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INSTITUTO PORTUGUÊS DE NATUROLOGIA

Entidade acreditada pelo DGERT


Reconhecida pela Secretaria de Estado do Trabalho e Formação Profissional

TEXTO DE APOIO A
TUI-NA II

ANO LECTIVO
2011/ 2012

CURSOS

Medicina Tradicional Chinesa (2º ano)

Massagem (1º ano)

DEPARTAMENTO DE MASSAGEM

DISPONÍVEL EM:
Suporte gráfico
Suporte informático

IPN PORTO – Sede: Av. Sidónio Pais, 379 - Edifício. Hoescht – Ed. B 2º andar 4100-468 Porto
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PROGRAMA DE TUI-NA I/II

Identificação do Módulo/ Disciplina: Tui-Na


Docentes: Sérgio Ferreira, Tatiana Brito, Paulo Alves
Carga Horária: 120 horas letivas e não letivas.
População Alvo: Estudantes; Profissionais de Saúde; Técnicos de Medicina
Natural; Activos desempregados; Jovens e adultos à procura do primeiro emprego.

Objectivos Gerais: Pretende-se que os formandos compreendam as técnicas


elementares do Tui-Na e respetivos objetivos; desenvolvam competências quanto
ao domínio daquelas técnicas; ajustem as técnicas convenientes aos principais
transtornos músculo-esqueléticos; valorizem o ato do Tui-Na como técnica
terapêutica incluída no universo da M.T.C.

Conteúdo programático a desenvolver:


Módulo I
1. Visão geral:

1.1. Introdução ao módulo; definições gerais; contextualização histórica;

1.2. Elementos essenciais da teoria básica da M.T.C.

2. Apresentação das principais técnicas de Tui-Na:

2.1. An (pressionar), Na (apertar), Dian (pressionar com dedo), Tui


(empurrar), Rou (amassar), Gun (rolar), Mo (deslizar em círculo), Bo
(dedilhar), Yizhichan (Dedo de Buda), Nie (beliscar), Ca (friccionar), Ji
(percutir), Pai (percutir com a palma da mão), Cuo (esfregar em
ziguezague), Bashen (tracionar), Dou (sacudir), Yao (rodar);
2.2. Funções fisiológicas, biomecânicas e energéticas de cada técnica;
aplicação das mesmas a zonas específicas do corpo humano.

3. Técnicas acessórias ao trabalho manual:

3.1. Moxibustão (Jie): aplicação das diversas técnicas segundo áreas a tratar e
finalidades pretendidas.
3.2. Ventosaterapia (Ba Guan):

3.2.1. Ventosa de combustão e ventosa de sucção com pistola;


3.2.2. Ventosa fixa e ventosa de passeio;

3.2.3. Escarificação/sangramento (Fang Xue).


Módulo II

4. Patologias músculo-esqueléticas descritas nos pontos 3.1 a 3.6: etiologias


segundo a visão ocidental e oriental; características identificativas; testes
avaliativos do grau de presença dessas patologias:
4.1. Lombalgias (distensão lombar, discopatias, traumatismos);

1
4.2. Dorsalsias (distensões, traumatismos, tensão muscular patológica);

4.3. Ombralgias e patologias da articulação escápulo-umeral (capsulite,


tendinopatias, fatores externos);

4.4. Epicondilite umeral interna;


4.5. Gonartrose;

4.6. Cervicalgias (torcicolo, discopatias, tensão muscular da nuca e cervical,


fatores externos).

5. Selecção das técnicas, gerais ou específicas, para cada estrutura e respetiva


patologia; inclusão de técnicas manipulativas articulares (Ban).

6. Avaliação teórico-prática.

Plano das Sessões das horas lectivas:


Sessão (3 horas) Conteúdos programáticos
1  Itens 1, 2
2,3,4  Item 2
5  Item 3.1
6  Item 3.2
7  Itens 2, 3.2
8  Item 6 (avaliação)
9, 10, 11  Itens 4.1, 5
12  Itens 4.2, 5
13  Itens 4.3, 5
14  Itens 4.4, 5
15  Itens 4.5, 5
16  Itens 4.6, 5
17  Itens 4.1 a 5 (revisões)
18  Item 6 (avaliação)

Sistema de Avaliação:
A comunicar pelo(a) formador(a) no início do ano letivo.
A nota final resultará da soma das notas das várias avaliações, sumativas ou
contínuas, de testes efectuados na instituição ou de trabalhos de pesquisa
propostos pelo(a) docente.
No caso de avaliação contínua, os parâmetros que constam da mesma são:

- Participação nas aulas;


- Interesse revelado pela disciplina;

- Assiduidade;

- Utilização de material para o bom funcionamento das aulas (roupa adequada,


lençol, creme e toalha).

2
Índice do presente volume

Capítulo 1
Patologias em MTC 5
Aquisições recentes aplicadas ao Tui-Na 6
Capítulo 2
Distensão lombar 7
Contraturas musculares nos transtornos dorsais 11
Espasmo muscular – o torcicolo 13
Capítulo 3
Hérnia discal lombar 16
Hérnia discal cervical 22
Capítulo 4
Tendinite do ombro 26
Epicondilite 29
Capítulo 5
Artrose do joelho 32
Técnicas manuais 24
Bibliografia 37

3
NOTAS PRÉVIAS:

 O presente manual respeita o novo acordo ortográfico.

 As referências a nomes ou expressões chinesas são transcritas segundo Pinyin,


e não Wade-Giles.
 Nas páginas finais do manual, encontra-se o Anexo ao mesmo, que fornece
informações complementares às do texto principal.
 Apesar da tentativa de não ser usado excessivamente, neste manual, o
pronome masculino para nos referirmos a ambos os sexos, recorreu-se por
vezes à designação “o paciente” e “o terapeuta” em vez do equivalente no
feminino. Não se trata de uma descriminação intencional, como é óbvio, mas
do recurso a uma convenção.

4
Capítulo 1
Introdução às patologias

 Patologias em M.T.C.
 Aquisições recentes aplicadas ao Tui-Na

Patologias em M.T.C.
Todos os textos que contribuíram para a construção do Clássico do Imperador
Amarelo, bem como outros textos fundamentais que ajudaram a definir a M.T.C.,
relevam o envolvimento do Qi nas patologias. Os desequilíbrios na saúde terão
sempre por trás alterações na qualidade, quantidade ou distribuição do Qi no corpo
(ou em áreas deste). O que não é de admirar, dada a universalidade que o Qi tinha
conseguido – se “ele” está presente em tudo o que existe, então está forçosamente
envolvido nas doenças.

Mas um outro fluido está também comprometido com muitas patologias: o Sangue,
naturalmente. A tal ponto o Sangue é uma entidade fundamental no equilíbrio do
Ser Humano, que o seu nome original em mandarim, “Xue”, é muitas vezes usado
em outras línguas para reforçar a sua identidade.

Ao estudar M.T.C. consegue-se perceber como Qi e Xue


assistem os sistemas internos, ao ponto de os desequilíbrios
destes estarem vinculados com as alterações no fluxo
daqueles.

Nos textos antigos, era comum usar-se a expressão “Cem


doenças” para definir todos os estados patológicos. As
patologias poderiam classificar-se de forma muito elementar
como sendo de origem interna (por força de alterações no
funcionamento dos órgãos) ou externa (por via de agressões
exteriores). As internas estariam associadas a erros
alimentares, excesso de trabalho e/ou falta de descanso, excesso de práticas
sexuais ou persistência de estados emocionais negativos. As externas poderiam ser
consequência da invasão de “energias perversas”1 ou causadas por traumatismos.
O presente manual aborda exclusivamente o estudo e o tratamento de algumas
patologias musculoesqueléticas, que não fogem à regra: também elas poderão
dever-se a fatores internos ou externos. Nas páginas seguintes veremos como.
Dos fatores internos devemos realçar o envolvimento, aqui e ali, do elemento
Madeira enquanto responsável pelas articulações e pequenos músculos. Mas
também da Água, como promotora do crescimento e da saudável manutenção dos
ossos, e até da Terra, como tonificadora dos músculos.
Se falarmos no sistema Zang Fu, temos de recordar algumas funções do Fígado,
como por exemplo o armazenamento de Sangue e a disponibilização deste para o

1
A expressão “energias perversas” diz respeito a seis tipos de climas ou ambientes: frio, vento,
humidade, calor, fogo e secura. A ordem de apresentação não respeita nenhuma norma, é perfeitamente
arbitrária. A invasão destas energias no organismo pode dever-se à força delas mesmas, ou à baixa
defesa desse organismo, que se torna dessa forma permeável.

5
resto do corpo, mas também o apoio ao suave fluxo de Qi no organismo. O Baço, à
semelhança do Elemento a que pertence, governa os músculos e é responsável pela
boa nutrição destes. E seguramente não é de descurar o papel das emoções nas
patologias do corpo.
Nos capítulos que se seguem recuperaremos com mais detalhes estas funções para
podermos compreender a instalação e evolução no corpo de algumas patologias
musculoesqueléticas, que adiante abordamos. É evidente que fica de fora deste
manual um número infindável de outras patologias. A escolha baseou-se em alguns
critérios, como a respetiva epidemiologia (a presença ou disseminação de
determinada patologia nas populações) e uma resposta eficaz ao tratamento de
Tui-Na.

Aquisições recentes aplicadas ao Tui-Na

Poderia dizer-se que a Medicina Tradicional Chinesa constitui um universo fechado.


Os conceitos em que se apoia permanecem inalterados há séculos – alguns deles
há milhares de anos, como se pôde perceber na primeira parte deste manual. Não
há muito mais a acrescentar aos conceitos já existentes – daí o adjetivo
“Tradicional”. Por exemplo, uma das últimas aquisições da M.T.C., o diagnóstico a
partir dos Oito Princípios (Ba Gang Bian Zheng), foi apresentada pelo médico Cheng
Zhong Ling em meados do século XVII (Maciocia, 1996). Não se pode dizer que
seja atual.

