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José Saramago, Memorial do Convento

José Saramago
Memorial do Convento

Memorial do Convento, sequência a sequência1


•A
 presentação do passatempo de D. João V: construção da Basílica de São Pedro de Roma, em miniatura.
•V
 isita do rei ao quarto da rainha, D. Maria Ana, para cumprir a “função real” e darem um herdeiro à coroa
1. portuguesa.
•P
 romessa de D. João V da construção de um Convento de franciscanos, em Mafra, caso a rainha engravidasse.
• Narração dos sonhos de cada um dos monarcas.

• Gravidez da rainha.
2.
• Reflexões do narrador sobre outros “milagres” comprovativos das virtudes dos franciscanos.

•D
 escrição do Entrudo e da procissão da Quaresma, cerimónia em que evidenciam as disparidades sociais.
3.
• Sonho da rainha.

4. • Apresentação de Baltasar Sete-Sóis e narração da sua viagem até Lisboa e dos primeiros momentos nesta cidade.

•D
 escrição do auto de fé em que Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda, é condenada à deportação.
5. • Primeiro contacto de Baltasar e Blimunda.
• União simbólica deste casal, abençoada pelo Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

•E
 ncontro de Baltasar com o Padre Bartolomeu, que lhe fala do seu projeto – construção de uma máquina voadora
– razão da sua alcunha (o voador).
6. • Perguntas de Baltasar sobre o mistério de Blimunda.
•V
 isita à abegoaria, em São Sebastião da Pedreira, onde se encontra a Passarola, na construção da qual Baltasar
aceita participar.

• Trabalho de Baltasar num açougue em Lisboa.


7. • Nascimento e batizado da infanta Maria Bárbara.
• Renovação da promessa de construção do Convento.

• Revelação do segredo de Blimunda a Baltasar: o seu poder visionário.


8. • Nascimento do segundo filho do casal real, o infante D. Pedro.
• Escolha do local para a construção do Convento.

• Instalação de Sete-Sóis e de Sete-Luas na quinta do Duque de Aveiro.


• Trabalho de ambos na construção da Passarola.
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• Viagem do Padre Bartolomeu de Gusmão à Holanda, para aprender o segredo do éter, que elevará a máquina
voadora.

• Mudança de Baltasar e de Blimunda para Mafra.


• Apresentação de Blimunda à família de Baltasar.
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Verde – o tempo histórico
• Venda das terras para a construção do Convento.
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10 Laranja – a subversão da História


• Descrição das mortes e dos funerais do infante D. Pedro e do sobrinho de Baltasar. Violeta- o sonho individual
• Doença de D. João V. Azul – o sonho coletivo
Vermelho – o amor verdadeiro
• Aproximação de D. Maria Ana e do cunhado, o infante D. Francisco.
1
IV O essencial para o exame…
12.º ano

• Regresso do Padre Bartolomeu da Holanda e visita a Sete-Sóis e Sete-Luas, em Mafra.


• Ida de Baltasar e Blimunda à quinta do Duque de Aveiro para continuar o trabalho na abegoaria.
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• Viagem do Padre para Coimbra a fim de concluir os seus estudos.
• Trabalho de centenas de homens nos caboucos do futuro Convento.

• Nova revelação de Blimunda: a visão de uma nuvem fechada na hóstia.


12 • Bênção da primeira pedra da basílica de Mafra.
• Regresso de Baltasar e Blimunda a São Sebastião da Pedreira.

• Complementaridade do trabalho: trabalho físico de Baltasar na construção da Passarola e recolha das


13 vontades por parte de Blimunda.
• Procissão do Corpo de Deus.

• Primeiro encontro de Bartolomeu Lourenço com o músico Domenico Scarlatti.


14 • Visita de ambos à abegoaria e integração do músico na “trindade terrestre”.
• Sermão do Padre Bartolomeu questionando os fundamentos da trindade divina.

• Recolha de vontades, por parte de Blimunda, entre os agonizantes, na sequência da epidemia que assolou
Lisboa.
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• “Doença” de Blimunda e cura através da música de Scarlatti.

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• Conclusão da Passarola.

• Voo da Passarola e das suas consequências: desaparecimento do Padre e caminhada de Bartolomeu e


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Baltasar até Mafra.

•T
 rabalho de Baltasar nas obras do Convento e visita aos destroços da máquina voadora, em Monte Junto.
17 • Terramoto e tempestade em Lisboa.
• Notícia da morte do Padre Bartolomeu, em Espanha, por Scarlatti.

• Reflexão de D. João V sobre os gastos relacionados com a construção do Convento de Mafra.


18 • Narração das vivências de alguns dos operários construtores da obra.
• O efeito apaziguador de Blimunda sobre Baltasar.

19 • Transporte de uma pedra gigantesca de Pero Pinheiro para Mafra: a “epopeia da pedra”.

• Viagem idílica de Baltasar e Blimunda até Monte Junto.


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• Idas regulares de Sete-Sóis para examinar o estado da máquina voadora.

• D. João V lega aos filhos a construção da miniatura.


• Decisão de ampliar o Convento para alojar trezentos frades.
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• Fixação da data de sagração da obra – 22 de outubro de 1730, dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei.
• Recruta de homens por todo o reino: o cortejo dos degredados.

• Negociação dos casamentos dos infantes portugueses com a casa real espanhola.
22 • Cerimónias nupciais e viagem da comitiva de D. Maria Bárbara até Espanha.
• Ida da infanta sem nunca ter visto o Convento construído em sua honra.

• Chegada a Mafra das estátuas dos santos para o Convento.


• Visita às estátuas, ao luar, de Sete-Sóis e Sete-Luas.
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• Nova ida de Baltasar a Monte Junto, para verificar o estado da máquina.
• Voo acidental de Baltasar.

• Chegada do rei, para a sagração.


24 • Procura infrutífera de Baltasar por Blimunda.
• Regresso a casa de Sete-Luas.

• Sagração do Convento de Mafra.


Verde – o tempo histórico
• Início do longo périplo de Blimunda à procura de Baltasar.
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Laranja – a subversão da História


25 • Reencontro, após nove anos de intensa procura, de Blimunda e Baltasar. Violeta- o sonho individual
Azul – o sonho coletivo
• Auto de fé em que Sete-Sóis é sentenciado.
Vermelho – o amor verdadeiro
• Recolha da vontade de Baltasar por Blimunda.
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José Saramago, Memorial do Convento

Em tópicos
Em Memorial do Convento cruzam-se muitas histórias:
• a história de D. João V;
• a história da construção do Convento de Mafra;
• a história de Baltasar e Blimunda;
• a história do Padre Bartolomeu Lourenço;
• a história do povo que construiu o Convento.

O título e as linhas de ação


O título do romance Memorial do Convento aponta de imediato para uma narrativa histórica rela-
cionada com a construção do Convento de Mafra. Por outro lado, a palavra “memorial” remete para
um relato de factos e pessoas memoráveis de um determinado período. Deste modo, o título sugere
uma narrativa histórica baseada em relatos verdadeiros que aparentemente não se parece coadunar
com o género romance, que privilegia a ficção. Podemos, então, concluir que, neste romance, se
cruzam com grande mestria acontecimentos históricos e ficcionados a que se adicionou uma ver-
tente fantástica.

História Ficção Atualidade dos temas

Reinado de D. João V (cerca de 30 Narração alegórica (regresso de Análise das condições sociais,
anos) e governação Baltasar a Lisboa, casamento com morais e económicas
Blimunda, ...)
Guerra da Sucessão de Espanha História de Blimunda e Baltasar Opulência
(auto de fé, trabalho na construção
da Passarola, estadia em Mafra,
morte de Baltasar na fogueira da
Inquisição)
Crónica da construção do Convento Magia inexplicável: recolha das Miséria
vontades, capacidade de “ver as
pessoas por dentro”
Inquisição e autos de fé Transgressão de códigos de conduta Poder
muito rígidos

Projeto da Passarola do Padre Todo o processo de construção da Sagrado


Bartolomeu de Gusmão Passarola

Música de Domenico Scarlatti Voo da Passarola Religião

Espaço cortesão: demasiada riqueza Magia

Espaço eclesiástico: devassidão Amor

Espaço popular: demasiada pobreza Sonho

Casamento da infanta Maria Bárbara

Crónica de costumes de uma época

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IV O essencial para o exame…
12.º ano

O sonho de edificação de um Convento, que parece ser o fio condutor do romance, depressa
cede lugar ao sonho de voar do Padre Bartolomeu Lourenço. A construção da Passarola assume o
papel central na obra, congregando o trabalho de três personagens, e só após a concretização do
sonho se dá destaque à obra do Convento.
As linhas temáticas que atravessam o romance são múltiplas, no entanto, todas as personagens
se movem pelo sonho. Podemos considerar que o romance se estrutura a partir de dois sonhos
dicotómicos: o sonho individual de um rei absoluto de construir um Convento para sua satisfação
pessoal e o sonho coletivo do Homem que, desde eras remotas, sente o apelo e a ânsia de voar.

