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+ Questão social, sociedade civil e lutas sociais + Serviço Social na Saúde


+ Luta contra a exploração do trabalho

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 1


Campanha do Conjunto CFESS-CRESS para o Dia do/a Assistente Social de 2014

15/5
Dia
da/o
Assistente
Social

2 CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014


Apresentação
Colega Assistente Social,

Com a aproximação da Copa do Mundo do Brasil defesa da construção de um modo de viver


e das Olimpíadas do Rio de Janeiro, é importante com ética, pautado na igualdade e liberdade
lembrar o conjunto de desigualdades decorrentes substantivas e na equidade social.”
desses megaeventos, especialmente quando
discutimos o direito à cidade, afirmando a nossa A campanha do Dia da/o Assistente Social deste
reflexão sobre os seus impactos na vida das/dos ano envolve o direito à cidade, nas suas variadas
trabalhadores. formas. Por isso, neste 15 de maio, queremos
inserir em nossa agenda uma reflexão sobre essa
A luta pelo direito à cidade perpassa por diferentes temática, fortalecendo assim a contribuição da
âmbitos. Falar de direito à cidade é pensar no profissão na luta por direitos.
acesso a um conjunto de direitos como trabalho,
moradia, saúde, transporte, seguridade social O CRESS-MG reafirma a defesa do direito à cidade
e pública, educação, cultura, lazer, segurança e engrossa as fileiras da luta pelo acesso universal
pública, informação e participação política nas aos serviços e distribuição democrática dos bens
relações humanas que as cidades propiciam. Logo, socialmente produzidos.
debater a questão urbana não é falar somente
sobre infraestrutura. Boa leitura!

O direito à cidade abrange diferentes lutas MARIA DE FÁTIMA SANTOS GOTTSCHALG


históricas que clamam por “cidades democráticas, PRESIDENTA INTERINA (JANEIRO - ABRIL DE 2014)
justas e sustentáveis, cujo processo de crescimento
ocorra sob os princípios da solidariedade, LEONARDO DAVID ROSA REIS
liberdade, igualdade, dignidade e justiça social e PRESIDENTE EM EXERCÍCIO
sob os fundamentos do respeito à diversidade
humana. É sob esse marco que exigimos o
cumprimento da função social da propriedade, que
defendemos uma política de ocupação do território Índice
brasileiro, que apoiamos os movimentos sociais na O Serviço Social na luta contra a exploração do trabalho
luta contra os despejos e contra a mercantilização página 4
da terra.” (CFESS MANIFESTA DIREITO À CIDADE:
PARA TODOS E TODAS) Questão social, sociedade civil e lutas sociais: desafios ao
Serviço Social página 7
Devemos sempre combater o conjunto de Cidade-empresa, crise urbana e luta pela moradia após as
violações que sofremos todos os dias nas cidades, jornadas de junho de 2013 página 11
onde podemos perceber os impactos perversos
do sistema capitalista, que produz processos O direito à vida pública página 16
degradantes nas relações sociais, com impactos
A tecnologia na gestão de projetos sociais em habitação:
deletérios na organização dos trabalhadores para estudo de caso Cohab Minas página 20
lutarem por melhores condições de vida.
A segregação socioespacial em Belo Horizonte: desafio
Como já afirmado no CFESS MANIFESTA DIREITO histórico para a habitação de interesse social página 25
À CIDADE: PARA TODOS E TODAS, “a defesa do
Aluguel social como alternativa de política habitacional
direito à cidade está na luta pelo acesso universal
página 30
aos serviços, na distribuição democrática dos bens INSTITUCIONAL
produzidos, no incentivo ao diálogo intercultural. Roda de conversa: demandas e desafios para o Serviço
O direito à cidade é, eminentemente, a luta pela Social na Saúde página 35

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O Serviço Social
na luta contra a
exploraçao do trabalho
1

MARIA LÚCIA MARTINELLI


Assistente social, docente, pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre
Identidade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC São Paulo

A história de todas as sociedades até os


nossos dias é a história da luta de classes.

Marx e Engels, Manifesto do Partido


Comunista.

Com estas palavras, Marx e Engels abrem o águas com épocas anteriores. A rigor, ao longo das
primeiro tópico da primeira edição do Manifesto décadas iniciais desse século, o modo de produção
do Partido Comunista, publicado em Londres, em capitalista foi se instituindo e delineando uma nova
fevereiro de 1848. forma de organização social que acentua cada vez
mais a divisão entre as classes e a posse privada
São palavras que expressam camadas de história, dos meios de produção, transformando as relações
intensos processos de lutas e enfrentamentos da humanas em relações mercantis.
classe trabalhadora contra a burguesia, ao longo
de décadas dos séculos XVIII e XIX, e que, no Nas palavras de Mandel (1982, p. 395), “o modo de
entanto, ecoam em nossos ouvidos ainda hoje produção capitalista só se torna possível em certo
como a convocar-nos para mantermo-nos firmes estágio de desenvolvimento das forças produtivas
e perseverantes na luta contra a exploração do – quando existem condições materiais prévias à
trabalho. subordinação formal, e depois efetiva, do trabalho
ao capital.”
A transição para o século XX foi marcada também
por muitos momentos de agudização da luta de Portanto, a temática que nos compete analisar, a
classes, sendo esta uma questão sempre presente exploração do trabalho, tem profunda inserção
no conjunto da obra de Marx, que a considerava no debate marxista e exige necessariamente
um caminho imprescindível para a emancipação interlocução com a história, não sob o ponto de
da classe trabalhadora e da própria sociedade. vista de traçar cronologias, mas de entendê-la como
um processo transformador da realidade, como
Porém, não foi apenas a transição para o século substância da própria sociedade, expandindo-se
XX que se mostrou como um profundo divisor de para todas as esferas da vida social. (Heller, 1972)

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É neste sentido que podemos dizer que o modo de A expansão do pensamento conservador, favorecido
produção capitalista forja uma sociabilidade muito pelo ideário neoliberal, que se contrapõe à
própria, incidindo na produção da vida social. consolidação de princípios democráticos, estende-
se por toda a sociedade, determinando a perda
De uma forma profundamente antagônica e de padrões civilizatórios. Instauram-se modos de
contraditória, conforme já analisamos no livro vida marcadamente individualistas, competitivos,
Serviço Social: Identidade e Alienação (Martinelli, pouco agregadores, difusos em termos de direitos
2005, p.39) o capitalista e o trabalhador, como e deveres, impregnados da lógica do capital.
personificações de categorias econômicas,
são produzidos em uma mesma relação. No plano das políticas públicas e de sua
O enriquecimento de um produz diretamente operacionalização, há dificuldades de se
o pauperismo do outro, exaurindo sua força de estabelecerem princípios e valores realmente
trabalho e, por extensão, suas próprias condições emancipatórios que busquem efetivar o acesso e
de vida. a garantia de direitos aos sujeitos que demandam.

Ao longo do século XX, esse modo de produção Enfim, o que está em jogo é um novo ciclo de
penetrará em todo o tecido social, espraiando-se profundas transformações que envolvem tanto as
por todos os meandros, com vistas a alcançar uma forças produtivas como as relações de produção,
escala mundial. alcançando mesmo o cotidiano da vida social.
É sempre importante, porém, lembrar que o
capitalismo não se coloca, nem sequer assume
Não se pode deixar de reconhecer as intensas
problemas morais, seu interesse é sempre a
lutas dos trabalhadores para não serem tragados
reprodução do capital.
por essa lógica de um mercado regulador da
vida social, e de um Estado que paulatinamente
Assim, no caso brasileiro, o alinhamento da política
abandona seu papel de formulador de políticas econômica aos ditames do capital parece não
garantidoras de direitos sociais e individuais, causar nenhum estranhamento aos governantes,
expondo a classe trabalhadora a uma exploração cujos olhos não querem ver o crescimento da
máxima e sem proteção social, pois entram em desigualdade social, da violência, do desemprego,
cena novas formas de organização do processo do déficit habitacional, das precárias condições de
produtivo que expropriam ainda mais o trabalhador saúde e educação, enfim, de condições dignas de
de sua força de trabalho. vida.
Este é o cenário internacional desde os anos 1970 Parece não lhes causar nenhum prurido ético
e que vai se intensificando ainda mais ao longo financiar a crise do capital, com destinações do
das décadas de 1980/90, com claras orientações fundo público ou elevando taxas de juros, ou
de políticas neoliberais e globalizadas, emanadas rebaixando salários, o que impacta ainda mais a
das agências internacionais e com profundas classe que vive no trabalho e que hoje está exposta
repercussões nas condições de vida e trabalho da a um trabalho completamente precarizado.
classe trabalhadora. (Antunes, 2009, p. 235)

Tais políticas, caracterizadas por intensa Neste complexo emaranhado de múltiplos


desregulamentação do mercado de trabalho, constrangimentos, o próprio assistente social,
acarretam crescente desigualdade social, trazendo como trabalhador assalariado que é, vê-se também
para a classe trabalhadora grandes dificuldades de acuado por todas essas determinações que são
acesso aos direitos sociais e aos bens socialmente portadoras de inúmeros impactos.
produzidos.
Daí a importância do projeto contemporâneo do
A financeirização do capital, desvinculando-o da Serviço Social brasileiro como um norte para
relação de trabalho, produz impactos substantivos nossa ação profissional. Reafirmando os valores
sobre a classe trabalhadora, abalando seus próprios de liberdade e justiça social, já presentes no
referenciais identitários. Código de 1986, o novo Código, de 1993, assume

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a democracia como valor ético-político central, NOTA
considerando-a a única organização político-social
capaz de assegurar a explicitação dos valores 1 - Tema central definido pelo CFESS, Gestão Tempo
essenciais de liberdade e equidade. de Luta e Resistência (2011-2014) para marcar o Dia do
Assistente Social, em 2013.
Articulado, portanto, a um projeto de sociedade
mais justa e democrática, esse Código de Ética REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
vai estabelecer princípios e valores norteadores da
ação profissional e claramente fortalecedores da CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL.
identidade da profissão. Código de Ética do Assistente Social. 3ª edição. Brasília:
CFESS, 1997.
Tendo decorrido de um amplo esforço da categoria
FORTI, Valéria, GUERRA, Yolanda (Orgs.). Ética e
profissional, por intermédio de suas entidades Direitos: ensaios críticos. Coletânea Nova de Serviço
nacionais, especialmente o Conjunto CFESS- Social. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.
CRESS, ABEPSS e ENESSO, o Código e o
projeto ético-político, do qual é parte constitutiva, HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Rio de Janeiro:
elevam a novos patamares todos os parâmetros Paz e Terra, 1972.
e normas para o trabalho profissional, através de
uma legislação madura e democrática. MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. São Paulo: Abril
Cultural, 1982.
Sabemos, porém, que em tempos de fortes ventos MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade
conservadores como os que vivemos hoje, entre e alienação. 16ª edição, 4ª reimpressão, São Paulo: Editora
violações e violências muito próprias da sociedade Cortez, 2013.
do capital, além de todo o esforço organizativo da
categoria profissional e do compromisso cotidiano _________. O Serviço Social e a consolidação de
de cada assistente social, precisamos de um Estado direitos: desafios contemporâneos. Revista Serviço Social
social, fundado na justiça e no direito, sem os e Saúde. UNICAMP, Campinas, v.X, nº 12, dezembro,
2011.
quais a política não passa de mera ação técnica,
pois tem profundamente fragilizado tanto a sua _________. Reflexões sobre o Serviço Social e o projeto
substancialidade quanto o seu caráter mediador. ético-político profissional. Revista Emancipação, ano 6,
Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, nãoº1,
Mas, se queremos mesmo lutar contra a exploração 2006.
do trabalho, precisamos investir na construção de
uma cultura política contra-hegemônica, capaz de MARX, Karl. O capital: crítica da economia política.
Vol. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
instituir-se como via de resistência à degradação
da sociabilidade humana imposta pelas leis do _________. Miséria de la Filosofia. 1ª edição, 2ª
mercado e do capitalismo vigente. reimpressão, Madrid: Aguillar, 1973.

Entretanto, esta é, sem dúvida, uma luta a ser feita _________. Manuscritos econômico-filosóficos.
juntamente com os diferentes segmentos da classe Edições 70. Lisboa: Portugal, 1993.
trabalhadora, através de seus movimentos sociais
organizados. MARX, ENGELS. Manifesto del Partido Comunista.
Tradução ao espanhol, Editorial Progresso: Moscou,
1981.
São muito lúcidas as palavras de Marx, ao finalizar
o tópico IV do Manifesto do Partido Comunista, NETTO, José Paulo. Capitalismo monopolista e Serviço
dirigindo-se aos proletários de seu tempo, e muito Social. São Paulo: Cortez, 1992.
valem para os trabalhadores de hoje, lembrando-
os da importância de se libertarem das barreiras
que os oprimem, pois há um mundo a ganhar,
e exortando-os a se unirem, com a célebre
determinação “Proletários de todo o mundo,
uni-vos!” (Marx e Engels, 1981, p. 68)

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Questão social, sociedade civil
e lutas sociais: desafios ao
Serviço Social

MARIA LÚCIA DURIGUETTO


Professora da Faculdade de Serviço Social da UFJF

As manifestações e as lutas sociais estão em configuração econômica não esgota o conteúdo


evidência no cenário nacional nos últimos dez das determinações da questão social. A ela se
meses. Muito se escreve e se debate acerca dos alia uma dimensão fundamentalmente política,
objetivos, das formas de luta, dos limites e dos que expressa o inconformismo, a rebeldia, a
desafios dos sujeitos que as protagonizam. Nosso indignação, as formas de consciência das classes
objetivo, aqui, não é tratar do debate “quente” da subalternas por meio de diferentes e variadas
conjuntura atual, mas de resgatar e explicitar uma formas de lutas, organizações e ações que
necessária relação dos conteúdos que conformam o expressam suas necessidades e demandas junto
que entendemos por questão social, sociedade civil ao conjunto das frações das classes dominantes
e movimentos e lutas sociais. Acreditamos que as e ao Estado. Demandas e necessidades que vão
determinações que conformam a questão social e desde o acesso a direitos sociais – ao trabalho,
a esfera da sociedade civil podem nos servir como às políticas sociais de qualidade e universais;
um farol analítico para uma apreensão crítica a reforma agrária; a denúncia das retiradas e
e classista das lutas e dos movimentos sociais. ataques aos direitos conquistados; o combate a
Também constitui nossa intenção explicitar alguns todas as formas de discriminalização e opressão;
desafios que esta apreensão coloca ao Serviço a resistência à criminalização das lutas etc. E, para
Social. algumas organizações e movimentos, a necessária
socialização do poder econômico e político que se
Entendemos por questão social o conjunto das daria pela erradicação do capitalismo.
expressões das desigualdades econômicas que
são conformadas pela produção coletiva da O conceito de sociedade civil nos possibilita
riqueza - gerada pelos trabalhadores, destituídos uma importante contribuição para pensarmos o
dos meios de produção - e pela sua apropriação desenvolvimento desses processos de organização
privada pelos proprietários dos meios de produção. e de lutas nos processos de politização e
Questão social expressa, assim, a configuração publicização das diferentes expressões da
da sociedade de classes. A centralidade dessa desigualdade social. Para o marxista italiano

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Antônio Gramsci, após a segunda metade do que uma classe consegue obter dos grupos
século XIX, assistimos ao desenvolvimento de próximos e aliados. Ou seja, constituir-se como
“aparelhos privados de hegemonia” no campo classe hegemônica significa construir e organizar
da sociedade civil. Estes aparelhos constituem- interesses comuns. A conquista progressiva de
se no desenvolvimento das organizações que uma unidade político-ideológica – de uma direção
representam os interesses das classes dominantes de classe – requer, assim, a busca do consenso dos
e subalternas (partidos, sindicatos, movimentos grupos sociais aliados, alargando e articulando seus
sociais, etc), no desenvolvimento dos aparatos interesses e necessidades na busca da superação
ideológicos, jurídicos e legais do Estado, nas dos seus limites corporativos. Para Gramsci a
organizações de elaboração e/ou difusão dos constituição de uma contra-hegemonia das classes
valores, cultura e ideologias. Assim, sociedade subalternas requer uma intensa “preparação
civil seria uma das esferas em que as classes ideológica das massas”, uma construção de uma
se organizam para defender e expressar seus nova concepção de mundo, a formação de uma
interesses e demandas, para manterem sua consciência crítica e classista.
hegemonia e/ou para lutarem para a formação de
uma contra-hegemonia à dominante, que no caso, Nesta direção, entendemos que as lutas
seria a dos projetos societários do conjunto das sociais são o desdobramento sociopolítico, no
organizações e movimentos sociais das classes campo da sociedade civil, das contradições do
subalternas. Não obstante esse palco de disputa de desenvolvimento capitalista que se materializam
projetos que se desenvolvem na sociedade civil, na chamada questão social. Os movimentos e as
não devemos esquecer que nela efetiva-se uma organizações das classes subalternas expressam
ação estatal voltada para o exercício da busca do os interesses, as necessidades, o inconformismo e
consenso e da hegemonia das classes dominantes as lutas relativas ao combate ou à erradicação das
e o exercício da dominação e da coerção diferentes expressões da questão social no campo
(presentes nos chamados “aparelhos coercitivos do da sociedade civil.
Estado”) quando “fracassa” o consenso espontâneo.
Essa apreensão integral da ação estatal – utilização SERVIÇO SOCIAL E LUTAS SOCIAIS
do consenso e da coerção – expressa, em Gramsci,
a forma ampla do exercício da dominação pelas O Serviço Social é uma profissão constituída
classes dominantes. na dinâmica sócio-histórica das relações entre
Estado e as classes sociais no enfrentamento à
É necessário afirmar a orgânica relação entre questão social. Sua natureza contraditória abre
a esfera da sociedade civil com o mundo das a possibilidade de, para além das demandas dos
relações sociais de produção. É nele e a partir dele espaços sócio-ocupacionais em que estamos
que se desenvolvem as classes, seus interesses inseridos, atuarmos nos processos de mobilização
antagônicos, suas expressões organizativas; as popular e de fortalecimento dos movimentos
formas de consciência e a função exercida pelo sociais e organizações dos trabalhadores. Dessa
Estado. Assim, a sociedade civil não é apenas a forma, podemos contribuir para o desenvolvimento
esfera da produção da dominação e do consenso das ações coletivas dos sujeitos com os quais
dos interesses e projetos das classes dominantes trabalhamos na perspectiva da defesa, da
e de suas expressões no Estado. É, como visto, conquista e da ampliação dos direitos e da
também a esfera em que se desenvolvem os construção de uma sociedade emancipada.
conflitos, as organizações dos interesses classistas
contraditórios, as disputas ideológicas e culturais, Nosso projeto ético-político teve, como um dos
a produção de interesses particularistas e de móveis centrais para o seu desenvolvimento,
interesses de classe. A sociedade civil é uma esfera a força política e organizativa de um conjunto
em que as classes disputam a hegemonia. variado de lutas, movimentos e organizações
dos trabalhadores no campo da sociedade civil
A noção de hegemonia expressa a direção e o brasileira a partir dos finais da década de 70 e
consenso ideológico (de concepção de mundo) década de 80. Força política que foi incorporada

