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Muito Além dos Seringais: Elites, Fortunas e Hierarquias no

Grão-Pará, c.1850 – c.1870

Luciana Marinho Batista

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em
História Social do Instituto de Filosofia
e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como
requisito parcial para a obtenção do
grau de Mestre em História.

Orientador: Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso

Rio de Janeiro
2004
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Luciana Marinho Batista

M u i t o A lé m d o s Se r i n g a i s :
Elites, Fortunas e Hierarquias no Grão-Pará, c. 1850 - c. 1870

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em História Social do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como requisito parcial para obtenção do
título de Mestre em História.

Banca Examinadora

_____________________________________
Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso – Orientador
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

______________________________________
Prof. Dr. Manolo Garcia Florentino
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

_____________________________________
Prof. Dr.a Sheila de Castro Faria
Universidade Federal Fluminense (UFF)

_____________________________________
Prof. Dr.ª Maria de Fátima Silva Gouvêa (Suplente)
Universidade Federal Fluminense (UFF)

_____________________________________
Prof. Dr. Antônio Carlos Jucá de Sampaio (Suplente)
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) / Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ)

Rio de Janeiro
2004
Aos meus pais, Edyr e Virgínia,
pelos exemplos de vida.

A minha avó Maria Luiza e ao


meu irmão Zeca, porque o amor e
a saudade nunca acabam.
AGRADECIMENTOS

Foram muitos e diferentes os auxílios que recebi para desenvolver esta


dissertação. A CAPES e a FAPERJ forneceram as bolsas indispensáveis que me
permitiram ficar durante dois anos no Rio de Janeiro.
Em todos os arquivos em que pesquisei, pude contar com a valiosa colaboração
de vários funcionários. Na seção de microfilmes do CENTUR, dona Dina. No Grêmio
Literário e Recreativo Português, dona Ana Maria. No IBGE, do Rio de Janeiro,
Josianne Pangaio. No Arquivo Público do Estado do Pará, onde tive a maior parte do
meu tempo de pesquisa, dona Mara, dona Jesus, Goreth, dona Clara, dona Lucidéa, Ana
Negrão, seu Joel e seu Fernandes. Vou sempre lembrar da boa vontade dos que
trabalham nesta última instituição, porque passei muitas manhãs (com o cafezinho e o
chá do seu Joel) e tardes, extremamente agradáveis, lá.
A Sandra, funcionária do Programa de Pós-Graduação em História Social da
UFRJ, procurou sempre resolver os problemas que eu lhe levava. Se existissem mais
pessoas como ela no serviço público, certamente não seria tão irritante recorrer a
instituições com aquela natureza.
As professoras Ana Rios e Mônica Grin, deram uma disciplina, ainda em 2002,
onde as discussões feitas em sala de aula foram bastante interessantes.
A Professora Sheila Faria e o Professor Manolo Florentino fizeram importantes
sugestões durante o exame de qualificação.
Ao Professor João Fragoso tenho que fazer um agradecimento à parte. A
paciência que teve durante o meu período de adaptação à “vida nova” no Rio foi
fundamental. Sua disponibilidade, sua confiança e seus comentários bastante críticos e
pertinentes ao meu trabalho foram essenciais para a conclusão desta dissertação. Além
do mais, sua amizade me dá a certeza de ter conhecido pessoas muito especiais no Rio
de Janeiro.
O grupo de orientandos do Professor Fragoso, em suas reuniões periódicas, leu
várias partes da dissertação e fez comentários que, em muitos momentos, obrigaram- me
a repensar os rumos que eu estava dando à pesquisa. São eles: Martha Hameister, Tiago
Gil, Fernanda Martins, Roberto Guedes, Célia Muniz, Luís Augusto Farinatti, Cuca
Machado e Carlos Mathias. Os tradicionais chopps após as reuniões foram muito
divertidos, e fico feliz por poder continuar com a companhia de vocês por mais algum
tempo! Martha e Fernanda, além das discussões e inúmeras ajudas acadêmicas,
tornaram-se grandes amigas minhas, com as quais sempre pude conversar sobre
qualquer problema. Espero que os Atalibas nunca mais perturbem vocês duas, até
porque, como a Martha bem sabe, este é um tipo de “dom” que nunca será plenamente
retribuído e, assim, o mínimo que vocês poderão fazer é desejar o mesmo para mim...
Alexandre Vieira, Daniel Domingues, Janaína Perrayon, Vanessa, Carlos
Engemann e o Professor Manolo me permitiram manter a tradição, iniciada na UFPa, de
ter um grupo na Universidade fiel à boa comida e à boa bebida. Agradeço pela
“apresentação” ao Capela e pelos momentos extremamente agradáveis que tive junto
com vocês.
Silvana Godoy incentivou freqüentemente o meu trabalho e foi mais uma
grande pessoa que conheci no Rio. Durval de Sousa, um mineiro-paraense, também me
faz ter a certeza de ter valido muito a pena os anos que já passei no Rio. Generoso,
amigo e companheiro, agradeço a ele por todo o apoio que me deu, inclusive com o
empréstimo do notebook, onde pude dar os “retoques” finais na dissertação.
Dona Maria, Zé Luca, “tios” Lurdinha e Dácio e “tia” Francisquinha, no Rio de
Janeiro, representaram um ponto de apoio que eu sempre soube que podia contar, em
qualquer momento.
Paulo Henrique Silva e seu Fernando Mendes me ajudaram, em vários
momentos, nas longas viagens aéreas entre Rio e Belém.
Ao seu João e ao seu Marcelo, em Belém, agradeço as constantes torcidas e
palavras de apoio.
José Maia Bezerra Neto e Décio Guzmán, professores e amigos, acreditaram
nas idéias desta dissertação quando elas ainda eram só um projeto de pesquisa. Seus
constantes estímulos ao meu trabalho foram importantes para que ele pudesse ser
concluído. Lobinho, com a sua amizade, durante as minhas estadas em Belém, fe z- me
reviver o grupo das sextas-feiras do bar em frente à UFPa, mesmo que nem todos os
integrantes estivessem presentes. Patrícia Sampaio, desde quando eu ainda estava na
Graduação, nunca se poupou em me ajudar a esclarecer algumas dúvidas por meio de
longos e- mails. Sua dissertação me permitiu, inclusive, ver que as minhas idéias iniciais
não estavam tão fora de propósito, como eu receava.
Claudia Fuller, minha primeira orientadora na Graduação, hoje uma amiga,
fez- me acreditar que eu podia alcançar algo mais. Seus incentivos e seu auxílio em
conseguir o meu primeiro lugar para morar no Rio, muito me ajudaram.
Alírio Cardoso, embora não nos falemos com muita freqüência, quando dos
nossos encontros já sei, de antemão, que serão momentos muito divertidos. Ainda
lembro daquela tal viagem a São Paulo...
Ricardo Marreiros, mesmo morando em São Paulo, sempre tem um gesto
amigo e uma palavra de incentivo. Espero que possas voltar logo para Belém!
Carlos Bastos e dona Raquel me possibilitaram viver em um “clima” de família
durante o tempo que moraram no Rio. Suas sensibilidades fizeram com que o meu
período de adaptação à “vida nova” fosse abreviado. Ao Carlos, à Siméia Lopes e à
Keila Aguiar, grandes amigos desde a Graduação, agradeço ainda os conselhos e os
“puxões de orelha”, pelos mais diferentes motivos. Espero tê-los todos ao meu lado por
muito mais tempo, pois é por existirem pessoas como vocês que consigo ter plena
consciência do significado e da importância da amizade.
Breviglieri, mesmo depois de quase seis anos que eu o conheço, continua me
surpreendendo, e para melhor. Grande amigo, daqueles que se pode ter certeza de que
estará disponível para tudo o que for necessário, é uma pessoa que me alegro muito de
ter por perto.
Dona Dica, Carla Feio, “tia” Graça, Mônica, Malu e Stefânia são pessoas que
sempre estão próximas, embora as distâncias físicas, às vezes, sejam muito grandes,
como nos últimos dois anos. Agradeço ainda à dona Dica pelos deliciosos pastéis santa
clara, bombons de cupuaçu, de castanha-do-pará e de queijo!
Alda, Marlene, Nelma e, mais recentemente, Marta, fizeram o possível para a
minha vida transcorrer em ritmo de tranqüilidade. Cuidando da minha casa, dos meus
“pequenos” e dos meus pais, foram responsáveis por eu saber que tinha um recanto para
onde ir.
Minha família, meu permanente referencia l, merece um agradecimento
especial. Meus tios Vera, Maria Alice, Evalda e Olegário; meus primos Felipe e
Consuelo ; meus sobrinhos Mayla, Rafael e Camila; e meus irmãos Edyrzinho e George;
fazem- me saber que não estou sozinha. Ao Rafa, agradeço ainda a providencial ajuda
com o computador! Meus pais, Edyr e Virgínia, nunca mediram esforços para me
proporcionar o melhor que podiam. Só tive a tranqüilidade necessária para terminar
esta dissertação por saber que eu contava com vocês dois, para qualquer coisa que fosse
necessária e a qualquer hora. Sem vocês, nada disto teria sido possível.
“Muito Além dos Seringais: Elites, Fortunas e
Hierarquias no Grão-Pará, c.1850 – c.1870”

Lista de siglas ............................................................................................................................. 10

Lista de quadros, gráficos, figuras e diagramas ..................................................................... 11

Resumo /Abstract ........................................................................................................................ 13

Introdução .................................................................................................................................. 14
Apresentação do objeto de estudo e hipóteses de trabalho ....................................... 14
Referenciais teóricos ................................................................................................. 19
Fontes e métodos da pesquisa ................................................................................... 24

Capítulo I. Uma economia nos tempos da borracha: as relações entre a agricultura


e o extrativismo no Grão-Pará oitocentista ............................................................................. 32
As explicações tradicionais sobre a economia do Grão-Pará no século XIX ............ 32
A cidade de Belém e o início do crescimento do negócio da borracha .................... 50
Entre a agricultura e o extrativismo: produção, relações de trabalho e
associação de atividades ........................................................................................... 63

Capítulo II. Economia e formas de acumulação no Município de Belém ............................. 105


A distribuição social da riqueza e a composição das fortunas .................................. 107
Construindo hierarquias: a composição dos investimentos por faixas de
fortunas ...................................................................................................................... 135
A desigualdade como objetivo: investimentos e estratégias de reprodução
das elites .................................................................................................................... 147
Capítulo III. Em busca das diferenças: elites, alianças, administração provincial e
hierarquia social ......................................................................................................................... 159
Alianças sociais: as “boas relações” como estratégias .............................................. 162
As famílias Henriques, Pombo, Brício, Ayres, Chermont e Miranda ....................... 173
As famílias Gaidêncio da Costa, La Roque, Gama e Abreu e Almeida ................... 201
As famílias Brandão de Castro, Rodrigues Martins, Oliveira Pantoja,
Malcher, Costa, Silveira Frade e Silva Castro .......................................................... 210
As famílias Leitão da Cunha, Silva e Souza Franco ................................................. 225
Os projetos de desenvolvimento provincial e a economia da borracha .................... 239

Considerações Finais ................................................................................................................. 261

Fontes Primárias ........................................................................................................................ 265

Referências Bibliográficas ......................................................................................................... 272

Anexos ......................................................................................................................................... 283


Lista de Siglas

AHU-PA – Arquivo Histórico Ultramarino – Capitania do Pará


ANB – Archivo Nobiliarchico Brasileiro
APEP – Arquivo Público do Estado do Pará
CENTUR – Centro Cultural “Tancredo Neves”
GLRP – Grêmio Literário e Recreativo Português
RPP – Relatório de Presidente da Província do Pará

10
Lista de Quadros, Gráficos, Figuras e Diagramas

Quadro 1-1: Receitas da Alfândega do Pará, 1836-1864 ............................................................ 56


Figura 1-1: Regiões de Produção Extrativista e Agropecuária .................................................... 58
Gráfico 1-1: Receitas da Goma Elástica Exportada (em libra esterlina), 1847-1867.
Curva Semilogarítimica ............................................................................................................... 59
Gráfico 1-2: Produções da Goma Elástica e do Cacau Exportadas (em arrobas), 1847-
1867. Curva Semilogarítimica .................................................................................................... 67
Gráfico 1-3: Produções de Arroz com Casca, Açúcar e Algodão Exportadas (em
arrobas), 1847-1867. Curva Semilogarítimica ............................................................................ 69
Gráfico 1-4: Produção de Farinha de Mandioca Exportada (em alqueires), 1847-1867.
Curva Semilogarítimica ............................................................................................................... 70
Gráfico 1-5: Pirâmide Etário-Sexual da População Livre da Província do Pará (em
milhares) – 1872 .......................................................................................................................... 76
Gráfico 1-6: Pirâmide Etário-Sexual da População Livre da Freguesia do Acará,
Província do Pará (em milhares) – 1872 ...................................................................................... 78
Gráfico 1-7: Pirâmide Etário-Sexual da População Livre do Município de Campos dos
Goitacases, Província do Rio de Janeiro (em milhares) – 1872 .................................................. 81
Quadro 1-2: População da Cidade de Belém (em milhares), 1849-1872 .................................... 89
Quadro 2-3: Distribuição da Riqueza Inventariada no Município de Belém (1850-1870)
em Libras Esterlinas .................................................................................................................... 108
Quadro 2-4: Distribuição da Riqueza Inventariada no Município de Belém por Faixas de
Fortunas, em Libras Esterlinas (1850-1870) ............................................................................... 109

11
Quadro 2-5: Participação (%) de Atividades Econômicas na Riqueza Inventariada do
Município de Belém (1850-1870) ............................................................................................... 112
Quadro 2-6: Distribuição de escravos, de acordo com as faixas de tamanhos de plantéis,
no Município de Belém (1850-1870) .......................................................................................... 121
Quadro 2-7: Escravos: Divisão por Sexo no Município de Belém (1850-1870) ......................... 122
Quadro 2-8: Escravos: Divisão por Sexo e Faixa Etária no Município de Belém (1850-
1870) ............................................................................................................................................ 122
Quadro 2-9: Escravos: Divisão por Sexo e Faixas Etárias, de acordo com as faixas de
tamanhos de plantéis, no Município de Belém (1850-1870) ....................................................... 123
Quadro 2-10: Concentração da Riqueza nas Fortunas acima de 2.001 Libras Esterlinas
do Município de Belém (1850-1870) .......................................................................................... 136
Quadro 2-11: Participação (%) dos Setores de Investimentos por Faixas de Fortunas no
Município de Belém (1850-1859) ............................................................................................... 138
Quadro 2-12: Participação (%) dos Setores de Investimentos por Faixas de Fortunas no
Município de Belém (1860-1870) ............................................................................................... 139
Quadro 2-13: Composição das Fortunas acima de 5.001 Libras Esterlinas do Município
de Belém (1850-1870) ................................................................................................................. 150
Figura 3-1: Áreas de Influência de Famílias da Elite .................................................................. 170
Diagrama 3-1: As Famílias Henriques, Pombo, Brício, Ayres, Chermont e Miranda ................ 198
Diagrama 3-2: As Famílias Gaudêncio da Costa, La Roque, Gama e Abreu e Almeida ............ 208
Diagrama 3-3: As Famílias Brandão de Castro, Rodrigues Martins, Oliveira Pantoja,
Malcher, Costa, Silveira Frade e Silva Castro ............................................................................. 223
Diagrama 3-4: As Famílias Leitão da Cunha, Silva e Souza Franco ........................................... 233

12
RESUMO

Este estudo analisa como, durante as décadas iniciais de crescimento da coleta da goma
elástica na Província do Pará, não houve uma decadência generalizada da agricultura,
tampouco da produção de subsistência na mesma região. Discute a forma pela qual
determinadas famílias da elite ligadas às atividades rurais e ao comércio, algumas das
quais com interesses na economia gomífera, encontravam-se articuladas, seja por
investimentos próprios, seja por alianças sociais que estabeleceram entre si. Na
verdade, tomando como base ser a sociedade então existente de tipo pré- industrial,
aponta que tais alianças, bem como as relações de favores mantidas com as esferas da
política na região, foram de fundamental importância para a preservação do locus social
ocupado por aquelas famílias. Ainda, avalia críticas dirigidas ao negócio da seringa, por
certos representantes da elite local, as quais mantinham uma significativa ligação com o
interesse desse segmento social em manter a grande desigualdade sócio-econômica
existente à época.

ABSTRACT

This study examines the maintenance of agriculture and subsistence production during
the first decades corresponding to the growth of rubber economy at the province of
Pará, an activity that no directly affected the agricultural production. It also discuss the
forms of articulation — throughout their own investments or even through social
alliances — between some families of the local elite, those ones linked to the rural
activities and to the commerce, some of them with strong interests in the rubber
economy. In fact, considering that this society might be described as a pre- industrial
society, this work points out that their alliances, as also the network of favours
established with the political spheres in the region, was fundamental to the maintenance
of social position of those families. On the other hand, it analyses also the critiques
directed to the rubber economy, sustained by some members of the local elite, based on
their interest in keeping the large social-economic inequality that characterised this
time.

13
INTRODUÇÃO

1. Apresentação do objeto de estudo e hipóteses de trabalho

A idéia desta dissertação surgiu a partir de uma insatisfação a respeito das


explicações correntes na historiografia regional, acerca da maneira pela qual estaria
organizada a econo mia paraense durante a segunda metade do século XIX. É comum,
em tais obras, a caracterização da economia do Grão-Pará como se estivesse
basicamente assentada no extrativismo, desde o período colonial. Muito embora,
dependendo do autor sob análise, as atividades agrícolas ainda pudessem ter algum
relevo antes, grosso modo, do ano de 1850, a partir de então somente a extração –
especialmente a da goma elástica – parece merecer destaque. No entanto, apesar desses
mesmos estudos apontarem para a predominânc ia do extrativismo em relação às outras
atividades produtivas na Província, parte delas sugere, também, que, aproximadamente
até fins da década de 1870, o grande desejo dos homens à frente da política e da
administração locais seria o crescimento da agricultura, em detrimento da produção e da
comercialização da borracha que, a partir dos anos de 1850, vinham aumentando. 1
As questões apontadas acima, de modo bastante sucinto, não convenciam na
medida em que não davam conta de explicar como, num momento em que idéias de
progresso e civilização 2 – comuns especialmente no decorrer da segunda metade do
Oitocentos – ganhavam espaço justamente entre aqueles círculos da polí tica provincial,
os mesmos estariam rejeitando o avolumar-se da economia gomífera. E isso em função

1
Optei por não fazer, na Introdução, um balanço historiográfico pormenorizado sobre o objeto deste
trabalho. A fim de melhor situar as questões aqui propostas, uma análise sobre as obras existentes acerca
do tema estudado foi desenvolvida no decorrer dos capítulos, notadamente no primeiro.
2
Uma discussão sobre tais noções está no Capítulo 3.
do aumento da produção e das exportações provinciais serem temas constantes nos
debates entre os sujeitos pertencentes aos mencionados círculos. Do mesmo modo, eu
acreditava que, pelo menos no lapso de tempo que este estudo se ocupa, não teria
ocorrido uma decadência generalizada da agricultura e, particularmente, da produção de
alimentos, um dos argumentos utilizados tanto pela historiografia quanto pelos
discursos oficiais coevos, como suporte para as críticas dirigidas à goma elástica. Eu
tinha como base para essa desconfiança o não conhecimento, no período em questão, da
ocorrência de uma crise de subsistência, tampouco de uma importação, em larga escala,
de víveres, que seriam dois fenômenos esperados no caso da Província estar se
ressentindo da falta de alimentos para a sua população. Deste modo, suspeitava que
algumas críticas à borracha, durante o espaço de tempo estudado, estavam relacionadas
a determinadas noções de ordem 3 mantidas pela elite local4 , as quais defendiam a
necessidade de um remodelamento das práticas de trabalho na região, dentre outras
coisas.
Também, eu pensava ser difícil compreender uma possível recusa das rendas
então proporcionadas pela seringa, haja vista pessoas à frente da política e da
administração paraenses também poderem estar ligadas a esse ramo da economia local.
Tomei, neste sentido, um ponto de partida diferente do presente nas análises
tradicionais, as quais acabam promovendo uma separação entre os grupos ligados ao
comércio, ao extrativismo e às demais atividades rurais (agrícolas e/ou pecuária). De
fato, em função do tipo de economia e de sociedade aqui consideradas 5 , eu acreditava
ser contraditório entender uma rejeição da produção e da comercialização da borracha,
sendo lembrado que aqueles sujeitos também poderiam ter interesses nesses tipos de
atividades, seja por investimentos próprios, seja por suas relações familiares ou mesmo
de amizades com pessoas que àqueles dois ramos da economia local mantivessem
vínculos.
A investigação que originou este estudo, portanto, buscou primeiro perceber se
ocorreu um impacto negativo da coleta da seringa na produção agrícola, sobretudo
naquela voltada para a subsistência. Sendo este fenômeno um dos argumentos

3
Uma análise sobre a noção de ordem está no Capítulo 3.
4
Para o que entendo como elite, ver o item Referenciais Teóricos.
5
A discussão teórica sobre a natureza da economia e da sociedade no Pará oitocentista está no item
Referenciais Teóricos.
utilizados pela historiografia tradicional para explicar uma suposta resistência
inicialmente encontrada pelo negócio gomífero 6 no interior da elite paraense, pensei ser
o mesmo um problema fundamental na pesquisa desenvolvida. Essa relevância se
justifica até mesmo porque, ao caracterizarem a economia paraense oitocentista como
estando assentada, principalmente, no extrativismo, aqueles estudos não conseguem
explicar um elemento essencial: como a sociedade local garantia a sua própria
existência material.
Em seguida, procurei apreender as formas de acumulação possíveis no
município de Belém, a distribuição da riqueza produzida no mesmo e os tipos de
investimentos no interior da elite econômica local, entre os anos de 1850 e 1870,
aproximadamente aquele visto como compreendendo o período inicial de expansão do
negócio gomífero e, por isso, representativo do momento em que a borracha encontraria
maiores resistências nas esferas da política paraense. O interesse era o de perceber qual
o ramo de atividade econômica gerava a maior soma de riquezas, o grupo que ocupava o
topo da hierarquia econômica, e se este tinha a prática de aplicar os seus ativos em
outros setores da economia local. Neste momento do trabalho, pretendi demonstrar, por
meio de uma análise sobre a distribuição dos investimentos por setores de atividades,
como a própria estrutura econômica local favorecia o predomínio do capital de origem
mercantil. Também, tentei explicar como a elite econômica estudada, apesar de ter a
sua riqueza predominantemente vinculada ao setor comercial, estava ligada, também, a
outros ramos de atividades que lhes poderiam fornecer poder social. 7 Almejei, com
essas questões, evidenciar a dificuldade de se pensar, principalmente, os grupos da elite
ligados ao comércio e às atividades rurais de forma separada.
Antes de prosseguir, um esclarecimento é necessário. A escolha do município
de Belém é justificada pelo fato dele, no período aqui abordado, englobar a capital da
Província, sede do principal porto exportador do atual Norte brasileiro, e, assim,
possibilitar visualizar fortunas de pessoas ligadas a uma atividade comercial de maior
envergadura. Também, devido o município em questão abarcar áreas rurais

6
Este termo se refere à produção e à comercialização da borracha.
7
Chamo a atenção que não tive o interesse em discutir, sistematicamente, as relações econômicas da elite
mercantil com grupos externos ao Pará. Contudo, na medida do possível, e através de algumas dívidas
passivas presentes nos inventários coligidos, tentei identificar quais as praças dos credores verificados
naqueles processos.
importantes, dentro do Pará, na produção especialmente da cana-de-açúcar.8 Desta
forma, ao ser privilegiada essa região, tive o intuito de entrar em contato com fortunas
formadas tanto a partir de atividades relacionadas ao comércio, quanto à agricultura,
atividades estas que, particularmente, acabam por ser tratadas, pela historiografia
regional tradicional, como incompatíveis no que toca aos investimentos feitos pelas
pessoas pertencentes à elite paraense que estavam à frente da vida política provincial.
Com base nas questões que acabaram de ser expostas, outro passo da pesquisa
foi tentar apreender possíveis redes de relações sociais que articulassem os grupos
ligados ao comércio, à agricultura e/ou à pecuária e ao extrativismo, no Pará, antes do
chamado boom gomífero. Ao fazer isso, o interesse era o de verificar se, para além de
investimentos próprios na produção e/ou na comercialização da goma elástica,
integrantes do que considero como a elite local também não poderiam estar articulados,
por meio, por exemplo, de casamentos e relações de amizades, com sujeitos ligados ao
setor da economia paraense que mais se expandia no tempo. Em certos casos, foi
possível mesmo demonstrar que, em meados do século XIX, os grupos familiares da
elite que nutriam interesses seja no comércio, seja nas atividades rurais, remontavam
aquelas alianças sociais ao Setecentos, tendo iniciado, ainda na época colonial, a
construção de seu prestígio social. Em verdade, o estabelecimento dessas alianças entre
aqueles grupos, sobretudo por meio da realização de matrimônios, foi aqui entendido,
conforme se verá, como um das estratégias 9 que lhes permitiram ocupar o topo da
pirâmide social paraense no Oitocentos. Juntamente a essas alianças sociais, privilegiei
outro tipo de estratégia, por parte da elite local visando o acúmulo de riquezas e a
preservação de seu locus social, que foram as relações de favores, tais como serão
expostas, para com a administração provincial e, nas famílias que puderam ter as suas
trajetórias remontadas ao período colonial, para com a Coroa portuguesa.

8
Desde o século XVII, incursões no território amazônico feitas pelos ingleses e holandeses visavam o
estabelecimento de núcleos coloniais ligados ao cultivo da cana-de-açúcar, dentre outros gêneros. No
mesmo período, na tentativa de expulsar aqueles conquistadores, a Coroa portuguesa iniciou a ocupação
mais efetiva do território e, através de seus súditos, também foi desenvolvido o cultivo da cana,
especialmente no estuário do rio Amazonas e em áreas circunvizinhas. Já durante as primeiras décadas
do século XVIII, novamente o Império luso tentou incentivar a cultura da cana na Amazônia, por meio da
concessão de diversos títulos de sesmarias e cartas de datas a colonos que se aplicassem ao cultivo de
produtos comerciais, sobretudo o açúcar, nas áreas localizadas nas proximidades de Belém. Cf:
BEZERRA NETO, José Maia. Escravidão Negra no Grão-Pará. (Séculos XVII-XIX). Belém: Paka-
Tatu, 2001, pp. 55-56.
9
Para o que entendo por estratégia, ver Referenciais Teóricos.
Antes de prosseguir, devem ser frisadas duas questões. Ao adotar o
procedimento de remontar algumas trajetórias de famílias pertencentes à elite paraense
do século XIX ao Setecentos, pretendi tão somente demonstrar que se tratavam de
grupos estabelecidos na região há longas datas, quando do momento em que a borracha
passa, progressivamente, a adquirir importância na economia local, ou, parafraseando
Weinstein, englobavam pessoas integrantes ao que se pode chamar de “elite tradicional”
paraense. 10 Não tive o interesse, portando, de entender os motivos de certas famílias da
elite colonial não terem se mantido em situação social semelhante no decorrer do
Império. Ainda, muito embora tenham sido privilegiados os casamentos, as redes de
amizades e as relações de favores com a esfera política, entre os grupos da elite
paraense, seja no século XVIII, seja no século XIX, tenho consciência de que outros
tipos de estratégias também foram importantes para a preservação do lugar ocupado
pelos mesmos grupos na hierarquia social local. Os sujeitos integrantes da elite
certamente haviam de manter diferentes tipos de relações com os chamados grupos
subalternos, visando, em última instância, ampliar os mecanismos que lhes permitiram
possuir ascendência social. Essas últimas relações, no entanto, a exceção, como se verá,
de alguns casos bastante pontuais, não foram aqui analisadas, pois as fontes pesquisadas
não permitiram visualizar tal situação.
De todo modo, a fim de que não fosse passada a impressão equivocada de que
este estudo entendeu os grupos da elite paraense como se os ditos tivessem a sua
posição social dependendo apenas de si mesmos, é que foi desenvolvido o último
problema colocado durante a pesquisa, qual seja, a maneira por que os homens à frente
da política e da administração provincial pensavam o crescimento do negócio da
borracha. Conforme será apresentado, algumas as críticas dirigidas à goma elástica,
anteriormente mencionadas, através de uma dada noção de ordem, guardavam uma
profunda relação com o interesse da elite local, através de alguns de seus membros com
espaços naquelas esferas da política paraense, em manter a hierarquia social desigual
então existente. Tais críticas, assim, longe de significarem uma resistência para com o
setor da economia que mais se expandia à época, e para além dos interesses particulares
que alguns integrantes da elite tinham no mesmo, pretendiam, em última análise,
reforçar os mecanismos de ascendência socia l da elite sobre os chamados grupos
10
WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993.
subalternos. Em outras palavras, visavam avigorar o poder social que muitas das
famílias da elite mantinham em áreas do Grão-Pará que se estendiam bem além da
capital.

2. Referenciais Teóricos

Para a melhor compreensão das problematizações feitas neste estudo, bem


como da forma pela qual foram desenvolvidas as análises nele presentes, faz-se
necessário que sejam explicitados alguns pressupostos teóricos que sustentam o
trabalho.
O conceito de economia pré- industrial utilizado baseou-se nas considerações
feitas a respeito do tema por Karl Polanyi. De acordo com este autor, em sociedades
possuidoras de economias daquele tipo, a economia encontra-se perpassada pelas
relações sociais travadas entre os membros pertencentes àquelas, não se constituindo,
assim, em uma esfera autônoma. Desta maneira, não há uma busca motivada
essencialmente pelo lucro, tampouco a preponderância de interesses individuais na
salvaguarda de bens materiais. Ao contrário destes comportamentos típicos de
sociedades regidas pela economia de mercado, o que prevalece nas motivações dos
indivíduos são os interesses relativos à proteção de sua situação social. 11 Tendo por
base este pressuposto, os bens materiais não têm valores especificamente econômicos, o
que torna os processos de produção e de circulação relacionados a determinados
interesses sociais, tais como, por exemplo, o prestígio social e a subsistência. Além do
mais, em função de não existir um sistema econômico auto-regulável - o que
pressupunha o direcionamento de toda a produção para a venda, e que todos os
rendimentos eram provenientes destas últimas -, o trabalho e a terra não eram
considerados mercadorias disponíveis aos mecanismos de compra e venda no
mercado. 12

11
POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus,
2000, especialmente pp. 62-75.
12
Idem, ibidem.
A partir das considerações feitas sobre o conceito de economia pré-industrial,
pode-se inferir que as mesmas são marcadas por uma baixa liquidez, por restritas
circulações de mercadorias, bem como por uma frágil divisão social do trabalho. Ainda,
em função desse tipo de economia não ter o seu funcionamento relacionado apenas a
condições de mercado, a própria manutenção das relações de produção que dão vida às
ditas economias levam os investimentos feitos nas mesmas a não terem somente
direcionamentos produtivos. As aplicações dos excedentes econômicos visam, também,
a reiteração de uma hierarquia social desigual. Por outro lado, o mesmo interesse na
reprodução de uma hierarquia social desigual, leva os sujeitos a procurarem realizar
diferentes tipos de alianças sociais (parentais e amizades, por exemplo), justamente com
o intuito de conquista e/ou manutenção de prestígio social.
Considerar as características pertinentes a uma economia de tipo pré-industrial,
bem como a natureza da sociedade engendrada pela mesma, ajudaram, principalmente,
no desenvolvimento de três questões centrais deste estudo. 13 Uma delas foi o
entendimento de como não se verificou uma decadência generalizada da agricultura no
Grão-Pará, sobretudo na produção de alimentos, durante as décadas iniciais de expansão
da produção e da comercialização da goma elástica. Conforme se verá, devido ao
próprio tipo de mão-de-obra ainda empregada na coleta da seringa, naquele período, não
haveria motivos para o abandono, por parte dessas pessoas, de suas atividades
tradicionais de subsistência, em decorrência de um possível interesse em obter algum
lucro com o setor da economia local em crescimento.
De igual modo, permitiram a compreensão das formas pelas quais os grupos da
elite ligados às atividades rurais e ao comércio, alguns desses com interesses na
borracha, encontravam-se articulados. Fosse pelos investimentos econômicos que
aqueles tinham, fosse pela realização de alianças parentais e pelo estabelecimento de
relações de amizades, tentei demonstrar a imbricação entre tais grupos, pois, ao
adotarem quaisquer dessas estratégias, o que estava em jogo, para os seus integrantes,
em última instância, era a preservação das relações de poder que davam vida à
sociedade e à economia então existentes. Apesar das relações de trabalho
predominantes, na Província, não serem as assentadas no escravismo, segundo se terá a

13
Optei por fazer aqui apenas uma discussão teórica sobre o assunto. As evidências documentais que
demonstram a natureza pré -industrial da sociedade e da economia estudadas encontram-se no decorrer
dos capítulos.
oportunidade de discutir, ficou evidenciado, também, que se tratava de uma mão-de-
obra não assalariada e, assim, não disponível ao sistema se compra e venda no
mercado. 14 Neste sentido, as mencionadas estratégias foram analisadas através do
intuito da elite em reiterar a hierarquia social diferenciada então existente, haja vista que
isso possibilitaria a própria manutenção das relações de produção que sustentavam a
economia em questão, bem como a salvaguarda do lugar ocupado pela mesma na
pirâmide social do Grão-Pará. Além do mais, tendo como base essas últimas questões,
e visto a economia, a política, o parentesco e as relações sociais em geral encontrarem-
se entrelaçados, é que foram entendidas as relações de favores que os integrantes da
elite mantiveram, seja com a Coroa portuguesa, seja com a administração provincial.
Tais relações foram aqui apreendidas, portanto, como um dos mecanismos que
permitiram à elite o gozo de prestígio social, bem como o acúmulo de cabedais.
Por fim, o uso daquele referencial teórico possibilitou, também, a percepção do
que norteava as críticas dirigidas ao negócio da borracha, por parte dos homens à frente
da administração e da política paraenses. Considerando-se que alguns desses sujeitos
pertenciam à elite local, a forma pela qual aqueles círculos entendiam o crescimento do
dito ramo da economia guardava interesses relativos ao reforço da hierarquia social
existente na região.
A necessidade de definir o que consiste uma economia e uma sociedade de
tipo pré- industrial pode ser mais bem entendida com o esclarecimento do conceito de
elite utilizado neste estudo. Em vez de acoplá- lo à perspectiva, especificamente, do
poder político ou do econômico, empreguei esse conceito em um sentido mais amplo,
procurando dar conta das pessoas, famílias, ou grupos de famílias, que ocupavam o topo
da hierarquia social local. Tomei como base as considerações feitas por Barrington
Moore, que afirma ser o controle sobre os postos de comando, ou sobre o governo, em
seus variados níveis, inclusive o ligado à esfera militar, um dos principais responsáveis
pela existência da desigualdade social ao longo da história humana. Tal fenômeno
deriva do fato de serem aqueles postos essenciais para a existência e a reiteração de uma
determinada sociedade. No entanto, para o próprio desempenho de suas funções, ou
para que possam exercê- las, os sujeitos têm que, continuamente, afirmar a sua

14
Chamo a atenção que não trabalhei especificamente com o mosaico das formas de produção da região
sob análise. Contudo, como será apresentado, sobretudo no segundo capítulo, ficou patente que se
tratavam de organizações de tipo pré-industrial.
ascendência sobre a sociedade e, portanto, possuir legitimidade social. Assim, a riqueza
material, por si só, não é determinante na constituição do caráter da elite, embora o
controle sobre os postos de comando seja uma importante via de acesso ao
enriquecimento. 15 Sobre o último ponto, acredito, o mesmo torna-se ainda mais
evidente em uma sociedade de tipo sociedade pré- industrial, pois a economia encontra-
se, em larga escala, mediada pela política, entre outros elementos.
Em vista do apresentado, o que entendo como elite é um grupo de sujeitos que,
em última análise, ocupava o topo da escala social do Grão-Pará. No entanto, em
função de ter sido afirmado anteriormente, nesta Introdução, que algumas famílias da
elite paraense oitocentista puderam ter as suas trajetórias na região remontadas ao
século anterior, há que se marcar algumas diferenças na constituição daquele grupo que
puderam ser vislumbradas entre esses dois períodos. Seguramente, tanto no século
XVIII, quanto no XIX, a economia e a sociedade existentes no Pará ainda eram de tipo
pré-industrial. Ao dizer isso, quero sublinhar que as esferas econômica e política não se
encontravam separadas, bem como a prevalência de uma lógica econômica que não se
esgotava no lucro. Com relação a esta última questão, e especialmente entre os
integrantes do que estou chamando de elite, os mesmos tinham as suas ações motivadas
pela conquista e/ou manutenção de prestígio social, pois era ele o fator que, em última
instância, atuava na definição do grupo em questão. De todo modo, não se pode
desconsiderar que um certo nível de riqueza material era importante para a consecução
daqueles interesses relativos à estratificação social. E é neste ponto que residem as
diferenças notadas na constituição da elite entre os dois períodos mencio nados. Como
será mais bem desenvolvido no terceiro capítulo, no decorrer do Oitocentos ganharam
um maior relevo as formas de acumulação mercantis, em detrimento do sistema de
mercês vigente na época colonial. Deixando de lado, por enquanto, tais mudanças, e
tomando como base o proposto por Stone 16 acerca da estratificação social, pertencer à
elite pressupunha contínuos esforços por parte dos seus integrantes. Os que estavam
naquela posição não a tinham como propriedade; antes, fazer parte da elite significava
ocupar um determinado locus na pirâmide da sociedade. Para manter-se enquanto tal, a
elite precisava colocar em prática determinadas estratégias.

15
MOORE JR., Barrington. Aspectos Morais do Crescimento Econômico. Rio de Janeiro: Record, 1999,
pp. 165-197.
16
STONE, Lawrence. La Crisis de la Aristocracia, 1558-1641. Madrid: Alianza, 1985, p. 38.
A noção de estratégia, cara à micro-história italiana, é um outro ponto de apoio
para o estudo aqui desenvolvido. Trabalhada por Giovanni Levi em suas análises sobre
a constituição de alianças sociais horizontais e verticais, trajetórias familiares, relações
entre poder local e central, entre outras questões, a partir da comunidade piemontesa de
Santena durante o século XVII 17 , aquela noção é, em grande medida, influenciada pelas
idéias do antropólogo Fredrik Barth. Tanto Levi, quanto Barth, criticaram a concepção
de que, qualquer que fosse a sociedade, esta se constituísse de uma forma totalmente
homogênea, sendo regida por sistemas coerentes de normas, o que explicaria todas as
ações entre os seus membros. Partindo de uma perspectiva oposta, propõem que se
devam dar atenção às contradições dos sistemas normativos, as quais se expressam na
pluralidade dos pontos de vista com que os indivíduos e grupos orientam as suas ações e
experiências, tornando, assim, os sistemas fluidos e em contínuo processo de adaptação,
ou de mudança. Na verdade, tal concepção, desenvolvida por Barth e instrumentalizada
na micro- história através da redução da escala de observação,

“(...) parte do princípio de uma construção incessante do tecido social como uma interação
contínua entre as diversas pessoas e grupos que se lançam ativamente a cada momento em
busca de diferentes objetivos e articulando diversas formas de ação”18 .

A partir do exposto acima, que, de certa forma, traduz a noção de rede social,
central nas idéias de Barth, ganha sentido o conceito de estratégia. Longe de significar
a existência de sujeitos totalmente livres e racionais, possuindo amplos conhecimentos
do meio no qual colocariam em prática as suas ações, aquele conceito procura dar conta
de pessoas e grupos que agem em função de dois fenômenos. Por um lado, o
comportamento social varia de acordo com os recursos – materiais, culturais e
cognitivos – que os sujeitos ou os grupos dispõem, os quais são distribuídos de forma
desigual na sociedade, qualquer que seja esta. 19 Por outro lado, devido estarem em uma
contínua interação entre si, os sujeitos ou os grupos têm os resultados de suas ações
dependendo das reações alheias, do que decorre um grau de incerteza em todo ato.
Desses dois fatores, resulta a própria necessidade dos atores sociais terem diferentes

17
LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: Trajetória de um exorcista no Piemonte no século XVII. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
18
LIMA FILHO, Henrique Espada Rodrigues. Microstoria. Escalas, Indícios, Singularidades.
Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1999, p. 258. (Tese de Doutorado em História)
19
Cf: BARTH, Fredrik. “Os Grupos Étnicos e suas Fronteiras”. In: BARTH, Fredrik. O Gruru, O
Iniciador e outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2002, pp. 30-31.
estratégias, sendo estas entendidas como práticas que visam proporcionar- lhes um maior
grau de previsibilidade, ou mesmo de interferência, sobre o rumo dos acontecimentos
que lhes dizem respeito, não se reduzindo, portanto, a interesses puramente
econômicos. 20
No que toca a este trabalho, o conceito de estratégia foi bastante útil para o
entendimento dos mecanismos que permitiram a determinadas pessoas e/ou famílias
acumular e/ou manter cabedal e prestígio social. Por ser a economia considerada de
natureza pré- industrial, foi exposta a importância do acesso aos variados níveis dos
postos de comando para o próprio constituir-se da elite aqui tratada. Não obstante, a
fim de conseguir tal ingerência, era necessário que os integrantes da elite tivessem
ascendência sobre a sociedade e, assim, legitimidade social. Isso significava que
aquelas pessoas tinham de estar inseridas em redes sociais que lhes dessem condições
para tanto. Ocupar o locus social da elite não era um fenômeno que ocorresse de forma
natural e permanente, e os integrantes desse grupo sabiam disso. Daí o imperativo dos
membros da elite terem estabelecido diferentes tipos de alianças, a exemplo dos
casamentos e das redes de amizades, aqui privilegiados. Da mesma forma devem ser
entendidas as relações de favores que alguns integrantes desse grupo mantiveram com a
esfera política, e mesmo as críticas dirigidas à borracha. Essas são questões, no entanto,
que devem ficar mais claras no decorrer dos capítulos.

3. Fontes e Métodos da Pesquisa

Os procedimentos metodológicos adotados estiveram voltados para o


cruzamento de corpus documentais possuidores de naturezas diversas, mais
especificamente inventários post-mortem, jornais, recenseamento da população do
Império de 1872, relatos de viajantes referentes ao século XIX, Relatórios de
Presidentes de Província, diferentes manuscritos guardados no Arquivo Histórico

20
Idem, pp. 255-260; e ROSENTAL, Paul-André. “Construir o ‘macro’ pelo ‘micro’: Fredrik Barth e a
‘microstoria’”. In: REVEL, Jacques (org.). Jogos de Escalas: A experiência da microanálise. Rio de
Janeiro: Editora da FGV, 1998, pp. 151-163.
Ultramarino e disponibilizados pelo Projeto Resgate, além de algumas obras de caráter
biográfico.
De início, os relatos de viajantes e os Relatórios de Presidentes de Província
foram utilizados com o interesse de demonstrar a não ocorrência de uma crise
generalizada da agricultura, particularmente a voltada para a produção de alimentos, em
função do incremento inicial da coleta da seringa. Através desse material, e sendo
tomado como espaço privilegiado de análise a cidade de Belém – centro administrativo
da Província e então principal praça exportadora da borracha na Amazônia -, obtive
informações sobre como o crescimento da economia gomífera na Província
correspondeu a mudanças na dita área urbana, tais como melhoramentos materiais, uma
maior presença de estabelecimentos comerciais e um fluxo, sempre crescente, de
pessoas que para lá se dirigiam atraídas pelas oportunidades econômicas que o negócio
da borracha acenava. Especialmente no caso dos relatos de viajantes, procurei tomar o
cuidado de cotejar informações, acerca da capital, registradas em momentos distintos,
sendo que algumas destas foram fornecidas por uma mesma pessoa que esteve mais de
uma vez na cidade de Belém. Tal procedimento esteve voltado justamente para a
tentativa de se perceber as mencionadas mudanças geradas pelo negócio gomífero, além
de ilustrar como a própria expansão desse ramo da economia local gerava a necessidade
da Província possuir, também, uma organização produtiva voltada para a subsistência,
pois a sociedade necessitava garantir a sua existência material.
Ainda tendo o interesse mencionado acima, por meio de dados seriados sobre
os volumes alcançados por alguns dos principais gêneros produzidos e exportados pelo
Grão-Pará (borracha, cacau, açúcar, algodão, arroz e farinha de mand ioca), durante os
anos de 1847-1867, constantes nos Relatórios, foram montadas curvas
semilogarítimicas, visando comparar as tendências de crescimento dos itens analisados.
Do mesmo modo, tendo como origem os Relatórios, algumas informações sobre as
importações feitas pela Província, em anos das décadas de 1850 e 1860, foram
utilizadas no sentido de verificar quais os gêneros que compunham aquele tipo de
comércio. Contudo, é importante destacar, por não se ter conseguido uma série desses
dados, os mesmos foram utilizados de maneira pontual, ou seja, sem serem agregados
em curvas semilogarítimicas, conforme feito para as exportações. Todos esses recursos
foram adotados com o objetivo de notar tanto o impacto da produção da borracha na
produção agrícola, de um modo geral, quanto se a região estava precisando importar
produtos para o consumo interno da população. Neste sentido, mais uma vez foram
manuseados os relatos de viajantes para a análise de quais eram os itens básicos da dieta
da maioria dos habitantes do Pará.
Outro tipo de fonte empregada nesta parte do trabalho foi o Censo de 1872.
Com base nesse material, foram montadas pirâmides populacionais no intuito de
verificar se a configuração demográfica da Província era indicativa da ocorrência de
uma crise de subsistência na mesma. Por fim, novamente os relatos de viajantes, junto
com alguns inventários, foram empregados com o interesse de fornecer um panorama
geral que se acredita aqui ser a lógica interna da organização econômica paraense de
meados do Oitocentos.
Em outro momento deste estudo, os inventários foram usados de forma serial.
Em função de seu caráter massivo e reiterativo, esse corpus documental se configurou
em um material extremamente rico para a análise dos padrões de investimentos e das
formas de acumulação por parte dos diferentes grupos econômicos, no período de 1850
a 1870. Tendo optado por fazer um levantamento de todos os inventários possuidores
do item relativo à avaliação dos bens disponíveis para o município de Belém, existentes
para o período aqui enfocado, arrolei o total de 221 processos, e busquei, primeiro,
identificar os traços gerais da economia paraense.
Em seguida, tentei apreender a distribuição da riqueza produzida pela
economia provincial entre os diferentes grupos sociais presentes na mesma. Com esta
finalidade, e após a transformação de todos os valores arrolados do real para a libra
esterlina 21 , foram estabelecidas faixas de fortunas, a partir dos valores brutos das
riquezas inventariadas. Tendo em vista as desigualdades econômicas e sociais que
perpassavam a economia pré-industrial considerada, a elaboração dessa hierarquia foi
importante para analisar não somente o grau de inserção de cada um daqueles grupos,
mas, também, a participação dos mesmos no processo de reiteração da dit a economia.
Esse procedimento foi válido, ainda, na medida em que indicou quais as possibilidades
de acumulação, por parte dos diferentes setores sociais presentes no universo analisado.
O passo seguinte à verificação da distribuição da riqueza entre os diferentes
grupos sociais foi o de perceber a composição dos bens em cada uma das faixas de
21
Os valores usados para a conversão do real para a libra esterlina foram retirados de MATTOSO, Kátia
Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 254.
fortunas estipuladas. O interesse nesta parte do trabalho foi o de, por um lado,
apreender as formas de investimentos predominantes em cada faixa de fortuna, e, por
outro, perceber a participação de cada faixa principalmente nas atividades rurais e no
comércio, consideradas em separado, como na totalidade da economia. De fato,
levando em conta que a economia do Pará oitocentista não pode ser entendida sem que
levemos em consideração os fatores de natureza não-econômica que condicionavam o
seu funcionamento, procurei relacionar os investimentos feitos, sobretudo, pelos
maiores agentes daquela a elementos como, por exemplo, a conquista e/ou a
manutenção de prestígio social. E isto foi realizado no sentido de verificar a
diversidade de setores econômicos em que esses inventariados estavam envolvidos, a
exemplo das inversões de capital realizadas do setor comercial ao agrícola e à atividade
de rentista urbano. Com tais procedimentos, tive o interesse de discutir a dificuldade de
considerar especialmente os grupos ligados às atividades rurais e ao comércio de forma
separada.
Antes de prosseguir, acredito ser importante chamar a atenção para o caráter,
de certa maneira, artificial da hierarquia estabelecida a partir dos inventários. Por se
estar tratando de uma sociedade onde a economia, a política, o parentesco e as relações
sociais em geral encontravam-se entrelaçados, supor o estrato social de uma pessoa e/ou
um grupo apenas a partir da fortuna material constitui-se tão somente em uma tentativa
aproximada de se alcançar aquela hierarquia. Em que pese essa consideração, como não
há outro método para o manuseio desse tipo de documento que permita atingir o
objetivo aqui proposto, penso que este não pode ser descartado.
Como exemplo da limitação apresentada, um dos processos pesquisados, de
Joaquim Gomes do Amaral22 , apresenta uma fortuna que está longe de se situar entre as
maiores verificadas, com o montante de 2.891,92 libras esterlinas. Dono de um grande
número de escravos, quarenta e quatro no total, mas englobando, em sua enorme
maioria, mulheres e crianças, eram esses cativos os itens que forneceram os maiores
valores ao espólio de Joaquim, com o índice de 87% do monte-bruto. Além de
escravos, foram arroladas duas pequenas propriedades rurais e quatro casas, sendo duas
na cidade de Belém e as outras na Freguesia de Bujarú. Ao morrer, Joaquim tinha, entre
seus sete filhos, um chamado Antônio Joaquim Gomes do Amaral, que estava estudando

22
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1853, Caixa/Ano: 1853, doc. 02.
Medicina na Bahia, o que, per si, já indica se não recursos financeiros da família
capazes de sustentar essa empreitada, pelo menos relações sociais com pessoas que
tinham condições de patrociná- la. Fornecendo suporte às alianças sociais com sujeitos
de destaque social no local, sei ainda que, depois de ter voltado ao Pará, Antônio se
casou com Maria Francisca Pinto Guimarães, filha do Barão de Santarém, Miguel
Antônio Pinto Guimarães, tendo chegado ao posto de Senador do Império em 1884.23
Este caso aponta, portanto, para a possibilidade de um sujeito e/ou uma família, com um
cabedal que não lhe fornecesse um lugar de destaque em uma hierarquia estabelecida
por meio de inventários, ter a sua posição na mesma modificada por relações parentais,
dentre outras. Afinal, mesmo não podendo ser incluído entre as pessoas de maiores
posses inventariadas e, por isso, tendo deixado uma herança material que, naquele
universo, não era de grande monta aos seus filhos, Joaquim teve um rebento que, seja na
profissão de Médico, seja pela aliança matrimonial que realizou, certamente angariou
prestígio social para si e, pelo menos, para seus familiares mais próximo s. Tal situação,
também possivelmente, proporcionou- lhes um lugar na sociedade hierarquia social da
região sob análise que a consideração apenas de um processo não permite alcançar.
Dando continuidade à apresentação das fontes e da metodologia empregadas
neste estudo, e a fim de buscar as redes de relações sociais – particularmente através de
casamentos e amizades - que articulavam os grupos acima, pertencentes à elite paraense
de meados do século XIX, as relações de favores que os ditos mantiveram com a esfera
política, bem como os espaços que os mesmos possuíam na política, lancei mão de toda
a documentação coletada para a realização do presente estudo, exceto o Censo de 1872.
Neste material, um merece ser destacado, pois, como se verá, foi o que serviu de base
para quase a totalidade dos casamentos que trabalhei. Em um pequeno artigo publicado
no ano de 1985 24 , Rosa Marin já chamava a atenção para as alianças parentais entre o
que ela classificou em três categorias: militares, proprietários rurais e comerciantes.
Este texto, pouco cit ado nos estudos atuais feitos sobre o Pará, possui uma quantidade
de dados realmente fantástica. No entanto, mesmo analisando a realização dos
matrimônios sob a perspectiva dos interesses relativos à reprodução social da elite

23
Sobre o casamento e o cargo de Senador de Antônio Joaquim Gomes do Amaral, cf: AMARAL, Auta
Arruda do. São Braz. Um Tempo que Passou. Belém: Edição da Autora, 1997, pp. 10-12.
24
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo. “Alianças Matrimoniais na Alta Sociedade Paraense no Século
XIX”. In: Estudos Econômicos, nº 15, 1985, pp. 153-167.
paraense, a autora, evidentemente porque não era a sua preocupação, deixa de
problematizar a relação entre os sujeitos envolvidos com a borracha e os setores
tradicionais daquela elite, relação esta que é central neste trabalho. Procuro, portanto,
reconhecer a importância de um texto sem o qual teriam sido impossíveis muitos dos
resultados aqui obtidos.
A metodologia empregada neste momento da pesquisa foi inspirada na
proposta da micro-história italiana, tendo-se, assim, adotado o nome como fio condutor
da pesquisa. 25 As informações obtidas foram processadas em um banco de dados criado
no software Access, cujo principal mecanismo de busca é o nome. 26 Deste modo, fichas
individuais foram criadas, contendo campos que pudessem aglutinar determinados
elementos, como: se o sujeito possuía cargos públicos ou não, a naturalidade e a idade
do mesmo, se tinha patentes, os tipos de negócios em que estava envo lvido, e os nomes
do cônjuge, dos sogros, dos pais, dos avós maternos e paternos, dos irmãos, dos filhos.
Quando ocorresse o caso de fazer menção a pessoas que mantivessem as relações
familiares mencionadas com o “proprietário” da ficha, e as mesmas tivessem
naturalidade conhecida, campos para a identificação desta também foram concebidos.
Também, um campo geral chamado “Observações” foi pensado, onde fosse possível
incorporar qualquer tipo de informação que não se enquadrasse em nenhum dos outros
citados, mas que, de alguma forma, pudesse vir a ser útil para a pesquisa. Por meio de
tais procedimentos, qualquer que fosse o nome existente no banco de dados, o mesmo
poderia ser encontrado em todas as fichas em que se fizesse presente.
Por fim, para a proposta de entender a forma por que a administração e a
política no Grão-Pará estavam pensando o início do crescimento do negócio da
borracha, lançou-se mão basicamente de Relatórios de Presidentes de Província e de
jornais. Com esses tipos de documentos, intentei alcançar:

• A forma pela qual os sujeitos que compunham aqueles círculos


entendiam as atividades econômicas, mais especificamente a

25
GINZBURG, Carlo. “O Nome e o Como: Troca desigual no mercado historiográfico”. In:
GINZBURG, Carlo. A Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa; Rio de Janeiro: Difel; Bertrand Brasil,
1991, pp. 169-178.
26
Agradeço à Martha Hameister por ter me ensinado a trabalhar com este software, bem como sugerido a
forma de montar o banco de dados mencionado.
agricultura, o extrativismo e o comércio, bem como a importância das
mesmas para o desenvolvimento da economia provincial; e
• As propostas que visavam o alcance da civilização e do progresso por
parte do Grão-Pará, as quais passavam notadamente pelo
remodelamento das práticas de trabalho das chamadas camadas
subalternas, entre outros elementos.

Através do material documental e dos procedimentos metodológicos expostos


acima, pude, então, chegar aos resultados que se seguem. No Capítulo I, analiso a
historiografia sobre a economia do Grão-Pará durante o período em que a borracha
começa, progressivamente, a crescer nas pautas de exportações provinciais. O intuito é
o de demonstrar a incapacidade de tais estudos, em sua grande maioria, em explicar a
maneira pela qual a sociedade paraense respondia as suas próprias necessidades de
existência e reiteração material, em função dos mesmos considerarem o extrativismo
como a base da organização econômica local desde o período colonial, situação essa que
se acentuaria com o aumento da produção e da comercialização da goma elástica a partir
dos anos de 1850. Com isso, procuro analisar como, a despeito do evidente incremento
do negócio da borracha, não ocorreu uma decadência generalizada da agricultura e, em
especial, da produção de alimentos na Província. Também, apresento o que acredito ser
uma visão mais aproximada da organização produtiva da região no mesmo período.
No Capítulo II, identifico as características gerais da economia do município de
Belém, as formas de acumulação possíveis e a distribuição social da rique za produzida
no mesmo, bem como os tipos de investimentos no interior da elite econômica local,
durante os anos de 1850 e 1870. Assim, serão analisados os motivos que levaram o
grupo vinculado predominantemente à atividade mercantil ocupar o topo da hierarquia
econômica na região em questão, e a prática do mesmo em aplicar parte dos seus ativos
em outros setores, tais como as atividades rurais e a de rentista urbano. Neste sentido,
serão discutidas as dificuldades de se pensar os grupos econômicos da elite de forma
separada.
No Capítulo III, serão privilegiadas as alianças parentais e as amizades entre
alguns grupos familiares da elite paraense oitocentista. Procurarei demonstrar que por
meio desses dois tipos de relações sociais, aquilo que se estou considerando como elite
englobava sujeitos tanto vinculados às atividades rurais, quanto ao comércio, sendo que
alguns dos mesmos possuíam evidentes interesses na continuidade da expansão da
produção e da comercialização da borracha. Também, serão trabalhados alguns casos
de relações de favores mantidas por membros da elite para com a esfera política na
região. Objetivo, com isso, explicar que tais estratégias foram fundamentais tanto para
o acúmulo de riquezas, quanto para o prestígio social usufruído pelo grupo. Em certos
casos, será mesmo possível remontar as mencionadas estratégias ao século XVIII, a fim
de evidenciar que, de um modo geral, está-se aqui tratando de uma elite que, em meados
do Oitocentos, já estava estabelecida no Pará desde longas datas. Por fim, será exposto
que a forma pela qual os homens à frente da política e da administração paraenses -
alguns dos quais representantes da elite antes apresentada - estavam entendendo o
incremento do negócio gomífero, antes de indicar uma resistência em relação ao
mesmo, guardava interesses na manutenção da hierarquia bastante desigual então
existente, pois era ela que dava suporte à economia e a sociedade da época.
CAPÍTULO I

Uma economia nos tempos da borracha: as relações entre a agricultura


e o extrativismo no Grão-Pará oitocentista

1. As explicações tradicionais sobre a economia do Grão-Pará no século XIX

Uma economia assentada basicamente sob as atividades extrativas, desde o


período colonial, e que, com o aumento da produção e comercialização da borracha, no
decorrer da segunda metade século XIX, teria essa sua característica acentuada. Ou
ainda que se refiram à existência de atividades agrícolas, com relativa proeminência, no
Pará, consideram que esse tipo de produção teria passado a ocupar um espaço marginal
na economia local, a partir daquele mesmo período. Essas são as análises, de modo
bastante geral, que a historiografia tradicionalmente oferece acerca da organização
econômica do Grão-Pará, as quais são estendidas, inclusive, para os outros territórios
que hoje compõem a Amazônia brasileira.
Além do mais, como se poderá perceber, é bastante comum parte dessas
mesmas obras apontar para uma preferência das atividades agrícolas, entre políticos e
letrados provinciais, enquanto meio mais adequado de desenvolver a economia do Grão-
Pará oitocentista. Mesmo com o progressivo crescimento da produção e
comercialização da goma elástica a partir da década de 1850, em função de tais análises,
mais ou menos explícitas dependendo da obra considerada, acabarem atrib uindo uma
considerável separação entre os setores ligados ao comé rcio, ao extrativismo e à
agricultura, as mesmas sugerem que aquele ramo em expansão da economia local não
seria entendido enquanto meio capaz de contribuir para os tão acalentados projetos de
desenvolvimento da Província. Vejamos isso com mais calma.

32
Um dos autores que trabalham com a perspectiva referida acima é Ernesto
Cruz1 . Responsável por inúmeras e importantes obras sobre a história da região
considerada, seus estudos, no entanto, foram produzidos nos moldes dos intelectuais
que, ainda na primeira metade do século XX, encontravam-se vinculados aos Institutos
Históricos e Geográficos distribuídos por várias regiões do país 2 , sendo o próprio Cruz
membro do Instituto sediado no Pará desde 1921. Marcada por um grande apego aos
personagens e aos fatos, sem os rigores acadêmicos adquiridos após a profissionalização
do historiador, a obra de Cruz não pode deixar de ser aqui problematizada, por se
constituir em uma importante referência para o conhecimento histórico local, muito
embora estejam claros os limites impostos pelo próprio tempo em que a mesma foi
produzida. Assim, o mencionado autor, ao estudar os projetos de colonização e
imigração pensados para o Pará de meados do século XIX, considera que estes teriam
por objetivo dar um novo aspecto à economia regional, a qual não teria adquirido
nenhuma duradoura prosperidade desde o período colonial. Os núcleos coloniais
deveriam ter como finalidade centrar a sua produção em gêneros como a cana-de-
açúcar, mandioca, fumo, café, milho e arroz, para que a Província pudesse tanto suprir a
sua demanda de consumo interna, quanto aumentar e diversificar a sua exportação. Para
o autor, portanto, as propostas de desenvolvimento econômico para o Grão-Pará
oitocentista estariam relacionadas à implementação de medidas que impulsionassem as
atividades agrícolas na região, haja vista que o extrativismo haveria predominado na
produção local desde a época colonial.
Clodomir Vianna Moog3 é outro autor que, também, pode ter a sua obra vista a
partir dos moldes dos estudos feitos no início do século XX, como apontado acima.
Funcionário do Governo Federal na cidade de Manaus durante a primeira metade do

1
CRUZ, Ernesto (a). Colonização no Pará. Belém: Conselho Nacional de Pesquisas; Instituto Nacional
de Pesquisas da Amazônia, 1958, especialmente pp. 9-18. É necessário destacar, entretanto, que este
autor possui uma obra onde discute, pontualmente, a indústria açucareira no Pará colonial e imperial.
Mas, conforme argumenta Cruz, seja pela falta de recursos financeiros por parte dos proprietários, devido
a própria situação econômica precária da Capitania, seja pela carência de mão-de-obra, ou ainda devido a
algumas restrições à exportação do açúcar, impostas pela Metrópole, a fim de não prejudicar a produção
da Bahia e de Pernambuco, tais engenhos não chegaram a lograr um grande êxito. Ver: CRUZ, Ernesto
(b). História da Associação Comercial do Pará. Belém: Editora Universitária da UFPa, 1996, pp. 43-62.
2
Para uma análise sobre a forma de pensar e de construir o conhecimento histórico nestas instituições, de
uma forma geral, i.e., para além das especificidades de cada Instituto existente no Brasil, cf:
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no
Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 133-138.
3
MOOG, Clodomir Vianna. O Ciclo do Ouro Negro. Impressões da Amazônia. Belém: Conselho
Estadual de Cultura, 1975, pp. 23-27 (1ª edição de 1936).

33
Novecentos, teve os ensaios constantes no livro aqui citado publicados inicialmente em
jornais de Porto Alegre, e conseguiu uma grande inserção nos “círculos da inteligência
amazonense” à época 4 . Assim, mesmo sendo um estudo evidentemente datado, merece
ser aqui discutido pela importância que lhe foi atribuído enquanto esforço de
conhecimento para a história da região, tanto que, dado à luz em 1936, o livro de que
aqui se trata teve uma nova edição, em Belém, durante o ano de 1975. Feitas estas
considerações, veja-se o apontado pelo autor acerca do tema deste trabalho. Segundo
Moog, apesar de na primeira metade do século XIX a produção de gêneros como o
algodão, o açúcar, o feijão e a mandioca, ser suficiente para a demanda interna,
chegando até mesmo a gerar excedentes destinados à exportação, durante a segunda
metade do oitocentos ocorreria “(...) uma brusca paralização nessa festiva e promissora
atividade” 5 . A partir dos anos de 1850, então, a economia amazônica passaria a estar
estruturada em torno da extração da borracha, em função do aumento na demanda e nos
preços da goma elástica ter ocasionado o fim dos “ensaios agrícolas” na região, com
uma “desenfreada corrida rumo aos seringais, com o abandono da lavoura, das oficinas
e dos rebanhos” 6 . De fato, para Moog, a metade do século XIX representaria um marco
divisor para a economia amazônica, pois, com a valorização da borracha, “(...) encerra-
se o ciclo da policultura e das indústrias. E começa o ciclo fatal do ouro negro” 7 .
Arthur Cezar Ferreira Reis é outro autor que, à semelhança dos dois
anteriormente apresentados, constitui-se em uma destacada referência para a
historiografia local. Dono de uma vasta e importante obra sobre a região, seus estudos
se aproximam bastante daqueles realizados por Ernesto Cruz. Com formação em
Ciências Jurídicas, integrou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro durante a
década de 1970, e suas análises, certamente marcadas pela época em que foram
desenvolvidas, serão aqui problematizadas sem que se perca de vista os seus limites
intrínsecos. Sendo assim, Reis também aponta que as atividades agrícolas teriam sido
abandonadas em função da extração da borracha durante o período ora discutido. Nesse
sentido, com o aumento da produção da goma elástica, a paisagem social da Amazônia

4
As informações sobre a vida e a obra de Vianna Moog, bem como a citação feita no corpo do texto,
foram obtidas em REIS, Arthur Cezar Ferreira. “Introdução”. In: MOOG, Clodomir Vianna., op. cit., pp.
5-8.
5
MOOG, Clodomir Vianna., op. cit., p. 24.
6
Idem, p. 25.
7
Idem ibidem.

34
seria típica de uma “região dos gomais, das héveas, o mundo do ouro negro...” 8 . E,
somente com a crise da economia gomífera, em fins da década de 1910, é que a
agricultura teria voltado a merecer atenção na Amazônia:

“A lavoura de alimentação, quando a crise da borracha se acentuou, quando os quadros


humanos dos seringais se empobreceram e os aviamentos perderam aquele ritmo de
grandeza dos tempos áureos, voltou a merecer atenção. E na generalidade dos seringais
plantou-se milho, feijão, arroz, café e cana”9 .

É bom que se destaque, entretanto, que Reis menciona a existência de uma


“lavoura alimentar” nas primeiras áreas de exploração da borracha na Amazônia, qual
seja, a do Baixo Amazonas. Tal produção de alimentos seria suficiente, inclusive, à
alimentação dos indivíduos que se dedicavam àquela atividade 10 . No entanto, o que se
apreende da obra do autor é que a presença de atividade econômicas diversas – no caso
a extração e o cultivo – nessas primeiras áreas de exploração da seringueira, em meados
do século XIX, seria uma particularidade local.
Roberto Santos, em sua obra mais conhecida pela historiografia regional11 , é
bastante emblemático do enfoque tradicionalmente dado à organização econômica
amazônica durante as épocas colonial e imperial, conforme está sendo apontando. Com
formação em Economia, escreveu-a na década de 1970, quando, no Brasil, ocorria uma
grande aproximação entre os economistas e a História, sendo, também, um período
marcado pela busca da compreensão do tema da dependência econômica do país.12
Deste modo, em tal conjuntura, os estudos deram especial ênfase a uma suposta
natureza da economia brasileira como se a mesma estivesse, estruturalmente, voltada
para o mercado externo. 13 De fato, se o título da obra de Santos fornece a impressão de
que se irá obter um quadro geral da vida econô mica na região - não somente das

8
REIS, Arthur Cezar Ferreira. O Seringal e o Seringueiro. Rio de Janeiro: Ministério de Viação e Obras
Públicas, 1953, p. 47.
9
Idem, p. 107.
10
Idem, p. 106.
11
SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T.A . Queiroz, 1980.
12
Para um balanço da História Econômica no Brasil, cf: FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo.
“História Econômica”. In : CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da
História. Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, pp. 27-43.
13
Para uma análise crítica desta perspectiva, cf: FRAGOSO, João. Homens de Grossa Aventura.
Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1998, especialmente pp. 57-116. Muito embora esteja concentrado na época colonial e no caso
do Rio de Janeiro, tal estudo fornece espaços para que se entendam os limites explicativos de análises que

35
atividades de obtenção da borracha em função do comércio de exportação, mas da
maneira pela qual os indivíduos trabalhavam voltados para a sua própria subsistência -,
quando se parte para a leitura do todo desse estudo, encontra-se tão somente, após uma
curtíssima discussão da produção de outros gêneros – que não a borracha – para o
período 1800-1840, uma análise centrada na economia gomífera da Amazônia.
Contudo, é necessário destacar que os espaços concedidos por Santos, em sua
obra, aos diferentes gêneros produzidos pela região, estão de acordo com a concepção
que ele tem acerca do modo pelo qual a economia amazônica estaria organizada.
Conforme é possível perceber nesse estudo, Santos somente analisa a economia da
Amazônia como dinâmica, quando a mesma possui algum produto com volumes
consideráveis destinados à exportação, ou seja, estruturalmente, aquela seria voltada
para o mercado externo. Nesse sentido, o intervalo de anos entre 1790-1805 é apontado
como uma “conjuntura de relativa euforia”, devido à exportação do cacau silvestre, ou
coletado 14 , sendo os produtos cultivados entendidos como portadores de um peso
secundário nas formas de produção locais:

“(..) tudo parece indicar que sua principal atividade é a extrativa [a do cacau]. Afora esta,
alguma produção agrícola de exportação (algodão) e de gêneros de subsistência (arroz) não
chegava a ter maior expressão. Mais importante, em termos de mercado interno, há de ter
sido a criação de gado, a produção de pescado e o funcionamento de certas indústrias rurais,
como engenhos de açúcar e aguardente”15

Mas, em princípios ainda do século XIX, durante o período, grosso modo,


compreendido entre os anos 1800-1840, a economia regional entraria em uma “fase de
decadência”, caracterizada, pois, por uma agricultura de subsistência voltada para
consumo local16 . Em função do declínio das cotações e valores do cacau verificados na
Europa até os idos de 1850, por se tratar de uma fase B do ciclo de Kondratieff17 ; da
guerra do Grão-Pará com a Guiana Francesa, a qual teria como decorrência uma

tentam entender a economia de outras regiões do Brasil, em épocas diferentes, a partir, quase que
exclusivamente, de suas relações com os mercados estrangeiros.
14
Para uma análise da produção de cacau na Amazônia durante o século XVIII, ver: ALDEN, Dauril. O
Significado da Produção de Cacau na Amazônia no Fim do Período Colonial: Um ensaio de História
Econômica comparada. Belém: Universidade Federal do Pará; Núcleo de Altos Estudos Amazônicos,
1974.
15
SANTOS, Roberto., op. cit., pp. 23-24.
16
Idem, especialmente pp. 16-37.
17
Para uma periodização da economia internacional segundo o ciclo de Kondratieff, ver: MAURO,
Frédéric. A Expansão Européia. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.

36
ocupação militar da primeira sobre a segunda até o ano de 1817; e dos distúrbios
políticos que se iniciaram com o processo da chamada “adesão” do Grão-Pará à
Independência, e que culminaram no movimento cabano na Província durante os anos
de 1835-1840; aquela “conjuntura de relativa euforia” seria substituída por uma
“economia totalmente sem perspectivas” 18 . Somente em meados dos anos de 1850, com
a crescente demanda internacional pela borracha, é que a economia regional começaria
a ganhar um novo alento, culminando com o grande marco consagrado pela
historiografia regional, o boom da goma elástica na virada do século XIX para o XX.
No entanto, mais uma vez, ao analisar o período que vai aproximadamente de 1850 a
1920, Santos apenas concede importância ao gênero com maior destaque nas pautas de
exportações paraenses:

“O estímulo externo atuou principalmente sobre a atividade extrativa de borracha, e com tal
violência que os demais setores da economia não puderam com ela competir na disputa dos
fatores de produção. A oferta de mão-de-obra tardou a ampliar-se, de modo que a força de
trabalho foi-se transferindo rapidamente para a produção extrativa, ressentido-se disso até
mesmo a agricultura de subsistência”19 .

Barbara Weinstein 20 , de maneira diferente dos outros autores apresentados


anteriormente, teve no estudo aqui discutido a sua tese de doutoramento em história.
Sem dúvida alguma de grande importância para a análise do tema aqui proposto, tal
obra, contudo, apresenta certas lacunas que acredito necessitam ser revistas. Weinstein
não escapa à tradicional caracterização da economia da Amazônia como se esta
estivesse assentada na coleta de gêneros na floresta, para a sua posterior
comercialização com o mercado externo, o que teria feito com que uma “agricultura
organizada” não tivesse sido implementada na região:

“Desde as primeiras décadas da colonização européia, as expedições coletoras constituíram


a base da produção na Amazônia. (...) Esta ênfase (...), em oposição à agricultura
organizada ou mineração, foi o traço que mais marcadamente distinguiu a vida amazônica
de outras áreas de colonização no Brasil colonial” 21 .

18
SANTOS, Roberto., op. cit., pp. 16-37.
19
Idem, pp. 41-42.
20
WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993. (A primeira edição deste livro, publicada nos Estados Unidos, é de 1983.)
21
Idem, pp. 24-25.

37
Em que pesem as considerações feitas sobre algumas áreas onde a agricultura e
a pecuária foram desenvolvidas no Pará, a autora conclui que as atividades extrativas
respondiam à maior parte dos gêneros produzidos localmente. Deste modo, de acordo
com Weinstein, no leste do Pará, nas terras ao redor de Belém e nas regiões banhadas
pelos rios Guamá e Tocantins, existiram, sobretudo, as culturas do arroz, da mandioca e
do açúcar, enquanto a pecuária e os engenhos de cana ganharam espaço na ilha do
Marajó. Já no oeste do Pará, na região conhecida como Baixo Santarém, as áreas
circunvizinhas a Santarém e as localizadas na desembocadura do rio Tapajós, além das
atividades criatórias e culturas agrícolas já mencionadas, vários cacauais também foram
cultivados 22 . Não obstante, as dificuldades financeiras e ambientais da Amazônia,
representadas por constantes baixas produções nas colheitas, os altos custos do
transporte local, os parcos recursos econômicos dos colonos, o que, por sua vez,
dificultava o acesso dos mesmos à importação de escravos africanos, além das
constantes disputas entre os jesuítas e os colonos sobre a mão-de-obra indígena na
região, que culminou com a proibição da escravização dos índios, pela Coroa, logo após
a expulsão daquela ordem religiosa da região, contribuíram, juntos, para a inexistência,
nas palavras da autora, de uma “agricultura organizada” no local23 . Assim, as
dificuldades enfrentadas pelos colonos em suas tentativas de desenvolver uma
agricultura de vulto, teriam levado à predominância das atividades extrativas na
Amazônia, desde a época colonial:

“Em tais condições, era mais que lógico que a maioria dos colonizadores portugueses
utilizasse seus limitados recursos de mão-de-obra em expedições coletoras. (...) Em
contraposição, era muito barato financiar um empreendimento de coleta; não havia terra
para desbravar, colheita para cuidar, maquinaria para comprar. Tudo que se precisava fazer
era equipar uma turma de trabalhadores índios e reunir um comboio de canoas”24 .

E, durante o século XIX, mais especificamente durante o momento em que a borracha


começa a ter uma maior proeminência na economia da região, tal predominância do

22
Idem., pp. 57-58.
23
Idem, p. 27. Ao que tudo indica, ao utilizar o termo “agricultura organizada”, Weinstein se refere a
atividades de cultivo assentadas em grandes unidades produtoras, de modo semelhante às chamadas
plantations, que se fizeram presentes nos atuais nordeste e sudeste brasileiros.
24
Idem ibidem.

38
extrativismo ainda persistiria, através de um “setor extrativo florescente” e um “setor
agrário atrasado” 25 .
Além do mais, ainda segundo Weinstein, as exigências mínimas de capital
necessário às atividades extrativas, juntamente com o costume de proprietários e
comerciantes financiarem e equiparem as expedições de extração, levaram a população
de origem mestiça ou índia a desenvolver, de forma associada, as atividades de coleta,
caça, pesca e cultivo da mandioca 26 . Parece claro, portanto, que, para essa autora, a
ausência de uma “agricultura organizada” na Amazônia significa a não existência de
uma organização agrícola assentada em moldes semelhantes à lavoura canavieira no
Nordeste, ou à lavoura cafeeira no Sudeste, por exemplo.
Também, outro ponto que deve ser destacado é que, mesmo considerando o
extrativismo como a base da economia paraense, Weinstein afirma que, até fins da
década de 1870, o crescente aumento da produção e comercialização da borracha não
seria visto com bons olhos pelos homens que estavam à frente da política e da
administração provinciais. E isto ocorreria em função daquelas esferas serem
controladas pelo que a autora chama de “elite tradicional” paraense, a qual seria
composta por sujeitos ligados à agricultura. Mesmo que se refira a um crescimento de
uma “população cabocla que havia rompido a maior parte de seus vínculos para com a
elite branca” 27 , como uma decorrência da Cabanagem e, assim, a um desvio de mão-de-
obra da agricultura para o extrativismo, bem como ao receio de “novas desordens
políticas” 28 , por parte da elite local, Weinstein deixa claro o principal motivo que
acredita explicar as críticas dirigidas à borracha :

“A hostilidade da elite paraense com relação ao setor extrativo provinha de sua posição
econômica nas décadas anteriores à expansão da borracha e de seus temores de
marginalização econômica”. 29

Também, apesar de considerar que, para letrados e políticos do século XIX, a


prosperidade econômica era vinculada à expansão do setor exportador, a exploração da
goma elástica seria hostilizada por aquela elite local, a despeito da importância que esse

25
Idem, p. 63.
26
Idem ibidem.
27
Idem, p. 59.
28
Idem, p. 60.
29
Idem, p. 56.

39
produto ia tendo nas pautas de exportações provinciais desde os anos de 1850. Aquela
“hostilidade”, aliada ao fato do grupo mercantil ser, em sua maioria, formado por
estrangeiros, sem acesso direto, portanto, às esferas da política paraense, faria com que
a compatibilidade de interesses entre comerciantes e seringalistas esbarrasse na
ingerência mantida pela elite agrícola sobre a administração e a política provinciais. 30
Ruth Burlamaqui de Moraes 31 , muito embora seja responsável por uma das
poucas obras no campo da demografia histórica no Pará, e daí o relevo do seu estudo,
fornece uma excessiva ênfase nos vínculos que a economia da região mantinha com os
mercados estrangeiros. Ao estudar os projetos de colonização e imigração pensados
para o Pará a partir de meados do século XIX, esta autora procura analisar os motivos
que teriam levado os políticos provinciais/estaduais a tentar impulsionar aquelas
medidas. Com tal objetivo, contribuiu para a imagem clássica de uma economia
amazônica carregada, em tons fortes, com as atividades extrativas, especialmente
durante o período de crescimento da exploração gomífera. Na verdade, utilizando, em
larga escala, com fins argumentativos, a obra já citada de Roberto Santos, Moraes
sugere que a economia do Grão-Pará durante a primeira metade do século XIX,
seguindo a maneira pela qual teria sido organizada ainda no início do período colonial,
seria marcada

“(...) basicamente pelo extrativismo destinado à exportação, incipiente agricultura de


subsistência, criação de gado para consumo local, mas insuficiente, e pouca coisa mais”32 .

