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PAULO DE JAEGHER, S. J.

A VIRTUDE DO AMOR
Meditações

Tradução de

P. Valdomiro Pires Martins

"O fogo do amor é mais purificmte


do que o. fogo do Purgatório".

S. TERESA oo MENINo }Esus

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FLAMBOYANT
Nihil obrtat São Paulo, 28 de Jur.ho de 1961
Mons. JosÉ. LAFAYETIE ALVARES

lmprimatur São Paulo, 30 de Junho de 1961


t PAuLo RoLIM LouREIRo,
Bispo Auxiliar e Vigário Geral

Obra executada nas oficinas da


A. - São Paulo,
Silo Paulo Editor&. S. Brasil

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Título do original francês

La Vertu d'Amour

Copyrigbt by
DESCLÉE DE BaouWER - Bruges

Cafla de

JACQUES DOUCHEZ

1962

Direitos para a língua portuguêsa adquiridos pela



LIVRARIA EDITORA FLAMBOYANT

Rua Lavradio, 222 - São Paulo Tel.: 51-5837

Impresso. nos Estados Urúdos do Brasil


Printed in the United Statu of Brasil

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Coleção "Páginas Cristãs"

PAULO DF. JAEGHER, S. J.

A VIRTUDE DO AMOR

Escolheu Paulo de Jaegher um

tema que parecia exaurido por São


Francisco de Sales no clássico tratado
sôbre o amor· de Deus. Soube, entre­
tanto, descobrir-lhe novos e formosos
aspetos. Inspirou-se· na doutrina te�:e­
.siana do amor misericordioso e da pe­
quena trilha, conforme a Mestra de
Lisieux a tinha aplicado· em sua pró­
pria espiritualidade.
Como em ..obras anteriores, tam­
bém de inspiração teresiana, o autor
estuda vertical e horizontalmente as

relações do homem com se� Deus.


Estas exprimem o amor natural e es­
pontâneo que um Deus Pai nutre para
com seus filhos,. e que necessàriamente
provoca a filial confiança da criatura.

Repassada de calor místico, a ex­


posição prima pela clareza e simpli­
cidade de linguagem. Em tôdas as

páginas, clima sereno e doutrina segura.


Aqui e ali, lances de psicologia pastoral.
Trechos há, cuja elevação atinge quase
o sublime. Tudo, porém, nos moldes
de simples meditações. Nível literário
sóbrio e de bom gôsto. Atrai o leitor
culto, não enfada o menos instruído.
Até nesse ponto, Paulo de Jaegher
·
afirma-se teresiano.

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Dedictrm-se estas páginas a

SANTA TERESA oo MENINo Juus,


a grtmde Amorosa
em seu ctrminho de frrf&ncia.

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Pr efác i o

p oR MERcÊ DE DEus, é freqüente aparecerem, hoje em dia,


bons livros de meditação sôbre a vida de Cristo e muitos
outros assuntos correlatos. Importante é a influência que exer­
cem na vida espiritual. Apesar de já serem muitos, julgamos
todavia que ainda terá acolhida um livro que ofereça meditações
sôbre o amor de Deus para conosco, e sôbre nosso amor para
com Deus, meditações tendentes, antes de tudo, a aumentar pela
graça divina a virtude da caridade.
Todos conhecemos o sublime panegírico que desta vir­
tude fêz o grande Apóstolo: Ainda que tivesse tôda a fé, ao
ponto de transportar montanhas, se não tenho a caridade, nada
sou ( 1 Cor. 1 3, 2 ) .
Não nos equivocamos e m chamar rainha das virtudes à
virtude da caridade. De feito, a medida de nossa caridade é a
medida de nossa santidade. Nunca podemos demasiar-nos em
nutrir dentro de nós esta grande virtude, da qual tôdas as mais
auferern sua benemerência. Não esqueçamos jamais que certas
atitudes nossas, como sejam de humildade, confiança, obediên­
cia, paciência, amor do sofrimento, não agradam a Deus senão
na medida que forem até certo ponto animadas pelo amor a
Deus. É fato averiguado, quanto mais avançamos na perfeição,

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A Virtude do Amor

tanto mais exerce a virtude da caridade uma ação predominante


em nossa vida espiritual.

O Padre SURIN, exímio autor espiritual, escreveu com pro­


priedade: O caracter específico do homem espiritual é munir e
aperfeiçoar com a caridade as virtudes que pratica, e fazê-lo de
molde que tôdas elas tenham o sabor do amor divino, da von­
tade divina. A caridade é como doce em calda, sempre dife­
rente, conforme a fruta de que é feito; mas todos os doces levam
açúcar e têm gôsto de açúcar. O homem age de tal maneira, que
cada virtude conserva seu sabor natural, mas apesar disso está
tão repassada de caridade e da intenção de agradar a Deus, que
parece tôda feita de açúcar, isto é, de caridade (!).
A grande relevância da virtude da caridade serve-nos pois
de justificativa para êste livro de meditações. Nosso fito é abra­
sar as ahnas no fogo do amor divino, e mostrar-lhes o caminho
que leva ao cume da montanha do amor, ao amor puro, per­
feito e unitivo.
1! de lamentar que muitas almas fervorosas parem de uma
vez ao terceiro grau da vida espiritual, chamado via unitiva.
Não provam, conseqüentemente, e muito menos saboreiam ja­
mais as celestes e inefáveis alegrias, experimentadas por aquêles
que, fruindo pelo amor unitivo da comunhão com as perfeições
divinas, se engolfam Naquele que se lhes tornou o único tesouro,
o seu tudo.
Estas meditações podem ser utilizadas de várias maneiras.
Tomadas, por exemplo, como um todo, prestam-se para dar ou
fazer retiro sôbre o amor. Lidas individualmente, em qualquer
circunstância, incitam ao amor de Deus, tornam-no mais puro

(1) Cfr. P. DE JAEGBER, Anthologie du mvstici#me, Newman Press.

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Prefácio
e mais generoso. Para essa classe de leitores, acrescentamos ex�
plicações sôbre vários temas e virtudes, que a nosso ver contri�
buirão para ensinar e manter o hábito da leitura espiritual.
Breves anotações, simples pontos de meditação poderiam ter
sua utilidade. Julgamos, porém, mais úteis às almas umas me�
ditações plenamente desenvolvidas. A fim de mais empolgar o
coração, pois êste é o efeito que se espera de meditações desti­
nadas a estimular o amor a Deus, adotamos um método simples
e eficaz ao mesmo tempo.
Esperamos que êste conjunto de meditações ajude os dese­
josos da perfeição a levarem uma vida menos egoísta, mais cristã,
e, com a graça de Deus, a alcançarem essa via unitiva, êsse per­
feito amor unitivo, que devia ser a aspiração de tôdas as almas
generosas. Oxalá possam elas repetir um dia, com todo fervor
e sinceridade, as palavras do grande Santo de Assis:

Meu Deus e meu Tudo.

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I

Somos cr iados p ar a amar a Deus

Primeiro prelúdio: Vejo-me a sós com Deus, meu Criador.


Segundo prelúdio: Imploro o poder da graça, a fim de que
possa atinar melhor com o sentido verdadeiro e sublime da
vida.

PRIMEIRO PONTO: Deus criou-me por amor. - Deus existe


desde tôda a eternidade. Sendo infinitamente bom e todo-pode­
roso, possui em Si mesmo tudo quanto requer a perfeição infi­
nita. Sua felicidade é perfeita, plena e eterna.
Por que então criou o Universo? Por que me criou a mim?
Não por uma necessidade, Nêle inexistente. Nem tampouco por
carência de glória, pois que f:le possui a glória infinita na Trin­
dade de Suas Pessoas. Estas se glorificam infinitamente umas às
outras. Aquilo que chamamos de glória extrínseca de Deus,
nada acrescenta realmente a Deus, porquanto nada se pode aditar
ao infinito.
De certo, quando Deus cria, Sua glória deve constituir uma
finalidade. Mas, como o diz Santo Tomás com tanto acêrto:
"Deus precisa de Sua glória não para Si mesmo, mas para nós".
Qual pois a razão de Deus criar? f:le cria por amor.
·Deus, amor extático, amor que deseja transbordar-se, quis
dar-Se às criaturas. Dada, porém, a inexistência das criaturas,

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A Virtude do Amor
porquanto nada existia fora de Deus, 1tle criou o Universo e en­
tregou-Se de certo modo a cada criatura, a tôdas as criaturas.
As. criaturas inanilJladas, às plantas e aos brutos irracionais,
deu-lhes uma pálida imitação de Suas perfeições divinas. Ao ho­
mem, porém, outorgou-lhe dons admiráveis, que são uma imita­
ção de Suas próprias perfeições. Sua intenção de amor vai toda­
via mais longe. 1tle quer dar-Se ao homem, não só em imitação
e através das criaturas, mas também de modo real no céu.
Conseqüentemente, Deus me criou por efeito de um amor ma­
ravilhoso. Até certo ponto, 1tle entregou-Se e continua a entre­
gar-Se a mim aqui na terra. E, se eu o quiser, 1tle Se dará a
mim, de modo perfeito, no céu. 1tle, o Deus infinito, deseja
unir-me perfeitamente a Si. Convida-me a viver no céu uma só
vida sublime, por assim dizer, em comum com 1tle. Em certo
sentido, quer repartir comigo Sua divindade.
Boas razões temos, portanto, para dizer que Deus está ena­
morado de Suas criaturas. Nimium dilexit me. Criou-me a fim
de que eu possa aqui na terra preparar-me à união perfeita e
eterna no céu. Desde o dia em que nasci, minha alma destina-se
a ser eternal espôsa de Deus tio céu. Apesar de tudo, a imagem
profana de espôso e espôsa, tão encontradiça na Sagrada Escritura,
continua a ser a melhor comparação, se bem que muito imper­
perfeita, da estupenda união Com Deus, à qual somos chamados.
Poderíamos aqui deter-nos um instante e repensar a sublime
perspectiva que êste pensamento concretiza. Eu, pobre criatura,
tirado do nada, sou feito por Deus, o Infinito ! Precisamos,
antes de tudo, procurar ter um sentimento vivo de Deus, da ma­
neira que nos fôr preferível, a fim de concebermos uma pálida
idéia do imenso abismo que Dêle nos separa.
Reflitamos na prodigiosa grandeza de Deus, em Seu maravi­
lhoso poder. Deus fêz o oceano e as montanhas, o sol e a lua.

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Somos criados para amar a Deus
Esparziu pelos céus as inúmeras estrêlas que aformoseiam a noite.
Basta-nos abrir os olhos para nos deslumbrarmos com a grandeza
e o poder de Deus. E cada alma foi criada para ser a eternal es­
pôsa dessa Onipotência.
Pensemos também na sabedoria de Deus. Um talo de erva,
uma florinha, uma borboleta, são maravilhas da sabedoria de Deus.
E que diremos desses corpos infinitesimais, que os microscópios nos
colocam ao alcance da vista ? Ensinam as teorias mais recentes que
o átomo é uma miniatura de nosso sistema solar. Quantos prodí­
gios já não descobriu a ciência moderna ! Sem embargo, quan­
tos outros portentos da sabedoria de Deus não nos encobre ainda
o mundo da natureza !
Alguém poderia considerar a formosura de Deus. A que
se assemelha ela? Desta perfeição, ainda mal, não logramos o
mesmo sentimento, como aquêle que temos de Seu poder e sabe­
doria. Certos panoramas são encantadores, certas criaturas são
belas e sedutoras. Se tal beleza humana se multiplicasse ao cên­
tuplo, nenhum mortal poderia resistir a seu encanto e atração.
Mas que viria a ser tal beleza criada e cem vêzes reforçada ? Não
temos a mínima idéia. De uma cousa, porém, temos conheci­
mento. Se pudesse ver a Deus em Sua irresistível formosura, até
o maior pecador cairia em êxtase e desfaleceria de amor.
E para êste Deus grande, admiràvelmente poderoso, sábio,
belo, adorável, é que sou destinado desde tôda a eternidade, eu
pequena criatura, tirada do pó, eu que sou uma unidade entre
os bilhões de homens existentes na terra; eu, um naco de pecado,
ulcus et apostema, como dizia Santo Inácio, abcesso purulento,
úlcera entumescida de inclinações inconfessáveis e impuras, de
od�oso egoísmo.
�ou, entanto, criado e reservado para Deus, destinado a ser
aqui na terra noiva e mais tarde espôsa ditosa da Beleza infinita,

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A Virtude do Amor

da Pureza imaculada, da Amabilidade cheia de encantos. Sou


criado para êsse Deus que fica tão acima de todo amor; que é
tão amável que meu amor, por imenso que venha a ser algum
dia, não poderá jamais igualar à Sua amabilidade, nem será ja­
mais digno Dêle.
Que revelação ! Se pudesse compreendê-la um pouquinho,
não seria o suficiente para me deixar louco de amor por Deus ?
Realmente a loucura de amor, o amor qual os Santos o pratica­
ram, o amor que é uma sêde ardente de sofrimento e humilhação,
êsse amor assim, essa loucura de amor é de fato razoável.

SEGUNDO PONTo: Devo enamorar-me de Deus, e viver como


quem tem consciência de ser destinado a uma vida de união
com Deus. - �te é meu destino, real e divino, que me eleva
muito acima. dos reis e imperadores. Deve ser minha única tarefa
e preocupação aqui na terra.
Mas não será um êrro dizer-se: "Devo enamorar-me de Deus? "
Sim, em certo sentido, há engano de minha parte. Não devo
tornar-me amoroso de Deus,. porque na realidade já o era, em
certo sentido, desde meu nascimento. Isto é verdade, porque
minha alma sempre foi, em certo sentido, enamorada de Deus.
A alma é uma fome e sêde de Deus. É um apetite, um imenso
apetite de Deus.
. Meu entendimento foi feito para Deus, o Ser Infinito. Exis­
te para conhecer a Deus, motivo pelo qual sempre busca a ver­
dade tôda, tudo quanto mereça nosso conhecimento. Procura
o cognoscível, em que se reflitam as perfeições de Deus.

Minha vontade foi feita para o bem, para o bem supremo,


que é Deus. Sente fome da suma bem-aventurança, que é Deus.
Santo Agostinho, grande pecador na juventude, narra suas expe-

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Somos criados para amar a Deus

riências. Ainda que vivesse então em pecado, era, como todo


pecador, enamorado de Deus: "Para Vós, meu Deus, se fêz nosso
coração, dizia êle, e jamais ficará tranqüilo, enquanto não quedar
em Vós". Por isso é que nossa vontade, sentindo-se desambienta­
da na terra e não podendo encontrar a Deus, seu bem real e
perfeito, procura sem cessar a mínima partícula de bem e feli­
cidade.
Desde que se enamorou de Deus, Ser infinito e Verdade per­
feita, meu entendimento deseja sempre aprender, e luta continua­
mente por aumentar cada vez mais seu campo de cognição. Es­
tando apaixonada por Deus, bem infinito e suma bem-aventurança,
minha vontade busca a felicidade por tôda parte.
Como o santo, o mundano busca a Deus, mas disso não tem
consciência, correndo tôla e culposamente para onde não está
Deus, a suprema felicidade. Voluteia de uma fonte de prazer a
outra, sem se sentir jamais realmente feliz, jamais satisfeito. O
santo, porém, procura a Deus conscientemente. Procura o objeto
adequado de sua vontade lá onde se encontra, em Deus mesmo.
Noutros têrmos, Deus é a paixão de minha alma, a verdadeira
razão de ser de tôda a minha energia e atividade. Minha alma e
as almas de todos os homens possuem uma tendência essencial
para Deus, ainda que tantas almas infelizmente não tenham cons­
ciência dessa atração. O amor de Deus é a aspiração mais inata
e mais entranhada da alma. Não poderia a alma abandonar essa
aspiração sem se destruir a si mesma(l).
Façamos agora por compreender o plano de Deus, plano tão
extraordinàriamente amoroso. Deus criou-me para Si, e por amor.
Como Se enamorara de mim, reservou-me a sorte de viver per-

(1) :tste amor inato de Deus causará a pena. de dano, pena máxima do
inferno.

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A Virtude do Amor

feitamente unido a :me no céu. Para melhor garantir o bom


êxito de Seu plano, compatível ao mais alto grau com o livre
arbítrio do homem, incutiu-me na alma uma sêde a fim de poder
conhecê-Lo, e na vontade o desejo de amá-Lo, desde que O
conheço.
Como outros tantos, e por muito tempo talvez, também eu
não tive nenhuma idéia dessa aspiração que minha alma sentia
por Deus. Pouco a pouco, por efeito de insignes graças espiri­
tuais, tomei consciência dêsse amor essencial a Deus. Agora, com­
preendendo que Deus é o anelo real e absoluto de meu coração,
posso exclamar: "Encontrei Aquêle a quem ama minha alma"
(Cant. 3, 4) .
Agora que tomei consciência dêsse amor de minha alma por
Deus, fica assente uma cousa. Quero dar o livre consentimento
de minha vontade a essa inclinação amorosa, e aceitá-la com
júbilo; expandir plenamente essa tendência íntima e sempre ativa
de minha alma, não obstante as resistências naturais que isto
possa provocar; viver assim, em tôdas as circunstâncias de minha
vida, como um apaixonado, como uma alma que aceita o amor
de Deus, e prontifica-se a viver neste mundo como noiva de
Deus, e, mais tarde no céu, como Sua espôsa.

TERCEIRO PONTO: Tôdas as criaturas podem ajudar-me. -

Tôdas as criaturas, Deus as fêz para me ajudarem a ter uma no­


ção sempre maior dêste amor essencial, e a viver cada vez mais
como um enamorado. Nas mãos de Deus, tôdas elas são meios
pelos quais tle busca meu amor e reqüesta meu coração. São
instrumentos de união.
Deus faz pela minha alma o que todos os namorados fazem
para conquistar o coração da bem-amada. Como todos os galan-

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Somos criados para amar a Deus

teadores, �le ostenta-Se a Si mesmo com Suas perfeições e Sua


amabilidade, na intenção de cativar-me. Procede assim, através
das criaturas, para não constranger minha liberdade. Pois, con­
templá-Lo como me é na realidade, seria amá-Lo à fôrça, de modo
irresistível. Além do que, pelo fascínio, eu morreria de amor.
tle mostra-me pois Sua grandeza através dêste imenso Universo,
nas montanhas e nos oceanos, no sol e nas estrêlas. Sua sabedoria
manifesta-se no inseto, no micróbio quase invisível, no átomo,
em cada maravilha que �le criou. Sua formosura revela-se nas
flôres e nas árvores, nas vagas do mar, no pôr do sol, no encan­
to das pessoas.

Tôdas as criaturas têm por fim revelá-Lo pelo mínimo indí­


cio que nos induza a pensar Nêle, fonte de tôdas as perfeições;
Nêle, que abrasa nossos corações no fogo do amor divino. Tôdas
as criaturas devem ser para nós urna escada que nos faça subir
até as perfeições de Deus.
Sem dúvida alguma, quanto mais progrido na vida espiritual,
tanto mais descubro que o Universo é transparente de Deus,
repleto Dêle e de Sua formosura. Um simples ofhãr sôbre a
natureza me fará amar a Deus, meu espôso.
Por conseguinte, Deus manifesta-me Seu amor, à moda de
todos os namorados. Mas, quando êsse amor não é de todo evi­
dente em a natureza, �le mesmo desce do céu e fala-nos de Seu
amor. Dêste modo, tenho Sua Encarnação; depois, Seus trinta
anos de Nazaré na pobreza; depois, Sua Paixão, ponto culmi­
nante dêsse drama de amor, o máximo esfôrço feito por Deus,
para me revelar Seu amor, para me levar a crer Nêle, para con­
quistar assim meu coração. Ao morrer na Cruz, exclama: "Alma
que�da, será que te não amei bastante ? Não queres portanto
dar-m� em troca teu coração ? "

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A Virtude do Amor

E para que mais depressa Lhe entregue o coração, �le trans­


põe os dois mil anos que me separam do Calvário. Deixa-Se ficar
no Tabernáculo, e segreda: "Dá-me teu coração, meu filho"
(Prov. 23, 26). �le, o Deus Infinito, vem ao meu coração e de­
sabafa: "Acreditas agora em Mim ? Amas-Me de verdade ? "

Fêz jamais algum pretendente metade do que fêz Jesus, para


me dar provas de Seu amor e assim conquistar minha afeição ?
Como todos os namorados, tle dá-me tôda sorte de presentes como
arras de Seu amor. Tudo quanto tenho, de corpo e de alma,
me foi dado pelo Seu amor. Adornou-a de modo admirável com
a graça santificante, investidura realmente divina. Deu-lhe de
acréscimo anéis, colares, braceletes, que são as mumeras graças
atuais, com o intuito de provar-me Seu amor e tomar-me mais
atraente a Seus olhos.

Como todos os namorados, tle acaba por Se fazer presente,


não como está no céu, mas na obscuridade da fé. Está presente
em tôdas as suas criaturas. Se minha fé fôr viva, nela O divi­
sarei, meio a esconder-Se, meio a revelar-Se a mim, pedindo meu
coração. Está presente de modo particular no Tabernáculo. Está
em mim, de modo mais estupendo, pela Comunhão Eucarística.
A fim de tomar posse mais efetiva e mais segura de meu cora­
ção, permanece sempre em mim pela graça santificante. Assim
minha alma se transforma em tabernáculo vivo e perpétuo.

Sim, Deus fêz quanto era possível para granjear todo


o meu amor. "Que poderia fazer por minha vinha, que lhe não
tenha feito ? " (Is 5, 4).
Deus sempre pede meu amor, quer se mostre direta ou indi­
retamente, quer me fale de Seu amor, quer me cubra de Seus
favores, quer me trate com intimidade. Cada criatura representa

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Somos criados para amar a Deus

um modo de solicitar meu coração. Em tôdas as cousas, Deus


me segreda amorosamente: "Dá-me teu coração. Dá-me &se amor
de que vivo sequioso".

QuARTO PONTO: Minha resposta. - Que farei em retribuição


a tôdas as manifestações do amor de Deus ? Posso eu, grão de
poeira, triste mendigo, recusar o amor do magno Rei dos Reis,
que desce até mim e implora meu amor? O que devo fazer é
viver como namorado de Deus, amar s6 � Deus no mundo, amar
a Deus em· tôdas as cousas.

Como poderia eu querer amar alguma cousa em si mesma,


alguma cousa que não seja Deus ? Comparada com Deus, que
reclama todo o meu coração, haverá alguma criatura digna de
um olhar ? Se conheço um pouco meu divino Reqüestador, terei
plena noção de que s6 tle deve ser amado, que s6 tle é amável,
não sendo nenhwn outro digno de amor em si mesmo, mas Uni­
camente na proporção que nêle Se revela Deus, meu Bem-Amado.
Se pela graça de Deus aprendi experimentalmente a tomar
consciência de meu amor essencial para com tle, da paixão oculta
em minha alma, não me será difícil amar a Deus, e s6 a Deus,
apaixonadamente. O ideal a que aspirarei, com todo o ardor, será
o de ver somente a Deus em cada cousa, em tôdas as cousas; de
não desejar senão a tle; de não estimar senão a tle; de não
fazer nada, absolutamente, senão para tle; de sempre me esfor­
çar cada vez mais por ter habitualmente a lembrança da presença
de Deus, que me ama.
Se eu viver, a exemplo de todos os Santos, como enamorado
de Deus, minha vida será então cada vez mais celeste, wna pre­
paração para a vida do céu. Minha vida deve ser um tirocínio
de união cada vez maior com Cristo.

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 21
A Virtude do Amor

Se eu fôr generoso, Deus me ajudará constantemente a pro­


gredir nessa união. Dar-me-á em abundância os dons do Espírito
Santo, êsses admiráveis dons de entendimento e da sabedoria que,
com a fé e a caridade perfeitas, me ajudarão poderosamente a
ver e amar a Deus em tôdas as cousas. Chegarei a ver como Deus
me envolve de todos os lados à semelhança de um oceano de
amor e amabilidade, no qual estou submerso, e esta contemplação
das cousas divinas me inundará a alma de amor e felicidade.

S ANT I D A DE

Que é perfeição ou santidade ?

Santidade quer dizer uma união grande e perfeita com Deus


pela virtude teologal da caridade. Esta perfeição de união é evi­
dentemente relativa, pois que nossa união com Deus, na rea­
lidade, só pode ser perfeita no céu. A caridade, pelo conseguinte,
depende essencialmente da virtude da caridade, e coni ela cresce.
De acôrdo com Santo Tomás, os autores espirituais nela dis­
tinguem três fases.

Há, em primeiro lugar, a caridade dos principiantes, caritas


incipientium, a caridade daqueles que cuidam sobretudo de evitar
o pecado. Corresponde ao que os autores chamam "via pur­
gativa".

Em seguida vem a caridade daqueles que progridem, caritas


proficientium. É a caridade dos que se esmeram por crescer em
virtude e caridade. Sua atenção concentra-se em Cristo, modêlo
de tôdas as virtudes. Porfiam em imitá-Lo o mais perfeitamente
possível. Isto corresponde à "via iluminativa".

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Somos criados para amar a Deus

A terceira fase é a caridade dos perfeitos, caritas perfecto­


rum, a caridade dos que se ocupam totabnente de sua adesão a
Deus, de viver unidos a Deus, de encontrar em Deus sua felici­
dade. Isto corresponde à "via unitiva".
Os que alcançaram esta terceira fase perdem, por assim dizer,
n visão de si mesmos, até de suas virtudes e progresso espiritual.
Seu olhar já não se fixa nêles mesmos, mas em Deus. Sua vontade
coincide perfeitamente com a vontade de Deus, norma de tôda
santidade. A alma perfeita ama a Deus. Deus é seu tesouro, único e
verdadeiro. Ela ama a Deus e Suas divinas perfeições, encontrando
nisso tôda a sua alegria e paz. Para ela se tornam reais as palavras
do Senhor: "Tudo o que tenho, a ti pertence" (Luc. 15, 3 1 ) .
A santidade, naturalmente, comporta muitos graus. "Na casa
de Meu Pai há muitas moradas" (Jo 14, 2), disse Jesus. Esta­
nislau Kostka, por exemplo, atingira eminente santidade aos de­
zoito anos. Portanto, se mais tempo vivesse, essa prodigiosa san­
tidade teria ainda medrado.
O crescer em santidade manifesta-se pelo fato de serem as
paixões e até seus primeiros impulsos dominados e dirigidos com
urna perfeição cada vez maior. O próprio pecado involuntário
torna-se esporádico em abnas de notável santidade. Na abna de
Santos insignes reina geralmente uma paz completa, uma paz
que sobrevém a tôdas as batalhas heróicas e representa uma como
que vitória sôbre o egoísmo e suas manifestações. O grande Santo,
afinal, está tão cabalmente impregnado de Deus, que dêle se
pode dizer com exatidão, que já não vive sua vida, mas é Deus
quem positivamente vive nêle. Poderia repetir com o Apóstolo:
Vivo iam non ego, vivit in me Christus'' (cfr. Gal. 2, 20).
Vimos o que é a santidade. Vejamos agora o que ela não
significa. A santidade não depende, como muitos pensam, de

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A Virtude do Amor

visões, êxtases, arroubos, práticas sobrenaturais, milagres. De fato


pode ela estar talvez inteiramente oculta, oculta a todos, oculta
ao próprio Santo. Assim é de ordinário.
Conforta-nos pensar em que há muitos Santos, grandes San­
tos até, que são ocultos e desconhecidos. Entre êles figura a
maior Santa de nossa época, Teresinha de Lisieux. Suas compa­
nheiras mais chegadas não suspeitavam que fôsse santa. Como
dizia o papa Pio XI, se Teresinha não tivesse escrito sua auto­
biografia, é provável que ninguém teria jamais falado a seu res­
peito.

É preciso tornar-me santo

De certo, só Deus sabe o grau de santidade que :f?.le nos quer


fazer alcançar. No jardim celestial, Deus deseja não só belas rosas
c orquídeas exóticas, mas também humildes violetas e pequenas
margaridas. Tôdas estas flôres contribuem para Sua glória.
O grau de nossa santid�de depende de muitos fatôres. Pri­
meiro, da duração de nossa vida. Quanto mais longa nossa vida,
tanto maior a possibilidade, se formos generosos, de que nossa
santidade atinja o máximo desenvolvimento.
O grau de nossa santidade depende muito também da espécie
de graças que recebemos de Deus. E Deus tem graças especia­
líssimas, graças prodigiosas, que poderíamos chamar caminhos
abreviados para a santidade. Uma cousa, porém, é certa. Deus
quer que cada qual seja santo, grande ou pequeno, não importa,
mas santo de verdade.
Nosso Senhor disse-o claramente: "Sêde perfeitos, como Meu
Pai Celestial é perfeito" (MAT., 5, 48) . Bem entendido, isto

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Somos criados para amar a Deus

quer dizer verdadeira santidade. Nosso Senhor disse igualmente:


"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de tôda a
tua alma, de todo o teu entendimento, e com tôdas as tuas fôr­
ças. �te é o primeiro mandamento". (MARC. 12, 31). Ora,
amar assim é evidente santidade.
Por conseguinte, concitando todos os homens à perfeição, à
santidade, Deus chama de modo especial aquêles cuja ocupação
principal aqui na terra é uma peleja pela santidade, pela salva­
ção e santificação das almas. Se temos a ventura de ser sacer­
dotes ou religiosos, quantos motivos não temos também de ficar
santos !
O sacerdote é ministro, representante de Cristo. Sacerdos
alter Christus. A suposição é que age continuamente em nome
de Cristo, a fim de salvar e resgatar almas para Cristo. O reli­
gioso faz voto de aspirar sempre à perfeição. É sua tarefa e pro­
fissão santificar-se a si e aos outros. Sua habitual disposição de
espírito deve ser como de quem diz: "Se não alcanço a santidade,
ao mais tardar antes da morte, minha vida terá sido uma frustra­
ção, pelo menos em parte".
Esta é uma palana dura, mas verdadeira. Pois, se alguém
não cumpre totalmente os desígnios de Deus a seu respeito, con­
traria parcialmente os planos de Deus. Cumpre convencer-nos
bem desta verdade, pois tal convicção será para nós um poderoso
estímulo, um forte motivo de fervor e generosidade. Ademais,
sacerdote ou religioso, quero certamente salvar muitas almas e
tomar santos meus semelhantes. Ora, poucas almas salvarei, se
eu mesmo não fôr santo. Não pode haver dúvidas a tal respeito,
embora não passe eu de um instrumento nas mãos de Deus, e
na realidade não seja eu, mas Deus quem dá a graça e santifica.
Se fôr um instrumento Seu, fiel e dócil; se O deixo tra­
balhar· e agir por meu intermédio, como �le o deseja; se vivo

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A Virtude do Amor

em estreita uruao com �le e sigo tôdas as suas moções divinas,


Deus realizará por meu intermédio causas admiráveis, e eu farei
grandes colheitas de almas. Pelo contrário, se resisto aos im­
pulsos divinos; se não deixo Deus trabalhar em mim e por mim,
sem Lhe opor nenhum óbice de minha parte, conturbarei o plano
de Deus. O fruto de minha atividade será muito parco, não
obstante grandes esforços, grande habilidade, talvez mesmo grande
eficiência aparente.

É preciso que eu tenha vzvo desejo e firme


esperança de santidade
Se eu fôr generoso, o ardente desejo de ficar santo algum
dia estará subjacente a tôdas as minhas atividades, e constituirá
para mim objeto de constante preocupação. Será, pelo lado
prático e c;oncreto, meu único desejo, ou antes a sorna de todos
os meus desejos. Urna alma generosa não poderia sentir-se feliz,
se não desejasse e esperasse, firmemente, alcançar um dia a per­
feição. Muitas vêzes sentiria aquela recriminação íntima: "Ber­
nardo, Bernardo, a que vieste, e por que renunciaste ao
mundo ?(2).
No cornêço da vida espiritual, muitos estão possuídos de
verdadeiro desejo de ficar santos. Mas, pouco e pouco, tal de­
sejo arrefece, e êles se conformam com a mediocridade. "A san­
tidade, dizem, não é comigo. Não dou para ser santo". Ou en­
tão: "Não tenho as graças especiais, necessárias para a santidade.
Não faço parte do grupo seleto que Deus destinou à santidade".
Por fim ainda: "Errei meu caminho, é muito tarde para voltar
atrás".
(Z) Cfr. WATIUN WILLIAMB. St. Bernard of Clairvauz, Newman, Press,.
Westmlnster.

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Somos criados para amar a Deus

Pode haver muitas causas que determinem tal mudança de


disposições. Talvez não durasse o fervor dos primeiros anos, por­
que ao contacto com o mundo a alma foi absorvida por cousas
materiais. Muito ardor nas atividades fêz-lhe perder o genuíno espí­
rito interior. O bom êxito na vida revela-se também como um
perigo, e sob a capa de zêlo prendeu-se a ahna a cousas fúteis e
mesquinhas. Pode ser também que a alma, em certos momentos,
faltasse com a generosidade para fazer os sacrifícios que Deus lhe
demandava. Faltas veniais seguiam-se umas às outras. A esperança
e a coragem diminuíram.
Outra causa provém, muitas vêzes, do recesso de tôda conso­
lação. Após as alegrias sensíveis, pelas quais Deus desafeiçoou a
alma das cousas exteriores, deviam vir necessàriamente épocas di­
fíceis de aridez e aflição para desprender a alma de si mesma, isto
é, da doçura das alegrias espirituais. Inicialmente, quando havia
consolações, a virtude parecia fácil de praticar, e a santidade fi­
cava ao alcance da mão em certas ocasiões. Tínhamos a impres­
são de que, em breve, seríamos santos de pequeno formato. Mas,
sobrevindo a aridez, a santidade parecia recuar cada vez mais longe,
e a decepção não tardou em mutilar nossa coragem e esperança.
Pensávamos conosco: "Alcançarei algum dia a santidade ? Estará
realmente ao meu alcance ?"
Neste argumento vai um êrro mais remoto. Não levamos
bastante em conta que a santidade é obra de uma vida inteira, e
que de ordinário essa tarefa demora muitos anos. Se tal foi talvez
nosso êrro, corrijamo-lo. Não nos admiremos de não ser ainda
santos, depois de havermos passado tantos anos em generoso ser­
viço a Deus.
De mais a mais, para nós é realmente muito difícil saber a
quantas. andamos no caminho da perfeição, e a que grau estamos

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A Virtude do Amor

na escala da santidade. Deus trabalha em nossa alma por vias


secretas e misteriosas. Oculta por vêzes sua atividade, a fim de
atalhar nossa presunção, defeito que �le detesta acima de tôdas
as causas. Mesmo entre os grandes Santos, poucos houve que
tivessem conhecimento de sua própria santidade.
Conservemos pois sempre vivo o desejo de santidade. Espe­
remos firmemente alcançar um dia a perfeição, não como resul­
tante de nossos esforços e virtudes, nem mesmo de nossa gene­
rosidade, mas por obra do amor misericordioso de Deus. Mas,
como e quando ? Do modo e no tempo que Deus quiser. Dei­
xemos modo e hora à Sua determinação. Deus sabe, melhor do
que todos nós, quais graças nos são necessárias para ficar santos,
e deseja dar-nos essas graças, em maior abundância do que nós
mesmos contamos recebê-las.
Santa Teresinha dizia certa ocasião: "Ainda que tôdas as
nossas boas resoluções não chegassem a nenhum resultado posi­
tivo, mesmo que não pudésseis colher um fruto sequer da árvore
de vossa vida espiritual, não renuncieis à esperança. Para Deus,
o tempo não conta. me pode fazer-nos santos em breve mo­
mento, até sôbre o leito de morte. Devemos, pois, nutrir grandes
aspirações. Ditoso o homem que tem grandes desejos. Devemos
alimentar grande esperança, a despeito de nossas fraquezas e cons­
tantes defeitos. As vêzes, conseguimos de Deus tudo o que
esperamos, até um milagre. Esperemos realmente receber Dêle
um dia êsse dom admirável, êsse milagre da perfeição já atingida:
a santidade" ( 3).

(8) Cfr. P. DE JAEGBER, Oonfia.nce, Paris, Desclée de Brouwer: cap. XV-XIX.

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11

N az aré, escola d e amor e sant id ad e

Almas interiores gostam de meditar sôbre Nazaré, de


contemplar com amor e em silêncio a vida comum e simples da
Sagrada Família. Meditemos hoje algumas dessas sublimes lições
que a Sagrada Família nos ensina em Nazaré.

Primeiro prelúdio: Figurai-vos a pequena oficina, onde José e


Jesus passaram quase a vida inteira. José à direita, Jesus no
meio, a Santa Virgem à esquerda, ocupada com a roca de
fiar. Jesus tem seus vinte e quatro anos.
Segundo prelúdio: Pedi a graça de compreender plenamente a
dupla lição de amor e santidade, apresentada pela vida em
Nazaré, tão importante para nossa vida espiritual.

PRIMEIRO PONTO: Lição de puro amor. - Vemos São José


carpintejar uma porta que lhe fôra encomendada. A moda de
todos os carpinteiros no Oriente, segundo uma velha praxe de
dois mil anos, êle estava agachado no chão, com uma peça de
madeira entre os pés. Jesus serrava as tábuas necessárias. É agora
um jovem robusto, que gosta de tomar para si a parte mais rude
da tarefa, deixando a São José as obrigações mais leves e menos
penosas. O que fazem são cousas muito simples. Correspo�dem

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A Virtude do Amor

às singelas necessidades do povo na aldeia: armações de telhados


para as casas, arcas de guardar roupas e outras boas utilidades de
família, tijelas para leite, banquinhos, portas, cangas para bois, e
outros objetos congêneres. Maria fia lã para tecer as roupas ne­
cessárias da família.
Trabalham em silêncio. Reina na casa uma atmosfera de paz,
um espírito de recolhimento. No íntimo, conversam com Deus.
"Nossa conversação é no céu" (cfr. Filip. 3, 20). De vez em
quando, Maria e José lançam um olhar de amor a seu querido
Jesus. Como O amam! Como são felizes por trabalhar em Sua
presença!
Meditemos longamente esta cena. Vejamo-los a trabalhar de
fato. Deixemo-nos empolgar pela modéstia de sua ocupação.
Tal é com efeito a vida de Jesus, Maria e José, os três sêres mais
amados de Deus. Esta não é sua vida de um só dia, mas de dias
a fio, de mês a mês, de ano para ano. É tôda a vida de José, e a
de Jesus também, exceto os três breves anos de Seu ministério
público.
Quão pouco interessante parecia a vida dêles, quão monó­
tono seu trabalho ! Todos os dias, as mesmas ocupações triviais.
Pobres e ignorantes não imaginam nada melhor do que a vida
a que se habituaram. Maria e José não podem, contudo, ser
Igualados a :ele. Jesus, na verdade, conhece tôdas as cousas.
Para :ele não há nenhum segrêdo no Universo inteiro. Tôdas as
nossas invenções modernas foram por :ele previstas. Não Lhe
seria mais interessante empreitar algum trabalho mais complexo
de marcenaria, por exemplo, de talha para o templo: ou também,
como os rabinos, ocupar-Se somente com trabalho intelectual ?
Por que não estudaria em alguma escola famosa, e não Se absor­
'Veria em pesquisas científicas ?