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– em suas necessidades e reivindicações – e seu inconformismo. Para nós, decifrar então
apreendida – no campo teórico – pelos setores as mediações por meio das quais se expressa a
progressistas da profissão. Coube ao protagonismo questão social tem importância por dois motivos:
destes segmentos progressistas as transformações para apreender as expressões que as desigualdades
no conteúdo do processo formativo dos assistentes sociais assumem na vida dos sujeitos e para
sociais; a reformulação dos princípios e valores apreender e fortalecer suas formas de resistência já
do nosso Código de Ética; a densidade teórica e existentes ou ainda ocultas no campo da sociedade
qualificada da produção acadêmica e do debate civil. Ou seja, suas formas de organização e as
teórico-político; a solidez político-organizativa e potencialidades de mobilização e de luta.
classista de nossas entidades representativas. Com
esta apreensão, afirmamos que o nosso projeto Esta apreensão pode abrir novos horizontes para
profissional se alimenta, se vitaliza, se fortifica o exercício profissional, pois pode favorecer que
– especialmente nas condições atuais que lhe nossas ações não se pautem pelo fornecimento
parecem tão adversas - tanto no avanço daquela de informações que levem à simples adesão dos
base social, qual seja, das organizações e lutas das sujeitos aos programas e projetos institucionais,
classes subalternas – quanto na vontade majoritária à individualização do acesso que reforça a
do campo profissional. perspectiva de subalternização e controle. Mas
ao contrário: aquela apreensão pode nos abrir a
Particularmente em relação ao campo profissional possibilidade interventiva de trabalhar nos sujeitos
na sua relação com as lutas e movimentos sociais, a busca da construção de estratégias coletivas
gostaríamos de fazer algumas pontuações de para o encaminhamento de suas demandas, de
ordem teórico-interventiva. suas necessidades, o que significa estimulá-los à
participação em organizações e movimentos sociais
A relação interventiva do Serviço Social com os ou a fomentar e potencializar a necessidade deles
movimentos sociais é explicitada, por exemplo, criarem organizações e movimentos quando estes
na Lei de Regulamentação da profissão, que inexistem; de estimulá-los à participar e ocupar
determina como competência do assistente social os espaços conselhistas; de desenvolver ações de
“prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais mobilização e organização popular nos espaços
em matéria relacionada às políticas sociais, no em que atuamos pela viabilização da participação
exercício e na defesa dos direitos civis, políticos dos sujeitos no processo de elaboração e avaliação
e sociais da coletividade” (Lei n. 8.662, 1993, art. das políticas e dos serviços que prestamos.
4º, parágrafo IX) e no Código de Ética, que afirma
como direito do profissional “apoiar e/ou participar O mergulho no cotidiano das necessidades e
dos movimentos sociais e organizações populares resistências também nos abre possibilidades
vinculados à luta pela consolidação e ampliação da programáticas de intervenção junto às
democracia e dos direitos de cidadania” (Código de organizações e movimentos sociais, associações
Ética do Assistente Social, 1993, art.12, alínea b). comunitárias e sindicatos, assessorando-os
O que gostaríamos de ressaltar é que essas diretivas na perspectiva de identificação de demandas,
não constituem apenas dimensões normativas, formulação de estratégias para defesa e acesso
mas orientações estratégico-táticas. aos direitos; articulação de ações para discussão
das políticas e construção de alternativas para
Como nos esclarece Iamamoto (1982, 1998), suas reivindicações, de construção de estratégias
interferimos nas relações sociais cotidianas no e táticas de mobilização junto aos usuários para a
atendimento às mais variadas expressões da participação em fóruns, conselhos e conferências
questão social vividas pelos indivíduos sociais no de políticas públicas, entre outros. Ressaltamos
trabalho, na família, nas necessidades de acesso a importância de socializarmos, nesses espaços,
aos serviços de saúde, moradia, assistência etc. informações acerca das políticas em que atuamos,
Mas, como vimos, a questão social é desigualdade, atribuindo transparência e visibilidade às situações
mas também é rebeldia, luta, pois os indivíduos de inexistência, oferta precária ou violação dos
sociais a elas também resistem e expressam direitos. Além disso, podemos atuar prestando

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assessoria aos movimentos e organizações na militância em partidos políticos de esquerda,
populares nos processos de formação política e de na contribuição para a discussão e formulação de
consciência de classe. estratégias para a defesa e reivindicação de direitos
nas lutas pela reforma agrária, pela moradia, pelo
Apreensão que também nos possibilita a reconhecimento dos direitos das mulheres, idosos,
incorporação de novas temáticas e conhecimentos crianças e adolescentes; nos movimentos pela
que enriquecem a compreensão das expressões das liberdade de orientação sexual, feminista, ético-
desigualdades sociais: o trabalho junto aos Sem raciais etc; pela participação crítica e propositiva
Terra nos aproxima da questão agrária; as ações de assistentes sociais nos conselhos de direitos,
junto às lutas por moradia, transporte, contra fóruns temáticos, conferências, etc; quando
remoções etc nos conduzem à problemática da lutamos contra a criminalização da pobreza e das
especulação do solo urbano e sua relação com os lutas; quando combatemos as discriminações,
quando negociamos em defesa dos usuários;
processos de espoliação etc.
quando participamos de mobilizações populares
e atos públicos; quando denunciamos violências;
Esse conjunto de possibilidades de intervenção quando recusamos remoções e intervenções
no cotidiano dos diferentes espaços sócio- forçadas; quando investimos para uma formação
ocupacionais nos conduz a prospectivas teóricas e profissional pública, presencial e qualificada;
prático-interventivas para além das políticas que quando fortalecemos nossas entidades.
operamos, o que nos ajuda a enfrentar processos
que vêm formando uma cultura profissional que Nossa categoria profissional, há mais de três
tende a dar primazia à ação prática e aplicada décadas, vem acumulando conhecimentos que
da profissão, circunscrevendo-a na órbita de um nos capacitam a apreender a realidade para além
“pronto-socorro social”. do imediato, do naturalizado, em uma perspectiva
histórica e de totalidade. Conhecimento que
O que queremos enfatizar é que dar vida ao projeto também nos indica uma clara defesa dos interesses,
ético-político exige de nós o compromisso com o necessidades e projetos societários das classes
fortalecimento das lutas sociopolíticas vinculadas subalternas e de suas organizações e movimentos.
às classes subalternas o que, por sua vez, Temos, assim, um patrimônio de rupturas com o
demanda a aliança com os sujeitos coletivos que conservadorismo, que nos coloca em sintonia com
as protagonizam. Ou seja, implica em criarmos a defesa e com a construção de uma vida cotidiana
estratégias e táticas de atuação no sentido da cheia de sentidos para a humanidade. Nosso projeto
promoção e do fortalecimento das organizações e profissional nos chama a sermos sujeitos nas lutas
lutas coletivas dos trabalhadores que são alvo de pela construção desses cotidianos, que traduzem
nossas intervenções. a sintonia com os conteúdos da emancipação
humana.
E já percebemos esse compromisso no
protagonismo das entidades representativas da
categoria na articulação com as pautas de lutas
das organizações e do conjunto dos movimentos REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
sociais; com as associações profissionais e
DURIGUETTO, Ma. L. “Conselhos de Direitos e
entidades de defesa de direitos; nas campanhas intervenção profissional do Serviço Social” in BRAVO,
e documentos do Conjunto CFESS-CRESS; da Ma. I. e MENEZES, J. S. B. Saúde, Serviço Social.
ENESSO; na produção teórica; nas atribuições, Movimentos Sociais e Conselhos. SP: Cortez, 2012.
princípios e valores que norteiam nossa ação
profissional. Compromisso também materializado IAMAMOTO, M V. & CARVALHO, R. Relações Sociais
no protagonismo político dos assistentes sociais e Serviço Social no Brasil. SP: Cortez, 1982
em vários espaços de organização e de lutas sociais, __________. O Serviço Social na contemporaneidade:
como nos cursos de formação desenvolvidos trabalho e formação profissional. SP: Cortez, 1998.
pelas parcerias entre a Escola Nacional Florestan
Fernandes (ENFF) e os cursos de Serviço Social,

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Destaques

Cidade-empresa, crise urbana e


luta pela moradia após as jornadas
de junho de 2013
JOVIANO MAYER
Advogado, membro do Coletivo Margarida Alves de Assessoria Jurídica Popular, militante das
Brigadas Populares e mestrando em arquitetura e urbanismo pela UFMG

Ninguém poderia prever os fatos que se sucederam exigências que tocam às cidades, tais como
no Brasil a partir de junho de 2013, após a violenta mobilidade, megaeventos, moradia, privatização
repressão policial contra as mobilizações do MPL do espaço público, criminalização da pobreza,
(Movimento Passe Livre), em São Paulo. O aumento desmilitarização das polícias etc. A principal
da tarifa paga pelos usuários do transporte público, exceção, também presente nos gritos de protestos
em vinte centavos de reais, foi o estopim para os e muito bem forjada por setores de oposição ao
protestos ganharem as ruas. A desproporcional governo federal desde o escândalo do “mensalão”,
resposta das forças policiais militares, ao invés de foi a pauta geral contra a corrupção e suas
sufocar o movimento, fez espalhar pelo território reivindicações conexas. Nesse campo polimorfo
nacional, como um rastilho de pólvora, as grandes da luta contra a corrupção, a maior “conquista” das
revoltas em uma nova escala, não mais restritas manifestações foi a rejeição do Projeto de Emenda
à pauta da mobilidade urbana como direito Constitucional nº. 37 que subtraía do Ministério
constitucionalmente assegurado. Público o poder de investigação.

Em verdade, as manifestações que abalaram as Apesar da abundância de pautas aparentemente


estruturas do poder instituído e criaram uma desconexas, podemos considerar que a cidade
inflexão na história democrática do Brasil tiveram foi palco, mas também principal objeto das
como pano de fundo a crise urbana, marcada grandes manifestações. As principais questões
nas últimas décadas pelo aprofundamento da colocadas pelos movimentos sociais no período
segregação sócio-espacial das cidades brasileiras, anterior à eclosão dos grandes protestos, tais
cada vez mais reféns da lógica de gerenciamento como a luta contra Belo Monte, a causa indígena
empresarial em proveito do capital imobiliário. Guarani Kaiowá ou a reforma do Código Florestal
não vieram à tona ou não ganharam a mesma
Quase a totalidade das reivindicações transcritas notoriedade durante as chamadas “jornadas” de
em bandeiras, cartazes ou mesmo nos corpos junho.
dos manifestantes se comunicava de forma
direta ou indireta com o agravamento dessa crise Compreender as contradições próprias da lógica
urbana. “As vozes que vêm das ruas” pugnavam de apropriação do espaço, sob os marcos do

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neoliberalismo, do planejamento estratégico e da controlar os fluxos financeiros das empresas
cidade-empresa, é pressuposto para a compreensão multinacionais” com o fortalecimento do poder
da crise urbana, razão última das mobilizações. local, o que, a um só tempo, dilui a centralidade do
Cabe assim, aprofundar a análise crítica e Estado e permite a negociação direta entre o capital
apreender certas categorias que caracterizam a financeiro internacional e os governos locais,
cidade neoliberal, marcada por um modelo de aquilo que Carlos Vainer (2012) posteriormente
gestão empresarial do espaço e do planejamento vai propagar como sendo a “democracia direta
urbano, tais como: cidade global, planejamento do capital” e, por consequência, o “banimento da
estratégico, cidade de exceção, cidade-mercadoria, política”.
urbanismo ad hoc, grande projeto urbano, market-
friendly, gentrificação/revitalização, etc. Desse arranjo, decorre o papel central das
parcerias público-privadas que sustentam esse
“(...) o neoliberalismo transformou as regras novo “empreendedorismo urbano”, garantindo a
do jogo político. A governança substituiu oferta de infra-estrutura e a assunção dos riscos
o governo; os direitos e as liberdades têm dos investimentos pelo setor público. A parceria
prioridade sobre a democracia; a lei e as público-privada é, por assim dizer, a coluna
parcerias público-privadas, feitas sem
transparência, substituíram as instituições
vertebral do “planejamento estratégico”. É a
democráticas; a anarquia do mercado parceria do poder público com os agentes privados
e do empreendedorismo competitivo que irá resguardar o atendimento dos interesses
substituíram as capacidades deliberativas do mercado na formulação do planejamento e
baseadas em solidariedades sociais.” na tomada de decisões que dizem respeito às
(HARVEY, 2013: 32) intervenções estruturantes no espaço urbano.
Sob a lógica do chamado “empreendedorismo
urbano” (HARVEY, 2006), as cidades são Sob o império do “planejamento estratégico”, não há
mais lei urbana que se sustente frente aos interesses
governadas como se fossem empresas, em
econômicos dos parceiros privados envolvidos
permanente competição umas com as outras
na produção da cidade. Tudo é passível de ser
para atrair capitais e investimentos na economia
flexibilizado, excepcionado, ou mesmo violado (e
global. Estando as cidades submetidas aos mesmos
depois compensado), sejam áreas ambientalmente
desafios colocados às empresas, caberia aos
protegidas, ou zonas destinadas apenas ao uso
governos municipais adotarem um “planejamento residencial, todas as regras urbanísticas podem
estratégico” inspirado em conceitos e técnicas que ser transpostas, paradoxalmente, dentro da estrita
são próprias do planejamento empresarial. Daí a legalidade – como na hipótese das operações
pertinência do conceito de cidade-empresa para urbanas consorciadas. Esse é o pano de fundo que
caracterizar esse padrão de “desenvolvimento” subjaz a cidade-empresa, em que o excepcional
urbano sob a égide do neoliberalismo e da é instituído como regra na produção do espaço
globalização financeira. urbano para assegurar flexibilidade e agilidade aos
processos decisórios que afetem os interesses do
A produção do espaço urbano, dentro do capital.
“planejamento estratégico”, é, sobretudo, orientada
pelos imperativos da eficiência, metas, resultados, Possivelmente, as operações urbanas consorciadas,
autonomia local, vantagens econômicas, marketing modalidade de parceria público-privada aplicada
de cidade, parceria público-privada etc. Este ao planejamento urbano, tão recorrente
modelo de gestão, que sucedeu ao planejamento na atualidade – em especial nos grandes
moderno racionalista, funcionalista e rígido, empreendimentos relacionados à realização dos
corresponde ao ditame neoliberal de fortalecimento megaeventos esportivos – sejam o instrumento de
do poder local em oposição à ação centralizada e política urbana que melhor traduzam o paradigma
normativa do Estado nacional. da cidade de exceção, na qual toda e qualquer
norma urbanística pode ser flexibilizada em
Nessa esteira, David Harvey (2006) relacionou proveito dos interesses da indústria imobiliária e
“a capacidade declinante do Estado-Nação de em prejuízo do direito à cidade1.

