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Psicologia e noções de subjetividade:


história e problematizações descoloniais
CRISTIANNE ALMEIDA CARVALHO*
RAMON LUIS DE SANTANA ALCÂNTARA**

Resumo: As mudanças experienciadas pela sociedade na Modernidade são elementos constitutivos da


subjetividade e participaram da construção de um sujeito movido pela individualidade competitiva, pela
intimidade exagerada e isolamento social, pela disciplina, submissão e alienação corporal. Assim, a
experiência de individualidade começou a ser construída, um novo modo de ver o mundo e a própria vida
caracterizaram o sujeito moderno. Mas essa é apenas uma das perspectivas que aprendemos a conhecer
sobre a subjetividade. Este artigo objetiva problematizar a história do conceito de subjetividade na
Psicologia. Para tanto, busca não somente apontar os fatores históricos e culturais que determinaram as
noções mais clássicas de sujeito na Psicologia europeia e norte-americana, mas também apontar
perspectivas de subjetividade emergentes de contextos culturais que ganharam mais visibilidade após o
giro descolonial. Utiliza-se de fontes secundárias para historicidade dos conceitos e proposta ensaística
para análise das noções africanas e latino-americanas na conceituação de subjetividade.
Palavras-chave: Subjetividade; História da Psicologia; Descolonialidade.
Psychology and notions of subjectivity: history and decolonial problematizations
Abstract: The changes experienced by society in Modernity are constitutive elements of subjectivity and
participated in the construction of a subject moved by competitive individuality, exaggerated intimacy
and social isolation, discipline, submission and bodily alienation. Thus the experience of individuality
began to be constructed, a new way of seeing the world and life itself characterized the modern subject.
But this is only one of the perspectives we have learned about subjectivity. This article aims to
problematize the history of the concept of subjectivity in Psychology. In order to do so, it seeks not only
to point out the historical and cultural factors that determined the more classic notions of subject in
European and North American psychology, but also to point out perspectives of subjectivity emerging
from cultural contexts that gained more visibility after the decolonial shift. Secondary sources are used
for the historicity of the concepts and the essay proposal for the analysis of the African and Latin
American notions in the conceptualization of subjectivity.
Key words: Subjectivity; History of Psychology; Decoloniality.

*
CRISTIANNE ALMEIDA CARVALHO é Prof.ª Adjunta do Departamento de Psicologia
e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Maranhão.

**
RAMON LUIS DE SANTANA ALCÂNTARA é Psicólogo, Doutor em Políticas Públicas e
Professor Adjunto da Universidade Federal do Maranhão, Programa de Pós-Graduação em Psicologia.
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Projeção de Peters

1. Introdução colonialidade do saber, visa apontar a


Este artigo se propõe, a partir da estrutura colonial da filosofia e ciência
história da noção de subjetividade na moderna, ao tempo que visa uma
Psicologia, problematizar as desconstrução dessa estrutura,
possibilidades de pensar esta noção apontando a validade de outros saberes,
considerando as críticas descoloniais, outrora inferiorizados, tais como os
notadamente, a partir das saberes indígenas e as epistemologias
epistemologias africanas. africanas.
Compreendem-se por críticas Nesse sentido, os autores deste estudo,
descoloniais, as teorizações formuladas buscam localizar na história da
por pensadores, localizados no sul Psicologia, especificamente, a partir da
global, tais como Walter Mignolo, constituição histórica da subjetividade
Anibal Quijano, Homi Bhabha, entre no mundo Ocidental moderno, as várias
outros, acerca da relação estreita entre o possibilidades de compreender esse
processo de colonização dos povos e objeto de estudo, atualizando o debate a
hierarquização de seus saberes. Tais partir das problematizações descoloniais
autores defende a centralidade da ideia e de alguns aspectos das epistemologias
de raça, utilizada nos séculos XV e africanas, especialmente a
XVI, inicialmente, para justificar o afrocentricidade e o ubuntu
processo de dominação dos povos (CASTIANO, 2010). Vale ressaltar que
indígenas e africanos diante da a noção de subjetividade guarda uma
mundialização do capitalismo europeu. grande importância histórica como
Essa centralidade da racialização objeto de estudo da Psicologia, é
permanece nas nossas relações sociais e necessário que tais estudos se atualizem
epistémicas sob o viés de uma a partir de novos referenciais que
colonialidade. Desta forma, a crítica emergem em decorrência do giro
descolonial, no que tange a descolonial.
