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Ficha Técnica

Título: Idade Média – Explorações, Comércio e Utopias


Título original: Il Medioevo – Esplorazioni, Commerci, Utopie
Autor: Umberto Eco
Revisão: Rita Bento
Capa: Rui Garrido
Ilustração da capa: Gianni Dagli Orti – Corbis/VMI
ISBN: 9789722058568
Publicações Dom Quixote uma editora do grupo Leya
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IDADE
MÉDIA
EXPLORAÇÕES, COMÉRCIOS
UTOPIAS

DIREÇÃO
UMBERTO ECO
Tradução
Carlos Aboim de Brito
e Diogo Madre Deus
HISTÓRIA
INTRODUÇÃO
de Laura Barletta

O século XV tem início num cenário ainda marcado pela contração


demográfica e económica que atravessou os países europeus no século
precedente, sobretudo os mais desenvolvidos da Europa Ocidental.
Diminuem os índices de rendimento por unidade semeada dos principais
produtos (trigo, centeio, cevada) e os preços dos cereais, muitos solos
cultivados e aldeias rurais inteiras são abandonados, aumentam as florestas e
os pastos em detrimento das culturas, enquanto a população tende a passar do
campo para a cidade: são as cidades, das capitais aos pequenos
aglomerados, que acolhem os patriciados e as burguesias, que constituem os
centros de organização do território; os intercâmbios sofrem também um
abrandamento que põe em dificuldade os mercadores e provoca a falência de
algumas companhias comerciais. Muito diferente da imagem triunfante com
que se iniciara o século XIV é também a imagem que o papado oferece de si:
dois pontífices, por vezes três, dois colégios cardinalícios, duas cúrias, uma
em Roma e a outra em Avinhão. A centralidade e a universalidade da Igreja,
que tanto participou no impulso expansivo da sociedade europeia, surgem em
crise, a falta de um fundamento teórico indiscutível sobre a ideia do primado
papal abre um período de oposições à efetiva titularidade do governo da
Igreja, entendida como congregatio fidelium, de que o papa é muitas vezes
indicado como o representante mais ilustre, aliás, sem reconhecer a sua
absoluta superioridade. O confronto entre os conciliaristas – os que querem
um controlo do poder papal através de uma maior presença e de maior peso
do corpo eclesiástico reunido em concílio – e a pretensão pontifícia de
exercer uma soberania plena prolonga-se até 1449, quando em Lausana é
aprovado o fim do cisma com o reconhecimento de um único pontífice
romano na pessoa de Nicolau V (1397-1455). Mas nada fica como dantes,
apesar de o movimento conciliarista – pela dificuldade de se reunir e de
encontrar uma linha comum – não conseguir assumir um papel na direção da
Igreja e de Juan de Torquemada (1388-1468), em 1450, com a Summa de
Ecclesia, construir um aparelho teológico como fundamento da autoridade do
papado, que na segunda metade do século reafirmará o seu papel de guia da
cristandade. De facto, a partir do início do século XV, as Igrejas de
Inglaterra, de França e de Espanha assumem posições em certa medida
autónomas em relação à Igreja de Roma, tributárias da relação política cada
vez mais estreita que vão estabelecendo com as monarquias dos países onde
atuam, e os próprios papas praticam uma política de potenciação do colégio
cardinalício, juntando-lhe membros de famílias principescas da Europa e de
Itália, demonstrando uma necessidade inevitável de uma visão política como
suporte da autoridade espiritual.
Sobretudo, não são extirpadas a dissensão religiosa e a hostilidade em
relação às manifestações exteriores do poder e das riquezas eclesiásticas,
que se insinuam na Europa a partir do século XI, sem que os tribunais da
Inquisição, as condenações à fogueira dos heréticos e a repressão das
revoltas consigam contê-las, a partir do momento em que a unidade da Igreja
não é acompanhada por uma reforma profunda. O ensinamento de John
Wycliffe (c. 1320-1384) na Universidade de Oxford, expressão das
inquietações religiosas da sociedade tardo-medieval, chega à Boémia em
1401, quando uma cópia das suas obras principais, realizada por Jerónimo
de Praga (c. 1370-1416), na época estudante em Oxford, é difundida por Jan
Hus (c. 1370-1415), professor na universidade e confessor da rainha. A
transmissão da dissensão religiosa no seio dos canais do saber universitário
permite a sua afirmação a nível aristocrático, até porque as ideias que
circulam em meios heréticos são depuradas por Hus das recaídas mais
propriamente sociais e os fundamentos doutrinais não são lesados, ao
contrário do que fez Wycliffe em Inglaterra. A longa duração do movimento
hussita, que sobreviveu à condenação à fogueira do seu fundador em 1415,
encontra justificação precisamente no envolvimento de uma parte
significativa das elites da Boémia em torno do tema da reforma moral e
disciplinar da Igreja. Mas numa situação muito tensa, em que a pregação de
Jerónimo de Praga contra o papa e as hierarquias eclesiásticas provoca
tumultos populares periódicos, a herança do pensamento hussita divide-se
em dois ramos opostos entre taboritas – que acolhem o seu carácter
igualitário e, guiados por Jan Žižka (c. 1360-1424), dão vida a uma
verdadeira revolta social, em que exprimem as dificuldades e a raiva das
camadas camponesas e assalariadas perante as guerras, a avidez das
camadas hegemónicas e a crise alimentar e produtiva – e utraquistas, aos
quais se juntam os nobres e as camadas abastadas da Boémia, que, mesmo
partilhando as teses de Hus sobre a dispensa da eucaristia em forma de pão e
vinho, sobre a eletividade dos cargos eclesiásticos, sobre a renúncia dos
religiosos aos bens temporais e sobre a submissão do clero ao poder civil,
chegam a um compromisso com a Igreja e com o poder imperial e participam
na aniquilação dos taboritas em Lapany (1434).

Fermentos sociais e culturais


Mas as inquietações religiosas insinuam-se um pouco por toda a parte na
Europa. Os fermentos culturais que estão na base do humanismo induzem a
um exame crítico das sagradas escrituras; a decadência das faculdades de
teologia e as discussões doutrinais entre as ordens religiosas tornam
habituais os debates que acabam por conduzir a uma espécie de incerteza
doutrinal; por um lado, a longa crise e, por outro, o envolvimento do clero
nos assuntos mundanos levam a procurar vias alternativas para falar à
divindade; a crescente canalização de dinheiro por uma Santa Sé empenhada
em afirmar-se como Estado principesco e necessitada de fundos e a
relutância dos soberanos, inclinados para a centralização dos poderes, em
permitir a saída de um fluxo de dinheiro dos seus Estados e em reconhecer
uma autoridade diferente da sua encorajam a resistência ao papa e ao
aparelho eclesiástico; a afirmação de novas camadas sociais favorece a
generalização de reflexões religiosas centradas na recuperação da
simplicidade evangélica e não alheias aos aspetos igualitários. O impulso
para a secularização que caracteriza o Renascimento, longe de constituir uma
descristianização, surge mais como o resultado de um movimento de fundo
da sociedade, orientada para uma nova ordem e para novas necessidades
espirituais, que deixam emergir instâncias já presentes nas consciências e
nas comunidades que não encontraram respostas adequadas. Sobre este
assunto, é emblemático o episódio de Girolamo Savonarola (1452-1498),
com cuja morte na fogueira, no dia 23 de maio de 1498, na Piazza della
Signoria, se encerrará o século.
De resto, na primeira metade do século XV, as condições da economia
continuam a incidir sensivelmente no desenraizamento de uma parte não
pequena da população, camponeses, pastores, carregadores, operários,
pedreiros, artesãos, soldados, obrigados a uma vida de vagabundagem, senão
mesmo de mendicidade ou de criminalidade, pela diferente distribuição de
oportunidades de trabalho, pela irregularidade e pela incerteza. São massas
errantes facilmente sugestionáveis por profetas, eremitas, pregadores,
anunciadores de catástrofes, figuras carismáticas, magos, feiticeiras e
curadores, que, após as revoltas do século precedente, são vistas com
desconfiança pelas comunidades e pelas instituições públicas e são objeto
quer de medidas repressivas quer de novas formas de assistência organizada,
como o acolhimento – mesmo forçado – nos grandes hospitais que vão sendo
edificados nas maiores cidades. Institucionaliza-se a distinção entre bons e
maus pobres, que rompeu a categoria indistinta dos pobres de Cristo, feita de
velhos, estropiados, cegos, doentes, viúvas, crianças, heréticos, prostitutas,
loucos, convertidos, peregrinos, forasteiros, mendicantes e bandidos;
separam-se os necessitados dóceis, úteis à sociedade, a utilizar no trabalho,
dos efetivamente necessitados de assistência e dos indóceis e perigosos,
enquanto se acentua a repressão da esfera do oculto, que recai cada vez mais
na esfera do demoníaco.
O esforço para distinguir as santas das bruxas, o milagre do malefício,
para libertar o mundo da contaminação do mal e conter a perigosa
animalidade feminina, que, como patroa do nascimento e da morte, ultrapassa
continuamente as fronteiras entre o universo quotidiano e o ignoto,
desencadeará novas vagas de caça às bruxas, abrirá caminho a uma
elaboração panfletária que traz à luz do dia vícios e virtudes das mulheres,
debatendo a sua relação com o homem, geralmente em detrimento delas, e
produzirá em 1486 uma obra como o Malleus Maleficarum, dos
dominicanos Sprenger (c. 1436-1494) e Krämer (c. 1430-1505).
É esta tendência para a centralização de poderes, para o desenvolvimento
das cortes, dos aparelhos administrativos, fiscais, militares, diplomáticos,
para a diminuição do espaço político da feudalidade, bem como para o
confronto com a Igreja, juntamente com a formação de um terceiro estado,
que abrange camadas médias mercantis, artesãos, burocratas, profissionais
liberais e, em geral, aqueles que não fazem parte da nobreza ou do clero,
para a marginalização das franjas não produtivas da sociedade e para a
repressão de tudo o que escapa ao controlo do poder central, que dá início
ao grande período do Estado moderno – que continua a ser um facto histórico
relevante, por mais importantes que possam ser as persistências medievais,
por mais longo que seja o tempo durante o qual o processo se desenvolve e
por mais variadas que sejam as formas que ele vai assumindo nos diversos
países europeus – e dá aos grandes Estados a consistência e a compacidade
que lhes permitem aspirar à hegemonia na Europa e a levar a cabo longas
guerras.

As guerras
As guerras, sobretudo a Guerra dos Cem Anos, iniciada em meados do
século precedente, embora intervaladas por tréguas, continuam a representar
para as populações um elemento de incerteza. No conflito anglo-francês
entrelaçam-se ainda direitos feudais e hereditários que não envolvem apenas
as casas reais mas também muitos interesses particulares, de que o exemplo
mais flagrante é o conflito entre as regiões de Armagnac e da Borgonha. E
será o apoio do duque da Borgonha, Filipe, o Bom (1396-1467), que
permitirá a Henrique V (1387-1422), após a vitória de Azincourt (1415), dar
vida em 1420, com o tratado de Troyes, ao cenário da «dupla monarquia»,
com a entrega, à espera da morte do diminuído Carlos VI (1368-1422), da
regência do trono de França ao rei de Inglaterra, do mesmo modo que será a
rutura da aliança dos borgonheses e dos ingleses em Arras, em 1435, a
permitir ao francês Carlos VII (1403-1461) o recomeço das operações
militares, até à retirada definitiva dos ingleses em 1453, com a exceção de
Calais. O diferente resultado do conflito, devido a uma nova consolidação da
monarquia francesa e à afirmação de um espírito que, um tanto forçadamente,
se pode dizer já nacional, interpretado por Joana d’Arc (c. 1412-1431),
revela-se favorável para as duas monarquias, que impõem a sua autoridade
sobre os particularismos feudais.
Embora de amplitude mais reduzida, ocorrem em Itália guerras pela
supremacia territorial, mas sem qualquer desígnio político unificador, nem
no que diz respeito à defesa comum, como parece ocultar a equívoca fórmula
de libertas Italiae: uma terminologia própria das experiências citadinas,
dilatada para incluir nelas a comum aspiração à consolidação e à autonomia
das senhorias regionais, que se vão afirmando em Itália na primeira metade
do século XV e encontram um equilíbrio na paz de Lodi (1454). De resto, não
ocorre nenhuma mudança substancial no ordenamento territorial após o
recomeço da política expansionista dos Visconti, que mal conseguem conter
Veneza, nem com o advento do esplêndido período dos Médicis em Florença.
Seis grandes entidades territoriais repartem a península: o reino de Nápoles,
o Estado da Igreja, a República de Florença, a República de Veneza, o
ducado de Milão e o ducado de Saboia, juntamente com algumas entidades
territoriais menores, a República de Génova – com a Córsega –, a de Siena e
a de Luca, o Principado de Trento, os marquesados de Saluzzo, Monferrato e
Ceva, além das senhorias dos Estensi na Romanha, e parte da Emília, dos
Gonzaga em Mântua, dos Malaspina na Lunigiana e ainda alguns outros.

Os exércitos
As companhias mercenárias estáveis ao serviço dos Estados constituem o
primeiro núcleo dos exércitos modernos, dominam a guerra e os condottieri
assumem uma importância que frequentemente lhes confere um significativo
papel político; é o tempo de inovações nos armamentos e nas táticas, nos
anos 70 do século impõe-se a infantaria suíça contra a cavalaria borgonhesa
nas batalhas de Grandson, Morat e Nancy; as novas formas da guerra, já
experimentadas na Guerra dos Cem Anos, estão presentes diante dos muros
de Constantinopla na primavera de 1453, em cujo cerco assumem um papel
relevante as colubrinas e as bombardas e, sobretudo, «uma enorme bombarda
de metal, de uma peça única, que lançava uma pedra de 11 palmos e três
dedos de circunferência, que pesava 1900 libras, e que, segundo o relato do
mercador florentino Jacopo Tedaldi, que participa na defesa de
Constantinopla, arrasa grande parte das muralhas da porta de São Romão. O
uso da pólvora de tiro inicia transformações que, embora graduais, são
irreversíveis e que comportam efeitos explosivos tanto no plano militar
como no plano político, pelo maior custo da guerra que, cada vez mais, só
pode ser levada a cabo vitoriosamente pelos maiores e mais sólidos Estados,
como ainda no plano económico, pelo impulso à extração de minerais, à
fabricação de armas e à edificação defensiva.

A queda de Constantinopla
A tomada de Constantinopla no dia 29 de maio de 1453 – depois de os
bizantinos terem demonstrado a sua fraqueza pedindo inutilmente ajuda aos
soberanos ocidentais, que se concretizou apenas na intervenção do exército
cruzado húngaro, destruído pelos turcos na batalha de Varna (1444), e
aceitando em 1447, nos concílios de Ferrara e de Florença, a reunificação da
Igreja oriental com a romana – representa um dos acontecimentos
emblemáticos que marcam o fim da Idade Média. Falta o modelo ideológico
em que se inspirara o mundo medieval, o da universalidade e da
inseparabilidade da Igreja e do império, transmitido pelo mundo tardo-
antigo, do qual os próprios juristas bolonheses consideraram ter encontrado
confirmação na leitura da compilação justiniana. E são os turcos – ao
subtraírem nos séculos seguintes os Balcãs, o Egeu, o mar Negro e o
Mediterrâneo Oriental à hegemonia dos europeus, e Constantinopla ao
cristianismo, do mesmo modo que outros muçulmanos tinham subtraído
Jerusalém, Alexandria, Berito [atual Beirute], Antioquia – que fecham a via
do Oriente e que contribuem para a libertação dos impulsos culturais do
humanismo, encorajando a releitura crítica (a partir da filológica) do Mundo
Antigo.
É assim que, sobretudo a partir da segunda metade do século, príncipes e
mecenas, nas cortes italianas e europeias, a começar pelo próprio papa Pio II
(Enea Silvio Piccolomini; 1405-1464, papa desde 1458), se rodeiam de
literatos e de artistas, aos quais são por vezes confiadas também tarefas
políticas. Surgem as academias, como a platónica de Marsilio Ficino (1433-
1499) em Florença, a de Pomponio Leto (1428-1497) em Roma, a Academia
Pontaniana em Nápoles, mas são sobretudo os livros e as bibliotecas que
representam o canal de transmissão dos estudos humanistas, como afirmação
do direito do homem a uma liberdade privada de condicionamentos
religiosos. Nasce a Biblioteca Vaticana com Pio II, mas também as
bibliotecas dos reis, como a biblioteca celebérrima do rei da Hungria Matias
Corvino (c. 1443-1490, rei desde 1458), enquanto em 1455 é introduzida a
imprensa com caracteres móveis com a utilização da prensa sobre as duas
faces por obra de Johannes Gensfleisch, dito Gutenberg (c. 1400-1468), que,
modificando a técnica da xilografia já em uso no século XIII, oferece
possibilidades de produção e reprodução livreira antes inimagináveis.
A herança bizantina é sobretudo na passagem dos textos gregos de
Bizâncio para o Ocidente, a partir dos manuscritos recolhidos pelo
arcebispo de Niceia, depois cardeal da Igreja latina, Basílio Bessarion
(1403-1472), que irão constituir o núcleo mais antigo da Biblioteca
Marciana em Veneza.
A formação dos Estados modernos
Na segunda metade do século XV define-se também o quadro territorial que
estará na base dos Estados modernos. A morte de Carlos, o Temerário
(1433-1477) – que foi um dos chefes da revolta vitoriosa (1465) da grande
nobreza contra Luís XI (1423-1483) –, na batalha de Nancy, permite que o
rei de França anexe a Picardia e a Borgonha, deixando aberta a questão da
herança borgonhesa com os Habsburgo, só parcialmente resolvida com o
tratado de Arras de 1482.
Outras províncias vão juntar-se ao reino, como a Provença, o Maine,
Anjou, enquanto a Bretanha será adquirida em 1491 pelo filho Carlos VIII
(1470-1498) com o casamento com Ana da Bretanha (1477-1514).
Diferente, mas não menos significativo, é o percurso da monarquia inglesa,
que deve esperar o fim da Guerra das Duas Rosas entre a Casa de Lencastre
(rosa vermelha) e de York (rosa branca) para encontrar em 1485, com
Henrique VII Tudor (1457-1509), descendente da Casa de Lencastre pelo pai
e marido de Isabel de York (1466-1503), filha de Eduardo IV (1442-1483),
um ordenamento estável, com uma nova dinastia, caracterizado por um
modelo de parlamentarismo com duas câmaras, a Câmara dos Lordes e a
Câmara dos Comuns.
Na Germânia, o império vive uma longa agonia, privado de legitimação
religiosa e universalista e prisioneiro da laicização aprovada com a Bula de
Ouro de 1356, que subtrai os territórios dos príncipes-eleitores à sua
autoridade, como de resto foram subtraídas de facto as outras entidades
territoriais que dele fazem parte, principados laicos e eclesiásticos,
senhorias, cidades, dispostas a reunir-se em leis de duração efémera para
fazer face às urgências políticas ou militares.
Neste quadro desarticulado (em que a Suíça, no final do século, com a paz
de Basileia de 1499, consegue tornar-se independente) começa a afirmar-se
na condução do império, tanto por meio de algumas intervenções da Casa de
Luxemburgo, a dinastia dos Habsburgo, já soberana de Áustria, Estíria,
Caríntia e Carníola, que, após a breve ocupação de grande parte dos seus
territórios por Matias Corvino, os recupera com Maximiliano I (1459-1519).
A sudeste, a pressão turca encerra a Bulgária e a Sérvia e ameaça a
Boémia e a Hungria, que perde a sua independência depois da derrota de
Mohács em 1526, e será disputada entre os turcos e os Habsburgo. Por sua
vez, a oriente, depois da destruição da República de Novgorod em 1478, a
Rússia de Ivan III, o Grande (1440-1505), que casou com a princesa
bizantina Zoe Paleóloga (1455-1503), consegue libertar-se da soberania da
Horda de Ouro e transformar-se, com a ajuda dos boiardos fiéis, num Estado
unitário, assumindo os emblemas e o cerimonial bizantinos e dando vida ao
mito da Terceira Roma, herdeira da verdadeira fé cristã, ameaçadoramente
no encalço da Livónia e da Polónia, que em 1410 tinha derrotado a Ordem
Teutónica em Tannenberg, bloqueando todas as suas veleidades de expansão.
Na Península Ibérica, a partir da primeira metade do século XV, Portugal,
com explorações marítimas de carácter comercial, abre os novos horizontes
da Europa moderna para lá do estreito de Gibraltar. Depois da tentativa –
que se mostrou quase impraticável – de uma expansão nas costas vizinhas da
África Setentrional com a tomada de Ceuta, este pequeno reino – com apenas
meio milhão de habitantes, formado em 1094 com a separação de Leão, e o
primeiro dos países ibéricos a adquirir uma configuração territorial estável
após a vitória de Navas de Tolosa, fechado entre Castela, a norte e este, e o
mar, a sul e oeste – dedica-se durante todo o século a uma navegação
sistemática ao longo das costas da África Ocidental, utilizando novas
técnicas e novos meios de transporte.
Entre outros, a navegação à vista é trocada pela instrumental, os remos das
galeras são substituídos pelas velas das caravelas, dotadas de três mastros e
capazes de utilizar o vento até 50-60 graus pelas suas formas arredondadas e
com grande capacidade de carga, logo de autonomia. Em 1418 é descoberta
a ilha da Madeira, onde um pouco mais tarde se começa a cultivar a cana-de-
açúcar; em 1427 são alcançadas as ilhas dos Açores; em 1434 é dobrado o
cabo Bojador; em meados do século, os navegadores ao serviço de Henrique
(1394-1460), irmão do rei D. Duarte (1391-1438), descobrem as ilhas de
Cabo Verde; na segunda metade do século os portugueses estão na foz do rio
Congo e, em 1494, dobram o cabo da Boa Esperança.
É de 1441 a primeira carga de escravos negros, que depressa serão
utilizados no cultivo da cana-de-açúcar, dando início a uma longa
experiência de exploração. Não podendo ocupar grandes territórios devido à
sua escassa consistência demográfica, os portugueses limitam-se a construir
bases comerciais e praças-fortes garantidas por acordos com as populações
locais, prosseguindo um tipo de colonização de antigas tradições.
Mas é ao serviço de Castela que partem as três caravelas de Cristóvão
Colombo (1451-1506), destinadas a abrir o caminho para um mundo novo, a
dar um impulso excecional à economia, a deslocar os equilíbrios de força no
Velho Continente; e é Castela, no centro de angustiantes episódios
sucessórios, que acaba por ocupar o lugar central entre as regiões da
Península Ibérica após o casamento da rainha Isabel (1451-1504) com
Fernando de Aragão (1452-1516). Duas regiões profundamente diferentes na
língua, tradições, economia e história encontram um elemento unificador
numa política agressiva no exterior, com a conquista de Granada em 1492, a
que se seguirão as conquistas de Orão, Argel e Tânger no início do século
XVI, e repressiva no interior contra judeus e marranos, mouros e mouriscos,
em nome de uma ortodoxia católica de que a Igreja e a Inquisição espanhola
se tornam intérpretes, mas que é também instrumental para a consolidação
política em curso.
Se Aragão está orientado para o Mediterrâneo Ocidental, cujo controlo
alargou com a conquista do reino de Nápoles em 1442, Castela já se
direcionou para as ilhas Canárias, onde experimentou as formas de
colonização maciça e extensiva que aplicará no Novo Mundo. Colombo,
entre os mitos medievais, como a procura do paraíso terrestre, a firme
vontade de difundir o verbo cristão, a corrida ofegante ao ouro, cuja falta é
agudamente sentida pelos Estados, e a ânsia de encontrar uma via comercial
para o Oriente, representa uma verdadeira charneira entre a Idade Média e a
Idade Moderna e, embora tenha baseado as suas previsões em cálculos
errados, põe de pé uma expedição de incrível audácia e, o que mais
interessa, fundada em bases científicas. As expedições seguintes encarregar-
se-ão de desmontar o aparato fantasioso com que se partiu à descoberta de
terras desconhecidas, e serão mais evidentes a acumulação de capital
histórico, financeiro e de experiências, que o empreendimento permitiu, e os
interesses que dele decorrem. E é para o ouro e para a prata das Américas
que, após a descoberta de Colombo de 1492 e o tratado de Tordesilhas de
1494, em nome da cruz, os galeões espanhóis começam a dirigir-se para
financiar a política e as guerras dos reis católicos, de Carlos V (1500-1558)
e de Filipe II (1527-1598).

A Itália
A Itália torna-se o peão fraco da Europa, com as suas numerosas mas
pequenas entidades territoriais preocupadas em manter a todo o custo a sua
soberania, e constitui uma área de atração irresistível para os maiores
Estados em busca da hegemonia na Europa. E é para a conquistar que se
forma o que foi definido como o sistema dos Estados europeus: o que tinha
sido a direção do ordenamento político em Itália parece deslocar-se para a
Europa, um mecanismo de estreita interdependência entre Estados regido por
alianças e conflitos que devem ter em conta um conjunto de fatores. Pela
primeira vez, a Itália das cidades, das repúblicas, das senhorias, do papado
e do reino de Nápoles, da libertas Italiae e da paz de Lodi confronta-se com
a modernidade de um grande Estado: Carlos VIII invade a Itália sem
encontrar resistência, abrindo assim a era das guerras de Itália.
No final do século, assiste-se finalmente a uma recuperação demográfica e
a um aumento da procura de géneros alimentícios, vestuário, construções
civis e militares, construções navais, armas, artefactos de ferro, papel, vidro,
livros e bens de luxo, e a economia monetária e a finança assumem cada vez
maior importância.
A crise provocou processos de mudança e de seleção que resultaram em
muitos casos num aumento da produtividade, numa melhoria da organização
do trabalho e das técnicas e, em geral, dos sistemas produtivos, comerciais e
financeiros.
A história dos banqueiros entrelaça-se com a dos reinos e senhorias para
seguir a mesma política, como é demonstrado pelo episódio de Jacques
Coeur (c. 1395-1456) na corte de Carlos VIII e pelo papel desempenhado
pela finança no episódio político de Cosme de Médicis (1389-1464) em
Florença. Esta monetarização da política pode muito bem ser considerada
como um traço saliente e pode ser ilustrada pelos acontecimentos que levam
em 1475 ao tratado de Picquigny, depois de Luís XI (1423-1483) ter
aceitado a proposta de Eduardo IV, que desembarcou em Calais para ajudar
Carlos, o Temerário, de lhe entregar no prazo de duas semanas 75 mil
escudos, além de uma pensão vitalícia de 50 mil escudos: o mundo dos
ideais cavalheirescos parece ultrapassado.
Assim, não é de admirar que o dinheiro da família Függer tenha permitido
no início do século XVI a eleição de Carlos V à dignidade imperial.
OS ACONTECIMENTOS

A FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO


de Aurelio Musi

No decurso do século XV nasce em toda a Europa, ainda que através


de diferentes percursos, uma nova forma de organização política que
podemos denominar Estado moderno. São os principados italianos
que criam o modelo: o príncipe e a sua corte dotam-se de
instrumentos e recursos para o governo e o controlo do território; a
titularidade do poder, identificado no príncipe, começa a distinguir-
se do seu exercício (administração civil e militar e corpos
diplomáticos estáveis); a proteção e a expansão do território
dependem diretamente da força e do poder do príncipe. São as
características embrionárias do Estado moderno que serão
difundidas em grande parte da Europa do século XV.

Uma obra de arte e o primado italiano


Jacob Burckhardt (1818-1897), o grande historiador do Renascimento,
define os Estados italianos do século XV como «obras de arte», isto é, novas
criações políticas, laboratórios singulares, em que pela primeira vez se
experimenta a relação entre cidade, arte de viver e arte de governo. De facto,
para três dos cinco Estados mais importantes da península – o ducado de
Milão, a República de Veneza e o principado toscano – a dimensão
«regional» das novas formações políticas foi sendo construída em torno da
supremacia da cidade sobre o seu condado: segundo um percurso que,
partindo da experiência da comuna, teve a sua evolução na senhoria, no
principado e, deste modo, no Estado regional. Outras duas formações
políticas, que tornaram possível o equilíbrio, ainda que precário, da Itália
depois da paz de Lodi, em meados do século XV, o Estado da Igreja e o reino
de Nápoles, estão interessadas numa evolução diferente. O primeiro é
construído em torno de um soberano particular, dotado ao mesmo tempo de
uma força territorial e de um prestígio que deriva de ser o chefe da
cristandade: duas almas, portanto, a temporal e a espiritual, num mesmo
corpo político. O segundo representa, já a partir do final do século XI e do
princípio do século XII, uma grande monarquia «nacional» que unifica o
território, capaz, mesmo depois da separação da Sicília com a guerra das
Vésperas Sicilianas, antes sob o domínio dos suevos, depois da Casa de
Anjou até 1442 e ainda dos aragoneses até à conclusão do século XV, de
exercer, além de uma poderosa força de atração no interior, um peso
político-diplomático de relevo internacional.
Burckhardt escreve: «Do mesmo modo que a maior parte dos Estados
italianos eram internamente obras de arte, isto é, criações conscientes,
emanadas da reflexão e assentes em bases rigorosamente calculadas e
visíveis, as relações que se estabeleciam entre eles e os Estados estrangeiros
deviam ser também artificiais.» Cálculo, visibilidade, artifício: está
exatamente neste trinómio a génese ideal da nova constituição política, que
se foi formando no século XV e que podemos continuar a chamar Estado
moderno, embora recentes tendências historiográficas neguem a legitimidade
do termo como conceito. Através daquele trinómio são legíveis todas as
principais funções que, mesmo não se desenvolvendo no século XV, estão
presentes como que em embrião em alguns Estados regionais italianos. Eles
antecipam processos e tendências que se desenvolverão noutros Estados
europeus, revelando, neste sentido, uma extraordinária e precoce
modernidade. Eles fornecem respostas a necessidades primárias: dar
ordenamentos estáveis a organismos políticos de amplas dimensões para
conservar e consolidar a expansão e o controlo territoriais; dotar o príncipe
de uma corte, simultaneamente de arquitetura, arte de vida e de governo,
modelos de comportamento que irradiam para o interior e o exterior do
território, numa verdadeira competição entre cortes; uma estrutura capaz de
fornecer um suporte estável ao poder do soberano através de administrações
civis que ainda não são burocracias, isto é, corpos profissionalizados de
funcionários, organizações militares que se especializam cada vez mais,
representantes do príncipe nas relações internacionais, instrumentos de
coleta fiscal mais eficientes.
Sem estes embriões de uma reorganização estrutural interna da vida
política e civil, Florença não teria podido realizar as suas conquistas
territoriais em meados do século XV, chegando a controlar uma área de cerca
de 15 mil quilómetros e anexando importantes cidades da região; Veneza não
teria podido criar, no princípio do século XV, um vasto domínio terrestre que
abrange cidades como Treviso, Vicenza, Pádua, Verona, Belluno, Feltre,
Bassano, Aquileia e outros centros da Ístria e da região de Friul. Para não
falar da grande influência mediterrânica dos aragoneses de Nápoles.

A Europa dos primeiros Estados modernos


Com a derrota em Nancy, em 1477, de Carlos, o Temerário (1433-1477), a
conquista da Borgonha por Luís XI (1423-1483) e a anexação da Provença
em 1481, realiza-se a unificação geopolítica da França: um processo que,
realizado em grande parte à custa de uma potência feudal como a
borgonhesa, exemplifica também os termos do conflito internacional em
curso no final do século XV e a superioridade de um sistema de poder, já não
baseado nas antigas relações cavalheirescas, mas nos mais modernos
princípios da soberania monárquica, garante da unidade do território. Assim,
a unificação política do território é tornada possível pela força do rei
pertencente a uma dinastia: o nexo estreitíssimo entre proteção e expansão do
território soberano é a legitimação dinástica na origem do Estado moderno.
Naturalmente, não existem ruturas traumáticas na vida histórica das
sociedades.
No vértice do sistema político está o rei, que possui ainda algumas
características feudais: é chefe de uma hierarquia de vassalos e conserva a
ideia de uma ligação pessoal e contratual com a comunidade dos súbditos.
As províncias anexadas na unidade geopolítica francesa gozam de
prerrogativas, privilégios e regras consuetudinárias reconhecidas. Todas as
províncias têm um sistema de representação autónomo. Mas as prerrogativas
do rei, graças à força que lhe confere a legitimação dinástica, tendem para a
sua afirmação absoluta. A força da dinastia é um poderosíssimo fator de
legitimação do poder. A unidade moral de um Estado como o francês reside
na soberania monárquica e no papel carismático do rei.
Também a monarquia inglesa se consolida e restaura o seu poder uma vez
concluída a Guerra das Duas Rosas (1455-1485) quando, em Inglaterra como
em França, o conflito entre as fações se esgota e as grandes famílias feudais
são redimensionadas no seu poder político. No final do século XV, as teorias
jurídicas procuram salvaguardar os direitos da coroa e do Estado das
pretensões de poderes e instituições particulares. É em Inglaterra que se
desenvolve a teoria dos dois corpos do rei: além do seu corpo natural,
mortal, sujeito à doença e à velhice, o soberano é dotado de um corpo
político incorruptível, não sujeito a envelhecimento, doença ou morte. Neste
segundo corpo, que passa de um rei para outro numa concatenação sem fim,
concentra-se a essência da soberania.
No dia 19 de outubro de 1469, Fernando (1452-1516), herdeiro do trono
de Aragão, e Isabel (1451-1504), herdeira do trono de Castela, unem-se em
casamento. Com a sua união criam as premissas para a formação do Estado
ibérico: o casamento é outro poderoso instrumento de legitimação dinástica.
Em 1479, Fernando herda o trono do pai. Com o seu casamento, duas das
cinco principais regiões da Espanha medieval (Castela, Aragão, Portugal,
Navarra, Granada) são unificadas sob o perfil dinástico. Em 1492 ocorreu a
anexação do reino de Granada, o último domínio árabe na Península Ibérica.
As vias do Estado moderno europeu são ricas, diferentes nas suas
características. A Germânia é um caso bastante interessante. Aqui, o sistema
de poder deve contemplar pelo menos três protagonistas: o imperador, os
príncipes, os estratos territoriais. O imperador do Sacro Império Romano-
Germânico perdeu no século XV os três requisitos medievais do sagrado, da
universalidade e da continuidade. O cargo, mesmo sendo eletivo, é e será
ocupado pela dinastia dos Habsburgo. O poder efetivo que o imperador
consegue exercer é bastante limitado. Mais consistente é o poder dos
príncipes alemães hereditários laicos e eclesiásticos e das cidades livres:
todas estas realidades estão envolvidas no processo de desenvolvimento do
Estado moderno. Mas as próprias autoridades estatais na Germânia devem
confrontar-se com extensas autonomias institucionalizadas, administrativas,
judiciais, fiscais, de que gozam os estratos territoriais: estes, alternadamente,
durante o século XV, apoiam ou combatem o poder do príncipe no plano
central, enfraquecendo no plano local. Este triplo jogo do poder entre
imperador, príncipes e estratos territoriais marcará toda a história da
Germânia até à ascensão da Prússia, protagonista da unificação alemã.
Outro caso é o da Rússia. Ivan III (1440-1505) é o artífice da Rússia
libertada dos mongóis da Horda de Ouro. No caso russo, a tendência para o
controlo e para a centralização estatal passa através da etapa fundamental da
submissão à monarquia dos príncipes autónomos, dominadores de um
território enorme (cerca de 700 mil quilómetros quadrados), através da
unificação religiosa do cristianismo ortodoxo e de uma conceção absoluta do
poder que nega a existência de leis acima do soberano. O ideal político de
Ivan é «uma autocracia ortodoxa sinceramente cristã» de tipo patriarcal,
bendita na sua missão pela divina providência.

As características originárias e originais: uma proposta de


comparação
Assim, as características originárias e originais do Estado moderno
europeu, já visíveis nos principados italianos e nos principais Estados
europeus do século XV, são: a) a titularidade do poder que se vai
concentrando cada vez mais e melhor na pessoa do soberano; b) a força
legitimadora do princípio dinástico; c) o exercício e a gestão do poder que
começam a ser delegados em figuras que respondem diretamente ao rei pela
sua atuação, mas que já não são ramificações da sua família; d) a génese das
diplomacias e dos exércitos profissionais.
Aprofundemos as alíneas c) e d). Na França medieval, os conselheiros
estão ligados ao rei por uma relação de natureza pessoal, são uma extensão
da sua pessoa e representantes dos súbditos do reino. Já a partir do século
XIV se consolida em França um sistema administrativo que tem no vértice o
Conselho do Rei e na periferia os oficiais fiscais e judiciais das províncias.
No século XV, os funcionários especializam-se: cobradores para a
administração das finanças provinciais, lugares-tenentes que julgam as
causas de pertinência dos parlamentos provinciais e locais, capitães-
generais para as competências militares. Forma-se assim um corpo de
funcionários, na maioria dos casos homens de lei, que constituirá a
verdadeira espinha dorsal da administração central francesa moderna.
A articulação das magistraturas é plenamente visível nos Estados italianos
do século XV. Em Milão, a administração estatal baseia-se em três altas
magistraturas: O Conselho de Justiça, que funciona como tribunal de recurso
em relação às magistraturas locais; o Conselho Secreto, que assiste o duque
nos assuntos de natureza política; a Câmara Ducal, órgão máximo em matéria
financeira e tributária. Através destes organismos, tornam-se cada vez mais
frequentes as intervenções do duque no âmbito de competência dos
organismos locais.
Em Veneza, toda a administração local está nas mãos dos patriciados
urbanos, mas graças a uma sapiente engenharia institucional, que se tornará
um modelo de equilíbrio também para outros Estados, a Sereníssima procura
redimensionar o poder das oligarquias locais, ingerindo-se continuamente em
questões de competência dos conselhos municipais e nas oposições que
surgem entre as cidades e os seus condados.
Uma complexa articulação administrativa caracteriza também o reino de
Nápoles aragonês na segunda metade do século XV: também no sul de Itália
abre caminho o princípio de uma divisão entre a titularidade do poder,
identificada no soberano, e o seu exercício confiado a juristas ilustres e
magistrados que fazem parte do Sacro Regio Consiglio, máxima instância
judicial do reino, e da Regia Camera della Sommaria, máximo organismo
financeiro e fiscal. A intensidade e a frequência das relações entre os
Estados italianos do século XV provoca o prolongamento das missões
tradicionais até à sua transformação em representações diplomáticas
estáveis. Negociações particulares continuam a ser confiadas a enviados
extraordinários dos soberanos, mais bem informados da vontade do seu
governo, mas a recolha quotidiana de todo o tipo de informações torna-se o
objetivo fundamental do embaixador estável: só ele está em condições de
estabelecer contactos pessoais na corte em que se encontra, aprendendo a
conhecer a fundo as suas características.
A criação de exércitos estáveis e a necessidade de fortificações em todo o
território exigem o emprego de grandes recursos, de que só os soberanos
podem dispor: a aristocracia deve renunciar a pôr-se em concorrência com a
monarquia, aceitando fazer o serviço das armas no exército régio ao lado da
infantaria de origem camponesa.
Deste modo são lançadas as bases para a transformação da tradicional
aristocracia feudal de poder semissoberano em poder integrado no processo
do Estado moderno.

V. também: O equilíbrio entre os Estados italianos, p. 48.


OS ARAGONESES NO MEDITERRÂNEO
de Aurelio Musi

A política expansionista da coroa aragonesa no Mediterrâneo,


iniciada no século XIII, é concluída em meados do século XV; nesta
data, depois de terem conquistado as Baleares, a Sicília, a Sardenha
e a Córsega, os aragoneses conquistam o reino de Nápoles (1442).
Com Afonso V, o Magnânimo, constroem um verdadeiro império
marítimo com uma civilização e uma ideologia próprias, baseado
numa espécie de «mercado comum» como fator de desenvolvimento
para os países do Mediterrâneo meridional, a integração de
mercadores catalães e de grande capital estrangeiro, sobretudo
toscano, a mercantilização da agricultura feudal. A união entre a
coroa de Aragão e a coroa de Castela através do casamento entre
Fernando e Isabel (1469) não conclui mas relança em novas bases a
hegemonia espanhola no Mediterrâneo por mais algumas décadas.

A coroa de Aragão
A política expansionista dos aragoneses no Mediterrâneo tem uma duração
plurissecular e desenvolve-se entre os séculos XIII e XV. Depois da conquista
das Baleares, da Sicília e da Sardenha, em 1442, Afonso V (1396-1458, rei
de Aragão e da Sicília desde 1416) subtrai o reino de Nápoles aos
angevinos. Completa-se assim uma hegemonia no Mediterrâneo destinada
não só a condicionar a história europeia em meados do século XV mas
também a inspirar as linhas da política internacional da Espanha no final do
século XV e no século seguinte. A hegemonia não assenta exclusivamente,
como se verá adiante, em bases económicas, mas também na possibilidade
de estruturar de modo original a instituição monárquica e a relação entre o
soberano e os súbditos.
De facto, o pacticismo, baseado na regulação da relação entre a autoridade
do monarca e o reconhecimento de prerrogativas e «liberdades» dos
súbditos, organizados em instituições representativas dotadas de mais poder
e autoridade do que as de outros países europeus da época, recebe uma
especial elaboração doutrinal e política na Catalunha.
O sucessor de Afonso, João II (1397-1479), irmão e herdeiro de Afonso,
exceto para o reino de Nápoles, atribuído ao filho natural Fernando I, é
envolvido numa guerra civil que rebenta nos campos e nas cidades da
Catalunha. Obrigado a pedir a ajuda do rei de França, Luís XI (1423-1483),
tem de lhe ceder algumas terras nos confins dos Pirenéus. Mas, em 1469, o
casamento entre Fernando, o Católico (1452-1516), herdeiro do trono de
João, e Isabel de Castela (1451-1504) cria não só as condições, com a união
das duas coroas, para salvaguardar a unidade catalão-aragonesa e reforçar o
Estado monárquico espanhol, consolidado após a conquista de Granada
(1492) e a expulsão dos mouros do solo ibérico, mas também para relançar à
escala europeia a centralidade mediterrânica.

A centralidade mediterrânica: os espaços económicos


Fernand Braudel (1902-1985) denominou o século XV como o da economia
do mundo mediterrâneo. Trata-se de um circuito de produção, distribuição e
trocas em larga escala que ainda tem nas cidades e nas suas estruturas
económicas os protagonistas principais. Os catalães controlam, nos séculos
XIV e XV, as grandes linhas do tráfego das especiarias, têm relações
marítimas com o Levante, com o mar do Norte, com a Flandres e com a
Inglaterra. As relações comerciais com a Itália são muito intensas. Na
Sicília, os catalães gozam de extraordinários privilégios; o trigo siciliano
serve para o aprovisionamento de Barcelona, mas alimenta também as
especulações da coroa, os lucros dos mercadores e da nobreza feudal.
O advento de Afonso V abre um rumo diferente ao desenvolvimento
económico da Catalunha, baseado na proteção das atividades industriais e na
potenciação da marinha com a promoção de construções navais. Não deixa
de haver alguns elementos de fragilidade: a dimensão limitada das
tonelagens, a estrutura pouco flexível dos alugueres, as lacunas da
organização marítima.
A conquista de Nápoles, cujo projeto e longa maturação coincidem com a
fase da expansão económica catalã, realiza-se no culminar de uma fase de
relações muito intensas entre catalães e napolitanos. Mas o empreendimento
afonsino representa um importantíssimo valor acrescentado: a penetração
profunda numa região estratégica do mercado; o enfraquecimento da
concorrência de Génova, temível opositor de Aragão; a possibilidade de
influenciar o complexo equilíbrio político italiano.
A conquista do reino de Nápoles (1442) consolida enormemente a posição
dos catalães no Mediterrâneo e potencia as suas perspetivas de expansão
ulterior dentro da linha tradicional tendente a utilizar a expansão militar para
conseguir interesses mercantis imediatos. A novidade está na elaboração de
um verdadeiro programa económico válido para todos os domínios
aragoneses, baseado na «integração da produção e dos mercados dos reinos
aragoneses para lá e para cá do Tirreno» (Mario Del Treppo, I Mercanti
Catalani e l’Espansione della Corona d’Aragona nel Secolo XV, 1972). Um
articulado protecionismo que implica: a proibição de importar para os
países da coroa de Aragão os tecidos de lã de fabricação estrangeira; a
obrigação para todos os súbditos da coroa de se servirem exclusivamente
dos transportes nacionais; investimentos maciços em navios de grande
tonelagem; a obrigação de importação do trigo unicamente da Sicília, da
Sardenha e de Nápoles. Um projeto embrionário de integração económica é
elaborado por Afonso. Nele, a Catalunha e Barcelona são os polos da
indústria têxtil, aos quais é reservado o monopólio dos mercados aragoneses
para cá do Tirreno, subtraídos à penetração dos tecidos estrangeiros; nas
mesmas áreas são colocados os polos do equipamento naval; as possessões
italianas devem desempenhar a função de constituir o hinterland agrícola
para as cidades industriais e comerciais de Espanha e, naturalmente, deve
ser desencorajada a indústria têxtil local. Talvez a expressão mercado
comum seja um pouco forte: é necessário, aliás, ter presente que se trata
mais de um projeto do que de uma realização efetiva. Alguns historiadores
negaram que um soberano da Baixa Idade Média fosse capaz de conceber e
pôr em prática um desígnio tão ambicioso de especialização e integração
suprarregional. Outros olharam com desconfiança para uma terminologia
tendente a identificar mercado comum e confederação: os reinos dominados
pelos aragoneses conservam uma individualidade, sobretudo institucional,
posta em evidência pela instituição do vice-rei que, precisamente sob os
aragoneses, se afirma e define como autoridade de governo do território e de
ligação com a vontade e o poder do soberano comum. No entanto, a maioria
dos historiadores considera adquirido que o período aragonês marca,
sobretudo para os territórios italianos, uma inserção positiva no mercado
internacional e o início de uma tendência favorável ao desenvolvimento
económico, que só terá uma inversão na longa crise do século XVII.
A penetração maciça dos mercadores estrangeiros, primeiro, toscana e,
depois, catalã, na economia e na sociedade do sul de Itália contribui para
que esta região dê um contributo significativo ao crescimento da economia e
da sociedade da Toscana e da Catalunha: não se resolve com uma drenagem
pura e simples de recursos a favor daquelas regiões, mas representa um
estímulo para a economia local, cria as condições para o aparecimento de
pequenas e médias empresas comerciais, intermediárias entre os grandes
operadores estrangeiros e os produtores locais, estimuladoras do aumento da
produção agrária, do rendimento das culturas, que vão alimentar as mais
significativas correntes de tráfego.
Na economia do mundo mediterrâneo, o peso das cidades, sobretudo das
italianas, é forte. O seu primado nem sequer é diminuído pelo período
expansionista catalão-aragonês que, na concentração de capitais no
comércio, na organização das empresas, na realização dos lucros, atinge
geralmente níveis inferiores aos italianos. Os prémios de seguro mais altos
em Barcelona do que em Génova denunciam um maior custo do dinheiro,
uma menor disponibilidade de capitais. «A este nível tecnológico mais
baixo, e ao constante atraso nos métodos comerciais, em comparação com os
italianos, corresponde, na massa dos operadores (mas não em certos homens
de ponta como os que operam em Nápoles em torno da corte), também uma
mentalidade mais tacanha, pouco disposta a conceber, a não ser como
instrumentos diabólicos e do pecado, certas técnicas do mundo dos negócios,
incapaz de racionalizar integralmente a atuação económica, de lhe dar bases
filosóficas e científicas.» (Mario Del Treppo).
A superioridade da banca toscana é indiscutível. Mas, através dela,
consolida-se também o sistema bancário mercantil aragonês. Foi estudado o
seu modelo napolitano. No vértice do sistema bancário-mercantil está a
família Strozzi, que desempenha um papel organizativo e de racionalização
do conjunto das atividades, de propulsão das iniciativas locais, de
enquadramento e de ligação dos espaços económicos do reino. A um nível
um pouco inferior, operam alguns grupos bancário-mercantis toscanos, todos
residentes em Nápoles. Neste nível colocam-se também alguns operadores
catalães. Mas o grosso dos catalães constitui a base, sólida e extensa, desta
pirâmide em que se estrutura verticalmente a atividade do crédito. Dos
catalães dependem, nas cidades e nas regiões circundantes, os pequenos
comerciantes locais, muito numerosos, os artesãos, os lojistas e, últimos
nesta hierarquia, os judeus, que operam quase exclusivamente nas áreas
rurais.
Este modelo, assente num conjunto de subsistemas sapientemente
integrados entre si, fator que garante a compacidade do modelo, tem no seu
vértice uma elite internacional como os banqueiros florentinos da família
Strozzi.

A centralidade mediterrânica: os espaços políticos


Não é o espaço que dita normas à política; no entanto, a política deve
medir-se com o espaço e com o seu controlo. Assim, espaço e política
tornam-se uma hendíadis histórica importantíssima. Há um nexo muito
estreito entre o espaço mediterrânico e a estratégia política aragonesa
baseada na centralidade daquele espaço. Ao realizar a sua iniciativa no reino
de Nápoles, Afonso serve-se dos impulsos que os mercadores catalães, no
máximo das suas fortunas mediterrânicas, exercem: e estes impulsos devem
levar a falar de uma realidade conjunta catalão-aragonesa e não apenas de
uma indiferenciada e única realidade aragonesa. Mas é igualmente evidente
que a inspiração da conquista napolitana de Afonso é política, está ligada à
vontade de poder do soberano: uma vontade de poder que se inscreve na
evolução dos modelos de poder em meados do século XV.
«Saie quanno fuste Napule Corona? Quanno regnava casa d’Aragona.»
Este é um famoso verso do poeta dialetal napolitano Velardiniello, que, no
século XVI, em plena dominação espanhola, regressa nas asas da nostalgia
aos esplendores aragoneses. Convém refletir sobre o termo «corona» usado
pelo poeta.
Nele é exaltada em primeiro lugar a força de uma dinastia e da instituição
monárquica a ela ligada, que, em plena autonomia, sabem exercer um papel
de primeiro plano na economia e na política mediterrânica. E o «próprio
rei», Afonso I rei de Nápoles – que é escolhida como capital –, exalta em
simultâneo a autonomia do reino e o prestígio dinástico. Não é por acaso que
na realização do trinómio monarquia-autonomia-príncipe Nicolau Maquiavel
(1469-1527) pôde identificar o reino de Nápoles como «reino por
antonomásia».
Mas «corona» quer dizer também outra coisa. Se o rei escolhe estabelecer-
se em Nápoles é porque é precisamente daqui que pode partir a coordenação
daquele vasto império catalão-aragonês, que se formou nos séculos XIV e XV,
que ocupa um lugar de primeiro plano na bacia ocidental do Mediterrâneo.
É daqui que é possível desempenhar um papel de ponta na península
italiana, na relação com os Estados a norte da península, Milão, Génova,
Veneza, Florença, destinados a reger o equilíbrio político italiano após a paz
de Lodi. Assim, é precisamente a integração de Afonso no espaço político
italiano que lhe permite também o reforço do império mediterrânico.

V. também: Pontano e o humanismo na Nápoles aragonesa, p. 459.


A QUEDA DE CONSTANTINOPLA
de Silvia Ronchey

Quando Maomé II, munido de um exército interminável e da mais


avançada tecnologia da época, aperta o cerco a Constantinopla, só
poucos milhares de defensores (unidos em torno do imperador
Constantino XI e do enigmático chefe militar genovês Giovanni
Giustiniani Longo), mal armados e entrincheirados atrás de
muralhas gloriosas mas vetustas, o separam da vitória. No entanto, a
resistência dura mais de um mês e o êxito do cerco, embora aos olhos
dos modernos possa parecer evidente, permanece incerto até ao
último instante.

As premissas e os alinhamentos
Quando se torna evidente que o jovem e belicoso sultão Maomé II (1432-
1481), que subiu ao trono há dois anos, se prepara para desferir o ataque
(depois da fulminante edificação de uma grande fortaleza no litoral europeu,
Rumelihisari, conseguiu nomeadamente fechar definitivamente o Bósforo),
Constantino XI (1405-1453) joga acima de tudo, pela enésima e última vez, a
única carta que pode despertar o interesse e, logo, a ajuda militar do
Ocidente para a sobrevivência do Estado bizantino: em 1452 manda anunciar
em Constantinopla a união das Igrejas e o cardeal Isidoro de Kiev (c. 1380-
1463), juntamente com 200 besteiros e arcabuzeiros, celebra a missa
segundo o rito romano em Santa Sofia.
Em abril de 1453, Maomé II avança com cerca de 160 mil homens, que
encontram à sua espera dentro dos muros da cidade – que João VIII (1394-
1448) e Constantino XI procuraram tanto quanto possível restaurar – não
mais do que sete mil defensores, incluindo venezianos, catalães e genoveses,
entre os quais se destaca o forte contingente de Giovanni Giustiniani Longo
(?-1453), complexa personagem sobre a qual a moderna historiografia ainda
terá de emitir uma opinião, de qualquer modo certa e verdadeiramente
motivado pela defesa a todo o custo da cidade, e um destacamento de turcos
aliados dos bizantinos, sob o comando do exilado príncipe Orchan. Para os
historiadores também não é fácil decifrar o ambíguo comportamento das
autoridades genovesas de Gálata, a bem equipada instalação genovesa para
lá do Corno de Ouro, que, durante todo o assalto, mantêm uma neutralidade
formal mas que de facto fazem um temerário jogo duplo, em que os
entendimentos com os turcos e com os bizantinos se combinam
inextricavelmente.
Para lá da superioridade numérica, e deixando de parte a virtuosa
realpolitik dos genoveses, a verdadeira força de Maomé II reside na
esmagadora superioridade tecnológica. Desfrutando dos serviços de
engenheiros ocidentais, entre os quais o húngaro (ou escandinavo) Urban (?
-1453), dotou-se sobretudo de um número notável de bocas-de-fogo, entre as
quais três canhões de dimensões gigantescas (o maior tem um diâmetro
superior a 80 cm).
Por sua vez, os defensores só dispõem de armas de fogo ligeiras, dado que
a artilharia pesada não pode ser colocada nas antigas muralhas teodosianas,
que seriam danificadas pelas vibrações.

O cerco
De 12 a 18 de abril, os turcos bombardeiam sem tréguas o sector central
das muralhas de terra e, na noite de dia 18, desferem o primeiro verdadeiro
ataque. O moral de todos os defensores é alto (é dada por certa a intervenção
de uma frota de socorro veneziana) e as suas esperanças são confortadas com
a chegada, no dia 20 de abril, de quatro navios carregados de soldados e de
mantimentos, que após uma batalha de três horas conseguem não ser
capturados pela frota turca e refugiar-se no Corno de Ouro, bloqueado por
uma imensa cadeia de defesa que até então manteve os turcos fora. Mas não
durará muito: no dia 22 de abril cerca de 70 embarcações otomanas,
rebocadas ao longo de três milhas sobre troncos encerados, chegarão ao
Corno de Ouro pelas colinas de Gálata. As muralhas marítimas e as
fortificações de Blaquerna deixam de ser seguras, obrigando os defensores a
dividir as suas forças. Para libertar o Corno de Ouro, um capitão veneziano,
Jacopo Coco, concebe o plano audaz de lançar durante a noite algumas
embarcações incendiárias (brulotes) para o meio da frota turca. Mas por
causa das fricções entre venezianos e genoveses desde o momento da
conceção do plano até à sua execução passa demasiado tempo: na noite de
28 de abril, os turcos, provavelmente avisados por espiões de Gálata, estão
preparados e a tentativa acaba tragicamente.
Nos primeiros dias de maio, os víveres começam a escassear na cidade.
Segundo algumas fontes, Maomé II avança uma proposta pro forma aos
sitiados (retirar-se-ia em troca de 100 mil hipérpiros de ouro), que
previsivelmente é recusada. Começando a comprometer-se a esperança dos
defensores na chegada da frota veneziana – que suscita uma forte inquietação
no estado-maior turco, especialmente na sua componente mais moderada,
encabeçada por Halil Pasha (?-1453) –, é enviado secretamente um grupo
veneziano «camuflado à turca» para lá de Dardanelos para obter notícias
seguras. Não será encontrado qualquer vestígio da frota capitaneada por
Jacopo Loredan, que naquele momento ainda não tinha partido e que depois
ficará parada em Negroponte, oficialmente bloqueada por uma bonança, mas,
na realidade, por ordem do Senado veneziano.
Entretanto, às quatro da manhã de 7 de maio, tem início o segundo grande
ataque às muralhas que, não obstante a disparidade de forças, é
brilhantemente repelido. Nos dias seguintes prossegue um intenso
bombardeamento (a menção do ruído contínuo e alucinante surge
frequentemente nos relatos das testemunhas do cerco), mas também o ataque
lançado à meia-noite de 12 de maio acaba por falhar. Vistos os escassos
resultados obtidos pelos bombardeamentos e pelos assaltos em massa,
Maomé decide recorrer à nova tática concebida pelos seus conselheiros. A
partir de 15 de maio, os mineiros sérvios que se juntaram ao exército do
sultão são utilizados para escavar «minas» (teriam sido sete ao todo),
galerias situadas sob as muralhas. Os defensores, sob a direção do
especialista alemão (ou anglo-saxão) João Grant, levado por Giustiniani
Longo (talvez informado desde o início pela intelligence genovesa sobre os
planos do sultão), respondem com sucesso escavando contraminas e
destruindo sistematicamente as inimigas.
Ainda nesta fase, os turcos recorrem a outras inovações táticas. Por
exemplo, é utilizada uma altíssima torre semovente, que uma incursão
noturna bizantina faz explodir, e as duas margens do Corno de Ouro são
ligadas por uma ponte flutuante para facilitar as deslocações das tropas e
fornecer novas posições da artilharia. Os sitiados, esgotados, mas até então
muito motivados, também têm de enfrentar uma série de omina negativos. No
dia 22 de maio, um eclipse parcial da Lua é visto pelos atacantes como um
presságio favorável. Além disso, uma antiga profecia dizia que a cidade
cairia na fase de lua minguante – e a Lua estaria nessa fase a partir de dia 24.
No dia 25 decide-se, como já muitas vezes no passado em ocasiões
análogas, celebrar um grande rito pela Mãe de Deus, e é organizada uma
procissão solene do veneradíssimo ícone da Hodigitria, conservada em São
Salvador, em Cora, não longe das muralhas. Mas, a meio da procissão, o
ícone cai das mãos dos seus portadores, desliza na lama que invade os
caminhos naquele maio insolitamente chuvoso e só se consegue erguê-lo com
um esforço extremo. O rebentar de um temporal muito violento provoca a
completa dispersão dos participantes no evento. No dia seguinte, a cidade
desperta envolvida numa névoa muito densa e, de noite, algumas luzes
estranhas flutuam na cúpula de Santa Sofia. Não se trata de uma simples
sugestão: na primavera de 1453, como foi recentemente demonstrado, a
atmosfera terrestre está saturada de poeiras vulcânicas provenientes da
explosão da ilha de Kuwae, no Pacífico, causando não só uma brusca queda
da temperatura a nível mundial mas também efeitos de luzes, semelhantes em
alguns aspetos aos fogos de Santelmo, vistos sobre Santa Sofia. Nessa
mesma noite, verificam-se algumas deserções entre os sitiados,
especialmente entre os venezianos.

O ataque final
A 28 de maio, na véspera do ataque final, Maomé II e Constantino XI
discursam perante os seus homens. O basileus, fisicamente extenuado mas
decidido a capitanear a defesa das muralhas, não obstante a concreta e já
preliminarmente contemplada possibilidade de organizar a resistência contra
os turcos a partir da segunda capital imperial, Mistras, no Peloponeso, e as
pressões dos seus conselheiros para deixar a cidade, participa também na
missa que católicos e ortodoxos celebram juntos em Santa Sofia. O assalto
final inicia-se às três da manhã de 29 de maio. Duas vagas de assaltantes, a
primeira, de tropas não regulares (bashi-bazuk), mas munidos de um número
impressionante de escadas de assalto, a segunda, das muito disciplinadas
tropas regulares da Anatólia, são repelidas, e também a terceira e última, de
janízaros, as tropas de elite do sultão, encontra grandes dificuldades. O que
mudou in extremis a sorte da batalha foi a inexplicável deserção de Giovanni
Giustiniani Longo, que, muito provavelmente ferido, embora não seja claro
com que gravidade, deixa o seu posto para se deslocar para os barcos e ser
medicado. Coisa ainda mais inaudita, o seu estado-maior segue-o. A
abertura, para permitir a sua passagem, de uma das portas que os defensores
fecharam à chave depois da sua saída faz correr o rumor de que as muralhas
de terra foram violadas (coisa que na realidade nunca aconteceu). Também
noutros sectores cruciais a confusão e o pânico permitem que alguns grupos
de janízaros forcem a barreira defensiva.
Constantino XI, depois de ter tirado, segundo algumas fontes, as insígnias
do seu estatuto para não ser reconhecido, cai heroicamente no meio da
multidão, provavelmente perto da porta de São Romão. Quanto aos outros
defensores, alguns conseguem fugir nas poucas embarcações genovesas e
venezianas, outros são feitos prisioneiros, e poucos (entre os quais, segundo
se diz, o príncipe Orchan) preferem suicidar-se. Ao meio-dia, no meio do
saque e da desolação, Maomé II ultrapassa as portas da cidade, entra em
Santa Sofia e convida os crentes à oração da tarde.

As reações e as consequências
A notícia da queda de Constantinopla, que se difundiu rapidamente no
Ocidente, suscita um verdadeiro trauma nas elites intelectual e política e
começa a falar-se de uma nova cruzada. Em 1456, um exército encabeçado
por João Corvino (1387-1456) e pelo inspirado João de Capistrano (1385-
1456) consegue, contra todas as expectativas, libertar Belgrado do cerco
turco. Mas os dois morrem pouco depois e a situação volta a tornar-se
sombria, sobretudo para a região da Moreia bizantina, repartida entre os dois
príncipes mais novos que sobreviveram, mas rivais, Demétrio (1407-1471) e
Tomás Paleólogo (1409-1465). O primeiro, fundamentalmente turcófilo,
acabará por ceder o seu domínio a Maomé II, obtendo em troca rendas e uma
residência em Adrianópolis. O segundo conta até ao último instante com a
ajuda ocidental, apoiado também pela vontade ativa do papa Pio II (Enea
Silvio Piccolomini, 1405-1464, papa desde 1458), impelido pelo «cardeal
oriental» Basílio Bessarion (1403-1472) a reunir uma nova e grande
expedição militar no Peloponeso. Tomás obtém alguns sucessos limitados
contra as guarnições turcas, mas quando, em 1460, o sultão entra
pessoalmente em ação, o último déspota de Moreia, a conselho de Bessarion,
embarca no porto veneziano de Navarino e dali passa a Corfu e depois a
Ragusa, em direção a Itália. Pio II concede-lhe uma pensão e alojamento no
Hospital do Espírito Santo, onde morre em 1465.

V. também: O conhecimento e o estudo do grego, p. 440.


O FIM DA GUERRA DOS CEM ANOS
de Renata Pilati

A luta entre as regiões de Armagnac e da Borgonha favorece a


conquista inglesa da França. Abre-se um período de grave crise
durante o qual o país é enfraquecido pelas lutas internas e por uma
luta amarga pela sucessão monárquica.
O reaparecimento de Joana d’Arc à frente das camadas populares
encoraja
Carlos VII à guerra vitoriosa de independência em relação aos
ingleses.

A França dividida entre Armagnac e Borgonha


A manifesta loucura que atingiu o rei designado, Carlos VI (1368-1422),
abre uma luta pelo poder entre Bernardo VII, conde de Armagnac (c. 1360-
1418), e Filipe, o Audaz (1342-1404). Bernardo e a população sequaz de
Armagnac enfileiram-se a favor de Luís (1372-1404), duque de Orleães e
irmão do rei, enquanto Filipe, o Audaz, à frente dos borgonheses, tio do rei
de França, se alia com os ingleses contra o sobrinho. É João Sem Medo
(1371-1419), herdeiro de Filipe, o Audaz, quem dá uma volta à contenda,
privado que é de sentimentos franceses: ele visa ampliar o seu ducado e
apoiar os tecelões de lã flamengos; por isso, mantém boas relações com a
Inglaterra. Devastações e saques tornam miserável a vida dos camponeses,
como denunciam os teólogos Nicolas de Clémanges (1363-1437) e Jean
Gerson (1363-1429), o integérrimo reitor da Universidade de Paris.
Em 1407, João Sem Medo manda assassinar Luís, duque de Orleães, que
lhe é hostil. O novo defensor de Armagnac passa a ser o duque Carlos de
Orleães (1394-1465), que se casa em 1410 com a filha de Bernardo de
Armagnac.

Paris borgonhesa
João Sem Medo apoia as burguesias de Paris, desiludidas com a supressão
das franquias e do programa de reformas decididas por Carlos VI em 1382,
contra a corte e os nobres. Em Paris, os artesãos gritam «viva a Borgonha»
enquanto o duque consente que os sequazes do carniceiro Simon Caboche
matem a gente de Armagnac. Em 1411, todos os domingos durante o governo
de terror dos borgonheses em Paris, a gente de Armagnac é excomungada ao
som dos sinos e as imagens dos santos são decoradas com a cruz de Santo
André.
Homens, mulheres e crianças vestem capas roxas decoradas com a cruz de
Santo André, depois substituídas por capas brancas, que, em 1413, voltam a
ser roxas. Em 1413, João convoca os Estados Gerais, que não se reúnem há
30 anos, e defende o programa de reformas dos cabochiens, hostis à
administração e às malversações dos funcionários.
Em 1414, após um longo cerco, as tropas do rei Carlos VI apoderam-se de
Arras, na zona de Calais, defesa dos borgonheses. Bernardo VII de
Armagnac, nomeado condestável, retoma o poder e tiraniza Paris e as
províncias.

O vitorioso avanço inglês


Henrique V (1387-1422), rei de Inglaterra, desembarca em Harfleur com
15 mil homens e, no dia 25 de outubro de 1415, em Azincourt, defronta-se
com o exército francês, formado por 50 mil homens e conduzido pelo
condestável de Albret. A cavalaria pesada francesa carrega três vezes, mas é
aniquilada por nuvens incessantes de flechas dos archeiros; os cavaleiros
franceses encontram-se ora com os cavalos mortos ora projetados do cavalo,
sendo mortos pelos cavaleiros adversários, primeiro, a pé e, depois, de novo
a cavalo, apoiados pela infantaria. Os franceses são derrotados.
João Sem Medo mantém-se neutral, deixando o caminho livre a Henrique
V, que conquista a região de Cotentin (1417), ocupa a Normandia e Paris. Os
borgonheses voltam a entrar em Paris e matam Bernardo VII de Armagnac.

O delito de Montereau
O delfim Carlos VII (1403-1461) empenha-se em organizar a resistência a
sul do Loire. Tenta estabelecer uma ligação com João Sem Medo, que, em
Montereau, local do encontro, é morto no dia 20 de setembro de 1419.
Filipe, o Bom (1396-1467), filho e herdeiro de João, apodera-se do governo
e desacredita o delfim como filho ilegítimo e responsável do delito de
Montereau. Henrique V conquista Ruão (1419), Pontoise e Gisors.

A França é dividida entre Henrique VI e Carlos VII


Crise da monarquia, guerra civil, derrota do exército e declínio da
cavalaria testemunham um período sombrio para a França. Carlos VI, que
concede a filha Catarina (1401-1437), como mulher, ao rei de Inglaterra
(tratado de Troyes de 21 de maio de 1420), lesando os direitos hereditários
do delfim Carlos, proclama Henrique V como seu sucessor. Em 1422,
morrem Henrique V e Carlos VI. Ingleses e borgonheses, dirigidos por
Filipe, o Bom (1396-1467), fazem coroar Henrique VI (1421-1471), um
infante de poucos meses, rei de Inglaterra e rei de França.
O delfim Carlos VII proclama-se rei a 30 de outubro de 1422, mas, embora
reconhecido por muitos franceses, não é aceite em Paris: o Parlamento e a
Sorbonne recusam-no como ilegítimo. Carlos VII estabelece-se com Maria
de Anjou (1404-1463), casada em 1421, em Burges, permanecendo alguns
anos inativo, enquanto os ingleses conduzem ações vitoriosas até apertarem o
cerco a Orleães. Com um golpe de mão, João IV de Armagnac (1396-1450)
alia-se aos ingleses.
O poeta Alain Chartier (c. 1385-c. 1435), ao serviço de Carlos VI e de
Carlos VII, anima os franceses a amarem e a apoiarem a Mãe França.

A epopeia de Joana d’Arc


A possibilidade de resgate e de mobilização popular é oferecida em 1429
pela iniciativa de uma camponesa da Lorena, a jovem de 17 anos João
d’Arc, de Domrémy (c. 1412-1431) nos Vosges, analfabeta. Afirma sentir-se
encarregada por Deus da tarefa de libertar a França. Consegue superar a
desconfiança daqueles que rodeiam Carlos VII em Chinon e ter um diálogo
com ele e convencê-lo de que era capaz de libertar Orleães, há meses
ocupada pelos inimigos. Obtém a direção do exército (em março de 1429),
reconquistando, em maio, Orleães e, em julho, Reims, onde a 17 de julho de
1429 Carlos VII é consagrado e coroado rei de França, enquanto Joana
mantém o estandarte desfraldado durante as ações militares.
O rei decide negociar com os ingleses, mas Joana quer libertar Paris à
frente de um grupo de homens armados. É ferida junto das muralhas de Paris.
Volta a tentar a iniciativa, mas a 24 de maio de 1430 é feita prisioneira pelo
nobre borgonhês João de Luxemburgo (1392-1441), que a vende aos
ingleses, por heresia e feitiçaria, «a donzela de Orleães» defende-se sozinha
de modo surpreendente durante um ano. Atribuem-lhe uma declaração
retorcida e equívoca, que é tomada como confissão de culpa.
A jovem dá o dito por não dito, mas é condenada como herética e relapsa.
A sentença que prevê a condenação à fogueira, pena infligida aos heréticos e
às feiticeiras, é executada na praça de Ruão no dia 30 de maio de 1431.
Joana será reabilitada em 1456 e beatificada em 1920. Os capitães do rei,
que acreditaram em Joana, continuam a combater contra os ingleses.

Henrique VI em Paris
Henrique VI, coroado em Westminster rei de Inglaterra em 1429, entra em
Paris em 1431, precedido por 18 heróis e heroínas que representam as
virtudes heroicas. No dia 6 de dezembro, com dez anos, é coroado rei de
França pelo cardeal Henrique Beaufort (1375-1447) na igreja de Notre-
Dame. São convidados para o banquete também os senhores do Parlamento e
da universidade, o preboste dos mercadores e os escabinos. A partir da
alvorada, o povo invade o salão do banquete para espreitar e roubar comida,
impedindo os convidados de entrar. Na sequência deste episódio, o povo não
recebe as habituais liberalidades e a amnistia.

A aliança com os borgonheses


Carlos VII, para isolar os ingleses, projeta a aliança com o duque da
Borgonha, que por sua vez já não considera profícuo o entendimento com os
ingleses para a consolidação do seu Estado. As negociações começam em
janeiro de 1435, em Nevers. A conferência de paz com a arbitragem papal,
representada pelo cardeal Niccolò Albergati (1373-1443), é inaugurada em
Arras, em agosto. O representante de Carlos VII pede ao representante inglês
para que Henrique VI renuncie ao título de rei de França, mas este recusa e
abandona a conferência.
O acordo entre Carlos VII e Filipe, o Bom, é ratificado em Arras no dia 21
de setembro, após a assunção de responsabilidades pelo assassínio de João
Sem Medo pelo rei, que oferece reparações morais e territoriais. Jean
Tudert, representante do rei, ajoelha-se diante de Filipe, o Bom, e comunica-
lhe a cedência de Auxerre e do seu território, de Luxueil, das cidades do
Somme, de Ponthieu, de Bolonha e a libertação dos feudos borgonheses da
homenagem feudal. O tenente de Carlos VII, Artur de Richemont, entra em
Paris na primavera de 1436 acolhido pela população: o soberano realiza a
joyeuse entrée com o delfim Luís no dia 12 de novembro de 1437.
Continuam os incêndios, as devastações e os massacres perpetrados por
bandos armados ao serviço do rei francês ou inglês.

A trégua e a reorganização do exército francês


Henrique VI de Inglaterra conclui em 1443, em Tours, uma trégua de dois
anos com Carlos VII. O partido pacifista inglês, liderado por William de la
Pole, conde de Suffolk (1396-1450), conclui, contra o parecer dos irmãos do
rei, o noivado entre Margarida de Anjou (1430-1482), sobrinha de Carlos
VII, e Henrique VI. O casamento é celebrado em 1444. O conde de Suffolk
prometeu aos ingleses as regiões de Anjou e Maine. Mas a trégua não se
converte em paz. Carlos VII reorganiza o exército segundo o modelo inglês
para não ser tributário de mercenários e senhores feudais. Em 1439 obtém do
Parlamento de Orleães o direito de impor taxas para a manutenção de tropas
permanentes e de nomear os oficiais.
Contra os serviços militares breves – de três a seis meses – estabelecidos
pela constituição feudal, institui por ordem régia as «companhias de
ordenança», com cerca de 100 lanças cada uma – 600 cavalos – com quatro
oficiais e um escriturário. As companhias são aumentadas para 15. A
monarquia dispõe de um exército permanente de 1500 cavaleiros preparados
para combater, o nervo do exército, apoiado por um adequado séquito, entre
os quais dois atiradores de lança. Besteiros e archeiros são reorganizados
em 1448 com a instituição das Compagnies des francs archers. Por cada 50
famílias é escolhido um homem adequado, que deve treinar o tiro todos os
domingos e deve estar pronto para o recrutamento; este é compensado com a
isenção fiscal em tempo de paz e com um soldo durante a guerra.
A monarquia também dota o exército de artilharia. A nobreza feudal, tantas
vezes vencida nos campos de batalha, é desclassificada. Os senhores feudais
só serão chamados em caso de necessidade. Carlos VII é ajudado na
reorganização do exército por Jean Bureau (?-1463), senhor de Rivière, que
também dará um precioso contributo nas operações bélicas. Um exército
estável vem substituir os destacamentos provisórios e instáveis fornecidos
pelos barões. Carlos VII recebe ajudas económicas do financeiro Jacques
Coeur (c. 1395-1456) para reconquistar a Normandia.

Rumo à vitória francesa


Em 1445 são retomadas as operações militares contra a Inglaterra. O
exército francês realiza vários ataques vitoriosos: em 1449 reconquista Ruão
e, com a vitória de Formigny de 15 de abril de 1450, assegura à França a
Normandia. Em 1451, com a queda de Bordéus, em junho, e de Baiona, em
agosto, reconquista a Guiena. Os ingleses tentam reconquistar Bordéus
contando com a presumível fidelidade da população, mas são derrotados.
Depois da batalha de Châtillon, a 19 de outubro de 1453, os ingleses
abandonam a França, onde só mantêm Calais. Os franceses foram capazes de
libertar o território do inimigo invasor, enquanto a longa guerra contribuiu
para reforçar o sentimento nacional e monárquico da burguesia.
A paz conclusiva é assinada em 1475 por uma monarquia francesa
reforçada, que tem na burguesia a sua base de consenso. São os burgueses
que compram terras e feudos e que se estabelecem nos principais cargos,
graças às competências técnico-jurídicas e ao dinheiro de que dispõem.
Em meados do século, Carlos VII mandou examinar textos antigos em
matéria de sucessão, entre os quais os conservados em Saint-Denis e em
Reims, para estabelecer a sucessão em linha masculina, de acordo com o que
será escrito no Grand Traité. É a invenção da lei sálica, não obstante
Voltaire, no Dicionário Filosófico, mais de três séculos depois, a ter
atribuído aos sálios, um povo analfabeto que deixara uma lei tão injusta para
as mulheres.

V. também: O reino de França, p. 66; O reino da Inglaterra, p. 77; O poder das mulheres, p.
237.
A RECONQUISTA DE GRANADA
de Rossana Sicilia

A conquista de Granada marca um momento exaltante, de um ponto


de vista político e religioso, para os êxitos finais da Reconquista. As
fases anteriores são semelhantes às que precederam o fenómeno das
cruzadas, com amplas concessões de privilégios, pelo papa, aos
soberanos cristãos, e não menos amplas concessões de indulgências
àqueles que combatem os mouros. Por sua vez, os mouros do reino de
Granada testemunham um alto grau de fragmentação política que os
leva inevitavelmente à derrota. Com o reino dos mouros desaparece
um local de contacto e conhecimento entre culturas diferentes.

A vassalagem dos mouros


A partir de 1272, a última posição muçulmana na Península Ibérica é o
reino de Granada, uma região que se estende do sudeste da Espanha e que
ocupa uma boa parte da costa próxima do estreito de Gibraltar. É uma
província estrategicamente importante porque através dela os mouros podem
exercer nos séculos seguintes uma influência na política ibérica, através dos
complexos cruzamentos de alianças e vassalagens com as potências cristãs.
O casamento entre Isabel de Castela (1451-1504) e Fernando, o Católico
(1452-1516), e a sua ascensão ao trono de Castela e Aragão lançam as
premissas de uma solução definitiva do problema da persistência
muçulmana, porquanto os dois soberanos, podendo agir de comum acordo,
exprimem os termos de uma estratégia política que apresenta as mesmas
características quanto à reafirmação da matriz católica nos dois reinos.
Depois de Isabel ter enfrentado a guerra com Afonso V de Portugal (1432-
1481), que reivindicava para a sua mulher Joana (1462-1530) a sucessão
legítima na coroa de Castela, o dispêndio de recursos económicos que o
conflito comportou tem repercussões em ambos os reinos. A resolução destes
problemas parece ser determinada também pela aliciante possibilidade de
uma legítima apropriação de todos os benefícios eclesiásticos, vigentes no
reino de Granada, que é reconhecida por uma bula do papa Inocêncio VIII
(1432-1492, papa desde 1484) de 8 de dezembro de 1484. Ela concede,
entre outras coisas, o patronato das igrejas e dos mosteiros do reino de
Granada com a faculdade de os soberanos espanhóis apresentarem à Santa
Sé as nomeações dos bispos e abades escolhidos por eles.
As fontes tradicionais certificam que o sultão do reino de Granada, Abu al-
Hasan Ali (?-1485), se opõe ao tributo que o seu Estado deve pagar aos
soberanos de Castela. Aos pedidos destes últimos para que a homenagem de
vassalagem fosse renovada como condição da confirmação da trégua entre
muçulmanos e cristãos, o soberano mouro responde ameaçadoramente que as
moedas para pagar o tributo servem aos seus súbditos para fabricar armas
contra os cristãos. É com estas premissas que os dois reinos cristãos, no
início dos anos 80 do século xv, atuam juntos, no plano militar, contra o reino
de Granada.

A crise dos dois sultões


O conflito tem uma duração de mais de uma década, dado que as
operações militares são intervaladas com negociações entre os soberanos
católicos e as personagens que dirigem as diversas cidades mouras que se
tornaram objeto de ataques militares cristãos. O marquês de Cádis Rodrigo
Ponce de Léon (1443-1492) obtém o primeiro resultado significativo já em
fevereiro de 1482, quando penetra nos Estados mouros conquistando a
cidade de Álora, que se rende no final de junho de 1484. A cidade
conquistada encontra-se a pouca distância de Granada, capital do reino,
constituindo uma espécie de posto defensivo avançado. Precisamente por
isso, os habitantes da capital rebelam-se contra o sultão, nomeando para o
seu posto o filho Boabdil (Abu ‘Abd Allah, 1452-1528). O sultão destronado
salva-se com a fuga e refugia-se em Málaga junto do irmão Az-Zaghall.
Como consequência deste episódio, rebenta uma guerra civil entre o sultão
despojado e o filho, levando à rutura da frente defensiva dos mouros contra
os ataques cristãos. O novo sultão, para fazer frente ao mesmo tempo aos
seus inimigos cristãos e aos apoiantes do velho sultão, cerca a cidade de
Lucena, que é libertada pela intervenção cristã; no decurso da batalha, o
próprio Boabdil é feito prisioneiro. A detenção do jovem reunifica as tropas
mouras sob a direção e a experiência do pai. Fernando, para procurar dividir
novamente as forças da frente moura, liberta o jovem chefe muçulmano e
dota-o de meios financeiros e de milícias para ser capaz de enfrentar o pai.

A conquista do rei católico


As tropas fernandinas entram no reino dos mouros e obtêm resultados
substanciais em conquistas de centros urbanos. Em setembro de 1484, é
conquistada Setenil, em maio de 1485, Ronda, um ano depois, Loja;
finalmente, em abril de 1487 e no mês de agosto seguinte, primeiro, Vélez-
Málaga e, depois, Málaga. Face aos desastres militares que fizeram perder
centros importantes do reino, os «régulos» que dirigem as cidades mouras
decidem colocar à frente do Estado um novo sultão, substituindo os dois
responsáveis pela guerra civil. É escolhido Az-Zaghall, irmão do velho
sultão e tio de Boabdil. Mas a grave crise militar que atingiu o reino mouro
não para apesar da mudança dinástica, dado que Az-Zaghall, no decurso de
1489, perde Baza, Cádis e Almeria.
O ímpeto dos exércitos cristãos é consolidado pela bula papal de 1479 de
indicção da cruzada, várias vezes reiterada nos anos seguintes. Ela oferece,
como contrapartida ao pagamento de uma soma estabelecida, a indulgência
plena, a absolvição de pecados reservados, a comutação de votos, o perdão
e a omissão de censuras, da interdição, do jejum. É uma espécie de
composição pecuniária para delitos espirituais realmente cometidos ou
apenas imputados. Finalmente, dois anos mais tarde, a própria capital do
reino e residência do sultão é ameaçada pelas tropas dos dois reis católicos,
que, a 6 de janeiro de 1492, atravessam com o exército as muralhas da
cidade islâmica.
À distância de oito séculos da conquista muçulmana do reino visigótico, os
seguidores de Maomé (c. 570-632) são obrigados a abandonar a Península
Ibérica e deixam nas mãos de Isabel e de Fernando a cidade que melhor
representa a civilização árabe, conservando no seu seio a Alhambra e a
Generalife, dois dos mais representativos monumentos da arte oriental.
Granada tinha sido fundada precisamente pelos árabes em 756 junto das
ruínas da cidade de Illiberis, tornando-se, depois da conquista de Córdova, a
capital do último reino dos mouros.

A expulsão dos mouros


O constante crescimento civil e socioeconómico que caracterizou Granada
durante os séculos da presença muçulmana e a especificidade que se
exprimiu graças à influência de mestrias de artesãos árabes são prejudicados
pela conquista cristã. Além disso, diminui o papel de charneira entre os dois
mundos, o islâmico e o cristão, que a cidade desenvolveu no decurso da
Baixa Idade Média. A conquista dos reis católicos submete a uma dura prova
a economia da província andaluza dando origem a uma grave crise. O
advento dos espanhóis manifesta-se com uma forte pressão político-
religiosa, que tem o objetivo de obrigar a população moura à conversão, ou à
emigração, determinando uma condição de grande insegurança que não
favorece a vitalidade civil e económica. Repercussões desta condição de
subalternidade manifestar-se-ão a longo prazo com a revolta e a consequente
repressão dos mouros sob Filipe II (1527-1589), em 1561. A débâcle que
atinge a cidade-sede do último reino de Granada é testemunhada pela crise
demográfica: a população, que no último período mouro atingiu os 200 mil
habitantes, nos primeiros anos do século XIX, apresenta-se como a de uma
modesta província espanhola, com cerca de 18 mil habitantes.

V. também: A formação do Estado moderno, p. 27;


As guerras de Itália e o sistema dos Estados europeus, p. 53;
As senhorias em Itália, p. 119; A República de Veneza, p. 123;
A política na corte e o soberano ideal: diversas visões do poder antes de Maquiavel, p.
329.
O EQUILÍBRIO ENTRE OS ESTADOS ITALIANOS
de Rossana Sicilia

O sistema de Estados da península italiana estrutura-se em torno de


cinco potências territoriais: reino de Nápoles e Sicília, Estado da
Igreja, senhoria florentina dos Médicis, ducado de Milão e República
de Veneza. A lógica que prevalece entre 1454 (paz de Lodi) e 1494
(descida de Carlos VIII a Itália) é a da formação de uma aliança
tripartida entre Nápoles, Florença e Milão, capaz de se opor à mais
forte das potências italianas, a República Sereníssima, além de
constituir uma barreira às iniciativas do papado romano na época da
política nepotista, que tinha como um dos seus objetivos a formação
de uma ampla base territorial do Estado pontifício na Itália Central.

Depois da paz de Lodi: a estabilidade política na península italiana


O lapso de tempo entre a paz de Lodi (1454) e a invasão de Carlos VIII
(1470-1498) em 1494 é considerado, em linhas gerais, como uma época de
estabilidade política e até de relativa paz entre os Estados italianos que se
constituíram no decurso dos séculos precedentes. Trata-se de cinco grandes
entidades territoriais e de um conjunto de pequenos Estados que gravitam em
torno delas. Em primeiro lugar a República de Veneza, que, graças à sua
oligarquia mercantil, criou um aparelho institucional que favorece a gestão
dos domínios terrestres, sobre os quais a cidade exerce a sua influência no
reconhecimento da autonomia administrativa; do mesmo modo, o complexo
controlo de portos e territórios costeiros situados no Mediterrâneo Central e
Oriental constitui o seu império talassocrático, que em breve será aumentado
pela posse da ilha de Chipre.
No outro extremo da península situa-se a rede estatal posta em prática por
Afonso, o Magnânimo (1396-1458), que nesta fase tem o seu centro no reino
de Nápoles. O soberano, graças aos seus interesses mediterrânicos, projeta,
sem obter sucesso, o controlo da península italiana, como revela a guerra que
move contra Génova e contra Carlos VII de França (1403-1461), que é o seu
poderoso protetor político. Por morte de Afonso, a sucessão do filho natural
Fernando (1431-1494), apenas no reino de Nápoles, deixa a coroa das
grandes ilhas mediterrânicas – Sicília, Sardenha e Córsega – sob o domínio
dos aragoneses ibéricos. A própria monarquia napolitana, a partir de
Fernando, considera-se o segundo ramo da dinastia Trastâmara, a ponto de
pedir e obter frequentemente apoio militar de Fernando, o Católico (1452-
1516). As outras duas realidades estatais, constituídas pela Florença dos
Médicis e pelo ducado de Milão, apresentam-se como um aglomerado de
cidades, sobre as quais a cidade dominante exerce um pesado controlo
político. Em Florença, a assembleia dos notáveis nomeia, no dia 2 de
dezembro de 1469, Lourenço, o Magnífico (1449-1492) e Juliano de
Médicis (1453-1478) «príncipes do Estado». Os dois gerem o governo
florentino graças às suas aptidões políticas e profissionais, fazendo-se
rodear de grandes personalidades de cultura humanista. Em Milão, conquista
recente de Francesco Sforza (1401-1466), os sucessores do chefe militar
exercem um poder não dissemelhante do dos Médicis. Os acontecimentos
internos do principado Sforza evidenciam as dificuldades que os
pretendentes ao cargo ducal devem enfrentar a cada sucessão dinástica, quer
porque em Milão ainda são fortes os sentimentos contra os tiranos, heranças
comunais plasmadas da cultura humanista, quer pela dificuldade de os
segundos filhos – basta pensar em Ludovico, o Mouro (1452-1508) –
aceitarem regências relativas a menores, como a regência de Gian Galeazzo
Sforza (1469-1494), sem tentativas de substituição. Mais do que o poder dos
Médicis, o poder da família Sforza apresenta-se como o efeito de
personalidades notáveis sem as quais a ameaça de perda do ducado parece
concreta.
Finalmente, nesta fase, o Estado da Igreja é considerado o mais fraco, pelo
menos militarmente, de todos os Estados «regionais» italianos. No entanto, a
obra de Nicolau V (1397-1455, papa desde 1447) tem o mérito de encerrar
uma fase muito atormentada da vida da Igreja romana, dado que se apaga a
iniciativa conciliar e de divisão dos bispos de Basileia e o pontífice é
reconhecido como único guia espiritual do mundo católico. O papa consegue
reorganizar o Estado pontifício porque pode contar com a obra de Cosme de
Médicis (1389-1464); também a sua relação com o imperador é apresentada
como frutuosa, a tal ponto que, em 1452, se realiza em Roma pela última vez
a coroação, como imperador e rei de Itália, de Frederico III (1415-1493).
Não menos importante é a sua obra após a queda de Constantinopla; sob a
sua iniciativa constitui-se uma Santíssima Liga, após a paz de Lodi, entre
todos os Estados italianos ou, como é o caso de Afonso, o Magnânimo, de
um Estado que opera em Itália também com o objetivo de fazer face ao
perigo turco. O significado simbólico desta liga é dado pelo facto de ser
instituída intra terminos italicos, embora o seu valor seja formal e as
dissidências internas nos cinco grandes Estados membros italianos sejam
muito mais fortes do que os motivos de acordo político comum.

Os pequenos Estados
Contribui para esta difícil formação de um sistema de relações estáveis a
presença de uma quantidade notável de pequenos Estados, que, por um lado,
quebram a continuidade territorial dos maiores Estados, por outro, os seus
interesses intersetam-se com mais de uma potência confinante, tornando-se
motivo de contenda entre os grandes Estados. O caso mais conhecido é o da
República de Génova, já uma grande cidade marítima no decurso da Idade
Média, submetida a fortes influências quer dos franceses quer do ducado de
Milão e da própria Toscana dos Médicis. O controlo de Génova constitui
precisamente um dos motivos de contenda nas relações dos Estados italianos
com a França. Na mesma linha, movem-se cidades-estados relativamente
independentes, como Siena e Luca. Um outro importante grupo de pequenos
Estados é constituído por principados menores, como o ducado de Saboia e
o de Ferrara, por pequenas realidades senhoriais urbanas, por feudos
imperiais com algum peso, como o dos marqueses Malaspina em Massa e
Carrara, e por feudos pontifícios que se situam na Romanha, nas Marcas,
bem como no Lácio. Se as senhorias dos pequenos Estados são heranças
comunais, os feudos imperiais e pontifícios constituem a reserva das
companhias de mercenários e dos chefes militares da Itália do século XV.

A ideia da cruzada
Os limites desta liga entre os Estados italianos são postos em evidência
pela cruzada contra os turcos que o papa Pio II (1405-1464, papa desde
1458) organiza em 1464. Nos anos anteriores, os genoveses perderam quase
todas as suas colónias no Mediterrâneo Oriental e Veneza, depois de uma
tentativa de paz, que tem uma breve duração, com os turcos, é atacada por
estes no ano anterior à indicção da cruzada. Não obstante a chegada do papa
e da frota veneziana a Ancona, a morte de Pio II torna inúteis estes
preparativos da cruzada e não menos inútil se revela a outra tentativa
realizada por Paulo II (1417-1471, papa desde 1464), em 1471, e pelo seu
sucessor Sisto IV (1414-1484, papa desde 1471). A cruzada não se realiza e
são os turcos que passam à ofensiva tanto no território de Friul como, em
1480, em terras de Otranto. No entanto, no ano seguinte, Fernando de Aragão
(1431-1494) reconquista a província da Apúlia, favorecido pela fraca
convicção com que os turcos defendem as suas posições, depois da morte de
Maomé II (1432-1481).
Outro momento importante de definição das relações internas do sistema
dos Estados italianos é constituído pelo problema da sucessão de Fernando I
no trono napolitano. A questão apresenta-se delicada por causa das atitudes
do papa Calisto III (1378-1458, papa desde 1455), que não reconhece
Fernando como legítimo sucessor ao trono do pai. O episódio é complicado
pelas tentativas de os angevinos recuperarem o trono napolitano, incitados
pela guerra que Afonso conduziu contra Génova. Ao lado de João de Anjou
(1427-1470), enfileira-se uma forte componente feudal do reino de Nápoles,
dirigida pela família Orsini, príncipes de Tarento. A situação vira a favor de
Fernando de Aragão, pelo apoio que lhe é oferecido por Francesco Sforza,
que procura subtrair a República de Génova à influência francesa. Sforza
obriga Cosme de Médicis à neutralidade e, pouco depois, a sucessão de Pio
II à cátedra de Pedro cria uma situação particularmente favorável à dinastia
aragonesa de Nápoles, que consegue prevalecer sobre os angevinos e os seus
aliados.
A ocasião do conflito no reino de Nápoles mostra a importância de um
potencial eixo Milão-Florença-Nápoles contra França, capaz de conter as
ameaças provenientes de outras potências italianas. De facto, à distância de
poucos anos, no decurso de 1467, os venezianos hostis à aliança de Florença
com Milão, que inverteu a política dos Médicis em relação à Sereníssima,
ajudam na tentativa de Bartolomeo Colleoni (1400-1475) entrar na Romanha
a caminho de Florença. O apoio da família Sforza e do rei de Nápoles
revela-se fundamental para os Médicis na batalha de Molinella de 1467.
Dois anos depois, a senhoria dos Médicis sobre a cidade é sancionada pela
ascensão de Lourenço e de Juliano à direção de Florença e da Toscana. A
fase de equilíbrio, que é assegurada pela ascensão dos novos príncipes na
condução de Milão e de Florença e pela reafirmada aliança entre Milão,
Florença e Nápoles, é posta em causa, a partir de meados dos anos 70, por
uma viragem na política do papado de Sisto IV.

