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ALGUNS ASPECTOS DO FENÔMENO PROFÉTICO NAS SAGRADAS

ESCRITURAS

José Leonardo dos Santos Leite

Introdução

Nos livros da Bíblia, a prática profética está inserida como elemento importante dentro
da religião de Israel. Os profetas são aqueles que recebem a Palavra de Deus e a transmitem
ao povo, sua atividade não se confunde com a adivinhação do futuro, ou com agouros. Nas
Escrituras quando o profeta fala do futuro, é, sobretudo, para mostrar as consequências das
atitudes presentes, convidando à conversão, ele não influencia a divindade, mas sim obedece a
vontade do Senhor. Neste artigo serão abordados alguns aspectos da profecia bíblica.

1 O fenômeno profético

A profecia integra um conjunto de procedimentos de acesso ao mundo sobrenatural que


ocorreu não somente na religião de Israel, mas em várias religiões desde a antiguidade. Tendo
intuído o papel do mundo espiritual sobre o mundo material, os indivíduos procuraram
comunicar-se com os seres espirituais de modo a informar-se sobre o futuro ou manejar a
divindade em seu favor. Segundo Lima,

Como nas diversas culturas conhecidas desde épocas primordiais, também nas
sociedades antigas do Oriente Próximo é atestada a busca de contato com o
sobrenatural. Procura-se com isto o domínio sobre o desenrolar da vida e dos fatos,
através do conhecimento de acontecimentos futuros, de maneiras de liberar-se de
alguma situação negativa atual ou prevista e da obtenção de orientação sobre o
modo mais adequado de agir para se atingir determinados objetivos. 1

A possibilidade de comunicação com a divindade pode ocorrer por meio de técnicas


determinadas aplicadas com este objetivo, ou ainda por uma comunicação autônoma da
divindade que não depende de técnicas aplicadas pelo ser humano. É nesta caracterização que
podemos distinguir a profecia considerada autentica em Israel, pois esta, na grande maioria
das vezes, ocorre por iniciativa divina sem que haja muitas vezes intenção por parte do
indivíduo que recebeu a mensagem. Segundo Lima:
1
LIMA, Maria de Lourdes Corrêa. Mensageiros de Deus: profetas e profecias no Antigo Israel. Rio de Janeiro:
Ed. PUC-Rio : São Paulo : Ed. Reflexão, 2012, p. 21.
Que o fenômeno profético se caracterize pela comunicação da divindade se
evidencia especialmente nos caos em que esta dirige ao profeta uma palavra sem ter
sido consultada. Comprova-se dessa maneira com maior clareza, não ser a
capacidade do mediador a razão do oráculo, mas sim a comunicação livre do ser
sobrenatural.2

Considerando que a prática profética não ocorria somente nos limites da religião
hebraica, cabe demarcar algumas características desta profecia e evidenciar as ambiguidades
em que a profecia esteve envolvida no contexto da história de Israel.

2 A profecia na Bíblia

O profetismo é um fenômeno típico do Reinado, em cujo período o líder do povo não


era diretamente fiel a Iahweh. Mas também no Exílio, a ação profética foi fundamental no
sentido de manter o povo na fidelidade ao seu Deus e alimentar a esperança de uma
intervenção divina em favor do seu povo. O fenômeno profético foi tão importante para Israel,
que em posteriores edições dos textos bíblicos, aqueles líderes que na história do povo
intermediavam a relação com Deus foram chamados profetas3, mesmo que não se situem no
contexto do profetismo histórico (tempo dos Reis e Exílio).
O temo “profeta” provém do Grego “prophetés”, composto pela raiz do verbo “phemí”
(falar, declarar) e pelo prefixo “pro”, que pode significar: “falar antes” no sentido de prever,
vaticinar; “falar diante de”; ou “falar em lugar ou em nome de”. O termo “prophetés”,
utilizado na Bíblia dos Setenta, equivale à terminologia mais frequente para as figuras
proféticas da Bíblia Hebraica que são representadas pelo termo hebraico nabî’ (profeta), e
também “hozeh” (visionário), “ro’eh” (vidente), e até mesmo “qosem” (adivinho).
No contexto do profetismo em Israel a ação profética está ligada à palavra dita em nome
da divindade. No caso dos autênticos profetas bíblicos, eles recebem a “Palavra” de Iahweh, e
estão a serviço dela, empenhando toda a sua vida em comunicar a palavra recebida de Deus4,
sendo assim a Palavra é ouvida deve ser em seguida proclamada5. Entre os meios pelo qual a