Do sonho à concretização

D. João V – sonho de grandeza e de vaidade Padre Bartolomeu – sonho de voar

Promessa do rei – sonho do padre franciscano Projeto inicial do Padre Bartolomeu de Gusmão

Construção do Convento Construção da Passarola


arquiteto, mestres e operários Bartolomeu mostra o projeto a Baltasar

Execução remunerada, forçada, Execução partilhada


com sacrifício de vidas
Bartolomeu: a ciência; Baltasar: a força física;
Blimunda: a magia; Scarlatti: a música

Construção parcial do Convento Voo da Passarola

Sagração da basílica Perseguição pelo Santo Ofício


Aclamação de D. João V Inteligência, coragem, superação
Esquecimento dos construtores

Consecução de um sonho individual: Consecução de um sonho ancestral da humanidade:


VOAR
PRESTÍGIO SOCIAL
Evolução
Mais um Convento

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José Saramago, Memorial do Convento

EM ESQUEMA

1. “Era uma vez um rei que fez 2. “Era uma vez a gente que
promessa de levantar um Convento construiu esse Convento
em Mafra” MEMORIAL
DO CONVENTO
3. “Era uma vez um soldado maneta 4. “Era uma vez um padre que queria
e uma mulher que tinha poderes” voar e morreu doido”

“Era uma vez”

Caracterização das personagens. Relação entre elas


As personagens deste romance podem agrupar-se em diferentes categorias dicotómicas: as
personagens históricas / as personagens ficcionais; os poderosos / os trabalhadores; o casal real /
Baltasar e Blimunda; …
• As personagens históricas pertencem às classes sociais mais privilegiadas – nobreza/clero –
vivem a seu belo prazer e menosprezam os interesses do povo. Na caracterização das persona-
gens pertencentes a este grupo, há, quase sempre, um tom depreciativo e, não raro, irónico.
– D. João V: rei de Portugal. D. João V é rei de Portugal num tempo em que as minas de
ouro do Brasil trazem grandes riquezas a Portugal. Aproveita-as para obras sumptuosas,
entre as quais se conta o Convento de Mafra. De caráter vaidoso, magnificente e megaló-
mano, pretende deixar uma obra que ateste a grandeza da sua riqueza e do seu poder,
ainda que para tal se tenha de sacrificar o povo. É um “marido leviano”, cuja relação com
a rainha se pauta, essencialmente, pelo cumprimento de deveres reais e conjugais. Apesar
de demonstrar interesse pela invenção do Padre Bartolomeu de Gusmão e revelar apetên-
cia pelo progresso científico e de ter contratado Domenico Scarlatti, demonstrando inte-
resse pelas artes, no retrato do rei, ressaltam essencialmente características negativas. A
megalomania, a indiferença face à miséria do povo, a relação conjugal com a rainha, a
hipocrisia da vivência religiosa e a vaidade são as características mais marcantes do rei,
neste romance.
– D. Maria Ana Josefa: oriunda da Áustria, a rainha revela-se extremamente devota e sub-
missa, cujo papel se resume basicamente a dar herdeiros ao rei. Simboliza a mulher do
século XVIII: submissa, reprimida, destinada a procriar, enclausurada no palácio, cum-
prindo as suas devoções religiosas. A sua relação com o rei resume-se a cerimónias proto-
colares da corte que impedem o casal real de ter privacidade. Entre o casal real não há
qualquer tipo de amor. A rainha conhece as infidelidades do rei, sonha com o cunhado, D.
Francisco, de quem se desinteressa, aquando da doença do rei, pois constata o seu inte-
resse em conseguir o poder.
– Infanta D. Maria Bárbara: filha primogénita do casal real. Tem cara de lua cheia, é bexi-
gosa e feia, mas boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa. Casa aos 17
anos com o infante D. Fernando de Espanha, pelo que não chega sequer a ver o Convento
erigido em honra do seu nascimento.
– Infante D. Francisco: irmão de D. João V, é um homem sem escrúpulos que cobiça o trono
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e a esposa do rei, bem como se entretém a provar a sua boa pontaria de espingarda nos
marinheiros que estão nos barcos ancorados no Tejo.

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IV O essencial para o exame…
12.º ano

– João Frederico Ludovice: arquiteto alemão, é contratado para construir o Convento de


Mafra como uma réplica da Basílica de São Pedro em Roma. O arquiteto consegue sensa-
tamente dissuadir o rei dessa intenção.
• Algumas personagens históricas apresentam traços de ficcionalidade.

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– Domenico Scarlatti: músico italiano, veio como professor do irmão de D. João V, o infante
D. António, passando depois a ser professor da infanta D. Maria Bárbara. Exerceu as fun-
ções de mestre de capela e professor da casa real de 1720 a 1729, tendo escrito inúmeras
peças musicais durante esse tempo. Conhece o Padre Bartolomeu de Gusmão no paço e
partilha com ele o segredo da construção da “Passarola”, deslocando-se várias vezes à
quinta do Duque de Aveiro, onde toca cravo para satisfação dos presentes. Constitui o
quarto elemento da “trindade terrestre”. Simboliza o poder da arte, pois é graças à música
que Blimunda recupera do estado de esgotamento em que se encontra depois da recolha
das vontades. Deste modo, sugere-se que, para a concretização dos sonhos do Homem,
quer ao nível espiritual quer ao nível técnico, é fundamental a conjugação da arte com o
conhecimento científico.
– Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão: espírito aberto e sem preconceito, gosto pelas
viagens, estrangeirado, para quem a ciência era preocupação verdadeiramente nobre.
Movimenta-se na corte e na academia de Coimbra. Acalenta o sonho de um dia voar, daí o
seu projeto da “Passarola”, apoiado por el-rei D. João V, de quem é amigo. É conhecido
como “o voador” por alimentar o sonho de voar. Mantém laços de profunda amizade com
Baltasar e Blimunda, que o ajudam na construção da “máquina voadora”, e com quem,
segundo as suas palavras, forma uma “trindade terrestre”, o pai, o filho e o espírito Santo.
Nesta “trindade terrestre” representa o conhecimento científico, uma vez que concebe a
máquina, assim como o elemento secreto que a fará voar. É um padre muito pouco con-
vencional, como fica demonstrado na aproximação que mantém com Blimunda e com a
sua mãe, na forma como abençoa o casamento entre Baltasar e Blimunda e no modo
como questiona os dogmas da Igreja, no sermão do Corpo de Deus. Considera que a reli-
gião deve estar ao serviço dos homens e não o contrário, como é visível na explicação de
incentivo que faz a Baltasar sobre o facto de Deus ser maneta da mão esquerda. O facto de
o padre ter a intenção de construir uma máquina voadora coloca-o como alvo da Inquisi-
ção e só a proteção do rei interessado no invento evita a perseguição do Santo Ofício. Ape-
sar de ter conseguido fugir, graças à Passarola, depois de aterrarem em Montejunto, tenta
deitar fogo à máquina, o que demonstra o terror que a Inquisição espalhava, levando os
homens a queimar os seus sonhos. Atormentado por uma profunda crise de fé e transtor-
nado com a perseguição da Inquisição, refugia-se em Toledo, onde acaba por falecer.
• As personagens ficcionais do romance são um grupo social desfavorecido, pertencem ao povo,
muitas vezes, explorado/oprimido pelas classes do poder.
– Povo: O povo em geral – massa anónima tantas vezes subestimada e esquecida pela His-
tória – é apresentado como o verdadeiro herói, na medida em que foi à custa do seu sacri-
fício, e muitas vezes da própria morte, que se tornou possível a edificação do megalómano
Convento. A caracterização reveste-se de um tom francamente positivo e valorativo. O
povo, no romance, é o verdadeiro responsável pela construção do Convento de Mafra, pelo
seu esforço e sacrifício. O romance apresenta a construção do Convento não pela visão do
discurso do poder, mas perspetivado pelo verdadeiro herói: o povo.
– Baltasar Mateus: homem do povo, de alcunha, o Sete-Sóis, esteve na Guerra de Sucessão de
Espanha, durante quatro anos, da qual foi dispensado por ter perdido a mão esquerda em
combate. De regresso, começa por trabalhar no açougue no Terreiro do Paço, em Lisboa. Num
auto de fé, conhece Blimunda, a quem se liga amorosa e espiritualmente. A convite do padre
Bartolomeu Lourenço, ajuda a construir a “Passarola”, sonho que passa também a ser seu.

