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CONSELHO CIENTÍFICO

Alzira Alves de Abreu (FGV)


Carlos Franciscato (UFS)
Claudia Nonato (FiamFaam)
Danilo Rothberg (Unesp)
Elaide Martins (UFPA)
Fabiana Piccinin (Unisc)
Fernando Resende (UFF)
Francisco de Assis (FiamFaam)
Marcos Paulo da Silva (UFMS)
Marluce Zacariotti (UFT)
Raquel Longhi (UFSC)
Sonia Virgínia Moreira (UERJ)
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO
NA PUBLICAÇÃO (CIP) DE ACORDO COM ISBD

D598
Direitos humanos e a pesquisa em jornalismo / organizado
por Monica Martinez, Claudia Lago, Laura Storch. – São José
do Rio Preto, SP: Balão Editorial, 2018.
196 p.; 16cm x 23cm.     

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-63223-62-3

1. Jornalismo. 2. Direitos humanos. I. Martinez, Monica.


II. Lago, Claudia. III. Storch, Laura. IV. Título.

CDD 070
2018-1657 CDU 070

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva – CRB-8/9410

Índice para catálogo sistemático:


1. Jornalismo 070
2. Jornalismo 070
SUMÁRIO

apresentação monica martinez, claudia lago e laura storch 5

PRÉ-CONFERÊNCIA: I Brazil-India Journalism Research


Colloquium: Rethinking Journalism on a Global South Perspective
audiovisual policy in brazil and in india: approximations,
distances and possibilities césar bolaño, paulo victor melo 11

status and trends of journalism education in india


nagamallika gudipaty 28

VII JPJOR
jornalismo e direitos humanos: reflexões preliminares
para um programa de pesquisa em legislação e ética
do jornalismo vitor blotta 41

DEBATES E CONFERÊNCIAS:
journalism as if the people mattered jyotika ramaprasad 57

narrativas necessárias: novos formatos de jornalismo


contra-hegemônico raquel paiva 68

“coisas de preta”: relato de pesquisa rosângela malachias 83

PRÊMIO ADELMO GENRO FILHO DA PESQUISA EM JORNALISMO


a pesquisa em jornalismo no brasil, uma atividade
em evolução elizabeth saad 105

no afã de reportar a saga coletiva cremilda medina 109


as implicações políticas do testemunho midiático:
breve trajetória conceitual leandro r. lage 121

relevância jornalística: desenvolvimentos iniciais


liliane do nascimento santos feitoza 139

do mito à autocensura: a heteronormatividade e a identidade


do jornalista gay josé ilton porto e sara feitosa 154

REDES DE PESQUISA
rede jortec: dez anos na construção de uma cultura
colaborativa na pesquisa sobre jornalismo e tecnologias
digitais conectadas rodrigo eduardo botelho-francisco
e walter teixeira lima junior 169

jornalismo e accountability no brasil: avaliação experimental


da qualidade editorial em 24 jornais brasileiros
fernando paulino, gilson porto, josenildo guerra, liziane guazina,
marcos santuario, álisson coelho, bibiana garrido, ébida santos,
josafá neto, lucas santana, poliana macedo e sinomar soares 174

telejornalismo: ensino e pesquisa cárlida emerim e cristiane finger 178


renami, uma narrativa que nasceu, cresceu e se fez rede
demétrio de azeredo soster, fabiana piccinin, marta maia,
monica martinez 182
APRESENTAÇÃO
Monica Martinez
Cláudia Lago
Laura Storch

Em 2017, os Direitos Humanos foram tema central dos debates do 15o En-
contro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, evento anual promovido pela
Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo. A justificativa social para o
exercício do Jornalismo tem relações essenciais com a noção de Direitos Humanos,
uma vez que seus compromissos normativos devem estar associados à promoção
da diversidade e da pluralidade. Sem a aceitação das diferenças – de opinião, credo,
gênero, raça/etnia, culturas, entre outros – não é possível a disseminação de valores
universais que reconhecemos como “humanos”. E o Jornalismo tem uma função
relevante na construção de espaços de debate coletivo sobre a diversidade.
Quanto aos estudos sobre Jornalismo, também nos colocamos frente ao
debate necessário da promoção da diversidade, e nos questionamos: como o Jor-
nalismo tem atuado quanto à representação da diversidade, em toda a sua ampli-
tude? Como o Jornalismo tem atuado, desde sua missão de promover pluralida-
de, inserindo em especial as demandas das camadas excluídas da população? A
discussão sobre pluralidade também encerra o ponto relevante sobre a qualidade
da informação, visto que Jornalismo de qualidade é aquele capaz de efetivamen-
te promover a pluralidade, dar a ver as diferenças. A partir dos desafios que as
novas tecnologias de comunicação e informação colocam ao cotidiano exercício
do Jornalismo, nos perguntamos ainda sobre os espaços de atuação das mídias
tradicionais e, em especial, das novas mídias na reconfiguração de uma arena
social de debates que exalte a diversidade como fundamental.
O livro que você tem em mãos reúne esforços da SBPJor no sentido de am-
pliar a visibilidade e os debates acadêmicos sobre temas sensíveis, como aqueles de-
correntes da relação entre Jornalismo e Direitos Humanos. Em sua segunda edição,
buscamos consolidar uma demanda por acesso e popularização das discussões que
ocorrem durante o Congresso anual e em todas as atividades paralelas ao evento.

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Essa iniciativa nos permite destacar diferentes perspectivas sobre o estudo
acerca das relações entre Direitos Humanos e Jornalismo, registrando a grande-
za dos debates que ocorreram durante o Congresso. Um exemplo é o trabalho
da pesquisadora indiana Jyotika Ramaprasad, convidada para a Conferência de
Abertura do Congresso. “Journalism as if the People Mattered” é um título e um
compromisso: para Ramaprasad precisamos discutir sobre uma imprensa não
apenas livre mas responsável. Precisamos discutir um jornalismo comprome-
tido com a mudança social. Em sua conferência, a pesquisadora traçou linhas
claras de existência e resistência deste jornalismo, em pesquisas e práticas sobre
os rótulos de jornalismo público, jornalismo para a paz, jornalismo comunitário,
entre outros. São exemplos de um jornalismo comprometido com a promoção
de direitos humanos. São exemplos de um jornalismo de transformação, em que
o campo profissional se torna espaço e instrumento de mudança, em busca do
desenvolvimento de sociedades democráticas.
Além de Ramaprasad, outro convidado foi o professor e pesquisador bra-
sileiro Vitor Blotta, da USP. Ele foi o conferencista de abertura dos trabalhos do
Encontro Nacional de Jovens Pesquisadores em Jornalismo (JPJor), evento que
reúne estudantes de Comunicação inseridos em investigações de iniciação cien-
tífica. Com a próxima geração de pesquisadores, Blotta discutiu a necessidade
do desenvolvimento de pesquisas que reconheçam a ética como promotora dos
direitos humanos na profissão. O texto presente neste livro organiza parte dos
debates de 2017, a partir do título: “Jornalismo e direitos humanos: reflexões
preliminares para um programa de pesquisa em legislação e ética do jornalismo”.
Na leitura de Blotta, é necessário produzir pesquisas considerando aspectos da
teoria e da prática, visto que dentre as características do Jornalismo como obje-
to de investigação estão as demandas normativas que vem da própria realidade
social. Esse vínculo fundamental entre teoria e prática está situado no reconhe-
cimento de uma matriz normativa que organiza a profissão, ao mesmo tempo
em que direciona as pesquisas sobre o campo. Nas palavras do autor: “[...] pensar
o lugar dos direitos humanos no jornalismo é pensar em que medida praticar
um jornalismo ético implica realizar direitos humanos, tanto aqueles ligados ao
campo da comunicação quanto outras expressões de identidades e demandas

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na esfera pública, facilitando interações baseadas no reconhecimento recíproco
entre indivíduos e coletividades”.
Da mesma forma, outro espaço do Congresso discutiu detidamente os Di-
reitos Humanos. Uma mesa-redonda reuniu pesquisadores como Raquel Paiva e
Rosângela Malaquias. Paiva apontou para a discussão das “Narrativas necessárias:
novos formatos de jornalismo contra-hegemônico”, em que discute a emergên-
cia das redes sociais digitais como privilegiado meio de acesso à informação e
de contato entre as pessoas. Essa reconfiguração dos espaços coletivos implica,
entretanto, em um reposicionamento de reflexões sobre o jornalismo nas suas
relações com as noções de pluralidade e democracia. Paiva lembra que “[…] há
democracias e democracias. Há jornalismos e jornalismos. E estas duas forças
podem estar relacionadas na medida em que sua população-alvo, seu conjunto de
leitores estejam capacitados para a interpretação, para análise e para a reivindi-
cação de seus lugares na coletividade”. O tensionamento desta premissa é que per-
mite a autora investigar propostas de jornalismo alternativo e suas “assimilações”
pelo jornalismo empresarial, buscando propor a reflexão de que novas narrativas
contra-hegemônicas são necessárias. De outro lugar, Rosângela Malachias assina
o texto “‘Coisas de Preta’: relato de pesquisa” em que a autora narra os caminhos
de construção de seu projeto de pós-doutoramento “Comunicação e Educação.
(Re)Conhecimento de uma Epistemologia Afrobrasileira (1900-2013)”. O projeto
tinha como objetivo “[...] aferir se e como, o pensamento e ou prática desenvolvi-
dos por intelectuais negros/as, invisibilizados pela academia, destoa, inova, com-
plementa e/ou equivale ao que formulado por pensadores/as brancos(as), interes-
sados(as) e dedicados(as) à pesquisa comunicacional no Brasil e América Latina”.
O registro desses debates é um compromisso, que a SBPJor reforça com
esta publicação, de contribuir com o desenvolvimento do pensamento e das prá-
ticas científicas a partir do campo de estudos do Jornalismo. Além disso, conti-
nuamos investindo – como já fazemos há mais tempo com a publicação da revis-
ta Brasilian Journalism Research – em aproximar os pesquisadores brasileiros de
debates e pesquisas internacionais. Nosso esforço é no sentido de dar visibilidade
internacional às pesquisas produzidas aqui, e fazer circular em nossos espaços
acadêmicos as variedades da pesquisa internacional.

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É nesse sentido que construímos o espaço do I Brazil-India Journalism
Research Colloquium: Rethinking Journalism on a Global South Perspective,
elaborado como uma pré-conferência do Encontro Nacional de Pesquisadores
em Jornalismo de 2017. No formato de colóquio, o evento buscou promover as
relações de pesquisa entre investigadores brasileiros e indianos, debatendo as
proximidades e desafios da investigação científica em cada país e os temas de
interesse comum. Brasil e Índia são comunidades distintas, e são comunidades
semelhantes. Compartilham particularidades e desafios. Ambas tem produzido
jornalismo e pesquisa de qualidade. O I Brazil-India se estabeleceu como am-
biente de aproximações, na busca por soluções que pudessem contribuir com
profissionais, docentes e pesquisadores dos dois países.
Por opção editorial – considerada a característica de internacionalização
do Colóquio, e conservadas as dinâmicas adotadas nos dias do evento –, os tex-
tos nesta sessão estão publicados em inglês. Os trabalhos aqui editados represen-
tam a riqueza dos debates produzidos naquela ocasião.
O primeiro trabalho é assinado pelos pesquisadores César Bolaño e Pau-
lo Victor Melo. “Audiovisual Policy in Brazil and in India: approximations, dis-
tances, and possibilities” discute as políticas de comunicação nos dois países,
partindo do pressuposto de que não é possível que se compreendam identidades
culturais sem que se considere que os processos de produção e distribuição de
bens simbólicos são conduzidos em estruturas de mercado marcadas pela con-
centração oligopolista. A análise empreendida permite aos autores defenderem
que as vantagens das opções indianas, que preservam importantes níveis de au-
tonomia cultural e favorecem a maior diversidade e competitividade ao país, em
comparação ao modelo brasileiro.
Outra contribuição relevante para o debate vem da investigação desen-
volvida pela pesquisadora indiana Nagamallika Gudipaty. O texto “Status and
trends of Journalism Education in India” aponta para os desafios da formação
profissional de jornalistas na India independente. Gudipaty lembra que a mídia é
um instituição com ampla influência social no contemporâneo, de modo que os
educadores na área de Comunicação precisam se manter relevantes. Mais do que
se atualizar em questões técnicas, o ensino em Comunicação depende de uma

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compreensão holística – que reconheça a complexidade do campo, ao mesmo
tempo visto como arte e como ciência.
Outros dois grupos de textos encerram a estrutura deste livro: os relatos das
pesquisas produzidas no contexto das Redes de Pesquisa da SBPJor e a sistema-
tização dos trabalhos que receberam o Prêmio Adelmo Genro Filho da Pesquisa
em Jornalismo em 2017. No caso dos pesquisadores premiados, a reunião de
trabalhos encerra uma visão sobre o vigor do campo de pesquisa em Jornalismo
no Brasil. Nosso reconhecimento às pesquisas vencedoras também é um forma
de nosso compromisso de visibilidade: a excelência da pesquisa em Jornalismo é
reconhecida e compartilhada a partir da iniciativa da SBPJor. Quem discute no
livro essa efervescência da pesquisa é a professora Elizabeth Saad, coordenadora
do PAGF 2017. Integram essa vitrine pesquisadores como Leandro Rodrigues
Lage, premiado pelo PAGF pela melhor tese em Jornalismo: “Testemunhos do
sofrimento nas narrativas telejornalísticas: corpos abjetos, falas inaudíveis e as
(in)justas medidas do comum”. Também a pesquisadora Liliane Nascimento Fei-
toza, autora do trabalho “Relevância jornalística: análise e teste de ferramenta
para fins de avaliação de qualidade e accountability”, que foi premiado como a
melhor dissertação em Jornalismo. E o autor do melhor trabalho de iniciação
científica, José Ilton Porto, que escreveu “Põe a cara no sol, mona: a heteronor-
matividade no exercício da profissão do jornalista gay”.
Outro prêmio relevante associado ao PAGF é aquele em que a SBPJor reco-
nhece a trajetória e as contribuições de pesquisadores ao campo do Jornalismo.
Em 2017 esse reconhecimento foi concedido à professora Cremilda Medina, que
registra suas experiências no texto “No afã de reportar a saga coletiva”. Ela diz:
“Não sei atuar, seja na academia como pesquisadora ou educadora, seja na socie-
dade como jornalista, se não me reportar ao Outro e a sua circunstância”.
E, para finalizar o volume, as Redes de Pesquisa fazem uso do espaço para
apresentar publicamente suas contribuições ao empreendimento científico leva-
do a cabo pela SBPJor. Coletivo e constante.
Boa Leitura!

Monica Martinez, Cláudia Lago e Laura Storch (organizadoras)

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PRÉ-CONFERÊNCIA:

I Brazil-India Journalism Research


Colloquium: Rethinking Journalism
on a Global South Perspective
AUDIOVISUAL POLICY IN BRAZIL AND IN INDIA:
APPROXIMATIONS, DISTANCES AND POSSIBILITIES

César Bolaño1
Paulo Victor Melo2

1. Introduction
In an article published in 2012 in Cadernos do Desenvolvimento, Suranjit
Saha presents a competent synthesis of the situation and current perspectives of
economic and commercial relations between Brazil and India. These countries
participate in different international alliances – IBAS, BRICS, the called G20
emerging power group of countries, BASIC – aimed at presenting, as Lyal White
affirms when specifically referring to IBAS, novedosas alternativas de desarrollo
y reforma económicos. He suggests alternatives to the currently accepted eco-
nomic orthodoxy by discrediting some of the approaches to the development
proposed by the credit agencies and Northern countries to the developing world”
(WHITE, 2007, p. 127-128).
Sahas dedicated part of his article to support the importance of culture as
a mass agent in order to create a special relation (SAHA, 2012, p. 162). There-
fore, in the introduction of the article, he highlights that construction blocks do
not form a structure themselves. An architect and a constructor are needed…
This is the role of political leadership and of economic strategists” (idem). And
he goes on:

It is also a task for both intellectual and cultural leadership, aiming at helping both
communities mental maps’ reconfiguration, so that each one sees the other as a
concrete social reality capable of an inter-relationship, and not only as exotic and

1. César Bolaño, professor at Communication Postgraduate Education Program and the Eco-
nomy Postgraduate Education Program of the Federal University of Sergipe (UFS). Coordinator
of the Economy and Communication Observatory of UFS. E-mail: bolaño.ufs@gmail.com.
2. Paulo Victor Melo, Phd student in Communication. Researcher of the Economy and Commu-
nication Observatory Federal University of Sergipe (UFS). E-mail: paulovictorufs@gmail.com.

11
folkloric entities formed by snakes, shamans, mystic saints and samba school char-
acters (SAHA, 2012, p. 163).

The “cultural issue” (SAHA, 2012, p. 190-191) item, however, where the
problem should be treated, is clearly insufficient. The author emphasizes Globo’s
Caminho das Índias telenovela as an example to be followed. He also cites a song
by the Brazilian musician Raul Seixas, the author Paulo Coelho, and the “Brazil-
ian soccer players” which are “public and notorious” today in India. That is all
about exoticism, mysticism, and folklore.
The intention of this essay is to problematize only one aspect of Saha’s ar-
ticle by means of a comparative analysis between structures of communication
systems, especially TV, in the two countries. We agree nevertheless with the im-
portance of placing the cultural issue in the center of the debate about develop-
ment and of creating bonds between people from Brazil and India – in a sense
of a citizen diplomacy instead of a public one (DERGHOUGASSIAN, 2007). It
is not possible to understand cultural identities regardless of the fact that the
production and distribution of symbolic goods are performed in highly concen-
trated oligopolistic market structures.
Since the 1980s, the economy of cultural and communication industries
experiences a fundamental transition, which is determined by the structural cri-
ses of capitalism initiated in the 1970s. When facing current challenges, India
and Brazil presented quite different economic paths as well as cultural and com-
munication industries development trajectories. Whilst Indian state TV system
ended up guarantying an important systemic competitiveness and cultural re-
sistance before the arrival of cultural hegemonic industries to the country, the
Latin-American option generated “giants with mud feet”, such as Rede Globo,
which are dependent of State’s favors and obligated alliances with foreign capital.
However, Indian neoliberal political insertion in the 1990s lead to a com-
modification of culture and to processes of capital concentration in the sector
that make their development pattern of cultural industries much more similar
to those known in Brazil and in other Latin American countries. Although in
different forms, the expansion of international capital and culture – from North

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America especially – influences in both cases consumption habits, behavior pat-
terns, values, and corroborates, at last, with the tendency of capitalist material
and spiritual culture global unification, discussed by Furtado (1967; 1974).
The regulation model (in the broad sense of the French school of regula-
tion) of the golden age of capitalism (1945-1975) was characterized, in a world-
wide level, by an important stability of market structures and hegemonic actors
involved, especially in what concerns this essay, in telecommunication and tele-
vision business, the latter is regarded as the core of a whole cultural industry,
which evolved notably since the advent of mass media whose roots date to transi-
tion from the 19th to the 20th century. Since then, it presented an ascendant tra-
jectory, witnessing the emergence of new industries, such as sound films, color
movies, radio, TV, color TV, vinyl, compact cassette, VHS, and a wide variety of
entertainment, culture, and leisure products that profoundly has been recurrent-
ly altering the way of life worldwide.
Either in radio fusion and in telecommunications, inhibited by the fre-
quency spectrum limitation or by the natural monopoly character of cable net-
work, we can cite two paradigms, an American and a European, but it was, and
especially in telecommunications, of complementary systems that used to pre-
serve, in essence, the national states’ and national industry’s regulatory power.
Thus, the existence in all cultural industries of a global oligopoly dominated by
the North American majors, in the film and phonographic industry, did not di-
minish the power of national monopolists or oligopolistic companies (state com-
panies) both from television and radio.
For telecommunications, this model’s breakdown takes place with the frag-
mentation of AT&T’s monopoly in the United States, which then starts to push
for the sector’s liberalization worldwide, according to its strategy for the recovery
of industrial hegemony, which was strongly questioned in the 70s by the leading
sectors of the expanding post-war period.
There are two paradigms that can be attributed to both radio and televi-
sion (broadcast): the American and the European. Indeed, these are two different
solutions used to preserve, all in all, the national states’ and national industry’s
regulatory power. In both cases, the number of competitors is limited by either

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the frequency spectrum or by the natural monopoly characteristic of cable net-
work TV. Thus, despite the existence in every cultural industry of a global oli-
gopoly dominated by the North American majors in the film (and phonograph-
ic) industry did not diminish the power of national monopoly or oligopolistic
companies.
The ongoing productive restructuring process is the key to clarify what
happens in sectors such as telecommunications, computing and content produc-
tion, in which the North American industry shows unquestionable advantages
(the same is true for biotechnologies and other cutting-edge technology sectors
of the third industrial revolution).
As for telecommunications, this model’s breakdown happened with the
fragmentation of AT&T’s monopoly in the United States, which then starts to
push for the sector’s liberalization worldwide. This happened according to its
strategy for recovery of industrial hegemony, which was strongly questioned in
the 1970s in the leading sectors of the expanding post-war period. Consequently,
telecommunication systems around the world had to adapt to this North Amer-
ican strategic move.
In the case of broadcasting, it is true that, in Europe, public television has
been suffering high pressure for reform, both from political groups that ask for
more democracy and participation and from business when important techno-
logical changes evidenced it as an increasingly promising area to market opera-
tion. But the true change in the system effectively took place – also here – with
the USA’s strategic decision, that broke the previous balance, with different kinds
of impacts on the other countries.
Since the privatization of the internet in 1995, there has been a boom in the
number of actors in the cultural and communication industries, which is due to
the entrance of small firms in different areas, but also to new oligopoly capital,
originated from powerful sectors, like telecommunications. This is in accordance
with the financial logic and the promises brought up by technical changes. On
the other hand, essentially after the technology companies’ crisis in 2000, a mas-
sive concentration in the market for internet pure players occurred, which leads
to the present situation: A handful of major players like Microsoft, Google, and

14
Facebook constitute the highly concentrated core of a global oligopoly, which is
responsible for a notable change in the system of content production and distri-
bution. This represents a crucial challenge to the existing TV national monopo-
lies and oligopolies (BOLAÑO, 2012).
The fact of the matter is that the market parameters change quickly as a
consequence of digitalization and technological convergence, and this makes
the positions conquered in the past decades contestable. In each country, the
reaction of the incumbent enterprises and the regulatory system to such chal-
lenge evidences much of their development strategies, their levels of cultural
dependency (or autonomy), and the perspectives for the insertion in the capi-
talist globalization.

2. Public TV, cultural autonomy, and systemic competitiveness


The idea of education for the development is in the roots of Indian tele-
vision’s (late) emergence in 1959. It was related to an experimental educative
project of UNESCO, which was initially restricted to New Delhi and extended
later on in the 1960s and 1970s. In 1965 a regular public TV system was estab-
lished and, in 1976, the public body Doordarshan was created (separated from
the radio body, All India Radio – AIR), and held the monopoly until 1990. It was
centered in a perspective of public service and education for the development,
with rare incursions in the entertainment field, dominated by the popular and
rich cinema business, whose star system was constituted in the 1920s and 1930s,
when the first major studios were built in the country.
By the way, an important element to compare Indian and Latin American
TV is the relation, in the former, with a powerful and popular cinematographic
industry. This comes as a consequence of a certain division of labor in content
production. In a society strongly lead by the image, the TV focuses on popular
education following the development projects of the successive national govern-
ments, which are concerned with the cultural unification of a multi-linguistic
and multi-ethnic country. From the perspective of the entertainment, cinema
leads to the same unity by exploring the rich traditional iconography to con-
stitute a powerful industry and star system which, at a global level, can only be

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compared with Hollywood. The increasing success of Indian public TV, from the
1980s and especially 1990s, was based on the integration of these two industries.
Differently, the Latin American countries could never stabilize a national
cinema industry of this size. Brazilian television, for example, which is commonly
taken as a successful model in the panorama of Latin American TV industry, owes
its success to concentration and centralization of capital in the television market
and, in its interior, in one particular company. Therefore, the very systemic com-
petitiveness of the country is reduced while the decisions concerning communi-
cation policies (not to mention the interferences in national politics) are always
defined based on the hegemonic company’s individual interests. This company
can be taken as a kind of “national champion” in the sector internationally. This is
clearly a legacy of the conservative modernization of the military regime strategy.
As Valente (2009) demonstrates, Brazilian public television has been con-
stituted in a marginal complementary condition, given the secondary role played
by the different public television experiences in the development of the Brazilian
TV market. In the structure of the television sectorial mode of regulation as a
whole, this complementary condition has been a permanent feature until now.
Although national public television projects exist since the Military Dictatorship
(1964-1984), the Brazilian State’s option in communication public policies has
been to favor the private sector, responsible for 90% of the audience, 92% of TV
broadcast companies property, and over 94% of the Federal Government media
budget, according to the Communication Secretary of the Presidency (SECOM).
In India, differently, state public television has been considered an instru-
ment of a consistent development policy since Nehru, influenced, it must be
said, not only by Soviet socialism, as Camille Deprez insists, but also by the old
ECLAC paradigm of industrialization by import substitution and, in what con-
cerns this essay, by educational and communication theories, developed initially
in Brazil and Latin America, with high influence in international forums, spe-
cially UNESCO in the 1970s. Even the 1975 agreement with NASA, to launch an
experimental television satellite, which makes the country a pioneer in the use
of satellites for this purpose, does not alter this general perspective, as the U.S.
policy of rapprochement by Indira Gandhi does not alter the autonomy of this

16
country – which was a leader of the non-aligned movement – concerning foreign
and economic development’s policy.
From this last point of view, it is known that India, in the 1980s, deepens
the economic planning towards the autonomous development of information
technologies that would later make the country internationally competitive on
the field. Nowadays, in the international media, India is considered the stron-
gest case of economic success after China, having advantages against this one
in the ICT area. Added to this performing computer industry, the fact that it is
the largest film producer in the world shows the important level of the country’s
insertion perspectives in the so-called “knowledge economy”, despite its serious
demographic issue and endemic misery, still present.

In the television market, the panorama starts to change in the country, first with
the public TV entrance in entertainment production, with the creation of a second
state channel (Metro) in 1984, which increases the attractiveness for advertisement
(authorized in television at the end of the 1970s), mainly after the advent of color
TV in 1982. The liberalization policy of the 1990s – which will again be mentioned
in the next topic – does not take the public TV’s place as protagonist, but extends
the offer, based on an extremely permissive legislation in relation to foreign capital
insertion in cable and satellite networks (Cable Television Regulation Act, also
from 1995, as the Brazilian Cable Law).

The result is an extremely diverse panorama, articulating large internation-


al resources with local networks of different sizes, block networks, broadcasting
in different local languages (besides English, Hindi and the so-called Hinglish)
an explosion of community TVs, at last, a diversified offer of all kinds. We will
see further that this panorama is likely to change with a strong tendency towards
concentration. Anyway, public TV also reacts and expands its offer, and today it
has more than 20 regional channels, segmented channels and an international
service that disputes the audience in the neighboring countries with the private
sector.. Since 2004, it even offers free DTH as a way of universal access. All this,
while maintaining a monopoly on terrestrial television.

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Two phenomena are fundamental to this evolution. On the one hand is
the power of the local culture, which ends up producing a particular techno-aes-
thetic model in the different television production areas, certainly from their
relations with national cinema industry, which, besides ensuring an important
“cultural resistance” against foreign production, specially the American, gives
them international competitiveness, despite advantages of precedence of other
more traditional areas in the television production, such as USA, Brazil or Mex-
ico. On the other hand, developmental local strategy, unlike Latin America in
the 1960s and 1970s ensured a degree of autonomy in economic policy which
allowed the liberalization of the 1990s to happen, as in China, in a controlled way
and in an environment characterized by increasing consumption of an emerging
urban middle class, the basis for any sustainable capitalist development project.
Thus, while increasing its systemic competitiveness in television produc-
tion, India unifies and extends its internal consumption market and offers a di-
verse and rich television panorama to its population, strongly based on local
culture, following the country’s success in the global economy, with a privileged
insertion in the called knowledge economy, given by its major software industry,
which is the result of a consistent and long-term state planning, not to mention
the cinematography production.
In these conditions, the large social consensus on maintaining state public
system in mass television – coexisting (and competing in good conditions) with
national and international private capital, community TV, local and neighbor-
hood TV, to mention some in the segmented TV area, but strictly accomplishing
its obligations towards public service, related to education for development –
that does not surprise.

3. Neoliberalism, privatization, and concentration


In Latin America things have happened in a different game. At the end of
the industrialization processes through import substitution, in the first half of
the 20th century, almost all of them failed, except Mexico, and above all Brazil,
that assembled a diverse industry, including automotive industry and an almost
fully developed base sector (that would be complete in the late 1970s with the

18
establishment of the petrochemical industry and the reorganization telecom-
munications). Nevertheless, even in this case, the serious social problems that
define the underdevelopment have not been solved. On the contrary, it has been
increased due to the concentration of income and, when industrialization was
(relatively) successful, it happened according to the standards of the second in-
dustrial revolution, while the developed world was moving fast to the third one.
The 30 years of enormous developmental effort, for example, in the case
of Brazil, resulted in a deep structural crisis. Unlike the base reforms aimed
at expanding the domestic market and to promote a sustained process of de-
velopment, the militaries, which came to power in 1964, had adopted a highly
irresponsible policy of external debt and wage squeeze, following the national
security doctrine, the basis of authoritarian modernization. Throughout Latin
America, in fact, the military cycle in the 1960s and 1970s submitted the national
policy of development to the hegemonic interests of USA and to the trap of ex-
ternal debt that would eventually launch the subcontinent into an overwhelming
crisis in the 1980s.
Democratization took place parallel to the negotiations with the IMF and
to the deterioration of the social structure, which will bring problems of legiti-
macy of the democratic rule of law, in a much more difficult situation, with an
increasing social exclusion and all of its consequences, external debt, hyperin-
flation and a new and fundamental technological gap. Regarding the commu-
nication sectors, the neoliberal period brought a deep global restructuring of
telecommunications which, in Latin America as in others indebted countries of
the so-called third world, shaped in an extended privatization process with the
only honorable exception of Uruguay, and transfer, except in the case of Mexico,
all the sector to the foreign capital.
In the case of Brazil, the inflow of foreign capital to telecommunications
represented a challenge for the national companies in the audiovisual area,
which accepted, without any questions, the condition of minor partners in the
new global arrangement. Thus, our “national champion” had, as a result of its
strategic mistakes and of its own flawed option of government related to the tele-
communication privatization, to face powerful potential foreign competition

19
such as Televisa or Telefónica, which sought allies in others potential entrants,
such as Telmex, which also ended up taking an important position in telephony
in the country.
If the option of the country by the Japanese digital television standard,
in 2006, demonstrates the power of Globo in the local market, its phenomenal
political influence, its impressive barriers to new competition, hindering the ad-
vance of potential competitors like telecommunication companies interested in
production and content transmission, the enactment of Law No. 12.485/2011
shows that this situation has been overcome in a short period and that an agree-
ment between the hegemonic actors from both sectors was achieved with the
start of service operation to the telecom companies, previously sealed by Cable
Law and the Telecommunications Act.
In India, the restructuring of telecommunications was less dramatic. Until
1984, the system was being organized, in a similar way to the European reg-
ulatory system, under the monopoly of the department of post and telegraph
(PTT) of the Ministry of Communication, when it was decided for the creation
of an autonomous body for the development of telecommunications equipment,
the Centre for Development of Telematics (C-Dot). Few significant changes oc-
curred, however, until the neoliberal yaw started in 1991. In fact, only in 2001
liberalization reaches deeply the sector, whereby Manjunath Pendakur considers
two critical changes.

Private entities were encouraged to provide wireless phone service and foreign
direct investment was invited to these new markets. These changes led to expo-
nential growth of the wireless telephone service in the country and the entrance of
conglomerates into this high growth sector (PENDAKUR, 2013, p. 7).

The option is much more controlled than pure privatization and denation-
alization of the sector that has occurred in Brazil and in others Latin America
countries. The goal, in the logic of India’s neoliberal policy, was to attract direct
foreign investment, preserving, however, the initiative of the State and the extent
of the national capital as possible.

20
Opening up the telecommunication sector to foreign direct investment (FDI)
meant that global corporations found easy entry to this Market... In 2004-5; the
Central Government raised the FDI limit from 49% to 74%, subject to retention of
local management control. The government also permitted 100% FDI in telecom
manufacturing, infrastructure providers, Internet Service Providers; call centers
net IT-enabled services (PENDAKUR, p. 9-10).

The solution seems to have been quite favorable to the Indian companies
that “set up partnerships with international capitalists and, in some instances,
expanded into the foreign markets” (idem, p. 10). When it comes to Brazil, the
country presents positive indicators with regard to the expansion of mobile te-
lephony.
On the other hand, in contrast with what occurred in Brazil, the solution
seems to be ensuring the competitive insertion of the country and its companies
in the global telecommunications market.

It is possible that in the near future, telecom in India, just as in the US, will turn
into an oligopoly whereby a handful of firms would compete with each other to
sell their services. Bharti Airtel announced rate increases and a few others followed
fairly predictable results from the process of consolidation (PENDAKUR, p. 15).

What was not solved, according to the author, were the social problems –
chronic poverty and illiteracy – reflected in the indices of telephone density or
limited expansion of broadband access. Without a comparative analysis of data
presented by the author about this subject – that would be very interesting in a
more systematic analysis –, it is worth mentioning the following conclusion:

This is a revealing statement from the government that most people are too poor to
buy a basic computer and reliable supply of electricity is still a dream. Public Call-
ing Offices and STD/ISD shops are still needed in rural areas where [...] telephone
penetration rates are abysmally low. Internet Cafe’s have emerged in small towns
with populations of 10,000 and above. They are primarily Family-owned, mom

21
and pop kinds of store. While they provide much-needed employment opportu-
nities to the youth in the country, most people lack English writing skills and are
hesitant to use the Net (PENDAKUR, p. 12).

Regarding the television market, Pendukar criticizes the introduction of


advertising logic and the evolution described above, since the introduction of
the Cable TV: “the whole Project to educate and enlighten the masses with this
powerful instrument was abandoned to provide round-the-clock amusement”
(PENDAKUR, p. 22). Nevertheless,

from a modest four-channel universe in 1984, India became the world’s third-larg-
est TV Market in the world after China and the USA in 25 years. By 2010, con-
sumers could choose from 649 television channels of which 155 are pay channels.
Doordarshan covers 92% of the population through its network of 1415 terrestrial
transmitters while commercial television channels are delivered via satellites and
cable networks. In 2010-11, India recorded 143 million TV households, which
amounted to 61% penetration. The market size of India’s TV industry registered a
15% growth between 2009 and 2010 (PENDAKUR, p. 23).

We have seen above what occurs with the Indian TV after the entrance of
the satellite’s system and the relations between the global oligopoly of targeted
TV and local TV systems. We insist on the aspect favored by Camille Deprez: the
power of the local culture in the definition of production standards. Pendakur
emphasizes the aspects of the political economy, more specifically. On the one
hand, it indicates an element that resembles targeted TV in India with the TV we
know in the Brazilian system of affiliates of the national mass TV network:

A special feature of India’s television industry is that not only are some of these
satellite television networks owned and operated by powerful political families but
are also vertically integrated with Family-owned business houses in India. For ex-
ample, M. Karunananidhis’s family owns the Sun TV Network. Jayalalitha’s family
owns and operates Jaya TV network. Both of these personalities have headed re-

22
gional political parties that have expanded influence to the national level through
coalition governments at the center. They have dominated the state of Tamilnadu
politics in the last quarter century and they use their television networks to push
their political careers forward (PENDAKUR, p. 27).

Regarding Brazil, the communication system was historically structured in


an affiliate model, either directly or through regional chains, submitted to a na-
tional TV network, and this is one of the most valuable economic assets of major
broadcasters. The organization of the system consists of the economic bonds that
establish between all the affiliates a uniform behavior and a standardized artistic
and commercial programming, under the coordination of a single “head” of the
system, always headquartered in São Paulo or Rio de Janeiro. The “head” net-
work has the power to decide what programming must be broadcasted simulta-
neously by all the affiliates, while acting as a distributor, buying local and region-
al audiences, aggregating them and reselling them to the national advertisers.
In India, on the other hand, international networks, such as Star, from Hong
Kong, owned by Rupert Murdoch, Disney, Sony, Colors Network (from CBS),
Nickelodeon and others “produce local programs and also show television series
and movies produced or distributed by their parent companies in the U.S.” (PEN-
DAKUR, p. 28). Legislation has progressively increased the possibility of foreign
participation in the television business. Thus, Disney, according to the author,
acquired 50% of UTV Communications, “a major producer and distributor of
feature films and television programs”, aiming the control of 100% of the capital
(idem, p. 28-9). Thus “Western media conglomerates such as CNBC, NewsCorp,
and others have started their own television operations in India to integrate that
Market more closely with their global holdings” (PENDAKUR, p. 30).

Besides this, non-media corporations, irrespective of where they are incorporat-


ed, acquisition media assets creates other serious concerns. The relevant point is
Reliance Industries Limited (RIL), one of the biggest Indian conglomerates, that is
investing heavily in television entities. RIL first acquired ETV, a leading regional
language television company [...] owned by Ramoji Rao, a media mogul in Hy-

23
derabad, who also owns the Ramoji Film City, newspapers, magazines and film
production enterprises [...] Among its vast investments are IBN-CNN and Sun
Network. RIL, the flagship of a vast web of business holding, including energy,
reaches practically every aspect of India’s economy (PENDAKUR, p. 31).

With the purchase of ETV and Network18/TV 18, which operates in areas
like TV, press, cinema, internet, and mobile content. The owner of RIL, Mukesh
Ambani, the richest man in India and one of the richest in the world, has about
30 TV channels in English and regional languages in the country, ensuring the
content offer of his broadband network, Infotel Bradband Services. “It is the only
company in India that has a pan-India Broadband Wireless Access license from
the government. Mr. Ambani is reported to be in negotiations with UTV Com-
munications and Disney to buy up content for this new network” (idem, p. 32).
The structure of television industry, according to the author, is marked by
an intense competition, involving 745 channels, with over 600 licenses solicita-
tions, but the tendency towards concentration is too strong. For example, 21
networks (with 46 channels) control 80% of the audience (idem, p. 32). Pendakur
defines Ambani as the great “baron of media” in India, rivaling with the Aus-
tralian Rupert Murdoch. Needless to mention here the allegations of corruption
or the potential for abuse of power that the situation entails. Interestingly, and
different from Brazil, is that India has a Television Regulatory Authority that has
recommended restrictions to the vertical and horizontal integration of the broad-
casting companies and distributors. “It has also suggested that the government
take a close look at mergers and acquisitions to prevent concentration of media
ownership” (idem, p. 33-4), but, at least until 2013, when the text was produced,
the recommendations did not have an echo in the government. Conclusion:

By unleashing the power of private capital and by deregulating various sectors of


the economy, the government of India has encouraged conglomeration, concentra-
tion, and internationalization of the communications industries. Interpenetration
of capital with foreign corporations and equity investors has reached phenomenal
Heights. Essentially, the government of India has set the country on a new path of

24
a liberal democracy dominated by capital. In that process, the dream of building
an egalitarian society with a welfare vision has been set aside. Instead, in less than
three decades, India’s economy has reshaped to serve the interests of big capital at
home and abroad. The most glaring indicator of this shift is the creation of a high
society in this period, marked by the conspicuous consumption of the upper class-
es and the super-rich, never seen before in modern India (PENDAKUR, p. 46).

In Brazil, international capital has not yet entered strongly in the owner-
ship of broadcast media, but besides the new legislation of cable TV (Law No.
12,485/2011), which has the potential to increase the competition with the en-
trance of new capital, there is a predominance of an audience of foreign channels
in the targeted television.

4. Conclusion
It is important to point out that the approval of the law of 2011 was an an-
cient desire of the telecommunication companies that aimed at entering the sec-
tor, mainly seeking to offer the triple play service via combo (telephone, internet,
and cable TV). The result of this is a new division of these markets between the
main national broadcasters and the external telecommunication companies. The
losses of these companies in terms of segmented TV operations were somehow
compensated by their gains in capacity of control over content production and
packaging. In all cases, it increases the possibility of large companies to continue
to define and control the sector, diminish cultural diversity, and reduce the sys-
temic competitiveness of the Brazilian production internally and in the global
segmented TV Market.
It is true that the neoliberal policy extends both in Brazil and in India start-
ing in the 1990s, but what we tried to show here are the advantages of the Indian
options, which preserve important levels of cultural autonomy, and permit more
diversity and more systemic competitiveness to the country. The present tenden-
cies are not very positive in this respect, but the resilience of local and national
culture – due to the specificities of his previous trajectory – puts India in a better
position than Brazil or Latin America in the matter. The irony of History is that

25
many of the theories that supported the options in India related to the policy
of communication, education and development emerged and were developed
initially in Latin America, as ECLAC’s theories of development, NOMIC’s theo-
ries of dependency, or Paulo Freire’s method, all duly execrated, first, by military
governments, on behalf of the national security doctrine, and, then, by neo-lib-
erals economists who took the power on the continent in the moment of the
re-democratization.

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26
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Aires: Libros del Zorzal, 2007.

27
STATUS AND TRENDS OF JOURNALISM EDUCATION IN INDIA

Nagamallika Gudipaty1

1. Introduction
The post liberalization era from the 1990s onwards witnessed tremen-
dous growth of Indian media. Today there are 1,10,851 registered publications
at an annual growth rate of 5.12% (REGISTRAR OF NEWSPAPERS INDIA,
2017), 857 private television channels and around 450 private FM radio sta-
tions apart from 30 Government owned stations. It is estimated that India re-
quires over 15 lakhs (1.5 million) media professionals (CENTRE FOR MEDIA
STUDIES, 2015).
A natural corollary to this growth has been the numerous educational in-
stitutions that began to train journalists in fields as varied as press, television,
radio, animation, film production and online digital media operations. Media
education specifically requires faculty that have both practical and theoretical
knowledge of subjects. The total number of universities that offered media stud-
ies was not more than six in the 1940s which grew to around 25 in the 1980s.
Today there are more than 300 institutions including private, government, cor-
porate and semi-government institutions, and even individuals, offering de-
gree, diploma, higher education and certificate courses (CENTRE FOR MEDIA
STUDIES, 2015).
The number of Government run universities that offer programs in jour-
nalism and communication education is 95, while the rest are private institu-
tions. All these institutes offer training programs on various aspects of the media
industry. Of the 95 universities, there are 61 universities that are governed by the
Government at the provincial level (states) while 34 are governed by the Govern-
ment at the Centre. The universities under the Central Government are funded
1. Nagamallika Gudipaty is currently working as a Professor in the Department of Communica-
tion, School of Interdisciplinary Studies, The English and Foreign Languages University, Hyde-
rabad, India.

28
by the Government at the Centre and at the state levels by the respective state in
which the university is located.
All universities are under the mandate of the University Grants Com-
mission. The University Grants Commission (UGC) is a statutory body of the
Government of India set up through an Act of Parliament for the coordination,
determination and maintenance of standards of university education in India.
In this paper, I trace the journey of journalism education and the institutes that
offer journalism programs in independent India. As part of an ongoing project, a
preliminary study of the profiles of central and state universities that offer cours-
es in journalism and mass communication was undertaken to understand the
current status of the State-run universities.

