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Resenh

de livr
Resenhas
de livros
Resenhas

a se acumula nas ruas e o odor passa


a não mais servir como um marcador
social.
Na sequência, após crises de pânico e
glutonia, as pessoas perdem o paladar.
Restaurantes fecham e chefes de co-
zinha perdem sua função. O próprio
personagem de Ewan Macgregor, que
faz um chefe de cozinha, exemplifica
a angústia gerada pela falta do paladar.
Como distinguir o vinho bom do vina-
gre? Como e o que cozinhar para pes-
soas que perderam o paladar e o olfa-
to? As regras e padrões da alta culinária
deixam de ter valor.
Em seguida, após um surto incontrolá-
vel de raiva, as pessoas perdem a audi-
ção e se tornam mais abusivas. Por fim,
ARCHAEOLOGY AND THE SENSES. perdem a visão após uma explosão ge-
HUMAN EXPERIENCE, MEMORY neralizada de alegria. Pode-se imaginar
AND AFFECT, editado por Yannis Ha- o caos com o mundo todo perdendo a
milakis. Cambridge: Cambridge Uni- visão ao mesmo tempo. Perdemos to-
versity Press, 2013. dos os sentidos, mas o tato permanece.
Justamente aquele sentido tão criticado
José Roberto Pellini na ocidentalidade por ser animalesco,
Laboratório de Arqueologia Sensorial, subjetivo e pecaminoso (Pellini 2014).
Departamento de Arqueologia, Uni- O mais interessante do filme, em mi-
versidade Federal de Sergipe nha opinião, é observar como as pes-
soas passam a se dar conta dos senti-
Recentemente vi um filme chamado dos somente após a perda deles. Tente
Perfect Sense, estrelado por Eva Green e se imaginar por um instante sem seus
Ewan MacGregor. Ele conta a história sentidos. Não apenas sem a visão, mas
de um casal que enfrenta as crises de- sem o tato, sem a audição, o olfato, o
sencadeadas por um vírus que se espa- paladar, sem o senso de movimento,
lha pelo globo fazendo com que os se- sem o senso de temperatura. Qual a
res humanos percam seus sentidos, um sensação? Desesperadora não é?
após o outro. O primeiro sentido a ser Sem nossos sentidos não apreendemos
perdido é o olfato. Após um ataque de o mundo, não nos envolvemos, fica-
choro incontrolável, as pessoas se dão mos distantes, isolados. Sem eles so-
conta de que perderam a habilidade de fremos. Nossa mente perde a referên-
reconhecer cheiros. Com isso, o lixo cia, pois é através de nossos sentidos

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que interpretamos e nos situamos no sentidos são educados criam estruturas


mundo, é através deles que formamos para ação e interpretação do mundo
memórias de paisagens e objetos, que que oferecem e regulam possibilidades
criamos e damos formato a discursos e aos indivíduos. Sendo assim, a manei-
narrativas, experimentamos o mundo, ra pela qual as pessoas utilizam e en-
tornamo-nos o que somos e construí- tendem seus sentidos é culturalmente
mos nossa própria identidade. contingente.
Mas, a despeito da importância que Mas se os sentidos são assim tão im-
os sentidos têm em nossa vida diária, portantes, por que a Arqueologia ain-
damos pouca importância a eles, ven- da tem grande resistência a pensar nos
do-os apenas como uma ferramenta sentidos como um campo de trabalho?
fisiológica. Mas eles não são apenas Segundo Hamilakis em seu livro Archa-
uma resposta fisiológica aos estímulos eology and the Senses: Human Experience,
do mundo, também são habilidades Memory and Affect, publicado pela Cam-
encorpadas, educadas e desenvolvi- bridge em 2013, o porquê da Arqueo-
das como parte da vida diária (Classen logia dos Sentidos ainda estar em sua
1997, Howes 2005, Synnot 1993, Smi- infância pode ser encontrado em dois
th 2007). aspectos.
Assim como aprendemos o que é ser Em primeiro lugar, normalmente se
homem ou mulher, o que é ser cató- assume que a experiência sensorial
lico, protestante ou budista, o que é é muito efêmera e imaterial para ser
ser rico ou pobre, capitalista ou anar- abordada pela Arqueologia. De acor-
quista, aprendemos o que são e para do com o autor, isso é uma incoerên-
que servem os sentidos. Aprendemos cia, visto que a experiência sensorial é
que o certo é não tocar nas pessoas, é material e requer a materialidade a fim
não falar alto, é mascarar e disfarçar os de ser ativada. Sendo assim, já que os
odores pessoais. Aprendemos que o traços materiais das experiências sen-
certo é comer determinados pratos e soriais do passado e do presente estão
não outros e que os cheiros fortes es- todos ao nosso redor, a Arqueologia
tão associados ao desleixo, à pobreza e deveria estar em posição privilegiada
às doenças. para explorar a sensorialidade e con-
No ocidente, aprendemos que o tato, tribuir para uma maior discussão sobre
o olfato e o paladar estão ligados à lu- as práticas encorpadas e seus efeitos
xúria e ao pecado, e que a visão e a au- sociais.
dição são os sentidos da racionalidade, Em segundo lugar, a própria trajetória
da verdade. Fomos educados a acredi- da Arqueologia como disciplina cientí-
tar que o civilizado é aquele que con- fica favorece processos de interpreta-
trola seus sentidos e que o selvagem é ção que são visuais e não consideram
aquele que se rende aos apelos do cor- os demais sentidos. Hamilakis defende
po e, desta maneira, valoramos o “Eu” que, embora não devamos pensar no
e o “Outro”. A maneira pela qual os modernismo como um bloco mono-

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lítico, nem na Arqueologia como uma dentais podem valorizar outras moda-
disciplina estática, podemos pensar lidades sensoriais.;
que a versão dominante da Arqueo- b) que a experiência sensorial é multi-
logia modernista ocidental recai sobre facetada e age em conjunto.
uma estrutura filosófica e social que
sistematicamente: denigre a experiên- Neste contexto, Hamilakis argumen-
cia sensorial e reafirma a hierarquia ta que o ponto de partida para uma
sensorial aristotélica com seus sensos Arqueologia dos Sentidos poderia ser
uma reflexão sobre o próprio papel do
superiores e inferiores.
pesquisador e da ciência arqueológica,
Conforme Thomas (2009), a emergên- tomando por base: a interrogação dos
cia, durante o século XVIII, da visão modelos sensoriais do pesquisador,
como sentido principal no ocidente, sua educação sensorial, estruturas de
não representou apenas a emergência socialização dentro de modos específi-
de uma preferência cultural por um cos de interação corporal e conduta no
senso específico, mas uma situação na mundo; a análise dos sentidos em nos-
qual uma concepção particular e restri- sa disciplina; análise dos processos de
ta de visão se tornou o modo aprova- socialização e incorporação das infor-
do de apreender a realidade e produzir mações dentro do aparato arqueológi-
regimes de verdades. Esta maneira de co (aparato formado durante a moder-
ver o mundo implicava em uma distin- nidade ocularcentrista) e seus regimes
ção do mundo físico, inerte das coisas corporais e sensoriais dominantes.
isoladas e o mundo interior do pensa-
Segundo Hamilakis, não nos damos
mento.
conta normalmente de que a Arqueolo-
Verdade, realidade e objetividade pas- gia vive uma situação no mínimo para-
saram a ser construídas em termos doxal, pois há, tanto em campo quanto
visuais e, embora os cientistas sociais no laboratório, um grande engajamen-
hoje estejam, em sua maioria, cons- to corporal, sensorial, por exemplo, no
cientes da construção problemática da manusear sedimentos, artefatos, ferra-
visão como sentido da razão, a visão mentas, no ato de fotografar, desenhar,
permanece nosso instrumento episte- se movimentar, experimentar o gosto
mológico e ontológico mais penetrante de sedimentos etc., e o fato de estas
(Ouzman 2005). A despeito da conve- práticas terem sido criadas a partir do
niência analítica, o foco sobre um úni- discurso e do aparato da modernidade,
co sentido ignora dois fatos: o que torna os sensos estáticos e dis-
a) que o modelo sensorial com seus pensáveis.
cinco sentidos autônomos pode não Este aparato transforma a fisicalidade
ser o modelo mais apropriado para o dos objetos em narrativas sem alma,
entendimento das experiências senso- sem sangue, sequências abstratas e
riais do passado, desde que evidências exibições desencorpadas destinadas
históricas, etnográficas, antropológicas exclusivamente para serem aprecia-
têm demonstrado que grupos não oci- das pela observação distanciada. Ao