Nepotismo e conquistas do papado


A influenciar a atitude do papado estão motivações político-estratégicas,
na sequência da falência da política da liga contra os turcos e da nova
cruzada.
O papa apercebe-se de que a fraqueza político-territorial do papado não
lhe permite pesar de maneira eficaz nas escolhas dos outros Estados
italianos. A «grande política nepotista» tem as suas origens nesta convicção.
Trata-se de considerar, além da vontade de privilegiar os vínculos de sangue
que ligam os papas aos seus parentes mais próximos, a intenção de utilizar
figuras de familiares, inserindo-as no contexto político da Itália Central.
Isto ocorre através da concessão da gestão de cargos eclesiásticos de
primeiríssimo relevo (cardeais, arcebispos, grandes abades), ou atribuindo-
lhes a condução de potentados feudais dos quais possam tirar recursos
militares e financeiros destinados à realização do projeto de uma grande
expansão territorial do papado na Itália Central. Os objetivos finais dizem
respeito não só à Romanha, a Emília, às Marcas e à Úmbria, mas também à
Toscana.
A primeira fase deste ambicioso projeto político que envolve Sisto IV,
Inocêncio VIII (1432-1492, papa desde 1484) e Alessandro VI Bórgia
(1431/1432-1503, papa desde 1492) inicia-se com a conjura da família
Pazzi em Florença. Utilizando os seus sobrinhos, o papa Sisto IV consegue
fazer uma aliança totalmente inédita entre a República de Siena, o rei
Fernando de Aragão e um grupo de banqueiros florentinos adversários dos
Médicis, aos quais ele próprio confiou a gestão das finanças pontifícias. Se a
adesão de Siena é explicável pelos temores que a cidade sente desde sempre
em relação ao expansionismo dos Médicis, a adesão do rei de Nápoles
procura travar as renascidas simpatias dos Médicis em relação à coroa
francesa. A 26 de abril de 1478, o êxito do novo período de guerra, iniciado
quatro anos antes e que viu a confrontação entre a coligação filopapal e os
Estados de Florença, Veneza e Milão, desemboca no atentado, ocorrido na
catedral de Florença, contra Lourenço e Juliano de Médicis, ao qual só
Lourenço sobrevive. Os conjurados falham a tentativa de se apoderar do
palácio da senhoria porque o povo florentino subleva-se e elimina os autores
do atentado, o mais conhecido dos quais, o arcebispo de Pisa, Francesco
Salviati (?-1478), é enforcado. O papa reage com a excomunhão e a
interdição sobre a cidade; neste momento, desencadeia-se a guerra entre as
duas ligas. Lourenço realiza um ato de grande clarividência política e dirige-
se pessoalmente a Nápoles, em 1480, onde convence o rei Fernando a
abandonar a liga contra os Médicis e a reativar as tradicionais boas relações
entre Florença e Nápoles. Fernando aceita a proposta de o Magnífico ao ser
informado das novas tentativas dos angevinos e, sobretudo, ao tomar
conhecimento da perigosa ofensiva que os turcos iniciaram nas terras de
Otranto. A recuperada aliança entre o Estado dos Médicis e o reino de
Nápoles é completada pela nomeação de Ludovico, o Mouro, como tutor do
duque de Milão, então menor. A proposta de renovação desta antiga aliança
desencadeia a reação da República de Veneza, que entra em acordo com
Girolamo Riario (1443-1488), sobrinho de Sisto IV, e depois com o papado.
Com base nestes pressupostos rebenta uma nova guerra, que desta vez vê
como aliados Veneza, o papa, Génova e Siena, enquanto na frente contrária
estão Florença, Nápoles e Milão. As operações bélicas desenvolvem-se no
Lácio e o protagonista é o duque de Calábria, enquanto os venezianos
ocupam com a frota Gallipoli no sul de Itália, obtendo, na sequência da paz
de Bagnolo (1484), indemnizações no Basso Polesine e em Ferrara. A morte
de Sisto IV não interrompe os projetos expansionistas do papado, dado que o
seu sucessor, Inocêncio VIII, pertence à família Cybo de Génova.
Coerentemente com os interesses da pátria genovesa, tanto o novo papa como
o sobrinho Franceschetto Cybo (c. 1450-1519) testemunham novos interesses
em relação ao reino de Nápoles, procurando explorar a oposição existente
entre o poder régio e a grande aristocracia feudal. O papa estabelece um
acordo com Antonello Sanseverino (1458-1499), príncipe de Salerno e guia
do partido adepto de Anjou, e a sua aliança é estendida a Génova e Veneza,
convidando Renato de Lorena (1451-1508) a atingir o sul de Itália. Mais uma
vez, a salvação do reino passa pela intervenção de Florença e de Milão.
Em 1486, o rei Fernando I e o papa Inocêncio assinam um tratado de paz,
que permite que o soberano napolitano aniquile os barões protagonistas da
conjura. No entanto, o equilíbrio entre os Estados italianos parece ter
encontrado a sua definição e Lourenço de Médicis é o seu artífice
consciente. Além do acordo tradicional entre Milão, Florença e Nápoles, ele
obtém também o consenso do papa Inocêncio. Só Veneza resiste às condições
gerais de paz, mas a sua ação sofre os condicionamentos das relações de
força e do acordo entre as outras potências italianas.

V. também: A formação do Estado moderno, p. 27;


As guerras de Itália e o sistema dos Estados europeus, p. 53;
As senhorias em Itália, p. 119; A República de Veneza, p. 123;
A política na corte e o soberano ideal: diversas visões do poder antes de Maquiavel, p.
329.
AS GUERRAS DE ITÁLIA
E O SISTEMA DOS ESTADOS EUROPEUS
de Rossana Sicilia

O período das guerras de Itália, desde 1494, ano da invasão de


Carlos VIII, até 1516 e ao estabelecimento do tratado de Noyon entre
a França e a Espanha, foi definido como «epifania e infância do
sistema dos Estados europeus» (Galasso). Quer a preparação
diplomática da empresa de Nápoles pelo rei francês quer as reações
que a conquista do reino por Carlos suscitam no conjunto dos
Estados europeus dão início a uma longa série de conflitos políticos
e militares entre os Estados do Ocidente europeu, quase todos
envolvidos nos acontecimentos que se concluem com o surgimento de
um novo equilíbrio europeu: a França adquire o ducado de Milão
(1516) e Fernando, o Católico, a partir de 1503, conquista o reino de
Nápoles.

A invasão de Carlos VIII


O momento que assinala o início das lutas pela hegemonia em Itália
remonta à morte de Lourenço, o Magnífico (1449-1492), ocorrida a 8 de
abril de 1492. Outro elemento determinante diz respeito à morte, a poucos
meses de diferença, do papa Inocêncio VIII (1432-1492, papa desde 1484) e
à escolha de Rodrigo Bórgia, que é eleito papa com o nome de Alexandre VI
(1431/1432-1503, papa desde 1492). A morte de rei Fernando de Aragão
(1431-1494), ocorrida a 28 de janeiro de 1494, e a sucessão ao trono do
filho Afonso II (1448-1495), hostilizado pela grande nobreza feudal do
reino, também influíram na perturbação do equilíbrio dos Estados italianos.
O último e mais conhecido elemento que sanciona o fim da estabilidade do
sistema é constituído pela proposta de uma antiga aliança entre Ludovico, o
Mouro (1452-1508), e o rei de França Carlos VIII (1470-1498), que garante
a neutralidade do ducado milanês no caso de uma expedição francesa a
Nápoles para reivindicar a herança angevina.
A operação de reivindicação é planeada pela diplomacia francesa através
do estabelecimento de uma teia de tratados internacionais com o reino de
Aragão de Fernando, o Católico (1452-1516), que possui o reino da Sicília,
com Isabel de Castela (1451-1504), com o imperador Maximiliano de
Habsburgo (1459-1519) e até com Henrique VII de Inglaterra (1457-1509).
No final de agosto de 1494, Carlos VIII desce a Itália e, em Pavia, recebe um
acolhimento amigável de Ludovico, o Mouro, que em pouco tempo, após a
morte suspeita do sobrinho, é reconhecido como duque de Milão. No entanto,
o exército francês entra na Toscana e Pedro de Médicis (1472-1503) assina
um acordo humilhante com o soberano francês, que determina a expulsão dos
Médicis de Florença e a proclamação da República. As negociações e a
corajosa posição de Piero Capponi (1446-1496) suavizam as condições que
o soberano francês impõe ao Estado florentino. Uma complexa negociação
permite a Carlos atravessar o Estado pontifício sem encontrar dificuldades,
desembaraçando-se entre os pedidos dos cardeais hostis a Alexandre VI, que
fazem em relação ao papa acusações de simonia, e as garantias que ao
Bórgia são oferecidas pelos franceses em troca da liberdade de trânsito.
Em seguida, Carlos entra no reino de Nápoles, onde Afonso, prevenindo o
risco de debandada do seu exército e do seu poder político, abdica a favor
do filho Fernando II (1467-1496). O novo soberano não consegue travar as
tropas francesas e a rebelião dos adversários políticos filo-franceses e
refugia-se em Messina com a sua família. No final de fevereiro de 1495,
Carlos VIII entra em Nápoles, mas o papa nega-lhe a investidura do reino.
Entretanto, é estabelecida em Veneza a Liga Santa, entre Ludovico, os
venezianos, o papa, os soberanos de Espanha e o imperador, organizando um
exército sob o comando do marquês de Mântua Francesco II Gonzaga (1466-
1519). O recontro entre os dois exércitos, provocado pela retirada do
soberano francês, verifica-se em Fornovo nos primeiros dias de julho de
1495, mas Carlos consegue libertar-se e regressar a França, enquanto as
tropas espanholas, sob o comando de Gonzalo de Córdoba (1453-1515),
desembarcam no continente, derrotam as tropas francesas e repõem no trono
Fernando II. Mas os soberanos aragoneses sofrem a perda dos portos do
reino no Adriático, dos quais os venezianos se apoderam, enquanto no ano
seguinte o rei de Nápoles morre sem herdeiros, sucedendo-lhe o tio
Frederico (1451-1504). A República de Florença não aderiu à liga contra a
França, dado que entre a sua classe política se insinuam orientações filo-
franceses que têm como objetivo a possibilidade de garantir o controlo
hegemónico sobre a cidade de Pisa, que se tornara autónoma de Florença e
apetecível aliada dos venezianos. Para acentuar as tendências filo-francesas
florentinas contribui a ação de Girolamo Savonarola (1452-1498) à frente da
cidade pela sua notória hostilidade em relação ao papa Alexandre. O monge
é considerado o autor da profecia da invasão de Carlos VIII e da queda dos
Médicis. Depois, o recontro com o papa determina a sua derrota política e a
condenação à morte.

França e Espanha
A morte de Carlos VIII sem herdeiros conduz, na primavera de 1498, à
sucessão ao trono do primo Luís XII (1462-1515), que se proclama rei das
duas Sicílias e duque de Milão, retomando a política de intervenção em
Itália. Consegue dissolver a Liga Santa, alcançando uma grande meta
diplomática, pois estabelece um acordo com a Espanha, pela conquista
comum do reino de Nápoles, com Veneza, à qual cede pequenos territórios
de fronteira com a Lombardia em troca da conquista francesa do ducado de
Milão, com o papa, oferecendo privilégios concretos ao filho César Bórgia
(1475-1507) e a perspetiva de o ajudar a constituir um Estado na Itália
Central. O acordo entre venezianos e franceses tem o efeito de obrigar o
duque de Milão a fugir para a Germânia e, em outubro de 1499, Luís XII
ocupa o ducado e coloca Génova sob o seu controlo. Não obstante a reação
de Ludovico no ano seguinte, colocando a soldo milícias suíças e
reconquistando Milão, as forças francesas, apoiadas por um recurso mais
alargado a mercenários suíços, derrotam-no, colocando-o como prisioneiro
em França e permitindo a permanência do rei Luís na Lombardia. Entretanto,
o acordo entre franceses e espanhóis traduz-se no tratado de Granada de
1500, com o qual Luís XII e Fernando, o Católico, dividem o reino de
Nápoles: ao primeiro cabem Nápoles e a região de Abruzos, ao segundo a
Apúlia e a Calábria. No ano seguinte, os dois exércitos conquistam o reino e
obrigam à rendição do rei Frederico, que, sentindo-se traído pelos primos
aragoneses, se entrega ao rei de França. Os dois vencedores dividem o reino,
mas, no início de 1502, surgem disputas de fronteiras que se transformam em
conflitos militares. São dois os episódios que concluem esta fase de
conflitos: o primeiro ocorre em Seminara, na Calábria, onde um corpo
expedicionário francês é derrotado, no final de abril de 1503, por um
exército espanhol que chegou da Sicília; o segundo quase simultâneo, em
Cerignola, na Apúlia, onde o grande capitão Gonzalo de Córdoba enfrenta,
derrotando-o, o comandante das tropas francesas, o duque de Nemours
(1472-1503). No mês seguinte, os espanhóis entram em Nápoles e expulsam
os franceses do reino. Só dois anos depois, um tratado entre os dois grandes
Estados, através do casamento entre Fernando, o Católico, viúvo de Isabel, e
Germana de Foix (1488-1538), sobrinha do rei de França, sanciona a
passagem do reino para Espanha como vice-reino autónomo.
Surge neste momento uma condição de equilíbrio de esferas de influência,
dado que a Itália, objeto de contenda entre as grandes potências europeias,
foi subdividida: o ducado de Milão foi conquistado pelos franceses e o reino
meridional pelos espanhóis. A obtenção de uma nova situação de equilíbrio
em Itália tem repercussões no sistema de equilíbrio entre os Estados
europeus. De facto, desencadeiam-se novas atenções das outras potências,
que tendem a inserir-se no âmbito da península italiana para alargar a sua
esfera de influência, de modo análogo ao realizado pela França e pela
Espanha. Por sua vez, a República de Veneza, durante a década das guerras
italianas, conquistou os portos da Apúlia no Adriático e, num segundo
momento, adquiriu importantes locais nas costas da Romanha, suscitando
reações espanholas e do Estado pontifício, que com o papa Júlio II (1443-
1513, papa desde 1503) quer assumir o controlo da Emília e da Romanha. O
imperador Maximiliano de Habsburgo quer desempenhar um papel na
península italiana e projeta uma incursão em Itália, viático para ser coroado
imperador em Bolonha e oportunidade para uma expansão territorial no
território de Véneto e na Itália Central.

A Europa contra Veneza


Nasce então a Liga de Cambrai, entre o imperador Maximiliano e Luís XII
de França, virada contra Veneza. O papa Júlio II é o promotor do acordo e
adere a ele em 1509, excomungando a República, mas ao mesmo tempo
aderem a ele a Espanha, a Inglaterra, a Hungria, Saboia, Ferrara, Mântua e
Florença. A finalidade do tratado é a repartição do Estado veneziano na
península italiana. Todas as potências do sistema de Estados europeus se
enfileiram contra Veneza, que, sozinha, graças à sua formidável frota, é capaz
de fazer frente e de prevalecer, pelo menos no mar, sobre todas as outras
potências juntas. Mas em terra firme, em maio de 1509, os venezianos são
vencidos pelos franceses em Agnadello e as potências aliadas apoderam-se
dos territórios venezianos. Por sua vez, o patriciado veneziano reage com
uma coerente iniciativa política, baseada no princípio de que é essencial
para a sobrevivência da República desmembrar a coligação adversária. Em
primeiro lugar, renuncia definitivamente, a favor do papa e do rei de
Espanha, aos portos da Romanha e de Nápoles e concede a Júlio II a
liberdade de comércio e navegação no Adriático, libertando-se da interdição
papal. No início de 1510, nasce uma nova aliança contra a França: são
protagonistas, além de Veneza, a Espanha e Júlio II. O soberano francês
reage convocando um concílio, ao qual o papa responde com a convocação
de um outro concílio em Latrão.

As batalhas dos suíços


Entretanto, os venezianos reconquistam o território veneziano ocupado
pelo imperador de Habsburgo e Maximiliano alia-se com a França aderindo
também às iniciativas de Luís XII. Os anos de 1511 e 1512 são dos mais
dramáticos das guerras de Itália. Nesta fase, ocupam a cena militar as
infantarias suíças, que são pagas pelas duas partes, e na sangrenta batalha de
Ravena (1512) desenvolvem com eficácia a sua missão. É neste combate que
Gastão de Foix (1489-1512) derrota a nova Liga Santa, mas é morto no
campo de batalha. Depois disso, o seu exército é excluído da Lombardia e,
em Milão, volta a entrar Maximiliano Sforza (1493-1530), filho de
Ludovico. Entretanto, as tropas da Liga avançam sobre Florença e os
Médicis reapoderam-se da direção da cidade com o cardeal João de Médicis
(1475-1521). A situação, no plano das relações entre os Estados, ainda
parece confusa.
Em fevereiro de 1516, morre Júlio II e o conclave elege para o seu lugar
precisamente o cardeal florentino, que assume o nome de Leão X. A Europa
vive uma condição de grande mobilização de forças. Nesse momento, os
suíços, passando para o serviço da família Sforza, repelem os franceses para
lá dos Alpes e ameaçam mesmo o seu território. Os ingleses, aliados da
Espanha, penetram na Flandres e derrotam os franceses na batalha de
Guinegate. Mas a França recupera quando, por morte de Luís XII, lhe sucede
o jovem primo Francisco I (1494-1547), que tem a possibilidade de
mobilizar os recursos do país. Contra ele forma-se uma enorme coligação,
composta pelos suíços, pela Espanha, pelo imperador e pelo papa. Ao lado
da França coloca-se Veneza e o jovem soberano francês atravessa os Alpes e
dirige-se para Milão. Em Melegnano defronta os suíços numa batalha que
dura dois dias. A ajuda da cavalaria veneziana e a genialidade de Gian
Giacomo Trivulzio (1441-1518) levam à vitória dos franco-venezianos. Um
novo equilíbrio restaura a paz na Europa. Maximiliano Sforza abandona o
ducado que passa para a França e a paz de Noyon (1516), subscrita por
Francisco I e Carlos I de Habsburgo (1500-1558), que sucedeu ao avô
Fernando, o Católico, define os termos de um novo equilíbrio em Itália,
centrado na hegemonia das potências estrangeiras, que introduz
definitivamente uma clivagem no sistema dos Estados italianos constituído
no tempo de Lourenço, o Magnífico.

O nascimento do sistema de Estados europeus


Durante as guerras de Itália amadurece, pois, o nascimento de um novo
sistema de Estados, em que emergem os dois eixos principais, constituídos
pelo reino de França e pelo espanhol, ambos implantados na península
italiana, em torno dos quais, além do Império Alemão, formalmente acima,
mas na realidade submetido pelo menos a um dos dois potentados, há a
Inglaterra, também ela numa condição de subalternidade, bem como os outros
Estados regionais italianos. Assim, como afirma Giuseppe Galasso (1929-),
determina-se uma interdependência objetiva da política dos Estados que
intervieram na Europa durante as guerras de Itália, pelo que estes se
encontram condicionados no seu comportamento e nas suas iniciativas pela
presença de uma rede de relações internacionais. São estas condições que
fazem germinar o novo sistema: a estabilidade e a regularidade das relações;
a dinâmica espontânea dos pesos e contrapesos para a existência de um
grupo de potências que interferem reciprocamente; a inevitabilidade dos
desafios e das respostas provocada por este género de relações. Ainda não
se desenvolveu a consciência do princípio de equilíbrio das potências de
nível europeu, mas os acontecimentos militares e diplomáticos que, desde a
invasão de Carlos VIII até à paz de Noyon, se desenvolvem em vários
cenários (sobretudo italianos) contribuem para definir os interesses e as
possibilidades das potências europeias, umas em relação às outras. Emerge
assim uma clara conceção da interdependência do sistema político europeu
que já unificou os sistemas regionais precedentes. Entretanto, desenvolve-se
a convicção de que a liberdade de cada uma das potências e a segurança de
todas as que operam no sistema dependem de uma ação comum contra
qualquer potência que pareça adquirir uma preponderância excessiva. Um
dos fenómenos mais interessantes que se verificaram na Itália de Lourenço, o
Magnífico, o nascimento de um sistema diplomático permanente, testemunha,
com o alargamento aos Estados europeus das embaixadas permanentes, que a
consciência da existência de um sistema de Estados se tornou uma realidade
da Europa moderna.

V. também: O equilíbrio entre os Estados italianos, p. 48; O reino de França, p. 66;


A Península Ibérica, p. 113.
A POLÍTICA DINÁSTICA DOS HABSBURGO
de Catia Di Girolamo

A partir do século XV, a dinastia dos Habsburgo instala-se de forma


estável na condução do império; a afirmação do princípio
hereditário não influencia a forma da designação, que se mantém
eletiva, do mesmo modo que prossegue o esgotamento da instituição
imperial, moldura dos principados substancialmente autónomos e
instrumento de reforço para as dinastias dos soberanos. No entanto,
os acontecimentos da área imperial aproximam-se dos processos em
curso nas maiores monarquias europeias quando se observa o
reordenamento interno de cada um dos principados e a sacralização
da estirpe reinante, que torna possível passar sem o recurso à
mediação pontifícia.

O império antes dos Habsburgo


A partir da Alta Idade Média, a tradição germânica encaminha a sucessão
imperial para um princípio eletivo que resiste às tentativas repetidas de
consolidação dinástica.
Por outro lado, uma forma de criar dinastia é determinada no interior da
maior aristocracia alemã, que consegue controlar duradouramente – pelo
menos a partir do século XIII – o direito de eleger o imperador, e que
frequentemente chega a regiões marginais do império, para selecionar figuras
aptas para encarnar o prestígio da instituição imperial, mas não para exercer
uma efetiva capacidade de governo, substancial apanágio dos principados
territoriais.
Em 1356, com a Bula de Ouro de Carlos IV de Luxemburgo (1316-1378),
a prática eletiva é codificada e os príncipes-eleitores são estavelmente
escolhidos entre os representantes da mais alta aristocracia laica e
eclesiástica alemã: se até há poucos anos Henrique VII de Luxemburgo (c.
1278-1313) podia acolher sugestões de tipo universalista, a Bula de Ouro
indica com clareza que o império é já um facto meramente germânico, que
tem também expressão na denominação oficial (Sacrum Romanum Imperium
Nationis Germanicae).

O regresso dos Habsburgo: Alberto II


Senhores territoriais no século X, condes no século XI e imperadores na
segunda metade do século XIII, os Habsburgo, já duques da Áustria, voltam a
conseguir a dignidade imperial apenas em 1438, desta vez para a manterem
até à queda imperial da era napoleónica (1806) e, depois, de novo até à
instauração da república (1919).
O regresso à condução do império é o resultado de uma política dinástica
conduzida de modo sistemático pelos Habsburgo: quer sejam ou não
imperadores, eles ampliam tenazmente os domínios originais nas regiões da
Suíça e da Alsácia em direção à Áustria; tentam criar ligações dinásticas
com a Borgonha; na região suíça são ativos a ponto de provocarem a
resistência dos habitantes dos vales, que dará origem à confederação
helvética; movimentam-se diversas vezes para a Boémia, usando as armas, a
diplomacia e as estratégias matrimoniais; conseguem lançar as bases para a
entrada na linha de sucessão do reino da Hungria.
Neste trilho atua Alberto II de Habsburgo (1397-1439), que herda muito
jovem o ducado, que começa a governar depois de se ter libertado da tutela
litigiosa dos tios, abrindo caminho para a coroa imperial com uma astuta
combinação de empenho militar e política dinástica.
Tendo casado em 1421 com Isabel (1409-1442), filha do imperador
Segismundo do Luxemburgo (1386-1437), Alberto apoia o sogro na
repressão da revolta hussita e taborita, na qual se exprimem as tensões
religiosas e nacionais da Boémia, que passou para o Luxemburgo no início
do século XIV. Durante mais de dez anos, Alberto vê-se envolvido num
conflito que lhe garante a designação à sucessão de Segismundo.
Quando o sogro morre, em 1437, Alberto é rapidamente coroado rei da
Hungria: de facto, também este reino começara a fazer parte dos domínios da
Casa de Luxemburgo no princípio do século XIV. Imediatamente a seguir,
torna-se rei da Boémia; finalmente, chega a designação imperial (1438).
Germânia, Áustria, Boémia e Hungria: sob o cetro de Alberto II parecem
estar já reunidos os territórios que caracterizarão o conjunto imperial. Mas
trata-se ainda de uma construção instável: na Boémia prossegue o conflito
hussita e anti-alemão; na Hungria, Alberto é hostilizado pelo autonomismo da
nobreza e acossado pelo expansionismo otomano, morrendo a combatê-lo em
1439.

Frederico III: um perdedor de sucesso?


Frederico III (1415-1493) é eleito rei de Germânia depois de Alberto em
1440, sendo-lhe confiada também a tutela do sobrinho Ladislau (1440-1457),
nascido há pouco. Da mãe, Isabel de Luxemburgo, Ladislau herda a coroa da
Boémia e da Hungria, e Frederico assume a sua regência, sem conseguir
exercer uma autoridade efetiva. Após a morte de Ladislau em 1457, a
situação torna-se ainda mais crítica: em 1458 na Boémia, torna-se rei Jorge
de Podĕbrady (1420-1471) e na Hungria é coroado Matias Corvino (c. 1443-
1490), que chega a dividir a coroa da Boémia, a ocupar Viena (1485) e a
candidatar-se à sucessão imperial. Depois da morte de Matias, a Boémia e a
Hungria parecem já ter escapado aos Habsburgo, uma vez que acabam ambas
sob o controlo dos Jaguelões, em expansão entre a Lituânia e a Polónia.
Mas, entretanto, a tenaz construção dos Habsburgo não cessou: em 1448,
Frederico III define sob a forma de concordata as relações com a Igreja de
Roma e, em 1452, é coroado imperador; no mesmo ano consolida as suas
posições, inclusive económicas, graças ao casamento com Leonor de
Portugal (1434-1467); sobrevive ao irmão, que lhe disputava a herança
austríaca, herdando os seus domínios; finalmente, combina um casamento que
leva à Casa de Áustria também os Países Baixos: o do filho Maximiliano
(1459-1519) com Maria (1457-1482), filha de Carlos I da Borgonha (1433-
1477), em busca de apoio na guerra contra o rei de França.

Maximiliano I de Habsburgo
Maximiliano, eleito e coroado rei dos romanos desde 1486, torna-se
imperador a partir de 1508, com um processo que exclui definitivamente a
tradicional consagração pontifícia.
Maximiliano acolhe e relança a política dinástica dos seus predecessores,
chegando a dominar sobre uma extensão territorial sem precedentes: a partir
de 1482, falecida Maria da Borgonha, governa os Países Baixos por conta do
filho Filipe (1478-1506); em 1409 herda os domínios do ramo tirolês da
dinastia; recupera assim a Áustria inferior aos húngaros e mais tarde
estabelece um acordo com os Jaguelões assegurando a sucessão aos tronos
da Boémia e da Hungria (tratado de Presburgo, 1515); em 1493, por morte
do pai, torna-se rei da Germânia e entra na posse dos outros domínios
familiares; no mesmo ano vira a sua mira em direção à Itália Setentrional
casando em segundas núpcias com a filha do duque de Milão, Bianca Maria
Sforza (1472-1510); assim estabelece parentesco com a monarquia ibérica e
com os Saboia mediante os casamentos da filha Margarida (1480-1530).
Mas a obra-prima dinástica de Maximiliano é representada pela união
entre o filho Filipe e a rainha de Castela e Leão, Joana (1479-1555); será
esta a combinação que levará o neto, Carlos V (1500-1558), à direção da
mais formidável concentração territorial da primeira época moderna.
Mas aos êxitos dinásticos não corresponde um incremento real do controlo
efetivo de Maximiliano sobre os territórios imperiais. A sua intensa
atividade bélica, a necessidade de defender o império em várias frentes
(incluindo a sudeste, exposto à combatividade otomana) tornam-no
particularmente dependente do apoio dos príncipes, obtido em troca de
contrapartidas que cristalizam o antigo dualismo entre imperador e estados
territoriais e tornam vãs as tentativas feitas por Maximiliano (e depois por
Carlos V) de reformar a organização do império, apesar da introdução de
alguns instrumentos eficazes de governo e a criação de uma rede eficiente
burocrática.
Os malogros imperiais mostram que os principados territoriais já estão
muito enraizados, mas confirmam também que a atitude das famílias
imperiais de se ocuparem predominantemente da ampliação dos seus
domínios dinásticos foi muito além para que o império possa iniciar um
processo de centralização. Por outro lado, os procedimentos de reforço
estatal estão há muito tempo em curso no interior dos principados
territoriais, onde se servem de instrumentos não dissemelhantes dos
utilizados na época pelas maiores monarquias europeias: a disciplina dos
corpos políticos internos, o controlo dos cargos eclesiásticos, o reforço da
organização militar e das estruturas administrativas e financeiras.

V. também: O Império Germânico, p. 86;


A área germânica e os territórios dos Habsburgo, p. 89.
OS PAÍSES

O ESTADO DA IGREJA
de Errico Cuozzo

No decurso do século XV, no Estado da Igreja, esgotado o processo de


multiplicação dos centros de poder (comunas e senhorias) iniciado
após o renascimento do século XI, consolida-se o processo inverso,
determinado pela grande crise económica e social de meados do
século XIV: os centros de poder concentram-se e reduzem-se e o
pontífice torna-se o único detentor da autoridade.

Papel, funções e prerrogativas do pontífice


O pontífice nomeia e destitui os funcionários da cúria e das províncias,
controla-os, pune-os e, por vezes, premeia-os, mas sobretudo paga-os. É
verdade que muitos são escolhidos entre a hierarquia eclesiástica e entre a
nobreza romana e da periferia, mas também é verdade que é criada uma
estrutura burocrático-administrativa que se mostra autossuficiente quando o
seu vértice está momentaneamente em crise (concílios de Pisa, Basileia,
Constança). Em suma, iniciou-se o processo de despersonalização do poder
que é comum aos Estados da nova Europa. Os pontífices, quase todos
italianos, solidários com os príncipes europeus na oposição a qualquer
teoria que defenda um modelo ascendente de governo, preocupam-se mais
com o âmbito restrito da política italiana do que com o desenvolvimento de
um papel de fôlego europeu e o restabelecimento da sua centralidade na
Igreja universal.
O Estado da Igreja está dividido em províncias, definidas a partir do
pontificado de Inocêncio III (1160-1216, papa desde 1198): a marca de
Ancona, a Romanha, o Património de São Pedro em Túscia, e a província
Campânia e Marítima, juntamente com algumas divisões mais pequenas como
Sabina, Massa Trabaria, Sant’Agata, a Presidenza de Farfa, o ducado de
Espoleto, a terra Arnulphorum et specialis commissionis, Benevento.
As Constitutiones Aegidianae, proclamadas em Fano, em 1357, pelo
cardeal Gil de Albornoz (1310-1367), constituem a base da sua legislação
pública. O Estado é dirigido por um governo central e por um ordenamento
provincial.

O governo central
O coração do governo central é constituído pela Câmara Apostólica, que
foi, desde o século XII, o órgão com que o pontífice romano, enquanto
príncipe espiritual e temporal, controlou as suas finanças.
No século XV a Câmara Apostólica assume outras duas importantes
funções: torna-se o principal órgão de governo do Estado e o gabinete que
escreve, regista e expede muitas das cartas pontifícias mais importantes.
Embora esteja muito organizada num perfil burocrático, a Câmara Apostólica
ainda está longe do moderno conceito de ministério. Na base dos seus
estatutos, ratificados pelo papa Eugénio IV (1383-1447, papa desde 1431),
goza de uma extraordinária multiplicidade de funções, dado que os
funcionários não são designados para sectores específicos de governo, mas
todos constituem em conjunto um colégio (Collegium Camerae).
Além disso, como gabinete financeiro central, tem uma relação direta com
os vigários apostólicos e com os tesoureiros provinciais.
O camareiro, também chamado camerlengo, talvez seja a personagem mais
importante da Corte Romana, com poderes extraordinariamente amplos e
variados. Assume a função de principal conselheiro do papa em todas as
questões políticas mais delicadas.
O tesoureiro apostólico, embora subordinado ao camerlengo, goza de uma
certa independência. O seu objetivo principal é receber e proceder aos
pagamentos; pode ter uma corte, mas também faz parte da Câmara
Apostólica. É coadjuvado por notários e escrivães, que mantêm os livros de
Introitus et Exitus, os principais livros de contabilidade da Santa Sé; estes
assistentes ocupam-se também de outros livros de contabilidade de menor
importância, como os relativos aos pagamentos dos mercenários.
O tesoureiro opera em estreito contacto com o depositário. Este é o chefe
da filial romana de um banco florentino e divide com o tesoureiro o encargo
de receber e desembolsar o dinheiro pontifício. Tem uma única série de
contas, com uma contabilidade mensal, mas não em partidas dobradas. Todos
os meses apresenta o débito ou o crédito do mês precedente que a Câmara
Apostólica tem com o depositário, que, em caso de necessidade, concede
uma espécie de crédito sem cobertura.
A tarefa mais delicada do tesoureiro é administrar o tesouro secreto do
papa: leva-a a cabo coadjuvado por um pequeno grupo de agentes de
confiança, que não são empregados da câmara. Eugénio IV institui os livros
de cubicularius secretus, verificados pelos empregados da câmara sob a
vigilância do camerlengo.
A partir do século XII, o Colégio dos Cardeais aumenta a sua autoridade e o
seu poder a ponto de monopolizar uma consistente porção dos rendimentos
da Santa Sé. Nicolau IV (1227-1292, papa desde 1288) com a bula Coelestis
Altitudo garante ao Colégio dos Cardeais metade de algumas rendas
espirituais e algumas rendas temporais. Para recolher e subdividir as suas
entradas, os cardeais têm uma câmara própria. Não podemos precisar se, no
decurso do século XV, o Colégio dos Cardeais alguma vez conseguiu reaver
todos os rendimentos assegurados pelo papa Nicolau IV no final do século
XIII.
O grau supremo da administração da justiça é confiado ao Tribunal do
Auditor da Câmara Apostólica e ao Tribunal da Sacra Rota Romana, que
constituem também dois dos supremos tribunais nas questões espirituais. Os
recursos civis e penais são primeiramente levados ao Auditor da Câmara; um
segundo recurso é concedido perante a Rota. Em algumas causas, as
chamadas causae maiores, é possível aceder diretamente à Rota. A
jurisdição do Auditor da Câmara é «ordinária» e não «delegada»; continua a
ser eficaz durante a sede vacante. Mas não é clara a natureza da jurisdição
dos Auditores da Rota, porque parece que a pronúncia das suas sentenças é
um ato delegado.
Não têm fundamento as teses que atribuíram à Câmara Apostólica a função
de tribunal de justiça, e ao camerlengo a jurisdição de primeira instância ou
de recurso.

O ordenamento provincial
À frente de cada uma das províncias do Estado da Igreja está um reitor,
com plenos poderes de merum et mixtum imperium cum gladii potestate. No
decurso do século XV, os reitores exercem todos os poderes previstos para
eles nas Constitutiones, excetuando a jurisdição nas questões espirituais.
O segundo funcionário da província, depois do reitor, é o tesoureiro.
Embora de nível subordinado, é quase independente nos seus poderes e as
suas escolhas não podem ser postas em causa pelo reitor. Autodefine-se
«tesoureiro apostólico» e é nomeado por um período de tempo segundo a
vontade do papa. Frequentemente, é um empregado da Câmara Apostólica.
Tem uma notável importância política, porque pode assumir a vigilância das
operações militares, negociar acordos com as comunas no interesse da
Igreja, recolher e vender os bens dos rebeldes.
Em alguns casos, o tesoureiro surge também como Coletor Apostólico.
Trata-se de um funcionário provincial, habitualmente autónomo, que é
nomeado pela Câmara Apostólica para recolher todos os tributos espirituais
do papado numa província. As «castelanias» (castellanie) tiveram, nos
séculos XIII e XIV, uma grande importância. No decurso do século XV, todo o
sistema entra em crise e os castelos tornam-se unidade de natureza militar e
não centros de administração do território. Entra também em crise o sistema
de aluguer dos castelos livres, privados de titulares. Por isso, as rendas das
castelanias ocupam uma posição muito modesta nas contas dos tesoureiros
provinciais.
As Constitutiones Aegidianae atribuem ao Parlamento provincial uma
importância notável e consideram-no parte integrante do governo provincial.
Durante o século XV, a instituição entra em crise porque perde a sua mais
importante função, a de impor a tallia militum. De facto, este imposto torna-
se a tallia sive subsidium, uma taxa anual imposta pelo reitor a todos os
centros habitados.
O tesoureiro de uma província é o único responsável pela administração
das finanças. Todos os pagamentos são efetuados à sua disposição pelo seu
notário e o dinheiro em moeda fica sob a sua vigilância. À exceção das
poucas taxas indiretas entregues diretamente a Roma, recolhe todas as rendas
das províncias: as regalia beati Petri, as mais antigas taxas do papado, que
no século XV estão reduzidas a modestíssimas somas, que não foram
reavaliadas, continuando a ser as mesmas que estão presentes no Liber
Censuum do século XII; os proventos da justiça, em particular da penal; a
taxa da dogana pecudum, relativa à transumância, cobrada por um
doganerius para o Património e por um intermediário privado para Roma.
Roma apresenta um problema especial em relação aos aprovisionamentos
desde a época clássica. Quando Martinho V (1368-1431, papa desde 1417)
está prestes a regressar a Roma, em 1420, tenta sobretudo assegurar uma
reserva adequada de trigo para Roma na marca e no Património.
Relativamente à administração da justiça, a corte do reitor de uma
província goza da jurisdição civil e criminal do tipo mais completo: plena
potestas, plena iurisdictio, merum et mixtum imperium. É definida como
«ordinária» pelos canonistas, porque não é uma jurisdição «delegada» para
ouvir casos particulares. O tribunal do reitor raramente trata as causas em
primeira instância. Ocupa-se predominantemente da jurisdição de recurso,
porque, no decurso do século, as comunas estão privadas do segundo grau de
julgamento. Só Bolonha e Perugia conseguem conservar este privilégio. Que
direito é observado no Estado pontifício do século XV? Albornoz estabeleceu
nas suas constituições esta prioridade entre os vários direitos concorrentes
presentes nas províncias pontifícias: em primeiro lugar, as constituições
pontifícias; em segundo, as suas constituições, e as de Bernardo, bispo de
Embrun; depois, o antigo direito consuetudinário da província e, em
particular, os estatutos e as regras consuetudinárias citadinas; finalmente, o
direito canónico e o civil. Na prática, as coisas são diferentes. Em Roma,
por exemplo, o direito civil prevalece sobre o direito canónico até que Leão
X (1475-1521, papa desde 1513) estabelece a extensão das constituições
egidianas também a Roma.

O exército pontifício
Excetuando as mobilizações locais que são feitas em períodos de
emergência pelo reitor ou pelo tesoureiro provincial, todas as principais
forças armadas do Estado pontifício são constituídas por mercenários
italianos recrutados, pagos e controlados pela Câmara Apostólica. No início
do século XV, os mercenários estrangeiros deixam de ser empregados. Os
mercenários são recrutados com acordos (firme), subscritos na Câmara
Apostólica pelos notários do tesoureiro que os vinculam por um período
entre os seis e os oito meses. Os salários são mensais, mas, no ato da firma,
é entregue a prestancia, isto é, uma antecipação considerável em floreni auri
de camera.
A unidade de base do exército é a lança (lancea), constituída por um
«caporale» a cavalo, com armadura pesada, com o seu homem de armas ao
serviço (saccomanus familiaris) e por um serviço (ragazonus), que monta
um rocinante (ronzinus) em vez de um cavalo de guerra. As dimensões dos
bandos mercenários variam em relação com a pequena escala da guerra
daqueles anos, em que um exército de dois ou três mil homens é considerado
bastante grande. Passa-se de um pequeno bando de 50 soldados de infantaria
e 20 lanceiros para um de cerca de 1500 homens (400 lanceiros e 200
soldados), recrutados às ordens do capitão mercenário Jacopo Caldora
(1369-1439).
O número de mercenários recrutados pela Câmara Apostólica está em
relação com a situação política, embora um certo número de mercenários
seja constantemente mantido nas províncias.
Concluindo: também em relação ao seu exército, o Estado da Igreja,
mesmo não se diferenciando dos outros Estados europeus da Baixa Idade
Média, oferece o exemplo de uma organização altamente eficiente que, em
muitos aspetos, é um modelo da génese da formação do Estado moderno.

V. também: O papa e as hierarquias eclesiásticas, p. 174; A Roma de Sisto IV, p. 653.


O REINO DE FRANÇA
de Fausto Cozzetto

Em França, o século XV perspetiva-se como o da afirmação da


identidade de um povo que força a dinastia a superar as suas
angústias e as suas fraquezas resolvendo a guerra centenária com os
ingleses, definitivamente expulsos da maior parte do reino. Se o
emblema da nova França popular é Joana d’Arc, a resposta da
monarquia, primeiro com Carlos VII, depois com Luís XI, não é
menos vigorosa. É levada a cabo, ainda que com a decisiva ajuda
militar dos suíços, a dissolução da Borgonha de Carlos, o Temerário,
que ameaçava a sua fronteira oriental, e com Carlos VIII prepara-se
a empresa italiana.

Armagnac e Borgonha
A morte de Carlos V (1338-1380), em 1380, e a menoridade do filho, o
futuro Carlos VI (1368-1422), que, logo que sobe ao trono, é gravemente
atingido por perturbações psíquicas que o impedem de governar, ameaçam a
autoridade da monarquia francesa, porque o poder cai nas mãos dos
príncipes de sangue real, que são grandes senhores feudais.
Entre os novos senhores de França, as duas personalidades de maior
relevo político são o duque de Anjou, Luís I (1339-1384), e o duque da
Borgonha, Filipe, o Audaz (1342-1404). Os 30 anos seguintes são dominados
pela oposição entre os dois partidos, o de Anjou, também denominado de
Armagnac, e o borgonhês, que no início do século XV explode numa guerra
civil. Aproveitando a crise e a fraqueza em que se encontra a potência
francesa, o soberano inglês, em 1415, retoma o conflito com a França,
avança no nordeste do território francês. A reconquista francesa começa
quando, em 1420, a monarquia só dispõe dos territórios a sul do Loire e é
acompanhada pelas reações das camadas populares e burguesas à ocupação
britânica.
Em seguida, do coração dos campos franceses, entre Champagne e Lorena,
emerge, em 1428-1429, a figura de Joana d’Arc (c. 1412-1431). A «donzela»
inspira e guia as suas milícias, formadas em grande parte por camponeses,
em socorro de Orleães, cercada pelos ingleses. Na presença do rei Carlos
VII (1403-1461), consegue persuadi-lo a dirigir-se com ela a Reims, onde o
soberano é coroado e recebe a sagrada unção. Os destinos da guerra viram
nesse momento a favor dos franceses, mesmo depois de Joana ter sido
capturada pelos borgonheses e condenada à fogueira pelos ingleses, aos
quais é entregue. O episódio de Joana identifica o novo sentimento popular,
exprime a união de intentos que se realiza no país e revela o surgimento do
espírito nacional. Esta consciência desencadeia nos franceses uma grande
força de desforra em relação aos ingleses, de que o soberano se torna o
intérprete. Em 1433, consegue romper a aliança entre ingleses e borgonheses
com o tratado de Arras. Quatro anos depois, entra em Paris e, em 1453,
expulsa os ingleses do solo francês, com a exceção de Calais, que permanece
inglesa até 1559.

Depois da guerra com os ingleses


Nenhum tratado de paz põe termo à guerra, e o soberano inglês Henrique
VI (1421-1471) continua a intitular-se rei de França e de Inglaterra, embora
o casus belli permaneça no horizonte dos dois países. Enfrentaram-se dois
modelos de Estado, dois possíveis tipos de desenvolvimento civil com os
seus interesses e as suas orientações políticas. Um ponto importante do
conflito foi a ameaça que incidiu na Flandres, cujo controlo a França tem em
vista há muito tempo. Se as aspirações da reforçada potência francesa se
realizassem, tanto a importação das lãs inglesas na Flandres, como as
manufaturas flamengas poderiam ressentir-se, dados os interesses franceses
no sector, com graves consequências para os dois países. No entanto, nesse
momento, o desfecho do conflito anglo-francês implicou um resultado há
muito preparado, como a formação do domínio borgonhês nas fronteiras
francesas, a norte e a oriente. De facto, com a paz de Arras, a França
reconheceu a independência do Estado borgonhês-flamengo, que trava as
tentativas de expansão da potência francesa para oriente.
Por isso, o conflito com a Borgonha torna-se o novo objetivo da monarquia
de Valois, precisamente quando, em Itália, a França perdeu importantes
posições, dado que os aragoneses, com Afonso, o Magnânimo (1393-1458),
não só dominam a Sicília como conquistaram também o reino de Nápoles,
reunindo uma constelação de Estados – que constituem o conjunto aragonês
–, que tem a hegemonia no Mediterrâneo centro-ocidental, excluindo os
franceses da área mediterrânica. Além disso, o ducado de Saboia, que se
move na órbita imperial, reforçou-se e constitui um inimigo do limítrofe
ducado de Milão, aliado dos franceses.
Carlos VII reorganiza desde os alicerces as instituições do Estado francês,
que é dotado de um exército permanente, graças às companhias de
ordenança, a partir de 1445. Reúne os ingentes recursos económicos
necessários à realização desta reforma através da formação de um sistema
racional de cobrança fiscal baseado não só em impostos e gabelas mas
também na taille, que determina o nascimento da obrigação pessoal de
contribuição fiscal relativamente ao Estado. Em relação à Igreja, o soberano
retoma a política de intromissão nos assuntos eclesiásticos já exercida por
Filipe IV, criando a Igreja galicana, que é reconhecida pela Pragmática
Sanção de Burges, em 1438. São postos em evidência os abusos do papado e
é afirmada a doutrina conciliar, que sublinha a superioridade do concílio
sobre o papa e a possibilidade de os bispos e os abades serem livremente
eleitos pelos capítulos diocesanos e pelos mosteiros, respetivamente. Por
outro lado, é abolida a obrigação de enviar para Roma contribuições
financeiras relativas às nomeações eclesiásticas; é também aprovada a
limitação dos efeitos das excomunhões e das interdições lançadas pela Igreja
de Roma. O documento de Burges é contestado pelo papado e tornado objeto
de repetidas intromissões pelos representantes pontifícios junto da corte
francesa, como no caso de Francisco de Paula (1416-1507). Trata-se de uma
recuperação da política de intervenção do Estado francês nos assuntos da
Igreja, mas, após o concílio de Constança (1414-1418), o papado, também a
pedido do imperador, é levado para Roma, despojando a Igreja francesa da
influência que pode exercer sobre o sólio pontifício.

A guerra contra os senhores feudais e a Borgonha


Em 1461, o novo soberano, Luís XI (1423-1483), retoma a política de
centralização do poder nas mãos do soberano e, com a guerra da Liga do
Bem Público, derrota a coligação dos grandes senhores feudais franceses
que se lhe opõem. O rei apoia-se sempre mais na burguesia urbana,
aumentando os seus privilégios e ampliando, à custa dos grandes senhores
feudais de França, o seu domínio direto sobre o território metropolitano,
anexando as regiões de Anjou, Maine e Provença. Ele convence-se de que a
origem das dificuldades da França nesse momento reside na presença na
fronteira oriental da nova e poderosa realidade borgonhesa, que solicita, nos
anos 60, mais uma vez, as pretensões inglesas sobre o território francês. É
por esse motivo que Luís XI inicia as operações bélicas contra a Borgonha,
cujo soberano, Carlos, o Temerário (1433-1477), desenvolve um desígnio
político-expansionista que visa a conquista do vale do Reno, isolando a
monarquia francesa em relação ao império alemão. No conflito franco-
borgonhês também participam o império, as ligas dos cantões suíços e o
ducado de Saboia. Mas Luís XI consegue impedir que os borgonheses
retomem a aliança com a Inglaterra. Na batalha de Nancy de 1477, os suíços
matam Carlos, o Temerário. Com ele, desfaz-se o aparelho estatal do qual
esteve à frente, dado que a França obtém, com o tratado de Arras de 1482, o
ducado da Borgonha e a Picardia; o resto dos territórios, isto é, toda a
Flandres, passa para os Habsburgo, como consequência do casamento da
filha de o Temerário, Maria de Borgonha (1457-1482), com Maximiliano de
Habsburgo (1459-1519), futuro imperador.

Legistas e direito comum


No final do século XIV, a vida civil europeia fez emergir uma realidade
formada por várias ordenações, que convivem e se sobrepõem, na base dos
direitos germânicos, locais e particulares, do direito romano, do direito
canónico e do direito feudal. Neste panorama pluralista, em que se insere
também a França, é relançado o direito romano, que se afirma tanto no plano
do direito público e da soberania como no plano do direito privado e da
vida civil. Nasce então o ius comune, que se baseia na recomposição
romana, de base científica, de normas e princípios, institutos e negócios,
obrigações e direitos, processos e sanções, que dizem respeito a todo o
conjunto da vida civil. Não é determinado um verdadeiro sistema de
ordenações e nem sequer se trata do fruto de uma atividade legislativa. As
«glosas» e os «comentários» elaborados pelos maiores juristas adaptam-no
às exigências de uma sociedade e de uma vida que se diferencia das do
passado. A pluralidade dos outros direitos continua a sobreviver, em
particular na França Setentrional.
Entre 1430 e 1480, Carlos VII e sobretudo Luís XI secundam a elaboração
do direito comum, fruto da atividade dos legistas, para afirmar o carácter
absoluto e de origem divina da monarquia francesa. O primeiro soberano
recolhe todas as regras consuetudinárias do reino, o segundo opera
precisamente uma codificação única, mas a sua atuação não consegue
estender-se a todo o reino e a França mantém-se dividida entre a zona do
direito romano, a sul, e a zona do direito consuetudinário, a norte. Outro
elemento, que intervém para caracterizar todo o país, é a instituição do
Parlamento, que nasce em Paris em meados do século XIV, quando, graças a
um decreto real se torna permanente um organismo constituído por juristas,
que se especializa, mediante nomeação real, em questões judiciais que dizem
respeito às relações entre o soberano e as jurisdições feudais e eclesiásticas.
Em meados do século XV, estes organismos são estendidos a todas as grandes
províncias do reino (a Toulouse, a Grenoble, a Bordéus, a Dijon), mas todos
os parlamentos provinciais são submetidos ao de Paris.
Mais tarde, Luís XI reconhece ao Parlamento o direito de apresentar
queixas ao rei. Assim, o Parlamento é um organismo judicial e
administrativo que tem como tarefa essencial regular e resolver os
diferendos entre as diversas jurisdições e registar os atos e os decretos do
rei, apresentando queixas quando, segundo a opinião do próprio Parlamento,
estes atos parecem não estar em consonância com a tradição jurídica do
reino.
Do ponto de vista judicial, o Parlamento é um órgão de primeira instância
para as causas que dizem respeito ao soberano e à feudalidade, e de segunda
instância para as causas julgadas em primeira instância pelos juízes dos
bailiados. Quanto aos Estados Gerais, tiveram um percurso político
diferente, no decurso do século. Com Carlos VII, são convocados todos os
anos e constituem uma manifestação de vontade de colaboração entre o
soberano e as grandes forças sociais do reino. Na época de Luís XI, durante
os 20 anos do seu reinado, a convocação dos Estados Gerais torna-se
irregular, depois, com Carlos VIII (1470-1498), cessa totalmente.

V. também: O fim da Guerra dos Cem Anos, p. 40; A ascensão da Borgonha, p. 70;
O ducado da Bretanha, p. 74; A guerra: entre tradição e inovação, p. 233;
O estilo da França cortês, p. 541.
A ASCENSÃO DA BORGONHA
de Rossana Sicilia

Ao longo do século XV, o ducado da Borgonha torna-se uma das


realidades estatais mais ricas e importantes entre os países de nova
formação da Europa tardo-medieval. Depois da paz de Arras de 1435,
o duque obtém de França o reconhecimento do seu papel autónomo e
importantes regiões nas fronteiras orientais de França. Como
resultado de uma afortunada e brilhante ação político-militar, nas
décadas seguintes, é reconstituído o que tinha sido o reino da
Lotaríngia. Mas, mais tarde, forma-se contra Borgonha uma união de
forças que derrota o duque Carlos, o Temerário (1477), e dissolve o
seu Estado, a favor de França e dos domínios hereditários de
Maximiliano de Habsburgo.

Valois e Borgonha
A fase conclusiva e mais importante do ponto de vista europeu da ascensão
do ducado da Borgonha começa em 1363 com a investidura de Filipe, o
Audaz (1342-1404), quarto filho do rei de França João II de Valois (1319-
1364), como duque da Borgonha. O soberano põe condições, entre as quais a
do respeito da lei sálica na sucessão ao trono, prevendo que na ausência de
herdeiros masculinos o ducado regresse à coroa francesa. Em 1369, Filipe
casa-se com Margarida da Flandres (1350-1405), que lhe traz como dote,
além da Flandres, o Franco-Condado (mais conhecido como condado de
Borgonha), a região de Artois, os condados de Nevers e de Rethel. Do ponto
de vista geográfico, a nova estrutura estatal estende-se do Jura até ao mar do
Norte; no entanto, juridicamente, as várias possessões mantêm a sua
fisionomia, encontrando-se dividida, no plano eclesiástico, nas três dioceses
de Lyon, Sens e Besançon. As partes mantêm, ao longo dos séculos, a sua
distinta jurisdição administrativa. No entanto, os Valois realizam um esforço
de harmonização das diversas regiões, instituindo os Estados provinciais,
organismos de representação política dos grupos sociais presentes nas
diversas partes do ducado, que se reúnem periodicamente no século XV.
Filipe, o Audaz, como membro da família real francesa, retoma um papel
no seu país de origem por morte de Carlos V (1338-1380), devido à
menoridade de Carlos VI (1368-1422). A sua regência, por conta de Carlos,
coincide com uma ação repressiva do exército francês no condado da
Flandres contra uma agitação popular favorável à presença inglesa. Quando
Carlos VI assume, embora pelo breve período permitido pelas suas
condições mentais, o governo de França, o duque da Borgonha e Flandres
vê-se inevitavelmente obrigado a retomar uma política atenta aos interesses
dos seus Estados. Isto significa uma mais ampla atenção de Filipe à
componente alemã do seu Estado, representada pela burguesia das cidades
flamengas, interessadas em relações estreitas com a Inglaterra por causa do
rico comércio de lã ludra proveniente de Inglaterra, trabalhada pelos
artesãos e comercializada pelos mercadores flamengos.

O partido borgonhês
João Sem Medo (1371-1419), filho de Filipe, o Audaz, é o segundo dos
duques da Borgonha. A partir de 1404, devido à incapacidade de Carlos VI
governar, o duque é envolvido na complexa vida política francesa. O
recontro com os rivais de Orleães agudiza-se muito novamente, bem como a
divisão de França entre os apoiantes de Armagnac e da Borgonha. No
culminar da disputa, João Sem Medo manda assassinar o chefe do partido
adversário, Luís de Orleães (1372-1407), e em seguida apodera-se de Paris
com o apoio do exército borgonhês (1413). No entanto, é obrigado a
abandonar a capital francesa devido à hostilidade do partido popular. Cinco
anos mais tarde, em 1418, volta a apoderar-se da capital francesa e coadjuva
no governo a rainha Isabel da Baviera (1371-1435), mulher do soberano
Carlos VI, incapaz de cumprir o seu papel devido à sua notória loucura. O
duque da Borgonha desembaraça-se com uma política que oscila entre o
acordo com o delfim Carlos e o acordo com os ingleses que, a partir de
1415, iniciam uma nova fase da Guerra dos Cem Anos. Em 1419, esta
política é interrompida pelo assassínio de João, por obra dos rivais de
Armagnac.
O novo duque da Borgonha, Filipe III, o Bom (1396-1467), para vingar a
morte do pai, muda o delicado equilíbrio da política do seu predecessor e
alia-se com a Inglaterra, que, entretanto, se tornara senhora da região
setentrional de França. O jovem duque consegue convencer a própria rainha
de França a negociar com o soberano de Inglaterra Henrique V (1387-1422)
o tratado de Troyes (1420). Em seguida, o duque e a rainha convencem o já
inconsciente soberano de França a aderir ao tratado, deserdando o filho, o
delfim Carlos, e reconhecendo o príncipe herdeiro de Inglaterra como
regente de França e presumível herdeiro por morte de Carlos VI. Se o
projeto se tivesse realizado teria nascido uma grande potência franco-
inglesa. Por isso, o duque da Borgonha, João de Luxemburgo (1392-1441),
consegue capturar Joana d’Arc e entregá-la aos ingleses, seus aliados, em
1430. Rapidamente a política de Filipe III sofre uma profunda transformação,
porque se apercebe da perigosidade, para a Borgonha, da formação de uma
grande potência franco-inglesa que se transformaria numa ameaça
permanente nas fronteiras da Borgonha.

A paz de Arras
A conveniência política recíproca leva os dois rivais, Carlos VII e Filipe
III, a iniciarem negociações diplomáticas, concluídas a 21 de setembro de
1435, com a paz de Arras. O duque da Borgonha obtém a reparação pelo
assassínio do pai, sendo-lhe cedidos os condados de Mâcon e de Auxerre, as
cidades do vale do rio Somme, as regiões de Ponthieu e Bolonha-sobre-o-
Mar. Sobretudo, o tratado reconhece a Filipe, durante a sua vida natural, a
dispensa de qualquer homenagem de vassalagem à coroa francesa pelo
condado da Flandres. A guerra do duque Filipe III continua agora contra os
ingleses enquanto aliado de França. Os ingleses atacam as costas
setentrionais da Flandres, mas o duque resiste, conseguindo levar por diante
uma política de conquistas territoriais e de anexações. Em particular, unifica
os diversos feudos que constituem a Bélgica na coroa ducal; adquire o
condado de Namur; recebe a herança do ducado de Brabante-Limburgo;
confisca a Jacqueline da Baviera (1401-1436), que é aliada da Inglaterra,
quatro dos condados que constituirão os Países Baixos setentrionais
(Hainaut, Zelândia, Holanda e Frísia); anexa o ducado de Luxemburgo e
estabelece um protetorado sobre Liège. No final dos anos 50, o duque é
senhor da Borgonha, do Franco-Condado, da Flandres, da região de Artois e
das províncias belgas: de facto, renasce o antigo reino da Lotaríngia, herança
de Carlos Magno.
O domínio borgonhês só aparentemente representa uma simples reunião de
províncias e de populações sob um mesmo soberano; pelo menos, o núcleo
belga-holandês-luxemburguês apresenta homogeneidade civil e cultural e
uma solidariedade de interesses. É precisamente a partir deste núcleo que o
duque Filipe III realiza o esforço de dar coesão ao Estado borgonhês e,
mesmo respeitando as diversas realidades provinciais, convoca os Estados
Gerais com representantes de todos os países que constituem o seu Estado
(1463). Entretanto, a fim de garantir a unidade do governo, é instituído o
Grande Conselho.

Carlos, o Temerário
Não obstante a autonomia política de que goza o ducado no contexto dos
Estados europeus, o duque da Borgonha não deixa de interessar-se pelos
acontecimentos internos do reino de França, de tal modo que nos primeiros
anos do reinado de Luís XI (1423-1483), o novo duque da Borgonha, Carlos,
o Temerário (1433-1477), participa numa liga de príncipes com o objetivo
de destruir a organização monárquica e a estrutura burocrático-territorial,
regressando à estrutura feudal da época capetiana. Luís XI enfrenta a ameaça
não com a força, mas com a habilidade diplomática, cedendo privilégios e
territórios às personalidades de menor vigor político que entraram na Liga
do Bem Público e alcança o objetivo de colocar a sua organização em crise.
A liga é dissolvida. Depois, a ação monárquica francesa retoma a política de
confiscação e ocupação militar, dirigindo-se isoladamente a cada um dos
membros da liga. O mesmo acontece, naturalmente, com Carlos, o
Temerário, e a guerra entre França e Borgonha torna-se inevitável.
Graças ao acordo entre Luís XI e os suíços, por um lado, e entre França e
Inglaterra, por outro, o duque da Borgonha fica isolado no plano das relações
de força europeias, apesar de ser apoiado pelo imperador. É atacado
simultaneamente pela melhor cavalaria europeia, a francesa, e pela melhor
infantaria, a suíça, sofrendo as derrotas de Grandson (1476) e de Morat
(1477). O duque morre em combate contra os suíços quando tenta apoderar-
se da cidade de Nancy (1477). O rei Luís aproveita-se da crise política nas
cúpulas do ducado para o ocupar juntamente com o condado da Borgonha.
Também é sua intenção a ocupação da Flandres, mas além das resistências
dos outros Estados europeus, o soberano francês apercebe-se da deficiência,
por parte dos Valois, de títulos de legitimidade à sucessão da região
flamenga. Dado que o duque deixou como única herdeira a filha Maria
(1457-1482), segundo os princípios da lei sálica e do tratado de Arras, o
ducado da Borgonha regressa a França, enquanto todos os outros Estados,
que constituíram o domínio de o Temerário, são trazidos como herança por
Maria a Maximiliano de Habsburgo (1459-1519), seu marido, mais tarde
imperador do Sacro Império Romano.

V. também: O Reino de França, p. 66; A guerra: entre tradição e inovação, p. 233.


O DUCADO DA BRETANHA
de Rossana Sicilia

Independente da coroa francesa desde o século XIII, o ducado da


Bretanha atinge o seu máximo esplendor no século XV, sob a direção
de João V de Monfort, cuja dinastia se extingue, com Artur III, em
1458, deixando o ducado a Francisco II de Étampes. Falhada a
tentativa deste último de redimensionar a poder dos reis de França a
favor das grandes dinastias feudais, a Bretanha perde de facto a sua
independência com o casamento entre a duquesa Ana e Carlos VIII.

O ducado capetiano
Uma fase nova na história do ducado da Bretanha tem início cerca de
1223, quando Pedro Mauclerc (c. 1190-1250), na qualidade de membro da
família real capetiana, é nomeado duque da Bretanha. Não obstante a ligação
familiar, o ducado torna-se independente em relação ao reino francês: dota-
se de um aparelho legislativo, de instituições próprias, treina um exército e
não tem de prestar homenagem feudal ao soberano francês. Pedro e os seus
quatro sucessores, todos pertencentes à mesma dinastia, adotam uma
estratégia política comum e uniforme, com algumas linhas diretivas: em
primeiro lugar tendem a eliminar todos os obstáculos que impeçam a plena
manifestação e realização do poder soberano dos duques, perseguindo os
senhores feudais que mostram hostilidade e vontade de resistência; também
hostilizam o alto clero, tanto secular como regular, que pretende manter
inalteradas as suas prerrogativas; finalmente, no plano da política externa,
optam conscientemente por um comportamento ambíguo, muitas vezes
estabelecendo alianças alternadas com os dois grandes protagonistas da
política da Europa Setentrional, França e Inglaterra, consoante o momento
que propicia ora uma ora outra.
O último dos duques, João III, o Bom (1286-1341), é obrigado a ceder às
pretensões do soberano francês, que, além de retirar ao ducado o direito de
cunhar moeda, o obriga a empreender concertadamente uma ação em
detrimento da Flandres.
Em 1341, a morte deste último marca a passagem para uma nova dinastia,
cujo primeiro representante é João IV de Monfort (c. 1294-1345), que
disputa no decurso da guerra, também denominada da Bretanha (1341-1364),
a atribuição definitiva do ducado com o seu contendor, Carlos de Blois
(1319-1364). Ao lado dos dois contendores enfileiram-se, com o primeiro, o
rei de Inglaterra e, com o segundo, a França, numa das mais ferozes e
sangrentas fases da Guerra dos Cem Anos, a tal ponto que durante a
realização das batalhas desaparecem os dois pretendentes ao título ducal,
substituídos pelas suas consortes. Este último episódio condiciona a marcha
do conflito, conhecido como Guerra das Duas Jovens.
Em 1365 o tratado de Guérande assegura o título ducal à dinastia Monfort.
O novo duque deve a atribuição do reino à ajuda militar inglesa e isso
determina a hostilidade da maioria dos seus súbditos, que propendem mais
para a monarquia francesa. Os maiores apoiantes desta última são as
camadas aristocráticas urbanas que encontraram emprego na corte francesa
ou assumiram cargos de prestígio no exército.
O duque, face à hostilidade dos seus súbditos, deixa num primeiro
momento o ducado para se refugiar em Inglaterra, enquanto o soberano
francês assume o controlo da Bretanha.
A reação da sociedade bretã permite que o duque regresse ao seu reino e
por sua morte sucede-lhe o filho João V (1389-1442), que, embora menor, é
retirado à tutela da mãe, dado que ela casou em segundas núpcias com o rei
de Inglaterra. Um sinal político ulterior e significativo de como a monarquia
francesa vigia a marcha política da vizinha Bretanha.

A época da autonomia
A época do duque João é a de maior esplendor da política bretã. Ele
prefere não se envolver no conflito em curso e quando, em 1415, os ingleses
derrotam em Azincourt as tropas francesas, ocupando grande parte de
França, o falhado socorro militar bretão a favor dos franceses repercute-se
negativamente no resultado da batalha. Os sucessores do duque João V
assumem uma nova atitude em relação ao conflito anglo-francês, dado que,
em meados do século XV, a França se libertou da presença obsessiva do
grande inimigo britânico. Os duques que se sucedem na direção da Bretanha,
entre 1442 e 1458 – Francisco I (1414-1450), Pedro II (1418-1457) e Artur
III (1393-1458) – assumem uma atitude política de coerente boa vizinhança
com a grande França de Carlos VII (1403-1461). O último dos duques, Artur
III, é nomeado precisamente condestável de França e, não obstante este facto,
não tenciona prestar homenagem feudal à monarquia francesa. Os seus
predecessores, Francisco I e Pedro II, contestaram aos bispos de Nantes,
Rennes e Saint-Malo as pretensões de exercer a sua jurisdição eclesiástica e
o direito de asilo em relação ao território bretão controlado pelos duques.
Por morte do último dos herdeiros da Casa de Monfort verifica-se uma
mudança dinástica: de facto, o ducado passa para as mãos dos mais próximos
dos consanguíneos, tanto por linha masculina como feminina, da já extinta
dinastia. Trata-se da Casa de Étampes, que herda todos os direitos da
dinastia precedente.
O fundador dos novos duques bretões é Francisco II (1435-1488), que
tenta reagir ao evidente reforço da monarquia francesa dirigida pelo rei Luís
XI (1423-1483), tornando-se promotor de uma Liga do Bem Público, que iria
permitir um redimensionamento do aparelho monárquico, a favor das
dinastias feudais das grandes províncias francesas, como a Bretanha, e da
grande feudalidade em geral. No entanto, a ação do soberano derrota estas
resistências e a sorte do novo duque da Bretanha é continuamente ameaçada
pelas iniciativas régias, aliás, naquela fase endereçadas aos diversos
objetivos da guerra contra Carlos, o Temerário (1433-1477). É retomada a
iniciativa hostil à Bretanha e ao seu duque, acusado de felonia, e o rei Carlos
VIII (1470-1498) derrota o duque Francisco em Saint-Aubin-du-Cormier
(1488) e obriga-o a submeter-se e a comprometer-se a não dar a sua filha e
herdeira Ana da Bretanha (1477-1514) em casamento enquanto o soberano
francês não tivesse expressado o seu consenso.

Ana da Bretanha
A partir de então, a independência da Bretanha é uma pura aparência e, por
morte do duque, a sucessão de Ana ocorre numa situação política
extremamente delicada. A duquesa comete a imprudência de escolher como
seu pretendente Maximiliano de Habsburgo (1459-1519), sem pedir o
consentimento a Carlos VIII, que naturalmente não o teria concedido. De
facto, o imperador de Habsburgo está empenhado numa política de
casamentos que tem como objetivo comprometer, a favor da dinastia
austríaca, a situação territorial da região da Borgonha.
O soberano francês entra na Bretanha e cerca a duquesa Ana, em Rennes,
obrigando-a a render-se e a assinar o contrato matrimonial que a coloca no
trono francês como mulher de Carlos VIII. Para a Bretanha, trata-se de um
ato gravíssimo, porque neste contrato não está prevista nenhuma salvaguarda
para a independência da antiga província. Uma nova situação parece abrir-se
por morte de Carlos VIII, dado que Ana, como viúva, retoma o título de
duquesa da Bretanha, mas a sua nova autonomia dura um breve lapso de
tempo, porque o sucessor de Carlos, Luís XII (1462-1515), não tem nenhuma
intenção de perder o controlo da importante província bretã e impõe a Ana
que se case com ele em segundas núpcias. Os vínculos que ligam a Bretanha
a França são sancionados uma terceira vez pelo casamento entre Cláudia
(1499-1524), filha e herdeira de Ana, e o futuro soberano de França,
Francisco I (1494-1547). Em 1532, os Estados Gerais da Bretanha
proclamam a anexação à França.

V. também: O reino de França, p. 66.


O REINO DA INGLATERRA
de Renata Pilati

Cinquenta anos da Guerra dos Cem Anos e 30 anos da Guerra das


Duas Rosas submetem a dura prova a monarquia e a sociedade no
século XV. A antiga nobreza sai depauperada em homens e recursos, a
monarquia revigorada com a dinastia Tudor, que reorganiza o Estado
apoiando-se na pequena nobreza, a gentry, e na burguesia comercial.

Dos Plantageneta aos Lencastre


No dia 30 de setembro de 1399, o Parlamento, que obrigou Ricardo II
(1367-1400) a abdicar, proclama rei um neto de Eduardo III (1312-1377),
Roger Mortieur, que sobe ao trono com o nome de Henrique IV (1367-1413),
primeiro rei da Casa de Lencastre. O seu pai João de Gante (1340-1399),
duque de Richmond, tomou o título ducal do sogro Henrique de Lencastre (c.
1370-1437), Henrique IV casa-se com a duquesa da Bretanha, Joana de
Navarra (c. 1370-1437), que é viúva com um filho, esperando uma eventual
anexação: mas o duque da Borgonha assume a regência pelo pequeno duque.
Combate contra a Escócia sem sucesso; enfrenta a rebelião do conde de
Northumberland (1341-1408) e do seu filho Hotspur (c. 1364-1403), que se
aliaram contra o rebelde galês Owain Glyndŵr (c. 1354-c. 1416). Derrota os
opositores, que manda matar, enquanto Glyndŵr abandona a causa. Com
necessidade crescente de dinheiro, hostiliza o Parlamento: a Câmara Baixa
retira-lhe a nomeação e a vigilância dos funcionários e a plena
disponibilidade dos bens da coroa. Em 1407, os lordes obtêm a faculdade de
aprovar ou recusar as decisões da Câmara dos Comuns, a cujo presidente
cabe a declaração final das subvenções. Henrique IV retoma a guerra contra
França aliando-se, após um período de incerteza, com Armagnac. O
Parlamento controla as despesas militares com «tesoureiros de guerra».
Thomas, duque de Clarence (1388-1421), filho do soberano, desembarca
com 12 mil cavaleiros e archeiros na Normandia e devasta o território.
Armagnac, com o pagamento de 200 mil coroas, obtém em 1412 a partida
dos ingleses (tratado de Buzançais). Com a morte de Henrique IV (20 de
março de 1413), termina a aliança entre os ingleses e Armagnac.
Henrique V de Lencastre (1387-1422), filho de Henrique IV, retoma a
guerra contra França e obtém a vitória decisiva de Azincourt (25 de outubro
de 1415), que permite anexar grande parte da França Setentrional. Com o
tratado de Troyes (1420), Carlos VI nomeia-o herdeiro e sucessor e
concede-lhe como mulher a filha Catarina (1401-1437). O casamento é
celebrado em Troyes a 2 de junho. Henrique V estabelece-se em Paris no
palácio do Louvre. Com ele são realizados os projetos do bisavô Eduardo III
de cingir as duas coroas. Mas o sucesso é breve, porque morre em 1422.
A queda da monarquia chega com Henrique VI de Lencastre (1421-1471),
filho de Henrique V e de Catarina de Valois, proclamado rei de França e rei
de Inglaterra com a idade de um ano. A regência é assumida em França por
João, duque de Bedford (1389-1435), e em Inglaterra pelo irmão Humphrey,
duque de Gloucester (1390-1447). O chanceler William de la Pole (1396-
1450), conde e depois duque de Suffolk, chefe do partido pacifista, organiza
em 1444, contra o parecer dos irmãos do rei, o casamento de Henrique VI
com Margarida de Anjou (1430-1482), sobrinha de Carlos VII (1403-1461):
o casamento, realizado no ano seguinte, iria converter em paz a trégua com a
França, mas, terminado o prazo, a guerra recomeça. A fraqueza política do
soberano é agravada pela sua loucura. O chanceler Suffolk, amante da rainha,
é acusado em 1450 pelo Parlamento de alta traição pela promessa de
restituir a França as possessões inglesas de Anjou e de Maine. Segundo o
processo de incriminação (impeachment), a decisão cabe ao soberano que,
contra a manobra dos parlamentares, comuta a pena capital em exílio em
França por cinco anos. Os opositores mandam assassinar Suffolk antes do
embarque (2 de maio de 1450). A rainha apoia-se no conde de Somerset
(1406-1455) contra as pressões de Humphrey duque de Gloucester, chefe do
partido popular. Em Gloucester, sucede na direção dos populares Ricardo,
duque de York (1411-1460), que impõe a Henrique VI o seu protetorado
(1453). A 13 de outubro de 1453 nasce o príncipe Eduardo (1453-1471). A
experiência do protetorado esgota-se dois anos mais tarde com o
restabelecimento de Henrique VI. Ricardo de York, desiludido por não ter
sido chamado a participar no conselho do rei, apodera-se do poder pelas
armas vencendo a batalha de St. Albans.
Grande poder dos ministros, luta pelo poder e corrupção do Parlamento,
final desastroso em 1453 da longa e desgastante Guerra dos Cem Anos com a
França, graves tensões e conflitos no interior do país pelo controlo da
monarquia e loucura do soberano representam a marca do reinado de
Henrique VI. Duas famílias relacionadas com a monarquia graças à política
matrimonial de Eduardo III (1312-1377), York e Lencastre, entram em luta
entre elas pelo poder. É a guerra civil.

A Guerra das Duas Rosas (1455-1485)


A Guerra das Duas Rosas, dos símbolos heráldicos arvorados pelas duas
famílias – a rosa branca de York e a rosa vermelha de Lencastre –, arrasta-se
durante 30 anos com massacres, saques, destruições, confiscações, que
contribuem para a destruição de numerosas casas nobres. Uma segunda crise
de loucura impede o rei Henrique VI de governar. Recorre-se novamente ao
protetorado (1455-1456) de Ricardo de York. A rainha deixa Londres, mas
regressa alguns meses depois. A reconciliação é provisória porque, em
1559, rebenta novamente a guerra civil entre York e Lencastre. Eduardo
(1442-1483), filho do duque Ricardo de York – nascido em Ruão em 1442 –,
foge em outubro de 1459 com o seu primo Ricardo Neville (1428-1471),
conde de Warwick, para Calais; regressa a Inglaterra em junho de 1460 para
apoiar os partidários da sua casa. Participa a 10 de julho na batalha de
Northampton, na qual o seu pai Ricardo de York faz prisioneiro o rei
Henrique VI, enquanto a rainha Margarida se refugia, primeiro, em Gales e,
depois, na Escócia. No recontro de Wakefield, a 30 de dezembro, Ricardo de
York é morto. Eduardo, novo chefe de York, derrota Jasper Tudor (1431-
1495), conde de Pembroke, em fevereiro de 1461 em Mortimer’s Cross.
O exército da rainha vence a segunda batalha de St. Albans, permitindo-lhe
regressar por breve tempo a Londres. Henrique VI mostra-se fraco
consentindo que Eduardo seja coroado rei a 4 de março de 1461 em Londres.
Eduardo IV de York promulga leis sumptuárias em 1463 para ter o apoio
da aristocracia contra a burguesia mercantil. Combate contra o soberano
legítimo e a rainha Margarida de Anjou; derrota Henrique VI, que manda
prender na Torre de Londres (1464). Mas é abandonado pelos seus e pelo
poderoso Ricardo Neville, conde de Warwick, o «Kingmaker». Em 1468,
com o «estatuto dos librés», concede aos aristocratas a possibilidade de
terem os seus próprios dependentes armados para ter a sua ajuda. Tenta
reconstituir a aliança com o duque da Borgonha, organizando o casamento
entre Carlos, o Temerário (1433-1477), herdeiro de Filipe, o Bom (1396-
1467), e a sua irmã Margarida (1446-1503). Warwick projeta e conclui o
casamento entre a sua filha Isabel (1451-1470) e Jorge, duque de Clarence
(1449-1478) desde 1461, irmão de Eduardo, para o contrapor ao irmão
como rei, com o beneplácito de Luís XI (1423-1483). O rei Eduardo manda
para o exílio em abril de 1470 Jorge e Warwick, que dispõe de uma frota de
dez navios. Aliando-se com a rainha Margarida de Anjou contra o usurpador,
regressam a Inglaterra em setembro do mesmo ano e obrigam Eduardo a fugir
para a Borgonha: após seis anos de cárcere, Henrique VI reinstala-se no
trono (1470). Eduardo IV refugia-se com o irmão Ricardo, o futuro Ricardo
III (1452-1485) dito o Corcunda, na Holanda, onde prepara uma expedição
contra Henrique VI. Em 1471 regressa a Inglaterra, derrota Jorge e mata
Warwick em Carnet; na batalha de Tewkesbury, captura a rainha Margarida
de Anjou e o seu filho Eduardo, que manda degolar. O irmão Ricardo de
York derrota em Northampton Henrique VI, que é assassinado (1471). Com a
derrota de Lencastre, Eduardo IV de York retoma o poder, mas encontra um
temível adversário no irmão Jorge, duque de Clarence, lugar-tenente da
Irlanda desde 1462, casado desde 1468 com a filha do falecido lorde
Warwick. Em 1478, a luta pelo poder e pelo controlo da herança de Neville
opõe os irmãos da Casa de York: Eduardo, Jorge e Ricardo, que casou com
Ana Neville (1456-1485), filha mais nova de Warwick, e que reivindica a
herança contra as pretensões de Jorge. O duque de Clarence organiza uma
conjura contra Eduardo, mas é morto por decisão dos dois irmãos. Nestes
anos de guerra civil, John Fortescue (c. 1385-c. 1479) compõe por volta de
1470 De Laudibus Legum Angliae – em que exalta o direito inglês em
polémica com o francês: a common law salvaguarda a propriedade terrena,
que é a base do prestígio e do poder das camadas dominantes – e a
Governance of England, em que exalta uma monarquia temperada pelo
Parlamento e pela common law. O jurista projeta a reconstrução das relações
jurídicas, políticas e sociais.
Eduardo IV tenta recuperar os territórios perdidos em França, mas é
derrotado pelo rei Luís XI, que lhe impõe o tratado de Picquigny em 1475.
Morre em 1483, deixando dois filhos menores, Eduardo e Ricardo. Sucede-
lhe o filho de 13 anos Eduardo V (1470-1483), nascido em Westminster, em
1470, de Isabel Woodwille (c.1437-1492), que é proclamado rei a 9 de
abril, sob a tutela do tio Ricardo, duque de Gloucester. Vinte dias depois,
Ricardo manda-o encerrar na Torre de Londres com o irmão Ricardo, duque
de York (1473-1483). Manda prender também os tios maternos, os lordes
Rivers e Grey. Proclama-se lorde protetor e para controlar o conselho manda
matar lorde Hastings, que se opõe aos seus planos. Mortos os dois rebentos
reais, é proclamado rei por um Parlamento submetido, a 25 de junho de
1483. Ricardo III, o Corcunda, encontra um forte rival em Henrique Tudor.
Em 1485, abandonado pelo seu exército, enfrenta voluntariamente a morte na
batalha de Bosworth, onde é derrotado por Henrique Tudor, que é aclamado
rei.

A reorganização político-administrativa
Henrique VII Tudor (1457-1509) filho de Margarida de Beaufort (1443-
1509), herdeiro da Casa de Lencastre, e de Edmundo Tudor (1431-1456),
conde de Richmond, meio irmão de Henrique VI por parte da mãe, a rainha
Catarina de Valois, casa-se, em 1486, em sinal de pacificação, com Isabel de
York (1466-1503), filha de Eduardo IV. Luta contra dois pretendentes ao
trono, Lambert Simnel (c. 1477-1525) e Perkin Warbeck (1474-1499). Em
1487 derrota as tropas irlandesas de Simnel em Stoke-upon-Trent; dez anos
depois manda enforcar Warbeck. O soberano empenha-se em enfraquecer
politicamente a antiga nobreza sobrevivente e em refazer a ordem e a paz.
Manda processar pela Câmara os revoltosos, que, reconhecidos culpados de
abusos e violências, são condenados à morte, enquanto os seus bens são
confiscados e devolvidos ao património régio.
Em 1484, obtém do Parlamento os impostos alfandegários e de consumo
durante todo o reinado, como acontecera em 1398, 1415, 1453 e 1465.
Governa com a ajuda do Conselho Régio, de que fazem parte homens que lhe
são fiéis, geralmente provenientes da burguesia, enquanto limita as
intervenções do Parlamento, reduzido a órgão consultivo e raramente
convocado, depois de ter limitado o seu controlo sobre os impostos. Recorre
também a formas de imposição financeira extraparlamentar, como os
empréstimos obrigatórios aprovados retroativamente pelo Parlamento.
Nomeia os juízes de paz para a administração local da justiça escolhendo-
os entre a pequena nobreza de província, a gentry; potencia a burocracia
como corpo do soberano; reordena as finanças; controla as corporações
limitando as suas autonomias; favorece o desenvolvimento económico e
comercial da pequena burguesia.
Conclui a paz de Étaples com a França e cimenta a aliança com a Escócia,
estabelecendo, em 1499, o casamento da sua filha Margarida (1489-1541)
com o rei Jaime IV Stuart (1473-1513). A monarquia sai reforçada da sua
ação.

V. também: O fim da Guerra dos Cem Anos, p. 40; O Reino de França, p. 66;
A Escócia, p. 81.
A ESCÓCIA
de Renata Pilati

A Escócia tem de lutar duramente no século XIV contra os ingleses


pela sua independência. Os Stuart, que se afirmam em 1371,
continuam a lutar no século XV contra os ingleses e contra os outros
clãs e numa lógica anti-inglesa estabelecem alianças com os
franceses e com a Igreja. A reorganização administrativa e judicial, o
desenvolvimento económico e cultural, graças também às três
universidades, contribuem para o reforço da monarquia.

A luta pela independência


O rei de Inglaterra Eduardo I (1239-1307), para controlar a Escócia,
coloca no trono em 1291 John Balliol (c. 1249-c. 1314), mas os escoceses
rebelam-se. Eduardo consegue anexar a Escócia à Inglaterra em 1303, mas,
em 1306, os escoceses escolhem como rei Robert Bruce (1274-1329),
tornando assim inevitável a guerra. Bruce dirige os revoltosos com o apoio
do clero, contrário à concessão dos benefícios aos ingleses, e os pregadores
escoceses comparam a luta contra os ingleses às cruzadas contra os
muçulmanos na Terra Santa. Bruce derrota os ingleses em Bannockburn em
1314. Com o tratado de Northampton de 1329, Eduardo III (1312-1377)
reconhece à Escócia a independência, mas depois da morte de Bruce tenta
retomar o seu controlo, favorecendo a ascensão ao trono de um outro Balliol,
Eduardo (c. 1282-1364), que mantém o poder de maneira instável e
descontínua de 1333 a 1356. Os escoceses opõem-lhes, entre 1333 e 1346,
David II Bruce (1324-1371), filho de Robert e da segunda mulher Isabel de
Burgh (c. 1289-1327). Eduardo Balliol é derrotado em Annan por Archibald
Douglas (?-1333), por sua vez derrotado e morto em Halidon (1333). David
II é feito prisioneiro pelos ingleses, em 1346, em Hill Neville’s Cross; é
libertado dez anos depois e com o tratado de Berwick reposto no trono, que
mantém de 1356 até à sua morte, em 1371. Sucede-lhe o sobrinho Robert II
(1316-1390): coroado em 1371, dá início à dinastia dos Stuart.
A afirmação dos Stuart entre lutas e conjuras
Robert II Stuart persegue uma política anti-inglesa e alia-se com a França.
Em 1378, enfileira-se a favor do papa de Avinhão Clemente VII (1342-1394,
antipapa desde 1378), eleito pelos cardeais franceses no conclave de Fondi
em oposição a Urbano VI (c. 1318-1389, papa desde 1378), reconhecido
pela Inglaterra. No decurso da Guerra dos Cem Anos, a Escócia apoia a
França contra a Inglaterra.
Por morte de Robert II, o poder passa para o filho John, conde de Fife, que
assume o nome de Robert III de Escócia (c. 1340-1406), mas confia o
comando ao irmão Robert, primeiro duque de Albany (c. 1340-1420). Em
1399, os opositores apoiam a candidatura de David Bruce, que é nomeado
governador do Reino dos Estados reunidos em Perth. O rei Robert III de Fife
desafia Bruce em campo aberto e derrota-o em Falkland, condenando-o a
morrer de inédia. O duque de Albany não renuncia ao poder e para não ter
concorrentes envia para França o sobrinho Jaime (1394-1437), filho de
Robert III e herdeiro ao trono. Jaime é capturado pelos piratas por vontade
de Henrique IV (1367-1413) e levado como prisioneiro para Londres: torna-
se rei durante o cativeiro, com 12 anos, primeiro, fechado na Torre de
Londres, depois, acolhido em Windsor por Henrique V (1387-1422).
A Escócia é governada pelo duque de Albany, tio de Jaime I, até 1420, ano
da sua morte, e depois pelo filho Murdoch (1362-1425) até 1424. São anos
de lutas entre os clãs. Reforçam-se os Douglas, que possuem importantes
territórios a sul, e os lordes das Highlands. Durante o pequeno cisma do
Ocidente, a Escócia apoia, como a França, o papa de Avinhão Bento XIII
(1329-1422, antipapa de 1394 a 1417). A França retira a sua fidelidade ao
pontífice em 1408, enquanto a fiel Escócia obtém, em 1414, a bula que
institui a Universidade de St. Andrews, a primeira, que permite aos jovens
estudarem no seu país sem se dirigirem a Paris, sede habitualmente preferida
em vez das inglesas de Oxford e de Cambridge. Quando o concílio se reúne
em Constança, os reitores da universidade aconselham o duque de Albany a
trocar Bento XIII por Martinho V (1368-1431, papa desde 1417).
Em 1424, Jaime I Stuart casa-se com Joana Beaufort (c. 1404-1445), filha
de John Beaufort, conde de Somerset (1373-1410) e neto de Henrique IV,
conhecida na corte de Windsor, e é libertado graças ao resgate de 40 mil
escudos e à promessa de paz perpétua. Regressado à Escócia, Jaime toma o
poder e manda executar, em 1425, o primo Murdoch. Repõe a ordem,
perseguindo os nobres litigiosos, reorganiza a administração judicial e cria
um tribunal para os processos civis. Reordena as finanças, mas o aumento
dos impostos suscita o descontentamento da população, que vive
miseravelmente – as casas são cabanas com tetos de ramos e portas de pele
de vaca, segundo a descrição de viagem feita por Enea Silvio Piccolomini,
futuro papa Pio II (1405-1464, papa desde 1458). Jaime I quer fazer do
Parlamento um instrumento de controlo da coroa e, para isso, obriga os
grandes proprietários a participarem nas sessões, mas encontra resistências
ao seu projeto. Falha também o seu propósito de submeter os senhores
feudais do Norte. O próprio clero está dividido em duas fileiras, no séquito
de Martinho V e de Eugénio IV (1383-1447, papa desde 1431), durante o
concílio de Basileia. Jaime I fornece ajuda a Carlos VII (1403-1461), rei de
França, empenhado em combater contra a Inglaterra na fase final da Guerra
dos Cem Anos, e cimenta a aliança com o acordo para o casamento dos
filhos respetivos, Margarida (1423-1444) e o delfim Luís, futuro Luís XI
(1423-1483). Margarida da Escócia transfere-se em 1435 para França, onde
o casamento é celebrado no ano seguinte.
Os opositores de Jaime I, dirigidos por Robert Graham, organizam uma
conjura para o assassinar e instalar no trono Walter Stuart (?-1437),
governador de Atholl. Os conjurados conseguem eliminar o rei, mas são
capturados e executados.
Assim, sobe ao trono um menino de sete anos, Jaime II (1430-1460), filho
do falecido soberano e de Joana Beaufort, e a regência é assumida por James
Kennedy (c.1408-1465), bispo de St. Andrews. A cidade de Edimburgo é
proclamada capital do reino. As lutas pelo controlo do poder envolvem as
poderosas famílias Crichton e Douglas-Livingstone. Archibald Douglas
(1372-1424), duque de Touraine, entra no conselho de regência e torna-se
lugar-tenente geral: confia o governo a Alexander Livingstone e a William
Crichton (fl. séc. XV). Por morte de Archibald Douglas, a rainha casa-se
com Jaime Stuart de Innermeath (c. 1383-1451) para se defender do enorme
poder dos dois regentes, mas pouco depois é sequestrada com o consorte no
castelo de Stirling. Os Douglas são derrotados, mas é precisamente um
Douglas que elimina William Crichton.
Jaime II toma o poder com 19 anos; casa-se com Maria de Egmond de
Gueldres (c. 1434-1463) e prossegue a política paterna antinobiliária
mandando decapitar muitos nobres rebeldes. Com o apoio francês liberta-se
de Alexander Livingstone, de William Douglas (1425-1452), em luta com o
chanceler Crichton, e de James Douglas (1426-1488), cujos bens manda
confiscar. Irá enfrentar uma nova rebelião nobiliária; passados três anos, os
Douglas, derrotados em Arkinholm, em 1455, fogem para Inglaterra. Nestes
anos de lutas, a política cultural da monarquia é favorecida pela fundação,
em 1451, da segunda universidade em Glasgow, ativo centro comercial no
estuário do Clyde, pelo bispo William Turnbull (?-1454), que obteve a bula
do pontífice Nicolau V (1397-1455, papa desde 1447). Jaime II favorece as
reformas legislativas empreendidas pelo pai e apoia a administração, que se
dota de pessoal preparado. Combate contra a Inglaterra e pede ajuda ao
velho aliado do seu pai, o rei de França Carlos VII, que Jaime I ajudou
contra a Inglaterra. A irmã Margarida, nora de Carlos VII, desapareceu em
1444, pelo que não havia nenhuma possibilidade de mediação. O rei de
França recusa as ajudas militares. Em Inglaterra tem início a Guerra das
Duas Rosas entre as casas de York e Lencastre e Jaime II alia-se com York
contra Lencastre, que apoia os Douglas contra ele. Em 1460, Jaime II cerca o
castelo de Roxburgh, importante praça-forte nas mãos dos ingleses, que
reconquista, mas é morto por uma bala de canhão; de facto, a artilharia
afirmou-se de forma prepotente na condução da guerra. O herdeiro, Jaime III
(1451-1488), filho de Jaime II e de Maria de Egmond, tem apenas nove anos
e o governo é confiado, como durante a menoridade do seu pai, a James
Kennedy, bispo de St. Andrews, que o exerce durante cinco anos, até à
morte, ocorrida no mês de julho de 1465. Em 1462, dois poderosos senhores,
John, Lorde das Ilhas, e Douglas, regressado do exílio, fazem um acordo de
partilha da Escócia em dois Estados vassalos da Inglaterra, mas a aliança
falha. Após a morte de Kennedy, Jaime III confia o governo a favoritos,
criando descontentamento na nobreza. Em 1469, casa-se com Margarida de
Dinamarca (1456-1486), filha de Cristiano I (1426-1481) e de Doroteia de
Brandeburgo (1430-1495), que leva como dote as ilhas Órcades e Shetland,
conquistadas aos noruegueses e passadas aos dinamarqueses: a Escócia
atinge assim a sua máxima extensão territorial. Em 1472, St. Andrews é
elevada a arcebispado.
O rei tem de controlar uma oposição cada vez mais dura, organizada pelos
seus próprios irmãos, o conde de Mar (?-1479) e Alexander, duque de
Albany (c. 1454-1485). Jaime III manda assassinar o conde de Mar, mas não
consegue apanhar Alexander, que foge para França em 1479, de onde passa
para Inglaterra, prestando homenagem ao rei Eduardo IV (1442-1483), que,
em 1482, lhe fornece ajuda para reconquistar o trono escocês. Em 1482, cai
a fortaleza de Berwick: Jaime III é feito prisioneiro, mas é libertado pelo
irmão Alexander. Os nobres, dirigidos por Archibald Douglas, quinto conde
de Angus (1449-1513), pertencente ao segundo ramo da poderosa família,
em vez de defenderem a Escócia dos ingleses, preferem desembaraçar-se de
Robert Cochrane (?-1482), um dos favoritos do rei. Em 1487, o rei estipula a
concordata com Inocêncio VIII (1432-1492, papa desde 1484), que
reconhece amplos poderes ao soberano em matéria de benefícios. Os nobres
coligam-se contra ele, decididos a privá-lo do trono proclamando rei o seu
filho Jaime, que aceita. Jaime III enfrenta os rebeldes, mas é derrotado e
morto a 11 de junho de 1488 na batalha de Sauchieburn, perto de Stirling.