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José Saramago, Memorial do Convento

Dentro da “trindade terrestre” que forma com o Padre Bartolomeu de Gusmão e Blimunda,
representa, no processo de construção da Passarola, a força física. Mais tarde, trabalha nas
obras do Convento de Mafra. Após a morte do padre, zela pela preservação da “máquina voa-
dora”, recusando-se a abdicar do seu sonho, e, um dia, por descuido, é levado ao acaso, aca-
bando por ser queimado nove anos depois num auto de fé pela Inquisição. Trata-se de um
homem do povo, analfabeto e humilde, que aceita a vida tal como esta se lhe apresenta. Ao
longo da ação, vai-se dando conta do seu envelhecimento.
–B limunda de Jesus: mulher do povo, a quem o padre Bartolomeu Lourenço, batiza de “Sete-
-Luas”. Vive um amor apaixonado, franco e leal com Baltasar. Tem o dom de, em jejum, ver o
interior das pessoas e das coisas, o que lhe permite recolher as duas mil “vontades” indispen-
sáveis para a “Passarola” voar. Assume-se como a dimensão espiritual da “trindade terrestre”
que forma com Baltasar e com o Padre Bartolomeu de Gusmão. Será quem recolherá o ele-
mento secreto que permitirá à Passarola voar: a vontade dos homens. Os seus olhos são evi-
denciados, por diversas vezes. Blimunda é dotada de uma profunda inteligência e de uma
estranha sabedoria. Detentora de grande densidade psicológica e de uma perseverança sem
limites, procura “o seu homem” durante nove anos, unindo-se ao mesmo numa comunhão
espiritual ao resgatar a sua “vontade” quando finalmente o reencontra num auto de fé em que
este está a ser queimado no fogo da Inquisição. Quando o avista no auto de fé, dispõe-se, pela
primeira vez, a quebrar a promessa que fizera de nunca o ver por dentro, naquilo que demons-
tra o respeito pelo homem que amava. O nome de Blimunda, estranho e raro tal como a per-
sonagem, teria surgido ao narrador, talvez pela musicalidade que ele encerra ou pela magia
das suas três sílabas, símbolo da perfeição. Esta figura representa a força que permite ao povo
a sua sobrevivência, assim como contestar o poder e resistir.
– Sebastiana Maria de Jesus: mãe de Blimunda, condenada a ser açoitada em público e ao
degredo (oito anos de degredo em Angola) por ter “visões e revelações”, por ser blasfema
e herética. Ao avistar a filha no meio da multidão que assiste à procissão dos sentenciados
pelo Santo Ofício, de quem também faz parte, interroga-se sobre a identidade do homem
“tão alto, que está perto de Blimunda”.
– Marta Maria: mãe de Baltasar, é quem recebe o “filho pródigo” e Blimunda em sua casa,
quando estes vão pela primeira vez juntos a Mafra.
– João Francisco: pai de Baltasar, homem do povo cuja subsistência reside na agricultura.
– Inês Antónia: irmã de Baltasar, mãe de dois filhos, que sofre a morte do rapaz mais novo,
com pouco mais de dois anos.
– Álvaro Diogo: homem do povo e antigo soldado com quem Baltasar trava amizade ao che-
gar a Lisboa.
– Os trabalhadores do Convento: personagem coletiva, cuja “força bruta” e esforço desme-
dido são explorados de forma desumana. De entre estes, distinguem-se, nomeadamente:
Francisco Marques, José Pequeno, Joaquim da Rocha, Manuel Milho, João Anes, Julião
Mau-Tempo.
• As personagens históricas cruzam-se, no romance, com personagens ficcionais.
– O casal real surge no romance em contraponto com o casal Baltasar-Blimunda.

Rei e Rainha Baltasar e Blimunda

• Respeito por convenções • Libertação de convenções

• Contrato de casamento • Casamento: partilha da colher

• Relação desequilibrada • Relação equilibrada


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• Ausência de amor • Amor verdadeiro

• Papel subalterno da mulher • Relação de igualdade e respeito mútuo

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IV O essencial para o exame…
12.º ano

O tempo histórico e o tempo da narrativa


A História e a ficção dão as mãos em Memorial do Convento e, através do maravilhoso, assume-se
uma nova perspetiva do relato dos factos históricos. Pretende valorizar-se aqueles que são normal-

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mente esquecidos – os humildes e os desfavorecidos – que, neste caso, contribuíram para a eleva-
ção do Convento e para a construção da máquina voadora, a qual permite a fuga a um mundo
dominado pela prepotência do Poder.
O tempo histórico diz respeito à sucessão cronológica dos acontecimentos históricos relatados
no romance que abrangem o período de 1711 a 1739. A ação tem lugar em Portugal, no século
XVIII, quando a Inquisição concebe os autos de fé como espaços de alegria, cerimónias com
requintes grandiosos: procissões, leitura das sentenças, suplícios, degredo ou morte na fogueira. As
referências ao tempo histórico são escassas, no entanto podemos realizar várias inferências relativa-
mente à cronologia dos acontecimentos narrados.
O tempo da narrativa está relacionado com a forma como o tempo da história é trabalhado na
narrativa. A narração dos acontecimentos pode ser feita por ordem cronológica ou pode recorrer-se
a analepses (recuos no tempo), prolepses (avanços no tempo), elipses (omissão de acontecimentos),
sumários (resumo de acontecimentos).
No romance, a narrativa segue, em geral, a ordem cronológica dos acontecimentos narra-
dos, no entanto, existem algumas analepses, prolepses, elipses e sumários.

Tempo da narrativa em Memorial do Convento


Analepse Prolepse Elipse Sumário

Desde 1624, os Referência à morte do Narrativa cobre 28 anos de tempo Relato da


franciscanos andavam a infante D. Pedro cronológico, incidindo apenas nos construção do
tentar que fosse construído episódios mais importantes Convento
um Convento em Mafra
Referência à morte do filho
mais novo de Inês Antónia
e de Álvaro Diogo

Várias referências do
narrador a acontecimentos
posteriores

Em tópicos
Contextualização histórica do romance (1711-1739)
• Reinado de D. João V: início do século XVIII.
• Acontecimentos marcantes, referidos no romance
– Política absolutista.
– Atitude neutral do rei face aos jogos de poder que se faziam sentir na Europa.
– Enormes remessas de ouro do Brasil.
– Clima de Iluminismo.
– Atuação de estrangeirados em vários campos artísticos (Nicolau Nasoni, na arquitetura;
Domenico Scarlatti, na música; António José da Silva, na literatura).
– Inquisição, Tribunal do Santo Ofício e autos de fé.
– Construção do Convento de Mafra, entre outros monumentos (Aqueduto das Águas Livres,
Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra).
– Guerra da Sucessão, em Espanha.
– Auto de fé: morte de António José da Silva (o Judeu).

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José Saramago, Memorial do Convento

O tempo histórico
• Ordenação cronológica no romance (algumas marcas objetivas da passagem das horas, dias,
meses, anos)
– 1711-1739 (as referências temporais são escassas e, muitas vezes, deduzidas. O cresci-
mento e/ou envelhecimento das personagens também nos dá conta da passagem do
tempo).
– “Chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje”
(deduz-se que a ação tem início em 1711, pois o casamento real aconteceu dois anos
antes, em 1709).
– 1711: D. João V “ainda não fez vinte e dois anos”.
– 1711: “S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzen-
tos e onze”.
– 1711: rainha no quinto mês de gravidez e auto de fé que condena Sebastiana de Jesus ao
degredo.
– 17 de novembro de 1717: bênção da primeira pedra do Convento: “dezassete de novembro
deste ano da graça de mil setecentos e dezassete”
– dezembro de 1711: Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa, a pedido do Padre Bartolo-
meu de Gusmão, para continuarem a construir a Passarola.
– 8 de junho de 1719: a procissão do Corpo de Deus a “oito de junho de 1719”.
– 1727: “dezasseis anos passaram desde que a [Blimunda] vimos passar pela primeira vez”.
– 1729: casamento da infanta Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando.
– 22 de outubro de 1730: dia do 41.º aniversário de D. João V e dia da sagração do Convento
de Mafra.
– 18 de outubro de 1739: “repetia o itinerário de há vinte e oito anos”, dia do auto de fé, no
Rossio, no qual Baltasar é queimado. É também o dia em que morre o dramaturgo António
José da Silva, o Judeu.
O tempo da narrativa
• Modo como o narrador conta os acontecimentos, podendo elaborar o seu discurso segundo uma
frequência, ordem e ritmo temporais diferentes.
– Ordem temporal
– Narração de acontecimentos já passados – analepse.
– Narração antecipada de acontecimentos futuros – prolepse.
– Narração pela ordem cronológica dos eventos.
– Ritmo temporal
– Omissão ou sumário do que aconteceu em determinado período temporal.
– Descrições, divagações, reflexões, pausas narrativas.
• Manipulação do tempo, mas o narrador segue uma ordem cronológica linear havendo, por vezes,
algumas prolepses (avanço no tempo).
– Número de filhos bastardos de D. João V.
– Morte do sobrinho de Baltasar.
– Morte do infante D. Pedro.
– Morte da mãe de Baltasar.
– Morte de Manuela Xavier e de Álvaro Diogo.
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IV O essencial para o exame…
12.º ano

• O narrador faz comentários e comparações entre épocas históricas diferentes, através de prolep-
ses (atitude irónica).
– Alusão à extinção dos autos de fé.

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– Referência às cores da bandeira portuguesa e à implantação da República.
– Alusão à revolução do 25 de Abril.
– Indicação do número de frades instalados no Convento por altura das invasões
francesas.
– Referência ao cinema e aos aviões.
– Alusão a Fernando Pessoa.
• Narração de acontecimentos passados, mais ou menos distantes, para explicar determinados
aspetos da ação no presente (analepses).
– Desejo antigo dos franciscanos terem um Convento em Mafra.
– Familiaridade da língua portuguesa a Scarlatti há já alguns anos.
– O que aconteceu ao cravo de Scarlatti que se encontrava na quinta do duque de Aveiro.
O tempo psicológico
• Tempo subjetivo, relacionado com as emoções, a problemática existencial das personagens, isto
é, a forma como estas sentem a passagem do tempo, vivendo momentos felizes e/ou infelizes.
– No percurso até Espanha, Maria Bárbara vai observando o que a rodeia e, a partir daí,
medita sobre vários assuntos, nomeadamente sobre o facto de nunca ter visto o Convento
erigido em honra do seu nascimento.

