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PAPÉIS SOCIAIS:
A IDENTIDADE DE GÊNERO COMO FENÔMENO
SOCIAL DO SÉCULO XXI

2018

Erasmo Santiago da Rocha


2

Projeto de pesquisa
apresentado ao Curso de
História do Centro
Universitário Estácio de Belo
Horizonte, como requisito para
a aprovação da disciplina de
Seminários Integrados.

Orientadora: Prof.ª Renata


Garcia Campos Duarte.

2018
3

1. Apresentação do tema/objeto de pesquisa

O presente trabalho apresenta como tema o desenvolvimento da noção do


conceito “transexualidade” na contemporaneidade ocidental. Partindo da primeira vez
que se usou a palavra, com David Cauldwell (1897-1959) em seu ensaio “Psycopathia
transexualis” de 1949, até a definição da palavra transsexual [transexual], “sexo
atravessado”, por Harry Benjamin (1885-1986), médico estadunidense, em 1966, com a
publicação de “The Transsexual Phenomenon” [O Fenômeno Transexual].
A partir daí, com a contribuição da teoria de gênero de Judith Butler (1956-) e os
estudos sobre a homossexualidade de Alfred Kinsey (1894-1956), a antiga1 definição de
“homossexualismo” foi cortada dos textos científicos e tirada dos catálogos de doenças:
CID (Código Internacional de Doenças) e DSM (Diagnostic and Estatistical Manual of
Mental Disorders) [Manual Estatístico e Diagnóstico de Doenças Mentais]. Quanto à
transexualidade, até esse ano (2018), era considerada doença mental. Mas, com a edição
do CID-11, passou a se localizar na seção de “saúde sexual”. No último DSM, o DSM-
V, atualizado em maio de 2013, o termo é denominado “disforia de gênero”, podendo
ser sintoma de doenças como a esquizofrenia. O CID-11 entra em vigor em 2022.
De fato a disforia de gênero pode ser um sintoma da esquizofrenia, já que nessa
doença o paciente se aflige com tudo que é dicotômico, desde o conflito com a
identidade e gênero: ser homem ou mulher (MONEY e TUCKER), até a posição
política: direita ou esquerda. Mas não é uma doença mental como bipolaridade,
depressão etc. O que pode levar a esses quadros é o preconceito e a exclusão social.
Militantes defendem que a transexualidade, assim como a homoafetividade, seja
retirada dos manuais diagnósticos. O que aconteceu com o novo CID foi que passou a
denominar-se “incongruência de gênero” e a ser classificado nem como saúde física
nem mental, mas em “saúde sexual”, junto com disfunção erétil e outros problemas2.
Porém é também importante o tratamento hormonal e cirúrgico para os chamados
“transexuais verdadeiros”, que, segundo Benjamin (1966), são aqueles/as que têm total
aversão a seu genital, podendo se automutilar ou até tentar o autoextermínio. Para estes

1
Como diria Foucault, em “História da sexualidade” vol.1, “antes a sodomia era uma dissidência, agora o
homossexual é uma espécie.”. A partir do século XIX descobrem-se várias categorias de “desvios
sexuais”, patologizando o “homossexualismo” como doença no primeiro DSM (Diagnostic Estatistical
Manual) de 1952 – O “ismo” significa doença. Tanto que não existe a palavra “heterossexualismo”
segundo o Aurélio de 2009. O termo só foi retirado do manual em outra publicação do DSM em 1973.
2
Disponível em: https://portugues.medscape.com/verartigo/6502525. Acesso em 25/11/2018.
4

casos, Benjamin afirma que, apenas alterando as características sexuais secundárias