A paz instável com a Inglaterra


Jaime IV (1473-1513, nascido em Stirling Castle, a 17 de março de 1473,
é coroado rei em Scone, a 26 de junho de 1488, com 15 anos, e o poder é
exercido pelo chanceler Archibald Douglas, conde de Angus, artífice da
revolta. Sob a sua direção, o rei promove o desenvolvimento económico e
comercial, fundando dois novos estaleiros navais e dotando a Marinha Real
de 38 embarcações. Em 1489, deve enfrentar uma revolta nobiliária, em que
participa, entre outros, Walter Kennedy (c. 1455-c. 1518), ligado à corte e
aos círculos políticos ingleses, que frequentou desde o tempo dos estudos em
Oxford, onde se licenciou em 1478. Em 1492, é criado o segundo
arcebispado em Glasgow, que com o de St. Andrews alimenta rivalidades e
invejas em vez de consolidar as estruturas da Igreja. Em 1494, a Escócia
obtém a sua terceira universidade, em Aberdeen, no rio Don, porto pesqueiro
do mar do Norte.
Jaime IV, que reforçou o seu poder submetendo em 1493 o Lorde das Ilhas,
estabelece boas relações com Henrique VII Tudor (1457-1509), o novo rei
de Inglaterra, que tomou o poder em 1485 depois da guerra civil que durou
30 anos. Em 1502, os dois soberanos subscrevem um tratado de paz perpétua
e iniciam as negociações de casamento entre Jaime IV e Margarida Tudor
(1489-1541), filha de Henrique VII. William Dunbar (c. 1460-c. 1520),
poeta escocês da corte, escreve a poesia In Honour of the City of London e,
por ocasião do casamento, celebrado em Edimburgo, a 8 de agosto de 1503,
Dunbar compõe o poema The Thrissill and the Rois, que celebra a união do
cardo escocês com a rosa inglesa. Com o casamento, Jaime IV adquire o
direito de sucessão ao trono inglês, que beneficiará – um século mais tarde –
o neto Jaime VI de Escócia, Jaime I de Inglaterra (1566-1625), por morte,
sem herdeiros, de Isabel Tudor (1533-1603). A paz é de curta duração.
Aliado de Luís XII, rei de França (1462-1515), em luta com Henrique VIII
(1491-1547), Jaime IV combate contra os ingleses: defronta-se com o
exército inglês, dirigido por Thomas Howard (1473-1554), segundo duque
de Surrey, na batalha de Flodden Field, no condado de Northumberland.
Jaime IV morre no campo, a 9 de setembro de 1513. A viúva, Margarida
Tudor, casa-se com Archibald Douglas, sexto conde de Angus (1490-1557).
O reino é controlado por uma minoria turbulenta e incapaz.

V. também: O reino da Inglaterra, p. 77.


O IMPÉRIO GERMÂNICO
de Giulio Sodano

Nos séculos XIV e XV, os imperadores regressaram ao papel de simples


governantes da Germânia. Venceslau de Luxemburgo é deposto pelos
eleitores e é eleito o irmão Segismundo, empenhado na superação do
cisma da Igreja com a convocação dos concílios de Constança e
Basileia. Com a eleição sucessiva de três membros da linhagem dos
Habsburgo, o título imperial torna-se o apanágio tradicional da casa
austríaca. Mas nem os Habsburgo conseguem imprimir uma viragem
efetiva no poder do soberano na Germânia.

Os últimos da Casa de Luxemburgo: Venceslau e Segismundo


No final do século XIV e no início do século XV, a autoridade imperial é
envolvida no gravíssimo problema do cisma da Igreja de Ocidente. Na sua
obra de imperador, Venceslau de Luxemburgo (1361-1419), que é também rei
da Boémia, tem uma tarefa nada fácil, quer devido ao cisma, quer pelas
dissensões internas do próprio império. Durante o seu reinado não consegue
realizar ações significativas para a superação da crise da Igreja, nem obtém
a coroação de Roma. Tem muitos inimigos no seio da Germânia, que
constroem uma imagem de um imperador ébrio e violento. Venceslau é
criticado sobretudo por não apoiar adequadamente o papa romano e por ter
cedido o controlo da Lombardia à família Visconti. Em 1400, os eleitores
depõem-no e elegem imperador Roberto (1352-1410), conde palatino. A uma
Germânia já dilacerada pela cisão da Igreja, junta-se a divisão entre os que
apoiam e se opõem ao rei. Roberto não é mais do que um meteoro no
panorama político alemão, morre no mesmo ano da sua eleição, e o cisma
monárquico é superado em 1411 com a eleição de Segismundo de
Luxemburgo (1368-1437), irmão de Venceslau.
Depois de amplas concessões ao irmão, Segismundo, último imperador da
Casa de Luxemburgo, tem de responder à procura de legalidade que surge no
país, onde se afirmou a lei do mais forte, numa contínua luta entre senhorias
territoriais e cidades. Mas a monarquia não está em condições de pôr ordem
no caos alemão, além disso, Segismundo está particularmente privado de
recursos. Procura em vão desenvolver uma política centralizadora.
Absorvido pelos problemas da Boémia, é acusado pelos príncipes de
absentismo, enquanto, por sua vez, ele acusa os príncipes de apoio escasso à
sua política. O seu grande projeto é convocar um concílio para pôr termo ao
cisma e superar as divisões religiosas da Boémia. Consegue chegar à
convocação do concílio, mas é duramente hostilizado pelos hussitas que não
lhe perdoam ter mandado condenar à fogueira Jan Hus (c. 1370-1415) em
Constança, não obstante a concessão de um salvo-conduto seu. O resultado é
que, de facto, a Boémia, ao rebelar-se, deixa de ser alemã. No entanto, um
mérito de Segismundo foi ter voltado a dar prestígio internacional à
instituição imperial graças aos concílios de Constança e Basileia.

O advento dos Habsburgo: Frederico III


Após a morte de Segismundo, a 14 de março de 1438, é eleito imperador
Alberto II de Habsburgo (1397-1439). A partir desse momento e durante os
300 anos seguintes, a coroa imperial será detida pela família dos Habsburgo.
Com a eleição sucessiva de três membros da linhagem, em 1438, em 1440 e
em 1486, o império começa a assumir a forma de uma monarquia quase
hereditária. Não obstante, os imperadores têm uma escassa possibilidade de
ação. Alberto é eleito por unanimidade, mas com o pacto preciso de diminuir
o peso e o poder das cidades a favor dos príncipes alemães e de consultar os
eleitores sobre as questões relativas ao governo do império. Alberto é
também rei da Hungria e da Boémia, mas a primeira já está submetida à
pressão dos turcos e, na segunda, é repelido pelos hussitas. Morre
inesperadamente no dia 27 de outubro de 1439.
Frederico III de Habsburgo (1415-1493) é eleito imperador em 1440 com
24 anos. Os príncipes escolhem-no tão jovem para consolidar o seu poder
territorial tirando partido da sua fraqueza. Aliás, Frederico, por causa dos
problemas internos nos seus domínios, divididos entre diversos ramos da
família, só recebe a coroa em Aix-la-Chapelle dois anos depois. Mas depois
dessa data, também está pouco presente nos territórios alemães, porque está
muito absorvido pelas dificuldades dos territórios dos Habsburgo. Só
quando, depois de 1463, consegue reunir uma boa parte dos domínios
dispersos pelas três linhagens dos Habsburgo, se pode dedicar à política
imperial, mas também neste caso com fases alternadas. O seu verdadeiro
grande sucesso político continua a ser o casamento do filho Maximiliano
(1459-1519) com Maria da Borgonha (1457-1482), filha de Carlos, o
Temerário (1433-1477), e sua herdeira da Flandres e do Franco-Condado.
Nos últimos anos do seu reinado, Frederico sofre também a vergonha de ser
duramente derrotado por Matias Corvino (c. 1443-1490), que o expulsa das
suas terras hereditárias e o obriga a vaguear pelo império, vivendo numa
condição de miséria. Já idoso, a 16 de fevereiro de 1486, consente a eleição
como rei dos romanos do seu filho Maximiliano. A Maximiliano, como ao
pai, opõem-se a Baviera e a Suíça. Por morte de Frederico em 1493,
Maximiliano assume o título de imperador e supera o obstáculo da falhada
coroação romana obtendo do papa o título de «imperador eleito».

Maximiliano de Habsburgo
O advento de Maximiliano parece dar início a uma nova época. O novo
imperador é uma personagem singular, plena de dotes e ambições. Por um
lado, é um cavaleiro medieval, por outro, é já fortemente influenciado pelo
Renascimento. A partir da segunda metade do século XV já se respira um
novo ar na Germânia: Nicolau de Cusa (1401-1464) avança ideias precisas
para a reforma e o reforço da Dieta. Maximiliano retoma estas propostas
com o apoio de um outro reformador, Alberto de Mainz (1490-1545). O
Reichstag torna-se mais ativo e quase parece poder transformar-se numa
assembleia nacional. Quando Maximiliano se dirige à Dieta para obter
ajudas destinadas a fazer face ao avanço dos turcos, a Dieta responde
pedindo reformas. Assim, em Worms, em 1495, e nas Dietas dos anos
seguintes, procura-se pôr fim à desordem endémica, declarando ilegais as
guerras privadas e recomendando a paz geral. Para o efeito, é criado um
supremo tribunal imperial e é instituída a taxa imperial (pfennig comune)
destinada ao financiamento do exército imperial. É também prevista a
criação de um conselho executivo permanente, a divisão do império em
círculos e a reunião do Reichstag anual. Mas, de facto, nada disto será
realizado, à exceção do supremo tribunal.
Na realidade, também a Maximiliano, não obstante o seu ativismo e a sua
ambição, faltam recursos adequados, dando mostra de impreparação no
governo e nas atividades económicas. O título de rei de Germânia não o
ajuda a pôr ordem na confusão que provoca o papel dúplice que tem. As
pretensões imperais à soberania universal não fazem senão enfraquecer a
própria posição dos Habsburgo como reis da Germânia, porque os príncipes
alemães preferem enquadrar a sua fidelidade num contexto imperial genérico
e não no interior de uma mais rígida monarquia nacional. Por outro lado, os
próprios Habsburgo não fazem grandes esforços para se transformarem em
reis alemães. Maximiliano, em vez de construir um Estado monárquico à
semelhança dos soberanos de Inglaterra, de França e de Espanha, gasta as
suas energias a perseguir os fins universalistas do império. Por outro lado,
dedica-se a uma política virada para o crescimento do poder e da influência
da família dos Habsburgo em detrimento da própria autoridade imperial. A
este propósito é célebre o juízo que Leopold von Ranke exprime sobre o
imperador: «Vivia dos interesses da sua casa». Obra-prima política de
Maximiliano é, segundo a prática característica dos Habsburgo, o casamento
do filho Filipe, o Belo (1478-1506), com Joana (1479-1555), filha dos reis
católicos. Os Habsburgo fornecem o exemplo mais brilhante dos interesses
dinásticos nascentes, tornando-se a força política mais ativa na Europa que
se aproxima da modernidade.

V. também: A área germânica e os territórios dos Habsburgo, p. 89.


A ÁREA GERMÂNICA E OS TERRITÓRIOS
DOS HABSBURGO
de Giulio Sodano

A Germânia cai no caos político devido à oposição entre príncipes e


cidades, enquanto a autoridade imperial, não obstante a sucessão de
três Habsburgo, continua frágil. Os príncipes reivindicam direitos
jurisdicionais em relação aos centros urbanos no auge da sua
riqueza. Rebentam conflitos entre senhores feudais e ligas de cidades.
Os processos de territorialização dos príncipes fazem dos
Hohenzollern os senhores mais poderosos da zona oriental, enquanto
a sul, os Habsburgo reunificam os seus territórios.

A Germânia no século XV: um conjunto heterogéneo de Estados


No século XV, os velhos ducados em torno dos quais se constituiu a
Germânia medieval (Saxónia, Francónia, Baviera, Suábia e Lorena)
desintegraram-se e foram superados. Surgiram novas famílias como os
Habsburgo e os Hohenzollern, novas combinações com a Saxónia dividida,
novas forças com as cidades imperiais. As regiões periféricas, como a
Suíça, a Itália e os Países Baixos, estão a tornar-se independentes.
A Germânia do século XV cai no completo caos político. É uma
multiplicidade de Estados em conflito de interesses. Só no quadro dos
territórios dos principados se realiza um processo de reorganização estatal,
que em certos aspetos é semelhante ao que se verifica nos outros Estados
europeus.
O núcleo da unidade da Germânia é a Dieta imperial ou Reichstag, que
representa quase toda a Germânia, com a exceção dos cavaleiros e dos
camponeses, que têm os seus representantes diretos. No início do século XV,
a Dieta evidencia uma certa vitalidade, mas durante o reinado de Frederico
III (1415-1493) regressa à inércia total. O imperador convoca as dietas, mas
não está presente em nenhuma delas durante 30 anos. Aliás, a Dieta não é um
sistema organizado: não existem regras sobre quem deve convocá-la, quem
deve ser convocado, o lugar, a frequência, as modalidades de
desenvolvimento das sessões, os procedimentos e os poderes da assembleia.
No século XV está dividida em três ordens. O primeiro colégio é o dos Sete
Eleitores, como é definido pela Bula de Ouro. O segundo é formado pela
antiga assembleia de senhores feudais, tanto laicos como eclesiásticos. Aqui,
os príncipes votam singularmente, enquanto os outros o fazem por grupos.
Emergem assim interesses extremamente divergentes. Em teoria, todos os
grandes senhores feudais são membros da Dieta, mas, de facto, só participam
nela os da Germânia Meridional e Central. Finalmente, o terceiro colégio é
formado pelos representantes das cidades imperiais. A relação exata entre as
ordens nunca foi estabelecida.

O processo do «territorialização» senhorial


Ao longo do século acentua-se o processo de «territorialização»: os
príncipes consolidam os direitos jurisdicionais e militares adquiridos ao
longo do tempo, exercendo-os como uma única e exclusiva autoridade sobre
um território definido. O processo é favorecido pela anarquia eclesiástica na
época do cisma, pelo declínio do sistema militar feudal, por causa do
sucesso do sistema mercenário, e pela afirmação do direito romano em
detrimento da autoridade papal. Além disso, os príncipes conseguem
reforçar-se aproveitando-se da hostilidade dos vários corpos territoriais:
nobres contra citadinos, aumento do anticlericalismo. Alguns príncipes
conseguem inserir-se nas contendas internas das cidades, apresentando-se
como garantes da paz e assegurando depois o seu domínio.
Um exemplo do reforço territorial dos principados no século XV é o de
Brandeburgo. Segismundo (1368-1437) cede-o aos Hohenzollern, porque
fica demasiado longe da sua Hungria para ser governado. Frederico I
Hohenzollern (1371-1440), margrave de Brandeburgo, melhora as posições
da família e deixa o seu domínio ao filho Frederico (1413-1471), enquanto
os outros descendentes têm de contentar-se com territórios menores. Afirma-
se assim o princípio da transmissão a um único filho de grande parte dos
domínios familiares. Frederico II é o verdadeiro fundador da força dos
Hohenzollern. Primeiro, desgasta a nobreza, depois, recruta-a ao seu serviço
e utiliza-a para a submissão das cidades. Sucede-lhe o irmão Alberto Achille
(1414-1486), que favorece a expansão territorial e a consolidação do
governo interno. Emana em 1473 a Dispositio Achillea, que estabelece a lei
de sucessão da Casa Hohenzollern: só o filho mais velho recebe o título de
eleitor com a marca de Brandeburgo, que, com as suas outras dependências
territoriais constitui uma unidade indivisível a transmitir a todos os
primogénitos. Aos outros filhos são destinados dinheiro e ricos benefícios
eclesiásticos. Deste modo, afirma-se o poder dos Hohenzollern como
senhores mais poderosos da Germânia Oriental.

A conflitualidade entre príncipes e cidades


O século caracteriza-se pela intensificação da hostilidade dos senhores
territoriais em relação às cidades. Estas, não obstante a crise política, vivem
um período económico florescente: recuperam rapidamente as perdas
sofridas por causa da crise do século XIV, estão no centro dos circuitos
comerciais europeus e veem a afirmação de indústrias e ofícios
diversificados e novos, a partir das tipografias. Enquanto o prestígio da Liga
Hanseática está em queda, as cidades do sudoeste da Germânia, mais
industriais, e as cidades ao longo do Reno e do Danúbio, ligadas aos grande
tráfego comercial, estão no auge da sua riqueza.
Os seus cidadãos, como a família Fugger de Augusta, desenvolvem em
larga escala as técnicas da finança capitalista, acumulando fortunas sem
igual. Quando em 1520 são fixadas as taxas imperiais, Colónia, Nuremberga
e Ulm são classificadas a par dos ricos príncipes-eleitores.
As controvérsias entre cidades e príncipes surgem sobre os direitos
jurisdicionais, sobre as portagens, sobre as casas de moeda. Os príncipes
consideram que os seus direitos são usurpados pelas cidades, que, por sua
vez, denunciam o clima de rapina que domina nos campos que circundam as
cidades. Em 1441, as cidades suevas formam uma liga para defender os
viandantes das violências causadas pelos senhores feudais. Participam nela
31 cidades dirigidas por Nuremberga, Augusta e Ulm. Em oposição, é
formada uma liga de príncipes organizada por Alberto Achille Hohenzollern.
O conflito rebenta em 1449 com a Nuremberga, devido à exploração de uma
mina. A cidade derrota o margrave, mas a liga não desfruta a vitória para os
diversos interesses das cidades. A partir deste episódio emerge com clareza
a inutilidade das ligas, e as cidades assumem uma atitude puramente
defensiva relativamente aos príncipes, recusando imiscuir-se nas guerras das
outras cidades.
A conflitualidade endémica da Germânia do século XV não diz respeito
apenas ao conflito entre príncipes e cidades. Os próprios príncipes são tudo
menos pacíficos entre si e defrontam-se sobretudo pela repartição dos cargos
episcopais. Na Germânia Meridional formam-se na nobreza numerosas
correntes opostas, sobretudo por causa das lutas dos duques da Baviera na
sequência da extinção do ramo Baviera-Ingolstadt.

Os territórios dos Habsburgo


A subida ao trono imperial durante três gerações dos representantes da
família dos Habsburgo contribui para que a linhagem entre de pleno direito
no circuito das cortes de Europa. No século XV, os Habsburgo já não
desenvolvem uma política expansionista exclusivamente na Boémia e na
Hungria, mas também nos vales alpinos, na planície da região de Véneto, nas
cidades da Ístria, entrando em conflito com Veneza. A partir de 1363, o Tirol
é já parte dos seus domínios. Mas a Áustria começa também a ser seriamente
ameaçada pelos turcos. O perigo otomano serve para coagular forças em
torno da Áustria: se no tempo carolíngio a região assumiu a função de marca
contra os eslavos e os húngaros, agora serve de barreira aos otomanos. Além
disso, também se vão acentuando os conflitos com os suíços. No século XV,
as relações de força já são favoráveis aos suíços, que aproveitam a divisão
dos Habsburgo em três linhagens. De facto, a partir de 1379, surgiram as
linhas albertina e leopoldina, que por sua vez se divide nos ramos da Estíria
e do Tirol. Frederico consegue reunir grande parte dos domínios, embora
para esse efeito deva pagar rendas vitalícias enormes aos membros da sua
família. Mas, na realidade, a obra-prima política de Frederico é o casamento
celebrado a 19 de agosto de 1477 entre o filho Maximiliano (1459-1519) e
Maria da Borgonha (1457-1482), filha de Carlos, o Temerário (1433-1477),
que traz para os Habsburgo o Franco-Condado e a Flandres.
Maximiliano possui a Áustria, a Estíria, a Caríntia, Trieste, a Flandres e a
Alsácia. Após a renúncia do tio Segismundo, acrescenta também o Tirol.
Mas, em 1499, tem de assinar a paz definitiva que sanciona a independência
política da Suíça. Aspira à Boémia e à Hungria, há já algum tempo terreno de
recontros, primeiro, com a Casa de Luxemburgo, depois, com os reis locais.
Mas são os Jaguelões que ganham a partida, tornando-se soberanos em três
reinos. Maximiliano aposta na cartada matrimonial: os netos Fernando I de
Habsburgo (1503-1564) e Maria de Habsburgo (1505-1558) são prometidos
em casamento a Ana (1503-1547) e Luís (1506-1526), filhos de Ladislau
Jaguelão (1456-1516). Quando este morre, Fernando torna-se rei de Boémia.
O reino da Hungria vai para Luís.

V. também: O Império Germânico, p. 86.


A CONFEDERAÇÃO SUÍÇA
de Fausto Cozzetto

Durante o século XV, os sucessos militares obtidos pela Confederação


dos Quatro Cantões induzem os Habsburgo a atenuarem a hostilidade
em relação aos suíços, que os derrotaram repetidamente. A divisão
das conquistas territoriais, fruto dos sucessos alcançados, leva o
cantão de Zurique a isolar-se da confederação e a aliar-se com os
Habsburgo, mas a inédita aliança é derrotada em 1440.

A partir de então, as tropas suíças tornaram-se famosas pelas suas


capacidades militares: as companhias mercenárias são requisitadas
pelos mais importantes países da Europa, como a França de Luís XI,
que se alia com os suíços contra o ducado da Borgonha; são
precisamente as tropas da confederação que derrotam Carlos, o
Temerário, mas não conseguem retirar destas vitórias verdadeiras
vantagens políticas. A confederação não é um verdadeiro Estado, mas
a sua força militar alarga progressivamente as suas dimensões até 13
cantões, englobando no início do século XVI todos os territórios a sul
do Reno.

O controlo do território
As repetidas derrotas militares sofridas pelas tropas dos Habsburgo por
obra dos suíços testemunham a preponderância militar destes últimos na
região meridional do Sacro Império Romano. O último conflito entre os
Habsburgo e os confederados assinala o reconhecimento da independência
dos cantões suíços pelos Habsburgo, de tal modo que a paz assinada em
1389 é renovada sem oposição cinco anos mais tarde, mas com um
compromisso de 20 anos entre os contraentes e, em 1417, por mais meio
século. A paz perpétua de 1474 constitui a renúncia definitiva dos Habsburgo
a todos os direitos e a todos os privilégios que possuíam nos séculos
precedentes nos territórios que constituem a confederação. No início do
século XV, os cantões movem-se quer autonomamente quer com as ligações
que se tornaram possíveis pela sua organização militar comum para controlar
o território através das vias de comunicação que atravessam as fronteiras
naturais da região. A estrada de São Gotardo está entre as mais frequentadas,
porque os habitantes do cantão de Uri conseguem apoderar-se da passagem
alpina, superando a linha de divisão da vertente meridional. De facto, no
final dos primeiros 30 anos do século, os suíços controlam o vale de
Leventina de Ticino e a fortaleza de Bellinzona. Não menos relevante é a
ação dos cantões que encontram em Berna, Lucerna e Zurique o seu modelo
de cidade. Em 1412, os suíços estabelecem acordos com o imperador
Segismundo de Luxemburgo (1368-1437), que quer banir do império o duque
da Áustria e convida os suíços a ocuparem a Argóvia, possessão dinástica da
casa da Áustria. Os novos territórios conquistados pelos exércitos
confederados são atribuídos, em grande parte, às três cidades acima
referidas, mas o facto de terem podido tomar posse da região permite aos
suíços levar a cabo com facilidade um alargamento das suas fronteiras,
chegando a incluir nos territórios conquistados, em detrimento dos
Habsburgo, também a Turgóvia, que lhes fora formalmente cedida pelos
Habsburgo em 1460.

Divisão e ordenamento administrativos


Muito significativa dos mecanismos de expansão que as cidades suíças
utilizam em relação aos territórios que entraram geopoliticamente na sua
esfera de influência é a política adotada pelos confederados em relação às
populações das regiões dos Habsburgo recentemente adquiridas. Às
populações dos bailiados é permitida a manutenção dos seus antigos
costumes e isenções, mas, politicamente, estão submetidas à confederação,
até porque as novas possessões são administradas por todos os cantões como
«bailiados comuns». A diminuição da ingerência dos Habsburgo nos assuntos
dos cantões suíços suscita progressivamente diferenças entre as regiões, por
impulso de forças centrífugas ligadas a interesses peculiares. O
acontecimento mais evidente desta divergência política verifica-se por
ocasião da repartição do condado de Toggenburg, em 1436, entre os cantões
de Zurique e Schwyz. Este último obtém a solidariedade dos outros
confederados e juntos impõem a paz a Zurique em 1440. Isto representa o
início de um episódio político e militar muito grave que poderia implicar o
fim da confederação. De facto, Zurique, isolada no plano suíço, alia-se com
os Habsburgo, representados pelo imperador Frederico (1415-1493), mas,
em 1443, Zurique e os Habsburgo são derrotados pelas tropas confederadas,
que atacam Zurique e põem em fuga as tropas inimigas. Perdendo a
esperança de poder derrotar os confederados, o imperador envolve no
conflito o soberano francês, Carlos VII (1403-1461), que envia um exército
de 30 mil homens com a intenção de destruir a autonomia confederada. Um
pequeno exército confederado derrota a 26 de agosto de 1444 o ponderoso
exército francês nas vizinhanças de Basileia. O acontecimento, que amplifica
notavelmente a notoriedade já consolidada dos excelentes dotes militares
dos suíços, leva Zurique e os seus aliados à paz, mas a cidade suíça só
poderá retomar o seu lugar na confederação em 1446.

Os sucessos militares
Na Europa indaga-se sobre as razões do poderio militar alcançado pelo
exército da confederação, do qual, como se sabe, ainda existe um
significativo testemunho na companhia suíça ao serviço do Estado pontifício.
Do ponto de vista organizativo, o seu poder baseia-se no serviço militar
obrigatório para todos os homens entre os 16 e os 60 anos que têm a
condição universal de homens livres. Por isso, no seu conjunto, esta união
global de cantões, bem defendida por fronteiras naturais, está em condições,
num prazo relativamente breve, de constituir um exército mais numeroso do
que aquele que são capazes de reunir tanto o Estado francês como o
imperador de Habsburgo. Por outro lado, o seu instrumento primordial de
afirmação no campo de batalha baseia-se no famoso quadrado –
precisamente denominado suíço – que coloca juntos, com longas e poderosas
armas brancas, muitas centenas de homens treinados em exercícios
quotidianos a moverem-se agilmente e em simultâneo. A infantaria suíça
torna-se, pela sua mobilidade, pela resistência física e pela coragem dos
soldados da confederação, e pela forte motivação de defesa nacional, o
instrumento militar mais avançado apresentado pela Europa no limiar da
Idade Moderna, pelo menos até ao momento em que o progresso das
artilharias e das armas de fogo irá determinar resultados diferentes em
detrimento das infantarias nos campos de batalha. Uma das razões que
levarão estes batalhões suíços a tornarem-se exércitos mercenários,
disponíveis para as exigências bélicas dos grandes Estados europeus, é
constituída pelo facto de as estruturas territoriais da confederação não
permitirem o sustento do conjunto da população que nela habita. Daí o forte
impulso para deixarem o país, oferecendo-se como mercenários no séquito
dos grandes exércitos «nacionais» europeus. Basta pensar que Francisco I de
Valois (1494-1547), durante o seu longo conflito com Carlos V (1500-1558),
consegue reunir um exército de mercenários suíços de cerca de 163 mil
unidades. Assim, durante séculos, o exército suíço torna-se um dos
protagonistas da vida política europeia; na segunda metade do século XV
tornam-se definitivamente evidentes os seus grandes recursos, em particular,
na guerra da Borgonha. O duque Segismundo da Áustria (1427-1496), depois
de ter levado a cabo sem êxitos militares, mas com graves ruínas financeiras,
um novo conflito contra a confederação com a guerra de Waldshut (1468),
para ser capaz de recuperar, cede como penhor a Carlos, o Temerário (1433-
1477), senhor da Borgonha, os importantes territórios, já então dos
Habsburgo, da Floresta Negra, da Brisgóvia e da Alsácia, determinando uma
expansão do poder da Borgonha e a reação dos Estados confinantes. O rei
Luís XI (1423-1483) de França é o primeiro a entrar em ação; depois, as
cidades de Mulhouse e Basileia e de numerosas cidades da Alsácia
constituem uma liga contra Borgonha que se traduz por uma ajuda militar aos
confederados. Por isso, em outubro de 1474, os confederados declaram
guerra à Borgonha. Em meados de novembro daquele mesmo ano, um
exército borgonhês é derrotado pelos suíços junto do rio Lisaine. Carlos, o
Temerário, ataca Berna, que retirou à duquesa Iolanda de Saboia (1434-
1478), anexando o cantão de Vaud. A campanha borgonhesa parece começar
sob auspícios favoráveis, porque Carlos consegue conquistar o castelo de
Grandson. De facto, o exército suíço chega atrasado para libertar o castelo
do cerco do exército da Borgonha, mas poucos dias depois, a 2 de março de
1476, leva facilmente a melhor sobre o exército borgonhês. O duque da
Borgonha concentra então as suas tropas diante da cidadela de Morat, que
constitui o último obstáculo para se apoderar de Berna. A 22 de junho, o
exército borgonhês é quase destruído numa batalha memorável. O poderio do
mais temido soberano da Europa central é definitivamente quebrado, bem
como o seu projeto de recriar um reino semelhante ao da Europa lotaríngia.
A constituição da confederação
Todavia, depois da morte de Carlos, o Temerário, no início de 1477, os
suíços, que derrotaram o grande adversário, não estão em condições de
desfrutar dos resultados militares das suas vitórias no plano diplomático e,
de facto, são exclusivamente os grandes soberanos dos países confinantes
que ganham vantagem: a França e Maximiliano I de Habsburgo (1459-1519),
que com a herança da Borgonha constroem uma presença política reforçada
na Europa do final do século XV. Da grande notoriedade que adquiriram
lutando contra o mais temido e o mais corajoso dos soberanos europeus da
época, os suíços não retiram significativas vantagens políticas e territoriais.
Entretanto, aproxima-se a saída definitiva dos cantões confederados do
Sacro Império Romano. No final do século XV, Maximiliano I de Habsburgo
inicia mais uma vez, com a guerra da Suábia, uma tentativa para manter a
hegemonia imperial sobre a confederação, mas o resultado do conflito é
favorável aos confederados, sancionado pela separação entre os territórios
suíços e os territórios alemães ocorrida com a paz de Basileia. Todos os
países e as cidades situadas a sul do Reno entram na confederação; entre as
mais importantes, regiões e cidades como Basileia, Schaffhausen, Soleura e
Appenzell. No início do século XVI, a confederação passa de oito para 13
cantões e assim permanecerá até ao final do século XVIII. Trata-se de
Schwyz, Uri, Unterwalden, Lucerna, Zurique, Glaris, Zug, Berna, Friburgo,
Soleura, Basileia, Schaffhausen, Appenzell.

V. também: O reino de França, p. 66; A ascensão da Borgonha, p. 70;


A área germânica e os territórios dos Habsburgo, p. 89;
A guerra: entre tradição e inovação, p. 233.
A BOÉMIA
de Giulio Sodano

No século XV, a Boémia é agitada pelo movimento hussita. O checo


Jan Hus denuncia o estado de corrupção do clero. Excomungado, Hus
vai a Constança para se defender, mas é processado e condenado à
fogueira. Os hussitas dão vida a um vasto movimento de oposição às
hierarquias católicas e aos alemães. Mas dividem-se em duas fações:
os moderados utraquistas e os radicais taboritas. A vitória dos
primeiros torna possível uma reaproximação dos católicos. Na
segunda metade do século é eleito rei o checo Jorge de Podĕbrady,
apoiado pelos hussitas.

O nascimento do movimento hussita


O título de rei da Boémia, na sequência das reformas de Carlos IV de
Luxemburgo (1316-1378), tornou-se muito importante a partir de meados do
século XIV, porquanto o seu detentor é um dos grandes eleitores do império.
Por esta nova condição nascem as contendas sobre o título entre os próprios
membros da Casa de Luxemburgo, bem como as constantes aspirações dos
Habsburgo a tornarem-se reis da Boémia.
O início do século vê a nobreza boémia em pleno tumulto contra o rei
Venceslau (1361-1419), que, já deposto do cargo imperial, consegue sair
vitorioso do confronto, obtendo a abolição de parte dos privilégios
limitativos das prerrogativas reais que teve de conceder anteriormente. Nos
últimos anos do reinado de Venceslau rebentam as disputas eclesiásticas que
alastrarão ao longo de todo o século. De facto, no princípio do século XV, a
Boémia é agitada pelo movimento religioso, social e nacional dos hussitas.
O checo Jan Hus (c. 1370-1415), nascido cerca de 1370, é o herdeiro de
vários movimentos religiosos boémios do século XIV tardio, que
denunciaram o estado de corrupção do clero e do povo. Apreciado pela sua
atividade de pregador nos diversos ambientes sociais da cidade de Praga,
Hus entra em contacto com as ideias de John Wycliffe (c. 1320-1384), que já
circulam na Boémia há algumas décadas. Do púlpito da igreja de Belém em
Praga, prega contra a simonia do clero e contra as indulgências. Pelo
prestígio conseguido, Hus é eleito em 1409 reitor da prestigiosa
Universidade de Praga, enquanto o arcebispo da cidade assume em relação a
ele e àqueles que o apoiam atitudes cada vez mais hostis. Excomungado, Hus
apela ao concílio. O imperador Segismundo de Luxemburgo (1368-1437)
esforça-se pela convocação do concílio em Constança para a reunificação da
Igreja e para a solução dos problemas heréticos. Ele insta Hus a apresentar-
se no concílio, fornecendo-lhe um salvo-conduto. Mas alguns dias depois da
sua chegada, os seus opositores induzem as autoridades do concílio a
prendê-lo, não obstante os protestos do imperador.
Precisamente nos meses em que se realiza em Constança o processo contra
Jan Hus, vai-se afirmando entre os seus apoiantes a doutrina da comunhão
sob as duas formas. Os utraquistas defendem que a eucaristia deve ser dada
aos laicos através do pão e do vinho. No entanto, em Constança, uma vez que
se recusa a retratar as suas posições, Hus é condenado como herético e
entregue à autoridade imperial, que procede rapidamente à sua execução. As
suas ideias, para lá dos aspetos especificamente religiosos, tornam-se o
ponto de referência do rancor dos checos, indignados com as hierarquias
eclesiásticas pelo tratamento infligido a Hus em Constança. A pequena
nobreza é a camada social mais próxima das posições hussitas, mas ao seu
protesto unem-se também os de outros sectores da sociedade da Boémia. As
exigências dos hussitas depressa ultrapassam o projeto inicial de Jan Hus. A
sua morte na fogueira e a condenação do concílio enfurecem de tal maneira o
povo checo, que desencadeiam uma revolta nacional. Mas rapidamente se
manifestam divergências no seio da comunidade hussita. Os hussitas
dividem-se nos mais moderados utraquistas, que se apoderam da Igreja da
Boémia em prejuízo das hierarquias alemã e católica, e nos taboritas, com
posições mais radicais, que fundam comunidades evangélicas separadas. O
ponto de encontro entre as duas fações continua a ser a deliberação da
Universidade de Praga de 1517, que estabelece a concessão do cálice aos
laicos e da comunhão nos dois ramos. De facto, a partir daquele momento, o
símbolo dos hussitas torna-se precisamente o cálice. As posições moderadas
dos utraquistas são depois formalizadas em 1420 nos Quatro Artigos de
Praga, que preveem liberdade de pregação, comunhão aos laicos nos dois
ramos, abolição do poder dos padres e monges sobre os bens seculares,
punição dos pecados e, em particular, da simonia.

Rebenta a revolta hussita


Venceslau, depois de uma simpatia inicial pelos hussitas, assume posições
cada vez menos tolerantes em relação ao movimento, favorecendo os
elementos anti-hussitas e episódios de repressão. Assim, a 30 de junho de
1419, a crise explode violentamente em Praga: uma procissão hussita pede a
libertação de alguns prisioneiros e, não sendo recebida pelas autoridades,
assalta o município atirando pelas janelas os conselheiros anti-hussitas. Ao
episódio segue-se a morte de Venceslau, enquanto os hussitas organizam a
administração da própria cidade. O imperador Segismundo, irmão e sucessor
de Venceslau, marcha sobre Praga com um exército de cruzados, apodera-se
do castelo onde se realiza a cerimónia da coroação, mas, imediatamente a
seguir, o seu exército é posto em fuga pelas forças hussitas, na maioria
taboritas, conduzidas por Jan Žižka (c. 1360-1424). Os exércitos alemães
sofrem depois numerosas derrotas. De 1419 a 1435, a Boémia não tem um
soberano e é governada por conselhos provisórios especiais, enquanto se vai
acentuando a oposição entre os moderados utraquistas e os radicais
taboritas. Depois de anos de resistência às tentativas de invasão dos
cruzados, os hussitas mais moderados, predominantemente nobres, estão
dispostos a procurar formas de acordo com os católicos, cedendo nos seus
diversos pontos doutrinais e contentando-se com o cálice aos laicos e com a
eliminação de alguns abusos. Chega-se assim aos acordos dos Compactata
de Praga de 1434, com os quais os católicos reconhecem alguns pontos dos
Quatro Artigos. Nobres católicos e nobres hussitas unem-se e na batalha de
Lipan de 30 de maio de 1434 derrotam os taboritas. A derrota taborita
facilita os acordos com o concílio de Basileia e com Segismundo, que pode
regressar a Praga como soberano. As lutas hussitas dão vantagem às diversas
componentes da nobreza boémia, que se apoderam de ingentes bens da
Igreja. Mas as aspirações das massas camponesas veem-se frustradas. Por
outro lado, a revolta hussita tem efeitos no desenvolvimento da
autoconsciência checa, em oposição aos elementos alemães que dominam o
país há dois séculos e que perdem então muitos privilégios e posições de
força.
O reinado de Jorge Podĕbrady e o advento dos Jaguelões
Com a morte de Segismundo surge um novo período de confusão para a
sucessão ao trono. Só uma parte dos estados boémios reconhece Alberto da
Áustria (1397-1439), genro de Segismundo, como rei, mas o próprio Alberto
morre precocemente. Em 1452 tem início o reinado de Ladislau, o Póstumo
(1440-1457). Também neste caso, a morte precoce do soberano em 1457
deixa a Boémia sem soberano. Extintos os Luxemburgo e repelidas as
pretensões dos Habsburgo, em 1458, torna-se soberano o checo Jorge
Podĕbrady (1420-1471), rei graças ao partido nacional hussita, mas também
ao apoio da nobreza católica. Podĕbrady é um homem hábil, ambicioso e de
poucos escrúpulos, em busca de uma afirmação do primado checo. Com o rei
Jorge nasce uma monarquia nacional na Boémia hussita, com o renascimento
da vida política e do Estado. A monarquia nacional checa tem características
diferentes da monarquia húngara e polaca da época. No reino da Boémia, os
burgueses constituem com a Igreja nacional uma força política poderosa tanto
na Dieta como nos órgãos do governo do país.
Durante o seu reinado, o rei Jorge tem recontros contínuos com as cúpulas
eclesiásticas católicas, que o acusam de conivência com as heresias
boémias. Assim, tem de lutar contra o seu genro Matias Corvino (c. 1443-
1490), rei da Hungria, que, em 1468, impelido pelo papa, invade a Boémia.
Face ao avanço do temível exército de Matias, Jorge Podĕbrady responde
fazendo eleger pelos estados da Boémia, como seu sucessor, Ladislau
Jaguelão (1456-1516), filho de Casimiro de Polónia (1427-1492), criando
assim um motivo de rivalidade entre a Hungria e a Polónia. Após a morte de
Jorge em 1471, também o imperador reconhece Ladislau como rei da
Boémia. Com o tratado de Olomouc, de 1478, Ladislau deve ceder a Matias
a Morávia, a Silésia e a Lusácia, e Matias conserva também o título de rei de
Boémia. Mas a morte imprevista de Matias em 1490 favorece Ladislau,
deixando a Boémia nas mãos dos Jaguelões até 1517.

V. também: Praga e a Boémia de Carlos IV a Venceslau, p. 546.


A HUNGRIA
de Giulio Sodano

A luta pela sucessão ao trono de Luís de Anjou é vencida por


Segismundo de Luxemburgo, que torna a fazer concessões aos
magnatas. Por sua morte, a Hungria é o único país a leste que resiste
ao embate otomano. Depois da desastrosa derrota da batalha de
Varna, emerge a família Hunyadi, primeiro, com João e, depois, com
o seu filho Matias Corvino, eleito rei nacional. Matias realiza a
construção de um reino eficiente e procura fazer da Hungria uma
grande potência, na previsão do embate final com os turcos.

Segismundo de Luxemburgo rei da Hungria


A morte sem herdeiros masculinos de Luís de Anjou (1326-1382) dá início
às lutas pela sucessão ao trono húngaro. A herdeira legítima é a filha de Luís,
Maria (1371-1395), prometida como mulher ao filho mais novo do
imperador, Segismundo de Luxemburgo (1368-1437). Mas Carlos de
Durazzo (c. 1345-1386) reivindica o trono na base de uma linha masculina
lateral angevina. Assassinado Carlos, em 1387, Segismundo sobe ao trono da
Hungria. Mas, por morte de Maria, em 1395, a nobreza húngara decide
apoiar o filho de Carlos de Durazzo, Ladislau, rei de Nápoles (c. 1377-
1414). A luta vê sair novamente vitorioso Segismundo, mas provoca também
uma forte recomposição dos domínios originários deixados por Luís e do seu
poder. A Polónia vai para Edviges (1374-1399), filha menor de Luís, para
depois ser destinada ao marido Ladislau, duque da Lituânia (c. 1351-1434).
Entretanto, Veneza reaproxima-se dos domínios húngaros adquirindo os
direitos sobre a Dalmácia através de Ladislau de Anjou. Grande parte dos
domínios balcânicos está a cair sob o controlo otomano. Aproveitando a
situação de fraqueza, volta a ganhar força a ação da nobreza magnata. De
facto, Segismundo, ao ser rei eletivo e ao queimar todos os seus recursos na
guerra, vê-se obrigado a pactuar com a camada magnata, concluindo uma
aliança plena de concessões aos senhores mais poderosos.
O poder de Segismundo fica mais estável quando herda o trono da Boémia
pela morte do irmão Venceslau (1361-1419) e pela eleição como imperador.
Mas a Hungria não retira benefícios da união dinástica com a Boémia, pelo
contrário, na primeira metade do século XV está ocupada com as incursões
dos hussitas, que durante 20 anos põem a ferro e fogo algumas regiões
confinantes.
A ameaça turca e o avanço na frente balcânica implicam que Segismundo
deva incrementar de forma exponencial as forças armadas. O que, todavia,
não lhe evita a humilhante derrota em Nicópolis em 1395. A população, já
vexada por múltiplos tributos, vê-se obrigada a pagar mais um imposto para
fazer face às crescentes despesas militares. Os camponeses do início do
século XIV vivem condições piores do que os do século precedente.

A escalada ao poder da família Hunyadi


Por morte de Segismundo, a Hungria é a única a resistir ao embate
otomano, enquanto todos os outros países dos Balcãs e do Danúbio se
submetem ao sultão. A eleição do rei da Polónia Ladislau VI (1424-1444)
para o trono húngaro é a última tentativa de repor a política de Luís, isto é,
de preferir à opção boémio-alemã, levada a cabo por Segismundo, uma
grande aliança entre a Polónia, a Hungria e a Itália. A escolha está destinada
ao fracasso após a morte de Ladislau na batalha de Varna de 1444, onde os
húngaros são duramente derrotados pelos turcos. A batalha é iniciada pela
insistência do legado pontifício, cardeal Giuliano Cesarini (1398-1444), que
liberta o soberano da palavra dada nos precedentes tratados com os turcos.
Assim, Ladislau entra na Bulgária com o exército, mas, não tendo chegado
reforços, é esmagado em Varna pelos otomanos.
No entanto, a batalha de Varna torna possível a emergência da família
Hunyadi, de origem eslava. Vajak é o primeiro cavaleiro que presta serviço
na corte de Segismundo, de quem recebe o castelo de Hunyad na
Transilvânia. Também o filho mais velho João (1387-1456) presta serviço na
corte de Segismundo, evidenciando-se nos recontros contra os turcos. Inicia
uma escalada que o leva ao comando supremo dos exércitos, começa a fazer
parte dos sete membros do governo nacional e é depois regente pelo rei
Ladislau VI. De facto, João tem poderes enormes, mesmo quando Ladislau VI
chega à Hungria. Goza do apoio e da estima da pequena nobreza e considera
como sua tarefa precípua expulsar os turcos. Consegue escapar com
dificuldade à morte em Varna. Enquanto o país está sem rei, em 1456, a três
anos da tomada de Constantinopla, Maomé II (1432-1481) ataca a Hungria
com 200 mil homens. João dirige o exército húngaro em Belgrado, cercada
pelos húngaros, e liberta a cidade. A sua vitória bloqueará o avanço turco
por muitas décadas. Mas João não goza dos frutos da sua vitória, morrendo
devido à peste que alastra no campo cristão.

Matias Corvino
A subida ao poder de João foi possível graças ao recontro entre magnatas
e pequena nobreza. A pequena nobreza tem a maioria no Parlamento húngaro
e procura influenciar mais a política da nação. De facto, João é o chefe da
pequena nobreza e a sua nomeação como governador regente é uma vitória
desta camada sobre a arrogante grande aristocracia. Mas a luta reacende-se
após a morte de João, quando os magnatas incitam o rei Ladislau, o Póstumo
(1440-1457), e sobretudo o seu primo Ulrich de Celje (1406-1456) a
eliminar os filhos de João. A reação do partido a favor dos Hunyadi é tal que
o próprio Ulrich é aniquilado e, mal Ladislau, o Póstumo, morre, o povo
proclama rei de viva voz o único filho sobrevivente de João, Matias. Face
ao espírito unitário que apresenta a pequena nobreza no apoio à candidatura
de Matias, o baronato magnata não pode ficar satisfeito e aceitar a eleição
para o trono do filho de João Hunyadi.
Matias Corvino (c. 1443-1490) representa a última fase de grandeza da
coroa de Santo Estêvão. A primeira parte do seu reinado, pelo menos até
1471, é dedicada à consolidação do seu poder face às ameaças internas e
externas. Relativamente às primeiras, deve conquistar a confiança da nobreza
húngara. Consegue romper as ligações clientelares entre a pequena nobreza e
o grande baronato. Por outro lado, para se tornar independente, desenvolve
os recursos reais, graças à criação do imposto direto e à reforma da
exploração mineira. Isto permite-lhe possuir um exército permanente: o
«Exército negro». De facto, as primeiras providências tomadas por Matias
em matéria militar criam na Hungria uma espécie de recrutamento
obrigatório, fornecendo à coroa um exército permanente sem igual na
Europa. Em tempo de paz, pode contar, entre infantaria e cavalaria, com um
corpo de 40 mil homens, capaz de crescer em tempo de guerra até aos 200
mil homens. Graças a esta máquina de guerra, expulsa os otomanos do norte
da Bósnia em 1463. Ainda contra os turcos, consolida fortalezas e procura
estabelecer alianças com outros países da Europa. No entanto, percebe que
esta via é dececionante e impossível de seguir.
Assim, dedica-se com particular fervor à reforma e à administração da
justiça, com particular sensibilidade em relação às condições das classes
sociais mais humildes, esmagadas pelos abusos dos magnatas. Pela sua
atividade de juiz será recordado com o título de o Justo. Além de perseguir
uma política de poder, põe também em prática um mecenato cultural que
serve de estabilizador na cultura húngara do século XV. De facto, na sua corte
reúnem-se os humanistas italianos e o humanismo implanta-se, cresce e dá os
seus frutos com a primeira geração de humanistas húngaros.
A segunda parte do seu reino começa com uma tentativa de conjura
nobiliária dos grandes magnatas. Deste modo, Matias Corvino governa num
sentido mais absolutista, nunca convocando a Dieta. Em 1471, procura
tornar-se rei da Boémia sem o conseguir, mas obtendo do rei Ladislau
Jaguelão (1456-1516), com o tratado de Olomouc de 1478-1479, a posse da
Morávia, da Silésia e da Lusácia. Assim, entra em colisão com os
Habsburgo, combatendo entre 1482 e 1487 contra Frederico III (1415-1493)
e conduzindo em 1485 as suas tropas até às muralhas de Viena. Com esta
guerra obtém o controlo da Estíria e da Áustria Meridional. Graças ao peso
destas conquistas, procura ser eleito imperador, mas o caminho é
interrompido em 1486 pela eleição de Maximiliano de Habsburgo (1459-
1519).
Matias faz da Hungria a primeira potência da Europa Central. Foi criticado
pelos historiadores por ter dispersado as suas energias em relação ao
objetivo primordial da defesa dos turcos. Mas a obtenção de uma força tão
considerável tem como objetivo precisamente o reforço da Hungria. Matias
considera que, reocupando as posições de Segismundo, rei da Hungria e da
Boémia e imperador, pode defender-se adequadamente do perigo turco.
Todavia, o soberano não atinge esse desígnio, quer pela sua morte prematura,
quer pela impossibilidade de legitimar a hereditariedade da coroa para o
filho João (1473-1504). Por sua vez, os húngaros, após a morte de Matias,
oferecem o trono húngaro ao boémio Ladislau VII Jaguelão (1456-1516).

V. também: A queda de Constantinopla, p. 36; O Império Germânico, p. 86;


A Boémia, p. 96; A Polónia, p. 102; A República de Veneza, p. 123;
Marsilio Ficino, Johannes Tinctoris, Franchinus Gaffurius e o humanismo musical, p.
719.
A POLÓNIA
de Giulio Sodano

No início do século XV, a Polónia-Lituânia, com Ladislau Jaguelão, é


a maior monarquia europeia. As relações entre a Polónia e a Lituânia
são definidas em Vilna, em 1401. Os lituanos e os polacos unificados
combatem os cavaleiros teutónicos, infligindo-lhes uma duríssima
derrota em 1411 em Tannenberg. Também Casimiro, na segunda
metade do século, retoma a luta contra os cavaleiros teutónicos,
reduzindo-os a vassalos do rei da Polónia. No final do século, os
Jaguelões estão no auge do seu poderio.

A Polónia no século XV: o mais vasto Estado da Europa


A Polónia-Lituânia do início do século XV é a maior monarquia europeia.
Compreende os territórios entre o Báltico e o mar Negro. A coroação em
1386 de Ladislau Jaguelão (c. 1351-1434) como rei da Polónia é
considerada um grande sucesso diplomático da nobreza polaca, que deste
modo torna indiscutível o seu predomínio social e leva a cabo a unificação
da Polónia, da Lituânia e de grande parte da Rússia. Nesta união, a nobreza
polaca garante progressivamente poderes consideráveis, tornando-se ao
longo do século a base social de uma democracia nobiliária. O próprio
Ladislau, mesmo sendo um soberano poderoso, tem de fazer numerosas
concessões durante o seu reinado à aristocracia polaca, porque é rei da
Polónia enquanto consorte de Edviges (1374-1399), filha de Luís de Anjou
(1326-1382). Por outro lado, tem de assegurar a sucessão aos seus
descendentes, nascidos dos casamentos posteriores ao infrutífero casamento
com Edviges. Por sua vez, a fraqueza das forças burguesas continua a ser a
característica da monarquia dos Jaguelões, marcando a enorme diferença na
evolução histórica relativamente aos reinos vizinhos como o da Boémia,
onde a burguesia desempenha um papel muito maior.
O título de rei da Polónia não é hereditário, mas eletivo. Teoricamente, é
todo o corpo representativo da Polónia que elege o rei, mas, de facto, são os
principais dignitários do reino que o escolhem. Uma vez formalmente eleito,
o rei é coroado em Cracóvia pelo arcebispo de Gniezno. O rei, desde que
respeite os estatutos e os privilégios precedentes, detém o poder legislativo,
administra a justiça e está à cabeça do exército. Durante o século XV, o
Parlamento polaco assume a forma de duas câmaras: um Senado, onde no
final do século têm assento sobretudo os bispos e os grandes ministros e
funcionários do Estado; uma Câmara dos Deputados, onde votam os nobres
do reino.
Na época da união com a Lituânia, foi preciso proceder a uma mudança da
política internacional polaca. Ao longo do século XIV, com Ladislau I (c.
1259-1333) e Casimiro, o Grande (1310-1370), procurou-se uma aliança
com a Hungria de carácter antigermânico, contra o império dirigido pela
Casa de Luxemburgo e contra os cavaleiros teutónicos. A partir do momento
em que sobe ao trono húngaro Segismundo de Luxemburgo (1368-1437), esta
aliança torna-se inexequível, e são ainda mais vitais para os destinos da
Polónia a união com a Lituânia e uma política expansionista para leste em
detrimento da Rússia. As relações entre a Polónia e a Lituânia serão
definidas no congresso de Vilna de 1401, que estabelece a paz entre Ladislau
e Vytautas (1352-1430), que é nomeado grande príncipe da Lituânia na
condição de, por sua morte, a Lituânia regressar aos descendentes de
Ladislau. Por sua vez, os polacos empenham-se na eleição dos sucessores de
Ladislau consultando os lituanos. Os acordos tornam possível uma mais
precisa cooperação entre os dois países na luta contra os cavaleiros
teutónicos, que têm o apoio dos reis da Hungria e da Boémia e dos senhores
da Pomerânia, enquanto Ladislau e o seu primo Vytautas só podem contar
com as suas forças. Os exércitos defrontam-se a 15 de julho de 1409 na
batalha chamada pelos alemães de Tannenberg e pelos polacos de Grunwald.
A estrondosa vitória polaca é considerada um sinal da reação eslava ao
avanço plurissecular germânico. Mas a vitória não é oportunamente
desfrutada, dando tempo aos cavaleiros de se reorganizarem e de impedirem
a invasão da Prússia. O conflito conclui-se com a paz em 1411. Segismundo
retira-se do conflito fazendo algumas concessões territoriais a Ladislau e
renunciando às suas pretensões sobre os territórios russos e sobre a
Moldávia.
Nas décadas seguintes, a Polónia é envolvida nas questões hussitas. O
próprio Jan Hus (c. 1370-1415) pregou em Cracóvia e os boémios viram
com simpatia a política antigermânica dos polacos. No concílio de
Constança, os delegados laicos polacos defendem as posições hussitas. Os
próprios hussitas moderados oferecem o trono boémio, primeiro, a Ladislau
e, depois, a Vytautas, recebendo uma recusa de ambos. Por outro lado, a
Igreja polaca pressiona fortemente para abandonar os hussitas ao seu destino.
De facto, depois das simpatias iniciais, Ladislau, em 1423, emana decretos
de repressão contra a difusão das doutrinas hussitas.

O reinado de Casimiro Jaguelão


Ladislau Jaguelão morre em 1434, depois de ter acalmado as desordens
que nasceram na Lituânia após a morte de Vytautas. Deixa dois filhos, o
primeiro dos quais tem apenas dez anos e é eleito rei da Polónia com o título
de Ladislau III (1424-1444) e confiado à tutela dos magnatas da Polónia.
Depois é oferecido a Ladislau também o trono da Hungria, enquanto o da
Boémia é oferecido ao seu irmão mais novo, Casimiro (1427-1492),
evidenciando assim o nível de estima e celebridade alcançado pela família
dos Jaguelões. Mas a vida de Ladislau na Hungria revela-se desafortunada,
dado que, arrastado na guerra contra os turcos, o jovem Ladislau morre no
campo de batalha de Varna em 1444.
Na Polónia há três anos de interregno (1444-1447) após os quais
Casimiro, irmão mais novo de Ladislau, é eleito soberano, reinando
longamente na Polónia de 1447 a 1492.
Casimiro é um soberano de elevadas qualidades, foi bem-educado e
favorece a cultura secular e humanista que encontra na Universidade de
Cracóvia um vivíssimo centro, onde estuda Nicolau Copérnico (1473-1543).
Casimiro mostra-se desde o início impaciente com as ingerências do clero
católico nas questões políticas polacas. O clero polaco contribuiu,
particularmente nos anos do reinado do irmão, para afastar os polacos da
guerra contra os cavaleiros teutónicos, já não vistos como alemães
invasores, mas como uma ordem religiosa e, como tal, a respeitar. Por sua
vez, Casimiro quer retomar a guerra contra os teutónicos para chegar a um
confronto final que resolva definitivamente o problema. Aliás, pode contar
com o facto de, nas regiões submetidas à ordem, se ter difundido uma forte
intolerância em relação aos cavaleiros, e são muitos os que olham com
simpatia para a Polónia e para as suas medidas de liberdade. Numerosos
rebeldes enviam petições para que a Prússia e a Pomerânia sejam anexadas à
Polónia. Tem início uma guerra que se arrasta durante 13 anos, até à batalha
decisiva de 1462, em Puck, a que se segue a conquista das principais
fortalezas teutónicas e a queda do seu quartel-general de Marienburg.
A Prússia Oriental com a capital em Königsberg mantém-se com o grão-
mestre, que deve reconhecer-se como vassalo da Polónia. A Polónia atingiu
o Báltico. A abertura para o mar e o porto de Gdansk oferecem a
oportunidade de colocar a produção de trigo polaco no mercado ocidental. A
crescente procura de trigo muda consideravelmente as relações nos campos.
No século precedente as condições dos camponeses polacos estavam entre
as melhores da Europa Oriental, mas com a segunda metade do século XV
regista-se um progressivo e acentuado processo de exploração, precisamente
na sequência das novas oportunidades oferecidas aos grandes proprietários
de terras pela procura do trigo, que impõe formas de produção intensivas.
Paralelamente, há a tendência de limitar a autonomia e os direitos dos
camponeses. Entre 1493 e 1496 são introduzidas leis que proíbem os
camponeses de abandonar as suas aldeias. Deste modo, os camponeses são
completamente submetidos à jurisdição dos seus senhores, caindo numa
situação servil.
Depois de 1490, os Jaguelões parecem ser a força preponderante na
Europa de Leste. De facto, Casimiro conseguiu designar o seu filho Ladislau
Jaguelão (1456-1516) rei da Boémia, em 1472, e da Hungria, em 1490,
enquanto a Polónia elege rei o filho de João Alberto (1459-1501), e o
terceiro filho Alexandre (1461-1506) é eleito Grande Príncipe da Lituânia.

V. também: O Império Germânico, p. 86; A Boémia, p. 96; A Hungria, p. 99;


O «renascimento científico», p. 257.
OS PAÍSES ESCANDINAVOS
de Renata Pilati

Durante todo o século xv, a união constitucional dos três reinos


escandinavos, Suécia, Noruega e Dinamarca, realizada em Kalmar,
em 1397, é caracterizada pelo papel hegemónico da Dinamarca. Mas
a união é submetida várias vezes a pressões centrífugas pela nobreza
sueca, que quer instaurar um reino nacional e nomeia um soberano
próprio, enquanto mais débeis e ineficazes são as tentativas
secessionistas dos noruegueses. Favorável à união é uma parte do
clero, que defende os reis da Dinamarca.

A união da Escandinávia
A união é constituída pela rainha Margarida da Dinamarca (1353-1412)
em 1397, em Kalmar, porto sueco do Báltico, com a anexação da Noruega à
Dinamarca – obtida mediante o casamento com Haakon (1339-1380), rei da
Noruega e da Suécia, de quem fica viúva, e após o desaparecimento
prematuro do filho Olavo IV Haakonsson (1370-1387) – e da Suécia,
conquistada mediante a derrota em 1389 de Alberto de Meclemburgo (c.
1340-1412), chamado a reinar na Suécia após a morte de Haakon, mas
hostilizado pela nobreza, que solicita a intervenção dinamarquesa. A união,
há muito tempo desejada, é aprovada pela assembleia de nobres e bispos
escandinavos da Dieta realizada entre 12 e 20 de julho; o seu objetivo é
defender os interesses comerciais da Escandinávia contra o grande poder das
cidades alemãs da Liga Hanseática. Criam-se assim as condições para
relançar o comércio e apoiar o desenvolvimento manufatureiro, favorecendo
o reforço da burguesia. Margarida adota Erik da Pomerânia (c. 1382-1459),
filho da sua irmã e de Wartislaw VII; é um menino de seis anos, que
Margarida manda coroar rei em 1396. Erik XIII da Suécia, VIII da
Dinamarca e III (IV) da Noruega.

O descontentamento sueco
Por morte de Margarida, em 1412, Erik da Pomerânia governa sozinho,
instaurando um regime despótico, e Estocolmo – a maior cidade, com cinco
mil habitantes, proclamada capital em 1419 – suporta mal os seus métodos
de governo, que seguem os de Margarida no que diz respeito à concessão de
feudos e cargos a dinamarqueses e alemães. Além disso, a diminuição dos
poderes nobiliários e a vontade de controlo sobre a Igreja fazem aumentar o
descontentamento. O endurecimento dos impostos e a revogação do
privilégio de usar a espada de lado na igreja e nas assembleias populares
suscitam a rebelião dos suecos contra os dinamarqueses. Os nobres suecos
contrários à união colocam-se à cabeça de revoltas camponesas desde os
anos 20.
Engelbrekt Engelbrektsson (c. 1390-1436), representante da pequena
nobreza, assume em 1434 a condução da revolta dos camponeses na
Dalecárlia (Dalarna). Como chefe do partido da independência, combate
para expulsar o rei e separar a Suécia da Dinamarca. O movimento alarga-se
aos nobres, aos burgueses e ao clero. Erik vê-se obrigado a deixar a Suécia e
refugia-se na Gotlândia: os dinamarqueses são expulsos. Erik decide
regressar e reconhece Engelbrekt como regente em 1435, durante a
assembleia de Arboga, que é considerada a primeira convocação do
Parlamento (Riksdag), emanação da antiga assembleia (thing), no qual estão
representados, ao lado dos nobres, do clero e da gente das cidades, os
camponeses. Engelbrekt é assassinado em 1436 e a chefia é assumida pelo
marechal Karl Knutsson (c. 1408-1470), que participou com Engelbrekt na
luta contra a Dinamarca. Karl, que é filho de Knut Tordsson (?-1413) da
nobre família Bonde, governa a Suécia até 1441.

Deposição de Erik e eleição de Cristóvão III


Erik é destronado em 1439 nos três reinos escandinavos. Na base do
princípio estabelecido pela União de Kalmar, segundo a qual o rei deve ser
eleito em comum, é escolhido como sucessor o sobrinho de Erik, Cristóvão
III da Baviera (1416-1448), filho de João da Baviera (1383-1443) e de
Catarina da Pomerânia, irmã de Erik. A aristocracia unionista sueca
reconhece Cristóvão III, seguida pelo próprio Karl Knutsson, que é
compensado com a Finlândia e numerosos feudos. Cristóvão III é
proclamado rei da Noruega em 1442, mas tem de combater para assumir o
poder. Tem de lutar também contra a Liga Hanseática, que retomou o
predomínio. Estabelece a capital em Copenhaga. Cristóvão III morre em
Helsingborg, em 1448.

Eleição de Cristiano I e secessão sueca


A Dinamarca elege como rei Cristiano I (1426-1481), filho de Teodorico,
o Feliz, de Oldemburgo (c. 1398-1440), e de Edviges de Holstein (c. 1400-
1440). Extinta a dinastia Sweyn Estridsen, o poder passa para a Casa de
Oldemburgo, ramo colateral da Casa Glücksborg. O duque Cristiano I
recebeu uma ajuda considerável do duque Adolfo VIII da Silésia (1401-
1459), em casa de quem foi educado. Em 1448, os representantes do partido
nacional sueco separam-se da União de Kalmar e elegem um soberano
próprio, Karl Knutsson, que se torna Carlos VIII e reina de 1448 a 1457.
Carlos VIII é também rei da Noruega por um ano, entre 1449 e 1450.

A Noruega une-se à Dinamarca


Os noruegueses estão divididos e lutam entre si pela anexação à
Dinamarca ou à Suécia. Prevalece a posição favorável à anexação à
Dinamarca. Cristiano I, que é aceite como soberano dos noruegueses em
1450, conseguirá manter a Noruega unida à Dinamarca até 1481. São
concedidos benefícios (feudos, terras e cargos) a dinamarqueses e suecos.
Cristiano I reconhece à assembleia norueguesa a autoridade de eleger o
soberano, estabelecendo deste modo a igualdade jurídica com a Dinamarca,
mas a concessão não será respeitada.

Cristiano I contra a Suécia


Cristiano I combate contra os suecos para impor a sua autoridade. Em
1452, ataca Estocolmo com 46 navios dinamarqueses, mas é derrotado pelos
suecos, que são conduzidos pelo seu rei. Os nobres unionistas e o clero com
o arcebispo Jens Bengtsson Oxenstierna (1417-1467) organizam a oposição
a Karl Knutsson e a todos os que combatem pela independência.
Cristiano I, confiando na ajuda dos unionistas, volta à carga no ano
seguinte, derrota os suecos e põe em fuga Karl Knutsson, que se refugia com
as suas tropas em Gdansk. Cristiano I é reconhecido como soberano em
1457. Apesar do empenho em defender a União de Kalmar, Cristiano I
despreza os direitos dos nobres suecos e põe-se contra o poderoso
arcebispo, tendo de enfrentar uma nova rebelião em 1464. Desta vez, nobres
e clero estão decididos a defender a sua autonomia da ingerência
dinamarquesa e apelam a Karl Knutsson, que é apoiado pelas poderosas
famílias de Sture e Tott. Mas o bispo Kottil (Vasa) (?-1465) e o seu tio Jens
Bengtsson Oxenstierna continuam a ser-lhe hostis. Karl VIII Knutsson,
regressado ao poder em 1464, é novamente expulso pelos suecos em 1465.
Dois anos depois, Carlos VIII retoma o poder, que mantém até à morte (15 de
maio de 1470). Carlos VIII encomenda ao decano do capítulo de Uppsala
uma história da Suécia até 1464.
Antes de morrer, Carlos designa como regente o sobrinho Sten Sture, o
Velho (1440-1503), que mesmo sem ter a nomeação como soberano exerce
as suas funções. Cristiano I organiza uma expedição contra os suecos e ataca
Estocolmo com 70 navios, mas é derrotado a 11 de outubro de 1471 em
Brunkeberg, perto de Estocolmo, por Sten Sture, o Velho, que governará a
Suécia até 1497. Sten Sture patrocina importantes iniciativas culturais, como
a fundação da Universidade de Uppsala por iniciativa do bispo Jakob
Ulvsson (c. 1430-1521) em 1477, a primeira e a mais antiga universidade na
Europa Setentrional, que se tornou economicamente autossuficiente com a
concessão de duas mil herdades agrícolas. Em Uppsala é introduzida a
imprensa.

A Noruega tenta emancipar-se da Dinamarca


A guerra com os suecos agravou a posição financeira de Cristiano I, que
com uma ação arbitrária, em 1469, retira à Noruega as últimas possessões
marítimas, as ilhas Órcades e Shetland, para as dar como dote à filha
Margarida (1456-1486), que se casa com Jaime III Stuart (1451-1488), rei
de Escócia. Por morte de Cristiano I (1481) a Noruega tenta rebelar-se
contra a Dinamarca, mas é submetida por Hans (1455-1513), filho e herdeiro
de Cristiano.

A Dinamarca de Cristiano I e Hans


Depois da subida ao trono, Cristiano I tem de aceitar a carta de coroação,
um pacto reposto em vigor para garantir uma série de direitos no campo
legislativo, fiscal, judicial e de política externa. Em caso de falta de respeito
do pacto, o soberano pode ser deposto. Dado que Cristiano não respeita
sempre essas obrigações, em 1468, convoca os Estados para se desvincular
do Conselho.
Em 1460, por morte do último herdeiro do condado de Holstein, Cristiano
I chegou a um acordo com a família, ressarcindo aqueles que reivindicavam
direitos. Tornou-se conde de Schleswig e duque de Holstein e empenhou-se
em manter unidos os dois territórios, que devem ser governados por um
membro da casa real escolhido pela nobreza local. Em Copenhaga é fundada
a universidade em 1479. Hans, filho e sucessor de Cristiano I, por força da
União de Kalmar, torna-se rei da Noruega e da Suécia. Tem de enfrentar a
revolta na Noruega, mas consegue impor a sua autoridade em 1483. Na
Dinamarca empenha-se em reforçar a monarquia e, por isso, limita o poder
da nobreza. Por outro lado, procura o consenso dos camponeses e dos
burgueses, e estes últimos são compensados com cargos administrativos e
tutelados contra a Hansa, graças aos acordos comerciais com a Holanda e a
Inglaterra. Por sua vez, a situação na Suécia perspetiva-se de maneira muito
diferente.

Hans da Dinamarca entra em acordo com Sten Sture da Suécia


Na Suécia, Sten Sture, o Velho, que governa desde 1471, consegue manter
Hans afastado do país. Sture procedeu à emancipação dos camponeses,
reordenou a administração e tornou próspera a Suécia. Mas durante a luta
com os russos, que têm a intenção de ocupar a Finlândia, tem de enfrentar a
oposição dos nobres e do Senado, que convidam o rei Hans a tomar posse do
trono (1495). Sture, com o apoio dos camponeses da Dalecárlia, por ele
recrutados, marcha sobre Estocolmo, mas é derrotado em Rotebro, a 28 de
outubro de 1497. Hans, reconhecido como soberano pelos suecos, prefere
aliar-se com Sture, o Velho, e, para levar a paz à região, nomeia-o
governador da Dalecárlia.

A Suécia rumo à independência


Os nobres suecos insurgem-se mais uma vez e abandonam Hans depois da
dura repressão por ele levada a cabo contra os camponeses rebeldes de
Holstein: a 29 de julho de 1501, atribuem novamente a Sten Sture a regência.
Por sua morte, em 1503, o partido da independência nomeia regente o seu
sobrinho, Sten Sture, o Jovem (1493-1520), que é travado nos seus projetos
de se proclamar rei pelo arcebispo Gustav Trolle (1488-1535). O partido da
união é favorável a Cristiano I (1481-1559), rei da Dinamarca e da Noruega
desde 1513, que tenta por três vezes, entre 1517 e 1520, conquistar a Suécia.
Depois de duas derrotas, sai vencedor no lago gelado de Åsunden, próximo
de Bogesund, enquanto Sture, o Jovem, é mortalmente ferido na batalha.
Cristiano é coroado rei em Estocolmo, mas a sua decisão de trazer a ordem e
a paz com um massacre induz a oposição a reorganizar-se: de facto, na
sequência da sua coroação, Cristiano ordena a morte de cerca de 80
opositores. O nobre Gustavo Johansson Vasa (1496-1560) incita a população
da Dalecárlia à revolta e a rebelião estende-se a todo o país. Com a ajuda de
Lubeque, a Suécia derrota a Dinamarca e torna-se independente em 1523,
elegendo como soberano Gustavo Vasa. A União de Kalmar entre a Suécia e
a Dinamarca é definitivamente dissolvida. A Noruega permanecerá ligada à
Dinamarca, apesar de outras tentativas para se tornar independente, até 1814.

V. também: A Boémia, p. 96; A Hungria, p. 99; A Polónia, p. 102.


A «TERCEIRA ROMA»
de Silvia Ronchey

A queda de Constantinopla nas mãos de Maomé II deixa vago o título


imperial de Constantino. Esta herança será reivindicada por exilados
gregos, por monarcas ocidentais e, sobretudo, pelo principado de
Moscovo, jovem Estado ortodoxo destinado a uma ascensão
imparável. Uma importante inserção dinástica e uma refinada
ideologia imperial de clara derivação bizantina contribuem para a
identificação de Moscovo com a «Terceira Roma».

Os epígonos gregos e ocidentais


Depois do fracasso do plano de «salvação ocidental» de Bizâncio, que
visa salvar da conquista turca de Constantinopla, pelo menos, o título
imperial romano para aí transferido por Constantino, o Grande (c. 280-337),
mais de mil anos antes, e reunir a Primeira e a Segunda Roma numa única
entidade de direito – constituindo em Moreia um Estado bizantino refundado,
em que catolicismo e ortodoxia coexistem mediante a plataforma
confessional mista preparada por Basílio Bessarion (1403-1472) em 1439,
no concílio de Florença, reconfirmada em Constantinopla pouco antes da sua
queda –, a reivindicação da herança romana pelo conquistador Maomé II
(1432-1481) é contestada e disputada por diversos, e em muitos aspetos
legítimos, fracos pretendentes.
Em primeiro lugar, permanecem os últimos epígonos das grandes dinastias:
Teodora Comnena (século XV, mais conhecida como Despina Hatun),
sobrinha de David II de Trebizonda (1408-1463) e mulher do chefe
turcomano Uzun Hassan (1423-1478), dominador da Pérsia, a partir da corte
de Tabriz continua durante muitos anos a estimular o marido a empreender
ações de distúrbio e uma verdadeira guerra contra Maomé II, estabelecendo
ao mesmo tempo uma densa rede de relações com as potências ocidentais,
sobretudo Veneza, de carácter antiotomano. No entanto, as suas tentativas
acabam por revelar-se falhadas.
O mesmo destino cabe a Tomás Paleólogo (1409-1465), último déspota da
Moreia, que morre em Roma em 1465 e cujos dois filhos, que tinham sido
confiados aos cuidados do «cardeal oriental» Bessarion, depressa se
revelam irrequietos e intolerantes às próprias instituições católicas que
contribuem para os manter. Mais tarde, Manuel (1455-1512) regressará ao
Oriente e aceitará um privilégio do sultão. Por sua vez, o primogénito André
(1453-1502) permanecerá no Ocidente, levando uma vida de circulator (em
grego agyrtes), tentando diversas vezes obter financiamentos em troca da
cessão dos seus direitos hereditários, uma primeira vez ao rei de França e, a
segunda, pouco antes de morrer (1502), a Fernando (1452-1516) e Isabel de
Espanha (1451-1504). Precisamente naqueles anos não falta a tentativa de
Maximiliano de Habsburgo (1459-1519), imperador germânico, reivindicar
os seus direitos sobre o Império de Constantinopla; e quando, com Carlos V
(1500-1558), neto de Maximiliano e de Fernando, estas reivindicações se
unem aos direitos cedidos por André Paleólogo, não faltam alguns exilados
gregos no Ocidente que saúdam Carlos como «novo basileus» de Roma e de
Constantinopla.

O mundo eslavo e o principado de Moscovo


Todavia, o Ocidente, ainda que permeado pela redescoberta da cultura
helénica e desde sempre atraído pela possibilidade de recuperação da
herança jurídico-institucional bizantina, torna-se cada vez mais insensível ao
legado político e ideológico do naufragado império grego. Um legado que
será muito mais vital na área eslava, onde, ainda antes da queda de
Constantinopla, por oposição a uma basileia cada vez mais tentada pela
união com Roma, se vai pondo a hipótese de uma espécie de translatio
imperii sob o signo da fé ortodoxa. Por exemplo, verificou-se que já o czar
búlgaro Ivan Alexandre (1331-1371) assumia a atitude de soberano
universal, sucessor, senão substituto do bizantino, e em particular que, na
visão oficial, a modesta capital de Tarnovo tinha sido concebida como uma
espécie de «Nova Constantinopla»: esta espécie de autarcia ideológica
parece, em certos aspetos, prefigurar precisamente a teoria da «Terceira
Roma».
No entanto, é na última grande potência ortodoxa que restou, o principado
de Moscovo, que é concebida e codificada a missão de herdar e perpetuar o
papel do império cristão fundado por Constantino. O grão-duque Basílio I
(1371-1425), já quando em 1394-1397 a aproximação turca parece predizer
a queda iminente de Constantinopla, proíbe que seja mencionado o
imperador bizantino nas igrejas do seu Estado e pronuncia a célebre frase:
«Temos uma Igreja, mas não um imperador.» É notável que o protesto perante
tal afirmação seja assumido pela própria Igreja: efetivamente, o patriarca de
Constantinopla, António, escreve ao grão-duque para lhe recordar que Igreja
e império não podem ser separados, uma vez que o próprio Pedro, na
primeira epístola (2, 17) afirma: «Temei Deus, honrai o imperador.» Se a
figura de um único imperador ecuménico e cristão é indispensável para a
ortodoxia, uma vez que o trono de Constantinopla tenha sido ocupado por um
soberano islâmico, o papel do basileus está destinado a ficar vazio: o
principado de Moscovo está predestinado a assumi-lo. Com Ivan III (1440-
1505) é rapidíssima a evolução institucional (sucessão por primogénito),
política (vastas anexações territoriais, em particular a de Novgorod) e
ideológica (assunção do título imperial de czar, «césar») para a formação de
um grande império autocrático ortodoxo, que deverá substituir Bizâncio logo
que esta caia. Já nesta época, nomeadamente, o grande príncipe de Moscovo
dota-se do título de grozny, «temível», uma menção à esfera ideológica
típica da autocracia bizantina, em que o soberano, vigário de Deus na terra,
assume os seus atributos jurídico-sagrados: o conceito ocidental mais
próximo do de grož é aliás o de maiestas e é este o verdadeiro sentido, bem
como a origem da denominação com que é conhecido Ivan IV (1530-1584) –
não uma referência, decerto, ao temperamento sanguinário do soberano,
como depois a vulgata historiográfica tenderá erradamente a captá-la.

O casamento de Sofia Paleóloga e Ivan III


Nesta base ocorre um crucial enxerto dinástico. Com o patrocínio
diplomático oculto e o estrénuo apoio político-financeiro de Bessarion, que
permaneceu, pela sua oportuna posição romana, o verdadeiro executor
testamentário da herança de Bizâncio, é celebrado em Moscovo, em 1472, o
casamento entre Ivan III e Sofia Paleóloga (1455-1503), filha do déspota
Tomás, que é assim designada para fazer a transfusão do sangue e transmitir
o título imperial dos últimos imperadores de Constantinopla a uma nova
dinastia reinante.
Não obstante se afirme por vezes o contrário, Sofia chegou à Rússia de
mãos vazias, mas pode assim fruir do conspícuo dote que Bessarion lhe
concedeu, com garantia do pacto dinástico, secando literalmente os fundos
destinados à já ultrapassada «guerra santa contra os turcos». Uma vez em
Moscovo, volta a abraçar sem hesitações a confissão ortodoxa que
formalmente fora convidada a abandonar na sua adolescência romana pelo
seu tutor Bessarion, e, segundo este rito, é celebrado o casamento. Ainda que
depois disso não tenham faltado viajantes e diplomatas ocidentais que a
pintaram como uma mulher inteligente e astuta, capaz de influenciar o marido
em mais de uma ocasião.
De facto, é depois do casamento que o czar, além de adotar um faustoso
cerimonial de corte diretamente decalcado do de Constantinopla, assume
como símbolo duradouro a águia bicípite, antiga insígnia imperial bizantina,
e em 1492 é saudado pelo metropolita Zósimo (?-1494) como «soberano e
autocrata de toda a Rússia, o novo imperador Constantino da nova cidade de
Constantino, Moscovo».
Por morte de Ivan III, em 1505, é Sofia que se impõe nas lutas dinásticas
que se seguem, pondo no trono o seu filho Basílio (1479-1533) em prejuízo
de Dmitry (1483-1509), filho da primeira mulher do falecido grão-príncipe.
De resto, Basílio e os seus descendentes não deixarão de adotar o nome
Paleólogo nos seus títulos oficiais.

A ideia da Terceira Roma


A verdadeira teorização da passagem da herança do império universal
ortodoxo de Bizâncio para Moscovo encontra-se em duas célebres cartas
atribuídas a Filofei de Pskov: a epístola «com a refutação das predições
astrológicas de Nicolaus Bülow e com a exposição da ideia da Terceira
Roma» e a epístola «sobre a Terceira Roma, sobre os deveres de quem
governa, sobre o ritual do sinal da cruz». Quem amadurece definitivamente
esta ideia, em todos os seus aspetos teóricos e práticos, será o neto de Sofia,
Ivan IV Grozny (1530-1584), nas ainda mais novas cartas ao príncipe
rebelde Andrey Kurbsky (1528-1583). Na primeira, escrita a 5 de julho de
7072, segundo o calendário bizantino (1564 segundo o calendário juliano),
Ivan manifesta «a vontade desta soberania autocrática», reivindicando para o
seu trono o direito imperial romano de Constantino, «primeiro imperador na
piedade», e «de todos os soberanos ortodoxos» de Bizâncio, que
«semelhantes a águias percorreram a ecúmena». Foi por vontade de Deus
que o Império Russo herdou este único «poder autocrático verdadeiramente
ortodoxo» depois da queda de Constantinopla: uma primeira vez em 1204,
por obra dos cruzados, «mas depois Miguel Paleólogo (c. 1224-1282)
expulsou os latinos e criou novamente um reino, insignificante de forças, que
existiu até ao czar Constantino denominado Dragazes. Nesta época surgiu,
para os nossos pecados, o ímpio Maomé, que extinguiu a potência grega [...]
sem deixar quaisquer vestígios». Foi precisamente aqui que «a centelha da
reta fé chegou finalmente ao império russo». Trata-se de uma lúcida
retomada da doutrina bizantina da autocracia de direito divino, expressa já
no início do século IV nas Laudes Constantini, de Eusébio de Cesareia (c.
265-339) e ulteriormente confirmada no século VI, em plena época justiniana,
nos Capitoli Parenetici de Agapito (?-536) – «Deus deu ao soberano o cetro
do poder na terra, à semelhança do seu poder nos céus». Ao escrever ao
rebelde Kurbsky, Ivan IV tem uma boa jogada ao afirmar que «quem se opõe
a um poder como o nosso com maior razão se opõe a Deus», porque «o
poder é dado por Deus». É graças a esta retomada literal da mais antiga
ideologia estatal de Bizâncio que Ivan IV, ao reprimir as tentações «feudais»
e as tendências centrífugas representadas pelo poder dos boiardos,
reorganiza a administração da Rússia em torno da corte de Moscovo-
Terceira Roma, segundo os ditames do estatismo centralista bizantino, e
lança as bases para o nascimento da Rússia moderna.

V. também: A queda de Constantinopla, p. 36;


O Império Bizantino e a dinastia paleóloga. A agonia do império, p. 131.
A PENÍNSULA IBÉRICA
de Rossana Sicilia

A história dos Estados da Península Ibérica no século XV é marcada,


na política interna, pela tendência para a reaproximação pelo menos
entre dois dos três conjuntos estatais que constituem o sistema dos
Estados cristãos. Esta aproximação é sancionada pelo casamento de
Isabel de Castela e de Fernando II de Aragão (1469). Por sua vez, o
reino de Portugal da nova dinastia de Avis experimenta sem êxito a
via do renovado conflito com Castela, mas grande parte das suas
energias concentram-se nos extraordinários acontecimentos que
verão o Estado lusitano artífice de uma das grandes empresas da
descoberta do mundo, com a circum-navegação da África e a nova
via aberta ao comércio das especiarias (1497). Na esteira lusitana
movimenta-se também a monarquia castelhana, que confia a Colombo
a oportunidade de operar uma viragem na história do mundo (1492).

O reino de Aragão
No reino de Aragão, com a prevista extinção da dinastia catalã, em 1410, a
sucessão parece difícil e é regulada com o compromisso de Caspe (1412), na
base do qual a coroa de Aragão, depois da extinção da dinastia catalã,
passará para Fernando I (1380-1416), filho mais novo da casa reinante de
Castela. É sob a dinastia da Casa de Trastâmara que, em meados do século
XV, com Afonso V (1396-1458), Aragão atinge a sua máxima expansão,
acrescentando em Itália o reino de Nápoles às conquistadas ilhas da Sicília e
da Sardenha. De resto, a incapacidade em que se encontra a Catalunha de
impor no trono aragonês um candidato seu testemunha as dificuldades de a
região manter o papel dinâmico e diretivo que teve até então, dificuldades
que não são de ordem económica – de facto, a vitalidade mercantil de
Barcelona surge em expansão –, mas de ordem política. Com o compromisso
de Caspe, a classe dirigente aragonesa ganha o predomínio sobre a catalã.
Isto porque as cortes catalãs se recusaram a intervir para salvar o conjunto
aragonês da perda da Sardenha e da Sicília, argumentando que competia ao
monarca e não ao Parlamento a defesa dos interesses gerais de Aragão.
Como consequência, a classe dirigente aragonesa consegue impor uma maior
participação das suas representações no governo do país e uma maior
consideração dos seus interesses, não conformes aos catalães. Os órgãos de
representação das ordens sociais aragonesas, nas suas componentes,
alcançam, a partir do final do século XIII, um notável relevo e, no século XV,
revelam-se como protagonistas da vida política e institucional, coisa que só
em pequena parte se pode dizer de outros reinos espanhóis. Se em Inglaterra
o parlamentarismo parece afirmar-se já desde o início do século XIII como
consequência das relações de forças que foram determinadas entre a
monarquia e os seus interlocutores, por sua vez, no âmbito aragonês, toma
forma um princípio de base que caracteriza as relações entre a monarquia e o
país, baseado na salvaguarda das tradições e dos direitos das várias partes
da estrutura estatal. Referimo-nos ao pacticismo, que confere à experiência
aragonesa um notável interesse histórico, revigorado pelo esforço de
amálgama daqueles países, que torna possível a coesão em torno dos órgãos
centrais do governo, representados pela corte do rei.

Portugal da Ordem de Avis e Castela


No final do século XIV, o Estado português atravessa uma grave crise
dinástica, porque Fernando I (1345-1383) morre em 1383 sem deixar
sucessores em linha masculina, e a filha Beatriz (1372-1408) está casada
com João I de Castela (1358-1390) aliado da França. A solução que se
perspetiva neste impasse dinástico provoca uma dilaceração na sociedade
portuguesa, na medida em que os senhores feudais se mostram favoráveis à
solução castelhana, mas as camadas urbanas que se desenvolveram
propendem para uma solução nacional, escolhendo como seu candidato João,
aparentado com o soberano falecido, grão-mestre da Ordem de Avis. Por
fim, as cortes de Coimbra designam-no como soberano, e João I (1357-
1433) inicia a sua política, defrontando-se com os castelhanos e aliando-se
aos ingleses, através do tratado de Windsor (1385). O novo soberano apoia-
se na parte mais dinâmica da sociedade portuguesa e vê nas atividades
marítimas uma das componentes mais importantes da política lusitana. De
facto, em Portugal, a coroa encaminha já em 1289 a seu favor as dificuldades
com a Igreja; as dificuldades com a aristocracia só são resolvidas no início
do século XV, constituindo-se uma feudalidade mais homogénea e mais fiel
aos soberanos portugueses. A parte mais rebelde refugiou-se junto dos
soberanos de Castela, onde as grandes contendas dinásticas entre o ramo
legítimo da casa reinante e o ramo bastardo dos condes de Trastâmara se
entrelaçam com a hostilidade em relação à coroa, mas também com o
conflito anglo-francês. Resolvido o problema dinástico a favor de Henrique
Trastâmara (1425-1474), nos anos seguintes delineia-se cada vez mais
claramente o primado de Castela, só travado pelas dificuldades que o Estado
teve de enfrentar a nível interno.

Descobertas geográficas e conquistas portuguesas


As descobertas geográficas têm o seu momento de arranque no processo de
transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. Devemos perguntar-nos,
para começar, quais foram as razões que levaram os protagonistas desta
grande época, Portugal e Espanha em primeiro lugar, a investirem grandes
recursos nestas aventuras nos mares do mundo. Uma primeira resposta pode
vir da técnica, dado que ao longo do século XV se assiste a uma série de
inovações na arte e nos instrumentos de navegação, que marca uma
verdadeira revolução no sector.
Desde o tempo de Afonso IV (1291-1357), os navios portugueses
chegaram às Canárias e nos portulanos da segunda metade do século XIV
estão indicadas as ilhas da Madeira e dos Açores. Na realidade, o início
desta formidável iniciativa parece ter um carácter estritamente político-
religioso: o espírito de cruzada contra os muçulmanos que habitam em
Marrocos. Todavia, à empresa iniciada em 1415 com a conquista de Ceuta
não são certamente alheios os interesses mercantis de grupos próximos da
jovem monarquia portuguesa. Por outro lado, Portugal é, nesta fase, um
Estado de modestas dimensões, com modestos recursos económicos e
também de modestos recursos demográficos. Muito rapidamente, aos
interesses religiosos e económicos referidos juntam-se as poderosas
motivações culturais do príncipe Henrique, o segundo filho da dinastia de
Avis, que formou uma verdadeira comunidade intelectual junto da sua
habitação em Sagres, constituída por algumas das figuras mais prestigiadas
do humanismo lusitano e europeu. As iniciativas daquele que passará à
história como Henrique, o Navegador (1394-1460), depressa levarão o
Estado português a estender-se para lá de Marrocos, porque os resultados da
cruzada contra o islão foram previsivelmente modestos. Os portugueses
começam a estender-se para sul e, se numa primeira fase se apoderam das
ilhas da Madeira e dos Açores, rapidamente os objetivos das suas já
periódicas expedições navais ao longo da costa ocidental de África assumem
motivações totalmente novas. Se uma mantém um carácter religioso
tradicional, procurar aliados na luta contra o islão, estabelecendo contactos
com o mítico Preste João, herdeiro da tradição copta-cristã, sedeada a sul do
Egito, as outras assumem um conteúdo económico muito mais concreto.
Sabe-se há tempo que uma parte do ouro que chega ao mundo mediterrânico
provém do sul da África sariana, de uma região que os próprios portugueses
descobrirão, situada no golfo da Guiné, habitada por povos não islâmicos.
Daí o interesse em estabelecer contacto com estes povos da África
subsariana. Entre as motivações dos impulsos expansionistas portugueses
emerge ao mesmo tempo a de atingir os grandes países das especiarias no
Extremo Oriente, tanto para substituir o controlo monopolista que os
venezianos exercem nas vias que passam pelo Mediterrâneo, como para
responder às dificuldades do fluxo das especiarias para ocidente surgidas na
sequência da guerra e da conquista otomana do que resta do Império
Bizantino. Daí a ideia, fruto de reminiscências clássicas, que é possível
alcançar os países das especiarias circum-navegando África.
A complexa história da descoberta e das feitorias portuguesas ao longo da
costa ocidental africana tem momentos exaltantes: primeiro, os portugueses
entram em contacto com os reinos negros do golfo da Guiné (Mali e Gana),
onde encontram cidades construídas em alvenaria e casas com os tetos de
ouro; depois, seguem mais a sul e encontram as desembocaduras do rio
Congo, entrando em contacto com um outro formidável Estado, o de Mani-
Congo. Estabelecem relações diplomáticas com o soberano, que se converte
ao catolicismo e que alguns anos depois visitará o «irmão» soberano
português. Seguindo cada vez mais para sul, a expedição dirigida por
Bartolomeu Dias (c. 1450-1500), em 1488, dobra a ponta extrema de África,
que batizará cabo da Boa Esperança, e toca Madagáscar, onde encontra
vestígios seguros das relações seculares do grande império chinês com a
África Oriental.
Castela e o Atlântico
A projeção de Castela no Atlântico tem início com a conquista da
Andaluzia e do curso navegável do rio Guadalquivir, adquirindo deste modo
uma das regiões mais ricas da península e uma abertura para o oceano de
valência relevante. Não é por acaso que o reino se transforma nesta fase
numa potência marítima. De facto, afluem a Sevilha navios e mercadores de
todas as regiões da Europa, Ásia e África. O Estado melhora a estrutura
viária, relançando as atividades mercantis e promovendo as feiras de
Sevilha, Medina e Santiago de Compostela.
A rápida evolução da potência castelhana para uma dimensão também
marítima constitui a premissa de novos confrontos dinásticos e bélicos entre
Castela e Aragão. Em 1375, a dinastia Trastâmara, com Henrique, torna-se a
direção política de Castela, mas a primeira metade do século XV é
caracterizada e condicionada por um difícil caso de sucessões dinásticas que
têm início com a morte, em 1406, com apenas 27 anos, de Henrique III
(1379-1406). A longa menoridade do herdeiro João II (1405-1454), que se
torna rei com dois anos, marca negativamente a política do reino, dado que a
regência é assumida pela mãe e por um tio, que não estão em condições de
gerir a complexa situação interna. A situação não melhora com o casamento
(1417) do soberano de 13 anos com Maria de Aragão (1396-1445), enquanto
o governo está sob a influência de Henrique (1400-1445) e de João (1397-
1479) de Aragão, irmãos da rainha e promotores de uma ação não favorável
aos interesses castelhanos, dos quais, por sua vez, se torna patrocinador o
grande condestável, Álvaro de Luna (c. 1390-1453). A sua fama de ministro
e a sua capacidade política têm a oposição da aristocracia feudal e do
partido aragonês presente na corte. Várias vezes expulso e exilado, consegue
obter de novo a confiança do rei João, mas acaba por ser decapitado pelas
fações que lhe são hostis. No ano seguinte, morre o soberano e sucede-lhe o
filho Henrique IV (1425-1474). A marcha difícil do seu casamento com
Joana de Portugal (1439-1475) repercute-se negativamente nos destinos da
dinastia, de tal modo que, em 1465, Henrique é destronado sendo
proclamado soberano o seu irmão Afonso (1453-1468). A sua morte, apenas
três anos depois, reabre a questão da sucessão ao trono, em que se insere,
mais uma vez, o destronado Henrique. Só quando os adversários conseguem
impor-lhe o tratado dos Touros de Guisando a situação se resolve, ao ser
designada herdeira ao trono a sua irmã Isabel (1451-1504), que entretanto se
casa em Valladolid com Fernando de Aragão (1452-1516), filho e herdeiro
de João de Aragão na condução da monarquia catalã-aragonesa. A rainha
sobe ao trono de Castela em 1474, enquanto, por sua vez, Fernando se torna
rei de Aragão em 1479, com o nome de Fernando II. A união entre os dois
soberanos não compreende a unidade política entre os dois conjuntos
estatais. No entanto, em particular Fernando, influencia consideravelmente a
política castelhana até à morte da própria Isabel (1504). Nos últimos 20 anos
do século, a rainha é obrigada a defender a sua coroa das ameaças do rei
Afonso V de Portugal (1432-1481) e a proceder a uma reorganização da
Inquisição no quadro do seu reino. Quanto a Fernando, dito o Católico, leva
a cabo no conjunto aragonês uma política centralizadora, realizando uma
reforma das finanças que lhe permite convocar muito raramente as cortes,
para pedir contributos financeiros. Intervém na designação dos altos cargos
eclesiásticos e na atribuição dos benefícios mais importantes, graças ao ius
supplicationis concedido pelo papa. Finalmente, ordena a destruição dos
castelos fortificados dos grandes senhores feudais para garantir a segurança
do governo central.
Cinco anos antes do empreendimento de Colombo, os portugueses traçam o
caminho da nova rota para as Índias e só as vicissitudes internas do seu reino
e das suas relações com a nova poderosa realidade do Estado espanhol,
nascido do casamento (1479) de Isabel de Castela e de Fernando, o
Católico, impedem que a rota para oriente, circum-navegando África, seja
definitivamente sancionada.
É neste âmbito que se insere o episódio de Cristóvão Colombo (1451-
1506). Bem informado das descobertas e das iniciativas lusitanas, chega à
Madeira em 1478 e, no ano seguinte, a Lisboa, onde em 1484 apresenta ao
rei João II um relatório. O soberano português, empenhado na retomada dos
projetos expansionistas na África Ocidental e rumo às Índias, não dá ouvidos
a Colombo, que, depois de ter tentado improváveis aproximações com os
soberanos francês e inglês, através do irmão Bartolomeu (1460-1514),
confia o seu projeto a Isabel de Castela. As resistências da corte de
Valladolid ao empreendimento proposto por Colombo cessam após a vitória
dos reis de Espanha sobre o reino islâmico de Granada, que, precisamente
em 1492, assinala a exclusão definitiva do último Estado islâmico da
Península Ibérica. Com a convenção da Santa Fé, de abril de 1492, Colombo
obtém três pequenos navios, a promessa, em caso de sucesso, de receber o
título de almirante do mar oceano, o de vice-rei e governador das terras
conquistadas e, além disso, a percentagem de dez por cento sobre os
negócios comerciais. Os soberanos espanhóis confiam a Colombo o encargo
da reconquista católica até aos confins da terra. Partindo do porto de Palos a
3 de agosto de 1492, no decurso da viagem leva no plano operacional todos
os novos instrumentos que a técnica tem à disposição para realizar a
navegação de longo curso para ocidente, inclusive a capacidade de calcular
o erro ínsito no uso oceânico da bússola, dado que o polo norte terrestre não
coincide com o magnético. A empresa de Colombo é concluída a 12 de
outubro de 1492 com o avistamento de um atol das Bahamas, Guanahani, que
Colombo rebatiza São Salvador.