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É nesse cenário de aprofundamento da matriz seu tempo livre, em áreas periféricas de alto risco.
neoliberal de produção do espaço urbano e, via de O programa federal Minha Casa, Minha Vida,
consequência, agravamento da crise urbana, que por sua vez, não se configura de modo algum
eclodiram as manifestações em junho de 20132. No como política pública tendente a estancar o
entanto, as medidas apresentadas pelos governos aumento do deficit habitacional. A propósito, tal
federal, estaduais e municipais não enfrentaram programa sequer pode ser considerado como uma
as principais questões colocadas em pauta política habitacional propriamente dita, vez que,
pelas multidões que tomaram as ruas durante as operacionalizado e gerido por um banco (Caixa
chamadas jornadas de junho. Até mesmo a suposta Econômica Federal), mostra-se mais coerente como
reforma política prometida pelo governo federal uma política econômica em proveito da indústria
e anunciada em cadeia nacional pela presidente da construção civil e da própria especulação
que, na prática, não implicava em mudanças nos imobiliária.
mecanismos de controle e participação direta
da população, restou negligenciada e em nada Ora, o programa Minha Casa, Minha Vida fez os
avançou. As vozes que vem das ruas, não foram preços dos imóveis disparem nas grandes cidades
ouvidas... brasileiras: as ações das construtoras, principais
financiadoras de campanhas eleitorais, tiveram
Ao contrário, os governos agravam o caos os maiores ganhos nas bolsas de valores desde o
nas cidades e a segregação sócio-espacial, lançamento do programa em 2008, tendo várias
pois persistem no caminho da contrarreforma delas passado a operar nas bolsas como empresas
urbana em curso com a ratificação do padrão de de capital aberto. Às construtoras também não
mobilidade rodoviarista centrado na hegemonia interessam produzir para as famílias da faixa de
do automóvel sobre o transporte público, a renda 1 que integram 90% do déficit habitacional,
remoção sistemática de assentamentos informais3, quais sejam aquelas com renda familiar mensal
a conivência com a especulação imobiliária nas de até três salários mínimos, o que se comprova
cidades, a realização de grandes projetos urbanos
ao verificar os números irrisórios de unidades
por meio de parcerias público-privadas e a não
construídas nas metrópoles destinadas à população
efetivação dos instrumentos de política urbana do
dentro dessa faixa de renda4.
Estatuto da Cidade (Lei nº. 10.257/2001) voltados
ao cumprimento da função social. Em suma, não
se vislumbra no horizonte próximo a superação da Assim, no Brasil, a luta pela moradia não deixou
crise urbana que deu substrato às manifestações de ter centralidade na atuação dos movimentos
de 2013. populares que empunham a bandeira da Reforma
Urbana, os quais recorrentemente utilizam as
No contexto dessa crise urbana, a questão ocupações de imóveis ociosos como método de
habitacional ganha grande relevância, sobretudo pressão política e organização popular. Somente
considerando o papel da moradia quanto ao acesso na cidade de São Paulo, como desdobramento das
a bens e serviços que a cidade oferece. A questão mobilizações de junho de 2013, já ocorreram desde
habitacional é uma sequela direta da contradição então cerca de 90 ocupações por famílias sem teto,
capital x trabalho: a escravidão assalariada com destaque para a ocupação Nova Palestina,
conferida à população mais pobre, especialmente organizada pelo Movimento dos Trabalhadores
aquela com rendimento familiar mensal inferior Sem Teto (MTST), a qual reúne atualmente sete
a 3 salários mínimos, não lhe permite aceder à mil famílias em situação de insegurança da posse.
compra de uma habitação no mercado imobiliário, Em Belo Horizonte, desde junho de 2013, mais de
tampouco acessar programas de subsídio público duas mil famílias vivem em situação de ameaça de
para o financiamento habitacional, ou pagar o desalojamento na região do Isidoro, nas ocupações
aluguel de uma habitação de qualidade, localizada Rosa Leão, Vitória e esperança.
próxima aos bens de consumo coletivo e ao local
de trabalho. Resta aos trabalhadores(as) sobreviver O movimento social organizado busca, por
como podem, morando de favor ou sacrificando meio das ocupações, em síntese, oferecer um
a alimentação e a saúde para pagar o aluguel ou, lar para as famílias necessitadas, mesmo que
ainda, (auto)construindo suas moradias, durante provisoriamente; fazer uma denúncia da situação

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 13


dos “sem-casa”, da inoperância da política sua função social, com objetivo de efetivar o direito
habitacional, da concentração fundiária e da de morar dignamente, o poder instituído assume a
especulação imobiliária; fortalecer a pauta do proteção da propriedade a qualquer custo, como no
movimento urbano exigindo o atendimento das episódio do violento desalojamento da ocupação
suas reivindicações; fazer cumprir o princípio Pinheirinho, em São José dos Campos (SP) em
da função social da propriedade constante da janeiro de 2012.
Constituição brasileira.
O Poder Judiciário, extremamente conservador
Mais do que estes objetivos imediatos, busca- e fundado na noção de propriedade como
se com as ocupações construir novas formas bem absoluto, ainda não incorporou o marco
de convivência, com valores de coletividade, constitucional que flexibilizou o instituto da
cooperação, solidariedade, democracia direta. propriedade em homenagem a sua função social.
Tomar posse de um imóvel em situação de Assim, são recorrentes as decisões em caráter
completo abandono não é apenas uma resposta liminar para deferir ordem de reintegração de posse
ao “mau governo”. As ocupações devem ser contra comunidades que surgiram de ocupações
laboratórios de um mundo melhor, em que as urbanas organizadas ou espontâneas. Por outro
famílias experimentam realizar hoje o projeto de lado, os governos contam com a complacência dos
mundo que querem para seus filhos, expurgando juízes quando a violação da propriedade ocorre
individualismos, egoísmos, despotismos. Desse em desproveito de vilas e favelas arbitrariamente
modo, deve-se fomentar nesses territórios de removidas, frequentemente sem a garantia de
resistência e luta a formação político-pedagógica reassentamento digno das famílias atingidas.
dos moradores, a realização de atividades
culturais, a elaboração de regras de convivência Além da função social da propriedade, outro
aptas a solucionar os conflitos internos e fortalecer princípio de índole constitucional apto a ancorar
os vínculos pessoais, a constituição de espaços de a legitimidade das ocupações de imóveis ociosos
democracia e participação direta, como ocorre nas como forma de efetivar o direito de morar
assembleias em que são deliberadas as questões sonegado pelo Estado brasileiro é o princípio
políticas atinentes à comunidade. democrático, segundo o qual “todo o poder emana
do povo”. Evidentemente, não há democracia
Nesse ponto referente às ocupações, vale observar sem conflito. Portanto, a efetivação do direito à
que a Constituição da República de 1988 garante a moradia também passa pela luta social organizada,
todos(as) o direito à moradia (art. 6º) e determina bem quista em qualquer regime que se reivindica
que toda propriedade deve cumprir sua função democrático, o que também confere legitimidade
social (art. 5º, inc. XXIII), em consonância com as às ocupações de imóveis ociosos que descumprem
“exigências fundamentais de ordenação da cidade sua função social. Não sem razão, várias ocupações
expressas no plano diretor” (art. 182, § 2º). organizadas se consolidaram em Belo Horizonte
com forte apoio social, a exemplo da comunidade
Em verdade, o princípio da função social integra Dandara, localizada no bairro Céu Azul, onde
a própria noção de propriedade, figurando-se moram dignamente cerca de duas mil famílias,
como componente ontológico da propriedade, desde o ano 2009, a qual foi retratada por um
de modo que não há que se falar em propriedade longa-metragem dirigido pelo cineasta argentino
quando não há observância da função social. Carlos Pronzato5.
Assim, uma propriedade urbana abandonada para
fins estritamente especulativos, sem nenhuma As mobilizações do inesquecível ano 2013 fizeram
destinação econômica ou residencial, viola o consignar definitivamente no imaginário do povo
texto constitucional e perde o próprio status de brasileiro o entendimento de que a luta social é
propriedade, desmerecendo a proteção do Estado. indispensável à defesa e à conquista de direitos.
Nunca antes na história do Brasil as abusivas
No entanto, quando famílias sem casa ocupam tarifas de ônibus haviam sido reduzidas em tantas
organizadamente um imóvel ocioso que descumpre cidades. Formou-se um campo fértil à ampliação

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das ocupações como ferramenta legítima de defesa 3 - Nunca se removeu tantos pobres no país quanto agora.
do direito humano à cidade. A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa
(ANCOP) estima que, ao final, serão removidas cerca de
200 mil famílias em razão dos megaeventos esportivos
Neste texto, foi dada ênfase às ocupações de no Brasil. Ver a este respeito: www.portalpopulardacopa.
imóveis ociosos realizadas por famílias sem- org.br.
teto organizadas pelos movimentos populares, as
quais também refletem a completa incapacidade 4 - Em Belo Horizonte, o primeiro empreendimento
destinado a famílias com faixa de renda até três salários
do Estado em lidar com a crise habitacional, mínimos foi entregue somente no segundo semestre de
desdobramento direto da crise urbana. Entretanto, 2013, no Bairro Jardim Vitória, onde foram construídas
outras experiências de ocupação do espaço público 1470 unidades para essa faixa de renda.
em Belo Horizonte, tal como a ocupação da Câmara
Municipal no contexto das jornadas de junho, a 5 - Versão completa de “Dandara - Enquanto morar for um
privilégio, ocupar é um direito” disponível no endereço:
ocupação do Viaduto Santa Tereza, a ocupação do https://www.youtube.com/watch?v=5fjza-hZ4B0
imóvel tombado à Rua Manaus, nº. 348, que deu
origem ao Espaço Comum Luiz Estrela6, a tomada 6 - Centro cultural autogestionado nascido da ocupação
das ruas pelos blocos de carnaval, a Praia da de um casarão tombado que estava abandonado desde
Estação e várias outras iniciativas de apropriação 1994. A ocupação foi realizada em 26 de outubro de 2013
por artistas, produtores culturais e ativistas políticos, e se
criativa do espaço, são manifestações de uma encontra atualmente regularizada por meio de contrato
vontade coletiva, cada vez maior, de confrontar de cessão de uso concedido pelo Governo do Estado após
o paradigma da cidade-empresa e apontar para a forte pressão social.
construção de uma nova sociabilidade urbana que
tenha como horizonte a construção do comum.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOTAS HARVEY, David. A liberdade da cidade. In.:


MARICATO, Ermínia et al.. Cidades Rebeldes. São
1 - Na capital mineira, a Prefeitura pretende a todo custo, Paulo: Boitempo, 2013.
sem qualquer abertura à participação popular, viabilizar
o mega projeto “Nova BH” que consistirá na maior HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. 2ª
operação urbana consorciada da história da cidade. A Ed. São Paulo: Annablume, 2006.
“Nova BH” implicará em intervenções urbanísticas
em 58 bairros que juntos representam cerca de 7% do VAINER, Carlos. Pátria, empresa e mercadoria. Notas
território do município (25 km²), o que afeta diretamente sobre a estratégia discursiva do Planejamento Estratégico
um montante de 170 mil moradores. No processo de Urbano. In.: ARANTES, Otília et al. A cidade do
pensamento único – Desmanchando consensos. 7ª Ed.
elaboração do plano urbanístico da “Nova BH”, a equipe
Petrópolis: Editora Vozes, 2012.
administrativa da prefeitura trabalhou diretamente
com as consultorias contratadas pelas construtoras
Odebrecht, Barbosa Melo e Andrade Gutierrez que
opinaram sobre diretrizes, parâmetros urbanísticos,
área de abrangência, dentre outros aspectos da operação
urbana, com acesso privilegiado a dados e informações
que não foram divulgados à população. Dessa forma, o
plano urbanístico da operação urbana consorciada, bem
como o seu EIV (Estudo de Impacto de Vizinhança) e
EVEF (Estudo de Viabilidade Econômica e Financeira),
foram preparados sem qualquer participação da
sociedade, em ofensa frontal violação ao princípio da
gestão democrática da cidade.

2 - Para uma reflexão maior sobre a relação entre a crise


urbana e as jornadas junho, recomendo a obra Cidades
Rebeldes, lançada ainda em 2013 pela Boitempo.

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O direito à vida publica
RUDÁ RICCI
Sociólogo, mestre em Ciências Políticas e doutor em Ciências Sociais. Diretor geral do Instituto
Cultiva e membro do Fórum Brasil do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da
Democracia Participativa. Autor e co-autor de livros

Um dos autores liberais mais festejados nos últimos de implantação dos programas de desenvolvimento
anos foi o economista indiano Amartya Sen. Sua urbano foram, desde o início, excludentes e
tese fundamental é que o desenvolvimento de promoveram uma ciranda que movimentou
um país está vinculado às oportunidades que ele grandes empreiteiras e especuladores imobiliários.
oferece à população de fazer escolhas e exercer a Segundo Ermínia Maricato2, em 2009, a partir do
sua cidadania, o que inclui a garantia dos direitos lançamento do PAC II e do programa habitacional
sociais básicos, como saúde e educação, como Minha Casa, Minha Vida, teve início um boom
também segurança, liberdades básicas, habitação imobiliário de fortes impactos na dinâmica das
e cultura. Sen vincula de maneira original a noção cidades brasileiras. Em 2010, o PIB brasileiro
de liberdade ao conceito de desenvolvimento atingiu o impressionante patamar de crescimento
como sendo, simultaneamente, um processo e uma de 7,5%. Ocorre que o PIB do setor imobiliário foi
oportunidade. Introduz a noção de cidadão como de 11,7%. O investimento de capitais privados no
“agente” e define a pobreza e o desemprego como mercado residencial cresceu 45 vezes, passando
“privação de capacidades básicas”1. de 1,8 bilhão de reais em 2002 para 79,9 bilhões
de reais em 2011. Os subsídios governamentais
O autor indiano é, até hoje, referência para foram generosos, atingindo 5,3 bilhões de reais em
organismos internacionais. Sua definição cabe 2011. Com tal pujança e bonança, todo esboço da
como uma luva para compreendermos como, reforma urbana que se expressava no Estatuto da
mesmo para aqueles que se apoiam no liberalismo Cidade foi engavetado. O preço do imóvel disparou
e, portanto, na defesa da propriedade privada nos grandes centros urbanos: 153% em São Paulo
e da liberdade de mercado, o que se passa nas (entre 2009 e 2012) e 184% no Rio de Janeiro (no
cidades brasileiras é amplamente reprovável, como mesmo período).
privação das capacidades básicas da vida humana.
Praças da Juventude e tantos outros equipamentos
O modelo de desenvolvimento em curso, de forte urbanos e sociais foram se multiplicando ao longo
inspiração rooseveltiana, promoveu nos últimos das cidades brasileiras sem observar qualquer
anos a nacionalização de políticas de infraestrutura preocupação com a reorganização da ocupação
repetindo os erros do passado. Crescemos sem do solo ou alteração dos custos de locomoção ou
planejamento, ao bel prazer dos gestores locais mesmo necessidade de reestruturar a oferta de
que acessavam convênios para demonstrar serviços públicos. Os prefeitos não pensaram no
influência e capacidade gestora. Com 65% do futuro muito distante da próxima eleição.
orçamento público concentrado na União, é fato
que os municípios deixaram de ter capacidade de A alegria contagiante que envolveu empreiteiras
investimento autônomo e se transformaram em e todo setor da construção civil motivou o que
gerentes de programas federais. Contudo, a lógica muitos autores denominaram de “gentrificação”

16 CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014


dos centros urbanos3. O termo, oriundo do inglês E é aqui que foco minha atenção neste artigo.
(gentrification), traduziria a intervenção em
bairros, em especial centrais, modernizando velhas Nas últimas duas décadas, vivemos a implantação
construções urbanas para ocupação de empresas de um programa rooseveltiano, apoiado num pacto
e população de alta renda. Tal modernização desenvolvimentista que tem num vértice o Estado
arquitetônica e funcional desses territórios orientador e concentrador de recursos públicos
expulsou rapidamente a população de baixa para investimento e que se desmembra em outros
renda, de maneira direta ou mesmo em função da dois vértices: a formação de um potente mercado
disparada dos custos dos imóveis ou dos bens e consumidor (via aumento real de salário mínimo,
serviços oferecidos naquelas localidades. crédito subsidiado e programas de transferência de
renda) e regulação e orientação para investimentos
A nova dinâmica desenvolvimentista foi privados (através da “carta de investimentos”
potencializada com os megaeventos esportivos inscritos no PAC e empréstimos do BNDES).
programados para ocorrerem no Brasil a partir
de 2013. Estudo do arquiteto Lucas Faulhaber, da Mas o programa roosveltiano brasileiro acrescenta
Universidade Federal Fluminense (UFF), estima duas novidades em relação ao modelo original:
que 64 mil famílias foram alvo de remoções o financiamento de organizações populares e de
por obras de infraestrutura somente no Rio de representação de massas, como organizações não
Janeiro somente como preparação da Copa das governamentais, articulações por direitos civis
Confederações. Os doze Comitês Populares da e sociais e centrais sindicais. Aqui está a origem
Copa estimam que 170 mil pessoas serão para o que Maricato indica como acomodação de
desalojadas em todo o país para a realização lideranças sociais.
de grandes projetos urbanos no contexto dos
megaeventos. De acordo com Raquel Rolnik, O programa rooseveltiano também consolida
relatora especial da Organização das Nações Unidas uma antiga pretensão de governantes anteriores:
(ONU) para a Moradia Adequada e urbanista a coalizão presidencialista, que cria uma forte
da Universidade de São Paulo (USP), a primeira intimidade governista e governamental entre
violação está no direito à informação, já que Executivo e Legislativo. Mas, neste artigo,
entidades de representação social têm dificuldade concentro-me na análise da absorção das entidades
no acesso aos planos de ações governamentais. As de representação social no interior do aparelho de
indenizações e realojamentos propostos podem Estado.
ser vistos como violações já que o reassentamento
em locais com menor disponibilidade de serviços No mundo sindical, o movimento foi o mesmo
e emprego viola o direito de moradia adequada, que o observado na Europa e que recebeu a
que inclui o acesso aos demais direitos humanos denominação de neocorporativismo. O conceito
educação, saúde, trabalho. Roknik também sugere o ingresso das estruturas sindicais em
atenta para a falta de reconhecimento ao direito arenas e fóruns estatais que definem a agenda e
de posse, assegurado pela legislação brasileira e prioridades governamentais. Na prática, onde
por acordos internacionais firmados pelo Brasil. este fenômeno se instalou, ao invés de gerar real
controle social – ou participação – da base sindical,
Na esteira desta lógica desenvolvimentista acabou por gerar distanciamento da cúpula sindical
desordenada, a opção pelos veículos individuais em relação às suas bases. No Brasil, este fenômeno
agravou a vida urbana. Em 2011, o número de segue a passos largos. Em 2012, as centrais
automóveis em doze metrópoles brasileiras era de sindicais receberam repasses federais da ordem
11,5 milhões. Em 2011 quase dobrou, atingindo de 160 milhões de reais referentes ao imposto
20,5 milhões. sindical, o dobro das transferências ocorridas em
2008, quando iniciaram os repasses. A maior parte
Maricato denuncia, por seu turno, a acomodação dos recursos fica com as duas maiores centrais do
de entidades e lideranças que até então lideravam País, a Central Única dos Trabalhadores (CUT)
o movimento de reforma urbana em nosso país. e a Força Sindical. Neste ano, a CUT recebeu