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trabalhar com os sentidos e com sua radas por meio de interações sensoriais
significação, a Arqueologia dos Senti- e é por isso que Seremetakis (1994)
dos, segundo Hamilakis, oferece-nos a defende que a memória pode ser con-
possibilidade de confrontar o ocular- siderada como um metassenso coleti-
centrismo da disciplina. vo que ativa e estrutura o tempo e a
A Arqueologia dos Sentidos, de acordo experiência. Os sentidos são, portanto,
com Hamilakis, não pode ser desenvol- forma de produção de lembrar e es-
vida separadamente das arqueologias quecer a materialidade. Memórias são
do lembrar e do esquecer, pois nossa geradas nos corpos dos sujeitos crian-
experiência sensorial no mundo nun- do estratigrafias sensoriais complexas.
ca é um simples contato dos sentidos Como defende Hamilakis, se cada ex-
periência sensorial carrega dentro de si
com as materialidades presentes, afinal
o peso mnemônico de inúmeras outras
todas as nossas experiências estão im-
experiências, então a nossa tentativa de
pregnadas de memórias e imagens que
evocar experiências sensoriais de ou-
completam e são completadas confor-
tras pessoas no passado torna-se ainda
me vamos interpretando o mundo.
mais complicada. Sentidos e memórias
Como diria o fenomenólogo Henri Ber- são assim contingentes, tanto do ponto
gson (1999), não há nenhuma percep- de vista histórico quanto cultural.
ção que não esteja cheia de memórias.
A proposta da Arqueologia Sensorial,
As propriedades sensoriais da comida,
segundo Hamilakis, não é considerar os
por exemplo, são formadas tanto por
sentidos e a percepção sensorial como
nossas expectativas quanto por nossas
unidades autônomas, sua proposta é
memórias (Sutton 2011). Nossas expe-
pensar a experiência sensorial como
riências gustativas, ao se acumularem,
multifacetada e agindo em conjunto.
estabelecem padrões referenciais que
Os sentidos são habilidades ativas e
são ativados pela memória. Ao mesmo
não passivas. O paladar da comida, o
tempo, estas experiências estabelecem
toque da roupa, o cheiro do corpo são
expectativas a cada nova refeição que
todos sentidos e valorados e é através
fazemos, tomando por base aquilo que
desta valoração que discriminações são
já conhecemos.
criadas. Os sentidos dizem respeito à
Halbwachs (2006) salienta que a mais individualidade. Quem somos, depen-
solitária memória é, de fato, social, de do comportamento deles e de nosso
desde que ela seja estimulada e forma- corpo. Como nós nos sentimos parte
da por pessoas, objetos e instituições. ou não de uma unidade depende de
Relembrar é um processo coletivo, um como concebemos nós mesmos e os
canal de comunicação, através do qual outros.
nós formamos nossa interação com o Hamilakis em seu livro salienta que, ao
“outro” e com o mundo. trabalhar com os sentidos e as mate-
Se lembrar e esquecer são essencial- rialidades, a Arqueologia Sensorial não
mente experiências coletivas, devemos tenta reconstruir o passado e a experi-
destacar que essas experiências são ge- ência sensorial do passado nem é uma

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tentativa para entender o sentir ou Seeing Beyond Material Culture as


como as pessoas sentiam no passado, Text, Anais do Congress Seeing the Past:
muito menos é uma tentativa de repro- Building Knowledge of the Past and Present
duzir no presente as sensações passa- through Acts of Seeing. Stanford, Estados
das. Ela não tenta reproduzir o gosto Unidos.
da carne assada, o cheiro do perfume, Pellini, J. 2014 Redomas de Vidro: Re-
o som das harpas, nem tenta trazer de domas de vidro: relações entre tato,
volta as emoções sentidas, nem tenta cultura material e práticas de institucio-
saber se o gosto da carne assada consu- nalização. Revista de Arqueologia Pública.
mida em Ágios Konstantinos é similar (no prelo)
ao gosto da carne que consumimos em
Luxor ou se o cheiro de um determi- Seremetakis, C 1994. The Senes Still: Per-
nado perfume era sentido da mesma ception and Memory as Material Culture in
maneira que é sentido nos dias de hoje. Modernity. Chicago e London: Universi-
ty of Chicago Press.
O que a Arqueologia Sensorial tenta
entender é como os sensos auxiliavam Smith, M. 2007. Sensing the Past. Seeing,
na criação de uma imagem de mundo, Hearing, Smelling, Tasting and Touching in
como os sentidos estruturam ou es- History. Berkley: University of Califor-
truturavam a realidade em um deter- nia Press.
minado contexto sociocultural, como Sutton, D. 2011. Memory as a Sense: A
os indivíduos construíram sua própria Gustemological Approach. Food, Cultu-
história, identidade e memórias através re and Society, 14(4): 468-475.
da experiência sensorial da matéria. Synnott, A. 1993. The Body Social: Sym-
Por tudo isso, se alguém me pedisse bolism, Self and Society. London e New
para resumir o novo livro de Hamilakis York: Routledge.
em uma frase, eu diria: Um livro bom, Thomas, J. 2009. On the ocularcen-
vindo em boa hora. trism of archaeology, in Archaeology and
the Politics of Vision in a Post-Modern Con-
text. Editado por Thomas, J. e V. Jor-
REFERÊNCIAS ge, pp. 1-12. Cambridge: Cambridge
Bergson, H. 1999. Matéria e Memória. Scholar’s Press.
São Paulo: Martins Fonte.
Classen, C. 1997. Foundations for an
Anthropology of the Senses. Internatio-
nal Social Science Journal 153: 401-420.
Halbwachs, M. 2006. A memória coletiva.
São Paulo: Centauro.
Howes, D. 2005. Empire of Senses: The
Sensual Culture Reader. Berg: Oxford.
Ouzman, S. 2005. Prose has its Cons.

