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7o ANO EF

PORTUGUÊS

TRÁFICO AGORA DÁ ‘HABITE-SE’

Criminosos apoiam ocupações ilegais

por Gustavo Goulart e Geraldo Ribeiro

RIO – O dia amanhece e, aos poucos, um barulho de obra começa a ser ouvido às margens do Rio
Acari, na altura de Fazenda Botafogo. Ali, em plena calçada da Avenida Prefeito Sá Lessa, dezenas de
construções de alvenaria — mais precisamente 35, numa contagem feita na última segunda-feira —
ganharam o “habite-se” do tráfico. Na mesma região, operários da prefeitura aumentam o muro que cerca a
Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, onde a estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de
13 anos, morreu em março de 2017, ao ser atingida por uma bala perdida.
— Aqui, parece que o poder público jogou a toalha — diz um professor, que pede para não ser
identificado. — A bandidagem tomou conta, e só restou à prefeitura aumentar o muro da escola para evitar
novos casos de balas perdidas. Fizeram vista grossa para o que acontece no entorno.
A nova arquitetura carioca também vem ganhando a assinatura do tráfico na Estrada Fazenda
Botafogo, em Costa Barros, e na Avenida Leopoldo Bulhões, em Manguinhos, que foi incluída no Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2007. Melhorias na via, implantadas a duras penas por conta de
uma série de interrupções e atrasos nas obras, foram por água abaixo. Hoje, muitos barracos, de madeira e
tijolos, ocupam uma grande área. Até comércio funciona nas construções, incluindo uma barbearia e um bar
com direito a mesa de sinuca.

Exploração da miséria

O antropólogo Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj e ex-


chefe do Estado-Maior da PM, destaca que o tráfico autoriza e controla a ocupação de espaços públicos não
por complacência com os mais pobres, mas para obter vantagens. Segundo ele, quadrilhas estimulam essas
invasões para, posteriormente, cobrar taxas:
— Isso é resultado de um processo iniciado há décadas. No Rio, por contingências históricas e
políticas, nunca houve um casamento entre segurança pública e políticas de urbanização e habitação.
Traficantes e milicianos estão usando pessoas desesperadas por um lugar para morar. Engana-se quem pensa
que as quadrilhas ganham dinheiro só com drogas e roubos.
A Estrada Fazenda Botafogo, em Costa Barros, é um outro exemplo de ocupação de área pública
ignorada por autoridades. Em julho, O GLOBO constatou a existência de um loteamento irregular cheio de
cercas de madeira. Havia dez barracos no local. Ontem, a equipe de reportagem voltou ao terreno e o
encontrou totalmente ocupado por construções.
A área tem como vizinho um conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida, que, de
acordo com moradores do local, também é controlado por traficantes. Na calçada em frente, estendem-se
pequenas lojas. Pedestres, ali, precisam andar pelo asfalto.
— Por trás de toda essa informalidade, há os interesses daqueles que podemos chamar de
incorporadores de novas comunidades. Ela surgiu como resposta a uma demanda de habitação, e também
reflete a falta de controle urbano — analisa Rafael Soares Gonçalves, professor do Departamento de Serviço
Social da PUC-RJ e autor do livro “Favelas do Rio de Janeiro — História e Direito”
Promessa de vistorias

Quem costuma passar pela Avenida Prefeito Sá Lessa diz que construções começaram a ser erguidas
sobre a calçada depois que a prefeitura terminou de implodir, no mês passado, uma ponte sobre o Rio Acari,
na qual havia barracos. Famílias removidas dali teriam começado a nova ocupação, que já tem até comércio
com ar-condicionado. Procurada para comentar o assunto, a prefeitura informou que equipes técnicas das
secretarias de Urbanismo e de Infraestrutura e Habitação farão vistorias no local
A prefeitura ainda informou, por meio de sua Secretaria de Educação, que o novo muro da Escola
Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza “será uma estrutura mais resistente, e tem o objetivo de aumentar
a segurança do público e dos servidores” da unidade. O órgão frisou que, pela Constituição Federal, a
atribuição de enfrentamento da criminalidade é de responsabilidade das secretarias estadual e nacional de
Segurança.
Em relação às ocupações ilegais na Avenida Leopoldo Bulhões e na Estrada Fazenda Botafogo, a
prefeitura também prometeu vistorias, mas afirmou que, no primeiro caso, o terreno invadido é privado. Por
sua vez, o governo do estado, ao ser questionado sobre as ocupações, apenas lembrou as obras realizadas
pelo PAC Manguinhos. Já a Polícia Militar preferiu não se manifestar.

[jornal O GLOBO, 18/10/2018]

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