2
Ibidem, p. 13.
3
Por exemplo Moisés (cf. Dt 18,16)
4
Cf. Jr 2,1-3; 20,7-9; 28,12, Ez 3,1-4; 7,1. Exemplo especialmente ilustrativo é o do profeta Oséias, onde sua
vida e a profecia se confundem, tornando-se ele mesmo um sinal de Deus. Este aspecto é tematizado nos três
primeiros capítulos do livro de Oséias.
5
Cf. Ez 3,10.
profecia é revelada estão os sonhos e as visões6, podendo ou não ocorrer em meio a
fenômenos extáticos.
Na Bíblia, o fenômeno profético ocorria em pessoas de situações diversas. Existiam as
corporações ou escolas proféticas7, grupos que estavam dedicados diretamente à profecia, os
profetas da corte, que estavam ligados à corte8 e procuravam relacionar-se com a divindade
para obter vantagens e orientar o reinado, os profetas ligados ao culto9, que estavam ligados à
instituição religiosa e os profetas individuais, chamados diretamente por Deus10.
Em meio a essa diversidade de modos de se exercer a profecia e levando em conta que
ela muitas vezes ocorreu vinculada a interesses políticos ou financeiros, houve um descrédito
da profecia. Inclusive, na Bíblia, ocorre a denúncia dos chamados falsos profetas, que
afirmam falar em nome de Deus, mas que falam em seu próprio nome11. Lima12 destaca
algumas características que a partir dos textos bíblicos, podem indicar a autenticidade da
profecia:

 não se apresentam como defensores do status quo, mas, à luz da doutrina do


Senhor, são críticos do mesmo (cf. Mq 2,11). Não buscam agradar aos ouvintes,
mas falam a partir da mensagem de Deus;
 não se apresentam como seguros de si mesmo, mas sim obedientes à palavra
divina cf. Jr 28,1-17);
 não “vivem” da profecia como sua “profissão” (cf. Mq 3,5; Am 7,12-14);
 são capazes de acusar a falsa segurança dos destinatários nas tradições (cf. Am
7,12-14);
 sua mensagem passa primeiramente através da sua própria vivência da santidade
de Deus e da gravidade daquilo que deve anunciar (cf. Jr 23, 14; Os 1,2-9; 3,1-4).
Sua vida torna-se totalmente tocada e comprometida com a Palavra de Deus (cf. Jr
5,14;20,7-9; Am 3,18).
 profetizam porque foram vocacionados por Deus para esta missão, muitas vezes
contra a própria vontade e tendências naturais (cf. Is 6,1-8; Jr 1,4-10; 15,10-21;
20,7-18).

3 Colocação social dos profetas

Já foi feita anteriormente a caracterização dos tipos de figuras proféticas presentes nas
Sagradas Escrituras. Iremos identificar em quais desses tipos podem ser encontrados os
profetas bíblicos. Sobre os profetas que aparecem em obras narrativas, existem aqueles que

6
Cf. Os 12,11; Mq 3,6; Hab 1,1; Is 1,1; Am 7,1,4-7.
7
1 Sm 10,5-10; 19,20.
8
Cf 1Rs 22,1-28; 2Sm 7,1-14; 12,25.
9
Cf. Am 7,12-13.
10
Cf. Os 1,2; Is 6,1-8; Ez 1,1-3.
11
Cf. Ez 9,23; 13, 2-7;
12
LIMA, Op. cit, p. 18.
provavelmente participaram de corporações proféticas, como Elias, Eliseu e Samuel, alguns
dentre eles são profetas da corte como, por exemplo, Natã.
Já os profetas escritores, assim chamados por haverem livros em seu nome no conjunto
das Escrituras, são em geral profetas individuais, ou seja, não participavam de escolas
proféticas, e não tinham, portanto, a profecia como profissão. Após rigorosa análise, Lima
observa acerca dos profetas escritores, corroborando com a ideia de que estes eram profetas
individuais o fato de que eles são chamados só poucas vezes de videntes ou visionários, e só
em atualizações posteriores são chamados de profetas. Lima conclui que:

Os profetas escritores das Sagradas Escrituras com raríssimas exceções, não


pertenceram a uma instituição profética, mas foram personagens individualmente
chamados por Deus e por ele enviados. (...) Por não terem sido membros de uma
corporação, não foram inicialmente denominados “nabi” (profeta), só em tempos
tardios receberam tal denominação que substitui as mais antigas: vidente e
visionário.13

Conclusão

Diante do que foi desenvolvido, observa-se que o fenômeno profético ocorre em meio a
ambiguidades, o que se demonstra, por exemplo, pelo uso de diversos termos para se designar
as figuras proféticas. Os profetas bíblicos muitas vezes rejeitaram essas designações, pelo fato
de que a profecia confundia-se com uma série de práticas adivinhatórias ou foi realizada com
finalidades nem sempre condizentes com o projeto de Deus.
Não obstante, a profecia acabou por se constituir num elemento fundamental da religião
de Israel, por haver incentivado a obediência à aliança e nutrir a expectativa da justiça final de
Deus sobre as nações, o que teve um reflexo direto sobre o surgimento do próprio
Cristianismo.

Referências

LIMA, Maria de Lourdes Corrêa. Mensageiros de Deus: profetas e profecias no Antigo Israel. Rio de
Janeiro: Ed. PUC-Rio : São Paulo : Ed. Reflexão, 2012, p. 21.

Bíblia de Jerusalém. Paulus, 2008.

13
Ibidem, p. 87.