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Museu Arqueológico de Sambaqui de


Joinville (MASJ). Conta com a colabo-
ração de estudiosos como Pedro Paulo
Funari, Marcia Bezerra, Amanda Tojal,
Maria Bruno, Flávia Souza, Giane Sou-
za, Fabiana Comerlato e Carlos Alber-
to Costa.
O prefácio do livro foi escrito por
Elizabete Tamanini, cujo título é
“Educação em museus como anún-
cio e resistência popular: o desafio
da construção de política pública”.
Nesse breve texto, a pesquisadora
apresenta alguns pontos, conside-
rados necessários para que se tenha
uma dimensão do que podemos re-
fletir para além dos textos que o lei-
tor irá se deparar na obra. Tamanini
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E AR- aborda questões desde a vinculação
QUEOLOGIA PÚBLICA: EXPERIÊN- entre patrimônio social e política pú-
CIAS E DESAFIOS, organizado por blica, perpassando pela educação po-
Gerson Machado, Flávia Cristina An- pular (segundo a visão do educador
tunes de Souza e Judith Steinbach. Ita- Paulo Freire), direitos humanos até
jaí: Casa Aberta, Prefeitura Municipal, as experiências e criação de políticas
Fundação Cultural, Museu Arqueoló- públicas que visam também a uma
gico de Sambaqui, 2013. educação não formal, valorizando e
incluindo os espaços museológicos
Carlúcio de Brito Baima e a relação que pode ser estabelecida
Mestrando em Preservação do Patri- com a Educação Patrimonial.
mônio Cultural (PEP) no Instituto do Essas questões são lançadas pela au-
Patrimônio Histórico e Artístico Na- tora para que possamos discutir sobre
cional. os desafios que permeiam a educação
nos museus, sua potencialidade e pos-
O livro Educação Patrimonial e Arqueolo- sibilidades de diálogo e construção de
gia Pública: experiências e desafios traz re- conhecimentos múltiplos, visto que
flexões sobre assuntos que hoje envol- não são somente o educador, pesqui-
vem a Educação nos Museus e sobre sador ou gestor que ditam o caminho
Arqueologia Pública. A publicação foi ou normativas, mas compõem junto à
organizada por Gerson Machado, Flá- sociedade uma parceria na difusão do
via Cristina Antunes de Souza e Judith conhecimento e preservação do patri-
Steinbach, pesquisadores ligados ao mônio cultural.

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O MASJ é uma dessas instituições tante diálogo que deve ser mantido en-
que desde 1972, ano da sua fundação, tre profissionais/pesquisadores ligados
visa colocar em prática “a divulgação aos museus e/ou instituições de cultu-
do patrimônio arqueológico aos mais ra com a sociedade.
distintos públicos” (2013:19). Segun- Sendo assim, optamos por resenhar a
do os organizadores da publicação, obra em quatro momentos. O primeiro
muitas estratégias já foram lançadas, diz respeito aos dois textos iniciais, “As
deixadas de lado e repensadas, sem- futuras gerações têm direito à herança
pre visando a melhor harmonia entre arqueológica? Premissas e desafios dos
o espaço museológico e a comunidade processos de musealização” e “Ação
circunvizinha ao museu e demais sítios educativa inclusiva e comunicação mu-
arqueológicos existentes no município seológica: mudança de paradigmas”,
de Joinville. O MASJ continua nessa escritos respectivamente pelas museó-
constante busca em compartilhar essas logas Maria Bruno (Museu de Arque-
experiências, além de refletir e discutir ologia e Etnologia da Universidade de
sobre os desafios que dizem respeito São Paulo) e Amanda Pinto da Fonse-
ao patrimônio cultural. Salientado pe- ca Tojal (Coordenadora do programa
los organizadores na apresentação des- Educativo para Públicos Especiais na
sa publicação, a coletânea é fruto dos Pinacoteca do Estado de São Paulo).
anos de trabalho e dedicação para com O ponto em comum entre estes artigos
o patrimônio. Sem sombra de dúvidas, é a temática da museologia. As autoras
esta obra atenderá as expectativas e entendem que o espaço museológico é
tornará mais límpido o horizonte de importante na fomentação de políticas
trabalho da Educação em Museus e na públicas que considerem a perpetuação
sua aproximação com a perspectiva da do material exposto, bem como da sua
Arqueologia Pública. apropriação e interpretação por parte
Adentrando a estrutura principal da do público visitante.
coletânea composta por oito artigos, a No texto da Maria Bruno, a análise é
obra como bem apontada no seu título direcionada para o material arqueoló-
se divide entre o compartilhar experi- gico, apresentando proposições e de-
ências e refletir sobre desafios atrela- safios no que tange a preservação da
dos ao patrimônio cultural. Como a cultura material, tendo como suporte a
iniciativa parte de integrantes e profis- museologia. O reduzido diálogo entre
sionais que já atuaram junto ao MASJ, a arqueologia e museologia acarretam
debates que envolvem Museologia, problemas quanto a sua conservação,
Educação Patrimonial e Arqueologia bem como da garantia de que as ge-
serão recorrentes. Contudo, o leitor rações futuras possam ter o direito de
encontrará também discussões acerca também usufruir das possibilidades de
da construção da memória social, das apropriação e interpretação que essa
políticas públicas de inclusão social ao cultura possa oferecer. A abordagem
espaço museológico, entre outros no- da “pedagogia museológica” é vista
vos paradigmas que desafiam o cons- pela autora como ferramenta de grande

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potencial na colaboração das medidas nia. O terceiro artigo, “Arqueologia


preservacionistas do material arqueo- Pública na América Latina” de autoria
lógico, sua capacidade de comunicação dos arqueólogos Pedro Paulo Funari e
e integração no processo educacional. Marcia Bezerra, apresenta um pano-
Já Amanda Pinto da Fonseca Tojal rama da formação e crescimento das
trata, em seu artigo, da comunicação pesquisas sobre Arqueologia Pública
museológica ligada à educação formal na América Latina. Para os autores, Ar-
e não formal, visando os programas queologia Pública é mais do que uma
de educação inclusiva voltados para aproximação entre o que é produzi-
os museus e instituições de cultura. do pela arqueologia e o público, mas
Entretanto, a contribuição analítica da como um campo reflexivo e ativo no
autora está em incitar a busca de pro- que concerne a pensar o papel do dis-
cedimentos adequados que suscitem curso arqueológico e seu compromisso
a percepção multissensorial do objeto ético-político no desenvolvimento das
cultural. Dialogando com teóricos que pesquisas. (Bezerra, Funari 2013:92)
trabalham com o tema da educação A intenção dos autores é sensibilizar
inclusiva, ela apresenta ao leitor pers- e despertar reflexões na comunidade
pectivas de como aplicar estratégias arqueológica no sentido de perceber
para a composição de uma expogra- que, mesmo existindo particularidades
fia, a partir de uma concepção con- e diferenças socioculturais no contexto
temporânea (modelo emergente), cuja latino-americano, é necessário atentar
importância é a interação do público também para as semelhanças, dificul-
com os objetos e espaços. Portanto, dades e desafios compartilhados por
o ponto de partida na busca por esse todos. Por vezes, para nós brasileiros,
modelo emergente consiste em encon- a categoria América Latina parece es-
trar formas que façam com que todos tranha, distante, como se não houves-
os tipos de públicos sejam atendidos e se “traços comuns” na nossa história,
integrados as atividades museológicas. bem como na contemporaneidade.
Além da inclusão do público especial, Procurando contextualizar a discussão
é importante, por meio desse modelo, sobre Arqueologia Pública na América
possibilitar com que todos tenham a Latina, é apresentada a perspectiva da
oportunidade de usufruir das diversas Arqueologia Social (praticada por pro-
sensações que o espaço museológico fissionais de alguns países latino-ame-
pode proporcionar. ricanos) que tinha na sua essência em
O segundo momento da obra compre- componentes teóricos semelhantes à
ende o terceiro, quarto e quinto artigo. Arqueologia Pública: alcançar públicos
Os elementos de conteúdo e análise distintos, a exemplo das universidades,
em comuns nos referidos textos são a comunidades não científicas e escolas.
Arqueologia Pública e sua relação com Tal contextualização mostra como as
a Educação Patrimonial, assim como reflexões desenvolvidas pela Arqueo-
alguns relatos focando a educação não logia Social contribuíram para fomen-
formal como um exercício de cidada- tar parâmetros de pesquisa e discussão

