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Reforma Ontem, Hoje e Amanhã — Carl Trueman

© Editora Os Puritanos/Clire
Traduzido do original em inglês: Reformation: Yesterday Today and Tomorrow — Primeira edição em 2000 pela Bryntirion Press.
Reimpresso em 2011 pela Christian Focus Publications, Geanies House, Fearn, Ross-shire, IV20 1TW,
Scotland.www.christianfocus.com. Edição em português autorizada pela Christian Focus Publications. Todos os direitos são
reservados.Copyright © 2011 por Christian Focus Publications
É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação, por quaisquer meios, sem a autorização por escrito dos editores, excetuando-
se breves citações em resenhas.
Autor:
Carl Trueman
Edição em Português:
1.ª Edição impressa — Janeiro de 2013
1.ª Edição ebook — Setembro de 2013
Editor:
Manoel Canuto
Tradutor:
Valter Graciano Martins
Revisores:
Márcio Santana Sobrinho e Helio Kirchheim
Designer:
Heraldo Almeida
ISBN:
978-85-62828-21-8
SUMÁRIO

Capa
Créditos
Depoimentos Sobre o Livro
Sobre o Dr. Trueman
Agradecimentos
Prefácio
• A Pérola de Grande Valor
• Encontrando o Varão de Dores
• Os Oráculos de Deus
• Bendita Segurança
Mídias
Livros
DEPOIMENTOS SOBRE O LIVRO

O CRISTIANISMO OCIDENTAL tem-se deixado hipnotizar conscientemente


a um estado de pré-reforma, tornando-se religiosamente ecumênico e
moralmente falido. Em suma, temos necessidade de uma nova mentalidade de
reforma que retome os princípios dos reformadores dos séculos dezesseis e
dezessete. O relançamento de Carl Trueman, Reforma: ontem, hoje e amanhã
é um corretivo necessário e um poderoso antídoto para a anemia espiritual
que tem contagiado nosso capítulo da história da igreja. É um livro
historicamente imprescindível, maravilhosamente prático, espiritualmente
motivador.
— Rick Holland,
Pastor executivo, Grace Community Church,
Sun Valley, Califórnia

O PRESENTE TEM elos indissolúveis com o passado. Isso é óbvio, ainda que,
possivelmente, não para algumas pessoas modernas que se julgam mais sábias
do que realmente são. Felizmente, Trueman não é assim. Extraindo um rico
lastro de conhecimento da Reforma, aqui ele mostra que esse grandioso
evento da história ainda não acabou de forma alguma, mas possui
aplicabilidade progressiva. Este livro é uma grande introdução ao significado
atual desse evento transformador de alcance mundial.
—Michael Haykin,
Professor de História da Igreja e Espiritualidade Bíblica,
The Southern Baptist Theological Seminary,
Louisville, Kentucky
A LEITURA DESTE livro magnífico é obrigatória a todos os cristãos — e
especialmente àqueles que duvidam que a Reforma Protestante tenha algo a
dizer para nós hoje. Declarando que “a Reforma é a tentativa de colocar Deus,
como ele se revelou em Cristo, no centro da vida e do pensamento da igreja”,
Trueman recupera a teologia da cruz de Lutero, argumentando que, visto que a
Reforma “foi, acima de tudo, um movimento da Palavra – encarnada em Cristo
e escrita nas Escrituras”, e porque o Espírito opera através da Palavra, “a
Palavra escrita e a Palavra pregada são ambas centrais para o cristianismo, e
não são simples formas culturais que podem ser alteradas quando os
movimentos culturais mudam para algo novo” e então termina com um
capítulo sobre a certeza cristã, reconhecendo nossa certeza como o
fundamento para nossa atividade cristã. Ao longo do caminho, ele espalha
pepitas e mais pepitas de percepção vívida sobre qual é a essência do legado
da Reforma, levando seus leitores a abraçar outra vez essa essência.
— Mark R. Talbot,
Professor Adjunto de Filosofia, Wheaton College,
Wheaton, Illinois

COM SABEDORIA, BOM senso e clareza, Carl Trueman apresenta percepções


importantes da Reforma acerca de Cristo, da Escritura, e da nossa apropriação
de ambos para usar na vida da igreja evangélica moderna. Esta não é uma
teologia ultrapassada. Em vez disso, aqui se faz um penetrante diagnóstico da
nossa atual experiência superficial com Deus, e, em lugar dessa
superficialidade, se prescrevem as ricas, profundas e satisfatórias correntes de
um cristianismo bíblico. Tanto o ministro como o leigo serão fartamente
recompensados pela repetida leitura deste pequeno livro. Sinto-me
imensamente alegre em vê-lo outra vez disponível ao público.
—Michael Lawrence,
Pastor Sênior, Hinson Baptist Church,
Portland, Oregon

O DR. TRUEMAN nos convoca a ampliarmos a obra dos reformadores


mediante uma contínua reforma da igreja em obediência à Palavra;
especialmente com respeito à cruz de Cristo, à Palavra escrita e pregada, e, em
terceiro lugar, à certeza da salvação... Recomendo esses assuntos a um público
cristão mais amplo para reflexão, oração e ação adequada de reforma.
—Eryl Davies,
Chefe de Pesquisa, Wales Evangelical School of Theology, Bridgend, Wales
SOBRE O DR. TRUEMAN

O DR. CARL TRUEMAN é ministro presbiteriano (OPC) e Deão


Acadêmico/Vice-Presidente para Assuntos Acadêmicos e chefe do
departamento de História da Igreja no Westminster Theological Seminary,
Filadélfia, USA. Mestre nos Clássicos pela Universidade de Cambridge e Ph.D
em História da Igreja pela Universidade de Aberdeen, Escócia. É o editor do
IFES Journal, Themelios; professor de Teologia na University of Nottingham e
na University of Aberdeen. Dr. Trueman mora em Oreland, um subúrbio da
Filadélfia, com sua esposa, Catriona, e seus dois filhos, João e Pedro.
O Dr. Trueman é autor de vários livros, entre eles:

• Critical Writings On Historic And Contemporary Evangelicalism


• O Imperativo Confessional (Ed. Monergismo)
• John Owen: Reformed Catholic, Renaissance Man
• Luther's Legacy: Salvation And English Reformers, 1525-1555
• Reformation: Yesterday, Today And Tomorrow
AGRADECIMENTOS

QUERO AGRADECER o apoio do quadro de funcionários do Evangelical


Theological College of Wales e, particularmente, do seu reitor, Dr. D. Eryl
Davies, pela oportunidade de proferir estas palestras na Conferência da
Palavra e do Espírito em julho de 2000, e pela amizade de muitos anos. Sou
grato também à Bryntirion Press por sua disposição em publicá-las. Quero
agradecer também a Willie Mackenzie por sugerir uma segunda edição e a
todo o pessoal da Christian Focus por tornar isso possível.
Quero dedicar estas palestras a Arthur S. Johnson, um inglês incomum.
— Carl R. Trueman
Newburgh, Março de 2011
PREFÁCIO

UMA DAS DESVANTAGENS de expressar as ideias na forma impressa é que


se torna muito mais fácil para os outros exigirem que o autor se responsabilize
por elas. Assim, o autor sábio nem sempre se sentirá frustrado quando um
livro seu sai de circulação, especialmente um livro escrito quando era mais
jovem. As ideias que um livro desses contém podem ter-se propagado; mas se
definharem na prateleira de alguma biblioteca, é menos provável que
assombrem os pesadelos do autor.
Assim, foi com algum receio que recebi a solicitação da Christian Focus
para reimprimir meu pequeno e esquecido livro sobre a importância atual de
alguns aspectos da teologia da Reforma. Eu o escrevera às pressas em 1999
com o fim de distribuí-lo numa conferência no Evangelical Theological
College, em Wales. Naquela época, eu ainda não havia atingido os quarenta
anos de idade, esse marcador limítrofe um tanto arbitrário, a partir do qual é
bastante aceitável e até mesmo esperado que o sujeito pinte o cabelo, se
apegue a velhos hábitos, e se torne intransigente em sua maneira de pensar.
Eu estava curioso para saber se nesse intervalo de tempo eu tinha mudado
minha maneira de pensar nas questões fundamentais sobre as quais eu tinha
emitido minhas opiniões.
Por essa razão, foi com algum alívio que descobri, na revisão do livro, que
ainda concordo substancialmente com muito do que disse quando o escrevi.
Ainda creio que uma criteriosa apropriação da Reforma é hoje vital a uma
igreja saudável. Talvez agora eu esteja mais preocupado do que nunca com a
necessidade de a igreja dar ao seu povo uma visão realista do que significam a
vida e a experiência centradas na cruz. Estou persuadido de que a doutrina da
Escritura, tanto em termos dos fenômenos bíblicos quanto em sua função na
igreja, permanecerá sendo o campo de batalha principal dentro da igreja.
Finalmente, por causa da sedução que o catolicismo romano exerce sobre
muitos evangélicos desiludidos, creio que uma ênfase adequada sobre a
segurança bíblica não só é necessária para uma vida saudável da igreja, mas
talvez seja mais polemicamente significativa agora do que em qualquer outro
tempo desde os dias da Reforma.
Naturalmente, se eu fosse escrever o livro hoje, ele seria diferente em
certos aspectos. Com toda certeza, eu incluiria um capítulo sobre a
importância dos credos e das confissões para a comunicação efetiva da fé, para
inculcá-la e preservá-la em todos os lugares e por todas as gerações. Além
disso, acrescentaria um capítulo sobre a importância de um claro
entendimento da importância da igreja visível e da comunhão dos santos, uma
vez que esses aspectos vitais do cristianismo neotestamentário se tornaram
tão fracos em nossa cultura consumista e de realidade virtual. Por último, eu
modificaria ou, pelo menos, contrabalançaria o tanto que estimulei o ensino
teológico bíblico e a pregação; eu enfatizaria a necessidade de o pregador
confrontar e mobilizar os seus ouvintes. “Ei, aposto que você nunca antes viu
Jesus neste texto” — essa não é uma aplicação adequada da Bíblia; e, no
entanto, muitos dos assim chamados pregadores e mestres da história da
redenção na tradição de Vos (ou, talvez, para ser caridoso e não imputar os
pecados dos seguidores ao fundador) a falsa tradição Vos, consideram seu
trabalho feito depois que apresentam uma preleção refinada, caprichada e
seca como o pó sobre alguma passagem, preleção que só diz o que está escrito
e nada mais.
Em conclusão, sempre me alegrei e me senti um tanto surpreso com as
referências positivas de gratidão e encorajamento que recebi como resultado
da primeira edição deste livrinho; e espero que esta nova edição também se
mostre de alguma forma útil, mesmo que pequena, a uma nova geração de
leitores.
— Carl R. Trueman
Westminster Theological Seminary,
Filadélfia, Janeiro de 2011
A PÉROLA DE GRANDE VALOR

A Importância da Reforma Hoje


PARA ALGUMAS PESSOAS, parece completamente sem sentido a ideia de
que a Reforma dos séculos dezesseis e dezessete possa ter algo a ensinar à
igreja de hoje. Afinal, entre nós e o século dezesseis há um intervalo de
quatrocentos anos. Desde então, testemunhamos o nascimento e a morte da
modernidade, a ascensão e a queda de impérios, a rápida secularização da
sociedade, o declínio de grandes áreas do Ocidente e o crescente domínio
cultural da ciência e da televisão. O que é que um conjunto de eventos —
ocorridos trezentos ou quatrocentos anos atrás, ocorridos em sociedades
dominadas por homens europeus brancos — pode ensinar alguma coisa hoje a
nós, que vivemos na era da comunicação em massa, da globalização e do
consumismo exagerado? Será que essas coisas são realmente irrelevantes?
Além disso, vivemos numa época em que a resposta aos problemas
contemporâneos é sempre esperada do novo e do diferente. Se a causa dessa
constante carência de novidades é o consumismo que sempre quer mais e
nunca fica satisfeito com o que tem, ou se é resultado da influência de ideias
sobre progresso e evolução, segundo as quais o melhor está sempre por vir,
então o resultado é óbvio: o passado simplesmente não é visto como fonte de
sabedoria ou orientação para o presente e o futuro. A onipresença do título
“pós-”, anexado a tudo, desde o pós-modernismo ao pós-evangelicalismo, é
sintomático dessa tendência, como também é a retórica usada por aqueles que
estão sempre buscando romper as formas antigas de fazer as coisas: são os
radicais, os visionários, os empreendedores. Aqueles que defendem qualquer
aspecto da tradição, seja de fé ou prática, geralmente são pichados com o
pincel da reação, do preconceito, da falta de consideração e da desconfiança. A
ideia de que o novo é bom e o velho é ruim impregna a sociedade
contemporânea, e afeta tanto a igreja evangélica como toda a cultura. A
suposição subjacente em muitos lugares é que o passado não tem serventia
nenhuma para a igreja do presente. Temos de introduzir novo tipo de conduta,
embrulhar-nos em papel mais atraente, e então nos vender num estilo mais
agradável.

Resgatando a Reforma
Espero que neste livro eu consiga persuadir ao menos alguns que considerem
com simpatia a atitude de que o passado talvez não seja tão irrelevante como
poderíamos ser tentados a pensar. Pretendo defender que as percepções-
chaves dos reformadores são tão relevantes hoje — e tão aplicáveis a situações
hodiernas — como o foram no século dezesseis.

Amigos inúteis
Minha intenção, porém, não é simplesmente salvar a Reforma de seus
difamadores; ela necessita também de ser salva de alguns de seus amigos. Há
certos cristãos para os quais o fato de que, se uma coisa — seja uma questão
de prática, uma forma de falar, ou uma doutrina específica — foi defendida
pelos reformadores, essa é uma prova irrefutável de que tal coisa é correta
para os dias de hoje. Todos nós conhecemos tais pessoas. Com frequência são
aqueles que têm reagido (e corretamente) contra a marginalização dos
reformadores na vida da igreja, fato que já perdura por décadas. O papel
dominante assumido pelo movimento ecumênico, por longo tempo do século
vinte, sem dúvida teve grande influência nesse resultado. A Reforma foi,
afinal, o momento em que a igreja ocidental dividiu-se ao meio —
protestantes e católicos —, e então fragmentou-se ainda mais, quando o
protestantismo se dividiu em luteranos e reformados. Um período tão trágico
na história da igreja era, do ponto de vista ecumênico, algo que precisava ser
tratado a fim de restabelecer a unidade; e assim foi tratado em diferentes
épocas, considerando, desde o início, como impróprias as disputas teológicas,
ou sem nenhuma relevância para os dias de hoje.
Em contraste com esse panorama, era certo e próprio que muitos
escolhessem assumir uma posição firme. De fato, é ainda correto asseverar a
significação central de uma questão como a justificação pela graça mediante a
fé, e retratar as tentativas de minar tal doutrina de um modo que
necessariamente envolva mudanças de significação teológica fundamentais na
maneira como o cristianismo e sua história devem ser entendidos. Não
obstante, suspeito que, para muitos deste grupo, à medida que reagiam aos
rituais ecumênicos, conferiram aos reformadores e à Reforma o status de
supremos ídolos ou autoridades, segundo o qual toda e qualquer dúvida ou
crítica é vista como heresia.
Além disso, o programa da reação foi sempre condenado, em última
análise, como sendo o programa estabelecido pelos ecumênicos: se a
justificação se tornou um foco central do ataque ecumênico, então ela passou
a ser a parte central da defesa conservadora; e o resultado foi que as ênfases e
preocupações dos próprios reformadores e da Reforma, como um todo, vieram
a ser lidas através das lentes dos debates que continuaram avançando na
igreja do século vinte. Isso não foi necessariamente uma coisa ruim; mas era
algo por demais restritivo. Se os reformadores tinham algo a ensinar além dos
debates imediatos gerados pelo ecumenismo, como poderíamos saber disso se
as perguntas com que nos temos dirigido aos grandes textos da teologia
reformada dizem tanto sobre as políticas eclesiásticas de nosso tempo como
sobre algo que ocorria no século dezesseis? Outras questões de importância
central, como por exemplo, a certeza da salvação, os sacramentos e a pessoa e
obra de Cristo, foram discutidas apenas nos estreitos termos estipulados pelo
movimento ecumênico, e com isso se perdeu muito do seu valor.

Crise de identidade
Portanto, aqui minha tarefa não é menosprezar os que têm defendido a
herança da Reforma tão bravamente nos últimos cinquenta anos. Devemos ser
gratos a eles, particularmente no presente momento em que o
evangelicalismo parece menos seguro de sua identidade do que em qualquer
ponto de sua história. Nunca deixo de surpreender-me com o quão pouco
tenho em comum com muitos outros do Reino Unido que hoje se dizem
evangélicos. É possível a pessoa negar que Deus conhece o futuro, negar que a
Bíblia seja inspirada, negar que a justificação é pela graça mediante a fé, negar
que Cristo é o único caminho para a salvação — e ainda continuar sendo
membro bem reputado de certas corporações evangélicas famosas.
A confusão que uma situação tal simboliza indica o vazio doutrinário e,
talvez ainda mais importante, o vazio moral em que se encontra o coração de
muito do evangelicalismo britânico em nossos dias, quando poucos, se houver
alguém, se dispõem a tomar a difícil decisão de permanecer firmes no tocante
aos aspectos inegociáveis da fé. Necessitamos desesperadamente de um
entendimento mais profundo da importância desses assuntos, caso não
queiramos vender nossa herança por um prato de guisado.

Agenda bíblica
Apesar disso, não devemos deixar que as posições heterodoxas, heréticas e
inequivocamente blasfemas de gente do miolo mole em nossa rede evangélica
estabeleçam a ordem do dia. Em vez disso, eu creio que devemos reconhecer
que nossa ordem do dia deve ser estabelecida pelas prioridades bíblicas. Por
essa razão, quero nestes capítulos expandir a discussão, para olharmos a
Reforma com novos olhos, não apenas procurando evidências de que, por
exemplo, a justificação pela graça mediante a fé foi uma doutrina importante,
de fato negada pela Igreja Católica, mas também procurar outras lições que
possamos aprender desse importantíssimo período da história da igreja.

Definindo a Reforma
Portanto, nossa primeira tarefa é produzir uma definição funcional da
Reforma que sirva como guia que dê forma ao que vem a seguir. Ora,
naturalmente isso é impossível num sentido absoluto, final e definitivo, visto
que a Reforma incorpora tantos elementos — teológicos, políticos, sociais,
culturais e econômicos —, e nenhum desses elementos é inteiramente
separável dos demais, pela simples razão que a vida real não se decompõe em
categorias nítidas e separadas. O que desejo fazer é um tanto mais modesto,
isto é, oferecer uma definição da Reforma em termos de sua ampla
contribuição teológica ao pensamento da igreja. Espero com isso desobstruir
as avenidas da reflexão teológica que as várias formas populares
estereotipadas de pensar a respeito da Reforma deixaram escapar. Ao fazer
isso, espero incentivar o leitor a pensar em como os princípios da Reforma
podem ser aplicados hoje de maneira que não se perca a sua perene
importância teológica, nem simplesmente se favoreça uma descuidada
simplificação doutrinária.
A definição geral que proponho é a seguinte: a Reforma é a tentativa de
colocar Deus, como ele se revelou em Cristo, no centro da vida e do pensamento
da igreja. Nos próximos capítulos, pretendo desenvolver três aspectos
específicos: a ênfase da igreja em Jesus Cristo, e este crucificado; a ênfase nas
Escrituras como a base e norma para a proclamação de Cristo; e a ênfase da
igreja na certeza da salvação como a experiência padrão dos crentes.

Parâmetros
Ao comentar o tema da Reforma em geral, e esses três temas em particular,
desejo tornar bem claro desde o princípio que não estou tentando fazer duas
coisas específicas que algumas pessoas talvez estejam esperando que eu faça.
Primeiro, de modo algum estou produzindo um texto que poupe a necessidade
de ler os reformadores em primeira mão. O pensamento deles é tão vasto, rico
e complexo, que nem mesmo pode ser resumido, e muito menos ser
comentado com alguma profundidade em quatro breves capítulos. Você deve
lê-los pessoalmente, caso queira extrair deles as pepitas de ouro teológicas
que seus vastos escritos contêm. Esses textos não são desconhecidos, e hoje é
fácil adquiri-los. Eu sugeriria que, da mesma forma que os reformadores
leram as obras dos Pais medievais e da igreja primitiva, a fim de aguçar seu
próprio entendimento bíblico e da tradição cristã, os ministros e os leigos
interessados de hoje devem ler os reformadores. Desde a prosa estimulante e
ardente de Lutero até os escritos mais moderados e graves de Calvino, há
muito na vasta produção literária desses homens que é teologicamente útil e,
devocionalmente, conduz à humildade. De várias maneiras, eles são bons
modelos de erudição e comprometimento, e são dignos de serem estudados
por essa razão, particularmente em nossos dias quando é tão forte a tentação
de considerar os ministros como sendo o equivalente piedoso de assistentes
sociais.
Segundo, não estou defendendo a ideia de que devemos simplesmente
voltar aos séculos dezesseis e dezessete, ver o que eles faziam, e trazer
aquelas práticas para os nossos dias como se tal prática fosse justificável.
Toda prática cristã é moldada pela época em que ocorre, e seria ingênuo não
reconhecer esse fato logo de início. Estou interessado nos princípios
teológicos subjacentes à obra dos reformadores, e em compreender como
esses princípios podem ser aplicados na prática de hoje, uma vez que Deus
não mudou, nossa teologia não mudou, mas certos aspectos de nossa cultura e
sociedade mudaram. Nesse ponto, confesso minha dívida para com os homens
da Sydney Diocese e do Moore College, os quais têm buscado durante muitos
anos trazer as percepções da Reforma em apoio à igreja moderna no mundo
moderno. Estes capítulos são minha própria diminuta contribuição a um
projeto que, na minha opinião, é de premente importância na presente
atmosfera cultural de consumismo e ecletismo. Enfatizar o valor do
pensamento da Reforma hoje, sem dar o devido valor à diferença entre a
sociedade do século dezesseis e a nossa fará com que, inadvertidamente,
condenemos os reformadores à irrelevância, induzindo nossos gurus pós-
evangélicos a pensarem que o ponto de vista deles (dos gurus) é o correto.
Precisamos certificar-nos que o fato de defendermos os reformadores não se
torne apenas uma demonstração do quão fora de moda e imprestáveis eles
são.