Como decorrência das lutas pela independência no Pará e da eclosão da


Cabanagem na Província durante a década de 1830, o que gerou uma grande
mortalidade durante os conflitos nesse último período, além do aumento da produção de
borracha a partir dos anos de 1850, o quadro acima descrito de uma deficiente
agricultura de subsistência, acentuar-se-ia:

“(...) na segunda metade do século XIX (...) cresce a crise do abastecimento e da mão-de-
obra para a agricultura, justamente quando se dá uma reorientação à economia regional com

30
Idem, pp. 44-45.
31
MORAES, Ruth Burlamaqui de. Transformações Demográficas Numa Economia Extrativista: Pará
(1872-1920). Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1984. (Dissertação de Mestrado em História)
32
Idem, p. 19.

40
o extrativismo gomífero, para o qual todos os esforços e interesses locais convergem, mais
uma vez, como resposta às exigências do capitalismo industrial externo” 33 .

De maneira semelhante a Cruz, portanto, Moraes também enxerga nos projetos de


colonização e imigração, pensados para o Pará a partir de meados do Oitocentos, uma
tentativa dos políticos provinciais/estaduais fazerem frente à crescente produção de
borracha.
Por fim, há dois estudos de Eli Napoleão de Lima. Apesar de ter o mérito de
buscar entender o abastecimento de Belém durante a segunda metade do século XIX e
início do XX, tentando fazer uma contraposição às análises tradicionais sobre a região,
as quais estavam presas aos vínculos existentes entre a economia paraense e o comércio
de exportação, a autora acaba por reforçar a corrente idéia que apresenta uma dicotomia
entre a agricultura e o extrativismo. Neste sentido, ainda em sua dissertação de
mestrado 34 , Lima aponta que, apesar das tentativas da Coroa portuguesa em desenvolver
uma “infra-estrutura baseada na agricultura” no Grão-Pará, com o objetivo de garantir o
domínio da região diante da tentativa de nações européias rivais, tais como França,
Inglaterra e Holanda, “estas jamais passariam de experiências” 35 . E, como explicação
para tal organização econômica, sem esclarecer melhor a sua argumentação, sugere que

“(...) ao privilegiarem [colonos e Coroa], em grau exacerbado, a pesquisa, e,


conseqüentemente, o conhecimento das possibilidades econômicas da área – veja-se o
minucioso trabalho realizado pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, em 1783 36 –
sem que atinassem para as condições reais e necessárias para que se concretizasse esse
objetivo, não só lançaram mão do fracasso (...), como, também, enriqueceriam ainda mais a
lista das ‘especiarias’” 37 .

De fato, somente mais adiante, em seu texto, é que a autora tenta deixar mais
claro o motivo para a predominância do extrativismo, quando parece sugerir que, em

33
Idem, p. 22.
34
LIMA, Eli de Fátima Napoleão de (a). Produção de Alimentos e Extrativismo: Belém e seus núcleos
subsidiários (Ilha de Marajó e Zona Bragantina) – 1850-1920. Rio de Janeiro: Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro, 1986. (Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Agrícola).
35
Idem, p. 17.
36
Sobre a relação da viagem à Amazônia de Alexandre Rodrigues Ferreira com a Ilustração portuguesa,
ver: COELHO, Mauro Cezar. “As Viagens Filosóficas de Charles-Marie de La Condamine e Alexandre
Rodrigues Ferreira – Um ensaio comparativo”. In: GOMES, Flávio dos Santos (org.). Nas Terras do
Cabo Norte: Fronteiras, colonização e escravidão na Guiana Brasileira – séculos XVIII/XIX. Belém:
Editora Universitária da UFPa, 1999, pp. 97-127.
37
LIMA, Eli de Fátima Napoleão de (a)., op. cit., p. 18.

41
função das condições ambientais locais, uma grande mobilidade populacio nal teria sido
a tônica da vida para grande parte dos moradores da região:

“O sistema extrativista montado na Amazônia não permitiu assentamentos demográficos


permanentes, estabelecendo uma mobilidade incessante em busca dos produtos que
escasseavam nesta e naquela área. Mesmo que alguns núcleos mantivessem uma margem
de relativo equilíbrio demográfico, a economia dependente das flutuações da demanda
externa prejudicava esse tênue equilíbrio, assim como impedia qualquer alteração das
técnicas extrativas existentes. Uma população em trânsito não poderia dedicar-se às
atividades agrícolas nem mesmo àquelas de sustentação. (...) Assim, a região tornou-se
dependente da importação de gêneros produzidos no exterior e em outras Províncias do
Império. Tal dependência tornar-se-ia absoluta durante o ‘ciclo da borracha’” 38 .

Lima, ainda, em artigo recentemente publicado, acaba reforçando algumas


idéias já propostas em sua citada dissertação de mestrado. 39 Ao estudar as tentativas
de criação, por parte da administração provincial, de “núcleos subsidiários”, na Ilha do
Marajó e na Zona Bragantina, para o abastecimento de Belém a partir,
aproximadamente, de meados do século XIX, a autora atribui tais medidas a uma crise
na produção de alimentos, a qual se acentuaria com o incremento do negócio da
borracha na região:

“(...) a crise na produção de alimentos no Pará é anterior ao fenômeno da borracha. O


caráter crítico da produção de alimentos no Pará é devido ao antagonismo existente entre
extrativis mo e agricultura. A especialização agrário-exportadora e a antinomia entre
mercado externo e mercado interno são determinantes em todo o país. O que há de
específico no Pará é justamente não ter definido pelo agrário, pela monocultura de
produtos tropicais. No Extremo -Norte, ainda que ensaiada alguma agricultura, mostrou-se
mais promissor estabelecer-se um padrão de economia extratista de produtos da selva,
padrão esse que atingiria seu ápice na exploração da goma elástica”. 40

É interessante notar que a separação entre a agricultura e o extrativismo, tanto


no que toca à produção paraense, quanto no que se refere aos projetos voltados para o
desenvolvimento provincial, justamente por possuir raízes profundas na historiografia
local, encontra eco até mesmo em obras que somente tangenciaram o tema. Exemplo
disso é o estudo de Richard Graham, o qual, apesar de não se deter especificamente no
assunto aqui privilegiado, em sua análise sobre a relação entre o que chama de

38
Idem, pp. 35-36.
39
LIMA, Eli Napoleão de (b). “As Crises de Subsistência, o Estado e a Agricultura no Pará”. In:
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da., MATTOS, Hebe Maria. & FRAGOSO, João (orgs.). Escritos
sobre História e Educação – Homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Mauad;
FAPERJ, 2001, pp. 537-549.
40
Idem, p. 548. O grifo é da autora.

42
“clientelismo” e o exercício do poder no Brasil do segundo reinado, considera que as
elites paraenses somente teriam alcançado uma maior proeminência no cenário político
imperial durante os últimos anos da monarquia, sendo que tal fenômeno é atribuído,
pelo autor, às crescentes rendas que a borracha gerou para o Grão-Pará durante o
chamado boom daquele gênero. No entanto, mesmo em tempos de expansão daquele
ramo da economia, muitas lideranças políticas locais desejariam desenvolver a
agricultura, especialmente a da cana-de-açúcar, posto que as atividades extrativas
haveriam predominado na região. 41
Se se quisesse aumentar a lista dos autores que sugerem a predominância das
atividades extrativas na Amazônia, ora desde a época colonial, ora no decorrer da
segunda metade do Oitocentos, poderiam ainda ser citados outros exemplos42 . No
entanto, acredito que as análises apresentadas anteriormente já ilustram, de forma
bastante clara, a maneira pela qual boa parte das obras sobre a economia da região está
posicionada em relação ao tema.
Mesmo que se diferenciem no grau concedido à produção agrícola,
especialmente aquela voltada à subsistência destinada ao consumo interno, o que se
percebe nos estudos referidos anteriormente é sempre uma noção que analisa o período
de crescimento da economia gomífera na região, como se o mesmo fosse caracterizado
por uma grande deficiência da produção de alimentos. Na verdade, tal concepção pode
mesmo ser vista como um grande mérito alcançado pelos autores mais antigos, a
exemplo de Cruz, Moog e Reis, pois suas análises, de certo modo, encontraram eco em
estudos produzidos em tempos bastante posteriores aos seus. Como espero ter
evidenciado, pesquisas relativamente recentes, com maiores rigores teóricos e
metodológicos, em vista das próprias épocas em que foram realizadas, se comparadas as
daqueles três autores, acabaram contribuindo para o reforço da visão clássica sobre a
economia da Amazônia, segundo os moldes apontados. Assim, no caso dos trabalhos de
Moog, Reis e Santos, a agricultura de subsistência, ou mesmo de exportação, somente
pareciam merecer atenção por parte da população local, quando não havia um produto-

41
GRAHAM, Richard. Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX. Rio de Janeiro: Editora da
UFRJ, 1997, pp. 31-32.
42
Ver, por exemplo: PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense,
1965; CARDOSO, Fernando Henrique & MULLER, G.. Amazônia: Expansão do Capitalismo. São
Paulo: Brasiliense, 1978; e MEGGERS Betty. Amazônia: A ilusão de um paraíso perdido. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1973.

43
rei, de origem extrativa (cacau ou borracha), nas pautas de exportação. Enquanto as
obras de Cruz, Weinstein, Moraes e Lima, chegam a sugerir mesmo que a agricultura
teria sempre, desde o início da época colonial, ocupado um papel secundário nas formas
de produção amazônicas. Tais perspectivas de análises, contudo, particularmente nos
trabalhos de Cruz, Moraes, Weinstein, Lima e Graham, justamente por enfatizarem a
predominância da produção da goma durante a segunda metade do século XIX, acabam
dando excessiva ênfase nas tentativas de se desenvolver a agricultura no mesmo
período. Esta última questão será abordada no terceiro capítulo deste estudo. Quanto à
deficiência na produção agrícola e/ou de subsistência, a fim de que fiquem claros os
limites impostos por tais estudos, no sentido de se entender de maneira mais apropriada
o funcionamento da econo mia na região, pontuarei, a partir de agora, algumas
questões. 43
De início, devido às próprias condições ambientais da Amazônia - com a sua
grande extensão territorial entrecortada de rios, além da grande diversificação de sua
fauna e flora - a combinação das atividades de coleta, da caça e da pesca, com uma
insipiente agricultura, surge, em algumas análises, quase como uma “vocação natural”
para a população nativa. Nesse sentido, a teoria do determinismo ecológico 44 , que
propugna à favor do meio ambiente básico da Amazônia ser formado por solos ácidos,
lixiviados e frágeis, os quais não teriam permitido a formação de assentamentos
demográficos densos e de longo prazo, parece fazer eco particularmente nos estudos de
Weinstein e Lima, por mais que as mesmas não trabalhem explicitamente com tal teoria.
Essas duas autoras, ao se referirem às baixas colheitas propiciadas pela agricultura na

43
Um trabalho que procura resgatar a existência das atividades agrícolas no Pará, mas a partir da
utilização de escravos negros nas mesmas, é a de BEZERRA NETO, José Maia. Escravidão Negra no
Grão-Pará – Séculos XVIII e XIX. Belém: Paka-Tatu, 2001, especialmente pp. 55-103.
44
Como explicação para o estilo de vida “nômade” dos habitantes da Amazônia, Weinstein considera que
“É pois uma ironia que a planície alivial, que influenciou tão profundamente nossa percepção da
Amazônia, abranja parcela tão pequena da superfície da região – talvez não mais de 2% dela. Para além
da várzea assomam os platôs e as colinas de ‘terra firme’, área imensa cujo solo delgado, tão logo
desprovido da cobertura florestal que o protege, torna-se rapidamente estéril devido a constante
lixiviação. Num marcante contraste com a várzea, cujo solo é constantemente reabastecido de seus
nutrientes pelas enchentes anuais, a ‘terra firme’ não pode suportar senão escassa quantidade de vida
animal, e seus habitantes humanos, para conseguir sobreviver, recorreram a um estilo de vida nômade”.
Cf.: WEINSTEIN, Barbara., op. cit., pp. 21-22. Para uma análise crítica da teoria do determinismo
ecológico sobre os estudos voltados para a análise dos padrões de ocupação populacional e
desenvolvimento econômico da Amazônia, ver: ROOSEVELT, Anna C.. “Determinismo Ecológico na
Interpretação do Desenvolvimento Social Indígena da Amazônia”. In : NEVES, Walter (org.). Origens,
Adaptações e Diversidade Biológica do Homem Nativo da Amazônia. Belém: Museu Paraense Emílio
Goeldi, 1991, pp. 103-140. Agradeço a José Maia Bezerra Neto pela indicação deste texto.

44
região, e à inerente mobilidade espacial da população nativa em busca de gêneros a
serem coletados na floresta, respectivamente, acabam convergindo para a perspectiva de
que, tanto para os colonos, quanto para os nativos amazônicos, a agricultura em larga
escala constituir-se-ia, praticamente, em uma atividade econômica inviável.
No entanto, como bem argumenta a arqueóloga Anna Roosevelt, extensas áreas
da Amazônia são formadas por habitats ribeirinhos e de terra- firme sazonais, com baixa
pluviosidade, ricos em nutrientes, formados por sedimentos recentes e espessos, além de
geologicamente recentes, apropriados, inclusive, para o desenvolvimento de agricultura
intensiva 45 . Nas palavras da autora:

“Contrariamente ao quadro usualmente fornecido na literatura de uma predominância de


solos senis e lixiviados, datados do Terciário ou até mesmo mais antigos, pesquisas recentes
estabeleceram que as formações superficiais de áreas extensas da Bacia Amazônica datam
do Pleistoceno tardio e do Holoceno e que contém sedimentos recentemente erodidos, ricos
em elementos intemperizáveis”46 .

Além do mais, a idéia tradicional de que a Amazônia seria formada por 98% de
terra- firme e somente 2% de várzea 47 , sendo que somente estas últimas seriam terras
férteis apropriadas para a agricultura 48 , também é revista por Roosevelt. Segundo
pesquisas geomorfológicas apontadas pela arqueóloga, muitas áreas de terra- firme no
Alto Amazonas, no sul e no Baixo Amazonas, possuem extensas camadas de rochas
datadas do Cretáceo e do Carbonífero, as quais, na condição do clima tropical com
sazonalidade, produzem solos do grupo Alfisol e Mollisol, com alto conteúdo de
elementos intemperizáveis e, portanto, apropriados até mesmo para a agricultura
intensiva 49 . A fim de argumentar em defesa da fertilidade dos solos amazônicos, e de
sua capacidade para suportar práticas agrícolas em larga escala, Roosevelt chega mesmo
a compará- los com os que serviram de “regiões-berço das primeiras grandes
civilizações”:

45
Idem, p. 108.
46
Idem, p. 109.
47
Diferenciadas em função das variáveis vegetação, solos e inundações periódicas.
48
Ver SALATI, Eneas et al. Amazônia: Desenvolvimento, integração e ecologia. São Paulo:
Brasiliense, 1983, pp. 101-143 apud SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (a). Os Fios de Ariadne: Tipologia
de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880. Manaus: Editora da Universidade do
Amazonas, 1997, p. 22.
49
ROOSEVELT, Anna C.., op. cit., pp. 109-110.

45
“(...) a velha afirmação de que 98% dela [Bacia Amazônica] consiste em solos senis e
pobres em nutrientes está muito longe da realidade. Além de sua extensão em termos de
área, as ricas planícies pleistocênicas e holocênicas amazônicas são circundadas por
florestas de terra firme, das quais as melhores são apropriadas para a agricultura e as piores
para o cultivo de corte-e-queima e forrageio. (...) O Nilo, o Indus e os rios da Mesopotâmia
e da costa peruana, em contraste, são ladeados, primariamente, por sedimentos desérticos,
não cultiváveis. Em termos de potencial de subsistência, portanto, a região amazônica é
mais favorável do que as regiões-berço das primeiras grandes civilizações”50 .

Portanto, a idéia que tende a explicar a predominância do extrativismo, dentre


as demais formas de produção na Amazônia, a partir de quase uma “vocação natural” da
região, conforme apontei acima, não encontra respaldo em estudos recentes sobre o
meio ambiente da mesma. Além do mais, deve ficar registrada a possibilidade, pelo
menos como ponto de reflexão, se, ao caracterizarem a economia amazônica
basicamente a partir das atividades extrativas em oposição à agricultura, tais análises
não estariam tomando como modelo de economia agrícola as áreas de colonização
portuguesa no Brasil onde foram desenvolvidas as culturas de plantation da cana-de-
açúcar e do café. Essa questão, parece- me, fica sugerida especialmente pela análise de
Weinstein, quando ela aponta que a população de origem mestiça ou índia costumava
desenvolver, de forma associada, as atividades de coleta, caça, pesca e cultivo da
mandioca, ao mesmo passo em que afirma terem sido as expedições coletoras a base da
produção na região.
O Grão-Pará, área de estudo neste trabalho, durante as épocas colonial e
imperial, nunca teve um gênero agrícola que ocupasse as suas pautas de exportações em
larga escala - à semelhança do que ocorreu nas mencionadas áreas exportadoras de
açúcar e café -, sendo que os produtos de maior vulto que possuiu foram o cacau e a
borracha. O primeiro, durante o período colonial, era obtido, predominantemente, de
forma extrativa, passando a ser cultivado com mais intensidade, somente em meados do
século XIX. A borracha, por sua vez, era obtida através da coleta. No entanto, uma
análise mais cuidadosa das pautas de exportações paraenses, no período inicial de
crescimento da economia gomífera local, aponta para um aumento no volume de certos
gêneros agrícolas comercializados pela Província 51 .
Além de uma maior acuidade no trato dos dados sobre exportação, falta,
também, aqueles estudos, uma análise a respeito de quais gêneros o Grão-Pará

50
Idem, p. 110.
51
Ver o item 3 deste capítulo.

46
importava. Pois, se o Pará ressentia-se da falta de uma produção agrícola voltada para o
consumo local, especialmente durante o período de crescimento da produção da
borracha, conforme a quase totalidade dos mencionados estudos sugerem, seria de se
esperar que, ou tivesse havido uma grande mortalidade entre a sua população, ou tivesse
sido necessária a importação de gêneros alimentícios, dois fatores esses que nenhum dos
estudos procurou demonstrar. Reconhecer, portanto, que, apesar de não possuir uma
agricultura assentada sob os mesmos moldes que as áreas de plantation no Brasil, o
Grão-Pará, respondia às suas próprias necessidades de existência e reiteração material
através de uma estreita combinação das atividades de coleta e de cultivo, levaria os
citados estudos a conclusões bastante diferentes das que colocam o extrativismo
praticamente como uma produção dicotômica em relação à agricultura.
A problema posto acima leva a uma outra questão: a ênfase dada à produção
local somente quando esta possuía vínculos com o comércio de exportação. Conforme
foi visto, Santos chega a se referir ao período 1800-1840 como uma “fase de
decadência” da economia amazônica, posto que a mesma estaria “totalmente sem
perspectivas”, i.e., sem os grandes volumes do cacau exportado verificados no período
precedente, e também sem a borracha que, a partir da década de 1850, passaria a gerar
crescentes riquezas para a região. Em última análise, para esse autor, a “decadência”
econômica amazônica seria marcada por uma agricultura voltada para o consumo local.
Tal tipo de perspectiva, acredito, é uma forma empobrecedora de se entender qualquer
que seja a economia, posto que, ao colocar o mercado como centro da análise, não
consegue explicar como a sociedade organizava e reiterava a sua vida material.
Um estudo que possui semelhante linha de entendimento à que estou
desenvolvendo para a Província do Pará, mas que discute a Província do Amazonas
durante os anos de 1840 a 1880, é o realizado por Patrícia Sampaio. 52 Propondo-se a
compreender a economia da dita região para além de análises já consagradas pela
historiografia tradicional, a autora discute os trabalhos que caracterizam aquela como se
a mesma estivesse baseada na extração e na exportação. De fato, Sampaio orienta as
suas análises na perspectiva de que é importante o entendimento as relações sociais de
produção e reiteração da vida material, e não somente o nível de circulação de

52
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (a)., op. cit., especialmente pp. 70-89. Lembro que o Amazonas
somente se tornou uma Província separada do Pará em 1850. A referida autora, portanto, na análises

47
mercadorias, a fim de que sejam alcançados os mecanismos de reprodução daquela
sociedade. Deste modo, a tradicional dicotomia entre as práticas agrícolas e extrativas
não encontra ressonância quando é realizada uma análise do quadro mais amplo da
economia do Amazonas, já que era exatamente a vinculação entre estas atividades que
permitia um fluxo da renda do setor produtivo em direção ao ligado à circulação de
mercadorias, tornando possível o acúmulo de capitais.
Por fim, outro problema que deve ser levantado é a noção de ciclo econômico
que se encontra subjacente à parte das análises apresentadas. Especialmente a segunda
metade do século XIX aparece como um espaço de tempo privilegiado para que se
empregue aquela noção à economia amazônica, em função das exportações da goma
elástica que a mesma passará a fazer, sem precedentes em termos de volume com
nenhum outro gênero ao longo da sua história até aquele momento. Como bem chamou
a atenção João Pacheco de Oliveira Filho 53 , a noção de ciclo, enquanto modelo de
enquadramento das características de produção e comercialização da borracha, acaba
simplificando o entendimento de uma realidade econômica muito mais complexa do que
se costuma apresentar:

“(...) o uso de tal noção funciona como mecanismo de filtragem e incorporação de fatos a
uma forma pré-definida, excluindo sistematicamente de consideração aqueles fenômenos
que pudessem refutar ou relativizar seu valor heurístico. Assim dirigido o estudo da
borracha tende a excluir ou desvalorizar a menção das produções que antecedem o apogeu
do surto gomífero, mas que foram modalidades iniciais de realização dessas produções; (...)
pouca atenção é dada aos outros fenômenos que ocorriam na Amazônia
contemporaneamente ao ‘ciclo da borracha’ e a relação que mantinham com esse processo,
sendo o caso tanto do estudo de outras produções como de fatos de ordem político ou
cultural” 54 .

Ao privilegiarem, portanto, a extração e comercialização da goma elástica na


Amazônia, a partir, aproximadamente, de meados do Oitocentos, chegando mesmo a
sugerir um abandono das atividades agrícolas, especialmente aquelas ligadas à
subsistência, tais estudos acabam deixando de considerar os diferentes tipos de

feitas para o período anterior àquele ano, tem como referência as áreas que pertencerão à Província do
Amazonas.
53
OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (a) “O Caboclo e o Brabo. Notas sobre Duas Modalidades de
Força-de-Trabalho na Expansão da Fronteira Amazônica no Século XIX”. In : Encontros com a
Civilização Brasileira, v. 10, 1979, pp. 101-140.
54
Idem, p. 102. O grifo é do autor.

48
produção que existiram concomitantemente na região, durante o mesmo período 55 . Essa
perspectiva parece estar em estreita ligação com o próprio discurso de grande parte das
fontes oficiais, que aponta para uma corrida dos braços trabalhadores locais em direção
à coleta da borracha, conforme será discutido mais adiante, para o caso do Grão-Pará.
Antes de terminar esta parte do trabalho, torna-se necessário esclarecer que não
estou pretendendo negar a importância das atividades extrativas na economia da região
e, dentre estas, sobretudo a coleta da borracha durante as décadas que este trabalho se
ocupa. Mas, junto ao reconhecimento disso, considero fundamental, por todos os
motivos já expostos, não passar por cima de outros tipos de produção que, mesmo em
tempos de crescimento da exploração da borracha, também se fizeram presentes no
local. Isto posto, e se tendo em vista os limites explicativos existentes nas análises
apresentadas, algumas questões ainda permanecem em aberto no tocante ao Grão-Pará
do Oitocentos. Como a Província organizava a existência e a continuação da sua vida
material? Como se comportaram as atividades agrícolas em tempos da expansão da
economia gomífera? É possível mesmo falar em uma crise de subsistência naquele
período? Do que a população local se alimentava? Existiriam diferenças entre os tipos
de alimentos consumidos pelos moradores da capital56 e de regiões do interior? E entre
os grupos sociais, existiriam também diferenciações internas relativas aos seus padrões
de consumo de alimentos? Esses são temas que voltarão a ser discutidos no decorrer
deste capítulo.

55
Para um balanço crítico, mais geral, sobre o emprego da noção de ciclo econômico na historiografia
brasileira, ver: LINHARES, Maria Yedda & SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. História da
Agricultura Brasileira. Combates e Controvérsias. São Paulo: Brasiliense, 1981.
56
Ao fazer referência à capital ou a Belém, estou tratando somente da cidade de Belém, e não do
município de Belém, que era bem mais amplo em relação àquela, englobando tanto áreas rurais quanto
urbanas. Quando for reportado o município, será esclarecido que se tratam de categorias diferentes.

49
2. A cidade de Belém e o início do crescimento do negócio da borracha.

Ao entrar na segunda metade do século XIX, a Província do Pará começaria a


passar por grandes mudanças. Não somente a sua economia iria gerar enormes
riquezas, através dos crescentes volumes de borracha exportada, como os
melhoramentos materiais também se fariam presentes. A cidade de Belém iria ter os
seus primeiros bancos fundados 57 , pavimentaria as suas ruas, criaria a sua Capitania do
Porto, veria a quantidade dos seus prédios aumentar cada vez mais; enfim, daria início
ao período de mudanças urbanas que culminaria com os palacetes e as construções de
ferro característicos das suas construções na virada do século XIX para o XX 58 .
É importante destacar que, ao escolher a cidade de Belém como espaço
privilegiado de análise nesta parte do trabalho, objetivo discutir como, apesar do grande
incremento da economia gomífera durante o início da segunda metade do Oitocentos, a
Província possuía, também, uma organização produtiva assentada nas atividades
agrícolas. Belém, portanto, por ser a capital da Província e a principal praça
exportadora da borracha na Amazônia durante o período selecionado, apresenta-se
como uma espécie de termômetro das mudanças que a extração da seringa pôde
proporcionar à região.
Dentre os viajantes 59 que passaram pela cidade no período, Henry Bates 60 não
deixou de notar como Belém estava modificada em 1859, em comparação ao que tinha
visto em 1848. O embelezamento da cidade era atribuído, pelo naturalista, aos gastos
que o governo provincial vinha fazendo dos excedentes de suas rendas. A aparência de

57
Ainda durante a década de 1850, foram instalados o Banco Comercial da Província do Pará e a Caixa
Filial do Banco do Brasil. Já na década de 1860, foi aberta casa bancária Mauá & Companhia. Essas
informações foram tiradas dos diferentes Relatórios de Presidentes de Província consultados.
58
Sobre as mudanças urbanas em Belém neste período, ver, dentre outros: SARGES, Maria de Nazaré.
Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém: Paka-Tatu, 2000. Para uma análise
acerca das transformações ocorridas na cidade de Manaus, também durante os últimos anos do século
XIX e início do XX, chamando a atenção para o caráter excludente da política urbana então levada a
cabo, cf. DIAS, Edinea Mascarenhas. A Ilusão do Fausto. Manaus, 1890-1920. Manaus: Valer, 1999.
59
Uma interessante análise sobre vários dos viajantes que passaram pelo Grão-Pará oitocentista, e que
serão trabalhados neste capítulo, foi feita por Oliveira Filho. Este autor procurou entender aspectos como
a forma pela qual as viagens daqueles sujeitos puderam ser efetivadas e os objetivos dos mesmos em suas
explorações. Cf: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (b) “Elementos para uma Sociologia dos
Viajantes”. In: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de (org.). Sociedades Indígenas e Indigenismo no
Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero; UFRJ, 1987, pp. 84-148. Agradeço a Irma Rizzini pela indicação
deste texto.
60
BATES, Henry Walter. Um Naturalista no Rio Amazonas. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia;
Editora da Universidade de São Paulo, 1979.

50
“arraial, com ruas cheias de mato e casas desmanteladas”, havia ficado no passado.
Além do aumento da população urbana, que o naturalista atribuía ao influxo de
estrangeiros portugueses, madeirenses e alemães, o melhoramento da cidade foi visto
com grande surpresa. Bates se remete às ruas sem calçamento e cheias de pedras soltas
e areia, quando se sua primeira visita à cidade, para fazer o contraponto de como, em
1859, as mesmas haviam sido “caprichosamente pavimentadas”. Sobre os prédios
urbanos, a satisfação com as novidades verificadas continuava. A maioria das casas
outrora “velhas e desmanteladas”, tinham sido substituídas por “belos edifícios
construídos acima do nível da rua, com extensas e elegantes sacadas no primeiro
andar” 61 .
Pela descrição que Bates fez de Belém, ao findar a década de 1850, pode-se ter
uma noção de como a cidade caminhava a passos largos em direção à melhoria do seu
aspecto. Em 1840, conforme relatou com certo desdém o Pastor Daniel Kidder 62 , as
ruas centrais de Belém não eram largas nem pavimentadas. As “casas de grande porte”
eram em número muito pequeno, ocupando somente aquelas ruas, pois, as demais
estavam “repletas de casinholas insignificantes e feias” 63 . Na maioria das casas,
somente os cômodos da frente eram forrados. Para piorar a situação, os efeitos do
movimento cabano 64 , que chegou a tomar de assalto a capital em 1835, ainda se faziam
presentes:

“Quase todas as ruas têm casas pontilhadas de balas ou varadas por projéteis de canhão.
Algumas foram apenas ligeiramente avariadas, outras quase que completamente destruídas.
Dentre estas últimas algumas foram restauradas, outras abandonadas”65 .

Sobre essas casas abandonadas em decorrência da Cabanagem, Kidder notou ainda que
elas estavam localizadas nos “arrabaldes” de muitas ruas, as quais eram perpassadas
apenas por “uma exígua vereda” entre o “matagal” que as cobria. Belém, por esse
relato, parecia mesmo o “arraial” descrito por Bates quando de sua primeira visita.

61
Idem, p. 296.
62
KIDDER, Daniel Parish. Reminiscências de Viagens e Permanências nas Províncias do Norte do
Brasil. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1980.
63
Idem, p. 183.
64
O período tradicionalmente aceito para a duração da Cabanagem compreende os anos de 1835 a 1840.
Apesar da Belém ter sido invadida pelos cabanos em 1835, com a chegada do General Andréa, nomeado
novo Presidente da Província pela Corte, em 1836, o movimento ficou internalizado no interior, sendo os
seus últimos focos debelados somente em 1840.
65
KIDDER, Daniel Parish., op. cit., p. 184.

51
Segundo o Pastor norte-americano, ainda dentro do perímetro urbano de então, era
“perfeitamente possível”, a quem assim desejasse, “embrenhar-se em espessa floresta
sem qualquer indício que denuncie a proximidade de uma habitação humana” 66 .
A respeito dos moradores da cidade, Kidder diz que eles tinham uma
“aparência peculiar”. De modo diferente às capitais das atuais regiões Sul e Sudeste
que já havia visitado, era a “raça” indígena que predominava, entre os negros africanos
e os brancos portugueses:

“De fato, encontra-se, em Belém, desde o índio puro até as mais variadas formas de
mestiçagem com pretos e brancos. Ocupam esses mestiços todas as posições sociais: o
comércio, as artes manuais, a marinha, a milícia, o sacerdócio e o eito” 67 .

Ao se referir ao comércio da capital, Kidder ainda não parece notar o maior


dinamismo que lhe será atribuído, posteriormente, por outros viajantes. Em torno do
principal desembarcadouro da cidade, o que se via, geralmente, era um grande número
de canoas atracadas. Dando vida ao movimento no local, existia uma “turba indígena”
falando “os mais variados dialetos amazônicos”, que era vista pelo viajante como
peculiar à cidade. Daquelas embarcações, desciam variados tipos de mercadorias –
descritas pelo Pastor, provavelmente, em função da representatividade da riqueza
natural da região -, e a borracha, principal produto do comércio provincial no decorrer
do Oitocentos, era vista apenas na forma de sapatos:

“Percebem-se aí carregamentos de castanhas do Pará, cacau, baunilha, urucu, salsaparrilha,


canela, tapioca, bálsamo de copaíba em boiões, peixe seco em pacotes, cestas de frutas de
infinitas variedades, tanto secas como verdes. Encontram-se, também, aí, papagaios, araras
e outros pássaros de rica plumagem bem como, mais raramente, macacos e cobras de
mistura com quantidades imensas de sapatos de borracha que são geralmente conduzidos ao
mercado suspensos em varas a fim de evitar que se colem uns aos outros”68 .

Ainda em 1848, o naturalista inglês Alfred Wallace 69 , que viajou à Amazônia


juntamente com Bates, chega a Belém. O relato deste viajante parece confirmar as
observações feitas pelo seu companheiro, a respeito dos aspectos gerais da capital do
Grão-Pará durante o mesmo período. Ao aportar na cidade, pôde percorrer as suas ruas,

66
Idem, p. 185.
67
Idem, ibidem.
68
Idem, pp. 187-188.
69
WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelos Rios Amazonas e Negro. Belo Horizonte; São Paulo:
Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1979.

52
tendo um panorama de como era a vida no local, e deve ter passado por alguns
momentos nem tanto prazerosos. A Rua dos Mercadores, tida por Wallace como a “via
principal”, onde ficavam quase todas as “boas lojas da cidade”, tinha apenas alguns
poucos trechos calçados, que, de tão pequenos, serviam “apenas para tornar
comparativamente mais desagradável o resto da caminhada sobre pedras irregulares ou
areia fofa...”. As demais ruas eram muito estreitas, formadas de “pedras extremamente
toscas”, ou de “areia fofa e lamaçais”. 70
Nessas ruas transitava uma variada mistura de “raças”. Os habitantes de
Belém, segundo Wallace, iam desde o “inglês corado”, o “pálido americano”, o
“português trigueiro”, “o brasileiro robusto”, “o negro jovial” e o “índio de ar
impassível e físico atlético”, passando por “uma centena de gradações e misturas”. 71
As igrejas e os prédios públicos “notáveis” tinham altas torres e cúpulas. As
casas de moradia, por sua vez, de modo geral, tinham apenas um pavimento. E, dentre
essas, numerosas eram “irregulares e baixas”, sem vidraças, e ficavam fechadas “com
uma espécie de treliça presa apenas em cima”. Por trás dessas treliças, Wallace
percebeu, inclusive, “muitos olhos escuros” lhe observando “furtivamente” enquanto
transitava pelas ruas. 72 Para um núcleo urbano com proporções das que os viajantes de
até então se referem, e com uma população tão variada como a que o próprio naturalista
disse existir, é possível supor que um estrangeiro, desconhecido da sociedade local,
causasse um certo rebuliço na cidade.
Mas, como Wallace deixou de ter a companhia de Bates em 1850, e cada um
seguiu por rumos diferentes na Amazônia, aquele, depois de ter excursionado pela
Província do Amazonas, voltou a Belém em 1852, sete anos antes que seu amigo, para,
de lá, regressar para Londres. Vendo novamente a cidade, Wallace não deixou de
registrar os melhoramentos na paisagem urbana que, em 1859, também iriam ser
anotadas pelo seu antigo companheiro de viagem. Novas ruas, estradas e prédios
haviam sido construídos73 .
Voltando às experiências de Bates em Belém, antes de retornar a Londres,
pode-se ter mais uma idéia de como Belém estava se modificando. O espaço físico da
cidade se expandia cada vez mais, tomando conta de áreas antes ocupadas por árvores e

70
Idem, p. 19.
71
Idem, p. 20.
72
Idem, p. 19.

53
plantas. Era de se esperar, entretanto, que, para um naturalista, preocupado em recolher
objetos de História Natural nos trópicos, o avanço do urbano em direção à “exuberante”
natureza, não fosse visto com bons olhos. Ao andar pelas redondezas da cidade, suas
“velhas conhecidas”, notou que as mesmas “tinham sofrido mudanças, e para pior”:

“O espesso tapete de plantas rasteiras, arbustos e trepadeiras que em outros tempos –


quando os arredores da cidade ainda não tinham sido mutilados pelo machado e a enxada –
se desenvolviam livremente, estendendo o seu exuberante e sedoso manto verde pelas
bordas da floresta, tinha sido quase todo arrancado, e grupos de trabalhadores ainda se
achavam ocupados abrindo feias e barrentas estradas para carroças e bois através do que
outrora havia sido um belo trecho de mata, limpo e tranqüilo. Casas e engenhos haviam
sido construídos à beira dessas novas estradas”74 .

Em função do machado e da enxada terem “mutilado” a vegetação outrora existente,


Bates ainda se lamenta, escrevendo que os naturalistas, a partir daquele momento,
teriam que ir muito mais longe da cidade para “encontrar o soberbo cenário da selva
virgem, que ficava tão perto em 1848”.
O alemão Robert Avé-Lallemant 75 , que chegou a Belém poucos dias depois de
Bates tê- la definitivamente deixado, também faz alusão ao dinamismo que a cidade
vinha tendo. Embarcações maiores e mais velozes que as observadas por Kidder, além
da presença da borracha bruta em vez dos sapatos de borracha, também foram anotadas.
Somente uma percorrida entre as coxias da Alfândega, onde eram armazenadas grandes
quantidades de mercadorias, permitiria, a quem se desse esse trabalho, fazer uma idéia
da importância comercial de Belém. Movimentando parte desse ativo comércio,
encontravam-se “pequenas canoas e grandes barcos fluviais (...), iates ligeiros e barcos
pesados”, de onde saía uma variedade de produtos vindos do interior da Província, mais
uma vez, como em Kidder, provavelmente observados em função de suas
especificidades locais 76 :

“(...) sacos meio rotos, derramando caroços de cacau; cestos desatados e barris abertos com
borracha em bolas ocas, grossas pranchas de tubérculos sujos, e depois o pau –d’arco, um

73
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 240.
74
BATES, Henry Walter., op. cit., p. 297.
75
AVÉ-LALLEMANT, Robert. No Rio Amazonas (1859). Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia;
Editora da Universidade de São Paulo, 1980.
76
Sugiro isso, por causa de uma frase de Avé-Lallemant sobre tal comércio. Nas palavras do alemão,
“(...) o cais, onde se descarregam os produtos da terra, chegados diariamente do interior, é muito mais
interessante para o estrangeiro do que a grande alfândega”. Cf. AVÉ -LALLEMANT, Robert., op. cit., p.
55.

54
produto vegetal altamente original. (...) E ainda cocos, as castanhas -do-pará, triangulares, e
o pirarucu!” 77 .

Uma crescente afluência de embarcações cada vez maiores no comércio entre o


interior e a capital da Província, e a presença da goma elástica bruta, em vez dos sapatos
de borracha mencionados por Kidder. Abertura de novas ruas e estradas, e belos
prédios sendo construídos. Muito embora o Grão-Pará ainda não tivesse entrado no
ritmo alucinante que o comércio de exportação da borracha iria lhe proporcionar em fins
do século XIX, os relatos dos viajantes que passaram por Belém durante a década de
1850, já fornecem boas indicações de como a economia provincial estava ganhando um
maior dinamismo.
Tomando como base os anos 1852 e 1865, as rendas gerais da Província
cresceram cerca de 100%, com pequenas variações de ano para ano, indo de 106.861,25
para 206.098,65 libras esterlinas, sendo que o grande filão da arrecadação eram os
impostos sobre a exportação da goma elástica 78 . Na verdade, desde ano de 1850 os
sucessivos Relatórios de Presidentes de Província irão se referir à grande contribuição
da borracha para o aumento na arrecadação da administração. Ângelo Custódio Corrêa,
por exemplo, dirá que o aumento das rendas durante o primeiro semestre de 1850, em
comparação ao que foi arrecadado no mesmo período durante o ano anterior, deveu-se à
maior quantidades de gêneros levados, do interior, ao mercado de Belém, além dos altos
preços que os mesmos estavam obtendo no comércio de exportação, especialmente a
borracha 79 .
As rendas da Alfândega, em particular, permitem ilustrar de maneira ainda
mais clara como o comércio provincial estava crescendo durante o século XIX,
especialmente a partir da sua segunda metade, quando os volumes exportados de

77
Idem, pp. 56-57.
78
BASTOS, Aureliano Cândido Tavares. O Vale do Amazonas. São Paulo; Brasília: Editora Nacional;
Instituto Nacional do Livro; 1975, pp. 121-122 (1ª edição de 1866). Os valores oficiais, em mil-réis, são:
para 1852, R$ 936:011$000, e 1865, R$ 1.978:547$000.
79
PARÁ, Governo da Província do. Relatório feito pelo Exmo Snr. Doutor Angelo Custodio Correa, 1º
Vice Prezidente desta Provincia, e entregue ao Prezidente em Exercicio, o Exmo Snr. Dr. Fausto Augusto
de Aguiar, no dia 13 de setembro de 1850. Pará: Typographia de Santos & Filho, 1850, p. 75. Todos os
Relatórios de Presidentes de Província que foram citados neste texto, estão disponíveis na internet. (Site
www.crl.edu/areastudies/LAMP/index.htm) Lembro que somente é feita referência ao ano de 1850, por
ser a partir deste ano que o recorte cronológico deste estudo está compreendido. Além do mais, conforme
apontarei mais adiante, é principalmente durante a década de 1850 que a borracha passa a ocupar lugares
cada vez mais proeminentes nas pautas de exportações da Província.

55
borracha aumentam, bem como os preços por que a mesma era vendida. Toda a
arrecadação daquele estabelecimento durante o exercício financeiro de 1836 a 1837, foi
menor da que estava obtendo o Pará em somente um mês do ano de 1864. Se a
explicação para a tal progressão pode ser buscada nos infortúnios que a Província
passou durante a década de 1830 - em decorrência da eclosão do movimento cabano -, é
bem verdade que os números apresentam uma tendência indicativa de um maior
dinamismo no comércio local somente a partir dos últimos anos da década de 1840.
Assim, no período de 1836 a 1840 o rendimento foi de 29.527,91 libras esterlinas,
chegando mesmo a decrescer no intervalo de 1840 a 1844 para 26.678,44 libras. Já no
quatriênio de 1844-1848, em relação aquele primeiro, as rendas aumentaram
aproximadamente 38%, sendo de 47.385,66 libras esterlinas, e entre 1848 a 1852,
cresceu mais de 100%. A marcha progressiva também foi verificada para os intervalos
posteriores. Tendo sempre como base aquele primeiro período, os quatriênios de 1852-
1856 e 1856-1860 mantiveram-se praticamente estáveis, com cada um representando
um crescimento de mais de 300%; já o último período, segundo os dados disponíveis,
chegaram à enorme cifra de quase 400%. (Ver Quadro 1-1)

Quadro 1-1
Receitas da Alfândega do Pará, 1836-1864
Rendimentos Médios
Quatriênios
Em libra esterlina 80 Em real
1836-1840 29.527,91 228:603$212
1840-1844 26.678,44 277:178$609
1844-1848 47.385,66 454:902$312
1848-1852 72.504,66 635:077$313
1852-1856 129.707,54 1.131:993$089
1856-1860 141.959,89 1.320:557$126
1860-1864 218.063,54 1.960:121$673
Fonte: PARÁ, Governo da Província do. Relatório dos Negócios da
Provincia do Para. Pará: Typographia de Frederico Rhossard, 1964,
pp. 59-60.

80
O documento que serviu de base para a elaboração deste quadro, somente possui os valores em real. As
quantias em libra esterlina foram calculadas tomando sempre como base o câmbio desta moeda no último
ano de cada exercício financeiro. Os valores de conversão do real para a libra esterlina foram retirados de
MATTOSO, Kátia Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 254.

56
Como se pôde perceber, através das tendências indicadas pelos dados
apresentados acima, os rendimentos do Grão-Pará, à medida que a segunda metade do
Oitocentos ia transcorrendo, tiveram um crescimento vertiginoso. De fato, até anos
avançados da década de 1880, a Província paraense possuía as principais áreas
fornecedoras de borracha para os países estrangeiros. Nessa região, por sua vez, os
locais onde a grande maioria da goma elástica era extraída, estavam situados na
chamada região das ilhas, a qual engloba todas as ilhas situadas entre o Marajó e a foz
do Xingu, além das margens do Jari e as dos rios da Baía de Melgaço. Outras áreas
onde as seringueiras também se concentravam, eram o rio Tapajós e as bacias do
Tocantins e do Guamá, porém estas produziam uma quantidade de borracha menor que
as anteriormente mencionadas 81 . Apesar de durante a década de 1860 começar a surgir
uma preocupação com o aumento da produção da borracha, devido mesmo à
progressiva demanda pelo produto nos países estrangeiros, até a década de 1880 a goma
elástica ainda continuaria a ser coletada principalmente no território do Grão-Pará.
Contudo, é necessário destacar que, a partir da década de 1870, novas áreas de extração
da seringa alcançaram a Província do Amazonas, em especial nas zonas dos rios
Solimões, Madeira, Purus e Juruá 82 . (Ver Figura 1-1)
Os dados disponíveis ilustram o rápido e grande aumento nos valores
alcançados pelo Pará, com a exportação da goma elástica produzida em seu território,
entre fins da década de 1840 e de 1860. No período de 1847 a 1852, foram arrecadadas
338 libras esterlinas, e no quinquênio de 1862-1867 a borracha proporcionou aos cofres
provinciais 1.962 libras, ou seja, um crescimento de aproximadamente 245%. (Ver
Gráfico 1-1)

81
Cf. WEINSTEIN, Barbara., op. cit., pp. 57 e 65.; e OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (a), op. cit.,
pp. 122-123. Weinstein coloca ainda que, até a década de 1870, os atuais municípios paraenses de
Breves, Anajás, Melgaço e Gurupá, respondiam à maior parte da borracha extraída no Pará.
82
WEINSTEIN, Barbara., op. cit., p. 72.

57
FIGURA 1-1 – R EGIÕES DE PRODUÇÃO EXTRATIVISTA E AGROPECUÁRIA

58
Gráfico 1-1
Receitas da Goma Elástica Exportada (em libra esterlina), 1847-1867
Curva Semilogarítimica

Valores arrecadados
10000
1000
100
10
1
1847-1852 1852-1857 1857-1862 1862-1867
Anos

Fonte: PARÁ, Governo da Província do.


Relatório apresentado a Assembleia Legislativa
Provincial por S. Exca o Sr. Vice-Almirante e
Conselheiro de Guerra Joaquim Raymundo de
Lamare Presidente da Província, em 13 de Agosto
de 1867. Pará: Typographia de Frederico
Rhossard, 1867, p. 25.

De uma Província que, especialmente a partir da década de 1850, passou a ter


a sua economia em pleno crescimento, em grande medida por causa das exportações de
borracha, seria de se esperar que houvesse também um aumento na presença de
estabelecimentos comerciais em sua capital. Em 1859, segundo a listagem feita para a
aplicação do imposto sobre industrias e profissões em Belém, consta existirem 744
estabelecimentos daquele tipo, sem exclusão dos que não estavam suscetíveis ao
pagamento do tal imposto. Mas, no ano de 1871, já foram relacionados 1.055
estabelecimentos comerciais, novamente incluídos aí os que pagariam e os que estavam
isentos das taxas83 .
Acompanhando esse ritmo de crescimento da economia, são perceptíveis,
também, algumas diferenças interessantes entre os dois arrolamentos mencionados. Por
exemplo, de 4 tipografias em 1859, em 1871 constavam existirem 8, devendo-se
considerar esse aumento, talvez, como um indicativo de que a elite paraense estava
ciosa com os seus negócios, em tempos de crescimento econômico. Ou, talvez

83
Os dados de 1859 foram retirados de PARÁ, Governo da Província do. Falla dirigida a Assemblea
Legislativa da Provincia do Para na segunda sessão da XI Legislatura pelo Exmo Sr. Tenente-Coronel
Manoel de Frias e Vasconcellos Presidente da mesma Provincia, em 1 de Outubro de 1859. Pará:
Typographia de J. R. Guimarães, 1859, anexo 38. Sobre 1871, cf.: PARÁ, Governo da Província do.
Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa Provincial na segunda sessão da 17ª Legislatura, pelo
Dr. Abel Graça Presidente da Provincia. Pará: Typographia do Diario do Gram-Pará, 1871, pp. 32-35.

59
também, interessada em saber das últimas notícias que estavam circulando no restante
do Império e na Europa, prenúncio de um cosmopolitismo. Aliás, de 119 lojas de
fazendas, entre mercadores “por grosso” e “por miúdo”, em 1871 Belém passou a ter
183, quem sabe em função de um maior poder de compra na cidade, permitindo, assim,
pelo menos à parte da sociedade local com condições para tanto, saciar a sua vontade
em utilizar costumes e modos de vida originários do continente europeu84 . Ainda em
1871, foram registradas 15 casas que alugavam seges, além de 2 que fabricavam esse
mesmo tipo de veículo, estabelecimentos estes que não foram mencionados na listagem
de 1859. Ao que tudo indica, não somente estaria sendo necessária a melhoria nas
condições de transporte locais, haja vista o crescimento do espaço urbano já
mencionado pelos viajantes; como a capacidade de compra, mesmo que de uma minoria
da população de Belém, estava aumentando, seguindo os passos das rendas provinciais.
Uma alta no custo de vida parece ter acompanhado essas mudanças no espaço
físico da cidade. Em 1855, o Inspetor do Tesouro Público Provincial, João Baptista de
Figueiredo Tenreiro Aranha, escrevia que as duas Coletorias sediadas em Belém, para a
arrecadação das décimas dos prédios urbanos, ainda não tinham apresentado resultados
correspondentes ao “tão visivel augmento da edificação da Cidade, e ao progressivo dos
preços subidos dos alugueis dos predios”. 85 Impressões a esse respeito também foram
anotadas pelos viajantes que passaram por Belém durante a década de 1850.
O já conhecido Wallace, ao voltar a Belém em 1852, além de registrar a
presença do “velho mercado, sujo e mal situado”, reclamou da alta nos preços dos
frangos, frutas, legumes e verduras, vendidos à população 86 . Pode até ser que aquelas
pessoas de uma “centena de gradações e misturas”, mencionadas pelo naturalista,
estivessem querendo tirar alguns réis a mais do inglês de tez branca e cabelos claros,

84
Em 23 de setembro de 1843, por exemplo, o jornal Treze de Maio já anunciava ao público leitor as
novidades chegadas recentemente da Europa. A Casa Ville du Havre propagandeava que “neste
estabelecimento acaba-se de receber, vindo pelo navio Carmem, um variado sortimento de fazendas
francesas para a festa de N. S. de Nazaré”, e dizia ter disponíveis “os melhores chapéus pretos de seda da
Itália, fabricados em Paris.” Ora, não era de causar espanto que, especialmente na festividade da
padroeira dos paraenses, quem pudesse, claro, fosse querer se apresentar à sociedade de acordo com o que
era considerado moda na época. Esse anúncio foi retirado de BARBOSA, José Maria de Azevedo. A
Província do Grão-Pará no século XIX e, em especial, a cidade de Santa Maria de Belém. In: Separata
da Revista do Tribunal de Contas do Pará, 1972, p. 11.
85
PARÁ, Governo da Província do. Relatorio que Ao Illmo e Exmo Senr. Vice Presidente desta Provincia
do Pará, para ser presente à Assembléa Legislativa Provincial, submette o Inspector do Thesouro
Publico Provincial João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha no anno de 1855. Pará: Typographia
de Santos & Filhos, p. 22.
86
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 240.

60
mas, como Tenreiro Aranha se referiu, três anos depois, ao progressivo aumento nos
valores cobrados pelos aluguéis dos prédios urbanos, a afirmação do viajante não soa
tão fora de contexto. Além do mais, Wallace já tinha estado na cidade, ou seja, teve a
oportunidade de observar, anos antes, por quanto eram vendidos gêneros para o
consumo na cidade. E essa vai ser também mais uma das diferenças notadas pelo outro
naturalista inglês, ao voltar a Belém no final da década de 1850, rumo a Londres.
No ano de 1859 Bates disse que o “reverso da medalha” dos melhoramentos
urbanos tinha sido o grande aumento do custo de vida na cidade, em comparação ao
que observara em 1848. A reclamação era dirigida contra, por exemplo, os altos preços
por que estavam sendo vendidas as laranjas, as bananas e a farinha de mandioca. Sobre
esse último gênero, em particular, parece que os efeitos seriam ainda piores, se
comparados aos demais, pois o próprio Bates o considera como o “pão local”. Devido
a farinha ter se tornado “tão escassa, cara e ruim”, “as classes mais pobres” estariam até
passando fome, enquanto os que tinham melhores recursos financeiros consumiriam
pão de trigo, feito com farinha importada dos Estados Unidos. Os aluguéis também
estariam mais caros, observação essa já feita por Tenreiro Aranha quatro anos antes,
conforme vimos. E qual a explicação dada pelo naturalista para tal situação? A
resposta era que a procura pelos produtos locais havia aumentado em uma proporção
muito maior do que a oferta, devido ao acréscimo de novos residentes na capital87 .
Pelo exposto acima, tudo leva a crer que os momentos iniciais do incremento
da economia gomífera no Grão-Pará estariam mesmo, conforme propõe boa parte da
historiografia analisada, trazendo graves conseqüências às demais formas de produção,
especialmente aquela voltada para a produção de alimentos destinados ao consumo
local. As rendas provinciais cresciam, em grande medida por causa do comércio de
exportação que passou a ter um produto bastante procurado por países estrangeiros; o
poder de compra de, pelo menos, parte da sociedade local, também dá a impressão de
ter tido algum aumento. Os rendimentos proporcionados pela venda da borracha, em
parte, eram aplicados no melhoramento material e no crescimento da cidade. O
mercado externo ditava os preços da borracha, e os braços trabalhadores da Província
corriam para as áreas de extração da seringa, tentando, quem sabe, tirar o seu quinhão
dessa economia que se agitava. Até a farinha de mandioca, “pão local”, nas palavras de

87
BATES, Henry Walter., op. cit., p. 297.

61
Bates, estaria faltando em Belém! Chegou o momento de serem retomadas as
perguntas lançadas no final da primeira parte deste capítulo. Tentarei, a partir de agora,
discutir como se comportaram as atividades agrícolas durante os momentos iniciais do
crescimento da extração e comercialização da goma elástica no Grão-Pará.

62
3. Entre a agricultura e o extrativismo: produção, relações de trabalho e
associação de atividades.

Conforme a borracha ia tendo a sua importância aumentada nas pautas de


exportações provinciais, os sucessivos Presidentes de Província reclamavam do
abandono da agricultura, em favor da extração daquele produto. Estaria ocorrendo,
assim, uma corrida rumo aos seringais, por parte dos braços trabalhadores, fazendo com
que a Província estivesse tendo que importar gêneros destinados ao seu próprio
consumo. Como foi discutida anteriormente, essa é a idéia que boa parte da
historiografia utiliza para analisar o período inicial do crescimento da economia
gomífera na região. Esclareço, antes de continuar com a discussão, que a escolha do
período compreendido entre os anos de 1850 a 1870, foi feita por se entender que,
justamente se tratando de um momento em que a economia paraense irá iniciar um
redirecionamento em relação ao seu comércio de exportação, aquele intervalo se
apresenta como especial para a análise de qual o impacto de tal mudança sobre as
demais formas de produção existentes. Ou seja, como a grande maioria das fontes
oficiais propõe, em função de ser o período em que começa a haver um crescimento
significativo na produção e comercialização da borracha, o interesse é analisar se, e,
neste caso, até que ponto, ocorreu uma desestruturação da agricultura, sobretudo aquela
ligada à produção de gê neros de subsistência 88 .
Ainda em 1854, o Conselheiro Rego Barros, então Presidente, analisando o
comércio de cabotagem do Grão-Pará, dizia que a importação era quase o dobro da de
exportação. A situação era entendida como uma decorrência

“(...) do preço extraordinário a que tem subido a borracha, e consequentemente do emprego


quase exclusivo dos braços na sua extração e fabrico, à ponto de nos ser preciso
actualmente receber de outras Provincias generos de primeira necessidade, e que dantes
produziamos até para fornecer-lhes”89 .

88
Pacheco Filho também trabalha com essa perspectiva. Sobre o assunto, o autor coloca que “(...) é
preciso ter em mente a década em que tal problemática se impõe nos textos oficiais, nas interpretações
gerais, nas matérias de periódicos – não ao início da produção brasileira de borracha, nem ao seu apogeu,
mas na década de 50 em que a borracha ela [sic] elevada à condição de produto líder da economia, com
sua expansão ameaçando a importância relativa das outras produções similares”. Cf.: OLIVEIRA
FILHO, João Pacheco. (a), op. cit., p. 117.
89
PARÁ, Governo da Província do. Falla que o Exm. Snr. Conselheiro desta Provincia dirigiu à
Assemblea Legislativa Provincial na abertura da mesma Assemblea no dia 15 de Agosto de 1854. Pará:
Typographia da Aurora Paraense, 1854, p. 40.

63
Tal estado de coisas era visto pelo Presidente como um “mal”, pois os “lucros
avultadissimos”, proporcionados pela extração e pelo preparo da goma elástica,
estariam absorvendo e aniquilando as demais produções locais 90 .
Quatro anos depois de seu colega, dirigindo-se à mesma Assembléia, João da
Silva Carrão dizia que os gêneros alimentícios estariam sendo vendidos na Província e,
em especial, na capital, por preços elevados. Os braços trabalhadores, segundo o
Presidente, estariam se aplicando mais à produção de gêneros possuidores de altos
preços – a borracha, principalmente -, do que à produção de víveres 91 .
Em 1860, Fábio Alexandrino dos Reis, por sua vez, ao tratar do estado do
comércio e da lavoura na Província, regozijava-se do florescimento daquele primeiro,
em função dos altos valores que a borracha e, em menor escala o cacau, estavam tendo
nos mercados da Europa e da América do Norte. Em relação à lavoura, entretanto, a
situação não parecia ser das melhores. A agricultura teria entrado em uma “decadencia
progressiva”, à medida que crescia a atividade baseada na coleta da goma elástica. O
Presidente chegava a temer que, se a administração não estimulasse a produção
agrícola, os seringais acabariam absorvendo “os poucos braços que ainda se empregão
na cultura da terra”. 92
Os exemplos a respeito de uma tão propalada crise na agricultura provincial -
motivada pelos altos preços que a borracha passou a obter no comércio de exportação -,
a partir, aproximadamente, da década de 1850, poderiam ser ainda mais numerosos. No
entanto, acredito que os fornecidos já são suficientes para demonstrar o modo pelo qual
a administração entendia o assunto. Se for lembrado, ainda, o que grande parte da
historiografia propõe em relação à mesma questão, então pode-se perceber que as suas
análises não se diferenciam muito do que os citados Presidentes de Província colocaram
à época. Em verdade, conforme foi apresentado na primeira seção deste trabalho, parte
daqueles estudos chega mesmo a sugerir a ocorrência de uma crise na agricultura de
subsistência, tornando-se necessária até a importação de gêneros destinados ao
consumo interno.

90
Idem, ibidem.
91
PARÁ, Governo da Província do. Discurso da abertura da sessão extraordinaria da Assemblea
Legislativa Provincial do Pará, em 7 de Abril de 1858, pelo Presidente Dr. João da Silva Carrão. Pará:
Typographia do Diario do Commercio, 1858, p. 46.
92
PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado ao Exmo Sr. Angelo Thomaz do Amaral, pelo
Primeiro Vice-Presidente da Provincia do Gram-Pará, o Exm. Sr. Dr. Fabio Alexandrino dos Reis. Pará:
Typographia Commercial de Antonio Joze Rabello Guimarães, 1860, p. 07. O grifo é meu.

64
Entretanto, já apontei que nenhum dos estudos que utilizam a idéia exposta
acima fez uma análise mais cuidadosa sobre as pautas de exportações provinciais, no
sentido de verificar se o início da produção da borracha estaria ocasionando uma
desestruturação das atividades agrícolas. Parece, pois, que a noção de crise na
agricultura, durante o referido período, por parte dos estudos tradicionais, nada mais é
do que uma aceitação quase literal de idéias expressas pela maioria dos documentos
oficiais coevos. Sugiro isso, porque, se forem lidas mais atentamente algumas das
fontes disponíveis sobre a exportação de determinados gêneros da Província, pode-se
ver que os dados indicam momentos de crescimento no volume dos gêneros agrícolas
comercializados.
Os números sobre a goma elástica exportada durante o intervalo de 1847-1867,
de fato, indicam uma tendência de constante crescimento no comércio desse produto.
De apenas 15.979 arrobas de borracha vendida para países estrangeiros entre 1847 a
1852, os volumes passam a ser de 681.521 arrobas no qüinqüênio seguinte, 707.294
arrobas entre o intervalo de 1857-1862, e de 1.374.931 arrobas entre 1862 a 1867. (Ver
Gráfico 1-2)
Não obstante, a mesma fonte consultada também possui dados relativos a
outros gêneros exportados pela Província, durante o intervalo de vinte anos
compreendidos pela comercialização da goma elástica. O cacau é um deles. Esse
produto, apesar de ter tido a sua produção incentivada desde fins do século XVII, por
parte da Coroa portuguesa, somente atingiu proporções significativas na economia local
a partir, especialmente, da década de 1810, em função do declínio das exportações
venezuelanas – principal fornecedor do produto aos mercados europeus na época -,
motivado pelas lutas visando a independência no local93 . O cacau, portanto, era um
gênero que remontava a sua grande produção e comercialização a períodos bem
anteriores ao momento em que a borracha passará a ocupar um papel de destaque na
economia paraense94 . Mas, voltando à citada fonte, vejamos o que ela sugere.

93
Cf. ALDEN, Dauril., op. cit., p. 22.
94
Segundo Oliveira Filho, os primeiros registros sobre a produção brasileira de borracha datam de 1822,
com a pequena quantidade de 31 toneladas, sendo que durante toda a década de 1820 a exportação
manteve-se abaixo das 100 toneladas. De 1830 a 1843, a exportação se apresentou instável, chegando,
inclusive, a ficar interrompida durante a Cabanagem, mas sempre entre 200 a 300 toneladas. Somente
entre 1844 e 1849 é que começaria a sua trajetória ascendente, quando duplicou a produção anterior,
passando, assim, a estar na lista das principais exportações da Amazônia. Cf. OLIVEIRA FILHO, João
Pacheco de. (a), op cit., pp. 117-118.

65
Enquanto nos anos de 1847 a 1852 o cacau exportado teve o volume de 131.615
arrobas, entre 1852 a 1857 cresceu para 925.136 arrobas. Nos qüinqüênios seguintes,
i.e., de 1857 a 1862 e de 1862 a 1867, o volume exportado será de 707.294 e 1.108.117
arrobas, respectivamente. (Ver Gráfico 1-2)
O que os dados sobre a borracha e o cacau exportados indicam? É evidente a
tendência de um crescimento espetacular na quantidade daquele primeiro produto,
saltando de 15.979 arrobas entre 1847-1852, para 1.374.931 arrobas no intervalo de
anos que vai de 1862 a 1867. Até aqui a grande importância atribuída, pelos
Presidentes de Província e pela historiografia tradicional, à borracha para a produção do
Pará, a partir da segunda metade do Oitocentos, encontra-se fundamentada. Mas o
cacau, apesar de não ter crescido na mesma proporção que a seringa, apresentou
volumes exportados, em determinados momentos, maiores que esse último gênero. De
fato, conforme as informações apresentadas acima ilustram, em números absolutos, o
cacau somente teve uma exportação menor que a borracha no último qüinqüênio de
1862-1867, quando declinou ligeiramente. Antes desse intervalo de anos, a exportação
de cacau manteve um ritmo ascendente. Diante dessas observações, é possível sugerir
que a goma elástica coletada na Província não estava causando um abandono das
atividades agrícolas, haja vista o cacau, no referido período, ser geralmente cultivado95 .
Em que pesem, portanto, as enormes rendas que vinham sendo obtidas com a borracha,
por parte dos cofres provinciais, apresentadas anteriormente, a produção do Grão-Pará
possuía, durante os anos iniciais de incremento da economia gomífera, outras fontes de
recursos também importantes. (Ver Gráfico 1-2)

95
Tavares Bastos aponta que o cacau, no Pará da segunda metade do século XIX, era cultivado em larga
escala, sendo, inclusive, uma ocupação regular dos habitantes dos municípios de Cametá, Óbidos e
Santarém. O cacau obtido predominantemente através da coleta, era característico da Província do
Amazonas. Cf. BASTOS, Aureliano Cândido Tavares., op. cit., p. 122.

66
Gráfico 1-2
Produções de Goma Elástica e Cacau Exportadas 96 (em arrobas), 1847-1867
Curva Semilogarítimica
Volume exportado

100.000.000
1.000.000
Goma elástica
10.000
Cacau
100
1
1847-1852 1852-1857 1857-1862 1862-1867
Anos

Fonte: LAMARE, Joaquim Raymundo., op. cit., pp. 19 e 25 97 .

Para além do cacau, outros gêneros também podem ser mencionados a fim de
que se estabeleça uma comparação entre as suas produções e a da borracha. Neste caso,
foram escolhidos o arroz com casca, o açúcar e o algodão, por serem tanto gêneros de
origem agrícola, quanto os seus cultivos remontarem ao período colonial na região, ou
seja, a épocas anteriores ao início do crescimento substancial da borracha.
Quanto ao primeiro, o arroz com casca, os volumes exportados indicam uma
tendência de progressivo aumento na produção. Enquanto no intervalo de 1847 a 1852
a exportação foi de 18.939 arrobas, entre 1852 e 1857 deu um grande salto, passando
para 193.259 arrobas. Após uma ligeira diminuição entre os anos de 1857 a 1862,
quando o documento registra 158.663 arrobas, a exportação mais que duplicou em
comparação a esse último quinquênio, atingindo 411.852 arrobas. (Ver Gráfico 1-3)
O algodão, por sua vez, teve os seguintes volumes: 8.570 arrobas entre 1847 e
1852, e 14.684 arrobas no quinquê nio posterior. Nos anos de 1857 a 1862 decresceu
ligeiramente para 11.365 arrobas, para alcançar um grande aumento entre 1862 e 1867,
com 36.282 arrobas constantes na fonte. (Ver Gráfico 1-3)

96
Lembro que o termo “exportação”, no século XIX, podia fazer referência tanto a vendas feitas para
países estrangeiros, quanto para outras províncias do Império. No entanto, a fonte consultada para a
feitura deste gráfico e dos dois outros seguintes não informam quais as praças com que foram
comercializados os gêneros paraenses.
97
Destaco que o documento utilizado para a elaboração dos gráficos sobre os volumes e valores
alcançados pelas exportações provinciais, durante os anos de 1847 a 1867, encontra-se também, em parte,
publicada em CRUZ, Ernesto (b)., op. cit., pp. 98-107. Mas, talvez por problemas na impressão da obra,
alguns números relativos aos volumes dos gêneros exportados estão diferentes do documento no original.

67
Por último, há o caso do açúcar. De 24.752 arrobas exportadas entre 1847 e
1852, teve um acréscimo no seu volume durante os anos de 1852 a 1857, quando o
documento registrou 34.657 arrobas. No quinquênio seguinte a tendência de
crescimento se mantém, com o volume de 98.813 arrobas, para entre 1862 e 1867
apresentar um pequeno declínio, sendo indicadas 87.076 arrobas. (Ver Gráfico 1-3)
Os números relativos aos volumes exportados dos três últimos gêneros
mencionados acima, longe de sugerir uma decadência da atividade agrícola no Grão-
Pará, decadência essa que seria motivada pelo aumento na extração e comercialização
da borracha, apontam para caminhos bastante diferentes. O arroz com casca, por
exemplo, aparenta ter possuído uma produção crescente, à exceção do qüinqüênio
1857-1862. Mais do que isso: se forem comparados, proporcionalmente, os volumes
exportados de borracha e arroz entre os anos de 1862-1867, vê-se que, de modo
diferente àquele primeiro gênero, o arroz teve a sua exportação aumentada em mais de
100%. A comercialização do açúcar também apresentou resultados semelhantes aos do
arroz, com quantidades exportadas sempre crescendo, a não ser durante o último
qüinqüênio, quando teve um pequeno declínio. Mas, se for feita uma comparação entre
os períodos de 1857 a 1862, percebe-se que, proporcionalmente, o açúcar teve um
aumento maior que a borracha em seu volume exportado, quando este mais que dobrou.
O algodão, da mesma forma, apresenta tendências semelhantes às do arroz e açúcar.
Com exceção dos anos compreendidos entre 1857 e 1862, intervalo em que as suas
quantidades brutas exportadas diminuíram ligeiramente, os números relativos ao seu
comércio aumentaram em todos os outros. E, durante o período de 1862 a 1867, se
comparado ao qüinqüênio anterior, a exportação de algodão cresceu mais,
proporcionalmente, que a borracha, tendo ultrapassado a casa dos 100%. Tal aumento
no comércio do algodão foi atribuído, pelo próprio autor da fonte, à eclosão da guerra
da Secessão nos Estados Unidos. (Ver Gráfico 1-3)

68
Gráfico 1-3
Produções de Arroz com casca, Açúcar e Algodão Exportadas (em arrobas),
1847-1867
Curva Semilogarítmica
Volume exportado

1.000.000
Arroz com casca
10.000
Açúcar
100
Algodão
1
1847- 1852- 1857- 1862-
1852 1857 1862 1867
Anos

Fonte: LAMARE, Joaquim Raymundo de.,


op. cit., pp. 16-17 .

As informações disponíveis, portanto, acerca das produções exportadas de


cacau, arroz com casca, açúcar e algodão, não sugerem que a crescente importância da
coleta da borracha, na economia do Grão-Pará, estaria ocasionando um abandono das
atividades agrícolas locais. Lembro, no entanto, que o objetivo neste estudo não é fazer
uma análise exaustiva sobre as formas de produção existentes na Província, mas
apontar caminhos para que se problematize a quase que dicotomia imputada pela
historiografia tradicional entre a agricultura e o extrativismo, durante os momentos
iniciais do incremento da economia gomífera no Grão-Pará. Sendo assim, apesar da
borracha ter alcançado, entre os anos analisados, um crescimento vertiginoso na sua
produção - a ponto de vários Presidentes de Província atribuírem o aumento das rendas
públicas ao seu comércio -, as tendências verificadas através da exportação daqueles
outros produtos não indicam que tal situação estivesse ocasionando a desestruturação
de suas produções.
É interessante, também, ver o que nos apresentam os dados sobre a exportação
da farinha de mandioca, o “pão local” nas palavras de Bates, conforme já tive a
oportunidade de mencionar. O cultivo desse produto, da mesma forma que os demais,
não parece ter sofrido grandes impactos pela extração da seringa. Durante o período de
1847 a 1852, a exportação da farinha foi de 4.183 alqueires, chegando a um ligeiro
aumento no qüinqüênio seguinte, com o volume de 4.822 alqueires. Após um
decréscimo entre 1857 e 1862, onde foram registrados 3.157 alqueires, a exportação

69
cresceu mais de 100%, em relação a esse último intervalo de anos, com 6.500 alqueires
de 1862 a 1867. Ou seja, a não ser o pequeno decréscimo em um dos qüinqüênios, nos
demais, a tomando como base os volumes exportados, a produção progrediu. Pelos
números disponíveis, é possível perceber, inclusive, que no período entre 1862 e 1867,
a exportação da farinha cresceu mais, proporcionalmente, que a goma elástica. (Ver
Gráfico 1-4)

Gráfico 1-4
Produção de Farinha de Mandioca Exportada (em alqueires), 1847-1867
Curva Semilogarítmica
Volume exportado

10.000
1.000
100
10
1
1847-1852 1852-1857 1857-1862 1862-1867
Anos

Fonte: LAMARE, Joaquim Raymundo de., op. cit., p. 24.

Os dados sobre os volumes dos gêneros exportados durante os anos de 1847-


1867, conforme foram apontados acima, indicam, portanto, tendências de que a
agricultura no Pará, pelo menos daqueles produtos citados, não estava sendo
abandonada, em função da crescente exploração da borracha, como propõem os estudos
tradicionais e a maioria dos discursos de Presidentes de Província. Ao contrário, de
modo geral tendendo ao aumento, em alguns momentos, proporcionalmente, aqueles
gêneros chegaram a crescer mais do que a borracha.
Sobre as importações de gêneros – que seria algo esperado, caso a Província
estivesse se ressentindo de uma produção agrícola voltada para o consumo local -,
existem algumas informações que permitem reforçar o argumento que vem sendo
exposto. Destaco que os dados disponíveis são esparsos e pontuais, mas, se vistos de

70
forma conjunta com aqueles sobre exportação, podem fornecer mais indícios do modo
pelo qual a agricultura se comportou durante esses momentos iniciais de incremento da
economia gomífera na Província. No exercício financeiro de 1857-1858, foram
exportados, pela navegação de cabotagem, o equivalente a R$ 24:147$838 de açúcar e
R$ 4:351$500 em farinha de mandioca. Mas, durante o mesmo período e no mesmo
tipo de navegação, foram importados apenas R$ 1:553$250 de açúcar e R$ 565$000 de
farinha de mandioca 98 . Apesar do documento não mencionar os volumes desses dois
gêneros, mas somente os seus valores, por se tratar de um comércio realizado durante o
mesmo período e com os mesmos tipos de gêneros, há a possibilidade de serem
estabelecidas algumas comparações. Assim, sugiro, de início, que o Grão-Pará
exportou mais açúcar e farinha do que importou. E, se for lembrado ainda que o
exercício de 1857-1858 engloba aquele qüinqüênio mencionado, onde há a tendência de
uma diminuição na exportação da farinha de mandioca, pode-se pensar que, mesmo
nesse período, a capacidade da Província em prover a sua subsistência não estava tão
abalada, em função de um suposto abandono das atividades agrícolas.
É verdade que falta, ainda, uma discussão sobre quais os gêneros alimentícios,
de modo geral, consumidos pela população, mas essa é uma questão que irá ser
colocada mais adiante neste capítulo. Por enquanto, serão citados apenas os demais
produtos constantes da lista de importação presentes na mencionada lista, recebidos das
praças do Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Ceará. Além da farinha de
mandioca e do açúcar, foram arrolados: aguardente, algodão em fio, amarras de
piassava, amendoim, animais vivos, azeite, café, calçados, charutos, carnes, chapéus,
couros secos e salgados, doces, feijão, fogo artificial, fumo, goma de polvilhos, graxa,
genebra, instrumentos de música, jóias de ouro, licores, livros impressos, máquinas
diversas, medicamentos, milho, mobília, objetos não especificados, obras de diferentes
ofícios, óleos diversos, pano de algodão, pedras diversas, pentes, queijo, rapadura, rapé,

98
Cf. PARÁ, Governo da Província do. Discurso lido pelo Exmo Snr. Vice Presidente da Provincia
Ambrozio Leitão da Cunha na abertura da primeira sessão ordinaria da Assemblea Legislativa
Provincial no dia 15 de Agosto de 1858. Pará: Typographia Commercial de Antonio Joze Rabello
Guimarães, 1858, pp. 32-33. Supõe-se que o fato de terem sido exportados e importados tanto a farinha
de mandioca quanto o açúcar, possa ser explicado a partir da idéia de que se tratavam de gêneros com
qualidades diferentes. Talvez a farinha comprada pelo Pará fosse “mais fina”, e a vendida pela mesma
Província destinada ao consumo dos chamados grupos subalternos. A fonte consultada não apresenta
nenhuma informação a esse respeito.

71
redes, roupas, sabão, sal, sebo, sola, tabaco em pó, toucinho e velas99 . Conforme
discutirei mais adiante, os gêneros alimentícios arrolados não eram comuns na dieta da
maior parte da população da Província 100 .
Outro raciocínio possível para se tentar perceber se ocorreu uma crise de
subsistência no Grão-Pará, durante o período inicial de crescimento da exploração de
borracha, é a análise do comportamento demográfico da Província. Pois, se houvesse
uma crise na produção de alimentos, sendo até necessária a importação de gêneros
destinados ao consumo local – situação essa que não parece ter acontecido, segundo os
dados apresentados acima -, seria de se esperar que os mesmos não fossem acessíveis à
maior parte da população, gerando, assim, uma crise de subsistência no local e,
possivelmente, uma alta mortalidade.
Para tanto, serão utilizadas as informações presentes no Censo de 1872, por ser
esse documento o primeiro do Império a fazer um arrolamento geral da população,
segundo tanto a condição social e o sexo dos indivíduos, quanto às idades dos mesmos.
Não lançarei mão, para esta análise, dos dados acerca da população escrava, haja vista
ela representar, naquele ano, somente 9,98% da população total101 . Deste modo,
durante a ocorrência de uma crise de subsistência, por serem os livres quem
compunham a esmagadora maioria no universo da população provincial, seria provável
que as conseqüências daquele fenômeno se tornassem mais visíveis entre essas mesmas
pessoas. Também, tendo em vista a representatividade percentual dos livres entre o
todo dos habitantes do Pará, para efeitos da análise aqui proposta, acredito que testar a
hipótese da ocorrência de uma crise de subsistência entre aqueles sujeitos se torna mais
significativa. Além do mais, o interesse ao incluir essa discussão no presente estudo, é
apenas o de indicar tendências a respeito de como se comportaram as atividades
agrícolas no Pará, durante o início do aumento da extração de borracha, e não o de
realizar um estudo exaustivo sobre o tema.

99
Idem, ibidem.
100
Em outro documento, Couto de Magalhães afirmava que, de 1858 a 1864, os gêneros que tinham
representado quase 2/3 das importações paraenses de outras Províncias, eram o café e o açúcar, com os
valores totais de R$ 3.587:452$988. Os demais, não especificados, tiveram o valor total de
1.966:195$808. Cf: MAGALHÃES, José Vieira Couto de., op. cit., p. 49.
101
Em um total de 275.237 pessoas, os escravos eram em número de 27.458, ou seja, representavam
9,98% de todos os habitantes do Pará em 1872. Cf: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA.
Recenseamento da População do Imperio do Brazil a que se Procedei no dia 1º de Agosto de 1872. Rio
de Janeiro: Leuzinger & Filhos, 1873.