Visão crítica
Memorial do Convento é um romance de crítica social aos poderosos: ao Estado, todo poderoso; à
Justiça parcial; à Igreja hipócrita e contraditória. Apresenta-se desde início como uma crítica cheia
de ironia e sarcasmo à opulência do rei e de alguns nobres, por oposição à extrema pobreza do povo.
Os construtores do Convento espelham uma miserável condição social, cumprem um sonho que
não é o deles e são sujeitos à exploração dos poderosos. A imagem histórica dos tempos inquisito-
riais e das suas práticas constituem uma denúncia e uma forte crítica às pessoas que dançam em
volta das fogueiras onde se queimam os condenados.
O romance apresenta ainda um questionamento crítico face à versão oficial e gloriosa da Histó-
ria que está registada nos documentos oficiais. A perspetiva dos acontecimentos históricos fixados
no romance é outra, vai para além da versão oficial do poder. Os heróis agora são outros e a narra-
ção dos acontecimentos é perspetivada pelos cidadãos anónimos quase sempre marginalizados no
discurso do poder. No fundo, o narrador dá voz a quem não tem voz, valoriza o seu trabalho, o seu
sofrimento e a sua dimensão humana: o amor, a solidariedade, a criatividade e a sua capacidade de
contornar os obstáculos e perseguir um sonho maior.

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José Saramago, Memorial do Convento

Memorial do Convento: a História e a subversão da História

Discurso oficial Nova perspetiva crítica /Denúncia

Reinado de D. João V, o Sumptuosidade da corte:


Magnânimo: um reinado de
• luxo e ostentação • frivolidade • moral duvidosa
obras grandiosas

D. João V e o Absolutismo: um Prepotência e devassidão


reinado muito próspero
• megalomania
• satisfação de caprichos
• devassidão, libertinagem e ignorância
• indecoro
• adultério (o Convento de Odivelas)
D. João V e a corte portuguesa: Os poderosos
uma corte muito rica
• privilégios em exagero • autoridade
• ostentação • repressão
• parasitismo • insulto à dignidade humana
A Inquisição e os Autos de Fé: o Regime de terror
tribunal do Santo Ofício
• intolerância e perseguição (cristãos novos, feiticeiros, mágicos,
heterodoxos, intelectuais)
• alienação e injustiça
• terror e obscurantismo
• censura de ideias inovadoras (Passarola)
O povo trabalha nas obras do Exploração dos operários na edificação do Convento
reino: há trabalho para todos
• ausência de privilégios: condições miseráveis de alojamento (Ilha da
Madeira)
• falta de dignidade: escolhidos como “tijolos”
• sofrimento, sacrifício e morte
• opressão: prisão e obrigação de vir trabalhar para o Convento
• aniquilamento: não são reencaminhados para regressar a casa
• repressão e medo do poder e da Inquisição
• miséria física e moral: ausência de liberdade de expressão ou de
pensamento

Em tópicos
Visão crítica
• Sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII.
• Sofrimento de um povo.
• Tom irónico.
• O clero
– exerce o seu poder sobre o povo ignorante através da instauração de um regime repres-
sivo entre os seus seguidores.
– quebra o voto de castidade.
• Atuação da Inquisição, que, à luz da fé cristã, manipula os mais fracos. É de igual modo criticada
ao longo do romance, nomeadamente através da apresentação de diversos autos de fé, nos
quais as pessoas dançam em volta das fogueiras onde se queimaram os condenados.
• Justiça portuguesa que castiga os pobres e despenaliza os ricos.
• Rejeição dos artífices e dos produtos nacionais em defesa dos estrangeiros.
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• Adultério.
• Corrupção generalizada.
11
IV O essencial para o exame…
12.º ano

Dimensão simbólica
Em Memorial do Convento, está presente uma perspetiva desmistificadora da História e uma
consequente valorização de aspetos culturais subversores, como os poderes de Blimunda, a possibi-

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lidade de voar e outros variados elementos que adquirem uma dimensão simbólica no contexto da
obra.
O Convento de Mafra é símbolo da memória do passado e a sua construção é, ao mesmo tempo,
a denúncia da exploração do povo, o resultado da ostentação régia e o exemplo do misticismo reli-
gioso. Esta obra, cuja decisão de construção nada teve de louvável, representa o poder do rei e da
Igreja e fica associada à morte e à dor humana. No contexto do romance, esta obra surge como
contraponto da dimensão simbólica da Passarola. Assim, enquanto a construção da Passarola cor-
responde a um desígnio intemporal do Homem, o Convento constitui a satisfação de um desejo
pessoal de ostentação e vaidade.
A planificação e construção da Passarola surge, no romance, em paralelo contrastivo em relação
à construção do Convento. Assim, enquanto o segundo se associa ao regime opressor, o primeiro
revela o desejo de liberdade. Por outro lado, a máquina voadora simboliza a harmonia entre o sonho
e a sua realização, a fraternidade e igualdade entre os homens. A construção da Passarola decorre
da união entre o conhecimento do Padre Bartolomeu de Gusmão, a arte de Scarlatti e a sabedoria do
povo, representado por Baltasar, que contribui com a força física, e Blimunda, que transporta o
poder da vontade humana. Esta obra resulta de um trabalho de equipa em que ninguém é superior
a ninguém, mas em que cada um dá o melhor de si para a consecução de um sonho que é de todos.
A Passarola revela ainda o poder da vontade humana que torna possível qualquer sonho, mesmo
que pareça impossível. Paralelemente, o voo impensável da Passarola é símbolo de libertação e
leveza, contrastando com o peso da dor e do sofrimento que a construção do Convento originou.
Associada ao voo da Passarola surge no texto uma frase que representa o percurso de evolução do
homem, ao longo dos tempos, no caminho para a liberdade e afirmação do livre-arbítrio: “O
homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará”.
As alcunhas de Baltasar e Blimunda, como “Sete-Sóis” (“porque vês às claras”) e “Sete-Luas”
(“porque vês às escuras”) respetivamente, representam a complementaridade deste par amoroso,
pela referência simbólica ao Sol (símbolo de vida, mesmo depois da amputação da mão) e à Lua
(necessidade da luz do Sol) e pela menção do número sete, enquanto representante de uma totali-
dade, de um ciclo completo, da perfeição, numa alusão à plenitude do casal. Baltasar surge asso-
ciado ao Sol, na medida em que está fortemente ligado à realidade e o seu pragmatismo e trabalho
braçal consegue dar forma à Passarola imaginada pelo Padre Bartolomeu de Gusmão. Por outro
lado, Blimunda surge associada à Lua, uma vez que tem poderes para ver o que está oculto. O seu
dom está inclusivamente condicionado pelas fases da Lua, que representam a periodicidade e a
renovação. O poder de Blimunda é condicionado pelo jejum e quando não há mudança de quarto
de Lua consegue ver o que existe dentro das pessoas. O facto de Blimunda ser capaz de recolher
vontades que se iam soltar dos homens e que se irão converter na força que permitirá a Passarola
voar, está simbolicamente associado ao renascimento, pois a jovem vem trazer nova vida a estas
vontades, que serão determinantes na consecução do voo da Passarola.
O casamento contratual do rei e da rainha opõe-se à relação que existe entre Baltasar e Bli-
munda. Para simbolizar a oposição entre uma relação que respeita as convenções da época, mar-
cada pela infidelidade, e uma relação muito pouco convencional, mas baseada no amor, surgem na
obra dois elementos simbólicos: o cobertor e a colher. Enquanto o cobertor que a rainha traz da
Áustria representa a sua ligação ao seu país de origem e o afastamento do rei (o cobertor era dema-
siado quente), a partilha da colher da sopa representa o casamento de Baltasar e Blimunda aben-
çoado pelo Padre Bartolomeu de Gusmão.
A epopeia da pedra é a designação simbólica que a sequência 19 do romance adota para relatar o
transporte da pedra Beneditione, de Pero Pinheiro até Mafra (cerca de 30 km). Este momento

12
José Saramago, Memorial do Convento

assume um enorme destaque para representar todos os que terão ocorrido ao longo dos anos da
construção do Convento. Sendo a pedra uma ínfima parte do gigantesco edifício que se estava a
construir, sublinha-se a enormidade do esforço despendido num trabalho escravo, que serve ape-
nas os interesses do rei. Esta pedra é uma peça inteira que constitui a varanda frontal do Convento
por cima da porta principal. Assume especial simbolismo pelo local que ocupa no Convento. Não é,
no entanto, a pedra maior que foi utilizada. Pelo seu tamanho e pela dificuldade que constituiu o
seu transporte é designada como “o monstro” numa alusão ao Adamastor de Os Lusíadas. A viagem
da pedra é comparada, no romance, com a viagem de Vasco da Gama à Índia, pela falta de meios,
pelo sacrifício dos homens, pela dificuldade da empresa.
Durante o transporte da pedra, os homens pernoitavam pelo caminho e Manuel Milho, para
amenizar os serões, conta uma história simbólica de forma faseada. Nas horas de descanso, ao
longo dos oito dias do transporte da pedra, a história ameniza o sofrimento dos homens, deixando-
-os curiosos face ao desenlace. Esta personagem popular introduz uma reflexão profunda sobre a
existência humana e sobre a possibilidade de transformação pelo sonho. A reflexão assenta na con-
versa que a rainha teve com o ermitão sobre a existência, sobre o que se é e o que se deseja ser e
sobre a rebelião necessária para deixar de ser o que não se quer.
Em suma, o romance Memorial do Convento respira simbolismo:
• Sete-Sóis/ Sete-Luas, a complementaridade na transgressão de códigos;
• a Passarola como espaço de evasão;
• o transporte da pedra, empreendimento que eleva os que não tinham voz;
• o poder encantatório da música;
• a demanda de Blimunda, lição de perseverança e espera pelo momento oportuno;
•…

