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1. Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Temos uma filha de 1 ano e 3 meses, depende muito do sono dela, o dia começa
com ela, é o Sol da casa. Então, por vezes, o começo de um dia é continuação do
anterior, principalmente quando os textos têm prazo. Mas considerando as noites
dormidas a fio, acordo cedo e saio para resolver a questão dos boletos que teimam
em chegar todo mês. Em geral, acordo atrasado e com vontade de dormir, quando
saio em um horário bom, gosto de ir aonde preciso caminhando, para ir colocando
as ideias no lugar, ou fora dele. É uma forma de forçar a cabeça a acordar também.
De fim de semana gosto de ir à feira, ouvir as histórias que sempre pegamos pelos
pedaços.

2. Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de
preparação para a escrita?

Eu sempre funcionei melhor de madrugada, mas nem sempre a vida deixa a gente
fazer o que precisa na melhor hora. Tenho a sensação, quase todo dia, que só
acordo mesmo depois das 14h. Mesmo que trabalhe com textos durante o dia, só
de madrugada, quando a cidade dorme quase completamente, e poucos ecos
chegam pra acompanhar, consigo produzir com mais fôlego e concentração, até
porque durante o dia, seja pela vida real ou pela virtual, me distraio muito
facilmente e perco aquele negócio que tá na moda, o tal do foco. Agora, quanto
aos rituais, não sou muito disso não, em todos os níveis da vida, acho que a única
constante para mim, que me acompanha em tudo, é a desorganização. Mas no fim,
parece que acho um caminho. Quase nunca o que havia imaginado, mas tem dado
resultados. Tenho aprendido. Em geral, para escrever qualquer texto, acadêmico
ou literário, leio o máximo que consigo, quase nunca tudo o que preciso,
principalmente considerando os programas das matérias que faço para o
doutorado. Mas acho que todo texto para mim começa com a leitura, até porque
costumo escrever durante a leitura, na própria página, entendo melhor assim.

3. Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem


uma meta de escrita diária?

Não tenho um planejamento fixo, sou desorganizado, faço as coisas na última hora
possível, quando não dá mais para adiar. Mas acho que enrolo mesmo só para
escrever, pois vou lendo, pensando, conversando com amigos sobre coisas que
angustiam e que vão dar em texto, acho que aprendemos mais coisas importantes
no bar, muitas vezes, que na escola ou na faculdade. E sou professor de formação,
gosto de ser, acho a escola importante, sem dúvidas, mas não é um lugar sagrado
do aprendizado. Escrevo, quando preciso fazer algo acadêmico, de acordo com o
prazo, geralmente, preciso começar a escrever uns 3 dias antes do prazo acabar.
Quanto aos textos literários, vou escrevendo, às vezes, em um mesmo dia escrevo
dois, em alguns meses escrevo alguns pedaços por semanas seguidas, mas posso
passar meses e meses sem escrever nada. Tenho escrito bastante nos intervalos de
sono da Louise, que quando está acordada passa como um furacão, quer colo,
coisas de criança saudável, quando não sou eu que quero o dela, claro.

4. Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas
suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
A escrita começa para mim já durante a leitura, costumo ir escrevendo ao longo
dos textos, nas margens, anoto coisas bobas, alguma coisa que me lembrou o texto,
alguma ideia para desenvolver, às vezes, só copio mesmo o trecho, para entender
melhor. Quando dá tempo, antes fazia isso mais vezes, copio as anotações em um
arquivo de word e imprimo, anotando página e tal, para facilitar quando precisar
encontrar para rever ou citar, não conto com a memória, a minha é bem ruim para
o que preciso lembrar, porém, ótima para o que era melhor esquecer. Depois de
ler anotando, fichar, quando é o caso, tento fazer um esqueleto do texto que,
inclusive, raramente consigo seguir, quando vejo o texto foi e me levou junto.
Sempre tive muita dificuldade em começar um texto, mas isso tem se tornado cada
vez mais difícil, às vezes penso em desistir e ir vender coco na praia, contar e
ouvir histórias ao vivo, sem ter que planejar, corrigir, revisar, mas uma vez que
começo e engreno, a coisa flui, em alguns momentos aparecem travas, volto a ler,
vou dar uma volta, tomo um remédio etílico e retomo, tem dado certo até aqui.
Da pesquisa para a escrito acho que é sempre o mesmo movimento de ler e
escrever e ler e escrever.

5. Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não
corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Acho que escrever é uma coisa bem difícil, temos a impressão, que colocam na
gente desde cedo, que escrever é tarefa cristalina, a pessoa senta, pega caneta,
lápis, computador e vai colocando uma palavra na frente da outra em fila indiana
e tá lá, o texto pronto e acabado. Tenho tido cada vez mais dificuldade, falando
de textos acadêmicos, de produzir, pois chega aquela hora que não temos mais a
pouca idade do início da graduação que as pessoas leem e perdoam, quase, tudo
porque somos “jovens” e tal. Não há muito uma pressão. No mestrado, a coisa
piora, você escreve, quase ninguém vai ler, é verdade, mas você tem aquela
esperança e acha que tá super escrevendo algo importante. No doutorado, estou
encontrando muita dificuldade, pois começo a pensar no que estou pensando e a
questionar o que aquilo avança na discussão, que diferença vai fazer. Fora o fato
de a gente querer escrever coisas inteligentes, profundas, relevantes. O que é, ao
mesmo tempo, um trabalho árduo e ridículo. A maior trava tem sido um desânimo
que tenho tido com o meio acadêmico e artístico, todo mundo é inteligente,
profundo, sabido mesmo, mas a realidade só decai e piora a cada dia, tenho me
sentido meio hipócrita e impotente. Não tenho exatamente medo de projetos
longos, tenho é dificuldade em pensar algo distante no tempo, não sei nem se terá
país para gente viver depois de outubro.

6. Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos?
Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Depende, na verdade, tenho muita preguiça de revisar meus textos, primeiro


porque releio e acho que tá faltando coisa, e sempre falta, depois por pura preguiça
mesmo. Termino de escrever, cansado, às vezes, quase sempre, de ressaca, e quero
fazer qualquer outra coisa que não tenha a ver com o texto, esquecer dele por um
período. Quando eu era mais novo e tinha um tempo sobrando de puro ócio, podia
me dar ao luxo e tinha o privilégio, injusto e para poucos, inclusive, de
praticamente só estudar, escrevia tudo à mão, quando digitava, além de ir
mudando muita coisa, acrescentando, cortando, já fazia a revisão. Hoje, escrevo
direto no computador, ele já corrige muita coisa, mas todo dia antes de retomar a
escrita, quando o texto leva dias, releio tudo e vou revisando, não tem um número
de vezes exato, ao fim, reviso outra vez e peço para que alguém leia, Alessandra,
minha companheira é quem mais sofre, pois acaba sobrando para ela, alguns
amigos também caem na bobeira de aceitar ler e revisar, depois, vejo os
apontamentos deles e releio, corrigindo. Mas sempre passa um erro ou outro, não
me aflige muito, tenho preguiça dos puristas da gramática, minha avó Isabel era a
maior filósofa que já conheci, falava na língua dela, tinha ditados que explicavam
o mundo em poucas palavras, além de ter me ensinado quase todos os palavrões
que sei, tive professores, super chiques que não me ensinaram metade.

7. Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à
mão ou no computador?

Antes, por ter mais tempo livre, escrevia tudo primeiro a mão, tenho ainda
guardados vários cadernos com quase tudo o que escrevi durante a faculdade,
acadêmico ou não, depois passava para o computador. Quanto aos textos, lia,
anotava e fichava as anotações, em arquivo de word. Hoje, escrevo os textos finais
diretamente no computador, mas ainda faço as anotações nos textos a mão, risco
livros, cópias, sem problemas, as pessoas costumam abominar riscar livros, mas
um livro, para mim, sem risco é um livro lido pela metade, eu preciso anotar, nem
que seja só para me concentrar na leitura, para não dispersar, senão acabo lendo
sem ler, só para chegar no fim e ficar livre, mas aí é melhor não ler. A única coisa
que ainda resisto muito é ler na tela, não consigo, sei que é possível fazer
anotações, sublinhar, fazer tudo o que fazemos com a mão, mas ainda preciso do
texto no papel, nem que tenha que imprimir 4 páginas por folha, com letras
minúsculas, para não acabar com as árvores do planeta.

8. De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se
manter criativo?

Sei lá de onde vêm as ideias. Acho que tudo o que a gente pensa vem de alguma
outra fonte, a gente pode adaptar, mudar, dar um caráter mais pessoal para aquilo,
mas não acho que tenho nada muito inédito. Acredito que o que dá para fazer é
reproduzir um modelo sem refletir e reproduzir o que está posto, o que dá,
inclusive, mais likes, mais visibilidade, ou a partir de várias fontes, tentar criar um
monstro quase novo, que faça nem que seja alguns detalhes diferentes, avance em
alguma coisa, mas é uma luta complicada. As ideias que tenho são fruto de tudo
o que vivi, das coisas que lembram e sei de onde vieram, mas muito do que nem
lembro que lembro e que me assombram sem que eu me dê conta. Ainda acho que
ler é bastante importante para ter ideias, ser criativo, não se cria nada no nada, há
um princípio, um processo, ainda que a gente não consiga recuperar precisamente.
E ler como uma atividade ampla, não é só romance, teoria que contam,
aprendemos muito lendo qualquer coisa, nem que seja aprender como não
escrever, a como não pensar. Prefiro mil vezes ler um gibi do Tex, cheio de
questões problemáticas, herói, mocinho, vilão, um mundo um tanto simplificado,
do que um texto acadêmico hermético, chique, que diz o que todo mundo já sabe
só que de um modo empolado para que pareça novidade. Outras formas de leitura
também me ajudam, ver filme, séries, obras de arte que não sejam necessariamente
literárias. Além disso tudo, a vida, andar na rua, pegar metrô, encontrar amigos,
conversar, fazer comida, mas, principalmente, tentar estar atento para o que tudo
isso pode nos ensinar, do mundo, da escrita, de nós mesmos, ficções bastante
inverossímeis.