Teologia, a força motriz


Voltemos então à definição que tenho dado da Reforma: a Reforma é a
tentativa de colocar Deus, como ele se revelou em Cristo, no centro da vida e do
pensamento da igreja. Isto é extremamente importante, porque temos de
lembrar, acima de tudo, que, se a Reforma é um movimento importante na
história da igreja, e se os reformadores são para nós, hoje, teólogos de
profunda significância, isso se dá somente na medida em que revelam
tentativas firmes de colocar Deus, em Cristo, no centro. Está acima de
qualquer discussão que muitos reformadores foram homens corajosos; que
realizaram muitas coisas de grande importância; que atacaram muitos abusos
evidentes — teológicos, eclesiásticos e morais; e que alguns deles sofreram
morte terrível por causa das suas convicções. No entanto, nenhuma dessas
coisas, consideradas individualmente ou em conjunto, significa que eles têm
algo a ensinar-nos hoje. Muitas pessoas não cristãs têm-se mostrado
valentes; muitas têm feito coisas maravilhosas; muitas têm-se pronunciado
contra abusos; e muitas têm sofrido morte heroica e resoluta por causa das
suas crenças. Mas, como diz o antigo provérbio, uma boa morte não santifica
uma causa ruim. Além do mais, nenhuma das outras ações mencionadas faz
com que alguém se torne de permanente importância para a igreja. Somente
na medida em que influenciaram para que Deus e Cristo se aproximassem da
igreja de seus dias é que os reformadores têm contínua relevância para nós
hoje.
O próprio Lutero sugeriu isso quando descreveu a diferença entre si mesmo
e seus precursores, John Wyclif e John Huss. Segundo Lutero, eles atacaram
os padrões de conduta do papado, mas ele atacou a sua teologia. É de vital
importância entender isto: a batalha de Lutero, em última análise, não era de
cunho moral; ela era teológica. Naturalmente, as duas coisas estão
intimamente ligadas. Seu ataque às indulgências, em 1517, foi em grande
medida um ataque à prática pastoral abusiva motivada pela ganância da igreja;
mas foi também provocado pela mudança ocorrida em sua teologia, a qual
enxergava a venda de indulgência como um aviltamento da graça de Deus,
fazendo do pecado algo trivial e que iludia os leigos. Ele não atacou essa
prática simplesmente porque era abusiva em suas conclusões práticas, e sim
porque ela descansava num falso conceito de Deus e da situação da
humanidade diante de Deus.
Nos anos anteriores ao protesto, Lutero chegou a ver quão radicalmente o
pecado afetou a humanidade, que seu poder não foi interrompido no batismo,
que ele tinha um caráter tão absoluto, que nada menos do que a morte podia
curá-lo — e essa morte ele descobriu na morte de Cristo na cruz. Assim,
quando Tetzel surgiu na paróquia vizinha, oferecendo a saída do purgatório
mediante o pagamento de umas poucas moedas, Lutero se sentiu horrorizado.
Ali estava um homem vendendo a graça de Deus não simplesmente como
barganha financeira, mas também como barganha espiritual. A prática da
venda de indulgências nas mãos de Tetzel tinha em vista desviar o coração
humano e fazer com que a salvação afetasse a carteira, e não a alma. Para
Lutero, isto era ultrajoso em suas implicações pastorais, porque enganava o
povo com um falso senso de segurança; mas era também teologicamente
ultrajoso, porque reduzia o valor da morte de Cristo a uma simples transação
financeira. Crença corrupta e prática corrupta iam de mãos dadas e uma não
podia ser reformada sem a reforma da outra.
Isto era algo que a Igreja Católica da época não entendia. Devemos
acautelar-nos daqueles que sempre pintam a Igreja Católica do século
dezesseis com cores invariavelmente escuras. Certamente ela se encontrava
num estado de grande confusão teológica; e certamente tolerava um grande
número de excessos morais; mas havia também dentro dela muitos homens
que desejavam ver resolvida a corrupção dentro de suas fileiras. De fato havia
uma reforma católica que buscava purgar a igreja da corrupção e
desonestidade. Mas havia uma diferença fundamental entre a reforma católica
romana e sua contraparte que veio a ser conhecida como protestantismo. A
reforma católica romana concentrou-se nos excessos práticos e morais; não
buscava reformar a teologia da igreja. Eis a razão por que a Reforma
Protestante foi de tamanha importância: ela dirigiu-se aos fundamentos
teológicos da igreja e reformar o todo — raízes e ramos.

Deus antes e acima de tudo


Devemos estar cientes de que a utilidade da teologia da Reforma está em
sua ênfase em Deus. As teologias, os catecismos e as liturgias que emanavam
das penas dos reformadores indicam que a piedade deles era do tipo que se
preocupava, acima de tudo, com Deus. A ênfase dos reformadores era posta
muito mais na identidade e ação de Deus do que na experiência que o homem
tem com Ele. Sem sombra de dúvida, ambas se acham inextricavelmente
ligadas, mas a tônica sempre recai na parte divina da equação. Nutro suspeita
de que esta é uma das razões por que as obras de Calvino fornecem tão pouco
enfoque sobre o homem que ele foi: falava pouco de si mesmo, porque se
preocupava com o tema próprio da teologia, ou seja, Deus.
É verdade que Lutero era um tanto mais aberto sobre temas pessoais, mas
além disso há uma interessante ênfase em seus escritos que põe no centro a
encarnação, não a ação do Espírito. Aliás, sua principal dificuldade com os
anabatistas e com os radicais era a obsessiva conversa deles sobre o Espírito e
o que o Espírito lhes ensinava ou como ele os influenciava. Lutero, por sua
vez, queria falar de suas próprias experiências, que se relacionavam não a uma
influência subjetiva do Espírito na sua alma, mas a Deus em Cristo.
Isso é algo bem diferente de muita coisa que vemos acontecer em nossos
dias. Falarei mais sobre isso nos próximos capítulos, mas um dos elementos
mais marcantes da piedade evangélica contemporânea é a sua obsessão não
tanto com Deus quanto é com o ego. Naturalmente, é fácil coletar exemplos de
outras denominações que não são a nossa própria. Por exemplo, muitas das
músicas do evangelicalismo carismático costumam nos falar mais do cantor do
que sobre aquele a quem o cântico deveria ser dirigido em adoração. No
entanto, se usarmos a Reforma simplesmente como recurso para classificar a
piedade de todos os outros grupos como inferiores, fracassamos na tarefa
básica da reforma contemporânea. Existe o grande perigo de considerarmos
que nossa maneira de fazer as coisas é tão igual à maneira que os
reformadores as faziam, que deixamos de ver a necessidade de considerar uma
verdadeira reforma em nossa própria vida e prática. A pergunta que temos de
fazer é se essa ênfase em Deus, que encontramos nos reformadores, é tão
evidente na vida de nossas próprias igrejas como tão amiúde supomos que é.
Um exemplo seria a prática de dar testemunhos durante a liturgia de uma
igreja. Ora, não me entendam mal aqui. Não quero que pensem que eu
considero essa prática intrinsecamente errônea; porém me parece ser
teologicamente significativo que às vezes saibamos bem pouco das
particularidades das experiências religiosas dos grandes reformadores.
Naturalmente, isso não significa que não tivessem tais experiências; é
simplesmente porque eles consideravam essas experiências como
inteiramente irrelevantes à sua função pública de líderes da igreja.
No final das contas, o evangelho é crido porque Deus — porque Deus —
amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, e assim por
diante. O poder e persuasão do evangelho estão no fato de Deus ter agido na
história para salvar a humanidade em e através de seu Filho Jesus Cristo. A
experiência dessa salvação, pelo indivíduo e por todas as igrejas, é uma fonte
de regozijo, mas nunca se deve permitir que eclipse a ênfase nos grandes atos
salvíficos da história da redenção de Deus. O evangelho é a história daquilo
que Deus, em Cristo, fez pelos pecadores; não é em primeiro lugar a
experiência que algum indivíduo particular teve com Deus; e, se quisermos
que os testemunhos sejam dados de forma que tenham alguma utilidade,
devem deixar transparecer esse fato.
No entanto, com muita frequência os testemunhos podem tornar-se nada
mais que extensas reflexões sobre as experiências individuais com Deus. Na
minha opinião, dar lugar a esse tipo de testemunho é colocar nossa própria
vida evangélica da igreja no caminho para o liberalismo, que, no final das
contas, nada mais é que a redução da verdade religiosa à autoconsciência
religiosa do indivíduo ou da comunidade.
Isso é só um exemplo; todos podemos pensar em outros, tais como usar a
Bíblia como um livro de pensamentos inspiradores, e os estudos bíblicos que
nunca vão além da indagação do que uma passagem particular significa para
mim ou como ela tem afetado minha vida. Os reformadores certamente não
teriam considerado tal indagação como irrelevante, mas a teriam posto dentro
do contexto de primeiramente saber o que a passagem significa para o povo de
Deus dentro dos propósitos redentores dele. A resposta à pergunta de como
aplicar pessoalmente o texto teria fluído da resposta a essa pergunta anterior.
A lição é a seguinte: estejamos certos de que Deus é a ênfase de toda a nossa
própria vida e culto, em vez de olharmos com desprezo para a letra das
músicas cantadas nas outras igrejas.

A centralidade de Cristo
O terceiro ponto que desejo extrair dessa definição é que os reformadores
tinham a ver com Deus em Cristo. De todas as percepções da Reforma,
certamente esta é a mais vital: que em Cristo vemos a graça de Deus para com
a humanidade pecadora. O Filho não julgou que o ser igual a Deus fosse coisa
de que não devesse abrir mão, mas voluntariamente se humilhou para assumir
forma humana, para viver no meio de toda a imundície física e moral deste
mundo, a fim de levar para o céu pecadores, tanto homens como mulheres,
moços e moças, àquela comunhão eterna e profunda em glória com o Deus
Trino, salvando-os assim da perdição eterna.
Quando Lutero entendeu o que Deus fizera em Cristo é que realmente
passou a ver a seriedade do pecado e a natureza radical da graça de Deus na
salvação. O mesmo aconteceu com Calvino e com os demais reformadores:
toda sua teologia se apoia totalmente na pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo,
e é evidente que a sua elevada consideração para com Cristo, a sua profunda
percepção do pecado e a sua admiração para com o milagre da graça de Deus
estão intimamente relacionados. Ninguém pode desprezar um desses pontos
sem renunciar aos demais.
Essa é uma questão que amiúde desperta a fúria da autojustiça no seio das
fileiras evangélicas reformadas, especialmente quando reparamos nos
movimentos carismáticos de hoje. “Olhem para eles”, gritamos. A única coisa
que eles fazem é contar as suas experiências e falar a respeito do Espírito
Santo. Será que eles não compreendem que o Espírito Santo testifica de
Cristo, e que o verdadeiro sinal de sua presença não é que as pessoas falem
sobre o Espírito, e sim que falem sobre Cristo? Naturalmente, ao agirmos
assim, fazemos eco aos sentimentos de Lutero acerca dos anabatistas, como
eu já falei.
Ora, de uma perspectiva teológica, sinto profunda simpatia por esse
argumento e considero as várias correntes do movimento carismático no
Reino Unido atual como defeituosas em vários pontos, alguns mais sérios do
que outros. Não obstante, sinto que o ato de nos compararmos
constantemente com os carismáticos nos tem cegado para nossa própria
carência da centralidade de Cristo e tem gerado uma autojustiça doentia que
não só nos impede de implementar a verdadeira reforma de que necessitamos,
mas até mesmo nos impede de ver o fato que necessitamos é de uma
verdadeira reforma. Criticar os carismáticos não é de forma alguma o mesmo
que ter um cristianismo centrado em Cristo, e as duas coisas nunca devem ser
confundidas.
Para sermos realmente centrados em Cristo, todos os aspectos de nossa
vida cristã, desde o culto corporativo até as devoções privadas, no andar
cristão dia a dia, devem ter Cristo como objetivo. Hoje é muito comum que
igrejas com uma elevada visão da Escritura e do ministério da pregação na
prática tolerem sermões que, conquanto mui fiéis ao sentido do texto, nunca
mencionam Cristo. Todavia, se a reivindicação dos reformadores, de que
Cristo é o centro da Bíblia, e que toda ela conta uma só história — a da graça
de Deus em Cristo —, então nenhum sermão digno do nome cristão pode
deixar de falar de Cristo, não importa de onde se extraia o texto escolhido, do
Antigo ou do Novo Testamento. Os sermões centrados em Deus, por
definição, se contêm mesmo que seja uma só gota de graça, forçosamente
devem ser cristocêntricos. As orações e os cânticos litúrgicos devem ser assim
também, pondo em evidência não a nós mesmos ou às nossas necessidades,
por mais importantes que sejam, e sim a Cristo.
Isto não quer dizer que nossas necessidades não tenham lugar em nossas
orações ou cânticos litúrgicos. Há muito na Bíblia que retrata Cristo como a
resposta às necessidades humanas: “Vinde a mim todos os que estais
cansados e achareis descanso para vossas almas”; “Vinde a mim todos os que
estais com sede e eu vos darei de beber”. Certamente, estas são necessidades
— para usar o jargão moderno, são “necessidades palpáveis” — e certamente
Cristo se apresenta como a resposta a elas. Mas este é o ponto decisivo: Cristo
mesmo se identifica com a necessidade e se oferece como a solução. A questão
toda é centrada em Cristo; e isso é algo que deve caracterizar as nossas
ênfases litúrgicas.
Em suma, o que está em jogo aqui é uma questão de fundamental
importância sobre o que realmente está no centro. Se é Cristo, então está tudo
bem; se é alguma outra coisa, então precisamos de reforma. Lembre-se de que
uma igreja centrada na Bíblia não é necessariamente o mesmo que uma igreja
centrada em Cristo. Não há no mundo uma seita “cristã” ou igreja liberal que
não reivindique, de alguma forma, estar centrada na Bíblia. É somente quando
a Bíblia é compreendida e aplicada em termos de seu centro, Cristo, é que as
duas coisas — a centralidade da Bíblia e a centralidade de Cristo — se tornam
uma coisa só. Tenhamos todo cuidado para que nosso desejo de enfatizar a
centralidade da Bíblia se una também ao desejo de ressaltar a centralidade de
Cristo na Bíblia.

A Reforma Contínua
A Reforma, então, procurou pôr Deus em Cristo no centro de sua vida e
pensamento. Entretanto, é preciso que percebamos muito bem uma coisa mais
sobre esse movimento de reforma, e essa coisa é que a reforma é um processo
essencialmente dinâmico, e não uma situação estática. Isso foi perfeitamente
assimilado por um antigo lema latino das Igrejas Reformadas do mundo
inteiro: ecclesia reformata semper reformanda est. Em nossa língua, significa o
seguinte: “A igreja reformada precisa sempre de reforma”. Ora, o que
significa isso? Será que, uma vez que pusemos a Palavra, tanto Cristo como as
Escrituras, no centro de nossa vida e pensamento, somos realmente
reformados, e então não há necessidade de mais nenhuma reforma? Quem
dera fosse assim tão simples! Os seres humanos têm uma capacidade quase
infinita para a idolatria, e isto se evidencia não simplesmente no comum
desejo por novidade, mas também na reação descuidada de recusar-se a
mudar.

Entendendo onde ocorre a batalha


O propósito da Reforma, de uma perspectiva teológica, era mais que apenas
uma disputa a respeito de formas. Existem, hoje, pessoas que gostam de falar
de diferentes tradições cristãs: católica romana, ortodoxa, pentecostal,
evangélica, reformada, etc. Essa conversa é propícia num tempo em que a
vasta cultura como um todo é crescentemente pluralista e intolerante com
reivindicações minuciosas e partidárias quanto à verdade. Em geral, a
terminologia serve para relativizar as diferenças, reduzindo-as, na prática, ao
nível da forma. Os católicos-romanos e as igrejas ortodoxas têm uma forma
mais sacramental de culto do que, por exemplo, os reformados, os quais
enfatizam mais a Palavra escrita e pregada; mas a essência de ambas as
formas, Cristo, é fundamentalmente a mesma, a despeito das diferenças
significativas quanto à teologia. Os reformadores, contudo, não têm nada a
ver com uma abordagem desse tipo. No que dizia respeito a eles, a batalha não
era entre formas ou ênfases ou tradições; era entre os que tinham o evangelho
e os que se empenhavam em ocultá-lo, em fazer-lhe oposição ou discutir
sobre ele, ou em anulá-lo completamente.
O significado disso é que a reforma da igreja não era, não é, e nunca será
algo que possa ser efetuado remendando formas externas ou aplicando
técnicas testadas e confiáveis como quem segue instruções para montar as
peças de um móvel. Talvez mais do que nunca a igreja precisa entender que
seus problemas atuais não são resultado de falhas técnicas ou na forma, mas
são resultado das falhas no campo moral. Assim sendo, preciso esclarecer com
toda exatidão o que eu estou e o que não estou querendo dizer aqui.

Falhas no campo moral


Primeiro, não estou dizendo que não é importante a técnica considerada de
modo geral com respeito a como funcionam as aparências externas da igreja.
Os reformadores estavam bem cientes com respeito a isso: era uma das razões
básicas por que eles queriam se ver livres da liturgia latina e da Vulgata,
tradução latina da Bíblia. Além da teologia defeituosa da primeira e das
incorreções dessa última, ambas eram tristemente inadequadas para a tarefa
que os reformadores desejavam que a liturgia e as Escrituras executassem:
uma adoração compreensível e coerente. Não nos esqueçamos de que, apesar
de a Reforma não ter podido concretizar-se sem a imprensa e sem a maciça
produção de livros, a maioria das pessoas do século dezesseis foi trazida para
a igreja reformada por meio do boca a boca, pela Palavra pregada em seu
próprio idioma. Portanto, as formas de culto no vernáculo, tanto a liturgia
como a tradução da Bíblia, eram necessárias, se quisessem que o evangelho
fosse comunicado de maneira efetiva. Alguém poderia argumentar que esse é
um resultado que não envolve apenas a teologia, mas também a técnica.
Consequentemente, hoje é preciso ser sensível ao nosso contexto cultural.
Mas, “sensível a” não é o mesmo que “capitular” — há uma diferença e há
aspectos de nossa cultura, por exemplo, seus hábitos sexuais, aos quais não
podemos ajustar nossas formas de culto sem sermos desleais à mensagem que
temos de proclamar. Não obstante, o bom senso santificado diz que, quando
pregamos a uma congregação inglesa, usamos o vernáculo moderno, não o de
Chaucer( 1 ); e assim por diante. Deixar de fazer isso significa não
corresponder às expectativas estabelecidas pelos reformadores. Pode até ser
uma imitação, em termos de forma, daquilo que fizeram os reformadores,
porém é um fracasso na tentativa de fazer aquilo que eles realmente estavam
fazendo tanto tempo atrás.
Segundo, ao dizer que nossa crise atual retrata uma falha de moral, não
estou dizendo que o poder da mensagem do evangelho dependa, para sua
eficácia, da moralidade pessoal do pregador. A Palavra é a Palavra; e ela é
poderosa porque é a Palavra de Deus e está associada com o Espírito de Deus.
É até possível que o pregador seja adúltero, às escondidas, mas isso não
impede que alguém se converta por meio do seu ministério. Na verdade, uma
das coisas mais espantosas sobre a história da igreja é o fato de o reino de
Deus progredir com tanta frequência a despeito da imoralidade e da
infidelidade do povo e de seus líderes. Dizer, então, que os problemas atuais
da igreja são de ordem moral não produz um elo inquebrável de causa e efeito
entre nosso comportamento individual e a eficácia do evangelho. E graças a
Deus que é assim! Se esse elo existisse, quem de nós hoje aqui um dia teria se
convertido? É tão-somente pela graça que Deus capacita homens e mulheres
pecadores a levar outros a Cristo.
Terceiro, o que estou dizendo é que devemos estar cientes de que a luta
para reformar a igreja deve vir de nossa disposição de obedecer a Deus, de
buscar a sua face em oração e de buscar sua sabedoria nas Escrituras com o
objetivo de colocá-las em prática. Isso, por sua vez, significa que sempre
examinaremos com cuidado nossa teologia e nossa prática, para ver onde não
se harmonizam com os padrões bíblicos e, portanto, onde precisam ser
modificadas ou até mesmo abandonadas.
Um fato interessante é que nem Lutero nem Calvino romperam de forma
instantânea ou imediata com a igreja medieval. No caso de Lutero (e,
provavelmente também no caso de Calvino, ainda que a respeito deste haja
menos detalhes biográficos disponíveis), ele rejeitou as práticas da igreja, tais
como as indulgências e a missa, com base na sua compreensão prévia da graça
de Deus, e sua experiência com ela. Foi somente à luz disso que ele aos poucos
chegou a compreender que a prática da igreja contemporânea era inadequada
e por isso tinha de ser mudada através de reforma. A missa, as indulgências, o
confessionário — todas essas coisas, em última análise, tinham de chegar ao
fim, porque deixaram de fazer justiça ao ensino bíblico. A reforma de Lutero
não tentou mudar o coração e a mente das pessoas através da mudança das
estruturas; pelo contrário, mudou as estruturas porque antes já havia mudado
o coração delas.

Seguindo os princípios bíblicos


Isso nos faz recuar àquele notável provérbio: ecclesia reformata semper
reformanda est — “A igreja reformada precisa sempre de reforma”. A questão
é bem simples: a reforma não é algo que ocorre num determinado momento e
então para. Na verdade, no momento em que descansamos satisfeitos com
nossa aparência exterior, no momento em que deixamos de nos perguntar se o
modo como fazemos as coisas honra a Deus e realmente reflete a sua graça,
nesse exato momento fracassamos como reformadores. A reforma é a prática
contínua de criticar, a qual, em sua essência, deve evitar qualquer
complacência que descanse satisfeita com a forma em que as coisas estão no
momento. Ela começa pelas práticas e pelo testemunho da igreja de modo
geral.
Entretanto, a natureza do coração humano é tal, que mui amiúde a reforma
se restringe às formas externas — a linguagem usada no culto, a tradução da
Bíblia lida do púlpito, o tipo de acompanhamento musical, ou a falta dele no
serviço litúrgico — e descansa satisfeita com essas coisas. Eu desconfio que,
na maioria das vezes, as razões ocultas desses debates (sobre as traduções da
Bíblia, por exemplo), têm mais a ver com preferências pessoais com respeito à
estética do culto, ou com as tradições que temos acalentado com tanto apego
durante muitos anos, e que devem ser abandonadas. Tais argumentos são
simplesmente uma inversão das prioridades da verdadeira reforma, porque
cada um, em última análise, se preocupa mais com a prática exterior do que
com a convicção que dá suporte à prática. Possivelmente cada uma dessas
áreas tenha certa forma quando a Bíblia for levada a sério e seus ensinos
aplicados com seriedade. Eu diria que aqueles que levam a Bíblia a sério não
haverão de tolerar cânticos de adoração com determinado conteúdo, não
permitirão que o sermão seja visto como algo de importância secundária, e
não aprovarão certos tipos de prática litúrgica. Mas temos de estar
constantemente examinando nossas práticas e procedimentos à luz da Palavra
de Deus, a fim de garantir que fazemos aquilo que fazemos porque é algo
bíblico, e não simplesmente porque nos é familiar ou esteticamente agradável.
Temos apenas de prestar atenção nas grandes diferenças que surgiram
entre os próprios reformadores sobre questões como a Ceia do Senhor, a
correta roupagem litúrgica e a relação da igreja com o Estado, para perceber
que eles mesmos tinham coração pecaminoso, e eram amiúde muito triviais
em suas práticas, assim como nós somos hoje. Não se esqueça de que Lutero
considerava que todos aqueles que negavam a presença física de Cristo nos
elementos eucarísticos tinham um espírito diferente do dele, isto é,
basicamente não os considerava nem como cristãos — e eu desconfio que essa
mesma ideia se aplica à maioria dos que leem estas palavras. Ele foi um
grande homem e cometeu grandes erros, juntamente com todos os seus
colegas reformadores.
Não devemos idolatrar essas pessoas, mas devemos aprender delas, pois
estavam simplesmente fazendo em sua época e geração o que buscamos fazer
na nossa. Se o motivo que nos conduz às nossas práticas é simplesmente uma
adesão idólatra à tradição ou uma questão de prestígio, então devemos ser
honestos sobre isso, e não aferrar-nos a elas além da extensão de sua
utilidade. Quando aceitamos alguma coisa, devemos fazê-lo pela razão
correta; e, quando rejeitamos algo, isso também precisa ser feito pela razão
correta.