As inovações registam-se muito mais no campo das práticas do que no dos


conceitos. Eletropuntura, acupuntura abdominal ou crâniopuntura, juntamente com
diversas combinações de pontos, são exemplos de novas abordagens da M.T.C.

Como tal, é normal que o Tui-Na hoje em dia se socorra dos mais recentes estudos
de motricidade humana e dos contributos da fisiologia e da fisiopatologia, que cruza
depois com a visão chinesa. Também recorre muitas vezes a testes ortopédicos e
não negligencia o recurso a exames imagiológicos.

De realçar, por fim, que a grande vocação do Tui.Na é o tratamento e não tanto a
prevenção, ainda que esta possa beneficiar de sessões regulares para equilíbrio
energético. Pode também ser um instrumento valioso de apoio ao desporto, à
dança, à reabilitação motora e psicomotora.

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Capítulo 2
Perturbações musculares

 Distensão lombar
 Contraturas musculares nos transtornos dorsais
 Espasmo muscular – o torcicolo

Distensão lombar
Uma distensão muscular entende-se como um estiramento brusco de um músculo
até ao seu limite, sem chegar a produzir rutura. “Distensão” parece ser uma
expressão mais coloquial do que técnica nos meios académicos. Não são muitos os
autores que a empregam, talvez pelo facto da distensão ser o estágio anterior à
rutura muscular, mas não implicar rutura. Desta
Uma rutura muscular implica o
forma, nem sempre é classificada como lesão
2 rompimento de miofibrilhas ou de
muscular. João da Silva Rocha , no entanto, fibras musculares. Nestes casos
definia distensão como uma lesão, ainda que de os sintomas são mais intensos do
pequena repercussão funcional (Rocha, 1961). Em que os da distensão. A rutura
pode ser classificada como de
certas fontes, no entanto, distensão surge como
grau I, II ou III, conforme a
sinónimo de rutura. Talvez essa confusão se deva extensão dos danos.
ao facto de, muitas vezes, as ruturas moderadas
apresentarem sintomas semelhantes aos das distensões. Clinicamente pode mesmo
não ser fácil distingui-las. À frente veremos o que fazer perante esta dúvida.

Outra nota para mencionar que outras fontes, normalmente brasileiras, falam de
“estiramento” como sinónimo de distensão. Não está propriamente errado, mas o
estiramento, entre nós, costuma referir-se ao ato de alongar músculos de forma
controlada e com fins preventivos.

Mecanismos de lesão

As distensões musculares costumam afetar os músculos dos membros, por estes


estarem mais envolvidos em movimentos súbitos, mas teoricamente podem
acometer qualquer músculo do corpo. Há músculos com formas e funções muito
diversas, cada um tendo fragilidades próprias. Os músculos biarticulares (ou seja,
que atravessam duas articulações), por exemplo, podem estar mais expostos a
distensões, uma vez que normalmente são incapazes de flexionar ou estender
completamente e em simultâneo as duas articulações que cruzam (Watkins, 2001).
Neste capítulo abordamos as distensões lombares, uma vez que estas não ocorrem
necessariamente durante a prática de desporto. De facto, são até frequentes em

2
O Prof. João da Silva Rocha foi um dos precursores da Medicina Desportiva em Portugal nos anos 60
do século passado.

7
AVDs3, como ao erguer um peso do chão, ao pegar uma criança no colo ou
simplesmente ao estirar-se para alcançar um objeto.

Com exceção deste último exemplo, verifica-se


Contração excêntrica: quando a
que a distensão dá-se, muitas vezes, durante a
força muscular é inferior à carga
contração. Isto é, quando tentamos encurtar um
externa; neste caso, o músculo
alonga. músculo, ele pode distender, o que no fundo é a
Contração concêntrica: quando a
ação oposta à que desejamos – apesar do
força muscular é superior à carga
músculo se tentar encurtar, de facto alguma das
externa; aqui o músculo encurta.
suas fibras alongam-se. Isto acontece por ação
Contração isométrica: a força
muscular excêntrica, ou seja, quando a tensão
muscular é igual à carga externa;
não há alteração no comprimento
desenvolvida pelo músculo é inferior à resistência
do músculo.
que este tem de vencer. Um exemplo clássico é
erguer um peso do chão com a coluna fletida: se o peso for superior à
disponibilidade de certos músculos da parte inferior das costas, que devem encurtar
para o tronco se erguer, dá-se a distensão. O músculo cede abruptamente, como se
duma reação de renúncia se tratasse. É possível também haver envolvimento de
ligamentos nesta lesão.
Por vezes, a exposição das costas ao frio pode
também provocar sintomas semelhantes ao da
distensão. O mecanismo de lesão é semelhante ao
anterior, mas aqui o frio tem um papel inibidor da
normal resposta muscular. Quando, num ambiente
frio, um músculo permanece algum tempo em
repouso ou até alongado e recebe ordem de
contração, pode sofrer nesse momento a distensão.
Isto dá-se, por exemplo, quando as costas estiveram
sujeitas a calor e num curto espaço de tempo passam a ambientes frios ou muito
frios (sair do banho ou de uma piscina aquecida são exemplos recorrentes). A
isquemia súbita dos vasos sanguíneos na superfície das costas ajuda na descida da
temperatura dos seus músculos, deixando-os menos disponíveis para cumprir
funcionalmente uma ordem de contração.
Efeito de escada: após A esta fundamentação pode juntar-se o chamado “efeito
repouso prolongado de de escada”, que nos recorda que os músculos melhoram a
um músculo, a sua força
sua resposta contrátil após alguns segundos ou minutos
inicial de contração é
muito menor do que a de trabalho. Exigir dos músculos lombares a elevação do
que consegue após tronco, mesmo sem carga extra, após um tempo de
sucessivas contrações. exposição ao frio, pode produzir distensão nessa área.

Nestes tipos de distensão lombar, dificilmente se dá a rutura de fibras. Esta


acontece normalmente nas distensões por estiramento – quando um músculo é
alongado em excesso – e acomete mais os membros inferiores, sobretudo o grupo
isquiotibial. Esta matéria é da apetência da massagem desportiva.

As distensões de que temos vindo a falar, seja qual for o episódio desencadeador,
são sempre agudas. No entanto, por vezes pode falar-se em distensão muscular
crónica, quando a repetição constante de ações ou posturas ao longo de anos
produz sintomas semelhantes, mas prolongadas no tempo.

3
Atividades de Vida Diária

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Assim, nestes casos as dores não surgem subitamente após
um único movimento, são constantes mas mais suportáveis
do que nos casos agudos. Há também rigidez ao toque,
menos intensa, e limitação de alguns movimentos. O princípio
de tratamento será o mesmo dos casos agudos, com algumas
variações que mais à frente se expõem. Nos casos crónicos
devemos acautelar a possibilidade de este quadro estar também associado a
degenerações de algumas estruturas da coluna – o diagnóstico da distensão lombar
é um diagnóstico de exclusão, ou seja, deve ser
Doença aguda é aquela que excluídas outras lesões até se concluir ser um processo
produz sintomas e sinais
logo após a exposição à
exclusivamente muscular. O capítulo3 é esclarecedor
causa, tem evolução rápida quanto a este ponto.
e final em alguns dias ou
Na perspectiva da M.T.C., o que se pode concluir
semanas; a doença crónica
quanto a estes quadros clínicos? Desde logo devemos
produz sintomas e sinais
num período de tempo recordar que a deficiente nutrição dos tecidos com Qi e
variável, tem evolução
Sangue pode resultar em respostas ineficazes por parte
lenta e recuperação parcial
(Phipps, 1995).
dos músculos. Um Baço deficiente não os alimenta
eficazmente, enquanto uma estagnação de Qi do
Fígado impede que o Qi geral circule de forma satisfatória. As distensões por
esforço podem dever-se a um destes fatores, senão
mesmo à combinação de ambos.

Além disso, a estagnação de Qi do Fígado vai diminuir


a qualidade do Wei Qi (protetor), tornando o corpo
mais vulnerável aos factores externos. Neste caso, a
distensão por frio pode dever-se àquele padrão.

O vazio de Baço pode também estar envolvido nas


distensões lombares crónicas, mas convém verificar-se
o estado do Rim, normalmente deficiente neste quadro.

Princípios de Tratamento

As manifestações mais evidentes da distensão aguda são dor súbita e possível


inflamação da zona, dificuldade ou impossibilidade para mover o segmento ósseo
correspondente, que acaba por adoptar uma posição antálgica (isto é, anti-dor)
fixa, e rigidez muscular ao toque. Como se disse atrás, as ruturas moderadas
podem apresentar sintomas semelhantes. Como tal, podem merecer-nos
tratamento semelhante, com algumas variações, como veremos.
A rigidez que os músculos lesados adotam é resultado de um processo de defesa.
De facto, podem não ser apenas os músculos lesados a apresentar rigidez, mas
também os envolventes. Eles limitam-se a responder a uma instrução de defesa
que recebem de determinados neurónios motores: concentram as suas fibras para
limitar as ações do músculo dorido e assim reduzir a extensão dos danos.

Quando ocorre uma distensão muscular, deve interromper-se imediatamente a


atividade que se estava a realizar – o mais provável é que a pessoa lesada seja
mesmo obrigada a fazê-lo, sem que ninguém a aconselhe.

Se a causa foi o frio, deve aplicar-se calor o mais breve possível. A aplicação de
gelo nos casos de distensão por esforço não é prática corrente em M.T.C.,
preferindo-se a sangria com martelo de sete pontas sobre o músculo lesado. Em

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situações de rutura muscular, aí sim, justifica-se o gelo, para limitar possível
hemorragia interna.