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Nazaré, escola de amor e santidade

Tais idéias não ocorrem a Jesus, Maria e José. Para êles


tudo é igualmente interessante e agradável, pois tudo é a von­
tade do Pai. Por outra, os têrmos "interessante" e "agradável"
não se encontram em seu vocabulário, porquanto êles não consi­
deram o lado natural e material das cousas. Tudo é disposto
por Deus. Para êles, por conseguinte, tudo é belo, nobre, e di­
vino. Por que haveriam de ocupar-se com o aspecto material das
cousas, de inquietar-se que tal ou tal trabalho lhes seja agra­
dável ? Para êles não existe êsse modo de encarar as cousas. Não
conhecem, nem querem outra cousa senão aquilo que realiza a
vontade divina e os mantém unidos a Deus. Pesam e apreciam
tôdas as cousas pela sua capacidade de agradarem a Deus. O que
agrada a Deus torna-se bom e precioso a seus olhos. Como tudo,
em sua vida, foi ordenado pela amorosa sabedoria de Deus, tôda
situação é boa para êles, cada pormenor lhes agrada perfeita­
mente.
Ora, qual é o segrêdo de uma vida assim ? Que elemento a
toma possível, e leva os membros da Sagrada Família a encon­
trar nela grande paz e felicidade ? É s�u amor imenso e suma­
mente puro a Deus, amor só a Deus, unicamente visto e amado
em tôdas as cousas.
É seu amor perfeito e desinteressado. Seu coração está pro­
fundamente enamorado de Deus. Ora, quando alguém está ena­
morado, .não vê nem quer outra cousa senão agradar, em tudo,
ao objeto de seu amor. Assim é que êles vêem e amam só a
Deus, sem se lembrarem sequer de si mesmos.
Entretanto, a última razão para explicar a vida que Maria e
José levam, é a seguinte. �les já não vivem, Deus é quem vive
nêles. "Vivo, mas não sou eu que vivo" (cfr. Gal. 2, 20). Aban­
donaram-se a Deus, que vive nêles. Não passam de brinquedos

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A Virtude do Amor

de Deus. O "eu" extinguiu-se nêles. Já não desejam viver em si


e para si mesmos, nem para sua satisfação pessoal. Seu mais ar­
dente desejo é deixar que Deus viva nêles. De fato, Deus vive
nêles, plena e perfeitamente, sem o menor obstáculo por parte
dêles. Em cada circunstância de sua vida, é Deus quem Se serve
dêles para Seu prazer e alegria, para execução de Seu plano
divino. E êles vivem urna vida de perfeita união com Deus.
Que grande necessidade tenho eu da lição do amor perfeito,
ensinada pela Sagrada Fanúlia ! Preciso meditar, amiúde, sôbre
esta verdade. Sem embargo, considero tantas vêzes o lado na­
tural e material das cousas, estimando exageradamente os fatôres
agradáveis à natureza, almejando cousas boas para os sentidos,
lisonjeiras ao meu orgulho e vaidade. Quantas vêzes não recuo
diante de urna ação, tarefa, situação que me desagrada ! Meu
egoísmo conserva-se muito ativo em mim. Longe estou de con­
siderar como queridas por Deus, divinas, perfeitamente amáveis,
e melhores para mim, as inúmeras pequenas cousas que entrela­
çam minha vida ao amor misericordioso de Deus; longe estou
de amá-las, de recebê-la s de bom grado, quer sejam agradáveis,
.
quer não o sejam.
Para melhorar a situação, ser-me-á necessário tomar, de vez
em quando, a pureza de intenção corno objeto de meu exame
particular; inculcar-me a mim mesmo que faça tudo não para
agradar à minha pessoa, mas Unicamente a Deus. De vez em
quando, ser-me-á necessário oferecer-me a Deus, como o faziam
Maria e José, instar-Lhe torne posse cada vez mais completa de
todo o meu ser, a fim de que a cada instante eu morra sempre
mais para mim, e que em mim viva Deus tão somente.

SEGUNDO PONTO: Lições de santidade. - Atender somente


ao que mais agrada a Deus, e, por conseguinte, fazer tudo por

•3 2
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Nazaré, escola de amor e santidade

mnor, sem outra intenção senão a de agradar-Lhe, isto é santidade.


Não hemos mister de perguntar-nos qual trabalho desempenha­
mos, e qual poderia ser o aspeto material dessa ocupação.
A Sagrada Família ainda nos oferece outra lição, talvez mais
importante, em particular para almas fervorosas que querem fazer
grandes cousas em honra de Deus, e levar outras almas até !le.
Que fazem José, Maria, e Jesus ? Deus queria, evidentemente,
que nos dessem exemplos de sublime santidade, e dispôs-lhes tôda
a vida nessa intenção. Pelo conseguinte, nenhum dos três fazia
algo de extraordinário em Nazaré. Todo santo que era, José
trabalhou a vida inteira corno simples carpinteiro. Em trinta anos
sôbre trinta e três, Jesus nada fêz que atraísse a atenção para Si.
Vinte e quatro anos, aproximadamente, foram consagrados ao tra­
balho manual. Não ouvimos falar de mortificações extraordiná­
rias, de instrumentos de .penitência, de longos jejuns, de dias e
noites passados no deserto, entre orações e êxtases. Não perce­
bemos nenhuma dessas inúmeras cousas que grandes Santos fize­
rnm para testemunhar o próprio fervor e ardente amor.
A vida de São João Batista foi tôda diferente. Desde a
primeira juventude, retirou-se ao deserto onde viveu em com­
pleta solidão. Servia-lhe de alimento um pouco de mel, gafanho­
tos e raízes silvestres. Que muito afluissem a êle as multidões,
corno quem vai a um grande Santo ?
Do ponto de vista do apostolado, Jesus parecia jndife­
rente às necessidades do mundo. Seu apostolado durou apenas
três anos, ao passo que !le vivera trinta anos em Nazaré, trinta
anos aparentemente inúteis para a salvação da Humanidade. Onde
ficava Seu zêlo ? Embora não começasse mais cedo na vida
pública, não podia, pelo menos, preparar o espírito do povo para
Sua missão futura ? Realmente, isto é de estranhar. De certo,

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A Virtude do Amor

se estivéssemos em Seu lugar, teríamos procedido de outra


maneira.
Por que escolheu Deus para a Sagrada Família uma vida tão
vulgar, aparentemente inútil ? Foi para ensinar a todos os ho­
mens uma lição de suma importância. A santidade, até a mais
elevada, a todos é possível, quaisquer que sejam as circunstâncias
em que a Providência nos tenha colocado. O estado de vida de
Jesus, Maria e José é o da maioria dos homens, a condição de
trabalhadores manuais. Todos os homens podem, como Jesus,
praticar a verdadeira santidade em sua vivência comum e ordi­
nária.
O aspeto exterior e o lado material da vida não têm nenhuma
importância para a santidade. Tanto faz executarmos um traba­
lho importante ou uma tarefa qualquer, muito humilde. Não
importa, tampouco, que nosso modo de vida nos repugne ou
agrade; que seja repleto de duras provações e sofrimentos; que
nosso trabalho em prol das almas pareça frutuoso, ou não.
Muitos Santos passaram a vida em grandes austeridades. Ou­
tros, desdobraram, ao estremo, sua energia e coragem em obras
de zêlo e caridade. Muitos sofreram provações de tôda espécie.
Sem embargo, êstes grandes Santos, com tôda a sua vida admirá­
vel, ficavam longe da elevada santidade da Sagrada Família. Sem
nada fazerem de notável, cumprindo simplesmente as tarefas sim­
ples e ordinárias, que correspondiam às suas inclinações, vivendo
em bonança e felicidade, Jesus, Maria e José amavam a Deus,
muito mais do que todos os Santos. Por conseguinte, agradavam
mais a Deus, e eram também muito mais santos.
Logo, a santidade não depende de nosso gênero de vida, nem
da natureza das ações que praticamos, mas da maneira pela qual
as praticamos, de nossas disposições interiores, de nosso amor.

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Nazaré, escola de amor e santidade

O amor de nosso coração é o que faz a santidade. Uma ação


ordinária, muito simples, até agradável à natureza, quando feita
com amor muito intenso e muito puro a fim de agradar a
Deus, será para �le mais santa e mais aceitável do que grandes
mortificações, sofrimentos suportados com amor menor e me­
nos puro.
Deus enviou, em nossa época, Teresinha de Lisieux para en­
sinar ao mundo inteiro a grande lição de Nazaré. Pelo seu exem­
plo e sua vida, qual narra na autobiografia, ela mostrou-nos que,
para ficar santo, não se exigem cousas grandes e extraordinárias.
Uma única condição é indispensável: esquecer-se de si, cumprir
tôdas as ações por amor, com o fito de agradar a Jesus e com­
prazer-Lhe.
Nas circunstâncias simples e comuns da vida em que Deus
os colocou, homens e mulheres, em geral, podem e devem aspirar
à santidade. A mensagem de Teresinha, difundida em tôdas as
partes do mundo, encorajou efetivamente uma legião de almas
pequeninas em seu anelo de perfeição, e conduziu-as à verda­
deira santidade.

E S PíRITO DE FÉ

No Batismo, recebemos a virtude da fé. Com os anos, esta


virtude foi crescendo dentro de nós. Apesar disso, não perce­
bemos o espírito de fé. Isto quer dizer que, nas peripécias da
vida, não somos levados pelas magnas verdades da fé. Deviam
estas brilhar· sempre diante de nossos olhos.

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A Virtude do Amor

Que é espírito de fé ?

Por espírito de fé entendemos uma fé viva, forte, prática,


influente em tôda a nossa vida, que nos faça viver na presença
de Deus e na consciência prática das admiráveis realidades da
vida espiritual, que são a graça, a habitação de Deus em nós,
nossa união com Cristo e Seu Corpo Místico, a comunhão dos
Santos, e outros favores divinos.
Comprenderemos melhor o espírito de fé, se nos detivermos
um pouco em considerar o que é o espírito natural, seu forte
adversário. Nosso "eu", nosso espírito natural, está impregnado
de materialismo, e tende ao pelagianismo. �ste nos faz ignorar
ou subestimar a influência e necessidade da graça.
Isto nos defonna a visão das cousas. Encarece as vantagens,
os prazeres, a importância das cousas materiais e tangíveis que
estamos gozando, enquanto as cousas espirituais, que não são visí­
veis, nem tangíveis, nem essenciais para o futuro, parecem muito
vagas e nebulosas, num ho�izonte longínquo, envolto em cerra­
ção. Nossa perspectiva fica inteiramente alterada.
Poderíamos comparar êsse espírito ao microscópio, sob o
qual objetos extremamente minúsculos se tornam visíveis e pa­
recem enonnes. Entanto, objetos realmente grandes não podem
ser vistos, por ficarem fora de alcance. De modo análogo, o
espírito natural exagera as cousas reles da vida, e não nos deixa
perceber cousas de fato importantes.
O espírito de fé repõe a verdade no devido lugar. Mostra­
nos as cousas como elas são, em verdadeiro foco e perspectiva,
realmente quais Deus as vê e aprecia. Faz com que as realidades
espirituais, fatôres de.cisivos para nossa alma, apareçam em sua

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Nazaré, escola de amor e santidade

real importância; que as cousas visíveis e transitórias apareçam


insignificantes, como o são na realidade, e boas tão somente,
quando servem de meios para a consecução de um objetivo. E
boas não são elas, senão na medida que nos podem servir para
n conquista do céu. Nenhum valor possuem por si mesmas. A
seu respeito podemos dizer com São Paulo: "Sofri perda de tô­
das as cousas, e tenho-as como rebotalho, para lucrar a Cristo"
(Filip. 3, 8 ) .

Efeitos do espírito de fé

Acabamos de afirmá-lo, o espírito de fé mostra-nos as cou­


sas, quais o próprio Deus as vê e aprecia. Isto quer dizer que o
espírito de fé nos faz compreender, em plenitude sempre maior,
as grandes verdades da vida espiritual; faz-nos apalpá-las; im­
pregna-nos delas tão profundamente, que nos ocorrem natural­
mente à lembrança, quando nos são necessárias, e por elas pauta­
mos nossa vida. Estas verdades que de outro modo se conser­
variam teóricas, estéreis, sem nenhuma ação sôbre nosso proceder,
tornam-se assim uma realidade para nós, e atuam sôbre tôda a
nossa vida.
Uma comparação nos ajudará a compreendê-lo melhor. Du­
rante a noite, o mundo ambiente parece sombrio, anuviado, sem
côres. Mal divisamos as cousas que nos cercam. Estamos como que
num reino de sombras. Mas, tanto que o sol se erga no hori­
zonte, tudo se transforma. Seus raios tocam as. cousas com uma
varinha de condão. Formosa aparece a natureza em variegados
matizes. A paisagem que, nas horas de escuro, nenhuma impres­
são nos fazia, agora nos atrai e alegra com seu encanto.

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A Virtude do Amor

O mesmo acontece na vida espiritual. Se a luz de nossa fé


estiver fraca, as admiráveis realidades da vida espiritual não nos
empolgam. As cousas espirituais parecem sem luz, empanadas,
pouco atraentes. Não nos comovem, e muito menos nos alegram.
Mas, quando o espírito de fé, como o sol, nos ilumina a alma,
tudo se transforma. As cousas espirituais atraem-nos e empol­
gam-nos, ateiam em nosso coração o fogo do amor divino.
Sirvam alguns exemplos de ilustração. Diz-nos a fé que Deus
é a causa primeira e real de tudo quanto acontece no mundo, de
tudo quanto ocorre em nossa vida, cujas mínimas circunstâncias
são urdidas, queridas e permitidas pela Sua amorosa sabedoria.
No entanto, não poucos cristãos, mais influídos pelo espírito
natural do que pelo espírito de fé, conturbam-se até com as mí­
nimas provações. Enxergam somente as causas secundárias, não
pensam sequer em Deus, que tudo dispõe com amor infinito.
Mas, se nossa fé fôr robusta, a grande verdade de que Deus
é a causa primeira de tôdas as cousas, iluminará nossa vida.
Mesmo na aridez e desconsôlo espiritual, perceberemos, através
do véu das causas secundá�ias, a amantíssima vontade de Deus,
que procura nosso bem em tôdas as cousas. Assalte-nos qualquer
dificuldade ou sofrimento, não perderemos nosso bom humor nem
a paz da alma.
Outro tanto podemos afirmar a respeito de outra grande
verdade, expressa nas famosas palavras do eminente Apóstolo:
"Para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem" (Rom.
8, 28). Tôdas as cousas: São Paulo não exclui nada, nem mesmo
cousas que, à primeira vista, parecem prejudicar-nos necessària­
mente a alma, como sejam nossos defeitos, mau êxito no apos­
tolado, nossas frustrações, nossos pecados. Tôdas as cousas po­
dem, nas mãos de Deus, contribuir para nosso bem, para nosso

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Nazaré, escola de amor e santidade

progresso na vida espiritual. Se à luz de uma profunda fé com­


preendermos plenamente esta preciosa e benéfica verdade, con­
servaremos a coragem e confiança em Deus, quaisquer que sejam
as provações e tribulações, enviadas pela amorosa sabedoria de
Deus, para nossa santificação.
Complemento desta verdade é que os caminhos de Deus nem
sempre são nossos caminhos. Corno o céu se eleva acima da
terra, assim a Providência de Deus ultrapassa nossa percepção
humana. Se nossa fé fôr bastante viva, teremos grande proveito
em recordar muitas vêzes estas palavras. Aplicá-las-ernos não so­
mente à nossa vida, mas também ao nosso modo de encarar os
acontecimentos do mundo. De fato, os caminhos de Deus não
são nossos caminhos, e por isso mesmo são muitas vêzes miste­
riosos.
Em nossos dias, sobretudo, se requer grande espírito de fé,
para não ficarmos abalados com os terríveis acontecimentos, que
tanta aflição causam entre os homens. As perseguições e os so­
frimentos, preditos por Nosso Senhor a Seus Discípulos, talvez
nunca fôssern tão pavorosos corno na época atual. A fé lem­
bra-nos, entretanto, que os caminhos de Deus não são nossos
caminhos. Tranqüiliza-nos, chamando à nossa memória as pa­
lavras de Jesus. "As portas do inferno não prevalecerão" (MAT.
16, 18). Afinal de contas, Satanás não sairá vencedor.
Realmente, para nós aqui na terra, os caminhos de Deus são
misteriosos. Sabemos, e nunca o deveríamos esquecer, que no céu
os Anjos e Santos estão cheios de admiração, por verem a reali­
zação do maravilhoso plano de Deus. Para êles, a História do
rnund� apresenta-se-lhes como maviosa sinfonia. Corno a nossa,
tôda a . sua eternidade constará em admirar e louvar amorosa-

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A Virtude do Amor

mente as perfeições de Deus, Sua sabedoria e justiça, Seu amor


e infinita misericórdia.
Devemos, pois, pensar na paternidade de Deus, que é tam­
bém nosso Pai. Sob êste título, todos os dias Lhe fazemos nossas
súplicas. Mas, quantos cristãos não compreendem o que isto
significa na realidade ! Deus é nosso Pai, Pai incomparável, que
nos dá vida sem cessar, desde o nascimento até a morte. O amor
dos pais e mães mais ternos e amorosos não passa de uma gôta
no oceano do infinito amor de Deus.
O Deus que fêz o sol, a lua, as estrêlas, todo êste Universo,
é real e plenamente meu Pai amantíssimo. Eu sou filho do grande
Rei dos Reis (cfr. Apoc. 19, 1 6) . Se nossa fé nos compenetrar
desta grande verdade, tanto mais não procederemos como filhos
amorosos de Deus, cheios de confiança Nêle ? Não desdenha­
remos as cousas mesquinhas dêste mundo, e não diremos com
o� Santos: "Fui criado para cousas mais elevadas" ?
Podemo�, enfim, considerar a Deus em Sua infinita formo­
sura e amabilidade. Quão raro pensamos na beleza de Deus !
É tão grande, que não poqeríamos vê-la aqui na terra, sem mor­
rermos de amor. Nossa alma ficaria tão inebriada de amor, que
romperia os laços de nosso corpo mortal, para se precipitar no
seio da infinita Amabilidade.
Muitos Santos tiveram uma fraca noção da divina formosura,
da divina amabilidade. Era quanto bastava para os fazer cair em
êxtase. Vendo um pálido reflexo das perfeições divinas, pare­
cia-lhes que todo o Universo se evaporava diante dêles. Se mais
viva fôra minha fé, não me lembraria mais vêzes desta verdade,
para acender em meu coração o fogo do amor divino ?

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Nazaré, escola de amor e santidade

Importância do espírito de fé

Pelo que acabamos de ponderar, evidencia-se a absoluta ne­


cessidade do espírito de fé para nossa vida espiritual, como o
ar, em relação com nossa vida física. Sem ar não podemos viver.
Se o ar que respiramos fôr viciado ou rarefeito, perecemos. Da
mesma forma, sem espírito de fé, a vida de nossa alma só pode
ser fraca e vacilante. Somos como que tuberculosos na vida
espiritual.
O espírito de fé dá-nos plena alegria de viver. Isto é uma
realidade para todos os cristãos, mais acentuadamente para sacer­
dotes e religiosos. Se a fé fôr defeituosa, os cristãos não podem
ser felizes, e vivem como peixes fora de água. Pouco sentido
têm, para êles, tôdas as sublimes realidades, que constituem a
base de sua vida, dessa vida vivida em nome de Cristo.
Sacerdotes e religiosos que se sentem animados pelo espírito
de fé, são necessàriamente felizes. Estão sempre conscientes de
que vivem para Cristo; que prolongam, por assim dizer, a vida
de Cristo. Como Jesus, e por Jesus, salvam almas, muitas almas,
ainda que aparentemente sejam mal sucedidos. Como, então,
deixariam de ser felizes, sabendo que salvar uma única alma é
uma gr�ndeza que compensa longe o sacrifício da própria vida ?
E êles estão certos de salvar muitas almas. Ao peso das difi­
culdades e sacrifícios inerentes ao apostolado, sempre poderão
dizer com São Paulo: "Não têm proporção com a glória vin­
doura, os sofrimentos do tempo presente" (Rom. 8, 1 8 ) .
D e mais a mais, o espírito de f é o s faz levar uma vida de
pronunciada intinúdade, de estreita união com Cristo. Por esta
razão, Cristo não é para êles, como para tantos cristãos, uma

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A Virtude do Amor

idéia abstrata sem vibração na alma. Pela fé, Cristo que é invi­
sível aos olhos humanos, torna-se-nos mais visível e mais che­
gado. Revela-nos a fé Suas admiráveis perfeições, apresenta-O
aos olhos de nossa alma corno digno de todo o nosso amor.
Corno então não seríamos felizes?

Meu espírito de fé
Vivo eu habitualmente pelo espírito de fé, ou deixo-me le­
var por minhas impressões naturais, meus sentimentos e impulsos,
minha razão natural e seus cálculos? Aceito, pela luz da fé, to­
dos os acontecimentos, lembrando-me bastas vêzes que Deus é a
causa primeira de tôdas as cousas, e que cada cousa :ftle a quer
ou permite, para meu bem? Vivo realmente corno filho de Deus,
Senhor do Universo? Tenho plena noção de minha grande digni­
dade? Nutro plena confiança em meu Pai Celestial? Posso
afirmar que, apesar de todos os meus defeitos, tenho urna alma
dada à espiritualidade, e sinto gôsto pelas cousas elevadas e in­
teriores?
Emprego os meios naturais e necessários para aumentar meu
espírito de fé? Para tanto, minha meditação cotidiana é certa­
mente um dos melhores meios ao meu dispor.
Preciso, também, pedir muitas vêzes ao Espírito Santo faça
crescer em mim Seus - dons preciosos, Seus dons de sabedoria,
entendimento, ciência, piedade, que acima de tudo mais aper­
feiçoam a virtude da fé, e ajudaram os Santos a praticar atos
heróicos, que tanto admiramos na vida dêles.

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Mad alena, heroína do amor


Primeiro prelúdio: Imaginai o recinto na casa de Simão Fariseu,
urna sala de banquete ricamente guarnecida, que dá para o
pátio ou jardim.

Segundo prelúdio: Pedi um conhecimento íntimo de Jesus, a fim


de amá-Lo com mais ardor, segui-Lo mais de perto, ainda
que seja até ao pé da Cruz, até ao amor da humilhação e
sofrimento. Implorai a Nosso Senhor arrebate vosso cora­
ção pela Sua bondade e amabilidade, pelo Seu amor mise­
cordioso, assim corno arrebatou o coração de Maria Mada­
lena, a fim de que também vós sejais elevados à santidade.

PRIMEIRO PONTO: A cena. - Não sabemos, ao certo, se


Maria Madalena era natural de Nairn, Cafarnaum, ou Mágdala,
cidade notória pela sua deprav�Ção. É provável que fôsse Mág­
dala o lugar, onde ela morava e levava urna vida de esd.ndalo.
Foi em Mágdala que um fariseu, por nome Simão, havia con­
vidado Jesus, não por amizade, mas provàvelrnente por curiosi­
dade, visto que não podia esquivar-se ao costume de oferecer
hospedagem ao rabino ou doutor que viera instruir o povo da
cidade.
Em Seu zêlo ardente pelas almas e Sua bondade para com
todos, Jesus aceita o convite. De mais a mais, sabe de antemão

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A Virtude do Amor

o que va1 acontecer. Seu coração já transborda de alegria.


Simão, em seu orgulho farisaico, acolhe Jesus com frieza. Se­
gundo a praxe, antes de entrar na casa, o hóspede tira o calçado,
e deixa-o ao lado de fora. O chefe de família deseja a paz ao
hóspede, e abraça-o. Adeantam-se os criados para lavar os
pés do hóspede, e ungir-lhe os cabelos e a barba com óleo aro­
mático. Antes da refeição, trazem-lhe água para lavar as mãos.
Simão descorara a maior parte das cerimônias.
Os convidados, entre os quais há outros fariseus, estão agora
sentados à mesa. De acôrdo com a tradição oriental, as portas
da sala de banquete estão abertas, e para alí afluíram muitos
cunosos.
Como os demais convidados, Jesus está reclinado sôbre um
luxuoso divã, e apóia-Se no braço esquerdo. A conversa arrasta­
va-se no comêço, porque o Fariseu não tem modos simpáticos.
Jesus, porém, fala com facilidade, amàvelmente, e narra talvez
alguma parábola. Os fariseus não demoram com suas perguntas,
e empenham-se em "d iscussões.
Ora, entre os presentes havia uma mulher de aparência no­
tável. Revestida de bela túnica bordada, coberta com uma capa
recamada de flôres de ouro, traz ela um véu comprido, sob o
qual rutilam gemas preciosas, que lhe adereçam os cabelos. A
entrada da mulher causou sensação. Os presentes manifestam
seu espanto, quando lhe abrem passagem. É Maria Madalena,
apontada na cidade por causa de sua vida infame. Dotada de pe­
regrina beleza, e de não menos consideráveis qualidades_ de alma,
a pobre mulher foi levada à perdição pela vivacidade de seu
espírito, pela sua índole afetuosa, pelos seus atrativos naturais.
Um êrro da mocidade a tinha privado dêsse halo protetor,
que se chama honra. Ela manchou-se, como o lírio que se bor-

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Madalena, heroína do amor

rifa de lôdo. Como a família e os amigos a renegassem, perdeu


tôda a coragem e entregou-se à vida devassa. Conhecem-na, agora,
como pecadora pública.
Ora, algum tempo antes, havia Jesus passado por lá, e ti­
nha-a livrado de sete demônios que a vexavam. A ela, como a
tantos outros, dissera: "Vai, e não tomes a pecar" (Jo. 8, 1 1 ) .
Caindo e m si, a pobre mulher começou a refletir, a perceber
como no coração se erguia uma profunda gratidão pelo profeta,
que a curara. Para o escutar, voltava sempre de novo. De per­
meio com a ardorosa multidão, ouvira a voz benévola e atraente de
Jesus, Suas afetuosas palavras de compaixão para com os peca­
dores. Fitara longamente o maravilhoso orador. Tôda a perso­
nalidade de Jesus lhe causava forte impressão: Sua fisionomia
celestial, Sua tranqüila modéstia, Sua bondade e amabilidade, Sua
incomparável doutrina. Sentia-se cativada. Quanto mais ia vê-Lo
e escutá-Lo, tanto mais O admirava.
Comparados a Jesus, como agora se lhe afiguravam despre­
zíveis os inúmeros amantes, aos quais concedera corpo e co­
ração ! Sentia, por êles, um desprêzo que lhe calava fundo na
alma. Mais entranhado, ainda, era o· desprêzo que tinha a si
mesma. Ah ! que abismo, infelizmente', não a separava do pro­
feta ! �le tinha uma expressão tão pura e santa. Ela, porém,
chafurdara no pecado e na devassidão. Como poderia ela, cria­
tura decaída, sentir atração por êsse homem, cousa parecida com
afeição ? Entretanto, em seu coração havia êsses dois sentimen­
tos. Avolumava-se nela verdadeira afeição, a que não podia
resistir.
Mas, quem era êsse homem ? Era simples homem ? A viva
luz da graça, que iluminava a alma de Madalena, fazia-O parecer
cada vez mais atraente e por assim dizer divino. Talvez fôsse o

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A Virtude do Amor

Messias. Sim, devia ser o Messias, o Redentor de Israel: mais


ainda, o Filho de Deus. Agora, a verdade fulgia claramente a
seus olhos. Sim, certamente era o Messias. A inefável doçura
que, a êste pensamento, lhe inundava a alma, era prova suficiente.
Madalena nunca sentira algo de semelhante.
Messias ! Filho de Deus ! Fôra a !le, ainda mal, que ela
ofendeu com vergonhosos pecados. Profunda dor a sacudia.
Madalena tinha-O afligido, a êsse admirável Jesus, que nªo Se
parecia com nenhuma outra pessoa. Os olhos arrasavam-se de
lágrimas. Com o coração :partido, ela deixara Seus sermões.
O!> dias anteriores, tinha-os passado na compunção e no amor,
sempre com a imagem de Jesus diante dos olhos. Sonhava com
!le, pensava Nêle, e indagava a si mesma como poderia reparar as
próprias faltas. Ouvira falar do jantar em casa de Simão. Ocor­
reu-lhe, como um relâmpago, a idéia de fazer um ato de repa­
ração pública. Cairia aos pés de Jesus, e pedir-lhe-ia perdão.
Começou, então, uma luta tremenda. Que degradação sen­
tir-se alvo de humilhantes olhares dos conhecidos ! Oh ! nunca
poderia ela suportá-lo. A graça, porém, arrastava-a imperiosa­
mente. Recusar tal sacrifício seria entravar êsse doce e temo
amor que começava a invadir-lhe a alma. Ao amor, ela cedeu.
Generosa e intrépida decidiu chegar até a casa de Simão.
Cingida, agora, de flôres olorosas, ela está no festim entre
os expectadores. Traz consigo um vaso de preciosos perfumes.
Outrora, usava muitas vêzes tais perfumes para atrair os homens
a seus prazeres pecaminosos. Agora, empregá-los-á para Deus.
Põe-se à espreita. A estranha atração de Jesus subjuga-lhe a
alma mais do que nunca. Mas, chegado é o momento de acer­
car-se do Mestre. Pejo e temor fazem-na estremecer. Todo o
seu ser se revolta contra tal emprêsa, contra essa loucura que

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Madalena, heroína do amor

ela se propõe de cometer. Sem embargo, ela o fará. É preciso


que o faça. Calcará aos pés sua natureza aviltada, arrastará para
sempre sua personalidade de pecadora aos pés de Jesus. Surda
e cega a tôdas as objeções do orgulho e do mêdo, lança-se
inflexível por entre a multidão, e aproxima-se de Jesus. Agora,
coberta de vergonha e confusão, cai de joelhos. A comoção
impede-lhe de proferir urna só palavra, mas em todos os gestos
se manifesta o amor e a contrição.
Os olhos que antes brilhavam com um fulgor impuro, tur­
vam-se agora com lágrimas de amorosa contrição, que destilam
sôbre os pés do Mestre. Tomba em desalinho a formosa cabe­
leira negra, da qual ela tanto se orgulhava, toucando-a e perfu­
mando-a com pecaminosa vaidade. Agora, qual escrava que, a
seu senhor, oferece os cabelos para enxugar as mãos, ela com
os cabelos enxuga os pés de Jesus, depois de os haver banhado
com suas lágrirn�.
Nesse ínterim, sofre imensa confusão à vista dos circunstan­
tes, cujos olhares a dardejam de desprêzo. Penosa sensação per­
passa-lhe todo o corpo. Não podem os circunstantes ainda sa­
ber nem adivinhar que ela está arrependida. Ainda mal, a situa­
ção é horrível para ela. Nada mais duro, para quem se regenerou
de seus pecados, do que sentir a frieza, a dúvida, o pouco caso
de seus conviventes.
Mas Jesus conhece-lhe os sentimentos. Disso tem ela certeza.
Sem dúvida alguma, aceita seu amor dolorido. Sim, Jesus sabe
tudo. Está contente com ela. Pode assegurar-lhe: "Em verdade,
Eu vo-lo digo: Não encontrei ainda tão grande amor em Israel".
Em recompensa da heróica generosidade, 11:le a curnula de um
amor. intenso e dulcíssimo. Sua afeição por Jesus atingiu, mo­
mentâneamente, aquêle grau sublime em que a alma, arrebatada

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A Virtude do Amor

pelo Bem-Amado, se tem na conta de nada, despreza e odeia a


si mesma como principal inimiga do verdadeiro amor.
Madalena já não teme a vergonha e confusão. Sente, ao con­
trário, uma estranha ventura em quedar-se humilhada aos pés de
Jesus, aniquilada, por consideração Daquele, que sua atitude exalta
e engrandece. Somente os verdadeiros amorosos conhecem e
compreendem o misterioso encanto de um amor que se despreza
a si próprio.
Os modos súbitos e estranhos de Maria Madalena produzi­
ram, aos poucos, longo silêncio na sala. Só se ouvem os soluços
da penitente. Todos os olhos se fixam em Madalena. Na audácia
de seu amor ardente e confiante, ela beija agora os pés de Jesus.
Não teme que me, refúgio dos pecadores, a rechace. Quebra o
vaso de perfumes, toma carinhosamente e unge os pés de Jesus.
Simão está assombrado. Será êsse o profeta aceito em tôda
parte ? tle que deixa uma mulher vir beijar-lhe os pés, e que
mulher ! Pecadora cínica e notória ! Incontestàvelmente, êste
homem parece não suspeitar sequer os desmandos de uma mu­
lher, cujo simples contacto acarreta a mancha legal de contami­
nação. tle não pode ser profeta. Simão está enojado. Pessoal­
mente, nunca e nunca pernuttna a essa mulher que se lhe apro­
ximasse. Por esta razão, condena no íntimo tanto Jesus como
Madalena.
Nosso Senhor, entretanto, sabe o que se passa no coração
do fariseu. "Simão, diz o Salvador, rompendo afinal o silêncio,
tenho que lhe falar uma cousa".
"Dize-o, Mestre", respondeu o fariseu.
"Um credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas
libras, e o outro cinqüenta. Como não tivessem com que pagar,

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Madalena, heroína do amor

perdoou-lhes a dívida, a todos os dois. Qual dos dois lhe terá


maior afeição ?"
Madalena, com a intuição que lhe vem do amor, compreende
no mesmo instante. A grande devedora é ela mesma, a quem
Jesus perdoou todos os pecados. Ela, portanto, é quem tem maior
amor. Simão, porém, não entendeu a pergunta, e responde sem
atinar: "Suponho seja aquêle a quem se perdoou a dívida maior".
Retorquiu-lhe Jesus: "Julgaste bem". Voltando-Se então para
Madalena, num gesto de simpatia: "Vês esta mulher ? Entrei
em tua casa, e tu não me deste água para meus pés. Ela, entanto,
lavou-me os pés com suas lágrimas, e enxugou-mos com seus
cabelos. Tu não me deste o ósculo. Ela, depois que entrou, não
cessa de beijar-me os. pés. Tu não me deitaste perfumes sôbre
a cabeça. Ela com aromas me ungiu os pés. Por esta razão te
declaro: Muitos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito
amou. A quem menos foi perdoado, menos ama". E dirigin­
do-se à Madalena: "Teus pecados te são perdoados. Vai em paz ! "
Assim ela s e foi, com a alma imersa num oceano de doce
paz, dessa paz que é conseqüência natural do amor perfeito.
Partiu tôda feliz, não só porque o Salvador lhe havia remitido
os pecados, muito mais ainda porque :ele apreciara plenamente
seu amor, declarando: "Ela amou muito". Ora, que pode mais
alegrar uma pessoa amorosa do que ouvir tal declaração de seu
bem-amado ? As palavras do Salvador iam ecoar sempre aos seus
ouvidos e ficariam gravadas na mente e no coração.
Era outra criatura, quando dali saiu. Por um único impulso
da alma, elevou-se, pelas asas do amor arrependido, a uma altura
sublime, e muito abaixo de si deixou o orgulhoso fariseu com a
complacente satisfação de si mesmo. E seu amor cresceria sem­
pre. Dali por diante, vemo-la sempre tomar a frente, em sua

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A Virtude do Amor

amorosa admiração por Nosso Senhor, fôsse quando O seguia


com as Santas Mulheres, que Lhe prestavam serviços; fôsse
quando, fiel até o extremo, se manteve junto à Cruz, enquanto
todos os Apóstolos, exceto João, haviam abandonado o Mestre.

SEGUNDO PONTO: A lição. -�te episódio, um dos mais deli­


cados do Evangelho, ensina-nos uma dupla lição. Primeiro, que
o amor é o verdadeiro meio de santidade; segundo, que o amor
de Deus deve ser ao mesmo tempo um amor que se .sacrifica.
O amor é o grande meio para alcançar a santidade. - A
alma de Madalena era uma alma atolada no vício. A pregação
de Jesus, Sua atitude divina, Sua doutrina, haviam primeiramente
despertado nela o sentimento de amor. Ela correspondeu a tal
sentimento. Por isso mesmo seu amor recrudesceu, continuando
a crescer até que, em poucos dias, havia atingido um grau admi­
rável. Madalena estava a caminho da santidade.
Pode uma alma cair o mais baixo possível, resvalar em quan­
tas misérias se possam imaginar. Mas, basta só que ela, sincera,
hwnilde e generosa, a De�s se dirija para Lhe pedir socôrro e
Seu amor misericordioso, êsse amor de admirável condescendên­
cia, descerá em direção da alma, e muito em breve a erguerá a
uma união íntima consigo. Haja vista a história da grande pe­
nitente Taís. Morreu, num arroubo de amor, a noite imediata
à sua conversão.
Que é, pois, necessário para imitar o amor dos Santos, para
ficar santo ? Nada mais do que abrir nosso coração ao amor,
responder na medida de nossas fôrças ao apêlo do amor divino,
pedir amiúde um amor ardente, e desejá-lo continuamente. Deus
tenciona dar-nos Seu divino amor. Quer, porém, que o peçamos
e imploremos, tanto mais que o amor é um dom preciosíssimo,

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Madalena, heroína do amor

Mas o que nos incumbe fazer, de modo particular, é amar


efetivamente. Como muito bem dizia São Francisco de Sales,
para o amor não há outro caminho senão o próprio amor. Para
chegarmos um dia a amar, como amam os Santos, devemos pôr
amor em tudo o que fazemos, e fazer tudo por amor, nossos
atos de humildade, de mortificação, de caridade fraterna, nossas
orações, nosso trabalho de rotina. Numa palavra, tôdas as cir­
cunstâncias de nossa vida devem ser uma manifestação de amor.
Tudo deve ser animado por uma paixão dominante, pela paixão
do amor a Deus, o Bem-Amado de nosso coração. Desta forma,
o amor será a nota dominante de nossa vida.
Nosso amor a Deus deve ser um amor que se sacrifica. -

O amor tem duas faces. Uma volve-se para Deus, e chama­


se amor. A outra volve-se para si mesma, e chama-se abnegação
de si mesmo. Amor de Deus e abnegação de si mesmo são dois
aspectos da mesma virtude. O amor abrange, portanto, uma
feição penosa, uma qualidade que é essencial ao verdadeiro amor
aqui na terra, pois que o amor a Deus implica a abnegação de
si mesmo. Para ser autêntico, nosso amor a Deus deve ser um
amor que inclua o desprêzo de nós mesmos.
Como isto se torna evidente na vida de Madalena ! A his­
tória de sua conversão e seu amor por Jesus revela, também, as
fases de encarniçada luta contra si própria. De início, a graça
impeliu-a a prestar reparação de uma maneira insólita, e ela
concordou. Concebeu, então, a idéia de um ato de reparação
pública, na sala de banquete de Simão Fariseu. Resistiu violen­
tamente à execução de tal penitência. Mas, sua generosidade
triunfou. Ela resolveu a comparecer ao banquete, custasse o
que custasse. Durante a refeição, foi-lhe preciso haver-se com
uma luta mais forte ainda. Levada, todavia, pelo seu amor

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A Virtude do Amor

sempre crescente por Jesus, Madalena calcou aos pés seu orgu­
lho e egoísmo. Disso resultou que dali por diante seu amor já
não conhecia limites.
Todos os Santos viram, por experiência, que a renúncia a
si mesmo se impõe, como necessidade, no caminho do amor
generoso e verdadeiro. Não podemos amar a Deus, sem renun­
ciarmos a nós mesmos. Por que razão ? Porque nossa natureza
corrompida e nosso egoísmo são os maiores inimigos de Deus.
Ser-nos-á impossível amar os dois. É preciso esvaziar-nos de
nós mesmos, e amar a Deus em lugar de amarmos a nós mesmos.

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IV

Cr isto vive em mim

Primeiro prelúdio: Tenhamos em núra as grandiosas palavras do


apóstolo São Paulo que levaram tantos à santidade: "Já
não sou eu que vivo. Cristo é quem vive em núm" ( cfr.
Gal. 2, 20).
Segundo prelúdio: Peço a Nosso Senhor me faça compreender
a vida de perfeito abandono de mim mesmo e de íntima
união com t:le, para a qual me convida. É preciso pedir
a graça de alcançar um dia essa união perfeita, à revelia de
todos os obstáculos. Podem distinguir-se duas fases na aqui­
sição da união perfeita com Cristo.

PRIMEIRO PONTO: A primeira fase é uma vida de intimidade


com Nosso Senhor. - Depois que iniciei uma verdadeira vida
espiritual, senti por vêzes a doçura desta vida, e não raro per­
cebi a verdade das palavras da Inútação de Cristo: "Sem amigo
não poderás viver bem. Se Jesus não fôr teu anúgo, acima de
tôdas as cousas, serás realmente triste e desconsolado". Sei onde
encontrar êsse grande anúgo. Quantas vêzes ao dia não vou
procurar Jesus presente no Tabernáculo ! Quantas vêzes não
converso com t:le, não Lhe exprimo meus ardentes sentimentos
de amor, em momentos de consolação, e os de tristeza, em mo­
mentos· de desolação !

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A Virtude do Amor

Conheço também a preciosa intimidade com Jesus, presente


em minha alma pela graça santificante.. Esta presença, tão cara
às almas interiores, é um complemento da presença de Jesus no
Tabernáculo. Pela graça santificante, torno-me dia e noite um
tabernáculo vivo de Deus. De tempos em tempos, pelo menos,
recorro ao Divino Hóspede, permanente em minha almá, e
abandono-me a doces entretenimentos com :ele.
O que mais é, a intimidade com Cristo, Hóspede do Ta­
bernáculo, Hóspede de minha alma, leva-me a constantes esfor­
ços por Lhe assemelhar por imitá-Lo em tôdas as cousas. Eu
não poderia deixar da luta, para me tornar semelhante a êste
amigo excelente. Minhas meditações de cada dia, meus exames
de consciência, minhas Confissões, e, sobretudo, minhas Comu­
nhões tendem a levar-me à imitação de Nosso Senhor. Tôdas
estas práticas têm por fim despojar-me de mim mesmo, do
amor próprio com todos os seus vícios, e de induzir-me ao
amor puro, à imitação de Jesus e de tôdas as Suas virtudes.
Ainda mal, sei perfeitamente que, não obstante tal intimi­
dade e o desejo contínuo <;!e imitar meu melhor Amigo, até agora
subsistem em mim muitos defeitos, muitas manifestações de
egoísmo. Não resta dúvida, quanto mais avanço na vida espi­
ritual, tanto mais fico ciente dessa situação.
Fôrça me é lembrar a história do asno que tinha vergonha
do próprio rabo, e queria desembaraçar-se dêsse vil apêndice.
Começou a saltar de um lado para outro, a correr doidamente
em tôdas as direções. Mas, sempre verificava que o rabo o se­
guia, com obstinada fidelidade. fute apólogo faz parte de nossa
história. O amor próprio é uma cauda ordinária, de que tantas
vêzes tentamos ficar livres. Entretanto, o amqr próprio con­
tinua conosco, terrivelmente vivo, em tôda a sua hediondez,

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Cristo vwe em mim

apesar de inúmeros esforços e de tantos anos passados em amo­


rosa intimidade com Nosso Senhor. Enquanto formos o que
somos, continuando como um asno com cauda presa ao corpo,
mantendo nosso "eu" com o inevitável amor de si próprio, con-
,
servaremos sempre nosso amor por nos mesmos, com t o A da s as
suas diversas manifestações.
Então, que fazer ? Cedo ou tarde, é preciso que eu deixe
de ser asno, de ser "eu" mesmo. Devo desimpedir-me de mim
mesmo, modificar-me, transformar-me, por assim dizer, em Nosso
Senhor, deixá-Lo viver em mim, sem nenhum óbice da minha
pane. Noutros têrmos, devo chegar lentamente à segunda fase
da vida espiritual: à união real, íntima com Cristo, até que eu
também me torne uma só causa com �le, da maneira mais per­
feita possível.