A Pecaminosidade Humana
Aqui vale a pena lembrar outro aspecto do legado da Reforma: a clara
compreensão da pecaminosidade humana que ela colocou em destaque na
discussão teológica. Para Lutero, assim como para Calvino, o coração não
regenerado era corrupto a tal ponto de ser incapaz, tanto moral como
intelectualmente, de executar a tarefa teológica, e era idólatra por natureza. O
que eles queriam dizer com isso era que a humanidade sempre faria Deus à
sua própria imagem, sempre buscaria cultuá-lo à sua própria maneira, sempre
buscaria cultuar a si mesma ou às suas próprias formas, em vez de dispor-se
corajosamente a colocar-se diante da santidade de Deus e achegar-se a ele
mediante os termos estabelecidos por ele. Creio que isso tem duas aplicações
quando pensamos na reforma contemporânea de nosso culto.

Nossa resposta ao mundo


Primeiro, isso limita a importância de ouvir o mundo ao nosso redor para
regular a nossa prática. Há muita coisa que se faz hoje na igreja porque a
chamada geração X, o movimento da Nova Era, ou seja o que for, está dizendo
que se deve fazer. Ora, de certa forma, certamente queremos comunicar o
evangelho de maneira compreensível para a geração X, para os seguidores da
Nova Era e para quaisquer outros. Como eu disse acima, os reformadores
colocaram no centro de seu programa a comunicação do evangelho aos leigos,
e devemos nos dar contas, por exemplo, de que, quando hoje pregamos de
acordo com o Evangelho, nós o fazemos a um mundo que não tem mais
nenhuma compreensão, nem mesmo básica, do enredo bíblico ou de quem
Deus é.
Tenho um colega na universidade que ensina o Paraíso Perdido de Milton
no Departamento de Língua Inglesa, e tem de começar o curso com uma
palestra sobre “Dez coisas que você precisa saber sobre Deus”. Isso inclui
elementos básicos tais como o fato de que Deus é perfeito e que ele é espírito.
Esse é um sinal da enorme ignorância do mundo ocidental de hoje sobre a
Bíblia.
Depois de dizermos tudo isso, porém, o que a geração X e o movimento da
Nova Era realmente estão dizendo à igreja é que o coração humano é
inerentemente idólatra; que os homens e as mulheres farão e crerão qualquer
coisa em vez de enfrentar as exigências do Deus Trino em sua vida. Assim,
ouçamos o mundo para entender quais são as perguntas que ele faz, quais são
os pensamentos que ele tem, e qual a linguagem que usa; mas ponhamos tudo
isso dentro do contexto da pecaminosidade e idolatria humanas e acautelemo-
nos dos que concebem a Reforma da igreja em termos que, expressando-o
tecnicamente, abolem as distinções entre graça especial e graça comum, ou,
usando linguagem mais popular, não chegam ao âmago da idolatria humana.

Nossa resposta a nós mesmos


Todavia, em segundo lugar, a pecaminosidade humana deveria também
levar-nos à autocrítica. Somos redimidos, contudo vivemos no período entre a
nossa salvação e a nossa perfeição final no céu. Nós também somos idólatras.
Também nós, assim como os filhos de Israel, somos capazes de construir
nossos bezerros sagrados sob o pretexto de cultuar Jeová, o Deus Trino. Por
isso, temos de examinar constantemente a nossa própria motivação ao
cultuarmos da forma como cultuamos e fazemos as demais coisas. Estamos
certos ao rejeitar os que desejam ver o cristianismo capitular à mais recente
tendência cultural, mas temos de estar seguros de que, ao fazermos isso, não
estamos jogando o bebê fora com a água do banho ou simplesmente
mantendo a tradição só porque gostamos dela ou nos sentimos bem com ela.

Nossa resposta à Reforma


Isto me leva ao meu último ponto: devemos ter em mente que a Reforma
propriamente dita ocorreu há uns cinco séculos e estava associada de maneira
indissolúvel, como estão todos os fatos históricos, às formas de pensamento e
às preocupações de seu tempo. Obviamente, isto não significa dizer que ela
não tem relevância para hoje — toda a argumentação destes capítulos se opõe
a essa ideia. Entretanto, isso é para destacar que devemos ter em mente que
não podemos simplesmente saltar o fosso histórico e agir no presente da
mesma forma que agiram os homens e as mulheres do passado. Os escritos
dos reformadores não são as Escrituras Sagradas. Eles foram grandemente
usados por Deus, mas não eram inspirados em suas ações da maneira como o
foram as personagens da história da redenção. Os protestantes não estão
imunes à idolatria, ao culto dos santos e à consideração sem crítica à
autoridade da tradição.
Como eu disse no início deste capítulo, não devemos nos aproximar dos
reformadores como se eles não pudessem errar; em vez disso, devemos
achegar-nos a eles com um espírito que exprime apreço, mas com critério e
avaliação, reconhecendo o seu discernimento do ensino bíblico, e com critério
ao lembrar que, assim como nós, eles eram simples pecadores mortais capazes
de cometer equívocos desastrosos, como também eram capazes de realizações
maravilhosas. Nestes capítulos, minha intenção é enfatizar mais essas
realizações do que os equívocos; recordemos, porém, que somente as
Escrituras é que nos dão o verdadeiro e incorrupto conhecimento de Deus; e
somente a fé em Cristo pode salvar-nos, e não a fé em Lutero ou em Calvino,
ou em algum simples mortal.

( 1 ) Sir Geoffrey Chaucer (1340-1400), poeta inglês medieval [Dicionário Babylon]. Seria o equivalente, em português, a usarmos
hoje a linguagem de Camões (cerca de 1525-1580) — N. do Revisor.
ENCONTRANDO O VARÃO DE DORES

LOGO DEPOIS DA irrupção da famosa controvérsia sobre as indulgências, no


final de 1517 e início de 1518, Martinho Lutero participou de uma discussão
em Heidelberg, onde sua ordem monástica, a dos agostinianos, estava reunida
em assembleia. Parece que a igreja tinha, ao menos a princípio, considerado o
protesto de Lutero como uma pequena dificuldade local, e estava disposta a
deixar a própria Ordem resolver o problema. Olhando para trás, a decisão foi
um equívoco fatal, pois o protesto de Lutero logo fugiu do controle da igreja;
entretanto, naquele momento havia pouca coisa que desse a entender que a
controvérsia em torno das indulgências viesse a ter as repercussões
internacionais que hoje conhecemos tão bem.

A Reforma Teológica de Lutero


Em Heidelberg, Lutero apresentou à assembleia reunida uma série de teses ou
proposições para serem debatidas. Quando lemos o texto dessas teses hoje,
fica óbvio que devem ser entendidas à luz daquilo que era comum nos antigos
debates teológicos medievais. O significado de muitas dessas teses é obscuro
para aqueles que desconhecem o contexto, e alguém pode perguntar por que o
debate sobre as teses impressionou tanto os que estavam reunidos nessa
assembleia. O auditório, incluindo Martin Bucer, homem que, mais tarde,
tornou-se o reformador de Estrasburgo, e que terminou seus dias como
Professor de Teologia em Cambridge, ficou fascinado com aquilo que Lutero
tinha para dizer, embora no momento muitos, inclusive Bucer, não
compreendessem a profundeza teológica da discussão. O plano que Lutero
propôs em Heidelberg foi pouco menos que uma revolução, sugerindo uma
cuidadosa revisão geral do método teológico à luz da crescente compreensão
dele a respeito da natureza da verdadeira teologia. Isto culminou em algumas
teses que foram transmitidas à posteridade como o ensino da “teologia da
cruz”, um aspecto da teologia luterana que se tornou cada vez mais
desconsiderada posteriormente na tradição da Reforma, mas que jaz no
âmago da própria teologia da Reforma de Lutero. Na verdade, é isso que
desejo focalizar agora, porque eu creio que esse ensino contém importantes
verdades que a igreja precisa ouvir outra vez, se ela de alguma maneira deseja
experimentar outra vez uma reforma em sua vida e ensino.
As teses dezenove a vinte e uma dizem o seguinte:

19. Não se pode chamar de teólogo aquele que enxerga as coisas invisíveis de Deus como se elas
fossem claramente perceptíveis nas coisas que já aconteceram (Rm 1.20).
20. Mas pode-se chamar de teólogo quem compreende as coisas visíveis e manifestas de Deus
enxergando-as por meio dos sofrimentos e por meio da cruz.
21. O teólogo da glória chama de bom aquilo que é mau, e chama de mau aquilo que é bom; o teólogo
da cruz chama as coisas pelo que elas são.

A linguagem usada é obscura: “coisas invisíveis”; “teólogo da glória”;


“teólogo da cruz”. Contudo os pensamentos são explosivos e refletem o cerne
do protesto de Lutero em favor da Reforma.

O teólogo da glória
Lutero está se rebelando aqui contra a tendência que ele percebia entre os
teólogos de seu próprio tempo de criar uma imagem de Deus que refletia
apenas as próprias expectativas da humanidade sobre como Deus deveria ser.
Era isso o que ele tinha em mente quando se referiu ao teólogo da glória.
Usando um exemplo bem óbvio, a maioria das pessoas espera que Deus
recompense aos que fazem coisas boas. Aqueles que se comportam bem e
obedecem a Deus merecem entrar no céu. Isso acontece porque a maioria das
pessoas supõe que a justiça de Deus é muito semelhante à sua própria justiça.
Entretanto, de acordo com a teologia da Reforma de Lutero, mesmo as
melhores obras humanas são como trapos imundos diante de Deus; somente a
justiça de Cristo é válida para produzir a salvação. Assim, meus atos de
caridade, os quais o teólogo diz serem bons, baseando-se naquilo que Deus
quer, e diz que esses atos me levarão para o céu, na verdade são atos maus. Na
melhor das hipóteses, são moralmente imundos diante de Deus; na pior,
tornam-se atos de autojustiça pelos quais me promovo a mim mesmo e a meus
esforços pessoais como o fundamento de minha salvação, e não a justiça de
Cristo. Em outras palavras, o teólogo da glória, começando com aquilo que ele
ou ela supõe que Deus seja, termina chamando de bom (isto é, as minhas
próprias obras) aquilo que na verdade é mau.

O teólogo da cruz
Não obstante, o teólogo da cruz é aquele que vê as coisas como realmente
são, aquele que sabe como Deus realmente é, porque seu modo de pensar
sobre Deus começa com a revelação que Deus fez de si mesmo, e não com
suposições humanas. Para Lutero, onde ocorre essa revelação? Antes de mais
nada, na pessoa de Cristo na cruz do Calvário. É aí que a teologia deve
começar e terminar; essa é a fonte e o princípio pelos quais todas as
afirmações teológicas devem ser julgadas e entendidas. Provavelmente, essa é
a percepção mais surpreendente e profunda de Lutero na natureza da teologia,
com implicações perturbadoras.

A cruz
A cruz mesma fornece um exemplo perfeito, — aliás, um supremo exemplo
— de uma situação onde o teólogo da glória e o teólogo da cruz não
encontrariam um denominador comum. O que vê ali o teólogo da glória? Bem,
com base numa investigação racional e empírica, alguém diria que o homem
pendurado na cruz é algum tipo de criminoso desprezível. Por que outra razão
teria ele sido condenado a padecer uma morte tão horrível como essa? A cruz
é uma vergonha, tanto para os padrões da lei romana como para o costume
judaico, por isso é certo que o homem a quem tal punição é imposta é o mais
vil tipo de criminoso imaginável. Além disso, alguém diria que ele é um
fracassado, um oprimido, um derrotado. À medida que morre na cruz, não
vemos nenhum rei, nem enxergamos vitória sobre o pecado, nem temos
motivo de regozijo ou para dar glória àquele que está pendurado ali. Os olhos
da razão, julgando com base naquilo que esperamos como seres humanos,
veriam aquela cena como cheia de trevas, dor e profunda tragédia pessoal.
Todas essas descrições sombrias e pessimistas pareceriam as únicas formas
apropriadas de descrever o que está acontecendo se alguém se aproximasse da
cruz com expectativas e critérios humanos.
O teólogo da cruz, contudo, aproximando-se desse acontecimento com os
olhos da fé e com o critério fornecido pela revelação de Deus a respeito de si
mesmo, vê um quadro muito diferente: não a figura de um pecador, e sim a
imagem do único homem sem pecado; não a figura da derrota, e sim a do
triunfo; não a figura da ira, e sim a da misericórdia. O que temos na cruz não é
a derrota de um criminoso, e sim o triunfo do rei da glória; não a vitória dos
poderes do mal, e sim a vitória do bem sobre o mal; não a maldição de Deus, a
qual nos deixa sem esperança, e sim a bênção de Deus pela qual todos podem
ser salvos.
Os resultados, então, de vir até a cruz com os olhos da fé são
teologicamente surpreendentes; na verdade, são revolucionários no mais
literal sentido da palavra: põem de cabeça para baixo os nossos pensamentos
sobre Deus, e exigem que todas as expectativas humanas sejam subjugadas à
sombra da cruz, onde, como expressões humanas da verdade divina, possam
ser julgadas por aquilo que Deus realmente é, e como ele de fato age conosco.
Quando alguém deseja pensar no poder e na soberania de Deus, para onde
deve olhar? A resposta de Lutero seria: para a cruz. Ali, no quebrantamento
do Cristo sofredor, o crente divisa o triunfo e a glória do Deus da graça sobre o
mundo, a carne e o diabo. Ali, nessa singular e poderosa contradição de toda a
nossa expectativa humana, é que vemos Deus como ele realmente é quando
trata conosco, em todo o seu poder e glória. Onde é que alguém pode ver o
amor de Deus revelado de maneira mais radical? Na submissão voluntária de
Cristo ao pleno peso da ira de Deus na cruz. Onde é que alguém pode ver a
santidade de Deus com mais clareza? Nas terríveis agonias do Filho na cruz
quando ele revela a plena imundícia do pecado, e demonstra com quanta
seriedade o próprio Deus considera o pecado.

A Teologia de Lutero Sobre a Cruz


Creio que isso nos leva para bem perto do âmago da teologia de Lutero sobre a
Reforma. Todos nós nos acostumamos com discussões sobre a justificação
pela fé, sobre a autoridade da Escritura, e até mesmo sobre a relação que
existe entre a vontade humana e a salvação, tópicos todos esses cruciais. Mas
a teologia da cruz, por mais radical e drástico que tenha sido esse protesto,
acabou escapando da pauta da teologia protestante de uma maneira que, na
minha opinião, empobreceu-a num grau muito significativo. A Reforma foi,
no fim das contas, um movimento supremamente centrado em Cristo em
termos de seu conteúdo teológico, e nenhum teólogo expressou esta
abordagem saturada de Cristo de maneira mais acentuada do que Martinho
Lutero em sua teologia da cruz. A razão por que esse aspecto de seu
pensamento chegou a ser tão negligenciado não é imediatamente óbvio —
ainda que se deva reconhecer que a teologia da cruz nunca exerceu um papel
particularmente central e explícito na teologia da Reforma depois de Lutero.
Mas agora eu quero provar que a igreja evangélica faria bem se tocasse outra
vez essa nota, especialmente se ela quiser atrair para si as riquezas da
Reforma para a sua atual vida e prática. A herança da Reforma é mais do que
apenas a doutrina da justificação pela fé; é também a teologia da cruz; e
faremos bem se dermos ouvidos a Lutero sobre isso, bem como sobre muitos
outros assuntos.

Sofrimento
A teologia liberal do século vinte redescobriu a cruz como uma parte
central do empreendimento teológico. Isso foi algo que aconteceu, em grande
parte, devido à realidade do sofrimento, seja por causa dos terríveis atos de
genocídio que mancharam esse século, seja por causa da catastrófica pobreza
enfrentada por muitos países. À medida que o sofrimento veio a ser, de forma
mais óbvia, parte integral da experiência humana, os teólogos liberais
tentaram enfatizar esse aspecto do ensino bíblico, em grande medida, na
minha opinião, para demonstrar a inocência da teologia cristã diante dessa
perversidade toda. O evangelho do sofrimento apreendeu alguma coisa da
verdade do cristianismo, assim como havia feito, antes dele, o evangelho
social; acabou, porém, enfatizando essa verdade às custas de outras verdades
cristãs fundamentais, como por exemplo a culpa pessoal de todos os homens
sem exceção. Não obstante, como evangélicos, nossa tarefa não é rejeitar as
coisas pela simples razão de terem sido ensinadas pelos não evangélicos, mas
reivindicar uma base moral elevada, apresentando ao mundo uma teologia
equilibrada e que reflete as ênfases da palavra de Deus. O sofrimento faz parte
disso, e não devemos permitir que o uso que os liberais fazem dele nos
atrapalhe a chamar a atenção para esse assunto.
Não obstante, a teologia da cruz é mais do que apenas uma forma de
enxergar a Deus. Para Lutero, ela põe em evidência o profundo amor de Deus
pela humanidade pecaminosa, estando o próprio Deus disposto a submeter-se
a esse sofrimento, fraqueza e humilhação em favor dos pecadores impotentes;
e também realça que o sofrimento e a fraqueza são uma parte central da
experiência de perseverança do cristão aqui na terra. Deus de tal maneira se
identificou com a humanidade que, em Cristo, se tornou ele mesmo um ser
humano. Ele suportou não só as inconveniências de nossa existência neste
mundo, mas também sofreu num sentido supremo em nosso lugar, aquele
sofrimento que se percebe de uma maneira profunda e inexplicável no grito de
abandono na cruz.
Essas são, naturalmente, águas teológicas profundas, mas para Lutero a
dimensão crucial do poder salvífico de Deus foi precisamente essa profunda
humilhação de si mesmo na fraqueza humana. Ele costumava dizer: Não
quero Deus sem a sua humanidade. O ponto era simples: é na encarnação,
pessoalmente em Cristo, que Deus tanto é como se mostra gracioso para
conosco. Lutero regozijava-se no fato de não cultuar um Deus distante, um
déspota, um princípio filosófico abstrato e sem nome. Não! — ele cultuava um
Deus que veio para perto, tão perto que até mesmo se vestiu de carne humana;
um Deus tão misericordioso que estava pronto a receber pecadores em sua
presença como se eles nunca antes tivessem pecado; um Deus que era tão
amoroso que alegremente livrou homens e mulheres de toda forma de
servidão física e espiritual, de modo que pudessem conhecer a verdadeira
vida; e um Deus que era tão forte que estava pronto a nulificar-se e morrer
aquela terrível morte na cruz a fim de que os seres humanos jamais tivessem
que morrer.

A centralidade da humanidade de Cristo


Portanto, no centro da doutrina de Deus concebida por Lutero encontra-se
a humanidade de Cristo, pois é aí que Deus se faz misericordioso e gracioso.
Eis por que Lutero estava tão interessado em ter a humanidade presente na
eucaristia — ele não podia conceber que Deus se fizesse presente em sua graça
fora dos limites de sua humanidade. Creio que aqui ele exagerou a situação,
mas é compreensível a preocupação de ver a misericórdia de Deus revelada
exclusivamente na pessoa do Jesus humano. Além disso, para Lutero, a
questão não é apenas ter a humanidade no centro — é a humanidade
sofredora, pois é na cruz, nas trevas, na agonia e no abandono daquela morte
que a graça vitoriosa de Deus é exibida aos olhos da fé de maneira tão
maravilhosa e misteriosa. Essa é a razão por que toda a teologia de Lutero
pode ser resumida com toda exatidão como uma prolongada tentativa de
conduzir homens e mulheres a Deus em carne humana, Jesus de Nazaré, e
este crucificado.

Um padrão para a igreja


Entretanto, a teologia da cruz não se detém aí. Ela não é simplesmente algo
que tem a ver com um conhecimento teórico a respeito de Deus. A cruz não é
um simples quebra-cabeça intelectual por meio do qual, assim que
entendemos que todas as expectativas viram de cabeça para baixo, somos
capacitados a decifrar o que está acontecendo e a produzir sem grande esforço
os nossos sistemas teológicos precisos e bem cuidados. A vida seria bem mais
fácil se fosse esse o caso. Na realidade, a teologia da cruz não é simplesmente
um exemplo de como Deus é gracioso; ela é também o padrão básico para
compreender como ele age em nós e através de nós, sua igreja. A teologia da
cruz não é uma coisa relativa unicamente ao intelecto; ela afeta
profundamente nossa experiência e existência cristãs, fazendo demandas em
toda a nossa vida e mudando a teologia em algo que controla não apenas
nossos pensamentos, mas até a maneira como experimentamos o mundo ao
nosso redor e degustamos a bênção e a comunhão do próprio Deus. O
sofrimento e a fraqueza não são apenas o modo como Cristo triunfa e vence;
eles são também o modo como nós vamos triunfar e vencer. Em outras
palavras, se o sofrimento e a fraqueza são as formas de Deus agir em Cristo,
deve-se esperar que esses sejam os modos de ele agir naqueles que procuram
seguir a Cristo. Ninguém se torna teólogo por ter amplo conhecimento sobre
Deus; teólogo se torna aquele que sofre os tormentos e sente a fraqueza que a
sua união com Cristo inevitavelmente trará como consequência.
Essa mensagem, é claro, não se encaixa bem com a presente época, por
uma série de razões. As atrocidades do século vinte, principalmente a do
Holocausto, têm suscitado sérias perguntas quanto à justiça, e mesmo quanto
à existência de Deus. Desde os tempos de Jó, o problema de coisas más
acontecerem com pessoas boas nunca deixou de ter seu lugar, tanto na
refinada discussão teológica como na discussão filosófica, e também na mente
de homens, mulheres e crianças comuns que enfrentam, eles mesmos, os
horrores da história ou do sofrimento e do luto.
Além da questão óbvia da justiça de Deus que essas questões maiores
despertam, deve-se reconhecer também que uma característica do moderno
consumismo ocidental é a intolerância com qualquer forma de desconforto,
não apenas os tipos mais sérios como a morte, a enfermidade etc. Basta olhar
para os bilhões gastos pela indústria cosmética, farmacêutica e de crédito para
notar quão pouco o ocidental moderno está disposto a sofrer. Você está com
dor de cabeça? Tome um analgésico. Você se sente infeliz com o tamanho de
seu nariz? Vá a um cirurgião e ponha-o do tamanho e forma desejados. Você
quer adquirir um novo televisor, com todos os canais digitais, tela 3D etc.?
Não se preocupe em fazer economia — simplesmente ponha-o no cartão de
crédito. Na verdade, em um mundo consumidor onde a força motora é a
autorrealização em vez dos compromissos familiares ou sociais, a questão da
justiça de Deus no sofrimento tem-se tornado trivial a um ponto
provavelmente sem precedente na história. Cada vez mais surgem programas
de tevê repletos de assuntos como a preocupação com vizinhos barulhentos,
colegas grosseiros, filhos desobedientes, infância infeliz, demandas
intoleráveis feitas pela família! Naturalmente, tudo isso são problemas, porém
raramente apresentam sofrimento sério ou desafios genuínos à existência do
bom Deus como, por exemplo, o Holocausto ou mesmo a morte de uma única
criança inocente.
Entretanto, a teologia da cruz age, na questão do sofrimento, da mesma
forma como age em outras questões teológicas: ela inverte as concepções
humanas. A pergunta natural de alguém que está sofrendo de alguma forma é
a seguinte: “Por que eu? Por que essa coisa terrível está acontecendo comigo?
Eu não fiz nada de errado”. Para Lutero, a pergunta deve ser respondida
olhando para a cruz: Se o sofrimento, a perseguição, a injustiça, o ódio e o
escárnio são o quinhão de Cristo, e se é através desses meios que Deus, de
maneira incompreensível e inesperada, atinge seu propósito de salvar
pecadores sem esperança, devemos então esperar que nosso quinhão seja
melhor? Em outras palavras, a pergunta não é tanto “Por que acontecem
coisas ruins a pessoas boas?”, e, sim: “Por que não acontecem mais coisas
ruins às pessoas boas?”
O ponto é o seguinte: a cruz não é simplesmente a ação salvífica de Deus
em favor da humanidade pecadora. Naturalmente, ela não é nada menos que
isso, e de fato isso está no próprio cerne de seu significado. Mas ela é também
uma demonstração de como Deus age em geral, como ele executa os
propósitos que tem em mente.
Lutero usa duas expressões técnicas para isso: obra estranha e obra
peculiar. A obra estranha refere-se à maneira de Deus tratar conosco de uma
forma que não esperamos e que, aparentemente, nos leva a um resultado que
não desejamos. A cruz é um bom exemplo de obra estranha: Cristo morre, um
criminoso condenado, e assim o que parece ter sido alcançado é simplesmente
o fracasso dos propósitos de Deus. No entanto, Deus costuma executar a sua
obra peculiar realizando exatamente o que tinha em mente através de sua obra
estranha. Assim, a cruz aparenta ser um fracasso, mas é na verdade o meio
para a vitória divina. A estranha obra da morte, do sofrimento, da ira e da
condenação acontecendo na cruz é, na verdade, o veículo para alcançar a vida,
a bem-aventurança, a misericórdia e a salvação.
Este padrão, do qual a cruz é o supremo exemplo, é fundamental para a
compreensão que Lutero tem da vida cristã: Deus sempre executa sua obra
peculiar em nós (ou seja, a nossa salvação) através de sua obra estranha
(nosso sofrimento e fraqueza). Para conduzir-nos ao céu, ele, por assim dizer,
precisa primeiro nos lançar no inferno; isto é, para experimentarmos as
alegrias da liberdade do evangelho, precisamos primeiro ser induzidos a
desesperar de nossa própria justiça.
Além disso, a autodoação sacrifical de Deus em Cristo em favor da
humanidade determina um padrão para o andar prático da vida cristã: assim
como Cristo deu o máximo de si mesmo para servir aos outros, assim os
crentes devem dar o máximo de si mesmos para servir ao seu próximo.
Por último, assim como Cristo aceitou o sofrimento e a morte como parte
de sua própria vida e ministério, assim os que procuram andar em seus passos
não devem esperar menos do que isso. De fato, para Lutero, o sofrimento e a
fraqueza são a essência da vida cristã, pois é em nosso sofrimento e fraqueza
que Deus realiza em nós a sua obra peculiar: aquela de que já tratamos acima,
a de conduzir-nos ao céu.

