. (p. 296)
O autor cita um caso de julgamento idêntico ao que Salomão, rei de Israel,
teve que enfrentar – Um caso de ciúme que culmina o estrangulamento de uma
criança – Julgado como um “ato tão adharmico” (p.310). Neste caso, o adat
aplica-se menos pela lei e mais pelo próprio comportamento do indivíduo.
Contudo, o autor deixa claro que a busca da verdade é um exercício retórico.
Em suma, o direito é saber local muito mais que “pretensões encobertas pela
retórica acadêmica”. (p. 324). Então o direito é construtivo, constitutivo e
formacional (p. 329)
A tese de Geertz, de que o direito é saber local, e, portanto, mais que leis, e
ainda submisso ao relativismo cultural, é expressa no final do capítulo assim:
O direito, com o seu poder de colocar acontecimentos específicos – um
compromisso aqui, uma injúria acolá – em uma moldura geral de uma maneira
tal, que as normas que regulam um gerenciamento adequado e probo desses
acontecimentos pareçam surgir naturalmente dos elementos essenciais do seu
caráter, é um pouco mais que um reflexo da sabedoria herdada, ou uma técnica
para a resolução de conflitos. Com razão ele atrai para si o mesmo tipo de paixão
que aqueles outros procriadores de significados e propositores de mundos – a
religião, a ideologia, a ciência, a história, a moral e o senso comum – atraem. (...)
O que está em risco, portanto, ou julga-se estar em risco, são as próprias
concepções sobre o que é fato e sobre o que é a lei, e a relação que existe entre
elas – a sensação sem a qual os seres humanos mal podem viver, quanto mais
adjudicar seja lá o que for, de que a verdade, o vício, a mentira e a virtude são
coisas reais, distinguíveis e estão alinhadas em seus devidos lugares”. (p. 349)

3. PERSPECTIVA TEÓRICA DO CAPÍTULO ESTUDADO

Teoricamente o autor parte da análise de questões do Direito e da


Antropologia Cultural, entendendo que dentro do Direito cabe uma análise
antropológica hermenêutica. Usa as seguintes bases teóricas: Deve haver um “ir
e vir” entre direito, antropologia, etnografia e hermenêutica jurídica e
cultural. Para tanto dialoga com autores como, entre outros: O. Holmes Jr.;
Blackmum; A. P. Herbert em Incommom Law (Londres 1970 p. 35) (p. 256).; J.
Frank (p. 258); Grant Gilmore (p. 268); Frank O’Hara citado por afirmar a
importância do subjetivismo poético como incentivo à prática, em relação ao
direito. (p. 273); W. C. Smith (2. 282); H. W. Wolson (p. 284); Jeanett Wakin que
trata da “palavra empenhada” como instituto cultural... (p.286); Wittgeinstein que
é como ele mesmo diz o “santo padroeiro” de sua teoria (p.325).

4. PRINCIPAIS TESES DESENVOLVIDAS NA OBRA

a) Análise da questão do direito a partir do ponto de vista da antropologia


interpretativa.
b) Análise do Direito como um fato cultural em inteira conexão com os
contextos culturais autóctones.
c) Há um choque entre a antropologia jurídica e a antropologia cultural.
d) Necessidade de um “ir e vir” hermenêutico entre o direito e o campo da
antropologia e etnografia.
e) O direito é saber local e, portanto, mais que leis, e ainda submisso ao
relativismo cultural.
f) Uma prova de que o direito precisa se acomodar ao saber local é que
constantemente em todas as nações precisam-se criar jurisprudências.

5. REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A OBRA E IMPLICAÇÕES

Uma crítica é relativa à tradução. Contudo, há um aspecto positivo, o


título que literalmente traduzir-se-ia como “conhecimento local” é traduzido como
“saber local” uma interpretação adequada considerando que “o conhecimento”
sob do ponto de vista epistemológico exige uma análise científica dos fatos,
enquanto “saber” remete a provas demonstrativas mais práticas e, portanto,
ligadas ao senso comum, focando “as coisas como são” e “porque são”.
Por outro lado algumas construções sintáticas e longos parágrafos
dificultam uma compreensão imediata criando campos semânticos de amplitude
variada.
É um capítulo cuja leitura exige do leitor uma aguçada atenção, sob a
pena de perder o fio conectivo entre um parágrafo e outro. Especialmente
quando o autor faz referência ao significado das palavras haqq (verdade para os
islâmicos), dharma (dever para os índicos), e adat (prática) para os malaios,
quando o mesmo se apresenta bastante prolixo.
Não está objetivada a posição do autor quanto sua inserção nos
“processos sociais” e/ou nos processos de raciocínio como definidores de
jurisprudências. Mas por outro lado, não foi sua intenção emitir qualquer juízo de
valor e sim abordar e discutir a questão da interferência do “saber local” nas
questões jurídicas.
Não é apenas o universo jurídico que está se expandindo e tendo que se
acomodar às convulsões modernas. De modo geral tudo e todos estão
experimentando isso. (p. 325)
De modo geral o texto indica que o direito ultrapassa as leis.