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Capa

Erik Larson

NO JARDIM DOS MONSTROS

BERLIM NO TEMPO DE HITLER

INTRIGA E SEDUÇÃO NA ALEMANHA NAZI

BERTRANT EDITORA

Badana da capa

Erik Larson cresceu em Freeport, Long Island, e licenciou-se em História Russa na Universidade
da Pensilvânia e em Jornalismo na Universidade de Columbia. Escreve para vários jornais e
revistas americanos com os quais colabora. Vive em Seatle com a mulher e três filhas.

Badana da contracapa

Se gostou deste livro leia:

Antony Beevor
O Mistério de Olga Tchekova

A Queda de Berlim

Martin Gilbert

Winston Churchill: Biografia

Contracapa

A saga de um pai e filha americanos que, de repente, em julho de 1933, se viram


transportados com a família para o coração da Berlim de Hitler. O pai era William E. Dodd, um
professor de História de Chicago que, para sua surpresa e de todos os outros, foi escolhido por
Roosevelt para ser o primeiro embaixador dos Estados Unidos na Alemanha nazi; a filha de
Dodd, Martha, tinha 24 anos e veio em busca da aventura e para escapar a um casamento
falhado. No início, este novo mundo parecia cheio de energia e otimismo, nada semelhante ao
que os jornais retratavam. Mas lentamente uma nuvem de intriga e terror caiu sobre a família
— até ao trágico fim de semana que mudou as suas vidas para sempre.

Ensaios e Documentos

Página de rosto

ERIK LARSON
NO JARDIM DOS MONSTROS

Amor, Terror e uma Família Americana na Berlim de Hitler

Tradução de Raquel Dutra Lopes

BERTRAND EDITORA

Lisboa 2012

Ficha técnica

Título original: In The Garden of Beasts

Autor: Erik Larson

Copyright © 2011, Erik Larson

Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa,

exceto Brasil, reservados por Bertrand Editora, Lda.

Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1

1500-499 Lisboa

Telefone: 21 762 60 00

Fax: 21 762 61 50

Correio eletrónico: editora@bertrand.pt

www.bertrandeditora.pt

Esta edição segue a grafia do Novo Acordo

Ortográfico de Língua Portuguesa


Design da capa: Ana Monteiro

Imagem da capa: © Getty Images

Revisão: Obras em Curso, Lda.

Pré-impressão: Fotocompográfica, Lda.

Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.

Unidade Industrial da Maia

1ª edição: outubro de 2012

Depósito legal n.° 347 400/12

ISBN: 978-972-25-2504-6

SEJA ORIGINAL!

DIGA NAO À CÓPIA

RESPEITE OS DIREITOS DE AUTOR

A cópia ilegal viola os direitos dos autores. Os prejudicados somos todos nós.

Para as miúdas e para os próximos vinte e cinco

(e em memória de Molly, uma boa cadela)

ÍNDICE

DAS VORSPIEL ......................................... 15


O Homem Por Trás da Cortina..................19

PRIMEIRA PARTE: ENTRAR NO BOSQUE...23

Capítulo 1: Meio de Fuga......................... 25

Capítulo 2: Aquela Vaga em Berlim..........33

Capítulo 3: A Escolha................................ 41

Capítulo 4: Terro...................................... 45

Capítulo 5: A Primeira Noite ....................60

SEGUNDA PARTE: EM BUSCA DE CASA

NO TERCEIRO REICH.................................. 73

Capítulo 6: Sedução ...................................75

Capítulo 7: Conflito Oculto........................ 84

Capítulo 8: Conhecer Putzi.........................94

Capítulo 9: A Morte é a Morte....................98

Capítulo 10: Tiergartenstrasse 27ª............107

TERCEIRA PARTE: LÚCIFER NO JARDIM......115

Capítulo 11: Seres Estranhos......................117

Capítulo 12: Brutus.....................................127

Capítulo 13: O Meu Segredo Encoberto.....139

Capítulo 14: AMortedeBoris ......................147

Capítulo 15: O «Problema Judaico»...........155

Capítulo 1'6: Um Pedido Secreto................159

Capítulo 17: A Corrida de Lucifer................165

Capítulo 18: O Aviso de um Amigo.............173

Capítulo 19: Alcoviteiro............................ 183


QUARTA PARTE: AS DORES DO ESQUELETO.185

Capítulo 20: 0 Beijo do Fúhrer......................187

Capítulo 21: O Problema de George............ 193

Capítulo 22: A Testemunha Usava Botas da Tropa..200

Capítulo 23: Boris Torna a Morrer................ 205

Capítulo 24: Conquistar Votos ......................206

Capítulo 25: O Boris Secreto.......................... 210

Capítulo 26: O Pequeno Baile da Imprensa... 215

Capítulo 27: O Tanenbaum............................ 225

QUINTA PARTE: INQUIETAÇÃO...................... 239

Capítulo 28: Janeiro de 1934...........................241

Capítulo 29: Críticas........................................ 249

Capítulo 30: Premonição................................. 251

Capítulo 31: Terrores Noturnos........................256

Capítulo 32: Alerta de Tempestade..................262

Capítulo 33: «Memorando de uma Conversa com Hitler»..264

Capítulo 34: Diels, Assustado.............................276

Capítulo 35: Confrontar o Clube........................279

Capítulo 36: Salvar Diels.....................................283

Capítulo 37: Vigias..............................................289

Capítulo 38: Ludibriado......................................290

SEXTA PARTE: BERLIM NO CREPÚSCULO............295

Capítulo 39: Um Jantar Perigoso.........................297


Capítulo 40: O Retiro de um Escritor...................304

Capítulo 41: Problemas com os Vizinhos.............312

Capítulo 42: Os Brinquedos de Hermann.............313

Capítulo 43: Fala Um Pigmeu............................... 318

Capítulo 44: A Mensagem na Casa de Banho..... 325

Capítulo 45: A Inquietação da Sra. Cerruti............327

Capítulo 46: Sexta à Noite......................................332

SÉTIMA PARTE: QUANDO TUDO MUDOU.............. 335

Capítulo 47: «Fuzilem, Fuzilem!»............................337

Capítulo 48: Armas no Parque.................................343

Capítulo 49: Os Mortos ...........................................347

Capítulo 50: Entre os Vivos......................................353

Capítulo 51: O Fim da Compreensão.......................356

Capítulo 52: Só os Cavalos........................................365

Capítulo 53:]uliet 2....................................................373

Capítulo 54: Um Sonho de Amor...............................376

Capítulo 55: Ao Cair das Trevas..................................386

EPÍLOGO A Ave Rara Exilada.......................................395

CODA «Conversa à Mesa»...........................................401

Fontes e Agradecimentos............................................403

Notas........................................................................... 411

Bibliografia.................................................................. 459

Epígrafe.........................................................................471
Acerca do Autor............................................................473

Nota à Edição Portuguesa.............................................475

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No meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura porque a direita via
era perdida.

— Dante Alighieri

A Divina Comédia: Canto I

DAS VORSPIEL

prelúdio; abertura; prólogo

Era uma vez, no despertar de uma época muito sombria, um pai norte-americano e a sua filha
que se viram subitamente transportados do lar confortável onde viviam em Chicago para o
coração da Berlim de Hitler. Ali permaneceram durante quatro anos e meio; mas será o
primeiro ano dessa estada o tema da história que se segue, pois coincidiu com a ascensão de
Hitler de chanceler a tirano absoluto, quando tudo estava em jogo e nada era certo. Esse
primeiro ano formou uma espécie de prólogo no qual todas as características da maior
epopeia de guerra e assassínio não tardariam a ser definidas.

Sempre me perguntei como teria sido, para alguém de fora, assistir em primeira mão à génese
turva do regime de Hitler. Que aspeto teria a cidade, o que se ouviria, veria e cheiraria, como
seria que os diplomatas e outros visitantes interpretavam os acontecimentos que se sucediam
em redor deles? À distância, sabemos que, naquela altura frágil, o rumo da História facilmente
poderia ter sido alterado. Porque foi, então, que ninguém o alterou? Porque se demorou tanto
tempo e reconhecer a verdadeira dimensão do perigo representado por Hitler e pelo seu
regime?
Tal como a maioria das pessoas, a minha primeira impressão acerca daquela era foi obtida
através de livros e fotografias que me deixaram a pensar que o mundo de então não tinha
cores, apenas gradientes de cinzento e preto. Os meus dois protagonistas, porém, depararam-
se com a realidade de carne e osso, mantendo não obstante as obrigações rotineiras do
quotidiano. Todas as manhãs se movimentavam numa cidade que por todo o lado ostentava
enormes faixas de vermelho,

15

ERIK LARSON

branco e preto; sentavam-se nas mesmas esplanadas que os membros esguios e vestidos de
negro das SS de Hitler e, de quando em vez, vislumbravam o próprio Hitler, um homenzinho
baixo num grande Mercedes descapotável. Mas também passavam todos os dias por casas
com varandas de onde brotavam gerânios vermelhos abundantes; faziam compras nos vastos
armazéns, convidavam pessoas para beber chá e inspiravam profundamente as fragrâncias
primaveris do Tiergarten, o maior parque de Berlim. Conheciam Goebbels e Gõring, com quem
jantavam, dançavam e gracejavam — até que, perto do final deste primeiro ano, teve lugar um
acontecimento que provou ser um dos reveladores do verdadeiro carácter de Hitler e que
lançou a pedra basilar da década que se seguiria. Para pai e filha, tudo mudaria.

Este é um livro de não-ficção. Como sempre, todo o texto que surja entre aspas provém de
uma carta, de um diário, de uma autobiografia ou de outro documento histórico. Não me
esforcei de forma alguma nestas páginas para criar mais uma grande história desta época. O
meu objetivo era mais íntimo: revelar esse mundo de ontem através da experiência e da
perceção dos meus protagonistas, pai e filha, que, depois de chegarem a Berlim, embarcaram
numa viagem de descoberta, de transformação e, por fim, da mais profunda mágoa.

Aqui não há heróis, pelo menos não do género de A Lista de Schindler, mas há vislumbres de
heroísmo e pessoas que se comportam com uma graciosidade inesperada. Há sempre
nuances, ainda que por vezes sejam de uma natureza perturbadora. Eis o problema com a não-
ficção. É necessário pôr de parte o que todos sabemos — agora — tratar-se da verdade e
tentar, ao invés, acompanhar os meus dois inocentes pelo mundo tal como eles o
experimentaram.

Eram pessoas complicadas a avançar por um tempo complicado, antes de os monstros terem
declarado a sua verdadeira natureza.

Erik Larson
Seattlle

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1933

O HOMEM POR TRÁS DA CORTINA

Era comum que exilados norte-americanos visitassem o consulado dos Estados Unidos em
Berlim, mas não na condição exibida pelo homem que ali chegou na quinta-feira, 29 de junho
de 1933. Tratava-se de Joseph Schachno, de 31 anos, um médico de Nova Iorque que, até
pouco antes, exercia num subúrbio de Berlim. Agora, despido, encontrava-se num dos
cubículos rodeados por uma cortina no primeiro piso do consulado, onde, em dias mais
rotineiros, um clínico de saúde pública examinava candidatos que queriam emigrar para os
Estados Unidos. A pele de grande parte do corpo do homem tinha sido esfolada.

Dois funcionários consulares chegaram e entraram no gabinete de observação. Um era George


S. Messersmith, cônsul-geral norte-americano na Alemanha desde 1930 (sem qualquer
parentesco com Wilhelm «Willy» Messerschmitt, o engenheiro aeronáutico alemão). Como
funcionário superior dos Serviços Diplomáticos em Berlim, Messersmith supervisionava os dez
consulados norte-americanos dispostos em várias cidades da Alemanha. A seu lado
encontrava-se o vice-cônsul Raymond Geist. Regra geral, este mantinha-se impávido e sereno,
sendo um subalterno ideal, mas Messersmith reparou no facto de Geist parecer pálido e
profundamente abalado.

Ambos os homens ficaram estarrecidos com a condição de Schachno. «Do pescoço aos
calcanhares, era uma amálgama de carne viva», viu Messersmith. «Tinha sido vergastado com
chicotes e espancado de todas as maneiras possíveis até ficar com a carne literalmente viva e a
sangrar. Olhei de relance e afastei-me o mais depressa que

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ERIK LARSON

consegui até uma das bacias onde o [clínico de saúde pública] lavava as mãos.»

O espancamento, ficou Messersmith a saber, ocorrera nove dias antes, mas as feridas ainda
estavam vívidas. «Das omoplatas aos joelhos, ao fim de nove dias ainda tinha marcas que
revelavam que fora espancado pela frente e por trás. Tinha as nádegas em carne viva e áreas
muito extensas das mesmas sem qualquer pele. Em certos sítios, a carne fora praticamente
reduzida a polpa.»

Se aquilo era o que se via passados nove dias, pensava Messersmith, que aspeto teriam as
feridas logo a seguir ao espancamento?

A história emergiu:

Na noite de 21 de junho, Schachno recebera em casa a visita de um esquadrão de homens


fardados, em reação a uma denúncia anónima que o indicava como potencial inimigo do
Estado. Os soldados revistaram a casa e, apesar de nada encontrarem, levaram-no para o
quartel-general. Aí, ordenaram-lhe que se despisse, após o que dois homens começaram de
imediato a chicoteá-lo longa e severamente. Depois, foi libertado. Sem que se soubesse como,
conseguira regressar a casa, de onde, na companhia da mulher, fugira para o centro de Berlim,
refugiando-se em casa da sogra. Ficou de cama durante uma semana. Assim que se sentiu
capaz, apresentou-se no consulado.
O cônsul-geral ordenou que o levassem a um hospital e, nesse mesmo dia, emitiu-lhe num
novo passaporte norte-americano. Pouco tempo depois, Schachno e a mulher partiram para a
Suécia e, em seguida, para os Estados Unidos.

Tinha havido espancamentos e prisões de cidadãos norte-americanos desde a nomeação de


Hitler como chanceler, em janeiro, mas nenhum caso tão grave quanto aquele — ainda que
milhares de alemães tivessem sofrido tratamentos igualmente severos e, bastas vezes, bem
piores. Para Messersmith, tratava-se de mais um indicador da realidade da vida sob o jugo de
Hitler. Ele compreendia que toda aquela violência representava mais do que um espasmo
temporário de atrocidade. Algo fundamental se alterara na Alemanha.

Ele compreendia, mas estava convicto de que poucos seriam os que, nos Estados Unidos,
também compreenderiam. Sentia-se cada vez mais perturbado pela dificuldade em persuadir
o mundo a respeito

20

NO JARDIM DOS MONSTROS

da verdadeira magnitude da ameaça hitleriana. Para si, era absolutamente claro que Hitler
estava, de facto, a preparar secreta e agressivamente a Alemanha para uma guerra de
conquista. «Desejava que fosse realmente possível fazer o nosso povo compreender»,
escreveu num relatório de junho de 1933, enviado para o Departamento de Estado, «pois sinto
que a nação deveria ter noção da forma definitiva como o espírito marcial está a desenvolver-
se na Alemanha. Se este Governo se mantiver no poder mais um ano e prosseguir, nos
mesmos termos nesta direção, avançará na transformação da Alemanha num perigo para a paz
mundial durante os anos vindouros.»

Acrescentou: «Salvo algumas exceções, os homens que gerem este Governo são de uma
mentalidade que nós não temos capacidade de compreender. Alguns são casos psicopáticos
que, em circunstâncias normais, receberiam tratamento.»

Contudo, a Alemanha ainda não tinha um embaixador norte-americano residente. O anterior,


Frederic M. Sackett, partira em março, aquando da tomada de posse do novo presidente dos
Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. (A tomada de posse, em 1933, ocorrera a 4 de março.)
Ao longo de quase quatro meses, não houvera um embaixador, e não se esperava que o
recém-nomeado chegasse senão dali a três semanas. Messersmith não conhecia pessoalmente
o homem, sabia apenas o que ouvira dos seus muitos contactos no Departamento de Estado.
O que, isso sim, sabia, era que o novo embaixador iria entrar num caldeirão de brutalidade,
corrupção e fanatismo, e que teria de ser um homem de carácter forte, capaz de projetar o
interesse e o poder norte-americanos, pois o poder era tudo o que Hitler e os seus homens
compreendiam.

E, no entanto, dizia-se que o novo nomeado era um tipo despretensioso, que jurara levar uma
vida modesta em Berlim, como gesto solidário para com os compatriotas empobrecidos pela
Depressão. Por incrível que parecesse, o novo embaixador até ia enviar o seu próprio carro
para Berlim — um Chevrolet decrépito — para realçar a sua frugalidade. Isto numa cidade
onde os homens de Hitler se passeavam pela cidade em gigantes automóveis negros pouco
mais pequenos do que um autocarro.

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PRIMEIRA PARTE

ENTRAR NO BOSQUE

CAPITULO 1

MEIO DE FUGA

O telefonema que mudou para sempre as vidas da família Dodd, de Chicago, tocou ao meio-dia
de quinta-feira, 8 de junho de 1933, quando William E. Dodd se encontrava sentado à
secretária no seu gabinete da Universidade de Chicago.

Diretor do departamento de História, Dodd lecionava naquela universidade desde 1909, sendo
um professor reconhecido a nível nacional pelo seu trabalho sobre o Sul dos Estados Unidos e
por uma biografia de Woodrow Wilson. Aos sessenta e quatro anos, era magro, media um
metro e setenta e dois e tinha olhos azuis-acinzentados e cabelo castanho-claro. Apesar de o
seu rosto, quando inexpressivo, tender a transmitir severidade, na verdade tinha um sentido
de humor animado, irónico e facilmente estimulado. Era casado com Martha, a quem todos
chamavam Mattie, e tinha dois filhos, ambos na casa dos vinte anos. A filha, que também se
chamava Martha, tinha vinte e quatro; o filho, William Jr. — Bill —, vinte e oito.

Tratava-se, em todos os sentidos, de uma família feliz e muito unida. De forma alguma ricos,
viviam desafogadamente, não obstante a depressão económica que tomava conta da nação.
Moravam numa casa grande, no número 5757 da Blackstone Avenue, perto do Hyde Park de
Chicago, a poucos quarteirões da universidade. Dodd também possuía uma pequena quinta —
de que cuidava todos os verões — em Round Hill, na Virgínia, que, segundo um levantamento
do condado, compreendia uma área de 156,5 hectares, «mais ou menos», e que era onde
Dodd, um convicto democrata jeffersoniano, se sentia mais à-vontade, entre as vinte uma
novilhas Guernsey, os cavalos castrados — Bill, Coley, Mandy e Prince —, o trator Farmall e os
arados Syracuse puxados por cavalos. Fazia café de uma lata de Maxwell House, no velho

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ERIK LARSON

fogão a lenha. A esposa não gostava do lugar tanto quanto ele, e Dodd ficava mais do que
satisfeito por passar tempo ali sozinho, enquanto o resto da família permanecia em Chicago.
Chamou «Stoneleigh» à quinta por causa da quantidade de pedras espalhadas por todo o
terreno e falava dela como outros homens falavam do primeiro amor. «A fruta é tão bela,
quase perfeita, vermelha e apetitosa, quando olhamos para lá, com as árvores ainda a
curvarem-se sob o peso daquele fardo», escreveu certa noite durante a época das colheitas.
«Tudo isto me atrai.»

Apesar de, normalmente, não ter propensão para os lugares-comuns, Dodd descreveu o
telefonema como uma «surpresa súbita vinda de um céu limpo». Tal afirmação era, todavia,
algo exagerada. Nos vários meses anteriores, Dodd e os amigos já tinham discutido a
possibilidade de, certo dia, ele vir receber uma chamada daquele cariz. Foi, então, a natureza
específica do telefonema o que o surpreendeu e perturbou.

Já há algum tempo que Dodd se sentia infeliz com a posição que ocupava na universidade.
Apesar de adorar ensinar História, gostava mais de a escrever e laborava há anos naquilo que
esperava que viesse a ser o relato definitivo dos primórdios da história sulista, uma série em
quatro volumes a que chamava The Rise and Fall of the OId South [A Ascensão e Queda do
Velho Sul]; mas, vezes sem conta, vira o seu progresso estagnado pelas exigências rotineiras do
seu trabalho. Apenas o primeiro volume estava próximo de ficar concluído e ele já tinha idade
suficiente para recear ser enterrado com o restante inacabado. Negociara um horário reduzido
com o departamento, mas, como é comum acontecer com entendimentos desse género, não
teve o efeito que esperava. As partidas de alguns funcionários e as pressões financeiras da
universidade associadas à Depressão tinham-no deixado a trabalhar tanto quanto antes: tendo
de lidar com funcionários da universidade, de preparar aulas e de confrontar as crescentes
necessidades dos estudantes. Numa carta enviada ao Departamento de Edifícios e Terrenos,
datada de 31 de outubro de 1932, requereu aquecimento no seu gabinete aos domingos, para
ter pelo menos um

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NO JARDIM DOS MONSTROS

dia por semana que pudesse dedicar inteiramente à escrita. A um amigo descreveu a sua
posição como «embaraçosa».

A somar à insatisfação que sentia, acreditava que deveria ter avançado mais na carreira. O que
o impedia de progredir a um ritmo mais célere, queixou-se à mulher, era o facto de não ter
tido uma vida de privilégios e, em vez disso, ter sido obrigado a esforçar-se arduamente por
tudo o que alcançara, ao contrário de outros no seu campo, cujos avanços tinham sido mais
rápidos. E, de facto, obtivera a posição em que se encontrava a pulso. Nascido a 21 de outubro
de 1896, na casa dos pais no minúsculo lugarejo de Clayton, na Carolina do Norte, Dodd
entrara para o estrato mais baixo da sociedade sulista branca, que ainda seguia as convenções
de classe da era pré-bélica. O pai, John D. Dodd, era um agricultor de subsistência,
praticamente analfabeto; a mãe, Evelyn Creech, descendia de uma família mais abonada da
Carolina do Norte, pelo que se considerava que casara abaixo do seu nível. O casal cultivava
algodão num terreno que o pai de Evelyn lhes oferecera, mal conseguindo o suficiente para
sobreviver. Nos anos que se sucederam à Guerra Civil, à medida que a produção de algodão
aumentava e os preços desciam, a família depressa se viu endividada junto do armazém geral
da vila, propriedade de um parente de Evelyn, que era um dos três homens privilegiados de
Clayton — «homens duros», chamava-lhes Dodd: «[...] comerciantes e amos aristocráticos dos
seus dependentes!»

Dodd tinha seis irmãos e passou a juventude a trabalhar na terra da família. Embora encarasse
o trabalho como honesto, não desejava passar o resto da vida a lavrar, e reconhecia que a
única forma que um homem com o seu baixo estatuto tinha de evitar esse destino era através
da educação. Esforçou-se por subir na vida, por vezes concentrando-se tanto nos estudos que
outros alunos se referiam como o «Monge Dodd». Em fevereiro de 1891, entrou para a Escola
de Agricultura e Mecânica da Virgínia (que viria a ser o Instituto Politécnico e Universidade
Estatal da Virgínia, conhecido como Virgínia Tech). Também aí se tornou uma presença sóbria e
concentrada. Outros estudantes divertiam-se com partidas como pintar a vaca do presidente
da

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ERIK LARSON

escola e encenar falsos duelos para convencer os caloiros de que tinham matado os
adversários. Mas Dodd só estudava. Concluiu o bacharelato em 1895 e o mestrado em 1897,
com a idade de vinte e seis anos.

Encorajado por um professor que reverenciava e com um empréstimo de um tio-avô


benemérito, em junho de 1897, Dodd partiu para a Universidade de Leipzig, na Alemanha,
para dar início a um doutoramento. Levou a sua bicicleta. Como tema de dissertação, escolheu
Thomas Jefferson, apesar da óbvia dificuldade em adquirir documentos americanos do século
XVIII na Alemanha. Dodd fez os exames necessários e encontrou arquivos com material
relevante em Londres e Berlim. Também viajou muito, servindo-se grandemente da bicicleta e
ficando várias vezes impressionado com a atmosfera militarista que se ia apoderando da
Alemanha. A dada altura, um dos seus professores preferidos orientou um debate sobre a
questão «Quão indefesos ficariam os Estados Unidos se fossem invadidos pelo grande exército
alemão?» Toda aquela belicosidade prussiana deixava Dodd desconfortável. Escreveu: «Havia
demasiado espírito bélico por todo o lado.»

Dodd regressou à Carolina do Norte no final do outono de 1899 e, depois de meses de


procura, conseguiu finalmente uma colocação como instrutor na Escola Randolph-Macon, em
Ashland, na Virgínia. Também retomou a amizade com uma jovem chamada Martha Johns,
filha de um proprietário abonado que morava perto da terra natal de Dodd. A amizade
transformou-se num romance e, na véspera de Natal de 1901, casaram-se.

Na Randolph-Macon, Dodd depressa se viu no meio de polémica. Em 1902, publicou um artigo


na revista Nation, no qual criticava uma campanha bem-sucedida levada a cabo pela
organização Grand Camp of Confederate Veterans, que pretendia que o estado da Virgínia
banisse um manual de História que os veteranos consideravam uma afronta à honra sulista.
Dodd afirmava que os veteranos acreditavam que as únicas histórias válidas eram as que
proclamavam que o Sul «tivera toda a razão ao separar-se da União».

A reação não se fez esperar. Um advogado proeminente contratado pelo movimento dos
veteranos lançou uma campanha para que ele fosse despedido da Randolph-Macon. A escola
apoiou Dodd por completo.
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NO JARDIM DOS MONSTROS

Um ano depois, este tornou a atacar os veteranos, desta feita num discurso perante a
Sociedade Americana de História, no qual denunciou os esforços empreendidos para «tirar das
escolas todo e qualquer livro que não se adeque aos padrões de patriotismo local.» Defendeu
que «manter-se em silêncio está fora de questão para um homem forte e honesto».

O prestígio de Dodd enquanto historiador foi crescendo e o mesmo acontecia à sua família. O
filho nasceu em 1905, a filha em 1908. Reconhecendo que um aumento salarial seria
conveniente e que era pouco provável que a pressão dos seus inimigos sulistas abrandasse,
Dodd candidatou-se a uma vaga na Universidade de Chicago. Conseguiu o emprego e, no
gélido janeiro de 1909, quando tinha trinta e nove anos, ele e a sua família viajaram para
Chicago, onde ele permaneceria durante o quarto de século seguinte. Em outubro de 1912, ao
sentir o apelo do seu legado e uma necessidade de estabelecer a sua própria credibilidade
como um verdadeiro democrata jefferso-niano, comprou a quinta. O trabalho exaustivo que
tanto o fatigara na infância tornou-se então tanto uma diversão que lhe acalentava a alma
como um regresso romântico ao passado da América.

Dodd também descobriu ter um interesse latente pela vida política, desencadeado quando,
em agosto de 1916, deu por si na Sala Oval da Casa Branca, onde teria uma reunião com o
presidente Woodrow Wilson. O encontro, segundo um biógrafo, «alterou-lhe drasticamente a
vida».

Dodd fora ficando profundamente preocupado com os sinais dados pelos Estados Unidos de
irem intervir na Grande Guerra que decorria na Europa. A sua experiência em Leipzig deixara-o
sem qualquer dúvida de que a Alemanha era a única responsável pelo despoletar da guerra,
satisfazendo os anseios dos industriais e aristocratas germânicos, os «Junkers», que ele
comparava à aristocracia sulista antes da Guerra Civil. Agora, assistia à emergência de uma
arrogância semelhante por parte das elites industrial e militar dos próprios Estados Unidos.
Quando um general do exército tentou incluir a Universidade de Chicago numa campanha
nacional para preparar o país para a guerra, Dodd agastou-se e foi apresentar a sua queixa
diretamente ao comandante supremo.

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ERIK LARSON
Desejava apenas tomar dez minutos a Wilson, mas obteve bem mais e ficou tão inebriado
como se tivesse ingerido uma poção num conto de fadas. Passou a acreditar que Wilson estava
certo ao advogar a intervenção norte-americana na guerra. Para si, Wilson transformou-se na
personificação moderna de Jefferson. Ao longo dos sete anos seguintes, ele e o presidente
tornaram-se amigos; Dodd escreveu a biografia de Wilson. Aquando da morte deste, a 3 de
fevereiro de 1924, Dodd deixou-se abater profundamente pelo luto.

Com o passar do tempo, acabou por ver Franklin Roosevelt como igual de Wilson, dedicando-
se à campanha deste em 1932, falando e escrevendo a seu favor sempre que surgia uma
oportunidade. Se cultivava esperanças de se tornar um membro do círculo íntimo de
Roosevelt, porém, depressa se desiludiu, ao ser consignado aos deveres cada vez mais
insatisfatórios de uma cátedra universitária.

Agora tinha sessenta e quatro anos e a forma como deixaria uma marca no mundo seria com a
sua História do velho Sul, que também parecia ser a coisa contra a qual todas as forças do
universo se alinhavam para derrotar, incluindo a política da universidade de não prover
aquecimento aos edifícios aos domingos.

Cada vez mais ponderava deixar a universidade em troca de algum cargo que lhe permitisse ter
tempo para escrever, «antes que seja demasiado tarde». Ocorreu-lhe que o emprego ideal
talvez fosse um posto pouco exigente no Departamento de Estado, talvez como embaixador
em Bruxelas ou Haia. Estava convicto de que era suficientemente proeminente para que
tomassem em conta a sua candidatura a tal posição, embora tivesse uma tendência para se
considerar bem mais influente nas questões nacionais do que de facto era. Muitas vezes
escrevera a Roosevelt para oferecer o seu conselho em vários assuntos económicos e políticos,
tanto antes como imediatamente após a vitória do presidente. Decerto se sentira vexado
quando, pouco depois da eleição, recebera uma carta impessoal da Casa Branca, que afirmava
que, embora o presidente desejasse que todas as cartas enviadas para o seu gabinete
obtivessem resposta pronta, não poderia responder pessoal e atempadamente a todas, pelo
que pedia ao seu secretário que o fizesse por si.

30

NO JARDIM DOS MONSTROS

Contudo, Dodd tinha vários bons amigos próximos de Roosevelt, incluindo o novo secretário
do Comércio, Daniel Roper, para quem os seus filhos eram como sobrinhos, de tal forma que
Dodd não se sentiu minimamente embaraçado ao enviar o filho como intermediário para que
perguntasse a Roper se a nova administração acharia razoável nomear o pai como ministro na
Bélgica ou na Holanda. «São postos onde o governo precisa de ter alguém, mas que não
requerem demasiado trabalho», explicou Dodd ao filho, confidenciando-lhe que a sua
principal motivação era a necessidade que tinha de terminar o Old South. «Não ambiciono
qualquer nomeação de Roosevelt, mas é com grande ansiedade que me determino a não ser
frustrado num objetivo de toda a vida.»

Em resumo, Dodd queria uma sinecura, um emprego que não fosse demasiado exigente, mas
que lhe provesse estatuto, um salário razoável e, mais do que qualquer outra coisa, muito
tempo para escrever — isto apesar de reconhecer que servir como diplomata não era algo com
que a sua personalidade se harmonizasse. «Quanto à alta diplomacia (Londres, Paris, Berlim),
não faz o meu género», escreveu à mulher, no início de 1933. «Perturba-me que assim seja,
por tua causa. Mas simplesmente não sou o tipo hipócrita e dúplice que é necessário para
"mentir no estrangeiro pelo seu país". Se o fosse, poderia ir para Berlim e ajoelhar-me diante
de Hitler — e refrescar o alemão.» Mas, acrescentava: «para quê perder tempo a escrever
sobre este assunto? Quem quereria viver em Berlim durante os próximos quatro anos?»

Quer tenha sido por causa da conversa do seu filho com Roper ou devido à intervenção de
outras forças, depressa o nome de Dodd começou a ser falado. A 15 de março de 1933, numa
das suas estadas na quinta da Virgínia, foi até Washington para se encontrar com o novo
secretário de Estado, Cordell Hull, com quem já tinha estado várias vezes. Hull era alto e tinha
o cabelo grisalho, um queixo fendido num maxilar forte. Exteriormente, parecia a imagem
física de tudo o que um secretário de Estado deveria ser, mas aqueles que o conheciam melhor
sabiam bem que, quando se irava, tinha um pendor nada digno de um estadista para proferir
torrentes de profanidades e que sofria de um distúrbio da fala que lhe transformava o «r» em
«u», como a personagem de animação Elmer Fudd — uma característica de

31

ERIK LARSON

que Roosevelt, de quando em vez, troçava em privado, como na ocasião em que se referiu aos
«tuatados de coméucio» de Hull. Este, como de costume, tinha quatro ou cinco lápis
vermelhos no bolso da camisa; eram os instrumentos estatais que mais apreciava. Mencionou
a possibilidade de Dodd ser nomeado para a Holanda ou para a Bélgica, exatamente o que ele
desejava. Porém, subitamente forçado a imaginar a realidade quotidiana do que implicaria
essa vida, Dodd recuou. «Depois de analisar cuidadosamente a situação», escreveu na sua
pequena agenda de bolso, «disse a Hull que não aceitaria a posição.»

Não obstante, o seu nome manteve-se em circulação.


E agora, naquela quinta-feira de junho, o seu telefone começava a tocar. Assim que encostou o
aparelho ao ouvido, escutou uma voz que reconheceu de imediato.

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CAPITULO 2

AQUELA VAGA EM BERLIM

Ninguém queria o cargo. O que parecera uma das tarefas menos desafiantes que Franklin D.
Roosevelt enfrentava como presidente recém-eleito revelava-se, em junho de 1933, ser uma
das mais intransigentes. No que dizia respeito a postos de embaixador, o de Berlim deveria ter
sido apetecível — não se tratava de Londres ou Paris, com certeza, mas era ainda assim uma
das grandes capitais da Europa e encontrava-se no centro de um país que atravessava
mudanças revolucionárias sob a liderança do chanceler recentemente nomeado, Adolf Hitler.
Consoante o ponto de vista, a Alemanha passava por um tremendo renascimento ou por um
obscurantismo selvático. Na sequência da ascensão de Hitler, o país fora acometido por um
enorme espasmo de violência sancionada pelo Estado. O exército paramilitar de camisas
castanhas de Hitler, o Sturmabteilung or SA — as «Tropas de Assalto» — tinha perdido as
estribeiras, prendendo, espancando e, nalguns casos, assassinando comunistas, socialistas e
judeus. As Tropas de Assalto instalavam prisões e postos de tortura improvisados em caves,
abrigos e outras estruturas. Só em Berlim havia cinquenta destes bunkers, como lhes
chamavam. Dezenas de milhares de pessoas tinham sido presas e colocadas sob «custódia
protetora» — Schutzhaft —, um eufemismo risível. Estimava-se que entre 500 a 700
prisioneiros tivessem morrido em custódia; outros eram sujeitos a «afogamentos e
enforcamentos simulados», segundo um depoimento policial. Uma prisão nas imediações do
aeroporto de Tempelhof tornou-se especialmente conhecida: Columbia Haus, que não deve
ser confundido com um edifício moderno no centro de Berlim, chamado Columbushaus. A
convulsão social levou um líder judeu, o rabi

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ERIK LARSON

Stephen S. Wise, de Nova Iorque, a dizer a um amigo: «as fronteiras da civilização foram
atravessadas.»

A primeira tentativa feita por Roosevelt para preencher o posto de Berlim ocorreu a 9 de
março de 1933, menos de uma semana após tomar posse e no preciso instante em que a
violência na Alemanha atingia um pico de ferocidade. Ofereceu-o a James M. Cox, que tinha
concorrido à presidência em 1920, com o seu apoio.

Numa carta pejada de lisonjas, Roosevelt escreveu: «Não apenas pelo afeto que lhe dedico,
mas também por considerar que é especialmente adequado a este lugar-chave, muito me
agradaria enviar o seu nome para o Senado como Embaixador dos Estados Unidos na
Alemanha. Faço votos de que aceite após discutir o assunto com a sua encantadora esposa
que, a propósito, seria uma embaixatriz perfeita. Queira enviar-me um telegrama a confirmar
que aceita.»

Cox recusou: as exigências dos seus variados negócios, que incluíam diversos jornais,
obrigavam-no a declinar a proposta. Não fez qualquer menção à violência que tomava a
Alemanha de assalto.

Roosevelt pôs a questão de parte para enfrentar o agravamento da crise económica da nação,
a Grande Depressão, que, aquando da chegada daquela primavera, já tinha deixado sem
emprego um terço da população trabalhadora que não se dedicava à agricultura e reduzido
para metade o produto interno bruto; assim, não tornou a concentrar--se neste problema até
pelo menos um mês depois, quando ofereceu o cargo a Newton Baker, que fora secretário da
Defesa no governo de Woodrow Wilson e era agora sócio de uma firma de advogados de
Cleveland. Também Baker declinou. Tal como um terceiro homem, Owen D. Young,
proeminente homem de negócios. Em seguida, Roosevelt tentou Edward J. Flynn, uma figura-
chave do Partido Democrata e grande apoiante seu. Flynn falou com a mulher e «concordámos
que, dada a idade dos nossos filhos, tal função seria impossível».

A dada altura, Roosevelt fez o seguinte comentário jocoso a um membro da família Warburg:
«Sabes, Jimmy, o que aquele tipo, o Hitler, merecia era que eu mandasse um judeu para Berlim
como meu embaixador. Gostavas de ocupar este cargo?»

34

NO JARDIM DOS MONSTROS

Agora, com a chegada de junho, o prazo tornava-se premente. Roosevelt via-se consumido por
uma batalha extenuante para passar a sua Lei de Recuperação da Indústria Nacional, a peça
fulcral do New Deal para a qual enfrentava a oposição fervorosa de um grupo coeso de
republicanos poderosos. No início do mês, a poucos dias da interrupção de verão do
Congresso, a lei parecia encontrar-se prestes a ser promulgada, mas continuava sob o ataque
de republicanos e até de alguns democratas, que lançavam salvas de propostas de emendas e
forçavam o Senado a maratonas. Roosevelt temia que, quanto mais a batalha se arrastasse,
mais provável seria que a lei fosse chumbada ou ficasse gravemente enfraquecida, em parte
porque qualquer dilatação da sessão do Congresso implicava atiçar a fúria dos legisladores
desejosos de deixar Washington e gozar as férias de verão. Todos estavam a ficar rabugentos.
Uma vaga de calor tinha elevado as temperaturas a recordes por toda a nação, o que já custara
mais de cem vidas. Washington fervilhava; os homens fediam. Uma manchete de três colunas
na primeira página do New York Times afirmava: «ROOSEVELT CORTA PROGRAMA PARA
ACELERAR FIM DA SESSÃO; VÊ AS SUAS POLÍTICAS AMEAÇADAS».

Aqui existia um conflito: era necessário que o Congresso empossasse e financiasse novos
embaixadores. Quanto mais cedo o Congresso fosse interrompido, maior a pressão sobre
Roosevelt para escolher um novo homem para Berlim. Assim, via-se compelido a considerar
candidatos fora das habituais escolhas de patronato, incluindo os reitores de pelo menos três
universidades e um pacifista ardente, chamado Harry Emerson Fosdick, o pastor batista da
igreja Riverside, de Manhattan. Todavia, nenhum lhe parecia ideal; a nenhum foi proposto o
cargo.

Na quarta-feira, 7 de junho, faltando apenas uns dias para que as reuniões do Congresso
fossem interrompidas, Roosevelt encontrou-se com vários conselheiros próximos e mencionou
a sua frustração por não conseguir nomear um novo embaixador. Um dos presentes era o
secretário do comércio, Roper, a quem o presidente por vezes se referia como «o tio Dan».

Após alguma ponderação, Roper lançou um novo nome, o de alguém que, por outro lado, era
seu amigo de longa data:

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ERIK LARSON

— E que tal Wffliam E. Dodd?

— Não é má ideia — replicou Roosevelt, embora de forma alguma ficasse patente que era de
facto essa a sua opinião naquele instante. Sempre afável, Roosevelt tendia a prometer coisas
sem necessariamente tencionar cumpri-las. — Vou tê-la em conta.

Dodd era tudo menos um candidato típico a um cargo diplomático. Não era rico. Não detinha
influência política. Não fazia parte do círculo de amigos de Roosevelt. Mas falava alemão e
dizia-se que conhecia bem o país. Um problema potencial era a sua antiga dedicação a
Woodrow Wilson, cuja crença em ligar-se a outras nações no palco mundial era um anátema
para o crescente número de cidadãos que insistiam na necessidade de os Estados Unidos
evitarem envolver-se nas questões internacionais. Estes «isolacionistas», liderados por William
Borah, do Idaho, e por Hiram Johnson, da Califórnia, tornavam-se cada vez mais barulhentos e
poderosos. As sondagens indicavam que 95 por cento dos Norte-americanos desejava que os
Estados Unidos evitassem envolver-se em qualquer guerra estrangeira. Ainda que o próprio
Roosevelt fosse pelo empenho internacional, velava as suas ideias sobre a questão, de forma a
não obstar ao avanço dos objetivos internos. Dodd, contudo, parecia um candidato que
dificilmente inflamaria os ânimos dos isolacionistas. Era um historiador de temperamento
sóbrio e o conhecimento em primeira mão que tinha da Alemanha talvez se provasse útil.

Berlim, para além disso, não era o destacamento sobrecarregado que se tornaria passado um
ano. Naquela altura, prevalecia a perceção disseminada de que não era possível que o governo
de Hitler durasse. O poderio militar germânico era limitado — o exército, o Reichswehr, tinha
apenas 100 000 homens, o que não estava à altura das forças militares da França, quanto mais
para o poder combinado da França, da Inglaterra, da Polónia e da União Soviética. E o próprio
Hitler começava a parecer um ator mais moderado do que seria de prever perante a violência
que varrera a Alemanha no início do ano. A 10 de maio de 1933, o partido nazi queimou livros
indesejados — de Einstein, Freud, dos irmãos Mann e de muitos outros — em grandes piras

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NO JARDIM DOS MONSTROS

espalhadas por toda a Alemanha; mas, sete dias depois, Hitler declarou-se dedicado à paz e
chegou até a jurar um desarmamento absoluto se outros países fizessem o mesmo. O mundo
suspirou de alívio. Comparada com o cenário mais vasto de desafios que Roosevelt enfrentava
— depressão global, mais um ano de seca debilitante —, a Alemanha parecia mais uma
irritação do que qualquer outra coisa. O problema alemão que Roosevelt e o secretário Hull
consideravam mais premente consistia nos mil e duzentos milhões de dólares que a Alemanha
devia a credores norte-americanos, dívida essa que o regime hitleriano parecia cada vez
menos disposto a saldar.

Ninguém parecia importar-se muito com o género de personalidade que talvez fosse
necessária num homem para lidar de forma eficaz com o governo de Hitler. O secretário Roper
acreditava que «Dodd seria astuto na condução dos deveres diplomáticos e, quando as
conferências ficassem tensas, conseguiria inverter a maré com uma citação de Jefferson.»

Roosevelt atendeu à sugestão de Roper.

O tempo escoava-se e havia assuntos bem mais urgentes com que lidar, à medida que a nação
se afundava cada vez mais num desespero económico.
No dia seguinte, 8 de junho, Roosevelt pediu uma chamada de longa distância para Chicago.
Foi sucinto. Disse a Dodd:

«Quero saber se prestará um serviço distinto ao governo. Quero que seja embaixador na
Alemanha.» E acrescentou: «Quero um norte--americano liberal na Alemanha, de forma a dar
o exemplo.»

Fazia calor na Sala Oval, fazia calor no gabinete de Dodd. A temperatura em Chicago estava
bem acima dos trinta graus.

Dodd disse ao presidente que precisava de tempo para pensar e para conversar com a esposa.

Roosevelt deu-lhe duas horas.

Primeiro, Dodd falou com membros da universidade, que o instaram a aceitar. Em seguida,
caminhou até casa, a passo rápido, sob o calor cada vez mais intenso.

37
ERIK LARSON

Tinha apreensões profundas. O livro Old South era a sua prioridade. Servir como embaixador
na Alemanha de Hitler não lhe daria mais tempo para escrever, sendo provável que lhe desse
ainda menos do que as obrigações que tinha na universidade.

A mulher, Mattie, compreendia, mas também estava ciente da necessidade que o marido tinha
de reconhecimento e de que ele julgava que, naquela altura da vida, deveria ter alcançado
mais. Dodd, por sua vez, sentia que devia algo mais à esposa. Ela mantivera-se a seu lado,
recebendo, ao que lhe parecia, escassas recompensas. «Não há um lugar adequado ao meu
género de mentalidade», dissera-lhe numa carta enviada da quinta no início daquele ano, «e
lamento muito, por ti e pelos nossos filhos.» Continuava: «Sei que deve ser perturbador para
uma mulher tão leal e devotada ter um marido tão inepto [num] momento crítico da História
que ele há tanto previu, um marido incapaz de se ajustar a um alto cargo e assim colher alguns
frutos de uma vida de estudo e sacrifício. É esse o teu infortúnio.»

Depois de uma breve discussão e de alguma introspeção conjugal, Dodd e a mulher chegaram
à conclusão de que ele deveria aceitar a proposta do presidente. O que facilitava um pouco a
decisão era a concessão de Roosevelt de que, se a Universidade de Chicago «insistisse», Dodd
poderia regressar dali a um ano. Naquele momento, porém, dissera Roosevelt, precisava dele
em Berlim.

Às duas e meia dessa tarde, com um atraso de trinta minutos e as apreensões


temporariamente suprimidas, Dodd telefonou para a Casa Branca e informou o secretário de
Roosevelt de que aceitaria o emprego. Dois dias depois, o presidente apresentou a nomeação
de Dodd ao Senado, que a ratificou no próprio dia, sem requerer a presença do visado nem as
audições intermináveis que um dia se tornariam habituais para nomeações-chave. A
designação poucos comentários fomentou na imprensa. O New York Times publicou uma
breve referência na página 12 do jornal de domingo, 11 de junho.

O secretário Hull, a caminho de uma conferência económica importante em Londres, não


chegou a ter voto na questão. E, mesmo que tivesse estado presente quando o nome de Dodd
foi mencionado, era provável que pouco tivesse a dizer, já que uma característica emergente
do estilo de governação de Roosevelt era fazer nomeações diretas

38

NO JARDIM DOS MONSTROS


nas agências sem consultar os superiores destas, um traço que incomodava Hull até mais não.
Mais tarde viria a afirmar, todavia, que não tinha quaisquer objeções à nomeação de Dodd,
exceção feita àquilo que via como uma tendência deste para «ultrapassar os limites com um
entusiasmo e uma impetuosidade excessivos e para tergiversar por vezes como o nosso amigo
William Jennings Bryan. Tinha algumas reservas quanto a enviar um bom amigo, por mais
competente e inteligente que fosse, para um lugar sensível como sabia que Berlim era e
continuaria a ser.»

Mais tarde, Edward Flynn, um dos candidatos que recusara o posto levantaria a falsa afirmação
de que Roosevelt telefonara a Dodd por engano — que, em vez disso, tencionava oferecer a
embaixada a um ex-professor de Yale, chamado Walter F. Dodd. O rumor quanto a este erro
deu origem ao epíteto «Dodd da lista telefónica».

Em seguida, Dodd convidou os dois filhos adultos, Martha e Bill, prometendo-lhes uma
experiência única. Também via, naquela aventura, uma oportunidade de, pela última vez,
tornar a ter a família unida. O Old South era muito importante para si, mas a família e o lar
constituíam o seu grande amor e necessidade. Certa noite fria de dezembro, quando Dodd
estava sozinho na quinta, com o Natal a aproximar-se, a filha e a mulher em Paris, onde
Martha estudava durante aquele ano, e Bill também ausente, Dodd sentou-se para escrever
uma carta à filha. Estava com uma disposição algo soturna nessa noite. Já ter dois filhos
adultos parecia-lhe uma impossibilidade; em breve, estava ciente, eles aventurar-se-iam por si
sós e seria inevitável que a ligação que tinham a si e à mulher se tornasse mais ténue. Via a sua
vida como quase gasta e o Old South bem longe de estar completo.

Escreveu: «Minha criança querida, se não te ofendes com este termo? És-me tão preciosa, a
tua felicidade nesta vida atribulada preenche-me de tal forma o coração que nunca deixo de
pensar em ti como uma criança animada e em crescimento; contudo, sei a idade que tens e
admiro o teu raciocínio e a tua maturidade. Já não tenho uma criança.» Falou «dos caminhos à
nossa frente. O teu apenas no início, o meu tão avançado que começo a contar as sombras que
caem à minha volta, os amigos que já partiram, outros também nada seguros

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ERIK LARSON

quanto à sua permanência! É maio e quase dezembro.» Sobre o lar, escreveu que «tem sido a
alegria da minha vida». Agora, porém, todos estavam espalhados pelos quatro cantos do
mundo. «Não suporto a ideia de as nossas vidas seguirem em direções distintas — e restando
tão poucos anos.»
Com a oferta de Roosevelt, surgira uma oportunidade que poderia reuni-los a todos de novo,
mesmo que apenas durante algum tempo.

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CAPITULO 3

A ESCOLHA

Dada a crise económica da nação, o convite de Dodd não poderia ser aceite de ânimo leve.
Martha e Bill tinham a sorte de estarem empregados — Martha como assistente editorial do
jornal Chicago Tribune, Bill como professor de História e académico em formação —, ainda
que, até então, o jovem tivesse avançado na carreira de forma tão apagada que o pai se
desalentava e preocupava. Numa série de cartas enviadas à mulher em abril de 1933, Dodd
deu vazão aos seus receios quanto ao filho. «O William é um ótimo professor, mas abomina
qualquer espécie de trabalho árduo.» Distraía-se demasiado, escreveu Dodd, sobretudo se
houvesse um automóvel por perto. «Nunca poderemos ter um carro em Chicago, se queremos
ajudá-lo a prosseguir nos estudos», declarou Dodd. «A existência de um carro com rodas é
uma tentação demasiado forte.»

Martha, por seu turno, tinha sido muito mais bem-sucedida no seu trabalho, o que encantava
o pai, embora o inquietasse o tumulto da sua vida pessoal. Apesar de amar profundamente os
dois filhos, era Martha o seu grande orgulho. (A primeira palavra que dissera, de acordo com
registos familiares, fora «Papá».) Media um metro e sessenta, era loura, tinha olhos azuis e um
grande sorriso. Com uma imaginação romântica e modos sedutores, inflamara as paixões de
muitos homens, tanto jovens como não tão jovens.

Em abril de 1930, quando tinha apenas 21 anos, ficara noiva de um professor de Inglês da
Universidade Estatal de Ohio, chamado Royall Henderson Snow. Em junho, o noivado estava
cancelado. Teve uma breve relação com um romancista, W. L. River, cujo Death of a Young Man
[Morte de um Jovem] fora publicado vários anos antes. Chamava-lhe «Motsie» e declarava-se-
lhe em cartas compostas por

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ERIK LARSON
frases espantosamente longas; num dos casos, setenta e quatro linhas datilografadas a um
espaço. Na altura, aquilo fazia-se passar por prosa experimental. «Nada quero da vida para
além de ti», escreveu ele, «quero estar contigo para sempre, trabalhar e escrever para ti, viver
onde quer que vivas, amar nada nem ninguém que não tu, amar-te com a paixão da terra, mas
também com os elementos superiores à terra, do amor mais eterno e espiritual[...]»

Contudo, não obteve o que desejava. Ela apaixonou-se por outro homem, um jovem natural de
Chicago chamado James Burnham, que, nas suas cartas, falava de «beijos suaves, leves como
toque de uma pétala». Ficaram noivos. Daquela vez, Martha parecia preparada para ir em
frente, até que, certa noite, todas as suposições que tinha em relação ao casamento iminente
se desmoronaram. Os pais tinham convidado várias pessoas para uma reunião na casa da
família, na Blackstone Avenue, entre as quais se encontrava George Bassett Roberts, veterano
da Grande Guerra que se tornara vice-presidente de um banco de Nova Iorque. Os amigos
tratavam-no simplesmente por Bassett. Morava em Larchmont, um subúrbio a norte da
cidade, com os pais. Era alto e elegante, com lábios cheios. Uma cronista de jornal sua
admiradora, ao escrever acerca da promoção dele, observara: «Tem um rosto barbeado e
suave. Uma voz delicada. Tende a falar lentamente [...] Nada nele sugere um banqueiro
antiquado e férreo ou um estatístico árido.»

No início, vendo-o no meio dos outros convidados, Martha não o julgou terrivelmente
atraente, mas, quando a noite ia já avançada, deparou-se com ele afastado dos restantes, só.
Ficou «impressionada», escreveu ela. «Senti dor e doçura, como uma flecha em pleno voo,
quando tornei a ver-te, separado dos outros, no corredor da nossa casa. Parece absolutamente
ridículo, mas foi mesmo assim, a única vez que soube o que era o amor à primeira vista.»

Bassett ficou igualmente emocionado e assim deram início a um romance à distância, cheio de
energia e paixão. Numa carta de 19 de setembro de 1931, ele escreveu: «Que divertida foi
aquela tarde na piscina e que encantadora foste depois de eu ter tirado o fato de banho!» E,
uma linhas abaixo: «Oh, deuses, que mulher, que mulher!». Nas palavras de Martha, ele
«deflorou-a». Ele chamava-lhe «fofinha» e «fofinha mia».

42

NO JARDIM DOS MONSTROS

Mas confundia-a. Não tinha o comportamento que ela esperava de um homem. «Nunca antes
ou desde então amei ou fui tão amada sem que, passado pouco tempo, recebesse um pedido
de casamento!», escreveu-lhe ela anos depois. «Por isso, sentia-me profundamente magoada
e creio bem que havia bichos da madeira a corroer a árvore do meu amor!» Martha foi a
primeira a querer casar-se, mas ele tinha dúvidas. Ela manipulava-o. Mantinha o noivado com
Burnham, o que, como é óbvio, deixava Bassett louco de ciúmes. «Ou me amas, ou não me
amas», escreveu-lhe ele de Larchmont, «e, se amas e estás na plena posse do teu juízo, não
podes casar com outro.»

Por fim, ambos cederam e casaram, em março de 1932, mas uma prova da incerteza que
perdurava neles foi o facto de terem decidido guardar segredo a respeito do casamento,
mesmo dos amigos. «Eu amei-te e tentei "conquistar-te" desesperadamente durante muito
tempo, mas depois, talvez devido à exaustão provocada por esse esforço, o próprio amor
esgotou-se», escreveu Martha. E então, no dia a seguir ao casamento, Bassett cometeu um
erro fatal. Já era suficientemente mau que ele tivesse de regressar a Nova Iorque e ao seu
emprego no banco, mas pior foi não lhe ter enviado flores nesse dia — um erro «trivial», como
ela viria a declarar, mas emblemático de algo mais profundo. Pouco depois, Bassett viajou para
Genebra para assistir a uma conferência internacional sobre ouro e, ao fazê-lo, cometeu outro
erro do género, não lhe telefonando antes de partir para «demonstrar nervosismo quanto ao
nosso casamento e à iminente separação geográfica».

Passaram o primeiro ano do casamento afastados, com reuniões frequentes em Nova Iorque e
Chicago, mas aquela separação física ampliava as pressões a que a relação estava sujeita. Mais
tarde, ela reconheceria que deveria ter ido morar com ele para Nova Iorque e transformado a
viagem a Genebra numa lua de mel, como Bassett tinha sugerido. Contudo, mesmo então ele
parecera incerto. Num telefonema, perguntara-se em voz alta se o casamento deles não teria
sido um erro. «Foi a gota de água», escreveu Martha. Por essa altura, ela tinha começado a
flirtar — palavra usada por ela — com outros homens e envolvera-se com Carl Sandburg, um
amigo de longa data dos

43

ERIK LARSON

pais, que ela conhecia desde os seus quinze anos. Ele enviava-lhe poemas em pequenos
pedaços de papel recortados com formas irregulares; enviou-lhe também duas madeixas do
seu cabelo louro, presos com linha preta. Numa nota, proclamava: «Amo-te mais do que
dissesse que te amo com gritos de Shenandoah (Referência a música tradicional norte-
americana, com o título Oh Skenandoah, que fala do amor de um viajante pela filha de um
chefe índio; o viajante deseja levá-la consigo para o Oeste. (N. da T.)) e suspiros ténues de
chuva azul.» Martha dava a entender o suficiente a Bassett para o atormentar. Como lhe diria
mais tarde: «Estava ocupada a cuidar das minhas feridas e a magoar-te com o Sandburg e
outros.»
Todas estas forças se coligaram certo dia no relvado da casa dos Dodd, na Blackstone Avenue.
«Sabes porque foi realmente que o nosso casamento não resultou?», escreveu ela. «Porque
era demasiado imatura e jovem, mesmo com 23 anos, para querer deixar a minha família! O
meu coração partiu-se quando o meu pai me disse, enquanto remexia em qualquer coisa no
nosso relvado da frente, pouco depois de teres casado comigo: "Então a minha querida
menina quer deixar o seu velho pai."»

E agora, no meio de todo aquele tumulto pessoal, o pai abordava-a com um convite para que
se lhe juntasse em Berlim e, de súbito, ela estava perante uma escolha: Bassett e o banco e,
por fim, inevitavelmente, uma casa em Larchmont, filhos, um relvado — ou o pai, Berlim e
quem sabia o que mais?

O convite do pai parecia-lhe irresistível. Depois, diria a Bassett: «Tinha de optar: ou ele e
"aventura", ou tu. Não poderia ter evitado a escolha que tomei.»

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CAPITULO 4

TERROR

Na semana seguinte, Dodd apanhou um comboio para Washington onde, na sexta-feira, 16 de


junho, se encontrou com Roosevelt para um almoço, que foi servido em duas bandejas
colocadas na secretária do presidente.

O presidente, sorridente e animado, lançou-se com óbvio regozijo numa história sobre a
recente visita a Washington do diretor do Reichsbank, Hjalmar Schacht (de seu nome completo
Hjalmar Horace Greeley Schacht), que detinha o poder de determinar se a Alemanha pagaria a
sua dívida aos credores norte-americanos. Roosevelt explicou que tinha instruído o secretário
Hull a recorrer a estratagemas para desarmar a lendária arrogância de Schacht. Este deveria
ser levado ao gabinete de Hull, onde teria de permanecer de pé em frente à secretária deste,
que deveria agir como se Schacht não se encontrasse lá e «fingir-se completamente absorto na
procura de uns documentos, deixando Schacht à espera e sem que lhe dessem atenção
durante três minutos», como Dodd recordou a história. Por fim, Hull acharia o que procurava
— uma nota severa de Roosevelt, a condenar qualquer tentativa que a Alemanha fizesse para
um incumprimento. Só então Hull se levantaria e cumprimentaria Schacht, aproveitando em
simultâneo para lhe entregar a nota. O propósito daquela atuação, disse Roosevelt a Dodd,
«era tirar alguma arrogância à postura alemã». O presidente parecia convicto de que o plano
funcionara extremamente bem.
Então, Roosevelt conduziu a conversa para aquilo que esperava de Dodd. Em primeiro lugar,
referiu a questão da dívida germânica, expressando uma certa ambivalência. Reconhecia que
os banqueiros

ERIK LARSON

norte-americanos tinham obtido aquilo a que chamava «lucros exorbitantes» emprestando


dinheiro a empresas e cidades alemãs e vendendo obrigações a cidadãos dos Estados Unidos.

«Mas o nosso povo tem direito a ser ressarcido e, ainda que isso esteja completamente para lá
da responsabilidade governamental, quero que faça tudo o que puder para evitar uma
moratória.» — Uma suspensão alemã dos pagamentos. «Isso propiciaria um atraso na nossa
recuperação.»

Em seguida, Roosevelt concentrou-se naquilo a toda a gente parecia dar o nome de


«problema» ou «questão» judaica.

Para o presidente, era terreno pantanoso. Ainda que estivesse abismado com o tratamento
nazi dado aos judeus e ciente da violência que agitara a Alemanha nos primeiros meses do
ano, refreava-se quanto a emitir alguma declaração direta de condenação. Alguns líderes
judaicos, como o rabi Wise, o juiz Irving Lehman e Lewis L. Strauss, sócio da Kuhn, Loeb &
Company, queriam que Roosevelt se pronunciasse; outros, como Félix Warburg e o juiz Joseph
Proskauer, favoreciam a abordagem mais discreta de urgir o presidente a facilitar a entrada de
judeus nos Estados Unidos. A relutância que Roosevelt demonstrava a ambas as aproximações
era enlouquecedora. Em novembro de 1933, Wise descrevê-lo-ia como «indiferente, incurável
e até inacessível, exceto àqueles, de entre os seus amigos judeus, que sabe não irem
importuná-lo com quaisquer problemas judaicos.» Félix Warburg escreveu: «Até agora, as suas
promessas vagas não se materializaram em qualquer ação.» Até o grande amigo de Roosevelt,
Félix Frankfurter, um professor de Direito em Harvard que ele mais tarde nomearia para o
Supremo Tribunal, se viu incapaz de instar o presidente a agir, para grande frustração sua.
Todavia, o presidente tinha noção de que os custos políticos de qualquer condenação da
perseguição nazi ou qualquer esforço óbvio para facilitar a entrada de judeus nos Estados
Unidos seriam, muito provavelmente, imensos, pois o discurso político norte-americano
enquadrara a questão judaica como um problema de imigração. A perseguição germânica aos
judeus implicava o espectro de um vasto influxo de refugiados judeus, numa altura em que o
país sofria com a Depressão. Os isolacionistas

46
NO JARDIM DOS MONSTROS

acrescentavam outra dimensão ao debate insistindo, tal como o governo de Hitler, que a
opressão nazi dos judeus alemães era um assunto interino da Alemanha e, como tal, não seria
da conta dos Estados Unidos.

Até os judeus norte-americanos se encontravam profundamente divididos quanto à


abordagem a fazer a este problema. Por um lado, havia o Congresso Judaico Americano, que
apelava a todas as formas de protesto, incluindo marchas e um boicote a produtos alemães.
Um dos líderes com maior visibilidade era o rabi Wise, presidente honorário que, em 1933,
estava a ficar cada vez mais frustrado com a falta de tomada de posição pública de Roosevelt.
Numa viagem a Washington na qual Wise tentou, em vão, encontrar-se com o presidente, o
rabi escreveu à esposa: «Se ele recusar receber-me, regressarei e desencadearei uma
avalanche de reivindicações de medidas a tomar para com a comunidade judaica. Tenho mais
algumas coisas na manga. Talvez seja melhor, pois ficarei com uma liberdade de discurso que
me permitirá falar como nunca antes. E, com a ajuda de Deus, lutarei.»

Do outro lado encontravam-se grupos judaicos alinhados com o Comité Judaico Americano,
que aconselhavam um caminho mais pacífico, receando que protestos barulhentos e boicotes
servissem somente para piorar a situação dos judeus que ainda se encontravam na Alemanha.
Entre os que partilhavam este ponto de vista contava-se Leo Wormser, um advogado judeu de
Chicago. Numa carta dirigida a Dodd, Wormser dizia-lhe que «nós, em Chicago [...] temo-nos
oposto em absoluto ao programa do Sr. Samuel Untermeyer e do Dr. Stephen Wise para
incentivar um boicote judaico aos produtos alemães.» Tal boicote, explicava ele, poderia
estimular uma perseguição mais intensa dos judeus alemães «e nós sabemos que, para muitos
deles, a situação poderá tornar-se ainda pior do que já é.» Afirmava também que um boicote
«dificultaria os esforços de amigos na Alemanha no sentido de instar a uma atitude
conciliatória, apelando a razão e ao interesse próprio da nação» e poderia ser um entrave à
capacidade de a Alemanha pagar a sua dívida aos credores norte-americanos. Receava as
repercussões de um ato que seria identificado apenas com os judeus. Disse a Dodd: «sentimos
que o boicote, se dirigido e publicitado por judeus, irá turvar a questão, que não deverá

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ERIK LARSON
ser "irão os judeus sobreviver", mas sim "irá a liberdade sobreviver".» Como Ron Chernow
escreveu em The Warburgs, «Uma divisão fatal minava o "mundo judaico", não obstante os
nazis proclamarem que este operava seguindo uma vontade única e implacável.»

No que ambas as facões concordavam, porém, era na certeza de que qualquer campanha que,
explícita e publicamente, procurasse aumentar a imigração judaica nos Estados Unidos só
poderia ter resultados desastrosos. No início de junho de 1933, o rabi Wise escreveu a Félix
Frankfurter, naquela altura ainda docente em Harvard, afirmando que, se o debate sobre a
imigração chegasse à Câmara dos Representantes, poderia «conduzir a uma explosão contra
nós». Na verdade, o sentimento anti-imigração nos Estados Unidos manter-se-ia forte ainda
em 1938, quando uma sondagem da revista Fortune revelou que cerca de dois terços dos
inquiridos eram favoráveis à manutenção dos refugiados fora do país.

Mesmo no seio da administração de Roosevelt havia uma profunda divisão quanto a este
tema. A secretária do Trabalho, Frances Perkins, a primeira mulher na história dos Estados
Unidos a deter um cargo governamental, tentava vigorosamente levar a administração a fazer
algo que facilitasse a entrada dos judeus na América. O seu departamento supervisionava as
práticas e a política de imigração, mas não tinha qualquer papel na atribuição ou negação de
vistos. Isso cabia ao Departamento de Estado e aos seus cônsules estrangeiros, que tinham
uma visão bem diferente das coisas. Na realidade, alguns dos funcionários mais antigos do
departamento não escondiam o desagrado que sentiam em relação aos judeus.

Um destes era William Phillips, subsecretário de Estado, o homem no posto mais alto do
departamento, a seguir ao secretário Hull. A mulher de Phillips e Eleanor Roosevelt eram
amigas de infância; fora FDR, não Hull, quem nomeara o subsecretário. No seu diário, Phillips
descrevia um parceiro de negócios como «o meu amiguinho judeu de Boston». Adorava visitar
Atlantic City, mas, noutra entrada do diário, escreveu: «A cidade está infestada de judeus. De
facto, toda aquela cena de praia no sábado à tarde e no domingo foi uma visão extraordinária
— quase não se vislumbrava areia, a praia estava pejada de judeus e judias escassamente
vestidos.»

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Outro funcionário numa posição-chave, Wilbur J. Carr, secretário de Estado adjunto que
detinha o controlo geral do serviço consular, chamava kikes (Termo pejorativo dado aos
judeus; de origem incerta, e remontando ao início do século xx; uma das explicações
encontradas é a possibilidade de provir da noção generalizada de que muitos apelidos
judaicos, sobretudo de imigrantes judeus russos, terminavam em «ky» ou «ki». (N. da T.)) aos
judeus. Num memorando sobre imigrantes russos e polacos, escreveu: «São nojentos,
antiamericanos e, muitas vezes, têm hábitos perigosos.» Depois de uma viagem a Detroit,
descreveu a cidade como estando cheia de «pó, fumo, sujidade, judeus». Também se queixava
da presença judaica em Atlantic City. Com a esposa, passou lá três dias num mês de fevereiro
e, para cada um dos dias, fez um comentário que denegria judeus. «Em todo o nosso dia de
passeio ao longo do Boardwalk(Trata-se do primeiro passadiço à beira-mar construído nos
Estados Unidos. Data de 1870 e percorre uma extensão de seis quilómetros. (N. da T.)), poucos
gentios vimos», escreveu ele no primeiro dia. «Judeus por todo o lado e da espécie mais
vulgar.» Nessa noite ele e a mulher jantaram no hotel Claridge e depararam-se com o salão de
jantar apinhado de judeus «e raros tinham boa aparência. Só dois homens, para além de mim,
envergavam casaca. Um ambiente muito desleixado no salão de jantar.» Na noite seguinte, os
Carr foram jantar a um hotel diferente, o Marlborough-Blenheim, que acharam bem mais
refinado. «Agrada-me», escreveu Carr. «Que diferente é da atmosfera judaica do Claridge.»

Um oficial do Comité Judaico Americano descrevia Carr como «um antissemita e impostor, que
fala muito bem e nada faz por nós.»

Tanto Carr como Phillips favoreciam uma adesão estrita a uma medida acautelada nas leis da
imigração que barrava a entrada a todos os potenciais imigrantes que «pudessem tornar-se
um encargo público», a famigerada «cláusula LPC( Sigla que resume os termos originais da
cláusula, Likely to become a Public Charge. (N. da T.))». Componente da Lei de Imigração de
1917, foi reinstaurada pelo governo de Hoover em 1930, para desencorajar a imigração numa
altura em que o desemprego atingia níveis elevadíssimos. Os funcionários consulares
detinham grande poder sobre quem ia para os Estados Unidos, pois eram os únicos com

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ERIK LARSON

a competência para decidir que candidatos ao visto poderiam ser excluídos com base na
cláusula LPC. A lei da imigração também requeria que os candidatos apresentassem uma
declaração da Polícia que atestasse o seu bom carácter, bem como cópias em duplicado de
certidões de nascimento e outros registos governamentais. «Parece bastante estapafúrdio»,
escreveu um memorista judeu, «ter de pedir ao inimigo que nos passe um atestado de bom
carácter.»

Os ativistas judeus declaravam que os consulados norte-americanos no estrangeiro tinham


sido discretamente instruídos a só emitir uma fração dos vistos permitidos a cada país,
acusação que se revelaria verdadeira. O próprio advogado do Departamento do Trabalho
Charles E. Wyzanski, descobriu, em 1933, que os cônsules tinham recebido instruções verbais
para limitarem as aprovações de vistos a dez por cento do total da quota nacional permitida.
Os líderes judeus reclamavam, para mais, que o ato de obter registos criminais se tornara não
apenas difícil, mas perigoso — «um obstáculo quase insuperável», de acordo com as palavras
do juiz Proskauer, numa carta dirigida ao subsecretário Phillips.

Phillips ofendeu-se com a descrição feita por Proskauer, que via os cônsules como obstáculos.
«O cônsul», redarguiu, com uma crítica velada, «está meramente preocupado com determinar,
de forma útil e ponderada, se os candidatos ao visto correspondem aos requisitos da lei.»

Um dos resultados, segundo Proskauer e outros líderes judeus, era que os judeus
simplesmente não se candidatavam a emigrar para os Estados Unidos. Na verdade, o número
de alemães que requereram vistos constituía uma fração mínima dos 26 000 permitidos pela
quota anual determinada para o país. Essa disparidade dava aos funcionários do
Departamento de Estado um poderoso argumento estatístico para se oporem à reforma: como
seria possível que houvesse um problema, quando eram tão poucos os judeus a candidatar-se?
Tratava-se de um argumento que Roosevelt, em abril de 1933, parecia aceitar. Ele sabia
também que qualquer esforço para liberalizar as regras da imigração seria bem capaz de instar
o Congresso a reagir com reduções drásticas das quotas existentes.

Quando almoçou com Dodd, o presidente estava bastante ciente das sensibilidades em jogo.

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NO JARDIM DOS MONSTROS

«As autoridades alemãs estão a tratar os judeus de uma forma vergonhosa e os judeus neste
país encontram-se muito agitados», disse-lhe Roosevelt. «Porém, isto não é uma questão
governamental. Nada podemos fazer, exceto pelos cidadãos norte-americanos que sejam
vitimizados. Precisamos de os proteger e tudo o que possamos fazer para mitigar a
perseguição através de influências oficiosas e pessoais terá de ser feito.»

A conversa avançou para assuntos práticos. Dodd insistia que subsistiria com o salário que lhe
fora atribuído, de 17 500 dólares, bastante dinheiro durante a Depressão, mas uma soma
escassa para um embaixador que teria de receber diplomatas europeus e funcionários nazis.
Para Dodd, era uma questão de princípio: opunha-se a que um embaixador levasse uma vida
extravagante, quando o resto da nação sofria. Para ele, contudo, tratava-se de um quesito
inexistente, já que carecia da fortuna independente que tantos outros embaixadores possuíam
e, por conseguinte, não poderia ter vivido com extravagância, mesmo que assim o desejasse.