72
Destaco, contudo, que tenho consciência de não ser possível tomar com total
confiança os números arrolados no referido censo. Não somente no que toca ao Grão-
Pará, a feitura de mapas populacionais era bastante lacunar, durante o período de tempo
aqui privilegiado, costumando ter os seus limites de análise salientados nos estudos que
lançaram mão desse tipo de documento. Particularmente no caso da região sob estudo,
os dados demográficos acerca da população local que costumavam freqüentar os
Relatórios de Presidentes de Província, por exemplo, eram acompanhados de
ponderações como as dificuldades em se ter acesso a certas localidades do interior e a
fuga de moradores, com o medo do recrutamento, quando da chegada dos encarregados
de procederem aos censos. No próprio recenseamento de 1872, efetivado no Pará,
pode-se ter uma idéia das dificuldades em se trabalhar com os arrolamentos
populacionais da época. Esta fonte apresenta inicialmente, em quadros separados,
dados para cada freguesia pertencente a cada um dos municípios existentes na
Província. Feito isto, no final, as mesmas informações expostas para as freguesias e os
municípios são agregadas e constam de uma tabela referente à Província como um todo.
O problema é que se forem somados os dados em separado, ou seja, de acordo com
cada uma das freguesias, os números obtidos não coincidem com os que o documento
coloca como correspondentes ao total da região. Tal esclarecimento, per si, justifica a
cautela necessária que tenho ao manusear as informações fornecidas pela fonte em
questão. 102 De qualquer forma, vejamos o que ela indica.
Percebe-se que a pirâmide etária da população livre do Grão-Pará apresenta
uma base larga, representada por uma população de 0 a 10 anos bastante numerosa,
com 42.976 homens e 38.608 mulheres 103 . Em relação ao grupo etário posterior, de 11
a 20 anos, ocorre uma sensível diminuição, com um total de 27.753 homens e 26.593
mulheres. Entretanto, os indivíduos entre 21 a 30 anos, em relação ao grupo que lhe
antecede, não diminuíram tanto, proporcionalmente, quanto este último em relação ao
anterior: 26.274 homens e 24.492 mulheres. Já entre os que possuíam de 31 a 40 anos,
uma diminuição bastante sensível se faz notar novamente, através dos números de
12.565 para os homens e 12.121 para as mulheres. (Ver Gráfico 1-5)

102
Neste texto optei por utilizar as informações apresentadas para cada freguesia em separado.
103
Os grupos etários foram divididos em períodos de 10 anos, por ser esta a única possibilidade dada pela
fonte. O censo apresenta, inicialmente, a população de 1 a 11 meses, depois os anos completos de 1 a 5,
em seguida por quinquênios de 6 a 10 até de 26 a 30 e, por último, em decênios. Ou seja, a partir dos
indivíduos com 31 anos, todos estão mencionados em intervalos de 10 anos.

73
Através dos dados apresentados acima, nota-se uma população livre com alta
taxa de natalidade, tendo-se em vista o elevado número de pessoas situadas na faixa de
0 a 10 anos. A grande perda de indivíduos entre 31 a 40 anos, por sua vez, acredita-se
que, em vez de indicar uma mortalidade gerada por uma crise na produção de
subsistência na Província, estaria ligada às perdas humanas ocorridas durante a
Cabanagem. Segundo estimativas, de uma população total de 130.000 indivíduos antes
da eclosão desse movimento, foram mortos 30.000 104 . Então, se não for perdido de
vista que, em 1872, fazia 32 anos que a Cabanagem havia terminado, pode-se atribuir a
diminuição no número de pessoas entre 31 e 40 anos à baixa natalidade ocasionada pela
grande quantidade de indivíduos mortos durante aquele movimento. Além disso, a
pequena dife rença a mais para os homens, nessa mesma faixa, pode ser pensada a partir
de algumas políticas voltadas para a colonização na Província, como a que promoveu a
ida de cearenses para a colônia Nossa Senhora do Ó, na Ilha das Onças 105 .
Ainda como decorrência do impacto do movimento cabano é que penso,
também, possível entender a grande quantidade de pessoas situadas nas faixas de 11 a
20 anos e de 21 a 30 anos, em relação a de 31 a 40 anos, para além de movimentos
naturais de população. Ou seja, é provável que, devido à alta mortalidade ocorrida
durante a década de 1830, a população provincial estivesse se reorganizando
demograficamente durante os 10 a 20 anos posteriores ao término daquele movimento.
Uma pirâmide com tal configuração, portanto, não parece sugestiva da ocorrência de
uma crise de subsistência na Província, visto que, apesar dos altos índices de
mortalidade comuns a sociedades do tipo aqui estudado, a população jovem e adulta
(11 a 30 anos) era bastante significativa, tendo se mantido relativamente estável. Na
ocorrência daquele fenômeno, as pessoas situadas nesses grupos etários,
provavelmente, estariam representadas através de variações mais bruscas em suas
coortes. Mesmo que tenha ocorrido uma série de epidemias na Província entre os anos
de 1850 e 1855, não me parece que elas tenham sido causadas por uma possível
deficiência alimentar entre a população local. Em 1850, foi a febre amarela que se
estendeu ao ano seguinte. Enquanto essa última ainda se fazia presente, ocorreu uma

104
Cf. WEINSTEIN, Barbara., op. cit., 59.
105
O objetivo, aqui, não é fazer um estudo sobre colonização na Província. Por isso, mais informações
sobre o assunto podem ser obtidas em CRUZ, Ernesto (a)., op. cit.; e MUNIZ, João de Palma.
Immigração e Colonisação. Historia e Estatistica (1616-1916). Belém: Imprensa Official do Estado do
Pará, 1916.

74
outra epidemia, a de varíola. Em 1855, por sua vez, foi a vez da cólera, a qual, segundo
o Presidente da Província naquele ano, fez “victimas e estragos, que por muito tempo
teremos de lamentar”. 106 Apesar de não terem sido encontradas informações
consistentes acerca do número de mortos e doentes em conseqüência dessas três
epidemias, a partir dos dados sobre a população livre paraense em 1872, parece- me, por
tudo o que foi discutido nos parágrafos acima sobre a configuração demográfica da
população livre paraense, que esta não chegou a sofrer uma grande mortalidade em
função de tais doenças. Pelos mesmos motivos, não acredito que as mencionadas
epidemias tenham grassado devido a existência prévia de uma crise de subsistência na
região. (Ver Gráfico 1-5)

106
Sobre as duas primeiras epidemias, as informações foram retiradas de PARÁ, Governo da Província
do. Discurso apresentado ao Exmo Snr. Dr. José Joaquim da Cunha, Presidente da Provincia do Gram
Pará pelo Commendador Fausto Augusto d’Aguiar, por occasiaõ de entregar-lhe a administração da
Provincia no dia 20 de Agosto de 1852. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1852, pp. 76-78. Para a
varíola, a notícia está em PARÁ, Governo da Província do. Exposição apresentada pelo Exmo Snr.
Doutor João Maria de Moraes 4º Vice-Presidente da Provincia do Gram-Pará, por occasiaõ de passar a
Administração da mesma Provincia ao 3º Vice-Presidente o Exmo Senr. Coronel Miguel Antonio Pinto
Guimarães. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1855, pp. 03-10. A respeito dos estragos causados
pela epidemia de varíola no Pará, escreveu o Presidente que, naquele momento, “quasi todos os pontos da
Provincia, excepto as Villas de Monte Alegre, e de Macapá, e a cidade de Bragança”, já estavam
“tomados” pela doença. Cf. MORAES, João Maria de., op. cit., p. 06.

75
Gráfico 1-5
Pirâmide etário-sexual da população livre da Província do Pará (em milhares) -
1872

Não determinados

+90 1772
81-90 1782
71-80 1792

Ano do Nascimento
61-70 1802
51-60 1812
41-50 1822
31-40 1832
21-30 1842

11-20 1852

0-10 1862

-50.000 -40.000 -30.000 -20.000 -10.000 0 10.000 20.000 30.000 40.000 50.000

Homens Mulheres

Fonte: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da População do Império do Brazil


a que se procedeu no dia 1º de agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger & Filhos, 1873.

A hipótese levantada a respeito da influência da Cabanagem sobre a


configuração demográfica da população livre total do Pará, em 1872, pode ser testada
através dos números referentes aos livres na freguesia de São José do Acará na mesma
época107 . Essa localidade foi uma das áreas no interior em que a população mais esteve
envolvida entre os insurretos cabanos, tendo os seus moradores sofrido um forte
impacto, por parte das forças militares imperiais. Sendo assim, através dessa área em
especial, pretendo sugerir o modo pelo qual os efeitos da Cabanagem sobre a
demografia da população paraense, já em 1872, ainda poderiam ser notados.
À semelhança do indicado pela pirâmide da população livre total do Pará,
percebe-se no Acará um número maior de homens que de mulheres, na faixa de 0 a 10
anos, com 762 e 686 pessoas, respectivamente. Contudo, esse grupo tem,
percentualmente, uma representatividade menor no todo da população, se comparado

107
Agradeço a Carlos Augusto Bastos e Magda Ricci, pelas informações que me deram sobre as relações
do Acará com o movimento cabano.

76
ao que foi apresentado pela pirâmide anterior – 32,94% no Pará como um todo, e
28,25% no Acará. Já entre os que possuem de 11 a 20 anos, constam 486 homens e
505 mulheres, indicando uma participação, também em termos percentuais, menor no
geral da população, se comparados ao que ocorreu entre a população total paraense –
21,93% e 19,34%, respectivamente. Dos indivíduos com idades situadas entre os 21 e
30 anos, foram recenseados 636 homens e 587 mulheres, o que aponta para um ganho
populacional, se comparados ao grupo etário de 11-20 anos, situação essa diferente do
que ocorreu na outra pirâmide. Na faixa dos 31 a 40 anos, por sua vez, a perda de
pessoas, em relação aos que foram recenseados entre os 21-30 anos, é ainda maior,
proporcionalmente, do que foi apontado pela pirâmide da população livre da Província
como um todo, com aquele grupo sendo representado pelas percentagens de 9,96% e
11,19%, em cada uma das pirâmides, respectivamente. (Ver Gráfico 1-6)
Mas, o que os números citados acima podem significar, se comparados ao que
foi apontado acerca da população provincial como um todo? Primeiro, uma menor
natalidade, haja vista as pessoas com 0 a 10 anos serem, em termos percentuais,
comparativamente a outra pirâmide, menos representativas em relação às demais. Essa
situação pode indicar uma maior dificuldade da população do Acará em se reorganizar
demograficamente, em função do elevado número de mortos verificados na área ao
término do movimento cabano. A menor participação percentual no número de
indivíduos na faixa de 11 a 20 anos, no todo da população da dita freguesia, também
acredito ser possível explicar a partir do fator que acabei de expor. E como entender o
crescimento do grupo compreendendo os que possuíam de 21 a 30 anos? O Acará
pertence à chamada Zona Guajarina, que, no Pará, era a área mais antiga e tradicional
da lavoura canavieira108 . É possível, assim, que, devido às grandes perdas humanas
ocorridas durante a Cabanagem, a área tenha sentido a necessidade de recrutar mão-de-
obra para os seus engenhos e demais unidades produtoras. Desse modo, é possível
explicar, inclusive, o maior crescimento dos homens que das mulheres, situados nessa
faixa etária, se for tomado como referência o grupo etário imediatamente anterior.
Ainda como uma decorrência do impacto do movimento cabano na população do
Acará, é que sugiro o entendimento do pequeno número de pessoas entre 31 e 40 anos.
Ou seja, devido às mortes verificadas, outras pessoas deixaram de nascer, gerando uma

108
Cf. BEZERRA NETO, José Maia., op. cit., p. 62.

77
baixa natalidade nos momentos imediatamente posteriores ao fim da Cabanagem. (Ver
Gráfico 1-6)

Gráfico 1-6
Pirâmide etário-sexual da população livre da Freguesia do Acará, Província do
Pará (em milhares) - 1872

Não determinados
+90 1772
81-90 1782
71-80 1792

Ano do Nascimento
61-70 1802
51-60 1812
41-50 1822
31-40 1832
21-30 1842
11-20 1852
0-10 1862

-1000 -800 -600 -400 -200 0 200 400 600 800 1000

Homens Mulheres

Fonte: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da População do Império


do Brazil a que se procedeu no dia 1º de agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger &
Filhos, 1873.

Pelo que se pôde perceber, portanto, através da comparação entre as pirâmides


etárias dos habitantes livres da Província do Pará e da Freguesia do Acará, em
particular, no ano de 1872, esta última apresenta tendências ainda mais claras do
impacto das mortes contabilizadas ao final da Cabanagem, sobre a sua população. O
perfil demográfico apresentado pela primeira pirâmide analisada, com as diferenças
relativamente sensíveis entre determinadas faixas etárias, pode ser entendido a partir
dos efeitos daquele movimento sobre a sua população. Essas diferenças tornam-se,
entretanto, menos visíveis na população livre paraense como um todo, em comparação
com a do Acará especificamente, devido aquela incluir áreas onde o movimento cabano

78
não teve as mesmas proporções quanto nesta última. Isto posto, fornece maiores
subsídios à idéia desenvolvida de que o perfil demográfico da população livre paraense
não indica tendências de ter ocorrido uma crise de subsistência na Província, durante os
momentos iniciais do incremento da produção de borracha na mesma.
Poder-se-ia argumentar, ainda, que o Grão-Pará estaria recebendo fluxos de
pessoas de fora da Província, a partir de meados do século XIX, motivados pelo
negócio da borracha, o que faria com que a constante entrada de pessoas equilibrasse
uma possível mortalidade entre a população local. No entanto, as grandes levas de
nordestinos, por exemplo, que irão trabalhar nos seringais, somente irão se fazer
presentes a partir, aproximadamente, de fins da década de 1870109 . Mesmo que
maranhenses, em especial, fossem para o Pará antes daquela época 110 , estes não
chegavam a comprometer o fato da grande maioria da população, em 1872, ser formada
por naturais da própria Província. Os escravos, por sua vez, conforme já mencionado,
representavam, em 1872, apenas 9,98% de todos os habitantes do Grão-Pará, sendo
que, daqueles, somente 2,01%, do total de 27.458, eram africanos, e 95,87% eram
naturais do Pará, com o restante pertencendo a outras partes do Brasil. No ano de 1872,
ainda, subtraindo-se todos os nascidos no Império, mas não no Grão-Pará, e todos os
estrangeiros, entre livres e escravos, os naturais da Província ainda perfaziam o total de
96,66%111 .
Para os fins da argumentação aqui proposta, é possível ainda comparar os
dados da população livre total do Pará e da freguesia do Acará com os referentes ao
município de Campos dos Goitacases, pertencente à Província do Rio de Janeiro, no
mesmo ano de 1872. 112 Fazer esta relação torna-se positiva, na medida em que Campos
não experimentou um movimento social semelhante à Cabanagem durante o século

109
Cf.: MORAES, Ruth Burlamaqui de., op. cit., especialmente pp. 49-53; e WOLFF, Cristina Scheibe.
Mulheres da Floresta: Uma História. Alto Juruá, Acre (1890-1945). São Paulo: Hucitec, 1999, pp. 49-
54. A última autora, muito embora aponte a grande seca de 1877 como elemento catalisador do fluxo
migratório de nordestinos, especialmente cearenses, para a Amazônia, levanta outros motivos para o
mesmo fenômeno. Segundo Wolff, uma crise na produção de algodão do Nordeste, juntamente com um
aumento populacional em todo o sertão daquela área, durante o decorrer do século XIX, o qual teria
agravado a situação de disputa pelas terras entre posseiros sitiantes, pecuaristas e algodoeiros, também
foram responsáveis pela ida de migrantes para a Amazônia, atraídos pelo crescimento da produção de
borracha nessa região.
110
MORAES, Ruth Burlamaqui de., op. cit., especialmente pp. 49-53.
111
IBGE. Recenseamento da População do Império do Brazil a que se procedeu no dia 1º de agosto de
1872.
112
Agradeço à Professora Sheila de Castro Faria por ter me cedido os dados relativos a Campos dos
Goitacases.

79
XIX, tampouco uma crise de subsistência, conforme os discursos oficiais e boa parte da
historiografia propõem para o Grão-Pará.
Percebe-se de início uma população equilibrada demograficamente, onde os
percentuais de participação de cada grupo etário, no universo considerado, caem
progressivamente de acordo com o avançar dos anos. Visualiza-se, também, uma
variação menos brusca da quantidade de pessoas entre 10 a 19 anos de idade
relativamente às compreendidas na faixa etária de 0-9, se comparada ao verificado nas
duas pirâmides anteriormente analisadas. 113 Isto pode ser explicado, como afirmei mais
acima, pelo fato da população paraense, para além de seus movimentos naturais, estar
se reorganizando demograficamente durante os 10 a 20 anos posteriores ao término da
Cabanagem. (Ver Gráfico 1-7)
Ainda mais relevante é a menor redução percentual dos sujeitos recenseados
entre 30 a 39 anos, em relação ao grupo imediatamente anterior, se contrastada ao
ocorrido na população geral do Pará e na freguesia do Acará, nas suas equivalentes
faixas. Enquanto na província paraense esta queda foi de 51,37% e no Acará de
53,48%, deu-se em Campos na ordem apenas de 30,09%. Ora, nas pirâmides
concernentes ao Grão-Pará, o grupo etário de 31-40 revelou-se particularmente crítico
no que diz respeito a uma diminuição percentual comparada ao ocorrido nos outros três
que lhe antecediam. A tal fenômeno atribuí a possibilidade de ser, pelo menos, a maior
parte das pessoas compreendidas na faixa de 31 a 40 aquelas nascidas ou durante o
próprio movimento cabano, ou nos anos mais próximos que lhe sucederam. Em outras
palavras, devido a grande mortalidade acontecida entre o período de 1835 a 1840, deve
ter ocorrido uma pequena natalidade à época. Portanto, aquela queda
significativamente menor no município fluminense, ao que tudo indica, vem ao
encontro da hipótese aqui levantada acerca do perfil demográfico dos livres no Pará
estarem, ainda em 1872, refletindo o impacto do movimento cabano sobre a população
desta última Província. (Ver Gráfico 1-7)

113
Chamo a atenção que nas três pirâmides etário-sexuais aqui trabalhadas, as faixas estabelecidas são
referentes a períodos de 10 anos. Contudo, nos gráficos do Pará e do Acará (respectivamente, números 1-
5 e 1-6), em função dos motivos já expostos, os anos finais de cada faixa são dezenas, por exe mplo, 11 a
20 e 21 a 30 anos. No caso da pirâmide elaborada para Campos, muito embora os grupos etários estejam
agrupados por períodos, também, de 10 anos, em função dos dados obtidos, as faixas não terminam em
dezenas, a exemplo das de 0 a 9 e 10 a 19 anos de idade. Acredito, no entanto, que esta pequena
diferença não comprometa a comparação aqui proposta.

80
Gráfico 1-7
Pirâmide etário-sexual da população livre do Município de Campos dos
Goitacases, Província do Rio de Janeiro (em milhares) – 1872

+90
1772
80-89 1782
70-79 1792

Ano do Nascimento
60-69 1802
50-59 1812
40-49 1822
30-39 1832
20-29 1842
10-19 1852
0-9 1862

-6.000 -4.000 -2.000 0 2.000 4.000 6.000

Homens Mulheres

Fonte: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da População do


Império do Brasil a que se procedeu no dia 1º de agosto de 1872. Rio de Janeiro:
Leuzinger & Filhos, 1873.

É forçoso chamar a atenção, por fim, com o intuito de permitir um melhor


entendimento acerca dos perfis assumidos pelas duas pirâmides apresentadas, referentes
ao Pará, que, para além do impacto que sofreram em função da eclosão da Cabanagem,
tais configurações são características de populações pertencentes a sociedades pré-
industriais. Em sociedades desse tipo, por um lado, as pirâmides costumam possuir
bases largas - como nos três casos analisados -, indicando, pois, altas taxas de
natalidade. Por outro lado, a forte tendência de estreitamento dos cumes, ilustra a
presença de uma mortalidade bastante elevada, i.e., uma baixa expectativa de vida.
Com relação a este último ponto, em particular, pode-se entendê- lo através de
elementos como as precárias condições sanitárias e de higiene pública do período, a
ocorrência periódica de epidemias, o estágio de desenvolvimento da medicina, além do

81
próprio fato de que, por se tratarem de sociedades em larga escala rurais, as variações
climáticas freqüentemente impunham efeitos negativos às produções de subsistência. 114
Pelos dados sobre exportação e importação de determinados gêneros,
mencionados anteriormente, já pude indicar que a agricultura provincial, pelo menos
como um todo, não estava em estado de decadência, conforme chega a sugerir a maior
parte dos textos oficiais da época e, seguindo a mesma linha destes, a historiografia
tradicional que trata dos momentos iniciais do crescimento da produção de borracha no
Pará. Mais do que isso: a partir das informações sobre as idades da população livre,
bem como da naturalidade dos habitantes – entre livres e escravos – da Província,
acredito possível propor a não ocorrência de uma crise de subsistência no Grão-Pará,
durante aquele mesmo período, em função de uma desestruturação das atividades
agrícolas locais.
Chega, agora, o momento de tentar buscar indícios a respeito do que a
população local se alimentava. Antes de continuar, entretanto, é necessário retomar
algumas perguntas lançadas ainda na primeira parte deste trabalho. Seria possível
estabelecer algum tipo de diferenciação entre os tipos de alimentos consumidos pelos
moradores da capital e, pelo menos, de algumas regiões do interior? E entre grupos
sociais diferentes, diferenças internas relacionadas aos seus padrões de consumo
também se fariam presentes? Informações a esse respeito podem ser encontradas junto
a alguns dos já conhecidos viajantes.
Wallace, quando se sua primeira estada em Belém, em 1848, escreveu que, de
carne, a bovina era, praticamente, a única que se comia, levada para a cidade das
fazendas localizadas na ilha do Marajó. O peixe, quando era possível obtê- lo, o preço
era muito caro. Quanto à carne de porco, este tipo animal só era morto aos domingos.
O pão consumido pelos habitantes era feito de farinha de trigo importada dos Estados
Unidos. A manteiga era importada também, ou dos Estados Unidos, ou da Irlanda. O
naturalista ainda faz menção a outros gêneros importados – sem especificar quais – que
seriam comumente consumidos 115 . Até aqui, pode-se ter a impressão de que, por falta

114
Para análises sobre os elementos demográficos de algumas regiões da Europa pré-industrial, ver:
CIPPOLA, Carlo M. História Económica da Europa Pré-Industrial. Lisboa: Edições 70, 1988, pp. 171-
188; BURGUIÈRE, André & LEBRUN, François. “As mil e uma famílias da Europa”. In:
BURGUIÈRE, André et alli. História da Família. O Choque das Modernidades: Ásia, África, América,
Europa. Lisboa: Terramar, 1998, pp. 15-21. (Volume 3); e GUILLAUME, Pierre & POUSSOU, Jean-
Pierre. Démographie Historique. Paris: Librairie Armand Colin, 1970, pp. 135-196.
115
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 24.

82
de alimentos - à exceção da carne -, a população da capital estaria tendo que importar
gêneros para o seu consumo. Mas, se for lido mais atentamente o próprio relato do
inglês, comparando-o a outros documentos, caminhos de análise diferentes dessa
primeira impressão podem ser apontados. A opção, entretanto, neste momento, será a
de continuar com as observações feitas por Wallace. Aqueles gêneros mencionados,
segundo ele, seriam usados pela “população branca”. Os “índios e negros” teriam
como principais tipos de alimentos, a farinha de mandioca, o arroz, o peixe de água
salgada, o açaí, além de banana, laranja e pimentão. Na verdade, segundo o relato,
estes últimos tipos de gêneros constituíam praticamente toda a alimentação de boa parte
da população da cidade 116 .
As informações acima já permitem fornecer algumas respostas para uma das
perguntas lançadas. Percebe-se, nas características da alimentação dos habitantes de
Belém, segundo as anotações de Wallace, diferenciações existentes entre formas de
consumo pertencentes a grupos sociais diferentes. Provavelmente, as categorias
“população branca” e “índios e negros”, mais do que indicarem a tez das pessoas
incluídas nas mesmas, dissessem respeito à condição social desses indivíduos, bem
como aos seus níveis de fortunas 117 . Isto posto, é plausível que as diferenças expostas
entre os mencionados grupos, relativas aos seus padrões alimentares, estavam ligadas a
culturas de consumo distintas118 . A opção pela manteiga importada, por parte da
“população branca”, por exemplo, em vez da manteiga feita através da gordura de
tartaruga, muito comum na região, poderia ser uma estratégia de diferenciação social,
com o objetivo de reforçar a posição ocupada, pelos indivíduos pertencentes aquele

116
Idem, p. 25.
117
Sobre o assunto, ver: MATTOS, Hebe Maria de (a). Das Cores do Silêncio. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1998. Sugiro isto, pois, apesar de remeterem a distinções correntes no Brasil, e o viajante em
questão ser estrangeiro, o mesmo travou contatos, tendo mesmo convivido de uma forma mais próxima,
com pessoas residentes no Pará, sendo possível, assim, que Wallace tenha redigido o seu relato informado
por aquelas diferenças. Exemplo dessas relações podem ser as que o inglês teve com um sujeito
identificado apenas como Mr. Upton, de nacionalidade norte-americana, proprietário de moinhos de arroz
nos arredores de Belém, bem como com o administrador desse negócio, Charles Leavens, o qual chegou a
acompanhar Wallace em parte da viagem pelo Grão-Pará. Da mesma forma, podem ser sugestivas os
contatos mantidos com duas pessoas ligadas ao comércio que, apesar de não terem citados os seus
primeiros nomes, pertenciam às famílias La Roque e Campbell, as quais, conforme será analisado no
terceiro capítulo deste estudo, podem ser consideradas dentro do que estou chamando de elite da
Província.
118
Ao ser desenvolvido esse argumento, tomo como base o estudo feito por LEVI, Giovanni.
“Comportamentos, Recursos, Processos: Antes da ‘revolução do consumo”. In: REVEL, Jacques. (org.).
Jogos de Escalas: A experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp.
204-224.

83
grupo, na hierarquia social da época 119 . A mesma explicação pode ser indicada para a
preferência pelo consumo do pão feito com farinha de trigo importada, por parte da
“população branca”, em vez do uso da farinha de mandioca, haja vista esta ser
consumida, em larga escala, pelos “índios e negros”. Sobre os peixes, também, há algo
de interessante para ser pensado. De início, Wallace diz que, quando era possível
comprá- los, os preços eram muito elevados, mas esta é uma informação sobre, digamos
assim, o cardápio da “população branca”. Quando o viajante vai se referir ao que era
consumido pelos “índios e negros”, ele diz que este gr upo se alimentava, dentre outras
coisas, com peixe de água salgada. Ora, se boa parte da população de Belém, no caso
formada pelos “índios e negros”, na concepção desse informante, conforme foi referido
anteriormente, tinha acesso a “peixe de água salgada”, é possível que aqueles peixes
com preços elevados fossem de um tipo diferente daquele outro. Se for assim, tem-se
aqui mais um exemplo de forma de consumo ligada à estratégia de distinção social.
Avé-Lallemant, já em 1859, nem tão pródigo em informações, sobre esse
assunto, quanto Wallace, observa, também, a importância do açaí na alimentação da
cidade de Belém. De acordo com alemão, que chega a chamar a venda desse gênero
nas ruas de Belém de “pregões”, sugere que ele era “o principal alimento do povo”,
parecendo, assim, confirmar as anotações feitas pelo outro viajante. 120
Ao passear pelos arredores da capital, mais uma vez Wallace fornece um
importante indício, desta vez sobre tipos de alimentos consumidos no interior. Tendo
ido à localidade de Maguari, para visitar moinhos de limpar arroz, ele escreveu que,
tendo-lhe sido oferecido um almoço preparado com pirarucu - um tipo de peixe
regional –, achou melhor aceitar, a fim de que fosse logo se acostumando com a
iguaria. Mas, a explicação de Wallace para tal decisão é que parece interessante. A
justificativa dada para isso, foi que, tendo em vista a viagem que ainda faria ao interior
da Província, a “população nativa” dessas áreas tinha nesse tipo de peixe, juntamente
com a farinha de mandioca, o seu principal tipo de alimento 121 . A respeito dessas
informações, por enquanto, lembro somente que peixe e farinha também eram gêneros

119
Levi aponta que a estratificação existentes nas sociedades medievais e modernas, por exemplo, não se
pautavam somente nos níveis de riqueza ou em disposições jurídicas, mas, também, em estratégias de
sobrevivência e de consumo diferentes. Cf. Idem, ibidem.
120
AVÉ-LALLEMANT, Robert., op. cit., p. 34.
121
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 33.

84
amplamente consumidos pelos “tapuios e índios” da capital, conforme o mesmo
viajante mencionou.
Conhecendo o rio Tocantins, Wallace teve a oportunidade de visitar a
propriedade do Sr. Gomes. Esse sítio ficava próximo à Freguesia de Cametá e, pela
descrição que o inglês faz do mesmo, percebe-se que o seu dono possuía um certo
cabedal:

“Tivemos aqui a oportunidade de observar alguma coisa da organização e dos costumes


que regem o dia a dia de uma casa rural brasileira. Neste caso, toda a edificação era
suspensa sobre dois pilares, ficando a 4 ou 5 pés acima do chão. Isso é feito para conservá-
la acima do nível alcançado pelas águas durante a maré de sizígia. Dela descia uma
plataforma inclinada até o nível das águas normais, terminando por um lance de escada.
Esta plataforma, que é também um cais acostável [sic], ligava-se com uma varanda, da qual
se destaca um salão onde são recebidos os hóspedes e realizados os negócios. Junto dessa
varanda fica o engenho de açúcar e o alambique. A casa propriamente dita está
inteiramente separada desse conjunto. Nela residem, além do dono, sua esposa, os filhos e
os criados. Para chegar-se a ela, tem-se que atravessar a varanda e seguir por uma
passarela elevada, de uns 40 ou 50 pés de comprimento”122 .

Ao descrever o período em que esteve na propriedade acima, Wallace faz


menção das refeições que lhe foram servidas. O almoço, sempre realizado às 09:00
horas, consistia em carne de vaca, peixe seco, farinha e, eventualmente, manteiga, pois,
lá, esse produto era “considerado quase como um luxo”. Provavelmente, essa manteiga
era importada, pois a preparada a partir da gordura da tartaruga era bastante comum em
toda a Província. Do cardápio do jantar, servido às 15:00 horas, constavam arroz ou
sopa de camarão, acompanhado com algum tipo de carne, que podia ser peixe fresco.
Para a sobremesa, frutas, em especial abacaxis e laranjas123 .
Ainda no rio Tocantins, o naturalista passou pela localidade de Aroiás. Tendo
aí ficado durante algumas ho ras, foi recebido em uma casa de proporções bem menores
que a do Sr. Seixas, haja vista possuir somente um cômodo. Antes de prosseguir
viagem, procurou retribuir à dona da dita casa, que não tem o seu nome mencionado, a
atenção recebida. Para tanto, deu- lhe, como presentes, biscoitos, chá e açúcar, “que
para ela eram artigos de luxo”. 124

122
Idem, p. 48.
123
Idem, ibidem.
124
Idem, pp. 56-57.

85
O que se pode extrair das informações prestadas acima? É bem verdade que
são todas fragmentadas, mas, ao se lançar mão delas, pretendo tão somente indicar
possibilidades para o entendimento do modo pelo qual a população paraense se
alimentava durante o período privilegiado neste estudo. De início, percebe-se o amplo
uso de gêneros importados, à exceção da carne bovina, por uma minoria dos moradores
de Belém, como a manteiga e o pão feito com farinha de trigo estrangeira. O restante
da população consumiria, principalmente, arroz, farinha de mandioca, açaí, peixe e
frutas, ou seja, se não gêneros produzidos na própria Província, pelo menos dentro do
Império. Mas, essa última opção não parece vir muito ao encontro dos dados
disponíveis, conforme discutirei mais adiante. De qualquer forma, é possível a
sugestão de que as formas de consumo na capital apresentavam diferenças entre
distintos grupos sociais, pelos motivos já expostos. Estudo feito para a cidade de
Manaus, no Amazonas, durante a segunda metade do Oitocentos, também propõe
questões semelhantes às que estou colocando: a maior parte da população daquela
cidade possuía uma dieta composta de peixes, carne de tartaruga e farinha de
mandioca 125 .
Quanto ao interior, tomando como base as localidades citadas, observa-se que,
mesmo entre os que possuíam alguma fortuna acumulada, no caso o Sr. Seixas, os
alimentos básicos consistiam em arroz, peixe, carne de vaca, farinha de mandioca,
frutas e camarão. Gêneros importados, como a manteiga, não eram comuns. A
126
“população nativa”, no dizer de Wallace, que aqui se entende como os livres pobres ,
consumiria, principalmente, peixe e farinha, além, possivelmente, de gêneros como açaí
e frutas, facilmente encontrados. O próprio açúcar, ao que tudo indica, não devia ser
item freqüente entre esse último grupo. Ou seja, entre os “índios e negros” de Belém, e
boa parte da população do interior, mesmo aqueles com algum cabedal, os gêneros
alimentícios básicos pareciam ser oriundos da própria região.

125
Cf. SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (a)., op. cit., pp. 58-59.
126
O uso deste conceito está de acordo com a definição que lhe foi feita por Hebe Mattos, para o século
XIX. Segundo a autora, “(...) mais do que uma ausência absoluta do acesso ao trabalho escravo ou à
propriedade da terra, a incapacidade para a acumulação de capital e a auto-subsistência como fim último
da produção é quem definiam aquela camada de homens livres ‘desclassificada’ pelo discurso de época”.
Cf.: MATTOS, Hebe Maria de (b). “A Escravidão fora das grandes unidades agroexportadoras”. In:
CARDOSO, Ciro Flamarion. (org.). Escravidão e Abolição no Brasil – Novas Perspectivas. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 43.

86
Pode-se sugerir, assim, que, tendo em vista tendências indicadas pelas
informações sobre a exportação e a importação de determinados gêneros, os tipos de
alimentos consumidos pela maior parte da população provincial não parecem ter sofrido
grandes impactos pela produção da goma elástica. A farinha de mandioca cresceu em
volumes exportados, durante quase todo o período de 1847-1867. Mesmo em um ano
do qüinqüênio em que a sua exportação apresentou uma ligeira queda, os valores gastos
com a importação desse item foram menores do que os arrecadados com a venda para
fora da Província. A exportação de arroz, durante aqueles mesmos 20 anos, também
apresentou uma tendência de alta. O açaí era preparado através da coleta de frutos
locais e, pela documentação consultada, não há nenhum registro sobre a falta desse
produto na região. O peixe, em especial o pirarucu, era também, encontrado
localmente. E os documentos anteriores, ao mencionarem, por exemplo, a importação
de feijão, café, açúcar e milho, não vão ao encontro dos registros feitos pelos viajantes
sobre quais os principais alimentos da maioria da população observada. O caso da
carne verde, também, conforme discutirei adiante, regularmente era reclamado na
capital, mas por motivos que não diziam respeito à falta de criação de gado bovino no
Pará. Deste modo, partindo-se das informações apresentadas, os hábitos alimentares de
grande parte da população, baseados em gêneros encontrados facilmente dentro da
própria província, estavam relacionados a hábitos culturais enraizados há longo tempo
entre aqueles índios, negros e pessoas de uma “centena de gradações e misturas”,
mencionadas pelo próprio Wallace. 127 A opção pelos produtos importados, por sua vez,
estava ligada a uma estratégia de distinção social, por parte daqueles que tivessem
recursos para tanto.
Se a dieta básica da maioria dos habitantes da Província não apresenta
tendências de ter sido afetada pela crescente produção de borracha - à medida que esse
produto começa a aumentar vertiginosamente nas pautas de exportações provinciais
durante o início da segunda metade do século XIX – uma pergunta ainda se mantém:
por que sucessivos Presidentes de Província reclamavam de um abandono das
atividades agrícolas, em favor da extração, gerando, inclusive, uma falta de gêneros de
primeira necessidade no Grão-Pará? Robin Aderson, afirma que este tipo de discurso,

127
Robin Anderson diz que o peixe, especialmente o pirarucu, e a farinha de mandioca eram itens
importantes na alimentação da maior parte dos habitantes do Grão-Pará, ainda durante o período colonial.

87
presente naqueles documentos, indicava uma situação um pouco mais complexa do que
se pode pensar à primeira vista. Aplicando cálculos estatísticos sobre a produção de
borracha e de alguns gêneros agrícolas, durante a segunda metade do Oitocentos, a
autora afirma que

“(...) nenhuma simples relação causa-efeito pôde ser encontrada entre o crescimento da
produção de borracha e as quantidades da produção de alimentos. (...) A relação estatística
entre a borracha e gêneros alimentícios como açúcar, arroz, milho ou farinha, foi bastante
pequena para ser significante”.128

Então, para explicar as reclamações feitas pelos Presidentes, Anderson sugere, a


respeito do abastecimento de Belém, que devido tanto a movimentos naturais de
população quanto à ida de massivas levas de refugiados das secas no nordeste, a cidade
experimentou um grande aumento na demanda por alimentos, sem que houvesse um
correspondente crescimento na oferta dos mesmos. Uma maior capacidade de compra,
por parte de um pequeno grupo de pessoas enriquecidas, também teria ocasionado uma
elevação dos preços de determinados gêneros, tornando estes inacessíveis aos demais
grupos. A falta de créditos e de capitais, por sua vez, é apontada como um fator
inibidor de um possível incremento na produção de víveres e das atividades criatórias.
Por fim, as dificuldades no transporte entre o interior e Belém são entendidas como
mais um elemento explicativo da carência de certos gêneros na capital129 .
A confrontação das sugestões acima, feitas por Anderson, e os já citados
relatos de viajantes e Relatórios de Presidentes de Província, remete a questões em
parte diferentes. Tive a oportunidade de discutir que os grandes fluxos migratórios de
nordestinos para o Grão-Pará, destinados ao trabalho nos seringais, somente irão se
fazer sentir por volta de fins da década de 1870. Mesmo que essas pessoas, antes de
irem para o interior, ficassem um certo espaço de tempo na cidade, tal fenômeno
somente poderia explicar uma carência alimentar em Belém a partir daquele período.
Bates, conforme indicado, mencionou, em 1859, um aumento na população da capital,
em função do crescimento do número de estrangeiros na mesma, especialmente

Cf.: ANDERSON, Robin Leslie (a). Colonization as Exploitation in the Amazon Rain Forest, 1758-
1911. Gainesville: University Press of Florida, 1999.
128
Idem, p. 75 (A tradução é minha). A autora não explicita quais os anos desse período utilizados para
os cálculos.
129
Idem, pp. 75-76.

88
portugueses, madeirenses e alemães. 130 Mas, de acordo com dados constantes em outro
estudo de Anderson, a quantidade de moradores em Be lém, durante o período de 1849 a
1872, teve um acréscimo significativo, pois, apenas se forem tomados aqueles dois anos
limites, passou de 16.337 para 30.050 indivíduos. 131 Mesmo considerando possíveis
sub-registros em algumas estimativas usadas pela autora, em vista dos altos índices de
mortalidade existentes em sociedades pré- industriais, indicadas mais acima, uma cidade
que, em um período de 23 anos parece ter vivenciado um acréscimo de 54,37% no
número dos seus moradores, passou por um ganho populacional significativo. (Ver
Quadro 1-2)

Quadro 1-2
População da cidade de Belém (em milhares), 1849-1872

Ano População
1849 16.337
1853 16.510
1856 17.075
1862 18.305
1872 30.050
Fonte: ANDERSON, Robin Leslie
(b)., op.cit., p. 76.

O exposto acima vai ao encontro do discutido sobre os melhoramentos


materiais e a expansão da cidade, observados por diferentes viajantes estrangeiros,
apresentadas na seção anterior deste capítulo. É até bastante plausível que o número de
moradores em Belém tenha aumentado, haja vista a cidade – como capital e principal

130
Ruth Burlamaqui aponta, neste sentido, um grande afluxo de estrangeiros, sobretudo portugueses, para
o Pará, entre os anos de 1856 e 1863, em um total de 3.160 indivíduos. Quanto a esses imigrantes
portugueses, segundo a autora, em geral, eles teriam como ocupação o comércio. Cf. MORAES, Ruth
Burlamaqui de., op. cit., pp. 35-36.
131
ANDERSON, Robin Leslie (b). Following Curupira: Colonization and migration in Pará, 1758 to
1930. As a Study in a Settlement of the Humid Tropic. California: University of California, 1976, p. 69.
(Tese de Doutorado em História). A obra anteriormente citada desta autora é, em grande medida,
derivada dessa Tese. Contudo, no livro publicado, não constam muitas informações existentes no
trabalho original, a exemplo dos dados especificamente acerca da população de Belém. Tentei verificar o
informado por Anderson diretamente nas fontes utilizadas por ela, que foram os Relatórios de Presidentes
de Província. Mas, nos próprios Relatórios, há a indicação de que os dados, por freguesia, constam em
anexos, os quais, infelizmente, não estavam junto com os documentos consultados durante esta pesquisa.

89
porto exportador da Província - estar passando por um notável incremento de suas
atividades econômicas, atraindo, assim, pessoas interessadas em obter o seu quinhão
nessa economia que pulsava. De qualquer forma, a despeito de algumas tentativas de
colonização, mais de 95% dos habitantes do Pará, entre livres e escravos, e 85,92% dos
da capital132 , segundo tendências apresentadas pelo censo de 1872, eram naturais da
própria Província. Mesmo faltando informações precisas acerca da naturalidade da
população de Belém antes desse censo, seria de se esperar, contudo, que, por se tratar
de uma economia com sinais de um crescente dinamismo, as pessoas, originárias de
fora do Pará, que se dirigissem à capital durante as décadas de 1850-60, por lá
ficassem, e se fizessem representar no ano de 1872. Provavelmente, então, sem
desconsiderar a chegada de alguns estrangeiros ou de sujeitos oriundos de outras áreas
do Império, o aumento do número de residentes em Belém, entre os anos de 1849 e
1872, estivesse, ao menos, em sua maior parte relacionado a migrações internas à
própria Província. Neste sentido, há dois problemas a serem colocados.
Tomando como referência a população geral da Província, em vista da
possibilidade dela não ter sofrido grandes acréscimos com indivíduos externos ao Pará
e, também, dos dados apresentados acerca da exportação e importação local, não penso
ser tão fora de propósito sugerir que os habitantes do território considerado não
estivesse vendo a sua capacidade de subsistência tão ameaçada. Mais do que isso,
ainda analisarei no terceiro capítulo como o sistema de uso da terra, então praticado na
província paraense, era o mesmo existente na Amazônia, de um modo geral, desde o
período colonial. Certamente, se fosse o caso dos moradores do Grão-Pará estarem
tendo a sua própria sobrevivência física ameaçada, durante as décadas iniciais da
economia gomífera, mudanças no trato da terra haveriam de ter ocorrido. 133
Por outro lado, mesmo os números apresentando uma tendência de
crescimento demográfico em Belém, devido o ponderado no parágrafo acima, uma
possível alta nos preços dos gêneros alimentícios vendidos na capital, acredito, não
deve ser explicada pela chegada de nordestinos, tampouco pela deficiência na produção

132
A cidade de Belém, em 1872, englobava as seguintes paróquias: Nossa Senhora da Graça da Sé, Santa
Ana da Campina, Santíssima Trindade e Nossa Senhora de Nazaré do Desterro.
133
Este argumento está baseado no estudo de BOSERUP, Ester. Las condiciones del desarrolo em la
agricultura. La economia del cambio agrário bajo la pressión demográfica. Madrid: Editorial Tecnos,
1967. Mas, como destacado, será desenvolvido no terceiro capítulo, pois poderá ser mais bem
compreendido quando da análise acerca da falta de ânimo ao trabalho atribuída às chamadas camadas
subalternas, por parte dos políticos e administradores da Província.

90
de subsistência. Estando a demanda por esses produtos maior que a oferta,
especificamente na cidade, tal fenômeno pode ser atribuído a outros fatores. Quando
das suas estadas no local, ainda na década de 1850, Wallace e Bates apontaram um
aumento nos valores por que vinham sendo vendidos determinados alimentos. Da
mesma forma, como será analisado nas páginas seguintes, foi possível encontrar, em
Relatórios de Presidentes de Província, reclamações a respeito dos altos preços pelos
quais estes eram comercializados, em função da existência de monopólios no negócio
dos mesmos. 134 Sendo assim, torna-se razoável pensar que Belém possa ter
experimentado, de fato, um crescimento nas quantias de alguns dos produtos
alimentícios consumidos pelos seus habitantes, tanto pelo ganho populacional que teve
(e a sua correspondente demanda), quanto por mo tivos outros que não uma insuficiente
produção.
Sobre uma possível elevação nos preços de determinados gêneros
alimentícios, ocasionada por uma maior capacidade de compra por parte de uma
minoria dos moradores da cidade de Belém, outra explicação dada por Anderson,
também há que se matizar algumas questões. Conforme discutido, as informações
disponíveis sobre padrões de consumo na capital tendem a indicar que as pessoas, com
recursos para tanto, mantinham hábitos alimentares no sentido de alcançarem e/ou
confirmarem seus lugares de distinção na hierarquia social da localidade. Mesmo que,
em tempos de incremento da economia gomífera, estivesse aumentando a capacidade
de compra para um pequeno grupo de indivíduos, estes, provavelmente, não iriam
disputar com o restante dos moradores de Belém itens como o açaí, a farinha de
mandioca e o pirarucu, haja vista os mesmos estarem ligados aos padrões alimentares
de “índios e negros”, da “população nativa”, de acordo com as categorias usadas por
Wallace.
Por fim, quanto às dificuldades de transporte entre Belém e o interior,
também apontadas por Anderson como um fator explicativo para a carência de
determinados gêneros na capital, existem algumas questões que devem ser

134
A fim de perceber variações, tentei estabelecer uma comparação, durante períodos distintos, entre os
preços de gêneros como a farinha de mandioca e o arroz, a partir de inventários de pessoas que eram
comerciantes. Não obstante, a grande maioria desses processos fornece somente o valor total dos
estoques avaliados, sem descrevê-los. Dentre os inventários que não aglutinaram esses dados, apenas
quatro tiveram aqueles produtos arrolados, sendo que três eram referentes a casas comerciais localizadas
no município de Belém, mas não na capital. Por este motivo, o interesse exposto não pôde ser
viabilizado.

91
consideradas. Particularmente no que diz respeito à carne verde, eram constantes as
reclamações nos Relatórios de Presidentes de Província, sobre a deficiência na
condução de gado bovino das fazendas situadas na ilha do Marajó – principal local de
criação destes animais -, para o mercado da cidade. Assim, em 1858, Ambrózio Leitão
da Cunha se expressava para a Assembléia Legislativa Provincial:

“Depois de uma jornada mais ou menos penosa das fazendas para os portos de embarque, é
o gado ahi metido sem o menor systema em canôas com arranjos acanhados e
improprios, e assim transportado para esta cidade, onde chega, por via de regra, sem
comer nem beber, no fim de tres ou quatro dias, e as vezes mais se é trazido da contracosta
do Marajó”135 .

Chegando ao matadouro, se a porção de reses fosse maior do que a necessária para o


consumo da cidade, os animais eram confinados em um “cercado acanhado e cheio de
putrida lama sem alimento algum”, até que atingissem o momento de serem abatidos.
Assim, o sistema de transportes era entendido pelo então Presidente como a origem da
má qualidade da carne verde que abastecia o mercado de Belém. 136 Mais do que isso:
como Ambrózio da Cunha chegava mesmo a considerar que, pelo menos em alguns
momentos, eram levados mais animais do que a capital consumiria, é de se presumir
que ele considerasse o problema do abastecimento de Belém – no que se refere à carne
verde -, mais como estando ligado ao modo pelo qual aqueles eram transportados, do
que à quantidade dos mesmos. Essa pode ser uma explicação, mas vejamos o que diz
outro Presidente.
Francisco Carlos de Araújo Brusque, cinco anos depois, vai tratar, também, da
alimentação pública na capital. Sobre a venda de carne verde, ao contrário do seu
antecessor, entende que a quantidade de gado disponível ao mercado da cidade era, sim,
um problema. No entanto, a origem dessa situação não era atribuída a um insuficiente
número de animais criados na própria Província, mas à existência de um monopólio
velado na venda do produto. Tendo sido sancionada, no Pará, a lei nº 264, de 14 de
outubro de 1854, a mesma estabelecia que o preço máximo a ser cobrado pela libra de
carne era o de $120. Sob pressão do preço imposto, o fazendeiro não enviava as reses
para os talhos, se já não tivesse acertado o negócio com o marchante, o qual estabelecia
os valores a serem pagos aqueles. O marchante, também, impunha valores aos

135
CUNHA, Ambrozio Leitão da., op. cit., p. 43. O grifo é meu.
136
Idem, p. 44.

92
açougueiros, aos quais somente entregava o gado talhado, cobrando- lhes, além do preço
ajustado, uma certa quota, chamada de pingo, com o pretexto de ter lhes dado
preferência. Os açougueiros, por sua vez, não conseguindo cobrir, licitamente, os
gastos que haviam tido com a obtenção da carne, vendendo-a pela taxa legal, recorriam
a uma série de artimanhas. Ou falsificavam o peso desse produto durante a venda para
aqueles que se recusassem a pagar acima dos $120; ou cobrava em torno de $160 a
$200, a libra, daqueles que estivessem dispostos a ter o peso correto. Para completar,
por não possuírem os marchantes de meios eficientes para a condução de gado à cidade,
e serem poucos os fazendeiros que faziam isso por sua própria conta, verificava-se uma
grande inconstância no fornecimento desse gênero. Nas palavras de Araújo Brusque,
“dias e semanas succediaõ-se em que não tínhamos carne verde no mercado desta
cidade”. Diante da falta de carne, ou de preço elevado da mesma, atravessadores
surgiram, desviando o gênero que deveria ser vend ido nos açougues, para comercializá-
los diretamente com a população. Segundo ainda o Presidente, a situação descrita
acima somente teria encontrado uma solução com a revogação da lei do preço máximo,
ocorrida no dia 05 de setembro de 1863. 137
Mais adiante, no mesmo documento, quando Araújo Brusque faz um balanço
do funcionamento do mercado público de Belém, ele volta a fazer menção do
monopólio e da especulação que teria sofrido a venda da carne verde na capital. No
entanto, o Presidente vai mais além, dizendo que outros gêneros alimentícios também
teriam sofrido aqueles mesmos problemas, tais como o milho, a farinha, o peixe e as
aves. Ficando aquele estabelecimento a cargo da administração provincial, entretanto,
tal sorte de coisas teria mudado. O motivo era a volta da concorrência na venda desses
produtos. Encontra-se aqui, portanto, uma explicação para a carestia de alimentos na
cidade, que não se pautava em uma falta de produção dos mesmos:

137
PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado à Assemblea Legislativa da Provincia do
Pará na segunda sessão da XIII legislatura, pelo Excellentissimo Senhor Presidente da Provincia Doutor
Francisco Carlos de Araujo Brusque, em 1º de Novembro de 1863. Pará: Typographia de Frederico
Carlos Rhossard, 1863, pp. 30-33.

93
“Há muito (...), que se observava a falta de concurrencia de alguns generos alimentares,
que entretanto continuavam a ser produzidos nos costumados centros da producção.
(...) Esta escassez que frequentemente se observava elevava por tal modo o preço desses
generos, que se figurava muitas vezes, que atravessavamos uma dessas quadras infelizes
em que a carestia dos generos alimentares opprime os povos. (...) Iludindo os fornecedores
nas visinhanças d’esta cidade, rodeando-os em qualquer parte do littoral onde chegavaõ,
elles atravessavaõ a venda dos productos, e de tal arte se comportavam que ninguem do
povo podia conseguir uma ave, ao menos, de que carecia para o tratamento do enfermo,
por quem velava!” 138

De início, pode-se perceber nas duas exposições acima, sobre os problemas


existentes na venda de carne em Belém, as dificuldades enfrentadas pelo transporte de
gado entre a ilha do Marajó e a cidade. Essa era uma preocupação constante em
diferentes Relatórios, especialmente em função da má qualidade da carne vendida e/ou
da irregularidade no fornecimento de gado. Entretanto, Ambrózio da Cunha, em seu
discurso, somente cita o modo pelo qual o gado chegava até o mercado da capital, o que
traria como conseqüência a venda de carne com uma qualidade ruim. Araújo Brusque,
por sua vez, ao contrário de seu colega, considera que o maior problema na venda desse
gênero era a existência de um monopólio, o qual teria a sua origem em uma lei que
estabelecia um preço máximo pela libra de carne. Essa lei, conforme visto, acabaria
fazendo com que a carne vendida, em geral, tivesse um valor maior ao que se pretendeu
estabelecer. E os maiores culpados, pelo que o Presidente expôs, parecem ter sido o
marchante e atravessador. O primeiro, por causa do preço que impunha tanto aos
fazendeiros quanto aos açougueiros. O segundo - tendo em vista os elevados preços e a
irregularidade no fornecimento-, em função do desvio de carne que faria dos açougues,
para vendê- la diretamente à população. Esses atravessadores também se fariam
presentes na venda de outros gêneros alimentícios.
Se Araújo Brusque, em 1863, remetia a existência desses monopólios há
longas datas, por que Ambrózio da Cunha, em 1858, não mencionou os mesmos?
Talvez, o posicionamento de Ambrósio fosse decorrente das suas alianças parentais,
que, como apresentarei no terceiro capítulo, incluíam proprietários rurais no Marajó,
com criação de gado, e pessoas dedicadas à atividade comercial, donas de
estabelecimentos em Belém. Embora não se tenha documentação para fazer uma
vinculação direta entre essas questões, referir-se aos monopólios, possivelmente fosse
assumir práticas comuns entre indivíduos bastante próximos a Cunha. Por outro lado,

138
Idem, pp. 40-41. O grifo é meu.

94
mencionar os problemas decorrentes das condições de transporte, para a questão da
carne verde na capital, pudesse representar uma maneira de incentivar subvenções à
promoção da navegação entre o Marajó e Belém, por parte da administração provincial,
e, assim, beneficiar os negócios de seus familiares e/ou amigos.
Outro ponto interessante de ser pensado é que, para além das dificuldades no
transporte e de influências de teorias liberais - estas últimas que o próprio Brusque
admite -, os dois tipos de exposições sobre as dificuldades enfrentadas pelo
abastecimento de víveres em Belém, remetem a possíveis disputas no interior do grupo
à frente da política provincial. Não fosse assim, por que alguns Presidentes diriam que
a falta de alimentos sentida em Belém seria em decorrência do abandono da agricultura,
em função da coleta da borracha; enquanto outros encontrariam a origem desse mesmo
problema na existência de monopólios, chegando a afirmar que, se não fossem os
mesmos, nenhuma razão haveria para a falta de víveres na capital? 139
É importante frisar, de todo modo, que, mesmo que tenham existido tais
monopólios na venda de alimentos em Belém, pelo analisado nas páginas anteriores -
especialmente a partir dos dados de exportação e importação, bem como das
informações dadas pelos viajantes sobre a dieta básica da população citadina -, a capital
paraense não parece ter vivenciado uma crise de subsistência. Sendo assim, os
moradores de Belém deviam ter outros mecanismos de garantir a sua dieta, que não
apenas através do mercado público, visto boa parte de seus alimentos poder se
facilmente obtida, se não na própria cidade, pelo menos nas redondezas da mesma.
Com relação a este último ponto, no entanto, não poderei avançar, visto as fontes não
me permitirem.
Mas, voltando às considerações tecidas por Brusque a respeito da venda de
víveres na capital, apesar desse Presidente afirmar que os desvios de alimentos do
mercado público não poderiam ser resolvidos apenas pelo poder público municipal, diz,
também, que a administração daquele estabelecimento era impotente para solucionar a
mesma questão. 140 Os interesses representados na Câmara Municipal estariam entrando

139
No mesmo documento, Brusque escreveu, sobre a afluência de gêneros ao mercado público, após este
ter ficado a cargo da administração provincial, que “(...) não há razão para crer que sofframos falta de
generos de alimentação, e que seus preços se tornaráõ regulares, desde que pelas providencias
empregadas póde o consumidor havel-os directamente da mão do productor, ou dos fornecedores”. Cf.:
Idem, p. 42.
140
Idem, p. 41.

95
em conflito com os de outros grupos da política paraense? Quais interesses e grupos
eram esses? Mesmo depois de 1863, continuará a reclamação acerca dos monopólios
na venda de alguns alimentos em Belém. É provável que, em um período de
crescimento da cidade de Belém e de incremento da produção de borracha, grupos
diferentes daqueles que já ocupavam, há longas datas, os postos públicos tenham
surgido, fazendo com que os primeiros sentissem os seus privilégios ameaçados.
Também, é importante apontar a probabilidade de que, justamente por se tratar de um
momento em que a economia provincial estava em processo de reorganização, disputas
internas aqueles antigos grupos tenham surgido, possibilitando aos novos grupos
encontrar aliados dentro daqueles que, tradicionalmente, estavam à frente da vida
pública paraense. Mesmo que não seja possível aqui aprofundar tais problemas, ficam
as perguntas para serem pensadas por outros estudos. De qualquer forma, a dicotomia
comumente atribuída ao extrativismo e à agricultura, não parece tão cristalina, quanto
sugere a maioria das análises historiográficas tradicionais e grande parte das fontes
oficiais.
Os dados disponíveis sobre a exportação e importação de determinados
gêneros produzidos pelo Grão-Pará, apontaram a tendência de uma agricultura
dinâmica, durante os momentos iniciais de crescimento da economia gomífera. A
análise de alguns elementos da composição demográfica da população provincial,
também, fo rneceu indícios de que não se verificou uma crise de subsistência no mesmo
período. Os fragmentos de informações acerca dos hábitos alimentares dos moradores
do local, por sua vez, corroboraram a idéia de que, pelo menos para a maioria daqueles,
a sua sobrevivência física não estava ameaçada pela crescente coleta de borracha, no
mesmo período. Resta, por fim, tentar apontar caminhos para o entendimento de como
toda essa situação foi possível.
Já foi apresentado que as principais áreas onde ocorria a extração da goma
elástica, não eram as mesmas em que se desenvolviam as atividades agrícolas
tradicionais. A principal região produtora de borracha, até os idos da década de 1880,
era a chamada região das ilhas. No entanto, a coleta da seringa também era feita em
locais do rio Tapajós e das bacias dos rios Tocantins e Guamá, mesmo que em uma
menor quantidade que nos outros citados, locais estes onde também foram presentes
diferentes tipos de cultivos. Deste modo, a produção de gêneros como o arroz, a

96
mandioca e o açúcar, era feita, especialmente, nas terras em volta da cidade de Belém, e
nas regiões banhadas pelos rios Guamá e Tocantins. Na área conhecida como Baixo
Santarém, e nas margens do Tocantins e do Amazonas, vários cacauais foram
cultivados, além de naquela primeira também existir criação de gado. Já na ilha do
Marajó, também, além da pecuária, ganharam espaço alguns engenhos de açúcar. (Ver
Figura 1-1)
Contudo, mesmo nas áreas predominantemente vinculadas a uma ou a outra
atividade, a associação do extrativismo e da agricultura parece ter sido comum, pelo
menos durante as décadas iniciais do crescimento da produção de borracha. Tanto
indivíduos com prestígio na Província, quanto livres pobres em geral, podem ser
encontrados desenvolvendo, de forma combinada, aquelas atividades. Os primeiros,
em função das rendas que poderiam lhes ajudar no reforço de suas posições de prestígio
social. Os segundos, porque não haveria motivos para o abandono de suas atividades
tradicionais, ligadas em grande medida à própria subsistência, simplesmente por causa
de um ramo da economia local que se expandia. 141
Existem alguns exemplos daquele primeiro caso. A família Pombo era uma
das mais tradicionais da Província. 142 Seu prestígio remontava ao período colonial.
Joaquim Clemente da Silva Pombo, casado com Maria José do Carmo Henr iques, por
exemplo, havia sido Ouvidor na Capitania do Pará, e membro da Junta de Sucessão do
Governo entre 1810 e 1817. Um dos filhos desse casamento, Ambrósio Henriques da
Silva Pombo, foi o primeiro membro da nobreza paraense, sob a denominação de Barão
de Jaguarari, herdada de sua fazenda no Rio Mojú, onde chegou a possuir de 8 a 10.000
cabeças de gado 143 . Naquelas terras, que pertenceram aos jesuítas, tinha, também, um
dos maiores engenhos do Pará, à ponto dos viajantes Spix e Martius escreverem que,
com justiça, o mesmo tinha “(...) fama de maior eficiência e elegância (...)” 144 . Uma
irmã de Ambrósio Pombo 145 casou-se com Marcos Antônio Brício, brigadeiro do

141
Tomo como referência para este argumento as considerações feitas por Polanyi sobre a prevalência,
em sociedades pré-industriais, de interesses relativos ao prestígio social e à subsistência. Cf.: POLANYI,
Karl. A Grande Transformação: As origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 65. Esta
discussão teórica encontra-se na Introdução.
142
Mais informações sobre a família Pombo estão no Capítulo III.
143
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo. “Alianças Matrimoniais na Alta Sociedade Paraense no Século
XIX”. In: Estudos Econômicos, n.º 15, 1985, p. 158.
144
SPIX e MARTIUS. Viagem Pelo Brasil, 1781-1826. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia;
Editora da Universidade de São Paulo, 1981, p. 69.
145
Não foi possível saber o seu nome.

97
exército, comendador e, com a morte do cunhado, II Barão de Jaguarari. Este foi
deputado geral pelo Ceará de 1826 a 1829, e pelo Pará de 1845 a 1847 146 . Um irmão de
Marcos Brício, Jaime Davi Brício, comendador de Cristo 147 , havia se casado com Maria
do Carmo Pombo Brício, também irmã, assim como João Florêncio Henriques da Silva
Pombo, do I Barão de Jaguarari. João Pombo, que era casado com Maria Emília de
Moncada Pombo, teve um filho por nome José Henriques da Silva Pombo. Este, de
acordo com o seu inventário, aberto no ano de 1870, possuía entre escravos, terrenos na
capital e 681 gados de diferentes tipos e tamanhos, 1/3 do valor da ilha Mexiana,
localizada na Baía do Marajó, com seringais. 148
Quando Wallace passou por essa ilha, registrou existir na mesma um lago com
jacarés em abundância, os quais eram caçados para, a partir de sua gordura, produzir-se
azeite. Também, aproximadamente 1.500 cabeças de gado bovino e 400 de gado
cavalar, além um grande número de reses selvagens. Os trabalhadores da ilha eram
cerca de 40, entre, aproximadamente, 20 escravos e o restante índios e negros livres.
Sobre os cultivos, existiam os de milho e hortaliças, para o consumo dos trabalhadores,
além do de fumo, para os mesmos comercializarem. Pela forma que o viajante diz
serem feitos os pagamentos a esses trabalhadores, através de farinha de mandioca, é
possível que plantações desse gênero também se fizessem presentes. 149
Um outro exemplo de combinação entre extração da borracha e cultivo
agrícola, por parte de pessoas com prestígio na Província, é a propriedade Jambuaçu, de
José Antônio Corrêa Seixas, no rio Tocantins. Este sujeito era sócio de João Augusto
Corrêa, o qual era membro de uma família tradicional no Pará. O pai de João,
Francisco Custódio Corrêa, português, vinculava-se à atividade comercial. Começou os
seus negócios em Cametá, onde nasceram os seus filhos, tendo-se associado a um

146
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 165.
147
Sobre esta comenda, cf: BARATA, Manoel. “A Antiga Produção e Exportação do Pará”. In:
BARATA, Manoel. Formação Histórica do Pará. Belém: Editora da UFPa, 1973, p. 317.
148
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1870, caixa 1870, documento n.º
05.
149
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., pp. 65-68. Por mais que o registro de Wallace, quando de sua
visita à ilha por volta de 1848-49, não mencione as seringueiras, outro documento, do início da década de
1850, já faz menção às árvores. Em 1854, consta Campbell & Pombo terem feito uma representação à
Presidência da Província, pedindo providências contra rumores de que cerca de mil homens invadiriam a
propriedade, para fazerem uso das seringueiras. Diante de tal pedido, o Presidente atendeu
imediatamente, mandando, para o local, o Vapor de Guerra Paraense, mais de 160 praças de primeira
linha, além do Chefe de Polícia interino à época. Cf.: BARROS, Sebastião do Rego., op. cit., p. 4. Não
consegui saber se o Pombo da petição era o João Florêncio ou o José Henriques. O outro, Campbell, era
um importante negociante de naturalidade escocesa, Archibald Campbell.

98
cunhado seu, José Joaquim de Freitas. Francisco, por ser um dos líderes do movimento
contrário à chamada adesão do Pará à Independência, fez parte da Junta de Governo,
eleita sob a influência daquele mesmo movimento, em 1823. Pelo mesmo motivo, foi
eleito Promotor da Liberdade de Imprensa, eufemismo que designava a censura à
nascente imprensa. Consegui localizar dois filhos seus: o já mencionado João Augusto,
e Ângelo Custódio Corrêa. O primeiro, importante negociante da praça de Belém,
praticava a atividade comercial de longo curso com a Europa, tendo chegado a realizar,
inclusive, o comércio de escravos. O segundo, por sua vez, estudou Direito na Europa
e, tendo alcançado a maior votação como deputado provincia l, foi empossado
Presidente da Província em 1835, após o assassinato do Presidente Lobo de Souza pelos
cabanos. Foi, também, vice-presidente de 1850 a 1855, deputado provincial de 1844 a
1852, e deputado geral entre 1838-1839 e 1853-1855.150
Sobre a propriedade Jambuaçu, há, novamente, as informações de Wallace.
Quando de sua visita ao local, registrou que

“A floresta que rodeava a casa, na verdade era uma enorme plantação de cacau estendendo-
se por algumas milhas para o interior. Havia ali umas 60.000 árvores, todas plantadas. Os
arbustos e as arvoretas nativas haviam sido cortados e substituídos pelos cacaueiros, que
ficavam protegidos à sobra das seringueiras e outras grandes árvores da floresta. (...) Em
Jambuaçu, todas as manhãs, coleta-se o látex das seringueiras em grandes conchas
uniclaves, presas ao tronco da árvore, logo abaixo de uma incisão feita em sua casca”151 .

O último caso mencionado acima é bastante interessante, pois remete ao


cultivo do cacau e à extração da seringa, dois produtos estes que tinham os seus
períodos de colheita e coleta diferentes. A colheita do cacau, onde se podia obter maior
abundânc ia, era entre os meses de maio a julho. Já a borracha, apesar de poder ser
obtida durante todo o ano, a coleta e o preparo do produto ocorriam, com maior
freqüência, entre agosto e dezembro. 152 Ou seja, pelo menos para esses dois gêneros –
um de origem em grande medida agrícola, e outro de origem extrativa -, para os quais
consegui verificar os períodos de maior abastança, as atividades produtivas poderiam
ser complementares entre si. Isto talvez ajude a compreender como, mesmo em tempos

150
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 162.
151
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., pp. 49-50 e 59.
152
PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado à Assemblea Legislativa da Provincia do
Pará na primeira sessão da XIII legislatura, pelo Exmo Senr. Presidente da Provincia Dr. Francisco
Carlos de Araujo Brusque em 1º de Setembro de 1862. Pará: Typographia de Frederico Carlos Rhossard,
1862, pp. 47 e 49.

99
de vertiginoso crescimento da exportação da goma elástica, a exportação do cacau
também se mostrou bastante significativa, conforme as tendências indicadas pelos
gráficos mencionados em outro momento apresentaram.
Os exemplos anteriores demonstram como indivíduos pertencentes a grupos
com tradição na vida pública paraense, além de ter interesse no próspero negócio da
borracha, desenvolviam, também, outras atividades econômicas. De qualquer maneira,
isso não parece ser suficiente para o entendimento da maneira pela qual a organização
produtiva provincial esteve organizada durante as primeiras décadas da segunda metade
do Oitocentos. Mesmo sendo exemplos que apontam para a combinação de diferentes
atividades produtivas, os mesmos dizem respeito a proprietários de um porte maior, o
que, evidentemente, não consegue dar conta dos mecanismos que garantiam a
sobrevivência material do Grão-Pará como um todo.
Antes de ser apresentado o que foi possível encontrar sobre as atividades
econômicas de indivíduos livres, mas sem o cabedal daqueles outros mencionados,
existem algumas considerações a fazer. Como foi sugeri, analisar a economia paraense
como estando assentada predominantemente nas atividades extrativas, é uma forma
empobrecedora de se entender qualquer que seja a economia. Mas, em especial durante
o período em que a borracha vê a sua produção crescer sem precedentes, que é o que
interessa por ora, atribuir à economia provincial uma agricultura decadente, em razão
da quase que exclusiva coleta daquele gênero, é não conseguir dar conta de explicar
como a sociedade organizava a reiterava a sua vida material.
Um argumento para essa afirmação pode ser buscado no tipo de trabalhador
que costumava se dedicar à coleta da borracha, durante o período discutido. Os sujeitos
que desenvolviam essa atividade, em sua maior parte, eram os nativos de origem
mestiça ou índia. Os nordestinos, contratados especificamente para o trabalho nos
seringais, parecem ter surgido, em maior número, apenas por volta do final da década
de 1870. Diversos depoimentos coevos fazem menção ao tipo de mão-de-obra
empregada na coleta da goma elástica durante o período que aqui está sendo tratado.
Pimenta Bueno, em 1882, por exemplo, afirmava que essas pessoas, no geral, eram os
“Tapuyios (habitantes de origem mestiça)”, aos quais começaram se juntar os
cearenses, após a seca ocorrida nesta Província, em 1877. 153 Tavares Bastos, fazendo

153
PIMENTA BUENO, Manoel Antonio. apud OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de. (a), op. cit., p. 23.

100
uma comparação entre a aplicação dada às forças de trabalho escrava e a indígena, diz
que era o índio quem se dedicava à coleta da goma elástica, sendo que os escravos
estariam concentrados na lavoura de cereais e nos engenhos de açúcar. 154 Couto de
Magalhães, por sua vez, chamava de “pequenos proprietários” aqueles que colhiam a
seringa. 155 Isto, por si só, é um indício de que a coleta da seringa e as atividades
agrícolas, principalmente aquelas ligadas à subsistência, não eram excludentes entre si.
É bom lembrar que, em uma economia de natureza pré-industrial, como a da região em
foco, querer imputar à população livre pobre local uma busca incessante pelo lucro, por
meio do abandono da agricultura simplesmente pelo interesse em extrair a goma
elástica, já que este produto estaria alcançando crescentes preços nas exportações,
constitui-se em um grande equívoco. Em sociedades perpassadas por uma economia
daquele tipo, os produtos necessários para o auto-consumo têm prioridade sobre a
produção de mercado. 156
Outro fator diz respeito ao controle sobre as principais áreas onde a coleta da
borracha era realizada. Esse, aliás, é mais um elemento que diferencia a produção da
seringa durante o período que se está analisando, com o que vai se verificar
especialmente a partir da década de 1880. Os locais mais abundantes em seringueiras
no Grão-Pará - a mencionada região das ilhas, mas também as margens do Tapajós, do
Tocantins e do Guamá -, em sua maioria, não tinham a propriedade legalizada, estando
situados em terras devolutas e nacionais. 157 Durante os momentos iniciais de
crescimento da exploração gomífera na Província, os trabalhadores, de modo geral, que
se dedicaram à tal atividade, já estavam estabelecidos naquelas áreas, sendo, ainda,
independentes, i.e., sem os vínculos formais com as grandes casas aviadoras que irão se
verificar posteriormente. 158 Assim, não existiriam motivos para o abandono de suas
tradicionais atividades de subsistência – as quais, como serão vistas através de alguns
casos, chegavam a gerar excedentes comercializáveis -, em favor exclusivamente da
extração. Em alguns desses exemplos, inclusive, há indicações que apontam para uma
divisão familiar do trabalho.

154
BASTOS, Aureliano Cândido Tavares., op. cit., p. 209.
155
MAGALHÃES, José Vieira Couto de., op. cit., p. 10.
156
Cf. KULA, Witold. “Da Tipologia dos Sistemas Econômicos”. In : FOURASTIE, Jacqueline (org.).
Economia. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1981, pp. 75-140.
157
BRUSQUE, Francisco Carlos de Araujo (b)., op. cit., p. 49
158
Cf.: WEINSTEIN, Barbara., op. cit., pp. 65-66; REIS, Arthur Cezar Ferreira., op. cit., p. 78; e
OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de.(a), op. cit., pp. 125-126.

101
Além do mais, diante de tudo que discuti anteriormente, não há como entender
a economia da região se não for considerada que a sua organização produtiva estava
assentada em uma estreita combinação das atividades extrativas e agrícolas, além da
pesca e da caça.
Os relatos dos viajantes, mais uma vez, reforçam os argumentos expostos. Em
2 de dezembro de 1842, o Príncipe Adalberto da Prússia, durante a sua viagem pelo rio
Xingu, visita as freguesias de Sousel, Veiros e Pombal. Nessas localidades, que fazem
parte da região das ilhas, observando os seus habitantes e a vida que eles levavam,
escreveu que

“(...) descendem em grande parte dos índios selvagens que os jesuítas encontraram quando
chegaram, batizaram e aldearam. A outra parte dos habitantes dessas povoações é
constituída por mestiços desses habitantes primitivos e brancos (...). Ditas localidades só
são habitadas durante poucos meses do ano; durante os restantes, como era o caso agora,
vão para seus sítios pelas margens do rio, no inverso, isto é, de junho a dezembro, para
preparar seringa (goma elástica), que se prepara no local, e no verão para apanharem
salsaparrilha, bálsamo de copaíba, cássia e cacau. Enquanto os homens se ocupam nisso
nas florestas, e também na caça e na pesca, as mulheres ficam nos sítios, para preparar a
farinha, com que negociam. Duas vezes por ano, porém, pelo São João e Natal, todos se
reúnem nas povoações, que por conseguinte são consideradas mais do que um simples
‘pied-à-terre’, para trocarem seus produtos naturais por tecidos e outros simples produtos
industriais, ou para embarcá-los para o Pará” 159 .

Ao passar pelo rio Tocantins, Bates chega à freguesia de Baião e, observando


os habitantes do lugar, apontou que

“Os homens estavam ausentes, pescando, alguns deles em lugares distantes dali vários dias
de viagem; as mulheres plantavam mandioca, faziam farinha, fiavam e teciam algodão,
fabricavam sabão com a casca queimada do cacau e óleo de andiroba, além de se dedicarem
a outros trabalhos domésticos”160

Excursionando pela Baía do Marajó, Bates chega à ilha de Carnapijó, onde


visita a propriedade de um índio chamado Raimundo, que era carpinteiro. Moravam
também na propriedade dois índios que eram aprendizes daquele ofício, e duas mulheres
que o viajante não diz quem eram. Raimundo pareceu ao inglês “muito pobre”, mas
disse existirem no local cultivos de diferentes gêneros, os quais chegavam a gerar
excedentes:

159
ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas-Xingu. Belo Horizonte: Itatiaia, 1977, pp.
167-168.

102
“(...) eles possuíam plantações de mandioca e de milho de consideráveis proporções, além
de pequenas culturas de café, algodão e cana”161 .

A caminho do Alto Amazonas, em agosto de 1852, Bates passa pelo rio


Tapajós, que, como dito, era, também, um importante local produtor da goma elástica.
Lá, ele conhece a tribo dos índios Mundurucus, e descreve as suas atividades produtivas
e comerciais:

“Eles fazem grandes plantações de mandioca, vendendo o excedente da produção – que no


Tapajós varia de 3.000 a 5.000 cestos anualmente -, nos meses de agosto a janeiro aos
mercadores que sobem o rio vindo de Santarém. Também colhem grandes quantidades de
salsaparrilha, borracha e fava-tonca nas matas. Os mercadores, ao chegarem em Campinas
(a região quase destituída de matas habitada pelo núcleo central dos Mundurucus e situada
depois das cataratas), têm de distribuir primeiro as suas mercadorias – roupas de algodão
ordinário, machados de ferro, artigos de cutelaria, miudezas e cachaça – entre os subchefes,
e depois esperar três ou quatro meses pelo pagamento em forma de produtos agrícolas”162 .

Ao chegar a Santarém, no Tapajós ainda, Wallace escreveu sobre os produtos


comercializados pela cidade. As suas colocações reforçam as feitas por Bates, ao
apontar que os Mundurucus forneciam alguns daqueles, dentre os quais se destacavam a
castanha-do-pará, a salsaparrilha, a farinha e o peixe salgado 163 .
Esse último viajante também, passando pelo rio Tocantins, visita uma
propriedade e a descreve, juntamente com as produções existentes:

“A casa não passava de um simples rancho, ou seja, um telheiro de folhas de palmeira,


suportado por esteios, entre os quais eram penduradas as redes, que tanto serviam de camas
como de cadeiras. (...) Ali havia cultivos de algodão, fumo, cacau, mandioca e incontáveis
bananeiras”164 .

Em seguida, chegou a Tronqueira, na margem ocidental do mesmo rio, tendo


observado que os seus moradores não passavam o ano inteiro na localidade, indo lá
somente durante o período de extração da borracha, sem, no entanto, descuidar de outras
atividades. É interessante ainda notar o valor de troca, atribuído pelos moradores dessa
localidade, à goma elástica, pois propuseram ao viajante e ao seu acompanhante,

160
BATES, Henry Walter., op. cit., p. 59.
161
Idem, pp. 84-85.
162
Idem, p. 181.
163
WALLACE, Alfred Russel., op. cit., p. 95.
164
Idem, p. 52.

103
Charles Leavens, permutar borracha por munição e cachaça. Para pessoas que
estivessem abandonando a produção de subsistência em favor da extração da seringa,
em função dos valores alcançados por este produto, tal comportamento não estaria
condizente com o esperado:

“Aqui viviam diversas famílias, mas casa não havia. (...) Como este lugar fica inundado
durante o inverno, o que víamos era um mero acampamento de verão. Durante esta
estação, eles colhem borracha, cultivam algodão, mandioca e milho, pescam e caçam. De
nós, queriam apenas munição e cachaça, que propunham permutar por borracha.”165

Acredito que os exemplos fornecidos são suficientes para ilustrar o argumento


de que, durante os momentos iniciais do crescimento da produção de borracha, a
agricultura e a subsistência do Grão-Pará não estavam tão ameaçadas, quanto sugere a
maior parte dos discursos oficiais e da historiografia tradicional. Antes, era justamente
essa associação de atividades que permitia não somente a Província garantir a sua
existência e sobrevivência material, como também, mesmo diante do início do grande
crescimento da borracha, apresentar uma certa diversidade de gêneros exportados com
volumes significativos.
No próximo capítulo serão analisadas as formas de acumulação possíveis no
município de Belém, além da distribuição da riqueza produzida no mesmo. Essa
discussão será importante para que se entenda o grau de participação de diferentes
setores econômicos na política provincial e, assim, os motivos que levaram à existência
de críticas em relação à extração da borracha, mesmo que, conforme se discutiu aqui,
estas não estivessem provocando aquilo que mais era alardeado: a decadência
generalizada das atividades agrícolas.

