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DOI: 10.1590/1413-81232014194.

12422013 1007

ARTIGO ARTICLE
A construção teórica na sociologia da saúde:
uma reflexão sobre a sua trajetória

Theoretical construction in the sociology of health:


a reflection on its trajectory

Everardo Duarte Nunes 1

Abstract The scope of this paper is to reflect on Resumo O objetivo deste artigo é estabelecer al-
the theoretical construction in the constitution gumas reflexões sobre a construção teórica na cons-
of the sociology of health, still called medical soci- tituição da sociologia da saúde, ainda denomina-
ology in some countries. Two main ideas consti- da em alguns países de sociologia médica, baseadas
tute the basis for this: interdisciplinarity and the em duas ideias: a interdisciplinaridade e o grau de
degree of articulation in the fields of medicine articulação presente nos campos da medicina e da
and sociology. We sought to establish a dialogue sociologia. Buscamos estabelecer um diálogo com
with some dimensions – macro/micro, structure/ algumas dimensões – macro/micro, estrutura/ação
action – that constitute the basis for understand- - que constituem as bases na compreensão da me-
ing medicine/health in relation to the social/so- dicina/saúde em sua relação com o social/socioló-
ciological dimension. The main aspects of these gico. Inicialmente apresentamos aspectos dessas
dimensions are initially presented. Straus’ two dimensões; em seguida abordamos as duas sociolo-
medical sociologies and the theory/application gias médicas de Straus2 e os impasses entre teoria/
impasses are then addressed, as well as the dilem- aplicação, assim como os dilemas do campo da so-
mas of the sociology of medicine in the 1960s and ciologia da medicina dos anos 1960 e 1970. A par-
1970s. From these analyses the theoretical pro- tir dessas análises colocamos como contraponto a
duction before 1970 is placed as a counterpoint. produção teórica anterior a 1970 e situamos a so-
Lastly, the sociology of health is seen in the gener- ciologia da saúde no cenário geral da sociologia,
al context of sociology, which underwent a frag- que a partir de 1970 sofre um processo de fragmen-
mentation process from 1970 with effects in all tação com reflexos em todos os subcampos das ci-
subfields of the social sciences. This process in- ências sociais. Esse processo é acompanhado de um
volves a rethinking of the theoretical issues in a repensar das questões teóricas num espectro am-
broadened spectrum of possibilities. The 1980s are pliado de possibilidades. Destacamos a década de
highlighted when theoretical issues in the sociol- 80 quando se revigoram as questões teóricas da
1
Departamento de Saúde ogy of health are reinvigorated and the issue of sociologia da saúde e concluímos retomando a ques-
Coletiva, Faculdade de
interdisciplinarity is once again addressed. tão da interdisciplinaridade.
Ciências Médicas,
Universidade Estadual de Key words Theory, Sociological theory, Sociolo- Palavras-chave Teoria, Teoria sociológica, Socio-
Campinas. Cidadade gy of health, Trajectory, Theoretical construction, logia da saúde, Trajetória, Construção teórica, In-
Universitária, Barão
Interdisciplinarity terdisciplinaridade
Gerado. 13.081-970
Campinas SP Brasil.
evernunes@uol.com.br

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Em grande medida, os caminhos para diversos, mas no interior de cada disciplina tam-
desenvolver a teoria social dependem do bém estaria manifesto o caráter interdisciplinar.
empenho em um tema específico e de Como escreve Piaget7 Todo biólogo sabe mui-
uma filosofia da ciência social1. to bem que necessita conhecer química, física, e
certos setores das matemáticas e sua preparação
universitária tem em conta esta ordem hierárqui-
Introdução ca. Todo o químico sabe muito bem que sua disci-
plina é inconcebível sem a física e todo físico utili-
O objetivo deste artigo é estabelecer algumas re- za sem solução de continuidade, as matemáticas.
flexões sobre a construção teórica na constitui- Quanto à sociologia, afirma que, sem deixar de
ção da sociologia da saúde, ainda denominada conservar seu objeto próprio – que é, portanto, a
em alguns países de sociologia médica. Toma análise das estruturas totais em termos de regras,
como ponto de partida duas ideias que percor- valores e signos – deve representar o modelo de
rem o campo: a interdisciplinaridade e o grau de uma ciência fecundada pelas investigações inter-
articulação presente nos campos da medicina/ disciplinares.
saúde e da sociologia. Igualmente, deparamos com uma segunda
Certamente, a construção teórica é mais com- questão que subjaz à medicina e à sociologia, o
plexa do que a derivada dessas duas noções, mas denominado grau de articulação desses campos.
não será tratada neste trabalho; não estamos Segundo Ellison8, Tanto a medicina como a socio-
buscando uma teoria geral, mas recuperando al- logia são campos de pesquisa caracterizados por um
guns debates dessa trajetória. Esses debates, em baixo grau de articulação. Grau de articulação foi
alguns momentos, são vistos no diálogo com al- definido por Cornfield9 como sendo a extensão
gumas dimensões – macro/micro, estrutura/ação em que os fenômenos com os quais o campo está
– que constituem as bases na compreensão da interessado são potencialmente capazes de serem
medicina/saúde em sua relação com o social/so- explicados e previstos em termos de um pequeno
ciológico. Nessa direção, abordamos as duas número de conceitos e constantes fundamentais.
sociologias médicas de Straus2 e os impasses en- Estas questões são importantes quando abor-
tre teoria/aplicação, assim como os dilemas do damos um determinado campo de saber. Isto
campo da sociologia da medicina dos anos 1960 nos conduz a Foucault10 que, pela análise do dis-
e 19703-5. curso, procura desvendar a estrutura dos diver-
A partir dessas análises colocamos como con- sos saberes, num primeiro momento, e num
traponto a existência da produção teórica que outro, o das ciências. Isto porque estaríamos
antecede os anos 70, destacando o trabalho de enfrentando saberes já consolidado (ciências) e
Parsons6, da Escola de Chicago e de outros pes- outros em desenvolvimento. A medicina e a clí-
quisadores. Em seguida, situamos a sociologia nica se definiriam no âmbito de uma formação
da saúde no cenário geral da sociologia, que a discursiva de não ciência, que não exclui a ciên-
partir de 1970 sofre um processo de fragmenta- cia, pois no caso da medicina clínica estabelece
ção com reflexos em todos os subcampos das relações definidas com a fisiologia, a química, a
ciências sociais. Esse processo é acompanhado microbiologia e deu lugar a discursos como o da
de um repensar das questões teóricas num es- anatomia patológica.
pectro ampliado de possibilidades. Destacamos Interessante que no Cecil Tratado de Medici-
a década de 80, quando se revigoram as questões na Interna, que há mais de 75 anos é referência
teóricas da sociologia da saúde. para o campo médico, encontra-se a seguinte
passagem, a medicina é ... uma profissão que in-
Em busca de um conhecimento corpora a ciência e os métodos científicos com a
interdisciplinar arte de ser um médico11. Isto teria assegurado a
esse campo o caráter tanto de uma prática técni-
A elaboração de um ensaio sobre a sociologia ca como a de uma pratica social, ao passo que a
da saúde na vertente da sua formação teórica sociologia, de forma prevalecente, se definiu como
tem na interdisciplinaridade uma das suas prin- prática científica, que, segundo Bourdieu, na in-
cipais noções. Consideramos que em sua con- terpretação de Pinto12, é obrigada a desconstruir
cretude essa disciplina encontra-se na confluên- com seus meios aquilo que o mundo social constrói
cia de epistemologias particulares e envolve ou- no real pela linguagem, desconstruir pela ciência
tro grau de complexidade – as relações não se construções socialmente eficazes e geralmente con-
limitam exclusivamente às coações entre campos sideradas legítimas.