«Tem toda a razão», disse-lhe Roosevelt. «Para além de dois ou três jantares formais e outros
eventos, não precisa de se exceder em quaisquer encontros sociais dispendiosos. Tente prestar
atenção suficiente a norte-americanos que se encontrem em Berlim e jantar ocasionalmente
com alemães interessados nas relações com os Estados Unidos. Julgo que poderá subsistir com
o seu salário sem sacrificar qualquer parte essencial da função.»

Depois de mais alguns reparos quanto a tarifas comerciais e redução de armamento, o almoço
chegou ao fim.

Eram duas da tarde. Dodd deixou a Casa Branca e foi a pé até ao Departamento de Estado,
onde tencionava encontrar-se com vários funcionários e ler despachos enviados de Berlim,
nomeadamente os longos relatórios escritos pelo cônsul-geral George S. Messersmith. Esses
relatórios eram desconcertantes.

Hitler era chanceler havia seis meses, tendo sido nomeado através de um acordo político, mas
ainda não detinha poder absoluto. Aos oitenta e cinco anos, o presidente alemão, o marechal
de campo Paul

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ERIK LARSON

von Beneckendorff und von Hindenburg, ainda tinha autoridade constitucional para nomear e
demitir chanceleres e os seus governos e, o que era igualmente importante, concentrava a
lealdade do exército oficial, o Reichswehr. Em comparação com Hindenburg, Hitler e os seus
delegados eram surpreendentemente jovens — Hitler tinha apenas quarenta e quatro anos,
Hermann Gõring, quarenta, e Joseph Goebbels, trinta e seis.

Uma coisa era ler artigos jornalísticos sobre o comportamento errático de Hitler e a
brutalidade do seu governo contra os judeus, comunistas e outros oponentes, pois a opinião
pública norte-americana considerava em larga escala que tais relatos teriam de ser
exagerados, que decerto nenhum estado moderno poderia agir de tal forma. Contudo, ali, no
Departamento de Estado, Dodd leu relatório atrás de relatório, seguindo a descrição que
Messersmith fazia do rápido declínio da Alemanha de república democrática a ditadura brutal.
Messersmith não ocultava pormenores — a tendência que tinha para se alongar na escrita
desde cedo o deixara com a alcunha «George das Quarenta Páginas». Escrevia acerca da
violência disseminada que ocorrera nos vários meses após a indigitação de Hitler e do
crescente controlo que o governo exercia sobre todos os aspetos da sociedade alemã. A 31 de
março, três cidadãos norte-americanos tinham sido raptados e levados para um dos postos de
espancamento das Tropas de Assalto, onde tinham sido privados das roupas e deixados ao frio
durante a noite. Ao nascer do dia, foram espancados até perderem os sentidos, sendo então
largados no meio da rua. Um correspondente da United Press desaparecera, mas, depois de
Messersmith ter indagado por ele, fora libertado, ileso. O governo de Hitler declarara um
boicote de um dia a todos os negócios de judeus na Alemanha — lojas, firmas de advogados,
clínicas médicas. E havia os livros queimados, os despedimentos de judeus em empresas, as
aparentemente intermináveis marchas das Tropas de Assalto e a supressão da imprensa livre
alemã, em tempos vibrante, e que, de acordo com o cônsul-geral, fora submetida ao controlo
governamental num grau mais elevado do que «provavelmente alguma vez existiu em
qualquer país. A censura da imprensa pode ser considerada absoluta.»

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Num dos últimos relatórios, porém, Messersmith assumia um tom marcadamente mais
otimista, o que Dodd sem dúvida terá achado reconfortante. Com um otimismo
incaracterístico em si, Messersmith transmitia então ver sinais de que a Alemanha estava a
ficar mais estável e atribuía-o à confiança crescente de Hitler, Gõring e Goebbels. «A
responsabilidade já alterou os principais líderes do Partido de forma muito considerável»,
escreveu ele. «Há muitas provas de que estão a tornar-se cada vez mais moderados.»

Todavia, Dodd não chegou a ter oportunidade de ler uma carta que Messersmith escreveu
pouco depois, na qual refutava aquela avaliação mais animada. Com o rótulo «Pessoal &
Confidencial», o cônsul-geral enviou-a ao subsecretário Phillips. A missiva, datada de 26 de
junho de 1933, chegou a Phillips quando os Dodd se preparavam para partir para Berlim.

«Tentei salientar nos meus despachos anteriores que os líderes mais proeminentes do partido
estão a ficar mais moderados, enquanto os dirigentes intermediários e as massas continuam
tão radicais como sempre, e que a questão é se os dirigentes serão capazes de impor a sua
vontade de moderação às massas», escreveu Messersmith. «Começa a parecer bem claro que
não conseguirão fazê-lo e ainda que a pressão exercida a partir de baixo se torna cada vez mais
forte.» Gõring e Goebbels, sobretudo, já não pareciam assim tão moderados, escreveu ele. «O
Dr. Goebbels prega todos os dias que a revolução está tão-só no início e que o que até agora
foi feito não passa de uma abertura.»

Havia padres a serem presos. Um antigo presidente da Baixa Silésia, que Messersmith
conhecia pessoalmente, fora levado para um campo de concentração. Ele pressentia uma
«histeria» crescente entre os dirigentes intermediários do partido nazi, expresso na noção de
«que a única segurança alcançada é prendendo toda a gente». A nação estava, discreta mas
agressivamente, a preparar-se para a guerra, servindo-se de propaganda para conjurar a
perceção de que «o mundo inteiro está contra a Alemanha e que esta se encontra indefesa
perante o mundo.» Os votos de Hitler de intenções pacíficas eram uma mera ilusão, com o
único objetivo de dar mais tempo à nação para se rearmar, avisava Messersmith. «O que eles
mais querem, em definitivo,

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ERIK LARSON

é transformar a Alemanha no instrumento de guerra mais capaz que alguma vez existiu.»

Ainda em Washington, Dodd participou numa receção organizada pela embaixada alemã, na
qual se encontrou, pela primeira vez, com Wilbur Carr. Mais tarde, este esboçaria uma breve
descrição de Dodd no seu diário: «Uma pessoa agradável e interessante com um belo sentido
de humor e uma modéstia simples.»

Dodd também visitou o responsável pela Europa Ocidental do Departamento de Estado, Jay
Pierrepont Moffat, que comungava do desagrado de Carr e Phillips por judeus, bem como da
atitude férrea em relação à imigração. Moffat registou a sua impressão do novo embaixador:
«É extremamente seguro da sua opinião, expressa-se vigorosa e didaticamente e tende a
dramatizar as questões que apresenta. O único senão é que vai tentar gerir a embaixada com
uma família de quatro pessoas dependentes do seu salário; como irá fazê-lo em Berlim, onde
os preços são elevados, é algo que me ultrapassa.»

O que nem Carr nem Moffat referiram nestas entradas foram a surpresa e o desagrado com
que eles e muitos dos seus pares tinham recebido a notícia da nomeação de Dodd. Habitavam
um reino reservado à elite, no qual apenas homens com um certo pedigree poderiam esperar
uma rápida admissão. Muitos tinham frequentado os mesmos liceus privados, sobretudo St.
Paul’s e Groton, de onde tinham ido para Harvard, Yale e Princeton. O subsecretário Phillips
crescera no bairro Back Bay de Boston, numa monstruosa casa vitoriana. Aos vinte e um anos
já tinha fortuna própria e, mais tarde, tornar-se-ia um dos regentes da Universidade de
Harvard. A maioria dos seus pares no Departamento de Estado também tinha dinheiro e,
quando se encontrava no estrangeiro, despendia grandes somas dos seus próprios fundos,
sem esperar reembolso. Um desses funcionários, Hugh Wilson, para elogiar os colegas
diplomatas, escreveu: «Todos partilhavam o sentimento de pertencerem a um clube bem-
bom. Esse sentimento forjou um saudável esprit de corps.»

Pelos padrões do clube, Dodd era o candidato menos apto possível.

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Regressou a Chicago para preparar as malas e participar em várias cerimónias de despedida,


após as quais ele, a esposa, Martha e Bill apanharam o comboio para a Virgínia, para uma
última estada na quinta em Round Hill. O seu pai, John, que tinha oitenta e seis anos, vivia
relativamente perto, na Carolina do Norte, mas Dodd, em primeira instância, apesar de desejar
que os seus próprios filhos se mantivessem por perto, não fazia tenções de o visitar, já que
Roosevelt queria o seu novo embaixador em Berlim o mais depressa possível. Dodd escrevera-
lhe, contando-lhe que fora nomeado para aquele cargo e que não teria tempo para o visitar
antes de partir. Juntou algum dinheiro na carta, declarando: «Lamento ter passado toda a vida
tão longe.» O pai respondera de imediato, dizendo-se muito orgulhoso por ele ter recebido
«esta grande honra de Washington», mas acrescentara aquela tintura avinagrada que só os
pais parecem saber aplicar - aquela pequena coisa que inflama a culpa e altera planos. O idoso

Dodd escreveu: «Se não voltar a ver-te, não fará mal, pois poderei ter orgulho de ti até às
últimas horas que viva.»

Dodd alterou os seus planos. A 1 de julho, um sábado, ele e a mulher embarcaram num
comboio com carruagens-cama, com destino à Carolina do Norte. Durante a estada com o pai
dele, tiveram tempo para visitar os pontos importantes da zona. O casal tocou na velha terra,
como se se despedisse pela última vez. Visitaram o cemitério da família, onde Dodd se postou
diante da campa da mãe, que morrera em 1909. Enquanto caminhava por entre a relva,
deparou-se com as sepulturas de antepassados envolvidos na Guerra Civil, incluindo dois que
se tinham rendido com o general Robert E. Lee, em Appomattox. Foi uma visita preenchida por
lembranças de «infortúnio familiar» e da precariedade da vida. «Um dia bastante triste»,
escreveu ele.

Regressaram à Virgínia e à quinta, partindo então de comboio para Nova Iorque. Martha e Bill
foram no Chevrolet da família, com o objetivo de o deixar no porto, de onde seria
transportado para Berlim.

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ERIK LARSON
Dodd teria preferido passar os dois dias seguintes com a família mas o departamento insistira
para que, assim que chegasse a Nova Iorque, participasse num conjunto de reuniões com
executivos bancários, para debater a questão da dívida alemã — tema que pouco lhe
interessava —, e com líderes judeus. Dodd receava que a imprensa quer a norte-americana,
quer a alemã, retratasse aquelas reuniões de forma a manchar a aparência de objetividade
que ele desejava projetar em Berlim. Não obstante, obedeceu e o resultado foi um dia de
encontros que evocava a série de visitas de fantasmas no conto de Dickens, Um Cântico de
Natal. Uma carta de um proeminente ativista pelo apoio aos judeus informava-o que seria
visitado na noite de segunda-feira, 3 de julho, por dois grupos de homens, o primeiro pelas
20h30, o segundo às 21. Os encontros teriam lugar no Century Club, a base de Dodd enquanto
estivesse em Nova Iorque.

Primeiro, contudo, Dodd encontrou-se com os banqueiros, fa-zendo-o nos escritórios do


National City Bank of New York, que, anos depois, viria a chamar-se Citibank. Dodd ficou
alarmado ao saber que o National City Bank e o Chase National Bank detinham mais de cem
milhões de dólares em obrigações germânicas, que a Alemanha se propunha então a saldar à
taxa de trinta cêntimos por dólar. «Falou-se muito, mas não se chegou a conclusão alguma,
para além de que eu deveria fazer tudo o que pudesse para impedir que a Alemanha entrasse
abertamente em incumprimento», escreveu Dodd. Nutria pouca simpatia em relação aos
banqueiros. A perspetiva de elevadas taxas de juro sobre as obrigações alemãs cegara-os aos
riscos por demais óbvios de que um país esmagado pela guerra e politicamente instável
pudesse entrar em incumprimento.

Nessa noite, os líderes judaicos chegaram, conforme planeado, encontrando-se entre eles Félix
M. Warburg, um financeiro importante que tendia a favorecer as táticas mais discretas do
Comité Judaico Americano, e o rabi Wise, do mais turbulento Congresso Judaico Americano.
No seu diário, Dodd anotou: «Durante uma hora e meia, a discussão alongou-se: os Alemães
matam judeus a toda a hora; os judeus estão a ser de tal forma perseguidos que o suicídio se
tornou comum (diz-se que há casos destes na família Warburg); e toda a propriedade judaica
está a ser confiscada.»

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Nesta reunião, Warburg terá mencionado o suicídio de dois parentes idosos, Moritz e Kâthie
Oppenheim, em Frankfurt, ocorrido três semanas antes. Mais tarde, o próprio Warburg
escreveria: «não há dúvida de que o regime de Hitler lhes infernizou a vida e que almejavam
pelo fim.»
Os visitantes instaram-no a pressionar Roosevelt quanto a uma intervenção oficial, mas ele
mostrava-se relutante. «Insisti que o governo não poderia intervir oficialmente, mas assegurei
aos membros da conferência que exerceria toda a influência pessoal ao meu alcance contra o
tratamento injusto de judeus alemães e que, claro, protestaria contra maus-tratos a judeus
norte-americanos.»

Depois, Dodd apanhou o comboio das 23 para Boston e, ao chegar na manhã seguinte, a 4 de
julho, foi levado por um carro com motorista para a casa do coronel Edward M. House, um
amigo que era um conselheiro muito próximo de Roosevelt, com quem agendara o pequeno-
almoço.

Durante uma conversa que focou os mais variados assuntos, Dodd ficou a saber, pela primeira
vez, quão longe estava de ter sido a primeira escolha de Roosevelt. A notícia era uma lição de
humildade. Anotou no seu diário que lhe tinha travado qualquer inclinação que tivesse a ser
«exageradamente egotista» quanto à sua nomeação.

Quando a conversa os levou ao tema da perseguição dos judeus, o coronel House urgiu Dodd a
fazer tudo o que pudesse para «aliviar os sofrimentos judaicos», mas acrescentou um aviso:
«não deverá permitir-se que os judeus dominem a vida económica ou intelectual de Berlim,
como tem sido o caso desde há muito.»

Com esta afirmação, o coronel House expressava um sentimento prevalecente nos Estados
Unidos, o de que os judeus alemães eram, pelo menos em parte, responsáveis pelos seus
próprios problemas. Dodd viu-se perante uma forma mais raivosa deste sentimento mais tarde
no mesmo dia, após regressar a Nova Iorque, quando, acompanhado pela família, foi à Park
Avenue jantar no apartamento de Charles R. Crane, de setenta e cinco anos, um filantropo cuja
família enriquecera a vender materiais de canalização. Crane, um arabista sobre quem se dizia
ser influente em certas nações do Médio Oriente e dos

57

ERIK LARSON

Balcãs, era um generoso patrono do departamento de Dodd na Universidade de Chicago, para


a qual financiara uma cátedra para o ensino da história e das instituições russas.

Dodd já sabia que Crane não simpatizava com judeus. Quando algum tempo antes, lhe
escrevera para o congratular pela nomeação oferecera-lhe alguns conselhos: «Os judeus,
depois de vencerem a guerra e galopando a um ritmo bem célere, conquistaram a Rússia a
Inglaterra e a Palestina; ao serem apanhados em flagrante enquanto tentavam apoderar-se
também da Alemanha e ao depararem-se com a primeira verdadeira rejeição, enlouqueceram
e estão a iludir o mundo — em especial, o alvo fácil que é a América — com propaganda
antigermânica —; aconselho-o vivamente a resistir a qualquer convite social.»
Em parte, Dodd aceitava a noção de Crane de que os judeus eram corresponsáveis pela
situação em que se encontravam. Após chegar a Berlim, escreveu-lhe que, ainda que não
«aprovasse a crueldade aplicada aqui aos judeus», considerava de facto que os Alemães
tinham uma razão válida para o rancor que lhes nutriam. «Quando tenho oportunidade de
falar oficiosamente com alemães eminentes, tenho-lhes dito com grande franqueza que eles
tinham um problema muito sério, mas que não pareciam saber resolvê-lo», escreveu. «Os
judeus detiveram muitas mais posições-chave na Alemanha do que aquelas a que o seu
número ou talento lhes dariam direito.»

Nesse jantar, Dodd ouviu Crane declarar grande admiração por Hitler e ficou também a saber
que ele não apresentava objeção alguma à forma como os nazis tratavam os judeus na
Alemanha.

Enquanto os Dodd saíam nessa noite, Crane deu mais um conselho ao embaixador:

«Deixe que Hitler faça como quer.»

Às onze da manhã seguinte, 5 de julho de 1933, os Dodd entraram num táxi que os levou ao
porto e embarcaram no navio Washington, com destino a Hamburgo. Cruzaram-se com
Eleanor Roosevelt, que acabava de desejar bon voyage ao filho, Franklin Jr., que partia para
uma estada na Europa.

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Cerca de uma dúzia de repórteres também enxameavam o navio e encurralaram Dodd no


convés, juntamente com a esposa e Bill. Nesse momento, Martha encontrava-se noutro local
a bordo. Os jornalistas bombardearam-nos com perguntas e instigaram-nos a posar como se
acenassem à laia de despedida. Com relutância, eles acederam escreveu Dodd, «e,
desconhecedores na altura da semelhança com a saudação hitleriana, erguemos as mãos».

As fotografias daí resultantes provocaram um pequeno escândalo, pois pareciam capturar


Dodd, a mulher e o filho a meio de um Heil.

As incertezas de Dodd inflamaram-se. Naquele ponto, tinha começado a abominar a ideia de


deixar Chicago e a sua antiga vida. À medida que o navio se afastava do ancoradouro, a família
sentia aquilo que Martha mais tarde descreveria como «uma quantidade desproporcionada de
tristeza e maus agouros». Quanto a Martha, chorava.
59

CAPÍTULO 5

A PRIMEIRA NOITE

Martha continuou a chorar durante a maior parte dos dois dias seguintes — «copiosa e
sentimentalmente», segundo as suas próprias palavras. Não por ansiedade, pois pouco
pensara no que poderia ser realmente a vida na Alemanha de Hitler. Em contrapartida,
chorava por tudo o que deixava, pelas pessoas e os lugares, os amigos e o emprego, o conforto
familiar da casa da Blackstone Avenue, o seu encantador Carl, tudo aquilo que compunha «o
valor inestimável» da vida que levara em Chicago. Se precisava de um lembrete do que
arriscava perder, os lugares atribuídos na sua festa de despedida tinham funcionado como tal.
Ficara sentada entre Sandburg e outro amigo íntimo, Thornton Wilder.

Gradualmente, a sua mágoa foi-se aliviando. Os mares estavam tranquilos, os dias luminosos.
Ela e o filho de Roosevelt travaram amizade, dançaram e beberam champanhe. Examinaram os
passaportes um do outro — o dele, que o identificava sucintamente como «filho do Presidente
dos Estados Unidos»; o dela algo mais pretensioso: «filha de William E. Dodd, Embaixador
Extraordinário e Plenipotenciário dos Estados Unidos na Alemanha». O pai requeria que ela e o
irmão fossem ao camarote estatal dele, com o número A-10, e lá permanecessem durante,
pelo menos, uma hora por dia, para o escutarem a ler em voz alta em alemão, de forma a
ganharem noção de como soava o idioma. Dodd mostrava-se inusitadamente solene e Martha
pressentia um nervosismo pouco habitual.

Para si, porém, a perspetiva da aventura iminente depressa mitigou a ansiedade. Sabia pouco
acerca de política internacional e, conforme ela mesma reconhecia, não compreendia a
gravidade do que estava a ocorrer na Alemanha. Via Hitler como «um palhaço parecido

60

NO JARDIM DOS MONSTROS

Com o Charlie Chaplin». À semelhança de muita gente na América e noutros locais naquela
altura, não era capaz de o imaginar a manter-se muito tempo em funções ou a ser encarado
com seriedade. Quanto à situação judaica, encarava-a com ambivalência. Enquanto estudante
da Universidade de Chicago, fora alvo de uma «subcorrente de propaganda subtil desenvolvida
por alunos» que proclamava hostilidade para com os judeus. Martha achava que «até muitos
dos professores universitários ressentiam o brilhantismo de colegas e estudantes judeus». No
seu caso: «Eu era ligeiramente antissemita, no seguinte: aceitava a atitude que decretava que
os judeus não eram tão atraentes, fisicamente, como os gentios e que, em termos sociais,
eram menos desejáveis.» Também se via a absorver a ideia de que os judeus, ainda que regra
geral, fossem muito inteligentes, eram ricos e obstinados. Nesta opinião, refletia a atitude de
uma proporção surpreendente de norte-americanos, o que foi capturado nos anos 1930 pelos
praticantes da arte, então incipiente, das sondagens públicas. Uma destas concluiu que 41 por
cento dos contactados julgavam que os judeus tinham «demasiado poder nos Estados
Unidos»; outra concluiu que um quinto queria «expulsar os judeus dos Estados Unidos». (Uma
sondagem efetuada várias décadas depois, em 2009, verificaria que a totalidade de norte-
americanos convictos de que os judeus detinham demasiado poder se reduzira a 13 por
cento.)

Um colega descreveu Martha como Scarlett O'Hara e «uma feiticeira — sensual e loura, com
luminosos olhos azuis e pele pálida e translúcida». Tinha-se em conta de escritora e esperava
acabar por fazer carreira escrevendo contos e romances. Sandburg incentivava-a. «Tens toda a
personalidade necessária», escreveu ele. «Tempo, solidão e esforço são os simples requisitos
antigos; tens praticamente tudo o resto para fazeres o que quiseres como escritora [...]» Pouco
depois da partida da família para Berlim, Sandburg instruiu-a a tomar nota de tudo e a «ceder
a qualquer impulso para escrever coisas curtas, impressões, as frases líricas que tens um dom
para expressar.» Acima de tudo, instava-a, «descobre de que é feito esse homem, Hitler, o que
lhe agita o cérebro, de que são feitos o seu sangue e os seus ossos.»

Thornton Wilder também lhe ofereceu alguns conselhos aquando da despedida. Disse-lhe que
evitasse trabalhar para jornais, pois «escrever a metro» destruir-lhe-ia a concentração de que
precisaria para

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ERIK LARSON

se dedicar à literatura séria. Recomendou-lhe que tivesse um diário no qual registasse «a


aparência das coisas — os rumores e as opiniões das pessoas numa época política». No futuro,
escreveu ele, tal diário poderia revelar-se «do maior interesse para ti e — oh, meu Deus —
para mim». Alguns dos amigos de Martha julgavam que ela também tinha um envolvimento
romântico com Wilder, embora, na realidade, as afinidades dele fossem distintas. Martha
guardava um retrato dele num medalhão.
No segundo dia da travessia, enquanto Dodd percorria o convés do Washington, divisou um
rosto conhecido, o do rabi Wise, um dos líderes judeus com quem se reunira em Nova Iorque
três dias antes. Almoçaram juntos. Durante a semana de viagem que se seguiu, conversaram
acerca da Alemanha «cerca de meia dúzia ou um pouco mais» de vezes, comunicou Wise a
outro líder judeu, Julian W. Mack, juiz do tribunal federal de recurso. «Foi muito amistoso e
cordial, bem como verdadeiramente confidencial.»

Dodd, fiel a si mesmo, alongou-se sobre a história norte-americana e, a dada altura, disse ao
rabi Wise: «Não se pode escrever toda a verdade acerca de Jefferson e Washington — as
pessoas não estão preparadas e têm de o estar.»

Tal declaração sobressaltou Wise, que a descreveu como «a única nota preocupante da
semana». Explicou: «Se as pessoas têm de ficar preparadas para saber a verdade a respeito de
Jefferson e Washington, o que fará [Dodd] com a verdade que, dado o seu posto oficial, ficará
a saber sobre Hitler?!»

Wise prosseguia: «De todas as vezes que lhe sugeri que o maior serviço que poderia prestar ao
seu país seria dizer a verdade ao Chanceler, fazê-lo compreender que a opinião pública,
incluindo a cristã e a política, se tinha voltado contra a Alemanha... Ele insistiu na resposta:
"Não posso comprometer-me até ter falado com Hitler: se concluir que posso fazê-lo, falar-lhe-
ei com grande franqueza e dir-lhe-ei tudo."»

As muitas conversas que tiveram a bordo levaram Wise a concluir «que W. E. D. sente estar
encarregado de cultivar o liberalismo americano

62

NO JARDIM DOS MONSTROS

na Alemanha». Citou o último comentário de Dodd: «Será muito grave se eu falhar — grave
para o liberalismo e para todas as coisas que o presidente defende.» Dodd acrescentou: «Que
eu também defendo.»

Por esta altura, de facto, Dodd começava a encarar o seu papel de embaixador como algo mais
do que o de um mero observador e repórter. Acreditava que, através da razão e do exemplo,
deveria ser capaz de exercer uma influência de moderação em Hitler e no seu governo,
enquanto, em simultâneo, poderia contribuir para desviar os Estados Unidos da rota
isolacionista, em direção a um maior envolvimento internacional. A melhor abordagem, cria
ele, seria a atitude mais compassiva e sem preconceitos possível, tentando compreender a
perceção alemã de o país ter sido lesado pelo mundo. Até certo ponto, Dodd concordava com
tal perceção. No seu diário, escreveu que o Tratado de Versalhes, tão abominado por Hitler,
era «injusto em muitos aspetos, como todos os tratados que põem fim a guerras». A filha
Martha, numas memórias, definiu a situação em termos mais fortes, dizendo que o pai tinha
«deplorado» o tratado.

Sempre um estudante de História, Dodd acreditava na racionalidade inerente ao Homem e que


a razão e a persuasão triunfariam, particularmente quanto a travar a perseguição nazi dos
judeus.

Disse a um amigo, secretário de Estado adjunto, R. Walton Moore, que preferiria demitir-se a
«ser um mero representante protocolar e social».

A família chegou À Alemanha na quinta-feira, 13 de julho de 1933. Erroneamente, Dodd


supunha que todos os preparativos para a chegada deles tinham sido tratados, mas depois de
uma travessia lenta e tediosa do rio Elba, desembarcaram em Hamburgo e descobriram que
ninguém da embaixada reservara passagens de comboio, quanto mais a automotora privada
da praxe, para os levar para Berlim. George Gordon, conselheiro da embaixada, recebeu-os na
doca e apressou-se a comprar passagens num velho comboio convencional, bem distinto do
famoso Fliegender Hamburger, que percorria a distância até Berlim em pouco mais de duas
horas. O Chevrolet da família representava outro problema. Bill Jr. tencionava conduzi-lo até
Berlim,

63

ERIK LARSON

mas não preenchera atempadamente a documentação necessária para o desalfandegar e


colocar em circulação nas estradas alemãs. Quando isso ficou resolvido, Bill partiu. Entretanto,
Dodd ia respondendo às perguntas de um grupo de repórteres no qual se incluía um redator
de um jornal judaico, o Hamburger Israelitisches Familienblatt, que viria a publicar um artigo
com a sugestão de que a missão prioritária de Dodd seria pôr fim à perseguição nazi dos
judeus — exatamente o tipo de distorção que ele esperava evitar.

À medida que a tarde avançava, os Dodd foram desenvolvendo uma antipatia pelo conselheiro
Gordon. Era a segunda figura na cadeia de comando da embaixada e supervisionava um
quadro de primeiros e segundos secretários, estenógrafos, funcionários de arquivo e de
codificação, bem como vários outros empregados, num total de duas dúzias. Era rígido e
arrogante, vestindo-se como um aristocrata do século anterior e transportando uma bengala.
Tinha um bigode encaracolado e uma tez rubicunda e inflamada, sinal daquilo a que um
funcionário chamava «o seu temperamento muito colérico». Falava de uma forma que Martha
descreveu como «entrecortada, educada e, sem dúvida, condescendente». Não tentou sequer
disfarçar o desdém que lhe provocava a aparência simples da família ou o facto de esta ter
chegado sozinha, sem um batalhão de camareiros, criadas e motoristas. O embaixador
anterior, Sackett, era muito mais do género de Gordon, rico e com dez criados na sua
residência de Berlim. Martha pressentia que, para Gordon, a sua família representava uma
classe de seres humanos «com a qual ele talvez não se tivesse permitido ter contacto durante
a maior parte da idade adulta».

Martha e a mãe foram num compartimento, entre ramos de flores que tinham recebido na
doca, como gesto de boas-vindas. A mãe, Mattie, estava pouco à-vontade e abatida, prevendo
«os deveres e a mudança nos padrões de vida» que a esperava, segundo Martha recordou.
Esta encostou a cabeça ao ombro da mãe e depressa adormeceu.

Dodd e Gordon ficaram noutro compartimento, a discutir questões da embaixada e a política


alemã. Gordon avisou-o de que a sua frugalidade e determinação quanto a subsistir somente
com o salário do Departamento de Estado seria um obstáculo a estabelecer uma relação com o
governo de Hitler. Dodd já não era um mero professor,

64

NO JARDIM DOS MONSTROS

lembrou Gordon. Era um diplomata importante a braços com um regime arrogante que só
respeitava a força. A abordagem de Dodd à vida quotidiana teria de mudar.

Sob a luz da tarde, o comboio avançava por vilas pitorescas e vales florestais e, em cerca de
três horas, chegou à área metropolitana de Berlim. Por fim, entrou na Lehrter Banhof de
Berlim, numa curva do rio Spree, que fluía pelo centro da cidade. Sendo uma das cinco
maiores estações ferroviárias de Berlim, impunha-se no ambiente que a rodeava como uma
catedral, com um teto abobadado e fileiras de janelas arqueadas.

Na plataforma, os Dodd depararam-se com uma multidão de americanos e alemães à sua


espera, incluindo funcionários do ministério alemão dos Negócios Estrangeiros e jornalistas
armados com câmaras e inovadores aparelhos com flash. Um homem de ar energético, de
estatura média, com cerca de um metro e setenta — «um homem seco, de fala arrastada e
incisiva», como o historiador e diplomata George Kennan viria a descrevê-lo —, deu um passo
em frente e apresentou-se. Tratava-se de George Messersmith, cônsul-geral, o funcionário do
Serviço Diplomático cujos longos despachos Dodd lera em Washington. Martha e o pai
gostaram imediatamente dele, considerando-o um homem cândido, com princípios e um
amigo em potência, embora esta avaliação estivesse destinada a sofrer uma revisão
significativa.
Messersmith retribuiu a boa vontade inicial. «À partida, gostei de Dodd», escreveu. «Era um
homem de modos e abordagem muito simples.» Reparou, não obstante, que o embaixador
«dava a impressão de ser bastante frágil».

No meio da multidão de boas-vindas, os Dodd também encontraram duas mulheres que, ao


longo dos anos seguintes, representariam papéis importantes na vida da família; uma era
alemã, a outra uma norte-americana de Wisconsin que se casara com um membro de uma das
dinastias académicas mais importantes da Alemanha.

A alemã era Bella Fromm, colunista de sociedade de um periódico altamente respeitado, o


Vossische Zeitung, — «titi Voss» — um dos 200 jornais ainda em circulação em Berlim e, ao
contrário da maioria, ainda capaz de fazer reportagens independentes. Fromm era uma
mulher

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ERIK LARSON

robusta e bonita, com uns olhos impressionantes — ónix sob umas sobrancelhas arqueadas,
com as pupilas parcialmente cobertas pelas pálpebras superiores, de uma forma que
transmitia, em simultâneo intelecto e ceticismo. Tinha a confiança de praticamente todos os
membros da comunidade diplomática da cidade, bem como dos escalões superiores do
partido nazi, o que não era uma façanha de somenos, tendo em conta que era judia. Alegava
ter uma fonte numa posição elevada do governo hitleriano, que a avisava de antemão sobre as
futuras ações do Reich. Era uma amiga próxima de Messersmith; a sua filha, Gonny, chamava-
lhe «tio».

Fromm registou no seu diário a primeira impressão que os Dodd lhe causaram. Martha,
escreveu ela, parecia «um exemplo perfeito de uma jovem americana inteligente». Quanto ao
embaixador, «parece um académico. O seu humor sarcástico atraiu-me. É observador e
preciso. Aprendeu a adorar a Alemanha quando era estudante em Leipzig, disse-me, e
dedicará as suas forças a cimentar uma amizade genuína entre o seu país e a Alemanha.» E
acrescentou: «Espero que ele e o Presidente dos Estados Unidos não se desiludam de
sobremaneira com os seus esforços.»

A segunda mulher, a americana, era Mildred Fish Harnack, representante do Clube de


Senhoras Americanas em Berlim. Em termos físicos, era exatamente o oposto de Fromm —
esguia, loura, etérea, reservada. Martha e Mildred simpatizaram de imediato uma com a
outra. Mais tarde, Mildred escreveria que Martha «é clara e eficiente e tem um desejo
verdadeiro de compreender o mundo. Assim, os nossos interesses tocam-se.» Pressentia que
encontrara uma alma gémea, «uma mulher realmente interessada na escrita. É um óbice estar
só e isolado naquilo que se faz. Ideias estimulam ideias e o amor pela escrita é contagioso.»

Martha, por sua vez, ficou impressionada por Mildred. «Senti-me imediatamente cativada por
ela», escreveu. Mildred demonstrava uma combinação apelativa de força e delicadeza.
«Demorava a falar e a expressar opiniões; ouvia em silêncio, com os grandes olhos azuis-
acinzentados muito sérios... a sopesar, a avaliar, a tentar compreender.»

66
NO JARDIM DOS MONSTROS

O conselheiro Gordon encaminhou Martha para um carro com um jovem secretário de


protocolo, incumbido de a acompanhar ao hotel onde os Dodd se instalariam até encontrarem
uma casa adequada para arrendar. Os pais viajaram noutro automóvel com Gordon,
Messersmith e a esposa deste. O carro de Martha seguiu para sul atravessando a ponte sobre
o Spree para entrar na cidade.

Ela deparou-se com avenidas longas e retas que lhe levavam à memória a grelha rígida de
Chicago, mas as semelhanças ficavam-se por aí. Ao contrário da floresta de arranha-céus que
constituía a paisagem pela qual caminhava todos os dias para ir trabalhar em Chicago, ali a
maioria dos edifícios era bastante baixa, regra geral com cinco andares ou pouco mais, o que
amplificava a sensação rasa e plana que a cidade emanava. A maior parte tinha um aspeto
muito antigo, mas havia alguns chocantemente modernos, com paredes de vidro, telhados
lisos e fachadas curvas, consequências de Walter Gropius, Bruno Taut e Erich Mendelsohn,
todos eles condenados pelos nazis por serem decadentes, comunistas e, inevitavelmente,
judeus. A cidade vibrava com cores e energia. Havia autocarros de dois andares, comboios S-
Bahn e elétricos coloridos cujas catenárias disparavam faíscas de um azul brilhante.
Automóveis rebaixados iam passando, a maioria pintada de preto, mas havia alguns
vermelhos, beges e azuis-escuros, muitos com um design que lhe era desconhecido: o adorável
Opel4/16 PS, o Horch com o seu ornamento de capô em forma letal de flecha no arco, pronto
a disparar, e o obrigatório Mercedes, preto, baixo, com acabamentos cromados. O próprio
Joseph Goebbels se sentiu induzido a capturar em prosa a energia da cidade, tal como se
exibia numa das avenidas comerciais mais populares, a Kurfúrstendamm, ainda que o fizesse
num ensaio cujo intuito não era elogiar mas sim condenar, chamando à rua «o abcesso» da
cidade. «As campainhas dos elétricos soam, os autocarros respondem com as suas buzinas,
cheios de gente e mais gente; táxis e automóveis privados zumbem sobre o asfalto vítreo»,
escreveu ele. «A fragrância de perfume carregado flutua no ambiente. Pegas sorriem dos
pastéis artísticos nos rostos de mulheres elegantes; alegados homens vagueiam para trás e
para a frente,

67

ERIK LARSON
de monóculos a brilhar; pedras preciosas e falsas cintilam.» Berlim era, segundo escreveu, um
«deserto de pedra», apinhado de pecado e corrupção, habitado por uma populaça «que será
sepultada com um sorriso».

O jovem oficial ia indicando vários pontos de interesse. Martha fazia pergunta atrás de
pergunta, sem se dar conta de que esgotava a paciência do oficial. No início da viagem,
chegaram a uma praça ampla dominada por um edifício enorme de arenito da Silésia, com
torres de sessenta metros em cada um dos quatro cantos, construído no estilo que um dos
famosos guias turísticos de Karl Baedeker descrevia como «florido estilo da Renascença
Italiana». Tratava-se do Reichstagsgebàude, no qual o corpo legislativo, o Reichstag, se reunia
até que, uns meses antes, o edifício fora incendiado. Um jovem holandês — um ex-comunista
chamado Marinus van der Lubbe — foi preso e acusado de fogo-posto, juntamente com outros
quatro suspeitos, acusados de cumplicidade, embora um rumor muito disseminado alegasse
que fora o próprio regime nazi a orquestrar o fogo, de forma a instigar medo quanto a uma
rebelião bolchevique e, por conseguinte, obter apoio popular para a suspensão de liberdades
cívicas e a destruição do partido comunista na Alemanha. O julgamento iminente era o tema
de conversa em Berlim.

Contudo, Martha estava perplexa. Ao contrário do que os relatos jornalísticos a tinham levado
a crer, o edifício parecia intacto. As torres mantinham-se de pé e as fachadas não exibiam
mácula alguma.

— Oh, eu julgava que o incêndio o tinha destruído! — exclamou ela quando o carro passou
pelo edifício. — Mas parece-me estar em perfeitas condições. Conte-me o que aconteceu.

Depois desta e de várias outras interjeições que Martha reconheceu terem sido imprudentes,
o secretário de protocolo inclinou-se para ela e silvou:

— Chiu! Jovem, terá de aprender a ser vista e não ouvida. Não deve dizer tanto nem fazer
tantas perguntas. Não está na América e não pode dizer tudo o que pensa.

Martha manteve-se em silêncio durante o resto do percurso.

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Ao chegarem ao hotel Esplanade, na encantadora Bellevues-asse com sombras agradáveis,


Martha e os pais foram ver os aposentos que o próprio Messersmith lhes tinha reservado.

Dodd ficou consternado, Martha encantada.


O hotel era um dos melhores de Berlim, com lustres e lareiras gigantes e dois pátios com
telhados de vidro, um dos quais — o Pátio Palma - era famoso pelos chás dançantes e por ser
o lugar onde os habitantes de Berlim tinham podido dançar o Charleston pela primeira vez.
Greta Garbo fora hóspede, tal como Charlie Chaplin. Messersmith reservara a Suite Imperial,
um conjunto de quartos que incluíam um quarto duplo com casa de banho privativa, dois
quartos individuais também com casas de banho privativas, uma sala de estar e outra de
conferências, todas estas divisões alinhadas no lado par de um corredor, do Quarto 116 ao
Quarto 124. Duas antessalas tinham as paredes cobertas de brocados de cetim. A suite estava
impregnada de um aroma primaveril que emanava das flores enviadas por desconhecidos que
lhes desejavam uma boa estada; tantas flores, recordou Martha, «que mal havia espaço para
nos mexermos — orquídeas e lírios de perfumes invulgares, flores de todas as cores e feitios.»
Relembrou ainda que, ao entrarem na suite, «a sua magnificência deixou-nos boquiabertos».

Todavia, tal opulência ia contra todos os princípios do ideal jef-fersoniano que Dodd adotara ao
longo da sua vida. Antes de chegar, ele fizera saber que pretendia «alojamento modesto num
hotel modesto», escreveu Messersmith. E embora este compreendesse a vontade que Dodd
tinha de viver «da forma mais inconspícua e modesta», sabia também «que os representantes
alemães e o povo germânico não o compreenderiam».

Havia ainda outro fator em jogo. Os diplomatas e os representantes do Departamento de


Estado dos EUA sempre tinham ficado hospedados no Esplanade. Agir de outra forma teria
constituído uma quebra egrégia do protocolo e da tradição.

A família instalou-se. Bill Jr. e o Chevrolet deviam demorar um pouco mais a chegar. Dodd
recolheu-se num quarto com um livro.

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ERIK LARSON

Quanto a Martha, ainda sentia dificuldade em absorver tudo aquilo. Continuavam a chegar
cartões de boas-vindas, acompanhados por ainda mais flores. Ela e a mãe sentaram-se,
admiradas com o luxo que as rodeava, «perguntando-nos desesperadamente como
poderíamos pagar tudo aquilo sem hipotecarmos as almas.»

Horas depois, ao cair da noite, a família reuniu-se e desceu até ao restaurante do hotel para
jantar; então, Dodd desempoeirou o seu alemão, enterrado há várias décadas, e, com a ironia
que lhe era característica, tentou gracejar com os criados. Estava, nas palavras de Martha
«com um humor magnífico». Os criados, mais habituados ao comportamento imperioso de
dignitários mundiais e oficiais nazis, não sabiam bem como responder, adotando um nível de
delicadeza que Martha considerou quase servil. A comida era boa, avaliou ela, mas pesada,
tipicamente alemã, e exigia uma caminhada pós-jantar.

Na rua, os Dodd viraram à esquerda e caminharam pela Belle-vuestrasse, entre as sombras das
árvores e a penumbra dos candeeiros de iluminação pública, tão ténue que, para Martha,
evocava a sonolência das vilas rurais norte-americanas a altas horas da noite. Não viu soldados
nem polícias. A noite estava amena e encantadora; «tudo», escreveu, «era pacífico, romântico,
estranho, nostálgico.»

Prosseguiram até ao fundo da rua e atravessaram uma pequena praça, entrando no Tiergarten,
o equivalente de Berlim do Central Park. O nome, numa tradução literal, significava «jardim
dos animais» ou «jardim dos monstros», o que remetia para um passado profundo, quando
era uma reserva de caça para a realeza. Agora consistia em duzentos e cinquenta hectares de
árvores, percursos pedestres, ciclovias e estátuas que se espraiava para oeste, desde as Portas
de Brandeburgo até ao opulento bairro residencial e comercial de Charlottenburg. O rio Spree
delimitava-o a norte; o famoso jardim zoológico da cidade encontrava-se no canto sudoeste. À
noite, o parque era particularmente sedutor. «No Tiergarten», escreveu um diplomata
britânico, «os pequenos candeeiros cintilam por entre as pequenas árvores e a relva fica
estrelada com os pirilampos de mil cigarros.»

Os Dodd entraram na Siegesallee — Avenida da Vitória —, ladeada por noventa e seis estátuas
e bustos de antigos líderes prussianos, entre os quais Frederico, o Grande, bem como diversos
Fredericos menores e estrelas outrora brilhantes, como Alberto, o Urso,

70
NO JARDIM DOS MONSTROS

Henrique, o Jovem, e Otto, o Preguiçoso. Os Berlinenses chamavam-lhes Puppen-bonecos.


Dodd palestrou sobre a história de cada um, revelando o conhecimento detalhado da
Alemanha que adquirira em Leipzig três décadas antes. Martha apercebia-se de que os maus
presságios que assombravam o pai se tinham dissipado. «Tenho a certeza de que essa foi uma
das noites mais felizes que passámos na Alemanha», escreveu. «Estávamos todos imbuídos de
alegria e paz.»

O pai adorava a Alemanha desde a sua estada em Leipzig, durante a qual todos os dias jovens
mulheres lhe deixavam violetas viçosas no quarto. Naquela primeira noite, enquanto iam
avançando pela Avenida da Vitória, também Martha se sentia acometida por um arroubo de
afeição pelo país. A cidade, a atmosfera geral, em nada se assemelhava ao que os relatos
jornalísticos a tinham feito imaginar. «Sentia que a imprensa tinha vilipendiado a nação e
queria proclamar o calor e a amabilidade do povo, a suavidade da noite de verão, com as suas
fragrâncias das árvores e das flores, a serenidade das ruas.»

A data era 13 de julho de 1933.

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SEGUNDA PARTE

EM BUSCA DE CASA NO TERCEIRO REICH

CAPÍTULO 6

SEDUÇÃO
Nos primeiros dias que passou em Berlim, Martha adoeceu com uma gripe. Enquanto
convalescia no Esplanade, recebeu uma visita, uma norte-americana chamada Sigrid Schultz
que, nos catorze anos anteriores, fora a enviada especial colocada em Berlim ao serviço do
antigo empregador de Martha, o Chicago Tribune, e que era agora a diretora dos
correspondentes da Europa Central. Schultz tinha quarenta anos, media um metro e sessenta
— tal como Martha — e era loura, de olhos azuis. «Algo roliça», de acordo com a avaliação de
Martha, com «abundante cabelo dourado». Apesar do seu tamanho e da aparência angelical,
tanto outros correspondentes estrangeiros como funcionários nazis partilhavam a noção de
que se tratava de uma mulher tenaz, franca e absolutamente intrépida. Estava em todas as
listas de convidados de diplomatas e era presença regular nas festas organizadas por Goebbels,
Gõring e outros dirigentes nazis. Gõring gostava de lhe chamar maldosamente «o dragão de
Chicago».

Schultz e Martha começaram por uma conversa de circunstância inócua, mas depressa se
centraram na rápida transformação ocorrida em Berlim nos seis meses desde que Hitler se
tornara chanceler. Schultz contou-lhe histórias de violência contra judeus, comunistas e
qualquer um que os nazis vissem como adverso à sua revolução. Nalguns casos, as vítimas
tinham sido cidadãos norte-americanos.

Martha contrapôs que a Alemanha atravessava um período de renascimento histórico. Os


incidentes que tinham acontecido decerto não passariam de expressões inadvertidas do
entusiasmo desmesurado que tomara conta do país. Encontrava-se em Berlim há poucos dias,
mas nada vira que corroborasse as histórias de Schultz.

75

ERIK LARSON

Esta, não obstante, persistiu, falando-lhe de espancamentos e detenções caprichosas nos


campos «selvagens» — prisões ad hoc que haviam surgido por todo o país, controladas pelas
forças paramilitares nazis — e em prisões mais formais, na altura já conhecidas como campos
de «concentração». A palavra alemã era Konzentrationslager com a abreviatura KZ. A abertura
de um desses campos ocorrera a 22 de março de 1933, sendo a sua existência revelada numa
conferência de imprensa dada por um antigo criador de galinhas, de 32 anos, nomeado para
comandante da Polícia de Munique, Heinrich Himmler. O campo ocupava uma velha fábrica de
munições a curta distância de comboio de Munique, nos arrabaldes da encantadora aldeia de
Dachau, que passara a alojar centenas de prisioneiros, talvez milhares — ninguém sabia —, na
maioria detidos não na sequência de acusações específicas, mas antes em «custódia
protetora». Não eram judeus, ainda não; eram comunistas e membros do partido social-
democrata, todos sujeitos a condições de disciplina severa.
Martha foi ficando entediada com o esforço que Schultz fazia para lhe manchar a visão cor-de-
rosa que ela tinha, mas gostava da correspondente e sabia que ela poderia ser uma amiga
conveniente, dado o vasto leque de contactos que detinha, entre jornalistas e diplomatas.
Despediram-se em termos amistosos, mas sem que Martha vacilasse na sua perspetiva de que
a revolução em curso à sua volta era um episódio heróico que poderia resultar numa
Alemanha nova e saudável.

«Não acreditei em todas as histórias dela», escreveria Martha, mais tarde. «Julguei que estava
a exagerar e a ser um pouco histérica.»

Quando Martha saía do hotel, não testemunhava violência alguma, não via quem quer que
fosse a tremer de medo, não sentia qualquer opressão. A cidade era uma delícia. O que
Goebbels condenava, ela adorava. Com uma curta caminhada do hotel, para a direita, na
direção oposta do verde fresco do Tiergarten, chegava a Potsdamer Platz, uma das interseções
mais movimentadas do mundo, com a sua famosa sinalização luminosa de cinco vias, que se
crê ter sido o primeiro semáforo instalado na Europa. Berlim tinha apenas 120 000 automóveis
mas, a qualquer hora do dia, parecia que todos se reuniam ali, como abelhas a regressar a uma
colmeia. Era possível observar

76

NO JARDIM DOS MONSTROS

o remoinho de carros e pessoas de uma mesa da esplanada do Josty Café. Também ali se
encontrava Haus Vaterland, um clube noturno de cinco andares com a capacidade de servir
6000 jantares em doze alas incluindo um «bar do Faroeste Selvagem» cujos empregados
usavam enormes chapéus de cowboy, e um «terraço de vinhos da Renânia» onde, de hora a
hora, os convivas experimentavam uma breve tempestade dentro de portas, a que não
faltavam relâmpagos, trovões e,

para desolação das mulheres vestidas com seda genuína, aguaceiros. «Mas que lugar jovem,
despreocupado, romântico, maravilhoso, em que não-se-quer-ir-para-casa-até-o-dia-nascer!»,
escreveu um visitante. «É o lugar mais divertido de Berlim.»

Para uma mulher de 24 anos, sem o peso de um emprego ou de preocupações financeiras, e


prestes a ver-se livre de um casamento morto, Berlim era interminavelmente cativante.
Passados alguns dias, deu por si a ter um «encontro para tomar chá» com um famoso
correspondente norte-americano, H. R. Knickerbocker — «Knick», para os amigos —, que
escrevia artigos para o New York Evening Post. Ele levou-a ao hotel Éden, o célebre Éden, onde
a agitadora comunista Rosa Luxemburgo fora espancada quase até à morte em 1919, antes de
ser levada para o Tiergarten adjacente e assassinada.

Agora, no salão de chá do Éden, Martha e Knick dançavam. Ele era magro e baixo, com cabelo
ruivo e olhos castanhos, e conduzia-a pela pista com habilidade e elegância. Inevitavelmente, a
conversa acabou por derivar para a Alemanha. À semelhança de Sigrid Schultz, Knickerbocker
tentou ensinar-lhe um pouco da política do país e do carácter da nova liderança. Martha não
estava interessada e a conversa passou para outros temas. O que a fascinava eram os homens
e mulheres alemães à sua volta. Adorava «a forma engraçada e rígida como dançavam, ouvir
aquela língua incompreensível e gutural, e observar os seus simples gestos, comportamento
natural e ânsia infantil pela vida.» Gostava dos alemães que conhecera até então — mais,
decerto, do que dos franceses com que se cruzara durante os seus estudos em Paris. Ao
contrário dos Franceses, escreveu ela, os Alemães «não eram ladrões, não eram egoístas, não
eram impacientes nem frios e

duros.»

77

ERIK LARSON

A visão alegre que Martha tinha das coisas era amplamente partilhada por estrangeiros de
visita à Alemanha e, sobretudo, a Berlim. O facto era que, na maioria dos dias, na maioria das
zonas, a cidade parecia e funcionava como sempre. O vendedor ambulante de charutos que se
postava em frente ao Hotel Adlon, na Unter den Linden 1 continuava a vender charutos, como
sempre (e Hitler continuava a relegar o hotel, preferindo antes o Kaiserhof, ali perto). Todas as
manhãs, havia alemães a apinhar o Tiergarten, muitos a cavalo, e milhares de outros
movimentavam-se pela cidade de comboio e elétrico vindos de bairros como Wedding e Onkel
Toms Hútte. Homens e mulheres bem vestidos sentavam-se no Romanisches Café, onde
bebiam café e vinho, fumavam cigarros e charutos e exercitavam o humor acutilante pelo qual
os Berlinenses eram conhecidos — o Berfíner Schnauze, que, numa tradução literal, significa
«focinho berlinense». No cabaré Katakombe, Werner Finck continuava a fazer troça do novo
regime, apesar de correr o risco de ser preso. Num espetáculo, um membro do público
chamou-lhe <<yid sacana», ao que ele respondeu: «Não sou judeu. Só pareço inteligente.» A
audiência riu-se com gosto.

Os dias agradáveis continuavam agradáveis. «O sol brilha», escreveu Christopher Isherwood no


seu livro Adeus a Berlim, «e Hitler é o dono desta cidade. O sol brilha e dezenas de amigos
meus [...] estão na prisão, ou, talvez, mortos.» A prevalência da normalidade era sedutora.
«Vislumbro o meu reflexo na montra de uma loja e fico chocado ao aperceber-me de que
estou a sorrir», escreveu Isherwood. «É impossível não sorrir, com um tempo tão bonito. Os
elétricos moviam-se como era habitual, tal como os peões nas ruas; tudo à sua volta tinha «um
ar de curiosa familiaridade, de extraordinária semelhança com qualquer coisa que recordamos
como normal e agradável, que pertenceu ao passado — como uma fotografia de muito boa
qualidade.»

Sob a superfície, porém, a Alemanha sofrera uma revolução rápida e vasta que atingia
profundamente a trama da vida quotidiana. Ocorrera discretamente e, na maior parte dos
casos, longe do olhar menos atento. No âmago encontrava-se uma campanha governamental
chamada Gleichschaltung — que quer dizer «coordenação» — com

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NO JARDIM DOS MONSTROS

o objetivo de alinhar cidadãos, ministérios governamentais e instituições culturais e sociais


com as crenças e atitudes do nacional-socialismo.

A «coordenação» aconteceu a um ritmo incrível, mesmo em sectores da vida que eram


diretamente afetados por leis específicas, como o caso de alemães a submeterem-se
voluntariamente ao domínio nazi, fenómeno que ficou conhecido como Selbstgleichschaltung,
ou «auto-coordenação». A mudança chegou tão depressa à Alemanha e propagou-se numa
frente tão ampla que os cidadãos alemães que saíam do país em negócios ou férias se
deparavam com uma realidade completamente alterada quando regressavam, como se fossem
personagens num filme de terror que, ao voltarem, descobrissem que aqueles que em tempos
tinham sido seus amigos, clientes, pacientes e fregueses tinham mudado de formas
dificilmente discerníveis. Gerda Laufer, uma socialista, escreveu que se sentia «profundamente
abalada por pessoas que costumava considerar amigas, que conhecia há muito tempo, se
transformarem de uma hora para a seguinte».

Vizinhos tornavam-se ríspidos; invejas mesquinhas davam origem a denúncias às SA — as


Tropas de Assalto — ou à recém-formada Geheime Staatspolizei, que só então começava a ser
conhecida pelo acrónimo Gestapo (GEheime STAatsPOlizei), cunhado por um funcionário dos
correios que procurava uma maneira menos complicada de identificar a agência. A reputação
de omnisciência e malevolência da Gestapo surgia de dois fenómenos: em primeiro lugar, de
um clima político no qual bastava criticar o governo para se ser preso; em segundo, da
existência de uma população ávida não só por se alinhar e tornar coordenada, mas também
por se servir das sensibilidades nazis para satisfazer necessidades individuais e sanar invejas.
Um estudo feito aos registos nazis verificou que, de uma amostra de 213 denúncias, 37 por
cento tinha como motivação não uma genuína crença política, mas sim conflitos privados,
sendo que o que desencadeava a denúncia era, muitas vezes, uma questão
impressionantemente trivial. Em outubro de 1933, por exemplo, o vendedor de uma mercearia
delatou uma cliente rabugenta que insistira com teimosia em receber o troco de três
pfennings. O vendedor acusou-a de não pagar os impostos. Os Alemães denunciavam-se
mutuamente com tanto fervor que certos dirigentes

79

ERIK LARSON

nazis instavam a população a aplicar uma maior discriminação quanto às circunstâncias que
poderiam justificar apresentar uma queixa à Polícia. O próprio Hitler reconheceu, num
comentário que fez ao seu ministro da Justiça, que «vivemos presentemente num mar de
denúncias e mesquinhez humana».

Um elemento fulcral da Coordenação foi a inserção na lei civil alemã daquela que ficou
conhecida como a «cláusula ariana» que, efetivamente, baniu os judeus de postos de trabalho
governamentais. Regulações adicionais e animosidades locais restringiram grandemente os
membros da comunidade judaica de exercerem medicina ou de se tornarem advogados. Por
onerosas e dramáticas que tais restrições fossem para os judeus, pouca impressão causavam
em turistas e noutros observadores casuais, em parte porque eram muito poucos os judeus a
viver na Alemanha. Em janeiro de 1933, apenas um por cento dos 65 milhões que formavam a
população alemã era judaica, e a maioria vivia nas grandes cidades, com uma presença
residual no resto do país. Apenas cerca de um terço — pouco mais de 160 000 — vivia em
Berlim, mas constituía menos de quatro por cento do total de 4,2 milhões de habitantes da
cidade, e muitos moravam em bairros isolados que não se incluíam, regra geral, nos itinerários
dos visitantes.

Mas havia até muitos residentes judeus que não se apercebiam do verdadeiro significado do
que estava a acontecer. Cinquenta mil compreenderam-no, de facto, abandonando a
Alemanha nas semanas subsequentes à ascensão de Hitler ao cargo de chanceler, mas a
maioria ficou. «Quase ninguém achava que as ameaças aos judeus fossem sérias», afirmou
Carl Zuckmayer, escritor judeu. «Até muitos judeus julgavam que as ferozes arrazoadas
antissemitas dos nazis mais não eram do que um mero esquema propagandístico, uma linha
que abandonariam assim que conquistassem poder governamental e vissem ser-lhes confiadas
responsabilidades públicas.» Embora uma canção popular entre as Tropas de Assalto tivesse o
título «Quando Sangue Judeu Jorra da Minha Faca», na altura em que os Dodd chegaram ao
país a violência contra os judeus começara a abrandar. Os incidentes eram isolados,
esporádicos. «Era fácil ficar tranquilizado», escreveu o historiador John Dippel, num estudo
sobre o motivo pelo qual tantos

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NO JARDIM DOS MONSTROS

judeus optaram por ficar na Alemanha. «À superfície, muito do dia a dia permanecia idêntico
ao que era antes de Hitler se instalar no poder. Os ataques nazis aos judeus eram como
tempestades de verão, que terminavam muito depressa, deixando uma calma sinistra no seu
encalço.»

A marca mais visível da Coordenação foi a súbita aparição da saudação hitleriana, ou


Hitlergruss. Tratava-se de algo tão novo para o mundo exterior que mereceu todo um
despacho do cônsul-geral Messersmith, datado de 8 de agosto de 1933. A saudação, escreveu
ele - não tinha qualquer precedente moderno, exceção feita à continência requerida aos
soldados aquando da presença de oficiais superiores. O que tornava esta prática única era que
se esperava que todos fizessem tal saudação, mesmo nos encontros mais mundanos. Lojistas
saudavam clientes. As crianças eram obrigadas a saudar os professores várias vezes por dia. No
fim de representações teatrais, um costume recém-instaurado exigia que o público se
levantasse e fizesse a saudação enquanto cantava, primeiro, o hino nacional alemão,
Deutschland uber Alles, e, em seguida, o hino das Tropas de Assalto, Horst Wessel Lied, ou
«canção de Horst Wessel», com o nome do seu compositor, um rufia das SA assassinado por
comunistas, que a propaganda nazi viera a elevar ao estatuto de herói. O público germânico
aderira com tal avidez à saudação que o ato incessante atingira um registo quase cómico,
sobretudo nos corredores de edifícios públicos, onde toda a gente, do estafeta mais servil ao
funcionário no posto mais elevado, se saudava e exclamava Heil, o que transformava uma ida à
casa de banho numa peripécia extenuante.

Messersmith recusava-se a fazer a saudação, limitando-se a ficar em sentido, mas


compreendia que, para os Alemães, isso não bastaria. Por vezes, até ele sentia verdadeira
pressão para ceder à norma. No final de um almoço em que participou, na cidade portuária de
Kiel, todos os convidados se levantaram e, de braços direitos em riste, cantaram o hino
nacional e a canção de Horst Wessel. Messersmith ficou respeitosamente em sentido, tal como
faria nos Estados Unidos ao ouvir o hino Star-Spangled Banner. Muitos dos outros convivas,
incluindo vários membros das Tropas de Assalto, fitaram-no com olhares furiosos e
sussurraram entre si, como se tentassem adivinhar-lhe
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ERIK LARSON

a identidade. «Senti-me deveras afortunado por este incidente se ter dado dentro de portas e
entre um grupo de pessoas que, no cômputo geral, eram inteligentes», escreveu ele, «pois, se
isto tivesse acontecido numa reunião ou manifestação na rua, ninguém teria querido saber
quem eu era e não tenho praticamente dúvida alguma de que me teriam maltratado.»

Messersmith recomendava aos visitantes norte-americanos que tentassem prever quando


seriam requeridas tais saudações e canções de forma a poderem sair cedo.

Não achava graça a que, de quando em vez, o embaixador Dodd lhe dirigisse uma saudação
irónica.

Durante a sua segunda semana em Berlim, Martha descobriu que não se livrara do passado de
forma tão completa como desejava.

Bassett, o marido, chegou à cidade naquilo a que, em privado, chamava a sua «Missão a
Berlim», na esperança de a reconquistar.

Instalou-se no Hotel Adlon. Viram-se várias vezes, mas Bassett não obteve a reaproximação
cheia de lágrimas que esperava. Pelo contrário, foi recebido com uma indiferença cordial.
«Lembras-te do nosso passeio de bicicleta pelo parque», escreveu ele anos depois. «Foste
amistosa, mas pressenti uma diferença em nós.»

Para piorar as coisas, quando o fim da sua estada se aproximava, Bassett apanhou uma valente
gripe, que o deixou de rastos, mesmo a tempo da última visita de Martha antes da sua partida.

Percebeu que a Missão a Berlim falhara no momento em que a mulher chegou ao seu quarto.
Fizera-se acompanhar pelo irmão, Bill.

Foi um momento de crueldade descontraída. Ela sabia que Bassett tiraria as ilações corretas.
Ela estava farta. Em tempos, amara-o, mas a relação debatera-se com demasiados mal-
entendidos e imperativos conflituosos. Onde outrora houvera amor, como Martha haveria de o
descrever, naquele momento só restavam «cinzas», e isso não bastava.

Bassett compreendeu.

«Estavas farta», escreveu ele. «E quem poderia culpar-te?!»


82

NO JARDIM DOS MONSTROS

Enviou-lhe flores, assumindo a derrota. O cartão que juntara começava da seguinte forma:
«Para a minha linda e adorável ex-mulher». Partiu para os Estados Unidos, para Larchmont, em
Nova Iorque, e para uma vida suburbana de cortar a relva e cuidar da faia do seu pátio das
traseiras, de bebidas ao final do dia, jantares informais com amigos e viagens de comboio
para o emprego no banco. Mais tarde, reveria: «Não sei bem se terias sido feliz como esposa
de um economista bancário, preocupada com o Boletim do Banco, com educar uma família,
frequentar reuniões de pais e tudo isso.»

A ligação de Martha a Sigrid Schultz depressa começou a ser--lhe vantajosa. Schultz organizou
uma festa de boas-vindas em sua honra a 23 de julho de 1933, para a qual convidou bastantes
amigos próximos, entre os quais outro enviado especial, Quentin Reynolds, que escrevia para o
Serviço Noticioso do grupo Hearst. Martha e Reynolds simpatizaram de imediato um com o
outro. Ele era corpulento e animado, com cabelo encaracolado e uns olhos que pareciam
transmitir sempre a ideia de estar prestes a rir — ainda que também tivesse a reputação de ser
implacável, cético e esperto.

Tornaram a encontrar-se cinco dias depois, com o irmão dela, Bill. À semelhança de Schultz,
Reynolds conhecia toda a gente e conseguira travar amizade com vários oficiais nazis,
incluindo um confidente de Hitler com o complicado nome Ernst Franz Sedgwick Hanfstaengl.
Licenciado em Harvard, a sua mãe nascera nos Estados Unidos; sabia-se que Hanfstaengl
tocava piano para Hitler noite fora, para aplacar os nervos do ditador. Nada de Mozart nem de
Bach. Sobretudo Wagner e Verdi, Liszt e Grieg, algumas composições de Strauss e de Chopin.

Martha queria conhecê-lo; Reynolds estava a par de uma festa organizada por um colega
correspondente, na qual se contava que Hanfstaengl aparecesse como convidado, e ofereceu-
se para a levar.

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CAPÍTULO 7

CONFLITO OCULTO
Dodd caminhava todas as manhãs do Esplanade até ao seu gabinete, um passeio de quinze
minutos pela Tiergartenstrasse, a rua que formava o limite sul do parque. Do lado sul, havia
mansões com propriedades verdejantes e cercas de ferro forjado, muitas pertencentes a
embaixadas e consulados; a norte espraiava-se o próprio parque, pejado de árvores e estátuas,
com os caminhos marcados pelas sombras matinais. Dodd afirmava tratar-se do «parque mais
belo que alguma vez vi» e essa caminhada depressa se tornou a sua parte preferida do dia. O
seu gabinete encontrava-se no edifício da embaixada, numa rua muito perto do parque,
chamada Bendlerstrasse, que também continha o «Bendler Block», um conjunto de
construções baixas, pálidas e retangulares que serviam de quartel-general ao exército oficial
alemão, o Reichswehr.

Uma fotografia de Dodd a trabalhar no seu gabinete, tirada nas primeiras semanas em que se
encontrava em Berlim, mostra-o sentado a uma grande secretária elaboradamente talhada,
em frente a uma vasta tapeçaria pendurada na parede, com um telefone volumoso e
complicado, colocado a cerca de metro e meio à sua direita. Há algo cómico nesta imagem:
Dodd, de corpo esguio, com o colarinho rígido e branco, o cabelo com brilhantina e um risco
muitíssimo definido, fita a câmara com uma expressão grave, completamente diminuído pela
opulência que o rodeia. O retrato foi alvo de bastante hilaridade no Departamento de Estado,
entre aqueles que desaprovavam a nomeação de Dodd. O subsecretário Phillips terminava
assim uma carta que lhe dirigia: «Uma fotografia do senhor sentado à secretária em frente a
uma magnífica tapeçaria tem circulado bastante e tem um ar realmente impressionante.»

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NO JARDIM DOS MONSTROS

A cada passo que dava, Dodd parecia violar algum aspeto dos

costumes da embaixada, pelo menos aos olhos do seu conselheiro, George Gordon. Dodd
insistia em ir a pé para as reuniões com funcionários governamentais. Certa vez, ao visitar a
embaixada espanhola localizada ali perto, obrigou Gordon a acompanhá-lo, ambos de fraque e
chapéu de seda. Numa carta que enviou a Thornton Wilder, ao recordar a cena Martha
escreveu que Gordon tinha «desatado aos palavrões, com um ataque de apoplexia». Quando
Dodd conduzia, fazia-o no Chevrolet da família, muito aquém dos Opel e Mercedes preferidos
pelos funcionários seniores do Reich. Usava fatos simples. Dizia piadas sarcásticas. Na
segunda-feira, 24 de julho, cometeu um pecado particularmente inusitado. O cônsul-geral
tinha-o convidado, bem como a Gordon, para um encontro com um congressista norte-
americano de visita à cidade, que teria lugar no gabinete de Messersmith, no consulado dos
Estados Unidos, que ocupava os dois primeiros pisos de um edifício na rua em frente ao Hotel
Esplanade. Dodd chegou ao gabinete de Messersmith antes de Gordon; uns minutos depois, o
telefone do cônsul-geral tocou. O que Dodd compreendeu ao escutar a parte da conversa que
coube a Messersmith, foi que o conselheiro se recusava a estar presente. A razão: puro
despeito. De acordo com Gordon, Dodd «degradara-se», bem como ao seu posto, ao aceder a
ter um encontro no gabinete de um homem hierarquicamente inferior. No seu diário, Dodd
observou: «Gordon é um industrioso homem de carreira com a etiqueta desenvolvida à n
potência.»

Não pôde apresentar de imediato as suas credenciais — as suas «Cartas Credenciais» — ao


presidente Hindenburg, como exigia o protocolo diplomático, pois Hindenburg encontrava-se
adoentado e tinha-se retirado para a sua propriedade em Neudeck, na Prússia de Leste, para
convalescer; não se esperava que regressasse antes do final do verão. Dodd, portanto, ainda
não fora oficialmente reconhecido como embaixador, pelo que se servia daquele período de
calmaria para se familiarizar com funções básicas como a utilização dos telefones da
embaixada, os códigos telegráficos e os horários do correio diplomático. Encontrou-se com um
grupo de correspondentes norte-americanos e depois também com uma vintena de jornalistas
alemães que

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ERIK LARSON

— tal como receava — tinham visto o relato no periódico judaico Hamburger Israelitisches
Familienblatt, onde se afirmava que ele «fora para a Alemanha para corrigir o mal feito aos
judeus.» Dodd leu-lhes aquilo que descreveu como uma «breve retratação».

Depressa ficou ao corrente do que era a vida na nova Alemanha. No primeiro dia completo
que passou em Berlim, o governo de Hitler promulgou uma nova lei, que seria aplicada a partir
de 1 de janeiro de 1934, chamada Lei para a Prevenção de Descendência com Doenças
Hereditárias, que autorizava a esterilização de indivíduos portadores de várias deficiências
físicas e mentais. Também ficou a saber que havia pessoal na embaixada e no consulado de
Messersmith cada vez mais convicto de que as autoridades alemãs intercetavam correio, tanto
o recebido como o enviado, e que isso instara Messersmith a tomar medidas extraordinárias
para se assegurar de que a correspondência mais sensível chegava aos Estados Unidos sem ter
sido aberta. O cônsul-geral habituara-se a enviar estafetas que, por mão própria, entregavam
esse correio diretamente aos comandantes dos navios que seguiam para a América, onde
agentes dos Estados Unidos os esperavam no porto.
Uma das tarefas que Dodd se atribuiu em primeiro lugar foi verificar os talentos e as
insuficiências do pessoal da embaixada, que incluíam primeiros e segundos secretários, bem
como vários funcionários, estenógrafos e outros empregados que trabalhavam para a
embaixada. Desde o início, considerou que os hábitos de trabalho instalados eram menos do
que desejáveis. O pessoal com mais tempo de serviço chegava à hora que queria e,
recorrentemente, desaparecia para ir caçar ou jogar golfe. Quase todos, descobriu ele, eram
membros de um clube de golfe na região dos lagos de Wannsee, a sudoeste do centro de
Berlim. Muitos possuíam riqueza independente da função que desempenhavam, de acordo
com as tradições do Serviço Diplomático, e gastavam dinheiro com displicência, tanto o
próprio como o da embaixada. Dodd ficou particularmente agastado com o que despendiam
em telegramas internacionais. As mensagens eram longas, cheias de divagações,
desnecessariamente onerosas.

86

NO JARDIM DOS MONSTROS

Em notas que tomou para fazer um relatório sobre o pessoal, escreveu descrições breves de
elementos-chave. Observou que a esposa do conselheiro Gordon tinha um «grande
vencimento» e que ele tendia a ser temperamental. «Emotivo. Demasiado hostil para com os
alemães (...) as suas irritações têm sido muitas e exasperantes.» Ao esboçar o carácter de um
dos primeiros secretários da embaixada, também abastado, Dodd rabiscou o comentário
estenográfico de que ele «adora fazer juízos sobre [a] cor das meias dos homens». Dodd
reparou que a mulher incumbida de gerir a sala da receção da embaixada, Julia Swope Lewin,
não se adequava à tarefa, já que era «muito antigermânica» e que isso não seria «bom para
receber visitantes alemães».

Também estudou os meandros da paisagem política para além das paredes da embaixada. O
mundo dos despachos de Messersmith ganhava vida do outro lado das suas janelas, sob o céu
límpido dos dias de verão. Havia faixas por todo o lado, numa combinação impressionante de
cores: fundo vermelho, círculo branco e, sempre, uma «cruz partida», ou Hakenkreuz forte e
preta no centro. A palavra «suástica» ainda não se tornara um termo comum na embaixada.
Dodd ficou a saber o significado das várias cores usadas pelos homens com que se cruzava nos
seus passeios. Uniformes castanhos, aparentemente omnipresentes, eram envergados pelas
Tropas de Assalto, ou SA; as fardas pretas pertenciam a uma força de elite chamada
Schutszstaffel, ou SS; as azuis à Polícia oficial. Dodd soube também que a Gestapo e o seu
jovem comandante, Rudolf Diels, ganhavam cada vez mais poder. Esguio e moreno, Diels era
considerado atraente, não obstante as várias cicatrizes que o seu rosto acumulara quando, nos
tempos de estudante universitário, se dedicara aos duelos de espadas outrora praticados por
alemães desejosos de provarem a sua virilidade. Ainda que a sua aparência fosse tão sinistra
como a de um vilão de um filme antigo, Diels tinha demonstrado ser, até então — segundo
Messersmith , um homem íntegro, prestável e racional, por oposição aos seus superiores
(Hitler, Gõring, Goebbels), que decididamente não o eram.