165
Idem, pp. 53-54.

104
CAPÍTULO II

Economia e formas de acumulação

Foi visto no capítulo anterior que, de modo diferente ao proposto por boa parte
da historiografia regional e dos discursos oficiais coevos, durante as décadas iniciais de
crescimento da produção e da comercialização da goma elástica, a Província do Pará
não estava tendo a sua capacidade de subsistência ameaçada. Este capítulo discute
formas de acumulação econômica possíveis no município de Belém, a distribuição da
riqueza produzida no mesmo e tipos de investimentos no interior da elite local. Viso,
com isto, demonstrar que o setor comercial era o que gerava a maior soma de riquezas e,
deste modo, o grupo que ocupava o topo da hierarquia econômica era aquele ligado
predominantemente ao comércio, apesar de o mesmo também aplicar os seus ativos em
outros ramos de atividades. Essa discussão será importante para o entendimento de que
os sujeitos à frente da política e da administração paraenses também poderiam ter
interesses no ramo da economia local que mais se expandia à época, seja por
investimentos próprios, seja pela rede de relações sociais em que estavam inseridos. Da
mesma maneira, as idéias a serem desenvolvidas nesta parte do trabalho ajudarão na
compreensão de que as críticas dirigidas ao negócio da seringa diziam muito mais a
respeito do desejo de quem as formulavam em manter a hierarquia social desigual então
existente, do que a uma possível rejeição dos rendimentos gerados pela borracha.
O universo documental trabalhado é formado, basicamente, por 221 inventários
post-mortem. Como fontes complementares, foram utilizados Relatórios de Presidentes
de Província, relatos de viajantes e o Censo de 1872. Optei por levantar todos os

105
inventários que possuíssem o item relativo à avaliação dos bens, durante os anos de
1850 a 1870, abertos no município de Belém. Justifico a escolha dessa região pelo fato
dela, no período aqui abordado, englobar a capital da Província, sede do principal porto
exportador do atual Norte brasileiro, e, assim, acreditei, possibilitar visualizar fortunas
de pessoas ligadas a uma atividade comercial de maior envergadura, em termos de
lucratividade, volumes e distâncias. Também, devido o município em questão abarcar
áreas rurais importantes, dentro do Pará, na produção especialmente da cana-de-açúcar.1
Desta forma, os inventários de Belém dão a oportunidade de se entrar em contato com
fortunas formadas tanto a partir de atividades relacionadas ao comércio, quanto à
agricultura, atividades estas que costumam ser tratadas, pela historiografia regional
tradicional, como incompatíveis no que toca aos investimentos feitos pelas pessoas à
frente da vida política provincial.
A fim de ter uma idéia da amostra dos processos trabalhados, comparei o
número dos escravos inventariados nos anos de 1868 a 1870 à quantidade de cativos
arrolados, no Censo de 1872, para Belém. Sei que o mais indicado para alcançar tal
objetivo seria comparar os inventários aos óbitos em uma dada região e em um dado
período 2 ; contudo, não foi possível o manuseio deste tipo de registro paroquial. Feita
essa ressalva, o percentual chegado não se diferencia muito ao que se costuma obter
quando se busca a representatividade desse tipo de documentação: 5,65%. 3 Muito
embora seja certo que, entre as décadas de 1850 e 1870, tenha ocorrido uma tendência
de diminuição na quantidade de escravos existentes na Província, como um todo, o
1
O município de Belém, de acordo com o Censo de 1872, englobava as seguintes paróquias: Nossa
Senhora da Graça da Sé, Santa Ana da Campina, Santíssima Trindade e Nossa Senhora de Nazaré do
Desterro, formando a capital, além das de São Vicente de Inhangapi, Santa Ana do Bujarú, São Domingos
da Boa Vista, Santa Ana do Capim, São Francisco Xavier de Barcarena, São Miguel de Beja, Nossa
Senhora da Conceição de Benfica e Nossa Senhora do Ó de Mosqueiro. De agora em diante, sempre que
se fizer referência à Belém, neste capítulo, está-se tratando do município. Quando a intenção for a de se
reportar à cidade de Belém, a mesma será explicitada ao longo do texto.
2
Sobre o problema do valor representativo dos arquivos notariais, cf: DAUMARD, Adeline. “Estruturas
Sociais e Classificação Sócio-Profissional”. In: DAUMARD, Adeline. Hierarquia e Riqueza na
Sociedade Burguesa. São Paulo: Perspectiva, 1985, pp. 56-64.
3
Em 1872, os escravos era na ordem de 8.847 pessoas e, entre 1868 e 1870, 503. Sobre a
representatividade dos inventários, Daumard, por exemplo, fornece algumas estimativas do percentual da
população de Paris que recorreu à abertura desse tipo de processo: em 1671, foi na ordem de 5,8%; 1715,
10,1%; 1750, 11,6%; e 1787, 8,9%. Cf: DAUMARD, Adeline., op. cit., p. 61. Mesmo que se tratem de
períodos bastante diferentes do aqui estudado, são reveladores os índices obtidos pela autora. Mais
próximos do recorte cronológico aqui privilegiado nesta dissertação, estão os números apresentados por
Sampaio para Manaus no século XIX. Comparando os inventários aos óbitos naquela região, as cifras
dessa autora são: para o ano de 1848, 5,95% e, para 1858, 23,4%. Cf: SAMPAIO, Patrícia Maria Melo.
Os Fios de Ariadne. Tipologia de Fortunas e Hierarquias Sociais em Manaus, 1840-1880. Manaus:
Editora da Universidade do Amazonas, 1997a, p. 138.

106
índice aqui obtido não deixa de ser significativo, haja vista a variação do número bruto
de cativos não ter sido tão brusca. 4 Acredito que essa idéia possa ser estendida ao que
diz respeito ao município de Belém. De qualquer forma, uma ponderação se faz
importante. Os inventários post-mortem somente conseguem cobrir uma minoria da
população. Esse tipo de processo era aberto apenas para as pessoas que tinham bens a
legar e, mais do que isso, que possuíam condições para pagar os custos do mesmo.
Ainda, não se deve desconsiderar a existência de indivíduos que não recorriam a
mecanismos de partilha e herança legais. De todo modo, como a minha intenção é,
particularmente, o estudo das formas de acumulação da elite, sem, contudo, deixar de
analisar os traços gerais da economia existente nas áreas abarcadas pelos inventários,
acredito que os limites metodológicos expostos sobre o uso desse tipo de processo não
colocarão problemas para o alcance dos objetivos propostos neste este capítulo.

1. A distribuição social da riqueza e a composição das fortunas

Uma das constatações mais claras na análise das fortunas de Belém é a grande
concentração da riqueza. Durante todo os anos de 1850 a 1870, pode-se ver que menos
de um quarto dos inventariados controlavam entre 60 e 70% da riqueza declarada. Por
outro lado, cerca de um terço dos inventários respondiam apenas ao percentual pouco
acima de 5% das fo rtunas, em todo o período. (Ver Quadro 2-3)
Uma visualização mais clara do apontado acima é demonstrada no Quadro 2-4.
Nele, os mesmos inventários usados na confecção do Quadro anterior, foram agrupados
de acordo com faixas de fortunas estabelecidas entre zero e mais de 10.000 libras
esterlinas. Quanto à divisão dos inventários pelos anos, foi mantida a que compreende
os processos abertos entre 1850 e 1859, e 1860 e 1870. No primeiro período, observa-

4
Na Província, em 1850, os escravos perfaziam o número de 33.323 pessoas; em 1854, 30.847; em 1862,
30.623; e em 1872, 27.458. Cf: BEZERRA NETO, José Maia. Escravidão Negra no Grão-Pará
(Séculos XVII-XIX). Belém: Paka -Tatu, 2001a, p. 114. Como, especificamente para Belém, encontrados
acerca da população escrava foram muito esparsos, pensei ser difícil estabelecer algum tipo de
comparação, cita-se aqui apenas o número utilizado para o cálculo da representatividade dos inventários:
8.847 escravos. Cf: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da população do
Imperio do Brazil a que se procedeu no dia 1º de Agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger & Filhos,
1873.

107
se que as duas faixas abarcando os montantes de 0 a 200 libras representam 12,50% dos
inventários e controlam somente 0,91% da riqueza declarada. Nas faixas
intermediárias, que vão de 201 a 2.000 libras esterlinas, encontram-se englobados
68,75% dos inventários, os quais possuem 36,96% das fortunas para o mesmo espaço de
tempo. Por sua vez, nas três últimas faixas, quais sejam as de 2.001 a mais de 10.000
libras, estão computados 18,75% dos inventariados, mas que abarcam 62,13% da
riqueza.
No período seguinte, a situação descrita acima pouco se altera, ind icando, no
entanto, uma pequena tendência para um aumento da concentração de riqueza. Os
inventários das duas primeiras faixas são 9,22% do total de registros e participam com
0,71% dos montes-brutos. As três faixas seguintes (de 201 a 2.000 libras), respondem
por 68,08% dos inventariados, os quais participam com 30,49% das fortunas. Por seu
turno, 22,69% dos registros de inventários controlam 68,79% da riqueza declarada.

Quadro 2-3
Distribuição da Riqueza Inventariada no Município de Belém (1850-1870) em
Libras Esterlinas
Participação % no Participação (£) no
% dos Nº dos
Anos Monte-Bruto dos Monte-Bruto dos
Inventariados Inventariados
Inventariados Inventariados
31,25 25 5,11 6.298,38
50,00 40 32,76 40.337,79
1850-1859
18,75 15 62,13 76.503,54
100,00 80 100,00 123.139,71
32,62 46 5,46 13.238,36
44,69 63 25,75 62.442,45
1860-1870 22,69 32 68,79 166.835,29
100,00 141 100,00 242.516,10
Fonte: 221 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará

108
Quadro 2-4
Distribuição da Riqueza Inventariada no Município de Belém por Faixas de
Fortunas, em Libras Esterlinas (1850-1870)

1850-1859 1860-1870
Faixas de Fortunas
A B A B

0-100 5,00 0,16 2,13 0,07


101-200 7,50 0,75 7,09 0,64
201-500 18,75 4,20 23,40 4,75
501-1.000 27,50 12,47 27,66 11,70
1.001-2.000 22,50 20,29 17,02 14,04
2.001-5.000 13,75 29,40 17,02 31,88
5.001-10.000 3,75 16,49 4,26 16,12
+ de 10.000 1,25 16,24 1,42 21,30
100,00 100,00 100,00 100,00
Total de Inventários
80 141

(A) Nº de inventários da faixa (%).


(B) Valor dos inventários da faixa – em libras esterlinas (%).
Fonte: 221 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará.

Para fins de comparação, a desigualdade econômica encontrada em Belém é


bastante parecida com outras também pertencentes a sociedades de tipo pré- industrial.
Patrícia Sampaio, estudando Manaus durante o século XIX, fornece dados semelhantes
aos aqui apontados. Na década de 1850, 47,91% dos inventários contabilizados por essa
autora compreendem pouco mais de 8,79% da riqueza. Por outro lado, 33,33% dos
inventariados abarcam 32,26% da fortuna registrada. Por fim, 18,75% daqueles
registros respondem por 58,95% da riqueza da época. 5
Já durante os anos de 1860, 28,13% dos inventariados representam 3,25% da
fortuna declarada, enquanto que 50,00% daquele tipo de processo detêm 28,82% da
riqueza total. Por sua vez, 21,88% dos inventários controlam 67,92% dos montes-
brutos arrolados. 6
Cotejando, também, as informações acerca da distribuição social da riqueza em
Belém com os apresentados por João Fragoso e Maria Fernanda Martins para a cidade
do Rio de Jane iro nos anos de 1860, 1865 e 1875, pode-se perceber que, embora a
5
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a, p. 164. Nos números apresentados por Sampaio os
percentuais dos inventários totalizam 99,99%.
6
Idem, ibidem. Nos dados expostos pela autora os percentuais dos inventários e das riquezas declaradas
totaliza m 100,01% e 99,99%, respectivamente.

109
desigualdade no município paraense seja inegável, a mesma não adquire feições tão
marcadas quanto as encontradas para aquela outra área. Na Corte, cerca de 10% da
população inventariada controlavam mais de 58% dos valores declarados. No entanto,
1/2 dos inventariados detinham apenas, aproximadamente, de 4% a 8% da riqueza da
sociedade. 7
Nota-se, portanto, que a hierarquia econômica de Belém, embora seja bastante
desigual, à semelhança do verificado para as outras duas regiões, aproxima-se mais do
ocorrido para Manaus do que para o Rio de Janeiro. Algumas hipóteses podem ser
sugeridas para essa situação. Essa última área contava com grandes unidades
produtoras de café, um dos principais gêneros exportados pelo Império brasileiro.
Também, abrigava a principal praça mercantil do Brasil. Entre 1873 e 1880, por
exemplo, o porto carioca respondia por cerca da metade do comércio externo e de
cabotagem do país. 8 Do mesmo modo, a elite empresarial da Corte, durante a segunda
metade do Oitocentos, passou, progressivamente, a estar envolvida com o ramo
bancário. 9 Sendo assim, é provável que a existência de grandes fazendas de cafeeiras,
dentre outras unidades produtivas, sobretudo a importância comercial do Rio de Janeiro
tenha gerado mecanismos mais acentuados nos processos de concentração de riqueza
material, em função tanto do maior volume de negócios realizados no local, quando à
envergadura das transações mercantis realizadas por pessoas lá residentes.
De qualquer forma, deve ser reiterado que, como visto nos Quadros 2-3 e 2-4,
em uma sociedade onde entre 18,75 e 22,69% da população controlam de 62,13 a
68,79% da riqueza arrolada, uma profunda desigualdade sócio-econômica se faz
presente. Tais números ganham um significado ainda mais expressivo, quando se
lembra que a grande maioria das pessoas não recorria aos inventários post-mortem, seja
porque não tinha bens a legar, seja porque não possuía condições de pagar os custos
com esse tipo de processo. É importante fazer essas considerações, pois em sociedades
pré-industriais a economia não tem o seu funcionamento sujeito apenas a condições de
mercado. Antes, a acentuada desigualdade sócio-econômica que perpassa aquele tipo
de sociedade, é o que permite a própria existência e a reiteração das relações de

7
FRAGOSO, João & MARTINS, Maria Fernanda. “Grandes Negociantes e Elite Política nas Últimas
Décadas da Escravidão – 1850 a 1880”. In : FLORENTINO, Manolo & MACHADO, Cacilda (org.).
Ensaios sobre a Escravidão (I). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003, pp. 144-145.
8
Idem, p. 145.
9
Idem, p. 149.

110
produção que sustentam a organização da própria sociedade e da economia em
questão. 10
Tendo sido trabalhada a divisão social da riqueza produzida em Belém, cabe,
agora, apreender a sua composição. Realizar o procedimento de detalhar a composição
dos ativos inventariados permitirá não somente traçar as características gerais da
economia em foco, quanto, a partir daí, compreender as opções de investimentos
existentes e os fatores que permitiram a um dado grupo ocupar o topo da hierarquia
econômica sob análise.
O Quadro 2-5 indica uma economia de traços pré-industriais. Isto é
demonstrado através de alguns elementos. Um deles é a pequena participação
percentual do item Dinheiro, pois este não ultrapassa 4,01% dos montes-brutos
descritos, sugerindo, assim, uma precária liquidez. A inexistência de atividades
manufatureiras, por sua vez, remete a uma frágil divisão social do trabalho. 11 Aliás, dos
221 inventários pesquisados, somente 5 registram em seus passivos valores devidos
como salários. Um deles era pela construção de um engenho, outro era como
pagamento a um feitor, o terceiro devido a um administrador de engenho, o quarto por
“serviços no engenho”, e o último também foi descrito genericamente como “serviços
domésticos”. Isso vem ratificar o afirmado acerca da economia em questão não ter a
sua reprodução apoiada apenas em condições de mercado. De igual modo, se forem
agregados os itens Padrão de Vida e Jóias, para todo o período, chega-se ao índice de
2,11% das fortunas, o que é muito próximo ao obtido para aquele referente a Dinheiro, o
qual perfaz o total de 2,46%. Essa constatação aponta para a existência de um mercado
com restritas opções de investimentos econômicos, quanto para a lógica de uma
sociedade que se preocupa em imobilizar parte de seus excedentes econômicos em

10
A discussão teórica sobre este assunto se encontra na Introdução, no item relativo aos referenciais
teóricos.
11
Nos inventários coligidos apareceram, por exemplo, alambiques para a produção de aguardente.
Contudo, como os mesmos estavam incluídos nos valores totais das propriedades rurais, não houve a
possibilidade de registrá-los no quadro montado. Também, é válido mencionar que, no ano de 1862,
constavam existir, em Belé m, 15 olarias, 6 fábricas de louça, 4 de sabão e 1 curtume. Cf: RPP,
01/09/1862, p. 57. De qualquer maneira, fica patente a pouca expressividade das atividades
manufatureiras na economia local pela própria dificuldade em criar um campo específico para elas no
Quadro 2-5.

111
112
setores não produtivos, mas que serviriam como símbolos de distinção social. 12 É
preciso destacar que os traços identificados para a economia aqui estudada, longe de se
constituírem em uma especificidade local, são semelhantes, de um modo geral, a outras
economias também de tipo pré-industrial, como as de algumas regiões da Europa,
analisadas por Fernand Braudel; a amazonense, tratada por Patrícia Sampaio; e a
colonial do Rio de Janeiro, estudada por João Fragoso. 13
Outro elemento que deve ser ressaltado na composição da riqueza em Belém é
a ampla participação dos negócios mercantis. À exceção do período compreendido
entre 1855 a 1859, os percentuais agregados dos itens Comércio e Dívidas Ativas
variam de 26,33 a 46,73% de todas as fortunas apreendidas. 14 O pequeno índice
encontrado para aquele espaço de tempo deve ser decorrente, possivelmente, da amostra
de inventários coletados. Acredito que essa variante não deva ser creditada a uma
modificação dos padrões de investimentos, visto a região abarcada pelos registros estar
então passando por um importante incremento de suas atividades comerciais, muito em
função da borracha, o que não parece coincidir com uma suposta opção pela retração
neste último ramo da economia em favor das atividades rurais, que foi a que registrou o
maior percentual dos ativos à época. A hipótese da amostra de inventários pode ainda
ser reforçada com manutenção relativamente estável, nos anos seguintes, dos
percentuais referentes aos negócios mercantis identificados entre 1850 e 1854.
O item que informa sobre o comprometimento das fortunas é outro aspecto
interessante. As dívidas passivas não parecem ter assumido feições muito críticas, pois
12
Certamente, não se pode desconsiderar que o entesouramento é um tipo de investimento relativamente
seguro, pois, nos momentos de dificuldade econômica, os sujeitos poderiam vender as jóias.
13
BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo – Séculos XV-XVIII. Os Jogos
das Trocas. São Paulo: Martins Fontes, 1996 (Volume 2); SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a;
FRAGOSO, João. Homens de Grossa Aventura. Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil do Rio
de Janeiro, 1790-1830. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998; e FRAGOSO, João & MARTINS,
Maria Fernanda., op. cit.
14
Na maioria dos inventários pesquisados, pertencentes a pessoas dedicadas à atividade comercial,
sobretudo nos que registravam os maiores montes-brutos, a avaliação dos estoques estava junta com as
dívidas ativas, o dinheiro circulante e, em alguns casos, escravos, sendo, assim, fornecido apenas o valor
total da firma comercial que existia. Quanto às dívidas passivas, provavelmente, elas já haviam sido
descontadas daquelas somas, pois os valores descritos eram os que entravam na partilha dos herdeiros.
Daí, penso plausível o pequeno percentual de dívidas ativas registradas para todo o período. Além do
mais, outro esclarecimento faz-se necessário. Em alguns processos, também de comerciantes, foram
arrolados imóveis urbanos que continham compartimentos descritos como armazéns e lojas. Nestes
casos, se não havia o registro de serem os ditos imóveis alugados, adotei a metodologia de compará-los a
outros com semelhantes descrições e localizados em áreas próximas. Fazendo isto, se os valores daqueles
bens eram bastante superiores, decidi incorporá-los ao item Comércio. Acredito que essa escolha não
comprometa a análise, posto que, em última instância, o imóvel era, também, utilizado para o
desenvolvimento da atividade comercial.

113
oscilam entre 2,90 e 12,31% da riqueza inventariada. Mesmo que, como já exposto,
seja possível esse tipo de dívida ter sido sub-registrado, as ativas também devem ter
sofrido o mesmo problema. Desta maneira, as perdas de informações nas duas espécies
de dívidas parecem se compensar. Comparando-se, assim, os valores encontrados para
Belém com os apresentados por Sampaio acerca de Manaus entre os anos de 1850 e
1869, chega-se à conclusão que o endividamento nessa área do Amazonas atingia níveis
mais elevados, variando de 10,68 a 33,95% dos montes-brutos arrolados. 15 A autora, ao
tratar dos inventários que registraram fortunas negativas, ainda chama a atenção que

“O grosso das dívidas passivas é contraído com comerciantes estabelecidos na praça do Pará
ou que atuam na cidade de Manaus, sem possuir o registro conveniente, e se constituem, na
sua maioria, de produtos manufaturados como tecidos, ferramentas (serras, enxadas, foices,
machados), bebidas (aguardente, genebra, cerveja, anis, vinho), armas, pólvora, gêneros
alimentícios (açúcar, manteiga, bolachas, sal), além de outros produtos como cal, pregos,
lamparinas, agulhas, facas, etc.”16

Os quadros apresentados acima vão ao encontro das análises que colocam a


praça comercial do Pará como a mais importante da região norte até o início dos idos de
1900, quando somente então Manaus ultrapassa Belém, por alguns anos, na exportação
de borracha. 17 Durante o Oitocentos, o Amazonas era, em escala considerável,
tributário das importações feitas por Belém, tanto do exterior, quanto do próprio Brasil,
além de receber, também, da agricultura e da pecuária do Pará, parte de seus gêneros
alimentícios. Ainda, mais para os últimos anos do século XIX, as poucas indústrias
e/ou manufaturas da região que atendiam à demanda da mesma estavam, em sua
maioria, sediadas na capital paraense. 18 Desta forma, entendo o menor nível de
endividamento que perpassava as fortunas de Belém, se comparadas às de Manaus.
Corroborando o afirmado acerca da importância comercial de Belém em
relação a Manaus, tem-se o percentual apenas de 1,36% de inventários que registraram
fortunas negativas, ou três processos em um total de 221, enquanto que, segundo os
dados de Sampaio, para Manaus esse mesmo índice é próximo dos 10%, em 223
inventários coligidos pela autora, entre os anos de 1838 e 1894.19 Dos inventariados,

15
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a, p. 160.
16
Idem, p. 181.
17
WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993, p. 225.
18
Idem, p. 224.
19
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a, p. 180.

114
em Belém, que estavam nessa situação, um concentrava os seus investimentos no setor
comercial e dois no agrícola, sendo as dívidas, em sua maior parte, formadas por contas-
correntes e empréstimos a juros.
Entre os inventariados que tiveram passivos registrados em seus processos,
mas que não deixaram fortunas negativas, há algo que merece ser destacado, mesmo
que o tema da dependência econômica da praça de Belém não tenha se constituído em
objeto de investigação deste estudo. Para isto, é forçoso lembrar, novamente, uma
limitação imposta pela própria documentação pesquisada: nos processos de pessoas
ligadas ao comércio, em sua maior parte e, em especial, entre as que deixaram os
maiores montes-brutos, as dívidas passivas possivelmente já haviam sido descontadas
dos valores apresentados como pertencentes ao estabelecimento comercial. Além do
mais, foi difícil precisar se os credores eram da região sob análise ou de outras, em
função da significativa ausência de informações a este respeito. Não fosse assim, é
provável que pudesse ter sido traçado um quadro mais amplo das ligações comerciais
mantidas pela praça de Belém.
De todo modo, nota-se, pelo menos nos casos identificados, serem os credores
residentes no próprio Grão-Pará. Assim ocorreu com o português Joaquim Antônio da
Silva Vilaça, dono de um dos doze maiores montes-brutos arrolados. 20 A sua casa
comercial que vendia itens como tecidos, roupas, calçados, bebidas, gêneros
alimentícios, louças, talheres e borracha, provavelmente recebia parte de suas
mercadorias de outras firmas de maior porte, a exemplo da Joaquim Freire de Almeida
& Companhia. 21 Também, o mesmo pôde ser verificado com José Antunes Barbosa,
proprietário de uma pequena loja na Freguesia de Santa Ana do Capim. 22 Com um dos
menores montes-brutos descritos, no valor de 160,73 libras esterlinas, seu negócio devia
ser, em grande medida, tributário de mercadorias recebidas da firma Reinaldo
Constantino Pereira & Companhia, pois todas as dívidas do inventariado eram para com
a mesma, em um total de quatro letras, as quais, além de produtos, englobavam a

20
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1861, Caixa/Ano: 1861, doc. 01.
No item 3 deste capítulo existem mais dados sobre Joaquim Vilaça.
21
Talvez, gêneros como a goma elástica, comercializada por Joaquim Vilaça, fossem recebidas como
pagamento de dívidas ativas possuídas pelo mesmo. Sugiro isso, pois, entre os itens constantes em seu
estabelecimento, foram descritas tigelas para a coleta da borracha, e, na listagem dos que lhe deviam
alguma quantia, tinham pessoas residentes no Marajó e na região das ilhas, áreas com concentração de
seringueiras, especialmente a última. Conforme será apresentado adiante, saldar dívidas com gêneros era
uma prática comum na economia do tempo.
22
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1870, Caixa/Ano: 1870, doc. 16.

115
comissão de 10% sobre as vendas feitas pelo morto. Ou ainda, no mesmo sentido acima
está o apurado no processo de Ana Tereza de Jesus dos Reis Pessegueiro, que contava,
entre os seus credores, com João Luís de La Roque. 23
No que diz respeito aos sujeitos vinculados predominantemente às atividades
rurais, pelo menos que foi permitido perceber, as dívidas também foram contraídas
junto a pessoas residentes na Província do Pará. Tal é o caso de Francisco Ezequiel
Sarmento. 24 Dono de quatro propriedades rurais, no rio Mojú, dentre as quais um
engenho de moer cana, o seu passivo contabilizava além de empréstimo de dinheiro e
serviço para a construção do dito engenho, gêneros provavelmente destinados ao
abastecimento doméstico. É interessante mencionar que parte dos valores iniciais
desses débitos já havia sido saldada com produtos como mel, carne de porco, carne
verde e aguardente. Isto vai ao encontro do apontado sobre a precária liquidez da
economia sob análise, haja vista que dívidas, em vez de serem pagas com dinheiro,
eram amortizadas por meio de gêneros. Aliás, situações semelhantes a esta foram
encontradas em outros inventários. O mesmo foi notado no processo do francês Abric
Diniz 25 , proprietário de um sítio na cabeceira do Rio Benfica, com árvores frutíferas,
dois canaviais, senzalas, duas casas de vivenda cobertas de telhas, tendo, em uma delas,
um engenho de moer cana e uma serraria movida à água, com todos os seus pertences.
Seu passivo – também provavelmente contraído em função do abastecimento doméstico
- era para com as firmas Júlio César de Araújo Danim & Companhia e Joaquim da
Cunha Mesquita & Companhia.
Os percentuais verificados para o item relativo a Imóveis Urbanos são
expressivos, variando de 20,68 a 23,74%. Se estes forem acrescidos daqueles
observados no que toca aos negócios mercantis, chegam a oscilar entre 29,29 e 66,21%,
indicando, portanto, acentuados mecanismos de acumulação mercantil, usurária e
rentista. O que não é de causar espanto, haja vista os relatos de viajantes, analisados no
capítulo anterior, referirem-se, freqüentemente, aos melhoramentos materiais e ao
crescimento que a capital passou a sofrer no decorrer da década de 1850. Isso, aliado ao
progressivo aumento da importância comercial que a cidade de Belém teve já durante o

23
APEP. Auto de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano: 1859, doc. 04.
Mais informações sobre João Luís de La Roque podem ser encontradas no Capítulo III.
24
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano: 1859, doc. 01.
25
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1869, Caixa/Ano: 1869, doc. 08.

116
período sob estudo, apontam que, apesar do chamada belle époque somente ter
acontecido décadas mais tarde, nos anos de 1850-1870 a capital paraense vinha
sofrendo um impacto significativo do negócio gomífero. 26
Exemplares de pessoas que tinham parte de seus ativos aplicados em atividades
rentistas são os inventários de Francisco Antônio de Miranda 27 , o do casal Jaime Davi
Brício e Maria do Carmo Pombo Brício 28 , e o de Isidoro Lourenço de Sousa. 29 O
primeiro, dono de uma fortuna de 19.993,01 libras esterlinas, ligado predominantemente
ao comércio, mas com ativos alocados também em escravos e 9 propriedades rurais,
tinha nada menos do que 27 imóveis urbanos, entre casas de sobrado e térreas, uma
“rocinha” e “chãos”. 30 Quanto ao casal Brício, proprietário de um monte- mor bruto de
4.273,11 libras, além de escravos, detinha 11 imóveis urbanos, entre casas térreas e de
sobrado, “quartos de casas”, “chãos” e uma “rocinha”. Já Isidoro Sousa, que deixou
uma fortuna, em sua composição, semelhante aos Brício, além de escravos, possuía 22
imóveis urbanos que, exceto um terreno, eram casas térreas.
Os casos apresentados demonstram a importância das atividades rentistas nos
negócios desenvolvidos em Belém. Especialmente entre o casal Brício e Isidoro Sousa,
ao que tudo indica, eles viviam apenas desse tipo de atividade, pois não foi localizada
nenhuma outra que pudesse lhes proporcionar rendimentos. Mesmo os escravos
arrolados nos dois últimos referidos inventários – 38 de Jaime e Maria Brício, e 3 de
Isidoro Sousa – provavelmente eram empregados em serviços domésticos, alugados ou
ainda utilizados como “negros de ganho” 31 , pois, entre os ofícios registrados dos
pertencentes ao casal, constavam aprendiz de sapateiro, enfermeiro, lavadeira,
cozinheira e engomadeira. Os de Isidoro, por seu turno, eram todos do sexo feminino.
Cabe ressaltar que essa situação não era nada estranha à lógica que regia a sociedade em
questão. A alocação de ativos em setores como prédios urbanos significava aquilo que
Fragoso e Florentino chamaram de “ideal aristocratizante”, no qual a afirmação de uma

26
Uma discussão sobre o tema encontra-se no item 2 do Capítulo 1.
27
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1853, Caixa/Ano: 1853, doc. 03.
Para mais informações sobre Francisco Miranda, ver Capítulo 3.
28
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1850, Caixa/Ano: 1848-1850, doc.
06. Para mais informações acerca de Jaime Brício e Maria do Carmo Brício, ver Capítulo 3.
29
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1870, Caixa/Ano: 1870, doc. 13.
30
“Rocinha”, no Pará, durante o período estudado, significava uma espécie de chácara. Por seu turno,
“chão”, era um terreno ainda por ser edificado.
31
Sobre os “negros de ganho”, cf., por exemplo: ALGRANTI, Leila Mezan. O Feitor Ausente. Estudos
sobre a Escravidão Urbana no Rio de Janeiro, 1808-1822. Petrópolis: Vozes, 1988, pp. 65-72.

117
certa distância em relação ao mundo do trabalho representava, em última instância, a
existência e a reiteração das relações de poder que sustentavam a economia e a própria
sociedade. 32 Além do mais, obviamente não podem ser desconsiderados os rendimentos
possíveis de serem obtidos nesse tipo de investimento, sobretudo durante o período
abarcado pelos processos pesquisados, devido ao crescimento urbano e populacional por
que Belém estava então passando. Tanto era assim que, Francisco Miranda, dono de um
dos maiores montes-brutos encontrados, envolvido com a atividade mercantil, setor este
que gerava a maior soma de riquezas à época 33 , era um rentista urbano nada desprezível.
E essa era mesmo uma prática comum em sociedades de tipo pré-industrial, também
tendo sido observada, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro oitocentista. Mesmo
que as relações de poder em Belém e na Corte estivessem assentadas sob bases
diferentes, conforme será discutido mais detidamente na terceira seção deste capítulo,
esse tipo de investimento possuía índices altos entre os inventariados daquelas duas
áreas. Na cidade do Rio, entre os anos de 1797 e 1860, de um modo geral, as aplicações
em imóveis urbanos oscilaram em torno de 24% a 36%, tendo chegado, em 1870, ao
índice de 37,8%. 34
Outro elemento relevante na análise da riqueza inventariada em Belém é a
alocação de ativos em atividades rurais. 35 Trabalhando especificamente com o item
Bens Rurais, verifica-se, para todo o período considerado, um total de 66,51% dos
inventários que registraram investimentos no setor. Deste modo, a fim de que não seja
passada uma imagem equivocada da economia aqui considerada, é necessário chamar a
atenção do destaque desse setor na composição das fortunas trabalhadas, em que pesem
os negócios mercantis anteriormente tratados. Aliás, esta constatação, de certo modo,
vai ao encontro do analisado no capítulo anterior, quando apontei a importância da
atividade agrícola, no Pará, em tempos de crescimento da produção e da
comercialização da borracha.

32
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo. O Arcaísmo como Projeto. Mercado Atlântico,
Sociedade Agrária e Elite Mercantil no Rio de Janeiro, c.1790 – c.1840. Rio de Janeiro: Sette Letras,
1998, p. 107.
33
Este tema será tratado na terceira seção deste capítulo.
34
FRAGOSO, João & MARTINS, Maria Fernanda., op. cit., p. 144.
35
Optei por analisar separadamente a participação escrava nas fortunas inventariadas, devido a algumas
evidências de uma parcela significativa dessa mão-de-obra não estar, necessariamente, alocada em
atividades rurais.

118
Os pequenos percentuais do item relativo a Bens Rurais, que oscilam entre 3,69
e 19,25% das riquezas registradas, podem ser explicados pelos baixos investimentos que
necessitavam ser feitos no tipo de agricultura então desenvolvida no local. Em todos os
processos pesquisados, não foi descrito nenhum instrumento que denotasse a prática do
uso intensivo do solo, sendo, todavia, arrolados numerosos terçados, foices e enxadas,
além de capoeiras, indicando, assim, a existênc ia de uma agricultura extensiva. Daí
decorrem os pequenos valores, de um modo geral, das empresas agrícolas inventariadas.
Por exemplo, uma das propriedades rurais identificadas, no rio Guajará, com casa de
vivenda, engenho de moer cana movido por animais, com todos os seus pertences,
muitos dos quais apresentados como “novos”, 2 canaviais, 12.000 a 14.000 pés de
cacaueiros, 1.500 pés de café e “algumas” árvores frutíferas, foi avaliada por um dos
mais altos preços encontrados, 853,33 libras, no ano de 1859. 36 Por outro lado, a
avaliação do estoque de uma casa comercial de secos e molhados, mas que, também,
fazia calçados, totalizou o valor de 1.346,58 libras, no mesmo ano de 1859, estando,
assim, entre os valores médios dos arrolados nos processos. 37 Ou seja, aquele
estabelecimento agrícola montado correspondia a 63,37% somente da quantia do
estoque de uma casa de comércio.
A situação exposta acima esclarece, inclusive, como a economia aqui
considerada funciona. Sem dúvida, está-se diante de uma sociedade agrícola, vistos os
66,51% ou, aproximadamente, 2/3 do total de inventários que registraram ativos no item
Bens Rurais, apesar dos pequenos índices, relativos aos valores, apresentados pelo
mesmo durante todo o período abrangido na análise das fortunas. Por outro lado, os
dados referentes aos itens acerca dos negócios mercantis, indicam que, não obstante
aquela constatação, eram as atividades englobadas neste último setor que permitiam o
acesso às maiores somas de cabedal à época. 38 Ou seja, mesmo sendo as atividades
rurais que, de fato, produzia m valor, as mesmas demandavam menores investimentos,
se comparadas à comercial. Isso explica, em última instância, portanto, como era
possível o funcionamento e a reprodução da economia sob análise, onde a riqueza
produtiva era constantemente apropriada por outros setores econômicos – a exemplo do
mercantil, do usurário e do rentista - e, mesmo assim, não ocorria a sua quebra. Este

36
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano: 1859, doc. 15.
37
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano: 1859, doc. 04.
38
Tal afirmação ficará mais bem esclarecida nas segunda e terceira seções deste capítulo.

119
aparente paradoxo, em verdade, é uma característica de sociedades de tipo pré-
industrial, já tendo sido apontado, por exemplo, para o Amazonas e o Rio de Janeiro. 39
Cabe ainda mencionar que as propriedades rurais inventariadas produziam,
principalmente, cana-de-açúcar, aguardente e cacau, mas, também, café, arroz, farinha
de mandioca, milho, diferentes tipos de frutas, madeiras e goma elástica. Comparando-
se as informações fornecidas pelos inventários com as constantes acerca dos principais
gêneros produzidos em Belém no ano de 1861, observa-se serem aquelas bastante
representativas da economia local. Ao menos nesse ano, foram registrados: açúcar,
aguardente, tábuas, arroz, café, farinha, tijolos, telhas, cal, louças, chocolate, sabão,
couros curtidos, castanha, borracha, grudes de peixes, mel, óleo de copaíba, feijão,
milho, algodão e fumo. 40 Levando-se em conta que a produção de gêneros de origem
extrativa - a exemplo da castanha, dos grudes de peixe e do óleo de copaíba, além do
mel - dificilmente seriam passíveis de identificar em documentos como os processos de
inventários, por não dependerem necessariamente da propriedade de um terreno para
serem obtidos, vê-se que boa parte das produções do município eram aquelas presentes
nos registros pesquisados. A própria goma elástica, também coletada, somente aparece
em dois inventários de pessoas que cultivavam a seringueira, fato este bem pouco
comum para a Província em geral, conforme dito no capítulo anterior.
Para completar a discussão dos traços gerais da economia estudada, há a
participação dos escravos na composição das fortunas. Com altos índices durante todo
o período, esse tipo de mão-de-obra variava de 24,61 a 47,20% da riqueza apreendida,
sendo que 85,97% dos inventários arrolaram, entre os seus bens, cativos. 41
Quanto à divisão dos escravos entre os diferentes proprietários, havia, em
Belém, uma tendência à concentração desse tipo de trabalhador, apesar de, por outro
lado, estar relativamente disseminada entre a população inventariada. Tal situação,
aliás, também ocorria em outras regiões do Brasil, por mais que, especialmente em
locais onde se faziam presentes grandes unidades agro-exportadoras, tal tendência fosse

39
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit.; FRAGOSO, João., op. cit.; e FRAGOSO, João &
FLORENTINO, Manolo., op. cit.
40
RPP, 01/09/1862, pp. 57-58.
41
Mais adiante, ainda nesta seção, explicarei melhor esta questão, i.e., uma grande quantidade de cativos
presentes nos inventários, mas que, no entanto, não pressupõe, necessariamente, uma economia assentada
no escravismo.

120
bem mais acentuada. 42 Os proprietários situados nas faixas de 1 a 5 e de 6 a 10 cativos
representavam 63,69% dos inventários registrados, mas detinham apenas 25,19% dos
escravos. Em contrapartida os proprietários das três últimas faixas de plantéis (21 a 30,
31 a 40 e mais de 40 cativos), perfaziam 15,26% dos processos pesquisados e possuíam
50,8% dos cativos inventariados. (Ver Quadro 2-6)

Quadro 2-6
Distribuição (%) de escravos, de acordo com as faixas de tamanhos de plantéis, no
município de Belém (1850-1870)
Inventários
Nº de Escravos Inventários (%) Escravos (%) Escravos (Nº)
(Nº)
1-5 37,37 71 8,97 214
6-10 26,32 50 16,22 387
11-20 21,05 40 24,01 573
21-30 5,79 11 11,11 265
31-40 2,63 5 7,00 167
+ de 40 6,84 13 32,69 780
Fonte: 190 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará
Total de Escravos: 2.386

No entanto, devem ser tomados alguns cuidados ao se pensar no peso dos


escravos para a economia local. Um primeiro ponto que pode der apontado para isso é a
divisão entre os sexos no universo de escravos descritos, onde se constata uma
preponderância do número de mulheres sobre o de homens: 51,48 e 48,51%,
respectivamente. (Ver Quadro 2-7) 43 Olhando-se, durante todo o espaço de tempo

42
Para o Rio de Janeiro, cf: FLORENTINO, Manolo. Em Costas Negras. Uma História do Tráfico de
Escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). São Paulo: Companhia das Letras,
1997, pp. 28-30; e FRAGOSO, João., op. cit., pp. 94-97.
43
Decidi agregar os dados relativos aos sexos e às idades dos escravos, para todo o intervalo 1850-1870
(Quadros 2-7 e 2-8), em função das tendências assim indicadas, de um modo geral, não se alterarem,
mesmo que aquelas informações sejam divididas por espaços de tempo mais curtos. A não ser na faixa
etária de até 12 anos, durante o período de 1855-1859 e 1865-1870, e no grupo com mais de 45 anos,
durante os lapsos de tempo de 1850-1854 e 1865-1870, o número de mulheres foi sempre maior que o de
homens. Naqueles anos, a quantidade de cativos do sexo masculino foi ligeiramente superior aos do sexo
feminino. Quanto aos percentuais agregados de escravos com até 12 anos e com mais de 45 anos de
idade, de ambos os sexos, para todos os anos, os mesmos se constituíram em, aproximadamente, a metade
do total desse tipo de bem inventariado, da mesma forma que o apresentado nos citados Quadros. De
todo modo, em anexo, constam os dados referentes aos sexos e às faixas etárias dos cativos, expostos nos
Quadros 2-7 e 2-8, divididos por períodos mais abreviados.

121
entre 1850 e 1870, os percentuais dessa população escrava de acordo com o sexo e a
idade, nota-se ainda que os do sexo masculino apenas superam as mulheres entre as
crianças (até 12 anos), quando aqueles perfazem 18,25% do total de escravos, tendo,
como contrapartida, o índice de 17,94% para as do sexo feminino. Nas demais faixas
etárias, as mulheres sempre possuem números superiores aos dos homens. Entre os de
idade produtiva (13 a 45 anos), as cativas participavam com 26,34% do total de
escravos e os homens com 23,24%; já entre os que tinham mais de 45 anos de idade, os
percentuais eram de 7,20% e 7,03%, respectivamente. (Ver Quadro 2-8) Mesmo
através do Censo de 1872, chega-se à razão de masculinidade de 102,45 para o total dos
escravos então apresentados para o município de Belém, sendo os homens
contabilizados em 4.477 indivíduos, e as mulheres em 4.370. 44

Quadro 2-7
Escravos: Divisão por Sexo no Município de Belém (1850-1870)
Valor
Sexo Quantidade % Valor Total (£) %
Médio (£)
Feminimo 1.165 51,48 55.578,00 50,51 47,71
Masculino 1.098 48,52 54.455,69 49,49 49,59
Fonte: 178 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará
Total de Escravos: 2.263
Valor Total dos Escravos: £ 110.033,69
Preço Médio de Escravos: £ 48,62

Quadro 2-8
Escravos: Divisão por Sexo e Faixa Etária no Município de Belém (1850-1870)
Valor
Faixa Razão de Valor
Sexo Quantidade % % Médio
Etária Masculinidade Total (£)
(£)
Até 12 FEM 406 17,94 12.155,21 11,05 29,94
101,72
anos MAS 413 18,25 12.266,27 11,15 29,70
13-45 FEM 596 26,34 39.316,65 35,73 65,97
88,25
anos MAS 526 23,24 36.907,60 33,54 70,17
+ de 45 FEM 163 7,20 4.106,14 3,73 25,19
97,55
anos MAS 159 7,03 5.281,82 4,80 33,21
Fonte: 178 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará
Total de Escravos: 2.263
Valor Total dos Escravos: £ 110.033,69
Preço Médio dos Escravos: £ 48,62

44
DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da População do Imperio do Brazil a que
se procedeu no dia 1º de Agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger & Filhos, 1873.

122
Ainda pelo Quadro 2-8, visualiza-se que 36,19% do total de escravos eram
formados por crianças. Se a este índice for somado o referente aos cativos com mais de
45 anos, tem-se que mais da metade do universo de escravos inventariados era de
crianças e idosos (mais de 45 anos), chegando, portanto, 50,42%.
A grande quantidade de escravos situados nos grupos etários de até 12 anos e
com mais de 45 anos de idade não era uma característica apenas do universo de cativos
arrolados dos inventários. A partir do Quadro 2-9, tal traço pode ser apreendido,
também, nos diferentes tamanhos de faixas de plantéis. Considerados primeiro em
separado, os escravos com até 12 anos variam de 22,16 a 39,02% do total de escravos
de cada faixa de plantel. Agregando-se a esse grupo etário aquele com mais de 45 anos,
verifica-se que entre 37,11 e 53,13% dos escravos, em cada faixa de plantel, tinham
aquelas idades. Por sua vez, entre os que possuíam de 13 a 45 anos, ou seja, que
estavam em idade produtiva, somente na faixa de 31 a 40 cativos o número de homens
foi ligeiramente superior ao de mulheres. Nas outras, portanto, a quantidade de escravas
foi sempre maior que a do sexo oposto. Além do mais, entre todos os escravos
identificados, somente 4,68% eram africanos.

Quadro 2-9
Escravos: Divisão por sexo e faixas etárias, de acordo com as faixas de
tamanhos de plantéis, no município de Belém (1850-1870)
Faixas Etárias

Nº de Até 12 anos 13-45 anos + de 45 anos


Escravos
MAS MAS FEM FEM MAS MAS FEM FEM MAS MAS FEM FEM
(%) (Nº) (%) (Nº) (%) (Nº) (%) (N) (%) (Nº) (%) (Nº)

1-5 8,76 17 13,40 26 24,75 48 38,14 74 8,25 16 6,70 13


6-10 19,06 69 19,06 69 23,20 84 25,69 93 6,08 22 6,91 25
11-20 19,73 101 19,14 98 21,29 109 25,58 131 7,62 39 6,64 34
21-30 17,73 47 16,60 44 24,15 64 26,04 69 7,18 19 8,30 22
31-40 14,37 24 13,77 23 25,76 43 25,15 42 13,17 22 7,78 13
+ de 40 20,16 156 18,86 146 23,77 184 24,29 188 5,68 44 7,24 56
Fonte: 178 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará
Total de Escravos: 2.263

123
Comparando-se os dados apresentados sobre os sexos dos escravos descritos de
Belém com informações do mesmo tipo para áreas onde as relações de trabalho
baseadas no escravismo tinham uma maior ênfase, o relativo equilíbrio homem/mulher
naquele município paraense ganha um maior relevo. 45 No Rio de Janeiro (Província e
Corte), ainda no ano de 1872, a razão de masculinidade era de 121,4.46 Também, na
Província de São Paulo, no mesmo ano, a proporção homem/mulher era na ordem de
128,4.47
Deste modo, ao ser dito mais acima que é necessário tomar alguns cuidados na
avaliação dos percentuais dos escravos nas fortunas inventariadas e, portanto, na
economia abarcada por esses processos, é que, em primeiro lugar, não se pode
considerar a propriedade de cativos essencialmente como um tipo de investimento
econômico. As razões para isso já foram expostas nas páginas anteriores. Os
percentuais verificados de crianças e de escravos com mais de 45 anos, em cinco das
seis faixas de plantéis estabelecidas, eram próximos da metade da escravaria pertinente
às mesmas faixas. Da mesma maneira, tomando como referência os escravos de 13 a 45
anos, somente entre os donos de 31 a 40 cativos, o número de homens foi um pouco
maior que o de mulheres. Também, menos de 5% dos escravos inve ntariados eram
africanos. Mesmo não esquecendo das transações econômicas envolvendo cativos
dentro da própria região, como alguns inventários mostraram, ao mencio narem vendas
antes das partilhas, ou ainda o tráfico interprovincial48 , as informações disponíveis
apresentam a tendência de, pelo menos, uma parcela significativa dos plantéis serem
formados por nascimentos endógenos. Neste sentido, não somente consta que foi ainda
no ano de 1834 a chegada, ao Pará, da última embarcação com cativos proveniente da
África 49 , como, ao longo do século XIX, a quantidade de escravos na Província

45
Dados semelhantes aos aqui apresentados foram encontrados para Manaus e Paraná durante o
Oitocentos. Cf: SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a, pp. 144-146; e GUTIÉRREZ, Horácio.
“Demografia Escrava numa Economia Não-Exportadora: Paraná, 1800-1830”. In: Estudos Econômicos.
São Paulo: IPE, vol. 17(2), 1987, pp. 297-314.
46
ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.). História da Vida Privada no Brasil: A Corte e a modernidade
nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 480 (Volume 2).
47
Idem, ibidem.
48
José Maia Bezerra Neto, trabalhando com dados relativos ao tráfico interprovincial envolvendo o Grão-
Pará e outras Províncias do Império, a partir de registros publicados no periódico Diário do Gram-Pará,
verificou que, para os anos de 1867-1873 e 1888, entraram mais escravos na Província paraense em
comparação aos que dela saíram: de um total de 447 cativos, 185 foram exportados e 162 importados. Cf:
BEZERRA NETO, José Maia., op. cit. a, p. 112.
49
SALLES, Vicente. O Negro no Pará: Sob o regime da escravidão. Brasília; Belém: Ministério da
Cultura; Fundação Cultural do Pará “Tancredo Neves”, 1988, p. 51.

124
apresentou a tend ência de estar diminuindo, seja em números absolutos, seja no
percentual do total dos habitantes da região. 50 Daí ter sido dito que a propriedade de
escravos não pode ser considerada, de maneira plena, como um investimento
econômico.
Neste caso, adequada surge a advertência feita por Witold Kula de que em
economias pré-capitalistas deve-se tomar cuidado ao avaliar os custos dos diferentes
fatores envolvidos no processo produtivo, pois não era o mercado que os regulava. 51
Sendo assim, muito embora na própria oferta africana de escravos, e nos custos desse
tipo de trabalhador, importassem fatores como a guerra e o papel desempenhado pelo
tráfico no processo de fortalecimento político e econômico dos grupos dominantes
nativos daquele continente 52 , ou seja, fatores de natureza não-econômica, em
organizações econômicas alimentadas pelo tráfico atlântico, ou mesmo do tráfico
interprovincial, os proprietários dependiam, em grande parte, da aquisição de braços
para a composição de seus plantéis. 53 No que toca a Belém, como já disse, o fim do
contato regular entre a África e o Pará ocorreu ainda em 1834. 54 O Censo de 1872
registrou, para todo o Grão-Pará, somente 2,01% de escravos africanos, enquanto
95,87% eram naturais da própria Província e o restante de outras áreas do Império. 55
Portanto, ao que tudo indica, a composição dos plantéis se dava, em boa medida, não
somente através de nascimentos internos à Província, como às próprias propriedades e,
nesse caso, sem a necessidade da alocação de recursos para a obtenção dos cativos.

50
No Grão-Pará, em 1848, os escravos perfaziam o número de 33.542 pessoas, representando 20,28% do
dotal da população provincial. Nos anos de 1850, 1854, 1862 e 1872, aqueles dados são,
respectivamente: 33.323 e 18,57%; 30.847 e 15,52%; 30.623 e 14,18%; e 27.458 e 9,98%. Cf:
BEZERRA NETO, José Maia., op. cit. a, p. 114.
51
KULA, Witold. Teoria Económica do Sistema Feudal. Lisboa; São Paulo: Editorial Presença; Martins
Fontes, 1979, pp. 25-39.
52
FLORENTINO, Manolo., op. cit., pp. 82-103.
53
No Rio de Janeiro (Província e Corte), por exemplo, a taxa geral de africanidade da população escrava,
no ano de 1872, era de 19,7%. Já na Província de São Paulo, no mesmo ano, aquele índice era de 8,3%.
Cf: ALENCASTRO, Luiz Felipe de., op. cit., p. 479. O menor percentual de africanos em São Paulo, em
comparação ao verificado para o Rio, acredito que possa ser explicado pelo fato daquela área somente ter
alcançado um dinamismo econômico de maior monta na segunda metade do século XIX, em função da
expansão do café pelo oeste paulista. Deste modo, como em 1872 já tinham 22 anos desde o término do
tráfico para o Brasil, é possível que a maior quantidade de escravos comprados por São Paulo fossem
crioulos, em vista dos africanos, de um modo geral, estarem envelhecendo no decorrer do Oitocentos e,
assim, tornando-se inadequados para o trabalho na lavoura. De qualquer forma, como apresentado
anteriormente, fica evidente a grande importância da mão-de-obra escrava na Província paulista pela
própria razão de masculinidade entre a população cativa na mesma, que era na ordem de 128,4.
54
SALLES, Vicente., op. cit., p. 51.
55
Cf: DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Recenseamento da População do Imperio do Brazil a
que se procedeu no dia 1º de Agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger & Filhos, 1873.

125
Mais ainda: os dados demográficos apresentados evidenciam mesmo uma opção
econômica da elite local – elite, pois, como mencionado, parcelas mínimas da sociedade
recorriam aos processos de inventários – em não investir seu cabedal na aquisição de
escravos. De forma diferente dos cafeicultores de São Paulo e Rio de Janeiro, por
exemplo, que, durante o período aqui privilegiado, ainda continuavam acreditando na
escravidão, i.e., reno vando os seus plantéis através da compra 56 , entre os proprietários
arrolados para Belém, de uma forma geral, ocorria justamente o inverso. E se alguma
crítica fosse formulada a essa afirmação, a partir da dúvida sobre a importância do
município de Belém para o total de cativos existentes no Pará durante o período aqui
escolhido, lembro que aquela região era a segunda com o maior número de escravos em
toda a Província, ficando atrás somente do Baixo Tocantins. 57
Outra cautela importante na análise da presença escrava nas riquezas
inventariadas diz respeito aos empregos que se davam a esse tipo de mão-de-obra.
Conforme será tratado na próxima seção deste capítulo, as faixas de fortunas que
detinham a maior parcela de cativos eram as que estavam ligadas majoritariamente às
atividades rurais (agrícolas e/ou extrativas). Nos anos de 1850-1859 e 1860-1870, essas
faixas detinham, respectivamente, 57,02% e 54,57% dos totais dos valores registrados
dos escravos inventariados. Contudo, não se deve superestimar o peso desse tipo de
mão-de-obra naquelas atividades, imaginando-se, por exemplo, que a relação de
trabalho preponderante era a assentada no cativeiro. O fato de que 85,97% dos
inventários coligidos arrolaram escravos entre os seus bens, a constatação de que grande
parte dos proprietários de escravos estava essencialmente ligada aos investimentos em
atividades rurais, bem como a de que 66,51% dos processos tinham investimentos nesse
setor não devem conduzir a conclusões precipitadas. Obviamente não estou tendo a
insanidade de negar a importância de se estudar a escravidão negra na região. Trabalhos
sérios e competentes já demonstram que não se pode partir de simples e simplificadoras
conclusões numéricas acerca do peso populacional cativo e, a partir daí, ocultar a
presença escrava na história da Amazônia, um negligenciamento que perdurou durante

56
EINSEMBERG, Peter L. “A Mentalidade dos Fazendeiros no Congresso Agrícola de 1878”. In:
LAPA, José Roberto do Amaral (org.). Modos de Produção e Realidade Brasileira. Petrópolis: Vozes,
1980; e STEIN, Stanley J. Grandeza e Decadência do Café no Vale do Paraíba. São Paulo: Brasiliense,
1961.
57
Cf: BEZERRA NETO, José Maia., op. cit., a, p. 123.

126
tanto tempo na historiografia regional. 58 Tampouco estou propondo que a mão-de-obra
escrava não tinha função alguma na economia abordada. Com todas essas
considerações, objetivo tão somente ressaltar a profunda imbricação entre as forças de
trabalho livre e cativa no Pará durante a segunda metade do século XIX. Certamente,
escravos domésticos, ao ganho, alugados e/ou empregados nas atividades rurais tinham
um papel na economia paraense do tempo que não deve ser simplesmente deixado de
lado. Mas, isso não significa, necessariamente, que as relações de trabalho assentadas
no escravismo fossem essenciais na região. Além do mais, no Grão-Pará, a propriedade
cativa merece ser entendida como mais um fator que atuava na diferenciação social
entre homens livres, como, aliás, também ocorria em outras áreas do Império
brasileiro. 59 Estas últimas questões, no entanto, deverão ficar mais bem esclarecidas no
decorrer do capítulo.
A tendência indicada, pelos dados demográficos expostos, dos proprietários de
plantéis, em Belém, não estarem investindo na compra de escravos, por si só, por um
lado, evidencia que as relações de trabalho assentadas no cativeiro não eram
preponderantes nas atividades rurais e, mesmo, em nenhum setor da economia local.
Por outro lado, sobretudo em função da quantidade de mulheres, crianças e idosos,
indicam, também, que uma quantidade não desprezível dos escravos não era empregada
necessariamente em atividades rurais e, quando os eram, havia uma combinação com a
mão-de-obra, ao menos formalmente, livre e quiçá, até o ano de 1859, com outras
formas de formas de trabalho compulsório, a exemplo dos homens recrutados através
dos “Corpos de Trabalhadores”. 60

58
Cf., por exemplo: SALLES, Vicente., op. cit.; VERGOLINO-HENRY, Anaíza & FIGUEIREDO,
Napoleão. A Presença Africana no Pará Colonial: Uma notícia histórica. Belém: Arquivo Público do
Pará, 1990; BEZERRA NETO, José Maia., op. cit. a; BEZERRA NETO, José Maia. Fugindo, Sempre
Fugindo: Escravidão, fugas escravas e fugitivos no Grão-Pará (1850-1888). Campinas: UNICAMP,
2000b (Dissertação de Mestrado em História); GOMES, Flávio dos Santos. “Em torno dos bumerangues:
Outras histórias de mocambos na Amazônia colonial”. In: Revista USP, São Paulo, 1995; MARIN, Rosa
Elizabeth Acevedo. Du Travail Esclave au Travail Libre: Le Para (Brésil) sous le regime colonial et
sous l’empire (XVII-XIX siècles). Paris: École des Hautes Études em Sciences Sociales, 1985 (Tese de
Doutorado); e FUNES, Eurípedes. Nasci nas Matas, Nunca Tive Senhor. História e Memória de
Mocambos no Baixo Amazonas. São Paulo: USP, 1995 (Tese de Doutorado em História).
59
Ver, por exemplo, FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo., op. cit.
60
Os “Corpos de Trabalhadores” compunham uma instituição criada logo após a Cabanagem e que
perdurou legalmente até o ano de 1859. Eram formados através do recrutamento de índios, mestiços e
negros que não fossem escravos, e que não tivessem propriedades ou estabelecimentos a que se
dedicassem regularmente. A força de trabalho assim organizada era destinada a obras públicas e a
serviços de particulares, neste último caso por meio de um contrato firmado perante o Juiz de Paz. Sobre
os objetivos que nortearam a instituição dos Corpos, e sobre algumas disputas que envolveram a sua

127
Poucos escravos constantes nos inventários tiveram algum tipo de ofício
especificado: do total de 2.386, apenas 123 possuíam essa informação. De qualquer
forma, pode-se ver a existência de 14 pedreiros e 1 aprendiz de pedreiro, 6 serventes de
obras, 4 aprendizes de carpinteiros e 19 carpinteiros, 5 alfaiates, 4 calafates, 22
lavadeiras, cozinheiras e engomadeiras, 1 aprendiz de sapateiro e 3 que já sabiam esse
ofício, 1 enfermeiro, 4 costureiras, 37 lavradores, 1 aprendiz de barbeiro, 1 parteira, 1
oleiro, 1 ferreiro, 1 padeiro e 1 feitor. Certamente, em uma sociedade pré- industrial,
não se deve tratar com rigor as profissões das pessoas, pois, com freqüência, estas
poderiam mudar de atividades. Para o caso dos cativos aqui abordados, o fato deles
terem sido apresentados em uma ou outra atividade, não significa que somente a elas se
dedicassem. De todo modo, se lembradas as informações acerca das idades e dos sexos
dos escravos inventariados, atenua-se uma primeira e rápida imagem de um possível
peso excessivo da mão-de-obra escrava nas atividades rurais. Assim, é possível que
outros escravos, à semelhança dos que tiveram ofícios registrados, também se
dedicassem a serviços domésticos, a atividades manuais e mecânicas, ou ainda
trabalhassem como criados e jornaleiros, e não estivessem necessária e exclusivamente
empregados em atividades rurais.
É certo que estudos já realizados chamaram a atenção para este problema, nas
Províncias do Amazonas e do Grão-Pará, durante o século XIX. 61 Contudo, como ainda
não foi feita nenhuma análise sistemática a partir do uso de inventários post-mortem
para a região e o espaço de tempo aqui privilegiados, acredito que as questões
mencionadas devam ser retomadas. 62 Todas essas ponderações têm apenas o objetivo
de contribuir para a discussão sobre a necessidade de se estudar a presença do escravo

implantação e o seu funcionamento, cf: FULLER,Claudia Maria. “Os Corpos de Trabalhadores: Política
de controle social no Grão-Pará”. In: Fascículos LH. Belém: Laboratório de História; Departamento de
História da UFPa, nº 1, 1999; e FULLER, Claudia Maria. “V. Sª não manda em casa alheia”: Disputas
em torno da implantação dos Corpos de Trabalhadores na Província do Pará. Belém: 1998 (Texto
inédito).
61
Cf., por exemplo, SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit. a; e BEZERRA NETO, José Maia., op.
cit.a. Tratando dos anos compreendidos entre 1750 e 1820, há o trabalho de CARDOSO, Ciro Flamarion
S. Economia e Sociedade em Áreas Coloniais Periféricas. Rio de Janeiro: Graal, 1984, pp. 107-129.
62
Patrícia Sampaio, em um estudo recente, analisou alguns inventários de Belém, para os anos de 1810 a
1841. Contudo, devido a autora ter montado tabelas agregando esses documentos a outros de natureza
igual, mas abertos na futura Província do Amazonas, optei por não utilizar as conclusões desse seu
trabalho. Pensei ser mais adequado, para fins de comparação com as idéias aqui expostas, lançar mão do
outro estudo citado de Sampaio. Cf: SAMPAIO, Patrícia Maria Melo. Espelhos Partidos. Etnia,
Legislação e Desigualdade na Colônia, Sertões do Grão-Pará, c.1755 – c.1823. Niterói: Universidade
Federal Fluminense, 2001b, pp. 97-115 (Tese de Doutorado em História).

128
negro na Amazônia a partir das especificidades da própria região, em vez de tomá- la
como uma área periférica do restante do Império brasileiro. Em outras palavras,
pretendo colaborar para o entendimento do uso da mão-de-obra escrava na Amazônia a
partir da lógica interna de organização da economia na mesma área, e não procurar
pensar essa questão tomando como referência os sistemas econômicos de locais onde as
grandes unidades agro-exportadoras e as relações de trabalho assentadas no escravismo
possuíam uma maior proeminência.
Um primeiro e evidente ponto que deve ser registrado para o tema levantado
acima é a lembrança do fato de que a grande maioria da população estudada não abriu
inventários post-mortem, porque não tinha bens a legar. Sendo assim, tudo indica que
boa parte dela não tinha escravos, pois, não obstante a hipótese de uma parcela
significativa dos plantéis localizados se reproduzir internamente, eram elevados os
valores por que costumavam ser avaliados os cativos. Um escravo adulto (13 a 45
anos), tinha, em média, o preço de 70,17 libras esterlinas, no período de 1850-1870,
como visto no Quadro 2-8. Por seu turno, uma fazenda, no rio Mojú, por exemplo, em
1858, foi avaliada em 1:600$000 réis, ou 170 libras esterlinas. Pela descrição dessa
propriedade, nota-se que ela era não era de proporções tão diminutas, pois possuía
campinas, um pequeno curral, casa de morada com senzalas, forno, casa de canoas e um
número não especificado de casas que eram alugadas. Também, um armazém para
depósito de gêneros, dois pilões grandes, dois fornos (um de cobre e outro de barro),
entre outros itens, árvores frutíferas e plantações de mandioca e arroz. 63 Ou seja, um
cativo em idade produtiva valia cerca de 41,28% do preço de uma propriedade rural
com proporções nada desprezíveis para a região sob estudo.
Ademais, em muitos inventários há a clara ocorrência do recurso combinado ao
trabalho escravo, de livres pobres em geral e mesmo familiar. Tal é o caso de Maria da
Paz Lobato. 64 De poucas posses, pois o monte-bruto era de 150,29 libras esterlinas, a
sua morte deve ter deixado o viúvo e os filhos com dificuldades de garantirem a vida
modesta que levavam. As três imagens de santos que existiam em um oratório,
possivelmente muito usadas nas orações pedindo dias melhores, três bancos, uma mesa,
dois fornos de cobre e um baú de marapaúba, eram os moveis e utensílios utilizados

63
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1858, Caixa/Ano: 1852-1860, doc.
01.
64
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1869, Caixa/Ano: 1869, doc. 01.

129
pela família em sua casa coberta de palha, na margem do rio Tamumbuca, em Igarapé-
Mirim. As jóias eram acanhadas: um cordão, uma argola e dois pares de rosetas de
ouro. Por esses bens, pode-se imaginar que o cabeça do casal, Manoel Hilário da Silva,
mesmo antes do falecimento de sua mulher, não tinha condições de manter a si e aos
seus dependentes apenas com o trabalho de um único escravo, o mulato Casemiro, de 30
anos. Afinal, existiam quatro pequenos rebentos: Luís Magno da Silva, com 9 anos,
Leopoldino Tomás da Silva, dois anos mais novo que o seu irmão, Elidia Francisca da
Silva, 5 anos, e a caçula Graciana Maria da Silva, 3 anos. Manoel, provavelmente, além
de dar a sua própria contribuição, contava com outras pessoas para garantir, pelo menos,
o sustento de sua família, quiçá com o seu genro, Raimundo do Espírito Santo dos Reis,
casado com Apolônia Antônia da Silva. Apenas em troca de amizade ou, quem sabe, de
uma parte da produção, certamente havia companhia para Casemiro nos 4.050 pés de
cacaueiros, distribuídos em três terrenos, que ficaram para os herdeiros, e mesmo em
outros tipos de atividades econômicas possivelmente desenvolvidas pela família.
Situação diferente à experimentada pela família de Maria da Paz Lobato, em
termos de riqueza, era a de Antônio Maria Machado, dono de uma fortuna de
£1.427,15.65 Bacharel, formado pela Academia de Olinda, era um homem bem
relacionado na sociedade local. Seu pai era um negociante matriculado na Praça de
Belém, Antônio José Machado. Através de seu segundo casamento, com Dona Maria
Florinda Pereira da Silveira Machado, ligou-se aos Silveira Frade, uma família de
proprietários rurais no Marajó, e integrante da elite tradicional paraense66 , tornando-se
genro do Tenente-Coronel Benedito Pedro da Silveira Frade e de Dona Lourença
Justiniana Pereira da Silveira Frade. 67 Entre os seus testamenteiros, foram escolhidos o
seu segundo sogro e o Doutor João Baptista Passos, Juiz de Órfãos Suplente da Capital.
Este último, talvez, tenha se tornado próximo ao inventariado devido ao período em que

65
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1869, Caixa/Ano: 1869 A, doc. 13.
66
Sobre os Silveira Frade, ver o Capítulo 3.
67
O primeiro casamento de Antônio Maria Machado foi com Dona Maria Raimunda Ribeiro Lima, filha
do Tenente-Coronel Bernardino Dias Botelho e de Dona Joaquina Maria Barata. Não sei ao certo qual
era essa família. Há a possibilidade de Dona Joaquina pertencer aos Barata, importantes fazendeiros do
Marajó. No entanto, volto a afirmar, não tenho certeza dessa relação. Sobre a família Barata, cf:
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo. “Alianças Matrimoniais na Alta Sociedade Paraense no Século XIX”.
In: Estudos Econômicos, nº 16, 1985, pp. 153-167.

130
estudaram juntos em Olinda, pois Antônio adquiriu o seu grau em 1844 e João em
1845.68
Considerando que o seu pai foi classificado como negociante - um termo que já
indica negócios mercantis com uma maior envergadura -, as relações pessoais e
familiares que construiu, bem como alguns bens que possuía e que ainda serão aqui
apresentados, não sei o por quê de Antônio ter apenas amealhado uma riqueza que,
mesmo sendo inacessível para a grande maioria da população, situava-se nas faixas
intermediárias de fortuna estabelecidas (Ver Quadro 2-4). Uma hipótese, no entanto,
pode ser aventada para essa situação. Talvez, ao optar pela carreira jurídica e, assim,
não ingressado no comércio com o pai, Antônio Maria tenha deixado de, em vida, ter
participação nos negócios de Antônio José. Por esse motivo, uma maior quantia pode
não ter sido incluída no seu processo, ficando para seu único filho, Júlio Augusto de
Aguilar Machado, a parte que lhe cabia na herança do pai.
De qualquer maneira, é certo que Antônio Maria tinha uma posição de
destaque na hierarquia social local, seja pelo seu grau de Bacharel, seja pelas suas
relações pessoais e familiares, seja ainda pelos próprios bens arrolados no seu
inventário. Era dono de uma casa, em Belém, na rua dos Mártires, nº 54. Neste imóvel,
Antônio tinha espaço para exercitar o seu perfil de homem de letras. Na cadeira de
balanço ou na mesa de escrever, deveria ler as obras de sua biblioteca. Interessado em
História, entre os seus livros constavam, por exemplo, títulos sobre a Revolução
Francesa, um “Obras Escolhidas de Vico” e um “Curso de História Moderna”, de
Guizot, o que está a indicar um cosmopolitismo literário por parte de Antônio Maria.
Igualmente, como não poderia deixar de ser, diferentes livros versando sobre política,
Direito e Economia Política. Quem sabe motivado pela vontade de auxiliar
juridicamente o seu pai, estudava Direito Mercantil, pois possuía sete livros tratando do
assunto. Nessa possível transposição do estudo para a prática, havendo adquirido uma
caixa de botica homeopática, também lia sobre essa novidade na área da saúde, tendo
um “Conselhos de um Médico Homeopata”, que, inclusive, estava com ele na Bahia,
onde morreu.
Durante as refeições, existiam variados tipos e qualidades de utensílios para as
iguarias servidas à família: bules, açucareiros, sopeiras, tigelas, galheteiros,
68
BEVILAQUA, Clovis. História da Faculdade de Direito do Recife. Brasília: INL; Conselho Federal
de Cultura, 1977. Agradeço à Maria Fernanda Martins por essa informação.

131
manteigueiras, licoreiro, leiteira, cálices, pratos e xícaras, eram alguns deles. O
vestuário, de qualidade pouco comum nos inventários pesquisados, era respeitável: duas
sobre-casacas, uma casaca, cinco coletes, doze calças, um paletó, dezoito camisas, doze
pares de meias e a nada modesta quantidade, à época, de treze ceroulas.
Pelo diferenciado e, evidentemente elevado, padrão de vida que tinham, fica
difícil imaginar que Antônio Maria, Dona Lorença e Júlio Augusto tirassem os seus
rendimentos apenas da fazenda “Santa Bárbara”, na ilha do Marajó, que foi descrita no
processo. Com casa e currais, arrolaram, para essa propriedade, 10 bois, 45 garrotes, 16
bezerros, 123 vacas, 18 novilhos, 18 vitelas, 12 bezerros, 2 cavalos – 1 castrado e 1 “pai
de éguas” -, 1 égua, 1 poldra pequena e 1 gado apresentado somente como “cria”.
Afinal, a casa na cidade de Belém e a fazenda foram os únicos imóveis localizados.
Pode ser que Antônio praticasse o conhecimento adquirido em ciências jurídicas na
firma comercial de seu pai, pois não identifiquei algum indício dele ter sido uma espécie
de empregado público. Os livros de sua biblioteca tratando sobre Direito Comercial
servem como subsídio a essa possibilidade. Igualmente, mesmo sendo verdadeira essa
hipótese, não excluo uma out ra: devido ter como herdeiros somente a mulher e um filho,
não ocorreram brigas pela partilha dos bens deixados pelo Bacharel e, assim, para não
haver demora com o término do processo, os louvados ou o escrivão não foram muito
detalhistas na descrição dos imóveis do casal. Digo isso particularmente no caso da
fazenda “Santa Bárbara”, pois as informações sobre os escravos de Antônio não vão ao
encontro da imagem fornecida pela propriedade.
Embora a quantidade de gado inventariada não seja ínfima, também, por si só,
não justificaria a alocação de um escravo como feitor da fazenda, de um total de três
cativos que detinha: Reinaldo, cafuz, 32 anos, Manoel, cafuz, 19 anos e Lídia, mulata,
20 anos. Apenas um escravo teria condições de conduzir os animais entre os currais e a
pastagem. Além disso, exceto Reinaldo, o feitor, Manoel e Lídia não necessaria mente
poderiam viver na fazenda; há que ser considerada a possibilidade deles morarem na
cidade com os seus donos. Assim, provavelmente, além da atividade criatória, cultivos
e mesmo a coleta de alguns gêneros também fossem desenvolvidos na “Santa Bárbara”.
Justificando a sua função, que deveria ser uma espécie de capataz, Reinaldo certamente
tinha outras pessoas sob o seu comando, para além dos dois outros escravos, se é que
estes ficavam no Marajó. Como agregados, ou sob outros tipos de vínculos, Antônio

132
Maria Machado, deveria possuir pessoas livres morando e/ou trabalhando em sua
propriedade. Situação essa que não haveria de ser difícil, devido o poder social que os
Silveira Frade - família da sua segunda mulher - tinham na região do Marajó desde o
século XVIII 69 e, pelo indicado na patente de Tenente-Coronel de Benedito Pedro da
Silveira Frade, ainda guardavam durante a segunda metade do Oitocentos. 70
Os relatos de viajantes, também, fornecem indicações a esse respeito. Alfred
Wallace, por exemplo, ao passar pelo rio Capim, em 1848, visitou a “Fazenda São
José”, de propriedade de um homem identificado apenas como Sr. Calisto. Encantado
com o lugar, anotou que haviam acabado de ser construídos um conjunto de moinhos e
silos de arroz, “uma das mais modernas edificações” que o inglês conhecera na região.
Pois bem, disse ainda o seguinte sobre a mão-de-obra utilizada no local:

“Viviam na propriedade uns 50 escravos de todas as idades, e outro tanto de índios, todos
empregados no cultivo de cana e arroz, no trabalho do moinho e a bordo de suas
embarcações. O estabelecimento também produzia açúcar e cachaça, especialmente esta,
que alcança melhores preços. Ademais, todos os trabalhos eram feitos no próprio local,
havendo ali sapateiros, alfaiates, carpinteiros, ferreiros, construtores de barcos e pedreiros,
tanto entre os escravos como entre os índios. Havia até os que sabiam fabricar bons
cadeados para portas e caixas, além de artigos de latão e cobre de todos os tipos”.71

Procurei, nas páginas acima, apresentar as características gerais da economia


sob estudo: uma economia com traços pré- industriais e marcada por uma grande
concentração de riqueza. Corroborando o discutido no capítulo anterior sobre os
melhoramentos materiais e a expansão por que vinha passando a cidade de Belém nos
anos 1850-1870, foram detectados fortes mecanismos de acumulação mercantil, rentista
e usurária. Também, a aplicação de ativos em atividades rurais perpassou a maior parte
dos inventários arrolados, 66,51% do total dos processos. A participação de escravos
nas fortunas registradas foi outro aspecto tratado. Chamei a atenção para o fato de que,
diferentemente de áreas de grande lavoura, uma parcela significativa dos plantéis

69
Sobre a família Silveira Frade, ver o Capítulo III.
70
Encontrei um Antônio Pereira da Silveira Frade como Tenente-Coronel da Guarda Nacional da Capital,
no ano de 1868. Não sei ao certo o vínculo dele com Benedito Pedro da Silveira Frade, mas, muito
possivelmente, deviam ser da mesma família. Cf: RPP, 06/08/1868.
71
WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelos Rios Amazonas e Negro. Belo Horizonte; São Paulo:
Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1979, p. 82.

133
localizados era formada não somente por nascimentos internos à Província, mas,
também, às propriedades, devido ao relativo equilíbrio entre os sexos, a grande
quantidade de crianças cativas e o pequeno percentual de africanos. Ainda, esses
escravos, em que pese estarem concentrados nas faixas de fortunas ligadas
predominantemente às atividades rurais, tinham uma parcela significativa que
provavelmente não estava alocada na lavoura. E, nos casos em que os eram, de um
modo geral, ocorria uma estreita combinação da sua mão-de-obra com a de livres pobres
de diferentes etnias e mesmo a base de trabalho familiar.
O próximo passo será o de analisar a composição dos investimentos por faixas
de fortunas. Tomando como base os aspectos gerais da econo mia em questão expostos,
viso compreender como se deu a construção da hierarquia econômica na sociedade
estudada.

134
2. Construindo hierarquias: a composição dos investimentos por faixas de fortunas

A imagem já apresentada no Quadro 2-4 da grande desigualdade que permeava


a distribuição da riqueza em Belém, nos anos de 1850-1870, pode, agora, ser mais bem
visualizada por meio dos percentuais com que as três últimas faixas de fortunas
estipuladas, no total dos 221 inventários coligidos, participavam em cada um dos setores
de investimentos. Através do Quadro 2-10, percebe-se que as riquezas compreendidas
nos montes-brutos de 2.001 a mais de 10.000 libras esterlinas, apesar de representarem
18,75% e 9,22% dos inventários nos períodos de 1850-1859 e 1860-1870,
respectivamente, concentram sempre de 41,31% a 93,55% dos itens Escravos, Bens
Rurais, Imóveis Urbanos, Comércio e Dívidas Ativas, que eram os que poderiam,
diretamente, proporcionar algum tipo de rendimento. Sobretudo no que diz respeito aos
negócios mercantis (Comércio e Dívidas Ativas), sobressaem-se os altos índices de
56,33% a 93,55%. O item Dinheiro, que era de se esperar que registrasse participações
mais altas, especificamente nos anos 1850-1859, em função do exposto sobre os
negócios mercantis, apresenta, de qualquer forma, percentagens elevadas: 35,16 e
86,27%, respectivamente. É possível que, para o primeiro período de anos, tenha
ocorrido um sub-registro da moeda circulante, sobretudo nos inventários dos maiores
comerciantes. 72 O item Imóveis Urbanos, por seu turno, é o segundo em destaque
naquelas faixas, ao apresentar os percentuais de 78,37% e 67,06% para todo o período,
sendo seguido pelos setores Bens Rurais (63,37% e 52,76%) e Escravos (41,31% e
44,77%), respectivamente.
As informações acima indicam que, apesar das maiores faixas de fortunas
inventariadas serem formadas essencialmente pela prática do comércio e da usura,
absorvem, também, parcelas significativas dos demais setores da economia local. Ou
melhor, os 18,75% a 22,69% da população abarcada pelos processos de inventários
pesquisados controlam as principais esferas que organizavam a economia do município
de Belém durante o período sob análise.