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Recentemente, Luz13 anota: A produção das reduzidas, uma vez que as pesquisas se voltaram
ciências sociais se faz no sentido da compreensão e para aspectos relevantes para o pessoal da saúde
interpretação dos fenômenos da vida, do adoeci- e para os planejadores. Apontou uma crescente
mento e da morte humanos em sua relação com a convergência entre a sociologia médica e a sociolo-
cultura, com a sociedade, com os outros (seres hu- gia como disciplina de base, indicando que a divi-
manos): com o outro, em última instância. Seu são na e da sociologia médica está perdendo muito
paradigma não inclui, de forma alguma, a eficá- da sua dicotomia nos Estados Unidos e nunca
cia, que supõe a intervenção, o que é típico do esteve presente em outros países europeus. Essa
pragmatismo das ciências ligadas à vida, isto é, de caracterização pioneira, sem a conotação sepa-
sua conservação, ou sua recuperação, como é o caso ratista e conflituosa, seria adotada mais tarde.
da medicina (ou das medicinas, para sermos mais Retornando ao próprio criador das duas so-
rigorosos). E esse paradigma se exprime cientifica- ciologias, vemos que ao comentar essa divisão,
mente, em linguagem específica, também diferin- em 1999, escreveu: Minha visão pessoal é que a
do da linguagem objetivante das ciências da vida, distinção entre da e na tem tanto validade históri-
no sentido biológico do termo. Tem uma escritura ca como contemporânea, mas que hoje é inteira-
(estrutura discursiva) adequada a sua epistemolo- mente possível para os sociólogos-médicos ensinar
gia e formas de expressão e difusão de produtos ou pesquisar dentro da medicina ao mesmo tempo
científicos distintos dos da área biomédica. em que eles estudam aspectos da medicina. O soci-
ólogo pode até desempenhar o papel de advogado
As duas sociologias médicas do diabo, particularmente se o papel crítico é per-
cebido como construtivo, objetivo, e não ruidosa-
A clássica divisão da sociologia médica em mente antagonista15.
sociologia na medicina e sociologia da medicina, Gabe16 ao tratar do desenvolvimento da so-
criada por Straus2, propõe, a partir da sociolo- ciologia da saúde no Reino Unido, estabelece in-
gia, uma primeira aproximação e, até certo pon- teressante relação entre a formulação de Straus e
to, um acerto de contas com a questão teoria/ os níveis de análise de Turner17 individual, social
aplicação. Straus escreve o seguinte: Nós sugeri- e societário, que conformam diversas temáticas,
mos que a sociologia da medicina está interessada como pode ser visto no Quadro 1.
em estudar fatores tais como a estrutura organiza- Além dessas “duas sociologias” outras deno-
cional, as relações de papéis, sistemas de valores, minações foram usadas entre 1950-1970, como:
rituais, e funções da medicina como um sistema de “sociologia aplicada à medicina” ou “ciências so-
comportamento e que este tipo de atividade pode ciais aplicadas à medicina” que muitas vezes, sim-
ser melhor exercido por pessoas trabalhando em plesmente, nomeavam uma disciplina no currí-
posições independentes fora dos estabelecimentos culo médico, sem grandes referências ao arcabou-
médicos formais. Sociologia na medicina compre- ço conceitual das disciplinas matrizes, como a
ende pesquisa e ensino colaborativos frequentemen- sociologia, antropologia e ciência política. As suas
te envolvendo a integração de conceitos, técnicas e origens se prendem a uma ciência aplicada que no
pessoal de muitas disciplinas. Nós, além disso, su- dizer de Pollach18 obscurecem em suas práticas as
gerimos que estes dois tipos de sociologia médica próprias formulações em que se baseiam.
tendem a ser incompatíveis; que o sociólogo da Somente no final de 1970 as denominações
medicina pode perder objetividade caso se identifi- sociologia da saúde e sociologia da saúde e da
que muito intimamente com o ensino ou a pesqui- doença seriam mais amplamente adotadas. Lem-
sa clínica, enquanto o sociólogo na medicina põe bramos que o primeiro número do periódico
em risco um bom relacionamento se ele tenta estu- Sociology of Health and Illness, editado pela Bri-
dar seus colegas. tish Sociological Association, data de junho de
Cockerham14 apontou que a divisão eventu- 1979.
almente criou problemas. Para ele, sociólogos
médicos filiados aos departamentos de sociolo- Anos 70 – algumas formulações críticas
gia estavam em uma posição mais forte para pro- à sociologia médica
duzir trabalho que satisfizesse sociólogos frente a
uma ‘good sociology’. De outro lado, sociólogos Revisitando o campo encontramos que na
nas instituições médicas tinham a vantagem de década de 1970, Freeman et al.19 enfatizavam que
participar diretamente no campo das práticas a situação na sociologia médica era semelhante à
médicas. As tensões entre os dois grupos não de outros campos “aplicados” como a sociologia
foram completamente resolvidas, mas foram da educação, sociologia do direito, sociologia da