Em muitos outros aspetos, outrossim, este novo mundo revelava-se bem mais matizado e
complexo do que Dodd esperara.

O governo de Hitler possuía profundas falhas sísmicas. Hitler era chanceler desde 30 de janeiro
de 1933, quando fora indigitado para esse

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ERIK LARSON

cargo pelo presidente Hinderburg, como parte do tratado delineado por políticos
conservadores mais velhos, que acreditavam serem capazes de o controlar, uma noção que,
aquando da chegada de Dodd, já se provara ilusória. Hindenburg — conhecido como o Velho
Cavalheiro — era o último contrapeso ao poder de Hitler e, alguns dias antes da partida de
Dodd, fizera uma declaração pública, mostrando-se desagradado com as tentativas hitlerianas
de suprimir a Igreja Protestante. Declarando-se «cristão evangélico», numa carta publicada
dirigida a Hitler, Hindenburg lançava um alerta em relação à crescente «ansiedade quanto à
liberdade intrínseca da igreja» e avisava que, se as coisas continuassem como até ali,
«gravíssimos danos resultarão para o nosso povo e pátria, bem como malefícios à unidade
nacional». Para além de manter autoridade constitucional para nomear um novo chanceler,
Hindenburg detinha a lealdade do exército oficial, o Reichswehr. Hitler compreendia que, se a
nação começasse a regredir para o caos, Hindenburg poderia sentir-se compelido a substituir o
governo e instaurar a lei marcial. Também reconhecia que a fonte mais provável de futura
instabilidade se encontrava nas SA, comandadas pelo seu amigo e aliado de há muito, o
capitão Ernst Rohm. Hitler tendia, de forma progressiva, a ver as SA como uma força
indisciplinada e radical que tinha perdurado mais do que o seu propósito. Já Rohm era de
outra opinião: ele e as suas Forças de Assalto tinham sido essenciais para a consumação da
revolução nacional-socialista e agora, como recompensa, pretendiam o controlo de toda a
força militar da nação, o que incluía o Reichswehr. O exército abominava tal perspetiva. Gordo,
intratável, assumidamente homossexual e por demais desbragado, Rohm carecia do porte
soldadesco que o exército admirava. Tinha, porém, o comando de uma legião de mais de um
milhão de homens, que crescia rapidamente. Apenas com um décimo dessa dimensão, o
exército oficial recebera um treino muito melhor e dispunha de armas superiores. O conflito
estava em ponto de ebulição.

No resto do governo, Dodd julgava detetar uma inclinação nova e marcadamente moderada,
pelo menos em comparação com Hitler, Gõring e Goebbels, que descrevia como «adolescentes
no grande jogo da liderança internacional». Era na fileira imediatamente abaixo,

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NO JARDIM DOS MONSTROS

nos ministérios, que ele encontrava motivos de esperança. «Estes homens desejam pôr fim a
toda a perseguição dos judeus, cooperar com o que resta do liberalismo alemão», escreveu
ele, ao que acrescentou:

Desde que aqui chegámos que há uma contenda entre estes grupos.»

Esta avaliação surgia em grande parte de um encontro que tivera com o ministro dos Negócios
Estrangeiros da Alemanha, Konstantin Freiherr von Neurath, que Dodd — pelo menos por ora
— via como membro do campo mais moderado.

A 15 de julho, um sábado, Dodd visitou Neurath no seu ministério na Wilhelmstrasse, uma


avenida paralela à extremidade leste do Tiergarten. Havia tantos gabinetes do Reich nessa rua
que Wilhelmstrasse se tornou uma forma abreviada de fazer referência ao governo alemão.

Neurath era um homem elegante; o cabelo grisalho, as sobrancelhas escuras e o bigode


aparado davam-lhe a aparência de um ator que representasse papéis de pai. Martha em breve
o conheceria também, ficando impressionada com a capacidade que ele tinha de disfarçar as
emoções do seu íntimo: «o rosto dele», escreveu ela, «era completamente inexpressivo —
tinha a proverbial cara de póquer». Tal como Dodd, Neurath gostava de caminhadas e
começava todos os dias com um passeio pelo Tiergarten.

Via-se como uma força de moderação no governo e cria poder ajudar a controlar Hitler e o seu
partido. Como um dos pares o disse, «ele estava a tentar treinar os nazis e transformá-los em
verdadeiros parceiros úteis para um regime nacionalista moderado». Contudo, Neurath
também julgava ser provável que o governo hitleriano acabasse por se destruir a si mesmo.
«Ele sempre acreditou», escreveu um dos seus assessores, «que, se se mantivesse
simplesmente em funções, cumprindo o seu dever e preservando os contactos estrangeiros,
um belo dia acordaria e descobriria que os nazis tinham desaparecido.»
Dodd considerava-o «muitíssimo agradável», um juízo que asseverava a resolução tomada de
ser tão objetivo quanto possível em relação a tudo o que ocorria na Alemanha. Presumia que
Hitler deveria ter outros funcionários do mesmo calibre. Numa carta a um amigo, escreveu:
«Hitler alinhar-se-á com estes homens mais sábios e aliviará uma situação tensa.»

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ERIK LARSON

No dia seguinte, por volta da uma e meia da tarde, em Leipzig a cidade onde Dodd se
doutorara, um jovem norte-americano chamado Philip Zuckerman estava a passear com a
mulher alemã e com o pai e a irmã dela. Dado que eram judeus, talvez esta fosse uma coisa
imprudente a fazer naquele fim de semana em particular, em que cerca de 140 000 Tropas de
Assalto tinham invadido a cidade para urna das frequentes orgias de marcha, treino e,
inevitavelmente, bebedeira das SA. Nessa tarde de domingo, um desfile imenso começou a
avançar pelo centro da cidade, sob estandartes nazis vermelhos, brancos e pretos que
pareciam agitar-se em todos os edifícios. Às 13h30, uma companhia destes homens das SA
separou-se da formação principal e virou para uma avenida perpendicular, Nikolaistrasse, onde
os Zuckerman caminhavam.

Quando o destacamento das SA passou, um grupo de homens que seguia ao fundo da coluna
decidiu que os Zuckerman e os familiares tinham de ser judeus e, sem aviso, rodearam-nos,
atiraram-nos ao chão e atacaram-nos com um ciclone de pontapés e murros furiosos. Por fim,
as Tropas de Assalto avançaram.

Zuckerman e a esposa ficaram gravemente feridos, tanto que ambos tiveram de ser
hospitalizados, primeiro em Leipzig e depois em Berlim, onde o consulado dos Estados Unidos
se envolveu na questão. «É possível que [Zuckerman] tenha sofrido graves lesões internas das
quais talvez não venha a recuperar», escreveu o cônsul-geral Messersmifh, no despacho que
enviou para Washington a relatar o ataque. Alertou para o facto de que, ainda que os Estados
Unidos se vissem compelidos a requerer uma indemnização monetária para Zuckerman,
oficialmente nada poderia ser feito em relação à mulher dele, já que não era cidadã norte-
americana. Messersmith acrescentou: «é interessante observar que ela se viu obrigada, em
resultado do ataque de que foi vítima na mesma altura, a ir a um hospital, onde teve de se
submeter a um aborto de um bebé de alguns meses [...]» Como consequência da operação,
informou ele, a Sra. Zuckerman não poderia voltar a engravidar.

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NO JARDIM DOS MONSTROS

Supunha-se que ataques desta natureza tivessem acabado; decretos governamentais tinham
instado ao comedimento. Parecia que as Tropas de Assalto não lhes tinham dado atenção.

Noutro despacho sobre este caso, Messersmith escreveu: «Atacar judeus tem sido um
passatempo preferido dos homens das SA e é impossível evitar a afirmação vulgar de que não
gostam de se ver privados das suas presas.»

Era seu entendimento, como elemento intrínseco, deste e doutros fenómenos da Nova
Alemanha, que o deixava tão frustrado perante incapacidade demonstrada pelos visitantes de
se aperceberem do verdadeiro carácter do regime hitleriano. Muitos turistas norte-americanos
regressavam a casa perplexos com a dissonância entre os horrores sobre os quais tinham lido
nos jornais nacionais — os espancamentos e as detenções da primavera anterior, as piras de
livros e os campos de concentração — e o tempo agradável que tinham de facto passado
enquanto viajavam pela Alemanha. Um desses visitantes foi um comentador de rádio chamado
H.V. Kaltenborn — nascido Hans von Kaltenborn, no Milwaukee — que, pouco depois da
chegada de Dodd, passou por Berlim com a mulher, a filha e o filho. Conhecido como o «Deão
dos Comentadores», os relatos de Kaltenborn para a Columbia Broadcasting System (CBS)
tinham-no tornado famoso por todo o território dos Estados Unidos, tanto que, anos mais
tarde, apareceria nos filmes Peço a Palavra e O Dia em que a Terra Parou, este último um
thriller de ficção científica, representando-se a si mesmo. Antes de ter partido para a
Alemanha, Kaltenborn passara pelo Departamento de Estado, onde lhe tinham permitido que
lesse alguns dos despachos do cônsul-geral. Na altura, julgou-os exagerados. Depois de quatro
ou cinco dias em Berlim, disse ao próprio Messersmith que mantinha a conclusão original a
que chegara e que os despachos eram «imprecisos e descomedidos». Insinuou que ele deveria
ter-se baseado em fontes pouco fidedignas.

Messersmith ficou escandalizado. Não duvidava de que Kaltenborn estivesse a ser sincero, mas
atribuía a opinião do comentador ao facto de ele «ter origens germânicas e não ser capaz de
acreditar que os Alemães pudessem instigar e fazer as coisas que aconteciam todos os dias e a
toda a hora em Berlim e por todo o país».

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ERIK LARSON
Tratava-se de um problema em que Messersmith reparara várias vezes. Os que viviam na
Alemanha e prestavam atenção compreendiam que algo fundamental se alterara, que uma
sombra se instalara na paisagem. Os visitantes não conseguiam ver isso. Em parte, escreveu
ele num despacho, isso acontecia porque o governo alemão dera início a uma campanha «para
influenciar os norte-americanos de visita à Alemanha a formarem uma opinião favorável em
relação aos acontecimentos no país». Como prova, enunciava o curioso comportamento de
Samuel Bossard, um americano atacado a 31 de agosto por membros da Juventude Hitleriana.
Bossard prestara de imediato um depoimento no consulado dos Estados Unidos e, muito
zangado, faIara do incidente a vários correspondentes estrangeiros em Berlim. Depois,
subitamente, deixou de falar. Messersmith telefonou-lhe pouco antes do seu regresso aos
Estados Unidos, para lhe perguntar como estava, e verificou que ele não queria discutir o
incidente. Desconfiado, Messersmith investigou um pouco e ficou a saber que o Ministério da
Propaganda tinha passeado Bossard por Berlim e Potsdam, inundando-o de cortesia e atenção.
Parecia que o esforço surtira efeito, concluiu Messersmith. Depois de chegar a Nova Iorque, de
acordo com um artigo jornalístico, Bossard declarou que «se os Americanos na Alemanha são
sujeitos a alguma espécie de ataque, isso só pode dever-se a mal-entendidos [...] Muitos
norte-americanos parecem não compreender as mudanças que ocorreram na Alemanha e,
pela inépcia que isso acarreta, comportam-se de formas que propiciam ataques.» Garantiu que
voltaria à Alemanha no ano seguinte.

Messersmith pressentia uma mão especialmente hábil por trás da decisão governamental de
cancelar uma interdição aos Rotary Clubs na Alemanha. Os clubes não só poderiam continuar a
existir; o que era mais espantoso era que tinham permissão para manterem os seus membros
judeus. O próprio Messersmith pertencia ao Rotary de Berlim. «O facto de os judeus poderem
permanecer como membros do Rotary está a ser usado como propaganda nos clubes Rotary
de todo o mundo», escreveu ele. A realidade subjacente era que muitos desses membros
judeus tinham perdido o emprego ou se deparavam com severas limitações à possibilidade de
exercerem a sua profissão. Nos despachos que enviava, Messersmith retornava vezes sem
conta a um

92
NO JARDIM DOS MONSTROS

tema: que era impossível que os visitantes de curta estada compreendessem o que estava de
facto a acontecer naquela nova Alemanha. «Os norte-americanos que vierem à Alemanha ver-
se-ão rodeados pelas influências do Governo e terão o tempo tão ocupado por
entretenimentos agradáveis que pouca oportunidade encontrarão para se aperceberem do
que é a situação real.»

Messersmith instou Kaltenborn a entrar em contacto com alguns dos correspondentes norte-
americanos residentes em Berlim, que lhe confirmariam amplamente os seus despachos.

Kaltenborn declinou a proposta. Conhecia muitos desses correspondentes. Eram


preconceituosos, afirmava, tal como Messersmith.

Prosseguiu viagem, embora passado pouco tempo se visse forçado, de forma bastante coagida,
a reavaliar a sua opinião.

93

CAPÍTULO 8

CONHECER PUTZI

Com o auxílio de Sigrid Schultz e Quentin Reynolds, Martha depressa se integrou no tecido
social de Berlim. Esperta, sedutora e bem-parecida, tornou-se uma das favoritas dos jovens
funcionários do corpo diplomático estrangeiro e uma convidada muito requisitada das festas
informais, das patuscadas e fins de tarde regados a cerveja depois dos afazeres obrigatórios do
dia serem concluídos. Também se tornou presença regular nas reuniões noturnas de cerca de
vinte correspondentes, que se juntavam num restaurante italiano, Die Taverne propriedade de
um alemão e da sua mulher belga. O restaurante tinha sempre uma grande mesa redonda
reservada para o grupo — uma Stammtisch, ou seja, uma mesa para convivas habituais —,
cujos membros, incluindo Schultz, costumavam começar a chegar por volta das dez da noite e
podiam ficar até às quatro da manhã. O grupo alcançara uma certa fama. «Todas as outras
pessoas os observam e tentam ouvir o que dizem», escreveu Christopher Isherwood em Adeus
a Berlim. «Se alguém tem uma notícia a comunicar-lhes — os pormenores de uma prisão, ou a
morada de uma vítima, cujos familiares se dispõem a ser entrevistados —, um dos jornalistas
levanta-se da mesa e acompanha-o até à rua.» Era frequente a mesa atrair visitas dos
primeiros e segundos secretários de embaixadas estrangeiras e vários oficiais nazis do gabinete
de imprensa, e por vezes até mesmo o chefe da Gestapo, Rudolf Diels. William Shirer, que mais
tarde se juntaria ao grupo, descreveu Martha como sendo uma participante ativa: «bonita,
vivaz, com uma grande capacidade de argumentação».

Naquele mundo novo, o cartão de visita era a moeda corrente. O carácter do cartão de um
indivíduo refletia o do próprio indivíduo, a perceção que tinha de si mesmo ou a que queria
transmitir ao mundo. Os líderes nazis eram sistematicamente quem apresentava os maiores

94

NO JARDIM DOS MONSTROS

Cartões, com títulos imponentes, regra geral impressos nalgum tipo de letra gótica e em
negrito. O príncipe Luís Fernando, filho do Príncipe Herdeiro da Prússia, um jovem de
temperamento doce que trabalhara numa linha de montagem da Ford nos Estados Unidos,
tinha um cartão minúsculo, no qual constavam apenas o seu nome e o título. O pai, pelo
contrário, tinha um grande cartão com um retrato seu de um lado, envergando um traje real, e
o verso em branco. Os cartões de visita eram polivalentes. Notas rabiscadas em cartões
serviam de convites para jantares, cocktails ou prestações mais apelativas. Bastava rasurar o
apelido para que um homem ou uma mulher transmitissem a ideia de amizade, de interesse
ou até de intimidade. Martha acumulava dezenas de cartões e guardava-os. Cartões de visita
do príncipe Luís, que em breve se tornaria um pretendente e um amigo; de Sigrid Schultz, com
certeza; e de Mildred Fish Harnack que estivera presente na plataforma da estação quando ela
e os pais tinham chegado a Berlim. Um correspondente da United Press, Webb Miller, escreveu
no seu cartão: «Se não tem algo mais importante para fazer, porque não janta comigo?»
Acrescentava o nome do hotel em que se encontrava, bem como o número do quarto.

Por fim, ela conheceu o seu primeiro oficial nazi. Tal como prometera, Reynolds levou-a à festa
do amigo inglês, «um acontecimento sumptuoso e com bastante álcool». Bem depois de terem
chegado, um homem imenso com espesso cabelo preto entrou na sala — «de uma maneira
sensacional», como Martha recordaria — distribuindo cartões para todos os lado, com uma
ênfase decidida em destinatárias jovens e bonitas. Com um metro e noventa e três, era
bastante mais alto do que a maioria dos homens ali presentes, e decerto pesaria uns cento e
quinze quilos. Uma observadora descreveu-o como tendo «um aspeto supremamente bizarro
— uma enorme marioneta com fios frouxos». Mesmo com o barulho da festa a sua voz
sobressaía como um trovão no meio da chuva.

Aquele, disse Reynolds a Martha, era Ernst Hanfstaengl. Oficialmente, conforme anunciava o
seu cartão de visita, era o Auslandspresse-chef — Chefe da Imprensa Estrangeira — do partido
nacional-socialista, ainda que, na verdade, isso fosse em grande parte um emprego inventado
sem grande autoridade concreta, umas luvas outorgadas

95

ERIK LARSON

por Hitler como forma de reconhecimento pela amizade de Hanfstaengl, que se mantinha
desde os tempos de juventude, quando o di tador frequentava a casa dele.

Ao ser-lhe apresentado, Hanfstaengl disse a Martha:

— Chame-me Putzi. — Era a sua alcunha de infância, usada uni versalmente pelos seus amigos
e conhecidos, bem como por todos os correspondentes da cidade.

Era o gigante de que, por aquela altura, Martha já tanto ouvira falar — o homem de apelido
impronunciável, impossível de soletrar adorado por muitos correspondentes e diplomatas,
detestado e sem a confiança de tantos outros; neste último campo, incluía-se George
Messersmith, que afirmava nutrir «um desagrado instintivo» pelo homem. «É absolutamente
insincero e não se pode acreditar em nada do que diga», escreveu o cônsul-geral. «Finge a
maior das amizades com aqueles que tenta, ao mesmo tempo, minar ou até atacar
diretamente.»

Ao início, o amigo de Martha, Reynolds, gostara de Hanfstaengl. Ao contrário de outros nazis, o


homem «esforçava-se ao máximo por ser cordial com os Americanos», recordou Reynolds.
Hanfstaengl oferecia-se para proporcionar entrevistas que, de outro modo, poderiam ser
impossíveis e tentava mostrar-se aos correspondentes da cidade como um deles, «informal,
sociável, encantador». Porém, a afeição de Reynolds pelo alemão acabaria por esmorecer. «Era
preciso conhecê-lo para não se gostar dele. Isso», observou, «só aconteceu depois.»

Hanfstaengl tinha um inglês impecável. Em Harvard, fora membro do Hasty Pudding Club, um
grupo de teatro, onde marcara para sempre as mentes do público quando, numa peça, se
vestira como uma rapariga holandesa chamada Gretchen Spootsfeiffer. Travou conhecimento
com o colega Theodore Roosevelt Jr., filho mais velho de Teddy Roosevelt, e tornou-se visita
constante da Casa Branca. Corria uma história acerca de ter tocado piano na cave da Casa
Branca com tanta verve que rebentara sete cordas. Já adulto, gerira a galeria de arte da família
em Nova Iorque, onde conhecera a sua futura esposa. Depois de se mudar para a Alemanha, o
casal aproximara-se de Hitler, que seria padrinho do filho recém-nascido, Egon. O rapaz
chamava-lhe «Tio Dolf». Por vezes, quando Hanfstaengl tocava para Hitler, o ditador chorava.

96

NO JARDIM DOS MONSTROS

Martha gostou de Hanfstaengl. Não era, de todo, o que esperava de um funcionário superior
nazi, que «proclamasse de forma tão patente o seu charme e talento». Era grande e cheio de
energia, com mãos gigantes de dedos longos — mãos que a amiga de Martha, Bella Fromm,
descreveria como sendo «de dimensões quase assustadoras» - e uma personalidade que
saltava rapidamente de um extremo a outro. Martha escreveu: «Tinha modos suaves e afáveis,
uma bela voz de que se servia com uma habilidade consciente, por vezes sussurrando
delicadamente para, em seguida, soltar um grito que deixava a sala estremecer.» Dominava
qualquer situação social. «Era capaz de exaurir qualquer um e, através de pura persistência,
vencer com sussurros ou gritos o homem mais forte de Berlim.»

Também Hanfstaengl gostou de Martha, mas não tinha o pai dela em grande conta. «Era um
modesto professor de história sulista, que geria a embaixada com escassos recursos e que
provavelmente tentava fazer um pé de meia com o ordenado que recebia», escreveu numas
memórias. «Numa altura em que era necessário um milionário robusto para competir com a
exuberância dos nazis, ele vacilava por ali de uma maneira que o autoanulava, como se ainda
estivesse no campus da sua faculdade.» Com um desdém propositado, referia-se-lhe como
«Papá» Dodd.

«O melhor que Dodd tinha», escreveu ele, «era a sua atraente filha loura, Martha, que conheci
bastante bem.». Hanfstaengl achava-a encantadora, vibrante e, obviamente, uma mulher de
grande apetite sexual.
O que lhe deu uma ideia.

97

CAPITULO 9

A MORTE É A MORTE

Dodd esforçava-se por manter uma postura objetiva, apesar dos primeiros encontros com
visitantes que tinham visto uma Alemanha bem diferente do reino alegre e soalheiro por que
ele caminhava todas as manhãs. Um desses visitantes era Edgar A. Mowrer, na altura o mais
famoso correspondente em Berlim, no centro de uma tempestade de controvérsia. Para além
de trabalhar para o Chicago Daily News, Mowrer escrevera um livro de grande sucesso,
Germany Puts the Clock Back [A Alemanha Atrasa o Relógio], que enfurecera os oficiais nazis a
ponto de os amigos dele julgarem que corria perigo de morte. O governo hitleriano queria-o
fora do país. Ele queria ficar e acorre a Dodd para lhe pedir que intercedesse por si.

Há muito que Mowrer era um alvo da ira nazi. Nos relatórios que enviava da Alemanha,
conseguira minar a patina de normalidade e capturar acontecimentos que desafiavam a
crença, servindo-se de técnicas de reportagem narrativa para o fazer. Uma das suas principais
fontes de informação era o seu médico, um judeu filho do Grande Rabino de Berlim.
Aproximadamente de duas em duas semanas, Mowrer marcava uma consulta, justificando-se
com uma persistente dor de garganta. Sempre que o recebia, o médico entregava-lhe um
relatório datilografado a respeito dos mais recentes excessos nazis, um método que funcionou
até o médico começar a desconfiar que Mowrer estava a ser seguido. Arranjaram, então, um
novo ponto de encontro: todas as quartas-feiras, às llh45 da manhã, viam-se na casa de banho
pública subterrânea da Potsdamer Platz. Ficavam em urinóis adjacentes. O médico deixava cair
o último relatório e Mowrer apanhava-o.
98

NO JARDIM DOS MONSTROS

Putzi Hanfstaengl tentou minar a credibilidade de Mowrer espalhando o falso rumor de que o
motivo para a agressividade crítica dos relatos era que ele era um judeu «secreto». Na
verdade, o mesmo ocorrera a Martha. «Sentia-me inclinada a vê-lo como judeu», escreveu ela
que «considerava que a sua animosidade só era provocada pelo seu constrangimento racial.»

Mowrer sentia-se consternado por o mundo exterior ser incapaz de perceber o que estava
realmente a acontecer na Alemanha. Descobriu que até o seu próprio irmão começara a
duvidar da veracidade dos seus artigos.

Convidou Dodd para jantar no seu apartamento com vista para Tiergarten e tentou dar-lhe a
conhecer algumas realidades ocultas. «Em vão», escreveria depois. «Ele vinha prevenido.»
Parecia que nem os ataques reiterados a cidadãos norte-americanos tinham impressionado o
embaixador, recordaria Mowrer: «Dodd anunciou que não tinha vontade alguma de se imiscuir
nas questões da Alemanha.»

Por seu lado, Dodd avaliou Mowrer como sendo «quase tão veemente, à sua maneira, como os
nazis».

As ameaças a Mowrer iam aumentando. No seio da hierarquia nazi, falava-se de infligir danos
físicos ao enviado especial. O comandante da Gestapo, Rudolf Diels, sentiu-se obrigado a
alertar a embaixada dos Estados Unidos para o facto de Hitler se enraivecer sempre que o
nome de Mowrer era mencionado. Receava que algum fanático matasse o jornalista ou, fosse
como fosse, «o eliminasse do cenário». Diels afirmava ter incumbido alguns homens
«responsáveis» da Gestapo de vigiarem discretamente Mowrer e a sua família.

Quando o chefe de Mowrer, Frank Knox, proprietário do Chicago Daily News, tomou
conhecimento destas ameaças, decidiu transferi-lo para fora de Berlim. Ofereceu-lhe uma
posição em Tóquio. Mowrer aceitou, renitente, consciente de que, mais tarde ou mais cedo,
acabaria por ser expulso da Alemanha; contudo, insistiu em ficar até outubro, em parte apenas
para demonstrar que não cederia a intimidações, mas sobretudo porque queria fazer a
cobertura do espetáculo anual nazi de Nuremberga, cujo início estava previsto para 1 de
Setembro. Aquele comício, «O Dia de Festa da Vitória», prometia ser o maior até à data.

99

ERIK LARSON
Os nazis queriam-no fora do país sem delongas. Tropas de Assalto surgiram no exterior do seu
escritório. Seguiam-lhe os amigos e faziam ameaças ao pessoal que trabalhava com ele. Em
Washington o embaixador alemão nos Estados Unidos notificou o Departamento de Estado de
que, devido à «justa indignação do povo», o governo já não poderia garantir que nada de mal
acontecesse a Mowrer.

Nesta altura, até os outros correspondentes ficaram preocupados. H. R. Knickerbocker e outro


jornalista foram ver o cônsul-geral nara lhe pedirem que persuadisse Mowrer a partir.
Messersmith mostrou-se relutante. Conhecia bem Mowrer e respeitava a coragem que
demonstrava ao enfrentar as ameaças nazis. Receava que Mowrer interpretasse a sua
intercessão como uma traição. Não obstante, acedeu a tentar.

Foi «uma das conversas mais difíceis que alguma vez tive», escreveu Messersmith mais tarde.
«Quando ele se apercebeu de que eu me juntava aos seus outros amigos que queriam
persuadi-lo a partir, ficou com lágrimas nos olhos e fitou-me com um ar reprovador.» Ainda
assim, Messersmith sentia que tinha o dever de o convencer a ir embora.

Mowrer desistiu, «com um gesto de desespero», e deixou o gabinete do cônsul-geral.

Em seguida, apresentou o seu caso diretamente ao embaixador Dodd, mas também este era
da opinião de que ele deveria partir, não apenas pela sua segurança, mas também por os seus
relatos proverem mais uma camada de tensão

àquilo que já era um ambiente diplomático muito desafiante. Disse-lhe:

— Se o seu jornal não fosse transferi-lo de qualquer forma, eu esforçar-me-ia ao máximo para
que isso acontecesse [...] Porque não faz isto e evita complicações?

Mowrer resignou-se. Acedeu a partir a 1 de setembro, o primeiro dia do comício de


Nuremberga que tanto queria reportar.

Mais tarde, Martha escreveu que ele «nunca conseguiu perdoar este conselho ao meu pai».

Outro dos primeiros visitantes de Dodd foi, nas palavras dele, «talvez o melhor químico da
Alemanha», embora não parecesse sê-lo.

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NO JARDIM DOS MONSTROS


De estatura pequena e calvo como um ovo, tinha um bigode estreito e grisalho sobre os lábios
cheios. Tinha a pele amarelada e o ar de um homem muito mais velho.

Chamava-se Fritz Haber. Para qualquer alemão, o nome era bem conhecido e reverenciado, ou
fora-o, até ao advento de Hitler. Pouco tempo antes, era o diretor do famoso Instituto Kaiser
Wilhelm de Química Física, um herói nacional e laureado com o Prémio Nobel. Com a
esperança de pôr fim ao impasse nas trincheiras durante a anterior Grande Guerra , Haber
tinha inventado o veneno de gás clorídrico. Divisou aquilo que ficou conhecido como a
«Regra de Haber», uma fórmula, C X t = k (em que c equivale à concentração do gás, «t» ao
tempo de exposição e «k» à constante do resultado. (N. da T.)), elegante na sua letalidade:
uma exposição a uma quantidade baixa de gás durante um período longo terá o mesmo
resultado que uma exposição a uma quantidade elevada de gás durante um período curto.
Também inventou um meio de distribuir o seu gás venenoso na frente de combate e esteve
presente em 1915, quando este foi utilizado pela primeira vez contra os Franceses, em Ypres. A
um nível pessoal, esse dia em Ypres sair-lhe-ia muito caro. A sua esposa, Clara, com quem se
casara trinta e dois anos antes, há muito condenava o seu trabalho, achando-o inumano e
imoral, e exigia-lhe que parasse, mas a tais apreensões ele reagia com uma resposta simples: a
morte era a morte, independentemente da causa. Nove dias depois do ataque com gás em
Ypres, ela suicidou-se. Apesar dos protestos internacionais quanto à sua pesquisa sobre gases
venenosos, ele recebeu o Prémio Nobel da Química em 1918, por ter descoberto uma forma
de recolher nitrogénio do ar, permitindo assim a manufatura de muito fertilizante barato — e,
claro, de pólvora.

Apesar de ser ter convertido, antes da guerra, ao protestantismo, as novas leis nazis
classificavam-no como não-ariano; todavia, uma exceção concedida a veteranos de guerra
judeus permitia-lhe continuar à frente do instituto. Muitos cientistas judeus a seu cargo,
porém, não tinham as qualificações necessárias para serem isentos e, a 21 de abril de 1933,
Haber recebeu ordens para os despedir. Debateu-se

101

ERIK LARSON

contra tal decisão, mas poucos aliados encontrou. Até o amigo Max Planck lhe oferecia fraco
consolo. «Nesta profunda depressão», escreveu Planck, «encontro conforto apenas no facto
de vivermos numa era de catástrofe semelhante à que precede qualquer revolução, e de
termos de suportar muito do que acontece como um fenómeno da natureza, sem agonizarmos
sobre a possibilidade de as coisas poderem ter seguido um percurso diferente.»

Haber não era da mesma opinião. Em vez de encabeçar o despedimento dos seus amigos e
colegas, demitiu-se.

Agora — sexta-feira, 28 de julho de 1933 —, com poucas escolhas que lhe restassem, foi ao
gabinete de Dodd em busca de auxílio levando uma carta de Henry Morgenthau Jr., diretor do
Conselho Federal de Agricultura (e futuro Secretário do Tesouro) de Roosevelt. Morgenthau
era judeu e ativista dos refugiados judeus.

Enquanto lhe contava a sua história, «tremia dos pés à cabeça», escreveu Dodd no seu diário,
onde registou que o relato de Haber era «a história mais triste de perseguição aos judeus que
já ouvi». Aos sessenta e cinco anos, com problemas cardíacos, Haber via ser-lhe negada a
pensão que lhe fora garantida sob as leis da República de Weimar, que antecedera o Terceiro
Reich de Hitler. «Ele desejava saber que possibilidades teriam nos Estados Unidos os
emigrantes com distinções científicas conseguidas aqui», escreveu Dodd. «Só pude dizer-lhe
que, por ora, a lei não o permitia, pois as quotas estão preenchidas.» O embaixador prometeu
que escreveria ao Departamento do Trabalho, que administrava as quotas de imigração,
perguntando «se poderia ser tomada uma decisão favorável a tais pessoas.»

Apertaram as mãos. Haber alertou Dodd para que tivesse cuidado ao apresentar o seu caso a
outros, «pois as consequências poderiam ser nefastas». E depois partira, um pequeno químico
apagado, que outrora fora uma das figuras científicas mais importantes da Alemanha.

Dodd recordou ter pensado «Pobre velho» — corrigindo-se de imediato, pois, na verdade,
Haber tinha apenas mais um ano do que

102

NO JARDIM DOS MONSTROS

ele. «Uma conduta assim», anotou no seu diário, «só pode acarretar malefícios ao governo
que leva a cabo uma crueldade tão terrível.» Dodd descobriu demasiado tarde que o que
dissera a Haber estava simplesmente incorreto. Na semana seguinte, a 5 de agosto, Dodd
esceveu a lsador Lubin, diretor do Gabinete de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos:
«Saberá que a quota permitida já foi preenchida e provavelmente terá noção de que uma
grande quantidade de pessoas excelentes gostaria de migrar para os Estados Unidos, ainda
que tenha de sacrificar a sua propriedade para o fazer.» À luz desta situação, Dodd queria
saber se o Departamento do Trabalho haveria descoberto algum meio através do qual «os
mais merecedores possam ser aceites».

Lubin enviou a carta de Dodd ao coronel D. W. MacCormack, comissário da Imigração e


Naturalização, que, a 23 de agosto, respondeu a Lubin, dizendo-lhe: «Parece que o embaixador
compreendeu mal esta situação.» Na verdade, apenas uma pequena fração dos vistos
destinados à quota alemã tinha sido emitida, e a culpa disso, afirmava MacCormack de forma
explícita, era do Departamento de Estado e do Serviço Diplomático, dado o entusiasmo com
que aplicavam a cláusula que barrava a entrada a pessoas que «pudessem tornar-se um
encargo público». Nos documentos de Dodd, nada explica por que terá acreditado que a quota
fora atingida.

Tudo isto aconteceu demasiado tarde para Harber, que partiu para Inglaterra, para ensinar na
Universidade de Cambridge, o que parecia uma resolução satisfatória; contudo, ele viu-se
perdido numa cultura estranha, arrancado ao seu passado e a sofrer os efeitos de um clima
inóspito. Seis meses depois de ter saído do gabinete de Dodd, durante um período de
convalescença na Suíça, teve um ataque cardíaco fatal e a sua morte não foi lamentada na
nova Alemanha. Passada uma década, porém, o Terceiro Reich encontraria um novo uso para a
«Regra de Haber» e para um inseticida que ele inventara no seu instituto, composto em parte
por cianeto de hidrogénio e usado habitualmente para fumigar estruturas de armazenagem de
cereais. Chamado Zyklon A, seria transformado por químicos alemães numa variante mais
letal: Zyklon B.

103

ERIK LARSON

Apesar deste encontro, Dodd mantinha-se convicto de que o governo estava a ficar mais
moderado e que os maus-tratos nazis aos judeus ia decrescendo. Disse-o numa carta que
enviou ao rabi Wise, do Congresso Judaico Americano, que conhecera no Century Club, em
Nova Iorque, e que viajara no mesmo navio que ele para a Alemanha.

Wise ficou espantado. Na resposta que lhe enviou, a 28 de julho de Genebra, escreveu: «Quem
me dera poder partilhar o seu otimismo! Devo, contudo, dizer-lhe que tudo, tudo o que ouvi
das dúzias de refugiados em Londres e Paris nas últimas duas semanas me leva a sentir que,
longe de ter havido, como afirma, uma melhoria, a situação se torna, a cada dia, mais severa e
opressiva para os judeus alemães. Tenho a certeza de que esta minha impressão seria
coadjuvada pelos homens que conheceu naquela pequena conferência no Century Club.»
Recordava-o do encontro em Nova Iorque, onde tinham estado presentes Wise, Félix Warburg
e outros líderes judaicos. Em privado, numa carta à filha, o rabi escreveu que «andam a
mentir» a Dodd,

Este preservava a sua opinião. Respondendo à carta de Wise, contrapôs que «as muitas fontes
de informação disponíveis ao nosso gabinete aqui parecem-me indicar uma vontade de aliviar
o problema judaico. É claro que continuam a ser relatados muitos incidentes de uma natureza
bastante desagradável. Creio tratarem-se de remanescências da agitação anterior. Ainda que
não esteja de forma alguma predisposto a justificar ou pedir desculpa por tais condições,
sinto-me bastante convicto de que a liderança do Governo tende a alcançar uma política mais
amena assim que possível.»

E acrescentou: «Decerto sabe que o nosso Governo não pode intervir em questões internas
como estas. Tudo o que é possível fazer é apresentar o ponto de vista norte-americano e
enfatizar as consequências infelizes da política que tem sido seguida.» Disse a Wise que se
opunha a protestos declarados. «Na minha opinião [...] a maior influência que podemos
exercer a favor de uma política mais branda e compassiva tem de ser aplicada de forma
oficiosa e através de conversas privadas com os homens que já começam a ver os riscos
envolvidos.»

O rabi estava tão preocupado com a aparente incapacidade de Dodd de compreender o que
acontecia na realidade que se ofereceu

104

NO JARDIM DOS MONSTROS

para ir a Berlim e, como disse à própria filha, Justine, «dizer-lhe a verdade que ele, de outra
forma, não ouviria». Nessa altura, Wise viajava pela Suíça. De Zurique, «tornei a implorar a
Dodd, num telefonema, que tornasse possível o meu voo para Berlim.»

Dodd recusou. Wise era demasiado conhecido na Alemanha, e também demasiado odiado. A
sua fotografia surgira bastas vezes nos jornais Volkischer Beobachter e Der Stiirmer. Segundo
Wise registou nas suas memórias, Dodd receava que «eu pudesse ser reconhecido, sobretudo
por causa do meu passaporte inconfundível, e que desse origem a um "incidente
desagradável" ao aterrar num lugar como Nuremberga » O embaixador não se deixou
persuadir pela sugestão feita pelo rabi de que um funcionário da embaixada o fosse receber ao
aeroporto e o mantivesse sob vigia enquanto ele se encontrasse no país.

Na Suíça, Wise participou numa Conferência Judaica Mundial em Geneva, onde apresentou a
proposta de boicote internacional ao comércio alemão. A proposta foi aprovada.
Wise teria ficado alentado ao saber que o cônsul-geral Mes-sersmith tinha uma visão muito
mais sombria dos acontecimentos do que Dodd. Ainda que reconhecesse que os incidentes de
violência direta contra judeus tinham diminuído de maneira acentuada, percebia que tinham
sido substituídos por uma forma de perseguição que era bem mais insidiosa e arreigada.
«Sucintamente, poderá dizer-se que a situação dos judeus, em todos os aspetos salvo o da
segurança pessoal, está a tornar-se cada vez mais difícil e que as restrições em vigor estão a
tornar-se mais efetivas a cada dia que passa, ao mesmo tempo que surgem constantemente
novas restrições», escreveu ele num despacho enviado ao Departamento de Estado.

Citava vários novos desenvolvimentos. Os dentistas judeus já não podiam atender pacientes
abrangidos pelo sistema de segurança social germânico, um eco do que acontecera, no início
do ano, aos médicos. Um novo «gabinete de moda alemã» acabara de excluir costureiros
judeus da participação num espetáculo de moda que iria ter lugar em breve. Judeus e
qualquer pessoa que tivesse sequer uma aparência não-ariana nao poderiam ser polícias. E os
judeus, informava o cônsul-geral, tinham sido oficialmente banidos da praia de banhistas de
Wannsee.

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ERIK LARSON

Uma perseguição ainda mais sistemática estava a caminho, escrevia Messersmith. Ele ficara a
saber que existia um esboço de uma nova lei que privaria os judeus da cidadania e de todos os
direitos cívicos. Os judeus da Alemanha, escreveu ele, «encaram esta proposta de lei como o
golpe moral mais grave que poderia atingi-los. Têm sido e são privados de praticamente todos
os meios de subsistência e compreendem que a nova lei da cidadania equivale a privá-los
praticamente de todos os direitos cívicos.»

O único motivo para que a lei ainda não tivesse sido aprovada, ao que Messersmith apurara,
era que, por ora, os homens que a tinham delineado receavam «o sentimento público
desfavorável que provocaria no estrangeiro». O rascunho já circulava há nove semanas, o que
o incitava a terminar aquele despacho com alguma esperança. «O facto de a lei estar a ser
considerada há tanto tempo», escreveu, «poderá ser indicativo de que, na sua forma final, seja
menos radical do que ainda se contempla.»
Dodd reiterou o seu compromisso para com a objetividade e a compreensão numa carta que
enviou a 12 de agosto a Roosevelt, na qual afirmou que, embora não aprovasse o modo como
os judeus eram tratados ou o impulso de Hitler de restaurar o poderio militar do país,
«fundamentalmente, creio que um povo tem o direito de se autogovernar e que os outros
povos devem ter uma postura paciente mesmo quando ocorrem crueldades e injustiças. É
necessário dar aos homens uma oportunidade de experimentarem os seus esquemas.»

106

CAPITULO 10

TIERGARTENSTRASSE 27A

Martha e a mãe dedicaram-se a procurar uma casa que a família pudesse arrendar, de forma a
saírem do Esplanade — de escaparem à sua opulência, na opinião de Dodd — e terem uma
vida mais estável. Entretanto, Bill Jr. inscrevera-se num curso de doutoramento na
Universidade de Berlim; para melhorar o seu alemão o mais depressa possível, conseguiu ficar
a morar durante a semana com a família de um professor.

A questão do alojamento do embaixador dos Estados Unidos era há muito um embaraço.


Alguns anos antes, o Departamento de Estado adquirira e remodelara um grande edifício
sumptuoso, o palácio Blúcher, que ficava na Pariser Platz, por trás das Portas de Brandeburgo,
que serviria de residência ao embaixador e consolidaria numa só localização todos os outros
gabinetes diplomáticos e consulares espalhados pela cidade, bem como de forma de
aproximar a presença física dos Estados Unidos à da Grã-Bretanha e de França, cujas
embaixadas desde há muito se encontravam em palácios majestosos daquela praça. Contudo,
mesmo antes de o antecessor de Dodd, Frederic Sackett, se ter instalado, um incêndio
deflagrara no edifício, que desde então era uma ruína abandonada, o que forçara Sackett, e
agora Dodd, a encontrar um alojamento alternativo. Pessoalmente, Dodd nao ficava triste por
isso. Embora abominasse o desperdício de dinheiro gasto até então no palácio — o governo,
escreveu ele, pagara um preço «exorbitante» pelo edifício mas, «sabe como é, foi em 1928 ou
1929, quando toda a gente estava louca» —, agradava-lhe a ideia de ter uma casa fora da
própria embaixada. «Preferiria ter a minha residência a uma meia hora de caminhada do que
habitar no Palais», escreveu. Reconhecia que ter um edifício suficientemente espaçoso para
107

ERIK LARSON

hospedar os funcionários inferiores seria bom, «mas qualquer um que tenha de receber
pessoas perceberia que residir no mesmo local do gabinete nos privaria praticamente de toda
a privacidade — o que por vezes, é essencial.»

Martha e a mãe percorreram os encantadores bairros residenciais da área metropolitana de


Berlim, descobrindo que a cidade estava cheia de parques e jardins, com plantas e flores em
todas as varandas. Nos bairros mais afastados, viram o que lhes pareceu serem pequenas
quintas, possivelmente ideais para o pai de Martha. Encontraram esquadrões de jovens
fardados que marchavam e cantavam alegremente, bem como formações mais ameaçadoras
de Tropas de Assalto com homens de todos os tamanhos em uniformes atabalhoados, cuja
peça central era uma camisa castanha com um corte espetacularmente inadequado. Menos
comum era avistarem os homens mais elegantes e bem vestidos das SS, em trajes negros como
a noite debruados a vermelho, como uma espécie de melro gigante.

Encontraram muitas propriedades por onde escolher, embora ao início não se perguntassem
porque estariam tantas mansões grandes e antigas disponíveis para arrendamento, mobiladas
de forma tão completa e luxuosa, com mesas e cadeiras de madeira trabalhada, pianos
cintilantes e jarros, mapas e livros raros ainda nos seus lugares. Uma área de que gostaram em
especial era o bairro imediatamente a sul do Tiergarten, na rota que Dodd fazia para ir
trabalhar, onde se depararam com jardins encantadores, muita sombra, um ambiente calmo e
uma fileira de casas elegantes. Uma propriedade do bairro ficara disponível, o que eles ficaram
a saber através do adido militar da embaixada que, por seu turno, fora informado diretamente
pelo dono, Alfred Panofsky, proprietário abastado de um banco privado e um dos muitos
judeus — cerca de 16 000, ou nove por cento dos judeus de Berlim — que viviam no bairro.
Ainda que, por toda a Alemanha, os judeus estivessem a ser expulsos dos seus empregos, o
banco de Panofsky continuava em funcionamento e, surpreendentemente, com a indulgência
das autoridades oficiais.

Panofsky prometia que a renda seria muito razoável. Dodd, que já lamentava mas mantinha o
voto de se sustentar com o seu salário, ficou interessado e, no final de julho, foi dar-lhe uma
vista de olhos.

108
NO JARDIM DOS MONSTROS

A casa, no número 27A da Tiergartenstrasse, era uma mansão de pedra, de quatro andares,
construída para Ferdinand Warburg, da famosa dinastia Warburg. O parque ficava do outro
lado da rua. Panofsky e a mãe mostraram a propriedade aos Dodd e o embaixador percebeu
então, que não era toda a casa o que estava a ser oferecido, mas sim apenas os três primeiros
pisos. O banqueiro e a mãe tencionavam ocupar o último andar, reservando igualmente a
serventia do elevador elétrico da mansão.

Panofsky era suficientemente abastado para não precisar do dinheiro do arrendamento, mas já
vira o suficiente desde a nomeação de Hitler como chanceler para saber que judeu algum, por
mais proeminente que fosse, estava a salvo da perseguição nazi. Oferecia o 27A ao novo
embaixador com a intenção expressa de conquistar, tanto para si como para a mãe, um maior
nível de proteção física, calculando que, certamente, nem as Tropas de Assalto ousariam
arriscar-se ao escândalo internacional que um ataque a uma casa partilhada pelo embaixador
norte-americano decerto provocaria. Quanto à família Dodd, ganharia todas as comodidades
de uma vivenda, mas por uma fração do custo, numa estrutura cuja presença na rua era
suficientemente impressionante para transmitir a ideia de poder e prestígio norte-americanos,
e cujos espaços interiores tinham a dimensão necessária para a receção de convidados
governamentais e diplomáticos sem qualquer embaraço. Numa carta enviada ao presidente
Roosevelt, Dodd alardeava: «Temos uma das melhores residências de Berlim por 150 dólares
por mês — devido ao facto de o proprietário ser um judeu abastado, mais do que desejoso de
no-la entregar.»

Panofsky e Dodd assinaram um «acordo de cavalheiros» de uma só página, embora o


embaixador ainda tivesse algumas apreensões quanto ao espaço. Apesar de adorar a calma, as
árvores, o jardim e a perspetiva de continuar a ir a pé para o trabalho todas as manhãs, a casa
parecia-lhe demasiado opulenta e, num tom sarcástico, referia-se-lhe como «a nossa nova
mansão».

Uma placa que ostentava a imagem de uma águia americana foi afixada no portão de ferro na
entrada da propriedade e no sábado,

109

ERIK LARSON
5 de agosto de 1933, Dodd e a família abandonaram o Esplanade e mudaram-se para o novo
lar.

Dodd viria a admitir que, se estivesse ciente das verdadeiras intenções de Panofsky para o
quarto andar, que iam para lá de simplesmente se alojar com a mãe, nunca teria acedido a
arrendá-la.

Árvores e jardins preenchiam a propriedade, rodeada por uma alta vedação de ferro colocada
sobre um muro de tijolo à altura dos joelhos. Qualquer pessoa que chegasse a pé entrava
pelos portões de ferro semelhantes a portas, com barras verticais de ferro; de carro, entrava-se
pelo portão principal que tinha um arco elaborado de ferro forjado, com uma esfera
translúcida no centro. A porta da frente da casa estava sempre à sombra e formava um
retângulo preto na base de uma fachada arredondada, como uma torre, que se alçava até ao
topo do edifício. A característica mais peculiar da arquitetura da mansão era uma saliência
com a altura de cerca de um andar e meio que sobressaía da frente da casa, para formar uma
porta-cocheira que dava para o acesso da entrada e que servia como galeria para exibição de
quadros.

A entrada principal e o vestíbulo ficavam no piso térreo, nas traseiras do qual se encontrava a
alma operacional da casa — os quartos da criadagem, a lavandaria, a geleira, várias despensas
e armários, uma copa e uma cozinha enorme, que Martha descreveu como sendo «do dobro
do tamanho de um apartamento médio de Nova Iorque». Ao entrarem na casa, os Dodd
passaram primeiro por um grande vestíbulo flanqueado de ambos os lados por vestiários, após
o que subiram uma escadaria elaborada que os levou ao primeiro andar.

Era ali que o verdadeiro esplendor da casa se tornava evidente. Na parte da frente, por trás da
fachada curva como uma torre, ficava um salão de baile com uma pista de dança oval de
pavimento de madeira brilhante, um piano coberto por um tecido pesado e com franjas e um
banco estofado e dourado. Ali, sobre o piano, os Dodd colocaram uma jarra elaborada cheia de
flores de pé alto e, ao lado, uma fotografia de Martha, retratada de uma forma que a mostrava
excecio-nalmente bela, abertamente sensual, talvez uma escolha estranha para

110

NO JARDIM DOS MONSTROS


o salão de baile da residência de um embaixador. Uma sala tinha as paredes forradas de
damasco verde-escuro, outro de cetim cor-de-rosa. Uma vasta sala de jantar ostentava paredes
cobertas de tapeçarias vermelhas.

O quarto dos Dodd ficava no terceiro andar. (Panofsky e a mãe habitariam o andar acima
deste, o do sótão.) A casa de banho da suite era imensa, tão elaborada e exagerada que
chegava a ser cómica, pelo menos na opinião de Martha. O pavimento e as paredes estavam
«inteiramente revestidos de ouro e mosaicos coloridos». Uma grande banheira encontrava-se
numa plataforma elevada, como algo em exibição num museu. «Durante semanas», escreveu
Martha, «desatava a rir sempre que via a casa de banho e, por vezes, por brincadeira, levava
os meus amigos a vê-la, quando o meu pai não estava.»

Apesar de a casa continuar a parecer demasiado luxuosa a Dodd, até ele tinha de conceder
que o salão de baile e as salas de estar seriam úteis para serviços diplomáticos, alguns dos
quais ele sabia — e receava - que implicariam convidar dezenas de pessoas para não ofender
um embaixador descurado. E adorava o Wintergarten, na extremidade sul do primeiro andar,
uma câmara com paredes de vidro que dava para um terraço de tijoleira com vista para o
jardim. Lá dentro, lia num cadeirão reclinável; quando o tempo estava agradável, sentava-se no
exterior numa cadeira de vime, um livro no colo, sob o sol que brilhava a sul.

A divisão preferida da família era a biblioteca, que oferecia a perspetiva de noites de inverno
junto à lareira. As paredes estavam forradas a madeira escura e reluzente e a damasco
vermelho; tinha uma bela lareira com uma pedra negra esmaltada, onde tinham sido gravadas
florestas e figuras humanas. As prateleiras estavam cheias de livros, muitos dos quais Dodd
calculava que fossem antigos e valiosos. Em certas horas do dia, a divisão era banhada por luz
colorida, filtrada por uma janela de vitral bem alta numa das paredes. Uma mesa com tampo
de vidro exibia manuscritos e cartas valiosos, que Panofsky ali deixara. Martha gostava
sobretudo do sofá espaçoso de couro castanho, que em breve se tornaria uma mais-valia da
sua vida amorosa, o tamanho da casa, a distância entre os quartos, o silêncio proporcionado
pelas paredes forradas a tecido — também tudo isto revelaria

111

ERIK LARSON

ser precioso, tal como hábito que os pais tinham de se deitarem cedo não obstante o costume
prevalecente em Berlim de se ficar acordado até altas horas da noite.
Nesse sábado de agosto em que a família Dodd se mudou para a mansão, os Panofsky tiveram
a delicadeza de colocar flores frescas na casa, o que levou o embaixador a escrever-lhes uma
nota de agradecimento: «Estamos convencidos de que, graças aos vossos amáveis esforços e
consideração, seremos muito felizes na vossa casa encantadora.»

Na comunidade diplomática, depressa a casa de Tiergartenstrasse 27a se tornou conhecida


como um refúgio onde era possível falar-se sem receios. «Adoro ir lá por causa da mente
arguta de Dodd, da sua acutilante capacidade de observação e do sarcasmo vigoroso que
tem», escreveu Bella Fromm, a cronista de sociedade. «Também me agrada porque não impõe
a cerimónia rígida que se observa noutras casas diplomáticas.» Um visitante frequente era o
príncipe Fernando que, nas suas memórias, descreveu a casa como «um segundo lar» para si.
Era costume jantar com os Dodd. «Quando os criados se retiravam, abríamos os nossos
corações», escreveu ele. Por vezes, a candura do príncipe era demasiada, até para o
embaixador Dodd, que o avisou: «Se não fizer um esforço para ter mais cuidado com a forma
como fala, príncipe Luís, um dia destes enforcam-no. Decerto irei ao seu funeral, mas receio
bem que isso não lhe sirva de muito.»

Enquanto a família se instalava, Martha e o pai entendiam-se numa camaradagem


descontraída. Trocavam piadas e observações irónicas. «Adoramo-nos», escreveu numa carta a
Thornton Wilder, «e ele conta-me segredos de Estado. Rimo-nos dos nazis e perguntamos ao
nosso querido mordomo se tem sangue judeu.» O mordomo, chamado Fritz — «baixo, louro,
obsequioso, eficiente» — tinha trabalhado para o antecessor de Dodd. «À mesa, falamos
principalmente de política», prosseguia ela. «O meu pai lê capítulos do seu Old South aos
convidados. Eles quase morrem de tristeza e mistificação.»

Ela reparou que a mãe — a quem chamava «Sua Excelência» — estava de boa saúde, «mas um
pouco nervosa [e] a apreciar bastante tudo isto.» O pai, escreveu ela, «desabrochava de uma
forma incrível e parecia «ligeiramente pró-alemão». Acrescentou: «seja como for,não
gostamos muito dos judeus».

112

NO JARDIM DOS MONSTROS

Carl Sandburg enviou-lhe uma carta divagante, datilografada em duas folhas de papel muito
fino, com espaços em vez de pontuação:

Agora a hégira começa a wanderjahre percorrendo o mar e o ziguezague pelo continente e o


centro e a casa em berlim onde há tanta aritmética lacerada e testamentos rasgados pelas
portas passarão todas as vestimentas e línguas e histórias da europa os judeus os comunistas
os ateus e os não-arianos os proscritos nem sempre virão como tal mas virão em disfarces
farsas desfasadas [...] alguns chegarão com estranhas cancões e uns poucos com linhas que
conhecemos e amámos corres-pondentes casuais e permanentes espiões internacionais a
rodopiar ondas na praia aviadores heróis [...]»

Os Dodd depressa perceberam que tinham um vizinho proeminente e muito temido mais
adiante na Tiergartenstrasse, numa rua lateral chamada Standartenstrasse: o próprio capitão
Rohm, comandante das Tropas de Assalto. Todas as manhãs podia ser visto a montar um
grande cavalo negro no Tiergarten. Outro edifício próximo, uma encantadora mansão de dois
andares que alojava a chancelaria pessoal de Hitler, em breve acomodaria o programa nazi
para submeter a eutanásia pessoas com graves deficiências mentais ou físicas, com o nome de
código Aktion, ou Ação, T-4, devido à morada, Tiergartenstrasse 4. Para horror do conselheiro
da embaixada Gordon, o embaixador dava seguimento ao seu hábito de caminhar a sós, sem
guardas, envergando os seus fatos simples.

Naquele domingo, 13 de agosto de 1933, estando Hindenburg ainda em convalescença na sua


propriedade, sendo Dodd ainda embaixador não oficial e estando a questão de se instalarem
numa nova casa resolvida por fim, a família, acompanhada pelo novo amigo de Martha, o
correspondente Quentin Reynolds, partiu para explorar um pouco da Alemanha. Primeiro,
viajaram de carro — no Chevrolet dos Dodd mas tencionavam separar-se em Leipzig, a pouco
menos de cento e cinquenta quilómetros a sul de Berlim, onde o embaixador e a esposa
planeavam permanecer durante algum tempo e visitar pontos-

chave dos tempos que ele passara enquanto estudante na Universidade de Leipzig.

113

ERIK LARSON

Martha, Bill Jr. e Reynolds prosseguiram para sul, com o objetivo de alcançarem a Áustria.
Teriam uma viagem plena de incidentes, que constituiria o primeiro desafio à visão cor-de-rosa
que Martha tinha da nova Alemanha.

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TERCEIRA PARTE

LÚCIFER NO JARDIM
CAPÍTULO 11

SERES ESTRANHOS

Conduziram em direção ao sul, passando por belas paisagens campestres e pequenas aldeias
ordeiras, onde tudo mantinha o aspeto de trinta e cinco anos antes, quando Dodd avançara
por ali, com a exceção bem patente de que, vila após vila, as fachadas dos edifícios públicos
ostentavam estandartes com a insígnia vermelha, branca e preta do partido nazi, com a
inevitável cruz partida no centro. Às onze da manhã, chegaram à primeira paragem, a
Schlosskirche, ou Igreja do Castelo, em Wittenberg, onde Martinho Lutero pregara as suas «95
Teses» a uma porta, desencadeando a Reforma Protestante. Nos seus tempos de estudante,
Dodd viajara para Wittenberg a partir de Leipzig, sentando-se nos bancos da igreja durante a
missa; desta feita, encontrou as portas cerradas. Um desfile nazi percorria as ruas da cidade.

O grupo ficou apenas uma hora em Wittenberg, prosseguindo então para Leipzig, onde chegou
às treze horas e se dirigiu de imediato a um dos restaurantes mais famosos da Alemanha,
Auerbachs Keller, espaço de eleição de Goethe, que se serviu do restaurante como cenário de
um encontro entre Mefistófeles e Fausto, durante o qual o vinho de Mefistófeles se transforma
em fogo. Dodd avaliou a refeição como excelente, sobretudo pelo preço: três marcos. Não
bebeu vinho nem cerveja. Já Martha, Bill e Reynolds foram consumindo stein atrás de stein.

Então, o grupo dividiu-se em dois. Os jovens partiram de carro em direção a Nuremberga;


Dodd e a mulher instalaram-se num hotel,

descansaram várias horas e, depois, saíram para jantar outra boa refeição por um preço ainda
melhor: dois marcos. Continuaram a passear no dia seguinte, após o que apanharam um
comboio de volta a Berlim,

117
ERIK LARSON

onde chegaram às cinco da tarde e, de táxi, regressaram ao seu novo lar, no número 27a da
Tiergartenstrasse.

Dodd estava em casa há pouco mais de vinte e quatro horas quando ocorreu outro ataque a
um norte-americano. Dessa vez a vítima foi um cirurgião de 30 anos, chamado Daniel
Mulvihill, que vivia em Manhattan, mas exercia num hospital de Long Island e se encontrava
em Berlim para estudar as técnicas de um famoso cirurgião alemão. Messersmith, num
despacho sobre o incidente, dizia que Mulvihill era «um cidadão americano de boa estirpe e
não é judeu».

O ataque seguiu um padrão que viria a tornar-se demasiado familiar: ao cair da noite de terça-
feira, 15 de agosto, Mulvihill andava pela Unter den Linden, a caminho de uma mercearia,
quando parou a observar a aproximação de um desfile de membros fardados das SA. Os
soldados das Tropas de Assalto estavam a representar, para um filme propagandístico, a
grande marcha pelas Portas de Brandeburgo, que tivera lugar na noite da nomeação de Hitler
como chanceler. Mulvihill desviou o olhar, sem se aperceber de que um SA tinha deixado o
desfile e se encaminhava na sua direção. O soldado, sem aviso, atingiu-o no lado esquerdo da
cabeça, após o que se reuniu calmamente às restantes Tropas de Assalto. Outras pessoas
presentes disseram ao cirurgião estupefacto que era provável que o ataque tivesse acontecido
por ele não ter efetuado a saudação hitleriana à passagem do desfile. Era o décimo segundo
ataque violento a um norte-americano desde 4 de março.

O consulado dos Estados Unidos protestou de imediato e, na sexta-feira à noite, a Gestapo


afirmava ter detido o atacante. No dia seguinte, sábado, 19 de agosto, um funcionário superior
do governo notificou o vice-cônsul Raymond Geist de que fora emitido um comunicado às SA e
às SS onde se estabelecia que os estrangeiros não teriam de prestar ou corresponder à
saudação hitleriana. O funcionário também dizia que o diretor da divisão de Berlim das SA, um
jovem oficial chamado Karl Ernst, visitaria pessoalmente Dodd na semana seguinte para pedir
desculpa pelo incidente. O cônsul-geral Messersmith, que já se

118

NO JARDIM DOS MONSTROS

encontrara com Ernst, escreveu que ele era «muito novo, muito enérgico,direto, entusiasta»,
mas que exalava «uma atmosfera de brutalidade e força características das SA».
Ernst chegou conforme prometido. Batendo os calcanhares, fez a saudação e exclamou: Heil
Hitler. Dodd reconheceu a saudação, mas não lhe correspondeu. Escutou as «confissões
arrependidas» de Ernst e ouviu-o prometer que um ataque do género não tornaria a
acontecer. Parecia que Ernst julgava ter feito tudo o que era preciso, mas Dodd pediu-lhe
então que se sentasse e, regressando aos papéis familiares de pai e professor, deu-lhe um
sermão severo acerca do mau comportamento dos seus homens e das potenciais
consequências que tal acarretava.

Ernst desconcertado, insistiu que tencionava de facto tentar pôr fim aos ataques. Depois
levantou-se, colocou-se rigidamente em sentido, tornou a fazer a saudação e «uma vénia
prussiana» e foi-se embora.

«Não fiquei nem um pouco agradado», escreveu Dodd.

Nessa tarde, informou o cônsul-geral de que Ernst apresentara desculpas apropriadas.

Messersmith respondeu: «Os incidentes vão continuar.»

Ao longo de todo o trajeto para Nuremberga, Martha e os companheiros encontraram grupos


de homens com as fardas castanhas das SA, jovens e velhos, gordos e magros, a desfilar, a
cantar e a empunhar estandartes nazis. Frequentemente, enquanto o carro atravessava as
estreitas ruas das aldeias, havia mirones a virar-se para eles e a fazer a saudação hitleriana,
gritando Heil Hitler e, ao que parecia, a interpretar o número baixo da matrícula —
tradicionalmente, o embaixador norte-americano na Alemanha tinha o número 13 — como
prova de que quem se encontrava lá dentro deveria ser da família de algum funcionário nazi
importante de Berlim. «O entusiasmo das pessoas era contagiante e eu gritei Heil com tanto
vigor como qualquer nazi», escreveria Martha nas suas memórias. Tal comportamento
consternava o irmão e Reynolds, mas ela ignorava as tiradas sarcásticas deles. « Sentia-me
como uma criança, esfuziante e despreocupada, inebriando-me com o novo regime como se
de vinho se tratasse.»

119

ERIK LARSON

Por volta da meia-noite, pararam num sinal «stop» em frente ao hotel de Nuremberga onde se
hospedariam. Reynolds já tinha estado em Nuremberga e sabia que era um lugar adormecido
àquela hora mas, daquela vez, segundo o próprio escreveu, depararam-se com a rua «repleta
de uma multidão excitada e feliz». A primeira coisa qu lhe ocorreu foi que aqueles foliões
seriam participantes de um festival da lendária indústria de brinquedos da cidade.

Já no hotel, Reynolds perguntou ao funcionário:

— Vai haver um desfile?

O funcionário, alegre e simpático, riu-se com tanta vontade que as pontas do seu bigode
estremeceram, recordaria Reynolds.

— Vai ser uma espécie de desfile — disse ele. — Estão a dar uma lição a uma pessoa.

Os três levaram as malas para os quartos, após o que saíram para dar uma volta pela cidade e
encontrar um sítio onde pudessem comer.

A multidão no exterior aumentara e estava imbuída de ânimo. «Toda a gente estava


empolgada, a rir-se e a conversar», viu Reynolds. O que o impressionava era o facto de todos
serem afáveis — bem mais afáveis, decerto, do que uma multidão equivalente de berlinenses
teria sido. Ali, reparou ele, se se fosse acidentalmente contra alguém, recebia-se um sorriso
cordial e um perdão alegre.

Ao longe, ouviam o clamor rouco e a intensificar-se de uma turba ainda maior e mais
barulhenta, que se ia aproximando da rua. Ouviam também música distante, uma banda de
rua, com instrumentos de sopro muito barulhentos. A multidão ia-se concentrando, numa
expectativa feliz. Reynolds escreveu: «Ouvíamos o rumor da turba a três quarteirões de
distância, um eco de risos que avançava na nossa direção juntamente com a música.»

O barulho continuou a aumentar, acompanhado por uma luz tremeluzente cor de tangerina
que se agitava nas fachadas dos edifícios, Pouco depois, os participantes tornaram-se visíveis:
uma coluna de soldados das SA, fardados de castanho, com tochas e estandartes. «Tropas de
Assalto», notou Reynolds. «Não fabricantes de bonecos.»

Imediatamente atrás do primeiro esquadrão, avançavam dois soldados muito grandes e, entre
eles, um prisioneiro muito mais pequeno, que Reynolds, a princípio, não conseguiu perceber
se era um homem ou uma mulher. Os soldados «sustentavam e arrastavam» a figura

120

NO JARDIM DOS MONSTROS


pela rua. «Tinham-lhe rapado a cabeça», escreveu Reynolds, «e coberto a cara e cabeça com
pó branco.» Martha descreveu o rosto como tendo <<a cor de absinto diluído».

Aproximaram-se mais, tal como a multidão que os rodeava, ao

que Reynolds e Martha viram que a figura pertencia a uma jovem — embora o correspondente
ainda não tivesse a certeza absoluta. «Apesar de usar uma saia, poderia ser um homem
vestido de palhaço», reveu Reynolds. «A multidão à minha volta rejubilava perante o
espetáculo desta figura que era arrastada.»

Os simpáticos habitantes de Nuremberga em torno deles transfiguraram-se, atormentando e


insultando a mulher. Os soldados que a flanqueavam obrigaram-na a endireitar-se por
completo, revelando o cartaz que ela tinha pendurado ao pescoço. Risos rudes surgiram de
todos os lados. Martha, Bill e Reynolds serviram-se do fraco domínio do alemão que tinham
para perguntar a outros espectadores o que estava a acontecer e, aos poucos, ficaram a saber
que a rapariga se tinha associado a um judeu. Tanto quanto Martha conseguia perceber, o
cartaz anunciava: «ofereci-me a um judeu.»

Quando as Tropas de Assalto passaram, a multidão abandonou os passeios para as seguir pela
rua. Um autocarro de dois andares ficou retido pela massa de gente. O motorista ergueu as
mãos em jeito de rendição fingida. Havia passageiros no andar de cima a apontar para a
rapariga e a rir. Os soldados tornaram a levantar a rapariga — «o brinquedo deles», nas
palavras de Reynolds — para que os passageiros pudessem vê-la melhor. «Depois alguém teve
a ideia de levar a coisa para o átrio do nosso hotel», escreveu ele. Ficou a saber que a «coisa»
tinha nome: Anna Rath.

A banda ficou na rua, onde continuou a tocar de forma cáustica e barulhenta. As Tropas de
Assalto emergiram do átrio e arrastaram a mulher para outro hotel. A banda atacou a canção
de Horst Wessel e, subitamente, a multidão ficou em sentido, de braços direitos erguidos na
saudação hitleriana, enquanto todos cantavam com ênfase.

Quando a canção terminou, a procissão avançou. «Eu queria segui-la», escreveu Martha, «mas
a situação causara tal repulsa aos meus dois companheiros que me afastaram dali.» Também
ela ficara abalada pelo episódio, mas não deixava que isso lhe manchasse a visão geral

121

ERIK LARSON
que tinha do país e do revivalismo do espírito provocado pela revolução nazi. «Eu tentava, de
uma forma deliberada, justificar a ação dos nazis, insistir que não deveríamos condená-la sem
conhecermos a história toda.»

Os três refugiaram-se no bar do hotel, com Reynolds a jurar embebedar-se portentosamente.


Em voz baixa, perguntou ao empregado do bar o que tinha acabado de acontecer. Este contou-
lhes a história num sussurro: ao arrepio dos avisos nazis em relação ao casamento entre
judeus e arianos, a jovem planeava casar com o noivo judeu. Isso seria arriscado em qualquer
lugar da Alemanha, mas em nenhum sítio seria tão perigoso como em Nuremberga. «Já
ouviram falar de Herr S., que é natural daqui?», inquiriu o empregado.

Reynolds compreendeu. O empregado referia-se a Julius Streicher que o correspondente


descrevia como o «mestre de cerimónias do circo de antissemitismo de Hitler». Streicher, de
acordo com um biógrafo de Hitler, lan Kershaw, era «um rufia baixo, atarracado, de cabeça
rapada [...] completamente possesso por imagens demoníacas de judeus». Fundara o Der
Sturmer, jornal virulento e antissemita.

Reynolds apercebia-se de que aquilo a que ele, Martha e Bill acabavam de assistir era um
acontecimento que tinha uma importância bem maior do que os pormenores específicos da
situação. Correspondentes estrangeiros na Alemanha tinham relatado abusos a judeus mas,
até então, essas histórias tinham-se baseado em investigações posteriores aos factos, que se
baseavam em relatos de testemunhas. Aquele fora um ato de brutalidade antissemita que um
correspondente vira com os seus próprios olhos. «Os nazis sempre tinham negado as
atrocidades que, ocasionalmente, eram denunciadas no estrangeiro, mas ali estava uma prova
concreta», escreveu ele. «Nenhum outro correspondente», defendia, «testemunhara
quaisquer atrocidades.»

O seu editor concordou que se tratava de uma história importante, mas receava que, se
Reynolds tentasse enviá-la por telegrama, pudesse ser intercetada por censores nazis. Disse-
lhe que a enviasse por correio e recomendou que omitisse qualquer referência aos filhos de
Dodd, para evitar causar dificuldades ao novo embaixador.

122

NO JARDIM DOS MONSTROS

Martha implorou-lhe que não escrevesse de todo aquele artigo. Foi um caso isolado»,
argumentava. «Não tivera qualquer importância, criaria uma má impressão, não revelava o
que se passava realmente na Alemanha, fazia sombra ao trabalho construtivo que eles
estavam a fazer.»

Martha, Bill e Reynolds prosseguiram para sul, em direção à Áustria, onde passaram outra
semana antes de voltarem à Alemanha e regressarem pelas margens do Reno. Quando
Reynolds tornou à redacção, encontrou uma convocatória urgente do chefe da imprensa
estrangeira, Ernst Hanfstaengl.

Hanfstaengl estava furioso e não sabia que Martha e Bill também tinham testemunhado o
incidente.

«Não há ponta de verdade na sua história!», bramiu ele. «Falei com o nosso pessoal em
Nuremberga e disseram-me que nada do género aconteceu lá.»

Muito calmamente, Reynolds informou-o de que assistira ao desfile na companhia de duas


testemunhas importantes que omitira no seu artigo, mas cuja palavra era inexpugnável. Disse-
lhe os nomes.

Hanfstaengl afundou-se na cadeira e levou as mãos à cabeça. Num tom queixoso, afirmou que
Reynolds o deveria ter informado mais cedo. O enviado especial convidou-o a chamar os Dodd
para que confirmassem terem estado presentes, mas Hanfstaengl declinou a proposta com um
aceno.

Numa conferência de imprensa dada pouco depois, Goebbels, o ministro da Propaganda, não
esperou que um repórter abordasse o assunto dos maus-tratos infligidos a judeus, fazendo-o
ele mesmo. Asseverou aos cerca de quarenta jornalistas da sala que tais incidentes eram raros,
cometidos por homens «irresponsáveis».