72
Sobre esse problema identificado nos inventários pesquisados, ver nota nº 10.

135
136
Partindo-se para a composição dos investimentos em cada uma das faixas de
fortunas, pode-se começar a ver mais claramente os fatores que proporcionaram a
construção da hierarquia econômica apontada. Os Quadros 2-11 e 2-12 informam que
as duas primeiras faixas de fortunas (0-100 e 101-200 libras), concentravam os seus
ativos em escravos (de 28,05% a 70,10%), imóveis urbanos (de 15,65% a 58,71%) e
bens rurais (de 6,41% a 36,87%), respectivamente. De um modo geral, tomando-se com
referência esses itens, eram riquezas de pessoas que tiveram apenas pequenas
propriedades rurais e cativos descritos, ou somente imóveis urbanos. Além desses
casos, nessas mesmas faixas, foram encontrados dois processos que arrolaram
unicamente bens rurais e outro exclusivamente cativos. Um exemplo do primeiro grupo
é o inventário de Rufino Antônio dos Santos, dono de um sítio, no rio Maguari, com
casa coberta de telhas e árvores frutíferas, e quatro escravos: Benedito, 30 anos,
Agostinha, 22 anos, Domingos, 8 anos e Apolinário, 6 anos. 73 Quanto ao segundo
grupo, tem-se o processo de Hilário da Silva e Eugênia Rosa, proprietários de um quarto
de casas térreas e dois terrenos, localizados à rua do Bailique, na cidade de Belém. 74
Assim, em sua maioria, tratava-se de pessoas que deviam viver basicamente de
pequenas produções agrícolas e/ou extrativas, ou de alguma outra atividade no meio
citadino, difícil de precisar aqui, pois os inventários não fornecem indícios a esse
respeito. 75

73
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1860, Caixa/Ano: 1869, doc. 02.
74
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1860, Caixa/Ano: 1852-1860, doc.
01.
75
Para os inventariados que não tiveram propriedades rurais e escravos arrolados, mas somente imóveis
urbanos, e dos quais não sei precisar qual as suas atividades econômicas, faço exceção a dois pequenos
comerciantes de freguesias pertencentes ao município de Belém.

137
138
139
Nas faixas de fortunas intermediárias (201 a 2.000 libras esterlinas), notam-se
os crescimentos dos índices relativos aos escravos (de 44,46% a 59,30%) e aos bens
rurais (de 10,23% a 19,37%). Na verdade, as participações desse último item já ficam
mais próximas das registrados para os imóveis urbanos, se comparadas ao verificado
nas duas faixas de fortunas precedentes, apresentando, aqui, percentuais que oscilam de
9,81% a 20,71%. Os setores de comércio e de dívidas ativas também adquirem uma
maior proeminência, possuindo registros nas três faixas estipuladas e variando,
respectivamente, de 0,32% a 10,03% e de 4,06% a 9,68% dos totais das riquezas
compreendidas nas mesmas faixas. Tais evidências, portanto, sugerem estar-se diante
de um grupo de pessoas que, em sua maior parte, encontrava-se ligado às atividades
rurais, servindo como base a esta afirmação os percentuais próximos dos itens Bens
Rurais e Imóve is Urbanos, e o fato de que o tipo de agricultura então praticada
necessitava de baixos investimentos, conforme dito na seção anterior. De todo modo,
um segundo grupo de pessoas passível de ser identificado é o que tem a sua fortuna
assentada em imóveis urbanos, sem excluir a participação, por exemplo, de bens rurais e
escravos na mesma. Também, em menor escala, considerando apenas os itens
mencionados, sujeitos que somente tiveram arrolados, em seus inventários, imóveis
urbanos e, em alguns casos, cativos. Ou, ainda, pessoas que tinham os seus ativos
aplicados tanto em prédios urbanos, escravos e bens rurais, quanto em negócios
mercantis (comércio e dívidas ativas).
Entre os que estavam, predominantemente, ligados às atividades rurais, há o
caso de Maria Rita Correa de Miranda 76 , dona de 9.100 pés de cacaueiros, na vila de
Igarapé-Mirim, onde também tinha um sítio com casa de morada coberta de telha, uma
de outra casa coberta de palha e mais cinco terrenos. Além do cacau, provavelmente
ainda cultivasse, pelo menos, mandioca, pois possuía uma roda de ralar mandioca. Com
uma montaria e um batelão 77 , tanto devia ser responsável pelo escoamento da sua
própria produção de cacau, quanto, quem sabe, das produções de pessoas que tivessem
propriedades próximas as suas. Era proprietária ainda de 16 escravos, sendo 8 mulheres
e 8 homens: Maria de Nazaré, 8 anos, Cecília, 37 anos, Caetana, 23 anos, Maria da

76
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1857, Caixa/Ano: 1857-1858, doc.
09.
77
Montaria era um tipo de canoa pequena, feita de tronco cavada a fogo. Batelão era uma embarcação,
movida a remo, mas comumente usada para o transporte de cargas.

140
Graça, 28 anos, Maria das Mercês, 42 anos, Maria da Trindade, 70 anos, Maria do
Espírito Santo, 80 anos, Luzia de São José, 90 anos, Marçal, 9 anos, Bento, 36 anos,
Raimundo, 34 anos, Amâncio, 36 anos, Manoel Afonso, 60 anos, Leandro, 75 anos,
Antônio Francisco, 55 anos e Geraldo, 90 anos. Dentre esses cativos, os que tinham de
13 a 45 anos talvez trabalhassem junto às atividades agrícolas - certamente
acompanhados de outras pessoas – e no serviço doméstico da família. Os escravos que
possuíam mais de 45 anos de idade, por sua vez, quiçá estivessem, preferencialmente,
empregados na s seis rodas de fiar algodão descritas no inventário.
Quanto aos que tinham a sua riqueza assentada, sobretudo, em imóveis
urbanos, tem-se o exemplo do austríaco Nicolo Puglianich78 , com mais da metade do
seu monte-bruto alocado nesse item: um terreno e cinco casas térreas, sendo uma de
sobrado, em Belém. Era dono, também, de um terreno, no rio Guajará, que,
provavelmente, servia como ponto de partida para as suas embarcações registradas
como sendo utilizadas na atividade pesqueira: quatro canoas. Além dessas, eram ainda
de sua propriedade uma canoa coberta, dois batelões e um bote, talvez, da mesma
forma, usadas na pesca e mesmo no transporte e/ou comercialização de gêneros seus e
de outras pessoas. Os escravos não eram muitos, sendo provável que, pelas suas idades
e composição sexual, vivessem em Belém, com o seu proprietário, desenvolvendo
serviços domésticos e/ou atividades como jornaleiros: Simplícia, 32 anos, Rosa, 15
anos, Úrsula, 45 anos, Joaquina Congo, 60 anos, Maria Branca, 30 anos, Pedro 10 anos
e Basílio, 40 anos. Cabe ressaltar que não estou pressupondo que mulheres, crianças e
idosos não pudessem trabalhassem nas atividades rurais. De todo modo, certamente
cativos com tal perfil demo gráfico não eram os preferenciais naquele tipo de emprego.
O terceiro grupo, em freqüência, naquelas faixas de intermediárias de fortunas,
é o que tem os seus ativos alocados, basicamente em escravos e imóveis urbanos,
conforme exposto, e pode ser exemplificado pelo processo de Francisca Tereza de
Jesus. 79 Proprietária de cinco casas, sendo uma de sobrado, e um terreno, na cidade de
Belém, tinha ainda duas escravas: Guilhermina, 22 anos e Joana, 27 anos, possivelmente
utilizadas em serviços domésticos.
Por fim, têm-se as pessoas que se encontravam ligadas a todos os setores já
mencionados e, também, à atividade mercantil, como Felisberto José dos Santos Lisboa,
78
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1864, Caixa/Ano: 1864, doc. 12.
79
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1865, Caixa/Ano: 1865, doc. 10.

141
que tinha 54,22% do seu monte-bruto proveniente da liquidação de sua casa
comercial. 80 No entanto, incluía ainda, em seu patrimônio, um engenho de moer cana
movido por animais, cinco casas térreas localizadas à rua da Pedreira, na capital, e dois
escravos adultos.
Comparando-se as riquezas compreendidas entre 201 e 2.000 libras esterlinas
com aquelas situadas nas duas faixas de fortunas que lhes precedem, notam-se naquelas,
sobretudo, a presença de propriedades rurais de maiores proporções e, assim, de
produções que, estando, também, destinadas à subsistência, visivelmente geravam
excedentes comercializáveis. Da mesma forma, percebe-se a existência de pessoas que
eram rentistas urbanos e a atividade comercial adquire um maior relevo. Os escravos,
por seu turno, representavam, para todos os anos, pelo menos, 44,46% do total dos
montes-brutos incluídos nas mesmas faixas. Possivelmente utilizados tanto na
agricultura, quanto em serviços domésticos, trabalhos manuais e mesmo a jornal, os
exemplos mencionados acima demonstraram que, embora concentrados nas riquezas
ligadas predominantemente às atividades rurais, não necessária e exclusivamente os
cativos inventariados estavam alocados nesse último setor da economia local.
De modo diferente do verificado nas faixas intermediárias de fortunas, que,
como visto, estavam majoritariamente vinculadas às atividades rurais, nas três últimas
faixas de riquezas (de 2.001 a mais de 10.000 libras esterlinas) os montes-brutos, de um
modo geral, encontravam-se concentrados nos negócios mercantis (comércio e dívidas
ativas). Especialmente durante os anos de 1860-1870, tal traço torna-se ainda mais
visível, possivelmente devido ao impulso dado ao comércio pela produção da borracha,
a partir de meados do século XIX. Assim, no período de 1850-1859, a faixa de 2.001 a
5.000 libras é formada por 20,18% dos itens Comércio e Dívidas Ativas juntos, e
11,30% de Bens Rurais. No mesmo espaço de tempo, as duas faixas posteriores têm
aqueles itens perfazendo, respectivamente, 24,53% e 23,22% na de 5.001 a 10.000
libras, e 59,34% e 3,20% na de mais de 10.000 libras esterlinas. Entre os anos de 1860
e 1870, os índices agregados de comércio e dívidas ativas continuam superando os
referentes aos bens rurais. Nas riquezas de 2.001 a 5.000 libras têm respectivamente
30,17% e 11,87%; na faixa de 5.001 a 10.000 libras, 51,87% e 1,02%; e nas fortunas
maiores de 10.000 libras, 79,11% e 6,39%.
80
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1868, Caixa/Ano: 1868-1870, doc.
04.

142
É certo, contudo, que não somente aos negócios mercantis estavam vinculadas
as maiores riquezas registradas. No geral, três grupos de investimentos preferenciais
foram identificados. O que englobava os maiores montes-brutos era o formado por
pessoas que tinham os seus ativos concentrados na atividade comercial, em imóveis
urbanos, escravos e, em alguns casos, bens rurais. Um segundo grupo era o que possuía
a sua riqueza assentada em imóveis urbanos e escravos, sem excluir, em alguns
inventários, a presença de bens rurais. O terceiro, por sua vez, ligava-se, basicamente,
aos bens rurais e aos escravos.
Exemplificando os que concentravam a sua riqueza na atividade comercial, há
o processo de inventário de Francisco José Rodrigues, dono de uma casa de sobrado,
localizada à Ilharga da Sé, na cidade de Belém, onde funcionava o seu estabelecimento
comercial81 . Era dono, também, de três casas térreas, na capital, e meia légua de terras,
no rio Mojú, sem algum tipo de cultura registrada. Os escravos eram 74, com 35
homens (17 crianças, 15 adultos e 3 idosos) e 39 mulheres (19 crianças, 16 adultas e 4
idosas), sendo, assim, provável que, pelas idades e pelo maior número de cativas, uma
boa parcela dos mesmos estivesse empregada em atividades outras que não a lavoura, a
exemplo de um alfaiate e um sapateiro arrolados. 82
Quanto ao segundo grupo mencionado, pode-se ilustrar através do casal Jaime
Davi Brício e Maria do Carmo Pombo Brício, anteriormente apresentado.83
Proprietários de 11 imóveis urbanos, sendo três casas de sobrado, três casas térreas, dois
“quartos de casas”, dois “chãos” e uma “rocinha”, detinham ainda 38 escravos, que,
possivelmente, eram utilizados em serviços domésticos, atividades a jornal e/ou
alugados, tais como um carpinteiro, um aprendiz de sapateiro, um enfermeiro e quatro
lavadeiras, cozinheiras e engomadeiras registradas no mesmo processo.
Por fim, com relação aos que tinham a maior parcela dos seus ativos alocados
em bens rur ais e cativos, tem-se o caso de Tereza de Jesus de Sousa Campos. 84
Proprietária do engenho “Mocajuba”, descrito como possuindo todos os seus pertences e

81
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1863, Caixa/Ano: 1863-1864, doc.
08.
82
Sempre que for feita referência, neste texto, a crianças, adultos e idosos escravos, tomo como base os
grupos etários definidos antes, quais sejam, os de 0 a 12 anos, de 13 a 45 anos e mais de 45 anos de idade.
83
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1850, Caixa/Ano: 1848-1850, doc.
06. Para mais informações sobre este casal, ver o Capítulo 3.
84
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1856, Caixa/Ano: 1856-1857, doc.
09.

143
uma casa de moradia, devia não somente se encarregar do escoamento da sua produção
de açúcar, mas, talvez, também, atuar na produção de gêneros alimentícios e
comercializá- los em localidades do interior da Província, pois detinha dois batelões,
duas montarias e uma igarité85 , além de cinco cascos para canoas. Os escravos eram 22,
formados por 15 homens (3 crianças, 8 adultos e 4 idosos) e 7 mulheres (1 criança, 5
adultas e 1 idosa). Embora tenham sido identificados quatro desses cativos com ofícios,
quais sejam, dois carapinas, um calafate e um pedreiro, pela própria maior quantidade
de homens e o predomínio de adultos, é provável que a sua maioria, pelo menos os do
sexo masculino, trabalhassem na lavoura. Essa suposição, entretanto - a tomar-se como
referência o número e os tipos de embarcações de propriedade da inventariada, que
sugerem uma produção grande de açúcar -, não exclui a possib ilidade dos escravos
estarem empregados ao lado de pessoas livres nas atividades desenvolvidas no engenho.
Uma primeira questão que deve ser apontada através dos exemplos
apresentados acima dos tipos de riquezas compreendidas em cada uma das faixas de
fortunas estabelecidas, é a dificuldade de se considerar, de um modo geral, as pessoas
como estando vinculadas a apenas um tipo de atividade econômica. Excetos os
inventários com montes-brutos de 0 a 200 libras, que, a não serem as atividades rurais,
as demais foram difíceis de precisar, nas outras faixas de fortunas freqüentemente
encontraram-se pessoas que obtinham rendimentos em mais de um setor da economia
local. Essa constatação vai de encontro com a idéia passível de ser apreendida na
historiografia regional, discutida no capítulo anterior, acerca da separação entre os
grupos ligados ao comércio, à agricultura e ao extrativismo. Mais adiante, ainda neste
capítulo, tal questão voltará a ser tratada.
Além do mais, viu-se, através da composição dos investimentos pelas
diferentes faixas de fortunas estipuladas, aquilo que já tinha sido mencionado na seção
anterior: os negócios mercantis representavam o setor que gerava a maior soma de
riquezas na economia aqui estudada. Sendo assim, eram justamente aquelas pessoas
que, de um modo geral, estando majoritariamente vinculadas a esse setor da economia
local, controlavam as principais esferas que organizavam a economia do município de
Belém durante o período sob análise, segundo demonstrado no Quadro 2-10. A

85
Igarité é um tipo de embarcação semelhante à canoa, movida a remo, e comumente usada para o
transporte de cargas.

144
explicação para a existência dessa hierarquia econômica pode ser entendida a partir das
características gerais da economia de Belém antes apontadas.
Por se estar tratando de uma economia pré- industrial, a força de trabalho não
era considerada uma mercadoria disponível ao sistema de compra e venda no
mercado. 86 Deste modo, tanto era precária a divisão social do trabalho quanto frágil a
liquidez. Lembro que o item Dinheiro não ultrapassou 4,01% do total dos montes-
brutos registrados, e que apenas cinco em 221 inventários declararam, em seus passivos,
valores especificados como salários. Daí decorre a existência de um mercado com
limitadas opções de investimentos. Exemplifico essa afirmação com os índices
agregados dos itens Jóias e Padrão de Vida (2,11%), bastante próximos daqueles
relativos ao Dinheiro (2,46%), no total das fortunas abarcadas pelos inventários
pesquisados, como, também, indicado na seção anterior. Ao se considerar a grande
concentração das fortunas já exposta, todos aqueles fatores apontam para o fato de que
poucos sujeitos possuíam condições econômicas de realizar investimentos para além de
esferas bastante localizadas e, por isso, o setor de circulação de mercadorias passa a
representar o principal mecanismo de acumulação de riquezas. 87 Mais ainda, não
somente a atividade mercantil é o principal ramo da economia no acúmulo de riqueza,
como o acesso a ele é inacessível para a grande maioria dos agentes coevos. Por
exemplo, um sítio, na cabeceira do rio Benfica, com dois canaviais, árvores frutíferas e
outras com madeiras próprias para construções, duas casas cobertas de telhas, senzalas,
um engenho de moer cana, uma serraria movida à água e todos os pertences desses
equipamentos, custavam, em 1869, 1.175,00 libras, um dos mais altos valores
encontrados para bens rurais em todo o período pesquisado. 88 Já o estabelecimento
comercial de Francisco Bernardo da Silva, que funcionava na rua de Santo Antônio, na
cidade de Belém, foi avaliado em 2.825,00 libras esterlinas no ano de 1870. 89
Do quadro exposto acima, pode-se dizer, em última análise, que acabava sendo
uma espécie de “círculo vicioso”. Sem dúvida alguma, eram os negócios mercantis o
ramo da economia que propiciava a acumulação do maior volume de riquezas.

86
A discussão teórica sobre este assunto está na Introdução.
87
Tais questões foram trabalhadas para o Rio de Janeiro da virada do século XVIII para o XIX. Cf:
FRAGOSO, João., op. cit., pp. 181-265; e FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo., op. cit., pp. 67-
100.
88
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1860, Caixa/Ano: 1869, doc. 08.
89
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1870, Caixa/Ano: 1870, doc. 19.

145
Contudo, justamente por necessitar de investimentos bastante superiores aos exigidos
nas atividades rurais, poucas pessoas tinham a liquidez necessária para adentrá- lo, em
virtude da forte concentração de fortunas à época. Daí decorre o verificado daqueles
18,75% a 22,69% da população inventariada, ligada predominantemente à atividade
comercial, controlar de 62,13% a 68,79% dos montes-brutos registrados nos processos
(Ver Quadro 2-3). Também, concentrar mais de 40% dos principais setores da
economia de Belém durante os anos aqui privilegiados, conforme visto no Quadro 2-10.
Em outras palavras, por um lado, os negócios mercantis, ao representarem a maior
possibilidade de acúmulo de cabedais, permitiam, particularmente aos seus maiores
agentes, ter a liquidez suficiente para, também, investir em outros setores econômicos.
Por outro lado, em função daquelas mesmas atividades ter o seu acesso dificultado para
a grande maioria das pessoas do período, os sujeitos que com elas estavam envolvidos,
através dos seus investimentos, acabavam contribuindo para a manutenção da
concentração de riquezas já existente.
O exposto acima, cabe destacar novamente, não era uma particularidade do
Pará oitocentista. Em sociedades de tipo pré- industrial é comum a prevalência das
formas de acumulação mercantis, apesar do setor econômico que, de fato, gerava
riqueza material, ser o agrícola. Isso é possível, por sua vez, pelos baixos investimentos
que necessitavam ser feitos nas atividades rurais, se comparadas às comerciais, o que,
por sua vez, permitia a constante apropriação de valor por setores econômicos que não o
produziam. Tal situação já foi analisada para o Amazonas, o Rio de Janeiro. 90
Sendo os negócios mercantis o mais lucrativo ramo da economia estudada, por
que, então, as pessoas que tinham os seus ativos majoritariamente neles alocados,
também se vinculavam a outros tipos de atividades? Esse será o assunto da próxima
seção, quando serão trabalhadas especificamente as fortunas encontradas acima de
5.001 libras esterlinas.

90
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo., op. cit.; FRAGOSO, João., op. cit.; e FRAGOSO, João &
FLORENTINO, Manolo., op. cit.

146
3. A desigualdade como objetivo: investimentos e estratégias de reprodução da
elite

Foram apresentadas as características gerais da economia sob análise. Uma


economia de tipo pré-industrial que tem o seu funcionamento dependendo não apenas
de condições de mercado. Indicativo disso é a frágil divisão social do trabalho
apontada. Muito embora as relações de trabalho predominantes em Belém não fossem
as assentadas no escravismo, ficou evidente, também, que se tratava de uma mão-de-
obra não disponível ao sistema de compra e venda no me rcado, constituindo-se, assim,
em uma mão-de-obra não assalariada. Assim sendo, torna-se esperado que, no intuito
de manter as próprias relações de produção que sustentavam essa econo mia, as
aplicações dos excedentes econômicos não tivessem unicamente direcionamentos
produtivos. Antes, visassem a reiteração da hierarquia social diferenciada então
existente, pois era justamente ela que fornecia o suporte à sociedade e à economia à
época.91
Nesta parte do capítulo, tomando-se como ponto de partida o topo da
hierarquia econômica identificada através dos invent ários pesquisados, serão analisados
alguns mecanismos utilizados pelos sujeitos que aí se encontravam no sentido de
conquistar e/ou manter as suas posições na hierarquia social. Com esse objetivo, serão
trabalhadas as doze maiores fortunas encontradas dentro do total de 221 processos de
inventários arrolados para o município de Belém, no intuito de entender como, mesmo
estando, em sua grande maioria, vinculadas a negócios mercantis, tinham os seus ativos
também aplicados em outros setores da economia local.
Antes de prosseguir, um esclarecimento se faz necessário. Tenho clareza de
que nem todos os sujeitos abarcados por essa amostra de doze inventários, e ligados ao
comércio, podem ser considerados como tendo um mesmo perfil em suas atividades.
Ou seja, ao mesmo tempo em que há o processo, por exemplo, de Domingos Francisco
Moreira, dono de uma loja de secos e molhados, existem os de Francisco Antônio de
Miranda 92 e Elísia Correa da Mota Marques, que praticavam o comércio de longo curso,
envolvendo a importação e a exportação, pelo menos, com Portugal. Não obstante,
acredito que isso não comprometerá a discussão pretendida, pois, mesmo os
91
A discussão teórica sobre este tema está na Introdução.
92
Sobre Francisco Antônio de Miranda, ver o Capítulo 3.

147
comerciantes dotados de uma menor envergadura em suas atividades mercantis, também
servem para exemplificar, grosso modo, as práticas do seu grupo em diversificar os
investimentos. Além do mais, embora não podendo ser considerados os maiores
agentes envolvidos com o comércio, não existem dúvidas quanto as suas fortunas serem
bastante elevadas, em comparação a grande maioria que se encontrava abaixo de suas
faixas de riquezas. Se todos os casos aqui tratados possuíssem um mesmo perfil, qual
seja, o de praticantes do comércio de longo curso, penso que apenas os volumes dos
seus investimentos iriam adquirir um maior relevo.
Pelo Quadro 2-13, verifica-se que, dentre todas as pessoas que tiveram montes-
brutos superiores a 5.001 libras esterlinas, sete tinham a maior parcela de suas riquezas
alocadas em atividades mercantis (comércio e dívidas ativas). Eram eles: Francisco
Antônio de Miranda, Pulquéria Batista de Jesus Martins, Joaquim Antônio da Silva
Vilaça, José da Cunha Braga, Elísia Correa da Mota Marques, Francisco Bernardo da
Silva e Domingos Francisco Moreira. José Ferreira da Costa, apesar de ter a sua fo rtuna
concentrada em imóveis urbanos, teve como ofício declarado o comércio.
Raimundo Severino de Matos, por sua vez, era Arcediago, e os 46,79% de
dívidas ativas em seu inventário eram compostos de transações mercantis, ao que tudo
indica realizadas a partir de negócios envolvendo um membro de sua família, Francisco
Henrique de Matos. 93 Pela relação de Dever e Haver entre os dois, nota-se que
Raimundo não somente recebia diferentes tipos de gêneros e produtos em grande
quantidade – alguns importados de Lisboa - de Francisco, quanto este passava letras, a
mando do morto, a outras pessoas. Também, o Arcediago contou com empréstimos de
Francisco para, por exemplo, o transporte de castanhas e estacas, e teve parte de suas
dívidas saldadas com borracha, cacau, castanha e o dinheiro de um grande número de
bois talhados. Como não foi identificada no inventário alguma atividade criatória ou
mesmo de outro tipo que denotasse a produção dos gêneros com os quais Raimundo
Severino entrou para a conta-corrente, torna-se provável que, pelo menos, parte das
letras passadas por Francisco Henrique, bem como dos produtos recebidos do mesmo,
fossem usados na obtenção daqueles gêneros, vindos de regiões do interior do Pará. A
possibilidade desse tipo de negócio, por parte do clérigo, ganha um reforço maior
quando se sabe que ele possuía “armazéns” e, mesmo que a finalidade destes não tenha

93
Não foi possível saber qual o grau de parentesco entre o inventariado e Francisco Henrique de Matos.

148
sido especificada, em vista das considerações anteriores, deviam ser utilizados no
recebimento dos gêneros que lhe mandavam do interior paraense. E quando me refiro
de gêneros recebidos de áreas interioranas da Província, é porque muitos dos sujeitos
aos quais Francisco Henrique passou letras eram dessas localidades.
Quanto a Ana Joaquina Rosa dos Santos Smith, que possuía 97,59% de seu
monte-bruto distribuídos entre escravos e bens rurais, esta contava como sócio em suas
atividades um destacado negociante do Pará, Henri de La Roque 94 , que, possivelmente
realizando investimentos vultosos no engenho que os dois possuíam, deve ter
contribuído para as dimensões dessa propriedade à morte da inventariada e, assim, para
a própria formação da fortuna por ela deixada. Já Manoel Lourenço de Matos, irmão de
Raimundo Severino de Matos, possuía a maior parte de sua riqueza dividida entre
imóveis urbanos e dívidas ativas. Por fim, José Joaquim Pimenta de Magalhães,
Bacharel, concentrava os seus ativos em imóveis urbanos.
Dos doze maiores montes-brutos encontrados, portanto, nove eram de pessoas
ligadas à atividade comercial, e um deve ter sido, pelo menos em parte, tributário de
inversões de capital de um negociante. Mesmo que sejam considerados apenas aqueles
nove inventários, esses casos específicos vêm confirmar o afirmado sobre o topo da
hierarquia econômica local ser formado por pessoas vinculadas a negócios mercantis.
E, quando chamo as fortunas acima de 5.001 libras de topo da hierarquia econômica
aqui estabelecida, lembro que as mesmas perfaziam de 5,00% a 5,68% dos processos, e
controlavam de 32,73% a 37,42% do total da riqueza registrada entre 1850 e 18970,
conforme exposto no Quadro 2-4.
Pois bem, ainda por meio do Quadro 2-13, pode-se perceber inventariados que
possuíam as fortunas vinculadas a atividades comerciais, mas, também, encontravam-se
envolvidos com outros setores da economia local. O mais constante, sem dúvida, foram
os investimentos em imóveis urbanos. Francisco Antônio de Miranda, por exemplo, era
sócio da firma Miranda Irmãos & Companhia e tinha nada menos que sete casas de
sobrado e duas térreas, na capital, utilizadas na realização de seus negócios que
envolviam o comércio de importação e exportação, pelo menos, com a praça da cidade
do Porto. Além dessas propriedades, detinha ainda mais vinte e sete imóveis urbanos na

94
Sobre Henri de La Roque, ver o Capítulo 3.

149
150
capital paraense, sendo uma “rocinha”, quatro casas de sobrado, dezoito casas térreas e
quatro “chãos”. Ou o caso de José da Cunha Braga, proprietário de uma loja de tecidos,
bem como de três casas de sobrado e quatro térreas na cidade de Belém. De forma
semelhante aos dois inventariados mencionados, mais quatro tiveram arrolados bens
imóveis em seus processos, em número que poderia lhes permitir tirar rendimentos dos
mesmos. Somente Domingos Francisco Moreira parecia tanto morar quanto ter o seu
estabelecimento comercial no único prédio identificado. Elísia da Mota Marques teve
valores de prédios urbanos agregados à parte que lhe cabia na firma de seu marido,
Antônio da Mota Marques & Irmãos, sediada na capital. Para Raimundo Severino
Eusébio de Matos, por sua vez, foram registrados somente uma casa e um terreno na
cidade. De qualquer forma, seis dos nove inventariados, ligados ao comércio, mais
ricos dentro do universo pesquisado, obtinham parte de seus rendimentos através de
atividades rentistas.
A constatação acima aponta para duas questões. Por um lado, vai ao encontro
do dito no capítulo anterior sobre a expansão urbana e os melhoramentos materiais por
que vinha sofrendo a cidade de Belém, a partir de meados do Oitocentos. Não apenas
os relatos dos viajantes deram testemunhos a esse respeito, quanto os censos
populacionais, através do Quadro 1-2, apresentaram a tendência de, no espaço de tempo
entre os anos de 1849 e 1872, a capital ter vivenciado um crescimento na ordem de
54,37% entre os seus moradores, passando de 16.337 para 30.050 indivíduos. O fato de
Francisco Antônio de Miranda deter quatro “chãos”, i.e, imóveis ainda sem edificações,
pode ser entendido como um sintoma dessa expansão nas possibilidades de
investimentos em atividades rentistas, ao indicar um possível interesse em aumentar a
sua quantidade de prédios urbanos e, por que não, incrementar seus mecanismos de
acúmulo de cabedal.
Por outro lado, a opção de investimentos em imóveis urbanos, em que pesem
as oportunidades de obtenção de importantes ganhos econômicos nesse setor, não
podem ser entendidas tão somente a partir de interesses na maximização dos lucros. É
bem verdade que as opções de investimentos também eram limitadas, mas essa
constatação não basta para explicar o fenômeno observado. A lógica que regia o
funcionamento da sociedade aqui tratada, não se baseava pela busca do lucro stricto
sensu. Em vez disso, considerando-se que era uma sociedade de tipo pré- industrial,

151
visava, antes de tudo, a manutenção das relações de poder que forneciam o suporte tanto
para a própria organização da sociedade quanto para o funcionamento da economia
local. 95 Tanto era assim que parte dos excedentes econômicos obtidos no ramo da
economia mais lucrativo à época, como visto no Quadro 2-13, era aplicada em negócios
que não geravam o mesmo montante de riquezas. Neste sentido, o que estava por trás
dessa opção era aquilo que Fragoso e Florentino chamaram de “ideal aristocratizante”,
no qual a afirmação de uma certa distância em relação ao mundo do trabalho
desempenhava um papel fundamental na permanência da hierarquia social desigual
então existente. 96 Portanto, ao investir na atividade rentista, a elite identificada através
dos inventários, em última instância, buscava prestígio social, contribuindo, dessa
forma, para a manutenção das diferenças existentes entre os grupos sociais e, como uma
decorrência dessas diferenças, também para a reiteração das relações de poder sobre as
quais a sociedade e a economia local estavam organizadas.
A presença de bens rurais em quatro dos nove inventários majoritariamente
vinculados a atividades comerciais, constantes no Quadro 2-13, foi outro item também
notado. Francisco Antônio de Miranda, por exemplo, contava com nove propriedades
rurais no rio Capim e, mesmo que não tenha sido registrada alguma atividade nas
mesmas, certamente em duas havia de existir algum tipo de produção e/ou de criação de
animais, pois foram classificadas como “fazenda” e “sítio”. As demais foram descritas
genericamente como “sorte de terras”. Joaquim Antônio da Silva Vilaça possuía seis
propriedades na paróquia de Nossa Senhora da Soledade de Abaité, pertencente ao
município de Igarapé-Mirim, onde estavam distribuídos 4.957 pés de cacaueiros. Já
Francisco Bernardo da Silva, ao morrer, havia amealhado o engenho “Carnapijó”,
movido à água e a vapor, com todos os seus pertences, na ilha de Carnapijó, com uma
casa de vivenda e uma capela, tudo coberto de telha. Também, mais cinco “sortes de
terras”, sendo duas naquela mesma ilha – uma com quatro canaviais especificados -,
duas na Baía do Sol e a outra na ilha das Onças. A própria sociedade que o negociante
Henri de La Roque 97 mantinha com Ana Joaquina Rosa dos Santos Smith, igualmente
serve para exemplificar investimentos em bens rurais, por parte de sujeitos vinculados à

95
Ver, na Introdução, a discussão teórica sobre o assunto.
96
FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo., op. cit., pp. 104-108. Ver, também, FRAGOSO, João.,
op. cit., pp. 333-369.
97
Sobre Henri de La Roque, ver o Capítulo 3.

152
atividade mercantil. Os dois eram donos do engenho “São Matheus”, movido à água e a
vapor, com todos os seus pertences, na ilha do Outeiro, com moendas para fabricar
açúcar, três alambiques para a destilação de aguardente, casa de purgar e canaviais.
Ainda, do sítio “Água Boa”, que não teve a sua localização registrada.
O investimento em bens rurais, da mesma forma que o detectado para os
imóveis urbanos, contém duas explicações. Por um lado, não se pode desconsiderar as
oportunidades de obtenção de rendimentos que aquelas pessoas enxergavam em tais
empreendimentos. Pelo menos para os casos de negócios envolvendo o cultivo de cacau
e engenhos de açúcar, lembro o visualizado nos Gráficos 1-2 e 1-3, no tocante aos
crescentes volumes exportados que esses gêneros tiveram entre os anos de 1847 e 1862,
apresentando um ligeiro declínio somente de 1862 a 1867. Muito embora esses dados
não tratem das receitas geradas pelas exportações, é certa a indicação de suas tendências
no sentido de que, se as produções de cacau e açúcar, no Pará, estava m, de um modo
geral, progredindo, existia demanda para tanto e, assim, algum nível de lucrativid ade em
tais negócios.
Entretanto, outra motivação, até mesmo mais preponderante, orientava aquelas
opções. O investimento em bens rurais era, também, uma das estratégias usadas pelos
donos de fortunas mercantis em reproduzir as diferenças existentes entre os grupos
sociais e, portanto, das relações de poder que davam vida à sociedade e à economia
locais. Em uma sociedade agrícola, a criação e/ou reprodução das redes clientelares
ocorre, em grande medida, no meio rural. Evidentemente não se trata aqui do mesmo
tipo de hierarquia social baseada na relação senhor-escravo, trabalhada por Fragoso e
Florentino ao analisarem as inversões de capital realizadas pela elite mercantil do Rio
de Janeiro na virada do século XVIII para o XIX. A noção de “ideal aristocratizante”
usada pelos autores para explicar a lógica econômica dessa elite identificava-se não
somente com a afirmação de uma certa distância em relação ao mundo do trabalho,
antes mencionada, mas, igualmente, com o ser senhor de terras e de homens. 98
Portanto, muito embora as opções de investimentos entre esses dois grupos de elite
estivessem permeadas de interesses relativos à conquista e/ou a manutenção de prestígio
social, ou seja, fossem movidas por um “ideal aristocratizante”, as relações de poder
presentes em Belém e no Rio de Janeiro eram assentadas sob bases diferentes. É certo,
98
Cf: FRAGOSO, João & FLORENTINO, Manolo., op. cit., pp. 104-108; FRAGOSO, João., op. cit.,
333-369.

153
contudo, que não estou desconsiderando o significado da propriedade cativa como fator
de diferenciação social entre os homens livres. Afinal, a própria instituição da
escravidão se fazia presente no Pará. De todo modo, é correto que, tanto pelo próprio
número absoluto dos cativos, quanto pelo percentual dos mesmos no todo da população
provincial, como exposto anteriormente, o ser senhor de homens naquela região não
tivesse o mesmo peso na construção e na reiteração da hierarquia sócio-econômica,
como o tinha em áreas onde o escravismo se encontrava mais articulado.
Espero ter ficado claro na seção anterior que a mão-de-obra cativa não era
essencial nas atividades rurais, e mesmo em nenhum outro setor da economia de Belém
durante o período aqui privilegiado. Vendo-se apenas os escravos arrolados nos
inventários de Francisco Antônio de Miranda, Ana Joaquina Rosa dos Santos Smith,
Joaquim Antônio da Silva Vilaça e Franc isco Bernardo da Silva, fica patente o
afirmado. Dos 31 cativos de Francisco Antônio, 16 eram homens e 15 mulheres, sendo
que, no total de ambos os sexos, 5 eram crianças, 16 adultos e 10 idoso. Além do mais,
entre os do sexo masculino, 13 tiveram ofício s de pedreiro, servente de pedreiro,
servente de obras, aprendiz de carpinteiro e alfaiate, especificados. No caso de Joaquim
Vilaça, foram 12 escravos – 6 homens e 6 mulheres: 7 crianças, 4 adultos e 1 idoso.
Francisco Bernardo, por sua vez, tinha 58, com 30 do sexo masculino e 38 do feminino,
dos quais 14 eram crianças, 32 adultos e 13 idosos. Já para Ana Joaquina, foram
registrados 120 escravos, sendo 64 ho mens e 56 mulheres, e perfazendo 37 crianças, 55
adultos e 28 idosos. Isto posto, percebe-se, no geral, um relativo equilíbrio na
proporção de homens e mulheres, bem como a quantidades de crianças e idosos cativos
representando cerca da metade da escravaria e, assim, a existência de plantéis que não
estavam sendo renovados através da compra. Tal opção econômica aponta, em última
análise, para a disponibilidade de um outro tipo de mão-de-obra, que não a cativa, com
possibilidades de ser utilizada nas propriedades rurais daqueles inventariados. Uma
força de trabalho, possivelmente, de livres pobres e guardando diferentes vínculos com
os donos daquelas propriedades no meio rural. 99

99
Não é possível precisar qual a natureza desses de vínculos, pois tal problema não se constituiu em um
objetivo da pesquisa que originou este estudo. De todo modo, pelo menos no caso de uma propriedade
rural de Henri de La Roque, no ano de 1858, colonos alemães trabalhavam na cultura da cana ao lado de
escravos negros. Ver o Capítulo 3.

154
Ao investirem, pois, em bens rurais, os sujeitos que tinham as suas fortunas
vinculadas a negócios mercantis avigoravam as relações de poder, via relações de
trabalho, ou mesmo de outros tipos - quem sabe de compadrio e amizade, dentre outras -
que organizavam a economia e a sociedade de Belém no período. Relações de poder
estas que envolviam homens livres, demarcando- lhes os espaços que cada grupo
ocupava na hierarquia social local, e que precisavam ser continuamente vivificadas.
Isto porque, tomando como base o proposto por Stone acerca da estratificação social,
pertencer à elite pressupunha contínuos esforços por parte dos seus integrantes. 100 Os
que estavam naquela posição não a tinham como propriedade; antes, fazer parte da elite
significava ocupar um determinado locus na pirâmide da sociedade. Talvez, em parte
como uma decorrência dessa necessidade, existisse uma capela no engenho “Carnapijó”,
de Francisco Bernardo da Silva. Sem desconsiderar os sentimentos religiosos da família
do seu proprietário, ao representar um espaço de sociabilidade, a capela pudesse ser
utilizada, também, com a finalidade de Francisco em conseguir ascendência sobre os
chamados grupos subalternos, por meio das pessoas que moravam dos arredores do
engenho, ou mesmo lá trabalhassem. 101 Quem sabe até parte das embarcações de
Francisco Bernardo pudessem ser utilizadas para o transporte de representantes daqueles
grupos, que não residissem na própria ilha de Carnapijó, quando da realização de
alguma cerimônia na capela de sua propriedade, pois foram inventariados, além de um
batelão, cinco canoas prontas e uma em construção, bem como três montarias.
Da mesma forma, é possível que, em parte, explique-se a existência de um
cemitério em uma propriedade do Major e Comendador Domingos Borges Machado
Acatauassú, em Abaité, onde foi enterrado o escravo Joaquim Manoel, registrado no
inventário de Joaquim Vilaça. Pertencendo a uma família tradicional de proprietários
rurais do Pará, esse membro dos Acatauassú devia acreditar que, ao oferecer um lugar
para o descanso eterno dos que morriam, os familiares e amigos dos mesmos lhe teriam,
pelo menos, gratidão e, assim, poderiam ser incluídos na sua base de poder social.
Tendo cedido o seu cemitério para o enterramento de um cativo, o Comendador devia

100
STONE, Lawrence. La Crisis de la Aristocracia, 1558-1641. Madrid: Alianza, 1985, p. 38.
101
João Fragoso apontou possibilidades semelhantes a esta, acerca do uso de capelas, para a nobreza da
terra do Rio de Janeiro no século XVII. Cf: FRAGOSO, João. “Um mercado dominado por ‘bandos’:
ensaio sobre a lógica econômica da nobreza da terra do Rio de Janeiro seiscentista”. In: SILVA,
Francisco Carlos Teixeira da; MATTOS, Hebe Maria & FRAGOSO, João (orgs.). Escritos sobre
História e Educação – Homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Mauad; FAPERJ,
2001, pp. 251-252.

155
estender essa mesma prática a livres pobres das cercanias, os quais, ao terem um ente
querido próximo à morte, fossem lhe fazer tal tipo de solicitação. Até Joaquim Vilaça,
que deve ter sido o responsável pela realização do sepultamento do escravo Joaquim
Manoel, provavelmente recebera alguma espécie de reconhecimento pelo gesto que
teve, por parte das pessoas que queriam bem ao cativo.
Por fim, expressando ainda os interesses relativos à promoção social, entre
pessoas e/ou famílias vinculadas a fortunas mercantis, servem, como exemplo, as
inúmeras confrarias das quais Francisco Bernardo da Silva fazia parte, identificadas
através do seu testamento, anexado ao seu processo de inventário. Eram elas: Ordem
Terceira de São Francisco da Penitência, e as irmandades de Santo Cristo do Forte,
Santa Casa da Misericórdia, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Conceição,
Redenção das Almas e Senhor Jesus dos Navegantes. 102 Não foi possível ter
conhecimento aqui sobre serem essas associações sediadas no Pará ou em outro local, e
mesmo os perfis de todas. Em todo caso, a da Misericórdia era extremamente
prestigiosa em todos os lugares em que existia à época, além de representar uma
instância reconhecidamente importante em atividades de assistência pública. Na
Província paraense, dirigia um hospital e o cemitério de Nossa Senhora da Soledade,
bem como mantinha, sob a sua tutela, expostos familiares em recolhimentos, orfanatos e
casas particulares, voltando-se, assim, especialmente ao auxílio de pobres e indigentes
sociais. 103 A Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, por sua vez, à semelhança
da Misericórdia, caracterizava-se pela escolha seletiva de seus membros em todas as
suas unidades e, pelo menos na do Pará, era formada, em sua maioria, por comerciantes,
militares, altos funcionários do governo e profissionais liberais. 104 Já as de Santo
Cristo, igualmente as outras duas, era bastante prestigiosa e possuía prerrogativas
semelhantes às da Ordem de Cristo. 105 Por um lado, em função das próprias restrições

102
Segundo Aldrin Figueiredo, as associações religiosas de leigos estavam divididas, principalmente, em
irmandades e ordens terceiras, e existiam, em Portugal, pelo menos desde o século XIII, voltando-se para
a assistência aos irmãos de fé ou aos pobres e indigentes da localidade. Quanto às ordens terceiras,
especificamente, estavam ligadas em geral às ordens religiosas conventuais, o que conferia um grande
prestígio a esse tipo de associação. Cf: FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Inimigos de Classe e Irmãos de
Fé: confrarias, devoções e religiosidades na Amazônia do século XIX. Belém: 1997, p. 8 (mimeo.).
103
Idem, p. 19; VIANNA, Arthur. A Santa Casa da Misericórdia Paraense. Notícia Histórica, 1650-
1902. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1992 (1ª edição de 1902); e ABREU, Laurinda. “O papel
das Misericórdias dos ‘lugares de além-mar’ na formação do Império Português”. In: História, Ciências,
Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro: Vol. 8 (3), set.-dez., 2001, pp. 591-611.
104
FIGUEIREDO, Aldrin Moura de., op. cit., p. 19.
105
Idem, p. 21 e nota 69.

156
vigentes na aceitação dos seus membros, é certo que Francisco Bernardo, ao ter
integrado essas confrarias, conquistou não somente importantes espaços de
sociabilidade com pessoas possuidoras de prestígio social, como, provavelmente,
constituiu redes de amizades com as mesmas. Da mesma forma, como decorrência das
atividades desenvolvidas junto aos pobres, sobretudo no caso da Misericórdia, torna-se
possível imaginar que tenha conseguido status social, posto que aquelas eram
entendidas, pelo menos em tese, como manifestações de sentimentos de caridade.
Portando expectativas de promoção social, há, por fim, a vontade de Manoel
Lourenço de Matos, irmão de Raimundo Severino de Matos, relativamente à forma
como deveria ser procedido o seu enterro. Lembro que Raimundo era o Arcediago,
referido anteriormente, envolvido com transações mercantis, juntamente com um
parente seu, Francisco Henrique de Matos. Ademais, Manoel Lourenço e Raimundo
Severino tinham uma irmã, por nome Francisca Leonarda de Matos, a qual tinha um
genro que era Cavaleiro da Ordem de Cristo, Licínio Jansen Hesketh. Os Hesketh, por
seu turno, contavam, entre os seus membros, com John Hesketh, Cônsul Britânico no
Pará.106 Pois bem, ao preparar o seu testamento, anexado ao seu inventário, Manoel,
que era Coronel, disse:

“(...) quero ser sepultado com a mortalha de Cristo, e condusido o meu corpo na tumba da
Misericórdia, e sem os aparatos inerentes as honras que goso (...)”.

Sendo a vestimenta do seu cadáver, muito provavelmente, a mortalha da Irmandade do


Senhor Santo Cristo – aquela mesma a qual pertencia Francisco Bernardo da Silva -,
Manoel Lourenço demonstrava fazer questão de lembrar, à hora da sua morte, que era
irmão de uma prestigiosa confraria religiosa. Também, o mesmo pode ser dito sobre o
seu desejo de ser conduzido no caixão da Misericórdia. Sem desconsiderar os seus
sentimentos religiosos e a sua vontade de alcançar o Paraíso, é provável que fossem
esses os últimos esforços do Coronel em legar a sua família o prestígio social adquirido
ao longo da vida.

106
APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano: 1859, doc. 09.

157
Procurei analisar, neste capítulo, as características gerais da economia de
Belém, a fim de explicar os mecanismos que permitiram ao grupo vinculado
predominantemente à atividade comercial ocupar o topo da hierarquia econômica de
Belém, durante os anos de 1850 a 1870. Da mesma forma, em virtude da sociedade
local ser de tipo pré-industrial, tentei entender o motivo de parte das fortunas mercantis
terem sido aplicadas em outros setores econômicos que não geravam o mesmo montante
de rendimentos que aquela, a exemplo das aquisições de bens rurais e prédios urbanos.
Como uma decorrência de todas essas questões, verifiquei, também, a dificuldade de se
considerar especialmente os sujeitos ligados ao comércio e às atividades rurais de forma
separada. Finalmente, por meio de alguns exemplos encontrados entre os donos das
maiores riquezas inventariadas, busquei demonstrar algumas tentativas de pessoas, e/ou
de suas famílias, que tiveram a maior parcela de seus montes-brutos originadas de
negócios mercantis, de conquistar e/ou manter prestígio social.
No próximo capítulo, tomando como base as discussões acima, serão
trabalhados especificamente alguns grupos de famílias da elite local que, seja por seus
investimentos econômicos, seja por suas alianças familiares e de amizades, agregavam
interesses na agricultura, no comércio e no extrativismo, sendo que, dentro deste,
particularmente o que tocava à goma elástica. Serão ainda analisadas algumas das
estratégias que permitiram aos integrantes dos ditos grupos possuir inserção na
administração e política provinciais, bem como a maneira pela qual essas duas esferas
pensavam o crescimento da economia da borracha. Adianto que esse posicionamento
frente ao setor da economia paraense que mais se expandia à época guardava profundos
interesses na manutenção da desigualdade social e econômica detectada no presente
capítulo.

158
CAPÍTULO III

Em busca das diferenças: elites, alianças, administração provincial e


hierarquia social.

Durante o Império, especialmente no segundo reinado, foi recorrente o debate


acerca de como promover o progresso e a civilização do Brasil. 1 No Pará, esse debate,
conforme irei analisar na segunda seção deste capítulo, mais do que expressar uma
oposição entre a agricultura e o extrativismo, estava propondo, dentre outros elementos,
um remodelamento das práticas de trabalho vinculadas às atividades de extração.
Assim, por meio do material encontrado em periódicos e em Relatórios de Presidentes
de Província, pelo menos para alguns grupos da elite paraense, desde que aquelas
práticas de trabalho fossem modificadas, os rendimentos provenientes da produção e da
comercialização da goma elástica eram vistos como capazes de viabilizar os projetos de
desenvolvimento tão acale ntados pelos políticos locais. Sendo o aumento nos
rendimentos dos cofres públicos visto, pelos políticos do período, como uma das
condições para a implementação de medidas que pudessem levar o Pará à civilização e
ao progresso, torna-se difícil pensar que esses mesmos sujeitos iriam estar
simplesmente fechando os seus olhos para as crescentes rendas geradas pela exploração
gomífera.
Além do mais, para o entendimento da forma pela qual a administração e a
política paraenses pensavam o negócio da borracha, durante os anos iniciais de

1
Na segunda seção deste capítulo será feita uma análise sobre o tema, bem como definido o que estou
entendendo por estas duas noções.

159
crescimento do mesmo, não se pode deixar de considerar os rendimentos que esse ramo
da economia local estava gerando aos particulares. Tendo-se em vista a própria
2
natureza pré- industrial da economia em questão , existiam diferentes tipos de relações
sociais que articulavam os grupos ligados ao extrativismo, à agricultura e ao comércio 3 .
Não somente é difícil considerar uma determinada pessoa como estando vinculada a
apenas uma atividade econômica, conforme visto no capítulo anterior, como, também,
as alianças familiares, por exemplo, constituíam-se em um poderoso elemento que
vinculava especialmente os grupos ligados majoritariamente ao comércio e a atividades
rurais. Nem menciono os seringalistas, porque os agentes assim comumente
caracterizados, somente irão se fazer presente, em número considerável, grosso modo, a
partir de fins da década de 1870, quando o chamado sistema de aviamento passa a ser
dominante na exploração gomífera. 4 De acordo com o que foi apresentado no primeiro
capítulo, a grande maioria das pessoas que se dedicava à coleta da borracha, até aquele
período, ainda era formada por trabalhadores independentes, ou seja, sem os vínculos
formais com as casas aviadoras que irão ser verificados posteriormente. De qualquer
forma, como já foram apontados alguns exemplos no primeiro capítulo e que serão
apresentados mais detalhadamente a seguir, é possível encontrar pessoas pertencentes a
famílias com longa tradição na política paraense, que estavam, simultaneamente, ligadas
às atividades comerciais e rurais e, em certos casos, extrativas.
Na próxima seção, portanto, através do que João Fragoso chamou de “micro-
história tapuia”, pois é lacunar e incompleta, em função, por exemplo, das próprias
fragilidades dos arquivos brasileiros 5 , buscarei seguir alguns nomes de indivíduos que,
ligados a diferentes atividades econômicas - seja por investimentos próprios, seja por
suas alianças fa miliares -, poderiam, também, contribuir para a discussão dos projetos
políticos paraenses. Através de indícios na documentação trabalhada, o interesse desta
2
A discussão teórica sobre este assunto está na Introdução.
3
Chamo a atenção de que, ao dizer que um determinado grupo era ligado a uma daquelas três atividades
econômicas, não estou perdendo de vista que o mesmo poderia estar vinculado a mais de uma delas, o
que, como será exposto, ocorria em vários casos. Na verdade, tal tipo de classificação está baseado na
atividade econômica pela qual as fontes consultadas reconheciam as pessoas que, aqui, estão agregadas
naqueles grupos.
4
Explicações sobre o sistema de aviamento podem ser encontradas em diversas obras; ver, dentre outras:
WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993, pp. 19-51; e SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia (1800-1920).
São Paulo: T.A. Queiroz, 1980, pp. 155-175.
5
FRAGOSO, João (b). “Afogando em nomes: temas e experiências em história econômica”. In: Topoi.
Revista de História. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ; 7Letras,
set. 2002, n. 5, p. 63.

160
parte do texto é analisar a existência de uma rede de relações sociais que articulava
especialmente os grupos ligados ao comércio – alguns destes com interesses claros no
negócio da borracha - e a agricultura e/ou criação de gado, possuindo ambos espaços de
participação na administração e política provinciais, mesmo que, em alguns casos,
indiretos. Na medida do possível, tentarei mostrar que as relações entre aqueles grupos
remontavam mesmo a fins do século XVIII e que, alguns dos mesmos assim articulados
durante o II Reinado, tinham construído o seu prestígio ainda na época colonial, ou seja,
parafraseando Weinstein6 , pertenciam aos grupos familiares da “elite tradicional”
paraense.
Em seguida, fazendo uso de jornais e Relatórios de Presidentes de Província,
apontarei que, mais do que uma recusa em relação aos benefícios econômicos que a
borracha proporcionava, em volumes cada vez maiores, aos cofres públicos, o que
gerava receio entre políticos e administradores locais eram as práticas de trabalho
vinculadas ao extrativismo. Assim, tendo como base as análises sobre como
especialmente os setores ligados ao comércio e às atividades rurais estavam articulados
– alguns daqueles primeiros com fortes interesses na produção e comercialização da
goma elástica -, possuindo os dois grupos, portanto, espaços de participação nos
círculos políticos locais, demonstrarei que as críticas feitas ao negócio da borracha
estavam relacionadas ao desejo que, pelo menos, parte da elite paraense tinha em
reforçar seus mecanismos de ascendência social sobre as chamadas camadas
subalternas. E isto porque era a hierarquia social bastante desigual, apontada
anteriormente, que sustentava a organização econômica e a sociedade da época.

6
WEINSTEIN, Barbara., op. cit.

161
1. Alianças sociais: as “boas relações” como estratégias.

Sabe-se que, em sociedades não sujeitas ao sistema de mercado, a economia se


encontra perpassada pelos diferentes tipos de relações sociais travadas entre seus
membros. Deste modo, não há uma busca pelo lucro stricto sensu, prevalecendo, pois,
nas motivações dos sujeitos, determinados interesses sociais, a exemplo do prestígio
social e da subsistência. 7 Tendo como base este pressuposto, em vista do próprio
interesse na reiteração de uma hierarquia desigual, os sujeitos procuram realizar
diferentes tipos de alianças sociais (parentais e amizades, dentre outras), justamente
com o intuito de conquista e/ou manutenção de uma posição diferenciada na sociedade
que integram.
De forma diferente das análises apresentadas por grande parte da historiografia
sobre o tema para a região, que, conforme discutido no primeiro capítulo, acaba
atribuindo uma separação entre os grupos ligados ao comércio e às atividades rurais
(agricultura e/ou pecuária), o argumento a ser desenvolvido visa demonstrar dois
pontos. Por um lado, pelo menos parte do que se pode considerar como a elite
tradicional paraense, durante meados do Oitocentos, tinha nas suas famílias de origem
vínculos com a atividade comercial. Por outro lado, o estabelecimento de relações
sociais entre os grupos ligados às duas atividades mencionadas, particularmente no
decorrer do século XIX, constituía-se, na verdade, em alianças estratégicas que lhes
possibilitariam tanto a consolidação de seus negócios, quanto o acesso aos benefícios a
serem obtidos junto à administração provincial. Assim, as alianças feitas entre o setor
ligado majoritariamente ao comércio, e as famílias tradicionais de proprietários rurais
do Pará, sobretudo durante o século XIX, têm que ser entendidas como portadoras de
benefícios para ambos os grupos. Para os primeiros, as mencionadas alianças eram de
fundamental importância, pois poderiam representar inserção social e acesso a
determinados cargos públicos e/ou aos que os controlavam; e, para os segundos, em

7
POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus,
2000. Outras análises de cunho teórico sobre o tema podem ser encontradas em: MARX, Karl.
Formações Econômicas Pré-Capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991; e KULA, Witold. “Da
Tipologia dos Sistemas Econômicos”. In : FOURASTIE, Jacqueline (org.). Economia. Rio de Janeiro:
Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1981, pp. 75-140. Uma discussão mais ampla sobre o assunto está
na Introdução.

162
função dos benefícios para os seus negócios que lhes poderiam ser advindos a partir do
estabelecimento de “boas relações” com o grupo que controlava a liquidez da economia
em questão. Mais ainda: as ditas alianças serviriam para ambos os grupos
conquistarem e/ou reforçarem posições de destaque no interior da hierarquia social
local. 8 Somente se forem levadas em consideração tais questões é que pode ser
entendida a recorrência dos casamentos entre pessoas ligadas ao comércio e a atividades
rurais, conforme irão ser apresentados nos grupos de famílias aqui privilegiados.
Ressalto, entretanto, que o interesse desta discussão é somente o de apontar a
importância das mencionadas redes de relações sociais para o funcionamento da
economia estudada, bem como para a própria reiteração da hierarquia social paraense.
Não se apresenta, portanto, como objeto de estudo deste trabalho, o detalhamento de
como eram constituídas aquelas mesmas redes. É necessário sublinhar, neste momento,
que a importância das alianças sociais e o acesso às esferas da política, tanto para o
acúmulo de cabedais quanto para a preservação do locus social, por parte dos diferentes
setores da elite, não é uma particularidade do Grão-Pará. Em verdade, tais aspectos são
característicos de sociedades pré- industriais, já tendo sido observados para outras
regiões do Brasil, especialmente durante o período colonial. 9

8
Estudos sobre a América espanhola, desde a década de 1970, já chamavam a atenção para a importância
das redes parentais com o intuito de conquista e/ou de manutenção de riqueza material e prestígio social
entre famílias de elite. John Kicza, por exemplo, ao analisar tais grupos na Cidade do México entre 1770
e 1821, afirma terem sido tanto a diversificação dos investimentos, quanto a realização de casamentos e
de alianças com representantes da Coroa, fundamentais para a solidificação de seu status e preservação de
suas fortunas durante gerações. Em vista desses fenômenos, não é possível, portanto, pensar os grupos
ligados, por exemplo, ao comércio e à agricultura de forma separada, sendo que, inclusive, alguns
comerciantes peninsulares foram absorvidos, por meio de matrimônios, pela elite crioula. Cf: KICZA,
John (a). Empresarios Coloniales. Familias y negocios en la ciudad de México durante los borbones.
México: Fondo de Cultura Económica, 1986, pp. 27-58 e 173-202. Outras obras, que também ressaltam a
importância das alianças parentais entre os setores de elite na mesma área, são: BRADING, David.
Miners and Merchants in Bourbon Mexico, 1763-1810. Cambridge: Cambridge University Press, 1971; e
LADD, Doris. The Mexican Nobility at Independence, 1780-1826. Austin: University of Texas Press,
1976. Ainda, para um balanço sobre os estudos, feitos basicamente nas décadas de 1970-80, acerca da
composição da elite, do papel e do status de mercadores e proprietários rurais, bem como das estratégias
utilizadas por determinadas famílias a fim de manterem riqueza material e prestígio social durante
gerações, em diferentes regiões da América Latina colonial, cf: KICZA, John (b). “The Social and Ethnic
Historiography of Colonial Latin America: The Last Twenty Years”. In: The William and Mary
Quarterly, 3d Ser., Vol. 45, 1988, pp. 455-461.
9
Tiago Gil, por exemplo, a partir do “bando” liderado por Rafael Pinto Bandeira, analisa como a prática
do contrabando de couro e de gado, no Rio Grande de São Pedro setecentista, estava assentada em redes
de relações sociais e postos de governo. Cf: GIL, Tiago Luís. Infiéis Transgressores: Os contrabandistas
da fronteira (1760-1810). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2003 (Dissertação de
Mestrado em História). Ainda no período colonial, sobre o papel dos postos de comando e das redes
sociais para a constituição da elite no Rio de Janeiro dos séculos XVI e XVII, existem os diferentes
estudos de João Fragoso, que ainda serão citados no decorrer deste capítulo. No que tange ao Império

163
O exposto no parágrafo acima me permite retomar uma questão já anunciada
na Introdução. Refiro- me a algumas diferenças observadas na constituição, ou melhor,
nas formas de acumulação de riqueza material, entre a elite paraense durante os séculos
XVIII e XIX. Como será possível perceber, muitos dos grupos que estou chamando de
elite tradicional, durante a segunda metade do século XIX, tinham nas suas famílias de
origem, ou seja, ainda no período colonial, ví nculos com o comércio. De fato, no
Setecentos, pelo menos entre os sujeitos e as famílias aqui trabalhadas, de um modo
geral, foi bastante difícil estabelecer uma separação entre os investimentos rurais e os
comerciais. Mais ainda, tratavam-se de grupos que estavam ligados aqueles setores
econômicos, ocupavam cargos públicos, e tinham seus mecanismos de acumulação de
cabedal assentados, em larga escala, no recebimento de mercês. Por seu turno, no
decorrer do século seguinte, nota-se, com maior nitidez, o aparecimento de um grupo
dedicado predominantemente à atividade comercial, composto, em número considerável
por não brasileiros. Pois bem, algumas pessoas que o compunham, visando o alcance
de inserção social, até mesmo porque isto poderia facilitar a realização dos seus
negócios e, portanto, a ampliação das suas fortunas, irão estabelecer alianças com os
setores da elite que já estavam na região há mais tempo, i.e., aquele grupo que chamei
de elite tradicional paraense. Dito de maneira resumida, é perceptível o maior relevo
das formas de acumulação mercantis, no decorrer do Oitocentos, em detrimento do
sistema de mercês vigente na época colonial. 10 Com isto, não estou desconsiderando,
no século XIX, a profunda relação ainda guardada entre as esferas da política e da
economia, tampouco a preponderância de uma lógica econômica que não dizia respeito
somente ao lucro. Sem dúvida, seja no século XVIII, seja no XIX, a economia sob

brasileiro, a aplicação da idéia de “redes”, com os interesses que mencionei, ainda precisa ser mais bem
trabalhada. Maria Fernanda Martins, no entanto, em uma pesquisa em curso, tem lançado importantes
contribuições neste sentido. Em texto recente, Martins apontou que, em diversas ocasiões, os membros
do Conselho de Estado, nos pareceres que formulavam sobre as consultas feitas a esta instituição,
deixavam transparecer suas posições pessoais naqueles documentos. E isto em função de, não raro, os
conselheiros estarem avaliando pedidos de seus próprios sócios, amigos e familiares. Cf: MARTINS,
Maria Fernanda Vieira. O Oráculo ou o “Império das Necessidades”: O Conselho de Estado, 1842-
1889. Rio de Janeiro: 2003 (Texto inédito).
10
Situação semelhante foi analisada para o Rio de Janeiro, onde, no decorrer do século XVIII, a “nobreza
da terra” e suas práticas de enriquecimento começaram a perder espaço para grupos sociais e formas de
acumulação mais marcadamente mercantis. Cf: FRAGOSO, João. “A noção de economia colonial tardia
no Rio de Janeiro e as conexões econômicas do Império português: 1790-1820”. In : FRAGOSO, João;
BICALHO, Maria Fernanda Baptista e GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. O Antigo Regime nos
Trópicos: A Dinâmica Imperial Portuguesa (Séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2001, especialmente pp. 331-338.

164
análise era de tipo pré- industrial. As mudanças referidas nesse lapso de tempo devem,
pois, ser observadas como manifestações da elasticidade que os sistemas econômicos
possuem, ou seja, estes podem apresentar modificações em certas variáveis suas, sem
que, necessariamente, modifiquem-se. 11 Deste modo, muito embora eu destaque
aquelas diferenças nas formas de acúmulo de cabedal entre os dois períodos, ressalto,
também, a importância do estabelecimento de alianças sociais entre os diferentes grupos
da elite paraense oitocentista, conforme analisei mais acima neste capítulo. Ou, ainda,
procuro realçar, por exemplo, o papel de certos privilégios concedidos pela
administração provincial para a realização dos negócios entre certos grupos da elite
local. Estas questões deverão ficar mais bem esclarecidas no decorrer do capítulo.
Antes de prosseguir com a análise das formas pelas quais os grupos
econômicos paraenses estavam articulados, um esclarecimento de método é necessário.
Acredito que, tendo em vista a própria natureza da economia estudada, a qual, conforme
exposto, encontrava-se perpassada pelas relações sociais travadas entre os seus
membros, o recurso à metodologia de trabalho proposta pela micro-história italiana,
mais do que complementar, é mesmo necessária. Assim, inspirando- me na metodologia
proposta por Carlo Ginzbur g12 , optei por utilizar o nome como fio condutor para a
apreensão das redes de relações sociais que articulavam, em especial, proprietários
rurais e comerciantes.
Possivelmente em função de não terem se preocupado em buscar justamente as
variadas, e neste estudo já tão repetidas, relações sociais entre os grupos ligados ao
comércio e a atividades rurais, é que tenha se tornado idéia corrente na historiografia
uma suposta resistência para com o negócio da borracha, por parte da administração e
da política paraenses, durante os anos iniciais de crescimento daquela. Proponho, então,
que a tentativa de um mapeamento das formas pelas quais se articulavam os sujeitos à
frente da política e da administração, bem como dos que de alguma forma mantinham
relações com aquelas duas esferas, constitui-se em uma das chaves para o entendimento
da forma em que se inseria a produção e a comercialização da goma elástica nas

11
KULA, Witold., op.cit., pp. 108-110.
12
GINZBURG, Carlo. “O Nome e o Como: Troca desigual no mercado historiográfico”. In :
GINZBURG, Carlo. A Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa; Rio de Janeiro: Difel; Bertrand Brasil,
1991, pp. 169-178.

165
propostas de desenvolvimento do Grão-Pará de meados do Oitocentos. 13 Mais uma vez,
usando Ginzburg como suporte para a proposta que acaba de ser levantada, penso que,
se pretensões de um conhecimento sistemático e, como conseqüência, as abordagens
generalizantes, têm se revelado inviáveis e insuficientes, é preciso que se busquem os
“sinais”, “os indícios” das realidades que se pretende entender, que, neste caso, são as
formas de inserção dos três grupos ligados aos ramos de atividades mencionadas na
administração e política paraenses. 14
No entanto, conforme sugeriu João Fragoso, o recurso à micro-história, neste
estudo, não implica em abandonar o tempo largo. As trajetórias individuais e familiares
a serem aqui apresentadas, não serão entendidas apenas como meras ilustrações. 15
Antes, pretendo explicar essas trajetórias visando a compreensão da própria sociedade
em que estão inseridas, i.e., quais os recursos utilizados pelas mesmas a fim de
proporcionar a permanência de uma hierarquia social, onde a grande maioria das
pessoas estava excluída do acesso à riqueza e ao poder. 16 Deste modo, conforme será
apresentado no decorrer deste capítulo, as alianças - sobretudo as familiares -, entre os
grupos vinculados ao comércio e a atividades rurais, longe se serem meros acasos, têm
de ser percebidas como uma das estratégias para a permanência dos mesmos em
posições de destaque na sociedade local. Não sendo dessa forma, como explicar que

13
Desnecessário dizer que não estou trabalhando com a perspectiva de serem as propostas políticas,
voltadas para o desenvolvimento do Grão-Pará, meros reflexos de interesses econômicos nutridos por
seus formuladores. É evidente que, por mais que a lógica econômica dos sujeitos em sociedades pré-
industriais não estivesse baseada apenas na maximização de posições econômicas, a busca pelo lucro
também fosse um elemento importante. Mas, para além deste último elemento - como espero ter ficado
claro -, existia a preocupação com a própria manutenção das diferenças existentes na hierarquia social.
Assim, por exemplo, aquelas propostas políticas, mesmo vendo no negócio da borracha um importante
instrumento para a consecução dos seus objetivos, não deixavam de desejar uma modificação nas práticas
de trabalho tradicionalmente vinculadas às atividades de extração. Tal modificação, por sua vez,
conforme será discutido na próxima seção, guardava estreita vinculação com a mantença do status quo
excludente.
14
GINZBURG, Carlo. “Sinais. Raízes de um Paradigma Indiciário”. In: GINZBURG, Carlo. Mitos,
Emblemas, Sinais: Morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 177.
15
FRAGOSO, João (b)., op. cit., p. 63.
16
André Burguière, estudando os hábitos de sucessão e as estratégias de casamentos em várias regiões da
Europa, entre diferentes estratos sociais, durante o início do século XVI e fins do XVIII, considera que
tais práticas, na verdade, permitem ao pesquisador compreender aspectos mais amplos da sociedade em
que ocorrem. Segundo o autor: “Tal como aquelas gravuras de Escher em cujos contornos há uma
cavidade com uma outra imagem, como se fosse gerada pela que havíamos detectado em primeiro lugar,
as formas familiares fazem-nos ver, a partir do lugar que ocupam no espaço social, o que há para além
delas próprias e que designa a própria textura da sociedade.” Cf.: BURGUIÈRE, André & LEBRUN,
François. “As mil e uma famílias da Europa.” In: BURGUIÈRE, André et alli. História da Família. O
Choque das Modernidades: Ásia, África, América, Europa. Lisboa: Terramar, 1998, p. 82 (Volume 3).
(Grifo meu)

166
certas famílias importantes ainda durante o século XVIII, permaneçam de maneira
semelhante no decorrer da segunda metade do Oitocentos? É claro que não estou
perdendo de vista as diferenças existentes entre aqueles dois períodos; de qualquer
forma, em sociedades pré- industriais, determinados fenômenos sociais são coincidentes
e devem ser tratados como tais.
Antes de continuar com a discussão proposta, um breve esclarecimento deve
ser feito. Ao dizer que algumas das famílias consideradas como pertencentes à elite
paraense da segunda metade do século XIX, já ocupavam posições de destaque ainda no
Setecentos, não estou perdendo de vista que nem todos os grupos familiares, naquela
condição, durante o período colonial, puderam se manter enquanto tais no decorrer do
Império. O entendimento adequado dos motivos que levaram a essa – na falta de um
termo melhor – descontinuidade entre determinadas famílias, demandaria uma outra
pesquisa; no entanto, é evidente que as estratégias adotadas pelas mesmas, se
comparadas às dos grupos que aqui irão ser analisados, não foram suficientes para
mantê- las enquanto tais no século seguinte.
Como será possível perceber, muitas das famílias analisadas, vinculadas à
agricultura e/ou à criação de gado, bem como ao comércio, já tinham realizado alianças
familiares entre si em períodos anteriores à expansão do negócio da borracha. Tendo-se
em perspectiva o já discutido a respeito das limitadas opções de investimentos comuns
em economias pré- industriais, não seria espantosa a verificação de que algumas
daquelas famílias acabaram por se envolver com o setor da goma elástica, quando o
mesmo passa a crescer a partir da segunda metade do Oitocentos. Acrescentando-se a
isso que será especialmente no decorrer da década de 1870 que irão ganhar um maior
espaço as casas aviadoras controladas por firmas estrangeiras, 17 alguns membros
daqueles grupos aparentados das elites tradicionais é quem, em parte, tomarão
inicialmente a frente do negócio da go ma elástica. Ademais, sugiro que, possivelmente
em função do Pará somente ter alcançado um dinamismo econômico de maior monta
nas décadas finais do século XIX – devido à borracha -, situação agravada pelas
próprias limitações estruturais impostas aos investimentos em economias do tipo
estudado, o mercado matrimonial para as famílias da elite paraense fosse bastante

17
WEINSTEIN, Barbara., op. cit., p. 77. É possível que tais firmas já mantivessem vínculos comerciais
com casas sediadas no Pará antes do boom gomífero. Contudo, como chamei a atenção na Introdução,
escapou aos limites deste estudo trabalhar com tal tema.

167
restrito, o que torna verdadeiramente impressionante a forma pela qual grande parte dos
grupos familiares analisados estava aparentada entre si.
De qualquer forma, mesmo estando os grupos tradicionais da elite paraense
ligados à economia gomífera, alguns de seus membros, particularmente no caso
daqueles dedicados à atividade comercial, durante a segunda metade do século XIX,
eram estrangeiros. Sendo assim, cabe ainda uma explicação sobre os mecanismos
utilizados por esses sujeitos a fim de conseguirem inserção e consideração na sociedade
local. Como será visto, seja através do próprio matrimônio, seja através da participação
em atividades promovidas pela administração provincial, aquelas pessoas foram criando
espaços que lhes permitiram a conquista de estima social. Especialmente no caso dos
casamentos, trabalhando a partir da perspectiva de que as reciprocidades expressas no
que António Hespanha e Ângela Xavier analisaram como a “economia moral do dom”,
eram fundamentais na estruturação dos vários níveis de interação social em sociedades
de Antigo Regime, é que pretendo, portanto, entender as alianças realizadas entre
comerciantes estrangeiros e famílias tradicionais da elite paraense. 18 Explico melhor
este ponto. As alianças parentais entre aqueles dois grupos são aqui vistas como
relações de trocas diferentes, onde os primeiros, possuidores de prestígio social e
espaços de ingerência nos rumos da política provincial, e os segundos, controladores da
liquidez na economia em questão, trocavam entre si os bens que detinham. Sendo certo
que em sociedades pré- industriais o lucro não era o objetivo último das ações dos
indivíduos, mas sim a conquista e/ou manutenção de posições de prestígio, também não
há dúvidas sobre a importância de um certo nível de riqueza para a consecução daqueles
interesses relativos à própria hierarquia social. 19 Exemplifico o afirmado com a lógic a

18
Devo esclarecer que não estou fazendo uma simples transferência de práticas sociais comuns a
Portugal, durante um período bem anterior ao aqui privilegiado, ao Grão-Pará de meados do século XIX.
No entanto, conforme for sendo desenvolvida a argumentação no decorrer deste texto, espero que fiquem
claras algumas semelhanças entre aquelas, devido justamente se tratarem de sociedades pré-industriais e,
por isso, ciosas com a manutenção das diferenças existentes nas suas hierarquias sociais. Cf.: XAVIER,
Ângela Barreto & HESPANHA, António Manuel. “As Redes Clientelares.” In: HESPANHA, António
Manuel (coord.). História de Portugal – O Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1998, pp. 339-349
(Volume 4). Outra análise sobre as relações de reciprocidade, baseadas no “dom”, mas com um enfoque
antropológico, pode ser encontrada em: GODELIER, Maurice. O Enigma do Dom. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001.
19
Sobre Portugal durante o Antigo Regime, afirmam Xavier e Hespanha, “(...) é verdade que era exigido
um nível mínimo de riqueza para a manutenção digna de determinado status ou a prossecução de uma
estratégia de ascensão. Por estas razões, podia haver uma ‘quase-dependência’ de determinadas casas em
relação a certos financiadores. Ou seja, a oferta de bens econômicos, muitas vezes, era feita pelo pólo
socialmente inferior, em troca de bens simbólicos (possuídos pelo pólo superior) que permitiam aos
primeiros o acesso a posições de prestígio, de outro modo inatingíveis.” Cf.: XAVIER, Ângela Barreto &

168
que regia o investimento na atividade rentista, e a liquidez necessária para tanto,
trabalhadas no capítulo anterior.
Particularmente durante o período imperial, chamo ainda a atenção que, para os
comerciantes, além do prestígio, a inserção na s redes locais, por meio das mencionadas
alianças parentais, representava a possibilidade de realização dos seus negócios. Neste
sentido, as relações parentais não somente poderiam permitir o estabelecimento de
conexões com as esferas da política provincial e, em alguns casos, imperial, como
também o acesso à própria produção provincial. Sobre este último ponto, em especial,
destaco que várias das famílias de proprietários rurais tinham bases de poder social no
interior do Grão Pará, em áreas como, por exemplo, o Marajó, o Tocantins e o Mojú
(Ver Figura 3-1). Sendo assim, através dos matrimônios realizados, por exemplo, os
comerciantes, utilizando-se de relações sociais já possuídas pelas famílias de
proprietários rurais, certamente tinham mais facilidade em obter os gêneros produzidos
em diferentes áreas da Província. Somente se forem consideradas todas as questões
apontadas, acredito, pode ser explicada a recorrência dos casamentos entre proprietários
rurais e comerciantes nas famílias trabalhadas. 20 Mesmo não tendo sido possível
identificar as datas da grande maioria de tais uniões, como será possível perceber no
texto, as mesmas ocorreram repetidas vezes entre os séculos XVIII e XIX.

HESPANHA, António Manuel., op. cit., p. 343. Análises semelhantes também podem ser encontradas
para outras áreas. A respeito da importância da riqueza para a manutenção da “qualidade” da nobreza no
Rio de Janeiro seiscentista, escreveu Fragoso: “Na verdade, neste século, a constante oposição feita entre
propriedade de terras e escravos – sinônimo de nobreza – versus comércio e ofícios, signos de
inferioridade social, não era costumeira. Tais atividades estavam subordinadas a algo mais importante, ou
seja, à participação do comando da República. Continuar como nobre e, com isso, exercer os cargos de
direção da República significava ter cabedal (...). Cf.: FRAGOSO, João (c). “Um mercado dominado por
‘bandos’: ensaio sobre a lógica econômica da nobreza da terra do Rio de Janeiro seiscentista.” In:
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da.; MATTOS, Hebe Maria & FRAGOSO, João (orgs.). Escritos
sobre História e Educação – Homenagem à Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Mauad;
FAPERJ, 2001, p. 281.
20
Analisando a elite amazonense da segunda metade do século XIX, Ana Daou afirma terem sido os
casamentos uma importante estratégia, por parte de comerciantes estrangeiros, a fim de conseguirem
inserção e aceitação junto à sociedade local. Cf: DAOU, Ana. “Instrumentos e sinais da civilização:
origem, formação e consagração da elite amazonense”. In: História, Ciências, Saúde: Manguinhos. Rio
de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz; Casa de Oswaldo Cruz, vol. 06, set. 2000, pp. 872-873 (Suplemento
Visões da Amazônia).

169
170

Fonte: BATES, Henry Walter. Um Naturalista no Rio Amazonas. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São
Paulo, 1979. Adaptado pela autora.
Exemplifico o afirmado sobre as possíveis facilidades que sujeitos dedicados
ao comércio poderiam ter na viabilização dos seus negócios ao se inserirem nas redes
locais, por meio da realização de matrimônios. Tal é o caso do negociante Francisco
Gaudêncio da Costa, envolvido com a exportação da borracha, ao menos, na década de
1860. Sua mulher, Carlota Brício, era filha de Marcos Antônio Brício, Diretor Geral de
Índios e Comandante Superior da Guarda Nacional em diferentes municípios da
Província na década de 1860. Por outro lado, pela via materna, Carlota descendia da
família Pombo, a qual, desde o século XVIII, tinha propriedades rurais no Marajó – que
englobava algumas das principais áreas produtoras de borracha no Pará -, sendo que, em
uma delas, pelo menos, existiam inúmeras seringueiras. Lembrando-se que a maior
parte da goma elástica, no espaço de tempo aqui privilegiado, ainda era coletada pelos
nativos, de origem mestiça ou índia, torna-se lícito supor que, seja pelos claros sinais de
poder social dos Pombo no Marajó, como se verá adiante, seja pelo acesso à mão-de-
obra indígena, por parte de Marcos Antônio, não deveria haver dificuldade para
Francisco Gaudêncio ter acesso ao principal produto da economia paraense à época.
A partir do exposto, não há motivos para se estranhar que, logo em um
momento de incremento do comércio paraense – muito em função da crescente
produção e comercialização da borracha -, os setores ligados às atividades agrícolas e
comerciais estivessem articulados entre si através de alianças parentais. Tais alianças
não somente poderiam representar um instrumento para a manutenção da hierarquia
social existente 21 , mas, também, o acesso, para ambos os grupos, aos rendimentos que
aquele ramo da economia local estava proporcionando. Sobre este último ponto, em
particular, faço menção a dois tipos de benefícios passiveis de serem obtidos pelos
citados grupos, como decorrência de suas alianças. Por um lado, a progressão das
rendas provinciais – tributária da exportação da goma elástica -, permitiu à
administração paraense fazer crescer, também, as obras públicas, algumas das quais
foram arrematadas por pessoas pertencentes às famílias aparentadas de proprietários
rurais e comerciantes. Por outro lado, os rendimentos particulares mesmo dos
comerciantes, os quais, por meio de sua circulação entre as famílias de tradicionais

21
Sobre as alianças parentais como fator de estabilidade hierárquica em sociedades do tipo da aqui
estudada, cf.: BURGUIÈRE, André & LEBRUN, François., op. cit., pp. 75-82.