V. também: A reconquista de Granada, p. 45;


As expedições navais e as descobertas geográficas antes de Colombo, P. 165;
Marranos e mouriscos, p. 191.
AS SENHORIAS EM ITÁLIA
de Andrea Zorzi

A evolução política da Itália centro-setentrional nos séculos XIV e XV


é caracterizada por uma acentuada competição militar e pela
afirmação de Estados supracitadinos dirigidos por poderes
geralmente senhoriais. Estes podem derivar quer da evolução de
experiências amadurecidas no período precedente, como no caso dos
Visconti, quer de formas de autoridade, como os condottieri que se
tornaram senhores, quer ainda de poderes senhoriais de tipo
informal, como o dos Médicis em Florença.

Os Estados supracitadinos
A Itália da Baixa Idade Média é caracterizada pelo policentrismo político.
O quadro fragmentado e instável da Itália comunal e senhorial é recomposto
nos séculos XIV e XV num sistema político mais estruturado e estável de
Estados territoriais de dimensão regional. Protagonistas do processo de
formação estatal são algumas realidades urbanas e senhoriais capazes de
exprimir força económica e vontade expansionista numa longa e áspera
competição política e militar, submetendo outras cidades, outras
comunidades rurais e outros poderes.
Enquanto os reinos europeus se reforçam numa base nacional, a Península
Itálica permanece dividida numa multiplicidade de formações políticas: a
promover a formação dos maiores Estados territoriais estão grandes cidades
como Florença, Veneza e sobretudo Milão, que apoia com o seu poder social
e económico a audácia política e militar da dinastia Visconti.
As primeiras tentativas de criar Estados supracitadinos são promovidas
por alguns senhores urbanos na primeira metade do século XIV. Os Della
Scala de Verona põem primeiro sob controlo as cidades da região de Véneto
(entre as quais Treviso, Pádua e Vicenza) com Cangrande (1291-1329), e
depois estendem o seu domínio fora desta região a Brescia, Parma e até Luca
com o neto Mastino II (1308-1351).
Na Toscana, tem um certo relevo o domínio constituído pelo nobre de Luca
Castruccio Castracani (1281-1328) sobre Luca, Pistoia, Luni e Volterra entre
1316 e 1328: ele obtém também o título de duque por Ludovico da Baviera
(c. 1286-1347), e derrota os florentinos em Altopascio em 1325. Mas a
maior expansão é dirigida pelo arcebispo Giovanni Visconti (c. 1290-1354)
na Lombardia, no Piemonte, na Ligúria e na Emília, que chega a impor a sua
senhoria a cidades como Brescia, Vercelli, Génova, Parma e Bolonha.
Cada uma destas iniciativas suscita a mobilização militar de uma liga
adversa de cidades, que no caso da guerra contra os Visconti obtém também
o apoio do pontífice, que excomunga o arcebispo Giovanni e lança uma
cruzada contra ele.

O ducado de Milão
É a política expansionista que caracteriza toda a experiência dos Visconti
que dá impulso à formação dos Estados territoriais italianos. Gian Galeazzo
(1351-1402) imprime novamente um forte dinamismo militar ao seu domínio
que, além de englobar o cantão Ticino, grande parte da Lombardia e do
Piemonte Oriental, chega a incluir Verona, Vicenza, Pádua e Belluno em
1387, destruindo as senhorias dos Della Scala e dos Da Carrara de Pádua, e
prossegue na Itália Central obtendo entre 1399 e 1400 também a senhoria de
Pisa, Siena, Perugia, Espoleto e Bolonha.
A tenaz resistência da assediada Florença, que é encoberta por uma
polémica antitirânica em nome da liberdade republicana, é recompensada
pela morte imprevista do duque em 1402, que redimensiona as ambições que
os seus ideólogos tinham propagandeado como a intenção de constituir um
reino nacional italiano. As conquistas territoriais são novamente dispersadas
e só o segundo filho Filippo Maria (1392-1447) consegue consolidá-las em
torno de um perfil mais restritamente «lombardo» do Estado dos Visconti.
Em 1395, Gian Galeazzo obtém do imperador Venceslau (1361-1419), por
100 mil florins, o título de «príncipe e duque» de Milão. O duque pode
utilizar as relações feudais para ligar a si tanto as senhorias locais, como as
cidades e as comunidades rurais: uma das fórmulas mais recorrentes nos atos
de submissão aos Visconti é, de facto, o pedido de pacificação pelas cidades
que se submetem. O duque consolida a sua autoridade reformando os
estatutos locais, controlando os benefícios eclesiásticos, reforçando os
poderes dos organismos centrais: Conselho de Justiça, Câmara Ducal e
Conselho Secreto. Para financiar as despesas, o duque recorre a empréstimos
pessoais, para garantia dos quais concede rendas e isenções fiscais, mas
também jurisdições e cargos oficiais. Nos aparelhos centrais e periféricos
nomeia indivíduos provenientes de todo o ducado.
De facto, Milão não é o centro, a dominante, mas apenas a residência do
duque, e o patriciado milanês – isto é, o grupo restrito de famílias e
indivíduos que monopolizam o controlo do funcionalismo municipal – está
envolvido de modo não exclusivo no governo do Estado: não é por acaso que
dará um último sinal de vitalidade por morte de Filippo Maria, instituindo
uma «república ambrosiana», que durará de 1447 a 1450.

As senhorias dos condottieri


A morte sem herdeiros de Filippo Maria Visconti em 1447 desencadeia a
luta pela sucessão no ducado. No fim, acaba nas mãos do condottiero das
Marcas Francesco Sforza (1401-1466) em 1450, que casou com uma filha
natural de Filippo Maria e que é chamado pelo patriciado milanês para
defender a frágil república ambrosiana. A apoiá-lo estão os florentinos,
contrapondo-se ao avanço que os venezianos fizeram na Lombardia
ocupando Lodi e Placência, com o consenso e apoio do duque de Saboia e
do rei de Nápoles. O caso de Francesco Sforza é o mais representativo de
um fenómeno que caracteriza a cena política italiana do século XV, isto é, a
criação de domínios senhoriais pelos condottieri. Alguns deles acabarão por
enraizar-se nos Estados que servem, como é o caso de Braccio da Montone
(1368-1424) ou de Francesco Sforza.
Na situação de desordem do Estado pontifício alguns tentam dar vida a
senhorias, como é o caso de Braccio da Montone que, em 1416, se torna
senhor de Perugia e que em breve estende os seus domínios sobre parte do
território da Úmbria e das Marcas. Um particular relevo assumem as
experiências senhoriais que ganham corpo nas cidades e nos territórios da
Romanha e das Marcas. A fraqueza da autoridade papal naquelas áreas
permite, por exemplo, à família Malatesta, senhores de Rimini, a extensão do
seu domínio a Pesaro, Cesena e Fano, à Casa de Montefeltro a criação de um
vasto território entre a Romanha, as Marcas e a Úmbria, centrado em Urbino,
à família Da Polenta a implantação em Ravena e no seu território, à família
Da Varano a dominação de Camerino. Em geral, estes senhores obtêm os
seus títulos de legitimidade do cargo de «vigário», que os pontífices lhes
concediam para os enquadrar de algum modo sob a sua autoridade. Uma
conotação comum a quase todas as estirpes é a acentuada atitude militar, que
faz de alguns dos seus membros condottieri que se distinguem nas guerras
italianas do século XV.

Outros Estados senhoriais


Entre os poucos Estados que sobrevivem à simplificação da geografia
política da Itália Setentrional têm um certo relevo alguns domínios senhoriais
menores. De cariz citadino são os das famílias Gonzaga e Este. A autoridade
dos primeiros limita-se a Mântua e ao seu território, dotando-se do título de
marquês obtido do imperador em 1433. A senhoria dos segundos, que na
origem tem uma marcada implantação feudal proveniente da família
Obertenghi das Marcas, centra-se sobretudo em Modena e Reggio, de que se
tornam duques em 1452, e em Ferrara, cujo título ducal é concedido pelo
papa em 1471. Os dois só conseguem sobreviver entre vizinhos agressivos
graças a um cauteloso imobilismo. Por sua vez, a senhoria da Casa de Saboia
estende-se pelos territórios rurais dos Alpes ocidentais, estrategicamente
importantes pelas passagens que ligam a Itália a França. Ao longo do século
XIV, o domínio alarga-se ao Piemonte Ocidental, que Amadeu VIII (1383-
1451) expande também a Nice, Pinerolo, Turim e Vercelli. Obtido o título
ducal em 1416 entrega-se a uma obra de coordenação política e
administrativa que culmina na emanação de importantes estatutos em 1430 e
na subdivisão do ducado em 12 províncias, confiadas a bailios, por sua vez
subdivididas em castelanias. No Piemonte subalpino, entre vários condados
menores, destacam-se também o marquesado de Saluzzo e o de Monferrato.
No Apenino entre a Toscana e a Romanha permanece importante até ao
século XV o domínio senhorial dos condes Guidi; em Lunigiana, o da família
Malaspina.

A Florença dos Médicis


Experiências senhoriais também não faltam nas cidades republicanas
sobreviventes, como a da família Gambacorta em Pisa entre 1370 e 1390, da
família Giunigi em Luca entre 1400 e 1430 e da família Petrucci em Siena
entre 1487 e 1525. Um caso particular é o do notário romano de origem
humilde. Cola di Rienzo (c. 1313-1354), que, em 1347, se apodera do
Capitólio proclamando-se «tribuno da paz, da liberdade e da justiça». A
iniciativa tem sucesso num primeiro momento graças às reformas da
administração citadina em sentido antinobiliário. Mas rapidamente, mesmo
apoiado pelo papa, Cola cai vítima de uma conjura aristocrática e de uma
sublevação – devido aos pesados impostos que lhe retiram a simpatia do
povo – durante a qual é morto em 1354.
Mas é sobretudo em Florença que a família dos banqueiros dos Médicis
consegue afirmar com Cosme, o Velho (1389-1464), uma senhoria de facto, a
partir de 1434, dentro de um duradouro quadro institucional republicano. O
neto Lourenço de Médicis (1449-1492), consciente que Florença representa
o Estado mais fraco e mais exposto ao risco de perder a sua independência,
empenha-se sobretudo numa hábil atividade diplomática. Através de uma
estável aliança com a família Sforza e com os soberanos napolitanos,
consegue travar as tentativas de expansão venezianas e as ambiguidades da
política pontifícia. Durante um certo período, o sistema político desenhado
pela Liga Itálica, estabelecida com a paz de Lodi em 1454, assegura
estabilidade, mas não tranquilidade.
Efetivamente, nos Estados que constituem o seu eixo diplomático sucedem-
se algumas conjuras que manifestam a precariedade dos seus ordenamentos
internos e às quais não são estranhas as tramas de outras potências. Em 1476,
é assassinado em Milão Galeazzo Maria Sforza (1444-1476), e o tio
Ludovico, o Mouro (1452-1508), assume a regência pelo filho Gian
Galeazzo (1469-1494). Em 1478, na catedral de Santa Maria del Fiore, em
Florença, Lourenço de Médicis escapa a uma emboscada organizada pela
família Pazzi, que gere as finanças pontifícias.
A conjura, urdida com a ajuda do papa Sisto IV (1414-1484, papa desde
1471) e do duque de Urbino Federico da Montefeltro (1422-1482), acaba
num falhanço: quem é morto é o irmão Juliano (1453-1478), enquanto
Lourenço, ainda que ferido, desencadeia uma feroz repressão que reforça
definitivamente o seu poder.

V. também: O equilíbrio entre os Estados italianos p. 48; A República de Veneza, p. 123;


O renascimento da poesia em vulgar na Florença laurentina, p. 176;
A poesia nas cortes e nas cidades, p. 490; A Milão dos Sforza, p. 616;
Pádua e Ferrara: duas variantes do Renascimento, p. 658;
Urbino nos anos de Federico de Montefeltro, p. 663;
Mantegna e a Mântua dos Gonzaga, p. 667; Veneza entre tradição e renovação, p. 673;
Florença na época de Lourenço, o Magnífico, p. 684.
A REPÚBLICA DE VENEZA
de Fabrizio Mastromartino

A estabilidade institucional que distingue a república veneziana


sustenta a formidável ascensão de Veneza durante o século XV. A
expansão do seu domínio em terra, que acompanha o tradicional
domínio marítimo na república, a sóbria gestão administrativa dos
territórios adquiridos e a astuta orientação da sua diplomacia fazem
de Veneza a maior potência italiana do século.

A excecionalidade da república veneziana


No cenário político italiano, onde a longa fase de experimentação
institucional foi concluída com o fracasso da organização comunal, a
República de Veneza distingue-se pela eficiência e fiabilidade das suas
instituições. Garantia da sua estabilidade política é a continuidade da sua
organização institucional, articulada segundo um ordenamento aristocrático
governado por uma casta política composta por homens de linhagem nobre.
Trata-se de um patriciado, cuja génese remonta aos anos do final do século
XIII e princípio do século XIV, à chamada Serrata del Consiglio, que fixa as
condições de elegibilidade dos membros do governo, restringindo o acesso
às instituições venezianas às famílias de alto nível que mais tinham
participado na condução da política da república.
Esta reorganização em sentido oligárquico, que obedece a uma lógica
conservadora tendente a consolidar a autoridade do Comune Veneciarum,
circunscrevendo o exercício do poder de modo a salvaguardar a estabilidade
institucional através da continuidade da atividade do governo, está na base
da formidável ascensão da república no século XV, que rapidamente se torna,
através do seu desenvolvimento territorial e da sua eficaz política
diplomática e administrativa, a maior potência italiana do século.

A expansão continental da república


A resoluta política de aquisição territorial levada a cabo por Veneza desde
os primeiros anos do novo século constitui uma clara rutura na história da
república. A expansão da cidade para o interior corresponde a uma nova
estratégia de governo, tendente a reforçar a posição política da comuna,
acompanhando o tradicional domínio do mar – destinado ao seu tráfego
comercial – de um extenso domínio em terra.
As possessões marítimas da república consistem já num vasto conjunto de
entidades territoriais, compreendidas entre a costa sudeste da Ásia Menor e
da Grécia, em relação às quais a autoridade veneziana surge consolidada,
nunca sendo posta seriamente em causa, nem mesmo nos momentos de
particular dificuldade vividos pela república. Por outro lado, o domínio
veneziano constitui a única alternativa à sujeição ao temido poder otomano,
que naqueles anos surge imparável. São muitas as razões que impelem
Veneza nesta nova direção; do mesmo modo que são múltiplos os objetivos
que pretende atingir. A expansão continental da comuna cria sobretudo novas
possibilidades de escoamento para as atividades mercantis. A tutela dos
interesses económicos, que encontravam satisfação no domínio marítimo das
maiores praças comerciais, pode ser mais bem garantida mediante uma
política previdente de defesa territorial tendente a estender a esfera de
influência da república na intrincada trama do cenário político italiano.
Além disso, o governo da comuna considera necessário, no mínimo, após a
derrota de Chioggia (1381), impor o poder da república para reafirmar o
vigor, em oposição ao crescente poder dos Visconti que, na área de Pádua,
manifesta intenções claramente monopolistas.
Já as conquistas obtidas em 1404-1405 na Marca de Treviso (Verona,
Pádua, Rovigo, Vicenza, Treviso) modificam a posição da comuna na
política italiana. A confirmação do diferente peso adquirido pela república é
testemunhada pela nova atenção de que Veneza é objeto pelos príncipes
italianos, pela confiança que nela depositam as populações submetidas ao
seu controlo e pelas cidades que pedem em voz alta a sua proteção. Mas é
sobretudo a partir da segunda década do século que a república assume a
centralidade política que diferenciará o seu papel na política internacional
dos séculos seguintes: primeiro, mediante um acordo estabelecido com
Filippo Maria Visconti (1392-1447) em 1414, em que é legitimado o
domínio veneziano sobre os territórios adquiridos dez anos antes,
estendendo-o às cidades de Belluno e Feltre; depois com a conquista de
Aquileia e Udine (1420) na guerra com Segismundo da Hungria (1368-
1437), a quem a república também consegue subtrair nos anos seguintes o
domínio da costa dálmata, aproveitando as dificuldades internas do reino,
ocupado a reprimir as revoltas que rebentaram na região da Boémia.
Veneza entrou já em pleno na contenda pelos territórios da Itália
Setentrional. Em 1425, estabelece uma aliança com Florença, com a qual
forma uma frente compacta contra o poder dos Visconti, rompendo o acordo
assinado dez anos antes com o ducado de Milão. Não hesita em opor-se à
comuna ambrosiana na sua esfera de influência direta, anexando, primeiro,
Brescia (1426), depois, Bergamo (1428), iniciando assim um período de
guerras pela região de Pádua, que se prolonga, entre tréguas e novas
alianças, por todo o século.
Com o controlo da região de Friul, reafirmado novamente em 1445 através
de um acordo subscrito com o patriarca de Aquileia, Veneza assume, além
disso, uma posição altamente estratégica para a defesa do território italiano
do poder otomano. Com o Crescente, a república desenvolve uma política
diplomática paritária e nunca dócil, mediante a qual tutela a livre circulação
dos seus mercadores nos territórios do império, empenhando-se em pagar um
tributo anual para manter o domínio do mar. O respeito dos direitos dos
mercadores venezianos não diminuirá nem com a queda de Constantinopla às
mãos turcas (1453), à qual se segue uma outra declaração de paz subscrita
pelo sultão que reconfirma a liberdade de comércio entre o império e
Veneza, impondo um irrisório imposto de dois por cento sobre o tráfego
efetuado nos territórios otomanos.

A Sereníssima senhoria
A formidável expansão territorial realizada pela república na primeira
metade do século muda radicalmente a própria estrutura institucional de
Veneza, que de cidade-estado se transforma num centro de poder encabeçado
por um verdadeiro Estado regional de dimensões muito amplas. Sinal desta
mudança, pelas profundas repercussões no cenário político italiano, é a
substituição do título da república veneziana, Comune Veneciarum, pela
nova denominação, que surge nos documentos oficiais do Maggior Consiglio
a partir de 1462, de Sereníssima senhoria. Veneza é então uma cidade
dominante, que desfralda o seu poder num território variegado – marítimo e
continental – para o controlo do qual depressa se torna necessário preparar
um articulado sistema administrativo.
No governo dos domínios terrestres, a orientação da república distingue-se
nitidamente do estilo florentino, invasivo e tendencialmente centralizador. A
gestão administrativa das cidades anexadas à senhoria é organizada sob a
insígnia do respeito das autonomias locais, realizado por meio da
conservação das constituições citadinas e pela negociação com as
comunidades do encargo fiscal a que ficam submetidas. Após a anexação, a
reforma dos estatutos citadinos é confiada a comissões de juristas locais
constituídas para o efeito. De qualquer modo, as modificações efetuadas são
marginais, salvo nas cidades de Pádua e Treviso, onde, por força da sua
proximidade com a dominante, os estatutos integram leis venezianas. De
facto, o único aspeto relevante para a senhoria é que nos estatutos seja
expressamente reconhecida a soberania de Veneza sobre as cidades a ela
submetidas: soberania que se explica na obrigatoriedade da aprovação da
reforma estatutária pela senhoria e na imposição que eventuais reformas não
ocorram sem a prévia autorização da dominante. A delegação às cidades da
reforma dos seus estatutos obedece a um projeto de governo de carácter
conservador tendente a reforçar as camadas dirigentes, das quais os juristas
constituem uma parte conspícua, a encorajar a formação de ordenações
aristocráticas semelhantes ao patriciado – que distingue as instituições
venezianas – e a deixar inalterado o sistema dos privilégios feudais vigentes,
mantendo assim intactas as relações de força existentes localmente. O
próprio papel dos regedores, aos quais é confiada, além do administração da
justiça, a tutela da ordem pública e do orçamento citadino, apresenta-se
como secundário em relação aos poderes locais, os quais, para a resolução
de controvérsias políticas de um certo relevo, não hesitam dirigir-se de
imediato diretamente à autoridade central.

A política europeia de Veneza


O resoluto ingresso de Veneza no cenário político italiano, dentro do qual
a Sereníssima senhoria desempenha um papel de primeiro plano, implica
bem cedo a participação direta de Veneza na luta política europeia, que se
joga na arrumação da península e na repartição do território em esferas de
influência entre poderes concorrentes. Quando Carlos VIII (1470-1498)
desce a Itália em 1494 para reivindicar a coroa do reino de Nápoles, o rei
francês dá por adquirida a participação de Veneza na iniciativa contra os
otomanos, que pretende organizar, aproveitando a posição estratégica das
regiões meridionais italianas. Veneza subtrai-se ao compromisso com o
soberano francês, que tinha envolvido o Estado pontifício e os mais
poderosos principados italianos, adotando uma estratégia sagaz orientada
para uma certa habilidade.
Por outro lado, já em 1463, Veneza não hesitara em declarar guerra ao
império, envolvendo-se num conflito com desfecho incerto, que lhe causara
severas derrotas – a perda de parte da região de Friul, da cidade de Scutari,
na Albânia, e sobretudo das ilhas de Negroponte, praça comercial de enorme
relevo, de Lemnos, Argo e Croia. Depois, tinha tentado compensar os danos
comerciais que se seguiram a estes insucessos, que testemunhavam a
definitiva supremacia dos otomanos na Grécia e na Ásia Menor, adquirindo,
em 1489, Chipre, importante ilha nas vias marítimas para a Síria. Assim, a
Sereníssima compreendia bem que da empresa organizada por Carlos não
retiraria nenhuma vantagem: uma derrota teria reforçado ainda mais o já
incontestável poder turco; uma vitória teria implicado para Veneza a
cedência da sua autonomia e do domínio dos seus territórios coloniais à
coroa francesa.
Assim, Veneza esforça-se para que o projeto de Carlos fracasse e
estabelece uma rede de alianças, formalizadas na Liga de 1495, com a
intenção de impedir o regresso de Carlos a França. Depois, aproveitando a
posição de relevo assegurada na organização da liga, apodera-se de
Monopoli e de Cremona, assumindo o controlo total das rotas adriáticas e
alargando a sua esfera de influência na região de Pádua.
No entanto, o oportunismo político da Sereníssima não podia deixar de
provocar uma dura reação do império, que desbarata a frota veneziana,
impreparada e desorganizada diante da potência turca, em Porto Longo, na
ilha de Sapienza, a 12 de agosto de 1499. A hostilidade dos otomanos, com
os quais Veneza assina um acordo de paz em 1503, depois reconfirmado em
1517, é apenas o primeiro sinal evidente da criação de um sentimento hostil
em relação à república, que rapidamente se difunde em Itália e na Europa e
que se consolidará na constituição da Liga de Cambrai, em 1509: uma
oposição, unânime e feroz, de que só as grandes potências – como a
Sereníssima senhoria – inevitavelmente são objeto.
V. também: A Hungria, p. 91; As senhorias em Itália, p. 119; O Império Otomano, p. 125;
A imprensa e o nascimento do livro, p. 203.
A ITÁLIA MERIDIONAL
de Aurelio Musi

Nas primeiras três décadas do século XV a parte peninsular da Itália


Meridional, o reino de Nápoles, ainda está submetida à dominação
de Anjou. Mas após uma sangrenta guerra é conquistada em 1442 por
Afonso V de Aragão. Com ele, o reino de Nápoles adquire uma
dinastia autónoma e independente. Assim, em conjunto com a
Sardenha e a Sicília, já aragonesas, todo o Mezzogiorno passa a
fazer parte do império mediterrânico catalão-aragonês, vivendo um
intenso período de desenvolvimento económico e de renovação
político-administrativa. Na sequência da guerra franco-espanhola do
final do século, o reino de Nápoles perde a sua independência: depois
de um breve período francês é conquistado por Fernando, o Católico,
e submetido à dominação espanhola (1503-1707).

O século XV siciliano e sardo


Depois de um período de independência, a Sicília regressa aos aragoneses
em 1409, passando primeiro para Martim, o Velho (1365-1410), depois para
o seu sucessor Fernando de Trastâmara (1380-1416), e ainda para Afonso V,
o Magnânimo (1396-1458). A partir do início do século XV, a Sicília
começa a ser governada por um vice-rei. Latifúndio e cultura extensiva
representam os traços económicos mais característicos: terrenos para
sementeira e pasto, grandes herdades e instalações centralizadas configuram
o aspeto prevalecente dos territórios sicilianos. O verdadeiro poder forte da
ilha é a feudalidade, que, à sombra de uma fraca monarquia, conseguiu no
século XV conquistar o controlo quase total dos feudos e uma jurisdição
muito ampla, isto é, poder económico, social, judicial; em particular o
merum et mixtum imperium, ou seja, a faculdade, reconhecida pelo soberano
nas fórmulas de investidura, de administrar não só a justiça civil mas também
a justiça penal no interior dos feudos, por vezes até a condenação à pena
capital.
O advento de Fernando ao trono de Aragão torna a ligação da Sicília com
esta coroa mais estável do que no passado. Mas os súbditos insulares
reivindicarão em relação aos soberanos uma relação contratual com a
monarquia, isto é, uma relação não baseada no estatuto da pura conquista
militar, mas na associação voluntária à soberania, primeiro, aragonesa e,
depois, espanhola, e no reconhecimento de autonomias consistentes.
Ainda mais tormentosa é a relação entre a Sardenha e a coroa de Aragão.
Os soberanos esforçam-se para consolidar o seu poder, reprimindo as
revoltas, desenvolvendo uma intensa ação política e administrativa, abolindo
antigos estatutos e privilégios locais, concedendo feudo a nobres catalães e
aragoneses, fundando novas cidades, como Alghero, com uma população
predominantemente catalã. Afonso desloca-se à ilha em 1420 para reprimir
as últimas resistências. Mas os aragoneses só adquirem definitivamente o seu
controlo no final dos anos 70 do século XV.

Os aragoneses no reino de Nápoles


Nas primeiras décadas do século XV, a dinastia de Anjou vive um período
de crise no reino de Nápoles. O rei Ladislau (c. 1377-1414) não consegue
obter, como está nos seus projetos, a supremacia na península italiana nem
reduzir o poder das maiores famílias feudais do reino. A crise de direção
política acentua-se no anos de Joana II (c. 1370-1435) que lhe sucede: vendo
o seu trono ameaçado por Luís III de Anjou (1403-1434), a rainha adota num
primeiro momento como filho e sucessor o rei de Aragão Afonso V, e revoga
depois a adoção preferindo Luís III. Daí a guerra entre os dois candidatos à
sucessão. Depois de uma primeira fase favorável a Luís, o seu
desaparecimento, contemporâneo ao de Joana, reacende a guerra. Afonso
opõe-se a Renato de Anjou (1409-1480), irmão do falecido rei. O soberano
aragonês é feito prisioneiro em Ponza pelos genoveses e entregue ao duque
de Milão Filippo Maria Visconti (1392-1447), aliado de Anjou. Mas Afonso
consegue convencer Visconti a aliar-se e a dirigir conjuntamente a empresa
da conquista de Nápoles (1442). No ano seguinte, Afonso V de Aragão, I de
Nápoles, faz a sua entrada triunfal na capital do reino, assume o título de rei
de Sicília citra et ultra pharum, mas os dois reinos de Nápoles e da Sicília
continuarão a ser distintos no plano político e administrativo.
O reino ganha assim um «rei próprio». O regresso à independência
intervirá na transfiguração mítica de muitos intelectuais durante o período
espanhol seguinte, a tal ponto que o poeta dialetal Velardiniello (século XVI)
poderá exaltar o período aragonês num célebre verso: «Saie quanno fuste
Napule Corona? Quanno regnava Casa d’Aragona.» Afonso estabelece em
Nápoles a sua residência e restitui ao Mezzogiorno um prestígio perdido
depois da grande política internacional desejada e realizada pelos primeiros
reis angevinos. O prestígio deveu-se a dois elementos decisivos da estratégia
política afonsina: a projeção catalão-aragonesa no Mediterrâneo e a
integração do reino de Nápoles na política italiana que, em meados do
século XV, conserva uma solidez e dinâmica próprias. Sobretudo esta
segunda dimensão será cultivada também pelo sucessor de Afonso, que
conseguirá tornar-se garante, juntamente com os outros quatro potentados
italianos (o ducado de Milão, a República de Veneza, o principado florentino
de Lourenço, o Magnífico, e o Estado da Igreja), do equilíbrio político
italiano estabelecido na paz de Lodi em meados do século XV.
Além da política externa, é a política interna que reforça o reino após
décadas de crise angevina. Uma ação de consolidação institucional é
iniciada por Afonso e pelo seu sucessor Fernando (1431-1494), quer através
da criação de novas magistraturas como a Regia Camera della Sommaria,
designada para supervisionar os assuntos financeiros, e o Sacro Regio
Consiglio, o maior organismo judicial do reino, quer através da
reestruturação de funções mais antigas. Afonso e Fernando promovem assim
os primeiros embriões a partir dos quais se desenvolverá o Estado moderno
do reino de Nápoles.

A política económica e social


Após a crise do século XIV, Afonso volta a impulsionar a economia do
reino de Nápoles e dos outros domínios italianos graças à sua inserção num
sistema relativamente integrado que alguns historiadores definiram
precisamente como uma espécie de mercado comum. Um projeto
embrionário de integração económica é idealizado por Afonso. Nele, a
Catalunha e Barcelona são os polos da indústria têxtil, aos quais é reservado
o monopólio dos mercados aragoneses aquém do Tirreno, subtraídos à
penetração dos tecidos estrangeiros; nas mesmas regiões são colocados os
polos do equipamento naval; as possessões italianas devem desenvolver a
função de hinterland agrícola para as cidades industriais e comerciais de
Espanha e, naturalmente, deve ser desencorajada a indústria têxtil local.
Talvez a expressão mercado comum seja um pouco forte: além disso,
convém ter presente que se trata mais de um projeto do que de uma
realização efetiva. Alguns historiadores negam que um soberano da Baixa
Idade Média esteja em condições de conceber e realizar um desígnio tão
ambicioso de especialização e integração suprarregional. Outros olham com
suspeita uma terminologia tendente a identificar mercado comum e
confederação: os reinos dominados pelos aragoneses conservam todos uma
individualidade própria, sobretudo institucional, posta em evidência pela
instituição do vice-rei, que se afirma precisamente com os aragoneses,
definindo-se como autoridade de governo do território, mas também como
ligação com a vontade e o poder do soberano comum. No entanto, a maioria
dos historiadores dá por adquirido que o período aragonês marca, sobretudo
para os territórios italianos, uma inserção positiva no mercado internacional
e o início de uma tendência favorável do desenvolvimento económico que só
terá uma inversão negativa na longa crise do século XVII. Em particular no
reino de Nápoles, Afonso promove uma política de desenvolvimento
industrial, encorajando sobretudo o sector têxtil; reorganiza, com a
constituição da alfândega das ovelhas na Apúlia, o sistema da criação de
gado; promove um processo de melhoramentos e de mercantilização da
agricultura; reestrutura toda a rede do comércio através de feiras citadinas.
Mais complexa é a relação entre o governo aragonês e a sociedade do
Mezzogiorno. A historiografia mais recente lê a política social da monarquia
aragonesa nos reinos meridionais de Itália como o resultado de uma
consciência lúcida das relações de força aí existentes. Daí o entendimento
entre a coroa e o baronato feudal, uma espécie de compromisso histórico
baseado no respeito recíproco de prerrogativas e interesses. Isto não impede
a resistência da feudalidade que, no reinado de Fernando, promove duas
revoltas, a primeira, entre 1459 e 1464, e a segunda, muito mais grave, que
passou à história com o nome de Conjura dos Barões, desencadeada em 1485
e concluída no ano seguinte com a vitória do rei Fernando.
A estratégia de gestão da Conjura dos Barões, uma gravíssima crise
política que opõe a Fernando nomes ilustres da aristocracia como o príncipe
de Salerno Antonello Sanseverino (1458-1499), o conde de Sarno e
riquíssimo homem de negócios Francesco Coppola (c. 1420-1487), o
próprio secretário do rei Antonello Petrucci (1420-1487), tem no humanista
Giovanni Gioviano Pontano (1429-1503) um dos seus protagonistas. Numa
primeira fase, Fernando, consciente da força do baronato, persegue o
objetivo de desunir os barões, punindo depois de maneira espetacular as
personalidades mais destacadas que participaram na conjura. Mas a vitória
do rei Fernando sobre os barões rebeldes não seria possível sem a
prossecução coerente da política de alianças «italianas», fundada por Afonso
e impulsionada pelo filho tendo em vista objetivos mais avançados, também
sob o conselho de Pontano: é a aliança entre Milão, Florença e Nápoles, em
particular, a atividade diplomática de Lourenço, o Magnífico (1449-1492),
destinada a neutralizar a possível intervenção do pontífice e dos venezianos
a favor dos barões rebeldes. Assim, a guerra dos barões é resolvida a favor
do soberano aragonês graças ao princípio do equilíbrio e da «balança de
Itália».
Em síntese, as linhas da política social aragonesa no Mezzogiorno são as
seguintes: 1) favorecer as comunas contra os barões; 2) favorecer uma
política de comercialização do feudo e ampliar as sucessões feudais com o
objetivo de enfraquecer a posição feudal e torná-la mais acessível; 3) iniciar
um processo de transformação do baronato, através da integração entre a
aristocracia da capital e a aristocracia feudal das províncias. Estas linhas
também serão seguidas, no século seguinte, pelos governantes espanhóis.

O fim da independência do reino de Nápoles


Em dezembro de 1494, Carlos VIII (1470-1498), o rei francês que iniciou
poucos meses antes a sua invasão para a conquista da Itália, entra em Roma e
prossegue a sua marcha triunfal até ao reino de Nápoles. Aqui, depois da
morte de Fernando, reina o filho Afonso (1448-1495), que, em 1495, abdica
a favor do filho Fernando II (1467-1496), dito Ferrandino. Neste mesmo ano,
Carlos VIII apodera-se do reino, mas graças a uma aliança antifrancesa,
Ferrandino volta a obter o reino de Nápoles a 7 de julho de 1495, morrendo
pouco depois. Foi herdeiro do trono o tio Frederico (1451-1504), que,
depois da assinatura de uma trégua entre França, Espanha e os Estados
italianos, é coroado em 1497 em Cápua. Em 1498, Carlos VIII morre. O seu
sucessor, Luís XII de Orleães (1462-1515) conquista a região de Milão em
1499. Dois anos depois o reino de Nápoles é repartido entre França e
Espanha: a partir de então os destinos do reino são decididos no horizonte da
grande política internacional. O equilíbrio da divisão é precário. Para o rei
de Espanha Fernando, o Católico (1452-1516), Nápoles é demasiado
importante: é a etapa fundamental de uma estratégia que, desde o seu
casamento com Isabel de Castela (1451-1504), escolheu o Mediterrâneo. A
guerra franco-espanhola é inevitável. Conclui-se a favor da Espanha em
1503, graças à superioridade das infantarias castelhanas organizadas em
tercio, uma grande inovação militar. É algo de semelhante, na história geral
do mundo, ao nascimento da falange macedónia ou da legião romana.
Inicia uma longa dominação estrangeira no reino de Nápoles, que dura
mais de dois séculos, até 1707.

V. também: Os aragoneses no Mediterrâneo, p. 32; O reino de França, p. 66;


A Península Ibérica, p. 113.
O IMPÉRIO BIZANTINO E A DINASTIA
PALEÓLOGA. A AGONIA DO IMPÉRIO
de Tommaso Braccini

A tentativa de contrariar o domínio otomano com a ajuda das


potências ocidentais, à custa de concessões no campo religioso, a que
a Igreja se opõe fortemente, não é partilhada no círculo da corte. Se
uma parte da elite vê com favor a recomposição do cisma, outra, pelo
contrário, considera a oportunidade de uma convivência pacífica
com os turcos, avaliando as possibilidades de influência e
assimilação destes nas suas tradicionais estruturas administrativas.

A tentativa de acordo com o Ocidente: o estado da questão


Face à situação cada vez mais desesperada de Bizâncio, uma parte da elite
estatal e várias figuras imperiais começam nesta época a considerar que há a
necessidade absoluta de chegar a um acordo com os latinos. Esta
reaproximação, como é claro desde o início, não pode ser obtida apenas
através de pactos diplomáticos: para que o Ocidente olhe favoravelmente o
Oriente e se empenhe em tutelá-lo e socorrê-lo, é necessário libertar-se da
marca de infâmia do cisma e alcançar uma comunhão com a Igreja de Roma.
A nível formal e teológico tudo gira, pois, em torno das velhas questões do
Filioque, do primado papal, dos pães ázimos e do purgatório. É difícil não
suspeitar que, no fundo, para muitos imperadores e altos dignitários
bizantinos, esta situação seja um simples, e por isso mesmo talvez
desagradável, assunto de Realpolitik, uma espécie de imposto inelutável a
pagar para salvar o que resta do próprio Estado. No entanto, para a Igreja
ortodoxa, o fim não é de molde a justificar um meio semelhante. E junto da
Igreja, em geral, enfileira-se unânime a população. Os acordos de união
política e eclesiástica gozam de uma base de consenso demasiado restrita
para que se consigam impor de cima, e acabam mesmo por ter repercussões
contra os seus promotores, reforçando as posições de outra parte da elite
bizantina que, mesmo no seio da casa imperial, assume uma atitude
desinibida no sentido oposto e vê os turcos cada vez mais favoravelmente.
Isto ocorre não só por um fenómeno de repulsa e desconfiança em relação ao
Ocidente, sobretudo o mercantil, ou por simples resignação, mas também
porque o domínio otomano é captado simultaneamente como mais
assimilável e mais influenciável pelas estruturas administrativas e
ideológicas do Estado bizantino.

A tentativa de acordo com o Ocidente: os acontecimentos


Já Miguel VIII Paleólogo (1224-1282), como se viu, procura em vão impor
a união aprovada no concílio de Lyon, pouco mais do que um pacto político
entre o imperador e o papa, em que a participação da Igreja grega foi
mínima. Os seus sucessores são mais cautelosos, porquanto a hipótese de
novas negociações com o papado é ventilada frequentemente. João V (1332-
1391), na tentativa de aliviar a sua situação, procura entabular novas
negociações com o papado para recompor o cisma e obtém também o envio
(1366-1367) de um contingente cruzado capitaneado pelo aventuroso «Conde
Verde», Amadeu de Saboia (1334-1383), aparentado com a linhagem
paleóloga, que consegue num curto período desembaraçar Gallipoli dos
turcos e restituir aos bizantinos algumas cidades no mar Negro. No entanto, o
delegado papal que acompanha a expedição pretende entabular de imediato
negociações sobre a união das Igrejas e faz parar irremediavelmente todas as
ações militares. Os gregos sugerem a convocação de um concílio ecuménico
em Constantinopla, mas a proposta não é aceite. João V deve dirigir-se para
Roma e fazer um ato de conversão, a título estritamente privado, em 1369.
Mais uma vez, o gesto tem um resultado inútil, senão mesmo prejudicial:
Andrónico IV Paleólogo (1348-1385), deixado como regente na capital,
rebela-se contra o pai, ao lado do qual se enfileira entretanto o outro filho,
Manuel II (1350-1425). Desencadeia-se mais uma luta intestina, que se
arrasta com fases alternadas durante longos anos, da qual, mais um vez, se
aproveitam de diversas maneiras turcos, genoveses e venezianos. Manuel II
consegue finalmente sentar-se estavelmente no trono em 1391 e, na qualidade
de vassalo do sultão, muitas vezes obrigado a acompanhá-lo em campanhas
militares dirigidas contra territórios cristãos, pode observar a expansão dos
otomanos através dos Balcãs, fragmentados numa miríade de pequenos
estados, até à Moreia, onde os príncipes latinos também são objeto da sua
ferocidade. O Ocidente começa a tomar maior consciência da ameaça
iminente. É organizada uma cruzada composta em grande parte por elementos
franceses e húngaros (além do mais, mal articulados), que sofre uma
catastrófica derrota em Nicópolis, em 1396. No entanto, os resultados
desoladores não atenuam o impulso dos soberanos bizantinos para
procurarem ajuda em Itália, França, ou mesmo Inglaterra: em 1399, Manuel II
parte para Veneza, depois tem uma estada longa em Londres e Paris. Do
ponto de vista político, tudo é inútil; do ponto de vista cultural, talvez tenham
sido lançadas as primeiras sementes do interesse crescente em relação ao
Oriente e ao mundo grego, que dará frutos notáveis nos anos seguintes. A
queda de Constantinopla parece iminente, mas, em 1402, o perturbador
meteoro de Tamerlão (1336-1405), surgido inesperadamente do profundo
Oriente, para onde depois regressará de imediato, arrasa completamente os
otomanos na batalha de Ancara. O sultão Bayezid (c. 1354-1403) é feito
prisioneiro e deportado, e entre os seus filhos rebentam de imediato
discórdias que, desta vez, serão aproveitadas por outros. Em 1421, com a
ascensão ao trono de Murad II (1404-1451), como é previsível, os turcos
tornaram-se novamente ameaçadores e retomam o seu avanço inexorável.
Quando, em 1425, morre Manuel II, o filho João VIII (1394-1448) tem nas
mãos um império cada vez mais fraco economicamente e debilitado pela
prática então vigente de subdividir entre os príncipes imperiais os exíguos
territórios restantes (a cedência de Tessalonica aos venezianos data de
1423): basta pensar que a Moreia bizantina, que nem chega a abranger todo o
Peloponeso, está repartida por três autoridades (os déspotas Teodoro,
Constantino e Tomás).

O concílio de Florença e a cruzada de Varna


O velho e desencantado Manuel II avisou com tempo o filho para que
utilizasse o concílio apenas como um espantalho em relação aos turcos, sem
nunca permitir no entanto que fosse efetivamente organizado, porque estava
seguramente destinado ao fracasso e condicionaria a sorte de Bizâncio. Mas
João VIII não deu ouvidos aos conselhos do pai e em breve entabulava sérias
negociações para a união das Igrejas com Eugénio IV (1383-1447, papa
desde 1431). Em 1437, o imperador, o seu irrequieto irmão Demétrio (?
-1471) e um grande número de prelados – desde o velho patriarca José II (c.
1360-1439) ao jovem e ambicioso Bessarion de Niceia (1403-1472), até
literatos entre os quais se destaca em particular o filósofo Pletão (c. 1355-
1452) – embarcam para Veneza, de onde se dirigem a Ferrara, sede inicial
do concílio, que depois será transferido para Florença. Entre os eclesiásticos
ortodoxos verifica-se uma hostilidade cada vez maior em relação ao
compromisso, e são muitos os que permanecem dissidentes ou recalcitrantes
até ao último instante, não obstante as pressões e as adulações a que são
submetidos. De um lado, coloca-se o orgulhoso e intransigente defensor da
ortodoxia, Marco Eugénico (c. 1392-1445); do outro, o brilhante Bessarion,
que se torna o verdadeiro porta-bandeira e ideólogo do unionismo, por uma
sincera conversão ou talvez – como se defendeu recentemente com bons
argumentos – por um desinibido cálculo político. De qualquer modo, a união
entre católicos e ortodoxos é finalmente proclamada em Florença a 6 de
julho de 1439: os gregos podem conservar os seus ritos, mas tiveram de
ceder em quase todos os pontos. Imediatamente a seguir, inicia-se o regresso
à pátria. É muito claro que, como habitualmente, a nível interno, a iniciativa
do concílio foi desastrosa: Marco Eugénico lidera uma duríssima oposição,
muitos dos signatários retratam-se, vários soberanos ortodoxos (em
particular o príncipe de Moscovo, Basílio II, 1415-1462) ficam
escandalizados e cortam relações com Constantinopla. A grande expedição
cruzada contra os turcos propiciada pelo papa, em que participam forças
sérvias, polacas, húngaras, após alguns êxitos iniciais, sofre em 1444 uma
derrota terrível perto de Varna, na atual Bulgária; embora não tenha sido a
última expedição organizada no Ocidente para libertar os Balcãs dos turcos,
o seu final desastroso atua durante muitos anos como dissuasor em relação a
qualquer iniciativa ulterior.
A sorte do Império Bizantino está marcada. A Moreia, o único território
em substância que resta (além da capital), vive um período de relativa
prosperidade, mas em 1446 é duramente devastada pelos turcos, que
conseguem sem dificuldade arrombar o Hexamilion, o muro que deveria
fechar o istmo de Corinto, e no qual os déspotas bizantinos investiram
inutilmente tantos recursos. Três anos depois, por morte do irmão, segundo
um princípio de rotação estabelecido por Manuel II, é coroado imperador
Constantino XI (1405-1453), que se transfere de Mistras para a cidade
fantasma de Constantinopla. Será o último imperador bizantino.
V. também: O Império Otomano, p. 135.
O IMPÉRIO OTOMANO
de Fabrizio Mastromartino

A atitude expansionista de Bayezid I suscita a reação do forte


Império Mongol.
À derrota otomana contra os exércitos de Tamerlão segue-se um
breve período de instabilidade política, do qual o império se reergue
rapidamente. O renascimento do poder otomano, realizado graças ao
renovado prestígio dos sultões seguintes, culmina finalmente na
conquista de Constantinopla, nova capital do império e centro de
irradiação da cultura e do poder otomanos.

A intervenção mongol e a morte de Bayezid


O avanço imparável do poder otomano para Ocidente e a supremacia
arduamente alcançada pelo Crescente na Ásia Menor são perturbadas, no
início do novo século, pela intervenção dos exércitos mongóis dirigidos por
Tamerlão (1336-1405), que reinava na vizinha região persa desde 1380 e
que nos primeiros meses de 1400 conquista Bagdade. O que acontecera há
mais de um século no reino seljúcida de Rum, que caíra face às devastações
provocadas pelas incursões mongóis na Anatólia na segunda metade do
século XIII, parece inicialmente repetir-se no Império Otomano.
As ambições expansionistas do sultão Bayezid I (c. 1354-1403), que na
última década do século XIV tinha estendido os seus territórios para oriente,
vencendo pelas armas a resistência do principado turco de Karaman,
chamam a atenção da potência mongol, irritada com a presença incómoda
otomana em regiões pertencentes no passado ao ilcanato. Tamerlão,
solicitado pelos soberanos dos principados turcos submetidos à autoridade
do sultão, entra na Anatólia e ocupa Sivas, desbaratando facilmente um
exército otomano enfraquecido pela deserção dos guerreiros da confraria
ghazi, que contestam o sultão pelo seu comportamento europeu e pelo estilo
bastante distante dos rigores do islão. Mas muito mais grave é a derrota
sofrida pelos otomanos dois anos mais tarde em Ancara, onde Bayezid é
feito prisioneiro. Nesse mesmo ano, a capital do império, Bursa, é submetida
a saque. No ano seguinte, o sultão suicida-se no cárcere mongol, sancionando
definitivamente a crise do Crescente.

A breve crise do império


Não obstante o grande momento de dificuldade que se segue à morte do
sultão, bem cedo a crise do império se revela como apenas parcial. A
potência otomana sai da derrota sofrida fortemente redimensionada na Ásia
Menor, onde o território do império é reduzido das regiões da Anatólia
libertadas por Tamerlão, nas quais os príncipes turcos recuperam a sua
independência: aqui, o Crescente só conserva a região de Bursa, a Bitínia,
que corresponde grosso modo ao território do principado otomano das
origens. Pelo contrário, as províncias ocidentais do império permanecem
submetidas à autoridade do sultão, em relação ao qual demonstram uma
insuspeita fidelidade, que provavelmente esconde um temor compreensível
do seu poderoso exército.
De qualquer modo, a década de instabilidade, conhecido como período do
interregno, que se desenvolve a partir da morte de Bayezid devido aos
conflitos dinásticos entre os filhos do sultão, não provoca nenhuma queda do
império, que, pelo contrário, supera indemne este momento de grave
fraqueza, em parte, pela fama conquistada durante o século XIV, mas
sobretudo pela desorganização absoluta dos reinos cristãos, que
permaneceram completamente passivos face à crise do Crescente.
Em 1413, um dos filhos de Bayezid, Maomé I (1389-1421), consegue
reunir o poder do Estado nas suas mãos, também graças ao apoio precioso
que os guerreiros da confraria ghazi lhe oferecem espontaneamente como
agradecimento pelos costumes tradicionais e ortodoxos. O novo sultão,
depois de ter reposto a Sérvia e a Bulgária numa relação de vassalagem
parcialmente interrompida pela crise de autoridade da década precedente,
inaugura uma política conciliadora, mediante a qual o império retoma
progressivamente o controlo da maior parte dos principados turcos da
Anatólia.

O renascimento otomano
As duas décadas que cobrem a regência do sucessor de Maomé, Murad II
(1404-1451), marcam o renascimento pleno da potência otomana, que
rapidamente recupera a grandeza e o prestígio conquistados pelo Crescente
durante o século XIV. Para esta empresa contribuem os numerosos sucessos
das campanhas militares e uma política muitas vezes orientada para a
mediação diplomática e para o compromisso, que se serve da posição de
força ocupada pelo sultão.
Murad II leva rapidamente a cabo o processo de restauração da autoridade
otomana na Anatólia, iniciado por Maomé I, incorporando novamente todos
os principados turcos, excetuando os reinos de Karaman e de Candar, que,
mesmo conservando a sua autonomia, são sujeitos a tributos onerosos. O
sultão vence depois a resistência que se levantou na região balcânica e, em
1424, estabelece um acordo com Bizâncio, na base do qual o Império do
Oriente se reduz apenas à sua capital. Não satisfeito com os termos do
entendimento, Murad II cerca Constantinopla, obtendo de Bizâncio, em pouco
tempo, o pagamento de tributos ingentes. Depois prossegue a política
conciliadora estabelecendo um acordo de paz com Veneza em 1432,
mediante o qual a Sereníssima se empenha a pagar tributos ao sultão em
troca de privilégios comerciais, que depressa fazem de Veneza a primeira
potência mercantil nos territórios otomanos.
Nos anos seguintes, o sultão inicia grandiosas campanhas militares que se
prologam durante cerca de uma década. Neste período, o principal
adversário da potência turca é o reino da Hungria, que disputa com o
Crescente o controlo das ricas minas das regiões sérvias. Para frustrar as
pretensões húngaras, Murad intervém primeiro nos Balcãs, submetendo toda
a região albanesa, para depois conduzir expedições imponentes diretamente
à Hungria. A resistência tenaz dos povos agredidos pelo Crescente, que se
reuniram em torno das figuras carismáticas de Skanderbeg (1405-1468) e de
João Hunyadi (1378-1456), parece inicialmente capaz de interromper o
avanço otomano. Mas em poucos anos o império demonstra mais uma vez a
sua invencibilidade, reafirmando a sua incontestável supremacia na Europa
Oriental. As milícias húngaras, apoiadas pelos exércitos dos reinos do
Ocidente, mas traídas pela desistência de Veneza e dos sérvios, são
aniquiladas em Varna em 1444. A nova derrota dos exércitos cristãos encerra
os esforços conjuntos dos cruzados contra os otomanos. Alguns anos mais
tarde, em 1448, o Crescente desbarata a resistência albanesa no Kosovo,
restaurando definitivamente a autoridade imperial na península dos Balcãs,
onde o sultão inicia a edificação de um sistema administrativo diretamente
controlado por funcionários otomanos. O momento de ouro do império
favorece o crescimento do comércio interno, predominantemente de natureza
agrícola, e de exportação, controlado pelos mercadores venezianos e
genoveses e dominado por Bursa, que se torna rapidamente a capital do
mercado da seda. O aumento da riqueza e o extraordinário sucesso das
campanhas militares encorajam a ascensão social dos janízaros, de origem
cristã, e a exclusão progressiva da antiga nobreza otomana dos papéis
dirigentes do Estado. Esta revolução social silenciosa provoca uma profunda
reorganização do Estado, novamente dotada de linfa bizantina, que confirma
mais uma vez a indistinção substancial da civilização política otomana em
relação à civilização dos reinos da Europa Central e Ocidental. Murad II
empreende um gigantesco trabalho de rearticulação do império, recolhendo
em códices de leis complexos, conhecidos como kanun-names, uma
minuciosa regulamentação da hierarquia e das funções dos notáveis do
Estado.

O auge do poderio otomano: a conquista de Bizâncio


A ascensão da potência otomana, renascida com Murad II, tem o seu
momento culminante na conquista de Constantinopla, realizada pelo novo
sultão Maomé II (1432-1481), em 1453. Depois de um longo cerco que durou
alguns meses, a antiga capital do Oriente é conquistada e submetida a saque
durante dias. O sultão expulsa os habitantes gregos, que povoavam a cidade,
substituindo-os por gente de etnia turca da Anatólia. A minoria religiosa de
origem grega, na verdade bastante exígua, a que é concedida a possibilidade
de permanecer em Constantinopla, é obrigada a pagar tributos conspícuos ao
sultão em troca do reconhecimento da autonomia da comunidade, que assim
pode conservar os seus costumes sociais e religiosos.
Reforçado por este estrondoso sucesso, Maomé II inicia uma nova série de
expedições militares à península dos Balcãs e às ilhas do Egeu, entrando de
imediato em conflito com as pretensões avançadas por Veneza, senhora
indiscutível das vias comerciais da região. A longa guerra com a
Sereníssima, que se arrasta por quase duas décadas, é concluída com um
acordo de paz que prevê o restabelecimento dos privilégios comerciais de
que a república italiana beneficiava nos territórios do império, em troca da
garantia do pagamento de um tributo anual e da cedência dos territórios
albaneses disputados por Veneza. A expansão do império que se segue às
campanhas militares de Maomé II é máxima e lança as bases para uma
supremacia incontestável da potência otomana na Europa Oriental, que os
sultões conseguirão facilmente dominar nos quatro séculos seguintes.
A plena incorporação do principado de Karaman nos confins do império
marca definitivamente o êxito do Crescente também na Ásia Menor. O
comércio continua a ser um importante recurso para os cofres do Estado,
mesmo sendo em grande parte controlado pelos mercadores italianos que se
instalaram na nova capital do império, Istambul, que depressa se torna uma
imensa metrópole, encruzilhada de intenso tráfego comercial e centro cultural
de referência não só para o mundo muçulmano, mas também para a
civilização ocidental.
As riquezas acumuladas nos cofres imperiais, provenientes não só dos
sucessos militares, mas sobretudo da exploração das minas balcânicas, cuja
propriedade é solidamente centralizada nas mãos do sultão, e da forte
pressão fiscal imposta aos súbditos e aos Estados vassalos, permitem a
Maomé II prosseguir a construção de administrações otomanas em todas as
províncias imperiais, que é concluída por Bayezid II (c. 1448-1512). No
entanto, o novo sultão irá em breve fazer face à virtual guerra civil que opõe
a aristocracia turca aos janízaros, que se defrontam devido ao aumento da
imposição fiscal. Bayezid II estabelece um sistema de taxação mais
igualitário, que prevê um imposto igual para todos os súbditos, destinado a
cobrir as despesas militares, lançando também as bases de um forte
incremento comercial, encorajando a instalação dos judeus expulsos dos
reinos espanhóis em 1492.

V. também: A queda de Constantinopla, p. 36; A Hungria, p. 99;


O Império Bizantino e a dinastia paleóloga. A agonia do império, p. 131;
Os judeus, p. 195.
A ECONOMIA

O CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO
E A EXPANSÃO DA ECONOMIA
de Valdo d’Arienzo

A história demográfica europeia do século XV é fortemente marcada


pela epidemia de peste de 1347, a famigerada «peste negra», que tem
uma série de consequências negativas na economia no seu conjunto.
Além disso, o crescimento económico desse século é bloqueado pelas
transformações em curso em todos os sectores produtivos. Tudo isso
num contexto em que o mercado nascente e as suas primeiras regras
exigem cada vez mais espaço, um espaço que o sistema feudal não
está em condições de garantir.

População e produção
A ausência de fontes que permitam estimativas verosímeis é a premissa
fundamental no estudo da demografia na época medieval. No entanto, os
estudos mais recentes permitem em certa medida avançar hipóteses realistas
que, pelo menos quanto à tendência geral, podem ser consideradas
fidedignas.
Por uma série de considerações e pelo acentuar de muitos fenómenos
direta e indiretamente ligados à população é possível deduzir que do século
XI ao século XIII tenha havido uma marcada subida da curva demográfica
europeia. O arroteamento de novas terras, a fundação de castelos – com o
contexto paraurbano que está associado – e de novas vilas, o alargamento
dos perímetros urbanos e das muralhas das maiores cidades e de mais antiga
tradição são sintomas de extremo interesse, que fazem compreender que num
período de 200 anos se tenha registado um crescimento da população em
todas as regiões da Europa. No entanto, esta fase é interrompida no início do
século XIII, quando o progresso da agricultura registado anteriormente, com o
consequente ritmo decrescente da produção, já não consegue fazer frente à
procura de produtos sustentada pelo aumento da população. Por outro lado, a
estreita relação entre produção agrícola, qualidade da alimentação e ritmo
demográfico, que determina o ciclo carestia-epidemia-carestia, distingue os
ciclos económico-demográficos pré-industriais e desempenha um papel de
primordial importância para a compreensão dos fenómenos aqui examinados.

A epidemia de peste e a crise demográfica


A difusão da peste e, em particular, da epidemia de 1347 – a chamada
«peste negra» –, que condicionará durante muito tempo as vicissitudes da
população europeia, vem tornar excessivamente heterogéneo e complicado o
quadro. Contrariamente ao que se pode imaginar à primeira vista, as
consequências do surto e da propagação da doença tendem a tornar-se
evidentes nas décadas seguintes, quer porque os homens que sobrevivem
trazem consigo uma fraqueza que pagarão com o tempo, quer porque, a partir
de meados do século XIV e ainda durante toda a primeira metade do século
XV, a peste surge na Europa por «vagas» mais ou menos cíclicas que minam
os já precários equilíbrios demográficos. A incidência das carestias, por
exemplo, no organismo humano implica um enfraquecimento orgânico que
manifesta nas gerações seguintes os seus efeitos negativos; por exemplo, a
«grande carestia» de 1308-1318 confirmaria esta hipótese com uma
população mais débil, mais exposta ao contágio da peste e,
consequentemente, menos resistente às doenças.
Convém observar, mesmo continuando a não dispor de dados quantitativos
seguros, que a epidemia de 1347 e as posteriores são amplamente descritas
pelas fontes literárias da época ou imediatamente seguintes, pelo que é
possível reconstruir um cenário mais claro da história europeia daquele
período. As estimativas mais fidedignas, propostas por Massimo Livi Bacci
(1936-), propõem para o período considerado números que vão dos 100/110
milhões de habitantes na Europa no princípio do século XIV, aos cerca de 80
milhões do início do século XV, para voltar a subir quase aos mesmos níveis
do século XIV no final do século XV; assim sendo, teriam sido necessários
100 anos para recuperar as perdas sofridas quer por causa das diversas
vagas de peste quer por causa dos conflitos bélicos que assolam a Europa
como, por exemplo, a Guerra dos Cem Anos.
Recorde-se também que não é nada pacífico entre os historiadores se a
crise dos séculos XIV e XV é devida às epidemias, logo a uma elevada taxa de
mortalidade, ou, em vez disso, a uma queda da natalidade. De qualquer
modo, é evidente que uma população dizimada baixa «naturalmente» a sua
taxa de natalidade, fazendo-a fletir por um período mais ou menos longo e,
mais uma vez, é considerado que a faixa mais atingida pela mortalidade
devida à epidemia é precisamente a infantil, daí a quebra da taxa de
natalidade que, para voltar a subir, tem necessidade de pelo menos uma ou
duas gerações.

Crise económica: a passagem a novos equilíbrios


Este andamento declinante da curva demográfica contribui, ao mesmo
tempo e em conjunto com outros fatores, para provocar uma crise económica
que atravessará todo o século XIV, passando de uma fase de flexão a outra de
estagnação. Mas a historiografia pôs bem em evidência que a palavra crise é
entendida essencialmente como processo de rotura dos velhos equilíbrios e
de passagem gradual para formas de economia mais moderna. O sistema
feudal já não assegura os equilíbrios económicos e sociais sobre os quais se
realizou a expansão do século XI ao século XIV, mesmo considerando que a
crise da feudalidade se manifesta de maneira e em tempos diferentes nas
diversas regiões europeias.
No sector da agricultura termina o processo de arroteamento de novas
terras e tende a diminuir o rendimento das culturas, da renda senhorial e,
consequentemente, os investimentos no sector. A dinâmica das relações
cidade-campo, já iniciada nos séculos anteriores, rompe de certo modo os
equilíbrios e os mecanismos de mercado condicionam cada vez mais o
trabalho agrícola.
Por sua vez, o sector artesanal vê interromper o fluxo de inovações
técnicas introduzidas nos ciclos produtivos, empobrecendo o fator trabalho.
Nesta fase, pode vislumbrar-se o primeiro sinal de declínio do sistema
corporativo que surgirá com toda a evidência durante o século XVII. De facto,
durante o século XV, as corporações estão sobretudo viradas para a defesa
das posições até então alcançadas e não procuram melhorar nem as relações
de trabalho no seu interior nem a introdução gradual de novas técnicas e
máquinas no ciclo da produção.
Finalmente, no sector mercantil cresce o número dos agentes como efeito
de um aumento da concorrência. Mas, inevitavelmente, esta dinâmica tende a
entrar em conflito com a atitude das corporações artesanais, expressão
principal da atividade manufatureira, com o resultado do aumento
generalizado dos custos e da diminuição das taxas de lucro.

V. também: A agricultura e a criação de gado, p. 141; As cidades, p. 148;


O tráfego marítimo e os portos, p. 152.
A AGRICULTURA E A CRIAÇÃO DE GADO
de Catia Di Girolamo

A crise do século XIV não representa sempre, para a vida rural, uma
rutura brusca, mas dá origem a processos de readaptação que
iniciam uma recuperação já percetível em meados do século XV. As
principais diretrizes da recuperação dizem respeito a uma nova fase
de expansão das culturas, a uma reconversão parcial dos produtos
cultivados e a uma maior difusão da pecuária, praticados de modo
fortemente diferenciado, a nível local, por características,
modalidades e tempos de atuação.

O impacto da crise
No século XV, o mundo rural ainda está longe de ter reabsorvido a
derrocada induzida pelo colapso demográfico. No entanto, estruturas
produtivas, relações de propriedade e técnicas de trabalho não devem ser
reconstituídas ex novo, até porque muitas das maiores propriedades
fundiárias sobreviveram, graças a riquezas tão ingentes que permitiram
superar as fases mais críticas, a administradores experientes, a arquivos
ordenados.
Nas primeiras décadas do século XV, encerrada a fase mais aguda das
carestias, iniciada a recuperação demográfica e alcançada também uma
maior estabilidade política por meio dos processos de construção estatal em
curso, estas propriedades – nem sempre de origem senhorial – recomeçam a
crescer, embora os seus rendimentos sejam ainda inferiores a um século
antes.

Novos arroteamentos e mutações nas relações de trabalho


À medida que o número de homens aumenta, determinam-se as condições e
apresenta-se a exigência de voltar a cultivar as terras abandonadas.
As primeiras a serem valorizadas são aquelas que já no passado ofereciam
melhores rendimentos: a Île-de-France, por exemplo, ou a Itália centro-
setentrional, para as quais é determinante também a vizinhança dos mercados
urbanos, são a prova de que as possibilidades de comercialização já
orientam estavelmente as escolhas dos proprietários fundiários. Perto do
final do século, os cultivos reocupam – ainda que por poucas décadas –
também zonas mais marginais.
Muitas vezes, para obter a revalorização das terras, atraem-se os
camponeses com salários mais altos, impostos reduzidos e contratos agrários
de longa duração, que garantem estabilidade ao trabalhador e favorecem uma
exploração atenta para não esgotar a fertilidade dos solos. Nos sítios onde os
senhores dispõem do controlo pessoal sobre os camponeses, recorre-se
também ao alívio dos ónus servis, como acontece em algumas regiões
alemãs, francesas e escocesas.
Mas esta linha de conduta nem sempre é mantida no tempo, nem é adotada
por toda a parte: uma parcela dos proprietários escolhe mesmo recorrer aos
seus poderes de coerção (reação senhorial) para repor no máximo
privilégios caídos em desuso, mas também para impor novas cobranças, ou
mesmo uma nova fase de servidão que – atingindo a terra e não as pessoas –
se estende a todos os habitantes de um determinado local. Adotadas também
em regiões de França e dos Países Baixos, estas medidas têm um carácter
mais geral e estável em Espanha, na Itália centro-meridional e na Europa
Oriental.
Por outro lado, a condição camponesa pode tornar-se mais dura também
nos locais onde os encargos são reduzidos, porque a cobrança das rendas se
torna mais precisa e a determinação e o rigor na perseguição dos insolventes
aumentam: são os efeitos de uma administração que se tornou mais atenta e
mais bem organizada. Gradualmente, as mesmas características são
assumidas pela fiscalidade pública, que cai sobre os camponeses.
A Itália centro-setentrional mostra outra faceta da recuperação agrária, em
contraste com o prolongamento dos contratos de arrendamento, mas em
sintonia com uma recuperação que não é acompanhada, a não ser por breve
tempo, pelo alívio das condições dos trabalhadores rurais. Os proprietários
da Toscânia e da Emília aproveitam a queda demográfica para reorganizar as
empresas agrícolas, constituindo-as como unidades territorialmente
compactas e dotando-as de granjas e infraestruturas (loteamento); As quintas
são arrendadas mediante contratos que preveem também o fornecimento de
sementes, alfaias e animais, mas não oferecem estabilidade aos camponeses
(a duração oscila entre um e cinco anos), empenham-nos em pesados
trabalhos de melhoria e, sobretudo, impõem a consigna de uma quota
importante da colheita, habitualmente metade (daí o nome de mezzadria dado
aos novos contratos). Deste modo, os proprietários defendem-se quer das
flutuações dos preços (que desvalorizam as rendas em dinheiro) quer da
rigidez dos contratos entre as partes a longo prazo, que – além de prever
rendas mais modestas – impede o aproveitamento de condições favoráveis
no momento da renegociação.

Novos produtos
Uma das vias de recuperação rural é a redução da cerealicultura: os
produtores já aprenderam que o cultivo de cereais é pouco rentável (quando
comparado com os lucros que oferecem pelas culturas industriais, pela fruta
e pela carne), e ainda piorou depois da queda demográfica e do relativo
aumento salarial dos trabalhadores agrícolas. Isto é particularmente evidente
onde é mais sensível a influência do mercado urbano e mais forte a presença,
na camada dos proprietários, de elementos provenientes da burguesia dos
negócios: trata-se, mais uma vez, de uma condição típica dos campos da
Itália centro-setentrional, mas também de várias regiões inglesas e francesas.
As terras subtraídas à cerealicultura têm destinos culturais diferentes:
leguminosas (ervilhas, feijão-verde, ervilhacas), raízes comestíveis
(sobretudo nabos), plantas de forragem. O espaço destinado às culturas
têxteis também aumenta nos locais onde as condições dos solos o permitem e
há a possibilidade de assegurar a mão-de-obra necessária: é o caso, por
exemplo, do vale do rio Mosela, onde se difunde o linho. Também a vinha, a
oliveira, a amoreira, o arroz, o cânhamo, o açafrão, as árvores de fruto e os
legumes ganham terreno em extensas zonas de França e da Itália Central e
Setentrional.
Nesta transformação, um aspeto importante é representado pela atenção às
vocações culturais dos solos, menos consideradas nos séculos da Alta Idade
Média pela dificuldade das trocas e da Idade Média Plena pela excessiva
pressão demográfica.

A pecuária
Entre as utilizações a que é destinada a terra libertada pela cerealicultura,
uma das mais rentáveis é a criação de gado. Os animais, sobretudo os
ovinos, representam um bem facilmente deteriorável pela vulnerabilidade ao
clima e às doenças infeciosas; no entanto, requerem pouca mão-de-obra e
fornecem numerosos produtos: carne, leite, manteiga, lã, couro. Todavia, no
passado, a criação de gado tinha sido pouco difundida, por causa da
dificuldade de destinar ao pasto grandes superfícies, em tempos de elevada
procura de cereais e de agricultura extensiva. A partir da segunda metade do
século XIV, o descongestionamento demográfico cria as condições para
impulsionar a economia pastoril, sobretudo na vizinhança das cidades, que
oferecem fácil escoamento tanto para a carne como para os produtos
destinados à laboração artesanal.
A criação de bovinos difunde-se mais na Noruega, Dinamarca, Polónia,
Hungria, Holanda e nas regiões alpinas. Mas o aspeto mais visível do
fenómeno diz respeito à criação de ovinos. Em Inglaterra, onde já estava
difundida antes da crise, nos séculos XIV e XV cresce até determinar a
transformação da paisagem rural, que dos open-fields de cultura cerealífera
e das terras comuns passa para um sistema de cercados (enclosures),
mediante os quais os grandes proprietários se apoderam dos campos abertos
(em prejuízo da comunidade rural), integrando-os nas suas terras,
destinando-os a prados e arrendando-os a mercadores de lã ou de gado. O
impacto na população rural é tal, que induz Thomas More (1478-1535) a
escrever na Utopia: «As vossas ovelhas [...] começam a ser tão vorazes e
indomáveis, que acabarão por comer os homens, por devastar, por fazer uma
razia nos campos, nas casas e nas cidades»; no entanto, a longo prazo, as
transformações tardo-medievais constituirão uma importante condição prévia
do desenvolvimento manufatureiro inglês. Por sua vez, serão diferentes os
destinos de outras áreas (Pirenéus, Espanha, Itália Meridional, Sicília,
Sardenha), onde a fraca coesão das comunidades camponesas facilita a
invasão dos rebanhos e reforça a grande propriedade fundiária,
desagregando o habitat rural.

V. também: Minas e manufaturas, p. 144; Clássicos e ciência, p. 408.


MINAS E MANUFATURAS
de Diego Davide

O desenvolvimento tecnológico do século XV não é feito de invenções


clamorosas dos cientistas, mas de contínuos e sucessivos
aperfeiçoamentos, fruto da prática e da experimentação persistente
de um grande número de artesãos.
Resultado substancial de todo este complexo movimento de inovações
é, por um lado, o aumento progressivo da produtividade, por outro, a
necessidade de maiores capitais. Isto está na origem do envolvimento
cada vez mais amplo de investidores e da transformação dos
pequenos trabalhadores-empresários em dependentes assalariados.

Uma recuperação geral: a atividade mineira


Durante o século XIV pestes, perturbações económicas e políticas causam
uma longa depressão que abranda o crescimento do comércio, mas já em
meados do século XV se verificam sinais de recuperação. No campo mineiro
abre-se um período de novas prospeções que levam à descoberta da
calamina, presente em abundantes jazidas no Tirol e na Caríntia, que
enriquece o leque de minerais à disposição e faz crescer consideravelmente
a procura de cobre; graças a esta descoberta obtém-se uma liga, o latão, que
é largamente produzida na Germânia e nos Países Baixos. Se a área
germânica apresenta o subsolo mais rico de minerais preciosos, uma
produção considerável de prata regista-se também na Suécia, na Alsácia e
nos Balcãs. Da exploração e do comércio das minas sérvias e bósnias
ocupam-se principalmente os habitantes de Ragusa, que, favorecidos pelos
limites impostos por Veneza às outras cidades dálmatas, conseguem criar um
verdadeiro monopólio. Juntamente com a prata balcânica, trocada na Itália
Meridional pelo trigo, chegam à corte dos soberanos aragoneses mineiros
experientes encarregados de explorar as jazidas minerais do reino. A Itália é
o primeiro lugar para a produção de alúmen, mineral utilizado na indústria
têxtil para desengordurar os tecidos de lã e fixar as tintas. Em 1461, ricos
depósitos deste mineral são descobertos em Tolfa, próximo de
Civitavecchia. Em todo o continente cresce a procura de ferro, utilizado para
fins civis e industriais, juntamente com a procura de carvão, usado como
combustível, presente em abundância na França Meridional e Central, mas
também na Inglaterra Setentrional, na Caríntia, na Carníola, na Vestefália, no
Nivernais, na Toscana, no Piemonte, nos Pirenéus Orientais e nas províncias
bascas de Espanha. Ainda em Espanha, em Almadén, e em Idrija, na
Carníola, é extraído o cinábrio, mineral de que se obtém o mercúrio.

As novas técnicas e a nova organização do trabalho


É atribuído a Johannsen Funcken a introdução na Saxónia, em 1451, da
importante técnica que permite, graças ao auxílio do chumbo, separar a prata
dos minerais de cobre argentíferos. Esta invenção estimula indiretamente
também o desenvolvimento das técnicas de drenagem e ventilação
necessárias para a exploração dos filões de cobre a níveis mais profundos
do subsolo. Na siderurgia, a aplicação da energia hidráulica aos foles que
sopram o ar nos fornos permite atingir uma temperatura tal, que se torna
possível a fusão do ferro, que, mantido em contacto com o carbono, forma o
ferro fundido, que, submetido depois a descarbonização para reduzir o
conteúdo de carbono assimilado, está pronto para ser trabalhado.
Este tratamento definido como «indireto» põe a siderurgia no caminho da
construção de um novo tipo de forno, o alto-forno, uma construção em tijolo
com uma altura de cinco metros, no qual se introduzem por cima mineral e
carvão. O metal é recolhido no fundo, em estado líquido, e é escoado para o
exterior por baixo sem nunca apagar o forno. Daí deriva um nítido
incremento da produtividade e, consequentemente, da disponibilidade do
metal para ser trabalhado. Basta pensar que na Estíria a produção de ferro é
quadruplicada, atingindo as oito mil toneladas anuais em meados do século
XVI. Os mecanismos acionados pela água ou por cavalos implicam um
aumento dos custos fixos. Para os financiar, os mineiros e fundidores
recorrem à ajuda de credores, que nos casos de falha da restituição do
empréstimo e dos juros se servem da mina, procedendo depois ao seu
aluguer para a sua exploração. Ocorre assim uma fratura entre capital e
trabalho, que transforma os antigos pequenos especuladores-empresários em
dependentes assalariados, privados dos privilégios especiais de que
gozaram no passado e que passam a ser herdados pelos proprietários das
quotas das novas companhias mineiras.

A indústria manufatureira: tecidos, imprensa, construção civil e


vidro
As maiores dificuldades para a indústria têxtil vêm da forte
interdependência que existe entre as regiões europeias no aprovisionamento
das matérias-primas, das fibras às tintas. A Flandres, por exemplo, que no
século XII não tem adversários na produção de tecidos, abastece-se de lã
ludra em Inglaterra e, quando é proibido o comércio entre Inglaterra e
França, após a eclosão da Guerra dos Cem Anos, a indústria flamenga de
tecidos cede o seu lugar a outros. Desta situação retiram benefício
precisamente a Inglaterra, que em meados do século XV exporta um volume
de tecidos superior ao da lã ludra, e a península italiana, que, impelida pelo
capital dos seus mercadores e alimentada pelas melhores lãs da Europa e
tendo à sua disposição as tintas orientais e do Mediterrâneo, vai ocupar um
papel muito considerável a nível europeu. Entre os centros de maior
desenvolvimento vale a pena recordar Como, Verona, Bergamo, Brescia,
Monza, Pavia, Parma, Tortona, Novara e as cidades toscanas de Prato, Pisa,
Luca, Arezzo e Florença.
Semelhante sucesso obtém a produção da seda, favorecida também pela
plantação da amoreira (planta necessária à alimentação do bicho-da-seda): o
nível de perfeição alcançado na tecelagem é tal, que nos séculos XIV e XV a
seda italiana se torna uma aguerrida concorrente dos produtos orientais nos
mercados do Levante. Embora em dificuldade devido à expansão da
produção de algumas regiões da área germânica, igualmente relevante é a
produção italiana de fustões, cuja laboração está presente em Cremona,
Milão, Génova, Savona, Bolonha, Rimini e na região toscana. As guerras de
Itália (1494-1559) vêm refrear o desenvolvimento e o sucesso destas
indústrias: os fornecedores italianos deixam de estar em condições de
satisfazer a procura externa, que se desloca para os tecidos existentes no
mercado de Antuérpia.
O papel, inventado na China e dado a conhecer no Ocidente pelos árabes,
é fabricado, já no século XIII, em Amalfi, Bolonha, na região de Friul,
embora o maior centro de produção seja Fabriano, onde, em 1320, estão
ativas 22 fábricas de papel. Depois, a laboração difunde-se também em
França, Alemanha, Suíça, Flandres, Inglaterra e Polónia. Mais económico do
que a pele de ovelha e o pergaminho, é amplamente utilizado na imprensa,
que nestes anos foi revolucionada por Johannes Gutenberg (c. 1400-1468),
que substitui os caracteres móveis de madeira pelos realizados em liga de
chumbo, zinco e estanho, que imprimem no papel tintas de base oleosa graças
à pressão uniforme exercida por uma prensa de parafuso. Se de um ponto de
vista estético o códice realizado pelo amanuense tem um valor muito
superior ao do volume impresso, do ponto de vista do número de tiragens
realizadas no mesmo lapso de tempo não tem nenhuma possibilidade de
comparação. O sistema de Gutenberg difunde-se rapidamente fora da
Germânia e uma prensa como a sua é construída em Veneza, em 1469, em
Paris, em 1470, e em Inglaterra, em 1476. Em Itália, à expansão da indústria
do papel associa-se a da edição; se em 1471 são quatro os centros urbanos
em que operam tipografias, o seu número chega a 63 em 1500. É notável o
florescimento que este sector tem em Veneza, que nas últimas décadas do
século XV publica cerca de um quarto dos livros editados na Europa.
Também na construção civil se experimenta a utilização de máquinas que,
acionadas por animais, permitem reduzir o número de operários; o melhor
exemplo do avanço concreto das técnicas e das novas capacidades de
projeto é a cúpula em alvenaria da catedral de Santa Maria del Fiore em
Florença, obra do arquiteto Filippo Brunelleschi (1377-1446). As
dimensões, as proporções, as dificuldades técnicas e a montagem do
estaleiro fazem da cúpula uma obra absolutamente inovadora.
A laboração do vidro é exercida com grande mestria na Normandia e na
Lorena, de onde provêm os vidros esmaltados que enriquecem as catedrais
francesas em Nuremberga, na Boémia e em Inglaterra. Em Itália, os centros
de maior desenvolvimento são Murano, de onde partem os mestres
especialistas que abrem oficinas em Vicenza, Treviso, Ferrara, Bolonha,
Ravena, e na vila de Altare na Ligúria, a partir das quais há um movimento
de emigração para França e Flandres. No século XV são particularmente
apreciadas as produções de vidro soprado, colorido e decorado, produzidas
pelos artesãos de Murano, entre os quais vale a pena recordar a família
Barovier. Mas não é esta a única produção da ilha da laguna de Veneza, onde
com igual perícia são realizados espelhos, pastas vítreas, vidros para óculos
e vidraças.
V. também: A agricultura e a criação de gado, p. 141; A imprensa e o nascimento do livro, p.
203;
Filippo Brunelleschi, arquiteto, p. 571.
AS CIDADES
de Aurelio Musi

As cidades são o centro dos Estados regionais italianos do século XV.


Mas toda a Europa pode ser definida como uma Europa das cidades.
A sua tipologia é mais diversa: capitais como Viena, Paris, Lisboa,
mas também Nápoles, que, precisamente na segunda metade do
século XV, sob os aragoneses, inicia a sua parábola de grande capital
europeia; cidades que dominam o seu condado, o seu hinterland;
centros urbanos médios e pequenos, dotados de funções económicas
particulares, comerciais, financeiras, religiosas e políticas; sedes de
nobreza e patriciados, classes dirigentes citadinas destinadas a
tornar-se oligarquias de governo cada vez mais fechadas.

Os centros dos Estados regionais italianos


Carlo Cattaneo (1801-1869) escreveu que a cidade é o princípio ideal da
história italiana: e refere-se não só à linha vermelha que liga a nossa história
desde a Idade Média ao Renascimento mas também a um dos principais
fatores culturais e antropológicos, que incidiu longamente na vida da
comunidade nacional e que contribuiu para construir de modo diferente as
suas características fundamentais. Muitos analistas, sobretudo politólogos e
sociólogos, na esteira de uma certa tradição cultural e historiográfica, vão ao
ponto de defender que os diversos modelos de desenvolvimento histórico-
político em Itália também incidiram fortemente na condição atual da
população. Assim, segundo esta interpretação, o sentido cívico das regiões
centro-setentrionais seria muito mais desenvolvido do que o das regiões
meridionais e insulares, porque as primeiras se foram formando a partir da
experiência da comuna e da senhoria, e as segundas teriam vivido uma longa
condição de vassalagem feudal e de submissão ao monarca.
No século XV, as cidades são o fator de coordenação territorial e política
mais importante dos principais Estados italianos. Precisamente à volta das
cidades, as novas formações vão assumindo o seu carácter regional. Em
particular no norte e no centro da península: Milão, Veneza e Florença
constituem os centros das novas formações políticas que chamamos Estados
regionais; mas também a senhoria dos Gonzaga e a dos Estensi de Ferrara se
tornam cortes do Renascimento destinadas a assumir o papel de modelos da
civilização humanista para toda a Europa.
No início do século XV, a senhoria dos Visconti retoma a política
expansionista do ducado de Milão, que continua durante todo o século com a
família Sforza, compreendendo a Lombardia e estendendo-se para as regiões
do Véneto e da Toscana.
Também Florença toma a via das conquistas territoriais. Entre 1384 e
1421, conquista outras cidades com o seu condado: Arezzo, Pisa, Cortona,
Livorno; anexações graças às quais Florença pode contar com um acesso
independente ao mar e com o controlo de todo o litoral toscano.
Particularmente precioso, deste ponto de vista, revela-se a aquisição de
Livorno por 200 mil florins, dado o progressivo assoreamento do porto de
Pisa.
Veneza, a partir do início do século XV, expande o domínio terrestre em
cidades como Treviso, Pádua, Verona, Belluno, Feltre, Aquileia, mas
também na Ístria e em Friul, tornando-se a maior potência italiana do século.
Depois da conquista aragonesa (1442), Nápoles assume cada vez mais o
papel de grande capital do principal Estado monárquico italiano: sede de
uma das principais cortes do Renascimento, centro de produção e de
consumo de primeiro plano no Mediterrâneo aragonês, local de encontro e de
intercâmbio entre comunidades mercantis estrangeiras, laboratório para a
experimentação das primeiras magistraturas do Estado moderno em
formação, importantíssimo centro universitário.

A Europa das cidades


O Estado monárquico precede o republicano ao designar uma cidade sua
como principal e ao instalar nela os órgãos e as funções que julgou
necessárias para o exercício da vida pública. O século XV é o século em que
se realiza a passagem, na consciência de alguns soberanos, para a definição
de capital. Em 1415, Carlos VI de França (1368-1422), que até aí falou de
Paris como cidade principal, adota uma nova e mais incisiva expressão:
«Esta cidade é a capital do nosso reino.» Quando, em 1430, é coroado rei de
França, Henrique VI (1421-1471) renuncia celebrar, como os seus
predecessores, a cerimónia em Reims, e vai a Paris. Mas a corte ainda é
itinerante; não se instala estavelmente em Paris, por problemas de ordem
militar, logística e política. Certamente, cidades como Tours, que vivem ao
mesmo tempo o papel de capital, veem muito estimulada a sua promoção
social e política. A corte dos Habsburgo também é itinerante. Maximiliano
de Habsburgo (1459-1519) prefere a residência de Innsbruck, quer para
acompanhar mais facilmente a política italiana, quer para fugir à indócil
capital Viena. O que marca o destino de capital desta cidade é o papel do
imperador, mantido constantemente a partir de 1440 pelo seu senhor
territorial. Marino Berengo (1928-2000) escreve: «Já nenhum capricho de
soberano poderá pôr em causa que a caput Austriae é Viena; aquelas que
surgem noutros locais serão residências dos Habsburgo, não capitais.»
Naturalmente, só quando amadurece a ideia da corte residencial e de um
centro fixo para o exercício das funções do Estado, isto é, durante o século
XVI, podemos começar a falar de capitais estáveis.
Castela, entre as grandes monarquias europeias, é aquela que mais tarde, e
de modo não definitivo, escolhe uma capital: nos séculos XIV e XV, os
soberanos permanecem e convocam as cortes em Burgos, Toledo, Valladolid,
Segóvia, Córdova e Sevilha. O que faz crescer um centro urbano não são as
passagens temporárias da corte, formada por poucas centenas de pessoas,
mas a chancelaria com os seus funcionários, com os seus advogados, com
tudo o que implica a administração.
Depois existem as cidades dominantes. São inúmeras na Europa do século
XV. Com esta expressão se refere a capacidade de um centro urbano assumir
uma função de coordenação territorial do seu hinterland, do seu condado. As
funções podem ser as mais diversas: económicas, financeiras, políticas,
religiosas. A dimensão demográfica destas cidades é muito variável. Quase
por toda a Europa vai-se afirmando um modelo de governo político da
cidade baseado na clausura oligárquica, num grupo restrito (os patriciados
urbanos) que controla e gere as funções da cidade.

Crise ou transformação?
Os historiadores falam de uma crise das cidades no final da Idade Média.
Quais são os motivos? Giorgio Chittolini enumerou três: a crise geral do
século XIV; a deslocação do tráfego para o Atlântico e a crise da Flandres e
da Itália; a diminuição das condições excecionais que determinaram o
desenvolvimento das cidades nos séculos precedentes.
O desaparecimento da cidade-estado, a transformação dos governos
citadinos, a absorção no seio de conjuntos estatais mais vastos e o
enfraquecimento geral da economia urbana não significam, de qualquer
modo, o fim das cidades; pelo contrário, a integração no Estado põe em
marcha uma reestruturação de todas as hierarquias urbanas e cria as
condições para novas possibilidades de desenvolvimento das cidades.
Depois, é forte a capacidade de resistência de muitas cidades na Flandres e
nos confins do império (não na Prússia, mas na Alta Germânia, na Renânia).
Só nas épocas seguintes amadurecem episódios e situações que dão o sentido
de um redimensionamento drástico das autonomias urbanas.
Se algumas cidades como Bruges entram em crise durante o século XV,
outras como Antuérpia, sempre na Flandres, ascendem ao topo da hierarquia
internacional. Estão destinadas ao declínio económico, relativamente aos
séculos precedentes – mas não no imediato – cidades como Veneza, Florença
e as cidades hanseáticas; entretanto, adquirem importância decisiva pelas
suas feiras, Lyon, Lisboa, as cidades holandesas, os portos ingleses: é o
apogeu do capitalismo comercial e financeiro, da república internacional do
dinheiro, cujas condições de formação e desenvolvimento estão
indissoluvelmente ligadas às funções urbanas.

Cidade ideal e cidade real


Olhar exclusivamente a economia não basta: entre humanismo e
Renascimento a tensão ideal em torno da cidade sobe vertiginosamente. A
chamada cidade ideal conjuga-se com meios e fins reais: no sentido que se
torna um verdadeiro laboratório político.
A têmpera sobre madeira de um anónimo florentino, A Cidade Ideal, é o
símbolo desta passagem: edifícios com uma geometria perfeita, espaços
rigorosos, medida e equilíbrio da vista arquitetónica são os sinais mais
marcantes desta obra dos anos 80 do século XV, que exalta a cultura
humanista de Urbino, deste Estado-obra de arte, segundo a expressão eficaz
de Jacob Burckhardt (1818-1897): «Quase no meio da Itália para o lado da
mar Adriático situa-se, como todas as outras, a pequena cidade de Urbino:
apesar de estar no meio dos montes, e não tão amenos como alguns que
vemos em muitos locais, dispõe de céus favoráveis e o território à sua volta
é fertilíssimo e pleno de frutos; assim, além da salubridade dos ares
encontram-se muitíssimas coisas que são úteis para a vida humana. Mas entre
as maiores felicidades que lhe podem ser atribuídas, creio que a precípua,
foi ter sido dominada, desde há muito, por ótimos senhores, que, apesar de
ter sofrido as calamidades universais das guerras de Itália, sempre a
mantiveram resguardada. Não querendo ir mais longe, encontramos um bom
testemunho na gloriosa e imortal memória do duque Frederico, que foi de
entre os seus esplendor de Itália [...] Este, entre outras coisas que se lhe
podem louvar, edificou um palácio no austero sítio de Urbino, que na opinião
de muitos é o mais belo que se encontra em Itália, e de tão oportunas coisas
tão bem o forneceu que não dariam apenas para um palácio, mas para dez.»
Em O Cortesão, de Baldassare Castiglione (1478-1529), o palácio, símbolo
do príncipe e centro do poder, prolonga-se até se identificar com a cidade de
Urbino que, precisamente, «parecia apresentar a forma de palácio».
Mas, dizíamos, a «cidade ideal» dos príncipes italianos é um laboratório
em que o poder senhorial experimenta a sua capacidade de construção das
mais modernas funções políticas. Leiamos a esplêndida página de Burckhardt
sobre a Ferrara do Renascimento: «Se a população que aumentou
rapidamente pode ser testemunho de um bem-estar verdadeiramente
alcançado, também é um facto importante que, ainda em 1497, em Ferrara,
mesmo tendo sido extraordinariamente ampliada, já não se encontram casas
para alugar. Ferrara é a primeira cidade moderna da Europa: aqui, mais do
que em qualquer outro sítio, surgiram por vontade dos príncipes bairros
amplos e regulares: aqui, com a concentração dos serviços públicos e com a
atração engenhosa da indústria, formou-se uma verdadeira capital: ricos
exilados de toda a Itália, e mais especialmente de Florença, foram
autorizados a ter aí a sua residência e a construir prédios.»