Um correspondente, Norman Ebbutt, diretor da delegação de Berlim do Times londrino,


interrompeu-o:

Mas, Herr Minister, decerto ouviu falar da rapariga ariana, Anna Rath, que foi exibida num
desfile por Nuremberga por querer casar com um judeu?

Goebbels sorriu. O sorriso transformou-lhe o rosto por completo, embora o resultado não
fosse agradável nem atraente. Muitos dos presentes na sala já se tinham visto perante aquele
efeito. Havia algo

123
ERIK LARSON

de aberrante na forma como os músculos da parte inferior do rosto dele se atarefavam para
produzir um sorriso e na maneira abrupta como ele era capaz de mudar de expressão.

— Permita-me que explique como, ocasionalmente, pode suceder algo assim — disse
Goebbels. — Durante os doze anos da República de Weimar, o nosso povo esteve praticamente
preso. Agora o nosso partido está ao comando e o povo recuperou a liberdade. Quando um
homem passa doze anos preso e, de súbito, é libertado, a sua alegria pode levá-lo a
comportamentos irracionais, talvez até brutais. Isso não é uma possibilidade também no seu
país?

Ebbutt, numa voz contida, observou uma diferença fundamental na abordagem que a Grã-
Bretanha teria a tal cenário:

— Se isso acontecesse — disse ele —, voltaríamos a mandar esse homem para a cadeia.

O sorriso de Goebbels desapareceu, reaparecendo de imediato. Lançou um olhar pela sala.

— Mais alguma pergunta?

Os Estados Unidos não apresentaram qualquer protesto formal em relação ao incidente. Não
obstante, um funcionário dos Negócios Estrangeiros da Alemanha pediu desculpa a Martha.
Menosprezou o incidente como sendo um caso isolado, que seria punido com severidade.

Martha sentia-se inclinada a aceitar aquela visão. Continuava maravilhada com a vida na nova
Alemanha. Numa carta a Thornton Wilder, exclamava: «Os jovens têm alegria e esperança no
rosto, cantam sobre o nobre fantasma de Horst Wessel com um brilho nos olhos e sem
hesitações. Íntegros e belos, estes Alemães, bons, sinceros, saudáveis, brutalmente místicos,
graciosos, destros na morte e no amor, profundos, maravilhosos, uns seres estranhos — estes
jovens da moderna Alemanha da Hackenkreuz.»

Entretanto, Dodd recebeu um convite do departamento de Negócios Estrangeiros alemão para


participar no comício de Nuremberga, que começaria verdadeiramente a 1 de setembro. O
convite perturbava-o.

124

NO JARDIM DOS MONSTROS


Lera a respeito da tendência que o partido nazi tinha para aquelas exibicões elaboradas de
força e energia festiva; não as via como eventos oficiais patrocinados pelo Estado, mas antes
como festas que nada tinham que ver com relações internacionais. Não se imaginava a
participar num comício desses, tal como não concebia que o embaixador alemão nos Estados
Unidos participasse numa convenção do partido republicano ou do democrático. Para mais,
receava que Goebbels e o seu ministério da Propaganda aproveitassem o facto de estar
presente como um aval às políticas e ao comportamento nazis.

Na terça-feira, 22 de agosto, Dodd enviou um telegrama ao Departamento de Estado, pedindo


aconselhamento. «Recebi uma resposta cautelosa», escreveu no seu diário. O departamento
prometia apoiá-lo qualquer que fosse a decisão que tomasse. «Decidi-me de imediato a não ir,
mesmo que todos os outros embaixadores fossem.» No sábado seguinte, notificou o gabinete
dos Negócios Estrangeiros alemão: não estaria presente. «Declinei, alegando a pressão do
trabalho ainda que o principal motivo tenha sido a minha reprovação de um convite
governamental para uma convenção partidária», escreveu. «Também tive a certeza de que o
comportamento do grupo dominante seria embaraçoso.»

Ocorreu-lhe então uma ideia: se conseguisse persuadir os embaixadores da Grã-Bretanha,


Espanha e França a rejeitarem igualmente o convite, a ação conjunta enviaria uma mensagem
potente, ainda que adequadamente indireta, de união e desaprovação.

Primeiro, Dodd reuniu-se com o embaixador espanhol, numa sessão que descreveria como
«de uma informalidade muito agradável», pois o seu congénere hispânico, tal como ele, ainda
não fora acreditado. Ainda assim, ambos abordaram a questão com cautela. «Eu insinuei que
não iria», escreveu. Forneceu ao embaixador espanhol alguns precedentes históricos que
justificavam a rejeição de tal convite. Por seu lado, o espanhol concordou que o comício era
uma questão partidária e não um evento de Estado, mas não revelou o que tencionava fazer.

Dodd ficou a saber, porém, que acabara por responder que lamentava não poder estar
presente, tal como fizeram os embaixadores da França e da Grã-Bretanha, cada um invocando
um compromisso inadiável de qualquer género.

125

ERIK LARSON

Oficialmente, o Departamento de Estado apoiava a objeção de Dodd; oficiosamente, a sua


decisão incomodou vários funcionário superiores, incluindo o subsecretário Phillips e o
responsável pela Europa Ocidental, Jay Pierrepont Moffat, que a viam como
desnecessariamente provocadora, mais uma prova de que a sua nomeação para embaixador
fora um erro. As forças que se opunham a Dodd começavam a unir-se.

126

CAPITULO 12

BRUTUS

No final de agosto, o presidente Hindenburg regressou por fim

a Berlim após a convalescença na sua propriedade no campo. E assim, na quarta-feira, 30 de


agosto de 1933, Dodd vestiu-se formalmente com um casaco com abas de grilo e uma cartola,
ao que foi de automóvel até ao palácio presidencial para apresentar as suas credenciais.

O presidente era alto e encorpado, com um enorme bigode grisalho e branco que se
encaracolava nas pontas. O colarinho do seu uniforme era elevado e rígido; tinha uma túnica
cheia de medalhas, várias das quais eram estrelas reluzentes do tamanho de decorações de
uma árvore de Natal. A impressão geral que transmitia era a de uma força e virilidade que
desmentia os seus oitenta e cinco anos. Hitler estava ausente, tal como Goebbels e Gõring,
devendo encontrar-se todos ocupados com a preparação do comício, que começaria dali a dois
dias.

Dodd leu uma breve declaração que enfatizava a sua afinidade com o povo da Alemanha e com
a história e a cultura da nação. Omitiu qualquer referência ao governo e esperava que isso
indicasse que a afinidade não se estendia ao regime hitleriano. Durante os quinze minutos
seguintes, ele e o Velho Cavalheiro ficaram sentados no «sofá preferido» e conversaram sobre
variados temas, da experiência universitária de Dodd em Leipzig aos perigos do nacionalismo
económico. Hindenburg, registou depois o embaixador no seu diário, «realçou a questão das
relações internacionais com tanto afinco que me pareceu estar a implicar uma crítica indireta
aos extremistas nazis». Dodd apresentou os funcionários principais da sua embaixada e, em
seguida,

127
ERIK LARSON

todos saíram do edifício, verificando que havia soldados do exército oficial, o Reichswehr, de
ambos os lados da rua.

Daquela vez, Dodd não foi a pé para casa. Enquanto os carros da embaixada se afastavam, os
soldados mantiveram-se em sentido. «Estava feito», escreveu Dodd, «e eu, por fim, era um
representante devidamente reconhecido dos Estados Unidos em Berlim.» Dois dias depois,
confrontar-se-ia com a sua primeira crise oficial.

Na manhã de 1 de setembro, uma sexta-feira, H. V. Kaltenborn o radialista norte-americano,


telefonou ao cônsul-geral Messersmith para lhe transmitir que lamentava não poder visitá-lo
uma última vez já que ele e a família tinham concluído a viagem europeia e se preparavam
para regressar a casa. O comboio que os levaria ao navio partiria à meia-noite.

Disse-lhe que ainda nada vira que coadjuvasse as críticas do cônsul à Alemanha e acusou-o de
«agir realmente mal ao não representar a situação germânica tal como ela é».

Pouco depois dessa chamada, Kaltenborn e a família — a mulher, o filho e a filha — saíram do
hotel em que estavam, o Adlon, para umas compras de última hora. O filho, Rolf, tinha
dezasseis anos na altura. A Sra. Kaltenborn queria sobretudo visitar as joalharias e ourivesarias
na Unter den Linden, mas a expedição levou-os também a uns sete quarteirões mais a sul, até
à Leipzigerstrasse, uma avenida movimentada onde carros e elétricos se azafamavam de este
para oeste e que tinha edifícios elegantes e uma miríade de pequenas lojas que vendiam
bronzes, porcelana de Dresden, sedas, produtos de cabedal e praticamente tudo o que se
pudesse desejar. Era também ali que se situava o famoso Wertheim's Emporium, um enorme
armazém - um Warenhaus — no qual magotes de clientes viajavam de um andar para outro a
bordo de oitenta e três elevadores.

Ao sair de uma loja, a família viu que uma formação de Tropas de Assalto avançava pela
avenida. Eram 9h20 da manhã.

Os peões amontoaram-se à beira do passeio e ergueram os braços na saudação hitleriana.


Apesar da visão compreensiva que tinha, Kaltenborn não desejava juntar-se à multidão e sabia
que um dos principais

128

NO JARDIM DOS MONSTROS


delegados de Hitler, Rudolf Hess, fizera uma declaração pública a respeito de os estrangeiros
não terem de fazer a saudação. «Não se deve esperá-lo» dissera Hess, «tal como não se espera
que um protestante se benza ao entrar numa igreja católica.» Ainda assim, Kaltenborn instruiu
os familiares para que se virassem para uma montra, como se examinassem os artigos em
exposição.

Vários soldados marcharam até aos Kaltenborn e exigiram saber porque estavam de costas
voltadas para o desfile e porque não tinham feito a saudação. Num alemão irrepreensível, o
comentador respondeu que era norte-americano e que ele e a família iam regressar ao hotel.

A multidão começou a insultá-lo e a tornar-se ameaçadora, de tal forma que Kaltenborn


chamou por dois polícias que se encontravam a uns três metros de si. Os agentes não
reagiram.

A família deu início ao caminho de volta ao hotel. Um jovem surgiu por trás deles e, sem dizer
palavra, agarrou no filho de Kaltenborn e bateu-lhe no rosto com tanta força que o atirou ao
chão. A Polícia continuava a nada fazer. Um agente sorria.

Já furioso, Kaltenborn agarrou no jovem atacante por um braço e levou-o até aos polícias. A
multidão ia ficando mais agressiva. O radialista apercebeu-se de que, se persistisse na
tentativa de obter justiça, se arriscava a mais ataques.

Por fim, um observador intercedeu e persuadiu a multidão a deixar os Kaltenborn em paz, já


que era óbvio que eram americanos. O desfile prosseguiu.

Depois de estar a salvo no Adlon, Kaltenborn telefonou a Mes-sersmith. Estava perturbado e


quase incoerente. Pediu-lhe que fosse de imediato ao hotel.

Para Messersmith, foi um momento inquietante, ainda que sombriamente sublime. Disse a
Kaltenborn que não poderia ir ao Adlon. « Por acaso, tinha de ficar à secretária durante aquela
hora», recordaria. Não obstante, enviou o vice-cônsul Raymond Geist ao hotel, e este garantiu
que a família fosse escoltada até à estação nessa noite.

«Era irónico que aquela fosse justamente uma das coisas que

Kaltenborn dizia que não podia acontecer», escreveu Messersmith mais tarde, com óbvia
satisfação. «Uma das coisas específicas que

129

ERIK LARSON
ele me acusara de relatar incorretamente era que a Polícia nada fazia para proteger as pessoas
dos ataques.» O cônsul-geral reconhecia que o incidente deveria ter sido uma experiência
arrasadora para os Kaltenborn, sobretudo para o filho. «No cômputo geral, porém, foi bom
que tivesse acontecido pois, caso contrário, Kaltenborn teria regressado aos Estados Unidos e
anunciado aos ouvintes que tudo ia bem na Alemanha, que os funcionários norte-americanos
davam falsas informações ao governo e que os correspondentes sediados em Berlim
retratavam mal os desenvolvimentos do país.»

Messersmith encontrou-se com Dodd e perguntou-lhe se não estaria na altura de o


Departamento de Estado emitir um aviso definitivo em relação às viagens para a Alemanha.
Ambos os homens sabiam que tal alerta teria um efeito devastador no prestígio nazi.

Dodd favorecia o comedimento. Da perspetiva do seu papel de embaixador, considerava estes


ataques mais como um incómodo do que como uma grave emergência e, de facto, tentava,
sempre que possível, limitar a atenção que a imprensa lhes dava. No seu diário, afirmava ter
conseguido impedir que vários ataques a cidadãos norte-americanos surgissem nos jornais e
que «tentara também prevenir manifestações animosas».

Pessoalmente, contudo, Dodd achava tais episódios repugnantes, completamente alheios


àquilo que a sua experiência estudantil em Leipzig o levara a esperar. Durante as refeições com
a família, condenava os ataques; porém, se contava com o apoio e o ultraje da filha, não o
obtinha.

Martha permanecia inclinada a pensar o melhor da nova Alemanha, em parte, como admitiria
mais tarde, pela simples perversidade de uma filha que tentava definir-se. «Eu tentava
encontrar justificações para os excessos deles e o meu pai olhava para mim com uma
expressão algo fria, ainda que tolerante, e, tanto em privado como em público, punha-me o
rótulo de "jovem nazi"», escreveu ela. «Isso deixou-me à defesa durante algum tempo e,
temporariamente, tornei-me uma defensora ardente de tudo o que se ia passando.»

Contrapunha que havia muitas outras coisas boas na Alemanha. Em especial, louvava o
entusiasmo dos jovens da nação e as medidas que Hitler implementava para reduzir o
desemprego. «Sentia que havia algo nobre nos rostos vivos, vigorosos e fortes que via por todo

130

NO JARDIM DOS MONSTROS


o lado, e dizia-o com bastante convicção sempre que a oportunidade surgia.» Em carta, que
enviou para os Estados Unidos, proclamava que a Alemanha estava a passar por um
renascimento emocionante «e que os relatos da imprensa e as histórias de atrocidades eram
exemplos isolados e xagerados por pessoas amarguradas e de vistas curtas.»

A sexta-feira que começara de forma tão tumultuosa com o ataque aos Kaltenborn terminou
para Dodd de uma maneira bem mais satisfatória.

Nessa tarde, o correspondente Edgar Mowrer dirigiu-se à Bahnhof Zoo onde daria início à sua
longa viagem para Tóquio.

A mulher a filha acompanharam-no à estação, mas apenas para se despedirem dele, pois
ficariam em Berlim para supervisionarem o acondicionamento dos bens da família, após o que
se lhe juntariam.

A maioria dos correspondentes estrangeiros na cidade, convergiram para a estação, tal como
alguns alemães audazes e suficientemente corajosos para permitirem que os agentes que
ainda vigiavam Mowrer os vissem e identificassem.

Um funcionário nazi, com a incumbência de verificar que Mowrer entrava de facto no


comboio, surgiu por trás dele e, numa voz aduladora, perguntou-lhe:

- E quando voltará à Alemanha, Herr Mowrer?

Com uma postura cinematográfica, Mowrer replicou:

- Ora, quando puder voltar com cerca de dois milhões dos meus compatriotas.

Messersmith abraçou-o, numa exibição pública de apoio destinada aos agentes de vigia.
Falando bem alto para que o ouvissem, prometeu-lhe que a mulher e a filha não seriam
incomodadas. Mower agradeceu, mas não lhe perdoara que não tivesse apoiado o seu pedido
de ficar na Alemanha. Ao subir para o comboio, virou-se para o cônsul com um ligeiro sorriso e
disse-lhe:

- Até tu, Brutus.

Para Messersmith, tratou-se de um comentário arrasador. «Senti-me miserável e deprimido»,


escreveu. «Sabia que ele tinha de partir e, no entanto, detestava o papel que desempenhara
na sua partida»

131
ERIK LARSON

Dodd não apareceu. Estava satisfeito por Mowrer se ter ido embora. Numa carta a um amigo
de Chicago, escreveu que o correspondente «foi, durante algum tempo, como talvez saibas,
uma espécie de problema aqui». Dodd reconhecia que Mowrer era um escritor talentoso. «As
suas experiências, contudo, depois da publicação do livro — a notoriedade que isso e o prémio
Pulitzer lhe tinham dado - «foram tais que ele se tornou bastante mais acutilante e irritável do
que conviria a todos os envolvidos.»

Mowrer e a família chegaram sãos e salvos a Tóquio. A mulher Lillian, recordou a grande
mágoa que sentiu por ter de deixar Berlim «Em lado algum tive amigos tão encantadores como
na Alemanha» escreveu ela. «Em retrospetiva, é como ver alguém que se ama a enlouquecer...
e a fazer coisas horríveis.»

As exigências do protocolo — em alemão, Protokoll — caíram sobre os seus dias como um


nevoeiro negro e impediram-no de se dedicar àquilo de que mais gostava, o seu Old South.
Com o estatuto de embaixador oficializado, as responsabilidades diplomáticas rotineiras de
Dodd ampliaram-se de repente, a ponto de o deixarem consternado. Numa carta que escreveu
ao secretário de Estado Hull, dizia: «Os árbitros do protokoll do comportamento social de uma
pessoa seguem os precedentes e obrigam-na a entretenimentos na primeira parte da
residência, que são, substancialmente, inúteis e que dão a cada uma das várias embaixadas e a
cada ministério o direito "social" de oferecer jantares grandiosos.»

Isso começou quase de imediato. O protocolo requeria que organizasse uma receção para todo
o corpo diplomático. Esperava entre quarenta a cinquenta convidados, mas depois ficou a
saber que cada diplomata tencionava fazer-se acompanhar por um ou mais membros do seu
pessoal, o que elevaria a totalidade de presentes a mais de duzentos. «Assim, hoje o
espetáculo começou às cinco horas», escreveu Dodd no seu diário. «As salas da embaixada
tinham sido preparadas, abundavam flores por todo o lado; uma grande taça de ponche estava
cheia com a bebida adequada.» Neurath, ministro dos Negócios Estrangeiros, foi, tal como
Schacht, presidente do Reichsbank, um dos

132

NO JARDIM DOS MONSTROS

poucos homens do governo hitleriano que Dodd encarava como razoável e pouco racional.
Schacht tornar-se-ia um visitante frequente da casa Dodd, caindo nas boas graças da Sra.
Dodd, que costumava servir-se dele para evitar os embaraços sociais que ocorriam quando um
convidado esperado avisava, de súbito, não poder comparecer. Gostava de dizer: «Bem, se à
última da hora algum convidado não aparecer, podemos sempre convidar o Dr. Schacht.» Em
suma, concluiu Dodd «não foi um evento mau e» — questão merecedora de satisfação
especial — «custou 700 marcos».

Todavia, em resposta, uma torrente de convites, tanto diplomáticos como sociais, começou a
chegar à secretária e à casa de Dodd. Dependendo da importância do evento, era frequente
que fossem seguidos por uma troca de correspondência relativa aos mapas dos lugares dados
a funcionários de protocolo que assegurariam que nenhum erro infeliz de proximidade
arruinaria a noite. O número de banquetes e receções supostamente imperdíveis atingia um
ponto tal que até diplomatas veteranos se queixavam de que frequentá-los se tornara oneroso
e exaustivo. Um funcionário superior do ministério alemão dos Negócios Estrangeiros disse a
Dodd: «Vocês, do Corpo Diplomático, terão de limitar as ocasiões sociais, caso contrário nós
teremos de deixar de aceitar convites.» E um funcionário britânico reclamava: «Nós não
conseguimos, pura e simplesmente, aguentar o ritmo.» Claro que nem tudo eram trabalhos
forçados. Aquelas festas e banquetes continham momentos de diversão e humor. Goebbels era
conhecido pelo seu espírito; Martha, durante algum tempo, considerou-o charmoso. «De riso
contagioso e arrebatador, com os olhos brilhantes, uma voz suave, um discurso arguto e
ligeiro, é difícil manter presente a sua crueldade, os talentos astutos e destrutivos.» A mãe,
Mattie, sempre gostou de ficar sentada ao lado de Goebbels nos banquetes; Dodd julgava-o
«um dos poucos homens com sentido de humor na Alemanha» e era comum envolver-se em
diálogos de resposta pronta e comentários irónicos com ele. Uma fotografia extraordinária de
um jornal revela Dodd, Goebbels e Sigrid Schultz num banquete a durante um momento do
que parece ser uma bonomia animada e despreocupada. Embora indubitavelmente útil para a
propaganda

133

ERIK LARSON

nazi, a cena representada na sala do banquete era bem mais complexa do que a película
capturou. Na verdade, como Schultz explicaria tempos depois numa entrevista oral, ela estava
a tentar não falar com Goebbels, mas, ao fazê-lo, «certamente parecia sedutora». Explicou
(falando na terceira pessoa): «Nesta imagem, Sigrid não lhe dá atencão alguma, percebe. Ele
está a servir-se de mil watts de charme, mas tanto ele como ela sabem que ela não lhe dará
uso algum.» Ao ver a fotografia dali resultante, Dodd, segundo ela, «riu-se até mais não».
Góring também parecia uma personagem relativamente benigna pelo menos em comparação
com Hitler. Sigrid Schultz achava-o o mais tolerável dos nazis seniores, pois, pelo menos,
«sentia-se que era possível estar na mesma sala que o homem», enquanto Hitler dizia ela,
«dava-me a volta ao estômago». Um dos funcionários da embaixada norte-americana, John C.
White, afirmou, anos mais tarde-«Sempre tive uma impressão bastante favorável de Gõring
[...] Se havia um nazi que inspirasse afeição, presumo que ele fosse o que mais se aproximava
disso.»

Naquela época inicial, diplomatas e outras pessoas tinham dificuldade em encarar Gõring com
seriedade. Era como um rapazinho enorme, ainda que excessivamente perigoso, que adorava
criar e usar novas fardas. O seu tamanho imenso transformava-o em alvo de piadas, embora
tais piadas só fossem contadas bem longe do alcance dos seus ouvidos.

Certa noite, o embaixador Dodd e a esposa foram a um concerto na embaixada italiana, a que
Gõring também assistiu. Num amplo uniforme branco que ele próprio desenhara, parecia
particularmente enorme — «com o triplo do tamanho de um homem normal», como disse
Martha ao narrar o episódio. As cadeiras dispostas para o concerto eram minúsculas
antiguidades douradas que pareciam demasiado frágeis para Gõring. Fascinada e não menos
ansiosa, a Sra. Dodd observou-o a escolher a cadeira mesmo à frente da sua. Ficou de imediato
hipnotizada pela imagem de Gõring, que tentava acomodar o gigante traseiro «em forma de
coração» no pequeno assento. Passou todo o concerto a recear que a cadeira cedesse e a
figura imensa de Gõring se esmagasse no seu colo. Martha escreveu: «Ela estava tão distraída

134

NO JARDIM DOS MONSTROS

com a visão do lombo imenso que se espraiava para os lados da cadeira tão perto dela, que,
depois, não conseguiu recordar-se de nenhuma das músicas tocadas.»

A maior queixa de Dodd quanto às festas diplomáticas organizadas pelas outras embaixadas
era a quantidade de dinheiro desperdiçado, nesse processo, mesmo pelos países abatidos
pela Depressão.

«Para ilustrar a questão», escreveu ao secretário Hull, «ontem, às oito e meia da noite, fomos
jantar à casa de 53 divisões do ministro belga, de cujo país se diz ser incapaz de cumprir as
suas obrigações legais) » Dois empregados de libré foram receber o seu carro. «Havia quatro
lacaios na escadaria, vestidos como criados de Luís XIV. Três outros criados de bragas levaram-
nos os casacos. Vinte e nove pessoas encontravam-se sentadas numa sala de jantar mobilada
de forma mais dispendiosa do que qualquer divisão que eu alguma vez tenha visto na Casa
Branca. Foram servidos oito pratos por quatro criados fardados, que os transportavam em
bandejas e travessas de prata. Três copos de vinho acompanhavam cada prato e, quando nos
levantámos, reparei que muitos copos] se encontravam meio cheios de vinho, que seria
desperdiçado. Os convivas eram bastante agradáveis, mas não houve qualquer conversa de
valor na minha parte da mesa (e isto é algo que tenho notado em todas as outras grandes
festas). [...] Também não houve qualquer conversa séria, informativa ou sequer espirituosa
depois do jantar.» Martha também fora e descreveu que «todas as mulheres estavam cobertas
de diamantes ou outras pedras preciosas — nunca tinha visto uma ostentação tão sumptuosa
de opulência.» Registou ainda que ela e os pais tinham deixado a festa às dez e meia e que,
por isso, tinham causado um pequeno escândalo. «Houve bastantes sobrancelhas
refinadamente arqueadas, mas nós enfrentámos a tempestade e fomos para casa.» Era falta
de educação, viria a descobrir, sair de um evento diplomático antes das onze.

Dodd ficou chocado ao saber que os seus antecessores, detentores de fortuna própria, tinham
despendido até cem mil dólares por ano apenas em entretenimento, mais do quíntuplo do
seu salário total.

135

ERIK LARSON

Nalgumas ocasiões, as gorjetas que davam aos empregados superavam a renda mensal de
Dodd. «Mas», garantia a Hull, «não corresponderemos a estas hospitalidades com festas com
mais de dez ou doze convidados, no máximo com quatro criados, em indumentárias
modestas» — com o que, presumivelmente, quereria dizer que estariam completamente
vestidos, mas sem as bragas dos belgas. Os Dodd tinham três criados, um motorista, e
contratavam mais um ou outro em pregado quando organizavam festas para mais do que dez
convidados.

O louceiro da embaixada, de acordo com um inventário formal da propriedade do governo,


feito para o «Relatório do Cargo» anual continha:

Pratos rasos (26,7 cm) 4 dúzias


Pratos de sopa (24,1 cm) 2 dúzias

Pratos de entrada (24,1 cm) 2 dúzias

Pratos de sobremesa 2 dúzias

Pratos de fruta (12,7 cm) 2 dúzias

Pratos de pão/manteiga (15,24 cm) 2 dúzias

Chávenas (8,89 cm) 2 dúzias

Pires (12,7 cm) 2 dúzias

Chávenas almoçadeiras (8,89 cm) 2 dúzias

Pires (12,7 cm) 2 dúzias

Chávenas (6,35 cm) 2 dúzias

Pires (10,16 cm) 2 dúzias

Terrinas 2 dúzias

Travessas (vários tamanhos) 4 dúzias

Cálices 3 dúzias

Taças altas 3 dúzias

Taças sem pé 3 dúzias

Copos pequenos 3 dúzias

Copos altos 3 dúzias

Taças para lavar os dedos 3 dúzias

Pratos das taças para lavar os dedos 3 dúzias

«Não usaremos bandejas de prata, não serviremos torrentes de vinhos nem haverá cartões de
lugares pela mesa», dizia Dodd a Hull.

136
NO JARDIM DOS MONSTROS

Será sempre feito um esforço para que esteja presente algum académico, cientista ou pessoa
das letras, e para que haja conversa informativa; e está decidido que nos recolhemos entre as
22h30 e as 23. Não alardeamos estas coisas, mas é sabido que não permaneceremos aqui se
verificarmos que não conseguimos pagar as contas com o salário acordado.»

Numa carta a Carl Sandburg, escreveu: «Nunca conseguirei adaptar-me ao hábito de comer
demasiado, beber cinco variedades de vinho e nada dizer, apesar de falar, durante três horas
longas.» Receava ser uma desilusão para os seus subordinados mais abastados, que
organizavam — e pagavam dos seus próprios bolsos — festas sumptuosas. «Eles não podem
compreender-me», escreveu, «e eu tenho pena deles.» Desejava que Sandburg terminasse
rapidamente o seu livro sobre Lincoln, lamentando-se em seguida: «O meu Old South, ainda a
meio, provavelmente será enterrado comigo.»

Terminava a carta num tom lúgubre: «Mais uma vez: Saudações de Berlim!»

Pelo menos a saúde ia bem, apesar de ter as suas habituais crises de febre dos fenos,
indigestão e problemas intestinais. Porém, como se pressagiasse o que aconteceria, o seu
médico de Chicago, Wilber E. Post — com um gabinete, bastante apropriadamente, no
People's Gas Building — enviou-lhe um memorando que escrevera depois do último exame
completo, feito uma década antes, para que Dodd pudesse usá-lo como base de comparação
para os resultados de exames vindouros. O embaixador tinha um historial de enxaquecas,
escreveu Post, «com ataques de cefaleias, tonturas, fadiga, depressão e trato intestinal
irritado», sendo que a última condição reagiria melhor a «exercício físico ao ar livre e
afastamento de tensões nervosas e fadiga.» A sua tensão arterial era excelente, 100 sistólica,
60 diastólica, valores que se esperariam mais de um atleta do que de um homem no final da
meia-idade. «A característica clínica que sobressai é que a saúde do Sr. Dodd tem sido boa
quando ele tem a oportunidade de fazer muito exercício físico ao ar livre e de seguir uma dieta
relativamente branda e não-irritativa, sem demasiada carne.»

Numa carta agrafada ao relatório, o Dr. Post escreveu: «Espero que não encontre
oportunidade de lhe dar uso, mas poderá ajudá-lo caso isso aconteça.»

137

ERIK LARSON
Nessa sexta-feira à noite, um comboio especial, um Sonderzug partiu de Berlim, atravessando
a paisagem noturna em direção a Nuremberga. O comboio levava os embaixadores de um
conjunto de pequenas nações, entre os quais os representantes do Haiti, do Sião e da Pérsia.
Também transportava funcionários protocolares, estenógrafos, um médico e uma companhia
de Tropas de Assalto. Era o comboio que teria levado Dodd e os embaixadores de França,
Espanha e Reino Unido. Originalmente, os Alemães tinham planeado um contingente de
catorze carruagens mas, à medida que foram recebendo recusas reduziram-no a nove.

Hitler já se encontrava em Nuremberga. Chegara na noite anterior, para uma cerimónia de


boas-vindas em que todos os movimentos estavam coreografados, incluindo o presente do
presidente da câmara — uma reprodução famosa de um quadro de Albrecht Dúrer intitulado O
Cavaleiro, A Morte e o Diabo.

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CAPITULO 13

O MEU SEGREDO ENCOBERTO

Martha deliciava-se com os entretenimentos que tanto agastavam o pai. Como filha do
embaixador americano, possuía prestígio imediato e depressa se viu cortejada por homens das
mais variadas posições, idades e nacionalidades. O seu divórcio do marido banqueiro, Bassett,
ainda estava pendente, mas apenas faltavam as formalidades legais. Considerava-se livre de
agir como bem lhe aprouvesse e de revelar ou não a realidade legal do seu casamento.
Concluiu que o secretismo era uma ferramenta útil e interessante: se aparentava ser uma
jovem norte-americana virgem, a verdade era que conhecia o sexo e gostava, agradando-lhe
sobremaneira o efeito provocado num homem quando ficava a saber a verdade. «Presumo
que tenha iludido grandemente o corpo diplomático ao não ter indicado que, na altura, era
casada», escreveu ela. «Mas devo admitir que gostava bastante de ser tratada como uma
donzela de dezoito anos, estando sempre ciente do meu segredo encoberto.»

Tinha variadíssimas oportunidades para conhecer homens. A casa na Tiergartenstrasse estava


sempre cheia de estudantes, funcionários alemães, secretários da embaixada,
correspondentes estrangeiros e soldados do Reichswehr, das SA e das SS. Os oficiais do
Reichswehr tinham um élan aristocrático e confessavam-lhe depositar esperanças secretas na
restauração da monarquia germânica. Ela achava-os «extremamente agradáveis, elegantes,
cordiais e desinteressantes».

Chamou a atenção de Ernst Udet, um ás da aviação da Grande Guerra, que, desde então,
ganhara fama por toda a Alemanha como aventureiro aéreo, explorador e piloto acrobático.
Juntos, foram à caça com falcões na companhia de outro ás da aviação, Góring, na vasta

139

ERIK LARSON

propriedade deste, Carinhall, cujo nome era uma homenagem à falecida esposa sueca. Martha
teve um breve affair com Putzi Hanfstaengl, segundo o que o filho dele, Egon, viria a afirmar.
Era francamente sexual e dava bom uso à casa, servindo-se por completo do hábito que os
pais tinham de se deitarem cedo. Acabaria por ter um caso com Thomas Wolfe, quando o
escritor visitou Berlim; mais tarde Wolfe diria a um amigo que ela era «como uma borboleta a
pairar à volta do meu pénis».

Um dos seus amantes era Armand Berard, terceiro secretário da embaixada francesa — com
dois metros de altura e «incrivelmente bonito», recordou Martha. Antes de Berard a convidar
a sair, pediu| permissão ao embaixador Dodd, um gesto que ela achou tão encantador quanto
divertido. Não lhe falou do seu casamento e, em consequência, para gáudio secreto dela, ele
ao início tratou-a como uma ingénue sexual. Martha sabia que detinha grande poder sobre ele
e que o mais simples ato ou comentário poderia deixá-lo em desespero. Quando se
separavam, ela via outros homens e assegurava-se de que ele o sabia.

«És a única pessoa capaz de me destruir», escreveu-lhe a certa altura, «mas tens perfeita
noção disso e parece que tiras prazer em fazê-lo.» Implorou-lhe que não fosse tão cruel. «Não
aguento», escreveu ele. «Se te apercebesses de quão infeliz sou, provavelmente apiedar-te-ias
de mim.»

Para um pretendente, Max Delbriick, um jovem biofísico, a recordação da capacidade de


manipulação dela mantinha-se bem fresca, mesmo ao fim de quatro décadas. Ele era esguio e
tinha um queixo perfeitamente delineado e muito cabelo escuro e penteado com aprumo,
com uma aparência que evocava um jovem Gregory Peck. Estav destinado a grandes feitos,
incluindo um prémio Nobel, que receberia em 1969.

Numa correspondência trocada nos últimos anos de vida, Martha e Delbrúck relembraram o
tempo que tinham passado juntos em Berlim. Ela recordava a inocência com que se tinham
sentado numa das salas de estar e perguntou-lhe se ele também se lembrava.

«É claro que me lembro da sala de damasco verde, ao lado da sala de jantar na


Tiergartenstrasse», respondeu ele. Contudo, a memória

140

NO JARDIM DOS MONSTROS

dele divergia um pouco da dela: «não nos limitámos a ficar recatadamente sentados.»

Com um pouco de despeito empoeirado, ele recordou-a de um encontro no Romanisches Café:


«Chegaste terrivelmente atrasada e depois bocejaste, explicando que o fazias porque te
sentias descontraída na minha companhia, e que eu deveria encará-lo como um elogio.»
Não com pouca ironia, ele acrescentou: «Tornei-me um grande entusiasta desta ideia (depois
de, em primeira instância, ficar aborrecido ), e desde então que bocejo à frente dos meus
amigos.»

Os pais de Martha davam-lhe uma independência absoluta, sem quaisquer restrições quanto
às suas entradas ou saídas. Não era invulgar que ficasse fora de casa até de madrugada, com
todo o género de companhias, mas a correspondência da família revela uma surpreendente
ausência de comentários censuradores.

Havia outros, no entanto, que reparavam nesse comportamento e o reprovavam, entre os


quais o cônsul-geral George Messersmith, que transmitiu o seu desagrado ao Departamento
de Estado, acrescentando assim achas à campanha discreta mas crescente contra Dodd.
Messersmith estava ao corrente do caso de Martha com Udet, o ás da aviação, e entendia que
ela se envolvera romanticamente com outros nazis importantes, incluindo Hanfstaengl. Numa
carta «Pessoal e Confidencial» enviada a Jay Pierrepont Moffat, o responsável pela Europa
Ocidental, Messersmith escrevia que tais affairs tinham dado azo a rumores. Na maioria,
julgava-os inofensivos — excetuando o caso de Hanfstaengl. Receava que a relação de Martha
com ele e a aparente falta de discrição dela levassem diplomatas e outros informadores a ser
mais reticentes quanto ao que contavam a Dodd, por recearem que tais confidências
pudessem chegar aos ouvidos de Hanfstaengl. «Muitas vezes achei que deveria dizer algo a
este respeito ao embaixador», contou Messersmith a Moffat, «mas como se tratava de um
assunto bastante delicado, limitei-me a deixar bem claro que género de pessoa Hanfstaengl é
na verdade.»

A opinião que Messersmith tinha acerca do comportamento de Martha foi endurecendo à


medida que o tempo passava. Numas memórias que não foram publicadas, escreveu que «ela
portara-se muito

141

ERIK LARSON

mal de variadíssimas maneiras, sobretudo tendo em conta a posição ocupada pelo pai».

O mordomo dos Dodd, Fritz, enquadrava sucintamente o seu próprio criticismo: «Não era uma
residência, era uma casa de má fama.

A vida amorosa de Martha sofreu uma reviravolta negativa quando ela foi apresentada a
Rudolf Diels, o jovem comandante da Gestapo. Ele movia-se com facilidade e confiança mas,
ao contrário de Putzi Hanfstaengl, que invadia uma sala, ele entrava sem obstruir insinuando-
se como um nevoeiro malevolente. A sua chegada a uma festa, escreveu ela, «criava um
nervosismo e uma tensão que só ele causava, mesmo quando as pessoas não estavam cientes
da sua identidade.»

O que mais lhe chamava a atenção era a paisagem torturada da cara dele, que ela descrevia
como «o rosto mais sinistro e desfigurado por cicatrizes que eu alguma vez vi». Uma grande
cicatriz em forma de um V superficial marcava-lhe a face direita; outras demarcavam-se sob a
boca e pelo queixo; uma cicatriz especialmente profunda formava um crescente na parte
inferior da face esquerda. Tinha uma aparência espantosa, como a de um Ray Milland
estropiado — «uma beleza cruel e destruída», nas palavras de Martha. Era o oposto da beleza
insípida dos jovens oficiais do Reichswehr, e ela sentiu-se imediatamente atraída por ele, pelos
seus lábios «encantadores», pelo seu «luxuriante cabelo preto como azeviche» e pelos seus
olhos penetrantes.

Decerto não era a única a senti-lo. Dizia-se que Diels tinha muito charme e era sexualmente
talentoso e experiente. Enquanto estudante, conquistara uma reputação de bebedor e
mulherengo, de acordo com Hans Bernd Gisevius, membro da Gestapo que estudara na
mesma universidade. «Casos com mulheres eram algo em que frequentemente se envolvia»,
escreveu Gisevius numa memória. Os homens também reconheciam o charme e os modos de
Diels. Quando Kurt Ludecke, um antigo parceiro de Hitler, se viu detido e convocado ao
gabinete de Diels, achou o comandante da Gestapo inesperadamente cordial. «Senti-me à-
vontade com aquele jovem alto, esguio e educado, e a consideração com que me tratou
pareceu-me reconfortante de

142

NO JARDIM DOS MONSTROS

imediato» escreveu. «Foi uma ocasião em que bons modos foram sem dúvida bem-vindos.» E
registou: «Regressei à minha cela sentindo que preeferiria ser alvejado por um cavalheiro do
que espancado por um alarve.» Não obstante, Ludecke acabaria preso, sob «custódia
protetora», num campo de concentração em Brandenburg an der Havel.

O que Martha achava tão atraente em Diels era o facto de todos os outros parecerem receá-lo.
Era frequentemente apelidado de «Príncipe das Trevas» e, como ela viria a saber, não se
importava de todo. Os seus modos mefistofélicos davam-lhe um gozo perverso e ele queria
sempre que a sua entrada melodramática deixasse a sala em silêncio.»
Desde cedo se aliara a Gõring e, quando Hitler se tornara chanceler, o novo ministro prussiano
do Interior recompensou a sua lealdade atribuindo-lhe o comando da recém-criada Gestapo,
apesar de Diels não ser membro do partido nazi. Gõring instalou a agência numa velha escola
de artes, no número 8 da Prinz-Albrecht-Strasse, a uns dois quarteirões do consulado norte-
americano, que ficava na Bellevuestrasse. Aquando da chegada dos Dodd a Berlim, a Gestapo
já se tornara uma presença aterradora, ainda que estivesse longe de ser a entidade
omnisciente e omnividente que as pessoas imaginavam que fosse. O seu rol de funcionários
era «impressionantemente pequeno», de acordo com o historiador Robert Gellately, que cita o
exemplo do ramo de Dússeldorf da agência, um dos poucos cujos registos detalhados
sobreviveram. Tinha 291 empregados responsáveis por um território que albergava quatro
milhões de pessoas. Os seus agentes, ou «especialistas», não eram os sociopatas que povoam
a imaginação popular, descobriu Gellately. «A maioria não era louca, demente ou super-
humana, mas sim espantosamente comum.»

A Gestapo ampliou a imagem sombria que projetava mantendo as suas operações e fontes de
informação em segredo. Do nada, recebia-se um postal a requisitar a presença para um
interrogatório. Os postais eram singularmente aterradores. Apesar da forma prosaica, tais
convocatórias não poderiam ser descartadas ou ignoradas. Deixavam os cidadãos na posição
de terem de se apresentar no edifício mais assustador que existia, para responderem a
acusações por ofensas que,

143
ERIK LARSON

muito provavelmente, nada tinham que ver com eles, com a possibilidade — muitas vezes
imaginada, mas, em bastantes casos, bem real — de que, no final desse dia, se encontrassem
num campo de concentração, em «custódia protetora». Era esta acumulação de fatores

desconhecidos que tornava a Gestapo tão temível. «É possível escapar a um perigo que se
reconheça», escreveu o historiador Friedrich Zipfel, «mas uma força policial que opera nas
trevas torna-se misteriosa. Deixa de haver um local onde nos possamos sentir a salvo dela.
Embora não seja omnipresente, poderá aparecer, revistar, prender.

O cidadão preocupado nunca sabe em quem deve confiar.»

Contudo, sob o comando de Diels, a Gestapo desempenhava um papel complexo. Nas


semanas que se seguiram à nomeação de Hitler como chanceler, a Gestapo de Diels funcionou
como contrapeso da vaga de violência das SA, durante a qual as Tropas de Assalto arrastavam
milhares de vítimas para as suas prisões improvisadas. Diels liderou rusgas para as encerrar,
encontrando prisioneiros em condições chocantes, espancados e mutilados, com membros
partidos, à beira da inanição, «como uma massa inanimada de argila», escreveu ele,
«marionetas absurdas de olhos sem vida, a arder de febre, com os corpos flácidos».

O pai de Martha gostava de Diels. Surpreendido, via no comandante da Gestapo um


intermediário prestável no processo de retirar cidadãos estrangeiros e outros de campos de
concentração e para exercer pressão nas autoridades policiais fora de Berlim, de forma a
encontrar e punir soldados das SA responsáveis pelos ataques a norte-americanos.

Contudo, Diels não era nenhum santo. Durante a sua chefia, milhares de homens e mulheres
foram presos, muitos torturados, alguns assassinados. A mando de Diels, por exemplo, um
comunista alemão chamado Ernst Thálmann foi feito prisioneiro e interrogado na sede da
Gestapo. Thálmann deixou um relato vívido. «Ordenaram-me que despisse as calças; depois
dois homens agarraram-me pela nuca e deitaram-me num escabelo. Um agente fardado da
Gestapo, com um chicote de pele de hipopótamo na mão, vergastou-me as nádegas com
golpes precisos. Enlouquecido pela dor, gritei vezes sem conta o mais alto que a voz me
permitia.»

144

NO JARDIM DOS MONSTROS


Na perspetiva de Diels, a violência e o terror eram ferramentas valiosas para a preservação do
poder político. Durante uma reunião de correspondentes estrangeiros em casa de Putzi
Hanfstaengl, disse aos repórteres: «O valor das SA e das SS, do meu ponto de vista enquanto
inspetor-geral responsável pela supressão de tendências e atividades subversivas, encontra-se
no facto de disseminarem o terror.

É uma coisa salutar.»

Martha e Diels davam passeios no Tiergarten, que depressa se tornava reconhecidamente o


único sítio no centro de Berlim onde uma pessoa podia sentir-se à-vontade. Martha gostava
sobretudo de deambular pelo parque no outono, por entre aquilo a que chamava morte
dourada do Tiergarten». Iam ao cinema e a clubes noturnos, nara além de fazerem longas
viagens de carro pelo campo. Parece provável que tenham sido amantes, apesar de ambos
serem casados, Martha apenas em termos técnicos, Diels apenas no papel, dada a propensão
que tinha para o adultério. Martha adorava ser conhecida como a mulher que dormia com o
diabo — e não parece haver dúvidas quanto a que ela tenha realmente dormido com ele,
ainda que seja igualmente provável que Dodd, à semelhança de pais ingénuos em toda a parte
e em todas as épocas, não fizesse ideia disso. Messersmith suspeitava, tal como Raymond
Geist, segundo homem na hierarquia do consulado. Geist queixou-se a Wilbur Carr, diretor dos
serviços consulares em Washington, que Martha era uma jovem «altamente indiscreta» que
tinha «o hábito constante de sair à noite com o diretor da Polícia Secreta nazi, um homem
casado». O próprio Geist tinha-a ouvido chamar a Diels, em público, vários nomes afetuosos,
entre os quais «queridinho».

Quanto mais Martha ficava a conhecê-lo, mais se apercebia de que também ele tinha medo.
Sentia-se «constantemente na mira de uma pistola», escreveu ela. Mostrava-se mais
descontraído nas viagens de carro que faziam, quando ninguém poderia ouvir as conversas
que tinham ou supervisionar-lhes o comportamento. Faziam paragens e caminhavam por
florestas ou iam a cafés remotos e pouco conhecidos. Ele contava-lhe histórias que ilustravam
que, na hierarquia nazi, todos

145

ERIK LARSON
desconfiavam uns dos outros, que Gõring e Goebbels se detestavam e se espiavam
mutuamente, para além de ambos o espiarem a ele enquanto Diels e os seus homens, por seu
turno, os mantinham sob vigilância.

Foi através de Diels que Martha, pela primeira vez, corneçou a moderar a sua visão idealista da
revolução nazi. «Eis que surgia, diante dos meus olhos românticos [...] uma rede vasta e
complicada de espionagem, terror, sadismo e ódio, da qual ninguém, oficial soldado, poderia
escapar.»

Nem sequer Diels, como os acontecimentos depressa demonstrariam.

146

CAPITULO 14

A MORTE DE BORIS

Havia ainda outro amante na vida de Martha, o mais importante de todos, um russo
desventurado que lhe moldaria o resto da vida.

Vislumbrou-o pela primeira vez em meados de setembro de 1933, uma das muitas festas que
Sigrid Schultz organizava no seu apartamento onde vivia com a mãe e dois cães. Schultz
costumava servir sanduíches, feijão cozido e salsichas preparados pela mãe, e fornecer muita
cerveja, vinho e licores, o que tendia a fazer com que até os convidados nazis abandonassem a
doutrina em troca de diversão e mexericos. A meio de certa conversa, por acaso Martha olhou
de relance para o outro lado da sala, onde viu um homem alto e bem-parecido, rodeado por
um grupo de correspondentes. Ainda que não fosse de uma beleza convencional, era muito
atraente — teria uns trinta anos, com o cabelo louro-acastanhado curto, uns olhos
impressionantemente brilhantes e modos descontraídos e fluidos. Gesticulava ao falar e
Martha reparou nos dedos longos e flexíveis. «Tinha uma boca e um lábio superior
invulgares», recordou uma amiga de Martha, Agnes Knickerbocker, mulher do correspondente
H. R. «Knick» Knicker-bocker. «Não poderia descrevê-los de outra forma se não dizendo que
poderia ir da severidade ao riso numa fração de segundo repentina.»
Enquanto Martha o observava, ele virou-se e olhou para ela, que correspondeu ao olhar dele
durante alguns momentos, antes de interromper o contacto e se concentrar noutras
conversas. (Num relato inédito, escrito mais tarde, ela registou pormenores minuciosos deste
momento e de outros que se seguiriam.) Ele também se virou — porém quando a manhã
nasceu e a noite foi resumida aos elementos essenciais, era este encontro de olhares que
ambos recordavam.

147

ERIK LARSON

Várias semanas depois, tornaram a ver-se. Knick e a esposa convidaram Martha e outros
amigos para uma noite de copos e dança no Ciro's, um clube noturno popular que empregava
músicos negros de jazz um ato duplo de provocação, dada a obsessão do partido nazi com a
pureza racial e a condenação do jazz — na gíria da farra, «jazz de pretos e judeus» —, que
seria música degenerada.

Knick apresentou Martha ao homem alto em que ela reparara na festa de Sigrid Schultz. O seu
nome, como ficou então a saber era Boris Winogradov (pronunciava-se Vinogradov). Alguns
instantes depois, Boris apareceu diante da mesa dela, a sorrir e algo embaraçado «Gnãdiges
Fràulein», começou ele, usando a habitual saudação alemão que significava «cara senhora».
Convidou-a a dançar.

Ela ficou imediatamente impressionada com a beleza da voz dele que descreveu como estando
algures entre a de um barítono e a de um tenor. «Melíflua», escreveria. Comoveu-a, «atingiu-
me o coração e por um momento, deixou-me sem palavras ou fôlego». Ele estendeu-lhe uma
mão para a ajudar a sair da mesa apinhada.

Martha não demorou a perceber que a graça natural dele tinha limitações. Fê-la rodopiar pela
pista de dança «pisando-me os dedos dos pés, dando encontrões às pessoas, com o braço
esquerdo rigidamente espetado, a virar a cabeça de um lado para o outro, tentando evitar
mais colisões.»

Confessou-lhe:

— Não sei dançar.

O facto era tão óbvio que ela desatou a rir. Boris também se riu. Ela gostou do sorriso dele,
bem como da «aura [geral] de delicadeza». Algum tempo depois, ele disse-lhe: — Faço parte
da embaixada soviética. Haben Sie Angst?
Martha tornou a rir.

— Claro que não, porque haveria de ter medo? De quê?

— Correto — disse ele —, é uma civil e, consigo, também eu sou. Apertou-a mais contra si. Era
magro e tinha os ombros largos, e uns olhos que ela achava lindos, azuis-esverdeados com
laivos de dourado. Os dentes irregulares, de alguma forma, melhoravam-lhe o sorriso. Ria-se
com facilidade.

—Já a vi várias vezes — disse. A última ocasião, recordou-a ele, fora em casa de Schultz. —
Erinnern Sie sich? Recorda-se?

148

NO JARDIM DOS MONSTROS

Com uma natureza contraditória, Martha não queria parecer um alvo demasiado fácil.
Manteve um tom «neutro», mas reconheceu: ___ sim, lembro-me.

Dançaram durante mais algum tempo. Quando ele a acompanhou de novo à mesa dos
Knickerbocker, aproximou-se mais dela e perguntou-lhe:

__Ich mochte Sie sehr wiederzusehen. Darf ich Sie anrufen?

O significado era claro para Martha, não obstante o domínio limitado que tinha do idioma —
Boris estava a perguntar-lhe se poderia voltar a vê-la. Respondeu-lhe:

__Sim, pode telefonar-me.

Martha dançou com outros. A dada altura, olhou para a sua mesa e viu o casal Knickerbocker,
com Boris — sentado ao lado dos amigos dela, observava-a.

«Por incrível que pareça», escreveu ela, «tive a sensação, depois de ele partir, de que o ar à
minha volta estava mais luminoso e vibrante.»

Vários dias depois, Boris visitou-a de facto. Conduziu até à casa dos Dodd, apresentou-se a
Fritz, o mordomo, e, em seguida, galgou as escadas até ao primeiro andar, com um ramo de
flores e um disco para um gira-discos. Não lhe beijou a mão, o que foi bom, pois esse ritual
germânico em particular sempre a irritara. Após um breve preâmbulo, mostrou-lhe o disco.
— Não conhece música russa, pois não, gnàdiges Frãulein? Alguma vez ouviu A Morte de Boris,
de Mussorgsky? — E acrescentou: — Espero que não seja a minha morte que vou dar-lhe a
ouvir.

Ele riu-se. Ela não. Mesmo naquela altura, pareceu-lhe «um agouro» de algo tenebroso e
iminente.

Escutaram a música — a cena da morte da ópera de Modest Mussorgsky, Boris Godunov,


cantada pelo famoso baixo russo, Fyodor Chaliapin — e depois Martha levou-o numa visita
guiada pela casa, que terminou na biblioteca. Ao fundo estava a secretária do pai dela, enor-
me e escura, com as gavetas sempre trancadas. O sol do fim do outono entrava pela janela alta
de vitral em plissados de luz de várias tonalidades. Ela encaminhou-o para o seu sofá predileto.
Boris estava maravilhado.

149

ERIK LARSON

— Este é o nosso canto, gnãdiges Frãulein!— exclamou. — Melhor do que todos os outros.

Martha sentou-se no sofá; Boris puxou uma cadeira. Ela tocou a uma campainha para chamar
Fritz e pediu-lhe que levasse cerveja e uma travessa de pretzels, cenouras e pepinos cortados e
palitos de queijo, alimentos que costumava servir quando recebia visitantes não oficiais.

Fritz levou a comida, caminhando com pés de lã, quase corno estivesse a tentar ouvir a
conversa. Boris calculou, com razão, que ele também teria raízes eslavas. Os dois homens
conversaram cordialmente. Aproveitando os modos descontraídos de Boris, Fritz perguntou:

— Vocês, comunistas, incendiaram mesmo o Reichstag? Boris brindou-o com um sorriso e


piscou o olho.

— Claro que sim — disse ele —, nós os dois. Não se lembra da noite em que estávamos em
casa de Gòring e nos mostraram a passagem secreta para o Reichstag?

Era uma alusão à teoria em que muitos acreditavam, de que uma equipa de incendiários nazis
tinha secretamente chegado ao Reichstag por uma passagem subterrânea que o unia ao
palácio de Gòring. Esse túnel existia de facto.

Todos se riram. Aquela cumplicidade fingida a respeito do incêndio do Reichstag perduraria


como piada entre Boris e Fritz, repetida frequentemente sob variadas formas, para encanto do
pai de Martha — apesar de Fritz, na opinião de Martha, ser «quase de certeza um agente da
polícia secreta».

Fritz regressou com vodca. Boris serviu-se de um grande copo, que depressa engoliu. Martha
recostou-se no sofá. Daquela vez, Boris sentou-se a seu lado. Bebeu outro copo de vodca, mas
não demonstrava quaisquer efeitos óbvios.

— Desde a primeira vez que a vi... — começou ele. Hesitou, após o que disse: — Poderá ser,
pergunto-me?

Ela compreendeu o que ele tentava dizer e, na verdade, também sentira uma atração poderosa
e imediata, mas não estava disposta a admiti-lo tão cedo. Olhou para ele, inexpressiva.

150

NO JARDIM DOS MONSTROS

Ele ficou sério. Deu início a um longo interrogatório. O que fazia ela em Chicago? Como eram
os seus pais? O que quereria fazer no futuro?

A permuta assemelhava-se mais a uma entrevista jornalística do que a uma conversa num
primeiro encontro. Martha achou-a enfadonha mas respondeu com paciência. Tanto quanto
sabia, poderia ser assim

que todos os homens soviéticos se comportavam. «Nunca conhecera um comunista a sério, ou


um russo, já agora», escreveu ela, «pelo que imaginava que deveria ser a forma que tinham
para ficarem a conhecer uma pessoa.»

À medida que a conversa foi avançando, ambos consultaram dicionários de bolso. Sabendo
pouco inglês, Boris falava sobretudo em alemão. Martha não falava russo de todo, pelo que se
servia de um misto de inglês e alemão.

Apesar de ser necessário bastante esforço, contou a Boris que os pais descendiam de famílias
latifundiárias, «tanto um como outro com uma boa ascendência, britânica quase pura:
escocesa-irlandesa, inglesa e galesa». Boris riu-se.

— Não é assim tão pura, pois não?

Com um tom inconscientemente orgulhoso, ela acrescentou que ambas as famílias, em


tempos, tinham tido escravos — «a da minha mãe uns doze, a do meu pai cinco ou seis».

Boris ficou em silêncio. A sua expressão modificou-se de imediato, entristecendo-se.


— Martha — disse ele —, decerto não terá orgulho no facto de os seus antepassados terem
sido proprietários das vidas de outros seres humanos.

Ele segurou-lhe nas mãos e olhou para ela. Até àquele momento, o facto de os antepassados
dos seus pais terem tido escravos parecera-lhe simplesmente um elemento curioso da vida
privada deles, que atestava as profundas raízes que tinham nos Estados Unidos. Agora, de
repente, ela via-o tal como era — um capítulo triste que deveria ser lamentado.

Não estava a vangloriar-me — disse ela. — Presumo que lhe tenha parecido que era o que
fazia. — Pediu desculpa, detestando-se

151

ERIK LARSON

imediatamente por isso. Era, segundo a própria reconhecia, «uma rapariga combativa».

— Mas a nossa tradição na América é longa — afirmou.- Não somos recém-chegados.

Aquela postura defensiva pareceu a Boris hilariante, pelo qu riu com vontade e sem
constrangimento. No instante seguinte, adotou um ar e um tom que ela recordaria como
«extremamente solene»

— Parabéns, minha nobre, graciosa e pequena Martha! Também eu descendo de uma


linhagem antiga, ainda mais do que sua. Sou descendente direto do homem de Neandertal. E
puro? Sim, um humano puro.

Caíram nos braços um do outro, às gargalhadas.

Tornaram-se companheiros regulares, ainda que tentassem guardar a maior discrição possível
quanto à relação. Os Estados Unidos ainda não tinham reconhecido a União Soviética (e não o
fariam até 16 de novembro de 1933). Que a filha do embaixador norte-americano privasse
abertamente com um primeiro secretário da embaixada soviética em eventos oficiais
constituiria uma quebra de protocolo que deixaria tanto o pai dela como Boris à mercê de
críticas tanto dos seus próprios governos como do exterior. Assim, ela e Boris abandonavam
festas diplomáticas cedo, encontrando-se depois para refeições secretas em restaurantes tão
elegantes como o Horcher's, o Pelzer. o Habel ou o Kempinski. Para reduzir um pouco os
custos, Boris também visitava chefes de restaurantes pequenos e baratos, instruindo-os
quanto à forma de preparar as comidas que lhe agradavam. Depois do jantar, ele e Martha iam
dançar ao Ciro's, ao clube no terraço do hotel Éden ou a cabarés políticos, como o Kabarett der
Komiker.

Nalgumas noites, Martha e Boris juntavam-se aos correspondentes estrangeiros reunidos no


Die Taverne, onde Boris era sempre bem-vindo. Os repórteres gostavam dele. Edgar Mowrer,
na altura já exilado, considerava-o uma alternativa agradável aos outros funcionários da
embaixada soviética. Boris, recordava ele, falava francamente sem a adesão eslávica à doutrina
partidária e «parecia não se intimidar de todo pelo tipo de censura que, ao que tudo indicava,
silenciava os outros membros da embaixada».

152
NO JARDIM DOS MONSTROS

À semelhança de outros pretendentes de Martha, Boris procurava escapar à intromissão nazi


levando-a a dar longos passeios pelo campo. Conduzia um Ford descapotável, que muito
estimava. Agnes Knickerbocker recordou que ele «alardeava alguma cerimónia ao calçar as
elegantes luvas de cabedal antes de agarrar no volante». Era um comunista inabalável»,
escreveu ela, mas «gostava das boas coisas da vida, por assim dizer».

Mantinha quase sempre a capota aberta, fechando-a por completo apenas nas noites mais
frias. À medida que a sua relação com Martha se foi aprofundando, insistia em conduzir com
um braço à volta dela. Parecia que precisava de estar sempre a tocar-lhe. Fazia-a pousar a sua
mão no seu joelho ou inserir os dedos na sua luva. Ocasionalmente, davam estes longos
passeios à noite, ficando por vezes na rua até de madrugada, segundo Martha escreveu, «para
saudar o sol nascente nas florestas verde-escuras salpicadas de dourado outonal.»

Apesar de o seu domínio do inglês ser limitado, aprendeu e passou a adorar a palavra
«darling» [querida], que usava sempre que podia. Também se servia de termos carinhoso em
russo, que se recusava a traduzir, alegando que fazê-lo lhes diminuiria a beleza. Em alemão,
chamava-lhe «minha menininha», «minha querida menina» ou «minha pequenina». Ela
calculava que isso se devia em parte à sua estatura e em parte à perceção geral que ele tinha
da personalidade e da maturidade dela. «Uma vez, disse-me que eu tinha uma ingenuidade e
um idealismo que ele não compreendia com facilidade», escreveu ela. Martha pressentia que
ele a achava demasiado «leviana» para tentar sequer doutriná-la nos princípios do
comunismo. Aquele foi um período, reconheceu ela, em que «eu devo ter parecido uma jovem
americana muitíssimo ingénua e teimosa, uma vexação para todas as pessoas sensatas que
conhecia».

Ela descobriu que Boris também encarava o mundo com ligeireza, pelo menos aparentemente.
«Aos trinta e um anos», escreveu ela, Boris tinha uma alegria e uma confiança infantis, um
humor e um canto arrebatadores que era raro encontrar-se em homens adultos.» De vez em
quando, contudo, a realidade intrometia-se naquilo a que Martha chamava «o mundo só
nosso de sonho de jantares, concertos, teatros e festividades alegres». Pressentia nele uma
corrente de tensão.

153

ERIK LARSON
Ficava especialmente consternado perante a rapidez com que o mundo aceitava as
declarações de paz de Hitler, sendo tão óbvio que preparava o país para a guerra. A União
Soviética parecia um alvo provável. Outra fonte de stresse era o facto de a embaixada dele
censurar a sua relação com Martha. Os seus superiores hierárquicos emitiram uma
admoestação. Ele ignorou-a.

Entretanto, também ela sentia pressões, embora de uma espécie menos oficial. O pai gostava
de Boris, pensava ela, mas era comum mostrar-se reticente na presença dele, «por vezes
mesmo antagónico) Martha atribuía-o sobretudo ao medo que o pai tinha de que ela e Boris
se casassem.

«Os meus amigos e familiares estão preocupados connosco» disse-lhe. «O que poderá resultar
daqui? Apenas complicações, agora alguma felicidade, mas depois talvez um longo
desespero.»

Para um dos seus encontros de setembro, Boris e Martha prepararam uma merenda e foram
de carro até ao campo. Encontraram uma clareira resguardada onde estenderam o cobertor. O
aroma a relva acabada de cortar permeava o ar. Estando Boris deitado no cobertor, a sorrir e a
observar o céu, Martha arrancou um pé de menta silvestre, com a qual lhe fez cócegas no
rosto.

Ele guardou-o, como ela viria a descobrir mais tarde. Era um romântico, um colecionador de
tesouros. Mesmo no início da relação, ele estava profundamente apaixonado — e, na verdade,
encontrava-se sob vigilância apertada.

Naquela altura, tudo indica que Martha não tinha noção das suspeitas de muitos
correspondentes: de que Boris não seria um mero primeiro secretário da embaixada, mas sim
um operacional do serviço de espionagem soviética, o NKVD, precursor do KGB.

154
CAPITULO 15

O «PROBLEMA JUDAICO»

Como embaixador, o principal contacto que Dodd tinha no governo alemão era o ministro dos
Negócios Estrangeiros, Neurath. Instigado pelo incidente ocorrido com a família Kaltenborn,
Dodd marcou um encontro com Neurath para a manhã de quinta-feira, 14 de setembro de
1933, para apresentar um protesto formal, não somente em relação àquele episódio em
particular, mas também aos vários outros ataques a norte-americanos e à aparente relutância
do regime de levar os perpetradores à justiça.

A conversa teve lugar no gabinete de Neurath, no ministério dos Negócios Estrangeiros, na


Wilhelmstrasse.

Começou de forma bastante amistosa, com uma discussão de questões económicas, mas o
ambiente depressa se tornou tenso quando Dodd abordou o tema das «brutalidades das SA» e
listou meia dúzia de incidentes. O mais recente acontecera a 31 de agosto, em Berlim, quando
Samuel Bossard fora atacado por membros da Juventude Hitleriana, depois de não ter feito a
saudação nazi. Uma semana antes, outro americano, Harold Dahlquist, tinha sido atingido por
um soldado das Tropas de Assalto por não ter ficado a assistir a um desfile das SA. Em termos
gerais, a frequência de ataques destes diminuíra, comparativamente com a primavera anterior,
mas continuavam a ocorrer incidentes, a uma cadência estável de um ou dois por mês. Dodd
alertou Neurath para o facto de que os relatos apresentados na imprensa sobre aqueles
ataques tinham causado danos concretos na reputação da Alemanha nos Estados Unidos, e
salientou que tal acontecera apesar dos seus próprios esforços para silenciar uma cobertura

jornalística negativa de correspondentes norte-americanos.

«Estou em posição de afirmar que a embaixada tem obtido sucesso,

155
ERIK LARSON

em várias ocasiões, impedindo que acontecimentos sem importância fossem noticiados, e que
também tem avisado os jornalistas de que não devem exagerar os seus relatos», disse a
Neurath.

Revelou-lhe que, certa vez, o seu próprio carro fora mandado parar e revistado,
aparentemente por um agente das SA, mas que ele impedira que o incidente fosse publicitado
para «precaver o alastrar de falatório que, como sabe, teria sido inevitável».

Neurath agradeceu-lhe e afirmou estar a par dos esforços de Dodd para moderar a cobertura
jornalística da violência das Tropas de Assalto, incluindo o incidente que Martha e Bill Jr.
tinham testemunhado em Nuremberga. Garantiu estar muito agradecido.

Dodd passou então para o episódio relativo a Kaltenborn. Disse a Neurath que a reação nos
Estados Unidos teria sido muito pior se o próprio Kaltenborn se sentisse inclinado a publicitá-
lo. «Contudo, ele teve a generosidade de nos pedir que não permitíssemos que qualquer
relato do episódio fosse conhecido e tanto eu como o Sr. Messersmith instámos a imprensa
norte-americana a não mencionar esta história», disse Dodd. «Não obstante, a história foi
publicada e provocou danos incalculáveis à Alemanha.»

Neurath, apesar de afamado pela falta de expressividade, ficou visivelmente perturbado, uma
novidade merecedora de registo, o que Dodd fez num memorando «Estritamente
Confidencial» que compôs horas depois. Neurath afirmava conhecer Kaltenborn pessoalmente
e condenar o ataque como brutal e injustificado.

Dodd observou-o. Neurath parecia sincero, mas, ultimamente, o ministro dos Negócios
Estrangeiros tinha demonstrado uma tendência para concordar e depois nada fazer.

O embaixador deixou o aviso de que, se os ataques continuassem e os atacantes não fossem


castigados, os Estados Unidos poderiam deveras ver-se forçados a «publicar uma declaração
que prejudicaria muito a imagem da Alemanha aos olhos do mundo».

O rosto de Neurath ficou mais ruborizado.

Dodd prosseguiu, como se desse um sermão a um aluno desencaminhado: «Não percebo


como é possível que os vossos funcionário permitam tal comportamento ou não sejam
capazes de ver que se trata de uma das coisas mais sérias a afetar as nossas relações».

156
NO JARDIM DOS MONSTROS

Neurath declarou que, na semana anterior, tinha abordado o assunto junto de Góring e Hitler.
Ambos, disse ele, lhe tinham assegurado que se serviriam da sua influência para impedir mais
ataques.

Neurath jurou fazer o mesmo.

Dodd perseverou, aventurando-se num território ainda mais minado: o «problema» judaico,
como quer ele, quer Neurath lhe chamavam.

Neurath perguntou-lhe se os Estados Unidos «não tinham [também] um problema judaico».

- Saberá, com certeza — respondeu Dodd —, que temos tido dificuldades ocasionais nos
Estados Unidos com judeus que se apoderararn em demasia de certos departamentos da vida
intelectual e comercial. - Acrescentou que alguns dos seus pares em Washington

lhe tinham dito, em confidência, que «compreendiam as dificuldades dos Alemães naquela
situação mas que de forma alguma concordavam com o método de resolução do problema,
que tantas vezes resultava em crueldade absoluta».

Descreveu-lhe o seu encontro com Fritz Haber, o químico.

- Sim — disse Neurath —, conheço Haber e reconheço que é um dos melhores químicos de
toda a Europa.

Neurath concordava que o tratamento dado na Alemanha aos judeus ia no caminho errado e
disse que o seu ministério defendia uma abordagem mais compassiva. Afirmou ver sinais de
mudança. Nessa mesma semana, alegou, tinha ido às corridas em Baden-Baden e três judeus
proeminentes tinham ficado sentados a seu lado na plataforma, onde se encontravam também
outros funcionários governamentais, «sem que houvesse expressões animosas».

Dodd replicou:

- Não poderá esperar que o mundo julgue que a vossa conduta está a moderar-se enquanto
líderes eminentes, como Hitler e Goebbels, anunciam em palanques, como em Nuremberga,
que todos os judeus devem ser exterminados da face da Terra. — Levantou-se para ir embora.
Voltou-se de novo para Neurath. — Haverá uma guerra? — perguntou.

Neurath tornou a corar:

— Nunca!

157
ERIK LARSON

Já à porta, Dodd comentou:

— Decerto terá noção de que a Alemanha ficaria arruinada com outra guerra.

Dodd saiu do edifício, «algo preocupado por ter sido tão franco e crítico».

No dia seguinte, o cônsul norte-americano de Estugarda envou um comunicado «Estritamente


Confidencial» para Berlim, no qual informava que a Companhia Mauser, sediada na sua
jurisdição, tinha aumentado bruscamente a produção de armas. Escreveu: «Não podem
continuar a existir dúvidas de que a Alemanha se prepara em grande escala para uma
renovada agressão a outros países.»

Pouco depois, o mesmo cônsul reportava que a Polícia alemã dera início a uma vigilância
atenta das autoestradas, parando rotineiramente viajantes e submetendo-os, tal como aos
seus carros e bagagens a revistas aturadas.

Numa ocasião digna de nota, o governo ordenou uma interrupção nacional de quarenta
minutos de todo o tráfego a partir do meio-dia, para que esquadrões de polícias pudessem
revistar todos os comboios, camiões e carros que se encontrassem em circulação. A explicação
oficial, citada por jornais alemães, era de que a Polícia buscava armas, propaganda estrangeira
e provas de resistência comunista. Os habitantes de Berlim mais cínicos acolheram uma teoria
diferente que começava a ser falada: que o que a Polícia realmente esperava encontrar e
confiscar eram exemplares de jornais suíços e austríacos com alegações de que o próprio Hitler
poderia ter ascendência judaica.

158

CAPÍTULO 16
UM PEDIDO SECRETO

Os ataques a norte-americanos, os seus protestos, a imprevisibilidade de Hitler e dos seus


delegados, ter de tratar com tanta delicadeza comportamento oficial que, em qualquer outro
lugar, poderia acarretar tempo de prisão... Tudo isto exauria Dodd. Dores de cabeça e
problemas digestivos atormentavam-no. Numa carta a um amigo, descreveu o seu cargo de
embaixador como «esta posição desagradável e difícil».

Para além de tudo, havia os problemas quotidianos com os quais até um embaixador tinha de
lidar.

A meio de setembro, a família Dodd ouviu muito barulho no quarto andar da casa de
Tiergartenstrasse, que deveria ser habitado apenas por Panofsky e a mãe deste. Sem que Dodd
tivesse sido avisado, uma equipa de carpinteiros chegara e, começando às sete da manhã,
martelava, serrava e fazia outras atividades barulhentas que duraram duas semanas. A 18 de
setembro, Panofsky deixou-lhe um breve recado:

«Por esta via o informo de que, no início do próximo mês, a minha mulher e filhos regressarão
da estada no campo e voltarão para Berlim. Estou em crer que o conforto de V. Exa. e da Sra.
Dodd não será comprometido, já que desejo que a vossa permanência na minha casa seja o
mais confortável possível.»

Panofsky instalou a esposa e os filhos no quarto andar, bem como vários criados.

