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Sebenta português 12 ano

Poetas do século XXI


Ana Luísa Amaral

Excerto da entrevista de Ana Mota Ribeiro à escritora, publicada originalmente no


Público em 2011 - https://anabelamotaribeiro.pt/ana-luisa-amaral-85784

Alguns poemas são profundamente tristes.


Alguns. Outros, profundamente irónicos. Outros, eufóricos. Essa relação entre poema e vida
realmente faz-se, mas em certa medida a poesia pode funcionar como um substituto para a vida.
Embora isto pareça uma contradição em termos – se a pessoa estiver morta, não escreve. Mas
pode funcionar como um catalisador.
[…]

Em alguns poemas fala da sua filha. É praticamente a única pessoa concreta que traz para os
seus poemas.
Há um poema sobre o meu pai, Que escada de Jacob, que escrevi depois da morte dele. Depois da
morte dele.

No poema Testamento diz que, se morrer, quer que a sua filha se lembre de si.
Que não se esqueça de mim. Esse poema acaba a falar de batatas íntegras. Não há batatas íntegras,
há pessoas íntegras. Há dois conceitos que vemos desbaratados ou espezinhados: a integridade e
a bondade. A palavra bondade é uma palavra que já não se usa. Parece que é uma palavra
antiga, demodé. Fala-se de pessoas muito inteligentes, valoriza-se a inteligência. Mas uma pessoa
boa é rara. A bondade é também a solidariedade para com o outro. É a “com-paixão”. É a simpatia
no sentido “sentir com”. Dos nossos políticos, está muito arredada. A integridade também parece
um valor esquecido.

TESTAMENTO

Vou partir de avião


E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver


Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem minha filha para a vida

Liliana Vieira Conde 1


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Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim


A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.

1. Explique o que desencadeou no sujeito poético o medo de morrer.


2. O sujeito poético pede que seja dada uma educação diferente à sua filha, na
eventualidade de ela morrer. Indique, justificando com passagens do texto, que
educação é essa.
3. Explique a expressão «contentamento deslumbrante» para o sentido global do
poema.
4. No final do poema, o sujeito poético enuncia as batatas que permanecem íntegras
e esquecidas no saco. Explique qual a intenção que o sujeito poético pretende
transmitir, à luz da educação que solicita para a filha.
5. Explique a razão da escolha do título, tendo e atenção o assunto do poema.

_______

UMA BOTÂNICA DA PAZ: VISITAÇÃO

Tenho uma flor


de que não sei o nome

Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima

Mas esses são prodígios


para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves

Não a ameaçam bombas

Liliana Vieira Conde 2


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nem românticos ventos,


nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz

E o céu azul de Outono


a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água
que lhe dou

Deve ser isto


uma espécie da paz:

um segredo botânico
de luz.

1. Explique a razão da escolha do título, tendo e atenção o assunto do poema.


2. O sujeito poético começa por se referir à flor de diferentes formas. Explique qual
o seu objetivo.
3. Comprove a existência de vários sentidos para captar a realidade, no poema.
4. Identifique o recurso expressivo presente na quarta estrofe e explique o seu valor
expressivo.

___________________

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS

É tarde. Inês é velha.


Os joanetes de Pedro não o deixam caçar
e passa o dia todo em solene toada:
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:


não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Liliana Vieira Conde 3


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Inês é velha, hélas, *que pena


e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora


era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).
Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

1. O poema remete para a efemeridade e a inexorabilidade da vida. Comprove com


excertos do texto.
2. Na história de Os Lusíadas, Inês é morta por vorazes algozes. Segundo este
poema, o que aconteceu realmente relativamente a esse episódio?
3. Explique a utilização dos parêntesis ao longo do texto.

Aniversário
Sentei-me com um copo em restos de
champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
tive trinta em casa.

Será comovedor os quatro anos


e a festa colorida,
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.

Serão comovedores os sumos de


laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,

Liliana Vieira Conde 4


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os pés inchados.

Será soberbamente comovente


toda a gente cantando,
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.

1. O sujeito poético tem uma visão diferente dos aniversários. Comprove com
excertos do texto e evidencie como apresenta esta visão.
2. Explique a utilização de alguns verbos introdutórios de estrofes no futuro.

Liliana Vieira Conde 5


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Manuel Alegre

Texto 11

Intervenção no seu tempo

Os anos 60, com as lutas estudantis e a guerra colonial, são igualmente um período propício a
um retomar da tradição de uma poesia de militância social e política, e não serão poucos os
autores que, de modo mais continuado ou mais fortuito, se mostram sensíveis a esse tipo de
envolvimento. O nome mais em evidência, neste contexto, será o de Manuel Alegre, que,
especialmente nas primeiras coletâneas, empresta à sua poesia uma ressonância bárdica, que a
música de intervenção, muito típica da época, irá significativamente ampliar.

Fernando J. B. Martinho, «Poesia», in Fernando J. B. Martinho (coord.), Literatura


portuguesa do século XX, Lisboa, Instituto Camões, 2004, p. 34 (texto adaptado).

Texto 2

Diálogo com a tradição

Mas a poesia de Manuel Alegre não se limita, naturalmente, a esse propósito resistente, e o
desenvolvimento da sua obra depois de 1974 permitirá verificar a relevância que nela vai
ganhando cada vez mais uma celebração da própria poesia, assente no diálogo, em graus diversos
de incidência mais abertamente […] intertextual, com vozes de referência da tradição literária
portuguesa e ocidental, em que, sem dificuldade, se recortam nomes como os de Camões, Pessoa,
Torga ou Sophia, e os de Dante, Pound, Lorca ou Melo Neto.