Early developments
The journey of Indian journalism underwent several changes in the last 70
years of independence, changing courses from that of being an agent of advocacy
to that of commercial capitalist business entrepreneurship. Post independence, in
the 1950s and 1960s, the Nehruvian penchant for the growth of “scientific temper
in the new Indian subcontinent led to the encouragement of education and high-
er learning, with equal emphasis given to the field of natural and social sciences.
Lack of information due to lack of communication was recognized as one of the
key problems for the progress and development of the nation. This followed the
dominant paradigm of the 1950s and 1960s, where all developing nations were
highly influenced by the western model of economic growth and increase in per
capita income was considered as the only sign of development. Mass Communi-
cation and Journalism was recognized as one field that could encourage the de-
velopment model by increasing the job opportunities, keeping in mind the status
of the newly independent nation state. The task for the journalism schools was to
produce professionals capable of carrying out the central role assigned to media
in working with the state in its mission of social modernization (JOSEPH, 2013).
The importance and significance of “scientific mass communication re-
search along with professional opportunities was formally recognized and began
with the establishment of the Indian Institute of Mass Communication (IIMC) in

29
1965. A National Planning Committee set up by the Indian National Congress un-
der the chairmanship of Nehru had earlier recognized communication planning
as an essential part of national planning (VASUDEVA AND CHAKRAVARTY,
1989). The first Five- Year Plan (1951-56) made specific references and recom-
mended that steps have to be taken to provide literature and information in sim-
ple language on a large scale to cater to the needs of the country (DESAI, 1977).
Much earlier, PP Singh, an accomplished academician, trained in London
and Missouri, first established journalism departments in Lahore (1942), Delhi
and Chandigarh (1962) (TERE, 2012). His vision and ideals led to an Ameri-
can influence in Indian and Pakistani journalism training programmes (TERE,
2012) that is evident till today. The ideological bend is reflected in the pedagogic
practices which has become an enduring model for decades (JOSEPH, 2013).
Premier institutions like the Indian Institute of Mass Communication (1965),
Punjab University (1941) University of Madras (1947) and Osmania University
(1954) which were established around the same time offered programmes that
blended the developmental ethos of the Government of India although they were
highly influenced by the ideological path they were trained in.
The initial diploma courses in Journalism later progressed to postgraduate
programmes and by the eighties, almost all state and central universities across
the country began to offer postgraduate programmes in journalism and commu-
nication. The emphasis though was still on providing professionals to the media
industry, which until the eighties was predominantly the print media. The Indian
socialist democracy of the 1970s increasingly veered towards a capitalist and free
economy model by the early 1990s, with a major shift in political and economic
policy. Private enterprises in media saw a proliferation of electronic media. In-
ternet and mobiles became very popular with a large reach and access resulting
in the burgeoning of Journalism schools.

2. Broadcast Communication
As the state monopolized the broadcasting sector until the early 1990s, it
was expected of the journalism schools in universities to train and supply profes-
sionals who would work for the state run All India Radio and Doordarshan (JO-

30
SEPH, 2013). Television in India was perceived as an efficient force of education
and development. The University Grants Commission in collaboration with In-
dian National Satellite (INSAT) started educational television project, popularly
known as “Country Wide Classroom in 1984 with the aim to update, upgrade,
and enrich quality of education while extending their reach at the undergradu-
ate level. An inter university Consortium for Education Communication (CEC)
along with a chain of about 20 Audio-Visual Mass Communication Research
Centres (AVRC) were set up by UGC at different institutions in the country to
ascertain high quality of programming (VYAS, 2002). This converted to Educa-
tional Media Research Centres (EMRC) which later became “Educational Multi
Media Research Centres” (EMMRC) producing programmes for undergraduate
students from open universities, broadcast through Gyan Darshan, an exclusive
educational TV channel of India, jointly run by the Ministry of Human resource
Development, Information and Broadcasting, Prasar Bharti and Indira Gandhi
National Open University. All the institutes mentioned work independent of the
university departments, although located within the premises of university cam-
puses and the programmes are academic in nature.

3. Journalism Curriculum
The curriculum laid emphasis on practice alone initially when the pro-
gram was offered as a short term diploma and vocational course, but over the
years, theoretical principles were introduced as the short term diploma meta-
morphosed into a two year Masters’ program and later into research programs. It
was only by the nineties that research programmes in the area of mass communi-
cation and journalism studies began. The research programmes included theory
and research as part of its curriculum formally in the core areas of journalism
as well as allied subjects like advertising, public relations, marketing as well as
film studies and cultural studies. The European and American Communication
schools paved the way for research ideas and scope of media research in India, as
most of the faculty who were absorbed in the university systems in India carried
out their research abroad. Thus, it was natural that the western school of thought
dominated the field of media theory and research.

31
A glance at the curriculum offered under theory and research indicates
that apart from some attempts to talk about Sadharikaran and the Vedic connec-
tion to communication (ADHIKARY, 2009) that could perhaps have established
an alternative theoretical construction to the beginnings of communication in
one of the earliest civilizations in the world, most of the research was western
oriented philosophy of positivistic research.
There were a few voices of dissent in the early seventies like Prof. Eapen
(1975) about the lack of cultural and social understanding of Indian ethos in
social sciences research. According to Tandon (1981), the methodologies that
developed in the West were under totally different social, cultural, economic and
political situations which were transferred to India not keeping in mind the dis-
tinct nature of social science inquiry. However, it did not lead to any indigenous
theoretical frameworks to develop. One of the reasons for this western domina-
tion of thought as Vasudeva and Chakravarthy (1989) argue, could be the ideol-
ogy of scientific temper that subjected one to structures of oppression internally
as well as internationally, coupled with the fact of internalizing the western mode
of thought and training.
Over the years, the pedagogy of almost every department has been uni-
form with a few exceptions. Equal emphasis is given to a combination of theory
and practice. This was evident through a survey conducted by the Centre for
Media Studies in 2015 on media education in India. These include:

• Theory: notes, PowerPoint presentation, book reviews, film screening, discus-


sions.
• Practice: campus newspaper, short / documentary films, field visits.

Besides, internships, field training, case studies, projects in community


and use of mock newsroom, reporting, etc. are also used for teaching various
journalism courses.
Some of the practical exercises included:

• Analysis of newspapers – headlines, focus of the story, etc.

32
• Public speaking training.
• Sample news website pages.

As was the traditional thinking regarding media education, practical


skills training is seen as a vital component of media pedagogy, resulting in
emphasis on hands-on training including internships at media organizations
being mandatory.
The emergence of training institutes by private media organizations
and private institutes in the last couple of decades, where the journalists are
trained keeping an eye on the institutes’ ideological and working styles, has led
to a parallel world rather than complementary, where diploma programmes
that place emphasis on practice alone are offered in contrast to the theoretical
thrust of State universities. This seems more relevant especially for those who
want to get into the job market quickly and are interested in acquiring skills
than theoretical inputs.

4. Methodology
As part of an ongoing project, a small study was conducted to understand
the academic structure, number of teachers, and the courses offered by the state
and central universities by gathering primary data from the websites of state and
central universities. Apart from this, few media teachers were interviewed via
mail to understand the problems raised by them regarding the quality of jour-
nalism education and research. Based on these findings, I flag certain issues of
concern that are voiced both by the academics and the solutions or suggestions
offered for the future growth and the challenges that need to be addressed in or-
der to be of relevance as a feeder to a dynamic media industry which still seems
to be the primary goal.

5. Profiles of Media Departments


A small study of the online profiles of the 95 universities (that offer mass
communication and journalism programmes) administered by the State indicat-
ed that 34 were governed by the government at the Centre, while 61 universities

33
were run by the governments at the provincial level. All the universities both
provincial and Central offer Masters’ program along with under graduation and/
or diploma and/or Phd. Of these, around 40 (24 provincial and 16 central) uni-
versities offer research programs, which is around 40%. The data for the number
of faculty could not be accurately accounted for, as the names of visiting or con-
tract teachers were not included in the websites of some institutes. The number
came to 320 including professors, associate professors, assistant professors and
guest faculty in this study. Of these, the designations of 37% were not indicat-
ed while 16% were professors, 16% associate professors and 31% were assistant
professors. The high percentage of unknown factor is largely due to the contract
lecturers and the high attrition rate of teachers who work on a temporary basis.
Coming to the gender distribution, around 59% of the faculty was males while
the rest were females at around 41%. Of the total faculty, around 60% had PhD,
while almost 21% was unknown as it was not indicated. There could be further
increase in the number between now and the time the data was collected. The
highest number of universities that offered Journalism program was found in
Uttar Pradesh and Karnataka (8 and 9 each). The number of faculty having a
Phd degree is on the increase as the University Grants Commission has made it
mandatory for promotions.
The figures (40%) indicate a fairly good number of departments that are
offering research programs in universities. One of the main reasons for this is
that universities offer lucrative government jobs which are permanent with very
good salary structures. Having a Phd is the passport for entry into the university
system. Yet, a large number work on a temporary basis in the hope of getting
a permanent placement. There is a clear requirement of quality teachers as the
recruitments in government may not be regular as government funds forms the
limitation in several cases.

6. Pedagogical Issues in Journalism education


There are several issues of concern that almost all journalism schools face,
like updating syllabus to keep pace with advancements in media technology, na-
ture of courses, lack of research and conceptual clarity among graduates, involve-

34
ment of industry professionals, admission procedures, the quality of teaching
faculty, reference books and equipment (TERE, 2012). The concerns remain al-
most the same over the years as literature suggests that almost all authors voiced
the same set of concerns.
The Indian educational system, as is at present, lays emphasis on teaching
than on research. The learning environment in India encourages instructional
teaching than interactive learning. The onus lies on the teachers to teach long
hours than on the students to read and discuss. This leaves the teacher with
little or no time to pursue research, unlike their counterparts in any of the
western countries.
Lack of clarity in the focus of Journalism education has been another major
concern. Almost all the universities that offer Journalism education right from
their inception till today have made few changes in their syllabus or approach.
It is only in the last few years that attempts have been made by a few Journal-
ism schools like The English and Foreign Languages University in Hyderabad,
University of Hyderabad, and MS University Baroda, to name a few, that offer
programmes which are inter-disciplinary in nature as journalists are expected to
understand and respond to socio-cultural events in society.
There is a disconnect between the industry and the Journalism schools as
there are rapid changes both technologically and commercially in the industry
which the academia is unable to keep pace with. As all Government universities
are funded solely by the Government, it is not possible to update equipment or
technologies on a regular basis. Further there is also no participation or sharing
of resources between the industry and the academia. However, there is better co-
ordination in private institutes as they have a tie-up or are run by the media orga-
nizations themselves. The teachers are unable to update their skills or knowledge
as the UGC requirements is distinct from that of industry requirements.
Apart from the physical amenities, the concern of many academics has
been the ideological disconnect between the principles of professional journal-
ism as taught in the universities and the practices that are present in a rapidly
changing media. The industry does not believe in research as practiced in the
academic world. Research was never a priority until recently even in Journalism

35
schools as they were meant to train professional journalists to enter the industry.
Lack of exposure to quality research and international standards until the last
decade or two was another reason for the academics to be content with teaching
and training professionals. There have been several initiatives by the University
Grants Commission to address these issues by laying emphasis on research and
publishing. This has pressured the faculty to publish but ill-equipped to deal with
international standards, it remains a challenge that few are able to overcome.

7. Problems in conducting research


There have been several issues that were faced by the faculty that are slowly
being addressed due to the prevalence of technology. To a large extent, technolo-
gy has eased the process of conducting research with access to books and online
resources. There are differences in the access depending on the institutions the
faculty belongs to, as the focus of private organizations may be different from
that of state run institutions.
One of the issues flagged by a senior faculty from Mumbai was the limited
knowledge of the management regarding the nature and scope of the discipline
and the interdisciplinary nature of the field. This leads to lack of encouragement
by the management. Most view it as an individual activity that does not meet the
requirements of their organisations, rather than as a reflection of their institute’s
outlook towards a larger goal. As the academic stated, “the problem is of disci-
plinary location. I am part of Home Science faculty wherein most of my work
is in journalism and mass communication. So it takes a lot of effort to make my
superiors understand that.” Significant research in the field of Extension studies
is done in this discipline.
Secondly, only few universities boast of having a reasonably good collec-
tion of books and many faculty cite lack of infrastructure in terms of books,
journals and research material that is one of the reasons for not being able to
conduct large scale research projects. While this has disappeared to a large ex-
tent thanks to internet connectivity and high end computers, not all universi-
ties and institutions afford such luxuries. There are a few who have assiduously
built their own libraries over the years, as an academic and author stated, “Over

36
the past 30 years, I have built up my personal library of books, articles and
newspaper clippings”.
Thirdly, academic activity especially research, requires networking. It is
only the few who are wired that have access again to their counterparts across
the globe. Those that carry on independent research do not have institution-
al support which hampers certain kind of research activities. Most universities
within India do not have a common platform to share their research activities
which is one of the main reasons that one cannot completely assess the quality or
the quantity of research that is being conducted. However, tremendous change is
visible today with the proliferation of mobile technology. Groups of media teach-
ers share resources via WhatsApp groups and other similar platforms. Research
collaborations across universities and industry has narrowed this gap, and has
led to better output in terms of quality in research activities in recent times. This
was echoed by one teacher who said, “Collaborative Spaces/forums for funders
as well as researchers is one way of increasing research output”.
Fourthly, there is a debate regarding the compulsion of all teachers to take
up research irrespective of whether they are inclined towards production or re-
search. As research is a predominant activity that has to be undertaken by all fac-
ulty, especially in Universities, the UGC’s mandate restricts the entry of certain
kind of teachers from the media industry whose inputs and experience would be
helpful in a media programme. Yet, the argument against the entry of technical
persons have been that it would render them as mere technicians, trained to
use a package of techniques, but not educated to think and develop explanato-
ry theories (VASUDEVA; CHAKRAVARTY, 1989). However, a few did question
the UGC’s mandate of making PhD as a minimum qualification for recruitment
even after having decades of industry experience.
While personal qualities like dedication and commitment are required,
lack of extensive reading, language skills and understanding of issues are other
reasons that impede the progress of many young faculty. In addition, not being
equipped with enough exposure or with the techniques of writing research pa-
pers that can be internationally accepted, many Indian researchers are only now
trying to break the mould.

37
8. Future of communication education
As an eminent scholar stated, Communication has so far been treated as
a science which can be transmitted or acquired in research and training insti-
tutes. But it must be redefined as an art which can be learnt only through active
involvement in the processes of social living (JOSHI, 1984). Media being one of
the foremost institutions in society, its communicative influence is all pervasive
in this information age. Communication educators need to reorient and update
periodically to make themselves relevant. Exposure to rapidly changing technol-
ogies is only one aspect as exposure to a rapidly changing society is also vital. As
communication is both an art and science, a holistic understanding and appre-
ciation of the field in its totality is essential. Communication research scholars
need to develop new orientations in examining the media, in all its avatars. Ac-
ademic rigor, training in computer aided research methodologies and exposure
to latest technological tools ought to be nurtured along with sustained interest in
their area of research, which is the need of the hour.

References
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tion, Bodhi: An Interdisciplinary Journal, v. 3, n. 1, pp. 69-91, 2009.
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tion”. Vidura, v. 7, no 3: 1, pp. 3-5, jul-set, 2015.
DESAI M V. Communication policies in India. Paris: Unesco, 1977.
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JOSHI, P.C. Communication and Social Transformation, Communicator 2, 1984. 
JOSEPH, J. Whither Communication teaching? Media Monitoring. The Hoot.
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whither-communication-teaching-7010>. Acesso em: 31 out. 2017
KPMG FICCI. The future: now streaming. Indian Media and Entertainment In-
dustry report. 2016. Disponível em: <https://home.kpmg.com/content/
dam/kpmg/in/pdf/2016/12/The-Future-now-streaming.pdf>. Acesso: 31
out. 2017.

38
REGISTRAR OF NEWSPAPERS INDIA, 2017. Disponível em: <http://rni.nic.
in/>. Acesso em: 30 out. 2017.
TERE, N. S. “Expanding Journalism Education in India: concern for quality,
commentary”. Asia Pacific Media Educator, v. 22, n. 1, pp. 127-133, 2012.
(DOI: 10.1177/1326365X1202200114)
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evaluation: experiments in research as a process of liberation. New Delhi,
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VYAS, R.V. Turkish Online Journal of Distance Education – TOJDE, v. 3, n. 4, out.
2002.

39
VII JPJOR
JORNALISMO E DIREITOS HUMANOS:
REFLEXÕES PRELIMINARES PARA UM PROGRAMA DE PESQUISA
EM LEGISLAÇÃO E ÉTICA DO JORNALISMO1

Vitor Blotta2

Introdução

Este texto procura analisar as relações entre jornalismo e direitos huma-


nos, com vistas ao estabelecimento de uma teoria crítica capaz de informar um
programa de pesquisa que entrecruza estudos normativos sobre teoria, ética e
legislação do jornalismo, com estudos empíricos de jornalismo político e jorna-
lismo sobre direitos humanos, violência e sociabilidade.
Dado que se trata de uma teoria crítica, é necessário trabalhar os objetos
de estudo nas perspectivas teórica e prática, isto é, explicando suas caracterís-
ticas tanto quanto justificando demandas normativas na própria na realidade
social. O resultado desse esforço é uma teoria que combina fundamentos da
ética e do direito e suas relações com a esfera pública política, a partir do que
é possível desenhar um programa de pesquisa sobre relações entre direitos hu-
manos e jornalismo.
Primeiramente procuramos inserir essa teoria entre diversas perspectivas
teóricas e práticas de estudos que relacionam jornalismo com questões de polí-
tica e direitos humanos. Fazemos isso categorizando essas diversas perspectivas
e suas metodologias e pensando como elas contribuem para se pensar numa
abordagem da ética e da legislação do jornalismo a partir de uma teoria do di-
1. Texto derivado de palestra de abertura do 15o SBPJor – Encontro Nacional de Pesquisadores
de Jornalismo, em 06 de novembro de 2017 na ECA/USP.
2. Vitor Blotta é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, participa do Núcleo de
Estudos da Violência da USP e do Grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade (ECA/
IEA-USP)

41
reito da comunicação3. Para tanto, os conteúdos e reivindicações normativas
encontrados nos discursos jornalísticos precisam ser reconstruídos identifica-
dos e justificados em seus contextos, além de relacionados com outros direitos
fundamentais. Esse tipo de pesquisa permitirá, ao final, produzir análises de
tendências de legitimação não somente dos direitos humanos retratados, mas
também a legitimidade dos princípios da imprensa livre que o próprio discurso
jornalístico reivindica para si dentro da esfera pública política.

Parte I – Lugar do jornalismo nos direitos humanos: reflexões teóricas


Se vamos tratar primeiramente das perspectivas teóricas sobre as rela-
ções entre jornalismo e direitos humanos, podemos começar pensando no lu-
gar que ocupa o jornalismo nos diretos humanos. Isto é, que papel cumprem
os discursos e linguagens jornalísticas na construção de percepções e opiniões
sobre os direitos humanos. Numa certa medida, isso significa questionar em
que medida a legitimidade, ou a “aceitabilidade racional” (Habermas, 1997)
dos direitos humanos é facilitada nos espaços públicos formados pelas inte-
rações discursivas das instituições e públicos que disputam a mobilização da
opinião pública. Isso implica também perguntar sobre os possíveis impactos
de produções jornalísticas sobre direitos humanos nas percepções sociais des-
ses direitos.
Outro problema a ser enfrentado nessa área são os impactos das tecnolo-
gias e espaços digitais de comunicação sobre os debates públicos em torno de
temas de direitos humanos, como as tensões entre liberdades individuais e polí-
ticas e os direitos à vida e à segurança.
Nesse aspecto, a evolução do lugar do jornalismo nos direitos humanos
pode ser exemplificada pelos usos dados à imprensa pelos trabalhos do Núcleo
de Estudos da Violência da USP (NEV). Inicialmente, a imprensa foi fonte de
monitoramento quantitativo das graves violações de direitos humanos feito pelo
NEV, sobretudo no final dos anos 1980, quando não havia fontes oficiais. Em
seguida, as matérias passaram a ser utilizadas para a contextualização dos casos.
3. Para maior aprofundamento nos conceitos de esfera pública política e direito da comunicação,
ver: BLOTTA, V. O Direito da Comunicação, 2013.

42
Hoje podemos dizer que, além de estabelecer dados e contextos, as cober-
turas e discursos sobre direitos humanos que circulam nos espaços jornalísticos
se tornaram pressupostos da compreensão desses direitos. Isto é, não se pode
compreender os direitos humanos e as percepções sociais desses direitos sem se
analisar como eles são representados e disputados nos espaços públicos forma-
dos pelo discurso jornalístico.

Lugar dos direitos humanos no jornalismo: reflexões normativas


Um segundo bloco de estudos, voltados para compreender perspectivas
normativas jornalismo e direitos humanos, pode ser formado pela pergunta so-
bre o lugar que ocupa os direitos humanos no jornalismo.
Numa medida, pensar o lugar dos direitos humanos no jornalismo é pen-
sar em que medida praticar um jornalismo ético implica realizar direitos huma-
nos, tanto aqueles ligados ao campo da comunicação quanto outras expressões
de identidades e demandas na esfera pública, facilitando interações baseadas no
reconhecimento recíproco entre indivíduos e coletividades.
Quais são esses princípios éticos do jornalismo que são em si mesmos
princípios de direitos humanos? Aqueles que tem a ver com os direitos de res-
peito e representação precisa e equitativa das identidades individuais e coletivas,
bem como as prerrogativas que buscam realizar as liberdades de acesso, busca e
transmissão de informações, tanto quanto a proteção da privacidade e da perso-
nalidade nos espaços privados de comunicação. Nas esferas públicas formadas
por espaços digitais de comunicação, esses direitos individuais e suas decorren-
tes prerrogativas jornalísticas, como o sigilo de fonte, podem ser agrupados num
grande conjunto de direitos individuais de autodeterminação informacional.
Esse direito de acesso recíproco à informação dever ser ao mesmo tempo prote-
gidos e realizados por meio do discurso jornalístico.
Em outra medida, podemos enveredar pelo estudo dos princípios norma-
tivos do jornalismo que o posicionam diante do Estado de direito e da demo-
cracia, visto tradicionalmente como cão de guarda e o único capaz de dizer a
verdade ao poder, e mais atualmente como um dos discursos mais confiáveis
do debate público. Assim, pensamos o jornalismo, sobretudo aquele sobre ques-

43
tões de direitos humanos e democracia, como um dos espaços aglutinadores e
reverberadores de questões do interesse público, como direitos fundamentais e
princípios democráticos. Aqui o discurso jornalístico atua, portanto, como uma
das garantias sociais do Estado de direito e da democracia.
Por último, na perspectiva normativa de se pensar o lugar dos direitos hu-
manos no jornalismo, podemos defender a tese de que os direitos humanos são
partes constitutivas da ética da produção jornalística e dos discursos jornalísti-
cos. Com isso abrimos caminho para se pensar numa ética do jornalismo político
como uma ética da comunicação do direito. Podemos traduzir essa perspectiva
não só na descrição do Estado democrático de direito e suas relações com ques-
tões de jornalismo e comunicação e jornalismo, mas pensá-las na moldura mais
abrangente de que o discurso jornalístico é responsável pela formação de espaços
de informação, debate e legitimação dos sistemas jurídico e político. Ao mesmo
tempo em que é palco desses espaços públicos, o jornalismo também contribui
para as dimensões mais estéticas da visibilidade e da cultura formada em torno
do estado democrático do direito.
É o que pretendemos aprofundar nas próximas linhas e em estudos futuros
sobre legislação e ética do jornalismo, a partir de análises dos princípios éticos e
jurídicos ligado ao jornalismo que se produz a respeito dos direitos humanos fun-
damentais e dos princípios dos Estado democrático de direito. Por ora cabe descre-
ver resumidamente as perspectivas e metodologias dos diversos autores que traba-
lham de alguma forma com questões de comunicação e direito, jornalismo e direi-
tos humanos, e como podem contribuir para se construir tal programa de pesquisa.

Parte II – Metodologias de pesquisa: uma teoria crítica buscando


espaço no campo
Podemos iniciar com uma divisão entre estudos de perspectivas empíri-
co-descritivas, que são mais sociológicas e explicativas, e perspectivas empírico-
-normativas, que são mais práticas, ou seja, discutem a validade normativa de
questões de legislação e ética jornalística em estudos teóricos ou empíricos.
A divisão entre os autores e suas perspectivas cumpre aqui somente uma
função didática. Não significa que são mais ou menos críticas, ou que não façam

44
estudos em mais de uma das perspectivas adotadas. O poder crítico das teorias
depende, como estamos propondo aqui, da capacidade de cada uma em articular
os pressupostos epistemológicos e normativos de suas pesquisas.
Dentro da perspectiva empírico-descritiva, podemos também realizar
uma subdivisão temática, com autores cujas linhas de pesquisa dão maior ou
menor enfoque a determinados aspectos da comunicação, como a perspectiva
institucional, os estudos de recepção, os estudos de discursos e conteúdos, e o
que podemos denominar análises sistêmicas.
No caso da análise institucional, temos os estudos críticos que Noam
Chomsky desenvolveu nos anos 1980 com Herman sobre a determinação eco-
nômica e política da produção jornalística (Manufacturing Consent, 1988), e os
estudos de Dennis McQuail, como Mass Communication Theory (2000), que bus-
cam pensar no papel dos grandes conglomerados de comunicação sobre as novas
configurações de poder e sociabilidade em tempos de globalização do capitalis-
mo financeiro.
Nos estudos de recepção, podemos incluir as reflexões seminais de
Horkheimer e Adorno em Dialética do Esclarecimento (1985, original de 1947),
como no capítulo “Indústria Cultural e Mistificacão das Massas”, que conectou
os mecanismos de propaganda das produções hollywoodianas à dinâmica de
desejos do inconsciente freudiano. Como se sabe, esses estudos críticos foram
contrastados com linhas mais quantitativas sobre comunicação e opinião públi-
ca, como em Lazarsfeld (1957). Tais abordagens foram criticadas por Habermas
em Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962) como sendo expressão de uma
“cientifização” da opinião pública, o que enfraqueceu seu poder normativo como
princípio legitimador da lei.
Na América Latina, a referência na área de recepção são os trabalhos de
Maria Immacolata Vassalo de Lopes e sua teoria da telenovela como “narrativa
da nação” (2003), que informa há mais de dez anos uma rede internacional que
monitora anualmente ficções televisivas ibero-americanas (Obitel). Esses estudos
são influenciados tanto pela perspectiva mais sistêmica dos campos de Bourdieu
quanto os estudos de José-Martín Barbero, que introduziu a teoria das media-
ções sociais no campo da comunicação, pensando as mídias como instâncias de

45
mediação social e de construção de sentidos. Com a obra Dos Meios às Mediações
(1987), Barbero revisou teorias marxistas da mídia de massa que se limitam a
perspectivas mais tecnológicas e econômicas sobre a mídia, as quais mais atual-
mente se desdobram nos estudos de “midiatização” (Strömback, 2008).
A perspectiva empírico-descritiva também abrange estudos de análise do
discurso e análise de conteúdo. Aqui se destacam os estudos sobre semiótica
do discurso e dos valores jornalísticos de Mayra Rodrigues Gomes (2002), bem
como as pesquisas Cristina Costa (2010) sobre princípios de livre expressão ar-
tística e suas tensões com outros direitos, realizadas no observatório de Comu-
nicação e Censura (Obcom).
Podemos aqui também inserir os estudos de Eugênio Bucci sobre “telespa-
ço público” e televisão (2002). Bucci constrói sua noção de telespaço público por
meio de uma fina combinação de semiótica do discurso com análises de recepção
a partir da psicanálise e das teorias críticas da cultura. Isso tem resultado numa
obra que permite tratar de fenômenos sociais e estatais da esfera pública, como a
estética e a perfomance dos protestos de 2013 no Brasil (A Forma Bruta dos Pro-
testos, 2016) além da comunicação governamental, em O Estado de Narciso (2015).
Por fim, temos as análises empírico-descritivas mais sistêmicas, que pro-
curam diagnosticar as questões da comunicação e da cultura a partir de suas
relações com os campos como a economia e da tecnologia, da política e da
sociologia, do direito etc. Nesta categoria podemos inserir clássicos como Benja-
min (1937), Bourdieu (Sobre a televisão, 1997); Foucault (As palavras e as coisas,
2000); Luhmann (A realidade dos meios de comunicação de massa, 2004); Barbero
(Dos Meios às Mediações, 1987). Aqui se cruzam as interessantes perspectivas dos
estudos de mídia e jornalismo que focam ora nas mídias e seus impactos so-
bre a política, com as teorias da midiatização da política, ora nas mediações dela
com outros sistemas sociais e estatais, com perspectivas menos “midiacêntricas”
e mais sociocêntricas.
Independentemente das linhas temáticas ou veio critico dessas perspec-
tivas teóricas, esses estudos e seus autores se resumem a realizar diagnósticos e
representações mais descritivas do que normativas sobre as relações entre comu-
nicação, jornalismo e direito. Ou seja, analisam as condições atuais e produzem

46
diagnósticos sobre os princípios éticos e jurídicos ligados ao jornalismo e aos
direitos humanos, suas tensões e dificuldades de realização empírica.
Em termos de perspectivas empírico-normativas, que buscam avaliar, além
de diagnosticar panoramas regulatórios da comunicação, com base em princí-
pios éticos e legislativos do jornalismo contextuais, a validade das normas sociais
e legais relativas ao jornalismo e a esfera pública política, temos as linhas de
análise institucional, como os estudos sobre media power de Julian Petley (2014)
e suas tensões com normas sociais e jurídicas de interesse público, como direitos
de informação e privacidade, direitos de privacidade, bem como de James Cur-
ran e Jean Seaton (2003), que retratam de modo mais processual e histórico as
políticas de mídia que construíram aos meios de comunicação de massa euro-
peus e da América do Norte um “poder sem responsabilidade”.
Na análise normativa de recepção, podemos incluir novamente estudos de
Bucci sobre ética do jornalismo (Imprensa e o Dever da Liberdade, 2012), e deste
com Maria Rita Kehl (Videologias, 2004) quando analisam panoramas do teles-
paço público e propõem ao final uma lista necessária de direitos do espectador.
Temos nesta perspectiva também perspectivas mais republicanas de ética
da comunicação, como em Anshuman Mondal (Islam and Controversy, 2014),
que contrasta sua “ética da probidade”, mais afeita a questões morais da fala e
da escuta e leitura, com as teorias liberais sobre liberdade de expressão, mais
consequencialistas e exclusivistas em relação às liberdades de comunicação. Para
as teorias liberais, eventuais ofensas são inevitáveis e devem ser cobertas pela
primazia lógica da liberdade sobre os direitos fundamentais correlatos, como
imagem, privacidade e liberdade religiosa. Para as visões mais republicanas não
existe um direito de insultar, e, portanto, antes de se pensar até onde se pode falar
o que quiser, devemos pensar antes naquilo que é bom – adequado ou apropria-
do – de se dizer (MONDAL, 2014).
Quando falamos em estudos empírico-normativos sobre comunicação e
política, podemos ressaltar como contribuições importantes para nosso pro-
grama de pesquisa os trabalhos sobre democracia digital de Wilson Gomes, no
INCT Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital da UFBA, e os es-
tudos de Rousiley Maia no grupo mídia e Esfera Pública (UFMG) sobre políticas

47
de democracia deliberativa e reconhecimento nas diversas plataformas de comu-
nicação que formam a esfera pública.
Finalmente, nas análises normativas sistêmicas encontramos autores como
Freedman (The Politics of Media Policy, 2008) e Habermas, e no Brasil Dennis de
Oliveira (Jornalismo e Emancipação, 2017). Nossa proposta de teoria crítica so-
bre padrões éticos e técnicos do jornalismo pensada como uma ética de direitos
da comunicação e deveres de comunicação do direito, faz uso da análise sistêmi-
ca e da análise de conteúdo para trabalhar interpretações das relações entre esses
direitos e deveres de comunicação no jornalismo em debates públicos concretos,
com análises tanto pragmáticas das ações performativas dos discursos, quanto
semânticas dos conteúdos circulados.
Essa perspectiva implica pensar ao mesmo tempo em antagonismos em-
píricos e nas relações internas normativas entre jornalismo e suas relações com
a esfera pública e democracia. Também significa pensar nos movimentos de
demanda e afirmação por direitos de reconhecimento e comunicação na esfera
pública, tanto quanto em políticas de comunicação do direito, referentes à visili-
bidade, à justificativa e à transparência dos poderes sociais e estatais.
Fazemos essas análises com ferramentas analíticas, como a diferenciação
e a sobreposição discursiva, e a modulação das expressões dos diversos públicos
que problematizam a opinião política na esfera pública, tanto nos debates mais
privados e informais quanto nos espaços mais públicos e formais. Com isso po-
demos analisar em situações concretas de entrelaçamentos discursivos a realiza-
ção e os limites de suas demandas normativas.

Parte III – Exemplos de análises de casos práticos


Para demonstrar como funcionaria um programa de estudos sobre jorna-
lismo político a partir da teoria do direito da comunicação, apresentamos alguns
resultados de análises feitas seguindo perspectiva semelhante. As análises estão
separadas por expressões informativa, prática e estético-expressiva da esfera pú-
blica política, isto é, em análises de casos referentes a fatos e informações, às
opiniões e justificações, e às formas e referências culturais trazidas aos debates
públicos sobre direitos humanos.

48
Dimensão informativa
Jornalismo e violência como espetáculo
Em estudo sobre programas televisivos de crimes Cidade Alerta (Record)
e Brasil Urgente (Band), respectivamente apresentados por Marcelo Resende e
José Luiz Datena, foi identificada a construção de mundos éticos maniqueístas
por meio de estéticas religiosa e circense, movidas pela lógica da busca da au-
diência. O mimetismo de formulas de sucesso no aspecto comercial transfor-
mam lógica dos programas que, ao perderem vínculos com a ética jornalística,
deixam de poder ser considerados programas jornalísticos (CANESIN, 2015).

Jornalismo e violência como estatística


Podemos citar analises de casos da produção jornalística sobre crimes por
meio de estudo sobre as três últimas décadas do jornalismo sobre violência e direitos
humanos.4 Esse fenômeno de pensar esses conteúdos primeiramente somente espe-
táculo nos anos 1980 e nos anos 1990 como estatística, indica ao mesmo tempo uma
complexificação do jornalismo sobre essas questões, como dos próprios casos de
violência e também o aumento da compreensão científica e qualificação do debate
sobre o fenômeno da violência e questões de segurança pública e direitos humanos.

Dimensão jurídico-moral
Jornalismo sobre processos políticos e legislativos
Habermas menciona em seu mais compreensivo texto sobre esfera pública
política e mídia após a revisão de Mudança Estrutural em 1990 (“Political Com-
munication in the Media Society”, 2006) que as condições para esferas públicas
políticas mais diversas e atuantes tinham de ser estudadas não a partir de uma
compreensão psicológica sobre os motivos da falta de engajamento e participação
em espaços de cidadania ativa, mas sim a partir das características de uma comu-
nicação em que cada vez mais ocorrem distorções comunicativas, ou coloniza-
ções entre discursos, como dos sociais e políticos pelos econômicos e comerciais.5
4. BLOTTA, V.; MANSO, B. “Violence and Human Rights in the Brazilian Press: spectacle, statis-
tics and recognition”. Texto apresentado em congresso da IAMCR em 2017.
5. “If (…) reliance on radio and television fosters feelings of powerlessness, apathy, and indifference,
we should not seek the explanation in the paralyzed state of civil society but in the content and for-
mats of a degenerating kind of political communication itself.” (HABERMAS, 2006, p. 422)

49
Pensamos também metodologicamente neste sentido, buscando descrever
os antagonismos tanto quanto as inter-relações normativas entre as demandas
por direitos fundamentais e interesses públicos e privados nas esferas públicas.
Com isso, diagnosticamos em plataformas e conteúdos as constantes sobrepo-
sições e modulações discursivas e seus impactos sobre seus respectivos espaços
públicos.
Habermas fala explicitamente em sinais de colonização da esfera pública
pelo mercado e a personalização e dramatização de questões políticas, super sim-
plificando os conflitos. Mas podemos falar também em instrumentalização dos
discursos jornalísticos pelos poderes do Estado, no caso da Operação Lava-Jato,
ou mesmo dos discursos jornalísticos pelos discursos das mídias sociais, no caso
da viralização virtual de notícias falsas. Para tanto, precisamos reconstruir as de-
mandas de liberdade e ética nas plataformas de comunicação da esfera pública,
que são constantemente subvertidas pelas lógicas próprias das tecnologias e o
interesse de seus respectivos públicos.
Essas reflexões de Habermas oferecem as pistas analíticas para análises em-
píricas dos direitos e deveres de comunicação em expressões da esfera pública
política, o que temos buscado fazer desde 2012 em pesquisa de pós-doutorado
no Núcleo de Estudos da Violência da USP, e agora também no grupo de pesqui-
sa Jornalismo, Direito e Liberdade (ECA/IEA-USP).
A partir desses estudos, podemos identificar a construção de problemati-
zações discursivas distorcidas, como no caso de coberturas relacionadas à tra-
mitação da chamada PEC das Domésticas, o projeto que levou à aprovação da
emenda constitucional n. 72/2013 que equiparou os direitos dos trabalhadores
domésticos aos dos outros. Na ocasião foram identificadas sobreposições de dis-
cursos econômicos sobre os discursos morais e sociais e as questões de justiça so-
cial, além da ausência de informações relevantes, como o papel das organizações
de empregadas domésticas na articulação da emenda constitucional.
Outros casos analisados foram representações jornalísticas de processos
de regulação da comunicação na Inglaterra e no Brasil, como o Inquérito Leve-
son na Inglaterra em 2012 e a tramitação do projeto de Lei complementar que
levou à aprovação do Marco Civil da Internet no Brasil em 2014. Nesses debates,

50
ainda que em medidas e intensidades distintas, identificamos alguns padrões de
sobreposição discursiva, como os direitos ligados à imprensa sendo cristaliza-
dos como fatos, e por isso vistos como direitos absolutos, enquanto que as ques-
tões de privacidade e intimidade eram vistas como meros sentimentos pessoais,
e portanto, muito subjetivas para se sobrepor aos valores e consequências dos
princípios da liberdade de imprensa e expressão.
Outra questão que apareceu nesse estudo sobre coberturas de políticas de
comunicação foi a oposição entre comunicação e direito, ou mesmo entre jor-
nalismo e direitos humanos, de modo que os interesses e lógicas de cada campo
fossem incompatíveis. No entanto, essas perspectivas se limitam a uma concep-
ção material e proprietária das liberdades de comunicação, e não levam em conta
avanço do debate sobre indivisibilidade e interdependência dos direitos huma-
nos ligados à comunicação, e na teoria jurídica e na jurisprudência, o uso das
teorias pós-positivistas da ponderação e harmonização dos direitos fundamen-
tais e princípios gerais do direito.

Dimensão estético-expressiva
Jornalismo em quadrinhos: educação e reconhecimento
Ao tratarmos em casos ligados às dimensões é conteúdos estético-expres-
sivos e culturais, podemos citar descobertas derivadas de análises de discursos
de direitos humanos em obras de quadrinhos, bem como em obras literárias de
não ficção.
Em um dos estudos, “Direitos Humanos em Quadrinhos” (Blotta & Con-
rado, 2016), foram analisadas as contribuições dos aspectos fundamentais do
meio quadrinhístico para a educação em direitos humanos, como seus poten-
ciais de crítica e transgressão, de múltiplas narrativas, e conexão com o cotidiano
dos leitores. Nesta medida, a autonomia da linguagem quadrinhística em relação
aos campos da educação e da política parecem fundamentais para realizar esses
potenciais.
Outro estudo abordou narrativas em literatura de não ficção e em qua-
drinhos sobre a ditadura de 1964-1985 no Brasil e a guerra da Croácia contra a
Sérvia nos anos 1990, sob a perspectiva dos traumas culturais. Nessa área que

51
entrecruza história com literatura e psicanálise, ficaram evidentes para maior
empatia política entre grupos opostos a importância normativa de se equilibrar
representações mais realistas e dualistas com representações mais metafóricas e
perspectivistas sobre a violência e seus grandes traumas sociais (Blotta, 2017).
No caso dos quadrinhos, sua varialibilidade, possibilidade mudança de
perspectiva, representação imagética indireta, além de construção intersubjetiva
das narrativas com os leitores, permite novos formas de se compartilhar questões
sobre direitos fundamentais.
Por fim, podemos pensar também na perspectiva de uma ética e prática
do jornalismo como exercício de tradução e realização de relações de reconhe-
cimento recíproco entre sujeitos e narrativas e visões de mundo em disputa nos
espaços públicos.
No caso da justiça de transição, foram analisadas coberturas jornalísticas
sobre a Comissão Nacional da Verdade, na perspectiva de um jornalismo de re-
conhecimento, que veicula e respeita as diversas ações e identidades envolvidas.
Embora haja esse potencial no discurso jornalístico, identificamos que as cober-
turas se limitam a casos conhecidos, identidades categorizadas e marcadas pelos
papeis sociais, além de pecar pela descontextualização dos relatos. Isso dificulta
a circulação equitativa das expressões das identidades e conflitos sociais, o que
daria ao jornalismo status de espaço que facilitação de deliberações públicas,
como também de relações de reconhecimento recíproco.
Tem sido possível encontrar esses discursos jornalísticos na última déca-
da no Brasil, com os novos coletivos e grupos de jornalismo sobre questões de
violência e segurança, como os canais Ponte Jornalismo, o Mural de Notícias, o
Mídia Ninja, entre outros, que aproveitam as aberturas para visibilizar novas for-
mas de midiatização dos conflitos sociais e novas vozes e narrativas identitárias
no debate público sobre política, direitos humanos e violência.
Tratam-se de aberturas para práticas de um jornalismo que, a partir do
pensamento de Axel Honneth, podemos chamar de jornalismo de reconheci-
mento, o que envolve não só a expressão direta das diversas identidades, mas
também a popularização do discurso jornalístico a quem realiza esse tipo de
trabalho na comunicação. São os casos do Monitor da Violência, projeto coor-

52
denado por Bruno Paes Manso no Núcleo de Estudos dsa Violência da USP, em
parceria com o site G1, e a coluna sobre direitos humanos no site UOL da jorna-
lista Maria Carolina Trevisan.6

Conclusões
Neste texto procuramos refletir preliminarmente sobre um programa de
pesquisas que pensa a legislação e ética do jornalismo a partir de teoria que com-
bina estudos normativos dos direitos da comunicação e dos deveres de comuni-
cação do direito com análises do jornalismo político e sobre direitos humanos.
Esta teoria só pode defender o status de teoria crítica na medida em que realiza
de modo equilibrado estudos sobre a validade de ética jornalística com produ-
ções jornalísticas sobre política e direitos humanos, sempre de modo contextua-
lizado e empírico.
Nessa perspectiva podemos pensar a conjuntura das mudanças tecnológi-
cas e econômicas do campo jornalismo e da comunicação como um momento
para autonomizar o discurso jornalístico em relação aos meios de comunicação.
Como propõe Carlos Chaparro, com as mudanças tecnológicas do campo, o jor-
nalismo transcendeu os limites da profissão para se tornar uma das linguagens
e éticas da maior relevância para esfera pública política e consequentemente a
legitimidade dos regimes políticos. Cabe a nós entendê-lo e para preservar seus
princípios normativos, para o bem do jornalismo e também dos direitos huma-
nos e da democracia.