Dodd ficou escandalizado. Compôs uma carta ao banqueiro, que depois editou grandemente,
rasurando e alterando quase todas as linhas, obviamente ciente de que o que estava em jogo
era mais do que uma mera questiúncula entre um senhorio e um inquilino. Panofsky

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ERIK LARSON

chamara a família para Berlim porque a presença de Dodd servia de garantia à sua segurança.
O primeiro rascunho dava a entender qu talvez tivesse de mudar a sua própria família de casa,
e censurava Panofsky por não lhe ter revelado aqueles planos em julho. Caso o tivesse feito,
escreveu Dodd, «não nos [teríamos] encontrado nesta posicão tão embaraçosa».

A última versão era mais contida: «Muito nos regozijamos, de facto, ao sabermos que se
reuniu à sua família», escreveu ele, em alemão. «O nosso único receio será o de que os seus
filhos não possam usar a própria casa com o à-vontade que desejariam. Comprámos a nossa
casa em Chicago com o intuito de os nossos filhos poderem aproveitar as vantagens do ar livre.
Entristecer-me-ia ter a sensação de que poderemos ser um entrave à liberdade e à
movimentação que os seus filhos merecem. Se estivéssemos cientes dos seus planos em julho
não nos encontraríamos nesta situação melindrosa.»

Os Dodd, à semelhança de inquilinos abusados em qualquer lugar, decidiram, ao início, ser


pacientes e esperar que a nova algazarra de crianças e criados acalmasse.

Isso não aconteceu. O alvoroço de entradas e saídas, bem como os aparecimentos


imprevisíveis de crianças pequenas, deram azo a momentos embaraçosos, sobretudo quando
a família Dodd recebia diplomatas e altos funcionários do Reich, estes últimos já predispostos
a desprezar os hábitos frugais de Dodd — os seus fatos simples, as caminhadas até ao
gabinete, o velho Chevrolet. E agora a chegada inesperada de uma família inteira de judeus.

«Havia demasiado barulho e perturbações, sobretudo porque os deveres da minha função


requeriam visitas frequentes», escreveu Dodd num memorando. «Acho que qualquer um teria
dito tratar-se de um ato de má-fé.»

Consultou um advogado.

Os seus problemas com o senhorio e as crescentes exigências do cargo dificultavam-lhe cada


vez mais arranjar tempo para avançar no seu Old South. Só conseguia escrever durante breves
períodos à noite e ao fim de semana. Era com esforço que adquiria livros e documentos que,
nos Estados Unidos, teria localizado facilmente.

O que mais o abatia, no entanto, era a irracionalidade do mundo em que passara a mover-se.
Até certo ponto, era prisioneiro da sua

160

NO JARDIM DOS MONSTROS

própria formação. Como historiador, encarava o mundo como resultado de forças históricas e
das decisões de pessoas mais ou menos racionais, pelo que esperava que os homens que o
rodeavam se comportassem de modo civilizado e coerente. Contudo, o governo de Hitler não
era nem civilizado nem coerente, e a nação galgava de um momento inexplicável para o
seguinte.

Até a linguagem usada por Hitler e pelos membros do partido se invertia de forma bizarra. O
termo «fanático» tornara-se uma característica positiva. De repente, tinha uma conotação que
o filólogo Victor Klemperer, um judeu residente em Berlim, descrevia como «uma mescla feliz
de coragem e devoção fervorosa.» Jornais controlados pelo poder nazi relatavam uma
interminável sucessão de «votos fanáticos» «declarações fanáticas», «crenças fanáticas», tudo
isto como coisas boas. Góring era descrito como um «fanático amigo dos animais» Fanatischer
Tierfreund.

Algumas palavras arcaicas estavam a ganhar um robusto e assustador uso moderno, verificava
Klemperer. Ubermensch: super-homem. Untermensch: sub-humano, querendo dizer «judeu».
Palavras completamente novas também emergiam, entre as quais Strafexpedition —
expedição punitiva —, o termo que as Tropas de Assalto aplicavam às suas incursões a
comunidades judaicas e comunistas.

Klemperer detetava uma certa «histeria linguística» na nova torrente de decretos, alarmes e
intimidações — «Estas incessantes ameaças com a pena de morte!» — e em episódios
estranhos e inexplicáveis de excessos paranóicos, como a recente busca nacional. Em tudo isto,
o filólogo via um esforço deliberado para gerar uma espécie de suspenso quotidiano, «copiado
dos filmes e thrillers norte-americanos», que ajudaria a manter as pessoas na linha. Ele
também encarava a situação como uma manifestação da insegurança sentida por aqueles que
ocupavam o poder. No final de julho de 1933, Klemperer viu um documentário
cinematográfico no qual Hitler, de punhos cerrados e rosto contorcido, guinchava: «A 30 de
janeiro, eles» — Klemperer presumia que o ditador se referia aos judeus — «riram-se de
mim... esse sorriso ser-lhes-á arrancado [...]!» O filólogo estava impressionado com o facto de,
apesar de Hitler tentar transmitir omnipotência, parecer estar a sofrer um ataque
descontrolado de raiva que, paradoxalmente, tinha o efeito de minar a vanglória com que
proclamava que

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ERIK LARSON

o novo Reich duraria mil anos e que todos os seus inimigos seriam aniquilados. Klemperer
perguntava-se: falar-se-á com tal raiva cega «se se tiver tanta certeza dessa duração e dessa
aniquilação?»

Nesse dia, saíra do cinema «com algo que quase chegava a ser laivo de esperança».

No mundo para lá das janelas de Dodd, contudo, as sombras aprofundavam-se a ritmo


acelerado. Ocorreu mais um ataque a um norte-americano, um representante da cadeia de
lojas de desconto Woolworth, chamado Roland Velz, que foi atacado em Dússeldorf no
domingo, 8 de outubro de 1933, quando, com a esposa, passeava por uma das principais ruas
da cidade. Tal como tantas outras vítimas anteriores, tinham cometido o pecado de não darem
a devida atenção à passagem das SA. Um soldado irado bateu duas vezes, com violência, no
rosto de Velz, após o que seguiu caminho. Quando Velz tentou que um polícia prendesse o
homem, o agente recusou-se a fazê-lo. Velz queixou-se, então, a um tenente de polícia que se
encontrava por perto, mas também este se absteve de agir. Em vez disso, ofereceu-lhe uma
breve lição sobre como e quando fazer a saudação.

Dodd enviou duas notas de protesto ao ministério dos Negócios Estrangeiros, nas quais exigia
uma ação imediata para que o atacante fosse preso. Não recebeu resposta. Mais uma vez, o
embaixador ponderou a ideia de pedir ao Departamento de Estado que «anunciasse ao mundo
que os cidadãos norte-americanos não estão a salvo na Alemanha e que o melhor será que os
viajantes não venham cá», mas foi vencido pela hesitação.

A perseguição de judeus prosseguia de formas cada vez mais subtis e abrangentes, à medida
que o processo de Gleichschaltung avançava. Em setembro, o governo estabeleceu a Câmara
de Cultura do Reich, sob o controlo de Goebbels, com o intuito de alinhar músicos, atores,
pintores, escritores e realizadores em termos ideológicos e, sobretudo, raciais. No início de
outubro, o governo promulgou a Lei Editorial, que bania os judeus de empregos em jornais e
editoras, e que surtiria efeito a partir de 1 de janeiro de 1934. Não havia reino demasiado
mesquinho para ingerência: o ministério das Profissões decretou que,

162

NO JARDIM DOS MONSTROS

doravante, quando fosse necessário soletrar uma palavra ao telefone, já não seria permitido
dizer «D de David», pois este era um nome judeu. Em substituição, dir-se-ia «Dora».
«Samuel» passava a ser «Siegfried». E por aí em diante. «Em toda a história social, nunca
houve algo mais implacável, desapiedado e devastador do que a presente política germânica
contra os judeus», dizia o cônsul-geral Messersmith ao subsecretário Phillips, numa longa carta
datada de 29 de setembro de 1933. Escreveu: «o objetivo do governo é, em definitivo e
independentemente do que possa dizer ao mundo exterior, eliminar os judeus da vida alemã.»

Durante algum tempo, Messersmith estivera convencido de que a crise económica da


Alemanha deporia Hitler. Já não. Percebia agora que Hitler, Gõring e Goebbels se encontravam
firmemente no poder. Eles «praticamente nada sabem do mundo exterior», escreveu. «Sabem
apenas que, na Alemanha, podem fazer o que quiserem. Sentem o poder que detêm sobre o
país e estão como que inebriados por isso.» Messersmith propunha que uma solução poderia
passar por uma «intervenção de força do exterior». Mas alertava que tal ação teria de ocorrer
em breve. «Se outras potências interviessem agora, provavelmente metade da população
ainda o encararia como uma libertação. Se demorar demasiado, tal intervenção poderá
deparar-se com uma Alemanha praticamente unida.»

Um facto era certo, segundo Messersmith: a Alemanha já se impunha como uma verdadeira e
grave ameaça ao mundo. Chamava-lhe «o ponto sensível que poderá perturbar a nossa paz
nos anos vindouros».

Dodd começava a exibir os primeiros sinais de desencorajamento e de um profundo cansaço.

«Aqui nada existe que pareça oferecer grande esperança», escreveu ao amigo coronel Edward
M. House, «e sinto-me, aqui entre nós, mais do que um pouco duvidoso da sensatez de ter
insinuado, na primavera passada, que pudesse prestar um serviço útil na Alemanha. Tenho um
volume do The Old South pronto, ou quase, para publicação. Deveriam seguir-se outros três.
Trabalho há vinte anos neste tema e não me agrada

163

ERIK LARSON

correr um risco demasiado grande de nunca o completar.» Terminava: «Eis-me, aos sessenta e
quatro anos, ocupado durante dez a quinze horas por dia! Não alcanço coisa alguma. Contudo,
se me demitisse, isso complicaria a situação.» À amiga Jane Addams, a reformadora que
fundou a Casa Hull, em Chicago, escreveu: «Isto desbarata o meu trabalho de História e estou
longe de me sentir seguro de ter tomado a decisão certa em junho passado.»

A 4 de outubro de 1933, passados pouco mais de três meses desde que chegara, Dodd enviou
uma carta ao secretário Hull, marcada como «Confidencial e apenas para si». Alegando a
humidade do clima outonal e invernal de Berlim, bem como o facto de não ter férias desde
março, Dodd pedia permissão para tirar uma licença prolongada no início do ano seguinte, de
forma a poder passar algum tempo na sua quinta e dar aulas em Chicago. Esperava partir de
Berlim em fevereiro, regressando três meses depois.

Pedia a Hull que guardasse segredo quanto ao seu pedido. «Por favor, não refira esta questão a
terceiros, se lhe suscita dúvidas.»

Hull concedeu-lhe permissão, insinuando que, naquela altura, Washington não se revia na
avaliação feita por Messersmith de a Alemanha ser uma ameaça séria e crescente. Os diários
do subsecretário Phillips e do responsável pela Europa Ocidental, Moffat, deixam bem claro
que a principal preocupação do Departamento de Estado em relação à Alemanha era a
enorme dívida para com credores norte-americanos.

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CAPITULO 17

A CORRIDA DE LÚCIFER

Com a aproximação do outono, os malabarismos desafiantes a que Martha se prestava para se


encontrar com os seus pretendentes tornaram-se um pouco menos assoberbantes, ainda que
por um motivo perturbador. Diels desapareceu.

Numa noite do início de outubro, Diels ficara a trabalhar até tarde no seu gabinete, situado no
número 8 da Prinz-Albrecht-Strasse; por volta da meia-noite, atendeu um telefonema da
mulher, Hilde, que parecia profundamente alterada. Como ele recordaria nas suas memórias,
Lúcifer Ante Portas — Lúcifer ao Portão —, a mulher disse-lhe que «uma horda» de homens
armados e uniformes negros lhes invadira o apartamento, trancando-a num quarto antes de
procederem a uma busca exaustiva, apreendendo diários, cartas e vários outros ficheiros que
Diels mantinha em casa. Ele correu até ao apartamento e conseguiu reunir informação
suficiente para identificar os intrusos como um esquadrão das SS sob o comando de um certo
capitão Herbert Packebusch. Este tinha apenas 31 anos, escreveu Diels, mas já ostentava «uma
dureza e uma insensibilidade profundas no rosto». Diels chamava-lhe «o verdadeiro protótipo
e imagem dos posteriores comandantes dos campos de concentração».

Apesar de a natureza arrojada do raide de Packebusch o surpreender, Diels compreendia as


forças que operavam nos bastidores de tal ação. O regime fervilhava de conflitos e
conspirações. Diels encontrava-se sobretudo no campo de Gõring, que detinha todo o poder
policial de Berlim e do território envolvente da Prússia, o maior dos estados germânicos.
Todavia, Heinrich Himmler, encarregado das SS, estava rapidamente a conquistar o controlo
das agências da polícia secreta
165

ERIK LARSON

espalhadas pelo resto da Alemanha. Gõring e Himmler detestavam-se e competiam por


exercer a maior influência.

Diels não demorou a agir. Telefonou a um amigo, responsável pela esquadra de Tiergarten da
Polícia de Berlim e reuniu uma companhia de agentes fardados e armados com metralhadoras
e granadas de mão. Dirigiu os homens a um forte das SS na Potsdamer Strasse e deu-lhes
ordens para que cercassem o edifício. Os SS que se encontravam à porta não faziam ideia do
que acontecera e, muito prestáveis, encaminharam Diels, bem como um contingente de
polícias, até ao gabinete de Packebusch.

A surpresa foi total. Ao entrar, Diels deparou-se com Packebusch à secretária, em mangas de
camisa, com o casaco negro do seu uniforme pendurado numa parede adjacente, ao lado do
seu cinto e da pistola no coldre. «Ele estava ali sentado, a estudar a documentação que tinha
sobre a secretária, como um académico a trabalhar noite fora» escreveu Diels, que ficou
escandalizado: «Eram os meus documentos que ele estava a analisar e a truncar, como
depressa percebi, com anotações ineptas.» Diels verificou que Packebusch criticava até a
forma como ele e a mulher tinham decorado o apartamento. Numa nota, Packebusch tinha
rabiscado a expressão «mobiliário à la Stresemann», uma referência ao falecido Gustav
Stresemann, um oponente de Hitler da época Weimar.

«Está preso», declarou Diels.

Packebusch levantou a cabeça abruptamente. Num instante estava a ler os documentos


pessoais de Diels, no seguinte tinha-o diante de si. «Packebusch não teve tempo para
recuperar da sua surpresa», afirmou Diels. «Fitava-me como se eu fosse uma aparição.»

Os homens de Diels agarraram em Packebusch. Um agente tirou a pistola do capitão das SS do


cinto pendurado na parede, mas, segundo parece, ninguém se deu ao trabalho de efetuar uma
revista mais completa ao próprio Packebusch. Polícias iam percorrendo o edifício para
prenderem outros homens que Diels julgava terem participado no raide ao seu apartamento.
Todos os suspeitos foram transportados para a sede da Gestapo; Packebusch foi levado ao
gabinete de Diels.

Ali, com a madrugada a despontar, Diels e Packebusch ficaram frente a frente, ambos lívidos. O
lobo-d'alsácia (na altura era esse
166

NO JARDIM DOS MONSTROS

o nome oficial dado aos pastores-alemães) de Diels mantinha-se por perto, atento.

Diels jurou fazer com que Packebusch fosse preso.

Este por seu turno, acusou-o de traição.

Enfurecido pela insolência do capitão, Diels saltou da sua cadeira, num impulso de raiva.
Packebusch soltou um chorrilho de obscenidades e sacou de uma pistola que tinha escondida
num bolso traseiro das calças. Apontou-a a Diels, de dedo no gatilho.

O cão entrou em ação, saltando contra Packebusch, de acordo com o relato de Diels. Dois
homens fardados imobilizaram-no e arrancaram-lhe a arma da mão. Diels ordenou que o
prendessem na prisão da Gestapo, que ficava na cave.

Pouco depois, Gõring e Himmler envolveram-se na questão e chegaram a um entendimento.


Gõring demitiu Diels das funções de comandante da Gestapo e tornou-o vice-comissário da
esquadra de Berlim. Diels compreendia que o novo cargo era uma despromoção para um
posto sem poder real — pelo menos, não o necessário para se defender de Himmler, caso este
optasse por se vingar mais. Ainda assim, aceitou a nomeação e as coisas assim ficaram até
que, certa manhã desse mês, dois subalternos que lhe eram leais o intercetaram a caminho do
trabalho. Informaram-no de que havia agentes das SS à espera dele no gabinete, com um
mandado de detenção emitido por Gõring. Diels fugiu. Nas suas memórias, alega que a esposa
lhe recomendou que levasse uma amiga, uma norte-americana, «que poderia revelar-se útil
para atravessar fronteiras». Ela vivia «num apartamento da Tiergartenstrasse», escreveu ele, e
gostava de correr riscos: «Eu estava a par do seu entusiasmo que o perigo e a aventura lhe
causavam.»

Tais pistas fazem-nos pensar de imediato em Martha, mas esta não fez qualquer menção a tal
viagem, quer nas suas memórias, quer em qualquer outra coisa que tenha escrito.

Diels e a companheira foram de carro até Potsdam, seguindo para a fronteira a sul, onde ele
deixou o automóvel numa garagem. Tinha um passaporte falso. Atravessaram a fronteira para
a Checoslováquia e avançaram para a cidade termal de Carlsbad, onde deram entrada num
hotel. Diels levava consigo alguns dos ficheiros com informações mais sensíveis, como garantia.

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ERIK LARSON

«Do seu retiro na Boémia», escreveu Hans Gisevius, memorialista da Gestapo, «ameaçou fazer
revelações embaraçosas e pediu um valor elevado para se manter em silêncio.»

Depois de Diels desaparecer, não há dúvida que muitos do círculo crescente de amigos de
Martha passaram a respirar mais à vontade, sobretudo aqueles com simpatias comunistas ou
que lamentavam as liberdades perdidas do passado Weimar. A vida social dela conti- nuava a
desabrochar.

De todos os novos amigos, a pessoa que achava mais cativante era Mildred Fish Harnack, com
quem se deparara pela primeira vez na plataforma da estação ferroviária, quando chegara a
Berlim. Mildred tinha um perfeito domínio do alemão e, segundo a maioria dos relatos, era
uma beldade, alta e esguia, com um longo cabelo louro, que usava num espesso coque
enrolado, e grandes olhos azuis e sérios. Recusava-se a usar maquilhagem. Mais tarde, depois
de um determinado segredo seu ser revelado, surgiria uma descrição sua nos ficheiros
secretos soviéticos, que a esboçava como «muito semelhante à Frau germânica com uma
aparência intensamente nórdica, muito útil».

Ela sobressaía não apenas devido à beleza, percebia Martha, mas também por causa da sua
postura. «Demorava a falar e a expressar opiniões», escreveu ela; «ouvia em silêncio,
sopesando e avaliando as palavras, os pensamentos e as motivações da conversação [...] As
suas palavras eram atenciosas, por vezes ambíguas, quando precisava de testar as pessoas
[...]»

Esta arte de analisar os motivos e as atitudes de outros tornara-se especialmente importante


tendo em conta a forma como ela e o marido, Arvid Harnack, tinham passado os anos
anteriores. Tinham-se conhecido na Universidade de Wisconsin, em 1926, na qual Mildred era

monitora. Casaram-se em agosto desse ano, mudaram-se para a Alemanha e acabaram por se
instalar em Berlim. Ao longo do tempo, demonstraram ter um dom para congregar gente.
Onde quer que se encontrassem, formavam uma tertúlia que se reunia a intervalos regulares
para partilhar refeições, conversa, palestras, até leituras de grupo de peças de Shakespeare,
ecos de um grupo famoso a que tinham pertencido

168

NO JARDIM DOS MONSTROS


Wisconsin, o Friday Niters, fundado por John R. Commons, professor e importante progressista
que, mais tarde, viria a ser conhecido como «pai espiritual» da Segurança Social.

Em Berlim, no inverno de 1930-31, Arvid fundara mais um grupo, desta feita devotado ao
estudo da economia planeada da Rússia soviética. À medida que o partido nazi foi ganhando
embalo, esta área de interesse tornou-se decididamente problemática, mas, não obstante
Arvid organizou e liderou uma viagem pela União Soviética, em que participaram cerca de duas
dúzias de economistas e engenheiros alemães. No tempo que passou no estrangeiro, foi
recrutado pelos serviços de espionagem soviéticos para operar em segredo contra os nazis.
Acedeu a fazê-lo.

Quando Hitler subiu ao poder, sentiu-se compelido a desagregar o seu grupo de economia
planeada. O clima político tornara-se letal. Ele e Mildred retiraram-se para o campo, onde
Mildred dedicava o tempo à escrita e Arvid aceitou um emprego como advogado da
companhia aérea germânica, a Lufthansa. Quando o espasmo inicial anticomunista abrandou,
os Harnack regressaram ao apartamento de Berlim. Surpreendentemente, tendo em conta o
seu passado, Arvid obteve uma posição no ministério da Economia e começou uma rápida
ascensão que levou alguns dos amigos que Mildred tinha nos Estados Unidos a concluir que o
casal se tinha «tornado nazi».

Ao início, Martha nada sabia a respeito da vida oculta de Arvid. Adorava visitar o apartamento
do casal, que era luminoso e acolhedor, imbuído de tonalidades reconfortantes: «beges, azuis
e verdes suaves». Mildred enchia grandes jarras com cosmos violeta, que colocava em frente a
uma parede pintada de amarelo-pálido. Martha e Mildred acabaram por se ver como espíritos
irmãos, já que ambas se interessavam profundamente pela escrita. No final de setembro de
1933, tinham conseguido escrever uma coluna sobre livros num jornal de língua inglesa,
chamado Berlin Topics. A 25 de setembro de 1933, numa carta a Thornton Wilder, Martha
descrevia o jornal como «péssimo», mas dizia que esperava que pudesse servir de catalisador
«para criar uma pequena colónia entre os falantes de inglês daqui [...] Juntar pessoas que
gostam de livros e autores.»

Quando os Harnack viajavam, Mildred enviava postais a Martha, nos quais escrevia
comentários poéticos acerca da paisagem diante de

169

ERIK LARSON

si, bem como calorosas expressões afetuosas. Num cartão, Mildred escreveu: «Martha, sabes
que te adoro e que penso sempre em ti.» Agradecia-lhe por ler o que escrevia e pelas críticas
que lhe fazia; «Mostra o dom que tens», dizia.
E terminava com um suspiro de tinta:

«Ó minha Querida, minha Querida... vida (...)» — A elipse era da própria.

Para Martha, estes cartões eram como pétalas a cair de um sítio invisível. «Estimava aqueles
postais e pequenas cartas com a prosa delicada e de uma sensibilidade quase trémula que
continham. Nada tinham de calculado ou afetado. O sentimento emergia simplesmente do seu
coração cheio e feliz, que precisava de se expressar.»

Mildred tornou-se uma convidada constante das festas da embaixada e, em novembro,


ganhava um extra por datilografar o manuscrito do primeiro volume do Old South de Dodd.
Martha, pelo seu lado tornou-se presença regular do novo salão literário estabelecido por
Mildred e Arvid, o equivalente berlinense do Friday Niters. Organizadores como sempre, iam
acumulando uma sociedade de amigos leais — escritores, editores, artistas, intelectuais — que
se reuniam no apartamento deles várias vezes por mês, para ceias durante a semana e chás
em tardes de sábado. Ali, referiu Martha numa carta a Wilder, conheceu o escritor Ernst von
Salomon, famoso por ter desempenhado um papel no assassínio, em 1922, do ministro dos
Negócios Estrangeiros da república de Weimar, Walter Rathenau. Ela adorava o ambiente
acolhedor que Mildred proporcionava, apesar de ter pouco dinheiro para despender. Havia
candeeiros, velas e flores, bem como uma bandeja com fatias finas de pão, Leberwurst e
rodelas de tomate. Não se tratava de um banquete, mas era o bastante. A sua anfitriã, contou
Martha a Wilder, era «do género de pessoa que tem o bom senso, ou a falta dele, de colocar
uma vela por trás de um ramo de candeias ou de rododendros.»

A conversa era animada, arguta e ousada. Por vezes, demasiado ousada, pelo menos na
opinião da mulher de Salomon, cuja perspetiva se moldava em parte pelo facto de ser judia.
Ficava estarrecida com a descontração com que os convidados diziam que Himmler e Hitler
eram «perfeitos idiotas» na sua presença, sem saberem quem ela

170

NO JARDIM DOS MONSTROS

era ou, com que campo se identificava. Viu um convidado passar um envelope amarelo a outro
e depois piscar o olho como um tio que, às escondidas, dava um doce proibido a um sobrinho.
«E eu fico ali no sofá» disse ela, «e mal consigo respirar».

Martha achava tudo emocionante e gratificante, apesar das inclinações antinazis do grupo. Ela
defendia com devoção a revolução nazi como sendo a melhor maneira de sair do caos em que
a Alemanha mergulhara desde a guerra anterior. A sua participação no salão literário
reforçava-lhe a noção de si mesma como escritora e intelectual. Para além de participar na
Stammtisch dos correspondentes estrangeiros no restaurante Die Taverne, começou a passar
muito tempo nos grandiosos cafés antigos de Berlim, os que ainda não tinham sido
«coordenados» por completo, como o Josty, na Potsdamer Platz, e o Romanisches, na
Kurfúrstendamm. Este último, com mil lugares sentados tinha um passado de refúgio para
personalidades como Erich Maria Remarque, Joseph Roth e Billy Wilder, embora, por aquela
altura já todos tivessem saído de Berlim. Jantava fora com frequência e ia a clubes noturnos
como o Ciro's e o do terraço do Éden. Os documentos do embaixador Dodd são omissos
quanto a esta questão mas, dada a sua frugalidade, deverá ter considerado que Martha era,
inesperada e preocupantemente, uma presença onerosa no orçamento familiar.

Martha esperava conquistar um lugar só seu na paisagem cultural de Berlim, não apenas à
força da sua amizade com os Harnack, e queria que esse lugar fosse proeminente. Levou
Salomon a uma sóbria receção da embaixada, obviamente com a intenção de provocar um
frisson. Foi bem-sucedida. Numa carta que enviou a Wilder, exultava com a reação das pessoas
perante o aparecimento de Salomon: «o espanto (houve algumas exclamações silenciadas e
sussurros escondidos pelas mãos da reunião tão sofisticada) [...] Ernst von Salomon! Cúmplice
do assassínio de Rathenau [...]»

Ela ambicionava atenção e conseguiu-a. Salomon descreveu os convidados reunidos numa


festa da embaixada dos Estados Unidos - provavelmente a mesma — como a «jeunesse dorée
da capital, homens

jovens de modos perfeitos [...] com sorrisos atraentes ou a rir-se alegremente das
observações astutas de Martha Dodd».

171

ERIK LARSON

Ela foi ganhando audácia. Convenceu-se de que estava na altura de começar a organizar as
suas próprias festas.

Entretanto, Diels, ainda no estrangeiro e a viver bem num aparatoso hotel de Carlsbad,
começava a enviar batedores que avaliassem o clima de Berlim, para averiguar se já seria
seguro regressar; na verdade, se alguma vez o seria.

172
CAPITULO 18

O AVISO DE UM AMIGO

Martha ia ficando cada vez mais confiante quanto ao seu apelo social, tanto que organizou a
sua própria tertúlia vespertina, baseada nos chás e nos grupos de discussão noturna da amiga
Mildred Fish Harnack. Também celebrou o aniversário com uma festa. Ambos os eventos
decorreram de formas marcadamente diferentes do que ela esperara.

Ao selecionar os convidados para a sua tertúlia, serviu-se tanto da sua rede de contactos como
da de Mildred. Convidou várias dezenas de poetas, escritores e editores, com o propósito
ostensivo de conhecer um editor norte-americano de passagem por Berlim. Martha esperava
«ouvir conversas interessantes, alguma troca de opiniões estimulantes, pelo menos uma
conversação num registo mais elevado do que o habitual na sociedade diplomática». Contudo,
os convidados levaram um companheiro inesperado.

Em vez de formar uma companhia animada e vibrante em redor dela, a multidão dispersou-se
em pequenos grupos. Um poeta ficou na biblioteca, com vários convidados reunidos à sua
volta. Outros apinhavam-se em torno do convidado de honra, exibindo aquilo a que Martha
chamou «uma avidez patética por saber o que estava a acontecer na América». Os seus
convidados judeus pareciam especialmente pouco à-vontade. A conversa arrastava-se; o
consumo de comida e álcool aumentava. «O resto dos convidados ficou por ali a beber muito e
a devorar travessas de comida», escreveu Martha. «Provavelmente, muitos deles eram pobres
e andavam mesmo mal alimentados, enquanto outros estavam nervosos e ansiavam por
disfarçá-lo.»

173

ERIK LARSON

Conforme Martha resumiu, «foi uma tarde enfadonha e


em simultâneo, tensa». O companheiro não convidado era o medo, que se disseminou pela
reunião. Escreveu: «juntou-se tanta frustração e miséria [...] tanta tensão, tantos espíritos
quebrados, tanta coragem condenada ou cobardice trágica e odiada, que jurei nunca mais
reunir

grupo assim na minha casa.»

Em vez disso, resignou-se a ajudar o casal Harnack nos seus chás e soirées regulares. De facto,
eles tinham o dom de reunir amigos leais e cativantes, bem como de os manter unidos. Na
altura, a ideia de que um dia isso seria o fim deles teria parecido, a Martha, absolutamente

risível.

A lista de convidados para a sua festa de aniversário, marcada para 8 de outubro, que era a sua
verdadeira data de nascimento, incluía uma princesa, um príncipe, vários dos seus amigos
correspondentes bem como bastantes agentes das SA e das SS, «jovens, a baterem
calcanhares em sentido, de uma cortesia quase absurda». Não é claro se Boris Winogradov
terá estado presente, embora, por esses dias, Martha já o visse «com regularidade». É possível
e até provável que ela não o tenha convidado, pois os Estados Unidos ainda não tinham
reconhecido a União Soviética.

Dois proeminentes funcionários nazis foram à festa. Um deles era Putzi Hanfstaengl; o outro,
Hans Thomsen, um jovem que servia de intermediário entre o ministério dos Negócios
Estrangeiros e a chancelaria de Hitler. Nunca demonstrara o arrebatamento excessivo tão
evidente noutros fanáticos nazis e, por conseguinte, era estimado por membros do corpo
diplomático e visita habitual da casa dos Dodd. O pai de Martha falava frequentemente com
ele em termos mais francos do que o protocolo diplomático permitia, confiante de que
Thomsen transmitiria as suas opiniões a superiores hierárquicos, talvez até ao próprio Hitler.
Por vezes, Martha tinha a impressão de que Thomsen teria algumas reservas em relação ao
chanceler. Ela e o pai chamavam-lhe «Tommy».

Hanfstaengl chegou tarde, como de costume. Ansiava por atenção e, com a sua enorme
estatura e energia, obtinha-a sempre, por mais apinhada que uma sala se encontrasse.
Embrenhara-se numa conversa

174

NO JARDIM DOS MONSTROS


com outro convidado, melómano, acerca dos méritos da Sinfonia Inacabada de Schubert,
quando Martha avançou até ao Victrola da família, onde pôs a tocar uma gravação da canção
nazi de Horst Wessell, o hino que ouvira em Nuremberga, aquando do desfile de Tropas de
Assalto.

Se Hanfstaengl pareceu ficar agradado, tornou-se óbvio que Hans Thomsen não. Levantou-se
de supetão, marchou até ao gira-discos e desligou-o.

Numa grande inocência, Martha perguntou-lhe porque não gostava da música. Thomsen fitou-
a com um ar furioso, de rosto endurecido.

«Não se trata do género de música que se ouça frivolamente em reuniões mistas» criticou ele.
«Não permitirei que ponha a tocar o nosso hino com todo o significado que tem, numa festa
social.»

Martha ficou estupefacta. Era a sua casa, a sua festa e, sobretudo, território norte-americano.
Ela poderia fazer o que bem entendesse.

Hanfstaengl olhou para Thomsen com o que Martha descreveu como «uma expressão vívida
de divertimento, com laivos de desprezo». Encolheu os ombros, sentou-se ao piano e começou
a tocar com o seu habitual élan estrondoso.

Mais tarde, chamou-a à parte.

«Sim» disse-lhe ele, «há entre nós algumas pessoas assim. Pessoas com pontos fracos e sem
sentido de humor... É preciso ter o cuidado de não lhes ofender as almas sensíveis.»

Em Martha, contudo, o comportamento de Thomsen surtiu um efeito permanente com um


poder surpreendente, pois erodiu — ainda que ligeiramente — o seu entusiasmo pela nova
Alemanha, tal como uma única expressão feia pode empurrar um casamento para o declínio.

«Tendo passado toda a vida habituada à livre troca de opiniões», escreveu ela, «o ambiente
desta tarde chocou-me e pareceu-me uma espécie de violação da decência das relações
humanas.»

Também Dodd adquirira muito depressa uma compreensão das sensibilidades delicadas da
era. Nenhum evento providenciou uma

175

ERIK LARSON
melhor avaliação do que um discurso que proferiu diante da filial de Berlim da Câmara Norte-
Americana de Comércio, no Dia de Colombo, 12 de outubro de 1933. As suas palavras
causaram furor não apenas na Alemanha, mas também, segundo Dodd ficou a saber,
consternado, no seio do próprio Departamento de Estado e entre muitos norte-americanos
que preferiam que a nação continuasse a não se imiscuir em questões europeias.

Dodd acreditava que uma parte importante da sua missão era exercer uma pressão discreta no
sentido da moderação ou, como escreveu numa carta ao advogado de Chicago Leo Wormser,
«continuar a persuadir e a rogar aos homens daqui que não sejam, eles mesmo os seus piores
inimigos». O convite para discursar parecia-lhe constituir uma oportunidade ideal.

Planeava servir-se da História para transmitir a sua crítica ao regime nazi, ainda que de uma
forma oblíqua, para que apenas os membros da audiência com uma boa noção de História
antiga e moderna pudessem compreender a mensagem implícita. Nos Estados Unidos um
discurso desta natureza não teria sido interpretado sequer como heróico; sob a crescente
opressão do punho nazi, era de uma audácia impressionante. Dodd explicou a sua motivação
numa carta a Jane Addams. «Foi por ter visto tantas injustiças e pequenos grupos dominantes,
para além de ter ouvido as queixas de tantas das melhores pessoas do país, que me aventurei
tanto quanto a minha posição me admitia e, através de uma analogia histórica, alertei os
presentes, com toda a solenidade possível, contra os malefícios de se permitir que líderes mal
instruídos encaminhassem nações para a guerra.»

Deu à palestra o título inócuo de «Nacionalismo Económico». Ao citar a ascensão e queda de


César, tal como episódios históricos franceses, ingleses e norte-americanos, Dodd tencionava
alertar quanto aos perigos dos governos «arbitrários e minoritários», sem mencionar vez
alguma a Alemanha contemporânea. Não era o género de coisa que um diplomata tradicional
pudesse levar a cabo, mas Dodd encarava-a como o simples desempenho do mandado original
de Roosevelt Mais tarde, ao justificar-se, escreveu: «O Presidente disse-me especificamente
que queria que eu fosse um representante constante e porta-voz (ocasional) dos ideais e da
Filosofia americanos.»

176
NO JARDIM DOS MONSTROS

Falou num salão de banquetes do hotel Adlon perante uma grande audiência que incluía vários
altos funcionários do governo, entre os quais o presidente do Reichsbank, Hjalmar Schacht, e
dois homens do ministério da Propaganda de Goebbels. Dodd sabia estar prestes a pisar
terreno muito sensível. Também compreendia, dada a presença de muitos correspondentes
estrangeiros no salão, que o seu discurso receberia uma vasta cobertura mediática na
Alemanha, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Ao começar a ler, pressentiu a excitação contida que se apoderava do espaço. «Em épocas de
grande tensão», começou ele, «os homens tendem bastante a abandonar demasiado os
antigos processos sociais e a aventurar-se demasiado por rotas sem mapa. E a consequência -
tem sido sempre reacionária, por vezes desastrosa.» Lançou-se no passado distante para dar
início à sua viagem alusiva com os exemplos de Tibério Graco, um líder populista, e de Júlio
César. «Estadistas modernos mal instruídos afastam-se violentamente do objetivo ideal do
primeiro Graco e julgam poder encontrar salvação para os seus compatriotas atormentados
nos modos arbitrários do homem que se revelou uma vítima fácil das artimanhas da astuta
Cleópatra.» Esquecem-se, disse ele, que «os Césares foram bem-sucedidos apenas durante um
curto momento, como o teste da História demonstra.»

Descreveu momentos semelhantes na História inglesa e francesa, oferecendo o exemplo de


Jean-Baptiste Colbert, o poderoso ministro das Finanças de Luís XIV. Numa alusão aparente à
relação entre Hitler e Hindenburg, disse à audiência que Colbert «recebeu poderes despóticos.
Desproviu centenas de grandes famílias recentemente enriquecidas, confiscou-lhes as
propriedades, que retornaram à Coroa, condenou milhares à morte por lhe resistirem [...] A
aristocracia latifundiária recalcitrante acabou por ser dominada, os parlamentos não tinham
permissão para se reunir.» O governo autocrático persistiu em França até 1789, quando, com o
início da Revolução Francesa, ruiu, «com estrondo e violência». «Os governos de topo falham
tão frequentemente quanto os de base; e cada grande fracasso acarreta uma triste reação
social, com milhares e milhões de homens desamparados a perder as vidas nesse processo
infeliz. Porque não haverão os estadistas de estudar o passado e evitar tais catástrofes?»

177
ERIK LARSON

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Depois de mais algumas alusões, chegou ao fim. «Em conclusa disse, «é possível afirmar-se
com segurança que não seria pecado i gum se os estadistas aprendessem História suficiente
para se aper berem de que nenhum sistema que implique o controlo da sociedad por aqueles
que buscam privilégios alguma vez terminou de outra fn ma que não na ruína.» Não aprender
com tais «erros do passado» av-sou, era acabar num caminho em direção a «outra guerra e
caos».

Os aplausos, escreveu Dodd no seu diário, «foram extraordin' rios». Ao descrever aquele
momento a Roosevelt, o embaixador re&k tou que até Schacht «aplaudiu com extravagância»,
tal como «todos o outros alemães presentes. Nunca me deparara com uma aprovação mais
unânime.» Escreveu ao secretário Hull: «Quando terminei o discurso, praticamente todos os
alemães presentes mostravam e expressavam uma espécie de aprovação que relevava a
seguinte ideia: "Disse aquilo que a todos nós foi negado o direito de dizer."» Um funcionário
do Deutsche Bank quis manifestar a sua própria concordância afirmando: «A silenciosa mas
ansiosa Alemanha, sobretudo a Alemanha comercial e universitária, apoia-o por completo e
agradece-lhe profundamente por estar cá e poder dizer o que nós não podemos.»

Que estes ouvintes compreendiam a verdadeira intenção do discurso de Dodd era óbvio.
Depois, Bella Fromm, a cronista social do Vossische Zeitun& que depressa se tornara amiga da
família Dodd, dis-se-lhe:

— Apreciei todas aquelas tiradas dissimuladas contra Hitler e o hiderismo.

Dodd respondeu com um sorriso:

— Não tinha ilusões quanto a Hitler quando fui nomeado para o meu cargo em Berlim. Mas
pelo menos esperava encontrar algumas pessoas decentes à volta dele. Estou horrorizado por
ter descoberto que todo o grupo não passa de uma horda de criminosos e cobardes.

Mais tarde, Fromm censuraria o embaixador francês da Alemanha, André François-Poncet, por
ter perdido o discurso. A sua resposta resumia um dilema da diplomacia tradicional:

«A situação é muito difícil», disse ele, a sorrir. «Quando se é diplomata, torna-se necessário
ocultar o que se sente. É preciso agradar aos superiores hierárquicos e, ainda assim, não se ser
expulso daqui, mas

178
NO JARDIM DOS MONSTROS

h'm fico agradado por Sua Excelência, o Sr. Dodd, não poder ser tido por panegíricos e altas
honrarias.»

Dodd sentia-se reconfortado pela reação da audiência. Disse sevelt: «A interpretação que faço
disto é que toda a Alemanha 1 está do nosso lado — e mais de metade da Alemanha é, no seu

íntimo, Uberal.»

A reação fora desse círculo foi indubitavelmente menos positiva,

mo Dodd depressa percebeu. Goebbels proibiu a publicação do ,. rso ainda que três grandes
jornais tenham, não obstante, publi-

i excertos. No dia seguinte, uma sexta-feira, Dodd chegou ao ga-hnete do ministro dos
Negócios Estrangeiros, para uma reunião pre-riarnente marcada, sendo então informado de
que Neurath não oderia recebê-lo — o que era uma óbvia falha protocolar. Num telegrama
que enviou nessa tarde para Washington, o embaixador dizia ao secretário Hull que a ação de
Neurath parecia «constituir uma séria afronta ao nosso Governo». Por fim, conseguiu vê-lo às
oito horas dessa noite. Neurath alegou ter estado demasiado ocupado para o ver durante o
dia, mas Dodd sabia que o ministro tivera tempo suficiente para almoçar com um diplomata de
menor importância. No seu diário, o embaixador escreveu que suspeitava que o próprio Hitler
poderia ter decretado o adiamento, «como forma de admoestação pelo meu discurso de
ontem».

0 que o surpreendeu mais foi pressentir uma vaga de críticas dos Estados Unidos, pelo que
tomou medidas para se defender. Apres-sou-se a enviar a Roosevelt uma cópia textual,
dizendo ao presidente que o fazia por recear «que algumas interpretações embaraçosas
tivessem chegado à nossa terra». No mesmo dia, enviou outra cópia ao subsecretário Phillips,
«esperando que o senhor, a par de todos os precedentes, possa explicar ao secretário Hull —
i.e., caso ele ou qualquer outra pessoa do Departamento pareça pensar que causei algum
dano à nossa casa aqui».

oe esperava que Phillips agisse em sua defesa, estava enganado.

1 hillips e outros altos funcionários do Departamento de Estado, incluindo o responsável pela


Europa Ocidental, Moffat, estavam cada Vez mals descontentes com o embaixador. Estes
membros do «Clube

ern-Bom» de Hugh Wilson viram o discurso de Dodd como mais

179
ERIK LARSON

uma prova de que este era o homem errado para aquela posição to seu diário, Moffat
comparava o desempenho de Dodd com o «de mestre-escola a dar uma palestra aos seus
pupilos». Phillips, mestr arte do sussurro palaciano, encantava-se com o desconforto de Do^
Ignorou várias cartas dele, nas quais o embaixador procurava con lho oficial quanto a dever ou
não aceitar convites vindouros para H' cursar. Por fim, lá respondeu, desculpando-se e
justificando-se: «du ¦ dava de que quaisquer palavras minhas pudessem servir de auxílio
orientação para o senhor, que vive num mundo tão díspar daquele e que a maioria dos
embaixadores se encontra.»

Ainda que congratulasse Dodd pela «elevada arte» que demonstra ra ao criar um discurso que
lhe permitira dizer o que pensava evitan do fazer ofensas diretas, Phillips também lhe oferecia
uma censura discreta. «Em resumo, sinto que um Embaixador, que é um convidado
privilegiado do país no qual é acreditado, deveria ter o cuidado de não expressar em público
algo que se assemelhe a uma crítica à nação que o acolhe, pois, ao fazê-lo, perde, ipso facto, a
confiança dos agentes públicos de cuja boa vontade depende, em muito, o sucesso da sua
missão.»

Dodd parecia ainda não se ter apercebido, mas vários membros do «Clube Bem-Bom» tinham
começado a avançar na campanha contra ele, com o objetivo derradeiro de o expulsar das
suas fileiras. Em outubro, o seu amigo de longa data, o coronel House, enviou-lhe um aviso
circunspecto e enviesado. Primeiro, as boas notícias. House acabava de se encontrar com
Roosevelt. «Foi encantador ouvir o Presidente dizer que estava por demais satisfeito com o
trabalho que estás a levar a cabo em Berlim.»

Todavia, em seguida House visitara o Departamento de Estado. «Em privado, não falam de ti
com o mesmo entusiasmo do Presidente», escreveu. «Insisti que me dessem um exemplo
concreto e tudo o que consegui arrancar-lhes foi que não os mantinhas bem informados. Digo-
te isto para tua futura orientação.»

No sábado, 14 DE outubro, dois dias após o seu discurso noL"a de Colombo, Dodd encontrava-
se num jantar que organizara p*

180
w- w

NO JARDIM DOS MONSTROS

militares e navais quando recebeu uma notícia perturbadora.

* acabava de anunciar a sua decisão de retirar a Alemanha da So-

i jjg Nações e de uma importante conferência relativa ao de-

C mento que, desde fevereiro de 1932, ia decorrendo, com inter-

opções, em Genebra.

Dodd encontrou uma telefonia e logo ouviu a vo2 rouca do chan-aoesar de ficar
impressionado com a ausência dos maneirismos . únicos habituais de Hitler. Ouviu
intensamente, enquanto o dita-rlescrevia a Alemanha como uma nação bem-intencionada e
pro-a c]a pgz^ cujo modesto desejo de igualdade de armamento se A arava com a oposição
de outras nações. «Não se tratou do discurse um pensador», anotou Dodd no diário, «mas sim
de uma pessoa motiva a alegar que de forma alguma a Alemanha fora responsável ela Grande
Guerra e que era vítima de inimigos malvados.»

Era um desenvolvimento assombroso. Num único golpe, aperce-beu-se Dodd, Hitler


emasculara a Sociedade e praticamente anulara o Tratado de Versalhes, declarando, sem
dúvidas, a sua intenção de tornar a armar a Alemanha. Anunciou, para mais, que dissolvia o
Rei-chstag e que haveria eleições a 12 de novembro. O escrutínio também convidaria o público
a julgar a sua política externa através de um plebiscito cujas respostas possíveis seriam «sim»
ou «não». Em segredo, Hitler também deu ordens ao general Werner von Blomberg, seu
ministro da Defesa, para que se preparasse para uma possível ação militar de membros da
Sociedade que procurassem impor o Tratado de Versalhes — apesar de Blomberg saber muito
bem que o pequeno exército germânico não poderia acalentar esperanças de resistir a uma
ação combinada da França, da Polónia e da Checoslováquia. «Que os aliados, nesta altura,
facilmente poderiam ter derrotado a Alemanha c tão certo como o facto de tal ação ter
causado o fim do Terceiro Keich no mesmo ano em que nascera», escreveu William Shirer na
sua obra clássica, The Base and Fali of the Third Reich [Ascensão e Queda do lerceiro Reich],
mas Hitler «entendia o temperamento dos seus adversários estrangeiros da mesma forma
eficiente e misteriosa com que medira o dos seus oponentes internos».

pesar de Dodd continuar a cultivar a esperança de que o gover-emao se tornasse mais civil,
reconhecia que as duas decisões de

181
ERIK LARSON

Hitler assinalavam um afastamento agoirento da moderação. Sn j, então que chegara a altura


de se encontrar frente a frente com Hitl Nessa noite, o embaixador deitou-se profundamente
pertur^h

POUCO ANTES DO MEIO-DIA DE TERÇA-FEIRA, 17 de Outubro d

1933, o «liberal convicto» de Roosevelt saiu, de cartola e casa de abas de grilo, para o seu
primeiro encontro com Adolf Hitler.

182
CAPÍTULO 19

ALCOVITEIRO

Putzi Hanfstaengl estava a par das várias relações amorosas de Martha mas, no outono de
1933, começou a imaginar um novo companheiro para a jovem.

Tendo chegado à conclusão de que Hitler seria um líder muito mais razoável se se apaixonasse,
Hanfstaengl autonomeou-se alcoviteiro. Sabia que não seria fácil. Como uma das pessoas mais
próximas do ditador, reconhecia que o historial das relações de Hider era bizarro manchado
pela tragédia e pelo rumor persistente de comportamentos desagradáveis. Hider gostava de
mulheres, mas mais como ornamentos do que como fontes de intimidade e amor. Havia
rumores acerca de várias ligações, regra geral com mulheres muito mais novas do que ele —
num caso, uma adolescente de dezasseis anos, chamada Maria Reiter. Uma mulher, Eva Braun,
dnha menos vinte e três anos do que ele e era sua companheira intermitente desde 1929. Até
então, contudo, o único affair que o consumira por completo fora o que tivera com a jovem
sobrinha, Geli Raubal. Esta fora encontrada morta no apartamento de Hider, estando o
revólver dele por perto. A explicação mais provável era que se tivesse suicidado, a forma que
arranjara de escapar ao afeto ciumento e asfixiador de Hider — a sua «possessi-vidade
opressiva», nas palavras do historiador Ian Kershaw. Hanfstaengl suspeitava de que Hider, em
tempos, se sentira atraído pela sua própria mulher, Helena, mas esta assegurava-lhe que não
havia motivo algum para ter ciúmes. <A.credita em mim», dizia-lhe ela, «é um eunuco
absoluto, não um homem.»

Hanfstaengl telefonou para casa de Martha.

183
ERIK LARSON

«Hider precisa de uma mulher», disse-lhe. «Hider deveria ter Urn mulher norte-americana...
uma mulher encantadora poderia alterar t do o destino da Europa.» Foi direto ao assunto:
«Martha, será eSs mulher!»

184

QUARTA PARTE

AS DORES DO ESQUELETO
CAPÍTULO 20

O BEIJO DO FÚHRER

Dodd subiu uma ampla escadaria até ao gabinete de Hitler, en-ntrando em cada esquina
homens das SS com os braços erguidos o estilo de César», nas palavras do embaixador.
Correspondendo ' saudação com um simples aceno de cabeça, por fim entrou na sala de
espera do ditador. Ao fim de alguns momentos, a porta negra e alta do gabinete de Hitler
abriu-se. O ministro dos Negócios Estrangeiros Neurath, saiu para lhe dar as boas-vindas e o
encaminhar até Hider. O gabinete era uma sala enorme, que Dodd calculou ter quinze metros
por quinze, com as paredes e o teto muitíssimo ornamentados. Hitler, «aprumado e muito
direito», envergava um fato vulgar. Dodd reparou que tinha melhor aspeto do que as
fotografias dos jornais retratavam.

Ainda assim, Hider não transmitia uma impressão particularmente incrível. Era raro fazê-lo.
Nos primórdios da sua ascensão, era comum que quem lhe era apresentado o tomasse por um
zé-ninguém. Provinha de uma ascendência plebeia e não conseguira distinguir-se de forma
alguma, nem na guerra, nem no trabalho, nem na arte, embora neste último domínio
acreditasse possuir grande talento. Dizia-se que era indolente. Levantava-se tarde, trabalhava
pouco e rodeava-se de mentes pouco brilhantes do partido, com quem se sentia mais à--
vontade, uma comitiva de almas medianas a quem Putzi Hanfstaengl, com desprezo, se referia
como a Chauffeureska, constituída por guarda--costas, adjuntos e um motorista. Adorava
filmes — King Kong era um seus preferidos — e a música de Richard Wagner. Vestia-se mal. ra
em do bigode e dos olhos, tinha umas feições indistintas e ba-' c°mo se tivessem sido feitas em
barro que nunca chegasse a ga-vioa. Ao recordar a primeira impressão que Hitler lhe causara,

187
ERIK LARSON

Hanfstaengl escreveu: «Hitler parecia um cabeleireiro suburbano no dia de folga.»

Não obstante, o homem tinha uma capacidade incrível de se transformar em algo bem mais
cativante, sobretudo quando falava em público ou durante reuniões privadas, se algum tópico
o enfurecesse. Tinha, de igual forma, a habilidade de projetar uma aura de sinceridade que
cegava os interlocutores quanto aos seus verdadeiros motivos e crenças, ainda que Dodd ainda
não tivesse noção total deste aspeto do seu carácter.

Em primeiro lugar, o embaixador abordou o tema dos muitos ataques a cidadãos norte-
americanos. Hitler respondeu com cordialidade, mostrando-se apologético e assegurando a
Dodd que os perpetra-dores de tais ataques seriam «castigados ao máximo». Prometeu-lhe
também tornar públicos os seus decretos anteriores que isentavam os estrangeiros da
saudação hitleriana. Ao fim de alguma conversa amena acerca das dívidas da Alemanha a
credores americanos, Dodd avançou para o tópico que lhe ocupava sobremaneira os
pensamentos, a «questão omnipresente da determinação intempestiva do sábado anterior» —
a decisão de Hitler de se retirar da Sociedade das Nações.

Quando Dodd lhe perguntou porque afastara a Alemanha da Liga, Hitler ficou visivelmente
zangado. Atacou o Tratado de Versalhes e a vontade francesa de manter uma superioridade de
armamento em relação à Alemanha. Discorreu acerca da «indignidade» de se manter a
Alemanha num estado de desigualdade, incapaz de se defender dos vizinhos.

A fúria súbita de Hitler sobressaltou Dodd. Tentou parecer impávido, já menos um diplomata
do que um professor a lidar com um estudante exaltado. Disse ao chanceler: «E evidente que
existe injustiça na atitude francesa; mas uma derrota numa guerra é sempre seguida por
injustiças.» Deu o exemplo do período imediatamente subsequente à Guerra da Secessão e da
forma «terrível» como o Norte tratara o Sul.

Hitler fitou-o. Depois de um breve período de silêncio, a conversa foi retomada e, por alguns
momentos, os dois homens dedicaram--se àquilo que Dodd descreveu como «uma troca de
amabilidades». Todavia, Dodd levantou a questão de «um incidente nas fronteiras

188
NO JARDIM DOS MONSTROS

polacas, austríacas ou francesas, que colocasse um inimigo no Reich» poder ser suficiente para
que Hitler desencadeasse uma guerra.

«Não, não», insistiu o ditador.

Dodd sondou mais. Sugeriu que se supusesse que tal incidente envolvia o Vale do Ruhr, uma
região industrial a respeito da qual os Alemães se mostravam particularmente sensíveis. A
França ocupara o Ruhr de 1923 a 1925, causando um grande alvoroço económico e político na
Alemanha. Se outra incursão do género tivesse lugar, perguntou Dodd, responderia a
Alemanha com meios militares próprios, ou convocaria uma reunião internacional para
resolver a questão?

«Seria esse o meu objetivo», respondeu Hitler, «mas talvez não conseguíssemos restringir o
povo germânico.»

«Se esperasse e convocasse uma conferência, a Alemanha recuperaria a sua popularidade no


exterior», disse o embaixador.

A reunião depressa chegou ao fim. Durara quarenta e cinco minutos. Ainda que a sessão
tivesse sido difícil e estranha, Dodd saiu da chancelaria sentindo-se convicto de que Hider
falava com sinceridade em relação a querer a paz. Preocupava-o, contudo, que pudesse, uma
vez mais, ter violado as leis da diplomacia. «Talvez tenha sido demasiado franco», escreveu
depois a Roosevelt, «mas precisava de ser honesto.»

Às seis da tarde desse dia, enviou um telegrama ao secretário Hull, resumindo a reunião, e
terminou dizendo: «O efeito geral do encontro foi mais favorável, do ponto de vista da
conservação da paz mundial, do que eu esperava.»

Dodd também transmitiu estas impressões ao cônsul-geral Mes-sersmith, que então enviou
uma carta ao subsecretário Phillips — com dezoito páginas, tipicamente longa —, na qual
parecia decidido a minar a credibilidade de Dodd. Questionava a avaliação positiva que o
embaixador fizera de Hitler. «As garantias do Chanceler foram tão satisfatórias e inesperadas
que julgo serem, no total, demasiado boas para serem verdadeiras», escreveu. «Creio bem que
precisamos de ter em mente que quando Hider diz algo, se convence, momentaneamente, de
que está a falar a verdade. Basicamente, é sincero; mas é, ao mesmo tempo, um fanático.»

Messersmith instava ao ceticismo quanto aos protesto de Hider. «Julgo que, por ora, ele deseja
genuinamente a paz, mas é uma paz

189
ERIK LARSON

à sua própria maneira e com uma força armada na reserva a tornar-se cada vez mais efetiva,
de forma a impor a vontade germânica quando tal se revelar essencial.» Reiterava a sua crença
de que o governo hitle-riano não poderia ser visto como uma entidade racional. «Há tantos
casos patológicos envolvidos que é impossível prever, de um dia para o outro, o que
acontecerá, à semelhança de um encarregado de um manicómio, que não consegue dizer o
que os internados farão dentro da próxima hora ou ao longo do dia seguinte.»

Urgia à cautela, avisando realmente Phillips para ter uma atitude cética quanto à convicção de
Dodd acerca de Hitler querer a paz. «Penso que por ora [...] temos de estar alertas quanto a
qualquer oti-mismo indevido que possa ser provocado pelas declarações aparentemente
satisfatórias do Chanceler.»

Na manhã do encontro que Putzi Hanfstaengl promovera entre Martha e Hitler, ela vestiu-se
com cuidado, percebendo que fora «escolhida para alterar a História da Europa». Parecia-lhe
uma aventura de todo o tamanho. Sentia-se curiosa por conhecer o homem que, em tempos,
catalogara como um palhaço, mas sobre o qual ficara convencida de que era «uma
personalidade glamorosa e brilhante que decerto teria grande poder e charme». Decidiu vestir
«o mais recatado e intrigante» que tinha, nada demasiado impressionante ou revelador, pois a
mulher ideal dos nazis usava pouca maquilhagem, cuidava do seu homem e tinha o maior
número possível de filhos. Os homens alemães, escreveu ela, «querem que as suas mulheres
sejam vistas e não ouvidas, e vistas apenas como apêndices do macho esplêndido que
acompanham». Ponderou usar um véu.

Hanfstaengl foi buscá-la no seu enorme carro e levou-a até ao Kaiserhof, a sete quarteirões
dali, na Wilhelmplatz, na esquina sudeste do Tiergarten. Um imenso hotel com um átrio
cavernoso e um pórtico de entrada em arco, era ali que Hitler se hospedava até à sua ascensão
a chanceler. Agora era frequente almoçar ou tomar chá no hotel, rodeado pela sua
Chauffeureska.

Hanfstaengl tomara providências para que ele e Martha fossem acompanhados por outro
comensal, um tenor polaco, Jan Kiepura, de

190
! NO JARDIM DOS MONSTROS

ii

; 31 anos. Hanfstaengl, conhecido e inconfundível, foi tratado com de-

| ferência pelo pessoal do restaurante. Depois de se sentarem, Martha

j e os dois homens foram conversando enquanto bebericavam chá

' e aguardavam. Pouco depois, criou-se uma certa comoção à entrada

I do salão de refeições, seguindo-se o inevitável arrastar de cadeiras en-

j quanto os presentes se levantavam e gritavam Hei/ Hitler.

' Hitler e a comitiva — incluindo, de facto, o seu motorista — ocu-

param uma mesa adjacente. Em primeiro lugar, Jan Kiepura foi levado até ao chanceler.
Conversaram sobre música. Hider parecia desconhecer o facto de que, segundo a lei nazi,
Kiepura era classificado como judeu, por linha materna. Alguns momentos depois, Hanfstaengl
aproximou-se e debruçou-se junto ao ouvido de Hitler. Regressou a Martha, com a notícia de
que o chanceler a veria então.

Ela caminhou até à mesa de Hitler e ali ficou enquanto ele se levantava para a cumprimentar.
Pegou-lhe na mão e beijou-a, dizendo algumas palavras em alemão. Desta feita, ela observou-
lhe o rosto de perto: «uma cara fraca e delicada, com papos debaixo dos olhos, uns lábios
cheios e muito pouca estrutura óssea facial». Daquela perspeti-va, escreveu ela, o bigode «não
parecia tão ridículo como nas fotografias — na verdade, mal reparei nisso». Aquilo em que
reparou foi nos olhos dele. Já ouvira dizer que havia algo de penetrante e intenso no olhar do
Ftihrer e, naquele instante, de imediato, compreendeu. «Os olhos de Hitler», escreveu, «eram
surpreendentes e inesquecíveis — pareciam ter uma tonalidade azul-clara, eram intensos,
firmes, hipnó-

i ticos.»

Contudo, tinha modos gentis — «excessivamente gentis», escreveu ela —, mais adequados a
um adolescente tímido do que a um ditador férreo. «Discreto, comunicativo, informal, tinha
um certo charme tranquilo, quase uma ternura no discurso e no olhar», escreveu.

Hitler virou-se, então, de novo para o tenor e, com o que parecia ser um interesse genuíno,
reatou a conversa sobre música.

Ele «parecia modesto, da classe média, bastante enfadonho e envergonhado», escreveu


Martha. «Era difícil acreditar que aquele homem fosse um dos mais poderosos da Europa.»
Martha e Hitler tornaram a partilhar um aperto de mãos e, pela segunda vez, ele beijou-lha.
Ela regressou à sua mesa e a Hanfstaengl.

191
ERIK LARSON

Deixaram-se ficar mais algum tempo, a beber chá e a escutar a conversa que continuava entre
Kiepura e Hider. De vez em quando, Hitler olhava na direção dela, com o que ela julgava serem
«olhares curiosos e embaraçados».

Nessa noite, enquanto jantavam, falou aos pais do seu encontro desse dia e afirmou que o
Fiihrer se mostrara muito encantador e sereno. Dodd ficou divertido e concedeu «que Hider,
ao vivo, não era um homem sem atrativos».

Brincou com a filha, dizendo-lhe para tomar nota do sítio exato em que os lábios de Hider
tinham tocado a sua mão, recomendando--lhe que, se «tivesse» de lavar aquela mão, que o
fizesse com cuidado e apenas à volta das margens do beijo.

Ela escreveu: «Fiquei um pouco zangada e irritada.»

Martha e Hitler não tornaram a encontrar-se, nem ela esperava seriamente que o fizessem,
embora se tornasse claro alguns anos mais tarde que, em pelo menos mais uma ocasião,
Martha regressaria à mente do ditador. Quanto a si, tudo o que queria era conhecer o homem
e satisfazer a sua própria curiosidade. Havia outros homens no seu círculo que ela considerava
infinitamente mais cativantes.

Um deles tinha voltado a entrar na sua vida, com um convite para um encontro muitíssimo
invulgar. No final de outubro, Rudolf Diels regressara a Berlim e ao seu velho posto de
comandante da Gestapo, paradoxalmente com ainda mais poder do que antes do exílio na
Checoslováquia. Himmler não se limitara a apresentar desculpas pelo rai-de feito ao lar de
Diels; prometera torná-lo Standartenfiihrer, ou coronel, das SS.

Diels enviou-lhe uma nota de agradecimento aduladora: «Ao pro-mover-me a


Obersturmbannfuhrer der SS, deu-me tanta alegria que não poderá ser expressada nestas
escassas palavras de agradecimento.»

A salvo, pelo menos por ora, Diels convidou Martha a assistir a uma sessão do julgamento do
fogo posto do Reichstag, que decorria no Supremo Tribunal de Leipzig desde há quase um mês,
mas que seria retomado em Berlim, no local do crime. Esperava-se que o julgamento fosse
curto e concluísse com as condenações e, idealmente, sentenças de morte para os cinco
arguidos, mas não estava a avançar de acordo com os desígnios de Hitler.

Agora havia uma «testemunha» especial arrolada. ,¦-:

192
CAPITULO 21

O PROBLEMA DE GEORGE

Dentro da Alemanha, fora colocado em movimento um grande volante que conduzia o país,
inexoravelmente, em direção a algum sítio sombrio e alheio à memória da velha Alemanha
que Dodd conhecera enquanto estudante. A medida que o outono avançava e que a cor ia
preenchendo o Tiergarten, ele apercebia-se cada vez mais quão certo fora o comentário que
fizera na primavera, ainda em Chicago, acerca de o seu temperamento não se adequar à «alta
diplomacia» e a representar o papel de mentiroso submisso. Queria surtir um efeito: despertar
a Alemanha para os perigos da via que seguia e encaminhar o governo de Hitler para um
trajeto mais compassivo e racional. Depressa compreendia, porém, que detinha pouco poder
para o fazer. Uma coisa que lhe parecia especialmente estranha era a fixação nazi com a pureza
racial. Começara a circular um esboço do novo código penal que propunha torná-la um
contraforte-chave da lei germânica. O vice-cônsul norte-americano em Leipzig, Henry Leverich,
considerava que o esboço era um documento extraordinário e escreveu uma análise: «Pela
primeira vez, portanto, na história legal da Alemanha, o código esboçado contém sugestões
definitivas para a prote-ção da Raça Alemã daquilo que é considerado a desintegração causada
por uma miscigenação com sangue judeu e de cor.» Se este código se tornasse lei — e ele não
tinha dúvida de que isso aconteceria —, então, doravante, «será considerado crime que um
homem ou uma mulher gentios se casem com um homem ou mulher judeus ou de cor.»
Também registava que o código tornava prioritária a proteção da família, pelo que ilegalizava o
aborto, com a exceção de que um tribunal poderia autorizar o procedimento quando a
descendência esperada fosse produto da mistura de sangue germânico com judeu ou de cor.

193
ERIK LARSON

O vice-cônsul Leverich escreveu: «A avaliar pelos comentários no jornais, esta porção do


esboço será quase de certeza transposta para a lei.»

Havia uma nova proposta de lei que chamava em particular a atenção de Dodd — uma lei
«para autorizar a morte de incuráveis», como a descreveu num memorando para o
Departamento de Estado, com a data de 26 de outubro de 1933. Doentes gravemente doentes
podiam pedir a eutanásia mas, se o estado em que se encontravam os impedisse de fazer tal
requisição, as famílias poderiam apresentá-la por eles. Esta proposta, «juntamente com a
legislatura já em vigor quanto à esterilização de pessoas afetadas por imbecilidade hereditária
e outros defeitos similares, vai ao encontro do objetivo que Hitler tem de elevar o padrão físico
do povo germânico», escreveu Dodd. «De acordo com a filosofia nazi, só os alemães
fisicamente capazes têm lugar no Terceiro Reich e é desses que se espera que tenham grandes
famílias.»

Os ataques a norte-americanos prosseguiam, pese embora os protestos de Dodd, e os


processos penais de casos anteriores pareciam lânguidos, na melhor das hipóteses. A 8 de
novembro, Dodd foi informado, pelo ministério alemão dos Negócios Estrangeiros, de que não
seria feita qualquer detenção na sequência da agressão ao filho de H. V. Kaltenborn, já que o
pai «não se recordava nem do nome nem do número de identificação do cartão do Partido do
culpado, e não se encontraram quaisquer outras pistas que pudessem ser úteis para a
investigação».

Talvez devido à sua crescente sensação de inutilidade, Dodd desviou o seu foco do reino das
questões internacionais para o estado das coisas no seio da própria embaixada. Sentia-se — no
seu íntimo frugal e jeffersoniano — cada vez mais tentado a concentrar-se nas lacunas do seu
pessoal e na extravagância da gestão da embaixada.

Intensificou a campanha contra os custos dos telegramas e o comprimento e redundância dos


despachos, que ele atribuía ao facto de ter tantos homens ricos no departamento. «Membros
abastados da embaixada querem ter cocktails à tarde, jogos de cartas à noite e levan-tar-se no
dia seguinte às dez da manhã», escreveu ao secretário Hull. «Isso tende a reduzir a eficácia do
estudo e do trabalho [...] e também

194
NO JARDIM DOS MONSTROS

leva a que os homens sejam indiferentes ao custo dos seus relatórios e telegramas.» Estes
deveriam ser reduzidos a metade, opinava ele. «Hábitos de longa data aqui instituídos
resistem aos meus esforços para encurtar telegramas, a ponto de haver homens a ter
"ataques" quando apago grandes porções. Terei de ser eu próprio a escrevê-los [...]»

O que Dodd ainda não fora capaz de compreender por completo era que, ao queixar-se da
opulência, das vestimentas e dos hábitos de trabalho dos funcionários da embaixada, estava
na verdade a atacar o subsecretário Phillips, o responsável pela Europa Ocidental, Moffat, os
próprios homens que sustentavam e apoiavam a cultura dos Negócios Estrangeiros — o Clube
Bem-Bom — que Dodd considerava tão perturbadora. Eles encaravam as suas queixas acerca
dos custos como ofensivas, tediosas e confusas, sobretudo dada a natureza do cargo que
ocupava. Não haveria assuntos de maior importância que lhe requisitassem a atenção?

Phillips, em particular, ressentiu-se e encomendou um estudo à divisão de comunicações do


Departamento de Estado, comparando o volume de telegramas de Berlim com os de outras
embaixadas. O diretor dessa divisão, um tal D. A. Salmon, chegou à conclusão de que Berlim
enviara menos três telegramas do que a Cidade do México e apenas mais quatro do que a
minúscula delegação presente no Panamá. Salmon escreveu: «Tendo em conta a grave
situação existente na Alemanha, parece que o envio de telegramas da Embaixada Americana
em Berlim tem sido muito ligeiro desde que o Embaixador Dodd ocupou as suas funções.»

Phillips enviou o relatório a Dodd, com uma folha de rosto consistindo em apenas três frases,
nas quais, com um desdém aristocrático, citava a recente menção que o embaixador fizera à
«extravagância do fluxo telegráfico na Embaixada de Berlim». O subsecretário escreveu:
«Julgando que poderá interessar-lhe, aqui junto uma cópia.»

Dodd replicou: «Não penso que que a comparação que Sr. Salmon faz do trabalho do meu
amigo Sr. Daniels no México me afete de forma alguma. Eu e o Sr. Daniels somos amigos desde
os meus 18 anos; mas sei bem que ele não sabe condensar relatórios!»

195
ERIKLARSON

Dodd estava convicto de que um resultado dos excessos do passado — «outra curiosa
ressaca», segundo disse a Phillips — era que a sua embaixada tinha demasiado pessoal,
sobretudo demasiados judeus. «Temos seis ou oito membros da "raça eleita" que ocupam
posições muito úteis, mas conspícuas», escreveu ele. Vários eram os melhores trabalhadores
que tinha, mas receava que a presença deles no seu pessoal dificultasse a relação da
embaixada com o governo de Hider e assim obstasse ao funcionamento quotidiano da
embaixada. «Nem por um instante consideraria transferi-los. Contudo, são demasiados e uma
dessas pessoas» — referia-se a Júlia Swope Lewin, a re-cecionista da embaixada — «é tão
fervorosa e visível que me chegam ecos de círculos semioficiais.» Também citava o exemplo do
guarda--livros da embaixada que, embora «muito competente», fazia também «parte do "Povo
Eleito", o que o deixa numa posição de certa desvantagem perante os Bancos daqui».

A este respeito, por estranho que pareça, Dodd também tinha preocupações quanto a George
Messersmith. «Detém um cargo importante e ele é muito capaz», escreveu Dodd a Hull, «mas
funcionários disseram a um membro do nosso pessoal: "ele também é hebraico". Eu não sou
antagónico a qualquer raça, mas temos aqui um grande número de judeus, o que afeta o
serviço e me sobrecarrega.»

Parecia que, pelo menos naquela altura, Dodd não sabia que Messersmith, na verdade, não
era judeu. Deixara-se levar, aparentemente, por um rumor espalhado por Putzi Hanfstaengl,
depois de Messersmith o ter censurado em público durante uma festa da embaixada, por ele
ter feito avanços indesejados a uma convidada.