SEGUNDO PONTO: A via de união com Jesus, de unidade com


l!:le. - É preciso que diga a Nosso Senhor: "Salvador meu, não
posso renunciar totalmente a mim mesmo, apesar de todo o
horror que sinto por mim Bem sei que sempre me amarei, pelo
.

menos sem o perceber. Tornou-se-me uma segunda natureza


amar o meu "eu", por mais odioso que seja, justamente porque
faz parte do meu ser. Enquanto eu fôr eu mesmo, não deixarei
de amá-lo. Preciso é modificar-me, tornar-me "Vós mesmo",
por assim dizer. Se V6s viverdes em mim, e eu viver decida­
mente em Vós, sem nenhuma interferência de minha pane, irra­
diareis de dentro de mim Vosso amor puro e generoso a Vosso
Pai. Então, meu amor próprio minguará aos poucos, e morrerá
com meu próprio "eu". Convido-Vos, portanto, a viver em
mim . Entrego-me a Vós. Abandono-me ao Vosso puro amor,
que abrase e consuma em mim todo o egoísmo, com suas más
inclinações".

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A Virtude do Amor

A fim de compreendermos melhor esta segunda fase da vida


espiritual, fase de forte união com Cristo e de unidade com :me,
recordaremos amiúde a doutrina de São Paulo. Não nos limita­
mos a ser tabernáculos vivos de Cristo pela graça santificante.
Somos também membros de Seu Corpo Místico.
:ftle está presente em nós, não apenas para privar conosco,
receber nossa adoração e amor, no templo de Seu Coração, mas
está em nós pelo Seu espírito para nos animar, vivificar, e con­
tinuar em nós Sua vida divina. Pelo Batismo, e pela graça san­
tificante que o Batismo nos confere, ressuscitamos à vida com
Cristo, nós que estávamos mortos para me. "Cristo está : em
nós, para que Se desenvolva até a plena maturidade".
Noutros tênnos, Cristo está em nós, Seus membros místicos,
para prolongar Sua própria vida. Continua a amar Seu Pai, em
nós e por nós. Fêz-Se homem por amor a Seu Pai. Muito mais
ainda, foi por Seu pai que viveu e amou, imensamente, Seus
trinta e três anos na terra. O drama do Calvário foi a mais co­
movente demonstração dêsse imenso amor ao Pai. O Filho mor­
reu por amor a Seu Pai.
Todavia, êsses trinta e três anos de amor sem igual não Lhe
extinguiram a sêde de amor ao Pai. Não, para tanto não basta
a eternidade de amor no céu, nem um amor que se prolongue
até o fim do mundo, em todos os Tabernáculos da terra. Cristo
quer mais ainda. Quer milhões de almas para amar, nelas e por
elas, a Seu Pai Celestial. Por isso, tomou um Corpo Místico, e
quis viver em nossas almas, vivendo em nós, como membros Seus,
uma espécie de segunda vida, certa prolongação de Sua vida na
Galiléia e na Judéia.
Convida-nos todos. Convida-me a mim, com ás palavras:
"Dá-me teu corpo e tua alma; dá-me teu ser, porque em ti quero

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Cristo vwe em mtm

ninda amar Meu Pai. Permite-Me viver em ti à vontade, e satis­


fazer, em ti e por ti, Meu apaixonado amor a Meu Pai Celestial
e às almas".

Sou cristão. Como ta� devia ser outro Cristo. De feito,


sou parte de Cristo, parte de Seu Corpo Místico. Cristo vive
em mim, como em todos os Seus membros. Mas o ponto capital
é não empecer Sua vida em mim, e deixá-Lo viver tôdas as cousas
em mim.
Se tal devo fazer, simplesmente porque sou cristão, quanto
mais o não deveria fazer, se sou sacerdote, religioso, espôsa de
Cristo ? O sacerdote toma, oficialmente, o lugar de Cristo: "Sou
Seu ministro" (cfr. 1 Cor. 4, 1). Em Seu lugar, e em Seu nome,
executo todos os atos exteriores de minha atividade sacerdotal.
Batizo, e das pessoas faço filhos de Deus. Absolvo, isto é, realizo
aos olhos de Deus algo de maior do que restituir a vida a cadá­
veres, pois restituo a vida divina a almas, que a haviam perdido.
Celebro Missa, e pelos meus lábios faço Cristo descer ao altar;
ofereço de novo o Sacrifício do Calvário. Como Cristo, consolo
e fortaleço as almas, restituo-lhes a saúde. A vida do sacerdote
é a imitação e continuação da vida de Cristo. Deve ser assim,
não somente por fora, mas também por dentro, de modo especial.
O sacerdote, o religioso, a espôsa de Cristo, em sua expressão
autêntica, são alguém que vive como Cristo, ou melhor, alguém
em que Cristo vive plenamente, por dentro e por fora. Sacerdo­
tes e religiosos devem estar em condições de dizer realmente:
"Não sou eu que vivo. Cristo é quem vive em mim" (cfr. Gal.
2, 20).
Estas palavras do grande Apóstolo devem ser nossa divisa e
nosso ideal.

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A Virtude do Amor

TERCEIRO PONTO: 0 que isto supõe, de minha parte. 0 que


eu dou. - Eu me dou inteiramente, sem reservas. Dou tudo
o que sou e tenho. Quer isto dizer que, doravante, já não devo
pertencer a mim mesmo, e já não tenho a livre disposição do que
quer que seja. Devo ser simples instrumento de Cristo, instru­
mento que não executa a própria vontade, mas a vontade de
quem o maneja. Assim devo ser para Jesus: instrumento desti­
nado a cumprir Sua vontade, que não a minha. Para Jesus devo
ser um coração, pelo qual pode amar o Pai na medida de Seus
desejos. Devo ser, para Cristo, uma como que outra humani­
dade, na qual continua Sua vida.
Eis uma boa comparação, que exprime a boa disposição, na
qual devemos encontrar-nos conrlnuamente. Suponde que estou
perigosamente enfêrmo. Aguarda-se minha morte a cada instante.
Então Jesus me segreda: "Deves morrer, mas tua vida não deve
findar agora. Podes continuar a viver, sob a condição de que a
nova vida, qual te concedo, já não seja uma vida tua, senão
minha, e Eu tenha agora livre disposição de tôdas as tuas cousas.
Aceitas tal condição ? " Esta é exatamente a maneira, pela qual
devo considerar minha vida daqui por diante: "Já não vivo eu.
Cristo é quem vive em mim".
Tenho olhos, ouvidos, lábios, alento, coração. Tôdas estas
prendas já não são para mim. Já não devo viver para mim, nem
gozar da vida como me aprouver. Em vez disso, empregarei tô­
das as cousas só para Jesus, que em mim quer viver inteiramente
Sua vida própria. A fim de poder dizer: "Já não vivo eu, Cristo
é quem vive em mim" - é necessário que eu também declare:
"Meu Deus, fazei que não viva para mim, mas Unicamente para
Vós, meu Deus e meu Tudo".
Para ser praticável, isto significa que em minha vida não
deve, pelo menos voluntàriamente, ficar nada de egoísmo. Ne-

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Cristo vwe em mzm

nhum desejo pessoal deve empolgar-me. Quando reconheço que


um de meus desejos não é desejo de Jesus, devo rejeitá-lo sem
hesitação. Da mesma forma, não devo sentir nenhuma alegria,
nenhum prazer, nenhum receio, nenhuma dor ou mágoa de ca­
racter pessoal, sem que Jesus os aprove.
Esta vida de união com Cristo significa, sem dúvida, um
abandono total e perfeito de si. É preciso que, em tôdas as cousas,
abandone minha vontade. Em muitos setores de minha vida, con­
tinuarei a viver, mas não com pleno assentimento de minha von­
tade. E muitas misérias e fraquezas humanas persistirão, mau
grado o esfôrço de vencê-las. Acontecerá que o "eu" reapareça,
'
mas nunca será voluntàriamente, de minha parte.
Esta vida de união com Cristo é, portanto, uma vida mara­
vilhosa. Não é a simples imitação de Cristo, como estava habi­
tuado a imaginar, imitação de Cristo ab extra, contemplando para
imitá-Lo, como o pintor contempla um modêlo. Agora imito
Jesus ab intra. Quanto mais bela e deliciosa não é esta imitação
de Jesus, numa vida que é comum a :tle e a mim ! É uma fusão,
uma unidade.

QuARTO PONTO: O que isto significa, da parte de Nosso


Senhor. O que 2le dá. - Reconheci como de minha parte a
vida de estreita união com Jesus, de unidade com ::tle, significa
morte total e perda completa de mim mesmo. Mas, que perda
abençoada ! Perco-me a mim mesmo, para lucrar o Deus infinito.
Desde que me abandono inteiramente, Cristo em retôrno Se dará
a Si próprio. Em troca de minhas virtudes, pobres, reduzidas e
defeituosas, que tantas vêzes me causam tristeza e decepção, dar­
me-á tôdas as Suas virtudes, Sua deslumbrante pureza, Sua pro­
funda humildade, Sua cativante doçura, Sua perfeita obediência
à vontade do Pai, Seu amor imenso e puríssimo. Tôdas estas

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A Virtude do Amor

virtudes se tornam minhas. Posso amá-las como minhas, admirá­


las, encontrar nelas minha alegria, felicidade, complacência e
orgulho.
Posso também oferecer tôdas estas admiráveis perfeições ao
Pai, perfeições em que :r.le encontra Suas eternas delícias. Posso
oferecê-las em união com Jesus, a fim de compensar, largamen,te,
minha pobreza e miséria. Desde muito tempo, talvez, sentia o ar­
dente desejo de agradar perfeitamente a Deus. Entretanto, mi­
nha indignidade parecia um obstáculo insuperável. Agora en­
contrei o que desejava. Posso oferecer as virtudes de Jesus ao
Pai, com a certeza de agradar-Lhe plenamente.
Para que eu possa contemplar e desfrutar melhor estas per­
feições, Jesus me cederá Seus próprios olhos. Em união com
tle, admirarei e fruirei tais perfeições. Jesus outorgar-me-á Suas
graças de contemplação. Dar-me-á os dons do Espírito Santo,
em particular os dons tão preciosos do entendimento e da sabe­
doria, para que me regozije em Deus.
Quão maravilhosa a vida, que será minha, se eu o quiser !
Cristo agora viverá em mim. Em lugar de minha vida, acanhada
e encolhida, terei em mim a vida de Cristo, vida de imensa en­
vergadura. Cristo infundirá em mim Seus sentimentos divinos,
comunicar-me-á Sua visão, que abrange o universo inteiro. Dar­
me-á almas sem conta, não somente as que foram confiadas dire­
tamente à minha responsabilidade, mas também as almas de inú­
meras criaturas, que vivem em tôdas as partes do globo. Atuarei
sôbre elas, por mercê de Cristo que vive em mim. Agora poderei
amar a Deus, não só com meu minúsculo coração, mas também
com o coração de milhares de homens que, pela minha união
com Cristo, de algum modo me pertencem.

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Cristo vzve em mzm

Seria, talvez, tentado a declarar: "Esta vida em Cristo vai


realmente além de minhas fôrças. Não sou mais do que um
pecador. Uma vida assim, só aos Anjos compete".
Não, de modo algum. Sou chamado à perfeição e à san­
tidade. Sôbre tal fato não pode haver dúvida nenhuma. Em Seu
imenso amor por mim, Deus está disposto a dar-me, para êsse
fim, tôdas as graças necessárias. Por isso, meus desejos devem
ser imensos e ilimitados. Apontemos bem alto. Pouco importa
que a flexa de nossas boas resoluções caia aquém da mira, pois
Jesus estará conosco. Nossa santidade e nosso apostolado são
realmente obra Dêle. Nosso trabalho é dizer amém a tudo quanto
Jesus queira de nós. Sim, meu bem-amado Salvador, ofereço-Vos
minha pobre vontade. O resto pertence-Vos.

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v

Jesus dep ois da flagelação


e cor oação de esp inhos (I)

O fito principal desta meditação, digamos melhor, contem­


plação, será o de sofrer com Cristo sofredor, de compartilhar
Suas dores, por meio de amorosa compaixão.

Primeiro prelúdio: Representar-me-ei Jesus após a flagelação e


coroação de espinhos, abandonado a Si mesmo durante al­
gum tempo, enquanto os Romanos aparelham a Cruz. Jesus
então vem ter comigo, à busca de consôlo e comiseração.
Passou o primeiro ato da Paixão. Dentro em breve, come­
çará o segundo. Entre as duas horríveis cenas, há agora
uma pausa em que Jesus se acha a sós comigo. Pede com­
paixão e reconfôrto, antes de voltar para j unto de Seus al­
gozes, e de subir o caminho do Calvário. É preciso imaginar
esta cena com tôda a vivacidade, para que eu tenha a sen­
sação de que Jesus está agora realmente comigo.

(I) Esta e as duas meditações seguintes são paradigmas de meditação ou


contemplação, cujo objeto é excitar em nós "o amor e a tristeza unitivos". Seu
fito primário não é tanto despertar a admiração e Imitação das virtudes de
Cristo, Sua humildade, Seu amor ao sofrimento, como antes compartilhar Sua
aflição e pena. de comungar amorosamente com �!e no padecimento e na tris­
teza. Mais adiante, virão modelos de meditações em que seremos Incitados a
unir-nos, pelo amor unltlvo, ·à alegria unitiva, comungando com a alegria e felici­
dade de 'Deus e de Cristo.

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A Virtude do Amor

Quando bem feita, esta meditação pode tornar-se um ato de


contemplação, que me confrangerá a alma, e me cumulará de amor
compassivo.
Devo esforçar-me por conseguir algo do que sentiam os
grandes místicos, Santa Catarina de Ricci, Santa Gema Galgani,
e Catarina Emmerich, em suas terríveis visões da Paixão de Cristo.
Quando as fazemos bem, estas meditações são duras de suportar,
porque sofreremos realmente com Nosso Senhor. �te sofrimento,
porém, é um sofrimento de amor, urna dor e aflição amena.
Segundo prelúdio: Farei o que Santo Inácio recomenda em tôdas
as suas meditações sôbre a Paixão, na terceira semana dos
"Exercícios Espirituais". Preciso alcançar que sinta afliçção
com Jesus, saturado de sofrimento, e experimentar uma dor
íntima pela grande dor que Cristo sofreu por mim.

PRIMEIRO PONTO: Jesus vem a mim, em busca de consalo,


alívio e farça. -Jesus vem para junto de mim. Quão terrível
é o estado em que O contemplo ! Vejo, de relance, tudo o que
se passou na noite precedente. A agonia de três horas no horto,
a perfídia de Judas, as múlnplas negações de Pedro, a atroz vigília
ante Anás e Caifás; depois o calabouço, entre os soldados; os
interrogatórios de Heródes e Pilatos, a flagelação, a coroação de
espinhos. Todos êstes sofrimentos envolveram meu bem-amado
Jesus corno um pélago de dor e aflição. Lá está �le agora,
triste vítima desta horrorosa seqüência de maus tratos.
Ofereço-Lhe um tamborete, sôbre o qual �le cai, cansado e
esgotado. Pelo menos pode repousar um instante junto a mim.
Contemplo-O. Despojaram-No, tiraram-Lhe o manto de púrpura.
Vejo agora Jesus "feito verme, e não homem" (Ps. 21, 7 ) . Con­
templo-O com amor. Meu Jesus, que Vos fizeram ?

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Jesus depois da flagelação e coroação

Contemplo-Lhe a fronte, antes tão bela, resplandente de um


reflexo divino de luz, mas agora ponteada de cruéis espinhos,
dilacerada, coberta de sangue. Enxugo-Lhe o sangue com um
pano meu. Vejo-Lhe os olhos rasos de lágrimas. Os olhos de
Jesus, antes tão límpidos, tão radiantes de bondade, estão agora
entenebrecidos pelas lágrimas. :tle olha-me, em silêncio. Cru­
zam-se nossos olhares. Sinto uma espada de dor trespassar-me o
coração. Enxugo Suas lágrimas, com profundo amor.
Vejo, então, Suas faces cobertas de sangue e escarros. Du­
rante a noite, os soldados se haviam entregado a excessos de
fúria, e enxovalhado o rosto de Jesus. Aqui e acolá, aderem ainda
repugnantes imundícies aos cabelos e à barba. Jesus recebeu cer­
tamente punhadas no nariz, pois o sangue coagulou debaixo do
nariz e em redor da bôca. Gotejou sangue sôbre a barba. Meu
Jesus, meu Salvador bem-amado, o mais belo dos homens, que
Vos fizeram ?
Contemplo-O, com o silêncio do amor. Pouco a pouco, Seu
rosto transfigura-se e cativa-me pela sua formosura. Sim, Jesus
nunca me pareceu tão belo, tão divinamente adorável. O sangue
que Lhe mancha o rosto, os escarros que O maculam, tor­
mam-No mais formoso, atraindo muito mais meu amor. Con­
solo Jesus, e digo-Lhe: "É verdade, meu Deus muito-amado,
êsses homens maus Vos desfiguraram completamente. Mas, as­
sim estais mais belo do que nunca, Vós, o grande Rei de amor,
cingido de Vossa coroa de espinhos, Vossa coroa de amor.
Quanto Vos amo ! "
Agora, considero todo o Seu corpo, contundido, coberto
de chagas. Em alguns pontos, rubro de sangue; noutros, farrapos
de pele e carne aderem às roupas; a trechos, as veias estão muito
intume�cidas. Embora não tenha presenciado a flagelação, con-

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A Virtude do Amor

templo Jesus com atenção e ardente amor, e diante de mim


vejo reconstituída a terrível cena em tôda a sua crueza.
Acode-me à memória o salmo vigésimo primeiro do profeta
Davi. Como o vejo terrivelmente realizado a meus olhos.
"Em Ti esperaram nossos pais, e Tu os livraste . . . Eu, po­
rém, sou verme, não homem, opróbrio dos homens, abjeção da
plebe . . . Esperou no Senhor. Salve-o, se é que O ama".
Deixo que a sensação dos sofrimentos de Jesus me invada
e empolgue. Tomo Nosso Senhor nos braços, aconchego-O
carinhosamente, procuro consolá-Lo o mais que posso.

SEGUNDO PONTo: A chaga de amor. - Nosso Senhor mostra­


me agora o Coração e diz: "Eis Meu grande sofrimento, Meu
sofrimento mais agudo. Minha grande chaga é de amor. Eu
os amo tanto! Vê, todavia, como fui batido pelos Meus ver­
dugos e também por todos os pecadores do mundo. Sem dú­
vida, êste é Meu maior sofrimento. Tôdas as outras penas nada
seriam, se fizessem os pecadores compreender a grandeza de
Meu amor".
Jesus fala-me assim, co�o falava à Santa Margarida Maria.
Procuro consolá-Lo. Por desgraça, é verdade que nunca com­
preenderei, totalmente, êste sofrimento de amor por parte de
Jesus. Deveria amar, como �le amava, para o discernir ade­
quadamente. Além do mais, nunca conheci realmente o grande
sofrimento do amor desiludido.
Digo, pois, a Jesus: "Pelo menos conquistastes meu cora­
ção. Desde muito que acredito em Vosso amor. Desde muito
que Vos amo. Para Vosso maior consôlo, prometo continuar
a amar-Vos, com um amor mats puro, livre de todo egoísmo.
Sim, tentarei fazer de minha vida um amor contínuo, uma vida
de reparação contínua, por tantos homens que não Vos amam".

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Jesus depois da flagelação e coroação

Posso fazer mais ainda. Para O consolar, apresento-Lhe o


amor de tantas almas que meu zêlo conduziu até �le, e de tan­
tas outras que ainda abrasarei de Seu amor. Pedir-Lhe-ei, então,
aumente meu amor em proporções ilimitadas, a fim de que eu
possa consolá-Lo de maneira sempre mais perfeita, porquanto
meu amor depende muito mais Dêle que de mim. É certo, devo
dar provas de minha generosidade, envidar meus fracos esforços.
Na realidade, tais esforços não representam muita cousa. É
Jesus quem deve aumentar meu amor, concedendo-me Suas gran­
des graças, dando-me, em particular, os admiráveis dons do Es­
pírito Santo, que inflamaram o coração de todos os Santos.
TERCEIRO PONTO: Amar as humilhações e os sofrimentos, em
união com Jesus humilhado e sofredor. - Ofereci a Nosso Senhor
meu amor e o amor das almas que conquistei para �le. Prometi
amar cada vez mais. Ainda assim, conheço que tudo isto não
basta.
O que devo oferecer a Jesus desprezado e esmurrado é o
amor de um coração verdadeiramente desejoso de humilhação e
sofrimento. Devo ofertar-Lhe o amor de urna alma que pratique,
habitualmente, o que Santo Inácio chama "terceiro grau de hu­
mildade". &te terceiro grau é a humildade perfeita, que, para
"imitar melhor a Cristo Nosso Senhor e ser-Lhe mais semelhante,
deseja e escolhe a pobreza com Cristo pobre, de preferência à
riqueza; os desprezos com Cristo carregado de opróbrios, de
preferência às honras: deseja ser tida corno inútil e louca, por
amor de Cristo que, antes de mim, foi considerado louco".
Infelizmente, bem sei que muito pouco tenho dêsse amor à
humilhação e ao sofrimento, que Jesus queria receber de mim.
De certo, as grandes humilhações são raras. Mas, eu recuo
diante do sofrimento e da humilhação em tantas pequenas opor-

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(1. Virtude do Amor
tunidades ! Quantas vêzes não mostro meu desejo da estima dos
homens, até em assuntos que não põem em jôgo a glória de
Deus !
Aqui, aos pés de meu Salvador, posso examinar-me e averi­
guar o que devo fazer. Na verdade, o amor à humilhação, o
desejo de não ser estimado são o verdadeiro bálsamo que Jesus
me pede, para guarecer a chaga de Seu Coração. Não possuir
de fato êsse bálsamo eficaz é de per si um sofrimento para mim.
Coberto de vergonha e confusão, deixo-me ficar em silêncio
junto a Jesus. Por desgraça, eu a quem Jesus tanto quer, a quem
visita talvez diàriamente na Santa Comunhão, com quem fica dia
e noite pela graça santificante, depois de tantos anos de · vida es­
piritual, sou ainda tão diferente Dêle, tanto pelo gôsto, como
pelas inclinações. Seu Coração e o meu, que contraste ! Tão
longe está meu coração do grande amor apaixonado ao sofri­
mento e à humilhação.
Mas, fôrça é que eu rompa com êsse longo e humilhante si­
lêncio. Que direi a Jesus ? Pedir-Lhe-ei que me ajude. Desde
tantos anos, envido esforços, ora mais, ora menos, para me tornar
verdadeiramente humilde, para aceitar alegre as pequenas humi­
lhações da vida, para sofrer sem amargura, por amor Dêle, tôda
falta de estima. Fiz tão pouco progresso. Estou disposto a re­
começar, do melhor modo possível, mas estou ciente de que
conseguirei essa humildade, muito menos por esfôrço de minha
parte, do que pela gratuita misericórdia de Jesns.
Meu bem-amado Jesus, meu desprezado Salvador, Vós co­
nheceis minhas aspirações e também minha impotência. Supli­
co-Vos, ajudai-me a consolar-Vos, de modo mais perfeito, pelo
genuíno amor à humilhação e ao sofrimento. Dai-me hoje uma
graça grande e poderosa, que me transforme aos poucos o cora­
ção. Dou-me inteiramente a Vós, abandono-me a Vós. Sois Vós

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Jesus dep(Jis da flagelação e coroação

quem deve viver mais amplamente em mim . Pelos meus próprios


esforços, nunca serei humilde, eu que sou uma úlcera de orgulho
e vaidade. Sois Vós quem deve encher-me de Vossa humildade,
e implantar-me o amor da ignomínia e das cruzes.
Chegou o momento em que Jesus deve retomar a Seus ver­
dugos. Oh ! se eu pudesse salvá-Lo, ajudá-Lo a evadir-Se. Mas,
não tenho possibilidade. Abraço-O, mais urna vez ainda, com
todo o carinho. Jesus despede-Se de mim, e regressa a Seus
sofrimentos. Está pronto para o terrível segundo ato do grande
drama da Paixão, que é o caminho da cruz e a crucificação.
ADVERTÊNCIA: Depois desta meditação, podemos sem mais verificar
que não seria difícil ficar uma hora inteira, em simples e afetuoso de­
sabafo com Nosso Senhor, contanto que não estejamos muito tolhidos
pela secura e desconsôlo espiritual. Devemos fazer tal contemplação com
grande fé e amor. Devemos ter, realmente, a impressão de que Jesus de
fato está conosco; que Se dirigiu a n6s em busca de trégua e consôlo,
antes da prova final da Crucificação. Precisamos sentir Sua mágoa, Sua
fadiga e esgotamento, Sua dor imensa. Não se requerem muitas palavras
e idéias. Sentemo-nos silenciosos peno de Jesus. Ajoelhemo-nos bem
junto Dêle. Contemplemo-Lo com amor e comiseração. Digamos-Lhe,
de vez em quando, uma palavrinha. Abracemo-Lo carinhosamente.
Se nos acharmos em estado de secura espiritual, podemos insistir
no terceiro ponto : pensar em todos os nossos defeitos, nossa falta de
humildade; humilhar-nos e incitar-nos ao seguimento de Jesus, pela prática
do terceiro grau de humildade.

VIRTUDE DA E SPERANÇA

Sua natureza. Verdadeira e falsa esperança


Esperança ou confiança, chamada flor da esperança, é a cer­
teza de · que Deus nos dará, ao tempo previsto por �le, aquilo

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A Virtude do Amor

que Lhe pedimos, ou então outra cousa melhor ou equivalente.


Baseia-se esta certeza totalmente nas perfeições de Deus.
Para melhor compreensão desta virtude, cumpre distinguir
a confiança pura e autêntica da confiança impura e falsa. Fun­
da-se a confiança pura unicamente nas perfeições de Deus, em
Seu poder, sabedoria, providência, vigilância, bondade, amor su­
mamente misericordioso. Sua tendência exclusiva é para Deus.
As impurezas que mancham nossa confiança, e dela fazem uma
contrafação vulgar, são nossa esperança humana, a fé em nossa
própria fôrça, nossos talentos e outros recursos naturais, mesmo
em nossas virtudes e nossa retidão. Em lugar de fixar o olhar
em Deus, detemo-lo sôbre nós mesmos(2).
A confiança pura e autêntica é rara. Assemelha-se ao ouro,
que de ordinário não se encontra puro no estado natural, e deve
ser depurado no cadinho. Justamente por não ser pura é que
nossa confiança treme e vacila. Compara-se ao barômetro que
sobe e desce, conforme o tempo. Quando tudo corre bem, quando
o sol brilha e as aparências humanas são favoráveis, sentimo-nos
confiantes. Entanto, desde que nuvens obscureçam o céu, que
provações e tristezas nos assaltem, nossa confiança abater-se-á
muito e perdemos a coragem.
A verdadeira confiança não esmorece com as aparências des­
favoráveis, dificuldades, reveses e outras vicissitudes. Pelo con­
trário. Almas que esperam somente em Deus, e não em si mes­
mas, sabem que está próxima a mão de Deus, quando malogram
todos os nossos esforços e a situação parece desatinada. O homem
demonstrou que, por si mesmo, nada pode. Chegou agora a vez
de Deus. Mostrará que tudo pode.

(2) ctr. P. JAEGEEB: Confiance, Desclée de Brouwer.

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Jesus depois da flagelação e coroação

Confiança, a despeito de tudo

Apliquemos estas considerações a tôda provação ou dificul­


dade que nos possa advir, quer material, quer espiritual, como
doença, pobreza, desconsôlo, tentação, reveses em nosso apos­
tolado.
t preciso aplicá-las, de modo especial, a duas grandes causas
que antes de tudo o mais desejamos: à aquisição da santidade para
nós, e à salvação das outras almas. Devemos ter sólida confiança
e real certeza, baseadas nas perfeições de Deus, que, não obstante
tôdas as dificuldades, conseguiremos um dia a santidade, meta
de tôda nossa atividade espiritual, e ao mesmo tempo salvaremos
muitas almas.
Cumpre-nos esperar, à revelia de nossas faltas e pecados.
Monsenhor Pie, célebre bispo francês, costumava dizer: "Deus
precisa de nossas faltas e pecados. Se os não tivéramos, como
poderia �le praticar Sua prodigiosa misericórdia e Seu admirável
perdão ? Nossas faltas não alteram o amor de Deus para conosco,
como tão bem o esclarece a parábola do filho pródigo. Deus,
porém, manda-nos detestá-las e repará-las por atos de humildade
e amor arrependido".
Se houvermos cedido a qualquer falta, não devemos jamais
amuar nem irritar-nos contra nós mesmos. Isto seria fruto de
nosso egoísmo e orgulho. Antes, quais filhos amorosos, devemos
abraçar nosso Pai Celeste, à imitação dos filhos que foram tra­
vêssos, mas compensam a travessura, abraçando a mãe carinhosa­
mente.
Deve encorajar-nos a história mui conhecida de São Jerôni­
mo. Nosso Senhor dizia certa ocasião ao Santo: "Jerônimo, dá-me

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A Virtude do Amor

alguma cousa". E o Santo respondeu: "Vêde, Senhor, dei-Vos


minha vida, meus escritos, tudo quanto tinha". Jesus, entretanto,
insistiu e proferiu as belas palavras: "Jerônimo, dá-me teus pe­
cados". E à Innã Benigna Consolata Ferrero, Sua pequena se­
cretária, dizia Jesus: "Benigna, vende-Me teus pecados". Santa
Teresinha, a grande heroína da confiança, cuja missão era acender,
em legiões de ahnas pequeninas, a esperança de alcançar a san­
tidade, teve wna página magnífica, talvez ainda não igualada,
para mostrar que nada devemos perder de nossa confiança, por
causa de nossos defeitos.
Escreve em sua autobiografia: "Não é por ter sido preservada
de culpa mortal que elevo a Deus meu coração, com confiança e
amor. Sinto que, se tivera na consciência todos os crimes possíveis,
nada perderia de minha confiança. Com o coração partido de
dor, atirar-me-ia aos braços de meu Salvador. Sei que tle ama
o filho pródigo. Ouvi Suas palavras à Maria Madalena, à mulher
apanhada em adultério, e à Samaritana. Ninguém poderia assus­
tar-me, pois sei o que se deve crer a propósito de Sua miseri­
córdia e de Seu amor. Sei q:ue tôda essa multidão de pecados
desapareceria nwn átimo, assim como a gôta de água que res­
pinga numa fornalha crepitante".
Pode fàcilrnente ocorrer-nos a objeção: "As faltas não cons­
tituem obstáculos à graça e a nosso progresso espiritual ? " São
óbices reais, mas Unicamente quando não nos arrependemos delas,
e não as reparamos devidamente. Para as almas que aprenderam
a magna arte de tirar proveito de seus pecados, as faltas tornam­
se, ao contrário wn grande meio de progresso. Quando reparadas
convenientemente, tornam-se c9mo que valioso fertilizante para
as flôres de nossas virtudes. Podemos aplicar-lhes as palavras do
Apóstolo: "Aos que amam a Deus, tôdas as cousas lhes redundam

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Jesus depois da flagelação e coroação

para o bem" (Rom. 8, 28) . Sim, tôdas as cousas, diz São Paulo,
até nossos pecados. Santa Maria Madalena, Santo Agostinho,
Santa Angela de Foligno, Santa Margarida de Cortona, e muitos
outros pecadores arrependidos são eloqüentes exemplos, que con­
firmam esta verdade.
Cumpre-nos ainda esperar, não obstante nossa falta de pro­
gresso e constante malôgro na prática de nossas resoluções. Acudir­
nos-á muitas vêzes o pensamento que assaltava até os Santos: -
"Que progresso fiz eu em tantos anos ? Nessa marcha não al­
cançarei a perfeição". Pode esta consideração ser útil para despertar
em nós novo esfôrço, mas não deve nunca fazer-nos perder a
confiança.
A primeira razão é que, afinal, pouco sabemos de nosso ver­
dadeiro progresso na vida espiritual. A ação de Deus em nossas
almas está às vêzes velada de mistério. Por boas razões, e, antes de
tudo, com a finalidade de impedir em nós qualquer complacência
própria, Deus não quer que saibamos nossa posição exata na escala
da perfeição.
A segunda razão é que Deus, em Seu amor misericordioso, per­
rnite para nosso bem os males e impossibilidades que nos acometem.
Não são apenas úteis, mas até necessários, ao pleno desenvolvimento
de tôdas as nossas virtudes: profunda e sincera humildade, amor
ao próprio aviltamento, autêntica confiança, não baseada em nós
mesmos, mas nas perfeições de Deus, e, acima de tudo, aquisição
de puro e generoso amor a Deus.
Sem estas freqüentes fraquezas, que por via de regra são
involuntárias nas almas fervorosas, nunca nos desapegaríamos de
nós mesmos, nem conseguiríamos profunda e sincera aversão a
nós mesmos, sem a qual não logramos atingir o amor a Deus e à
santidade, Tôda a vida espiritual consiste em morrer-se a si mesmo,

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 73
A Virtude do Amor

para se viver em Deus. Quando uma alma generosa experimenta,


milhaxes de vêzes, a amargura de seu miserável "eu", a quem
costumava consagrar muitas vêzes um amor inconsciente, apesar
de todos os seus defeitos: ela então, por simples repugnância, se
desvia do próprio "eu" e põe todo o seu amor no único objeto
digno dêle, que é a infinita beleza de Deus.
Não devemos perder a confiança, dizíamos, apesar de nossos
contínuos defeitos. Ainda que pareça contraditório, acrescenta­
mos que a confiança se nos impõe, justamente por causa de nos­
sos defeitos. Todos somos mendigos diante de Deus. Temos
grande precisão de Sua graça e assistência. Devemos, portanto,
haver-nos como mendigos espertos. �tes não ocultam suas úl­
ceras e aleijões. Pelo contrário. Exibem-nos ostensivamente, ser­
vem-se dêles para excitar compaixão. Ora, a mesma cousa deve­
mos fazer para com Deus, mostrando-Lhe com grande humildade e
e confiança as profundas úlceras de nosso egoísmo, sensualidade,
orgulho e vaidade. São meios seguros para excitar a comiseração
de nosso Pai Celestial e alcançar Dêle largas esmolas, sob a forma
de graças.

Devemos esperar firmes, não obstante


a deso-lação, aridez, e mesmo a, noite espiritual

Quando nos achamos em estado de desolação, sentimo-nos


tristes, deprimidos, incapazes de rezar, privados de amor, · por
assim dizer. Imaginamos, fàcilmente, que já não temos amor,
embora nosso coração momentos antes parecesse consumir-se de
amor. Imaginamos, ainda, que Jesus nos abandonou por causa
de nossas iniqüidades.

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Jesus depois da fÍageiação e coroaçâo

Na realidad�, nosso amor não desapareceu, nem sequer di­


minuiu. Ainda que já não seja sensível para nós, Jesus sente-o
perfeitamente. Nosso amor já não é cálido e delicioso. É um
amor triste e sofrido. Somos tristes, porque Jesus Se foi em­
bora, nosso Bem-Amado.
A desolação é uma dessas sazões espirituais, necessárias à me­
drança de nossa vida espiritual. É o inverno espiritual, em
comparação com a primavera e o estio da consolação. No in­
verno, não há flôres nem fôlhas, talvez nenhum indício de cres­
cimento. Sem embargo, inverno não é morte. Formados pelo
primeiro calor da primavera, rebentos imperceptíveis desabro­
charão em fôlhas luzentes e flôres formosas.
O inverno da aridez e desolação descobre-nos nossa pobreza
intrínseca, e faz-nos sentir tôda a nossa miséria, provocando as­
sim um santo engulho e desprêzo de nós mesmos. As luzes da
consolação, que chegam mais cedo ou mais tarde, revelam algo
da formosura de Deus, e ateiam em nosso coração o fogo do
amor divino. Ambas, tanto a consolação, como a desolação, são
necessárias para nos conduzirem à perfeita união com Deus e à
santidade.
Por mais tempo que se prolonguem, não nos deixemos jamais
desanimar e abater, no meio das tribulações espirituais. Se Deus
nos escolheu para atravessarmos as noites místicas, particularmente
a noite de espírito, pode acontecer de ficarmos anos seguidos na
obscuridade e desolação. Mas, estas noites que na realidade re­
presentam grandes favores ocultos, são o cadinho no qual Deus
purifica as virtudes, antes de tudo a fé, esperança e caridade
dentro da alma que :tle quer levar a uma união perfeita Consigo.
Contra tôdas as aparências e dificuldades, guardemos pois
uma espex:ança firme e íntegra, fundamentada nas perfeições de

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A Virtude do Amor

Deus. Desta arte, poderemos com Sua graça alcançar um dia


a perfeição a que somos chamados, e que deve continuar sempre
como última meta de nossa vida espiritual.
A título de encorajamento, recordemos amiúde a famosa
página de Santa Teresinha de Lisieux sôbre o elevador que nos
deve guindar à santidade.
"Sabeis que sempre foi meu desejo tornar-me santa, mas
sempre percebia que, em comparação aos Santos, me achava tão
longe dêles, quanto o grão de areia, calcado aos pés pelo tran­
seunte, fica distante da montanha, cujo cimo desaparece por
entre as nuvens.
Em vez de desanimar, cheguei à conclusão de que Deus não
queria inspirar-me desejos irrealizáveis, e eu podia aspirar à san­
tidade, sem embargo da minha pequenez. Preciso contentar-me
comigo mesma e com minhas inúmeras imperfeições. Procura­
rei, contudo, um meio de chegar ao céu por um pequeno cami­
nho, muito curto e reto, uma pequena trilha inteiramente nova.
Vivemos num século de invenções. Hoje em dia, os ricos já
não se dão ao trabalho de subir escadas, porque dispõem de ele­
vadores. Ora, procurarei encontrar um elevador que me erga
até Deus, pois sou pequena demais para subir pela escada ín­
greme da perfeição . . . Vossos braços, ó Jesus, serão o elevador
que me carregará ao céu".

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VI

Jesus n a Cr uz
Primeiro prelúdio: Imaginai-vos Jesus pregado na Cruz. Maria,
de um lado. São João, Maria Madalena e as outras Santas
Mulheres, do lado oposto. Ao derredor, os hostis fariseus,
que ludibriavam Jesus.
Segundo prelúdio: Pedi a graça de compenetrar-vos de dor pelos
sofrimentos de Jesus, e também de compreender a grandeza
do amor de Jesus, a tal ponto, que êsse contemplar faça rea­
cender em vosso coração o fogo do amor divino.

PRIMEIRO PONTO: Representação de tôda a cena. - Come­


çarei pela própria crucifixão, a fim de melhor viver êsse terrível
espetáculo. Num instante, percebo a furiosa crueldade com que os
carrascos de Jesus O lançam sôbre a Cruz e Lhe estiram os braços
e os pés para os cravar. Entrementes, os fariseus circunstantes
olham com perversa e diabólica satisfação. Gozam o imenso
sofrimento, que Jesus suporta. Manifesta-se pela respiração ar­
fante e a dolorosa contração de Sua fisionomia.
Assisto, alguns instantes, a êste horrendo espetáculo. Vejo
agora os esforços dos verdugos para solevar a cruz e descê-la
na cavidade adrede preparada. Jesus acha-Se à vista de todo o
povo, cravado na cruz, suspenso entre o céu e a terra, condenado
a uma agonia de três horas.

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A Virtude do Amor

Procuro interpretar um pouco seus horrorosos sofrimentos.