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55
DEBATES E CONFERÊNCIAS:
JOURNALISM AS IF THE PEOPLE MATTERED1

Jyotika Ramaprasad2

Robert Hutchins, President of the University of Chicago, as head of a com-


mission established to examine the performance of the news media, released a
report titled A Free and Responsible Press (Commission on Freedom of the Press,
1947). The commission took a dim view of the performance of the American
press, criticizing the media’s market logic and its stereotypical and poor repre-
sentation of marginalized communities. It called for a free and responsible press,
and suggested that if the press were not socially responsible it could risk losing
some of its freedom. The year was 1947, but it could be today.
Today, media concentration has reached heights unimagined in 1947
(MCCHESNEY, 2015), and the invisibility or prejudicial coverage of the people
at the lower rungs of society, those who are minorities for example or those who
are at the “wrong” end of the socio-economic scale, has now become a global
phenomenon, multiplied by the reach of technology and the movement of peo-
ple (ERJAVEC, 2001).
Today, we speak again about the need for a press that is not only free but
also responsible. We speak of human rights journalism (SHAW, 2012), of solu-
tions journalism (BENESCH, 1998); we speak of journalism for social change
(SKJERDAL, 2012).
The 70 years in between 1947 and 2017 were not however bereft of examina-
tions of the press, of soul searching, of attempts to find solutions, that would make
the invisible peoples and places visible again, to find a journalism that lives up to
its role of providing a public space, a space for a public that is defined by inclusivity.

1. The title and parts of this address share some similarity with some of the other works of the au-
thor including the following: RAMAPRASAD, J. Journalism as if the people mattered: Addressing
HIV/AIDS in East Africa. Paper presented at AEJMC. San Antonio, ago. 2005.
2. School of Communication, University of Miami. This paper was the keynote address to Bra-
zilian Journalism Researchers Association annual conference, held in Sao Paolo, Brazil, in No-
vember 8, 2017.

57
In fact, within the United States itself, the Kerner Commission report (THE
NATIONAL ADVISORY COMMISSION ON CIVIL DISORDERS, 1968), set
up after the race riots in Watts, a Los Angeles area predominantly inhabited by
African Americans, aimed some of its sharpest criticism at the mainstream me-
dia. The report said, “The press has too long basked in a white world looking out
of it, if at all, with white men’s eyes and white perspective” (THE NATIONAL
ADVISORY COMMISSION ON CIVIL DISORDERS, 1968, p. 389). The re-
port’s most famous passage warned, “Our nation is moving toward two societies,
one black, one white – separate and unequal” (THE NATIONAL ADVISORY
COMMISSION ON CIVIL DISORDERS, 1968, p. 1).
The 70 years of time between the 1947 Hutchins Commission Report and
today, 2017, saw the emergence of many normative theories for the news media,
but unfortunately also often experienced an inability to operationalize these nor-
ms into practice, at least for any sustained period of time.
According to the scholars Baran and Davis (1995), “Normative theories
describe ideal roles for media, recommend ideal practices, and envision ideal
consequences” (p. 76). We need to then ask whether the fact that we are reaching
for the ideal in these theories makes it difficult to put these theories into practice
in the real world. Still, many of these theories provide practical guidelines in how
a story may be written differently from the current dominant practice of jour-
nalism, one marked by lack of attention to human rights, to the poor, to those
whose lives are characterized by difficulties of the kind we cannot imagine.
This is where the idea of “enabling theory,” theory that enables its practice,
theory that is translational (to borrow a phrase from medicine), comes into play.
Some of the theories presented below do include very practical guidelines to
their practice. If we learn the philosophical underpinnings of these theories and
also how to practice them, maybe we can hope for a type of journalism that tells
the undertold story in a telling way.
So, what are some of these journalism philosophies?
The year 1947, the year of the Hutchins Commission report that called for
a free and responsible press, was also coincidentally the year India won its free-
dom from the British due in no small part to the brave journalism of Indian free-

58
dom fighters Mohandas Gandhi and Jawaharlal Nehru and of a myriad of other
journalists. Along with a group of nations that were emerging from colonialism,
India called for a journalism of development, or development journalism as it is
called, as part of a need for a new world information order.
According to one definition,

Development news should examine critically, evaluate and interpret the


relevance of development plans, projects, policies, problems, and issues.
It should … refer to the needs of people, which may vary from country
to country or from region to region, but generally include primary needs,
such as food, housing, employment; secondary needs such as transporta-
tion, energy sources and electricity; and tertiary needs such as cultural di-
versity, recognition and dignity (SHAH, 1988, p. 426).

Napoli (2002) provided a somewhat similar definition:

The concept [of], ‘development journalism’ … propounded going beyond


‘objectivity’ and the mere telegraphing of disconnected information to ins-
tead give readers more context for decision-making, as well as some op-
tions for improving their lot and building their countries.… It’s about get-
ting the news closer to reader interests, humanizing its content and making
it more useful and positive for local and national development (p. 269).

Developing world practitioners have equated this journalism to investi-


gative journalism into development issues and to community-style journalism
(AGGARWALA, 1979), but Western practitioners and academics believe that it
is a cover up for government control, which ensures positive coverage of leader
and country (SUSSMAN, 1981).
Thus, development journalism had its detractors, and also its abusers in the
form of dictatorial governments just as some of its detractors had alleged, but the
idea of a news media that has a responsibility to community has stayed with jour-
nalists from the developing world. Research I have recently conducted, that has

59
interviewed journalists from many countries of the world, including countries of
the BRICS coalition, has found again that despite the immense near ­worldwide
corporatization, concentration, and consonance of the media, journalists from
the developing world still feel (at least normatively) a missionary zeal for inter-
ventionism, for playing a role in social change, for giving voice to the voiceless.
They want to make visible those previously invisible and disparaged.
But this is an idea that is not limited to the developing world; it is also
­found in the West under different names.
In the 1980s, the idea of public (or civic) journalism was proposed by a
U.S. professor, Jay Rosen, and a journalist from the Wichita Eagle, Buzz Merritt
(ROSEN; MERRITT, 1997). This model shared characteristics of the social res-
ponsibility theory of the press and development journalism theory.
Public journalism invested journalists with a responsible role by having
them use journalism to reconnect audiences with each other and with societal
institutions and thus make them accountable as citizens in terms of their obliga-
tion to take ownership of their problems and find indigenous solutions. Public
journalism was not a settled doctrine and its explications ranged from creating
participatory deliberations to launching mobilizing projects, where journalists
would need to get involved in problem-solving and may even provide solutions.3
Even before the advent of public journalism, the idea of peace journalism
had entered the domain of journalistic philosophies in the 1970s, with the germ
of the idea emerging from the work done by Johan Galtung, who founded the
Peace Research Institute in Oslo, and Mari Ruge (1965). Peace journalism es-
poused the idea of reporting to focus on peace solutions rather than on conflict
coverage. Conflict coverage uses the dualistic frames of us versus them, and of
3.Public journalism arose due to several reasons (BARE, 1998), including dissatisfaction with
media coverage of the 1988 and 1992 elections which was more about political gamesmanship
and less about the sustenance of democracy (BLOMQUIST; ZUKIN, 1997). Putnam (2001) had
also noted low civic engagement among the public. Rosen and Merritt (1997) identified four
characteristic practices of public journalism:
1. Helping people sort out their core values;
2. Encouraging constructive citizen debates;
3. Providing good, in-depth reporting on difficult issues;
4. Reporting stories that illustrate successes and the potential for positive action by individuals.

60
dehumanizing the other, instead of providing a balanced picture. McGoldrick
and Lynch (2000), major proponents of peace journalism, put the blame of mis-
reporting and misrepresenting the world’s crises on the practice of war journa-
lism, which prioritizes violence.
Peace journalism, which sits at the intersection of politics, peace, and jour-
nalism, aims at promoting peace, minimizing dichotomies, detailing the other
sides’ goals, and focusing on causes and solutions. While its origins predate the
event, peace journalism began to be discussed seriously in the literature after the
1991 Gulf War.
McGoldrick and Lynch (2000) actually provide guidance in terms of pro-
fessional practices to use for peace journalism including language choices that
would lead to peace rather than conflict solutions, thus joining in the translatio-
nal work of providing an enabling theory, one that can be translated into ­practice.
One of the more successful examples of peace journalism is the formation of pea-
ce radio after the hate radio that spurred the genocide that occurred in Rwanda
(BARROW, 1996). But peace journalism too has its detractors.
Also subjected to considerable controversy and criticism is the idea of
communitarian journalism, which began to be discussed in the 1990s. While
based in African thought, communitarian journalism has been propounded by
ethicists from the United States too (BARNEY, 1996). It derives from communi-
tarian theory, which places the interests of community and society above those
of the individual, focuses on morality and humanity for the common good, and
believes that the maintenance of civil society is critical (BLACK, 1997; CHRIS-
TIANS, 2004).
Moemeka (1997) noted that communication in the communalistic socie-
ties of Africa should be used to confirm, to solidify, and to promote communal
social order and to maintain and improve interpersonal relationships. Bourgault
(1995) described such communication as “communitarian” (p. 247), which she
defines as “non-hierarchical, dialogical communication and grassroots partici-
pation in development.”
More recently, Christians and Cooper (2009) have suggested that the goal
of journalists should be to raise critical consciousness in the public, and for this

61
they should consider “interpretive sufficiency,” which “takes seriously communal
living that is loaded with cultural complexity” (p. 62). Thus, communitarian jour-
nalism is liberatory and dialogic, engaging citizens and resulting in civic trans-
formation. In fact, proponents of communitarian journalism suggest that the
press’ role is not only to provide information but also to facilitate social change.
The associational notion of communitarian journalism derives from the
ubuntu philosophy of South Africa, which defines individual identity as being
realized only as a belonging, participating, sharing member of community. In-
terestingly, the concept of ubuntuism is not evoked in discussions of journalistic
functions alone but also in discussions of media ethics (FOURIE, 2008). Ubun-
tu can be understood as a shared humanity, an aspect of communitarianism,
and humane behaviour towards others (RABE, 2005, p. 23). It is also referred
to as “Afro-humanism,” which includes “sympathy, care, sensitivity to the needs
of others, respect, consideration, patience” (Chikanda, n.d., as cited in RABE,
2005, p. 23).
Fourie (2008) suggests that dialogue with community rather than detach-
ment is the hallmark of a media ethics based in ubuntu thought. Citing Christians
(2004), he says that ubuntu media ethics does not develop rules for journalists
but instead urges sensitivity to a community’s general morality. Fourie connects
this concept with communitarianism, public journalism, and the Freirien dialo-
gic model of communication.
More recently, Ibrahim Shaw (2012) has written about human rights jour-
nalism. In many ways, the journalisms we have spoken about – public, peace,
social responsibility, communitarian, etc., are human rights journalism. Shaw
argues that journalism should focus on deconstructing the underlying structu-
ral and cultural causes of political violence such as poverty, famine and human
trafficking, and play a proactive (preventative), rather than reactive (prescripti-
ve), role in humanitarian intervention. For Shaw, human rights journalism is a
normative journalistic practice, a rights-based journalism – a journalism based
on the respect for human dignity irrespective of colour, nationality, race, gen-
der, geographical location and so on. According to Rose (2013), a human rights
based approach will create journalists who will engage in sustained reporting to

62
protect and promote human rights. They will remind duty bearers of their duty
to respect rights. Like the other journalisms we looked at earlier, this journa-
lism too, unlike traditional journalism, carries with it an “obligation of activism”
(ROSE, 2013, p. 89).
Deborah Posel (2005, as cited in Garman, 2005) says “healthy democracies
are indeed very talkative” (p. 201). Today, we live in a world where technology
has created spaces for citizen participation in the practice of journalism. The idea
of serving the public good is also extended by some theorists to blogging and
participatory or citizen journalism (CHRISTIANS; COOPER, 2009). This impe-
rative of transformation, articulated in journalistic philosophies, is increasingly
positioning community and society at centerpoint.
Let me give you a few other examples of this quickly. Hochheimer (2001)
has suggested a journalism of meaning, which combines many of the thoughts
of communitarian journalism, includes ideas of participation, community, dialo-
gue, unity, and spirituality. Northwestern University (2017) has offered a course
in Empathy Journalism. Deuze (2008) has argued that journalists should be fa-
cilitators of bottom up community level conversations rather than disseminators
of top-down information. Feighery (2009) suggests that commissions (Warren,
Eisenhower, Kerner) have expanded American journalism’s sense of responsibi-
lity, moving the media from a sense of negative responsibility (do no harm) to a
sense of positive responsibility (do good).
Critics of the “social” theories of journalism4 (social responsibility, public,
peace, communitarian, development) pit these theories against libertarian theory
in terms of ownership, freedom, and journalistic practices. The proposition that
journalism may be practiced in pursuit of a social good is anathema to those who
believe in journalistic detachment, the bedrock of libertarian press philosophy.
But the choice does not have to be binary; these social theories too mostly
subscribe to private ownership, journalistic freedom and good journalistic
4. Christians and Nordenstreng (2004) suggest that the sacredness of human life, embedded wi-
thin which are human dignity, truth telling, and nonmaleficence, is a universal ethical princi-
ple; this principle may be said to undergird these social journalisms (Also see, CHRISTIANS;
­COOPER, 2009).

63
­practices. They do not completely repudiate basic libertarian philosophy or prin-
ciples of good journalism, only make them more inclusive in their scope and par-
tially repurpose them by placing importance on responsibility for the common
good and for transforming society.
Still, questions about how the ideals of these social journalisms may be re-
conciled with the notions of objectivity and individualism of Western society re-
main (BOTHA; DE BEER, 2006). But, is any journalist’s “self-image as an unen-
cumbered individualist” (BOWERS, 2007, p. 92) real in view of the structural
limitations of journalism (BOURDIEU, 2005; NAPOLI, 2002)? Bowers (2007)
suggests that this image “must be replaced by the contextually sensitive journalist
in community. Reporters must be aware that their words inescapably create, not
describe” (p. 92).
This journalism of transformation, where journalism may be both the site
and the instrument of transformation, has the goal to fully develop a democra-
tic society and this includes redress of inequalities, reflecting the country’s de-
mographics, and championing the cause of the marginalized (WASSERMAN,
2005). This interventionist “ethnographic” journalism “would lead journalists to
refuse passively accepting human misery” (WASSERMAN, 2005, p. 170).5

Thank you.

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67
NARRATIVAS NECESSÁRIAS:
NOVOS FORMATOS DE JORNALISMO CONTRA-HEGEMÔNICO

Raquel Paiva1

1. Jornalismo na atualidade
No final do ano passado, Katharine Viner, a editora-chefe do jornal inglês
The Guardian, fez um pronunciamento em que enfatizava o papel fundamental
do “bom jornalismo” principalmente em momentos de grande turbulência.2 Vi-
ner ressaltava ainda que, se por um lado a emergência da internet possibilitou
uma ampliação do número de vozes, inclusive auxiliando o exercício da profissão
dos jornalistas, por outro lado, as redes sociais, como o Facebook e Google, trou-
xeram para o debate público o ódio, a misoginia e o racismo. Editar a partir de
algoritmos produz uma divisão de opiniões prejudicial à democracia.
Nas primeiras semanas de 2018, no Fórum Econômico de Davos, o inves-
tidor bilionário George Soros também fez coro a este argumento, defendendo
que Facebook e Google representam uma ameaça à democracia. Seu argumen-
to principal incidia sobre o fato de que as plataformas assumiram o controle
de pensamentos e do comportamento das pessoas. Um de seus argumentos é
de que “além de distorcer a democracia, as empresas de redes sociais, enganam
seus usuários, manipulando sua atenção e dirigindo-a para seus próprios fins
comerciais”.3
Ambas as preocupações balizam pensamentos e argumentações até então
restritas à opinião privada de poucos indivíduos e grupos até então considerados
contrários ao uso das novas tecnologias. Em quase todo o mundo, as redes so-
1. Professora Titular da Escola de Comunicação da UFRJ, pesquisadora 1 A do CNPq, jornalista
formada pela UFJF, especialização no Ciespal, Mestrado e Doutorado no PPGCOM-ECO-UFRJ,
PDI na Università degli Studi di Torino com Gianni Vattimo, coordenadora do LECC – Labora-
tório de Estudos em Comunicação Comunitária.
2. Disponível em: <www.theguardian.com/media/2017/nov/16/katharine-viner-we-need-public-
interest-journalism-in-turbulent-digital-age?CMP=Share_iOSApp_Other>. Acesso em: 5 nov. 2018.
3. Disponível em: <www.theguardian.com/business/2018/jan/25/george-soros-facebook-and-google-
are-a-menace-to-society>. Acesso em: 5 nov. 2018.

68
ciais se transformaram no principal meio de acesso à informação como também
ao contato entre as pessoas, em nível profissional ou pessoal. Como redes sociais
permeiam de maneira definitiva a vida na atualidade, o registro de opiniões con-
trárias ao lugar que conseguiram sem dúvida alguma alerta para uma reflexão.
A primeira questão e que está presente nas duas argumentações – a de um
alto cargo num dos mais influentes jornais do mundo e a de um dos homens mais
ricos do mundo – diz respeito à democracia. Afinal, o que é democracia no mun-
do atual? E o que significam democracia e jornalismo na atualidade? Em que me-
dida se conectam? Seria possível admitir que ainda estão relacionados, ou pelo
menos que o exercício pleno da liberdade de imprensa pode ser uma das mais
importantes ferramentas de garantia da existência de governos democráticos?
Sob a égide clássica da representação democrática, a disputa por hegemo-
nia sempre se deu no âmbito de poder da opinião, embora jamais excluindo in-
teiramente as emoções e as sensações. Em sua regularidade institucional, porém,
o texto jornalístico articula-se em torno de argumentos e significados, apreendi-
dos pelo leitor com uma variedade de enunciados e com o pano de fundo de uma
verdade justificada pelo senso comum. A apreensão resulta de estratégias tex-
tuais orientadas para o entendimento: narração, descrição, explanação, explica-
ção. Supõe-se que a transparência do mundo decorra de negociações discursivas,
portanto, de uma lógica de argumentos, no jogo democrático da esfera pública.
A defesa liberal sobre a pluralidade das fontes de informação assenta-se no
pressuposto de que o pluralismo das vozes gera uma diversidade argumentativa
capaz de incrementar a potência democrática do consenso. Mas se, por um lado,
a supressão dessa pluralidade coincide com o totalitarismo ou com antidemo-
cracia, por outro, a multiplicação descontrolada ou apolítica das fontes pode não
conduzir a nada mais do que o corporativismo articulado com formas gerenciais
do Estado. É o que se observa na proliferação de produtos impressos e audiovi-
suais por parte das grandes organizações corporativas de mídia. Com o aporte
tecnológico, o principal objetivo da mídia atual, sob o regime identificado com
o capital, configura-se como a apropriação do tempo do outro.
A informação em si mesma, desligada do contexto sociopolítico, pode ser
apenas o incremento do senso comum ou da hegemonia, o que contribui para a

69
maior ocidentalização da sociedade civil. Parte daí a caracterização da imprensa
como um intelectual coletivo das classes dirigentes, mas no sentido de conformi-
dade à sua função hegemônica (portanto, à ideologia de domínio) e não necessa-
riamente de mera conformidade à atuação política da classe dirigente.
Nas chamadas tecnodemocracias ocidentais, a temática da liberdade de
expressão nas ruas ou praças públicas, frequentemente identifica a chamada
“opinião pública” com aquela que está voltada para a grade de entretenimento.
A notícia, ainda que catastrófica, é consumida como entretenimento. O discurso
informativo é cada vez mais permeado pelo imaginário social, esmaecendo-se os
critérios tradicionais de verossimilhança e reforçando a comunicação de fatos a
um público receptor suposto pelos mecanismos de pesquisa comercial.
Não mais se trata de atribuir cores depreciativas a um jornalismo presu-
midamente opositivo a outro, “sério”. E como afirma Muniz Sodré (2006), o sen-
sível, espetacular ou não, impõe-se à mídia como uma espécie de solo cultural,
em virtude da afetação da esfera pública pelo mercado de bens e serviços, além
das redefinições progressivas de cultura como entretenimento e de política como
gestão eficaz do capital humano.
Neste sentido, a definição do que é democracia na atualidade constitui uma
tarefa que exige o esforço da compreensão do que idealisticamente se concebe
como jornalismo, em oposição ao que é exercido na atualidade, em especial em
sistemas políticos consolidados sem o exercício do pensamento analítico e cri-
tico da população. Não é possível deixar de reconhecer a face excludente desses
regimes considerados democráticos, que só podem ser compartilhados por uma
parte restrita da população mundial.
A questão da democracia aventada nos dois alertas iniciais, a despeito de
sua importância social, baseia-se numa argumentação difícil de ser sustentada.
Em especial, se considerada como atinente ao jornalismo exercido em um país de
terceiro mundo como o Brasil. Como e público e notório, o jornalismo exercido
no país põe-se completamente a serviço da classe política, jurídica e financeira,
com interesses bastante apartados daqueles que sempre nortearam o jornalismo,
ou seja, o de defensor do bem comum, o de responsável pelo debate e de zelador
da diversidade na esfera pública.

70
Diante da constatação da falência do ideário jornalista no território bra-
sileiro, o que resta é a investigação de formas alternativas, contra-hegemônicas,
de forças capazes de fazer frente às empresas responsáveis por gerenciar as in-
formações a que se pode e deve ter acesso. E neste contexto, felizmente é preciso
comemorar a presença da multiplicidade de vozes conseguida via digitalização.
Apenas dessa maneira se conseguiu no Brasil ter acesso a acontecimentos que
as empresas de mídia não noticiaram de maneira alguma. A partir da ação co-
municativa de coletivos se conseguiu conhecer lados completamente sombrios
da realidade brasileira. A cobertura feita com equipamentos como celulares,
abrindo mão de padrões de qualidade visuais e sonoros, permitiu acompanhar
acontecimentos que as corporações jornalísticas persistentemente excluem do
seu espectro noticioso.
Efetivamente, há democracias e democracias. Há jornalismos e jornalis-
mos. E essas duas forças podem estar relacionadas na medida em que sua po-
pulação-alvo, seu conjunto de leitores estejam capacitados para a interpretação,
para análise e para a reivindicação de seus lugares na coletividade. Lamentavel-
mente, ambas constituem ainda duas possibilidades precárias para a população
brasileira, que assiste entretida à programação televisiva e revela toda a sua pu-
jança alegre por se acreditar parte do sistema ao postar selfies e poder dar suas
opiniões, compartilhando informações de origem sempre duvidosa ou ainda en-
viando suas singelas apurações como repórteres presentes nos acontecimentos
do quotidiano das cidades.

2. O lugar do jornalismo contra o “analfabetismo funcional”


Na segunda metade de 2016, a secundarista Ana Júlia Ribeiro, convidada
para falar na Assembleia Legislativa do Paraná, chamou atenção de todo o país
para uma conceituação até então restrita aos meios acadêmicos e mesmo assim
um pouco fora de uso nos últimos anos: o analfabetismo funcional. É preciso
lembrar que, no Brasil, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf),
produzido pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, aponta que no
Brasil 92% da população entre 15 e 64 anos, do analfabetismo funcional, ou seja,
não apenas a capacidade de escrever o nome, mas a de ler e interpretar textos,

71
92% da população entre 15 e 64 anos não são proficientes em escrita, leitura e
habilidades matemáticas,4 ou seja, 27% da população brasileira podem ser consi-
derados analfabetos funcionais, de acordo com os dados de 2017.
Pode-se aplicar esse dado também para entender o consumo de mídia no
Brasil, uma vez que ele pode explicar, por exemplo, o sucesso da ferramenta de
voz no WhatsApp ou ainda o porquê de o consumo digital ser numericamente
maior quando afeito ao celular e às redes sociais do que aos computadores e final-
mente os ainda altíssimos índices da audiência televisiva, com número em torno
de 97% da população do país5. Está aqui em questão, além do consumo de mídia,
a capacidade de interpretar a realidade ao seu redor e o mundo em que se vive.
Ao longo dos últimos 60 anos, o Brasil e a América Latina foram inova-
dores em termos de projetos importantes de leitura crítica da produção jornalís-
tica. O autor basilar em praticamente todas as propostas tem sido Paulo Freire.
Certamente outros nomes têm sido acrescentados ao longo da década de 1970 e
1980, e recentemente, experiências, coletivos e grupos têm reiterado a necessida-
de de se fazer frente ao discurso produzido pela mídia hegemônica, concentran-
do-se em um possível papel formativo da produção midiática. Uma produção
destinada a formar cidadãos, sujeitos ativos em seu grupo.
Nesse sentido, é imperativo o resgate da ideia de cidadania.
Nos termos da análise realizada por José Murilo de Carvalho (2004), a ci-
dadania nacional teria sido construída dentro de uma cultura paroquial, que ele
conceitua como “estadania”, com papel central do Estado e sem caráter público
ou universalista. Por outro lado, é ponto pacifico na literatura sociológica a con-
sideração de que o conceito de cidadania engendra a convivência e a interdepen-
dência dos três direitos: civis, políticos e sociais; por direitos civis, entende-se a
liberdade individual de expressão, de fé e de propriedade; por direitos políticos,
4. Dados em: <http://edicaodobrasil.com.br/2017/03/17/analfabetismo-funcional-atinge-27-
da-populacao/>. O estudo na íntegra está disponível em: <http://acaoeducativa.org.br/wp-
content/uploads/2016/09/INAFEstudosEspeciais_2016_Letramento_e_Mundo_do_Trabalho.
pdf>. Acesso em: 5 nov. 2018.
5. Conferir os documentos da Pesquisa Brasileira de Mídia 2015 e 2016: <www.secom.gov.br/
atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-
brasileira-de-midia-pbm-2016.pdf/view>. Acesso em: 5 nov. 2018.

72
a participação no poder político ou como eleitor, enquanto por direitos sociais
se quer designar a participação ao mínimo de bem-estar econômico e segurança.
Para José Murilo (CARVALHO, 2004), entretanto, no caso brasileiro, a separação
funcional desses direitos acarretou uma dificuldade no entendimento da visão
sobre cidadania e a concentração nos direitos políticos.
A proposta aqui se concentra em resgatar o aspecto plural da cidadania.
Tem um lastro de projeto político e ecológico a proposição comunitarista a par-
tir do que definimos por comunidade gerativa (PAIVA, 2004, p. 57), como um
projeto de vinculação identitária e educacional. Por comunidade gerativa, pre-
tendeu-se designar o conjunto de ações (norteadas pelo propósito do bem co-
mum) passíveis de serem executadas por um grupo e/ou conjunto de cidadãos,
com ênfase nas ações práticas do cotidiano e da localidade, ou seja, a atuação
de uma política socialmente gerativa, na perspectiva do que vem chamando de
“direito do comum”, entendido como “um direito dotado de um poder de au-
toaperfeiçoamento indefinido a partir da perpetuação de antigos costumes”, à
parte do consuetudinário (LAVAL; DARDOT, 2015, p. 262). Por outro lado, é
importante frisar que a proposta de comunidade gerativa não pretende substituir
o Estado nas suas atribuições, muitas delas deixadas de lado pelo modelo neoli-
beral, com um Estado mínimo, praticamente incapaz de atuar no que até então se
entendia como do âmbito de suas próprias e intransferíveis atuações, como, por
exemplo, aquelas relacionadas à saúde, educação, habitação, segurança etc. Por
comunidade gerativa pretende-se resgatar a compreensão e o sentimento de ci-
dadania em sua amplitude promovendo sujeitos engajados e capazes de atuar
diretamente no seu quotidiano em todas as esferas. 
Na reinterpretação social do conceito de cidadania operada por Kaplun
(1997), bastante influenciada pelo pensamento educacional de Paulo Freire, a
ideia de comunidade ganha um primeiro plano, já que se trata de “conhecer a co-
munidade para a qual se trabalha, sua cultura, seus códigos, seus costumes e seus
gestos” (KAPLUN, 1998, p 36). Assim como o processo educacional concebido
por Freire preconizava um trabalho ideológico sobre a consciência do educando,
na metodologia desenvolvida por Kaplun era vital tornar o receptor mais ativo e
mais crítico.

73
A concepção de educação como um processo dialógico é o que norteia os
projetos centrados na disposição em romper a apatia do mero consumo infor-
macional. A certeza de que a consolidação de uma cidadania plena só pode ser
centrada e construída em projeto voltados para a compreensão deste ambiente
de forte densificação midiática é certamente a continuação e o resgate dos pres-
supostos trazidos por toda essa corrente de pensadores latino-americanos.
A crítica ao sistema de educação à distância, ao fluxo informacional con-
vencional, concentrado na pujança do emissor, bem como a produção de mo-
delos inclusivos de comunicação, são legados que permitem a clara identificação
da escola de comunicação latino-americana, preocupada com a discussão efetiva
do fluxo informacional e também com a produção de meios e processos capa-
zes de reverter e reconfigurar a situação atual. O jornalismo revisitado por esta
perspectiva adquire e retoma as bases de suas fundações, parte para uma função
proativa, apartando-se da mera função informacional e deixa de lado discussões
afeitas ao campo do mero escambo discursivo nas redes sociais.
Muitos são os projetos que surgiram fincados nessa perspectiva no âmbito
da América Latina. Registram-se institutos importantes como o Ceneca (Centro
de Indagação, Expressão Cultural e Artística) do Chile, ou ainda o Cinep (Centro
de Investigação e Educação Popular) na Colômbia ou o Ciespal, no Equador. No
Brasil, a Igreja Católica, a partir da UCBC, União Cristã Brasileira de Comu-
nicação, gestou o projeto da LCC ou Leitura Critica da Mídia. Dentre os mais
contínuos está a educomunicação, que tem à frente o professor da Escola de Co-
municação da Universidade de São Paulo, Ismar Soares.
Mas também são inúmeros e frutíferos os coletivos de jovens, notadamen-
te moradores das favelas brasileiras que, usando as redes sociais, têm impactado
com novas linguagens e coberturas sobre os seus lugares. Não se pode deixar
de mencionar o Grupo Mídia Ninja pela sua capacidade de, utilizando poucos
recursos financeiros e tecnológicos, conseguir demonstrar no Brasil dos anos
atuais, de censura consentida (em que o governo e suas instituições pactuam
com o sistema de mídia o que se deve divulgar), a falência e a corrosão na mídia
hegemônica, ao produzir matérias e coberturas que nunca, em nenhum momen-
to, estiveram presentes na grande imprensa.

74
3. De dentro da bolha: constructive journalism/solution journalism
Historicamente, os projetos políticos mais interessantes com proposta de
fazer frente à produção midiática surgiram e continuam surgindo na América
Latina. Entretanto, é preciso iluminar um dos formatos mais criativos aparecidos
nos últimos anos. Há algumas controvérsias em torno de sua origem: algumas
correntes sugerem que tenha surgido nos EUA, como uma derivação da Psico-
logia Positiva. Entretanto outras vertentes garantem que se trata de um projeto
europeu, consolidado e expandindo-se nos últimos três anos. A proposição bá-
sica é a de uma ação dentro da própria produção da mídia e, portanto, de um
investimento no fazer jornalístico.
Além da questão em torno do lugar de origem desta nova proposição, é
preciso também fazer uma rápida distinção, se é que ela existe, entre o “Cons-
tructive” e o “Solution” Journalism. Os dois grupos pretendem-se distintos,
apesar da mesma proposição e baseados no principio primeiro de que a pro-
dução de noticias atualmente encontrou um ponto distante dos fundamentos
do fazer jornalístico, preocupado em zelar pelo ideário da ética, liberdade e
democracia, além do compromisso fundador com a verdade. O reconhecimen-
to de que a produção jornalística sofreu uma mutação substancial a partir da
midiatização e da frenética circulação de informações produziu uma busca por
refletir a prática jornalística e, consequentemente, apresentar novas possibili-
dades de olhar um fato.
A primeira defesa que ambos fazem é de que não se trata de um “jogo do
contente” ou de atitude “Pollyanna”, numa referência ao famoso romance ju-
venil da escritora americana Eleanor Porter. Ou seja, não se trata de fingir que
um fato ruim não ocorreu. Trata-se basicamente de entender que um aconteci-
mento pode ter uma variedade de possibilidades de olhares e que, usualmente,
o formato de exercício do jornalismo atual só consegue dar conta de um. Nes-
te sentido, a proposição de ambos se concentra exatamente no que sugerem
suas nominações: buscar e demonstrar soluções possíveis para cada situação,
por pior que pareça e finalmente tentar construir novas formas de olhar um
acontecimento, demonstrando como tentaram outras pessoas, governos, ins-
tituições etc.

75
Dentre os inúmeros autores que aderiram a esta nova perspectiva, o tra-
balho da jornalista dinamarquesa Cathrine Gyldensted, que inaugurou sua pes-
quisa sobre Constructive Journalism com um trabalho empírico sobre os aspec-
tos psicológicos da audiência e do jornalismo. Com cerca de 700 entrevistas, ela
pretendia demonstrar os efeitos negativos e a apatia, produzidos pela produção
do jornalismo atual. Mas ela demonstrou também que esta preocupação não é
recente e, na sua pesquisa inaugural, citava uma passagem emblemática quando

[...] o presidente Lyndon B. Johnson reclamou uma vez sobre a tendência


da notícia a ser ruim para Henry Luce, editor da revista Time. Johnson
acenou com um exemplar de Time para Luce e exclamou: ‘Esta semana,
200.000 negros foram registrados no sul graças a lei de direitos de voto.
Trezentas mil pessoas idosas serão cobertas por Medicare. Temos cem mil
jovens que trabalham em bairros. Alguma dessas notícias está aqui? Não. O
que está aqui?’. Luce respondeu: ‘Sr. Presidente, uma boa notícia não é no-
vidade. Más notícias são novidades’. (SCHUDSON apud GYLDENSTED,
2011, p. 30).

Esta passagem citada pelo professor da Universidade Columbia, Michael


Schudson, apesar de se referir à década de 1960, ainda permanece atual e exem-
plifica de maneira substantiva o formato de jornalismo que tem sido adotado. O
próprio Schudson argumenta não ser a notícia um espelho da realidade. “Trata-
-se de uma representação do mundo, e as representações são seletivas, ou seja,
as pessoas tomam decisões a partir de julgamentos subjetivos, valores pessoais e
preconceitos também”. (SCHUDSON, 2003, p.33).
Seja Constructive ou Solution, o fundamento básico dessa nova perspec-
tiva é que o formato de produção de notícias existente na atualidade tem pro-
duzido menos capacidade de intervenção na realidade, tem provocado apatia e,
finalmente, afugentado o leitor, o receptor, a audiência. Com um site, inúmeros
eventos através do mundo, seminários regulares e inúmeros workshops, a nova
proposta tem ganhado cada vez mais e mais adeptos nos veículos, e alguns deles,

76
como o jornal americano New York Times criou uma coluna semanal, “Fixes”6,
cuja produção tem como base a estrutura do Constructive Journalism. A idéia,
argumentam seus defensores, não é criar um veículo especifico para este tipo de
produção, apesar de a revista Positive News 7 cumprir esse papel. A ideia é formar
repórteres, influenciar editores e jornalistas para que se proponham a produzir
outros olhares sobre qualquer fato. Neste sentido, a rede britânica BBC tem mui-
to a ensinar, com inúmeras produções marcadas por esta perspectiva, além de
atual série Innovators 8.
A primeira etapa – da mesma maneira que os projetos citados na Améri-
ca Latina – baseia-se no reconhecimento da estrutura da narrativa jornalística
da atualidade, o conhecido breaking news, ou seja a produção e o consumo de
notícias sensacionalistas. Esta perspectiva se concentra no centro produtor, está
preocupada com a produção, não se conecta com o aspecto formativo nem mes-
mo pedagógico que lastreava a perspectiva latino-americana, nem está preocu-
pada em fazer com que o leitor interprete e entenda o mundo ao seu redor ou
mesmo que possa ser capaz de produzir sua própria narrativa.
A proposta que pretende intervir na produção jornalística tem como
foco inicial o próprio jornalista. Segundo esta proposição, é preciso fazer com
que o jornalista ouça e reconheça a opinião geral dos leitores na atualidade,
que se dizem exaustos e deprimidos por apenas lerem e verem o mundo ao
seu redor em completo caos e sem perspectivas de mudança de cenário. Em
2014, surgiram os primeiros rudimentos dessa perspectiva de ação. A pro-
posta estabeleceu uma projeção de limite de cinco anos para alcançar a meta
de transformar-se num procedimento a ser adotado por todos os veículos e
jornalistas do mundo. Esta prospectiva faz parte do desafio lançado no final
do ano passado no primeiro congresso internacional realizado pelo Construc-
tive Institut9, na Dinamarca, na Aarhus University, ao qual compareceram 470
participantes de 37 países.
6. Conferir: <www.nytimes.com/column/fixes>. Acesso em: 5 nov. 2018.
7. Conferir: <www.positive.news>. Acesso em: 5 nov. 2018.
8. Conferir: <www.bbc.co.uk/programmes/topics/Innovators>. Acesso em: 5 nov. 2018.
9. Todas as palestras estão disponíveis no site do Instituto: <https://constructiveinstitute.org/
News---Events/Constructive-Conference>. Acesso em: 5 nov. 2018.

77
Durante o evento, a discussão por muitas vezes concentrou-se no grande
volume de fake news na atualidade. Mas todas as conferências faziam questão
de frisar que o grande problema para o Constructive Journalism não são as
“fake news”, e sim as “bad news”. Intitulando-se como o jornalismo do futuro,
o Constructive possui um mapa de suas propostas. Primeiramente, a proposta
de inclusão de formatos de notícias positivos e focados na solução dentro das
coberturas convencionais; em segundo lugar, ter sempre em mente o quanto
as notícias afetam a cultura e o comportamento e, como terceira proposta, a
aplicação dos conhecimentos da psicologia positiva10, para engajar e capacitar
o público.
A proposta afirma ainda concentrar-se em um modelo de bem-estar do
mundo, em vez de um modelo de doença: por exemplo, procurar ver as pessoas
como tendo pontos fortes, não apenas como vítimas. Também procura realizar
uma abordagem de solução de problemas. Além de procurar enfocar o que seja
importante e relevante, considera a perspectiva de interpretação das notícias.
Enfatiza a preocupação de um jornalismo que se preocupa (estabelecido a partir
do conceito de “jornalismo de apego” do repórter da guerra britânica, Martin
Bell11, que trata de cuidar e conhecer).
Finalmente, a carta de intenções define o Constructive Journalism como
sendo crítico, mas com uma mentalidade construtiva e não apenas com um
enfoque negativo das notícias. Necessariamente independente, com alto valor
societário, estimula a promoção de reflexão, do diálogo, de colaboração e cons-
trução de consenso. Acredita-se que esta perspectiva ofereça um papel mais sig-
nificativo para o jornalista, especialmente porque mostra que as mudanças são
possíveis e por destacar possibilidades de resposta.

10. Neste sentido é importante frisar que, dentre os autores básicos para esta perspectiva, está o
americano Martin Seligman. Juntamente como o húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, ele produ-
ziu alguns estudos, dentre eles o bastante citado “Positive Psychology”, de 2.000, cuja ideia cen-
tral concentra-se numa visão otimista propositiva como a base da saúde física e mental. <http://
psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2F0003-066X.55.1.5>. Acesso em: 5 nov. 2018.
11. Conferir: <https://en.wikipedia.org/wiki/Martin_Bell>. Acesso em: 5 nov. 2018.

78
4. Conclusão
É importante frisar que o jornalismo tem, ao longo de sua história, en-
frentado disposições de mudança. Algumas vingaram e deram muito certo e em
especial nos países onde os debates e questionamentos sobre o seu exercício são
permanentes. Com alguma frequência, observa-se que a importação de modelos
oriundos de realidades diferentes e de vivência cívica acentuada nem sempre
permanecem fieis quando levados para países de frágil democracia e de estrutura
de veículos tão concentrada nas mãos de poucos representantes das classes mais
endinheiradas, como o Brasil por exemplo. Uma das experiências mais obtusas
implementadas no país, trazida de uma vivência americana, foi o Citizen Journa-
lism, no inicio da década de 1990 pela Rede Globo.
O Citizen surgiu nos EUA em função de um profundo debate entre aca-
dêmicos e jornalistas após as coberturas eleitorais que mais se assemelhavam a
cobertura de corrida de cavalos, dizia-se na época. No Brasil, virou um telejor-
nal, em que o jornalista ia aos lugares mais pobres da cidade (o início desses ex-
perimentos dá-se normalmente no Rio de Janeiro, sede da emissora), às favelas,
que se começou a nomear por “comunidades”. O programinha acabou como
sendo a ponte entre a população, o serviço público e as empresas, no intuito
de resolver os problemas apontados nas coberturas. A versão brasileira ainda
existe. De uma maneira modificada, teve inúmeras outras estruturas, como os
“Parceiros RJ”12, acentuando a proposta de simular dentro da programação da
emissora “um quê” de povo e assim demonstrar uma integração maior com as
cidades e suas populações.
No caso específico do Constructive Journalism, ainda não se tem uma vi-
são muito clara entre os profissionais brasileiros, primeiramente porque o jor-
nalismo no país passa por um momento bastante crítico, com as coberturas dos
grandes veículos muito dependentes do sistema político vigente. A ponto de na
penúltima semana de fevereiro todas as revistas semanais apresentarem a mesma
12. Recomenda-se a leitura de “Parceiro do RJ/TV Globo: comunidade e narrativas inclusivas
pelo audiovisual”, tese de Doutorado de Lilian Saback, defendida em 2015 no PPGCOM ECO-
UFRJ. E também “Jornalismo Comunitário na mídia – um estudo de caso do RJTV 1a edição,
de Fernando Goldwasser David, monografia de conclusão do curso de Jornalismo defendida em
2008 na ECO-UFRJ.

79
capa – mesma foto, mesma diagramação, mesmos títulos – sobre a reforma da
previdência. O fato evidencia uma relação de compadrio extremamente urdida
entre os poderes vigentes.
Por outro lado, alguns profissionais do Rio de Janeiro e São Paulo, entrevis-
tados sobre a proposta do Constructive13, alegaram quase imediatamente que se
trata de um jornalismo de boas notícias, com algumas experiências mal fadadas
no jornalismo brasileiro, que nenhum jornalista tem interesse em cobrir. Este
desconhecimento do que constitui o Constructive foi apontado pela jornalista e
diretora de redação da BBC Brasil, Silvia Salek, que, entrevistada, apontou como
o maior problema para a execução dessa perspectiva – de que, aliás, ela é uma
das implementadoras na emissora britânica – ser exatamente o jornalista que
tem dificuldade em perceber que é possível produzir notícias mais propositivas
e capazes de “afetar” as pessoas no sentido de procurar modificar sua realidade .

Nós, jornalistas, nos formamos, tanto na universidade quanto no merca-


do de trabalho, com alguns parâmetros que hoje estão ultrapassados. Um
deles vem daquela famosa expressão good news, bad news, ou seja, deve-
mos nos concentrar nos problemas. Isso gera um tipo de “jornalismo de
diagnóstico” que tem seu lugar na sociedade, é, sem dúvida, fundamental.
Mas esse tipo de jornalismo parte de um modelo antigo, hierarquizado em
que os editores decidiam o que priorizar, e a audiência estava mais ou me-
nos garantida nas assinaturas de jornais, na forte audiência da TV. Era um
consumo mais passivo da notícia. O jornalismo digital e a contagem ime-
diata da audiência mostraram, em primeiro lugar, que a oferta constante
de notícias com enfoque negativo afasta, dessensibiliza o leitor. O antídoto
para isso nem sempre é o jornalismo de soluções, claro. Muitas vezes, é o
contexto, o enfoque didático, analítico, as histórias humanas... É a produ-
ção de conteúdo que vai ajudar a pessoa a entender aquele problema, aque-

13. Eu realizei cerca de 10 entrevistas pessoalmente e por mensagem (e-mail e mensagem do Fa-
cebook) com jornalistas em novembro de 2017. Não publiquei ainda e também optei por não di-
vulgar seus nomes porque naquele momento me interessava mais suas opiniões que seus nomes e
postos que ocupam. Acredito que se a opção recair sobre seus nomes e veículos, terei que refazer
e também terei um cenário menos enfático no que tange a produção do solution journalism.