A suposição de Dodd teria ultrajado Messersmith, que já considerava suficientemente difícil


ter de ouvir a especulação de funcionários nazis acerca de ele ser ou não judeu. A 27 de
outubro, uma sexta-fei-ra, Messersmith organizou um almoço em sua casa, na qual apresentou
Dodd a vários nazis particularmente raivosos, para o ajudar a compreender o verdadeiro
carácter do partido. Um nazi aparentemente sóbrio e inteligente declarou como um facto a
crença comum entre membros do partido de que o presidente Roosevelt e a sua esposa só
tinham conselheiros judeus. No dia seguinte, Messersmith escrevia

196
NO JARDIM DOS MONSTROS

ao subsecretário Phillips: «Parece que acreditam que, dado que temos judeus em posições
oficiais ou porque pessoas importantes no nosso país têm amigos judeus, toda a nossa política
é ditada somente pelos judeus e, em particular, o presidente e a Sra. Roosevelt praticam
propaganda antigermânica, influenciados por amigos e conselheiros judeus.» Messersmith
relatou que aquilo o levara a irritar-se. «Disse-lhes que não deveriam julgar que, por existir um
movimento antissemítico na Alemanha, as pessoas bem-pensantes e bem-intencionadas nos
Estados Unidos deixariam de se associar a judeus. Disse-lhes que a arrogância de alguns líderes
partidários daqui era o maior defeito que tinham e que a sensação de poderem impor as suas
opiniões ao resto do mundo era uma das suas maiores fraquezas.»

Citava esse género de pensamento como exemplo da «mentalidade extraordinária» que


prevalecia na Alemanha. «Será difícil acreditar que tais noções proliferam de facto entre
pessoas de valor do Governo alemão», disse a Phillips, «mas que isso é verdade tornou-se bem
claro para mim e aproveitei a oportunidade para, numa linguagem de forma alguma equívoca,
deixar claro quão errados estavam e como essa arrogância os prejudicava.»

Dado o desagrado que Phillips sentia pelos judeus, é tentador imaginar o que terá realmente
julgado das observações de Messersmith, mas quanto a isto o registo histórico guarda silêncio.

O que se sabe, contudo, é que, entre a população norte-americana que expressava tendências
antissemitas, um comentário comum descrevia a presidência de Franklin Roosevelt como a
«Administração Rosenberg».

A disposição de Dodd para acreditar que Messersmith seria judeu pouco tinha que ver com o
seu próprio antissemitismo rudimentar, parecendo antes ser um sintoma de apreensões mais
profundas que começara a nutrir em relação ao cônsul-geral. Cada vez mais, duvidava de que
Messersmith estivesse por completo do seu lado.

Nunca pôs em causa a sua competência, nem a coragem com que se manifestava quando
cidadãos e interesses norte-americanos eram lesados; também reconhecia que Messersmith
«tem muitas fontes de

197
ERIK LARSON

informação de que eu não disponho». Todavia, em duas cartas enviadas ao subsecretário


Phillips, compostas com dois dias de intervalo, Dodd lembrava que o cônsul-geral prolongara
demasiado o seu destacamento em Berlim. «Devo acrescentar que ele se encontra aqui há três
ou quatro anos, numa altura muito agitada e turbulenta», escreveu numa delas, «e julgo que
desenvolveu uma sensibilidade, e talvez até uma ambição, que tende a deixá-lo desinquieto e
descontente. Poderá ser um julgamento demasiado forte, mas creio que não.»

Fornecia poucas provas da sua avaliação. Isolava apenas uma falha com clareza, a tendência
que Messersmith tinha para escrever despachos muito longos sobre todas as coisas, fossem
graves ou mundanas. Dodd dizia a Phillips que o tamanho dos despachos de cônsul-geral
poderia ser reduzido a metade «sem o menor dano» e que o homem precisava de ser mais
judicioso na escolha dos temas. «Hitler não poderia deixar o seu chapéu numa aeronave sem
que houvesse um relato.»

Os relatórios, porém, representavam tão-só um alvo conveniente, uma substituição de fontes


de desagrado que lhe eram mais difícil isolar. Em meados de novembro, a insatisfação que
sentia em relação a Messersmith começou a tender para a desconfiança. Pressentia que ele
cobiçava o seu próprio lugar e encarava a incessante produção de relatórios do cônsul-geral
como uma manifestação de tais ambições. «Ocorre-me», disse Dodd a Phillips, «que ele sente
ser-lhe devida uma promoção e também eu julgo que os seus serviços a exigem; mas não
tenho dúvidas de que o período mais útil do seu trabalho aqui já foi ultrapassado. O senhor
sabe, tal como eu, que certas circunstâncias, condições e, por vezes, desapontamentos,
tornam sensato que se transfira até o mais capaz dos funcionários governamentais.» Instava
Phillips a debater a questão com o diretor dos serviços consulares, Wilbur Carr, «e a verificar
se tal coisa não poderá ser realizada».

Terminava: «Escusado será dizer que espero que tudo isto seja mantido na maior das
confidencialidades.»

O facto de Dodd imaginar que Phillips manteria sigilo insinua que não estava ciente de que
Phillips e Messersmith se correspondiam regular e frequentemente para lá da corrente de
relatórios oficiais. Quando Phillips lhe respondeu, no final de novembro, acrescia a sua

198
NO JARDIM DOS MONSTROS

habitual pincelada de ironia, num tom tão ligeiro e cordial que sugeria estar somente a agradar
a Dodd, reagindo às suas cartas que, em simultâneo, desprezava. «As cartas e despachos do
seu Cônsul-Geral são muito interessantes, mas deveriam ser reduzidas a metade — como o
senhor diz. Força! Conto consigo para disseminar esta reforma imprescindível.»

No domingo, 29 de outubro, por volta do meio-dia, Dodd estava a caminhar pela


Tiergartenstrasse, a caminho do hotel Esplanade. Divisou uma grande procissão de Tropas de
Assalto nas suas típicas camisas castanhas, a marchar na sua direção. Peões paravam e
bradavam a saudação hitieriana. .

Dodd virou-se e entrou no parque.

199
CAPITULO 22

A TESTEMUNHA USAVA BOTAS DA TROPA

O tempo ia arrefecendo e, a cada dia que passava, o crepúsculo do norte parecia avançar de
forma notória. Fazia vento, chuva e nevoeiro. Naquele mês de novembro, a estação
meteorológica do aeroporto de Tempelhof registaria períodos de nevoeiro em catorze dias. A
biblioteca do número 27a da Tiergartenstrasse tornou-se irresistivelmente acolhedora, com os
livros e as paredes forradas a damasco alouradas pelas chamas da grande lareira. A 4 de
novembro, um sábado no final de uma semana especialmente terrível, com chuva e vento,
Martha saiu para ir ao edifício do Reichstag, onde fora erigida uma sala de audiências
improvisada para a sessão de Berlim do grande julgamento do caso de fogo posto. Levava um
bilhete que Rudolf Diels lhe fornecera.

Polícias de carabinas e espadas cercavam o edifício — «enxames» de agentes, de acordo com


um observador. Qualquer um que tentasse entrar era parado e revistado. Oitenta e dois
correspondentes estrangeiros apinhavam-se na galeria de imprensa, ao fundo da câmara. O
coletivo de cinco juízes, presidido pelo juiz Wilhelm Búnger, envergava togas escarlates. Por
toda a assistência havia homens vestidos com o negro das SS e o castanho das SA, funcionários
governamentais e diplomatas. Martha ficou espantada ao descobrir que o seu bilhete a
colocava não apenas no piso principal, mas à frente da sala, entre vários dignitários. «Entrei,
com o coração na garganta, pois o meu lugar ficava muito perto da frente», recordou.

O início da sessão daquele dia estava marcado para as 9hl5; contudo, Hermann Gòring, a
testemunha principal, estava atrasado. Possivelmente, pela primeira vez desde que os
depoimentos tinham começado, havia um verdadeiro suspense na sala. O julgamento deveria

200
NO JARDIM DOS MONSTROS

ter sido breve e providenciado aos nazis um palco mundial a partir do qual condenariam os
males do comunismo e, ao mesmo tempo, desafiariam a crença alastrada de que tinham sido
eles mesmos quem provocara o incêndio. Em vez disso, e apesar de ser evidente que o juiz
presidente favorecia a acusação, decorria como um verdadeiro julgamento, com ambos os
lados a apresentarem enormes quantidades de provas. O Estado esperava provar que os cinco
arguidos tinham desempenhado um papel no fogo posto, apesar de Marinus van der Lubbe
insistir que era o único responsável. Os procuradores chamaram inúmeros peritos a depor,
numa tentativa de demonstrar que os danos causados no edifício eram demasiado extensos,
com demasiados pequenos fogos em demasiados sítios distintos, para que aquilo tivesse sido
obra de um único incendiário. Em consequência, de acordo com Fritz Tobias, autor do relato
seminal sobre o incêndio e o rescaldo, o que deveria ter sido um julgamento emocionante e
revelador transformou-se num «abismo cavernoso de tédio».

Até então.

Gòring chegaria a qualquer momento. Reconhecidamente volátil e franco, dado a vestir-se com
extravagância e sempre em busca de atenção, esperava-se que Gòring proporcionasse alguma
centelha àquele julgamento. O som do roçagar de flanela e mohair perpassava a sala à medida
que as pessoas se voltavam para olhar para a entrada.

Ao fim de meia hora, Gòring ainda não tinha aparecido. Diels também não estava lá.

Para passar o tempo, Martha foi observando os arguidos. Ali estava Ernst Torgler, um
candidato do partido comunista ao Reichstag antes da ascensão de Hitler, com um ar pálido e
cansado. Três eram comunistas búlgaros — Georgi Dimitrov, Simon Popov e Vassili Tanev —
que «pareciam tesos, duros, indiferentes». O arguido principal, Van der Lubbe, apresentava
«uma das imagens mais horríveis que alguma vez vi sob a forma humana. Grande, volumoso,
com um rosto e um corpo sub-humanos, era tão repulsivo e degenerado que eu mal conseguia
olhar para ele.»

Passou-se uma hora. A tensão na sala aumentava, à medida que a impaciência e a expectativa
se mesclavam.

201
ERIK LARSON

Um clamor surgiu nas traseiras da sala — botas e ordens, enquanto Gòring e Diels entravam,
no meio de uma formação de homens fardados. Gòring, de quarenta anos, cento e quinze
quilos ou mais, caminhou com uma postura confiante até à frente da sala, envergando um
blusão castanho de caça, calças de montar e umas botas lustrosas que lhe chegavam aos
joelhos. Nada disso poderia disfarçar o seu grande porte ou a semelhança que tinha com «o
traseiro de um elefante», nas palavras usadas por um diplomata dos Estados Unidos para o
descrever. Diels, num elegante fato escuro, parecia uma sombra mais esguia.

«Todos se levantaram de súbito, como se uma corrente elétrica os atravessasse», comentou


um repórter suíço, «e todos os alemães, incluindo os juízes, ergueram os braços na saudação
hitleriana.»

Diels e Gòring sentaram-se lado a lado à frente da sala, muito perto de Martha. Falavam em
voz baixa.

O juiz presidente convidou Gòring a falar. Este deu um passo em frente. Parecia pomposo e
arrogante, recordaria Martha, que, não obstante, também pressentia uma subcorrente de
embaraço.

Gòring lançou-se num arrazoado ensaiado que durou quase três horas. Numa voz dura e
rouca, que de quando em vez se elevava num grito, arengou contra o comunismo, os arguidos
e o ato de fogo posto que tinham perpetrado contra a Alemanha. Gritos de «Bravo!» e fortes
aplausos preenchiam a câmara.

«Com uma mão gesticulava com um louco», escreveu Hans Gise-vius, nas suas memórias sobre
a Gestapo; «com o lenço perfumado que tinha na outra, ia limpando a transpiração do
sobrolho.» Tentando dar uma ideia do momento, Gisevius descreveu os rostos dos três atores
mais importantes da sala — «o de Dimitrov, pleno de desprezo, o de Gòring, que a fúria
contorcia, o do juiz presidente Búnger, pálido de medo».

E lá estava Diels, elegante, sombrio, de expressão indecifrável. Diels ajudara a interrogar van
der Lubbe na noite do incêndio e concluíra que o suspeito era um «louco» que, de facto,
provocara o fogo por si só. Hider e Gòring, contudo, tinham decidido de imediato que o
partido comunista se encontrava por trás daquilo e que o incêndio fora o golpe inicial de uma
rebelião maior. Nessa primeira noite,

202
NO JARDIM DOS MONSTROS

Diels vira o rosto de Hitler ficar roxo de raiva enquanto o ditador gritava que todos os
membros e delegados comunistas deveriam ser abatidos. A ordem fora anulada, sendo
substituída por detenções em massa e atos improvisados de violência por parte das Tropas de
Assalto.

Naquele dia, Diels mantinha um cotovelo apoiado à bancada dos juízes. Ia mudando de
posição, como se pretendesse ver Gõring melhor. Martha ficou convencida de que ele planeara
o desempenho de Gõring, talvez tivesse até escrito o discurso dele. Recordou que Diels se
mostrara «sobremaneira ansioso por me ter presente neste dia, quase como se exibisse a sua
própria perícia.»

Diels tinha desaconselhado que se julgasse alguém para além de Van der Lubbe e previra a
absolvição dos outros arguidos. Gõring não quisera dar-lhe ouvidos, embora reconhecesse o
que estava em jogo. «Um fracasso», admitira, «poderia ter consequências intoleráveis.»

Chegou, então, a vez de Dimitrov depor. Valendo-se de sarcasmo e de uma lógica serena, era
óbvio que tencionava atear o famoso temperamento de Gõring. Aventou que a investigação
policial do incêndio e a avaliação inicial das provas em tribunal fora influenciada por diretivas
políticas de Gõring, «impedindo assim a detenção dos verdadeiros incendiários».

— Se a Polícia se deixou influenciar numa direção específica — disse Gõring —, então, de


qualquer forma, foi influenciada apenas na direção certa.

— Essa é a sua opinião — contrapôs Dimitrov. — A minha é bem distinta.

— Mas a minha é a que conta — retorquiu Gõring. Dimitrov salientou que o comunismo, a que
Gõring chamara

«mentalidade criminosa», controlava a União Soviética, que «tem contactos diplomáticos,


políticos e económicos com a Alemanha. As suas importações providenciam emprego a
centenas de milhares de trabalhadores alemães. Herr Minister terá noção disso?»

— Sim, tenho — respondeu ele. Mas tal debate, afirmou, não ia ao encontro da questão em
causa. — Aqui, estou apenas preocupado com o Partido Comunista da Alemanha e com os
sacanas comunistas estrangeiros que aqui vêm incendiar o Reichstag.

203
ERIK LARSON

Continuaram a debater-se, por entre alguns avisos que o juiz presidente lançava a Dimitrov,
para que este não «fizesse propaganda comunista».

Gõring, que não estava habituado a ser desafiado por qualquer um que considerasse seu
inferior, ia ficando cada vez mais zangado.

Calmamente, Dimitrov comentou:

— Receia muito as minhas perguntas, não receia, Herr Minisier? Em resposta, Gõring perdeu
as estribeiras e gritou:

— Tu é que vais ter medo quando eu te apanhar. Espera só que te encontre fora da alçada do
Tribunal, seu sacana!

O juiz expulsou Dimitrov da sala; os aplausos da audiência foram imediatos; contudo, foi a
ameaça final de Gõring que fez manchetes. O momento era duplamente revelador — em
primeiro lugar, porque traía o receio que Gõring tinha de que Dimitrov pudesse, de facto, ser
absolvido; em segundo, porque provia um vislumbre, como uma autópsia ao coração irracional
e letal do regime de Hitler e Gõring.

O dia também causou mais erosão na empatia que Martha sentia para com a revolução nazi.
Gõring mostrara-se arrogante e ameaçador, Dimitrov calmo e carismático. Martha ficou
impressionada. Dimitrov, escreveu ela, era «um homem brilhante, atraente e moreno que
emanava uma vitalidade e uma coragem incríveis que nunca tinha visto numa pessoa sob
tensão. Estava vivo, estava a arder.»

O julgamento regressou ao seu anterior estado desenxabido, mas o mal estava feito. O
repórter suíço, à semelhança de outros correspondentes estrangeiros presentes, reconheceu
que a explosão de Gõring transformara o processo: «Pois o mundo ficara a saber que,
independentemente da condenação ou absolvição do Tribunal, o destino do arguido já fora
selado.»

204
CAPITULO 23

BORIS TORNA A MORRER

Com a aproximação do inverno, Martha concentrou as suas energias amorosas principalmente


em Boris. Fizeram centenas de quilómetros no Ford descapotável dele, com incursões no
campo em redor de Berlim.

Num desses passeios, Martha divisou um artefacto da velha Alemanha, um templo à beira da
estrada dedicado a Jesus, e insistiu para que parassem e o vissem melhor. Lá dentro,
encontrou uma representação particularmente gráfica da Crucificação. O rosto de Jesus con-
torcia-se numa expressão de agonia, as suas feridas ostentavam ver-melho-vivo. Ao fim de
alguns instantes, voltou a olhar para Boris. Apesar de nunca lhe ocorrer descrever-se como
uma pessoa tremendamente religiosa, ficou chocada com o que viu.

Boris estava de braços estendidos, com os tornozelos cruzados e a cabeça a pender-lhe para o
peito.

— Boris, para com isso — insurgiu-se. — O que estás a fazer?

— Estou a morrer por ti, querida. Estou disposto a fazê-lo, sabes. Ela declarou que a paródia
não tinha graça e afastou-se.

Boris pediu desculpa.

— Não queria ofender-te — disse ele. — Mas não consigo compreender porque é que os
cristãos veneram a visão de um homem torturado.

Não era isso que estava em causa, explicou ela.

— Veneram o sacrifício dele pelas suas crenças.

— Ai sim? — replicou ele. — Acreditas nisso? Há assim tanta gente disposta a morrer pelas
suas crenças, seguindo-lhe o exemplo?

Ela referiu Dimitrov e a coragem com que este enfrentara Gõring no julgamento do Reichstag.

Boris fitou-a com um sorriso angelical. ' — Sim, liebes Fràukin, mas ele era comunista.

205
CAPITULO 24

CONQUISTAR VOTOS

A 12 de novembro — numa manhã de domingo fria, com chuviscos e nevoeiro, —, os Dodd


depararam-se com uma cidade que parecia sinistramente tranquila, tendo em conta que era
aquele o dia que Hitler designara para o referendo público sobre a sua decisão de abandonar a
Sociedade das Nações e procurar paridade de armamento. Por todo o lado, a família via
pessoas com pequenos crachás que indicavam não só que tinham votado, mas também que
tinham votado «sim». Por volta do meio-dia, parecia que praticamente toda a gente nas ruas
estava a usar aquela insígnia, o que sugeria que os eleitores se tinha levantado cedo para
despachar a questão e, assim, evitar o perigo quase certo que surgiria se fossem suspeitos de
não terem cumprido o seu dever cívico.

Até a data da eleição fora escolhida com cuidado. 12 de novembro era o dia seguinte ao
décimo quinto aniversário da assinatura do armistício que pusera fim à Grande Guerra. Hitler,
que percorrera a Alemanha a fazer campanha por votos positivos, declarou a uma audiência:
«Ali de novembro, o povo alemão perdeu formalmente a honra; quinze anos depois, surgiu um
12 de novembro, no qual o povo alemão recuperou a sua própria honra.» Também o
presidente Hindenburg moveu influências para incentivar ao voto positivo. «Mostrem amanhã
a vossa firme unidade nacional e a vossa solidariedade para com o governo», disse ele, num
discurso proferido a 11 de novembro. «Apoiem, comigo e com o Chanceler do Reich, o
princípio de paridade de direitos e de paz com honra.»

O boletim de voto tinha duas componentes principais. Uma pedia aos Alemães que elegessem
deputados para o recém-reconstituído Reichstag, mas apenas oferecia como possibilidades
candidatos nazis,

206
NO JARDIM DOS MONSTROS

pelo que garantia que o corpo daí resultante seria uma secção de apoio às decisões de Hitler. A
outra, a questão relativa à política externa, fora composta de forma a obter o máximo de
adesões. Todos os Alemães poderiam encontrar uma razão que justificasse a escolha do «sim»
— querer a paz, sentir que o Tratado de Versalhes lesara a Alemanha, crer que a Alemanha
deveria ser tratada como um igual pelas outras nações, ou simplesmente desejar expressar o
seu apoio a Hitler e ao governo.

Hitler pretendia um aval estrondoso. Por toda a Alemanha, o aparelho do partido nazi tomou
medidas extraordinárias para que as pessoas votassem. Um relatório garantia que pacientes
confinados a camas de hospital foram transportados de maca até locais de voto. Victor
Klemperer, o filólogo judeu de Berlim, anotou no seu diário a «propaganda extravagante» para
conquistar votos no «sim». «Em todos os veículos comerciais, nas carrinhas dos Correios, nas
bicicletas dos carteiros, em todas as casas e montras, em faixas enormes estendidas por cima
das ruas... há citações de Hider por todo o lado e dizem sempre "Sim" pela paz! É a mais
monstruosa das hipocrisias.»

Homens do partido e das SA monitorizavam quem votava e quem não o fazia; quem se
atrasasse recebia uma visita de um esquadrão de Tropas de Assalto que enfatizava o carácter
desejável de uma ida imediata às urnas. Para qualquer um suficientemente obtuso para não
compreender, havia o seguinte item na edição matinal de domingo do jornal nazi oficial,
Volktscher Beobachter: «Para que fique claro, toma-se necessário voltar a repeti-lo. Quem não
se perfilar connosco hoje, aquele que não votar, aquele que não votar no "sim" hoje,
demonstra que é, se não nosso inimigo maldito, pelo menos um produto de destruição e que
já não será ajudado.»

E eis o detalhe-mestre: «Seria melhor para essa pessoa, bem como para nós, que deixasse de
existir.»

Cerca de 45,1 milhões de alemães qualificavam-se como eleitores e 96,5 por cento votaram.
Destes, 95,1 por cento votaram a favor da política externa de Hitler. Mais interessante,
contudo, foi o facto de 2,1 milhões de Alemães — pouco menos de cinco por cento do
eleitorado registado — terem tomado a perigosa decisão de votar contra.

Em seguida, Hitler emitiu uma proclamação, na qual agradecia ao povo alemão pela «escolha
única na História que fizeram a favor do

207
ERIK LARSON

verdadeiro amor à paz, ao mesmo tempo que reclamaram a nossa honra e os nossos eternos
direitos de paridade».

O resultado tornou-se claro para Dodd bem antes dos votos terem sido contados. Escreveu a
Roosevelt: «Estas eleições são uma farsa.»

Nada o indicava com mais clareza do que o voto no interior do campo de Dachau: 2154
prisioneiros, num universo de 2242 — isto é, 96 por cento — votaram a favor do governo de
Hitler. Quanto ao destino das 88 almas que não votaram ou votaram contra, a História guarda
silêncio.

Na segunda-feira seguinte, 13 de novembro, o presidente Roosevelt dispensou alguns


momentos para compor uma carta para Dodd. Elogiou-o pelas cartas que lhe tinha enviado até
então e, no que parece ser uma alusão aos receios de Dodd depois do seu encontro com Hitler,
disse-lhe: «Estou satisfeito por ter sido franco com certas pessoas. Penso que isso é uma coisa
boa.»

Refletiu sobre um comentário feito pelo cronista Walter Lippman, de que uns meros oito por
cento da população mundial, referindo-se à Alemanha e ao Japão, eram capazes, «devido a
uma atitude imperialista», de impedir a paz e o desarmamento do resto do mundo.

«Por vezes sinto», escreveu o presidente, «que os problemas mundiais estão a piorar em vez
de melhorar. No nosso país, contudo, apesar das críticas, dos "cortes" e dos rosnidos da
extrema-esquerda e da extrema-direita, estamos de facto a fazer as pessoas regressarem ao
trabalho e impor valores.»

Terminava com um jovial: «Continue o bom trabalho!»

Em Washington, o secretário Hull e outros altos funcionários, incluindo o subsecretário


Phillips, passaram a primeira metade do mês atarefados com o planeamento da visita iminente
de Maxim Lit-vinov, o comissário soviético dos Negócios Estrangeiros, que estava a dar início a
discussões com Roosevelt, com o intuito de os EUA reconhecerem a União Soviética. A ideia
era profundamente impopular para

208
NO JARDIM DOS MONSTROS

os isolacionistas norte-americanos, mas Roosevelt via significativos benefícios estratégicos, tais


como abrir a Rússia aos investimentos americanos e ajudar a controlar as ambições japonesas
na Ásia. As «Conversações Roosevelt-Litvinov», frequentemente difíceis e frustrantes para
ambas as partes, acabaram por resultar na declaração de reconhecimento formal feita por
Roosevelt, a 16 de novembro de 1933. Sete dias depois, Dodd voltou a envergar o seu casaco
de abas de grilo e a cartola e efetuou a sua primeira visita oficial à embaixada soviética. Um
fotógrafo da Associated Press pediu para tirar uma fotografia de Dodd ao lado do homólogo
soviético. O russo mostrou-se disposto, mas Dodd pediu para ser dispensado, receando «que
certos jornais reacionários dos Estados Unidos exagerassem a circunstância da minha visita e
reiterassem os ataques a Roosevelt suscitados pelo seu reconhecimento [da União Soviética]».

209
CAPÍTULO 25

O BOWS SECRETO

Doravante, Martha e Boris sentiam-se mais à-vontade para revelarem a suã relação ao mundo,
embora ambos admitissem que continuava a ser necessária alguma discrição, dada a contínua
desaprovação tanto dos superiores dele como dos pais dela. O caso foi-se tornando mais sério,
apesar dos esforços de Martha para manter as coisas ligeiras e descomprometidas. Continuava
a encontrar-se com Armand Berard, da embaixada francesa, e talvez com Diels, bem como a
aceitar encontros com potenciais novos pretendentes, o que deixava Boris louco de ciúmes.
Ele enviava-lhe uma enchente de recados, flores e música, para além de lhe telefonar a toda a
hora. «Eu queria amá-lo apenas um pouco», escreveu ela, num relato inédito; «tentava tratá-lo
com a casualidade que dedicava a outros amigos. Forçava-me a mostrar-me indiferente
durante uma semana; na seguinte, tornava-me estupidamente ciumenta. Às vezes esquecia-
me dele, depois obcecava-me com ele. Era uma contradição insuportável, dolorosa e
frustrante para ambos.»

Martha continuava decidida a ver o melhor da revolução nazi, mas Boris não acalentava ilusão
alguma quanto ao que ocorria à volta deles. Para grande irritação de Martha, estava sempre à
procura dos motivos implícitos que governavam as ações dos líderes nazis e as várias figuras
que visitavam a embaixada dos Estados Unidos.

«Vês sempre as coisas más», disse-lhe, zangada, «deverias tentar observar as coisas positivas
na Alemanha e nos nossos visitantes, em vez de estares sempre a suspeitar que tenham
motivos dissimulados.» Sugeriu que, por vezes, também ele cometia o pecado de ocultar os
seus motivos: «Penso que tens ciúmes do Armand ou de qualquer outro que me leve a sair.»

210
NO JARDIM DOS MONSTROS

No dia seguinte, recebeu uma encomenda dele. Lá dentro, encontrou três macacos de
cerâmica e um cartão que dizia: «Não Ver o Mal, Não Ouvir o Mal, Não Falar do Mal.» Boris
terminava o seu recado com: «Amo-te.»

Martha riu-se. Em troca, enviou-lhe uma pequena escultura de madeira de uma freira, com
uma nota que lhe assegurava estar a seguir as ordens dos macacos.

Por trás de tudo aquilo, espreitava a pergunta: onde poderia levá--los a relação que tinham?
«Não suportava pensar no futuro, com ou sem ele», escreveria ela. «Adorava a minha família,
o meu país, e não queria enfrentar a possibilidade de separar deles.»

Esta tensão causava desentendimentos e dor. Boris sofria.

«Martha!», escreveu-lhe numa carta imbuída de dor, «Sinto-me tão triste por não poder
encontrar as palavras certas para tudo o que aconteceu. Perdoa-me se te fiz algo mesquinho
ou mau. Não queria nem desejava fazê-lo. Compreendo-te, mas não por completo, e não sei o
que devo fazer. O que hei de fazer?

Adeus, Martha, sê feliz sem mim e não penses mal de mim.»

Regressavam sempre para os braços um do outro. Cada separação parecia intensificar a


atração que sentiam, mas também ampliava os momentos de discórdia e fúria — até que, em
certa tarde de um domingo do final de novembro, a relação sofreu uma alteração concreta. Ela
registou-a com uma minúcia excecional.

Era um dia tristonho, com o céu como carvão esborratado e o ar frio, ainda que não tanto que
obrigasse Boris a fechar a capota do seu Ford. Partiram em direção a um restaurante acolhedor
que ambos adoravam e que ficava num clube náutico sobre pilares, num lago da região de
Wannsee. Um pinhal fragrante bordejava a costa.

Encontraram o restaurante praticamente vazio, mas ainda encantador. Mesas de madeira


rodeavam uma pequena pista de dança. Quando ajukebox não estava a tocar, o som da água a
embater contra os pilares no exterior era claramente audível.

Martha pediu sopa de cebola, salada e cerveja; Boris optou por vodca, shashlik e arenque em
natas azedas e cebolas. E mais vodca. Boris adorava comida, reparou Martha, mas parecia que
nunca aumentava nem ein Pjund.

211
ERIK LARSON

Depois do almoço, dançaram. Boris ia melhorando, mas continuava a tratar a dança e a


caminhada como fenómenos intermutáveis. A dada altura, os corpos deles juntaram-se e
ambos ficaram imóveis, segundo Martha recordaria; de súbito, ela sentiu-se muito quente.

Boris afastou-se abruptamente. Deu-lhe o braço e levou-a para o exterior, para um pontão de
madeira que avançava por cima das águas. Ela olhou para ele e viu dor — as sobrancelhas
juntas, os lábios comprimidos. Ele parecia agitado. Ficaram lado a lado, junto à amurada, a
observar um bando de cisnes brancos.

Ele virou-se para ela, com uma expressão quase taciturna.

— Martha — disse ele —, amo-te.

Confessou-lhe então que o sentia desde a primeira vez que a vira, no apartamento de Sigrid
Schultz. Segurava-a diante de si, com as mãos a apertar-lhe os cotovelos como tomos. A alegria
desvairada desaparecera.

Depois, recuou e fitou-a.

— Não brinques comigo, querida — disse ele. — Du hast viele Be-iverber. — Tens muitos
pretendentes. — Não deves decidir já. Mas não me trates com ligeireza. Não poderia suportá-
lo.

Ela desviou o olhar.

— Eu amo-te, Boris. Tu sabes. E sabes quanto me esforço para não amar.

Boris virou-se para o lago.

— Sim, sei — respondeu com tristeza. — Para mim também não é fácil.

No entanto, Boris nunca conseguia ficar abatido durante muito tempo. Recuperou o sorriso —
aquele sorriso explosivo.

— Mas — disse ele —, agora o teu país e o meu são amigos, oficialmente, e isso melhora tudo,
faz com que tudo seja possível, não faz?

Sim, mas...

Havia outro obstáculo. Boris tinha um segredo. Martha estava ao corrente, mas ainda não lho
dissera. Então, frente a frente, falou num tom muito baixo.

— Para além disso — disse ela—, és casado.

212
NO JARDIM DOS MONSTROS

Mais uma vez, Boris afastou-se. A sua tez, já corada pelo frio, ficou notoriamente mais
vermelha. Aproximou-se da amurada e debru-çou-se, apoiando-se nos cotovelos. A sua longa
estatura formava um arco elegante e gracioso. Ficaram calados.

— Desculpa —- disse ele por fim. — Deveria ter-te contado. Pensava que sabias. Perdoa-me.

Ela disse-lhe que não sabia, ao início; só o soubera quando Ar-mand e os pais dela lhe tinham
mostrado a entrada de Boris no dire-tório diplomático, publicado pelo ministério alemão dos
Negócios Estrangeiros. A seguir ao nome de Boris, havia uma referência à sua esposa, que
estava abwesend. Ou seja, ausente.

— Ela não está «ausente» — explicou Boris. — Estamos separados. Há muito que não somos
felizes um com o outro. A próxima lista diplomática nada terá nesse espaço.

Revelou-lhe ainda que tinha uma filha, que adorava. Era apenas através dela, disse-lhe, que
continuava a ter contacto com a mulher.

Martha reparou que ele tinha lágrimas nos olhos. Já chorara na sua presença e ela achava-o
sempre comovente, mas também desconcertante. Um homem a chorar — era novidade para
si. Nos Estados Unidos, os homens não choravam. Ainda não. Até então, só vira o pai com
lágrimas nos olhos uma vez, aquando da morte de Wood-row Wilson, que ele considerava um
bom amigo. Haveria outra ocasião, mas ainda faltavam alguns anos.

Regressaram ao restaurante e à mesa. Boris pediu outra vodca. Parecia aliviado. Deram as
mãos por cima da mesa.

Contudo, Martha fez então uma revelação sobre si mesma.

— Também eu sou casada — disse.

A intensidade da reação dele sobressaltou-a. Falou com uma voz baixa e obscurecida.

— Martha, não! — Continuava a dar-lhe as mãos, mas a sua expressão passou a ser de
confusão e dor. — Porque é que tu não me disseste?

Ela explicou-lhe que o casamento fora um segredo desde o início, para todos exceto para a sua
família — que o marido era um banqueiro de Nova Iorque, que ela o amara, profundamente,
em tempos, mas que agora se encontravam legalmente separados, faltando apenas as
burocracias do divórcio.

213
ERIK LARSON

Boris deixou cair a cabeça sobre os braços. Entre dentes, disse qualquer coisa em russo.
Martha afagou-lhe o cabelo.

Ele levantou-se abruptamente e voltou a sair. Martha continuou sentada. Pouco depois, Boris
regressou.

— A.ch, meu Deus — disse ele. Riu-se. Deu-lhe um beijo na cabeça. — Oh, mas em que sarilho
nos encontramos. Uma mulher casada, um banqueiro, uma filha de um diplomata
estrangeiro... Acho que não poderia ser pior. Mas havemos de resolver isto. Os comunistas
estão habituados a fazer o impossível. Mas tens de me ajudar.

O Sol estava quase a pôr-se quando deixaram o restaurante e começaram a viagem de regresso
à cidade, ainda com a capota aberta. Aquele dia fora importante. Martha recordaria pequenos
detalhes — o vento forte que lhe soltou o cabelo preso na nuca, a forma como Boris conduzia,
com o braço direito por cima do seu ombro e a mão a envolver-lhe o peito, como fazia muitas
vezes. As florestas densas ao longo das estradas ia escurecendo à medida que a luz se esvaía e
emanavam um aroma outonal profundo. Os fios dourados do seu cabelo adejavam atrás de si.

Apesar de nenhum o ter dito de modo tão direto, ambos compreendiam que algo fundamental
ocorrera. Ela apaixonara-se profundamente por aquele homem e já não poderia tratá-lo como
tratava as suas outras conquistas. Não quisera que aquilo acontecesse, mas acontecera, e com
um homem que o resto do mundo via como o mais inadequado possível.

214
CAPÍTULO 26

O PEQUENO BAILE DA IMPRENSA

Todos os anos, em novembro, a associação de correspondentes estrangeiros Foreign Press


Association presente em Berlim organizava um jantar e um baile no hotel Adlon, um evento
glamoroso para que muitos dos funcionários, diplomatas e personalidades mais proeminentes
da cidade eram convidados. O evento recebera o epíteto de «Pequeno Baile da Imprensa»
porque era menor e bem menos constrangido do que o banquete anual dado pela imprensa
alemã, que se tornara ainda mais pesado do que era habitual devido ao facto de os jornais do
país se encontrarem praticamente sob o controlo absoluto de Joseph Goebbels e do seu
ministério da Instrução Pública. Para os correspondentes estrangeiros, o Pequeno Baile da
Imprensa tinha um imenso valor prático. Nas palavras de Sigrid Schultz: «E sempre mais fácil
arrancar uma história a um homem se ele e a esposa — caso ele seja casado — tiverem sido
nossos convidados e dançado no nosso baile do que só o virmos durante o horário de
expediente.» Em 1933, o baile ocorreu na noite de sexta-feira, 24 de novembro, seis dias antes
de a população norte-americana da cidade celebrar o Dia de Ação de Graças.

Pouco antes das oito, o Adlon começou a receber o primeiro de uma longa procissão de carros,
muitos com faróis do tamanho de melões cortados ao meio. Destes, emergia uma torrente de
altos funcionários nazis, embaixadores, artistas, realizadores, atrizes, escritores e, claro, os
próprios correspondentes estrangeiros, de nações dos mais variados tamanhos, todos com
grandes casacos de peles para fazer frente ao ar húmido e quase gelado. Entre os presentes,
encontravam-se o secretário de Estado alemão, Bernhard von Búlow; o ministro dos Negócios
Estrangeiros, Neurath; o embaixador francês, François-Poncet; sir Eric

215
ERIK LARSON

Phipps, o embaixador britânico; e, obviamente, o ubíquo e gigantesco Putzi Hanfstaengl.


Também Bella Fromm apareceu, a colunista social do «Tifi Voss», para quem o banquete se
revelaria marcado pela mais sombria das tragédias, ainda que de um género cada vez mais
comum em Berlim, longe da vista do público. Os Dodd — os quatro — chegaram no seu velho
Chevrolet; o vice-chanceler de Hitler, Franz von Papen, surgiu num carro muito maior e mais
elegante e, à semelhança de Dodd, fez-se acompanhar pela mulher, a filha e o filho. Louis
Adlon, sorridente e de smoking, ia dando as boas-vindas a cada chegada esplêndida, enquanto
paquetes recebiam casacos de pele, sobretudos e cartolas. Como Dodd estava prestes a
descobrir, num meio sobrecarregado como era Berlim, onde todas as ações públicas de um
diplomata acartavam um peso simbólico exagerado, até uma mera troca de ideias a uma mesa
de banquete poderia tornar-se uma pequena lenda.

Os convidados foram entrando no hotel, sendo encaminhados primeiro para as elegantes


antessalas onde lhes serviram cocktails e hors d'oeuvres, passando então para o jardim de
inverno, repleto de milhares de crisântemos de estufa. Aquele espaço estava sempre
«dolorosamente apinhado», segundo Schultz, mas a tradição exigia que o baile tivesse
invariavelmente lugar no Adlon. O costume ditava também que os convidados chegassem em
trajes formais, mas «sem quaisquer ostentações de cargos ou hierarquias oficiais», conforme
Fromm escreveu no seu diário, ainda que alguns, ansiosos por exibir o seu entusiasmo pelo
partido nacional-socialista, envergassem os uniformes castanhos das Tropas de Assalto. Um
convidado, um duque chamado Eduard von Koburg, comandante das Forças Motorizadas das
SA, flanava com uma adaga que Mussolini lhe oferecera.

Os convidados foram levados até aos seus lugares em mesas do género preferido por
organizadores de banquetes em Berlim, tão estreitas que deixavam os convivas ao alcance dos
braços dos pares sentados diante deles. Uma proximidade tão acentuada tinha o potencial de
criar situações de tensão social e política — colocando, por exemplo, a amante de um
industrial à frente da esposa desse homem —,

216
NO JARDIM DOS MONSTROS

pelo que os anfitriões de cada mesa se asseguravam de que os mapas dos lugares eram
revistos por vários funcionários protocolares. Mas algumas justaposições eram simplesmente
inevitáveis. Os mais altos funcionários alemães tinham de ficar sentados não apenas à mesa
principal, que naquele ano estava a cargo dos correspondentes norte--americanos, mas
também perto dos organizadores presentes nessa mesa, Schultz e Louis Lochner, diretor da
redação de Berlim da Associated Press, e da figura norte-americana mais proeminente, o
embaixador Dodd. Assim, o vice-chanceler Papen acabou sentado mesmo à frente de Schultz,
apesar de se saber que Papen e Schultz não simpatizavam um com o outro.

A Sra. Dodd também cabia um lugar proeminente, tal como ao secretário de Estado Búlow e a
Putzi Hanfstaengl; Martha e Bill Jr., para além de vários outros convidados, preenchiam o resto
da mesa. Havia fotógrafos a circular e a tirar retrato após retrato, com os flashes a iluminar
remoinhos de fumo de charuto.

Papen era um homem bonito — assemelhava-se à personagem Topper1, na representação


feita, anos mais tarde, pelo ator Leo G. Carroll. Contudo, era mal afamado, tendo uma
reputação de oportunista e de traidor da confiança que lhe era depositada, para além de uma
arrogância levada ao extremo. Bella Fromm chamava-lhe o «Coveiro da República de Weimar»,
aludindo ao papel que desempenhara na orquestração da nomeação de Hitler para chanceler.
Protegido do presidente Hindenburg, este chamava-lhe carinhosamente Frânzchen, ou
Pequeno Franz. Com o presidente do seu lado, Papen e os co-conspiradores tinham imaginado
que seriam capazes de controlar Hitler. «Tenho a confiança de Hindenburg», vangloriou-se ele
certa vez. «Daqui a dois meses, teremos empurrado Hitler para um canto tão longínquo que
ele ficará a gemer.» É capaz de ter sido o pior erro de cálculo do século xx. Como o historiador
John Wheeler-Bennett resumiu: «Só quando já tinham grilhetas nos próprios pulsos se
aperceberam de quem era de facto o prisioneiro e o captor.»

Também Dodd via Papen com desagrado, mas por razões que provinham de uma traição de
uma espécie mais concreta. Pouco antes

1 Da série televisiva homónima, que passou na televisão norte-americana em meados dos


anos 1950. (N.daT.)

217
ER1K LARSON

de os Estados Unidos terem entrado na anterior Guerra Mundial, Pa-pen era um adido militar
destacado na embaixada alemã de Washington, onde planeara e incitara vários atos de
sabotagem, incluindo a dinami-tação de linhas ferroviárias. Fora preso e expulso do país.

Depois de todos tomarem os seus lugares, a conversa ateou-se em vários pontos da mesa.
Dodd e a Sra. Papen falaram acerca do sistema universitário norte-americano, ao qual a Sra.
Papen louvava a excelência: durante a estada do casal em Washington, o filho frequentara a
Universidade de Georgetown. Putzi, como de costume, mostrava-se efusivo e, mesmo sentado,
era muito mais alto do que os convidados à sua volta. Um silêncio tenso preenchia a divisão de
linho, cristal e porcelana entre Schultz e Papen. A frieza dos dois era óbvia para todos.
«Quando chegou, foi tão cortês e educado quanto a reputação lhe exigia», escreveu a
correspondente, «mas, durante os primeiros quatro pratos do jantar, o cavalheiro ignorou[-
me] com uma consistência impressionante.» E comentou: «O que não foi fácil de fazer, pois
tratava-se de uma mesa estreita e eu estava sentada a uns noventa centímetros à frente dele.»

Ela fez tudo o que pôde para encetar uma conversa com ele, sendo sempre rejeitada.
Prometera a si mesma que «tentaria ser uma anfitriã perfeita e evitar por completo assuntos
controversos» mas, quanto mais o vice-chanceler a ignorava, menos disposta a isso ela ia
ficando. A sua resolução, conforme escreveu, «ia-se desvanecendo, perante os óbvios maus
modos de Papen».

Depois do quarto prato, já incapaz de resistir, olhou para Papen e, usando aquilo que
descreveu como «o tom mais aparentemente ingénuo» ao seu dispor, disse:

— Sr. Chanceler, há uma questão nas Memórias do Presidente Von Hindenburg sobre a qual
estou certa de que poderá elucidar-me.

Papen deu-lhe atenção. As suas sobrancelhas arquearam-se nas pontas como penas e
imbuíram-lhe o olhar da concentração fria de uma ave de rapina. Schultz manteve uma
expressão angelical e prosseguiu:

— Ele queixa-se de que, na última guerra, em 1917, o Alto Comando Alemão nunca foi
informado das sugestões de paz do presidente Wilson e que, se tivesse sabido, a perigosa
campanha submarina não teria sido lançada. Como terá sido isto possível?

218
NO JARDIM DOS MONSTROS

Apesar de falar em voz baixa, de súbito todas as pessoas na mesa que se encontravam
suficientemente perto para a ouvir fizeram silêncio e ficaram atentas. Dodd observava Papen;
o secretário de Estado Búlow inclinou-se na direção deles com, nas palavras de Schultz, «um
brilho de diversão perversa nos olhos».

Papen respondeu bruscamente:

— O presidente Wilson nunca apresentou uma sugestão de paz.

Tratava-se de uma afirmação bastante imprevidente, dada a presença do embaixador Dodd,


um especialista em Wilson e no período em questão.

Num tom calmo mas firme, com a voz carregada dos nevoeiros linguísticos da Carolina do
Norte — «um completo cavalheiro sulista», recordaria Schultz —, Dodd olhou para Papen e
contestou:

— Oh, sim, apresentou. E indicou a data precisa.

Schultz ficou encantada. «Os grandes dentes de cavalo de Papen tornaram-se ainda mais
visíveis», escreveu ela. «Nem sequer tentou imitar o tom sereno do embaixador Dodd.»

Em vez disso, Papen «limitou-se a rosnar» a resposta:

— Seja como for, nunca compreendi por que motivo a América e a Alemanha se envolveram
nessa guerra.

Fitou os rostos à sua volta, «tremendamente orgulhoso da arrogância do seu tom», escreveu
Schultz. No instante seguinte, Dodd conquistou a «admiração e gratidão eternas» da
correspondente.

Entretanto, noutra mesa, Bella Fromm sentia uma ansiedade autónoma das conversas que a
rodeavam. Fora ao baile porque era sempre muito divertido, para além de muito útil para a
sua crónica sobre a comunidade diplomática de Berlim, mas, naquele ano, ela estava a
suprimir um mal-estar profundo. Apesar de apreciar a festa, ia-se lembrando da melhor amiga,
Wera von Huhn, também uma cronista proeminente, que quase toda a gente conhecia pela
alcunha «Poulette», «frango» em francês, por o seu apelido querer dizer «galinha» em
alemão.

Dez dias antes, Fromm e Poulette tinham ido dar um passeio de carro pela Grunewald, uma
reserva florestal de 4500 hectares, a oeste

219
ERIK LARSON

de Berlim. À semelhança do Tiergarten, tornara-se um refúgio para diplomatas e outros em


busca de descanso da vigilância nazi. O ato de conduzir na floresta dava a Fromm um dos
poucos momentos em que se sentia verdadeiramente segura. «Quanto mais barulho o motor
faz», escreveu no seu diário, «mais à-vontade me sinto».

Contudo, aquele último passeio nada tivera de descontraído. A conversa delas centrara-se na
lei promulgada no mês anterior, que impedia judeus de editar e escrever em jornais alemães,
para além de requerer aos membros da imprensa nacional que apresentassem documentação
de registos civis e religiosos, comprovando serem «arianos». Certos judeus poderiam manter
os seus empregos, nomeadamente aqueles que tivessem combatido na guerra anterior,
perdido um filho nessa guerra, ou que escrevessem para jornais judaicos, mas apenas um
pequeno número se qualificava para estas isenções. Qualquer jornalista apanhado a escrever
ou a editar estava sujeito a uma pena de prisão que poderia ir até um ano. O prazo para a
apresentação da documentação era 1 de janeiro de 1934.

Poulette parecia muitíssimo perturbada, o que Fromm achava intrigante. Claro que Fromm
estava ciente dos requisitos. Judia, resignara-se ao facto de, no ano seguinte, ir ficar
desempregada. Mas Poulette?

— Porque hás tu de te preocupar? — perguntou-lhe.

— Tenho motivos, querida Bella. Requeri a minha documentação, procurei em toda a parte até
a achar. E acabei por descobrir que a minha avó era judia.

Com aquela novidade, a sua vida alterara-se de forma abrupta e irrevogável. Em janeiro,
juntar-se-ia a todo um novo estrato social, que consistia em milhares de pessoas atónitas por
terem ficado a saber que, algures no seu passado, tinham parentes judeus. Automaticamente,
por mais que sempre se tivessem identificado como alemães, eram reclassificados como não-
arianos e viam-se confinados a novas vidas miseráveis, nas margens do mundo só-para-arianos
que o governo de Hitler estava a erigir.

— Ninguém sabia disto — disse Poulette a Fromm. — E agora vou perder o meu meio de
subsistência.

A descoberta era suficientemente má, mas coincidia também com o aniversário do


falecimento do marido de Poulette. Surpreendendo

220
NO JARDIM DOS MONSTROS

Fromm, a amiga decidira não ir ao Pequeno Baile da Imprensa; sctir tia-se demasiado
desalentada.

Fromm tinha detestado deixá-la sozinha naquela noite, mas acabara por ir ao baile, depois de
decidir que, no dia seguinte, a visitaria e levaria a sua casa, pois Poulette adorava brincar com
os seus cães.

Ao longo de toda a noite, nos momentos em que a sua mente não se centrava no teatro que a
rodeava, Fromm dava por si atormentada por pensamentos a respeito da depressão
incaracterística da amiga.

Para Dodd, o comentário de Papen encontrava-se entre os mais idiotas que ouvira desde que
chegara a Berlim. E já ouvira muitos. Uma espécie bizarra de pensamento fantasioso parecia
ter-se apoderado da Alemanha, atingindo os mais altos níveis do governo. No início do ano,
por exemplo, Gõring afirmara, com a maior seriedade, que trezentos norte-americanos de
ascendência germânica tinham sido assassinados em frente ao Independence Hall de
Filadélfia, no início da anterior guerra mundial. Messersmith, num despacho, comentou que
até os alemães inteligentes e viajados eram capazes «de nos contar calmamente patranhas
extraordinárias».

E ali estava o vice-chanceler da nação a proclamar não compreender porque tinham os Estados
Unidos entrado na guerra mundial contra a Alemanha. Dodd fitou Papen:

— Posso dizer-lhe — replicou, mantendo a voz tão calma e harmoniosa como antes — que isso
foi se deveu à pura estupidez consumada dos diplomatas alemães.

Papen ficou com um ar estupefacto. A sua mulher, de acordo com Sigrid Schultz, parecia
estranhamente satisfeita. Um novo silêncio tomou conta da mesa — já não um silêncio
expectante, como antes, mas antes um vazio pesado —, até que, de repente, todos tentaram
preenchê-lo com centelhas de conversa distrativa.

Noutro mundo, noutro contexto, poderia ter sido um incidente de somenos, um comentário
cáustico e explosivo rapidamente esquecido. No seio da opressão e do Gkichschaltung da
Alemanha nazi, porém, foi algo bem mais importante e simbólico. Depois do baile, seguindo a
tradição, um grupo coeso de convidados partiu para o

221
ERIK LARSON

apartamento de Schultz, onde a mãe desta preparara pilhas de sanduíches e onde a história da
esgrima verbal de Dodd foi recontada com grandes floreados, decerto bem bebidos. O
embaixador não se encontrava presente, dada a sua tendência a deixar os banquetes tão cedo
quanto o protocolo permitia e ir para casa dar a noite por terminada com um copo de leite,
uma tigela de pêssegos em calda e o conforto de um bom livro.

Apesar dos seus momentos de ansiedade crescente, Bella Fromm achou o baile encantador.
Era um prazer ver a forma como os nazis se comportavam depois de alguns copos e ouvi-los
atacarem-se mutuamente com comentários acutilantes sussurrados. A certa altura, o duque da
adaga, Koburg, passou por Fromm enquanto esta conversava com Kurt Daluege, um agente da
Polícia que ela descreveu como «brutal e implacável». O duque parecia querer projetar altivez,
mas o efeito, segundo a colunista comentou, era comicamente minado pela «sua figura
curvada, semelhante à de um anão». Daluege disse a Fromm: «Aquele Koburg caminha como
se estivesse em cima de andas», após o que acrescentou, num tom ameaçador: «E capaz de se
ficar a saber que a avó dele enganou o Grão-duque com aquele banqueiro judeu da corte.»

Às dez da manhã seguinte, Fromm telefonou a Poulette, mas só conseguiu falar com a criada
idosa da amiga, que lhe disse: «a Baronesa deixou um recado na cozinha para não ser
incomodada.»

A amiga nunca nunca dormia até tão tarde. «De repente, percebi», escreveu Fromm.

Poulette não seria a primeira pessoa judia ou recém-classificada como não-ariana a tentar
suicidar-se após a ascensão de Hitler ao poder. Eram comuns os rumores acerca de suicídios e,
de facto, um estudo efetuado pela Comunidade Judaica de Berlim concluiu que, entre 1932 e
1934, ocorreram 70,2 suicídios por cada 100 000 judeus da cidade, uma subida acentuada em
relação à taxa de 50,4 registada entre 1924 e 1926.

Fromm correu para a garagem e conduziu o mais depressa possível até à casa de Poulette.

222
NO JARDIM DOS MONSTROS

À porta, a criada informou-a de que a senhora continuava a dormir. Fromm passou por ela e
continuou até chegar ao quarto de Pou-lette, que estava às escuras. Abriu as cortinas e
deparou-se com a amiga deitada na cama, a respirar mas com dificuldade. Ao lado da cama,
numa mesa de cabeceira, estavam dois frascos vazios de um barbitúrico, o veronal.

Fromm também encontrou uma nota que lhe era dirigida. «Não sou capaz de continuar a viver,
pois sei que serei obrigada a desistir do meu trabalho. Tens sido a minha melhor amiga, Bella.
Por favor, leva todos os meus ficheiros e usa-os. Agradeço-te por todo o amor que me deste.
Sei que és corajosa, mais corajosa do que eu, e que precisas de viver pois tens uma filha em
quem tens de pensar, e estou certa de que serás capaz de suportar este esforço bem melhor
do que eu seria.»

A casa foi tomada por uma vaga de agitação. Chegaram médicos, mas nada puderam fazer.

No dia seguinte, um funcionário do ministério dos Negócios Estrangeiros telefonou a Fromm


para lhe transmitir os pêsames e uma mensagem oblíqua:

— Frau Bella — disse ele —, sinto-me profundamente chocado. Compreendo como esta perda
é terrível para si. Frau Von Huhn morreu de pneumonia.

— Que disparate! — retorqui Fromm. — Quem lhe disse isso? Ela suic...

— Frau Bella, queira compreender, a nossa amiga tinha pneumonia. Outras explicações são
indesejáveis. No seu interesse, também.

Outros convidados tinham achado que o baile fora uma diversão encantadora. «Passámos uma
noite mesmo muito boa», escreveu Louis Lochner, numa carta que enviou à filha, que
frequentava uma escola nos Estados Unidos, «e a festa foi muito alegre.» O embaixador Dodd,
previsivelmente, era de outra opinião. «O jantar foi enfadonho, embora a companhia presente
pudesse, noutras circunstâncias, ter fornecido informações muitíssimo úteis.»

Houve um resultado inesperado. Em vez de um afastamento amargurado entre Dodd e Papen,


desenvolveram uma estima calorosa

223
ERIK LARSON

e duradoura. «Desse dia em diante», observou Sigrid Schultz, «Papen procurou a amizade do
embaixador Dodd com grande assiduidade.» O comportamento do vice-chanceler em relação
a Schultz também melhorara. Parecia ter decidido, escreveu ela, que «era melhor exibir os
seus modos domingueiros para comigo.» Isto, concluía ela, era típico de certos alemães.
«Sempre que se deparam com alguém que não transige perante a arrogância deles, descem do
poleiro e comportam--se», escreveu ela. «Respeitam a força de carácter quando a encontram
e, se mais pessoas tivessem mostrado firmeza ao pau-mandado de Hitler, Papen, e aos seus
acólitos, tanto nos pequenos contactos quotidianos como nas grandes questões de Estado, o
crescimento nazi poderia ter sido abrandado.»

Espalharam-se rumores sobre a verdadeira causa de morte de Poulette. Depois do funeral,


Fromm fora acompanhada a casa por uma boa amiga por quem sentia laços filiais —
«Mammi» von Carnap, mulher de um antigo camareiro do kaiser e desde há muito uma
excelente fonte de informação para a coluna social de Fromm. Apesar de leais à velha
Alemanha, os Carnap apoiavam Hitler e a sua campanha para restaurar a força da nação.

Mammi parecia estar a pensar em algo. Ao fim de alguns momentos, exclamou:

— Bellachen, estamos todos tão consternados por as novas regulações surtirem este efeito!

Fromm sobressaltou-se.

— Mas, Mammi — replicou —, não compreende? Isto é apenas o início. Esta coisa virar-se-á
contra todos vocês, que ajudaram a criá-la.

Mammi ignorou o comentário.

— Frau Von Neurath aconselha-a a apressar-se a ser batizada — disse-lhe. — O ministério dos
Negócios Estrangeiros está muito ansioso quanto a evitar um segundo casus Poulette.

Para Fromm, aquilo era incrível — que alguém ignorasse as novas realidades da Alemanha a
ponto de julgar que um mero batismo poderia restaurar o estatuto de alguém como ariano.

«Pobre senhora tola!», escreveu no seu diário.

224
CAPITULO 27

¦¦¦'"¦ -¦¦¦¦¦•¦ o TANENBAUM *' ' '¦'¦¦¦-

Era quase Natal. O sol invernal, nas vezes em que brilhava de todo, subia apenas parte do céu
a sul e lançava sombras crepusculares ao meio-dia. Ventos gélidos sopravam das planícies.
«Berlim é um esqueleto transido de frio», escreveu Christopher Isherwood, descrevendo os
invernos que vivenciara durante a sua estada na Berlim dos anos 1930: «é o meu próprio
esqueleto que dói. Sinto nos ossos a dor aguda provocada pelo orvalho que cobre as sulipas
dos caminhos de ferro, as armações das varandas, as pontes, as linhas dos eléctricos, os
candeeiros, as latrinas. O ferro vibra e encolhe-se, a pedra e os tijolos doem terrivelmente e o
cimento está entorpecido.»

A escuridão era um pouco aliviada pelo jogo de luzes sobre as ruas molhadas — candeeiros de
rua, montras de lojas, faróis, os interiores calidamente iluminados de inúmeros elétricos — e
pela forma habitual como a cidade acolhia o Natal. Apareciam velas em todas as janelas e
havia grandes árvores iluminadas com luzes elétricas a adornar praças, parques e esquinas
movimentadas, refletindo uma paixão pela quadra que nem as Tropas de Assalto conseguiam
suprimir e da qual, na realidade, se serviam para sua vantagem financeira. As SA
monopolizavam a venda de árvores de Natal, que comercializavam em estações ferroviárias,
pretensamente em benefício da Winterhilfe — literalmente, Ajuda de Inverno —, a instituição
de caridade das SA para os pobres e desempregados, embora fosse noção comum, entre os
habitantes mais cínicos de Berlim, que servia para financiar as festas e os banquetes das
Tropas de Assalto, tornados lendários pela opulência, o deboche e o volume de champanhe
consumido. Os soldados iam de porta em porta, com caixas vermelhas para doações. Os
dadores recebiam pequenos crachás para afixarem nas suas roupas

225
ERIK LARSON

e provarem que tinham contribuído, coisa que não deixavam de fazer, efetuando desta forma
uma pressão indireta sobre as almas corajosas, ou imprudentes, que faltassem a esse dever.

Mais um norte-americano afrontou o governo, devido a uma denúncia falsa feita por «pessoas
que lhe tinham rancor», de acordo com um relatório do consulado. Tratou-se do género de
situação que, décadas depois, se tornaria recorrente nos filmes acerca da era nazi.

Por volta das quatro e meia da manhã de terça-feira, 12 de dezembro de 1933, um cidadão
norte-americano chamado Erwin Wollstein encontrava-se numa plataforma de Breslau, à
espera de um comboio para Oppeln, na Alta Silésia, onde tencionava levar a cabo um negócio.
Partia cedo, pois contava regressar no próprio dia. Em Breslau, partilhava um apartamento
com o pai, que era cidadão alemão.

Dois homens de fato aproximaram-se e chamaram-no pelo nome. Identificaram-se como


agentes da Gestapo e pediram-lhe que os acompanhasse a uma esquadra localizada na
estação ferroviária.

«Ordenaram-me que me descalçasse e despisse o sobretudo, o casaco, os polainitos, o


colarinho e a gravata», escreveu Wollstein num depoimento. Depois, os agentes revistaram-lhe
os pertences, o que demorou quase meia hora. Encontraram o seu passaporte e interroga-
ram-no quanto à sua naturalidade. Ele confirmou ser um cidadão dos Estados Unidos e pediu-
lhes que notificassem o consulado norte--americano de Breslau acerca da sua detenção.

Os agentes levaram-no, então, de carro até à Esquadra Central de Polícia de Breslau, onde o
deixaram numa cela. Deram-lhe um «pe-queno-almoço frugal». Permaneceu as nove horas
seguintes na cela. Entretanto, o pai foi detido e o apartamento revistado. A Gestapo confiscou
correspondência pessoal e comercial, bem como outros documentos, incluindo dois
passaportes norte-americanos expirados e cancelados.

Às 17hl5, os dois agentes da Gestapo levaram Wollstein para o andar de cima e, por fim,
leram-lhe as acusações de que era alvo, citando denúncias de três pessoas que Wollstein
conhecia: a sua senhoria, outra mulher e um criado que limpava o apartamento. A senhoria, a
Menina Bleicher, alegara que, dois meses antes, ele dissera que «Todos os Alemães são cães.»
O criado, Richard Kuhne, alegara

226
NO JARDIM DOS MONSTROS

que Wollstein declarara que, se outra guerra mundial ocorresse, ele se juntaria à luta contra a
Alemanha. A terceira testemunha, uma tal Menina Strausz, alegara que Wollstein emprestara
um «livro comunista» ao marido. O livro, como se veio a saber, era o romance OU!, de Upton
Sinclair.

Wollstein passou a noite na prisão. Na manhã seguinte, teve autorização para confrontar os
denunciantes frente a frente. Acusou-os de terem mentido. Desta feita, já sem a proteção do
anonimato, as testemunhas vacilavam. «As próprias testemunhas pareciam estar confusas e
incertas do que diziam», recordou Wollstein no seu depoimento.

Entretanto, o cônsul norte-americano de Breslau comunicou a detenção ao consulado de


Berlim. O vice-cônsul Raymond Geist, por seu turno, queixou-se ao comandante da Gestapo,
Rudolf Diels, e requereu um relatório completo da detenção de Wollstein. Nessa noite, Diels
telefonou-lhe para lhe dizer que dera ordens para que Wollstein fosse libertado.

Em Breslau, os dois agentes da Gestapo ordenaram Wollstein a assinar uma declaração


garantindo que nunca «seria um inimigo do Estado Alemão». O documento incluía uma oferta
magnânima: se alguma vez sentisse que a sua segurança estava ameaçada, poderia apre-
sentar-se para ser detido sob custódia protetora.

Foi libertado.

Martha atribuiu-se a tarefa de decorar a árvore de Natal da família, um abeto enorme


colocado no salão de baile do segundo andar da casa. Requisitou a ajuda de Boris, de Bill, do
mordomo Fritz, do motorista da família e de vários outros amigos que passaram por lá.
Resolveu ter uma árvore ornamentada apenas com branco e prateado, pelo que comprou
bolas prateadas, fita prateada, uma grande estrela prateada e velas brancas, rejeitando luzes
elétricas e optando pela abordagem mais tradicional e infinitamente mais letal. «Naqueles
tempos», escreveu, «era uma heresia pensar em usar luzes elétricas numa árvore.» Ela e os
ajudantes mantinham baldes de água por perto.

O pai, escreveu ela, «enfastiava-se com toda aquela tontaria» e evitava o projeto, tal como a
mãe, que se atarefava com uma miríade de

227
ERIK LARSON

outras preparações para a quadra. Bill mostrava-se prestável até certo ponto, mas tinha uma
tendência para se distrair, em busca de empreendimentos mais cativantes. O projeto ocupou
dois dias e duas noites.

Martha achava engraçado que Boris estivesse disposto a ajudar, dado que proclamava não
acreditar na existência de Deus. Sorria enquanto o observava a trabalhar em cima de um
escadote, ajudando-a, com todo o respeito, a arranjar um símbolo do dia mais sagrado da fé
cristã.

— Meu querido ateu — lembrar-se-ia ela de lhe ter dito —, porque me ajudas a decorar uma
árvore de Natal, que celebra o nascimento de Cristo?

Ele riu-se.

— Isto não é para cristãos nem para Cristo, liebes Kind— disse ele. — É só para pagãos como
tu e eu. Seja como for, é muito bonita. O que preferes? — Sentou-se no topo do escadote. —
Queres que ponha as minhas orquídeas brancas aqui em cima? Ou preferes uma bela estrela
vermelha?

Ela insistiu no branco. Ele protestou:

— Mas o vermelho é uma cor mais bonita do que o branco, querida. Apesar da árvore, de
Boris e da alegria geral da época, Martha

sentia que faltava à sua vida um elemento fundamental. Sentia a falta dos seus amigos —
Sandburg e Wilder, bem como dos colegas do Tribune — e da casa confortável em Hyde Park.
Por aquela altura, os seus amigos e vizinhos estariam a reunir-se em festas acolhedoras, em
sessões de cânticos, com vinho quente.

A 14 de dezembro, uma quinta-feira, escreveu uma longa carta a Wilder. Sentia agudamente o
definhamento da ligação que tinha com o escritor. O simples facto de o conhecer
proporcionava-lhe uma sensação de credibilidade, como se, por refração, também ela
detivesse prestígio literário. Contudo, ela enviara-lhe um conto que escrevera e ele nada
dissera. «Perdeste até o teu interesse literário em mim, ou deverei antes dizer o teu interesse
no meu eu literário (o que quer que reste dele, se é que havia algo). E a tua viagem à
Alemanha. Foi completamente esquecida. Caramba, não há dúvida de que me deste com os
pés, falando por um instante na gíria de Berlim!»

228
NO JARDIM DOS MONSTROS

Ela pouco mais tinha escrito, dizia-lhe, embora tivesse encontrado alguma satisfação em falar e
escrever acerca de livros, graças à sua nova amizade com Arvid e Mildred Harnack. Juntos,
contava a Wil-der, «concluímos que somos as únicas pessoas em Berlim com um interesse
genuíno por escritores.» Mildred e ela tinham dado início à crónica em que fariam crítica
literária. «Ela é alta, linda, com uma cabeleira espessa de cabelo cor de mel — mel escuro, sob
algumas luzes [...] Muito pobre, real e boa, sem muito a seu favor, embora a família seja antiga
e respeitada. Um oásis para mim, na verdade, que estou louca de sede.»

Aludiu à sensação que o pai tinha de haver uma conspiração crescente contra ele no seio do
Departamento de Estado. «Labirintos de ódio e intriga na nossa embaixada, até agora, ainda
não nos capturaram», escrevia.

Mas ódios de uma espécie mais pessoal atingiam-na. Nos Estados Unidos, o seu casamento em
segredo com Bassett e o esforço igualmente oculto para se divorciar tinham sido tornados
públicos. «Que maldoso o que dizem de mim os meus inimigos em Chicago», queixa-va-se a
Wilder. Certa mulher, que ela identificava como Fanny, começara a espalhar rumores
particularmente desagradáveis, que Martha atribuía a inveja causada pela publicação de um
conto seu. «Ela insiste que nós tivemos um caso e já ouvi isso através de duas pessoas. Um dia
destes escrevi-lhe, realçando os perigos da difamação infundada e indi-cando-lhe os
problemas em que podia estar a meter-se.» E acrescentou: «Tenho pena dela, mas isso não
altera o facto de ela ser uma cabra com uma boca vilipendiosa.»

Procurava dar a Wilder uma impressão da cidade invernal que via para lá das suas janelas,
daquele novo mundo no qual se encontrava. «A neve aqui é suave e profunda — há uma
névoa de cobre esfumado que reveste Berlim durante o dia e, à noite, o brilho da lua baixa. A
gravilha geme por baixo da janela do meu quarto à noite — o magro Diels, da Polícia Secreta
Prussiana, com o seu rosto sinistro e lábios encantadores, deve estar a observar-me e a
gravilha solta-se sob os seus sapatos leves para me avisar. Ele exibe as cicatrizes profundas
com o orgulho com que eu usaria uma coroa de edelvaisse.»

Expressou uma mágoa profunda e abrangente. «O cheiro da paz está longe, o ar é frio, os céus
são frágeis e as folhas finalmente caiem.

229
ERIK LARSON

Uso uma gabardina estampada como seda aguada e um regalo de pelo de carneiro. Os meus
dedos perdem-se em profundezas de calor. Tenho um casaco de lantejoulas prateadas e
pulseiras pesadas de corais brilhantes. Ao pescoço, uso uma espécie de corrente de três voltas
de lápis-lazúli e pérolas. No rosto, uma expressão suave e satisfeita como um véu de luar
dourado. E nunca, em nenhuma das minhas vidas, me senti tão só.»

Ainda que a referência de Martha a «labirintos de ódio» fosse um pouco forte, Dodd tinha de
facto começado a pressentir a campanha que era feita contra si no Departamento de Estado, e
que os participantes eram homens de posses e tradições. Suspeitava também de que eram
assistidos por uma ou mais pessoas do seu próprio pessoal, que lhes transmitiram, em sotto
você, informações a respeito de si e do funcionamento da embaixada. Dodd ia ficando cada
vez mais desconfiado e reservado, tanto que começou a escrever à mão as suas cartas de
conteúdo mais sensível, pois não confiava que os estenógra-fos da embaixada não as
divulgassem.

Tinha motivos para estar preocupado. Messersmith continuava a sua correspondência pouco
canónica com o subsecretário Phillips. Raymond Geist, o segundo homem na hierarquia do
consulado (e outro homem de Harvard) também vigiava as lidas de Dodd e da embaixada.
Numa ida a Washington, Geist teve uma longa conversa sigilosa com Wilbur Carr, diretor dos
serviços consulares, durante a qual forneceu um leque alargado de informações, incluindo
pormenores acerca de festas desregradas dadas por Martha e Bill que, por vezes, duravam até
às cinco da manhã. «Numa ocasião, a hilaridade era tal», contou Geist a Carr, que gerara uma
reclamação por escrito enviada ao consulado. Isso levara Geist a chamar Bill ao seu gabinete,
onde o avisara de que, «se houvesse uma repetição daquela conduta, teria de ser redigido um
relatório oficial». Geist também proveu uma crítica do desempenho do embaixador Dodd: «O
embaixador tem modos amenos e apagados, quando o único género de pessoa capaz de lidar
de forma bem-sucedida com o Governo Nazi seria um homem perspicaz e forte, disposto a
assumir uma atitude ditatorial para com

230
NO JARDIM DOS MONSTROS

o Governo e insistir para que as suas exigências sejam cumpridas. O Sr. Dodd é incapaz de o
fazer.»

A chegada a Berlim de um novo homem, John C. White, para substituir George Gordon como
conselheiro da embaixada, só poderá ter aumentado a desconfiança de Dodd. Para além de ser
rico e dado a organizar festas elaboradas, White também era casado com a irmã do
responsável pela Europa Ocidental, Jay Pierrepont Moffat. Os dois cunhados trocavam uma
correspondência calorosa, tratando--se por «Jack» e «Pierrepont». Dodd não teria encontrado
muito consolo na primeira linha de uma das primeiras cartas que White enviou de Berlim:
«Parece que há uma máquina de escrever excedente aqui, pelo que posso escrever-te sem
testemunhas.» Numa das suas respostas, Moffat chamava a Dodd «um indivíduo curioso que
me parece quase impossível de diagnosticar».

Para tornar a situação ainda mais clausttofóbica para Dodd, outro novo funcionário, Orme
Wilson, que chegou na mesma altura para ocupar a posição de secretário da embaixada, era
sobrinho do subsecretário Phillips.

Quando o Chicago Tribune deu à estampa um artigo sobre o pedido que o embaixador fizera
para se ausentar no ano seguinte, juntamente com conjeturas de que era possível que
abandonasse o cargo, Dodd queixou-se a Phillips que alguém do departamento deveria ter
revelado o seu requerimento, com intenção de provocar danos. O que mais o revoltava era um
comentário nesse artigo, atribuído a um porta-voz não identificado do Departamento de
Estado. O artigo dizia: «O abandono permanente do cargo de Embaixador na Alemanha não
está a ser contemplado pelo Professor Dodd, insistiu.» Com a lógica perversa da publicidade, a
negação levantava na realidade a questão do destino de Dodd — iria demitir-se ou seria
forçado a deixar o cargo? A situação em Berlim já era suficientemente difícil sem tal
especulação, disse Dodd a Phillips. «Creio que Von Neurath e os seus colegas ficariam 1
consideravelmente desagradados se este artigo lhes fosse reencaminhado.»