Consequências Práticas
As implicações desse aspecto do ensino da Reforma são simplesmente
explosivas. Em primeiro lugar, ele nos dá a capacidade de avaliar a
importância da questão do sofrimento e dos sentimentos pessoais de fraqueza
e inadequação, colocando isso tudo em perspectiva adequada. Depois, quanto
mais alguém se assemelha a Cristo, tudo indica que mais propensa essa
pessoa estará a sofrer e a sentir-se fraca e inadequada, pois é nessas coisas
que se encontra um aspecto fundamental do assemelhar-se a Cristo.
Naturalmente, isso não quer dizer que somos salvos por meio do nosso
sofrimento — de maneira nenhuma! O que está implícito é que, uma vez
salvos, podemos esperar sofrimento e fraqueza como parte integrante da vida
centrada em Cristo. Portanto, não devemos ficar surpresos quando as
dificuldades surgem em nossa vida, pois elas são parte essencial da obra
estranha de Deus, por meio da qual ele completa em nós a sua obra peculiar.

As expectativas cristãs
Para pôr isso num nível prático, a teologia da cruz articulada por Lutero
tem profundas implicações para o horizonte de expectativas da vida do crente
individual e da comunidade cristã como um todo. O que deve o cristão esperar
da vida? Saúde, riqueza e felicidade? É assim que Deus mostra a sua graça e
favor? Certamente isso é o que um teólogo da glória tomaria por certo: se
Deus é bom para comigo, então ele me dará todas as coisas que tanto desejo.
Os valores e as expectativas de um teólogo da glória são as mesmas do mundo
ao redor. Assim, o sucesso espiritual deve ser julgado de maneira análoga ao
sucesso terreno, em termos de receita, status e credibilidade social. Mas essa
não é a genuína teologia cristã, como Lutero a vê, pois ela não dá lugar para a
cruz. As verdadeiras expectativas cristãs centralizam-se na cruz e envolvem
aceitar, e até mesmo abraçar espontaneamente o sofrimento, a fraqueza e a
marginalização que inevitavelmente acontecem àqueles que seguem os passos
do Senhor Jesus. Esse é que deve ser o horizonte de expectativas do crente
como indivíduo e da igreja como um todo.

As expectativas da sociedade
Na minha opinião, essa percepção da Reforma é de importância crítica
hoje, pois vivemos numa época em que todo o horizonte das expectativas da
sociedade mudou de tal forma que esse tipo de teologia, a teologia da cruz, se
encontra totalmente excluído. Ora, eu sou um bom calvinista, e considero toda
e qualquer atividade que não é produzida pela graça como sendo uma
atividade fundamentalmente não cristã, e considero todo pensamento que não
é cristão como uma forma de rebelião contra Deus. Apesar disso, eu acho que
as expectativas da vida mudaram radicalmente nos últimos quarenta e poucos
anos, numa direção que nos tem trazido ao ponto onde a teologia da cruz se
opõe mais explicitamente àquilo que acontece na sociedade do que em
qualquer outra época da história recente.
A mudança tem sido mapeada por sociólogos que argumentam que, no
passado, os indivíduos concebiam seu propósito de vida em termos mais
sociáveis. Por exemplo, trabalhava-se para o bem da sociedade como um todo,
ou trabalhava-se para prover um lar e ambiente estáveis para os filhos. O alvo
da existência era considerado como algo externo ao indivíduo, a criação de um
padrão de interesses que beneficiaria aos outros. Por inúmeras razões, essa
situação se alterou tremendamente com respeito às gerações que chegaram à
fase adulta na década de 1960 e nas seguintes. A partir daí, a ênfase se moveu
daquilo que se pode classificar de forma geral como responsabilidade social
em todas as suas formas, e passou a ser a autorrealização. Agora, o jogo da
vida não é tanto trabalhar para o bem maior da sociedade (a respeito do qual
uma senhora, certa vez, comentou que “não existe tal coisa”) ou mesmo da
família, mas para a felicidade do próprio indivíduo. Colocamos nossa carreira
antes do bem-estar dos nossos filhos; não gostamos de pagar impostos
porque tiram de nosso bolso em favor da sociedade maior em que vivemos;
não nos doamos aos outros se isso atrapalhar o desenvolvimento de nossa
própria carreira ou o nosso tempo de lazer. Temos de satisfazer a nós mesmos
antes de dar-nos aos outros de alguma forma.

Valores opostos
É possível ver de pronto como isso está em completa divergência com
qualquer concepção que porventura tenhamos da teologia da cruz. Em sua
própria essência, a compreensão que Lutero tinha de Cristo e do cristianismo
encontra-se em direta oposição ao evangelho da satisfação própria. Na
verdade, seria difícil encontrar dois evangelhos mais desiguais, e creio que se
pode fazer juízo, sem muito exagero, afirmando que aquilo que se vê na
sociedade hoje é a mais completa produção social e aplicação do pecado da
história da humanidade. Isso não quer dizer que os nossos tempos sejam mais
depravados do que os tempos passados; isso é simplesmente afirmar que, no
que diz respeito ao pecado, a frase “você pode conseguir para si tudo aquilo
que vê” talvez seja mais verdadeira do que nunca.
É clara a maneira como isso se tornou possível na sociedade em geral. O
vasto número de programas de saúde, aquisição rápida de riqueza e a
autoimagem da TV dão uma boa ideia do que preocupa o público: saúde,
riqueza e felicidade. Essas três coisas se tornaram os três bezerros de ouro do
mundo ocidental contemporâneo, porque falam predominantemente de
satisfação pessoal, reforçando a ideia de um propósito humano que se
centraliza no próprio ego, e não naquilo que está além dele.
Naturalmente, além de tudo isso, o Ocidente criou a religião do capitalismo
de livre mercado, a qual declara que os antigos valores sociais da família, da
vizinhança e da responsabilidade são mais bem servidos pelo surgimento do
capitalismo irrestrito. Esta visão nos é empurrada de todos os lados como “a
verdade”, como se as hipotecas gigantescas, os recibos de cartão de crédito, as
dívidas do Terceiro Mundo etc., gerados por esse tipo de ênfase, fossem todos
benefícios pelos quais o mundo deveria ser grato. Não é preciso nem provar
que esse é, na melhor das hipóteses, um mito equivocado, e, na pior das
hipóteses, uma justificativa para o exercício da ganância. Quanto mais temos,
mais queremos. Quanto mais ganhamos, menos queremos dar. Quanto mais
bem sucedidos somos dentro da estrutura capitalista, mais desprezamos os
fracos que são esmagados pelas rodas do comércio. Quanto aos valores da
família, basta ver como a lei tributária tem mudado na Grã-Bretanha; basta
ver que a atitude “cada um por si, seja homem seja mulher” com respeito à
produção e ao consumo tem destruído pouco a pouco a unidade da família por
quase uma geração. Todos os políticos fazem discursos sobre os valores da
família e sobre as suas preocupações sociais, mas nenhum deles porá em
ordem as políticas que deveriam restaurar esses valores, porque seu custo
seria alto demais; e esse, é claro, é o ponto em que nós outros entramos — nós
não votamos em tais programas de ação porque isso significaria impostos
mais elevados, e, pelo fato de as necessidades dos outros serem maiores, isso
significaria renunciar a uma parte da nossa própria possibilidade de
autorrealização.
A razão por que digo isso tudo não é para entrar em política, mas para
destacar aquilo que está acontecendo no mundo à nossa volta. É importante
que nós, como cristãos, não tenhamos uma compreensão supersimples do
pecado que o restrinja a não comprarmos jornais no domingo, ou a deixar de
ver certo tipo de filme. O ataque do pecado se dirige aos próprios
fundamentos da humanidade, no nível daquilo que nos motiva e dos fins a que
aspiramos; o pecado molda as próprias estruturas da sociedade e das filosofias
que justificam essas estruturas; ele se esforça continuamente para refazer-nos
segundo a sua própria imagem; e, a menos que sejamos capazes de ver a
diferença entre o tipo de valor instilado em nós pelo mundo, e os valores que a
Bíblia quer que desenvolvamos, estamos condenados para sempre a nos
envolvermos numa rede de mundanismo que desonra a Deus.

O Caminho Que a Igreja Deve Seguir


O propósito desta série de preleções é aplicar à situação da igreja de nossos
dias as percepções dos reformadores, e por isso espero que seja óbvio o que
vou dizer: uma forma da igreja começar a libertar-se do estereótipo dos
valores que ela tem absorvido do mundo é refletir bastante e seriamente sobre
a teologia da cruz. Afinal, a cruz não era apenas um elemento dentre os
muitos que havia no projeto teológico de Lutero: a cruz era o próprio cerne,
pois foi ali que Deus se revelou como o Deus gracioso para a humanidade, e foi
ali que estabeleceu o que seria o padrão normativo para julgar todos os
aspectos do cristianismo, desde a teologia até os fatos básicos práticos da vida
cristã. Por essa razão, qualquer projeto de reforma que pretenda honrar a obra
de Deus em e através de Lutero obrigatoriamente deve levar a sério a
mensagem da cruz.
Por isso, a essa altura a pergunta é como a igreja deve adotar a mensagem
da cruz como o centro de sua vida quando se reúne como comunidade
adoradora no Dia do Senhor e em outras ocasiões. Como é que se pode
traduzir para o nosso mundo moderno essa percepção central luterana a
respeito do sofrimento e da fraqueza, percepção essa que se encontra no
âmago do evangelho? Naturalmente, essa é uma pergunta difícil, porém quero
oferecer uma ou duas indicações para reflexão quanto ao que isso pode trazer
como consequência.

Mostrando a relevância da cruz


A primeira coisa a realçar é que o sofrimento e a fraqueza, embora façamos
o nosso melhor em nossa sociedade consumista a fim de eliminá-los, aliviá-
los ou escondê-los, encontram-se presentes conosco em profusão. Como
professor universitário, todo ano encontro alunos que teoricamente deveriam
viver felizes com seu destino — bem-sucedido, atraente, brilhante — e, no
entanto, sofrem de terríveis tormentos interiores, ou causados pela solidão,
pelas pressões do trabalho ou das finanças, expectativas familiares ou coisas
do gênero. Por essa razão, mesmo entre as classes médias bem sucedidas da
Inglaterra, do País de Gales ou da Escócia, os sentimentos de aflição, vazio e
impotência são ainda para muitos uma realidade sempre presente. A isso se
poderia acrescentar a grande quantidade de doenças físicas e mentais que
existem em nossa nação, a pobreza, a terrível quantidade de abuso físico e
sexual, e o volume de casamentos e famílias que terminam na lata de lixo
todos os anos.
Podemos pertencer a uma sociedade que enaltece a saúde, a riqueza, a
felicidade e a realização pessoal, mas, ainda assim, seus mais fortes
defensores precisam reconhecer que os resultados estão longe de ser
invariavelmente bem sucedidos. E, se a loteria nacional, com sua ilusória
promessa de riqueza rápida, se tornou o ópio do povo em nosso mundo sem
Deus, mais ou menos como Marx pensava ser o papel da religião na revolução
industrial — um meio de atenuar a dor e o enfado da vida cotidiana —, isso
não aconteceria se a vida cotidiana, para a grande maioria, não fosse um
doloroso fardo.
Como resultado, a mensagem da cruz a respeito do Deus que revela a si
mesmo e da sua graça no sofrimento e através do sofrimento e da fraqueza de
seu Filho, seguramente é a mais apropriada para a atualidade tanto como
ferramenta evangelística quanto pastoral. Por um lado, ela está em flagrante
contradição e pronuncia a condenação de qualquer evangelho de
autorrealização mascateado como se fosse a verdade real; por outro lado,
indica ao povo o Deus que de modo algum está longe, mas que, pelo contrário,
se envolveu nas próprias profundezas da existência humana ao ponto de
assumir forma humana submetendo-se ao tormento e isolamento da cruz.
Afinal, nós não temos um Deus que vive num país distante, mas temos um
Deus que veio para bem perto de nós e de nossas experiências tanto quanto
isso é possível acontecer. Você está sofrendo? Nesse caso, Jesus Cristo já
sofreu também e sabe, de maneira profunda e misteriosa, aquilo que você está
enfrentando. Acaso você está solitário e separado? Jesus Cristo também esteve
sozinho e isolado. A ruptura da ordem criada, produzida pelo pecado, é
revelada na vida e obra de Cristo. Temos de mostrar em nossa pregação e
ensino que Deus está plenamente ciente das trevas que ora engolfam sua
criação e que ele não abandonou o mundo, mas entrou nele a fim de operar a
salvação. Nosso Deus não é o Deus distante dos deístas, e sim é o Deus que
sabe precisamente como o mundo de modo geral e nós como indivíduos fomos
arruinados pelo pecado.
Isso não é reduzir Cristo a alguém que simplesmente satisfaz as
necessidades humanas que são agravadas pela cultura urbanizada e
consumidora em que vivemos. Encarar o “evangelho como terapia” seria
pouco mais do que um passeio religioso pelas preocupações fundamentais da
nossa cultura secular, um tipo de “teologia como psicologia”. É antes para
ressaltar, logo no início, que o sofrimento e a fraqueza, não importa a forma
em que vêm, constituem uma parte inevitável da vida num mundo pecaminoso
e alquebrado, e por isso são coisas com as quais a igreja deve lutar de fato,
caso queira levar a sério o Deus da cruz. Há na igreja um grande número de
pessoas cujo argumento é que ela deve ser mais “amigável” e aberta aos de
fora; e assim deve ser. Mas se o que se quer dizer, como é amiúde o caso, é
que a igreja deve competir com o entretenimento secular a fim de “fisgar os
clientes”, estimulando constantemente a congregação e aliviando seu tédio,
então isso está errado. Isso é simplesmente uma cópia da maneira mundana
de lidar com o sofrimento, que frequentemente é uma simples tentativa de
eliminá-lo usando coisas sem valor para sepultá-lo. Como Lutero diria, isso é
aplicar a teologia da glória a uma situação que demanda a teologia da cruz.
Confesso que as corrupções do “evangelho como entretenimento” me enojam
até o âmago, e são pouco menos que uma blasfema vulgarização da cruz do
Calvário.
Nosso negócio não é fazer palhaçadas a fim de nos tornarmos mais
interessantes através de espetáculos. Antes de tudo, a igreja se torna
relevante enfrentando a vida como ela realmente é, a vida como a Bíblia
demonstra que ela é na realidade, e não porque oferece diversões ainda mais
engraçadas para anestesiar a dor de uma existência que se torna tediosa pelo
excesso de posses e pela carência de relacionamentos verdadeiros e humanos.
E a igreja enfrenta a realidade quando enfrenta a Palavra de Deus e o homem
que está no centro da Bíblia e que foi ele mesmo a Palavra encarnada, o Cristo
sofredor na cruz. Temos de encaminhar as pessoas a ele como a resposta ao
sofrimento delas, porque somente em Cristo é que o sofrimento e a
devastação deste mundo de pecado e egoísmo adquirem algum tipo de sentido
e encontram solução. Obviamente, até certo ponto, o mal e suas
consequências permanecerão sempre um profundo e horrendo mistério; mas
saber que o pecado humano já foi vencido por Cristo, e que ele mesmo sofreu
e morreu na cruz, pelo menos servirá para colocar o problema em perspectiva,
e dar-nos expectativas realistas daquilo que este mundo tem a oferecer
àqueles que buscam seguir os passos do Senhor Jesus Cristo.
Portanto, meu primeiro ponto é que o sofrimento, e toda a linguagem e
teologia que se relacionam a ele não são algo a respeito do que as famílias
abastadas e chiques queiram falar, mas são algo com que, de uma forma ou de
outra, inevitavelmente temos de conviver. Um evangélico poderia indagar: E
como poderia ser de outra forma quando a relação do mundo com Deus está
tão danificada e desintegrada pelo pecado? Portanto, não abrandemos a
mensagem da cruz como resultado de alguma crença desencaminhada, com o
propósito de, agindo assim, nos tornarmos relevantes.