80
le ataque, aquela crise... Temos investido muito nisso na BBC Brasil, com
excelentes resultados de audiência. Em resumo, nossa audiência, de 2014
para cá, quadruplicou, passando de 5 milhões de usuários únicos para 20
milhões (SALEK, 2017).14

Certamente, a proposta aqui não fazer apologia desta nova proposição para
o fazer jornalístico. Além da discussão de base sobre o tipo de jornalismo que se
está produzindo, onde fundamentos básicos, como trazer todos os lados de uma
fato, têm sido deixado de lado. A argumentação em torno do Constructive Journa-
lism concentra-se em que apenas um lado é abordado: o que enfoca o problema,
nunca as possibilidades de superação. E numa visão de urdidura de uma reali-
dade menos apática, essa nova perspectiva constitui uma nova tentativa capaz
de “gerativamente” contribuir para uma intervenção cidadã, na medida em que
produz uma narrativa propositiva em busca de soluções para o contexto atual.

Referências
CARVALHO, José Murilo. Os bestializados da República. São Paulo: Companhia
das Letras, 2004
GYLDENSTED, Cathrine. Innovating news journalism through positive psycholo-
gy. 74p. Dissertação de Mestrado. Pennsylvania: University of Pennsylva-
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Torre, 1998
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siglo XXI. Barcelona: Gedisa Editorial, 2015.
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res, 1967.
PAIVA, Raquel. O espírito comum – mídia, comunidade e globalismo. Petropolis:
Ed. Vozes, 1997.
PAIVA, Raquel. “Estratégias e Comunicação e Comunidade gerativa”. In: PERU-
ZZO, Cicilia (org.). Vozes cidadãs: aspectos teóricos e analises de experiên-
14. Entrevista concedida a autora em novembro de 2017.

81
cias de comunicação popular e sindical na América Latina. São Paulo: An-
gellara, 2004.
(org.) O retorno da comunidade – os novos caminhos do social. Rio de
Janeiro: Mauad, 2007.
; SODRÉ, Muniz. “Sobre o facto e o acontecimento”. In: Trajectos: revista
de comunicação, cultura e educação, n . 6. Lisboa: Editorial Noticias, 2005,
p. 95.
. Jornalismo comunitário: uma reinterpretação da mídia (pela construção
de um jornalismo pragmático e não dogmático). Revista Famecos: mídia,
cultura e tecnologia, n. 30, ago. 2006, p. 62.
SCHUDSON, Michael. The sociology of news. Nova York: W.W. Norton, 2003.
SODRE, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento.
Petropolis: Vozes, 2009.
VINELLI, Natalia; ESPERON, Carlos (orgs.). Contrainformación: médios alter-
nativos para la acción política. Buenos Aires: Continente, 2004.

82
“COISAS DE PRETA”: RELATO DE PESQUISA

Rosangela Malachias1

A história do negro no Brasil confunde-se e identifica-se com a formação


da própria nação brasileira (…). Esta história começa com a chegada das
primeiras levas de escravos vindos da África. Isto se dá por volta de 1549,
quando o primeiro contingente é desembarcado em São Vicente. (MOU-
RA: 1989, p. 7).

O convite para palestrar no 15° Encontro Nacional de Pesquisadores em


Jornalismo/mesa – “Jornalismo Hoje, Diversidade e os Direitos Humanos na
Práxis” propiciou-me o compartilhamento, com um público maior e da área co-
municacional – estudantes, docentes e profissionais de jornalismo, publicidade,
relações públicas... – as vicissitudes de uma mulher negra, intelectual, jornalista,
ativista e educomunicadora. A epígrafe que abre este ensaio, assim como a cro-
nologia incompleta do ativismo social negro que ele apresenta relacionam-se ao
passado histórico incondicionalmente presente nas relações étnico-raciais viven-
ciadas na contemporaneidade.

Sankofa

1. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense no Departamento de


Ciências e Fundamentos da Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FEBF-
-UERJ). Alumni SYLFF Ryoichi Sasakawa (Japão) e alumini Fulbright Foundation na University
of Maryland (College Park) no College Philip Merrill of Journalism (Estados Unidos).

83
A figura é um símbolo Adinkra denominado Sankofa, representação de
um pássaro com a cabeça e pescoço virados para trás. A simbologia Adinkra
une provérbios à representação iconográfica oriunda dos povos Acã e Asante,
da África ocidental, mais precisamente Gana. O pássaro Sankofa nos diz que
precisamos aprender com o passado, para construir o futuro. Por isso, tanto para
a narrativa apresentada no evento, quanto nesta síntese escrita tentamos dar sen-
tido ao presente com opções metodológicas transculturais e educomunicativas.
Assim, o texto também inclui atualizações necessárias pela dinâmica do
mundo da vida e por isso, o título – “Coisa de Preta” – faz alusão à fala pejorativa
de um jornalista(?)2 contemporâneo, que expôs o seu preconceito racial em off,
leia-se cochicho gravado no estúdio, sem supor que um ano mais tarde esta gra-
vação seria compartilhada nas redes sociais, em pleno mês da Consciência Negra
e na mesma semana do 15º. SBPJor /2017. O caso causou – pleonasmo necessário
– o que particularmente denomino de “demissão premiada”3.
A expressão “Coisa de Preta”, ao contrário da negatividade e desprezo ma-
nifestados pelo âncora, define o meu trabalho e trajetória como resultado de
uma vida grata e consciente da intervenção ancestral, pré-existente, africana,
afro-brasileira, que transpassa à cor da minha epiderme, textura dos meus cabe-
los, espessura dos meus lábios e sobretudo manifesta-se na liberdade. O racismo
tenta, mas não me aprisiona. Como bem filosofou Stevie Biko, médico e líder
sul-africano na luta contra o apartheid – I write what I think (BIKO, 2008).

2. A interrogação é pessoal e refere-se a uma conduta ética que desqualifica a diversidade


étnica. O nome do então âncora posteriormente demitido (não foi justa causa; houve acordo
por rompimento contratual) do Jornal da Globo é William Waack. Essa postura está espelhada
em um comunicado final. Leia mais em: ­<https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/por-
que-william-waack-se-recusa-dizer-que-demissao-da-globo-foi-injusta--19154?cpid=txt>. Para
assistir a cena, acesse o CanalF (Revista Forum): <www.youtube.com/watch?v=WR2CcTWeM_
A>. Acesso em: 08 nov. 2017.
3. Segundo o próprio Waack “A emissora e eu chegamos a um acordo. Eu tinha um contrato
de prestação de serviços e esse contrato, por decisão mútua, foi encerrado dentro de cláusulas
mutuamente acordadas. [...] Qualquer coisa que se refira a de onde eu saí [TV Globo] precisa
do meu advogado por perto”. Leia mais em: <https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/
por-que-william-waack-se-recusa-dizer-que-demissao-da-globo-foi-injusta--19154?cpid=txt>.
Acesso em: 20 fev. 2018.

84
Motivação
A pesquisa de pós-doutorado (2014-2016) na Cátedra UNESCO/UMESP4
foi motivada por dois episódios. O primeiro, recorrente, refere-se à constatação
pessoal e cotidiana, durante anos trabalhando com a elaboração e docência de
cursos direcionados à Formação de Professoras(es) e Gestora(es) da Educação
Básica, de que as(os) cursistas desconheciam “a cronologia” (MALACHIAS,
1996; 2006; 2009; 2017) das lutas e conquistas políticas dos Movimentos Negros
no Brasil. Exemplos de personagens verídicos e das realizações do ativismo sem-
pre chocam e/ou surpreendem os/as participantes.
O segundo fato aconteceu entre o período de 9 de agosto a 4 de outubro
de 2013, quando assisti, como participante inscrita, os seminários ocorridos na
FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo sobre os “50
anos das Ciências da Comunicação no Brasil – a contribuição de São Paulo”.
Este evento foi idealizado pelo professor emérito José Marques de Melo – JMM
(1943-2018)5. O formato garantiu participação de “feras” do campo comuni-
cacional. Docentes convidados(as) apresentaram autores(as) renomados(as) já
falecidos(as) narrando as suas biografias e obras. Em algumas ocasiões manifes-
tavam visível emoção da saudade. A todos(as) os/as homenageados(as) foram
atribuídos perfis teórico e/ou profissional definidos previamente (inclusive em
livro) pelo organizador JMM, como: “precursores, desbravadores, inovadores,
renovadores, atualizadores, instigadores e dinamizadores”.
Ao me deparar com a programação senti uma certa nostalgia do tempo da
Graduação, pois alguns daqueles nomes foram leituras obrigatórias no curso de
Jornalismo. Mas, também, como uma intelectual negra brasileira, me aborreci ao
constatar que nenhum(a) autor(a) homenageado(a) era negro(a).
4. A Cátedra UNESCO na Universidade Metodista de São Paulo – Comunicação para o Desenvolvi-
mento Regional foi estabelecida em 1996, em conformidade com as metas e diretrizes estabelecidas
pela Rede Mundial de Cátedras UNESCO de Comunicação (ORBICOM), localizada em Montreal.
Na coordenação estava o professor emérito José Marques de Melo, falecido em 20 de junho de 2018.
5. Dedico este artigo ao jornalista e Professor emérito José Marques de Melo (JMM), primeiro
Doutor em Comunicação da América Latina, falecido em 20 de junho de 2018. JMM aceitou-me
como pós-doutoranda na Cátedra UNESCO/UMESP, presidida por ele, para o desenvolvimento
da pesquisa “Comunicação e Educação. (Re)Conhecimento de uma Epistemologia Afrobrasileira
(1900-2013)”, realizada entre 2014 e 2016.

85
Foi então que decidi redigir o projeto Comunicação e Educação. (Re)Co-
nhecimento de uma Epistemologia Afrobrasileira (1900-2013) objetivando aferir
se e como, o pensamento e ou prática desenvolvidos por intelectuais negros/as,
invisibilizados pela academia, destoa, inova, complementa e/ou equivale ao que
formulado por pensadores/as brancos(as), interessados(as) e dedicados(as) à
pesquisa comunicacional no Brasil e América Latina.

É preciso destruir o preconceito muito difundido de que a filosofia é qual-


quer coisa de muito difícil pelo fato de ser atividade intelectual própria de
uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos pro-
fissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente
que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características
desta “filosofia espontânea”, “própria de toda a gente”... (GRAMSCI: 1978,
p. 21).

Precursores ou Desbravadores?
O ativismo negro no Brasil é muito mais antigo do que as Ciências da
Comunicação. A Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana ou Revolta dos
Búzios, nomes que recebe, ocorreu em 12 de agosto de 1768 objetivando o rom-
pimento da relação colonial com Portugal. Os alfaiates negros João de Deus e
Manuel Faustino e os soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga foram enforcados,
após delação. Eles ousaram utilizar a mídia da época imprimindo cartazes para
conclamar o povo para aderir à revolta. Os participantes da elite branca, como
Cipriano Barata e Padre Agostinho Gomes foram inocentados.

Foi essa “competência” midiática que comprometeu o resultado da revo-


lução. Pois a mesma mídia que informava o populacho sobre as atitudes
a serem tomadas, informava também as autoridades e foi, justamente, a
partir dessa informação pública que o governo reprimiu a rebelião no nas-
cedouro, ordenando a prisão de alguns dos implicados e a devassa nas suas
residências e de seus familiares mais próximos. O movimento tinha um

86
viés republicano, como a Inconfidência Mineira, influenciado pelo eco da
Revolução Francesa. Pregava basicamente a instauração de um regime com
o povo representado no parlamento, aumento de salários, diminuição de
impostos e o fim da escravidão. Nitroglicerina pura. Ideias que, no enten-
dimento das autoridades, não deveriam prosperar e sequer deveriam ser
divulgadas (CADENA, 2010).

Outro exemplo de longevidade do ativismo negro no campo da comunica-


ção é o jornal abolicionista – O Homem de Cor (1833) – editado por Francisco de
Paula Brito (1809-1861), primeiro tipógrafo, editor, tradutor, escritor e contista
negro. Foi empregador de Machado de Assis e sua editora, pioneira, localizada
no centro do Rio de Janeiro respondia pela impressão de vários títulos.

Francisco de Paula Brito


Fonte: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

Poderíamos classificar os alfaiates baianos João de Deus e Manuel Fausti-


no e o primeiro editor Francisco de Paula Brito como precursores da Imprensa
nacional?
No início do século XX, a Imprensa Negra expande-se para informar e
educar os membros da sua comunidade. Esta mobilização pode ser analisada no
âmbito das “interfaces dos campos político-educativo e comunicacional” (MA-
LACHIAS, 2017, p. 364). O tema tem lastro de pesquisa no campo da História e
Sociologia. Roger Bastide (1973) é autor de A imprensa negra do Estado de São
Paulo; Miriam Nicolau Ferrara (1982) é referência obrigatória tendo escrito A
imprensa negra paulista (1915-1963). Há ainda os trabalhos de Luís Carlos Silva

87
Cuti (1992), que organizou a biografia de José Correia Leite, intitulada E disse
o velho Militante; Marinalda Garcia (1997) é autora de Os arcanos da cidada-
nia: a imprensa negra paulistana nos primórdios do século XX; Marina Pereira
de Almeida Mello (1999) é autora do O ressurgir das cinzas: negros paulistas no
pós-abolição: identidade e alteridade na imprensa negra paulistana (1915-1923);
Maria Aparecida de Oliveira Lopes (2001) pesquisou a Beleza e ascensão social
na imprensa negra paulistana (1920-1940); Cleber da Silva Maciel (1997), Dis-
criminações raciais: negros em Campinas (1888-1926); José Antônio dos Santos
(2003), Raiou a alvorada: intelectuais negros e imprensa – Pelotas (1907-1957);
Petrônio Domingues (2004), A nova abolição, Imprensa Negra Paulista. Ana Flá-
via Magalhães Pinto (2006), De Pele Escura e Tinta Preta, a Imprensa Negra no
século XIX (1833-1899).
A criação de mídias próprias (jornais, boletins, revistas, vídeos, livros) foi
uma estratégia sempre presente na ação do ativismo social negro, atualizada na
dinâmica do tempo e da técnica. Visa a produção de conteúdos educativos e
culturais, com o objetivo de ampliar o conhecimento da sociedade sobre a espe-
cificidade do racismo no Brasil e de outros países multirraciais como os Estados
Unidos e a África do Sul. Este acervo permanece dinâmico nas redes sociais,
mídias móveis e plataformas digitais, que possibilitam mediações entre os indi-
víduos favorecem o letramento no campo da educação para as relações étnico-
-raciais.

Delimitação do estudo
A pesquisa tornou-se ousada (e problemática) pelo amplo período esco-
lhido, séculos XX e XXI. Para contemplar este tempo histórico elegemos a lei-
tura dos ativistas José Benedito Correia Leite (1900-1989), Antonieta de Barros
(1901-1952); Abdias do Nascimento (1914-2011), Lélia Gonzalez (1935-1994),
Beatriz do Nascimento (1942-1985), Hamilton Bernardes Cardoso (1954-1999)
– autores/as que se tornaram referências aos cursos que ministramos. A escolha
justifica-se pela história e produção dessas(es) intelectuais, que se apropriaram
das mídias, cada qual ao seu modo, época e lugar problematizando teórica e pra-
ticamente o racismo na sociedade brasileira.

88
Outro problema enfrentado foi a falta de financiamento. Não havia bolsa
disponível. A solução encontrada foi o desenvolvimento da pesquisa simultanea-
mente ao meu desempenho profissional. Passei então a elaborar juntamente com
as/os participantes dos cursos que eu ministrava – Educadoras(es) do município
de São Paulo – práticas educomunicativas que envolviam as/os personagens defi-
nidos na pesquisa. Nos encontros refletíamos criticamente sobre a representação
social da população negra nas mídias simultaneamente a dinâmicas de equipe
para a definição dos conceitos alusivos à educação para as relações étnico-raciais;
pesquisa da cronologia histórica dos movimentos negros e a produção de mate-
rial educomunicativo dos participantes, alguns, utilizados e testados por eles em
sala de aula.
Com o apoio de funcionários do estúdio de multimeios da UMESP iniciei
a produção de cinco documentários com e sobre jornalistas negros(as), a fim de
conhecer as suas histórias e as personagens reais que os/as inspiraram.
As ações da pesquisa foram pragmaticamente direcionadas aos ativistas
cujos discursos foram propagados em textos, jornais, panfletos, vídeos, publica-
ção de livros, revistas. Referimo-nos a consciência negra paulatina e pedagogica-
mente compartilhada por homens e mulheres afrodescendentes, vislumbrando
com sua práxis a quebra do mito da democracia racial; o respeito aos direitos hu-
manos e, na opção ideológica do Movimento Negro Unificado (MNU), entidade
nacional fundada em 1978, a construção de uma sociedade socialista.
O jornalista e cofundador do MNU, Hamilton Cardoso publica artigo e
salienta que:

a partir de 1978, os movimentos negros foram impulsionados no país e,


exatamente deste debate, surgiu o primeiro fenômeno da unificação, e,
curiosamente, ao contrário das teorias clássicas da esquerda brasileira, esta
unidade e impulso se desenvolveram a partir e por cima das teses tradicio-
nais de luta de classes, em voga na sociedade brasileira de então. O grande
móvel condutor da nova “consciência negra” brasileira foi exatamente um
dos elementos propulsores da luta antirracista dos EUA: o nacionalismo
negro. (CARDOSO: 1982 – TD no 2, março/1988).

89
A universidade confere a legitimidade ao conhecimento. Por isso, foi cru-
cial e estratégico ao ativismo estabelecer laços de solidariedade para o desenvol-
vimento de estudos com dados quantitativos e indicadores capazes de mensurar
as desigualdades sociais e econômicas entre brancos e negros.

Desatentos às contradições cotidianas e mais gerais da história do país, a


maior parte das lideranças da sociedade civil, principalmente dos setores
de esquerda, liberais e social-democratas marginalizavam, em suas análi-
ses, fatores culturais e políticos do colonialismo, entre eles o privilégio da
branquitude. (CARDOSO: 1982 – TD no 2, março/1988).

Reflexões necessárias
A definição dos intelectuais não garantiu a cobertura de toda a produção
relevante sobre os mesmos. Não tivemos fôlego e, como cito anteriormente,
nem financiamento. As leituras também indicaram nomes que não consegui-
mos incluir nas formações, como, por exemplo, dois autores relevantes do jor-
nalismo: Fernando Góes (1915-1972) e Juarez Bahia (1930-1998). Ambos baia-
nos e bem sucedidos na carreira profissional. Góes conheceu e se tornou amigo
pessoal de José Correia Leite, chegando a colaborar com textos para os jornais
da Imprensa Negra.
Porém, foi como articulista dos Diários Associados e crítico literário, que
Fernando Góes atingiu a Academia Paulista de Letras e o seu livro O Espelho
Infiel vira um clássico. Nele, o jornalista analisou com profundidade obras literá-
rias de Machado de Assis, Cruz e Souza, Aluízio Azevedo, Mário de Andrade. O
ser “mulato”, as relações de preconceito manifestadas em trechos de romance e o
pensar realista de Machado de Assis evidenciam uma consciência do autor sobre
a relevância da etnicidade.
Apaixonado pelo jornalismo, Juarez Bahia se tornou um profissional e teó-
rico aguerrido. Dedicou a sua vida, majoritariamente vivida em Santos, à prática
da pesquisa, docência e escrita. Desenvolveu estudos sobre a história da impren-
sa no Brasil; Jornal, história e técnica; jornalismo, informação e comunicação,

90
além de um dicionário (ainda atual, embora careça de termos que surgiram pos-
teriormente a sua morte) com cerca de 3500 verbetes.
A sua vida de sucesso profissional não o isentou de sofrer “preconceito
racial” (VITÓRIO; FRUTUOSO, 2005). Todavia, com a surpresa que iniciamos
este trabalho, descobrimos que Juarez Bahia, quando mencionado, não é identi-
ficado como jornalista negro. Esta neutralidade étnica seria ideal para as relações
sociais, se todos os “diferentes” fossem neutralizados.
Descobri sobre a negritude de Bahia, após questionar com insistência o
professor José Marques de Melo sobre os negros no jornalismo. Ele então citou:
Fernando Góes e Juarez Bahia. O professor de jornalismo e nosso entrevistado,
Dennis de Oliveira, afirmou usar os livros de Bahia (nos quais não constam a
foto do autor) e que “não sabia que era negro”. No final de nossa conversa, disse:
“Que bom, agora vou dizer isso aos meus alunos”.
A branquitude atua histórica e colonialmente em benefício dos brancos.
Isto significa que, Juarez Bahia, mesmo sabendo-se negro e tendo sofrido “pre-
conceito racial” em sua vida privada e profissional, por ser autor bem sucedido,
“passa por branco” ou “não é citado como sendo negro”.
Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor (1936) define-se como um
autor da “literatura negra”. A sua “arma é a palavra bela”. Foi amigo pessoal de
Fernando Góes, Correia Leite, Solano Trindade, além de ser, como ele pró-
prio se define “o elo” entre as gerações de ativistas da primeira geração e os
da contemporaneidade. Camargo aposentou-se após 30 anos de trabalho no
Jornal da Tarde do grupo O Estado de S. Paulo. Também trabalhou na Im-
prensa Oficial e o seu ofício o aproximou de muita gente. “Eu desconfiava que
o Juarez Bahia fosse negro, mas nunca o vi”. Questionei-o novamente: por quê
desconfiava? E Camargo respondeu: “porque às vezes me diziam, você precisa
conhecer o Juarez Bahia”. Este “precisar” seria uma pista de que Oswaldo se
“surpreenderia”.
Evaristo de Carvalho (1932-2014) não somente foi pioneiro no rádio de
São Paulo, como também agiu como baluarte do samba paulista. Inovador ao
sugerir a união das escolas em uma entidade organizativa, que pudesse receber
subsídios governamentais para a organização do carnaval. Criou a Rede Nacio-

91
nal – e a Internacional – do Samba, muito antes da internet. Conversava com
sambistas que íam ao Japão por interurbano, com hora marcada, e os colocava
ao vivo na rádio, surpreendendo seus ouvintes.
Mário Kaplun, autor branco considerado o pai da Educomunicação,
com certeza, se surpreenderia com os feitos do Evaristo de Carvalho. Perso-
nagem homenageado pela entrevistada Cláudia Alexandre, Evaristo de Car-
valho fez do rádio a sua vida. Produzia seus programas e tinha ao lado sua
esposa Dinorá Aparecida Inácio na Rádio Gazeta de São Paulo, na Fundação
Cásper Líbero.
Será que Evaristo conheceu o professor Juarez Bahia? O jornalista Fernan-
do Góes? Ambos trabalharam na Faculdade de Jornalismo Cásper Libero. Pode-
riam se conhecer, ter conversado no elevador...Quem sabe?

Considerações finais
Como estratégia metodológica da pesquisa organizamos em 23 de agosto
de 2014, como primeira atividade do pós-doutorado, o Seminário Negritude Mi-
diática para literalmente aprender com pesquisadores(as) jornalistas e ativistas
da mídia e redes sociais sobre a sua própria experiência acadêmica e profissional.
Cada palestrante apresentou um personagem negro que evidenciava a episte-
mologia afro-brasileira. O evento foi gratuito, na sede do Centro Cultural JMM
da Intercom e contabilizou um público de 83 pessoas, em sua maioria educado-
ras(es) da rede pública.
O estágio pós-doutoral, sem bolsa, obrigou-me a ser criativa e a manter si-
multaneamente minhas atividades de pesquisa e as profissionais de docente e de
consultora. Foi então possível elaborar e ministrar por 10 meses o curso Diálogos
Pedagógicos e Educomunicativos para a Diversidade na Infância, direcionado a
Educadoras(es) da rede de ensino público municipal paulistana.
Como atividade deste curso pude solicitar aos quase 800 participantes,
pertencentes às 13 Diretorias Regionais de Ensino da cidade de São Paulo, a rea-
lização semanal de pesquisas e análise das mídias (redes sociais, televisão, jornais
e revistas). O mesmo ocorreu com Oficinas ministradas no ensino superior na
Faculdade Paulista São José (onde lecionei de agosto de 2014 a junho de 2015);

92
93
nas duas aulas semestrais dadas como professora visitante do Centro de Estudos
Africanos da Universidade de São Paulo – CEA/USP (2014, 2015 e 2016) totali-
zando seis encontros.
No CEA/USP, os/as cursistas escolhem o(a) docente e o tema para o tra-
balho de conclusão. Quando me escolhem são obrigados a assinar um Termo de
Consentimento Esclarecido autorizando-me a divulgar, para fins estritamente
educativos e com a devida citação da autoria, a sua atividade (Plano de Aula so-
bre Personagens dos Movimento Negro brasileiro).
Na Universidade Federal de São Carlos – UFSCar ministrei em 2015 o mi-
nicurso Comunicação e Educação: por uma Epistemologia Afro-brasileira du-
rante quatro dias na 67a Reunião Científica da SBPC – Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciência. Em março de 2016 fui convidada a palestrar e apresentar
oficina na Universidade Federal do Amapá, UNIFAP, em Macapá, para estudan-
tes da graduação de Jornalismo durante o V Congresso de Jornalismo – cujo
tema foi Violência Urbana. Neste caso, os/as alunos(as) foram instigados(as) a
pensar nos índices de violência propagados pela mídia, que afetam diretamente
a juventude negra, como também analisar a violência simbólica da falta de repre-
sentação midiática ou a representação estereotipada.
Criamos material paradidático, ou seja, uma série de vídeos com entrevis-
tas de personagens cuja vida pessoal e profissional está relacionada ao ativismo
próprio e/ou de um homenageado. Antonia Hermínia Sergio Salles, 84 anos (fi-
lha do ativista Mário Sérgio, co-fundador da Associação José do Patrocínio, em
São Paulo, 1940); Oswaldo de Camargo, 79 anos (jornalista e escritor, amigo dos
jornalistas negros José Correia Leite, Lino Guedes e Fernando Góes, protagonis-
tas da Imprensa Negra Paulista); Dennis de Oliveira (jornalista e professor da
ECA/USP, discípulo do historiador Clóvis Moura, cuja obra pontua a organiza-
ção negra nos períodos escravista e pós-abolição); Cláudia Alexandre (jornalista,
radialista, professora universitária, discípula do radialista Evaristo de Carvalho,
falecido em 2014, idealizador da Rede Nacional do Samba e da Liga de Escolas
de Samba de São Paulo).
A história de vida das personagens filmadas em vídeo são a representação
da ação comunicativa, ou seja, do “mundo da vida” (HABERMAS) que acontece

94
na dinâmica do tempo. Falam do hoje, do ontem e serão assistidos também no
futuro, como o símbolo Sankofa expressa.
Sobre a Cátedra UNESCO/UMESP: O racismo institucional muitas vezes
se manifesta no “silêncio” e na “indiferença” às demandas das solicitações formais
feitas à universidade; “no cancelamento súbito de apoio previamente acordado”,
como ocorreu às vésperas do Seminário Negritude Midiática. Sem bolsa, tive que
pagar do meu próprio bolso o transporte dos(as) palestrantes confirmados, pois
15 dias antes do evento, fui informada de que a UMESP não mais arcaria com o
compromisso desse pagamento.
Avaliamos que a Cátedra UNESCO/UMESP e o curso de Jornalismo foram
indiferentes e silenciaram ao projeto, apesar da pré-disposição da pesquisadora
em atuar na graduação. Em contrapartida, o Curso de Pós-Graduação de Peda-
gogia da UMESP convidou-nos para apresentar e debater o projeto acenando
com parceria futura. Recebemos apoio da INTERCOM, intermediado pelo pro-
fessor Colaborador, JMM, para sediar eventos e também recebemos incondi-
cional suporte de funcionários(as) específicos da Cátedra UNESCO/UMESP e
do setor Multimeios da Universidade Metodista de São Paulo individualmente
solidarizados com a luta antirracista.
Finalmente, a ancestralidade afrobrasileira respondeu a minha vontade de
celebrar pessoas cujas vidas foram dedicadas à luta antirracista. Todos os mo-
mentos de dificuldade foram superados e pude preencher o meu coração de ale-
gria quando, em 23 de junho de 2015, data na qual a minha avó materna comple-
taria 101 anos, tomei posse como professora adjunta da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, no Depar-
tamento de Ciências e Fundamentos da Educação. A UERJ-FEBF está sediada
na cidade Duque de Caxias, onde, no século XIX, após a proibição do tráfico de
escravizados, em 1850, por mais de 30 anos, milhões de africanos foram ilegal-
mente desembarcados no país.
Eu somente descobri este fato, após me mudar para a cidade e participar
de uma formação promovida pelo SESC Caxias sobre a história da Baixada Flu-
minense.

95
Anexos: Pioneiros

Correia Leite e Antonieta de Barros


Nos anos 1900 e 1901 nascem dois futuros jornalistas pioneiros, respecti-
vamente, José Benedito Correia Leite, em São Paulo e Antonieta de Barros, em
Santa Catarina. Ambos nascem pobres e crescem ávidos pelo acesso à educação.
Barros se tornará professora, dona e diretora de curso de alfabetização de adultos
majoritariamente negros e jornalista, autora de vários artigos que comporão sua
única obra Farrapos de Ideias (1937; 1971; 2001). Mas será na política que An-
tonieta de Barros se consagrará como primeira mulher (negra) brasileira eleita
deputada estadual, em Florianópolis, ano 1934.

PERSONAGEM POR QUÊ ESTUDÁ-LA ALGUMAS REFERÊNCIAS


Antonieta de Barros BARROS, Antonieta. Farrapos
(1900-1952) de Ideias. Livro publicado em
PIONEIRA. 1937, reeditado em 2001.
Professora, escritora, Assina como Maria da Ilha
jornalista, primeira FONTÃO, Luciene. Nos pas-
deputada estadual sos de Antonieta. Escrever
eleita no Brasil, em uma vida. Tese de Doutora-
1934, Florianópolis, do. Florianópolis: Universida-
SC. de Federal de Santa Catari-
© domínio público
na, 2010.
José Benedito SILVA, Luiz. E disse o velho
Correia Leite militante José Correia Leite.
(1901-1989). Ver também obras dos au-
PIONEIRO e TIMO- tores:
NEIRO. Jornalista da BASTIDE, Roger; FERRARA,
Imprensa Negra Pau- Miriam Nicolau; PINTO, Ana
lista – por criar, junto Flávia Magalhães, dentre
com Jayme Aguiar, e outros.
conduzir o Jornal O
Clarim da Alvorada
© domínio público
por mais de 20 anos.

Abdias do Nascimento
Nos anos 1930, nos Estados Unidos, teóricos (H. Laswell, P. Lazarsfeld,
T. Parsons) pesquisadores interessados nos efeitos provocados pelos meios de
comunicação constituem a Mass Communication Research. Seguidores do Posi-

96
tivismo de Augusto Comte fundamentam suas metodologias sob a perspectiva
funcionalista. Em contraposição a esta visão surge na Alemanha, mais precisa-
mente na cidade de Frankfurt, um grupo de cientistas sociais que elaboram uma
Teoria Crítica, muito influenciada pelo período do pós-primeira guerra mundial
e pré-segunda guerra. T. Adorno, W. Benjamin, M. Horkheimer, H. Marcuse, J.
Habermas revolucionam o pensamento comunicacional (e sociológico) da épo-
ca, a partir da crítica à massificação decorrente do crescimento cada vez maior
do capitalismo e do consumo.
No Brasil, em 1931, a Frente Negra Brasileira (FNB) é fundada, como o
primeiro movimento negro - de cunho político do país. Os jovens negros Cor-
reia Leite, Gervásio de Moraes, Raul Amaral, Arlindo e Isaltino Veiga dos Santos
integram a liderança da entidade (MALACHIAS, R: 1996, p.34-35), que criou
escolas da FNB para atender crianças e adultos negros, que não conseguiam es-
tudar nas escolas do governo.
O jovem Abdias do Nascimento integrou o quadro de associados; funda
nos anos cinquenta o jornal Quilombo e autor de vários livros. (ver referências).
Senador do país (eleito após sua volta do exílio), Abdias torna-se um dos inte-
lectuais mais respeitados internacionalmente – embora sem o devido reconheci-
mento nos cursos de Comunicação do Brasil. Economista, artista plástico, editor,
escritor, teatrólogo, um homem multimídia.

PERSONAGEM POR QUÊ ESTUDÁ-LA ALGUMAS REFERÊNCIAS


Abdias do NASCIMENTO, Abdias. O Geno-
Nascimento cídio do Negro Brasileiro. Rio de
(1914-2011) Janeiro: Paz e Terra, 1978.
PRECURSOR, INOVA- NASCIMENTO, Abdias. O Qui-
DOR, BALUARTE. lombismo. Petrópolis: Vozes,
Economista, teatró- 1980.
logo, artista plástico, Várias publicações. Livros, revis-
escritor, senador da tas, Jornal O Quilombo, telas.
República, professor Consullte o siite do IPEAFRO –
emérito de várias Instituto de Pesquisa Afrobrasi-
(Fonte da foto: IPEAFRO). universidades interna- leira – fundado por ele e conhe-
cionais. ça o acervo de Abdias:
<www.ipeafro.org.br>.

97
O golpe militar de 1964 leva Abdias Nascimento ao exílio nos Estados Unidos,
no momento em que a juventude negra norte-americana lutava por direitos civis. Ab-
dias e outros jovens brasileiros se identificam com a mobilização internacional que
agita os anos sessenta (guerra do Vietnã, luta pelo direito ao ensino gratuito na França,
Revolução Cubana, guerrilha no Brasil contra o golpe). Nos anos setenta, na África,
a juventude luta pela independência de seus países, que ainda mantinham o status de
colônias europeias. Abdias teoriza sobre o Quilombismo; Genocídio Negro; e cobra
visionariamente a implantação de ações afirmativas para a promoção da igualdade.
O pensamento de McLuhan introduz conceitos como “o meio é a mensa-
gem”, na medida que para ele, toda tecnologia criaria um ambiente novo alteran-
do a compreensão do tempo e do espaço. “A Galáxia de Gutemberg” faz análise
da era da visão, iniciada com a imprensa. Para McLuhan, os meios de comuni-
cação seriam extensões do corpo humano (uma visão revolucionária do pensa-
mento funcionalista?) e com o avanço tecnológico e comunicacional, o planeta
se transformara numa “aldeia global”.
Na África do Sul, Stevie Biko, numa possível alusão ao conceito de McLuhan
afirmará que os negros não podem ser considerados a extensão do trabalho a ser
feito para os brancos (Biko, 2008).

Lélia Gonzalez
A década 1970 é profícua para o desenvolvimento das Ciências da Comu-
nicação na América do Sul, a despeito dos governos ditatoriais. Foi em 1978, na
cidade de São Paulo, ainda no regime militar, que a mídia impressa dá visibili-
dade a um protesto negro contra a violência policial. O jovem Robson Silveira
da Luz foi espancado e assassinado por policiais quando retornava para sua casa.
Os jornais deram espaço à manifestação que ocupou as escadarias do teatro mu-
nicipal de São Paulo dando respaldo à contradição entre o discurso oficial da
democracia racial e a ação violenta da polícia, para quem “ser negro” significava
ser suspeito. Nasce aí o MNU (Movimento Negro Unificado)6, a primeira organi-
6. Era 23 de julho de 1978. A sigla inicial era MNUCVP – Movimento Negro Unificado contra
a Violência Policial, depois foi mudada para MNUCDR – Movimento Negro Unificado contra a
Discriminação Racial até tornar-se nacionalmente apenas MNU, Movimento Negro Unificado.

98
zação do movimento negro a ter amplitude e representação nacional assumindo,
inclusive, uma postura, denominada “de esquerda”.
Lélia Gonzalez, antropóloga, filósofa, pesquisadora e docente também in-
tegra o MNU em sua primeira fase, questiona em textos, artigos e vídeos a subal-
ternidade imposta às mulheres negras. Defende a adoção da interseccionalidade
de classe, raça e gênero abrindo caminho para o que viria a ser denominado de
feminismo negro.

Por aí se vê o quanto as representações sociais manipuladas pelo racismo


cultural também são internalizadas por um setor, também discriminado,
que não se apercebe de que, no seu próprio discurso, estão presentes os
velhos mecanismos do ideal de branqueamento, do mito da democracia ra-
cial. Nesse sentido, o atraso político dos movimentos feministas brasileiros
é flagrante, na medida em que são liderados por mulheres brancas de clas-
se média. Também aqui se pode perceber a necessidade de denegação do
racismo. O discurso é predominantemente de esquerda, de enfatização da
importância da luta junto ao empresariado, de denúncias e reivindicações
específicas. Todavia, é impressionante o silêncio com relação à discrimina-
ção racial. Aqui também se percebe a necessidade de tirar de cena a questão
crucial: a libertação da mulher branca se tem feito às custas da exploração
da mulher negra. (GONZALEZ, 1979, p. 15)

PERSONAGEM POR QUÊ ESTUDÁ-LA ALGUMAS REFERÊNCIAS


Lélia Gonzalez (1935- GONZALEZ, Lélia; HA-
1994) PRECURSORA, SENBALG, Carlos. Lugar
INOVADORA. Ao estudar de Negro. Rio de Janeiro:
as interseccionalidades Marco Zero, 1982.
entre classe social-raça e BARBOSA, Paulo Corrêa
gênero. Uma FUNDADORA (org.). Lélia Gonzalez:
do Feminismo Negro. O Feminismo Negro no
Doutora em Antropologia, Palco da História. Brasília:
Mestre em Comunicação Abravídeo, 2015.
Social, feminista. Veja vídeos de Lélia
Co-fundadora do MNU no acervo Cultne:
(Foto: domínio público)
- Movimento Negro Unifi- <www.cultne.org.br>.
cado (1978).

99
Referências
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WARE, Vron. (Org.) Branquidade, identidade branca e multiculturalismo. Rio de
Janeiro: Garamond Universitária, 2004.

103
PRÊMIO ADELMO GENRO FILHO
DA PESQUISA EM JORNALISMO
A PESQUISA EM JORNALISMO NO BRASIL,
UMA ATIVIDADE EM EVOLUÇÃO

Elizabeth Saad1

A legitimidade do Jornalismo como instituição em nossa sociedade é im-


prescindível. A referência do Jornalismo é necessária numa cena contemporâ-
nea permeada pelas ações decorrentes da sociabilidade proposta pelas platafor-
mas sociais digitais; pelo imbricamento das tecnologias digitais de informação e
comunicação (TICs) aos processos informativos; pelas consequentes mutações
sociais, políticas e econômicas; e pela alteração de paradigma ao considerar-
mos o comportamento social, a ressignificação de identidade e subjetividade
dos indivíduos e a ressignificação dos conceitos dos espaços público e privado
em nosso cotidiano.
Um dos pilares que sustentam e perenizam a legitimidade de um cam-
po social é o seu vigor – atualidade e potencial de inovação que ocorrem pri-
mordialmente nas atividades de pesquisa acadêmica que estabeleçam uma clara
correlação com as práticas do cotidiano. O professor e pesquisador do GRE-
SEC – Grenoble, Bernard Miège, preconiza em sua extensa obra que a pesquisa
científica contemporânea não pode prescindir de uma aproximação entre práxis,
estratégias sociais e estratégias simbólicas, uma vez que o contemporâneo digita-
lizado indica que o consolidado papel de mediação das instituições sociais hoje
também deve considerar os diferentes processos de midiatização decorrentes das
mudanças paradigmáticas decorrentes da digitalização.
O campo do Jornalismo situa-se como espaço central neste cenário onde
pesquisa e inovação tornam-se fundantes para a perenização de sua legitimidade.
Nos referenciamos para a construção do processo de avaliação da edição
2017 do prêmio na visão do professor Dan Gillmor, para quem a primeira dé-
cada do século XXI marcou uma transformação da relação do jornalismo (e do
1. Coordenadora geral do Prêmio Adelmo Genro Filho (PAGF) 2017.

105
jornalista) com o seu público e atualmente, já no final da segunda década, esse
estreitamento de relações tornou-se essencial.
Seguimos referenciando o professor e pesquisador da UFRN, Carlos
Franciscato (2017), que analisa o cenário brasileiro em pesquisa e inovação no
campo do Jornalismo e afirma que ainda temos muito a caminhar no quesito
de aproximação entre a pesquisa acadêmica e as práxis vigentes e mutantes do
consumo da informação noticiosa, pois tateamos num cenário de atores múlti-
plos (academia, mercado, redes sociais colaborativas). Franciscato sinaliza que
a geração de conhecimentos no campo do Jornalismo, hoje um processo desa-
fiador, pressupõe uma construção compartilhada entre atores institucionais e
não institucionais.
Foi a partir destes referenciais que construímos o arcabouço temático do
PAGF – Prêmio Adelmo Genro Filho 2017. Referenciais que vêm direcionando
o PAGF desde a sua criação em 2004 pela Associação Brasileira de Pesquisadores
em Jornalismo – SBPJor. Ao longo da trajetória de 12 edições – de 2004 a 2017
–, este processo de valorização da pesquisa no campo do Jornalismo premiou 12
em cada uma das categorias: pesquisadores sênior, doutorado, mestrado e inicia-
ção científica, além das diferentes menções honrosas de cada edição.
Para a edição do PAGF 2017 procuramos estruturar a comissão de avalia-
dores das diferentes categorias a partir da sua aderência aos referenciais de cons-
trução inovadora e compartilhada do campo. A comissão 2017 foi constituída
por pesquisadores com o título mínimo de Doutor, vinculados como docentes/
pesquisadores a graduações em Jornalismo e a programas de pós-graduação em
Ciências da Comunicação e Jornalismo e com presença efetiva nas diferentes
regiões do país, de forma a refletir a diversidade da pesquisa brasileira.
Tivemos a honrosa participação dos seguintes professores(as) doutores(as),
na categoria de doutorado – Dulcília Schoeder Buitoni (ESPM), Marli dos Santos (en-
tão na Umesp, atualmente na Facasper), Thaís  de Mendonça Jorge (UnB); categoria
mestrado – Ana Carolina Rocha Pessoa Temer (UFG), Ronaldo Henn (­UNISINOS)
e Egle Muller Spinelli (ESPM); categoria iniciação científica – Fernando Firmino
da Silva (UEPB), Rafael Grohmann (ex-Fiam/Faam, atualmente na Facasper),
Luiz Marcelo Robalinho Ferraz (UFJF e vencedor do PAGF de doutorado 2016).