Em tópicos
As simbologias
• Três: perfeição – para os Cristãos, representa a perfeição da ordem divina (Santíssima Trindade:
Pai, Filho e Espírito Santo); o tempo é triplo (passado, presente e futuro); fases da existência (nas-
cimento, crescimento e morte).
• Sete: totalidade, perfeição (associado aos nomes de Baltasar e Blimunda, à data e à hora da
sagração do Convento, aos sete anos vividos em Portugal pelo músico Scarlatti, sete vezes que
Blimunda passa por Lisboa à procura de Baltasar, às sete igrejas visitadas na Páscoa, aos sete
bispos que batizaram Maria Francisca comparados a sete sóis de ouro e prata nos degraus do
altar-mor).
• Sete-Sóis e Sete-Luas: ideia de união, de complementaridade e de perfeição.
• Olhar de Blimunda: poder mágico e maravilhoso, expresso nas mudanças de cor.
• “Vontades”: metáfora da realização do sonho, causadoras do progresso.
• Nove: conclusão de uma criação e o recomeço; insistência e determinação de Blimunda na pro-
cura do homem amado.
• A mãe da pedra: gesta heroica, epopeica, do transporte da pedra gigante de mármore (o tama-
nho gigantesco da pedra, o carro especialmente construído para o seu transporte – a “nau da
Índia” –, as duzentas juntas de bois e os seiscentos homens necessários para o puxarem, os
difíceis obstáculos do caminho, à semelhança das narrativas de heróis clássicos, em que se
anunciam os “trabalhos” fabulosos que terão de ser contornados e o esforço imperioso, mais do
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que humano, que terá de ser despendido).

13
IV O essencial para o exame…
12.º ano

Linguagem, estilo e estrutura

• A estrutura da obra
O romance Memorial do Convento está dividido em 25 partes (sequências/capítulos), não nomea-

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dos nem numerados, mas perfeitamente reconhecidas pelos espaços em branco que as separam.
• Narrativa de caráter histórico – a construção do Convento de Mafra.
• Narrativa ficcionada – a construção da Passarola (movida pela força das “vontades” que Bli-
munda recolhe): engloba a história de amor entre Baltasar e Blimunda.
• Construção da Passarola: fio condutor de toda a narrativa (observação de quase todos os passos,
partilha do entusiasmo das personagens, materializa o sonho dos seus construtores, permite a
fuga de um mundo dominado pela injustiça e pela prepotência que caracteriza a política
vigente).
• A intertextualidade
Memorial do Convento apresenta, frequentemente, ecos de outros textos pertencentes a um patri-
mónio coletivo. Camões, Pessoa e todos os outros, relidos agora, em Memorial do Convento, muitas
vezes sob o manto da paródia, estão ao serviço da denúncia do tempo em que se insere a história da
construção do Convento, mas visam também o tempo de Saramago, o nosso e as opções
ideológicas.
• Saramago convoca para o seu texto vários textos ou fragmentos que reescreve.
– Provérbios (“a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que
sente e sentiu”, p. 55).
– Contos tradicionais (“Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real marido em palá-
cio”, p. 277).
– Luís de Camões, Os Lusíadas (“O homem, bicho da terra”, referências ao Adamastor, às
Despedidas em Belém, ao Velho do Restelo, a Veloso através de Manuel Milho, hábil con-
tador de histórias, p. 67).
– Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes (“Estão parados diante do último
pano da história de Tobias, aquele onde o amargo fel do peixe restitui a vista ao cego”, p. 181).
– Fernando Pessoa, Mensagem (“Em seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de
noite e solidão, tem aos seus pés o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem,
deveras, o globo mundo em sua mão, este tal foi o infante D. Henrique”, p. 249).

Saramago e Os Lusíadas, de Luís de Camões


a) Referências ao Adamastor:
• grandes ventos destroem a Igreja de madeira que tinha sido especialmente construída para a
cerimónia de sagração da primeira pedra do Convento de Mafra “como o sopro gigantesco de
Adamastor, se Adamastor soprou, quando lhe dobravam o cabo dos seus e nossos trabalhos”
(p. 142);
• “é como se finalmente tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os
caminhos ocultos, por isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam,
adamastores, que fogos de santelmo, acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas
d’água que vão sugar os ares e o tornam a dar salgado” (pp. 219-220) – comparar a epopeia da
descoberta do caminho marítimo para a Índia com a epopeia da viagem na Passarola, também
ela de descoberta, rumo à aventura e ao desconhecido;
• “Na frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se
erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada” (p. 222) – surge já
perto do local onde vão aterrar e com o qual estiveram prestes a chocar e a desfazerem-se;
b) “vós me direis qual é mais excelente, se ser do mundo rei, se desta gente” (p. 321) – inver-
tendo a mensagem d’ Os Lusíadas, na Dedicatória: a grandeza, a coragem e a determinação de
um povo que orgulhava e engrandecia o seu rei cedem lugar à capacidade de obedecer sem

14
José Saramago, Memorial do Convento

limites e a subserviência total que elevam o rei;


c) A “caça” aos homens para trabalhar nas obras do Convento de Mafra segue de muito perto Os
Lusíadas, ao evocar as “Despedidas em Belém” e Inês de Castro – as mulheres vão clamando
“Ó doce e amado esposo, e outra protestando, Ó filho a quem eu tinha só para refrigério e
doce amparo desta cansada já velhice minha, tanto que os montes de mais perto respondiam,
quase movidos de alta piedade” (p. 325).
d) Recriação do “Velho do Restelo”, como voz da oposição a esta epopeia que era a construção do
Convento – “e então uma grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade que já o não qui-
sera, e grita subido a um valado (...) Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame ó pátria sem
justiça” (p. 325).

Saramago e Pessoa
a) “Baltasar, Baltasar, não precisou chamar três vezes” (p. 222) – eco do poema “O Mostrengo”, da
Mensagem, no qual o homem do leme precisa de agir três vezes para vencer o mostrengo; Bli-
munda não precisa de gritar três vezes, pois o entendimento entre ela e Baltasar é imediato.
b) “Em seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de noite e solidão, tem aos seus pés
o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem, deveras, o globo mundo em sua
mão, este tal foi o infante D. Henrique, (...) faz o infante D. Henrique fraca figura comparado
com este D. João, quinto já se sabe de seu nome na tabela dos reis, sentado numa cadeira de
braços de pau-santo, para mais comodamente estar e assim com outro sossego atender ao
guarda-livros que vai escriturando no rol os bens e as riquezas” (p. 219) – paródia a D. João V,
que vive dos rendimentos do Império, numa comodidade inativa.
c) Ludovice, o arquiteto do Convento, retoma o discurso pessoano ao sugerir medidas de emer-
gência que apressasse a conclusão da edificação do Convento, sob o risco de D. João V morrer
antes: “A obra é longa, a vida é curta” (p. 311), que faz eco do verso da Mensagem “A vida é
breve, a alma é vasta”.

Saramago e o “Sermão de Santo António (aos Peixes)”, de Vieira


“Estão parados diante do último pano da história de Tobias, aquele onde o amargo fel do peixe
restitui a vista ao cego, A amargura é o olhar dos videntes, senhor Domenico Scarlatti” (p. 181).

Saramago e as referências bíblicas


a) A propósito da procissão do Corpo de Deus e da preocupação do narrador com o vestuário,
faz-se notar que “só os lírios do campo não sabem fiar nem tecer e por isso estão nus” (p. 167),
recordando o Salmo bíblico: “Olhai os lírios do campo, não fiam nem tecem...”;
b) A marcação da data da sagração da basílica coincidente com o seu aniversário, suscita a ironia
do narrador e leva-o a comparar a decisão do Rei com outras proclamações históricas, como
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (p. 323).