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Quadro 1. Sociologia da saúde no Reino Unido.


Nível individual Nível social Nível societário

comportamento na causas sociais das melhoria da efetividade e


saúde doenças eficiência das políticas e
iniciativas governamentais

crenças leigas epidemiologia social construção de capital social


na comunidade
Sociologia
na sistema leigo de avaliação da efetividade
Medicina/Saúde referência do cuidado à saúde

aderência ao efetividade e eficiência


tratamento da gestão

apoio social e estresse/ promoção de saúde e


perspectivas psico- educação
sociais

desigualdades sociais

construção social das domínio, poder, relações capitalismo/


categorias de doenças rivalidade globalização/cuidados de
interprofissional saúde

Sociologia conhecimento medicalização movimentos sociais na saúde


da médico
Medicina/Saúde
narrativas do self e perspectiva de conflito construção social da
identidade na relação leigo- comunidade via vigilância
profissional disciplinar governamental

sociologia do corpo gerenciamento como


ideologia ou discurso

Fonte: Adaptado de Gabe J16.

religião, etc. No comentário desses autores, a que se possa ‘dizer qualquer coisa dele’ e várias
sociologia médica Faz uso dos conceitos, teorias e pessoas possam dele dizer coisas diferentes, as con-
métodos da sociologia para o estudo da saúde e da dições para que ele se inscreva em um domínio de
doença das pessoas, das relações e processos sociais parentesco com outros objetos, para que possa es-
dos indivíduos envolvidos na rede de relações e pro- tabelecer com eles relações de semelhança, de vizi-
cessos sociais dos indivíduos envolvidos na rede de nhança, de afastamento, de diferença, de transfor-
relações dos ambientes médicos e o fornecimento e mação – essas condições vê-se são numerosas e pe-
organização do cuidado médico. sadas. O filósofo referia-se às análises de discur-
Somente na década seguinte é que se publica- sos que havia estudado detalhadamente em rela-
riam muitos estudos sobre as questões teóricas ção à loucura, à clínica e aos saberes das ciências
da sociologia da saúde. Como já apontamos, este humanas e que tiveram larga difusão e acolhida
tipo de abordagem envolve um grau crescente de entre os pesquisadores brasileiros do campo da
complexidade na medida em que estamos traba- saúde.
lhando com um discurso em construção. Lem- Desde 1960, aflorava uma visão crítica ao dis-
brando Foucault10 as condições para que apareça curso que se elaborava no campo da sociologia
um objeto de discurso, as condições históricas para médica, como a empreendida por Freidson3,4. Se-

