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UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

Curso de Pós Graduação em Teoria e


Prática Junguiana

Trabalho sobre Mitos e Contos

Aluna: Claudia Maria Gama Leal

Setembro 2014
1. INTRODUÇÃO

Ao fazer este trabalho me debruço em primeiro lugar, sobre as


definições e comentários sobre os mitos de uma maneira geral. De alguma
forma, todos os mitos se referem ao sagrado eclodir de todo o universo criando
não apenas uma história, mas uma cosmogonia, uma criação, seja de um
pequeno sentido de mundo ou do mundo todo. Assim, nossa realidade passou
a existir, algo no mundo existe, seja o modo de ser humano, um povo, um
lugar, um vegetal, um animal, os sonhos, a sexualidade, o amor, enfim..., tudo
o que está fundado no mundo. Portanto, graças ao relato do mito, o Mundo e o
homem, é o que é hoje com toda sua cultura múltipla e diversa.

O Mito, por estar carregado das ações de seres sobrenaturais se


torna modelo de ação e comportamento humano, norteando suas atividades.
Assim, ele também revela. Narra a experiência humana, e a ela dá sentido.

Pela sua característica numinosa, ele é vivido nos ritos, nos altares,
nas expressões da dança, das artes, da poesia, da narrativa, e se mescla às
Tradições e Filosofias Perenes.

Podemos aí inserir os contos, as fábulas, que diferem dos mitos.


Estes últimos oriundos dos deuses originais seriam considerados verdadeiros e
sagrados, quanto alguns contos, seriam da ordem do profano. Por isso podem
ser sempre contadas, e não carecem de rituais, situações especiais e
específicas para serem transmitidas e também, não são necessariamente
transformadoras da condição do mundo como ele é.

Consideramo-nos como produto da História, mas para o homem


arcaico, tudo o que ele era, se revelava pelo mito. Desse jeito se assemelham
somente a que nenhum dos dois, está acabado, pronto. Tudo ocorre como se
um processo infinito estivesse acontecendo continuamente. Sendo que os
povos primitivos tinham que ritualizar os acontecimentos míticos e recontá-los
de maneira específica para repetir os gestos dos deuses, e assim assegurar-se
de que os mesmos acontecimentos ocorreriam como, por exemplo, o brotar de
uma determinada erva medicinal, o nascimento dos bebês. A isso os
estudiosos, em especial Mircea Eliade chama de reactualização do mito. Tudo
isso é vivido de maneira a se constituir uma celebração e um certo estado de
consciência alterada, que significa conhecer de maneira direta os poderes dos
deuses. Comungar com eles. Isso tornaria o homem capaz de co-criar aquela
mesma situação. Dessa maneira as narrativas explicam o como fazer de novo.
O como fazer acontecer. Isso parece estar embutido em toda a história
humana, pois o homem moderno se encontra indubitavelmente ocupado em
entender, conhecer e obter o poder do como toda natureza foi formada e do
que é feita. No entanto, o homem comum de alguma maneira nem sempre se
interessa pela sua historicidade e não haverá mais rituais para ele, para que
possa se lembrar.

Para finalizar essa introdução tornou-se claro a função de reviver o


mito. Trata-se de uma experiência religiosa, que nos faz exultar e conviver
simbolicamente com acontecimentos de extremo significado humano,
ontológico e de criação. Vive-se, podemos dizer, uma experiência de
transfiguração, se impregnando assim da presença e da numinosidade desses
seres sobrenaturais, repetindo, reintegrando, suas obras portentosas,
revelando a origem de si e do mundo. Tudo isso é extremamente significativo
e precioso.

Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é


encontrada no mito e no conto de fadas. Aqui também, no entanto, se
trata de formas cunhadas de um modo específico e transmitidas
através de longos períodos de tempo. (JUNG, O.C. Vol9/1, 2013,
p.13)..