Para tal fim, evoco à lembrança o maior sofrimento que eu tenha
tolerado em minha vida. Talvez sofresse um dia alguma queda
perigosa, na qual fraturei ou luxei o pé ou a mão. Talvez con­
traísse alguma doença grave, cujos incômodos ainda se conser­
vam gravados na memória. No entanto, tudo o que sofri não é
nada em comparação com os sofrimentos do meu bem-amado
Jesus. Sem estarem luxados, Seus dois braços e pés foram tres­
passados por duros cravos. A cabeça carrega ainda a coroa de
espinhos. Todo o corpo está contundido pel� terrível flagelação.
Tôda a figura de Seu corpo está em agonia.

Entanto, o sofrimento e a agonia de Sua alma é infinitamente


maior. To dos os sofrimentos de Seu corpo nada representam,
comparados com o mar de sofrimentos, em que está imersa a
aima de Jesus. A agonia de Sua alma atinge o paroxismo, de sorte
que f;le exclama, como em desespêro: "Meu Deus, meu Deus,
por que Me abandonaste ? " (MAT. 27, 46; MARc. 1 5, 34) .
�te sofrimento mental, agudo, agravado pela inutilidade de
Sua Paixão para muitas almas, não o podemos conjecturar de
modo algum. Jesus alcança, com um só olhar, tôda a vilania,
todos os pecados dos milhares de homens que viveram desde Adão
e Eva, e viverão até o dia do Juízo Final.Contempla-os com o
olhar de Seu amor, dêsse amor infinito pelo Seu Pài, que Lhe
consome a alma, dêsse amor imenso, que sente por cada um de
'
nós. f;ste duplo amor é o terrível instrumento de Sua Paixão,
mais cruel do que os azorragues da flagelação e os cravos da
crucificação. Tal amor trespassa e posteja, não Sua carne, mas
Sua alma, infinitamente mais sensível do que a carne.
Para compreender, um tanto pelo menos, os sofrimentos de
Jesus, será preciso termos um pouco do amor, com que f;le �ma. A

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Jesus na Cruz

santa mística Angela de Foligno viu êsses sofrimentos numa luz


especial da graça divina, e bradou como se estivesse fora de si:
"Tudo o que se diz concernente à Paixão de Cristo, não é
nada em comparação daquilo que minha alma avistou. Sem em­
bargo, eu não poderia, tampouco como outros, relatar tudo como
me foi dado ver. Na minha terrível visão, reconheci que Nossa
Senhora das Dôres, embora imersa na Paixão, mais profundamente
do que outra criatura qualquer, do que o próprio João, o discí­
pulo predileto, é todavia incapaz de descrever a Paixão, tal qual
se desenrolou. Se alguém me narrasse a Paixão, tal qual foi, eu
lhe diria: - Fôstes vós mesmo que a sofrestes. - E essa visão me
fêz conhecer e experimentar sofrimentos que me eram desco­
nhecidos.
Comecei a padecer cousas que jamais havia padecido, e não
compreendo como meu corpo se não desfêz em pedaços" ( 1 ) .
Recordemos, por partes, o que o real profeta Daví contem­
plou em sua visão profética, quando exclamava:
"Meu Deus, meu Deus, olha para Mim ! Por que Me aban­
donaste ? . . . Todos quantos Me viram escarneceram de Mim.
Falavam com os lábios e meneavam a cabeça. Esperou no Senhor,
diziam, que O livre e salve, pois tem confiança no Senhor . . .

O coração tornou-se-Me como cêra derretida em minhas entra­


nhas . . . Trespassaram-Me mãos e pés, contaram todos os meus
ossos". (Ps. 2 1 ) .
Com sentimentos de terna compaixão, procuremos ficar em
companhia de Nossa Senhora e São João, junto a Jesus padecente,
o mais longamente que tivermos a graça de fazê-lo. Nada é mais
eficaz para atear em nosso coração o fogo do amor divino, do
que compartilhar, por amor, as dores e sofrimentos de Jesus.
( 1 ) ·Livros das Visões, cap. XXX, "Jesus Cristo".

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A Virtude do Amor

Não se requer grande esfôrço de imaginação para sondar a


imensidade dos sofrimentos de Jesus, para compreender como
ultrapassaram de muito os suplícios dos Mártires, por tremendos
que fôssem às vêzes.
O mais importante é compenetrar-me de que Cristo está ali
a sofrer realmente por mim; é alcançar êste fato portentoso e
impossível: - Deus, meu Deus Todo-Poderoso, está a morrer por
mim. Deveras, :me morreu por mim !

SEGUNDO PONTO: Imensidão e ternura do amor de Jesus


por mim. Nimium dile:xit me. Preciso, agora, procurar que
-

em mim surja outro sentimento, o sentimento do amor que adora


e se enleva. Vejo meu Deus Todo-Poderoso cravado na Cruz, a
morrer como se fôra ladrão e assassino, desprezado por todos.
Entretanto, de tal modo me habituei a essa realidade, que já não
sinto nenhuma impressão. Mas, nem por isso, deixa de ser ma­
ravilhosa.
Deus, o Deus imenso, que existe desde tôda a eternidade,
que é em Si mesmo infinitamente venturoso, sobranceiro à dor e
ao sofrimento, êsse Deus que por um simples pensamento criou
todo o Universo, está alí a morrer por mim, sua minúscula e in­
significante criatura, partícula de poeira, por mim que me vejo
cheio de pecados e misérias. Quem teria jamais cogitado em tal
contradição ? �se amor de Cristo por cada um de nós, por mim,
levava o Apóstolo a exclamar: "Pregamos Cristo Crucificado,
que para os judeus é uma pedra de escândalo, e para os· gentios
uma loucura" ( 1 Cor. 1, 2 3 ) . De fato, uma loucura, verdadeira,
a loucura do amor divino.
Façamos por compreender, até certo ponto, o que significa
o amor de Jesus Crucificado. Posso até abstrair do fato q?e, de

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]esus na Cruz
um lado, é Deus, o Deus Infinito, quem ama; que de outro lado
sou eu, miserável e desprezível pecador, quem é amado. Posso
depreciar o amor de Jesus por mim a centenas de graus, imagi­
nando que Jesus e eu somos de igual condição. Depois disso,
percorro o mundo inteiro, e procuro encontrar entre os homens
o exemplo de um amor tão incrível. Começo pela antiguidade.
Penso em famosos exemplos de amor e amizade, como eram
Orestes e Pílades entre os Gregos. Na vasta galeria de manifes­
tações de amor e amizade, sobressai desde logo o espetáculo de
Jesus Crucificado, como obra-prima do amor, sem rival e sem
igual.
Como é belo e infinitamente adorável, Jesus nesta triun­
fante manifestação de Seu amor incomparável ! A Criação nunca
ofereceu quadro de tão profunda beleza, como êsse de meu Deus
a morrer de amor pela Sua pequena criatura, a fim de lucrar-lhe
o coração e reqüestar-lhe o amor. Sob esta idéia da infinita be­

leza do amor de Jesus, idéia talvez nova para mim, contemplo-O


com amor e ternura. Jesus, o grande Rei de amor, o grande ven­
cedor na competição universal do amor, está cravado na Cruz
por minha causa. :tle nunca pareceu tão divinamente belo, como
agora.
Deveria quedar-me a Seus pés, deixando que Seu divino en­
canto me arrebatasse. Se ficamos longo tempo, presos de admi­
ração, diante de um belo panorama ou de uma obra-prima de
pintura, não deveríamos passar mais tempo ainda para admirar
a beleza de nosso Salvador ? Tomarei meu Crucifixo, beijá-lo-ei
com as palavras: Dilectus meus ex millibus. Sem dúvida alguma,
meu Bem-Amado foi escolhido entre milhares.
O amor de Jesus Crucificado, a morrer de amor por mim,
ultrapass.a de muito, como acabamos de ver, o amor de tôda cria-

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 81
A Virtude do Amor

tura, que jamais tenha existido. E não admira, pois Jesus Cruci­
ficado não representa outra cousa senão o amor infinito de Deus,
que se visualiza a meus olhos humanos. Que muito que o Amor
Infinito ultrapasse, milhares de vêzes, todo amor criado ? Ha­
verá alguém que se afoite a comparar suas diminutas faculdades
com o grande e poderoso Pensamento, que criou . o Universo ?
Pode alguém comparar, um só instante, seu engenho com a sabe­
doria infinita de Deus, qual se revelou nos átomos infinitesimais,
bem como nos sóis e astros de imensas proporções ? Deixar-Se-á
Deus vencer em amor ? Cederia a palma do amor a um homem,
anjo, ou serafim ? Não é, em matéria de amor, infinitamente su­
perior a Suas criaturas, como o é em tôdas as cousas ?
ó meu bem-amado Salvador, ó Amor encarnado, dir-Vos-ei
quanto Vos amo em Vossa realeza de amor ? Comparado ao
Vosso, todo amor emudece. Vosso infinito amor, bem-aventurança
dos eleit<?s, arrebata e empolga também meu coração. "Feriste
meu coração, feriste meu coração com um cabelo de tua nuca"
(cfr. Cant. 4, 9). Pois, sim, meu Deus, Vosso amor conquistou
afinal meu coração. Estou ferido pelo amor divino.

TERCEIRO PONTO : Jesus morreu de amor a Seu Pai. - Temos


outro aspecto do amor de Jesus, que infelizmente é muito olvi­
dado. Pensamos sempre no amor que Jesus Crucificado tem
por nós, e tal é a razão de procurarmos retribuir Seu amor. Só
de longe em longe, talvez, é que nos recordamos de haver Jesus
morrido também por amor de Seu Pai. Isto faz com que Lhe
tenhamos menos amor ainda.
Não resta dúvida, por via de regra, somos muito egoístas em
nossa espiritualidade. Pensamos continuamente em nós, no amor do
Pai por nós, nos inumeráveis benefícios de Deus. Pensamos em
corrigir nossos defeitos, nas resoluções que devemos tomar.

82 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
]esus na Cruz
Todavia, não conhecemos, ou bem pouco conhecemos, as
nobres alegrias do puro amor. As alegrias mais suaves da vida
espiritual só começam na via unitiva, a partir do momento em
que nos esquecemos, até em nossa espiritualidade, para pensarmos
unicamente em nosso Deus bem-amado, em Sua felicidade, Suas
perfeições divinas, e que as admiramos com amor unitivo.
Se nosso amor a Deus fôr intenso e generoso, não nos con­
tentaremos de considerar o amor que Jesus Crucificado tem por
nós. De certo, Jesus que nos ama, é digno de todo o nosso amor.
Mas, enquanto ama a Seu Pai e morre por amor Dêle, Jesus cons­
titui a culminância de adorabilidade. A oferta que Jesus faz de
Si ao Pai, como holocausto de amor, é um espetáculo, diante
do qual todos os Anjos do céu se deslumbram de encanto e ad­
miração.
Se esta lembrança nos dá alguma consolação, procuremos de
vez em quando contemplar o maravilhoso espetáculo do Filho
de Deus a morrer por amor de Seu Pai. Muitos Santos, como
Santa Teresa de Ávila e São Boaventura, encontravam suas delí­
cias em contemplar a Paixão. Encantava-os, em particular, o amor
de Jesus por Seu Pai. Dêsse amor se elevavam à contemplação
das perfeições divinas.
O Calvário é a suprema invenção do amor de Jesus a Seu
Pai. O amor eterno, pelo qual �le ama no seio da Santíssima
Trindade, tem sua manifestação temporal e visível no drama da
Cruz. Querendo Jesus Cristo, o Amor Encarnado, fazer-nos com­
preender, a nós, pobres e limitadas criaturas, algum tanto da
intensidade e paixão de Seu amor ao Pai, imaginou esta modali­
dade de exprimi-lo em têrmos humanos, inventados pelo Seu amor
eterno.
Não somos, talvez, capazes de fixar nossa vista nos misté­
rios da Santíssima Trindade, e, como São Francisco e Santo

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 8)
A Virtude do Amor

Inácio, passar horas e horas em êxtase diante dêstes admiráveis


mistérios. Aqui, porém, o infinito amor de Jesus tornou-se visível
e inteligível aos nossos olhos humanos.
Nunca se encenou, sôbre a terra, uma tragédia de amor tão
apaixonada e comovente. E não se trata de simples ficção. Esta
tragédia é uma realidade viva, o drama assombroso e único que
constitui o centro histórico do Universo. Para êle convergem
todos os dias e séculos, pretéritos e futuros. Se passamos horas
a escutar peças teatrais e outras obras de arte, por que não po­
deríamos, em união com todos os Anjos e Santos, contemplar por
algum tempo esta incomparável tragédia de amor, com sentimen­
tos de muda e afetuosa admiração ?
Terminaremos a meditação com estas palavras a Jesus: "ó
meu bom Salvador Crucificado, como me pareceis belo �essa
espantosa demonstração de Vosso amor ao Pai ! Quanto não Vos
amo por causa disso ! Como Vos agradeço de amardes tanto
ao Pai ! Ainda que não tivésseis morrido por mim, para me con­
quistar o coração; se não tivésseis outra intenção senão a de ma­
nifestar no tempo e no espaço Vosso eterno amor a Vosso Pai:
eu Vos amaria da mesma maneira, e ainda de todo o coração".

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VII

Jesus, már t ir d e amor


Primeiro prelúdio: Esta meditação, ou melhor, esta contemplação
deve assemelhar-se àquela que fizemos sôbre Jesus após a
flagelação. Tomarei nos braços o corpo morto de Jesus.
Contemplá-Lo-ei. Conversarei com :me. Façamos esta con­
templação com pronunciado fervor e viva fé. Assim, com
a graça de Deus, poderá impressionar-nos vigorosamente, e
produzir muito fruto em nossa alma.
Segundo prelúdio: Pedi a Nosso Senhor a graça de compreender
melhor Seu imenso amor por nós. Levai desta contemplação
o ardente desejo de amá-Lo, como os Santos. O amavam.
Pedi, com muita confiança, para que com Seu auxílio possais
wn dia alcançar verdadeiramente a santidade.

PRIMEIRO PONTO: Jesus mártir de Seu amor por mim.


, - A
fim de excitar-nos a sentimentos adequados, e de impressionar­
nos com a percepção da realidade, imaginemos ràpidamente José
de .A.rimatéia e Nicodemos, no momento de descerem Nosso
Senhor da Cruz. Encontram-se no pequeno grupo João, Maria,
e as Santas Mulheres. Seu silêncio absoluto é de vez em quando
entrecortado pelos soluços de Nossa Senhora e de Madalena.
Maria toma Jesus sôbre os joelhos. Abraça-O. Exprime Seu
ardente amor por .:E:le. Como as Santas Mulheres e João, ponho-

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A Virtude do Amor

me a olhar, em silêncio e com tristeza. Peço, então, a Maria me


dê Jesus. E ela me passa seu Filho muito-amado. Por minha vez,
tomo agora Jesus sôbre os joelhos. A seguir, todo o tempo desta
contemplação, fico a sós com Jesus.
Nas grandes tribulações, fogem-nos as palavras. Contemplo
meu bem-amado Salvador com todo o vagar, sem dizer palavra.
Eis aí meu Deus bem-amado, morto em meus braços, morto por
causa de Seu amor por mim, mártir dêsse amor. Há poucas se­
manas ainda, operava grandes milagres. Ressuscitou Lázaro dos
mortos. Entrou em Jerusalém entre as aclamações de imensa mul­
tidão. Jesus, o grande Taumaturgo, o grande Profeta, está morto
em meus braços.
O rosto, brilhante como o sol no Monte Tabor, está pálido
e macilento. Os olhos, tão expressivos de ternura e bon�ade,
estão fechados. Já não aflora nenhum sorriso naqueles lábios
divinos, tão eloqüentes, que a multidão esquecia de alimentar-se,
quando O escutava. Aquelas mãos que semeavam milagres e res­
tituiam a vida aos mortos, estão agora imobilizadas. Quando as
seguro, sinto-as frias e rígidas. Lá está a chaga de Sua ilharga
sagrada. Vejo o sangue escorrer. Mistura-se com a água que
goteja do ferimento, aberto pela lança do soldado. Cessou de
bater o coração de meu bem-amado Jesus, êsse coração abrasado
de amor por mim, coração tão amoroso.
E fico assim a contemplar meu Salvador morto. Como são
verídicas as palavras de Isaías a Seu respeito: · ":f;:le não tem
beleza nem encanto. Vimo-Lo, e não tinha feição, e por isso
não fizemos caso Dêle. Era desprezado, como rebotalho dos
homens, varão das dores, provado nos sofrimentos" (Is. 53, 2-3 ) .
Neste momento, reconheço bem porque Jesus morreu desta
maneira horripilante. Refleti nisso, muitas e muitas vêzes. Não

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Jesus, mártir de amor

foram tanto os cruéis crucificadores, nem os fariseus, que O


mataram. Escapar dêles, aniquilá-los, seria para Jesus tão fácil
como forjar um pensamento. �le foi morto pelo amor que me
tem a mim, Sua ingrata criatura.
Morreu mártir de Seu amor por mim, não tanto para expiar
meus pecados e livrar-me da eterna condenação, porque para
isso seria mais do que suficiente um único suspiro, ou uma única
prece a seu Pai. Realmente, não foi êsse motivo que O fêz
morrer na Cruz, de morte horrível e ignominiosa. Morreu Jesus
de morte tão horrenda, para mostrar Seu amor de modo mais
notável, para conquistar, mais seguramente, meu coração e meu
amor.
�le sabia que a Encarnação, os trinta anos de humilde po­
breza em Nazaré, os três anos de vida pública não me conven­
ceriam de Seu imenso amor por mim. Precisava de uma expres­
são mais acentuada de Seu amor. �le me amaria até ao extremo,
e só então é que eu, creaturinha insensível e melindrosa, acabaria
por crer no amor pessoal Daquele "que me amou e Se entregou
por mim" (Gal. 2, 20) .
Quando O tivesse morto em meus braços, vítima de Seu
excesivo amor por mim, nimia caritas, só então viria a compreen­
der como Jesus me ama imensamente, e vive sequioso de meu
amor, de todo o meu amor. Viria a compreender, a partir dêsse
momento, com qual ardor quer Jesus que O ame perfeitamente,
com êsse amor puro e desinteressado, que só os Santos conhecem.
Acabaria, então, por exclamar: "Jesus morreu em tais condições,
para fazer de mim um Santo, um verdadeiro Santo".
Agora, sim, compreendo de fato, pelo menos até certo ponto,
como Jesus me consagrou um amor tão forte e profundo. Re­
qüestou meu amor por um processo extraordinário. Tôda a Sua

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A Virtude do Amor

Paixão, sobretudo Sua Cruz, foram o melhor argumento do Di­


vino Mendigo para me conquistar o coração. Quem jamais fêz
outro tanto ? Quem jamais amou a tal ponto ? Na verdade,
Jesus me amou, como nunca alguém pôde amar. Morto como
está em meus braços, �le me declara em muda linguagem: "Que
cousa outra poderia Eu fazer, em testemunho de Meu- amor ?"
E abraço carinhosamente meu querido Salvador, dizendo-Lhe:
"ó Jesus, mártir de amor, não padecestes em vão. Desde muito
conquistastes meu coração. Vós bem o sabeis, pois desde muito
me entreguei todo a Vós".
Por conseguinte, continuando eu a contemplar ainda a Jesus,
insinua-se aos poucos em todo o meu ser um profundo sentimento
de confusão. Estou pasmado do que acabo de dizer. Entreguei a
Jesus meu amor e todo o meu ser. Mas, que pena ! Tenho ní­
tida consciência de havê-lo feito até agora de uma maneira muito
imperfeita. Muito pobre ainda é meu amor, e mesclado de egoís­
mo. O amor de Jesus por mim e meu amor por �le diferem,
como o branco do negro, e o ouro do ferro.
Acode-me à lembrança Santa Angela de Foligno, quando ela
meditava sôbre o amor de Jesus Crucificado. No fundo da alma
ouviu Jesus dizer-lhe: "Olha, não foi por gracejo que te amei".
E esta palavrinha, diz ela, deu-me uma cutilada mórtal na alma.
Nem sei como não morri pelo conseguinte. Pois, meus olhos
·
abriram-se, e, num clarão celeste, reconheci que essa palavra era
verdadeira, terrivelmente verdadeira. Vi as obras e efeitos dêsse
amor, e até que ponto êsse amor levara o Filho de Deus. Vi
tudo o que �le sofrera e tolerara em vida. Vi Sua morte por
mim. E senti, em sua inconcebível realidade, a palavra que havia
escutado. Não, de modo algum, me não me amou por gracejo,

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Jesus, mártir de amor

mas com um amor terrivelmente sério, verdadeiro, profundo, e


perfeito.
Então, continua ela, meu amor por :ftle, que me parecia tão
grande, semelhante a um fogo dentro de meu coração, afigurou­
se-me um escárnio, uma abominável mentira. E minha dor tor­
nou-se logo intolerável. Julgava que ia morrer incontinenti. E
chegaram-me aos ouvidos outras palavras que agravaram meu
terrível sofrimento: "Não foi por gracejo que te amei. Não foi
na aparência, e por remoque, que Me fiz teu servidor. Não foi
de longe que te escolhi".
Minha angústia, j á mortal, ia crescendo sempre. Então gri­
tei como que alucinada: "Ora, comigo se dá tudo ao contrário.
Meu amor não passa de gracejo, farsa, e fingimento. Nunca me
dispus a aproximar-me realmente de Vós, para compartilhar Vos­
sos sofrimentos. Nunca Vos servi na verdade, nem com amor
perfeito, mas tão somente com descaso e dobrez".
Se a grande Santa Ângela, cujo amor era tão ardente como
o de um Serafim, podia adiantar tal afirmação, não devo eu di­
zer outro tanto de meu amor ? Sem dúvida, meu amor a Jesus,
comparado ao amor de Jesus por mim, não passa de egoísmo,
puro egoísmo.

SEGUNDO PONTO: O que meu querido Jesus, depois de morto,


quer de mim. - Que quer :ltle de mim ? Agora, devemos sabê-lo
claramente. Quer que Lhe dê todo o meu coração; que O ame,
mas só a. :ftle, sem nenhuma adição de egoísmo. Pede-me que
Lhe permita viver inteiramente em mim, e ser :eie o Santo dentro
de mim . Tudo isto é uma e mesma cousa. :ftle mo pede, por
ser nessa intenção que sofreu a morte. :ftsse é o motivo por que
agora Se. larga morto em meus braços.

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A Virtude do Amor

1'Dei Minha vida por ti, diz Jesus. Dá-Me, agora, a tua em
retômo. Terminei minha vida, mas quero começar outra em ti.
Quero, em ti, viver ainda para Meu Pai, quero amá-Lo ainda,
quero em ti continuar minha vida de amor, e por ti em muitas e
muitas almas. Oh ! dá-Me teus olhos, teus ouvidos, teus lábios,
tuas mãos, teus pés, teu espírito, teu coração. Entr�ga-te a Mim
sem reservas, a fim de que Eu possa empregar todo o teu ser como
Meu, para maior prazer e alegria Minha".
Jesus, morto em meus braços, pede tudo isto de mim. Como
poderia eu recusá-lo, sem morrer de confusão ? Em troca de
Sua vida preciosíssima, meu Deus me pede minha vida, vida de
um microcosmo, vida indigna. Mas, como poderia eu recusar ?
Swne et suscipe. Sim, meu Deus, tornai tudo o que quiserdes.
Já não quero viver nem gozar a vida para mim. Não resefvo para
mim nenhum prazer, nenhum gôzo na vida. Não quero, pelo menos
voluntária c conscientemente, nenhuma outra alegria do que Vossa
alegria dentro de mim. Ser Vossa alegria, Vosso desenfado, a
execução constante de todos os Vossos desejos, constitui atual­
mente minha única ambição na t.erra. Doravante, meu verdadeiro
nome será Alegria de Jesus. Daqui por diante, já não viverei
eu, pelo menos voluntàriamente, mas somente Vós vivereis em
mim. Perdi minha vida. Abandono-a para sempre. Ajudai-me,
ó Jesus, a não retomá-la jamais.
Isto quer dizer que Jesus será, agora, uma al_ma nova em mim.
É :tl:le quem animará tôdas as minhas faculdades, empregá-las-á
como Lhe aprouver. E como vai usá-las ? Como usou as Suas
próprias: ad maiorem Dei glorian, para a maior glória de Deus,
para amar sem limites a Seu Pai, até a loucura, loucura da Cruz.
"Vê, alma querida, diz Jesus, morri na Cruz por amor de ti,
por amor do Pai. Eu morri, mas Meu amor não morrerá. Morri

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Jesus, mártir de amor
para multiplicar infinitas vêzes o amor a Meu Pai. Morri para
Lhe conquistar milhões e milhões de corações. Perdi Minha
vida para encontrar, em lugar dela, um sem-número de vidas. O
grão de trigo, quando morre, produz muito fruto. Assim, Meu
amor prorromperá com ímpeto. Multiplicar-se-á por anos sem
conta, até o fim do mundo.
:este é Meu grande desejo, Minha grande alegria, a última
razão de Minha Paixão. Morri, para que muitos corações sejam
Meus para sempre; que teu coração também seja Meu, e daqui
por diante não tenha outras palpitações do que as de Meu puro
amor. Dá-Me teu coração, franqueia-o a Meu ardente amor pelo
Pai, a fim de que êste amor abrase e requeime todo vestígio de
egoísmo".
Atenderei ao ardente arrazoado de Jesus ? Importa, como
é fácil compreender, numa vida nova, muito mais generosa. Ou
fugirei, talvez, os sacrifícios que tal vida traria consigo ? Con­
tornarei o holocausto, por receio de algum sofrimento, e excla­
marei: "Sim, Jesus, tudo o mais, fora êste ou aquêle sacrifício ?
Não aceitarei com alegria e amor as pequenas humilhações e
sofrimentos da Vida ?"
Poderia eu, realmente, dizer tais cousas na presença de Jesus,
morto por meu amor ? Poderia fazer tão covardes exceções e
ressalvas ? Ainda que o aceite perfeitamente, até ao grau de ver­
dadeira santidade, que vem a ser êsse gênero de vida que Jesus
exige de mim, em comparação com a vida de Jesus, tão cheia de
dores e sofrimentos, com a terrível vida no inferno, se Jesus
não tivesse morrido por mim ?
Se eu fôr de fato generoso, se estou decidido a amar real e
seriamente, daqui por diante aceitarei, de bom grado, tôda es­
pécie de cruzes e sofrimentos, que Jesus possa enviar-me. Se

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A Virtude do Amor

amo de verdade, meu maior sofrimento não será o de não poder


amar bastante ? Não sentirei um pouco daquilo que experimen�
tava a grande Santa de Avila, que tanto sofria com a insuficiência
de seu amor, por grande que fôsse, a ponto de exclamar:
"Morro de pesar, porque não morro de amor".
De certo, se cheguei a compreender o amor de Jesus por
mim, o desejo de amar cada vez mais a Jesus tornar-se-á aos pou­
cos o máximo sofrimento de minha vida. A lembrança de Jesus,
morto um dia por mim, e agora presente a cada instante em mi­
nha alma, a esperar que Lhe consagre meu amor em retôrno,
acudir-me-á de vez em quando ao espírito, levar-me-á para a
frente, e inspirar-me-á: "Que fizeste tu para retribuir o imenso
amor de Jesus ? Ama, ama quanto puderes ! Pois, nunca amarás
a Jesus, na medida que seria de tua obrigação".

DEUS, AMADO EM NOSSO PRóXIMO

Há duas virtudes que deveriam dominar nossas relações com


o próximo: caridade e humildade. Nossa vivência terrena deve
assemelhar-se à vida de Jesus. Prolongamos esta, aqui na terra,
por uma vida de carinhoso e humilde serviço a Deus, a quem
devemos ver e amar em nosso próximo. Vejamos por que meios
poderíamos aperfeiçoar em nós essa caridade e humildade.

Nossa vida, carinhoso serviço de Deus,


considerado presente no próximo

Tôda a vida do bom cristão, e muito mais a do sacerdote


e religioso, deve ser um contínuo serviço de Deus. Desde a ma�

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]esus, mártir de amor

nhã até a noite, de muitos modos nos consagramos a :ftle, por


puro amor. Não obstante fazermos tôdas as cousas, com a intenção
geral de amar a Deus e ao próximo por amor de Deus, bom seria
renovar de vez em quando tal intenção, e lembrar-nos, quantas
vêzes fôr possível, que na pessoa do próximo amamos e servimos
realmente a Cristo. Noutros têrmos, devemos não somente amar
os homens por amor de Cristo, mas amar nêles o próprio Cristo,
pois que são Seus membros.
Esta lembrança habitual de que Cristo vive e sofre nos po­
bres, doentes, oprimidos, inspirava a heróica caridade dos San­
tos, caridade amiúde recompensada pela visão do próprio Cristo.
Esta terna lembrança constitui um fator dominante no ânimo
de incontáveis membros de Congregações masculinas e femininas,
consagradas à assistência dos doentes e sofredores. Confere-lhes
o ardente amor e a inabalável coragem, que são necessários a uma
vida de imolação de si, em serviço do próximo.
Devemos aprender a ver Cristo em nosso próximo, do modo
mais habitual que fôr possível. Lembremo-nos, muitas vêzes, do
belo ensinamento de São João, o grande apóstolo da caridade fra­
terna. De certo modo, o próximo deve ser, para nós, Deus que Se
faz vislvel: "Se não amas, diz São João, teu próximo que tu vês,
como amarás a Deus que tu não vês ? " ( 1 Jo. 4, 20) . O próprio
Nosso Senhor proferiu a respeito palavras notáveis e encoraja­
claras: "Quem vos der um copo de água em Meu nome . . . não
perderá sua recompensa" ( MAR.c. IX, 40).
Uma vez o u outra, meditarei sôbre o fato d e Cristo viver
em todos os Seus membros místicos, e de solicitar assim meu
amor. Procurarei vê-Lo naquelas pessoas, cujos defeitos me de­
_sagradam, ou cuja doença ou deformidade provocam minha re­
pugnância. Lembrar-me-ei de ser Cristo quem vem, quem bate

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A Virtude do Amor

centenas de vêzes por dia à minha porta, quem me incomoda no


meio de meu serviço, quem me pede auxílio ou algum favor. Se
sou sacerdote, vê-Lo-ei a chamar-me para um doente distante,
ou a convidar-me para . inúmeras Confissões, às vêzes tão fati­
gantes.
Se virmos Cristo em todos os que entram em contacto co­
nosco, haverá dupla vantagem: Isto aumentará nossa caridade, ge­
nerosidade e paciência; encorajar-nos-á, quando nos forem exigi­
dos grandes sacrifícios.
Mediante essa prática, evitaremos também de cumprir muitos
atos de zêlo e dedicação por motivos meramente naturais, como
sejam amor natural àquêles que nos agradam, amor a atividades
que nos distraiam de nossa rotina habitual. Tôda a nossa vida
se concentrará em Deus. Será informada pela caridade divina.

Felicitar os outros

Muitas cousas aprendemos sôbre o exercício da caridade fra­


terna. Admiramos os atos heróicos de caridade, praticados por
certos Santos. Lemos, talvez, tratados exaustivos sôbre o que se
deve fazer ou evitar, na prática perfeita da caridade. Pode ser
que tenhamos, como aconteceu à . Santa de Lisieux, a im­
pressão de que a caridade, nos têrmos apresentados pelos livros,
é um negócio muito complicado. Na realidade, porém, a caridade
é uma prática muito simples, embora nãÕ seja absolutamente fácil.
Podemos resumi-la em poucas palavras. Se desejais ser ca­
ridoso, procurai, por amor de Cristo, e por verdes Cristo em
vosso próximo, tornar os outros tão felizes, quanto fôr razoàvel­
mente possível. Se muitas vêzes felicitamos os outros, não resta
dúvida que praticamos .muito bem a caridade. Tornar os outros

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Jesus, mártir de amor

felizes com nossas palavras, nossos pensamentos, nossas obras, tô­


das as atividades de nossa vida: tudo isto resume o que se pode
dizer sôbre o objeto da caridade.
Praticar a caridade consiste, primeiramente, em evitar todos
os pequenos pecados contra a caridade, que magoam nosso pró­
ximo: acessos de impaciência, palavras desagradáveis, juízos teme­
rários, certa falta de mansidão, nímia susceptibilidade, mau humor.
Equivale a fazer tudo o que estiver a nosso alcance, para pro­
porcionar alegria e prazer aos outros, para mostrar simpatia e
compaixão pelos que sofrem, física e moralmente, pelos que se
acham deprimidos. De vez em quando, equivale a dizer uma
boa palavra de encorajamento, a julgar com discrição, a dar
valor ao trabalho de nosso próximo. Equivale a perdoar tôda
falta de bondade conosco, a prestar todo serviço, grande ou
pequeno, tôdas as vêzes que pudermos, ainda que com muito
sacrifício, de nossa parte.
Não resta dúvida o tornar feliz a outrem exigirá, muitas
vêzes, um pesado tributo de nós, de nosso egoísmo, que é o
grande inimigo da caridade. Teremos de renunciar a nós mes­
mos, de não atender a nossas aversões ou preferências. Tere­
mos de antepor sempre os desejos alheios às nossas próprias
op1ruoes. Fá-lo-emos com alegria, tôdas as vêzes que o puder­
mos fazer de modo razoável. Teremos de praticar atos de
grande generosidade, não só uma vez, mas porventura repeti­
das vêzes. Quanto atos de verdadeira e generosa caridade não
praticaremos todos os dias, sem talvez o perceber, se puder­
mos realmente compendiar todo exercício da caridade nestas pou­
cas e maravilhosas palavras:. felicitar os outros.
Como nos deveria ser natural proceder desta maneira ! Se
amamos ardentemente a Cristo, nossa maior alegria e aspiração

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A Virtude do Amor

aqui na terra não será alegrá-Lo e torná-Lo feliz ? Só isto nos


fará santos. Visto, porém, que Jesus vive igualmente em todos
os Seus membros místicos, e que nêles posso e devo amá-Lo,
segue-se, como muito natural, que minha grande alegria e prin­
cipal preocupação deve ser torná-Lo feliz nos outros, proporcio­
nar-Lhe alegria, pelo prazer que faço ao próximo.
Examinemo-nos a respeito. Lembro-me, às vêzes, de tor­
nar felizes todos aquêles com quem vivo em contacto - meus
superiores, meus companheiros, minha família, meus subalternos -
numa palavra, tôdas as pessoas que me cercam ?
Pergunto, de vêz em quando, no exame de consciência:
Procurei felicitar os outros ? Faço-o, talvez, mui raramente,
Como não medraria minha caridade, se o causar prazer aos ou­
tros se me tornasse uma preocupação constante !
Tornar Jesus feliz, tornar os outros felizes, porque nêles
vejo e amo a Jesus, isto resumiria tôda a vida espiritual. Isto
a reduziria a uma estupenda simplicidade, e me levaria à verda­
deira santidade.

Minha vida é de humilde servzr

No fim da vida, depois de haver . lavado os pés de Seus


Discípulos, Nosso Senhor podia realmente dizer: "Vós Me cha­
mais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, pois,
Vosso Mestre e Senhor, vos lavei os pés, assim deveis também
vós lavar os pés, uns aos outros" (Jo. 13, 13, 14) .
Quanto não devemos agradecer a Nosso Senhor por êste no­
tável exemplo, por esta verdadeira lição de humildade ! Somos
talvez superiores, encarregados de uma paróquia, professôres de

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Jesus, mártir de amor

uma comunidade religiosa. Como Nosso Senhor, e em Seu nome,


somos de certo modo senhores e mestres, considerados como pa­
trões, acostumados a dar ordens e vê-las executadas. Se somos
chefes, temos a tendência natural de preferir nossos pontos de
vista, planos e desejos, aos de nossos companheiros. Possivel­
mente, julgamo-nos obrigados a proceder assim para a mawr
glória de Deus.
Existe, com efeito, ao menos para alguns entre nós, o pe­
rigo de perdermos de vista esta prática exterior da humildade,
que deve ser o complemento de nossa humildade interior. Como
superar tal perigo ? O melhor meio é recordar, amiúde, a grande
lição de humildade na última Ceia. Noutros têrmos, devo con­
siderar-me, mestre e senhor que sou, como servidor dos demais,
servus servorum, servidor dos mais humildes.

Tenho encargo de almas, não para proceder como senhor e


impor minha vontade, mas para reconhecer e cumprir a vontade
de Deus. Ora, esta manifesta-se muitas vêzes pelos desejos da­
quelas pessoas, com as quais, ou para as quais trabalho. Por
conseguinte, na medida que fôr razoàvelmente possível, devo
estar propenso a fazer o que querem meus companheiros, aquilo
que os torna felizes, aquilo que os outros me pedem.
Sou servidor de todos, e neste espírito me prontifico a
aceitar uma vida de contínua abnegação e trabalho, que todo
bom sacerdote está obrigado a levar, sem outra recompensa no
momento, senão a que me der a gratidão ocasional de meu
rebanho.
Desta arte, multiplicarei ao cêntuplo minhas oportunidades
de humilhação exterior. Tôda a minha vida se transformará real­
mente. Tornar-se-á uma prática contínua de humildade, um
grandioso, mas hwnilde serviço de amor.

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VIII

A alegr ia de agr adar a Jesus (I)


Primeiro prelúdio: Representemo-nos Santa Teresinha de Lisieux,
cujo lema era fazer tudo para a maior alegria de Jesus.

Segundo prelúdio: Peçamos à Santa Teresinha nos ajude cada dia


a amar sempre mais a alegria de agradar a Jesus e torná-Lo
feliz.

PRIMEIRO PONTO: O prazer de agradar a Jesus é uma das


maiores alegrias para uma alma amorosa. Agradar ao bem­
-

amado, causar-lhe prazer é algo de essencial no amor. Da mesma


forma que procuramos, cuidadosamente, não dar nenhum des­
gôsto às pessoas que amamos, assim também procuramos causar­
lhes alegria e tomá-las felizes. Um par de noivos pensa conti­
nuamente em agradar um ao outro. Tomar-se mutuamente fe­
lizes é para ambos uma verdadeira preocupação.
Por que motivo as pessoas do mundo buscam, sem esmo­
recer, tôda sorte de prazeres e satisfações: prazeres dos sen­
tidos, até culposos e voluptuosos; satisfações do orgulho e da
vaidade, alegria da amizade, gozos intelectuais ? Porque querem
dar alegria e satisfação a êsse "eu", que amam apaixonadamente,
(1) Nas três meditações anteriores, procuramos despertar em nós a dor
unJtlva, compartilhando os sofrimentos de Jesus pelo amor unitlvo. Damos agora
algumas meditações que levarão a participar das alegrias de Jesus, pelo amor
unltlvo,

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A Virtude do Amor

c que é fonte de todos os seus desejos e móvel de tôdas as suas


atividades.
Dantes, nós também vivíamos com o constante desejo de con­
tentar, por todos os meios possíveis e não censuráveis, êsse "eu"
que amávamos. Mas, graças a Deus, após muitos anos de vida
espiritual, quiçá de vida sacerdotal ou religiosa, chegamos a com­
preender como é pouco digno de consideração êsse "eu", objeto
de nosso incessante amor. A luz da graça divina, vimos cada
dia mais, quanto estávamos cheios de defeitos, como éramos or­
gulhosos, vaidosos, impuros, inconstantes e egoístas. Se esta­
mos enfarados de nosso "eu", como poderíamos ainda amá-lo
e procurar seu agrado ? O amor de um Deus adorável toma aos
poucos o lugar do amor a nós mesmos, ao passo que o instinto
da própria satisfação cede ao impulso íntimo de causar alegria
a Jesus e tomá-Lo feliz na medida do possível.
Uma alma amorosa já não quer agradar e alegrar ao "eu",
que ela odeia, mas proéura agradar a Deus, cujas perfeições e
beleza conhece cada dia mais, e a quem nutre um amor sempre
maior. Quanto mais o amor consome a alma, tanto mais cresce
nela o desejo de agradar a Jesus. Por fim, tal desejo se toma
verdadeira paixão.
Para a alma, tôdas as .circunstâncias da vida são agora meios
de felicitar Jesus. Por isso, a alma consagra-se inteiramente a Je­
sus. Olhos, ouvidos, lábios, mente, coração, tudo é entregue a
Jesus, para que os aplique a Seu agrado, para Sua alegria e
prazer. A alma, agora, não tem outra meta na vida, não conhece
outra alegria, senão a de agradar a seu Bem-Amado e de com­
prazer-Lhe.
Assim, na sêde e paixão de agradar a Jesus, a alma busca
continuamente novos meios, e os melhores, para Lhe agradar,

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A aleg;ria de ag;radar a Jesus

AfeiÇoa-se ao sofrimento, por ver nêle um meio excelente de ale­


grar Jesus.
Faz, talvez, muito tempo que comecei minha vida espiritual,
e que compreendi quanto meu "eu" é digno de ódio, e como
Deus, meu Bem-Amado, merece adoração. Procuro, pois, satis­
fazer a Deus e torná-Lo feliz. Entretanto, esta idéia não me é
talvez bastante familiar, e muito fraco se manifesta meu desejo
de alegrar o Coração de Jesus. Por quê ? Provàvelmente, meu
amor não é bastante vivo e puro, não estreme de oculto amor
próprio. Mas, se amo ardentemente, e se o amor invade tôda a
minha vida, como é de sua natureza, o alegrar meu Deus bem­
amado deve para mim constituir, e de fato constitui, uma alegria
celestial e generosa, uma vez que eu tenha compreendido quanto
Deus é digno de infinita adoração.
Consideremos o seguinte. Eu, pequeno átomo, grão de poeira,
posso realmente agradar ao Deus infinito, meu Bem-Amado.
Sim, posso transformar tôdas as minhas idéias e ações em alegrias
para meu Deus Soberano. Que gôzo celestial ! Um único sor­
riso nos lábios de Jesus vale, perfeitamente, uma vida tôda de
fadigas e provações.