V. também: A formação do Estado moderno, p. 27; O tráfego marítimo e os portos, p. 152;


As aristocracias e as burguesias, p. 170; A vida quotidiana, p. 246;
A administração da saúde nas cidades italianas. Colégios e delegações, quarentena,
farmacopeias, p. 365; A cidade entre utopia e realidade, p. 640.
O TRÁFEGO MARÍTIMO E OS PORTOS
de Maria Elisa Soldani

Após uma diminuição do tráfego na segunda metade do século XIV, no


início do século seguinte as rotas do comércio internacional voltam a
integrar um espaço que vai dos portos da Europa Atlântica aos do
Próximo Oriente.

As características do comércio e da navegação tardo-medievais


Numa Europa ainda predominantemente agrária, o comércio internacional
afirma-se como um dos sectores motores da economia quatrocentista. O
Mediterrâneo voltou a ser um espaço comum, um «continente líquido» – para
usar uma expressão do historiador francês Fernand Braudel (1902-1985) –,
intensamente percorrido por embarcações carregadas de homens e de
mercadorias. Nesta fase, o tráfego desenvolve-se a nível local, regional e
inter-regional, suportado por infraestruturas portuárias já disseminadas por
todas as costas. As rotas multiplicaram-se e ligam regiões muito distantes –
dos mares do Norte ao Levante – graças a transportes regulares italianos,
bascos, castelhanos e catalães. Neste período, o tráfego local, inter-regional
e o fluxo do comércio internacional contribuem para integrar os portos
orientais de Alexandria, Beirute, Rodes, Constantinopla e as escalas do mar
Negro com os portos do Adriático, do Tirreno, do sul de Espanha e do norte
de África, os atlânticos da costa francesa e até aos mais setentrionais de
Bruges, Antuérpia e Londres num único sistema. As vias terrestres também
ligam o norte da Europa ao Mediterrâneo, ao longo do vale do Reno até
Marselha, ou através das passagens dos Alpes Ocidentais, da Germânia ao
longo do Ródano e pelas passagens alpinas de São Gotardo e de São
Bernardo ou por Brennero. As vias terrestres atravessam também
horizontalmente a Europa, ligando as regiões orientais com as ocidentais e
também Praga com Colónia e Bruges, o mar Negro e o Danúbio com Veneza
através de Budapeste.
O tráfego das mercadorias de grande volume é favorecido pela
discriminação dos fretes, graças à qual se diferenciam os custos de
transporte com base no valor das mercadorias e se diminuem as despesas
combinando os bens pobres com os de maior preço. As embarcações,
verdadeiros bazares ambulantes, zarpam carregadas de mercadorias que ao
longo do trajeto são permutadas, trocadas ou vendidas nas escalas
intermédias. A conexão entre regiões comerciais é favorecida pelo papel das
praças de redistribuição, uma espécie de etapas intermédias na encruzilhada
de diferentes rotas, que integram a navegação costeira a nível local e em que
são visíveis os bens de diversas proveniências. As rotas internacionais são
integradas com as do tráfego de cabotagem e com as terrestres, que ligam os
portos com o seu território na base do ritmo de recolha das matérias-primas
e da produção dos artefactos.
A intensificação do comércio internacional é favorecida pelo
aperfeiçoamento das técnicas da navegação e da construção naval, tanto
marítima como fluvial. São duas as embarcações mais utilizadas: a galé, que
navega tanto à vela como a remos, e o veleiro, um tipo de embarcação
redonda com maior capacidade de carga. Se o inverno traz o mau tempo, a
navegação estival torna-se perigosa devido à presença mais frequente de
piratas e corsários: neste sentido, a vantagem da galé é constituída pela
possibilidade de ser armada e mais bem defendida dos ataques. A navegação
também é facilitada pelos numerosos investimentos dos privados, que se
concretizam em novas formas de sociedades, bem como pela regulamentação
da prática do seguro marítimo, graças ao qual a navegação e o comércio
deixam de ter impedimentos sazonais. Os navegadores dispõem de cartas
náuticas cada vez mais detalhadas e podem recorrer a compilações como os
portulanos. Assim, um instrumento de consulta para o mercador é Pratica
della Mercatura, um verdadeiro manual com informações úteis para o
desenvolvimento dos negócios: nele se encontram descrições das praças
comerciais, com pormenores sobre mercadorias, moedas, pesos e medidas, a
que se juntam conselhos úteis sobre o intercâmbio de moedas ou truques para
a aquisição de mercadorias específicas.
No século XV, a organização dos transportes profissionalizou-se e existem
sociedades que se ocupam essencialmente de fornecer este serviço. As
embarcações podem ser divididas em secções, chamadas «carates», e
parcialmente adquiridas por um ou mais investidores, ou alugadas por um
período de tempo preciso e por um trajeto estabelecido por um grupo de
mercadores, que estabelecem acordos privados com um patrono. As
principais potências marítimas – Veneza, Génova, a coroa de Aragão e mais
tarde Florença – juntam à navegação livre a do Estado. São embarcações que
viajam em comboios, de duas a quatro embarcações, cujo percurso e ritmo
de partida são estabelecidos por iniciativa estatal e calculados na base dos
ritmos produtivos e da chegada dos navios carregados de mercadorias para
redistribuir para outras rotas. Em Veneza, este sistema nasce no século XIII,
aperfeiçoa-se no século XIV e atinge o seu auge no século XV. A marinha das
outras potências mediterrânicas é depois organizada segundo o modelo de
Veneza.

O mercador renascentista: a excecionalidade do caso italiano


Os homens de negócios do século XV organizam-se em diversos tipos de
associações, que vão das temporárias ligadas à realização de uma única
viagem ou de uma operação concreta, como a commenda, bastante difundida
nas cidades de mar, até sistemas empresariais mais complexos,
característicos da cidade de Florença e ligados a nomes de família de
mercadores-banqueiros muito importantes, como os Médicis, os Strozzi e os
Pazzi. Em Itália a concentração dos recursos nas mãos de poucos, devido às
epidemias do século XIV e à clausura das oligarquias citadinas, favorece o
nascimento de grandes sistemas empresariais, que associam o comércio às
atividades industriais e bancárias, caracterizados por uma forte
disponibilidade de capitais e pela racionalização das atividades económicas.
Nesta época as principais empresas italianas possuem um serviço próprio
de navios, alguns especializados no comércio de determinadas mercadorias,
em apoio do intercâmbio entre as diversas companhias que encabeçam um
mesmo sistema. Os agentes das companhias estabelecem-se nas praças de
redistribuição para planear a partir dali os seus negócios na base do ritmo
das produções, que estudam em conjunto com o ritmo de chegada e partida
dos navios nas diferentes direções. Ao mesmo tempo, asseguram o
carregamento e integram as operações comerciais nas financeiras. Quando
não são os patrões que levam a cabo negócios com a duração de uma única
viagem, os mercadores dirigem uma rede de agentes presentes nas maiores
cidades comerciais e nos principais portos, utilizando quer o pessoal das
suas companhias quer intermediários locais. Os negócios nas praças
estrangeiras podem ser efetivamente geridos através de procuradores, que
recebem uma percentagem sobre cada operação levado a cabo.
A maona e o Banco de San Giorgio são uma peculiaridade genovesa. As
maone são sociedades de investidores – geralmente representadas pelos
consórcios familiares chamados alberghi e típicos da cidade da lanterna –
criados para gerir a coleta dos impostos nos territórios do Levante sob o
domínio genovês. A Maona di Chio e di Focea (1346-1566) é, por exemplo,
criada para recolher as taxas por conta de Génova na ilha ainda não
conquistada de Quios e no porto de Foceia, segundo um mecanismo mediante
o qual a maona, uma vez adquiridos pela cidade os direitos sobre as taxas,
recolhe entre os seus investidores os fundos para comprar galés e organizar a
operação de conquista. Génova é sede de uma outra importante instituição,
que passa a ser o órgão económico e financeiro da república: o Banco de
San Giorgio (1408) ativo até ao início do século XIX. Juntamente com o Taula
de Canvi de Barcelona (1401) é um dos primeiros bancos públicos do
Mediterrâneo, que nasce para administrar os empréstimos contraídos pela
república e para gerir as colónias orientais genovesas garantindo o fluxo de
crédito.
O mercador renascentista alcançou uma rede de contactos de tal amplitude,
uma tal disponibilidade de capitais e racionalidade na organização dos
negócios, que conseguiu planear os negócios do seu escritório numa escala
muito mais vasta sem ter necessariamente de viajar com a mercadoria, como
acontecia nos séculos precedentes: de itinerante passou a residente. Por essa
razão, desde o final do século XIV e durante todo o século XV, torna-se
regular a presença dos mercadores no estrangeiro em comunidades chamadas
«nações», organizadas em armazéns, consulados ou confrarias, com um
estatuto e regras próprias de conduta. O direito comercial é precisado em
compilações especiais e discutido em tribunais especiais – chamados em
Itália «della Mercanzia» – por juízes que formulam as sentenças na base da
experiência mercantil.

Veneza, Génova, Florença e a coroa de Aragão


Para compreender o quadro do comércio neste período é necessário ter em
consideração as relações entre os Estados nascentes, cujo poder, no século
XV, é consideravelmente acrescido. Elementos-chave deste cenário são, de
facto, a expansão e a organização de Veneza e Florença em Estados
territoriais e, consequentemente, a consolidação do seu poder não só a nível
internacional mas também regional. Veneza, que pela primeira vez parece ter
dirigido a sua atenção para o interior, consegue expandir o seu controlo
sobre as rotas terrestres do nordeste de Itália e, apesar disso, esforça-se por
preservar os seus territórios na frente levantina face ao avanço otomano e à
ingerência das outras potências mediterrânicas. Ao mesmo tempo, a coroa de
Aragão consolida a sua presença no Tirreno com a conquista do reino de
Nápoles (1443), acrescentando uma peça importante ao seu sistema
comercial mediterrânico e afirmando-se como potência económica. Por outro
lado, o ligeiro declínio na atividade comercial de Génova é causado pela
vitória de Veneza na batalha de Chioggia, que estabelece o predomínio da
Sereníssima no Adriático e no Levante. Por esta razão, os genoveses
propõem-se restabelecer novas redes comerciais no Mediterrâneo Ocidental
e continuam a cuidar dos seus interesses na Península Ibérica, sobretudo nas
Baleares, em Valência e no sul de Espanha. Nesta região, a rivalidade entre
Génova e a coroa de Aragão é constantemente marcada por momentos de paz
e de retoma dos conflitos. Cidades como Milão, especializadas na produção
dos fustões e das armas, enviam os seus artefactos para a Península Ibérica
por mar, precisamente através do porto de Génova, ou por via terrestre
através de Avinhão.
Florença é a mais pequena das potências italianas e aquela que tem menor
influência no mar, apesar de as suas companhias mercantis e bancárias se
incluírem entre as mais relevantes: só depois da conquista de Pisa (1406) e
da aquisição do porto de Livorno aos genoveses (1421) começa a organizar
uma navegação de Estado. A aparente diminuição na produção da indústria
da lã que a república do Arno vive no início do século XV contribui para que
esta se transforme cada vez mais numa indústria de luxo do ponto de vista da
produção tanto de tecidos de lã como de tecidos de seda.

Colónias latinas e tráfego com o Levante


Na Baixa Idade Média, o Mediterrâneo Oriental está dividido em áreas de
influência entre venezianos e genoveses com as suas colónias tradicionais
dependentes da metrópole ocidental, como Creta, por um lado, e Quios, Pera
e Caffa, por outro. Neste período, as potências mercantis mediterrânicas,
cuja prioridade é defender os seus interesses comerciais no Levante e
proteger as suas feitorias, são chamadas a conter as agressões do sultanato
mameluco do Egito e o avanço dos turcos otomanos. No século XV, os
venezianos e os genoveses, em particular, ainda mantêm o domínio sobre as
ilhas numa região de língua grega anteriormente pertencente a Bizâncio, em
que o ducado veneziano se torna uma das moedas mais comuns. Nestes
territórios, a população grega mistura-se com os mercadores provenientes de
ocidente, os judeus e os sírios. Chipre é governada pela dinastia da Casa de
Lusignan, enquanto Rodes é administrada pela ordem dos Cavaleiros de São
João de Jerusalém, que se apoderaram dela depois da perda dos domínios
sírios.
No Mediterrâneo Oriental estão presentes tanto feitorias temporárias de
mercadores latinos como colónias estáveis, consolidadas desde o tempo das
cruzadas. Constantinopla é ainda nessa época um centro fundamental do
comércio internacional, inter-regional e local, em que as principais
comunidades de mercadores latinos gozam de isenções importantes. Os
venezianos continuam a manter aí um bairro próprio e um oficial que exerce
o governo sobre a sua comunidade, enquanto os genoveses estão
estavelmente instalados em Pera, para lá do Corno de Ouro.
Assim, os mercadores ocidentais constituem um elemento de união dos
espaços: ligam não só os portos levantinos com as ilhas mas também com as
maiores escalas do Mediterrâneo Ocidental, com os portos atlânticos e da
Europa Setentrional. O sistema das mude venezianas e genovesas tem
também a função de manter sob controlo o curso dos preços das mercadorias,
aproveitando ao máximo o ritmo da navegação. As principais mercadorias
de exportação desta área, além das especiarias e dos produtos de luxo, são o
trigo, o vinho, a uva-passa, o mel, a cera, o queijo e outros produtos da
agricultura local, além do algodão sírio e turco e do açúcar de Chipre. O
tráfego das especiarias é encaminhado para Alexandria pelas caravanas
provenientes da Ásia por mediação dos mercadores árabes e depois
redistribuído no mundo latino pelos venezianos. Na outra direção é
importado principalmente o têxtil de manufatura flamenga, inglesa, francesa,
catalã e italiana.
Assim, no século XV, o comércio com o Levante conhece um momento de
forte prosperidade, que, em vez de diminuir, cresce após a conquista de
Constantinopla pelos turcos otomanos (1453). Nessa mesma circunstância
Maomé II (1432-1481) é acompanhado nas operações militares pela
presença de mercadores e cambistas. Em seguida, os mercadores ocidentais
continuam a frequentar as cidades comerciais colocadas sob a dominação
otomana, como, por exemplo, a cidade de Bursa, importante para o comércio
da seda, e estes mercados tornam-se o lugar privilegiado para os florentinos
venderem as valiosas manufaturas têxteis produzidas na cidade do Arno.

V. também: Os aragoneses no Mediterrâneo, p. 32; A queda de Constantinopla, p. 36;


As senhorias em Itália, p. 119; A República de Veneza, p. 123;
As cidades, p. 148; Mercados, feiras, comércio e vias de comunicação, p. 157;
As expedições navais e as descobertas geográficas antes de Colombo, p. 165;
Salteadores, piratas e corsários, p. 187.
MERCADOS, FEIRAS, COMÉRCIO
E VIAS DE COMUNICAÇÃO
de Diego Davide

O ininterrupto processo de crescimento demográfico e económico


iniciado na Europa no ano 1000 marca, entre a segunda metade do
século XIV e a primeira metade do século XV, uma inversão de
tendência. Peste e guerras ceifam a população e fazem diminuir as
trocas, a falência das companhias florentinas sugere a muitos
mercadores uma retirada, mas, apesar desta situação, a Europa
continua a progredir e as dificuldades tornam-se uma oportunidade
para pôr em marcha um processo de transformação e de melhoria dos
sistemas mercantis e financeiros.

Um século de dificuldades e de espírito empreendedor


A partir de meados do século XIV, regista-se um abrandamento da expansão
demográfica e comercial, que foi a principal característica dos três séculos
precedentes. Ainda que a mudança das condições gerais de uma Europa cada
vez mais interdependente nos impeça de pensar no século XV como um
prolongamento da fase de bem-estar, não se pode falar de crise sem recordar
que existem nesta época alguns impulsos propulsores e que, como sublinhou
o historiador italo-americano Roberto Sabatino Lopez, as estruturas do
mundo medieval, submetidas a uma dura prova por vários acontecimentos
negativos, não cederam.
As causas da depressão são múltiplas. O século XIV conclui-se deixando
como pesada herança uma população quase reduzida a metade pela «peste
negra» de 1348 (que, proveniente do Médio Oriente, ceifa vítimas, primeiro,
em Itália, alastrando, depois, a França, Espanha, Inglaterra, Germânia e aos
países escandinavos) e pelas outras epidemias que, embora menos terríveis
do que esta, continuam a difundir-se na Europa nos 50 anos seguintes. Nem a
Guerra dos Cem Anos (1337-1453) nem as lutas entre as fações
aristocráticas castelhanas, ou de carácter local como as da península italiana
e da Germânia Meridional, permitem uma rápida retoma do crescimento.
No espaço anteriormente pacificado pela unificação mongol, o crescente
aumento das tensões – de que são vítimas sobretudo as colónias italianas – e
o advento de Tamerlão (1336-1405) tornam impraticáveis as rotas
comerciais com o Oriente, obrigando os mercadores europeus a voltarem a
frequentar os portos egípcios, onde é possível encontrar produtos orientais
para aí transportados por navios indianos e até chineses. Por outro lado, no
Egito, a situação não é nada fácil; a necessidade daquelas mercadorias torna
os mercadores venezianos e genoveses impotentes face à especulação
comercial com que o sultão procura remediar a crise financeira do seu país.
Se a isto acrescentarmos outros acontecimentos que, embora de menor
relevância, não deixam de ter uma incidência sobre todo o sistema, como o
fim das grandes obras de arroteamento e o abandono de muitas vilas, a
redução da exportação de lã inglesa, o empobrecimento da nobreza francesa
grande consumidora de tecidos de luxo, a grande crise financeira florentina
de 1341-1346, é mais fácil compreender como se chega a uma inversão de
tendência.

Os perigos da superprodução e o melhoramento das técnicas


comerciais
A lenta degradação dos mercados faz pairar, pela primeira vez desde que a
revolução comercial foi iniciada, o espectro da superprodução. Empreender
viagens aventurosas para investir as suas fortunas em mercadorias cuja
colocação no mercado é incerta torna-se um risco demasiado e uma parte dos
mercadores considera ser mais sensato retirar-se dos negócios investindo em
propriedades fundiárias. Os que decidem permanecer em atividade
abandonam as longas viagens para acompanhar as mercadorias deixando que
se afirme definitivamente o comércio «sedentário» iniciado já por Siena e
Placência ao longo do século XIII.
O mercador passa a gerir os negócios a partir da sua residência, graças ao
auxílio de homens de confiança presentes nas maiores praças estrangeiras.
Juntamente com o tempo há também uma nova variável a ter em
consideração, representada pela genuinidade e pela tempestividade das
informações fornecidas pelos correspondentes; um bom sistema informativo
permite não enviar as mercadorias para um mercado que está saturado e
colocá-las noutro, onde a carência prenuncia um aumento da procura e do
preço. Em tais condições é necessário um serviço postal eficiente e, de
acordo com o que se deduz de algumas fontes da época, já existe, entre as
maiores praças comerciais, um serviço regular de correspondência: a
scarsella.
A de Avinhão é organizada diretamente pela corporação dos mercadores,
que de dois em dois meses procede à eleição dos responsáveis encarregados
de contratar os agentes e distribuir o correio.
Também o transporte marítimo vive importantes mudanças: serviços
regulares de galés ligam Génova e Veneza com a Flandres e o Levante.
Paralelamente, difunde-se o seguro de prémio, contrato mediante o qual o
segurador, em troca de um prémio de montante variável, consoante as
circunstâncias e as estações, assume todos os riscos derivados da navegação.
Ainda que inicialmente não seja uma atividade rentável, sobretudo devido ao
grande número de fraudes, o seguro tem na Europa quatrocentista uma
difusão e homologação cada vez maiores. Em 1484, as regras
consuetudinárias catalãs em matéria de seguros marítimos são codificadas no
Libro del Consolat del Mar. Também é considerável o desenvolvimento da
atividade bancária: a crise de 1341-1346 marca uma viragem no modo de
gerir o grande tráfego internacional e na organização interna das companhias
de mercadores banqueiros.
Um novo modelo é inaugurado por Francesco de Marco Datini (1335-
1410), mercador de Prato. A sede central tem o controlo direto sobre todas
as filiais, mas cada uma delas tem autonomia de gestão e orçamento, e a sua
eventual falência não ameaça envolver também as outras. É este o modelo em
que se inspira o Banco dos Médicis fundado em 1397 por Giovanni Bicci de’
Médicis (1360-1429) e de alguns elementos da família Bardi com filiais em
Nápoles, Veneza, Bruges, Pisa, Avinhão, Londres e Milão, Lyon e Roma.
O capital investido pelo banco é em grande parte recolhido através de
depósito discricionário, sobre o qual é prometido o pagamento de um juro
compreendido entre oito e 12 por cento. A ligação com o papado é muito
forte; a sede romana, mesmo dispondo, relativamente às outras filiais, da
quota mais baixa do capital investido, é aquela que dá maiores juros graças
às comissões e às percentagens sobre a transferência de dinheiro que aflui de
toda a Europa aos cofres da Igreja. Sob Lourenço de Médicis (1449-1492) a
posição do banco vai-se deteriorando, a incapacidade de Francesco Sassetti
(1421-1490) travar as fraudes do diretor da filial de Bruges e o
comportamento pouco escrupuloso dos responsáveis das filiais de Lyon e
Londres levam, dois anos depois da morte de o Magnífico, à bancarrota de
1494. A falência do banco dos Médicis marca o fim da supremacia bancária
italiana e quando, em 1519, Carlos de Habsburgo (1500-1558) tem de fazer
frente a uma mobilização ingente de dinheiro para convencer os grandes
eleitores a concederem-lhe o título imperial, quem o apoia é Jacob Fugger
(1459-1525), membro da família homónima de mercadores banqueiros da
cidade livre de Augusta, que constrói a sua fortuna a partir do comércio e da
exploração das minas.

As feiras
A atividade do câmbio, já no centro dos interesses que gravitam em torno
das feiras de Champagne, é acrescida e exaltada nas feiras de Genebra, que
são as verdadeiras herdeiras das primeiras. Já existentes durante o século
XIII com carácter predominantemente regional, afirmam-se como mercados
internacionais atingindo o seu máximo desenvolvimento no século XV. São
quatro os locais que compõem o ciclo de feiras de Genebra: Epifania,
Páscoa, festa de São Pedro e festa de Todos-os-Santos. A presença
estrangeira é maciça, sobretudo dos italianos (não é por acaso que foram
definidas como um mercado italiano a norte dos Alpes), que trocam os
produtos mediterrânicos e levantinos por penas, metais e ceras, trazidos
pelos mercadores germânicos e escandinavos.
Quando em 1463 Luís XI (1423-1483) decide fazer coincidir as datas do
ciclo das feiras de Lyon com as de Genebra, o ponto de encontro helvético,
que já tem de enfrentar uma mudança da conjuntura económica europeia,
inicia o seu declínio. As medidas tomadas pelo governo francês e pelo
municipal para assegurar franquias e privilégios aos mercadores favorecem
o afluxo dos operadores e a prosperidade da feira de Lyon, que se torna um
importante centro de aprovisionamento de especiarias e seda. O aspeto mais
interessante deste sucesso está na intervenção estatal, dado que, se até esse
momento foram fatores conjunturais que favoreceram a ascensão de um grupo
mercantil em relação a outro, a economia e a política passam a agir
conjuntamente: as escolhas do soberano também são um fator crucial na
determinação das fortunas. O início das duas feiras de Antuérpia, cidade que
ao longo do século XVI se torna o centro de distribuição das mercadorias
provenientes de toda a Europa bem como o local onde são experimentadas
técnicas financeiras cada vez mais evoluídas, remonta à primeira metade do
século XV. À primeira, que se realiza pelo Pentecostes, e à segunda, que se
realiza no início de outubro, depressa se juntam as de Bergen op Zoom, que
decorrem na Páscoa e no dia de São Martinho, formando assim um ciclo
único. Aqui chega grande parte do tecido inglês, que, adquirido pelos
mercadores de Colónia, é revendido nas feiras de Frankfurt, que têm no
comércio têxtil a principal atividade e que vivem entre 1330 e os primeiros
anos do século XV o seu momento de maior florescimento.

Uma visão de conjunto


Apesar da derrota sofrida no centenário conflito com a França, a Inglaterra
é no século XV uma potência militar de todo o respeito; o seu aparecimento
na área comercial hanseática dá vida a duros recontros, de que sai
vencedora, assegurando liberdades comerciais cada vez maiores na região
teutónica. Outro país em ascensão é a Holanda, que vive uma inesperada
retoma das atividades produtivas, de modo particular no que diz respeito à
cerveja, ao peixe salgado e aos tecidos. Esta manufatura, favorecida pelo
declínio da produção flamenga, tem o seu centro de excelência em Leiden.
No coração da Europa, Augusta, Ulm, Basileia e São Galo vivem um
momento muito favorável.
Os homens de negócios de Nuremberga, encruzilhada das comunicações
entre a Europa Oriental, a Europa do Norte e o Mediterrâneo, entram em
competição com os hanseáticos e os italianos e a companhia dos grandes
mercadores de Ravensburg, fundada em 1380, está presente em 21 centros
estrangeiros. Na região mediterrânica, Castela, país de forte vocação
agrícola e rico em gado ovino, ganha terreno no comércio da lã em bruto
graças ao maior espaço deixado pelos ingleses, que consideram mais
rentável desenvolver as suas produções têxteis e exportar tecido já acabado
em vez de matéria-prima, enquanto a Itália, embora veja reduzido o seu
quase absoluto monopólio no comércio à distância, não para o seu
progresso: até à bancarrota de 1494, a banca florentina dos Médicis mantém
relações a nível mundial, Veneza é o primeiro porto no mundo, no norte e
centro de Itália, a um sector de lanifícios em crise, segue-se a atividade
florescente da indústria da seda e a região de Abruzos é o maior produtor de
açafrão no Ocidente.
Novos mercados dos produtos de luxo são abertos pelos mercadores
italianos na Polónia, Boémia, Hungria, Sérvia e Bulgária. Na Crimeia, a
colónia genovesa de Caffa é o maior centro comercial do sudeste da Europa.
Tudo parece pressagiar um futuro róseo para a economia italiana, mas as
viagens de Cristóvão Colombo (1451-1506) e a queda do Egito e de
Constantinopla nas mãos dos turcos abrem cenários bem diferentes.

V. também: As cidades, p. 148; O tráfego marítimo e os portos, p. 152;


O crédito, a moeda e os Montepios, p. 161; Salteadores, piratas e corsários, p. 187;
Viagens, explorações, descobertas, p. 401.
O CRÉDITO, A MOEDA E OS MONTEPIOS
de Valdo d’Arienzo

O quadro da economia europeia do século XV apresenta uma fase de


estagnação devida a múltiplos fatores, entre os quais a formação dos
Estados modernos e a expansão geográfica. A circulação monetária
interage cada vez mais com o sistema bancário, que atingiu
entretanto uma maturidade mais plena. Além disso, insere-se neste
âmbito o nascimento dos Montepios e dos fundos frumentários, que
alargam o mercado do crédito.

Novas tendências em curso


A economia europeia do século XV atravessa uma longa fase de
transformação em que os fatores de produção (terra, capital e trabalho) não
são mais produtivos do que nos séculos precedentes, durante os quais se
chegara ao auge da expansão. Do abrandamento do ciclo produtivo no seu
conjunto passa-se em breve a uma fase de estagnação que parece diferenciar
grande parte do período considerado e que, além disso, é acompanhado por
uma forte instabilidade política, determinada tanto pela Guerra dos Cem
Anos como pela aceleração do processo de formação dos Estados modernos.
Esta fase tem graves repercussões numa economia que, como já se disse, se
vai transformando e se ressente negativamente do cenário em mutação. A
tendência para o absolutismo, por exemplo, mina o poder da nobreza e,
consequentemente, a própria estrutura socioeconómica da feudalidade; a
formação de uma burocracia e de exércitos permanentes obriga os soberanos
europeus a enfrentarem novas despesas que incidem excessivamente nos
cofres do Estado, tornando-se, nomeadamente, fixas e, sobretudo, crescentes;
a centralização do poder implica também no mercado notáveis intervenções,
como as políticas dirigistas e protecionistas. O «dirigismo», mesmo
prevendo e favorecendo a expansão do capital mercantil e bancário,
pressupõe o papel fundamental do Estado, que controla os fluxos monetários
e organiza e regulamenta o mercado com o objetivo de antepor os interesses
nacionais aos particulares dos indivíduos; o «protecionismo», pelo
contrário, é totalmente destinado a tutelar o mercado interno e o conjunto dos
seus protagonistas (consumidores, produtores e operadores) através de
políticas alfandegárias que permitam estabilizar o mercado nacional,
protegendo-o da concorrência internacional.
Mas há ainda um outro fenómeno que surge precisamente no final do século
XV: o colonialismo. Se tradicionalmente se faz coincidir a fase da expansão
territorial dos países europeus com a descoberta da América em 1492 pela
expedição de Cristóvão Colombo (1451-1506), diga-se que ela dá os
primeiros passos nas décadas precedentes, sobretudo quando Portugal inicia
as explorações no Atlântico, que alcançam resultados positivos quer graças
ao apoio dado por Henrique, o Navegador (1394-1460), quer graças à
introdução de novos e mais eficientes instrumentos de navegação, ou ainda
graças ao melhoramento das técnicas de construção naval. O resultado deste
processo será sancionado pelo Tratado de Tordesilhas de 1494 e determinará
rapidamente a chegada à Índia por via marítima pela frota de Vasco da Gama
(c. 1460-1524) e a descoberta do Brasil em 1500 por Pedro Álvares Cabral
(c. 1467-c.1526). Torna-se ainda mais determinante a necessidade de o
capital mercantil alargar o seu horizonte em busca de novas regiões para o
aprovisionamento dos recursos; além disso, o número cada vez maior de
mercadores, aumentando a concorrência, determina a diminuição da taxa de
lucro. Por isso, é vital para o crescimento económico ocupar e conquistar
novos espaços úteis a um capitalismo que, não obstante a crise de
transformação, tende a crescer pelo menos numa base quantitativa. A
confirmar isto estão os muitos mercadores e banqueiros italianos, flamengos
e alemães que financiam as expedições ultramarinas.
Neste contexto geral deve ser considerada a «revolução dos preços», isto
é, o processo que, na segunda metade do século XV, leva a um aumento
crescente dos preços, especialmente dos produtos da agricultura. As razões
deste fenómeno inflacionista são procuradas em múltiplos fatores, entre os
quais a acrescida disponibilidade de metais preciosos e a própria circulação
monetária, favorecida e sustentada pelo desenvolvimento dos bancos. É
conveniente determo-nos nestes últimos motivos para se compreender a
fundo a dinâmica da expansão europeia. Não obstante Portugal ter
conseguido controlar o acesso direto ao mercado do ouro africano, Guiné e
Sudão em particular, e a extração da prata das minas da Europa Central ter
sido retomada de maneira estável e mais produtiva, a procura de metais
preciosos cresce de maneira exponencial, tanto por causa das necessidades
prementes do Estado moderno, como pela própria procura representada
pelos operadores (banqueiros, mercadores, etc.) e pelos consumidores.
Nesta situação, ainda não é significativa a contribuição dada pela chegada
dos metais preciosos da América: o ouro brasileiro e a prata mexicana e
peruana não incidem significativamente no stock em circulação no velho
continente, só o farão na segunda metade do século XVI e durante todo o
século XVII.

Moeda, Montepios, fundos frumentários


Durante o século XV, apesar de não se terem ainda produzido os efeitos da
descoberta da América, verifica-se que as moedas europeias já sofrem
transformações que incidem profundamente no seu valor. O denominado
«cerceio», isto é, o costume de raspar a prata das moedas para depois a
reutilizar, faz diminuir o valor e faz aumentar a diferença entre as moedas de
prata e as de ouro, cada vez mais procuradas e apreciadas. Lentamente, as
moedas de ouro tornam-se a «moeda internacional», e as de prata vão servir
predominantemente os mercados internos até se alcançar, durante os dois
séculos seguintes, uma relação de 1 para 10 e até de 1 para 14, de tal modo
que o banqueiro londrino Thomas Gresham (c. 1519-1579) reformula uma
«lei», partindo de uma conceção anterior, segundo a qual «a moeda má
expulsa a moeda boa». Além disso, ainda durante o século XV, adquirem um
papel cada vez maior os bancos, que substituem em parte o dinheiro
adotando as operações de transferência, isto é, pagamentos sem o recurso à
moeda metálica.
Se durante o século XIV se tinha desenvolvido um articulado circuito
creditício baseado essencialmente nos bancos privados e públicos, os
primeiros empenhados nas grandes especulações financeiras e comerciais e
os segundos, nas transações relativas essencialmente à economia citadina, a
maioria da população europeia, para obter o crédito, recorre amplamente aos
usurários ou ao crédito sobre penhor. Mas, precisamente nos primeiros anos
do século XV, a ordem franciscana procura remediar o forte endividamento
das camadas mais pobres instituindo os Montepios, baseados essencialmente
na concessão de pequenos empréstimos mediante um penhor correspondente.
Os santos Bernardino de Siena (1380-1444), Giacomo della Marca (1393-
1476) e João de Capistrano (1358-1456), empenhados numa incessante obra
de pregação e divulgação, conseguem organizar uma rede destinada a esse
fim, associando os Montepios às coletas, às esmolas, aos peditórios e, por
vezes, às somas concedidas pelas instituições e pela nobreza. No entanto, só
na segunda metade do século este processo se difunde na península italiana,
particularmente nas regiões do Norte e do Centro, enquanto no Sul será
necessário esperar pelo século seguinte. No entanto, este fenómeno, de início
totalmente italiano, estende-se a muitos países europeus, especialmente à
Bélgica e à Alemanha; em França, pelo contrário, e não obstante o favor
régio, os Montepios nunca são instituídos ou permanecem nas margens do
mercado creditício. A estrutura destes Montepios é sancionada pela
aprovação apostólica e regulamentada pelas «capitulações» que estabelecem
normas precisas na distribuição dos empréstimos, nos prazos de resgate do
penhor fornecido e nas formas de leilão nos casos de insolvência. Os
objetivos humanitários na base dos Montepios fazem obviamente que as
somas à disposição dos beneficiários sejam baixas a fim de distribuir o
maior número de empréstimos dada a altíssima procura. Característica
peculiar do funcionamento destas instituições é a ausência de um juro
correspondente: geralmente, quando o devedor restitui a soma e volta a obter
o bem dado em penhor, é-lhe pedido um óbolo que vai aumentar o capital
gerido pela instituição, embora, gradualmente e após debates e litígios
teológicos, seja introduzido o princípio de um juro mínimo (em geral dois
por cento), reconhecido e autorizado definitivamente por Leão X (1475-
1521, papa desde 1513), pertencente à família florentina dos Médicis, em
1515.
A partir de Itália, o desenvolvimento dos Montepios estende-se também a
outras regiões europeias, mas a principal característica continua a ser a de
operar nas cidades e de apoiar a procura de crédito, sobretudo das
populações urbanas. Mais uma vez, são os frades franciscanos, como
acontecera com os Montepios, que lançam a iniciativa para a criação de
institutos muito semelhantes: os fundos frumentários. Estes, em vez de
dispensar dinheiro sobre penhor, adiantam aos camponeses o cereal
necessário para a sementeira ou para o sustento; no final da colheita,
procedem à restituição das quantidades fornecidas anteriormente com um
pequeno surplus, a título de juro, destinado na maioria das vezes a
reconstituir o fundo. O primeiro fundo frumentário nasce em Rieti, em 1488,
e a difusão permanece circunscrita à Itália Central e Setentrional, enquanto
no Sul se deverá esperar algum tempo por causa das hostilidades da
feudalidade a estas instituições criadas para apoio dos camponeses e dos
trabalhadores braçais. No entanto, as fortunas dos fundos frumentários terão
uma longa duração e chegarão a caracterizar o crédito rural e a própria
economia agrícola de toda a península.

V. também: Mercados, feiras, comércio e vias de comunicação, p. 157.


AS EXPEDIÇÕES NAVAIS E AS DESCOBERTAS GEOGRÁFICAS
ANTES DE COLOMBO
de Aurelio Musi

É durante o século XV que são lançadas as bases para a grande


empresa de Colombo no final do século. Portugal e Espanha são os
países europeus mais bem dotados de outros requisitos para as
expedições navais e as descobertas geográficas: possuem a base
económico-organizativa, isto é, sobretudo a disponibilidade de
capitais; a tecnológica, isto é, a caravela; a teoria e os instrumentos
geográficos mais avançados. Enquanto a linha de expansão
portuguesa tende para a circum-navegação de África para chegar às
costas asiáticas, ricas de especiarias, a linha de expansão espanhola
dirige-se para a descoberta e para a conquista de novas terras para
desenvolver um império euro-africano. No final do século XV, a
Europa está pronta para a descoberta do Novo Mundo.

Os pressupostos das explorações transoceânicas


Desde o início do século XV, existem pressupostos, impulsos e motivações
para as explorações transoceânicas, sobretudo em Portugal e Espanha: a base
económico-organizativa, a base tecnológica, o desenvolvimento da teoria e
dos instrumentos geográficos são os mais importantes.
Finança, seguros, relações de cooperação entre operadores económicos e
geógrafos preparam o terreno para as expedições navais. Portugal pode
contar com a disponibilidade de capitais dos mercadores italianos. Mas
também na Andaluzia surgem fundações comerciais por ação de mercadores
de Florença, Pisa e Génova. O impulso financeiro e comercial é fundamental
para dar vida às explorações transoceânicas.
Em meados do século XV está pronta a base tecnológica para a expansão
portuguesa: a caravela, uma embarcação equipada com velas latinas, afirma-
se no uso comum. É um navio de pequenas dimensões (30-40 toneladas),
muito mais manobrável e adaptado a domar o mar do que as galés. Tem três
mastros, duas grandes velas quadradas, que recolhem o vento e a impelem
para a frente, e uma triangular, que a faz girar rapidamente. Pode transportar
uma maior quantidade de provisões porque requer uma equipagem reduzida;
pode navegar afastada das costas e permanecer no mar por muito tempo.
Vejamos ainda o desenvolvimento da teoria e da técnica geográficas. Em
meados do século XV, vislumbram-se os primeiros sintomas de uma revisão,
de uma discussão sobre o mapa ptolomaico do mundo. Já um geógrafo, o
grego Estrabão (c. 63 a.C.-c. 21 d.C.), tinha defendido a ideia de que África
podia ser circum-navegada. Um mapa do mundo desenhado em 1459 pelo
monge veneziano frei Mauro (?-1460) mostra que o continente africano é
circum-navegável.
Também os instrumentos para a navegação se afinam. Espanha já possui a
bússola; outros países têm meios para medir a latitude, como o quadrante
náutico.

A expansão portuguesa
Na primeira metade do século, os portugueses atingem as costas e as
regiões setentrionais de África: são venezianos e genoveses ao serviço da
coroa portuguesa. Em 1445, são descobertas as ilhas de Cabo Verde. Em
1456, o veneziano Alvise Cadamosto (1432-1488) e o genovês Antoniotto
Usodimare (c. 1416-c. 1461) chegam à foz do rio Gâmbia. Abrir a via
marítima para o Oriente, circum-navegar África até atingir o oceano Índico,
a Ásia, e controlar o tráfego das especiarias: foi esta a aventura que os
portugueses enfrentaram na segunda metade do século XV.
Nos anos 70, tem início uma série de viagens de exploração na Guiné.
Entre 1482 e 1487 Diogo Cão (século XV), depois de ter ultrapassado o
Congo, atinge o sudoeste de África.
Finalmente, em 1487, Bartolomeu Dias (c. 1450-1500) abre aos
portugueses a via do oceano Índico, dobra a ponta meridional do continente,
que tomará o nome de cabo da Boa Esperança, sobe pela costa oriental de
África até à Somália, passando depois pela península arábica e pelas costas
persas e afegãs. África está circum-navegada: está aberta uma nova via
oceânica para o Oriente. São construídos fortins por toda a parte, fundadas
feitorias comerciais, cujos restos ainda hoje são visíveis.
A expansão portuguesa no continente africano é uma síntese de exploração
e comércio, realizada sem uma programação precisa, mas que, ao longo de
um século, permite a exploração de enormes recursos: os escravos (remonta
a 1441 o primeiro carregamento de escravos negros de que se tem
conhecimento), o ouro da Guiné, o marfim, o algodão, a pimenta, o açúcar.
Apoiado por capitais italianos e judeus e entregue aos escravos importados
pelas feitorias comerciais africanas, o cultivo do açúcar torna-se uma
atividade económica de primeira importância.
Desde a sua origem, o império colonial português em África mostra dois
limites que teriam incidido sensivelmente no seu desenvolvimento: a
dificuldade de o Estado gerir racionalmente os recursos comerciais e
coloniais; a forte dependência dos mercadores estrangeiros, sobretudo
italianos, depois, flamengos e alemães. Delineia-se assim a formação de um
império colonial não autossustentado, mas sensivelmente dependente do
grande capital estrangeiro.

Os problemas jurídicos da expansão


A expansão portuguesa ao longo das costas do Atlântico Meridional e em
África utiliza instrumentos para a penetração e a conquista que levantam
importantes problemas de natureza jurídica. A sua solução constituirá um
precedente e um modelo para a futura colonização espanhola. Defende-se a
legalidade da guerra para defender e estender o domínio da cristandade. Mas
como justificar a conquista das terras e a submissão das populações
africanas? Os juristas inventam a fórmula da terra nullius, do latim «terra de
ninguém», não submetida a nenhuma senhoria, desabitada ou habitada por
selvagens sem ordenações ou leis civis. Daí a possibilidade de impor o
domínio português sobre os territórios africanos com o simples ato da
descoberta e da ocupação.
Trata-se de um princípio de legitimação jurídica da conquista que
caracterizará o comportamento do primeiro colonialismo europeu. Será
amplamente debatido e servirá para distinguir nitidamente a expansão das
potências na Europa das conquistas extraeuropeias. Se as terras ultramarinas
são consideradas terras de pura conquista, privadas de reconhecimento
jurídico, a submissão dos países europeus no século XVI, por ação de
potências imperiais como Espanha, terá necessidade de outros títulos de
justificação e legitimação: a sucessão hereditária de um soberano dinástico,
a política matrimonial, a vitória militar. E, em qualquer dos casos, para cada
uma das possessões europeias da potência dominante será reconhecido o
respeito das ordenações, das leis, das regras consuetudinárias do país,
constitutivas de uma verdadeira civilização jurídica.

A expansão espanhola
Na origem da expansão espanhola antes de Cristóvão Colombo (1451-
1506) está a ocupação castelhana das ilhas Canárias. É opinião comum dos
historiadores que a ocupação castelhana das Canárias tem um valor
inestimável como pressuposto para atravessar o oceano no regresso da
América e é a base das quatro viagens de Colombo.
A colonização do arquipélago das Canárias é levada a cabo entre 1477 e
1479, ano em que é assinado o tratado de Alcáçovas entre Portugal e
Espanha. Ele marca a primeira etapa da divisão e da repartição do globo:
com base nele, Portugal aceita reconhecer os direitos castelhanos sobre as
Canárias e a Espanha reconhece os títulos portugueses nas outras ilhas do
Atlântico e nas costas africanas a sul do cabo Bojador.
O princípio que justifica a ocupação dos territórios é a fé, a guerra contra
os infiéis. É também estabelecido um princípio destinado a ser aplicado
depois na colonização americana: a rainha Isabel de Castela (1451-1504)
reserva-se os direitos de soberania sobre as Canárias, nomeia governadores,
concede aos capitães e aos artífices da conquista o poder de efetuar
repartimientos, isto, é divisões dos despojos de guerra e dos cargos
públicos, mas mantém o direito de controlo e de revogação das funções
políticas concedidas a governadores e capitães.
Em suma, a legitimidade jurídica de qualquer expedição para a exploração
e a conquista de novas terras ultramarinas está no poder público.

Uma experiência europeia


No final do século XV, tanto Portugal como Espanha já acumularam uma
experiência considerável no campo dos empreendimentos ultramarinos,
porque ambos estão dotados de bases organizativas e tecnológicas, de
homens dispostos a enfrentar os riscos das expedições para melhorarem as
suas condições económicas e sociais e do espírito de cruzada que tanto
participa na lógica da descoberta e da conquista.
Apesar de ser mais frágil do ponto de vista económico, social e político,
com uma base demográfica restrita, Portugal consegue, sobretudo graças ao
rei João II (1455-1495), reforçar a autoridade estatal, reprimir os impulsos
da grande nobreza, e explorar, através de uma política monopolista, os
recursos do ultramar. Se o interesse de Portugal está sobretudo orientado
para a Ásia, a política mediterrânica da Espanha leva a privilegiar a
construção de um império euro-africano.
Mas a experiência da descoberta e da conquista, tanto antes como depois
de Colombo, não pode ser reduzida apenas ao papel dos dois países
protagonistas, Portugal e Espanha. É uma experiência histórica europeia, no
sentido em que envolve energias económicas, sociais, políticas e culturais de
muitas regiões do velho continente. Basta pensar na comunidade de homens
de negócios que alguém chamou «república internacional do dinheiro»: ela
reconhece como único verdadeiro soberano a acumulação da riqueza e, por
isso, participa em larga medida, financiando-as, nas expedições
transoceânicas. Recorde-se o universo compósito dos homens no séquito dos
descobridores e dos conquistadores, não só espanhóis e portugueses. Depois,
é toda a civilização do humanismo e do primeiro Renascimento que se
mostra interessada a vários títulos nas expedições com as mais díspares
disciplinas: a teologia, a filosofia, a arte, o direito.
No final do século XV, Leonardo da Vinci (1452-1519) representa
frontalmente a paisagem, eleva-se no espaço celeste e descreve o panorama
da visualização em voo de ave. Deste modo, elevando-se mais, oferece o
mapa detalhado de toda uma região. Portanto, a arte ensina-nos a repensar o
espaço. O pintor coloca as mulheres e os homens do seu tempo em condições
de projetarem a fantasia para lá dos limites do quadro, para lá do visível
rumo ao que só pode imaginar. Do mesmo modo, mulheres e homens podem
ir além da parte conhecida do mapa geográfico e considerar conhecíveis as
regiões ainda inexploradas.
Os tempos para a descoberta do Novo Mundo estão maduros, com todas as
consequências que isso determinará não só do ponto de vista económico-
social, das relações internacionais, mas também da cultura e da mentalidade
coletivas.

V. também: A Península Ibérica, p. 113; O tráfego marítimo e os portos, p. 152;


Os instrumentos científicos e as suas aplicações, p. 343;
Viagens, explorações, descobertas, p. 401.
A SOCIEDADE

AS ARISTOCRACIAS E AS BURGUESIAS
de Aurelio Musi

No século XV, aristocracias e burguesias devem ser declinadas no


plural. As aristocracias compreendem tanto a nobreza feudal, camada
em profunda transformação na Europa Setentrional, mas difundida e
prevalecente nos campos da Europa Central e Oriental e da Europa
mediterrânica, como os patriciados urbanos, camadas dirigentes das
cidades. As burguesias compreendem os grandes mercadores-
banqueiros, que dominam a «república internacional do dinheiro», os
representantes das profissões civis, magistrados e advogados, das
profissões de saúde e dos vértices das corporações artesãs.

O mundo feudal europeu


A sociedade europeia do século XV apresenta-se bastante articulada e
diferenciada. As duas categorias de aristocracia e burguesia podem ser
utilizadas para a representar apenas na condição de serem declinadas no
plural e não consideradas como conjuntos de estratificações sociais
incomunicáveis.
Ao mundo da nobreza pertencem famílias não só provenientes da
aristocracia de sangue da mais antiga linhagem, mas também de mais recente
nobilitação. Pode definir-se a nobreza como o grupo social que possui um
estatuto jurídico particular, que se perpetua por via biológica e renova os
seus níveis na base de regras muito rigorosas. O nível e o título criam
hierarquias internas no mundo nobiliário. Por exemplo, o nível de Grande
Imperial no seio do Sacro Império Romano da Germânia confere a quem o
possui – eleitores, grandes príncipes, condes imperiais, etc. – um poder
político concreto superior ao dos outros nobres. O mesmo nível de Grande
em Espanha é sobretudo um título honorífico.
As nobrezas, na Europa quatrocentista, gozam de um poder de
representação notável. Nos parlamentos, nas dietas, em todos as instituições
da representação política dos estratos sociais, divididos, geralmente, entre
clero, nobreza e de origem citadina, as aristocracias constituem um poder
forte capaz de condicionar, sobretudo no que se refere à matéria fiscal, à
imunidade e aos privilégios, o governo dos soberanos.
Geralmente, no século XV, é a posse feudal da terra que transmite, no ato
da investidura do soberano, o título nobiliário: príncipe, marquês, duque,
conde. Assim, é para o mundo feudal europeu do século XV que convém olhar
quando se quer compreender esta parte da aristocracia. Dividamos a Europa
em três grandes regiões: a inglesa e do norte da Europa, a região do centro e
leste europeus e a região mediterrânica.
Em Inglaterra a aristocracia feudal, durante o século XV, participa
ativamente, primeiro, na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), depois, na
Guerra das Duas Rosas (1455-1485): na segunda é protagonista da guerra de
fação que opõe a Casa York à Casa de Lencastre. Mas com Henrique VII
(1457-1509), iniciador da dinastia Tudor, a obra de restauração da
autoridade régia e os novos processos económico-sociais, que favorecem
uma maior mobilidade e a oportunidade de novas camadas possuírem terras,
atingem a aristocracia inglesa, tornando cada vez mais residuais os seus
comportamentos propriamente feudais e acelerando o seu processo de
transformação. Nos países escandinavos, o feudalismo revela-se incapaz de
liquidar as robustas instituições rurais e as tradições de independência
ligadas à pequena propriedade camponesa: no final da Idade Média, apesar
da intrusão da nobreza, do clero e da coroa, os camponeses suecos possuem
ainda metade da superfície cultivada do país.
Por sua vez, a aristocracia feudal tem um papel dominante no centro e no
leste da Europa. Na Alemanha, a leste do Elba predominam os Junker,
proprietários feudais de vastas quintas agrícolas, que fazem uma gestão
direta do trabalho forçado e da servidão da gleba. A crise agrária do século
XV acelera a ascensão dos Junker e amplia a sua jurisdição feudal, isto é, o
conjunto de poderes judiciais, económicos, financeiros, de pressão e
controlo sobre as populações do feudo, reconhecidos por delegação do
soberano. O caso polaco é interessante. Foi escrito que a Polónia é a região
da soberania absoluta da grande nobreza. O sistema jurídico e constitucional
assegura-lhe um poder enorme, criando verdadeiras dinastias familiares. É a
dinastia soberana dos Jaguelões que inaugura, precisamente no século XV, o
sistema de amplíssimas concessões à nobreza feudal polaca: a imunidade
jurídica das detenções arbitrárias, a coleta de impostos e o recrutamento de
tropas pelo soberano só com o consenso da nobreza, a ampliação das
prestações de trabalho dos camponeses e da condição de servidão. Também
na Rússia um sistema feudal florescente e a servidão da gleba ampliam o
poder da nobreza durante o século XV.
Para as regiões da Europa mediterrânica a ligação entre território e
jurisdição representa um elemento de identidade na nobreza bastante forte.
Entre Espanha, França e Itália, as diferenças de condição da aristocracia
feudal são enormes, mesmo no interior de cada um destes países: no entanto,
é comum a tendência, pelas nobrezas feudais destes países, de estender a
jurisdição, sobretudo através da ampliação dos poderes delegados de
justiça, não só civil mas também criminal, em alguns casos até à última
instância de juízo (merum et mixtum imperium).
Assim, a aristocracia feudal, durante o século XV, continua, em grande
parte da Europa, a constituir ainda uma das camadas mais importantes tanto a
nível económico como social. Podemos reconhecer uma Europa Setentrional,
em que a função da nobreza feudal é residual, uma Europa Central e Oriental,
em que o feudalismo representa o dado predominante das relações
económicas e sociais, e uma Europa mediterrânica, em que, não obstante as
muitas diferenciações, a jurisdição feudal representa o valor acrescentado da
posse da terra. De qualquer modo, por toda a parte, a terra é ainda o fator
mais importante para a atribuição de títulos nobiliários dotados de um poder
concreto e, em alguns casos, de poder semissoberano. A condição nobiliária,
proveniente do sangue, tem uma forte aceção feudal.

Os patriciados urbanos
Marino Berengo (1928-2000) escreve o seguinte: «A longa permanência
de um grupo de famílias na classe dirigente é um traço constitutivo essencial
para que numa cidade se chegue a formar um patriciado.»
Os patriciados são, pois, o segmento das nobrezas europeias que, mesmo
diferenciado quanto à origem e às dinâmicas de formação, desenvolve, com
uma certa continuidade e estabilidade, a função de classe dirigente,
representando os componentes dos municípios e os titulares das principais
funções urbanas.
O processo é conhecido e está documentado para algumas regiões de
Espanha como Castela, em que o soberano, nos séculos XIV e XV, confere
privilégios de nobreza e estimula a formação dos fidalgos: estes nobres de
origem citadina ocupam grande parte dos cargos municipais.
Na Germânia faz-se a distinção entre nobreza rural e nobreza citadina. Na
hierarquia nobiliária, a aristocracia feudal ocupa um posto superior à urbana,
que de qualquer modo goza da possibilidade de aceder a cargos reservados,
nas cidades onde subsista a separação das camadas sociais.
Em Itália, a qualificação de nobre muda o seu significado de cidade para
cidade. Em Siena, «talvez a cidade mais congénita e amplamente politizada
da Itália dos séculos XV e XVI» (Berengo), a nobreza é mais um partido do
que uma camada social: isto é, a sua organização baseia-se nas tradições que
as diferentes famílias acumularam na sua participação secular na vida
pública. Também em Génova, a oposição entre nobres e populares não
representa um conflito de classe, mas um conflito entre duas fileiras
políticas. A chancelaria da república genovesa designa o nobre como «o
citadino de governo, que nela surgia por antiguidade ou velhas riquezas e
esplendor dos grandes». Por sua vez, em Veneza, está assente a possibilidade
de uma alternativa de governo popular: o seu desenvolvimento constitucional
no século XV surge no sentido aristocrático-oligárquico. Com a conquista de
território no interior da região de Véneto na primeira metade do século XV
são excluídos do governo tanto os forasteiros que chegaram recentemente a
Veneza como a rica e poderosa nobreza que na época comunal e senhorial
teve um peso predominante nas cidades que se tornaram súbditas. Em
Nápoles, o regimento citadino tem a comparticipação de nobres e populares.
Mas o governo urbano está solidamente nas mãos da aristocracia
representada nos cinco assentos nobres de Capuana, Nido, Montagna, Porto e
Portanova. O povo está representado num único assento.

As burguesias
Uma classificação orientadora de quem pode ser definido burguês no
século XV europeu é problemática. Não porque algumas sociedades
europeias não apresentem uma articulação rica que autorize a identificação
de camadas burguesas no seu interior, mas pela dificuldade de se atribuir um
significado unívoco ao termo burguês. Se identificamos a origem social com
a camada de pertença, certamente, os grandes mercadores toscanos e
genoveses, que fazem parte da elite internacional do dinheiro durante o
século XV, não são burgueses: pertencem todos a famílias da nobreza, por
vezes da mais antiga e prestigiada como no caso genovês. No entanto,
desempenham uma função que tem muito que ver com o novo significado
atribuído ao dinheiro – «o tempo é dinheiro», começa a dizer-se –, com o
comércio internacional, com as técnicas e os instrumentos inovadores das
transações económicas e financeiras, com o dinamismo das camadas urbanas,
com uma mentalidade especulativa e empreendedora que pouco tem que ver
com a das nobrezas. Relativamente à função que desempenham podem, pois,
ser considerados uma componente das burguesias quatrocentistas e,
consequentemente, ser colocados no vértice das camadas burguesas.
O segundo grupo é constituído pelo mundo dos profissionais. Os letrados,
os advogados que, a partir de então, na «civilização do papel selado» estão a
assumir muitas competências anteriormente pertencentes aos notários, e os
ministeriais, que desempenham papéis de destaque nas cúpulas das novas
magistraturas do Estado moderno no seu estádio embrionário, serão
burgueses? Neste caso podem ser também representantes de famílias nobres
que exercem profissões forenses e ocupam os altos cargos da administração
estatal. Quando não são nobres, aspiram a sê-lo, alimentando assim o
processo de formação da nobreza de toga, destinado a transformar
profundamente a identidade das aristocracias nos séculos seguintes.
Certamente não nobres são aqueles que exercem as profissões ligadas ao
mundo da medicina: um exercício que, em muitas regiões da Europa, é
considerado não condizente com o estatuto aristocrático, porque está
perigosamente próximo de quem exerce «vis artes mecânicas». E na disputa
entre artes superiores e artes inferiores, o exercício da medicina é colocado
muito abaixo do exercício do direito que, por sua vez, se relaciona com a
arte, que está a tornar-se uma das principais atividades na Europa entre a
Baixa Idade Média e a primeira Idade Moderna: a arte do governo.
Num degrau mais abaixo colocam-se os vértices das artes e das
corporações artesanais e mercantis: as camadas burguesas que constituem a
espinha dorsal da Europa das cidades.

V: também: As cidades, p. 148; Mercados, feiras, comércio e vias de comunicação, p. 157;


As expedições navais e as descobertas geográficas antes de Colombo, p. 165;
Salteadores, piratas e corsários, p. 187.
O PAPA E AS HIERARQUIAS ECLESIÁSTICAS
de Maria Anna Noto

O século XV é um período de transição, no decurso do qual a


profunda compenetração entre a dimensão civil e a dimensão
religiosa, típica das sociedades do passado, surge condicionada por
alguns fatores determinantes: uma rígida e complexa dialética entre
o papado e as altas hierarquias eclesiásticas, a configuração
nascente da moderna forma «Estado», uma diferença cada vez mais
tangível entre a Igreja e as exigências ético-espirituais dos fiéis,
cujas aspirações frustradas dão geralmente origem a dispersão,
dissensões, deturpações e insatisfação.

O fim do Grande Cisma e o «renascimento» do papado


O cativeiro de Avinhão (1309-1376), marcado pelo abandono da sede
romana e pela sujeição substancial dos pontífices à monarquia francesa, e o
cisma que dele derivou (1378-1417), assinalado por uma fratura profunda no
vértice da Igreja Católica, infligiram um duríssimo golpe na instituição e,
sobretudo, no seu sumo representante. Após a decisão de fazer regressar a
cúria pontifícia a Roma, as sucessões contestadas ao sólio de Pedro
comprometeram perigosamente a autoridade do vigário de Cristo, revelando
aos olhos da cristandade ocidental a inadequação de uma Igreja do
ordenamento monárquico centralizado e a necessidade de uma opção de
governo eclesiástico de tipo colegial, logo conciliar.
A solução para a crise desestabilizadora do cisma do Ocidente parece ser
oferecida pelo reaparecimento da teoria conciliar latente, que, reconhecendo
como «ascendente» o poder papal, considera que ele é delegado ao pontífice
pela Igreja universal, reunida em concílio. No concílio de Constança (1414-
1418) prevalece a assunção de que a assembleia é expressão da Igreja
universal, suprema representante de Cristo na Terra, em contraste com a
aspiração monárquica que se fora firmando a partir da reforma gregoriana do
século XI. O fruto imediato da afirmação conciliar de Constança é a
recomposição das lacerações pós-Avinhão e o regresso à unicidade
incontestada da eleição pontifícia na pessoa de Oddone Colonna, que assume
o nome de Martinho V (1368-1431, papa desde 1417), pondo termo à
oposição entre papas eleitos ao mesmo tempo por diferentes alinhamentos.
Só a partir do concílio de Constança e de Martinho V se inicia a redenção do
papado e a restauração progressiva do seu primado, que consegue
configurar-se como uma realidade consolidada nos séculos XV e XVI. O
percurso desenvolve-se predominantemente em direção ao reforço do poder
temporal, ao restabelecimento do já precário controlo territorial do
Património de São Pedro, à potenciação dos serviços e das funções do
aparelho da cúria.
A exautoração gradual do organismo conciliar processa-se ao mesmo
tempo que a reestruturação do Estado pontifício, que começa a ser, em
concomitância com o processo empreendido pelas monarquias europeias da
mesma época, uma entidade jurídico-territorial baseada na centralização, no
princípio da soberania absoluta, na relação disciplinada entre centro e
periferias. Para consolidar este itinerário, o papado irá atravessar uma fase
crítica na dialética com as altas hierarquias eclesiásticas: o concílio de
Basileia (1433-1449) parece dar um novo vigor à política conciliar, mas
Eugénio IV (Gabriele Condulmer; 1383-1447, papa desde 1431), deposto e
substituído por Amadeu de Saboia com o nome de Félix V (1383-1451,
antipapa de 1440 a 1449), consegue recuperar o apoio das monarquias
europeias, preocupadas com o facto de não prevalecer na Igreja a doutrina
conciliar, que, perspetivando um poder soberano proveniente de uma
assembleia, se inspira num modelo monárquico de carácter «parlamentar»
fortemente contrariado pelos principados quatrocentistas, então
decididamente direcionados para a centralização. O êxito do concílio de
Basileia – com a deposição do antipapa Félix V e a confirmação da eleição
de Nicolau V (Tommaso Parentucelli; 1397-1455, papa desde 1447) –
representa a vitória definitiva do primado papal na Igreja ocidental.

Humanismo, cultura e corte papal


Durante o século XV, assiste-se a uma viragem: o papado perde o
universalismo com que se encobrira no período medieval para se converter
eminentemente ao estatuto de potência regional, apontando para a evolução
estatal do seu domínio temporal, para a promoção da cultura e das artes em
plena consonância com o espírito renascentista, para a acentuação dos
aspetos «mundanos» da vida da corte. A cidade de Roma, recuperada a sua
centralidade como centro da cristandade ocidental, torna-se um dos
principais núcleos propulsores da cultura humanista, meta ambicionada por
artistas e intelectuais, local privilegiado de centralização e irradiação do
ambiente renascentista. Numa época ainda não condicionada pelos rigores da
Contrarreforma, que marcará com o seu espírito disciplinador as formas da
cultura, da religião e da política dos séculos a seguir ao concílio de Trento
(1545-1563), a cúria papal apresenta-se como uma vivaz corte principesca,
sede ideal para a circulação das ideias, o encontro dos eruditos e a
experimentação de expressões artísticas. Os pontífices quatrocentistas
revelam-se muníficos patrocinadores de atividades culturais, generosos
mecenas, animadores dos fermentos do humanismo triunfante e muitas vezes
até refinados intelectuais. É o caso de Nicolau V, apreciado erudito, cultor e
fundador de bibliotecas, artífice de um plano articulado para a
requalificação urbanística e arquitetónica da Roma capital do Estado
eclesiástico e farol da religião católica; de Pio II (Enea Silvio Piccolomini;
1405-1464, papa desde 1458), conhecido escritor e poeta; de Sisto IV
(Francesco della Rovere; 1414-1484, papa desde 1471), solerte promotor de
monumentais obras pictóricas e arquitetónicas, apoiante convicto de doutos
estudiosos.
Ao mesmo tempo, também as cortes dos cardeais, verdadeiros príncipes
da Igreja, geralmente provenientes das fileiras da aristocracia, oferecem
proteção e oportunidade de afirmação a intelectuais de consistência variada,
mais ou menos integrados no ambiente cortesão, lugar e símbolo da
civilização renascentista.

O papa, as hierarquias e a reestruturação do Estado


O Estado pontifício do Renascimento inicia, a par das monarquias coevas,
o caminho do absolutismo régio, exaltando a bidimensionalidade da
soberania papal, que encerra a supremacia do chefe da cristandade e a
autoridade do príncipe territorial. O humanista Enea Silvio Piccolomini,
futuro papa com o nome de Pio II, põe em evidência a extraordinária
prerrogativa pontifícia do conjugar a instructio do sacerdote e a praeceptio
do rei.
Nesta fase, a relação entre o papado e as hierarquias eclesiásticas,
marcada pela nítida e premente afirmação do primado pontifício e pela
exautoração consequente do organismo conciliar, tende a inserir-se no
quadro da reorganização administrativa perseguida pelo moderno Estado da
Igreja. O colégio cardinalício e o alto clero transformam-se
progressivamente, de elementos antagonistas ao soberano pontífice, em
poderosos organismos de governo, cujos componentes se configuram como
«funcionários» competentes no âmbito civil e pastoral, em virtude da
caracterização ambivalente in spiritualibus et in temporalibus do poder
papal. Os prelados, integrados no processo de reestruturação da cúria e do
Estado, dispõem-se a constituir a ossatura fundamental da burocracia
pontifícia, iniciando a «clericalização» dos aparelhos de governo, que se
tornará um traço saliente da administração do Estado eclesiástico nos
séculos seguintes. A tendência para potenciar o domínio temporal pelo
papado renascentista é favorecida, secundada e testemunhada pela ascensão
ao sólio pontifício de personagens com formação predominantemente
jurídica, que, mais do que se gabarem de uma sólida experiência pastoral,
provêm das fileiras dos funcionários da cúria, da administração estatal e da
carreira diplomática. A reorganização do Estado em novas e sólidas bases
realiza-se através da racionalização da administração provincial, da
contenção das tendências centrífugas, da repressão de fenómenos de rebelião
pelas comunidades e vassalos dos domínios eclesiásticos, do robustecimento
da cúria e dos aparelhos de governo.
Por outro lado, a consolidação do poder temporal parece uma estratégia
idónea para garantir a liberdade da Igreja em relação aos condicionamentos
das outras potências e permitir ao papa o pleno exercício da sua autoridade
supra-estatal no âmbito espiritual. A «alma dúplice» do soberano pontífice
(Paolo Prodi, Il sovrano pontifice. Un corpo e due anime: la monarchia
papale nella prima età moderna, 1982) se, por um lado, representa um
elemento de força atípico para a monarquia papal, por outro, não é suficiente
para colmatar as fraquezas intrínsecas derivadas da sua natureza eletiva e
não hereditária e da entronização de soberanos com uma média de idade
avançada, que provoca uma rotação frequente. A descontinuidade congénita
do papado é equilibrada pela estabilidade do organismo curial e pelas
manobras generalizadas dos pontífices no sentido de enraizar a sua família
nas dinâmicas de atribuição dos títulos e nas engrenagens do Estado. É como
se a impossibilidade da transmissão dinástica da soberania fosse contornada,
pelos papas, através da elevação dos seus familiares aos mais altos graus da
nobreza, das condecorações, dos cargos de governo. A propagação do
fenómeno, conhecido com o termo nepotismo, constitui uma das principais
fontes de crítica à instituição eclesiástica, mas, mediante a criação de
«dinastias de cardeais» projetadas para a gestão de tramas políticas e
fações, é útil para os complexos e precários equilíbrios inerentes à eleição
papal.
Um outro fenómeno que é concebido como instrumental para a conservação
da autonomia da Igreja é identificável na «italianização» do papado e da
cúria, que tem início no século XV com a ascensão do romano Martinho V
Colonna e – apenas com as exceções dos catalães Calixto III (Afonso de
Bórgia; 1378-1458, papa desde 1455) e Alexandre VI (Rodrigo de Bórgia
1431/1432-1503, papa desde 1492) e do alemão Adriano VI (Adriaan
Floriszoon; 1459-1523, papa desde 1522) – que perdura muito para lá da
Idade Moderna, até 1978. A escolha de pontífices italianos deveria preservar
a Igreja da sujeição às monarquias europeias, tutelando-a do ressurgimento
de situações degradantes como as que caracterizaram o período dramático de
Avinhão e pós-Avinhão. Só um papa italiano e um colégio cardinalício
predominantemente italiano parecem poder manter-se alheios a sugestões
«nacionalistas» e influências subordinantes. Contrariamente, para o mesmo
objetivo parece ser útil a fragmentação política da península italiana, cuja
fraqueza substancial no plano internacional não desperta as preocupações
das outras potências, acabando por assegurar a intangibilidade do Estado
pontifício e do seu soberano.

A Igreja na sociedade
O século XV é marcado por uma intensa crítica à decadência moral das
instituições eclesiásticas, à inadequação pastoral e à escassa espiritualidade
dos seus membros, a maior parte dos quais surge longe da pobreza hierática
da Igreja das origens. Angustiados apelos a uma reforma inadiável dos
costumes, a uma recuperação imprescindível dos princípios evangélicos, a
um sufocamento dos interesses mundanos insanos de um papado totalmente
virado para exigências meramente temporais elevaram-se em vão no seio da
própria Igreja, sendo muitas vezes canalizadas em correntes religiosas
rapidamente saídas do leito da ortodoxia e carimbadas como heréticas: os
casos emblemáticos das teorias propostas pelos sequazes de John Wycliffe
(c. 1320-1384) em Inglaterra, ou de Jan Hus (c. 1370-1415) na Boémia são
exemplos significativos do labor histórico-doutrinal de instâncias de
regeneração que permeavam há algum tempo o horizonte sociorreligioso.
A profunda crise manifesta-se com um desinteresse generalizado do clero
pelo cuidado das almas, pela gestão do património eclesiástico, pela
dispensa das obrigações pastorais e litúrgicas. O relaxamento dos costumes,
a incúria pela dimensão espiritual da sua missão, a adoção de estilos de vida
mundanos, a paixão pela riqueza e pelos bens materiais são aspetos
amplamente visíveis na Igreja renascentista, em particular, no seio do clero
secular, cuja negligência e falta de idoneidade no cargo contrastam com a
espiritualidade e a dedicação do clero regular geralmente mais ligado à sua
vocação.
O mal-estar das instituições eclesiásticas é atribuível a algumas causas
fundamentais: em primeiro lugar, a atuação de lógicas nepotistas que
prescindem avaliações meritocráticas e correspondem a exigências
eminentemente político-económicas e de ascensão social; em segundo lugar,
a nítida separação entre o desenvolvimento do ofício e o gozo do benefício,
que – com a difundida atuação da prática do vicariato – gera um abandono
substancial das funções e dos bens confiados. A prática certificada de
acumulação de cargos para usufruto das rendas correspondentes tende a criar
um alto clero predominantemente absentista, figuras de bispos geralmente
não residentes, que confiam a gestão pastoral e patrimonial das dioceses a
vigários geralmente incompetentes. Por sua vez, o baixo clero não é isento de
críticas, sendo caracterizado por impreparação doutrinal, inobservância das
obrigações pastorais e litúrgicas, maus costumes e estilos de vida que, em
vez de servirem de modelo, se conformam despudoradamente aos dos laicos.
Por sua vez, estes, não podendo contar com um apoio espiritual condizente,
ficam expostos ao risco de deturpações e contaminações das experiências de
fé. A decadência eclesiástica evidente dá o flanco às múltiplas acusações de
corrupção, simonia, dissolução, imoralidade, que se insinuam no povo dos
fiéis, mas que também estão presentes na chamada dos mais prudentes
religiosos da época a uma reforma inadiável in capite et in membris, que
remeta a Igreja para a pureza original.
A difusão da cultura humanista do Renascimento, projetada para a
revalorização do indivíduo e das suas potencialidades, suscita a necessidade
de uma relação mais direta com Deus, menos mediada pela instituição
eclesiástica, que, no seu vértice curial e papal do século XV, acaba por não
enfrentar de modo sistemático e eficaz a espinhosa questão da regeneração
moral, concentrando-se – como já se afirmou – no processo de consolidação
da estrutura estatal. Será o papado do século XVI – instado pela reforma
protestante – que deverá inevitavelmente promover uma global renovação
espiritual, ética e institucional, que, após o concílio de Trento, marcará
durante séculos a Igreja e a sociedade.

V. também: O Estado da Igreja, p. 62; A Roma de Sisto IV, p. 653.


AS ORDENS RELIGIOSAS
de Fabrizio Mastromartino

Para as ordens religiosas, o século XV é um período de reformas. O


processo de renovação corresponde a diferentes exigências, mas a
aspiração comum continua a ser o reavivar do impulso espiritual de
que são depositárias as comunidades religiosas. Deste fervor, na
viragem do século, o episódio dramático de Savonarola representa
certamente o exemplo mais intenso.

A Igreja romana e a crise do monaquismo


A vida da Igreja de Roma, nos séculos XIV e XV, é conotada por uma
constante aspiração à reforma e pelas tentativas destinadas a realizá-la. O
processo de renovação, defendido no concílio de Constança, reduz apenas
numa mínima parte a turbulência da autoridade pontifícia, longamente
alimentada pelo Grande Cisma até meados do século XV.
A crise do monaquismo agudiza-se. Em particular para as ordens antigas,
ao declínio disciplinar, ao isolamento e à opulência dos mosteiros, junta-se o
funesto instituto da comenda, que agrava ainda mais a já considerável
decadência das ordens.
O pontífice ou o soberano laico nomeiam abades comendatários, até então
estranhos e interessados apenas em explorar o património dos mosteiros.
Geralmente, ignoram a regra da ordem e os vínculos de obediência próprios
da vida monástica.
Por outro lado, esta profunda crise de autoridade também se deve ao
declínio mais geral do prestígio da Igreja do Ocidente. De facto, durante o
Grande Cisma, cada um das ordens tem mais do que um superior. Assim, a
confusão é considerável e torna-se cada vez mais necessária uma
modernização da organização constitucional das ordens antigas.

O nascimento das congregações


Neste processo, a formação das congregações de mosteiros desenvolve um
papel de primeiríssimo plano. Na ordem beneditina assume um grande relevo
a congregação italiana de Santa Justina de Pádua (séculos III-IV). Fundada em
1412, a congregação está articulada de forma federativa e tem uma
organização centralizada: de facto, a autoridade reside no capítulo geral, a
quem é confiada a nomeação dos abades, e o perigo da comenda é
esconjurado pela supressão do carácter vitalício do ofício abacial. A
estrutura organizativa da congregação italiana é imitada em Espanha, França
e Inglaterra, mas famosas pelo seu prestígio são sobretudo as congregações
de Melk e de Bursfelde. A exemplo das congregações beneditinas, em
meados do século XV é fundada junto da ordem cisterciense a congregação de
Castela, em Espanha, a que se segue no final do século a formação em Itália
da congregação de São Bernardo.

As reformas das ordens mendicantes


Para as ordens antigas, de inspiração beneditina, a reforma nasce
sobretudo da exigência de uma melhor organização estrutural. Por sua vez,
são muito diferentes as aspirações das ordens mendicantes, especialmente
das menores, para as quais a reforma, como no passado, está ligada
principalmente ao vivo desejo de um regresso à pobreza original das
comunidades monásticas.
Os dominicanos não tardam a iniciar reformas análogas às realizadas pelas
ordens antigas. Depois de algumas tentativas de reforma à escala regional,
com a abertura do novo século chega-se finalmente à fundação de algumas
congregações, na Lombardia, em França, em Espanha e na Holanda. Cada
uma é dirigida por um vigário-geral confirmado pelo mestre-geral, que
continua a ser a autoridade máxima da ordem. Em seguida, Eugénio IV
(1383-1447, papa desde 1431) divide a Observância em dois grupos, os
cisalpinos e os ultramontanos, cada um deles governado por um vigário-geral
e por vigários provinciais eleitos diretamente pelo movimento. Este
processo de desagregação da ordem chegará finalmente ao seu termo em
1517, quando Leão X (1475-1521, papa desde 1513) confere também aos
observantes o direito de eleger o seu ministro-geral, sancionando assim
definitivamente a cisão entre as suas correntes, observante e conventual, em
duas ordens distintas.
O papel da pregação: o caso de Savonarola
Além dos esforços profusos no processo de renovação da sua organização
constitucional, as ordens mendicantes prosseguem a sua atividade de
pregação. O dramático episódio que tem como protagonista Girolamo
Savonarola (1452-1498) constitui um fulgurante exemplo. A pregação do
célebre frade dominicano é a mais completa expressão do rigorismo moral,
professado pelas ordens mendicantes desde as suas origens, que aspira a uma
revolução espiritual substancial da sociedade e, em primeiro lugar, das
instituições eclesiásticas. Quando ele ascende à direção do governo de
Florença faz da pregação o verdadeiro exercício do poder, apoiado por
fileiras de prosélitos conquistados pelos seus ideais apaixonados. As suas
flechas acusatórias nem sequer poupam a autoridade pontifícia, representada
por Alexandre VI (1431/1432-1503, papa desde 1492), que o intima a
suspender imediatamente a pregação. Caído nas mãos dos seus opositores
florentinos, é entregue a um tribunal eclesiástico que o condena à fogueira
como herético.
A mais avisada crítica histórica pretendeu vislumbrar em Savonarola um
precursor da idade do Renascimento e o último representante da revolta
contra uma instituição eclesiástica destituída da substância espiritual das
origens: em suma, uma Igreja cujas finalidades são já a organização das suas
hierarquias e o cuidado do papel declaradamente monárquico da autoridade
pontifícia, cada vez mais elevada a simples potência soberana, indiferente à
sua missão espiritual de libertação e de redenção do homem. No limiar da
era moderna, a esta formidável iniciativa se dedicará a sociedade
renascentista, prelúdio da grande reforma protestante.

V. também: As guerras de Itália e o sistema dos Estados europeus, p. 53;


Os pobres, os peregrinos e a assistência, p. 184; Poesia religiosa: as laudas, p. 516.
AS CONFRARIAS
de Elena Sanchez De Madariaga

O século XV constitui o apogeu do movimento das confrarias que se


desenvolveu durante a Idade Média. Na Baixa Idade Média e em
particular no século XV, as confrarias estão estreitamente ligadas às
corporações, gozam de notável autonomia em relação às autoridades
civis e religiosas, participam ativamente na vida social e é
considerável o seu contributo para o desenvolvimento artístico (em
pintura, escultura, música e teatro).

A Europa das confrarias


Na cristandade ocidental as confrarias em que participam também
membros eclesiásticos nascem na Alta Idade Média. A partir do século XII
são os laicos, homens e mulheres, que se tornam os seus protagonistas. Estas
associações voluntárias de fiéis laicos com fins religiosos, que favorecem a
busca da salvação eterna, promovem o culto e canalizam a caridade dos
confrades para o próximo, difundem-se amplamente na Baixa Idade Média.
Na segunda metade do século XIV e no século XV pode observar-se uma
importante difusão e diversificação do movimento de confrarias. O impulso
para a formação de confrarias é forte tanto nos momentos de crise e de
epidemias como em períodos de crescimento demográfico e de
desenvolvimento urbano, comercial e artesanal. Para o século XV está
documentada a presença de confrarias em toda a Europa: Irlanda, Inglaterra,
Portugal, Espanha, França, Suíça, Bélgica, Países Baixos, Itália, Germânia,
Polónia, Hungria, Boémia, Ucrânia, Bielorrússia, principalmente nas
cidades, mas também em numerosas zonas rurais. Este amplo movimento
associativo, que levou a falar de uma «antiquíssima Europa de confrarias»
(Liana Bertoldi Lenoci, Studi sull’associazionismo laicale in Puglia, 1990),
será depois orientado e transformado pela Igreja da Contrarreforma a partir
de meados do século XVI.
Velhas e novas devoções
As confrarias quatrocentistas mantêm as características das precedentes,
mas renovando e ampliando o programa devocional e diversificando os
objetivos. O banquete em comum no dia da celebração do santo padroeiro
continua a ser um momento crucial para a manifestação da solidariedade
interna que, não obstante algumas críticas, não é posta em causa na sua
substância até às reformas tridentinas do século seguinte, que pretenderão
separar o sagrado do profano. Às confrarias medievais tradicionais
destinadas à procura da intercessão do santo padroeiro a favor dos
confrades, vivos ou falecidos, juntam-se outras mais direcionadas para
formas de devoção que exigem uma maior implicação dos confrades, como a
prática frequente dos sacramentos, a oração e a flagelação. As companhias
de cantores de laudas da Itália Central começam a mostrar grande
sofisticação no canto das laudas em vernáculo, mesmo polifónico, como nas
representações teatrais, mas o impulso à criação destas confrarias vai-se
extinguindo. Por sua vez, o movimento penitencial continua e amplia-se. São
numerosas as companhias de flagelantes que nascem em Itália no século XV e
que, no final do século, se difundem amplamente no sul da Europa. Em
Espanha, as confrarias da Vera Cruz, que se multiplicam em muitos países,
têm um papel fundamental no início e no desenvolvimento penitencial que se
articula em torno da Semana Santa. A devoção de Cristo, também não
penitencial, manifesta-se nas confrarias dedicadas ao Corpus Christi e ao
Santíssimo Sacramento. Estas confrarias, documentadas a partir do século
XIV, que se difundem no século XV, serão potenciadas como confrarias
paroquiais pela Igreja da Contrarreforma. O culto dos santos e as devoções
marianas locais continuam a constituir a parte essencial do mundo das
confrarias, mas estas também contribuem de modo decisivo para a
divulgação das devoções marianas comuns (Assunção, Conceição,
Anunciação, Sete Dores). Neste período, os dominicanos favorecem, nos
seus conventos, a criação de confrarias dedicadas à Virgem do Rosário. As
confrarias do rosário, que preveem a recitação do rosário pelos laicos e
eclesiásticos em conjunto, criam raízes no território germânico e difundem-
se em França e em Itália. Como as confrarias dedicadas ao Santo
Sacramento, as confrarias do rosário serão retomadas e favorecidas pela
Igreja tridentina do século XVI.
A caridade
As confrarias exprimem a caridade cristã mediante o culto e a devoção
dirigidos a Deus, à Virgem e aos santos, mas também através da prática da
caridade entre confrades e em relação ao próximo. A caridade entre
confrades manifesta-se nos momentos de dificuldade da vida – doença,
pobreza, viuvez, etc. –, mas mais especialmente na hora da morte. O socorro
por ocasião da morte – funerais, sepultura, orações, missas – é fundamental e
comum à grande maioria das confrarias. Numerosas confrarias contam, entre
as suas atividades, práticas caritativas dirigidas a grupos específicos de
necessitados, que se vão ampliando a partir das obras de misericórdia:
pobres envergonhados, doentes, peregrinos, prisioneiros, crianças
abandonadas (expostas), raparigas por casar, condenados à morte
(companhias de justiça), prisioneiros por dívidas, viúvas, órfãos. Algumas
confrarias especializam-se, como a importante confraria dos Buonomini di
San Martino, em Florença, que se ocupa especialmente dos pobres
envergonhados. Outras optam pelo socorro aos pobres de Cristo sem
distinção, como a Escola da Divindade, em Milão, que se ocupa dos pobres,
prisioneiros ou raparigas por casar. Já no final do século XV, começa a
rápida expansão das Misericórdias portugueses, sob os auspícios da coroa,
que seguem as pegadas das 14 obras de misericórdia. Muitas cidades
europeias contam com uma ou mais confrarias que têm um papel relevante na
assistência espiritual e material e, outras, mais numerosas, que se ocupam da
assistência a grupos mais específicos numa escala reduzida.

Composição social
O associativismo das confrarias caracteriza-se pela sua flexibilidade e
polivalência tanto nos seus objetivos como na sua composição social. No
conjunto estão envolvidos indivíduos pertencentes a uma ampla gama social:
nobres, artesãos, comerciantes, camponeses, eclesiásticos, mulheres, homens
e crianças.
É de notar a participação de camadas intermédias urbanas, artesãos e
comerciantes, o que dá conta da vitalidade do fenómeno das confrarias no
mundo urbano quatrocentista.
Associações zelosas da sua identidade coletiva, as confrarias definem e
limitam o acesso à própria associação. Algumas admitem o ingresso a certos
grupos sociais, outras, a grupos específicos, como acontece, entre outras,
com as corporações de ofícios. A solidariedade corporativa junta-se a
solidariedade por nações, como acontece, por exemplo, com a confraria de
sapateiros alemães dos santos Crispim e Crispiniano em Roma. Na época,
começa a ser frequente a formação de confrarias nacionais nas cidades que
acolhem forasteiros: genoveses em Florença, florentinos em Roma, alemães
em Londres, húngaros em Cracóvia, e assim por diante. As mulheres
participam em toda a Europa no movimento das confrarias, mas a sua
participação, especialmente para as atividades públicas e o governo das
associações, é muito variável e, em geral, é limitada em relação à
participação masculina.
Existem também confrarias especificamente de crianças. São de assinalar
as que foram instituídas no século XV e no início do século XVI em Florença,
em que as crianças são preparadas para começar a participar na vida pública
citadina.

V. também: As inquietações religiosas, p. 214; A vida religiosa, p. 229;


Poesia religiosa: as laudas, p. 516.
OS POBRES, OS PEREGRINOS E A ASSISTÊNCIA
de Giuliana Boccadamo

No século XV, a tipologia do pobre diversifica-se em relação à dos


séculos precedentes e aumenta a vagabundagem. Em contrapartida,
incrementam-se e especializam-se as instituições caritativo-
assistenciais destinadas a faixas cada vez mais amplas da população.

Quem é o pobre?
Nos alvores do século XV, como já acontecera nos últimos anos do século
XIV, os pobres fazem ouvir prepotentemente a sua voz. Em 1419 em Aragão,
com o movimento das remensas, os camponeses opõem-se violentamente aos
senhores que os impedem de resgatar algumas imposições servis. No mesmo
ano, Jan Hus (c. 1370-1415) arma bandos de boémios recrutados nos campos
e entre os artesãos urbanos em dificuldade, propondo um novo modelo social
baseado na vida comunitária, pobre e igual para todos, numa sociedade sem
classes, e envolve no projeto também os ricos atraídos por aquilo a que se
poderia chamar uma idealização da pobreza. Mas quem são os pobres do
século XV? Os camponeses espanhóis que incendeiam casas e colheiras e
ameaçam abertamente os senhores, os boémios atraídos por um ideal
comunitário, os revoltosos de Lyon de 1436, a que depressa se unem os
vagabundos e desenraizados, os trabalhadores florentinos, os trabalhadores
pobres do tumulto reprimido dos cardadores do final do século precedente,
aos quais se tinham juntado vagabundos e prisioneiros? Será possível propor
ainda a imagem oleográfica do pobre maltrapilho, do mendigo, do pobre
eleito de Deus e imagem de Cristo, que humildemente estende a mão e se
contenta com aquilo que o convento e o benfeitor do momento lhe dão? E,
sobretudo, onde situar a nova inquieta e inquietante presença do vagabundo,
cujos traços começam já a delinear-se, muito diferente do pobre itinerante
dos séculos passados, manso, inofensivo, por vezes pobre por opção, e do
peregrino que ruma aos lugares santos da cristandade?
E quem é o verdadeiro pobre, quem é o mendicante de profissão? E o
mendicante poderá ser assimilado sem sombra de dúvida ao delinquente? E
como interpretar o bispo de Paris que, em 1365, dizia que nas ruas da cidade
surgira uma praga de uma inumerável multidão de mendicantes?
Entretanto, convém fazer a distinção entre pobreza rural e pobreza urbana.
É hoje claro que as maiores bolsas de pobreza, os reservatórios da
mendicidade, as raízes profundas do pauperismo se encontram nos campos.
As exíguas extensões das propriedades, insuficientes para garantir o sustento
do agricultor e da sua família, levam o camponês ao trabalho assalariado nas
terras de outrem, mas isto também não é suficiente. As restrições sobre as
remunerações fazem o resto. Alguns ofícios conduzem à marginalidade e a
passagem desta situação para a vagabundagem e a mendicidade é rápida.
Pastores, trabalhadores das salinas e gente do mar estão expostos às
conjunturas meteorológicas e aos riscos próprios do ofício. A um outro nível
situa-se a pobreza envergonhada, que conta entre as suas fileiras os filhos
segundos, os nobres em decadência e também os clérigos privados de
prebendas e obrigados a vaguear de uma diocese para outra.
No entanto, é indubitável que a cidade é a encruzilhada da miséria. Pobres
residentes, identificados nos fogos – ou mesmo núcleos familiares –, sujeitos
a imposto, mas na realidade isentos da contribuição porque privados de
rendimento; pobres que trabalham, isto é, artesãos com um salário
geralmente insuficiente para si e para a sua família encontram-se na praça
principal ou noutros locais designados em busca de uma contratação como
jornaleiros. Feitas as devidas distinções entre as diversas realidades
nacionais e locais, é indubitável que semelhantes categorias de pessoas
tendam a deslizar de uma pobreza digna para uma pobreza manifesta e a
deixar-se tentar pela aventura da vagabundagem, abandonando residência
estável e família. Devido a um regime de salariado mal remunerado torna-se
assim mendicante ocasional e, depois, com outra passagem, mendicante
profissional, salteador, gatuno, criminoso, sozinho ou em grupo. Isto é,
passa-se de pobre a delinquente.
Há uma especialização na mendicidade, um profissionalismo na
mendicância. Organizam-se verdadeiras confrarias de mendicantes, ensinam-
se aos novos adeptos os truques do ofício: falsas pragas, deformidades
simuladas; vendem-se ou alugam-se crianças para induzir a piedade. Mais,
na pobreza e na marginalização no feminino, são as prostitutas, ocasionais ou
estáveis, mas exploradas por chulos e proxenetas. No fundo, o verdadeiro
vagabundo não difere muito do mendicante que se tornou como tal devido a
conjunturas e circunstâncias adversas, mas une geralmente a ausência de
identidade à ausência de domicílio: sem raízes, sem pátria, nem sequer tem
as referências com que um mendicante talvez ainda possa contar.
Outros grupos ainda percorrem e enchem as estradas: os ciganos,
assinalados na Europa Central e, depois, em França a partir dos anos 20 do
século; os aprendizes, que se deslocam de uma cidade para outra para
aprender um ofício e encontrar trabalho; os peregrinos, que não desistem de
percorrer as vias marítimas quando se dirigem a Jerusalém e as vias
terrestres para peregrinações locais, regionais, nacionais e para chegar a
Roma para os quatro jubileus do século XV (1400, 1423, 1450, 1475).

Os problemas ligados ao pauperismo


A onda de pauperismo e o aumento dos vagabundos provocam, como é
fácil imaginar, reações a diversos níveis. As autoridades civis mantêm em
vigor as medidas repressivas em relação à mendicidade e à vagabundagem
iniciadas um século antes e, em muitos casos, endurecem-nas. As penas a
cominar para os pobres válidos que se recusam a trabalhar e para os
vagabundos habituais vão da expulsão perpétua à marca de fogo como sinal
de infâmia. Génova expulsa do seu território os vagabundos que noutros
locais, como no Languedoque em 1456, são obrigados a embarcar como
tripulação nas galés, as grandes embarcações movidas à força de remos:
ganha força a ideia do trabalho coagido.
Por sua vez, em Florença, adquire significado particular a pregação de
Girolamo Savonarola (1452-1498): o dominicano estigmatiza a decadência
da Igreja quatrocentista, rica e por vezes corrupta, auspica um retorno ao
estilo de vida das comunidades dos primeiros tempos da era cristã, em que
havia partilha e os pobres tinham dignidade e eram assistidos com amor. No
mínimo, os ricos, na Florença do seu tempo, devem distribuir o supérfluo aos
pobres, caso contrário ficam maculados por um verdadeiro furto. Mas é
necessário, acrescenta Savonarola, que os pobres possam encontrar trabalho,
e é igualmente necessário que os pobres válidos procurem ganhar sozinhos o
seu sustento, recusando o ócio e vivendo ativamente.
Por outro lado, noutra vertente, são precisamente as ordens mendicantes
que são atacadas pela maneira como vivem a pobreza religiosa. Já no século
XIII os franciscanos, os espirituais e os conventuais, tinham estado em
desacordo sobre a maneira de entender a pobreza absoluta na vida da ordem.
Começa a ganhar força a convicção de que não é admissível que um frade de
boa saúde viva de esmola, isto é, tenha de depender de outros para se
sustentar. Por um lado, teme-se que isso seja um mau exemplo para os pobres
válidos, por outro, coloca-se a hipótese de a esmola dada a um frade retirar
ao pobre aquilo que lhe é devido. Não admira, pois, que seja um movimento
que procura renovar o carisma das origens da ordem, o movimento dos
franciscanos da Observância, a dar o impulso propulsor para a fundação dos
Montepios, novos institutos que surgem para travar a prática da usura e
conceder empréstimos sobre penhor às classes menos favorecidas. E também
do movimento da Observância vem o impulso propulsor para um outro tipo
de institutos, os fundos frumentários, para o empréstimo de sementes e a
distribuição de cereais durante as carestias.
Mas, de facto, é a assistência em geral que se reorganiza durante o século
XV, impulsionando as instituições dos séculos precedentes para um nível
mais avançado. Mantêm um papel ativo as mesas dos pobres, difundidas
sobretudo na Europa Setentrional e em Espanha, que levam a cabo nas
paróquias, muitas vezes com o apoio da autoridade pública, a distribuição de
vestuário e calçado e de refeições comuns para os pobres, pobres
conhecidos, bem entendido, aos quais muitas vezes também se dá um sinal de
reconhecimento. Têm um papel cada vez mais incisivo as confrarias que
canalizam a beneficência privada através dos testamentos dos seus inscritos,
e os hospitais, também eles geralmente destinatários de doações. A reforma
hospitalar, que se desenvolve neste século, dirige-se geralmente à união de
pequenas fundações pré-existentes nos chamados Hospitais Maiores, mas
também a uma especialização por doenças – reservando aos diversos
doentes alas específicas no interior do nosocómio – ou por categorias.
Marinheiros, pescadores, pintores, etc., têm hospitais a eles destinados,
habitualmente geridos pelas corporações correspondentes e pelas confrarias
derivadas. Um desenvolvimento particular têm os asilos de crianças,
destinados a acolher os expostos ou «abandonados». Basta pensar no célebre
Hospital dos Inocentes de Florença ou na reorganização do não menos
célebre Asilo da Anunciada de Nápoles.