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gundo Freidson, o subdesenvolvimento da socio- pesquisa para apoiar a medicina e de tópicos que
logia médica devia-se ao desenvolvimento lento os médicos definissem como importantes.
da sociologia no século 19 e que somente no século Cockerham22, ao examinar a produção do
20, com a realização de estudos empíricos, ocorre JHSB diz que apesar da alta porcentagem de ma-
uma redefinição de antigos conceitos que condu- nuscritos rejeitados (85%), muitos dos principais
ziriam ao enfoque de áreas especiais de estudo co- textos no campo apareceram nessa revista. Em
meçando a acumulação de informação e consciên- sua pesquisa de 171 artigos publicados de 1977-
cia de problemas que dão base a uma especialidade4. 1981, somente 54 (31,6%) citavam os teóricos mais
Para o autor, a massa crítica para o desenvolvi- importantes da sociologia. Salienta que mesmo
mento da especialidade, somente teria ocorrido nos esta porcentagem era significante considerando-
anos 50. Assim mesmo, apesar dos avanços ocor- se que a revista tradicionalmente estava focada em
ridos até 1970, é difícil discernir uma abordagem publicar os resultados de estudos empíricos sobre
distintiva para a área, um conjunto limitado de con- assuntos da saúde, especialmente sobre estresse.
ceitos estratégicos ao redor dos quais uma ordem Destaca, ainda, que a maioria dos achados visa-
completa de fenômenos possa ser ordenada. A seguir, vam questões sociológicas em lugar de médicas. Para
Freidson aponta que a fraqueza da sociologia mé- ele, isto indicava que a sociologia médica havia
dica devia-se ao fato que parece peculiar aos soció- alcançado um estado de independência ao analisar
logos que trabalham no campo da medicina (inclu- sociologicamente as situações de saúde.
indo a psiquiatria) uma excessiva dependência da Ao investigar mais recentemente o JHSB, pe-
abordagem dos profissionais no campo e uma nítida ríodo de 2002-2006, constata que de 156 artigos,
relutância em usar as abordagens da própria socio- 86 (55,1%) continham conteúdos teóricos (citan-
logia. Haveria assim uma orientação médica em do os teóricos e/ou testando um modelo teórico)
lugar de uma orientação sociológica. Dessa forma, e 57 (36,5%) particularizavam no texto o esque-
argumenta que a sociologia médica tem se focaliza- ma de referência teórico ou o modelo utilizado22.
do sobre áreas que o profissional médico tem consi- Sem dúvida, como o próprio Cocherham21 já
derado problemáticas, adotando a concepção do que assinalara, os anos 80 serão o que denomina de
é problemático a partir da própria profissão sem le- período de maturidade da sociologia médica. Po-
vantar questões sobre a perspectiva da qual o proble- demos dizer que haviam sido superados muitos
ma é definido. Embora assinalando que há exce- dos problemas apontados por Freidson4 tanto
ções, Freidson reafirma que a maioria do trabalho na adoção de uma atitude independente e impar-
dos sociólogos no campo da saúde tem sido de orien- cial ao estudar a instituição médica, evitando a
tação médica e médico-profissional do que especifi- ênfase da ciência médica sobre o processo bioló-
camente sociológica e independente. gico como estabelecendo uma orientação teórica
Seguindo o caminho aberto por Freidson, para o estudo da profissão médica, dentro da tra-
outros estudiosos irão estabelecer críticas à soci- dição analítica da sociologia do conhecimento4.
ologia médica. É o caso da pesquisa de Gold5 que Todos esses trabalhos problematizam a ques-
documenta as limitações acadêmicas e políticas tão da teoria que, ao ser revisitada, revela novos
da sociologia médica devido a suas relações com o desdobramentos.
campo mais poderoso da medicina que a subordi-
naria. No caso, a autora explora as orientações Revendo a crítica
dadas às pesquisas, levantando as publicações sobre o ateoricismo do campo
do Journal of Health and Social Behavior (JHSB),
durante o período de 1960 a junho de 1976, e Como assinalamos, a perspectiva das “duas
suas conclusões são semelhantes às apontadas sociologias” atravessa a sociologia médica, mas
por Freidson. Estes fatos conduziriam a uma si- até 1970 era muito comum a afirmação de que
tuação de empobrecimento teórico-conceitual do esse campo era ateórico. É surpreendente essa
campo, como assinalado em Johnson20, eviden- afirmação se considerarmos que muitos pesqui-
ciando o caráter ateorizante da disciplina, con- sadores haviam produzido, a partir dos anos 50,
clamando para que se voltasse às fontes clássicas importantes trabalhos de pesquisa teórica e em-
da sociologia. pírica associados a um rico referencial conceitual
Mas, como analisa Cockerham21, a “crise” de das ciências sociais. De forma bastante sumari-
subordinação da sociologia à medicina que se zada bastaria lembrar algumas questões postas
anunciava nos anos 70 não se sustentou e a sub- por alguns autores.
disciplina não se tornou um campo que mera- Parsons6 enfatizando o “papel de doente” e
mente fornecesse habilidades técnicas e serviços de da doença como desvio que afeta o funciona-