(barba, seios etc.) visando a alteração das características primárias (orgãos genitais), o
indivíduo se sentirá realizado. Quanto à psicoterapia, segundo o médico, é inútil para
eles/as.
É também importante o acompanhamento psiquiátrico para aqueles/as que
ocasionalmente tiverem depressão ou outro quadro psíquico, geralmente causados pelo
preconceito da sociedade. Se em mais ou menos dois anos, durante o “teste da vida
real”3, o paciente não apresentar desejo de reconfigurar o genital ou interromper
voluntariamente a terapia hormonal, deve ser descartado qualquer “transtorno da
identidade sexual”4 (CID-10), e começar a tratar isoladamente uma possível doença
(esquizofrenia, bipolaridade, depressão etc.), quando for o caso. As pessoas trans
deveriam se encaminhar para os endocrinologistas e cirurgiões logo que não for
constatado nenhuma doença pelo psiquiatra. Se não for identificada nenhuma, o próprio
clínico geral deve acompanhar o/a paciente (BUTLER,2009) e não um psiquiatra.
Neste trabalho, procura-se interrogar a comunidade científica com as devidas
críticas, por exemplo, quanto ao “gender birth assignment” (gênero designado pelo
nascimento), que acredita-se ser uma falácia, já que, em nossa concepção, o aparelho
genital não decide necessariamente o gênero, que é construído mentalmente à medida
que a criança cresce. Por isso temos que oferecer brinquedos “de menina” e “de
menino”, assim como vestidos e calças, e deixar o/a pequeno/a escolher.
Também critica-se a ideia de Money e Tucker (1981) de que a pessoa deve
escolher entre o gênero masculino e feminino para viver em sociedade, pois a teoria
queer mostra que os gêneros são infinitos, desde o gênero neutro ou bigênero (homem e
mulher ao mesmo tempo) ou até mesmo trigênero (homem, mulher e neutrois).
Temos como problema de pesquisa identificar o preconceito da sociedade que
taxa de “ideologia de gênero” qualquer discussão sobre sexualidade. Na realidade, o que
existe é a “liberdade de escolha da identidade de gênero”. Respeitar a identidade de
gênero não é ideologia no sentido marxista de “inversão da realidade”. Os críticos
acreditam que essa dita “ideologia” quer “ensinar as crianças a fazer sexo, ensinar a
dançar músicas eróticas e mostrar pornografia” (de acordo com o site Almanaque

3
É chamado “teste da vida real” o procedimento em que o paciente vive integralmente como do sexo
oposto por mais ou menos dois anos, passo necessário para autorização feita pelo/a psiquiatra para a
cirurgia de transgenitalização.
4
Usamos o termo do CID-10 que corresponde ao “transexualismo, travestismo bivalente”, etc.
5

SOS5), sob um discurso de liberdade de escolha, que para eles não existe, pois
acreditam em papéis pré-definidos de homem e mulher. A educação sexual deve servir
para conscientizar a criança sobre o que é afeto e abuso, a saber mais sobre o próprio
corpo6 e para mostrá-la que relacionamentos de pessoas do mesmo sexo não é
“anormal”, sendo que diversos tipos de família são aceitáveis.

2. Objetivos

2.1 Objetivo geral

Indentificar a transexualidade como fenômeno histórico e social do século XXI,


com origens no séc. XX, a partir do estudo da literatura científica.

2.2 Objetivos específicos

- Estudar a importância da literatura científica para a compreensão do


fenômeno da transexualidade;
- Investigar as experiências médicas relativas ao estudo clínico da
transgeneridade;
- Fazer uma análise do que chamamos de identidade de gênero “percebida”
(gender birth assignment) ou gênero designado pelo sexo do bebê;
- Analisar se o estímulo à “liberdade de escolha da identidade de gênero” ou
identidade de gênero autopercebida é um caminho para uma sociedade mais
justa, igualitária e tolerante.

3. Justificativa

Em nossa concepção, para se fazer uma pesquisa, é preciso estabelecer um


recorte de tempo e espaço de um tema que seja historicamente relevante para o/a
pesquisador/a. O presente trabalho se justifica ao incorporar o “fenômeno transexual” na

5
Disponível em: https://www.almanaquesos.com/educacao-sexual-na-escola-ensina-criancas-a-fazer-
sexo/. Acesso em 29/11/2018.
6
Ibd.
6

leitura de textos médicos e científicos e fazer um estudo comparado com as principais