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no âmbito da Arqueologia Pública em des de socialização e preservação do


nosso país. patrimônio arqueológico.
O quarto e quinto textos complemen- O terceiro momento abrange os arti-
tam a discussão iniciada acima, pois já gos seis e sete, “Museu e patrimônio
articulam Arqueologia Pública a Edu- cultural: construindo um projeto de
cação Patrimonial. Mesmo já sendo Educação Patrimonial em área rural” e
pincelada no texto anterior, em que se “Impressões e Apreensões Polifônicas:
explana o avanço das pesquisas arque- a estação da memória sobre múltiplos
ológicas no Brasil e também da legisla- olhares”, respectivamente escritos pelas
ção que prevê a preservação e conser- especialistas culturais Judith Steinbach
vação deste patrimônio, aqui ela toma e Giane Souza. O sexto artigo traz um
uma dimensão mais interessante, pois relato das experiências com o curso de
apresenta uma análise das experiências formação para professores que atuam
bem sucedidas de trabalho em conjun- na área rural de Joinville, com o projeto
to de arqueólogos e demais profissio- Conhecendo para Ensinar. A ideia da
nais inseridos nos programas de Edu- autora foi refletir sobre o patrimônio
cação Patrimonial bem como, mostra cultural nas áreas rurais, além dos ins-
que as pesquisas sobre Arqueologia trumentos metodológicos que podem
Pública possibilitam o entendimento ser utilizados no ensino formal, visan-
de outras maneiras de apropriação do do potencializar o reconhecimento das
patrimônio arqueológico por um indi- diversas referências culturais. A inten-
víduo ou população. ção em conhecer mais a fundo a área
Os artigos “A preservação do patri- rural possibilita compreender os laços
mônio arqueológico em Joinville/ sociais e de memória ainda existentes
SC: liquefações contemporâneas”, em relação à cultura material, aos sabe-
do historiador e educador de museu res e fazeres e manifestações culturais.
Gerson Machado, e “Educação Patri- No artigo seguinte, são avaliadas as
monial e Arqueologia Pública: a im- possibilidades para a execução de pro-
portância do registro oral para a pre- gramas de Educação Patrimonial na
servação do patrimônio”, de autoria Estação da Memória, localizada na
da historiadora e educadora Flávia cidade de Joinville. A autora leva em
Cristina Souza concluem este segun- consideração para sua análise as narra-
do momento do livro. O ponto de tivas e lembranças que estão associadas
destaque nestes textos é a possibili- à antiga Estação Ferroviária de Joinvil-
dade que o leitor tem de conhecer es- le. Inaugurada em 1906, a estação mu-
tratégias de preservação de sítios ar- dou o cotidiano e a dinâmica da cidade.
queológicos, tendo a frente o MASJ e Hoje a Estação funciona como espaço
o relato de alguns entrevistados que, cultural e museológico, permitindo um
em parceria com esta instituição ou conhecimento mais profundo da histó-
por iniciativa individual (caso do ci- ria da cidade e das relações estabeleci-
dadão da cidade de Joinville, Belmiro das no momento em que manteve suas
Thiesen), puderam praticar ativida- atividades.

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A grande importância desses dois úl- às Arqueologia de Contrato. O objeti-


timos textos citados consiste em mos- vo dos autores é apresentar o planeja-
trar as possibilidades de se conhecer e mento, a metodologia e os resultados
valorizar memórias e práticas das quais das ações educativas realizadas nas
muitas vezes foram e são colocadas de obras rodoviárias da Bahia. Ao longo
lado, em decorrência, por exemplo, da da coletânea, é recorrente a observação
institucionalização dos espaços de me- de que as pesquisas arqueológicas reali-
mória (museus), onde normalmente se zadas atualmente no país são feitas no
contempla a história tradicional/ofi- âmbito do licenciamento ambiental. A
cial, sendo quase inexistente o diálogo portaria 230/2002 do MinC/IPHAN
e parceria com a sociedade, o que leva foi criada para contemplar as licenças
a desconsideração ou esquecimento de ambientais em consonância com estu-
uma série de referências culturais. O dos preventivos de arqueologia, já que
pesquisador pode contribuir para que os empreendimentos públicos e parti-
o indivíduo ou comunidade criem me- culares podem danificar o patrimônio
canismos de reconhecimento das suas arqueológico. Além disso, é previsto
próprias histórias e referências cultu- nessa portaria o desenvolvimento de
rais, como as comunidades residentes programas de Educação Patrimonial.
das áreas rurais. O curso de formação O interessante desse artigo é fazer pen-
para professores citado por Judith sar de modo responsável a Educação
Steinbach é um exemplo de como pro- Patrimonial nos trabalhos de Arque-
fissionais ligados à área do patrimônio ologia de Contrato. É importante o
(arqueólogos, historiadores, educa- compartilhamento dessa experiência,
dores, museólogos) podem colaborar pois expande as perspectivas e ferra-
com os educadores da zona rural para mentas que podem ser utilizadas pelo
que eles tenham autonomia e constru- pesquisador que trabalha diretamente
am seus discursos, ferramentas e polí- no âmbito da Arqueologia de Contra-
ticas de cidadania quanto à preservação to. Para que o programa de Educação
e socialização do patrimônio cultural Patrimonial não se transforme em uma
nas mais diversas dimensões. simples atividade educativa, é funda-
Por fim, o oitavo texto de autoria dos mental que o profissional elabore pro-
arqueólogos Carlos Alberto Costa e postas que se adequem não apenas aos
Fabiana Comerlato, cujo título é “Pro- prazos de cumprimento das atividades
grama de Educação Patrimonial do de campo, mas também as necessida-
MAE/UFBA: experiências e reflexões des e principais características históri-
sobre as práticas de socialização de da- cas, sociais e econômicas da população
dos arqueológicos associados às obras na qual está realizando seu trabalho.
rodoviárias na Bahia”, expõe a neces- A coletânea tem uma contribuição
sidade de uma maior discussão entre valiosa não apenas para aqueles inte-
a comunidade de arqueólogos quanto ressados em conhecer e adentrar nas
à responsabilidade na execução das reflexões e discussões que permeiam a
ações de Educação Patrimonial ligadas Educação Patrimonial e a Arqueologia

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Pública, mas auxilia também pesquisa- Rosangela Marques de Britto