SEGUNDO PONTo: Posso agradar a Jesus, e agrado-Lhe de


fato.- Preciso ter a firme convicção de que, para agradar a
Jesus, uma só cousa é necessária, e que esta cousa eu a tenho
com certeza: o desejo real de agradar-Lhe. Tal desejo supõe,
indubitàvelmente, um amor sincero de minha parte. Na prática,
importa isto em não cometer um pecado venial sequer, de plena
deliberação. Faço muitos pecados, meio involuntários, que me es­
capam por fragilidade. Fôrça me é, todavia, não cometer jamais
pecados veniais realmente voluntários, porque seria preferir meu

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A Virtude do Amor

"eu" miserável, pelo menos em alguma circunstância, a meu Deus


todo digno de adoração.
Muitas almas fervorosas, sacerdotes e religiosos, duvidam às
vêzes, se agradam a Nosso Senhor. "Tenho tantos defeitos, di­
zem êles, tantas tribulações de espírito. Como poderia agradar
verdadeiramente a Jesus, santidade infinita, pureza imaculada ?"
Esta dúvida persistente priva-os do bom humor e coragem, tão
essenciais para a vida espiritual. Isto faz pena, porque se esti­
vessem convencidas de que agradam realmente a Jesus, e que cons­
tituem para :tle uma grande alegria, tais almas seriam muito mais
animadas e generosas no serviço de Deus.
Mas, como nos é possível esperar, sinceramente, de comprazer
muito a Nosso Senhor, se nos havemo� pessoalmente com todos
os gêneros de fraqueza ? A resposta é simples. Nós Lhe agra­
damos, porque :tle, em Seu imenso amor, é prodigiosamente mi­
sericordioso e indulgente, e não esquece jamais nossa condição
de pobres e fracas criaturas.
Tenhamos presente a história de Santa Teresinha. Quase no
fim da vída, estando um dia co� febre, ela demonstrou alguma
relutância em aceitar um trabalho difícil de pintura, que lhe
pediam para fazer. A noite, com lágrimas nos olhos, escreveu à
sua irmã Madre Inês aquela encantadora carta que todos conhece­
mQS. Feliz por ver que Jesus lhe não fazia nenhuma censura, dizia
ela: "Conforta-me tanto verificar que Jesus é sempre manso e cari­
nhoso para comigo. Na verdade, é quanto basta para me fazer
morrer de amor reconhecido".
Uma comparação nos capacitará de que, para as almas amo­
rosas, não é difícil agradar ao bom Mestre, e até agradar-Lhe
bastante. Suponhamos uma jovem espôsa, que ama intensamente
o marido. Procura tôdas as ocasiões de agradar-lhe, e não con-

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A alegria de agradar a Jesus

segue todavia contentá-lo. Não diríamos então: "Que homem


insuportável e impossível ? " Ora, se procuramos agradar a Jesus,
se fazemos tudo para cumprir todos os Seus desejos, mas não
conseguimos contentá-Lo, qual seria a conclusão ? Nosso Senhor
seria o mais amoroso e indulgente dos homens, mas também um
homem impossível. Não façamos tal agravo a Jesus. Convença­
mo-nos de que, fazendo nosso possível para agradá-Lo, de fato
Lhe agradamos, sem a menor sombra de dúvida.
Além disso, para agradar a Jesus e a Deus, temos algo mais
do que nossas pequenas e míseras virtudes. Temos o Coração
de Jesus e tôdas as Suas virtudes divinas, das quais Santa Marga­
rida Maria falava com tanta freqüência.
O Sagrado Coração de Jesus é um abismo de puro amor, no
qual podemos aniquilar as múltiplas formas de .nosso amor pró­
prio. É um abismo de humildade, onde submergimos todo o nosso
orgulho e vaidade. É um oceano de bondade e doçura em que
lançamos todos os nossos pecados de impaciência. Pensemos,
muitas vêzes, nestes abismos do Sagrado Coração de Jesus. São
nosso grande consôlo e riqueza, no meio de nossa indigência es­
piritual( 2 ) . Mas, que pena ! raramente penso, talvez, nestas vir­
tudes de Jesus, que são para mim o grande meio seguro de
agradar sobremaneira a Deus.
Importa saber, também, que posso agradar a Jesus e alegrá-Lo,
não só pelos sofrimentos, meus atos de humildade, mortificação
e abnegação. Agrado-Lhe, não só por tudo o que em minha vida
é duro de vencer, mas até por aquilo que me é agradável, pelas
minhas alegrias e recreios, da mesma forma que o faço pelos so­
frimentos e provações. De feito, posso alegrá-Lo com os míni-
(2) Cfr. La vertu de conjiance, chap. IX I 1 : " Conflance ao Coeur de Jésus"
(edlçio Dl!sclée de Brouwer).

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A Virtude do Amor

mos pormenores de minha vida, contanto que nêles entre em ação


um pouco de meu amor para com Jesus.
Que alegria lembrar que, desde a manhã até a noite, dou
prazer a Jesus, meu Bem-Amado, Rei do Universo ! Saber que,
para me e Seu agrado rezo, trabalho, falo e sofro. Saber que,
para me, tenho olhos, ouvidos, espírito, coração, tudo para a Sua
maior bem-aventurança. Sem dúvida, é urna alegria prodigiosa
saber estas cousas, alegria inspirada no puro amor. Deve crescer
de todos os modos, junto com o meu próprio amor.
TERCEIRO PONTO : Fazer tudo por amor, para a maior satis­
fação e alegria de Jesus. - Sim, esta é a grande meta. Fazer
tudo por êste motivo, incluídas as ações mais triviais de minha
vida, as mais materiais, as mais insignificantes. Quando mantida
com constante fidelidade, esta prática por si só me levará à san­
tidade, pois que transforma tôda a minha vida em ouro puro do
amor, até as ações indiferentes por natureza,, corno o alimentar­
me, dormir, espairecer. Tanto faz que me ache em consolação
ou aridez espiritual; que cumpra minhas obrigações com amor
sensível ou insensível; que minha vida seja cheia de grandes so­
frimentos, ou não, de ações grandiosas ou de ocupações ordiná­
rias. A única cousa que importa é fazermos tudo por amor,
para tomar Jesus feliz.
·Se pudesse tão somente fazer, desta prática, o centro e eixo
de minha vida espiritual ! Se esta prática a repassasse, se a em­
polgasse por completo, se fôsse não só minha divisa, mas também
meu esfôrço e preocupação de todos os dias ! Preciso meditar
amiúde sôbre esta esplêndida alegria do amor e o melhor alvitre
de praticá-la. Um dêles é, certamente, o uso assíduo de afetuosas
orações, como esta jaculatória: "Meu Jesus, isto é só para Vós,
para Vos dar prazer".

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A alegria de agradar a fesus

Evoquemos na memória, o que Santa Teresinha escreveu à


própria irmã Celina: "Se queres ficar santa, não tenhas outra as­
piração na vida senão a de dar prazer a Jesus". Ela costumava
dizer: "Os grandes Santos trabalharam para a maior glória de
Deus. Eu, porém, que não passo de uma alma pequenina, tra­
balho para Seu maior prazer. Digamos, repetidas vêzes, a Nosso
Senhor: "Meu bem-amado Salvador, dai-me a graça das graças,
uma verdadeira sêde, verdadeira paixão de Vos agradar e Vos
tornar feliz. Que esta seja, realmente, minha única alegria. Não
peço outra".
É preciso, todavia, não esquecer que êste gôzo não é sempre
sensível, perceptível como uma emoção. Em época de aridez
ou desolação espiritual, êle pode tornar-se alegria espiritual, tran­
qüila e sêca, ou quedar-se no fundo da alma como paz serena,
e tranqüila felicidade.
Posso adoecer e sofrer, ver-me às voltas com muitas con­
tradições, falhar no apostolado, pelo menos aparentemente.
Não obstante, minha alegria persistirá sempre, talvez sem mani­
festação sensível, porque sempre poderei repetir: "Sou feliz, imen­
samente feliz, por saber que faço Jesus feliz".
É preciso que eu mantenha esta vida de puro amor, a ale­
gria de agradar a Nosso Senhor, e veja hoje o que me falta para
saborear tal alegria, com maior freqüência e intensidade.
É possível, também, que minha confiança não seja bastante
grande, bastante pura; que eu ainda seja, talvez, muito absorvido
por mim mesmo; que meu amor não seja bastante puro, isento
de egoísmo, e por isso deixe de ser unitivo. O amor unitivo faz­
nos compartilhar a alegria dos outros e comungar sua felicidade.
Como não seríamos felizes, se realmente pudéssemos viver
de cheio esta vida de puro amor, desprezar tôdas as alegrias ter-

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A Virtude do Amor

renas e degustar essa alegria, divina e singular, de sempre com­


prazer a Jesus.
Como seria, também, abençoada nossa morte ! Morrer ! isto
significaria ver e abraçar Jesus, pela alegria do Qual temos vivido.
Depois de passar alguns anos na terra, lutando para tomar
Jesus feliz, unir-nos-emos a f:le para sempre. Jesus dar-nos-á o
eterno êxtase do amor, e em retribuição viverá Sua eternidade
a tornar-nos felizes.

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IX

Compartilhar a felicidade de Jesus

Na meditação anterior, consideramos a primeira alegria uni­


tiva, que é a alegria de agradar a Jesus. Vejamos agora a pérola,
a rainha de tôdas as alegrias espirituais, que é a alegria de com­
partilhar a felicidade de Jesus.
Primeiro prelúdio: Vejamos Jesus, tal qual Se encontra atualmente,
feliz no céu, convidando-nos a compartilhar Sua infinita bem­
aventurança.
Segundo prelúdio: Peçamos a Jesus queira conceder-nos a graça
de experimentar, de vez em quando, o puro amor unitivo,
desapegado de si mesmo, que muito nos ajudará a progredir
na vida espiritual.

PRIMEIRO PONTO: Como são poucos os que compartilham a


bem-aventurança de Jesus. A solenidade de Páscoa convida-nos,
-

todos os anos, à alegria espiritual. A aclamação muitas vêzes re­


petida do Aleluia obriga-nos a lembrar, mais freqüentemente do
que de costume, as radiosas palavras do Apóstolo: "Regozijai­
vos, torno a insistir, regozijai-vos".
De fato, no tempo pascal, particularmente na oitava de Pás­
coa, rej.ubilamos com a lembrança de que todos os sofrimentos de

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A Virtude do Amor

Cristo findaram para sempre, c foram substituídos por infinita


bem-aventurança. Quão poucos, porém, meditam alguma vez
sôbre a bem-aventurança de Cristo, tal qual :tle agora se encontra
no céu, mergulhado num oceano de perfeita felicidade.
Em muitas almas generosas, predomina o embaraço de res­
ponder, quando lhes perguntamos se pensam, frequentes vêzes,
na inefável felicidade de Jesus; se em suas penas e aflições se
reconfortam com a lembrança de que Jesus é infinitamente feliz;
c se êste pensamento exerce alguma influência na vida espiritual.
Terão de confessar, não sem vexame, que raramente pensam nisso,
e que talvez nunca o façam. Como é estranha tal atitude ! Não
tomamos parte nas alegrias e pesares de nossos pais e amigos, de
tôdas as pessoas que nos são caras ? Entretanto, longe de saborear
a infinita bem-aventurança de Jesus, a quem amamos acima de
tudo, nem sequer pensamos em Sua felicidade.
Muitas, contudo, podem ser as causas dessa anomalia. Os
livros de meditação, na maior parte, não consagram um trecho
que seja à bem-aventurança de Deus e de Cristo em Seu estado
atual no céu. Aconselham-nos, -por vêzes, a participar carinhosa­
mente das tristezas de Jesus e a confortá-Lo na Santa Eucaristia.
Mas, convidam-nos também a empregar, em nossas visitas a Jesus,
uns rápidos minutos para nos regozijarmos com a lembrança de
que �le já não pode sofrer, e sente uma indizível felicidade ?
Nosso amor a Nosso Senhor não é bastante puro e ardente,
nem bastante isento de todo amor próprio. Pensamos demais
em nós, em nossos sofrimentos, nossos defeitos, nossas misérias
espirituais. Muito pouco pensamos em Cristo e em Deus. Nou­
tros têrmos, nossa vida espiritual centra-se demais em si própria,
e não o que baste em Cristo e em Deus. Por isso, não nos habi­
tuamos, como deveríamos fazê-lo pouco a pouco, aos sentimen-

108 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Compartilhar a felicidade de Jesus

tos de amor puro e desinteressado, que são característicos da vida


unitiva.
Muitos, realmente, estacam à porta da via unitiva, terceiro
estádio no canúnho da perfeição, que deve ser o alvo de quantos
aspiram à santidade. Só pensam em imitar as virtudes de Cristo.
Não pensam nunca, ou mui raramente, em amá-las, em adnúrar
estas perfeições com alegre aprazimento, em compartilhar a bem­
aventurança que tôdas estas perfeições proporcionam a Jesus.
Admite-se, realmente, que isto não seja tarefa para princi­
piantes. Todavia, uma cousa é certa. Quanto mais avançarmos
na vida espiritual, tanto mais nosso amor se tornará esquecido
de si e desinteressado, e mais tenderá a tornar-se unitivo, um amor
que nos induza a compartilhar as perfeições de Cristo e de Deus,
e a querê-las como se nossas fôssem. Pensaremos menos em nós,
em nossas pequenas tribulações espirituais. Pensaremos muito
mais em Deus. Porfiaremos por viver mais em Deus, do que
em nós mesmos. Então, como é natural, amaremos mais e mais
as perfeições de Deus, e participaremos de Sua felicidade.
SEGUNDO PONTo: Compartilhar a felicidade de Jesus.
Sendo perfeito, Cristo é cabal e infinitamente feliz. Se O amamos
ardentemente, com um amor desinteressado, quão imensa não é
nossa alegria de sabermos e termos certeza de que :Rle tem tudo
quanto possa desejar, tudo quanto possamos nós desejar-Lhe.
Não seria a suprema felicidade, se tivéssemos tudo o que pode­
mos desejar, uma vez que a perfeita felicidade consiste em vermos
nossos desejos plenamente satisfeitos ?
Pelo conseguinte, se Cristo possui tudo o que podemos al­
mejar, não deve êste fato constituir para nós uma felicidade tanto
maior, quanto O amamos muito mais do que nos amamos a nós

109
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A Virtude do Amor

mesmos ? Admiremos, pois, com freqüência, procuremos saborear


a� virtudes e as perfeições, a felicidade de Cristo e de Deus !
Como deveria ser fácil fazê-lo repetidas vêzes !
Estamos habituados a fazer o que se chama contemplatio
ad amarem, contemplação para alcançar o amor, desde que
nos pomos a observar a natureza, para admirar a grandeza, o
poder, a sabedoria, e até a formosura de Deus. Infelizmente,
esquece-nos de pensar em Sua felicidade. O maravilhoso firma­
mento com o labirinto de estrêlas, cada flor, cada haste de capim,
cada inseto nos brada: "Alegrai-vos, alegrai-vos sobre maneira.
Como é sábio e grande, poderoso e belo, Deus, vosso Bem-Ama­
do ! " Mas, êles acrescentam também: "Quão feliz é Deus ! Pois
a contemplação de tôdas as Suas divinas perfeições constitui, para
tle, uma fonte de infinita felicidade".
Todos os sêres da natureza proclamam as perfeições e a bem­
aventurança de Deus. Quando contemplamos a natureza e suas
maravilhas, devemos alegrar-nos, muitas vêzes, com a idéia de
que Deus, autor de todos êsses portentos, é sumamente feliz. De
vez em quando, pelo menos em horas de consolação espiritual,
precisamos tomar como objeto de nossa meditação a felicidade
de Cristo e de Deus, e, digamo-lo, também da Virgem Maria.
Devemqs meditar afetuosamente sua felicidade, afogando nossas
pequenas mágoas e sofrimentos no oceano de sua bem-aven­
turança.
Mas, talvez digam: "Como havemos de imaginar a felicidade
de Deus e de Cristo, no estado atual do céu ?" Realmente, nisso
há dificuldade. Achamos que não é fácil passar uma hora que
seja em contemplar e apreciar êste assunto. Ser-nos-á fácil ad­
quirir uma profunda noção dos outros atributos de Deus, tais
como Sua sabedoria, Seu poder, Sua grandeza, de que o Uni-

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Compartilhar a felicidade de Jesus

verso fala com tanta eloqüência, mas não chegamos, da mesma


maneira, a apreciar Sua felicidade.
Devemos, entanto, esforçar-nos por conseguir ao menos uma
pálida noção dela. Podemos, por exemplo, evocar em nossa me­
mória os momentos mais ditosos de nossa existência. Um dia,
talvez, em que se fazia sentir a consolação espiritual, estávamos
verdadeiramente extasiados de amor. Se tal ventura se multipli­
casse ao cêntuplo, nem por isso teríamos ainda uma idéia da
bem-aventurança de Deus. Poderíamos recordar as explosões de
amor de alguns Santos. São Francisco Xavier bradava às vêzes:
"Basta, Senhor, basta de felicidade. Não posso suportar gôzo tão
terrível". Santa Madalena de Pazzi exclamava: "Se caísse no
inferno uma gôta daquilo que sinto no coração, o inferno ime­
diatamente se transformaria em paraíso".
No entanto, tôdas estas cousas são apenas um reflexo, uma
simples sombra das perfeições e da bem-aventurança de Deus.
Devemos, qual cotovia, pairar cada vez mais alto e inebriar-nos
com a idéia de que tudo quanto se possa imaginar, não é nada
absolutamente, em comparação com a infinita bem-aventurança
de Deus, a quem amamos sôbre tôdas as cousas.

TERCEIRO PONTO: Vantagens de compartilhar a felicidade


de Jesus. - Imploraremos, muitas vezes, a Nosso Senhor nos
ajude a comungar com �le Sua divina felicidade, pois uma co­
munhão nessas condições é um antegôzo das alegrias celestiais, e
oferece grandes vantagens, como exercício de um amor unitivo,
muito puro e desinteressado. Ela faz-nos perder nosso pequeno
"eu" nas estupendas e adoráveis perfeições de Deus. Leva-nos,
efetivamente, a declarar: "Já não me amo a mim. Amo a Deus,
meu único tesouro". Introduz-nos no amor unitivo. Favorece,

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A Virtude do Amor

consideràvelmente, nosso progresso no amor perfeito e na san­


tidade.
Compartilhando e saboreando as alegrias de Cristo, esquece­
remos fàcilmente nossas satisfações egoístas, nossas pequenas má­
goas e aborrecimentos. Nós, pequenos átomos, somos de tão
pouca importância. Deus, nosso Bem-Amado, é o único que
importa. Sabemos que :tle é perfeito e cabalmente feliz. Possui
tudo o que Lhe poderíamos desejar. Basta-me êste conhecimento.
Basta-me para minha felicidade, porque Sua infinita bem-aven­
turança é minha também.
:tstes sentimentos de amor unitivo, esta participação nas per­
feições e felicidade de Deus nos unirão cada vez mais a Jesus.
:t isto que torna esta comunhão com a bem-aventurança de Deus
tão querida à alma amorosa. A alma tem plena noção de que a
nobre e deliciosa alegria, por ela experimentada, não é outra
cousa senão a alegria do próprio Jesus, que nela ama a Deus.
Vivendo em nós, Jesus comunica-nos Seus próprios sentimentos.
rue reza, sofre, e ama em nós. Como, portanto, deixaria também
de irradiar dentro de nós a delicada alegria do amor, que expe­
rimenta ao contemplar a infinita felicidade de Seu Pai ? Esta
bem-aventurança que a Jesus pertence, pertence também a nós,
Seus membros místicos. De vez em quando, convida-nos, de
modo mais acentuado, a perder-nos na união com :tle, na imen­
sidade da divína bem-aventurança.
Esta participação e fino gôsto pelas perfeições e a felicidade.
de Cristo e de Deus comunicar-nos-ão uma paz inalterável, aquela
paz serena que todos os Santos possuíram em grau eminente, "a
paz que ultrapassa tôda a percepção dos sentidos". Nossas almas
assemelhar-se-ão ao belos lagos que de todos os lados são cingidos
por altas montanhas, pelo verde de esmeralda e o azul de safira,.

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Compartilhar a felicidade de Jesus

por entre deslumbrantes geleiras brancas. Nem a tempestade


que esbraveja em redor dêles, pode perturbá-los. São resguar­
dados pelos picos fulgurantes das neves eternas. Assim é a felici­
dade da alma amorosa. Conserva-se inalterada e perfeita, em
tôdas as vicissitudes da vida, protegida pelos píncaros resplan­
decentes das perfeições divinas.
Se os homens soubessem que algures, num canto do mundo,
existe urna ilha solitária onde se encontra a perfeita felicidade,
não haveriam todos de afluir para lá ? Ora, tenho meu bem­
amado Jesus, no Tabernáculo ou em minha alma. Nêle, posso
gozar de tanta felicidade, quanta é possível nesta terra. Contudo,
olvido tantas vêzes de volver-me a :E:le, de fruir Sua divina bem­
aventurança e estupenda beleza. Prefiro, ao invés, gozar das ale­
grias mesquinhas e passageiras dêste mundo, e fazer carga em
meus defeitos e virtudes claudicantes. Suplicarei a Jesus queira
conceder-me essa graça singular e poderosa, que me ergue a um
plano mais elevado, que faz esquecer-me de mim mesmo: a
graça do amor unitivo.
Convém não esquecer que a alegria de participar nas per­
feições e na felicidade de Deus e de Cristo, urna graça que, con­
forme vimos, é a rainha das alegrias espirituais, nem sempre se
percebe corno emoção. Pelo contrário. Tanto faz que a alma
sinta, ou não, a doçura desta alegria, muito embora tal percepção
seja urna grande graça de Deus. O principal para nós é saber,
mediante a fé, que as perfeições de Deus são infinitas, Lhe pro­
porcionam urna felicidade infinita. Basta êste conhecimento para
despertar em nós um gôzo profundo e inabalável, que os con­
tratempos não conseguem destruir nem arrebatar.

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br lH
A Virtude do Amor

ZtLO PELAS ALMAS

O zêlo autêntico e sobrenatural é simplesmente a irradiação


e o transbordamento de nosso amor a Deus. É o amor em ação.
Se amamos ardentemente a Deus, é de todo natural sentirmos
também grande amor pelas almas que Lhe são tão caras, que me
criou para O amarem eternamente no céu, e que Cristo resgatou
com Seu precioso Sangue.
O zêlo pelas almas não é pois um apanágio de sacerdotes e
religiosos, mas de todos os que amam a Deus. "Quem não tem
zêlo, diz Santo Ambrósio, não tem amor". Todo cristão que
ama a Deus, e deseja que Deus seja amado por todos, todo indi­
víduo que reza todos os dias pela vinda do Reino de Deus, são
chamados a colaborar na salvação das almas.
A Ação Católica, sôbre a qual tanto se insiste hoje em dia,
e que por vêzes operou maravilhas, demonstra claramente que
todos os membros do Corpo Místico de Cristo estão em condições
de exercer grande e profunda �nfluência na vida espiritual do
próximo. Portanto, qualquer que seja nosso estado e condição
de vida, todos. nós ternos a obrigação de exercer verdadeiro apos­
tolado. Se formos fervorosos e generosos, incumbe-nos salvar
e santificar muitas almas, que por tôda a eternidade nos agrade­
cerão o bem que lhes tivermos feito.
Se formos sacerdotes ou religiosos, muito maiores são os
motivos de nos dedicarmos inteiramente à santificação do pró­
ximo, não importa de qual maneira, pela oração, sacrifício, so­
frimento, atividade exterior de apostolado. Tôda a nossa vida
se consagra a esta finalidade. Salvar e santificar ahnas, esta é
nossa tarefa. Sem grande zêlo, nossa vida não teria razão de ser.

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Compartilhar a felicidade de Jesus

Zêlo sobrenatural
Como expressão de Seu ardente amor pelas almas, Nosso
Senhor declarava: "Eu sou o pastor, vós sois as ovelhas. Conheço
cada uma de Minhas ovelhas. Dou Minha vida por elas".
Todos conhecemos esta bela comparação, que nos permite
entrever o Coração de Cristo. Nós, sacerdotes ou religiosos, so­
mos pastores. Disso devemos lembrar-nos constantemente, por
receio de malbaratar nosso tempo e atividade em cousas que pouco
ou nada se relacionam com a salvação das almas. Tenhamos sem­
pre consciência de que vivemos em nome de Jesus, que a !le
nos entregamos, a fim de que, em nós e por nós, possa continuar a
agir como pastor de almas.
Devemos ter alta estima pelas almas, e considerá-las como
Jesus as considerava. Uma alma, revestida da graça santificante,
que vive uma vida divina, é um templo da Santíssima Trindade.
Vale muito mais do que todo o mundo material, a que infelizmente
ligamos tanta importância. Jesus deu Seu Sangue divino por essa
alma. Tenhamos, também, em contínua lembrança a imensa es­
tima que os Santos nutriam pelas almas. Os Santos concordariam
em morrer para salvar uma única alma. Esta estima formava a
raiz de seu zêlo ardente e infatigável.
Que bom seria meditar, de vez em quando, sôbre o inesti­
mável valor de uma alma, sôbre a estupenda formosura da graça
santificante ! Não a poderíamos contemplar sem cair em êxtase.
Se somos sacerdotes, devemos pensar nisso antes de batizar, con­
fessar, visitar os enfermos. Por ocasião dessas visitas, por vêzes
tão penosas, principalmente para os missionários, lembremos as
belas palavras de Nosso Senhor, relativas à ovelha desgarrada.

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A Virtude do Amor

Somos também pastôres. Cada passo que damos é precioso, quan­


do orientado pelo amor às almas.
Lembrai-vos, outrossim, que o mundo das almas é wn mundo
sobrenatural. Logo, por nós mesmos, nada podemos realizar nêle.
Ninguém pôde jamais criar um ser vivo, erva, árvore, ou animal
que fôsse. O homem é incapaz de produzir a vida, muito menos
a vida sobrenatural.
Propendemos a olvidar êstes fatos. A nossos olhos humanos,
o mundo das almas afigura-se como o mundo material. Talentos,
dinheiro, prendas do espírito e do coração, parecem fatôres todo­
poderosos. Na realidade, tais cousas nada valem por si mesmas.
De própria capacidade não podemos nem dizer: "Abba, Pai !"
Convençamo-nos, cada vez mais, desta grande verdade. Esperemos
tôdas as cousas da graça de Deus, fazendo tudo, é claro, do melhor
modo possível, pois esta é uma condição para recebermos a graça.
Nosso zêlo deve ser amplo e profundo. "O coração de Paulo
é o Coração de Cristo". Devemos ter os sentimentos de zêlo que
animavam o próprio Cristo. �le é quem trabalha, em nós e por
nós, nas almas. Seus modos de ver qevem ser os nossos. Suas almas,
almas nossas. Seu mundo, mundo nosso. Será que Cristo Se ocupa
exclusivamente das almas de minha paróquia ou missão, por enorme
que seja ? É claro que não. A Cristo pertencem as almas do mundo
inteiro, e que devem também ser minhas.
Guardemo-nos de um zêlo tacanho. Não restrinjamos nosso
interêsse unicamente a nossos empreendimentos, às almas e ao tra­
balho que nos foram confiados diretamente. Interessemo-nos pelo
trabalho dos outros. Devemos sentir-nos felizes em ajudá-los, de
tôdas as maneiras possíveis. Devemos experimentar verdadeira ale­
gria, ao lembrarmos de que nossa influência pode irradiar-se pelo
mundo inteiro.

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Compartilhar a felicidade de Jesus

Se formos fervorosos, mais ainda, se formos santos, nossa


influência sôbre as almas sed imensa. Aparentemente, nosso bom
êxito será talvez reduzido, e poucas conversões veremos em nossa
paróquia ou missão. Podemos, todavia, estar certos de que conta­
mos com muitas conversões, em outras partes do mundo. O mundo
inteiro é atingido por nossa influência, pois que o mundo inteiro
pertence a Cristo.
Na medida que avançar na vida espiritual, um dos meus gran­
des sofrimentos será a consciência de que amo tão pouco e tão mal
a Deus, a Jesus e a Maria, e que nunca Os amarei suficientemente,
como queria amá-Los, nem como mereciam ser amados. Esta dolo­
rosa indigência de amor, amarga e doce ao mesmo tempo, crescerá
constantemente, e por vêzes me causará intenso sofrimento. Em mi­
nha impossibilidade, grande consôlo me será, todavia, compreender
plenamente que, para amar a Deus, a Jesus e a Maria, não disponho
apenas de meu coração egoísta e mesquinho, mas tenho milhares
de corações. Os corações de todos aquêles que, de algum modo,
faço achegar-se de Deus, quer pela minha atividade, quer pelas
minhas orações e sacrifícios.
Em certo sentido, todos os corações me pertencem. Posso
apaziguar minha sêde de amor, amando a Deus nêles e por êles.
Se compreender bem esta verdade, e me lembrar dela em minha
vida apostólica, qual não será minha alegria, ao saber que posso
multiplicar milhares de vêzes meu amor a Deus, e que tenho mi­
lhares de almas, mediante as quais amo a Deus, meu Bem-Amado.

Zêlo e vida interior


Nossa atividade apostólica deve ser o transbordamento de
intensa vida interior e de nossa ardente caridade. Nosso coração,

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 1 17
A Virtude do Amor

devemos enchê-lo da luz divina da fé e do fogo do amor divino.


Só então poderemos iluminar e inflamar os outros. Ninguém pode
dar a outrem o que êle próprio não possui.
Devemos ser como mananciais, sempre transbordantes dessa
água celeste, a respeito da qual Nosso Senhor falou à Samaritana,
"água que jorra para a vida eterna". Nossa vida apostólica e nosso
zêlo devem ser um transbordamento de nossa vida de oração, de
nossa vida interior e contemplativa. " Vita activa", diz Santo To­
más, "abundantia contemplationis". Ao falar da vida mista, vida
de contemplação e ação, afirma que ela consiste em comunicar
aos outros os frutos de nossa contemplação: contemplata aliis
tradere.
Muitas pessoas têm um conceito errado de sua vocação apos­
tólica. Nossa vida não deve ser, em primeiro lugar, uma vida
de grande atividade apostólica, à qual j uxtapomos, por nssim
dizer, tanta oração e união com Deus, quanta pudermos, a fim
de conseguir de Deus a bênção de nosso trabalho. É um modo
errôneo de conceber o plano de apostolado. Nossa vida deve
ser, em primeiro lugar, uma vida· de oração e união com Deus
pelo amor, e nossa atividade será o simples transbordamento dêsse
amor, que incessantemente se renova na alma pela nossa união
com Deus.
Se nossa atividade apostólica fôr, realmente, uma irradiação
do amor divino que arde em nosso coração, então será indubi­
tàvelmente muito fecunda. Tenhamos na mente a bela parábola
da vinha, empregada pelo próprio Nosso Senhor: "Eu sou a vi­
deira, vós sois as vides. Aquêle que permanece em Mim, e Eu
nêle, produzirá muitos frutos. Pois, sem Mim, nada podereis
fazer" (Jo 15, 5 ) .

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Compartilhar a felicidade de Jesus

Nossa vida interior, como o sabemos, vem a ser a vida de


Jesus dentro de nós. Se estivermos estreitamente unidos a Cristo,
e Sua vida dentro de nós fôr intensa, esta se manifestará pela
abundância de frutos. Entanto, se a pequena vide, qual somos,
estiver quase solta da videira, não dará fruto algum.
Compreendamo-lo bem. O espírito de oração, a estreita
união com Jesus e a santidade são muito mais importantes para
o verdadeiro bom êxito de nosso apostolado, do que outra cousa
qualquer, como sejam talentos naturais e prodigiosa atividade ex­
terior, etc.
O próprio Nosso Senhor confirmou esta verdade de modo
impressionante. Para a conversão do mundo, escolheu doze ho­
mens, todos muito simples; grande parte iletrados, alguns pes­
cadores. Pareciam inaptos paríl a magna tarefa que lhes era
reservada. E Jesus não os enviou a Roma nem a Atenas, para
aprenderem ciência e eloqüência, e tornarem-se uns Cíceros e
Demóstenes. A fim de melhor persuadir os homens, tomou-os
tais quais eram. No entanto, êsses homens simples e rústicos
converteram o mundo, porque com êles estava a graça, uma graça
abundante e extraordinária.
Quando fala do poder da oração, a Santinha de Lisieux apre­
senta êste notável pensamento: "Dizia Arquimedes: Dai-me uma
alavanca, que eu erguerei o mundo de seus eixos. Eu, porém, digo:
Dai-me a alavanca da oração, que eu converterei o mundo". To­
dos conhecem os prodígios operados pelas orações e o intenso
amor da jovem Carmelita. Podemos aplicar-lhe o que se dizia da
grande Contemplativa de Avila. Por suas orações e sacrifícios
convertera igual número de almas, que o eminente apóstolo da
lndia São Francisco Xavier.

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A Virtude do Amor

Sem a intensidade da vida interior e grande união com Deus,


nosso apostolado será pouco frutuoso, ainda que na aparência
tenha bom êxito. Isto se torna claro na parábola da vinha, desen­
volvida por Nosso Senhor, bem como pelo fato de sermos apenas
instrumentos de Deus, dos quais Cristo Se serve para salvar almas.
Se formos bons instrumentos, dóceis, que nunca tolhem Sua ação
divina, instrumentos unidos a Deus, realizaremos ótimamente o
plano misericordioso de Deus, que, por nosso intermédio, quer
salvar muitas almas. Se formos, porém, maus instrumentos, que
resistem à ação divina, decididos a realizar não o plano estupendo
de Deus, mas nosso plano defeituoso e incompleto, os resultados
serão lamentáveis.
Em seu Cântico Espiritual ( cap. 9), São João da Cruz tem
um tópico notável: "Reflitam, um instante, os homens devorados
de atividade, os que julgam despertar o mundo pela sua pregação
e outras obras exteriores. Compreenderão, sem dificuldade, que
mais úteis seriam à Igreja, e mais agradáveis ao Senhor, se con­
sagrassem mais tempo à oração e aos exercícios da vida interior.
Nestas condições, por uma obt.:a única, realizariam maior bem,
com muito menos dificuldade, do que se fizessem mil outras
obras e nelas malbaratassell) sua existência".

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X

Jesus, nosso perfeito tesouro

As almas fervorosas sofrem, às vêzes, de uma carência em


sua vida espiritual. Exploram muito pouco as vastas riquezas
que possuem em Jesus. Sentem-se freqüentemente deprimidas pela
lembrança de seus defeitos e provações. Habitualmente, não to­
mam consciência de que, unidas a Cristo, compartilham na ver­
dade tôdas as Suas virtudes e perfeições divinas.
Nouuos têrmos, Cristo' não é para elas um perfeito tesouro,
tesouro que realiza todos os seus desejos e satisfaz tôdas as suas
necessidades, por maiores que sejam.
Nesta meditação, consideraremos as grandes riquezas que pos­
suímos em Cristo, as quais deveriam inundar nossa vida espiritual
de um gôzo profundo e intenso.

Primeiro prelúdio: Contemplarei Jesus, o Bem-Amado de minha


alma, tão amoroso e tão amável, a dizer-me: "Tudo o que é
Meu é teu".

Segundo prelúdio: Pedirei a Jesus a convicção, profunda e prática,


de que pela união com 1l:le somos extremamente ricos, no
meio de extrema pobreza.
PRIMEIRO PONTO: Jesw, nosso Bem-Amado, é um perfeito
· tesoUro para nosso amor. -Qual é a máxima alegria do amor ?
t a de· descobrir qualidades apreciáveis no objeto amado, quer se

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A Virtude do Amor

trate de pessoa, quer de cousa. Quanto mais apreciável o objeto de


nosso amor, tanto mais felizes somos nós, pois o amor nos faz
par�cipar de tôdas as boas qualidades do bem-amado, e intensifica
nosso gôzo.
Por conseguinte, como não deve ser grande nossa alegria,
se amarmos a Jesus com um amor unitivo, profundo e ardente !
:tle é tão belo, tão amoroso, tão amado, tão puro, tão santo, tão
ditoso, tão perfeito em todos os sentidos ! Podemos amá-Lo, de
todo o nosso coração, mas nunca O amaremos bastante, nunca
tanto corno :tle o merece. Ninguém poderá jamais dizer: "Basta,
é demais. Jesus não merece tanto amor".
Precisamos, muitas vêzes, contemplar silenciosamente a pro­
digiosa perfeição de Jesus, nosso Bem-Amado, e fazer nossa delí­
cia Daquêle que é a delícia do Pai, de Maria, de todos os Anjos
e Santos. De vez em quando, por ocasião de nossas visitas a Jesus
na Eucaristia, especialmente em nossas meditações, devemos em­
pregar bastante tempo para adrrúrar estas virtudes, experimentá­
las e saboreá-las com carinho, e encontrar nelas nossa alegria e
bom-prazer.
Infelizmente, quão poucos, mesmo entre as almas fervorosas,
concebem alegria na consideração de que Jesus é tão adorável,
tão perfeito, tão imensamente feliz ! Nem pensam nisso. Até
nas visitas ao Santo Sacramento não lhes ocorre a idéia de com­
partilhar a ventura de Jesus e regozijar-se com ela.
Pedirei muitas vêzes a Jesus torne meu amor mais candente,
mais desinteressado, mais unitivo. Então, a simples lembrança de
que Jesus é sumamente adorável, que nunca poderei amá-Lo de­
mais, inundará constantemente .minha alma de um gôzo imenso
e muito puro. Jesus tornar-Se-á, na verdade, a alegria perfeita
de meu amor.