171
proprietários rurais, poderiam permitir a estes últimos reforçar a sua posição no interior
da pirâmide social local. 22
O objetivo desta seção do capítulo, portanto, é demonstrar as formas por que
estavam articulados os diferentes setores da elite paraense durante a segunda metade do
século XIX, chamando a atenção, sobretudo, para as alianças parentais entre os grupos
ligados à agricultura e ao comércio, com alguns destes últimos possuindo sinais
evidentes de interesses no negócio da borracha. Ademais, como várias das famílias que
compunham esses grupos tinham a sua presença no Pará remontando ao período
colonial, serão analisados os mecanismos utilizados pelos mesmos a fim de se
manterem no topo da hierarquia social do período, tais como as alianças parentais, a
ocupação de cargos públicos, e o financiamento de certas atividades pertencentes às
esferas da administração local. Chamo a atenção que, para facilitar a apresentação do
texto, optei por organizar as famílias por grupos, destacando, na medida do possível,
quando os mesmos estavam articulados, inclusive por meio de espaços de sociabilidade
em comum. Deste modo, espero que fique clara não somente a imbricação entre os
grupos ligados ao comércio e às atividades rurais no Grão-Pará, como, também, o gozo,
pelos mesmos, de prestígio social e político. Por fim, é importante mencionar que não
tenho a pretensão de abarcar todas as famílias do que pode ser considerado como
fazendo parte da elite paraense; no entanto, penso que os casos privilegiados são
bastante ilustrativos do grupo.

22
Análises semelhantes a esta, ou seja, sobre o estabelecimento de alianças entre diferentes setores de
elite, particularmente em um momento de conjuntura econômica favorável, podem ser encontradas para
outras regiões e períodos. David Hancock, por exemplo, estudando o Império britânico entre finais do
século XVII e início do XVIII, afirma que, em especial a partir de 1720, à medida que os diferentes
setores da elite metropolitana - classificados pelo autor como elites agrária, comercial e financeira -,
foram percebendo que poderiam tirar benefícios múltiplos dos arranjos políticos e financeiros que
remodelaram o Estado, permitindo-lhe a expansão imperial, não somente diversificaram os seus
investimentos, como realizaram alianças familiares entre si. Cf.: HANCOCK, David. Citizens of the
World. London Merchants and the Integration of the Bristish Atlantic Community, 1735-1785.
Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 125-143.

172
As famílias Henriques, Pombo, Brício, Ayres, Chermont e Miranda. 23

A primeira pessoa aqui escolhida para começar o relacionamento entre estas


famílias foi Ambrósio Henriques, português, casado com Dona Antônia Joaquina de
Oliveira e Silva. Ambrósio era um dos mais importantes negociantes e lavradores
locais. Exemplo disso é a declaração de José Justiniano de Oliveira Peixoto, Juiz de
Fora do Pará em 1772, que, ao dar o seu testemunho em um Auto de Justificação para
provar ser Ambrósio o legítimo herdeiro dos serviços de seu tio, João Henriques, e de
José de Barros Machado, disse ser o dito Ambrósio “(...) o homem de Negocio mais
rico, e mais importante deste Es tado.” 24 A importância de Ambrósio Henriques,
mencionada pelo Juiz de Fora, no entanto, não é devido somente a sua rique za material.
Patentes, cargos públicos e uma extensa e poderosa rede de alianças com representantes
da Coroa no Pará, as quais, ao que tudo indica, chegavam a Lisboa, parecem ter sido
instrumentos utilizados para o alcance de uma posição privilegiada na sociedade,
situação esta, aliás, bastante comum em sociedades de Antigo Regime. 25
Somente foi possível encontrar Ambrósio em três cargos públicos diferentes.
De qualquer forma, José Justiniano de Oliveira Peixoto, no mencionado Auto de
Justificação, disse ter Ambrósio Henriques ocupado todos os cargos da República que
Sua Majestade destinaria aos “melhores da terra”. 26 Assim, ao menos durante os anos

23
Chamo a atenção de que, mesmo tendo sido aqui agrupadas, estas famílias irão estar ligadas a outras,
segundo irá ser explicitado no decorrer desta seção. Tal escolha deveu-se apenas a uma tentativa de
sistematização das informações coletadas. Esta observação vale para os outros grupos familiares a serem
analisados. Ainda, no final de cada grupo de famílias consta um diagrama representando as relações
parentais identificadas. No entanto, quando for o caso de se fazer menção a um parentesco que não se
saiba exatamente qual a forma de inserção do sujeito na família, aquele estará apenas no corpo do texto, e
não na ilustração. Agradeço à Maria Fernanda Martins e à Martha Hameister, pelo auxílio na montagem
destes diagramas.
24
AHU – PA, doc. 8732.
25
Sobre a importância das alianças com representantes da alta administração do Império português, a fim
de que as elites coloniais reforçassem as suas posições no jogo político da Capitania a que pertenciam, ver
o estudo de João Fragoso sobre a elite senhorial do Rio de Janeiro do século XVII: FRAGOSO, João (c).,
op. cit., especialmente pp. 255-258. Do mesmo autor, sobre a os papéis desempenhados pela ocupação de
cargos públicos - como no Senado da Câmara - e pelo sistema de mercês - terras, patentes, cargos, por
exemplo -, para a formação de fortunas no Rio de Janeiro durante os séculos XVI e XII, cf.: FRAGOSO,
João (d). “A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro
(séculos XVI e XVII).” In: Topoi. Revista de História. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em
História Social da UFRJ; 7Letras, 2000, n. 1, pp. 52-102. Sobre a lógica que regia a concessão de mercês
pela monarquia portuguesa, cf.: XAVIER, Ângela Barreto & HESPANHA, António Manuel., op. cit., pp.
346-348.
26
AHU - PA, doc. 8732.

173
de 1777 e 1778, Ambrósio pertenceu ao Senado da Câmara de Belém. 27 Em 1796 e
1797, foi Tesoureiro Geral da Real Junta da Fazenda no Pará e Deputado da Junta da
Fazenda na mesma Capitania. 28 Aliás, cabe fazer referência, Ambrósio, juntamente
com mais três membros do Senado, em 1778, escreveram um requerimento à rainha D.
Maria, protestando contra a suspensão de suas funções como vereadores, pelo então
Governador do Estado do Grão-Pará e Rio Negro, João Pereira Caldas. Segundo este
documento, o motivo que teria levado o Governador a tomar aquela atitude, fora uma
petição enviada pelo mesmo Senado à Rainha, onde críticas eram feitas ao modo pelo
qual os administradores, encarregados da liquidação da Companhia de Comércio do
Grão-Pará e Maranhão, estariam desempenhando as suas funções. Foge aos limites
deste estudo adentrar nessa briga; no entanto, dois elementos podem dela ser retirados
para os fins da argumentação que ora desenvolvida. Um deles é o de estar, entre os
acusados de pertencerem à “facção” do Governador, Theodósio Constantino de
Chermont, o qual, por esse mesmo motivo, teria sido um dos eleitos para ocupar os
postos no Senado vagos pela suspensão citada. 29 Conforme será demonstrado mais
adiante, as famílias Chermont e Henriques acabarão se unindo posteriormente, através
de progressivos arranjos matrimoniais. Outro elemento que interessa aqui e que, por
isso, deve ser destacado, é o fato de, mesmo após ter entrado em desavença com Pereira
Caldas, a então autoridade máxima da Coroa no local, Ambrósio Henriques, ao que
parece, continuou com o seu prestígio, nos próprios circuitos políticos do Império
português, sem nenhum abalo.
De fato, em diferentes momentos – posteriores aos atritos ocorridos com
Pereira Caldas -, verificam-se relações de Ambrósio com Juízes de Fora na Capitania do
Pará, relações estas que podem fornecer interessantes indícios da extensão possível de
ser alcançada pela influência de Ambrósio Henriques. No ano de 1783, por exemplo,
em um requerimento assinado por Ambrósio e Feliciano José Gonçalves, era pedido, à
rainha D. Maria, para que o Juiz de Fora, Pedro Fialho de Mendonça, fosse mandado à
correição do crime da Corte, em função do mesmo ter sido autor de um “libelo de
injúrias” contra os suplicantes. O conteúdo do tal libelo nem aparece no documento

27
AHU – PA, doc. 6568.
28
AHU - PA, doc. 8571.
29
Sobre as tensões entre o Senado da Câmara de Belém e João Pereira Caldas, cf.: AHU – PA, doc. 6568.

174
consultado, mas o parecer do Conselho Ultramarino foi favorável ao requerimento. 30
As autoridades da Corte não deixaram de tomar atitudes favoráveis aos mencionados
colonos, mesmo que estas fossem de encontro, colocando em xeque mesmo, o poder
atribuído pela Coroa a um de seus maiores representantes da Justiça em Belém.
Imbricadas com o seu prestígio, estão as patentes que Ambrósio possuiu.
Alferes de Infantaria Auxiliar em 1777, foi promovido a Capitão da Tropa Ligeira
Auxiliar de Belém em 1780, posto que ocupou até 1794, quando foi promovido a
Coronel do Regimento de Infantaria Auxiliar de São José de Macapá. Em 1796, por sua
vez, passou para o posto de Coronel do 2º Regimento Auxiliar de Belém. 31 Note-se que
todas essas patentes possuídas por Ambrósio Henriques eram das Tropas Auxiliares da
Capitania, as quais, após a ascensão de D. José I à monarquia portuguesa, proliferaram
no Pará, chegando a substituir, em termos de importância militar, as Ordenanças. 32 Essa
mudança, segundo Shirley Nogueira, foi devido às constantes ameaças de invasão do
território colonial na região, por parte de França e Espanha, as quais dotaram as Tropas
Auxiliares de uma importância estratégica, visto que tinham como sua responsabilidade
a vigilância das fronteiras. 33 Muito provavelmente foi por esse motivo que as mesmas
Tropas, nos seus postos de oficiais, tornaram-se o lócus privilegiado dos sujeitos
classificados pelo Censo de 1778 como sendo “ricos” e de “possibilidade inteira”,
estando, pois, interessados em conquistar mercês da Coroa, após os serviços prestados à
mesma. 34 Além do mais, é importante destacar, as patentes de Ambrósio sugerem não

30
AHU – PA, doc. 7301. Para outros exemplos, ver: AHU-PA, doc. 7069; e AHU-PA, doc. 8571.
31
AHU – PA, doc. 8571.
32
As Ordenanças também se constituíam em tropas auxiliares. No entanto, no Pará, em 1752, foi criada
uma tropa chamada especificamente de Auxiliares, tendo como uma de suas principais funções o apoio às
regulares, ou de primeira linha, sobretudo quando se tratavam de situações envolvendo as fronteiras da
Capitania. Cf: NOGUEIRA, Shirley Maria Silva (a). “A Estrutura Militar no Grão-Pará Setecentista”.
In: BEZERRA NETO, José Maia & GUZMÁN, Décio de Alencar (Orgs.). Terra Matura: Historiografia
e História Social na Amazônia. Belém: Paka -Tatu, 2002, p. 199; e NOGUEIRA, Shirley Maria Silva (b).
Razões para Desertar: Institucionalização do exército no Estado do Grão-Pará no último quartel do
século XVIII. Belém: Universidade Federal do Pará; Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, 2000, p. 49.
(Dissertação de Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento)
33
NOGUEIRA, Shirley Maria Silva. (b), p. 49.
34
As outras categorias do Censo eram “possibilidade mediana” e “pobres”. Cf.: Idem, pp. 152-164. Não
se tem certeza se as classificações constantes nesse Censo fazem menção à riqueza material ou à
qualidade dos sujeitos. Um estudo feito especificamente sobre tal documento não esclarece a questão;
contudo, diz terem sido os vínculos familiares comuns entre as famílias englobadas nas categorias “ricos”
e “possibilidade inteira”. Cf: VELOSO, Euda Cristina Alencar. “Estruturas de apropriação de riqueza
em Belém do Grão-Pará, através do recenseamento de 1778”. In: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo
(org.). A Escrita da História Paraense. Belém: NAEA; UFPa, 1998, pp. 07-28. Sobre a importância das
mercês recebidas como remuneração pelos serviços prestados à Coroa portuguesa em áreas de conflitos,
cf.: MONTEIRO, Nuno Gonçalo F. “Trajetórias sociais e governo das conquistas: Notas preliminares

175
somente a posse, pelo mesmo, de poder local, como, também, reforçam a existência de
vínculos – antes mencionados – entre ele e autoridades do governo, posto que a
nomeação de oficiais para as Tropas Auxiliares era feita pelos Governadores.
Dentro da mesma lógica da “economia do dom”, com a tríade de obrigações de
dar, receber e restituir 35 , é que devem ser entendidos alguns outros elementos da
trajetória de Ambrósio Henriques. Dentro do já referido Auto de Justificação como
herdeiro dos serviços de seu tio João, e de José de Barros Machado, o Ouvidor-Geral e
Provedor da Fazenda do Pará em 1772, Matias José Ribeiro, destacou que Ambrósio
“nas necessidades publicas esta sempre prompto pra o precizo fornecimento dos Reaes
Armazéns”, além de ter prestado auxílio em diversas expedições da Real Fazenda pela
própria Capitania do Pará, assim como nas do Rio Negro e Mato Grosso. Neste
documento constam ainda outros serviços de Ambrósio: em 1777, ainda como Alferes
da Infantaria Auxiliar forneceu, de sua própria fazenda, alimentos e roupas aos soldados
da Fortaleza da Barra, quando para lá fora destacado. Durante a construção da Fortaleza
de São José de Macapá, iniciada em 1762, também com os seus próprios recursos,
forneceu alimentos para os operários encarregados da obra. 36 Talvez por todos esses
serviços prestados à Coroa, é que Ambrósio tenha sido recompensado ao receber os
cargos anteriormente mencionados na Junta da Fazenda do Pará, insinuação esta que
deve ser entendida enquanto tal, já que não foi possível localizar as provisões que o
colocaram naqueles cargos. Entretanto, é forçoso destacar que, sem perder de vista a
“cadeia infinita de atos beneficiais” que conformava a “economia do dom” 37 , Ambrósio
Henriques não se descuidou em continuar demonstrando a sua solicitude para com a
Coroa: exemplo disso foi ter mandado buscar, durante a década de 1790, com cabedal
próprio, instrumentos musicais na Europa para o treinamento do 1º Terço de Auxiliares
de Belém. 38
Diante da capacidade de prestar benefícios, demonstradas continuamente por
Ambrósio, e ressaltadas por representantes da alta administração do Império no Pará,

sobre os vice-reis e governadores-gerais do Brasil e da Índia nos séculos XVII e XVIII.” In: FRAGOSO,
João., BICALHO, Maria Fernanda Baptista & GOUVÊA, Maria de Fátima Silva (orgs.). O Antigo
Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001, pp. 251-283.
35
Cf.: XAVIER, Ângela Barreto & HESPANHA, António Manuel., op. cit., pp. 340-343.
36
AHU – PA, doc. 8732.
37
XAVIER, Ângela Barreto & HESPANHA, António Manuel., op. cit., p. 340.
38
AHU – PA, doc. 8473.

176
não há, portanto, motivos para se estranhar ter o mesmo uma sesmaria na Ilha Mexiana,
concedida em 22 de setembro de 1789, e confirmada no dia 06 de julho de 1803. 39
Aliás, o início dos anos de 1800 parece ter representado, no mínimo para o próprio
Ambrósio, o ápice de toda da uma vida de serviços prestados a Sua Majestade: em
1804, sentiu-se no direito de enviar um requerimento ao príncipe regente D. João,
solicitando a sua nomeação como Criado da Casa Real, com o foro de moço fidalgo ou
de fidalgo cavaleiro, e a mercê com o Hábito de Cristo e sua respectiva tença. 40 Não
consegui saber se essa mercê foi de fato recebida, pois, no documento, consta apenas o
parecer do Príncipe pedindo que outras Fés de Ofício fossem anexadas ao requerimento.
Adianto, por enquanto, que práticas beneficiais semelhantes às apresentadas, mesmo
que manipulando instrumentos de negociação distintos, e ocorrendo em meados do
século XIX para com a administração provincial do Pará, também irão ser encontradas
entre membros da elite local.
Foi no início do século XIX, também, que a família Henriques procurou
alicerçar as suas relações pessoais com importantes representantes da Coroa portuguesa.
Em 1801, Ambrósio e sua mulher, Dona Antônia Joaquina Oliveira e Silva,
promoveram o casamento de sua filha, Dona Maria do Carmo Henriques da Silva e
Oliveira, com Joaquim Clemente da Silva Pombo, Cavaleiro da Ordem de Cristo, ao
menos desde 1805. 41 O valor simbólico desse enlace pode ser ilustrado com a quantia
alcançada pelo dote feito pelo pai da noiva ao casal: R$ 20:800$000. 42
Não tenho informações sobre o tempo em que Joaquim ainda morava em
Portugal. Entretanto, ao se fixar na colônia, galgou importantes postos na burocracia
com uma grande rapidez. A data de sua chegada no Grão-Pará é o ano de 1797, quando
foi nomeado Juiz de Fora de Belém. 43 Entre 1798 e 1802, Joaquim passou a acumular
os cargos de Juiz de Fora e de Administrador da Alfândega de Be lém, sendo que este
último posto, até onde foi possível acompanhar na documentação, ocupou até o ano de
1811.44 Em 1803 recebeu a mercê de Ouvidor Geral da Capitania do Pará. 45 Entre 1804

39
ABAPP. Catálogo Nominal dos Posseiros de Sesmarias. Pará: Typographia do Instituto Lauro Sodré,
1904, Tomo III, p. 08.
40
AHU – PA, doc. 9870.
41
AHU-PA, doc. 10230.
42
AHU-PA, doc. 9339.
43
AHU – PA, doc. 8543.
44
Para documentos com as datas -limite apontadas, cf.: AHU – PA, doc. 8671 e AHU – PA, doc.10868.
45
AHU-PA, doc. 9597.

177
e 1805, localizei Joaquim como Tesoureiro-mor do Erário Régio do Pará. O ano de
1804 parece ter representado o ápice da carreira na magistratura de Joaquim Clemente,
pois o mesmo foi nomeado Desembargador do Tribunal da Relação da Bahia. 46 Este
último cargo, aliás, por ser um dos centros da Justiça no Estado do Brasil, é indicativo
das redes de influência mantidas por Joaquim no próprio Império português. Já entre
1810 e 1817, pertenceu à Junta de Sucessão do Governo do Pará. 47
De forma semelhante ao seu sogro Ambrósio, as relações pessoais de Joaquim
com poderosas autoridades da Corte também se fizeram presentes. Em ofício datado de
14 de junho de 1800, comunicava o seu futuro casamento ao Secretário de Estado da
Marinha e Ultramar, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, chamando este de “meu bem feitor,
e meu protector”. 48 Assim, apesar de eu não poder ir adiante com esta afirmação, torna-
se difícil não pensar na importância estratégica do casamento da filha de Ambrósio com
Joaquim para ambas as famílias. Para os Henriques, em função de conseguir, através de
uma aliança parental, juntar-se a uma pessoa com extensas redes de influência e
ocupante de alguns dos principais cargos tanto na Justiça quanto no comércio da
Capitania. Se for lembrado ainda que Ambrósio era envolvido com a atividade
comercial, difícil é não pensar nos benefícios que ele pode ter tido através de seu genro,
especialmente quando o mesmo esteve à frente da Alfândega. Por outro lado, para o
fundador da família Pombo no Pará, por, mesmo tendo chegado há pouco tempo na
Capitania, haver se unido com um de seus mais importantes moradores.
Sendo assim, os Pombo se consolidaram como uma das mais tradicionais
famílias de proprietários rurais do Pará, tendo alguns de seus membros, ainda durante a
segunda metade do século XIX, entre a elite provincial. Da união entre Joaquim
Clemente e Dona Maria do Carmo, identifiquei quatro filhos. Um deles, Ambrósio
Henriques da Silva Pombo, fazendeiro, chegou a ser, segundo Rosa Marin, o primeiro
membro da nobreza paraense, sob a denominação de Barão de Jaguarari, originada de
sua fazenda no rio Mojú. Nesta propriedade, chegaram a existir entre 8 a 10.000
cabeças de gado. 49 Cabe, inclusive, chamar a atenção para o fato de Ambrósio Pombo
ter o mesmo nome que o seu avô materno, o que deve ter sido uma tentativa da família
em manter toda uma prestigiosa história construída pelo primeiro Ambrósio Henriques,
46
AHU-PA, doc. 9987.
47
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 158.
48
AHU-PA, doc. 9034.
49
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 158.

178
através, parafraseando Giovanni Levi, de uma “herança imaterial”. Em sociedades
ciosas com a manutenção das diferenças existentes na sua hierarquia, tal prática torna-se
bastante compreensível. 50
É interessante notar que, mesmo pertencendo a sua família – tanto o ramo dos
Henriques como o dos Pombo -, uma grande distinção social na sociedade colonial do
Pará da segunda metade do Setecentos, tendo, inclusive, importantes espaços de
influência no circuito político do Império português, conforme apresentei mais acima,
Ambrósio Pombo chegou a ser condecorado pelo Império do Brasil justamente por ter
tido uma participação de destaque na construção de um Brasil independente. Não cabe
aqui adentrar nos motivos que o teriam levado a se desviar da conduta adotada até então
especialmente por seu avô materno, haja vista seu pai também ter sido favoráve l a um
Brasil independente 51 , mas, sim, ressaltar que, mesmo no período imperial, os Pombo
continuaram possuindo estima social. Neste sentido, ao ser agraciado com a Ordem
Imperial do Cruzeiro em 1826, o então Presidente José Félix Pereira de Burgos se
referiu da seguinte maneira a Ambrósio, o neto:

“Porque foi dos primeiros cidadãos que logo que teve notícia de haver Sua Majestade
julgado conveniente decretar que fosse independente e constitucional o Brasil, reconheceu
por todos os meios para que se acelerasse a Província do mesmo sistema a conformidade do
decreto de S. M., arriscando-se a toda qualidade de afronta com que repeliram os inimigos
comuns.
Por ser um dos mais abonados lavradores e proprietários tanto em prédios vintenos como
urbanos e pela sua boa educação, morigeração e nascimento, porquanto é filho do
Desembargador Joaquim Clemente da Silva Pombo que serviu de membro do Governo da
Província (...).52

Deste modo, não é de se estranhar que, em 25 de outubro de 1837, Ambrósio Pombo


tenha conseguido o privilégio, por parte da Presidência da Província do Pará, para
explorar a navegação entre a ilha do Marajó e a cidade de Belém durante o período de
10 anos, concessão esta que o Barão, para a sua possível infelicidade, não pôde levar a
50
LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. Para uma discussão sobre o nome como um bem a ser legado, no
Rio Grande setecentista, cf.: HAMEISTER, Martha. O Segredo do Pajé: O nome como um bem.
Continente do Rio Grande de São Pedro (c.1735 – c.1777). Rio de Janeiro: 2002 (texto inédito).
51
Para uma análise sobre a cisão da elite paraense em torno de diferentes projetos políticos à época do
movimento da Independência, cf.: SOUZA JUNIOR, José Alves de. Constituição ou Revolução: Os
projetos políticos para a emancipação do Grão-Pará e a atuação política de Filippe Patroni (1820-
1823). Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1997, pp. 13-85 (Dissertação de Mestrado em
História).
52
Documento citado em CRUZ, Ernesto (c). Procissão dos Séculos: Vultos e Episódios da História do
Pará. Belém: Imprensa Oficial do Estado, 1999, p. 152 (1ª edição de 1952).

179
53
efeito, por ter morrido alguns dias antes, em 16 de setembro do mesmo ano . Deve ser
lembrado, no entanto, que, mais uma vez, de maneira semelhante à lógica das práticas
beneficiais anteriormente apontadas, é bem possível que, em vista do contínuo esforço
dos Pombo em prestar serviços, seja à Coroa portuguesa seja à brasileira, Ambrósio
tenha sido privilegiado naquele setor da navegação provincial. Cabe mencionar, ainda,
que se localizavam justamente no Marajó as propriedades rurais da família Pombo,
sendo que, da ilha Mexiana, naquela região, há indícios da prática do contrabando de
gado para Caiena, por parte de Joaquim Cleme nte. 54 Lembro, também, que era no
Marajó a sesmaria recebida por Ambrósio, o avô, no início do século XIX. Como se
verá adiante, outras sesmarias foram concedidas à família na mesma ilha, sendo que as
propriedades dos Pombo foram se formando naquele local até o momento em que, pelo
menos, na sua quarta geração, ela já era dona de toda a “Mexiana”.
Outro herdeiro de Joaquim Clemente era uma moça. Não pude saber o nome
dela; tenho conhecimento apenas que se casou com Marcos Antônio Brício. Fruto do
enlace entre um português de mesmo nome, Marcos Antônio Brício, e da também
lusitana Maria Quitéria Brício, Marcos, o filho, nasceu no dia 24 de dezembro de 1800
na Capitania do Maranhão. 55 Foi Comandante Superior da Guarda Nacional nos
municípios de Belém, Vigia, Curuçá, Cintra, Igarapé-Mirim, Ourém, Bragança, Vizeu e
Mojú, durante os anos de 1852-1857, chegando ao posto de Brigadeiro do Exército.
Os cargos públicos ocupados por Marcos Brício, o filho, foram os seguintes:
Deputado Geral pelo Ceará, na 1a Legislatura de 1826 a 1829, fez-se novamente
Deputado na Corte, mas, desta vez, representando o Pará, na 6a Legislatura de 1845 a
184756 . Foi, ainda, na província paraense, Presidente do Conselho Administrativo do
Arsenal de Guerra e Diretor Geral de Índios, durante os anos de 1852 a 1859. 57
Os títulos de Marcos foram vários. II Barão de Jaguarari após a morte de seu
cunhado Ambrósio, Comendador da Imperial Ordem de São Bento de Aviz, Cavaleiro
da Imperial Ordem do Cruzeiro, Oficial da Imperial Ordem da Rosa, Comendador da

53
BARATA, Manoel. “Apontamentos para as Efemérides Paraenses”. In: BARATA, Manoel.
Formação Histórica do Pará. Belém: Editora da UFPa, 1973, p. 127.
54
Cf.: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p., 158.
55
ANB. Agradeço à Maria Fernanda Martins pela indicação deste material.
56
ANB.
57
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 165; RPP, 20/08/1852; e RPP, 01/10/1859.

180
Real Ordem de São Jorge de Nápoles, além de membro do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro. 58
Do casamento entre Marcos Brício e a filha de Joaquim Clemente Pombo,
localizei três rebentos: Jaime Pombo Brício, Carlota Brício e Maria Pombo Brício.
Entretanto, para tentar sistematizar a apresentação das famílias neste texto, optei por
tratar desses filhos, especialmente das duas moças - pois é delas que tenho uma
quantidade maior de informações -, somente nos núcleos familiares dos seus maridos.
De qualquer maneira, adianto que é especialmente através delas que as famílias aqui
privilegiadas conseguirão estabelecer alianças com outros dos mais importantes núcleos
familiares da Província, os quais contavam com negociantes e políticos de grande
expressão.
Outra filha de Joaquim Clemente é Maria do Carmo Pombo Brício, casada com
um concunhado seu - irmão do Comendador Marcos Antônio Brício -, por nome Jaime
Davi Brício. Destes dois, encontrei o inventário post-mortem, aberto no ano de 1850. 59
Não sei com quantos anos morreram Maria do Carmo e Jaime. Mas, não tiveram filhos,
ficando como seus herdeiros os filhos de Marcos Antônio. O mo nte- mor de seus bens
está situado na segunda maior faixa de fortuna estabelecida no capítulo anterior, qual
seja, a que compreende os valores entre 2.001 e 5.000 libras esterlinas, perfazendo a
quantia de R$ 34:997$000 ou 4.273,11 libras. Não é interesse aqui fazer um estudo
sobre práticas de sucessão, mas chama a atenção o fato de que, sendo o pai de Maria do
Carmo um importante proprietário rural do Grão-Pará, nada conste no inventário da
mesma a respeito de imóveis no agro. É possível que os filhos homens tenham sido
privilegiados com os bens rurais pertencentes a Joaquim Clemente, a exemplo do I
Barão de Jaguarari. Entre os bens arrolados, constam onze imóveis urbanos, quais
sejam, três sobrados, três casas térreas, dois quartos de casas, dois “chões” e uma
rocinha. É interessante que, em um dos sobrados, o da Rua da Boa Vista, o casal tivesse
como vizinho o Comendador Marcos Antônio Brício, e o outro, localizado na Travessa
do Passinho, estivesse junto ao imóvel de um importante negociante local, o escocês
Archibald Campbell, o qual se verá mais adiante estar, também, aparentado com os
Pombo. Em relação às casas térreas, novamente podem ser encontradas propriedades de
58
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 169.; e ANB.
59
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1850, Caixa/Ano: 1848-1850, doc.
06. Todas as informações a serem trabalhadas, deste casal, foram retiradas do citado inventário. Assim
sendo, não farei mais menção do documento utilizado enquanto do mesmo eu estiver tratando.

181
parentes da família fazendo limites: na da Rua de São Mateus, era o irmão de Maria do
Carmo, João Florêncio, e na da Travessa da Misericórdia, no 09, era, mais uma vez,
Archibald Campbell, além de Francisco Antônio de Miranda, outro grande negociante,
também ligado por relações parentais com o grupo ao qual pertencem os Pombo, como
irá ainda ser apresentado. Chama m a atenção, portanto, não somente as ligações
parentais entre famílias de proprietários rurais e negociantes, como, também, a possível
existência de espaços de sociabilidade comuns entre as mesmas por meio de relações de
vizinhança. Esses fenômenos juntos apontam, assim, para a extrema dificuldade de se
pensar naqueles grupos familiares de maneira separada.
Outros itens constantes no inventário de Maria do Carmo e Jaime Brício,
mesmo representando, percentualmente, pequenas parcelas do monte- mor, fornecem
indicações acerca da distinção em que vivia o casal. Possivelmente para desfrutarem de
momentos de lazer na rocinha que tinham, localizada na estrada das Mongubeiras,
possuíam dois cavalos, um selim francês com freios e um “carrinho ” com arreios. Um
armário de vidro com cômoda, um guarda-roupa, uma cama grande, duas cômodas
simples, uma banheira, um toucador, além de um piano, itens esses, na escala
apresentada, poucos comuns na grande maioria dos inventários pesquisados, além de
numerosa prataria e objetos em ouro e pedras preciosas. A comenda do cabeça de casal,
feita em prata e esmalte, também foi arrolada, além de um hábito de ordem militar,
quem sabe aquela da Ordem de Cristo que pertencera ao pai de Dona Maria do Carmo,
Joaquim Clemente da Silva Pombo. Em se tratando de um grupo familiar com prestígio
e longa tradição na sociedade local, não causaria surpresa que tivesse se preocupado em
preservar um símbolo de status, como o eram os hábitos militares, mesmo que o acesso
a estes, ainda no decorrer da segunda metade do Setecentos, tenha deixado de ser tão
dificultoso, como em épocas anteriores. 60
Por fim, outro filho identificado de Joaquim Clemente foi João Florêncio
Henriques da Silva Pombo. Casado com Maria Emilia de Moncada Pombo, teve um

60
João Cabral de Mello afirma que, durante o governo do Marquês de Pombal, houve o crescimento de
uma “nobreza política” em contraposição aos nobres que adquiriam tal condição através de suas
linhagens. Principalmente através da progressiva abolição das diferenças entre cristãos-velhos e novos,
Pombal teria facilitado o enobrecimento e o acesso às ordens militares, com o intuito de estimular a
fundação das companhias de comércio. Cf.: MELLO, João Cabral de. O Nome e o Sangue. Uma
Parábola Familiar no Pernambuco Colonial. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000, p. 38. Esta ressalva
acerca do rigor aplicado para a concessão de hábitos das Ordens Militares, deve ser estendida, portanto,
para todos os pedidos dessa natureza, feitos no decorrer da segunda metade do Setecentos e início do
Oitocentos, que ainda serão mencionados neste capítulo.

182
rebento localizado, por nome José Henriques de Moncada Pombo. 61 Em verdade, são
poucas as informações disponíveis diretamente acerca deste irmão do I Barão de
Jaguarari. No entanto, pode-se saber um pouco mais dele através do inventário de seu
herdeiro. 62
Não era casado, nem tivera filhos, sendo a única herdeira a sua mãe, Dona
Emilia. Todos os bens existentes no seu espólio, excetos R$ 5:000$000 em dinheiro,
foram os que lhe couberam por falecimento de seu pai. O monte-bruto deste inventário,
de modo semelhante ao deixado pelos seus tios Jaime e Maria do Carmo Brício, situa-
se, também, na segunda maior faixa de fortuna estabelecida no capítulo anterior,
perfazendo a quantia de R$ 29:004$000, ou 2.731,27 libras esterlinas.
Dentre os bens descritos, constavam entre os imóveis urbanos, 1/3 de um
terreno na Travessa do Passinho com a Rua Nova de Santa Ana, a metade de outro
terreno na Estrada Dois de Dezembro, além de outra metade de terreno “em frente à
Baía do Guajará”. Alguns comentários devem ser feitos também sobre as propriedades
que eram limítrofes a estas. O terreno da Travessa do Passinho era vizinho aos imóveis
de Ambrósio Pombo Campbell e de Francis co da Silva Castro. Não sei quem eram os
pais de Ambrósio Campbell; entretanto, ele, por motivos evidentes de sobrenome, era
aparentado não somente com o negociante Archibald Campbell, mas, também, com os
Pombo. Mais do que isso, como se verá no decorrer desta seção, era este Ambrósio o
elo de ligação entre o grupo familiar que se está tratando com outro extremamente
importante da Província – os Leitão da Cunha, os Silva e os Souza Franco -, que ainda
irá ser apresentado. Já Francisco Castro pertencia a um grupo que contava com alguns
dos maiores exportadores de borracha. Quanto ao terreno da Estrada Dois de
Dezembro, os imóveis que lhe eram vizinhos pertenciam a Jaime Pombo Brício, filho
do Comendador Marcos Antônio Brício, e a José Coelho da Gama e Abreu, o Barão de
Marajó. Estes último sujeito, por meio do Comendador Marcos, representa, por sua vez,
o grupo familiar dos Gaudêncio da Costa, dos La Roque, dos Gama e Abreu, e dos
Almeida, alguns dos quais envolvidos com a economia gomífera. Assim, a ligação

61
Localizei um João Florêncio Henriques recebendo duas sesmarias na ilha Mexiana: uma delas
concedida em 22 de setembro de 1789 e confirmada em 6 de junho de 1803, sendo a outra concedida no
dia 01 de fevereiro de 1806. Cf: ABAPP., op. cit., p. 75. Contudo, certamente não se trata aqui do irmão
do I Barão de Jaguarari, visto os pais dos dois somente terem contraído matrimônio no ano de 1801. De
todo modo, pode ser que se trate de um membro do grupo de famílias aqui tratado, pois, à época da
abertura do inventário de José Henriques, toda a Mexiana já pertencia ao dito grupo.
62
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1870, Caixa/Ano: 1870, doc. 05.

183
entre todas essas famílias chama a atenção para a forma pela qual estava aparentada
grande parte dos setores da elite paraense analisada, indicando, também, a profunda
imbricação entre as atividades agrícolas, extrativas e comerciais entre aquelas. Esta é
uma questão, contudo, que deverá ficar mais clara ao final desta seção.
Retornando aos bens deixados por José Henriques, os escravos eram em
número de seis, provavelmente empregados nas propriedades rurais do inventariado: 1/3
da ilha Mexiana, localizada no Marajó, com campinas, matas e seringais, onde,
possivelmente, também estavam os gados arrolados; parte de uma casa de vivenda,
possivelmente, também, naquela ilha; além de uma casa no Retiro Livramento, que não
sei onde exatamente qual lugar é este. Para o transporte entre a ilha Mexiana e outros
pontos da Província, José tinha, ainda, 1/3 do barco “Mexiana”. Perceba-se que parte da
dita ilha, outrora pertencente ao bisavô de José, Ambrósio Henriques, foi
progressivamente sendo acrescida de outros pedaços de terra, até que este grupo
familiar passou a ser proprietário de toda a Mexiana, o que pode ser indicativo de uma
estabilidade econômica mínima do mesmo, tornando possível a continuidade, entre o
grupo, de uma propriedade por, pelo menos, quatro gerações. Além disso, é importante
também destacar a presença de seringais na ilha, os quais não deveriam ser em pequena
quantidade, haja vista, ainda no ano de 1854, Pombo & Campbell terem enviado uma
representação à Presidência da Província, pedindo providências contra rumores de que
cerca de mil homens invadiriam a propriedade, para fazerem uso das seringueiras. 63
Deste modo, para que houvesse a possibilidade de mil pessoas tentarem tirar proveito de
um bem que não lhes pertencia, era porque deveria haver árvores disponíveis para
tanto. 64 Essa última informação é bastante interessante, pois apresenta um grupo
familiar de longa tradição no Grão-Pará envolvido, pois, com a borracha. Pode ser,
inclusive, que a goma elástica produzida na Mexiana fosse comercializada pela firma de
Francisco Gaudêncio da Costa, o qual, se verá, era um dos exportadores desse gênero na
Província.
Outro neto de Joaquim Clemente é Ambrósio Henriques da Silva Pombo, do
qual, no entanto, não pude precisar quem eram os pais. 65 Note-se, de início, a
continuidade, na família, do nome Ambrósio Henriques. Pelos mesmos motivos já

63
RPP, 15/08/ 1854.
64
Informações sobre a ilha Mexiana também podem ser encontradas no primeiro capítulo deste estudo.
65
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit.

184
expostos, quando escrevi a respeito do I Barão de Jaguarari, não há nada para se
estranhar nesta recorrência, haja vista todo o prestígio alcançado pelo primeiro
Ambrósio Henriques da família. Tal fenômeno, portanto, deve ter se constituído em
uma tentativa de perpetuar as ações, e o prestígio delas decorrentes, que pertenceram
aos primeiros indivíduos que daquela forma foram chamados.
É este terceiro Ambrósio que vai unir as outrora divergentes, no campo
político, famílias Henriq ues e Chermont, como visto quando tratei da suspensão do
cargo do velho Ambrósio no Senado da Câmara de Belém, ainda durante o século
XVIII. Deste modo, este Ambrósio Pombo irá tomar, como cônjuge, Dona Floripes
Chermont de Miranda, filha de Antônio José de Miranda e de Dona Inês Antônia
Micaela Chermont. Os avós de Floripes eram, pela linha paterna, Theodósio
Constantino de Chermont – filho daquele que esteve em campo oposto ao do velho
Ambrósio – e Inês Antônia Micaela Ayres de Lacerda e, pelo lado materno, Antônio
Miguel Ayres.66 A respeito da sua avó, pela linha materna, nada sei, a não ser que ela
pertencia à família Correa de Lacerda. Com um mercado matrimonial restrito, além da
própria preocupação com a preservação dos lugares de destaque ocupados por essas
famílias na hierarquia social local, não é de causar estranheza que, antes divergentes, os
Henriques e os Chermont tenham se unido, através do parentesco, posteriormente.
Cabe, agora, tratar da família de Dona Floripes Miranda. De maneira
semelhante aos Henriques, Pombo e Brício, perceber-se-á nesta uma grande ligação
entre a política e a acumulação de riqueza e prestígio social entre os seus membros, bem
como, mais uma vez, as relações parentais existentes entre proprietários rurais e
indivíduos dedicados ao comércio. O bisavô materno de Floripes, Antônio Ayres, era
filho de José Miguel Ayres e de Dona Brízida Maria Micaela. José Ayres foi localizado
como Capitão- mor da Fortaleza de Gurupá e da ilha Grande de Joannes, durante, ao
menos, os anos de 1736 a 1738, quando se lhe mandou tirar residência. 67 Esse
procedimento, feito pelo então Ouvidor-Geral da Capitania do Pará, Salvador de Sousa
Rebelo, indica que José obteve rendimentos não embutidos no posto que ocupava,
porém com a anuência do Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e
Grão-Pará à época, João de Abreu Castelo Branco. Assim como o Capitão- mor
anterior, José Miguel Ayres possuía uma loja de fazendas, onde, todas as canoas que
66
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 158.
67
Para o ano de 1736, AHU-PA, doc. 1865. Já para 1738, AHU-PA, doc. 2110.

185
fossem ao “sertão” para a captura de índios, eram obrigadas a comprar. Segundo ainda
o Ouvidor, tais rendimentos não eram de pequena monta, provocando um grande
prejuízo para os donos das canoas, pois, várias vezes, os próprios índios capturados
ficavam como pagamento pelas fazendas adquiridas pelos cabos das embarcações.
Como a principal força de trabalho na área era a indígena, ganha especial relevo o fato
de que a reprodução, pelo menos em parte, da mão-de-obra utilizada por José Ayres em
suas propriedades rurais – as quais ainda irão ser mencionadas -, ocorria através do
posto ocupado pelo mesmo. Mesmo considerando que Salvador Rebelo pudesse estar
advogando em causa de algum setor local contrário aos Ayres, essa possibilidade não
invalida a importância das rendas obtidas por José quando foi Capitão- mor. Além do
mais, a denúncia do Ouvidor aponta para a aliança do Governador Castelo Branco com
grupos locais da elite colonial.
Entre as propriedades rurais de José Ayres, foram encontradas nada menos
do que quatro sesmarias, sendo uma no rio Tocantins, concedida em 10 de setembro de
1730; outra no rio Capim, recebida em 08 de abril de 1741 e confirmada no dia 20 de
abril de 1742; a terceira no rio Arary, que fora uma das fazendas confiscadas junto aos
jesuítas, concedida em 10 de maio de 1762 e confirmada no dia 2 de junho de 1763; e a
última localizada na Costa da ilha de Joannes, recebida em 13 de maio de 1766. 68
Nessas terras existiam plantações de cacau e engenhos de açúcar. 69 O número de quatro
sesmarias recebidas por José Ayres, na verdade, podem dar uma boa medida da relação
que o mesmo mantinha com a Coroa. De maneira semelhante ao que foi apontado
quando tratei de Ambrósio Henriques, José procurou, continuamente, estar inserido
dentro das práticas beneficiais tão comuns ao Antigo Regime.
No ano de 1757, quando José Ayres solicitou – e foi atendido - ao rei o hábito
da Ordem de Cristo, com a tença de vinte mil réis anuais, as diferentes Fés de Ofício
apresentadas trazem informações sobre parte da trajetória do requerente no Grão-Pará. 70
Aliás, o pai de José, Pedro Miguel, também já era Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Assim, por exemplo, na declaração feita por Francisco Pedro de Mendonça Gorjão,
Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e Grão-Pará, antes do mesmo

68
ABAPP., op. cit., p. 95. Não constam as datas da primeira e da última sesmarias citadas.
69
AHU-PA, doc. 2453 e AHU-PA, doc. 5232.
70
AHU-PA, doc. 3880. Quando as informações sobre José Ayres, a serem trabalhadas nas linhas
seguintes, tiverem sido tiradas deste documento, o mesmo não será mais citado.

186
ser desmembrado, consta José ter chegado a ser Governador interino da Capitania do
Pará, durante um certo período em que Gorjão teve que se deslocar para o Marajó.
Ainda de acordo com Mendonça Gorjão, durante o governo de Castelo Branco
– aquele mesmo que, como visto, fora acusado de permitir a José Ayres manter uma loja
de fazendas na Fortaleza de Gurupá -, José foi nomeado como Cabo de uma tropa de
resgates no Rio Negro no ano de 1739. O desvelo do Cabo teria sido tamanho, que os
gastos da Fazenda Real foram diminutos frente ao sucesso da expedição. Assim, “em
atenção aos seos merecimentos”, Gorjão nomeou José para visitar todas as fortalezas
existentes no rio Amazonas, cuja diligência o encarregado “se offereceo fazer a sua
custa”. Tendo em vista tamanha solicitude de José Ayres para com a Coroa portuguesa,
é que possivelmente ele tenha ficado, mesmo por um curto espaço de tempo,
responsável pela política da Capitania, conforme já mencionado. Isso pode ser
confirmado com outras mercês recebidas por José, através de patentes: entre 1750 e
1757 conseguiu-se encontrá- lo como Capitão- mor da Capitania do Pará, já em 1759
recebeu a patente de Capitão-mor das Ordenanças de Belém71 e, em 1767, a de Mestre-
de-Campo de um dos Terços da Ordenança da vila de São José de Macapá. 72
Quanto ao filho de José Ayres, Antônio Miguel Ayres - bisavô pela linha
materna de Dona Floripes Chermont de Miranda -, como já mencionei, era casado com
uma moça da família Correa de Lacerda, a qual não sei o nome. Esta última família,
segundo Marin, era uma das mais tradicionais de proprietários rurais no Grão-Pará,
possuindo, em uma de suas fazendas – a do Carmo -, no final do setecentos, 36.000
cabeças de gado. 73 Pois bem, Antônio, como seu pai, também recebeu quatro
sesmarias: uma, no rio Jurupucú, concedida em 03 de novembro de 1792; outra, “nos
fundos das terras dos herdeiros de Manoel de Góes”, concedida no dia 02 de maio de
1778; a terceira, localizada no rio Mocoon, recebida em 21 de março de 1803; e a
última, novamente no rio Jurupucú, em 13 de janeiro de 1804. 74 Ao menos nas terras
recebidas em 1778, para as quais possuo informação, Antônio Miguel estabeleceu uma
fazenda de gado vacum e cavalar. 75

71
AHU-PA, doc. 4087.
72
AHU-PA, doc. 5490.
73
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 158.
74
O nome de Antônio Miguel Ayres, em alguns documentos, aparece seguido do sobrenome Pereira .
Contudo, pelo teor dos mesmos, é possível saber que se tratam da mesma pessoa. Sobre as sesmarias, cf.:
ABAPP., op. cit., p. 22. Não constam as datas de confirmação de nenhuma das quatro sesmarias citadas.
75
AHU-PA, doc. 7017.

187
É interessante ainda perceber que, por patente passada em 1768, Antônio
tornou-se Capitão de Cavalaria Auxiliar do Terço da vila de São José de Macapá76 ,
onde, um ano antes, seu pai já era Mestre-de-Campo da Ordenança. Além do referido
mais acima acerca do aumento progressivo de importância adquirida pelas tropas
auxiliares na Capitania, lembro que a vila de Macapá possuía uma importância
estratégica para a Coroa, devido a área fazer fronteiras com possessões territoriais
francesas. 77 Deste modo, possivelmente, os serviços prestados a Sua Majestade em
Macapá, justamente em um local envolto de tensões à época, fossem entendidos pelos
Ayres como mais uma forma de conquistar mercês e, assim, manter a qualidade da
família no Pará.
Uma das filhas de Antônio Ayres, Dona Inês Micaela Ayres de Lacerda, entrou
para a família Chermont, casando-se com Theodósio Constantino de Chermont. Filho
do Brigadeiro também designado pelo nome Theodósio Constantino de Chermont, os
seus descendentes irão, por várias gerações, manter o prestígio da família. 78
Theodósio, o filho, procurou dar continuidade às atividades agrícolas
desenvolvidas pelo seu pai, pois este foi considerado por Alexandre Rodrigues Ferreira,
quando de sua viagem pelo Rio Negro na década de 1780, como um dos oito maiores
plantadores de arroz no período, tendo- lhe atribuído, inclusive, grandes progressos nas
técnicas de beneficiamento desse produto, dentre as quais a criação, no Estado do Grão-
Pará e Rio Negro, de uma máquina para o descasque daquele produto, durante o ano de
1772.79 A justificativa de José Félix Pereira de Burgos para a concessão a Theodósio, o
filho, da Imperial Ordem do Cruzeiro, fornece algumas indicações, portanto, não
somente das atividades econômicas desenvolvidas pelo mesmo, como do seu prestígio:

“Coronel da Legião da 2a Linha da Ilha de Joannes filho do falecido Brigadeiro do mesmo


nome, lavrador e rico capitalista, homem das mais antigas famílias do País, fazendeiro de
gado e engenho de açúcar, é de conhecida probidade”.80

76
AHU-PA, doc. 5491.
77
Cf.: RAVENA, Nírvea. “O Abastecimento no Século XVIII no Grão-Pará: Macapá e vilas
circunvizinhas.” In: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo (org.). A Escrita da História Paraense. Belém:
NAEA; UFPA, 1998, pp. 39-40.
78
Cf.: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 158.
79
Cf.: Idem.; e FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem Filosófica ao Rio Negro. Belém: MPEG;
CNPq, 1993, pp. 132-137.
80
Documento citado em CRUZ, Ernesto (c)., op. cit., p. 152.

188
Do casamento de Theodósio, o filho, com Dona Inês, foram localizados dois
rebentos: Antônio Lacerda de Chermont e Dona Inês Antônia Micaela Chermont, mãe
de Dona Floripes Chermont de Miranda, aquela que se tornou cônjuge de Ambrósio
Henriques da Silva Pombo. 81
Antônio Lacerda, Barão e, depois, Visconde de Arari, ilustra a maneira como,
mesmo na segunda metade do século XIX, tanto o prestígio familiar dos Chermont
ainda era preservado, quanto - e isso pode explicar esta continuidade - o mesmo se valia
de práticas beneficiais semelhantes às encontradas no período colonial.
Solícito perante as necessidades da administração provincial, o futuro Visconde
de Arari, por exemplo, subscreveu as obras de melhoramentos das estradas do Arsenal e
das Mongubeiras no ano de 1851. Sem querer fazer uma relação direta entre a ajuda do
Visconde nessa obra e a localização de propriedades pertencentes a aparentados seus na
tal estrada, não se pode ignorar que, “coincidentemente”, estava localizada nas
Mongubeiras a rocinha de Maria do Carmo Pombo Brício. Mesmo tendo sido aberto o
inventário do casal Brício em 1850, todos os bens deixados pelo mesmo ficaram para os
filhos do Comendador Marcos Brício, ligado, portanto, por laços de parentesco, ao
grupo de famílias aqui tratado.
Além do mais, dentre outros também contribuintes nessa subscrição, estavam
Ambrósio Leitão da Cunha, Francisco da Silva Castro e Francisco Gaudêncio da
Costa.82 Ambrósio Cunha, pertencia a um grupo de famílias com importantes políticos
imperiais, ao qual também estavam ligados Ambrósio Pombo Campbell e, por extensão,
Diogo Archibald Campbell. Francisco Castro, por sua vez, era membro de uma família
de negociantes locais inserida, também, em um grupo familiar com ramificações ligadas
a proprietários rurais, cujo prestígio remontava ao século XVIII, além de ter mesmo,
entre os seus membros, negociantes que se colocavam como alguns dos maiores
exportadores de goma elástica do Pará oitocentista. Já Francisco Gaudêncio da Costa,
também ligado ao negócio da borracha, juntamente com seu irmão, cunhados e
sobrinhos, alguns dos negociantes mais importantes da Província, era casado com uma
das filhas do enlace entre o Comendador Marcos Antônio Brício e uma das filhas de
Joaquim Clemente da Silva Pombo. Sendo assim, volto a afirmar a dificuldade de
81
Cf.: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., pp. 164-165.
82
Sobre a subscrição das obras de melhoramentos das estradas das Mongubeiras e do Arsenal, cf.: RPP,
15/08/1851. Os grupos de famílias, aos quais pertencem os sujeitos mencionados, ainda irão ser
apresentados no decorrer deste capítulo.

189
pensar esses diferentes grupos de elite de forma separada, especialmente por causa de
suas ligações familiares entre si. Se se atribuiu, portanto, uma dicotomia entre o
extrativismo e a agricultura, no que se refere aos projetos políticos voltados para o
desenvolvimento da Província, devido aos motivos apresentados ainda no primeiro
capítulo, a profunda imbricação entre grupos de famílias ligadas explicitamente ao
negócio da goma elástica, bem como ao comércio em geral e à agricultura, possuindo,
alguns de seus membros, espaços de acesso à política e administração locais, bem como
o gozo de prestígio social, aquela vertente de análise fica difícil de ser sustentada.
Mas, voltando às práticas beneficiais propostas, passados alguns anos,
encontra-se, novamente, Antônio Chermont oferecendo os seus serviços à administração
paraense. Em 1860, devido a Assembléia Provincial não haver se reunido em tempo
hábil para a aprovação dos gastos a serem feitos com a viagem de J. J. Brunet, Diretor
do Gabinete de História Natural do Ginásio da Província de Pernambuco, ao Pará, o
Visconde de Arari se ofereceu como fiador dessas despesas. Durante um período em
que se colocava como uma das maiores preocupações políticas locais, a exploração dos
recursos naturais disponíveis na região, pode-se imaginar o quanto aquela atitude deve
ter sido louvada, haja vista a tal viagem destinar-se ao exame do rio Amazonas e seus
afluentes. 83
Se o prestígio político de uma pessoa, dentro da já mencionada “economia do
dom”, está relacionado à capacidade da mesma em prestar benefícios, bem como à
retribuição dos benefícios recebidos, o entendimento das atitudes tomadas por Antônio
Lacerda de Chermont, perante a administração paraense, juntamente com o arremate,
pelo mesmo, de algumas obras públicas na cidade de Belém, ganham um significado
especial. Logo após ter participado da subscrição destinada às obras em estradas da
Capital, o Visconde arrematou, por exemplo, em 1851, o aterro da rua Nova do
Imperador, orçado em R$ 3:000$000, no prazo de oito meses. 84 No ano de 1852, por
sua vez, ficou responsável pelo aterro de duas docas ao lado da Ponte de Pedra, por R$
5:400$000. 85 No entanto, na década de 1860, como se viu, Antônio irá novamente
dispor de parte do seu cabedal em benefício da Presidência da Província. É certo que
não estou fazendo aqui uma simples relação de interesses materiais entre o Barão e a

83
RPP, 12/05/1860. Na terceira seção deste capítulo serão analisadas estas preocupações políticas.
84
RPP, 15/08/1851.
85
RPP, 20/08/1852.

190
administração paraense. Para o primeiro, se havia a expectativa de ganhos econômicos,
para além disso, considero que estava em jogo o seu prestígio social e, por extensão, da
sua família. Para a segunda parte envolvida, obviamente não atribuo um sentido
pejorativo, corrupto mesmo, ao privilegiar aquele que lhe prestara benefícios, quando
concede ao mesmo determinadas obras públicas. Por se tratar de uma sociedade pré-
industrial, relações de reciprocidade como essa fazem parte da própria natureza das
relações sociais em geral. 86 O fato dos objetivos acoplados aos projetos da Presidência
da Província, financiados pelo Visconde de Arari, serem, pelo menos a princípio, o bem
comum, a solicitude de Antônio Chermont além de lhe proporcionar prestígio junto aos
círculos políticos, possivelmente, reforçava, também, o lugar de destaque que mantinha
na sociedade como um todo.
Pensar que, em se tratando de uma sociedade pré- industrial, a posição que uma
determinada pessoa ocupa na hierarquia social é dada de forma natural e permanente,
constitui-se em um equívoco. Antes, são necessários contínuos esforços para que
aquela situação seja mantida. Assim, entendo as alianças parentais que venho
analisando, bem como as relações de favores entre membros da elite e a Presidência da
Província, à exemplo do apontado acerca da relação mantida por Antônio Chermont
com a administração paraense. Para o Visconde, portanto, não bastava pertencer a uma
família possuidora de um passado prestigioso e opulento no Pará colonial, nem apenas
ter estado à frente da Presidente da Província, ou ainda ter desempenhado a função de
Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Pará em 1850. 87 Mais do que isso, para a
preservação tanto do seu locus social, quanto do possuído pela sua família, foram
importantes, por exemplo, os casamentos realizados pelos seus filhos e parentes, além
da manutenção, pelos mesmos, de uma relação com a política local, a qual pudesse lhes
proporcionar destaque social.

86
Utilizo como suporte para esta afirmação o que escreveram Xavier e Hespanha sobre relações deste tipo
no Antigo Regime português. Dizem os autores: “De facto, relações que obedeciam a uma lógica
clientelar, como a obrigatoriedade de conceder mercês aos ‘mais amigos’, eram situações quotidianas e
corporizavam a natureza mesma das estruturas sociais, sendo, portanto, vistas como a ‘norma’. A
verdade é que estas atitudes foram sendo progressivamente marginalizadas (no sentido inverso ao do
progresso do aparelho de ‘estado’), até adquirirem o epíteto de corruptas, e são actualmente conotadas
com situações de ‘anormalidade’ institucional”. Cf.: XAVIER, Ângela Barreto & HESPANHA, António
Manuel., op. cit., p. 339.
87
VIANNA, Arthur. A Santa Casa da Misericórdia Paraense. Notícia Histórica, 1650-1902. Belém:
Secretaria de Estado da Cultura, 1992, p. 175. (1ª edição de 1902)

191
Por todos esses motivos, pois, é que se torna possível verificar, durante a
década de 1860 – período este que foi possível segui- lo como tal -, Antônio Chermont
como Comandante Superior da Guarda Nacional no Marajó. 88 Ilustrativo, também, da
circulação, e mesmo inserção, de Antônio entre espaços que pudessem reforçar a sua
posição na sociedade, foi a sua eleição, por unanimidade, no dia 14 de novembro de
1866, como membro honorário da Associação Comercial do Pará, a partir da seguinte
proposta feita por Alfonse Gallot:

“Proponho que em atenção aos serviços prestados à Praça do Comércio, como representante
do comércio do Pará, o Ilmo. Exmo. Barão d’Arari, enquanto esteve na administração da
Província, seja o mesmo Exmo. Sr. Eleito membro honorário d’esta associação”.89

Em verdade, além das alianças parentais entre setores ligados à agricultura e ao


comércio, como venho apontando, indícios como o último mencionado servem para
demonstrar a existência de espaços de sociabilidade comuns entre esses grupos. Sobre
essa última questão, tanto a existência de relações de vizinhança apontadas mais acima,
quanto a participação em conjunto, daqueles grupos, em atividades pertencentes à esfera
política provincial, podem servir como exemplos. Assim, em 1874, entre outras
pessoas, integraram uma comissão encarregada pela Presidência da Província de
conseguir objetos destinados a uma exposição de produtos “industriais” do Pará: o
Visconde, Elias José Nunes da Silva, Fortunato Alves de Sousa, Francisco Gaudêncio
da Costa, João Gualberto da Costa e Cunha, José da Gama Malcher e Manoel Antônio
Pimenta Bueno. 90 Elias Silva, negociante português, fixou-se no Pará em 1834 e foi um
dos fundadores da Praça do Comercio da mesma Província em 1864, chegando à
diretoria dessa instituição no ano de 1867.91 Segundo Weinstein, Elias Silva foi
pioneiro no negócio do aviamento no Amazonas, na Bolívia e no Peru, sendo que, na
década de 1870, a firma Elias José Nunes da Silva & Cia., com um capital de 450
contos de réis, chegou a ser a mais importante casa aviadora na região oeste da

88
RPP, 15/08/1851; RPP, 20/08/1852; RPP, 15/08/1856; e RPP, 12/05/1860.
89
Documento citado em CRUZ, Ernesto (b). História da Associação Comercial do Pará. Belém:
Editora Universitária da UFPa, 1996, p. 170. A primeira reunião dessa instituição foi realizada no
escritório de Archibald Campbell. Cf.: WEINSTEIN, Barbara., op. cit., p. 84.
90
RPP, 17/01/1875. A exposição ocorreria, neste mesmo ano, no Pará, sendo os objetos então premiados
expostos em outro evento, da mesma natureza, que aconteceria em Filadélfia, Estados Unidos, no dia 19
de abril de 1876.
91
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.

192
Amazônia. 92 Fortunato Sousa, português, dono de “estabelecimentos agrícolas” e
comerciante, também participou da criação da Praça. 93 Francisco Costa, por sua vez,
genro de Marcos Brício, negociante, foi aquele que, junto com Antônio Chermont,
subscrevera as obras nas estradas de Belém. 94 João Gualberto e seu sogro, José da
Gama Malcher, pertenciam a um grupo de famílias com políticos e comerciantes de
destaque. 95 Por fim, Manoel Bueno era aparentado de um outro grupo de famílias com
alguns dos maiores exportadores de borracha no Pará, além de políticos locais.
Um pequeno parêntese na discussão acerca do Visconde de Arari se faz
necessário. Elias José Nunes da Silva e Fortunato Alves de Sousa integraram o
“Conselho de Família”, destinado a dar os bens a serem partilhados pertencentes ao
casal do negociante português Antônio da Mota Marques, após o falecimento de sua
mulher, Elísia Correa da Mota Marques, em 1862. Dono da maior fortuna encontrada
entre os 221 inventários post-mortem pesquisados, no valor de 38.678,76 libras
esterlinas, conforme visto no capítulo anterior, Antônio Marques era casado com uma
moça da citada família setecentista Correa de Lacerda, sendo os pais da mesma João
Gonçalves Correa e Joana Pinheiro Correa de Lacerda. 96 Esta informação, por um lado,
aponta a forma pela qual sujeitos estrangeiros, ligados ao comércio, poderiam conseguir
inserção social, através da realização de casamentos com pessoas oriundas de núcleos
familiares com tradição na sociedade paraense. Por outro lado, sugere a contribuição
das relações de amizade para o alcance de prestígio político e mesmo social, por parte
de indivíduos naquela mesma condição. É difícil, pois, não pensar no peso exercido
pela amizade entre Antônio Marques, Elias e Fortunato, para o alcance, por estes dois
últimos, de estima social, a ponto dos mesmos terem sido nomeados para integrar
aquelas comissão de produtos “industriais”. Muito embora essa amizade não possa ser
entendida como o único fator que permitiu a Elias e a Fortunato o acesso às esferas da
política provincial, sem dúvida ela atuou ao menos como reforço de uma estima quiçá já
possuída pelos mesmos.

92
WEINSTEIN, Barbara., op. cit., p. 78.
93
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit., p. 159.
94
Francisco Gaudêncio da Costa será mencionado de forma mais pormenorizada em outro grupo de
famílias.
95
Este grupo, também, ainda será analisado.
96
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1864, Caixa/Ano: 1864, doc. 06.

193
Tratando dos filhos, antes anunciados, havidos pelo Visconde de Arari,
encontraram-se quatro: Francisco Leite Chermont, Justo Leite Chermont e Maria Emília
e Inês. Os casamentos realizados pelos mesmos e, em alguns casos encontrados, as suas
trajetórias públicas, reforçam o afirmado sobre as estratégias utilizadas pela família para
a manutenção da sua qualidade.
Francisco se casou com Ester Pombo da Gama e Abreu, filha de José da Gama
e Abreu, o Barão de Marajó, e Maria Pombo Brício. 97 Os Gama e Abreu, conforme se
verá adiante, estavam inseridos em um grupo de famílias com alguns dos mais
destacados negociantes e políticos provinciais, além de já estar aparentada, através do II
Barão de Jaguarari, com o grupo que se está analisando.
Com relação a Justo Chermont, a sua consorte foi Augusta Assis, filha de
Joaquim José de Assis. Este, che gando ao Pará em 1855, como secretário do Presidente
Sebastião do Rego Barros, elegeu-se como deputado provincial no próprio Pará, e
deputado geral pelo Mato Grosso. 98 Foi, também, Diretor de Instrução Pública em
186199 , sendo, ainda no mesmo ano, convidado pela Presidência da Província para criar
uma companhia que fizesse a navegação, por paquetes movidos à vapor, entre a Capital
e os portos de Muaná, Soure, Chaves e Macapá, sendo aqueles três primeiros
pertencentes à região do Marajó. 100 Esse convite foi aceito, mediante a subvenção de
R$ 24:000$000, no prazo de dez anos. Aliás, um dos sócios em tal empreitada foi
Antônio José de Miranda. Lembro, novamente, que muitas das famílias pertencentes a
este grupo tinham propriedades rurais no Marajó. Joaquim fundou, ainda, o jornal “A
Província do Pará”, em 1876. 101
Tendo em vista, portanto, o próprio prestígio da sua família de origem, quanto
o da família a que passou a fazer parte, por meio da sua esposa, Justo Chermont trilhou
uma carreira política de destaque, a qual, por sua vez, deve ter atuado como reforço para
ambos os grupos. Foi membro da Junta Provisória de governo do Pará, quando do
término do período imperial. Tornou-se o primeiro governador nomeado durante o

97
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 164.
98
Idem, ibidem.
99
RPP, 04/05/1861.
100
RPP, 17/08/1861.
101
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 164.

194
regime republicano, entre 1889 e 1891, além de Ministro das Relações Exteriores em
1891, e Senador em 1894. 102
Maria Emília se casou com Manoel de Mello Cardoso Barata. Este era filho de
Manoel José de Mello Freire Barata, pertencente a uma família de grandes fazendeiros
no Marajó, e bisneto materno de João de Araújo Roso, negociante com sociedade em
Lisboa, ao menos durante os anos de 1806 e 1815, e membro várias vezes do Senado da
Câmara de Belém. 103 Pois bem, o marido de Maria Emília foi o 2o vice- governador do
Pará em 1889 e senador nos anos de 1890, 1897 e 1903. 104
Por fim, Inês, também filha de Antônio Lacerda de Chermont, casou-se com
Teotônio Raimundo de Brito, deputado federal de 1894 a 1897, em substituição ao seu
cunhado Justo, e, novamente no mesmo cargo, entre 1912 e 1918. 105
A irmã do Visconde de Arari, Dona Inês Antônia Micaela Chermont - sogra do
segundo Ambrósio Henriques da Silva Pombo -, era casada com o Comendador Antônio
José de Miranda. 106 Este, como seu cunhado, também procurava manter uma relação de
reciprocidade com a administração provincial. Em 1851, arrematou a obra de abertura
da Doca do Reduto, na cidade de Belém, pelo valor de R$ 7:700$000 no prazo de um
ano. 107 Em 1860, no entanto, disponibilizou parte de seu cabedal para a reforma da
igreja matriz da freguesia de Sant’Ana do Rio Capim. 108 Já na mesma década, durante o
ano de 1861, como visto, juntamente com Joaquim José de Assis, após um convite feito
pela Presidência da Província, teve aprovada uma proposta de criação de uma
companhia destinada a promover a navegação entre a Capital e os portos de Muaná,
Soure, Chaves e Macapá, sob a subvenção de R$ 24:000$000, no prazo de 10 anos. 109
Para finalizar este grupo de famílias, há José Mariano Pereira de Chermont,
casado com Dona Amélia Augus ta de Miranda. Muito embora eu não saiba quem eram
os pais de José Mariano, o interesse neste caso está ligado ao tipo de aliança realizado

102
Idem, ibidem.
103
Sobre o casamento de Maria Emília e a família de seu cônjuge, cf.: Idem, ibidem. Para as informações
especificamente acerca de João de Araújo Roso, cf.: SOUZA JUNIOR, José Alves., op. cit., p. 77; AHU-
PA, doc. 10524; AHU-PA, doc. 11118; e AHU-PA, doc. 11126.
104
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 164.
105
Idem, ibidem.
106
Idem, ibidem.
107
RPP, 15/08/1851.
108
RPP, 12/05/1860; e RPP, 04/05/1862.
109
RPP, 04/05/1861.

195
pelos Chermont, através daquele casamento, como, também, nas formas de inserção
social que são possíveis de verificar entre sujeitos dedicados às atividades comerciais.110
Cônjuge, em suas primeiras núpcias, do negociante Francisco Antônio de
Miranda, filho do também negociante português Vicente Antônio de Miranda, Dona
Amélia era portuguesa e, por sua vez, filha de outro negociante lusitano, por nome João
José Mendes de Oliveira e Castro. Dono da segunda maior fortuna encontrada entre os
inventários post-mortem pesquisados, no valor de 19.993,01 libras esterlinas, como
exposto no capítulo anterior, Francisco Miranda acabou “fornecendo” um bom dote para
o segundo enlace da sua viúva, já que esta, por direito, ficou com a metade dos bens de
seu casal, sendo a outra metade dos seus dois filhos menores.
Contudo, como não poderia deixar de ser, em se tratando de uma sociedade de
natureza pré- industrial, é certo que o casamento entre Dona Amélia e José Mariano não
ocorreu simplesmente em função de interesses materiais. Existem indícios de que a
família Miranda já tinha procurado criar espaços que lhe permitissem estima social.
Francisco era irmão do Comendador Antônio José de Miranda, o cunhado do Barão de
Arari. Por seu turno, Vicente Antônio de Miranda, que fora Provedor da Santa Casa da
Misericórdia do Pará entre 1825 e 1829 111 , deixou, em seu testamento, R$ 16:000$000 à
Santa Casa da Misericórdia do Pará. Só para ter uma noção do quanto representava essa
quantia à época da morte de Francisco, um escravo do sexo masculino, com idade entre
18 e 20 anos e em perfeitas condições físicas, custava, em média, R$ 800$000. Ou seja,
com a verba testamentária doada à Santa Casa, poderiam ser comprados vinte escravos
naquelas condições. Mesmo assim, não somente Vicente fez a doação, como seu filho
Francisco procurou honrar a vontade do pai, pois, o testamento deste último, pedia aos
testamenteiros que fizessem aquele pagamento à razão de um conto de réis anuais. Tal
atitude, em última análise, pode ser entendida como uma estratégia que visava atingir
dois objetivos. Se, por um lado, colocava tanto o pai como o filho em uma situação de
destaque perante os irmãos daquela instituição pia, os quais, por tradição, eram
possuidores de distinção social; por outro lado, poderia também angariar prestígio para
os mesmos junto à sociedade em geral, posto que esse tipo de doação era entendido

110
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1853, Caixa/Ano: 1853, doc. 03.
Todas as informações sobre este casal, assim como sobre a família do primeiro casamento de Dona
Amélia Miranda, foram retiradas do documento citado. Não voltarei, portanto, a faze r referência a essa
fonte.
111
VIANNA, Arthur., op. cit., p. 159.

196
como a manifestação de sentimentos de caridade. 112 Assim sendo, ao menos na esfera
política, Vicente Miranda parece ter tido o seu devido reconhecimento, pois Fausto
Augusto d’Aguiar, Presidente do Grão-Pará em 1851, dizia satisfeito à Assembléia
Provincial que a Mesa da Santa Casa poderia, enfim, concluir as obras do cemitério da
Nossa Senhora da Soledade, em Belém, aplicando, para tanto, “(...) a importancia do
legado deixado pelo bemfeitor – Vicente Antonio de Miranda”. 113
Com esse caso da família Miranda ratifica-se, portanto, a imbricação de
famílias ligadas a atividades rurais e ao comércio, sobretudo em decorrência da
realização de matrimônios entre si, possuindo ambas não somente prestígio social, mas,
também, espaços de participação na política e na administração paraenses.

112
Sobre a o ato de dar com caridade, dentro da “economia do dom”, em Portugal durante o Antigo
Regime, cf.: XAVIER, Ângela Barreto & HESPANHA, António Manuel., op. cit., p. 344.
113
RPP, 15/08/1851, p. 32.

197
198
Lista das Honrarias nas Famílias Henrique s, Pombo, Brício, Ayres, Chermont e
Miranda

Honrarias
Nome
Cargos Públicos Patentes Títulos
Membro do Senado da Alferes, Capitão e
Câmara de Belém; Coronel das Tropas
Tesoureiro Geral da Auxiliares em Belém;
Ambrósio Henriques
Real Junta da Fazenda; Coronel das Tropas
Deputado da Junta da Auxiliares em São José
Fazenda. de Macapá.
Ambrósio Henriques da
Barão de Jaguarari
Silva Pombo
Antônio José de
Comendador
Miranda
Vice-Presidente ou Comandante Superior
Antônio Lacerda de
Presidente da Província da Guarda Nacional no Visconde de Arari
Chermont
do Pará. Marajó
Capitão das Tropas
Antônio Miguel Ayres Auxiliares em São José
de Macapá.
Secretário da
Presidência da
Província do Pará;
Joaquim José de Assis
Deputado Provincial e
Diretor de Instrução
Pública.
Membro do Senado da
João de Araújo Rozo
Câmara de Belém.
Juiz de Fora de Belém;
Administrador da
Alfândega de Belém;
Ouvidor Geral da
Capitania do Pará;
Joaquim Clemente da Tesoureiro-mor do Cavaleiro da Ordem de
Silva Pombo Erário Régio do Pará; Cristo
Desembargador do
Tribunal da Relação da
Bahia e membro da
Junta de Sucessão do
Governo do Pará.
Deputado Provincial e
Gera l; Presidente das
Províncias do Pará e do
Amazonas; Diretor de
José Coelho da Gama e
Obras Públicas; Diretor Barão de Marajó
Abreu
do Tesouro Público
Provincial. Durante a
República, Intendente
de Belém e Senador.
Capitão-Mór da
Governador interino da Professo na Ordem de
José Miguel Ayres Fortaleza de Gurupá e
Capitania do Pará Cristo
da Ilha Grande de

199
Joannes; Capitão-Mór
da Capitania do Pará;
Capitão-Mór das
Ordenanças de Belém e
Mestre-de-Campo das
Ordenanças em São
José de Macapá.
Membro da Junta
Provisória de Governo
do Pará, em fins do
Justo Leite Chermont Império; Governador do
Estado do Pará; Senador
e Ministro das Relações
Exteriores.
Vice-Governador do
Manoel de Mello
Estado do Pará e
Cardoso Barata
Senador.
II Barão de Jaguarari;
Comendador da
Imperial Ordem de São
Comandante Superior Bento de Aviz;
Deputado Geral; da Guarda Nacional nos Cavaleiro da Imperial
Presidente do Conselho municípios de Belém, Ordem do Cruzeiro;
Marcos Antônio Brício Administrativo do Vigia, Curuçá, Cintra, Oficial da Imperial
Arsenal de Guerra e Igarapé-Mirim, Ourém, Ordem da Rosa;
Diretor Geral de Índios. Bragança, Vizeu e Comendador da Real
Mojú; e Brigadeiro. Ordem de São Jorge de
Nápoles e membro do
Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro.
Theodósio Constantino
Brigadeiro
de Chermont (pai)
Theodósio Constantino Coronel do Exército na
de Chermont (filho) Ilha de Joannes, Marajó.
Teotônio Raimundo de
Deputado Federal
Brito

200
As famílias Gaudêncio da Costa, La Roque, Gama e Abreu e Almeida.

Sobre este grupo de famílias formado, em sua maioria, por pessoas ligadas à
atividade comercial, não foi possível, ao contrário do outro analisado, remontar as
trajetórias de seus membros ao período colonial. No entanto, isso não significa que os
mesmos não ocupassem posições de destaque na sociedade paraense da segunda metade
do século XIX. Tendo, entre os seus membros, alguns dos mais importantes
negociantes da Província, realizaram alianças com famílias de grande prestígio, além de
possuírem espaços de inserção na própria esfera política local.
Sobre Ludovina Madalena de Lima Néri, não possuo maiores informações, a
não ser que era mãe de Augusto Eduardo Gaudêncio da Costa, Francisco Gaudêncio da
Costa, Emília Costa e Matilde Costa. 114 Quanto a estes, contudo, as fontes são mais
pródigas, permitindo a análise das formas pelas quais sujeitos dedicados ao comércio
conseguiam inserção social durante a época privilegiada neste estudo.
O português Francisco Gaudêncio, Comendador e Cônsul de Portugal durante
o movimento cabano, era considerando, juntamente com seu irmão Augusto Eduardo,
um dos maiores negociantes da Praça de Belém115 . Na década de 1860, Francisco era o
principal responsável por uma firma que atuava na exportação de borracha para a
Liverpool, e na importação de mercadorias variadas de outras áreas do Brasil. 116
Ambos os irmãos participaram da criação da Associação Comercial do Pará, em 1864, e
foram integrantes ativos dessa instituição. Augusto chegou à presidência da Associação
nos anos de 1869 e 1870. Já Francisco, ocupando o cargo de vice-presidente em 1865 e
1868, elegeu-se presidente diversas vezes: 1872, 1873, 1874, 1886, 1887 e 1888. 117
Não tenho notícias acerca do nome da esposa de Augusto, ou mesmo se ele foi
casado. Quanto ao matrimônio realizado por Francisco, o mesmo ocorreu com Dona
Carlota Brício, nascida da união já citada entre o Comendador Marcos Antônio Brício e
uma filha de Joaquim Clemente da Silva Pombo. 118 Tal ocorrência é bastante
interessante, pois ilustra a forma pela qual, mesmo um sujeito ligado ao comércio,

114
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 166. Devido não eu não ter mais informações sobre
Emília Costa, ela não voltará a ser aqui mencionada. Somente citei o seu nome, por se saber que Emília
pertencia à família Gaudêncio da Costa.
115
Idem, ibidem.
116
WEINSTEIN, Bárbara., op. cit., pp. 83-84.
117
CRUZ, Ernesto (b)., op, cit.
118
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 166..