Phillips respondeu com a já habitual ironia textual: «Não sou capaz de imaginar quem terá
dado ao Tribune informação relativa ao seu

231
ERIK LARSON

possível afastamento na próxima primavera», escreveu. «Decerto ninguém mo perguntou [...]


Uma das principais alegrias do mundo da imprensa é dar início a rumores sobre demissões.
Todos sofremos dessa fobia de tempos a tempos e não a levamos a sério.»

Para terminar, Phillips comentava que o cônsul-geral, que se encontrava então de folga em
Washington, visitara o departamento. «Messersmith esteve alguns dias connosco e tivemos
algumas boas conversas a respeito das várias fases da situação alemã.»

Dodd teria motivos para ler estas últimas linhas com uma certa ansiedade. Numa dessas visitas
ao gabinete de Phillips, Messersmith oferecera aquilo que Phillips descreveu no seu diário
como «um vislumbre interno das condições da Embaixada em Berlim». Também então o tema
de Martha e Bill fora abordado. «Aparentemente», escreveu ele, «o filho e a filha do
Embaixador não assistem a Embaixada de forma alguma e tendem demasiado a percorrer
clubes noturnos na companhia de alemães de carácter não muito bom e de membros da
imprensa.»

Messersmith também se encontrou com Moffat e com a esposa deste. Os três passaram uma
tarde a falar sobre a Alemanha. «Analisámos a situação de todos os ângulos», escreveu Moffat
no seu diário. No dia seguinte, ainda de acordo com o diário de Moffat, o cônsul-geral afirmou
estar «muito preocupado com cartas recebidas de Dodd que indicavam que este estava a virar-
se contra o próprio pessoal.»

George Gordon, o conselheiro que deixara a embaixada há pouco tempo, encontrava-se nos
Estados Unidos na mesma altura. Ainda que a relação de Gordon com Dodd tivesse começado
mal, por aquela altura o embaixador, ainda que com relutância, passara a vê-lo como uma
mais-valia. Gordon escreveu-lhe: «O nosso amigo em comum, G. S. M.» — referindo-se a
Messersmith — «tem revelado uma campanha ativíssima para angariar apoio para a sua
candidatura à Delegação de Praga.» (Messersmith desde há muito desejava abandonar o
consulado e tornar-se um diplomata de pleno direito; agora, com a embaixada de Praga
disponível, via uma oportunidade.) Gordon notou que uma torrente de cartas e editoriais de
jornais, atestando o «trabalho impecável» de Messersmith, tinha começado a chegar ao

232
NO JARDIM DOS MONSTROS

departamento. «Tudo isto ganhou um toque familiar», escreveu Gor-don, «quando me


contaram que ele dissera a um dos altos funcionários que, na verdade, se sentia um pouco
encabulado por todos os elogios que a imprensa lhe fazia, pois esse género de coisa não lhe
agradava!!!»

E Gordon acrescentava uma linha manuscrita à carta datilografa-da: «O sancta virginitas


simplicitasque», expressão latina que significa: «Que inocência pia e virginal!»

A 22 de dezembro, uma sexta-feira, Dodd foi visitado por Louis Lochner, que lhe levou uma
notícia perturbadora. A visita em si não era invulgar, já que, por aquela altura, Dodd e o diretor
da Associated Press em Berlim se tinham tornado amigos e se reuniam com frequência para
debater acontecimentos e trocar informações. Lochner disse a Dodd que um alto funcionário
da hierarquia nazi o informara de que, na manhã seguinte, o coletivo de juízes do julgamento
do Rei-chstag declararia o seu veredicto e que todos os arguidos, à exceção de Van der Lubbe,
seriam absolvidos. Era uma notícia incrível e, se correspondesse à verdade, constituiria um
golpe grave ao prestígio do governo hitleriano e, em particular, à posição de Gõring. Era
precisamente o «fracasso» que este receara. Contudo, o informador de Lochner também ficara
a saber que Gõring, ainda inflamado com o descaramento de Dimitrov durante a confrontação
na sala de audiências, queria vê-lo morto. Esta morte deveria ocorrer pouco depois do fim do
julgamento. Lochner recusava-se a identificar a sua fonte, mas disse ao embaixador que, ao
transmitir-lhe aquela informação, a fonte esperava evitar que a já fraca reputação
internacional da Alemanha fosse mais lesada. Dodd ficou convencido de que o informador
seria RudolfDiels.

Lochner divisara um plano para frustrar o assassínio, publicitan-do-o, mas queria consultar o
embaixador em primeiro lugar, para o caso de este sentir que as repercussões diplomáticas
seriam demasiado fortes. Dodd aprovou a ideia, mas, por seu turno, consultou sir Eric Phipps,
o embaixador britânico, que também foi da opinião de que Lochner deveria avançar.

233
ERIK LARSON

Lochner ponderou minuciosamente a forma de executar o seu plano. Por estranho que fosse, a
ideia inicial de publicitar o assassínio iminente fora-lhe dada pelo próprio assessor de imprensa
de Góring, Martin Sommerfeldt, que também ficara a par da situação. A sua fonte, de acordo
com um registo, seria Putzi Hanfstaengl, embora seja inteiramente possível que Hanfstaengl
tenha sido informado por Diels. Sommerfeldt disse a Lochner que a experiência lhe ensinara
que «só há uma maneira de dissuadir o general. Quando a imprensa estrangeira alega algo a
seu respeito, ele faz teimosamente o oposto.» Sommerfeldt propunha que Lochner atribuísse
a história a uma «fonte de credibilidade indiscutível» e que enfatizasse que o assassínio teria
«consequências internacionais de longo alcance». Contudo, Lochner enfrentava um dilema. Se
publicasse um artigo tão incendiário através da Associated Press, arriscava-se a enfurecer
Góring a ponto de este poder encerrar os escritórios da AP em Berlim. Para além disso, o
tempo parecia escasso. Seria muito melhor, concluiu, que a história surgisse num jornal
britânico. Ele, Sommerfeldt e Hanfstaengl reviram o plano.

Lochner sabia que um repórter muito «verde» acabava de se juntar à redação berlinense da
Reuters. Convidou-o a tomar uma bebida no hotel Adlon, onde Hanfstaengl e Sommerfeldt
não tardaram a jun-tar-se-lhes. O novo repórter deu graças à sorte que era aquela
convergência, aparentemente fortuita, de altos funcionários.

Pouco depois, Lochner referiu a Sommerfeldt o rumor de uma ameaça a Dimitrov.


Sommerfeldt, de acordo com o plano, fingiu-se surpreendido — decerto Lochner
compreendera mal, pois Góring era um homem de honra e a Alemanha era um país civilizado.

O repórter da Reuters percebeu estar diante de um furo e pediu autorização a Sommerfeldt


para citar a sua negação. Mostrando-se muito relutante, Sommerfeldt acedeu.

O homem da Reuters correu para entregar a sua história.

Horas depois, nessa mesma tarde, o relato chegava aos jornais da Grã-Bretanha, disse Lochner
a Dodd. Lochner também lhe mostrou um telegrama de Goebbels, no qual este, na qualidade
de porta-voz do governo, negava a existência de qualquer conspiração para assassinar
Dimitrov. Góring emitiu também uma negação em nome próprio, desprezando a alegação
como «um rumor horrendo».

234
NO JARDIM DOS MONSTROS

A 23 de dezembro, tal como Lochner previa, o juiz presidente do julgamento do Reichstag


anunciou o veredicto do tribunal, absolvendo Dimitrov, Torgler, Popov e Tanev, mas
considerando van der Lubbe culpado de «alta traição, fogo posto insurrecional e tentativa de
incêndio». O tribunal condenou-o à morte, declarando também — apesar da quantidade de
testemunhos quanto ao contrário — «que os cúmplices de Van der Lubbe devem ser
procurados entre as fileiras do Partido Comunista, que o comunismo é, por conseguinte,
culpado pelo incêndio do Reichstag, que o povo alemão se encontrou, na primeira parte do
ano de 1933, à beira do caos para o qual os comunistas procuravam arrastá-lo, e que o povo
alemão foi salvo no último momento.»

O destino final de Dimitrov, contudo, mantinha-se incerto.

Por fim, o dia de Natal chegou. Hitler estava em Munique; Gõ-ring, Neurath e outros altos
funcionários tinham também saído de Berlim. A cidade estava tranquila, verdadeiramente em
paz. Os elétri-cos faziam lembrar brinquedos debaixo de uma árvore.

Ao meio-dia, todos os Dodd partiram no Chevrolet da família para fazerem uma visita surpresa
aos Lochner. Segundo Louis Lochner escreveu numa carta que enviou à filha que se encontrava
na América, «estávamos a beber café quando, de repente, toda a família Dodd — o
embaixador, a Sra. Dodd, Martha e o jovem Sr. Dodd — apareceram como neve para nos
desejar um Feliz Natal. Foi tremendamente simpático, não foi? Quanto mais trabalho com Sr.
Dodd, mais gosto dele; é um homem com uma cultura profunda e dotado de uma das mentes
mais acutilantes com que alguma vez tive contacto.» Lochner descrevia a Sra. Dodd como
«uma mulher doce e feminina que [...] tal como o marido, prefere de longe visitar uma família
de amigos do que sujeitar-se aos costumes superficiais da diplomacia. Os Dodd não fingem ser
celebridades sociais e eu admiro-os por isso.»

Dodd passou algum tempo a admirar a árvore de Natal de Lochner e as outras decorações,
após o que se afastou com ele e lhe pediu novidades acerca do caso Dimitrov.

Até então, Dimitrov parecia ter escapado incólume, disse Lochner. Também o informou que a
sua fonte numa posição elevada — cuja

235
ERIK LARSON

identidade continuava a não revelar a Dodd — lhe agradecera por ter tratado da questão de
uma forma tão hábil.

Não obstante, Dodd receava outras repercussões. Permanecia convicto de que Diels
desempenhara um papel-chave na revelação da conjura. Diels, aliás, não deixava de o
surpreender. Estava a par da reputação que o comandante da Gestapo tinha de ser um cínico e
um oportunista de primeira água, mas, frequentemente, encontrava provas que sustentavam
tratar-se de um homem íntegro e merecedor de respeito. Fora Diels, na verdade, quem, no
início desse mês, persuadira Gõring e Hitler a decretar uma amnistia para detidos nos campos
de concentração que não fossem criminosos recalcitrantes ou claramente perigosos para a
segurança do Estado. Não poderemos saber os verdadeiros motivos de Diels, mas ele
considerava que esse tempo, em que ia de campo em campo para selecionar prisioneiros a
serem libertados, tinha sido um dos melhores da sua carreira.

Dodd receava que Diels pudesse ter ido longe de mais. Na entrada do seu diário do dia de
Natal, escreveu: «O Chefe da Polícia Secreta fez uma coisa muitíssimo perigosa e não ficarei
surpreendido se vier a saber que foi enviado para a prisão.»

Enquanto percorria a cidade nesse dia, Dodd voltou a espantar-se com a tendência
«extraordinária» dos Alemães para as manifestações natalícias. Via árvores de Natal por todo o
lado, em todas as praças públicas e em todas as janelas.

«Seria de pensar», escreveu, «que os Alemães acreditam em Jesus ou praticam os seus


ensinamentos!»

236
1934
QUINTA PARTE

INQUIETAÇÃO

!
CAPITULO 28

JANEIRO DE 1934

A 9 de janeiro, o arguido principal do julgamento do Reichstag, Marinus van der Lubbe, foi
informado pelo procurador público de que seria decapitado no dia seguinte.

«Obrigado por me dizer», respondeu Van der Lubbe. «Vemo-nos amanhã.»

O algoz envergava uma cartola, uma casaca de abas de grilo e, num toque particularmente
fastidioso, luvas brancas. Usou uma guilhotina.

A execução de Van der Lubbe marcava um ponto final claro, ainda que sangrento, na saga do
Incêndio do Reichstag e, desta forma, sanava uma fonte de turbulência que agitara a
Alemanha desde fevereiro do ano anterior. A partir de então, qualquer pessoa que sentisse
necessidade de uma conclusão poderia apontar para um ato oficial de Estado: Van der Lubbe
provocara o fogo e agora Van der Lubbe estava morto. Quanto a Dimitrov, ainda vivo, voaria
para Moscovo. O caminho para a restauração da Alemanha estava livre.

No começo do ano, a Alemanha aparentava, a um nível superficial, ter ficado deveras mais
estável, para grande desilusão de observadores e diplomatas estrangeiros, que ainda
acalentavam a crença de que as pressões económicas precipitariam o colapso do regime
hitleriano. No final do seu primeiro ano como chanceler, Hider parecia mais racional, quase
conciliatório, e chegava ao extremo de insinuar que poderia apoiar alguma forma de pacto de
não-agressão com a França e a Grã--Bretanha. Anthony Éden, lorde do Selo Privado britânico,
viajou até à Alemanha para se encontrar com ele e, tal como Dodd, partiu impressionado com
a sinceridade de Hitler quanto a querer a paz. Sir Eric Phipps, embaixador do Reino Unido na
Alemanha, escreveu no seu diário: «Herr Hitler deu mostras de sentir uma empatia genuína

241
ERIK LARSON

em relação ao Sr. Éden, que decerto foi bem-sucedido na missão de fazer emergir naquele
estranho ser certas qualidades humanas que, para mim, até agora, se têm mantido
obstinadamente dormentes.» Numa carta que enviou a Thornton Wilder, Martha dizia: «Não
há dúvida de que Hitler está a melhorar.»

Esta sensação de normalidade iminente era aparente também noutras esferas. Os números
oficiais do desemprego revelavam um declínio rápido, de 4,8 milhões de desempregados, em
1933, para 2,7 milhões em 1934, embora boa parte disto se devesse a medidas como entregar
trabalhos passíveis de serem efetuados por um só homem a dois e a uma campanha agressiva
de propaganda que procurava desencorajar as mulheres de trabalharem. Os chamados
campos de concentração «selvagens» tinham sido fechados, em parte graças ao comandante
da Gestapo, Rudolf Diels. No ministério do Interior do Reich ponderava-se acabar por completo
com a custódia protetora e os campos de concentração.

Até Dachau parecia ter-se tornado um local civilizado. A 12 de fevereiro de 1934, um


representante dos quakers, Gilbert L. MacMaster, visitou o campo após ter recebido permissão
para ver um detido, o antigo delegado do Reichstag, então com 62 anos, chamado George
Simon, que fora preso por ser socialista. MacMaster apanhou um comboio em Munique e,
meia hora depois, apeou-se em Dachau, que descreveu como uma «vila de artistas». Dali,
caminhou outra meia hora até chegar ao campo.

Ficou surpreendido com o que viu. «Chegaram mais relatórios de atrocidades deste campo do
que de qualquer outro da Alemanha», escreveu ele. «A aparência exterior, contudo, é melhor
do que a de qualquer outro que eu tenha visto.» A antiga fábrica de pólvora na qual se
encontrava o campo fora construída durante a anterior guerra mundial. «Havia boas casas para
os químicos e os agentes; os barracões para os trabalhadores eram mais estáveis e toda a
fábrica era aquecida a vapor», viu MacMaster. «Isto faz com que Dachau pareça mais bem--
equipada para o conforto dos prisioneiros, sobretudo nos meses frios, do que os campos
improvisados em fábricas ou quintas velhas. Na verdade, a aparência geral é mais a de uma
instituição permanente do que a de um campo.»

242
NO JARDIM DOS MONSTROS

O prisioneiro, Simon, depressa foi levado por um guarda à presença de MacMaster. Envergava
um uniforme cinzento e parecia bem. «Não tinha queixas», escreveu, «à exceção de sofrer
bastante com uma crise de reumático.»

Mais tarde, no mesmo dia, MacMaster falou com um polícia que lhe disse que o campo alojava
dois mil prisioneiros. Só vinte e cinco eram judeus e estes, insistiu o agente, tinham sido
detidos por ofensas políticas, não por causa da sua religião. MacMaster, porém, recebera
informações de que havia ali pelo menos cinco mil prisioneiros e que entre quarenta e
cinquenta seriam judeus, dos quais somente «um ou dois» tinham sido presos por crimes
políticos; outros tinham sido detidos por denúncias de gente «que queria lesá-los nos negócios
e outros por terem sido acusados de se associarem a raparigas não-judias.» Ficou
surpreendido ao ouvir o polícia dizer que encarava os campos «como temporários e que veria
com bons olhos o dia em que pudessem livrar-se deles».

MacMaster concluiu que Dachau até tinha uma certa beleza. «Era uma manhã muito fria»,
escreveu. «O nevoeiro na noite anterior estivera tão denso que eu tinha tido dificuldade para
encontrar o meu hotel. Naquela manhã, o céu estava de um azul perfeito, como se envergasse
as cores da bandeira da Baviera, com nuvens brancas e céu azul, enquanto o nevoeiro da noite
passada cobria as árvores de uma geada espessa.» Tudo estava coberto por uma camada
brilhante de cristais de gelo que davam ao campo um ar etéreo, como algo saído de uma
fábula. Ao sol, as bétulas do pântano que rodeava o campo tornava-se cúpulas de diamante.

Todavia, como em tantas situações da Nova Alemanha, a aparência exterior de Dachau era
enganadora. A limpeza e a eficiência do campo pouco tinha que ver com um desejo de tratar
os detidos de uma forma humanitária. Em junho do ano anterior, um oficial das SS, chamado
Theodor Eicke, assumira o comando de Dachau e compusera um conjunto de regulamentos
que depois se tornaram o modelo a seguir por todos os campos. Promulgadas a 1 de outubro
de 1933, as novas regras codificavam a relação entre guardas e prisioneiros e, com isso,
afastaram o ato da punição do reino do impulso e do capricho, levando-o para um plano onde
a disciplina se tornou sistemática, desapaixonada e previsível. Agora, pelo menos, todos
estavam a par das

243
ERIK LARSON

vez de março de 1933, reconciliando-se com a situação presente, aceitando o estatuto do


inevitável, ajudando-se a mover-se nos seus próprios círculos restringidos e esperando que, tal
como as coisas se alteraram de março de 1933 para março de 1934, continuem a avançar de
uma forma favorável.»

Os protestos reiterados que Hitler fazia quanto a querer a paz constituíam o engodo oficial
mais flagrante. Qualquer um que fizesse o esforço de viajar pelo campo à volta de Berlim
percebê-lo-ia de imediato. Raymond Geist, cônsul-geral interino, tinha o hábito rotineiro de
empreender viagens dessas, muitas vezes de bicicleta. «Antes do final de 1933, durante as
minhas excursões frequentes, descobri, nos arredores de Berlim, em praticamente todas as
estradas que partiam da cidade, grandes estabelecimentos militares, que incluíam campos de
treino, aeroportos, aquartelamentos, campos de testes, postos de defesa antiaérea e outras
construções do género.»

Até o recém-chegado Jack White reconhecia a verdadeira realidade do que estava a acontecer.
«Qualquer um que passeie de carro pelo campo a um domingo pode ver camisas castanhas em
treinos nos bosques», disse ao cunhado, Moffat.

White ficou atónito ao saber que a jovem filha de um amigo era obrigada a passar todas as
tardes de quarta a praticar a arte de atirar granadas de mão. , . ,

A normalidade superficial da Alemanha também ocultava o conflito crescente entre Hitler e


Rohm. Dodd e outros que tinham passado algum tempo na Alemanha sabiam bem que Hider
estava decidido a aumentar o tamanho do exército oficial, o Reichswehr, apesar das proibições
explícitas do Tratado de Versalhes, e que o capitão das SA queria que qualquer aumento
incluísse a incorporação de unidades inteiras das SA, como parte da sua campanha para
conquistar o controlo da força militar da nação. O ministro da Defesa, Blomberg, e os generais
de topo do exército abominavam Rohm e desprezavam a suas legiões toscas de Tropas de
Assalto de camisas castanhas. Gó-ring também detestava Rohm e via a sua ambição de poder
como

246
NO JARDIM DOS MONSTROS

uma ameaça ao seu próprio controlo da nova força aérea da Alemanha, fonte de orgulho e
alegria, que ele se esforçava, discreta mas vigorosamente, para construir.

O que permanecia incerta era a posição exata de Hitler nesta matéria. Em dezembro de 1933,
Hitler fez de Rohm membro do seu governo. Na véspera do Ano Novo, enviou-lhe saudações
calorosas, que foram publicadas na empresa, nas quais elogiava o seu aliado de longa data
pela constituição de uma legião tão efetiva. «Deve saber que me sinto grato ao destino por me
ter permitido chamar a um homem como o senhor meu amigo e companheiro de armas.»

Pouco depois, porém, Hider ordenava a Rudolf Diels que compilasse um relatório sobre os
desvarios cometidos pelas SA e as práticas homossexuais de Rohm e do seu círculo. Mais tarde,
Diels afirmaria que Hitler também lhe pedira que matasse Rohm e certos outros «traidores»,
mas que ele se recusara.

O presidente Hindenburg, alegadamente a última restrição de Hitler, parecia alheio às pressões


que se acumulavam. A 30 de janeiro de 1934, Hindenburg emitiu uma declaração pública a
saudar Hider pelo «grande progresso» que a Alemanha fizera no ano que passara desde a sua
ascensão a chanceler. «Sinto-me confiante», escreveu, «que, ao longo do ano presente, o
senhor e os seus colegas darão seguimento e, com a ajuda de Deus, completarão a grande
tarefa da reconstrução da Alemanha que começaram de forma tão vigorosa, baseando-se na
nova unidade do povo alemão felizmente atingida.»

E assim começava o ano, com uma sensação externa de melhores tempos vindouros e, para os
Dodd, uma nova ronda de festas e banquetes. Envelopes com convites formais em cartões
impressos iam chegando, seguidos como sempre por diagramas dos lugares sentados. A
liderança nazi favorecia uma disposição bizarra nas quais as mesas formavam uma ferradura
retangular, com convidados sentados tanto dentro como fora da configuração. Os que ficavam
sentados no flanco interior passavam a noite num abismo de desconforto social, com os outros
convidados a observarem-lhes as costas. Um desses convites que chegou para Dodd e a família
provinha do vizinho, o capitão Rohm.

247
ERIK LARSON

Mais tarde, Martha teria motivos para guardar um exemplar do mapa dos lugares. Rohm, o
Hausòerr ou anfitrião, sentava-se na parte de cima da ferradura e tinha uma vista completa de
todos os ficavam diante de si. Dodd ficaria à direita de Rohm, numa posição de honra. No lugar
imediatamente à frente de Rohm, no lugar mais desconfortável da ferradura, ficava Heirich
Himmler, que o detestava.

248
CAPÍTULO 29

' CRÍTICAS

Em Washington, o subsecretário Phillips chamou Jay Pierrepont Moffat ao seu gabinete «para
ler uma série de cartas do embaixador Dodd», segundo Moffat anotou no seu diário. Entre
elas, encontra-vam-se missivas recentes nas quais Dodd repetia as suas queixas relativas à
opulência do funcionários do ministério dos Negócios Estrangeiros e ao número de judeus nos
seus quadros, e uma que ousava sugerir uma política externa que os Estados Unidos deveriam
seguir. A nação, escrevera Dodd, deveria descartar o seu «alheamento moralista» porque
«outro conflito de vida e morte na Europa nos afetaria a todos — sobretudo se encontrasse
um conflito paralelo no Oriente (como creio ter sido acordado em conclaves secretos).» Dodd
reconhecia a relutância do Congresso em envolver-se numa questão externa, mas
acrescentava: «Julgo, porém, que os factos importam; mesmo que os abominemos.»

Ainda que Phillips e Moffat não se encantassem com Dodd, estavam cientes de que detinham
pouca autoridade sobre ele, devido à sua relação com Roosevelt, que permitia que Dodd
contornasse o Departamento de Estado e comunicasse diretamente com o presidente sempre
que o desejasse. Agora, no gabinete de Phillips, liam cartas do embaixador e abanavam a
cabeça. «Como de costume», escreveu Moffat no diário, «ele está insatisfeito com tudo.»
Numa missiva, Dodd descrevia dois dos funcionários da embaixada como «competentes, mas
sem qualificações» — levando Moffat a expressar o remoque: «o que quer que isso queira
dizer».

A 3 de janeiro, quarta-feira, o subsecretário, num tom distante e sobranceiro, escreveu ao


embaixador em resposta a algumas das suas queixas, uma das quais dizia respeito à
transferência do sobrinho

249
ERIK LARSON

de Phillips, Orme Wilson, para Berlim. A chegada de Wilson, em novembro, provocara um


crescendo de apreensão competitiva no seio da embaixada. Phillips criticou Dodd por não gerir
melhor a situação. «Espero que não lhe seja difícil desencorajar mais palavreado de natureza
indesejável entre os membros do seu pessoal.»

Quanto às reclamações reiteradas de Dodd acerca dos hábitos de trabalho e qualificações dos
funcionários dos Negócios Estrangeiros, Phillips escreveu: «Confesso que não sou capaz de
compreender a sua sensação de que "alguém no Departamento encoraja pessoas a terem
atitudes e condutas erradas".»

Citava a observação feita por Dodd acerca de haver demasiados judeus no pessoal
administrativo da embaixada, mas afirmava sentir--se «algo confuso» quanto a como resolver
a questão. O embaixador tinha-lhe dito que não queria transferir quem quer que fosse, mas
agora parecia que sim. «Deseja que sejam efetuadas algumas transferências?», perguntou-lhe
Phillips. «Se [...] a questão racial precisa de ser corrigida, tendo em conta as circunstâncias
especiais na Alemanha, será perfeitamente exequível ao Departamento dar seguimento a uma
recomendação definitiva sua.»

Nessa mesma quarta-feira, em Berlim, Dodd escreveu uma carta a Roosevelt que considerou
tão sensível que não só a escreveu à mão como também a enviou primeiro ao amigo coronel
House, para que este pudesse entregá-la pessoalmente ao presidente. Dodd instava ao
afastamento de Phillips do posto de subsecretário, sugerindo que lhe fosse oferecido um cargo
diferente, talvez como embaixador nalgum lugar, como Paris, e acrescentava que a partida de
Phillips de Washington «limitaria um pouco os favoritismos que lá prevalecem».

Escreveu: «Não pense que tenho alguma conta a acertar ou quaisquer rancores pessoais em
relação ao que quer que seja. Espero» — espero — «ser tão-só o serviço público o que motiva
[esta] carta.»

250
CAPÍTULO 30

PREMONIÇÃO

Martha dedicava-se por completo a Boris. O seu amante francês, Armand Berard, ao ver-se
relegado para segundo plano, sofria. Diels também recuou, embora continuasse a ser um
companheiro frequente.

No início de janeiro, Boris preparou um encontro com Martha que proporcionou uma das
noites mais invulgares que ela alguma vez tivera, ainda que não recebesse aviso algum do que
ocorreria, para além do pedido de Boris para que usasse o vestido de que ele mais gostava —
de seda dourada, deixando-lhe os ombros a descoberto com um decote profundo e revelador,
justo na cintura. Ela acrescentou um colar de âmbar e uma pulseira com um buque de
gardénias que Boris lhe dera.

Fritz, o mordomo, cumprimentou Boris à entrada, mas, antes que pudesse anunciar a presença
do russo, este galopou escada acima em direção ao primeiro andar. Fritz seguiu-o. Martha
estava nesse momento a avançar pelo corredor em direção às escadas, como registou numa
descrição detalhada da noite. Ao vê-la, Boris levou um joelho ao chão.

— Oh, minha querida! — exclamou, em inglês. Depois, em alemão: — Estás linda.

Ela ficou encantada e ligeiramente embaraçada. Fritz sorria de orelha a orelha. Boris levou-a
até ao seu Ford — que tinha a capota fechada, felizmente, por causa do frio — e conduziu até
ao restaurante Horcher, na Lutherstrasse, a poucos quarteirões do Tiergarten. Era um dos
melhores restaurantes de Berlim, especializado em carne de caça, e tinha fama de ser o
preferido de Gòring. Também tinha sido identificado, num conto da escritora então popular,
Gina Kaus, como o sítio a ir se o objetivo fosse a sedução. Era possível estar-se sentado

251
ERIK LARSON

numa das banquetas de couro e, umas mesas mais adiante, encontrar--se Gòring,
resplandecente no uniforme que tivesse escolhido para a ocasião. Noutros tempos, também
poderia ver-se escritores, artistas, e músico famosos, bem como financeiros e cientistas judeus
proeminentes — talvez o próprio Einstein, conhecido por gostar de coisas elegantes —, mas,
naquela altura, a maioria já fugira ou encontrava-se subitamente isolada em circunstâncias
que não permitiam noites dispendiosas na cidade. O restaurante resistia, porém, como que
alheio ao facto de algo ter mudado no mundo exterior.

Boris tinha reservado uma sala privada, onde ele e Martha jantaram sumptuosamente,
comendo salmão fumado, caviar, sopa de tartaruga e frango cozinhado de uma forma que
começava a ser conhecido como «Kievsky». A sobremesa escolhida foi bavaroise regada com
brandy. Beberam champanhe e vodca. Martha adorou a comida, a bebida, o local nobre, mas
estava perplexa.

— Para quê tudo isto, Boris? — perguntou-lhe. — O que estamos a celebrar?

Como resposta, ele ofereceu-lhe apenas um sorriso. Depois do jantar, foram de carro para
norte, virando para a Tiergartenstrasse como se se dirigissem para a casa dos Dodd, mas, em
vez de parar ali, Boris seguiu em frente. Avançaram pela orla escurecida da vegetação do
parque até chegarem às Portas de Brandeburgo e à avenida Unter den Linden, cujos sessenta
metros de largura estavam apinhados de automóveis com faróis que a transformavam num
canal de platina. A um quarteirão a leste das Portas, Boris estacionou em frente à embaixada
soviética, no número 7 da Unter den Linden. Encaminhou Martha para o edifício, por vários
corredores e por um lance de escadas, até que chegaram a uma porta sem qualquer placa.

Ele sorriu e abriu a porta, após o que se desviou para a deixar entrar. Acendeu um candeeiro
de mesa e duas velas vermelhas. O quarto recordava-a do primeiro que tivera numa residência
de estudantes, embora Boris tivesse dado o seu melhor para o transformar em algo mais.
Martha viu uma cadeira de espaldar direito, dois cadeirões e uma cama. Sobre a almofada, ele
espalhara um pano bordado que identificou como proveniente do Cáucaso. Um samovar para
preparar chá ocupava uma mesa junto à janela.

252
W^'~

NO JARDIM DOS MONSTROS

A um canto do quarto, numa estante, Martha descobriu uma cole-ção de fotografias de


Vladimir Lenine, em redor de um retrato grande que o mostrava de uma forma que Martha
nunca antes vira, como um amigo fotografado casualmente, não com o rosto severo de Lenine
da propaganda soviética. Também ali estavam vários panfletos em russo, um deles com o título
cintilante, na tradução de Boris, de «Equipas de Inspeção dos Trabalhadores e Camponeses».
Boris declarou que aquele era o seu «canto leninista», o equivalente soviético das imagens
religiosas que os russos ortodoxos costumavam pendurar bem alto no canto de um quarto. «O
meu povo, como és capaz de ter lido nos romances russos que adoras, costumava ter, e ainda
tem, cantos para os ícones», disse ele. «Mas eu sou um russo moderno, um comunista!»

Noutro canto, ela encontrou outro templo, mas a peça central daquele, percebeu então, era
ela própria. Boris chamava-lhe o seu «canto da Martha». Havia um retrato seu numa pequena
mesa, iluminado pela chama vermelha de uma das velas de Boris. Fotógrafo amador
entusiasta, tirara-lhe muitas fotografias durante as viagens pelos arredores de Berlim. Também
havia lembranças — um lenço de linho que ela lhe dera e aquele pé de menta silvestre do
piquenique que tinham feito em setembro de 1933, já seco mas ainda a emanar um odor
ténue. E também estava ali a estátua de madeira de uma freira que ela lhe enviara em resposta
aos três macacos «Não Ver o Mal» — só que Boris adornara a freira com um halo minúsculo
feito de filigrana de ouro.

Mais recentemente, acrescentara pinhas e agulhas de pinheiro ao santuário de Martha, que


espalhavam um aroma florestal ao quarto. Incluíra-as, explicou-lhe, para simbolizar que o seu
amor por ela era «perene».

— Meu Deus, Boris — riu-se ela —, és um romântico! Será isto uma coisa adequada a um
comunista intrépido como tu?

Ele respondeu que, a seguir a Lenine:

— És tu quem eu mais amo. — Beijou-lhe o ombro desnudo e, de repente, ficou muito sério.
— Mas, para o caso de ainda não teres percebido, o meu partido e o meu país têm de estar
sempre em primeiro lugar.

A alteração súbita, a expressão do rosto dele... Martha tornou a rir-se. Disse-lhe que
compreendia.

253
ERIK LARSON

— O meu pai pensa em Thomas Jefferson quase da mesma forma que tu pensas em Lenine.

Estavam a ficar mais à-vontade quando, repentina e discretamente, a porta se abriu e uma
menina loura, que Martha calculou que tivesse uns nove anos, entrou. Percebeu de imediato
que tinha de ser a filha de Boris. Tinha os olhos do pai — «olhos extraordinários e luminosos»,
escreveu ela —, embora em quase tudo o resto nada se parecesse com ele. Tinha um rosto
vulgar e faltava-lhe a alegria irreprimível do pai. Parecia tristonha. Boris levantou-se e foi ter
com ela.

— Porque é que está tão escuro aqui? — perguntou a filha. — Não gosto.

Falava em russo, que Boris ia traduzindo. Martha desconfiava que a menina saberia alemão,
dado que estudava em Berlim, mas que se expressava em russo por pura petulância.

Boris acendeu uma luz no teto, uma lâmpada descoberta. A luz forte dispersou imediatamente
o ar romântico que ele conseguira criar com as velas e os santuários. Disse à filha que
apertasse a mão a Martha e ela assim fez, ainda que com óbvia relutância. Martha considerou
a hostilidade da rapariga desagradável, mas compreensível.

A menina perguntou-lhe em russo:

— Porque estás tão arranjada?

Boris explicou-lhe que era aquela a Martha de que lhe falara. E estava tão bem vestida, disse
ele, porque era a primeira vez que visitava a embaixada soviética, ou seja, tratava-se de uma
ocasião especial.

A menina observou-a. Esboçou um ligeiro sorriso.

— É muito bonita — comentou. — Mas demasiado magra.

O pai explicou-lhe que, não obstante, Martha era saudável. Depois, consultou o relógio. Eram
quase dez horas. Sentou a filha ao colo e acariciou-lhe o cabelo com delicadeza. Ele e Martha
foram conversando acerca de temas triviais enquanto a menina a fitava. Passado algum tempo,
Boris parou de lhe acariciar o cabelo e deu-lhe um abraço, sinal de que estava na altura de ir
para a cama. Ela despediu-se com uma cortesia e, num alemão renitente e quase inaudível,
disse:

— AufWiedersehen, Frãulein Marta.

Boris deu a mão à filha e saiu com ela da divisão.

254
NO JARDIM DOS MONSTROS

Na ausência dele, Martha inspecionou melhor a divisão, continuando a fazê-lo depois de ele
regressar. De vez em quando, olhava de relance para Boris.

— Lenine era muito humano — disse ele, a sorrir. — Teria compreendido o teu canto.

Deitaram-se na cama e abraçaram-se. Ele falou-lhe da sua vida — contou-lhe que o pai
abandonara a família e que, aos dezasseis anos, ele se alistara na Guarda Vermelha.

— Quero que a minha filha tenha uma vida mais fácil — declarou. Queria o mesmo para o seu
país. — Só temos tido tirania, guerra, revolução, terror, guerra civil, fome. Se não formos
atacados outra vez, poderemos ter uma oportunidade de criar algo novo e único na história da
Humanidade. Compreendes?

Por vezes, enquanto lhe ia contando a sua história, caíam-lhe lágrimas pelas faces. Ela já se
habituara. Boris revelou-lhe os seus sonhos para o futuro.

«Depois encostou-me ao seu corpo», escreveu ela. «Das clavículas ao umbigo, tinha a pele
coberta de pelo cor de mel, suave como penugem [...] Sinceramente, pareceu-me lindo e deu-
me uma profunda sensação de calor, conforto e proximidade.»

No final da noite, ele preparou chá e serviu-o no recipiente tradicional — de vidro


transparente com uma estrutura de metal.

— Bom, minha querida, nas últimas horas experimentaste um pouco de uma noite russa.

«Como poderia eu dizer-lhe», escreveu ela mais tarde, «que foi uma das noites mais estranhas
por que alguma vez tinha passado?» Uma sensação de presságio refreava-lhe a satisfação.
Perguntava-se se Boris, ao envolver-se tanto com ela — estabelecendo o seu Canto de Martha
na embaixada e ousando levá-la aos seus aposentos privados —, não teria, de algum modo,
transgredido uma proibição tácita. Pressentia que algum «olho malévolo» teria tomado nota.
«Foi», recordou, «como se um vento sombrio tivesse entrado no quarto.»

Mais tarde, Boris levou-a a casa.

255
CAPITULO 31

..-.;¦ ¦ • TERRORES NOTURNOS

As vidas dos Dodd sofreram uma alteração subtil. Quando antes se sentiam à-vontade para
dizerem o que quisessem na sua casa, experimentavam agora uma constrição nova e
desconhecida. Neste sentido, as suas vidas refletiam o miasma mais abrangente que invadia a
cidade para lá das suas sebes. Começara a circular a seguinte história: um homem telefona
para outro e, no decurso da conversa, pergunta «Como está o Tio Adolf?» Pouco depois, a
Polícia Secreta surge-lhe à porta, insistindo para que prove que tem de facto um tio chamado
Adolf e que a pergunta não era, na realidade, uma referência em código a Hitier. Os Alemães
iam ganhando relutância em permanecer em alojamentos comunais de esqui, receando poder
falar enquanto dormiam. Adiavam cirurgias por causa dos efeitos da anestesia, que poderiam
levá-los a soltar a língua. Os sonhos refletiam o clima de ansiedade. Um alemão sonhou que
um soldado das SA chegava a sua casa e lhe abria a porta do forno, que repetia todos os
comentários negativos que a família fizera contra o governo. Depois de ter expe-rienciado a
vida na Alemanha nazi, Thomas Wolfe escreveu: «Ali estava uma nação inteira [...] infestada
pelo contágio de um medo omnipresente. Era do género de paralisia sinistra que retorcia e
afetava todas as relações humanas.»

Os judeus, como é óbvio, eram os mais afligidos. Numa sondagem feita entre os que
abandonaram a Alemanha, realizada pelos historiadores sociais Eric A. Johnson e Karl-Heinz
Reuband, entre 1993 e 2001, descobriu que 33 por cento tinham sentido um «medo constante
de ser preso». Entre aqueles que tinham vivido em vilas pequenas, mais de metade
recordavam ter sentido esse medo. A maioria dos cidadãos não-judeus, porém, afirmava ter
sentido pouco medo — em Berlim,

256
NO JARDIM DOS MONSTROS

nor exemplo, apenas três por cento descreviam o seu medo de uma detenção como constante
— ainda que não se sentissem completamente à-vontade. Não obstante, a maioria dos
Alemães sentia uma espécie de eco da normalidade. Surgiu entre eles uma admissão de que
capacidade de levar uma vida normal «dependia da aceitação do regime nazi, de se manter a
cabeça baixa e não agir de forma conspícua». Se se alinhassem, se permitissem ser
«coordenados», estariam a salvo — embora esse estudo também tenha encontrado uma
tendência surpreendente entre berlinenses não-judeus para «sair da linha». 32 por cento
recordavam ter contado anedotas antinazis e 49 por cento ter ouvido emissões ilegais de rádio
da Grã-Bretanha e de outras nações. Contudo, só se atreviam a cometer tais infrações em
privado ou entre amigos de confiança, pois tinham noção de que as consequências poderiam
ser letais.

Para os Dodd, ao início, era tudo tão recente e incredível que quase chegava a ser engraçado.
Martha riu-se quando a amiga Mildred Fish Harnack, pela primeira vez, insistiu que entrassem
numa casa de banho para terem uma conversa privada. Mildred acreditava que as casas de
banho, por terem pouca mobília, eram mais difíceis de prover de aparelhos de escuta do que
uma sala de estar atulhada. Mesmo assim, Mildred falava num «sussurro quase inaudível»,
escreveu Martha.

Foi Rudolf Diels o primeiro a transmitir-lhe a realidade nada engraçada da emergente cultura
de vigilância alemã. Certo dia, convi-dou-a a ir ao seu gabinete e, com orgulho evidente,
mostrou-lhe uma variedade de equipamentos usados para gravar conversas telefónicas. Levou-
a a crer que aparelhos de escuta tinham, de facto, sido instalados na embaixada dos Estados
Unidos e na casa da família. A sabedoria popular afirmava que os agentes nazis escondiam
microfones nos telefones, para escutarem conversas nos quartos em redor. No final de certa
noite, Diels pareceu confirmar o rumor. Ele e Martha tinham ido dançar. Mais tarde, ao
chegarem a casa dela, ele acompanhou-a até à biblioteca para tomarem uma bebida. Estava
apreensivo e queria conversar. Martha agarrou numa grande almofada e dirigiu-se à secretária
do pai. Diels, perplexo, perguntou-lhe o que estava a fazer. Ela disse-lhe que tencionava pôr a
almofada em cima do telefone. Diels

257
ERIK LARSON

assentiu lentamente com a cabeça e «um sorriso sinistro passou-lhe pelos lábios».

No dia seguinte, ela contou o episódio ao pai. A novidade surpre-endeu-o. Apesar de aceitar o
facto de haver correio intercetado, telefones sob escuta e linhas telegráficas espiadas, bem
como a probabilidade de haver quem lhe violasse a privacidade na embaixada, nunca teria
imaginado um governo com o descaramento necessário para colocar microfones na residência
privada de um diplomata. Levou o aviso a sério, todavia. Por aquela altura, já assistira a
suficientes comportamentos inesperados de Hitler e dos seus subalternos para saber que tudo
era possível. Encheu uma caixa de cartão com algodão, recordaria Martha, que usava para
tapar o próprio telefone quando uma conversa na biblioteca entrava em território confidencial.

Com o passar do tempo, os Dodd deram por si a confrontar uma ansiedade amorfa que se
infiltrava no quotidiano e que, gradualmente, lhes ia alterando a forma como viviam. A
mudança chegou devagar, como uma névoa ténue que se insinuava em todas as brechas. Era
algo que todos os que viviam em Berlim pareciam experimentar. Come-çava-se a pensar de
forma diferente sobre com quem ir almoçar e, já agora, que café ou restaurante seria melhor
escolher, pois circulavam rumores sobre que estabelecimentos eram alvos favoritos dos
agentes da Gestapo — o bar do Adlon, por exemplo. Demorava-se um ou dois segundos mais
numa esquina, para ver se os rostos que se tinha visto na última esquina apareciam nesta. Nas
circunstâncias mais descontraídas, falava-se com cuidado e prestava-se atenção aos outros de
uma forma que antes nunca existira. Os berlinenses passaram a praticar aquilo que ficou
conhecido como «o olhar alemão» — der deutsche Blick — um rápido relance em todas as
direções quando encontravam um amigo ou um conhecido na rua.

A vida doméstica dos Dodd tornou-se cada vez menos espontânea. Passaram a desconfiar
sobretudo do mordomo, Fritz, que tinha um dom especial para se mover sem fazer barulho.
Martha suspeitava de que ele ficava à escuta quando ela recebia amigos ou amantes. Sempre
que o mordomo surgia a meio de uma conversa familiar, esta esmorecia e tornava-se
desconexa, numa reação quase inconsciente.

258
NO JARDIM DOS MONSTROS

Depois de férias e fins de semana passados fora, o regresso da família era sempre ensombrado
pela probabilidade de que, na sua ausência, novos aparelhos tivessem sido instalados e antigos
reativados. «Não há forma possível de descrever com a frieza de palavras escritas o que a
espionagem pode fazer a um ser humano», escreveu Martha. Suprimia o discurso rotineiro —
«as reuniões familiares e a liberdade de discurso e de ação foram de tal maneira circunscritas
que perdemos até a mais ténue semelhança com uma família norte-americana normal.
Sempre que queríamos falar, tínhamos de olhar para lá de esquinas e portas fechadas, estar
atentos ao telefone e falar em sussurros.» A tensão de tudo isto surtiu um forte efeito na Sra.
Dodd. «À medida que o tempo ia passando, e o horror aumentando», escreveu Martha, «a sua
cortesia e graciosidade perante os funcionários nazis que era forçada a ver, entreter e
acompanhar em jantares tornou--se um fardo tão intenso que ela mal conseguia suportá-lo.»

Martha acabou por dar por si a servir-se de códigos rudimentares nas conversas que tinha com
amigos, uma prática cada vez mais comum por toda a Alemanha. A amiga Mildred usava um
código nas cartas que enviava, segundo o qual elaborava frases que significavam o oposto do
que as palavras em si queriam dizer. Tais práticas ti-nham-se tornado habituais e necessárias, o
que gente de fora tinha dificuldade em compreender. Um professor norte-americano chamado
Peter Olden, amigo da família, escreveu a Dodd, a 30 de janeiro de 1934, para lhe contar que
recebera uma carta do cunhado, que vivia na Alemanha, na qual o homem descrevia o código
que planeava usar em toda a correspondência vindoura. A palavra «chuva», em qualquer
contexto, significaria que tinha sido levado para um campo de concentração. A palavra «neve»
quereria dizer que estava a ser torturado. «Parece-me absolutamente inacreditável», dizia
Olden a Dodd. «Se achares que isto não passa de uma espécie de piada de mau gosto, será
que podes indicar-mo numa carta?»

A resposta prudente de Dodd foi um trabalho engenhoso de omissão deliberada, embora a


mensagem a passar fosse clara. Chegara à conclusão de que até a correspondência diplomática
era intercetada e lida por agentes alemães. Um tema de preocupação crescente era

259
ERIK LARSON

o número de empregados alemães que trabalhavam para o consulado e a embaixada. Um


administrativo em particular chamara à atenção j dos funcionários consulares. Chamava-se
Heinrich Rocholl e tratava- 1 -se de um empregado de longa data que ajudava a preparar os
relato- 1 rios do adido comercial norte-americano, cujo gabinete se encontrava 1 no
primeiro andar do consulado da Bellevuestrasse. Nos seus tempos 1 livres, Rocholl fundara
uma organização pró-nazi, a Associação de } Ex-Alunos Alemães nos Estados Unidos, que
editava uma publicação | chamada Kundbriefe. Ultimamente, Rocholl fora encontrado a
tentar jj «descobrir os conteúdos de relatórios confidenciais do Adido Comer- 1 ciai»,
segundo um memorando que o cônsul-geral interino Geist en- 1 viou para Washington.
«Também teve conversas com outros membros alemães do pessoal que auxiliam o trabalho
necessário para os relatórios e intimou-os com a declaração de que tal trabalho deveria \ ser,
sob todos os aspetos, favorável ao regime atual.» Num número do Kundbriefe, Geist
encontrou um artigo no qual «alusões depreciativas eram feitas tanto ao Embaixador como ao
Sr. Messersmith». Para Geist, esta foi a gota de água. Baseando-se no «ato explícito de
deslealdade para com os seus superiores», despediu-o.

Dodd apercebeu-se de que a melhor forma de ter uma conversa verdadeiramente privada com
qualquer pessoa seria proporcionar o encontro num passeio pelo Tiergarten, como fazia
frequentemente com o seu homólogo britânico, sir Eric Phipps. «Às llh30, irei dar um passeio
na Hermann-Gõring-Strasse, ao longo do Tiergarten», disse Dodd a Phillips num telefonema
que lhe fez às 10 horas de certa manhã. «Terá disponibilidade para se encontrar comigo lá e
conversar um pouco?» E Phipps, noutra ocasião, enviou-lhe uma nota escrita à mão, na qual
lhe perguntava: «Poderemos encontrar-nos amanhã ao meio-dia na Siegesallee, entre a
Tiergartenstrasse & a Charlottenbur-ger Chaussee, do lado direito (de quem parte daqui)?»

Poderá não se saber se havia efetivamente ou não um rendilhado de aparelhos de escuta na


embaixada e na casa dos Dodd, mas o facto evidente era que a família passou a ver a vigilância
nazi como

260
NO JARDIM DOS MONSTROS

omnipresente. Apesar do desgaste que esta perceção causava nas suas vidas, acreditavam que
tinham uma vantagem significativa em relação aos seus pares alemães — que nenhum mal
físico lhes aconteceria. O estatuto privilegiado de Martha, contudo, não oferecia proteção
alguma aos seus amigos e, quanto a isto, ela tinha um verdadeiro motivo de preocupação,
dada a natureza dos homens e mulheres com quem criava laços de amizade.

Tinha de ter especial cuidado com a sua relação com Boris — como representante de um
governo desprezado pelos nazis, estaria, sem dúvida, sob vigilância —, e com Mildred e Arvid
Harnack, ambos cada vez mais adversos ao regime nazi e a dar os primeiros passos para a
criação de uma associação informal de homens e mulheres decididos a resistir ao poder nazi.
«Se eu tivesse estado com pessoas suficientemente corajosas ou irresponsáveis para falarem
contra Hitler», escreveu Martha nas suas memórias, «passava noites em claro, a pensar se um
dictafone ou um telefone teriam registado a conversa, ou se teríamos sido seguidos por
homens que nos escutassem.»

Naquele verão de 1933-34, a sua ansiedade transformou-se num novo género de terror que
«raiava a histeria», como ela o descrevia. Nunca sentira tanto medo. Deitava-se na sua cama,
no seu quarto, com os pais no andar de cima, tão segura, em termos objetivos, quanto seria
possível, mas, ao ver as sombras provocadas pelos candeeiros de rua no seu teto, não
conseguia impedir que o terror lhe infundisse a noite.

Ouvia, ou julgava ouvir, o raspar de solas duras na gravilha do acesso lá em baixo, um som
hesitante e intermitente, como se alguém lhe vigiasse o quarto. Durante o dia, as muitas
janelas do seu quarto deixavam entrar a luz e a cor; à noite, conjuravam vulnerabilidade. O
luar lançava sombras em movimento nos relvados e nos passeios entre os pilares altos do
portão. Nalgumas noites, imaginava escutar conversas sussurradas, até tiros distantes, embora
durante o dia fosse capaz de justificar esses sons como produtos do vento a soprar na gravilha
e de motores de automóveis.

Contudo, tudo era possível. «Sentia tão frequentemente esse terror», escreveu ela, «que, por
vezes, ia acordar a minha mãe e pedir-lhe que fosse dormir para o meu quarto.»

261
CAPITULO 32

ALERTA DE TEMPESTADE

Em fevereiro de 1934, Dodd soube de rumores que sugeriam que o conflito entre Hitler e o
capitão Rohm tinha atingido um novo nível de intensidade. Os rumores eram bem
fundamentados.

Perto do final do mês, Hitler surgiu diante de uma reunião de oficiais de topo das SA de Rohm,
das SS de Heinrich Himmler e do exército oficial, o Reichswehr. A seu lado, no palanque,
encontravam--se Rohm e o ministro da Defesa, Blomberg. A atmosfera na sala estava
carregada. Todos os presentes estavam ao corrente do conflito latente entre as SA e o exército
e esperavam que Hitler abordasse o assunto.

Em primeiro lugar, o ditador falou de questões mais abrangentes. A Alemanha, declarou,


precisava de espaço para se expandir, «mais espaço habitável para a nossa população
excedente». E a Alemanha, prosseguiu, tinha de estar preparada para o conquistar.

— As potências ocidentais nunca nos cederão esse espaço vital — disse Hider. — É por isso
que poderá ser necessária uma série decisiva de golpes... primeiro a oeste, depois a leste.

Depois de elaborar mais esta ideia, virou-se para Rohm. Naquela sala, todos conheciam as
ambições do capitão. Algumas semanas antes, Rohm apresentara uma proposta formal para
que o Reichswehr, as SA e as SS fossem consolidados num único ministério, sem dizer, mas
deixando implícito, que deveria ser ele o ministro responsável. Nesta ocasião, de frente para o
capitão, Hider declarou:

«As SA deverão limitar-se à sua função política.»

Rohm conservou uma expressão de indiferença. Hitier continuou:

«O ministério da Guerra poderá convocar as SA para controlar as fronteiras e para treinos pré-
guerra.»

262
NO JARDIM DOS MONSTROS

Também aquilo era uma humilhação. Hitler não só confinava as SA às tarefas decididamente
inglórias de controlo de fronteiras e trei-noS — estava também a colocar Rohm numa posição
subalterna em relação a Blomberg, como destinatário de ordens e não sua fonte. Rohm
manteve-se sem reação e Hitier afirmou:

— Das SA, espero uma execução leal da missão que lhe é confiada. Concluído o discurso, Hitler
virou-se novamente para Rohm,

agarrou-lhe o braço e apertou-lhe a mão. Fitaram-se, olhos nos olhos. Tratava-se de um


momento orquestrado, com o propósito de transmitir a ideia de reconciliação. Hider partiu.
Desempenhando o seu papel, Rohm convidou então os oficiais reunidos para almoçarem nos
seus alojamentos. O banquete, seguindo o estilo típico das SA, foi sumptuoso, acompanhado
por uma torrente de champanhe, mas o ambiente era tudo menos festivo. Num momento
apropriado, Rohm e os seus soldados das SA levantaram-se para darem a entender que o
almoço chegara ao fim. Ouviram-se calcanhares a bater, uma floresta de braços lançou-se em
diante na saudação hitleriana, gritaram-se heils e os líderes militares saíram.

Rohm e os seus homens permaneceram. Beberam mais champanhe, mas todos estavam com
uma disposição sombria.

Para o capitão, os comentários de Hitler constituíam uma traição à longa história que
partilhavam. Parecia que o Fiihrer se esquecera do papel crucial desempenhado pelas Tropas
de Assalto na sua ascensão ao poder.

Agora, sem se dirigir a alguém em particular, Rohm dizia:

— Aquilo foi um novo Tratado de Versalhes. — Alguns instantes depois, acrescentou: — Hitler?
Se ao menos pudéssemos livrar-nos daquele inútil...

Os homens das SA demoraram-se um pouco mais, partilhando reações iradas ao discurso de


Hider — e tudo isto na presença de um oficial superior chamado Viktor Lutze, que considerava
a situação profundamente perturbadora. Uns dias mais tarde, Lutze comunicou o episódio a
Rudolf Hess, na altura um dos assessores mais próximos de Hider, que o instou a ver o ditador
em pessoa e contar-lhe tudo.

Depois de ouvir o relato de Lutze, Hider respondeu:

— Teremos de deixar que a coisa amadureça.

263
CAPITULO 33

' <<MEMORANDO DE UMA CONVERSA COM HITLER»

A alegria que Dodd sentia em relação à sua partida iminente foi maculada por duas exigências
inesperadas. A primeira chegou numa segunda-feira, 5 de março de 1934, quando foi
convocado ao gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros, Neurath, que, muito zangado, o
intimou a fazer algo para travar o julgamento fictício de Hitler que teria lugar dois dias depois,
no Madison Square Garden, em Nova Iorque. O julgamento fora organizado pelo Congresso
Judaico Americano, com o apoio da Federação Americana do Trabalho e mais umas duas
dúzias de organizações judaicas e antinazis. O plano irara Hitler de tal forma que este ordenara
a Neurath e aos seus diplomatas em Berlim e Washington que o impedissem.

Um resultado foi uma sequência de protesto, respostas e memorandos oficiais que revelavam
tanto a sensibilidade da Alemanha à opinião externa como os extremos a que os funcionários
norte-ameri-canos se sentiam obrigados a chegar para evitar críticas diretas a Hitler e ao seu
partido. O grau de discrição teria sido cómico, se o que estava em jogo não fosse tão grave, e
suscita uma pergunta: porque estariam o Departamento de Estado e o presidente Roosevelt
tão hesitantes quanto a expressarem, em termos francos, o que realmente pensavam de Hider,
numa altura em expressá-lo teria surtido um efeito potente no prestígio mundial do ditador?

A embaixada alemA em Washington ficou a saber do julgamento planeado semanas antes, em


fevereiro, através de anúncios no jornal New York Times. O embaixador alemão nos Estados
Unidos, Hans

264
NO JARDIM DOS MONSTROS

Luther> apressou-se a reclamar ao secretário de Estado Hull, cuja resposta foi cautelosa:
«Declarei que lamentava ver aquelas discórdias surgirem entre pessoas do país dele e do meu;
que daria à questão toda a atenção devida que fosse possível e justificável no conjunto total
das circunstâncias.»

A 1 de março de 1934, o segundo homem na hierarquia da embaixada alemã, Rudolf Leitner,


encontrou-se com um funcionário do Departamento de Estado, chamado John Hickerson, e
instou-o a «fazer algo que impedisse este julgamento devido ao efeito lamentável que surtiria
na opinião pública alemã caso viesse a ter lugar.» Hickerson replicou que, devido às «nossas
garantias constitucionais de liberdade de expressão», o governo federal nada poderia fazer
para o cancelar.

Leitner tinha dificuldade em compreender isso. Disse a Hickerson «que, se as circunstâncias se


invertessem, o governo alemão decerto encontraria um modo de "impedir tal processo".»

Quanto a essa questão, Hickerson não tinha dúvidas. «Respondi», escreveu Hickerson, «que,
segundo sei, o governo alemão não tem uma ação tão limitada em relação a estas questões
como o governo norte-americano.»

No dia seguinte, sexta-feira, 2 de março, o embaixador Luther encontrou-se pela segunda vez
com o secretário Hull para protestar contra o julgamento.

O próprio Hull teria preferido que o julgamento fictício não ocorresse. Complicava as coisas e
tinha o potencial de reduzir ainda mais a relutância da Alemanha em pagar as suas dívidas. Ao
mesmo tempo, o regime nazi desagradava-lhe. Ainda que evitasse fazer qualquer declaração
crítica direta, dava-lhe um certo prazer dizer ao embaixador alemão que os participantes «não
estavam minimamente sob o controlo do governo federal» e que, por conseguinte, o
Departamento de Estado não tinha qualquer poder para intervir.

Foi então que o ministro dos Negócios Estrangeiros convocou Dodd. Neurath manteve-o à
espera durante dez minutos, coisa que Dodd «notou e ressentiu». O atraso recordou-o da
desconsideração com que o tratara em outubro, depois do seu discurso no Dia de Colombo
sobre Graco e César.

265
w

ERIK LARSON

Neurath passou-lhe um aide-mémoire — uma declaração escrita entregue por um diplomata a


outro, regra geral a respeito de situações sérias, nas quais uma comunicação verbal poderia
distorcer a mensagem pretendida. Aquele era inesperadamente imoderado e ameaçador. Dizia
que o julgamento fictício era uma «manifestação maliciosa» e citava um padrão de
«expressões insultuosas» similares que tinham tido lugar nos Estados Unidos ao longo do ano
anterior, descrevendo-as como «um combate equiparado a uma interferência direta nas
questões domésticas de outro país». O documento também atacava um boicote judaico-
americano em vigor a produtos alemães, promovido pelo Congresso Judaico Americano.
Jogando com os receios norte --americanos de um incumprimento germânico, declarava que o
boicote afetara os pagamentos aos Estados Unidos a tal ponto que «o cumprimento das
obrigações das companhias alemães aos seus credores americanos só tem sido parcialmente
possível».

Neurath terminava o aide-mémoire afirmando que, por causa do julgamento fictício, «a


manutenção de relações amistosas, sinceramente desejada por ambos os governos, se torna
extremamente difícil doravante».

Depois de o ler, Dodd explicou serenamente que, na América, «ninguém suprimiria uma
reunião pública ou privada», uma questão que os Alemães pareciam absolutamente incapazes
de compreender. O embaixador insinuou ainda que a Alemanha era responsável por aqueles
problemas de relações públicas. «Relembrei o ministro de que ainda ocorrem aqui muitas
coisas chocantes para a opinião pública estrangeira.»

Depois da reunião, Dodd enviou um telegrama ao secretário Hull, no qual o informava de que
o julgamento fictício provocara «uma extraordinária impressão» no governo alemão. Dodd
incumbiu o pessoal da embaixada de traduzir o aide-mémoire de Neurath e só depois lho
enviou por correio.

Na manhã anterior ao julgamento fictício, o embaixador alemão Luther voltou a tentar


embargá-lo. Desta feita, acorreu ao subsecretário William Phillips, que também lhe disse que
nada poderia ser feito. Luther exigiu que o departamento anunciasse, de imediato, «que nada
do que seria dito no ajuntamento representaria a opinião do governo».

266
NO JARDIM DOS MONSTROS

Também quanto a isto Phillips demonstrou renitência. Não havia tempo suficiente para
preparar tal declaração, explicou; acrescentou ainda que seria inapropriado que o secretário
de Estado tentasse prever o que os oradores diriam ou não no julgamento.

Luther fez uma última tentativa e pediu que o Departamento de Estado emitisse pelo menos
tal repúdio na manhã a seguir ao julgamento.

Phillips respondeu que não poderia comprometer o departamento mas que «levaria a questão
em linha de conta».

O julgamento ocorreu conforme planeado, sob a vigilância de 320 agentes à paisana da Polícia
da Cidade de Nova Iorque. No Madison Square Garden, quarenta detetives à civil circulavam
entre as vinte mil pessoas ali presentes. As vinte «testemunhas» que depuseram no
julgamento incluíam o rabi Stephen Wise, o major Fiorello LaGuardia e um antigo secretário de
Estado, Bainbridge Colby, que fez o discurso de abertura. O julgamento concluiu com a
condenação de Hitler: «Declaramos que o governo de Hitler está a obrigar o povo alemão a
regredir da civilização para um despotismo antiquado e bárbaro, que ameaça o progresso da
Humanidade em direção à paz e à liberdade e que é uma ameaça presente à vida civilizada em
todo o mundo.»

Numa conferência de imprensa no dia seguinte, Phillips declarou não ter «qualquer
comentário a fazer, para além de reiterar a natureza privada da reunião e que nenhum
membro da Administração esteve presente.»

Phillips e os colegas concentraram-se noutros assuntos. Como em breve se tornaria aparente,


todavia, a Alemanha ainda não estava disposta a esquecer a questão.

A segunda tarefa desagradável que Dodd tinha de completar antes de partir era encontrar-se
com Hitler. Recebera uma diretiva do secretário Hull para transmitir ao chanceler a
consternação norte-ameri-cana perante uma torrente de propaganda nazi recentemente
lançada no território dos Estados Unidos. Putzi Hanfstaengl organizou a reunião, que seria
privada e secreta — apenas Hitler e Dodd — e, assim, na quarta-feira, 7 de março, pouco antes
da uma da tarde, o embaixador

267
ERIK LARSON

encontrou-se de novo na Chancelaria do Reich, a caminho do gabinete de Hitler, passando pela


habitual chusma de guardas a baterem calcanhares e a fazerem a saudação.

Primeiro, Dodd perguntou ao chanceler se tinha uma mensagem pessoal para Roosevelt que
ele pudesse transmitir-lhe quando se encontrasse com o presidente em Washington.

Hitier hesitou. Fitou-o por um instante.

— Fico-lhe muito grato — respondeu —, mas isto apanha-me de surpresa e gostaria que me
desse tempo para pensar no assunto e informá-lo depois.

Conversaram durante algum tempo sobre questões inócuas antes de Dodd abordar o assunto
premente — «a propaganda infeliz que tem sido feita nos Estados Unidos», como registou
num memorando que compôs a seguir à reunião.

Hitier «fingiu-se surpreendido», escreveu Dodd, após o que pediu pormenores.

Nos últimos dez dias, disse-lhe Dodd, começara a circular nos Estados Unidos um panfleto nazi,
contendo aquilo que o embaixador descreveu como «um apelo aos Alemães noutros países
para se verem sempre como Alemães obrigados a uma lealdade moral, se não política, à
pátria.» Dodd comparou-a com propaganda semelhante distribuída nos EUA em 1913, bem
antes de a América ter entrado na guerra anterior.

Hitler irritou-se.

— Ach!— exclamou. — Não passam de mentiras de judeus; se encontro um que o faça,


expulso-o de imediato do país.

Com este comentário, a conversa passou para uma discussão mais abrangente e nociva acerca
do «problema judaico». Hitier condenava todos os judeus e culpava-os por qualquer má
vontade que tivesse surgido nos Estados Unidos em relação à Alemanha. Ficou enraivecido e
praguejou:

— Malditos sejam os judeus!

Dada a fúria do chanceler, Dodd considerou que seria prudente refrear-se de abordar a
questão do julgamento fictício, que teria lugar naquele dia em Nova Iorque. Hitier também não
o mencionou.

Em vez disso, Dodd disse que a situação judaica poderia ser resolvida pacífica e
humanitariamente.

268
NO JARDIM DOS MONSTROS

-— Saberá que outros países enfrentam um problema judaico — disse a Hitler.

Prosseguiu então, descrevendo como o Departamento de Estado estava a apoiar


oficiosamente uma nova organização estabelecida pela Sociedade das Nações, sob a direção
de James G. MacDonald, recentemente nomeado para o posto de alto-comissário dos
Refugiados da Alemanha, para realocar judeus, nas palavras de Dodd, «sem demasiado
sofrimento».

Hitler descartou de imediato a ideia. O esforço fracassaria, disse ele, independentemente do


dinheiro que a comissão conseguisse angariar. Os judeus, afirmava, transformá-la-iam numa
arma para «atacar a Alemanha e provocar problemas intermináveis».

Dodd contrapôs que a abordagem atual da Alemanha estava a causar grandes danos à
reputação da nação nos Estados Unidos. Estranhamente, Dodd passou então a procurar uma
espécie de entendimento com o ditador. Disse-lhe:

— Sabe que várias posições elevadas no nosso país estão presentemente ocupadas por judeus,
tanto em Nova Iorque como no Illinois.

Mencionou diversos «hebreus eminentes e razoáveis», incluindo Henry Morgenthau Jr.,


secretário do Tesouro de Roosevelt desde ja-1 neiro. Dodd explicou a Hitler «que quando a
questão de sobreativida-de judaica na vida académica ou oficial se tornou problemática,
conseguimos redistribuir os cargos de forma a não causar grandes ofensas e a garantir que
judeus abastados continuavam a apoiar instituições ; que tinham limitado o número de judeus
que ocupassem posições ele-* vadas.» Citou um exemplo desses ocorrido em Chicago e
acrescentou: í «os judeus no estado do Illinois não constituíam um problema sério». No seu
memorando, o embaixador justificava a abordagem: «A minha ideia era sugerir-lhe um
procedimento diferente do que tem sido seguido aqui — sem chegar, claro, a oferecer
conselhos óbvios.» Hitler ripostou que «59 por cento de todos os cargos na Rússia eram
detidos por judeus; que tinham arruinado esse país e tencionavam arruinar a Alemanha». Mais
furioso do que nunca, proclamou:

— Se continuam com essa atividade, acabaremos com eles por completo neste país.

269
ERIK LARSON

Foi um momento estranho. Ali estava Dodd, o humilde jefferso-niano ensinado a ver estadistas
como criaturas racionais, sentado diante do líder de uma das maiores nações da Europa
enquanto este ficava praticamente histérico de fúria e ameaçava destruir uma porção do seu
próprio povo. Tratava-se de algo extraordinário, completamente alheio a toda a sua
experiência.

Com muita calma, Dodd reencaminhou a conversa para as perce-ções norte-americanas,


dizendo a Hider «que a opinião pública nos Estados Unidos está firmemente convencida de
que o povo alemão, se não o seu governo, é militarista e talvez até beligerante» e que «a
maioria das pessoas nos Estados Unidos tem a sensação de que a Alemanha tem o objetivo de,
um dia, declarar a guerra». Então, perguntou-lhe:

— Há alguma base de verdade nesta perceção?

— Não há absolutamente base alguma — respondeu Hitler. A sua fúria parecia estar a mitigar-
se. — A Alemanha quer a paz e fará tudo ao seu alcance para manter a paz; contudo, a
Alemanha exige e terá igualdade de direitos na questão do armamento.

Dodd alertou-o de que Roosevelt dava grande importância ao respeito pelas fronteiras
nacionais existentes.

Nesse ponto, replicou Hitler, a atitude de Roosevelt correspondia à sua e ele professava estar
«muito grato» por isso.

Bom, então, quis saber Dodd, consideraria a Alemanha participar numa conferência
internacional sobre desarmamento internacional?

Hitler esquivou-se à questão e voltou a atacar os judeus. Tinham sido eles, alegava, quem
promovera a perceção de que a Alemanha desejava a guerra.

Dodd conduziu-o de novo à questão. Concordaria ele com dois pontos: que «nenhuma nação
deveria atravessar as fronteiras de outra, e que todas as nações europeias deveriam dar o seu
aval a uma comissão supervisora e respeitar as deliberações de tal organização?»

Sim, disse Hitler, segundo Dodd observou, «com ânimo».

Mais tarde, Dodd anotou uma descrição de Hitler no seu diário: «Tem uma perspetiva
romântica e mal informada a respeito de grandes acontecimentos e figuras históricas da
Alemanha.» Tinha um registo «semicriminoso». «Disse explicitamente em várias ocasiões que

270
NO JARDIM DOS MONSTROS

um povo sobrevive através da luta e morre em consequência de políticas pacifistas. A sua


influência é e tem sido completamente beligerante.»

Como se podia, então, reconciliar isto com as muitas declarações hitlerianas de intenções
pacíficas? Como antes, Dodd cria que Hitler era «absolutamente sincero» quanto a querer a
paz. Agora, todavia, o embaixador apercebera-se, como Messersmith antes dele, que o
verdadeiro intuito de Hitler era conseguir tempo para a Alemanha se rearmar. Hitler queria a
paz apenas para se preparar para a guerra. «Latente na sua mente», escreveu Dodd, «subsiste
o velho conceito germânico de dominar a Europa pela guerra.»

Dodd preparava-se para a sua viagem. Embora fosse ausentar-se durante dois meses,
tencionava deixar a esposa e os filhos em Berlim. Sentiria a falta deles, mas mal podia esperar
por embarcar para os Estados Unidos e para a sua quinta. Menos animadora era a perspetiva
das reuniões que se veria forçado a ter no Departamento de Estado imediatamente após a sua
chegada. Planeava aproveitar a oportunidade para dar seguimento à sua campanha para
tornar o serviço diplomático mais igualitário, confrontando diretamente os membros do Clube
Bem-Bom: o subsecretário Phillips, Moffat, Carr e um secretário de Estado adjunto cada vez
mais influente, Sumner Welles, outro licenciado de Harvard e confidente de Roosevelt (fizera
parte do cortejo de crianças a segurar na cauda do vestido da noiva do presidente, quando
este se casara em 1905) que fora crucial na elaboração da política da «Boa Vizinhança» do
presidente. Dodd teria gostado de regressar à América com alguma prova concreta de que a
sua abordagem à diplomacia — a sua interpretação do mandato de Roosevelt para servir como
um exemplo dos valores norte-americanos — exercera uma influência moderadora no regime
hitleriano, mas tudo o que adquirira até então fora repugnância por Hitler e pelos seus
delegados, bem como mágoa pela Alemanha perdida das suas memórias.

Pouco antes de partir, contudo, surgiu um vislumbre de luz que o acalentou e lhe sugeriu que
os seus esforços não tinham sido em vão. A 12 de março, um funcionário dos serviços
diplomáticos alemães, Hans-Heinrich Dieckhoff, anunciou numa reunião do Clube de

271
ERIK LARSON

Imprensa Alemã que, dali em diante, a Alemanha requereria que fosse emitido um mandado
antes de qualquer detenção e que a famigerada prisão de Columbia-Haus seria encerrada.
Dodd estava convicto de que tivera peso nessa decisão.

Ficaria menos animado se soubesse da reação privada de Hitler à última reunião que tinham
tido, segundo Putzi Hanfstaengl a registou. «Dodd não o impressionou de todo», escreveu
Hanfstaengl. «Hitler quase teve pena dele.» Depois do encontro, o chanceler dissera: «Dergute
Dodd. Mal consegue falar alemão e não fez qualquer sentido.»