dores e estudiosos da área a dividirem Professora do Instituto de Ciências da
e ampliarem as abordagens quanto à Arte e Doutoranda do Programa de
aplicação das estratégias de sociali- Pós-Graduação em Antropologia da
zação e preservação do patrimônio. Universidade Federal do Pará
Sem sombra de dúvidas, muitos são
os desafios que permeiam o patrimô-
nio. Entretanto, as experiências aqui Joël Candau é antropólogo, professor
apresentadas, as metodologias aplica- da Universidade de Nice Sophia An-
das e o cuidado com o planejamento tipolis (França) e também diretor do
dos projetos, sempre procurando levar Laboratório de Antropologia e Socio-
em consideração a participação da po- logia, Memória, Identidade e Cognição
pulação, mostram exemplos de que é Social (LAMIC). Dentre outros livros,
possível alcançar patamares mais eleva- é autor de Mémoire et Identité (Memória
dos no que diz respeito à valorização e e Identidade), publicada em 1998 e
socialização do nosso patrimônio, bem cuja versão em português foi publicada
como de dar visibilidade às atividades pela primeira vez em 2011 e reedita-
de arqueologia muito comuns hoje no da em 2012. O autor refere-se a este
Brasil. livro como um ensaio de antropologia
da memória e identidade, ou seja, o ob-
jeto de análise do livro gira em torno
de “como passamos de formas indivi-
duais a formas coletivas da memória e
identidade” (p.11).
O texto está estruturado em nove par-
tes: introdução, preâmbulo, seis capí-
tulos e conclusão. Não irei detalhar o
texto pela sequência da narrativa, mas
pontuarei as ideias principais expostas
pelo autor. A leitura da obra deixa cla-
ro que os autores de base para as refle-
xões do antropólogo são os franceses
Maurice Halbwachs – em relação aos
quadros sociais da memória –, Pierre
Nora, quanto aos lugares da memória
–, Pierre Bourdieu – no que se refere
ao conceito de habitus –, Gaston Ba-
chelard –, em relação à análise do tem-
po a partir da perspectiva da dialética
MEMÓRIA E IDENTIDADE, editado da duração.
por Joël Candau. São Paulo: Contexto, Os estudos expostos no livro Memó-
2012 ria e Identidade constituem uma parte

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Resenhas

do seu livro intitulado Antropologia da nhecimento. Essa memória é produzi-


Memória, publicado em 1996, e versam da também pelo esquecimento, assim
sobre uma perspectiva antropológica, como pode se beneficiar de extensões
sobre as inter-relações entre o indivi- artificiais que se originam do fenôme-
dual e o coletivo no compartilhamento no geral de expansão da memória.
de práticas, representações, lembranças A metamemória é uma representação re-
e crenças. Para o autor, a memória é a lativa a essa faculdade, já a protomemória
faculdade primeira que alimenta a iden- e a memória em si, dependem direta-
tidade. Neste sentido, a memória é uma mente da faculdade da memória. A
reconstrução continuamente atualizada metamemória é a representação que cada
do passado e a identidade é uma cons- indivíduo faz de sua própria memória,
trução psíquica e social, acontecendo, dimensões que remetem ao modo de
de certa maneira, no quadro de uma afiliação de um indivíduo a seu passa-
relação dialógica com o Outro:
do. Ela é, “portanto, uma memória rei-
A memória, ao mesmo tempo em vindicada, ostensiva” (p. 23).
que nos modela, é também por
nos modelada. Isso resume per- No âmbito de um grupo ou socieda-
feitamente a dialética da memória de, os estatutos destes termos mudam
e da identidade que se conjugam, ou tornam-se inválidos. Em relação
se nutrem mutuamente, se apoiam aos grupos, lançamos mão da memória
uma na outra para produzir uma propriamente dita e da metamemória. A ex-
trajetória de vida, uma história, pressão memória coletiva é uma forma de
um mito, uma narrativa (p.16). metamemória; o coletivo é um enunciado
O autor decompõe o conceito de me- relativo a uma descrição de um com-
mória, a partir da perspectiva individu- partilhamento hipotético de lembran-
al, em três níveis: protomemória, memória ças. A identidade (cultural ou coletiva)
da evocação (ou a memória propriamente será sempre uma representação próxi-
dita) e a metamemória. A protomemória é a ma de semelhança ou de similitude.
nomeada memória de baixo nível, rela- O autor apresenta vários termos
cionada à memória social incorporada. como “mnemotropismo” contempo-
É uma memória procedural: o que Ber- râneo, que é uma tendência de super-
gson denominou de “memória-hábito” valorização da memória e do passado
e o que Bourdieu chamou de habitus, nas sociedades moderno-industriais.
uma experiência incorporada e uma A “iconorreia” é a profusão de ima-
presença do passado ou no passado. A gens na contemporaneidade. Outras
protomemória “constitui os saberes e as expressões utilizadas pelo autor são
experiências mais resistentes e mais as “retóricas holísticas”, sendo a re-
bem partilhadas pelos membros da so- tórica como técnica de persuasão, e o
ciedade” (p. 22). termo “holístico”, no sentido expos-
A memória propriamente dita ou a memó- to por Louis Dumont, que valoriza a
ria de alto nível é essencialmente uma totalidade do social e que difere do
memória da recordação ou do reco- “individualismo”, ideologia que valo-

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Resenhas

riza o indivíduo concebido como ser no fluxo do tempo, que simultanea-


moral e autônomo. mente o altera.
As “retóricas holísticas” são “expres- Ademais, a “memorialização do mun-
sões, figuras que visam designar con- do” pressupõe o seu ordenamento, em
juntos supostamente estáveis, duráveis particular da domesticação ou estru-
e homogêneos (...) como isomorfos” turação do tempo, pois sem as balizes
(p. 29). Essa expressão aplicada à me- temporais, que são principalmente a
mória e à identidade é analisada em re- origem e o acontecimento, nenhuma
lação aos graus de pertinência ou não identificação é possível.
de sua aplicação, em relação às repre- A memória interpretada no âmbito in-
sentações factuais e às representações dividual conduz à definição da “totali-
semânticas, chegando a dois tipos de zação existencial”, que é um ato de me-
memórias: a forte e a fraca. mória que investe de sentidos os traços
A memória forte é massiva, coerente, mnésicos ou mnêmicos, que são as for-
compacta e profunda. Relacionada a mas como os estímulos se organizam
um grande grupo, o autor reporta-se na memória. Nestes atos de memória,
à memória organizadora. A memória a narração está no princípio da totali-
fraca é difusa, sem contornos defini- zação existencial, em que o tempo, se-
dos, pois é dificilmente compartilhada. gundo Paul Ricoeur (p.71), “torna-se
Após exemplificações etnográficas e tempo humano na medida em que é
argumentações, Candau afirma que não articulado de maneira narrativa”. Nes-
é mais pertinente descrever as relações te sentido, para Candau “lembrança, tal
entre memória e identidades à escala como ela se dispõe na totalização exis-
de grupos, mas sim adotar as retóri- tencial verbalizada, faz-nos ver que a
cas holísticas, termos como “memória memória é também uma arte da narra-
coletiva”, “identidade coletiva”, dentre ção que envolve a identidade do sujei-
outros. Caso sejam utilizados, deve ser to e cuja motivação primeira é sempre
uma aplicação muito localizada. a esperança de evitar nosso inevitável
O trabalho da memória realiza-se declínio” (p. 73). A lembrança difere
em três direções diferenciadas: a) do acontecimento passado, pois ela “é
memória do passado, referente aos uma imagem (imago mundi), mas que
balanços, às avaliações das recorda- age sobre o acontecimento (anima mun-
ções, das fundações e dos lamentos; di), não integrando a duração e acres-
b) memória da ação, relacionada num centando o futuro do passado” (p. 67).
presente evanescente; c) memória da Há a diferença entre o “tempo da lem-
espera, relativa aos projetos, às pro- brança”, que não é o passado, mas o
messas, às esperanças e aos engaja- futuro já passado do passado, que di-
mentos em direção ao futuro. Neste fere do “tempo vivido”. Neste sentido,
sentido, a relação que o humano tem é difícil lembrar-se de “um aconteci-
com o tempo é tridirecional, pois o mento passado sem que o futuro desse
ser humano constrói a sua identidade passado seja integrado à lembrança”