Saramago e os provérbios ou sentenças


• Comentários irónicos:
a) “Quem corre de gosto não cansa, dizem, mas Baltasar chegou cansado e ninguém o obriga a
ir” (p. 244);
b) “vale a pena, em todo o caso, fazer o bem olhando a quem” (p. 245).
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15
IV O essencial para o exame…
12.º ano

• A pontuação
Em Memorial do Convento, Saramago apresenta um discurso próximo da oralidade, através da
transgressão de algumas regras da pontuação.
A pontuação é utilizada de uma forma inovadora e original:

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• a vírgula sobrepõe-se aos demais sinais de pontuação:
– separa as falas das personagens (iniciam com maiúscula depois da vírgula);
– marca as pausas e acelera o ritmo de leitura;
• ausência de travessão a indicar discurso direto;
• ausência dos sinais emotivos de pontuação:
– pontos de interrogação e exclamação.
O facto de prescindir dos sinais emotivos de pontuação confere fluidez e ritmo ao discurso. É
ainda uma forma de assumir uma única voz dentro do discurso. Deste modo, a voz do narrador
incorpora todas as vozes. Assim, a narrativa torna-se polifónica, assumindo o narrador vários
papéis dentro da narrativa:
• movimenta-se entre o passado, o presente e o futuro;
• controla a ação e as personagens;
• profere juízos de valor, opiniões e divagações;
• empresta a sua “voz” a diversas personagens;
• insere citações de obras facilmente reconhecíveis;
• modifica as citações à luz de uma perspetiva crítica.
• os recursos expressivos: a anáfora, a comparação, a enumeração, a ironia e a metáfora
(Cf. Recursos expressivos p. 323)
A ironia e o sarcasmo dominam o tom do romance e estão ao serviço da denúncia e da crítica. A
ironia percorre toda a obra, ora de forma subtil ora mordaz e violenta. O narrador recorre frequen-
temente à criação de neologismos (“ladainhando”), de diminutivos (“povinho”).
– antítese: “Porém, morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca da ânsia, o
alívio tão vizinho do susto, nisto se passando a vida das pessoas”;
– comparação: “choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água”;
– enumeração: “Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as
mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades”;
– ironia: “o Rossio cheio de povo, duas vezes em festa por ser domingo e haver auto de fé,
nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores”;
– metáfora: “a procissão é uma serpente enorme que não cabe no Rossio”.
• Reprodução do discurso no discurso

• A linguagem e o relato de discurso


• Subversão das regras tradicionais.
• Forma intempestiva.
• Reinvenção da escrita (combinação do discurso literário com o discurso oral);
• Ausência de pontuação convencional (maior relevância da vírgula; confere ao texto fluidez rít-
mica, aproximando-o do discurso oral ou do ritmo do pensamento).
• Frases muito longas e labirínticas (aproximação ao discurso oral ou como tradução do monó-
logo interior e da celeridade do pensamento).
• Uso subversivo da maiúscula no interior da frase.
• Recursos expressivos (metáfora, ironia, enumeração, comparação, anáfora, …)
• Emprego de exclamações e “apartes”.
• Utilização predominante do presente – marca do fluir constante do narrador entre o passado e
o presente.

16
José Saramago, Memorial do Convento

• Mistura de discursos – discurso direto, indireto, indireto livre – sem proceder às demarcações
tradicionais, a nível gráfico (dois pontos seguidos de travessão) e lexical (verbos “dicendi”,
como acrescentar, declarar, dizer, exclamar, perguntar…).
• Coexistência de sequências narrativas e descritivas sem delimitação clara.
• Marcas de coloquialidade (“emprenhou”), de léxico erudito (“gelosias”), de linguagem arcai-
zante (“ledice”).
• Alternância entre registo formal e informal.
• Comentários e reflexões através de intertextualidade (provérbios, Os Lusíadas, Mensagem…).
• Tom simultaneamente cómico, trágico e épico.
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Convento de Mafra.

17
IV
Questões-tipo de exame Aprendo como se faz
Como pode surgir em exame Memorial do Convento, de José Saramago?
Análise de um excerto a partir de um questionário interpretativo.

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Exercício resolvido
Análise de um excerto

Leia o texto.

Questão 1.
Então foi por querer voar que conheceu a mãe de Blimunda, • O Padre pode
por ser de artes subtis, Ouvi dizer que ela tinha visões de ver ser perseguido
pela Inquisição
pessoas voando com asas de pano, é certo que visões não
falta por aí quem diga tê-las, mas havia tal verosimilhança no Questão 3.
5 que me contavam, que discretamente a fui visitar um dia, e • O Padre relaciona-
-se tanto com o
depois ganhei-lhe amizade, E chegou a saber o que queria, povo como com a
Não, não cheguei, compreendi que o saber dela, se realmente nobreza e o clero
o tinha, era outro saber, e que eu deveria perseverar contra a • Espírito aberto
minha própria ignorância, sem ajudas, prouvera não me
10 engane, Parece-me que estão na verdade aqueles que disse- Questão 1.
ram que essa arte de voar se entendia mais com o Santo Ofí- • Perseguição da
Inquisição às inova-
cio que com a geometria, se eu estivesse no vosso caso
ções tecnológicas
dobraria de cautelas, olhai que cárcere, degredo e fogueira • O Padre Bartolo-
costumam ser a paga desses excessos, mas disto sabe um meu pode ser per-
15 padre mais do que um soldado, Tenho cuidado e não me fal- seguido por heresia
e feitiçaria
tam proteções, Lá virá o dia. (…)
Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em Questão 1.
redor sem compreender o que via, talvez esperasse um • O Padre pode ser
perseguido pela
balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e Inquisição
20 não teve mão que não duvidasse, Então é isto, e o padre
Bartolomeu Lourenço respondeu, Há de ser isto, e, abrindo Questão 1.
uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o • O Padre Bartolo-
desenho de uma ave, a Passarola seria, isso era Baltasar meu leva Baltasar à
quinta do Duque de
capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho um Aveiro para lhe mos-
25 pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e trar a Passarola
ordenados nos lugares competentes, seriam capazes de
Questão 2.
voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do • Relacionado com ar
desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe
bastava, o padre explicou, em tom primeiramente sereno, Questão 3.
30 depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que ser- • Entusiasmo do
Padre
vem para cortar o vento e que se movem segundo as neces-
sidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca, não ao
acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do

18
José Saramago, Memorial do Convento

Questões-tipo de exame
navio dos ares, à proa e à popa em forma de concha mari-
35 nha, onde se dispõem os tubos do fole para o caso de faltar Questão 2.
o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as • Relaciona-se com
“barca voadora”
asas, sem elas como se haveria de equilibrar a barca voa-
• Passarola parece
dora, e destas esferas não te falarei, que são segredo meu, uma ave, mas tam-
bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não bém um barco
40 voará a barca, mas sobre este ponto ainda não estou seguro,
e neste teto de arames penduraremos umas bolas de âmbar, Questão 2.
porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do • Relaciona-se com
“navio dos ares”
sol para o efeito que quero, e isto é a bússola, sem ela não
• Passarola asseme-
se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para lar- lha-se a uma ave e a
45 gar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se um barco
alguns momentos, e acrescentou, E quando tudo estiver • Simboliza a ligação
armado e concordante entre si, voarei. A Baltasar conven- entre a terra e o ar
cia-o o desenho, não precisava de explicações pela razão
simples de que não vendo nós a ave por dentro, não sabe- Questão 1.
• Secretismo
50 mos o que a faz voar, e no entanto ela voa, porquê, por ter a
• Proibição do Santo
ave forma de ave, não há nada mais simples, Quando, limi- Ofício
tou-se a perguntar, Ainda não sei, respondeu o padre, falta-
-me quem me ajude, sozinho não posso fazer tudo, e há
trabalhos para que a minha força não é suficiente. Calou-se
55 outra vez, e depois, Queres tu vir ajudar-me, perguntou. Bal-
tasar deu um passo atrás, estupefacto, Eu não sei nada, sou
um homem do campo, mais do que isso só me ensinaram a
matar, e assim como me acho, sem esta mão, Com essa
mão e esse gancho podes fazer tudo quanto quiseres, e há Questão 3.
60 coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um • O Padre é
persuasivo
gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou
um ferro, nem se corta, nem se queima, e eu te digo que
maneta é Deus, e fez o universo.
José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 67-71.

1. Explique por que diz Baltasar que aqueles que fazem experiências na “arte de voar”
podem ter problemas com o Santo Ofício.

2.  elacione a utilização de vocábulos dos campos lexicais de “ave” e de “barco” com a


R
simbologia da Passarola.

3. 
Aponte três traços caracterizadores do Padre Bartolomeu, apoiando-se no excerto
transcrito.
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19
IV
Questões-tipo de exame Aprendo como se faz
Como responder ao questionário?
• Leia o excerto duas vezes.
• Leia todas as questões colocadas.

© AREAL EDITORES
• Releia o texto.
• Sublinhe o verbo de instrução de cada pergunta.
• Elabore tópicos de resolução para cada questão. Sonho
• Atente no esquema apresentado:

Religião Conhecimento

Memorial do
Convento

Amor Justiça
• Construa as respostas.
• Releia as respostas.
• Verifique se inseriu exemplos textuais.

1.  xplique por que diz Baltasar que aqueles que fazem experiências na “arte de voar”
E
podem ter problemas com o Santo Ofício.

Resposta
No presente excerto, situado no plano da construção da Passarola,
o narrador relata o momento em que o Padre Bartolomeu leva Baltasar Introdução
à quinta do Duque de Aveiro para lhe mostrar a máquina e para o con-
vencer a ajudá-lo na realização do projeto.
Antes, o Padre explicara que para a “arte de voar”, para além dos Desenvolvimento
conhecimentos científicos, necessitava de conhecimentos do domí- • explicação +
nio da magia (“conheceu a mãe de Blimunda, por ser de artes subtis, exemplos
Ouvi dizer que ela tinha visões”). Dado que a Inquisição perseguia e
condenava os que praticassem crimes de heresia e de feitiçaria, o
padre, com este invento, arriscava-se a ser perseguido e detido por
heresia (“olhai que cárcere, degredo e fogueira costumam ser a paga
desses excessos”).
Por outro lado, no secretismo associado às esferas, percebe-se
que se trata de algo proibido, que é preciso ocultar do Santo Ofício,
como é possível comprovar com o seguinte exemplo: “e destas esfe- Conclusão
ras não te falarei, que são segredo meu, bastará que te diga que sem o
que elas levarão dentro não voará a barca ”.

20
José Saramago, Memorial do Convento

2.  elacione a utilização de vocábulos dos campos lexicais de “ave” e de “barco” com a


R

Questões-tipo de exame
simbologia da Passarola.