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R$ 44,5 milhões até outubro, e a Força ficou com Outra iniciativa governamental foi a instalação
R$ 40 milhões. Os recursos representam entre 60% do Conselho de Desenvolvimento Econômico e
e 80% do orçamento total das centrais. Destaca-se, Social (CDES), um amplo conselho consultivo,
ainda, a regulamentação, no mesmo período, da composto por empresários e representação da
participação de dirigentes sindicais nos conselhos sociedade civil para análise e proposição da
de empresas estatais federais. O jeton pago a cada agenda nacional. As entidades da sociedade civil
conselheiro chega a 8 mil reais, caso da Petrobrás. foram unânimes em criticar a pouca efetividade
Há registros de jetons que variam de 3 mil reais de suas sugestões e a escuta privilegiada que o
(suplente do conselho da Breasilprev) a 15 mil reais governo fazia das proposições empresariais.
(conselho da Funpresp). Há, ainda, a inversão do
ideário sindical observado na gestão dos fundos de Esboçou-se um frágil mecanismo de participação
pensão que passaram a adquirir ações de bancos no controle do orçamento federal e políticas sociais
privados e até mesmo indústria bélica. com a criação de Comitês Estaduais de elaboração
do Plano Plurianual (PPA) federal e apoio para
No campo da ONGs, a crise de financiamento realização de conferências nacionais envolvendo
externo aberto na segunda metade dos anos 1990 uma ampla agenda temática. Foi a primeira e única
também gerou uma inflexão política. No século tentativa, abortada no segundo ano de gestão, do
XXI, espraiou-se como solução à sobrevivência governo federal criar mecanismos de controle
dessas entidades da sociedade civil a assinatura social sobre a execução do seu orçamento.
de convênios com órgãos estatais. Na prática, os
convênios terceirizaram para muitas organizações Finalmente, o lugar dos conselhos de gestão
não-governamentais os serviços assistenciais antes pública (setoriais ou de direitos) e as conferências
executados pelo Estado. nacionais de direitos. Foram mais de 70
conferências nacionais realizadas durantes as
Tal inversão foi programada pelo governo gestões de Lula. Contudo, um estudo elaborado
federal. No início da primeira gestão Lula, o por Ana Cláudia Chaves Teixeira, Clóvis Henrique
participacionismo teve lugar certo. O programa Leite de Souza e Paula Pompeu Fiuza de Lima
Fome Zero foi entregue a lideranças católicas, revelou o movimento errático desta novidade na
expoentes da Teologia da Libertação nos anos 1980. gestão pública que tinha por objetivo introduzir
A estrutura de gerenciamento do programa adotou elementos de cogestão na tomada de decisão das
a lógica da cogestão e foi compreendida como políticas sociais brasileiras4. Os autores realizaram
escola de formação de cidadãos para o controle de um balanço das 74 conferências nacionais
políticas públicas. O conceito de empoderamento realizadas entre 2003 e 2010. Na maioria dos
foi fartamente utilizado neste período, que casos, este evidente esforço de mobilização social
significaria ação coletiva ou participação coletiva não recebeu nenhuma informação devolutiva
em espaços privilegiados de decisões, ampliando pelo Estado, não se sabendo se suas resoluções
o conceito de direito político. Assim, se orientaria foram incorporadas efetivamente nas ações ou
pela superação de qualquer dependência social e estratégias de governo. Poucas conferências estão
dominação política. Era, obviamente, um discurso instituídas em lei, sendo sua vinculação com
que confrontava o Estado patrimonialista. Contudo, conselhos de gestão pública ou com processos de
já no final do primeiro ano de gestão já era visível a planejamento como o Plano Plurianual (PPA) é
mudança de foco do núcleo dirigente. O programa quase inexistente. O que se observa é a realização
foi entregue à gestão dos prefeitos, o que provocou de eventos desconectados dos calendários de
profundo descontentamento em Frei Betto e Ivo formulação governamental, dificultando a
Poletto que logo pediram afastamento das funções possibilidade de influência das propostas nos
que assumiram no gerenciamento deste programa. planos de ação estatal.
As razões do afastamento não deixam dúvidas nos
livros que os dois protagonistas publicaram meses Em suma, vivemos no último período, no que
depois de se afastarem do governo federal. tange à participação da cidadania no controle ou

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gestão de políticas públicas federais um duplo Vivemos um projeto desenvolvimentista executado
fenômeno desagregador. à revelia das populações menos abastadas. Um
projeto conduzido por elites políticas e econômicas.
De um lado, os canais institucionais de participação Algo que remonta à tradição política e conformação
perderam lugar no processo de tomada de decisão e das políticas públicas de nosso país.
foram reduzidos à condição de meras formalidades
burocráticas ou administrativas da lógica de Os governantes se assustaram – e ainda se
Estado. De outro, a absorção das entidades de assustam – com o grito polifônico das ruas. Não
mediação social (estrutura sindical, organizações entendem o que ocorreu após seus esforços para
não-governamentais e entidades confessionais) mudar o país e o colocar na posição de potência
pelo aparelho de Estado interditou a mediação econômica mundial. Não entendem e, em última
de conflitos locais. Este era o papel fundamental instância, não estiveram nas ruas. Não dialogaram.
desempenhado por tais entidades desde a década E interditaram as possibilidades de vida e projetos
de 1980. Dada sua capilaridade e multiplicidade de de família. Tutelaram sonhos.
territórios e segmentos sociais por elas atendidos,
era possível criar um arranjo de demandas das Se ao menos tivessem lido Amartya Sen...
populações mais marginalizadas ou tomadas pelo
sentimento de injustiça social. Numa sociedade
desigual como a brasileira, a coleta de demandas NOTAS
e frustrações e transformação em pauta unificada 1 - Cf. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade,
é essencial para os órgãos públicos orientarem sua São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Páginas 34 e 36.
agenda. Sem isto, as frustrações se multiplicam e
se fragmentam numa miríade de lamentações e 2 - Cf. MARICATO, Ermínia. É a questão urbana,
tensões cotidianos (até mesmo conflitos latentes). estúpido!, In MARICATO, Ermínia et al. Cidades
Rebeldes. São Paulo: Boitempo/Carta Maior, 2013, p. 23
e seguintes.
Foi exatamente isto que se percebe a partir de 2013.
3 - O termo gentrification deriva de “gentry” e do francês
O primeiro alerta apareceu entre 18 e 19 de maio. arcaico “genterise” que significa “de origem gentil,
Um boato dava conta da extinção do Programa nobre”. A expressão da língua inglesa gentrification
Bolsa Família. Em três dias, 920 mil beneficiários foi usada pela primeira vez pela socióloga britânica
sacaram o saldo em suas contas. A confiança nas Ruth Glass, em 1964, ao analisar as transformações
imobiliárias em determinados distritos londrinos. Outro
pretensões do governo federal pareciam pouco autor que se tornou referência nos estudos do fenômeno
sólidas. foi o geógrafo britânico Neil Smith, que identificou os
vários processos de gentrificação em curso nas décadas
Em seguida, em junho, explodem os protestos de 1980 e 1990.
de rua que em três semanas levaram milhões
4 - Cf. TEIXEIRA, Ana Cláudia; SOUZA, Clóvis
de brasileiros a apresentarem um mosaico de Henrique Leite & LIMA, Paula Pompeu Fiuza.
demandas, pulverizadas e fragmentadas em “Arquitetura da Participação no Brasil: uma leitura
cartazes que expressavam desejos pessoais, no das representações políticas em espaços participativos
máximo grupais. nacionais”. Texto para Discussão 1735, Rio de Janeiro:
IPEA, 2012. Originalmente apresentado no 35º Encontro
Os governantes se assustaram. Não compreendiam Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu, em
o que se passava nas ruas. Compreensível. outubro de 2011, no Grupo de Trabalho (GT) Controles
Justamente porque as ruas expressaram, em Democráticos e Legitimidade.
síntese, o confronto entre o projeto de governo e
os projetos de parte da sociedade que não possui
canal de expressão há pelo menos uma década.

As cidades tornam-se o locus central deste


descompasso.

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 19


A tecnologia na gestão de
projetos sociais em habitação:
estudo de caso Cohab Minas

JOULLY MAYRINK MAGALHÃES


Assistente Social da COHAB MINAS. Especialista em Gestão de Negócios e Tecnologia da
Informação, pela FGV. Também é graduada em Ciência da Computação pela PUC Minas

SALETE DE OLIVEIRA
Coordenadora da equipe de gestão social da COHAB MINAS

O trabalho social em habitação surge no contexto ações que se iniciam antes da obra e continuam
da questão urbana, a partir da segunda metade do após a entrega das casas.
século XX, época marcada por um padrão perverso
de urbanização, caracterizado pela segregação A Companhia de Habitação do Estado de Minas
espacial, poluição ambiental, ilegalidade/ Gerais - Cohab Minas, através do Convênio de
informalidade e ineficiência econômica, agravados Cooperação Técnico, Financeiro e Social, prevê o
pelo regime autoritário militar (1964 a 1984). acompanhamento social às famílias moradoras nos
conjuntos habitacionais, e que deve ser realizado
A habitação popular era entendida como moradia pelos técnicos sociais dos municípios conveniados e
para a população pobre, impossibilitada de adquirir supervisionado pela equipe social da Cohab Minas.
um imóvel sem o subsídio do Estado e o trabalho
social apresentava um caráter mais administrativo, O instrumento utilizado no acompanhamento das
caracterizado pela seleção da demanda, organização famílias é o Projeto de Trabalho Social - PTS, que
comunitária e acompanhamento da adimplência. deve conter estudo de viabilidade, conhecimento
dos riscos, da capacidade de execução e gestão pelos
Com a Política Nacional de Habitação (2004), o responsáveis, definição dos meios de verificação
trabalho social torna propositivo e interdisciplinar e ações que proporcionem qualidade de vida às
famílias.
possibilitando sua execução de forma mais
informativa e conscientizadora no que tange a
Diante da necessidade de otimizar o
direitos e deveres, promovendo maior participação acompanhamento da elaboração e execução
e interatividade entre os atores deste processo. dos projetos sociais, à distância, a tecnologia da
informação foi identificada como um facilitador, que
O “Trabalho Social” passou a ser parte obrigatória garantiria o acompanhamento do trabalho social de
dos projetos de intervenção habitacional e forma organizada e possível de ser avaliado.
conforme afirma Inês Magalhães, secretária
nacional de habitação, o trabalho social passou a De acordo com Elliott (1980) a tecnologia não
ser um componente estratégico numa intervenção deve ser tratada como uma variável isolada e
habitacional. independente da sociedade. Aborda ainda a
relação recíproca entre tecnologia e sociedade,
A sua execução prevê o acompanhamento das invocando o conceito de sociedade tecnológica,
famílias participantes de programas habitacionais na qual todo sistema econômico, cultural
nas esferas federal, estadual e municipal envolvendo e político está impregnado de tecnologia.

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CONCEITUAÇÃO DO PROJETO DE Sobre projetos, Armani (2006; p.15) descreve:
TRABALHO SOCIAL
(…) se bem elaborados e realizados, podem
O correto conhecimento de um projeto propicia se tornar instrumentos importantes para
o entendimento do que é projeto social. a organização da ação cidadã, capazes de
aumentar as chances de êxito de uma
Segundo definição da ONU: “um projeto é um
intervenção social. Nesse sentido, os projetos
empreendimento planejado que consiste num são um recurso técnico útil e necessário
conjunto de atividades inter relacionadas e para qualificar a ação social organizada em
coordenadas, com o fim de alcançar objetivos prol da elevação da qualidade de vida e do
específicos dentro dos limites de tempo e de fortalecimento da cidadania dos setores
orçamento dados.” (PROLHONW, Shaffer, 1999 excluídos da sociedade brasileira.
apud ONU, 1984)
Ainda segundo Armani (2000), os projetos também
Sobre a relação entre política, programa e projeto, têm seu ciclo de vida - eles nascem, crescem, tomam
Carneiro (2004, p. 69) afirma que: forma, modificam-se e eventualmente, morrem.
A isso se denomina ciclo do projeto. O ciclo
Uma política é composta de vários programas. expressa os principais momentos e atividades da
Programas referem-se ao conjunto mais ou vida de um projeto – a identificação, a elaboração, a
menos harmônico de ações e projetos numa aprovação, a implementação (com monitoramento
determinada área ou setor social, configurando- e avaliação), a avaliação e o replanejamento.
se como instrumentos de implantação de uma
política pública. Projetos consistem na tradução Uma das características de projetos no campo
operacional dos programas, colocando em social é que estes apresentam problemas de
prática as políticas e os programas na forma de múltiplas causas, que interagem mutuamente e são
unidades de intervenção concretas. Explicitam
permeados por dimensões subjetivas, culturais,
problemas, finalidades, objetivos, metas, prazos,
meios, forma e área de atuação, e referem-se a econômicas, políticas e históricas que lhe conferem
ações mais específicas dentro de um programa. alto grau de complexidade.

O que é política? Genericamente política pode De acordo com Kleyd Taboada (2010), assistente
ser assim conceituada: é a busca comum do bem social e especialista em habitação de interesse
comum. Por isso a política tem sempre a ver com social, uma questão fundamental para um bom
sociedade e com a vida cotidiana das pessoas, com projeto é o diagnóstico, que deve conter o máximo
os salários, com o preço do pão, com a passagem de informações sobre o território, sobre as famílias
de ônibus, com as prestações da casa própria e com e como elas se relacionam com o espaço. Um bom
o sistema escolar. Nada do que é social está fora da diagnóstico produz um bom projeto. Ele deve
política. (Boff, 2002) fornecer condições para que, quem for executá-lo
e monitorá-lo, entenda as situações do território,
Programa é um conjunto harmônico de ações e indicando o caminho para atingir o objetivo
projetos de intervenção numa determinada área proposto.
ou setor social, é o instrumento de implantação de
uma política pública ou institucional. Os projetos sociais não são ações espontâneas e
sim planejadas, são articulados à política pública
e com a mesma lógica do programa em termos
Fonte: elaborado pelas autoras em 2013

POLÍTICA de amplitude. Podem ser compreendidos como


PROGRAMA PROGRAMA instrumentos de incentivo a participação social
possibilitando que o indivíduo seja protagonista na
PROJETOS AÇÕES PROJETOS PROJETOS
solução de seus problemas.

TRABALHO SOCIAL NA COHAB MINAS E A


PROJETOS AÇÕES POLÍTICA NACIONAL DE HABITAÇÃO

No que diz respeito à área habitacional, no período


entre 1964 a 1986 o Brasil teve uma política

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 21


habitacional estruturada e centralizada a cargo do A PRÁTICA DO ACOMPANHAMENTO
Banco Nacional da Habitação – BNH. Os principais SOCIAL NA COHAB MINAS
agentes que promoviam a habitação popular eram
os estados através das COHABs e as cooperativas A Cohab Minas oferece suporte técnico ao
habitacionais. acompanhamento social realizado pelo município.
Este acompanhamento acontece em três momentos,
À época, os empreendimentos eram padronizados que na prática são interdependentes e acontecem
e a participação popular mínima e como a política simultaneamente:
urbana era centralizada no referido órgão, os
estados e municípios ficaram inertes. • Inscrição e Seleção de candidatos;
• Elaboração do Projeto de Trabalho Social – PTS;
Com a extinção do BNH em 1986, a política nacional • Execução, avaliação e registro das atividades
de habitação popular deixou de existir e a Caixa propostas.
Econômica Federal tornou-se agente financeiro,
mas a gestão dos programas de habitação popular Inscrição e Seleção de candidatos: é a etapa na
estaria subordinada a ministérios diferentes, qual todos os interessados são inscritos, desde
tornando-se, assim pontual, descontínua e com que estejam dentro dos critérios do programa
recursos ínfimos. habitacional e apresentem a documentação exigida.