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(p. 66). Segundo Halbwachs (p. 94), o O patrimônio é constitutivo da meta-


tempo só tem realidade “na medida em memória. Ele contribui para a ilusão
que possui um conteúdo, quer dizer, holista, ou seja, a representação do
quando oferece uma matéria de acon- grupo de pertencimento como um
tecimentos ao pensamento”. Assim, o todo homogêneo, integrado e dotado
campo do memorável, que pressupõe de uma essência (Candau 2009: 43-58).
escolha e hierarquização dos aconte- O autor propõe o estudo das atitudes
cimentos é “mobilizado no quadro de antipatrimoniais de determinados gru-
estratégias identitárias se constituirá pos e tenta caracterizar as modalida-
a partir de um certo número de refe- des de patrimonialização (valor de uso
rências temporais, (...) em que o mais e valor patrimonial, e de uma relação
significativo é, de um lado, o momen- contemporânea com o passado, como
to qualificado como o de origem e, do nos informa Alois Riegl e Jean-Michel
outro, a experiência fenomenológica Leniaud, dentre outras modalidades),
do acontecimento”(p. 95). pois estas informam sobre as especifi-
cidades do jogo identitário.
No campo do memorável, tal como
produzido na sociedade francesa, está Na análise da passagem da memória e
relacionado aos nomeados lugares de da identidade das formas individuais
memória. Ao fazer um inventário dos às formas coletivas, o autor emprega o
lugares materiais e ideais nas quais a termo “jogo da memória e da identida-
memória trabalha, o autor acrescenta de”, o qual está relacionado ao proces-
os lugares de amnésia. Nesta questão, so de transmissão e recebimento, assim
o patrimônio é central – envolve mais como da fundação e da construção,
uma afiliação do que uma filiação, certa também envolvendo o esgotamento e
materialidade que é mais reivindicada o colapso das grandes memórias orga-
do que herdada, menos comunitária e nizadoras, que são o sinal de uma mul-
mais conflitiva. Então, neste sentido, tiplicidade de referências identitárias,
a força da memória dependerá da co- em benefício de memórias híbridas,
erência geral do campo memorável. A relativas a uma pluralidade de mundos
exteriorização da memória vai permitir e uma pluralidade de tempos.
a transmissão memorial. Educação, pa- O autor, seguindo Paul Ricoeur, argu-
trimônio, museus, arte, bibliotecas, me- menta sobre a “cultura de uma justa
moriais, monumentos – dentre outros memória” (p. 202). “A uma memória
– são expansão da memória humana, justa deveria corresponder uma iden-
ou seja, “são formas operacionais de tidade de igual qualidade” (p. 203). De
transmissão visando menos transmi- fato, para o autor, a “memória justa
tir uma memória que fazer entrar nas consiste em encontrar um equilíbrio
memórias a crença do corpo social em entre a memória do passado, a memó-
sua própria perpetuação, fé em raízes ria da ação e a memória da espera” (p.
comuns e um destino compartilhado, 212), que possa manter o equilíbrio
ou seja, uma consciência identitária?” entre um dever de memória e a neces-
(p. 106). sidade do esquecimento, em que o es-

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Resenhas

quecimento é ambivalente e necessário


à vida.
A antropologia da memória analisa as
formas como a memória se manifesta,
de maneira variável e de acordo com
os indivíduos, grupos e sociedades. É
papel do antropólogo “fazer o inven-
tário das novas formas com as quais se
revestem as memórias mutáveis, mó-
veis, eletivas, não tão grandes e menos
fortes que as de antigamente, mas sem-
pre vivas, tanto no presente como no
passado, em nossa sociedade como em
outras” (p. 194).
Enfim, a leitura deste livro possibilita
ao leitor adentrar nas reflexões, etno-
grafias e no campo conceitual-meto-
dológico dos jogos da memória e da
identidade, assim como a necessária
associação deste pensamento à cate-
goria de tempo, pois as categorias de AMAZÔNIA: REGIÃO UNIVERSAL E
identidades são inseparáveis dos senti- TEATRO DO MUNDO, organizado por
mentos de continuidade temporal. Willi Bolle & Edna Castro. São Paulo:
Globo, 2010.
Tissiano da Silveira
Referência
Doutorando em História, Universida-
Candau, J. 2009. Bases antropológicas de Federal de Santa Catarina, Florianó-
e expressões mundanas da busca patri- polis. Bolsista do CNPq
monial: memória, tradição e identida-
de. Revista Memória em Rede 1(1):43-58.
Disponível em http://lasmic.unice.fr/ Como pensar na Amazônia sem a ima-
PDF/candau-article-10.pdf. Acesso gem mítica construída em séculos de
em: 18 out. 2013. contato de forasteiros com a floresta e
seus habitantes? A proposta de Edna
Castro, Willi Bolle & Marcel Vejme-
lka, organizadores do livro multidisci-
plinar Amazônia: região universal e teatro
do mundo, é justamente entender esta
construção discursiva e assim perceber
uma região que vai além do discurso,
ou melhor, que tem seu próprio dis-
curso. Este palco proposto não à toa,

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Resenhas

a Amazônia desde Orellana desperta logia - quatro ensaios que procuram


interesse global, justifica a escolha dos dar voz e visibilidade aos habitantes
conceitos utilizados na publicação: re- da Amazônia.
gião universal e teatro do mundo, aqui Os organizadores de diferentes lugares
aplicados à Amazônia, foram tomados de trabalho - Amazônia, São Paulo e
de empréstimo de Goethe (a ideia de Alemanha – se encontram em um es-
literatura universal) e a Calderón (a me- paço, o livro em questão, que entende
táfora do Grande Teatro do Mundo). os problemas da Amazônia como de
O livro editado em duas versões, relevância universal e objeto de estu-
alemã e brasileira, é fruto de um se- do de diversas áreas de conhecimento.
minário promovido no âmbito do Edna Castro é Doutora em Ciências
congresso internacional “Knowled- Sociais, professora da Universidade
ge, Creativity and Transformation of Federal do Pará, foi coordenadora do
Societies” (KCTOS), que ocorreu em Núcleo de Altos Estudos Amazônicos
Viena no ano de 2007, com artigos (NAEA) e atua principalmente nos
de diversas áreas: história, geografia, seguintes temas: trabalho, Amazônia,
antropologia e etnologia, sociologia meio ambiente e políticas públicas.
e economia, literatura, comunica- Willi Bolle, professor titular de Litera-
ção e cultura. Segundo seus autores, tura na Universidade de São Paulo, fez
pensado como uma introdução mul- o doutorado em Literatura Brasileira
tidisciplinar às principais questões (na Universidade de Bochum/Alema-
ligadas à Amazônia. As três partes nha) com uma tese sobre a técnica nar-
do livro podem também, acredito rativa de Guimarães Rosa, suas pesqui-
eu, ser divididas em diferentes olha- sas tratam da modernidade no Brasil e
res: um olhar ante o exótico - o três na Alemanha, na intersecção da Litera-
ensaios iniciais discutem a visão do tura com a História. Marcel Vejmelka
estrangeiro sobre a Amazônia e seus tem doutorado em literatura com foco
moradores através de recortes sobre na América Latina, tradução e inter-
algumas figuras bastante representa- pretação (Português e Espanhol), ele
tivas dos séculos XVI e XIX e da pri- trabalha como assistente no Instituto
meira metade do século XX, são eles: de Línguas e Literaturas Românicas na
Orellana e Carvajal, Paul Ehrenreich, Universidade de Potsdam e é professor
o padre Tastevin e Curt Nimuendaju; convidado no Instituto Latino-Ameri-
um olhar para o passado - os cinco cano (LAI) da Universidade Livre de
ensaios que seguem tratam das dinâ- Berlim.
micas sociais, econômicas e políticas Apesar dos vários séculos que separam
da Amazônia contemporânea, mais a viagem de Orellana dos encontros
precisamente do Estado Brasileiro com indígenas dos outros europeus
sobre o desenvolvimento na região; apresentados no primeiro capítulo, há
um (re)olhar a Amazônia através da uma intenção em mostrar a construção
literatura e dos media, uma mediação do imaginário sobre a Amazônia desde
da culturas através da arte e da tecno- a mítica floresta guardada pelas mulhe-