Este texto se justifica pela necessidade caracterização priorizando alguns
3
de ampliar as perspectivas de desses aspectos. Caracterizada como um
conhecimentos e produções científicas, processo desde o século XVI,
especialmente para a comunidade consolida-se no século XIX trazendo
acadêmica em Psicologia, considerando consigo mudanças agudas na noção de
que tais discussões já se encontram tempo e espaço para as sociedades
muito presentes em outras áreas. ocidentais.
Metodologicamente, utiliza-se fontes A Era Moderna foi impulsionada pela
secundárias para historicidade dos diminuição da hierarquia entre as
conceitos e proposta ensaística para relações sociais e as múltiplas reformas
análise das noções africanas e latino- de ordens diversas originadas a partir do
americanas na conceituação de Renascimento e Iluminismo, como
subjetividade. Do ponto de vista da afirma Habermas (2002, p. 26) sobre
organização do texto, além desta os acontecimentos-chave históricos
introdução, inicia-se apontando para o estabelecimento do princípio
brevemente a história da noção de da subjetividade são a Reforma, o
subjetividade na Psicologia, destacando Iluminismo e a Revolução
sua pluralidade epistêmica localizada na Francesa. Com Lutero, a fé
parte Ocidental, especialmente, na religiosa tornou-se reflexiva; na
Europa e nos Estados Unidos. Em solidão da subjetividade, o mundo
divino se transformou em algo
seguida apresenta-se uma seção em que
posto por nós contra a fé na
as problematizações descoloniais são autoridade da predição e da
postas de maneira ensaística, visando tradição, o protestantismo afirma a
apontar novas possibilidades para soberania do sujeito que faz valer
pensar a noção de subjetividade a partir seu discernimento [...].
das epistemologias africanas; o texto se
Além das reformas religiosas, o
encerra com as considerações finais dos
Capitalismo também aparece como
autores sobre o tema.
evento significativo nesse processo,
2. Constituição histórica da configurando a Modernidade em um
subjetividade para a Psicologia cenário de valorização da velocidade
dos acontecimentos, do conforto e das
Nos dias atuais o termo subjetividade facilidades, da produção tecnológica e
parece fazer parte do contexto científico outras tantas consequências e alterações
de diversos saberes, bem como do senso constantes até os dias atuais1.
comum. Essa familiar presença
encontra-se de forma mais significativa No mundo científico as revoluções
no universo de estudo da Psicologia por também trouxeram seus efeitos e
ter se tornado um de seus objetos de transformações construindo um modelo
estudo. Entende-se que a Modernidade racional de fazer ciência, a partir dos
gerou um cenário favorável ao séculos XVI e XVII, tendo como
surgimento e difusão desse conceito. representantes principais Bacon e
Descartes. Tal modelo influenciou o
Definir a Modernidade é uma tarefa
árdua, dada sua complexidade e
1
diversidade de aspectos históricos, Alguns estudos apresentam distinções sobre
esses termos e recortes temporais. Consideram
sociais, culturais, estéticos, axiológicos que já vivemos em uma nova Era a Pós
entre tantos outros. Diante disso, aqui Moderna ou Hipermoderna. Ver mais em
ousaremos por uma breve Lipovetsky & Charles (2004) e Bauman (1998).