Vivendo o pleno significado da cruz


O segundo ponto, resultante do primeiro, é que isso deve conduzir a uma
apropriação mais profunda da cruz do que amiúde é o caso nos círculos
evangélicos. Ora, neste ponto quero deixar bem claro que estou com aqueles
que fazem da substituição penal o modelo central para a compreensão da cruz,
e a mensagem central a ser pregada quando a questão da cruz está em foco. O
fato dessa doutrina ser tão amplamente rejeitada me parece muito esquisito,
já que são muito poucas as doutrinas, como ela, tão claramente ensinadas na
Escritura. Tudo o que vou dizer daqui em diante deve ser lido com isso em
mente, para que ninguém pense que concordo com os teólogos evangélicos
que lentamente têm alargado os seus limites, e depreciado e até mesmo
abandonado essa ideia nessas últimas décadas. Não obstante, algumas vezes
parece que, talvez em reação a essa tendência, a pregação evangélica da cruz é
expressa quase exclusivamente com respeito a esse quesito, com a encarnação
e a humanidade de Cristo agindo como um simples instrumento através do
qual se tornou possível o ato da substituição penal. Eu diria que isso
empobrece nossa compreensão da cruz e priva a igreja de outros aspectos da
obra do Cristo encarnado, especialmente na cruz, de onde se pode alcançar
grande benefício espiritual.
Em primeiro lugar, uma igreja centrada na cruz entende a verdadeira
importância teológica da fraqueza. A igreja nasceu em meio à fraqueza,
nasceu da morte de um que era fraco, desprezado e odiado, que por todos os
padrões externos e terrenos foi um desprezível fracasso no momento de sua
morte. Além disso, durante toda a sua vida, o Cristo dos Evangelhos se
preocupava profundamente com a vida daqueles membros da sociedade que
estavam arruinados, fracos e alienados. Vemo-lo ministrando à mulher que
por muito tempo sofrera de uma hemorragia debilitante, ao pobre
endemoninhado cuja vida estava aos pedaços, e talvez a mais comovente de
todas, chorando ao lado do túmulo de seu amigo quando confrontado com a
dor da morte. E saiba que aquele que fez isso poderia ter permanecido lá no
céu, habitando em eterna e feliz comunhão com o seu Pai. Veja o poder da
graça de Deus que resplandece através de sua espontaneidade em tornar-se
tão fraco! Acaso já se viu alguma vez uma força tal em meio a uma fraqueza
assim? Alguma vez o mundo já viu uma inversão tão tremenda de posição
social, uma inversão tamanha daquilo que se esperava? Será que seremos
capazes de entender a graciosa e miraculosa condescendência que se encontra
nas palavras “E o Verbo se fez carne”? Tanta fraqueza; tanta força! Por essa
razão, meditemos mais sobre o milagre que é a encarnação, sobre o que ela
nos conta a respeito da graça de Deus para com a humanidade decaída.
À luz disso, é claro, uma das coisas mais perturbadoras sobre a igreja
britânica de hoje é que ela se compõe quase que exclusivamente da classe
média. Pois os incrédulos sempre falam que o cristianismo é uma muleta; e
esses que vão à igreja aos domingos são, em sua maioria, não os membros
fracos da sociedade, e sim aqueles que ganham bons salários, possuem
famílias saudáveis, desfrutam de certa influência e status dentro de sua esfera
social e que, ao menos visivelmente, não têm necessidade óbvia de muleta,
seja espiritual, seja de outro tipo, para ajudá-los a superar as dificuldades da
vida. Onde estão, em nossas igrejas, todos os pobres e fracos, aqueles a quem
a Bíblia diz que deveríamos ver ali? Por que razão nossas igrejas não estão
mais causando nenhum impacto significativo naqueles para quem a dor e o
sofrimento são uma realidade diária, dor que não é remediada pelos vários
anestésicos que a sociedade consumista oferece? Não serve de repreensão
para nós o fato que a igreja esteja crescendo mais rapidamente nas regiões do
mundo onde o sofrimento é parte integrante da vida? Suponho que
precisamos de refletir com muito cuidado sobre nossa vida eclesiástica em
relação à cruz. Cristo veio para os fracos, aqueles que eram marginalizados,
sem esperança e desprezados. Acaso esse é um fato significativo em nossa
própria vida eclesiástica? Se não é, por que não? Acaso seria por causa de
nosso fracasso em permitir que nossa ordem do dia seja arrumada pelas
prioridades de Cristo?
Além disso, deixemos que nossas igrejas sejam lugares onde os que têm se
tornado fracos por amor a Cristo possam achar apoio e conforto. As igrejas
estão abarrotadas de uma variedade de pessoas fracas, sejam pais que
renunciaram a uma renda extra para ficarem em casa e fornecer aos filhos
pré-escolares um ambiente doméstico cristão, sejam aqueles que preferiram
uma vida de celibato a fim de lutar contra as tentações homossexuais, ou
aqueles que se digladiam de todas as formas contra outros tipos de tentação.
Não obstante, nossos púlpitos costumam manter silêncio sobre essas
questões, projetando, por meio desse silêncio, uma imagem do cristianismo
como se ele fosse uma longa festa de rua. Mas aqueles que preferem a difícil
vereda da obediência em qualquer estilo de vida, seja em termos de trabalho
ou de sexualidade ou seja o que for, precisam de apoio pastoral, precisam ser
lembrados que seu sacrifício vale a pena, que a fraqueza que eles sentem e
experimentam como parte de uma posição baseada em bons princípios tanto é
inevitável como também alcançará a bênção final de Deus, ainda que não da
maneira que poderíamos humanamente esperar. Não devemos supor que as
congregações estejam abarrotadas de pessoas fortes e autossuficientes, por
mais que a sua aparência externa nos leve a pensar assim. Temos de estar
constantemente em alerta, encorajando constantemente, para que aqueles que
se sentem fracos não desabem sob a tendência natural de ter que aparentar
ser bem sucedidos e fortes o tempo todo. Ao colocarmos a fraqueza no centro
da pauta pastoral da igreja, podemos ministrar com mais eficiência e de
maneira mais bíblica a muitos desses que estão presentes na igreja aos
domingos.
Em segundo lugar, acautelemo-nos de permitir que nossas igrejas sejam
controladas por aqueles que apresentam a técnica como a solução de nossos
problemas. Isto é especialmente relevante hoje em dia, quando a mentalidade
administrativa, baseada como está sobre o duplo fundamento do controle e da
eficiência, permeia todos os aspectos da nossa vida. É claro que o controle e a
eficiência não são maus em si mesmos, e podem ser altamente benéficos, mas
a igreja nasceu da fraqueza, a fraqueza da cruz. É nisso que reside a sua força,
pois aí está a sua contestação do poder terreno e da expectativa humana.
Portanto, devemos preocupar-nos excessivamente com eficiência, poder e
influência? O próprio Cristo triunfou fazendo aquilo que qualquer guru da
administração consideraria completamente sem sentido: ele jogou fora a
oportunidade de conseguir poder e influência convencionais, e subiu para
Jerusalém sabendo que ali seria preso e executado. Pelos padrões modernos,
esse foi um comportamento idiota. Ele deveria ter usado os poderes da
influência terrena que o diabo lhe ofereceu; ele deveria ter conquistado as
autoridades para sua forma de pensar, vendendo-lhes as suas ideias de
maneira que as compreendessem; e ele não deveria ter-se exposto à
perseguição enquanto não garantisse um quartel-general ou uma imagem
pública que lhe desse segurança. Felizmente, o método de Cristo não é o
nosso; e a salvação foi o resultado.
A fraqueza foi também a marca registrada do ministério de Paulo. Veja o
que ele diz nas cartas aos coríntios: fisicamente, ele não causava boa
impressão; ele não foi a eles como um orador público brilhante; ele foi em
fraqueza, não em força. Ele não era exatamente um modelo de marqueteiro ou
de relações públicas contemporâneo, não é mesmo? Em especial, a sua
aparência não era uma figura nem um pouco atraente. Ele também não era o
tipo de pessoa cuja foto você poria na capa de uma revista evangelística. Mas
nisso está o poder de seu ministério — a sua extrema fraqueza produziu mais
glória para Deus à medida que o seu ministério produziu fruto.
Assim, ao planejarmos a vida de nossa igreja e ao avaliarmos o seu sucesso,
não nos deixemos guiar por técnicas administrativas ou pelas modernas
teorias de apresentação e influência. Os princípios fundamentais da vida e
prática da igreja estão delineados na Bíblia e são exemplificados na vida dos
santos bíblicos. Será que a igreja agora é fraca e está sendo menosprezada
pela sociedade? Bem, isso é triste! Mas, por outro lado, quem se importa?
Nosso propósito não é sermos respeitáveis, exercermos influência política,
sermos uma organização que os de fora admirem por sua esperteza e jogo de
cintura. Nossa pretensão é sermos aqueles que pregam a Cristo ao mundo que
nos cerca, seja em palavras, seja em ações. Considero preocupante quando o
sucesso evangélico é medido em termos do sucesso mundano, pela seguinte
razão: não pretendemos ser bem sucedidos pelos padrões mundanos; nossa
pretensão é sermos fiéis conforme os padrões bíblicos; e o exemplo de Cristo
indica que essas duas coisas são, no final das contas, irreconciliavelmente
opostas uma à outra.
Em terceiro lugar, coloquemos de volta na ordem do dia da igreja uma visão
realista do sofrimento e da fraqueza, tanto em sua pregação, como em seu
louvor; na verdade, em todos os aspectos do seu culto. Captemos outra vez as
ênfases, por exemplo, dos Salmos, incluindo, como eles o fazem, uma atitude
realista tanto com respeito ao regozijo como com respeito ao lamento.
Somente então é que poderemos oferecer apoio bíblico aos que estão sofrendo
angústias em sua própria vida. Tenho me preocupado cada vez mais, nos
últimos anos, com o que eu chamo de cultura evangélica “viril” em que
vivemos, de onde a dúvida, as trevas e a tristeza estão excluídas de nossos
horizontes de expectativa. Estamos constantemente ouvindo nos sermões a
respeito dos deleites existentes na vida cristã; nossos cânticos de nada mais
falam senão dos triunfos do espírito cristão; e o júbilo cristão é também
muitas vezes comparado a uma condição de felicidade e contentamento
emocionais. Em outras palavras, o cristianismo é apresentado como a resposta
às exigências instantâneas da cultura consumista. Isso simplesmente não é
verdade, e é espiritual e pastoralmente desastroso. Tecnicamente falando,
essa ideia envolve uma escatologia totalmente realizada; em termos não
especializados, essa ideia é totalmente irrealista e antibíblica, esperando o céu
na terra aqui e agora. Enquanto não nos livrarmos da influência dissimulada
do consumismo, que nos leva a uma busca de conforto em nossa vida e culto, é
pouco provável que compreendamos o que exatamente nos diz a cruz sobre a
natureza do cristianismo e do próprio Deus.
Lutero, é claro, embora vivesse uma vida exposta a muito perigo pessoal e
muito desconforto, morreu tranquilamente em seu leito. Esse não foi o caso
de muitos daqueles que desde então foram inspirados por seu ensino. Como
aqueles que são mencionados em Hebreus 11, muitos dos primeiros
protestantes e dos que os sucederam, renunciaram ao lar, à família, ao
conforto e, no final das contas, à própria vida por causa do evangelho daquele
que sofreu e morreu na cruz por nós, homens e mulheres, e para nossa
salvação. Tiremos um momento diário para recordar que seguimos um Rei,
porém um Rei cuja coroa foi adquirida pelo ato de não levar em conta sua
própria pessoa e de sofrer uma terrível morte na cruz. Existe aí uma lição que
nenhuma palavra pronunciada por mim, e nenhuma meditação feita por você
jamais poderão apreender plenamente.
OS ORÁCULOS DE DEUS

QUANDO SE ANALISA a grande quantidade de livros impressos, sermões


pregados, comentários e panfletos escritos durante a Reforma, fica muito
claro que ela foi um movimento de palavras — palavras escritas, palavras
impressas, palavras faladas. Na verdade, ocorrendo em um ponto da história
no qual a indústria gráfica estava apenas começando a dar seus primeiros
passos, dificilmente poderia ter sido de outro modo. A Reforma não poderia
ter ocorrido em nenhum outro ponto anterior da história precisamente por
esta razão: ela dependia da nova tecnologia para disseminar os seus planos.
Contudo, em última análise, esse movimento não foi simplesmente um
movimento de palavras — o que teria feito dele pouco mais do que uma parte
de uma revolução cultural, educacional e tecnológica mais ampla. Não, ela foi,
acima de tudo, um movimento da Palavra — encarnada em Cristo e escrita nas
Escrituras.

A Palavra e a Reforma
Lutero perguntou: Onde posso encontrar um Deus gracioso? E a resposta foi:
em Cristo, na Palavra escrita e pregada — e, considerando os elevados níveis
de analfabetismo daquela época, não devemos permitir que a importância da
literatura impressa obscureça o fato de que a maioria daqueles que se
converteram ao cristianismo reformado no século dezesseis conheceram o
evangelho por meio da palavra falada, e não da página impressa, o que é um
ponto crucial para refrear a tendência pós-moderna de ver a Reforma como
um movimento formal demais e dependente dos livros.
Essa percepção vívida de Lutero concernente à Palavra e às palavras era um
sentimento comum a todos os grandes reformadores. Na verdade, a própria
tradição reformada até mesmo na arquitetura da igreja, que coloca como
centro o púlpito, e não o altar, refletia essa ênfase na Bíblia e no sermão. A
mudança de local do altar representava mais graficamente do que qualquer
outra coisa a mudança de um culto baseado nos sacramentos para um culto
baseado na palavra; e isso foi realçado pela insistência dos reformadores no
fato de que não podia haver sacramento sem a palavra, pois os sacramentos
eram um sinal da promessa, e por essa razão precisavam ser ministrados
dentro do contexto da promessa sendo proclamada oralmente.

A realidade naquele tempo, o desafio hoje


É aqui, então, que finalmente chegamos ao cerne da teologia da Reforma
no que diz respeito ao seu fundamento prático; pois é aqui que atingimos
aquilo que era a fonte normativa da crença e da prática dos reformadores; e
também aqui, aventuro-me a dizer, é onde chegamos à parte mais difícil e
talvez mais controvertida da herança que a Reforma deixou para hoje. Pois a
ênfase da Reforma sobre a Palavra escrita e pregada representa um profundo
desafio à igreja de hoje quando ela tenta proclamar o evangelho ao mundo
contemporâneo. Naturalmente, a razão disso é que agora vivemos numa
sociedade em que a palavra escrita e a palavra verbalizada já não são tão
centrais à cultura como provavelmente já foram.
Com frequência nos dizem que as pessoas não vão participar de um
trabalho evangelístico em que o evento central é o sermão, porque elas já não
estão dispostas, como talvez antes costumassem estar, a sentar-se e ficar
ouvindo alguém falar! É frequente ficarmos sabendo que nem mesmo os
cristãos leem a Bíblia com regularidade, e em parte porque a leitura de
material impresso tem sido relegada, na esfera popular, quase exclusivamente
a revistas de sala de espera e a tabloides de notícias! A nossa cultura toda está
deixando de centrar-se na página impressa e migra para outro meio de
comunicação, em especial para aquela caixa onipresente de conteúdo quase
totalmente sem valor colocada no canto da nossa sala de estar. Dado o
impacto disso até mesmo dentro da igreja cristã, a pergunta agora é como
podemos continuar fiéis às ênfases dos reformadores, centradas na Bíblia, ao
mesmo tempo que continuamos falando ousadamente à nossa própria época e
geração.
A Bíblia — A Palavra de Deus
A primeira coisa que temos de fazer é lembrar o que a Bíblia realmente é. Foi
somente pelo fato de Lutero e seus companheiros reformadores crerem que a
Bíblia era a Palavra de Deus e que era a única maneira de conhecerem a graça
de Deus em Cristo que ela assumiu o papel central na vida deles e na vida de
suas igrejas. Para os reformadores, a Bíblia era não apenas um depósito da
verdade; ela era o próprio canal pelo qual Deus ainda falava de forma salvífica
ao seu povo. O primeiro parágrafo do primeiro artigo da Segunda Confissão
Helvética de 1566 o expressa da seguinte forma:

Cremos e confessamos que as Escrituras canônicas dos Profetas e Apóstolos de ambos os


Testamentos são a verdadeira palavra de Deus e de si mesmas têm suficiente autoridade,
autoridade essa que não vem da parte dos homens. Pois Deus mesmo falou com os Patriarcas, com
os Profetas e com os Apóstolos, e ainda fala conosco através das santas Escrituras.

Inspirada em sua origem


Para os reformadores, então, as Escrituras foram o meio pelo qual Deus
lhes falou. Isso tinha dois aspectos básicos. Um deles era a ideia de que as
Escrituras em si mesmas eram inspiradas por Deus ou, se você preferir, foram
concedidas por ele à igreja como a revelação de si mesmo. Temos de tomar
cuidado aqui. Isso não significa que a Escritura toda seja e faça a mesma coisa.
Existe na Bíblia uma variedade de tipos de literatura: histórias, cânticos de
louvor, gritos de lamentação, declarações de verdade teológica a respeito de
Deus. Quando os reformadores afirmavam a plena inspiração de todas as
Escrituras, não reduziam tudo na Escritura ao nível de simples informação; a
Escritura contém uma série de formas e gêneros literários e, assim, é e faz
várias coisas diferentes. Eles também não reduziam tudo o que existe na
Escritura ao mesmo nível de importância. Evidentemente, a promessa feita a
Abraão e a vinda do Messias são de importância mais direta para a história
central da salvação do que alguns dos detalhes, como por exemplo as
narrativas das guerras. Isso não significa dizer que as afirmações bíblicas não
sejam todas verdadeiras no que diz respeito ao propósito que Deus tinha em
relação a elas; sem dúvida nenhuma elas são todas verdadeiras; mas é
simplesmente para mostrar que algumas têm efeito mais direto e profundo na
vida humana do que outras. Entretanto, num sentido muito profundo, a
Escritura não apenas contém a palavra de Deus; ela é a Palavra de Deus. Isso
não significa que ela substitui Cristo, assim como uma carta de amor não
substitui a minha esposa. De certa forma, ela serve, provisoriamente, como
nosso meio de conhecer a ele e de conhecer a sua vontade. Não vamos
precisar mais da Bíblia quando estivermos no céu, pois ali o veremos face a
face — e essa é uma importante resposta para aqueles que acusam os
evangélicos de se relacionarem com um livro em vez de relacionarem-se com
uma pessoa. Afirmamos categoricamente que não fazemos isso; nós temos um
relacionamento pessoal com Cristo aqui e agora, mas isso ocorre somente por
meio do livro chamado Bíblia.

Inspirada no seu recebimento


Dessa forma, a Bíblia é inspirada pelo fato de ter sido soprada por Deus, e é
verdadeira em todas as suas afirmações no sentido que Deus mesmo quis que
elas fossem verdadeiras. Mas isso é apenas a metade da história. Os
reformadores eram também muito enfáticos a respeito da atual inspiração da
Palavra, ou seja, que a Palavra, quando lida ou pregada de forma correta,
vinha com grande poder por causa da relação íntima que ela desfruta com o
Espírito de Deus. Quando a Palavra é lida, quando ela é pregada, o Espírito se
acha tão ligado com a Palavra que ela é supremamente eficaz mediante o
poder que vem dessa inspiração direta. William Tyndale apresenta isso de uma
forma muito expressiva:

Quando o evangelho é pregado, o Espírito de Deus entra naqueles a quem Deus ordenou e
designou para a vida eterna, abre-lhes os olhos interiores e opera neles a fé. Quando a consciência
aflita prova a doçura da morte amarga de Cristo, quando prova como Deus é compassivo e amoroso
por causa da aquisição e dos méritos de Cristo, ela passa a amar outra vez a lei de Deus e concorda
com ela, passa a reconhecer como ela é boa, como é necessária, e como é justo o Deus que a fez
(Extraído do prefácio do Novo Testamento publicado em 1525).

Eis aqui o poder da Palavra: ela é o canal ou o instrumento pelo qual o


Espírito pode operar a impressionante conversão de um ser humano. Esse é o
poder da inspiração aqui e agora, mostrando que, ao lidarmos com a Bíblia,
estamos lidando com uma força espiritual potentíssima.

Equívocos sobre o propósito da Bíblia


Depois de dizer isso, tenho a impressão de que muito da atitude comum dos
cristãos para com a Bíblia realmente reflete uma falha básica na compreensão
exata daquilo com que estamos lidando. Acho que todos nós conhecemos o
tipo do cristão que diz não somente possuir a Bíblia, mas que tem também o
Espírito Santo como fonte de orientação e conhecimento de Deus. Essas
pessoas não conseguem entender a função que a própria Bíblia atribui ao
Espírito Santo: a função de testificar de Cristo em e através das Escrituras.
Elas também não percebem que a Bíblia é, num sentido muito importante,
suficiente para a tarefa para a qual se destina, e que não há revelação
independente da história redentora que culmina em Cristo, nem revelação que
seja superior a essa história. Isso não quer dizer que cada um de nós não seja
guiado diariamente pelo Senhor em sua vida cristã; mas significa que essa
direção inevitavelmente terá como centro o ensino mais amplo da Bíblia e
estará em conformidade com ele. Se essas coisas fossem entendidas,
simplesmente desapareceria esse tipo de contraste entre a Bíblia e o Espírito
que muitas vezes parece estar por trás de tais declarações.

Mau uso da Bíblia


Entretanto, há uma tendência igualmente defeituosa dentro dos círculos
evangélicos de reconhecer só de boca para fora a Bíblia como um livro
inspirado e na prática usá-la como se fosse apenas um livro inspirativo. Isso
fica muito evidente quando se repara a tendência comum de usar a Bíblia
como uma coleção de pensamentos abençoados, como uma série de curiosos
cabides literários nos quais se penduram experiências pessoais, ou como um
tipo de almanaque através do qual Deus fala de maneira intangível e mística. É
essa maneira de ver a Bíblia que motiva as reuniões em que se pede aos
participantes que mencionem alguma passagem específica que lhes tenha
falado ao coração nos últimos tempos. Algumas vezes, as pessoas apresentam
uma passagem e demonstram claro entendimento de seu significado em
relação à história redentora e à salvação pessoal; outras vezes, parecem usar a
Bíblia da mesma forma que os seus amigos não cristãos usam o horóscopo:
uma banalidade religiosa que por acaso lhes deu algum conforto ou confirmou
alguma ideia que lhes tinha ocorrido. Essa maneira de pensar também deu
origem aos estudos bíblicos que muitos de nós já conhecemos, estudos em que
se considera de valor igual a opinião de cada um dos participantes; como se
tivesse sido isso o que os reformadores pretendiam ao colocar a Bíblia na mão
do povo e ao defender a perspicuidade inerente das Escrituras. É claro que é
de vital importância a reação que a Escritura produz no leitor; mas a reação
mesma deve ser modelada pelo texto bíblico entendido de forma correta, e não
adequar-se à nossa própria situação; e essa reação só é possível porque o texto
é verdadeiro; ele é inspirador porque é, antes de tudo, um texto inspirado.
Consequentemente, a inspiração da Bíblia deve ser o fator fundamental que dá
forma a nossa resposta a ela.
Os abusos aqui mencionados são, em parte, resultado do contexto
eclesiástico no qual as pessoas se desenvolveram como cristãs e no qual
aprenderam como ler e como usar a Bíblia. A pregação e o culto que raramente
se elevam acima do nível da experiência imediata ou da aplicação prática, que
têm um foco quase inteiramente pragmático, são um solo fértil exatamente
para esse tipo de coisa. Nesse tipo de contexto, a Bíblia funciona não tanto
como um livro inspirado, afirmando e fazendo aquilo que Deus quer afirmar e
fazer, mas como um livro inspirativo, afirmando e fazendo aquilo que nós,
talvez até de forma inconsciente, queremos que ele nos diga e faça.

De que Modo a Bíblia é Única?


Ora, os reformadores consideravam a Bíblia acima de tudo como a Palavra de
Deus para a raça humana, inspirada pelo Espírito Santo e dirigida à igreja e ao
indivíduo pelo Espírito Santo. Essas são verdades que sem dúvida têm sido
destacadas na maioria dos cultos evangélicos reformados.

Confusão
Todavia, num nível popular, mesmo no seio das igrejas evangélicas
reformadas, têm-se cometido os mesmos equívocos. O só ensinar a doutrina
de maneira correta parece não produzir o efeito desejado. Deveras, ouvimos
dos púlpitos que a Bíblia é verdadeira, e de fato hoje pode parecer que no seio
de muitas igrejas evangélicas, pelo menos no nível popular, não são muitas as
pessoas que duvidam que a Bíblia seja verdadeira e fidedigna. Pergunte ao
crente sentado perto de você na igreja se as Escrituras são verdadeiras, e
invariavelmente obterá uma resposta afirmativa. Mas pergunte a essa mesma
pessoa qual é a diferença entre a Bíblia e a verdade contida no manual do seu
carro, ou que diferença faria à maneira como a Bíblia é usada e lida se ela
fosse usada e lida como se lê e usa o manual de um carro, e é bem provável
que você receba respostas bem menos confiantes e seguras.
O fato que a Bíblia é verdadeira é algo plenamente aceito; o que não se
entende muito claramente é o significado dessa verdade e dessa
confiabilidade. Afinal de contas, seja qual for o compromisso intelectual que
se tenha com a inspiração, se a Bíblia na prática é tratada como especial só
porque é inspirativa, não fica clara a razão por que ela não divide o seu lugar
especial na igreja com outras peças “inspirativas” da literatura, quer sejam as
Leituras Matinais de Spurgeon, as obras de Shakespeare ou quaisquer outras.
Se eu posso achar conforto nos solilóquios de Hamlet, por que isso não
funcionaria também nas reuniões da minha igreja?

A necessidade de ensino claro


A singularidade da Bíblia precisa outra vez ser apresentada à congregação,
não apenas como reflexão humana sobre a revelação de Deus, mas como parte
inseparável da revelação de Deus. É aqui que o papel do ministro é tão
importante. Ele não deve apenas declarar que a Bíblia é verdadeira, mas
precisa ilustrar em seu ensino e pregação o que ele quer dizer quando afirma
que a Bíblia é verdadeira, e qual é a significação desse fato. Afinal, o manual
de instruções de meu carro é verdadeiro e exato; as programações da TV
anunciadas em minha revista são verdadeiras e exatas. Simplesmente declarar
que a Bíblia é verdadeira e exata não basta em si e por si para mostrar-me a
razão por que a Bíblia é especialmente significativa ou como deve ser usada. É
somente quando o conteúdo da Bíblia é apresentado numa estrutura em que a
sua verdade é colocada em termos práticos que eu de fato passo a
compreendê-la.
Eu creio que essa é uma das razões por que os reformadores gastaram
pouco tempo pensando se a Bíblia era ou não verdadeira. Obviamente, as
contestações contra a Bíblia que eles enfrentavam na época não eram tão
grandes como vieram a ser nos anos seguintes, de modo que havia menos
necessidade de enfatizar esse ponto; mas também, na mente dos
reformadores, as doutrinas da inspiração e autoridade eram inseparáveis das
questões relativas ao propósito da Escritura como a Palavra de Deus. A Bíblia
não era simplesmente a verdade; ela era a verdade acerca de Deus; e foi isso
que a fez singular e indispensável.
Portanto, o que precisamos, acima de tudo, em nosso tempo, é de um
ministério que lide com a Palavra de Deus com respeito, e que mostre à
congregação não só o fato que a Palavra de Deus é verdadeira e poderosa, mas
por que ela é verdadeira e o que isso significa. Eu creio que a única maneira de
se fazer isso de forma consistente é através da pregação expositiva
sistemática, que mostra às congregações o fato que a Bíblia, em última
análise, nos conta um só relato, a saber, o da queda e da redenção da
humanidade, e contém uma só história, a saber, a do trato de Deus com os
homens e mulheres, culminando na pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo.
Afinal, a Bíblia é importante não porque ela aquece meu coração ou me
inspira mais do que, digamos, uma carta de amor de minha esposa. Aliás, uma
carta dessas sem dúvida causa maior impacto emocional em mim do que
muitas passagens da Bíblia. Não; é o fato de a Bíblia centrar-se em Cristo, e
ser inspirada pelo Espírito Santo tanto quando foi escrita como quando é
aplicada ao meu coração que a tornam única de uma maneira que a carta de
amor de minha esposa, conquanto especial para mim, jamais poderia tornar-
se.