A Cohab Minas, enquanto um dos atores, também Elaboração do Projeto de Trabalho Social -
teve sua história desenhada nessa conjuntura. Nas PTS: para desenvolvimento do trabalho social é
décadas de 70 e 80, a Companhia contava com indispensável elaborar um projeto por meio de
uma equipe composta por assistentes sociais e estudo da realidade local. Primeiramente os dados
economistas domésticos que realizavam o trabalho devem ser organizados e a análise inicial feita de
social nos empreendimentos habitacionais forma quantitativa. Nesta análise serão descritos o
construídos pela Companhia, especialmente na número de beneficiados diretos e indiretos, gênero,
Região Metropolitana de Belo Horizonte. faixa etária, renda e escolaridade. Em um segundo
momento é esperada uma análise qualitativa,
Com o declínio dos investimentos públicos na área que mede mudanças de caráter subjetivo, tais
de habitação popular, o setor foi descontinuado e o como auto-estima, expectativas quanto ao futuro,
acompanhamento social relegado a ações pontuais autonomia, inclusão, entre outros.
e inexpressivas.
Outro enfoque é o levantamento dos problemas
Quando em 2003 foi criado o Ministério das sociais que mais afligem a comunidade. Importante
Cidades, com uma política direcionada para o também considerar as dimensões ambientais,
desenvolvimento urbano, envolvendo além da culturais, étnicas e de gênero que favorecem o
habitação, saneamento e mobilidade, o uso e a projeto. É nesta fase que se envolve os atores sociais
ocupação do solo, inicia-se também na Cohab (comunidade, parceiros, responsáveis pelo projeto).
Minas um novo modo de desenvolver o trabalho
social na área urbana. O PTS deve ser elaborado por profissional da equipe
social do município com formação compatível
A diretriz inicial para o trabalho foi o e experiência em ações de desenvolvimento
acompanhamento social às famílias residentes nos comunitário, com orientação da equipe social da
conjuntos habitacionais, após o recebimento das Cohab Minas, composta por assistentes sociais,
moradias, denominado “Gestão Pós Morar”. Mas psicólogos e sociólogos.
foi em 2012, com a instituição da obrigatoriedade
do Acompanhamento Social nas diversas etapas do Nele deverão constar informações sobre histórico
processo de aquisição da moradia, pelo Programa do município, identificação do empreendimento e
Minha Casa, Minha Vida 2, através da portaria do responsável técnico pelo Projeto Técnico Social,
nº 547/11 do Ministério das Cidades, que o trabalho composição da equipe, área de abrangência, análise
social começa a ter maior autonomia e visibilidade. socioeconômica dos beneficiários, justificativa,

22 CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014


objetivo geral e específico, estratégias de a um impasse: Como orientar os técnicos sociais
implantação, custos e cronograma orçamentário. dos municípios parceiros, à distância, obedecendo
a um padrão mínimo exigido, garantindo o
Pode ser executado em 2 etapas: acompanhamento organizado e possível de ser
avaliado?
Pré-morar - a partir da inscrição e seleção
dos beneficiários até a entrega das unidades Para o primeiro momento do acompanhamento
habitacionais / Pós-morar - acompanhamento social social - Inscrição e Seleção de Candidatos, a Cohab
com as famílias após recebimento da nova moradia. Minas já dispunha de um aplicativo que gerava a
ficha socioeconômica através da inserção dos dados
Execução e avaliação das atividades propostas e do beneficiário pelos técnicos municipais.
envio de relatórios periódicos.
Identificada a existência desse aplicativo, optou-se
A execução das atividades propostas no PTS é de
por sua atualização agregando o que diz respeito
responsabilidade dos técnicos sociais do município
ao Trabalho Social, que deveria atender aos outros
conveniado e seu planejamento é realizado a partir
da análise dos dados levantados no diagnóstico momentos do acompanhamento social, tais como a
social. elaboração do Projeto de Trabalho Social, Avaliação
das Atividades e Emissão de Relatórios Periódicos.
Uma vez que os dados estão organizados é possível
fazer um recorte das ações que serão executadas Com o acréscimo deste módulo criou-se o SAS –
e periodicamente uma avaliação dos resultados Sistema de Acompanhamento Social via WEB, que
obtidos. tem como objetivo uma melhor gestão dos projetos
sociais com monitoramento de todas as etapas do
O acompanhamento à execução do PTS é feito trabalho social.
através de Relatórios de Acompanhamento
Trimestrais, elaborados pela equipe de trabalho Os técnicos sociais dos municípios e da Cohab
social do município. Minas, previamente cadastrados, utilizam o
sistema em qualquer computador que tenha uma
Um facilitador para esta avaliação é a elaboração de configuração básica e acesso à internet e através de
indicadores específicos para as ações previstas que um módulo específico preenchem os campos com
expressem o alcance dos resultados. as informações que darão origem ao PTS. Ao final
é gerado um documento digital.
Alguns exemplos de indicadores são:
No SAS é possível armazenar manuais, referenciais
• Famílias com acesso à saneamento; teóricos, vídeos, apresentações e outros materiais
• Moradias com abastecimento de água; que dêem subsídio ao desenvolvimento do trabalho,
• População urbana com acesso a serviços básicos; num só ambiente, evitando assim o envio de e-mails
• Renda per capta. que muitas vezes tem limitação para tamanhos
de arquivos. O acompanhamento online também
(Fonte: Atlas de Desenvolvimento Humano/site da
é um facilitador do SAS, pois torna acessível a
Fundação João Pinheiro)
comunicação entre os técnico da Cohab Minas e do
Eles evidenciam as mudanças sociais ocorridas e município, otimizando o tempo gasto na orientação,
fornecem informações relevantes que permitem a se comparado ao tempo gasto com o deslocamento.
tomada de decisão, e diante do reconhecimento de
uma necessidade social podem dar respostas a ela O SAS gera ainda estatísticas precisas dos
com proposta de ação. beneficiários (renda, número de dependentes,
escolaridade, entre outros) em forma de gráficos,
ESTUDO DE CASO: COHAB MINAS possibilitando o cruzamento de informações
para que as equipes possam elaborar atividades
A partir do entendimento da equipe a respeito do mais apropriadas ao perfil dos beneficiados pelo
conceito de Projeto de Trabalho Social chegou-se programa.

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 23


O SAS objetiva: O SAS tem se mostrado como uma ferramenta
eficaz na gestão de projetos sociais e a cada nova
• Promover através da automação de seus processos experiência é aperfeiçoado, sendo considerado
a melhoria na qualidade do trabalho; como uma concepção inovadora, buscando se
• Contribuir para que os profissionais dos firmar não apenas como um instrumento formal,
municípios, através do uso do sistema, construam mas como uma ferramenta que substitui o
um projeto bem estruturado e de forma ágil; tradicional fazer para por fazer com, utilizando de
• Prestar contas do trabalho social desenvolvido uma nova metodologia que faz da ação social uma
com maior precisão; intervenção com melhor possibilidade de êxito.
• Elaborar o Projeto de Trabalho Social segundo
padrão recomendado pelas diversas instâncias Ainda que o acompanhamento social, em sua
parceiras; essência, seja imensurável, uma vez que a
• Emitir relatórios das atividades executadas em transformação esperada é na condição real do
formulário padrão, listas de presença e relatórios de indivíduo, o que leva muitas vezes a desenvolver
freqüência dos beneficiários. um trabalho levando em conta a sua subjetividade,
acreditamos que a tecnologia pode ser desenhada
Tem como diferencial um registro de alerta de para melhor servir os seus criadores, visando o
irregularidades como: ausência excessiva de produto do projeto social: pessoas transformadas.
beneficiários, quantidade e distribuição das
atividades, informações não preenchidas, que
facilitam o acompanhamento pela equipe social da
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cohab Minas.
ARMANI, D. Como elaborar projetos? Guia prático para
CONCLUSÃO elaboração e gestão de projetos sociais, Porto alegre, Tomo
editorial, 2006. Coleção Amencar.
Antes da existência do SAS gastava-se muito tempo
na elaboração e acompanhamento dos projetos de BOFF, LEONARDO. Crise, oportunidade de crescimento,
Editora Verus, 2002.
trabalho social, assim como nos relatórios feitos
pelas equipes sociais das prefeituras parceiras, pois BRASIL, Ministério das Cidades. Secretaria Nacional de
todo o trabalho era fragmentado, o que comprometia Habitação. Trabalho Social em Projetos e Habitação de
a qualidade do produto final. Interesse Social-Ensino à Distância - EAD. Brasília, 2010.

A principal motivação para criação do SAS foi BRASIL. Portaria nº 547, de 28 de novembro de 2011.
simplificar o processo de elaboração do Projeto de Dispõe sobre as diretrizes gerais do Programa Minha
Casa, Minha Vida para municípios com população de até
Trabalho Social. 50.000 (cinquenta mil) habitantes, no âmbito do Programa
Nacional de Habitação Urbana – PNHU. Publicada no
Quando foi pensado, alguns questionamentos D.O.U. de 29 de novembro de 2011.
foram levantados: a tecnologia poderia de fato ser
um instrumento que, além de otimizar o tempo, CARNEIRO, C. B. L. Intervenção com Focos nos Resultados:
disponibilizasse informações que poderiam Elementos para o desenho e avaliação de projetos sociais In:
subsidiar decisões? O seu uso possibilitaria a CARNEIRO, C. B. L.; COSTA, L. B. Gestão Social: O que
há de novo? Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, 2004.
avaliação dos resultados esperados e alcançados, V.2, p.69-93.
através da sistematização do trabalho social?
Como utilizá-la se os dados da realidade de cada CKAGNAZAROFF, I. B. Ferramentas de Gestão Social:
município são tão diferenciados e na maioria das Uma visão introdutória In: CARNEIRO, C. B. L.; COSTA,
vezes fragmentados? L. B. Gestão Social: O que há de novo? Belo Horizonte,
Fundação João Pinheiro, 2004. V.2, p.13-29.
Através do conteúdo do Projeto de Trabalho Social ELLIOTT, D. e ELLIOTT, R. El control popular de la
poderíamos conhecer melhor a realidade daquele tecnologia. Barcelona: Editorial Nueva Sociedad, 1980.
município e a partir daí desenvolver uma análise Colección Tecnología y Sociedad.
qualitativa desses dados junto aos profissionais dos
municípios. PROLHONW, Shaffer, 1999 apud ONU, 1984

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Segregaçao socioespacial em Belo Horizonte:
desafio historico para a habitaçao de interesse social

JÚNIA MARIA FERRARI DE LIMA


Arquiteta, mestre e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela UFMG

O processo de urbanização no Brasil, apesar de de oportunidades e desprovidas de qualquer


relativamente recente, ocorreu de forma bastante infraestrutura. A segregação socioterritorial passa
acelerada. Para se ter uma idéia, em 1940 sua taxa então a ser condição de permanência nas cidades
de urbanização era de apenas 26,35%, em 1980 brasileiras para boa parte da população.
alcançou 68,86% (SANTOS, 1998) e, de acordo
com o último CENSO em 2010, adentrou o século O CASO DE BELO HORIZONTE
XXI com a significativa cifra de 84%.
Em Belo Horizonte, inaugurada em 1897, a disputa
Transformações quantitativas de tal ordem pela terra teve suas peculiaridades, mas não foi
impactaram de forma significativa na demanda por menos excludente. Apesar de ser uma capital
equipamentos e serviços urbanos para as cidades planejada, tanto o Plano Urbanístico que orientou
brasileiras, dentre as quais a moradia, mercadoria sua organização territorial quanto o processo de
complexa tanto pela imobilização de capital em sua distribuição dos seus lotes foram fundamentais
produção, quanto pela necessidade crescente por para uma controversa e segregada ocupação.
novas porções de terra urbanizada.
O Plano Urbanístico de Aarão Reis1 se baseou nos
A disputa pela terra no Brasil, entretanto não se dá a padrões estéticos do século XIX usados em Paris
partir dessa demanda por moradias durante o surto e Washington: áreas centrais (aqui denominada
de urbanização, a origem desse processo remonta zona urbana) com grandes eixos monumentais
ao século XIX quando foi promulgada a chamada circundados por casarios de arquitetura “apurada”,
Lei de Terras (1850). A instituição da propriedade de maneira a compor cenários que enaltecessem
fundiária privada se deu estrategicamente antes da as grandes capitais. Tratava-se portanto de uma
abolição da escravatura no Brasil, disponibilizando ocupação voltada para a população cujo poder
a posse da terra apenas para aqueles que tinham aquisitivo fosse compatível com esse modelo, além
capacidade para adquiri-la naquela ocasião. As de afinada com a nova ordem republicana recém
alternativas de moradia, para o grande contingente criada no pais.
de ex-escravos e assalariados que ficam fora deste
acordo e que migram para as cidades em busca O tipo de ordenação das vias e quadras proposto
de oportunidades de trabalho, tornam-se escassas no Plano2 também favorecia a ação do capital na
diante desse quadro. medida em que determinava quarteirões quadrados
e idênticos, com lotes de pouca frente e maior
A demanda por habitação a preços populares torna- profundidade, solução muito utilizada no século
se cada vez maior desde então e o mercado rentista XIX para garantir o aproveitamento máximo dos
surge no inicio do século XX como alternativa terrenos urbanos. Segundo Goitia (1982, p.169):
para uma fatia da população cujos salários ainda
conseguiam cobrir, mesmo que precariamente, Qualquer outra solução funcional para além
os custos com moradia. Para aqueles cuja renda da simples quadrícula teria prejudicado
estava abaixo desse patamar só restavam os locais seus interesses. Se as ruas não fossem todas
desprezados pelo mercado, ou seja, áreas centrais de tráfego e aproximadamente da mesma
mas ambientalmente frágeis (encostas acentuadas e hierarquia, os valores dos terrenos seriam
fundos de vale inundáveis) ou distantes dos centros perigosamente afetados.

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O Estado por sua vez, maior detentor desses lotes os operários. Quanto aos antigos moradores da
centrais em decorrência de amplo processo de Pedreira, foram mandados para áreas ainda mais
desapropriação dos antigos moradores do Arraial3, distantes8, excluindo-os definitivamente do percurso
não fez sua distribuição de forma democrática. da elite a caminho da Pampulha9 (FERRARI DE
Doou grande parte aos segmentos da população LIMA, 2009):
diretamente ligados ao aparato estatal e àqueles
que eram proprietários de terra em Ouro Preto4, A atenção que demos à criação do bairro
como forma de estimular a transferência da “elite residencial da Pampulha tinha de ser
ouropretana”, ainda reticente a mudança para a contrabalançada [...] a dois passos da cidade se
nova Capital. A maior parte dos terrenos da zona vinham localizando classes de menor capacidade
urbana fica então retida nas mãos de proprietários econômica, operários e até mendigos [...]
verificamos a possibilidade de subdividir aquela
que não tinham interesses imediatos em ocupa-
área10 e revender ou aforar toda a gleba sem
los, gerando um aporte de terras ao mercado que dúvida valorizada pelas condições naturais e
favoreceu a ação dos primeiros especuladores pelos serviços que já haviam atingido. Encarando,
imobiliários (FERRRARI DE LIMA, 2009). porém, o assunto em seus aspectos fundamentais
– o econômico, o higiênico e o urbanístico
Assim, na tentativa de compor a zona urbana de – comparamos as duas soluções possíveis: a
maneira a reproduzir os padrões estéticos da nova primeira seria a de se fazer erguer ali mesmo,
ordem republicana, a Comissão Construtora da nova um novo bairro em condições satisfatórias; a
Capital não previu, em seu plano original, espaço segunda, promover a aquisição de terrenos fora
para a população operária que foi “distribuída” na da cidade, para neles localizar os moradores da
zona suburbana e agrícola em vilas desprovidas Pedreira. (BELO HORIZONTE, 1940, p. 76)
de qualquer infraestrutura, iniciando um histórico
processo de expulsão dessa população para locais E assim a cidade foi se estruturando, tentando
distantes das oportunidades da área central. recuperar os altos investimentos em infraestrutura
nas áreas centrais, através de Leis e Decretos
Tem início uma política de implantação de Vilas5 municipais que tratavam de incentivar sua ocupação.
para o segmento de baixa-renda, a fim de acomodar Por outro lado, com relação às áreas carentes e de
as pessoas que ocupavam de forma “ilegal” os ocupação espontânea, pouco se fazia além das velhas
políticas de Vilas para além das áreas centrais.
terrenos da zona urbana de Belo Horizonte6, à
medida em que estes iam se tornando interessantes
Para se ter uma ideia, o reconhecimento das áreas
para o mercado imobiliário. Tal prática acabou se
informais de Belo Horizonte só vai acontecer em 1985
consolidando como parte da política de expansão
(quase no centenário da cidade), com a promulgação
da cidade e ainda orienta algumas desapropriações da Lei Municipal Nº 4034, através do Zoneamento
e remoções, privilegiando a ação do capital em SE4 – Setor Especial 4, no qual são finalmente
detrimento das populações de baixa renda. identificadas e delimitadas as vilas e favelas da
cidade. A ocupação do território em Belo Horizonte
Na gestão do Prefeito Juscelino, por exemplo, a fim se consolidou, portanto, com prevalência do padrão
de compensar a atenção dada à criação de um bairro centro-periférico, ou seja, evidente predominância
residencial para a elite – a Pampulha, ao mesmo das elites nas áreas centrais e periferização crescente
tempo em que buscava garantir a mão-de-obra para da população de baixa renda em porções cada vez
as indústrias da capital, é lançado, através do Decreto mais distantes do núcleo central.
Nº 75 de 1940, as bases do que seria a o primeiro
conjunto habitacional destinado aos operários
Enquanto em outras cidades o desenvolvimento
da cidade, o IAPI – Instituto de Aposentadoria e
e a emergência de problemas urbanos, entre
Pensões dos Industriários7. O local escolhido era os quais o da moradia, forma produtos de um
onde já se instalava na época, um grande aglomerado processo histórico, de certo modo aleatório, em
conhecido como Favela da Pedreira Prado Lopes. Belo Horizonte eles resultaram de uma ação
inicial programada e que obedeceu a um plano
Assim, vários intuitos se realizariam em uma mesma preestabelecido. Os problemas, assim, surgiram
ação, ou seja, o alcance político-social pretendido precocemente, pois o projeto inicial não previu
viria através da desmobilização da favela existente um local para moradia dos trabalhadores
e posterior ocupação da área com moradias para urbanos (GUIMARÃES, 1991, p. 4).