O significado do termo “archetypos” fica sem dúvida mais claro


quando se relaciona com o mito, o ensinamento esotérico e o conto
de fadas. O assunto se complica, porém, se tentarmos fundamentá-lo
psicologicamente. Até hoje os estudiosos da mitologia contentavam-
se em recorrer a idéias solares, lunares, metereológicas, vegetais,
etc. O fato de que os mitos são antes de mais nada manifestações da
essência da alma foi negado em absoluto até nossos dias. O homem
primitivo não se interessa pelas explicações objetivas o óbvio, mas,
por outro lado, tem uma necessidade imperativa, ou melhor, a sua
alma inconsciente é impelida irresistivelmente a assimilar toda
experiência externa sensorial a acontecimentos anímicos. Para o
primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação
exterior deve corresponder – para ele- a um acontecimento anímico,
isto é, o Sol deve representar em sua trajetória o destino de um deus
ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos
os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão e o
inverno, as fases da lua, as estações chuvosas etc.,não são de modo
algum alegorias destas, experiências objetivas, mas sim expressões
simbólicas do drama interno e inconsciente da alma(...) ( JUNG, O.C.
vol9/1, 2013, p. 14)

2. A NARRATIVA DO MITO

“O mito conta. O mito é uma narrativa”. (Brunel , p.XVI). A narrativa


é constituída a partir de um sentido, esquematizada pela linguagem, que retrata
de maneira coletiva, e também pessoal o dinamismo dos símbolos e
arquétipos.

(...) Antes disso, naturalmente, eu já compreendia o modo de ser das


coisas, a ordem do mundo e a mecânica dos fluxos que atraem e
repelem os seres em função das histórias antigas, vindas de um
remoto passado há muito enterrado, que minha mãe me contava para
satisfazer minha curiosidade, toda vez que lhe fazia uma pergunta
impertinente. Eu então pensava miticamente, mas é claro, não
pensava sobre os mitos. Como minha mãe podia saber todas aquelas
coisas? Isso eu não sabia, nem ela sabia; apenas me transmitia um
repertório de histórias de que ela era habitada e de que só existiam
dentro de sua memória com essa única destinação de serem
passadas a outras pessoas e gerações, com uma técnica de
comunicação muito peculiar. (Brunel, prefácio de Sevcenko 2000,
p.XXI).

Portanto a narrativa de um mito implica numa apropriação de sentido


da vivencia interior e da troca com o mundo, criando nexo e significado. Á
experiência do mito é agregado um valor que sugere uma atividade psíquica,
pois é desde seu interior que “os complexos simbólicos são compreendidos a
partir da interioridade relacional e da intersubjetividade, de acordo com o
método hermenêutico. Enquanto a natureza se explica, a alma se implica.”
(Crema , p. 8)

Dessa maneira o homem se compreende a partir de uma


inteligibilidade narrativa. Segundo estudo de Crema, Dilthey tece seu sentido
através da conexão entre a "vida, expressão e compreensão: a vivência
estruturada dentro de uma totalidade significativa por conjuntos simbólicos,
ligada às intenções e mediatizada por um ato de apreensão de sentido”(Crema,
p.9)

O Mito pertence ao arquétipo, à sua manifestação e traz implícita


uma vivência do indizível, do inexprimível, e jamais teremos acesso direto a
ele, a não ser pela arte, e poesia. E também através do relato que se organiza
na sua sintaxe, transformando, o espanto, o informe, o grandioso, o intuído e
inspirado, em algo inteligível.

3. A HERMENÊUTICA E CIRCUMAMBULAÇÃO DO RELATO MÍTICO

O Mito de Eros e Psiquê já bastante estudado nos livros de


psicologia analítica, especialmente em James Hillman, López-Pedraza e
Boechat, seja em Robert A. Johnson, trás diferentes reflexões vinda de alhures,
desde um arquétipo pela aparição dos deuses do Amor: Afrodite e Eros, às
iniciações e mergulhos no conhecimento de si de uma Psique ainda não
transformada e integrada, e mesmo, ingressando no universo em si da análise.