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mento eficiente do sistema social e que o papel da vai se consolidando, quando em 1967 é criada,
medicina é regular e controlar para que aqueles na Inglaterra, a revista Social Science and Medici-
que estão doentes retornem às suas atividades e ne, e dois anos mais tarde o Grupo de Sociologia
responsabilidades. Médica.
Merton et al.23 criando o conceito de ‘papel O processo de institucionalização da sociolo-
modelo’, peça fundamental em seu estudo sobre gia médica nos Estados Unidos prossegue nos
o processo de socialização de estudantes de me- anos 70, coincidindo com o momento em que a
dicina, como também, o de socialização anteci- sociologia naquele país passava por uma fase de
patória24, conceito elaborado em 1950, a partir grande crescimento em seu recrutamento, assim
de uma releitura de um estudo sobre soldados como no financiamento público. O orçamento
que haviam participado da 2ª Guerra Mundial25. triplica nos três primeiros anos da década, quan-
Fox26, do grupo pioneiro da sociologia médi- do atinge 120 milhões de dólares por ano34, mas
ca, realizando uma pesquisa, provavelmente a os financiamentos caíram, certamente, como con-
primeira, como observadora participante de uma sequência da crise econômica que afetou os paí-
enfermaria de pacientes com problemas meta- ses industrializados, no que ficou conhecido como
bólicos, mas destacando-se nas pesquisas sobre “desregulamentação do sistema monetário inter-
o estudante de medicina, desenvolvendo a noção nacional” e dos “choques petrolíferos”, em 1973 e
de “treinamento para a incerteza”27. 1979 e que atingiu os mais diversos setores da
Hollingshead e Redlich28 pesquisando as rela- sociedade. Os financiamentos voltaram a crescer
ções entre classe social e doença mental, num pri- nas décadas de 1990 e 2000. Dados sistematiza-
meiro encontro entre um sociólogo e um psiqui- dos pela ASA35 mostram que entre 1990 e 2003 os
atra para o qual ambos traziam as experiências fundos para pesquisa e desenvolvimento para a
anteriores, respectivamente, com estudos sobre sociologia dobraram seus valores, sendo que em
estratificação social e pacientes esquizofrênicos. 2005 esteve acima de US$ 370 milhões, compara-
Strauss29 que, desde 1950, havia realizado pes- dos aos US$ 320 milhões destinados para econo-
quisas em hospitais psiquiátricos e lançou com mia e US$ 314 milhões para a ciência política.
Glaser a “grounded theory”, criando conceitos Do ponto de vista institucional, nos anos 70,
importantes, como o de ‘ordem negociada’, fun- a ASA – fundada em 1905 -, incluía mais de vinte
damental em suas pesquisas posteriores, e reali- comitês; com 14.387 membros em 197536. Atual-
zando em 1961, com Becker et al.30 uma notável mente é constituída por 51 seções e conta com
investigação em uma escola médica que se tor- cerca de 21.000 membros.
naria referência dos estudos qualitativos. De outro lado, não podemos ignorar as ca-
Há muitos outros destacados cientistas so- racterísticas do conhecimento sociológico nesse
ciais nesses anos iniciais, como Zola31, com pes- momento de expansão. Como analisam Drys-
quisas sobre as diferenças étnicas relacionadas dale e Hoecker-Drysdale37 No início dos anos 70,
aos sintomas, e Zborowiski32 sobre a diversidade período de maior ativismo estudantil e crescentes
das reações à dor de acordo com características conflitos sociais, a sociologia estava se aproximan-
culturais. Além disso, data desse período a cria- do do zênite do seu mais rápido crescimento nos
ção e/ou desenvolvimento de certas noções que Estados Unidos como disciplina, profissão e tema
se tornaram presentes, ou se reafirmaram no acadêmico. Essas questões não são exclusivas
campo da sociologia médica/saúde. Já citamos desse país. Costilla38, ao analisar as característi-
algumas e acrescentamos: estigma e identidade cas atuais da sociologia latino-americana, cita
social, desvios e comportamentos desviantes, uma passagem do sociólogo francês Mattei Do-
comportamento na doença, autonomia profis- gan (1920-2010) que reafirma o que vinha acon-
sional, trajetória, carreira, medicalização, expe- tecendo com o campo mundial da sociologia.
riência leiga na doença, etc. Dogan39 escreve: De 1970 em diante, o crescimen-
Sem dúvida, a institucionalização do conhe- to começou a ocorrer junto com um processo de
cimento irá ocorrer na medida em que há uma fragmentação, com o resultado de ser a sociologia,
produção contínua e que se divulga através da hoje, nas democracias desenvolvidas, uma disci-
criação do primeiro periódico destinado às ciên- plina heterogênea e centrífuga. Dependendo da
cias sociais e saúde, em 1960, o Journal of Health maneira como ela é definida, pode-se falar de 35 a
and Human Behavior, posteriormente denomi- 40 sociologias setoriais, indo em todas as direções:
nado Journal of Health and Social Behavior e a para a história, a economia, a política, o direito, a
criação da Seção de Sociologia Médica da Ameri- vida social, a indústria e a religião. Não há ativi-
can Sociological Association - ASA33. Este avanço dade social que não tenha seu sociólogo oficial, como

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a sociologia da educação, da família, da criminali- Juan César García, que iniciou sua produção
dade, das comunicações, do lazer, da terceira ida- em 1960, apresenta nos anos 70 alguns trabalhos
de, da medicina, das organizações - a lista é longa. cujas bases teóricas são derivadas do materialis-
Não somente a fragmentação, mas a tensão mo histórico na pesquisa da educação médica43 e
entre o que havia sido apontado por Mills40 da nas relações entre as ciências sociais e a medici-
grande teoria, do empirismo abstrato e da análi- na44, analisando: a vinculação da medicina à es-
se social clássica ecoava fortemente no campo da trutura social; a influência da estrutura social na
sociologia. Dogan, ao retomar a ideia de frag- produção e distribuição da doença; a análise in-
mentação, cita Ralph Turner que assim descreve terna da produção de serviços médicos; a relação
esse processo: A sociologia passou de uma fase de da formação de pessoal de saúde com o campo
ênfase na teoria, com poucas bases empíricas testá- médico. Em 1989, ao fazer um balanço das cor-
veis, para outra de empirismo antiteoricista, e daí rentes de pensamento em saúde que dividiu em
para uma outra fase, na qual a pesquisa é vista idealistas e materialistas tece sérias restrições à
primordialmente em função de sua relevância para fenomenologia atribuindo-lhe uma perspectiva
a grande teoria39. Costilla que trabalha com essas reacionária. Para o autor as consequências das
noções, lembra-nos que Na verdade, nem tudo é concepções fenomenológicas sobre as políticas
tão unilateral e simples assim38, ao comentar que de saúde podiam ser vistas na diminuição do
o pensamento social crítico na América Latina de papel do Estado e das grandes instituições médi-
caráter teórico não havia marginalizado a pes- cas e avanço do setor privado; no reconhecimen-
quisa empírica. to da existência de formas alternativas de expres-
No caso do Brasil, A Sociologia no Brasil, no são, conhecimento e tratamento da doença e no
período dos anos 60 e 70 para os anos 90, vivenciou papel positivo de estruturas mediadoras na saú-
uma passagem de análises macrossociológicas de de45. Essa posição, como de outros estudiosos
crítica ao modelo econômico-social excludente do dentro da linha de pensamento marxista, rece-
milagre e de crítica ao modelo autoritário para beria críticas, como a expressada por Burlandy e
uma microssociologização dos estudos. Em gran- Bodstein46. Para essas estudiosas [...] podemos
des linhas, verificou-se uma evolução temática da dizer que este campo científico [políticas de saú-
Sociologia brasileira nos seguintes termos: de gran- de] estruturou-se basicamente em torno da análi-
des interpretações macroestruturais do modelo eco- se crítica e da denúncia contundente à ordem ca-
nômico-político-cultural do regime anterior, pas- pitalista com sua racionalidade instrumental e, no
sou-se para a análise dos agentes e características caso específico, em oposição cerrada às políticas
da transição democrática, seguida dos temas da médico-sanitárias, ao sistema de saúde privado e
democratização necessária, dos movimentos soci- assistencialista, ao conhecimento médico dominan-
ais e da estratégia de reativação da sociedade41. te, enfim ao processo de medicalização como um
Apesar da crise e da fragmentação que ocor- todo. Convém observar que através desse esquema
ria, não podemos esquecer que a década de 70 explicativo, tanto o conhecimento médico-sanitá-
produziu textos que se tornaram fundamentais rio como as práticas e políticas de saúde são estru-
para a sociologia, e seus autores, referências, bas- turalmente determinados e, portanto, compreen-
tando citar, por exemplo: Baudrillard, Gouldner, didos sem qualquer ambiguidade: reflexo ou con-
Poulantzas, Sennet, Goffman, Lyotard, Mafessoli, sequência prevista da influência crescente do de-
Giddens, Foucault, Poper, Leach, Collins, Bour- senvolvimento do sistema capitalista. É exatamente
dieu, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Ota- essa perspectiva unilateral e reducionista, onde não
vio Ianni e muitos outros. Isso leva-nos a con- se leva em conta a complexidade da sociedade mo-
cordar com alguns analistas ao caracterizarem a derna e a heterogeneidade crescente da vida social,
crise da sociologia dos anos 70 como um fenô- que vem sendo criticada no âmbito das ciências
meno complexo que trazia em seu bojo os refle- sociais contemporâneas por autores como Casto-
xos das questões levantadas pelos diversos mo- riadis47; Boudon48; Giddens49, entre outros.
vimentos sociais ocorridos na década de 196042. Voltando a outros estudos dos anos 70, ano-
Destacamos que na América Latina, onde o tamos os de Donnangelo50,51, firmando em dois
desenvolvimento das ciências sociais em saúde é trabalhos posicionamentos teóricos sobre o mer-
posterior ao norte-americano e canadense, apre- cado de trabalho médico e sobre as relações saú-
sentava desde 1970 pesquisas que traziam cen- de/sociedade. Anteriores a essas pesquisas, Gan-
tradas posições teóricas no trato de temas relaci- dra52 apresentou uma tese sobre o a lepra, ante-
onados à medicina, ao corpo, à doença, ao ensi- cipando-se a muitos trabalhos que tratariam do
no. Abordaremos alguns desses autores. processo de estigmatização de uma doença. Ain-