Nas distensões crónicas, o sucesso do tratamento está no fortalecimento do Rim e


na constância das sessões (os casos agudos necessitam de menos sessões).
Os músculos afetados na distensão
lombar aguda recrutam-se normalmente
entre o quadrado lombar e os eretores
da coluna (longuíssimo e iliocostais).
Para estas patologias, as técnicas mais
indicadas são o Rou, o Gun estacionário
e o Tui. Esta última pode também ter
função diagnóstica: ao fim de alguns
minutos de trabalho, o Tui lento pode
ajudar a identificar o segmento lesado.
O estiramento lateral da coluna
Fig. 1 – Estiramento lateral da lombar (imagem ao lado) pode ser aplicado:
com uma mão, o terapeuta traciona a
bacia posteriormente, tomando a espinha ilíaca ântero-superior do lado oposto,
enquanto a outra mão se posiciona sobre os paravertebrais do seu lado, opondo
resistência na direção da marquesa. Este movimento é gradual, não súbito, e a
cada tração a mão que resiste sobre a lombar pode colocar-se em dois ou três
níveis diferentes, mais próximo da dorsal ou mais próximo do sacro.

Se houver suspeita de que tenha havido rutura muscular, não se deve aplicar
ventosa nos dias seguintes à lesão. A moxa pode ser usada com excelentes
resultados nas invasões de frio e nas distensões crónicas.

É provável que haja inflamação muscular nas distensões de origem mecânica. A


inflamação é abordada no capítulo 4, ainda que não propriamente a muscular, mas
a correspondência em termos de definição e tratamento é total.

Pontos energéticos favoráveis:


 B23 Shenshu (ponto shu do Rim, favorece o órgão em deficiência; também
útil em dor local, sobretudo por ação do frio; ponto ideal para moxa)
 B25 Dachangshu (dores lombares, rigidez e distensão lombar)
 B52 Zhishi (dores lombares, rigidez lombar)
 B40 Weizhong (dores lombares, rigidez lombar, sensação de peso nas zonas
lombar e glútea)
 B57 Chengshan (dor e rigidez lombares, dor ao sentar-se e ao erguer-se,
dificuldade em manter-se de pé sem dor)
 B58 Feiyang (dores lombares, dificuldade em caminhar e manter-se em pé)
 B60 Kunlun (dores lombares e sacras, dores de costas em geral)
 VB34 Yanglingquan (tensão muscular em geral, rigidez muscular)
 VB40 Qiuxu (dores na lombar e na anca)
 VB41 Zulinqi (desperta o meridiano extra da cintura Dai Mai)
 Ren6 Qihai (distensão lombar)
 E12 Quepen (dor lombar com dificuldade na rotação)

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Contraturas musculares nos transtornos dorsais

A dorsal é muitas vezes território para projeção de tensões musculares.


Filogeneticamente, os músculos dorsais têm um papel de predisposição para a luta,
para apoio ao trabalho de braços (agarrar, segurar, empurrar), para a simples
sustentação em pé (que não é tão simples
assim). São músculos extremamente
laboriosos, mesmo quando não nos damos
conta que os solicitamos. Há os mais
profundos, que auxiliam nos movimentos da
coluna, os intermédios, que movem o tronco
e auxiliam na respiração, e os mais
superficiais, que interligam o dorso com o
pescoço e com os braços.

As tensões que colocamos naquela área


podem cristalizar em determinados pontos e
desenvolver aquilo que se chama uma
contratura muscular.

Mecanismos de lesão

Muitas das tensões que se projetam nos músculos dorsais têm origem emocional.
As acções que não são expressas no decurso de uma tensão emocional, ficam
retidas pelos músculos superiores das costas, mantendo aí linhas de tensão durante
tempo considerável (Denys-Struyf, 1995). Significa isto que quando agimos sob
stress, contraímos alguns músculos dorsais como apoio a um estado de alarme ou
semi-alarme, que tanto pode durar horas, como anos. Enquanto a situação que
gostaríamos de ver ultrapassada se mantiver, as costas continuarão a dar-nos um
fiel apoio, à espera da ação.
O problema é que muitas das situações que nos impacientam
não são resolvidas com gestos – um negócio que demora a
concretizar-se, uma zanga com um familiar, o trânsito
infindável que não nos permite chegar a horas, um filho
doente, são exemplos de situações que não se solucionam
com ação física. Ainda que às vezes nos apetecesse empurrar
da nossa frente ou simplesmente fugir.

Os músculos recebem, então, informações contraditórias:


estão em estado de alerta (resposta vegetativa), porque
também existem para isso, mas não estão autorizados a agir
(resposta somática), porque se receia que isso não resolva nada. Esta tensão
contida (ou seja, “contenção”, ainda que com “ç”…), ao fim
de algum tempo pode originar contraturas.
Obviamente que o esforço físico também as pode ocasionar.
Muitas profissões exigem posturas rígidas ou de movimentos
muito limitados (operar um computador ou conduzir
veículos, por exemplo), outras solicitam constantemente
braços, ombros e costas (restauração, construção civil,
desporto). Isto pode produzir fadiga muscular, que
predispõe os músculos para tensões continuadas.

11
Ou seja, algumas fibras musculares mantêm-se
Fadiga muscular designa
a incapacidade de um contraídas, mesmo quando não estamos já a lidar com o
músculo esquelético de desafio preocupante ou quando interrompemos o
gerar níveis de força
muscular elevados, ou de
trabalho cansativo. Isto é uma contratura muscular. Se
manter esses níveis no assim permanecerem, os tecidos tensos vão dificultar a
tempo. microcirculação local, e o resultado da respiração celular
não é varrido como devia, nem o aporte de oxigénio às
mesmas células se faz convenientemente. A respiração mais profunda ou com
prazer pode ficar afetada com certas contraturas.

Princípios de Tratamento

O paciente facilitará o trabalho de localização da contratura, ainda que não consiga


tocar nela. Mas seguramente vai guiar as nossas mãos quando a procurarmos. Uma
vez localizada, perceberemos como ela se destaca da textura dos restantes
músculos. Vai apresentar resistência e contornos definidos, o que a distingue de
massas de gordura ou quistos sebáceos.

O Rou e o Gun estacionário vão ser fundamentais, podendo recorrer-se ao Bo e ao


Yizhichan para ajudar a desfazer a dureza dos tecidos. A ventosa será também uma
ajuda preciosa, se necessário com sangramento. Por vezes, a simples pressão
continuada com o polegar pode ajudar a “esvaziar” a contratura, sobretudo quando
ela é recente.

Nestas situações, é provável que as vértebras estejam sujeitas a tensões


assimétricas, porque os músculos contraturados podem alterar a relação de forças.
Se quisermos, podemos acrescentar ao nosso trabalho uma manipulação por vezes
chamada “técnica da borboleta”, mostrada nas imagens seguintes.

Fig. 2 e 3 – Manipulação de borboleta

Num primeiro momento, as mãos posicionadas de cada lado da coluna vão exercer
força para baixo, na direção da marquesa, à medida que o paciente expira
longamente. Quando não se espera que saia mais ar dos pulmões, as mãos fazem
uma pressão extra, súbita, em direções opostas, para promover uma ligeira rotação
às vértebras que estão a sofrer a pressão. Pode ouvir-se um pequeno estalido
quando se dá uma correção.

Não há pontos energéticos especialmente dedicados a contraturas. A seleção vai


depender da localização das mesmas. Bexiga, Intestino Delgado, Du Mai ou os
extra Huatuo-Jiaji podem ser bons auxiliares. O VB21 também pode ser usado.

12
Espasmo muscular - torcicolo

O espasmo muscular é uma contração súbita e involuntária de um músculo


estriado. As causas podem ser de natureza funcional ou emocional:
 Um músculo sujeito a stress físico ou sobrecarga pode manifestar contrações
contínuas após a interrupção do esforço. Por esta razão, o espasmo é muitas
vezes associado a dor muscular tardia. Outra causa possível é a deficiente
irrigação sanguínea – por exemplo, as grávidas nos últimos três ou quatro
meses de gestação podem ter espasmos em músculos dos membros inferiores
devido à pressão sobre as artérias inguinais.

 A tensão emocional também pode desencadear espasmos em músculos que


se vão contrair como auxílio à disposição interna do agente – sem se dar
conta, um indivíduo sob apreensão, nervosismo ou preocupação pode recrutar
músculos posteriores que se contraem, mesmo que não sejam chamados a
executar movimentos. Cervical, ombros e costas podem apresentar tensão
como forma de completar um quadro que nunca é unicamente mental.

Mecanismos de lesão

O espasmo é, pois, uma resposta motora involuntária,


que muitas vezes estimula os receptores de dor locais.
Isto quer dizer que o espasmo pode ser acompanhado
de dor. Quando o episódio é paroxístico, de curta
duração mas com contração e dor intensas, podemos
estar perante uma cãibra muscular, que é uma forma
particular de espasmo. Poder-se-ia dizer, mas sem
generalizar, que a cãibra ocorre normalmente quando
um músculo é solicitado, enquanto o espasmo surge
muitas vezes quando os músculos estão em repouso.
O fenómeno espasmódico ainda é objeto de estudo, mas as causas têm sido
apontadas a alterações eletrolíticas (níveis de potássio, magnésio, sódio ou cálcio)
ou a concentrações anormais de ácido láctico (normalmente associadas às cãibras
durante esforço físico intenso). Como já foi dito, estas variações podem resultar de
solicitação excessiva de um músculo ou de deficiente irrigação sanguínea do
mesmo. Mas o calor excessivo e a desidratação também podem contribuir para os
espasmos.

Se um músculo não relaxar devidamente após


uma contração intensa (ou uma série de Tónus muscular é o estado de
tensão residual que os músculos
contrações), ele vai permanecer num estado de estriados apresentam em repouso.
tensão extra constante, predispondo-o para A espasticidade é um estado de
espasmos. Note-se que este quadro não deve ser hipertonia de origem neurológica;
confundido com estados de espasticidade ou resulta da falta de inibição do
músculo por parte da via piramidal
rigidez muscular, duas formas de hipertonia (isto e afeta certos grupos musculares.
é, de excesso de tónus muscular) referidas no A rigidez tem igualmente origem
quadro-resumo ao lado. neurológica, mas resulta de afeção
extrapiramidal e pode afetar
Assim, um espasmo é definido por contrações qualquer músculo.
musculares súbitas e involuntárias não
permanentes, ao contrário das duas formas de hipertonia.