O Púlpito
Portanto, o primeiro lugar em que a reforma da igreja começa é no púlpito. A
esta altura, precisamos entender que a ênfase da Reforma tanto sobre a
Palavra escrita como sobre a Palavra pregada não era apenas um movimento
teologicamente neutro. Sim, a Reforma ocorre num ponto da história em que a
cultura ocidental no geral estava-se movendo do estético e visual para o
literário e verbal; mas esta circunstância favorável não deve levar-nos a
relativizar esse aspecto do plano dos reformadores. A Palavra escrita e a
Palavra pregada são ambas centrais para o cristianismo, e não são simples
formas culturais que podem ser alteradas quando os movimentos culturais
mudam para algo novo.

O sermão — sua importância


A pregação, em especial, era uma parte indispensável da mensagem
teológica e do culto dos reformadores: com uma teologia que se concentrava
em questões como a lei, a aliança, e a promessa, ressaltando que tudo se
centralizava em um Deus essencialmente pessoal, a dimensão verbal da
teologia dos reformadores era formada da própria essência daquilo que
estavam fazendo. Afinal, uma promessa envolve uma afirmação formada de
palavras; um mandamento envolve uma afirmação formada de palavras; a
própria natureza da nossa personalidade demanda que tenhamos a capacidade
de expressar-nos aos outros, e isso na grande maioria das vezes envolve
algum tipo de expressão verbal em algum ponto da comunicação.
Simplesmente não há como deixar de lado esta dimensão verbal da teologia da
Reforma sem transformar essa teologia em alguma coisa que é basicamente
diferente. Por exemplo, uma teologia sacramental, em que os sacramentos são
administrados sem uma orientação verbal mais ampla, ligando-os à promessa,
pode ter um apelo simpático ao povo pós-moderno, mas isso não muda o fato
de ser simplesmente um misticismo tolo e que nada tem a ver com o Deus da
Bíblia ou com a teologia dos reformadores.
Seja o que for que os especialistas em comunicação queiram nos dizer
sobre as melhores maneiras de nos comunicarmos com as pessoas modernas
ou pós-modernas, faremos bem se mantivermos em mente a observação de
James Packer, de que pregar não é simplesmente comunicar; é muito mais que
isso; a pregação na verdade traz Cristo, traz o próprio Deus até a congregação.
O sermão pode ser constituído de palavras, mas o que ocorre é muito mais que
a mera transmissão de informações; o Espírito Santo usa essas palavras para
apontar para Cristo, para gerar a fé em Cristo, e assim unir indivíduos com
Cristo. É somente quando a Palavra e o Espírito operam juntos que as pessoas
são confrontadas com as reivindicações de Cristo de uma maneira que
realmente as desafia e as muda.
O evangelho é o poder de Deus para a salvação. Ele não é um simples
anúncio publicitário — como parece que tantos gurus evangélicos pós-
modernos pensam que ele é. Aliás, tornou-se quase um chavão argumentar
que a razão de os indivíduos não se tornarem cristãos é porque a mensagem
está sendo comunicada da maneira errada. Assim, a impressão que se passa é
que o problema não é tanto o coração humano rebelde, mas é mais a
inadequação do método de comunicar o evangelho. Essa atitude diz muito
sobre as maneiras como as filosofias dissimuladas do consumismo e do
capitalismo ocidental se infiltraram na teologia da igreja evangélica e
encontraram solo fértil num clima teológico que rejeitou amplamente a
compreensão bíblica, paulina e agostiniana da graça de Deus e da natureza
humana, acatando um pelagianismo insípido e uma compreensão superficial
do que significa a conversão cristã.
O sermão — suas limitações
Dito isso, confesso que concordo com os gurus evangélicos pós-modernos
numa questão: os sermões com certeza são uma ferramenta inadequada para a
tarefa de trazer homens e mulheres a Cristo. Nenhum reformador jamais
pregou o evangelho simplesmente porque pensava que esse método fosse o
melhor meio de introduzir o cristianismo. E muitos dos relatos dos cultos
daquela época indicam que as congregações não tinham então mais paciência
com os sermões do que têm agora, a única diferença é que então eles tinham
de estar presentes, e agora têm a opção de fazer algo mais interessante.
O ponto em que discordo desses gurus é em minha análise da condição
humana e da natureza da salvação. Se fôssemos concordar com eles na forma
em que veem os seres humanos, como se estes estivessem sempre buscando a
Deus, como se tivessem uma espiritualidade inerente que os leva a desejar
experiências espirituais mais profundas e mais autênticas, então poderíamos
considerar o atual interesse pelas religiões alternativas como um sinal
positivo, e considerar que a nossa própria tarefa seria apresentar ao
consumidor espiritual o nosso produto, o cristianismo, como um meio mais
adequado de satisfazer as assim chamadas “necessidades sentidas” dos
indivíduos. Entretanto, se, de acordo com o cristianismo bíblico e histórico,
supremamente o cristianismo dos reformadores, considerarmos os seres
humanos como pecadores e voltados interiormente apenas para si mesmos,
então veremos a fome por religiões alternativas não como um sinal de anelo
espiritual, e sim como um exemplo maior ainda da infinita capacidade humana
de mudar até mesmo seu próprio conhecimento inato de que existe algo mais
elevado do que o próprio indivíduo, em um ato de desvio moral e de rebelião
teológica. Não se engane: muitas dessas bobagens promovidas pelos
evangélicos pós-modernos provêm de uma compreensão profundamente
otimista e por isso mesmo profundamente equivocada da natureza humana; e
as metodologias evangelísticas que propõem são modeladas por esse
entendimento equivocado.

O sermão — o método de Deus


Entretanto, para aqueles que se alinham com os reformadores, a
humanidade, mesmo em seus mais elevados exercícios espirituais e naturais,
encontra-se num estado de completa rebelião contra Deus, e nenhuma série
de palavras cuidadosamente elaborada, nenhum argumento convincente,
nenhum discurso comovente jamais poderá trazer um único indivíduo a
Cristo. Somente quando essas palavras trazem consigo o Espírito Santo de
Deus testificando de Cristo é que o sermão se torna adequado à sua tarefa.
Assim, pregamos e falamos as palavras de Deus, não porque esse seja o
método de marketing mais plausível como apelo aos incrédulos, mas
simplesmente porque esse é o meio designado por Deus de nos dirigirmos aos
indivíduos e de conduzi-los à fé. Aliás, é exatamente porque esse método é tão
fraco e ineficaz pelos padrões do mundo, que ele atribui muito mais glória a
Deus quando almas são salvas e vidas se convertem por meio desse
instrumento.
Naturalmente, temos de usar uma linguagem com a qual a congregação
está familiarizada; obviamente, temos de estar cientes de que estamos falando
a pessoas do século vinte, e não do século dezesseis; e, é claro que temos de
ser culturalmente sensíveis no que dizemos; mas temos de pregar porque esse
é o meio escolhido por Deus para a difusão das novas do reino. A pregação
não é apenas uma técnica de comunicação e jamais deve ser considerada como
tal; pregar é levar as próprias palavras de Deus dirigidas à vida e às
necessidades dos pecadores e das congregações do povo de Deus. Por essa
razão, se não for por nenhuma outra, os sermões devem permanecer como o
centro de nosso culto.

Quando a pregação falha


Além do mais, é certo que colocar o sermão em uma posição de importância
secundária na vida evangélica não provocou uma diminuição no zelo pelo
evangelho — pois há muita gente, jovens especialmente, que vêm de igrejas
onde a pregação não é central, e que mesmo assim têm um zelo invejável —
porém a marginalização da pregação do evangelho levou os leigos a um
impressionante declínio quanto ao conhecimento do que exatamente significa
esse evangelho. Eu trabalho com estudantes evangélicos e sempre me
surpreende ver quão pouca coisa alguns deles conhecem a respeito do
evangelho. Sim, eles amam a Cristo e confiam que ele os perdoou; mas
pergunte-lhes em que se baseia a confiança de que ele os perdoa ou o que foi
alcançado na cruz, e se ouvirá muitas vezes uma resposta que envolve uma
experiência nebulosa ou algum sentimento que eles têm, em vez de uma
referência à cruz ou às promessas da aliança.
A razão para tal falha é quase sempre seu antecedente eclesiástico:
comunidades onde se dá grande ênfase a uma vida cristã robusta e vigorosa,
porém a pregação não é valorizada. O resultado é que a mente deles fica vazia
das grandes verdades cristãs, e a fé deles não possui fundamentos muito
estáveis; estão edificados mais em experiências piedosas do que numa bem
pensada visão bíblica e doutrinária do mundo, radicada no próprio Deus
conforme o encontramos em sua revelação. Precisamos saber que podemos
confiar que Deus é fiel em virtude do que ele já fez ao longo da história, e não
porque nós mesmos tivemos alguma experiência em algum momento; e como
podemos saber disso, a não ser que alguém nos informe?

A responsabilidade do pregador
Portanto, a primeira coisa que um pregador precisa perceber é a seriedade
da tarefa com a qual está-se comprometendo: sobre os seus ombros repousa a
responsabilidade de dar ao seu povo uma sólida rocha sobre a qual possam
edificar a vida; e, ao pregar, ele leva a divina Palavra de Deus do texto
divinamente inspirado, por meio das palavras do seu sermão, ao coração e à
mente do seu povo. Dessa forma, por assim dizer, ele manuseia a Palavra de
Deus, algo que tanto é um privilégio imenso como uma terrível
responsabilidade. Portanto, ele deve tomar o cuidado de entendê-la
corretamente e que a sua atitude seja apropriada à seriedade da tarefa. Como
Richard Baxter disse: “Eu pregava como um moribundo falando com
moribundos”. Ou seja, o púlpito não era lugar para ele fazer graça, ou falar de
frivolidades, ou para entreter a sua congregação; a cada domingo, era o lugar
onde, quem sabe pela última vez, ele tinha a oportunidade de falar a homens e
mulheres acerca das grandes coisas de Deus. Naturalmente, hoje vivemos
numa época em que o entretenimento é o supremo alvo e a motivação da vida;
mas o cristianismo é, sempre, até certo ponto, uma contracultura, e esse é um
aspecto em que não podemos nos dar o luxo de sermos qualquer coisa
diferente disso.
Assim, o ministério da pregação é algo que não pode ser desempenhado
levianamente; e também o ministro e a congregação não devem encarar o
sermão de maneira displicente ou trivial. O pregador tem a responsabilidade
tanto de explanar a verdade de Deus como de fazer isso de maneira que
confronte sua congregação com a solenidade da grandeza e da santidade de
Deus e a vastidão de sua graça e amor. Por essa razão, essa tarefa demanda
um tipo específico de homem com uma vocação específica para realizá-la.

O Preparo do Pregador
A ênfase da Reforma na Palavra leva não apenas a uma ênfase na seriedade da
vocação do ministro e da tarefa que ele tem de cumprir; ela também deve
moldar a visão para o tipo de educação e treinamento que esse homem deve
receber antes de subir ao púlpito. O ministro deve ser um homem que possua
várias habilidades além de seu amor pelo evangelho e seu amor por seus
semelhantes, homens e mulheres, cristãos e não cristãos. Uma igreja que está
continuamente se reformando de acordo com a Palavra de Deus será uma
igreja cujos líderes são homens que entendem a Palavra de Deus. Ora, a
preparação ministerial é um tema muito vasto, e eu não conseguiria tratar de
todos os assuntos envolvidos, mesmo que tivesse a competência para fazê-lo;
mas há uma série de fatores que a teologia da Reforma trouxe a lume. Vou
apresentá-las sem nenhuma ordem especial de prioridade.

Estudo de línguas
Primeiro, o ministro deve ter algum entendimento das línguas bíblicas.
Isso não é algo essencial — tem havido alguns ministérios famosos em que o
pregador tinha pouca ou nenhuma habilidade linguística. Não obstante,
inspirados foram os textos do hebraico, do aramaico e do grego, e não a King
James ou qualquer outra versão. Quando os reformadores colocaram a Palavra
inspirada no centro de seu programa de reforma, eles também estabeleceram
a dinâmica para o desenvolvimento dos estudos linguísticos precisamente
porque os textos originais eram de extrema importância para o axioma
protestante da Escritura somente. Ora, estudar os idiomas bíblicos é quase
direito exclusivo das faculdades teológicas conservadoras pela mesma razão
básica: um elevado conceito de inspiração exige que os líderes da igreja
compreendam o texto bíblico original. Não quer dizer que no púlpito se deva
exibir erudição. A educação nunca deve ser usada como base para separar o
ministro do povo e dessa forma criar um novo tipo de sacerdócio. Aliás,
Calvino mesmo nunca fez referência ao hebraico ou ao grego em seus
sermões. A única razão para adquirir essas habilidades é que dessa forma o
ministro possa chegar mais próximo do texto original, e assim aproximar-se
com mais intimidade da mente do próprio Deus, do que poderia fazê-lo
usando qualquer outra tradução, por mais excelente que seja.

História da salvação
Segundo, o ministro deve ter uma profunda compreensão de todo o caráter
teológico e histórico da Bíblia. A Bíblia narra uma só história, se bem que
através de relatos que apresentam diferentes perspectivas; ela contém uma só
teologia, se bem que através de livros com diferentes perspectivas teológicas;
e por isso ela tem de ser lida, entendida e proclamada como um todo. Uma
exegese fragmentada de textos isolados, uma pregação temática sobre o
assunto favorito do ministro naquele mês, e qualquer sermão que deixe de pôr
o ensino de alguma determinada passagem na esfera da história redentora
como um todo são simplesmente inadequados. Portanto, há uma necessidade
não apenas do ensino dos idiomas bíblicos, mas também da própria teologia
bíblica, uma teologia que respeita a estrutura histórica da Bíblia como sendo
parte de sua própria estrutura teológica, e assim capacite o pregador a mover-
se do texto para o sermão de uma maneira apropriada.
Neste ponto, é importante ver que aquilo que eu digo aqui sobre o ministro
se aplica quase da mesma forma ao professor de Escola Dominical. O
professor de Escola Dominical tem a responsabilidade não só de contar às
crianças as histórias básicas da Bíblia, mas também de instilar nelas as
ferramentas básicas de que precisam para relacionar todas as diferentes partes
da Bíblia. Graham Goldsworthy, do Moore Theological College, chegou ao
ponto de dizer que ninguém deveria poder ensinar na Escola Dominical sem
possuir um embasamento sólido na teologia bíblica. Talvez isso seja um pouco
exagerado, mas certamente todos os professores devem ter como objetivo
fazer com que a grande narrativa da Bíblia faça sentido na mente dos seus
alunos. E por quê nos restringir aos professores de Escola Dominical? Por
acaso não é dos pais a responsabilidade de fornecer aos filhos a maior parte
das informações bíblicas quando leem a Bíblia e oram com eles todos os dias?
Cabe a nós refletir sobre como fazermos isso, como estabelecermos na mente
de nossa própria prole o grande padrão da constante ação salvífica de Deus
através da história.

Teologia Sistemática
Terceiro, o ministro deve ter um sólido embasamento na teologia
sistemática, porque o contexto de qualquer texto ou narrativa bíblica é tanto
teológico quanto redentor e histórico. As doutrinas da Trindade, da
depravação total, da predestinação, para mencionar apenas três, precisam
estar constantemente diante dos olhos do ministro à medida que lê o texto
bíblico e quando passa desses textos para o sermão. Alguns membros de igreja
evangélica, e até mesmo alguns ministros depreciam a “teologia sistemática”
como se ela fosse alguma ideia estranha imposta ao texto só para distorcer o
ensino da própria Bíblia; mas esse tipo de conversa é completamente absurdo.
Os reformadores eram exegetas bíblicos por excelência, e, no entanto,
faziam constante uso de 1.500 anos de exposição sistemática doutrinária para
fazerem a sua exegese. Se a teologia sistemática tem sido mal usada para
produzir distorção exegética, essa culpa é dos que a distorcem, e não da
teologia sistemática. Eu desconfio que aqueles que criticam a teologia
sistemática no púlpito na maioria das vezes estão querendo dizer que o
problema teológico que estão enfrentando no texto está além das suas
capacidades mentais, e que tentam desculpar a sua falta de esforço para
pensar de forma teológica de uma maneira que isso os faça parecer mais
bíblicos, e não menos bíblicos. Aparentemente, é preferível oferecer à
congregação incoerência e confusão do que fazer uso da herança teológica da
igreja. Não há lugar para tal superficialidade num púlpito evangélico.
Aqui, uma vez mais, há razão para dizer que aquilo que é bom para o
ministro tolo é bom também para os tolos da congregação. Não são os cristãos
todos teólogos? Não falam todos de Deus de alguma forma? Há necessidade,
pois, de que todos sejam educados nos rudimentos da teologia sistemática.
Precisamos lembrar como a catequese funcionou na história da igreja.
Podemos sorrir disso hoje como se fosse algo antiquado e esquisito, mas isso
ajudou a dar às crianças e aos membros mais velhos da igreja uma sólida e
ampla compreensão do pleno alcance do ensino bíblico. De fato, com respeito
ao seu próprio ministério, Richard Baxter considerava a catequese como a
segunda coisa mais importante, estando à sua frente apenas a pregação. Não
estou dizendo que precisamos voltar à catequese nos moldes antigos — é bem
possível que isso não seja a decisão apropriada. O que estou dizendo é o
seguinte: se ainda não estamos fazendo isso, devemos buscar maneiras de
alcançar os objetivos que nossos antepassados tentavam alcançar por meio da
catequese, de forma que alfabetizemos bíblica e teologicamente os membros
da igreja. Quanto mais teologia nosso povo conhecer, mais apreciará o valor
da Bíblia, e mais teologia conseguirá encontrar nela.

Preparação apropriada
Portanto, o preparo ministerial que é fiel aos princípios da Reforma dá a
devida importância ao texto inspirado da Bíblia por meio de sua ênfase nos
idiomas bíblicos, sua atenção à unidade dos propósitos de Deus na história
bíblica, e seu comprometimento com a descrição unificada a respeito de Deus
que é feita na Bíblia e através dela. Somente depois que essas coisas forem
colocadas no centro, é que se podem considerar outras coisas como parte do
currículo do aprendizado. Na verdade, os outros aspectos essenciais do
aprendizado ministerial, como por exemplo a homilética, devem ser
profundamente moldados pelo que acontece com esses três, pois acima de
tudo devemos estar interessados em como o conhecimento adquirido aí pode
mais bem aproveitado na forma de sermão. Outros aspectos do currículo que
não têm relação com esse foco central da Palavra — como a atual coqueluche
da psicologia pastoral — podem e talvez devam ser dispensados. A tarefa do
ministro é principalmente pregar a Palavra, e não oferecer terapia; há
profissionais que podem fazer isso, e o fazem muito melhor; que o pregador
se concentre naquilo para o que foi chamado.

Habilidade
É possível que neste ponto alguém diga que a maneira como estou
descrevendo o ministro restringe a vocação aos que têm habilidade
intelectual. Até certo ponto, isso é verdade. Embora eu não faça dos dons
intelectuais um pré-requisito absoluto para o ministério, parece-me que o
ministro, em geral, deve possuir certas habilidades, tais como as que
descrevemos acima, a fim de realizar sua tarefa de forma competente. Quando
por um momento consideramos que a saúde intelectual da igreja em grande
medida depende do vigor intelectual de seus sermões, vemos que
evidentemente são de grande importância as habilidades do ministro em
termos de idiomas, exegese e teologia. Certamente, não teria nunca passado
pela cabeça dos reformadores que o ministro não devesse receber a melhor
educação possível; e qualquer que tenha sido a noção que eles tinham a
respeito da perspicuidade da Escritura isso com certeza não significava que
eles consideravam a mensagem da Escritura tão superficial ao ponto de poder
ser compreendida em toda a sua extensão, profundidade e amplitude por
alguém que simplesmente pegasse uma tradução da Bíblia e começasse a ler.
Ao contrário, a educação dos ministros era crucial, como o demonstra a
fundação da Universidade de Genebra em 1559; e como, por exemplo, a
tradição presbiteriana na Escócia sempre procurou manter.
Vivemos numa cultura profundamente anti-intelectual e numa época em
que o pragmatismo, em suas várias formas, reina quase absoluto. Devemos
cuidar para que, quando tentados a desacreditar o conceito tradicional de
preparação ministerial, não o façamos por uma imitação inconsciente da
cultura que nos rodeia. A teologia é um assunto difícil; e assegurar que as
complexidades da Bíblia sejam acessíveis à pessoa leiga torna a tarefa do
ministro ainda mais difícil. Portanto, há uma necessidade de ministros que
tenham tanto a capacidade quanto a preparação para realizar a tarefa de
maneira saudável e que glorifica a Deus. Essas são as qualificações de uma boa
preparação ministerial e — talvez devamos acrescentar — as prioridades
quando uma igreja está procurando chamar um ministro.

A Tarefa do Ministro
Contudo, um bom ministro ou um bom ministério fundamentados na Palavra
não são formados apenas pelo sentimento de estar sendo chamado para o
ministério e por um bom treinamento teológico. A esta altura, preciso
confessar que pertenço à velha tendência retrógrada que considera o homem
que não consegue pregar de maneira interessante e instrutiva simplesmente
como alguém que não foi vocacionado ao ministério da pregação. Se um
homem sobe ao púlpito e não consegue incendiar o coração do seu povo com a
Bíblia, então faria melhor se de modo algum subisse ao púlpito, pois impedir
os cristãos de ouvirem e lerem a Palavra de Deus é uma das coisas mais sérias
que alguém pode fazer.