V. também: A Boémia, p. 96; As ordens religiosas, p. 179;


A administração da saúde nas cidades italianas. Colégios e delegações, quarentena,
farmacopeias, 365.
SALTEADORES, PIRATAS E CORSÁRIOS
de Carolina Belli

No século XV a situação nos mares continua a ser dramática devido à


persistência das incursões de piratas e corsários. A ação das
potências marítimas procura enquadrar num sistema de relações
internacionais a regulamentação do controlo destas ações de
perturbação.

A situação nos mares


Na alvorada do século XV permanece substancialmente invariável a
situação de precariedade e perigo para os navegadores que se aventuram nas
rotas do Mediterrâneo e dos mares do Norte; tanto a oriente como a ocidente,
o mar está cheio de insídias, mas o perigo maior é o elemento humano, os
navios de piratas e de corsários que infestam todas as costas. Os marinheiros
temem as tempestades de um mar caprichoso, mas sobretudo, como é
evidente nos contratos de seguro marítimo, «a sorte do mar» consiste em
evitar maus encontros que terminam com a perda dos bens, e por vezes da
liberdade, senão da vida. As rotas do Tirreno, do Adriático e do Médio
Oriente são neste período cada vez mais frequentadas, relativamente à
posição de grandes potências marítimas e económicas adquirida na Baixa
Idade Média por algumas cidades da costa que têm a dimensão considerável
de Estados e que como tais se apresentam na cena política: Génova com toda
a costa da Ligúria; Veneza que, ao dominar o Adriático, se afirma também
como potência terrestre; Florença, que, mesmo não tendo saídas para o mar,
acolhe a herança de Pisa, que entrou definitivamente na sua órbita;
Barcelona, centro da potência catalã em plena expansão – cada uma delas,
um covil à sua maneira de piratas e corsários. As cidades e os povos das
costas africanas ou do Médio Oriente não mostram um desenvolvimento igual
no mesmo período. Os sarracenos perdem o impulso dos séculos precedentes
e a capacidade de ocupar grandes espaços, os gregos do império latino
atravessam um período de profunda dificuldade e o Oriente oferece
definitivamente um panorama de crise.
A par das grandes rotas do comércio permanecem vivas por toda a parte as
rotas da pequena cabotagem costeira, aptas para fornecer as mercadorias de
primeira necessidade às comunidades menos importantes e a inserir no
mercado os produtos agrícolas e artesanais que chegam à costa do interior.
Assim, a amplitude do comércio ao longo das vias marítimas é muito mais
significativa do que nos séculos precedentes, numa relação direta com o
desenvolvimento das técnicas e dos instrumentos que permitem uma
navegação de alto-mar, abandonando a navegação ao longo da costa e com as
necessidades crescentes de todos os Estados e monarquias europeus.

A pirataria e a guerra de corso difundem-se


O aumento do tráfego, do volume e do valor das mercadorias transportadas
causa automaticamente o aumento da pirataria. Como no passado, não há
grande distinção entre piratas e mercadores: muitas vezes são as mesmas
pessoas que assumem papéis diferentes e opostos consoante o momento e a
oportunidade. Ainda no século XV, o pirata não é um especialista no ofício, é
antes um indivíduo que decide, e muitas vezes trata-se de uma escolha
meramente temporária, aplicar a lei vigente nos mares, ou seja, a lei do mais
forte: são as situações contingentes, os problemas internos das comunidades,
que geram inquietações sociais que são aliviadas deste modo; é o desejo de
rápidos ganhos, mesmo em representantes de estratos sociais de nível mais
alto, que muitas vezes assume formas de tensões religiosas, que determinam
a entrada na pirataria tanto de cristãos como de muçulmanos, que se
defrontam com armas iguais um pouco por toda a parte.
Uma consequência da nova organização do capital que financia o comércio
sob a forma de bancos comerciais é a transformação dos contratos marítimos
e uma subdivisão diferente dos riscos, uma vez diminuída a imagem
tradicional do capitão do navio, que é ao mesmo tempo mercador, com a
repartição, graças a formas modernas de seguro, dos perigos dos maus
encontros com piratas e corsários. O elemento novo no comércio marítimo é
a maior atenção prestada à organização dos transportes e aos mecanismos
criados para reduzir os riscos sempre presentes da pirataria. Com o objetivo
de reduzir os custos para as comunidades e os Estados, de proteger os bens e
assegurar o bom êxito dos contratos, as várias potências marítimas, com a
força das consideráveis dimensões estatais alcançadas, empenham-se na
construção de sistemas operativos em defesa do seu comércio com diversos
instrumentos: acordos internacionais, recolha de informações e notícias,
associações de um número crescente de investidores, fraccionamento dos
investimentos de cada operador, diversificação das cargas por mercadorias
e, sobretudo, recurso à navegação em comboio e com proteção militar dos
navios. A bordo dos grandes navios viajam homens armados de flechas, de
bestas e de outras armas de defesa, prontos para enfrentar o combate corpo a
corpo dos assaltantes, preparam-se panos embebidos em vinagre para evitar
o fogo grego, dotam-se as embarcações de velas mais complexas para
resolver com a fuga o eventual ataque. O comércio e o transporte dos
homens, exércitos e peregrinos decorrem sempre sob a égide de esquadras
armadas organizadas pelo Estado. Ajustados aos perigos, difundem-se novos
tipos de contratos de seguro marítimo, conservados em grande número nos
arquivos italianos, em que se vê claramente que os incidentes devidos à
pirataria são o dobro dos causados pelos naufrágios. A luta contra os piratas
e os corsários torna-se um assunto de Estado e não só dos particulares, e um
ataque de piratas transforma-se numa verdadeira ação de guerra.

Guerra e pirataria unem-se: os corsários


Formalmente, o corsário distingue-se do pirata por ter recebido do seu
soberano uma «patente de corso», isto é, a concessão de atacar os inimigos
do seu país numa situação de guerra. É um fenómeno paralelo à difusão das
companhias de mercenários na guerra terrestre: os senhores e os soberanos,
não tendo a disponibilidade de exércitos permanentes, usam, para fins
militares, quem se coloca ao seu serviço com fins lucrativos. Os exemplos
mais conhecidos remetem-nos para a história do reino catalão-aragonês ou
para os países do mar do Norte. Os corsários representam ainda no século
XV, com as suas contínuas e incómodas incursões, um forte elemento de
perturbação no sistema das relações internacionais e do comércio, enquanto
a difusão da guerra de corso, cujos efeitos práticos não são muito diferentes
dos assaltos de piratas (pelo contrário, são praticamente indistinguíveis),
serve os vários Estados, votados à política do equilíbrio, a não se
envolverem em lutas abertas, mas a continuarem na ação lesiva do inimigo,
causando-lhe prejuízos e enfraquecendo a sua posição no mar. Durante o
século XV, são diversas as atitudes políticas dos governos em relação aos
corsários que utilizam a sua bandeira. Veneza segue uma rigorosa prática dos
armamentos navais, proíbe a guerra de corso, jogando a arma da legalidade.
Génova e Pisa, que devem defender-se em todos os recantos do Tirreno e
sobretudo na Sardenha e na Córsega, nunca desistem dos assaltos corsários.
Os catalães reconhecem a nível oficial a guerra de corso, fazem dela uma
arma contra todos os inimigos, a ponto de integrarem navios na armada real,
aproveitando depois os despojos obtidos, e estabelecem uma série de regras
para a guerra de corso: os corsários empenham-se em não atacar os súbditos
do rei, os seus aliados e aqueles que se declararam neutrais, respeitam a
obrigação de regressar ao porto de partida depois de cada viagem, aceitam o
controlo dos funcionários reais incumbidos de confirmar a legalidade da
presa.
No entanto, as normas deixam por toda a parte um vastíssimo espaço à
desobediência: a situação nos mares continua a ser extremamente perigosa,
ainda que ao longo do século XV se tornem tangíveis os resultados de
controlo e de garantia de equilíbrio da política internacional, sendo a maior
parte das controvérsias canalizada para o plano diplomático, enquanto
tendem a diminuir as represálias levados a cabo pelos privados: mas não
diminuem os tráficos ilícitos, desde sempre condenados pela Igreja, e
sobretudo o tráfico de escravos, que continua a enriquecer piratas e
corsários e que chega a novos destinos, as terras africanas nas costas do
Atlântico. Os países da cristandade identificam o perigo para a navegação
não em figuras de aventureiros, mas na situação que se está a tornar o perigo
por excelência: o infiel proveniente do Mediterrâneo Oriental, conquistado
palmo a palmo pelos turcos e pelos reinos africanos dos mouros expulsos de
Espanha.

Consequências da pirataria na história europeia


Não convém esquecer que as contínuas incursões dos piratas incidem de
maneira muito profunda e duradoura na história e no território italianos e
europeus. No início da Idade Moderna, as costas italianas estão desertas, as
populações, para fugirem aos ataques dos piratas, retiraram-se para o
interior, e os países têm o aspeto de rochedos fortificados, como acontece
com muitas aldeias nos dias de hoje; as planícies costeiras tornam-se
pantanosas e reino da malária, configurando uma paisagem que se mantém até
à Idade Contemporânea. O século encerra com o terrível episódio dos
martírios de Otranto, sinal de que os perigos que vêm do mar não cessaram.
Pelo contrário, com a Idade Moderna, abre-se um novo capítulo de medo e
terror nos mares.

V. também: O tráfego marítimo e os portos, p. 152;


Mercados, feiras, comércio e vias de comunicação, p. 157.
MARRANOS E MOURISCOS
de Giuliana Boccadamo

A história dos marranos tem origem na conversão forçada dos judeus


espanhóis ao catolicismo no final do século XIV e desenrola-se ao
longo do século XV, entrelaçando-se com o nascimento da Inquisição
espanhola. A história dos mouriscos tem origem em 1492 com a
conversão forçada ao catolicismo dos muçulmanos do califado de
Granada e é concluída no início do século XVII com a sua expulsão
dos domínios espanhóis.

Os marranos
Com o termo marrano, de etimologia incerta, cujo significado adquirido
equivale a «porco», «suíno» e mesmo «sujo», são designados em Espanha, a
partir do século XIV, os judeus convertidos ao cristianismo. Termos
equivalentes são conversos, cristãos novos, falsos cristãos e também
judeoconversos ou judaizantes.
Até ao século XIV, a Espanha não conhece os surtos de antissemitismo
violento que marcam o resto da Europa com pogroms e expulsões. Pode
afirmar-se que durante o século XII, e sobretudo no final do século XIII, as
comunidades judaicas assumem um papel de relevo na sociedade espanhola.
Ocupam-se de finanças e comércio; chegam a ocupar cargos diretivos na
gestão das possessões da coroa; é da sua competência a tarefa de recolha dos
impostos. Não poucos representantes da comunidade dedicam-se à medicina
e quase monopolizam o exercício desta disciplina. Em suma, trata-se de uma
comunidade bem inserida na estrutura vital da sociedade espanhola e de
elevada densidade cultural.
Durante o século XIV, as coisas mudam. As lutas pela denominada
Reconquista rompem o equilíbrio que se instaurara entre cristãos, judeus e
árabes, deslocando o baricentro do poder político em favor dos cristãos. As
crises que atormentam a Europa no mesmo período, com as repetidas
epidemias de peste, as conjunturas económicas e a carestia fazem o resto.
Também em Espanha tem início o mecanismo perverso que conduz ao ódio
ao judeu, bode expiatório de todos os males, potenciado no caso espanhol
pela intolerância pela vitalidade cultural e pelo predomínio económico-
financeiro da comunidade judaica. Assim, as duas comunidades, cristã e
judaica, procuram evitar o contacto recíproco. Cada uma considera impura a
outra. Avança e ganha terreno a ideia do gueto; em Valência, a judiaria é
circundada por altos muros.
O episódio mais grave verifica-se em Sevilha em 1391. O arquidiácono
Hernán Martinez de Écija começa a incitar o povo contra os judeus tomando
como pretexto delitos atribuídos a alguns deles. Depois da morte do
arcebispo de Sevilha, Pedro Gómez Barroso (1320/1330-1390), moderado e
pouco inclinado para o fanatismo, Hernán fica com as mãos livres para pedir
a destruição da sinagoga, que acaba por ser arrasada por uma multidão
enfurecida. Pelo menos quatro mil judeus são massacrados. As revoltas
antijudaicas alastram por toda a Península Ibérica, envolvendo cidades e
vilas. Os judeus não têm muitas alternativas: ou se convertem ao cristianismo
ou correm o risco de morrer. Convertem-se à força, mas muitas vezes são
eles próprios que pedem o batismo. Assim, no início do século XV, a
comunidade judaica está dividida em dois grupos. Uma minoria permaneceu
corajosamente fiel à religião ancestral, em comunidades reagrupadas
predominantemente no reino de Valência e de Aragão; os outros, a maioria,
tornaram-se conversos, convertidos, judeoconversos, passando para a nova
religião. Nem sempre rompem completamente as ligações com a judiaria, e
rapidamente começam a ser considerados judaizantes, falsos convertidos. Na
realidade a tipologia dos conversos é variada. Alguns são mesmo sinceros,
outros creem verdadeiramente que são bons cristãos, mas conservam mais ou
menos conscientemente usos e crenças judaicas. Outros praticam o
sincretismo, pensando que são válidas ambas as religiões, na base da
reflexão filosófica do judaísmo espanhol, mais tendente à síntese entre as
várias religiões do que aos elementos de oposição. Finalmente, existem
manifestos judaizantes e conversos que, privados de profundas convicções
religiosas, observam exteriormente as práticas cristãs como cobertura para
uma realização tranquila dos seus negócios. Por outro lado, uma verdadeira
obra de catequização em relação aos judeus convertidos só começa em 1413,
com a chegada de Vicente Ferrer (1350-1419) a Valência, que, de acordo
com o governo da cidade, procura quebrar as ligações entre os cristãos
novos e a judiaria, procurando assim favorecer também no plano espacial a
integração dos convertidos.
A desconfiança em relação aos convertidos não impede que estes se
insiram rapidamente e com novas roupagens nas classes dirigentes. Libertos
dos vínculos jurídicos que, quando eram judeus, podiam limitar de algum
modo o seu campo de ação, os cristãos novos alastram pelo mundo das
finanças, das ciências, do exército, da administração pública e até mesmo da
Igreja. Os conversos fazem carreiras espetaculares: a administração régia
está nas mãos dos Sanchez, dos Santangel, dos Caballeria, que, no entanto,
pretendem descender de David.
Os judeus que permanecem fiéis à sua religião diminuem, enquanto os
conversos crescem numericamente, mas lentamente. No ódio popular, o judeu
como bode expiatório foi substituído pelo converso, pelo marrano. Em 1449,
em Toledo, o berço de uma revolta popular suscitada por uma rebelião
fiscal, são precisamente os conversos que, entre outras coisas, são os
coletores de impostos. Ganha peso o princípio que só quem tem sangue
limpo pode aceder a cargos públicos. Também a alta nobreza está infetada,
por via das astutas políticas matrimoniais dos conversos. O próprio
Fernando de Aragão, o Católico (1452-1516), numa aceção ampla do termo
converso, podia ser definido como tal por ascendência materna, e a própria
Teresa de Ávila (1515-1582) ou Tomás de Torquemada (1420-1498), o
primeiro grande inquisidor espanhol.
Depois dos episódios de Toledo, as revoltas continuam até 1474,
conjugando o descontentamento pelas conjunturas económicas adversas com
a hostilidade em relação aos conversos, ainda fortes no plano financeiro,
também malvistos pela velha aristocracia e acusados mesmo de homicídios
rituais. Castela, Andaluzia e sobretudo Sevilha são envolvidas. Por toda a
parte são adotados estatutos que, na base do sangue limpo, excluem os
conversos não só do funcionalismo público mas também das confrarias.
1474, é também o ano em que ascende ao trono Isabel de Castela (1451-
1504) com Fernando de Aragão, os futuros reis católicos. A necessidade de
renovar a ordem pública e subtrair as cidades à violência descontrolada da
plebe e a necessidade, mais coativa, de preservar a unidade nacional também
através da assimilação das minorias e da identidade religiosa comum passam
pela criação de um novo instituto, a Inquisição espanhola. Um dos seus
objetivos, ainda que não necessariamente o principal, é precisamente a
procura e a repressão dos judaizantes. Instituída no dia 1 de novembro de
1478 pelo papa Sisto IV (Francesco della Rovere; 1414-1484, papa desde
1471), é confiada a partir de 17 de outubro de 1483 ao dominicano Tomás de
Torquemada.
Um passo seguinte na mesma ótica da unificação ideológica do novo
Estado, mas justificado com a necessidade de subtrair os novos cristãos, os
conversos, às insídias dos judeus que os impelem a «judaizar-se», é
precisamente a expulsão dos judeus, sancionada por um édito régio de 31 de
março de 1492. Mais uma vez, os judeus são postos diante de uma escolha:
converterem-se ou serem expulsos. Calcula-se que cerca de 200 a 250 mil
judeus se tenham tornado cristãos e que cerca de 150 mil tenham preferido o
exílio, transferindo-se num prazo máximo de quatro meses, sem levar ouro ou
dinheiro, para a África do Norte, para a Turquia, para Itália e para Portugal,
onde rapidamente se formam novas comunidades de judeus-cristãos, mas
averiguadas a partir de 1536, depois de novas ondas de antissemitismo, pelo
tribunal da Inquisição local, que, em 1547, se conformará ao modelo
espanhol.

Os mouriscos
Com o termo «mouriscos» são designados os muçulmanos que, sempre em
Espanha, após a conquista do reino de Granada (1492) pelos reis católicos,
são obrigados a converter-se ao cristianismo.
1492, data da expulsão dos judeus, é também o ano da queda do califado
de Granada, última terra muçulmana de Espanha. Na época, os muçulmanos
constituíam dez por cento da população de Espanha. Não estavam
concentrados apenas em Granada, que contava com cerca de 300 mil
habitantes: de 20 a 50 mil mudéjares estão em Castela, 100 mil em Valência,
50 mil no reino de Aragão. No fundo, havia uma convivência pacífica se
situarmos os primeiros atos de hostilidade contra os muçulmanos em meados
do século XV, quando começa a circular em Valência o rumor que a
comunidade muçulmana deveria converter-se ou ser aniquilada, o que levou
ao saque da «mouraria» da cidade. Depois da conquista, é oferecida
liberdade de culto aos mouros de Granada mediante pagamento de um
tributo. O acordo em breve deixa de ser respeitado e ao mesmo tempo dá-se
início a uma política de cristianização forçada, provocando uma verdadeira
rebelião que tem o seu acme em 1500-1501 e que é reprimida militarmente.
Em consequência, os muçulmanos, como os judeus no século precedente, são
obrigados a escolher entre conversão e exílio. A maioria opta pela nova fé: é
o ato de nascimento dos mouriscos. O decreto de expulsão ou conversão é
estendido a toda a Castela em 1502 e, em 1525-1526, a todo o reino de
Aragão. Também a Inquisição é ativada a partir de 1529 para Castela e
Granada e mais tarde para Valência e Aragão.
O problema dos mouriscos é diferente do dos conversos. Os mouriscos
não ocupam na sociedade espanhola uma posição de primeiro plano como os
conversos: em geral são agricultores e artesãos. Falam predominantemente o
árabe e vivem a sua ligação ao islão, para lá da conversão de fachada, como
um elemento identitário. Ganham tempo, procuram travar o processo de
homologação, obtêm num primeiro momento a possibilidade de manter vivas
as práticas muçulmanas menores durante 20 anos e de continuar a falar a sua
língua por mais dez anos. Para o mesmo período é autorizado o uso do véu
para as mulheres. Mas, a partir de 1567, as concessões vão sendo
sucessivamente revogadas. Para lá do dissídio religioso, há já um insanável
conflito de civilização: progressivamente, também ilustres representantes das
hierarquias católicas, nomeadamente o arcebispo de Valência Juan de Ribera
(1532-1611), uma vez falhadas as tentativas de evangelização, defendem a
expulsão dos mouriscos, que abandonam Espanha entre 1609 e 1613.

V. também: A reconquista de Granada, p. 45; A Península Ibérica, p. 113;


Os judeus, p. 195; A Inquisição, p. 211.
OS JUDEUS
de Giancarlo Lacerenza

Século do primeiro Renascimento e também de uma verdadeira


renascença para os judeus sob o perfil da vida religiosa, científica e
cultural, o século XV fica na história hebraica sobretudo como o
tempo da grande expulsão dos países ibéricos, da Sardenha e da
Sicília, realizada em 1492, e que conduz a uma diáspora de
dimensões sem precedentes. O judaísmo sefardita procura uma nova
pátria em Portugal, mas encontra novas restrições e o batismo
forçado, enquanto em Itália tem dificuldade de se inserir no tecido
judaico local e, além do mais, a sul, é arrastado pela expulsão dos
judeus meridionais. Só em terras islâmicas e especialmente em
Salonica, são criadas condições para o desenvolvimento do que virá
a ser o principal centro hebraico de todo o Mediterrâneo. Entretanto,
a crise determinada pela dispersão favorece o nascimento de uma
abordagem diferente da história e da difusão de novas esperanças
messiânicas.

A redefinição do espaço judeu


Depois da crise que atinge a área centro-europeia no final do século XIV, o
século seguinte assiste à efetivação da expulsão judia da estrutura social
ocidental. Este afastamento realiza-se substancialmente com duas diferentes
modalidades: num primeiro caso, permitindo aos judeus residir, em
condições precárias e de subalternidade, nos mesmos espaços habitados
pelos cristãos; no segundo caso, por sua vez, chega-se à expulsão definitiva.
Durante todo o século XV, este ambiente geral acaba por se concretizar,
particularmente em Itália, em cujos territórios se assiste à progressiva
imigração de contingentes, por vezes em grande número, de exilados de
França, da Alemanha e finalmente de Espanha. De facto, durante algumas
décadas, instalar-se na península italiana é a última possibilidade para os
judeus da Europa. Também graças ao incremento demográfico determinado
por estes fluxos migratórios, na Itália quatrocentista, a vida e a cultura judia
conhecem quase por toda a parte um extraordinário período de florescimento
civil e cultural, que, por outro lado, nem sempre tem maneira de se
desenvolver dentro de um clima socialmente sereno e marcado pela
convivência pacífica. Se no âmbito cultural se assiste de facto a um
imponente impulso nos estudos, nas letras e nas ciências, a par de ilhas de
tranquilidade, ou mesmo de bem-estar, sobressaem os problemas de sempre:
a intolerância, a obrigação do «sinal», a imposição frequente de práticas sob
coação, as acusações de homicídio ritual. Nesta última vertente, suscita uma
enorme impressão, em 1475, o caso do presumível martírio de Simão de
Trento (?-1475), por cujo assassínio vários judeus da pequena comunidade
local são injustamente condenados à morte.

1492: o exílio sefardita


No verão de 1492, ocorre a expulsão dos judeus de todos os territórios
hispânicos, Sardenha e Sicília incluídas, por efeito de um decreto, datado de
31 de março, dos reis católicos Fernando de Aragão (1452-1516) e Isabel de
Castela (1451-1504) e preparado por impulso do inquisidor-geral do reino,
o dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498). Pouco antes, no princípio
de janeiro, a tomada de Granada tinha subtraído definitivamente aos
muçulmanos a última porção de território de Espanha e sancionado o
cumprimento da Reconquista. Com a expulsão dos judeus, Fernando e Isabel
coroam o projeto de dar corpo a um novo reino, unido e inteiramente cristão
e, para esse efeito, no prazo de poucos meses, são obrigados a embarcar
nada menos do que 160 mil pessoas (mas algumas estimativas apontam para
um número ainda superior). Os exilados espalham-se por todas as regiões
não controladas diretamente pela coroa de Espanha e encontram diferentes
acolhimentos. Muitos seguem inicialmente a via óbvia, dirigindo-se para o
vizinho Portugal, de onde, crê-se, poderá ser fácil regressar a Espanha em
caso de revogação da expulsão, o que muitos esperam. Em terra lusitana não
existem precedentes significativos de perseguições antijudaicas e o rei João
II (1455-1495) concede a residência a todos os judeus em condições de
pagarem uma quantia de dinheiro muito considerável. Esta exigência é
satisfeita apenas por uma minoria dos exilados – que tinham sido proibidos
de exportar a riqueza móvel – e, desiludido, o rei decide consentir a todos os
outros apenas um breve direito de trânsito, com a obrigação de partirem
dentro de um prazo máximo de oito meses. No final do prazo fixado, muito
poucos tinham deixado o país e ainda menos tinham conseguido adquirir
residência. Com um gesto inesperado, em vez de afastar os judeus – segundo
alguns, atrasando deliberadamente a chegada dos navios que os deveriam
transportar para outro local –, o soberano decide a sua sujeição à
escravidão, da qual só serão libertados em 1495 pelo sucessor de João,
Manuel I (1469-1521). De qualquer modo, os foragidos ibéricos veem dentro
de pouco tempo as suas esperanças frustradas, quando, na véspera do
casamento de Manuel com Isabel de Aragão (1470-1498), filha de Fernando
e Isabel, o rei teve de prometer afastar os judeus do seu reino e,
pontualmente, no dia 5 de dezembro de 1496, assina o decreto de expulsão,
cujo prazo é fixado até ao final do ano seguinte. Mas Manuel considera os
judeus um recurso necessário ao país e, a partir de março de 1497, põe em
marcha várias medidas tendentes a reter os judeus, se necessário pela força.
Diante da perspetiva de ter de apresentar para o batismo todas as crianças
entre os quatro e os 14 anos, a grande maioria dos judeus responde com uma
resistência tenaz chegando em alguns casos ao qiddush ha-shem, o suicídio.
Finalmente, o rei manda reunir os judeus, cerca de 20 mil, no porto de
Lisboa, com a promessa de um embarque: mas, depois de os ter isolado e
deixado vários dias sem comida, sob a pressão do calor e das prédicas
incessantes, submete todos a um batismo coletivo. Tem assim origem a
história dos marranos portugueses, que nos dois séculos seguintes se
difundirá em vários outros países.

Uma nova diáspora


Na sequência do decreto de 1492, as perspetivas sobre o futuro dos judeus
na Europa são desanimadoras. Já expulsos de alguns dos mais importantes
territórios é evidente para todos que, nas áreas da cristandade, o espaço para
os judeus foi diminuindo e que só nos países islâmicos existem,
aparentemente, maiores garantias de sobrevivência e possibilidades
concretas de convivência. Assim, não surpreende que depois de 1492 – e
especialmente depois dos acontecimentos portugueses – a diáspora hebraica
opte maioritariamente pela via do Império Otomano, particularmente pelos
territórios entre o Egeu e a capital, Constantinopla, onde os judeus
perspetivam condições de vida nitidamente superiores às vividas, pelo
menos nos séculos mais recentes, nos Estados cristãos. Não obstante,
milhares de exilados escolhem ainda um caminho diferente e dirigem-se para
Itália, onde as metas possíveis não são numerosas. Graças ao seu porto,
Génova é rapidamente alcançada por centenas de refugiados; mas estes,
muito esgotados pela viagem e em estado miserável, são mal acolhidos e
acabam por ser fechados num bairro separado, onde no entanto irão
conseguir relançar a presença judaica na cidade, até esse momento bastante
marginal e, depois, aumentada com as chegadas de Portugal. Refugiados
ibéricos chegam também a outras cidades italianas, a Ferrara, por exemplo, e
sobretudo a Roma; mas aqui, embora consigam afirmar-se lentamente e
constituir importantes comunidades, inicialmente não são bem acolhidos,
nem sequer pelos seus correligionários. A área que, em geral, parece
reservar aos judeus ibéricos e sicilianos o melhor acolhimento é o reino de
Nápoles, onde Fernando I (1431-1494) reconhece aos imigrados a mesma
condição dos judeus do reino, que nesse período gozam de condições
bastante favoráveis. Excetuando uma pequena elite de médicos, estudiosos,
ou famílias de particular prestígio (como os Abravanel), os refugiados são,
também neste caso, quase todos dotados de poucos meios e quando, em
setembro de 1492, a capital é atingida por uma grave peste que se arrasta
durante meses, os judeus são prontamente acusados da calamidade (e depois
também acusados de terem introduzido a sífilis no reino). De qualquer modo,
a peste de 1492-1493 dizima de maneira significativa também a população
judia de Nápoles e, a partir dali, também aqui as condições de vida dos
judeus se tornam cada vez mais difíceis. Desde o saque realizado na véspera
da entrada em Nápoles de Carlos VIII (1470-1498) de França, a comunidade
judaica sai em más condições e, nesta situação, muitos deixam o reino em
busca de terras mais seguras. A 10 de maio de 1496, vencidos pelas pressões
populares, os aragoneses decretam uma primeira ordem de expulsão que,
entre um adiamento e o seguinte – especialmente desde que o território
meridional se torna, em 1503, vice-reino de Espanha –, só terá o primeiro e
mais importante efeito em 1510. Depois de Portugal e de Itália, o terceiro
destino para os refugiados de 1492 é o Magrebe e o Império Otomano. O
judaísmo sefardita impõe-se rapidamente também no Mediterrâneo islâmico
e, no Levante, encontra os seus principais centros em Salonica e em
Constantinopla: cidades que se tornam em breve um modelo e quase uma
miragem para as comunidades que experimentaram as humilhações e as
prepotências da vida europeia, e onde a presença judaica contribui de
maneira determinante para a obtenção de um grau de prosperidade
económica e cultural nunca atingido anteriormente. Por sua vez, são
diferentes os desenvolvimentos no norte de África. Na Argélia, onde em
1391 tinham sido acolhidos numerosos exilados do reino de Aragão e de
Maiorca, os refugiados de 1492 não encontram espaço, por causa das
represálias ainda em curso pela tomada de Granada. Mas cerca de 30 mil
judeus, na maioria castelhanos, encontram refúgio em Marrocos,
especialmente em Fez: onde os judeus, já residentes de longa data, tinham
sido dizimados em 1465 no decurso de uma revolta. Como noutros locais,
também aqui a chegada dos espanhóis não é bem absorvida de imediato pela
comunidade preexistente, vindo a criar uma primeira separação entre os dois
grupos, em que a parte mais antiga se autodefine como «residentes» (em
hebraico, toshavim), enquanto os recém-chegados são os megorashim, os
«exilados». De qualquer modo, também aqui os sefarditas acabam por
prevalecer.

Um messianismo renovado
Os imponentes movimentos de população judia que ocorrem no final do
século XV levam consigo várias implicações religiosas que, especialmente
no pensamento dos estudiosos hispano-sefarditas, se concretizam em novas
orientações tanto em relação à interpretação corrente da Torá, como na
filosofia da história nacional, mas também no futuro do povo de Israel. Estas
repercussões têm maneira de se manifestar principalmente através de um
renascido sentimento messiânico, um novo impulso de estudos sobre a cabala
e um renovado interesse em relação a um mito hebraico recorrente, não por
acaso, em alguns dos períodos mais difíceis para os judeus da Idade Média:
o da reunião ou do retorno das dez tribos perdidas de Israel. Algumas das
reflexões mais representativas sobre estes temas são realizadas em Itália
(primeiro em Nápoles, depois em Monopoli e finalmente em Veneza) por
Isaac Abravanel (1437-1508). Persuadido de que a catástrofe do exílio tinha
afastado os judeus da diáspora dos valores tradicionais, Abravanel vê nos
acontecimentos de 1492 os sinais do surgimento de uma nova era messiânica
e, na base desta convicção, escreve várias obras centradas nos diversos
aspetos da próxima e miraculosa libertação do povo hebraico do jugo das
nações. A profecia de Abravanel sobre a vinda do messias – prevista
inicialmente para 1503, depois para 1531 – é apresentada em termos
dramáticos: na vigília dos últimos tempos, as dez tribos perdidas aliar-se-
iam com um reino islâmico e, depois de terem derrotado os cristãos, reunir-
se-iam em Jerusalém, onde apareceria o messias e onde muçulmanos e
hebreus acordariam fundar um reino novo e estendido por toda a terra. A
difusão de apocalipses do género, juntamente com a migração e o extremar
da especulação cabalista sefardita na própria terra de Israel, ocorrida no
princípio do século XVI, constituem as bases das crenças e expectativas que,
nos dois séculos seguintes, tornarão possível o aparecimento na cena
hebraica de alguns dos mais importantes pseudomessias da sua história.

V. também: A Península Ibérica, p. 113; O Império Otomano, p. 125;


Marranos e mouriscos, p. 191.
OS CIGANOS
de Elena Novi Chavarria

Originários do subcontinente indiano, os ciganos chegam à Europa


por volta do ano 1000, quando a sua presença é atestada em
Constantinopla e noutras regiões dos domínios bizantinos. Daí, no
século XIV, passam para a Síria e para o Egito, para os territórios da
Sérvia e dos Balcãs, para a Grécia e para as ilhas do Jónio e do
Egeu, dominadas pela república de Veneza, para depois se difundirem
a partir do início do século XV no centro da Europa e do
Mediterrâneo. Vivem geralmente em condições precárias, mas ainda
não de exclusão, geralmente ocupados como camponeses ou artesãos,
os homens na qualidade de caldeireiros, ferreiros e trabalhadores do
couro, as mulheres dedicadas a vaticinar o futuro. No final do século
XV, quando a pressão de novos fluxos migratórios e,
consequentemente, a sua mais forte mobilidade no território começa
a despertar a preocupação dos poderes constituídos, chegam as
primeiras medidas de expulsão.

Da Índia à Europa
Originários das regiões do noroeste da Índia, os ciganos chegam à Europa
atravessando a Pérsia e a Arménia no final do primeiro milénio d.C. Cerca
do ano 1000, a sua presença é atestada em Constantinopla e noutras regiões
dos domínios bizantinos, como na Trácia, em Valáquia e no Peloponeso,
onde são identificados sob a designação de Atsingani ou Tsigani. Dali, no
século XIV, passam também para a Síria e para o Egito, de onde deriva o
nome de Egiptii, Egiptij, Aegiptii, d’Egipto ou de Giptio, com que começam
a ser conhecidos em diversas regiões da área mediterrânica (Egyptiens em
França, Giptij ou Egiptii em Itália, Gitanos em Espanha, Gipsy em
Inglaterra) e de onde, juntamente com o nome, derivam também as primeiras
teorias sobre as suas origens. Nos territórios da Sérvia e do norte dos
Balcãs, em meados do século XIV, vestígios documentados da sua presença
descrevem-nos em condições de extrema pobreza, mas sedentários,
geralmente ocupados como camponeses ou artesãos – caldeireiros, ferreiros,
ferradores, espadeiros e trabalhadores do couro. Algumas fontes assinalam-
nos como amestradores de animais e acrobatas e as mulheres como adivinhas
(das quais convinha proteger-se).
Na mesma época, outros documentos atestam-nos em zonas da Grécia e das
ilhas do Jónio e do Egeu sob o domínio da república de Veneza. Em Creta,
em Zante e em Corfu, por exemplo, onde fontes do final do século XIV falam
de um «feudo dos ciganos» (feudum acinganorum), que os venezianos
confiam a famílias de Corfu ou de Veneza, e na cidade de Náuplia no
Peloponeso, de uma terra que os venezianos procuram povoar chamando
para aí populações eslavas e albanesas. Aqui, atribuem o cargo de
«drungário dos ciganos» (drungarius acinganorum), ou seja, de
comandante militar de um drungo, aos próprios rons. Em Modon, nas costas
da Messénia no sudoeste da Moreia, porto estratégico para os viajantes em
trânsito de Veneza para Jafa a caminho da Terra Santa e do comércio de
escravos, nas primeiras décadas do século XIV, diversos grupos de rons
vivem numa colina, extramuros, numa instalação estável feita de cabanas.
Vivem em condições precárias, mas não de exclusão, integrados entre a
multiétnica e cosmopolita população local composta por venezianos, gregos,
eslavos, albaneses, judeus, mercadores e peregrinos.
No entanto, é nos Balcãs otomanos que, a partir de meados do século XIV
se estabelece a mais consistente comunidade de rons da Europa. Surgem bem
integrados no tecido socioeconómico local. Figuram constantemente nos
registos fiscais, pagam um imposto anual pro capite e dizem qual é o seu
trabalho. Desenvolvem múltiplas atividades, geralmente ligadas ao
artesanato: caldeireiros, ferreiros, ferradores, espadeiros, ourives, alfaiates,
talhantes, trabalhadores do couro, pintores, guardas, servos, correios. A
única discriminação efetuada em relação a eles pelo poder local é a
proibição dirigida aos rons muçulmanos de se juntarem com os rons cristãos.
As piores condições são as vividas pelos ciganos que se estabeleceram na
Valáquia e na Moldávia, dois principados cristãos vassalos dos otomanos
durante séculos. Aqui, a partir do final do século XIV, os ciganos vivem em
condições de escravidão, utilizados nas grandes obras de desflorestação e
arroteamento das amplas regiões despovoadas, nos séculos precedentes,
devido às incursões dos tártaros.
A diáspora
A partir de 1417, tem início aquilo que poderemos definir como a
verdadeira diáspora dos ciganos no coração da Europa e do Mediterrâneo.
Empurrados essencialmente pelo avanço dos turcos otomanos para ocidente
e pela queda definitiva de Constantinopla em 1453, muitos grupos de rons
deslocam-se ao longo das principais trajetórias: uma que os leva da Hungria
e da Boémia para a Germânia, França, Espanha, as ilhas britânicas e a
península escandinava; outra que, ao longo das rotas do Mediterrâneo, os
leva às costas centro-meridionais de Itália, às ilhas maiores, e dali para a
Andaluzia. É ao longo da primeira via que, entre 1417 e 1419, grupos de
rons chegam às cidades alemãs de Bremen, Leipzig, Hamburgo e à Suíça; em
1421, a Arras e a Tournai. Provavelmente, é através de França que daí a
pouco, em 1425, chegam às regiões setentrionais da Península Ibérica, ou
seja, a Aragão e à Catalunha. Outros núcleos de ciganos chegam a Inglaterra
entre 1430 e 1440, à Escócia, cerca de 1492, e à Suécia em 1515. As datas
referidas referem-se, como é óbvio, ao seu aparecimento «oficial», que é
relatado por algum motivo pelos documentos da época. Evidentemente, nada
impede pensar que, em muitos casos, eles vivessem no território antes de um
evento ocasional ter levado cronistas e autoridades a mencionarem s sua
presença.
Os cronistas da época anotam que os ciganos em questão declaram ser
originários do baixo ou do pequeno Egito, movimentam-se em grupos
compostos por 30 a 200 pessoas, conduzidos por um chefe que denominam
com o título de duque ou de conde. Fingem ser peregrinos e se necessário
mostram salvo-condutos imperiais ou uma bula papal, que são considerados
falsificados. Grupos de ciganos são identificados desde então também no
território da península italiana, como refere Ludovico Antonio Muratori
(1672-1750) citando uma crónica bolonhesa de 1422, que descreve os
homens altos, de tez escura, com os cabelos compridos e uma densa barba,
as mulheres vestidas com uma blusa decotada e um longo pano amarrado às
costas, dentro do qual levavam um recém-nascido, com vistosos anéis de
prata nas orelhas e faixas brancas enroladas à volta da cabeça em jeito de
turbante. Estacionam nas áreas periféricas, geralmente gravitando em torno
dos principais locais de mercado, onde comercializam cavalos e os
utensílios de cobre e de ferro que eles próprios fabricam, e as mulheres
recolhem as esmolas prevendo o futuro daqueles que se aproximam. Chamam
inevitavelmente a atenção de curiosos e cronistas, por causa das suas feições
consideradas «exóticas» – os traços somáticos que configuram a sua pertença
a uma diferente etnia, a forma particular do vestuário das mulheres e a sua
familiaridade com os filhos – e sobretudo pelo seu aspeto rude e asselvajado
pela fome e pelas dificuldades.
Outros grupos de ciganos provenientes dos Balcãs movimentam-se, no
mesmo período, em busca da sorte ao longo das vias do mar Mediterrâneo.
Atravessando o Adriático e o Jónio, muitas vezes juntamente com dálmatas e
gregos, diversos núcleos de ciganos de origem eslava começam a chegar às
costas centrais e meridionais da península italiana e às ilhas maiores, onde
geralmente encontram formas estáveis de enraizamento no território. Alguns
estabelecem-se no interior, inserindo-se nas atividades agrícolas e pastoris
do condado e, em alguns casos, adquirindo mesmo uma pequena ou
pequeníssima propriedade fundiária; outros, por sua vez, são envolvidos,
como os gregos e os albaneses, em fenómenos de emigração sazonal de mão-
de-obra empregada nos campos ou nas atividades bélicas da feudalidade
local. São numerosos os testemunhos relativos aos ciganos. Na cidade de
Pene, em Abruzos, entre os ciganos caldeireiros que aí estão instalados, no
último quartel do século XV nasce o pintor Antonio Solario denominado o
Cigano (c. 1465-1530), muito ativo em Nápoles e arredores. Na Apúlia, na
Calábria e em Molise misturam-se muitas vezes com as populações locais,
assimilando a sua língua, os usos e costumes, as tradições religiosas da
Igreja Católica. Em Messina, a partir do final do século XV, a comunidade de
ciganos é formalmente equiparada a uma universitas e goza de uma
autonomia judicial que lhes permite viver segundo as suas leis e regras
consuetudinárias. A partir da Sicília, vários grupos de ciganos gregos em
fuga dos turcos chegam à costa sudeste da Península Ibérica, onde nos anos
70-80 do século XV são assinalados nas cidades de Barcelona, Saragoça,
Sevilha e Valladolid.
Mas no final do século chegam também as primeiras disposições que
começam a regulamentar a sua presença no território (1471, Federação
Suíça; 1493, ducado de Milão; 1499, reino de Aragão e de Castela). No
entanto, não se trata ainda, como muitas vezes se afirma, de um progressivo e
inevitável, além de crescente, processo de exclusão e repressão. Nesses
anos, têm maior incidência o efeito desestabilizador provocado pela
presença de grupos e homens armados em fuga às autoridades locais, as
exigências de um maior controlo da população própria dos novos Estados
territoriais, a pressão de outros fluxos migratórios, bem como a emergência
global dos pobres e dos vagabundos como problema simultaneamente de
ordem pública e de saúde.
Inicia-se para os rons uma história que foi muitas vezes marcada por fortes
momentos de intolerância e de marginalização, mas também de integração
com as populações locais, e em que a mobilidade de alguns pôde interagir
com o sedentarismo de outros. Mas foi um processo que representou uma
oportunidade posterior de encontro e de intercâmbio para os povos e os
países europeus onde os ciganos se instalaram. De facto, isto não excluiu
que, com as suas deslocações contínuas mais ou menos forçadas, os ciganos
tenham podido continuar a desenvolver um papel de mediadores culturais,
pondo em contacto homens e mercadorias das costas do Mediterrâneo,
técnicas e competências, crenças religiosas e instrumentos linguísticos,
favorecendo assim, em contrapartida, a circulação das ideias e de muitas
aptidões práticas.

V. também: A queda de Constantinopla, p. 36.


A IMPRENSA E O NASCIMENTO DO LIVRO
de Massimo Pontesilli

Em meados do século XV, a invenção dos caracteres móveis pelo


alemão de Mainz Johannes Gutenberg inicia a era da imprensa. A
possibilidade de reprodução mecânica dos textos baixa os custos do
livro e multiplica a sua disponibilidade. Para lá de dificuldades
contingentes, o sucesso do livro impresso é quase imediato, e as
repercussões culturais e sociais deste novo medium são enormes.

O contexto histórico
Entendido em termos modernos, isto é, como código realizado em várias
cópias idênticas do mesmo texto, o livro nasce graças à imprensa em meados
do século XV – isto se nos limitarmos a considerar a área ocidental: de facto,
no Extremo Oriente (China e Coreia) o processo da imprensa xilográfica de
textos, bem como a invenção dos caracteres móveis em liga metálica, são
notoriamente anteriores, e datáveis, respetivamente, do século VIII e do
século XIII. No entanto, a lenta gestação que vive a invenção da imprensa na
Europa (entre tentativas de vários anos, aproximações e falhanços) parece
excluir pelo menos uma filiação direta da tecnologia tipográfica ocidental da
oriental. Ela é, pois, inteiramente inventada, ou reinventada, no Ocidente, e
daqui irradia para todo o mundo.
Entre as condições históricas que favorecem o nascimento e a
disseminação posterior do livro impresso recordamos aqui:
a) A existência de um material adaptado e relativamente a bom preço como
o papel;
b) O dinamismo tecnológico da época;
c) O papel crescente da escrita, com o aumento da procura de livros pela
Igreja, pela universidade e pelo mundo laico, e com as crescentes exigências
de administrações, bancos, notários, contabilistas, chancelarias,
relativamente a breves e repetitivos textos oficiais (entre as primeiras
produções tipográficas encontramos precisamente os bilhetes de indulgência,
cuja fórmula breve de remissão dos pecados tinha de ser produzida em
milhares de exemplares);
d) O desenvolvimento da livre iniciativa económica, na qual se insere
também o impressor: o livro – entendido como uma mercadoria a par das
outras e não um produto «institucional» (como fora, por exemplo, na China e
na Coreia) – aproveita as potencialidades de crescimento do mercado livre.

A xilografia e o nascimento da técnica com caracteres móveis


Conhecida há tempo para reproduzir imagens e decorações em tecido, a
técnica da incisão de matrizes de madeira é utilizada na segunda metade do
século XIV para a fabricação de pequenas imagens devotas em papel, para
uso privado dos fiéis (mais tarde também para a produção «mundana», por
exemplo, de cartas de jogo). O sucesso comercial estimula a sua produção,
concentrada sobretudo na região renana e nos Estados borgonheses, e, com o
tempo, às imagens juntam-se didascálias e breves textos, primeiro,
manuscritos (chiroxilografia), depois, também impressos. Daqui
desenvolve-se no século XV uma intensa produção livreira, a xilográfica do
chamado livro de tabelas ou livro-bloco (block-book ou, em alemão,
Blockbuch), assim chamado porque era obtido por impressão não com
caracteres móveis reutilizáveis, mas com blocos únicos talhados que se
perdem no final do trabalho. Assim são produzidos, geralmente em língua
vulgar, sobretudo livros ilustrados, como a Biblia Pauperum, o Apocalipse,
a Vida e Paixão de Cristo, a Ars Moriendi, etc.; mas também livros só de
texto, como o manual de latim por excelência da época, a gramática de Élio
Donato (século IV). A produção livreira xilográfica, provavelmente iniciada
antes da tipográfica, convive durante alguns anos com esta, para depois ser
rapidamente abandonada. Do ponto de vista técnico, a invenção da imprensa
com caracteres móveis não deve nada à xilografia. A «dívida» reside,
quando muito, num plano diferente, ou seja, em ter, graças ao livro de
tabelas, um exemplo concreto e um modelo genérico da multiplicatio
librorum que, em meados do século XV se procura realizar afanosamente.
Os alvores da imprensa ainda estão em grande medida envolvidos por um
halo de mistério, sobre o qual floresceram ao longo dos séculos as mais
diversas hipóteses e lendas. De qualquer modo, já não está em causa a
paternidade da invenção, atribuída a Johannes Gensfleisch zum Gutenberg (c.
1400-1468), mas cuja biografia é extremamente problemática dada a
exiguidade da documentação. Membro do patriciado da cidade de Mainz,
talvez (mas é lícito duvidar) ourives como o pai, Gutenberg passa em
Estrasburgo pelo menos dez anos da sua vida (1434-1444), durante os quais
se empenha, em sociedade com outros, em várias produções industriais. Uma
delas é muito provavelmente a imprensa de caracteres móveis, ou seja, numa
cadeia produtiva que consiste sobretudo em decompor o texto, isto é, pensar
em reduzi-lo às letras que o compõem, depois, em fabricar em grande
número tipos metálicos das letras (operação complexa, que, para cada letra,
exige, antes de tudo, a fabricação de punções com que é gravada uma matriz
de metal macio e, depois, a fundição, repetida tantas vezes quantos os tipos a
produzir, de uma liga de chumbo na matriz). Posteriormente, o texto é
recomposto numa forma, juntando os caracteres assim compostos para formar
a página, sem que se separem ou desloquem. Depois pinta-se a forma com
tinta oleosa, que não seja absorvida pelo papel como a tinta de base aquosa,
e pressiona-se a forma tipográfica sobre a folha de papel não com o rolo
usado na xilografia (porque estraga as páginas e torna-as utilizáveis apenas
de um lado), mas com a nova prensa de impressão.
Os inúmeros problemas técnicos deste empreendimento ocupam Gutenberg
durante vários anos e só são resolvidos por ele no início da década de 50 do
século XV, provavelmente, quando já regressou a Mainz. De qualquer modo,
em 1454 surgem as primeiras impressões com uma data precisa: as
indulgências papais a favor dos contribuintes para a defesa de Chipre,
ameaçada pelos turcos. Provavelmente, a impressão das indulgências é
precedida pelo Sibyllenbuch, mas, recentemente, há quem aponte para a
década anterior, referindo o chamado Calendário Astronómico de 1448. O
Calendário Turco, de dezembro de 1454, talvez seja o primeiro livro
impresso completo existente. Destes textos rudimentares, todos atribuíveis
com boa probabilidade a Gutenberg, distingue-se nitidamente pela qualidade
a primeira obra-prima da tipografia, a Bíblia de Gutenberg (ou das 42
linhas), nascida na realidade da colaboração entre Gutenberg, Johannes Fust
(c. 1400-1466) e Peter Schöffer (c. 1425-c. 1502), e já impressa, pelo menos
em parte, em outubro de 1454. Mas a primeira obra fornecida com colofão a
indicar o editor, local e data de impressão (14 de outubro de 1457) é o
famoso Saltério de Mainz, sumptuosa obra-prima realizada magistralmente
em tricromia por Fust e Schöffer, enquanto Gutenberg publica obras de
menor qualidade, entre as quais as gramáticas de Donato, calendários, a bula
contra os turcos e a Bíblia das 36 linhas, impressa em Bamberga, em 1460. A
Gutenberg é ainda geralmente atribuído o Catholicon, de Giovanni Balbi (?
-1298), obra tipográfica, como explicita pela primeira vez o colofão: isto é,
nascida (em 1460) «não com a ajuda do cálamo, do estilo e da pena, mas da
maravilhosa harmonia de punções e matrizes» (Non calami stili aut penne
suffragio, sed mira patronarum formarumque concordia...).

A geografia da inovação
O saque de Mainz de 1462 põe a cidade de joelhos, provocando
nomeadamente a diáspora de muitos dos prototipógrafos, que retomam a
atividade nos vários locais onde encontram refúgio. Este episódio acelera a
difusão da imprensa na Europa, que será rapidíssima. A geografia da
imprensa, que é uma indústria e tem de produzir lucro, responde a várias
exigências de carácter económico: a primeira de todas, dados os altos custos
de transporte, a proximidade de um consistente conjunto de utilizadores e,
possivelmente, de uma fábrica de papel. Considerando a internacionalidade
de uma produção livreira que, em mais de três quartos, é feita em latim, a
vizinhança de um porto talvez seja ideal, devido ao menor custo do
transporte marítimo (exemplos neste sentido são Ruão, Sevilha, Antuérpia,
etc.). De qualquer modo, entre 1460 e 1470 abrem tipografias numa dezena
de localidades. Além da Germânia, encontram-se tipógrafos alemães
sobretudo em Itália: em Veneza, em Foligno, mas ainda antes em Subiaco,
onde Konrad Sweynheym (?-1477) e Arnold Pannartz (?-c. 1476), em 1465,
imprimem De Oratore, de Cícero, e, em 1467 – antes de se transferirem para
Roma – um belíssimo De Civitate Dei, de Santo Agostinho. Em 1470,
também em Paris, está ativa uma tipografia. Em 1480, estão presentes
tipografias em mais de 110 cidades europeias e, no final do século, em cerca
de 240. A maior parte está em Itália, onde se destaca abertamente Veneza
pelo número de tipógrafos e pela qualidade dos produtos: Hypnerotomachia
Poliphili, ali impresso em 1499 por Aldo Manúcio (1450-1515), era
considerado o mais belo livro do tempo.

A revolução do livro
O impacto sociocultural da difusão da tecnologia tipográfica é
naturalmente objeto de amplos estudos e debates. Neste sentido, é marco
miliário o ensaio de Elizabeth L. Einsenstein (1923-), The Printing Press as
an Agent of Change (1979), que refuta a tese de continuidade e defende com
força, investigando-a em detalhe, a fratura revolucionária produzida pelo
livro impresso. É certo que é no século XVI que a inovação desfralda
plenamente os seus efeitos, enquanto, no período dos incunábulos, as
mudanças são mais esfumadas e contratadas: o mundo universitário, quase
autossuficiente graças ao sistema do manuscrito «em fascículos», não se
apercebe imediatamente da inovação; refinados humanistas desprezam
inicialmente o livro de papel impresso sem iluminuras; além disso, as
novidades culturais encontram-se nos manuscritos, dado que no catálogo do
tipógrafo está presente a Idade Média (segundo a observação de Jules
Michelet, 1798-1874). Mas já no final do século XVI os documentos
evidenciam a perceção exaltante de uma enorme quantidade de livros
disponíveis para todos a um preço avaliado em cerca de um quinto do
manuscrito correspondente.
Além disso, com o tempo, os efeitos ampliam-se e multiplicam-se: a
disponibilidade de uma variedade de títulos antes impensável, ainda que
prevaleçam os textos antigos da tradição medieval, encoraja comparações e
combinações estimulando o «distanciamento» crítico e a criatividade
intelectual; a «padronização» favorece o intercâmbio cultural à distância, na
certeza da referência bibliográfica uniforme; a quantidade de impressões
revela-se o único verdadeiro antídoto para a perda irreparável dos textos;
com a errata corrige e a reedição, a correção textual torna-se pela primeira
vez um objetivo atingível, e a determinação exata do texto manuscrito torna-
se o pressuposto do caminho para o novo.

V. também: Minas e manufaturas, p. 144; A instrução e os centros de cultura, p. 223;


Ciências e técnicas na China, p. 418.
A CAÇA ÀS BRUXAS
de Marina Montesano

O interesse pelos fenómenos mágicos, juntamente com a procura dos


meios para os conseguir, conhece um rápido incremento a partir do
século XIII: no entanto, só a partir do final do século XV é que a
«caça» às bruxas se torna uma realidade em diversas regiões da
Europa, embora de um modo não uniforme, dado que é possível notar
algumas características diferentes consoante os países em que o
fenómeno se difunde. Na Europa Ocidental a caça às bruxas declina
gradualmente a partir de meados do século XVII graças à
desvalorização das teses demonológicas que a sustentavam e ao
escândalo suscitado junto da opinião pública por alguns processos
célebres; por sua vez, noutros territórios, atingidos tarde pelas
teorias demonológicas correntes, a caça às bruxas conhece um novo
desenvolvimento precisamente no século XVIII.

Entre práticas mágicas e heresia


Em 1233, Gregório IX (c. 1170-1241, papa desde 1227) promulga a bula
Vox in Rama, na qual toma em consideração a situação criada em Oldenburg,
onde se desenvolvera um movimento de contestação contra o arcebispo de
Bremen. O texto pontifício, que evoca alguns elementos polémicos utilizados
contra os heréticos cátaros, acusa os rebeldes de adorarem animais
monstruosos – metamorfoses de demónios – de cometerem sacrilégios, de
praticarem rituais orgiásticos. Em 1326, a Super Illius Specula, de João
XXII (c. 1245-1334, papa desde 1316), equipara definitivamente as práticas
ou as crenças mágicas à heresia, permitindo aplicar-lhes os procedimentos
inquisitoriais normais. Juristas célebres apaixonam-se pela controvérsia
sobre a natureza dos poderes mágicos. O debate tem início na crise que a
Europa atravessa em meados do século XIV e que culmina na peste negra. No
final do século XIV e no século XV, surgem as obras de numerosos
inquisidores, geralmente dominicanos, que mostram o interesse crescente e a
viva preocupação por aquilo que se vai definindo como uma verdadeira
«questão de magia e feitiçaria». Uma espécie de psicose coletiva parece
apoderar-se da Europa Ocidental, numa espécie de curto-circuito que se
estabelece entre «resíduos» de uma heresia não totalmente debelada,
elementos de uma cultura folclórica evidentemente antiga, e interesses
mágicos (com a adivinhação necromântica e a astrologia à cabeça) que se
enquadram na renovação cultural da Baixa Idade Média.

A definição da feitiçaria
Em 1484, Inocêncio VIII (1432-1492, papa desde 1484) promulga a bula
Summis Desiderantes Affectibus; aparentemente, uma continuação na linha
dos documentos com que nos dois séculos precedentes o pontificado tinha
expresso a sua preocupação em relação aos fenómenos heréticos e mágicos,
na realidade, uma viragem plena de consequências: o texto não faz uma
referência explícita à feitiçaria, mas a acusação do pontífice serve-se de
tonalidades de tal modo radicais, que se distanciam das denúncias comuns de
práticas mágicas. A bula de Inocêncio ratifica a ação dos inquisidores
dominicanos Jakob Sprenger (c. 1436-1494) e Heinrich Krämer (dito
Institor, c. 1430-1505) na atual Áustria; pouco depois, em 1486, os mesmos
dominicanos dão à luz um texto intitulado Malleus Maleficarum (ou seja, O
Martelo das Maléficas, geralmente traduzido como «feiticeiras»; no entanto,
hoje pensa-se que Sprenger pouco deve ter participado). Na esteira de
Malleus surgem numerosos outros tratados tendentes a definir as
características comuns do fenómeno. Um outro inquisidor dominicano,
Bernardo Rategno (?-c. 1510), de Como, no Tractatus de Strigibus denuncia
os crimes cometidos pelas feiticeiras em acordo com o demónio, que deram
vida a uma verdadeira seita destinada a atingir a cristandade como nunca se
verificara. A insistência sobre a «modernidade» da seita das feiticeiras é
importante porque traça uma cesura nítida com o ceticismo expresso por
muitos sobre os reais poderes das feiticeiras no passado. Outros teólogos,
como o dominicano Bartolomeo Spina (1475/1479-1546), denunciam a
validade da tradição jurídica precedente afirmando a veracidade do voo das
feiticeiras. No entanto, estas posições não se tornam imediatamente
maioritárias: mantém-se durante muito tempo uma oposição testemunhada
pelo De Lamiis et Phitonicis Mulieribus, de Ulrich Molitor (c. 1442-c.
1508) e pelo De Praestigiis Daemonum e pelo De Lamiis, de Johann Weyer
(c. 1515-1588), céticos sobre a efetividade dos poderes mágicos das
feiticeiras.
Consoante os países em que a «caça» se difunde, é possível notar algumas
características diferentes. Em Itália, por exemplo, uma recuperação mais
intensa da cultura clássica leva a reevocar lamiae e striges. Os elementos
desta tradição que são recuperados são a capacidade de metamorfose,
determinada em geral por um unguento mágico, o rapto de cadáveres por
meio de magias abjetas, o voo noturno, o homicídio (habitualmente
infanticídio) ligado ao vampirismo (isto é, à sucção de sangue). Entre
aqueles que propõem com força este paralelo encontramos, na primeira
metade do século XV, Bernardino de Siena (1380-1444), pregador da
Observância franciscana. No século seguinte, respetivamente, em Itália e em
França, intelectuais como Pico della Mirandola (1470-1533), neto do quase
homónimo filósofo, e Jean Bodin (1530-1596) regressam ao elo de filiação
que deve forçosamente ligar, dadas as semelhanças, as feiticeiras modernas
às da tradição clássica; a redescoberta e a valorização dos escritos dos
antigos servem então para justificar as crenças contemporâneas. Em Itália, o
número de processos e de condenações capitais por feitiçaria continua a ser
baixo quando comparado com outras regiões da Europa. Ao contrário do que
afirma um lugar-comum muito duro, a Inquisição representou muitas vezes
um travão à difusão da psicose contra a feitiçaria, que tem uma maior
possibilidade de ser desenvolvida nos tribunais laicos ou nos lugares onde a
ausência de uma autoridade política ou religiosa forte deixam indefesos os
mais fracos.

França, a vauderie de Arras


Em França, a complexa trama que foi criado nas últimas décadas do século
XV entre heresia, magia e primeiros sinais de «caça às bruxas» manifesta-se
com clareza no dramático episódio da chamada vauderie de Arras, na região
de Artois. Um eremita condenado à morte por delitos de magia demoníaca
confessa ter tido alguns cúmplices. Presos e submetidos a tortura, também
estes acabam por confessar, denunciando também outros. A «caça» torna-se
dramática e envolve um número cada vez maior de acusados. Chamados
«valdenses» (vaudois) como os heréticos do passado, são acusados de
formarem uma seita criminosa ao serviço do demónio, que encontram no
decurso de reuniões noturnas a que chegam a voar, a cavalo de pequenos
bastões, depois de se terem coberto de unguento mágico. Durante o sabat
renegam a fé cristã e assumem o empenho de cometer todo o tipo de atos
hediondos: difundir epidemias, tornar inférteis os campos, estéreis as
pessoas. O inquérito – que até então só tinha incidido sobre pessoas da
camada média-baixa – tem uma viragem em 1460, quando são acusadas
algumas altas personalidades locais. Também elas sofrem pesadas
condenações, mas não a capital; o caso tem uma tal ressonância, que leva à
intervenção do rei Filipe II, o Bom (1396-1467), que consegue travar a
psicose coletiva. Os condenados serão reabilitados pelo tribunal de Paris em
1491. Algo de semelhante, pelo menos em parte, constata-se também em
muitas regiões do arco alpino; por exemplo, na região de Vaud (Suíça) foram
examinados numerosos processos do século XV e do início do século XVI, em
que se evidencia a ligação existente entre as acusações de heresia – como as
que se verificaram nos séculos precedentes nestas mesmas terras pelos
valdenses – e as acusações de feitiçaria; além disso, nesta zona, as primeiras
«caçadas» perseguem geralmente homens e não tanto mulheres, como
acontecerá em seguida, a ponto de nos levar a tratar a feitiçaria como um
fenómeno exclusivamente «no feminino».

Áreas francófonas e germanófonas


Nas regiões francófonas e germanófonas, elementos da tradição céltica e
germânica desempenham um papel não muito diferente daquele que as
feiticeiras de memória clássica exercem em Itália. Existem referências a
essas figuras, das quais se começa a encontrar notícias na literatura a partir
do século XII, de «senhoras noturnas» ou «da abundância», que se deslocam
magicamente e entram nas habitações através de portas e janelas fechadas,
ligadas tanto às tradições infernais como aos mitos da fertilidade e do
renascer. Uma diferença entre tais contextos e o italiano pode ser captado
também a nível semântico: em francês fala-se de sorcier/sorcière, que deriva
do latim sortilegus/sortilega, que originariamente indica os «adivinhadores»
(aqueles que tiram as sortes); em inglês, wizard/witch deriva do saxão
Wicca/wicce (sapiente), enquanto sorcer/sorceress é um empréstimo do
francês, em alemão Hexer/Hexe, a par de wizard/witch, tem no étimo um
significado sapiencial. O sabat, isto é, a reunião entre feiticeiras (e
feiticeiros) de diabos, mesmo assumindo características análogas quase por
toda a parte, decorre em lugares caros às tradições folclóricas regionais: por
exemplo, o lugar dedicado ao sabat na Germânia é geralmente identificado
com o Brocken, o cume mais alto do Harz, e a reunião realiza-se na
Walpurgisnacht («noite de Valburga» – 30 de abril).

Espanha e Inglaterra
A Espanha regista um uso judiciário da tortura bastante moderado e um
número de vítimas baixo quando comparado com o centro e o norte da
Europa: de facto, os tribunais não gostam de cominar a pena capital,
preferindo geralmente condenações mais brandas. Além disso, as acusações
permanecem mais semelhantes às tradicionais acusações de magia, do que de
feitiçaria dita «moderna», isto é, acompanhada por pactos e homenagens
demoníacos, voo mágico, mortes de crianças, etc. As regiões em que se
assinalam mais episódios persecutórios são as bascas, que, como as zonas
alpinas na Itália, parecem constituir em muitos aspetos um capítulo à parte
em relação ao resto do país.
Na Europa Ocidental, a caça às bruxas declina gradualmente a partir de
meados do século XVII graças à desvalorização das teses demonológicas que
a sustentavam e ao escândalo suscitado junto da opinião pública por alguns
célebres episódios como o de Loudun, que tinha levado o cónego Urbain
Grandier (1590-1642) à condenação à morte, acusado de feitiçaria pela
madre superiora de um convento de ursulinas, provavelmente inspirada pelos
frades capuchinos e pelo bispo, que odiavam Grandier pelos seus
comportamentos libertinos; é opinião predominante que o processo foi
influenciado fortemente pelo cardeal Richelieu (1585-1642), que Grandier
tinha criticado publicamente; também é provável que as tensões entre
católicos e huguenotes tenham contribuído para exacerbar a situação.
Outras regiões da Europa conheceram um desenvolvimento do fenómeno
mais tardio. A Inglaterra viverá o seu pior período nos anos 40-50 do século
XVII, isto é, durante a cruenta revolução de Oliver Cromwell (1599-1658):
será protagonista o Witchfinder general Matthew Hopkins (?-1647),
responsável por uma «caça», em que serão introduzidos elementos
demonológicos semelhantes aos continentais, noutras ocasiões praticamente
ausentes do panorama inglês. Na Suécia, a perseguição mais dura registar-
se-á a partir de 1668 e até cerca de 1675.

V. também: A Inquisição, p. 211; As inquietações religiosas, p. 214; O poder das mulheres, p.


237.
A INQUISIÇÃO
de Giulio Sodano

Uma vez que os cátaros já desapareceram, a Inquisição amplia o seu


interesse em relação a dissidentes e grupos marginais. Os valdenses e
os espirituais franciscanos sofrem uma dura repressão, enquanto os
judeus sofrem numerosos processos com a acusação de praticarem
infanticídios rituais. Também no século XV se assiste ao uso de
processos inquiritoriais para fins políticos. Mas a grande novidade
no final do século XIV e no início do século XV está na descoberta dos
inquisidores e dos juízes seculares do sabat e no início da caça às
bruxas.

A Inquisição e a repressão dos grupos marginais e dos dissidentes


Os inquisidores papais, nascidos no século XIII para travar o alastramento
dos cátaros e apoiar a escassa ação dos bispos na repressão das doutrinas
heterodoxas, ampliam progressivamente o seu poder, exautorando as
autoridades episcopais e civis do combate à heresia. No século XV, os
cátaros já estão derrotados e o conceito de heresia dilata-se, compreendendo
a magia, a feitiçaria, o ateísmo e qualquer forma de oposição às hierarquias
eclesiásticas. Formula-se a nova categoria jurídica do «suspeito de heresia»,
que compreende a blasfémia, a bigamia, as práticas mágicas e de feitiçaria.
No final do século XIV e no século XV perseguem-se os grupelhos de
dissidentes valdenses, os judeus, os franciscanos espirituais e os grupos
marginais.
Na sequência das perseguições do século XIV, numerosos judeus
abandonam diversos países da Europa Ocidental. Alguns refugiam-se no
centro e norte de Itália, onde, no entanto, durante o século XV, se verificam
episódios de perseguição. A acusação infundada que é dirigida por diversas
vezes às comunidades judaicas é a de praticarem os homicídios rituais de
crianças, por ocasião da Páscoa. O caso mais conhecido é o de Simão (?
-1475), encontrado morto em Trento, em 1475. Pelo assassínio são acusados
e presos pelas autoridades civis numerosos representantes da comunidade
judaica local, e os principais acusados são condenados à fogueira. Dado que
surgem numerosas dúvidas sobre o procedimento adotado, o papa envia
como seu delegado Battista de’ Giuduci (?-c. 1483), que releva a
insubsistência das provas. Não obstante, uma comissão de cardeais
nomeados pelo papa considera correto o desenvolvimento do inquérito.
Muitos outros episódios do género verificam-se tanto em Itália como no resto
da Europa. Em alguns casos nascem cultos para as crianças mortas pelos
judeus, como acontece com Simão de Trento. A crença do homicídio ritual
encontra, aliás, terreno fértil graças à propaganda na pregação dos frades
menores.
Outro grupo de dissidentes em relação ao qual a Inquisição é
particularmente ativa durante o século é o dos valdenses, que estabeleceram
alguns contactos com os hussitas da Boémia. O medo que estes suscitam na
Europa gera por reação uma nova vaga repressiva sobre os valdenses,
sobretudo nas zonas entre a Saboia e o Piemonte. Na vertente francesa, a
Inquisição atua tão duramente, que provoca uma insurreição aberta,
dominada em 1488 apenas graças a uma verdadeira cruzada que extermina a
população valdense. Na sequência destes acontecimentos, os valdenses
franceses deslocam-se para a zona do Piemonte, menos exposta às incursões
dos inquisidores.
Depois da conclusão do Grande Cisma do Ocidente, entre 1420 e 1467, é
retomada também a luta contra os fraticelli espirituais. São os próprios
franciscanos do movimento da Observância que impelem à retomada da
perseguição, na sua tentativa de um retorno aos ideais originais de São
Francisco (1181/1182-1226), mas querem marginalizar e destruir as franjas
mais extremas e rigorosas do movimento franciscano. Assim, o movimento
dos frades vai-se extinguindo durante o século. É um problema aberto e
debatido do ponto de vista historiográfico se os frades desapareceram
porque foram destruídos pela ação inquisitorial ou porque o próprio
movimento da Observância fez regressar ao seu interior e disciplinou as
franjas radicais do movimento franciscano.

Os grandes processos políticos


Também no século XV se assiste ao uso dos processos inquisitoriais para
fins políticos. Um dos mais célebres processos é o francês, o de Joana d’Arc
(c. 1412-1431). A jovem chefe militar francesa é aprisionada pelo duque de
Borgonha por conta dos ingleses e acusada de heresia, com a tentativa de a
desacreditar aos olhos dos seus numerosos seguidores. Em janeiro de 1431,
Joana é processada por Pedro Cauchon (1371-1442), bispo de Beauvais, e
Jean le Maistre (século XV), delegado do inquisidor-geral de França. A
condenação, que concluiu o atormentado processo, é a prisão perpétua por
idolatria, heresia e invocação de demónios. A pena provoca o
desapontamento dos ingleses, que mandam entregar a jovem para ser levada
à fogueira a 30 de maio de 1431 na praça do Vieux-Marché de Ruão.
Outro processo inquisitorial de fundo político é o florentino, contra o frade
dominicano Girolamo Savonarola (1453-1498). Tornando-se guia espiritual
e figura carismática da república florentina depois da expulsão de Pedro de
Médicis (1472-1503), o frade prega num tom escatológico e profético
pedindo de viva voz uma forte renovação religiosa e criticando abertamente
a corrupção de Alexandre VI (1431/1432-1503, papa desde 1492), que, em
1497, o excomunga e ordena a sua detenção.
Mas a disposição pontifícia não é executada, dado que as autoridades
citadinas preferem ordenar a Savonarola que se submeta a um ordálio do
fogo, a que o frade se subtrai. Desencadeiam então a detenção e o processo.
Savonarola e alguns dos seus companheiros são assim condenados à forca e
à fogueira na Piazza della Signoria.

O início da caça às bruxas


A grande novidade da história da Inquisição no final do século XIV e no
início do século XV deverá ser vista na descoberta do sabat pelos
inquisidores e pelos juízes seculares. Começa assim uma das páginas mais
negras da história da Europa.
A assimilação da magia à feitiçaria realiza-se sobretudo após a bula Super
Illius Specula de 1326, de João XXII (c. 1245-1334, papa desde 1316), que
legitima a intervenção da Inquisição contra os suspeitos de feitiçaria. No
início do século XV, começam os processos e as condenações à morte de
homens e mulheres considerados filiados de Satanás, mas caracterizados, em
relação ao passado, pelo facto de se considerar que estas pessoas fazem
parte de uma vasta seita conspiradora contra a humanidade. O número de
condenados cresce em meados do século para depois se prolongar durante os
séculos XVI e XVII. A partir de então, aos inimigos internos, o judeu e o
herético, juntam-se as feiticeiras e os feiticeiros.
A crença na feitiçaria e no sabat, entre os fenómenos mais inquietantes que
caracterizaram gerações de europeus, provocou muitas interrogações nos
historiadores. Defende-se que a seita dos feiticeiros e das feiticeiras é uma
construção cultural, um mito complexo, que tem origem nas duas vertentes
alpinas e que se difundiu progressivamente na Europa. A caça às bruxas não
é movida exclusivamente por fatores religiosos, mas também por fatores
sociopolíticos e responde às exigências de vingança pessoal e
restabelecimento da ordem pública. Que as feiticeiras e os feiticeiros
conspirem contra o bem-estar da humanidade é também uma explicação das
origens do mal e da desventura. Assim, a caça às bruxas é vista como
necessária para neutralizar a conspiração de feiticeiras com o demónio
contra os bens dos cristãos. Na elaboração das suas características
concorrem elementos tanto da cultura douta como da cultura folclórica.
Elementos doutos típicos do sabat são a apostasia da fé, os homicídios
rituais e o canibalismo, introduzidos pelos inquisidores. Depois, a estes
juntam-se outras particularidades, como o voo noturno e as metamorfoses em
animais. Foi referido que estes últimos elementos são os mais ligados à parte
folclórica, extrapolados pelos inquisidores dos seus contextos originais e
introduzidos numa estrutura global, a do sabat. A imagem inquisitorial e a
imagem folclórica do sabat baseiam-se num único estereótipo nas vertentes
dos Alpes Ocidentais no final do século XIV e no início do século XV. Os
instrumentos que permitem esta fusão são precisamente os processos da
Inquisição. Os acusados nos processos absorvem a cultura douta do sabat
através dos formulários apresentados pelos inquisidores, oferecendo por sua
vez aos juízes os elementos folclóricos das suas crenças e dos elementos que
assim são criados pelos inquisidores e enquadrados no mecanismo sabático.
Um contributo fundamental para a construção do mito do sabat e para a sua
difusão vem assim dos próprios manuais dos inquisidores. O mais conhecido
é o Malleus Maleficarum escrito pelos inquisidores dominicanos Heinrich
Krämer (Henricus Institor, c. 1430-1505) e Jakob Sprenger (c. 1436-1494)
em 1486, em Espira, que tem 28 edições até 1669. Ele representa o ponto de
chegada de uma tradição de manuais que o precedem. O primeiro é
Formicarius, do dominicano alemão Johannes Nider (1380-1438), composto
em Basileia entre 1436 e 1438. Aqui é apresentada aos leitores pela
primeira vez a existência de uma seita de feiticeiras e feiticeiros diferentes
dos tradicionais magos e magas que atuam isoladamente: feiticeiras e
feiticeiros surgem então unidos e associados numa seita organizada. O
francês Petrus Mamoris (século XV), no seu Flagellum Malleficorum, além
de ser o primeiro a utilizar o termo sabat, garantia a sua existência pela sua
experiência direta, adquirida graças às confissões nos processos.
Refira-se a propósito que os historiadores, depois de debaterem a questão
durante muito tempo, repeliram a hipótese que o sabat tenha sido um
fenómeno real. As confissões, que atestam a participação de homens e
mulheres em reuniões que têm no centro práticas de veneração do demónio,
são extraídas através da tortura. Igualmente refutada é a hipótese da
existência e da difusão maciça de uma seita organizada com cultos e práticas
alternativas à Igreja Católica. Em suma, o sucesso da crença na feitiçaria é
devido ao facto de fornecer uma explicação para as desventuras e um meio
de controlo social que permite a unidade do grupo. A comunidade encontra
uma maneira de isolar a origem dos males, culpando a feiticeira.

V. também: A caça às bruxas, p. 207; As inquietações religiosas, p. 214.


AS INQUIETAÇÕES RELIGIOSAS
de Antonio Di Fiore

As inquietações religiosas quatrocentistas manifestam-se de diversas


formas. Esta diversidade radica num período que assiste a uma grave
crise das instituições eclesiásticas (cisma do Ocidente e presença de
papas e antipapas que se deslegitimam reciprocamente) e políticas
(guerras de Itália e fim da independência dos vários Estados
italianos). Na crise das instituições eclesiásticas amadurecem, por
um lado, novos movimentos de laicos devotos que visam estabelecer
uma mais íntima e pessoal relação com Deus, como a devotio
moderna; por outro, movimentos que nascem das ordens religiosas:
alguns sob formas que permanecem no âmbito da ortodoxia, outros
que serão julgados heréticos e que tentam realizar a reforma da
Igreja. O concílio de Constança acenderá as fogueiras para os
heréticos; o papado não deixará de queimar Savonarola e os seus
sequazes. Por sua vez, os inquisidores, confirmando a justeza do
binómio inquietação-intolerância, começarão a acender mais
frequentemente as suas.

Inquietação, devotio moderna, ansiedade da morte


O período em que a Igreja passa do cisma do Ocidente para a reforma
protestante é bastante rico tanto do ponto de vista da transformação da
espiritualidade como do ponto de vista, mais exterior, mas fortemente
entrelaçado com o primeiro, da história da Igreja e do papado.
Quase a simbolizar, na complicada passagem do século, a continuidade
com as antigas devoções, um grande movimento de flagelantes, o movimento
dos Bianchi, atravessa a Itália na segunda metade de 1399. Difundindo-se
entre a Ligúria e o Piemonte na vaga das presumíveis aparições de Nossa
Senhora, o movimento dos peregrinos vestidos de branco que usam uma
grande cruz vermelha difunde-se para sul. Movimentando-se geralmente com
a concordância das autoridades eclesiásticas, atuam cantando laudas,
fazendo jejum e ouvindo a missa. Na realidade, são muitos os movimentos
que há algum tempo haviam ganho novas categorias de pessoas, e se alguns,
como este movimento dos Bianchi, se reclamam do passado, não faltam
aqueles que, tanto nas formas exteriores como nas mais íntimas, exprimem
posições novas.
As instâncias de reforma da Igreja dão origem a um rico florescimento
espiritual. A inspiração reformadora dos chamados «movimentos da
Observância», nascidos já no final do século XIV no âmbito franciscano com
o objetivo de regressar à pureza original da regra, estende-se a outras ordens
religiosas e perdura durante todo o século seguinte. Desde o final do século
XIV amadureceu também um dos movimentos que mais parece concretizar as
razões da inquietação que caracterizará particularmente o século XV, aquele
que denominamos da devotio moderna. Não é por acaso que no livro, que
constituirá o fruto mais concreto deste movimento e que mais irá difundir o
seu pensamento, De Imitatione Christi, se pode ler uma reflexão de saber
bastante moderno precisamente sobre este tema da inquietação:
«Quandocumque homo inordinate aliquid appetit, statim in se inquietus
fit»: Quando o homem deseja alguma coisa de maneira desordenada,
depressa a inquietação surge dentro dele (De Imitatione Christi, I, 6).
Por que razão, então, o século XV surge como que atravessado por estas
inquietações? O que desejam os homens que vivem nestes anos e porquê?
Para tentar responder a estas perguntas convém dar um passo atrás e ver
primeiro qual o ambiente onde este escrito amadureceu e, depois, qual era a
situação da Igreja no início do século.
De Imitatione Christi, provavelmente em ambiente monástico e atribuído
não sem incertezas ao monge holandês Tomás de Kempis (c. 1380-1471),
surge anónimo em 1418 e impresso provavelmente em 1472. Logo no título,
o livrinho expõe o seu programa, a imitação de Cristo, que todos os fiéis
devem ter em mente, que cada um – e este é um dos elementos mais
interessantes –, também independentemente da Igreja, pode realizar. Na
realidade, este livro, que tem uma difusão que muitos consideram ser apenas
superada pela Bíblia, não só convida a seguir o modelo do Salvador como
expõe vários preceitos e normas de conduta comparáveis aos textos
sapienciais ou à sageza dos escritores clássicos. É o produto mais maduro da
espiritualidade hostil às grandes especulações teóricas, que será muito
difundido nos grupos de laicos que no final do século XIV surgem realmente
projetados para uma mudança significativa. Entre estes estão sobretudo os
frades da vida comum, uma comunidade fundada por Geert Groote (1340-
1384), um holandês pertencente a uma das camadas sociais, cuja
participação ativa na vida religiosa constituiu uma das «novidades» mais
significativas da Baixa Idade Média. Ele, como Francisco de Assis
(1181/1182-1226), é filho de um mercador, como mercadores, de resto,
tinham sido heréticos e santos – pense-se, para não recordar outros, em
Homobonus de Cremona (?-1197), o primeiro santo mercador, precisamente,
e em Pedro Valdo (?-c. 1207). Groote converte-se em 1374 e reúne à sua
volta um grupo de devotos. Assim nasce o movimento destinado a
caracterizar um novo tipo de religiosidade laica, a devotio moderna. Nos
primeiros tempos, este grupo de devotos também é submetido a acusações de
heresia, mas consegue obter a aprovação do papado. Por morte de Groote,
em 1384, sucede-lhe Florence Radewyns (c. 1350-1400). De Imitatione
Christi exercerá uma enorme influência, sobretudo nos séculos XV e XVI. Dos
Países Baixos, ter-se-ia difundido na Europa e também em Itália, tornando-se
um ponto de referência para os mais importantes movimentos religiosos, da
reforma protestante à espiritualidade de Inácio de Loyola (1491-1556).
Mas este escrito não fala apenas com acentos modernos da inquietação que
caracteriza o século, fornece-nos também um elemento muito útil para
compreendermos a sua raiz, ou pelo menos um das raízes; De Imitatione
fala-nos, também aqui com acentos novos, da expectativa da morte. Uma
expectativa que muito em breve será vivida de uma maneira nova, traduzida
em obras que visam prepará-la, de iconografias que tentam fixar a sua
imagem, de uma verdadeira «arte de bem morrer», quase como se o objetivo
último e prioritário da vida fosse a expectativa do fim. Uma expectativa feita
ao mesmo tempo de medo e de desejo, medo de que a morte chegue
inesperadamente, e desejo de que ela seja bem preparada. «Bendito seja –
lemos no capítulo do livro I de De Imitatione – aquele que tem sempre
diante dos olhos a hora da sua morte, e está preparado para morrer a cada
dia.»
Para o historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), «nenhuma época
cultivou a ideia da morte com tanta regularidade e com tanta insistência
como o século XV» (O Outono da Idade Média, 1991). Homens e mulheres
são aterrorizados não só pelos sermões dos pregadores sobre o destino que
espera os pecadores no outro mundo mas também pela profusão de imagens
que representam o esqueleto. Triunfos da morte e danças macabras tornam-se
um verdadeiro cliché artístico e literário, bem como a poética do ubi sunt,
compendiada no ritornelo «Où sont les neiges d’antan» da célebre balada de
François Villon (c. 1431-post 1463), enquanto a dança macabra se reclama
da triste Ballade des Pendus do mesmo poeta. Como observa Alberto
Tenenti (1924-2002) num texto já clássico sobre o tema, «em vez de anunciar
as chamas e os tormentos infernais, a morte impõe o espetáculo da
decomposição orgânica» (Il Senso della Morte e l’Amore della Vita nel
Ricascimento, 1982). A arte religiosa detém-se com satisfação sobre a
decomposição do cadáver, cru testemunho da caducidade do mundo e da
existência humana, e caracteriza com a força das imagens o desejo de morrer
bem, uma aspiração que terá uma longa duração: Ars Moriendi é o título de
um livrinho anónimo, o primeiro de uma longa série – que culmina no século
XVIII tardio com o Apparecchio alla Morte, de Alfonso Maria de Ligório
(1696-1787) – que tem uma grande difusão na segunda metade do século XV
e que pretende preparar o fiel para a extrema e inevitável passagem.

Inquietações e novas heresias. A Igreja entre cismas, antipapas e


concílios. Os movimentos radicais
A inquietação que caracteriza o século XV não conhece apenas acentos
intimistas e, por assim dizer, privados; na Igreja dividida entre heresia e
ortodoxia, ela assume, tanto nos países que tinham assistido à difusão das
grandes heresias do mais recente passado, como em territórios que não
tinham sido tocados por elas, uma difusão em certos aspetos considerável.
Se os Países Baixos, como se viu, estão na origem deste «repensar laico»
dos temas da vida e da morte, a Inglaterra marcou com a reflexão intelectual
de John Wycliffe (c. 1320-1384) alguns pontos fundamentais daquela
viragem que, enriquecida primeiro em Praga e depois na Germânia, irá
desembocar, em parte, na reforma protestante e, em parte, nos movimentos
que a historiografia definiu como «reforma popular», levando para diante
uma espécie de movimento paralelo, mais radical, mais sectário e oposto,
tanto ao mundo católico como no da reforma oficial (Josef Macek, La
Riforma Popolare, 1974). Assim, não são poucos os países da Europa que
no século XV estão nas posições que, de um modo ou de outro, contribuirão
para fazer cair para sempre o monopólio doutrinal e político de Roma. Mas
antes de avançar com esta análise, convém recordar brevemente a situação
que caracterizava a Igreja do início do século.
No final do século XIV e início do século XV, a Igreja Católica, após o final
do período de Avinhão e o regresso do papado a Roma, vive o Grande
Cisma de Ocidente. Aos velhos problemas, que se acentuaram com a sede
francesa, de rapacidade fiscal e de mundanização da «corte» papal, bem
como de utilização imprópria das armas espirituais, vai-se juntando e
determinando a indiferença dos fiéis e o exacerbamento das críticas, a
sequela dos pontífices que se deslegitimam reciprocamente. A situação
negativa atinge o seu apogeu quando uma minoria de cardeais toma a
iniciativa de convocar um concílio para Pisa (1409), durante o qual são
declarados destronados tanto o papa de Avinhão, Bento XIII (c. 1329-1422,
antipapa de 1394 a 1417), como o romano, Gregório XII (c. 1325-1417,
papa de 1406 a 1415). É eleito para o sólio de Pedro o arcebispo de Milão,
Pietro Filargio, com o nome de Alexandre V (c. 1340-1410, antipapa desde
1409). Mas os dois excluídos não aceitam esta decisão e acrescenta-se ao
paradoxo, este realmente gerador de grandes inquietações, que três papas
reivindiquem a tiara. Ainda que – convém precisar – esta pluralidade de
papas não seja considerada dramática e a Universidade de Paris, pela boca
de um dos seus porta-vozes, chegue a afirmar que pouco importa na
realidade «quantos papas existem, se dois, três ou dez, ou doze», dado que,
inclusive, «cada reino poderia ter o seu» (Jacques Le Goff, «O cristianismo
medieval no Ocidente, do concílio de Nice à Reforma», in História do
Cristianismo, sob a direção de H. Ch. Puech, 1983). Nesta situação, o
imperador Segismundo de Luxemburgo (1368-1437) impõe a João XXIII (c.
1370-1419, antipapa de 1410 a 1415), que sucedeu entretanto a Alexandre V,
a convocação de um concílio efetivamente representativo e ecuménico
(concílio de Constança, 1414-1418). Nesta importante assembleia, que elege
finalmente um papa reconhecido por todos ou quase, Martinho V (1368-
1431, papa desde 1417), é de facto aprovado um princípio fundamental e,
para a época, revolucionário: o da superioridade do concílio, enquanto
representante da Igreja Universal, sobre o pontífice.
Na realidade, o papado foi perdendo progressivamente prestígio depois de
ter superado o cisma, e assumiu cada vez mais os traços de um dos muitos
principados estabelecidos em Itália: Francesco Guicciardini (1483-1540),
em Storia d’Italia (IV, 12), escreve que os sucessores de Pedro «começaram
a parecer-se mais com príncipes seculares do que com pontífices».
Abandonadas as antigas pretensões teocráticas, o papado tem no imediato a
urgência de renovar a sua autoridade contra os conciliaristas, e apoia-se
precisamente nos príncipes, concedendo-lhes uma participação conjunta nos
proveitos da gestão dos assuntos eclesiásticos, à custa dos fiéis: antes de
Martinho Lutero (1483-1546) ter desencadeado o escândalo, a indicção das
indulgências era objeto de negociações entre príncipes locais e funcionários
papais, que terminavam inevitavelmente com um acordo reciprocamente
vantajoso, a que servia de contrapeso o desaparecimento cada vez mais
marcado do papado das atividades mais propriamente pastorais (Giorgio
Chittolini), «Papato, corte di Roma e stati italiani dal tramonto del
movimento conciliarista agli inizi del Cinquecento», in Il Papato e l’Europa,
sob a direção de Gabriele De Rosa – Giorgio Cracco, 2001).
Mas erraria quem pensasse que o concílio, certamente mais «democrático»
no plano da organização eclesiástica, era também menos dogmático no
campo da definição dos princípios da fé, e mais disposto a ir ao encontro das
aspirações e das inquietações que os acontecimentos recentes tinham feito
crescer. O concílio de Constança permanece marcado por uma absoluta
intransigência no plano da ortodoxia, e se o já referido Wycliffe, que
promovera também a primeira tradução inglesa da Bíblia, pôde acabar a sua
vida tranquilamente, apesar de algumas das suas posições serem certamente
não ortodoxas (não só contestara os dízimos e o primado papal, como negara
a transubstanciação e o culto dos santos), o concílio vem declarar heréticas
as suas propostas e condena Jan Hus (c. 1370-1415), que em muitos pontos –
mas não, por exemplo, na transubstanciação – repropunha aquelas teses. Hus,
apesar de munido de um salvo-conduto, é condenado à fogueira e queimado a
6 de junho de 1415.
Ficou memorável a comovida carta a Leonardo Bruni (c. 1370-1444) de
Poggio Bracciolini (1380-1459), que assiste em Constança ao suplício de um
discípulo de Hus, Jerónimo de Praga (c. 1370-1416), e fica sensibilizado
com a sua coragem. Poggio (que se encontra em Constança por deveres do
seu ofício na secretaria pontifícia) refere que Jerónimo, ao elogiar Jan Hus,
declara que «este não defendera nada contra a Igreja, mas contra o abuso dos
padres, contra a soberba, o fausto e a pompa dos prelados. De facto, dado
que os patrimónios eclesiásticos se destinam essencialmente aos pobres,
depois aos peregrinos, consequentemente à fábrica das igrejas, àquele
homem tinha parecido indigno que fossem esbanjados com meretrizes, com
banquetes, com cães, cavalos, vestimentas e outras coisas indignas da
religião de Cristo» (Epistola Poggii de Morte Hyeromini Pragensis, 1416).
Uma vingança póstuma abate-se sobre o próprio Wycliffe: o seu cadáver,
com um processo não ausente de precedentes macabros, é exumado e
queimado na fogueira. Naturalmente – e também este é certamente um
elemento que nos pode fazer avaliar o verdadeiro significado histórico
daquelas inquietações – sublinhe-se que o martírio de Hus não é determinado
apenas por motivações doutrinárias, mas também políticas, receando que as
suas posições se possam ligar ao movimento patriótico da Boémia. Depois
da morte de Hus, colocam-se à cabeça do movimento os professores da
universidade que utilizam o cálice como símbolo do movimento. Em suma, a
execução de Hus provoca desordens e tumultos, que desembocam numa
verdadeira guerra entre as tropas imperiais e os boémios, mas também entre
os próprios reformadores durante quase 20 anos. A estas tentativas de levar a
cabo a reforma «popular» ou a partir de baixo, pertence a ala radical dos
hussitas, que, depois de ter rompido as relações com os mais moderados
utraquistas, se estabelece no monte Tabor, nas proximidades da cidade de
Serimovo Usti, na Boémia Meridional, onde, na expectativa do fim do
mundo, que considera iminente, instaura uma comunidade que se reclama do
comunitarismo da primitiva Igreja. Os taboritas, como também começam a
ser chamados estes hussitas radicais, não só recusam qualquer modelo de
organização eclesiástica mas também estatal, pelo que não tencionam pagar
nem taxas nem dízimos. Pregam o extermínio dos pecadores e dos inimigos
da comunidade, em particular dos nobres e dos prelados. Como irá acontecer
um século depois em Münster aos anabatistas, a comunidade radicada em
Tabor é atacada e aniquilada; entre as acusações que lhes foram lançadas
pelos hussitas moderados está a de praticarem o amor livre – muito antiga e
tantas vezes repetida. A comunidade dos irmãos e das irmãs de Tabor é
destruída em 1421 pelo exército comandado por Jan Žižka (c. 1360-1424).
Várias centenas de quiliastas são mortos e queimados na fogueira. Para
justificar esta violência os utraquistas vitoriosos redigem uma lista de todas
as teorias heterodoxas professadas por estes heréticos, que eles denominam
pikarti. Entre os outros movimentos que, de algum modo, mesmo repudiando
o quiliasmo revolucionário, exprimem as suas inquietações, merece pelo
menos uma menção, o de Pedro Chelčický (c. 1390-c. 1460) que, no seu
projeto de renovação das comunidades cristãs, em nome de uma utópica e
original igualdade, repudia, talvez pela primeira vez sem ambiguidade, a
doutrina social medieval, que via na divisão em três categorias a verdadeira
e mais justa hierarquia social.
A herança taborita, como a de Chelčický, é parcialmente recolhida pela
Unidade dos Irmãos Boémios, que aceitam a doutrina dos taboritas, mas
repudiam a violência, e conseguem obter, depois de cismas, divisões e
compromissos, uma relativa e tácita tolerância: a dieta de Kutná, em 1485,
põe termo aos conflitos entre católicos e hussitas moderados e utraquistas,
aprovando um embrionário mas fundamental princípio de liberdade
religiosa, de que indiretamente beneficiam também os Irmãos Boémios,
embora não sejam expressamente mencionados nos textos de paz.