13
Há ainda um quadro que convém distinguir do espasmo muscular, e que é
conhecido por tetania. Esta expressão deriva de “tétano”, por esta doença produzir
os tremores de que falamos agora, mas um estado de tetania não tem
necessariamente que estar associado ao tétano. Ele identifica um acesso de
espasmos generalizados (sobretudo nos músculos dos membros) e resulta de
perturbações no metabolismo do cálcio (hipocalcemia) ou redução do dióxido de
carbono no sangue (hipocapnia), quando há hiperventilação (quando se respira
ofegantemente, aumentam-se os níveis de oxigénio no sangue, mas reduzem-se os
de dióxido de carbono).

Podemos dizer que o espasmo muscular é oposto à


distensão, que abordamos antes. Se a distensão é
sinónimo de estiramento doloroso, o espasmo é a
contração dolorosa. As limitações funcionais e o
nível de dor são, no entanto, muito diferentes num
ou noutro cenário – normalmente são mais intensos
nas distensões.

Em M.T.C. as causas dos espasmos e das cãibras,


como da rigidez muscular em geral, costumam estar associadas à hiperatividade do
Yang do Fígado. O Yang, que predispõe o corpo para a ação, se estiver exacerbado
vai exagerar nas ordens que dá aos músculos.

A porção cervical é muitas vezes afetada por um tipo particular de espasmo: o


torcicolo. O seu nome deriva do latim “tortus collum”, que significa “pescoço torto”.
Da mesma forma que podemos ter espasmos apenas numa perna ou numa única
pálpebra, que não pára de tremer, também o torcicolo é normalmente unilateral.

Tecnicamente, há três tipos de torcicolo: o congénito, que


surge ainda em vida intra-uterina ou durante o parto, o
espasmódico, que afeta normalmente indivíduos na 4ª
década de vida, sobretudo mulheres, mas por vezes
também jovens, e que se manifesta por espasmos
continuados em vários músculos cervicais, e o repentino,
que surge em minutos, normalmente por causas posturais,
muitas vezes combinadas com fatores climatéricos, como o
frio ou a corrente de ar.

Nos dois últimos casos, não é de descartar a componente emocional como fator
desencadeante. No espasmódico, que, ao contrário do repentino apresenta
cronicidade, há ainda outras causas possíveis, desde logo ideopáticas (ou seja, da
natureza do próprio paciente e não identificável pela Ciência), mas também
alterações neurológicas, hipertiroidismo, psicoses, disquinésia tardia (movimentos
involuntários induzidos por medicamentos neuroléticos) ou tumores na região. Os
pacientes com este quadro manifestam muitas vezes também espasmos em outros
músculos, sobretudo da face. É, no entanto, mais raro do que o torcicolo repentino.

Este caracteriza-se por tensão que se instala subitamente e que afeta um ou mais
de três músculos: esternocleidomastoideo (ECM), trapézio superior, elevador da
omoplata. O ECM está invariavelmente presente em todas as formas de torcicolo.
Como dito anteriormente, este espasmo resulta muitas vezes da exposição a
condições climatéricas adversas (frio e/ou vento), definido em MTC como síndromes
Bi (ver quadro explicativo na página seguinte).

14
A mudança de local de sono pode implicar
Uma síndrome Bi (em português,
mudança do grau de humidade no ar. Uma janela “síndrome de obstrução”) refere-se
entreaberta numa noite supostamente quente ou ao bloqueio da circulação livre do
Qi em zonas bem definidas do
simplesmente um ombro descoberto quando se corpo (normalmente superficiais ou
dorme com o pescoço mal pousada na almofada pouco profundas) por parte dos
propiciam as condições para se acordar com fatores climáticos agressivos.

torcicolo. Mas não descartemos as causas


emocionais, e aqui de novo os padrões do Fígado, que predispõem os
músculos para tensão extra.

Sendo uma afeção unilateral, o resultado visível é a rotação da


cabeça num eixo duplo: flexão com inclinação a um dos lados. A
dureza muscular é tal que, enquanto não for aliviada, vai impedir o
paciente de corrigir a postura.

Princípios de Tratamento

Essenciais no torcicolo repentino são as técnicas Na e Gun. São as duas manobras


ideais para eliminar vento e frio. Além disso, o Na “espreme” os músculos,
ajudando a resgatar a condição normal das suas fibras.

O Gun deve obedecer ao desenho dos meridianos da Bexiga, da Vesícula Biliar e do


Estômago no pescoço, sempre no sentido descendente.

Pontos energéticos favoráveis:

 VB20 Fengchi (todo o tipo de dores cervicais, acompanhadas ou não de


rigidez e de limitação de movimentos; invasão de vento)
 VB21 Jianjing (dores e rigidez na cervical; ataque de vento)
 Extra Weilaogong (também chamado Luozhen, que em português significa
“pescoço tenso”: dores cervicais, incapacidade de mover o pescoço)
 B10 Tianzhu (dores cervicais, incapacidade de mover o pescoço)
 Du16 Fengfu (dores na cervical e na nuca, dificuldade em mover o pescoço,
invasão de vento)
 SJ16 Tianyou (dores cervicais com dificuldade em mover o pescoço)
 SJ17 Yifeng (invasão de vento)

Quiz – Desafio
1. Que sintomas iria descrever-lhe um paciente que tivesse sofrido uma
distensão lombar mecânica? E que quadro clínico iria apresentar?

2. Descreva as diferenças básicas entre distensão muscular, espasmo muscular


e contratura.

3. Resumidamente, como pode a tensão nervosa desencadear tensões


musculares na dorsal e nos ombros?

4. Em M.T.C., a tensão muscular continuada pode dever-se a que padrões?

5. Que músculos estão habitualmente comprometidos num torcicolo?

6. Enumere pelo menos quatro pontos energéticos para tratamento do torcicolo.

15
Capítulo 3
Discopatias degenerativas

 Hérnia discal lombar


 Hérnia discal cervical

Hérnia discal lombar


A coluna vertebral é um conjunto de peças demasiado importante para ser
descurada em termos de conservação e demasiado solicitada para ficar isenta de
lesões. As suas funções passam pela estruturação dos restantes ossos do corpo,
pelo suporte de órgãos internos, pela proteção da medula, pela sustentação em
postura erecta, pela transmissão longitudinal de
forças e pela expressão de movimentos.

Afinal, aquilo a que chamamos coluna vertebral é um


conjunto de ossos empilhados, separados por discos
fibrosos, cuja coordenação não encontra paralelo em
outras estruturas do esqueleto.

De perfil, podemos constatar que esta pilha é


ondulada. Esta é a disposição ideal para absorção de
impacto e transmissão de forças. É este o traçado
das ondas eletromagnéticas, de rádio ou do mar, é
esse desenho que permite que todas elas avancem.
Uma coluna reta fracassaria rapidamente em
algumas das funções que dela se esperam.

Mecanismos de lesão

Observadas posteriormente, vemos duas formações côncavas (na cervical e na


lombar), que têm o nome de lordoses, e duas convexas (na dorsal e no sacro), as
cifoses. Acontece que, ao longo da vida, algumas destas curvaturas sofrem
alterações no seu desenho: ou se acentuam, ou se esbatem. Isto vai implicar
inevitavelmente uma alteração na distribuição de forças e na execução de
movimentos, além de possíveis dores posturais.

Outro fenómeno que pode ou não ocorrer simultaneamente


com a alteração das curvaturas, é o desgaste das peças. Ao
longo dos anos, o exercício de cargas, os movimentos
impróprios, as posturas exigentes, o aumento de peso, as
alterações hormonais, os traumatismos, entre outros, vão
constituir fatores de risco para a preservação de uma coluna
saudável. Os discos intervertebrais, pelas suas
especificidades, são a estrutura que mais facilmente
degenera. Analisemos algumas das suas características.

Aqueles discos estão em constante estado de pré-carga: qualquer disco está sob
pressão considerável, mesmo quando não há acção de nenhuma força externa,
graças à PEO – pressão de enchimento osmótico (Watkins, 1995). Significa que um
disco saudável perde e ganha água constantemente, conforme é ou não sujeito a

16
carga (peso do corpo na vertical mais carga exterior adicional). A redução
fisiológica (leia-se “normal”) do disco serve de resposta a dois tipos de pressão:

 Pressão de impacto (isto é, pressão com alto índice de sobrecarga mas de


curta duração), como no impacto dos calcanhares no chão ao saltar de um
muro. Aqui, o disco não tem tempo de perder água, apenas se deforma para
voltar rapidamente à forma inicial – chama-se “resposta elástica”.
 Pressão contínua (isto é, pressão lenta por períodos longos), como
conduzindo um automóvel durante algumas horas. Neste caso, o disco vai
perdendo água (perda nunca superior a 15%) (Watkins, 1999) para a
recuperar de novo quando o corpo adota a posição recumbente (deitado) –
chama-se “resposta viscoelástica”.

Uma diminuição acentuada e continuada de um disco, pode levar à sua


degeneração (após a segunda década de vida as alterações degenerativas
prejudicam a capacidade de pré-carga do disco e reduzem gradualmente a sua
PEO, ou seja, a sua capacidade de perda e reabsorção de água) (Watkins, 1995). A
redução permanente da altura do disco implica desidratação do mesmo. Neste
estado, ele pode sair para além dos limites dos platôs vertebrais (ou seja, das
superfícies superior e inferior do corpo vertebral). É o primeiro estágio para uma
hérnia, e nesta fase toma normalmente o nome de abaulamento.

Num disco com ruturas nos anéis


Um disco ressequido e com diminuição na
fibrosos, pequenas porções do núcleo altura (abaulado), configura uma discopatia
podem tornar-se aprisionadas naquelas degenerativa. Se o núcleo deformado se
desloca posteriormente, inicia um processo de
fissuras. O anel pode mesmo abrir até à prolapso ou protusão. Se parte dele sai além
sua parede externa, permitindo, graças do anel fibroso, toma o nome de extrusão ou
a tensões extra, que pedaços do núcleo hérnia.

prolapsem para fora dos limites do disco. A isto se chama hérnia discal.