surgimento de novas formas de relação evolucionista. Na Europa Central, a
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entre sujeito e objeto de conhecimento. ênfase esteve na relação entre a
As mudanças experienciadas pela Psiquiatria e Neurologia, quando a
sociedade nesse contexto como as novas loucura passou a ser explicada como
formas de relações de trabalho, o uma patologia da mente e não mais dos
desenvolvimento de um ideário de nervos. Nos EUA, a Psicologia se
liberdade e igualdade e restrições na fundamenta no estudo da consciência,
mediação entre o indivíduo e a Igreja, de sua função adaptativa e de sua
para citar alguns, favoreceram ao evolução na espécie humana. Cardoso e
surgimento de uma relação do indivíduo Massimi (2013) defendem a ideia que a
consigo mesmo, um voltar-se para si em subjetividade não é algo previamente
busca de respostas. Assim, o sujeito, dado, mas um processo de construção
agora senhor de suas vontades, histórico e social na civilização
autoconsciente, centro e fundamento do ocidental.
mundo, passou a ocupar lugar mais
definido na Modernidade. E assim, a Embora tais experiências tenham sido
experiência de individualidade começou significativas para o surgimento de
a ser construída, um novo modo de ver várias psicologias, só no final do século
o mundo e a própria vida caracterizam o XIX, na Alemanha, W. Wundt (1832-
que podemos chamar de subjetividade. 1920) e seu laboratório de Psicologia
(1879) proporcionaram o estudo
O homem e a racionalidade passam a experimental da Psicologia em uma
ser fundamentos para o conhecimento, formação acadêmica. O mundo se volta
suas produções e sua conduta no para o controle, a mensuração, a
mundo. Autonomia e razão são as classificação em todos os aspectos,
palavras chaves para a compreensão da individuais e coletivos, internos e
perspectiva moderna que, juntas, externos ao indivíduo. Essas e outras
conduziriam ao progresso da mudanças emergentes o longo desse
humanidade. recorte temporal aparecem como
elementos constitutivos da noção de
Para Carvalho (2009) a Psicologia como subjetividade e fazem parte da
Ciência se constitui na Modernidade a construção de um homem movido pela
partir das mudanças que ocorrem em individualidade competitiva, pela
torno da individualidade, impulsionadas intimidade exagerada e isolamento
pela distinção das noções de público e social, pela disciplina, controle social,
privado ocorridas no século XVIII, submissão e alienação imposta aos
assim como pela relevância que a corpos (CARVALHO, 2009).
natureza humana passa a ter para as
Ciências na virada do século XIX. No Para Soares (2005, p. 19) “O século
ocidente europeu o pensamento XIX realiza a grande revolução
evolucionista e a noção de adaptação ao científica dos laboratórios, da
meio ambiente levam a Psicologia e as industrialização e do crescimento das
Ciências Sociais a se voltarem os disciplinas e de instituições sociais.” A
estudos com grupos humanos. Surgem ideologia cientificista e capitalista toma
daí novos paradigmas como normal e conta da sociedade transformando-a em
anormal; adaptação e ajustamento ao um grande organismo vivo, movido
meio social, além da discussão entre pela noção crescente de
mente e corpo que não desaparece, mais desenvolvimento. Tudo pode e deve ser
cede espaço para a biologia medido, classificado, comparado,
definido e generalizado. O Brasil geográfico, mas se sustentou e vem se
5
percorreu esse caminho de forma sustentando até a contemporaneidade
peculiar, pois a institucionalização da por um processo contínuo de conquista
Psicologia como saber acadêmico e e dominação dos sujeitos e do controle
profissional só ocorrerá na segunda da natureza. Esse processo serviu para a
metade do século XX (1962). O que não racialização dos povos, como
invalida um fazer psi anterior a essa mecanismo de
regulamentação influenciado pelos ares classificação/hierarquização da
da modernidade. humanidade, que culminou com a
inferiorização de tudo que estava
Nesse contexto, segundo Jacó-Villela relacionado com a tradição e o modo de
(2008, p. 29) “Novos modelos de viver dos povos colonizados,
sujeito e novas formas de relação com a notadamente, seus saberes
sociedade se fazem necessários”. A (MALDONADO-TORRES, 2007).