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Jesus, nosso perfeito tesouro

SEGUNDO PONTo: Jesus é um tesouro de virtudes, que com­


pensa nossa pobreza espiritual. -Na medida que avançamos
na vida espiritual, cresce também constantemente o senso de nossa
pobreza e miséria. A despeito de nosso progresso, parecem las­
timáveis as virtudes que praticamos. Em nossa pureza, há tantas
imperfeições ! Nosso amor está muito mesclado de secreto egoís­
mo e de auto-complacência. Recuamos, continuamente, à vista
do sofrimento. Nossas orações são tão frias e distraídas !
Os Santos possuem o senso de sua grande pobreza, e sen­
tem-na .até mais ao vivo do que nós. Todavia não vivem depri­
midos. Estão, antes, repletos de alegria espiritual. Como é pos­
sível ? O segrêdo dessa boa disposição espiritual é que seu
tesouro, fonte de sua alegria e confiança, já não está nêles, em suas
pequenas virtudes, mas nas admiráveis virtudes de Jesus. Já não
tomam a si mesmos em consideração, ou fazem-no mui raramente.
Por menosprêzo de si próprios, fixam o olhar espiritual em Deus,
a quem amam, em lugar de se amarem a si mesmos. Possuem
wna consciência muito viva e profunda de sua união com Jesus,
cujas virtudes perfeitas, em ceno sentido, se tomaram suas virtudes.
O que impona é, pois, esquecer-nos cada vez mais a nós
mesmos, nutrir wna noção viva e habitual de nossa união com
Jesus, a arraigada convicção de que Suas conswnadas virtudes
são nossas, e constituem um tesouro completo, suficiente para
tudo. Acrescentadas às nossas pobres virtudes, as virtudes de
Jesus formam wn esplêndido ramalhete, sumamente agradável a
nosso Pai Celestial. Nossas escassas virtudes podem parecer
florinhas insignificantes; as de Jesus são magníficas, e alegram a
Deus, com sua beleza e celestial fragrância.
Farei por corrigir minha falta de alegria espiritual e de con­
fiança.. Pensarei menos em meu pobre "eu", em minhas virtu-

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A Virtude do Amor

des tão mal praticadas, para pensar mais nas virtudes de Jesus,
que constituem minha grande riqueza. Se sou tão rico em Jesus,
porque me sentiria pobre ? Seguindo o conselho de Santa Mar­
garida Maria, lançarei tôdas as minhas misérias, quaisquer que
sejam, no abismo da perfeição de Deus e dos divinos méritos de
Jesus mormente quando fôr tentado pelo desânimo.
TERCEIRO PONTO: Jesus é um tesouro inesgotável, que cor­
responde à nossa grande carência de amor. - Jesus é a fonte
de todo amor. Quando amo, na realidade é o próprio Cristo que
ama, em mim e por mim. Logo, quando às vêzes sinto a pobreza
e insuficiência de meu amor; quando sofro com a indiferença
de tantos cristãos, sei onde estancar minha sêde de amor. Tenho
o Coração de Jesus, fornalha do amor divino, Coração mais de­
sejoso de dar-me Seu amor, do que eu de recebê-lo.
Isto, porém, não me bastará. Se meu amor a Deus é de fato
candente; se amo a Deus como devo amá-Lo, e · como todos os
Santos O amaram, terei de vez em quando uma mágoa intensa,
ao pensar que, a despeito de todos os meus esforços, eu O amo
tão pouco e tão mal, e que tantas almas a mim confiadas tão
pouco caso fazem Dêle. A exemplo de Santa Angela de Foligno,
exclamarei: "Que pena ! o · Amor não é amado. Não amam a
meu Deus bem-amado".
É pois Jesus quem me consolará, em minha enorme carência
de amor. Jesus é o oceano do amor divino, que sorve todos os
pecados e crimes do mundo, como se fôssem uma gôta de escuma.
Um dia que Santa Juliana de Norwich se queixava ao Salva­
dor, por causa da multidão de pecados que se cometem no mundo,
e das inúmeras almas perdidas para sempre, Jesus respondeu-lhe
as simples e belas palavras: "Verás no céu, que tudo está bem,

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Jesus, nosso perfeito tesouro

e muito bem". Tudo está bem ! Como é possível ? Porque


Jesus repara tôdas as cousas.
11ste grande tesouro de amor está realmente à minha dispo­
sição, é verdadeiramente meu a qualquer tempo. Na Sagrada Eu­
caristia, o Coração de Jesus arde sempre de amor por mim e
por todos os homens. A lembrança dêste fato deveria alegrar-me.
Em minhas visitas a Cristo Eucarístico, deveria fazer de vez em
quando o que, talvez, não faça nunca; deveria agradecer-Lho de
todo o meu coração. Como Santa Gertrudes, lançarei meu cora­
ção, qual grão de incenso, no Coração abrasado de Jesus, tendo a
certeza de assim agradar imensamente ao Pai.
Possuo, também na alma, êste amor de Jesus. Como cabeça
do Corpo Místico, do qual sou membro, e pela Sua graça, Jesus
não cessa de amar em mim . A cada hora do dia e da noite,
posso oferecer ao Pai êste grande tesouro do amor de Jesus,
que tenho dentro de mim. Direi pois a Deus: "Meu Pai muito
amado, ofereço-Vos êste grande tesouro de amor, o amor infinito
de Jesus, por mim e por tôdas as nações da terra". Antes de
adormecer, porei a mão sôbre o peito, e pensarei com grande
júbilo: "Aqui está Jesus, o grande e único tesouro de amor no
céu e na terra. Enquanto durmo, 11le não cessará de amar a
Deus por mim".
Por todos os meios possíveis, por pequenos exercícios e fre­
qüentes aspirações de amor, é preciso que me compenetre, pro­
fundamente, da convição que em Jesus tenho dentro de mim,
dia e noite, todo o amor do mundo.
QuARTo PONTo: Jesus é um grande tesouro, capaz de satis­
fazer tôdas as outras nossas aspirações. Não temos apenas
-

grande carência de amor. Temos também muitas outras neces­


sidades..

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A Virtude do Amor

Adoração é a primeira obrigação que devemos a Deus, como


Suas criaturas. Não obstante, somos incapazes de adorá-Lo, de
modo condizente ao grande Deus, nosso Criador. Para nós, po­
bres e miseráveis criaturas, devia ser muito natural prostrar-nos
diante Dêle. Entretanto, não conseguimos sequer humilhar-nos
convenientemente em Sua presença. Temos uma idéia tão im­
perfeita da imensa distância que vai do nosso nada à infinita gran­
deza de Deus, que não logramos rebaixar-nos diante Dêle, em
profunda humildade.
Por sorte nossa, Jesus não cessa de oferecer a Seu Pai Ce­
leste a homenagem de Sua perfeita adoração. Na Eucaristia,
humilha-sE dia e noite, sob a aparência de pão, e adora com hu­
mildade o Deus infinito, Criador do céu e da terra. A despeito
de minha completa pobreza, posso lançar minha exígua adoração
no abismo da perfeita e imensa adoração de Jesus.
Quantos pecados não terei cometido em minha vida pretérita!
Ainda no caso de ser muito fervoroso, não está minha alma cheia
de tôda sorte de imperfeições ? Não lhe falta generosidade ?
Se amasse ardentemente a Deu�, não experimentaria grande dor,
ao lembrar-me dos inúmeros pecados do mundo, dos crimes abo­
mináveis que aqui se com�tem ? Como é enorme, para mim, a
necessidade de reparar meus pecados ! Como é infinitamente
maior a necessidade de expiar todos os pecados da Humanidade !
Felizmente, também neste particular, Jesus é ainda um tesouro
para mim. Basta uma gôta de Seu precioso Sangue para purificar
o mundo inteiro. Sem cessar, oferece f:le dia e noite, em vários
altares, o Sacrifício do Calvário, renovando-o misticamente, em
expiação dos maus atos e abominações dos homens.
Quantas graças não terei recebido, desde meu nascimento
até a data de hoje ! A lembrança de tôdas essas graças me enche

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Jesus, nosso perfeito tesouro

às vêzes de confusão. Não posso agradecer bastante a Deus pela


Sua infinita bondade e Seu amor misericordioso. Ainda que
passasse tôda a vida a não fazer outra cousa senão agradecer a
Deus, ser-me-ia impossível apresentar-Lhe a gratidão, que de mim
merece receber.
Pois, não sendo por demais egoísta minha vida espiritual, dei­
xarei de pensar nos muitos indivíduos que talvez nunca agrade­
çam a Deus de modo algum ? Nos cristãos tão freqüentes, que
sempre estão prontos para pedir a Deus tôda sorte de graças e
favores, mas tão raramente pensam em agradecer-Lhe, quando
atendeu suas súplicas. Não há o que duvidar. Se meu amor é
puro e desinteressado, devo sentir forte necessidade de agradecer
a Deus, por mim e pelo mundo inteiro.
Eis que Jesus, assim, por mais um título, é meu tesouro
completo e inesgotável, donde posso sempre haurir. Na pequena
Hóstia, t:le não cessa de fazer o que eu de mim não posso. A Seu
Pai bem-amado oferece uma gratidão infinita e perfeita, por tô­
das as graças que derrama sôbre nós, suas pobres e frágeis cria­
turas.

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 127
XI

Contemplação para alcançar o amor (1)

PRIMEIRA PARTE

Primeiro prelúdio: Por-me-ei na presença de Deus, que criou o


céu e a terra.

Segundo prelúdio: O fim desta contemplação é despertar em n6s


grande e ardente amor a Deus. Por isso, pedirei a Nosso
Senhor, vivo em mim, que faça comigo e por meu inter­
médio esta contemplação, cedendo-me por assim dizer Seus
olhos, para que eu veja e compreenda a. Deus, pelo menos
um tanto, como �le o faz; cedendo-me Seu Coração, a fim
de que eu ame a Deus ardentemente.
PRIMEIRO PONTo: O amor unitivo de Deus por nós. - Amor
diffusivus sui, diz o velho brocardo latino. O amor tende por
natureza a comunicar-se. É uma particularidade que se aplica a
todo amor, humano ou divino. O verdadeiro amor implica,
essencialmente, dois fatôres. Primeiro, que a pessoa dê sua for­
tuna por amor. Segundo, em caso de amor perfeito, inclui tam­
bém o dom de si. Podemos n6s afirmar que Deus nos ama assim,

(1) As Idéias principais desta contemplação foram tiradas da famosa •con·


templatlo ad amorem", que coroa os " Exerclclos Espirituais " de Santo �N!CJo.

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A Virtude do Amor

e até da maneira mais perfeita, que compreende o dom de si ?


É Seu amor um amor que exige união ?
Os cristãos, em sua maioria, consideram o amor de Deus
pelo homem como amor do Ser de infinita grandeza e bondade
por um pequeno átomo, como amor de compaixão e munificência
por tôdas as cousas que �le criou. Qual outro amor seria pos­
sível ? Deus chegou a sacrificar Seu Filho único. Fê-lo por
compaixão, para salvar de um só golpe tôda a raça humana do
inferno eterno. Portanto, dizem êles, Seu amor é um amor geral
por todos.
Todavia, desde que entramos na vida espiritual, começamos
a compreender que o amor de Deus por nós é um amor pessoal.
Consolações divinas, a intimidade de Deus conosco em nosso
coração, fazem-nos compreender que Deus nos ama, que me ama
a mim, que morreu e Se entregou por mim ( cfr. Gal. 2, 20),
que quer Meu amor e pensa em mim sem cessar ( 2 ) .
Adentrando-nos mais n a vida espiritual, compreendemos en­
fim que Deus nos ama pessoalmente, com o amor mais perfeito
c mais unitivo possível. :tle está, reahnente, enamorado de minha
alma. Trabalha, de modo incessante e misterioso, em promover
minha união com :tle. Quer dar-Se a mim, quer também que eu
me entregue a :tle. Quer esta união perfeita, já aqui na terra,
como preparação da união cabal e eterna da visão beatífica ( 3 ) .
Assim quer Deus estar unido conosco, d a mesma maneira
que todos os verdadeiros namorados querem sentir-se unidos. A
união dos esposos aqui na terra não passa de uma imagem muito
pálida e profana da união transcendente, que Deus procura ter
conosco, pelo nosso crescimento em santidade.

(li) Cfr. Cardinal NEWMAN, Friendship of Christ, L'am.itit du Chri&t.


(I) Cfr. a primeira meditação dêste Uvro: Fomoa criados para amar a. Deua.

130 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Contemplação para alcançar o amor

Reflitamos um instante. É um mistério estranho e incrível


que Deus, grande e imenso, que por um único pensamento cria
e conserva contlnuamente todo o Universo, o Rei dos Reis, Rei
do tempo e da eternidade, esteja enamorado de uma criatura
como eu. E essa criatura não é dotada de beleza e encantos.
Longe disso. É o ser mais pobre e débil que conheço.
É possível tal cousa ? Concebe-se tal loucura da parte de
Deus ? Que Deus tenha compaixão de nós, e queira tornar-nos
felizes, nós o compreendemos. Mas, que f:le esteja enamorado
de mim e queira unir-Se a mim, isto parece impossível. Pois o
amor supõe sempre semelhança e proporção entre os amorosos.
Ora, Deus e eu, Sua criatura, não somos totalmente desseme­
lhantes ? Sem dúvida, grande mistério é, esse mistério do amor
divino e infinito. Deslumbra nossa limitada inteligência humana,
como a brilhante luz do sol que ofusca os olhos das aves no­
turnas.
Tal mistério, porém, e essa aparente impossibilidade cons­
tituem um fato concreto. Para me tornar feliz, Deus quer ou­
torgar-me certos dons, que não são outra cousa senão uma pálida
imagem e um reflexo de Suas perfeições divinas. Quer, além
disso, dar-Se a mim de modo efetivo. Tôda a nossa vida é, pois,
um drama de amor.
Contemplemos, com espanto, o misterioso amor de Deus. Ad­
miremo-lo em silêncio e com vagar. f:ste amor é fora do co­
mum, ultrapassa nossa compreensão. O amor de Deus é infinito.
Nosso amor, que é o amor de tôda criatura aqui na terra, não
passa de uma paupérrima imitação dêsse amor divino. Quis sicut
Deus ? Quem pode comparar-se a Deus ? Sim, o amor de Deus
é estranho e misterioso.

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 131
A Virtude do Amor

Em ardente colóquio com Deus, expandamos nossos senti­


mentos de gratidão e humildade. Quem sou eu para ser esco­
Hudo a tal régio destino e real união ?
Sentimentos de compunção. Ah ! como até agora com­
preendi tão pouco do amor divino ! Como lhe correspondi de
modo tão impróprio !
Demos largas a nossos sentimentos de humildade e candente
amor e de nobre orgulho. Nosso destino é muito mais elevado
do que o de reis e imperadores, pois nossas almas estão desposa­
das com o Rei dos Reis, e são chamadas a fruir de uma união
parcial com 1l:le aqui na terra, mediante nossa luta pela santidade,
e no céu mais tarde, mediante uma união perfeita.
SEGUNDO PONTO: Os dons do amor unitivo de Deus. - Todos
os inúmeros dons de Deus me foram conferidos, a fim de que
Deus manifeste Seu amor e conquiste meu coração. São dons
do amor unitivo.
Os galanteadores sentem necessidade de oferecer mimos e
de reqüestar, mais fàcilmente, o coração da bem-amada. Isto é
que Deus faz, o grande Enamorado, o Amor infinito. Não trans­
corre um dia em que não recebamos presentes Seus. Todos êsses
dons não são apenas sinais de grande simpatia e amizade. Somos,
por vêzes, tentados a considerá-los sob êste prisma, mas êles são
muito mais do que isso.
São jóias preciosas que Deus, o Enamorado de minha alma,
me dá sem cessar, a fim de me conquistar o coração, aos poucos,
mas totalmente. Não procede como o amigo que conquista o
coração de outro. Faz com que, ganhando e cativando meu co­
ração, possa unir-me a Si aqui na terra, por união muito mais
íntima, do que entre esposos terrestres. Se considerardes a situa-

132
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Contemplação para alcançar o amor

ção sob êste prisma, tôda pequena dádiva, todo indício do amor
unitivo de Deus vos será muito apreciado e querido.
Vejamos, agora, quais são os dons que Seu amor nos con­
cede, incansàvelmente, para conquistar nosso coração. Há, antes
de tudo, bens de ordem natural. Todo o Universo é um pre­
sente que f:le me fez a mim. Criou-o para mim. Tôdas as causas
criadas que me cercam, foram dispostas e criadas por f:le, para
me falarem de Seu amor. São como que uma salmódia do amor
divino, um côro mais suave que os cânticos de Salomão. A!;
frutas que deliciam meu paladar, os animais que me acompanham
e ajudam, todos falam de Sua afetuosa bondade. Até o Sol e os
milhões de outros sóis, as estrêlas foram criados para mim. A
Criação, magnífica e multiforme, cuja existência f:le conserva
sem parar, é obra de Deus infinito, que Se enamora de Sua mi­
núscula criatura, de cujo coração sente uma estranha saudade.
Existem, em segundo lugar, dons de ordem sobrenatural, que
são ainda mais maravilhosos, e manifestam de modo mais admirá­
vel e evidente o amor de Deus para comigo.
A fim de me salvar do inferno, Deus fêz-Se homem. Eterno
como Deus, teve início como homem. Puro espírito, fêz-Se carne.
lmpassíve� tomou um corpo sujeíto ao sofrimento. Viveu, por
mim, uma vida de renúncia jamais igualada. Morreu no Calvário,
para provar a intensidade de Seu amor por mim, e para me
obrigar de futuro a retribuir-Lhe o amor. O drama do Calvário
é o meio desesperado que empregou, para me fazer compreender
Seu amor e para me cativar. f:ste deve ser, parece, o último
recurso. Que mais poderia fazer o próprio Deus ? Entanto,
Deus não conhece impossibilidade, e o amor nunca se dá por
satisfeito.

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A Virtude do Amor

Jesus continua, agora e sempre, a ser prêsa de Seu apaixonado


amor por mim. Entrega-Se a mim na Eucaristia. Seu amor in­
ventou êste meio estranho de chegar até mim, através de dois
mil anos. Aqui, na Eucaristia, sacrifica-Se de novo por mim, e
visita-me, t:le o grande Taumaturgo da Galiléia. Entra em meu
coração, abraça-me, une-Se a mim. Não há união igual na terra.
Não é o amplexo de dois amigos ou de dois cônjuges, que se
conservam estranhos uns aos outros. O amplexo de Jesus na Eu­
caristia é um abraço, uma união mais íntima, mais interiorizada.
t:le dá-Se a mim, para que eu O coma e saboreie. Enche-me com
Seu perfume divino. Incorpora-me a Si próprio.
De certo, o insaciável amor de Deus pela Sua criatura deu
agora tudo o que podia dar. Muito embora ! Seu amor ainda
não está plenamente satisfeito. Como Sua presença eucarística
em mim dura um breve instante, e Seu amor deseja ficar sempre
conosco, t:le dá-me, pois, a graça santificante, que de minha
alma faz um templo da Santíssima Trindade e nêle permanece
dia e noite. A graça santificante transforma-me. Faz-me, de
certo modo, participar da natureza divina. Não somente purifica
minha alma, limpando-a da lepra do pecado, mas também a torna
tão aceitável a Deus, que até os Anjos a contemplam com enlêvo.
Por meio de inúmeras graças atuais, Deus trabalha cada dia,
sem detença, para tornar nossa alma mais formosa e agradável
a Seus próprios olhos. Todos os pormenores de minha vida são
dispostos pela Sua amorosa sabedoria, a fim de que eu seja mais
completamente transformado Nêle. Sucedem-se períodos de con­
sôlo e aridez, mas t:le cativa-me pelos Seus encantos divinos.
Retrai-sE, para que eu O deseje afetuosamente.
Por isso me faz continuamente novos presentes, para ornar
minha alma e torná-la mais semelhante a Si próprio, porque sem

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Contemplação para alcançar o amor

semelhança não poderia haver união perfeita. Sendo, portanto,


fiel e generoso, atingirei a verdadeira santidade. Deus poderá,
então, executar Seu plano de unir-me a :tle na terra, e eu no
céu beberei o vinho do amor perfeito.
Aqui temos um esbôço muito pálido dos admiráveis dons
do amor de Deus. São as maravilhas da caridade divina.
"Que retribuirei a Deus por tudo quanto me presenteou ? "
(Ps. 1 1 5, 1 2 ) . Diante de tais prodígios, darei largas à minha
gratidão e a meu amor. Repetirei o admirável "súscipe et assume"
de Santo Inácio.
Realmente, Senhor Deus, agora é que compreendi Vosso
amor por mim. Sou pobre, pouco tenho de meu, e até êsse
pouco fostes Vós que mo destes. :E:sse pouco, eu sempre o es­
trago. Contudo, não disponho de outra cousa. Aceitai êsse
pouco em Vossa infinita misericórdia. Tornai-o todo, porque é
todo Vosso, por tôda a eternidade.

AMOR DO SOFRI MENTO

Jesus perguntou, um dia, a São João da Cruz, qual recom­


pensa desejava Dêle. Respondeu o Santo: "Sofrer e ser despre­
zado por amor de Vós, meu Deus". - "Sofrer ou morrer", dizia
a grande Contemplativa de Avila. - "Não morrer, mas continuar
a sofrer", declarava Santa Madalena de Pazzi. - Mais próxima
de nossa época, esclarecia a Santinha de Lisieux: "Cheguei ao
ponto de não poder mais sofrer, porque todo sofrimento se tor­
nou uma delícia para mim".
Qual é o segrêdo desta sêde ardente, dêste amor apaixonado,
que vemos nos Santos ? O segrêdo consiste, simplesmente, no

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A Virtude do Amor

amor a Deus e a Jesus Crucificado, que os abrasava. O sofrimento


não os conturbava, sob qualquer forma que se apresentasse. Pa­
recia-lhes algo de muito desejável. No sofrimento, descobriam
tesouros inesgotáveis, um meio de aumentar todos os dias seu
amor insatisfeito. Meditemos, de vez em quando, as grandes van­
tagens do sofrimento. Aos poucos, conseguiremos apreciar seu
significado, como o faziam os Santos.
O sofrimento torna-nos semelhantes a Jesus. Ora, se ama­
mos Nosso Salvador com um amor ardente e desinteressado, como
não desejaríamos assemelhar-nos a :l;:le ? Não constitui uma das
prerrogativas do amor tornar-nos conformes ao objeto amado ?
Como poderíamos contemplar Jesus no sofrimento, esbofeteado
e crucificado, e fugir todavia tudo quanto nos desse um mínimo
grau de semelhança com �le ?
Alguns Santos fizeram por inútar a Paixão de Nosso Salva­
dor, em tôdas as suas circunstâncias. O Beato Henrique Suso
representava o drama da Paixão no jardim e nas crastas do mos­
teiro. Santa Rosa de Lima flagelava o corpo, e açoitava-se até
ao sangue. Em redor da cabeça, trazia uma corôa de ferro, eri­
çada de pontas agudas. Carregava longas horas uma pesada cruz
aos ombros, e de noite ligava os dois braços em tôrno de uma
cruz, unindo sua prece à oração de Jesus moribundo. Mostram
êstes exercícios a que ponto pode chegar o amor a Jesus Cruci­
ficado, e a necessidade que certas almas sentiam de se tornarem
semelhantes a :l;:le.
O sofrimento torna-nos semelhantes a Jesus. Proporciona­
nos também inúmeras ocasiões, por vêzes estupendas, de provar
nosso amor a �le. Não resta a mínima dúvida, há muitos ou­
· tros modos de comprovar tal amor. A obediência, a castidade,
·a humildade, o amor a nossos irmãos, tôdas as virtudes são' ex-
' I
1 36 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Contemplação para alcançar o amor

pressões de nosso amor. Da mesma forma, a contemplação, a ati­


vidade apostólica, a caridade, cada qual nos enseja oportunida­
des de manifestar nosso amor e demonstrar a Jesus quanto O
amamos.
Mas, a alma abrasada de amor, e realmente enamorada de
Deus, percebe, por instinto, que o sofrimento em suas mil formas
nos oferece talvez o melhor modo de amar. E êste modo satis­
faz a alma, que então não sente necessidade de outra motivação,
nem deseja outra recompensa. Com muita justeza disse Santo
Agostinho: "Amar já constitui a recompensa do amor".
O amor é essencialmente dom de si. Portanto, amamos na
proporção que nos damos. Como poderíamos dar-nos de modo
mais efetivo que pelo sofrimento suportado, procurado e que­
rido por causa da pessoa bem-amada ? O amor é também um
esquecer-se a si mesmo. Quanto mais postergarmos a nós mesmos,
por causa da pessoa que amamos, tanto mais amamos. Ora, como
poderíamos esquecer-nos de maneira mais cabal que pelo sofri­
mento, objeto de nosso amor por atenção a Jesus ?
O amor é sacrifício, imolação de si próprio. Que bela imo­
lação de si o sofrimento cristão !
Amar a cruz, por amor de Jesus, é preferir Jesus a nós mes­
mos, Seus desejos e alegrias aos nossos. A alma que sofre, com
amor e por amor, tem-se a si em conta de nada. Jesus é seu
tudo. Tal alma sente um encanto secreto em humilhar-se diante
Dêle, em menosprezar suas preferências e repugnâncias, o próprio
bem-estar, a fim de pôr acima de qualquer dúvida seu amor a
Jesus. De mais a mais, que vem a ser a alma em comparação
com :ftle, a suma Beleza, Bondade e Mansidão ? A alma é uma
criatura insignificante e prevaricadora. Por isso, é também com
alegria .e tôda a sinceridade que exclamamos, sobretudo em ho-

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A Virtude do Amor

ras de amor passivo: "Meu Salvador, um sorriso de Vossos lábios


divinos vale tôda uma vida de trabalho e sofrimento".
O sofrimento permite-nos testemunhar nosso amor a Jesus,
e dá-nos, por isso mesmo, ocasião de torná-Lo feliz. Felicitar
Jesus, dar-Lhe prazer, agradar-Lhe: como tudo isto é doce, quando
amo sincera e afetuosamente ao Divino Mestre ! Não é êste o
sonho de minha vida, meu ideal único e exclusivo? Que me
importam as riquezas dêste mundo, a glória e os louvores do ho­
mens? Que me valem os prazeres dos sentidos e tudo quanto
empolga meu íntimo, quando os comparo ao amor de Jesus ?
Minha única satisfação é de agradar a Jesus. Só a �le de­
sejo, em lugar dêste "eu" que até agora amei em demasia. Por
conseguinte, quero repetir uma e muitas vêzes: "ó meu bem­
amado Jesus, só peço uma única alegria aqui na terra, o gôzo
de Vos tornar feliz".
Ora, onde poderia eu encontrar melhor esta alegria senão
nos incontáveis sofrimentos que perfazem minha vida ? Cada
cruz, por mínima que seja, torna-se, quando lhe tenho amor, um
beijo de minha alma a Jesus. Cada sofrimento Lhe assegura:
"Meu Salvador, eu Vos amo. Amo-Vos mil vêzes mais do que
a mim. Não amo senão a Vós neste mundo".
Se eu conseguisse encarar, neste ponto de vista, o peque­
no sofrimento de cada instante, como me pareceria agradável
todo sofrimento, como eu desejaria não me fôsse poupado ne­
nhum sofrimento !
Por esta razão, a Santinha de Lisieux amava as cruzes sobre­
maneira. Colhêr flôres e esparzir as pétalas aos pés de Cristo
Crucificado era a expressão de seu apaixonado amor pelos sofri­
mentos cotidianos, que se lhe antojavam: expressão do desejo

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Contemplação para alcançar o amor

de seu coração de não deixar desaproveitada nenhuma oportuni­


dade de sofrer por Jesus.
Logo, quando suportados devidamente, nossos sofrimentos
são, como havíamos dito, ósculos em Jesus Crucificado. Mas, o
sofrimento é, por sua vez, um ósculo de Jesus à nossa abna. Por
via de regra, as almas comuns vêem no sofrimento uma punição
de Deus, uma demonstração de Sua justiça e desgraça. A ahna
generosa, ao invés, encontra no sofrimento uma prova do amor
de Deus por ela. Não vê a simples Cruz, mas contempla Jesus
pregado nela, Jesus que abraça a alma com fervor, e dela espera
receber, em retômo, uma generosa e afetiva correspondência.
Se a tomarmos sob êste ângulo, como a Cruz se nos apresen­
tará transfigurada, qual amplexo de Nosso Salvador e efusão de
Seu amor ! Como a amaríamos de todo o coração ! Com que
transportes não nos serviríamos das palavras do Apóstolo para
saudá-la: "Longe de mim gloriar-me senão na Cruz de Nosso
Senhor Jesus Cristo" (Gal. 6, 14) .
Mas, para enquadrar a Cruz nesta perspectiva, não devo
considerá-la de modo teórico ou poético. Para mim, a Cruz de
Cristo é tudo aquilo que me faz sofrer. Os ósculos de Jesus à
minha ahna, por estranho que pareça, são os inúmeros pequenos
sofrimentos de minha vida cotidiana, as pequenas faltas de con­
sideração para comigo, os constantes transtornos de minhas ocupa­
ções; a vida monótona que é meu quinhão; os companheiros que
me demonstram tão pouca simpatia; os achaques corporais que
me acometem, de vez em quando.
A estas provações posso acrescentar os longos silêncios de
Jesus em meu coração; as rebeldes imperfeições que resistem a
todos os meus esforços; as tentações que às vêzes me assaltam, c
até as a.Spirações insatisfeitas e dolorosas de minha abna.

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 Virtude do Amor

Ah ! como é raro conseguir encontrar o Divino Mestre em


tôdas estas circunstâncias. Que grande arte, a de poder, com os
olhos de uma fé viva e um amor ardente, identificar Jesus des­
figurado, desprezado, quase irreconhecível sob estas aparências
pouco atraentes !
Na verdade, o amor de Jesus por nós e Seu desejo de ser
amado em retôrno, determinam tôdas as circunstâncias de nossa
vida, quer agradáveis, quer desagradáveis à nossa natureza. Em
cada um dêsses sofrimentos Se esconde Jesus, que nos declara:
"Alma querida, Eu te amo. Ama-Me tu, por tua vez ! "
As almas sedentas do amor divino, os sofrimentos se lhes
afiguram atraentes, por outra boa razão. O sofrimento mitiga,
até certo ponto, a sêde de amor que as consome. Se tivermos
alguma noção de quanto Deus é adorável, ao passo que nosso
"eu" é tão odioso, devemos ter sentido, pelo menos em dadas oca­
siões, o desejo imenso de um amor mais pronunciado, mais puro
e mais desinteressado. Lentamente, alcançaremos uma consciên­
cia nítida de que, apesar de nossos esforços, e por mais ardente
que seja nosso amor, nunca amaremos a Deus, quanto o merece
Sua infinita bondade. Esta consciência se tornará, gradualmente,
um sofrimento vivo e intenso. Na proporção que avançarmos
no amor, tal sofrimento será o maior e o mais acentuado de
nossa vida.
Se pertencermos ao número das almas abençoadas, que o amor
atingiu com uma chaga incurável, produzida pela própria insu­
ficiência de seu amor a Deus, o sofrimento será, sob qualquer
forma, o melhor bálsamo para nossa chaga de amor. Proporcio­
na-nos, corno já vimos, repetidas ocasiões de amar e de chegar­
nos ao amor imenso e puríssimo, do qual desejamos abrasar-nos.
Além disso, ainda que à primeira vista seja estranhável, o sofri-

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Contemplação para alcançar o amor

mento de não amar bastante constitui, por si mesmo, nosso me­


lhor consôlo e o mais eficiente remédio contra nossa tristeza.
Sabem-no, por experiência, as almas que já curtiram êsses aben­
çoados sofrimentos. Por nada do mundo, quereriam elas eliminar
a chaga dorida, mas abençoada, que resulta da insuficiência de
seu amor.
Vimos, portanto, algumas das grandes vantagens, que o amor
nos aufere do sofrimento. Há, porém, muitas outras razões de
se amar o sofrimento. Um exemplo. Embora nos aconteça es­
quecê-lo, todos sabemos que a cruz é um meio indispensável
para o bom êxito de nossa atividade apostólica. Em sua maioria.
os ilustres Santos que fundaram grandes Ordens na Igreja ou rea­
lizaram prodígios pela salvação das almas, passaram por fortes
tribulações, antes de alcançarem o bom resultado, que o mundo
admirou após sua morte, quando não já em vida dêles. Santa
Teresa de Lisieux dizia justamente: "Jesus quer estabelecer Seu
Reino, muito mais pelo sofrimento do que por brilhantes pre­
gaçõesn.
Iríamos, entretanto, muito longe, se quiséssemos analisar tô­
das as razões de amar a Cruz. O que vimos, basta para nos in­
duzir a aceitar, com alegria e amor, tôdas as aflições que aprou­
ver a Deus enviar-nos. Tenhamos a plena convicção de que
Deus, incomparável médico, e pai ao mesmo tempo, quando acha
bom fazer-nos sofrer, é porque a Seus olhos o sofrimento é
muito bom e precioso. Do contrário, não consentiria, jamais,
em aplicar remédios amargos, que tanta aflição causam a Seus
filhos prediletos.

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XII

Contemplação para alcançar o amor

SEG U N D A P A RTE

Primeiro prelúdio:
. :
} Corno na meditação precedente.
Segundo prelúdw ·

PRIMEIRO PONTO: Deus, meu divino Amante, trabalha por


mim sem cessar. - Afirma-se que Jacó trabalhou vinte e oito
anos para conquistar Raquel, sua espôsa. Ora, Deus que Se
enamorou de minha ahna, trabalha, para me conquistar, desde
o dia de meu nascimento até o dia de minha morte. Como sabe­
mos, Deus está presente em tôdas as criaturas, mas não Se man­
tém ocioso nelas. Por mim, trabalha com a mais intensa ativi­
dade, privativa só de Deus. Por amor, Deus, o poderoso Criador
do céu e da terra, é meu servidor permanente.
:ele está na terra a fornecer seiva aos vegetais, a formar
os legumes, que constituem minha alimentação. Está nas flôres,
aformoseando-as maravilhosamente, para me darem alegria e pra­
zer. Está nos animais que me servem, conferindo-lhes o miste­
rioso instinto de me serem úteis. Está nas aves, que me oferecem
simples e belos concertos da natureza, encantado-me os ouvidos.
Está no sol longínquo. Comunica-lhe, de modo misterioso, que

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A Virtude do Amor

a ciência até agora não soube explicar satisfatoriamente, a luz e


o calor, tão necessários à minha existência.
:ftle opera admiràvelmente também em mim, em tôdas as
fibras e músculos. Produz o tecido da carne e os ossos. Tra­
balha nos pulmões, que são foles em miniatura. Trabalha no
coração, conservando-o, como obreiro vigilante, a bater dia e
noite, até minha morte.
Como na ordem natural, Deus realiza na ordem sobrenatural
maravilhas muito maiores. São as maravilhas da graça divina,
que superam tôda imaginação, e das quais só posso ter uma fraca
idéia. Oh ! se pudesse só ver as maravilhas de ,Seu amor sempre
ativo, assim como as vê meu Anjo da Guarda, como eu próprio
contemplarei, extasiado, depois da morte !

SEGUNOO PONTO: Com o intuito de me conquistar o coração,


Todos
Deus manifesta Suas perfeições no reflexo das criaturas. -
os amorosos se dão a conhecer, ostentando suas melhores quali­
dades e atrativos, em conquista do coração que desejam. É o
que faz Deus, o grande AJ:!loroso. Pois, não nos mostra Seu
rosto ? Não nos enleva com Sua formosura ? tle o faz real­
mente, mas devemos reconhecer que, nessa manifestação, Deus
Se vê um tanto embaraçado, pela infinidade de Sua formosura
e a imensidão de Suas perfeições.
Se à miserável criatura qual sou, tle se mostrasse, não "de
modo obscuro como que por um espelho", no dizer do Após­
tolo, mas "face a face", minha alma voaria do corpo à busca
do ósculo de Deus. Além disso, ainda que minha alma não se
fôsse e não abandonasse o corpo, à vista de Deus deixá-la-ia tão
apaixonada por tle, que perderia tôda a liberdade. Como os
Santos no céu, ela não poderia nunca, nem um instante sequer

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Contemplação para alcançar o amor

pensar em querer bem urna criatura por ela mesma, ou em co­


meter o menor pecado de imperfeição.
Havendo, pois, encontrado a Deus, objeto perfeito de seu
querer e seu bem supremo, a alma O amará forçosamente, por
íntima necessidade. Aqui na terra, Deus quer acima de tudo
meu amor não constrangido. Quer que, por livre ato de minha
vontade, prefira Sua divina beleza e esplendor ao encanto de
tôdas as criaturas.
Entanto, �le não Se manifesta a mim, tal qual é na realidade.
Os raios de Seu divino amor e formosura são muito deslum­
brantes, e queimariam os olhos de minha alma. Por isso, �le obs­
curece os raios brilhantes, a fim de que melhor se acomodem à
minha condição mortal. �le vem a mim, sob o véu das criaturas,
e por elas cativa meu coração.
Analisemos primeiro o Universo físico. Vejamos corno Deus
por êle Se revela, no intuito de conseguir meu amor. Até o reino
mineral proclama as maravilhas do poder e sabedoria de Deus.
Um grão de areia, urna lasca de minério, um pingo de lôdo, estão
repletos de maravilhas. O descobrimento do rádio revelou
novos mundos. Não obstante sua dimensão infinitesimal, o áto­
mo representa urna miniatura de nosso sistema solar, pois está
cercado de eletrões muito mais diminutos.
Não se sabe o que mais admirar, se as cousas de tamanho
colossal, ou se as cousas infinitamente pequenas. O sol é um
milhão de vêzes maior do que a terra. No entanto, alguns astros
são milhares de vêzes maiores do que o sol, embora nos pareçam
minúsculos, por efeito da distância. A luz move-se à velocidade
de 186 . 000 milhas por segundo; sem embargo, se viajássemos
num raio de luz levaríamos quatro anos para atingir a estrêla

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A Virtude do Amor

mais próxima. Seria necessário um percurso de 20 . 000 anos-luz


para se chegar aos astros da Via-Láctea.
Ora, o Deus infinito, que esparziu todos êsses astros pelos
céus, como semeamos grãos nos campos; que os conserva inces­
santemente em harmonioso movimento: está enamorado de mi­
nha alma, que Lhe é mais preciosa do que o Universo. me im­
plora meu amor. Quer unir-me a Si aqui na terra pela santidade,
a fim de preparar a união eterna no céu.
Do mesmo modo, manifesta Deus Seu poder e sabedoria nos
reinos vegetal e animal. .. Urna folhinha de musgo, um pé de
feno, urna florinha, sabemo-lo pela bod.nica, quantas maravilhas
I

não encerram ! Os ocelos de urna borboleta; as asas da mosca A

vulgar, muito mais perfeitas do que as de nossos melhores aviões;


o apura�o instinto das formigas e vespas: tôdas estas maravilhas
do mundo físico bastam para fascinar nossa inteligência. Com
o Salmista, cujas palavras foram repetidas pelo ilustre Newton,
exclamamos: "Caeli et terra enarrant gloriam tuarn, Domine.
Céus e terra narram Vossa glória, Senhor ! " (cfr. Ps. 18, 2 ) .
Não obstante, tudo isso· é pouco, em comparação com as
maravilhas do mundo espiritual. A alma humana é imensamente
superior a todos os portentos do mundo material ou físico. Mas,
por desgraça, nossas faculdades são tão limitadas, que se revelam
totalmente inaptas para a gigantesca tarefa de investigar os se­
tores mais transcendentes do saber.
Em plano infinitamente mais elevado, existe todavia o mun­
do sobrenatural, o da graça santificante, que comunica urna fa­
gulha da divindade, constituindo-nos filhos de Deus. A propó­
sito destas maravilhas, só conseguimos balbuciar. Algumas San­
tas, como Catarina de Sena e Teresa de Avila, entreviram a

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Contemplação para alcançar o amor

formosura de uma ahna revestida da graça santificante, e excla­


maram: "Basta, basta, Senhor ! Estou a morrer de gôzo".
Além do mais, o Criador destas incríveis maravilhas é o
Deus que reivindica todo o meu coração, que me quer tão ena­
morado Dêle, como tle está enamorado de mim. Sobrestarei aqui
um instante, e perguntar-me-ei, se poderia ser tão insensato, a
ponto de não dar cada fibra de meu coração a Deus, que mo
pede.
Vimos como Deus revela Seu poder e sabedoria. Podería­
mos, pelo mesmo processo, refletir sôbre todos os mais atributos
de Deus. Temos Sua imensidade, da qual as enormes vastidões
dos céus e dos mares são apenas simples reflexos. O que vimos
a respeito dos astros e suas incríveis distâncias, dá-nos alguma
idéia do que seja a imensidade de Deus.
Temos Seu amor e bondade. Certas mães, aqui na terra, dis­
tinguem-se pelo amor e a bondade. Tornai o amor e a bondade
de tôdas as mães juntas, e distilai daí uma essência aromática.
Nada seria esta essência, comparada com os atributos de Deus,
que são mil vêzes maiores. São tão grandes como Seu poder e
sabedoria, e ultrapassam nossa compreensão.
Temos, ainda, a formosura de Deus. Determinadas paisagens
da natureza - vales, montanhas, florestas, caudais, geleiras -,
são belas em sua magnificência e luminosidade. Empreendemos
grandes viagens para as admirar. Infelizmente, nunca nos lem­
bramos de que são apagados reflexos da beleza de Deus. A for­
mosura humana é, por vêzes, mais atraente ainda; pode causar
muito amor e também muita desgraça. Quando se oculta na
beleza das criaturas, Deus manifesta-Se de modo obscuro e im­
perfeito. Qual o sol poente, escondido por detrás de nuvens
sombrias, que as rendilha de ouro fulgente, tais são as perfeições

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A Virtude do Amor

divinas, que nirnbam tôdas as cousas com o reflexo de seu infi­


nito esplendor.
Afinal, Deus revela-Se diretamente à alma fervorosa, mesmo
sem a intervenção dos sentidos, mediante a fé desenvolvida e
aperfeiçoada pelos dons do Espírito Santo, mormente pelos dons
da sabedoria e inteligência. Nestes têrmos, se fonnos reahnente
generosos, o véu que oculta a Deus ficará, cada dia, mais leve e
transparente. De vez em quando, Deus talvez erga uma ponti­
nha do véu, e infunda em nossa alma o senso místico de Sua
presença divina, que nos éiegreda: "É :f:le ! "
Pode ser que Suas palavras encantadoras ressoem aos ouvi­
p
dos de nossa alma, ou que então :f:le nos faça, ela contempla­
ção passiva, vibrar de amor e gôzo à vista da formosura divina.
Muitos Santos ficavam simplesmente absortos em êxtase, quando
contemplàvam os esmaecidos reflexos da beleza de Deus.

TERCEIRO PONTO: Os ensinamentos desta contemplação.