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da nesse período, Arouca53 desvendaria com base começavam a declinar. Essa é uma questão que
em Althusser e na ‘história arqueológica’ de Fou- será continuamente retomada não somente em
cault o discurso da medicina preventiva. Tam- relação à questão macro/micro, mas entre obje-
bém, com base nas formulações da arqueologia tividade/subjetividade, materialidade/idealidade,
foucaultiana, Roberto Machado et al.54 pesqui- coletividade/individualidade, denominados por
saram as origens da medicina social e da psiqui- Bendix e Berger58 de paired concepts. Foram criti-
atria brasileiras. A partir de outra vertente teóri- cados por Corcuff56 por conduzirem a pensa-
ca – a mertoniana – Ferreira-Santos55 realiza a mentos binários desastrosos para a compreensão e
primeira pesquisa sobre a profissão da enferma- a explicação de fenômenos sociais complexos. Inte-
gem no Brasil a partir das relações que se estabe- ressante a proposta do sociólogo aproximando
lecem em um hospital universitário. os autores cujos percursos teóricos caminham
das estruturas sociais às interações (Elias, Bour-
O renascimento da questão teórica dieu e Giddens) e aqueles que apesar de partirem
dos indivíduos e de suas interações consideram
De um modo geral, na literatura latino-ame- entidades mais amplas, como instituições, orga-
ricana, incluindo a brasileira, predominavam as nizações, redes, normas, etc. (Berger e Luckmann,
macroanálises, o que não era estranho à sociolo- Cicourel, Latour, etc.). Nesta linha de demarca-
gia médica norte-americana. Para Bloom36 na ção temporal e teórica da sociologia, Luz et al.59
sociologia médica dos anos 70 já estavam pre- apontam que a década de 70 foi dominantemente
sentes as seguintes características: análise das ins- estruturalista e a de 80, com ocaso das análises
tituições, dos sistemas sociais amplos, das orga- marxistas e funcionalistas e com a crescente domi-
nizações complexas; ênfase na ciência política e nância de estudos fenomenológicos e hermenêuti-
nas estruturas de poder. cos, nitidamente acionalista nas ciências sociais.
De outro lado, é também nessa década que O que acontecia no campo geral da sociolo-
estamos frente ao que Corcuff56 denominou as gia nesse momento irá se refletir praticamente
novas sociologias ao analisar a sociologia france- em todos os seus campos disciplinares, como
sa onde se deparava não somente com o que já pode ser visto na sociologia da saúde.
apontamos como fragmentação, mas a presença Scambler60 relata que ao publicar em 1987
de múltiplos paradigmas e referências teóricas, hi- Sociological theory and medical sociology Eu repe-
perespecialização dos subcampos disciplinares, mas tia o que era um lamento muito comum, desta-
com novos arranjos e convergências inéditas, cando que a sociologia médica permanecia maio-
dentro do amplo espectro do construcionismo ritariamente distanciada do mainstream socioló-
social. gico e da teoria social. Acrescenta que com isso
Podemos dizer, de maneira genérica, que nos não afirmava que a sociologia médica era mera-
anos 80 assiste-se a um forte renascimento das mente positivista ou que não tinha uma história
discussões sobre as questões teóricas no campo de compromisso teórico reflexivo. Ao analisar que
da sociologia que se estenderam para a sociolo- essas afirmativas não seriam absolutamente ver-
gia da saúde. Data de 1986 a apresentação de Je- dadeiras, Scambler diz que parecia haver muito
ffrey Alexander, na ANPOCS, intitulada O novo pouco interesse naquelas teorias que variavam
movimento teórico57 analisando o que ele deno- do macro – passando pelo meso – para o micro
mina um momento crucial da teoria sociológica, fenômeno no domínio da saúde, ou seja, teorias
com o fim da fase pós-funcionalista. Para ele, que relacionassem à ordem e à mudança social com
Contra a dominação do funcionalismo no pós-guer- os pensamentos e os comportamentos cotidianos.
ra empreenderam-se duas revoluções. Por um lado, Faltava imaginação sociológica no campo da so-
surgiram escolas radicais e estimulantes de micro- ciologia médica. Falando a partir da sua inserção
teorização, acentuando o caráter contingente da na universidade inglesa, relata que tinha sido pron-
ordem social e a centralidade da negociação indi- tamente seduzido pela macro teoria e superexposto
vidual. Por outro lado, desenvolveram-se vigoro- ao empiricismo abstrato. De outro lado, reconhe-
sas escolas de macroteorização, enfatizando o pa- ce que havia mais coisas acontecendo, especial-
pel de estruturas coercitivas na determinação do mente nos departamentos de sociologia dos Es-
comportamento individual e coletivo. Esses movi- tados Unidos, onde era crescente o conhecimento
mentos transformaram o debate geral e permea- e a aplicação na saúde de escolas de pensamento e
ram os trabalhos empíricos de alcance médio. Ao perspectivas afora o funcionalismo e interacionis-
mesmo tempo em que triunfavam, contudo, a au- mo, incluindo teoria dos sistemas, teoria crítica,
toconfiança e o impulso desses enfoques teóricos teoria da escolha racional, etc.. Assim, ao compa-