Entusiasmo contagiante
Meus conceitos sobre essa questão procedem da minha convicção de que a
tarefa do ministro não é simplesmente apresentar uma exposição acurada de
uma série de passagens ou versículos bíblicos; é também encorajar e capacitar
seu povo a prosseguir e ler a Bíblia por si mesmos, de maneira responsável e
inteligente. À medida que prega a Bíblia semana após semana, o ministro não
está simplesmente apresentando a mensagem de salvação no domingo, mas
está equipando seu povo para a leitura, o estudo e a apropriação daquela
mensagem de salvação durante toda a semana. Afinal, no cerne da Reforma
estava a ênfase sobre a possibilidade de o leigo possuir as Escrituras e de
poder ele mesmo lê-las. Essa não era, como é popularmente mal interpretada,
uma maneira de dizer que cada um tinha o direito de alegar que qualquer
interpretação que quisesse dar à passagem era correta ou igualmente válida
como qualquer outra (a forma em que isso acontece muitas vezes na prática);
pelo contrário, era o reconhecimento de que cada um tinha a responsabilidade
de ler a Bíblia por si mesmo a fim de compreender a realidade da graça de
Deus em Jesus Cristo. O ministério da pregação era, portanto, de certa forma,
uma maneira de facilitar precisamente esse manuseio responsável da Bíblia.
Isso deveria ser uma preocupação fundamental para o ministério hoje.
Vivemos dias em que predomina a ignorância das histórias mais básicas da
Bíblia, sem falar da sua estrutura mais abrangente, até mesmo entre os
cristãos evangélicos. Portanto, uma parte da missão do ministro é demonstrar
a seu povo como ler, interpretar e aplicar a Bíblia de maneira responsável.
Tudo isso pode ser aprendido numa Faculdade bíblica; mas o que não se pode
aprender ali é aquele inigualável amor pelo Senhor Jesus Cristo que se
derrama no entusiasmo pela Bíblia e seu ensino, amor que, quando emana do
púlpito e é acionado pelo Espírito Santo, torna-se contagiante. Se o próprio
ministro não consegue demonstrar que ler a Bíblia é algo vital e inspirador,
então não pode se queixar se o seu povo segue o seu exemplo achando-a
enfadonha e irrelevante. Somente quando Cristo é glorificado através da
pregação da Bíblia, semana após semana, é que o povo passa a ver que o
cristianismo da Bíblia é o cristianismo de Cristo; somente então
compreenderão que a Bíblia é a única coisa através da qual encontrarão acesso
a esse Salvador.

A questão central
Para concluir, preciso dizer que considero que a centralidade da Palavra
como a Palavra de Deus é provavelmente o terreno central da luta na vida da
igreja evangélica atual. Todos estamos acostumados com aqueles que negam a
inspiração plenária e a autoridade da Escritura; mas os debates têm-se
tornado ainda muito mais abrangentes e prejudiciais do que isso. Será que a
salvação é somente por meio de Cristo? Será que a redenção em Cristo é
revelada somente nas Escrituras? Pode o evangelho ser comunicado de
maneira não verbal que seja plenamente compreensível? Todos esses são
desafios que os gurus tendenciosos do pós-evangelicalismo estão lançando à
igreja evangélica tradicional e que derivam de uma falha em ver a Bíblia como
a Palavra de Deus, uma Palavra falada, no dizer de Francis Schaeffer, pelo
Deus que existe e que não está em silêncio. O colapso no consenso doutrinário
evangélico está intimamente relacionado com o colapso da compreensão e do
papel destinado à Escritura como a Palavra de Deus falada no seio da igreja.
Entretanto, apesar de todas as afirmações de que a sociedade é agora
“visual demais” para a religião de estilo antigo e centrada na palavra, e que
um evangelicalismo calcado num livro corre o risco de tornar-se um gueto de
classe média cheio de traças intelectuais que nada têm a dizer às novas
gerações, há um fato embaraçoso que os novos gurus precisam encarar: Deus
nos deu um livro, cheio de palavras, como o meio básico de dar-nos acesso à
sua revelação. Portanto, o evangelho é inextricavelmente verbal e a Bíblia
deve permanecer inegociavelmente no centro do programa de ação
eclesiástico, da educação ministerial e da vida familiar. Deixar de fazer isso é
tornar-se vulnerável a toda baforada de vento herético que os gurus sopram
em nossa direção. É igualmente pôr-se acima daquilo que o próprio Deus
estabeleceu para nós.
Mandamento, promessa, Messias — os termos básicos da mensagem bíblica
são inextricavelmente verbais, e não podem ser comunicados sem as palavras.
Remova as palavras e tudo mais é esboroado; não é mais cristianismo bíblico,
histórico ou algo que o valha. Temos de pensar em como uma religião baseada
na palavra pode ser comunicada nestes dias, a esta geração; temos de evitar a
todo custo nos tornarmos um gueto de classe média para teóricos frustrados.
Mas também precisamos ser fiéis à própria forma e essência da Bíblia, as quais
ambas envolvem palavras em seu próprio centro. Não nos desesperemos; a
Palavra não é apenas a Palavra; ela é a Palavra do Espírito, no Espírito e
através do Espírito. Ela é poderosa em sua própria essência. Em última
análise, nossa tarefa é comunicá-la; o poder da comunicação reside
unicamente em Deus. Recordemos as palavras de Isaías e nos concentremos
não tanto na técnica quanto na atitude moral que devemos adotar: “...o
homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da
minha palavra” (Is 66.2).
BENDITA SEGURANÇA

O REFORMADOR INGLÊS John Bradford afirmou que a diferença básica


entre a Reforma Protestante e o catolicismo daquela época era que os
reformadores criam que a segurança da salvação fazia parte normal da fé
cristã, e que, portanto, a posse dessa segurança deveria fazer parte da
experiência de todo crente. Ao dizer isso, ele de propósito referiu-se a duas
percepções muito profundas dos reformadores: a doutrina da justificação pela
graça mediante da fé, por meio da qual o crente se apropriava da salvação
operada em Cristo; e a eleição de pessoas para a salvação mediante a escolha
soberana e graciosa de Deus, estrutura dentro da qual se operava a justificação
pela graça. Ambas as partes do pensamento da Reforma estavam
indissoluvelmente conectadas; e ambas apontavam e propiciavam sólidas
bases para a segurança do favor de Deus para com os pecadores.

O Alicerce da Reforma
Os comentários de Bradford refletem muito bem as inquietações que se faziam
evidentes na teologia reformada já desde o seu início. É bem conhecida a
história das lutas de Martinho Lutero com a sua própria pecaminosidade, e
como a teologia medieval foi incapaz de socorrê-lo nessa luta.

A experiência de Lutero
Como monge, Lutero tinha travado uma longa e árdua luta com o fato de
não ser suficientemente bom para estar na presença de Deus: ele tinha
chegado ao limite da resistência humana em suas tentativas de subjugar sua
pecaminosidade e de tornar-se justo. Na tentativa de limpar-se de todo
pecado, ele quase levou à loucura o seu padre confessor por causa da sua
diligência patológica com os detalhes da sua vida; e ele descobriu que a ideia
medieval de que Deus seria gracioso para com os que faziam seu melhor, veio
a ser uma fonte não de conforto e sim de maior agonia — pois como poderia
ele estar certo de que realmente tinha feito o melhor que poderia fazer? Se
isso era o evangelho, então estava longe de serem boas notícias — ao
contrário, para Lutero eram notícias mais do que ruins, significando que não
apenas a lei, mas até mesmo o evangelho serviam para acusar e condenar
aqueles que levavam a sério a condição de sua alma.
O final dessa história também é muito bem conhecido. Enquanto se
digladiava com Romanos 1.17, Lutero entendeu que a justiça de Deus não é
um padrão externo por meio do qual os seres humanos são pesados na balança
e achados em falta; em vez disso, ela é uma dádiva de Deus pela qual o
indivíduo é considerado justo diante de Deus. Em outras palavras, é ser
incluído no grande propósito salvífico de Deus conforme foi mostrado em
Cristo na cruz do Calvário. É ali que o evangelho é visto em toda a sua glória,
na humilhação e no sofrimento do Deus que se fez homem na pessoa de Jesus
de Nazaré. A verdadeira percepção de Lutero foi compreender que o
evangelho não era uma questão de olhar para dentro de si mesmo a fim de
achar ali alguma base para ser aprovado por Deus, mas era uma questão de
olhar para fora, para o grande feito salvífico de Deus em Cristo como a única
maneira pela qual o pecador pode chegar até o Pai.

Uma revelação revolucionária


Lutero estava se digladiando com a ideia medieval muito comum de que a
segurança não devia ser uma condição normal do cristão. Na Idade Média, a
igreja ensinava que ninguém podia ter certeza da salvação, afora aqueles
indivíduos especialmente abençoados que haviam recebido uma revelação
especial de Deus de que faziam parte dos eleitos; e, de fato, a compreensão
medieval da graça, com sua ênfase na igreja como uma corporação, um corpo
sacramental, tinha pouca necessidade da certeza individual dentro do seu
sistema. O resultado foi que, quando surgiu um homem como Lutero, desejoso
de ter certeza de que, mesmo sendo pecador, ainda podia ser considerado
justo diante de um Deus santo, o sistema medieval simplesmente não
dispunha de recursos para ajudá-lo, e ele foi levado de volta para a Bíblia, e se
viu forçado outra vez a lutar com o texto da Escritura a fim de encontrar ali
uma resposta. E a resposta que Lutero achou, que o cristão pode ter segurança
porque a salvação depende da ação de Deus, e não da cooperação de Deus e do
ser humano, definiu a pauta do pensamento protestante subsequente.
Portanto, como consequência da formidável percepção de Lutero, a
segurança quanto ao favor divino veio a ser a parte central do pensamento
protestante, como se percebe no comentário de John Bradford, no qual as
principais diferenças entre protestantismo e catolicismo culminam nesta
questão específica e nela concentram todo o seu foco. Aliás, quando Calvino
define a fé como um conhecimento seguro e definido do favor de Deus, vemos
que se toca outra vez a mesma nota. Além do mais, a Confissão de Fé de
Westminster, no capítulo 18, parágrafo 3, considera que a segurança não é
algo tão ligado à fé ao ponto de um verdadeiro crente não poder exercer esta
última sem possuir a primeira, mas que a segurança ainda é a condição que
todos deveriam não apenas desejar, mas também considerar como normal no
curso de uma vida cristã íntegra.

Sua importância
Essa ênfase sobre a segurança é importante porque essa segurança da fé
funciona no protestantismo da Reforma como muito mais do que um simples
sedativo para consciências perturbadas. Por exemplo, na sua ênfase sobre a
ação soberana e graciosa de Deus, ela chama a atenção para o Deus
incondicionalmente amoroso e compassivo que a Reforma procurou colocar
em primeiro plano. Além disso, na conexão que os reformadores
estabeleceram entre a livre graça de Deus e a resposta do amor no coração
humano, a segurança tornou-se o fundamento da atividade cristã: é porque
sabemos que Deus nos ama que nós lhe respondemos em amor, e é porque ele
nos ama e se dá a nós de forma incondicional que nós amamos aos nossos
semelhantes e nos damos a eles de forma incondicional. Assim, toda a vida
cristã é profundamente moldada por esta brilhante compreensão: que o amor
de Deus é incondicional e integral; que ele nos traz a salvação como uma
dádiva; e que, mais espantoso que qualquer outra coisa, nós mesmos podemos
conhecer esta salvação com certeza absoluta.

A revelação bíblica
Dos reformadores, que tentavam colocar a graça de Deus no centro da vida
da igreja, não poderíamos esperar menos do que isso, que considerassem a
segurança do cristão como um elemento importante. Era assim que precisava
ser. O Deus da Reforma é o Deus bíblico da graça, o Deus da graça soberana,
que se revelou ao longo da história bíblica como aquele que prometeu ser
gracioso para com o seu povo e que sempre de novo honrou essa promessa.
Desde a aliança feita com Abraão, passando pela história de Isaque, Jacó, José,
Moisés, Davi, Salomão, Ezequias, até Maria, Isabel e Simeão, Deus não foi fiel
apenas à sua promessa de graça, mas demonstrou de modo claro e inequívoco
que essa é a sua maneira de ser. Então, em Cristo temos a suprema
demonstração da fidelidade e da promessa de Deus — Deus mesmo,
voluntariamente, vindo morar como homem entre os demais homens, e
morrendo numa cruz para que tivéssemos vida, e a tivéssemos em abundância.
A Bíblia é um livro que fala mais do que de qualquer outra coisa sobre a
clara e notória fidelidade de Deus na questão do seu trato gracioso e
misericordioso com a humanidade. Assim, era inevitável que um movimento
que levou a graça de Deus tão a sério colocasse Cristo e a Bíblia no centro de
seu programa de reforma, e ressaltasse o fato que Deus não apenas salva, mas
nos dá sólidas e seguras bases para sabermos que ele o fez: a história sagrada,
a vida e obra de Jesus Cristo, e a Bíblia inspirada, que é o meio pelo qual,
humanamente falando, chegamos a conhecer e a entender essas coisas.
Assim sendo, surge a pergunta: como podemos ser fiéis, na vida
eclesiástica contemporânea, a essa percepção básica concernente à
importância da segurança da salvação? Afinal, é óbvio que qualquer tipo de
teologia que desenvolvermos em nossas igrejas, não importa quão protestante
ela pareça em termos de suas palavras e conteúdo geral, deixará de ser
realmente protestante, realmente alinhada com o pensamento representado
por John Bradford, por exemplo, se não colocar a segurança em algum lugar
perto do centro de seus interesses. Entretanto, antes de podermos responder a
essa pergunta, temos de refletir sobre a situação da igreja ao nosso redor hoje,
para entender, em primeiro lugar, se os problemas associados à segurança
estão mesmo afligindo a igreja de hoje, e de que tipo são eles; e, em segundo
lugar, o que significa exatamente a segurança bíblica da salvação.

A Igreja Evangélica de Hoje


Simplificando um pouco as coisas, tenho a impressão de que podemos dividir
o mundo evangélico contemporâneo em dois grupos: os legalistas e os que se
deixam levar pelas emoções. Talvez haja mais grupos além desses; talvez, em
alguns casos, as descrições não sejam distintas e se intercambiem; mas,
concebida em termos gerais, creio que essa divisão nos fornece um molde
proveitoso para analisarmos o cenário contemporâneo.

Os legalistas
O primeiro grupo, o dos legalistas, talvez seja mais comum em certos
ramos do presbiterianismo escocês e em certas linhas dentro da tradição
estritamente batista, embora não se confine a eles. Para esse grupo, a
afirmação da Confissão de Westminster de que algumas vezes o verdadeiro
crente pode deixar de sentir a segurança da salvação por um tempo
considerável não é tanto uma concessão para as realidades pastorais
excepcionais, e, sim, uma declaração normativa a respeito da vida normal
cristã. O ponto principal nesses círculos é uma ênfase sobre a necessidade
tanto de experiências cristãs profundas, como de um certo período de “andar
piedoso diante do Senhor” como pré-requisitos necessários para a plena
aceitação no seio da comunidade eclesiástica, seja com respeito ao batismo,
seja para participar da Ceia do Senhor.
Tenho muitos amigos e parentes na tradição presbiteriana escocesa, e eu
mesmo sou membro da Igreja Livre da Escócia, denominação que, ao menos
no oeste da Escócia e nas Ilhas Hébridas, está associada em muitas mentes
precisamente ao tipo de piedade a que estou me referindo agora. No passado,
muitos não participariam da comunhão (a maneira, nesta tradição, de
professar publicamente a fé) enquanto não se passassem alguns anos depois
da sua conversão a Cristo em arrependimento e fé. Alguns deles simplesmente
não tinham segurança quanto à sua salvação durante um longo período de
tempo; a outros faltava a coragem que uma profissão de fé requer numa
comunidade muito familiar onde a vida de cada um é examinada pelos
vizinhos nos mínimos detalhes em busca de sinais de fé genuína; ainda outros
deturpadamente faziam da falta de segurança da salvação um meio de justiça
própria, desprezando aqueles que eram mais jovens mas que participavam da
comunhão como se estes fossem arrogantes e não tivessem um profundo
conhecimento da sua própria pecaminosidade — deturpadamente, então, a
falta de segurança da salvação tornou-se um sinal da eleição! Acho que essas
pessoas nunca nem imaginaram que uma atitude dessas demonstrava de sua
parte não um profundo conhecimento de seu próprio pecado, e sim um
conhecimento muito superficial de Cristo.
Seja qual for a razão para algum crente deixar de fazer a profissão pública
de fé em tal contexto, podem-se fazer duas observações gerais a esse respeito.
Primeira, a demora entre a conversão e a profissão pública da fé que ocorre
em tais situações só é possível dentro de uma cultura eclesiástica que aceita
esse padrão como legítimo, para não dizer normativo. Portanto, o problema
não é simplesmente que há vários indivíduos debatendo-se com a profissão
pública da fé; é o problema de uma comunidade que criou um contexto social e
teológico, uma estrutura de valores e expectativas que permitem que subsista
um fenômeno desse tipo.
Segunda, por mais protestante que esse grupo se julgue, por mais uso que
faça da linguagem e da retórica da Reforma, por mais que louve e defenda da
boca para fora os nomes e os feitos dos reformadores, ele com certeza está
muito longe do protestantismo imaginado por John Bradford e seus
contemporâneos; e, de fato, esse grupo parece estar mais próximo, nesse
assunto, do próprio catolicismo que Bradford e seus companheiros
repudiavam com tanta veemência. Afinal, se alguém deseja participar do
legado dos reformadores, não basta comprometer-se de forma intelectual com
a veracidade da doutrina reformada; é preciso também usar ou aplicar a
doutrina dos reformadores de um modo coerente com o modo com que eles
mesmos costumavam usá-la. Afinal de contas, é possível crer no poder de cura
da penicilina, mas se alguém a usa, seja acidentalmente ou por ignorância,
para matar ou causar dano, então essa pessoa deixa de agir conforme a
tradição da prática médica aceitável.

Aqueles que se deixam levar pelas emoções


Embora o legalista acabe enfatizando fatores subjetivos — a experiência, a
piedade etc. — como a base para a segurança da salvação e consequentemente
para filiar-se à igreja, desconfio que o maior problema hoje no
evangelicalismo britânico se refira àqueles que entendem que a segurança da
salvação é sentir-se bem ou feliz por ser cristão, e dessa forma criam uma
visão da vida cristã concebida em termos emocionais. Ora, certamente não
pretendo remover o elemento emocional da segurança cristã; tudo que estou
pedindo é que tenhamos o bom senso de compreender que o júbilo cristão e a
paz cristã estão radicados em fatores muito mais profundos do que a
experiência pessoal, e por isso são muito diferentes daquilo que as pessoas
pensam ser essas emoções.
Em geral nos alegramos quando algo bom nos acontece; ficamos em paz
quando é removido algum fardo ou problema que aflige a nós ou a um ente
querido nosso. Naturalmente, a alegria e a paz cristãs são tudo isso; o perdão
dos pecados e a certeza do favor de Deus são considerados como coisas que
experimentamos e que despertam em nosso coração sentimentos de alegria e
paz; mas eles são também, para usar o termo técnico, experiências
escatológicas. Expressando-o de modo simples, significa que essas são coisas
que sabemos, pela fé, que são verdadeiras agora; mas que, enquanto não
chegar o final dos tempos, não as experimentaremos plenamente nem as
conheceremos com precisão. Até lá, o mundo labuta sob o fardo da
perversidade humana, a qual arruinou a sua perfeição original; gememos
interiormente com a aflição de nossa própria pecaminosidade, e a vida não
será nunca plenamente satisfatória para nós. Há um elemento na fé cristã que
estará sempre descontente com o presente status quo, e constantemente
protestará contra ele. Afinal, o que é a fé senão a confiança numa promessa; e
o que é a confiança numa promessa senão algo que incorpora em si a
esperança do futuro e a insatisfação com o presente? Essa é a essência da
narrativa bíblica, seja dos relatos das peregrinações de Abraão, do êxodo do
Egito, ou do jejum (esse antigo sinal de protesto) da profetisa Ana enquanto
aguardava a salvação de Israel.
Por essa razão, uma piedade que se baseia na segurança da salvação como
se essa segurança fosse a alegria instantânea e a total satisfação no presente
representa, fazendo uso outra vez de uma frase técnica, uma escatologia já
completamente realizada. Isto é, ela representa a incapacidade de
compreender que o reino de Deus, apesar de já ter sido inaugurado, ainda não
se consumou, e que a certeza de que Deus é quem ele é, nem por isso está
amarrada a uma teologia que enfatiza o triunfo contínuo e presente do
evangelho, seja em nossa própria vida individual, seja na igreja em geral, seja
no mundo todo. Cometer esse erro tem consequências desastrosas, pois tão
logo as coisas não funcionem do nosso jeito, ou quando descermos de nossas
alturas emocionais, descobriremos que nossa certeza do favor de Deus
desapareceu. Em vez disso, devemos lembrar que os propósitos salvíficos de
Deus foram revelados e consumados em Cristo, mas que precisamos esperar o
fim dos tempos para vermos e experimentarmos a alegria perfeita que o seu
triunfo final produzirá.

A Base da Segurança da Salvação


De forma estranha, ambos esses excessos — o legalismo introspectivo que
desvaloriza a segurança, e o triunfalismo jubiloso que nega que o crente deva
sentir menos que a emoção plena — são sintomas da mesma coisa: uma
obsessão em considerar a experiência do crente como a base para a segurança
da salvação. Tanto o legalista introspectivo quanto o triunfalista jubiloso
enxergam os seus sentimentos como sinais de que são eleitos ou salvos; e, na
prática, ambos consideram que a segurança da salvação é a mesma coisa que a
obra operada por Deus em suas próprias vidas. Basta pensar no papel exercido
pelos testemunhos pessoais em ambos os grupos — o que Deus tem feito por
mim e em mim — para comprovar a veracidade dessa afirmação. Não é que
haja algo errado com os testemunhos pessoais — desde que se mantenham na
perspectiva adequada, dentro da estrutura maior dos tratos salvíficos de Deus
com seu povo. Não obstante, acredito que é nessa ênfase sobre a experiência
pessoal como sendo o âmago da segurança da salvação que ambas as vertentes
do evangelicalismo se desviam da ênfase fundamental dos reformadores.

Os reformadores
Para os reformadores, a segurança da salvação provinha da percepção de
que Deus era fidedigno, e de que sua promessa de salvar era, num sentido
essencial, incondicional. Quando Deus fez a Abraão sua promessa pactual, a
tônica não estava na relação mútua entre Deus e a humanidade, como se Deus
só fosse operar a salvação se a humanidade, por sua vez, cumprisse a sua
parte. De maneira nenhuma! Pelo contrário, a ênfase estava na promessa: que
Deus era gracioso e pretendia salvar graciosamente; que a eleição para a
salvação não estava no poder dos homens e mulheres, mas se encontrava
unicamente nas mãos de Deus. Ao longo da história bíblica, Deus demonstrou
repetidamente que ele, o Deus que prometeu, era fidedigno, de modo que,
repetidas vezes preservou o seu povo e a linhagem messiânica, muitas vezes a
despeito de grande e repetida apostasia, até aquele momento em Belém
quando nasceu o Cristo. Naquela ocasião, naturalmente, na pessoa de Jesus
Cristo, Deus concretizou o cumprimento final da sua promessa de graça — não
com o auxílio dos homens, mas, como o próprio nascimento virginal nos
lembra, unicamente por um ato incondicional de sua própria graça. Este
ponto, que Deus é fidedigno, e que nós sabemos que ele é fidedigno por causa
do modo como agiu ao longo da história, especialmente com a sua
culminância em Cristo, é o fundamento da segurança da salvação, e não a
experiência pessoal ou a intensa emoção — nem sua, nem minha.