106
A escolha do pesquisador sênior 2017 foi conduzida pela então presidente da
SBPJor, Claudia Lago.
Foram inscritos 49 trabalhos nas diferentes categorias e o conjunto de pre-
miados de 2017 denota temáticas de pesquisa focadas fortemente nas possibi­
lidades diversas da práxis jornalística e respectivas vinculações com as discus-
sões acadêmicas em seus formatos narrativos, nos diferentes dispositivos de visi-
bilidade do conteúdo e sua capacidade de interação com a audiência e, também,
nos aspectos da formação do profissional atuando no cenário mutante.
Esperamos que a existência de uma premiação como o PAGF se constitua
num incentivo perene à pesquisa inovadora e contemporânea para o campo jor-
nalístico brasileiro. Portanto, apresentamos por meio desta publicação o conteúdo
do conjunto de premiados que refletem os próximos passos de nosso campo.
Listamos a seguir o conjunto de premiados de 2017:

Premiada na categoria Sênior


Dra. Cremilda de Araújo Medina, ECA/USP

Premiado na categoria Doutorado


“Testemunhos do sofrimento nas narrativas telejornalísticas: corpos
abjetos, falas inaudíveis e as (in)justas medidas do comum”
Autor: Leandro Rodrigues Lage
Orientador: Dr. Carlos Alberto Carvalho
Universidade Federal de Minas Gerais

Menção Honrosa na categoria Doutorado


“A noção do interesse público no jornalismo”
Autor: Basílio Alberto Sartor
Orientador: Dr. Rudimar Baldissera
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Premiado na categoria Mestrado


“Relevância jornalística: análise e teste de ferramenta para fins de
avaliação de qualidade e accountability”

107
Autora: Liliane Nascimento Feitoza
Orientador: Dr. Josenildo Luiz Guerra
Universidade Federal de Sergipe

Menção Honrosa na categoria Mestrado


“Tem que ler até o fim? O consumo da grande reportagem multimídia
pelas gerações x, y e z nas multitelas”
Autora: Kérley Winques
Orientadora: Dra. Raquel Longhi
Universidade Federal de Santa Catarina

Premiado na categoria Iniciação Científica


“Põe a cara no sol, mona: a heteronormatividade no exercício da pro-
fissão do jornalista gay”
Autor: José Ilton Porto
Orientadora: Dra. Sara Alves Feitosa
Universidade Federal do Pampa

Menção Honrosa na categoria Iniciação Científica


“Na rota da lama: a cobertura de Zero Hora sobre o desastre em
Mariana-MG”
Autora: Marina Fortes Barin
Orientadora: Dra. Márcia Franz Amaral
Universidade Federal de Santa Maria

Menção Honrosa na categoria Iniciação Científica


“Criminosos ou vítimas? Análise de representação de linchados em
websites baianos”
Autora: Alan Tiago Alves
Orientadora: Dra. Lia Seixas
Universidade Federal da Bahia

108
NO AFÃ DE REPORTAR A SAGA COLETIVA

Cremilda Medina1

Ao ser contemplada com o Prêmio Adelmo Genro Filho da Associação


Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor) na categoria sênior, a 8
de novembro de 2017, agradeci a homenagem e dirigi a meus parceiros do
auditório da FIAM-FAAM, em São Paulo, algumas palavras que agora retomo
por escrito. Confessei minha atávica ligação ao coletivo, o que defino na teoria
e na prática como o Signo da Relação. Não sei atuar, seja na academia como
pesquisadora ou educadora, seja na sociedade como jornalista, se não me re-
portar ao Outro e a sua circunstância. De maneira que propus como itinerá-
rio da fala para o público de pesquisadores nacionais que ali se encontrava,
etapas marcadas por epígrafes: estas representam dedicatórias a cúmplices e
inspiradores de minha trajetória, mais de 50 anos de saga coletiva, brasileira
e internacional.
Os interlocutores daquele auditório universitário me saudaram com aten-
ção e carinho. Deles colhi gestos, olhares, escuta, cujo significado se traduziu,
no encerramento da cerimônia, em abraços dos que estão afetos à mesma causa.
Afirma-se aí, mais uma vez, a força do ato de reportar, sair da claustrofobia indi-
vidualista para a possível sintonia dos sentidos em relação social. O Ato Presen-
cial em que se celebrou a premiação de pesquisadores – de trabalhos de conclu-
são da graduação a dissertações de mestrado, teses de doutorado e pós-doutora-
do – culminou em festa coletiva, a de mistérios e transformações vivenciados por
aqueles que se dedicam a fundo ao Jornalismo.
1. Jornalista, pesquisadora e professora titular sênior da Universidade de São Paulo, é autora de
18 livros e organizou 52 coletâneas interdisciplinares. Com mais de 500 alunos de Jornalismo,
publicou a coleção São Paulo de Perfil (26 exemplares publicados e o 27º inédito) e a série Novo
Pacto da Ciência (11 títulos) reúne seminários em que cientistas de várias áreas do conhecimento
debatem a crise de paradigmas contemporâneos. Além de coordenar o Projeto Plural, a pesquisa-
dora orientou 30 doutores, 28 mestres e dois pós-doutorados. Ato presencial, mistério e transfor-
mação (2016) e A arte de tecer afetos. Signo da Relação 2 – Cotidianos (2018), os dois livros mais
recentes, registram sua principal linha de pesquisa: a dialogia social.

109
Ao fim e ao cabo, foi por aí que a minha escolha profissional se ancorou.
Quisera eu explicar por que decidi nos remotos anos 1959-1960 me tornar re-
pórter. Mas antes da decisão por Jornalismo, me acompanhavam duas outras
motivações: de um lado, a paixão pela Arte, em particular o cinema e a literatura,
de outro lado, o interesse pela rua e suas cenas agitadas. Esses, os portais que
me projetaram para um diálogo intimista com a epopeia humana na fruição ar-
tística; e motivaram a curiosidade perante as tramas sociais do presente. Estava
traçada a sina de leituras, reflexão e observação empírica.
A caminhada inaugural de infância e adolescência se alicerçou na Viagem
do Real ao Imaginário, do Imaginário ao Real. E a travessia atlântica aos 11 anos,
recém-completados à beira do rio Douro, em Portugal, ganhou nova ancoragem
à beira do Guaíba, no Brasil, em 1953. Quantas imagens, quantas experiências
nas trocas culturais dos duros invernos do Porto pelos calores tropicais de Porto
Alegre. A adolescência se impregnou de saberes brasileiros, mestiços, saberes
recorrentes europeus (inclusive os dos filhos de alemães no Rio Grande do Sul),
saberes da topografia e da cultura indígena americana, saberes clássicos e múlti-
plas linguagens, inclusive a cinematografia nacional (as chanchadas da Atlântida
nos anos 1950). Um caldo cultural temperado por deslumbramentos e descober-
tas da alteridade que me empurrou para a ação de a eles me reportar. E, no passo
posterior, estudar e viver o signo da relação.
À Universidade Federal do Rio Grande do Sul devo uma formação
humanística que se sobrepôs ao treinamento técnico no curso de Jornalismo
(1961-1964) e o formalismo no curso de Letras (1961-1964). De ambos projetaria
nas décadas posteriores, dois pilares de pesquisa – Dialogia Social e o Gesto da
Arte. Ou seja, a conjugação das duas formações gerou o gosto cotidiano da frui-
ção poética como sensibilização da interação social criadora. Digo mais, repor-
tando também o excelente curso de Didática nos dois últimos anos de Letras – a
relação educando-educador na concepção de ensino-aprendizagem da Escola
Nova dos anos 1960 que a URGS nos passava muito fecundou tanto a atividade
jornalística em Porto Alegre, quanto a de professora do ensino médio em Cama-
quã e o começo do ensino universitário na Universidade Federal em Porto Ale-
gre de 1967 a 1970. Pergunta que me faço: seria o paralelismo entre as experiên-

110
cias inaugurais de comunicação social e pedagogia que culminariam na proposta
teórica que registraria quatro décadas depois no livro Signo da Relação (2006)?
Nos anos 1960, por conta das sementes acadêmicas do curso de didática,
percebia que ser professor universitário não era apenas transmitir técnicas (as de
que já exercia há seis anos no mercado de trabalho de Porto Alegre), nem tam-
pouco remeter os alunos (com pouquíssima diferença de idade) para os manuais
norte-americanos de Jornalismo. Inquieta na disciplina técnica em que fora con-
tratada como assistente de catedrático em 1967, soube, em 1970, que a Univer­
sidade de São Paulo ia implantar o primeiro curso de pós-graduação em Ciências
da Comunicação da América Latina. Em junho de 1970, a propósito de visitar
a 1ª Bienal do Livro em São Paulo, vim sondar a USP. (Não posso esquecer que
outro nobre motivo me movia nessa viagem: o escritor Jorge Luís Borges, que eu
conseguira publicar no Brasil, pela velha editora Globo do Rio Grande do Sul,
estaria recebendo um prêmio, aliás, o primeiro e único das bienais, e eu queria
encontrá-lo pessoalmente.)
Viagem decisiva. No fim de 1970 estaríamos, Sinval Medina, os dois filhos,
Ana Flávia com cinco anos, Daniel com um aninho, e eu tratando da mudança
(que julgo definitiva) para a capital paulista, o que aconteceu em janeiro de 1971.
A USP e a pesquisa foram os principais impulsores dos estudos de pós-graduação
– novas navegações na bibliografia europeia, atualização na contribuição norte-
-americana em Ciências da Comunicação e o contato intenso com a América
Hispânica no curso do CIESPAL (Equador). Já na prática de educadora como
auxiliar de ensino no curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes
(ECA) da USP e na atividade no mercado (Jornal da Tarde, Revista Fotoptica, TV
Bandeirantes, TV Cultura) os desafios se multiplicaram e as técnicas exigiam
pesquisa ética e estética no contexto de uma sociedade cerceada pelo Estado au-
toritário. E a busca do criador da assinatura coletiva está registrada no primeiro
livro, publicado na USP em 1973, a quatro mãos com Paulo Roberto Leandro
(1948-2015). A arte de tecer o presente abordava a noção ainda não trabalhada até
então do que seria jornalismo interpretativo, ou como aprofundar a notícia na
reportagem. E aí se apontavam quatro caminhos narrativos da polifonia e da po-
lissemia: o protagonismo humano, com ênfase nos anônimos, a contextualização

111
social do acontecimento, as raízes histórico-culturais e diagnósticos-prognósti-
cos dos especialistas. O curioso é que hoje ainda se perseguem essas caracterís-
ticas da reportagem de autor, capaz de mediar a voz coletiva. A epígrafe do pri-
meiro livro, inspirada na poética, reporta o vigor dessa interação social criadora:

Tecendo a manhã
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:


ele precisará de outros galos.
De um que apanhe o grito que ele
e o lance a outro; de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outros; e de outros galos
que com muitos galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E desse grito tecido na reportagem ou nos fios da comunicação coletiva,


nasceu ainda, nos primeiros anos da década de 1970, a dissertação de mestrado,
a primeira da América Latina no pioneiro pós da USP. “A estrutura da mensagem
jornalística”, defendida em maio de 1975, se tornaria o livro que em 2018 com-
pleta 40 anos e um percurso de duas editoras, Alfa Ômega e Summus Editorial.
Notícia, um produto à venda, jornalismo na sociedade urbana e industrial (1978)
seria lido de muitas formas antes e depois da sociedade pós-industrial na Era Di-
gital, mas o núcleo de pesquisa traz à tona até hoje as múltiplas forças que atuam
sobre um produto simbólico, não material, a notícia. Nas teorias do Jornalismo,
Adelmo Genro Filho (1951-1988) publicou, em seu livro O segredo da pirâmi-
de: para uma teoria marxista do jornalismo (1987), um breve tópico em que me
aproxima dos funcionalistas. Ele, como marxista, abstém a essência que propus
na tessitura dos “galos” que “gritavam” na produção da notícia jornalística, qual

112
seja, a visão plural das contradições na indústria cultural. Ao vivenciar a prática
jornalística no mercado e estudar, na reflexão teórica, tanto as determinações
econômicas quanto as indeterminações do processo de produção simbólica, fui
captando forças de sentido complexas na dinâmica da cultura.
O capítulo inicial de Notícia, um produto à venda percorre, sim, a herança
funcionalista norte-americana, mas também a europeia da Escola de Frankfurt.
Fui mais longe e encontrei discípulos não totalmente alinhados com a teoria
hegemônica da indústria cultural, como o alemão Hans Magnus Enzensberger
ou os franceses como Edgar Morin. Mas também dialoguei com italianos como
Umberto Eco, Gillo Dorfles, brasileiros como Gabriel Cohn, hispano-america-
nos como Eliseo Verón. Descobri o belga Jean Lohisse, inédito até hoje no Brasil,
O coletivo bibliográfico é extenso, mas os alunos de graduação dos anos 1970,
hoje profissionais renomados, e os colegas de redações por onde passei, todos
partilhamos de uma pesquisa que aspirava a teoria-prática da responsabilidade
social do jornalista (meu terceiro livro publicado no Equador no final dos 1970,
El rol del periodista). Técnica e ética dessa profissão também exigiam criativida-
de estética para resistir às pressões da ditadura – censura institucional, censura
empresarial e autocensura.
Exatamente foi a ditadura que interrompeu a pesquisa na USP em 1975.
Fora da universidade até 1985, só voltaria para o doutorado dez anos após a
defesa do mestrado. Esse período, integralmente dedicado ao jornalismo diário
reforçou o Gesto da Arte. Como editora de Artes no jornal O Estado de S. Paulo, a
voz aguerrida de escritores, músicos, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas, dra-
maturgos frente aos cerceamentos da ditatura se fez presente nas páginas diárias
e nas edições especiais de domingo. Pude estudar na prática e na teoria as iden-
tidades culturais e o significado basilar da Arte. A trilogia literária que publiquei
– escritores portugueses contemporâneos, brasileiros e africanos de língua por-
tuguesa (1983, 1985, 1987), iria desaguar na tese de livre-docência (1989) Povo
e Personagem, livro publicado em 1996. Dessa reportagem nos três continentes,
que me ocuparia quase uma década, recolho uma epígrafe, a mais dramática
da sensibilidade artística e seu gesto cúmplice com o povo cuja presença se faz
personagem na literatura. Em Moçambique, perante a doída condição de uma

113
sociedade à deriva, perguntei a um escritor se o sonho resistiria naquela terra. O
que ele me respondeu, de improviso, foi escrito num guardanapo de papel e abre
meu livro Sonha Mamana África :

Ainda achas que temos sonhos


ainda achas que estamos vivos
não achas que, nós, vivos, estamos perdidos
pessoano não sou
venho do bairro limítrofe
onde a pólvora do mundo
conosco acabou.
Calane da Silva, Maputo, 1986.

A volta à USP estava, pois, marcada pelo tônus cultural na dialogia social.
Os alunos da geração 1980 receberiam com cumplicidade a tarefa de se dedica-
rem a escavar a identidade de São Paulo. No doutorado (1986), havia lançado as
bases do projeto São Paulo de Perfil na tese Modo de ser, mó’ dizer, de que foi ex-
traída a segunda parte, publicada no livro Entrevista, o diálogo possível (1986). Se
procurei, na tese, a sintonia profunda com as vozes de Higienópolis, o bairro de
São Paulo em que moro, os alunos de graduação até meados do presente século,
criaram a saga coletiva dos paulistas em 26 edições publicadas e um livro-re-
portagem inédito. São mais de 500 jornalistas (na época alunos de graduação na
ECA/USP) que pesquisaram de onde vimos (migrações), experiências comuni-
tárias (bairros) e desafios da megalópolis (agora redópolis, como já definiu o so-
ciólogo português Boaventura de Sousa Santos). A acrescentar que a pesquisa da
dialogia não conta apenas com a revisão do instrumento tradicional do Jornalis-
mo, a entrevista. Os laboratórios pedagógicos do projeto São Paulo de Perfil de-
senvolveram o que reputo como viragem técnica: a observação-experiência. Esse
campo de pesquisa tem sido desenvolvido também em teses de ex-orientandos e
um deles, o colombiano Raul Osório Vargas, não só o demonstrou em mestrado
e doutorado, como continua trabalhando nessa pesquisa como professor titular
na Universidade de Medellin, Colômbia.

114
Sempre cultivei a interação entre graduação e pós-graduação. Ambas se
integram no Projeto Plural, que nasce em 1990 da paixão e curiosidade ao armar
nexos inter e transdisciplinares. De uma primeira reunião na ECA, em que dis-
ciplinas acadêmicas testemunharam a fragmentação do conhecimento científico
e a crise de paradigmas, se avançou para o intercâmbio despojado de hierar-
quias de valor para constituir um projeto plural, incluindo no segundo fôlego,
em 1991, a presença da arte e a transcendência mitológica. Assim, de químicos
a antropólogos, de físicos a sociólogos, de médicos a pedagogos, de filósofos a
poetas ou ficcionistas, de matemáticos a biólogos, de juristas a economistas, o
signo da relação produziu noções epistemológicas que irrigaram a pesquisa da
comunicação social. E esta área chamou a si o compromisso de seminários, ar-
tigos, reportagens-ensaio registrados nas onze coletâneas que compõem a série
Novo Pacto da Ciência. Em 1994, um dos parceiros internacionais com afinidade
na inter e transdisciplinaridade, ao desconstruir as barreiras entre sensibilidade,
razão e ação transformadora, deixa sua marca na epígrafe do Saber Plural (1994):

Talvez fosse preciso considerar que nosso


conhecimento do mundo é uma mistura de
rigor e poesia, de razão e paixão,
lógica e mitologia.
Michel Maffesoli

Ao dirigir as mídias da USP, de 1999 a 2006, apresentei ao Conselho Uni-


versitário o projeto de comunicação que desenvolvia academicamente, sob o
título Signo da Relação. O reitor Jacques Marcovitch me convidara para o cargo
em 1999 e me pedira que traçasse uma estratégica para a comunicação da USP
no século XXI. Perante tal honra, até adiei minha aposentadoria, a que tinha
formalmente direito desde o início da década de 1990 (só passaria a aposentada
sênior, condição atual, em 2011). Embora pesquisador da área de economia, o
reitor compreendeu à partida a quebra do paradigma tradicional de jornalismo
ou comunicação de divulgação científica. Foram sete anos de guerra simbólica
contra o conceito difusionista para implantar no dia a dia dos meios de co-

115
municação convencionais – jornal, revista, rádio, televisão, house organ e nas
mídias digitais implantadas à época – a noção de ciência-sociedade, socieda-
de-ciência, em que o comunicador não é um auxiliar subalterno da informação
científica, mas um mediador-autor que narra tanto a oferta do cientista quanto
a demanda da sociedade. Tanto a gestão Marcovitch quanto a do reitor Adol-
pho José Melfi que o sucedeu, me proporcionaram total adesão às estratégias
de comunicação social nas mídias da USP. Lembro de tempos em que aconte-
ceu a plena interação entre a pesquisa originária da Escola de Comunicações e
Artes e do Programa de Integração da Pesquisa na América Latina (Prolam), a
cuja pós-graduação me integrei desde sua fundação (1988) e o que se praticava
no cotidiano da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) no período de
1999 a 2006.
Os profissionais de comunicação (concursados) aderiram com entusiasmo
ao projeto e não foram poucos os laboratórios promovidos na capital e nos campi
do interior do estado. Mesmo as assessorias de imprensa de unidades acadêmicas
e a própria área da reitoria perceberam a mutação que acontecia no centro da
Comunicação. Ao sair da Coordenadoria, deixei um registro dessa significativa
experiência em um dos meus livros, O signo da relação (2006). Encerrava esse
capítulo com reticências – até onde o projeto persistiria diante da tradição con-
servadora (muitas vezes autoritária) da chamada divulgação da ciência...
... Mas que fazer? Carrego o laço que se desmancha e se refaz na resistên-
cia cultural. E dedico este prêmio a mim atribuído em 2017 aos pesquisadores,
alunos e ex-alunos, artistas, professores e jornalistas – todos pavimentaram em
décadas a Arte de tecer afetos (2018). Se as narrativas do cotidiano, a arte de tecer
o presente, a busca de um jornalismo autoral, o signo da relação ciência-socie-
dade, sociedade-ciência, a sensibilização do Gesto da Arte estão impregnados
nos registros da pesquisa e das reportagens que assino individualmente ou nas
coletâneas interdisciplinares, devo gratidão aos grupos afinados num laboratório
contínuo que persegue o compromisso do rigor racional, conjugado à ética soli-
dária, para ensaiar apreender as demandas coletivas.
O berço e a história contínua familiar dos Araújos-Medinas, os que aí estão
e os que já se foram, acolheram a condição viajante da jornalista, da pesquisa-

116
dora, da educadora, seja no espaço urbano local, seja nos espaços brasileiros ou
de outros continentes. Sem essa aceitação perante a mobilidade intensa profis-
sional, não teria tido a oportunidade de reportar os horizontes desconhecidos.
Os filhos, Ana Flávia e Daniel na infância e adolescência, que o testemunhem
perante a mãe-profissional, que sofria a angústia de presença-ausência. E, no
entanto, permanecemos unidos, atravessamos as borrascas da ditadura militar
e crescemos na esperança. No meio do auditório da noite de 8 de novembro de
2017, quando era premiada na categoria sênior de pesquisa, meu neto mais ve-
lho, Gabriel Medina Ximenes, ali representava sua irmã Alice, o primo Tomás,
seus pais Ana Flávia e Carlos Eduardo, seus tios Daniel e Renata. Seus olhos
brilhavam ao se incluir nas memórias da avó que, como toda a família está em
permanente mobilidade nos mapas da itinerância. Dessa travessia, trago a força
do ninho individualizado: o companheiro que se formou comigo em Jornalismo,
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na noite histórica de 31 de março
de 1964 – com o golpe militar que derrubou o regime democrático no Brasil por
20 anos.

Através do rio, não à margem,


é que se fere a luta da atravessagem.
Através do rio, líquido leito,
Arranquei meus olhos para ver direito.
Pelo rio em chamas, ácido braço,
vou sem vela ou leme, por um rumo que não traço.
Não escolho o rio que atravesso
não sei direito, no meio da corrente,
se estou de partida ou de regresso.
Sinval Medina (1983)

Começamos juntos a vida profissional e familiar, resistimos a intempéries


humanas, políticas e pessoais. Por isso mesmo, como ato final, faço minha essa
epígrafe acima, que o romancista criou para seu livro Memorial de Santa Cruz.

117
Referências
Livros da autora
MEDINA, Cremilda; LEANDRO, Paulo Roberto. A arte de tecer o presente. São
Paulo: Media, 1973.
MEDINA, Cremilda. Notícia, um produto à venda, jornalismo na sociedade urba-
na e industrial. São Paulo, Editora Alfa-Omega. (Na década de 1980, o livro
passou a ser publicado pela Summus Editorial.)
. El rol del periodista. Quito: CIESPAL, 1980. (Em 1989, esta edição em es-
panhol foi lançada em Havana, Cuba, pelo Editorial Pablo de la Torriente.)
. Profissão jornalista: responsabilidade social. Rio de Janeiro: Forense Uni-
versitária, 1982.
. Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de Janeiro: Nórdica,
1983.
. A posse da terra, escritor brasileiro hoje. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa
da Moeda e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, 1985.
. Entrevista, o diálogo possível. São Paulo: Editora Ática, 1986.
. Sonha Mamana África. São Paulo: Edições Epopéia, 1987.
. Povo e personagem. Canoas (RS): Editora da Ulbra, 1996.
. Símbolos e narrativas, rodízio 97 na cobertura jornalística. São Paulo: Go-
verno do Estado de São Paulo/Secretaria do Meio Ambiente, 1998.
. A arte de tecer o presente, narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus Edi-
torial, 2003.
. O signo da relação, comunicação e pedagogia dos afetos. São Paulo: Paulus,
2006.
. Ciência e Jornalismo, da herança positivista ao diálogo dos afetos. São Pau-
lo: Summus Editorial, 2008.
. Força perene de Oswaldo Guaysamín, a magia do reencontro. São Paulo:
Coleção Marta Traba da Fundação Memorial da América Latina, 2008.
. Casas da Viagem, de bem com a vida ou afetos do mundo. São Paulo: edi-
ção de autor, 2012.
. Atravessagem, reflexos e reflexões na memória de repórter. São Paulo: Sum-
mus Editorial, 2014.

118
. Ato presencial, mistério e transformação. São Paulo: Edições Casa da Serra,
2016.
. A arte de tecer afetos. Signo da relação 2 – Cotidianos. São Paulo: Edições
Casa da Serra, 2018.

Principais coletâneas criadas e organizadas pela autora


Série São Paulo de Perfil
MEDINA, Cremilda (org.). São Paulo, ECA/USP, Virado à paulista (1987); Vo-
zes da crise (1987); Nos passos da rebeldia (1988); Forró na garoa (1989);
Hermanos aqui (1989); A casa imaginária (1989); Pauliceia prometida
(1990); À margem do Ipiranga (1990); A escola no outono (1991); O pri-
meiro habitante (1991); Farra, alforria (1992); Tchau Itália, ciao, Brasil
(1993); Guia das almas (1993); Nau dos desejos (1994); Vamos ao centro?
(1994); Axé (1996); Tietê, mãe das águas (1995); Viagem ao sol poente
(2001); Bem viver, mal viver (1996); Mundão veio sem porteira (1997);
Chá de bambu (1998); Cotidianos do metrô (1999); Ó Freguesia, quantas
histórias (2000); Sagas do espigão (2002); Caminho do café, Paranapia-
caba, museu esquecido (2003); USP Leste e seus vizinhos (2004). O volu-
me 27º da série que aborda a mobilidade urbana em São Paulo ainda é
inédito.

Volumes inspirados na Série São Paulo de Perfil


MEDINA, Cremilda (org.). Narrativas a céu aberto, modos de ver e viver Brasília.
Editora da Universidade de Brasília, 1998. Bahia de Perfil, Narrativas de
todos os santos. Salvador: Faculdades Jorge Amado, 2007; Mococa, doces
histórias. Mococa: Estação USP/CCS/USP, 2007.

Série Novo Pacto da Ciência


MEDINA, Cremilda (org.). Novo pacto da ciência. A crise de paradigmas, 1o Se-
minário Transdisciplinar, Anais. São Paulo: ECA/USP, 1991.
MEDINA, Cremilda; GRECO, Milton (orgs.). Do Hemisfério Sol, o discurso
fragmentalista da ciência (1993); Saber Plural (1994); Sobre Vivências, no
mundo do trabalho (1995); Agonia do Leviatã, a crise do Estado Moderno

119
(1996); Planeta inquieto, direito ao século XX (1998); Caminhos do Saber
Plural, dez anos de trajetória (1999). São Paulo: ECA/USP.
MEDINA, Cremilda (org.). Ciência e Sociedade, Mediações Jornalísticas. São
Paulo: Coordenadoria de Comunicação Social/Estação Ciência da Univer-
sidade de São Paulo, 2005.
MEDINA, Cremilda; MEDINA, Sinval (orgs.). Diálogo Portugal-Brasil, século
XXI, novas realidades, novos paradigmas. Porto, Portugal: Edições Uni-
versidade Fernando Pessoa, 2008. Energia, meio ambiente e comunicação
social. São Paulo: Faculdade Cásper Líbero; Porto, Portugal: Universidade
Fernando Pessoa, 2009.
MEDINA, Cremilda (org.). Liberdade de expressão, direito à informação nas so-
ciedades latino-americanas. São Paulo: Edições da Fundação Memorial da
América Latina, 2010.

Série Foro Permanente de Reflexão sobre a América Latina


MEDINA, Cremilda (org.). Povo e personagem, sociedade, cultura e mito no ro-
mance latino-americano (2008); Viagem à América Indígena, do Eldorado
à cidade contemporânea (2011); Fronteiras latino-americanas, geopolítica
do século XXI (2012); O impacto do microcrédito para a mulher latino-a-
mericana (2011); Poética dos saberes, complexidade, compreensão e cultu-
ra (2012); Símbolos itinerantes, estampas mestiças, o caminho da chita da
Índia para a América (2012); Aids, na rota da esperança (2011). Todos
estes exemplares resultaram de seminários motivados por teses de pesqui-
sadores locais. O Foro Permanente de Reflexão sobre a América Latina foi
criado pelo pesquisador, ex-reitor da Universidade de São Paulo, Adolpho
José Melfi, nessa época diretor do Centro Brasileiro de Estudos da América
Latina, e que me convidou para coordenar os seminários e organizar os
livros publicados pela Fundação Memorial da América Latina.

120
AS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS DO TESTEMUNHO MIDIÁTICO:
BREVE TRAJETÓRIA CONCEITUAL1

Leandro R. Lage2

1. Introdução
“EU PRECISO DE AJUDA”. Essa foi a manchete da revista Veja São Paulo
de 20 de novembro de 2014. Em caixa alta. Entre aspas. Ao fundo, duas fotogra-
fias em close-up da ex-modelo Loemy Marques, de 24 anos, mostram um con-
traste desconcertante. À esquerda, ela aparece em pose, maquiada, de cabelos
alisados e uma beleza irretocável. À direita, a ex-modelo já não ostenta nenhum
dos elementos típicos da indústria da moda: está visivelmente abatida, tem os
cabelos curtos, enrolados e desarrumados, a pele do rosto manchada e os lábios
ressequidos. A legenda resume: “Loemy, nos tempos de manequim e como está
hoje: ela mora nas ruas do centro desde 2012”. Nos dias subsequentes àquela
reportagem, concretizou-se uma liturgia midiática na qual Loemy foi convocada
a dar testemunho de sua história de sofrimento em diversas outras instâncias:
portais de notícias, jornais impressos e emissoras de TV. Sempre sob o motivo
trágico da ex-modelo viciada em crack, cuja beleza fora consumida pela droga.
As aspas são sintomáticas do fascínio exercido pelo testemunho. São me-
táforas da pretensa abertura daquelas narrativas à palavra do outro. Mas não
qualquer palavra. Trata-se de um depoimento, de um relato de experiências.
Mas não quaisquer experiências. De experiências de sofrimento, de infortú-
nios. Aquele ritual jornalístico é, já, bastante conhecido: descobre-se um per-
sonagem exemplar de um problema que lhe excede, do qual, no entanto, faz
parte e pode depor. Outra notável evidência do apelo testemunhal é a presença
1. Este trabalho é baseado na tese intitulada “Testemunhos do sofrimento nas narrativas telejor-
nalísticas: Corpos abjetos, falas inaudíveis e as (in)justas medidas do comum”.
2. Leandro R. Lage é doutor em Comunicação pela UFMG, vencedor do Prêmio Adelmo Genro
Filho de Melhor Tese (2017), promovido pela SBPJor. É professor do Programa de Pós-Gradua-
ção em Comunicação, Linguagens e Cultura (PPGCLC) da Universidade da Amazônia (Unama).

121
do corpo, que carrega consigo as marcas visíveis da experiência vivida e atua,
em primeiro lugar, como princípio de atestação do depoimento. Esses aspectos
do testemunho conservam, até certo ponto, vestígios da etimologia latina do
termo: superstes, ou supérstite, “aquele que viveu algo, atravessou até o final um
evento e pode, portanto, dar testemunho disso” (AGAMBEN, 2008, p. 27). Es-
tamos nos referindo, assim, a uma condição tripla: viver a provação, sobreviver
a ela e dela dar testemunho.
Por que o testemunho? Por que agora? Tomo emprestadas as indagações
de Frosh e Pinchevski (2009a) porque é preciso reconhecer, de saída, que o teste-
munho não é uma questão concernente apenas à comunicação midiática. Antes,
remete às abordagens religiosa, historiográfica e jurídica, das quais a problemá-
tica do media witnessing é tributária. Sem a intenção de traçar uma genealogia
conceitual, gostaríamos de assinalar algumas heranças, por assim dizer, dessas
abordagens para as apreensões contemporâneas da noção de testemunho – em
especial a do testemunho midiático. Em seguida, passaremos a observar o tes-
temunho enquanto componente de uma episteme jornalística. Ao fim, explo-
raremos algumas nuances do que estamos chamando de dimensão política do
testemunho midiático.

2. Do testemunho ao testemunho midiático


Da história religiosa e da teologia cristã o testemunho extrai principalmen-
te o lugar mediador entre um universal invisível e uma existência singular: tor-
na-se testemunho de uma fé no absoluto que desafia tanto a consciência quanto
o valor histórico (PIERRON, 2010). A abordagem religiosa lega ao conceito de
testemunho, sobretudo, o dilema da experiência impedida de ser comprovada
com êxito. Já nas ciências jurídicas, recai sobre o testemunho tanto o peso da
provação, quanto aquele da prova. O testemunho adquire, no contexto de um
processo jurídico, um valor empírico de atestação desafiado pelo perigo do falso
testemunho. Este, por sua vez, introduz uma cisão que faz transcender o teste-
munho dos limites jurídicos ao problema ético da palavra que diz a verdade.
Nesse sentido, o testemunho remete à sua outra origem latina: testis, o terceiro
elemento na disputa entre dois litigantes (AGAMBEN, 2008). Pode-se dizer que

122
esse valor de atestação adquirido pelo testemunho do ponto de vista jurídico seja
semelhante àquele mobilizado pelo conhecimento histórico. De certo modo, a
autenticidade do testemunho, aqui, também faz problema, só que no sentido da
verdade histórica. É por isso que, para a disciplina historiográfica, o testemunho
detém um sentido documental, como vestígio de um tempo ausente, o qual, no
entanto, não está livre de ser medido na balança entre a confiança e a suspeita,
nem está a salvo de interpretações à luz de um momento distinto daquele em que
foi produzido (RICOEUR, 2007).
Nas últimas décadas, a discussão em torno dos relatos testemunhais da
Shoah 3 constitui um lócus paradigmático na genealogia do conceito (AGAM-
BEN, 2008; FROSH; PINCHEVSKI, 2009a; HARTOG, 2011; DIDI-HUBER-
MAN, 2012). Estava em questão, no bojo daquela trágica conjuntura, o que di-
versos autores chamam de impossibilidade do testemunho, do vazio que funda
sua linguagem: não porque as vítimas do nazismo não tenham visto, e, sim, por-
que viram demais; não porque a palavra lhes seja negada, mas porque lhes falta-
vam palavras; e, por fim, porque as “testemunhas integrais” seriam aquelas que
não puderam, de fato, testemunhar (LEVI, 1988; AGAMBEN, 2008). Essa dis-
cussão acentua, como nuances do testemunho, o problema da comunicabilidade
da experiência, apresentado em gérmen pela abordagem religiosa, bem como a
presença do sofrimento como “objeto” do testemunho, que passa a ser profun-
damente atravessado pela afirmação de uma vulnerabilidade humana comum.
No centro das discussões em torno da Shoah, é bastante recorrente o ar-
gumento da irrepresentabilidade que desafia aqueles testemunhos, especialmen-
te nas abordagens voltadas ao trauma e aos limites da linguagem. Trata-se, em
suma, de constatar naquele acontecimento o que seria um excesso de realidade4
responsável por instaurar uma lacuna em todo e qualquer testemunho por ele
produzido, graças à impossibilidade de traduzir o real traumático em linguagem
(LAUB, 1992; SELIGMANN-SILVA, 2003), bem como ao aniquilamento das tes-
3. Optamos pelo termo Shoah (do hebraico, devastação ou catástrofe) em vez de Holocausto em
razão da conotação sacrificial deste último termo (DANZIGER, 2007).
4. Sobre o argumento da irrepresentabilidade, cf. Rancière (2012), Nancy (2003) e Didi-Huber-
man (2012).

123
temunhas integrais, aquelas que testemunharam efetivamente e, por isso, não
sobreviveram para contar (AGAMBEN, 2008).
A despeito da trajetória conceitual, profundamente marcada pelo contex-
to histórico de cada abordagem, o que se percebe, atualmente, é uma realidade
bastante distinta desse quadro em que o testemunho esbarra no argumento do
indizível, no impensável do acontecimento ou na necessidade de sobrevir contra
sua improbabilidade. Ao que parece, vivemos todos em um contexto no qual o
testemunho se constitui como possibilidade sempre iminente.
A compulsão pela novidade, as possibilidades tecnológicas e a maneira
pela qual os indivíduos passaram a ser interpelados pela mídia “tornam a co-
letividade tanto o sujeito quanto o objeto do testemunho cotidiano, atestando
sua própria realidade histórica na medida em que ela se desenrola” (FROSH;
PINCHEVSKI, 2009a, p. 12, tradução nossa). Esse contexto nos designaria le-
gítimas testemunhas em potencial, munidas das amplas possibilidades de con-
sumo, produção e difusão de imagens e depoimentos. O testemunho, enquanto
fenômeno cultural, experimenta uma espécie de ubiquidade e uma acessibili-
dade que, segundo Katz (2009), fomentam um contexto no qual não podemos
mais dizer que “não sabemos” do que se passa à nossa volta. Mais do que pos-
sibilidade, o testemunho se apresenta concretamente em nossa vida cotidiana,
em grande parte graças às práticas midiáticas que o incorporam. Por isso, cabe
repetirmos a pergunta de Hartog:

Não será que vivemos em uma economia midiática que funciona à base
da testemunha? Impõe-se apresentar uma testemunha (pensemos nos nu-
merosos programas de televisão, cujas testemunhas são personagens im-
portantes ou comuns; há o imperativo do “ao vivo”, a exigência de proxi-
midade, ambos os aspectos envolvidos pela aura da compaixão). Diferen-
temente da figura evocada por Péguy, a testemunha de hoje em dia deixou
de falar como um livro. Ela já não se transforma em “historiador”, mas é e
deve ser uma voz e um rosto, uma presença; ela é uma vítima. (HARTOG,
2011, p. 209).

124
O historiador se refere a uma economia midiática na qual o testemunho apa-
rece não apenas como recurso e possibilidade, mas como imperativo: de persona-
gens, da proximidade, de rostos, de corpos, de vítimas. Essa economia diz de mo-
dalidades midiáticas contemporâneas de interpelar os públicos, mas também de
um contexto mais amplo de produção, circulação e consumo de testemunhos. Di-
ferentemente dos testemunhos da Shoah, improváveis porque constituídos a par-
tir de um acontecimento organizado para não produzir testemunhas (DIDI-HU-
BERMAN, 2012), os testemunhos que nos são apresentados atualmente são como
que inevitáveis, tanto pelas possibilidades tecnológicas de registro, processamento,
escritura e representação, quanto pela receptividade e até mesmo previsibilidade.
Outro topos nessa trajetória conceitual, que parece demarcar senão o iní-
cio, mas a notabilidade dessa configuração recente do que chamamos, com outros
autores, de testemunho midiático, são os ataques de 11 de setembro de 2001 aos
Estados Unidos. Um acontecimento como aquele, dizem esses autores, “não pode
não produzir testemunhas” (FROSH; PINCHEVSKI, 2009a, p. 8, grifo dos auto-
res, tradução nossa). A importância do 11/9 para a compreensão desse fenômeno
está no fato de que esse evento teria revelado de forma decisiva o caráter mundano
e ordinário do testemunho na contemporaneidade como nenhum outro o fez: ele
pôs em evidência a complexa relação entre mídia e pessoas comuns, as quais, por
sua vez, foram transformadas e incorporadas como produtoras de testemunhos –
tanto no sentido em que elas aparecem na mídia para prestar testemunho, como
no de que são convocadas a testemunhar através da mídia (ZELIZER, 2002; 2007;
FROSH; PINCHEVSKI, 2009a; 2009b; ELLIS, 2009; CHOULIARAKI, 2009).
Diversos estudos recentes têm buscado a melhor definição para o testemu-
nho no âmbito midiático; senão uma conceituação fixa, uma forma de aborda-
gem do fenômeno resguardando seu potencial heurístico e analítico (RENTS-
CHLER, 2004; PETERS, 2009; FROSH; PINCHEVSKI, 2009a, 2009b; FROSH,
2009; TAIT, 2011). Para Frosh e Pinchevski (2009a; 2009b), cuja tentativa parece
dimensionar com precisão o problema em questão, o testemunho midiático diz
respeito não somente à produção midiática, mas a modalidades específicas de
interação entre mídias e públicos:

125
A melhor maneira de compreender essa nova configuração é oferecendo
uma simples definição: “testemunho midiático” é o testemunho performa-
do na, pela e através da mídia. Refere-se, simultaneamente, ao aparecimen-
to de testemunhas nos relatos da mídia, à possibilidade de a própria mídia
testemunhar, e ao posicionamento das audiências como testemunhas dos
acontecimentos retratados (Frosh & Pinchevski, 2009). Misturando essas
três vertentes, testemunho midiático não diz apenas da complexidade des-
sas interações (uma reportagem telejornalística pode retratar testemunhas
de um acontecimento, testemunhar um acontecimento e transformar es-
pectadores em testemunhas ao mesmo tempo), mas aparece também como
uma nova problemática nas teorias da mídia [...]. Testemunho midiático,
sustentaremos, oferece novas formas para pensar a respeito de problemas
permanentes da mídia, da comunicação e da cultura. (FROSH; PINCHE-
VSKI, 2009b, tradução nossa, grifos nossos).

O testemunho aparece, assim, como prática relativa ao fazer midiático,


como forma de abordar e compreender a comunicação midiática naquilo que
ela nos oferece como possibilidade de experiência. Por outro lado, o testemu-
nho midiático joga luz sobre um contexto histórico mais amplo no qual tanto os
eventos são como que forjados para serem testemunhados no momento mesmo
de sua ocorrência, quanto os sujeitos ordinários experimentam um estado de
preparação permanente para enfrentá-los enquanto incidentes testemunháveis,
isto é, dos quais se pode prestar testemunho.
Nesse quadro, a mídia assume uma função mediadora do testemunho em
pelo menos três aspectos simultâneos: naquele em que reúne e inscreve narrativa-
mente e relatos testemunhais de acontecimentos e experiências diversos; quando
os próprios mediadores assumem o papel de testemunhas daquilo que narram,
inscrevendo-se nos cenários dos acontecimentos e intervindo assumidamente
no curso da narrativa; e quando os públicos são convocados a testemunhar, por
intermédio da mídia, aquilo que ela narra sob a regência de seu próprio regime
de visibilidade e dizibilidade. Na problemática do testemunho midiático, encon-
tram-se mutuamente implicados testemunhas, mediadores e públicos, revelando

126
uma complexa rede de interações na qual emergem questões de ordens políticas,
estéticas e narrativas, correlacionadas aos problemas suscitados pelos estudos
sobre a comunicação midiática.
A abordagem do media witnessing traz repercussões decisivas para a traje-
tória do conceito de testemunho, bem como para o entendimento dos processos
jornalísticos. Em primeiro lugar, a rede de interações revelada pelo testemunho
midiático, no limite, transforma a faceta “relacional” própria do testemunho, se-
gundo a qual não pode haver testemunho sem diálogo, em testemunho autosufi-
ciente (GAGNEBIN, 2006; RICOEUR, 2007; PIERRON, 2010). Com o testemu-
nho midiático, soma-se àquela dimensão relacional um “efeito de presença” das
testemunhas instaurado a partir das textualidades midiáticas (FROSH, 2009).
Essa modalidade testemunhal, mobilizada pelos vários dispositivos midiáticos5 e
sujeita aos seus regimes específicos de visibilidade e dizibilidade, torna possível
uma “copresença” imaginária do público-testemunha com as testemunhas con-
vocadas a depor e os mediadores, que atuam como testemunhas.
Depreende-se como substrato dessas formulações o papel mediador desses
textos e narrativas midiáticos, responsáveis por inscrever sujeitos na condição
de testemunhas, por reunir testemunhos e por permitir que possamos tomá-los
como tal. O ponto moral do testemunho midiático, então, já não é somente o da
confiança na palavra do depoente, próprio da abordagem jurídica, ou o da ates-
tação do dito, relativo à perspectiva histórica, mas o de que os testemunhos ins-
critos nas textualidades da mídia nos colocam, inevitavelmente, diante da “ou-
tridade dos outros” (FROSH, 2009, p. 68, tradução nossa). Essa coextensividade
entre públicos, testemunhas e mediadores, bem como essa partilha de experiên-
cias tornada possível a partir dos textos testemunhais reestruturam a dimensão
relacional do testemunho: já não se trata de uma relação entre aquele que presta
testemunho e aquele a quem ele é dirigido, mas de um processo no qual os su-
jeitos se constituem enquanto testemunhas, bem como as experiências, os cor-
pos e as falas configuram-se como testemunhos narrados, expostos e assistidos.
E é a partir desse dilema – o qual, mais tarde, revelar-se-á decisivo para nossa
5. Sobre dispositivos midiáticos, cf. Antunes e Vaz (2006). Sobre o conceito de dispositivo, cf.
Deleuze (1990) e Agamben (2005).