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rar a coletânea organizada em 1987 e a de 2012 teóricos já citados. Para ela, dois temas orientam
escreve que Há clara evidência de maior reflexivi- a trajetória da sua introdução crítica à sociologia
dade e de mais diálogos crescentemente mais sofis- da saúde & medicina: 1. como entender a desigual-
ticados entre teorias sociais e sociológicas e ‘especi- dade em um clima intelectual e político que cada
alistas’ engajados em entender e/ou explicar com- vez mais enfatiza a morte da classe social, desloca as
portamentos que circundam a saúde, a doença e o fronteiras de gênero e ‘raça’ e no qual emergem no-
cuidado à saúde. Alguns desses diálogos são explici- vas formas de divisão social; 2. a alegação de que
tamente teóricos, outros implicitamente60. Na pri- estamos alcançando, ou já alcançamos, o ‘fim da
meira coletânea aparecem Marx, Durkheim, Par- modernidade’ e tentamos teorizar uma nova or-
sons, Foucault, Freud, Goffman, Habermas, dem. Na perspectiva da autora, a agenda dos anos
Weber e Offe; na segunda, reaparecem Foucault 70 que se colocava para a sociologia médica era a
e Habermas na companhia de Baumann, Luh- de liberar o entendimento contemporâneo da saú-
mann, Bourdieu, Merleau-Ponty, Wallerstein, de e da medicina da camisa de forçado modelo bio-
Archer, Deleuze e Guattari e Castells. médico numa perspectiva que se orientava para a
Outra perspectiva para o estudo das ques- economia política. Nesse momento, a abordagem
tões teóricas é agrupar os autores em escolas de ‘macro’ da economia política e a ‘micro’ perspecti-
pensamento sociológico e suas interfaces com a va do interacionismo simbólico começam uma luta
medicina/saúde. Em 1991, o Current Sociology, pesada por estabelecer uma posição no interior da
periódico oficial da ISA, publicou o trabalho de disciplina. Nesse ponto situa as profundas dife-
Kevin White61, no qual o autor escolheu o que ele renças que marcam as duas abordagens, por exem-
chama quatro escolas representativas da sociolo- plo, comparando os trabalhos de Navarro e
gia da medicina que, segundo ele, provavelmente, McKinlay e os de Strauss e Goffman, acrescen-
são as que têm tido maior influência na definição tando que há pontes que atravessam essas divisões.
e objetivos do campo. Essas escolas são: a parso- Exemplifica com Waitzkin63 que associa a micro-
niana, a marxista, a feminista e a foucaultiana/ política do cuidado à saúde e o trabalho de alguns
fleckiana. Para o autor a perspectiva parsoniana interacionistas simbólicos. Para Annanadele62, o
mostra como a profissão médica atua para contro- interacionismo buscou ampliar sua abordagem
lar o desvio, a marxista associa suas análises ao ao elaborar uma interface com o campo mais
capitalismo, a feminista com o patriarcalismo, a amplo das políticas de saúde, de um lado, e de
foucaultiana com o desenvolvimento da sociedade outro, procurando resolver o viés cognitivo na
moderna e a abordagem fleckiana, argumentan- perspectiva da sociologia das emoções. Sendo uma
do que nosso conhecimento do mundo é dado por abordagem em construção, especialmente no
paradigmas, pois eles são produtos de estilos de pen- campo da saúde e da doença, segundo alguns
samentos. White escreve que A proposição que con- autores pode conciliar a divisão mente-corpo e
fere unidade a essas teorias é que os seres humanos outros dualismos, tais como a divisão entre macro e
agem, em vez de se comportarem. Mais ainda, elas micro, que tem caracterizado a pesquisa. Imedia-
evidenciam que o que parece como natural é de tamente, a autora aponta que os debates teóricos
fato o produto da interação social. Interessante não somente repudiavam virtualmente tudo o que
deste trabalho é que o autor revisa estas corren- vinha antes deles, mas que abordagens teóricas re-
tes teóricas no plano de uma sociologia do co- centes pareciam estilhaçar a ortodoxia de uma for-
nhecimento que enfatiza as formas pelas quais a ma sem precedentes. Lembrava que num mundo
natureza é socialmente produzida, e as formas pe- pós-moderno não há uma única ‘verdade’, mas
las quais as demandas para entender a natureza múltiplas ’verdades’ e que embora seja inapropri-
são um processo político e social. ado rotular a obra de Foucault como pós-moderna,
Alguns anos depois, Ellen Annandale62, da ela trouxe importantes influências nos pós-mo-
Universidade de York, Inglaterra, adiantava que dernistas. Considera, ainda, que nessa perspecti-
passada a onda dos “textbooks” dos anos 70, 80 e va, o foco de atenção volta-se para o ‘corpo’ em
início dos anos 90 era necessário, frente às pró- lugar do ‘sujeito’ individual. Aborda também o
prias mudanças no campo sociológico, especial- desafio feminista dividindo-o em quatro corren-
mente na teoria, e pelas demandas de pesquisas tes: liberal, radical, pós-moderna e materialista,
no momento em que ocorriam transformações anotando que muitas vezes os esquemas de refe-
no fornecimento de cuidado à saúde, reconside- rência procedentes desta abordagem são mais im-
rar os temas estabelecidos na disciplina e lançar plícitos do que explícitos.
novas áreas para o debate. Embora dentro de pers- Ao recuperarmos as análises anteriores, con-
pectivas diferentes de White, a autora retoma os cordamos com os autores que assinalam que a