Explicamos porque Deus não Se mostra face a face. Mas, o
quanto Se mostra, não é bastante para conquistar todo o meu
coração ? Deus me diz, por Íntermédio de cada criatura, e par­
ticularmente agora nesta meditação: "Olha, alma querida, não
sou bastante formoso para merecer todo o teu amor ? Não sou
bastante bom e amoroso para ser sempre amado por ti, acima
de tôdas as cousas ? Não sou bastante sábio e poderoso para te
proteger em todos os sentidos, assegurar tua felicidade, e con­
duzir-te à santidade ? "
Qúe direi a Deus Nosso Senhor, que tão eloqüentemente
pede meu coração ? Silêncio de minha parte, um amoroso silên­
cio de admiração, eis o que pode ser minha única resposta. Po­
derei, também, responder a Deus, quando me pergunta se O amo:

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Contemplação para alcançar o amor

"Meu Deus, Vós bem sabeis que Vos amo. Vós sabeis tôdas as
cousas, Senhor ! Vós sabeis que Vos amo" (cfr. Jo. 21, 1 5 ss.) .
D e fato, posso responder assim, com sentimento de grande
júbilo. Não faz tempo que me sinto um tanto apaixonado pelo
Deus de meu coração ? De modo mais particular, se sou sacer­
dote, religioso, missionário, não fiz eu o que poucos namorados
fazem. Não abandonei por amor meus pais, meus amigos,
quiçá meu país natal ?
Ao mesmo tempo, porém, sinto que podia e devia amar a
Deus muito mais; que minha alma está ainda longe de amar seu
Divino Espôso, e de viver como desposada do Rei dos Reis; e
que Deus merece muito mais amor. Percebo que, se fôsse deci­
didamente mais generoso, ainda assim não amaria a Deus quanto
desejava.
Nestas disposições, posso uma vez a mais implorar Nosso
Senhor com tôda a ardência de meu coração, e pedir-Lhe que
tome plena posse de minha alma. Posso convidá-Lo a amar
imenso em mim e por mim. Depois disso, nada tenho que seja
meu. Mesmo o pouco amor que tenho, é apenas a caridade
divina, o amor de Jesus vivo em mim. Nestas condições, Jesus
é quem deve aumentar meu amor e abrasar-me a alma de Seu
divino amor ao Pai.
Pelo que acabo de ver - uma exortação à contemplação amo­
rosa - compreendo quanto eram venturosos os Santos, as almas
estreitamente unidas a Deus, que, por uma fé viva e um amor
ardente, chegaram ao ponto de ver e amar a Deus em tôdas as
cousas, de sentir-se submersos Nêle.
Verdade é que, vivendo em grande cidade, onde tudo pro­
clama · a atividade do homem, posso achar um tanto difícil ter

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A Virtude do Amor

êsse senso de Deus presente, que nos ama em tôdas as cousas.


� mais fácil lobrigar Deus em a natureza, domínio indiscutível
da atividade divina. Contudo, mesmo aí na natureza, será que
contemplo a Deus com bastante assiduidade ? Reflito, de vez
em quando, sôbre o fato de estar Deus presente em tudo o que
me rodeia, em cada pé de erva, em cada inseto, em cada ave,
em cada uma dessas flôres que me empolgam: como o Deus "que
olha pela janela", a cortejar-me o coração ?
O simples considerar a natureza, por êste prisma, é um ex­
celente exercício de amor, . uma verdadeira "contemplação para
alcançar o amor".
Em face das maravilhas que me encantam, de noite, sob os
céus estrelados, deveria de vez em quando pôr-me a refletir, até
que ficasse empolgado pelo senso da imensidade de Deus, de Sua
sabedoria, Seu encanto e formosura. Ao fazê-lo, deveria lembrar­
me de que eu, pobre criatura, sou desposada com êsse Deus Todo­
Poderoso, o qual, em Seu imenso amor por mim, quer unir-me
a Si, um pouco aqui na terra pela santidade; e que dentro em
breve estarei em Seus braços, · e O verei face a face por tôda a
eternidade.

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XIII

Deus, meu único Bem


Primeiro prelúdio: Imagino São Francisco de Assis em êxtase
diante de Deus, a dizer a noite inteira: "Deus meus et omnia !"

Segundo prelúdio: Peço, seriamente, a grande graça de compreen­


der a que grau de amor sou chamado, e de sentir vivo desejo
de alcançá-lo.

PRIMEIRO PONTo: Nossa alma possui um s6 bem verdadeiro


e perfeito, que é Deus. -Nas meditações anteriores, vimos que
nossa alma foi criada para Deus, só para :ele, seu bem supremo.
Nossa alma tem por Deus um amor essencial. Tôda outra cousa
que ela ame, a razão dêsse amor, pelo menos inconscientemente,
está em sua semelhança com Deus, porquanto nessa cousa existe
algo de Deus, o Bem perfeito, algo que é divino até certo ponto.
Tornemos a vista, corno ponto de comparação. Seu bem ou
objeto é tudo que for visível, a própria luz ou cousas por elas
iluminadas. Seria absurdo oferecer ao ôlho alguma cousa para
comer ou para escutar, pois que não foi feito para comer nem
para escutar. Comida ou som não constituem o bem ou objeto
próprio da vista.
Da mesma forma, não pode a alma achar urna cousa agradá­
vel, se não representar ou contiver algo daquilo que ela deseja,
de Deus, seu objeto próprio. Do contrário, tal cousa não teria

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A Virtude do Amor

interêsse para a alma. Poderíamos amar ou desejar alguma


causa, porque é feia ou má ? Não seria razoável. Algumas vêzes,
porém, os homens amam o que é feio e mau, porque de algum
modo, ou em qualquer ponto de vista, nisso encontram algum
bem.
Logo que alcançarmos o céu, Deus imediatamente nos figu­
rará como nosso único objeto, nosso único Bem. Logo ficaremos
imensamente apaixonados por Deus, e só por �le. Tôdas as
causas, tôdas as criaturas, todos os Santos se nos apresentarão
como sêres iluminados por Deus, agradáveis só por causa de
Deus. Deus assinalar-Se-á ew tôda criatura. Não nos seria pos-"
sível amar o que quer que seja, nem mesmo os Sanrt>s e Nossa
Senhora, se fôsse unicamente por êles. Seria idolatria, hipótese
absolutamente impossível.

SEGUNDO PONTO: A sandice de amar alguma cousa por aten­


ção dela mesma. - Aqui na terra, não nos é dado ver a Deus.
�le não pode manifestar-Se, porque nossa alma está envolta pelos
sentidos. São êstes um véu que oculta a Deus.
Por isso, Deus mostra-Se e comunica-Se, não diretamente,
mas por intermédio de Suas criaturas. Não satisfaz de repente,
mas aos poucos, a fome e sêde inconsciente que temos Dêle.
Dá-nos tôdas as causas como arras de Seu amor, para nos fazer
conhecer Seu amor e Sua beleza. Tôdas as cousas são mensa­
geiras de Seu amor, com a incumbência de revelar-nos algo de
Suas perfeições divinas.
Que diríamos da princesa, a quem o rei enviasse uma men­
sagem de amor, uma carta, por intermédio de um servidor, se a
princesa se enamorasse dêste último ? Que tôla ! diríamos nós.
Mas, é o que fazemos, quando amamos, por elas mesmas, as

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Deus, meu único Bem

criaturas que supomos trazer-nos o amor de Deus, mas que são


apenas mensageiras de Seu amor e de Sua formosura.
Costumamos beijar o Crucifixo, uma imagem ou medalha
de Santo. O beijo, evidentemente, não tem por objeto o cruci­
fixo ou a imagem em si mesmos, mas o que nos representam.
Nosso amor vai a Jesus ou ao Santo. Amar o crucifixo corno tal
seria loucura.
Sem embargo, esta é nossa loucura, quando amamos urna
criatura simplesmente por causa dela, e nela não amamos impli­
citamente o Deus de nosso coração. Se nos apegamos a uma
criatura, repousando nela, desejando-a, amando-a unicamente por
ela mesma, somos culpados de um desatino, de uma espécie de
idolatria, porquanto volvemos nossa estima e afeição à imagem,
que representa Deus.
Isto, infelizmente, é o que nos acostumamos a fazer, desde
nossa infância. Amamos as cousas, por elas mesmas, sem a idéia
pelo menos implícita de que são imagens de Deus, Suas prendas,
que nos falam de Deus e nos bradam: "Não ameis a mim, amai
a Deus em mim ! " As criaturas devem ser apenas o objeto ma­
teriaf. de nosso amor, nunca seu objeto formal. Em tôdas as
cousas, precisamos sobrelevar-nos às criaturas e por elas chegar
até Deus.
Agora, ainda mal, depois de tantos anos de vida espiritual,
corne�ernos algumas vêzes essa loucura, pelo menos involuntária
e inconscientemente. Se nos apegarmos a uma criatura, por
exemplo, a um petisco, querendo-o por êle mesmo, se nos ati­
vermos à estima dos homens, a um prazer intelectual ou até a
urna consolação espiritual: amamos a cousa por ela mesma, sem
nenhuma referência implícita a Deus, de quem a cousa devia
lernbrar-:-nos.

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A Virtude do Amor

De certo, o importante é nunca amar ou apreciar volunta­


riamente o que quer que seja, desta maneira. Quandô nos livra­
mos dêsses atos inconscientes de amor desordenado, atingimos de
fato a santidade.

TERCEIRO PONTo: Devo corrigir tôda modalidade imper­


feita de amar. - Tôda a articulação de nossa vida espiritual
consiste em corrigir a imperfeição de nosso amor. Devemos
chegar, lentamente, a tal perfeição de fé e de amor, que para
nós tôdas as cousas representem tão bem o amor e a formosura
de Deus, e por natural conseqüência amemos a Deus, e só a �le,
·
em tôdas as cousas e até em nós mesmos. Devo chegar jlO ponto
de só amar e considerar a Deus dentro de mim, como o farei
no céu, onde não é possível o amor egoísta. "Devemos amar a
Deus em tôdas as criaturas, e as criaturas em Deus", diz Santo
Inácio. Noutros têrmos, Deus deve tornar-Se tudo para nós.
�te é o trabalho de Deus, tanto como o meu próprio, en­
quanto me durar a vida. Sabemos como Deus faz para purificar
nosso amor e desapegar-nos de nós mesmos. Primeiro, desliga­
nos, pelo menos a um grau eievado, de tôdas as cousas terrestres
por meio de consolações sensíveis, mais doces do que tudo quanto
o mundo nos pode propiciar. Em seguida, desliga-nos de nós
mesmos, o que é obra muito mais difícil, como diz São Gre­
gório. Consegue-o, pela alternância de consolações e desolações
espirituais. As desolações e provações espirituais revelam-nos a im­
potência e as inúmeras misérias dêsse "eu", que desde muito amá­
vamos. As consolações revelam-nos a inefável beleza de Deus. Desta
maneira, sentimos aos poucos grande desgôsto, verdadeiro ódio
e desprêzo de nós mesmos, largo e apaixonado amor a Deus,
genuíno tesouro de nosso coração, até ao ponto de amarmos afinal

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Deus, meu único Bem

s6 a �le, Nêle mesmo e nas criaturas, que são Suas prendas e


imagens.
QuARTO PONTO: O que isto significa na prática. Não deve­
-

mos aceitar voluntàriamente alegria, nem tristeza, nem temor,


nem desejo que realmente sejam egoístas.
Alegria, prazer, satisfação egoístas são bens que desfruto de
modo natural, por razões do meu egoísmo, sem dar atenção a
Deus e a Seu serviço, nem sequer impltcitamente. É uma alegria
ou satisfação que Nosso Senhor, vivo em mim, não aprova, pelo
menos quanto ao meu modo de gozá-la. De fato, Deus em Sua
bondade nos proporciona muitas alegrias naturais e espirituais,
que nos ajudam a serví-r.o melhor, e mais alegremente. Mas,
fôrça nos é empregá-las de modo sobrenatural, amar nelas a
Deus, aceitá-las por amor Dêle, e com o intuito de agradar-Lhe.
Santa Teresinha de Lisieux costumava dizer: "Quero não s6 pa­
decer por Jesus, mas também alegrar-me por me, para Lhe ser
agradável".
Na vida de Santa Gertrudes, ocorre um episódio que ilustra
bem êste ponto. Haviam oferecido à santa abadessa um belo
cacho de uvas. Doente como estava, queria ela sacrificá-lo por
amor de Nosso Senhor. Jesus, então, lhe disse: "Eu te peço,
dá-me o prazer de comer Eu estas uvas por teu intermédio". A
Santa comeu as uvas para agradar a Jesus, por amor Dêle.
Um sofrimento egoísta, uma mágoa egoísta é um desgôsto
por causa de algum fato em si mesmo, uma contrariedade em si
mesma, sem que a pessoa atenda, se foi Deus ou não quem o
permitiu. Pode assaltar-me um sofrimento, uma enfermidade,
uma hwnilhação, um contratempo que me desagrade. Deus mos
enviou, �le os quer, Sua vontade é esta. Se amo s6 a Deus, que
não a mim, não admitirei nenhum pensamento de pesar. Não me

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A Virtude do Amor

porei a dizer: "Mas que lástima ! " Direi, antes, pelo contrário:
"Quer Deus que seja assim, não há pois outra cousa melhor"
Nosso Senhor que vive em mim, quer por Sua vez êsse sofri­
mento. Como poderia eu admitir um lamento voluntário, que
provenha de uma vida e amor egoísta ?
Todo apêgo voluntário, todo gôzo, pesar, desejo ou receio
de caracter egoísta, que eu admita deliberadamente, constitui um
obstáculo, por mínimo que seja, à união com Deus. Como diz
São João da Cruz, basta um fino cordel para prender urna ave.
E a Imitação de Cristo exprime o mesmo pensamento com muita
propriedade: "Se conseguaes outra cousa, que não seja Jesus,
perdes mais do que se perdesses o mundo inteiro".
No que diz respeito a certos sentimentos egoístas que nos
assaltam de vez em quando, não constituem real obstáculo à nossa
união com Deus. Sem embargo, precisamos procurar gradual­
mente sua total eliminação a fim de conseguir a perfeição do puro
amor.
Terminaremos esta meditação, despertando em nós o vivo
desejo desta pureza de amo�, a que somos chamados, e que se
torna necessária para a íntima união com Deus. Alcançar tal
pureza de amor é uma tarefa árdua, pois exige de nós o desapêgo
de tôdas as cousas criadas, especialmente de nós mesmos.
Entretanto, a que maravilhosa felicidade, a que união com
Deus não nos levará êsse esfôrço ? Deus, então, será nosso tudo.
Poderemos, na verdade, dizer com São Francisco de Assis: "Meu
Deus e meu Tudo ! " Para conquistar a Deus, perderemos tôdas as
mesquinharias do mundo. Tudo perderemos, para ganhar tudo.
"Tudo ou nada", como diz São João da Cruz.
Assim é o estado bem-aventurado, de que fala o Doutor
Místico no "Cântico Espiritual", o estado de uma alma que em

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Deus, meu único Bem

tôda a parte se vê cercada pelo seu Bem-Amado; que vê Bem­


Amado em tôdas as cousas:

Meu Amado, as montanhas,


os vales solitários, nemorosos,
as insulas estranhas,
os rios rumorosos
a noite sossegada,
tocando já com o surgir da aurora
a música calada,
a solidão sonora
a ceia que recreia e enamora. (• )

(Estrofes XIV e XV)

MEIOS DE ADQUIRIR O FERVOR ESPIRITUAL

Existem inúmeros meios de aumentar nosso fervor. Veremos


dois ou três, excelentes.

Leituras espirituais
Um autor espiritual muito conhecido, o Padre M. E. Boylan
O. C. R. consagrou alentado capítulo de seu livro Le redoutable
Amant para insistir na grande importância das leituras espiri­
tuais. Segundo êle, é quase impossível progredir seriamente na
vida espiritual, se todos os dias não dedicarmos determinado tempo
a leituras espirituais. Verdade é que nem todos tiram o mesmo
proveito de tais leituras. Uns aproveitam mais, outros menos.

(*) Tradução do Carmelo de Fátima, 2.• edição.

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A Virtude do Amor

Sem embargo, as leituras espirituais são indicadas para to­


dos. A respeito não pode haver dúvida alguma. Realmente,
quanto mais ordinária e material, quanto menos espiritual fôr a
natureza do trabalho que nos cabe executar, tanto mais impe­
riosa é, para nós, a necessidade de leitura espiritual. Sem esta,
corremos o risco de ser demasiadamente absorvidos pelo traba­
lho, propendemos ao espírito materialista, e somos capazes de
perder de vista as cousas espirituais e celestiais. Uma leitura
diária, feita regularmente, conservará nossa alma firme nas cousas
do espírito.
A leitura espiritual eGriquece nossas idéias. Ajuda.r-nos-á
muito a fazer fervorosas meditações, a pregar bons sermões. En­
contramos, de vez em quando, sacerdotes e religiosos que se quei­
xam de dificuldades na meditação e na elaboração de seus ser­
mões. O , motivo pode ser, bastas vêzes, que não lêem quase
nunca um livro espiritual. Não admira, pois, que não possam
descobrir novas idéias, e tenham uma sensação de secura quando
fazem meditação ou preparam sermões.
Dizem outros, que não ,dispõem de tempo para leituras es­
pirituais. As obrigações do ministério são tão desencontradas e
pesadas, que lhes tomam todo o tempo disponível. Migura-se­
lhes difícil dispor de tempo para uma recitação devota e pausada
do Breviário.
A resposta é que, por vários meios, deveriam diligenciar
o tempo de fazer leituras espirituais. Muito tempo empregamos
em cuidar do corpo, em nutrí-lo razoàvelmente. Não devería­
mos também, promover o tempo necessário para alimentar nossa
alma ? Se realmente nos interessarmos pela leitura espiritual, con­
vencidos de sua grande importincia para incrementar o fervor
de nossa alma, faremos por praticá-la todos os dias algum

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Deus, meu único Bem

espaço de tempo. Se em dadas ocasiões não pudermos de fato


dedicar-nos a essas leituras, compensaremos a falta por urna lei­
tura mais prolongada no dia subseqüente.
Podemos estar certos de que, para o futuro, não nos arre­
penderemos de haver feito todos os dias leitura espiritual, ainda
que para tanto devêssemos abreviar ou sacrificar certas ocupa­
ções de nossa escolha ou algumas recreações. Sacerdotes há,
muito ativos, que agenciam tempo de fazer todos os dias urna
boa leitura. Depois de muitos anos, ouvi-los-emos dizer: "Dou­
me por feliz de haver empregado tanto tempo em leituras espi­
rituais. Não o lamento. Pelo contrário".
Não dispercernos muito tempo com a leitura de pequenos
periódicos e pequenas brochuras sôbre piedade. Precisamos ler
livros bem redigidos e interessantes. Existem, hoje em dia, au­
tores de talento que publicam ótimos livros espirituais. Algumas
biografias de Santos são atraentes. Grande proveito tiraríamos
de sua leitura. Demo-nos ao trabalho de descobrir livros espi­
rituais que convenham às nossas necessidades e preferências, que
alevantem nosso espírito e coração para as cousas do alto.
Se tivermos encargo de paróquia ou de comunidade reli­
giosa, cuidemos que todos os anos se adquiram aí alguns livros
de valor. É comum verificar-se que muitas pessoas não têern
propensão para leituras espirituais, por não terem bons livros ao
seu alcance. Bons livros aguçarão nosso apetite por leituras e
cousas espirituais.

Aspirações de amor
As aspirações de amor, ditas também orações jaculatórias,
são, na· opinião de São Francisco de Sales, um dos três ou quatro

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A Virtude do Amor

melhores meios de alcançar a santidade. O Santo atribuía-lhes


grande importância, e recomendava freqüentemente seu uso às
almas fervorosas. Podemos dizer que o empenho por empregar
as aspirações de amor, é bom índice de fervor.
A exímia vantagem que se tira das aspirações de amor está
no fato de não só darem freqüentes expansões de nosso amor,
cousa em si excelente, mas também de nos conservarem unidos
a Deus, a Jesus e a Maria, durante tôdas as nossas ocupações.
O Padre Faber exprimia esta idéia, precisamente quando
afirmava que as aspirações �e amor são bem o contrário da� dis­
trações. Estas desviam nosso espírito de Deus, quando rezamos.
As aspirações de amor desviam o espírito de nossas ocupações,
afastam-nos momentâneamente de nosso trabalho, e fixam nosso
espírito em Deus.
As aspirações têm a grande vantagem de serem fáceis e apli­
cáveis a cada momento, até quando estivermos doentes, fatigados,
incapazes de qualquer esfôrço mental. Ainda quando absortos
em alguma tarefa difícil ou i_mportante, podemos sempre elevar
nosso espírito até Deus, pensar em Jesus, hóspede permanente
de nosso coração. Embora habitualmente expressas por palavras,
notemos que as aspirações se podem processar mentalmente, com
um simples olhar da alma a Deus, ao Crucifixo, ou a uma santa
imagem.
Há duas categorias de aspirações de amor. Em primeiro
lugar estão as aspirações clássicas, que muitas vêzes comportam
indulgências: "Sagrado Coração de Jesus, tenho confiança em
Vós. - Sagrado Coração de J�sus, venha a nós o Vosso Reino.
- Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração seme­
lhante ao Vosso. - Meu Deus e meu Tudo ! "

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Deus, meu único Bem

Há, também, aspirações que nós mesmos formulamos. São,


às vêzes, as melhores para nós: "Tudo para Vós e Convosco, meu
Jesus. - Eis-me aqui, meu Jesus, para Vos agradar e para Vos
amar. - Fazei, Jesus, que Vos ame e Vos agrade, com tôda a
perfeição. - Meu Deus, tão amoroso e tão digno de amor, acon­
chegai-me a Vós. - Meu Deus, eu Vos amo".
Bom seria guardar e consultar de vez em quando um reper­
tório das aspirações de nosso gôsto, para que nos ocorram es­
pontâneamente ao espírito, durante nossos trabalhos cotidianos.
Havemos de aprender de cor algumas, para as empregar sempre
e sem nenhum esfôrço.

Meditação
Tão importante é a influência da meditação no desenvolvi­
mento de nossa vida espiritual, que em tôdas as Ordens e Con­
gregações Religiosas há um tempo estabelecido para meditação.
Daremos, pois, algumas indicações úteis, que podem coadjuvar
o exercício da meditação. Lembremos, antes de tudo, que na
vida espiritual vigoram poucas regras gerais. Uma destas regras
diz respeito à oração: "Rezai da maneira que preferirdes, pela
qual sentirdes gôsto e inclinação".
No comêço, e durante vários anos, é bom tomar como as­
sunto ordinário de nossa meditação a vida de Nosso Senhor.
Grande é a escolha de livros de meditações discursivas sôbre a
vida de Cristo. Mais tarde, é aconselhável escolher outros as­
suntos de meditação, pelo menos de tempos em tempos.
Podemos usar um livro com outros temas, por exemplo, uma
obra que . trate das várias virtudes. Pode-se, também, tomar um
bom livro espiritual, com assuntos que incitem à meditação. A

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A Virtude do Amor
Imitação de Cristo presta-se otimamente para tal finalidade.
Algumas pessoas apreciam a leitura pausada do Evangelho; me­
ditam as passagens que impressionam, e saboreiam-nas à vontade.
Se já tivennos feito progresso na vida espiritual, poderemos
também meditar sôbre Deus e as perfeições divinas, tomando
várias juntas, ou uma por uma. De início, tais meditações pa­
recem difíceis, mas com a graça de Deus chegaremos a tomar
verdadeiro gôsto por elas. Estas são esplêndidas maneiras de nos
levar a esquecer nosso "eu", de nos induzir a amar a Deus com
um amor puro e unitivo, e de encontrar nossa felicidade nas per­
feições e na bem-aventurança de Deus.

O modo de meditar ou contemplar assume, por sua vez,


maior importância. Muitas pessoas, todavia, nem suspeitam que
existem vários métodos de meditação. Temos, em primeiro lu­
gar, a meditação comum ou discursiva, na qual abundam os ra­
ciocínios, e perfazem a maior parte de nossa oração. Tal medi­
tação passa fàcilmente à contemplação, se raciocinannos menos,
e contemplarriws com vagar o mistério ou a cena que constitui
o assunto de nossa meditação._ A meditação discursiva e a con­
templação ordinária são o método inicial de costume.
Passados alguns anos, Deus muitas vêzes simplifica a alma
e sua maneira de rezar. A alma, aliás, meditou tão frequente­
mente sôbre êste ou aquêle mistério, que sente certa aversão em
desenvolver a mesma matéria. Assim, de modo natural e sob a
ação simplificadora da graça, a oração da alma empobrece em
esfôrço intelectual, e enriquece em emoções. É o que se chama
oração afetiva, que sob vários aspectos se coloca acima da oração
discursiva, porquanto esta exige certo esfôrço intelectual para
despertar emoções na alma, ao passo que, na oração afetiva, as
emoções são espontâneas.

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Deus, meu único Bem

Se a alma fôr generosa, Deus simplifica-lhe ainda mais a


maneira de rezar. Nesta altura, a alma tem menos necessidade de
raciocínios e emoções. Acha-se mais tranqüila. Bastam um ou
dois tipos de emoções para mantê-la ocupada e enchê-la de amor
e prazer. É o que se chama oração de simplicidade.
Muitos sacerdotes e religiosos, depois de alguns anos, alcan­
çam êste grau de oração. Não acharão falta de sua antiga in­
tensa atividade de raciocinar, nem de suas antigas emoções. Não
procurarão recuperá-las por meio de novos raciocínios. Fazê-lo,
seria trabalhar às avessas e tolher a ação da graça.
Sua oração é muito melhor do que outrora, ainda que de
vez em quando sobrevenham dúvidas a respeito. Explica-se com
uma comparação. Quando tocam, bons pianistas não contam as
notas, como o fazem os principiantes. Seria estupidez obrigar
a fazê-lo os pianistas habilidosos. Da mesma forma, os que re­
correm fàcilmente à oração tranqüila e simples, devem conser­
vá-la e não "nostalgiar", de modo algum, o antigo método de
muito raciocínio, pelo qual tiravam algumas emoções. Pode ser
que, neste método de rezar, ocorram mais distrações, mas isto
não tem gravidade. A melhor oração, como dizia São Francisco
de Sales, não é aquela que envolva menos distrações, mas aquela
que mais nos une a Deus.
Depois da oração de simplicidade, se Deus nos conceder a
oração de paz.
graça da oração sobrenatural ou mística, temos a
É quase idêntica à oração de simplicidade, mas com a enorme
diferença de que nela temos, mais ou menos, o sentimento místico
da presença de Deus, e experimentamos certo amor passivo,
infuso.
&te amor passivo e o sentimento místico da presença
de Deus são dons gratuitos de Deus. Todos os nossos esforços

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A Virtude do Amor

não poderiam produzi-los em nossa alma, se bem que de nossa


parte seja possível uma preparação para recebê-los. Esta graça
mística, ajuda-nos muito a contemplar, pacatamente, sem grande
atividade. Se êste sentimento cresce, podemos ficar longo tempo
sem distração. Se diminui, percebemos logo a necessidade de
intensificar nossa operosidade. Precisamos lançar gravetos de
amorosos pensamentos e aspirações no fogo oculto de nossa ora­
ção. Do contrário, poderiam as distrações tornar-se por demais
freqüentes.
Em �eu todo, o objeto da oração mística é muito amplo
·
para ser tratado aqui. A tal respeito é preciso ater-se a um di-
retor espiritual. Entretanto, algumas observações serão de uti­
lidade.
Alguns sacerdotes e religiosos aplicam esta espécie de ora­
ção, pelo menos até certo grau, sem terem consciência de que
o fazem. É pena, pois se soubessem a situação, consultariam o
diretor espiritual, que lhes indicaria livros espirituais, mais adap­
tados a seu estado de alma, que os livros por êles empregados.
Assim, o progresso na oração sobrenatural tomaria um ritmo mais
rápido, e êles poderiam alcançar os graus mais elevados.
De ordinário, os que se acham em tal estado meditam, mas
com dificuldade, sôbre assuntos tais, como a vida de Nosso Se­
nhor, que exigem raciocínios e esforços de imaginação. Gostam
de fazer o que chamam oração da presença de Deus, durante
a qual permanecem suave e afetuosamente na presença de Deus,
mais ou menos em silêncio, como a criança que gosta de estar
com a mãe, sem proferir palavra. A alma sente-se feliz com seu
Deus bem-amado. Pensa pacat�ente no amor a Deus, em Sua
bondade, em Sua formosura, em Suas outras perfeições, nisso
encontrando felicidade.

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XIV

Meu Deus e meu Tudo !

Primeiro pre/:údio: Como na meditação anterior, consideremos São


Francisco de Assis, em noite de oração, a repetir sempre de
novo: "Deus meus et omnia !"
Segundo prelúdio: Imploremos a Deus que nos induza a saborear,
nesta meditação, a beleza do amor unitivo, ao qual nos con­
vida, e que nos introduzirá de cheio na via unitiva.

PRIMEIRO PONTO: Amar a Deus como meu. - Se amo a


Deus como meu único bem e único tesouro, não amando senão
a tle, Nêle próprio e em tôdas as criaturas, dentro em pouco
chegarei a amá-Lo com um amor desinteressado e unitivo, a
amá-Lo como meu, em lugar de amar êsse "eu", a quem costu­
mava idolatrar.
Vimos que a síntese da vida espiritual consiste em despojar-nos
de tôdas as criaturas, especialmente de todo amor próprio, a fim
de amarmos só a Deus. Devemos fazer um vácuo dentro de nós,
esvaziar nossa alma para Deus, porque tle nunca Se deixará superar
em generosidade pela criatura. A alma que tudo entregou a Deus,
inclusive o próprio "eu", Deus dá-Se-lhe a Si mesmo em retôrno.
Quanto mais nos esvaziarmos das criaturas e do próprio "eu", tanto
mais Deus nos cumulará de Si mesmo. Mas, o despojar-nos de

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A Virtude do Amor

tôdas as coisas é um aspeto negativo de nossa santificação. O


o.speto positivo é amar a Deus, em lugar de nós mesmos.

Assim, Deus enche gradativamente nosso coração, pois tempo


virá em que tle realmente toma o lugar de nosso "eu". Ao ver
que nos tornamos pobres de tôdas as coisas, pobres também quanto
a nós mesmos, Deus nos afiança: "Serei, por assim dizer, teu pró­
prio "eu". Ama-Me a Mim; ama tôdas as Minhas perfeições divi­
nas como tuas; faze delas o que entenderes, elas te pertencem. Tu
és Meu, e Eu sou teu. T1ldo o que tenho, é teu".
Venturosa a alma, a quem Deus oferece esta inaudita permuta.
Ela dá seu "eu" rrúserável, com todos os seus vícios, sua impureza,
seu egoísmo, seu orgulho: essa coisa insignificante, pobre, cheia
de rrúsérias, mágoas e aflições. Deus, em troca, dá-Se a Si mesmo,
com tôda a Sua formosura, todos os Seus encantos, tôda a Sua
sabedoria, Seu poder, Seu amor, e Sua infinita bem-aventurança.
Dá-nos, por assim dizer, tôdas as Suas perfeições divinas, para que
fiquem a nosso dispor, como se nossas fôssem.

SEGUNDO PONTo: Será que as perfeições divinas se tomam


realmente nossas ? - Poderá a a1ma amorosa dizer a respeito das
perfeições divinas: "Elas são minhas, e amo-as como minhas" ?
A que chamo meu ? A que considero meu ? Aquilo que
posso gozar como me apraz; o que posso amar como meu; o que
admiro, e no qual encontro motivo de orgulho, minha satisfação,
rrúnha felicidade; aquilo de que posso ser usuário, e ao qual posso
reportar tôdas as coisas.
Na verdade, posso fazer tôdas estas coisas com Deus, se tiver
atingido o amor desinteressado e unitivo; se amar a Deus como
coisa minha, em vez de amar a mim mesmo. Contemplarei tôdas
e perfeições divinas, admirá-las-ei carinhosamente, e'ncontrarei

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Meu Deus e meu Tudo !

nelas meu orgulho e satisfação. Poderei amá-las quanto quiser, e


coordenar tôdas as cousas, de molde que agradem a Deus e às Suas
perfeições divinas. Com Deus posso fazer o que costumava fazer
comigo. Tôda a minha vida, posso concentrá-la sôbre 1tle, assim
corno dantes costumava concentrá-la sôbre mim mesmo.
Com efeito, é incrível a permuta que Deus, levado de imenso
amor por Sua criaturinha, propõe e realiza na alma de quem O
ama de todo o coração, com um amor perfeito e unitivo. � como se
fôsse urna pobre mendiga, da qual o grande Rei dos Reis Se apaixo­
nou. Introduziu-a em seu palácio, e elevou-a à excelsa dignidade de
rainha. A alma é agora rainha. Todo o Universo em sua vastidão
lhe pertence, da mesma forma que pertence a Deus, seu Bem­
Amado. Flôres e árvores, montes e vales, sol e estrêlas, tudo é
dessa alma, tudo lhe pertence. A alma trocou sua extrema pobreza
e insignificância pela infinita grandeza e opulência do Rei dos Reis.
fute sentimento de grandeza é o que todos os Santos experi­
mentaram, e que nós também devemos experimentar. Perdiam-se
e esqueciam-se em Deus. Fruiam a Deus corno bem próprio dêles,
e dispunham de todo o Universo, corno se lhes pertencesse. � o
que São João da Cruz, o grande doutor do amor, exprimiu no
cântico da alma apaixonada:
"Meus são os homens. Meus, os justos e os pecadores. Meus
são os Anjos, a Mãe de Deus, e tôdas as cousas. O próprio Deus
é todo meu, pois Cristo é meu, totalmente meu".
TERCEIRO PONTO: Uma fonte de imensa e pura felicidade. ­
Esta incrível permuta é, também, o início de cabal felicidade.
É sorte perder, uma vez por tôdas, êsse "eu" odioso, fonte de
tanta tristeza e aflição. Muitos considerariam essa perda como
terrível, corno ingente sacrifício e temerosa privação. Mas, é justa­
mente o �ontrário.

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A Virtude do Amor

Possuir e amar a si mesmo, eis aí de fato a verdadeira desgraça


e infortúnio dêste mundo. Amar como nosso êsse "eu" que é
mau, impertinente, rancoroso, nisso está o verdadeiro sofrimento.
Somos como a falena que gosta da chama cruel, e continuamente
se lança em direção daquilo que a· ofusca e consome. Desfrutar
sempre êsse "eu", que parece doce, mas é amargo na realidade,
nisso está a desgraça concreta da alma.
A alma sente, de contínuo, a hediondez e odiosidade do "eu".
Ora, o "eu" de que ela gosta, e que tanto deseja ver perfeito, é
todavia impuro, vilão, egoísta, cheio de orgulho e vaidade. Todos
êstes defeitos têm um travo de amargura e sofrimento, que se
renova sem cessar. Não obstante, a alma ama obstinadamente êsse
"eu" maligno e miserável, ainda que tal amor lhe seja uma fonte
viva de sofrimento e cruel decepção.
A suprema ventura, ao contrário, que é uma imagem e mi­
niatura da bem-aventurança divina, um antegôzo do céu, é amar
a Deus como nosso bem, como nosso novo "eu". Isto é amar
como "nosso", e de todo o coração, o que há de mais belo, mais
adorável e mais amável: amar êsse Deus, que é o oceano de tôda
a perfeição, admirá-Lo, saboreá-Lo, regozijar-nos Nêle, fazer tudo
para Lhe agradar, perder-nos no abismo de Sua infinita felicidade.

QuARTO PONTO : Eu também devo praticar êsse amor uni­


tivo. -
Tais são o gôzo e o amor a que sou convidado, o amor
que devo praticar todos os dias como meu alvo constante. "Sêde
perfeitos, disse Nosso Senhor, como Vosso Pai Celeste é perfeito"
( cfr. Mat. 5, 48) . Não se deve, pois, dizer: "Isto cabe aos Santos,
mas não é para mim. Sou um simples pecador. Não penso em
guindar-me tão alto". Não, se quisermos ser generosos, devemos
todos procurar, pelo menos até certo ponto, realizar ;êsse amor

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Meu Deus e meu Tudo !

desinteressado e unitivo, pelo qual amamos a Deus, como se Ele


fôsse nosso.
Chegar a esta perfeição de estado, isso demanda muitos anos
e inúmeras graças de alta categoria: pressupõe, de nossa parte,
larga e constante generosidade. Contudo, natura non facit saltus ( l ) .
Em praticando, dia por dia, êste amor unitivo, habituar-me-ei de
certo modo a fazer tôdas as cousas puramente "por amor, e dia
virá em que alcançarei a perfeição do amor.
Não devo supor que primeiro tenha de esvaziar-me de tôdas
as cousas, de todo amor às criaturas e a mim próprio, e que então
experimentarei de chofre o amor unitivo, e ficarei repleto de Deus.
Antes, pelo contrário, na proporção que o "eu" decresce em mim,
nessa mesma medida Deus cresce em mim, repletando-me aos
poucos até que, afinal, tome plena posse de mim.
Muitos, em sua vida espiritual, não pensam bastante no lado
positivo. Cuidam muito exclusivamente em esvaziar-se de si mes­
mos, em abandonar todo apêgo, em renunciar a tôdas as alegrias
da vida presente. Estas abnegações são importantes e essenciais,
mas existe outro ponto, também essencial: amar a Deus em lugar
de amar a si próprio.
Para não continuar a fruir das criaturas e de nós próprios,
devemos habituar-nos a ter nossa felicidade em Deus. Precisamos
adquirir o costume de fruir a Deus, não certamente de modo
egoísta, mas puramente por amor, amando a Deus, como se fôsse
nosso, vivendo no Deus de nosso amor, compartilhando tudo o
que é Seu.
Que nos cumpre fazer, na prática, para sermos mais des­
prendidos em nossa espiritualidade, para conseguirmos uma espiri­
tualidade menos egoísta, menos concentrada em nós mesmos ? (2).
(1) A natureza não d á saltos. (Nota. d o tra.d.)
(2) Cfr. One with Jesus, Newma.n Press, Westmlnster, chap. IV, pp. 28-80,
IWII.

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A Virtude do Amor
Já que, desde muitos anos, lutamos generosamente contra nossos
defeitos, agora já não se faz mister tê-los em vista continuamente
e tomar novas resoluções em cada meditação. Amar a Deus sem
intermitências, amá-LO por :ele mesmo em tôdas as cousas, deve
ser nosso principal empenho. Devemos pensar menos em nós,
e muito mais em Deus.
Contemplemos repetidas vêzes as perfeições divinas, quer em
Deus, quer em Jesus, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem,
se assim o preferirmos. Admiremos as perfeições divinas com ó
intuito de não só as imitar, mas também de as desfrutar, e de
regozijar-nos nelas pelo amor unitivo. Deixaremos de parte nossos
pequenos dissabores, e participaremos da divina bem-aventurança
de nosso Deus bem-amado.

QuiNTO PONTO: Cristo deve difundir em mim Sua vida


divina. - De Cristo, especialmente, devo esperar o amor puro e
unitivo, cuja ação é fazer que Deus seja meu, e tornar-me capaz
de compartilhar Suas divinas perfeições e infinita felicidade.
Meu esfôrço, nesse trabalho, é habituar-me a pensar menos
em mim e mais em Deus, a esquecer-me cada vez mais, na vida
espiritual. Mas, antes de tudo, Cristo é quem deve produzir êsse
ditoso estado de vida e amor unitivos.
Isto, por duas razões. A primeira é por :ele haver dito: "Eu
sou o caminho, a verdade, e a vida. . . Se Me conhecêsseis, cer­
tamente conheceríeis também a Meu Pai" (Jo. 14, 6-7) . Sem­
pre retoma o mesmo pensamento. Jesus deve viver plenamente
em mim e revelar-me o Pai tal qual O contempla. Deve abra­
sar-me o coração em Seu candente amor ao Pai. Dar-me-á graças
peculiares, sobretudo os valiosos dons do Espírito Santo, que aos
poucos mudam em santo o cristão fervoroso.

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Meu Deus e meu Tudo !

A segunda razão é que, sendo o amor unitivo a perfeição do


amor, é um amor inteiramente desinteressado. Como poderei
atingir tão cabal esquecimento de mim mesmo, se o meu "eu"
não foi ainda totalmente substituído por Jesus em mim ? Neces­
sàriamente amarei a mim mesmo, enquanto meu "eu" se conser­
var vivo em mim. Eu amo ao meu "eu". Jesus, porém, vivendo
em mim, ama ao Pai. Se o "eu" fôr muito forte em mim, meu
amor será fatalmente mesclado de amor próprio. Se o amor ao
próprio "eu" estiver morto em mim, meu amor a Deus será per­
feito. Na realidade, já não sou eu que viverei e amarei, mas
Cristo é quem viverá e amará tôdas as cousas em mim.
�le difundirá Seu amor divino em meu coração. Em união
com �le, poderei então dizer com tôda a verdade: Deus meus et
omnia ! O Pai pertence totalmente a Jesus, que vive em mim.
Posso, então, dizer com Jesus: Meu Deus e meu tudo. Sim, Pai,
Vós sois meu Deus, visto que sois o Pai de meu Jesus, que vive
em mim .