201
português, poderia possuir alianças parentais com tradicionais famílias de proprietários
rurais no Grão-Pará. Assim, tanto as suas relações familiares quanto a sua própria
atividade econômica, parecem ter fornecido a Francisco Gaudêncio espaços de
participação nas esferas da política da Província, e mesmo o gozo de estima nestes
círculos.
Apontei, quando da análise feita a respeito do grupo de famílias anterior, a
participação de Francisco na subscrição das obras de melhoramento das estradas do
Arsenal e das Mongubeiras na cidade de Belém, no ano de 1851. 119 Talvez em função
dessa demonstração de solicitude perante a administração provincial, bem como do
conhecimento que dispunha no meio das pessoas com cabedal para tanto, no ano
seguinte foi encarregado pela Presidência do Pará, junto com outras pessoas, de
conseguir o restante das subscrições que faltavam para a criação de um Banco sob a
tutela da própria administração paraense, o Banco Comercial do Pará, voltado para a
realização de depósitos e descontos. Rapidamente a comissão alcançou o seu intento,
segundo o Presidente Fausto Augusto d’Aguiar, “principalmente pelas diligencias e
actividade” de seus membros, a ponto da autoridade máxima da política provincial
atribuir a Francisco Gaudêncio e ao seu cunhado Henri de La Roque – também
integrante daquela comissão -, o adjetivo de “dignos negociantes”. 120 Aliás, desde a sua
fundação, por pelo menos três décadas, Francisco parece ter mantido uma proximidade
em relação à vida institucional do Banco Comercial do Pará, pois, em 1880, verifiquei
ser ele o Presidente do mesmo. 121 Para pessoas envolvidas diretamente com a atividade
comercial, a qual, conforme visto no capítulo anterior, gerava a maior soma de riquezas
na economia local, uma instituição desse tipo deve ter sido de grande valia, pois,
controlando a liquidez, tais sujeitos provavelmente viram de maneira favorável a
abertura de mais um espaço para o investimento de seus ativos. Isso pode explicar,
inclusive, o empenho, atribuído pelo Presidente da Província, aos participantes da citada
comissão, além, é claro, do interesse dos mesmos em demonstrar solicitude perante a
administração paraense.
Outro indício da existência de “boas relações” entre Francisco Gaudêncio e as
esferas da política provincial é a sua nomeação, no ano de 1874, exposta mais acima,

119
RPP, 15/08/1851.
120
RPP, 20/08/1852, p. 47.
121
RPP, 15/02/1880.

202
para integrar um grupo de pessoas destinado a conseguir objetos para uma exposição de
produtos “industriais” do Pará. 122 Ademais, na tentativa de não deixar este texto
repetitivo, posto que as outras pessoas participantes desse grupo já foram mencionadas,
volto apenas a lembrar a existência de espaços de sociabilidade comuns, como este,
entre os diferentes setores da elite paraense, o que, juntamente com as alianças
parentais, torna bastante difícil o entendimento desses grupos sem considerá-los de
maneira imbricada.
Se foi possível apontar para a união, por meio de laços de parentesco, entre as
famílias Gaudêncio da Costa, Brício e Pombo, a primeira voltará a ser ampliada,
utilizando-se dos mesmos instrumentos, através do casamento entre Matilde Costa e um
membro dos La Roque. Esta irmã de Augusto Eduardo e Francisco terá como marido
um negociante e proprietário rural, Henri de La Roque. 123 Será através dos rebentos
desta união que mais duas famílias passarão a fazer parte deste grupo, no caso os Gama
e Abreu e os Almeida. Se os indícios encontrados, na própria trajetória de Henri de La
Roque, a respeito da consideração que o mesmo tinha junto aos círculos políticos
provinciais, os matrimônios realizados pelos seus filhos irão reforçar essa estima, pois a
família se tornará aliada de dois dos mais destacados sujeitos da política local.
Já mencionei a participação de Henri nos grupos incumbidos de conseguir as
subscrições faltantes para a criação do Banco Comercial do Pará, bem como da redação
dos estatutos da mesma instituição, quando se tratou de Francisco Gaudêncio. Alguns
anos depois, os serviços deste La Roque voltarão a ser solicitados pela Presidência da
Província.
Em 1858, Henri, junto com João Augusto Corrêa, outro negociante
provincial124 , foi encarregado de confeccionar os estatutos de uma sociedade destinada a
promover a imigração no Grão-Pará, sob a subvenção do governo imperial. 125 Seja pela
sua atividade comercial, seja pela sua atividade agrícola, o que se nota é uma contínua
lembrança do nome de Henri em projetos levados a cabo pela administração paraense.
Neste sentido, a escolha de Henri para participar da citada comissão, deveu-se pelo

122
RPP, 17/01/1875.
123
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 166.
124
Mais informações sobre João Augusto Corrêa estão no primeiro capítulo.
125
RPP, 07/04/1858.

203
sucesso que estava tendo em um estabelecimento de sua propriedade. 126 No próprio ano
de 1858, o então Presidente do Pará, José da Silva Carrão, dizia à Assembléia Provincial
o seguinte:

“(...) na ilha de Quatioba, além da ilha das Onças, tem um importante estabelecimento em
que cultiva a canna com escravos, importou em janeiro deste anno doze colonos alemães,
inclusive uma familia de 3 membros, que se empregão na mesma cultura da canna, e se
empregárão em breve na do cacáo que o proprietario pretende cultivar em ampla escala. E
por ora, tem-se dado optima mente com o clima, alimentos, e genero de trabalho. É um
ensaio que em minha opinião promette um futuro prospero, e servirá de guia a outros
emprehendedores: o criterio que distingue ao proprietario é uma garantia irrecusavel de boa
direcção que terá a colônia”. 127

A circulação de Henri no meio político provincial, demonstrada pelos dois


momentos apontados, irá ainda, como mencionado, ganhar um reforço através de seus
filhos, João Luís de La Roque e Henri de La Roque Júnior.
João Luís se casou com Alicia Abreu, filha de José Coelho da Gama e Abreu -
o Barão de Marajó -, e Maria Pombo Brício. Assim, além de angariar uma nova família
para o grupo analisado, João criou mais um laço de parentesco entre os Gaudêncio da
Costa, os Brício e os Pombo, pois Maria era fruto da união entre o Comendador Marcos
Antônio Brício com uma filha de Joaquim Cle mente da Silva Pombo. Recordo que
Marcos Antônio era genro do tio de João Luís, Francisco Gaudêncio da Costa.
José Coelho da Gama e Abreu, Barão de Marajó, filho de um ex-oficial da
Marinha portuguesa 128 , ocupou importantes cargos públicos durante o II Reinado, e
mesmo no período republicano. Deputado provincial e geral, pelo Pará, entre 1867 e
1870, foi, também, Presidente da mesma Província nos anos de 1879 a 1881, e do
Amazonas entre 1867 e 1869. Por vários anos ocupou a cadeira de Matemática no
Lyceu Paraense, escola de ensino secundário, além de ter sido diretor de obras públicas
no Grão-Pará durante a década de 1860. Esse espaço no sistema educacional paraense
certamente lhe foi aberto em função do tempo em que passou estudando Matemática na
Universidade de Coimbra, onde entrou no ano de 1848. 129 Ainda durante a segunda

126
Lembro da sociedade que Henri de La Roque tinha com Ana Joaquina Rosa dos Santos Smith em
outras duas propriedades rurais, apontadas no capítulo anterior.
127
Idem, pp. 44-45.
128
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 164.
129
MORAIS, Francisco de. “Estudantes Brasileiros na Universidade de Coimbra (1772-1872). In: Anais
da Biblioteca Nacional. Vol. 62. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942, p. 290. Agradeço à Martha
Hameister por ter me cedido uma cópia deste material.

204
metade do século XIX, em período de tempo aqui desconhecido, foi o responsável pelo
Tesouro Público Provincial. 130 Quando do advento da República, exerceu o cargo de
Intendente de Belém nos anos de 1891 a 1893, chegando a senador posteriormente. 131
Algo que merece ser destacado nas relações existentes entre José Coelho e a
administração paraense é a nomeação dele, em 1861, para fazer parte de uma comissão
encarregada de estudar o processo descoberto por Henrique Antônio Strauss, o qual
propunha inovações na preparação da borracha. Ainda voltarei a fazer menção sobre
esse processo na próxima seção deste capítulo; de qualquer forma, o interesse da
Presidência da Província no conhecimento do mesmo era tanto, que ela estava
autorizada, pela Assembléia local, a despender a quantia que fosse necessária para o
estudo. 132 Ora, para círculos políticos que não acreditassem ser favorável a crescente
economia gomífera, ou que entendessem a agricultura como o meio mais indicado de
desenvolver a região, em detrimento mesmo da borracha, aquele interesse no processo
de Strauss não seria algo de se esperar. Em 1864, inclusive, a Presidência da Província
já tinha em mãos o “segredo” desse processo. 133 Mas, esse é um assunto que voltará a
ser tratado adiante.
De fato, a inserção política, e mesmo distinção social, de José Coelho devem
ter facilitado a união entre alguns de seus filhos com famílias prestigiosas não somente
da própria Província, como na Corte do Império brasileiro. Mais do que isso: tais
relações parentais, em vista da natureza da sociedade em estudo, certamente atuaram
como reforço das posições ocupadas por essas famílias na hierarquia social da época,
extremamente ciosa de suas diferenças internas. Assim, uma das filhas do Barão de
Marajó, como apontado anteriormente, foi desposada por Francisco Leite Chermont,
filho do Visconde de Arari. Alicia, também já tive oportunidade de dizer, casou com
João Luís de La Roque. José Brício da Gama e Abreu, por sua vez, consorciou-se com
Ana Malcher da Costa e Cunha, oriunda de um meio possuidor de negociantes e homens
da política que tinham a sua importância ultrapassando os próprios limites
provinciais. 134

130
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 164; e ANB.
131
Idem; Idem.
132
RPP, 04/05/1861.
133
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1856, Caixa/Ano: 1856-67, doc.
10.
134
Este grupo de famílias será analisado mais adiante.

205
Diante, portanto, de tantos espaços na política paraense, não há motivos para se
estranhar a promulgação, em 1860, da Lei Provincial no 356, pela qual a firma José
Coelho da Gama e Abreu & Companhia, destinada à preparação de chocolate e extração
de óleos vegetais, por meio de máquinas movidas a vapor, ficasse isenta de impostos no
prazo de dez anos. 135 Essa atividade do Barão é interessante até por demonstrar,
novamente, como um sujeito da elite paraense estava, também, envolvido com as
atividades extrativas. Se algumas pessoas do grupo que estava inserido, mantinham
interesses na borracha, José Coelho o tinha nos óleos vegetais.
Mas, voltando aos filhos de Henri de La Roque e Matilde Costa, resta ainda
tratar de Henri de La Roque Júnior. Casado com Carlota Almeida, era genro de Tito
Franco de Almeida. 136 Mais uma vez, encontra-se aqui famílias de pessoas ligadas ao
comércio e de políticos destacados, unidos através de relações de parentesco.
Nascido no dia 04 de janeiro de 1829, no Pará, Tito Franco era filho do
Bacharel português Joaquim Inácio de Almeida, e de Maria Romana de Almeida.
Ainda bastante jovem, foi para Lisboa, a fim de realizar os estudos de humanidades e os
preparatórios necessários para a ent rada no curso superior. Após o seu retorno ao
Brasil, tornou-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Academia de Olinda, no
ano de 1851. 137 No mesmo ano, passou a ocupar a cadeira de Filosofia Racional e
Moral no Lyceu Paraense. 138
Advogado, Tito Franco de Almeida foi um dos políticos paraenses de destaque
na Corte. Além de ter participado várias vezes da Assembléia Provincial, elegeu-se
deputado geral em quatro ocasiões: 1857 a 1860, 1864 a 1866, 1878 a 1881 e 1889,
sendo que, neste último mandato, nem chegou a assumir o cargo em função da queda do
regime imperial. 139 No Rio de Janeiro, também, foi nomeado, em 1864, Diretor Geral
da Secretaria dos Negócios da Justiça e Redator em Chefe do Diário Oficial do Império,
postos estes que ocupou até o ano de 1866. 140

135
Idem.
136
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 164.
137
ANDRADE, Manuel Correia de. “Tito Franco de Almeida: Monarquia e Democracia”. In: FRANCO,
Tito. Monarquia e Monarquistas. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 1990, p. 08
(1a edição de 1895).
138
RPP, 20/08/1852.
139
ANDRADE, Manuel Correia de., op. cit., p. 09.
140
CUNHA, Ten. Cel. Raymundo Cyriaco Alves da. Paraenses Ilustres. Belém: Conselho Es tadual de
Cultura, 1970, p. 141 (1a edição de 1896). Não constavam na primeira edição deste estudo algumas
biografias presentes na publicação consultada, inclusive a de Tito Franco de Almeida.

206
O grupo de famílias apresentado aponta para a união entre negociantes e
proprietários rurais, grupo este que contava com pessoas de participação política ativa
na Província e mesmo fora dela. Possuindo prestígio social e inserção nas esferas
políticas imperiais, essas alianças não somente reforçaram as posições ocupadas pelo
grupo na hierarquia social, como devem ter facilitado a acumulação entre o mesmo.
Isso pode ser confirmado pela constatação que vem sendo feita, a respeito de ser a
grande maioria das famílias da elite paraense aparentada entre si, uma elite que, para
além de inserção política, contava com pessoas possuidoras de grande cabedal.

207
208
Lista das Honrarias nas Famílias Gaudêncio da Costa, La Roque, Gama e Abreu e
Almeida

Honrarias
Nome
Cargos Públicos Patentes Títulos
Deputado Provincial e
Geral; Presidente das
Províncias do Pará e do
Amazonas; Diretor de
José Coelho da Gama e
Obras Públicas; Diretor Barão de Marajó
Abreu
do Tesouro Público
Provincial. Durante a
República, Intendente
de Belém e Senador.
Deputado Provincial e
Geral; Diretor Geral da
Secretaria de Negócios
Tito Franco de Almeida
da Justiça e Redator em
Chefe do Diário Oficial
do Império.

209
As famílias Brandão de Castro, Rodrigues Martins, Oliveira Pantoja, Malcher,
Costa, Silveira Frade e Silva Castro.

Este grupo, de forma semelhante ao anterior, é formado por pessoas vinculadas


diretamente ao negócio de exportação de borracha, possuindo, também, laços de
parentesco com famílias de proprietários rurais e políticos locais. Na verdade, por
englobar três das mais prestigiosas famílias do Pará setecentista – os Oliveira Pantoja,
os Rodrigues Martins e os Silveira Frade -, este grupo ilustra não somente a relação
entre os setores ligados ao comércio e à agricultura, como a maneira pela qual parte da
elite tradicional paraense estava, também, diretamente envolvida com a economia
gomífera.
A pessoa escolhida para dar início ao entrelaçamento das famílias foi
Agostinho Brandão de Castro. Dele, sei apenas, segundo Marin, que era Major e
armador, dono de um navio apreendido na costa da África por ingleses, em 1821,
carregado de escravos. 141 Não tenho conhecimento, também, sobre quem era a mãe das
suas filhas, por nomes Maria Emília Brandão de Castro e Ana Micaela Brandão de
Castro. Serão essas duas moças que irão, com os seus casamentos e filhos, estabelecer
importantes alianças para a sua família.
Maria Emília foi desposada por José Joaquim Rodrigues Martins. Fruto da
união entre João Marcelino Rodrigues Martins e Josefa Florêncio de Oliveira Pantoja,
José Joaquim era oriundo, portanto, de duas das mais tradicionais famílias do Grão-
Pará.
Comecemos pelos Rodrigues Martins. O bisavô de João Marcelino, pelo lado
paterno, era Antônio Rodrigues Martins. Almoxarife da Fazenda Real, ao menos
durante os anos de 1742 a 1747142 , Antônio exerceu, também, a função de Tesoureiro
Geral do Comércio dos Índios, desde a implantação do Diretório até fins da década de
1770143 , quando foi substituído no cargo por seu filho João Manuel Rodrigues 144 . Este,

141
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 165.
142
AHU-PA, doc. 2537; AHU-PA, doc. 2766.
143
AHU-PA, doc. 4340; AHU-PA, doc. 5831. O Tesoureiro era responsável pela comercialização de
todos os gêneros provenientes das povoações, tendo, inclusive, a atribuição de lhes fixar os preços. Isso
era feito mediante uma lista dos produtos obtidos nas expedições aos “sertões”, preparadas pelos
Diretores, bem como dos próprios gêneros que eram enviados ao Tesoureiro, o qual deveria prestar conta
de todas as suas atividades ao Governador.
144
AHU-PA, doc. 7243.

210
aliás, em 1761, foi provido no posto de Tesoureiro das fazendas e dos currais de gado
que pertenceram aos jesuítas, até essas propriedades serem distribuídas e vendidas entre
alguns colonos da Capitania. 145 Muito embora João Manuel não tenha recebido
nenhuma das antigas fazendas daquela ordem religiosa, foi beneficiado com duas
sesmarias: ambas localizadas entre as vilas de Ourem e Bragança, uma foi concedida em
09 de fevereiro de 1768 e confirmada em 14 de dezembro do mesmo ano, e a outra
recebida no dia 14 de março de 1768 e confirmada em 16 de janeiro de 1769. 146
Juntamente com os cargos públicos, certamente atuaram as relações pessoais
de Antônio Martins, no sentido de construir a qualidade e a riqueza da família no Pará.
Um bom exemplo disso é um ofício por ele escrito a Francisco Xavier de Mendonça
Furtado, já como Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, em 1761. Neste
documento, Antônio não somente trata de questões relativas a sua atividade de
Tesoureiro dos Índios, como agradece o “favor” recebido do Secretário por um dos seus
filhos, além de indicar mesmo a existência de relações de compadrio – sem explicitar de
qual tipo - entre a sua mulher e Mendonça Furtado:

“Agradeço a V. Exa o cuidado que tem de meu filho Vyturino da Silva em o recomendar ao
s r General deste Estado, e eu conheço o amor que o dito Snr. lhe tem, e agora entendo que
passará a thenente, e todo este favor devo a V. Exa. (...)
Minha com sorte, e comadre de V. Exa, e minhas filhas, e filhos serecomendão a V. Exa
commtas Lembranças e saudades, e elles e eu em V. Exa temos hum Pay, para nosso
amparo”. 147

Com alianças do tipo acima, pode-se ter uma idéia do prestígio possuído por
Antônio Martins e sua família na Capitania. Neste sentido, não há por que se estranhar
o conteúdo de um pedido de devassa feito por Pedro Ferreira, feitor, contra Antônio
Martins, ainda quando este era Sargento-mór, pois, por carta patente de 1771, passou a
ser Mestre-de-Campo de Infantaria das Ordenanças em Belém148 . O motivo para tanto
era a agressão física sofrida, feita por índios e escravos negros, a mando de Antônio.
Dizendo que não havia motivo para esses “insultos”, Pedro Ferreira solicitava a Sua
Majestade que a devassa fosse realizada no período de tempo determinado pela lei, pois
o Sargento- mór era “(...) pessoa muito poderoza na dita Cidade [de Belém] eiatendido

145
AHU-PA, doc. 4715.
146
ABAPP., op. cit., p. 77.
147
AHU-PA, doc. 4715.
148
AHU-PA, doc. 5845.

211
(sic) dos mayores della”. 149 Este documento, aliás, aponta que, para além de alianças
com poderosas autoridades da Coroa, relações de reciprocidade com os chamados
grupos subalternos da sociedade colonial, a exemplo dos índios e escravos negros,
alicerçaram o poder social de Antônio Martins. Isso pode, inclusive, ao menos em
parte, explicar aquela patente de Mestre-de-Campo posteriormente recebida por
Antônio, pois postos desse tipo pressupõem que os seus ocupantes fossem, no mínimo,
respeitados na localidade e, assim, tivessem a sua qualidade reconhecida na sociedade.
Dito de outra forma, por um lado, como essa patente era dada pelo Governador, o
alcance da mesma, por parte de Antônio, informa que a ascendência social dele era
reconhecida pelo maior representante do Império luso na Capitania do Pará. Por outro
lado, também indica que a legitimidade social de Antônio, capaz de fazê- lo um dos
“maiores” da cidade de Belém, perpassava vários estratos sociais que compunham esta
sociedade, desde os altos funcionários da Coroa portuguesa, aos índios e escravos
negros.
No entanto, tanto os cargos públicos, quanto as alianças anteriormente
mencionadas, somente podem ser entendidas através das práticas beneficiais comuns em
sociedades do tipo estudado. Em relação aos grupos subalternos, mesmo não podendo
ir adiante com esta afirmação, é lícito supor que algo em troca deveriam receber aqueles
índios e escravos, os quais, sozinhos, teriam agredido o feitor Pedro, à mando de
Antônio Martins. No tocante às autoridades do Império português, no entanto, existem
documentos que podem fornecer algumas pistas.
Um neto de Antônio, o qual já era Cavaleiro da Ordem de Cristo, filho de João
Manuel, por nome João Antônio Rodrigues Martins, ao solicitar o hábito da mesma
Ordem, em 1802 – pedido este em que foi atendido -, dizia que seu pai, de “sua
fazenda”, costumava socorrer a Real Fazenda “com emprestimos avultadissimos”. 150
Mesmo que em documentos dessa natureza, como os pedidos de mercês, os solicitantes
costumassem inventariar tudo o que lhes pudesse beneficiar, em vista da riqueza e do
prestígio alcançado pelos Rodrigues Martins no Grão-Pará, em um período no qual as
práticas beneficiais eram fundamentais para tanto, não soa fora de contexto aquela
lembrança de João Antônio. O próprio requerente, dizendo-se pertencer a uma das
casas mais “distintas” de Belém, “em qualidade, e riqueza”,
149
AHU-PA, doc. 4195.
150
AHU-PA, doc. 9382.

212
“(...) tem servido a V. M., tanto com os seus bens, como em pessoa, tendo-se occupado no
exercicio Militar, e em as Fortificaçoens daqla Cid e, em q. tem gasto de sua caza e
empregado mto tempo, sempre com honra, promptidão e gosto no Real Serviço (...)”. 151

Ao que parece, todo o esforço do primeiro dos Rodrigues Martins localizado na


documentação do Pará colonial, o Antônio, em construir o prestígio da sua família no
Pará, foi seguido pelos seus descendentes. Possivelmente, em função da solicitude
demonstrada por João Antônio perante a Coroa, é que ele apareça em 1819 como
Intendente da Marinha 152 e, no ano seguinte, possuindo a patente de Brigadeiro 153 . Mais
do que isso, João Antônio, como seu avô, procurou preservar as relações de alianças
entre a sua família e importantes autoridades do Império português. Em um ofício,
datado de 20 de março de 1806, o então Governador do Estado do Pará e Rio Negro, D.
Marcos de Noronha e Brito, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, D. João
Rodrigues de Sá e Melo, era recomendada a “protecção” ao requerimento de João
Antônio. Mesmo não explicitando o conteúdo do tal requerimento, o interessante deste
ofício é a justificativa dada pelo 8o Conde dos Arcos para o seu pedido:

“(...) devo agora por Gratidão e amizade àquele official, e Negociante mais abonado desta
Praça, declarar a V. Exa que nenhum dos Habitantes desta Capital he mais digno da mercê
que pede; ou seja pelas qualidades pessoaes, ou bem pelas militares”. 154

Eleito, em fins do século XVIII, diversas vezes para o Senado de Belém155 ,


João Antônio Rodrigues Martins, portanto, dentro da lógica da “economia do dom” já
exposta, acumulou grande prestígio e riqueza e no Grão-Pará. A respeito deste último
ponto, em particular, as suas atividade econômicas eram tanto vinculadas ao comércio
quanto à agricultura. Negociante de longo curso e armador, as suas rotas passavam por
Lisboa, África, Maranhão e Pará, sendo que, ao menos durante os anos em que foi
possível acompanhá- lo na documentação consultada, esteve nesta atividade de 1803 a

151
Idem.
152
AHU-PA, doc. 11507.
153
AHU-PA, doc. 11575.
154
AHU-PA, doc. 10372.
155
AHU-PA, doc. 9382.

213
1821.156 Já as suas propriedades rurais, estas eram em número de três: os engenhos
Mocajuba, Utinga e Murucutu157 , localizados nas cercanias de Belém.
Pois bem, conforme mencionei mais cima, um filho de João Antônio, por nome
João Marcelino Rodrigues Martins, casou com Josefa Florêncio de Oliveira Pantoja. 158
Esta última família é apontada por Patrícia Sampaio como fazendo parte do grupo
denominado “povoadores de Belém”. O primeiro dos seus a chegar ao local, em fins do
século XVII, foi José de Oliveira Pantoja, o qual se casou com Luísa Maria de
Bittencourt, que, por sua vez, era neta do ex-capitão general do Estado do Maranhão,
Feliciano Correa (1644-1646). 159
Um pedido de mercê feito pelo pai de Josefa, Amandio José de Oliveira
Pantoja, fornece informações interessantes sobre a sua própria trajetória, além da de sua
família, no Pará. Ao solicitar o Hábito da Ordem de Cristo ou de São Bento de Avis –
no que foi atendido com o da segunda Ordem em 1803 -, como é de praxe em
documentos dessa natureza, foram anexados vários atestados dos serviços prestados por
Amandio à Coroa portuguesa. 160 De maneira semelhante aos Rodrigues Martins, a
busca contínua por se mostrar um “fiel vassalo”, entre os Oliveira Pantoja, certamente
foi fundamental para o prestígio alcançado pelos mesmos na Capitania. Na consulta
feita pelo Conselho Ultramarino ao regente D. João, acerca do pedido de Amandio –
onde há, de forma resumida, todos os atos que pudessem beneficiá-lo no pretendido -,
consta que a sua família, ao menos desde fins do século XVIII, possuía o direito de usar
brasão de armas. O pai de Amandio, inclusive, foi familiar do Santo Ofício no Pará. 161
Assim, todo o esforço do requerente teria sido “(...) imitando aquelles de quem
descende, que sempre se contárao no numero dos mais Nobres, e antigos cidadõens
daquella Cidade [Belém] (...)”.
Como Capitão de um dos Regimentos de Milícias de Cametá, na década de
1790, por exemplo, Amandio José forneceu “gratuitamente” todos os víveres

156
AHU-PA, doc. 9775; AHU-PA, doc. 10758; AHU-PA, 10921; AHU-PA, 10986; AHU-PA, doc.
10989; AHU-PA, doc. 11390; AHU-PA, doc. 11391; e AHU-PA, doc. 11604.
157
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 164.
158
Idem.
159
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (b). Espelhos Partidos: Etnia, legislação e desigualdade na Colônia.
Sertões do Grão-Pará, c.1755 – c.1823. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2002, p. 101 (Tese
de Doutorado em História).
160
AHU-PA, doc. 9544. Quando as próximas informações sobre Amandio José de Oliveira Pantoja
forem retiradas deste documento, o mesmo não voltará a ser citado.
161
SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (b)., op. cit., p. 101.

214
necessários para os indivíduos sob o seu comando que iam, freqüentemente, combater
os mocambos formados na Capitania. Aliás, este exemplo serve como um indício da
ascendência social tida por Amandio na região. Considerando os riscos envolvidos em
empreitadas desta natureza, se ele conseguia reunir um grupo de homens que o seguiam,
deviam existir fortes laços sociais ligando-os. Quem sabe, as pessoas que o
acompanhavam recebiam alguma recompensa depois de terem alcançado os seus
intentos com a operação. De todo modo, e continuando a demonstrar a sua solicitude
perante as necessidades da Coroa, Amandio colocou trinta escravos seus, fornecendo-os
alimentos inclusive, à disposição do governo local, quando se fez necessária a
construção de uma muralha em Belém para a melhor defesa da cidade.
Reconhecidamente dedicado às atividades agrícolas, dono até de um Engenho Real,
repetidas vezes, em fins do século XVIII, socorreu os Reais Armazéns com farinha,
chegando a ponto de se oferecer para comprar esse gênero de outros lavradores, a fim de
empregar o obtido no mesmo fim.
Mesmo quando do movimento independentista no Grão-Pará, Amandio José
continuou se mostrando prestimoso para com as necessidades do Governo, mas, desta
vez, o do nascente Império Brasileiro. 162 Na justificativa dada por José Felix Pereira de
Burgos para a concessão, em 1826, da Imperial Ordem do Cruzeiro a Amandio, consta:

“Por haver suprido com somas avultadas as precisões da Província na urgência ocasionada
pelas mudanças do sistema antigo para aquela da União da Província do Pará às mais
Províncias do Império do Brasil... de cujos empréstimos ainda lhe resta a Fazenda Pública
mais de dois contos de réis...”. 163

É interessante notar nos fragmentos da trajetória de Amandio José, que uma


filha sua foi desposada por um rapaz proveniente de uma família ligada ao comércio,
mas não exclusivamente, e reconhecida como tal – para lembrar, estou tratando aqui de
Josefa Florêncio de Oliveira Pantoja e João Marcelino Rodrigues Martins. Ambos
possuidores de prestígio social e político, esses dois grupos devem ter visto na aliança
parental realizada uma oportunidade para reforçar as posições que ocupavam na
hierarquia da sociedade local. Mais do que isso, seus filhos e netos irão, também, fazer

162
Sobre os motivos que teriam levado à ocorrência de divisões entre os diferentes setores da elite
paraense, no que toca aos projetos políticos, quando do movimento independentista, cf.: SOUZA
JUNIOR, José Alves de., op. cit.
163
Documento citado em CRUZ, Ernesto (c)., op. cit., p. 151.

215
alianças com famílias ligadas à política e ao comércio. É evidente que somente os
casamentos não permitiam que determinadas famílias permanecessem, por várias
décadas, no restrito círculo das elites locais. De qualquer forma, a combinação de
alianças parentais e a busca por uma relação de proximidade com a administração e
política provinciais, por meio, por exemplo, da ocupação de cargos públicos e mesmo
de financiamento de certas atividades pertencentes à Presidência da Província,
certamente foram instrumentos que permitiram a famílias importantes ainda no século
XVIII, continuarem, com o grupo de que faziam parte, em posição semelhante durante a
segunda metade do XIX, apesar das mudanças entre estes dois períodos. Através de tais
mecanismos, portanto, esses grupos familiares não somente puderam possuir prestígio
social, como cabedal, conforme está sendo apresentado. Muito embora com o avançar
do Oitocentos não se tenha verificado a continuidade do sobrenome Oliveira Pantoja em
posições tão prestigiosas quanto no século XVIII e início do XIX164 , os descendentes de
Josefa Florêncio irão, ainda por várias décadas, possuir lugares de destaque na
sociedade paraense, utilizando-se para tanto dos mecanismos acima mencionados.
Aliás, um estudo acerca desse – na falta de uma palavra melhor – desaparecimento do
sobrenome Oliveira Pantoja, através de uma análise que adentrasse mais profundamente
na trajetória da família no Pará, poderia ser bastante interessante. Mas isso já é uma
outra história, que somente pesquisas futuras poderão fazer.
Assim, do casamento entre João Marcelino, Brigadeiro e Inspetor do Tesouro
Público Provincial, cargo este que ocupou ao menos entre 1838 e 1848 165 , e Josefa
Florêncio, como mencionado, localizei dois filhos, por nomes Marcos Antônio
Rodrigues Martins e José Joaquim Rodrigues Martins. Este último, desposando uma
das herdeiras de Agostinho Brandão de Castro, Maria Emília, tiveram rebentos que irão
conseguir importantes aliados para a família: Maria Emília, como a mãe, Rita, Emílio
Adolfo e José Antônio.

164
É claro que esse desaparecimento não deve ser entendido como absoluto, pois localizei, por exemplo,
um certo Romualdo de Oliveira Pantoja como Tenente-Coronel da Guarda Nacional em Cametá, no ano
de 1868, bem como um Tomás de Oliveira Pantoja, como Tenente da Guarda Nacional em Santarém no
mesmo ano. De qualquer forma, na documentação consultada, as presenças verificadas desse sobrenome,
na segunda metade do século XIX, não indicam nem de longe o prestígio social e político possuídos em
tempos anteriores. Cf.: RPP, 06/08/1868.
165
RPP, 01/10/1848.

216
Maria Emília se consorciou com João Augusto Ribeiro Malcher. 166 Muito
embora somente tenha sido possível localizar João Augusto como professor de Retórica
e Poética do Colégio Paraense, em 1863 167 , o mesmo era filho de João Diogo Clemente
Malcher, procurador geral da Santa Casa da Misericórdia do Pará em 1873 168 , além de
Deputado provincial, em diversas legislaturas, de 1852 a 1879169 , Juiz Municipal da
Capital em 1868 e, no ano de 1870, também Juiz, só que Suplente. 170 O pai de João
Diogo, por sua vez, era Félix Antônio Clemente Malcher, um dos líderes do movimento
da Cabanagem.
Quanto à Rita, casou-se com o inglês Frederico Pond, sócio da firma Samuel
G. Pond & Cia., a qual se tornou a quarta em importância na exploração da borracha no
ano de 1882. 171 Presente na Província ao menos desde a década de 1860 172 , Frederico
compôs a diretoria da Associação Comercial do Pará durante os anos de 1870, 1872 e
1875.173
Os rapazes, por sua vez, Emílio Adolfo e José Antônio, eram os responsáveis
pela casa comercial Martins & Cia. que, nos anos de 1880, ocupava o quinto lugar na
exportação da borracha pelo Pará e o primeiro lugar entre os exportadores nacionais. 174
Emílio foi, ainda durante a mesma década, Despachante da Alfândega 175 , além de
Diretor da Associação Comercial do Pará entre 1886 e 1888, e Vice-Presidente em 1891
e 1892.176
Além do próprio posto ocupado por Emílio Adolfo na Alfândega, o seu tio
paterno, o Comendador Marcos Antônio Rodrigues Martins, após ter lutado em prol da
chamada adesão do Pará à Independência, foi Administrador da Recebedoria Provincial,
desde a sua criação em 1839, ao menos até 1855. 177 Enquanto o primeiro cargo

166
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 165.
167
RPP, 01/11/1863.
168
VIANNA, Arthur., op. cit., p. 227.
169
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 165.
170
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal da Capital, 1868, Caixa/Ano: 1868-70, doc.
01; e APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo Municipal e do Comércio da Capital, 1870,
Caixa/Ano: 1866-70, doc. 01.
171
Idem, ibidem.
172
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1863, Caixa/Ano: 1863-64, doc.
02.
173
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.
174
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 165.
175
Idem, ibidem.
176
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.
177
Idem, pp. 148-149; RPP, 01/10/1848; RPP, 20/08/1852; e RPP, 02/08/1855.

217
colocava o ocupante como responsável direto pelas exportações feitas pela Província, o
segundo era encarregado de arrecadar todos os impostos sobre aquele tipo de comé rcio.
Sendo assim, mesmo não podendo ir adiante com esta sugestão, é difícil não imaginar
que o próprio tempo em que estiveram naqueles cargos, bem como a inserção na
administração construída durante esse mesmo período, tenham sido utilizados para
facilitar as atividades comerciais de longo curso desenvolvidas pela família.
Emílio Adolfo, cabe mencionar, era casado com Máxima Ferreira Leal, a qual
tinha uma irmã que, por sua vez, era esposa de Manoel Antônio Pimenta Bueno, filho de
José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente 178 , Conselheiro de Estado entre
1859-1872, e Presidente do Conselho de Ministros no 24º Gabinete de 29 de setembro
de 1870.179 Através de sua cunhada, portanto, Emílio estava próximo a uma família de
destaque que extrapolava os limites provinciais, chegando à Corte imperial. Isto é
bastante interessante, na medida em que demonstra a amplitude das alianças sociais
constituídas por certos setores da elite paraense oitocentista.
Outro caso que vai ao encontro da sugestão acima, mesmo que não relacionado
diretamente ao grupo familiar aqui analisado, é o de Francisco Carlos de Araújo
Brusque. Nascido no Rio Grande do Sul, em 1822, foi deputado geral pela sua
Província natal em 1853-1856 e 1857-1860. Ocupou o mesmo posto, mas pelo
Amazonas, entre os anos de 1864-1866. Exerceu ainda a função de Presidente de Santa
Catarina (21.10.1859 – 25.04.1861) e do Pará (1861-1864).180 O fato de Araújo
Brusque ter conseguido se eleger deputado pelo Amazonas, bem como o espaço de
tempo considerável que esteve à frente da administração paraense, acredito, somente
podem ser entendidos se consideradas as alianças que ele devia manter com grupos das
elites nas duas regiões.
Se, durante o século XVIII, foi possível demonstrar que alguns sujeitos
integrantes da elite paraense à época tinham as suas bases de poder chegando a Lisboa,
no XIX o raio de ação mantido por frações da elite local ainda parece ter continuado
extenso. É possível mesmo que uma das chaves para o entendimento de como o
Império brasileiro, durante o II Reinado, conseguiu manter minimamente uma
estabilidade social interna, após os anos turbulentos da Regência, seja a análise da

178
MARIN, Rosa Elizebeth Acevedo., op. cit., p. 165.
179
MARTINS, Maria Fernanda Vieira., op. cit., p. 21.
180
Agradeço a Luís Augusto Farinatti por estas insformações.

218
constituição de diferentes tipos de alianças sociais entre os vários segmentos das elites
regionais. 181
Mas, voltando a Manoel Bueno, alguns elementos da sua trajetória, no período
em que viveu no Pará, podem reforçar o argumento que estou trabalhando a respeito dos
sujeitos ligados ao negócio da borracha não estarem afastados dos círculos políticos
provinciais, tampouco de constituírem um grupo fechado, sem ligações parentais ou
mesmo de relações sociais em geral, com outros grupos da elite local.
Chegando ao Grão-Pará a fim de dirigir a Companhia de Navegação do
Amazonas, pertencente ao Barão de Mauá, Manuel Antônio foi, também, Presidente da
Associação Comercial do Pará, quando da criação da mesma em 1864 e,
posteriormente, nos anos de 1867 e 1868. 182 No entanto, em que pese o prestígio que já
possuía quando foi para a Província, como decorrência da própria família da qual era
oriundo e da função que estava encarregado, Manoel Bueno não descurou com as
práticas beneficiais comuns em sociedades pré- industriais. Com algum esforço, é
possível recuperar alguns indícios de solicitude por parte de Manoel Pimenta Bueno
para com a administração paraense.
Por exemplo, em um momento em que a Província estava às voltas com uma
epidemia de cólera, no ano de 1855, Manoel prestou a sua ajuda. De acordo com o
então Presidente, João Maria de Moraes, somente pôde ser enviada uma comissão a
Cametá, para socorrer as vítimas daquela doença, em função da “promptidão e boa
vontade” de Manoel Pimenta Bueno, que lhe cedeu uma embarcação da Companhia do
Amazonas. 183 Ou ainda em 1867, quando o Presidente Pedro Leão Velozo, ao tratar da
navegação no Pará, refere-se da seguinte maneira a Manoel Bueno:

“Não concluirei este topico sem dar testemunho de reconhecimento ao intelligente e zelôso
gerente da companhia o sr. Manoel Antonio Pimenta Bueno, pela valiosa coadjuvação que
prestou à minha administração (...)”. 184

Mesmo não esclarecendo qual o tipo de “coadjuvação” prestada por Manoel, a


declaração dada por Pedro Velozo, além da outra anterior de João Maria de Moraes,

181
Maria Fernanda Martins, na pesquisa que está desenvolvendo, mencionada no início deste capítulo,
tem procurado analisar as redes sociais a que pertenciam os Conselheiros de Estado.
182
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.
183
RPP, 31/07/1855.
184
RPP, 09/04/1867.

219
servem para demonstrar os esforços feitos pelo filho do Marquês de São Vicente no
sentido de reforçar a posição que ocupava na hierarquia social da época. Como
apontado mais acima, mesmo em sociedades do tipo aqui estudado, os lugares que cada
um tinha na estrutura social do tempo não eram dados de forma natural e permanente.
Todos esses motivos, pois, muito possivelmente influenciaram na nomeação de Manoel
Bueno pela Presidência do Pará, em 1874, para integrar uma comissão encarregada de
conseguir objetos para uma exposição de produtos “industriais”. 185 E, agora, pode-se
retornar ao elo de ligação proposto entre a trajetória de Manoel Pimenta Bueno e os
grupos com interesses no negócio da borracha, quando se estava tratando dos Castro
Martins.
Por um lado, o prestígio político alcançado por Manoel Bueno no Pará, por
meio da cons trução de uma relação de favores entre ele e a administração provincial,
certamente serviu de alicerce, também, para o destaque possuído pela família de sua
cunhada, Máxima Ferreira Leal, aquela que era casada com Emílio Adolfo Castro
Martins. Em uma sociedade que não se pode considerar individualista, i.e., onde as
relações pessoais e familiares eram ainda de fundamental importância para a própria
estruturação dos vários níveis de interação social, a afirmação acima não fica fora de
contexto. Mesmo sendo um parentesco indireto 186 , a relação entre os Castro Martins e
Manoel Pimenta Bueno deve ser entendida como reforço para a distinção dos primeiros
na Província.
Por outro lado, no que toca à comissão de 1874, já foram mencionados os
outros nomes que a compunham, como Francisco Gaudêncio da Costa, Elias José Nunes
da Silva, Antônio Lacerda de Chermont, e José da Gama Malcher. Os dois primeiros,
como visto, eram negociantes portugueses envolvidos com a exportação da borracha.
Antônio Chermont pertencia a um grupo familiar do século XVIII e, além de estar
aparentado com negociantes e tradicionais proprietários rurais, ligava-se, também,
através dos Pombo, com donos de seringueiras. José da Gama Malcher, como será
apresentado, pertencia a um grupo de negociantes e políticos com assento até na Corte
brasileira. Quanto à Manoel Antônio Pimenta Bueno, tinha ligação com o grupo dos
Castro Martins, o qual contava com alguns dos maiores exportadores de borracha.

185
RPP, 17/01/1875.
186
Com a expressão “parentesco indireto”, refiro-me a uma relação parental não consangüínea, ou seja,
entre concunhados, no caso entre Manoel Antônio Pimenta Bueno e Emílio Adolfo de Castro Martins.

220
Assim, torno a afirmar, sejam as alianças parentais, sejam os espaços de sociabilidade
em comum, e mesmo as demonstrações de prestígio político tido para com a
administração provincial, deixam bastante difícil pensar os diferentes setores da elite
paraense de forma separada, bem como o grupo vinculado à economia gomífera
afastado das esferas da política local.
Quanto à outra filha de Agostinho Brandão de Castro, Ana Micaela, casou com
o Comendador Francisco Antônio da Costa, proprietário rural em Abaetetuba. 187 Os
rebentos deste enlace irão incorporar mais uma família oriunda do século XVIII, além
de sujeitos ligados à política provincial.
Rodrigo Augusto da Costa se consorciou com Valeriana Souza da Silva Castro,
filha de Francisco da Silva Castro e Joana Antunes Balbi de Castro. Pertencente a uma
família de negociantes188 , Francisco era médico e, nessa condição, presidiu a Comissão
de Higiene Pública do Pará, desde a sua criação, em 1854 até, pelo menos, o ano de
1868.189 Além do mais, desempenhou as funções de Provedor da Santa Casa da
Misericórdia do Pará nos anos de 1863-65, Vereador da Câmara Municipal de Belém
entre 1839 e 1846190 , além de Deputado provincial em diversas legislaturas de 1844 a
1855191 .
Ana Augusta casou com Samuel Wallace McDowell. Bacharel pela Academia
de Olinda no ano 1844, Samuel foi Deputado geral pelo Pará de 1881 a 1883, chegando
a Ministro da Marinha e da Justiça entre os anos de 1885 a 1887, no Gabinete Cotegipe,
do qual participou, também, Ambrósio Leitão da Cunha, o Barão de Mamoré, o qual
será apresentado no próximo grupo de famílias. 192 Aliás, Samuel teve como colega, em
Olinda, Antônio Maria Machado 193 , filho do negociante Antônio José Machado,
mencionados no capítulo anterior, sendo, assim, possível que, por uma relação de
amizade, mais um sujeito ligado à atividade comercial estivesse vinculado a este grupo
de famílias.

187
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, pp. 165-166.
188
Idem, ibidem; e VIANNA, Arthur., op. cit., p. 212.
189
RPP, 15/08/1854; RPP, 12/05/1860; RPP, 18/10/1868.
190
VIANNA, Arthur., op. cit., pp. 212-213.
191
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 166.
192
Idem, ibidem.
193
BEVILAQUA, Clovis. História da Faculdade de Direito do Recife. Brasília: INL; Conselho Federal
de Cultura, 1977. Agradeço a Maria Fernanda Martins por essa informação.

221
Por fim, tendo o mesmo nome que seu pai, Francisco Antônio da Costa
contraiu núpcias com Delfina Silveira Frade. 194 Mesmo não tendo sido aqui
identificados os pais dessa moça, os Silveira Frade conformavam uma família de
destaque ainda na época colonial. Florentino da Silveira Frade, por exemplo, chegou ao
Pará em 1739. Natural da vila de Thomar, em Portugal, Florentino ocupou o cargo de
Diretor, durante a vigência do sistema do Diretório, em várias vilas: Soure, Salvaterra,
Monforte e Ilha Grande de Joannes. Em Soure, também, durante período de tempo não
especificado, foi Juiz Ordinário. 195 De fato, todas as vilas mencionadas ficam no
Marajó, onde os Silveira Frade viraram importantes proprietários rurais. Florentino,
nessa área, foi beneficiado com nada menos do que cinco sesmarias: uma no rio Anajás,
concedida em 01 de maio de 1757; outra no mesmo rio, concedida em 24 de junho de
1767 e confirmada no dia 28 de julho do ano seguinte; no dia 30 de julho de 1777
recebeu mais duas, novamente no rio Anajás; sendo a quinta nas cabeceiras dos rios
Tahuá e Atauá, concedida em 11 de dezembro de 1792. 196
Este grupo, que pode ser considerado como formado, ao menos em parte, por
uma elite tradicional, pois possui entre os seus membros algumas das mais prestigiosas
famílias do período colonial, integra sujeitos dedicados ao comércio e à agricultura,
alguns dos quais com sinais evidentes de interesses na goma elástica. Além do mais,
através de suas alianças parentais, este grupo não somente demonstra a dificuldade de
pensar os setores econômicos paraenses de forma separada, como as formas por que os
mesmos poderiam conseguir espaços de participação nas esferas da política provincial.

194
Idem, ibidem.
195
AHU-PA, doc. 8378.
196
ABAPP., op. cit., pp. 49-50. Algumas sesmarias citadas não têm as datas de confirmação, porque as
mesmas não constam na fonte consultada.

222
223
Lista das Honrarias nas Famílias Brandão de Castro, Rodrigues Martins, Oliveira
Pantoja, Malcher, Costa, Silveira Frade e Silva Castro

Honrarias
Nome
Cargos Públicos Patentes Títulos
Agostinho Brandão de
Major
Castro
Amandio José de Capitão de Milícias em Professo da Ordem de
Oliveira Pantoja Cametá São Bento de Avis
Almoxarife da Fazenda Sargento-Mór e Mestre-
Antônio Rodrigues Cavaleiro da Ordem de
Real; Tesoureiro Geral de-Campo das
Martins Cristo
do Comércio dos Índios. Ordenanças em Belém
Despachante da
Emílio Adolfo
Alfândega do Pará.
Francisco Antônio da
Comendador
Costa
Vereador da Câmara
Municipal de Belém;
Francisco da Silva Deputado Provincial e
Castro Presidente da Comissão
de Higiene Pública do
Pará.
João Antônio Rodrigues Membro do Senado da Intendente da Marinha e
Martins Câmara de Belém. Brigadeiro.
João Diogo Clemente Deputado Provincial e
Malcher Juiz Municipal.
Tesoureiro Geral do
Comércio dos Índios; e
João Manuel Rodrigues
Tesoureiro das
Martins
Fazendas e dos Currais
de Gado dos Jesuítas.
João Marcelino Inspetor do Tesouro
Brigadeiro
Rodrigues Martins Público Provincial
José Antônio Pimenta Marquês de São
Bueno Vicente
Marcos Antônio Administrador da
Comendador
Rodrigues Martins Recebedoria Provincial
Deputado Geral e
Samuel Wallace Mac
Ministro da Marinha e
Dowell
da Justiça.

224
As famílias Leitão da Cunha, Silva e Souza Franco.

Para finalizar a análise dos grupos familiares privilegiados, optei por este
devido o mesmo englobar alguns dos indivíduos que tiveram acesso aos mais altos
escalões da política imperial. Tais sujeitos, ou eram oriundos de famílias de
negociantes, ou realizaram matrimônios com as ditas. Além do mais, pelas suas
alianças parentais com outros anteriormente mencionados, os quais mantinham
interesses diretos na economia go mífera. Deste modo, acredito que fecha a discussão
proposta no início do capítulo sobre estarem os setores vinculados às atividades
agrícolas e comerciais relacionados entre si, além dos últimos, com alguns sujeitos
interessados na borracha, não se encontrarem afastados dos círculos políticos
provinciais.
José Joaquim da Silva, português, Capitão-Tenente da Armada Real197 , fez
parte da Segunda Junta de Governo do Pará, eleita em 1822, como uma tentativa de
frear o movimento independentista que então ganhava forças no local. Armador,
possuía uma embarcação em sociedade com o negociante João Pedro Ardasse. 198 Era
casado com Maurícia Josefa da Gama 199 , e teve as seguintes filhas aqui privilegiadas:
Ana Cândida, Maria Josefa e Maria José 200 . Em que pese o seu posicionamento
contrário à separação política entre Portugal e Brasil, José Joaquim da Silva terá, como
genros, alguns dos mais destacados políticos paraenses na Corte do Império brasileiro.
Um destes, inclusive, o futuro Visconde de Souza Franco, chegou a ser preso e
deportado para Lisboa, em 1823, quando das lutas pela independência no Grão-Pará,
por ter ficado a favor desse movimento. 201
A filha que casou com Bernardo de Souza Franco, foi Maria Josefa. 202 Filho
do comerciante lusitano Manoel José Franco, após voltar de Lisboa, ainda chegou a
trabalhar, durante vários anos, como comissário na atividade comercial. Assim, talvez
por conhecimentos travados entre José Joaquim e Manoel Franco em suas atividades
econômicas, sujeitos antes opostos no campo político, tenham selado a paz entre as suas

197
AHU-PA, doc. 11245.
198
AHU-PA, doc. 11413.
199
AHU-PA, doc. 11245.
200
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit, p. 163.
201
CUNHA, Ten. Cel. Raymundo Cyriaco Alves da., op. cit., p. 79.
202
ANB.

225
famílias através de um matrimônio. Além do mais, tendo em vista o ano em que foi
desposada uma outra irmã de Maria Josefa, por nome Ana Cândida, em 1842 203 , caso
estas duas filhas de José Joaquim não tivessem uma diferença de idades grande,
ocorrendo, assim, o matrimônio de Maria Josefa em uma época não distante daquela, é
possível ainda que, devido à promissora trajetória pública já vislumbrada por Souza
Franco, as antigas divergências entre sogro e genro tenham sido postas de lado. Sendo
o Império brasileiro um fato, talvez o mais importante para o pai de Maria Josefa fosse
promover um bom casamento para a sua filha.
Estando correta a hipótese levantada acima, as intenções do velho partidário da
manutenção dos vínculos entre Portugal e Brasil encontraram respaldo. Após a sua
experiência no comércio, em 1831, Bernardo foi estudar na Academia de Direito de
Olinda, onde, depois de quatro anos, adquiriu o grau Bacharel em Ciências Jurídicas e
Sociais. 204 Logo em seguida, no ano de 1838, foi Deputado Geral, cargo este que voltou
a ocupar de 1843 a 1852. Presidente da Província do Pará em 1839-40 e 1841-42,
ocupou, também o mesmo posto nas Províncias de Alagoas em 1844 e do Rio de
Janeiro em 1864. Além de suas funções na Magistratura, Souza Franco chegou a
Ministro na pasta de Negócios Estrangeiros em 1848, e da Fazenda em 1857. Foi
nomeado Senador pelo Pará a partir de 1855 e Conselheiro do Império em 1871. 205
A outra filha citada de José Joaquim da Silva, Maria José, teve as suas
primeiras núpcias com Luís Francisco Colares. 206 Possivelmente este Colares é o
mesmo que consegui localizar, em 1823, como correspondente comercial, tendo 20 anos
de idade e ainda solteiro. 207 Sugiro isso pelo fato dos Colares possuírem, entre os seus
membros, durante o início do século XIX, um importante negociante, por nome
Feliciano José Colares208 , podendo ser o Luís, correspondente, um jovem da família
iniciando nas atividades comerciais e, quem sabe, filho mesmo de Feliciano. Tendo em
vista, portanto, os outros casamentos promovidos por José Joaquim da Silva para os
seus rebentos, os quais estabeleceram alianças com famílias de destaque no Pará,
acredito que o Colares casado com Maria José não era um simples homônimo do outro.

203
CUNHA, Ten. Cel. Raymundo Cyriaco Alves da., op. cit., p. 86.
204
Idem, pp. 75 e 79.
205
ANB; e MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.
206
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.
207
AHU-PA, doc. 12059.
208
AHU-PA, doc. 10981.

226
Se assim for, lembrando ainda que José Joaquim também estava ligado ao comércio, é
provável que, semelhantemente ao proposto acerca do casamento entre Maria Josefa e
Bernardo de Souza Franco, os conhecimentos em decorrência das próprias atividades
econômicas do pai de Maria José tenham facilitado os arranjos para o seu casamento.
De qualquer forma, e tentando deixar um pouco de lado o campo das
especulações, da união entre Maria José e Luís Colares, encontrei uma filha, por nome
Luísa Amélia Colares. Como sua mãe, Luísa terá dois casamentos. O primeiro foi com
o negociante Ambrósio Pombo Campbell 209 , aquele que era pertencente ao primeiro
grupo de famílias aqui apresentado, o qual, por sua vez, também possuía ligações
parentais com o segundo grupo exposto. Quanto ao segundo casamento de Luísa, o
mesmo ocorreu, provavelmente já em função dos contatos tidos pelo seu padrasto na
Província do Rio de Janeiro, com Miguel Ribeiro Lisboa. 210 Este era filho do Barão de
Japurá, Miguel Maria Lisboa, que, tendo seguido a carreira diplomática, chegou a ser
nomeado, em 1866, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil em
Lisboa. 211
Pois bem, as segundas núpcias de Maria José foram com Ambrósio Leitão da
Cunha, futuro Barão de Mamoré. 212 Filho do Major 213 e Cavaleiro da Casa Real214
Gaspar Leitão da Cunha e de Maria Antônia da Fonseca Zuzarte, Ambrósio pertencia a
uma família que se estabeleceu na vila de Mazagão, no atual território do Amapá, em
1780, após a perda, pela Coroa portuguesa, da praça de Mazagão na África. 215
Assim como seu cunhado Souza Franco, Ambrósio era Bacharel, só que pela
Academia de Direito de São Paulo. Exerceu as funções de Juiz Municipal da Capital e
Juiz de Direito em várias Comarcas do Pará. No entanto, a parte da sua trajetória
pública que parece lhe ter ocupado a maior parte do tempo, é a política. Administrou a
Província paraense como vice-presidente em espaço de tempo não identificado, além de
ter sido Presidente das províncias da Paraíba em 1859, de Pernambuco em 1860, do

209
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.
210
Idem, ibidem.
211
ANB.
212
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.
213
Idem, p. 160.
214
AHU-PA, doc. 8935.
215
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 160. Sobre a fundação da vila de Mazagão na Capitania
do Pará e a relação da mesma com alguns interesses estratégicos da Coroa portuguesa na região, há um
interessante artigo de FERREIRA, Eliana Ramos. “Estado e administração colonial: a vila de Mazagão”.
In: MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo (org)., op. cit., pp. 93-114.

227
Maranhão em 1863 e 1868, e da Bahia em 1866. Elegeu-se Deputado geral pelo Pará
em 1861, 1864 e 1867, sendo, no ano de 1870, nomeado Senador pelo Amazonas. Em
1885, chegou ao Ministério da Marinha e da Justiça. 216
Como era de se esperar, sobretudo de um sujeito pertencente a uma posição de
destaque na sociedade paraense, Ambrósio Leitão da Cunha foi um dos que
subscreveram as obras de melhoramentos das estradas do Arsenal e das Mongubeiras,
em Belém, conforme mencionado. 217 Muito embora só tenha sido possível encontrá- lo
dispondo de seu cabedal, em benefício da Presidência da Província, nessa situação, a
mesma é indicativa de alguns instrumentos utilizados por indivíduos a fim de conquistar
ou reforçar o gozo de estima social. Neste sentido, talvez por ainda estar, no ano de
1851, iniciando a sua trajetória na política imperial, uma demonstração de solicitude
como aquela tenha aumentado o seu prestígio nas esferas da política paraense,
alicerçando, assim, o percurso que ainda teria de percorrer até chegar a Corte. Também,
à semelhança do sugerido quando tratei de Antônio Lacerda de Chermont, outro
participante da tal subscrição, aquela atitude de Ambrósio Cunha pode ter servido para
reforçar o lugar de destaque que o mesmo ocupava na sociedade como um todo, pois as
obras da administração, visavam, pelo menos a princípio, o bem comum dos habitantes
da cidade.
Através dos casamentos realizados por algumas das filhas tidas por Ambrósio
Leitão da Cunha e Maria José, pode-se já começar a ter uma noção da forma pela qual a
administração e a política paraenses pensavam a economia gomífera. Apesar deste ser o
tema da próxima seção do capítulo, é importante tratar aqui de algumas questões a esse
respeito, pois servirá para corroborar o argumento desenvolvido acerca de não ser
possível entender os diferentes setores da elite paraense de forma separada e, por esse
motivo, de não haver uma dicotomia entre o extrativismo e a agricultura no que toca aos
projetos de desenvolvimento do Grão-Pará.
Maurícia era casada com Abel Graça, localizado como Juiz Municipal da
Capital em 1867-68218 , Delegado de Polícia no Pará em período não identificado, além
de Vice-Presidente da mesma Província no ano de 1870 e Presidente em 1871. 219 É

216
ANB.
217
RPP, 15/08/1851.
218
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1867, Caixa/Ano: 1867, doc. 06;
e RPP, 06/08/1868.
219
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163; e RPP, 1871.

228
possível que a realização deste matrimônio tenha ocorrido em função dos
conhecimentos possuídos por Ambrósio no meio dos ocupantes de cargos na Justiça
paraense, visto que também era um deles. O mesmo motivo, aliás, deve ter
influenciado, no vamente, no casamento entre uma outra filha sua, Izabel, com José
Rodrigues Pereira Junior220 , pois este foi encontrado como Juiz de Órfãos da Capital
entre 1868 e 1870. 221 Retornando a Abel Graça, quando ele, em 1871, era Presidente da
Província, recebeu uma proposta de Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha e Manoel
Joaquim de Freitas, dono da firma Manoel Joaquim de Freitas & Irmão, para fazerem a
exploração e a navegação do rio Xingu, visando estabelecer contatos comerciais entre o
Pará e o Mato Grosso. Os proponentes desse empreendimento, solicitando a subvenção
anual de R$ 25:000$000 a 30:000$000 da Província, além de R$ 55:000$000 a
60$000:000 da Corte, justificaram o pedido da seguinte maneira:

“Ahi abunda a borracha, salsa, castanha, baunilha, cacáo, oleo de cupahiba, cravo, carajarú,
cumarú e puxiry, a madeira de construcção e marcenaria, o ouro, diamante e outros muitos
mineraes; produz de um modo espantoso o café, milho, algodão, arroz, e a mandioca; é
farto de pescado e de toda a especie de caça; presta-se pela vastidão de seus campos à
creação de gado vaccum, cavallar, muar, etc.; finalmente, ao homem activo, laborioso e
creador offerece todos os commodos precisos à vida”.222

Como era necessária a aprovação da Assembléia Provincial para qualquer pedido que
fosse encaminhado à Presidência da Província, Abel Graça assim escreveu à Assembléia
Provincial:

“Tratando-se de um assumpto de grande alcance para o desenvolvimento commercial e


agricola da provincia, chamo a vossa attenção para a referida proposta, afim de resolverdes
sobre ella como fôr mais conveniente”.223

A partir do documento citado, algumas questões devem ser pontuadas. Bento


Tenreiro Aranha era filho de um importante político local, João Baptista de Figueiredo
Tenreiro Aranha, Inspetor da Alfândega do Pará em 1840-1842224 , Deputado geral pela
mesma Província em 1850 225 , primeiro Presidente da Província do Amazonas, quando

220
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163
221
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1868, Caixa/Ano: 1868, doc. 02;
e APEP, Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1870, Caixa/Ano: 1870, doc. 13.
222
RPP, 1871, p. 26.
223
Idem, p. 27.
224
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1859, Caixa/Ano:1859, doc. 05.
225
GLRP. Jornal O Planeta, nº 62, 20/06/1850, p. 02.

229
de sua criação em 1850 226 , e Inspetor do Tesouro Público Provincial paraense em
1855.227 Seu sócio, naquele empreendimento, era José Joaquim de Freitas, dedicado à
atividade comercial e um dos fundadores da Associação Comercial do Pará em 1864,
tendo, inclusive, participado da redação dos estatutos dessa mesma instituição. 228
As informações acima demonstram, novamente, por um lado, como sujeitos
possuidores de inserção política no Grão-Pará tinham, também, interesses nas atividades
extrativas, a exemplo da própria produção de borracha, pois as possibilidades de
exploração neste setor, como visto, foram um dos motivos aventados por Bento e José
Joaquim a fim de justificarem a proposta feita à Presidência da Província. Por outro
lado, a forma por que Abel Graça encaminhou a dita solicitação à Assembléia
Provincial, aponta o quanto a exploração de todos os recursos naturais disponíve is na
região, dentre os quais, evidentemente, incluíam-se as seringueiras, era algo desejado
por pessoas à frente da política e administração paraenses. Aliás, ao menos no ano de
1855, quando estudava no Lyceu Paraense, Bento teve como colega de escola Manoel
de Oliveira Strauss 229 , filho daquele sujeito responsável por um novo método no preparo
da borracha, e sobre o qual José Coelho da Gama e Abreu foi encarregado, em 1861,
pela Presidência, de preparar um estudo. Quem sabe conversas a respeito daquele
gênero, travadas entre Bento e Manoel na época em que dividiram os bancos escolares,
possam ter influenciado no posterior interesse demonstrado pelo primeiro no ramo da
economia local que mais crescia na década de 1870.
De fato, conforme afirmei no início deste texto, mais do que uma recusa em
relação aos rendimentos provenientes da comercialização da goma elástica, o que, pelo
menos, parte dos homens envolvidos com a política na Província desejava era o
remodelamento das práticas de trabalho vinculadas ao extrativismo. Conforme
analisarei de maneira mais pormenorizada na próxima seção, existiam projetos voltados
tanto para a agricultura quanto para a extração, e estes buscavam a implementação de
uma racionalidade produtiva no Grão-Pará. 230 Tal preocupação, na verdade,
extrapolava os limites da Província, constituindo-se em um projeto da elite política

226
GLRP. Jornal Treze de Maio, nº 175, 24/07/1852, p. 03.
227
RPP, 02/08/1855.
228
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.
229
RPP, 15/10/1855.
230
Com o termo “racionalidade produtiva”, faço menção principalmente ao aumento da produtividade e à
difusão do hábito do trabalho regular e constante, bem como à modificação das técnicas produtivas. No
entanto, esse é um assunto que será discutido na próxima seção.

230
imperial, expresso, por exemplo, através do Imperial Instituto Fluminense de
Agricultura. 231 Deste modo, para além de debates gerais, uma influência da Corte para
o Grão-Pará, no que toca àqueles projetos, deve ter exercido outro genro de Ambrósio
Leitão da Cunha. Aqui, cabe sublinhar novamente, voltam a ser detectadas ligações
entre frações da elite paraense com a elite imperial. Bernardo Clemente Pinto Sobrinho,
Conde de Nova Friburgo, era casado com uma filha do Barão de Mamoré, por nome
Ambrosina. 232 O pai de Bernardo era o Barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente
Pinto, um dos mais importantes nomes da diretoria do Imperial Instituto. Sobre o Barão
e o Conde de Nova Friburgo, escreveu Martins:

“Presença constante na diretoria e nas reuniões da instituição até sua morte [Antônio
Clemente Pinto], nasceu em 1795 e faleceu em 1869; chegou de Portugal sem recursos,
tornando-se um homem de negócios e, depois, um comissário do café. Enriquecido,
comprou terras e, por volta de 1850, era um dos maiores proprietários da província do Rio
de Janeiro, chegando a investir dinheiro na construção de ferrovias. Na época de sua morte
seus bens incluíam, entre diversos outros, o casarão do Catete (mais tarde palácio
presidencial), cerca de 800.000 libras (...), 14 fazendas e cerca de 2 mil escravos. Seus dois
filhos, Bernardo e Antônio Clemente Pinto, respectivamente, conde de Nova Friburgo e
barão de São Clemente, ambos fazendeiros e capitalistas, também serão importantes nomes
no conselho fiscal da instituição”.233

Para terminar este grupo de famílias, falta ainda tratar de Ana Cândida, a outra
filha de José Joaquim da Silva. Essa moça se uniu a José da Gama Malcher, como
mencionado, em 1842, dois anos depois do mesmo ter voltado da Bahia, onde estudou
Medicina, ao Pará. 234 Nascido em 1814, como Médico, exerceu a profissão na Santa
Casa da Misericórdia aproximadamente por 40 anos, além da Sociedade Beneficente
Portuguesa. 235 Foi 1º Vice-Presidente da Província do Pará em 1878236 e, em período
não identificado, vereador e presidente da Câmara Municipal de Belém, além de
deputado provincial. 237 Um símbolo do prestígio e mesmo do poder social possuídos

231
Sobre a composição, os objetivos e o funcionamento desta instituição, bem como parta uma aplicação
da idéia de “racionalidade produtiva” especialmente na agricultura do Rio de Janeiro, cf.: MARTINS,
Maria Fernanda Vieira. O Imperial Instituto Fluminense de Agricultura: Elites, Política e Reforma
Agrícola (1860-1897). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1995 (Dissertação de Mestrado em
História).
232
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163; e ANB.
233
MARTINS, Maria Fernanda Vieira., op. cit., p. 131.
234
CUNHA, Ten. Cel. Raymundo Cyriaco Alves da., op. cit., pp. 85-86.
235
Idem, p. 86.
236
RPP, 09/03/1878.
237
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.

231
por José Malcher pode ser encontrado no posto por ele ocupado como Comandante
Superior da Guarda Nacional da Capital durante a década de 1860. 238
Uma das filhas deste casal, por nome Ana Cândida, casou com João Gualberto
da Costa e Cunha. 239 João era um importante negociante da praça de Belém. Ocupou
os cargos de 1º Secretário da Associação Comercial do Pará em 1860 e 1874, de Diretor
em 1870 e 1886, além de Presidente em 1889. 240 Na década de 1880, foi, ainda,
Secretário do Banco Comercial do Pará 241 , aquela mesma instituição que Francisco
Gaudêncio da Costa e Henri de La Rocque ajudaram a criar no ano de 1852.
Conforme apontado outras vezes no decorrer desta seção, João Gualberto e seu
sogro, José da Gama Malcher, foram nomeados pela Presidência da Província, em 1874,
juntamente com outras pessoas, para integrarem uma comissão destinada a conseguir
produtos “industriais” do Pará. Tentando não deixar este texto repetitivo, lembro
apenas que na tal comissão constavam sujeitos vinculados a todos os grupos de famílias
aqui analisados. Assim sendo, torno a afirmar a existência de alianças parentais entre os
diferentes setores da elite paraense, bem como o gozo de prestígio político e social,
mesmo por parte de estrangeiros ligados ao comércio e à borracha.

238
RPP, 15/08/1867; e RPP, 06/08/1868.
239
MARIN, Rosa Elizabeth Acevedo., op. cit., p. 163.
240
CRUZ, Ernesto (b)., op. cit.
241
RPP, 15/02/1880.

232
233
Lista das Honrarias nas Famílias Leitão da Cunha, Silva e Souza Franco

Honrarias
Nome
Cargos Públicos Patentes Títulos
Juiz Municipal;
Delegado de Polícia;
Abel Graça Vice-Presidente e
Presidente da Província
do Pará.
Juiz Municipal; Juiz de
Direito; Vice-Presidente
da Província do Pará;
Presidente das
Ambrósio Leitão da Províncias Paraíba,
Barão de Mamoré
Cunha Pernambuco, Maranhão
e Bahia; Deputado
Geral; Senador e
integrou o Ministério da
Marinha e da Justiça.
Antônio Clemente Pinto Barão de Nova Friburgo
Bernardo Clemente Conde de Nova
Pinto Sobrinho Friburgo
Deputado Geral;
Presidente das
Províncias do Pará,
Alagoas e Rio de
Bernardo de Souza
Janeiro; Ministro nas
Franco
pastas de Negócios
Estrangeiros e Fazenda;
Senador e Conselheiro
do Império.
Gaspar Leitão da Cunha Major Cavaleiro da Casa Real
Integrou a Segunda
Capitão-Tenente da
José Joaquim da Silva Junta de Governo do
Armada Real
Pará, em 1822.
Vice-Presidente da
Província do Pará;
Comandante Superior
Vereador e Presidente
José da Gama Malcher da Guarda Nacional da
da Câmara Municipal de
Capital.
Belém; e Deputado
Provincial.
Enviado Extraordinário
e Ministro
Miguel Maria Lisboa Barão de Japurá
Plenipotenciário do
Brasil em Lisboa.

234
Foi visto que, ao menos parte do que se pode considerar como a elite
tradicional paraense, de meados do século XIX, tinha nas suas famílias de origem
vínculos com a atividade comercial, ou estabeleceu alianças parentais com pessoas
ligadas a esse ramo da economia local. Alguns dos maiores negociantes não brasileiros
estabelecidos no Grão-Pará, inclusive, utilizaram-se dos matrimônios para o alcance
e/ou reforço de inserção social. Através de diferentes tipos de relações sociais, tais
como o próprio parentesco, as amizades, e a busca pela participação nas tão comuns, em
sociedades pré- industriais, práticas beneficiais, especialmente para com as esferas da
política local, as famílias analisadas puderam reproduzir uma hierarquia social que
excluía a imensa maioria das pessoas do acesso à riqueza e ao poder.
A respeito das práticas beneficiais, especificamente, um exemplo que aglutina
vários dos nomes apresentados, é a lista dos sujeitos que participaram como subscritores
da publicação de um Repertório Geral das Leis do Pará, promulgadas entre 1838-1853.
Dos grupos familiares trabalhados, constavam: Antônio Lacerda de Chermont, Elias
José Nunes da Silva, a firma Francisco Gaudêncio da Costa & Filhos, Francisco da
Silva Castro, a firma Henrique de La Roque & Cia., João Diogo Clemente Malcher,
João Florêncio Henriques da Silva Pombo, José Coelho da Gama e Abreu, José da
Gama Malcher, Marcos Antônio Rodrigues Martins, Theodósio Constantino de
Chermont e Tito Franco de Almeida. 242 Em uma obra desse tipo, organizada pelo Chefe
de Seção da Tesouraria da Fazenda da Província, e dedicada ao Imperador Pedro II,
contando, inclusive, com a aprovação do dito, certamente essas pessoas viram mais uma
oportunidade para demonstrar o quanto eram fiéis súditos e preocupados com o bom
andamento da administração provincial. O retorno dessa solicitude, por sua vez, deve
ter sido o reforço da estima já conquistada entre os círculos da política paraense.
Além do mais, verificou-se, também, serem determinados sujeitos possuidores
de interesses na economia gomífera, antes mesmo da década de 1880, aparentados com
os grupos familiares analisados. Mais do que isso, essas pessoas, seja através dos
casamentos realizados, seja através de redes de amizades, ou ainda do próprio destaque
conseguido nas atividades econômicas desenvolvidas, as quais, nos casos apresentados,
eram ligadas ao comércio, tinham espaços, mesmo que indiretos, de acesso às esferas da
administração e da política na Província.
242
BENJAMIN, André Curcino. Indice ou Repertorio Geral das Leis da Assembléa Legislativa
Provincial do Gram-Pará (1838-1853). Pará: Typographia Commercial, 1854.

235
Lembrando o já afirmado anteriormente, é no decorrer da década de 1870 que
ganharão espaço, no sistema de produção e comercialização da borracha, as casas
aviadoras controladas por firmas estrangeiras que, somente então, passarão a atuar
diretamente no Grão-Pará, segundo propõe a historiografia. Sendo assim, alguns
sujeitos vinculados às famílias da elite tradicional são os que de início tomarão, ao
menos em parte, a frente do setor da economia paraense que mais cresceu a partir dos
anos de 1850. De fato, as alianças parentais entre indivíduos dedicados ao comércio e
as famílias de proprietários rurais foram verificadas antes mesmo da segunda metade do
século XIX, tornando a ocorrer nesse período. Na verdade, se nem no período colonial
era possível encontrar uma rígida separação entre as pessoas ligadas à atividade
comercial e os demais grupos econômicos 243 , no Grão-Pará durante as primeiras
décadas da segunda metade do Oitocentos aquela situação não era tão diferente. Tanto
os investimentos em diferentes ramos da economia local, analisados no capítulo
anterior, como as alianças parentais e as relações sociais em geral, tornam os setores da
elite paraense, naquele período, bastante imbricados.
Antes de terminar esta seção, é necessário deixar claro um ponto. Procurei
demonstrar que as estratégias individuais e/ou familiares, postas em prática pelos grupos
da elite paraense analisada, no sentido de alcançar e/ou manter a sua riqueza material,
bem como o seu locus social, nem sempre foram vitoriosas ou amenas. Explico melhor
esta questão. Conforme afirmei no início do capítulo, é certo que nem todas as famílias
prestigiosas durante o século XVIII conseguiram continuar ocupando lugares de
destaque na hierarquia social local no decorrer do Império. Tenho claro, pois, que os
grupos trabalhados, possuidores de trajetórias remontando à Colônia, não dão conta da
totalidade de um setor mais amplo que pode ser considerado como a elite do Pará
setecentista.
Por outro lado, as famílias aqui privilegiadas, tendo em vista aquele intuito,
tiveram que superar desavenças internas a elas próprias, através, por exemplo, de

243
Afirmo isto a partir de um estudo desenvolvido por João Fragoso sobre a elite colonial do Rio de
Janeiro durante os séculos XVI e XVII. A respeito do assunto, escreveu o autor: “(...) a elite colonial em
formação, conquistadores, seus descendentes e genros estavam envolvidos com o comércio. O mesmo
ocorria em Portugal dos séculos XVI e XVIII, onde o comércio não era o monopólio de um único grupo,
no caso os mercadores. (...) Não há razão para que isso tenha sido diferente em um Imp ério ultramarino
que, por excelência, era mercantil”. Cf.: FRAGOSO, João (e). “A formação da economia colonial no Rio
de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (séculos XVI e XVII)”. In: FRAGOSO, João; BICALHO,
Maria Fernanda Baptista & GOUVÊA, Maria de Fátima Silva., op. cit., p. 41.

236
casamentos realizados entre si; construir uma relação de reciprocidade com as esferas da
política imperial, quando foi o caso de terem sido fiéis súditos da Coroa portuguesa,
além de vivenciar disputas com outros setores presentes na sociedade paraense do
século XIX. Para exemplificar este último ponto, Francisco Gaudêncio da Costa,
Antônio José de Miranda, Francisco da Silva Castro e Ambrósio Leitão da Cunha, entre
outros, assinaram uma representação à Presidência da Província em 1848. Reclamando
do fato de não terem sido aceitos, no ano anterior, como irmãos da Santa Casa da
Misericórdia, os signatários lançaram várias acusações contra a Mesa responsável por
aquele processo. 244 Recordo, no entanto, que, em 1850, o cunhado de Antônio Miranda,
o Visconde de Arari, foi Provedor da Santa Casa, e Francisco Castro também exerceu a
mesma função na década de 1860. Quanto a Francisco Costa e Ambrósio Cunha, eles
eram aparentados do grupo familiar dos Chermont. Passando a fazer parte dos irmãos
da Santa Casa, ou somente estando inserido em redes parentais que envolviam aqueles
sujeitos que os conseguiram ser, pretendo, portanto, com este caso, reiterar a afirmação
antes feita de que, mesmo sendo as trajetórias analisadas acima representativas daquilo
que se vem denominando de elite paraense, os sujeitos que a integravam nem sempre
tiveram o caminho livre para colocarem em prática as suas estratégias no sentido de
construir, ou manter, os lugares que ocupavam na sociedade da época.
Em verdade, é possível pensar na hipótese de que, em decorrência dos graves
conflitos ocorridos na Província durante a primeira metade do século XIX – as disputas
em torno da chamada adesão do Pará à Independência e o movimento cabano – a elite
local, de um modo geral, tenha adotado como estratégia a realização de matrimônios
entre si. Talvez, os sujeitos pertencentes aos setores da elite paraense tenham buscado
selar a paz entre famílias, quem sabe, situadas em campos opostos naqueles dois
momentos, no intuito de garantir a própria posição social das mesmas. Contudo, faz-se
necessário lembrar, isto não exclui, necessariamente, o estabelecimento de alianças
parentais e/ou de outros tipos, a exemplo das de amizade, com pessoas pertencentes a
famílias não estabelecidas na Província, pois, como visto, teve uma moça que se casou
com Manoel Antônio Pimenta Bueno, e duas outras integrantes da família de Ambrósio
Leitão da Cunha. De todo modo, essa questão que não tem condições de ser

244
VIANNA, Arthur., op. cit., pp. 160-161.

237
desenvolvida neste estudo, pela falta de documentos que lhe forneça embasamento,
ficando, apenas, como uma sugestão para futuras pesquisas.
Na próxima seção, por fim, tendo em vista o apresentado acerca da composição
da elite local de meados do século XIX, serão ana lisados os projetos políticos voltados
para o desenvolvimento da Província, especialmente durante as décadas de 1850 e 1860.
Muito mais do que significarem uma preferência pela agricultura, em detrimento do
extrativismo, o que essas propostas expressavam, dentre outros elementos, era o
interesse na modificação das práticas de trabalho locais. Desde que estas fossem
remodeladas, o setor gomífero, inclusive, era entendido como capaz de levar o Grão-
Pará ao alcance da civilização e do progresso.

238
2. Os projetos de desenvolvimento provincial e a economia da borracha.

Quando o jornal O Doutrinario publicou, no dia 16 de abril de 1849, um artigo


no qual argumentava ser o aumento da capacidade produtiva das “nações civilizadas”, a
questão mais grave e transcendente do século XIX, o articulista responsável por tal
escrito apresentava-se como difusor de uma das maiores preocupações componentes dos
calorosos debates promovidos por políticos e intelectuais do tempo. 245 Inserindo-se em
uma discussão que ultrapassava os limites do Grão-Pará, diversas imagens construídas a
respeito da maneira pela qual o crescimento econômico local poderia ser alcançado,
eram constantemente levadas ao público leitor por meio dos periódicos que então
circulavam na Província.
No entanto, a fim de que a própria capacidade produtiva crescesse, tornava-se
necessário o alcance da ordem e da civilização pela sociedade, conforme a definição que
lhes foi proposta na obra de Ilmar Mattos. 246 Este autor, estudando os processos de
construção do Estado imperial e de constituição do grupo dirigente durante o segundo
reinado, considera que, para a efetivação destes movimentos, fez-se importante a
expansão dos quadros e das perspectivas dos políticos Saquaremas, i.e., tornou-se
premente a manutenção de uma ordem e a difusão de uma civilização.
Sendo assim, a ordem significava a organização da sociedade dentro da
perspectiva existente, entre os políticos imperiais, de uma hierarquia social definidora
de papéis e funções diferenciados reservados para cada grupo, de acordo com as
posições por eles ocupadas.
Quanto à civilização, esta, além de garantir a união à ordem acima, consistia
em estabelecer o primado da Razão, através, especialmente, da instrução, o que
significaria superar “a ‘barbárie dos Sertões’ e a ‘desordem’ das Ruas”. 247 Como um
desdobramento da difusão da razão na sociedade, alcançar-se-ia o espírito de
associação, representado pelo contato permanente, bem como pela adesão, por parte
daquela, aos projetos políticos da Corte. Em suma, civilização, para o grupo dirigente
do segundo reinado, segundo Mattos, representava, de um lado, o alcance da ordem
antes mencionada. Por outro lado, consistia, também, segundo as expectativas dos
245
GLRP. Jornal O Doutrinario, nº 70, 16/04/1849, pp. 1-4.
246
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. A Formação do Estado Imperial. Rio de Janeiro:
Access, 1999, pp. 238-274.
247
Idem, p. 245.