obras que estudaram o assunto no século XX e sua evolução até o século XXI, por
exemplo, a mudança no CID-11 (2018). A importância deste artigo é estudar o outro
lado da identidade de gênero. Em vez de se pautar no preconceito e dificuldade que as
pessoas trans enfrentam, apesar de fazer uma crítica a como a sociedade vê os/as
transexuais, o texto propõe um estudo a priori da transgeneridade sem o julgamento da
sociedade e com a perspectiva científica desse fenômeno, que passou a ser estudado a
partir do século XX.
Busca-se com essa pesquisa uma maior visibilidade para as pessoas trans,
mostrando que suas identidades não são apenas construídas socialmente, mas
principalmente individualmente. É a chamada identidade de gênero autopercebida, que
não é influenciada nem pela família nem pela genética, mas pela própria pessoa. Por
isso dizem que o papel de gênero está no cérebro. É o filtro a partir da qual ela vê a
sociedade. Já a expressão de gênero é nossa roupa. Por dentro somos seres fisiológicos,
mas por fora somos seres sociais e, o fato de estabelecer a roupa que vamos vestir todos
os dias, seja um vestido ou um paletó, diz apenas de nossa expressão. O nosso papel na
sociedade é caracterizado pela divisão sexual do trabalho. Antes de se perguntar se um
determinado oficio é de homem ou mulher, assim como diferenciar um brinquedo “de
menino” ou “de menina”, é importante questionar se é uma imposição social ou um
constructo pessoal. Representamos papéis diariamente, a questão não é a oposição
masculino/feminino, mas o gosto de cada um.
Quem fala de “ideologia de gênero” é contra a teoria de gênero de Judith Butler
e contra o Projeto de Lei (PL) de Indentidade de Gênero – PL 5002/2013 de Jean Willis
(PSOL-RJ) e Érica Kokay (PT-DF). O fato é que a visão judaico-cristã dessas pessoas
limita seu pensamento.
Procuramos investigar também os que se opôem ao PL e verificar se seus
argumentos são aceitáveis para que continuemos sem regulamentação sobre a
transexualidade, dependendo somente das resoluções do Conselho Federal de Medicina
(CFM) e do Judiciário.
Não podemos, contudo, deixar de mencionar a portaria n° 2.803 do MEC
(Ministério da Educação e Cultura), que “redefine e amplia o Processo
Transexualizador” e que, apesar de não ser uma lei propriamente dita no sentido de
7

inovação do ordenamento jurídico, tem, como é próprio de uma portaria, caráter


administrativo, regulando atos judiciais.7

4. Referencial Teórico

Baseado na publicação do MEC (Ministério da Educação e Cultura), “Escola


Sem Homofobia”(2009), que relata que “se permanecermos presos a uma visão que
insiste na ideia de dois sexos mutuamente exclusivos e incomunicáveis”, nunca
sairemos do binarismo “homem é homem e mulher é mulher”. Por isso propomos um
novo modelo de classificação de gênero, não exclusivista, mas “complementarista”. É o
que chamamos de “relógio de gênero”, que considera o meio-dia representando o
masculino (XY) e 6h, o feminino (XX) Entre eles há uma gama de identidades de
gênero que vão desde a travesti ao homem trans não-operado; a drag queen ao drag
king, o demi boy à demi girl.
A seguir apresentamos nossa visão do relógio, e para isso vamos explicar os
conceitos que podem gerar dúvidas:

Legenda:
12 – XY (masculino) (Ser humano “macho”) (gay ou hetero)8.

7
Disponível em: https://www.blogsegurancadotrabalho.com.br/2017/03/lei-norma-decreto-e-portaria-
qual-diferenca.html. Acesso em 15/11/2018.
8
É importante definir “gay ou hetero” pois a sociedade considera os homossexuais “efeminados”. Só que,
na definição de gênero, não há nenhuma diferença de um deles com um hetero, já que se vestem
masculinamente e sua opção sexual é irrelevante. Ou seja, um homossexual é um Homem (com H). O
mesmo vale para as lésbicas (com o feminino).
8