Lutero
O que descobrimos, quando examinamos as obras de Lutero é uma
impressionante ênfase sobre as obras objetivas de Deus, especificamente,
neste caso, a encarnação. Lutero sabe que está diante de um Deus gracioso
porque Deus assumiu forma humana em Belém, num determinado momento
da história. Quando se manifesta pessoalmente em Cristo, Deus se mostra
gracioso para com os pecadores. Essa é a razão por que Lutero pode sentir-se
seguro e pode regozijar-se no favor de Deus, como um prisioneiro livre da
prisão. Sua segurança está radicada nos feitos históricos de Deus como a
Bíblia os descreve, como são anunciados na pregação, e como são mostrados
no Batismo e na Ceia do Senhor. É claro, Lutero fala dos altos e baixos
emocionais do cristão, mas a sua segurança não está radicada neles. Se
estivesse, a sua alegria no Senhor poderia facilmente aumentar e diminuir de
acordo com o tanto de horas que ele tivesse dormido à noite, ou aquilo e o
tanto que tivesse comido, ou as oscilações políticas de Wittenberg.
Essa verdade é ressaltada pelo comentário de Lutero sobre Jesus Cristo, em
seu Catecismo Menor:

Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro
homem, nascido da Virgem Maria, é meu Senhor; que redimiu a mim, um homem perdido e
condenado, deu-me segurança e livrou-me de todos os pecados, da morte e do poder do diabo, não
com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue, e com seu inocente sofrimento e morte;
a fim de que eu fosse dele, vivesse sujeito a ele em eterna justiça, inocência e bem-aventurança,
porquanto ele ressuscitou dentre os mortos e vive e reina para sempre. Certamente, isto é mui
verdadeiro. (Extraído de Creeds of Christendom de Schaff.)

Consequentemente, é a ação de Deus em Cristo que tanto assegura a


salvação como sustenta e fortalece a subsequente vida do cristão. Não é
possível ler as referências de Lutero às suas experiências religiosas pessoais
sem perceber que a sua grande compreensão daquilo que Cristo fez pela igreja
é o que garante a sua segurança e direciona a sua confiança cristã.

Calvino
A mesma coisa é verdade também com referência a Calvino. Naturalmente,
sabemos muito menos a respeito de Calvino quanto à sua experiência pessoal
na vida cristã do que sabemos a respeito de Lutero. Calvino, conforme as
descrições que temos dele, é sério, retraído e reticente a respeito dos detalhes
pessoais de sua vida religiosa. Apesar disso, ele é um homem para quem a
certeza do favor divino faz parte da essência da fé cristã. Embora alguns de
nós sintam que ele exagerava a relação existente entre fé e certeza como uma
reação aos excessos medievais na direção oposta (e eu mesmo confesso que
prefiro a ênfase da Confissão de Westminster sobre esta questão), é evidente
que ele arraigou a sua confiante segurança em Deus nos grandes feitos
salvíficos de Deus na história, de forma suprema a de Jesus Cristo. Ouça, por
exemplo, como ele descreve o evangelho bem no início da sua obra A
Harmonia dos Evangelistas:

O Evangelho é uma demonstração pública do Filho de Deus manifestado em carne para libertar um
mundo arruinado, e para restaurar os homens da morte para a vida. O evangelho é chamado com
razão de a mensagem boa e jubilosa, pois contém a perfeita felicidade.

Em que, então, consiste a perfeita felicidade? Consiste em ver Cristo


manifesto, em ver o que ele fez por nós. É aí que a nossa certeza deve fincar
suas raízes.

A Bíblia
Assim sendo, o que os reformadores viram aqui não é nada mais que o
padrão da própria Bíblia. Se procurarmos na Bíblia as ocasiões em que a
segurança do favor divino foi buscada, o que descobriremos? Sempre de novo
vemos os crentes recorrendo aos grandes feitos de Deus na história como a
base da segurança, aos feitos por meio dos quais Deus não apenas se revelou
como aquele que salva, mas também como aquele que é fundamentalmente
fiel à sua promessa de graça feita aos patriarcas. Não são nem as suas
experiências pessoais, nem as suas condições emocionais que lhes fornecem a
segurança da salvação: a rocha sobre a qual a confiança e o júbilo são
edificados é a constante lembrança de como Deus foi fiel ao seu povo ao longo
da história.

A Segurança da Salvação Hoje — O Conteúdo da Pregação


Isso nos traz outra vez à questão de como essa percepção básica e importante
dos reformadores pode ser aplicada à igreja de hoje. Neste contexto, a
primeira ênfase que eu gostaria de apresentar diz respeito ao conteúdo da
pregação que ouvimos de nossos púlpitos a cada semana. Como argumentei
no primeiro capítulo, a pregação é essencial para estabelecer a saúde da vida e
da expectativa da igreja, e é aqui que a reforma precisa começar.
Ambas as caricaturas que esbocei anteriormente — os legalistas e aqueles
que se deixam levar pelas emoções — em parte são resultado de pregação
deficiente. Ora, eu sei que há muitos outros fatores que também influenciam
esses grupos. Devemos estar cientes, desde o início, de que realmente não
existe essa coisa de “um problema com a segurança da salvação”, como se
houvesse apenas uma causa para os vários problemas que vemos à nossa
volta. Há muitas razões por que diferentes pessoas enfrentam os problemas
relacionados à segurança, e, até certo ponto, esses problemas devem ser
tratados em nível individual, caso a caso. Além disso, a estrutura maior dentro
da qual estes problemas ocorrem também é significativa: expectativas
comunitárias mais amplas, histórias pessoais etc., tudo isso pode desenvolver
e determinar o problema — e são poucas as vezes que a liderança da igreja
consegue lidar com essas coisas de forma simples e direta. As expectativas
comunitárias, por exemplo, podem levar anos para serem mudadas; mas parte
da ação que promove essa mudança é assegurar que a mensagem vinda do
púlpito seja sadia e equilibrada. Se isso for feito, então com certeza podemos
orar pedindo que Deus, em sua graça, use isso para dar início às mudanças
necessárias naquelas forças sociais ocultas mas poderosas que moldam a
piedade e as atitudes de uma congregação como um todo.
E então, o que é que faz parte desse tipo de pregação? Como resposta a essa
pergunta, eu gostaria de propor três características: ela deve ser centrada em
Deus; ela deve ser centrada na história bíblica; e ela deve ser centrada em
Cristo. Ao dizer isto, estou repetindo o que eu já disse, uma vez que cada um
desses pontos é apenas uma forma de dizer que essa pregação deve ser
fundamentalmente bíblica. Entretanto, cada frase transmite também um matiz
diferente que pretendo realçar.

Centrada em Deus
Primeiro, essa pregação deve ter Deus como centro. Como eu já disse, tanto
os legalistas introspectivos como também aqueles que se deixam levar pelas
emoções cometem o equívoco básico de colocar sua ênfase, em última análise,
em sua experiência pessoal. A religião deles, não importa qual seja a retórica
de santa piedade com que a envolvam, é essencialmente centrada no homem,
é uma religião em que eles se preocupam mais consigo mesmos e com as suas
próprias experiências. A maneira de opor-se a isso com certeza é fazer com
que as pessoas parem de olhar para si mesmas e passem a olhar para o Deus
da Bíblia, e isso é feito certificando-se de que, quando a Bíblia é pregada, ela é
pregada como a história de Deus.
Veja o exemplo dos sermões neotestamentários, ou das cartas escritas por
Paulo e pelos outros: invariavelmente, o foco está constantemente em Deus e
nos feitos de Deus, com o apelo prático ao homem — quando e se ocorre —
vindo precisamente dos argumentos prévios a respeito de Deus. Em
Filipenses, é porque Deus o Filho, ainda que igual a Deus o Pai, humilhou-se a
si mesmo e assumiu a condição de servo, que os crentes devem buscar os
interesses dos outros e devem dispor-se a servi-los de modo incondicional.
Em Efésios, é porque Deus escolheu e predestinou os crentes em amor, antes
da fundação do mundo, que eles devem esforçar-se em prol da unidade do
corpo. Em lugar nenhum o foco está nos indivíduos ou na experiência
individual como a base para falar de Deus ou pensar nele. É justamente o
contrário: os feitos de Deus é que fornecem a estrutura pela qual a vida dos
crentes deve ser entendida e ajustada.

A atividade salvífica de Deus na história bíblica


Disto procede o segundo ponto: a pregação deve colocar a história bíblica
no topo de suas prioridades. Na Bíblia, do começo ao fim, o padrão é basear o
conhecimento de quem Deus é e como ele age, no conhecimento dos grandes
feitos salvíficos que ele realiza na história. Naturalmente, a saída do Egito é o
maior exemplo deste tipo de feito, pelo qual Deus livra seu povo da servidão
egípcia, para levá-los de volta à terra de Canaã. Ao contar esses feitos, quando
são expostos na forma de sermões semana após semana, os crentes são
lembrados, repetidas vezes, que Deus é um Deus gracioso e um Deus digno de
confiança, que não abandona o seu povo, e que o seu braço não está encolhido
para que não possa salvar.
Ora, provavelmente muitos dirão que é exatamente isso que já fazem, e é
bem provável que estejam certos, porém é importante considerar exatamente
como é que as histórias bíblicas estão sendo pregadas, para ver se a tônica
realmente está posta no Deus que salva, ou nas pessoas que ele usa.
Considere, por exemplo, os relatos do livro de Daniel acerca dos jovens na
corte babilônica. Quantas vezes esses jovens são pregados como paradigmas
que devemos seguir: assim como eles se posicionaram com respeito ao
alimento, não devemos comprometer-nos com o mundo à nossa volta; assim
como os três que se recusam a adorar a estátua, não devemos cultuar os falsos
deuses deste mundo; assim como Daniel na cova dos leões, devemos obedecer
a Deus antes que aos homens. “Ouse ser um Daniel” — é um título que já foi
usado mais de uma vez em pregações sobre esse livro. Mas isso realmente é
pregação centrada em Deus? Ou ela na verdade coloca o homem em vez de
colocar Deus no centro da história?
Meu ponto de vista pessoal é que o propósito principal desses relatos
bíblicos é falar-nos acerca do poder gracioso e preservador de Deus durante o
tempo do exílio; que os relatos são mais sobre a graça de Deus do que sobre a
determinação humana. Uma das coisas notáveis sobre a exegese de Calvino é
que, embora ele apresente sempre uma aplicação sólida, a Bíblia é lida, acima
de tudo, como o relato da graça de Deus, e não da atividade humana: essa é
uma ênfase da Reforma; essa é uma ênfase que seguramente ajuda a corrigir
os desequilíbrios que levam a uma ênfase distorcida sobre a experiência
humana; e essa ênfase é algo que os pregadores de hoje não podem se dar o
luxo de dispensar.
A pregação não tem nada a ver com chavões piedosos; ela é a respeito de
Deus e da sua graça salvífica e soberana. E disso é que surgem as aplicações
práticas e as reflexões sobre a experiência humana, não o contrário. O crente
que só ouve falar sobre Daniel como padrão para a piedade que ele ou ela deve
cultivar, seguramente é condenado à introspecção e ao desespero; já o crente
que ouve falar sobre como Deus preservou Daniel da boca dos leões com
certeza é mais encorajado a confiar em Deus a despeito de seus sentimentos
pessoais de impotência e inadequação.
Culminando em Cristo
Isso, portanto, nos leva inevitavelmente ao terceiro ponto: a pregação deve
estar centrada em Cristo. Cristo é o clímax da história bíblica; e se, conforme
o provérbio, todas as estradas levam a Roma, então na Bíblia todas as estradas
conduzem a Cristo. Lutero, apesar de todos os seus problemas de
compreensão a respeito de Cristo, realmente acertou em cheio quando
descobriu a resposta ao seu problema na pessoa do Senhor Jesus Cristo, pois é
nele que vemos a graça de Deus revelada de forma mais plena e perfeita.
Quando nos agarramos a ele com fé, passamos a estar diante de Deus não
como pecadores, e sim como pessoas que foram vestidas com uma nova e
gloriosa justiça. Sem dúvida, a segurança da salvação era um aspecto tão
importante na teologia da Reforma exatamente porque os reformadores
colocaram bem no centro do seu programa teológico Cristo e a obra que Deus
realizou nele e através dele.
Assim, se quisermos que nossas igrejas se encham de pessoas que
desfrutam de uma segurança apropriada e centrada em Deus, então é
fundamental que nossos púlpitos anunciem, semana após semana, as novas de
que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Não basta fazer
uma boa exegese do texto escolhido, uma interpretação gramática e
sintaticamente correta; não basta mandar a congregação de volta para casa
levando consigo algum pensamento inspirador atrelado a um texto bíblico;
nem mesmo basta fazer uma piedosa aplicação do texto que se mostre útil aos
ouvintes nessa próxima semana — não, é de Cristo que eles precisam. Não
importa qual parte da Bíblia os pregadores estejam pregando, se eles
realmente creem que a Bíblia conta uma só história; se realmente creem que a
promessa da graça de Deus se cumpre em Cristo; e se realmente desejam
incentivar de forma adequada a alegria, a segurança e a devoção cristã entre o
seu povo, eles precisam concluir dando-lhes Cristo. Esse foco centrado em
Cristo é fundamental para a pregação dos reformadores, assim como também
é fundamental para a compreensão que eles têm do evangelho; e, na medida
em que isso realmente reflete o ensino da Bíblia, nessa mesma extensão se
torna fundamental para toda a pregação.
Naturalmente, isso pressupõe que é a história bíblica que está sendo
pregada e ensinada. Temos de evitar a todo custo a ideia de que Cristo é quem
ele é principalmente por causa daquilo que ele faz por nós como indivíduos.
Ora, não me interprete mal aqui — eu não estou dizendo que aquilo que Cristo
faz por nós não seja importante. Pelo contrário, o que estou dizendo é que
devemos manter em mente — e então ensinar — que Cristo é quem ele é por
causa do lugar que ele ocupa na história bíblica da redenção. Um Cristo que
não é compreendido dentro do contexto da grande narrativa bíblica, e dessa
forma dentro do contexto das grandes alianças bíblicas, é um Cristo sem
identidade — nem teológica, nem histórica. Não é possível assegurar às
pessoas que Deus é gracioso para com elas, em Cristo, se elas só possuem
noções vagas sobre a identidade de Cristo, ou, ainda pior, se só conhecem
quem ele é em termos de sua experiência pessoal.
Será difícil dizer à mãe enlutada que Cristo ainda a ama e dela cuida, se ela
só aprendeu a pensar em Cristo em termos de como ele opera em seus
sentimentos e em suas experiências pessoais. Ela precisa ver que Deus é muito
maior do que a sua experiência com ele; ela precisa saber que, não importa
quais são os seus sentimentos de angústia e desespero agora, Deus é
fidedigno e amoroso; e ela precisa saber que a segurança não tem nada a ver
com grandes emoções, mas que está relacionada com saber que Deus é fiel
mesmo quando o mundo inteiro parece estar caindo ao seu redor. Isso só é
possível se o ambiente teológico em que ela vive e adora ensiná-la a
compreender Cristo acima de tudo em termos de sua obra histórica de
redenção em favor do povo de Deus; e isso só se concretizará quando a ênfase
na pregação não focalizar a nós mesmos, e sim ao Cristo da Bíblia. Pôr Cristo
acima de tudo no contexto da história bíblica, e não a nossa própria
experiência pessoal, promoverá uma compreensão realmente elevada de
Cristo como Redentor, e como alguém que, no final das contas, será de mais
utilidade do que o Cristo da Terapia Emocional que hoje parece ser a
alternativa preferida em muitos lugares, Cristo esse que, em parte, é resultado
de nossa tendência humana natural de colocar nossas necessidades no centro
da nossa teologia em vez de colocar ali os poderosos feitos de Deus na
salvação.

A Certeza da Salvação Hoje — A Liturgia


Ao fazer a pregação centrar-se em Deus, em seus feitos salvíficos e de forma
suprema em Cristo, o pregador automaticamente estará criando um ambiente
em que os olhos dos membros da congregação são desviados de si mesmos,
quer estejam preocupados com uma introspecção mórbida, quer estejam
envolvidos com um entusiasmo doentio a respeito de suas próprias
experiências. Em vez disso, eles têm a oportunidade de confiar nos feitos
objetivos, históricos de Deus como a base para a sua segurança e alegria, um
fundamento muito mais sólido do que qualquer um poderia desejar com base
em seus próprios sentimentos religiosos. Mas, naturalmente, esta é apenas a
metade da história: não só a pregação deve refletir essas ênfases, mas também
os cultos coletivos devem fazer o mesmo.

Equilibrada
No capítulo sobre Cristo, falei da necessidade de a igreja levar a sério a
condição da humanidade como tendo já sido redimida mas sem ter chegado
ainda à perfeição final. Afirmei que isso significa que devemos evitar um
cardápio de sermões e hinos constantemente triunfalistas, uma vez que estes
só ajudam a criar um tipo de cultura evangélica assertiva de alegria e de
profusão emocional, associadas a uma absoluta ausência de dúvidas quanto ao
que quer que seja. Esse tipo de cultura é pastoralmente desastrosa;
evangelisticamente atrofiada; e, em última análise, simplesmente representa,
no presente, uma falsa compreensão do que vem a ser a essência do
cristianismo. Sugeri, como alternativa, que uma forma equilibrada de culto se
encontra mais provavelmente na ênfase nos salmos, onde encontramos não só
alegria, mas também lamento e ambos os elementos são, portanto, aspectos
legítimos e importantes do culto cristão.
Alguém pode comentar, neste ponto, que aquilo que estou dizendo a esta
altura em minha preleção não se encaixa tão bem com o que eu acabei de
dizer. Acaso a lamentação não envolve alguma falta de segurança? Se o culto
cristão significa dar plenas rédeas à grande e gloriosa ênfase da Reforma
sobre a segurança da salvação, então que lugar tem a lamentação no culto
cristão?

Olhando para o passado, para o presente e para o futuro


Minha resposta a essa questão legítima é pensar com clareza o que é
exatamente a certeza cristã: creio que é olhar para trás com respeito ao seu
fundamento; porém, com respeito ao seu rumo, é olhar para a frente. Em
essência, a segurança consiste em estarmos certos de que Deus é quem ele diz
ser — e isso procede do nosso conhecimento dos seus grandes feitos salvíficos
ao longo da história, culminando em Cristo — e, por essa razão estamos
certos de que ele nos conduzirá à glória, que ele completará a boa obra que
começou em nós. Vivemos, no presente, numa época em que sabemos que um
dia veremos a Deus na glória, mas agora só o vemos pela fé. Nesse ínterim, o
mundo é lugar trevoso e hostil; e a nossa alma ainda está, de muitas maneiras,
em trevas e frequentemente tende à hostilidade para com Deus. Portanto,
haverá dias em que, ou por causa de fatores externos, ou de fatores internos,
não veremos nem sentiremos Deus sorrindo para nós. Nesses momentos,
podemos de fato lamentar nossa dolorosa condição. É certo e próprio, e de
bom senso pastoral agirmos assim, porque, agir de outro modo não é sábio
para ninguém, nem mesmo para nós, e seria acumular problemas para mais
tarde; mas, quando agimos assim, devemos lembrar bem que não é aquilo que
sentimos agora que determina nossa condição, e sim quem Deus era, é, e
sempre será. Dessa forma, a lamentação deve ser posta, como quase sempre a
encontramos nos salmos, dentro do contexto dos feitos e dos propósitos mais
amplos da redenção de Deus.

Centrados em Deus
E assim, o culto coletivo, os hinos que entoamos, as palavras que
proferimos juntos, não só devem ser realistas com respeito à condição
humana, mas devem também levar plenamente em conta os poderosos feitos
salvíficos de Deus. A liturgia da Reforma capta isso de modo excelente. Basta
pensar no papel exercido pelos salmos entoados na Reforma genebrina e no
Saltério metrificado no Livro de Oração Comum, e se verá quão centrais no
culto da Reforma eram essas grandes expressões da emoção humana no
contexto dos propósitos redentores de Deus. Além disso, pode-se ver, à luz da
importância do Magnificat e do Nunc Dimittis no Livro de Oração Comum que,
para os reformadores, o culto estava inextricavelmente vinculado aos feitos
redentores de Deus na história que culminaram em Cristo.
Agora, eu não me envolvo nas discussões entre o “novo” contra o “velho”,
discussões que se alastram tanto dentro do evangelicalismo reformado
britânico de hoje, as quais frequentemente rompem a comunhão entre as
pessoas e dividem as igrejas. A impressão que tenho a respeito desses debates
é que, às vezes, por detrás da retórica teológica, o ponto em questão tem mais
a ver com estilo do que com conteúdo. O meu interesse aqui não tem
absolutamente nada a ver com estilo; e estou bem aberto à possibilidade de
que minhas sugestões para o culto sejam acatadas tanto por um estilo
moderno de música ou linguagem como pelos tradicionais com os quais estou
mais acostumado. O que eu quero dizer é que é basicamente antibíblica essa
obsessão de muita gente por hinos e coros que nunca vão além da primeira
pessoa, e que nunca saem da esfera da descrição de experiências pessoais
(sejam verdadeiras ou meramente ideais) e que, por mais confiante que seja a
letra dessas músicas, não produzirá nunca o tipo de segurança que os
reformadores viam a Bíblia ensinar. Isso não quer dizer que nenhum hino ou
coro deva falar da experiência pessoal, ou ser composto na primeira pessoa,
mas quer dizer que, quando esse tipo de experiência fizer parte de um hino ou
coro, não deve nunca terminar em si mesma ou ser ela o seu foco principal. Se
o hino fala de desespero, então que leve à reflexão sobre a bondade de Deus
em seus feitos redentores e sobre a sua promessa de glorificação vindoura; se
o hino fala de alegria, então que não seja alguma alegria sem conteúdo, que
não oferece nenhuma base para sua própria existência; antes, seja a alegria
por algum feito de Deus; só então a alegria terá verdadeira estabilidade e não
estará construída sobre a base da extravagância emocional do momento.
Não sou fã da liturgia anglicana — nem de qualquer liturgia formal nesse
assunto — mas direi duas coisas em seu favor: num ambiente litúrgico, é
difícil que as pessoas falem tolices durante a adoração; e na maioria das
liturgias que eu conheço, o foco, em última análise, é sempre Deus e os seus
feitos, e não os seres humanos e as suas necessidades. E essa ênfase é boa,
sólida e bíblica.
A segurança bíblica requer, acima de tudo, que saibamos quem Deus é; e
isso requer, em segundo lugar, que saibamos o que ele tem feito ao longo da
história. É isso que nossa pregação e nosso culto devem tornar evidente, se
quisermos valer-nos uma vez mais da genuína ênfase da Reforma sobre a
segurança, aquela ênfase que deve marcar a linha divisória entre o
evangelicalismo bíblico alegre e a conversa fiada ou o miserável desespero
produzido por outras versões do cristianismo que talvez reivindiquem o nome
de evangélicos ou protestantes, e que, no entanto, carecem da própria coisa
que os reformadores como Bradford viam como essencial ao seu projeto.
Nós temos um Deus gracioso e fidedigno; os reformadores lembraram ao
mundo esse fato; coloquemo-lo uma vez mais no centro da nossa vida e culto.
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