9. O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O
que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de sua tese?

Acho que mudou bastante, mas a escrita é que me mudou bastante ao longo do
tempo e continua me mudando, nem sempre pra melhor, infelizmente. Lembro
dos primeiros textos que escrevi, não mostro para ninguém mas não é nem
vergonha, aquela que temos no início, com o tempo passa e vira só vontade de ser
lido mesmo, uma espécie de carência. Me formei - (formei-me é muito formal) -
para ser professor e escrevo, duas formas de existir que querem toda a atenção do
mundo, professor e escritor são bichos extremamente carentes que imploram por
atenção. Vejo que há um processo, desde o que fiz nos primeiros textos até os que
escrevo agora, algumas características se mantiveram, mudando, se
transformando, outras abandonei, mas sabe-se lá até quando. Acho que todo texto
escrito é devedor dos que vieram antes, sem eles, acho que não escreveria do modo
que escrevo hoje, bem ou mal, mas nem é disso que se trata. Percebo que
academicamente tenho feito um esforço de me livrar do que aprendi em termos de
escrita mais formal, evitando termos difíceis que usava para mostrar, e muitas
vezes fingir, erudição, procuro aprofundar o máximo que consigo as ideias que
quero desenvolver, mas usando uma linguagem o mais clara possível, tento
avançar em algum sentido, mas quero ser compreendido, não quero mostrar que
sei isso ou aquilo, usar o estudo que me foi permitido como modo de me colocar
acima de quem não teve as mesmas chances, tenho aprendido sobretudo isso.
Tento trazer isso pros textos. Ultimamente tenho escrito contos, um caminho mais
ou menos novo, tem sido um aprendizado importante, como escritor e como
pessoa física e sem dinheiro, mas com a consciência de que podia ser pior, como
é para muitos que estão desempregados ou em condições miseráveis, é uma forma
de aprender a ser o mesmo imbecil possível e de ficar angustiado com a realidade.

10. Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria
de ler e ele ainda não existe?

O projeto que quero desenvolver é, além de escrever a tese do doutorado,


criar um romance; não tenho a mínima noção de como fazer, os contos são uma
espécie de laboratório, além das conversas com amigos, sobre as ideias de escrita,
mas, para variar, estou procrastinando o início da escrita, tenho lido, em
compensação, vários romances produzidos nessa última década, para aprender
formas possíveis que as narrativas encontram para continuar, para existir. Mas
ando meio descrente do meio literário e acadêmico, vivemos uma época estranha,
ao mesmo tempo que, e isso é maravilhoso, todo mundo tem espaço para falar, o
que não quer dizer que todos têm o mesmo espaço, nem as mesmas
oportunidades, sinto que ouvimos muito pouco, e me coloco no bolo dos que mais
falam que escutam, o próprio fato de ter consciência disso não me faz especial,
me faz, no máximo, um idiota consciente de um defeito, entre vários. A cada dia
que passa, fico com a sensação de que estamos muito afiados, combativos,
atentos, participativos, posicionados nos discursos, mas isso tudo não tem surtido
efeito algum, segundo o que noto, sinto, vivo, na realidade, que decai sem
disfarçar. Sei que estou sendo injusto com muitos que não se enquadram nas
críticas que coloco aqui, muitos amigos que tenho, inclusive, mas, infelizmente, a
hegemonia ainda é, na literatura e na academia, de certo modo, mais reforçar, do
que recusar os valores e costumes condenáveis que vemos e vivemos em nossa
sociedade, uma hegemonia branca, masculina, bem educada, de bem. Volto a
escrever, aos poucos, depois de alguns dias de desânimo total, como uma forma
de aprender a ser o menos babaca possível, como uma forma, não de revelar o
que já está bem claro, não tenho que dizer que o mundo é injusto, desigual e cruel,
mas como uma forma de manter viva a capacidade de se revoltar, de se indignar,
usar o tempo que gasto estudando, lendo e escrevendo como um modo de pensar
e tentar evitar, o quanto possa, a minha parte naquilo que a literatura e a
academia tem de elitista e excludente.
Quanto aos livros, seja lendo para análise crítica ou para aprendizado
literário, não gosto muito de pensar como eu gostaria que os livros que leio
fossem, mas ver como são, aprender com eles, sem tentar encaixar em escolas e
estilos definidos, criar uma interpretação, parcial e incompleta, através da leitura
e não chegar a eles procurando achar o que me agrade. Se fosse assim, nem leria,
já estaria satisfeito.