Fig. 4 – Evolução do prolapso (saída) do núcleo pulposos de um disco intervertebral

A maior parte das lesões que produzem prolapso ocorre no exercício de carga com
a coluna em flexão ou em torção. Graças à orientação que o núcleo adota na flexão
da coluna lombar, quando ele prolapsa toma muitas vezes a direção póstero-lateral

17
(figura 5). Uma vez aí, esta hérnia pode afetar as raízes nervosas que partem da
medula através do buraco de conjugação próximo (figura 6). Isto ocorre com mais
frequência nos discos L4/L5 e L5/S1 (Adams e Hutton, 1982; Brinckmann, 1985,
apud Watkins, 1995), afetando, por isso, as raízes do nervo ciático, que “nasce”
desde a L4 até à S3. Uma hérnia no disco L3-L4 afetará o nervo femoral. Estes
compromissos radiculares (isto é, da raiz) podem ocasionar dor no trajeto dos
nervos e parestesias ou paresias nas extremidades (figura 8).

Fig. 5 – Orientação possível de uma hérnia Fig. 6 – Hérnia afetando uma raiz nervosa
discal em vista axial

Fig. 7 – Principais raízes nervosas do plexo lombar

Fig. 8 – Áreas de dor reflexa por compressão das raízes nervosas

18
A diminuição da altura do disco pode também
Parestesia é um distúrbio sensitivo
levar ao impacto extra-articular, isto é, ao que altera a qualidade informativa
impacto entre facetas articulares. Num segmento neural (formigueiros, perda de
sensibilidade, etc.). Paresia é um
motor saudável, elas sustentam cerca de 16% da distúrbio na resposta motora.
força de compressão vertical, mas passam a
cerca de 70% da mesma se o disco está degenerado (Adams e Hutton, 1980, apud
Watkins, 1995). O impacto extra-articular produz dor pontual, dor continuada ou
lesão das facetas, contribuindo para a degeneração das mesmas (figura 9). A
degeneração dos elementos de uma articulação toma o
nome de artrose (mais detalhes no capítulo 5), e no caso
de afetar as vértebras pode chamar-se espondilose.

Em MTC, se falamos de desidratação de discos, devemos


suspeitar de deficiências de Yin, uma vez que este
representa, entre outras coisas, os líquidos orgânicos
(desde logo, o Yin do Rim, por governar a área lombar).
O excesso de uso da lombar que possa ter originado o
desgaste dos discos pode muito bem ter consumido o Yin.
E uma vez que o Fígado é responsável pela humidificação
Fig. 9 – A diminuição da altura de músculos, tendões e ligamentos, devemos suspeitar
dos discos vai sobrecarregar da deficiência de Yin do Fígado neste quadro. Entretanto,
as facetas articulares
a dormência dos membros, por vezes com acompanhada
de sensação de peso, aponta para deficiência do Baço em processar humidade.

Princípios de Tratamento

Algumas patologias musculoesqueléticas podem ser diagnosticadas através de


testes relativamente simples e sem necessidade de recursos extraordinários. Em
tendinites, encurtamentos musculares ou compromisso de raízes nervosas,
podemos recorrer a testes ortopédicos que nos darão informações concretas ou
aproximadas da presença e localização da lesão. No fim dos tratamentos, os testes
podem ser repetidos para aferir de alguns progressos conseguidos numa sessão.

Testes neurofisiológicos para lombalgia radicular:

Lasègue: com o paciente em decúbito dorsal, elevação passiva de um membro


inferior de cada vez com o joelho estirado. Será positivo se ocorrer dor lombar,
acompanhada ou não de irradiação nesse membro, a partir dos 30⁰/35⁰ (por
estiramento do nervo ciático ou dos grupos musculares lombares sujeitos a forte
tensão e com reduzida capacidade elástica).

Fig. 10 – Teste de Lasègue Fig. 11 – Teste de Kernig

19
Kernig: em supinação, flexão passiva da cabeça com os joelhos flectidos e pés
apoiados na marquesa. Positivo se houver dor lombar ao alongar uma das pernas
(por estiramento da medula).

Milgram: na mesma posição, elevação activa e simultânea dos dois membros


inferiores uns 5 ou 10 cm acima da superfície de sustentação. Positivo se houver
dor lombar e incapacidade para manter a posição durante pelo menos alguns
segundos. Este teste não avalia necessariamente compromisso nervoso, podendo
ser apenas um teste muscular.
Lasègue invertido: dissemos há pouco que o Lasègue avalia o compromisso do
nervo ciático. Mas uma hérnia a nível L3-L4 pode afetar o nervo femoral, e não o
ciático. Para eliminar esta suspeita, efetuamos o Lasègue invertido: com o paciente
em decúbito ventral, flexão passiva da perna, pelo menos a 90, com extensão
simultânea da coxa, também passiva. Será positivo de manifestar dor lombar.

Fig. 12 – Teste de Milgram Fig. 13 – Teste de Lasègue invertido

O tratamento passa por reduzir as dores locais com Rou e Gun estacionário e a
estimulação dos pontos sugeridos abaixo. A perna onde haja irradiação de dor pode
ser trabalhada com Na e com Gun ascendente. Percussões no calcanhar, na área
reflexa do ciático, também poderão ser eficazes. A ventosa pode ser aplicada no
lado contralateral da coluna, ao mesmo nível do disco lesado, ou no abdómen,
diametralmente oposta à lesão, com o intuito de a “puxar” para uma posição não
conflituosa com os tecidos envolventes, sobretudo as raízes nervosas.
No final do tratamento, a manipulação lombar oblíqua pode ser um recurso, se o
paciente não estiver num estado grave, como dificuldades motoras, perda total da
sensibilidade de parte de um membro, etc.

Se optarmos por esta manipulação, a


hérnia deve estar orientada para a
marquesa (o paciente em decúbito lateral
apoia-se sobre o lado onde há dor
irradiada). O terapeuta ajuda a que o
paciente adote uma posição em torção,
com a omoplata inferior apoiada na
marquesa e a bacia ligeiramente rodada
no sentido contrário ao do tronco. Depois
de baloiçar algumas vezes o corpo do
paciente, o terapeuta traciona para si a
bacia com auxílio do antebraço que aí está Fig.14 – Manipulação lombar oblíqua

20
apoiado, e em sentido oposto empurra o tronco com o antebraço pousado no
extremo lateral do peito, sobre os pontos P1 e P2. No limite dessa torção, executa-
se um movimento súbito nessas direções opostas. Poderá ou não ouvir-se um
estalido, que denuncia redução de sub-luxação de vértebras lombares. No final,
tracionar e sacudir (técnicas bashen e dou) em decúbito dorsal.

Pontos energéticos favoráveis:


 B23 Shenshu (ponto shu do Rim, favorece o órgão em deficiência; também
útil em dor local)
 B25 Dachangshu (dores e rigidez lombares, dor e obstrução nos membros
inferiores)
 B52 Zhishi (dores lombares, rigidez lombar)
 B40 Weizhong (dores e rigidez lombares, sensação de peso nos membros
inferiores, obstrução dolorosa nos membros inferiores, dificuldades motoras)
 B57 Chengshan (dor e rigidez lombares, dor ao sentar-se e ao erguer-se,
dificuldade em manter-se de pé sem dor)
 B58 Feiyang (dores lombares, dificuldade em caminhar e manter-se em pé,
ciatalgia)
 B60 Kunlun (dores lombares e sacras, dores no trajeto da Bexiga, ciatalgia)
 VB29 Juliao (dores lombares com irradiação para abdómen, glúteos e
membros inferiores, ciatalgia, entorpecimento e parestesias dos membros
inferiores)
 VB40 Huantiao (dores nos glúteos, dores lombares com irradiação, ciatalgia,
atrofia e desordens nos membros inferiores)
 VB34 Yanglingquan (desordens articulares, atrofia e obstrução nos membros
inferiores, ciatalgia, parestesias nos membros inferiores)
 VB40 Qiuxu (dores na lombar e na anca, desordens nos membros inferiores)

Complemento da massagem:

Os pacientes devem observar alguns cuidados, quer nas fases agudas, quer nas
crónicas. Nas fases de dor, eles poderão repousar como sugerido na imagem 15. A
lombar fica aliviada de tensão, podendo até colocar-se sob ela uma bolsa de gel
aquecido. A imagem 16 expõe um fortalecimento dos músculos lombares que é fácil
de executar: de gatas, estendem-se simultaneamente uma perna e o braço
contrário. Após alguns segundos nesta posição, invertem-se os membros solicitados
a estirar. A imagem acrescenta uma barra de madeira longitudinal, que ajuda na
manutenção do equilíbrio, mas o exercício pode ser efetuado sem ela.

Fig. 15 – Posição de descanso Fig. 16 – Exercício de fortalecimento muscular

21
Hérnia discal cervical

Como exposto atrás, as curvaturas lordóticas estão mais sujeitas a protusões de


discos do que as cifóticas. A cervical partilha com a lombar este desenho, por isso
não é de estranhar que ela seja igualmente alvo de hérnias discais. Mas parecem
não partilhar muito mais no que toca às causas de desgaste.

Mecanismos de lesão

De facto, lombar e cervical têm responsabilidades diferentes, por isso as causas das
respetivas patologias podem também não ser as mesmas. Dada a sua localização
geográfica tão central, as vocações da lombar passam por absorção de impactos,
distribuição de forças, apoio à sustentação de vísceras, além de que, naturalmente,
tem de suportar mais peso do que os segmentos da coluna que estão acima. São
tarefas mais “musculadas”. A cervical, por outro lado, em termos de carga,
sustenta apenas a cabeça. Tem maior amplitude de movimentos do que a sua
congénere lombar, porque não tem de dar suporte a vísceras. Os seus músculos
são relativamente curtos e delgados.
Podemos pensar, então, que, havendo muito menos carga sobre a cervical, não se
compreende como pode ela ser residência de hérnias discais. De facto, a causa dos
desgastes discais cervicais não estará na carga, ao contrário da lombar. Mas se nos
recordarmos que os seus discos são mais finos do que os de outros segmentos e de
que ela possui os mais elevados graus de amplitude da coluna em extensão, flexão
lateral e torção, só sendo “batida” na flexão anterior pela dorsal, perceberemos que
há certas vulnerabilidades próprias que a tornam alvo de desgastes.