noção moderna de subjetividade a partir
desses critérios e referências históricas Entre os saberes tradicionais que
já citadas, sem dúvida, faze parte do sofreram o processo de epistemicídio2
saber psicológico na construção de suas impetrado pela ciência eurocêntrica
teorias e consequentemente estão as epistemologias africanas,
metodologias e aplicabilidade desse veiculada em todo o mundo como
conhecimento junto à sociedade. inválidas e/ou de menor grau de
Acreditando que novas formas explicação dos processos tecnológicos,
subjetividade continuam existindo que sociais, naturais e humanos. O
avançamos no capítulo para ampliar pensamento africano sempre foi
nossa compreensão a partir de outras minorado como fundamento
perspectivas. epistemológico para as ciências no
Brasil, em destaque para as ciências
3. Problematizações descoloniais e a humanas, onde se insere a psicologia.
noção de subjetividade Não é muito raro, ao ser apresentado um
texto de um autor africano que elabora
As problematizações descoloniais suas reflexões a partir de África, em um
formulam alternativas teóricas e curso de Psicologia, por exemplo, ouvir
políticas para a produção do saber nas comentários espantosos, curiosos,
ciências humanas e sociais, destacando estranhando a existência de autores
que a história das ciências de modo neste continente que elaboram
geral (humanas, sociais, naturais, conhecimento para a nossa ciência. Esse
tecnológicas) aponta que estas tiveram estranhamento no século XXI é a
participação fundamental na construção presença viva de nossa colonialidade,
e legitimação do projeto colonial e de que não cogita a possibilidade do
modernidade. continente mais antigo do planeta ter
O processo de expansão comercial produzido conhecimentos filosóficos
europeu do século XV e XVI foi um válidos para nossa ciência.
marco histórico com implicações não O pensador moçambicano José Castiano
somente geográficas e econômicas, mas produziu uma valiosa contribuição ao
fundamentalmente epistemológicas, no
sentido que redefiniu a organização do 2
A pretensão de assassinato de alguns saberes
conhecimento sobre a humanidade. A locais, por meio de uma lógica da exclusão, que
colonialidade se estruturou muito além inferioriza e hierarquiza em prol da sustentação
da exploração e conquista do território de um paradigma eurocêntrico.
mapear historicamente e civilização grega. Já no modelo ariano,
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geopoliticamente os diferentes oriundo inicialmente de um período
referenciais do pensamento africano. histórico que vai da Revolução Francesa
Em seu estudo, Castiano (2010) até a primeira metade do século XIX,
apresenta uma vasta possibilidade de se reinterpreta a civilização grega,
pensar a partir de África, desde uma buscando uma Grécia romântica
crítica que elabora à chamada essencialmente branca, que se
etnofilosofia; passando pela estabeleceu a partir de ideias originais.
afrocentricidade e pela recente Segundo Bernal ainda há uma
redescoberta da filosofia ubuntu; atualização neste modelo ariano do final
chegando em um proposta nomeada de do século XIX até 1945, onde
“intersubjectivação”, que seria o pensadores germânicos elaboram uma
diálogo entre os povos africanos em tese que a Grécia era puramente
busca da “criação intersubjectiva de europeia, sem nenhuma contribuição
novos conceitos e quadros teóricos que dos fenícios e egípcios (CASTIANO,
estejam mais ajustados à vida comum 2010).
colectiva no presente e no futuro”
(CASTIANO, 2010, p. 190). A afrocentricidade de Molefi Asante
pode ser organizada em duas vertentes:
Para o escopo desse artigo, que pretende desconstrução dos “mitos
delinear possibilidades de eurocentristas” e fundamentação da
epistemologias africanas para pensar a base epistemológica afrocêntrica. No
noção psicológica de subjetividade, caso específico deste artigo,
serão priorizadas duas epistemologias, compreende-se que tem-se uma
em seus aspectos principais: psicologia toda construída a partir do
afrocentricidade e ubuntu. que o Asante (2009) chama de “mitos
eurocêntricos”, então o primeiro
O pensamento afrocêntrico se situa caminho para pensar uma psicologia
historicamente na crítica a filosofia africana seria o que ele chama de
afro-americana e se fundamenta nos exercício de desconstrução, nada fácil,
estudos de Cheik Anta Diop e Martin considerando que a academia também
Bernal. O primeiro defende a tese que a se construiu a partir dessas “verdades”.