Resposta
Na descrição da Passarola é evidente o recurso a palavras de dois
campos lexicais: o do ar e o do mar, sintetizados, entre outras, nas Introdução
seguintes expressões metafóricas: “navio dos ares” e “barca
voadora”.
Por um lado, a Passarola tem características de ave, porque na Desenvolvimento
-
forma se assemelhava a um pássaro (“era o desenho um pássaro”), • explicação da rela
com asas e cabeça, e tinha sido feita para voar. Por outro lado, aproxi- ção + exemplos
mava-se também de um barco, dado que tinha velas, leme, movia-se
ao sabor do vento e o corpo tinha forma de concha como um navio (“à
proa e à popa em forma de concha marinha”).
É deste modo que se sugere as duas dimensões do aparelho: voava
como uma ave, mas também cruzava os céus como um barco.
A utilização de vocábulos destes dois campos lexicais está intima-
mente relacionada com a simbologia da Passarola. Na verdade, a
aventura arriscada nos ares que é o voo da máquina, sendo uma mani-
festação da insatisfação humana, da vontade irreprimível de partir à
conquista de outros elementos, surge associada a uma outra que a
antecedeu: a aventura dos mares, da descoberta do caminho marí-
timo para a Índia.
Assim, a Passarola simboliza a epopeia dos ares, o entusiasmo da
descoberta do desconhecido e os perigos a ela associados, obstáculos
que vale a pena enfrentar em nome da libertação e da busca da reali- Conclusão
zação, estabelecendo a ligação entre a terra (a ação, o sonho) e o céu
(a realização, a plenitude).

3.  ponte três traços caracterizadores do Padre Bartolomeu, apoiando-se no excerto


A
transcrito.

O padre jesuíta é inventivo e sonhador, manifestando o seu entu-


siasmo com o projeto de construção da Passarola (“o padre explicou, Introdução
em tom primeiramente sereno, depois animando-se”).
Para concretizar o seu sonho, não hesita em ultrapassar várias bar-
Desenvolvimento:
reiras, como é o caso de travar conhecimento com personagens do
• 1 traço +
povo, como a mãe de Blimunda, procurando os saberes de que
exemplo
necessita. • 1 traço +
Mostra-se também persuasivo e inteligente, pelo modo como exemplo
argumenta, tentando convencer Baltasar a ajudá-lo na construção da • 1 traço +
Passarola (“Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto exemplo
quiseres (…) e eu te digo que maneta é Deus, e fez o universo.”).
Concluindo, o padre é um homem de espírito aberto e curioso na
forma como encara os fenómenos que não conhece. Conclusão
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21
IV Agora faço eu
Exercício 1
Questões-tipo de exame
(nível 1: com tópicos)
Análise de um excerto
Leia o texto.

© AREAL EDITORES
A música é outra coisa. Domenico Scarlatti trouxe para a abegoaria um cravo,
não o carregou ele, mas dois mariolas a pau, corda, chinguiço, e muito suor da
testa, desde a Rua Nova dos Mercadores, onde foi comprado, até S. Sebastião
da Pedreira, onde seria ouvido, veio Baltasar com eles para indicar o caminho
5 outra ajuda lhe não requereram, que este transporte não se faz sem ciência e
arte, (…) O cravo foi deixado pelos galegos do lado de fora do portão, não faltava
mais nada verem eles a máquina de voar, e para a abegoaria o levaram, com
grande esforço, Baltasar e Blimunda, não tanto pelo peso, mas por lhes faltarem
arte e ciência, sem contar que as vibrações das cordas pareciam queixumes
10 magoados e por causa deles se lhes apertava o coração, também duvidoso e
assustado de tão extrema fragilidade. Nessa mesma tarde veio Domenico Scar-
latti, ali se sentou a afinar o cravo, enquanto Baltasar entrançava vimes e Bli-
munda cosia velas, trabalhos calados que não perturbavam a obra do músico. E
tendo concluído a afinação, ajustado os saltarelos que o transporte havia desa-
15 certado, verificado as penas de pato uma por uma, Scarlatti pôs-se a tocar, pri-
meiro deixando correr os dedos sobre as teclas, como se soltasse as notas das
suas prisões, depois organizando os sons em pequenos segmentos, (…)
Muitas vezes voltou Scarlatti à quinta do duque de Aveiro, nem sempre
tocava, mas em certas ocasiões pedia que não se interrompessem os trabalhos
20 ruidosos, a forja rugindo, o malho retumbando na bigorna, a água fervendo na
tina, mal se ouvia o cravo no meio do grande clamor da abegoaria, e no entanto
o músico encadeava serenamente a sua música, como se o rodeasse o grande
silêncio do espaço onde desejara tocar um dia. (…)
Muitas vezes durante a doença, se doença foi, se não foi apenas um longo
25 regresso da própria vontade, refugiada em confins inacessíveis do corpo, muitas
vezes veio Domenico Scarlatti, primeiro apenas para visitar Blimunda, informar-
-se das melhoras que tardavam, depois demorando-se a conversar com Sete-
-Sóis, e um dia retirou o pano de vela que cobria o cravo, sentou-se e começou
a tocar, branda, suave música (…)
30 Durante uma semana, todos os dias, sofrendo o vento e a chuva pelos cami-
nhos alagados de S. Sebastião da Pedreira, o músico foi tocar duas, três horas,
até que Blimunda teve forças para levantar-se, sentava-se ao pé do cravo, pálida
ainda, rodeada de música como se mergulhasse num profundo mar, diremos
nós, que ela nunca por aí navegou, o seu naufrágio foi outro. Depois, a saúde
35 voltou depressa, se realmente faltara.
José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 193-203.

22
José Saramago, Memorial do Convento

1. 
Explique a inabilidade de Baltasar e Blimunda no transporte do cravo “por lhes faltarem

Questões-tipo de exame
arte e ciência”.

2. 
Explicite a forma como, durante a construção da passarola, a música de Scarlatti se vai
articulando com os diferentes trabalhos de Baltasar e de Blimunda.

3. Interprete o simbolismo da participação de Scarlatti na cura de Blimunda.

Tópicos para a construção da resposta à questão n.º 1


• Falta de familiarização das personagens com o cravo Introdução
• Receio de danificar o instrumento
• Fragilidade do cravo Desenvolvimento
• Dificuldade no transporte do cravo
• Desconhecimento das características do cravo Conclusão

Tópicos para a construção da resposta à questão n.º 2


• Relação trabalho braçal / música Introdução
• Afinação do cravo / trabalhos de Baltasar e Blimunda
• Música de Scarlatti Desenvolvimento
• Harmonia entre as duas artes
• Comunhão entre artistas Conclusão

Tópicos para a construção da resposta à questão n.º 3


• Esgotamento de Blimunda Introdução
• Poder da música
• Dimensão artística da colaboração de Scarlatti na “trindade terrestre” Desenvolvimento
• A arte complementa o conhecimento e o trabalho na consecução do sonho Conclusão

Exercício 2 (nível 2: sem tópicos)


Análise de um excerto
Leia o texto.

Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por
dentro, Lembro-me, Não sabias o que estavas a dizer, nem soubeste o que esta-
vas a ouvir quando eu te disse que nunca te olharia por dentro. Baltasar não teve
tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, e outras já se
5 ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas.
Sete-Sóis soergueu-se na enxerga, incrédulo, e também inquieto, Estás a
mangar comigo, ninguém pode olhar por dentro das pessoas, Eu posso, Não
acredito, Primeiro, quiseste saber, não descansavas enquanto não soubesses,
agora já sabes e dizes que não acreditas, antes assim, mas daqui para o futuro
10 não me tires o pão, Só acredito se fores capaz de dizer o que está dentro de mim
© AREAL EDITORES

23
IV
Questões-tipo de exame Agora faço eu

agora, Não vejo se não estiver em jejum, além disso fiz promessa de que a ti
nunca te veria por dentro, Torno a dizer que estás a mangar comigo, E eu torno

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a dizer que é verdade, Como hei de ter a certeza, Amanhã não comerei quando
acordar, sairemos depois de casa e eu vou-te dizer o que vir, mas para ti nunca
15 olharei, nem te porás na minha frente, queres assim, Quero, respondeu Baltasar,
mas diz-me que mistério é este, como foi que te veio esse poder, se não estás a
enganar-me, Amanhã saberás que falo verdade, E não tens medo do Santo Ofí-
cio, por muito menos têm outros pagado, O meu dom não é heresia, nem é feiti-
çaria, os meus olhos são naturais, Mas a tua mãe foi açoitada e degredada por
20 ter visões e revelações, aprendeste com ela, Não é a mesma coisa, eu só vejo o
que está no mundo, não vejo o que é de fora dele, céu ou inferno, não digo
rezas, não faço passes de mãos, só vejo, Mas persignaste-te com o teu sangue
e fizeste-me com ele uma cruz no peito, se isso não é feitiçaria (…)
E como hei de eu acreditar que tudo isso é verdade, se tu vais explicando
25 coisas que eu não posso ver com os meus olhos, perguntou Baltasar, e Bli-
munda respondeu, Faze com o teu espigão um buraco naquele lugar e encontra-
rás uma moeda de prata, e Baltasar fez o buraco e encontrou, Enganaste-te,
Blimunda, a moeda é de ouro, Melhor para ti, e eu não deveria ter arriscado,
porque sempre confundo a prata com o ouro, mas em ser moeda e valiosa acer-
30 tei, que mais queres, tens a verdade e o lucro (…) Baltasar, leva-me para casa,
dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e
eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada,
olhos cansados boca que é tão triste, mesmo quando estás ao meu lado deitado
e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos bai-
35 xos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada
seja eu se alguma vez o fizer.
José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 81-85.