Fernando J. B. Martinho, «Poesia», in Fernando J. B. Martinho (coord.), Literatura


portuguesa do século XX, Lisboa, Instituto Camões, 2004, p. 34 (texto adaptado).

Texto 3

Um poeta lutador

O seu primeiro livro de poesia, Praça da Canção (1965) exprime afinidades temáticas e ideológicas
com a poesia do neorrealismo, ao mesmo tempo que revela um original sentido de musicalidade
enraizado nas trovas de tradição popular. No segundo, O Canto e as Armas (1967), ainda mais se
acentua a propensão ideológica e de poesia de combate, acrescentando-se uma temática do exílio
que será constante ao longo de toda a sua obra, intimamente relacionando, a cada passo, vida e
criação estética, o que também se nota nas suas obras de ficção e de memórias: Jornada de África
(1989), O Homem do País Azul (1989) e Alma (1995). A estrutura do verso radica essencialmente
na tradição dos antigos cancioneiros e adota Camões como modelo supremo, pela própria
mitologia nacionalista. Esta propensão simultaneamente classicizante e popular, bem como a do
sentido ideológico, sendo o poeta sempre um cidadão interveniente e mesmo um permanente
revolucionário, mantém-se até à fase mais recente, inclusive em Sonetos do Obscuro Quê (1993),
onde, dialogando intertextualmente com modelos como Dante, Manuel Alegre continua a ver o
poeta como «capitão de guerrilha», empunhando «ora a metralhadora ora a caneta».

Álvaro Manuel Machado, «Alegre de Melo Duarte, Manuel», in Álvaro Manuel


Machado (org. e dir.), Dicionário de literatura portuguesa, Lisboa, Editorial
Presença, 1996, p. 19.

1
Vilas-Boas, António e Vieira, Manuel. (2018). Entre Palavras 12 - Dossiê Prático do Professor – Asa. pp.
298-299.

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Texto 4

Uma poesia da responsabilidade cívica

Poeta maior da literatura de intervenção dos anos 60, Manuel Alegre carrega na sua poesia as
angústias e os anseios de uma geração profundamente marcada pela ditadura e pela guerra
colonial. Os seus versos são a crónica de um tempo histórico comum e a expressão da saudade
de um espaço, que é simultaneamente o topos português lembrado pelo «lusíada exilado» e a
utopia de um Portugal que há de ser. São também o apelo a um percurso coletivo de regresso
(que a imagem da raiz metaforiza e que um título como Chegar Aqui indicia), de reencontro com
a pátria verdadeira, depois da passada aventura histórica de partida.

Clara Rocha, «Alegre (Manuel)», in Biblos – Enciclopédia Verbo das


literaturas da língua portuguesa, vol. 1, Lisboa, Verbo, 1995, coluna 121.

Texto 5

Uma arte poética vinda da tradição

Em Manuel Alegre palavra e música são indissociáveis. O seu convívio com o legado dos
trovadores (nacionais, toscanos, provençais) e um profundo instinto da língua não estarão
ausentes de uma arte que domina as formas e os metros clássicos como os ritmos da
modernidade, […]. Ao cabo de trinta e cinco anos de edição, Manuel Alegre, cuja produção vem
suscitando valiosos estudos, afirmou-se como uma das personalidades mais densas e singulares
da atual literatura portuguesa.

José Manuel Mendes, «Alegre de Melo Duarte, Manuel», in Jacinto do Prado Coelho
(dir.), Dicionário de literatura portuguesa, Atualização do 1º volume, Porto, Figueirinhas,
2002, p. 43.

Letra Para Um Hino

É possível falar sem um nó na garganta


É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetecer dizer não grita comigo: Não.
É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

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1. Identifique o recurso estilístico mais evidente no poema e explique a sua função


expressiva.
2. Qual parece ser o objetivo deste poema?

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Abaixo el-rei Sebastião


É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.


Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro


de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate


os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

1. O sujeito poético pretende que a memória de D. Sebastião seja aniquilada. Qual


a razão?
2. Explique os versos seguintes:

É preciso quebrar na ideia e na canção


a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir

3. Na última estrofe o sujeito poético encarrega alguém para fazer a diferença.


Explique essa última estrofe à luz de toda a ideia passada ao longo do poema.

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Sobre um mote de Camões

Se me desta terra for


eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.

Deixo a dor de te deixar


na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.

Nem amor pode ser livre


se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.

E levo a terra que deixo


onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.

1. Ao longo do poema verificamos um jogo de palavras. Identifique-o e explique a


sua intenção expressiva.
2. O sujeito poético vai revelando o seu estado de espírito ao longo do poema, bem
como a sua relação com outra pessoa. Destaque-os, justificando com exemplos
textuais.

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Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas


coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.


Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi


num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

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desembarcar nas ilhas misteriosas.


Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

1. Explique a expressividade da palavra «longamente» para o sentido do poema.


2. Ao longo do poema é feita uma analogia entre o mar e o amar. Explique o que
pretende o sujeito poético com este jogo.
3. Qual a função expressiva das frases curtas?

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