Junito Brandão nos brinda com sua narrativa do mito, que irei
adaptar ao contexto desse trabalho relatando apenas seu início por ser muito
longo. Logo depois, irei pausadamente refletir junto com os autores acima e
ainda outros, desde a ótica hermenêutica junguiana. Eis o mito:

(...) Em certa cidade havia um rei e uma rainha que tinham três filhas
lindíssimas. As duas mais velhas, ainda que fossem também muito
belas, podiam perfeitamente ser celebradas por louvores dos
homens, mas não havia linguagem humana capaz de descrever ou
pintar a formosura da caçula. Assim começa o romance de Psique,
que era tão bela, que os mortais, em lugar de pedi-la em casamento,
adoravam-na como se fosse a própria Afrodite, cujos templos e culto,
por isso mesmo, haviam sido esquecidos e abandonados. (...) Grande
Mãe, origem de todos os elementos, alma do mundo inteiro, como se
autodenominava, vendo-se preterida por uma simples menina.(...)
chamou a seu filho Eros (...) e deu-lhe uma incumbência. Levou-o à
cidade, onde vivia a linda Psique, e pediu-lhe que a fizesse
apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens. (...) O rei, (...)
temendo, como Liríope, a cólera dos deuses por causa da beleza da
mais jovem, mandou consultar o oráculo de Apolo. (...) a resposta
(...): a jovem (...), deveria ser conduzida ao alto do rochedo, onde um
monstro horrível com ela se uniria. Eros, todavia, que em lugar de
ferir com suas flechas a Psiqué, havia sido ferido por elas, ordenou
ao vento Zéfiro que a transportasse para um vale macio e florido (...)
a jovem princesa se ergueu e viu logo, cercado por um bosque, á
beira de uma fonte, um palácio de sonhos (...) Psiqué penetrou no
palácio e, a partir de então, foi servida (...) por uma multidão de
vozes, que lhe atendiam até mesmo os desejos não formulados.
Naquela mesma noite da chegada da princesa ao vale dos encantos,
Eros, sem se deixar se ver, fez de Psiqué sua mulher, mas antes do
nascer do sol, desapareceu rápida e misteriosamente.( Brandão,
Vol.II, 1992, p.210).

E assim continua o mito podendo ser lido na íntegra no livro de Junito


Brandão: Mitologia Grega Volume II. Dando continuidade ao nosso trabalho
iremos refletir a respeito de alguns comentários de junguianos a respeito do
mito, e pretendo de maneira sucinta com minhas palavras, cirmambular ao
redor da essência do mito, ao tecer os diferentes diálogos desses autores com
minhas próprias reflexões.

Essa primeira parte do Mito nos revela uma iniciação ao feminino


profundo. Este presente não só na mulher, mas também no homem. Já de
início o mito nos conta do confronto com a Deusa Oceânica Mãe, que reina no
inconsciente absoluta, e representa o feminino primitivo e arquetípico,
inacessível, exceto raramente quando através de seu espelho vemos sua
numinosidade no rosto da pessoa amada como narrada neste mito. O
Confronto se dá com um feminino não realizado, não diferenciado, nossa
floresta psíquica virgem, isto é, inconsciente, o feminino nos é ainda de fato
desconhecido. Johnson nos fala da colisão entre duas “naturezas intrínsecas”.
Sabemos que todo atrito provoca o movimento na direção do desenvolvimento,
pois sendo este processo contínuo e criativo, devemos aceitá-lo e nos
colocarmos abertos a suportar e atravessar suas etapas. No entanto, quando
Afrodite está presente, ela provoca uma regressão ao inconsciente. É nossa
primeira tarefa recebê-la com temor. Mas Psiqué não está pronta, ela precisa
antes viver a separação da Mãe, para tornar-se um ser que se transforma e
amadurece. Para isso ela precisa morrer para a vida anterior (com a mãe, ou
dos pais). Afrodite a manda para o penhasco da morte para que ela se case
com um monstro. Para uma mulher, o casamento é uma morte simbólica, no
sentido de sua separação com a mãe original.

Do ponto de vista feminino, todo casamento se assemelha à morte,


na medida em que repete a separação mãe-filha do mito de Demeter-
Perséfone(...) A mulher até chegar à experiência (...) amorosa com
um homem, vive uma identificação com a mãe. O rompimento dessa
relação se faz com uma experiência de morte para uma vida passada
que propicie a transformação para uma nova vida" ( Boechat P. P,
1997, p. 102)

Todo o mito nos fala da jornada da individuação na mulher, e no


homem os “desdobramentos de sua anima”.