01 – Drag Queen (Homem biológico que interpreta um papel feminino em


performances).
02 – Demi boy (Pessoa que independente do genótipo representa um papel masculino e
neutro ao mesmo tempo).
03 – Neutro (XY) (Neutrois, em inglês, que não se define como homem nem mulher,
mas algo entre eles. Por isso se situa no “meio” do relógio).
04 – Travesti (Homem biológico que se traveste para ter prazer sexual. A diferença com
as mulheres trans é que não tem complexo com seu genital. No Brasil, “travesti” é uma
palavra política, pois abarca a luta das profissionais do sexo, reduto de grande parcela
dessa população).
05 – Mulher trans operada (Homem biológico que se reconhece no gênero oposto, mas
que além de cultivar mudanças nas características sexuais secundárias (ganhar peito,
perder barba) como as travestis, as mulheres trans procuram fazer a transgenitalização9.
06 – XX (feminino) (“Fêmea” humana) (gay ou hetero).
07 – Drag King (Mulher biológica que se veste de homem em performances)
08 – Demi girl (Pessoa que, independente do genótipo, se vê como menina e neutrois ao
mesmo tempo).
09 – Neutro (XX) (Indivíduo que não se vê como homem ou mulher, mas como algo
entre eles).
10 – Homem trans não operado (Seria a travesti com genótipo feminino, mas como
esse segmento não tem uma classe organizada como as prostitutas, não há identificação
política desse gênero).
11 – Homem trans operado (A única diferença com um homem biológico é o genótipo).

Legenda simplificada:
12 – XY (masculino)
01 – Drag Queen
02 – Demi boy
03 – Neutro (XY)
04 – Travesti
05 – Mulher trans operada

06 – XX (feminino)

9
É o procedimento cirúrgico que ou “inverte” o pênis e o torna uma vagina, ou implanta um falo feito do
tecido do próprio paciente.
9

07 – Drag King
08 – Demi girl
09 – Neutro (XX)
10 – Homem trans não operado
11 – Homem trans operado

Outra referência bibliográfica é o livro de Harry Benjamin (1966) “The


Transexual Phenomenon)” que conceitua, pela primeira vez, o termo transsexual
(transexual). Para ele, há diversos tipos de “sexos”: Morphological ou anatomical sex;
gonadal ou genital sex; endocrine ou hormonal sex; legal sex; e ainda, o
physichological sex. O primeiro (sexo anatômico) é a fisiologia do indivíduo; sexo
genital ou gonadal é o critério principal na definição do gênero do recém-nascido; o
sexo hormonal ou endócrino determina as características secundárias um pouco mais
tarde na vida; sexo legal é aquele registrado no cartório e aceito pela sociedade,
(atualmente já se pode mudar o sexo legal sem alterar o sexo genital); por último, o sexo
psicológico é o filtro em que vemos a sociedade, já que gênero está no cérebro e a
sexualidade está no coração10.
Além disso, nos utilizamos de um vídeo e a bibliografia sobre o caso John/Joan
de 1965, quando um pênis de um bebê foi mutilado num procedimento de circuncisão e,
por influência do dr. John Money, a família passou a criá-lo como uma garota.
Quanto ao título do trabalho, com ele podemos exemplificar a transexualidade
como um fenômeno histórico. Partindo do conceito de “fenômeno” de Hegel,
entendemos que isso não é um acontecimento normal, um fenômeno é um
“acontecimento” que repercute na sociedade. Um acontecimento pode repercutir, é
claro, mas a diferença entre um e outro é que o último é isolado e específico, nunca
idêntico11, e o fenômeno pode acontecer em vários lugares (como a transexualidade) e,
se não for igual, é bem semelhante. Um fenômeno é alguém ganhar uma eleição, e um
acontecimento é esse alguém tomar uma facada durante a campanha. Veja que a vitória
nas urnas projetou um futuro de quatro anos pela frente, e o atentado, no máximo,
deixou o candidato mais precavido.
O trabalho é dividido em três partes: a primeira, “O que é trans*” conceitua o
que é transexualidade; seguido do Caso John/Joan e, por fim, uma análise sobre a
10
Disponível em: http://mercadopopular.org/2015/09/transicao-de-genero-me-salvou/. Acesso em
29/11/2018.
11
Acontecimento e História. Hélio Cardoso Jr. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/trans/v28n2/29417.pdf. Acesso em: 15/11/2018
10

resistência da sociedade conservadora a garantir o direito dos/as LGBTs. Tudo para


confluir na idéia de que a transexualidade é um fenômeno: Transsexual Phenomenon
(segundo Benjamin). A segunda parte (Caso John/Joan) mostra como é impossível pré-
definir o gênero no nascimento, já que, no caso, um menino biológico foi criado como
menina já que seu pênis foi mutilado. O material utilizado para escrever a primeira parte
são os manuais de doenças mentais, Benjamin (1966), como já foi dito; o estudo sobre a
homoafetividade, de Alfred Kinsey (1894-1956), que constatou que apenas 4% da
população masculina é “homo exclusivo” frente a 50% de “hetero[s] exclusivo[s]”; e as
teorias de gênero de Judith Butler (1956-) e Paul Beatriz Preciado (1970-).