origem e o berço da civilização humana
se encontra em África, notadamente no O primeiro mito a ser destacado é o
Egito. Para Anta Diop, em seu livro “A universalismo, que advoga que as
origem africana da civilização”, o lugar interpretações científicas sobre
que hoje se dá à Grécia como o fenômenos da realidade são válidas para
nascedouro do pensamento filosófico todas as culturas. Esse mito é fruto da
deveria ser ocupado pelo Egito, pois é dificuldade política que o pensamento
no Egito antigo, negro, africano que se europeu tem de localizar-se. O
desenvolveu todo o conhecimento pensamento europeu é o pensamento
social, cultural, científico e político que culturalmente localizado que se
depois chegaria à Grécia. Já Martin apresenta como uma verdade sem
Bernal, a partir da tese diopiana, aponta localização, portanto válido
que existem dois modelos universalmente. O segundo mito
interpretativos sobre a Grécia. Em um produzido pelo pensamento
modelo antigo de interpretação aparece eurocêntrico é a objetividade. Este mito
uma forte influência das civilizações se articula em duas premissas: que
egípcia e fenícia na construção da existe uma diferença entre o sujeito e o
objeto de pesquisa, cognoscente e mesmo tempo que deve se desligar do
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conhecido; e que há necessidade na centro da produção científica moderna
ciência que exista um distanciamento fundada pela região cultural europeia
entre o primeiro e o segundo para que o que busca organizar o mundo
conhecimento seja validado. Asante hierarquicamente, inclusive em seus
(2009) questiona esse distanciamento, saberes, a partir de seu referencial. É
pois na percepção dele os pesquisadores um projeto político e epistemológico,
eurocêntricos sempre trazem seus com dimensões éticas e ontológicas.
valores na produção de conhecimento.
Desta forma, pretender uma Na segunda vertente, Asante (2009)
objetividade pautada na anulação da expõe a teoria da afrocentricidade.
subjetividade do pesquisador é uma Pode-se resumir a postura
ilusão. A afrocentricidade postula que epistemológica de um afrocentrado na
esse posicionamento do pesquisador seguinte afirmação: “colocar ideais
africanos no centro de qualquer análise
deve buscar sim um descentramento
que envolve a cultura e o
transitório, mas que também não seja
comportamento africano” (ASANTE,
posto como universal. O terceiro mito
se relaciona com a base de defesa da 1998 citado por CASTIANO, 2010, p.
144). É possível e este é o propósito
afrocentricidade e nos remete à segunda
deste texto, expandir essa afirmação de
vertente do movimento (reconstrução da
Asante para a diáspora africana,
filosofia africana a partir de África).
incluindo aí o pensamento sobre a
Este mito diz respeito à tomada da
cultura, o comportamento e as relações
Grécia como berço da humanidade. A
sociais dos brasileiros.
partir dos estudos de Anta Diop e
Martin Bernal, resumido acima, A afrocentricidade também defende que
Castiano (2010) aponta que Asante “como africanos, devemos estar
defende que “a humanidade conscientes de que é a partir desta
desenvolveu-se primeiro em África e é identidade que devemos começar a
por isso que os africanos têm uma fundamentar as nossas preocupações
espécie de prioridade cosmológica e científicas” (CASTIANO, 2010, p.