Após essa morte, Psiqué desce ao Palácio de Eros e é servida por


Vozes. Segundo Boechat, aqui é que se dá verdadeiramente o mergulho no
inconsciente e daí há o enamoramento, o qual, é não desvelado, é mais na
verdade, quase pressentido, a paixão na qual tudo se parece ao paraíso. E
todo paraíso tem sua queda. Carotenudo, lembra-nos a importância desses
dois momentos. O amor é certamente, segundo ele, uma “via régia para esse
retorno às experiências originárias” ( Carotenudo, 2012, p.40) pois “captar as
mil matizes cambiantes com que encontramos o outro, penetrar no labiríntico
mundo imaginário, significa abandonar toda perspectiva unilateral, para dar voz
a todos os ‘daimones’ que nos habitam. Nessa viagem misteriosa através do
amor cada um encontra o outro e, por trás do outro, a si mesmo” (Carotenudo
,2012, p.27). Este estado de enamoramento coloca algo incompreensível
diante de nós. É na nossa interioridade que o amor vive. O outro é
arrebatamento e fascínio, e desconhecido, pois o conhecimento traria
justamente o questionamento da imagem projetada, o trabalho psicológico
necessário que transforma nossa visão e conhecimento de si. Para isso no
mito as irmãs aparecem, e fazem Psiqué abrir os olhos e dar continuidade a
sua jornada. Ela terá de descobrir o rosto de seu amado. Conhecê-lo.
Transgredir as normas que o próprio advento do Amor como arquétipo coloca,
quer seja de aceitação imperiosa de sua vontade, a submissão completa de
suas forças misteriosas. “O destino da humanidade foi sempre o da
diferenciação, ou seja, de um sutil processo de desapego das matrizes
naturais” (Carotenudo, 2012, p.40). Este aspecto está presente no mito ao
desfazer-se o paraíso de Psiqué pela trama das irmãs (que significam as
dúvidas de que as imagens não correspondem à realidade). As irmãs também
são carregadas pela inveja. “os gregos acreditavam que o homem é invejoso
por natureza” (Pedraza, 2010, p.57), tal força é capaz de movimentar a vida,
através da competição, e até da rivalidade, mas sempre chega um momento
que devemos não nos referirmos mais ao outro para termos uma visão de nós
mesmos. “Necessitamos, então, valorações próprias e que nosso sentir se
ajuste mais ao que somos ao que chegamos a ser” (Pedraza, 2010, p.57).

No segundo momento do mito, onde Psiqué se vê afastada de Eros,


Pedraza nos convida a refletir sobre a doença em nós, pois ambos adoecem. E
é bom que seja assim, pois “até diríamos que pode tornar-se útil,
transformando-se em energia psíquica” (Pedraza, 2010, p.63) – energia
liberada para a criatividade da jornada. A ferida do Amor os impulsionará a uma
revolução. Pã a aconselha a evocar o Deus do Amor novamente numa atitude
de humildade reconquistada e submissão a uma força muito grandiosa. Esta
atitude trás novo sentido à trama interior, e o que Psiqué vai fazer é vingar-se
de suas irmãs. Num outro sentido: livrar-se da inveja, pois esta se destrói a si
mesma.

Afrodite, ao tomar conhecimento da história rompe com Eros e isso


trás caos ao mundo. “Esta situação em que o arquétipo não funciona, não
manda energia é de suma importância psicológica. Um arquétipo funciona se
tem certo equilíbrio, mas se está cindido, manda uma energia negativa e
louca”. (Pedraza, 2010, p.70). Daí o surgimento da intriga. A ira da Deusa nos
fala do arquétipo da mãe que castra seu filho. Dizem que quem rejeita Afrodite
enlouquece. O materno em Afrodite se opõe ao afastamento de Eros de sua
esfera. “Dentro da Mãe não existe psique. A psique deve ser feita e sofrida fora
do complexo materno, fora da história que pertence à relação com a Mãe.”
(Pedraza, 2010, p.74). Vamos nos deter aqui para ler o que Jung tem a nos
dizer sobre esse arquétipo da Grande Mãe:

Como todo arquétipo, o materno também possui uma variedade


incalculável de aspectos. (...) apenas indica os traços essenciais do
arquétipo materno. Seus atributos são o “maternal” a sabedoria e a
elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que
sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade
e alimento; o lugar da transformação mágica, do renascimento; o
instinto e o impulso favoráveis; o secreto, o oculto, o obscuro, o
abissal, o mundo dos mortos, o devorador, sedutor, venenoso, o
apavorante e fatal.( JUNG, O.C. vol 9/1, 2013, p. 88).

Difícil é discernir num texto tão complexo e completo o que Stein me


fez refletir. Primeiro ponto: Eros como o que urge dentro de nós enquanto força
organizadora e criativa. E nosso equívoco colocando a racionalidade no seu
lugar. Se ele é criatividade é também ritmo e pulsação com o cosmos, rege
nosso impulso e instinto assim como nosso retraimento. Só no homem existe
esse sacrifício do princípio do prazer. Quando ele se retrai, ele também está
nos ajudando a organizar, discernir, discriminar, a ordenar o impulso, dar
conteúdo e forma a ele. Na linguagem corporal, corporificar os conteúdos que
emergem dando corpo e forma, conter, envelopar, dar limite. Isso é
fundamental para o desenvolvimento da psique, pois senão permaneceremos
num caos afetivo. Ele vai na direção da União,da conexão vinculativa. Não só
dos corpos eróticos, mas dos opostos dentro de nós. Segundo esse autor ele é
o amor pelo qual tudo é criado. Tudo é esposado dentro de nós, feito um, para
que criemos, evoluímos, não apenas sublimamos. Nem tudo é sublimação
como diria Freud e até mesmo Jung. Deveríamos deixar esse Deus regular em
nós nosso princípio de ação no mundo seja criativo seja amoroso. Nesse
sentido, A retirada de Eros da história durante a peregrinação de Psiqué, e sua
jornada de individuação, e sua invisível ajuda e presença implícita, em algumas
das tarefas que ela tem de desenvolver, tem essa significação, onde o impulso
erótico e o princípio do prazer, presente no palácio deve ser contido, para que
ela reúna as forças psíquicas e empreenda a aventura de discriminar-se, e aí
poder se concentrar nas tarefas que Afrodite lhe impõe.

Também em outro autor, em seu livro: Eros e Pathos, Carotenudo,


vai-nos falar de que esse estado de enamoramento é pathos. Na medida em
que não há diferenciação, vive-se como que numa participação-mistica. É nos
trabalhos de Psiqué, e ajuda de Eros, que o próprio amor vai ser trabalhado e
elucidado, ele mesmo amadurece. E é para isso que ele existe. É assim que se
dá sua maneira de nos ajudar e de se realizar.

O mito é longo e repleto de significados, mas devemos agora nos


deter rapidamente nas tarefas de Psiqué.

Psique necessita aceitar a privação do princípio do prazer, do amor


erótico, da presença do amado, fisicamente, provisoriamente, na retirada de
Eros, mas não em seu imaginal onde ele existe como presença fundante a qual
ela busca sem cessar. Ao amadurecer, ela descobrirá muitas formas de Eros
estar no mundo e poderá sustentar sua intimidade com o Amor. Essa
sustentação que é fruto do amadurecimento e que acolhe a aproximação de
uma força muito maior que ela, vínculo e intimidade representada na sua
subida ao Olimpo, ao final do mito, onde lá nascerá sua filha – prazer.