127
argumentação – que voltamos ao ponto em que falávamos das repercussões da
abordagem do testemunho midiático à compreensão dos processos jornalísticos.

3. Do testemunho midiático ao testemunho jornalístico


Ao tratar das implicações do testemunho midiático para o jornalismo, po-
demos seguir pelo menos três caminhos, os quais, ao final do percurso, encon-
tram um ponto de convergência. Essas implicações são tocantes, principalmente,
à encarnação do testemunho jornalístico, ao estatuto da testemunha ocular e à
responsabilidade moral que atravessa essa modalidade testemunhal.
É bastante conhecida, nos estudos em jornalismo, especialmente naqueles
fortemente inspirados nos valores deontológicos e de matiz prescritivo, a regra
segundo a qual um relato jornalístico digno àqueles padrões é feito preferencial-
mente a partir de uma incursão in loco, ou seja, na realidade a ser retratada. O
jornalismo parece ter herdado da “objetividade” historiográfica o apego relati-
vo ao poder atestador das chamadas evidências ou indícios (BURKE, 2004), os
quais podem se afigurar sob a forma do testemunho encarnado, bem como da
testemunha ocular. Tanto o testemunho enquanto fenômeno cultural e midiático
quanto a prática do jornalismo lançam mão do “ter estado lá” como licença para
reivindicar um lugar de autoridade da fala (PETERS, 2009).
No início deste capítulo, referimo-nos à presença do rosto da ex-mode-
lo na capa da revista como uma das evidências do apelo testemunhal enquanto
parte integrante de certos processos midiáticos contemporâneos. Ao carregar as
marcas daquela experiência, aquele corpo exposto traz em si mesmo as evidên-
cias encarnadas do testemunho, a prova de “ter estado lá”. Nesse sentido, a cor-
poreidade do testemunho midiático preenche todos os requisitos da estratégia
retórica segundo a qual a “dor produz verdade” (PETERS, 2009, p. 28, tradução
nossa). A encarnação do testemunho, para o jornalismo, torna-se não apenas um
mecanismo de atestação, mas um critério de verdade. Nesse sentido, o corpo é
responsável também por implicar o sujeito em seu próprio depoimento, à manei-
ra de uma asserção de verdade trazida na pele.
Por outro lado, subjaz a essa encarnação uma sutil contradição entre o cla-
mor por testemunhas sobreviventes e a busca por relatos desengajados, isto é,

128
por uma sobriedade relativa aos “fatos”. Daí porque a testemunha ocular, seja ela
o próprio jornalista, alguém convocado a testemunhar ou mesmo uma imagem,
tem para o jornalismo um valor retórico de alta estima. A testemunha ocular,
aponta Zelizer (2007), continua sendo uma palavra-chave para o jornalismo:

Apesar de o ato de testemunhar ter sido abordado por sua influência geral
sobre questões de percepção, experiência, presença e verdade [...], nas no-
tícias isso vem sendo invocado para encarnar a presença in loco pela qual
os jornalistas constituem sua autoridade para reportar acontecimentos do
mundo real. O testemunho ocular oferece aos membros da comunidade
jornalística uma forma de referenciar o que os jornalistas fazem, devem
fazer e não devem fazer. Como uma palavra-chave para explicar a prática
jornalística, então, o testemunho ocular ajuda os jornalistas a manter limi-
tes em torno dos tipos de prática apropriados e preferenciais. (ZELIZER,
2007, p. 410, tradução nossa).

Embora se mantenha como um importante elemento do fazer jornalísti-


co, a testemunha ocular dispõe, atualmente, de outro estatuto no interior desses
limites jornalísticos em torno das práticas. Trata-se, segundo a autora, de um
estágio no qual esse testemunho combina-se com as possibilidades tecnológi-
cas e com a atuação de jornalistas não convencionais (ou não profissionais) – o
que, de certo modo, faz eco às suspeitas relativas ao surgimento de uma “estética
do flagrante” (BRUNO, 2008), referente à crescente incorporação, por parte das
mídias convencionais, de imagens amadoras (BRASIL; MIGLIORIN, 2010) e de
vigilância. Consequentemente, a relação entre o jornalismo e a testemunha ocu-
lar se transforma em dois aspectos: em primeiro lugar, o relato jornalístico já não
carrega sozinho a necessidade de se afirmar, por si próprio, como texto prove-
niente de uma testemunha ocular; de modo complementar, o testemunho ocular
não mais requer padrões jornalísticos de linguagem para adquirir legitimidade
(ZELIZER, 2007).
A constatação acerca da mudança no estatuto da testemunha ocular no jor-
nalismo não joga por terra a importância da encarnação do testemunho. Se, por

129
um lado, as condições de registro e circulação de imagens amadoras, combinadas
com o engajamento de pessoas comuns em fazê-lo e a receptividade midiática
para com essas formas de testemunho sugerem uma mudança na relação do jor-
nalismo com o estatuto do testemunho ocular, essa transformação não esvazia a
dimensão corpórea do testemunho midiático. Trata-se, antes, de uma abertura
de possibilidades que comporta questões para além das formas de atestação do
depoimento.
Uma forma complementar ao sentido de “ter estado lá”, mediado pela ins-
crição dos corpos nos relatos testemunhais, é a instauração de um sentimento de
“ser-em-comum” instaurado pela copresença dos corpos – daquele que presta
testemunho, bem como daquele que o assiste. O testemunho encarnado de ex-
periências de sofrimento e violência possui, segundo Tait (2011), uma relevância
não apenas retórica, mas também afetiva. Depois de analisar o trabalho do jor-
nalista americano Nicholas Kristof, que fez a cobertura jornalística do genocídio
de Darfur6, no Sudão, como correspondente do diário New York Times, a autora
chama atenção para as consequências da presença de Kristof no lugar daquele
acontecimento. “A tentativa de Kristof de mobilizar respostas afetivas de hor-
ror, raiva, piedade e vergonha diz mais sobre a convocação de uma experiência
encarnada das atrocidades do que sobre fornecer aos leitores uma explicação
nuançada a respeito do porquê daquela violência” (TAIT, 2011, p. 1.229, tradu-
ção nossa). Para a autora, mais do que construção retórica, a presença de Kristof
é constituída de modo que ele se mostre afetado pelas barbaridades que teste-
munha, e, em corolário, provoque aqueles que testemunham seu testemunho no
sentido de se importar com o que veem.
Essa dimensão afetiva, por sua vez, reconduz os sentidos tanto do teste-
munho ocular, quanto da encarnação do testemunho em direção às questões de
ordem política e, ao mesmo tempo, afetiva, relativas ao testemunho midiático.
Por um lado, o estatuto da testemunha ocular se transforma, ainda, num terceiro
aspecto: a suposta objetividade e mesmo passividade do olhar é substituída pela
inscrição daquele que testemunha, de modo que a presença do corpo atue me-
6. Pela qual, aliás, foi premiado com o Prêmio Pulitzer de Jornalismo em 2006.

130
nos em termos de atestação de verdade do que como possibilidade de afetação
– primeiro daquele que se deixa tocar pelo que testemunha, depois daquele que é
convocado a testemunhar através da mídia. Por outro lado, a inscrição e perfor-
mance dos corpos na cena do acontecimento fornece as condições para que haja
um apelo à responsabilidade e, no limite, um engajamento para com aqueles que
prestam testemunho. Como ressalta Tait (2011),

Pela performance da encarnação do testemunho, a coluna de Kristof apelou


aos leitores a compartilhar a responsabilidade pelas atrocidades em Darfur.
Foi central para esse apelo a tentativa de gerar afeto, e de conectá-lo aos
modos potenciais de ação. A tentativa de Kristof de compelir os leitores a
experimentar aquilo que o conflito em Darfur significava por meio do mo-
vimento de seus corpos à vergonha, à empatia, ao horror e à raiva. (TAIT,
2011, p. 1.232, tradução nossa, grifos da autora).

Seja através do rosto de Loemy Marques, seja por meio da presença de


Nicholas Kristof e das vítimas de Darfur, o testemunho midiático desenha uma
configuração bastante específica dessa forma de comunicação, na qual estão
em jogo as formas de retratação de sujeitos, acontecimentos e experiências de
injustiça e sofrimento, modalidades e estratégias de interpelação dos públicos,
além de mecanismos históricos e culturais de produção, circulação e consumo de
testemunhos. Como afirma Tait (2011), é preciso enxergar o testemunho como
componente de uma episteme jornalística, como elemento capaz de nuançar a
relação entre jornalistas e outros sujeitos, e de ambos com os espectadores, o que
enseja uma necessária abordagem ao mesmo tempo política e estética do teste-
munho midiático.

4. Sobre a dimensão política do testemunho midiático


O testemunho não é um gesto politicamente neutro. Os relatos sobre a
Shoah desde cedo se revelaram atravessados por aquela afirmação de uma vul-
nerabilidade comum, por um senso moral segundo o qual o testemunho é uma
atividade essencialmente exercida contra formas injustas de exercício do poder.

131
Logo no prefácio de Os afogados e os sobreviventes, Primo Levi narra a
advertência que os soldados nazistas faziam aos prisioneiros dos campos de con-
centração: “ninguém restará para dar testemunho, mas, mesmo que alguém es-
cape, o mundo não lhe dará crédito” (1990, p. 1). Em seguida, Levi confessa o
sonho noturno comum aos prisioneiros, no qual voltavam para casa, contavam
com paixão e alívio os sofrimentos a parentes queridos, mas eram desacreditados
ou mesmo ignorados. Essas duas cenas dão sustentação ao argumento segundo
o qual aqueles que, por sorte ou “privilégio”, sobreviveram aos campos, não de-
moraram a perceber que os Lager eram um fenômeno político e que o testemu-
nho ulterior às atrocidades era, sobretudo, “um ato de guerra contra o fascismo”
(LEVI, 1990, p. 5).
O testemunho carrega, portanto, há muito tempo, a insígnia da denúncia e
o senso moral a partir do qual ele está intimamente relacionado ao sofrimento –
seja ele propositalmente perpetrado, seja consequência de uma condição social
e de vida desfavorável, para não dizer hostil. Essa perspectiva chega a radicalizar
a legitimidade prévia de certas testemunhas, bem como a deslegitimidade de
outras: “Imagine um nazista que publicou suas memórias da guerra como ‘teste-
munho’ – isso pode ser aceito como um account of experiences, mas nunca como
um ‘testemunho’ no sentido moral: testemunhar significa estar do lado certo”
(PETERS, 2009, p. 30, grifo nosso, tradução nossa). Não obstante o risco de in-
correr em certo maniqueísmo, é a partir desse sentido moral que baliza a seleção,
a compreensão e mesmo a tomada do testemunho, que a testemunha permanece
revestida por uma aura de sobrevivência e sofrimento. Nas palavras de Agamben
(2008, p. 151): “a testemunha, o sujeito ético, é o sujeito que dá testemunho de
uma dessubjetivação”.
Essa fórmula, embora sugira uma conclusão bastante forte relacionada aos
testemunhos da Shoah, expressa apenas uma dimensão das questões políticas
que emergem com as modalidades contemporâneas e midiáticas do testemunho,
nas quais ele se afigura a partir de uma lógica triádica: é performado na, pela e
através da mídia (FROSH; PINCHEVSKI, 2009b). Do ponto de vista do testemu-
nho midiático, uma primeira consequência desse senso moral é a divisão política
que se interpõe entre os indivíduos a partir desses critérios de seleção de teste-

132
munhas e testemunhos que contam como tal. Trata-se de perceber o que inter-
vém na escolha dos testemunhos que valem a pena serem narrados e assistidos.

Construída no ato de prestar testemunho, então, vem a distinção política


entre vítimas cujo sofrimento importa e aquelas cujo sofrimento não im-
porta. Testemunhar constitui uma forma de atenção seletiva a vítimas – e
às vezes de identificação com elas – de modo que frequentemente torna in-
visível a própria participação dos cidadãos na situação de violência contra
os outros. (RENTSCHLER, 2004, p. 296, tradução nossa).

A atenção seletiva aos testemunhos, como ressalta a autora, diz respeito


tanto ao que intervém na escolha, quanto à percepção ou não da participação
dos espectadores nas situações de violência e de sofrimento retratadas. Nesse
sentido, está em questão o trabalho seletivo da mídia, responsável por eleger tes-
temunhos, por um lado, e accounts of experiences, por outro, mas também o lugar
dos públicos em sua capacidade de construir uma forma afetiva e efetiva de par-
ticipação no sofrimento dos outros. O testemunho é assim tomado não apenas
como o que distribui um “nós” e um “eles”, mas também como o que apresenta
vítimas e opressores a partir de um pano de fundo moral.
De modo complementar a esse último aspecto, seria preciso indagar se as
próprias mídias jornalísticas, em seu trabalho de seleção e exposição de testemu-
nhos, constroem-nos como um caso de ação concernente aos espectadores.
A respeito da retratação de testemunhos de sofrimento pelas mídias, e da
demanda ou não por ações políticas efetivas, Rentschler (2004) tira ao menos
duas conclusões: em primeiro lugar, a autora argumenta que os sujeitos podem
simplesmente não saber como agir diante da experiência de estar diante do so-
frimento de outrem, por não terem aprendido como converter sentimento em
ações, ou mesmo por sentirem-se aliviados com o fato de não serem eles os so-
fredores; em segundo lugar, Rentschler (2004) denuncia o pouco investimento
midiático na mobilização cidadã em torno dos casos de injustiça social e vio-
lência. “A maioria dos relatos e das imagens de sofrimento de outras pessoas
não vem embalada em esquemas interpretativos que mobilizam a ação coleti-

133
va” (RENTSCHLER, 2004, p. 300, tradução nossa). Assim, se, por um lado, a
presença dos testemunhos de sofrimento nas narrativas midiáticas ofereceria
condições para que os sujeitos que assistem pudessem se imaginar naquelas si-
tuações, por outro, é como se o testemunho midiático ficasse a meio caminho
entre a mera exposição e consumo dessas imagens e as formas de engajamento
e participação política.
Sobre as consequências políticas do senso moral que ancora o testemu-
nho midiático, Tait (2011) assume a importância do testemunho midiático para
o partilhamento da responsabilidade por um acontecimento cujas consequên-
cias sejam violentas ou causem sofrimento a outrem. Nesse sentido, o teste-
munho se torna um terreno propício à “transmissão de uma obrigação moral”
para com os sujeitos sofredores por parte daqueles que os assistem (TAIT, 2011,
p. 1.227, tradução nossa). Para a autora, o testemunho midiático é, sobretudo,
uma forma de apelar à audiência e compelir os espectadores a assumirem a
responsabilidade pelo sofrimento dos outros. Ou seja, o apelo testemunhal ins-
piraria participação, pela via da afetação, geradora de emoções que ensejam a
moralização da ação pública.
Essa disposição moral que interconecta os espectadores com os sujeitos
cujo sofrimento é narrativamente exposto, à distância, pelo testemunho mi-
diático, é dada como certa por Chouliaraki (2008). O apelo à ação surge, nesse
sentido, movido não apenas pelo sentimento de responsabilidade, mas princi-
palmente pelo comprometimento baseado na solidariedade introduzida pelo
testemunho midiático como possibilidade. Trata-se, sobretudo, de uma “conec-
tividade simbólica” que intervém não apenas no sentido de demarcar uma se-
paração entre aqueles que sofrem e aqueles que assistem, ou entre aqueles cujo
sofrimento conta e aqueles cujo sofrimento não conta, mas principalmente na
facilitação de uma relação entre sujeitos pertencentes a comunidades e mundos
distintos (CHOULIARAKI, 2008). Assim, o testemunho de sujeitos sofredores,
apresentados com seus nomes, rostos e com suas qualidades humanas universais,
cumpriria um papel central para a convocação à solidariedade como chamada à
ação no sentido de aliviar o sofrimento retratado.

134
5. Considerações finais
Por fim, é preciso destacar duas consequências desse senso moral que re-
mete o testemunho às problemáticas da ação política, da responsabilização e da
solidariedade. Em primeiro lugar, cumpre voltarmos à distribuição dos sujeitos
a partir de um pano de fundo moral, no ponto em que, além de instaurar um
senso de responsabilidade para com o outro sofredor, o testemunho encontra-se
subordinado a uma promessa de restauração da justiça (CHOULIARAKI, 2009).
Nesse sentido, o clamor pela ação política pode voltar-se não para o sofredor,
mas para os causadores do sofrimento, ou para aqueles que deveriam atenuá-lo
e não o fazem.
O testemunho midiático, então, insinua-se como um terreno propício à
mobilização de respostas afetivas e mesmo políticas em relação a situações ou
experiências de sofrimento. Contudo, o mesmo gesto ou disposição moral que
compele os públicos das mídias a partilharem um senso de responsabilidade a
ponto de se importarem com o sujeito sofredor pode suscitar uma reação de in-
dignação cuja consequência pode ser inversa àquela da ação política.

É esse espaço de socialização de afeto como emoções que vinculam os pú-


blicos a uma causa que precisa ser investigado como um lugar no qual a
empatia pelo sofredor pode ser deslocada pelo ódio ao perpetrador, repro-
duzindo mecanismos de violência em vez de facilitar processos de reconci-
liação. (TAIT, 2011, p. 1233, tradução nossa).

Ou seja, o testemunho midiático instaura uma experiência na qual os pú-


blicos das mídias são inscritos em uma condição moral orientada no sentido afe-
tivo da identificação e responsabilização para com os sofredores, no da empatia
e da solidariedade a esses sujeitos, mas também no sentido da indignação, ódio
ou ressentimento de nós contra aqueles que causam sofrimento aos outros (AN-
TUNES, 2012). Essas múltiplas formas de articulação do testemunho midiático
revelam a complexidade da dimensão política desse fenômeno, especialmente
naquilo que ela evidencia sobre as formas de interação entre testemunhas na
mídia e testemunhas através da mídia.

135
Entretanto, há uma segunda consequência daquele senso moral que con-
cerne principalmente ao testemunho pelas mídias jornalísticas, isto é, à relação
entre a instância midiática, seus agentes e os sujeitos narrativamente inscritos
de maneira a dar testemunho. Trata-se da evidente assimetria entre jornalistas e
sujeitos sofredores, no que diz respeito à distribuição de lugares e papéis no con-
texto do testemunho. Como ressalta Tait, é a busca por esses testemunhos que
acaba por justificar uma “intrusão no sofrimento dos outros: fazer exigências a
sujeitos impotentes que talvez não estejam em uma posição de consentir serem
representados” (2011, p. 1.221, tradução nossa).
Essa assimetria e a consequente invasão ao sofrimento alheio invertem o sen-
so moral do testemunho midiático, revelando-o também como forma de exercício
de poder sobre a vulnerabilidade de outrem; e como gesto próprio de uma ordem
discursiva midiática cuja atividade não é necessariamente orientada, como denun-
ciava Rentschler (2004), à mobilização cidadã em torno de injustiças e sofrimen-
tos. A intrusão jornalística no sofrimento dos outros reordena a dimensão política
do testemunho midiático no sentido de que, seja qual for o desfecho da narrativa,
tenha ela mobilizado ou não os públicos rumo à ação política ou em torno de um
sentimento de responsabilidade, ou mesmo estabelecido aquela conexão simbólica
que dá ensejo à solidariedade, o testemunho terá de enfrentar o dilema de cons-
tituir-se como ação moralmente questionável – e possivelmente re-vitimizadora.

Referências
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2005.
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ÇA, V.R.V.; GUIMARÃES, C. (org.). Na mídia, na rua: narrativas do coti-
diano. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, pp. 43-60.

136
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138
RELEVÂNCIA JORNALÍSTICA:
DESENVOLVIMENTOS INICIAIS

Liliane do Nascimento Santos Feitoza1

1. Introdução
Para comunicadores e jornalistas o termo relevância é recorrente, seja
entre teóricos e acadêmicos, seja entre profissionais que executam a dimensão
técnica do jornalismo, durante as rotinas de produção. Para todos eles, a infor-
mação jornalística deve ser relevante, ainda que exista pouca concordância na
atribuição desta relevância e ainda menos na tentativa de esmiuçar seu funcio-
namento na área.
Este artigo pretende expor um conjunto de desenvolvimentos interessados
em suprir essas lacunas, com destaque para uma elaboração conceitual original
de relevância jornalística, inicialmente exposta através de uma dissertação de
mestrado2. Além do conceito inicial, o trabalho ainda conta com elaborações
posteriormente desenvolvidas.
Em busca de melhor compreender a relevância, o trabalho recorreu às ba-
ses da Teoria da Relevância de Sperber e Wilson (2001, 2005, 2010) e a algu-
mas discussões complementares. Nessas obras, foi possível compreender uma
relevância ampla e genérica, aplicável à comunicação humana como um todo;
adiante, o trabalho buscou desenvolver uma noção de relevância mais específica
e aplicável ao jornalismo, que não se separa da concepção generalizada da rele-
vância, mas ganha certa verticalidade ao se vincular a aspectos próprios da área.
1. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE, com bolsa concedida
pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco. Mestra em Comunicação, pela
UFS, com dissertação premiada no ano de 2017 pelo Prêmio Adelmo Genro Filho, concedido
pela SBPjor.
2. FEITOZA, L. N. S. Relevância jornalística: análise e teste de ferramenta para fins de avaliação
de qualidade e accountability. 28/03/2016. 198f. Dissertação de Mestrado em Comunicação. São
Cristovão: Universidade Federal de Sergipe, 2016.

139
A Teoria da Relevância (TR), dos citados autores, se sustenta em dois prin-
cípios essencialmente amplos que se referem ao funcionamento dos processos
mentais e comunicativos. A amplitude e a intenção basilar destes princípios pos-
sibilitam o diálogo fácil e rápido com muitas áreas do conhecimento, mas ao
passo que é acessível, esse diálogo com a teoria geral é necessariamente superfi-
cial, levando a construções genéricas. Para uma troca mais sólida percebeu-se a
necessidade de trabalhar em uma construção intermediária, que além da TR se
oriente pelos conhecimentos da área com a qual se pretende dialogar.
Assim, os princípios, conceitos e implicações da Teoria da Relevância serão
a base para o desenvolvimento inicial de uma relevância específica às necessida-
des do jornalismo. Por continuar sendo um tipo de relevância, este desenvolvi-
mento permanecerá atento aos elementos constituintes da relevância propostos
por Sperber e Wilson (2001); mas por voltar-se para o jornalismo também obser-
vará especificidades da prática e das teorias do jornalismo.

2. Relevância
Os estudos da relevância cresceram e se expandiram em diversas escolas
do conhecimento (GREISDORF, 2000), conferindo um caráter interdisciplinar
capaz de proporcionar investigações amplas e aprofundadas. Este trabalho segui-
rá, principalmente, a elaboração oriunda de linguistas orientados pela psicologia
cognitiva. Utilizando, para tanto, a obra de Sperber e Wilson (2001, 2005, 2010),
acrescida de composições dedicadas a provocar, questionar ou somar conheci-
mento à produção dos autores.
Essa abordagem considera que um enunciado pode implicar diversas in-
terpretações e toma como desafio explicar como ouvintes/receptores atingem um
significado específico em meio a uma possível diversidade de outros significados
que poderiam ter sido alcançados. Para Sperber e Wilson (2001), é a busca pela
relevância que justifica a obtenção de determinados significados e não de outros.
Os autores assumem que a cognição humana será sempre dirigida para a
maximização da relevância, o que se deve à evolução da espécie e ao papel que a
cognição desempenha nesta evolução.

140
Partimos da suposição de que a cognição é uma função biológica e de que
os mecanismos cognitivos são, em geral, adaptações. Como tais, eles são o
resultado de um processo de seleção natural darwiniana (embora outras
forças evolucionárias possam ter ajudado a modelá-los). Assumimos, en-
tão, que os mecanismos cognitivos evoluíram em pequenas etapas incre-
mentadas, a maioria delas consistindo na seleção de uma variante que se
desempenhou melhor do que as outras que estavam próximas. Há muitas
maneiras pelas quais uma variante de um mecanismo biológico pode de-
sempenhar-se melhor do que outras. Pode haver uma diferença qualitativa
no tipo de benefícios que as diferentes variantes produzem, ou a diferença
quantitativa, quando o mesmo benefício pode ser obtido com maior grau
ou com menor custo energético. (SPERBER; WILSON, 2005, p. 182).

As pressões evolutivas, que moldaram e moldam o desenvolvimento das


espécies, seriam responsáveis por estimular o desenvolvimento da cognição hu-
mana, que se tornou, dentre todas as funções biológicas, a principal vantagem
competitiva da espécie. Dessa forma, a necessidade de priorizar as entradas re-
levantes se fundiu à cognição humana como uma necessidade de sobrevivência,
atuando tanto na percepção seletiva dos estímulos e suposições quanto na sua
interpretação.
A TR compreende que a cognição evoluiu ao ponto de pré-selecionar,
entre todos os fenômenos e acontecimentos disponíveis à cognição, os previa-
mente dignos de atenção, por terem mais chances de serem relevantes ou de
levarem a outros estímulos relevantes, o que explica porque muitas vezes não
notamos o canto de um pássaro, mas não conseguimos ignorar o toque de um
aparelho celular.
O conceito de relevância apresentado pelos autores pode ser explorado em
três dimensões complementares: classificatória, comparativa e quantitativa. Na
mais básica, a classificatória, a relevância é definida em torno dos efeitos cogniti-
vos que é capaz de gerar. “Uma suposição é relevante para um indivíduo em um
dado momento se e somente se ela tem efeito cognitivo positivo em um ou mais
contextos acessíveis a ele nesse momento” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 187).

141
Sendo o efeito cognitivo positivo uma diferença vantajosa na representação de
mundo do sujeito.
O termo contexto é utilizado pelos autores como “uma construção psico-
lógica formada por um conjunto de suposições que o ouvinte tem do mundo”3
(SPERBER; WILSON, 2001, pp. 45-46). Assim, pode ser classificado como rele-
vante o input (termo utilizado pelos autores) ou entrada que ao ser somado com
o contexto cognitivo do indivíduo promove uma diferença vantajosa, aperfeiçoa
ou amplia a compreensão do mundo dele, chegando a estimular ações. Os efeitos
gerados são de três ordens, conforme definido pelos autores: fortalecimento, re-
visão ou abandono e implicação contextual.
A segunda dimensão ou dimensão comparativa também define a relevân-
cia em torno da geração de efeitos cognitivos positivos, mas passa a considerar
também os esforços requeridos, de modo que ao lado da preocupação com a
geração de efeitos máximos, existe sempre a necessidade de redução dos gastos
necessários para obtê-los. A dimensão comparativa é composta, portanto, por
duas condições. A primeira destaca a relação entre relevância e efeitos. “Condi-
ção de grau 1: uma suposição é relevante para um indivíduo na medida em que
os efeitos contextuais positivos obtidos, quando ela é otimamente processada,
são amplos” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 187). Já a segunda chama a atenção
para o esforço requerido. “Condição de grau 2: uma suposição é relevante para
um indivíduo na medida em que o esforço requerido para obter esses efeitos
cognitivos é pequeno” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 187).
A dimensão quantitativa é pouco explorada pelos autores, pois foge aos
seus interesses específicos de aplicação da teoria, mas ela é apresentada como
uma área de exploração válida. O que a torna legítima é a indicação de que a
relevância não se manifesta apenas em níveis de presença ou ausência, mas pode
3. Amplamente utilizado, o termo contexto costuma fazer referência a um conjunto de circuns-
tâncias que se ligam a um fato e que permitem sua correta compreensão ou ainda a relação entre
o texto e a situação em que ele ocorre. Neste trabalho, estas utilizações pretendem ser evitadas,
em função da utilização do termo, conforme Sperber e Wilson (2001), para dar conta de um con-
junto de suposições alojadas em uma construção psicológica que organiza os saberes que os indi-
víduos têm do mundo. Ainda em outros termos, o contexto, segundo os autores, faz referência ao
conjunto de saberes armazenados pelos indivíduos e que moldam sua compreensão do mundo.

142
atingir maior ou menor grau: “intuitivamente, relevância não é uma questão de
tudo ou nada, mas uma questão de graus” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 224).
Para os fins deste trabalho, ocupado em pensar a relevância jornalística, a
relevância geral será tomada como uma propriedade dos inputs medida sempre
em um determinado contexto cognitivo e que se define pela geração de efeitos
para um determinado indivíduo, mas se gradua pelo equilíbrio entre os efeitos e
os esforços requeridos para alcançá-los. A busca por relevância seria, portanto,
uma busca pelo desempenho eficiente da cognição em cada contexto cognitivo,
precisando para tanto balancear custos e benefícios.

3. Relevância jornalística
Um primeiro procedimento interessante para auxiliar a adaptação de um
conjunto extenso de ideias para uma realidade particular é identificar no concei-
to geral, previamente organizado a partir dos autores de referência, os aspectos
de necessário detalhamento. Pensando, pois, na relevância jornalística, é neces-
sário questionar: 1) quais são as entradas ou inputs específicos desta comunica-
ção; 2) o que pode ser considerado como o contexto; 3) quem é o indivíduo no
qual se pretende gerar efeitos; e 4) quais são os esforços que dizem respeito à
geração destes efeitos.

3.1 Os inputs da comunicação jornalística


Seguindo a divisão estabelecida por Sperber e Wilson (2001), um input
pode ser de dois tipos: interno ou externo ao indivíduo. Enquanto os primei-
ros são chamados pelos autores de suposições, os segundos são denominados
estímulos. No âmbito da produção jornalística, ser um estímulo interno não
implica que os saberes são fruto da subjetividade do jornalista, mas sim que
são internalizados a partir do campo, tanto no trato com os conteúdos, quanto
na assimilação dos processos. Assim, as suposições são os saberes apreendidos
pelo jornalista no contato com o campo e acionados na interpretação dos fatos
e acontecimentos.
Já os inputs externos ou estímulos podem ser divididos em dois: mo-
vimentam o processo de produção jornalística, vindo de fora, tanto os fatos

143
e acontecimentos atuais quanto as expectativas da audiência que, segundo
Guerra (2014) encontram-se manifestas nos valores-notícia. Concebendo que
a função prática da instituição jornalística é produzir conteúdo noticioso so-
bre fatos e acontecimentos atuais, sua execução requer não só a existência de
estímulos externos como fatos e uma audiência dotada de expectativas que
precisam ser supridas, mas também saberes internos de reconhecimento, que
habilitem o jornalista para intermediar, com alguma qualidade, uma diver­
sidade de acontecimentos e necessidades ou expectativas, também diversas, de
vir a conhecê-los.
Dessa forma, os inputs da comunicação jornalísticas podem ser concebi-
dos como um conjunto de saberes internalizados e acionados pelos jornalistas na
interpretação dos fatos, bem como de expectativas das audiências presumidas e
projetadas sobre os fatos potencialmente jornalísticos

3.2 O contexto de processamento dos inputs


A relevância de um input está, necessariamente, atrelada a um contexto.
Em Sperber e Wilson (2001), um estímulo ou uma suposição só será relevante
quando ao ser somado a um contexto cognitivo prévio for capaz de gerar algum
efeito cognitivo. Por ser, essencialmente, mais complexa do que a criação e o pro-
cessamento de uma sentença, a produção jornalística precisou complexificar a
percepção do contexto cognitivo. Na produção jornalística, o contexto cognitivo
se subdivide, pedindo atenção não só para a conjectura do ambiente cognitivo
do receptor, mas antes disso, para o contexto cognitivo do próprio jornalista que
orienta a hipótese do primeiro contexto.
O contexto cognitivo do jornalista será formado não só pela construção
psicológica que o sujeito jornalista tem individualmente (valendo destacar que
essa construção não se desvincula de saberes compartilhados socialmente, uma
vez que são eles a base para a elaboração das subjetividades (SCHUTZ, 2003)),
mas também pelo perfil editorial da organização em que atua e pela constru-
ção de uma identidade profissional compartilhada por um grupo de jornalistas.
O que constitui uma cultura profissional e confere identidade correspondente a
essa cultura.

144
Há, segundo Traquina (2004), um conjunto de características comparti-
lhadas pelos jornalistas e que dão origem a uma forma particular de falar, agir
e ver o mundo. “A comunidade jornalística é uma tribo e as características e
ideologias dessa tribo são um fator crucial na elaboração do produto jornalís-
tico” (TRAQUINA, 2004, p. 126). A construção desta identidade de grupo se
dá em contato com componentes organizacionais, que incluem, por exemplo, as
pressões vindas da rotina produtiva. O jornalista domina, portanto, uma série de
competências profissionais e ainda outras competências editoriais da organiza-
ção para a qual trabalha.
Retomando o conceito de valor-notícia de Guerra (2014), quando destaca
que estes valores funcionam como idealizações do espectador real, é possível in-
dicar que os valores-notícia, presentes no contexto cognitivo profissional, orien-
tam e organizam a seleção de inputs a serem transformados, com base numa
conjectura do ambiente cognitivo do receptor. Deve-se ter em mente, portanto,
que o contexto cognitivo do receptor aqui indicado será sempre um contexto
presumido pelo jornalista, elaborado pelos processos jornalísticos e, em função
disso, componente constitutivo do contexto cognitivo dos próprios profissionais.
Sobre o contexto cognitivo dos receptores ainda é necessário esclarecer
que a produção jornalística exige pensar em uma dimensão numericamente am-
pliada. De maneira geral, Sperber e Wilson (2001) tratam da produção de enun-
ciados relevantes tendo como destino um único receptor, enquanto a produção
jornalística necessariamente se propõe a produzir para um grupo maior. Dessa
forma, os jornalistas têm como desafio sair de um ambiente de presunção de re-
levância individual, em direção a ambientes coletivos e públicos.
A presunção de um contexto cognitivo comum a uma coletividade consi-
dera um conjunto de suposições compartilhadas por sujeitos e que levam a um
interesse semelhante por um ou alguns inputs. Há, na coletividade, uma quan-
tidade razoável de sujeitos que compartilha visões de mundo, gostos e interes-
ses e que se une em uma coletividade justamente através destas características
comuns. A presunção de um contexto cognitivo comum a qualquer sujeito é
ainda mais complexa, pois procura dar conta dos ambientes cognitivos de uma
infinidade de pessoas que possuem contextos cognitivos muito distintos entre si.

145
No caso, a aproximação desse grupo tão diverso não será feita pelo do gosto, mas
pelas necessidades comuns aos sujeitos. Essa separação será enriquecida a seguir,
diante das noções de audiência e público.

3.3 O indivíduo da comunicação jornalística


Torna-se necessário definir neste momento e no âmbito do trabalho quem
é o indivíduo dotado de um contexto cognitivo no qual a relevância jornalística
pretende gerar efeitos cognitivos positivos. Tal definição encontra dois complica-
dores fundamentais, ambos já apontados. O primeiro diz respeito à variedade de
receptores reais para os quais a comunicação jornalística se destina. O segundo,
e mais polêmico, à presunção dos ambientes cognitivos, desejos e necessidades
desses indivíduos.
Como todo produto comunicativo é um texto e todo texto é um fenôme-
no incompleto, que precisa do destinatário para se completar (ECO, 1993, p.
77); para adquirir significado os produtos jornalísticos precisam contar com a
participação dos seus receptores. Assim, produzir um produto comunicativo, é
formular uma estratégia que inclui, como toda estratégia, a previsão do movi-
mento do outro (ECO, 1993, p. 79), havendo a necessidade de fabricar o modelo
do sujeito que a estratégia deseja alcançar.
Para tanto, o estrategista textual irá supor a existência de um leitor-modelo
possuidor de certas competências que lhe permitem acessar o texto. O leitor-mo-
delo é, portanto, uma idealização de um receptor e de suas capacidades, que guia
o comunicador na seleção dos inputs e no recorte contextual. A necessidade de
compor este leitor/receptor é proporcionalmente mais difícil quanto mais amplo
for o conjunto de pessoas a que se deseja atingir, uma vez que a diversidade de
sujeitos torna mais árdua a tarefa de idealizar quais são as características e os
interesses comuns.
Na formulação deste leitor-modelo, o jornalismo encontra ainda outros
complicadores, uma vez que, neste indivíduo idealizado competem duas lógicas
que operam ao mesmo tempo, a do indivíduo como consumidor e como cida-
dão. A definição de leitor-modelo funcionará, então, como um passo na direção
de categorias mais específicas à produção jornalística, audiência e público.

146
Diante desta separação, Zylbersztajn (2008) cita Raboy, Abramson, Prou-
xl e Welters, ao tratar da existência de duas redes de relações: mídia-cidadania
e mídia-audiência, fazendo com que haja uma radical separação entre as es-
feras pública e privada. Ela ressalta que a lógica do mercado trata os usuários
como consumidores, enfatizando suas necessidades de consumidor e tendendo
a esconder a possibilidade de o usuário ter outras necessidades, que o mercado
não quer ou não pode fornecer, enquanto mídia-audiência (ZYLBERSZTAJN,
2008, p. 50).
Neste âmbito, a mídia-cidadania se propõe a atuar como um corretivo da
separação entre o público e o privado ao reintroduzir a cidadania nas práticas da
mídia (ZYLBERSZTAJN, 2008, p. 50). Para evitar que a concepção do receptor se
atenha somente às considerações econômicas ou mercadológicas, Marc Raboy,
Serge Proulx e Peter Dahlgren, novamente citados, desenvolveram o conceito de
“demanda social”.

O diagnóstico da “demanda social” provém dos esforços de grupos sociais


e culturais para influenciar a direção das políticas de mídia. Os autores afir-
mam que as pesquisas industriais de audiência são quantitativas e orienta-
das pelas considerações mercadológicas e não são capazes de diagnosticar
essa demanda. Assim, faz-se necessário que outros mecanismos sejam de-
senvolvidos, a fim de que a demanda social seja considerada no processo
de criação de políticas de mídia.
Nesse sentido, as políticas públicas de comunicação devem prover uma es-
trutura normativa de legislação e regulação que vise a satisfazer a demanda
social. Para isso, é necessário posicionar os usuários como atores sociais, ao
invés de simples consumidores. (ZYLBERSZTAJN, 2008, pp. 50-51).

O receptor da informação jornalística, enquadrado como público, for-


ma um conjunto muito amplo de sujeitos muito distintos entre si, mas unidos
por um conjunto de direitos e deveres formadores de uma demanda social.
Ainda que as organizações jornalísticas possuam a destacada função social em
relação ao público, sua atuação cotidiana não se destina para este, mas para

147
um grupo menor e menos diverso, recortado do público geral e denominado
audiência, que é

[...] o conjunto de receptores e consumidores empíricos e potenciais da


mensagem jornalística produzida por uma determinada organização. É
importante destacar, contudo, que essa relação entre organização e audiên-
cia não é de mão única: A organização não determina unilateralmente a
temática para a audiência, nem vice-versa. Ocorre aí um processo de aco-
modação contínua e recíproca entre a oferta da organização e a expecta-
tiva, cujos objetivos são evitar a perda da identidade entre ambas, o que
fatalmente abalaria a comunicação entre elas. (GUERRA, 2008, p. 180).

Assim, para destinar sua ação para a audiência, as organizações jornalís-


ticas devem considerar tanto os interesses conhecidos e presumidos dos recep-
tores e consumidores empíricos e potenciais quanto suas próprias pretensões
editoriais. Este conjunto de interesses e pretensões podem ser a base para a defi-
nição de valores-notícia de referência e potenciais, utilizando a denominação de
Guerra (2008).
A posição que pretendemos adotar para definir o sujeito da informação
jornalística não desconsidera nenhumas das perspectivas expostas. Assim sen-
do, o indivíduo será tomado ao mesmo tempo em uma dimensão de audiência
e de público. Essas duas categorias procuram dar conta tanto de uma demanda
social correspondente com as responsabilidades da mídia diante das sociedades
democráticas; quanto de demandas empresariais, mercadológicas e de reconhe-
cimento do interlocutor direto e potencial.

3.4 O esforço requerido para alcançar o efeito cognitivo positivo


O último termo a ajustar também precisa ser detalhado em mais de uma
dimensão. Na definição comparativa da relevância, Sperber e Wilson (2005) in-
dicam que além dos efeitos, a relevância sofre influência dos esforços, de modo
que uma suposição é relevante à medida que os esforços requeridos para alcançar
os efeitos sejam pequenos. Ainda que a tendência imediata, retirada do conceito,

148
seja considerar os efeitos e os esforços dos receptores, é preciso abrir margem
para pensar nos esforços empreendidos pelo produtor do estímulo.
No conceito de relevância ótima4, o acréscimo é permitido, uma vez que os
autores creditam aos enunciadores a presunção da relevância ótima, deixando a
cargo deles definir o equilíbrio entre a redução de esforços e de maximização de
efeitos.

Um comunicador pode bem estar disposto a tentar minimizar o esforço


do destinatário, desde que isso o faça mais provavelmente prestar atenção
a seu estímulo ostensivo e tenha sucesso em compreendê-lo. Até, por toda
sorte de razões, o estímulo particular que ele produz pode não ser aque-
le que minimizaria absolutamente o esforço do destinatário. Em primeiro
lugar, há o próprio esforço do comunicador a considerar. (SPERBER; WIL-
SON, 2005, p. 190).

Ponderando que a função do jornalista é alcançar o receptor tanto em um


nível comunicativo quanto informativo, é comum que o seu esforço de produção
seja aumentado, a fim de simplificar o da sua audiência. Em muitas situações, por
estar entre a fonte especializada ou um público que possui apenas um conheci-
mento superficial, por exemplo, o jornalista precisa empregar um grande esforço
no sentido de “traduzir” informações complexas, tornando-as acessíveis a uma
pluralidade de receptores.
Classificando a informação como insumo necessário à orientação, à pros-
peridade, à manutenção de papéis sociais e até mesmo à sobrevivência das pes-
soas nas sociedades industriais maduras, Lage (1999) chama a atenção para o
papel do jornalista como “tradutor dos discursos políticos, culturais e técnicos
4. A presunção de relevância ótima foi definida pelos autores em torno de duas cláusulas que
qualificam os estímulos ostensivos: “a) O estímulo ostensivo é relevante o suficiente para merecer
o esforço do destinatário em processá-lo; b) O estímulo ostensivo é o mais relevante compatível
com as habilidades e preferências do comunicador” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 193). A rele-
vância ótima não é, portanto, a maior relevância existente em um determinado contexto, mas a
relevância merecedora do processamento mais compatível com os interesses e disponibilidades
do receptor e do enunciador.