Inquietações, profetismo, intolerância. A ânsia de futuro e a


intolerância do final do século XV
Mas os quiliastas de Tabor encarnam apenas um dos ramos do profetismo
escatológico do século XV: a inquietação deste período levanta problemas de
interpretação demasiado complexos para se poder fazer deles uma definição
completa e, sobretudo, para poder ser encerrada na lógica talvez muito
excessivamente racional que opõe devoções antigas a devoções modernas,
defensores do poder papal a defensores do concílio, heresia a ortodoxia. O
que verdadeiramente parece alimentar a inquietação no limiar da
modernidade é, juntamente com uma vontade de mudança, uma ânsia de
futuro, um desejo de conhecer e prever as coisas últimas, a vontade de captar
o sentido da direção dos acontecimentos do mundo e da história. Por outras
palavras, é o retorno dos aspetos proféticos e apocalípticos que ciclicamente
atravessaram a história do cristianismo. Para dizer como um estudioso
autorizado, «é um dado de facto já certo, que todo o século XV, em Itália
como no resto da Europa, continuou ainda a suscitar o antigo fascínio da
interpretação joaquimita e pseudojoaquimita dos acontecimentos passados,
presentes e futuros da história sacra e profana»; interpretação confiada à
difusão, como sabemos, também de recolhas de profecias (Cesare Vasoli,
«L’Influenza de Gioacchino da Fiore sul profetismo italiano della fine del
Quattrocento e del primo Cinquecento», in A.A. V.V., Il Profetismo
Gioachimita tra Quattrocento e Cinquecento, sob a direção de Gian Luca
Podestà, 1991). Na realidade, os anúncios do iminente fim dos tempos,
enraizados no centro do cristianismo, não fazem a maravilha da sua aparição.
E à derrota da linha de reforma conciliar corresponde, como se disse,
também a derrota de outro filão, de tipo apocalíptico e profético, que há
tempo procurava, sobretudo através de «uma grande obra coletiva de
conversão», um caminho para conseguir uma renovação da Igreja; renovação
pretendida, por diversas vias, pela pregação popular nos séculos XIV e XV, e
por todas as «iniciativas parciais de reforma das ordens», que são as
«observâncias». (Giovanni Miccoli, «La storia religiosa», in Storia d’Italia,
II, 1974). Também fenómenos aparentemente distantes entre si, como a
instituição do Oratório do Divino amor em Génova (1497), uma confraria
que se difunde em várias cidades italianas, ou a contemporânea e
desafortunada tentativa de instaurar uma república teocrática em Florença
por Savonarola (1452-1498), se enquadram nesta mesma atmosfera inquieta
que visa as reformas in capite et in membris invocada por todos.
Entre os acontecimentos mais importantes e objeto de uma leitura de cariz
profético são as guerras de Itália e a invasão de Carlos VIII (1470-1498) a
Itália, em quem Savonarola vê o Carolus redivivus. De facto, as profecias da
Sibilla Tiburtina e do Pseudo-Metódio sobre o imperador dos «últimos dias»
são adaptadas a Carlos VIII. O Apocalipse estava próximo e um segundo
Carlos Magno apareceria em breve. Savonarola seria em breve queimado,
embora depois de ter sido morto, como herético arrependido, e Florença
voltaria em breve a entrar na ordem. Mas o período do profetismo vai muito
além do século XV, caracterizando também o século seguinte até aos anos 30,
para depois acabar quase inesperadamente após a coroação de Carlos V
(1500-1558) e o saque de Roma (Ottavia Niccoli, Profeti e Popolo
nell’Italia del Rinascimento, 2007).
Mas a inquietação, independentemente da sua matriz, mostra geralmente
também uma face marcadamente intolerante, e este breve quadro estaria
certamente incompleto sem uma menção à intolerância que se concretiza
sobretudo em relação a dois fenómenos sobre os quais, não obstante a
historiografia ter mostrado um grande interesse por diversas ocasiões,
sabemos ainda muito pouco: a intolerância contra os «pérfidos judeus» e
contra as feiticeiras, que se agudizam de novo nas últimas décadas do século
XV. Um episódio inquietante ocorre na primeira: em 1475, em Trento, uma
criança de dois anos, Simão (?-1475), é encontrada esvaída em sangue no
Domingo de Páscoa nos arredores do gueto. O príncipe bispo, Johannes
Hinderbach (1418-1486) acusa os judeus de terem sacrificado o pequeno
inocente durante um homicídio ritual – acusação, a do homicídio ritual, que
até hoje, incrivelmente, encontra defensores. Ele expulsa-os da cidade e
torna-se promotor de um culto à pequena vítima que terá grande difusão nos
vales alpinos, e que começou por ser hostilizado por Roma e depois
admitido passado cerca de um século, quando Simão foi reconhecido santo.
Só quatro séculos depois, em 1965, esse culto será definitivamente excluído
(Anna Esposito e Diego Quaglioni, Processi Contro gli Ebrei di Trento
1475, 1478, 1990; Tommaso Caliò, La Leggenda dell’Ebreo Assassino.
Percorsi di un Racconto Antiebraico dal Medioevo ad Oggi, 2007).
Outro grande capítulo da intolerância certamente ligado a inquietações e
incertezas é o que diz respeito à imprevista agudização da perseguição das
feiticeiras. Em 1487, é publicado o mais célebre e orgânico tratado contra a
feiticeira para uso dos inquisidores, o Malleus Maleficarum (Martelo das
feiticeiras), escrito por dois dominicanos, Heinrich Krämer (c. 1430-1505)
e Jacob Sprenger (c. 1436-1494), que terá muitas edições. A publicação fora
precedida pela bula de Inocêncio VIII (1432-1492, papa de 1484) Summis
Desiderantes (1484), que confiava aos dois autores a tarefa de reprimirem a
feitiçaria no vale do Reno. Na realidade, não se trata do primeiro manual do
género: Formicarius, de Johannes Nider (1380-1438), tivera uma publicação
póstuma em Colónia em 1475, outros tinham-no precedido, outros se lhe
seguiram e, sobretudo, às palavras dos manuais seguir-se-ão os processos e
as condenações. Ainda que seja necessário corrigir o juízo de Huizinga
segundo o qual o século XV foi mais do que qualquer outro o século da
perseguição das feiticeiras, também é verdade que este é o século que vê a
sua primeira formalização acabada e um forte incremento. Uma vez
assimilado o pacto com o diabo à acusação de heresia, a máquina dos
processos inquisitoriais, sobretudo em algumas zonas europeias, funcionará
sem obstáculos. Será preciso esperar os primeiros 20 anos do século XVII
para registar a sua diminuição significativa.
De qualquer modo, quaisquer que tenham sido os campos em que a
inquietação quatrocentista se exprimiu, desde a devoção que envolve com
novas formas diferentes estratos sociais, à pregação apocalíptica que
acompanha o triste período de cismas e antipapas e o período das
«desgraçadas» guerras de Itália; desde o profetismo que vê na iminente
intervenção de Deus a única solução da muito esperada renovatio, às
intolerâncias que parecem fazer recuar o tempo da história, é precisamente e
só na diversidade destas situações que se pode medir a riqueza e
simultaneamente a contraditória acumulação de problemas que caracterizam
o século. Só a explosão da reforma luterana conseguirá pôr ordem nesta
complexidade.

V. também: O papa e as hierarquias eclesiásticas, p. 174; As ordens religiosas, p. 179;


A caça às bruxas, p. 207; A Inquisição, p. 211; A vida religiosa, p. 229;
A religião dos humanistas, p. 509; A predicação, p. 512;
Poesia religiosa: as laudas, p. 516.
A INSTRUÇÃO E OS CENTROS DE CULTURA
de Maria Anna Noto

O século XV é um período de transformações significativas para o


universo cultural e didático, embora as mudanças sejam muito mais
graduais do que o avanço implacável do ambiente humanista-
renascentista poderia fazer crer e ainda se encontre a recuperar da
forte tradição de estudos de matriz medieval.
A revalorização dos clássicos como portadores de um conjunto de
valores fortemente centrados nas capacidades humanas e a
experimentação de novas formas de aprendizagem, baseadas na
ampliação do horizonte disciplinar e na adoção de um método crítico
baseado no confronto analítico entre doutrinas e opiniões
variegadas, convivem com a hegemonia da tradição aristotélico-
tomista centrada na evocação dos autores e dos textos consolidados.
Neste clima, a circulação dos novos movimentos culturais ocorre
predominantemente em lugares e instituições diferentes das escolas e
universidades, sedes do ensino oficial.

Tradição e inovação: evidências medievais e desenvolvimento do


humanismo
No século XV, o florescimento do humanismo já atingiu níveis maduros de
expressão e de difusão na Europa Ocidental, sobretudo na península italiana,
que é sem dúvida o berço de um despertar cultural extraordinário de natureza
poliédrica e pluridisciplinar. No entanto, este movimento de arte e de
pensamento não só procura as suas raízes em fermentos e experiências já
iniciadas no período medieval, como encontra a resistência tenaz da
docência escolástica e académica, que ainda permanecerá ancorada durante
muito tempo aos tradicionais curricula studiorum dominados pela
intangibilidade das auctoritates, pela invariabilidade dos percursos
disciplinares e dos textos utilizados, pela rigidez do método mnemónico,
pela padronização dos processos de aprendizagem baseados na aquisição de
técnicas de raciocínio e argumentação rigorosamente acreditadas. O
predomínio incontestável da escolástica nos locais oficiais de formação
traduz-se numa comunhão cultural dos literatos, para os quais o
aristotelismo, além de constituir o modelo em que foi uniformizada a sua
instrução, se manifesta como «uma espécie de koiné, um conjunto de
maneiras de dizer e de pensar, definições, conceitos, conhecimentos de
natureza diversa, explícita ou implícita, que, inculcados desde o tempo da
escola, se impunham quase universalmente com a força da evidência»; para
os intelectuais da época, o aristotelismo é «antes de mais uma lógica, uma
arte do silogismo entendido como a técnica demonstrativa por excelência»
(Jacques Verger, Gli Uomini di Cultura nel Medioevo, 1997).
Não obstante a resistência formal do universo educativo tradicional, deve
reter-se que, durante o século XV, a estrutura curricular dos institutos de
instrução se vai enriquecendo com novas disciplinas e, ainda que
dificilmente permeáveis à cultura humanista, as universidades continuam a
revelar-se como a sede privilegiada do intercâmbio intelectual e ainda são
inspiradas por um cosmopolitismo fértil, favorecido pela costume frutuoso
da peregrinatio académica. Docentes e sobretudo estudantes deslocam-se de
uma sede universitária para outra em busca de um aprofundamento contínuo
dos conhecimentos, artífices por sua vez de fluxos produtivos de saber, aos
quais a unidade religiosa europeia – ainda não perturbada – permite manter
um fôlego internacional. A dimensão cosmopolita da cultura ainda não foi
afetada pela fratura confessional provocada pela afirmação do
protestantismo que, ao dividir a Europa, determinará uma proliferação de
novas fundações universitárias – promovidas e subvencionadas pelos
poderes públicos, com necessidade de orientar e controlar a formação das
elites –, que tenderão a redimensionar a vocação supranacional, mediante um
plano essencialmente regional.
No século XV, a formação dos literatos, dos juristas e dos cientistas ocorre
nas universidades, que conferem títulos e mantêm um prestígio quase
inalterado, apesar de as experiências dos intelectuais se realizarem e
alcançarem os novos ideais culturais em contextos diferentes dos locais
oficiais de instrução. Se estes permanecem geralmente caracterizados por
uma matriz religiosa, o espírito laico do Renascimento invade as cidades, as
cortes, os círculos culturais, as oficinas dos artistas, as academias, gerando
um fervor crescente, que propende para a unidade substancial da cultura,
para a integração das disciplinas e das experiências cognitivas, para um
conhecimento da realidade que ambiciona ser eclética e global. Exemplos
ilustrativos desta tendência são os percursos de vida e de trabalho de
Leonardo da Vinci (1452-1519), Leon Battista Alberti (1406-1472), Miguel
Ângelo Buonarroti (1475-1564) – só para citar alguns –, que cultivam ao
mesmo tempo paixões e atividades múltiplas, que vão da poesia à pintura, da
literatura à escultura, da matemática à arquitetura, numa ótica orgânica e
harmoniosa do saber.
A revalorização da experiência terrena do homem, com as suas preciosas
potencialidades, faz aflorar gradualmente a exigência de reformar os
sistemas educativos vigentes, que começam a ser inadequados à
sensibilidade emergente. É a Itália que se torna inspiradora e promotora da
renovação cultural extraordinária dos séculos XIII-XVI e que oferece os
principais itinerários de experimentação de novos ideais pedagógicos
marcados por um desenvolvimento integral da personalidade: os
contubernia humanistas – uma espécie de internatos não universitários, mas
muito seletivos –, criados por Guarino de Verona (1374-1460), ou por
Vittorino da Feltre (c. 1373-1446), conjugam a tradição sólida do ensino das
escolas de gramática com a introdução de conteúdos disciplinares e estilos
educativos de tipo inovador, que contemplam a harmoniosa edificação do
corpo e da mente, ampliam a gama dos textos de estudo e estendem a leitura
dos clássicos, no espírito renascentista da consecução de uma humana virtus.
A pedagogia renova-se com a redescoberta de autores, como Quintiliano (c.
35-c. 96) e Plutarco (c. 45-125), que se tornam pontos de referência
imprescindíveis para os tratados sobre a educação elaborados durante o
século XV, entre os quais se recordam De Liberorum Educatione, de Enea
Silvio Piccolomini – o futuro papa Pio II (1405-1464, papa desde 1458) – e
De Ordine Docendi et Studenti elaborado por Battista (1434-1513), filho de
Guarino de Verona.
Neste ambiente cultural, o homem é levado a «ousar», a investigar a
realidade, a interpretá-la, a desenvolver atitudes críticas na base de análises,
confrontos e elaborações. A invenção da imprensa, em pleno século XV,
representa um fenómeno revolucionário de aceleração destes processos: a
multiplicação dos livros favorece enormemente a divulgação dos
conhecimentos e permite difundir opiniões diversas, comparar visões
divergentes, discernir ideias, conceitos, enunciados, reelaborar informações.
As escolas e as universidades
No século XV, o ensino para todos os graus de instrução é dominado pelo
latim. Embora o vulgar, além de ser a língua falada por todas as camadas
sociais, se tivesse amplamente afirmado também no âmbito literário,
contabilístico e, por vezes, legislativo, a língua da cultura, da Igreja, do
património livreiro da erudição ocidental, da escola, é o latim, em que estão
codificados todos os saberes disciplinares contidos nos textos utilizados nos
institutos de instrução e com que estes também se exprimem oralmente no
contexto escolar. Esta prática é plenamente atestada no ambiente académico,
mas é lícito defender que, para a instrução elementar, é muitas vezes
derrogado esse princípio, transmitindo-se uma parte dos conhecimentos em
língua vulgar. Apesar desta situação, a instrução apresenta-se globalmente
centrada no latim e produz uma sociedade caracterizada por um marcado
bilinguismo: na escola estuda-se em latim, na vida quotidiana pratica-se o
vulgar.
Evidenciámos que, no século XV, a instrução é predominantemente dada em
instituições que vão da escola de gramática à universidade, embora convenha
considerar que para o ensino de base está já bastante difundida a prática do
professorado privado, adotado pela aristocracia, que começa a conceder
uma certa importância à preparação cultural dos seus filhos para lá do
adestramento militar tradicional, a que estão geralmente destinados. Para os
filhos das famílias impossibilitadas da manutenção de um precetor, a
aprendizagem dos rudimentos da leitura e da escrita ocorre através da mãe –
quando possui um nível mínimo de alfabetização – e mediante a frequência
de escolas, que, de acordo com os anos de estudo que nela passam e a
competência dos professores, oferecem uma preparação que pode oscilar da
aquisição dos elementos fundamentais da gramática ao estudo propedêutico
das disciplinas ensinadas na universidade.
A percentagem de frequência escolar e de obtenção de níveis também
essenciais de alfabetização difere nas diferentes regiões europeias e
distingue-se consoante os centros urbanos e as zonas rurais. Os fatores que
influenciam estes aspetos são constituídos pela difusão e pela distribuição
das instituições educativas no território, pelos custos ligados à instrução –
que é paga –, pelas exigências e expectativas familiares em relação à
formação dos filhos. Para a maior parte das famílias é suficiente aprender a
ler, escrever e fazer contas: aprendem-no muitas vezes com os párocos, que
procuram fornecer uma educação essencialmente religiosa, a par dos
rudimentos do saber de base. Existem também escolas geralmente destinadas
à formação da camada burguesa e mercantil, que dedicam um cuidado
particular ao desenvolvimento das aptidões de cálculo e contabilidade; do
mesmo modo, a preparação dos artesãos e dos pintores e escultores realiza-
se por meio de uma aprendizagem mais ou menos longa junto das oficinas.
Para quem tem a sorte de se inscrever na escola de gramática, o currículo
completo ainda tem uma orientação baseada no sistema tradicional das sete
artes liberais (agrupadas num trivium, composto por gramática, dialética e
retórica, e num quadrivium, que compreende aritmética, geometria, música e
astronomia), embora, de facto, esta classificação tenha deixado de ser
operativa há algum tempo e se tenha aberto progressivamente à introdução de
outras disciplinas, influenciada tanto pelo avanço dos novos movimentos
culturais como pelas novas exigências sociais. Em geral, a aprendizagem,
baseada no método mnemónico consiste na aquisição inicial dos elementos
da gramática latina, integrados por uma educação religiosa e moral. Este
processo, sempre marcado pelo ideal cristão e orientado para fins
edificantes, realiza-se com o apoio, geralmente padronizado, de textos
consolidados: o saltério (uma recolha de salmos), textos litúrgicos fáceis, e
ainda o acreditado manual de Élio Donato (século IV) para a gramática e uma
seleção de excertos para exercitar a tradução (por exemplo: Disticha
Catonis, Ecloga Theoduli e Aesopus do repertório clássico, Fior di Virtù,
Vite dei Santi e Floretus das recolhas cristãs). O alargamento a outras obras
e autores verifica-se na continuação dos estudos, quando o currículo prevê a
introdução dos alunos a toda a gama dos studia humanitatis, que
contemplam a lógica e as artes liberais, entre as quais, graças ao impulso dos
novos ideais formativos, surgem a história, a filosofia moral, a poesia, a que
se juntam os saberes do quadrivium.
As escolas de gramática podem surgir por iniciativa pública (junto das
catedrais, das igrejas e dos mosteiros; subvencionadas pelas administrações
citadinas ou das corporações) ou privada (geridas por professores mais ou
menos qualificados, que vivem das rendas pagas pelos alunos) e ser
confiadas a professores laicos ou mais frequentemente eclesiásticos, cuja
preparação varia muito de caso para caso e determina fundamentalmente a
qualidade da instrução.
O prosseguimento dos estudos, para os poucos que o podem fazer devido
aos custos muito elevados e ao carácter fortemente seletivo dos institutos de
formação, ocorre nas universidades. Estruturadas como organismos
autónomos na escolha dos professores, na adoção dos programas de estudo,
na concessão dos diplomas, as universidades são dotadas de regulamentos
rígidos que disciplinam a vida de docentes e discentes, para os quais é
obrigatório exprimirem-se em latim, mesmo durante as conversas extra-
académicas. O acesso à universidade, que é destinado a estudantes mais
jovens do que hoje, está subordinado a um conhecimento adequado da língua
latina. Os cursos universitários têm uma duração variável e só poucos alunos
completam todo o arco académico. Inicia-se com o ensino das artes liberais,
que decalca, progressivamente ampliado e aprofundado, o percurso de
estudos feito no grau escolar precedente. Os níveis superiores da instrução
académica contemplam o estudo da Teologia, da Medicina e do Direito.
Entre estas disciplinas predomina o Direito, que, no ramo duplo de direito
civil e direito eclesiástico, representa a meta formativa mais ambicionada
pelo prestígio da sua tradição e pela dimensão do universo
socioprofissional. Também em relação aos ateneus, a Itália quatrocentista
tem um papel privilegiado tanto em relação à antiguidade da fundação como
em relação à reputação internacional. Os historiadores identificaram dois
«modelos» universitários predominantes na Europa tardo-medieval: o
«modelo mediterrânico», de matriz bolonhesa, em que domina o direito; e o
«modelo norte-europeu», de matriz parisiense, em que prevalecem as artes
liberais com a filosofia e a teologia.

Os outros centros de cultura


O fervor renascentista penetra lentamente nos locais oficiais de
transmissão do saber, enquanto se afirma precocemente – em particular na
península italiana – nas cidades e junto das cortes dos príncipes e dos
nobres, entre as quais tinham primazia a Roma papal, a Nápoles angevina e,
depois, aragonesa, as senhorias da Itália centro-setentrional. De qualquer
modo, convém não descurar que, muitas vezes, nos centros culturais
«alternativos» às universidades, se encontram as mesmas personagens que
estão inseridas na instrução escolar e académica, sinal de um processo
cultural que paralelamente à linha tradicional tende progressivamente a
transfundir-se nela.
Intelectuais, poetas e artistas, cultores dos novos ideais humanistas
encontram nos soberanos, nos príncipes e nos cardeais quatrocentistas
promotores generosos das suas obras e do seu empenho cultural, podendo
contar com um apoio económico indispensável e, sobretudo, com a
possibilidade de exprimir de modo gratificante a sua arte. As residências
principescas são decoradas para se apresentarem como locais agradáveis
para o exercício literário, as serenas conversações culturais, o intercâmbio
profícuo de ideias, como ponto de encontro privilegiado de pensadores,
escritores famosos, que acabam por participar num projeto funcional na
afirmação do poder político. A cultura também é promovida mediante o
apetrechamento de coleções artísticas e livreiras, de que a Biblioteca
Vaticana, dotada nestes anos pelos pontífices Nicolau V (1397-1455, papa
desde 1447) e Sisto IV (1414-1484, papa desde 1471), representa uma
brilhante demonstração.
Sob os auspícios das autoridades florescem cenáculos culturais que
ambicionam ser caracterizados como espaços permanentes de comunhão
intelectual, destinados ao confronto e à promoção de estudos, que, no campo
literário, se movimentam ao longo do duplo binário da redescoberta do latim
clássico e da nobilitação da linguagem vulgar. A Academia Pontaniana de
Nápoles, a Academia Romana fundada por Giulio Pomponio Leto (1428-
1497) constituem fúlgidos exemplos de uma sociabilidade cultural que visa
revalorizar o otium da atividade intelectual, que atribui uma superioridade
intrínseca à dimensão contemplativa da experiência humana, que pretende
recuperar os valores cultivados pelo mundo clássico. A exaltação da
estética, da elegância, do culto da amizade, o hábito do amável e inteligente
entretenimento representam os pontos cardeais da formação ideal do homem
de cultura.

V. também: As senhorias em Itália, p. 119; A imprensa e o nascimento do livro, p. 203;


O «renascimento científico», p. 257;
A tradição aristotélica na Itália do século XV, p. 266;
Leon Battista Alberti: o homo faber, o tempo e a pedagogia filosófica, p. 301;
Textos antigos e novos saberes: botânica e matéria médica, p. 359;
Leonardo da Vinci, p. 393;
Leon Battista Alberti e o humanismo em vulgar em Itália, p. 464;
Leon Battista Alberti, p. 585.
A VIDA RELIGIOSA
de Vittoria Fiorelli

Numa época caracterizada por profundas mutações políticas e


sociais acompanhadas de pobreza e de um estado contínuo de
beligerância, intensos fenómenos religiosos abalam a Europa. Uma
necessidade generalizada de espiritualidade percorre as populações
levando com ela uma exigência de renovação de males velhos e
novos, a que a Igreja parece não estar preparada para responder.
Este clima faz crescer a exigência de uma renovação profunda dos
hábitos dos indivíduos e dos grupos e promove todas as formas de
apostolado laico que constituem a verdadeira marca distintiva da
vida religiosa quatrocentista.

No alvor do século XV, insinua-se entre os cristãos da Europa um difuso


sentido de perturbação provocado pelos acontecimentos inquietantes
ocorridos recentemente. A ferida do cativeiro do papado em Avinhão e o
reforço das Igrejas nacionais acentuam entre os fiéis a perceção de um
afastamento progressivo das instituições eclesiásticas da necessidade de
espiritualidade que os liga.
A intolerância pela mundanização da Igreja e pelo reforço do seu papel
político cresce paralelamente ao desejo de uma religiosidade mais íntima,
concretizada no anseio nostálgico de uma religiosidade idealizada nas
origens, cujos traços fundamentais são a simplicidade e o rigor.

A devotio moderna
Este clima prepara o terreno para a ampla ressonância conquistada pela
devotio moderna. O movimento inspira-se no magistério do diácono
flamengo Geert de Groote (1340-1384), que, na segunda metade do século
XIV, prega a reforma dos costumes e da moral contra a simonia, a acumulação
de benefícios, o concubinato dos padres e o mau comportamento do clero em
geral. Da sua pregação nascem os irmãos da vida comum, que, entre 1400 e
1450, fundam numerosas comunidades entre os Países Baixos e a Germânia.
Na base desta nova atitude espiritual está a recusa de uma excessiva
intelectualização da religião a favor de uma meditação humilde e
contemplativa da humanidade de Cristo e da sua Paixão, que se traduz num
ideal de caridade fraterna, concretizado no empenho de evangelização
despendido no mundo.
A partilha deste renovado modo de entender o sentimento religioso agrega
grupos em que os laicos se aproximam dos eclesiásticos na elaboração de
um modelo de espiritualidade mais pessoal, desligada das solicitações
mundanas, mas empenhada em levar os valores da religião para a vida
quotidiana. O crente é levado a enriquecer a sua alma com a oração pessoal
e com a prática das virtudes, seguindo os conselhos de um diretor espiritual,
que deve acompanhar os seus progressos e corrigir os seus excessos. Deste
modo, submete-se aos deveres da moral sem ter iniciativas extraordinárias,
mas realizando um ideal de decoro e de moderação. A ascese e o
recolhimento de meditação são considerados os momentos fundamentais da
edificação interior. Difunde-se em particular a prática dos exercícios que já
não implicam as grandes provas da ascese austera, mas ajudam a viver da
melhor maneira o espírito da mensagem evangélica. A devoção é entendida
como humilde e completa submissão à vontade de Deus, alimentada e
acompanhada pela leitura de textos sagrados e de escritos místicos, distantes
das subtilezas teológicas e das disputas doutrinais.

Os livros de piedade
Na sequência da invenção da imprensa, os livros de piedade, destinados a
uma grande influência nos comportamentos dos fiéis e a fornecer modelos e
instrumentos de formação espiritual, vão adquirir um papel central. Um dos
manuais de devoção individual mais conhecidos na Europa, produzido nos
círculos da devotio moderna, é De Imitatio Christi (A Imitação de Cristo),
provavelmente escrito por Thomas Hemerken (c. 1380-1471), o augustiniano
que se formou na escola dos irmãos da vida comum, mais conhecido com o
nome de Tomás de Kempis. A obra, em polémica com as formas de
religiosidade exteriores e teatrais, é constituída por vários preceitos para ler
e meditar a fim de mortificar a vontade anulando totalmente a personalidade.
A leitura individual torna-se rapidamente um complemento importante da
religiosidade moderna e reforça um sentido de pertença à esfera do sagrado,
que leva a redimensionar cada vez mais todas as formas de mediação
institucional. A prevalência da palavra de Deus em relação à sua
interpretação e o valor salvífico atribuído ao Evangelho fazem proliferar as
traduções de textos sagrados e a circulação de recolhas e florilégios
destinados à prática da oração mental.
As hagiografias também gozam de um grande sucesso, que faz delas os
primeiros verdadeiros best-sellers da história editorial.

A santidade
O culto dos santos, local privilegiado de encontro de cada crente com a
presença do sagrado, corresponde à exigência de o homem superar os seus
medos e de se confiar à proteção sobrenatural. Por esse motivo, uma época
caracterizada por profundas mutações políticas e pelo alastramento da crise
social faz emergir uma necessidade de garantias coletivas que têm resposta
em fenómenos de religiosidade profética que se difundem em diferentes
ambientes culturais e que são acompanhados por uma pregação apocalíptica.
Assim, o modelo de santidade da religiosidade quatrocentista é
caracterizado por uma forte conotação taumatúrgica enriquecida com um
compromisso civil e de aproximação às populações e que faz perder
autoridade à preeminência da dimensão ascética que caracterizara o período
precedente. Este novo curso da devoção popular leva a Igreja a reforçar a
práxis do reconhecimento dos cultos locais, pelo papa, que se processa a
partir dos anos 40 do século XV. Isto permitia à cúria romana realizar um
controlo sobre a grande quantidade de homens e mulheres mortos em odor de
santidade, em torno dos quais nasciam cultos espontâneos que ameaçavam
assumir conotações pouco respeitosas dos princípios espirituais e dos
comportamentos reconhecidos pelas hierarquias eclesiásticas.
O entrelaçamento entre dimensão mística e visionária e profetismo marca
profundamente a personalidade espiritual das mulheres. A sua capacidade de
conquistar uma rede devocional de amplo fôlego projeta a sua carga
carismática numa dimensão política e institucional, concedendo-lhes um
poder informal no seio da Igreja e da sociedade. De facto, até ao início do
século XVI, as «santas vivas» elevam-se ao papel de conselheiras, ouvidas
pelos príncipes que governam a Itália centro-setentrional, e de ícones
identitários dos súbditos. É o caso das beatas Osana de Mântua (1449-1505),
que vive na corte dos Gonzaga, e de Verónica de Milão (1445-1497).
Geralmente pertencentes ao mundo laico, estas mulheres provêm de famílias
modestas que não têm meios para as fazer entrar num convento.

Os comportamentos devocionais
A partir do século XV, o processo de interiorização das identidades
religiosas provoca uma perceção diferente do pecado, logo, dos
comportamentos devocionais tanto dos indivíduos como dos grupos. O
renovado empenho das ordens reformadas e a sua ação direta e incisiva
influem no modo de as pessoas viverem a sua existência pessoal e
profissional e difundem a convicção de que a moral é um dever absoluto que
implica, a par de empenho na meditação, uma prática sacramental mais
regular, que ajuda os fiéis a realizarem o sentido de pertença social obtido
através dos comportamentos miméticos e partilhados que constituem um
ponto de referência de grande importância no período em questão, em que o
sentido de precariedade e a falta de proteção constituem os principais fatores
de desestabilização da sociedade. Não obstante, o papel central assumido
por Cristo e pela Paixão ameaça desvalorizar a função dos sacramentos, ou
pelo menos de alguns deles, que se tornam inúteis devido ao sacrifício
supremo de Deus.
De ritual público, oferecido pelos presentes para toda a cristandade, a
missa transforma-se em sacrifício privado, que um sacerdote celebra a favor
de um grupo específico de fiéis.
A caracterização pessoal crescente dos compromissos sacramentais
modifica a rede de relações que se estende até às margens dos marcos
individuais. Um exemplo disso é a mudança profunda dos hábitos relativos
ao batismo. Se na Idade Média o aspeto principal deste evento é o
compromisso de construir uma parentela espiritual o mais ampla possível,
reforçando ligações entre famílias ou criando novas, no século XV, o sistema
de amizades formalizado através do sacramento perde a sua preeminência,
contida pela ação do reforço da liturgia e das práticas devotas posta em
prática pelas hierarquias eclesiásticas. Assim, a importância secundária até
agora atribuída à relação entre a criança e o seu padrinho reforça-se numa
ligação individual e profunda entre a criança e o adulto.
No contexto urbano ou do campo, quando são ministrados os sacramentos,
durante as celebrações dos dias de festa ou por ocasião dos grandes eventos
litúrgicos, os ritos são acompanhados de uma prédica de que ela própria é
parte integrante. A pregação constitui um formidável meio de comunicação e
de educação para os clérigos que se ocupam do cuidado das almas. Através
dela, são comunicadas as doutrinas religiosas em que se deve acreditar, e as
formas de devoção e de piedade a praticar, especialmente no momento em
que a compreensão da língua latina é limitada a faixas muito exíguas da
população, logo, da massa dos fiéis, sentem a exigência de outros canais
para a compreensão dos princípios necessários para alimentar a sua vida
devocional. A importância do papel de mediação cultural assumida pelos
pregadores suscita nos meios eclesiásticos uma crescente atenção pelos
instrumentos utilizados e pelos mecanismos de recrutamento e de controlo
que as instituições devem manter sobre este sector cada vez mais importante
para a vida religiosa. De facto, ao lado do clero regular e secular, é
reforçada a presença de pregadores itinerantes pertencentes ao mundo laico,
cuja mensagem nem sempre é respeitosa dos princípios aprovados pelas
hierarquias. Além da pregação nas igrejas, local tradicional de encontro,
quando o sucesso é de molde a tornar os edifícios sacros insuficientes,
prega-se nas praças, nas ruas, nos campos. Este hábito aumenta um difundido
sentido de familiaridade dos fiéis com a esfera do sagrado, aumentando na
sociedade a necessidade de espiritualidade e o costume das práticas de
piedade a partir daí consideradas parte integrante da vida quotidiana.
A necessidade de religiosidade vivida e praticada contribui para o grande
sucesso das ordens terceiras e legitima o bizzocaggio, um fenómeno em
constante aumento ao longo do século XV. Consiste numa forma de agregação
à vida religiosa que, mesmo assumindo uma conotação pública através da
adoção de um traje semelhante ao das monjas, não está ligado à vida comum
e a uma instituição conventual, mas é uma escolha individual e autónoma, que
só muito mais tarde será regulamentada pelas hierarquias eclesiásticas.

V. também: O papa e as hierarquias eclesiásticas, p. 174: As ordens religiosas, p. 179;


As inquietações religiosas, p. 214; Cerimónias, festas e jogos, p. 241;
Poesia religiosa: as laudas, p. 516.
A GUERRA: ENTRE TRADIÇÃO E INOVAÇÃO
de Francesco Storti

No século XV afirmam-se as armas de fogo e delineiam-se processos


políticos que levam à formação dos exércitos permanentes e ao
desenvolvimento de novos organismos táticos. Trata-se de uma fase
de experimentação, operada tanto na vertente da afinação de
esquemas bélicos tradicionais e experimentados, como através da
assimilação de formas militares inéditas, porquanto ligadas a
ordenamentos socioculturais ancestrais (infantarias suíças), e que dá
vida à arte militar moderna.

A organização da guerra na Europa


A cena militar europeia do século XV é dominada pelos mercenários. Nem
as obrigações feudais nem o recrutamento de soldados entre a população são
extintos: no entanto, estes sistemas ocupam uma zona marginal do mundo
militar e, em parte, são mantidos onde as urgências da guerra se revelam
mais prementes. É o caso de França, ainda empenhada na primeira metade do
século no devastador conflito com a Inglaterra: os reis franceses continuam a
convocar os nobres para o serviço militar com a fórmula do arrière-ban
(recrutamento indireto), revisão da antiga chamada às armas carolíngia
(hériban), e recolhem corpos de archeiros e besteiros nas comunidades e nas
paróquias, embora o sucesso destas ordenanças se revele dececionante; do
mesmo modo, os reis de Germânia proclamam ainda o recrutamento feudal
(Lehnsaufgebot). Mas é o serviço dos mercenários, como se afirmava, que
predominava. As acrescidas dimensões dos conflitos impõem-no e os
recursos financeiros dos Estados europeus, aumentados na sequência do
aperfeiçoamento das estruturas administrativas, permitem-no. Além disso, a
aristocracia ocidental, que resiste a prestar o servitium debitum de
vassalagem feudal, mostra-se inclinada a fazer valer a sua aptidão guerreira
ancestral oferecendo-se ao mercado da guerra. Assim, a fórmula do contrato
de mobilização, elaborada ao longo do século XIV, é confirmada no século
XV como o instrumento mais adequado para integrar no sistema mercenário
aqueles que, com uma origem obscura e com escassa fortuna, estejam
interessados num recrutamento como simples homens de armas (cavaleiros)
ou soldados de infantaria, ou aqueles que, embora de origem mais elevada,
queiram inserir-se numa equipa mercenária integrando-a com um séquito
próprio ou entendam constituir uma equipa própria. De resto, as companhias,
como são chamadas estas formações, organizadas segundo o modelo das
sociedades mercantis, são estruturas abertas, suscetíveis de dilatações ou
contrações orgânicas consoante a fama e a fortuna do capitão, que propõe a
contratação do seu potencial bélico à melhor oferta.
Mas se as leis do mercado governam por toda a parte a organização da
guerra, só em Itália o sistema assume formas evoluídas. De facto, em
Espanha, na Inglaterra e na Germânia, o contrato de recrutamento militar,
embora muito difundido, pretende dar vida a esquemas de mobilização
estáveis; e ainda que em França, desde a primeira metade do século XIV, seja
visível uma maior ordem, com o recurso regular às lettres de retenue, com
que o rei assolda os seus mercenários, o recrutamento não apresenta termos
vinculativos e deve ser renegociado periodicamente.

A organização da guerra em Itália


Codificado na forma da «condotta», daí a denominação de condottiero
assumida pelos chefes das companhias, e regulado pelo direito comercial,
em Itália, o recrutamento surge subordinado a normas jurídico-contratuais
precisas, tendentes a definir os tempos de serviço e a quantidade e qualidade
das tropas que o Estado (locator) «aluga» ao proprietário da empresa
(conductor). Também é significativo que na península se afirmem as
primeiras milícias permanentes: a coerência e a estabilidade do contrato
impulsionam a estabilidade do serviço, estabelecido também para os
períodos de paz. Trata-se de um aspeto crucial do processo evolutivo que
interessa a organização da guerra na Europa e que é favorecido em Itália por
um elemento característico posterior: a profunda mescla entre instituições
políticas e grupos armados. De facto, a partir das primeiras décadas do
século XV, muitos príncipes menores adotam o recrutamento de mercenários.
É o caso da família Montefeltro de Urbino, da família Malatesta de Rimini,
da família Gonzaga de Mântua, da família Estensi de Ferrara, para referir
apenas os exemplos mais conhecidos: fundadas as suas equipas mercenárias,
entram na dialética política com o duplo papel de mercenários e estadistas,
contribuindo para orientar os seus equilíbrios para a esfera militar.
Paralelamente, as grandes companhias de mercenários das famílias
Attendoli, Sforza e Piccinini, contando com vários milhares de combatentes,
com administrações e chancelarias próprias, apresentam-se como
verdadeiros Estados itinerantes, capazes de dialogar num plano de quase
paridade com as maiores potências da península.

Os exércitos permanentes
Estabilidade das normas de recrutamento e dilatação dos tempos de
serviço; fusão entre esfera política e militar: o sistema mercenário italiano,
alimentado pelos capitais postos à disposição pelo crédito bancário e
apoiado pela cultura jurídica e pela práxis política, em suma, dessedentado
na fonte da racionalidade renascentista, dá origem a casos únicos, como o de
Francesco Sforza (1401-1466), que de condottiero se torna duque de Milão
em 1450 e, como dissemos, se encaminha para as primeiras formas de
exército permanente. De facto, retocando um sistema iniciado a partir de
1420 por Filippo Maria Visconti (1392-1447), em Milão, é consolidada no
período da família Sforza a milícia permanente dos familiares ad arma, a
guarda do duque, que em meados do século conta com algumas centenas de
homens de armas e numerosos condottieri. Na mesma época, em Veneza,
com a contratação direta pelo governo de homens de armas «livres», isto é,
não enquadrados em companhias independentes (as chamadas lanze
spezzate), é constituído um destacamento permanente de cavalaria que, entre
os anos 20 e 30 do século XV, surge rigidamente submetido à autoridade de
capitães nomeados pela república. Trata-se de sistemas muito precoces, mas
certamente não os únicos. A exigência de milícias permanentes, úteis em
tempo de paz para a conservação do Estado e utilizáveis em guerra com a
contratação de condottieri, faz-se sentir por toda a Europa e, se nem sempre
conduz a situações duradouras, inicia uma fase de experimentação vivaz.
Como em França, onde são instituídas as companhias de ordenança, ou seja,
contingentes mercenários estáveis, compostos por homens de armas e
archeiros, coerentemente repartidos entre as províncias do reino e mantidos
à custa das populações locais; experiência profícua, iniciada nos anos 40 do
século XV e seguida, na segunda metade do século, pelo ducado da Borgonha.
Por sua vez, no reino de Nápoles, a procura de um modelo de organização
permanente da milícia mercenária conduz a resultados muito singulares.
Investindo na profissionalização guerreira desenvolvida pelo pequeno
patriciado urbano do reino em mais de um século de lutas dinásticas, e
canalizando-a num dispositivo militar gerido diretamente pela coroa, os
monarcas aragoneses de Nápoles criam uma cavalaria do Estado
(hominidarme del demanio), que apresenta as marcas da modernidade. De
facto, pagas pela «tesouraria militar» e postas sob o comando de «oficiais»
de nomeação régia (homini da capo), também eles assoldados e privados de
companhias próprias, estas tropas vão formar uma verdadeira milícia
«nacional», naturalmente radicada no território, porquanto composta por
súbditos do reino, e que na segunda metade do século chega a contar alguns
milhares de combatentes.

Inovações técnicas: artilharia e armas de fogo


Mas não é só no terreno da organização da guerra que durante o século XV
se definem metas capitais: também na vertente «orgânica», relativa à
composição das forças armadas, e na vertente técnica, se registam
importantes resultados.
Entretanto, a artilharia de fogo, introduzida na Europa a partir do final do
século XIV, afirma-se maciçamente, suplantando nos cercos as máquinas com
alavancas e contrapeso dos séculos anteriores. Bombardas e morteiros de
bronze e ferro, engenhos com um peso de várias toneladas, capazes de
arremessar projéteis de pedra, são mandados construir pelos maiores
Estados europeus, os únicos capazes de reunir os recursos necessários à
realização destas caríssimas bocas-de-fogo, que vão constituir os parques de
artilharia nacional. O resultado é a alteração, mais do que da técnica do
cerco, que se mantém imutável na Europa até pelo menos ao século XVII, da
estrutura das fortificações, que assumem formas pontiagudas, em «estrela»,
para oferecer menos superfície ao tiro das bombardas e são dotadas de
proteções auxiliares e estruturas aptas a albergarem a artilharia de defesa.
Também aqui um lugar de primeiro plano cabe a Itália, onde se assiste a
um verdadeiro florescimento da artilharia, não só da pesada, mas também da
média e da pequena e fácil de transportar, utilizável tanto nas ações de cerco,
como na batalha, como artilharia de campo móvel, montada em carros, e
arma de tiro: a fantasia dos construtores italianos exalta-se e a estas armas
são dados nomes evocativos, que referem a forma afilada, a forma de réptil
(serpentinas, colubrinas), a trajetória especial desenhada pelo tiro,
semelhante ao voo das aves de rapina (gerifalco, falconete), ao ruído
(escopeta) ou que reevocam armas em desuso (zarabatanas, espingardas).

O início da arte militar moderna


No campo orgânico, os afinados conhecimentos estratégicos codificados
nos primeiros tratados sobre a arte da guerra sugerem a formação de
contingentes de cavalaria ligeira, cuja notável versatilidade operacional, já
experimentada nas guerras contra os árabes em Espanha e contra os turcos
nos Balcãs, é apreciada. Assim, grupos cada vez mais consistentes de
cavalaria ligeira, armados de lança e escudo, recrutados em Espanha
(ginetes) e na Albânia (stradiotti), começam a afluir a partir da segunda
metade do século aos exércitos europeus, no seio dos quais se afirma
entretanto uma outra tipologia de combatente: o besteiro a cavalo, que junta à
mobilidade a eficiência do tiro. De resto, também a infantaria, tanto a dos
atiradores (arqueiros e besteiros, a que se juntam mais tarde os atiradores de
escopeta), como a dos soldados a pé, armada de lança, escudo e espada, se
vai ampliando e definindo profissionalmente, dando vida a companhias
mercenárias autónomas, enquadradas por condestáveis. Por sua vez, a
cavalaria pesada, a arma tradicional por definição, é submetida a uma
profunda revisão.
Derivado da dupla «clássica» do cavaleiro e do seu escudeiro, o núcleo
tático de base da cavalaria, a lança, já constituído no século XIV por três
combatentes, o homem de armas, ou seja, o lanceiro com couraça e dois
ajudantes de armas ligeiras, é ampliado durante o século XV com a integração
de outros elementos auxiliares, todos montados, úteis para desenvolverem
uma ação coordenada em torno do homem de armas, quando, no termo da
carga, se inicia a peleja. Aqui é visível a tentativa de levar ao máximo grau
de especialização a tática guerreira do cavaleiro, encarnado pelo homem de
armas, que surge então completamente fechado numa armadura de aço, que os
progressos do artesanato tornaram ainda mais resistente e leve. Mas trata-se
do último sobressalto de uma tradição em declínio. Enquanto estas inovações
estão em curso surge a infantaria suíça e nas pontas das suas lanças, entre
1476 e 1477, nas batalhas de Grandson, Morat e Nancy, é derrubada a
vistosa cavalaria de Carlos, o Temerário (1433-1477).
É a certidão de nascimento da arte militar moderna: desde então, a
infantaria de lanceiros domina os campos de batalha. Muito juntos nos seus
quadrados reunidos através de sistemas ancestrais de união de matriz
clânica, os suíços relançam um antigo costume bélico bárbaro, que mais uma
vez – o mesmo se verificara no século precedente com a infantaria de
atiradores – as necessidades militares dos Estados europeus, empenhados em
dotar-se de instrumentos bélicos cada vez mais eficazes e brutais,
despertaram nas regiões mais isoladas e «conservadoras» do continente,
integrando-o nos seus dispositivos militares evoluídos. Deste modo, a
cultura militar europeia descobre o cuneus, a antiga formação de batalha das
tribos germânicas, e reelabora-o, através de um extraordinário percurso que,
vindo da Alta Idade Média, chega ao limiar da Idade Moderna.

V. também: O fim da Guerra dos Cem Anos, p. 40;


As guerras de Itália e o sistema dos Estados europeus, p. 53.
O PODER DAS MULHERES
de Adriana Valerio

A condição feminina, para lá dos estereótipos transmitidos e


tradicionalmente reforçados, revela-se multifacetada e dinâmica.
Isabel de Castela e outras soberanas movem-se à sua vontade nas
cortes e nas contendas políticas; outras tomam as armas
confrontando-se com o tradicional modelo masculino; outras ainda
são investidas de um poder mágico, muitas vezes desestabilizador,
que as polariza entre os polos opostos de feiticeira e de santa.

O modelo da corte
A corte é o local onde se manifesta de maneira mais evidente uma ativa
presença feminina nas suas mais amplas articulações. Sabemos como a
circulação das mulheres entre as cortes europeias através da combinação dos
matrimónios constituiu uma estratégia fundamental para estreitar alianças
entre os grandes potentados familiares e, ao mesmo tempo, uma arma
diplomática extremamente eficaz. A fim de tutelar a continuidade da
linhagem, mostram-se determinantes o papel e a capacidade de as mulheres
(mães, mulheres, filhas) conservarem e transmitirem o património, o
prestígio, logo, o poder, mesmo prescindindo das complexas regras de
sucessão. As mulheres, em particular, estão dispostas a ficar ao lado dos
maridos, soberanos e senhores muitas vezes ausentes, na gestão política e
administrativa do Estado, conseguindo não poucas vezes influenciar a sua
vida política. Isto significa que, enquanto a imagem da mulher fraca e
subalterna oferecida pelos teólogos e pelos filósofos é estereotipada, logo
obsessivamente estática, a condição real desmente estes pressupostos,
devido a instâncias antagónicas de carácter económico e político que tornam
a situação concreta mutável, dinâmica e contraditória. Estas instâncias
encontram-se também no século XV, que apresenta notáveis testemunhos de
governo feminino, muitas vezes fruto de duras provas enfrentadas pelas
mulheres para poderem afirmar-se: de Iolanda de Aragão (c. 1383-c. 1443),
a Branca de Navarra (c. 1385-1441), de Filipa de Inglaterra (1394-1430) a
Violante de França, (1434-1478), de Leonor de Aragão (1450-1493) a
Branca de Monferrato (1472-1519), para citar apenas algumas.
Acima de todas emerge Isabel de Castela (1451-1504), que, para ser
reconhecida herdeira ao trono de Castela, tem de fazer frente à decidida
oposição do irmão Henrique IV (1425-1474) e de Afonso V de Portugal
(1432-1481); contra este entrará mesmo em guerra. Juntamente com Fernando
II de Aragão (1452-1516), com quem se casou em 1469, Isabel empenha-se
num difícil processo de reunificação territorial da Península Ibérica,
acompanhado, no entanto, pelas perseguições contra as minorias religiosas
dos mouros e dos judeus. Sob o seu reinado e graças à sua corajosa
intervenção, Cristóvão Colombo (1451-1506) parte à descoberta do Novo
Mundo.

Mulheres de armas
A missão política e religiosa de Joana d’Arc (c-1412-1431) articula-se em
três momentos: salvar Orleães, libertar a França da sujeição inglesa, fazer
consagrar Carlos VII (1403-1461) como legítimo rei francês. Joana é uma
mulher de armas que veste trajes masculinos e guerreiros: uma anomalia
cultural para uma rapariga que, acima de tudo, vive a opção militar como
experiência religiosa.
Depois de muitas vitórias no campo de batalha, é entregue aos ingleses em
dezembro de 1430 e processada como herética e queimada viva no dia 30 de
maio de 1431. Entre as imputações encontramos a sua recusa de «despir» os
trajes masculinos, uma atitude lida pelos juízes como ato de insubordinação
perante a Igreja. Reabilitada a 7 de julho de 1456, Joana encarna o emblema
da mulher, que, face ao desencadeamento de uma crise política, consegue
libertar o seu povo opondo-se ao poder inglês através da assunção de
comportamentos tipicamente masculinos e colocando-se à cabeça de um
exército que lhe reconhece a autoridade de chefe militar. Joana não é a única
a pegar em armas nesse século.
Maria de Castela (1401-1458), rainha de Aragão, mostra-se igualmente
hábil na arte militar; Isabel de Lorena (1400-1453) toma posse do trono de
Nápoles a combater; Gentile Malatesta (?-1450), senhora de Faenza, à
cabeça das suas tropas entra no território da República de Veneza para
defender a sua senhoria, obtendo alguns sucessos; Catarina Sforza Riario
(1463-1509), senhora de Forlì, combate pessoalmente para defender a
fortaleza de Ravaldino; Verónica Gambara (1485-1550), senhora de
Correggio, consegue repelir uma tentativa de invasão.

Santas e feiticeiras. O poder da fé


Embora o concílio de Constança tenha posto termo ao Grande Cisma do
Ocidente (1378-1417), que viu no seio da Igreja a luta entre fações opostas
para estabelecer a legitimidade da sede pontifícia, as grandes questões que
exigiam uma profunda reforma moral e institucional não encontram solução.
É neste período que assistimos a um aumento do número de mulheres com um
papel profético, que se manifestam numa crítica cerrada às autoridades civis
e religiosas. Margarida de Saboia (c. 1390-1464), Francesca Romana (1384-
1440), Catarina de Bolonha (1413-1463), Verónica de Milão (1445-1497),
Catarina de Génova (1447-1510), Colomba de Rieti (1467-1501), Helena
Duglioli (1472-1520) são alguns dos nomes mais respeitáveis de místicas
empenhadas na árdua tarefa de reforma da cristandade.
Algumas delas são santas de família, como garantia da sacralização do
poder; outras, como lhe chamam os discípulos, que veem na sua sapiente
orientação a presença de Deus, são consideradas «mães divinas»; outras
ainda são fundadoras imparáveis, como Colette de Corbie (1381-1447), que
reforma a ordem das clarissas fundando em 40 anos, na França dilacerada
pela Guerra dos Cem Anos, 17 conventos femininos, tendo conseguido obter
o apoio das aristocráticas Branca de Saboia, Margarida de Baviera (1445-
1479) e Isabel de Portugal (1432-1455). Colette, a quem são atribuídos dons
taumatúrgicos – da cura até casos de ressurreição – redige também as
Costituzioni, aplicadas durante cinco séculos em mosteiros espalhados por
todo o mundo.
Ao lado da figura da mística, ao espelho, encontramos, a da feiticeira.
Através do uso de gestos e palavras influentes (proféticas e mágicas), ambas
procuram criar novos espaços de identidade e de reconhecimento. A invasão
mística – que supera a mediação jurídica masculina na relação com o
sagrado – e a possessão diabólica – que permite à mulher espaços de
autonomia e de poder na criação de desordem na vida da Igreja – vivem
experiências análogas e usam os mesmos meios expressivos, suscetíveis, no
entanto, de diversas inspirações e exigências. As autoridades têm dificuldade
de distinguir entre presença do divino e do demoníaco.
Em 1487, Inocêncio VIII (1432-1492, papa desde 1484), após a bula de
1484 Summis Desiderantes Affectibus, encomenda a dois dominicanos,
Heinrich Krämer (c. 1430-1505) e Jacob Sprenger (c. 1436-1494), o
Malleus Maleficarum, um manual redigido para os inquisidores a fim de
lhes permitir estabelecer eventuais presenças diabólicas nas mulheres, uma
obra que se limita a reforçar o conceito de inferioridade fisiológica, moral e
jurídica já aceite há séculos. Paradoxalmente, a feiticeira, devido à sua
fraqueza, representa um concentrado de poder negativo, que exerce em
prejuízo dos outros graças a um pacto com o diabo. A mulher, precisamente
devido à sua fragilidade, é mais sensível às adulações do demónio, que lhe
confere poderes extraordinários.

A Cidade das Mulheres


Cristina de Pisano (c. 1364-c. 1430) trabalha na corte francesa de Carlos
V (1338-1380), o que lhe permite viver do trabalho de literata. Em
1401escreve Dit de la Rose, em que contesta as posições misóginas
assumidas por Jean de Meung (c. 1240-c. 1305) e inicia a sua obra mais
famosa O Livro da Cidade das Mulheres, em que exprime a sua visão
política, tendo no centro o universo feminino. A autora, confortada pela
Razão, pela Retidão e pela Justiça, que lhe aparecem nas figuras de três
damas, dá início à construção de uma utópica cidade da mulher, onde as
figuras femininas, tratadas pela literatura bíblica e clássica, constituem pela
sua exemplaridade a estrutura sobre a qual esta cidade é regida. A partir de
De Mulieribus Claris, de Giovanni Boccaccio (1313-1375), Christine
reescreve alguns retratos de mulheres, escolhidas e valorizadas não pela sua
excecionalidade, mas mais pela universalidade das virtudes que
representam. A presença das mulheres na história não é medida através de
um conceito arbitrário de natureza, mas do exercício das virtudes.
Com Cristina de Pisano tem início a época que foi definida como a da
querelle des femmes. São panfletos que suscitam em toda a Europa um amplo
e articulado debate, que se arrastará por cerca de três séculos, dando origem
a uma inúmera série de publicações: disputas, tratados, diálogos e libelos
satíricos argumentam em torno da igualdade ou da diferença entre os sexos;
um repertório de obras encomiásticas, misóginas e didascálicas, que chega
às Escrituras, mas também à razão e às experiências para justificar ora a
inferioridade, ora a igualdade, ora a superioridade da mulher em relação ao
homem. Através do uso frequente da retórica do paradoxo alguns publicistas
lançam as bases para uma discussão dos esquemas conceptuais, que a
antropologia filosófica e teológica elaborara relativamente a papéis e
identidades. Será graças a esta tratadística que se enfrentará a questão do
poder feminino.
O cardeal Pompeu Colonna (1479-1532), por exortação da poetisa Vittoria
Colonna (1490-1547), sua prima, escreve uma Apologia Mulierum (1524),
límpida exortação ratione atque natura, que confuta as erróneas opiniões
tradicionais, justifica histórica e filologicamente a igualdade dos dois sexos
e, consequentemente, a real possibilidade de as mulheres aristocráticas
participarem ativamente na vida social e política.
Erasmo de Roterdão (c. 1466-1536) faz dizer à douta Magdalena,
escarnecida como mulher por um abade burro, «Se vós, homens, não
estiverdes atentos acontecerá que nós, mulheres, ensinaremos teologia e
pregaremos na igreja e privar-vos-emos das vossas insígnias sacerdotais…
O cenário do mundo está a mudar» (Erasmo de Roterdão, I Colloqui, 1967).

V. também: A caça às bruxas, p. 207; A Inquisição, p. 211.


CERIMÓNIAS, FESTAS E JOGOS
de Alessandra Rizzi

O século XV coincide com um período de consolidação geral. Os


organismos estatais estabilizam-se em bases territoriais mais amplas,
vislumbrando a necessidade de intensificar o controlo sobre os
governados e dispondo-se a redesenhar uma sociedade cada vez mais
ordenada (o público invade o privado intervindo nos seus
comportamentos). A Igreja, depois da crise do século XIV, consolida a
sua fisionomia temporal e, respondendo a uma necessidade
partilhada de regeneração e retorno à verdade das origens, retoma o
seu papel espiritual colocando-se sobretudo como censora e
moralizadora dos costumes e dos hábitos da época; finalmente, são
muitos os impulsos do mundo da ciência e das artes em geral, que
iniciam um verdadeiro renascimento cultural.

Jogos de azar e apostas entre condenação e gestão


A novidade do período no âmbito da esfera lúdica é a difusão das cartas
de jogo, que se juntarão aos dados, aumentando os jogos de azar e as
apostas: os jogos de cartas serão assim motivo de forte condenação, mas, por
outro lado (seguindo o exemplo do xadrez), entrarão também na tratadística
do tempo, numa perspetiva moralizadora, descrevendo o estado do mundo
(sobretudo a partir do Tractatus de Moribus et Disciplina Humanae
Conversationes, que remonta como parece a 1377, do dominicano suíço
João de Rheinfelden, séculos XIV-XV).
Provenientes do Oriente através da cultura islâmica, surgem na Europa
(sobretudo França, Itália, Espanha e Germânia) cerca dos anos 70 do século
XIV, mas afirmam-se no século seguinte, graças sobretudo ao sucesso de que
gozam junto das cortes europeias. Em Ferrara, em particular, regista-se uma
notável variedade e difusão de jogos com as cartas, bem como um interesse
pela sua produção, e mais precisamente pelo tarot, provavelmente nascido
na cidade de Este e difundido nas cortes italianas do norte de Itália: às cartas
numeradas dos naipes, juntam-se 22 figuras alegóricas extraídas de um
repertório figurativo bastante habitual na época medieval (constituído pelas
alegorias das virtudes cardeais – excluindo a Prudência; da estrutura
cósmica – Sol, Lua, estrelas, mundo; do poder espiritual e temporal –
imperador e papa; do destino – a roda da sorte, o amor, a morte, o juízo final;
das condições humanas – o tolo, o traidor, o mago, o eremita).
A Igreja – embora aprofunde a reflexão sobre o jogo de azar, confirmando
a legalidade dos ganhos derivados e oferecendo à teologia moral e à doutrina
jurídica dos séculos vindouros a oportunidade de discutir sobre as relações
entre fenómenos casuais e regras económicas – empreende com as ordens
mendicantes (com a Observância franciscana à cabeça) uma campanha
articulada contra o jogo de azar (parte de uma moralização mais geral dos
costumes contemporâneos), que, à habitual ação pastoral (pregação em
público e confissão individual), junta gestos surpreendentes: são exemplos
disso as conhecidas fogueiras, em que, juntamente com os instrumentos de
jogo (dados, cartas, tabuleiros) se convida a queimar todos os sinais de
vaidade humana (adornos, roupa e ouropéis desaconselhados às mulheres –
franjas, chapéus, perucas – e os livros do Index…). De qualquer modo, a
ação da autoridade pública (por vezes acordada com os religiosos, quando
elaboram juntos, ainda que só provisoriamente, normas mais restritivas em
relação ao jogo em geral) ressente-se da reforma dos costumes em curso por
ação da Igreja: é redefinida a própria natureza do jogo ilícito, em que, por
exemplo, são punidos sobretudo os delitos cometidos não tanto em lugares e
tempos que podem fugir ao controlo público (em casa, ou na taberna, de
noite…), mas em locais que proporcionam maior escândalo (mais durante as
festas religiosas do que em espaço aberto e em público). Todavia, com
atitudes e escolhas em contratendência, a autoridade pública prefere na
prática (judicial) atitudes de maior flexibilidade, não perseguindo com a
mesma obstinação com que proíbe os delitos de jogo; por outro lado, também
não renuncia, face à agudização dos matizes de condenação, ao jogo do
Estado: assim, nas bancas de jogo públicas, aos dados juntam-se as cartas, e
os proventos do imposto do jogo público continuam a ser recolhidos até
mesmo na Roma dos papas e para lá dos Alpes. Progressivamente, a casa de
jogo controlada pela comuna ou pelo Estado no decurso do século é
suprimida, mas não se renunciará a tirar proveito de jogos e apostas,
percorrendo novos (e mais rentáveis) caminhos: da introdução de novos
impostos (sobre o selo, a fabricação e a venda das cartas), à difusão do loto
e das lotarias no século XVI.

O jogo necessário
A releitura em termos positivos da esfera lúdica pelo mundo religioso não
beneficia apenas o campo económico. Em concomitância com a
revalorização do corpo operada nos últimos séculos da Idade Média,
também os severos homens de Igreja reconhecem o jogo como realidade
inata do homem. Não se trata de uma novidade, mas é no século XV que a
reflexão amadurece. Voltando a ligar-se às auctoritates do passado –
sobretudo Ugo de São Vítor (c. 1096-1141) e Tomás de Aquino (1221-1274),
por sua vez devedor de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) – também os severos
pregadores quatrocentistas da geração seguinte a Bernardino de Siena (1380-
1444) – sobretudo os franciscanos Giacomo della Marca (1393-1476),
Cherubino de Espoleto e Bernardino de Feltre – defendem, para o nobre e
virtuoso objetivo de dar conforto à alma, a necessidade do exercício físico
moderado, reabilitando, em determinadas condições (desde que não se
oponha a Deus, ou não seja praticado por avidez, ou prejudique o
próximo…), jogos de adestração (com as armas, a bola), de engenho, a
dança, etc., indicando também aqueles que se adequam a esta ou àquela
idade. Contemporaneamente, conhecidos expoentes da cultura humanista
(muitos dos quais pertencem à ordem religiosa), inserem jogos e exercícios
físicos nos seus tratados educativos, dedicados a quem deve governar. É
válido para todos o que escreve Pio II (1405-1464, papa desde 1458), em
De Liberorum Educatione, ao jovem Ladislau (1440-1457), rei da Áustria,
Boémia e Hungria: dado que deverá combater contra os turcos (na «nova»
cruzada), o futuro Pio II sugere-lhe que se exercite com o arco, a atirar setas,
a fazer girar a funda, a lançar a asta, a cavalgar, correr, saltar, caçar e nadar.
A prática lúdica torna-se instrumento para o fiel governante votado ao
serviço do seu povo e da Igreja. No entanto, a «cristianização» definitiva do
jogo (de adestração) chegará no século da reforma católica: serão seus
garantes as novas ordens religiosas nos seus collegia nobilium destinados à
educação dos jovens da classe dirigente.

A sociedade em festa: espetáculos públicos e jogos de corte


No final da Idade Média a festa assume uma forte conotação política: cada
momento importante de uma comunidade determina geralmente uma
«resposta» em termos de celebração do acontecimento bem como de sentida
participação coletiva. As ocasiões para fazer a festa são infinitas, desde os
acontecimentos que têm uma repercussão imediata em toda a comunidade (a
derrota de um inimigo, a conclusão de uma paz, a mudança de regime, a
submissão a um novo senhor…) aos «encontros» mais diretamente ligados
com os seus líderes políticos (nascimentos ou batismos de um herdeiro,
casamentos, visitas importantes, passagens significativas, juramentos de
cavaleiros, coroações ou investiduras por autoridades superiores,
funerais…). São também muitas as formas de manifestação, desde as mais
espontâneas às mais complexas, que podem exigir imposições fiscais
suplementares aos governados: fogueiras noturnas, danças e cantos,
«concertos» de música instrumental, banquetes; e também jogos de armas (de
diversão e adestramento), encenações de conteúdo sacro e profano, corridas
(a pé ou a cavalo), festas cavalheirescas, procissões, até às grandes
cerimónias de Estado, em que tudo (gestos, aparatos cénicos, manifestações
lúdicas, etc.) assume valor simbólico e contribui para formar o ritual do
poder. São festejos instituídos para a ocasião ou a repetir anualmente para
sublinhar (interna e externamente) a importância de um acontecimento ou as
«virtudes» de um senhor, para celebrar um «bom governo», ou procurar
consensos, mas, sobretudo, para afirmar uma soberania. A festa torna-se
então elemento de agregação, mas, sobretudo, de controlo da socialidade. No
final do século XV, até o severo homem de Igreja Girolamo Savonarola
(1452-1498) está consciente disso, ao acusar por exemplo – não sem
exagerar – o regimento florentino de utilizar «espetáculos e festas» para que
a gente da cidade pense no governo da sua casa e não se ocupe dos segredos
do Estado, para que sejam inexperientes e imprudentes no governo da
cidade, para que seja apenas ele a governar» (Prediche sopra Aggeo con il
Trattato circa il Reggimento e Governo della Città di Firenze, 1965). Em
suma, a festa «adaptou-se» à mudança das circunstâncias políticas e sociais,
tornando-se, no fim, cerimónia, espetáculo para (e de) as novas elites e os
novos senhores. De resto, a espetacularização permeia todos os
acontecimentos lúdico-festivos, mesmo formas nascidas com outro objetivo,
como as competições de tiro ao alvo (com arco ou besta), em que, com a
evolução da arte militar (a introdução das armas de fogo e a organização do
adestramento militar), a valência de adestração cede definitivamente ao
ludus, ao espetáculo e à competição desportiva para poucos campeões. De
modo análogo, as «pequenas batalhas» – os recontros armados entre grupos
citadinos opostos, atestados na Itália de tradição comunal, mas também para
lá dos Alpes – perduram ainda no século XV, mas só onde já existem
espetáculos para escoar, com armas não ofensivas, a violência juvenil das
camadas populares, ou para celebrar visitas importantes, inseridas em
programas mais amplos de festejo, em que participam também príncipes e
senhores.
Assim, a autoridade pública amadurece, no final da Idade Média, a
consciência do papel do jogo e da festa na sociedade contemporânea e afina
a sua gestão (utilizando atentamente o instrumento legislativo). Isto não
impede que a festa política degenere, mostrando a dissensão, mas não se
tornando subversiva.
Finalmente, também desempenha na corte um papel importante no âmbito
das atividades lúdicas da época. Em torno dela, desenvolve-se uma
civilização, a das boas maneiras, tornando necessário conformar cada gesto
e ação, incluindo os jogos. Na corte, praticam-se jogos de todos os tipos sem
diferenças com os populares, que (como no caso das cartas) são testados e
aperfeiçoados, para depois serem difundidos no exterior entre os estratos
mais baixos da sociedade. Os jogos de corte distinguem-se dos praticados
pelas classes inferiores em função dos participantes, do modo como são
vistos e sancionados no seio do mundo cortês e das finalidades implícitas.
Na corte é de sublinhar, por exemplo, a grande participação feminina na
atividade lúdica (componente da sociedade ainda ausente – ou pouco
atestada – no que se refere aos estratos mais baixos). Pelo contrário, é o
confronto entre sexos que interessa o auditório. Além disso, mudam a
perceção que se tem dos jogos de corte e as finalidades que assumem. De
qualquer modo, na «lógica» cortês (sobretudo nos tratadistas quinhentistas),
o jogo popular é indício de conduta moral desviante, mas na corte tem
virtudes terapêuticas e restauradoras, é necessário praticá-lo, sendo mesmo
de censurar quem se subtrai a ele. O jogo cortês configura-se ainda como
uma atividade realizada na justa medida e nas formas lícitas, e é remédio
para a dureza e o cansaço da vida da corte. Isto implica que a prática lúdica
se institucionaliza, tornando-se uma profissão: príncipes italianos (Estendi,
Médicis ou Gonzagas) referem nos seus livros uma categoria compósita de
profissionais do jogo e da festa (falcoeiros, adestradores de aves,
pescadores, anões, bobos, fogueteiros, bailarinos, mestres de esgrima e de
baile…). Além disso, aos nobres da corte é permitido fazer jogos que não
são permitidos a todos: em muitos casos existem derrogações explícitas;
noutros, o ludus illicitus (o que implica apostas) é tolerado, diz-se, desde
que o jogador divida os ganhos e aceite serenamente a derrota (o jogo de
azar torna-se então uma oportunidade para exercer a virtude da liberalidade).
Além disso, o ludus cortês revela-se um instrumento de ascensão social,
elemento agregador, tempo da pacificação (logo, em oposição ao popular). O
seu sucesso é ainda marcado pela suspensão e pela redefinição da ordem
vigente na corte: o príncipe, extraordinário para quem deve ter a primazia,
pode perder! Esta possibilidade de «interromper» um papel é a razão pela
qual o jogo cortês é apreciado e procurado. Para o príncipe, o jogo
transforma-se na oportunidade de fazer e experimentar o que é proibido ao
seu nível: em suma, serve-lhe para se distrair e aliviar as tensões da vida da
corte. O jogo torna-se assim o lugar «da liberdade, da verdade […] na
constituição de uma nova ordem de uma outra archìa, destrói a ordinária,
oficial, tornando-se o antídoto quotidiano salutar aos venenos da hierarquia.
Não se trata de uma alternativa à hierarquia, mas de uma temporária e
conciliatória hierarquia alternativa» (Guido Guerzoni, «Ei non distinguea i
giouchi patrizi da i plebei». Note sul Gioco Aristocratico e Cortese tra
Quatro e Cinquecento, 1996). Por isso, o jogo cortês, onde é possível não
fingir (como se foi obrigado durante a vida de corte), pode transformar-se
em instrumento para investigar a verdade e tornar-se útil ao príncipe para
governar.

V. também: As senhorias em Itália, p. 119; As aristocracias e as burguesias, p. 170;


A vida religiosa, p. 229; O poder das mulheres, p. 237;
Festas, farsas e representações sacras, p. 526; Teatro de corte, p. 530;
Os cantos carnavalescos, p. 739.
A VIDA QUOTIDIANA
de Silvana Musella

No século XV a melhoria das condições económicas determina uma


regressão gradual da mortalidade devida à peste e a um simultâneo
aumento da natalidade. Nas casas surgem os vidros nas janelas e o
poço negro para a recolha dos resíduos orgânicos. Gibão e meias
policromas com a presilha reforçada caracterizam o vestuário
masculino do século XV; uma extrema variedade de feitios e cores, o
feminino. A alimentação é mais rica e diversificada, é difundido o uso
dos talheres na mesa, mas muitas vezes usam-se ainda as mãos. Surge
uma nova doença terrível: a sífilis.

A vida privada
A regressão gradual da peste não se deveu à redução da virulência do
bacilo, mas sobretudo a uma melhoria das condições económicas e ao
consequente aumento da natalidade. As terras e as vilas, abandonadas
durante um tempo, são habitadas de novo e em todo o Ocidente assiste-se a
uma decidida recuperação, embora não ao mesmo ritmo em todas as regiões.
As estruturas familiares vão-se simplificando e, embora as famílias
aristocráticas continuem a viver juntas nos grandes palácios, os mercadores
ricos começam a multiplicar as residências criando famílias mononucleares.
De qualquer modo, a importância da continuidade da estirpe exige que os
filhos contraiam matrimónios convenientes e que por sua vez possam gerar
filhos masculinos. O nascimento de uma filha é geralmente um grande
desprazer, mesmo que, com casamentos de oportunidade e com dotes
adequados, dê a possibilidade de efetuar ascensões sociais. O casamento é
agora gerido pelas respetivas famílias, muitas vezes com a utilização de
intermediários, que recebem um rendimento por esta atividade. Permanece
de pé o princípio canónico que proíbe casamentos entre consanguíneos até ao
quarto grau, do qual muitas famílias aristocráticas pedem a dispensa ao papa.
Os nobres tendem a casar-se entre si, do mesmo modo que as camadas
emergentes, tanto as ligadas ao exercício das profissões livres, como as
ligadas ao comércio. O fatídico «sim» pode ser pronunciado sem intervenção
de terceiros, mas muitas vezes está presente um notário, um juiz ou um
sacerdote para dar maior oficialidade ao ato. A cerimónia tem a sua
conclusão na troca do beijo e com a colocação do anel na mão da esposa,
realizada por um parente ou por uma personalidade respeitável.
A cerimónia religiosa da bênção na igreja distingue-se pelo rito. Está em
uso o antigo hábito de estender um véu branco sobre a cabeça dos esposos e
de lançar sobre eles trigo, flores e frutos secos como augúrio de
prosperidade. Estas cerimónias atingem muitas vezes um tal excesso de
fausto, que se intervém para as conter. O objetivo do casamento é a
procriação, mas o parto é um momento de grande perigo, e muitas mulheres
fazem testamento. A ocasião do batismo permite que as famílias mais
abastadas mostrem a sua feliz condição. Nas fraldas das crianças são
geralmente colocadas as imagens de santos protetores. A onomástica
renascentista adequa-se aos hábitos familiares, repetindo os nomes dos pais
e dos avós. A educação dos filhos é tarefa da mãe, mas começam a aparecer
tratados sobre a educação das crianças para as coadjuvar na difícil tarefa.
Como o casamento, também o funeral é uma ocasião de reunião para todos
os membros da família. Os mais abastados têm um túmulo de família na
igreja ou no convento. Continua a atividade das confrarias para o
acompanhamento dos defuntos. Os pobres são colocados nas fossas comuns
nas igrejas. O luto é indicado também pelo vestuário exterior: para as
mulheres, os mantos negros e os véus brancos, para os homens, a barba
comprida.

A casa
No final do século XIV e no início do século XV, os edifícios urbanos
começam a ser construídos em vários pisos, altos e estreitos, assumindo
assim o aspeto de torres. Habitualmente, cada casa é autónoma nos seus
quatro muros de perímetro. Entre cada casa existem as regueiras, que
recolhem excrementos e lixo. No século XIV, os alpendres construídos diante
da porta de entrada unem-se dando lugar a amplos e cómodos pórticos. Nas
janelas, primeiro, fechadas por portadas de madeira ou de pano encerado,
surgem os vidros. Pela primeira vez, é possível olhar para fora do interior
das casas e, pela primeira vez, a luz do sol pode entrar nos espaços. Nestas
casas, assume um grande relevo o patamar: uma estreita e longa varanda de
madeira ou tijolos. Para aceder da rua aos pisos superiores, usam-se escadas
exteriores, mas também existe a possibilidade de haver interiores, fazendo-
as preceder de uma espécie de corredor-átrio, fechado por uma porta. Não
existem condutas para a água nas casas, sendo necessário recorrer ao poço
público. Os prédios mais ricos são dotados de um poço próprio. Uma grande
novidade é constituída pela difusão do poço negro que recolhe os resíduos
orgânicos depositados nas latrinas. Geralmente, está situado na horta, sendo
constituído por um espaço entre dois edifícios adjacentes, murado de ambos
os lados e descoberto no alto.
A grande difusão da representação pictórica da cena da anunciação a
Maria, ou da natividade, torna-se no século XV ocasião para uma pintura
realista e fornece-nos uma enorme quantidade de imagens dos campos em
torno das cidades (cujas muralhas surgem à distância), de trajes e costumes
dos camponeses, de aspetos de interiores com móveis e adereços. Nas casas,
os pavimentos são de tijolos, dispostos com grande variedade de formas e
desenhos. Muito usados, nas casas mais ricas, são os azulejos de faiança com
belas cores. Na segunda metade do século, nos aposentos nobres, surgem os
mármores. O mobiliário continua a ser muito simples e não são introduzidos
novos elementos; nas casas mais ricas, difundem-se os tapetes na mesa e no
chão, enquanto sobre a cama, de dia, se estende o dobletto, uma colcha com
saia com as armas da família. O revestimento das partes inferiores das
paredes com madeira com embutidos, para as proteger dos estragos da
humidade, torna-se moda.

O vestuário
Um dos aspetos mais interessantes relativamente ao problema do luxo no
vestuário está ligado à questão do contexto. De facto, é importante saber
porque se vestem roupas preciosas, quem as pode usar e a que norma estética
se adequam. Obviamente, a sede principal de ostentação é a corte, local
pleno de símbolos de pertença, que constitui a cena em que se movimentam
todas as personalidades; ela representa um mundo à parte, em que o
vestuário assume um papel substancial.
Os tecidos de lá, mesmo de manufatura preciosa, são sempre mais
superados pelas sedas mais finas e coloridas: brancas, azuis, cremes,
vermelhas, negras e celeste. As sedas italianas, de uma só cor ou
trabalhadas, são exportadas para toda a Europa. Também os veludos são
fabricados em seda. Os panos de ouro ou brocados apresentam fios de seda e
de metal e podem ter desenhos em ouro sobre fundo de seda ou desenhos em
seda sobre fundo de ouro. Tentam-se também tessituras em prata, mas a
oxidação do metal anula o brilho inicial. O povo usa roupa em fustão, tecido
de algodão misturado com lã com cores mortiças. O uso de forrar o vestuário
caseiro com pele determina grandes importações de peles do estrangeiro.
No início do século, o vestuário, de acordo com a moda do século XIV, é
cada vez mais cingido devido ao comprimento das caudas, que permite um
grande esbanjamento de tecido, símbolo de riqueza. Contra estes hábitos,
ergue a voz São Bernardino de Siena (1380-1444) em 1424 nas suas
Prediche Volgari: «Tu, marido, que aceitas que a mulher faça a cauda, e o
alfaiate que a ajuda, e até quem vende o tecido, se o faz com a intenção de
fazer a cauda, e a mulher que a usa, todos pecam mortalmente.»
O traje elegante do final do século é mais amplo e tem rendas. Sobre a
camisa, as mulheres usam saias compridas denominadas gamurre ou socche,
ornadas de franjas e rendas, com mangas quase sempre rendadas. Começam a
ser usadas as cuecas. Uma revolução no vestuário é constituída pela
introdução de rendas e rendilhados. Nos retratos deste período, surge
difundida a moda de usar o seio descoberto, sobretudo em Veneza, onde a
pregação na igreja e as leis do Senado não conseguem reprimir o costume.
Para cingir as vestes na cintura, são muito usados os cintos de veludo, com
fivelas de prata, e todos os tipos de acabamento. O comprimento dos
vestidos e das caudas deixa pouca atenção para as meias e os sapatos. As
meias, de tecido escarlate ou de seda, chegam ao joelho e são seguras por
jarreteiras em tecido. Podem ser rendadas e ter solas. O calçado elegante é a
chinela de brocado ou de veludo. Para a rua, para evitar a lama e o pó, são
usadas chinelas muito altas. Fazem parte do vestuário elegante as luvas, mais
leves no verão, grossas e com rendas no inverno. Leques e sombrinhas
entram no enxoval da mulher requintada.
De tudo isto emerge uma nova atenção à juventude e à beleza feminina. A
polémica dos pregadores e moralistas contra as mulheres que usam vestidos
sumptuosos é antiga e neste período cresce de intensidade precisamente
porque, através do traje, da maquilhagem e dos toucados, se evidencia uma
exteriorização do corpo e um papel por ele desempenhado na sociedade
contrário ao percurso da vida composta e pudica desejada pela Igreja. Quem
privilegia o aspeto exterior fá-lo em detrimento da interioridade preciosa da
alma.
Despreocupadas de tais admoestações, as mulheres continuam a sua busca
da perfeição estética: torna-se necessário fazer a depilação com produtos à
base de cal, que queima os pelos e muitas vezes provoca queimaduras na
pele; os cabelos louros estão na moda e são descolorados com lixívia forte,
casca de laranja, cinza e enxofre. Também se usam tranças e madeixas
postiças para aumentar o volume da cabeleira. Elaborados toucados cobrem
a testa com bandas laterais e são obra de cabeleireiras. As grandes damas
revelam as últimas novidades em termos de tintas, cosméticos e perfumes.
Franco Sacchetti (c. 1332-1400) elogia as mulheres definindo-as como
«mais pintoras do que Giotto».
Gibão e meias policromas com presilha reforçada caracterizam o vestuário
masculino do século XV. Por cima, usam-se capotes, peles, mantos ou bolsas.
Os homens também usam luvas de couro de camurça até ao cotovelo. No
princípio do século volta a estar na moda o rosto sem barba e a cabeleira até
metade da orelha. A primeira barba dos adolescentes é festejada como a
entrada na virilidade. No final do século preferem-se de novo as barbas
compridas. Mesmo para os homens, a lavagem da cabeça é um rito
absorvente que os obriga a estar durante horas com a cabeça envolvida por
um pano. Existem mulheres, que não gozam de boa fama, especializadas
nesta atividade.
As incipientes calvícies obrigam muitas vezes ao uso de toucas ou barretes
quando não se quer usar perucas masculinas que fazem a sua tímida aparição.
Assim, os homens não têm menos interesse em manter-se a par das modas
mais excêntricas e, dado que a nova riqueza mais difundida permite investir
dinheiro no vestuário, estas assumem um valor simbólico. As leis
sumptuárias intervêm diversas vezes para regulamentar os excessos do
vestuário, mas são geralmente ignoradas. As joias também assumem uma
grande importância para ambos os sexos. Aparecem os brincos, antes usados
apenas pelas ciganas. Os anéis são usados em todos os dedos, também pelos
homens, com o selo do brasão. Muito difundida é a corrente de ouro ao
pescoço com várias voltas. Os colares de homem têm geralmente um
pendente formado por uma medalha ou por um camafeu. Mais ricas são as
gargantilhas das mulheres com pérolas e pedras preciosas. Os atos notariais
do século XV estão cheios de descrições de peças de vestuário com os
respetivos tecidos, ornamentos e estimativas de valor, tanto relativamente
aos ricos como aos pobres.

A alimentação
O pão continua a ter uma importância primordial na mesa quatrocentista: o
dos ricos é branco, o dos camponeses e trabalhadores, obtido com uma
mistura de dois terços de frumento e de um terço de cevada ou centeio, é
escuro. Muito usadas pelos mais pobres são as polentas de milho ou de grão
empastadas com leite ou óleo de nozes quando falta o azeite. Os habitantes
das zonas montanhosas podem contar com a castanha, começando a ser
utilizado o trigo-sarraceno, proveniente do Oriente. Para os marinheiros, que
partem para longas viagens, são enfornados bolachas e biscoitos. Uma
notável quantidade de trigo é utilizada para a fabricação da massa para a
sopa e para os nhoques. Favas e feijão-verde, lentilhas e grão são usados
também como acompanhamento dos pratos de carne. Em todas as mesas,
pobres ou ricas, está presente o vinho. Bebido sem limitações, é considerado
um elemento importantíssimo da nutrição, indispensável para a saúde do
corpo. Dos campos, chega todos os dias o leite, mas ainda não é muito
utilizado e é geralmente utilizado na confeção de doces. Também se vai
difundindo o uso do queijo. A gordura mais usada para cozinhar e temperar
provém do porco. Só as regiões mediterrânicas usam o azeite. A manteiga
ainda é pouco utilizada. A carne de vitela está pouco difundida, mas abunda
a carne de porco e, para os mais pobres, de carneiro. O peixe está presente
tanto fresco como salgado. O arroz ainda está pouco difundido, começando a
ser cultivado na Lombardia na segunda metade do século. Preparar a mesa e
escolher os pitéus adequados para as receções torna-se uma arte requintada,
que gera uma verdadeira tratadística. Ainda se colocam os convidados em
duplas, uma dama e um cavalheiro, porque ainda é hábito que os dois comam
de um mesmo prato e bebam do mesmo copo. Embora haja facas e colheres
para os alimentos líquidos e esteja muito difundido o garfo, a maior parte da
comida ainda é levada à boca com três dedos, procurando não se sujar muito.
Daí o costume de lavar as mãos em bacias distribuídas pelos comensais e do
toalhete para as enxugar. Todos os restos da caça, dos peixes e da fruta são
atirados para debaixo da mesa.

A situação sanitária
No final do século começa a difundir-se a sífilis. Segundo a tradição, esta
doença é levada da América pelos marinheiros de Cristóvão Colombo
(1451-1506), difunde-se em Itália com a invasão do exército de Carlos VIII
(1470-1498), causando uma epidemia que em breve se abate sobre toda a
Europa, inicialmente de maneira muito virulenta, com numerosos mortos,
transformando-se depois em doença endémica. Ainda se discute a origem
americana do flagelo, contestada por muitos médicos.
Globalmente, a situação higiénico-sanitária no século XV está em nítida
melhoria e até a ciência médica se fortifica nos seus fundamentos. Em 1472,
sai o Libellus de Aegritudinis et Remediis Infantium, que aborda questões
de puericultura. A obra é o primeiro tratado de pediatria e deve a sua fama à
sapiente fusão da rica tradição médica árabe com a europeia. Poucos anos
depois, são repropostas as práticas terapêuticas e cirúrgicas da cultura
clássica com a publicação de De Medicina, de Celso (século I). A disciplina
médica está aqui subdividida em três ramos: dietética, farmacêutica e
cirurgia. Com um original posicionamento metodológico, a obra une a
abordagem empírica à tradicional. Parecem lançadas as bases para ler no
«grande livro da natureza».

V. também: O crescimento demográfico e a expansão da economia, p. 139; As cidades, p. 148;


Um novo modelo de doença: a sífilis e a sua difusão. Girolamo Fracastoro, p. 368.
FILOSOFIA
INTRODUÇÃO
de Umberto Eco

Habitualmente, o período definido como humanismo é associado ao


Renascimento e estudado como o início da sensibilidade moderna. Mas estas
periodizações são sempre discutíveis: em muitos países, Petrarca (1304-
1374) e Boccaccio (1313-1375) são já considerados campeões do
pensamento humanista e renascentista. No entanto, se for aceite a convenção
de que Idade Moderna tem início em 1492 com a descoberta da América,
todos os humanistas pertencem ao período medieval, e teriam de considerar-
se, como nascidos na Idade Média, Ariosto (1474-1533), Leonardo (1452-
1519), Miguel Ângelo (1475-1564), Rafael (1483-1520) e assim por diante.
Aliás, não se deve pensar na passagem entre a Idade Média e o
Renascimento como uma rutura brusca e uma mudança total de paradigma.
Não se deve pensar a Idade Média como uma época dominada pelo
pensamento de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e o humanismo como a era da
redescoberta de Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.). Por um lado, no século
XV, continua a tradição da escolástica madura e a própria reflexão sobre
Aristóteles assume formas ignoradas nos séculos precedentes. É exatamente
nesta época que se afirmam duas escolas florescentes de renascimento
aristotélico, a alexandrina e a averroísta. Por outro, personagens como Pico
della Mirandola (1463-1494) tentam mostrar a unidade entre Aristóteles e
Platão. O que se refutava era a forma como Aristóteles tinha sido definido,
enquadrado, oficializado e autorizado pela teologia escolástica.
Também, não se pode pensar na Idade Média como uma época teológica e
no humanismo, como uma época de afirmação dos valores laicos. Pelo
contrário, com Marsílio Ficino (1433-1494) e com a academia platónica
afirmam-se novas formas de religiosidade, não menos intensas do que as
medievais. Quando muito, em certos aspetos, o Renascimento substitui certas
formas de «racionalismo» medieval por formas de fideísmo bem mais
acesas.
A credulidade medieval elegia a tradição paleocristã e um mundo natural
ainda em grande parte desconhecido; a credulidade renascentista elege a
tradição pré-clássica e as relações entre o mundo celeste e o mundo
sublunar.
Certamente, o que prevalece no humanismo, em relação aos séculos
medievais, é um novo sentido da filologia. Em relação aos autores antigos, é
elaborado um conceito de tradução mais dúctil e criticamente inteligente.
Afirmam-se formas «modernas» de crítica textual – veja-se o modo como
Lorenzo Valla (1405-1457) demonstra a inautenticidade da doação de
Constantino –, traduzem-se integralmente Platão (de quem a Idade Média
conhecia apenas Timeu), Plotino (203/204-270), estoicos, epicuristas e
outros autores gregos. Mas, paradoxo típico da credulidade humanista,
aceitam-se também antigos textos reencontrados, como Corpus Hermeticum,
com a mesma falta de critério filológico com que os medievais aceitaram
Corpus Dyonisianum.
Todavia, pode afirmar-se que com o espírito do humanismo se abre uma
nova conceção da relação homem-Deus-mundo. Se a Idade Média foi uma
época teocêntrica, o humanismo tem indubitavelmente características
antropocêntricas. Isto não significa que se substitua Deus pelo homem, mas
que se vê o homem como o centro ativo, o protagonista do drama religioso,
como mediador entre Deus e o mundo – e basta ler De Hominis Dignitate, de
Pico della Mirandola, para compreender como, enquanto se preparava para
retirar o globo terrestre do centro do universo, o homem do humanismo
colocava o ser humano como medida de todas as coisas.
Contribuem para o nascimento de uma nova sensibilidade diversas
correntes de pensamento, e será suficiente pensar em Nicolau de Cusa (1401-
1464), de quem recordaremos a doutrina do mundo como contração,
individuação de uma multiplicidade de coisas singulares de que Deus era a
unidade. Mas em Deus, que por isso transcende o mundo, tem-se a
coincidência dos opostos. Esta ideia fundir-se-á com muitos aspetos do
pensamento hermético e contribui para colocar em crise a busca racional da
identidade e da univocidade que havia caracterizado a escolástica.
Configura-se também com Nicolau de Cusa uma primeira ideia da infinidade
do mundo que «tem o centro em todo o lado e a circunferência em lugar
nenhum, porque circunferência e centro são Deus, que está em todo o lado e
em lugar nenhum» (Nicolau de Cusa, Da Douta Ignorância, 2,12). No seu
The Great Chain of Being (1936), Arthur Oncken Lovejoy (1873-1962)
sugere que a verdadeira ideia revolucionária da cultura renascentista não foi
a descoberta coperniciana, mas a ideia – que circula entre Nicolau de Cusa e
Giordano Bruno (1548-1600) e vai abrindo caminho através das novas
descobertas astronómicas – da pluralidade dos mundos.
Nesse sentido, o século XV é verdadeiramente uma época de transição, em
que, como num cadinho alquímico, confluem e ganham forma ao mesmo
tempo as inquietações de duas épocas. Não devemos esquecer que é neste
século que o pensamento filosófico, ao receber um impulso decisivo pelo
perfilar de novos mundos, se encontra perante novas possibilidades de
circulação e difusão devido à invenção da imprensa.
CONTINUIDADE E RUTURA: A FILOSOFIA
E A RECUPERAÇÃO DAS TRADIÇÕES

O «RENASCIMENTO CIENTÍFICO»
de Luca Bianchi

O Renascimento assinala uma fase de progresso ou de estagnação


das ciências?
É lícito falar de um «renascimento das ciências»? Ao contrário do
que é defendido por muitos historiadores da ciência do início do
século XX, hoje é claro que o movimento humanista não interessou
apenas às letras, às belas-artes, à filosofia, mas também a disciplinas
como a matemática, a astronomia, a geografia, a botânica e a
medicina. Em especial durante o século XV, enquanto nas
universidades se desenvolviam as mais relevantes tradições
científicas tardo-medievais (da teoria do impetus às calculationes),
nos círculos humanísticos redescobrem-se, publicam-se, discutem-se
os textos de Hipócrates, Pappus, Plínio, o Velho, Ptolomeu, Aristarco
de Samos. A análise destes textos não respondia apenas a interesses
eruditos, mas ao desejo de confrontar as informações e as teorias que
eles propunham com os fenómenos naturais. Através deste processo –
emblematicamente representado pelas controvérsias acerca dos
«erros» de Plínio – a cultura europeia afasta progressivamente a sua
atenção do estudo dos livros dos antigos para o livro da natureza.

«Renascimento» ou estagnação científica?