Assim, uma das causas que mais contribui para esta lesão é simplesmente a
postura. Por exemplo, a cervical deve compensar possíveis hipercifoses ou
escolioses dos segmentos subjacentes a ela. A horizontalidade da visão e o sistema
vestibular exigem que a cabeça se
mantenha na vertical. Pequenos músculos
acessórios à coluna cervical corrigem
constantemente, se estiverem saudáveis,
a posição da cabeça para que o mundo
físico nos pareça em ordem. Mas estas
ações sobrecarregam esses pequenos
músculos, e a tensão pode tornar-se
crónica, fazer parte do dia-a-dia do
indivíduo.

Acontece que, quando trabalhamos durante horas num computador, apenas


necessitamos de mover os olhos e um dos braços, minimamente. No que toca aos
olhos, eles têm de obter informações do monitor de forma coerente para o sistema
nervoso. Não é possível ler ou descodificar imagens se a cabeça se mover
constantemente ou se descontrair demasiado. O próprio nervo ocular possui
ramificações conectadas ao trapézio superior para que este esteja coordenado com
a visão (Cunha, 1996). Por isso, a cabeça deve estar relativamente imóvel
enquanto trabalhamos com um computador (por vezes horas seguidas), e esse
papel compete à cervical. Poderíamos diminuir as consequências desta atividade,
elevando o monitor à altura dos olhos, como na imagem 17.b, em vez de forçar a
cervical a uma ligeira flexão quando ele está pousado na secretária (imagem 17.a).

22
Fig. 17.a – Posição incorreta ao computador Fig. 17.b – Posição correta ao computador

Fundamental também é, pontualmente, levantar-se, espreguiçar-se e mover


pescoço e braços calmamente nos seus vários eixos.

Os discos intervertebrais cervicais podem, por isso, prolapsar e também eles


lesarem estruturas envolventes, como é o caso das raizes nervosas. Mas uma outra
estrutura vital poderia ser afetada, com sérios riscos para o indivíduo: a artéria
cervical, que atravessa um orifício exclusivo das sete cervicais: o foramen
transverso (conferir com a imagem 18). Ainda assim, essas duas artérias, que
correm de cada lado do corpo vertebral, estão relativamente protegidas das
herniações, porque um outro exclusivo das vértebras cervicais faz de barreira entre
os discos e estas artérias: são as facetas semilunares ou unciformes (em destaque
no canto inferior esquerdo da mesma imagem). Elas constituem uma articulação
intervertebral extra, que as vértebras dorsais e lombares não possuem.

Fig. 18 – Imagem axial de uma vértebra cervical

Estas facetas articulares reduzem também as perturbações que as hérnias


pudessem produzir nas raízes nervosas. Assim, os sintomas costumam ser
claramente diferentes daqueles produzidos pelas hérnias discais lombares. Dores,
parestesias e limitações de movimento são menos intensas na cervical.

Ainda assim, é possível que as perturbações radiculares venham a suceder, seja


por hérnias, seja por desgaste de discos e vértebras. A imagem 19 mostra a
distribuição das alterações sensitivas conforme a raiz nervosa afetada (de recordar
que a cervical possui oito raízes nervosas para sete vértebras).

23
Fig. 19 – Áreas de dor reflexa por compressão das raízes nervosas

Princípios de Tratamento

Dada a delicadeza da área a tratar, não se deve recorrer a técnicas intensas,


sobretudo quando há degenerações vertebrais com calcificações, indentações de
discos degenerados em direção ao saco tecal ou compromisso de uma artéria
vertebral. A acupuntura tem nestas situações um papel fundamental. Mas sem a
massagem Tui-Na, os resultados da acupuntura poderiam ser morosos.

Testes neurofisiológicos para cervicalgia radicular:

Para testar lesões dos discos e compromissos radiculares, é comum usar-se um


teste provocatório (isto é, que pretende desencadear dor em caso de presença da
patologia) que tem, como outros, o nome do seu criador: teste de Spurling.
Spurling: o terapeuta pressiona de forma súbita a cabeça, na vertical ou em flexão
lateral; dor local (com ou sem irradiação para um braço) revelará compromisso de
raiz nervosa (imagem na página seguinte).

Fig. 20.a – Spurling vertical Fig. 20.b – Spurling com flexão lateral

As técnicas essenciais de Tui-Na são o Na, o Rou (polegares) e o Gun descendente.


É possível aplicar-se a manipulação cervical, que a seguir se descreve. Deve ter-se
em atenção que ela não deve ser efetuada se
Calcificação identifica a
houver compromisso das artérias vertebrais, acumulação de cristais de cálcio
processos de calcificação significativas, incluindo em tecidos moles adjacentes a
ossos.
osteófitos orientados para dentro do canal medular, Osteófito é uma excrescência
ou rigidez cervical intensa. Nestes casos, a tração óssea definida, que resulta do
acúmulo de hidroxiapatite de
da cervical será o ideal. Vertigens, náuseas e perda
cálcio num osso, normalmente
de sensibilidade nas extremidades desaconselham, próximo de uma sua superfície
não apenas a manipulação, como provavelmente a articular.

massagem.

24
Manipulação cervical oblíqua: com o paciente sentado, o terapeuta posiciona-se por
trás, segurando-lhe simultaneamente a base do crânio e a mandíbula. Desta forma,
pode rodar-lhe a cabeça lentamente durante alguns segundos. Depois de parar, o
terapeuta promove uma flexão da cabeça à frente (cerca de 30), e roda-a até ao
seu limite fisiológico para o lado da mão que seguira a mandíbula. Uma vez aí, com
um gesto seco traciona a cabeça um pouco além desse limite, soltando-a de
seguida. É possível ouvir-se um estalido na cervical.

Fig. 21 – Manipulação cervical oblíqua

Pontos energéticos favoráveis:

 B10 Tianzhu (dores cervicais, dificuldade em mover a cabeça)


 B11 Dazhu (dores na nuca, rigidez da coluna)
 VB20 Fengchi (dor e rigidez cervical, dificuldade em mover a cabeça,
cervicobraquialgias, afeções por vento ou frio na cervical)
 VB21 Jianjing (dor e rigidez cervical, cervicobraquialgias)
 Extra “Bailao” (dor e rigidez cervical)
 ID3 Houxi (dor e rigidez cervical, dificuldade em rodar o pescoço, dores nos
ombros e costas)

Quiz – Desafio
1. Resumidamente, o que é a PEO dos discos intervertebrais?

2. O que sucede no disco para que ocorra uma hérnia?

3. Que nervos são mais provavelmente afetados numa hérnia discal lombar
que produza dor irradiada?

4. Descreva o teste de Lasègue.

5. Como corrigiria a posição ergonómica de um computador de um operador que


manifeste dores cervicais constantes?

6. Que teste ortopédico usaria para reconhecer a presença de dor irradiada no


membro superior com origem nos discos cervicais?

25
Capítulo 4
Lesões tendinosas

 Tendinite do ombro
 Epicondilite

Tendinite do ombro
Antes de mais, importa definir o termo “tendinite”: ele significa tão simplesmente
uma inflamação num tendão. De novo impõem-se outra definição: o que é uma
inflamação? Ela é, basicamente, uma resposta ou reação do organismo a uma
agressão, no sentido de isolar a zona lesada e, se necessário, destruir e diluir o
agente lesivo e/ou as células destruídas durante o processo.
Esta resposta, normalmente localizada, ocorre
apenas em tecidos vascularizados. Isto porque os
agentes reativos (que desencadeiam a resposta
inflamatória) convivem no sangue ou próximo dele,
seja a grande família dos leucócitos, sejam outras
células que medeiam o processo inflamatório. Estes
agentes têm funções diferentes entre si: uns
alargam a permeabilidade dos tecidos (por isso há
muitas vezes edema na região), outros aumentam a
elasticidade da pele, uns destroem o tecido lesado
para que outros o “devorem” e processem. E há
finalmente os que produzem tecido cicatricial para
reparação da zona. Fig. 22 – Tendinite do Aquiles

A área inflamada apresenta hipersensibilidade ao


Lesões de overuse são as que
decorrem do uso excessivo de uma toque e tumefação, sobretudo devido à infiltração
estrutura ou da repetição de ações de líquido nos tecidos. Ocorrem também
e movimentos. Esta noção é mais
abrangente do que a fadiga vermelhidão e calor. Quando esta inflamação se
muscular, podendo aplicar-se a dá num tendão, seja por traumatismo, seja por
toda uma articulação, por exemplo.
“overuse”, designa-se tendinite.

Mecanismos de lesão

Das várias tendinites possíveis, há uma com elevada epidemiologia (expressão de


uma doença nas populações) e repercussões motoras significativas: a tendinite do
ombro. Mas a articulação do ombro envolve várias articulações. E há vários tendões
periarticulares. É, pois, fundamental definir melhor esta tendinite do ombro.
A maior das articulações do ombro é a escapulo-umeral, uma enartrose que põe em
contacto a omoplata e o úmero (também chamada glenoumeral). É a articulação
com maior amplitude de todas as que o corpo humano possui, e por isso mesmo
dada a instabilidades – apenas um terço da cabeça esférica do úmero se encontra
dentro da cavidade glenóide da omoplata, por sua vez lisa e pouco profunda.
Necessita, por isso, de ser apoiada por um conjunto de ligamentos, músculos e um
labrum, uma espécie de ligamento circular que atua como uma pequena braçadeira
em torno da cabeça do úmero.

26
De entre os músculos que ajudam a
estabilizar esta articulação, destacam-se
quatro: supraespinhoso, infraespinhoso,
pequeno redondo e subescapular. Eles
possuem inserções muito próximas entre si
na tuberosidade maior do úmero. Tão
próximas, que se assemelham a uma
pequena manga que envolve parte da cabeça
do úmero, e que dá o nome de “manguito
rotador” a este grupo muscular (por vezes
também chamado “coifa dos rotadores”). A
figura 23 esquematiza, ainda que de forma
pouco precisa, a distribuição dos tendões
destes quatro músculos na tuberosidade
maior do úmero. Mas a imagem ajuda a
perceber a localização daquelas inserções e
Fig. 23 – Manguito rotador
como elas cobrem aquela área óssea.
O nome “rotador” advém do facto destes músculos promoverem a rotação externa
do braço (à exceção do supraespinhoso, que abordaremos com mais detalhe de
seguida).