5. Metodologia

A partir da pesquisa bibliográfica de médicos e estudiosos do tema (Benjamin,


Kinsey, Money, Bento e outros), procuramos interpretar como a transexualidade foi
explorada na literatura ocidental.
A fim de entender a escolha do psicólogo e sexologista especializado em
transexualidade, John Money (1921-2006), que orientou uma família a tratar um menino
por menina, já que, segundo sua teoria, a criança, nos dois primeiros anos de vida, não
tem um gênero preestabelecido. Se a família de Bruce e Brian criasse Bruce como
menina, por não ter pênis (já que foi mutilado), assim ele se identificaria com o sexo
feminino. Sua teoria de “neutralidade de gênero” (gender neutrality) poderia ter uma
comprovação nesse caso que ficou conhecido como John/Joan case. Para John Money,
haveria o nature versus nurture [inato x adquirido]; o gênero, nesse ponto de vista, é
“adquirido”, ou seja, construído socialmente. Para alguns autores (MONEY e
TUCKER, 1981), a construção da identidade de gênero requer a identificação com um
dos sexos (homem ou mulher).
A pesquisa sobre a teoria Queer, que perpassa Judith Butler e Beatriz Preciado,
enriquece nossa pesquisa, pois as outras referências sempre trabalham com o binarismo
de gênero.
Entendendo o processo de “desdiagnostização”, no texto “Desdiagnosticando o
gênero” (Butler, 2009), percebemos que a identidade é autoconstruída, podendo ser
percebida (quando se designa o gênero pelo sexo do bebê) ou autopercebida (quando
11

as/os sujeitas/os se identificam com o gênero oposto ou até mesmo mantêm a posição
cisnormativa)12.
Fazendo uma crítica ao movimento LGBT, que de certo modo exclui o gênero
queer, que não tem as mesmas reivindicações dos demais LGBTs: cirurgia de
redesignação e casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo (SILVA, 2016),
notamos a necessidade de falar em movimento LGBTQI (queers e intersexos
incluídos/as), no sentido em que aqueles/as que não se encaixam na binaridade de
gênero possam pautar sua agenda frente a uma sociedade heteronormativa que não
respeita a diversidade de gênero.
Opondo os conceitos de identidade e diversidade, acreditamos que diversidade é
a multiplicidade de gêneros autopercebidos, e identidade, a escolha de um ou mais
gêneros para a apresentação pessoal identitária de cada um/a.
Uma das fontes teóricas utilizadas é a Constituição de 1988 e o PNE (Plano
Nacional de Educação), documento atualizado de dez em dez anos, que, no último
(2014), não acatou nenhuma emenda que mencionava gênero e sexualidade. Quanto a
nossa Carta Magna, apesar de dizer que combate todas as formas de discriminação, não
propõe a realização de uma lei específica contra LGBTfobia.
Para o conceito de ideologia no sentido da “ideologia de gênero”, usamos a
definição marxista de ideologia como “inversão da realidade”,
A ideologia é, assim, uma consciência equivocada, falsa, da realidade. Desde logo,
porque os ideólogos acreditam que as ideias modelam a vida material, concreta, dos
homens, quando se dá o contrário: de maneira mistificada, fantasmagórica, enviesada, as
ideologias expressam situações e interesses radicados nas relações materiais, de caráter
econômico, que os homens, agrupados em classes sociais, estabelecem entre si. (O Capital,
pg. 30).

6. Referências

ARILHA, M. (et. alli) (orgs.). Transexualidade, travestilidade e direito à Saúde. São


Paulo, Oficina Editorial, 2010.
American Psychiatric Association. (APA). Diagnostic and statistical manual of mental
disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, 2013.

12
Ser cisnormativo é aceitar a designação de gênero que lhe foi dada por conta de seu sexo genital.
12

BENJAMIN, Harry. The Transsexual Phenomenon. Dusseldorf, Symposium, 1999.


BENTO, Berenice. O que é transexualidade. São Paulo, Brasiliense, 2008.
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13

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