Ela mesma se tornará imortal. Ela mesma encarna agora um


arquétipo, não da donzela, em sua virginal condição de inconsciência, mas de
uma individuação completa, um casamento alquímico e uma União perfeita de
opostos dentro de si, que não finda, no entanto, mas se perpetua no mito, na
narrativa da festa onde todos os deuses e deusas estavam presentes e
harmoniosos. Isto no mito tem um significado profundo. Pois se dizemos que
quando o arquétipo está em desarmonia ele enlouquece, nesse caso
representa a satisfação de todo o Olimpo, portanto uma aprovação, uma
harmonia. É o casamento e sua natureza alquímica. O cosmos inteiro está
sempre realizando casamentos alquímicos, numa dança de evolução e criação.
Devemos agora nos deter sobre as tarefas de Psique até que esse
desenlace ocorra.

Psique na primeira tarefa deve haver-se com a enorme exercício da


discriminação. Pedraza comenta que esse estado de indiferenciação é próprio
da psicose, e que Psiqué se encontra nesse estado. É imprescindível, portanto
recolher os fragmentos dissociados reuni-los, classificar, diferenciar. Gosto
mais da idéia da floresta virgem, ainda não intocada, como representante de
uma Psiqué não diferenciada. Mas não devemos nos negar a ouvir o que
Pedraza nos fala sobre esse diferenciar-se e o que re-conectará Psiqué.
Apesar de Psiqué me evocar outra imagem, essa me serve também para
refletir.

Parece ser que diferenciar, ordenar e integrar os elementos


dissociados da psique requer a intervenção de algo muito mais
profundo. Se lermos a imagem que nos dá o conto, vemos que não é
a vontade de Psiqué, mas sua conexão com o emocional o que evoca
as formigas a colaborar com ela. E sentimos que a emoção nos
conecta com níveis mais profundos que podem nos ajudar. (Pedraza,
2010, p.83/84)

Johnson, nos fala do elemento feminino discriminador tanto exterior


quanto interior, é próprio do animus, ou da anima, a tarefa de selecionar o que
nos chega das profundezas. É próprio do feminino “fazer essa seleção no
mundo interior (Johnson, p.84). O feminino na mulher e a anima no homem,
precisa selecionar e retirar o material que está no inconsciente para trazê-lo
com ordenação e lógica para o consciente. (Johnson, p.83.), e, “Talvez, esse
atributo de selecionar sementes faça parte da masculinidade da mulher- um
eco de Eros” (Johnson, p.82)

Para Boechat a primeira tarefa se constitui o seguinte:

O início da busca, quando os complexos misturados nos confundem e


parecem se constituir uma montanha indecifrável e intransponível.
Cada complexo desses, como semente, é uma possibilidade de
elaboração e crescimento (Boechat 1995, p.106)

Podemos apenas acrescentar que as formigas representam as


“forças ctônicas”, das profundezas da terra, da natureza, dos instintos ao qual
Pedraza associa às emoções profundas.

A segunda tarefa seria a de retirar a lã de ouro dos carneiros


selvagens. O caniço (a voz da natureza) a aconselha a esperar quando eles
estiverem adormecidos e não a enfrentá-los à plena luz do sol. Eis um bom
aprendizado do feminino, cuidar para não ser possuído pelo animus
intempestivo. O carneiro parece simbolizar o masculino impulsivo, irreflexivo. E
a luminosidade do sol a pino, se refere à lucidez do sol do meio dia com a qual
podemos nos identificar, tornando tudo mais difícil pela uniteralidade de tal
atitude psíquica. O lúcido nos diz Pedraza, não é psíquico. Ele é o inimigo do
psíquico. Há certa força na obscuridade da noite, mais propícia ao feminino. Ao
psíquico. O perigo do sol em abundância (lucidez), por sua vez na voz de
Fernando Pessoa, ao invés de criar, seca. É interessante nesse sentido Psiqué
esperar, proteger-se. Ela deve também conter qualquer inflação e guardar-se.
Refletir, meditar. Há o perigo de enfrentar o masculino selvagem, o que lhe
traria poder. Mas a maneira de Psiqué é diferente, na fala de Johnson ela junta
os restos, o acúmulo do Logos, a energia masculina. “O mito de Psique mostra
que a mulher pode conseguir a energia masculina, necessária a seus
propósitos, sem qualquer jogo de poder”. (Johnson, 2009, p.90)