149
que logo se transformam em diretrizes, produtos e métodos de uso universal”
(LAGE, 1999, p. 44). O jornalista atua, dessa forma, como um “prestador de ser-
viço” que permite acompanhar um conjunto de fatos complexos ao traduzi-los
em uma informação visível e discutível.
Por outro lado, os estudos do Newsmaking apontam para o estabeleci-
mento de rotinas produtivas que limitam a amplitude da informação (redu-
zindo provavelmente os efeitos que poderiam ser alcançados), mas reduzem
também o esforço do jornalista, uma vez que conferem a ele uma oportunidade
antecipadamente revelada e uma garantia maior de produtividade, credibili-
dade e respeitabilidade, em relação às fontes e ao material recolhido (WOLF,
2009, p. 225).
O surgimento de tais rotinas diz respeito a pressões com as quais os jorna-
listas precisam lidar todos os dias, com destaque para a escassez de tempo e de
meios. Para além de um modo corriqueiro de cobrir os fatos, entretanto, essas
rotinas e suas fontes se enraizaram profundamente no modus operandi do jorna-
lismo (WOLF, 2009, p. 218).
Dessa forma, em algumas situações o jornalista aumentará o esforço rea-
lizado a fim de alcançar maior relevância através da redução de esforços no re-
ceptor; em outros, o esforço do próprio jornalista será reduzido em função de
outras demandas do processo produtivo, como os prazos e recursos disponíveis
de produção. Assim, limitado pela variável da exaustão (RAUEN, 2008)5, embo-
ra o jornalista possa aumentar seu esforço de processamento para reduzir o do
receptor, ele o faz dentro de uma estratégia de minimização dos esforços que não
permite comprometer prazos ou recursos. É justamente no equilíbrio entre a ge-
ração de efeitos e os esforços requeridos que o jornalista irá operar sua avaliação
dos fatos disponíveis.
5. A variável da exaustão funciona moderando a relação custo-benefício. “Em igualdade de con-
dições, quanto mais exausto estiver o organismo, maior será o dispêndio de energia para com-
pensar o efeito cognitivo, minimizando a eficiência cognitiva ou relevância de um fenômeno até
um ótimo de Pareto” (RAUEN, 2008, p. 41). A variável da Exaustão de Rauen se propõe a enri-
quecer o princípio cognitivo de relevância, baseando-se na percepção de que os seres humanos
não atuam em um estado permanente de captura de informações, mas alteram estados tensos e
distensos, nos quais a cognição opera guiada ora pelos efeitos, ora pelos custos.

150
Na dimensão dos esforços serão considerados, portanto, os esforços do re-
ceptor para acessar um conteúdo, assim como os esforços requeridos para que
os jornalistas o produzam. A alteração dos quatro termos destacados leva a uma
definição mais próxima do que será chamado de relevância jornalística.
Assim, a partir da aproximação dos termos destacados anteriormente,
a relevância jornalística será concebida como uma propriedade de saberes
internalizados e acionados pelos jornalistas na interpretação dos fatos, bem
como de expectativas da audiências presumidas e projetadas sobre os fatos po-
tencialmente jornalísticos, identificados através dos valores-notícia, e que se
mede sempre em relação ao contexto cognitivo do profissional do jornalismo,
cujos saberes tipificados ajudam a supor os contextos cognitivos dos receptores;
a relevância jornalística se define pelo objetivo ou pretensão de gerar efeitos
cognitivos positivos para um conjunto de indivíduos que são ao mesmo tempo
membros da audiência e do público, mas se gradua pelo equilíbrio entre os
efeitos e os esforços requeridos tanto aos produtores quanto aos receptores do
produto noticioso.
Com as aproximações expostas pretende-se não só sinalizar a existência de
uma conversa entre diferentes áreas de produções de conhecimento, nem apenas
oferecer a Teoria da Relevância para uma ação pontual e utilitária de auxílio a
identificação da relevância, mas, antes disso, intercambiar saberes, modificando
a percepção de como elegemos e de como oferecemos relevância à audiência. A
internalização dos saberes-chave da TR adaptados ao jornalismo propõe uma
complexificação da identificação e do trato com a relevância, ao passo que pos-
sibilita uma compreensão dos seus princípios, das suas características e das suas
limitações.

Conclusão
A vantagem de aplicar a TR ao jornalismo, dessa forma, reside, a princípio,
na possibilidade de auxiliar a sistematização de conceitos pouco desenvolvidos
e, em seguida, na ampliação da percepção dessa relevância − levando a um olhar
modificado para o trabalho de seleção realizado e para a forma como a audiência
processa a relevância. A instrumentalização desses conceitos e dessa percepção

151
ainda é uma vantagem, ao passo que propõe uma sofisticação e um aprofunda-
mento de um aspecto da rotina de produção jornalística.
De maneira geral, a percepção de que a relevância é uma grandeza ampla,
composta por muitas partes, faz com que a busca por ela esteja atenta a uma
variedade de elementos que poderiam ser ignorados. A percepção da relevância
exposta neste trabalho chama atenção para uma composição que não considera
apenas valores-notícia e fatos, mas além deles aponta para o conhecimento dos
contextos cognitivos da audiência e para os efeitos desejados e esforços possíveis.
Ainda outras aproximações conceituais podem ser retiradas do conceito inicial,
o que não foi feito pelas limitações de espaço e formato, bem como pela intenção
pontual deste trabalho.
Entre as necessidades de encaminhamento resultantes deste trabalho, há,
de início, a de reforçar e amadurecer a concepção de relevância jornalística, pro-
blematizando não só o conceito inicial, mas também, as implicações e demais
relações que são amadurecidas a partir dele. Em seguida, é necessário utilizar a
compreensão ampliada tanto para avaliar o resultado da seleção e hierarquização
feita pelos jornalistas, quanto para avaliar diretamente os fatos, dando origem a
procedimentos avaliados mais vinculados às construções normativas, sendo, por
isso, mais abertos à questionamentos baseados em normas e mais próximos de
uma cultura de responsabilidade jornalística.

Referências
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São Paulo: Perspectiva, 1993.
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ferramenta para fins de avaliação de qualidade e accountability. 28/03/2016.
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GUERRA, Josenildo Luiz. O percurso interpretativo na produção da notícia. São
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152
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tais. (Dissertação de Mestrado em Direito). São Paulo: Faculdade de Direi-
to da Universidade de São Paulo, 2008.

153
DO MITO À AUTOCENSURA: A HETERONORMATIVIDADE
E A IDENTIDADE DO JORNALISTA GAY

José Ilton Porto1


Sara Feitosa2

1. Introdução
A mãe fica grávida, ansiosa para saber se é menino ou menina. Se o quarto
será pintado de azul ou rosa. Compra roupas amarelas, usadas para ambos os
sexos. O médico anuncia: “É menino!”. As cores das roupas passam a ser azul e,
com isso, um novo dilema: será torcedor do Bahia ou do Vitória? Ganha uma
camisa do time do pai, uma bola de futebol no aniversário e aprende o bate-bola
no quintal de casa, mas na educação física da escola não se encaixa em nenhum
grupo. Na igreja, aprende que a ação do desejo que sente é pecado. Na família, as
tias perguntam no Natal: “E as namoradinhas?!”. O menino cresce alimentando
o sonho de ter uma esposa, filhos e formar uma família dentro dos moldes tradi-
cionais, até descobrir que é diferente...
Todas essas instituições (a igreja, a família, a escola) se estruturam como
espaços de (re)produção de discursos biológicos, religiosos e políticos que de-
terminam padrões a serem seguidos por todos os sujeitos. A naturalização de
uma heterossexualidade, expressa na heteronormatividade, imposta pela nossa
cultura descarta quaisquer que sejam outras identidades, assim, estigmatizando
sujeitos que subvertem a norma. A heteronormatividade regula os corpos, crian-
do um parâmetro de normalidade em relação à sexualidade, evidenciando como
norma e como normal a atração e/ou o comportamento sexual entre indivíduos
de sexos diferentes, ou seja, ditando o que é certo ou errado, convencionalmente
e afetando as relações sociais e colocando em patamar de subalternidade o sujei-
to que não se encaixa no padrão heterossexual (Louro, 2008).

1. Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Pampa.


2. Orientadora. Doutora em Comunicação e Informação (PPGCOM/UFRGS). Professora na
Universidade Federal do Pampa.

154
Este artigo, originalmente monografia3 de conclusão de curso, visa contri-
buir para o campo das práticas sociais, presente no jornalismo, e nos estudos de
gênero, bem como colaborar para um diagnóstico no campo profissional sobre
os constrangimentos decorrentes da identidade sexual. Utilizamos o termo gay
(e não homossexual) por entender que ele confere uma identidade ao sujeito e
legitima o seu movimento social. Tem como objetivo compreender de que forma
a identidade sexual dos jornalistas gays é velada por causa da normatividade e
como a mitologia jornalística perpassou a escolha profissional.
Resultante de uma pesquisa qualitativa, de natureza empírica em que a
produção do conhecimento é feita a partir da interação com os sujeitos da pes-
quisa. A técnica que foi utilizada para realização da investigação é a entrevista
semiestruturada. As entrevistas foram feitas, pessoalmente, com dez jornalistas
autodeclarados gays que estão no exercício da profissão e, sendo assim, a análise
aqui apresentada implicará num recorte da totalidade social.
Para a análise de dados, utilizamos a técnica de análise de conteúdo.
Levamos em consideração as etapas da técnica destacadas nos estudos de
Laurence Bardin (1997). Inicialmente, fizemos uma pré-análise e após trans-
crição das entrevistas, fizemos a leitura geral do material efetivando a or-
ganização e sistematizando as entrevistas para dar continuidade à análise.
Logo após, exploramos o material, e fizemos a classificação e agrupamento
do material em categorias comuns (escolha da profissão, constrangimentos,
recompensas e sanções, autocensura e expressões de heteronormatividade4).
A última etapa foi o tratamento dos resultados, inferência e interpretação, na
qual captamos os conteúdos contidos em todo material e os respaldamos no
referencial teórico. O quadro abaixo traz informações sobre o perfil profissio-
nal dos entrevistados.

3. Este artigo é recorte da monografia de conclusão de curso: “Põe a cara no sol, mona”: a hetero-
normatividade no exercício da profissão do jornalista gay. Vencedora do Prêmio Aldemo Genro
Filho 2017. O projeto de pesquisa que originou o artigo foi submetido ao CEP/Unipampa.
4. Estas categorias foram inspiradas no trabalho de Breed (1993) sobre o controle social nas re-
dações. Embora nem todas as categorias sejam apontadas por ele.

155
Quadro 1
Descrição do perfil profissional dos entrevistados5,6
Trabalhou na Rede Globo, Rede Record, Band e SBT. Atualmente,
CARLOS é chefe de comunicação de uma instituição cultural em São Paulo,
capital.
Trabalhou na Band, no site Terra, TVCOM/RBS, Rádio Guaíba.
FERNANDO
Atualmente, trabalha em uma emissora de TV nacional.
Graduou-se em 2014 e em seguida começou a trabalhar numa
GABRIEL
emissora de TV no sul do país.
Trabalhou na Band. Atualmente, trabalha em outra emissora de TV
HUGO
nacional, na produção de telejornais.
Trabalhou no jornal Agora e no site Terra. Atualmente trabalha
LUAN
na assessoria do governo de um estado no sudeste do país.
Trabalhou na CBN. Atualmente, é editor de texto em uma emissora
MARCELO
de TV nacional.
Trabalhou no jornal O Estado de São Paulo. Atualmente, é chefe
PEDRO
de redação de uma revista teen de circulação nacional.
Trabalhou como estagiário no site da Band. Atualmente, é editor
RICARDO
de texto de outra emissora de TV nacional.
Trabalhou no R7 da Record. Atualmente, é apresentador, repórter
ROGER
e editor de uma TV corporativa em São Paulo.
Trabalhou no jornal Agora e Folha de S.Paulo. Atualmente, tem sua
VICTOR
empresa de comunicação e é colaborador da Folha de S.Paulo.
Fonte: elaboração dos autores

2. Identidade e gênero: a fabricação do sujeito


Atualmente, alguns gays compartilham sua vida afetiva em quase todos
os âmbitos da sociedade, alguns mais corajosos andam de mãos dadas nas ruas
compartilhando afeto publicamente. Há aqueles que são afeminados, barbies, ur-
sos ou bears, passivos, ativos, relativos, entendidos. Os termos fazem parte do
universo gay e constituem uma identidade sexual e de gênero.
5. Os nomes dos entrevistados foram alterados para garantir o anonimato da fonte
6. Optou-se por explicitar as empresas que os sujeitos já trabalharam como modo de evidenciar a
trajetória destes no jornalismo de referência no Brasil. Entretanto, para garantir a confidenciali-
dade de suas identi-dades, a empresa que atuam atualmente será apresentada de modo genérico,
numerando as emissoras, por exemplo, nos insertos de entrevistas ou omitindo qualquer dado
que possa ferir a confidencialidade.

156
O gênero diz respeito à construção social e histórica do ser masculino e
do ser feminino, ou seja, às características e atitudes atribuídas a cada um deles
em cada sociedade. O gênero expressa os significados culturais assumidos pelo
corpo sexuado (BUTLER, 2003). O que quer dizer que agir e sentir-se como
homem e como mulher depende de cada contexto sociocultural. O conceito de
gênero passa a ser usado, então, com um forte apelo relacional, pois é no âmbito
das relações sociais que se constroem os gêneros e estes constituem a identidade
dos sujeitos (LOURO, 1997).
A essência ligada ao gênero e ao sexo, seja ela considerada do ponto de vis-
ta biológico, seja cultural, já foi contestada pelos estudos feministas das últimas
décadas. Nesta perspectiva, Butler (2001) ressalta que o termo “sexo” significava,
originalmente, “o resultado da divisão da humanidade no segmento feminino e no
segmento masculino” (BUTLER, 2001, p. 28). “Sexo” referia-se às diferenças entre
homens e mulheres, mas também à forma como homens e mulheres se relaciona-
vam. Todavia, Butler (2003) deu a sua contribuição afirmando que a concepção de
sexo está para além do biológico: “Se o caráter imutável do sexo é contestável, tal-
vez o próprio construto chamado ‘sexo’ seja tão culturalmente construído quanto o
gênero; a rigor, talvez o sexo sempre tenha sido o gênero, de tal forma que a distin-
ção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nenhuma” (BUTLER, 2003, p. 25).
Desse modo, o sexo seria também uma construção discursiva/cultural
(do mesmo modo que o gênero) produzida a partir de uma suposta natureza
sexuada. Assim, “identidade é um conceito capaz de expressar uma síntese de
uma construção social que está implicada por formas de identificação pessoal
e grupal, mas também por formas de atribuição social” (MACHADO; PRADO,
2008, p. 17). As identidade sexuais se constituem através de formas de como os
sujeitos vivem sua sexualidade, com parceiros/as do mesmo sexo, do sexo opos-
to, de ambos os sexos ou sem parceiros/as. Por outro lado, os sujeitos também
se identificam, social e historicamente, como masculinos ou femininos e assim
constroem suas identidades de gênero (LOURO, 1997). Desse modo, segundo
Louro (1997, p. 25), baseada em Stuart Hall (1992), “o sentido de pertencimento
a diferentes grupos – étnicos, sexuais, de classe, de gênero, etc. constitui o sujeito
e pode levá-lo a se perceber como se fosse ‘empurrado em diferentes direções’”.

157
Hall (1997) afirma que o sujeito, previamente vivido como tendo uma
identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; ou seja, com-
posto não de uma única, mas de várias identidades, sendo assim, o próprio
processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identida-
des culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático. A identidade
torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em
relação às formas pelas quais somos representados nos sistemas culturais que
estamos inseridos.
As identidades de gênero e sexual também estão continuamente se cons-
truindo e se transformando. Em suas relações sociais, atravessadas por diferen-
tes discursos, símbolos, representações e práticas, os sujeitos vão se construindo
como masculinos ou femininos, arranjando e desarranjando seus lugares sociais,
suas disposições, suas formas de ser e de estar no mundo.

3. A mitologia jornalística
A cultura jornalística expressa suas prescrições através dos critérios de no-
ticiabilidade que orientam o processo de produção das notícias e de sua rotina
produtiva. Mas vale ressaltar que a cultura jornalística é também rica em mitos,
símbolos e representações sociais. Sendo assim, “toda a profissão é sobrecar­
regada de imagens, mas talvez outra não seja tão rodeada de mitos como a do
jornalismo” (TRAQUINA, 2001, p. 65).
A mitologia jornalística coloca os membros desta comunidade profissional
no papel de servidores do público que procuram saber o que aconteceu, no papel
de “cão de guarda” que protege os cidadãos contra os abusos do poder, no papel
de “Quarto Poder” que vigia os outros poderes, atuando doa a quem doer, no
papel mesmo de herói do sistema democrático (UNGARO, 1992 apud TRAQUI-
NA, 2005, p. 51).
Com o desenvolvimento do “direito à informação” como princípio em
uma democracia, o jornalista foi reconhecido como sendo agente social que tem
como missão “informar o público”. O jornalista é apresentado como guardião
da democracia (TRAQUINA, 2005). Desse modo, no exercício da profissão, o
jornalista exerce o papel de representante da sociedade, servidor do público, por-

158
ta-voz da opinião pública, aquele que tem um constante compromisso com o
“outro” (OLIVEIRA, 2005). Traquina (2005) citando Ruellan (1997) argumenta
que existe um reconhecimento coletivo das responsabilidades dos jornalistas no
espaço público, responsabilidades julgadas essenciais ao funcionamento de todo
o sistema democrático, responsabilidades que constituem elementos importan-
tes de toda uma cultura profissional, responsabilidades que estão associadas a
toda uma mitologia que foi construída ao longo dos últimos séculos (TRAQUI-
NA, 2005, p. 35).
Segundo Traquina (2005), a cultura profissional faz dos jornalistas uma
comunidade de crentes que tem como objeto de culto a sua própria profissão.
Pois, a profissão de jornalista exige sacrifícios pessoais e dedicação total “porque
o jornalismo não é uma simples ocupação, um passatempo; é mais que um traba-
lho porque é uma vida” (TRAQUINA, 2005, p. 53). O jornalista trabalha 24 horas
por dia, dentro de horas irregulares em que deixa de haver distinção entre a vida
privada e profissional (TRAQUINA, 2005).
O compromisso com a profissão traz o encanto de outros mitos que en-
veredam a cultura profissional; o mito do “scoop” (o “furo”) e o mito da “grande
estória” (TRAQUINA, 2005). O autor ressalta que todo jornalista que se preza
procura o “furo”. O “furo” é um elemento da cultura jornalística que está ligado
à vaidade pessoal, o prazer profissional e o prestígio que pode fazer progredir na
carreira. Concomitantemente ao mito do “furo” está o mito da “grande estória”,
que para Traquina (2005), é o momento de delírio e glória profissional.
Outro mito da cultura jornalística é o jornalismo como “aventura”. “A re-
presentação do jornalista que mais evoca toda a mitologia jornalística é a figura
do repórter” (TRAQUINA, 2005, p. 56). E numa dimensão mais mitológica, o
jornalista é representado na figura do “grande repórter”, que seria o correspon-
dente estrangeiro ou o correspondente de guerra (TRAQUINA, 2005).
O jornalista como “detetive” é outro mito da cultura profissional. O jorna-
lista aparece como “detetive” em busca da verdade. A década de 1970 foi a grande
época do jornalismo de investigação, em grande parte, devido ao caso Watergate,
o qual deixou marcas que influencia o jornalismo hoje em dia, dentro e fora dos
Estados Unidos (TRAQUINA, 2005).

159
Toda esta mitologia em torno do repórter, do “grande repórter”, do jornalista
“detetive”, representa o jornalista como um “caçador” (TRAQUINA, 2005). “O mito
do jornalista ‘caçador’ invade toda a sua cultura profissional: o jornalista vai atrás
do acontecimento, vai atrás da notícia, fura as aparências, revela a verdade, caça a
presa” (TRAQUINA, 2005, p. 58). Todavia, vários estudos na área de jornalismo de-
monstraram o grande peso das rotinas de trabalho, e, com as rotinas, o importante
desenvolvimento de relações com as fontes de informação (TRAQUINA, 2005).
Outra imagem que foi reforçada na cultura profissional é o jornalista como
herói. A própria sociedade alimenta a figura do jornalista como “herói”, pois
cobra do profissional uma função que transcende as fronteiras do jornalismo e
esbarra também no papel da polícia, do poder público, dos tribunais de justiça
(OLIVEIRA, 2005). A ficção também mantém esta imagem, fato é que Clark
Kent, o Superman tem o jornalismo como profissão.
O mito do inesperado é um dos que atraem os jovens à profissão. Segundo
Traquina (2005), “o jornalismo é identificado como o imprevisto; o inesperado
poderá acontecer ao virar da esquina” (TRAQUINA, 2005, p. 54).
A cultura profissional do jornalista é entendida como um: emaranhado
inextricável de retóricas de fachada e astúcias táticas, de códigos, estereótipos,
símbolos, padronizações latentes, representações de papéis, rituais e convenções,
relativos às funções da mídia e dos jornalistas na sociedade, à concepção do pro-
duto-notícia e às modalidades que controlam a sua confecção (BARBARINO,
1982, p. 10 apud WOLF, 2005, p. 195).
Todo esse arsenal é criado na cultura que o jornalismo está inserido. “Tan-
to o jornalismo se baseia em visões de mundo circulantes na sociedade, quando
esta em relação ao jornalismo” (VEIGA, 2010, p. 38). A participação do jorna-
lismo na normatização da sociedade fica evidente porque a sociedade encontrou
no jornalismo um lugar de referência. É em meio a isso que se situa as represen-
tações de gênero e a reprodução de uma heteronormatividade (VEIGA, 2010).

4. A escolha pelo jornalismo


A escolha da profissão está ligada com o que nós somos, do que gostamos,
o que nos identifica. Nos descobrir enquanto ser de determinada identidade,

160
também é nos descobrir enquanto o que queremos ser, ou quem queremos ser.
Está ligada a toda uma mitologia que encobre a profissão de jornalista.

Eu sempre quis descobrir o mundo lá fora. Eu sempre tive a sensação de


que eu estava preso em um lugar que não era meu, e eu estava mesmo
porque eu não vivia plenamente o que eu era. Eu passei a fazer isso na fase
adulta. Então, tinha muito isso, dessa vontade de viver a vida plenamente,
e isso tem muito a ver com a minha escolha pelo jornalismo, porque o jor-
nalismo é muito aberto, tem muitas possibilidades, depois a gente descobre
que não é muito. (PEDRO, 2016).

O relato do Pedro resvala numa imagem heroica da atividade ao afirmar


que “sempre quis descobrir o mundo lá fora”, e através do jornalismo ele via a
oportunidade de fazer isso. Outro relato que chama atenção para o caráter he-
roico da profissão é do editor de texto, Marcelo, quando reforça a “missão de
informar” do jornalista:

É difícil materializar isso, mas eu sempre gostei de informação, de estar


bem informado, de gostar de ler. Descobri que gostava de português, ape-
sar de ser as minhas piores notas, gosto de escrever e sempre gostei de con-
sumir notícias. O jornalista tem a missão de informar. (MARCELO, 2016).

Em contrapartida, Roger ressalta: “Nunca tive a utopia de querer transfor-


mar o mundo, mas o jornalismo lida com a vida das pessoas e interfere”. Desse
modo, na atividade jornalística, segundo Oliveira (2005), o jornalista exerce o
papel de representante da sociedade, servidor do público, porta-voz da opinião
pública, aquele que tem um constante compromisso com o “outro”.

O que eu consigo oferecer para as pessoas hoje é informação para elas pen-
sarem, dar para elas a possibilidade de pensar. Informar as pessoas sobre
coisas que elas não conhecem para elas decidirem o que fazer com aquilo.
(HUGO, 2016).

161
Nesse relato, percebemos uma imagem que destaca o grau de responsabi­
lidade social da profissão e se configura numa aura missionária, pois, o público é
absolutamente priorizado em relação aos interesses particulares dos jornalistas.
Ou seja, o jornalista não teria interesse de outros ganhos que não estivessem re-
lacionados ao seu compromisso com a verdade e o interesse geral (OLIVEIRA,
2005). Segundo Traquina (2005), na evocação mitológica, o jornalista se torna
o “cão de guarda” da sociedade, o guardião da democracia, doando informações
aos cidadãos.

5. Autocensura como expressão da heteronormatividade


Butler (2003) defende que a heteronormatividade cria os corpos inteligí-
veis, ou seja, aqueles que são considerados aceitáveis, compreendidos, justamente
porque estão inscritos dentro da matriz hegemônica, mas que, ao mesmo tempo,
essa própria heteronormatividade produz também os corpos impensáveis, não
inteligíveis. Esses corpos além de disciplinados por essa norma regulatória do
sexo, faz com que o sujeito não heterossexual se autocensure. O comportamento
do indivíduo gay é restrito, ele se autocensura com vistas a adequar-se ao am-
biente de trabalho a que pertence, seja para evitar constrangimentos e sanções,
seja para manter o segredo da identidade sexual que possui.
Como Gabriel trabalha em uma cidade do interior e a emissora é de pe-
queno porte, logo, tem uma mão de obra reduzida, em virtude disso, fez algumas
coberturas como repórter. Saindo da produção e trabalhando frente às câmeras,
sempre teve a preocupação com a sua locução no off da matéria:

Já deixei de usar perguntas que seriam importantes na reportagem por eu


achar que a minha voz estava muito afeminada, não estava uma voz boa
[...]. E na TV, já regravei milhares de vezes os offs das reportagens para
deixar alinhado. (GABRIEL, 2016).

Outro relato que compactua com este pensamento de Gabriel, é o de


Fernando:

162
Quando eu queria ser repórter e estar no vídeo. Eu me lembro que me con-
tinha muito nos trejeitos, na entonação da voz. Eu achava que eu tinha que
disfarçar. Nessa época que eu tinha muito interesse em ser do vídeo, eu me
lembro que eu tomava muito cuidado com isso. Eu tinha receio das pessoas
descobrirem ou pelo menos de ficar muito evidente. (FERNANDO, 2016).

Percebemos através dos relatos que o jornalista gay se autocensura por


conta da heteronormatividade, que impera na sociedade e é reproduzida no jor-
nalismo, e para ser socialmente aceito nas redações. O jornalista gay imerge-se
no padrão hegemônico construído e que o jornalismo tenta validar através do ar-
gumento técnico: “as expressões do corpo do repórter ou apresentador não pode
chamar mais atenção que a notícia”, por exemplo. O discurso de Fernando deixa
claro que o telejornalismo encaixa o repórter dentro do padrão heteronormativo.
Marcelo expõe a preocupação que tem com os seus trejeitos no ambiente
de trabalho. Quando perguntado se já conteve alguns trejeitos da sua identidade
sexual, ele responde:

Eu diria que em algumas situações, até diariamente. Eu me contenho com


alguns comentários e algumas coisas quando eu estou dentro da ilha com
o editor de imagem, se eu não conheço e principalmente se ele é um pouco
mais velho. Aí, eu me contenho mesmo. Já pensou se eu comento algo e
depois que eu saio da ilha, ele diz para o outro: “Viu a bichona que acabou
de sair?”. (MARCELO, 2016).

“Significantemente, estar ‘fora’ da ordem hegemônica não significa estar


‘dentro’ de um estado sórdido e desordenado de natureza” (BUTLER, 2003, p.
190). Todavia, o jornalista gay se autocensura porque a sua identidade sexual “é
quase sempre concebida nos termos da economia significante homofóbica, tanto
como incivilizada, quanto como antinatural” (BUTLER, 2003, p. 190). O medo
das reações dos colegas de trabalho e de sofrer algum tipo de constrangimento
faz com que o jornalista gay contenha seus trejeitos. Contudo, vale ressaltar que
a autocensura não fica restrita ao campo da incivilidade, da antinaturalidade e

163
dos constrangimentos, mas também está relacionada com a preocupação que o
jornalista gay tem com a demissão, como observamos no relato a seguir:

Hoje, quando eu vou conversar com alguém do governo, um outro assessor,


porque a gente nunca sabe com quem está lidando. Os caras que são “coro-
néis”, eu tento chegar lá na boa. Não chego nos lugares sendo a bicha louca,
não é meu estilo. Eu me seguro neste sentido, para não ser constrangido.
Para evitar problema e não ser demitido, eu me seguro. (LUAN, 2016).

A preocupação com a demissão faz parte da vida profissional do jornalista


autodeclarado gay. Segundo Louro (2008), o sujeito se tornará alvo das pedago-
gias corretivas, sofrerá punições, sanções, reformas e exclusões. Porém, nesses
casos, o próprio gay se autodisciplina, faz do seu corpo alvo das “pedagogias
corretivas”.
A autocensura é a ancoragem para o sujeito se tornar legítimo no ambien-
te de trabalho, submetendo-se a heteronormatividade e ao regime invisível que
regula a redação. “Para se qualificar como um sujeito legítimo, como um ‘corpo
que importa’, no dizer de Butler, o sujeito se verá obrigado a obedecer às normas
que regulam sua cultura” (BUTLER, 1999 apud LOURO, 2008, p. 16).
De acordo com Butler, “esses atos, gestos e atuações [...] são performativos,
no sentido de que a essência ou identidade que por outro lado pretendem expres-
sar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreos e outros
meios discursivos” (BUTLER, 2003, p. 194). O sujeito gay acaba fabricando em
torno do seu corpo uma identidade heterossexual, ou seja, através dos seus atos
e gestos, eles criam a ilusão de uma heterossexualidade, “ilusão mantida discur-
sivamente como o propósito de regular a sexualidade nos termos da estrutura
obrigatória da heterossexualidade reprodutora” (BUTLER, 2003, p. 195).
Victor contém os trejeitos não só no âmbito do trabalho, mas na sociedade
em geral.

Eu cuido meus trejeitos em todo lugar. É uma questão de criação. Eu nunca


vou esquecer. Quando eu era criança, tinha uns sete anos. Eu estava senta-

164
do no sofá com as pernas cruzadas e o meu pai pediu para eu descruzar a
pernas. Até hoje quando percebo que estou com a perna cruzada, eu des-
cruzo. (VICTOR, 2016).

Para Louro (2001), dentro do contexto da heteronormatividade, o sujeito


precisa ser cauteloso, empregando apenas gestos e comportamentos outorgados
para o “macho”. Estes são regulados tanto pela família, quanto pelas ciências, es-
cola, jornalismo e demais instituições sociais. Butler (2001) afirma que o caráter
discursivo da sexualidade é transmutado por normas regulatórias que trabalham
de forma performativa, ou seja, são reiteradamente repetidas para materializar
os corpos, materializar o sexo dos sujeitos, são constantemente repetidas para
que tal materialização ocorra. Dessa forma, as normas regulatórias do sexo re-
petem e reiteram, constantemente as normas dos gêneros e da sexualidade na
ótica heterossexual. Em suma, o jornalista gay se autocensura, no dizer de Butler
(2003), porque ele enxerga em seu corpo, um “corpo abjeto” (corpos que não
deveriam existir dentro de uma matriz cultural).

6. Considerações finais
Este artigo foi um convite a uma viagem ao mundo Queer. Onde inicia
uma trajetória que “não aspira o centro”, um modo de pensamento que desafia
a normatividade, que perturba e problematiza. Uma viagem por um caminho,
talvez, desviante, mas que não possui atalhos.
A norma estabelecida em nossa cultura acaba evidenciando uma diferença
comportamental, na qual os meninos agem de uma maneira e as meninas de
outra. Descobrir-se enquanto ser de determinada identidade, também é desco-
brir-se enquanto o que se quer ser, quem se quer ser. Descobrir-se como jorna-
lista pode estar ligado a quem ele é, com o que se identifica, em suma, por ato
vocacional. Ou talvez, ligado a toda carga mitológica que encobre a profissão.
“Descobrir o mundo lá fora”, “missão de informar”, “viver o inesperado”, entre
outros mitos jornalísticos que compõem a cultura da profissão.
Observamos através dos relatos que “sair do armário” no ambiente de traba-
lho pode trazer consequências ao plano de carreira do jornalista. Além da preocu-

165
pação com a orientação política, o jornalista gay tem a impressão de que ele não
terá ascensão profissional por causa da sua identidade sexual, deixando evidente
que o sujeito gay não é bem visto socialmente e que a identidade sexual que rompe
com a norma heterossexual é passível de receber sanções no ambiente de trabalho.
Por ser perpassado pelo gênero masculino e a identidade heterossexual, o
jornalismo, dentro das suas instâncias tenta validar o padrão hegemônico estabele-
cido em nossa cultura. O jornalismo valida a heteronormatividade através do argu-
mento do fazer técnico: “as expressões do corpo do repórter ou apresentador não
pode chamar mais atenção que a notícia”, por exemplo. O jornalista gay é tão hete-
ronormativo quanto o jornalismo, pois a cultura em que estamos inseridos consti-
tui sujeitos, profissões e profissionais heteronormativos. “O que impõe aos jornalis-
tas, com certa urgência, buscarem desconstruir seus valores ‘retrógrados’ e abrirem
espaço para novos saberes e olhares sobre o mundo” (DARDE, 2012, p. 220).

Referências
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med, 2009.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1997.
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QUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa:
Veja, 1993, pp. 152-166.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.
Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
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Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Hori-
zonte: Autêntica, 2001, pp. 151-172.
DARDE, Vicente. As representações sobre cidadania de gays, lésbicas, bissexuais,
travestis e transexuais no discurso jornalístico da Folha e do Estadão. 2012.
230f. Tese de Doutorado. Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e
Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012. Dis-
ponível em: <www.lume.ufrgs.br/handle/10183/54524?show=full>. Aces-
so em: 07 jun. 2016.

166
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Tadeu da Silva. 11. ed. Rio de Janeiro: 1997.
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de meto-
dologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
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ralista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
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alidade. Belo Horizonte, Autêntica, 2001, pp. 07-32.
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reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
MICHEL, Maria Helena. Metodologia e pesquisa científica em ciências sociais. São
Paulo: Atlas, 2005.
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identidade profissional e as condições de produção da notícia. Bauru: 2005.
Disponível em: <www.faac.unesp.br/Home/PosGraduacao/Comunicacao/
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PRADO, Marco Aurélio Máximo; MACHADO, Frederico Viana. Preconceito
contra homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade. São Paulo: Cor-
tez, 2012.
SANTAELLA, Lucia. Comunicação e pesquisa: projetos para mestrado e doutora-
do. 2. ed. São José do Rio Preto: Bluecom Comunicação, 2010.
TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Uni-
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TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: a tribo jornalística – uma comuni-
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Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e
Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2010.
WOLF, Mauro. Teorias das comunicações de massa. São Paulo: Martins Fontes,
2005.

167
REDES DE PESQUISA
REDE JORTEC: DEZ ANOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA
CULTURA COLABORATIVA NA PESQUISA SOBRE JORNALISMO
E TECNOLOGIAS DIGITAIS CONECTADAS

Rodrigo Eduardo Botelho-Francisco1


Walter Teixeira Lima Junior2

Em 2017, durante o 15° Encontro da SBPJor, a Rede JorTec promoveu suas


XII e XIX mesas coordenadas, completando, assim, a apresentação de 92 traba-
lhos em 10 anos, desde a sua criação. Nessa edição, em particular, os pesquisado-
res dedicaram-se a discussões sobre “Inovações no Jornalismo” e “Metodologias
e Pesquisas Aplicadas em Jornalismo e Tecnologias Digitais”, temas que foram
decididos durante a reunião do grupo em 2016 e que refletem continuidades do
debate apresentado no quarto livro da Rede, Pensar em Rede: Pesquisa Aplicada
em Jornalismo e Tecnologias Digitais, lançado em 2017, fruto de projeto de pes-
quisa financiado pelo CNPq e conduzido pela Rede entre 2013 e 2016.
Na reunião da Rede em 2017, por sua vez, começaram a ser delineados os
objetivos e atividades da JorTec para os próximos 10 anos. Entre eles está um
segundo projeto de pesquisa entre os membros da Rede, que possa ser execu-
tado em âmbito nacional, e a vigésima e as subsequentes mesas coordenadas da
Rede. Os temas discutidos pelo grupo versam entre Competências e habilidades
digitais de estudantes e profissionais do Jornalismo; Experiência, experimenta-
ção e pesquisa aplicada em jornalismo; e Tempo(s) do jornalismo em contextos
digitais. Além disso, a Rede também estuda a oferta de disciplina comum na
modalidade Educação a Distância entre os programas de pós-graduação que têm
1. Professor e Pesquisador dos programas de pós-graduação em Comunicação e em Gestão
da Informação da UFPR. Vice-Coordenador da Rede JorTec da SBPJor desde 2014. E-mail:
rodrigobotelho@ufpr.br
2. Professor e Pesquisador dos programas de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Trans-
ferência de Tecnologia para a Inovação da Unifap e Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA.
Coordenador da Rede JorTec entre os anos de 2007 e 2014. E-mail: walter.lima@unifap.br

169
representação na JorTec; a oferta de oficinas de formação sobre métodos e ferra-
mentas digitais durante o Encontro da SBPJor; e a realização de um Hackathon
da JorTec, para prospectar soluções tecnológicas, reunindo pesquisadores e pro-
fissionais das áreas de Comunicação e Computação.
Ao observar resultados e propostas, o grupo quer avaliar como tem man-
tido a articulação, nestes 10 anos de trabalho, bem como conseguido reunir pes-
quisadores em torno de seus temas num espaço aberto, não hierárquico, colabo-
rativo e utilizando vários processos de deliberação para as suas decisões e ações,
como o site da Rede que utiliza a plataforma Wikimedia3.
Analisando a construção desse espaço científico colaborativo, pergun-
ta-se: como foram articulados temas, metodologias e referências nos trabalhos
apresentados até o momento? Questão esta que deve ser respondida a partir de
trabalho bibliométrico da produção da Rede, conduzido pela UFPR e UNIFAP,
sob coordenação dos pesquisadores Rodrigo Eduardo Botelho-Francisco e Wal-
ter Teixeira Lima Júnior, e que será apresentado no evento de 2018 da SBPJor.
Parte dos dados já coletados e analisados passa a ser relatado a seguir, destacan-
do-se quem são e qual o perfil dos pesquisadores que vêm atuando junto à JorTec
desde sua criação.
Uma pergunta frequente em relação à JorTec está relacionada ao seu qua-
dro de pesquisadores. A resposta não é simples, uma vez que, como rede aberta,
a atuação dos pesquisadores nas atividades do grupo é livre e se dá a partir de
chamadas para apresentação de trabalhos em seus eventos ou para participação
em projetos ou publicações. Não há uma regra de filiação ou outros instrumen-
tos normativos. A Rede Jortec decidiu não ter regulamento interno.
Em 10 anos, apresentaram trabalhos nas mesas coordenadas da Rede 72
pesquisadores. A atuação deles ao longo do tempo, no entanto, não é regular,
comportamento esperado para uma configuração colaborativa não hierárquica
e cartorial. Nesse sentido, 52 autores tiveram trabalhos submetidos nos even-
3. Princípio wiki: Tem como propósito fornecer um conteúdo livre, objetivo e verificável​​, que
todos possam editar e melhorar. O conteúdo é disponibilizado sob a licença Creative Commons
BY-SA e pode ser copiado e reutilizado sob a mesma licença – mesmo para fins comerciais – des-
de que respeitando os termos e condições de uso (www.tecjor.net).

170
tos apenas uma vez e outros três em duas situações. Visando identificar aqueles
que ao longo do tempo têm mantido um vínculo maior com a Rede, buscou-se,
a partir das apresentações de trabalhos, aqueles que contribuíram mais de três
vezes nas mesas coordenadas. No caso, destacam-se os seguintes pesquisadores:
Sônia Padilha, Sebastião Squirra, Carlos D’Andréa, Alessandra de Falco e Elaide
Martins, com atuação em três edições; Carlos Alberto Zanotti, Márcio Carneiro
dos Santos, Carla Andrea Schwingel, Diólia de Carvalho Graziano, Mirna Tonus
e Rita de Cássia Romeiro Paulino, com atuação em quatro edições; Gerson Luiz
Martins, Marcelo Träsel e Rodrigo Eduardo Botelho-Francisco, com atuação em
cinco edições; e Carlos Eduardo Franciscato e Raquel Ritter Longhi, com atua-
ção em seis edições. Destaca-se o pesquisador Walter Teixeira Lima Júnior, com
atuação em nove dos dez encontros da Rede.
A formação dos pesquisadores que procuraram a Rede neste período diz
muito sobre a sua origem do campo da Comunicação Social. A maioria é gradua-
da em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Porém, destacam-
-se sete pesquisadores com formações diferentes, em Publicidade e Propaganda,
Ciências Sociais, em Ciências da Computação, Engenharia Elétrica, Engenharia
de Alimentos e Educação Física. Essa tendência de interdisciplinaridade deve
ampliar o espaço na rede nos próximos anos, pois os fenômenos comunicacio-
nais estudados têm como objeto de estudo plataformas midiáticas elaboradas
por intermédio de tecnologias digitais conectadas.
Em relação ao mestrado, no entanto, a diversidade formacional é maior,
com pesquisadores titulados em diferentes programas. Do campo da Comuni-
cação e Informação, há pesquisadores provenientes da Ciência da Informação,
Comunicação, Ciências da Comunicação, Comunicação e Informação, Comuni-
cação e Cultura Contemporânea, Comunicação e Mercado, Comunicação e Se-
miótica e Comunicação Científica e Tecnológica. Destacam-se, inclusive, cinco
pesquisadores com formação mais específica no campo de atuação da Rede, no
caso, com mestrado em Jornalismo. Com formação em outras áreas do conhe-
cimento, têm-se mestres em Educação, Ciências Sociais, Ciência Política, Divul-
gação Científica e Cultural, Ciências da Computação, Ciências da Computação e
Matemática Computacional e em Engenharia de Produção.

171
Confirmando também esta relação entre formação geral no campo da
Comunicação, específica no Jornalismo e interdisciplinar, os doutores têm for-
mação, no campo da Comunicação e Informação, nos programas de Ciência da
Informação, Ciências da Comunicação, Comunicação, Comunicação e Cultura
Contemporânea, Comunicação e Informação, Comunicação e Semiótica, Co-
municação Social, Jornalismo e Multimeios. Já de outras áreas do conhecimento,
têm-se pesquisadores com doutorado em Administração de Empresas, Antro-
pologia Social, Ciências da Computação e Matemática Computacional, Desen-
volvimento Sustentável do Trópico Úmido, Educação, Engenharia de Produção,
Engenharia e Gestão do Conhecimento, Estudos Linguísticos, História, Letras,
Sociologia e Tecnologias da Inteligência e Design Digital.
A análise sobre o vínculo institucional desses pesquisadores é visualizada
a partir da filiação expressa em seus artigos, pois, ao longo dos anos, notam-
-se mudanças de instituição, provavelmente devido à aprovação em concursos
públicos ou novos contratos de trabalho. Independente das migrações, importa
visualizar a capilaridade da Rede, uma vez que essas instituições estão espalha-
das por todo o território nacional. São mencionadas nos artigos: ESPM, FAAP,
Faculdade Cásper Líbero, FIRB, FMU, PUC Campinas, PUCRS, UAB, UENF,
UFBA, UFJF, UFMA, UFMG, UFMS, UFPA, UFRGS, UFRR, UFS, UFSC, UFS-
Car, UFSJ, UFU, UFV, ULEPICC, UMESP, UnB, Unicamp, Unijorge, UNISC,
University of Texas at Austin, UPF e USP.

Figura 1: Palavras-chaves mais frequentes nos trabalhos apresentados


nas mesas coordenadas da Rede JorTec desde 2007.

172
Por fim, interessante também uma análise preliminar dos 92 trabalhos
apresentados pelos pesquisadores, sendo que 65 deles tiveram um único autor
e 27 em coautoria. Destes, verificam-se tanto parcerias entre dois autores (18),
como entre três (7) e quatro autores (2).
Dentre os trabalhos com coautoria, sete têm a participação de alunos de
graduação. Os demais são publicados entre doutores, entre doutores e doutoran-
dos, ou entre doutores e mestres ou mestrandos. As temáticas, por sua vez, são
as mais variadas. Em relação a essa prática, no entanto, é importante ressaltar a
colaboração entre os pesquisadores de diferentes instituições que participam da
Rede, algo que foi acentuado a partir do projeto de pesquisa apoiado pelo CNPq
(elaborado através do site Wiki da rede, portanto, de forma colaborativa), cujo
resultados foram apresentados em papers em Congresso da SBPjor e capítulos do
último livro da Rede.
Sobre os trabalhos preliminarmente também pode-se analisar as palavras-
-chave, como na Figura 1. No entanto, questões sobre temas, métodos, referên-
cias e outros detalhes bibliométricos da produção da Rede são alvo do trabalho
de pesquisa que será apresentado no 16° Encontro da SBPJor, em 2018.
Os dados e sua análise evidenciam os avanços obtidos na criação de uma
cultura colaborativa, descentralizada e de baixa hierarquia. Indicam também
que, para os próximos 10 anos, a Rede JorTec, por intermédio dos seus partici-
pantes, possui plenas condições de seguir nos desafios da implementação de pro-
cedimentos estruturados para Open Science no campo da pesquisa do Jornalismo
e Tecnologias Digitais Conectadas.