A tendinite de algum destes tendões vai ter particulares consequências na ação


motora do braço, uma vez que a função estabilizadora do manguito fica
comprometida. Vejamos como: na abdução do braço, o deltóide (grande músculo
abdutor) eleva lateralmente o braço. A ação é iniciada pelo supraespinhoso, o tal
músculo do manguito que não participa tanto
na rotação externa do braço. Ele tem origem
na fossa supraespinhosa da omoplata e passa
por baixo do acrómio para se fixar, como
vimos, no tubérculo maior do úmero. Mas o
supraespinhoso, juntamente com os outros
três músculos do manguito, tem uma outra
função primordial na abdução: todos eles
concorrem para que a cabeça do úmero rode
Fig. 24 – Estabilização da articulação
dentro da glenóide enquanto o braço abduz,
escápuloumeral
como uma esfera dentro de um recipiente, e
que não suba em direção ao acrómio (Watkins, 1995). Se a ação do manguito se
perde, o deltóide vai fazer migrar a cabeça do úmero contra o acrómio.

Esta tarefa é coordenada entre os vários músculos


Músculo agonista (do grego
“atleta”) é o que executa uma
por um complexo neuromotor, que envolve os
ação; antagonista é o músculo órgãos tendinosos de Golgi, pequenas estruturas
competente para a ação contrária presentes nos tendões e que asseguram, por
à daquele. No momento da ação, exemplo, a correta articulação entre músculos
o antagonista relaxa para que
haja movimento. Todos os
agonistas e músculos antagonistas.
músculos são alternadamente
No entanto, devido a traumatismos ou,
agonistas e antagonistas.
principamente, a fadiga (uso exagerado em
desporto ou em atividade profissional, com gestos
repetidos ou imobilização da articulação em carga), os tendões de alguns desses
músculos do manguito podem sobreaquecer, resultado de um estado inflamatório.

27
Eles perdem, então, a habilidade de suster a
cabeça do úmero na sua relação glenoidal
ideal, devido a disfunções nos seus órgãos
tendinosos de Golgi, o que leva à migração
superior da cabeça do úmero, produzindo a
chamada “síndrome de impacto”. Na abdução,
a grande tuberosidade do úmero, por se
destacar morfologicamente, passa a trilhar os
tecidos contra a superfície inferior do acrómio,
agravando a tendinite.
Qualquer inflamação tendinosa pode acometer também a película sinovial que
envolve o tendão, e aí toma o nome de tenossinovite. No caso do ombro, e graças
à mecânica explicada atrás, uma bolsa de líquido sinovial, a bursa subacromial,
pode também ser afetada pela síndrome de impacto e inflamar. A este processo
patológico dá-se o nome de bursite.

Por vezes, a porção longa do tendão do bíceps braquial pode estar também
inflamada, uma vez que ela se “dirige” para a glenóide, para se inserir
imediatamente acima dela, numa pequena extensão do labrum.

O paciente relatará dor em vários movimentos ou quando dorme sobre o ombro


lesado, e apresentará limitação cinética, sobretudo causada pela dor. Na bursite,
far-se-á notar um inchaço anormal na inserção do braço, sob o deltóide.

Princípios de Tratamento

Podemos recorrer a um teste fundamental para avaliar o conflito subacromial, mas


também a um outro para perceber se há envolvimento da porção longa do bíceps.
Testes neurofisiológicos para tendinite do ombro:

Neer Welsh: com o paciente sentado, promove-se a abdução passiva do braço; a


dor, acompanhada ou não por limitação na continuação do movimento, a partir dos
80⁰ denunciará tendinite do supra-espinhoso.

Fig. 25 – Teste de Neer-Welsh Fig. 26 – Teste de Yergasson

Yergasson: o paciente sentado fletirá o cotovelo a 90⁰ e rodará a palma da mão


medialmente; é convidado a rodar a mão para cima (supinação) e a fletir o
cotovelo, como se quisesse levar a mão ao ombro do mesmo lado; o terapeuta,

28
segurando o antebraço, resistirá. A presença de dor na face anterior do ombro
denunciará lesão na porção longa do bíceps.

Uma tendinite em fase aguda não aconselha a moxa, mas a ventosa poderá ser
usada com vantagens, sobretudo sobre as inserções (face ânterolateral da cabeça
do úmero) e sobre o supraespinhoso. Rou e Gun vão ser importantes para diminuir
a dor e recrutar os agentes anti-inflamatórios do próprio organismo, como as
endorfinas. São também úteis para eliminar as estagnações locais de Sangue.

Todas as tendinites e bursites requerem sobretudo repouso da articulação em


causa. Os movimentos devem ser suprimidos, se possível. Ao fim das duas
primeiras sessões, o paciente deverá notar uma evolução positiva franca, podendo
retomar alguns movimentos até então desaconselhados.

Pontos energéticos favoráveis:


 IG15 Jianyu (dor no ombro, fraqueza na articulação, frio, humidade, vento
ou calor na articulação, entorpecimento do membro superior, paralisia do
membro superior, incapacidade de elevar o braço)
 SJ14 Jianliao (dor no ombro, alterações motoras do ombro e braço)
 IG14 Binao (dor, entorpecimento e obstrução dolorosa no braço e ombro)
 Extra “Jianneiling” (significa “Montanha anterior do ombro, mas também é
conhecido por Jianqian, ou seja “Frente do ombro”; elimina dor,
entorpecimento e paralisia do ombro e braço)
 ID9 Jianzen (beneficia o ombro)
 ID10 Naoshu (beneficia o ombro e o braço)
 ID11 Tianzong (beneficia o ombro)
 SJ13 Naohui (beneficia o ombro)
 E38 Tiankou (dor e rigidez no ombro)
 Sangria possível no VB21 Jianjin

Epicondilite
A epicondilite é uma forma de tendinite que afeta as inserções musculares que o
epicôndilo umeral possui. Tal como no caso do manguito rotador, também aqui há
vários músculos com inserções muito próximas entre si. São eles o extensor radial
curto do carpo, o extensor cubital do carpo, o extensor comum longo dos dedos e o
extensor do dedo mindinho. Já se depreende que a lesão poderá ter na origem a
solicitação excessiva da extensão de dedos da mão ou da própria mão.
Mecanismos de lesão

De facto, a epicondilite está claramente relacionada com o abuso da articulação do


cotovelo em movimentos de rotação constante, bem como da extensão repetida ou
continuada do pulso e dos dedos. Podem ser alvo desta patologia todas as pessoas
cujas atividades passem por digitar (trabalhar com teclados), operar ratos de
computador, engomar, rodar varetas de aço no fabrico de vidro, escrever ou repetir
gestos em linhas de produção fabris.

A epicondilite também é associada à prática do ténis, que batiza esta patologia


como “cotovelo de tenista”. Não significa que a maioria das pessoas que padecem
desta afeção sejam tenistas. Pelo contrário, a maioria dos pacientes não o pratica,

29
mas quase todos os tenistas passam por esta experiência, o que fundamenta
aquela expressão.

Como em quase todas as tendinites,


os tendões afetados podem sofrer
pequenas alterações fisiológicas ou
morfológicas que os predispõem a
futuras crises. Os recetores
neuromusculares podem permanecer
disfuncionais, o tendão pode perder
capacidade elástica, em casos mais
crónicos ele pode calcificar. Não é de
estranhar, pois, que quem tenha tido
uma tendinite séria, possa vir a Fig. 27 – Tendinite dos extensores da mão e dos dedos
padecer de novo dessa patologia no
futuro.

No caso da epicondilite, alguns autores preferem identifica-la como tendinose, em


vez de tendinite, precisamente pelo facto dos tendões envolvidos se degenerarem e
não apenas infetarem (Snider, 2000)

O paciente relatará dor em redor do epicôndilo, dor ao toque e limitação de


movimentos. Haverá dor em algumas AVDs, como usar um saca-rolhas, rodar uma
maçaneta de porta ou uma torneira.

Princípios de Tratamento

Geralmente, as tendinites podem ser detetadas com testes ortopédicos, porque elas
comprometem fortemente a ação de músculos. É o caso da epicondilite.
Testes neurofisiológicos para a epicondilite:

Mill: paciente com punho cerrado e pulso em extensão, cotovelo ligeiramente


fletido; é convidado a fletir o punho contra a resistência que a mão do terapeuta vai
oferecer; positivo se houver dor no epicôndilo.

Fig. 28 – Teste de Mill

O trabalho deve incidir sobre o epicôndilo e próximo dele, sobre as fibras dos
músculos extensores. A técnica Bo, ainda que dolorosa, tem aqui vantagens
acrescidas. Uma pequena ventosa, com ou sem sangria, também pode ser usada.

30
Pontos energéticos favoráveis:

 IG8 Xialian (dor no cotovelo e no antebraço)


 IG9 Shanglian (dor no cotovelo e no antebraço)
 IG10 Shousanli (dor e paralisia em todo o braço, contraturas e lesões
musculares em redor do cotovelo)
 IG11 Quchi (dor e paralisia na articulação do cotovelo, fraqueza muscular na
articulação do cotovelo, inchaço local, invasão de fatores climáticos no
braço)
 IG12 Zhouliao (dor e rigidez no cotovelo)
 P5 (beneficia o cotovelo)
 P6 Kongzui (dores severas no cotovelo e todo o braço, dificuldades motoras
do ombro e do cotovelo)

Complemento da massagem:

Após a fase aguda, as inserções no epicôndilo beneficiam com um trabalho


relativamente simples: o paciente segura uma ferramenta com um peso de 1 a 2
quilos, como um martelo, que fará balançar lentamente através da supinação e
pronação do antebraço apoiado numa mesa. Pode realizar séries de dez
movimentos, uma série nos primeiros dias, aumentando para duas e três séries nas
semanas seguintes.