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POSSE E USO DA TERRA. AVANÇO OU demonstração da ineficácia do Programa para com
RETROCESSO EM BELO HORIZONTE? esta faixa social (que representa, por sua vez, 90%
do referido déficit). A desculpa recorrente é a falta
Se por um lado o poder público em Belo Horizonte de áreas no município que possam viabilizar um
desempenhou papel importante na consolidação de numero maior de unidades, tendo em vista o alto
um quadro de segregação através da distribuição custo do m2 do solo em Belo Horizonte.
direta dos lotes no início da ocupação da cidade,
também atuou ao contrário dessa lógica, mesmo Somando-se as áreas vagas identificadas pelo
que de forma não intencional. No intuito de remover PLHIS em Belo Horizonte (sendo que algumas
a população de baixa renda que ocupava áreas são de propriedade do próprio poder publico), e
centrais da cidade e que eram de interesse do capital passiveis de destinação para habitação de interesse
imobiliário, o poder publico utilizou um instrumento social18 (Glebas, áreas em loteamento regular pouco
jurídico para promover o reassentamento dessa ocupado, áreas em loteamento irregular pouco
população em um bairro da então zona suburbana ocupado e lotes vagos dispersos) chega-se a um
que naquela época tinha pouca acessibilidade em total aproximado de 13.522.952,63 de m2, capazes
relação ao centro da cidade, apesar da relativa de viabilizar 318.743 novas unidades habitacionais19
proximidade. contrariando a recorrente afirmação de que não
existem terras para programas habitacionais no
Trata-se do Instrumento Jurídico da Enfiteuze ou município.
Aforamento11, amplamente utilizado em outras
cidades brasileiras para distribuir lotes aos diversos Ainda com relação a oferta de imóveis, o Censo
segmentos da população, e em Belo Horizonte 2010 aponta um saldo de 65.214 domicílios
utilizado no bairro Concórdia12 como forma de vagos em Belo Horizonte, dos quais 31.95520 com
viabilizar o reassentamento da população operária, potencial pra constituir uma oferta habitacional
no inicio do século XX. Apesar dos números de interesse social para famílias nessa faixa de
não serem muito significativos (1890 lotes em renda (BELO HORIZONTE, 2012). Trata-se de
77 quadras), a utilização desse instrumento um numero significativo de unidades que poderiam
representou a possibilidade de permanência ser revertidas para fins de Locação Social com o
desses grupos em um local que, se antes auxílio de alguns instrumentos de politica urbana
significava exclusão pela dificuldade de acesso e (Compulsórios, IPTU Progressivo, Direito de
precariedade de infraestrutura, hoje desfruta de Preempção).
ótima localização em relação à área central de Belo
Horizonte. As cláusulas dos contratos contribuíram Indicada para viabilizar acesso à moradia bem
de diversas formas para esta permanência, seja pela localizada para população de baixa renda, a
necessidade de edificar-se em prazo determinado, Locação Social está incluída na Política Nacional de
pela garantia de sucessão aos descendentes, pela Habitação – a Lei nº 11.124, de 16 de junho de
indivisibilidade dos terrenos e principalmente pelo 2005, define em seu Segundo Capítulo, na Seção
tempo de permanência necessário para se obter o III, do Artigo 11, que “os recursos do FNHIS
direito de posse13. poderão ser destinados a ações e programas de
habitação de interesse social que contemplem
Infelizmente este Instrumento Jurídico não está a aquisição, construção, conclusão, melhoria,
mais disponível na nossa legislação mas outros reforma, arrendamento e Locação Social de
precisam ser trazidos à discussão no sentido de unidades habitacionais” (BRASIL, 2005)21.
enfrentarmos a questão habitacional pelo viés
social, diferentemente dos interesses econômicos Outra opção é a Bolsa Aluguel, em Belo Horizonte
que orientam as atuais politicas habitacionais denominada Bolsa Moradia, que não deve ser
no Brasil e no município. Haja vista o Programa confundida com a Locação Social, mas também
Minha Casa, Minha Vida14 que apresenta em constitui importante solução temporária em casos
Belo Horizonte números muito pouco expressivos de comprovado risco das famílias, assim como
em relação ao déficit habitacional do município15. a Moradia Transitória, entendida como “aquela
Desde 2009 o poder público municipal entregou destinada e gerida especificamente para atender
apenas 1.470 unidades16 para a população com famílias e indivíduos em situação de rua, que
salario dentre 0 e 1.600,00 Reais17, numa clara recebam acompanhamento socioassistencial de

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instituição pública federal, estadual ou municipal e/ NOTAS
ou particular sem fins lucrativos, por um período
1 - Urbanista contratado para elaborar o Projeto da Nova
que precede o benefício de uma moradia definitiva Capital.
financiada/subsidiada” (BRASIL, 2010). Esta
última não é contemplada na legislação de Belo 2 - A área central (zona urbana) foi circundada por uma
Horizonte, assim como a Locação Social. larga Avenida circular (hoje Avenida do Contorno) e teve
seu traçado viário definido por uma malha de ruas ortogonais
Há portanto várias modalidades disponíveis para sobreposta por uma rede de avenidas em diagonal.
o enfrentamento da questão habitacional voltada 3 - Segundo a Comissão Construtora o antigo Arraial não
para o interesse social e uma política habitacional era condizente com a Nova Capital e por isso deveria ser
consistente deve oferecer um cardápio de diferentes completamente suprimido.
soluções para os diversos casos e faixas, caso
contrário a população acaba criando suas próprias 4 - Antiga capital do Estado.
alternativas. A resposta ao descompasso entre
5 - Segundo Guimarães (1991, p. 191) “Diferentemente da
oferta e demanda em Belo Horizonte tem se concepção de vila adotada em outros estados [...], onde vila
manifestado na forma das várias Ocupações significa um conjunto pequeno de casas homogêneas,[...], em
Urbanas. Atualmente na RMBH esse movimento Belo Horizonte o nome refere-se a aglomerações de casas
viabiliza moradia para aproximadamente 12.000 nas zonas suburbanas e rural. Nesta cidade, praticamente
famílias22, numa demonstração clara de que as não existem construções de tipo vila na zona urbana, mesmo
ações do poder pulico tem sido insuficientes. porque foram proibidas pela prefeitura, a partir de 1933”.

6 - O prefeito Affonso Vaz de Mello manifesta esta


Finalmente, a discussão sobre o Direito de preocupação em seu relatório de Prefeitos de 1918, no qual
Propriedade também precisa avançar. Segundo faz menção à existência de 24 bairros e vilas “clandestinos”
Fernandes (2008. p. 30) “como fazer todas essas na cidade.
reformas sem tocar na estrutura da propriedade
7 - O IAPI foi o primeiro projeto de habitação destinada à
da terra?”. Como fazer a transição do modelo classe trabalhadora em Belo Horizonte, na modalidade de
individualista de propriedade para outro de apartamentos. O projeto inicial previa 11 torres, das quais
contornos mais sociais se o nosso “Código Civil apenas 9 foram construídas. As obras foram iniciadas
ainda considera a terra e o direito de propriedade somente em 1944, após 04 anos da assinatura do decreto que
imobiliária quase que exclusivamente em função o referendou.
das possibilidades econômicas oferecidas aos
8 - Os antigos moradores foram deslocados para uma área
proprietários individuais” (idem, p.48)? Esse denominada Mato da Lenha, hoje bairro Salgado Filho.
continua sendo o paradigma do Direito Urbanístico
Brasileiro e o final de linha das legislações 9 - O Conjunto IAPI foi construído em área às margens da
urbanísticas engessadas pela falta de vontade Avenida Antonio Carlos, única via de acesso ao novo bairro
pública. da Pampulha.

10 - Ele se referia à Pedreira Prado Lopes.


Também é necessária uma discussão ampliada
que enfrente a questão da moradia, não apenas 11 - Segundo o Código Civil Brasileiro de 1916, em seu
sob o ponto de vista da produção econômica (a Capítulo II: Art.678 Dá-se a enfiteuse, aforamento ou
mercadoria habitação) e do acesso à terra, mas emprazamento, quando por atos entre vivos [...], o proprietário
principalmente sob o viés da produção social do atribui a outrem o domínio útil do imóvel, pagando a pessoa
espaço. Ou seja, uma politica habitacional séria e que o adquire [...] uma pensão ou foro anual, certo e invariável.
Art.679. O contrato de enfiteuse [ou aforamento] é perpétuo
comprometida de fato com a população de baixa [...] por tempo limitado considera-se arrendamento [..]
renda deve também promover a inclusão e o acesso Entretanto este instrumento foi extinto na elaboração da
à cidade, aqui entendida como espaço, não apenas Constituição de 1988 e substituído por outros similares:
da moradia e do trabalho, mas também da política, Direito de Superfície e Usucapião para imóveis urbanos
do lazer e da festa. e a Concessão de Uso Especial – para fins de moradia
individual ou coletiva, através da Medida Provisória
2.220/2001. Entretanto os dois ultimos só podem ser
utilizados para ocupações já estabelecidas. No caso de novos
assentamentos, as possibilidades se restringem apenas ao
Direito de Superfície, cuja utilização em áreas públicas não
é mencionada na lei.

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12 - Para aprofundamento na apresentação deste caso ver REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERRRARI DE LIMA, 2009.
ARAUJO, Ana Cristina S. A casa [própria] alugada:
13 - Além disso, nessa modalidade o Estado garante sua questões da política pública habitacional. RISCO
condição de proprietário, repassando ao aforado apenas - Revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo
o domínio útil da propriedade, ao mesmo tempo em que do programa de pós-graduação do departamento de
a estabilidade do último fica também garantida. O imóvel arquitetura e urbanismo Escola de Engenharia de São
retorna ao proprietário – no caso do Bairro Concórdia ao Carlos da Universidade de São Paulo – EESC-USP, São
município - que controla seu repasse, sem se sujeitar às leis Paulo, 2008. P.165 - 176
de mercado, podendo transferi-lo a outro candidato que
comprove necessidade e renda compatíveis com a função BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Relatório
social pretendida para aquela área. do Prefeito Juscelino Kubisctcheck. Belo Horizonte:
Imprensa Oficial, 1940.
14 - Único programa para atendimento das políticas
habitacionais dos municípios brasileiros hoje disponibilizada BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Plano
pelo Governo Federal e que, segundo Maricato (2012, Local de Habitação de Interesse Social (PLHIS). Belo
p.63) representa seguramente uma solução para o estoque
Horizonte, 2010. Revisto em 2012. Disponível em http://
de terras de um grupo privilegiado de empresas voltadas
portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/contents.do?evento=conte
para a produção imobiliária, garantindo “a continuidade de
um novo patamar de acumulação na produção imobiliária
udo&idConteudo=138792&chPlc=138792&&pIdPlc=&
residencial no Brasil”. Ou seja, tem contornos essencialmente app=salanoticias
econômicos, com interesses voltados para o quantitativo e
não para a qualidade da habitação, ou de sua inserção urbana BRASIL. A locação social no contexto da
Além disso, os números demonstram que faixas acima de política nacional de habitação. Ministério
três salários tem sido privilegiadas na oferta de unidades das Cidades. Brasilia, 2010. Disponível em
pelo Programa. h t t p : / / w w w. m i n u r v i . o rg / d o c u m e n t o s / N o t i c i a s /
Alquiler%20Uruguay%202010/2010%20Alquiler%20
15 - Segundo o Plano Local de Habitação de Interesse %20A%20loca%C3%A7%C3%A3o%20social%20
Social (PLHIS) de Belo Horizonte o numero de unidades no%20contexto%20da%20pol%C3%ADtica%20
necessárias para suprir o déficit habitacional para a população nacional%20de%20habita%C3%A7%C3%A3o.pdf
na faixa de zero a três salários é de 62.523 domicílios (BELO
HORIZONTE, 2012). BRASIL. LEI 11.124/2005. Dispõe sobre o Sistema
Nacional de Habitação de Interesse Social - SNHIS, cria
16 - Segundo dados da pesquisa MCMV que está sendo o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social -
elaborada pelo Grupo de Pesquisa Praxis da UFMG, em FNHIS e institui o Conselho gestor do FNHIS. Brasília,
2013 e 2014. 2005.

17 - O Programa MCMV alterou a chamada Faixa 1 (ou FERNANDES, Edésio. Do código civil ao Estatuto
FAR) que anteriormente incluía a população de zero a três da Cidade: algumas notas sobre a trajetória do Direito
salários mínimos para uma faixa com renda entre zero e Urbanístico no Brasil. In: VALENÇA, Marcio Moraes
R$1.600,00. (Org). Cidade (i)legal. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.
18 - Ou seja, cujo custo do m2 corresponde ao valor previsto FERRARI DE LIMA, Junia Maria. Bairro Concórdia
para este tipo de empreendimento (entre 200,00 e 350,00). em Belo Horizonte: entrave ou oportunidade à cidade-
negócio? Dissertação de Mestrado – Escola de Arquitetura
19 - Ver Tabela 11 do PLHIS (BELO HORIZONTE,2012). da Universidade Federal de Minas Gerais, 2009
20 - Este numero representa 49% do total de domicílios GOITIA, Fernando Chueca. Breve história do urbanismo.
vagos, ou seja, o mesmo percentual de famílias com renda Lisboa: Editorial Presença, 1982.
média mensal de até 06 salários mínimos em Belo Horizonte.
Lembrando que a politica habitacional do município GUIMARÃES, Berenice Martins. Cafuas, barracos
considera para fins de habitação de interesse social famílias e barracões: Belo Horizonte, cidade planejada. Tese
com renda de 0 a 6 salários. (Doutorado) – Instituto Universitário de Pesquisa do
Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Humanas, Rio de
21 - Disponível em http://www.minurvi.org/documentos/
Janeiro, 1991.
Noticias/Alquiler%20Uruguay%202010/2010%20
Alquiler%20-%20A%20loca%C3%A7%C3%A3o%20
social%20no%20contexto%20da%20pol%C3%ADtica%20
MARICATO, Ermínia. O impasse da politica urbana no
nacional%20de%20habita%C3%A7%C3%A3o.pdf Brasil. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

22 - Numero levantado pelos grupos sociais envolvidos na SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 1. ed., São
luta pela moradia na RMBH. Paulo: HUCITEC,1998.

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 29


Aluguel social como alternativa
de política habitacional

MARIA DE FÁTIMA SANTOS GOTTSCHALG


Assistente social, mestre em Geografia, professora da Escola de Serviço Social da PUC Minas,
conselheira de habitação e de política urbana de Belo Horizonte

LUÍS TÔRRES BARROS


Sociólogo e mestre em Planejamento Urbano e Regional. Analista social da Companhia Urbanizadora
e de Habitação de Belo Horizonte

Seguindo o padrão global de urbanização, a A concentração da população nas metrópoles


distribuição espacial da população brasileira justifica-se pelo desenvolvimento industrial,
passou por significativa alteração nas últimas comercial, cultural, do conhecimento, da prestação
décadas. Tal como demonstram os números dos de serviços, do mercado de trabalho, etc. As
censos demográficos, realizados a cada dez anos grandes cidades acabam por operar como “imãs”,
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística que, ao agregar tais elementos, atraem as pessoas.
(IBGE), os brasileiros residentes em áreas urbanas
eram minoria em 1940, representando apenas Como fator resultante do processo de urbanização
31,24% da população. Este percentual elevou-se acelerado e concentrado, vimos surgir e crescer
para 45,08% em 1960, observando-se, ao longo da paralelamente e da mesma forma um outro
década que se segue, a superação da população rural fenômeno: a segregação socioespacial aliada à
pela população urbana, que passa a corresponder, concentração de pobreza, o que Lúcio Kowarick
em 1970, a 55,98% da população total. Como (1979) na década de oitenta denominou de
consequência, o Brasil ingressou no rol de países “espoliação urbana”.
urbanizados, concentrando-se sua população, cada
vez mais, em áreas urbanas. A ocupação do espaço geográfico das cidades não
se deu de forma socialmente justa e includente.
O último censo demográfico, referente ao ano de O forte papel concentrador de oportunidades e
2010, confirma a tendência crescente da população riquezas das Regiões Metropolitanas não resultou
urbana e a queda da população rural. Do total de em que o conjunto das pessoas ali residentes se
190.755.799 habitantes, 160.925.792, ou seja, mais beneficiasse igualitariamente. Pelo contrário,
de 84% da população brasileira, residem em áreas a desigualdade e a exclusão manifestam-se de
urbanas, contra apenas 29.830.007 – cerca de 16%, forma contundente e sob variados aspectos,
na área rural. submetendo a parcela mais pobre da população
a precárias condições de moradia ou à sua falta.
Dados do mesmo censo evidenciam a forma
concentrada como este processo de urbanização A carência brasileira de moradia, sobretudo para
se deu. Mostram que quase metade da população as famílias de baixa renda, encontra expressão
urbana brasileira – 46,4% reside na região Sudeste espacial nas vilas, nas favelas, nas áreas de risco,
e, notadamente, nas Regiões Metropolitanas. debaixo de viadutos, nas ocupações urbanas, etc.