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XV

A sêde de a m o r

A finalidade de tôdas as meditações, feitas até agora, era au­


mentar nosso amor a Deus e torná-lo mais perfeito. Lentamente,
. atingimos o mais alto grau na escala do amor, que consiste em
amar a Deus como realmente nosso, como nosso tesouro, como
único objeto de amor, quer em Si mesmo, quer em tôdas as Suas
criaturas. Com o auxilio da graça, estas meditações devem ter
despertado em nossos corações o desejo de amar cada vez mais
a Deus, e talvez até uma verdadeira paixão, uma sêde de amor.
Meditemos, agora, a sêde de amor, que tôdas as almas apai­
xonadas de Deus e todos os Santos sentiram intensamente. To­
dos devemos procurar possuí-la, em algum grau pelo menos.
Primeiro prelúdio: Imaginai-vos Santa Teresa, a grande Contem-
plativa de Avila, arrebatada em êxtase, a manifestar sua grande
sêde de amor com estas palavras famosas: "Morro de não
morrer. Morro de sofrimento, por não morrer de amor".
Segundo prelúdio: Impetrai o vivo e apaixonado desejo de amar
a Deus, de modo cada vez mais ardente e mais puro, de
amá-Lo como os Santos O amavam.
PRIMEIRO PONTO: Como se produz a sêde de amor em nossa
ahna. -De própria natureza, o amor produz em nossa alma o

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A Virtude do Amor

desejo de mais amor. "O amor nunca se dá por satisfeito", diz


o Autor da Imitação. Compara-se, muitas vêzes, ao fogo que
procura naturalmente propagar-se e consumir tudo quanto alcan­
ça. Da mesma forma, quanto maior fôr o fogo do amor divino,
tanto mais quer crescer, queimando e consumindo em nós tudo
o que se opõe ao amor divino. Ao falar de amor, diz Santo
Agostinho: "Amar é o galardão do próprio amor". O amor não
quer outra recompensa senão amar. Quer, por conseguinte,
amar cada vez mais.
Esta sêde de amor cada vez mais candente e mais puro é
particularmente causado em nossa ahna por um crescente conhe­
cimento de Deus e Suas perfeições divinas. Na proporção que
progride na vida espiritual, a alma adquire uma melhor com­
preensão de Deus, ao mesmo tempo teórica, prática e experimen­
tal. De modo particular é na contemplação que Jesus, vivendo
na alma, comunica à alma um pouco de Sua visão, e ajuda-lhe
a ver a Deus e Suas perfeições. A grandeza, o poder, a sabedoria
de Deus, Sua admirável formosura, Sua pureza ilibada, Sua des­
lumbrante santiâade, Seu amor misericordioso: todos êstes �tri­
butos divinos atuam por sua vez na alma, para a inflamar de
amor, para a transportar em êxtase, para lhe fazer desejar um
amor mais digno de Deus, seu Bem-Amado.
Um fator, porém, é mais apropriado do que outro qualquer,
para aumentar nossa estima e amor a Deus, por conseguinte,
nossa aspiração a mais amor. É o que se chama elemento nega­
tivo de nosso conhecimento de Deus, de caracter muito pronun­
ciado nos místicos. Extasiada pelo que viu das admiráveis per­
feições de Deus, a alma tem ainda plena noção de que tudo quanto
·
ela pôde alcançar a respeito de Deus, nada é em comparação ao

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A sêde de amor

que Deus é na realidade, e que Deus é infinitamente mais ado­


rável do que se pode conjeturar.
t!ite conhecimento negativo da alma é na realidade a parte
mais valiosa de sua cognição, pois que leva a alma a esquecer
totalmente o próprio "eu" e tôdas as cousas terrenas. A alma
proclama sem cessar: "Ama tu, ama quanto puderes, pois nunca
e nunca amarás a Deus adequadamente. Jamais O amarás, como
tle merece ser amado, tle que é o infinitamente Adorável".
Esta compreensão negativa das perfeições divinas provocou
as mais sublimes efusões dos místicos. Levou São João da Cruz
a exclamar: "Se tivésseis lobrigado um só raio do esplendor de
meu Bem-Amado, estaríeis dispostos a morrer para o contemplar
de novo".

SEGUNDO PONTO: Os efeitos da sêde de amor. - Um dos nu­


merosos efeitos da sêde de amor é causar na alma um padecimento,
que cresce constantemente. São João da Cruz descreve tal so­
frimento na admirável obra "Noite escura da almtl', onde caracte­
riza a alma que passa pela noite mística do espírito, prova ter­
rível que purifica, inteiramente, a alma de todo egoísmo, e a
conduz à verdadeira santidade, à perfeita união com Deus. Nessa
noite, a alma elanguesce de amor a Deus, ainda que o não per­
ceba, e muitas vêzes pense não ter absolutamente nenhum amor.
Ela sofre verdadeiro purgatório aqui na terra, diz o Doutor Mís­
tico, quando pensa na infinita formosura de Deus, da qúal possui
grande compreensão, mas que ela ama tão pouco, e tão mal.
t!ite sofrimento de amor, na alma que se purifica no cadinho
da noite mística, é um padecimento agudo, intenso, sem ne­
nhuma mescla de doçura. Em outros casos, porém, tal sofri­
mento e amargo e doce ao mesmo tempo.

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A Virtude do Amor

São Francisco de Sales descreve bem o estado da alma apai­


xonada por Deus, quando explica: "O coração enamorado de
Deus deseja amar infinitamente, mas reconhece que não pode
amar nem apetecer bastante. E tal desejo, que não pode ser
satisfeito, fica-lhe como um dardo na ilharga. Não obstante, o
sofrimento que daí resulta é bem acolhido, pois quem deseja amar
seriamente, gosta também de desejar seriamente. Desejando amar,
recebe sofrimento. Mas, gostando de desejar, recebe doçura".
A sêde de amor é, portanto, uma prece contínua, um contí­
nuo suspiro a Deus, um incessante exercício de amor. Ainda
que esteja absorta em outros misteres, incapaz de manifestar seu
afeto em ternas aspirações, a alma continua todavia voltada para
Deus, único objeto de seu amor. Assemelha-se às flôres deli­
ciosas que nos encantam, tanto pelo perfume como pelo matiz.
Exalam inúmeras moléculas invisíveis, que embalsamam os ares, e
nos inebriam com sua fragrância. A alma amorosa também
emite sem cessar atos diretos, espontâneos e incalculados de amor,
que muito agradam a Deus, seu Bem-Amado.
Feliz, uma alma assim, a quem se aplicam as palavras da
Sagrada Escritura: Beatus vir desideriorum (cfr. Dan. 9, 2 3 ; 10,
1 1, 19). Feliz o homem é todo desejos amorosos. :l!sses desejos
são uma prece poderosa, que sempre pede mais amor, uma prece
irresistível, pois os desejos da alma são unicamente um débil eco
do desejo do próprio Deus, que quer abrasar nossos corações
com Seu divino Amor.
Outro efeito da sêde de amor é produzir em nós a sêde das
ahnas. Desej osa de amar sempre mais, a alma padece, como já
vimos, com a impossibilidade de amar a Deus como devia, e de
assim estancar sua sêde de amor. Portanto, a salvaçãq das almas
é a realização do imenso desejo de mais amor. A ahna tem

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\ A sêde de amor
I
hiena consciência deque os corações por ela conquistados para
beus lhe pertencem em certo sentido, e que ela pode amar a
Deus mediante todos os corações, que seu zêlo conduziu a tle.
Esta é a razão por que os Santos, tão enamorados de Deus,
feridos com a chaga do amor divino, cada vez mais sequiosos de
amor, eram todos devorados pelo zêlo das almas, prontos para
qualquer cruz, para tôda provação necessária à conquista de al­
mas, destinadas a Deus, a fim de amar a Deus nelas, e por elas.

TERCEIRO PONTO: Como nutrir em nós a sêde de amor ? -

Pelo que acabamos de expor, compreende-se fàcilmente quão


preciosa não é esta sêde de amor. O simples fato de que ela de
nossa vida faz um contínuo exercício de amor e, ao mesmo
tempo, uma excelente oração para alcançar mais amor ainda, mos­
tra evidentemente que nunca nos será demais estimá-la e de­
sejá-la.
Verdade é que a sêde de amor pressupõe um progresso an­
terior na vida espiritual. Requer que nosso amor a Deus ultra­
passe o de um principiante. Sem embargo, devemos todos ser
êsse desejo de um amor mais forte, pelo menos até certo grau.
Se formos fervorosos, experimentaremos uma tal ou qual aspi­
ração por êsse ardente desejo de amor. Que nos cabe, então,
fazer para nutrir esta aspiração ?
De início, havíamos explicado que a própria natureza nos
impele a amar mais. Esta é a razão por que tudo quanto nutre
em nós o amor divino, está também em condições de produzir
a sêde de amor. Inúmeros sãos os fatôres que alimentam nosso
amor. Tôda prática de amor, todo ato de amor e generosidade
nos alcançarão, como recompensa, um aumento da graça, que por
sua vez significa um acréscimo de amor. Desde que o amor de
Deus ptessupõe certo conhecimento Dêle, a amplificação dêsse

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A Virtude do Amor
I
conhecimento produzirá também, com o auxílio da graça, Unl
crescimento do amor. Precisamos, pois, fazer tudo o que es­
tiver a nosso alcance, para conhecermos a Deus com sempre
maior perfeição.
A meditação é excelente para tal finalidade, principalmente
a meditação sôbre a Paixão de Cristo e sôbre Seu imenso amor
por n6s. Nenhwn outro meio, talvez, sirva melhor para nos
inflamar o coração de amor por 1tle e o desej o de amar cada vez
mais, em sinal de retribuição. A contemplação das perfeições
divinas, da formosura de Deus, de Sua amorosa bondade, de Sua
santidade, de Seu amor misericordioso, tem sido muito descurada
pelas almas fervorosas.
A leitura dos nústicos tem também sua utilidade. Não pa­
dece dúvida, tal leitura deve ser feita com a necessária discri­
ção. Qualquer pessoa não está habilitada a ler qualquer livro
místico. Todavia, a leitura dos místicos, com as devidas
precauções, pode às vêzes dar 6timos resultados, fazendo-nos par­
ticipar, até certo ponto, de seus maravilhosos conhecimentos acêr­
ca das perfeições divinas. Os .místicos são almas privilegiadas.
Aproximaram-se de Deus, mais do que outros. Tudo quanto nos
digam a propósito de Deus e do ·céu, tem para nós, pobres exila­
dos, sumo interêsse e a mais ãlta importância. Ninguém pode,
melhor do que êles, falar das cousas celestiais.
� verdade que até os Santos só podem balbuciar aquilo que
viram do Invisível, e compreenderam do Incompreensível. Não
obstante, êsse balbuciar infantil comove-nos profundamente. Dize­
mos por instinto : use Deus me houvesse escolhido para essas
intuições divinas, eu também teria exultado, ao experimentar
um êxtase de amor. Não vi a Deus, e muito poucc;l sei a Seu
respeito. Mas, isto sei, e tal saber é mais precioso para mim do

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A sêde de amor

que todo o Universo: A beleza de Deus é tal, que eu morreria


de amor, se a visse claramente. Minha alma desatar-se-ia do
corpo, para ir ao encontro dos ósculos de seu Bem-Amado ( l ).
Quando feita convenientemente, a leitura dos místicos pode
também dar-nos um pouco do conhecimento negativo de Deus,
que é tão precioso. Pois, os místicos não cansam de repetir que
as cousas sublimes por êles descritas não representam nada em
comparação daquilo que viram. Como dizem também, o que vi­
ram da inefável Beleza não é nada, em comparação dessa mesma
Beleza. De feito, êles só entreviram as perfeições divinas, através
de uma nuvem luminosa. Contudo, esta vista parcial bastava para
O!. lançar em êxtase.
Não o esqueçamos, muito de seu progresso no conhecimento
e amor de Deus, os Santos o deviam aos dons do Espírito Santo.
O dom da inteligência confere à alma uma intuição das perfei­
ções divinas, que nenhum esfôrço, nenhuma indústria de nossa
parte jamais seria capaz de produzir. Aumentando nosso amor,
o dom da sabedoria capacita-nos a saborear as verdades divinas,
os atributos de Deus, e nisso encontrar nossa suprema bem-aven­
turança.
Peçamos pois, muitas vêzes, ao Espírito Santo nos dê Seus
preciosos dons em abundância, sobretudo os dons do entendi­
mento e da sabedoria, que aumentarão nosso amor e sêde de
amor, e nos ajudarão a escalar, generosamente, o cimo da mon­
tanha do amor e da santidade.

SANTA TERESINllA. DE LISIEUX

No correr dos séculos, o Espírito Santo inspirou grandes


Santos, que contribuíram para a Igreja com vários tipos de san-
--�-
. --

(1 ( Cfr. An antll.olorn� of m1JBticiam, Newman Press, pp. 8 ss.

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A Virtude do Amor

tidade. Assim o fizeram São Bento, São Domingos, São Francisco


de Assis, Santo Inácio, São João da Cruz, Santa Teresa de Avila,
São Francisco de Sales, e, mais chegados a nossos tempos, Dom
Bosco e a Pequena Flor.
Todos foram gênios na vida espiritual. Ao falar de Teresi­
nha de Lisieux em 1937, nosso Santo Padre(2) comparava-a a
Santo Agostinho, São Francisco de Assis, e Santo Tomás de
Aquino. "Milhões de pessoas no mundo inteiro, dizia êle, sentem
a benéfica influência de sua autobiografia, a "História de uma
alma". Ela tem uma inumerável família espiritual".
Vejamos qual é a mensagem de Santa Teresinha ao mundo.
O papa Pio XI não só a declarou uma das grandes Santas, mas a
maior Santa dos tempos modernos. Analisemos o que ela cha­
mava sua nova Pequena Trilha, e averiguemos se realmente re­
presenta algo de novo.
Antes de tudo, como veio Teresa a cogitar em um caminho
novo para a santidade, e como o terá encontrado ? Ela queria
um caminho mais fácil, mais praticável, do que a dura escala des­
crita por muitos autores espirituais. Hoje em dia, raciocinava, os
ricos já não sobem com esfôrço longas escadas. Dispõem de ele­
vadores. O que eu preciso é de um elevador para as alturas da
perfeição. Sob a moção do Espírito Santo, ela abriu a Sagrada
Escritura e leu a seguinte passagem: "Quem é pequenino, venha
a mim" (Prov. 9, 4) . "0 Reino dos céus é das criancinhas" ( cfr.
MA.T. 19, 14) . Isto foi para ela uma revelação. Cheia de alegria ex­
clamou: "Encontrei um caminho novo, um elevador para a per­
feição, o caminho da infância espiritual, do amor infantino, do
abandono total a Deus".

(Z) Pio XI, jl1 falecido. (Nota do tradutor).

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A sêde de amor

Humilde, mas arrojada, ela disse a si mesma que se tratava


de verdadeira descoberta, que ajudaria não somente a ela, mas
também a um sem-número de ahnas.
Em carta a um missionário, escreveu: "Dói-me às vêzes a
cabeça, e meu coração fica árido, quando leio tratados sôbre a
perfeição, nos quais a santidade e o caminho para ela parecem
tão complicados. Tomo, então, o Evangelho, e tudo se toma
tão claro. Só preciso abandonar-me, qual criancinha, nas mãos
de Deus". Não demorou em declarar às suas irmãs de religião,
que havia descoberto um caminho novo, muito simples, nada com­
plicado, que inúmeras almas pequeninas, vivendo uma vida tôda
comum, poderiam seguir, e de fato seguiriam, para alcançar a
santidade.
A Igreja canonizou Teresa e também sua doutrina da pe­
quena trilha. O papa Pio XI declarou que ela havia trazido ao
mundo um omen novum, uma nova mensagem. Muitos autores
espirituais não temem afirmar que o caminho da infância espi­
ritual marcou o início de uma nova .era, uma nova época de
espiritualidade para o mundo. Ora, que há de original nesse ca­
minho ? Quais são suas características ?

Características negativas
Suas características negativas são: nenhuma mortificação ex­
traordinária, nenhum carisma espiritual que impressione, nenhuma
obra ou iniciativa fora do comum.
Os antigos agiógrafos gostavam de ressaltar as grandes aus­
teridades de seus heróis. De vez em quando, para tornar o qua­
dro mais empolgante, não hesitavam atribuir-lhes fatos oriundos
da vida de outros Santos. São responsáveis, ao menos em parte,

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A Virtude do Amor

pela idéia, ainda preponderante em nossos dias, que o verdadeiro


Santo é um homem, que, por falar cruamente, não come, não
bebe, não dorme, e atormenta o corpo em proveito da alma.
Aí vai um êrro pernicioso, que desencorajou muitos homens
que, noutras condições, podiam ter tomado o caminho da· per­
feição. "Não posso deixar de comer, beber, dormir razoàvel­
mente, diziam êles. Não posso carregar cilício, nem tomar dis­
ciplina até a efusão de sangue. Para mim é inútil esforçar-me por
atingir a perfeição. Não sou talhado para ela".
Por causa de tais idéias sôbre santidade, quando apareceu a
"História de uma alma", autobiografia de Teresa, alguns sacer­
dotes e religiosos a receberam com pouca simpatia. "Onde fica­
vam os grandes rigores, essenciais à santidade ? " Isso lá era uma
eo;piritualidade flor-de-laranja, cheia de sentimentalismo. A Igreja,
porém, opinou de outra maneira. Sem tardar, muitos dos antigos
críticos reconheceram o próprio engano, e tornaram-se ardentes
admiradores da Pequena Flor.
Teresa não apreciava as grandes austeridades. Nos primór­
dios da vida religiosa, alcançara autorização de acrescentar algu­
mas mortificações à vida já austera das Carmelitas. Por exem­
plo. Teve, por muito tempo, uma cruzinha de pontas agudas
sôbre o peito, mas isto lhe aca,rretou enfermidade. Em vez de
ficar deprimida, a Santa declarou: "Deus não quer tal cousa de
mim. Devo chegar à santidade sem grandes penitências".
Ela sabia, perfeitamente, que grandes mortificações podem,
às vêzes, alimentar um orgulho secreto, ou também que o demô­
nio pode servir-se delas, para arruinar a saúde e desta forma
empecer o progresso na vida espiritual. As suas noviças, dizia:
"Não façais mortificações que rião possais suportar galharda­
mente, que vos preocupem ou incapacitem de observar a R�gra.

182 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
- Antigamente, confessava ela, procurei imitar os grandes Santos.
Em minha alimentação, punha cousas que as tornavam amargas
ou insípidas. Desde muito, abandonei tais práticas. Se o ali­
mento que recebo é bom, dou graças a Deus. Se é ruim, aceito
alegre a mortificação que Deus me envia".
Por iluminação do Espírito Santo, Teresa. preferia a mortifi­
cação do amor próprio às mortificações corporais. Nessa espécie
de abnegação não há perigo de vaidade. Em vez de pesadas peni­
tências, ela procurava pequenos sacrifícios. São suas estas pala­
vras: "Há muitas mansões na casa de Meu Pai, disse Jesus. Há
mansões para os cenobitas e os padres do deserto, com suas grandes
e tremendas austeridades contra a carne. Mas, há também mansões
para as almas pequeninas, com seus numerosos pequenos sacrifícios,
praticados por amor".
Na maior parte das vidas dos Santos, deparamos com fre­
qüentes visões, êxtases, chagas, revelações, profecias e milagres.
Teresa de Ávila tinha repetidos êxtases e arrebatamentos. Acon­
tecia-lhe de ser surpreendida por um êxtase na cozinha, quando
tinha em mão a frigideira, que então se entornava no chão.
Deus, porém, quis que Teresinha mostrasse ao mundo um
novo tipo de santidade, possível a tôdas as ahnas, às almas pe­
queninas. Pelo conseguinte, ela não teve, salvo raríssimas exceções,
senão graças místicas ordinárias, que se não manifestavam exterior­
mente, por exemplo, um senso sobrenatural infuso da presença de
Deus nela e urna amorosa atenção para com Deus. Cumpre todavia
mencionar, em sua infância, a visão de uma estátua de Nossa
Senhora, que se animou e a curou de grave enfermidade; mais
tarde, durante sua vida religiosa, a visão profética acêrca da mo­
léstia do . pai.

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A Virtude do Amor

Quanto a milagres, Teresinha, a maior taumaturga dos tempos


modernos, não operou nenhum em vida. Costumava dizer: "A
todos os êxtases, prefiro o trabalho humilde e obscuro e o sacri­
fício. Em minha pequena trilha, não deve haver nada que almas
pequeninas não possam imitar".
Em sua maioria, os Santos empreenderam e realizaram obras
extraordinárias, que o povo admirava, e que tinham grande re­
percussão. Nossa Santa nada fêz de semelhante. Tinha por en­
cargo o refeitório, a sacristia e a portaria. Por fim, tornou-se
mestra-assistente de três ou quatro noviças. As suas noviças expli­
cava: "Não creiais que, para alcançar a perfeição, seja necessário
fazer-se grandes coisas". Dizia ainda: "Deus não tem precisão de
nossas grandes obras e belas idéias. :Rle gosta da simplicidade. Não
passo de uma alma pequenina, que a Deus só pode oferecer coisas
pequenas".
Sua vida foi uma maravilhosa imitação da vida simples e corri­
queira, que Maria, Rainha dos Santos, levava em Nazaré. Quis
Deus que Teresa fôsse, como Maria, um modêlo perfeito para as
inúmeras pessoas que levam um teor comum de vida.

Características positivas
A base da espiritualidade..de Teresinha é o espírito de infância
para com Deus em Sua qualidade de Pai amantíssimo e misericor­
diosíssimo. O Evangelho está cheio de referências à paternidade
de Deus. Jesus falava contlnuamente de nosso Pai Celeste, que faz
brilhar o sol sôbre bons e maus, que nutre as aves e veste as
flôres. Infelizmente, desde muito tempo, estava um tanto aban­
donada a lembrança de que Deus é nosso Pai amantíssimo. Tere­
sinha teve o grande mérito de repô-la em plena evidência, e fazer
dela a pista de sua pequena trilha.

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A s�de de a ni o f

Esta nova pequena trilha consiste simplesmente em viver cornd


filho de Deus, amoroso e confiante. O papa Bento XV enwnerou
as virtudes próprias desta trilha. São amor filial, confiança, hwnil­
dade, simplicidade, intenção de fazer tudo por amor. Dentre tôdas
estas virtudes, a Santa insistia, contudo, no amor corno rainha de
tôdas as virtudes, tendo plena consciência de que tôdas as mais
dêle auferern sua perfeição. O amor é que deve inspirá-las.
Por sorte, certamente, todos são capazes de amar. Nem todos
podem jejuar, passar longas horas em oração ou em austeridades.
Amar ! quem não o poderia ? Todos podem amar; Teresa mos­
trou admiràvelrnente ao mundo, tanto pela doutrina como pelo
exemplo, que qualquer pessoa que ame a Deus de todo o coração,
pode ser santa, verdadeira santa, não obstante as condições ou
o lugar em que pratica seu amor.
A santidade é pois para todos. O santo pode viver, comer,
donnir, corno nós outros; trabalhar, corno um operário comum,
a exemplo do irlandês Marcos Talbot, e fumar à moda dêle um
bom cachimbo.
Uma só coisa é necessária. Fazer tudo por amor de Deus,
para Lhe agradar. Teresinha escreveu a urna de suas irmãs: "Se
queres ficar santa, uma só coisa se torna mister: fazer tudo por
Jesus, para O agradar e felicitar". Esta é sua mensagem. Ela
própria realizou-a heroicamente.
O gênio de Teresinha e a originalidade de sua nova trilha
exprimem-se nestes tênnos: Por inspiração divina, Teresinha des­
pojou a santidade de tudo quanto é acidental, e reconduziu-a ao
elemento intrínseco, que é o amor. A mensagem de Teresinha é
essencialmente wna mensagem de amor, um caloroso apêlo à san­
tidade, na intenção de tôdas as almas pequeni'TlllS. Pouco antes de
morrer, declarou: "Percebo que minha missão vai começar agora,

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A Virtude do Amor

minha nussao de fazer com que tôdas as ahnas amem a Deus,


corno eu O amo, e de ensinar-lhes minha pequena trilha".
Desde a publicação de sua autobiografia, e graças à sua dou­
trina e seu exemplo, inúmeras ahnas que, de outro modo, nunca
se teriam abalançado a mirar tão alto, põem-se alegres no caminho
da santidade, que é o caminho da infância espirituaL
Estou eu convencido de que a santidade é também para mim ?
Emprego, totahnente, os meios sublimes e simples, que Teresinha
ensina para alcançar a santidade ? Será que em minha vida, gran­
diosa ou humilde, em qualquer trabalho meu, em alegrias e tris­
tezas, tudo se inspira no ardente desejo de amar a Deus e agra­
dar-Lhe ? Que setor de minha vida estaria ainda orientado, talvez,
por sutil egoísmo e amor próprio ?

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XVI

Minha Mãe

Na medida que avanço na vida espiritual, minha devoção a


Maria deveria crescer cada vez mais. Ora, existem três meios
particularmente, pelos quais minha devoção pode e deve aper­
feiçoar-se.
Primeiro, meu amor a Maria deve tornar-se cada vez mais
afetuoso e infantil. Devo chegar ao ponto de viver como verda­
deiro filho de Maria.
Segundo, meu amor a Maria deve assemelhar-se ao amor que
lhe tinha Cristo. Devo amar Maria em união com Jesus, ser por
assim dizer o próprio Jesus aos olhos de Maria.
Terceiro, meu amor a Maria deve ser perfeito e wútivo, que
me una a Maria e me leve a encontrar nela minha alegria e bem­
aventurança.
Primeiro prelúdio: Representar-me-ei em espírito Maria, minha
Mãe, cheia de encantos celestiais, a olhar-me com acendrado
amor materno.
Segundo prelúdio: Pedirei ao próprio Jesus faça, em mim e por
mim , esta meditação; que me encha de Seu ardente e con­
fiante amor por Maria, para que eu viva como verdadeiro
filha de Maria.

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A Virtude do Amor

PRIMEIRO PONTo: Amar a Maria, como verdadeiro filho.


Sempre procurarei uma compreensão mais completa da grande ver­
dade que Maria não é apenas Mãe de Jesus, mas também minha
verdadeira Mãe, e que real e plenamente sou seu filho. Conheço
bem as palavras de Jesus no alto da Cruz: "Eis aí teu filho. Eis
aí tua Mãe" ( cfr. Jo. 1 9, 26-27). Segundo todos os Padres da
Igreja, estas palavras não valiam só para São João, mas são apli­
cáveis a todos os homens.
Pelo fato de ser Mãe de Jesus, Maria é também mãe de todos
os membros místicos de Jesus, de todos os que com me constituem
o Corpo Místico, e com me vivem a mesma vida mística. Esta
é a mais profunda razão por que Maria é plenamente minha Mãe.
De certo, tenho conhecimento destas grandes verdades. Sei
que Maria é a medianeira de tôdas as graças, e que tôdas as graças
me afluem por suas mãos. Mas, será que compreendo, de modo
prático e suficiente, que, em conseqüência destas grandes verdades,
Maria procede continuamente comigo, como faz uma mãe aman­
tíssima ? Ela, a melhor Mãe que o Criador jamais produziu, está
sempre cheia de solicitude pela vivência de Jesus em mim, e com
todos os meios procura sempre aumentá-la. Como as mães terrenas
nutrem seus filhinhos com perseverante cuidado, assim também
Maria nutre em mim a vida de Jesus, por meio das graças que
ela todos os dias me comunica.
Mais ainda. Como Mãe amantíssima, Maria está sempre ao
pé de mim, vive comigo desde a manhã até a noite, protege-me,
vigia-me carinhosamente, e aconchega-me de vez em quando, invi­
sivelmente, ao seu çoração maternal.
Embora Maria proceda comigo como Mãe estremosa e incom­
parável, de minha parte não vivo, infelizmente, como verdadeiro

1 88 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
M i n h a M ãe
filho seu. Ela pensa sempre em mim, enquanto eu levo talvez
horas e horas sem me lembrar dela absolutamente.

De manhã, quando acordo, ali está ela a velar por mim . Eu


talvez esqueça de abraçá-la como filho carinhoso, e de pedir-lhe
a bênção. Duranre o dia, ela fica junto de mim. Mas, que de
vêzes não me esqueço, em minhas dúvidas e dificuldades, de pedir
a Ela, Mãe do Bom Conselho, a orientação ou auxílio de que tenho
tanta necessidade ! Vou eu a Ela, em meus sofrimentos, para uma
palavra de consôlo ? Na tentação, quando me vejo acossado por
Satanás ou pela minha impura personalidade, volvo-me a Ela ins­
tintivamente, pelo menos com o palpitar do coração ?

Posso recitar, talvez, muitas orações a Maria em dados mo­


mentos, mas fôrça é que me convença bem do fato seguinte.
É fora das várias ocasiões em que lhe consagro orações ditas de
cor que, de modo particular, darei demonstração se vivo ou não
como filho seu. Não devo, pois, dizer apenas minhas orações a
Maria. Como fazem os filhos, devo muitas vêzes entreter-me com
minha Mãe do céu, sentir-me feliz em sua presença, privar com
Ela, exprimir meu afeto filial por meio de assíduas aspirações de
amor ou por amorosos olhares de minha alma.

Aqui temos uma pedra de toque. Quando quiser saber, se


vivo real e plenamente como filho de Maria, indagarei se de vez
em quando suspiro por Ela, pela ventura de vê-la e abraçá-la de
fato no céu. Se por vêzes sofri, com a lembrança de que ainda
nunca vi minha Mãe estremecida; se chorei, como um filho que
esperou longos anos pelo retôrno de sua mãe querida: então po­
derei estar certo de que Maria de fato e na verdade é mãe para
mim, e que eu a amo e me comporto para com Ela, como faz
um ver:dadeiro filho amoroso.

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 189
A Virtude do Amor

Pensemos nesses genuínos e perfeitos filhos de Maria, Esta­


nislau Kostka, Luís de Gonzaga, João Berchmans, Afonso Rodri­
gues, Gema Galgani, e outros inumeráveis Santos, que suspiravam
por Maria com tanto ardor e ternura, que Ela não podia esquivar-se
à!. suas solicitações. Ela não podia aguardar a hora do céu para se
apresentar, mas descia visivelmente, pelo menos uma ·vez, para os
encantar com sua beleza e graças cativantes.

Súplica a Maria:

"Minha Mãe, não sou digno de graças tão extraordinárias.


Mas, pelo menos, se não podeis revelar-vos a mim, mostrai-me de
vez em quando vosso amor e formosura, e fazei-me sentir um
pouquinho vossas carícias. Isto me ajudará, mais do que meus
esforços pessoais, a compreender que sois para mim verda­
deira Mãe, e a viver convosco como verdadeiro filho".

SEGUNDO PONTO: Ser Jesus para Maria. - Como cristão e


membro do Corpo Místico de Çristo, mais ainda, como sacerdote
ou religioso, devo perbútir a Cristo que viva em mim à vontade,
e continui, por assim dizer, Sua vida em mim. Devo, pois, per­
mitir-Lhe de amar Sua Mãe, em mim e por mim. Noutros têrmos',
procurarei ser para Maria não somente um filho amoroso, mas
sob certos aspetos ser para Ela o próprio Jesus.
Os trinta anos de Nazaré não bastaram a Jesus para exprimir
Seu amor pela Mãe. t:le quer também tôda a minha vida, todo
o meu ser, com que possa amá-la e torná-la feliz, como a felici­
tava em Nazaré. Quer que meus lábios a honrem, que minhas
mãos lhe façam carícias, que meu espírito a contemple e nela se
regozije, que meu coração lhe tenha amor.

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Minha Mãe

Por ocasião de minhas orações, Jesus quer ainda admirar Maria


carinhosamente por meu intermédio, como f:le a admirava em
Nazaré. Quer que em minhas horas de angústia eu repouse, com
confiança, ao coração e nos braços de Maria. Durante meu tra­
balho, f:le gostaria de fazer, como em Nazaré, tôdas as coisas sob
as vistas de Maria, e de lançar de vez em quando um olhar para
Ela, que lhe dissesse: "Minha Mãe, Eu te amo ! "
S e permito a Jesus viver em mim essa vida celeste e d e amar
a Maria em mim, causar-Lhe-ei prazer e fá-Lo-ei feliz. f:le me
amará, por causa da ventura que Lhe proporciono. Encher-me-á
o coração de Seu terno amor à própria Mãe, e muitas vêzes serei
então empolgado por transportes de amor.
Serei agradável também a Maria, que verá em mim seu Divino
Infante de Nazaré. De vez em quando, far-me-á sentir seu amor e
suas carícias celestiais, e dar-me-á graças muito singulares.

Prece a Jesus

ó meu Salvador muito-amado, eia pois, amai Maria,


em mim e por mim. Demonstrai Vosso ardente amor
por ela, amando-a imensamente por meu intermédio.
Amai-a quanto quiserdes. Quanto mais a amardes, me­
lhor será.

TERCEIRO PONTO: Amar a Maria com um amor perfeito e


unitivo. -Maria, minha Mãe, é também uma mãe mui digna de
ser amada. Tenho, infelizmente, urna noção muito imperfeita e
abstrata de suas maravilhosas perfeições, e delas não tiro proveito.
Raramente penso nelas, e raramente as contemplo. Elas deviam;

http://alexandriacatolica.blogspot.com.br 191
A Virtude do Amor

entretanto, constituir uma fonte de grande alegria e intensa feli­


cidade. Em linguagem mais incisiva, eu não as amo, não as des­
fruto, não encontro nelas minha bem-aventurança.
Pelo conseguinte, meu amor a Maria não é ainda o amor per­
feito, em direção do qual devo progredir. Longe disso, talvez.
Não é amor unitivo. O verdadeiro amor une-nos ao bem-amado,
e leva-nos a participar do que êle possui. Faz-nos viver nêle.
Devo procurar viver em Maria, amá-la com amor desinte­
ressado e unitivo, compartilhar sua bem-aventurança e tôdas as
suas perfeições. Almas que amam ardentemente a Maria, com
amor unitivo, passam horas e horas a contemplá-la em silêncio,
carinhosamente, admirando e degustando suas deliciosas perfeições.
Não poderia eu também contemplar, de vez em quando, uma ou
outra dessas perfeições ?
Tornai, por exemplo, a beleza e o encanto de Maria. Como
é grande sua formosura ! Todos aquêles que puderam entrevê-la
aqui na terra, ficar�m extasiados. Se pudesse somente vê-la, eu
também cairia em êxtase, e exclamaria, como Gema Galgani: "Oh !
isto é o paraíso ! "
Mas, ainda que a não veja, eu sei que Ela é indescritlvelmente
bela e encantadora. Jesus tornou-lhe a beleza tão celestial, que
,
até tle, a Beleza infinita, pode exclamar na verdade: "Tota pulchra
es, Maria !" Maria é a obra-prima de Deus, que nela pqe Sua
eterna complacência.
Não deveria a encantadora formosura de minha querida Mãe
arrebatar-me também a mim, pelo menos em épocas de consolação ?
Muitas pessoas ficam, horas esquecidas, a mirar uma bela paisa­
gem, um painel artístico. Nos dias festivos de Maria, não deveria
ser de meu agrado passar meia hora a contemplar e exaltar Maria,
obra-prima de Deus ?

19l http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
Minha Mãe

Vejamos, ainda, a bem-aventurança de Maria. No céu, Maria


está imersa num oceano de felicidade. Jesus esparze sôbre ela Seu
amor e carinho. &te amor é que a toma bem-aventurada. Maria
sente-se feliz por ser imensamente amada, . feliz também por re­
tribuir a Jesus um amor igualmente imenso. Pode ser que eu
nem pense jamais nesse amor inexprimível de minha Mãe. Devo
apreciar a bem-aventurança de Maria e regozijar-me por causa
dela. Preciso ao menos sentir-me mais feliz, como se eu próprio
fruisse tal felicidade, pois amo Maria mais do que a mim mesmo.
Poderia, do mesmo modo, contemplar e admirar o imenso
amor de Maria a Deus e a Jesus. Como é forte êsse amor ! Era
certamente admirável o amor de alguns Santos. Mas como se
compararia ao amor perfeito de Maria, j amais igualado, nem pelo
ardente amor dos Serafins ?
Exultarei, outrossim, contemplando a singular pureza de Maria,
amando-a ardentemente, encontrando minha ventura nessa casti­
dade imaculada, que me consola de minhas numerosas deficiências
em matéria de pureza.

Súplica a M aria

ó minha Mãe querida, até agora admirava tão rara­


mente vossas maravilhosas perfeições. Estas deviam, con­
tudo, ser para mim um abismo de gôzo, onde pudesse
afogar tôdas as minhas tristezas e sofrimentos, que são
pequenos e egoístas. Favorecei-me, uma vez ou outra,
com algum êxtase, como o fizestes a tantos de vossos
queridos filhos. Bastaria um só reflexo de Vossa celestial
formosura para me cumular de amor e felicidade. Aju-

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A Virtude do Amor

dai-me a esquecer e superar a mim mesmo, a fim de que


possa, ao menos, amar vossas perfeições de amor unitivo,
compartilhando-as e encontrando nelas minha alegria e
satisfação.

Prece para união com Jesus


ó Jesus, meu amoroso Salvador, Vós dissestes tantas
vêzes que tínheis sêde de nossas almas, sêde de continuar
a amar, em nós e por nós, Vosso Pai Celeste, por amor
do qual morrestes na Cruz. Desejáveis possuir milhões de
'
vidas, milhões de corações, com que continuásseis a amá­
Lo até a consumação dos séculos.
Venho, pois, dar-me e consagrar-me inteiramente a
Vós, com tudo o que sou e tenho. Seja eu, doravante,
Vossa plena propriedade, j á não me pertencendo a mim
,
mesmo, mas totalmente a Vós; j á não vivendo para minha
felicidade, senão para 3: Vossa. Fazei, em mim e por
mim, tudo qu'anto quiserdes. Oxalá me tornasse, pela
total união Convosco, uma segunda humanidade para Vós,
e Vos desse a capacidade de amar, mais apaixonadamente,
Vosso Pai e Vossa bem-aventurada Mãe.
Que meus olhos se tornem Vossos, e vejam apenas
o que Vós desejais ver. Que meus lábios só profiram
Vossas palavras, palavras de brandura, de bondade e afe­
tuosa caridade. Que minha mente se encha de Vossos
pensamentos divinos. Que meu coração, morto para
qualquer egoísmo, se inflame de Vosso ardente amor ao
Pai e de Vosso infatigável zêlo pelas almas.

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Minha Mãe

Ajudai-me, Divino Mestre, a fazer tudo Convosco e


por Vós. Fazei-me dócil às Vossas divinas inspirações,
a fim de que cumpra perfeitamente, a cada instante, Vossos
mínimos desejos. Fazei que eu, me esqueça a mim mesmo.
Replenai-me de Vós, a fim de que eu já não viva, qual
o Apóstolo dos Gentios, mas tão somente Vós vivais em
mim. Numa palavra, sêde a vida de minha vida, a alma
de minha alma.
Que meu único anelo, aqui na terra, seja exprimir
continuamente Vosso amor ao Pai. Que minha única
alegria seja a de ser Vossa alegria, tôdas as vêzes que
Vos dou a Deus, à Bem-aventurada Virgem Maria, e a
tôdas as almas, mediante cada uma de minhas ações.
Arnén !

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lNDICE

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • • . . . . . . . . . • . . • • . . • .••••• 9

I - Somos criados para amar a Deus . .. ............... 13

11 - Nazaré, escola de amor e santidade . ............. 29

111 - Madalena, heroína do amor . ..................... 43

IV - Cristo vive em mim ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . • 53

V - Jesus depois da flagelação e coroação de espinhos 63

VI - Jesus na Cruz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77

VII - Jesus, mártir de amor . ............................. 85

Vlll - A alegria de agradar a Jesus . . .................... 99

IX - Compartilhar a felicidade de Jesus . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107

X - Jesus, nosso perfeito tesouro . . . . . . . . . . . . . . . . , . . . . . 121

XI - Contemplação para alcançar o amor (Primeira parte) 129

XII - Contemplação para alcançar o amor (Segunda parte) 143

XIII - Deus, meu único Bem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

XIV - Meu Deus e meu Tudo ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165

XV - A sêde de amor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • 173

XVI - Minha Mãe . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . • • . . . • . . . . . . . . . • 187

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