173
JORNALISMO E ACCOUNTABILITY NO BRASIL:
AVALIAÇÃO EXPERIMENTAL DA QUALIDADE EDITORIAL
EM 24 JORNAIS BRASILEIROS

Fernando Paulino (UnB), Gilson Porto (UFT), Josenildo Guerra


(UFS), Liziane Guazina (UnB), Marcos Santuario (Feevale)1
Álisson Coelho (Unisinos/Feevale), Bibiana Garrido (Unesp), Ébida
Santos (UnB), Josafá Neto (UFS), Lucas Santana (UnB), Poliana
Macedo (UFT), Sinomar Soares (UFT)2

O jornalismo tem um conjunto de responsabilidades nas sociedades demo-


cráticas, atribuídas, contratadas ou voluntárias (MCQUAIL, 2003), que deveriam
ser assumidas por todos os veículos de comunicação que se pretendem jornalís-
ticos, em função do potencial de agendamento que têm em relação tanto à sua
audiência quanto ao conjunto da sociedade. O monitoramento de como essa res-
ponsabilidade é exercida constitui o núcleo das atividades de accountability (MC-
QUAIL, 2003; BERTRAND, 2002; PAULINO, 2009; FENGLER et al., 2014).
1. Fernando Oliveira Paulino é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, di-
retor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e diretor de Relações
Internacionais da Associação LatinoAmericana de Investigadores em Comunicação (ALAIC);
Gilson Porto é professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Sociedade da Uni-
versidade Federal do Tocantis (UFT); Josenildo Guerra é professor do Programa de Pós-Gradua­
ção em Comunicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS); Liziane Guazina é professora
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e vice-diretora da Faculdade de Comunicação
da Universidade de Brasília (UnB); Marcos Santuário é professor do Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da Universidade Feevale (RS).
2. Álisson Coelho é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Univer­
sidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e professor da Universidade Feevale; Bibiana Garrido
é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Pau-
lista (Unesp); Ébida Santos é doutoranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB); Josafá Neto é graduando em Jornalismo da
Universidade Federal de Sergipe (UFS); Lucas Santana é doutorando em Comunicação pelo Pro-
grama de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB); Poliana Macedo
é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade
Federal do Tocantins (UFT); Sinomar Soares é mestrando em Comunicação e Sociedade pela
Universidade Federal do Tocantins (UFT).

174
Tal tipo de preocupação foi analisada em trabalhos precedentes que,
tanto no âmbito do ecossistema, como MediaAct Project, que fez o levanta-
mento de boas práticas de accountability e desenvolveu um índice aplicável à
União Europeia, quanto no âmbito organizacional, como o trabalho Openness
& ­Accountability: A Study of Transparency in Global Media Outlets, desenvolvi-
do pelo International Center for Media and the Public Agenda (ICMPA, 2007),
buscaram meios de aferir o grau em que a atividade jornalística se abre a proces-
sos de prestação de contas.
É nesta perspectiva que a pesquisa Jornalismo e Accountability no Brasil,
desenvolvida por grupos de pesquisa de cinco universidades brasileiras asso-
ciadas à Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi), pretende ava-
liar como 24 jornais selecionados adotam políticas e instrumentos de trans-
parência capazes de demonstrar seu compromisso e efetividade com as boas
práticas jornalísticas, que elevem seu padrão de qualidade editorial. Trata-se de
uma avaliação experimental, cujo foco está no desempenho das organizações
jornalísticas.
Foram definidos dez indicadores, que abrangem desde a concepção edi-
torial que orienta cada publicação até a existência de mecanismos de monitora-
mento e controle de erros. Cada indicador será avaliado com base em três subin-
dicadores: existência, que avalia se o instrumento existe nas produções avaliadas;
conteúdo, são contemplados itens requeridos pela avaliação; e acesso, se estão
facilmente acessíveis aos usuários.

Lista de Indicadores – Projeto Jornalismo e Accountability no Brasil


Projeto Editorial
Métricas e procedimentos para avaliação da qualidade editorial – produtos
Qualificação profissional
Código de Ética
Identificação de proprietários, gestores editoriais, profissionais
Identificação de situações que envolvam conflitos de interesse
Canais regulares para promover a interação com a audiência e a sociedade
Participação em órgão de autorregulação

175
Correção de erros, garantia do contraditório e atualização do conteúdo
Canais regulares de relacionamento com a audiência e a sociedade

Para implementar a avaliação, está sendo usado o sistema Q-Avalia


(GUERRA, 2017), uma ferramenta de gestão, organização e documentação
das avaliações realizadas. Através da ferramenta, e do seu contínuo desenvol-
vimento, poderá ser possível construir uma base de dados de avaliações que
possa ser usada por pesquisadores, pelas empresas e profissionais, e pela pró-
pria sociedade no sentido de buscar identificar as melhores práticas, e quem as
pratica, no âmbito da sociedade brasileira. A identificação e a qualificação dos
produtores de notícias é um passo decisivo na qualificação das próprias notí-
cias produzidas por eles. Os resultados estarão disponíveis a partir do segundo
semestre de 2018.

Referências
BERTRAND, Claude-Jean. O arsenal da democracia: sistemas de responsabiliza-
ção da mídia. Tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru, SP: Edusc, 2002.
FENGLER, Susanne; EBERWEIN, Tobias; MAZZOLENI; Gianpietro, PORLEZ-
ZA; Colin, RUSS-MOHL, Stephan (org.). Journalists and Media Accounta-
bility: an international study of news people in the digital age. Nova York:
Peter Lang, 2014.
GUERRA, Josenildo. L. Q-Avalia – Sistema de Avaliação de Qualidade: uma pro-
posta de inovação, pesquisa aplicada e de desenvolvimento experimental
em jornalismo. Contemporânea: comunicação e cultura, v. 15, n. 1, jan-abr
2017. Disponível em: <file:///C:/Users/JL_GU_~1/AppData/Local/Temp/
21508-77444-1-PB-1.pdf>.
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ICMPA (JUN 2007). Openness & Accountability: A Study of Transparency
in Global Media Outlets. Disponível em: <www.icmpa.umd.edu/pages/stu-
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McQUAIL, Denis. Media accountability and freedom of publication. Oxford/
Nova York: Oxford University Press, 2003.

176
PAULINO, Fernando Oliveira. Responsabilidade social da mídia: análise con-
ceitual e perspectivas de aplicação no Brasil, Portugal e Espanha. Brasília:
Casa das Musas, 2009.

177
TELEJORNALISMO: ENSINO E PESQUISA

Cárlida Emerim1
Cristiane Finger 2

1. A Rede TELEJor
O jornalismo com imagens em movimento foi passando por diferentes su-
portes ao longo do tempo: fílmico, fita magnética, eletrônico, digital; por dife-
rentes possibilidades tecnológicas, sem áudio, com áudio, pouca luz, muita luz,
grandes equipamentos, portabilidade, ao vivo e, depois, gravação e possibilidade
de arquivo de dados e imagens; por diferentes narrativas, numa busca de criar
seu próprio espaço, ora repetindo padrões, ora apreendendo e misturando o que
já se tinha como conhecido, ora criando novas propostas narrativas. Sob todos
estes aspectos, o diferencial destas naturezas parece ser a justificativa para não se
reconhecer nesse processo histórico o telejornalismo, afinal, do ponto de vista
do senso comum, tele refere-se à televisão, portanto o telejornalismo seria aquele
tipo de produção exclusiva deste suporte de transmissão.
Para os pesquisadores da Rede TELEJor, o telejornalismo perpassa toda
esta trajetória da exibição de imagens em movimento e tem como característica
fundante o traço e os preceitos do jornalismo, da atividade ou profissão que se
encarrega de narrar os fatos e acontecimentos do mundo para o mundo, com
apuração, ética, qualidade e veracidade. Assim, o telejornalismo é nossa meta, e é
o que nos une como uma rede de pesquisadores, pois, independente do suporte,
da tecnologia, da cultura, das relações, das linguagens, o que está no cerne de
nossas inquietações é como o jornalismo que se utiliza das imagens em movi-
mento produzido e transmitido para qualquer plataforma vem atuando, inse-
rindo-se ou reconfigurando-se na sociedade e na mídia contemporânea. Temos
1. Vice-coordenadora da Rede TELEJor. Professora e pesquisadora na Graduação e Pós-Gradua-
ção em Jornalismo (PPGJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina.
2. Coordenadora da Rede TELEJor. Professora Titular do Curso de Jornalismo da Famecos;
membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Pontifí-
cia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

178
defendido que “o telejornalismo não está mais restrito a televisão, sua produção
de sentido, construída ao longo de décadas, invadiu outras telas, computador, ta-
blets, celulares; e outros contextos como canais no youtube, redes sociais; em flu-
xo ou arquivo; e o que mais vier” (EMERIM, FINGER, PORCELLO, 2017, p. 16).
Para dar conta da proposição, a Rede TELEJor, subjacente às etapas mais
aglutinadoras das publicações de resultados de pesquisas coletivas desenvolvidas
ao longo dos 13 anos de existência, privilegia a busca de conceitos, processos,
metodologias de análises e estratégias de aplicabilidade de estudos e conteúdos
resultantes desses esforços que possam ser empregados no ensino, na extensão
e na pesquisa em telejornalismo, o jornalismo para as telas, como se assumiu
definir o local de trabalho teórico da rede. Assim, a Rede TELEJor, que integra
pesquisadores de cinco regiões do Brasil, incluindo cerca de 20 grupos de pes-
quisa registrados no CNPq, acumula 10 livros publicados e cerca de 54 artigos
apresentados somente em mesas coordenadas na SBPJor, desde 2009, além dos
apresentados nas comunicações livres e em outros eventos.

2. As atividades em 2017
Com o objetivo de fundamentar teoricamente os preceitos norteadores do
telejornalismo, a Rede TELEJor sistematizou um aprofundamento sobre as prá-
ticas (que envolveram ensino e extensão) e os conceitos operacionais em torno
do telejornalismo com vistas a sedimentar e organizar um constructo teórico
específico do campo, fortalecendo o jornalismo como um todo (envolvendo pes-
quisa). Em 2017, a etapa de pesquisa coletiva priorizou conhecer, organizar e
sistematizar as práticas de ensino, as experiências de extensão e os constructos
teórico-metodológicos que surgem dessa trajetória dos pesquisadores da rede.
O livro Desafios do Telejornalismo: ensino, pesquisa e extensão, lançado em 2017,
apresentou 14 textos que foram divididos em quatro partes. A primeira, intitu-
lada “Quadro Nacional”, trouxe cinco artigos que mostraram as experiências do
ensino de telejornalismo em diferentes regiões do Brasil, e em universidades pú-
blicas e particulares, de capitais e do interior do Brasil, indicando que os desafios
e as dificuldades são muito semelhantes. Na segunda seção, “Conteúdos Progra-
máticos”, quatro textos apresentam experiências inovadoras de ensino nas quais

179
a teoria e prática são resultados de modelos de ensino diferenciais e possíveis.
Na terceira seção, também quatro textos mostram a articulação entre a teoria
e a produção científica e sua relação com os fazeres do telejornalismo, conside-
rando as mudanças tecnológicas. Na abertura do livro, um texto do pesquisador
Alfredo Vizeu faz uma análise dos primeiros anos da implantação das Diretrizes
Curriculares Nacionais nos Cursos de Jornalismo, em relação ao ensino de tele-
jornalismo, mostrando a transição, suas possibilidades e restrições. O livro reúne
os resultados de 22 pesquisadores em sua incursão teórica e experiências de en-
sino e extensão do jornalismo para telas, cujo trabalho ampliou também para a
apresentação desses resultados, de forma mais específica, em duas mesas coorde-
nadas no Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), ocorrido
também em 2017. A primeira, “Telejornalismo aplicado: a formação como modo
de entender a realidade”, focou nas novas perspectivas de legitimação do telejor-
nalismo como modo de fazer, saber e entender a realidade, tanto a acadêmica
quanto a profissional. O objetivo era propor um mapeamento das abordagens
teóricas e os percursos de estudos e pesquisas que estão sendo mobilizados no
ensino do jornalismo para telas no Brasil. A segunda, “Telejornalismo na prá-
tica: modelos e exemplos de ensino”, refletiu sobre o ensino de telejornalismo
frente a convergência, entendendo que o processo tem motivado um repensar na
produção e, por consequência, nos modelos de ensino, permitindo prospectar
práticas, exemplos e rotinas bem como mapear as estratégias de ensino prático e
conceitual mobilizados no Brasil. As duas mesas tiveram como objetivo macro o
estabelecimento de uma espécie de cartografia tanto das teorias do telejornalis-
mo como das práticas de ensino do telejornalismo, propondo-se a construir um
lugar de fala específico desse campo do jornalismo.

3. As propostas para 2018


Como acontece desde 2009, os planos e metas da Rede TELEJor começam
a ser elaborados no ano anterior, por ocasião do encontro do SBPJor. Assim, no
evento de 2017, definiu-se que a pesquisa coletiva da rede para 2018 teria como
foco os estudos desenvolvidos pelos seus integrantes, tanto individualmente,
quanto em conjunto, mapeando todos os Grupos de Pesquisa registrados no Di-

180
retório do CNPq, dos quais fazem parte os pesquisadores. É uma forma de obter
uma visão nacional dos temas, objetos e metodologias explorados e aplicados
pelos pesquisadores em telejornalismo no Brasil. Outros indicativos importantes
são: 1) as dissertações e teses, desenvolvidas nos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação e Jornalismo, referentes ao telejornalismo, o que deve indicar
as tendências dos estudos e, 2) a investigação sobre a produção realizada nos
e pelo telejornalismo regional e local, observando características, diferenças e
potencialidades, visto que as propostas se articulam entre si, fortalecendo o tra-
balho da TELEJor no país.

Referências
COUTINHO, Iluska; MELLO, Edna; PORCELLO, Flávio; VIZEU, Alfredo.
(orgs.). Telejornalismo em questão. Coleção Jornalismo Audiovisual: Vol.
3. Florianópolis: Ed. Insular, 2014.
EMERIM, Cárlida; FINGER, Cristiane; PORCELLO, Flávio (orgs.). Desafios do
telejornalismo: ensino, pesquisa e extensão. Coleção Jornalismo Audiovisu-
al. Vol. 6. Florianópolis: Editora Insular, 2017.
TELEJOR, Rede. Mesa Coordenada 2 Telejornalismo e Práticas. Anais do 15o
SBPJor. Disponível em: <http://sbpjor.org.br/congresso/index.php/sbpjor/
sbpjor2017/paper/view/678>. Acesso em: fev. 2018.
TELEJOR, Rede. Mesa Coordenada 1 Telejornalismo Aplicado. Anais do 15º
SBPJor. Disponível em: <http://sbpjor.org.br/congresso/index.php/sbpjor/
sbpjor2017/paper/view/721>. Acesso em: fev. 2018.

181
RENAMI, UMA NARRATIVA QUE NASCEU,
CRESCEU E SE FEZ REDE

Demétrio de Azeredo Soster (Unisc)1


Fabiana Piccinin (Unisc)2
Marta Maia (UFOP)3
Monica Martinez (Uniso)4

1. Um percurso de pesquisa
Com o perdão da má comparação, a concepção e gestação da Rede de Pes-
quisa Narrativas Midiáticas Contemporâneas (Renami) podem ser comparadas a
um longo, fértil e persistente parto. Se o nascimento propriamente dito se deu em
2015, com a formalização da rede junto à diretoria da SBPJor, e posterior realiza-
ção de duas mesas coordenadas no 13º encontro da SBPJor, em Mato Grosso do
Sul, sua concepção remonta a pelo menos 2008, quando dos primeiros esforços
de sistematizar a reflexão em torno da temática narrativas no âmbito da SBPJor
tiveram lugar. Somadas às reflexões que vinham sendo realizadas neste sentido
em outras instâncias de pesquisa por aqueles dias, os movimentos foram o em-
brião da Renami tal como a conhecemos hoje.
Este capítulo é tecido a oito mãos, como convém a uma coordenação
colegiada, e pensando este relato como uma narrativa nos moldes de Motta
(2013). Ou seja, que nos permite, a um tempo, estruturar e dar sentido aos
acontecimentos, emprestando, aos mesmos, uma integibilidade mais larga,

1. Pós-doutor pela Unisinos; professor-pesquisador do PPG Letras – Mestrado e Doutorado e


Departamento de Comunicação Social da Unisc (RS).
2. Professora-pesquisadora do PPG Letras – Mestrado e Doutorado e Departamento de Comu-
nicação Social da Unisc (RS).
3. Doutora em Comunicação pela ECA/USP, com pós-doutorado pela Universidade Federal de
Minas Gerais. É professora-pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
UFOP e do curso de Jornalismo da mesma Instituição. Líder do Grupo de Pesquisa “Jornalismo,
Narrativas e Práticas Comunicacionais” (JorNal/UFOP).
4. Doutora pela ECA/USP, com pós-doutorado pela Umesp e estágio pós-doutoral pela Universi-
dade do Texas em Austin. É docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura
da Uniso (SP).

182
propomo-nos a narrar como tudo isso se deu; como a vontade nasceu, cresceu
e se fez rede.
Iniciaremos, do ponto de vista metodológico, dos tempos mais recentes,
ou seja, da constituição formal da rede, e seguiremos até onde a vista puder al-
cançar. Ao tomarmos emprestadas as roupas de Benjamin Button 5, queremos
mais do que contar uma história de trás para frente; buscar, no diálogo com
Marre (1991), uma metodologia reversa, tendo como horizonte de análise uma
rede que, desde seus primeiros dias, está demonstrando um vigor digno de nota.

2. A hora é agora
Datas oficiais, sabemos, são imprecisas por natureza, haja vista que buscam
reduzir a um momento o que não pode ser compreendido sem sabermos que
veio antes, o que está ocorrendo e sem o que será logo ali na frente, ainda que
deste pouco se saiba, salvo por adivinhação. É como, no diálogo com Bergson
(2005), tentar explicar o tempo por um momento: ao fazê-lo, dizemos antes do
momento que do tempo, haja vista que este, claro, está em movimento e que a
única forma que temos de compreendê-lo é por meio de sua condição “em cons-
tante transformação”. A saída, neste caso, é pensá-las, as datas, como indicativos
de camadas mais profundas de significação.
Neste sentido, o “ano-símbolo” de nascimento da Renami é 2015, decor-
rência de uma conjunção favorável à criação de uma rede com foco em narrativas
dentro e fora da SBPJor: de um lado, os movimentos que vinham se realizando
desde 2008, por meio dos esforços de associados, como Marta Maia e Monica
Martinez. De outro, ações focadas nas narrativas midiáticas – organização de
livros, artigos, eventos etc. – realizadas por pesquisadores igualmente associados
à SBPJor, mas no âmbito da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), caso de
Demétrio de Azeredo Soster e Fabiana Piccinin.
Por iniciativa de Demétrio de Azeredo Soster, que, à época, dividia as fun-
ções de pesquisador com as de diretor administrativo da SBPJor, as vontades se
5. Filme de David Fincher (2008) ambientado em uma Nova Orleans de 1918, onde o perso-
nagem Benjamin Button, interpretado por Brad Pitt, nasce velho e vai se tornando, ao logo da
narrativa, jovem.

183
uniram e passaram a dialogar mais estreitamente de tal forma que teve início,
formalmente, decorrência dos elementos citados no parágrafo anterior, a cons-
tituição da Renami. O principal argumento para a criação da rede era o ma-
peamento do estado da arte da pesquisa em narrativas dentro e fora dos limites
de SBPJor e os livros, artigos e congressos que vinham se derivando deles. Ela-
borou-se, então, coletivamente – Demétrio de Azeredo Soster (Unisc), Fabiana
Piccinin (Unisc), Marta Maia (UFOP) e Monica Martinez (Uniso), uma relação
de quatro passos a serem realizados nesse sentido, a saber:

1º passo
Lançamento, junto aos pares, da proposta de criação de uma rede de pes-
quisas com foco em narrativas para que a viabilidade da mesma fosse discutida
conjuntamente.

2º passo
Elaboração e discussão de ementa, para posterior encaminhamento à dire-
tora científica, conforme determina o cap. 2o, em seu artigo 4o, do regulamento
da SBPJor para a formação de redes:

ART. 4º – As Redes de Pesquisa que cumprirem o disposto neste regulamen-


to devem encaminhar a proposta formal ao Diretor Científico da SBPJor,
que elaborará um informe para ser apresentado à Diretoria da Associação, a
quem cabe a aprovação definitiva das propostas.

3º passo
Em sendo aprovada, marcar reunião de fundação na SBPJor no encontro
de Mato Grosso do Sul (13º SBPJor), em novembro.

4º passo
Formatação coletiva da pauta com vistas ao primeiro encontro.
Transcorrido o percurso, foi encaminhado à diretora científica da SBPJor à
época, Luciana Mielniczuk, ofício solicitando, em nome da coordenação execu-
tiva, pedido de aprovação para criação de uma rede de pesquisa tendo por base

184
a ementa abaixo transcrita e da descrição das atividades a serem desenvolvidas
nos próximos dois anos subsequentes. Assim, a Renami nasceu com quatro pre-
missas básicas, a saber:
a) Agregar os pesquisadores ligados à SBPJor que dialogam com o tema
narrativas.
b) Gerar conhecimento por meio da realização e divulgação de pesquisas
coletivas e da reflexão sobre os aportes teóricos, metodológicos, técni-
cos e históricos dos estudos da narrativa em relação com o jornalismo
e a mídia.
c) Privilegiar as interfaces das narrativas textuais e audiovisuais com a
literatura, a história, a arte e demais campos do conhecimento, em su-
portes impressos, eletrônicos e digitais, compreendidos como formas
de ver, ouvir, dizer e silenciar.
d) Contemplar, igualmente, as narrativas transmidiáticas, os processos de
midiatização, reconfiguração e inovação das práticas jornalísticas.
Finalmente, esta imbricação se estabelece a partir de perspectivas, cenários
e intersecções por meio de uma visada plural e compreensiva da realidade, con-
forme pode ser conferido na ementa de criação abaixo:
A Rede de Pesquisas “Narrativas Midiáticas Contemporâneas” se propõe,
de um lado, aglutinar os pesquisadores ligados à SBPJor que dialogam com o
tema “narrativas”, enquanto que, de outro, gerar conhecimento por meio da rea-
lização de pesquisas coletivas. Pensar as teorias da narrativa como objeto de
pesquisa em sua relação com o jornalismo, e a relevância de esta intenciona-
lidade estar materializada na forma de rede, implica não apenas considerar o
estado da arte da pesquisa como a própria trajetória desta no âmbito da SBPJor,
por exemplo. Em, 2014, a título de ilustração, a pesquisadora Monica Martinez
apresentou um paper no 12º encontro anual da SBPJor, em Santa Cruz do Sul,
RS, onde realizou um balanço das mesas coordenadas com foco em narrati-
vas realizadas ao longo dos últimos dez anos na referida associação. O texto,
disponível nos anais do 12º SBPJor, mesmo restrito ao âmbito da associação,
permite que se observe não apenas a relevância de se formar uma rede em torno
do tema como, também, a imperiosidade desta, haja vista a necessidade de se

185
aglutinar a pesquisa, considerando que a rede será formada por um conjunto de
pesquisadores que farão pesquisas coletivas e que dialogam, como dito, desde há
muito em torno deste tema no âmbito das coordenadas. Ainda refletindo sobre
a relação das narrativas como objeto com as pesquisas em jornalismo, objetivo
da SBPJor e dos que com ela comungam, há de se salientar que, no ponto de
vista temático, esta imbricação se estabelece, por exemplo, pela compreensão
do jornalismo e das narrativas midiáticas contemporâneas a partir de perspec-
tivas, cenários e intersecções por meio de uma visada plural e compreensiva
da realidade. Considere-se, ainda, que a mídia é uma das principais, senão a
principal, narradora contemporânea, o que não apenas justifica a emergência
de pesquisas sobre a temática bem como sua importância no caminho aqui
proposto. Estamos falando de diálogos entre as teorias das narrativas, da mídia
e do jornalismo; interfaces entre jornalismo, literatura, história, arte e demais
campos do conhecimento, bem como das narrativas, textuais e audiovisuais, em
mídias impressas, eletrônicas e digitais compreendidas como formas de ver, ou-
vir, dizer e silenciar. Também de narrativas transmidiáticas, da midiatização, da
reconfiguração e da inovação das práticas jornalísticas. No que tange ao modelo
de pesquisa adotado, a rede de pesquisas “Narrativas Midiáticas Contemporâ-
neas”, uma vez constituída, realizará, de um lado, pesquisas aplicadas, enquanto
que, de outro, visadas de caráter reflexivo. Com isso, pretende-se não apenas a
identificação de fenômenos de natureza narrativo-jornalística, como, também,
a necessária reflexão a respeito dos significados dos mesmos no contexto das
pesquisas em andamento.

3. Atividades realizadas em 2015


Das atividades propostas, e, mais tarde, realizadas, em seu primeiro ano
de vida, a título de planejamento estratégico, além da formalização junto à dire-
toria executiva da SBPJor, destacamos cinco movimentos pontuais: 1) primeira
pesquisa aplicada, 2) primeira reunião presencial dos membros da Renami, 3)
criação de interfaces digitais, 4) elaboração de identidade visual e 5) realização
de mesas coordenadas no congresso do Mato Grosso do Sul.
Vejamos cada um deles isoladamente, ainda que de forma breve:

186
3.1
Realização da primeira pesquisa, visando à identificação do estado da
arte da pesquisa em narrativas tanto no âmbito da SBPJor como junto aos grupos
de pesquisa que dialogam com este propósito ao longo do País. A pesquisa, idea-
lizada pela coordenação colegiada, foi realizada pela professora-doutora Monica
Martinez (Uniso), que apresentou os resultados da mesma em artigo assinado
conjuntamente com Tadeu Rodrigues Iuama, intitulado Primeiras reflexões so-
bre a pesquisa em narrativas midiáticas no Brasil1, no 14º SBPjor, em novembro
de 2016, em Palhoça, SC.

3.2
Reunião presencial com todos os membros presentes da rede no 13º SBP-
Jor, em Mato Grosso do Sul (Foto 1). Neste encontro, realizado após a realiza-
ção das duas mesas coordenadas sobre narrativas apresentadas durante o evento,
discutiram-se tantos os passos propostos quando da criação na Renami como as
formas de viabilização dos mesmos.

Foto 1: Primeiro encontro da Renami


Fonte: acervo Renami

1. Disponível em: <http://sbpjor.org.br/congresso/index.php/sbpjor/sbpjor2016/paper/viewFi-


le/44/50>. Acesso em: 7 mai. 2017.

187
3.3
Criação de interfaces digitais e identidade visual para os diálogos inter-
nos e públicos dos membros da rede: a interface digital escolhida para repre-
sentar a Renami junto ao público externo foi a rede social Facebook2, por sua
versatilidade e abrangência junto aos associados da SBPJor. A página foi criada
em maio de 2016, conforme demonstra a ilustração 1. Elaborou-se, igualmente,
com o objetivo de agilizar o diálogo entre os representantes da rede, e deixar
registrada a correspondência interna dos componentes da Renami, página no
Yahoo Groups com o endereço renami@googlegroups.com (ilustração 2).

Ilustração 1: Página no Facebook


Fonte: Facebook

Ilustração 2: Grupo de discussão


Fonte: Yahoo

2. Disponível em: <https://www.facebook.com/narrativasmidiaticascontemporaneas/?fref=ts>.


Acesso em: 8 mai. 2017.

188
3.4
A criação da identidade visual ficou ao cargo do jornalista e agora mestre
pelo PPG Letras da Unisc, José Arlei Cardoso (Unisc).

Ilustração 2: Identidade visual da Renami


Fonte: arquivo Renami

3.5
Mesas Coordenadas. Ao final de 2015, por fim, a Renami, já em seus pri-
meiros momentos, esteve representada no 13º SBPJor por meio da realização de
duas mesas coordenadas, propostas por Monica Martinez e Marta Maia, e assim
constituídas:
Mesa I – Coordenada de Narrativas – Convergências, inovações e tensões
na contemporaneidade, sob coordenação de Monica Martinez (Uniso):
• “Entre fato e ficção: Old Mr. Flood de Joseph Mitchell, personagens
compostos e jornalismo”, de Monica Martinez (Uniso), Eduardo Luiz
Correia (USCS/FIAM FAAM) e Mateus Yuri Passos (UNICAMP);
• “A narrativa hipermídia longform no jornalismo contemporâneo”, de
Alciane Baccin (UFRGS);
• “Parto dos anjos’: narrativa e transformações na produção do jornalis-
mo impresso”, de Edgard Patrício (UFC);
• “Blindagem Midiática: o questionamento comunicacional da media-
ção jornalística”, de Ada Cristina Machado da Silveira (UFSM).
• Mesa II – Reconfigurações, alteridade e diálogos na contemporaneida-
de, sob coordenação de Marta Maia (UFOP)
• “Narrativas dramáticas: a cobertura política em revista”, de Hila Rodri-
gues e Marta R. Maia (UFOP);

189
• “Narrativas Fotojornalísticas: estudo comparativo do mapeamento dos
artigos científicos apresentados nos congressos nacionais da Intercom
(2010-2014) e SBPJor (2003-2014), de Diogo Azoubel (Uniso);
• “Diante do olhar dos outros: aspectos sensíveis de uma política das
narrativas midiáticas”, de Thales Vilela Lelo (UNICAMP).
• “O quarto narrador, a morte da editora e midiatização das narrativas”,
de Demétrio de Azeredo Soster (Unisc);
• “Tradução” versus “Transcriação” – A narrativa jornalística e a (trans)
codificação do(s) discurso(s)”, da ciência”, de Maurício Guilherme Sil-
va Jr. (UFMG).

4. Atividades realizadas em 2016


Dos eventos a que nos propomos organizar no ano passado – 1) evento
nacional focado em narrativas, 2) organização de livro com textos dos membros
da rede, para veiculação em 2017, 3) realização de mesas coordenadas no 14º
SBPJor, em Palhoça (SC), 4) realização de nova pesquisa e, finalmente, 5) reunião
geral da rede para avaliação dos trabalhos realizados até então, não conseguimos
dar conta apenas no primeiro item. Quanto aos motivos, fundamentalmente a
crise que se abateu sobre o país, e a decorrente redução nos fomentos, o que nos
obrigou a transferir nossos planos.
Vejamos cada um dos itens realizados individualmente:

4.1
Organização de livro. Em fase de elaboração neste momento, será com-
posto de 19 capítulos e se pretende, para além do marco inaugural que representa,
registrar o estado da arte da pesquisa em narrativas em seu aspecto epistemoló-
gico. Está sendo organizado por Demétrio de Azeredo Soster e Fabiana Piccinin.

4.2
Realização de pesquisa mais abrangente. Na primeira etapa, a pesqui-
sa foi realizada junto aos associados da SBPJor. Os resultados sugeriram alguns
pontos a serem adensados. Após a inclusão dos mesmos, a survey foi encami-
nhada, em maio de 2016, para um público nacional mais amplo, envolvendo

190
agora os pesquisadores de narrativas além da comunidade SBPJor, como Inter-
com e Compós. O objetivo é o de comparar os resultados da primeira pesquisa,
limitada ao público interno da associação, com os de uma audiência mais ampla
que também trata do tema. Os resultados preliminares estão previstos para se-
rem apresentados no encontro de 2017.

4.3
Reunião geral: Realizada durante o evento de Palhoça, teve por objetivo
reunir todos os pesquisadores em narrativa midiáticas presentes no 14º SBPJor e
realizar um balanço geral do primeiro ano de atividades da Renami.

Foto 2: Reunião geral


Fonte: acervo Renami

4.4
Mesas coordenadas. A Renami apresentou no 14º SBPJor quatro sessões
de comunicações coordenadas, com um total de 20 trabalhos. As sessões foram
Narrativas Tecnológicas, Narrativas Imagéticas, Crítica das narrativas Midiáticas
e Narrativas em Jornalismo Literário.
As mesas foram assim constituídas:
I Mesa Coordenada Renami: Narrativas Imagéticas, coordenada por Alice
Baroni (The University of Queensland, Australia):
• “Espaços de (in)visibilidade na produção de narrativas visuais: Foto-
jornalistas e fotógrafos populares nas favelas cariocas”, de Alice Baroni
(PUC/RJ);

191
• “O que contam as imagens do trauma? O fotojornalismo no rompi-
mento da Barragem de Fundão”, de André Luís Carvalho (UFOPIES) e
Karina Gomes Barbosa (UFOPIES);
• “A narrativa semiótica de Dilma: Uma presidente entre fotografias e
manchetes”, de Leylianne Alves Vieira (UFMGIES);
• “A reafirmação do eternamente desconhecido nas narrativas jor-
nalísticas sobre a Amazônia Coordenação”, de Vânia Torres Costa
­(UnamaIES).

II Mesa Coordenada Renami: Narrativas Tecnológicas, sob coordenação


de Demétrio de Azeredo Soster (Unisc):
• “Hemingway não tuitava nem gugava: A história da obra jornalística
do Papa da reportagem”, de Ana Beatriz Magno (UnBIES);
• “O quarto narrador, um golfinho morto na praia e a circulação midiá-
tica”, de Demétrio de Azeredo Soster (Unisc);
• “Novos modos de dizer o mundo: narrativas jornalísticas multimodais”,
de Maurício Guilherme Silva Jr. (UFMG); Lorena Tárcia (UNI-BHIES);
• “Participação da audiência em narrativas jornalísticas audiovisuais ao
vivo nas redes sociais”, de Paulo Eduardo Lins Cajazeira (UFCAIES);
Cícero Ferreira de Sousa Júnior (UFCAIES);
• “Narrativas imersivas no webjornalismo. Entre interfaces e realidade
virtual”, de Raquel Longhi (UFSC).

III Mesa Coordenada Renami: Crítica de narrativas jornalísticas, sob coor-


denação de Marta Maia:
• “A subjetividade nas narrativas jornalísticas e suas implicações em O
nascimento de Joicy”, de Dayane Barretos (UFOP);
• “Narrativas-discurso e discursos-narrativa – Teoria e prática para uma
categorização dos deslizes éticos por jornalistas cearenses”, de Edgard
Patrício (UFC);
• “A narrativa instável no jornalismo sobre investigações”, de Eduardo
Luiz Correia (USCS/FIAM FAAM);

192
• “Apuração in loco: o impacto do trabalho de campo nas narrativas jor-
nalísticas contemporâneas”, de Mara Rovida (USP);
• “Crítica midiática e fazer jornalístico: novas narrativas e percepções”,
de Marta Regina Maia (UFOP); Rafael Drumond (UFOP); Caio Ani-
ceto (UFOP).

IV Mesa Coordenada Renami: Narrativas em Jornalismo Literário, sob


coordenação de Monica Martinez.
• “Escuta, testemunho e memória na narrativa de Svetlana Aleksiévitch”,
de Trabalhos Jaqueline Lemos (USP);
• “O jornalismo literário e a dor na terra esquecida”, de Juan Domingues
(PUC-RS);
• “Parcialidade assumida na narrativa jornalística: análise das reporta-
gens de Antônio Callado sobre a Guerra do Vietnã”, de Lilian Martins
(IES);
• “Primeiras reflexões sobre a pesquisa em narrativas midiáticas no Bra-
sil”, de Monica Martinez (Uniso); Tadeu Rodrigues Iuama (Uniso);
• “Perspectivas acerca da biografia jornalística”, de Rodrigo Bartz (Unisc);
• “Uma leitura ontológica dos diários pessoais”, de Victor Cruzeiro (UnB).

5. Como tudo se iniciou


Em consonância com nosso propósito inicial, ou seja, narrar a trajetória
da Renami desde os dias atuais até seu nascimento, em uma perspectiva reversa,
é preciso dizer, ainda, que o início de nossa Rede tem seu embrião, como dito,
lá em 2008. A gestão da SBPJor era encabeçada por Carlos Eduardo Franciscato,
tendo Marcia Benetti como diretora científica. Benetti foi a responsável pela ar-
ticulação de uma seção do Encontro com a presença de pesquisadores voltados
para temas em comum. A professora Marta Maia foi a responsável pela coor-
denação desse encontro. Sob pena de travar um pouco a narrativa, mas com o
compromisso histórico de passar a informação correta, é preciso listar então os
autores e seus respectivos trabalhos apresentados na sessão individual 21, ocor-
rida em São Bernardo do Campo, SP:

193
1. “Jornalismo e literatura em corpo-a-corpo: fato, ficção e romance-re-
portagem na escrita de João Antônio”, de Cláudio Rodrigues Coração
(UNESP);
2. “Érico Veríssimo e jornalismo: a hipótese da Espiral do Silêncio em
Incidente em Antares”, de Eduardo Ritter (Jornal das Missões/RS);
3. “A construção dos efeitos de verdade: um estudo de caso sobre Os ser-
tões e Abusado”, de Maria Alice Lima Baroni (PUC/RJ);
4. “Narrativa onisciente no jornalismo: possibilidade de ampliação da capta-
ção”, de Marta Regina Maia (Metrocamp) e Felipe Rodrigues (Unicamp);
5. “Jornalismo literário e ciência: uma análise quantitativa de reportagens
da revista piauí”, de Mateus Yuri Ribeiro da Silva Passos (Unesp);
6. “O bom ouvinte: José Hamilton Ribeiro na perspectiva do jornalismo
literário e da cultura do ouvir”, de Monica Martinez (Fiam/Faam).

As discussões dessa sessão aconteceram de maneira tão prazerosa que o


grupo, na oportunidade, avaliou a possibilidade de apresentar uma coordenada
sobre narrativas já para o ano seguinte. E foi o que aconteceu. Várias mensagens
foram trocadas e, o mais importante, o método de trabalho delineado naquele
ano permaneceria por toda a década. Ou seja, a proposta de leitura coletiva dos
trabalhos, com consequentes críticas e sugestões de alterações representa um
norte para esses colegas que partilham o desejo pela pesquisa, pelos estudos e
reflexões sobre as narrativas contemporâneas.
A história segue de maneira fértil. A aprovação, em 2009, de uma Coor-
denada acrescenta mais um capítulo à trajetória da Renami. Com o abrangente
título “Narradores e narrativas: jornalismo na contemporaneidade”, contou com
a coordenação de Marta Maia e teve como objetivo fomentar estudos e reflexões
sobre a construção de narrativas a partir de uma perspectiva plural e compreen-
siva da realidade.
Tendo ainda como leitmotiv uma base transdisciplinar, tentando percorrer
caminhos adjacentes ao universo do jornalismo, é claro, mas buscando dialogar
com outras áreas do conhecimento, ao reconhecer que outra ordem de apropria-
ções e cisões toma lugar no paradigma narrativo da contemporaneidade. Faz-se

194
necessário, novamente, relacionar os trabalhos apresentados nessa coordenada;
aqui, de fato, o primeiro movimento objetivo em torno de nossa futura, na época,
e presente, em 2017, Rede de narrativas.
1. “Os diversos Brasileiros em revista”, de Marta Regina Maia (UFOP);
2. “Narrativas de viagem: escritos autorais que transcendem o tempo e o
espaço”, de Monica Martinez (Fiam/Faam);
3. “Jornalismo (não) retórico? Um estudo de caso sobre o Abusado”, de
Alice Baroni (PUC/RJ);;
4. “Jornalismo e literatura: a comunicação como cimento social nas crôni-
cas de David Coimbra”, de Eduardo Ritter (PUC/RS);.

O interessante é que revezes – e por mais duros que eles sejam –, às vezes
servem para fortalecer e fazer frutificar as ideias nas quais as pessoas realmente
acreditam. Em 2012, como uma tentativa de prevenir o problema do excesso de
integrantes, foram propostas duas coordenadas de narrativas. Ambas não foram
aprovadas na íntegra e alguns dos trabalhos aprovados foram apresentados como
comunicações individuais. Como resultado, em 2013 houve uma espécie de ano sa-
bático. Apenas em 2014 o movimento foi retomado, agora com coordenação de Mo-
nica Martinez (Uniso). Um dos artigos, aliás, versava justamente sobre a reflexão do
histórico da iniciativa dos estudos de narrativas na SBPJor, que remontam à 2004:
1. “O potencial crítico das narrativas jornalísticas sobre o período dita-
torial”, de Marta Regina Maia (UFOP) e Thales Vilela Lelo (UFMG);
2. “Dez anos de Coordenadas de Narrativas SBPJor (2004-2014)”, de Mo-
nica Martinez
3. “Perfil e contraperfil: os três Joe Goulds de Joseph Mitchell”, de Mateus
Yuri Passos (UNICAMP).
4. “Novos jornalistas literários: métodos, técnicas e experimentações”, de
Eduardo Ritter (IES);
5. “Narrativas da política e da economia na Revista Bundas: a revanche
pela linguagem”, de Hila Rodrigues (UFOP) e Bruna Lapa (UFOP);
6. “(Trans)criações jornalísticas na revista Minas faz Ciência”, de Maurí-
cio Guilherme Silva Jr. (UniBH).

195
O fato é que, quando as narrativas têm um propósito, como é o caso desse
texto, parece que as palavras deslizam de maneira menos fluente. Entretanto,
elas precisam aparecer, já que, como nos ensina Paul Ricoeur (2010), “contamos
histórias porque, afinal, as vidas humanas precisam e merecem ser contadas” (p.
129). Essa é nossa narrativa, portanto, e ela não para por aqui: para este 2017, há
três ações em andamento.
A mais concreta, até o presente momento, é o lançamento do primeiro
livro da rede, sobre o qual nos referimos anteriormente. A segunda é a primeira
tentativa de alinhamento da rede com estudiosos internacionais do campo, por
meio da realização de uma primeira mesa conjunta entre a SBPJor e a IALJS, a
International Association for Literary Journalism Studies, que está sendo gestada
por Juan Domingues, presidente do Comitê Latinoamericano da IALJS. Final-
mente, como comunicação é vital numa rede, estuda-se para 2017 a implantação
e manutenção de novos canais, por meio da ampliação, e qualificação, do uso de
redes sociais pela Renami.

Referências
BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
MAIA, Marta R.; LELO, Thales V. O potencial crítico das narrativas jornalísticas
sobre o período ditatorial. Brazilian Journalism Research, (Online), v. 11,
pp. 122-139, 2015.
Marre, Jacques. A construção do objeto cientifico na investigação empírica. Cas-
cavel: Seminário de Pesquisa do Oeste do Paraná, 1991.
MARTINEZ, Monica; Iuama, Tadeu Rodrigues. Primeiras reflexões sobre a pes-
quisa em narrativas midiáticas no Brasil. In: Congresso da Associação Bra-
sileira dos Pesquisadores em Jornalismo - SBPJor. 14. 2016. Anais... Palho-
ça: SBPJor, 2014.
MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise crítica da narrativa. Brasília: UnB, 2013.
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