cronológica sobre os outros grupos 144). O afrocentrista deve tomar esse
humanos” (CASTIANO, 2010, p. 138). vínculo ao lugar cultural como
Desta forma, a afrocentricidade é uma determinante no seu posicionamento
agência que deve ser assumida por diante das questões que pretende
pesquisadores que consideram esta investigar. Em suma: a afrocentricidade
história do pensamento africano no – opostamente a eurocentricidade, que
sentido de resgatar o valor da filosofia organiza um mundo hierarquicamente, a
africana no pensamento do mundo partir de seu lugar cultural, propondo-o
(ASANTE, 2009). Mais que isso, como universal e invisibilizando outras
Asante (2009) defende que a formas de saber – postula o lugar como
afrocentricidade é uma agência que tem início e a finalidade do pensamento,
o compromisso com a descoberta do politicamente situando os povos
lugar do africano como sujeito. africanos e da diáspora a se constituir
subjetivamente a partir de seus saberes.
Há a necessidade do cientista que se
fundamenta dessas premissas em A filosofia ubuntu diferentemente da
reconfirmar a centralidade africana e se afrocentricidade tem sua historicidade
comprometer intelectualmente com a muito mais difícil de ser construída pela
unidade do pensamento africano. Ao ausência de textos referenciais e de
articulações acadêmicas. Se formos filosofia ubuntu, pois destaca que “toda
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citar um nome que vem representando o atividade expressiva e comportamental
pensamento ubuntu na atualidade do umuntu (ser humano) é uma busca
iremos nos referir a Mogobe Ramose, de relevar e revelar a condição de
sul-africano, professor da Universidade existência do ubuntu” (CASTIANO,
da África do Sul, em Pretória. Mas 2010, p. 157). Nesse sentido o ser
Castiano (2010) destaca a dificuldade humano estaria orientado na busca pelo
de se encontrar uma origem desse entendimento de sua manifestação. E
pensamento, embora se localize entre os esta busca pelo ubuntu possui uma
povos bantus3. O autor aponta que pode dimensão ética na filosofia africana
se remontar aos movimentos de ubuntu, pois o umuntu só pode conhecer
libertação na África do Sul, na luta o ubuntu através de outros seres
contra o apartheid, com alguma humanos de sua comunidade, “a nossa
articulação tardia com o Movimento humanidade só é possível manifestar-se
Black Consciousness, mas com uma ao reconhecermos a humanidade dos
maior visibilidade a partir de outros” (CASTIANO, 2010, p. 158) ou
intelectuais sul-africanos na diáspora, como diz o famoso provérbio ubuntu
tais como Ramose (2010), já citado, “eu sou porque tu és”.
mas também Desmond Tutu, Mkabela,
Luthuli, Goduka, entre outros. Ramose (2010) aponta que a concepção
africana ubuntu de ser humano evoca a
Segundo Ramose (2010), o termo ideia de uma totalidade. Desta forma,
ubuntu é composto de duas palavras, o
prefixo ubu (que significa “Ser” na [...] não basta a existência do Ser
concepção geral, antes de sua (humano) para ser reconhecido
manifestação) e a raiz ntu (que seria a como humano. É necessário que o
manifestação compulsória, pois o “Ser” Ser se torne, portanto que apareça
como humano para termos o
sempre se orienta para sua manifestação
ubuntu. Porque o juízo ético sobre
no pensamento ubuntu). Uma alguém é que determina a sua
associação necessária de ser feita é a posição social e legal. A pessoa
relação entre o termo ubuntu e umuntu, deve estar constantemente, através
enquanto ubuntu se entende a partir do do seu comportamento, a provar
Ser em sua concepção mais geral, umu que possui ubuntu (CASTIANO,
seria um ser específico: o ser humano, 2010, p. 158).
enquanto político, religioso e
principalmente moral. Conceber ser Percebe-se assim a proposta
humano aqui equivale a conceber um epistemológica mais abrangente da
ser em sua atividade humana, isto é, na filosofia ubuntu, articulado com a
“forma como se comporta e o poder que dimensão ontológica e ética dos povos
tem em penetrar nas verdades da vida africanos. Epistemologia que nos
usando a sua experiência” permite pensar várias dimensões de
(CASTIANO, 2010, p. 157). pesquisa em nosso contexto, para nossa
ciência psicológica.