Fig. 29 – Reforço da área epicondiliar

Quiz – Desafio
1. Defina tendinite.

2. Que músculos compõem o manguito dos rotadores?

3. Resuma o fenómeno que leva à migração superior da cabeça do úmero.

4. O que pretende testar a prova de Yergasson?

5. Que atividades podem desencadear uma epicondilite?

6. Enumere cinco pontos essenciais no tratamento da epicondilite.

31
Capítulo 5
Degenerações ósteo-articulares

 Artrose do joelho

Artrose do joelho
No capítulo 2 tínhamos referido que as distensões lombares poderiam ser mais
frequentes em quem tenha degenerações da coluna lombar. No capítulo 3 falamos
da degeneração de estruturas importantes da coluna, os discos intervertebrais. No
presente capítulo recuperamos o tema das degenerações ósteo-articulares (ou seja,
das artroses), para abordarmos com ênfase
particular as do joelho, articulação ainda não
referida neste manual, e tantas vezes alvo deste
tipo de patologias.

Muitas das alterações estruturais que o nosso


corpo revela com o passar do tempo devem-se
ao uso que dele fazemos e a pequenas alterações
morfológicas de algumas das suas peças
(desgaste, atrofia, desidratação, encurtamento,
etc.), mas que no seu conjunto têm enormes
implicações. A artrose é, naturalmente, uma das
envolvidas neste fenómeno.

Mecanismos de lesão

O nome diz muito da patologia: degeneração, ou seja, alteração patológica da


forma. Implica normalmente desgaste das peças, mas implica também o elemento
tempo, porque a degeneração ocorre gradualmente ao longo de alguns anos, sendo
irreversível. De facto, a prevalência da artrose aumenta com a idade, estando
presente na maioria dos nossos idosos.
Teoricamente, pode afetar qualquer articulação móvel ou
semimóvel, uma vez que o desgaste surge na sequência do
uso daquela. Poderíamos pensar nesta patologia como tendo
uma correspondência com o desgaste dos travões de um
automóvel ou de uma borracha de desenho. A consistência
das cartilagens e a sobrecarga de umas articulações em
relação a outras vão ditar a maior ou menor probabilidade de
acometimento da artrose. Desde logo, as peças que recebem
mais peso ou que estão envolvidas na nossa locomoção estão mais expostas à
patologia: coluna lombar, coxofemoral e joelho.

No caso da coluna, a degeneração dos discos (discartrose), já abordada, é muitas


vezes acompanhada da degeneração dos corpos vertebrais (espondilose), formando
uma artrose comum que recebe o nome de espondilodiscartrose. Se as facetas
articulares estão envolvidas, muitas vezes adota-se o termo “espondilartrose” ou
simplesmente “síndrome das facetas”. De notar que os corpos vertebrais cervicais
possuem uma articulação extra em relação às restantes vértebras: a articulação

32
semilunar ou unciforme (referida na página 23). Esta estrutura aumenta as áreas
vulneráveis a desgaste das vértebras cervicais, e que, a ocorrer, será designada de
“uncartrose”.

No caso de artroses na coluna, os princípios de tratamento podem ser os mesmos


usados para as degenerações dos discos, mas convém não alimentar esperanças de
que os resultados sejam tão animadores quanto o destes últimos. É preferível usar
acupuntura, usar calor local e suportar o Rim com fitoterapia, porque a experiência
clínica diz-nos que os pacientes por vezes pioram após receberem massagem, e
quando não pioram, também não registam melhoras significativas. Tudo depende,
claro, da extensão dos danos e da história clínica do paciente.
Felizmente que em outras articulações os
resultados podem ser mais gratificantes. É
o caso da artrose do joelho, ou gonartrose.
A articulação do joelho constitui-se na mais
complexa do organismo. Assenta sobretudo
na relação fémur-tíbia, com apoio e
proteção da rótula.
Os côndilos do fémur têm a forma de polia
convexa (como um taco de golfe quando
observado lateralmente), enquanto as
glenóides da tíbia são achatadas. A
congruência entre as duas estruturas é feita
através de dois meniscos em forma de
meia-lua, medialmente finos e lateralmente
mais espessos. A rótula aumenta a
Fig. 30 – Desgaste articular do joelho eficiência mecânica do quadríceps (serve
quase de roldana) e previne o contacto e a
fricção do tendão daquele músculo no sulco intercondilar.

Para dar estabilidade a esta articulação, existem mais de dez ligamentos naquele
espaço de alguns centímetros quadrados. E para proteger todas as estruturas de
atrito existem umas seis bursas e uma prega sinovial extensa.

Mas nem todas as peças estarão isentas de atrito – de outra forma


dificilmente incorreriam em desgaste. Os meniscos e as cartilagens
são as primeiras a ser afetadas por esse consumo, e a esse
fenómeno chama-se artrose. Se o desgaste continuar, fémur e
tíbia podem chegar a tocar-se, dando-se o chamado pinçamento.
A artrose do joelho afeta maioritariamente mulheres, sobretudo
acima dos 55 anos (Snider, 2000). Acredita-se, por isso, que
fatores hormonais poderão estar relacionados com o desgaste da
cartilagem hialina após a menopausa, mas um outro fator poderá
estar implicado: o ângulo Q. Ele diz respeito ao ângulo formado
pelo fémur, naturalmente inclinado nos adultos, e uma linha
vertical (conferir com imagem 31). Ele é de cerca de 17 nas
mulheres e de 14 nos homens. Se a bacia alargar como resultado
de gravidezes, o ângulo Q na mulher pode aumentar.
De que forma pode esta inclinação estar relacionada com a
Fig. 31 – Ângulo Q
prevalência da gonartrose nas mulheres? É que uma inclinação

33
destas numa estrutura tão importante como são os membros inferiores, poderia pôr
em causa a estabilidade bípede (sobre dois pés). As leis da física dizem-nos que
uma peça inclinada 14 ou mais apoiada sobre outra que está praticamente vertical,
vai seguramente colapsar. Ou seja, os nossos joelhos quebrariam para dentro, um
na direção do outro.

Fig. 32 – Alteração do ângulo Q

Mas isso não acontece, graças a músculos tensos existentes na face lateral da
coxa: os tensores da fáscia lata. Eles têm suficiente força para tracionar os joelhos
lateralmente, impedindo desta forma que os joelhos choquem medialmente. Nas
mulheres cujas ancas alargam, o ângulo Q, que numa primeira fase aumenta
porque os fémures inclinam ainda mais, vai
diminuir por ação dos tensores. Estes vão puxar Quando os joelhos se afastam um
mais ainda os joelhos para fora (genu varo), do outro, diz-se que estamos na
promovendo o desenho que a figura B da imagem presença de genu varo. Quando
eles se aproximam, esse
32 mostra. Desta forma, as faces mediais de fémur
fenómeno chama-se genu valgo.
e tíbia vão sofrer compressão e provável desgaste.
Já vimos que as causas da gonartrose podem ser mecânicas, bioquímicas ou
mistas. A seguir enumeram-se os vários fatores desencadeadores:
a) Uso abusivo da articulação durante um período considerável da vida ativa;

b) Instabilidade articular ou alterações ao alinhamento normal da rótula;

c) Alterações hormonais decorrentes de outras doenças, de cirurgias ou da


menopausa;

d) Aumento substancial e permanente de peso;


e) Exposição a condições atmosféricas adversas, sobretudo ambientes
húmidos;
f) Traumatismos significantes ou continuados.

O paciente relatará dor surda na articulação, sobretudo ao se elevar após horas de


repouso, mas também ao caminhar em plano inclinado ou ao subir escadas. Haverá
limitação na amplitude de flexão/extensão do joelho (mesmo em movimentos
passivos), revelará resistência ao movimento passivo, possivelmente com
crepitação, e alteração da morfologia do joelho (normalmente aumentada).

34
Princípios de Tratamento

O trabalho deve ser regular e paciente. Ao fim de cinco sessões semanais, os


resultados serão já significativos. A moxa tem aqui um papel primordial, sobretudo
por se tratar de uma patologia afetada por fatores climáticos como frio e humidade.
Tonificar o Rim é também importante.
Não há testes ortopédicos que ajudem a identificar a artrose do joelho. Uma
simples radiografia poderá confirmar as suspeitas levantadas na clínica após
questionário, palpação e mobilização da articulação.

Pontos energéticos favoráveis:


 E32 Futu (obstrução dolorosa e alterações motoras do membro inferior, dor
e frio no joelho, fraqueza da articulação do joelho)
 E33 Yinshi (dificuldades motoras do membro inferior, fraqueza da articulação
do joelho, dor local)
 E34 Liangqiu (dor e inchaço no joelho, dificuldade em mover a articulação do
joelho)
 E35 Dubi (todas as afeções do joelho)
 Extra “Neixiyan” (todas as afeções do joelho)
 Extra “Heding” (dor e inchaço no joelho, fraqueza da articulação do joelho)
 BP9 Yinlingquan (dor e inchaço no joelho)
 R10 Yingu (dor perfurante no joelho, dificuldades motoras do joelho)
 VB34 Yanglingquan (dor e dormência do joelho)
 F8 Ququan (dor, frio e inchaço no joelho)

Complemento da massagem:

Será de toda a utilidade que o paciente exercite delicadamente o joelho, de


preferência sem carga (isto é, sem se apoiar sobre ele). Isso seria possível se ele
rodasse um cilindro para a frente e para trás sob o pé, enquanto está sentado.

Fig. 33 – Exercício para o joelho

35
Quiz – Desafio

1. Resumidamente, o que é uma artrose?

2. Como se chama a artrose das facetas semilunares da cervical?

3. Quais os fatores que propiciam a artrose do joelho?

4. O que é o ângulo Q?

5. Que teste ortopédico efetuaria para identificar a gonartrose?

6. Enumere três pontos fundamentais para o tratamento desta patologia.

7. Enumere cinco pontos essenciais no tratamento da epicondilite.

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