A terceira tarefa parece a Psique ainda mais impossível. Aqui


segundo Johnson aparece alguns elementos importantes. Primeiro, o rio da
vida, traiçoeiro, cheio de armadilhas, fértil, profundo, escorregadio, descendo e
subindo. Ele é perigoso, pois se nele penetramos sem foco, sem
discernimento, seremos arrastados pelas suas correntezas. O foco representa
a águia de Zeus. O feminino nos parece por vezes difuso, incluindo sempre as
infinitas possibilidades da vida. No entanto, é necessário nos apropriarmos com
cuidado de cada visão, de cada insight, de cada experiência. Por isso os olhos
focados da águia são de muita valia à Psiqué nesse momento. A águia de Zeus
sabe escolher em que lugar é propício encher o vaso das águas do rio.
Johnson compara vaso ao ego. Preencher o pequeno ego com as águas do
infinito inconsciente é acolher a pequena possibilidade e não todas. Apenas um
aspecto, uma visão, uma experiência. Um dar-se conta devagar. Na fala de
Boechat:

Em certos momentos da vida tomamos contato com lados muito


criativos nossos. Ao mesmo tempo em que nos sentimos felizes com
a descoberta, temos que ter sempre em mente que esses lados não
pertencem ao nosso controle egóico. Eles são as forças do self (do si-
mesmo), pertencem à divindade, e somente por instantes de
revelação intuitiva (como o vôo da águia) podemos vislumbrá-los,
mas nunca poderemos ter o domínio destas forças vitais. (Boechat,
1995, p.107)

Parece-me relevante o comentário de Pedraza sobre essa tarefa.


O rio Estige carrega na mitologia a significativa qualidade do ódio. Seria,
portanto com a experiência do ódio que Psiqué deveria preencher seu pequeno
vaso. Graças ao diminuto tamanho do vaso a ser preenchido nas águas do
ódio, Psiqué pode através do aliado divino da águia, viver seu próprio ódio sem
autodestruir-se, “

Se prestarmos bem atenção veremos que esse pouquinho de ódio na


pequena vasilha, mais ou menos consciente, é energia fundamental
que pode nos mover a competir criativamente. Essa consciência que
aceita o ódio ao amigo de quem mais gostamos ou a mulher que mais
amamos é um impulso para nossa criatividade e nosso amor.
(Pedraza 2010, p.100)

A última e derradeira tarefa. “Temos de aceitar que o conto trata da


beleza física, da beleza psicológica e de algo tremendamente misterioso: a
beleza secreta nas mãos de Perséfone.” (Pedraza, 2010, p.103) Nesse âmbito
da descida ao mundo dos mortos, Psiqué terá como aliada a Torre. Trata-se de
um tema relacionado à morte, às profundezas, e segundo Pedraza a depressão
que deve ser vivida e conscientizada muito lentamente. É preciso temer essa
descida deixando de lado elementos que seriam de extremo perigo para nós.
Para isso, Psiqué é instruída a não dar ouvidos a muitos apelos que vem desse
mundo, e a unicamente focar (novamente essa atitude), na sua missão
misteriosa. Cada uma dessas instruções é de extremo significado. Parece-me
que nossos autores concordam apenas em dois, um deles é que Psiqué deverá
deixar de lado seus instintos de generosidade e em outro o desejo irresistível
de participar, com sua curiosidade, do destino da vida, deixando este a cargo
das moiras – trata-se de deixar as coisas como elas são. A questão das
moedas dadas ao barqueiro também assume importância na medida em que “A
falta de dinheiro, nos diz da falta de libido, de energia psíquica para promover a
mudança mais adequada ao seu processo de individuação” (Boechat 1995, p.
109). Em Pedraza encontramos uma reflexão mais elaborada na passagem
pelo cão Cérbero.