239
políticos imperia is, na incorporação, por parte dos livres pobres e dos escravos, de
noções como o princípio de respeito às leis e às autoridades, e de trabalho operoso e
rentável. Somente após ter alcançado a ordem e a civilização, portanto, é que a
sociedade estaria apta a usufruir os benefícios do progresso, o qual representaria o
triunfo final daquelas duas noções, consubstanciado nas melhorias materiais e morais
que lhes seriam advindas.
Tendo em vista o exposto acima, é que proponho o entendimento da maneir a
pela qua l a administração e certos políticos locais pensavam a economia gomífera,
durante as décadas iniciais de sua expansão, quais sejam, entre 1850 e 1870. Neste
período, é corrente nos diferentes Relatórios de Presidentes de Província a relação entre
a crescente comercialização da borracha e a progressão das rendas provinciais,
conforme mencionado no primeiro capítulo. Sendo assim, vários representantes dos
círculos políticos locais não deixarão de ressaltar a contribuição que a goma elástica
vinha dando à produção paraense. Afinal, como escreveu o articulista do O Doutrinario
citado mais acima, o aumento da capacidade produtiva era um objetivo da maior
importância na época. Entretanto, se é evidente o lugar de destaque ocupado pela
extração da borracha na economia local, integrantes daqueles mesmos círculos não
deixarão de propor mudanças na maneira pela qual esse gênero era obtido. Longe de
indicar uma hostilidade em relação ao setor econômico que mais se expandia então, tais
propostas deixam transparecer um desejo de controle social sobre a população livre
pobre, controle este que, para setores da elite local, seria possível através do
remodelamento das práticas de trabalho vinculadas ao extrativismo. Mais do que isso:
conforme apontei antes, é perceptíve l, nas mesmas, o interesse na implementação de
uma racionalidade produtiva na Província, através do aumento da produção local, bem
como da difusão do hábito do trabalho regular e constante e da modificação de
determinadas técnicas de produção. 248 Acreditava m, portanto, ser desta forma que o

248
Para uma discussão sobre estas questões, em outras áreas do Império, cf: MARTINS, Maria Fernanda
Vieira., op. cit.; AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda Negra, Medo Branco. O Negro no
Imaginário das Elites – Século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987; FRAGA FILHO, Walter.
Mendigos, Moleques e Vadios na Bahia do Século XIX. São Paulo; Salvador: Hucitec; Edufba, 1996;
MARSON, Izabel Andrade. “Trabalho Livre e Progresso”. In: Revista Brasileira de História, nº 07,
1984, pp. 81-93; EISENBERG, Peter L. “A Mentalidade dos Fazendeiros no Congresso Agrícola de
1878”. In: LAPA, José Roberto do Amaral (org.). Modos de Produção e Realidade Brasileira.
Petrópolis: Vozes, 1980; e LOURENÇO, Fernando Antonio. Agricultura Ilustrada: Liberalismo e
escravismo nas origens da questão agrária brasileira. Campinas: Editora da UNICAMP, 2001.

240
Grão-Pará poderia caminhar ao alcance da ordem, da civilização e do progresso.249
Essa é uma idéia que será desenvolvida com mais cuidado.
Antes de prosseguir, todavia, alguns esclarecimentos são necessários. Dando
suporte à discussão proposta, foram utilizados jornais e Relatórios de Presidentes de
Província. Acredito que os discursos veiculados nessa documentação, de acordo com o
proposto por Roger Chartier, eram meios propagadores de representações do mundo
social, os quais visavam difundir valores e expectativas vinculados aos grupos que os
forjavam. 250 Assim, mesmo que alguns dos projetos voltados para o desenvolvimento
do Grão-Pará não tenham sido efetivamente implementados, os mesmos são espaços
privilegiados para o entendimento dos referenciais utilizados por políticos e letrados
locais na construção de seus discursos.

**********

Ainda no ano de 1848, o jornal Teo-Teo publicava um artigo no qual o seu


autor regozijava-se dos grandes lucros que a exploração da borracha poderia gerar tanto
para os cofres públicos, quanto para os indivíduos que a essa atividade se dedicassem.
De fato, como visto no primeiro capítulo, aquele era um período em que a goma elástica
já dava sinais do grande volume de riquezas que, posteriormente, proporcionou ao Pará.
O responsável por esse escrito, contudo, não deixava de fazer algumas ressalvas com
relação ao isolamento em que as pessoas viveriam embrenhadas nas matas a fim de
coletar o produto, pois essa falta de contato com o restante da sociedade dificultaria a
difusão da instrução 251 entre as famílias desses indivíduos, fazendo com que as mesmas
não desenvolvessem o costume de poupar os rendimentos e adquirir bens. 252

249
Uma breve análise sobre a influência dos ideais de civilização, oriundos da França, sobre a sociedade
paraense de fins do século XIX, pode ser encontrada em COELHO, Geraldo Mártires. “Um pouco aquém
da belle époque ou quando o francesismo se insinua no Pará novecentista”. In: CUNHA, José Carlos
(org.). Ecologia, Desenvolvimento e Cooperação na Amazônia. Belém: UNAMAZ; UFPa, 1992, pp. 60-
68. Chamo a atenção que, provavelmente por problemas de impressão na obra, muito embora o título
deste artigo contenha a palavra “novecentista”, o seu conteúdo trata, como afirmado, do século XIX.
250
De acordo com o autor, “(...) as representações do mundo social (...), embora aspirem à universalidade
de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupos que as forjam”.
Cf.: CHARTIER, Roger. A História Cultural – Entre práticas e representações. Lisboa; Rio de Janeiro:
Difel; Bertrand Brasil, 1990, p. 17.
251
Da instrução, no II Reinado, segundo Ilmar Mattos, esperava-se muito mais do que fazer uma pessoa
“ler, escrever e contar”. Influenciados pelo modelo de ensino francês, os políticos do período buscavam a
criação de uma Nação, através, por exemplo, da difusão mais ampla possível da língua nacional e dos
conhecimentos geográficos, sobretudo os referentes ao território do próprio Império. Desta maneira, as

241
As críticas acima, lançadas contra a – na ausência de uma expressão melhor –
falta de ambição por parte dos indivíduos que trabalhavam na coleta da borracha, na
verdade, ligava m-se a uma preocupação constante entre políticos imperiais,
especialmente durante o II Reinado: a ordem social. Essa noção, pois, constitui um
elemento de fundamental importância para que se compreenda a sociedade
hierarquizada existente à época. Desde a Independência, mas, sobretudo, após as quase
duas décadas em que o Império esteve assolado por vários movimentos locais, a partir
da abdicação de D. Pedro I, políticos imperiais buscaram, constantemente, difundir na
sociedade o respeito às leis, ao princípio de autoridade e o hábito do trabalho regular. 253
Particularmente no caso do Grão-Pará, onde se fez presente a Cabanagem254 , mesmo
passados vinte anos do término deste movimento, o interesse na estabilidade da ordem
social aparecia constantemente acoplado às recordações da década de 1830. 255 Em que
pese a possibilidade de, pelo menos, alguns representantes da elite local não acreditarem
que um movimento com proporções semelhantes às da Cabanagem pudessem voltar a
ocorrer no Pará, é certo o grande impacto social daquele nesta Província. 256 Além do
mais, já se têm, atualmente, informações sobre a participação de grupos de diferentes

escolas públicas de instrução primária estavam divididas em três classes. A primeira compreendia leitura,
escrita, as quatro operações de aritmética, frações ordinárias e decimais, proporções; princípios de moral e
doutrina cristã e da religião do Estado; gramática da língua nacional. A segunda, noções gerais de
geometria teórica e prática. E a terceira, elementos de geografia. Por meio da instrução, inclusive,
acreditava-se que diminuiria a indigência e, assim, os focos de instabilidade social. Ainda de acordo com
o citado autor, ao mesmo tempo em que se instruía era necessário educar. A educação significava, pois, o
meio pelo qual os alunos deveriam adquirir os princípios da ética e da moral considerados elementares
para a convivência social, permitindo-lhes aderir ao espírito de associação. Cf: MATTOS, Ilmar Rohloff
de., op. cit., especialmente pp. 249-251.
252
CENTUR. Jornal Teo-Teo, nº 31, 27/07/1848, pp. 1-2.
253
Sobre o assunto, ver: MATTOS, Ilmar Rohloff de., op. cit; FRAGA FILHO, Walter., op. cit.; e
MARSON, Izabel Andrade., op. cit.
254
Há dois interessantes estudos sobre diferentes obras que trabalharam o movimento cabano, cf:
PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto. Visões da Cabanagem - Uma revolta popular e suas representações
na historiografia. Manaus: Valer, 2001; e RICCI, Magda. “Do Sentido aos Significados da Cabanagem:
Percursos historiográficos”. In : Anais do Arquivo Público do Pará. Belém: Secretaria de Cultura;
Arquivo Público do Estado do Pará, 2001, v.4, t.1, pp. 241-274.
255
Analisando as fugas escravas no Grão-Pará, José Maia Bezerra Neto afirma que o processo contínuo e
crescente desse movimento, durante os anos de 1840 a 1860, juntamente com as recordações da
Cabanagem, criaram um grande “medo” entre as classes proprietárias. Segundo o autor, “(...) as
lembranças que ficaram da participação escrava no mo vimento cabano não deixavam descansar o medo
das classes proprietárias e agrícolas acerca da subversão escrava voltar a acontecer, caso não fossem
mantidas severas políticas de controle social”. Cf: BEZERRA NETO, José Maia. “Ousados e
Insubordinados: Protestos e fugas de escravos na província do Grão-Pará – 1840/1860”. In: Topoi.
Revista de História. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ; 7Letras,
2001, v. 2, pp. 81-82.
256
Sobre este impacto social, basta lembrar a estimativa de 30.000 mortos, durante a Cabanagem, em uma
população de 130.000 pessoas, antes do início deste movimento no Grão-Pará. Também, os dados
relativos às pirâmides etário-sexuais de algumas regiões da província paraense, analisados no Capítulo I.

242
condições sociais, culturais e jurídicas, inclusive de frações da elite paraense, naquele
movimento. 257 Por exemplo, o pai de João Diogo Clemente Malcher, Félix Antônio
Clemente Malcher, apresentado na seção anterior, foi um dos líderes cabanos. Desta
forma, é plausível ainda que integrantes da elite provincial, durante a segunda metade
do Oitocentos, não fizessem uma simples associação entre a irrupção da Cabanagem e a
atuação dos chamados grupos subalternos na região. De todo modo, também
certamente, o impacto social desse movimento, pelas proporções expostas, não fora
rapidamente esquecido, tendo a Cabanagem, no mínimo, significado um recurso
utilizado por alguns representantes da elite local, no sentido de argumentar a favor de
medidas políticas visando a garantia da ordem social. Sendo assim, torna-se
compreensível o teor de um artigo do Treze de Maio, dado à luz ainda em 1844:

“A vantagem de adquirir bens he mui consideravel, não somente pelo seo valor, como pelo
habito de industria e economia que insensivelmente produz no animo e proceder de quem
os possue. (...) Hum lavrador que apenas possue huma vinha, huma cabana, e algumas
cabeças de gado, he, geralmente fallando, hum homem ma is util à sociedade, mais
industrioso, e mais fiel ao seu partido, do que aquelle que, não tendo hum palmo de terra
em que trabalhe, não acha o minimo interesse em empregar o tempo utilmente (...)”. 258

Com o trecho acima, fica claro que, para o autor, atividade útil à sociedade era
aquela que fornecesse chances ao indivíduo de ter um local onde as suas potencialidades
produtivas pudessem ter um emprego constante. Além disso, a pessoa que possuísse
bens levaria uma vida mais estável, não se deixando envolver por sujeitos que somente
teriam o interesse em provocar a desordem social, pois, nas palavras do articulista, o
homem de posses “é mais fiel ao seu partido”. Especialmente no caso de uma Província
possuidora de uma diminuta população escrava no decorrer da segunda metade do
Oitocentos 259 , seguramente existiam pessoas acreditando que a modificação dos ritmos
tradicionais de trabalho das camadas livres pobres 260 era uma via para o alcance do tão
desejado aumento da produtividade. O hábito do trabalho regular, sem ter como fim

257
PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto., op. cit., pp. 107-119.
258
CENTUR. Jornal Treze de Maio, nº 455, 02/11/1844, p. 03.
259
De acordo com números apresentados por Bezerra Neto, a participação dos escravos na população
total do Pará variou da seguinte maneira : em 1850, os escravos representavam 18,57%; em 1864, 15,52%;
em 1862, 14,18%; em 1872, 9,98%; em 1882, 9,00%; e, por fim, em 1888, 3,75%. Cf: BEZERRA
NETO, José Maia. Escravidão Negra no Grão-Pará (Séculos XVIII-XIX). Belém: Paka-Tatu, 2001, p.
114.
260
No primeiro capítulo, na nota nº 126, foi definido o que estou considerando com a categoria de “livres
pobres”.

243
último a subsistência, era, assim, um dos mecanismos entendidos como capazes de levar
o Grão-Pará às sendas do progresso. Quando a população livre pobre tivesse absorvido
a noção de que ela também poderia dar a sua contribuição para o alcance do
desenvolvimento provincial, por meio do ânimo ao trabalho e do respeito às autoridades
públicas constituídas, segundo discursos de políticos e letrados, a manutenção da ordem
social e o caminhar tranqüilo para um futuro próspero poderiam estar garantidos.
Ilustrativo da noção de utilidade social, acoplada à idéia de reformar costumes
dos livres pobres, é um Relatório de Couto de Magalhães, Presidente do Grão-Pará em
1864. Permitindo avançar na argumentação proposta para esta seção, esse documento
menciona não somente a necessidade do trabalho regular, como fornece indícios da
maneira pela qual sujeitos pertencentes às esferas da política provincial pensavam a
relação entre a agricultura e o extrativismo na região. Neste sentido, ao tratar das
dificuldades existentes para o desenvolvimento da lavoura, Couto de Magalhães
escreveu que o “povo” da Província vivia “(...) disseminado em palhoças, que não
offerecem nem os mais indispensaveis confortos da vida”. 261 Ligando uma concepção
de trabalho, comum à maioria dos habitantes do Pará, à ociosidade, o Presidente, mais
adiante, em seu texto, afirma ainda que:

“A classe, a que eu chamei de pequenos productores no Pará, vive ociosa a metade do anno,
por quanto ou se dedique à colheita da borracha, ou a do cacáo, da extracção dos oleos
vegetaes, seo trabalho só póde ter lugar durante seis mezes, de modo que os outros seis
mezes passa ociosamente, isto é, sem nada produzir.
Se tivessemos um meio de fazer com que apparecesse uma lavoura fixa e não nomade, o
que aconteceria? Elles colherião esses productos naturaes pela mesma forma que o fazem
até hoje, e ainda produzirião mais o trabalho dessa lavoura fixa. Por outra, em vez de
trabalharem unicamente seis mezes no anno, trabalharião um anno, o que quer dizer, em
vez de produzirem 50, produzirião 100”.262

Sem desconsiderar a validade de se dar continuidade às atividades de extração,


Couto de Magalhães tinha o interesse em difundir um ritmo de trabalho contínuo entre a
maioria dos habitantes do Pará, por ele chamados ora de “pequenos produtores”, ora de
“povo”. Na verdade, o pretendido pelo Presidente, era que se promovesse uma
intervenção no cotidiano daqueles sujeitos, incutindo- lhes mesmo novas necessidades
de consumo, a fim de que eles passassem a se dedicar ao trabalho com afinco e, desta
maneira, contribuíssem para o desenvolvimento da indústria no Pará. Essa idéia se
261
RPP, 15/08/1864, p. 07.
262
Idem, p. 15.

244
torna mais clara em um outro trecho do seu Relatório, onde, muito embora as suas
conclusões tenham se originado da observação de uma área da região, a do rio
Tocantins, o próprio autor estende as suas idéias à Província em geral:

“Quando atravessei a zona do Tocantins, admirei-me de vêr pobres choupanas, cobertas de


palha, despidas de muros, sem divisões interiores, crmas [sic] dos mais insignificantes
moveis, visto como todos os seus instrumentos se resumem a uma canoa, a um cão, uma
faca, anzóes, primitivos instrumentos de caça e pesca, alguma roupa e paneiros.
Perguntava eu a mim mesmo: como é que essa gente vive e se sustenta? E os factos me ião
respondendo, que elles, nascidos no meio da abundancia, estendião a mão para colher os
fructos; e como os passaros e animaes selvagens, que na naturesa encontrão tudo, não se
occupão do dia d’amanhâ, porque sobre o dia d’amanhã Deos se providenciará.
A industria é o resultado do esforço da intelligencia do homem para satisfazer uma
necessidade que apparece. Portanto, em quanto não existir a necessidade, não haverá razão
para que exista a industria.
(...) Crear necessidades, civilisando o povo e dando-lhe instrucção, são os meios de fazer
apparecer a industria; são lentos é certo, mas são tambem os unicos e seguros”.263

Demonstrando dificuldade em compreender as estratégias de sobrevivência de


sujeitos pertencentes às chamadas camadas subalternas, Couto de Magalhães pensava
ser necessário apenas civilizá-los, sendo a instrução um instrumento para isso, e que,
conseqüentemente, novas necessidades seriam criadas. Para satisfazer, digamos assim,
essa demanda, o “povo” se veria impelido a aumentar o seu ritmo de trabalho e o
desenvolvimento da indústria na Província aconteceria. Certamente, nem todos os
integrantes da elite local deveriam ter a mesma dificuldade de compreensão
demonstrada pelo Presidente. As próprias redes clientelares que necessariamente
tinham de manter com aquelas pessoas, devia levá- los a saber que tal modo de vida do
“povo” era capaz de lhes garantir, no mínimo, a sobrevivência física. Conforme será
analisado adiante, somente o desejo e os fins da proposta de “criar necessidades” eram
semelhantes, fosse entre grupos da elite provincial, fosse para Couto de Magalhães. De
toda maneira, independentemente do meio em que se origina, esse descontentamento
com o modo de vida da maior parte dos habitantes do Grão-Pará, obriga a fazer, agora,
algumas considerações.

263
Idem, p. 07. O termo indústria, na documentação consultada, particularmente nos jornais e Relatórios
de Presidentes de Província, costumava significar qualquer atividade produtiva que demandasse o
trabalho constante dos indivíduos e que, para além dos interesses relativos à própria subsistência, fosse
capaz de lhes gerar rendimentos.

245
É correto que, em sociedades pré-industriais, as ações dos indivíduos não são
regidas primordialmente pelo lucro. Neste sentido, somente civilizar “o povo”, no dizer
de Couto de Magalhães, não seria o suficiente para lhes incutir “novas necessidades”.
Provavelmente assentadas, pelo menos em sua maioria, sob uma unidade de trabalho
familiar, tendo como fim último das suas produções a auto-subsistência (o que não
exclui uma eventual comercialização dos gêneros produzidos e/ou coletados), aquelas
pessoas guiavam os seus esforços na produção tendo em vista o equilíbrio entre dois
fatores: a satisfação da demanda familiar e a própria penosidade do trabalho. 264 A partir
do momento em que fosse atingido esse ponto de equilíbrio, os integrantes da unidade
produtiva não teriam mais o interesse em continuar trabalhando, pois todo o tempo
adicional de trabalho tornar-se- ia desnecessário. 265
Ainda segundo Couto de Magalhães, as “pobres choupanas” tinham apenas,
entre os seus bens, canoas, anzóis, facas e paneiros. Da mesma forma, diz que os
“pequenos produtores” da Província trabalhavam apenas a metade do ano nas atividades
de extração, sendo que nos outros seis meses viveriam, em suas próprias palavras,
“ociosamente”. Se considerados conjuntamente, os dois trechos do Relatório citado
permitem a exposição de mais duas questões. Por um lado, tendo em vista o apontado
no primeiro capítulo, acerca da dieta básica da maioria dos habitantes da Província ser
composta por peixes, farinha de mandioca, açaí e frutas, parece que a dificuldade do
Presidente em entender as estratégias de sobrevivência daquelas pessoas estava ligada
ao fato de que, justamente os bens existentes nas “choupanas”, eram os necessários para
o alcance da subsistência por parte das pessoas que lá habitavam. Por outro lado, como
esses sujeitos não tinham motivos para trabalhar além do necessário, no sentido de
prover a demanda familiar, conforme discutido no parágrafo acima, tal situação
apresentava-se aos olhos do Presidente como ociosidade. Deste modo, por Couto de
Magalhães ter uma dada concepção relativa ao que era uma atividade produtiva capaz
de garantir o sustento de um indivíduo e/ou de uma família diferente da que possuía a
população por ele observada na Província, é que afirmava trabalharem aquelas pessoas
somente a metade do ano. Isto posto, por sua vez, corrobora a idéia central do primeiro
capítulo deste estudo, a qual aponta não estar a capacidade de subsistência do Grão-Pará
264
Sobre o equilíbrio interno nas explorações baseadas no trabalho familiar, cf: CHAYANOV, Alexander
V. “Sobre a teoria econômica dos sistemas econômicos não capitalistas”. In: SILVA, José Graziano da.
& STOLCKE, Verena (orgs.). A Questão Agrária. São Paulo: Brasiliense, 1981, pp. 138-143.
265
Idem, ibidem.

246
ameaçada pela economia gomífera, ao menos durante as duas décadas iniciais de
crescimento da mesma. Ao criticar a falta de indústria entre o “povo” paraense, Couto
de Magalhães acaba demonstrando como, naquele período, as atividades de extração e
de cultivo, sobretudo as voltadas para a subsistência, poderiam coexistir.
Sobre a problematização feita a respeito da capacidade de subsistência da
Província paraense, ainda é interessante notar que, em todos os inventários pesquisados,
não foi possível localizar ao menos um instrumento de trabalho que sugerisse a
existência de uso intensivo do solo. Não foi encontrado nenhum arado e pouquíssimos
animais de tração foram descritos. Antes, as enxadas, os terçados e as foices, além das
capoeiras, aparecem constantemente nesses processos, indicando, portanto, a prática da
agricultura de coivara. 266 Presente na Amazônia desde o período colonial, essa forma
de cultivo persiste no Amazonas e no Grão-Pará no decorrer do século XIX. 267 Ester
Boserup, no entanto, afirma que, tendo em vista a própria necessidade de sobrevivência,
as sociedades agrárias somente modificam os sistemas de uso da terra, quando há a
pressão de um crescimento demográfico. Mais do que isso: na medida em que a
produção se torna mais intensiva, aumentam as horas de trabalho, em função da
diminuição do tempo de pousio da terra. 268
Ora, se a coivara dominava o sistema agrícola do Grão-Pará, mesmo durante a
segunda metade do século XIX, era porque os gêneros obtidos daquela maneira
bastavam ao menos para a maioria dos habitantes locais. Conforme apresentado no
primeiro capítulo, até 1872, não foi possível verificar as grandes ondas migratórias que
irão ocorrer no final desta década. Não se tendo conhecimento de uma tendência
suicida entre o “povo” da Província, se ele não trabalhava conforme certas autoridades
desejavam, era porque assim não lhe parecia necessário. Aliás, é válido ressaltar que,
nem mesmo entre os donos dos maiores montes-brutos inventariados, alguns dos quais,
266
A agricultura de coivara consiste, basicamente, em três fases: a derrubada da floresta, seguida pela
queimada dos resíduos restantes e o plantio por, aproximadamente, 3 a 4 anos. Quando essa área tivesse
uma diminuição na sua produtividade, a mesma era abandonada (período de pousio), entre 10 a 15 anos,
quando, então, ganhavam espaço as capoeiras. Cf: BOSERUP, Ester. Las condiciones del desarrollo en
la agricultura. La economia del cambio agrario bajo la pressión demográfica. Madrid: Editorial
Tecnos, 1967, pp. 39-45.
267
Para a Amazônia colonial, cf: ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os Vassalos D’El Rey nos
Confins da Amazônia. A Colonização da Amazônia Ocidental – 1750/1798. Niterói: Universidade
Federal Fluminense, 1990, pp. 49-54 (Dissertação de Mestrado em História). Quanto ao Amazonas do
século XIX, cf: SAMPAIO, Patrícia Maria Melo (a). Os Fios de Ariadne. Tipologia de Fortunas e
Hierarquias Sociais em Manaus: 1840-1880. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1997, pp.
129-132.
268
BOSERUP, Ester., op. cit., pp. 75-92.

247
como visto no capítulo anterior, passíveis de serem considerados como pertencentes ao
que aqui denomino de elite paraense, tiveram algum indício em seus processos que
pudesse indicar um sistema de uso da terra diferente da coivara. Ou seja, muito embora
tivessem representantes da elite defendendo a necessidade de modificação nas técnicas
de produção agrícola, conforme será tratado no decorrer desta seção, pelo menos
parcelas do grupo não pareciam estar colocando em prática tais propostas. Conforme
visto também no Capítulo II, mesmo em tempos dos debates sobre o alcance da
civilização aqui analisados, integrantes da elite local, em vez de estarem investindo em
novas técnicas de produção, preferiam aplicar os seus cabedais na aquisição, por
exemplo, de prédios urbanos, uma atividade econômica que, por definição, não produz
riqueza material. Neste sentido, mais uma vez, detecta-se aqui o arcaísmo da sociedade
considerada, pois, mesmo que não possam ser negligenciados os rendimentos gerados
pela atividade rentista, esta proporcionava status aos que a desenvolviam. Dito de outra
forma, ser rentista urbano significava um prestígio social que, também, gerava lucro.
Daí decorre o caráter particular do tipo de sociedade em foco, e trabalhado em todo este
estudo, qual seja, o de que o acúmulo de cabedal era, em grande medida, viabilizado
pela posição social do sujeito e/ou de sua família, i.e., não se de dava primordialmente
através do mercado 269 , não dependendo, portanto, apenas de investimentos na produção.
Somente levando em conta esta lógica econômica, é que podem ser entendidas as
opções referentes aos tipos de investimentos, como a mencionada acima.
Cabe ressaltar que as próprias tentativas de introduzir novas necessidades entre
as chamadas camadas subalternas, talvez, não se constituíssem, de uma forma igual, em
uma aspiração entre todos os segmentos da elite paraense da segunda metade do
Oitocentos. Possivelmente, uma parte do grupo, de fato, acreditasse naquelas propostas,
tendo, inclusive, continuado a defender tais idéias quando do chamado boom gomífero.
Por outro lado, é provável que outros grupos, embora tenham inicialmente acreditado na
importância dessas propostas, sentiram a necessidade de recuar e, em vez de forçar
aquela população a um ritmo de trabalho não desejado pela mesma, desistiram de tentar
colocar em prática medidas que pudessem “criar necessidades”. 270 Ou ainda, quem
sabe, parte da elite local nunca tenha nutrido aquela intenção. Afinal, a segunda metade
269
Refiro-me aqui, novamente, ao que já expus sobre as economias de tipo pré-industrial. Sobre o
assunto, ver, além do Capítulo II e da primeira seção deste capítulo, os já citados estudos de POLANYI,
Karl., op. cit.; e KULA, Witold., op. cit.
270
Estas possibilidades deverão ficar mais bem esclarecidas no final do capítulo.

248
do século XIX, no Império brasileiro, é marcada por um período de instabilidade e
incerteza no que toca à organização do trabalho, notadamente em função das discussões
em torno do fim da escravidão. Na atual região Sudeste, por exemplo, onde a lavoura
cafeeira possuía um especial relevo, as soluções para esse problema, entre a elite,
passavam pelas defesas do uso do trabalho assalariado e do sistema de parceria. 271
Assim sendo, a possível falta de unicidade de opiniões, no interior da elite paraense,
relativas à forma pela qual deveria estar organizada a força de trabalho livre, quando o
negócio da borracha representava o principal filão de geração de riquezas da economia
provincial, parece estar relacionada tanto com situações específicas da região, a
exemplo do exposto sobre a Cabanagem, quanto com preocupações que, de certo modo,
também diziam respeito a outras províncias brasileiras.
De toda maneira, visto o objetivo desta seção ser tentar entender as críticas
dirigidas contra a borracha, é preciso retornar, especificamente, aos projetos voltados
para o remodelamento das práticas de trabalho entre os livres pobres em geral do Grão-
Pará. Não custa nada destacar que as autoridades defensoras de tal proposta não
desejavam que as pessoas situadas na base da escala social simplesmente imitassem os
hábitos de consumo tidos entre os demais grupos da sociedade em questão. Usando
dados constantes no primeiro capítulo, não era interessante que todos habitantes da
Província passassem a consumir, por exemplo, pão feito com farinha de trigo dos
Estados Unidos, ou manteiga importada. Tampouco era pretendido, também, que todos
se tornassem grandes proprietários rurais. É evidente que uma mudança tão drástica nas
aspirações das camadas livres pobres promoveria uma mudança na estrutura social
como um todo, subvertendo a ordem então estabelecida. Em sociedades do tipo aqui
estudado, além dos níveis de riqueza e das barreiras jurídicas, as formas de consumo
diferenciadas também atuavam na estratificação social. 272 Muito embora os discursos
oficiais pesquisados não explicitem qual seria a no va demanda a incutir naquelas
pessoas, é certo, portanto, que a mesma estaria dentro dos limites dos próprios espaços
de mobilidade existentes na hierarquia social da época, fazendo, tão somente, que os
ritmos de trabalho fossem modificados a fim de supri- la.

271
Para uma discussão acerca dos debates em torno da questão da mão-de-obra concentrados no Imperial
Instituto Flu minense de Agricultura, ver MARTINS, Maria Fernanda Vieira., op. cit.
272
LEVI, Giovanni. “Comportamentos, recursos, processos: antes da ‘revolução’ do consumo”. In:
REVEL, Jacques. Jogos de Escalas: A experiência da microanálise”. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vargas, 1998, pp. 203-224.

249
É possível que a mencionada tentativa de criar necessidades, pelo menos entre
parte dos que advogavam a favor desta causa, estivesse sofrendo influência de algumas
das idéias liberais existentes na Europa, relativas ao modo pelo qual deveria ser tratada
a pobreza que se proliferava em vários países, devido às transformações industriais lá
ocorridas273 . Walter Fraga Filho, inclusive, estudando a Bahia do século XIX, apontou
que a percepção do trabalho, bem como o oposto desse ideal, a vadiagem, entre as
elites, estavam ligadas a obras de autores europeus, acerca do disciplinamento que se
pretendia fazer nas sociedades urbanas de alguns países do continente. 274 No caso da
Província do Pará, existem, também, alguns indícios a esse respeito. Em um catálogo
dos livros pertencentes à biblioteca pública do Colégio Paraense, escola de ensino
secundário em Belém, constavam, em 1863, por exemplo, várias obras de Benthan,
além de compêndios sobre economia política, sem autores especificados. 275 Também,
no inventário do advogado e Juiz de Direito de Belém, José Joaquim Pimenta de
Magalhães, aberto em 1855, dentre os escritores arrolados, estavam: Ricardo, Benthan,
além de títulos versando sobre economia política, mas sem os autores referidos. 276
Pensadores como os citados acima, por mais, segundo Polanyi, que diferissem
em método e perspectiva, concordavam ser o trabalho um elemento de suma
importância para a própria estruturação da sociedade. Para Ricardo, o trabalho era
entendido como a única maneira de se constituir valor. Benthan, pois, com o seu
Panopticon, acreditava ser possível, através do trabalho, dar uma utilidade social às
pessoas sem atividades econômicas reconhecidas pelo status quo. Como não poderia
deixar de ser, em vista da progressiva expansão da economia de mercado na Europa, os
dois, portanto, enxergavam o trabalho como um dos vértices desse tipo de organização
econômica e, por extensão, da própria sociedade, que passava a estar sujeita àquela. 277

273
Uma análise sobre tais teorias encontra-se em POLANYI, Karl., op. cit., especialmente pp. 137-157.
274
FRAGA FILHO, Walter., op. cit., pp. 169-178.
275
RPP, 01/11/1863. Segundo comunicação pessoal de Irma Rizzini, o ensino secundário, no Império,
possuía uma abrangência social bem mais restrita que a instrução primária. De modo geral, somente iam
para as escolas daquele tipo, filhos de famílias que tinham posses. Propiciando uma formação
direcionada aos alunos, que somente eram os do sexo masculino, estes, em sua maioria, ou ingressavam
no ensino superior, ou passavam logo a ocupar cargos públicos na administração. Inclusive, comumente,
os professores dessas escolas eram sujeitos pertencentes a posições de destaque na hierarquia social.
Sendo assim, as leituras feitas no Colégio Paraense, por exemplo, são sugestivas do tipo de formação e,
portanto, de suporte intelectual, que poderiam guiar a atuação de certas autoridades e determinados
políticos do Grão-Pará.
276
APEP. Autos de Inventários e Partilhas, Juízo de Órfãos da Capital, 1855, Caixa/Ano: 1854-1855,
doc. 03.
277
POLANYI, Karl., op. cit., pp. 137-157.

250
Neste sentido, filiando-se àquelas teorias liberais, certos políticos e autoridades
poderiam pensá- las à luz da realidade existente no Grão-Pará, ao almejarem o
desenvolvimento da indústria no seio dos livres pobres da Província, sem que, no
entanto, a hierarquia social passasse a estar ameaçada. Como visto, a geração de
necessidades, entre as camadas subalternas, era entendida como a maneira capaz de
modificar os seus ritmos tradicionais de trabalho e, assim, desenvolver a indústria na
Província. Por outro lado, segundo também discutido, tal demanda deveria estar de
acordo com os espaços de movimentação que essas pessoas dispunham dentro da
organização social existente. Desta maneira, alcançando o espírito de associação,
através da civilização daquelas pessoas, aumentariam, por sua vez, a produção paraense,
bem como garantiriam a ordem social. Enfim, inspirando-se em teorias pensadas para
sociedades que vinham sofrendo a expansão da economia de mercado, determinadas
autoridades, políticos e letrados em geral, pretendiam reforçar as segmentações
existentes em uma sociedade ainda de tipo pré-industrial, sem ambicionarem, portanto,
modificar a mesma.
No testamento de José Joaquim Pimenta de Magalhães, anexado ao seu
processo de inventário, cabe mencionar, duas das testemunhas foram José Coelho da
Gama e Abreu, o Barão de Marajó, e Francisco de Paula Chermont. O primeiro, como
apresentado na seção anterior, estava ligado por laços de parentesco a três dos quatro
grupos de famílias analisados. Quanto ao segundo, mesmo não tendo sido aqui possível
saber qual a sua filiação, por motivos evidentes de sobrenome, pertencia aos Chermont,
ligando-se, assim, aos outros grupos a que estava aparentada a sua família. Deste modo,
muito embora esses sejam tão somente fragmentos de informações, permitem supor que
tal proximidade entre José Joaquim, José Coelho e Francisco de Paula, ao que parece
expressa através de amizades, possa indicar a circulação de determinadas idéias entre os
mesmos. Ou seja, em suas prováveis conversas, quem sabe eles não tratassem da
questão do trabalho como algo que deveria ser socialmente útil.
É possível mesmo que a pretensão em promover uma intervenção nas práticas
de trabalho dos livres pobres, mantidas por certas autoridades e políticos na Província,
tenha levado alguns dos discursos oficiais a atribuírem excessiva ênfase nas atividades
de coleta da borracha, no todo das diferentes produções paraenses, conforme visto no
primeiro capítulo. Sugiro isso porque, caracterizar as atividades econômicas entre

251
aquelas pessoas basicamente a partir da coleta, relacionando as formas pelas quais elas
proviam a sua subsistência à ociosidade e/ou à falta de ânimo ao trabalho, talvez
pudesse representar um significativo argumento para autoridades e políticos justificarem
os seus discursos.
De qualque r forma, conforme afirmei anteriormente, os projetos políticos
voltados para o desenvolvimento do Grão-Pará não eram contrários ao crescimento da
produção e da comercialização da borracha, durante as décadas iniciais desse fenômeno.
Além dos interesses particulares no ramo da economia local que mais se expandia à
época, existentes entre alguns sujeitos aparentados e, portanto, integrantes do que se
pode considerar como sendo a elite tradicional paraense, acredito que há uma outra
questão. Muito embora - espero ter ficado claro na última seção -, tais indivíduos
possuíssem espaços de acesso à política e à administração paraenses, estava em jogo o
próprio aumento da produtividade e da exportação provinciais, pois esse era um tema
caro aos projetos políticos do tempo. As crescentes rendas geradas pela goma elástica
proporcionaram um aumento, sem precedentes, dos cofres públicos. Torna-se difícil
pensar, portanto, que esses recursos fossem ignorados pelos homens da política, como
meio de viabilização de inúmeros projetos que estavam na pauta das discussões entre
eles, tais como a abertura de estradas, os investimentos em escolas, a desobstrução de
canais, a promoção da navegação fluvial e o desenvolvimento da colonização. Tais
projetos eram vistos como instrumentos que alicerçariam o caminho a ser percorrido em
direção ao progresso, pois promoveriam a difusão da instrução e da educação, o
aumento do comércio e da própria produção, além da ocupação e da integração do
território. 278 Exemplificando a influência das rendas geradas pela borracha nas receitas

278
Sobre a importância das vias de comunicação em geral, nos projetos políticos, durante o século XIX,
cf: SANTA ROSA, Américo Brasiliense. “Vias de Comunicação”. In: Revista do Instituto e Geográfico
do Pará. Belém: Officinas Graphicas do Instituto Lauro Sodré, 1926, pp. 57-83. Quanto às estradas de
ferro, especificamente, como símbolos do progresso, ver: HARDMAN, Francisco Foot. Trem Fantasma:
A modernidade na selva. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. A respeito da navegação fluvial, ver:
LOPES, Siméia de Nazaré. Comércio Interno no Pará Oitocentista: Atos, sujeitos sociais e controle
entre 1840-1855. Belém: Universidade Federal do Pará; Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, 2002
(Dissertação de Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento). Ainda tratando deste último tema, mas
a partir do debate acerca da abertura do rio Amazonas à navegação estrangeira, há o importante estudo de
um político que participou, ativamente, das discussões do tempo; ver: BASTOS, Aureliano Cândido
Tavares. O Vale do Amazonas: A livre navegação do Amazonas, estatística, produção, comércio,
questões fiscais do vale do Amazonas. São Paulo; Brasília: Editora Nacional; INL, 1975 (1ª edição de
1866). Por fim, tratando das propostas e tentativas de colonização, cf: CRUZ, Ernesto (a)., op. cit.; e
MUNIZ, João de Palma. Imigração e Colonização: História e Estatística, 1616-1916. Belém: Imprensa
Official do Estado, 1916.

252
e nas despesas da administração provincial, há a declaração, em 1855, do Presidente
Sebastião do Rego Barros, onde, após tratar do crescimento por que vinha passando a
navegação e o comércio paraenses, disse:

“(...) a renda provincial tem soffrido alguma diminuição (...), em consequencia da baixa do
preço da gomma elastica, isto porém não deve inspirar receio de que a Provincia se veja
impossibilitada de occorrer às despezas decretadas para o corrente anno financeiro, em
razão do avultado saldo que passou do anno anterior (...)”. 279

Entretanto, nas duas primeiras décadas de expansão da economia gomífera,


quais sejam, 1850 e 1860, críticas foram feitas ao modo pelo qual era obtida a goma.
Longe de expressarem uma hostilidade em relação a esse setor, percebe-se que as
discussões indicavam a vontade de modificar determinados hábitos das pessoas que se
dedicavam às atividades de extração. Em verdade, inserindo-se na perspectiva existente
à época, que promulgava a favor do alcance da ordem, da civilização e do progresso,
tanto políticos da própria Província, quanto de outras áreas do Império, irão formular
propostas acerca daquele ramo da economia local. Vejamos isso com mais cuidado.
Apontei, no primeiro capítulo, terem sido os nativos de origem mestiça e índia,
as pessoas que, em sua maior parte, trabalhavam junto à coleta da borracha, até, ao
menos, o começo da década de 1870. Pois bem, Bernardo de Souza Franco, quando
esteve à frente da Presidência da Província, ainda em 1841, ao tratar da necessidade de
se promover a catequese entre os índios do Pará, escreveu que os mesmos, só
paulatinamente, deveriam ser levados a modificar os seus tradicionais ritmos de
trabalho, pelos motivos seguintes:

“(...) o fim religiozo e politico da cathequeze se pode conseguir sem forçar desde logo os
Indios à vida sedentaria e agricola; pois que a fertilidade do nosso Paiz offerece variados, e
ricos productos ruraes filhos espontaneos da natureza, que os aprezenta maduros e prontos
para se colherem; pois que he destes variados productos, que se compoem grande parte de
nossa exportação, e tanto mais avultada será ella quanto mais braços se empreguem neste
vantajozo trabalho; consistão sempre os primeiros exforços da cathequeze, e civilização em
rezolver os Indios a fixarem suas habitações mais perto dos povoados, ou nos rios de mais
continuada navegação, e a deixarem nellas suas mulheres, e filhos como penhor da sua
volta periodica a ouvirem a palavra de Deos, trocarem seus generos, e fornecerem-se dos
que precizarem; e dispensados de todo, e qualquer serviço publico, fiquem dezembaraçados
para voltarem às mattas à colher productos em todas as estações do anno em que he pratica
i-los buscar. O dezejo dos gozos, e commodidades da vida, lhes irá dando habitos mais
sociaes, e o futuro verá seus filhos, ou netos talvez já sedentarios, e activos habitantes das

279
RPP, 1855, p. 10.

253
povoações, e Cidadãos aptos para prestarem ao Paiz os serviços, que todos lhe
devemos”.280

Pelo trecho acima, nota-se, por um lado, o reconhecimento, por parte de Souza
Franco, da importância que os gêneros de origem extrativa tinham para o comércio da
Província. Mais do que isso: o futuro Visconde esperava mesmo que mais braços
fossem empregados nesse tipo de produção. Em relação à população indígena, centro
da argumentação, os seus integrantes deveriam continuar realizando as suas costumeiras
atividades, no caso a própria coleta, mas era esperado que os mesmos, aos poucos,
fossem tendo modificados determinados costumes. Novamente é possível perceber a
vontade de gerar necessidades, o “dezejo dos gozos”, nas palavras do Presidente. Isto,
ele pensava que incitaria os índios a possuir uma vida sedentária, o que, em vista das
análises anteriores, entendo como o hábito do trabalho regular, que não tivesse como o
seu objetivo maior o provimento da subsistência. Fica implícito, inclusive, que os
indígenas poderiam, através da agricultura, dar continuidade às suas costumeiras
produções, i.e., cultivar as árvores de onde extraíam diferentes produtos. Através da
Igreja, esperava Souza Franco angariar novos rebentos para o grêmio da sociedade e da
civilização. Produzindo com morigeração, fazendo crescer o comércio local, acolhendo
a palavra de Deus, adquirindo, enfim, hábitos tidos como sociais, os índios estariam
dando a sua contribuição para o alcance do projeto maior, o progresso. Direcionada a
tal objetivo, portanto, deveria estar pautada a ação da catequese, pois a mesma tinha um
“fim religiozo e politico”.
Se o último documento citado não faz referência explícita à extração da
borracha, outro, escrito por Francisco Carlos de Araújo Brusque, Presidente em 1862,
vai direto ao ponto. Tratando do tema durante um momento em que a economia
gomífera caminhava a passos largos na região, Araújo Brusque, acaba, por um lado,
corroborando algumas das sugestões já feitas por Souza Franco. Por outro lado,
expressa o quanto, devido à importância econômica da goma à época, o assunto
preocupava as mentes de autoridades e políticos, fossem os mesmos naturais ou não da
Província. Ao invés de rejeitar o ramo da economia ligado à goma elástica, o seu texto
demonstra a vontade de preservá- lo, desde que algumas medidas fossem tomadas.
Reportando-se à Assembléia Legislativa Provincial, disse Araújo Brusque:

280
RPP, 14/04/1841, pp. 15-16 (Grifo meu).

254
“Não esqueçamos ainda, que os seringaes vão sendo destruídos, e que o producto, que
d’elles nos provém, deve diminuir para o futuro, que registrará então nos annaes de sua
historia o tempo, que perderão os emprehendedores desta industria, e os males que soffreo a
população, que a ella se dedica.
Não a condemno, Senhores, se não porque, considerando esta industria , conforme se passão
as scenas de sua existencia nesta provincia, os homens, que a exercem, são representados
como quantidades inertes, ou cifras existentes no fim de uma columna de sommar (...), sem
lembrarmo-nos, que estas quantidades são intelligencias, que essas cifras arithmeticas são a
vida, a moralidade de muitos seres, que são votados por Deos ao mesmo destino, que
aspiramos. (...)
Estando situados os mais abundantes seringaes, que hoje se conhecem, em terras devolutas
e nacionaes, conviria fazel-as passar ao dominio particular, começando as suas distribuições
pelas que estivessem mais proximas dos grandes mercados da provincia.
Então, velarião os proprietarios na conservação das seringueiras, que vão mirrando pelo
emprego do chamado arroxo, com que esgotão toda a seiva da arvore, e seria mais facil
então fundarem-se estabelecimentos regulares, onde o trabalho seria mais moralisado, e o
trabalhador encontraria os necessarios recursos, que lhe faltão nessas passageiras feitorias,
que hoje se levantão, e que no fim da safra desapparecem, deixando como vestigio de sua
existencia a cruz, que indica a morada dos mortos!”.281

Araújo Brusque criticava o modo pelo qual ocorria a extração da borracha,


tanto porque poderia colocar em risco a própria sobrevivência das seringueiras, quanto
pela ausência de regularidade naquele tipo de atividade. Propunha, inclusive, que as
áreas onde se localizavam as seringueiras, em sua maior parte, passassem à propriedade
de particulares. O Presidente, como fica claro, não hostilizava a economia gomífera,
haja vista a sua preocupação com a própria conservação das árvores de onde era retirado
o produto. Antes, as suas ressalvas estão ligadas à perspectiva apontada de incentivo ao
trabalho regular. Ele buscava, em última análise, tornar as pessoas, que se dedicavam à
atividade, úteis à sociedade, que se pretendia civilizada.
Para dar mais um exemplo, sobre como a produção e a comercialização da
borracha eram aceitas entre os círculos da política provincial, há o relatório escrito por
João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, no ano de 1852, quando esteve na
Presidência da Província do Amazonas. Este sujeito - citado na seção anterior - ocupou
cargos importantes na administração e política paraenses. Reconhecendo a importância
281
RPP, 01/09/1862, pp. 48-49. De acordo com João Martins da Silva Coutinho, o método do arroxo
consistia no seguinte: “(...) cumprimir-se o tronco da arvore com um cipó muito grosso, obliquamente,
fazendo-se na parte superior com algumas incisões por onde corria o leite, que era recebido em um vaso
na parte inferior da ligadoura. Este processo mata as arvores em pouco tempo”. Destaca-se ainda que,
segundo Silva Coutinho, o arroxo já não era mais o principal método de se obter a goma. De qualquer
maneira, a preocupação de Araújo Brusque, acerca do esgotamento das seringueiras, irá se repetir no
discurso de vários presidentes e políticos posteriores, ao proporem o cultivo das árvores. Cf:
COUTINHO, João Martins da Silva. Relatório sobre alguns logares da província do Amazonas:
expecialmente o rio Madeira. Manaus: CODEAMA; IGHA, 1986, p. 66 (Reprodução fac-similada da
edição de 1861). Agradeço a Décio Gusmán, por ter me dado um exemplar desta obra.

255
das rendas proporcionadas pelos produtos de origem extrativa, dentre os quais aquele
que vinha ganhando maior destaque, Tenreiro Aranha sugere, no entanto, que as árvores
de onde eram obtidos esses gêneros começassem a ser cultivadas:

“À bem da agricultura, tenho feito conceber aos habitantes civilisados e aos indígenas a
idéa de que se devem applicar à cultura, não sómente dos productos, que d’antes já
cultivavão com tantos proveitos; mas até os do cacáo, cravo, goma-elastica, guaraná, puxirí,
salsa parrilha, e outras especiarias de muito valor, que, sendo por enquanto silvestres, e com
muitos riscos e arduos trabalhos extrahidos das matas, podem vir a ser-lhes de muito maior
proveito se forem cultivados”.282

Além da vontade de dar continuidade às produções de gêneros


tradicionalmente coletados, o trecho acima indica que, até mesmo para o melhor alcance
daquele fim, as árvores começassem a ser cultivadas. Mais uma vez, portanto, vê-se a
intenção em modificar as práticas de trabalho vinculadas à extração. 283 Além do mais,
mesmo que Tenreiro Aranha estivesse fazendo referência ao Amazonas, e não ao Pará,
as suas idéias podem ser entendidas como correntes, também, entre os homens à frente
da política na última Província. Por tudo o que foi exposto, além do fato de ser o jornal
Treze de Maio o periódico em que a Presidência veiculava todos os seus decretos,
regulamentos e leis, o mesmo não permitiria sair, nas suas páginas, idéias tão
discrepantes das defendidas pela administração e pela política paraenses.
De fato, fossem interesses particulares de alguns sujeitos integrantes do que se
pode considerar como a elite tradicional paraense, fosse o aumento da capacidade
produtiva da Província – elemento este central nos debates para além dos limites do

282
GLRP. Jornal Treze de Maio, nº 175, 24/07/1852, pp. 3-4.
283
Silva Coutinho, no ano de 1861, também propôs que as seringueiras fossem cultivadas no Amazonas.
Ele dizia que o Governo deveria dar a posse das áreas onde se localizavam as seringueiras, conquanto as
pessoas, que lá trabalhassem, cultivassem gêneros de origem agrícola, bem como plantassem seringueiras
dentro das posses, tanto no sentido de aumentar as já existentes, quanto para substituir as enfraquecidas
pelo tempo. Todas o funcionamento das unidades produtivas, inclusive, deveria ser supervisionado por
funcionários do Governo. Cf: COUTINHO, João Martins da Silva., op. cit., pp. 64-66. Mesmo tratando
de uma outra Província, que não a do Pará, a proposta mencionada é ilustrativa do tipo de preocupação
que perpassava os debates acerca da economia gomífera. Fossem naturais da próprias áreas onde a goma
elástica ganhava espaço, ou de outras do Império, como é o caso de Silva Coutinho, nascido na Província
do Rio de Janeiro, as discussões giravam em torno do melhor aproveitamento daquele setor econômico, a
fim de levar as ditas regiões ao tão sonhado progresso. A respeito desta questão, Silva Coutinho é
explícito: “E ninguem se illuda com o progresso espantoso que apresenta do Pará. Esse progresso é
ficticio, não tem bases; acaba cedo se o Governo não tomar providencias. Cf: Idem, p. 65. Reclamações
semelhantes ainda se farão presentes nos discursos políticos, sobre o Pará, em épocas bastante posteriores,
como as décadas de 1880 e 1900. Cf: ANDERSON, Robin Leslie. Following Curupira: Colonization
and Migration in Pará, 1758 to 1930. As a Study in Settlement of the Humid Tropic. California:
University of California, 1976, p. 67. (Tese de Doutorado em História)

256
Grão-Pará -, buscava-se, portanto, remodelar as práticas de trabalho ligadas à coleta da
borracha, incluindo-se aí certas técnicas de produção desse gênero. Especificamente no
tocante a este último ponto, não por acaso, José Coelho da Gama e Abreu, conforme
mencionado anteriormente, foi encarregado de estudar o método Strauss para o preparo
da goma. Era constante em diversos Relatórios de Presidentes de Província, a
reclamação de ser o tradicional modo empregado na coagulação do suco da seringueira,
pela defumação, prejudicial à saúde. 284 E, sendo não somente as melhorias materiais
consideradas representativas da civilização, mas, também, por exemplo, as relativas às
condições de higiene e saúde entendidas da mesma forma 285 , mudanças no preparo da
borracha eram revestidas de grande valor.
Corroborando o exposto nos parágrafos anteriores sobre o entendimento que as
esferas da política paraense tinham sobre a econo mia gomífera, foi a criação da Escola
Rural de D. Pedro II. Fundada no ano de 1861, o estabelecimento tinha, entre os seus
objetivos:

“(...) Fazer experiencias e observações sobre a agricultura da Provincia e sobre os meios de


melhoral-a e de aproveitar e aperfeiçoar os productos por ella fornecidos.
(...) Propagar essas experiencias e observações, os processos agronomicos, e o uso das
machinas de reconhecida exequibilidade, inspirando à população, e de preferencia aos
orfaos desvalidos e jovens indigenas, a vocação para a vida da agricultura”. 286

Sendo que, para o alcance dos ditos fins, além de oficinas voltadas ao desenvolvimento
de instrumentos agrícolas, campos de gado, uma “pequena fabrica de assucar, dentre
outras unidades, existiria uma “escola florestal”. Sobretudo nesta última, o ensino
prático e teórico abrangeria:

“(...) A silvicultura em geral, e especialmente o estudo das arvores de madeiras mais


preciosas uteis à tinturaria, à marcenaria, e às construções civil e naval; dos productos
expontaneos das florestas, e do melhor modo de fazer a sua colheita e aproveital-os”.287

284
Ver, por exemplo: RPP, 15/08/1864, pp. 69-71.
285
Sobre a relação da higiene e da saúde com o ideal de civilização, cf: BELTRÃO, Jane Felipe. “Belém
de outrora, em tempo de cólera, sob olhares impertinentes e disciplinadores”. In: Anais do Arquivo
Público do Pará. Belém: Secretaria de Estado da Cultura; Arquivo Público do Estado do Pará, 1997, v. 3,
t. 1, pp. 215-238.
286
RPP, 04/05/1861, anexo nº 11.
287
Idem.

257
Os trechos extraídos do Regulamento da Escola Rural, pode-se perceber,
aglutinam todos os argumentos apresentados acerca da importância atribuída tanto aos
gêneros de origem agrícola, quanto aos costumeiramente coletados. Demonstra como o
aumento da produtividade, no Grão-Pará, era valorizado, inclusive o dos gêneros de
origem extrativa, dentre os quais certamente estava a borracha. Propõem, no entanto, a
difusão da “vocação para a vida da agricultura”, entre os “orfaos desvalidos e jovens
indigenas”. Ou seja, em vista do analisado sobre a idéia de ordem, era esperado que os
livres pobres modificassem as suas práticas de trabalho.
Como já trabalhado neste estudo, as duas primeiras décadas de crescimento
vertiginoso da produção da borracha, eram tempos de intensos debates acerca das
maneiras possíveis de se alcançar o progresso no Império brasileiro. No caso da
Província do Grão-Pará, em particular, tais discussões, no que toca à economia local,
pautavam-se na exploração de todos os recursos naturais disponíveis. Contudo, a fim de
que aquele objetivo maior triunfasse, alguns caminhos teriam de ser percorridos: a
garantia da ordem e a difusão da civilização. E é dentro dessa perspectiva que políticos
e autoridades, ao tratarem da goma elástica, estavam posicionados. Em verdade, as
ressalvas feitas sobre esse ramo da economia paraense, constituíam-se em projetos
também voltados para os outros tipos de produção existentes. Atribuindo ao geral
população livre pobre a ausência de costumes tidos como sociais, acreditavam que a
instrução e a catequese, por exemplo, poderiam suprir essa falta. A partir do momento
em que este alvo fosse atingido, aquelas pessoas, acreditavam as autoridades e os
políticos, passariam, de fato, a contribuir para o grande projeto imperial. 288 Mais do que
isso: o alcance do tão almejado progresso - para o qual era necessária antes a ordem, e a
civilização -, atuaria como reforço das posições ocupadas pelas elites paraenses na
hierarquia social. Ilustrativo desse argumento é o interesse demonstrado por vários dos
sujeitos apresentados na seção anterior, no funcionamento da Escola Rural, pois na ata

288
O Imperial Instituto Fluminense de Agricultura é um bom exemplo do que se chamou de grande
projeto imperial. Inspirado nos ideais de modernidade e progresso, através, por exemplo, do positivismo
e do spencerismo, de acordo com Maria Fernanda Martins, tinha o seguinte objetivo: “O projeto
defendido pela elite política, contando com a colaboração e participação dos diferentes grupos que
compunham a elite imperial brasileira, baseava-se na defesa da mão-de-obra livre e especializada, através
do ensino profissional agrícola, na diversificação dos gêneros e na modernização das técnicas de cultivo
(...)”. Cf. MARTINS, Maria Fernanda Vieira., op. cit., p. 26. Inclusive, em um dos discursos feitos
quando a instalação da Escola Rural de D. Pedro II no Pará, proferido por Joaquim José de Assis, os
objetivos gerais deste estabelecimento foram analisados como estando de acordo com os do Imperial
Instituto. Cf: RPP, 04/05/1861, Anexo nº 13.

258
de fundação deste estabelecimento, dentre outros, assinaram: Antônio José de Miranda,
Antônio Lacerda de Chermont, João Luís de La Roque, Joaquim José de Assis, José
Coelho da Gama e Abreu, José Joaquim Rodrigues Martins, José Mariano Pereira de
Chermont e Luís de La Roque. 289
Para os sujeitos integrantes da elite paraense, portanto, foram importantes, para
a própria permanência dos mesmos enquanto tais, as relações sociais, a exemplo do
parentesco e das amizades, bem como a participação nas práticas beneficiais, analisadas
mais acima. Mas, também, tiveram o mesmo objetivo, a tentativa de modificar práticas
tradicionais de trabalho das camadas livres pobres, pois, como dito, mesmo nos anos de
1860, as recordações da Cabanagem ainda se faziam presentes, pelo menos em alguns
discursos formulados por certos segme ntos elite provincial. E, conforme apontei, levar
a civilização àquelas pessoas era vista como uma maneira de garantir a própria ordem.
Os livres pobres resistiram a essas tentativas de intervenção nos seus modos de vida, é
possível perceber nos diferentes discursos analisados. E, em vista do paradoxo
apontado, nesses mesmos discursos, a respeito do abandono das atividades agrícolas em
favor da extração da borracha, será que a falta de mão-de-obra nos seringais era
tamanha - sem desconsiderar a demanda estrangeira pela borracha -, a ponto de
justificar as enormes levas de migrantes nordestinos verificadas em fins da década de
1870, e financiadas pelos próprios interessados no negócio? Somente pesquisas futuras
poderão responder a essa pergunta.
De qualquer forma, é provável que, ao menos uma parcela dos setores da elite
tradicional paraense, como visto, em parte envolvida com a goma elástica, tenha
preferido manter as redes clientelares construídas com parte daqueles livres pobres e,
em vez de forçá- los a um tipo de trabalho não desejado pelos mesmos, empregar na
extração pessoas que foram para a região fugidas da seca e já atraídas pelo sonho de
riqueza acenado pela economia gomífera. Mesmo depois da década de 1870, enquanto
o negócio da goma elástica ainda se expandia, discursos defendendo intervenções nos
modos de vida dos livres pobres, semelhantes aos aqui analisados, ainda continuaram a
existir. Contudo, nenhuma medida efetiva foi adotada no sentido de modificar as
práticas de trabalho correntes entre aquelas pessoas. Sendo certo que, para a própria
constituição e/ou mantença dos segmentos da elite, eram necessárias as alianças

289
RPP, 04/05/1861, Anexo nº 12.

259
verticais, não deveria, portanto, ser conveniente aos integrantes dos grupos familiares
paraenses tradicionais, naquela condição, descartar seus aliados, mesmo que estes
ocupassem posições inferiores na hierarquia social. Se todas essas sugestões estiverem
corretas, aí está uma das chaves para o entendimento dos mecanismos utilizados, por
algumas famílias prestigiosas ainda no século XVIII, para a permanência de seus nomes
em lugar de destaque na sociedade local mesmo depois do chamado boom da borracha.

260
CONSIDERAÇÕES FINAIS

É bastante difícil escrever esta parte do trabalho. Acredito que os resultados


alcançados para as questões apresentadas ao longo das páginas anteriores, antes de
qualquer outra coisa, caracterizam-se por chamar a atenção para a necessidade de serem
desenvolvidas, com mais vigor, as pesquisas sobre História Econômica no Pará. Longe,
portanto, de pretender ser uma análise exaustivo sobre o tema aqui proposto, esta
dissertação foi concebida com a intenção de problematizar, de forma inicial, certas
questões já cristalizadas na historiografia regional. Na verdade, penso que estudos com
a natureza de uma dissertação de mestrado são marcados muito mais pela abertura de
caminhos possíveis de serem trilhados, do que pelo alcance de conclusões solidificadas.
Em suma, tentei demonstrar que o negócio da borracha, em seus momentos
iniciais, não representou um estrago, de uma forma geral, nas demais produções
paraenses, tampouco foi mal recebido pela elite provincial. E isso por alguns motivos,
dentre os quais um parece ser essencial: o fato daqueles fenômenos terem se dado em
uma sociedade de natureza pré- industrial. Retomemos alguns pontos analisados.
Foi exposto que certos gêneros agrícolas chegaram a alcançar um aumento em
seus volumes exportados proporcionalmente maiores que a goma elástica, durante as
décadas iniciais de incremento da produç ão desta última. Assim sendo, os habitantes da
Província, considerados em sua generalidade, não pareciam estar tendo a sua
sobrevivência física ameaçada, como uma decorrência de um possível abandono da
produção de alimentos. E isto porque o tipo de mão-de-obra ainda predominante na
coleta da goma era a nativa – mestiça ou indígena -, sem os vínculos formais com as
grandes casas aviadoras que se irão observar posteriormente, durante o chamado auge
da economia gomífera. Eram, assim, de um modo geral, pessoas já estabelecidas nas
principais áreas produtoras de borracha do Grão-Pará, e que desenvolviam,

261
concomitantemente à coleta da seringa, as suas produções tradicionais de subsistência,
as quais, pelo menos em alguns casos, chegavam a gerar excedentes comercializáveis.
Neste sentido, tais sujeitos não possuíam motivos para colocar em risco a sua própria
existência material, com o abandono de suas produções de alimentos, em função de um
simples interesse na obtenção de lucros com o setor da economia em expansão. Este de
tipo de motivação não fazia parte da lógica econômica da época. Em verdade, as
informações encontradas apontaram para a economia paraense, durante,
aproximadamente, as duas décadas iniciais de crescimento do negócio da borracha,
possuir uma organização produtiva assentada numa estreita combinação das atividades
agrícolas e extrativas, além da coleta e da caça.
Também, por meio de uma discussão sobre os traços gerais da economia
paraense de meados do Oitocentos, e tomando como referência o município de Belém,
entre os anos de 1850 e 1870, demonstrei que a atividade comercial era o setor
econômico gerador da maior soma de riquezas. Por isso, o grupo que ocupava o topo da
hierarquia econômica era aquele ligado predominantemente ao comércio, apesar do
mesmo também aplicar os seus ativos em outros tipos de atividades, a exemplo da
aquisição de propriedades rurais e de imóveis urbanos. Investimentos como esses, i.e.,
em setores menos rentáveis que o comércio, apenas puderam ser compreendidos em
função dos interesses relativos à reprodução das relações de poder então existentes. Em
outras palavras, em vez de visarem tão somente a maximização dos lucros, tinham como
objetivo último a continuidade da hierarquia bastante desigual da época, pois era ela
quem dava sustentação para a economia e, portanto, para a sociedade locais. Daí ter
sido apontada a dificuldade de se considerar, especialmente e de um modo geral, os
grupos ligados ao comércio e às atividades rurais, pertencentes à elite, de forma
separada.
Além dos investimentos nesses dois tipos de atividades econômicas, foi ainda
possível perceber a rede de relações sociais que articulava os diferentes grupos da elite
paraense. Tendo sido enfocadas essas redes através dos casamentos e das amizades, foi
visto mesmo que certas famílias da elite oitocentista, vinculadas majoritariamente seja
ao comércio, seja às atividades rurais, remontavam essas alianças ao século anterior. E
quando chamo as amizades e os casamentos estabelecidos no interior da elite de
alianças, é em decorrência dos mesmos terem se constituído em estratégias que

262
objetivavam a própria preservação do locus social do grupo. Considerando-se que para
a elite se manter enquanto tal eram necessários contínuos esforços, tentei expor que
aquelas alianças, juntamente com a relação de favores que alguns sujeitos mantinham
com a esfera política, no período colonial ou no imperial, revestiram-se de grande
importância tanto para o acúmulo de cabedais, quanto para o gozo de prestígio social
por parte de integrantes da elite de meados do século XIX.
A partir do apresentado acima, foi redimensionada, então, a maneira pela qual
os homens à frente da política e da administração provinciais estavam entendendo o
incremento inicial da produção e da comercialização da borracha na região. As
evidências documentais encontradas apontaram que muitos dos sujeitos pertencentes à
elite paraense com inserção na vida política paraense, ou tinham nas suas famílias de
origem vínculos com a atividade comercial, ou estabeleceram alianças parentais e de
amizades com pessoas ligadas a esse ramo da economia local, sendo que alguns
apresentavam claros interesses na continuidade da expansão do negócio da seringa. Por
isso, tornou-se bastante difícil aceitar que a elite paraense, considerada em sua
generalidade, estivesse desejando um simples crescimento da produção agrícola, em
detrimento da economia gomífera.
Inserindo-se em um debate político mais amplo, ou melhor, que extrapolava os
limites do Grão-Pará, a respeito de como levar o Império brasileiro ao alcance da
ordem, da civilização e do progresso, a elite em questão não negava a importância dos
rendimentos então gerados pela borracha, nem era contrária à continuidade da produção
desse gênero. E isto era devido aos investimentos que alguns membros da elite
possuíam naquele setor da economia, bem como à vultosa contribuição que o mesmo
vinha dando aos cofres públicos. Sendo assim, tais recursos não poderiam passar
desapercebidos pelos homens da política, na medida que representavam a viabilização
de inúmeros projetos constantemente discutidos por eles, projetos estes que, em última
análise, visavam à implementação daquelas três noções na sociedade local.
De todo modo, houve a oportunidade de notar que, muito embora o negócio
gomífero não tenha sido mal recebido, em seus momentos iniciais, pela elite paraense,
pelo menos parte desta não deixou de lançar algumas críticas à forma por que a seringa
era obtida. Tais críticas chegavam a ser estendidas a outros tipos de produções da
Província, e guardavam uma estreita relação com as mencionadas idéias de ordem,

263
civilização e progresso. Mas, também, pretendiam lidar com um problema que pode ser
considerado mais prático para o grupo em questão. Tendo como uma de suas principais
bases de sustentação a proposta de modificar as práticas tradicionais de trabalho das
camadas livres pobres, aquelas críticas tinham como fim último reforçar os mecanismos
de ascendência social da elite sobre os chamados grupos subalternos. Afinal, mesmo
que frações da elite paraense tenham participado da Cabanagem, certamente o profundo
impacto social deste movimento não deve ter sido rapidamente esquecido durante a
segunda metade do Oitocentos. Ao formularem aquelas críticas, portanto, certos
representantes da elite local pareciam estar em consonância com alguns dos mais caros
projetos políticos do Império, bem como pretendiam colocar em prática mais uma de
suas estratégias no intuito da preservação de seu locus na pirâmide social. Visavam,
assim, a mantença do poder social que possuíam sobre áreas que iam muito além da
capital da Província, e que lhes permitiam o controle da riqueza e a ingerência na
justiça, na administração, na política, o que se traduzia, em resumo, no controle sobre a
própria sociedade local. E, justamente, por causa do imperativo que gerava a
necessidade da colocação em prática de determinadas estratégias por parte da elite, é
que, talvez, pelo menos parte desta, envolvida desde o início com a borracha, tenha
ficado somente no discurso a respeito da modificação nas práticas de trabalho correntes
entre os livres pobres, optando pela mão-de-obra nordestina nos seringais, em vez de
abrir mão de suas alianças sociais verticais.
Antes de finalizar este estudo, acredito ser importante destacar alguns temas
apenas tangenciados aqui, mas que podem vir a ser bastante elucidativos para a história
da economia abordada. A organização das relações de trabalho assentadas na mão-de-
obra livre, preponderantes no período privilegiado, é um deles. Da mesma forma, os
mecanismos de acumulação mercantil, vistos de uma maneira mais aprofundada, em
decorrência da relevância do capital com tal origem nas fortunas analisadas. Ainda,
uma investigação sobre as relações de reciprocidade entre a elite e os chamados grupos
subalternos, pode permitir uma visão mais precisa dos mecanismos que tornaram
possível aos primeiros a ascendência mantida sobre a sociedade local, contribuindo,
inclusive, para o entendimento da enorme emigração de nordestinos em direção ao Pará
a partir de fins do Oitocentos. Mas, tudo isso fica para futuras pesquisas e outros
pesquisadores.

264
FONTES PRIMÁRIAS

FONTES PUBLICADAS

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BATES, Henry Walter. Um Naturalista no Rio Amazonas. Belo Horizonte; São Paulo:
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do Brazil a que se procedeu no dia 1º de Agosto de 1872. Rio de Janeiro:
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MORAES, Francisco de. “Estudantes Brasileiros na Universidade de Coimbra (1772-


1872)”. In: Anais da Biblioteca Nacional. Vol.62. Rio de Janeiro: Imprensa
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Exmº Sr. Dr. João Capistrano Bandeira de Mello Filho em 9 de Março de 1878.
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado ao Exmº Snr. Dr. Francisco
Maria Corrêa de Sá e Benevides pelo Exmº Senr. Dr. Pedro Vicente de Azevedo

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por occasião de passar-lhe a administração da Provincia do Pará, no dia 17 de
Janeiro de 1875. Pará: 1875. Versão disponível na Internet, site
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Provincial na segunda sessão da 17ª Legislatura, pelo Dr. Abel Graça Presidente
da Provincia. Pará: Typographia do Diario do Gram-Pará, 1871. Versão
disponível na Internet, site www.crl.edu/areastudies/LAMP/index.htm.
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Almirante e Conselheiro de Guerra Joaquim Raymundo de Lamare passou a
administração da Provincia do Gram-Pará ao Excellentissimo Senhor Visconde
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio... 18 de Outubro de 1868. Pará: 1868.


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Consultado em 08/2002.

PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado à Assemblea Legislativa


Provincial por S. Excª o Sr. Vice-Almirante e Conselheiro de Guerra Joaquim
Raymundo de Lamare, Presidente da Provincia, em 15 de Agosto de 1867. Pará:
Typographia de Frederico Rhossard, 1867. Versão disponível na Internet, site
www.crl.edu/areastudies/LAMP/index.htm. Consultado em 08/2002.

PARÁ, Governo da Província do. Relatório apresentado a Assemblea Legislativa


Provincial por S. Excª o Sr. Vice-Almirante e Conselheiro de Guerra Joaquim
Raymundo de Lamare Presidente da Provincia, em 13 de Agosto de 1867. Pará:
Typographia de Frederico Rhossard, 1867. Versão disponível na Internet, site
www.crl.edu/areastudies/LAMP/index.htm. Consultado em 08/2002.

PARÁ, Governo da Província do. Relatorio com que o Excellentissimo Senhor


Presidente da Provincia Dr. Pedro Leão Vellozo passou a administração da
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Senhor Presidente da Provincia Doutor Francisco Carlos de Araujo Brusque, em
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Presidente da Provincia do Gram-Pará ao Exmº Vice-Presidente Olyntho José
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Provincia do Pará na segunda sessão da XII Legislatura pelo Exmº Sr. Dr.
Francisco Carlos de Araujo Brusque Presidente da mesma Provincia em 17 de
Agosto de 1861. Pará: Typographia do Gram-Pará, 1861. Versão disponível na
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio que o Exmº Sr. Dr. Antonio Coelho de Sá e
Albuquerque Presidente da Provincia do Pará apresentou ao Exmº Sr. Vice-
Presidente Dr. Fabio Alexandrino de Carvalho Reis ao passar-lhe a
administração da mesma Provincia m 12 de Maio de 1860. Pará: Typographia
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PARÁ, Governo da Província do. Falla dirigida a Assemblea Legislativa da Provincia


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Manoel de Frias e Vasconcellos Prezidente da mesma Provincia, em 1 de Outubro
de 1859. Pará: Typographia de J.R. Guimarães, 1859. Versão disponível na
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio apresentado à Assembléa Legislativa


Provincial do Pará, no dia 15 de Agosto de 1856, por occasião da abertura da
primeira sessão da 10ª Legislatura da mesma Assembléa. Pelo Presidente
Henrique de Beaurepaire Rohan. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1856.
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PARÁ, Governo da Província do. Exposiçaõ apresentada pelo Exmº Senr. Conselheiro
Sebastião do Rego Barros Presidente da Provincia do Gram-Pará, por occasiaõ
de passar a Administraçaõ da mesma Provincia ao 1º Vice-Presidente o Exmº
Senr. Dr. Angelo Custodio Correa. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1855.
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PARÁ, Governo da Província do. Falla dirigida à Assembléa Legislativa Provincial


pelo Exmº Senr. Conselheiro Sebastião do Rego Barros, dignissimo Presidente
desta Provincia, no dia 26 de Outubro de 1855 por occasiaõ d’abertura da
segunda Sessaõ ordinaria da nona Legislatura da mesma Assemblea. Pará:
Typographia de Santos & Filhos, 1855. Versão disponível na Internet, site
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PARÁ, Governo da Província do. Exposiçaõ apresentada pelo Exmº Senr. Doutor João
Maria de Moraes 4º Vice-Presidente da Provincia do Gram-Pará, por occasiaõ
de passar a Administração da mesma Provincia ao 3º Vice-Presidente o Exmº
Senr. Coronel Miguel Antonio Pinto Guimarães. Pará: Typographia de Santos &
Filhos, 1855. Versão disponível na Internet, site
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio que Ao Illmº Senr. Vice Presidente desta
Provincia do Para, para ser presente à Assembléa Legislativa Provincial,
submette o Inspector do Thesouro Publico Provincial João Baptista de Figueiredo
Tenreiro Aranha no anno de 1855. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1855.
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PARÁ, Governo da Província do. Falla que o Exmº Snr. Conselheiro desta Provincia
dirigiu à Assemblea Legislativa Provincial na abertura da mesma Assemblea no
dia 15 de Agosto de 1854. Pará: Typographia da Aurora Paraense, 1854. Versão

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PARÁ, Governo da Província do. Discurso apresentado ao Exmº Snr. Dr. José
Joaquim da Cunha, Presidente da Provincia do Gram Pará pelo Commendador
Fausto Augusto d’Aguiar, por occasiaõ de entregar-lhe a administração da
Provincia no dia 20 de Agosto de 1852. Pará: Typographia de Santos & Filhos,
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PARÁ, Governo da Província do. Relatorio do Presidente da Provincia do Gram Pará


o Exmº Snr. Dr. Fausto Augusto d’Aguiar, na abertura da segunda sessaõ
ordinaria da setima legislatura da Assemblea Provincial no dia 15 de Agosto de
1851. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1851. Versão disponível na
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PARÁ, Governo da Província do. Relatório feito pelo Exmº Snr. Doutor Angelo
Custodio Correa, 1º Vice Prezidente desta Provincia, e entregue ao Prezidente em
Exercicio, o Exmº Snr. Dr. Fausto Augusto de Aguiar, no dia 13 de setembro de
1850. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1850. Versão disponível na
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PARÁ, Governo da Província do. Falla dirigida pelo Exmº Snr. Conselheiro Jeronimo
Francisco Coelho Presidente da Provincia do Gram-Pará à Assembléa
Legislativa Provincial, na abertura da Sessaõ Ordinaria da sexta Legislatura no
dia 1º de Outubro de 1848. Pará: Typographia de Santos & Filhos, 1848. Versão
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PARÁ, Governo da Província do. Discurso recitado pelo Exmº Snr. Doutor Bernardo
de Souza Franco Vice-Prezidente da Provincia do Pará, na abertura da
Assemblea Legislativa Provincial no dia 14 de Abril de 1841. Pará: Typographia
de Santos & Menor, 1841. Versão disponível na Internet, site
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PARÁ, Governo da Província do. Discurso recitado pelo Exmº Snr. Doutor João
Antonio de Miranda, Prezidente da Provincia do Para, na abertura da Assemblea
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• Biblioteca do Grêmio Literário e Recreativo Português

Jornais
- O Planeta (1840-1853)
- O Doutrinário (1849)
- O Publicador Paraense (1849-1853)
- A Voz do Guajará (1851-1852)
- O Monarchista Paraense (1852)
- Correio dos Pobres (1851-1853)
- Treze de Maio (1844 e 1849-1854)

• Fundação Cultural do Pará “Tancredo Neves”

Seção de Microfilmes
Jornais
- Teo-Teo (1848)
-Treze de Maio (1840-1843)
- Gazeta Official (1859-1861)

FONTES MANUSCRITAS

• Arquivo Público do Estado do Pará

- Inventários post-mortem – Município da Capital – 1850, 1852, 1853, 1854, 1855,


1856, 1857, 1858, 1859, 1860, 1861, 1862, 1863, 1864, 1865, 1866, 1867, 1868, 1869
e 1870.

• Arquivo Histórico Ultramarino – Projeto Resgate

Capitania do Pará – Manuscritos Avulsos.

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282
Anexo I

Escravos: Divisão por Sexo no Município de Belém, 1850 -1870

Sexo

Anos Homem Mulher

No % No %
1850-1854 171 48,86 179 51,14
1855-1859 317 49,38 325 50,62
1860-1864 234 44,83 288 55,17
1865-1870 376 50,20 373 49,80
Fonte: 178 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará.
Total de Escravos: 2.263

Anexo II

Escravos: Divisão por Sexo e Faixa Etária no Município de Belém, 1850-1870

Faixas Etárias (No ) Faixas Etárias (%)

Anos Até 12 anos 13-45 anos + de 45 anos Até 12 anos 13-45 anos + de 45 anos

MAS FEM MAS FEM MAS FEM MAS FEM MAS FEM MAS FEM
1850-1854 56 71 86 91 29 17 16,00 20,28 24,57 26,00 8,29 4,86
1855-1859 120 104 147 161 50 60 18,69 16,20 22,90 25,08 7,78 9,35
1860-1864 84 120 118 127 32 41 16,09 22,99 22,60 24,34 6,13 7,85
1865-1870 153 111 175 217 48 45 20,43 14,82 23,36 28,97 6,41 6,01
Fonte: 178 Inventários post-mortem – Arquivo Público do Estado do Pará.
Total de Escravos: 2.263

283
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