Essa relação entre ubuntu e umuntu diz
respeito a dimensão epistemológica da A filosofia ubuntu nos abre uma diversa
possibilidade de uso, tal qual a
3
afrocentricidade, entendemos que o
Os bantus constituem um grupo
etnolinguístico localizado principalmente na
pensamento africano no Brasil ainda
África subsariana e que engloba cerca de 400 está em um estágio inicial de recepção,
subgrupos étnicos diferentes. embora haja inúmeros intelectuais que
já se fundamentam a partir de conhecer, ou seja, atua objetificando.
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epistemologias africanas. Mas ainda há Como imagem assimétrica a
uma grande caminhada a ser realizada cosmologia ocidental, a compreensão
para que a filosofia africana deixe de ser do ubuntu está em uma profunda
estranhada na academia, principalmente aliança entre o eu e o outro, o que funda
nas ciências humanas no Brasil. a intersubjetividade inerente ao
pensamento ubuntu, que se trata tanto
O pensamento africano descolonial do outro humano, como da natureza,
elabora uma crítica sobre a pretensão portanto, “com outras palavras, já não
hegemônica da racionalidade europeia há a necessidade de demonstrar que
ocidental e, consequentemente, para dependemos não apenas dos outros
todos aqueles que se fundamentam na seres humanos, mas também de outras
extensão desta pretensão. Conclui-se entidades cósmicas (ar, água,
que a organização cosmológica de um montanhas, árvores, minerais, animais,
povo produz distintas relações etc.) que nos possibilitam viver”
intersubjetivas que interferem na (KASHINDI, 2015).
linguagem e na formação de um saber,
assim, como aponta a afrocentricidade, Considerações finais
“a psicologia dos africanos deriva de
Considerando o exposto, onde levanta-
uma singular experiência histórica e é
se aspectos diversos sobre os
por ela determinada. O imperativo
fundamentos subjacentes à concepção
humano natural e instintivo dessa
de homem, fica difícil descontextualizá-
psicologia é adquirir o impulso
lo dos princípios modernos ainda nos
revolucionário para atingir a libertação
dias atuais. Seria possível pensar uma
física, mental e espiritual” (NOBLES,
subjetividade a partir de outros
2009, p. 279). Não se trata apenas de
contextos? As diversidades teóricas nos
inserir discussões e problematizações
estudos sobre a subjetividade não
sociais sobre as epistemologias
estariam evidenciando limitações na
africanas, mas da afirmação de uma
forma de compreensão e
Psicologia criada a partir da tessitura
contextualização do humano? Tais
cosmológica africana, onde sua
questionamentos traduzem o desafio ao
cosmologia seja a linha geradora dos
qual o presente texto se propôs.
conceitos.
Pensar o humano é desafiador e requer
O ubuntu é um modo de estar o mundo flexibilidade e abertura intelectual e
que está vinculado a um modo produzir racional. Ao contrário do que muitos
saberes e subjetividades, principalmente ainda pensam humano não é natural,
em relação ao outro, como aponta o “eu mas fruto de uma construção histórica e
sou porque nós somos”. Esta afirmação filosófica, fruto de transformações
traz consigo consequências cruciais para culturais e ideológicas específicas que
pensar a subjetividade, pois ditaram os parâmetros muito peculiar da
“negligenciar o Outro é, na perspectiva Modernidade, cada vez mais presentes
do ubuntu, desumanizar-se” nos dias atuais.
(KASHINDI, 2015). De forma
assimétrica ao ubuntu, a epistemologia Longe se ser um conceito definido e
ocidental tem como égide do unânime em seu uso científico mesmo
conhecimento o esgotamento de no âmbito da Psicologia ou de outros
qualquer vestígio de subjetividade no saberes, a subjetividade se firmou como
outro para que, assim, se possa um paradigma norteador da ciência, do
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