Por último está esse cão instintivo de morte, Cérbero, para quem
psique deverá jogar as tortas. É como dizer que psique deve adoçar
os instintos. E o resto dos conselhos é de uma sobriedade feita rito,
pois para descer no mundo dos mortos, para descer na depressão,
isto é indispensável. (Pedraza 2010, p.110)

Esse ponto da interpretação da jornada de Psiqué no mundo dos


mortos, como a experiência de depressão é relevante. Não se entra no sombrio
sem a devida irmã que o acompanha, a sobriedade, e o temor, deixando de
lado as inflações, deixando para trás certezas sobre si mesmo e o outro. Ali, já
não temos certeza de nada. Nenhuma segurança, nenhum conhecido. Nem
conhecimento. No entanto na última tarefa, depois de ter se alimentado junto a
Perséfone de maneira humilde, sem aceitar iguarias, portanto sem se
comprometer em demasia com o lugar, mas compartilhando dele e, portanto,
aprendendo um pouco da sabedoria de Perséfone, Psiqué cai na tentação de
abrir a caixa e sorver um pouco da beleza de Perséfone que, no entanto lhe é
mortal. Aqui mais uma vez Pedraza:

(...) E este componente persefonesco é adquirido por Psiqué quando


desce ao mundo dos mortos. A própria situação nos diz que é uma
descida da erótica em si mesmo. A erótica de Persófone leva a
descobrir o corpo psíquico e erótico em níveis mais profundos. (...)
Aqui há um novo encontro de Eros e Psiqué, Eros chega a despertá-
la, mas desta vez com uma picada, uma pequena ferida, que
aconteceu sem lástimas, o que me parece uma alegoria de uma
consciência madura em depressão, quando a flecha não fere, já não
dói. (...) Assim nos damos conta de que esse novo amar de Eros e
Psiqué se dá pela consciência do subterrâneo (Pedraza 2010, p.112)

Novamente esta questão do que não é luminoso mesmo no


plano da eroticidade. É com certa tristeza e profunda dor que nos
deixamos ficar e não fugir do Misterioso Eros, misterioso, pois
arquetípico. Que engendra inúmeras nuances, e que com certeza não se
trata do viveram felizes para sempre. Mas da descoberta, da elucidação,
do desenvolvimento, do desvelamento, de perdas, e ganhos de
sacrifícios, de agüentar ali essa realidade complexa e paradoxal,
conflitiva até na maioria das vezes no nosso relacionamento com Eros.
Que guia nosso desenvolvimento e criatividade, nossos vínculos, e
nossa conexão.

Não conseguiremos esgotar as reflexões sobre o mito.


Gostaria de ter incluído no trabalho a análise de Hillman sobre o mito da
análise. Onde ele irá dizer que se Eros é o poder conectivo, é Psique
quem nomeia os sentidos da jornada. Eros pode ser bastante
indiferenciado no início de sua jornada. Por isso esse mito se relaciona
diretamente à análise. Em Incesto e Amor Humano, Stein, fala também
da análise, e nos lembra de que também nesse espaço está contido
Eros. Ao criticar tanto a análise freudiana quanto a junguiana, em alguns
de seus aspectos, se utilizando de sua reflexão sobre Eros, em seu
amadurecimento vinculativo e conectivo, em direção à união, enfatiza
que no empreendimento erótico da relação analítica, o analista necessita
estar num primeiro momento participativo e neutro como nos diz Jung.
Mas ao ser sublimado, Eros deve encarnar novamente em outro status,
que é quando o analista deve colocar seu próprio envolvimento amoroso
com o cliente, vinculativo e conetivo às claras. Ele deve expressar-se
com espontaneidade, para que o cliente possa encarnar esse Eros.
Possa recebê-lo de volta, mais amadurecido, e sustentar no continente
corporal e psíquico sua manifestação.
Para finalizar cito um texto de Vernant que nos faz retornar à
importância da narrativa e da escolha da hermenêutica, como própria do
indivíduo que a narra e a interpreta.

O relato mítico, por sua vez, não é apenas, como texto poético,
polissêmico em si mesmo, por seus planos múltiplos de significação.
Não está fixado numa forma definitiva. Sempre comporta variantes,
versões múltiplas que o narrador tem à sua disposição, e que escolhe
em função das circunstâncias, de seu público ou de suas preferências
(Vernant, 2000, p 13.)
4. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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VERNANT, J.P - O Universo, os Deuses, os Homens. Companhia das Letras,
São Paulo, SP, 2000