Numerosos historiadores da ciência, na primeira metade do século XX,
defendem que o Renascimento marcou uma paragem ou mesmo um retrocesso
em relação aos grandes progressos que os estudos de cosmologia, física,
astronomia, matemática, ótica, medicina e biologia tinham registado no fim
da Idade Média. Segundo estes historiadores, o advento do humanismo
deslocou a atenção do estudo da natureza para o estudo da literatura, das
artes e para uma filosofia interessada preponderantemente nas temáticas
ético-políticas, muitas vezes até demasiado sensível às sugestões do mito, da
magia e do esoterismo. As pesquisas conduzidas por estudiosos como Marie
Boas, Eugenio Garin, Paolo Rossi, Charles B. Schmitt e Cesare Vasoli já
refutaram definitivamente esta tese. Graças a estes estudiosos, sabemos que o
século XV, longe de representar uma fase de estagnação, vive um verdadeiro
«renascimento» das ciências. Aprendemos ao mesmo tempo a reconhecer que
o termo scientia assume nesse período uma multiplicidade de significados,
que devem ser aprofundados evitando qualquer abordagem anacrónica, tendo
bem presentes dois elementos fundamentais. Em primeiro lugar, no século
XV, fala-se de scientia para referir atividades intelectuais bastante diferentes
entre si, sobretudo devido à pluralidade de âmbitos culturais, institucionais e
sociais em que essas atividades são praticadas: as universidades, mas
também as oficinas dos artistas, os estaleiros, os laboratórios dos magos e
dos alquimistas; as escolas religiosas e laicas, e também as cortes; as
academias, as bibliotecas privadas e os círculos humanísticos. Em segundo
lugar, e consequentemente, distinções decisivas para a cultura moderna e
contemporânea entre as «ciências exatas» e as «pseudociências» são também
totalmente inaplicáveis, e disciplinas como a astrologia, as artes
divinatórias, a fisiognomonia, a alquimia e a magia são ainda, embora com
muita controvérsia, incluídas entre as «ciências».
De qualquer modo, se queremos avaliar as conquistas e os limites da
ciência desta época de transição, é certamente necessário reconhecer que é
impossível falar de «estagnação» em relação a uma época em que
Bartolomeu Dias, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e tantos outros
empreendem grandes explorações geográficas; em que Georg Peurbach
(1423-1461) e Johannes Müller Königsberg, Regiomontanus (1436-1476),
escrevem Theoricae Novae Planetarum, e Niccolò Leoniceno e Ermolao
Barbaro enchem volumes inteiros para denunciar os «erros» contidos em
Naturalis Historia, de Plínio, o Velho; em que se estuda aprofundadamente a
Meccanica pseudoaristotélica; em que são impressos os primeiros
«manuais» de pediatria e geriatria e Alessandro Benedetti incita os médicos
a frequentarem os teatros anatómicos de Pavia; em que, por fim, Leonardo da
Vinci observa os mais díspares fenómenos naturais, analisando-os e
visualizando-os nos seus maravilhosos desenhos.
Física, cosmologia e calculationes
É sabido que os grandes tratados de física, cosmologia, biologia e
zoologia de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), adotados a partir de meados do
século XIII nas universidades de toda a Europa como principais «manuais»
para o ensino, se tornam a base de uma naturalis philosophia ou physica
entendida como conhecimento das causas dos fenómenos celestes e
terrestres, que se consideram explicados quando podem ser reconduzidos a
manifestações da «natura» das substâncias que os produziram. Isto implica,
primeiramente, um processo indutivo capaz de subir dos dados sensíveis à
definição da forma inteligível da substância, persistente através das
mudanças; depois, um processo dedutivo, mediante o qual se demonstra que
os efeitos observados são atribuídos à substância definida. Apesar das
múltiplas discussões metodológicas sobre a correta relação entre estes dois
momentos, os filósofos naturais, no seu trabalho concreto, pareciam reservar
pouco espaço à indagação empírica, concentrando-se no estudo, na
explicação e na discussão crítica dos textos, em que Aristóteles havia
exposto os princípios e oferecido os primeiros elementos dos diversos
ramos do saber natural: Física, que, além de definir alguns conceitos básicos
(natureza, matéria, espaço, tempo, etc.), dava uma classificação dos vários
tipos de mutação, estudava as suas causas e as suas propriedades; Do Céu,
Da Geração e da Corrupção e Meteorologia, fontes de uma cosmologia
contendo um modelo astronómico geocêntrico, uma teoria dos elementos e
uma análise dos fenómenos supralunares e sublunares, com alguns
rudimentos de geografia geral; Da Alma, Parva Naturalia e o espúrio Das
Plantas, ponto de partida de toda a pesquisa sobre os seres vivos, as suas
funções e o princípio que os determina, isto é, a alma; enfim, os tratados De
Animalibus, que constituíam a base de uma zoologia dominantemente
descritiva e classificativa, mas rica de informações morfológicas e
embriológicas.
A «ciência natural» ensinada e praticada nas universidades do século XV –
tal como nas dos dois séculos anteriores – coincide, portanto, com o que
Aristóteles havia definido como «filosofia natural» e apresenta-se como um
saber essencialmente teórico, não só no sentido de ser pesquisado em si
mesmo, sem qualquer finalidade prático-operativa, mas também por
prescindir quer de uma análise quantitativa quer de uma observação empírica
sistemática dos fenómenos. Trata-se, em suma, de um saber especulativo, que
se serve maioritariamente de conceitos qualitativos e permanece
substancialmente «livresco». Isto, todavia, não significa que se limitasse a
repetir as ideias de Aristóteles, que são, ao invés, discutidas, profundamente
modificadas, frequentemente criticadas e refutadas. É bom recordar que,
desde o século XIV, inovações teóricas e metodológicas relevantes foram
introduzidas em pelo menos dois âmbitos. Em primeiro lugar, alguns mestres
exercendo em Paris, como Jean Buridan (c. 1290-c. 1385), Alberto da
Saxónia (c. 1316-1390) e Nicolau de Oresme (1323-1382), submeteram a
explicação aristotélica das causas do movimento local a uma profunda
revisão. Demonstrada a fraqueza da explicação aristotélica dos movimentos
violentos (como o movimento dos projéteis), que atribuía um papel
fundamental ao meio (como o ar ou a água) em que o movimento se dava,
eles reelaboraram uma ideia já proposta no século VI por João Filópono e
retomada por alguns pensadores islâmicos, formulando uma explicação
alternativa. De acordo com essa explicação, um dispositivo atribuiria ao
móvel uma força, chamada impetus, que operaria como uma espécie de causa
interna do movimento, que perduraria até à prevalência de forças contrárias,
como a resistência e a tendência do corpo para a sua «posição natural». A
chamada «teoria do impetus» representa uma variante muito significativa da
tradicional «dinâmica» aristotélica, uma vez que define a força imprimida ao
projétil em função da velocidade e da quantidade de matéria, permitindo
explicar fenómenos quotidianos que Aristóteles não tivera em devida conta:
porque é que um objeto de grandes dimensões é mais difícil de parar do que
um pequeno; porque é que um corpo levíssimo não pode ser atirado para
longe; porque é que é útil tomar balanço para conseguir dar um salto longo.
Além disso, esta teoria pode facilmente ser generalizada e aplicada a
problemas não resolvidos pelo Estagirita, como a aceleração da queda, ou
resolvidos recorrendo a entidades metafísicas, como a causa da rotação das
esferas celestes, que se tornava, porém, explicável sem recorrer às
inteligências motrizes.
Em segundo lugar, pensadores ingleses como Walter Burley (c. 1275-c.
1345), Thomas Bradwardine (c. 1290-1349), Richard Swineshead (dito o
Calculator, fl. 1340-1354), Guilherme de Heytesbury (1313-1373) –
habitualmente chamados mertonianos, por estarem ligados ao Colégio
Merton de Oxford – criaram uma tradição de pesquisa original baseada na
utilização de instrumentos lógicos, semânticos e matemáticos, que permite
analisar de forma rigorosa os conceitos de «movimento», «instante»,
«início», «fim». Durante o século XIV desenvolve-se uma literatura
heterogénea, constituída por tratados, por sophismata physicalia e por
calculationes, que utiliza «linguagens de medida» específicas: a linguagem
das relações (proportiones); as linguagens do infinito, do contínuo e dos
limites (de primo et ultimo instanti, de maximo et minimo, de incipit et
desinit); a linguagem do incremento e do decréscimo das qualidades (de
intensione et remissione formarum), expressão da tentativa, depois
originalmente retomada em Paris por Oresme, de «quantificar as
qualidades». Graças a esta nova abordagem, obtiveram-se dois resultados
científicos de notável importância: a «lei de Bradwardine», que afirma que a
velocidade, no movimento local, cresce aritmeticamente em correspondência
com o incremento geométrico da relação entre força e resistência (corrigindo
assim a «lei» aristotélica segundo a qual a velocidade seria, pelo contrário,
diretamente proporcional à força aplicada e inversamente proporcional à
resistência do meio, falsificada pela experiência); o «teorema da velocidade
média», que estabelece uma regra de equivalência entre variações
«uniformes» e «uniformemente disformes» (por exemplo, entre um
movimento uniformemente acelerado e um movimento uniforme de
velocidade igual à atingida pelo primeiro no instante do meio).
Quer a «nova física» de Buridan e da «escola parisiense» quer a tradição
mertoniana exercem uma influência constante durante todo o século XIV e
posteriormente. A doutrina do impetus foi retomada pelos mestres
parisienses; por numerosos comentadores aristotélicos alemães, espanhóis e
polacos; por um pensador de orientação platónica como Nicolau de Cusa
(1401-1464); enquanto alguns dos mais ilustres mestres de lógica,
matemática e filosofia natural das universidades italianas, como Pietro de
Mântua, Giovanni Marliani, Apollinare Offredi, Oliviero de Siena e
Nicoletto de Vernia, compõem tratados de primo et ultimo instante, de
máximo et mínimo, de incipit et desinit e de intensione et remissione
formarum. Com efeito, apesar de muitos humanistas terem desenvolvido uma
polémica virulenta contra o tecnicismo da ciência tardo-medieval, e em
especial contra os métodos dos mertonianos, elevados a símbolo das
degenerações culturais e linguísticas introduzidas pelos «bárbaros
britânicos», as calculationes tornam-se a grande moda, são introduzidas nos
programas de estudo e são aplicadas não apenas no âmbito físico mas
também médico, é emblemático o caso de Bernardo Torni de Siena (século
XV), que utiliza as regras mertonianas da proporcionalidade para discutir
uma questão estritamente terapêutica como a da validade da sangria na fase
aguda de uma doença.

O humanismo e a redescoberta da ciência da Antiguidade


Hostis às calculationes – que todavia conhecem um declínio somente em
meados do século XVI –, os humanistas não limitam, de facto, os seus
interesses às humanae litterae, às belas-artes, à retórica e à filosofia moral
e política. A sua paixão pelos clássicos gregos e latinos, a vontade de
recuperar toda a herança da cultura antiga leva-os a redescobrir, editar,
traduzir e difundir não apenas as obras poéticas, literárias, históricas e
filosóficas, mas também os textos mais importantes da ciência grega. A este
respeito são emblemáticas duas figuras. A primeira é a de Niccolò Perotti
(1429-1480), secretário e amigo de Basílio Bessarion (1403-1472), autor de
Cornucopiae. Sob a forma de um comentário a Marcial, este escrito,
redigido a partir de 1478, editado em 1489 e reimpresso mais de 20 vezes, é
na realidade um dicionário de latim clássico e ao mesmo tempo um
reportório de ideias, que inclui informações filosóficas, naturalistas e
médicas. Perotti, de resto, é bem mais do que um «gramático»: envolvido na
disputa sobre Platão e Aristóteles, bom conhecedor de Plínio, que citava
constantemente, projeta traduzir Arquimedes e o comentário de Simplício à
Física. Giorgio Valla (1447-1500) tem intenções enciclopédicas bem mais
marcadas e sabedoras. Dotado de um ótimo conhecimento do grego e de uma
boa formação lógica e matemática (graças aos ensinamentos de Giovanni
Marliani), publica, em 1498, uma recolha de traduções do grego
verdadeiramente notável: ao lado de importantes escritos aristotélicos – de
entre os quais sobressai a Poetica – nele surgem obras de Euclides, Proclo,
Galeno e, pela primeira vez, de Aristarco de Samos. A estas e outras fontes
(entre as quais Arquimedes, Ptolomeu e Héron de Alexandria, de quem
possui manuscritos) Giorgio Valla vai buscar informação ao elaborar a sua
obra-prima, De Expetendis et Fugiendis Rebus, publicada postumamente em
1501: uma obra monumental que apresenta, disciplina por disciplina, todo o
saber humano, prestando especial atenção ao quadrívio (aritmética, música,
geometria e astronomia), à física e à medicina.
O esforço humanístico de reapropriação da herança da ciência antiga é
fundamental em todos os campos. Na astronomia, a supramencionada
redescoberta de Aristarco de Samos abre novas perspetivas, cujas
potencialidades se tornam claras bem mais tarde, com Copérnico e Galileu,
enquanto as edições de Euclides, Arquimedes e Héron permitem importantes
desenvolvimentos da matemática. É por isso que, se um dos maiores
matemáticos italianos da época, Luca Pacioli (c. 1445-c. 1517), se limita a
oferecer na sua Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et
Proportionalità (1494) uma síntese, aliás bastante útil, de noções
aritméticas, algébricas e geométricas de ascendência medieval, Nicolas
Chuquet (1445-1488) dá em Triparty en Science des Nombres (1484) um
importante tratado de álgebra, que, utilizando uma excelente notação,
enfrenta problemas numéricos, equações e cálculos bastante complexos e
estabelece duas regras originais (a «regra dos números médios» e a «regra
dos primos»). Georg Peurbach (1423-1461) e Regiomontanus (1436-1476)
desenvolvem, por sua vez, a trigonometria plana e esférica, tornando-a um
ramo autónomo da geometria. Apesar de dotados de uma preparação
humanista sólida e capazes de ministrar cursos universitários sobre Cícero e
Virgílio, estes autores passam à história pelo seu trabalho de astrónomos.
Theoricae Novae Planetarum – concluída por Peurbach em 1454, mas
completada e publicada por Regiomontanus só em 1472 – anuncia logo no
título a vontade de superar e substituir Theoricae Planetarum, atribuída a
Gerardo de Cremona (1114-1187). Os resultados estão, pelo menos em parte,
à altura da promessa: como observou Michel-Pierre Lerner, «Peurbach
parece ter sido o primeiro autor, no Ocidente latino, a ter observado a curva
não circular que o centro do epiciclo de Mercúrio descreve no seu círculo
deferente e a caracterizá-la como semelhante a uma oval: desse modo teria
implicitamente admitido que pode haver uma exceção à regra da rigorosa
circularidade dos movimentos celestes».
Geografia, de Cláudio Ptolomeu, quase desconhecida pelos medievais e
redescoberta por Palla Strozzi (1372-1462) e pelo círculo dos humanistas
florentinos discípulos de Manuel Crisoloras (c.1350-1415), tem um papel
decisivo na difusão da prática de desenhar cartas sobre uma rede de
paralelos e meridianos. Não vale a pena sublinhar como se fez sentir a
necessidade de uma cartografia terrestre exata no século das grandes viagens
e das descobertas geográficas. Porém, vale a pena recordar que, desde as
primeiras edições, os mapas que acompanham os manuscritos da obra de
Ptolomeu são integrados com os «novos mapas» que incluem as regiões que
ele desconhecia, como a Escandinávia e a Gronelândia. Este processo de
atualização e revisão torna-se cada vez mais rápido, à medida que as
narrativas dos mercadores e dos viajantes, e também os relatos dos
exploradores, trazem informações inesperadas sobre países e sobre
continentes inteiros até então desconhecidos. Para orgulho dos doges, a
cartografia veneziana conhece no século XV um desenvolvimento sem
precedentes, o célebre mapa-mundo de frei Mauro (?-1460) e o atlas de
Grazioso Benincasa (1473) não se limitam a sintetizar fontes gregas, mas
reportam descobertas recentes: entre outros, os dados da costa africana
fornecidos por Bartolomeu Dias (c. 1450-1500) e Alvise Cadamosto (1432-
1488) e os dados sobre a Índia trazidos pelo mercador veneziano Niccolò da
Conti (c. 1396-1469).
Progressos análogos podem ser encontrados na medicina, na farmacologia
e na botânica, que são profundamente transformadas pelas traduções mais
completas e fiáveis de Hipócrates e Galeno, pela redescoberta de Celso,
pelo renovado interesse por Teofrasto e Dioscórides. Um destaque particular
merece Plínio, o Velho (23/24-79), cuja monumental Naturalis Historia
conhece 15 edições incunabulares. A atração que esta obra exerce no século
XV dá origem, todavia, a uma crise de rejeição. De Plinii et Plurium
Aliorum in Medicina Erroribus, de Niccolò Leoniceno (1492), e
Castigationes Plinianae, de Ermolao Barbaro (1492-1493), são os
testemunhos mais célebres e empenhados de uma verdadeira moda cultural:
denunciar os «erros», verdadeiros ou presumidos, cometidos pelo douto
latino ao interpretar dados e fontes e, consequentemente, na identificação de
animais, plantas, doenças e medicamentos. Todavia, não deve ser esquecido
que, apesar desses ataques – que suscitam a resposta de Pandolfo
Collenuccio (1444-1504), em Plinia Defensio, de 1493 –, Plínio
permaneceu muito popular, especialmente na Europa Central, onde desde os
primeiros decénios do século XVI alguns luteranos pensam utilizar a sua obra,
em vez das de Aristóteles, para o ensino nas faculdades de Artes.
Seja como for, quer as revisões dos mapas anexos a Geografia, de
Ptolomeu, quer as controvérsias sobre os méritos e os deméritos de Plínio
ilustram de modo exemplar como a recuperação da ciência antiga não se
esgotou, de facto, num exercício filológico e editorial nem numa repetição
dogmática de conhecimentos já adquiridos e considerados definitivos. Longe
de seguir o mito clássico da imitatio, do puro e simples culto dos antigos,
aqueles que se propõem difundir as fontes do pensamento científico ocidental
são guiados pelo ideal da aemulatio, por uma fecunda confrontação que
permita igualar e, quando necessário, superar os modelos do passado. A
função crítica do estudioso não se esgota, portanto, na restituição de um texto
filologicamente correto. Ao contrário das obras literárias, as de teor
científico impõem avaliar a verdade das afirmações que se recolocam em
circulação: para nos limitarmos a um exemplo, as correções de Niccolò
Leoniceno (1428-1524) a Naturalis Historia, de Plínio, nasciam da explícita
consciência de que confundir uma erva medicinal com outra poderia ter
sérias consequências terapêuticas. O estudo dos livros antigos remete,
portanto, para o estudo do livro da natureza e dessa confrontação nascem
novas interrogações, novos problemas, novas perspetivas de pesquisa: para
retomar as palavras de Marie Boas, «na tentativa de ver na natureza aquilo
que os autores gregos tinham afirmado existir, os cientistas europeus
chegaram lentamente a ver o que na realidade nela existia».

A invenção da imprensa, a difusão dos «clássicos da ciência» e o


emergir de uma nova conceção do saber
É sabido que a invenção da imprensa trouxe consigo profundíssimas
transformações culturais, que atingem também as disciplinas científicas. No
século XVI, são publicados e difundidos às centenas, por vezes (como no
caso de Plínio) em vários milhares de cópias, muitos «clássicos do
pensamento científico», os maiores documentos da ciência medieval (muitos
dos comentários mais importantes das obras aristotélicas de filosofia natural,
os principais escritos dos mertonianos), numerosos tratados e manuais de
física, cosmologia, matemática, geografia e medicina. Um papel pioneiro na
difusão do livro científico foi desempenhado pelo supracitado
Regiomontanus. Tendo regressado a Nuremberga depois de uma longa estada
em Roma ao serviço do cardeal Bessarion, Regiomontanus estabelece em sua
casa uma tipografia especializada em textos de matemática e astronomia, que
ninguém ainda tivera a coragem de produzir devido às dificuldades técnicas
e aos altos custos derivados do uso de símbolos, figuras e diagramas. O seu
exemplo foi rapidamente seguido por outros, que percebem como a edição
matemática e científica em geral, além de desenvolver uma função cultural
essencial, pode conquistar para si um lugar de mercado.
Não há dúvida de que as disciplinas matemáticas se tornam objeto de uma
crescente atenção, não apenas dos especialistas, mas também de um público
mais vasto, feito de mercadores e de banqueiros, que, com o refinar das
técnicas comerciais e financeiras, têm cada vez mais necessidade de dispor
de uma adequada preparação aritmética; de navegadores, que, com a ajuda
dos astrónomos, aperfeiçoam métodos para encontrar a latitude determinando
a altura do Sol sobre o horizonte; de arquitetos, engenheiros e «artesãos
superiores», que, ao projetarem fortificações e máquinas militares, minas e
canais de irrigação, relógios e instrumentos náuticos, enfrentam com métodos
matemáticos problemas estáticos, balísticos ou hidráulicos, de complexidade
crescente; de pintores, obrigados a aprofundar as leis da ótica e os
princípios da geometria para desenvolverem a técnica da perspetiva. Isto
remete para um fenómeno mais vasto, ou seja, a circulação fecunda das
ideias, que se realizou desde o século XV entre filósofos naturais, artistas e
técnicos, sobre cuja importância chamou a atenção o filósofo e historiador de
ciência Paolo Rossi (1923-). As causas deste fenómeno são tanto culturais
como sociológicas. Entre as primeiras, é essencial recordar os ideais
humanistas da vida ativa e do empenho civil, que facilitam o reconhecimento
de uma dignidade teórica às atividades (as «artes mecânicas») que a cultura
medieval considerara, frequentemente, vis e indignas de um homem livre e
culto. Entre as segundas, sobressai o papel assumido por novas figuras, sem
a formação universitária tradicional, mas movidas por uma insaciável
curiosidade. Com efeito, ao longo do século XV, entram em cena, a par e por
vezes contra as universidades, novos centros de pesquisa e ensino (as cortes,
as bibliotecas, os círculos humanistas, as oficinas dos artesãos e dos
artistas), frequentados por homens muitas vezes sem títulos académicos, mas
capazes de conjugar competências intelectuais e aptidões manuais, de se
mover com invejável desenvoltura nos campos mais díspares. É assim que
Filippo Brunelleschi (1377-1446), célebre como arquiteto, é também
engenheiro, canalizador e matemático; Leon Batista Alberti (1406-1472),
moralista e fino prosador latino, escreve sobre arquitetura, urbanismo e
topografia, além de inventar vários instrumentos de medida; Paolo dal Pozzo
Toscanelli (1397-1482), astrónomo e matemático de valor, exerce medicina e
ocupa-se de geografia e cartografia.
Símbolo da extraordinária versatilidade dos estudiosos do Renascimento
é, indiscutivelmente, Leonardo da Vinci (1452-1519), que merece sem
dúvida ser tratado autónoma e aprofundadamente pela sua irrepetível
capacidade de se espraiar entre a filosofia, a ciência, a técnica e a arte,
dando contributos relevantes – além da pintura – à engenharia, cartografia,
ótica, matemática, estática, dinâmica, balística, hidrodinâmica, anatomia,
botânica, geografia e geologia. Aqui, ele interessa-nos apenas por oferecer
um testemunho único do emergir, durante o século XV, de uma nova conceção
de saber, que recoloca em questão a distinção – bastante clara na cultura
medieval – entre «ciência» e «arte»; rejeita contrapor a contemplação
desinteressada do verdadeiro à busca do útil; combate qualquer forma de
dogmatismo, qualquer culto das «autoridades», qualquer conceção elitista e
esotérica do conhecimento. Nos milhares de folhas que, num inextricável
emaranhado de desenhos, cálculos e anotações verbais, documentam o
constante, ainda que fragmentário, empenho de Leonardo em aprofundar os
fenómenos naturais, retornam, de facto, alguns motivos que, adequadamente
reelaborados, constituem algumas das principais palavras de ordem daqueles
que, no século XVII, haveriam de criar as bases da ciência moderna: a
confiança na possibilidade de explicar os fenómenos físicos em termos
puramente racionais, sem qualquer recurso a intervenções mágicas ou
sobrenaturais; a ideia de que a natureza é um sistema ordenado e inexorável
de causas, que «não rompe a sua lei», mas segue uma «admirável
necessidade»; a polémica contra «quem disputa alegando a autoridade», e
«não usa o engenho, mas a memória»; a tese de que os «homens inventores»
contribuem para o progresso dos conhecimentos bem mais do que os
«trombeteiros e recitadores das obras de outrem»; finalmente, a exigência de
conjugar razão e experiência, observação e reflexão teórica. Se é certo que
seria anacrónico ver «antecipações» do método de Galileu na tese de
Leonardo, largamente difundida já na cultura medieval, segundo a qual
«nenhuma certeza está onde não se pode aplicar uma das ciências
matemáticas», é difícil, no entanto, não ver a modernidade da sua insistência
no papel dos instrumentos de medida, na utilidade heurística dos modelos
artificiais, na ideia de que apenas os resultados das experiências, repetidas
para esconjurar erros subjetivos, são capazes de pôr «silêncio na língua dos
litigantes».

V. também: Leon Batista Alberti: o homo faber, o tempo e a pedagogia filosófica, p. 301;
Os instrumentos científicos e as suas aplicações, p. 343;
O humanismo e as matemáticas gregas, p. 352;
Traduções e descobertas de novas fontes antigas: o retorno dos textos gregos, p. 357;
Leonardo da Vinci, p. 393.
A TRADIÇÃO ARISTOTÉLICA NA ITÁLIA
DO SÉCULO XV
de Lucas Bianchi

No século XV assiste-se a um verdadeiro «renascimento» do


aristotelismo. De facto, os humanistas, além de recuperarem textos
filosóficos ignorados ou pouco estudados na Idade Média, propõem-
se também reestudar o pensamento aristotélico para recuperar o seu
autêntico significado, na sua opinião deformado pelos comentários
«bárbaros» dos séculos XIII e XIV. Graças a novas traduções do grego
dos textos do Estagirita, ao estudo e à publicação dos seus
comentadores helenistas, à aplicação das técnicas de análise textual
oferecidas pela filologia e ao uso de novos métodos de interpretação,
os humanistas promovem uma profunda transformação dos estudos
aristotélicos, que depressa contagia também os ambientes
universitários ligados à tradição escolástica. Embora confrontando-
se com o platonismo, o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo, o
aristotelismo confirma o seu papel de tradição filosófica
predominante e conhece, durante todo o Renascimento, uma fase de
grande vitalidade.

O apoio papal ao aristotelismo como base da formação universitária


Segundo uma velha tradição historiográfica, a filosofia de Aristóteles (384
a.C.-322 a.C.), difundida na cristandade «latina» após a grande onda de
traduções do grego e do árabe, que teve início cerca de 1125, teria atingido a
sua máxima difusão no século XIII, mas teria conhecido uma fase de profunda
crise no século XIV e teria sido substituída, no século XV, pelo platonismo.
Consequentemente, durante esse século, o aristotelismo teria sobrevivido
apenas em algumas fortalezas «conservadoras» como as universidades de
Pádua, Coimbra ou Cracóvia, antes de ser definitivamente ultrapassado pelo
advento da filosofia e da ciência moderna. Hoje, sabemos que uma tal
imagem do desenvolvimento do pensamento europeu é tão parcial, que se
torna substancialmente falsa. Já está comprovado que o aristotelismo no
século XIV, longe de atravessar uma fase de refluxo, conheceu uma fase de
expansão, graças também ao apoio declarado do papado. Torna-se também
cada vez mais evidente que, embora sendo verdade que a maior novidade do
pensamento dos séculos XIV e XV consiste na redescoberta de tradições
filosóficas (o platonismo, o ceticismo, o epicurismo e o estoicismo) pouco
conhecidas ou desconhecidas na Idade Média, o aristotelismo continua a ser
a tradição filosófica predominante durante todo o Renascimento, o que é
demonstrado pelo número de manuscritos, pelas edições impressas, pelas
traduções, pelas vulgarizações das obras de Aristóteles. Confirma-o, por
exemplo, o número dos comentários: os comentários aristotélicos compostos
nos séculos XV e XVI são pelo menos dez vezes mais numerosos do que os
comentários aos Diálogos platónicos.
Isto resulta, em primeiro lugar, do quase monopólio que as obras de
Aristóteles continuam a ter nos curricula universitários, onde a introdução
de obras de Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.) é lenta e faseada. É verdade
que, já em meados do século XV, Teodoro Gaza (c. 1400-1475) utiliza
Górgias para ensinar retórica em Ferrara, mas para encontrar cursos sobre
os grandes Diálogos platónicos é preciso esperar pelos primeiros decénios
do século seguinte, com Leonicus Thomaeus (c.1446-1531), em Pádua, e
Cornelius Agrippa (1486-1535), em Pavia, e só no final do século XV e no
início do século XVI se chega à ativação de cátedras de filosofia platónica.
No entanto, seria um erro ver a duradoura influência da tradição aristotélica
como resultado da inércia das instituições escolares, da sua reticência em
reformar os programas. O grande impulso que o estudo do corpus
aristotelicum recebe no século XV depende, de facto, e sobretudo, do grande
interesse que não apenas os professores de filosofia de formação escolástica
mas também os humanistas mostram pelo pensamento de Aristóteles e dos
seus seguidores.

O «renascimento» de Aristóteles no século XV: as traduções


Com efeito, deve-se aos humanistas italianos e aos mestres bizantinos
imigrados para Itália a realização de um grande projeto de retradução das
obras de Aristóteles e dos seus comentadores gregos, o que marca uma
viragem em relação à abordagem medieval a estas obras. É, portanto, lícito
falar de um «renascimento» de Aristóteles, que, todavia, se diferencia
profundamente do «renascimento» contemporâneo de Platão, do atomismo e
do ceticismo antigo, desencadeado pela descoberta de textos antes
inacessíveis. Sem dúvida, os humanistas contribuem para voltar a colocar em
circulação também alguns escritos de (ou atribuídos a) Aristóteles que não
eram conhecidos (ou eram conhecidos apenas em parte) na Idade Média:
basta pensar em Ética a Eudemo, Magna Moralia, Questiones Mechanicae,
ou no caso verdadeiramente emblemático de Poética, que, apesar da
tradução de Guilherme de Moerbeke (1215-1286), tinha suscitado muito
pouco interesse nos séculos XIII e XIV, tornando-se um verdadeiro
«bestseller» quando foi impressa em Veneza, em 1498, na nova versão de
Giorgio Valla (1447-1500). Não obstante o que foi dito, o facto é que o
«renascimento» de Aristóteles não consiste tanto na redescoberta de textos
desconhecidos, mas mais no interesse renovado por textos já traduzidos em
latim, mas pouco estudados (como Poética e Retórica), e, sobretudo, no
«restauro» de textos conhecidos há séculos, propondo-se a sua leitura de um
modo novo, para recuperar o seu significado autêntico.
Os instrumentos adotados pelos humanistas para perseguir este objetivo
são substancialmente três: novas traduções, uso das técnicas de análise
textual oferecidas pela filologia, novos princípios e novos métodos
interpretativos. Com efeito, os humanistas procuram em primeiro lugar
restituir aos escritos de Aristóteles a elegância que – tendo por base uma
crença que remontava a Cícero e Quintiliano, difundida por Petrarca (1304-
1374) – consideravam ter no original grego. O projeto de retraduzir a obra
completa do Estagirita – sustentado pelo mecenato de senhores notavelmente
atentos ao desenvolvimento dos estudos filosóficos como Cosme e Lourenço
de Médicis, e sobretudo pela atenção de pontífices como Eugénio IV,
Nicolau V e Sisto IV – nasce, portanto, da ideia (ou como escreveu Eugenio
Garin do «equívoco») de que colocar em belo estilo latino textos como Ética
a Nicómaco, Física e Metafísica equivalia a «ressuscitar o verdadeiro
Aristóteles». Respondendo a esta palavra de ordem, humanistas como
Leonardo Bruni, Giannozzo Manetti, Francesco Filelfo, Giorgio Valla e
Ermolao Barbaro, e também doutos gregos como João Argirópulo, Jorge de
Trebizonda, Teodoro de Gaza e o cardeal Basílio Bessarion produzem novas
traduções de Aristóteles, destinadas a substituir as medievais, consideradas
não só feias mas também pouco cuidadas. Recusado o método de tradução de
palavra por palavra (verbum e verbo), procura reproduzir-se em latim quer o
conteúdo conceptual (rerum doctrina) quer a forma estilística (scribendi
ornatos) das frases de Aristóteles, exprimindo todo o seu significado através
de uma versão ad sensum (ou ad sententiam). Abertamente teorizado cerca
de 1420 por Leonardo Bruni (c. 1370-1444), este método será de facto
aplicado de maneiras muito diversas: enquanto alguns têm em vista
sobretudo a beleza do estilo, mesmo transformando as suas traduções em
paráfrases pouco fiéis, outros procuram um equilíbrio entre legibilidade e
exatidão, limitando-se com frequência a embelezar e rever as versões
medievais.

A filologia e os novos métodos de interpretação dos textos


O segundo instrumento através do qual os humanistas procuram recuperar o
«autêntico» Aristóteles é a filologia. O ensino dos mestres bizantinos que se
transferiram para Itália nos séculos XIV e XV, que prestavam muita atenção à
terminologia de Aristóteles e às diferentes lições transmitidas pelos códices,
a redescoberta dos testemunhos históricos sobre as vicissitudes tormentosas
da sua biblioteca, a consequente consciência de que o corpus aristotelicum é
um produto historicamente determinado, que foi constituído no seguimento da
atividade «editorial» dos grandes eruditos helenistas, levam os humanistas a
desviar progressivamente a atenção das doutrinas de Aristóteles para os seus
textos, lidos no original grego e estudados de acordo com os novos métodos
de análise textual. É neste contexto que surge o editio princeps da obra
completa de Aristóteles em grego, impressa em Veneza entre 1495 e 1498,
graças à iniciativa de Aldo Manúcio (1450-1515), o mais célebre editor do
Renascimento. Valendo-se de uma equipa internacional de estudiosos (entre
os quais se destacam o italiano Francesco Cavalli e o inglês Thomas
Linacre), Manúcio consegue realizar uma empresa grandiosa, que representa
por longo tempo um modelo: «cinco volumes in-fólio de cerca de 2000
páginas no seu conjunto, quando pouquíssimos livros gregos haviam ainda
sido impressos, com uma elegância única de tipografia, papel magnífico,
encadernação, cuidado tipográfico, ótima correção de provas etc., tudo
características que satisfariam um editor recente de textos gregos» (Lorenzo
Minio Paluello).
A terceira inovação decisiva introduzida pelos humanistas nos estudos
aristotélicos consiste na elaboração e na difusão de novos princípios e
métodos interpretativos. Guiados pelo ideal do «retorno às fontes»,
promovem a leitura direta – e de preferência no original grego – das suas
obras; criticam o abuso de paráfrases e comentários; polemizam em especial
com os comentadores escolásticos dos séculos XIII-XIV, acusando-os de
terem procurado nos textos de Aristóteles um simples pretexto para fazer
face, através do método do debate, a problemas abstratos e muitas vezes
ociosos; defendem que, como qualquer outro autor do passado, Aristóteles
deve ser lido para nele se encontrar um testemunho de um modo diferente de
conceber o homem e o mundo, compreensível apenas se recolocado na sua
especificidade histórica. Explica-se assim a tentativa de redefinir os
princípios, os objetivos, os métodos da atividade do comentador de textos
filosóficos: deve adotar um estilo sóbrio e claro, mas elegante; deve, por
isso, evitar demasiados tecnicismos filosóficos, mas é livre de ilustrar o
conteúdo doutrinário dos passos expostos mesmo recorrendo a exempla
extraídos da literatura, da história e das belas-artes; deve estudar o conjunto
das obras de Aristóteles, possivelmente na língua original, deve verificar a
exatidão das várias traduções e lições, identificar os passos corrompidos,
distinguir as obras autênticas das espúrias; deve, por fim, privilegiar os
intérpretes gregos, considerados como as fontes secundárias mais fiáveis,
não só por serem cronologicamente mais próximas, mas por terem
culturalmente mais afinidade com Aristóteles.
Apesar de encontrar fortes resistências, especialmente de alguns mestres
de formação escolástica, esta nova abordagem difunde-se cada vez mais
alargadamente, tanto assim que no fim do século XV será também acolhida
pelas universidades. O fenómeno manifesta-se primeiro em Itália. A
incumbência conferida em 1497 a Nicholas Leonicus Thomaeus para que reja
em Pádua cursos sobre Aristóteles a partir do texto grego é frequentemente
considerada o símbolo do triunfo do «aristotelismo humanista». Um impacto
não menor é obtido pelos cursos que Angelo Poliziano (1454-1494) dá em
Florença sobre o Organon, inaugurados por duas célebres dissertações
(Praelectio de Dialetica, de 1491, e Lamia, de 1492), em que é delineado
um programa de trabalho que gerações de humanistas teriam retomado e
desenvolvido: além de propor os motivos dominantes da polémica humanista
contra os expositores escolásticos (a recusa do método da quaestio
disputata, a crítica do jargão especializado, a busca da elegância e da
clareza expositiva), Poliziano, efetivamente, insiste no facto de o corpus
aristotelicum dever ser estudado com os métodos que, na Antiguidade
Tardia, tinham sido preparados pelos «gramáticos» helenistas, capazes de
conjugar a perícia filológica com um sólido conhecimento da língua e da
cultura gregas.

A redescoberta dos comentadores gregos e a influência duradoura


da exegese medieval
Explica-se assim que um dos maiores contributos dados pela cultura
humanística ao estudo de Aristóteles, e mais genericamente ao
desenvolvimento da cultura filosófica, esteja no interesse renovado pelos
intérpretes gregos: Teofrasto, Alexandre de Afrodisias, Porfírio, Temístio,
Amónio, Simplício e Filópono. É Teodoro de Gaza (c. 1400-1475) quem
chama a atenção para eles, traduzindo, em 1452-1453, Problemata, do
Pseudo-Alexandre de Afrodisias. Inspirando-se nele, Ermolao Barbaro (c.
1453-1493) traduz em 1472-1473 as paráfrases de Temístio a Analíticos
Posteriores, Física e Da Alma, que serão publicadas apenas em 1481.
Amigo e discípulo de Ermolao Barbaro, Gerolamo Donato (século XV) segue
o seu exemplo traduzindo para latim vários fragmentos de Alexandre de
Afrodisias, entre os quais o primeiro livro de Da Alma, que filósofos como
Nicoletto Vernia (c. 1420-1499) e Agostino Nifo (c. 1473-1546) consultarão
ainda antes da publicação (1495). Abre-se, deste modo, uma nova fase na
história da tradição aristotélica, durante a qual são redescobertos, traduzidos
e publicados quase todos os comentários gregos que haviam sobrevivido e
sido apenas parcialmente conhecidos na Idade Média. Também neste caso
Aldo Manúcio tem um papel decisivo. Em 1495, ao mesmo tempo que edita
o primeiro volume das obras de Aristóteles em grego, anuncia a intenção de
publicar também os comentários de Alexandre de Afrodisias, Porfírio,
Temístio, Simplício e Filópono. Confirmado de forma ainda mais extensa
pelos prefácios dos volumes seguintes e patrocinado pelo príncipe de Carpi,
Alberto Pio (1475-1531), este ambicioso projeto foi apenas iniciado por
Manúcio, tendo sido concluído pelos seus herdeiros entre 1520 e 1530.
A disponibilidade destes novos comentários tem um impacto forte no
debate filosófico: para nos limitarmos a dois exemplos, a recuperação dos
comentários de Alexandre de Afrodisias e de Simplício a Da Alma alimenta
as mais duras controvérsias sobre a correta interpretação da psicologia
aristotélica, enquanto o melhor conhecimento dos comentários de Filópono,
ricos de críticas às doutrinas de Física e de Do Céu, provoca um profundo
repensar da filosofia natural aristotélica. Todavia, isto não significa que os
comentários medievais, árabes e latinos, deixem de exercer a sua influência.
Durante todo o século XV, os comentários de Alberto Magno, Tomás de
Aquino, Egídio Romano, Jean de Jandun, Walter Burley e Jean Buridan
continuam a ser estudados e usados não apenas pelos aristotélicos de
formação escolástica mas também pelos de formação humanista, que, apesar
de invetivarem contra os mestres «bárbaros» dos séculos XIII e XIV, retomam
frequentemente as suas ideias, talvez sem declarar a sua origem. Após a
invenção da imprensa, os comentários dos grandes aristotélicos da Idade
Média latina são repetidamente publicados e conhecem um grande sucesso
editorial, que começa a declinar apenas cerca de 1535. Apesar de o próprio
Poliziano auspiciar que as obras dos intérpretes gregos tomem o lugar das
obras dos comentadores medievais, a transformação profunda que a
«biblioteca peripatética» conhece no Renascimento não se realiza tanto por
substituição, mas por justaposição, as diferentes tradições exegéticas
produzidas no arco de cinco séculos em contextos culturais, linguísticos e
religiosos diferentes tornam-se todas contemporaneamente acessíveis e
confrontáveis entre si. Esta sobreabundância de materiais e de tradições de
interpretação, se por um lado é testemunho da grande vitalidade do
aristotelismo renascentista, por outro, cria muitos problemas e dá vida a um
novo género da literatura aristotélica: as «biografias aristotélicas», que
assinalam, por vezes com algum juízo crítico, as principais edições,
traduções e comentários das diferentes obras do Estagirita.

A sorte antagónica de Averróis


Um destaque particular merece a sorte, ao longo do século XV, daquele que
os medievais tinham considerado «o comentador» de Aristóteles por
excelência, isto é, Averróis (1126-1198). Divulgados em Itália, França e
Inglaterra a partir da primeira metade do século XIII, os comentários do
grande filósofo árabe conheceram um sucesso notável na Itália do século XIV,
quer nos ambientes escolásticos quer em alguns círculos literários – basta
pensar em Dante. Em Itália, em especial, o desenvolvimento tardio e o peso
limitado do ensino da teologia nas universidades favorecem a difusão de uma
abordagem naturalista e racionalista, pronta a absorver também as ideias
averroístas (unidade do intelecto possível, comum a toda a humanidade;
eternidade do mundo; função política das religiões, etc.) que parecem em
conflito com a ortodoxia cristã. Se Caetano de Thiene (século XV), que detém
a cátedra de Filosofia Natural em Pádua entre 1430 e 1462, se esforça por
interpretar Da Alma, de Aristóteles, em sentido compatível com a doutrina
da individualidade e da imortalidade da alma, mestres da geração seguinte,
como Nicoletto Vernia e Agostino Nifo, negam a possibilidade de
demonstrar esta doutrina, inclinando-se abertamente para a posição
«averroísta» da unidade do intelecto. Explicam-se assim as reações das
autoridades eclesiásticas. A 4 de maio de 1498, o bispo de Pádua, Pietro
Barozzi (1441-1507), intervém, proibindo debates públicos sobre a unidade
do intelecto. Quer Vernia quer Nifo retratam-se, mas isso não significa
certamente o fim da escola averroísta, que, ao longo do século XVI,
conhecerá um grande desenvolvimento, articulando-se em diversas correntes
e entrando em conflito com os teóricos da interpretação alexandrina da
psicologia aristotélica, que defende a individualidade, mas também a
imortalidade da alma. É significativo que estas duas posições, convergentes
no questionar a sobrevivência ultraterrena da alma de cada um dos seres
humanos, sejam conjuntamente condenadas na bula Apostolici Regiminis,
promulgada pelo papa Leão X (1475-1521, papa desde 1513), em 1513.
Seria de qualquer forma errado pensar que a influência de Averróis no
século XV se esgotou nas controvérsias relativas à natureza do intelecto. É
óbvio que o seu pensamento suscita fortíssimas hostilidades. Para alguns, ele
permanece o protótipo do pensador «ímpio», que Tomás de Aquino (1221-
1274) tinha derrotado definitivamente, segundo um estereótipo difundido
pelos dominicanos do século XIV e retratado nos muitos «triunfos de Tomás»
que continuam a ser pintados ainda durante todo o século XV: pense-se no
célebre triunfo de Benozzo Gozzoli (1420-1497). Para outros, entre os quais
se contam humanistas ilustres como Ermolao Barbaro, Averróis tinha feito de
Aristóteles uma leitura absolutamente inexata, por se ter baseado em versões
árabes incorretas, «roubando» dos intérpretes gregos o pouco que havia
corretamente entendido. No entanto, as obras filosóficas e médicas de
Averróis são traduzidas e publicadas em numerosíssimas edições impressas,
continuam a ser utilizadas no ensino e têm um papel decisivo nas discussões
de lógica, física, cosmologia, filosofia moral e política. Abre-se assim uma
nova fase da influência daquele que os medievais chamam «o comentador»,
que os homens do Renascimento aprendem a conhecer como um pensador
autónomo e original, também ele digno de ser comentado.

V. também: Platão e Aristóteles: do confronto à conciliação, p. 280;


A polémica antiestoica e a recuperação de Boécio e de Epicuro: filosofia e filologia em
Lorenzo Valla, p. 283;
Ficino e o hermetismo humanista, p. 308.
A ERA DAS «ESCOLAS»: A FILOSOFIA
UNIVERSITÁRIA ENTRE OS SÉCULOS XV E XVII
de Marco Forlivesi

Entre os séculos XV e XVII, a filosofia universitária desenvolve-se em


cerrado confronto entre as diferentes almas do classicismo e da Idade
Média. A flutuante evocação comum das obras aristotélicas não
impede que os autores universitários se dividam em numerosas
correntes, cada uma caraterizada pelas próprias figuras de
referência. A poderosa dinâmica dialética que daí surge e a
confrontação com os resultados da ciência matemático-experimental
remodelam o pensamento filosófico universitário e preparam o
advento dos sistemas filosóficos – de Wolff a Hegel – da Idade
Moderna.

O século XV: o novo tradicionalismo


O século XV herda do anterior um emaranhado de tensões políticas,
dinamismo cultural e inquietações sociais. Os centros de poder político (e
também de carácter religioso) multiplicam-se e, com eles, as sedes
universitárias. Em conformidade com as dinâmicas operantes desde o
nascimento da instituição universitária, os governantes procuram nas
universidades as figuras profissionais de que necessitam para a condução do
Estado e, por essa razão, subvencionam os ateneus existentes e promovem e
financiam o nascimento de novos centros de estudos. Bem mais do que as
sedes universitárias, aumenta o número das temáticas e das teses propostas e
discutidas nos «estudos», sejam públicos (ou seja, as universidades em
sentido restrito), ou próprios das ordens religiosas. A resposta concorde e
conjunta das classes dirigentes, tanto eclesiásticas como laicas, e das elites
culturais à fragilidade da paz social, à fragmentação política e à crescente
complexidade e heterogeneidade das propostas doutrinárias (percecionadas
como fonte de desordem) foi uma das afirmações do mito da «idade do ouro»
mais fortes de toda história do Ocidente. Ela forja, com modalidades
diferentes, as características de todas as componentes fundamentais do
pensamento dos séculos XV e XVI: universidades, humanismo, aristotelismo,
platonismo, pensamento alquímico e astrológico, instâncias e movimentos
religiosos.
Em especial, a universidade é marcada por três fenómenos: a formação e
competição das «vias», a formação e competição das «escolas» e o
nascimento do aristotelismo literal. Os três nascem da vontade de descobrir
no passado pontos de referência estáveis para a especulação. As «vias» são
as orientações culturais, os partidos político-académicos, as estruturas
universitárias institucionais. Tomadas como orientações culturais, consistem
antes de mais em respostas diferentes ao problema da tutela da teologia
revelada em relação à filosofia. A «via» antiga resolve as dificuldades
subordinando a filosofia à teologia; a «via» moderna, separando de forma
clara o âmbito e método das duas disciplinas. Os seguidores de ambas as
«vias», em conformidade com a vontade de ancorar as próprias teses a
figuras do passado, vão à procura de autores que possam ser assumidos
como protótipos das suas posições. Os partidários da «via» antiga
identificam-nos em autores do século XIII ou dos primeiros anos do século
XIV: Alberto Magno (1200-1280), Tomás de Aquino (1221-1274) ou Duns
Escoto (1265-1308). Os seguidores da «via» moderna em autores do século
XIV: Durand de Saint-Pourçain (c. 1275-c. 1332), Gregório de Rimini (c.
1300?-1358), Guilherme de Ockham (c. 1280-c. 1349), Marsílio de Inghen
(?-1396), Jean Buridan (c.1290-c. 1358). Estas orientações culturais e
político-académicas traduzem-se, nas universidades, em estruturas
institucionais: algumas universidades oferecem uma formação segundo a «via
antiga», outras, segundo a «via moderna», outras ainda, segundo as duas
«vias» (mantendo porém distintos os cursos das diferentes «orientações»).
As «escolas» são uma subdivisão posterior das orientações culturais
universitárias e do corpo docente, além da forma concreta que assumem as
duas «vias»: dependendo do «mestre» de referência nascem assim (ou
renascem, mas de forma mais sólida) o albertismo, o tomismo, o escotismo
ou o nominalismo. No plano institucional, qualificam os diferentes
estudantes, ou pelo menos as cátedras dedicadas a uma via especulativa
específica: in via Alberti, in via Thomae, in via Scoti, in via Durandi. No
plano político-cultural, as «escolas» tomam parte nos conflitos ideológicos
de maior fôlego do século XV. Em primeiro lugar, o conflito entre o clero
secular e o clero regular: o primeiro maioritariamente seguidor da «via
moderna», o segundo, da «via antiga». A seguir, o conflito entre absolutismo
papal e o conciliarismo: o primeiro apoiado maioritariamente pelos
tomistas, o segundo, pelos seguidores da «via moderna».
Em vez da defesa – pelos tomistas – do absolutismo papal contra o
conciliarismo, a cúria romana promove a figura de Tomás de Aquino como
pensador de referência para todos os teólogos católicos. Aliás, durante o
século XV, o papado não se limita a favorecer os tomistas, ou os apoiantes da
«via antiga» em geral. A meio do século, o papado empreende uma ação
direcionada para a introdução de uma metodologia de base unitária. Os
elementos que regem esta ação estão expressos exemplarmente nos estatutos
da universidade de Paris promulgados em 1452 por Nicolau V (1397-1455,
papa desde 1447). Esses estatutos prescrevem em primeiro lugar duas
alterações radicais da didática: a passagem do ensino «por questões» ao
ensino «através de comentário» e a recomendação de se aterem o mais
possível aos textos de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Em segundo lugar, os
estatutos explicitam a razão de tal alteração: travar a multiplicação das
questões debatidas. Apesar do que foi dito, o pensamento universitário
quatrocentista mantém-se intensamente dinâmico. Nos confrontos entre os
expoentes de «escolas» diferentes, os duelistas contaminam-se
reciprocamente e transcendem-se a si mesmos no esforço de resistir ao
adversário, de o abater, ou, até, de o assimilar. Por outro lado, a constrição à
letra de Aristóteles incentiva nos autores universitários o interesse por toda a
obra do Estagirita, pelas suas «palavras autênticas», pela sua correta
tradução latina. Relativamente a este aspeto, a cultura universitária e a
humanista compenetram-se.

O século XVI: o surgimento das tensões e das fontes


A invenção e a difusão da imprensa com caracteres móveis constituem um
acontecimento que, a partir da segunda metade do século XV, revoluciona a
propagação do saber na Europa. Os humanistas fazem dela amplo uso,
publicando uma multiplicidade de edições e traduções de obras de autores
antigos e tardo-antigos. Os teólogos e os artistae (ou seja, os filósofos,
docentes nas faculdades das Artes) não ficam atrás dos colegas humanistae.
Não só publicam um número exponencialmente crescente de obras originais
como tratam da edição de muitos textos de autores dos séculos XIII e XIV. Na
sequência do surgimento da Reforma protestante, o confronto dos teólogos
católicos com os reformados induz os primeiros a promoverem também a
publicação dos pais da Igreja. O zelo editorial diz também respeito aos
textos de Aristóteles e dos seus comentadores. Em 1495-1498, Manúcio
(1450-1515) publica a primeira edição das obras de Aristóteles em grego.
Nos anos seguintes são publicados, no original e em tradução, os textos de
comentadores gregos. Em resposta a esta «ofensiva» platonizante, em 1550-
1552, é impressa, por Giunta, uma nova tradução de todas as obras
conhecidas de Aristóteles dotada de uma nova tradução dos comentários de
Averróis (1126-1198).
Na história do pensamento universitário do século XVI ocupam também um
lugar particularmente relevante as tensões e os movimentos religiosos. Ainda
antes do aparecimento da Reforma protestante, em 1513, Leão X (1475-
1521, papa desde 1513) promulga uma bula que, por um lado, confirma como
dogma de fé as teses segundo as quais a alma é a forma do corpo, é imortal, é
diretamente criada por Deus e há uma por cada corpo humano; por outro,
obriga os docentes de Filosofia a defender filosoficamente tais teses quando
abordarem o tema. A própria Reforma protestante se insere nas tensões
político-religiosas que caracterizam o século XV e o início do século XVI.
Por um lado, herda os impulsos anti-intelectualistas e, por isso mesmo,
antiuniversitários, monásticos e humanistas. Nas primeiras fases da Reforma,
Lutero (1483-1546) escreve, de facto, que em breve não haverá no mundo
nem tomistas, nem albertistas, nem escotistas, nem ockhamistas, mas que
todos serão simplesmente filhos de Deus e verdadeiros cristãos. Por outro
lado, também é certo que o conflito entre protestantismo e catolicismo havia
sido preparado por pelo menos dois séculos de debates respeitantes,
precisamente, às questões objeto das controvérsias entre reformadores e
católicos. O próprio Lutero não é nem um simples adversário da cultura
universitária nem um seguidor da via moderna, ou da via antiga; pelo
contrário, como muitos outros dos principais autores universitários tardo-
medievais, é um pensador capaz de acolher diferentes doutrinas das diversas
escolas e de formular uma síntese própria. Isto traduz-se, no plano da
organização e da consolidação da Reforma no âmbito académico, num
quadro institucional e cultural construído utilizando parte das estruturas e dos
paradigmas em circulação nas universidades do norte da Europa, no início
do século XVI.
No âmbito católico, a interação entre os movimentos de reforma anteriores
ao surgimento do protestantismo e os derivados da necessidade de confronto
com as várias formas assumidas por este último gera numerosas
transformações. A mais radical consiste na consolidação do absolutismo
papal e na sua completa assimilação do catolicismo. Componente
fundamental deste processo é a constituição na cúria romana de organismos
destinados a vigiar a ortodoxia de doutrinas e pessoas, entre os quais a Santa
Inquisição (1542) e a Congregação do Índice (1571). A instituição destes
organismos repercute-se no papel – eclesiástico, político e social – das
faculdades de Teologia em geral e, em especial, da Faculdade de Teologia da
Universidade de Paris. Exautoradas da função de árbitros, ou pelo menos de
peritos, no campo doutrinário, essas faculdades tornar-se-ão
progressivamente meras repetidoras de posições estabelecidas alhures.
Igualmente importantes para o destino das faculdades de Teologia dos
estudos públicos são a instituição de seminários para a formação do clero e
a criação de faculdades de Teologia no seio de cada uma das ordens
religiosas. Se bem que tais estruturas se tenham desenvolvido e difundido
muito lentamente, elas subtraíram às faculdades públicas de Teologia quer a
tarefa de formar o alto clero quer o dinamismo dos autores mais inovadores.
As modalidades concretas de desenvolvimento da «reforma católica»
produzem efeitos também na historiografia filosófica e teológica. A ligeira
superioridade dos teólogos tomistas sobre os escotistas no concílio de
Trento faz que os documentos conciliares sejam formulados no léxico
tomista. Isto não apaga a maior difusão, durante todo o século seguinte, do
escotismo em relação ao tomismo, mas a longo prazo contribui para a
formação do equívoco historiográfico segundo o qual a Igreja Católica teria
tido de forma estável em Tomás de Aquino o seu principal ponto de
referência.
O que foi dito não deve levar a pensar que no âmbito católico estão
ausentes instâncias impulsionadoras. Desde o final do século XV, as
orientações de política cultural das diversas ordens religiosas pertencem a
duas grandes famílias: o escotismo e o tomismo. Nenhuma ordem religiosa
torna seu nem o albertismo nem o nominalismo, que – como escolas –
desaparecem, respetivamente, no final do século XV e nos anos 30 do século
XVI. Pelo contrário, a partir do final do século XVI, assiste-se a uma
multiplicação das formas assumidas quer pelo escotismo quer pelo tomismo.
No âmbito dos estudos públicos, conserva grande vitalidade uma forma
autónoma de aristotelismo. Não uma escola (ou várias escolas) em sentido
estrito, mas um conjunto de tradições doutrinárias que mantêm uma forte
ligação com os textos aristotélicos e, ao mesmo tempo, retiram deles motivos
e inspiração para novas doutrinas de âmbito epistemológico e moral.
Complexa é também a relação entre as faculdades universitárias e as
tradições doutrinárias defendidas por cada uma das ordens religiosas. Onde
existem faculdades de Teologia a operar em pleno, são mantidas cátedras de
Teologia quer in via Thomae quer in via Scoti. Onde tais faculdades são
apenas colégios de exame, as cátedras em questão são admitidas nas
faculdades de Artes. Assiste-se ainda à ativação de cátedras de Metafísica in
via Thomae e in via Scoti, também elas admitidas na Faculdade de Artes.
A Reforma protestante também marca profundamente a vida dos ateneus
nos países em que se difunde. Provoca imediatamente o desaparecimento dos
estudos das ordens religiosas, dos internatos e das cátedras dos estudos
públicos reservados a uma orientação especulativa específica, do uso das
obras de Aristóteles como textos de base da instrução universitária, da
metódica do debate e dos próprios graus académicos. As primeiras duas
transformações tornaram-se definitivas, mas as outras três têm vida breve: no
arco de poucos anos, as lições voltam a ter como ponto de referência os
textos de Aristóteles, o debate é reintroduzido como instrumento didático e
prova de exame e os graus académicos são repristinados. No entanto,
convém acrescentar que nas universidades protestantes penetram
profundamente quer instâncias anti-intelectualistas quer metódicas e ideais
humanistas. No plano doutrinário, uma vez desaparecidas as distinções entre
antiqui e moderni, ou entre albertistas, tomistas, escotistas e nominalistas, o
mundo protestante divide-se nas diferentes confissões reformadas, que não
conseguem confluir num filão único; como consequência, a partir da segunda
metade do século XVI, as próprias universidades protestantes começam a
diferenciar-se, tendo por base a orientação confessional.

Os séculos XVI e XVII: o ocaso de Aristóteles e o apogeu do


aristotelismo
Os séculos XVI e XVII veem o declínio do género literário do comentário e
o desenvolvimento do manual sistemático. Pela expressão manual
sistemático não se deve entender um texto em que todo o âmbito do saber é
deduzido a partir de um ou mais princípios primeiros. Deve entender-se, isso
sim, uma obra em que a disposição dos argumentos tratados encontra
justificação não na ordem dos temas discutidos num texto anterior, mas na
vontade de tornar clara ao leitor a própria natureza dos objetos examinados e
dos nexos que os ligam. O manual sistemático não é uma invenção do final
do século XVI, mas as tendências culturais e políticas do século XV tinham
favorecido o género literário do comentário. Na primeira metade do século,
o género do comentário está ainda largamente em uso, todavia, na segunda
metade do século, a situação muda. Em cada disciplina, a quantidade de
dados e posições a apresentar ao leitor vai aumentando exponencialmente.
Por causa disto, torna-se cada vez mais difícil respeitar quer a sequência dos
temas estabelecida pela obra que os estatutos universitários impunham como
texto de referência, quer apresentar as novas orientações como simples
explicações desse texto. Contemporaneamente ao surgimento desse mal-estar,
os autores do século XVI discutem com crescente empenho a questão dos
procedimentos corretos de aquisição e exposição das disciplinas. Esses
debates suscitam fortes espectativas de rigor metodológico e levam a
considerar os textos de Aristóteles como tendo necessidade, em sede de
exposição, de oportunas «recomposições».
No campo católico, uma segunda força impele para a mudança. A obra dos
professores das faculdades de Artes esclareceu que as doutrinas do
Estagirita não coincidem, nos seus traços essenciais, com a doutrina católica.
Isto traduz-se primeiramente na pesquisa dos comentários, antigos ou de
nova elaboração, que permitam ultrapassar essa discrepância e,
seguidamente, na formulação de uma nova perspetiva. Nesta, Aristóteles
mantém o papel de ponto de referência principal, mas a verdadeira filosofia
é exposta não já sob a forma de um comentário às suas obras, mas de
maneira «direta». No campo protestante, opera-se a mesma transformação,
seguindo uma linha levemente diferente, na qual têm um papel essencial os
contrastes entre as diversas confissões reformadas. Como consequência
destas exigências, no arco de poucos anos completa-se a passagem do
comentário à reordenação das matérias por força das suas próprias
exigências internas, até ao curso propriamente dito, subdividido em
«discussões» (disputationes). Durante o século XVII, sai das editoras
europeias uma multiplicidade de cursos de Filosofia (mas ainda ligados a
alguma obra de referência) e de Teologia. Estes podem ser de natureza
diferente: completos ou dedicados a partes específicas da disciplina;
sintéticos ou ponderosos; de baixo perfil ou de grande empenho
especulativo; em latim ou – no caso dos textos filosóficos – em língua vulgar.
Esses cursos diferenciam-se também quanto ao conteúdo. Alguns autores não
se referem precisamente a um pensador determinado. É este,
maioritariamente, o caso de obras filosóficas elaboradas no ambiente de um
estudo público. Outros tomam explicitamente como modelo algum autor
medieval: Duns Escoto, Tomás de Aquino, Boaventura de Bagnoregio (c.
1221-1274), Egídio Romano (c. 1274-1316), John Baconthorpe (c. 1290-
1348). Alguns autores como Anselmo de Cantuária (1033-1109), Bernardo
de Claraval (1090-1153) ou Dionísio, o Cartuxo (1402-1471), são tomados,
em teologia, como referências. É este, maioritariamente, o caso de obras
elaboradas no contexto de uma ordem religiosa e, não raramente, na
sequência de uma solicitação proveniente das cúpulas da própria ordem.
Também no âmbito protestante se fazem distinções e divisões, e também
neste caso as solicitações originadas pela competição entre as diferentes
autoridades religiosas revestem um papel fundamental.

As décadas centrais do século XVII: a fratura da nova física


O desenvolvimento da filosofia no círculo universitário nos séculos que
mediaram entre o século XV e o XVII é um fenómeno complexo e dinâmico.
Todavia, na primeira metade do século XVII, ocorre uma mudança com
alcance tal, que permite colocar, exatamente nesses anos, o ponto de
separação entre duas épocas: a era do aristotelismo e a era moderna. Essa
mudança ocorre antes de mais no campo da física. A física de matriz
aristotélica apresenta duas caraterísticas fundamentais. Em primeiro lugar,
interpreta os fenómenos naturais como efeito da natureza das substâncias e da
presença ou ausência nelas de certas qualidades. Em segundo lugar, concebe
o movimento uniforme não como um estado, mas como uma forma de
mudança. Nos últimos anos do século XVI e nos primeiros do século XVII, um
grupo de autores, entre os quais emerge, pela sua clareza e linearidade,
Galileu Galilei (1564-1642), rejeita quer a perspetiva de fundo da física de
matriz aristotélica quer a tese sobre a natureza do movimento uniforme. À
primeira opõe a tese segundo a qual os fenómenos naturais são integralmente
explicáveis em termos de dimensão, figura e movimento. À segunda opõe o
princípio da inércia: o movimento uniforme de um corpo móvel não requer
nenhum agente que se lhe aplique continuamente. Isto permite a Galileu
superar as ondulações dos autores universitários a propósito da
aplicabilidade da matemática à física e transformar esta última numa ciência
expressa numa linguagem formalizada, cujas asserções são confrontáveis
com o dado de maneira relativamente direta.
A viragem impressa à física por Galileu não nasce do nada. Os elementos
que constituem as doutrinas do pensador pisano foram preparados por
numerosas tradições especulativas e culturais tardo-medievais e
renascentistas: tomismo, escotismo, mertonianismo, aristotelismo de Pádua,
humanismo. A própria viragem responde às aspirações não só dos homens de
cultura em geral, mas especificamente dos autores universitários. Com efeito,
as doutrinas de Galileu tornam-se imediatamente objeto de discussões de
âmbito universitário, porque a universalidade dos estudiosos de filosofia
natural ansiava por instrumentos teóricos de indagação dos fenómenos
físicos mais potentes do que aqueles de que dispunha.
Entre as transformações induzidas pela difusão da nova física duas são
particularmente dignas de nota: a convicção de que o plano geral das
ciências construído sobre as obras de Aristóteles deveria ser redesenhado e
a difusão da esperança de poder dispor rapidamente em qualquer campo de
conhecimentos matematizados, ou pelo menos formalizados. A convicção
acima mencionada contribuiu realmente para a reformulação do plano geral
das ciências, enquanto a esperança agora relembrada não se traduziu, ao
longo do século XVII e em disciplinas diferentes da física, em soluções
radicais de continuidade.

V. também: A tradição aristotélica na Itália do século XV, p. 266;


Alguns aspetos do debate científico quatrocentista, p. 347.
PLATÃO E ARISTÓTELES: DO CONFRONTO
À CONCILIAÇÃO
de Luca Bianchi

As pesquisas históricas e filológicas levadas a cabo pelos humanistas


durante todo o século XV permitem o florescer de estudos marcados
pelas maiores correntes e figuras do pensamento antigo. Não sendo
já visto como pensador único (o filósofo), Aristóteles é colocado a
par dos outros grandes pensadores da idade clássica e helenística, e
sobretudo é comparado com Platão. Num primeiro momento, essa
comparação visa estabelecer quem, entre o discípulo e o mestre, fora
maior e se aproximara mais da verdade, mas a partir do final do
século XV, graças a Ficino e a Pico della Mirandola, prevalece uma
interpretação «conciliadora» segundo a qual as suas divergências
teriam sido mais de método e de linguagem do que de conteúdo.

A comparação
Pintada por Rafael (1483-1520) na Stanza della Segnatura no Vaticano
entre 1508 e 1511, a Escola de Atenas documenta de modo
extraordinariamente eficaz a forma como as pesquisas históricas e
filológicas conduzidas pelos humanistas durante todo o século XV haviam
permitido redescobrir as maiores correntes e figuras do pensamento antigo.
Recolocado ao lado dos pré-socráticos, dos sofistas, dos grandes filósofos e
cientistas da idade clássica e helenística, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.),
denominado o filósofo há séculos, mantinha um papel de primeiro plano, e
voltava a ser um dos numerosos filósofos da Antiguidade. O facto é que, se
na obra-prima de Rafael reconhecemos Pitágoras e Heraclito (acrescentado
posteriormente e retratado com o rosto de Miguel Ângelo), Sócrates,
Diógenes, o Cínico, e talvez Plotino, o centro prospectivo de toda a
composição são Platão (428/427 a.C.-348/347 a.C.) e Aristóteles, rodeados
pelos seus numerosos discípulos: o primeiro tem debaixo do braço o Timeu e
aponta o indicador da mão direita para o céu; o segundo segura a Ética na
mão esquerda, enquanto a direita se apresenta aberta, com a palma virada
para o chão.
Discutiu-se muito sobre a escolha destes livros e sobre o significado
simbólico dos gestos de Platão e Aristóteles, de que alguns sublinharam a
oposição, outros, mais corretamente, a complementaridade. Com efeito, se
todos os frescos da Stanza della Segnatura revelam uma inspiração
profundamente neoplatónica, em Escola de Atenas, a influência,
especialmente evidente, de Marsílio Ficino (1433-1499) e de Giovanni Pico
della Mirandola (1463-1494) leva a assumir uma determinada conceção da
filosofia: esta não é identificada com o pensamento de Aristóteles, e também
não o é apenas com o de Platão, mas sim como uma síntese das doutrinas de
Platão e Aristóteles, consideradas as duas expressões mais elevadas da
racionalidade humana, distintas, mas conciliáveis. Deste modo, Rafael
regista a indiscutível centralidade que o tema da comparação (ou
comparatio) entre estes dois filósofos havia assumido durante o século XV.
Este tema, já discutido na cultura medieval, torna-se muito atual após a
intervenção de Jorge Gemisto Pletão (c. 1355-1452), um dos sábios
bizantinos que, em 1438-1439, participa no concílio de Ferrara-Florença
para a união entre a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente.

O debate
Imobilizado em Florença por doença, Gemisto Pletão escreve em grego um
sumário dos pontos em que Aristóteles se distinguia de Platão. Ele não se
limita a defender, em conformidade com uma consolidada tradição bizantina,
que o mestre foi mais metafísico do que o discípulo, mas desfere um violento
ataque contra toda a filosofia peripatética, detendo-se especialmente sobre
algumas doutrinas morais centrais (a doutrina do meio-termo, ou do justo
meio), cosmológicas (a eternidade do mundo, a distinção entre causalidade
celeste e terrestre) e teológicas (a negação da atividade criadora de Deus). O
opúsculo, que suscita polémicas no mundo bizantino, é objeto de um vivo
debate no círculo dos emigrados gregos agrupados em Roma à volta do
cardeal Basílio Bessarion (1403-1472), mas não parece deixar marca entre
os autores latinos durante cerca de 20 anos e, surpreendentemente, é
impresso apenas no século seguinte (1540-1541), sob o título de De
Differentiis Platonis et Aristotelis, em conjunto com uma paráfrase latina.
Assim sendo, é graças à resposta de Jorge de Trebizonda (1395-1484) que a
controvérsia sobre o «primado» de Platão ou de Aristóteles assume
ressonância universal. A imagem de Platão como homem profundamente
imoral, criador de uma filosofia irremediavelmente anticristã, delineada em
Comparatio Philosophorum Aristotelis et Platonis, de 1458, provoca, de
facto, a réplica de Bessarion, que, em 1459, escreve a primeira versão
(grega) de In Calumniatorem Platonis: texto de capital importância, em que
trabalha durante uma década até lhe dar, graças ao auxílio de Teodoro de
Gaza (c. 1400-1475) e de Nicolau Perotti (1429-1480), a forma da editio
princeps greco-latina de 1469.
Conjugando a sua notável preparação histórico-filosófica com um singular
facciosismo, Jorge de Trebizonda acumula uma impressionante quantidade de
argumentos, de valor desigual, a favor de três teses principais: Aristóteles
deve ser considerado o maior benfeitor da humanidade no campo filosófico,
enquanto Platão foi um pensador loquaz, vácuo e incoerente, cujo contributo
científico se pode considerar nulo. Ao contrário do que pretendera Gemisto
Pletão, Aristóteles (que teria até pressentido o dogma da Trindade) está bem
mais perto do cristianismo do que o ímpio Platão, cuja teologia constituiria
uma temível mescla de superstições pagãs. Além disso, contrariamente ao
virtuoso Aristóteles, Platão era um «velho libidinosíssimo», dedicado à
homossexualidade e à embriaguez, sem amor à pátria, egocêntrico e
megalómano.
Um ataque de tal violência deita por terra as fáceis tentativas de
conciliação elaboradas pelos primeiros humanistas, que, remontando a uma
antiga tradição helenista, islâmica e medieval, tinham frequentemente
defendido a possibilidade de conciliação das filosofias dos dois maiores
pensadores gregos, afirmando que entre eles não havia diferenças
doutrinárias insanáveis, mas apenas diferenças de terminologia e de método.
Tornou-se assim indispensável reformular o programa «concordista» em
termos mais credíveis. É o que Bessarion se propõe fazer com In
Calumniatorem Platonis, obra que visa defender Platão das acusações que
Jorge de Trebizonda lhe dirigira, sem se colocar por este motivo abertamente
contra Aristóteles. Apesar das suas declaradas simpatias platónicas,
Bessarion ostenta uma certa equidistância: se exalta a teoria política
delineada em República, critica a sua conceção do casamento como
inadaptada aos homens comuns, a cujas exigências reconhece responder
melhor o pensamento aristotélico; e se rejeita secamente qualquer pretensão
de «santificar» o Estagirita, não pretende porém «batizar» Platão, mas
admite que ambos haviam defendido algumas doutrinas contrárias à fé cristã.
Todavia, tendo consciência quer das suspeições difundidas contra Platão
quer de que já há dois séculos o ensino filosófico nas universidades de toda
a Europa se baseava nos escritos de Aristóteles, considerados superiores em
clareza e ordem expositiva, Bessarion procura mostrar que as razões
habitualmente aduzidas para justificar essa preferência são inconsistentes por
terem origem numa incompreensão das intenções que haviam inspirado os
Diálogos, cuja forma enigmática e cujo uso de mitos e imagens poéticas
nasciam não da escassa preparação lógica do autor ou de um presumível
desprezo pelo rigor científico, mas da sublime elevação metafísica do seu
discurso, que não podia nem devia ser expresso em termos compreensíveis a
todos.

A reconciliação
Defensor do acordo entre Platão e Aristóteles (mesmo à custa de graves
adulterações exegéticas, como a atribuição a este último da doutrina da
preexistência das almas), Bessarion não concebe, portanto, esse acordo em
termos de paridade, mas afirma a proeminência do primeiro, como fonte de
um itinerário especulativo que o segundo se teria limitado a «metodizar» e
divulgar. «Historizando» a obscuridade dos Diálogos e fazendo deles a fonte
de uma verdade reposta que os escritos aristotélicos teriam, em parte,
revelado, Bessarion retoma, por sua vez, o topos segundo o qual as
dissidências entre os dois maiores filósofos gregos são mais verbais do que
reais: mas o seu Aristóteles reduz-se, de acordo com um esquema conceptual
tipicamente platónico, a uma sombra, a um reflexo, uma cópia terrena e
imperfeita do «divino» Platão.
Para lá de algumas exceções, a estratégia interpretativa elaborada por
Bessarion tem uma ótima receção e é proposta, com matizes diferentes, por
numerosos filósofos do século XV. Se Giovanni Pico della Mirandola,
apóstolo da «paz filosófica», reforça a ideia de uma convergência total («no
significado e na substância», mesmo que não «nas palavras») entre Platão e
Aristóteles, outros entendem a sua concórdia como complementaridade.
Nesta perspetiva, abertamente defendida por Marsílio Ficino e desenvolvida
por Egídio de Viterbo (1465-1532), a Platão é reconhecida uma clara
supremacia no campo metafísico e teológico, enquanto Aristóteles se mantém
como a autoridade máxima na lógica e na filosofia natural: a conciliação é,
portanto, tornada possível pela clara demarcação dos âmbitos da pesquisa,
dos níveis de discurso e dos métodos. A temática das diferenças e da
comparação (comparativo) entre Platão e Aristóteles, tal como foi
estabelecida em meados do século XV por Gemisto Pletão, Jorge de
Trebizonda e Bessarion, é assim retraduzida por Pico e Ficino nos termos da
concordia. Será esta abordagem que claramente guia também Rafael naquela
«história ilustrada da filosofia antiga» que é a Escola de Atenas, que sairá
por muito tempo vencedora. De facto, basta passar em revista os títulos dos
numeroso tratados quinhentistas destinados a aprofundar a questão das
relações entre Platão e Aristóteles para constatar a constante insistência nos
motivos da «conciliação», do «consenso», da «sinfonia» entre as suas
filosofias.

V. também: A tradição aristotélica na Itália do século XV, p. 266;


O humanismo: características gerais, p. 430.
A POLÉMICA ANTIESTOICA E A RECUPERAÇÃO DE BOÉCIO E DE
EPICURO: FILOSOFIA E FILOLOGIA EM LORENZO VALLA
de Agnese Gualdrini

A poliédrica obra de Lorenzo Valla exprime a tentativa de voltar a


trazer a filosofia a uma maior adesão à realidade no respeito pela
verdade dos textos clássicos e das inclinações naturais do homem.
Daí o interesse pela filosofia prática declinada nos termos de um
antiestoicismo hedonista e a exaltação da retórica como método,
aplicável a todas as disciplinas, capaz de renovar a relação entre
verba e res, então reduzida pelas subtilezas da lógica escolástica a
uma linguagem puramente formal e abstrata.

Entre Idade Média e humanismo


Ao analisar a passagem entre Idade Média e humanismo, boa parte da
historiografia tem geralmente insistido na ideia de fecho de uma época e de
abertura de uma outra, realçando frequentemente duas bases epistemológicas
diferentes. Nesse horizonte de estudos, a figura de Lorenzo Valla (1405-
1475) foi comummente associada à de um dos mais ilustres e refinados
humanistas italianos do século XV, defensor de uma nova corrente de
pensamento em oposição aberta à escolástica medieval. Na realidade,
embora optando por uma perspetiva filológica que indubitavelmente incidirá
na tradição renascentista seguinte, embora entrando em polémica com o
método escolástico, que formava então um todo com um panorama intelectual
cada vez mais asfixiado e intelectualmente entorpecido, Lorenzo Valla não se
pode considerar decerto independente do horizonte cultural da Idade Média.
Tanto mais que a filosofia medieval não representa uma reelaboração
unitária e constante de temas recorrentes, mas é constituída pelo entretecer
de tradições e posições teóricas bastante diversas entre si. Assim, Valla
rejeita o afastamento da realidade produzido pelas disputas académicas
ainda ligadas ao aristotelismo e ao averroísmo, mas também não participa na
orientação que confluirá depois no platonismo florentino e que se
caraterizará por uma hermenêutica sacral dos textos e pela criação de uma
filosofia de cariz mágico-esotérico. O que Valla propõe é mais um contributo
crítico, típico do retórico, que se opõe à incompetência de quem falseia o
sentido original dos textos e que chama a atenção do homem para a dimensão
prática da vida, que a retórica tem a tarefa de desenvolver mediante o
critério da elegantia linguística. A filologia de Valla torna-se assim
simultaneamente historiografia, por consentir uma efetiva compreensão do
passado, e filosofia, por introduzir uma compreensão correta das palavras e
das categorias através das quais se exprime o pensamento humano. Só deste
modo, de facto, é possível colher a realidade das coisas e a natureza do
homem na sua completude.

Vida e obras
Nascido em Roma em 1405 de pais de Placência, Lorenzo Valla inicia
desde muito jovem o estudo dos clássicos latinos e gregos, primeiro, em
Roma e, depois, em Florença como aluno de João Aurispa (1376-1459) e de
Ranuccio da Castiglion Florentino (século XIV-XV). Em 1431, transfere-se
para Pavia, onde ensina eloquência e escreve o famoso diálogo De Voluptate
(1431), texto sobre a reavaliação do prazer epicurista que conhecerá
diversas versões e contínuas variações de títulos – De Vero Falsoque Bono
(1433), De Vero Bono (1444), Panegiricon de Vero Bono (1483) –
suscitando muitas polémicas e acesas diatribes. Justamente na sequência de
uma disputa bastante azeda relativa à obra do jurisconsulto Bártolo de
Sassoferrato (1313-1357), em 1433, Valla é obrigado a deixar a cidade e a
deslocar-se para diversas cidades italianas, entre as quais Milão, Génova e
Florença, até chegar a Nápoles em 1435, onde exerce as funções de
secretário de Afonso V de Aragão (1396-1458). O famoso opúsculo De
Falso Credita et Emenditia Constantini Donatione (1440), destinado a
demonstrar filologicamente a falsidade do documento sobre o qual se havia
baseado durante séculos a reivindicação do poder temporal pelos papas,
oferece de resto um instrumento político e cultural precisamente às
orientações contra a cúria da corte aragonesa, que intervém em defesa de
Valla, acusado e processado pela Inquisição em 1444. Além da elaboração
de De Libero Arbitrio e de Disputationes Dialecticae (1439), são também
do período napolitano a redação do importante tratado Elegantiarum
Latinae Linguae Libri Sex (1435-1444), com que Valla fornece os
instrumentos para a completa recuperação do latim clássico libertado das
impurezas nele sedimentadas ao longo dos séculos, e a aplicação da filologia
aos textos sagrados, como demonstram as Anotações sobre o Novo
Testamento (1449), obra que será muito apreciada por Erasmo de Roterdão
(c. 1466-1536) e que será colocada no índice pelo concílio tridentino
durante a Contrarreforma. Em 1448, graças à eleição para pontífice de
Nicolau V (1397-1455, papa desde 1447), iniciador do mecenato papal, que
acolhe, entre outros, Leon Batista Alberti (1406-1427), Piero de la
Francesca (1415/1420-1492), Poggio Bracciolini (1380-1459), Valla
regressa a Roma (onde morrerá em 1457) na qualidade de professor de
retórica e secretário apostólico. Nesses anos, dedica-se à tradução das obras
de Homero, Esopo, Heródoto e Tucídides.

A importância da retórica
Ao contrário do que foi por vezes afirmado, a obra de Lorenzo Valla não
representa uma crítica à filosofia em nome da retórica e da elegância
linguística. A aplicação da filologia e a importância atribuída à palavra
também em matéria filosófica visam antes oferecer um diferente ponto de
vista em resposta aos debates académicos no interior das universidades, que
tinham reduzido a filosofia a mero exercício de uma lógica formal e rigorosa
totalmente incapaz de aderir à realidade. Sem um conhecimento adequado
das línguas clássicas, a escolástica medieval tinha dado lugar a um série de
mal-entendidos e equívocos criando uma linguagem artificial que já não era
capaz de se reportar ao verdadeiro. Neste sentido, a reflexão de Valla
propõe uma substancial revisão da linguagem através da análise gramatical
dos fundamentos conceptuais dos termos lógicos aristotélicos: partindo da
assunção de que, se o objeto do conhecimento humano são as «coisas», então
os termos da metafísica clássica tornam-se completamente ausentes de
significado e de universalidade, Valla chega à defesa da ideia de que os
conceitos primeiros de ens, aliquid, unum, verum, bonum não são mais do
que particularidades expressivas de uma única palavra realmente concreta
res. Os termos abstratos reenviam somente para adjetivos e estes, por sua
vez, destinam-se exclusivamente a qualificar a coisa e não a exprimir a sua
substância: os predicados são reduzidos a três (substância, ação, qualidade)
e os transcendentais a um, porque apenas res não indica uma determinação
particular do ente. A linguagem transforma-se em autêntico critério de
verdade e a retórica, através da lição de Quintiliano (c.35-96), torna-se uma
disciplina nova, o instrumento privilegiado de todas as ciências, da filosofia,
à historiografia, à teologia. Já não confinada à esfera daquilo que é
simplesmente persuasivo, a retórica absorve em si o conjunto dos discursos
relativos à probabilidade e à credibilidade, mas também as argumentações
apodícticas necessárias próprias da dialética. Nessa perspetiva, a filologia,
entendida como ciência histórica capaz de verificar a validade epistémica da
linguagem (também ela considerada na sua historicidade), funda um novo
modelo de conhecimento baseado na reconquista da dimensão terrena. O De
Falso Credita et Emenditia Constantini Donatione é um exemplo claríssimo
de uma correta leitura dos clássicos e da aplicação da filologia assim
delineada.

A polémica antiestoica
A reavaliação da retórica exprime certamente uma crítica ao fundamento
falacioso da filosofia dominante nas scholae. A denúncia de Valla não é,
todavia, apenas uma denúncia da abstração de um método filosófico
demasiado afastado da realidade: a sua crítica estende-se também ao culto
quase exclusivo da lógica aristotélica. Voltando a atenção para a filosofia
prática, Valla propõe o tema clássico da felicidade, enfrentando a questão do
ponto de vista epicurista. Esta proposta vem configurar-se como uma solução
bastante original. Por um lado, por assinalar a reavaliação de uma corrente
de pensamento diferente do aristotelismo, por outro, por defender o direto
antagonista do rigor estoico e monástico. De resto, aquilo que para Valla é
urgente defender é uma imagem completa do homem considerado na sua
concretude e avaliado sem preconceitos nas suas inclinações naturais. É,
portanto, evidente que uma ética que busca os próprios fundamentos na
apatheia do ensaio e que vê na perseguição da virtude uma atividade em si
mesma não pode deixar de se transformar num alvo polémico fácil, a que se
contrapõe uma filosofia prática mais aderente à realidade e respeitosa da
natureza humana. Tal ética é perseguida por Valla na identificação epicurista
entre virtude e prazer, e o diálogo De Voluptate representa o seu mais claro
manifesto teórico. Estruturado em três livros, propõe (na sua primeira
versão) um debate entre Leonardo Bruni (c.1370-1444), defensor da ética
estoica, que considera as paixões erros que a razão pode emendar, Antonio
Beccadelli, o Panormita (1394-1471), que exalta o prazer como causa e fim
último das ações humanas, e Niccolò Niccoli (1364-1437), representante da
cristandade chamado a tomar posição entre estoicismo e epicurismo. É
exatamente na intervenção deste último que reside a originalidade do diálogo
de Valla, que não se deve tanto à confrontação das duas famosas éticas
helenistas, mas à consideração do cristianismo como uma forma de
hedonismo: entre a aspiração do epicurista e a fé do cristão existe uma
continuidade fundamental baseada na busca do prazer. Um todo-o-terreno e
mundano, outro de natureza celeste e ultraterrena. De facto, no decurso do
diálogo, Niccoli rejeita como vazia e enganadora a moralidade estoica,
reconhecendo ao prazer o telos último da moral cristã, baseada na promessa
da beatitude celeste (os prazeres ultraterrenos tornam-se a mais alta
manifestação da voluptas). Contra toda a prática ascética que mutila o
homem na sua parte corpórea, a felicidade é, pois, entendida como a plena
realização no homem de todas as potencialidades que a existência oferece.
Neste sentido, a reavaliação da natureza do homem operada por Valla em
todas as suas formas e dimensões poderia, na realidade, parecer mais
próxima da ética eudemonista de Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) do que da
ética, erroneamente definida hedonista, de Epicuro (341 a.C.-271 a.C.) –
que, como se sabe, identificava o prazer com a ausência de dor e para o
conseguir indicava um caminho nada simples constituído por muitas
renúncias. Aquilo que em qualquer caso importa ao filólogo, e que
representa uma posição interessante e inovadora dentro do panorama
quatrocentista, é fundar uma ética o mais possível conforme à natureza e às
inclinações humanas. Por isso, e nesse horizonte teórico, se dá a reavaliação
do hedoné, porque até os mais altos valores do espírito respondem ao
estímulo natural do útil e do agradável: «Nada conserva mais a vida do que
o prazer; sem o gosto, a vista, o ouvido, o tacto, o olfato, não podemos viver,
mas sem a honestidade, sim. Assim se alguém ousa violar em si o que a
natureza prescreve, fá-lo-á contra a sua própria utilidade; porque cada um
deve operar para sua própria vantagem» (De Voluptate, I, 36).

O livre-arbítrio e a crítica a Boécio


No desmascarar das posições do estoico que acredita perseguir a virtude
por si mesma sem admitir a natural obtenção de uma utilidade e de uma
vantagem pessoal, Valla tem como alvo polémico evidente o De
Consolatione Philosophie, de Severino Boécio (c. 480-525), de que o De
Voluptate exprime uma crítica explícita aos primeiros quatro livros. O De
libero Arbitrio representa ao invés uma polémica contra o quinto livro da
mesma obra, em que Boécio, definido por Valla como «o último dos
romanos, ou o primeiro dos escolásticos», tinha oferecido uma solução
singular da relação entre presciência divina e liberdade do homem. De facto,
ele baseara a livre consciência do homem na assunção de que a sapiência de
Deus se estendia até compreender os futuros acontecimentos num eterno
presente, de modo a conhecê-los não em si mesmos, mas em relação à
modalidade e à presença da própria cognição. A esta posição, Valla reprova
um exagerado intelectualismo e uma excessiva confiança no conhecimento do
homem em detrimento de um enfraquecimento, senão mesmo de uma negação,
da providência divina. Todavia, a tentativa do humanista de salvaguardar e
harmonizar os dois termos do problema acaba por não conseguir resultados
apreciáveis, e a antiga questão da liberdade do homem, dada a omnisciência
divina, continua privada de explicações ou justificações. De resto,
considerar a presença de Deus não uma causa necessitante (se Deus conhece
o futuro é porque o prevê e não porque o determina) não é uma solução
demonstrável e, portanto, Valla opta, também neste caso, por uma inversão
do ponto de vista: aprofundar a teologia, a ciência das coisas divinas que se
baseia num terreno dominado apenas pela probabilidade não traz qualquer
vantagem para o homem. É suficiente a certeza da utilidade do amor e da
caridade para conduzir uma vida encaminhada para alcançar a beatitudo. O
apelo de Valla é, em conclusão, um apelo à humildade e à aceitação do
mistério: um chamamento à religiosidade entendida como exercício da
caridade e da fé, que não deixará de fazer sentir a sua influência sobre Lutero
(1483-1546) e Calvino (1509-1564).

V. também: Agricola, p. 324;


A política na corte e o soberano ideal: diversas visões do poder antes de Maquiavel, p.
329; Clássicos e ciência, p. 408; O humanismo: características gerais, p. 430;
A descoberta dos textos antigos, o mito de Roma, o humanismo civil, p. 435;
O conhecimento e o estudo do grego, p. 440; Os géneros da prosa humanista, p. 444
A historiografia, p. 449; Pontano e o humanismo na Nápoles aragonesa, p. 459;
A religião dos humanistas, p. 509; Festas, farsas e representações sacras, p. 526.
NICOLAU DE CUSA, DOUTA IGNORÂNCIA
E FILOSOFIA DO INFINITO
de Matteo d’Alfonso

Nicolau de Cusa, principal representante do humanismo europeu, é


geralmente conhecido pela sua original elaboração da teologia
negativa, doutrina segundo a qual a aproximação ao conceito de
Deus se faz negando aquilo que ele não é. Nicolau apresenta-a pela
primeira vez com o nome de «douta ignorância» na obra homónima
de 1440 e vai torná-la mais precisa num grande número de obras.
A atividade de Nicolau que se direciona, para lá do âmbito filosófico-
teológico e matemático, também a projetos de reforma política e de
pacificação religiosa, não se limita ao simples plano especulativo.
Teórico ante litteram da tolerância como enviado ao conselho de
Basileia, legado papal na Alemanha, Países Baixos e Boémia,
protagonista dos concílios de Ferrara e de Florença, bispo de
Bressanone e finalmente vigário papel em Roma, Nicolau de Cusa
desenvolve um papel pastoral, diplomático e institucional de
primeiríssimo plano na complexa ação religiosa e política da Igreja
do seu tempo.

Vida e obras
Nicolau de Cusa, Niklas Kryffts ou Nicolaus Krebs (1401-1464),
italianizado como Nicolau Cusano – em italiano o apelido significa
caranguejo – nasce em Kues, pequena cidade sobre o Mosela entre Coblença
e Trier. A sua família, abastada, é de origem burguesa – o pai, Henne Kryffts,
é comerciante e proprietário de navios –, suficientemente rica para enviar o
filho para a Universidade de Heidelberg. Aí, aos 15 anos, Nicolau
familiariza-se com os ensinamentos fundamentais de física, ética, lógica e
retórica, para se transferir no ano seguinte para a Universidade de Pádua,
onde se inscreve na Faculdade de Direito. Os anos de estudo em Pádua, que
em 1423 darão a Nicolau o título de doutor em Direito Canónico,
representam um momento fundamental para o encaminhamento da sua
filosofia e da sua carreira eclesiástica. Em Pádua, frequenta um contexto
intelectual já completamente permeado pela efervescência do novo século,
que nas ciências se abria à empiria e, sempre que fosse possível, se virava
para a antiguidade clássica em busca de novos instrumentos para um mais
autêntico conhecimento do real. Neste ambiente, estabelece amizade com
duas pessoas que terão um papel fundamental na sua vida: o romano Giuliano
Cesarini (1398-1444) e o florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli (1397-
1482).
Nicolau será convidado a participar no concílio de Basileia em 1432, por
Giuliano Cesarini, que a ele preside. Esse concílio deveria ter harmonizado
numerosas questões internas da Igreja, não sendo a menos importante o
Cisma do Oriente (1504). Nicolau de Cusa, que nele toma parte como
enviado do arcebispo de Trier, senta-se entre as filas dos conciliares e, neste
âmbito, concebe a sua primeira grande obra, De Concordantia Catholica
(1433). Todavia, ao constatar a real impossibilidade de um concílio
gravemente dividido internamente harmonizar uma vastíssima série de
conflitos numa situação política e religiosa muito complexa, Nicolau resolve
passar para o partido do papa, esperando dele uma intervenção resolutiva
mais eficaz.
Recebe assim de Eugénio IV (1383-1447, papa desde 1431) o encargo de
se dirigir a Constantinopla para convidar o imperador João VIII Paleólogo
(1394-1448) a participar no grande concílio de Ferrara-Florença, anunciado
com o fim de resolver o dissídio entre a Igreja grega e a romana. Com esta
manobra, o papa, face à cada vez mais incisiva ameaça dos turcos, já quase
às portas de Constantinopla, visava obter em troca da sua ajuda militar ao
Oriente cristão a submissão da Igreja do Oriente à teologia ocidental. Se bem
que contra vontade, o imperador bizantino aceita o convite e embarca para
Itália: acompanham-no uma comitiva de teólogos e conselheiros, entre os
quais se distingue o filósofo neoplatónico Jorge Gemisto Pletão (c. 1355-
1452), que alimentará os interesses platónicos de Cosme de Médicis (1389-
1464), que conduzirão à fundação da Academia Platónica de Marsilio Ficino
(1433-1499).
Durante a viagem de regresso de Bizâncio, Nicolau que, entre os primeiros
do seu tempo, transporta consigo variados manuscritos gregos, entre os quais
diversos textos neoplatónicos, concebe a teoria da «douta ignorância», que
fixará, pouco depois de regressar, na obra homónima de 1440 e em De
Conjecturis, de 1444. Embora ocupado em diversas missões apostólicas até
1447, consegue escrever com regularidade, aprimorando o seu característico
estilo expositivo, feito de breves tratados ou diálogos latinos sem as
pretensões estilísticas próprias do gosto humanista contemporâneo, mas, em
compensação, ricos de ousadia especulativa: no ano de 1445, compõe De
Deo Abscondito, as pequenas obras teológicas De Quaerendo Deo e De
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