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Resenhas

res guerreiras aos “estranhos” hábitos pelo etnógrafo e usado como expe-
indígenas descritos pelos etnógrafos. A diente para “soltar a língua” de suas
questão é que a floresta amazônica ain- fontes. Mas apesar desta postura, ele
da é vista como um espaço mítico pelo não deixou de reconhecer que essas
europeu e seus habitantes ora inferio- populações tinham criado uma cultura
rizados, ora idealizados, os quais são e organização social, além de mostrar
geralmente associados a indígenas e que o europeu perturbara suas vidas,
outras populações tradicionais, não le- esta mudança de pensamento o coloca
vando em consideração que as comuni- no momento da virada etnográfica em
dades estão cada vez mais urbanizadas relação à região.
e que buscam o desenvolvimento de
Já no século XX, Tastevin e Nimuen-
suas regiões, a pergunta talvez devesse
daju viveram entre indígenas, pesqui-
ser: qual o preço do desenvolvimento
sando suas línguas e cultura, como a
na Amazônia, ambiental e social?
etnógrafa Priscila Faulhaber diz, eles
Orellana fez parte da empresa colo- trabalhavam sob o signo de uma “ur-
nizadora das Américas, em busca de gência etnográfica”, percebendo que as
riquezas, que com o uso da força pode- populações estavam fadadas a desapa-
ria se apossar das terras e subjugar seus recer, para muitos indígenas, Tastevin
moradores. Derrotar as terríveis Ama- e Niemundaju eram “pais protetores”
zonas tem um caráter simbólico de do- e tinham mesmo uma ação tutelar e
minação do mundo natural – os índios paternalista.
fazem parte da natureza tal qual planta
e animais – e das barreiras à coloniza- O distanciamento dos mitos e fábu-
ção. Porém, Carvajal, que acompanhou las, dando lugar aos fatos científicos,
Orellana, relata uma informação notá- acentuou-se no séc. XIX, no relato
vel no que diz respeito ao povoamento, de Spix e Martius sobre a sua viagem
ele fala de diversas aldeias às margens pela Amazônia (1819 e 1820), o mito
do Amazonas que eram densamente do Eldorado foi considerado superado
povoadas, em contraste com relatos e, quanto às Amazonas, Martius é ca-
posteriores. Ele descreveu aldeias com tegórico: “Não acredito na existência
5 léguas (12,5 km) de extensão sem se- delas no passado, quer no presente”.
paração entre as casas, ele se maravi- Na historiografia mais recente sobre
lhou com uma cidade com torres altas, a região, segundo Willi Bolle, as visões
imensas colunas e esculturas de felinos. mitológicas estão sendo relembradas,
porque a colonização que tem marcado
Paul Ehrenreich é apresentado como
a Amazônia nas últimas décadas, pode
um representante, em certa medida,
do pensamento de superioridade eu- ser melhor compreendida por estas
ropeu que sempre balizou as escolhas chaves, a política do Estado reatualiza
dos forasteiros, os indígenas das pági- estes elementos nos seus discursos so-
nas de seu “diário” são feios, doentes bre a região.
e inclinados a vícios, principalmente a O filme citado no livro: Aguirre, a cólera
cachaça, o que apesar de ser criticado de Deus, de Werner Herzog, retoma o

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Resenhas

mito do Eldorado, apesar de não citar responderam sobre suas condições de


as Amazonas, resolve incorporar o pa- vida e perspectivas de futuro. As duas
dre Carvajal no roteiro como liberdade comunidades se diferenciam geográfi-
ficcional, demonstrando importância ca e historicamente, uma delas está às
do cronista. O Eldorado é reinventado, margens do rio Negro, é basicamente
o mito de riquezas escondidas na flo- extrativista, enquanto o assentamen-
resta amazônica que atraia europeus é to Presidente Figueredo, mais isola-
retomado como matriz ideológica que do, justamente pela falta do rio como
justifica a dominação da natureza e a meio, dependente da estrada, tem sua
transformação dela em produtos. Edna economia voltada para a pequena pro-
Castro mostra que esse imaginário mí- dução dos colonos. As diferenças vão
tico é representado por projetos me- se tornando maiores quando se per-
galomaníacos, como a fábrica da Jari gunta sobre a relação com o espaço,
Celulose, de Ludwig. sobre a percepção da devastação e so-
A Amazônia em certos discursos é bre o sentimento de pertencimento.
uma fronteira a se explorar no contí- A questão da territorialidade é impor-
nuo processo civilizatório, isso justi- tante nas discussões sobre preservação
fica a ideia do “vazio demográfico” e uso sustentável das florestas. Alfredo
a preencher e a marcha para o oeste, Wagner, da UFAM, discorre acerca do
programa de Getúlio Vargas (1937) processo inverso, o de desterritoriali-
que estava relacionado à expansão da zação como uma “agroestratégia” para
fronteira agrícola com um forte discur- incorporar terras aos grandes empre-
so nacionalista de integração. Juscelino endimentos econômicos, o trabalho do
retoma este discurso com a criação da antropólogo é focado nas chamadas
Belém-Brasília (2 mil km) e os milita- populações tradicionais: povos indíge-
res continuariam com esta perspectiva
nas, quilombolas, seringueiros, quebra-
de ligação da região por grandes eixos
deiras de coco, ribeirinhos e outros. A
rodoviários: Transamazônica, Cuiaba-
preocupação dele se justifica por ter se
-Santarem e Manaus-Porto Velho.
intensificado medidas que objetivam
Hoje, a estratégia-chave do planeja-
remover obstáculos jurídicos e políti-
mento estatal para a região é aumentar
cos a incorporação de novas extensões
sua vinculação aos mercados e promo-
de terra no mercado, ele lista alguns pe-
ver novas fronteiras de recursos em
rigos que podem levar ao aumento de
proveito na iniciativa privada.
terras ofertadas no mercado:
A pesquisa coordenada por Ulrike
- A redefinição da Amazônia Legal:
Tiemann-Arsenic mostra o interesse
que a Amazônia desperta em jovens dois projetos de lei que tramitam no
estrangeiros. Alguns estudantes de ge- congresso pretendem retirar da Ama-
ografia (Universidade de Tübingen) da zônia legal os estados do Mato Grosso,
Alemanha entrevistaram ribeirinhos e Tocantins e parte do Maranhão.
assentados em duas localidades próxi- - A redução da reserva legal dos imó-
mas de Manaus, cerca de 50 famílias veis rurais: projeto de lei que defen-