1. 
Indique os sentimentos manifestados por Baltasar assim que Blimunda lhe revela o seu
segredo.

2. Explicite as características psicológicas de Baltasar perante a declaração de Blimunda.

3. Interprete a capacidade de Blimunda, capaz de a diferenciar dos demais.

24
José Saramago, Memorial do Convento

Exercício 3 (nível 2: sem tópicos)

Questões-tipo de exame
Análise de um excerto
Leia o texto.

A Mafra chegaram soltas notícias de que em Lisboa se sentiu um terramoto,


sem outros estragos que caírem beirais e chaminés, e abrirem-se algumas
rachas em paredes velhas, mas, como todo o mal traz de caminho o seu bem,
fizeram negócio magnífico os cerieiros, foi um corrupio de velas para as igrejas,
5 com particular preferência pelos altares de S. Cristóvão, santo de grande vali-
mento em casos de peste, epidemias, raios, incêndios e tempestades, inunda-
ções, más viagens e tremores de terra, em concorrência com Santa Bárbara e
Santo Eustáquio, que também não são pecos nestas proteções.(…) mal acabá-
mos de suspirar de alívio por ter sido benigno o abalo, aí temos uma tempestade
10 como doutra não há memória, porém, sem chuva nem granizo, antes fosse, tal-
vez lhe quebrassem esta força do vento que joga livremente com os navios
ancorados, como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando as amarras
ou arrancadas do fundo as âncoras, e logo os arrasta dos surgidoiros, e vão
bater uns contra os outros, arrombando-se os costados e indo a pique com os
15 marinheiros clamando, só eles é que saberão a quem pedem socorro, ou enca-
lhando em terra onde a força das águas derradeiramente os despedaça. (…) Na
presunção de que seja o demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher,
ama, criada ou escrava, está de joelhos no oratório, Maria Santíssima, Virgem
Nossa Senhora, enquanto os homens, pálidos de morte, sem mouro ou tapuia
20 em quem meter a espada, debulham as contas do rosário, padre nosso, ave-
-maria (…) Sendo tantos os mortos, enterram-nos onde calha, ao acaso, alguns
não se chegou a apurar quem eram, moravam longe os parentes, não vieram a
tempo, mas, para grandes males, grandes remédios, se o terramoto passado
tivesse sido maior, e extensa a mortandade, assim mesmo se faria, enterrar os
25 mortos e cuidar dos vivos, fica o aviso para o futuro se tal calamidade vier a
acontecer, livre-nos Deus.
José Saramago, Memorial do Convento, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 241-243.

1. Indique as consequências dos dois fenómenos naturais referidos no texto.

2. Interprete o excerto “enterrar os mortos e cuidar dos vivos, fica o aviso para o futuro se
tal calamidade vier a acontecer”, à luz dos seus conhecimentos históricos.

3. Explicite, exemplificando, a intenção do narrador a propósito da reação das pessoas.


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25
IV
Exercício 1 Deste modo, sugere-se que a arte, em particu-
Propostas de resolução
lar a música, é fundamental na concretização
1. Baltasar e Blimunda são dois jovens do povo
dos sonhos do Homem.
desconhecedores dos instrumentos musicais
que proliferavam na corte. Exercício 2

© AREAL EDITORES
Estas personagens não têm qualquer familiari- 1. 
A frase de Blimunda “Eu posso olhar por den-
dade com um cravo e muito menos experiência tro das pessoas” provoca em Baltasar um misto
no seu transporte. Por receio de danificar tão de emoções: curioso com o que ouve, fica in-
frágil instrumento (“se lhes apertava o coração, crédulo, mas inquieto e amedrontado.
também duvidoso e assustado de tão extrema De facto, exige que Blimunda lhe dê provas
fragilidade”), tiveram muita dificuldade e “muito imediatas do que afirma, duvidando sempre
suor na testa” para transportá-lo do portão até (“Só acredito se fores capaz de dizer o que
ao interior da abegoaria. Este receio revela está dentro de mim agora.”), mas revelando-se
também o respeito que os jovens nutrem pela inquieto.
arte e pelos artistas.
Em conclusão, Baltasar não acredita no poder
Em suma, algo que poderia ser muito fácil, que Blimunda diz possuir, mas receia pela vida
para Baltasar e Blimunda, tornou-se uma ta- dela.
refa difícil de executar.
2. Baltasar pensa que o dom de Blimunda é uma
2. A presença de um cravo num local de constru- manifestação de feitiçaria e, por isso, pergunta-
ção não é algo vulgar, no entanto, neste ro- -lhe se ela não tem medo do Santo Ofício.
mance, o poder da música vai contribuir para a
construção do sonho. Na realidade, Baltasar relaciona este mistério
com a mãe de Blimunda, que foi degredada
No dia da chegada do cravo à abegoaria, Scar- por ter visões, receando que lhe possa aconte-
latti procede primeiro à sua afinação, enquanto cer o mesmo. O jovem insiste na ideia da feiti-
Baltasar e Blimunda se dedicam a trabalhos çar ia, lembrando o compor tamento de
pouco ruidosos, que não perturbam a obra do Blimunda na primeira noite que passaram jun-
músico. Depois, começa a tocar, encadeando tos: “Mas persignaste-te com o teu sangue e
os sons de forma progressivamente mais com- fizeste-me com ele uma cruz no peito, se isso
plexa. Nas visitas posteriores à quinta, Scarlatti não é feitiçaria”.
nem sempre tocava, mas quando o fazia pedia
para não interromperem os trabalhos ruidosos Em suma, a revelação de Blimunda perturba
que decorriam na abegoaria; apesar do ruído Baltasar.
intenso, tocava de forma harmoniosa, como se 3. B
 limunda tem, em jejum, a capacidade extraor-
houvesse o “silêncio do espaço onde desejara dinária de ver para além do que é visível por
tocar um dia”. todos.
Concluindo, a música acabou por se fundir Efetivamente, ela vê o interior das coisas e das
com os outros trabalhos e criar uma harmonia pessoas, isto é, a essência de cada um. O je-
que a todos beneficiava. jum pode significar o caráter puro, despido de
3. A música de Scarlatti desempenha um papel preconceitos, essencial à concretização do
preponderante na cura de Blimunda ou na re- dom.
cuperação do esgotamento em que mergulha Concluindo, o poder de Blimunda é único, não
depois da recolha das vontades durante o estando ao alcance da compreensão dos ou-
surto de peste. tros seres humanos.
Na verdade, Scarlatti “sofrendo o vento e a Exercício 3
chuva” visita Blimunda e toca, durante o pe-
1. 
No texto são referidos dois fenómenos natu-
ríodo de recuperação, até ela se poder levan-
rais: um terramoto e um furacão que assolou
tar. Assim, a colaboração do músico dá relevo
Lisboa.
à dimensão artística, que complementa o co-
nhecimento e o trabalho, imprescindíveis para Assim, a fraca intensidade do terramoto ocor-
a consecução do sonho de voar, daí o padre rido em Lisboa não provocou “outros estragos
Bartolomeu referir a “trindade terrestre”. que caírem beirais e chaminés, e abrirem-se

26
José Saramago, Memorial do Convento

algumas rachas em paredes velhas”. A tempes-

Proposta de soluções
tade, ao contrário, foi muito violenta, provo-
cando muito estragos e muitos mortos.
Em conclusão, os dois fenómenos naturais ti-
veram consequências distintas na cidade.
2. Este excerto constitui um avanço no tempo
(prolepse), adivinhando o Terramoto de Lisboa,
de 1 de novembro de 1755.
Consta que o lema do Marquês de Pombal, ao
ver a destruição de Lisboa, terá sido de “enter-
rar os mortos e cuidar dos vivos (e fechar os
portos)”, de modo a combater os males que
atingiam a população: a peste, a fome e a pi-
lhagem. Na verdade, o narrador está a comen-
tar um acontecimento do século XVIII, mas
adotando o posicionamento de alguém que
pertence ao século XX e que conhece as con-
sequências do terramoto de Lisboa de 1755.
Em suma, o narrador recorre a um tempo fu-
turo para comentar os estragos decorrentes do
terramoto ocorrido.
3. As pessoas recebem a notícia do terramoto
como se de um aviso divino se tratasse, inter-
pelando os santos, fazendo súplicas em troca
de velas.
Assim, perante a tempestade, e por causar
muitos estragos e muitas mortes, consideram
obra do diabo. Para combater o mal, mulheres
e homens rezam fervorosamente.
Estas atitudes suscitam uma crítica do narra-
dor à ignorância das pessoas, que relacionam
os fenómenos naturais com práticas religiosas,
de forma ingénua e até fanática.
Por outro lado, está também presente a crítica
aos que se aproveitam desta ingenuidade para
obterem lucros financeiros: “como todo o mal
traz de caminho o seu bem, fizeram negócio
magnífico os cerieiros”.
Concluindo, o narrador adota uma perspetiva
crítica face àqueles que se aproveitam da igno-
rância e da ingenuidade do povo.
© AREAL EDITORES

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