30 CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014


As estimativas de déficit e inadequação (220 mil), Brasília – DF (126 mil), Salvador –
habitacionais da Fundação João Pinheiro (FJP), BA (106 mil), Manaus – AM (105 mil); Fortaleza
calculadas com base em dados do IBGE, permitem- – CE (95 mil), Belo Horizonte – MG (78 mil).
nos uma mensuração desta problemática, Tratando-se particularmente do estado de Minas
compreendida como constituída, respectivamente, Gerais, os municípios mineiros com maiores
pela necessidade de construção de novas moradias números absolutos de déficit habitacional são:
(magnitude do estoque de habitações) e pela Belo Horizonte, com 78 mil; Contagem, com 22
necessidade de melhorias nas moradias existentes mil; Uberlândia com 20 mil; Juiz de Fora, com 16
(especificidades internas de um estoque dado). mil; e Montes Claros, com 10 mil.

Estudos realizados pela FJP, à luz dos resultados Como se verifica no Mapa 1, dois componentes se
do Censo Demográfico Brasileiro 2010, estimam o destacam na composição do déficit habitacional
déficit habitacional como sendo de 6.490 milhões brasileiro: a coabitação familiar (43,1%) e o
de unidades, o que corresponde a 12,1% dos ônus excessivo com aluguel (30,6%). Juntos,
domicílios existentes. representam um déficit de 5,1 milhões de unidades.
Mapa 1 – Composição do déficit habitacional por unidades da
Deste total, quase 85% encontram-se nas áreas
Federação – Brasil – 2010
urbanas, notadamente nas Regiões Sudeste e
Nordeste do País, como se pode ver na Tabela 1.
Chama a atenção, também, o fato de que mais de
56% do déficit urbano encontra-se nas Regiões

Centro de Estatística e Informações (CEI)


Metropolitanas.

Fonte: Fundação João Pinheiro (FJP) -


Tabela 1 – Déficit habitacional total e déficit habitacional relativo
ao total de domicílios, por situação de domicílio: Brasil, Regiões
Geográficas – 2010
Déficit habitacional total 8,4
Urbano Rural Domicílios precários
Especificação
Total Coabitação familiar
Total % Total %
Ônus excessivos
Região Norte 823.442 585.725 71,1 237.717 28,9 com aluguel
Adensamento excessivo
Região Nordeste 2.111.517 1.532.184 72,6 579.333 27,4 Analisando o déficit habitacional urbano por
Região Sudeste 2.674.428 2.576.502 96,3 97.925 3,7
classes de rendimento domiciliar, verifica-se
grande concentração – 80%, nas classes de renda
Região Sul 770.749 685.11 88,9 85.639 11,1 domiciliar de até cinco salários mínimos, conforme
demonstrado no Gráfico 1.
Reg. Centro-Oeste 560.555 506.006 90,3 54.549 9,7
Gráfico 1 – Déficit habitacional urbano por classe de rendimento
Brasil 6.940.691 5.885.528 84,8 1.055.163 15,2 domiciliar e regiões geográficas – Brasil – 2010

Reg. Metropol. 3.416.369 3.299.337 96,6 117.032 3,4 100%


Geografia e Estatística (IBGE),

90%
Fonte: Instituto Brasileiro de

Demais áreas 3.524.321 2.586.191 73,4 938.131 26,6 80%


Censo Demográfico, 2010

70%
60%
Os maiores déficits habitacionais encontravam- 50%
40%
se nos estados mais populosos da federação: 30%
20%
São Paulo (1.495 milhões de unidades), Minas 10%
Gerais (557 mil), Bahia (521 mil) e Rio de Janeiro 0%
NORTE NORDESTE SUDESTE SUL C-OESTE BRASIL
(515 mil). 10 SM OU MAIS 5 A 10 SM 3 A 5 SM 0 A 3 SM SEM RENDIMENTO

Considerando-se os municípios brasileiros, Tomando por base os números da inadequação


os maiores déficits estavam em São Paulo – habitacional, nota-se que, dentre seus
SP (474 mil unidades), Rio de Janeiro – RJ componentes, é a carência de infraestrutura aquele

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 31


que mais afeta os domicílios urbanos brasileiros. A política habitacional, aqui como em outros países,
No total 13, milhões de habitações (26,4%) está e sempre esteve aliada à política econômica.
careciam em 2010 de pelo menos um item de Estudos diversos dão conta desta relação,
infraestrutura básica: água, energia elétrica, demonstrando que os governos, frequentemente,
esgotamento sanitário ou coleta de lixo. lançam mão de programas habitacionais voltados
para a produção de moradias em massa com vistas
Aformulação de políticas e programas habitacionais, a alavancar a economia. Isso porque, como se
assim como de políticas e programas voltados sabe, o setor da construção civil é um dos que mais
a setores sociais correlatos, deve apoiar-se em contribui para os bons resultados da economia,
dados como os apresentados. Sua consideração e, sobretudo pela geração de emprego com baixa
ademais, sua análise e apreensão crítica permitem exigência de qualificação profissional e em larga
uma formatação mais bem acabada da ação pública. escala.
Esta, porque orientada para a intervenção sobre
um cenário complexo e diverso, deve contemplar Além do mais, a política habitacional contribui
a formulação e a implementação de estratégias de significativamente para aquecer o mercado
atendimento variadas e complementares, de modo imobiliário e elevar ainda mais os ganhos das
algum unívocas. construtoras, das incorporadoras e dos proprietários
de terra. Comprovam-no os expressivos números
A Constituição Brasileira inclui, em seu Artigo 6ª, dos resultados financeiros alavancados pela
a moradia entre os direitos sociais, o que reforça produção de imóveis para financiamento pelo
ainda mais o dever do Estado em assegurar sua Minha Casa, Minha Vida
universalização. Resta saber, contudo, como o
Estado brasileiro, ao longo da urbanização do país, Mas será que não há outra forma do Estado prover
vem desenvolvendo políticas habitacionais de moradia digna para as famílias de baixa renda que
forma a garantir este direito à população de baixa não apenas por meio da produção em massa de
renda, haja visto o montante do déficit habitacional,
habitação com fins de propriedade? Experiências
majoritariamente concentrado na faixa de renda das
de políticas habitacionais voltadas para moradia
famílias com menor poder aquisitivo.
social em outros países demonstram que sim.
Historicamente, a política habitacional voltada para
este segmento da população, seja em nível federal, Países como a França, a Inglaterra e a África do
estadual ou municipal, enfatiza a aquisição como Sul, dentre outros, desenvolvem políticas que
forma de acesso à moradia, reforçando a “ideologia têm como alternativa de provisão habitacional às
da casa própria”, ou seja, o bem econômico aliado famílias de baixa renda a locação de imóveis pelo
ao bem social. Trata-se da crença, difundida pelas Estado.
classes dominantes e incorporada como princípio
de política pública, de que, tal como afirma Villaça O chamado Aluguel Social constitui importante
(1986), somente a casa própria oferece segurança modalidade de política habitacional, tendo sido
econômica e social. largamente utilizado pelos países centrais no
pós-2ª Guerra Mundial, no contexto do chamado
A moradia é vista, como sendo valor de uso, por Estado de Bem-Estar Social, e provocado efeitos
atender a uma necessidade básica – abrigo, e, ao não desprezíveis sobre o déficit habitacional.
mesmo tempo, valor de troca, por corresponder a Trata-se de alternativa de política que, no contexto
um ativo financeiro. O resultado do entendimento brasileiro, poderia ampliar as formas de acesso
da moradia não apenas como um bem social mas da população de baixa renda à moradia digna,
também como um bem econômico é a promoção do de forma complementar aos demais programas
“sonho da casa própria” e do direito à propriedade existentes, majoritariamente alicerçados no
em detrimento do direito à moradia. Tal concepção princípio da propriedade.
encontra-se fortemente consolidada no Brasil a
partir, sobretudo, do Banco Nacional da Habitação Esta modalidade de política habitacional
(BNH) – 1964-1985, tendo sito recentemente pressupõe um parque habitacional de propriedade
reforçada pelo Minha Casa, Minha Vida, programa pública, gerido de forma constante e integrada
implementado pelo Governo Federal desde 2009. pelo Estado e destinado às famílias de baixa renda,

32 CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014


que, por meio do mesmo, têm garantido o direito à Implantando-se em áreas centrais, as vantagens
moradia, sem que a ele esteja conjugado o direito do aluguel social tornam-se ainda maiores,
à propriedade. Os conjuntos do parque referido se englobando, para além das anteriores, as que se
localizam em áreas urbanas consolidadas, dotadas seguem:
de infra-estrutura e dinâmica urbana, com acesso a
transportes coletivos e ofertas de emprego. • possibilita ao beneficiário maior proximidade do
trabalho e, assim, contribui para o reequilíbrio dos
O aluguel social não se confunde com programas do fluxos de mobilidade;
tipo Bolsa Aluguel, bastante utilizado em diversos
municípios brasileiros. Neste caso, o poder público • ocorrendo por meio da desapropriação e
oferece um auxílio temporário a famílias de baixa reabilitação de edifícios abandonados, possibilita
renda, que, removidas de áreas de risco ou em
a utilização de estoque imobiliário ocioso com
função da execução de obras públicas, ou indicadas
pela assistência social, aguardam reassentamento infraestrutura instalada, fazendo cumprir, assim, a
definitivo como proprietários. Naquele caso, função social da terra por parte dos mesmos;
diferentemente, o aluguel é considerado como
opção de moradia definitiva, uma estratégia de • inibe a segregação socioespacial na medida em
inclusão e desenvolvimento social, integrada à rompe com o padrão de periferização da população
rede socioassistencial e aos demais programas de baixa renda, constumeiramente atendida por
de promoção social. Com o tempo, as famílias, meio de conjuntos situados nas bordas das cidades,
ascendendo socialmente, deixariam as unidades, em locais longínquos e carentes de infraestrutura e
que seriam disponibilizadas para ocupação por equipamentos sociais.
outras famílias de baixa renda carentes de moradia.
No Brasil, em boa medida como decorrência da
Analisando mais a fundo a questão, percebe-se que, força de que goza entre nós a ideologia da casa
se há milhares de famílias que têm sua situação de própria, são praticamente inexistentes os casos
moradia “resolvida”, mesmo que temporariamente, de políticas públicas que, voltadas à provisão de
por programas como Bolsa Aluguel, na prática isso uma moradia definitiva, desvinculam o direito
significa que muitas prefeituras já adotam o aluguel à moradia do direito à propriedade. Em outros
social, porém com imóveis privados, alugados de termos, são praticamente inexistentes as políticas
terceiros e não se utilizando de imóveis próprios. habitacionais formatadas segundo o princípio do
aluguel social.
Três consequências imediatas advêm de uma
modalidade de política como esta:
Tivemos uma breve experiência, que não vingou.
• o aluguel social forçaria para baixo os preços Segundo Milano (2013), citando Bonduki (1998):
do mercado de aluguéis, contrariamente ao que
se verifica, sobretudo em áreas de vilas e favelas, “A grande maioria dos conjuntos produzidos
como decorrência do auxílio consubstanciado em pelos IAPs a partir do final da década de 1930
programas do tipo Bolsa Aluguel; foi destinada ao aluguel e a trabalhadores
vinculados aos institutos. O patrimônio gerava
• como o beneficiário do aluguel social não é renda de aluguel, o que transformava os IAPs
proprietário, fica assegurada a destinação das em “rentistas-estatais”, fato inédito até então,
unidades habitacionais, desde que satisfatoriamente já que essa atividade era exercida apenas
geridas pelo poder público, exclusivamente pelo setor privado. Contraditoriamente, havia
para a baixa renda, contendo-se processos de uma difusão dos benefícios da obtenção da
gentrificação1; casa-própria pelos formadores de opinião,
com o intuito de atender a objetivos de
• permite mobilidade espacial do trabalhador em natureza econômica, pela redução do custo de
função do trabalho/estudo, tratando-se de excelente reprodução da força de trabalho, e ideológica:
solução habitacional para jovens e migrantes casa-própria como instrumento capaz de
recentes em busca de oportunidades de emprego transformar os trabalhadores em defensores
num mercado de trabalho crescentemente volátil. da ordem e do conservadorismo”.

CRESS-MG | Revista Conexão Geraes | 1º semestre de 2014 33


Contrariando a ideologia acima referida, a Política NOTAS
Nacional de Habitação (PNH), de 2004, e o
Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social 1 - O termo “gentrificação” vem do inglês gentrification,
(SNHIS), de 2005, trazem avanços conceituais que pode ser traduzido como “enobrecimento”. Para o
que nos interessa, significa a substituição da população
e normativos importantes para a formulação e residente em áreas urbanas que passam por um processo
implementação do aluguel social nas cidades de intervenção pública, de modo a tornar o local mais
brasileiras. Tais avanços, cumpre ressaltar, são aceitável para o padrão de consumo da classe média e
resultado de deliberações do Conselho Nacional turística.
das Cidades (CONCIDADES).

A despeito de tais avanços e de outras iniciativas, REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


também levadas a cabo pelo Ministério das
Cidades, como o Seminário Internacional de BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil
Locação Social, realizado em 2008, ainda não se - Arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa
identificam, afora casos isolados e inexpressivos, própria. São Paulo: Ed. Estação Liberdade/FAPESP, 1998
(e 2003 tb).
tentativas reais de viabilização dessa modalidade
de política. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil.
Brasília: Senado, 1988.
Há um Projeto de Lei Federal, o de nº 6.342,
propondo a instituição, dentro do SNHIS, do BRASIL. Lei No 10.257, de 10 de Julho de 2001.
Serviço de Moradia Social. Este segue, no entanto, Regulamenta os Arts. 182 e 183 da Constituição Federal,
tramitando desde 2009 na Câmara dos Deputados, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras
sem votação. providências. Diário Oficial da União. Brasília, 11 julho
2001.
Enfim, a enorme demanda por moradia social FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO; MINISTÉRIO DAS
destinada à população de menor renda, evidenciada CIDADES. Déficit habitacional municipal no Brasil 2010.
pela segregação socioespacial verificada nos Disponível em: http://www.fjp.mg.gov.br/index.php/
grandes centros urbanos e confirmada pelo elevado docman/cei/deficit-habitacional/216-deficit-habitacional-
número do déficit habitacional brasileiro, impõe municipal-no-brasil-2010/file
a necessidade de se pensarem alternativas para a
política habitacional de interesse social. GOTTSCHALG, Maria de Fátima Santos. O fenômeno
da segregação sócio-espacial urbana: uma abordagem
geográfico-social. 2011. Dissertação (Mestrado em
Acrescente-se a heterogeneidade da população Geografia) - Pontifícia Universidade Católica de Minas
brasileira, o que requer diferentes soluções e não Gerais, Belo Horizonte.
apenas programas habitacionais homogêneos,
com produção de moradia popular em massa, KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. Rio de Janeiro,
somente para fins de financiamento, como vem se Paz e Terra, 1979.
perpetuando nos programas governamentais.
MILANO, Joana Zattoni. Aluguel social no Brasil:
algumas reflexões sobre a ideologia da casa própria.
Mais do que isso, ampliar as formas de acesso à Disponível em: http://www.anpur.org.br/revista/rbeur/
habitação para a população de baixa renda, como index.php/anais/article/viewFile/4551/4420
alternativa aos programas padrões de aquisição
da casa própria, constituirá avanço considerável VILLAÇA, Flávio. O que todo cidadão precisa saber
na perspectiva do direito à cidade e do direito à sobre habitação. São Paulo, Global, 1986.
moradia digna.
WHITAKER, João Sette. Por que não fazer um parque
municipal de locação social na área central? Disponível
É um desafio a enfrentar! em: http://cidadesparaquem.org/blog/2013/9/9/por-que-
no-fazer-um-parque-municipal-de-locao-social-na-rea-
central