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partir dos anos 80 as discussões da sociologia da Considerações Finais


saúde atingem outro patamar frente a sua insti-
tucionalização e produção não somente nos Es- Em maio de 2003, Scambler et al.70 no Editorial
tados Unidos e Inglaterra, mas na Alemanha, do primeiro número da revista Social Theory &
França, Canadá e América Latina. Health diziam que ela tinha sido concebida como
Particularizando o caso brasileiro ilustramos um veículo para, no mínimo, três tarefas: apoiar,
com apenas três exemplos, embora a literatura estimular e alimentar a dialética entre a teoria e a
seja bastante ampla. Na análise do campo e das pesquisa no campo da saúde e do cuidado à saúde,
abordagens teóricas clássicas advindas de Marx, encorajar e disseminar contribuições inovadoras
Durkheim e Weber em estudos empíricos, Perei- [...] e lançar novas luzes sobre as estruturas nacio-
ra64 realiza extensa revisão sobre a explicação so- nal, global e local pelas lentes da saúde. Acrescenta-
ciológica no campo da saúde; Minayo65 não so- vam que os objetivos iam além da teoria social e
mente revisita todo o campo das ciências sociais da sociologia médica, procurando integrar os
em saúde, mas amplia a perspectiva metodoló- mais diversos campos do conhecimento, as dis-
gica da pesquisa qualitativa para compreender a ciplinas vizinhas.
lógica interna de grupos, instituições e atores quan- Sem dúvida, dito de outra maneira recupera
to a (a) valores culturais e representações sobre a ideia que baliza as nossas reflexões sobre a teo-
sua história e temas específicos; (b) relações entre ria – um caminho a ser palmilhado pelas trilhas
indivíduos, instituições e movimentos sociais; (c) da interdisciplinaridade. Não é outra a perspec-
processos históricos, sociais e de implementação de tiva recente do historiador canadense Chad Ga-
políticas públicas e sociais; Nunes66 configura o ffield que defendeu a centralidade das ciências
campo das ciências sociais em saúde na América humanas71. Ao se referir às múltiplas epistemolo-
Latina com base em diversas fontes bibliográfi- gias, acentua as colaborações interdisciplinares de
cas e situa as contribuições trazidas pelos cientis- filósofos com biólogos, engenheiros e artistas para
tas latino-americanos ao campo da sociologia, interpretar as dimensões éticas, legais e estéticas
antropologia, economia e psicologia social, além das tecnologias biomédicas; geógrafos em conjunto
de delinear as aproximações das ciências sociais com demógrafos e economistas repensando políti-
com algumas temáticas: epidemiologia, mortali- cas públicas para a agricultura; empresários iden-
dade infantil, planejamento em saúde, ensino. tificando questões críticas a serem pesquisadas por
A partir dessa década e nas que se seguiram estudiosos do desenvolvimento sustentável.
abriu-se um largo espectro temático67-69 e de in- Acreditamos que a construção teórica é con-
terlocução com quadros teóricos e metodológi- vergente e se realiza a partir de encontros inter-
cos em um arco de possibilidades que incluem as disciplinares, elaborando uma estrutura concei-
teorias clássicas e os teóricos modernos. Nesse sen- tual que pode ser usada para interpretar casos em-
tido, os nossos caminhos do pensamento seguem, píricos específicos1. Sem dúvida, a diversidade te-
com as características peculiares às ciências soci- mática da saúde é um campo fértil para essa cons-
ais brasileiras, o mainstream da sociologia da saú- trução, possibilitando a criatividade científica
de internacional. onde temáticas particulares de cada país (por ex.
cidadania, direito à saúde, práticas alternativas e
complementares, bioética, medicalização, etc.)
articulam-se ao campo maior das construções
teóricas sem barreiras geográficas.

O presente estudo é parte do Projeto história


da sociologia da saúde, bolsa de produtividade
IA, CNPq.

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