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Resenhas

de a diminuição de 80% para 50% a cidades e trazendo o progresso e de-


área de reserva legal na Amazônia. PL senvolvimento”.
6.424/2005 de autoria do senador Fle- Durante o governo Médici (1969-1974)
xa Ribeiro (PA). com o objetivo de atrair trabalhadores
- A liberação de crédito para quem rurais para a Amazônia, utilizava-se a
pratica crimes ambientais: cita o eco- ideia de uma “terra sem homens, para
nomista Mailson da Nóbrega, que em homens sem terra”, a região seria uma
artigo no Estado de S. Paulo, em 2008, solução para os conflitos de terra no
critica a postura de negar crédito. Nordeste e Centro-Oeste, aliado ao
- A redução da faixa de fronteira inter- discurso nacionalista: “integrar para
nacional: em 2006, o senador Sérgio não entregar”. Nos anos 1990, o dis-
Zambiasi (PTB-RS) apresentou PEC curso da mídia se torna denuncista com
(49/2006), reduzindo para 50 km a um tom ecológico: “tesouro verde”,
faixa de fronteira. Em 2007, a comis- tornam-se comuns as palavras-chaves:
são de constituição e justiça do senado desmatamento, proteção e preservação
aprovou a diminuição dos 150 km para da região. A partir de 1995, emerge a
os 50 km previstos na PEC, nos esta- necessidade das práticas preservacio-
dos do RS e MS, se ela for estendida nistas com base no discurso do desen-
para o MT, abriria um caminho para volvimento sustentável: o econegócio.
que fosse estendida a toda Amazônia. Este utiliza o empreendedorismo e ge-
- A privatização de terras públicas sem ração de renda como mecanismos de
licitação na Amazônia: foi aprovado no luta contra a pobreza.
Senado em 2008, a MP que amplia de Já na década de 1990, a Amazônia dei-
500 para 1500 hectares o tamanho de xa as temáticas da fronteira e de segu-
áreas públicas invadidas na Amazônia rança nacional, tornando um dos ve-
que podem ser privatizadas sem licita- tores da cooperação técnico-científica
ção. no cenário da globalização ecológica,
Os discursos sobre a Amazônia dos entre os fatores que contribuíram para
anos 1950 até a atualidade são trata- esta imagem estão a Eco-92 e o PPG7
das por Neusa Pressler, mostrando (Programa de Proteção das Florestas
como o discurso midiático está his- Tropicais do Brasil). Neusa Pressler
toricamente relacionado à temática enumera alguns programas e fundos de
ambiental: exótica, terra incógnita, cooperação internacional mais conhe-
eldorado, paraíso, natureza intoca- cidos: o Fundo para o Meio Ambiente
da. No campo político, o governo Global (GEF), Experimento de Gran-
produz um discurso a partir de seus de Escala Biosfera-Atmosfera (LB) e
planos e metas. Durante a constru- o PPG7, além de organismos de ativis-
ção da Belém-Brasília, o engenheiro mo transnacional: Greenpeace, World
Bernardo Saião era descrito como o Widelife Fund (WWF), Conservation
“último bandeirante, derrubando ár- International e Friends of the Earth
vores, rasgando a selva, construindo (FOE).

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Resenhas

Quanto às alternativas econômicas, – desde 1957 a cidade já era “porto li-


Eckahard E. Kupfer relata as ativida- vre” –, houve de fato um aquecimen-
des na região do Amazonas, da produ- to econômico na cidade, os produtos
ção de cacau, da borracha e depois da feitos na Zona Franca podem ser es-
implantação da Zona Franca, centrali- coados através de barcos até Belém e
zado nos processos econômicos e po- seguem pela rodovia Belém-Brasília,
líticos da cidade de Manaus. Segundo atendendo todo o mercado brasileiro.
Kupfer, o interesse da metrópole Por-
Nos anos 1970 e 1980, a Zona Franca
tugal na Amazônia inicia a partir do
aproveitou a proibição de importação
extrativismo de Cacau, metade do sé-
de diversos produtos de luxo no Brasil,
culo XVIII, mas a produção era pouco
para abrir casas importadoras e se va-
competitiva, principalmente por causa
ler de brechas legais. Manaus tornou-se
do cacau venezuelano e da produção
uma das principais cidades industriais
do Maranhão. Houve um período de
do Brasil, com 467 fábricas, que atin-
alta no preço do cacau que animou
gem um volume de venda de 25,7 bi-
produtores após a guerra entre a Ingla-
lhões de dólares, empregando 101 mil.
terra e Espanha (1779-1783) – conflito
que afetou sobremaneira a exportação Entretanto, viu sua população crescer a
da América do Sul para Europa – e 1,6 milhão de habitantes.
também com a agitação que ocorria A terceira parte do livro tira o trem
na Venezuela pré-independência. Mas, da linha, em uma tentativa de tratar
após a queda muito significativa do da Amazônia através da literatura e da
preço do cacau no início do séc. XIX e ópera, o que se percebe é que algumas
após a demissão do governador Lobo vezes a “visão do estrangeiro” – cri-
D’Almada, a Comarca do Amazonas ticada várias vezes nos outros artigos
entrou em recessão até 1840. – se mostra ainda ligada a um imagi-
A borracha teve dois momentos de nário do fantástico e, outras vezes, há
alto valor e produção, primeiro ligado uma necessidade de validar as questões
ao processo de vulcanização da Goo- locais pelo filtro europeu, visto clara-
dyear e depois no “esforço de guerra” mente quando o professor de literatura
(1942-1945). A criação da Superinten- Gunter Karl Pressler aponta, em várias
dência para o Plano de Valorização partes da obra do escritor paraense
Econômica da Amazônia (SPVEA), Dalcídio Jurandir, elementos que esta-
em 1953, não obteve grande êxito, riam na literatura do mundo, como em
subsidiando a agricultura. E a substi- Balzac, Dickens e Zola. Assim como as
tuição da SPVEA pela Superintendên- poucas referências amazônicas na obra
cia de Desenvolvimento da Amazônia do escritor austríaco Robert Musil,
(Sudam), no governo Castelo Branco, produzidas com muito esforço no arti-
1966, não mudou a realidade produtiva go de Stefan Kutzenberger, mostrando
da região. Ele diz que somente com a que é grande o interesse e empenho de
criação da Superintendência da Zona intelectuais europeus em se aproximar
Franca de Manaus (Suframa), em 1967 da região apesar da distância.

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Resenhas

O livro da escritora nipo-estado-uni- de mostrar uma região complexa e de


dense Karen Tei Yamashita é analisado grande valor ambiental e social.
pelo artigo de Vejmelka como meio de
entender a Amazônia enquanto cons-
trução discursiva, é uma ficção cien-
tífica que faz uma superexposição da
mítica histórico-ambiental. Se ela não
consegue fugir do tom messiânico, fa-
lando de um futuro catastrófico por
causa do consumismo, seu texto refaz
os processos de exploração que a re-
gião enfrentou e continua enfrentando
nas últimas décadas, como garimpos e
extração de madeira ilegal.
E por último, Joachim Bernauer, di-
retor do Goethe-Institut de Portugal,
descreve de maneira quase visual os ca-
minhos do projeto da ópera multimídia
em parceria com indígenas: das falas
de antropólogos sobre a participação
dos Yanomami: Eduardo Viveiros de
Castro disse ser impossível o projeto e
parece ter sido descartado do proces-
so, assim, outros antropólogos entram
em cena – aos encontros com xamãs
nas aldeias. É interessante que tenham
escolhido a referência a uma ópera
multimídia para encerrar o livro, talvez
tentando olhar para um futuro tecno-
lógico da Amazônia.
No fim, o livro parece alcançar ao que
se propôs, os diferentes olhares sobre
a Amazônia dão uma perspectiva inte-
ressante para pensarmos os discursos
produzidos para ocupar a região. E se
pensarmos que este livro chegará a al-
guns estudantes alemães e brasileiros,
podemos imaginar que a região con-
tinuará atraindo pesquisadores e no-
vas representações serão produzidas
para os olhos dos europeus e para nós
mesmos, porém com outra intenção: a

Amazôn., Rev. Antropol. (Online) 6 (2): 551-573, 2014 573

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