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Institucional

Roda de conversa: demandas e desafios


para o Serviço Social na Saude

COMISSÃO DE SAÚDE E SERVIÇO SOCIAL1

Em outubro de 2011, o CRESS-MG, na gestão definido a partir dos interesses e necessidades da classe
Compromisso e luta: em defesa da categoria e do nosso trabalhadora. A intervenção profissional, considerando
projeto ético-político (2011-2014), instituiu o Grupo que todo o processo de construção do conhecimento
de Trabalho Saúde e Serviço Social. Desde então, o é parte constitutiva da intervenção, requer outros
GT passou a desenvolver uma série de atividades junto elementos teórico-metodológicos referentes aos
à categoria, ganhando expressividade e referência na instrumentos, técnicas e estratégias, que potencializem
agenda política do Serviço Social no estado. Dessa a ação profissional rumo à consecução teleológica do
forma, em 2012, após avaliar o trabalho desenvolvido, projeto ético-político do Serviço Social. Portanto, é
a sua definição institucional de Grupo de Trabalho foi de fundamental importância “impulsionar pesquisas
alterada para a Comissão de Saúde e Serviço Social, e projetos que favoreçam o conhecimento do modo
tornando-se espaço permanente para tratamento das de vida e de trabalho – e correspondentes expressões
deliberações do Conjunto CFESS/CRESS no eixo da culturais – dos segmentos populacionais atendidos,
seguridade social com ênfase nas políticas de saúde e criando um acervo de dados sobre as expressões da
interface com a formação e fiscalização profissional, questão social nos diferentes espaços ocupacionais do
bem como para intensificar os mecanismos de diálogo assistente social” (IAMAMOTO, 2001, p. 24).
constante do CRESS-MG com os assistentes sociais
inseridos nos diversos espaços sociocupacionais da Na Área da Saúde, o assistente social pendula entre a
Saúde. sua competência técnica-privativa, o que é constitutivo
da matéria do Serviço Social, e entre a competência
Hoje, a Comissão de Saúde e Serviço Social ocupa do campo, que são qualificados pela sua intervenção
diversos espaços importantes no Conselho Estadual na particularidade da referida política pública,
de Saúde, movimentos sociais, Fórum Mineiro contra caracterizado de forma interdisciplinar, operado
Privatização e Defesa do SUS, Fórum de Residentes fundamentalmente na constituição de equipes e/ou
ou mesmo na articulação junto a outros conselhos mini-equipes de referência que tem demandado do
profissionais, sindicatos, entidades de defesa de direitos profissional constante observação e análises em torno
e movimento estudantil na Frente Mineira de Defesa dos aspectos:
da Saúde. Além dessas participações, a Comissão
também dá tratamento a questões relacionadas ao Condições objetivas - a) Condições materiais
exercício profissional na política de saúde tendo como institucionais; b) Recursos humanos (quantitativo/
referência a defesa do nosso projeto ético-político. qualitativo) e c) Diversidade das demandas trazidas
pelos usuários. Condições subjetivas - a) Visão sobre
O constante diálogo com os profissionais atuantes o usuário; b) Leitura sobre a autonomia profissional; c)
na Área da Saúde faz-se necessário, tendo em vista Estratégias teórico-metodológicas e d) Compreensão
a existência de questões centrais que tencionam o do projeto ético-político.
Serviço Social na Saúde, quais sejam: a identidade
tecnicista atribuída institucionalmente ao profissional Para falar mais das dimensões e análises, coletamos
e por ele aceita e reproduzida de forma acrítica, nas reuniões da Comissão de Saúde e Serviço Social,
distanciando-se das possibilidades de materialização por meio de uma roda de conversa, a percepção
do projeto ético-político do Serviço Social, que deve de alguns profissionais assistentes sociais sobre
ser lembrado, sobretudo, como projeto societário alguns desafios apresentados em espaços como:

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Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF), Nas últimas décadas, com a implementação e ampliação
Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Hospital (alta da cobertura do Programa Saúde da Família e,
complexidade) e saúde mental, conforme podemos consequentemente, a ampliação da assistência integral
verificar na sequência: ao cidadão, a busca pelo atendimento, orientação
e encaminhamentos em saúde cresceram de forma
NÚCLEO DE APOIO A SAÚDE DA FAMÍLIA desorganizada e impactou não somente os centros de
saúde, mas também os serviços de pronto atendimento.
Um dos desafios enfrentados pelos assistentes
sociais na Atenção Básica, especialmente no NASF Os usuários procuram os serviços, nem sempre, no
é relativo às demandas que estes profissionais são momento de alguma queixa aguda, mas desejam ser
chamados a responderem e às representações sociais acolhidos e orientados em suas demandas. Paralelo
que a profissão possui nesta política. São limitadores a esse público, encontramos outras queixas sociais
relativos inclusive ao próprio papel do profissional agudas do ponto de vista da alta vulnerabilidade social.
neste espaço e o fortalecimento e reconhecimento da Exemplos destes são idosos com laços familiares
categoria enquanto profissionais da saúde. O assistente frágeis e usuários de álcool e outras drogas ilícitas
social é, por vezes, visto como uma extensão da que necessitam de um conjunto de políticas sociais
assistência social e sua atuação podem configurar-se integradas que não estão organizadas e disponíveis
como reprodução deste pensamento. para o contingente de pessoas que são atendidas pelos
pronto-atendimentos.
Além disso, sobre o discurso de adesão ao tratamento,
os assistentes sociais são chamados a responderem O Serviço Social é um importante mediador que transita
demandas de padronização de indivíduos e famílias, nesse universo de manifestações clínicas e sociais
amenizando comportamentos considerados pela procurando resignificar as particularidades do processo
equipe como desviantes. Por vezes espera-se que este de trabalho nos serviços de urgência e emergência,
profissional assuma uma postura de culpabilização considerando as características assistenciais inerentes
dos usuários e adequação aos procedimentos que a a estes serviços e sua consequência na construção de
equipe considera ideais para sua condição de saúde, uma prática multidisciplinar e interprofissional efetiva.
perpetuando assim relações verticalizadas entre
profissionais e usuários.
Cabe ao Serviço Social, neste espaço sócio-
ocupacional, sensibilizar gestores, profissionais e
Outro desafio é referente à individualização e
usuários possibilitando aos mesmos a compreensão
psicologização das demandas. Há dificuldades
das complexidades sócio-econômicos – culturais do
em coletivizá-las e uma predominância de
processo saúde – doença, na tentativa de diminuir as
intervenções voltadas para acolhimentos individuais,
ações de caráter conservador e preconceituoso, bem
acompanhamento de famílias e responsabilização das
mesmas. Esta postura profissional acarreta na perda da como o de orientar a todos sobre direitos dos usuários,
dimensão política e coletiva da profissão. na busca da emancipação desses últimos conforme
defendido pelo projeto ético-político profissional.
O trabalho profissional deve articular mecanismos
de intervenção que buscam a participação familiar, de ALTA COMPLEXIDADE
forma a grupalizar esses sujeitos, mas entendendo suas
particularidades. A família contribui com o serviço, O assistente social inserido na saúde enfrenta muitos
a partir da sua experiência de convívio diário com o desafios no cotidiano profissional, sobretudo no âmbito
usuário. O Serviço Social contribui com a família a hospitalar. Na alta complexidade há um curto espaço
partir da vivência daquilo que o usuário é capaz de de tempo para um atendimento mais integral do sujeito
produzir, das suas relações com o semelhante e dos que possa contemplar diversos aspectos. Sendo assim,
limites institucionais. a intervenção acaba sendo muito pontual, muitas vezes
limitando-se aos procedimentos de planejamento
URGÊNCIA E EMERGÊNCIA NA SAÚDE da alta social e encaminhamentos tendo em vista à
fragilidade da rede sócio-assistencial que se expressa
A saúde pública brasileira teve muitos avanços ao na dificuldade de inserção dos usuários.
longo dos anos. Todavia, ainda não se livrou do ranço
conservador que valoriza o atendimento médico Outro desafio é pensar o fazer profissional do assistente
centrado, em um viés curativo e não de promoção da social para além do modelo de plantões, viabilizando
cidadania. um contato e um acompanhamento contínuo dos

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usuários do serviço. Dentro do espaço dos plantões, seja possível pactuar acordos que atendam as reais
há a possibilidade de promover educação em saúde necessidades da população. A busca pela efetividade
através de salas de espera e grupos educativos, tendo do controle social no SUS e maior politização dos
em vista a disseminação de informações, objetivando atores do Sistema (gestores, técnicos e pacientes)
o processo de consciência e autonomia dos usuários. determina a defesa das conquistas oriundas da reforma
psiquiátrica, trabalhando efetivamente na perspectiva
Comumente, as instituições esperam do Serviço Social de rede – conhecer, transformar e construir propostas
a resolução do que julgam serem “problemas”. Neste para um trabalho horizontal envolvendo equipe
sentido, há de se ter cuidado com a psicologização das técnica, usuários, familiares e a sociedade.
expressões da questão social e também com os traços
do conservadorismo por meio do chamado Serviço Em relação à outros aspectos das condições objetivas,
Social de caso. Outro fator relevante ainda diz respeito à a partir da conversa e experiência dos profissionais,
estrutura dos hospitais que muitas vezes não possibilita pudemos perceber que o assistente social no seu
um espaço adequado para que o assistente social possa exercício profissional é desafiado diariamente na
realizar atendimentos de forma satisfatória. construção de um atendimento de qualidade, pois as
condições materiais e os recursos humanos oferecidos
Na Saúde, sobretudo nos hospitais, nos deparamos pelas instituições, na maioria das vezes, não são
constantemente com o modelo médico-hegemônico apropriados à realização do trabalho. Da mesma forma,
que se mostra desafiador frente à consolidação da as demandas apresentadas pelos usuários também
atuação multiprofissional no cuidado em Saúde. reforçam as dificuldades enfrentadas pelo profissional,
pois o serviço no qual está vinculado não consegue e/
SAÚDE MENTAL ou não pode dar respostas à estas demandas. Isso se
torna ainda pior, pois as demais políticas públicas que
As políticas de atenção à saúde mental vem ganhando
subsidiariam esse profissional na abordagem com o
contornos que demandam constante vigília diante
usuário, muitas vezes, não respondem, ou seja, são
do processo de psicologização da questão social e
políticas fragmentadas, que não se articulam entre si.
hegemonia da linha psicanalítica difundida entre
gestores e técnicos para condução dos atendimentos
Conforme podemos observar no conjunto das
e acompanhamento dos usuários do serviço. Embates
políticos entre a coordenação da política de saúde problematizações apresentadas pelos profissionais
mental e a gestão pública municipal (a exemplo atuantes nestes espaços sociocupacionais, podemos
do que acontece no município de Belo Horizonte) concluir que a área sofre as dificuldades que permeiam
muitas vezes causam prejuízo à população usuária o setor público de modo geral. Se o assistente social
dos serviços. É possível notar pouca participação dos fizer do projeto ético-político profissional sua opção
usuários em instâncias deliberativas como o Conselho política e a essência de sua atuação, poderá aproveitar
Municipal de Saúde e conferências, além da fragilidade sua autonomia relativa para construir estrategicamente
de intersetorialidade entre políticas como habitação e espaços que lhe propiciem realizar as ações a ele
assistência social, assim como dificuldade de fazer requisitadas de forma afinada com os interesses dos
encaminhamento para própria rede SUS. segmentos majoritários da coletividade. Neste sentido,
“[...] faz-se necessário assumir, mas também extrapolar
Porém, a inserção do Serviço Social crítico na área os espaços oficiais dos Conselhos. E reassumir
tem o potencial de provocar mudanças na valorização o trabalho de base, de educação, mobilização e
da concepção de pluralidade do conhecimento dos organização popular [...]” (IAMAMOTO, 2001, p. 23).
diversos sujeitos envolvidos no atendimento dos
usuários dessa política. A clareza do Serviço Social Assim, os saberes vinculados à Saúde se enfrentam com
em desenvolver seu processo de trabalho sobre as o desafio de produzirem uma prática que, associando
expressões da questão social, sem perder o foco de seus diferentes enfoques, consiga dar conta da realidade
que o sofrimento, individual, surge em determinado e da complexidade das necessidades em Saúde, pois
contexto político, social ou econômico, e a discussão a ultrapassagem da imediaticidade fragmentada dos
teórico-política e técnico-operativa acerca da forma de fenômenos sociais somente é possível por aproximações
cuidar deve considerá-lo no bojo desse determinado e compreensão do objeto do trabalho profissional – as
contexto vital de existência. Agir democraticamente expressões da questão social. O objeto de trabalho em
pressupõe conflitos de interesses, mas torna-se Saúde ainda está muito focalizado no corpo humano,
necessário usar da democracia de uma forma que em suas dimensões objetivas, mas também deve

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compreender as relações históricas. Assim o objeto de NOTAS
trabalho, que compreende as necessidades de saúde de
1 - Esse texto foi escrito a múltiplas mãos. É um convite à luta
uma população, é historicamente determinado. coletiva em defesa da saúde e do exercício profissional na área:

No trabalho do profissional de Serviço Social Amélia Andrade do Nascimento, assistente social, no período da
construção deste conjunto de relatos estava atuante na política
podemos dizer que condições objetivas são, por de saúde mental - mel.andrade116@hotmail.com
exemplo, os limites e possibilidades colocados pela
instituição a qual o profissional está vinculado; o Cristiano Costa de Carvalho, assistente social, professor do curso
local onde se dá sua atuação; os recursos financeiros de Serviço Social do Centro Universitário UNA. Conselheiro do
CRESS-MG responsável pelo acompanhamento da Comissão
e humanos disponíveis para o trabalho, dentre outras. de Saúde e Serviço Social - servicosocialcristiano@yahoo.com.
Já as condições subjetivas dizem respeito à escolhas e br
valores profissionais: sua visão de mundo, seu nível de
qualificação, suas referências teórico-metodológicas, Isabella da Paixão Alves, assistente social, atuante em uma
Unidade Básica de Saúde do Município de Belo Horizonte, no
sua vinculação a um projeto profissional, entre período da construção deste conjunto de relatos estava atuante
outras. Elas são expressas em três dimensões: em uma unidade de alta complexidade - isabella.paixao@
dimensão técnico-operativa; teórico-metodológica hotmail.com
e ético-política. Essas três dimensões influenciam- Jhony Oliveira Zigato, assistente social, no período da
se mutuamente e ao mesmo tempo em todos os construção deste conjunto de relatos estava atuante no programa
momentos da atividade profissional, direcionando o de Residência em Serviço Social no Hospital Universitário da
agir profissional. Universidade Federal de Juiz de Fora - cfgjhony@hotmail.com

Maria da Conceição Cunha, assistente social atuante em Unidade


Essa ação é orientada por uma intencionalidade, onde de Pronto Atendimento (UPA) - conceicao1820@hotmail.com
o assistente social estabelece seu método de ação, o
que chamamos de dimensão teórico-metodológica. Olga Inah-Inarê Aquino Ribeiro, assistente social, no período da
construção deste conjunto de relatos estava atuante no Núcleo
A escolha de uma metodologia de ação diz respeito à de Apoio a Saúde da Família - olguinha22@hotmail.com
teoria pela qual está vinculado, ou seja, os princípios
que fundamentam a direção ético-política determinam Viviane Arcanjo de Oliveira, assistente social, no período da
construção deste conjunto de relatos estava atuante em uma
a dimensão teórico-metodológica que se efetivará no UPA - arcanjoviviane@gmail.com
exercício profissional.

Nesta perspectiva, Alves (2008) destaca que é preciso REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


fazer uma leitura das demandas em sua totalidade,
abordando as bases universais sobre as quais se ALVES, Adriana Amaral Ferreira. Assistência Social: história,
constituem a sociedade capitalista, considerando-a em análise crítica e avaliação. Curitiba: Juruá, 2008.
sua expressão atual, decodificando seus rebatimentos CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Parâmetros
no Brasil e nos contextos particulares das regiões para atuação de assistentes sociais na saúde. Brasília: 2009 (car-
e micro-localidades [...] Nesta direção, é preciso tilha).
conhecer a fundo as particularidades da formação
GUERRA. Yolanda. Instrumentalidade do trabalho do as-
social, política, econômica e cultural destes contextos sistente social. In: Capacitação em Serviço Social e política
onde se situa o fundamento das relações de força, poder social. Módulo 4: O trabalho do assistente social e as políticas
e subordinação que aí se manifestam e que vão incidir sociais. Brasília: CEAD, 2000, p. 51-63.
diretamente sobre os processos de execução das ações
CARDOSO, Priscila Fernanda Gonçalves. Ética e projetos
públicas, em seus desdobramentos mais gerais e em seu profissionais: os diferentes caminhos do Serviço Social no Bra-
impacto nas condições de vida dos sujeitos, seja nos sil. São Paulo, Papel Social, 2013.
aspectos objetivos, como também políticos, sociais,
culturais, morais e ideológicos. Portanto, o cotidiano IAMAMOTO, Marilda Vilella. A questão social no capitalismo.
Revista Temporalis, n. 3, Brasília: ABEPSS, 2001, p. 09-32.
do trabalho do assistente social, aqui entendido como
lócus de produção do conhecimento na perspectiva IAMAMOTO, Marilda Vilella. O Serviço Social na contempo-
crítica, deve propiciar a “dessingularização” dos raneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo, Cortez,
fenômenos sociais para a ultrapassagem de sua 2004.
aparência imediata inicial, aproximando-se da NETTO, José Paulo. A construção do projeto ético - político
totalidade social, mas em um movimento dialético de do serviço social frente à crise contemporânea. Capacitação em
retorno à esfera do singular, como “concreto pensado”, serviço social e política social. Módulo 2: Crise contemporânea,
com todas as suas determinações essenciais. questão social e serviço social. Brasília: CEAD, p. 93 – 110,
1999.

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Espaço Comum Luiz Estrela, centro cultural comunitário para a formação e expressão popular

No dia 26 de outubro de 2013 o Espaço Comum Luiz Estrela abriu suas portas para a comunidade reativando
um prédio público abandonado desde 1994 na rua Manaus, no bairro de Santa Efigênia, Zona Leste de BH.

Vestindo figurinos teatrais, dezenas de agentes culturais e ativistas sociais de diferentes ideologias participaram
de uma instalação artística que culminou com a devolução do prédio à comunidade.

Saiba mais: www.facebook.com/espacoluizestrela

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Fotos de Mídia Ninja
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