O que coincidia bastante com a reação, em Washington, de Jay Pierrepont Moffat que, no seu
diário, escreveu: «O embaixador Dodd, agindo por moto próprio, abordou a ideia do
presidente de não-agressão diante de Hitler e perguntou-lhe à queima-roupa se participaria
numa conferência internacional para a discutir. De onde terá tirado a ideia de que
desejávamos outra conferência internacional é um mistério.» Com exasperação patente,
acrescentou: «Sinto-me satisfeito por ele estar prestes a regressar, ausentando-se das
funções.»

Na noite antes de partir, Dodd subiu as escadas para o seu quarto e deparou-se com Fritz, o
mordomo, a preparar-lhe as malas. Ficou incomodado. Não confiava em Fritz, mas não era isso
o que estava em causa. O que se passava era que os esforços de Fritz colidiam com os seus
instintos jeffersonianos. No diário, escreveu: «Não julgo que seja uma desgraça para um
homem fazer as suas próprias malas.»

A 13 de março, uma terça-feira, viajou de carro com a família até Hamburgo, a 290 quilómetros
de Berlim, onde se despediu de todos e se instalou no seu camarote a bordo do S.S.
Manhattan, da companhia United States Lines.

Dodd estava alegremente a atravessar o oceano quando a fúria do governo alemão em relação
ao julgamento fictício tornou a infla-mar-se. O Terceiro Reich, ao que parecia, era
simplesmente incapaz de esquecer o assunto.

272
NO JARDIM DOS MONSTROS

NJo dia da partida de Dodd, seis dias após o julgamento, o embaixador Luther, em Washington,
tornou a visitar o secretário Hull. De acordo com o relato de Hull, Luther protestou «pelos atos
ofensivos e insultuosos executados pelo povo de um país contra o governo e os seus
representantes de outro país.»

por esta altura, Hull já estava a perder a paciência. Depois de oferecer uma expressão pró-
forma de pesar e de reiterar que o julgamento fictício nenhuma ligação tivera com o governo
dos Estados Unidos, acrescentou um ataque capcioso: «Declarei ainda que tinha esperança de
que os povos de todos os países pudessem, no futuro, exercer tal autodomínio que lhes
permitisse refrearem-se de manifestações excessivas ou impróprias, bem como de manifestos
contra a ação de povos de outros países. Procurei deixar com isto bem clara a referência à
Alemanha. Depois, acresci o comentário mais generalizado de que o mundo parece encontrar-
se numa fermentação de proporções consideráveis, o que resulta em que pessoas de vários
países não pensem nem ajam normalmente.»

Dez dias depois, enfrentando um nevão, o embaixador alemão regressou, mais irado do que
nunca. Assim que Luther entrou no gabinete de Hull, este comentou que esperava que o
embaixador «não se sentisse tão gelado como a neve que caía na rua».

Numa linguagem que o secretário caracterizaria como «quase violenta», Luther passou os
quarenta e cinco minutos seguintes a citar uma lista de «expressões abusivas e insultuosa de
cidadãos norte-ame-ricanos contra o governo de Hider.»

Hull afirmou lamentar que os Estados Unidos se tivessem tornado um alvo da crítica
germânica, mas depois comentou que, pelo menos, «o meu governo não se encontrava
sozinho nessa situação; que praticamente todos os governos que rodeavam a Alemanha e
também aqueles que se encontravam no seu país também pareciam sujeitos ao desfavor
distinto por um ou outro motivo; e que o seu governo, presentemente, parecia estar por
alguma razão isolado quase por completo de todos os outros países, ainda que não tenha
insinuado de forma alguma que isso fosse culpa sua. Disse, contudo, que talvez fosse
aconselhável que o governo alemão verificasse as suas circunstâncias de isolamento e
perceber onde recaía o problema ou a responsabilidade.»

273
ERIK LARSON

Hull também realçou que a relação dos Estados Unidos com anteriores governos alemães fora
«uniformemente agradável» e que «só durante o controlo do governo atual é que os
problemas apresentados tinham surgido, para nosso grande desgosto pessoal e oficial.» Teve o
cuidado de salientar que, decerto, tal se trataria de uma mera «coincidência».

Todo o problema desapareceria, aludiu Hull, se a Alemanha «pudesse simplesmente pôr fim
aos relatos de danos pessoais que chegavam continuamente aos Estados Unidos, vindos da
Alemanha, o que instigava um ressentimento amargurado em muitas pessoas daqui».

E escreveu: «Estávamos obviamente a referir-nos à perseguição dos judeus durante toda a


conversa.»

Uma semana depois, o secretário Hull lançou aquela que provaria ser a derradeira arremetida
quanto àquela questão. Tinha, por fim, recebido a tradução do aide-mémoire que Neurath
entregara a Dodd. Desta feita, foi a vez de Hull ficar zangado. Respondeu com um aide--
mémoire da sua lavra, que seria entregue pessoalmente a Neurath pelo encarregado de
negócios interino em Berlim, John C. White, que geria a embaixada na ausência de Dodd.

Depois de criticar Neurath pelo «tom áspero invulgar nas comunicações diplomáticas» que
caracterizara o aide-mémoire do alemão, Hull deu-lhe uma breve introdução aos princípios
norte-americanos.

Escreveu que «é bem sabido que o livre exercício de religião, a liberdade de discurso e da
imprensa, bem como o direito à reunião pacífica, não são apenas garantidos aos nossos
cidadãos pela Constituição dos Estados Unidos, mas são também crenças bem enraizadas na
consciência política do povo americano.» E contudo, prosseguia Hull, no seu aide-mémoire
Neurath tinha descrito incidentes em relação aos quais a Alemanha julgava que o governo dos
EUA deveria ter ignorado estes princípios. «Parece, por conseguinte, que os pontos de vista
dos dois governos, no que diz respeito às questões de liberdade de discurso e de reunião, são
irreconciliáveis, e qualquer discussão deste diferendo não poderá melhorar as relações que o
Governo dos Estados Unidos deseja manter numa tão base amistosa como o interesse comum
dos dois povos requer.»

E assim, finalmente, a batalha por causa do julgamento fictício chegou ao fim, com as relações
diplomáticas gélidas mas intactas.

274
NO JARDIM DOS MONSTROS

j^ais uma vez, ninguém do governo dos EUA emitira qualquer declaração pública que apoiasse
o julgamento ou criticasse o regime de Hitler. A questão mantinha-se: o que seria que todos
receavam?

Um senador do estado de Maryland, Millard E. Tydings, tentou obrigar Roosevelt a falar contra
a perseguição aos judeus, introduzindo no Senado uma medida que instruiria o presidente «a
comunicar ao Governo do Reich Alemão uma declaração inequívoca dos sentimentos
profundos de surpresa e dor vivenciados pelo povo dos Estados Unidos ao saberem das
discriminações e opressões impostas pelo Reich aos seus cidadãos judeus.»

Um memorando sobre a medida, emitido pelo Departamento de Estado e escrito pelo amigo
de Dodd, R. Walton Moore, secretário de Estado adjunto, lança algumas luzes sobre a
relutância do governo. Depois de estudar a proposta, o juiz Moore concluiu que esta só
poderia deixar Roosevelt «numa posição embaraçosa». Moore explicava: «Se declinasse
aceder ao pedido, seria alvo de críticas consideráveis. Por outro lado, ao fazê-lo não só incitaria
o ressentimento do governo alemão, como poderia ainda ver-se envolvido numa discussão
muito acrimoniosa com esse governo, que poderia, por exemplo, pedir-lhe que explicasse
porque não usufruem os negros do seu país do direito ao voto; porque não é o linchamento de
negros no estado do senador Tydling, bem como noutros, impedido ou severamente punido; e
por que motivo as tendências antissemitas nos Estados Unidos, que infelizmente parecem
estar a crescer, não são controladas.»

A proposta foi chumbada. O secretário Hull, de acordo com um historiador, «exerceu a sua
influência junto do Comité de Relações Externas para que fosse enterrada».

275
CAPITULO 34

¦"¦/"'. DIELS, ASSUSTADO

Com a aproximação da primavera, enquanto as temperaturas passavam finalmente do limiar


dos 10 graus Celsius, Martha começou a reparar numa mudança em Diels. Normalmente tão
calmo e delicado, ultimamente parecia andar nervoso. Tinha bons motivos.

A tensão do seu cargo ia aumentando de forma marcada à medida que o capitão Rohm insistia
na sua exigência de controlar as forças militares e Heinrich Himmler procurava fortalecer o seu
domínio nas operações da Polícia Secreta por toda a Alemanha. Certa vez, Diels afirmara que o
seu trabalho requeria que ele se sentasse «de todos os lados da cerca em simultâneo», mas
agora até ele reconhecia que a posição já não era sustentável. O seu conhecimento do
funcionamento interno do regime revelava-lhe a intensidade das paixões em jogo e do
carácter inflexível das ambições que as justificavam. Sabia igualmente que todas as partes
envolvidas encaravam detenções e assassínios como ferramentas políticas úteis. Disse a
Martha que, apesar de ser então oficialmente coronel das SS de Himmler, era odiado tanto por
este como por aqueles que o rodeavam. Começava a recear pela própria vida e, a dada altura,
contou a Martha e a Bill que poderia ser alvejado a qualquer momento. «Não o levámos muito
a sério», recordaria ela. Sabia que ele tinha uma tendência para o melodrama, ainda que
admitisse que «o trabalho dele era um que poderia deixar qualquer pessoa histérica ou
paranóica». O esforço parecia estar a repercutir-se na sua saúde, porém. Queixava-se,
escreveu ela, «de dores agudas de estômago e de problemas cardíacos».

Pressentindo que uma erupção política de algum género seria inevitável, Diels encontrou-se
com Hermann Gõring, ainda seu chefe

276
NO JARDIM DOS MONSTROS

nominal, pedindo-lhe uma despensa da Gestapo. Alegou doença como motivo. Na memória
que escreveria anos depois, descreveu a rea-ção de Gõring:

— Está adoentado? — silvou Gõring. — É melhor decidir-se a estar muito doente.

— Sim, estou realmente doente — respondeu Diels. Disse-lhe ter feito tudo o que podia «para
reconduzir a carruagem do Estado ao percurso adequado». Mas agora, declarou, «não posso
continuar».

— Muito bem, está doente — disse Gõring. — Por conseguinte, não pode permanecer ao
serviço, nem por mais um dia. Ficará confinado à sua casa, já que está doente. Não fará
quaisquer telefonemas de longa distância nem escreverá carta alguma. Acima de tudo, tenha
cuidado.

A prudência aconselhava uma via alternativa. De novo, Diels abandonou o país, mas, desta vez,
deu entrada num sanatório na Suíça. Corriam rumores, não implausíveis, de que levara consigo
uma carga de ficheiros secretos comprometedores que entregara a um amigo em Zurique,
para que este os publicasse caso Diels fosse assassinado.

Umas semanas depois, regressou a Berlim e, passado pouco tempo, convidou Martha e Bill a
visitarem-no no seu apartamento. A mulher de Diels conduziu-os até à sala de estar, onde se
depararam com ele deitado num sofá, parecendo tudo menos curado. Numa mesa a seu lado,
tinha um par de pistolas e um grande mapa. Diels dispensou a mulher, que Martha descreveu
como «uma criatura patética de ar passivo».

O mapa, segundo Martha viu, estava cheio de símbolos e anotações feitos com cores
diferentes, assinalando uma rede de postos e agentes da Polícia Secreta. Martha achou aquilo
aterrador, «uma vasta teia de aranha de intriga».

Diels estava orgulhoso do mapa.

«Sabem que a maior parte disto é obra minha» disse ele. «Organizei de facto o sistema de
espionagem mais eficaz que a Alemanha alguma vez conheceu.»

Se detinha tanto poder, perguntou-lhe Martha, porque tinha tanto medo, como era evidente?

277
ERIK LARSON

«Porque sei demasiado», respondeu ele.

Diels precisava de escorar as suas defesas. Disse a Martha que, quanto mais eles pudessem ser
vistos juntos em público, mais seguro se sentiria. Não se tratava de uma mera artimanha para
reavivar o romance entre eles. Até Gõring começava a vê-lo como um elemento cujo valor
decrescia. No meio da tempestade de paixões em colisão que corrupiava por Berlim naquela
primavera, o maior perigo para Diels surgia do facto de ele continuar a resistir a escolher uma
facão, o que resultava em que todos os campos desconfiassem dele, em graus variados.
Paranóico, acreditava que alguém andava a tentar envenená-lo.

Martha não tinha qualquer objeção quanto a passar mais tempo com Diels. Gostava de estar
com ele e de usufruir da visão interna que ele lhe proporcionava. «Era suficientemente jovem
e inconsciente para querer estar o mais perto possível de todas as situações», escreveu.
Contudo, mais uma vez, possuía aquilo que Diels não, a garantia de que, como filha de um
embaixador norte-americano, estava a salvo do mal.

Um amigo avisou-a de que, não obstante, naquele caso estava a «brincar com o fogo».

Nas semanas que se seguiram, Diels manteve-se perto de Martha e comportou-se, escreveu
ela, «como um coelho assustado», ainda que ela também pressentisse que uma parte de Diels
— o velho Lúcifer confiante — se divertia com aquele jogo de se livrar daquela embrulhada.

«De certas formas, o perigo em que ele julgava encontrar-se era um desafio para a sua astúcia
e sagacidade», recordou ela. «Poderia ou não ser mais inteligente do que eles, conseguiria ou
não escapar-lhes?»

278
CAPÍTULO 35

CONFRONTAR O CLUBE

O navio de Dodd chegou à área de quarentena do porto de Nova Iorque a 23 de março, uma
sexta-feira. Tinha acalentado esperanças de que a sua chegada escapasse à atenção da
imprensa, mas, mais uma vez, viu os planos frustrados. Por rotina, havia repórteres a receber
os grandes transatlânticos que chegavam nesse dia na suposição, regra geral válida, de que
estaria alguém importante a bordo. Só para o caso de tal acontecer, Dodd preparara uma
declaração breve, constituída por cinco frases, e depressa deu por si a lê-la a dois jornalistas
que tinham reparado nele. Explicou que regressara à América «numa licença de curta duração
[...] para conseguir algum descanso, de que muito precisava, da tensa atmosfera europeia.» E
acrescentou: «Contrariamente às previsões de muitos estudantes de conflitos internacionais,
sinto-me bastante seguro quanto a não irmos ter uma guerra no futuro próximo.»

Animou-se ao verificar que o vice-cônsul alemão de Nova Iorque fora esperar o navio, com
uma carta de Hitler a ser entregue a Roose-velt. Dodd ficou particularmente satisfeito por o
seu amigo, o coronel House, ter enviado a «elegante limusina» para o ir buscar e transportar
até à casa do coronel, que ficava entre a East 68th e a Park Avenue, onde poderia esperar pelo
comboio para Washington — uma sorte, escreveu Dodd no seu diário, pois havia uma greve de
taxistas «e se eu tivesse ido para um hotel a malta dos jornais ter-me-ia incomodado até à
partida do meu comboio para Washington». O embaixador e o coronel tiveram uma conversa
cândida. «House deu-me informações valiosas a respeito de funcionários hostis do
Departamento de Estado com quem eu teria de lidar.»

279
ERIK LARSON

O melhor foi que, pouco depois da sua chegada, recebeu o último capítulo do seu livro Old
South, acabado de datilografar pela amiga da filha, Mildred Fish Harnack, e enviado por mala
diplomática.

Já em Washington, Dodd instalou-se no Cosmos Club que, na altura, ficava na praça Lafayette,
a norte da Casa Branca. Na sua primeira manhã na cidade, caminhou até ao Departamento de
Estado para a primeira de muitas reuniões e refeições.

Às onze horas, encontrou-se com o secretário Hull e com o subsecretário Phillips. Passaram
bastante tempo a tentar deslindar como haveriam de reagir à carta de Hitler. O chanceler
alemão elogiava os esforços de Roosevelt para restaurar a economia norte-americana e
afirmava que «o dever, a capacidade de sacrifício e a disciplina» eram virtudes que deveriam
ser dominantes em qualquer cultura. «Estas exigências morais que o presidente coloca à frente
de cada cidadão individual dos Estados Unidos são também a quinta-essência da filosofia do
Estado Alemão, que tem expressão no slogan "O Bem-Estar Público Transcende os Interesses
do Indivíduo".»

O subsecretário dizia tratar-se de uma «mensagem estranha». Para Dodd, tal como para Hull e
Phillips, tornava-se óbvio que Hitler esperava estabelecer um paralelo entre si e Roosevelt, e
que a necessária resposta dos EUA teria de ser esboçada com muito cuidado. Esta tarefa recaía
em Phillips e no responsável pela Europa Ocidental, Mof-fat, com o objetivo, segundo este
último escreveu, «de prevenir que caiamos na armadilha de Hitler». A carta resultante
agradecia ao chanceler as suas palavras amáveis ainda que salientasse que a mensagem não se
aplicava pessoalmente a Roosevelt, mas antes ao conjunto da população norte-americana,
«que livremente e de bom grado fez esforços heróicos a bem da recuperação».

No seu diário, Phillips escreveu: «Procurámos desviar a impressão de que o Presidente


estivesse a tornar-se fascista.»

No dia seguinte, segunda-feira, 26 de março, Dodd encaminhou--se até à Casa Branca para
almoçar com Roosevelt. Debateram a onda de hostilidade em relação à Alemanha que surgira
em Nova Iorque, na sequência do julgamento fictício do início desse mês. Dodd ouvira

280
NO JARDIM DOS MONSTROS

um nova-iorquino expressar o receio de «poder facilmente haver uma pequena guerra civil»
na cidade de Nova Iorque. «O presidente também falou disto», escreveu Dodd, «e pediu-me,
se pudesse, para desencorajar os judeus de Chicago de fazerem também um julgamento
fictício, que estava marcado para meados de abril.»

Dodd acedeu a tentar. Escreveu a líderes judeus, incluindo Leo Wormser, pedindo-lhes que
«acalmassem os ânimos, se possível»; escreveu também ao coronel House, solicitando que
exercesse a sua influência no mesmo sentido.

Por desejoso que se sentisse por ir para a sua quinta, agradava-lhe a perspetiva de uma
conferência marcada para o início daquela semana, na qual, por fim, teria a oportunidade de
apresentar as suas críticas quanto às políticas e práticas do Serviço Diplomático diretamente
aos boys do Clube Bem-Bom.

Falou perante uma audiência que incluía Hull, Moffat, Phillips, Wilbur Carr e Sumner Welles.
Ao contrário do que sucedera no seu discurso dado no Dia de Colombo em Berlim, foi franco e
direto.

Os dias de «Luís XIV e do estilo vitoriano» tinham passado, disse--Ihes. Havia nações na
bancarrota, «incluindo a nossa». Estava na altura de «pôr fim a representações
grandiloquentes». Referiu um funcionário consular norte-americano que fizera transportar, por
via marítima, mobília suficiente para encher uma casa com vinte divisões — mas cuja família
tinha apenas dois elementos. Acrescentou que um mero assistente dele «tinha um motorista,
um porteiro, um mordomo, um criado de quarto, dois cozinheiros e duas criadas».

A todos os funcionários, declarou, deveria ser exigido que vivessem de acordo com o salário
auferido, fossem os 3000 dólares anuais de um agente júnior, ou os 17 500 dólares que ele
próprio recebia como embaixador de pleno direito, e que todos deveriam conhecer a história e
os costumes do país anfitrião. Os únicos homens enviados para o estrangeiro deveriam ser
aqueles «que pensam nos interesses do seu país e não tanto acerca de usar roupas diferentes
todos os dias ou participar em jantares e espetáculos alegres, mas tolos, todas as noites até à
uma».

281
1

ERIK LARSON

Dodd pressentiu que, com esta última questão, fizera mossa. Anotou no seu diário: «Sumner
Welles estremeceu um pouco; é proprietário de uma mansão em Washington que supera a
Casa Branca em alguns aspetos e que é praticamente do mesmo tamanho que a residência
presidencial.» A mansão de Welles, a que alguns chamavam a «casa dos cem quartos»
impunha-se na avenida Massachusetts, perto de Dupont Circle, e era famosa pela sua
opulência. Welles e a esposa também tinham um propriedade de 100 hectares nos arredores
da cidade, Oxon Hill Manor.

Depois de Dodd concluir os seus reparos, a audiência elogiou-o e aplaudiu-o. «Mas não fui
enganado por duas horas de consentimento fingido.»

Na verdade, a sua palestra serviu somente para aprofundar os ressentimentos do Clube Bem-
Bom. Quando ele discursou, alguns dos membros, sobretudo Phillips e Moffat, já tinham
começado a expressar em privado uma verdadeira hostilidade.

Dodd visitou Moffat no gabinete deste. No final desse dia, Moffat escreveu no seu diário uma
breve avaliação do embaixador: «De forma alguma se trata de um pensador claro. Expressa
grande insatisfação perante dada situação e, em seguida, rejeita qualquer proposta para a
remediar. Todo o pessoal da embaixada lhe desagrada, mas não deseja proceder a qualquer
transferência. Suspeita de praticamente toda a gente com quem contacta e é também um
pouco invejoso.» Moffat chamava-lhe «um inadaptado infeliz».

Dodd parecia alheio ao facto de poder estar a conjurar forças capazes de lhe deixar a carreira
em risco. Em vez disso, encantava-se a picar as sensibilidades exclusivistas dos seus oponentes.
Foi com grande satisfação que contou à mulher: «O protetor principal deles» — referir-se-ia a
Phillips ou a Welles — «não está nem um pouco perturbado. Se atacar, decerto não será
abertamente.»

282
CAPITULO 36

SALVAR DIELS

O medo que Diels sentia ia-se tornando cada vez mais pronunciado, a ponto de, em março,
voltar a recorrer a Martha para que esta o ajudasse, desta feita com a esperança de se servir
dela para conseguir a assistência da própria embaixada dos Estados Unidos. Tratou-se de um
momento carregado de ironia: o comandante da Gestapo em busca do auxílio de funcionários
norte-americanos. De alguma maneira, Diels ficara a par de um plano de Himmler para o
prender, possivelmente naquele dia. Não tinha quaisquer ilusões. Himmler queria vê-lo morto.

Diels sabia que tinha aliados no serviço diplomático norte-ameri-cano, nomeadamente o


embaixador e o cônsul-geral Messersmith, e acreditava que estes poderiam garantir-lhe uma
certa segurança se expressassem ao regime hitleriano o interesse que depositavam no seu
bem-estar contínuo. Contudo, sabia que Dodd estava de licença. Pediu então a Martha que
falasse com Messersmith, para ver o que poderia ele fazer.

Apesar da inclinação que tinha para encarar Diels como demasiado melodramático, desta feita
Martha acreditou que ele enfrentava perigo de morte. Foi visitar Messersmith no consulado.

Era «óbvio que se encontrava num estado de grande perturbação», recordaria Messersmith.
Desfez-se em lágrimas e disse-lhe que Diels seria preso nesse dia «e que era quase certo que
fosse executado».

Recompôs-se e depois implorou-lhe que se encontrasse de imediato com Gòring. Tentou


lisonjeá-lo, dizendo que Messersmith era o único homem que poderia interceder «sem arriscar
a própria vida».

283
ERIK I.ARSON

O cônsul-geral não se deixou comover. Por aquela altura, já não gostava de Martha.
Considerava o seu comportamento — os vários casos amorosos — repugnante. Dada a
plausível relação que tinha com Diels, Messersmith não ficou surpreendido ao vê-la no seu
gabinete «neste estado de histeria». Respondeu-lhe que nada poderia fazer «e depois de
muitas dificuldades, consegui por fim que saísse do meu escritório».

Depois de ela partir, contudo, começou a reconsiderar. «Comecei a pensar na questão e


apercebi-me de que quanto a uma coisa ela estava certa: Diels era, afinal, um dos melhores do
regime, tal como Góring, e que, se algo acontecesse a Diels e Himmler ocupasse o seu lugar,
isso enfraqueceria a posição de Gõring e do elemento mais razoável do partido.» Para
Messersmith, se Himmler dirigisse a Gestapo, ele e Dodd teriam bem mais dificuldade quanto
a resolver ataques futuros a cidadãos norte-americanos, «pois sabia-se que Himmler era ainda
mais insensível e implacável do que o Dr. Diels».

Messersmith tinha um almoço formal marcado para essa tarde no Herrenklub, um clube
masculino conservador, organizado por dois generais proeminentes do Reichswehr, mas agora,
reconhecendo que uma conversa com Gõring era bem mais importante, percebia que talvez
tivesse de cancelar a sua presença. Telefonou para o gabinete de Góring para conseguir um
encontro com ele e ficou a saber que acabara de sair para um almoço formal — no Herrenklub.
Só então soube que Góring seria o convidado de honra do almoço dos generais.

Apercebeu-se de duas coisas: em primeiro lugar, que a tarefa de conversar com Góring se
simplificara de repente; em segundo, que o almoço seria um marco: «era a primeira vez, desde
que os nazis tinham ascendido ao poder, que os oficiais superiores da hierarquia do Exército
[...] iam partilhar uma mesa com Góring ou qualquer outro alto membro do regime nazi.»
Ocorreu-lhe que o almoço poderia assinalar que o exército e o governo estavam a cerrar alas
contra o capitão Rohm e as suas Tropas de Assalto. Se assim fosse, tratava-se de um sinal
agoirento, pois não era provável que Rohm abandonasse as suas ambições sem dar luta.

284
NO JARDIM DOS MONSTROS

O cônsul-geral chegou ao clube pouco depois do meio-dia e viu Gòring a conversar com os
generais. Gòring passou-lhe o braço por cima dos ombros e disse aos outros:

«Meus senhores, eis um homem que não gosta nem um pouco de mini, que não me tem em
grande conta, mas que é um bom amigo do nosso país.»

Messersmith esperou por um momento apropriado para falar em privado com Gòring. «Disse-
lhe, em muito poucas palavras, que uma pessoa na qual eu depositava uma confiança absoluta
me visitara nessa manhã e me dissera que Himmler estava decidido a livrar-se de Diels durante
aquele dia e que Diels deveria mesmo acabar aniquilado.»

Gòring agradeceu-lhe a informação. Juntaram-se aos outros convidados mas, passados alguns
momentos, o convidado de honra des-culpou-se por ter de partir.

O que terá acontecido em seguida — que ameaças terão sido feitas, que cedências terão sido
necessárias, se o próprio Hitler terá intervindo — não é claro mas, às cinco horas dessa tarde
de 1 de abril de 1934, Messersmith ficou a saber que Diels fora nomeado Regie-
rungspràsident, ou comissário regional, de Colónia, e que a Gestapo passaria a ser dirigida por
Himmler.

Diels foi salvo, mas Gòring sofrera uma derrota significativa. Agira não só em nome da antiga
amizade, mas também por raiva perante a perspetiva de Himmler tentar prender Diels no seu
próprio reino. Himmler, contudo, conquistara o maior prémio, a componente derradeira e mais
importante do império da sua polícia secreta. «Foi», segundo Messersmith escreveu, «o
primeiro revés de Gòring desde o começo do regime nazi.»

Uma fotografia do momento em que Himmler obteve oficialmente o controlo da Gestapo,


numa cerimónia ocorrida a 20 de abril de 1934, mostra-o a discursar no pódio, com o habitual
aspeto apagado, enquanto Diels se encontra por perto, a fitar a câmara. O rosto deste parece
inchado, como se andasse a beber demasiado ou a dormir muito pouco, e as cicatrizes estão
excecionalmente pronunciadas. E o retrato de um homem sob tensão.

Numa conversa que teve por essa altura com um funcionário da embaixada britânica, citada
num memorando que depois chegou ao

285
ERIK LARSON

ministério dos Negócios Estrangeiros de Londres, Diels apresentou um monólogo a respeito do


seu constrangimento moral: «Infligir punições físicas não é trabalho para qualquer homem e,
naturalmente, sentíamo-nos apenas satisfeitos por recrutarmos homens preparados para não
demonstrarem qualquer acanhamento no cumprimento dessa tarefa. Infelizmente, nada
sabíamos acerca do lado freudiano da questão, e só após várias instâncias de flagelações
desnecessárias e de crueldades sem sentido me dei conta do facto de que a minha organização
atraía há algum tempo todos os sádicos da Alemanha e da Áustria sem que eu soubesse.
Também tinha vindo a atrair sádicos inconscientes, i.e., homens que não sabiam ter tendências
sádicas até participarem numa flagelação. E, por fim, tinha estado, na verdade, a criar sádicos.
Pois parece que castigos corporais acabam por despertar tendências sádicas em homens e
mulheres aparentemente normais. Freud seria capaz de o explicar.»

Abril não foi, estranhamente, pródigo em chuva, mas sim numa safra abundante de segredos
novos. No início do mês, Hitler e o ministro da Defesa, Blomberg, ficaram a saber que o
presidente Hin-denburg adoecera gravemente, sendo pouco provável que sobrevivesse ao
verão. Não divulgaram tal notícia. Hitler cobiçava a autoridade \ presidencial que Hindeburg
ainda detinha e planeava, após a morte deste, assumir os papéis conjuntos de chanceler e
presidente, adquirindo assim, por fim, poder absoluto. Contudo, existiam ainda duas
potenciais barreiras: o Reichswehr e as Tropas de Assalto de Rohm.

Em meados de abril, Hitler foi de avião até ao porto naval de Kiel, onde embarcou num
cruzador pesado, o Deutschland, para efe-tuar uma viagem de quatro dias, acompanhado por
Blomberg; pelo almirante Erich Raeder, comandante da marinha; e pelo general Werner von
Fritsch, chefe das forças armadas. Os detalhes são escassos mas, aparentemente, nos
camarotes privados do navio, Hitler e Blomberg esboçaram um tratado secreto, na verdade,
um autêntico acordo diabólico, através do qual Hitler neutralizaria Rohm e as SA a troco do
apoio do exército à sua obtenção da autoridade presidencial aquando da morte de
Hindenburg.

286
NO JARDIM DOS MONSTROS

O acordo detinha um valor incalculável para Hitler, pois, doravante, poderia dar seguimento ao
seu plano sem se preocupar com a posição do exército.

Rohm, entretanto, ia insistindo cada vez mais quanto a conquistar controlo absoluto das forças
armadas da nação. Em abril, num dos seus passeios habituais pelo Tiergarten, observou um
grupo de altas patentes nazis passarem e depois virou-se para um companheiro. «Veja só
aquelas pessoas», comentou. «O Partido já não é uma força política; está a transformar-se
num lar para a terceira idade. Pessoas assim [...] Temos de nos livrar delas depressa.»

Ia expressando o seu desagrado com mais ousadia. Numa conferência de imprensa dada a 18
de abril, afirmou: «Reacionários, confor-mistas burgueses, dá vontade de vomitar quando se
pensa neles.» E declarou: «As SA são a Revolução Nacional-Socialista.»

Dois dias depois, porém, um anúncio oficial pareceu minar as declarações de Rohm relativas à
sua elevada importância: todo o corpo das SA recebera ordens para ficar de licença durante o
mês de julho.

A 22 de abril, Heinrich Himmler escolheu o seu jovem protegido, Reinhard Heydrich, que
acabava de fazer trinta anos, para ocupar o cargo de Diels como comandante da Gestapo.
Heydrich era louro, alto, magro e considerado bonito, exceção feita a ter uma cabeça descrita
como demasiado estreita e os olhos demasiado próximos. Falava num tom de quase falsete
que destoava perversamente da reputação de ser calmo e completamente implacável. Hitler
denominava-o «o Homem do Coração de Ferro», ainda que se dissesse que tocava violino com
tal paixão que chorava ao executar certas passagens. Durante toda a carreira, combateria
rumores de que seria judeu, embora uma investigação desencadeada pelo partido nazi não
tenha conseguido encontrar qualquer verdade nessa alegação.

Com o afastamento de Diels, o último traço de civilização abandonou a Gestapo. Hans


Gisevius, o memorialista da organização, constatou de imediato que, sob o comando de
Himmler e Heydrich, esta seria sujeita a uma alteração de carácter. «Eu podia perfeitamente
degladiar-me com Diels, o playbqy inseguro que, ciente de ser um renegado burguês, tinha
bastantes inibições que o refreavam de se servir

287
ERIK LARSON

de jogo sujo», escreveu Gisevius. «Todavia, assim que Himmler e Hey-drich entraram na arena,
deveria ter-me retirado prudentemente.»

No final de abril, o governo divulgou por fim o grave estado da saúde de Hindenburg. De
súbito, a questão sobre quem lhe sucederia tornou-se tema de conversa omnipresente. Todos
os que estavam a par da cisão cada vez mais marcada entre Rohm e Hitler compreendiam que
um novo elemento de suspense impulsionava a narrativa.

288
CAPÍTULO 37

VIGIAS

Enquanto tudo isto acontecia, os espiões de outra nação começavam a interessar-se pela
família Dodd. Em abril, a relação de Martha com Boris suscitara o interesse dos superiores dele
no NKVD. Pressentiam uma oportunidade rara. «Diga a Boris Winogradov que queremos usá-lo
para dar seguimento a um projeto que nos interessa», escreveu um deles numa mensagem
dirigida ao diretor da agência de Berlim.

De alguma maneira — possivelmente, através de Boris —, Moscovo passara a compreender


que o enamoramento de Martha pela revolução nazi começava a esfriar.

A mensagem continuava: «Tem que ver com o facto de que, segundo a informação recolhida,
os sentimentos da sua conhecida (Martha Dodd) estarem completamente amadurecidos para
que ela seja, de uma vez por todas, recrutada para trabalhar para nós.»

289
CAPITULO 38

' '<¦ LUDIBRIADO

O que mais perturbava Dodd durante o seu período de licença era a sensação que tinha de os
seus oponentes no Departamento de Estado estarem a ficar mais agressivos. Ficou
preocupado com aquilo que percebia como um padrão de revelações de informação
confidencial, com o intuito aparente de lhe minar a posição. Na noite de sábado, 14 de abril,
quando ele estava a sair do jantar anual do clube Gridiron, em Washington, ocorreu um
incidente inquietante. Um jovem agente do Departamento de Estado, que ele não conhecia,
abordou-o e encetou uma conversa na qual desafiava francamente a avaliação que Dodd fazia
das condições na Alemanha, citando um despacho confidencial que o embaixador telegrafara
de Berlim. O jovem era muito mais alto do que Dodd e mantinha-se muito próximo dele, numa
postura que o embaixador considerou fisicamente intimidatória. Numa carta irada que Dodd
tencionava entregar por mão própria ao secretário Hull, descreveu o encontro como «uma
afronta intencional».

Dodd considerava ainda mais alarmante a questão de como teria o jovem tido acesso ao seu
despacho. «Sou da opinião», escreveu Dodd, «[...] de que existe algures no Departamento um
grupo que pensa em si mesmo e não no país, e que, perante o menor esforço de qualquer
embaixador de economizar e melhorar, começa a conspirar para o descredibilizar e derrotar. É
a terceira ou quarta vez que informação absolutamente confidencial que eu forneci foi tratada
como um rumor — ou transformada num rumor. Não me encontro ao serviço do país para
obter estatuto ou quaisquer ganhos pessoais ou sociais; estou disposto a fazer qualquer coisa
para melhorar o trabalho e a cooperação; mas não desejo trabalhar sozinho ou tornar-me alvo

290
NO JARDIM DOS MONSTROS

de intrigas e manobras constantes. Não me demitirei, contudo, em silêncio, se este género de


coisas continuar.»

Depois, Dodd decidiu não dar a carta a Hull. Acabou arquivada entre documentos identificados
como «não remetidos».

O que, aparentemente, Dodd ainda não sabia era que ele e quinze outros embaixadores
tinham sido o tema de um grande artigo do número de abril de 1934 da revista Fortune.
Apesar da proeminência do artigo e do facto de decerto ter sido tema de conversas furiosas no
Departamento de Estado, Dodd só teve conhecimento dele muito mais tarde, após ter
regressado a Berlim, quando Martha levou para casa um exemplar que recebera durante uma
consulta com o seu dentista de Berlim.

Intitulado «Suas Excelências, os Nossos Embaixadores», o artigo identificava os nomeados e


indicava as fortunas pessoais de cada um colocando símbolos de dólares junto aos nomes.
Jesse Isidor Strauss — embaixador em França e antigo presidente da cadeia de armazéns R. H.
Macy & Company. — era identificado como «$$$$ Strauss». Já Dodd tinha um mero «0» junto
ao nome. O artigo troçava da sua abordagem sovina à diplomacia e sugeria que, tendo alugado
a casa de Berlim a um banqueiro judeu, a preço de amigo, tentava lucrar com a situação difícil
dos judeus na Alemanha. «Assim», afirmava o artigo, «os Dodd conseguiram uma boa casinha
muito barata, que mantêm apenas com alguns criados.» O artigo relatava também que Dodd
levara o seu velho Chevrolet para Berlim. «O filho deveria conduzi-lo à noite», dizia o escritor,
«mas o filho queria ir aos sítios e fazer as coisas que os filhos têm o hábito de fazer, o que
deixou o Sr. Dodd sem motorista (mas com cartola) no seu Chevrolet.» Dodd, alegava o artigo,
tinha de se sujeitar a boleias de funcionários subalternos da embaixada, «dos quais os mais
afortunados andam de limusina com motorista.»

O articulista chamava a Dodd «um peixe académico em terra diplomática», que era
prejudicado pela sua relativa pobreza e falta de pompa diplomática. «Sendo moralmente uma
pessoa muito corajosa, é também tão intelectual, tão divorciado dos seres humanos comuns,
que fala por parábolas, como um cavalheiro universitário conversando com outro; e a
irmandade das camisas castanhas, do sangue e do aço não consegue entendê-lo, mesmo
quando se dá ao trabalho de

291
ERIK LARSON

tentar. Por isso, Dodd fervilha por dentro e, quando tenta demonstrar firmeza, ninguém o leva
muito a sério.»

Tornou-se imediatamente claro para Dodd que um ou mais funcionários do Departamento de


Estado, e talvez até da embaixada de Berlim, tinha divulgado pormenores precisos da sua vida
na Alemanha. Queixou-se ao subsecretário Phillips. O artigo, escreveu-lhe, «revela uma atitude
estranha e até antipatriota, no que diz respeito ao meu historial e aos esforços que aqui fiz. Na
carta de aceitação que enviei ao presidente, dizia-lhe que era necessário que ficasse claro que
eu viveria do meu salário. Como e porquê tanta discussão a propósito desse facto, que me
parece simples e óbvio?» Citava diplomatas históricos que tinham vivido modestamente. «O
que justifica toda esta condenação por eu seguir tais exemplos?» Dizia a Phillips que
suspeitava que gente na sua própria embaixada estivesse a divulgar informação e mencionava
outros relatos noticiosos que tinham contido relatórios distorcidos. «Como é possível que haja
todas estas histórias falsas e referência alguma a serviços efetivos que eu tenha tentado
prestar?»

O subsecretário demorou quase um mês a responder. «Em relação àquele artigo da Fortune»,
escreveu, «não pensaria nisso nem por mais um instante. Não consigo imaginar de onde possa
provir a informação que refere, do mesmo modo que não sou capaz de imaginar como é que a
imprensa obtém rumores (regra geral, erróneos) a respeito de mim e de outros colegas seus.»
Instava-o: «não deixe que esta questão em particular o perturbe de forma alguma.»

Dodd despendeu algum tempo na Biblioteca do Congresso a fazer pesquisa para o seu Old
South e conseguiu passar duas semanas na sua quinta, onde escreveu e atendeu a assuntos
relacionados com a própria quinta. Também viajou até Chicago, conforme planeara, mas isso
não resultou no agradável reencontro que esperava. «Quando lá cheguei», contou a Martha,
«todos queriam ver-me: telefones, cartas, visitas, almoços, jantares a toda a hora.»
Respondera a muitas perguntas sobre ela e o irmão, escreveu, «mas apenas a uma sobre o teu
problema de Nova Iorque», referindo-se ao divórcio dela. Um

292
NO JARDIM DOS MONSTROS

arnig° queria mostrar-lhe exemplos da «forma decente como os jornais de Chicago tinham
tratado o caso», mas, segundo ele escreveu, «eu não estava interessado em ler recortes de
jornais». Deu algumas palestras e resolveu questiúnculas entre pessoal docente da faculdade. ]
yfo seu diário, tomou nota de também se ter encontrado com dois líderes judeus com quem
tinha contactado antes, cumprindo a diretiva de Roosevelt de tampar o protesto judaico. Os
dois homens descreveram «como eles e os amigos tinham acalmado os pares e impedidos
quaisquer manifestações violentas em Chicago, tal como planeado».

Uma crise pessoal intrometeu-se. Enquanto estava em Chicago, Dodd recebeu um telegrama
com uma mensagem da esposa. Depois de sofrer o inevitável espasmo de ansiedade que
telegramas de seres queridos suscitavam, Dodd ficou a saber que o velho Cheyy, um ícone do
seu cargo de embaixador, fora completamente destruído pelo motorista. O remate: «por isso
hspf.ro que possas trazer carro novo.»

Então Dodd, enquanto se encontrava alegadamente a descansar, via ser-lhe pedido, em


linguagem telegráfica bem clara, que comprasse um automóvel novo e tratasse de o despachar
para Berlim.

Mais tarde, escreveria a Martha que: «receio que Mueller estivesse a conduzir
descuidadamente, situação que verifiquei várias vezes antes de me vir embora.» Dodd não
conseguia perceber. Tinha conduzido muitas vezes entre a sua quinta e Washington, bem
como por toda a cidade, sem ter sofrido acidente algum. «Ainda que isto possa não provar o
que quer que seja, sugere algo. As pessoas que não são proprietárias do carro são bem menos
cuidadosas do que as que o são.» Tendo em conta o que aconteceria dali a alguns anos, a
vanglória de Dodd quanto às suas capacidades automobilísticas só pode provocar arrepios.
Queria um Buick, mas achava o preço — 1350 dólares — demasiado alto a pagar, dado o
tempo limitado que a família pensava permanecer em Berlim. Também se preocupava com os
cem dólares que teria de pagar para enviar o carro para a Alemanha.

Por fim, conseguiu o seu Buick. Instruiu a mulher a comprá-lo a um vendedor de Berlim. O
carro, escreveu ele, era um modelo básico que os especialistas em protocolo da embaixada
categorizavam como «ridiculamente simples para um embaixador.»

293
ERIKLARSON

Dodd teve ainda oportunidade de fazer uma última visita à sua quinta, o que o alegrou mas
também tornou a partida final mais dolorosa. «Foi um belo dia», escreveu no seu diário a 6 de
maio de 1934, um domingo. «Os rebentos de árvores e as macieiras em flor parece-ram-me
muito cativantes, sobretudo por ter de partir.»

Três dias depois, o navio de Dodd deixava o porto de Nova Iorque. Ele sentia que alcançara
uma vitória ao ter conseguido que os líderes judeus concordassem em aliviar a intensidade dos
seus protestos contra a Alemanha e esperava que os seus esforços incutissem maior
moderação ao governo de Hitler. Estas esperanças gelaram-se, contudo, quando no sábado, 12
de maio, a meio do oceano, recebeu via rádio um discurso acabado de ser feito por Goebbels,
no qual o ministro da Propaganda chamava aos judeus «a sífilis de todos os povos europeus».

Dodd sentiu-se traído. Apesar das promessas nazis acerca de mandados de detenção e do
encerramento da prisão de Columbia--Haus, era óbvio que nada mudara. Receava que, a partir
de então, parecesse ingénuo. Escreveu a Roosevelt, falando-lhe da sua consternação, depois
de todo o trabalho que efetuara junto dos líderes judeus norte-americanos. O discurso de
Goebbels reavivara «todas as animosidades do inverno passado», escreveu ele, «e colocou-me
na posição de ter sido ludibriado, como de facto fui.»

Chegou a Berlim a 17 de maio, às 22h30 de uma quinta-feira, e de-parou-se com uma cidade
mudada. Durante os dois meses da sua ausência, a seca acastanhara a paisagem a um ponto
que ele nunca antes vira, mas havia algo mais. «Estava encantado por voltar para casa»,
escreveu, «mas a atmosfera de tensão revelou-se de imediato.»

294
SEXTA PARTE

BERLIM NO CREPÚSCULO
I
CAPÍTULO 39

UM JANTAR PERIGOSO

A cidade parecia reverberar com uma pulsão de perigo em pano de fundo, como se uma
imensa linha elétrica tivesse sido disposta no seu centro. Toda a gente do círculo de Dodd a
sentia. Em parte, esta tensão surgia do invulgar tempo que fazia em maio e dos medos
concomitantes de uma colheita fracassada, mas o principal motor de ansiedade era a discórdia
cada vez mais intensa entre as Tropas de Assalto do capitão Rohm e o exército oficial. Uma
metáfora popular usada nesta altura para descrever o ambiente de Berlim era a de uma
tempestade a aproximar-se — aquela sensação de ar carregado e suspenso.

Dodd pouca oportunidade teve para se readaptar aos ritmos do trabalho.

No dia a seguir ao seu regresso dos Estados Unidos, enfrentava a perspetiva de ser o anfitrião
de um banquete de despedida do cônsul--geral, que, por fim, conseguira assegurar um posto
mais elevado para si, embora não em Praga, que fora o seu alvo original. A competição para
esse posto fora robusta e, ainda que Messersmith tivesse criado fortes pressões e persuadido
aliados de todos os quadrantes para que escrevessem cartas de recomendação para reforçar a
sua candidatura, no final o cargo fora dado a outra pessoa. Em vez desse, o subsecretário
Phillips oferecera-lhe outro posto vago: o do Uruguai. Se Messersmith ficou desiludido, não o
demonstrou. Considerava-se afortunado por poder simplesmente deixar o serviço consular
para trás. Depois, porém, a sua sorte tornara-se ainda melhor. O cargo de embaixador na
Áustria vagou de súbito e ele era a escolha óbvia para o ocupar. Roosevelt concordou. Então,
Messersmith ficou verdadeiramente

297
ERIK LARSON

encantado. Tal como Dodd, só por vê-lo ir-se embora, ainda que tivesse preferido que o
destino fosse o outro lado do mundo.

Houve muitas festas para Messersmith — durante algum tempo, parecia que todos os jantares
e almoços de Berlim eram em sua honra —¦, mas o banquete da embaixada dos Estados
Unidos, a 18 de maio, era o maior e o mais oficial. Enquanto Dodd se encontrava nos Estados
Unidos, a Sra. Dodd, com o auxílio de especialistas protocolares da embaixada, tinha
supervisionado a criação de uma lista de quatro páginas a espaçamento único de convidados
que parecia incluir todas as pessoas importantes, à exceção de Hitler. Para qualquer
conhecedor da sociedade berlinense, o verdadeiro fascínio residia não em quem estaria
presente, mas em quem não estaria. Gòring e Goebbels declinaram o convite, tal como o vice-
chanceler Papen e Rudolf Diels. O ministro da Defesa, Blomberg, foi ao banquete, mas o
comandante das SA, Rohm, não.

Bella From esteve presente, tal como Sigrid Schultz e vários amigos de Martha, incluindo Putzi
Hanfstaengl, Armand Berard e o príncipe Luís Fernando. Esta mistura, por si só, ampliou a aura
de tensão na sala, pois Berand ainda amava Martha e o príncipe Luís suspirava por ela, embora
esta continuasse a reservar a sua adoração fixa para Boris (ausente, o que é interessante, da
lista de convidados). O jovem que ligava Martha a Hitler, Hans «Tommy» Thomsen, foi, tal
como a sua companheira frequente, a morena e lindíssima Elmina Rangabe, ainda que a noite
comportasse um senão — Tommy levava a esposa. Houve calor, champanhe, paixão, ciúme e
aquela sensação em pano de fundo de algo desagradável a surgir mesmo sobre a linha do
horizonte.

Bella Fromm conversou por breves instantes com Hanfstaengl, e registou o encontro no seu
diário.

— Gostava de saber porque fomos convidados — disse Hanfstaengl. — Tanta excitação por
causa de judeus. Messersmith é um deles. Tal como Roosevelt. O partido detesta-os.

— Dr. Hanfstaengl — respondeu ela —, já discutimos este assunto. Não tem de representar
esse papel comigo.

— Muito bem. Mesmo que sejam arianos, nunca se perceberia isso a partir das suas ações.

298
NO JARDIM DOS MONSTROS

Naquele momento, Fromm não sentia uma vontade particular de solicitar a boa vontade nazi.
Duas semanas antes, a sua filha, Gonny, partira para os Estados Unidos, com a ajuda de
Messersmith, o que a deixara entristecida, mas aliviada. Uma semana antes, o jornal Vos-
sische Zeitung — «Titi Voss», para que trabalhara durante vários anos .__encerrara. Sentia
cada vez que uma época na qual em tempos prosperara estava a chegar ao fim.

Disse então a Hanfstaengl:

— Claro que se vão descartar o bem e o mal, substituindo-o por ariano e não-ariano, isso
deixará as pessoas que por acaso tenham noções bastante antiquadas acerca do que é o bem
e do que é o mal, do que é decente e do que é obsceno, sem muito a que se agarrar.

Desviou a conversa de novo para Messersmith, que descreveu como sendo tão respeitado
pelos colegas «que praticamente o vêem como detentor de um cargo de embaixador»,
comentário que teria irritado Dodd sobremaneira.

Hanfstaengl suavizou o tom.

— Está bem, está bem — disse ele. — Tenho muitos amigos nos Estados Unidos e todos eles
também se põem do lado dos judeus. Mas dado que o programa do partido insiste... — E
interrompeu-se com uma espécie de encolher de ombros verbal. Levou a mão ao bolso, de
onde tirou um pequeno pacote de rebuçados de fruta. Lutsch-bonbons. Quando criança, Bella
adorava-os. — Tome um — ofereceu Hanfstaengl. — São feitos especialmente para o Fuhrer.

Ela escolheu um. Mesmo antes de o levar à boca, reparou que tinham uma suástica gravada.
Até os rebuçados tinham sido «coordenados».

A conversa divergiu para a guerra política que tanta inquietação provocava. Hanfstaengl disse-
lhe que Rohm não ambicionava apenas o controlo do exército alemão, mas também da força
aérea de Gõ-ring.

— O Hermann está furioso! — exclamou. — Pode-se fazer-lhe qualquer coisa, exceto brincar
com a sua Luftwaffe, está capaz de matar Rohm a sangue-frio. — E perguntou-lhe: — Conhece
Himmler?

Fromm assentiu com a cabeça.

299
ERIK LARSON

— Era um criador de galinhas, antes de se tornar espião do Reichs-wehr. Expulsou o Diels da


Gestapo. Himmler não suporta ninguém, principalmente Rohm. Agora estão todos unidos
contra Rohm: Ro-senberg, Goebbels e o criador de galinhas.

O Rosenberg a que se referia era Alfred Rosenberg, antissemita ardente e dirigente da


diplomacia externa do partido nazi.

Depois de transcrever a conversa no seu diário, Fromm acrescentou: «Não há uma única
pessoa no Partido Nacional-Socialista que não cortasse o pescoço de todos os outros
funcionários para aumentar a sua própria progressão.»

Foi sintomático do estranho clima novo de Berlim que outro jantar, completamente inócuo,
revelasse ter consequências profundamente letais. O anfitrião era um banqueiro abastado
chamado Wilhelm Regendanz, um amigo da família Dodd, embora, por sorte, os Dodd não
tenham recebido um convite para esta ocasião em particular. Regendanz deu o jantar numa
noite de maio, na sua villa luxuosa em Dahlem, na parte sudoeste da área metropolitana de
Berlim, conhecida pelas casas encantadoras que tem e pela proximidade ao Grunewald.

Regendanz, pai de sete filhos, era membro dos Stahlhelm, ou Capacetes de Aço, uma
organização de antigos oficiais do exército com uma propensão conservadora. Ele gostava de
juntar homens de posições diversas em refeições, debates e palestras. Para este jantar em
particular, convidou duas personalidades proeminentes, o embaixador francês, François-
Poncet, e o capitão Rohm; tanto um como outro já tinham ido a sua casa em ocasiões
anteriores.

Rohm chegou na companhia de três jovens oficiais das SA, entre os quais um adjunto de
cabelos louros e encaracolados, cuja alcunha era «Conde Bonito», que era o secretário de
Rohm e, de acordo com boatos, seu amante ocasional. Mais tarde, Hitler descreveria aquele
encontro como um «jantar secreto», embora, na verdade, os convidados não tenham feito
qualquer tentativa de disfarçar a sua presença. Estacionaram os carros em frente à casa,
perfeitamente visíveis da rua, com as matrículas reveladoras expostas.

300
NO JARDIM DOS MONSTROS

Tratava-se de uma bizarra combinação de convidados. François-„poncet não gostava do


comandante das SA, como deixou claro nas suas memórias, The Fateful Years. «Tendo sempre
nutrido uma fortíssima repugnância por Rohm», escreveu ele, «evitava-o tanto quanto
possível, não obstante o papel eminente que ele desempenhava no Terceiro Reich.» Mas
Regendanz «implorara-lhe» que fosse.

Mais tarde, numa carta dirigida à Gestapo, Regendanz tentou explicar porque insistira para
que os dois homens se encontrassem. O ímpeto do jantar surgira quando François-Poncet,
alegava ele, expressara frustração por não conseguir uma reunião com o próprio chanceler e
lhe pedira que falasse com alguém próximo de Hider, para lhe comunicar o seu desejo de
marcar um encontro. Regendanz sugerira que Rohm poderia revelar-se um intermediário de
valor. Na altura do jantar, argumentava, não estava a par da cisão entre Rohm e Hitler — «pelo
contrário», disse à Gestapo, «assumia-se que Rohm era o homem que detinha a confiança do
Fuhrer e que era seu seguidor. Por outras palavras, acreditava-se que, ao informar-se Rohm, se
estava informar o próprio Fiihrer.»

No jantar, os homens tiveram a companhia da esposa de Regendanz e de um filho, Alex, que se


preparava para ser advogado especializado em direito internacional. Depois da refeição, Rohm
e o embaixador francês retiraram-se para a biblioteca do anfitrião, com o objetivo de
encetarem uma conversa informal. Rohm falou de questões militares e negou ter qualquer
interesse pela política, declarando ver-se simplesmente como um soldado, um agente. «O
resultado desta conversa», disse Regendanz à Gestapo, «foi literalmente nenhum.»

A noite terminou — misericordiosamente, na opinião de François-Poncet. «A refeição foi


fraquíssima, a conversação insignificante», recordaria. «Achei Rohm sonolento e pesado;
despertou apenas para se queixar da saúde e do reumatismo que esperava tratar em
Wiessee», uma referência a Bad Wiessee, onde Rohm planeava passar um tempo para fazer
uma cura. «Ao voltar a casa», escreveu o embaixador, «amaldiçoei o nosso anfitrião pelo fastio
da noite.»

301
1

ER1K LARSON

Não se sabe como terá a Gestapo ficado a saber do jantar e dos convidados, mas, por aquela
altura, era quase certo que Rohm seria alvo de uma vigilância apertada. As matrículas dos
carros estacionados em frente à casa de Regendanz dariam a qualquer observador as
identidades dos homens que lá se encontravam.

O jantar tornou-se famigerado. Mais tarde, a meio do verão, o embaixador britânico, Phipps,
anotaria no seu diário que, das sete pessoas que se tinham reunido para jantar na mansão de
Regendanz naquela noite, quatro tinham sido assassinadas, uma fugira do país sob ameaças
de morte e outra ainda fora detida num campo de concentração. Terminou dizendo: «A lista de
baixas num só jantar teria deixado até um Bórgia invejoso».

E DEPOIS ACONTECEU O SEGUINTE:

A 24 de maio, quinta-feira, Dodd foi almoçar com um alto funcionário do ministério dos
Negócios Estrangeiros, Hans-Heinrich Dieckhoff, que Dodd descreveu como «o equivalente de
um Secretário de Estado adjunto». Encontraram-se num restaurante pequeno e discreto na
Unter den Linden, a larga avenida que seguia para este a partir das Portas de Brandeburgo, e
tiveram uma conversa que Dodd considerou extraordinária.

A principal razão pela qual o embaixador queria ver Dieckhoff era a de expressar a sua
consternação por o fazerem passar por ingénuo com o discurso de Goebbels, caracterizando os
judeus como «sífilis», depois de tudo o que ele tinha feito para acalmar os protestos judaicos
nos Estados Unidos. Recordou a Dieckhoff a intenção anunciada pelo Reich de encerrar a
prisão de Columbia-Haus e de requerer mandados para todas as detenções, bem como de
outras garantias de que a Alemanha «estava a abrandar as atrocidades contra os judeus».

Dieckhoff mostrou-se compreensivo. Confessou-lhe o pouco apreço que tinha por Goebbels e
disse a Dodd que estava confiante de que não faltaria muito para Hitler ser deposto. O
embaixador escreveu no seu diário que Dieckhoff «dava o que considerava serem boas provas
de que os Alemães não tolerariam durante muito mais tempo o sistema que os esmagava
incessantemente e os mantinha num estado de semi-inanição.»

302
NO JARDIM DOS MONSTROS

Tal candura espantava-o. Dodd reparou que Dieckhoff falava com o à-vontade que poderia
demonstrar caso estivesse em Inglaterra ou nos Estados Unidos, chegando ao ponto de
expressar a esperança de que os protestos judaicos na América continuassem. Sem isso,
dissera, as probabilidades de exonerar Hitler diminuiriam.

Dodd estava ciente de que até para um homem na posição de Dieckhoff era perigoso falar
assim. Escreveu: «Senti a profunda preocupação de um alto funcionário capaz de arriscar a
vida com críticas ao regime existente.»

Depois de saírem do restaurante, os dois homens caminharam para oeste pela Unter den
Linden, em direção à Wilhelmstrasse, a principal rua governamental. Despediram-se, segundo
Dodd, «com bastante tristeza».

Dodd regressou ao seu gabinete, trabalhou durante um par de horas e, a seguir, deu um
grande passeio pelo Tiergarten.

'h

303
CAPÍTULO 40

''; L; :' O RETIRO DE UM ESCRITOR

A acumulação de provas de opressão social e política incomodava Martha cada vez mais, à
revelia do seu entusiasmo pelos milhares de homens enérgicos e louros que Hitler atraía. Um
dos momentos mais importantes da sua educação surgiu em maio, quando um amigo, Heinrich
Maria Ledig-Rowohlt, habitue das tertúlias de Mildred e Ar-vid Harnack, a convidou e a
Mildred para o acompanharem numa visita a um dos poucos autores proeminentes que ainda
não se tinham juntado à grande saída de talento artístico da Alemanha nazi — um êxodo que
incluía Fritz Lang, Marlene Dietrich, Walter Gropius, Tho-mas and Heinrich Mann, Bertolt
Brecht, Albert Einstein e o compositor Otto Klemperer, cujo filho, Werner Klemperer, haveria
de representar o papel de um afável e confuso comandante de um campo de concentração
nazi na série televisão Hogan's Heroes. Ledig-Rowohlt era o filho ilegítimo do editor Ernst
Rowohlt e trabalhava na empresa do pai. O autor em questão era Rudolf Ditzen,
universalmente conhecido pelo pseudónimo Hans Fallada.

A visita deveria ter tido lugar no início do ano, mas Fallada adiara--a, ansioso com a publicação
do seu último livro, Once ajailbird. Por esta altura, Fallada conquistara uma fama internacional
considerável pelo seu romance E Agora, Zé Ninguém?, acerca da luta de um casal durante a
agitação económica e social da República de Weimar. O que fazia de Once a Jailbird tema de
tanta ansiedade para Fallada era o facto de ser o seu primeiro trabalho de fôlego publicado
desde que Hitler era chanceler. Não sabia qual a sua situação aos olhos da Câmara Literária do
Reich, dirigida por Goebbels, que se arrogava o direito de decidir o que constituía literatura
aceitável. Para tentar amaciar

304
NO JARDIM DOS MONSTROS

o caminho ao seu novo livro, Fallada incluíra na introdução uma declaração que louvava os
nazis por garantirem que a terrível situação central do livro já não poderia acontecer. Até o seu
editor, Rowohlt, achava que Fallada fora longe demais e disse-lhe que a introdução «parece de
facto demasiado lisonjeira». O autor manteve-a.

Nos meses subsequentes à ascensão de Hitler ao poder, os escritores alemães que não eram
nazis declarados depressa se dividiram em dois campos — o daqueles que acreditavam que
era imoral permanecer na Alemanha, e o dos que consideravam que a melhor estratégia era
ficar, afastando-se o mais possível do mundo, e esperar pelo colapso do regime hitleriano. Esta
segunda abordagem ficou conhecida como «emigração interna», e fora o caminho que Fallada
escolhera.

Martha convidou Boris a ir também. Este concordou, apesar da opinião já expressada de que
Mildred era alguém que Martha deveria evitar.

Fizeram-se À estrada na manhã de domingo, 27 de maio, para uma viagem de três horas até à
quinta de Fallada, em Carwitz, na região de lagos de Mecklenburg, a norte de Berlim. Boris ia a
conduzir no seu Ford e, claro, de capota aberta. A manhã estava fresca e amena, as estradas
quase sem trânsito. Ao sair da cidade, Boris acelerou. O Ford percorria as estradas campestres
ladeadas por castanheiros e acácias, com o ar fragrante e primaveril.

A meio do percurso, a paisagem escureceu. «Pequenas linhas de relâmpagos iluminavam o


céu», recordaria Martha, «e a cena era selvagem e violenta com cor, verdes e violetas elétricos
e intensos, Ulases e cinzentos.» Uma chuva súbita atingiu o para-brisas com explosões de
gotas mas, mesmo então, para delícia de todos, Boris manteve a capota aberta. O carro
acelerava por entre uma nuvem de chuviscos.

De súbito, o céu clareou, deixando para trás vapor banhado pelo sol e cores repentinas, como
se estivessem a avançar por uma pintura. O aroma a terra recentemente molhada permeava o
ar.

Quando se aproximaram de Carwitz, entraram num terreno de colinas, prados e lagos de um


azul-vivo, unidos por caminhos de areia.

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1

ERIK LARSON

As casas e os celeiros eram simples caixas com telhados de duas águas muito inclinados.
Estavam apenas a três horas de Berlim, mas o local parecia remoto e escondido.

Boris parou o carro diante de uma velha quinta junto a um lago. A casa encontrava-se da base
de uma língua de terra chamada Bohnen-werder, que se prolongava pelo lago e cujo terreno
ondulava com colinas.

Fallada saiu da casa, seguido por um rapazinho de uns quatro anos e da esposa loura e roliça
que trazia o segundo filho do casal ao colo, um bebé. Surgiu também um cão. Fallada era um
homem atarracado, com uma cabeça quadrada, uma boca larga e malares tão redondos e
duros que poderiam ser bolas de golfe implantadas sob a pele. Os seus óculos tinham
armações escuras e lentes circulares. Ele e a mulher mostraram rapidamente a quinta aos
recém-chegados; tinham--na comprado com os lucros obtidos com as vendas de E agora, Zé
Ninguém? Martha ficou espantada com o contentamento aparente de ambos.

Foi Mildred quem abordou as questões que pairavam no ar desde a chegada do grupo, embora
tivesse o cuidado de as dotar de subtileza. Enquanto passeava com Fallada até ao lago, de
acordo com um relato detalhado de um dos biógrafos do escritor, ela falou-lhe da sua vida nos
Estados Unidos e de quanto costumava gostar de caminhar nas margens do lago Michigan.
Fallada disse-lhe:

— Deve custar-lhe viver no estrangeiro, sobretudo por os seus interesses serem a literatura e a
língua.

Era verdade, admitiu ela.

— Mas também pode ser difícil viver no nosso próprio país quando a nossa preocupação é a
literatura.

Fallada acendeu um cigarro. Passando a falar muito devagar, afirmou:

— Eu nunca seria capaz de escrever noutra língua nem viver noutro local que não na
Alemanha.

— Talvez, Hetr Ditzen, seja menos importante onde se vive do que como se vive — contrapôs
Mildred. Fallada nada disse. Passado um momento, ela perguntou: — É possível escrever-se
aquilo que se quer nos dias que correm?

306
fW

NO JARDIM DOS MONSTROS

__Isso depende do ponto de vista — respondeu ele. Havia dificuldades e exigências, palavras a
evitar, mas, no final, a língua persistia. -— Sim, creio que ainda é possível escrever aqui nos
tempos em que vivemos, desde que se observem as regulações necessárias e se ceda um
pouco. Não nas coisas importantes, é claro.

— O que é importante e o que não é? — quis saber Mildred.

Almoçaram e beberam café. Martha e Mildred caminharam até ao topo do Bohnenwerder


para admirarem a vista. Uma névoa ligeira amaciava os contornos e as cores, criando uma
sensação geral de paz. Lá em baixo, porém, a disposição de Fallada tornara-se tempestuosa.
Ele e Ledig-Rowohlt jogavam xadrez. O tema da introdução àz Jail-bird viera à baila e o editor
questionava a sua necessidade. Disse a Fallada que fora um dos assuntos de conversa durante
a viagem até Car-witz. Ao sabê-lo, Fallada enfureceu-se. Não lhe agradava ser tema de
mexericos e punha em causa que alguém tivesse o direito de o julgar, quanto mais duas norte-
americanas.

Quando estas regressaram, a conversa continuou e Mildred jun-tou-se-lhe. Martha ia


esforçando-se por segui-la, mas o seu alemão ainda não era suficientemente expedito para
que percebesse os pormenores necessários para que tudo fizesse sentido. Entendeu, contudo,
que Mildred «sondava delicadamente» o afastamento de Fallada do mundo. O desagrado com
que ele reagia a ser desafiado assim era óbvio.

Mais tarde, Fallada levou-os a ver a casa — tinha sete divisões, luz elétrica, um sótão espaçoso
e várias salamandras. Mostrou-lhes a biblioteca, com as muitas edições estrangeiras dos seus
livros, e depois o quarto onde o filho bebé estava a dormir a sesta. Martha escreveu: «Revelou
desconforto e embaraço, embora tentasse demonstrar-se orgulhoso e contente com o seu
bebé, o seu jardim cuidado por si, a mulher simples e roliça, as muitas traduções e edições dos
seus livros alinhadas nas prateleiras. Mas era um homem infeliz.»

Fallada tirou fotografias do grupo; Boris também. Durante a viagem de volta a Berlim, os
quatro companheiros tornaram a conversar sobre Fallada. Mildred descrevia-o como cobarde
e fraco, mas depois

307
ERIK LARSON

acrescentava que «ele tem uma consciência e isso é bom. Não é feliz, não é nazi, não é um
caso perdido.»

Martha registou outra impressão: «Pela primeira vez, vi a marca do medo puro no rosto de um
escritor.»

Faixada acabaria por se tornar uma figura controversa da literatura alemã, desprezado nalguns
quadrantes por não ter feito frente aos nazis, mas defendido noutros por não ter escolhido o
caminho mais seguro do exílio. Nos anos que se seguiram à visita de Martha, Fallada foi-se
vendo cada vez mais obrigado a adaptar a sua escrita às exigências do estado nazi. Dedicou-se
a preparar traduções para a Rowohlt, entre as quais a do livro Um Pai A. Moda Antiga, de
Clarence Day, que então era muito popular nos Estados Unidos, e a escrever obras inócuas que
esperava não ofenderem sensibilidades nazis, entre as quais uma coleção de contos infantis
acerca de um brinquedo de cordel, Hoppelpoppel, Wo bist du? [Hoppelpoppel, Onde Estás?].

Viu a carreira revigorar-se por um breve momento com a publicação, em 1937, do romance
Wolf unter Wõlfen [Lobo Entre Lobos], que foi interpretado por membros do partido como um
ataque meritório ao antigo mundo de Weimar e que o próprio Goebbels descrevia como sendo
«um super livro». Ainda assim, Fallada ia fazendo mais e mais concessões, chegando ao ponto
de permitir que Goebbels lhe ditasse o final do romance seguinte, Der eiserne Gustav [O
Gustav de Ferro], que descrevia as agruras da vida durante a anterior guerra mundial. Fallada
encarava a questão como uma concessão prudente. «Não gosto de gestos grandiosos»,
escreveu; «ser assassinado diante do trono do tirano, sem sentido, sem que ninguém disso
beneficie e em detrimento dos meus filhos, não é assim que ajo.»

Reconhecia, porém, que as várias capitulações se ressentiam na sua escrita. Confessou à mãe
que não estava satisfeito com o seu trabalho. «Não posso fazer o que quero — se quero
continuar vivo. E, assim, um tolo dá menos do que tem.»

Outros escritores exilados observam com desdém a forma como Fallada e outros «emigrantes
internos» cediam aos gostos e às exigências do governo. Thomas Mann, que viveu fora
durante os anos do

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NO JARDIM DOS MONSTROS

j-ggime de Hitler, escreveria o epitáfio destes autores: «Poderá ser uma crença supersticiosa,
mas, aos meus olhos, quaisquer livros que pudessem ser impressos de todo na Alemanha
entre 1933 e 1945 são piores do que imprestáveis e não são objetos em que se deseje tocar.
Tem um fedor a sangue e vergonha inculcado. Deveriam todos ser destruídos.»

O medo e A opressão que Martha viu em Fallada coroou uma montanha crescente de provas
que, durante a primavera, começara a agastar-lhe o enamoramento pela nova Alemanha. O
seu apoio cego ao regime de Hitler esmoreceu primeiro para uma espécie de ceticis-mo
compreensivo, mas, à medida que o verão se aproximava, começou a sentir uma repulsa cada
vez mais profunda.

Se em tempos tinha sido capaz de desconsiderar o incidente do espancamento em


Nuremberga, tratando-o como um episódio isolado, reconhecia agora que a perseguição
germânica aos judeus era um passatempo nacional. O estrondo constante da propaganda nazi,
que retratava os judeus como inimigos do Estado, repugnava-a. Quando ouvia a conversa
antinazi de Mildred e Arvid Harnack e dos seus amigos, já não se sentia tão inclinada a
defender os «seres estranhos» da revolução incipiente que outrora achara tão fascinantes.
«Na primavera de 1934», escreveu, «o que eu ouvira, vira e sentira revelava-me que as
condições de vida eram piores do que nos dias antes de Hitler, que o sistema de terror mais
complicado e desolador reinava no país e reprimia a liberdade e a felicidade do povo e que os
líderes alemães estavam a encaminhar, de modo inevitável, as suas massas dóceis e amáveis
para outra guerra, contra a vontade e sem o conhecimento destas.» Ainda não estava disposta,
contudo, a declarar abertamente a sua atitude ao mundo. «Ainda tentava manter reserva e
silêncio sobre a minha hostilidade.»

Em vez disso, ia-a revelando de forma indireta, proclamando, numa postura deliberadamente
discordante, um interesse novo e energético pelo maior inimigo do regime hitleriano, a União
Soviética. Escreveu: «Começou a crescer dentro de mim uma curiosidade quanto à natureza
deste governo, tão detestado na Alemanha, e quanto ao seu povo, descrito como
completamente desapiedado.»

309
ERIK LARSON

Contra a vontade dos pais, mas com o encorajamento de Boris, começou a planear uma
viagem à União Soviética.

Em junho, Dodd chegara à conclusão de que o «problema judaico», como ele continuava a
referir-se-lhe, não melhorara de forma alguma. Agora, dizia ao secretário Hull numa carta, «a
perspetiva de que cesse parece bem menos otimista». A semelhança de Messersmith, via que
a perseguição era omnipresente, ainda que tivesse mudado de carácter, tornando-se «mais
subtil e menos publicitada».

Em maio, informou, o partido nazi lançara uma campanha contra «pessimistas e


descontentes», que tinha o objetivo de incutir novo fôlego à Gkkhschaltung. Forçosamente,
aumentava a pressão sobre os judeus. O jornal de Goebbels, Der Angrtjf, começou a instar os
leitores a «manter um olhar atento nos judeus e denunciar quaisquer das suas falhas»,
escreveu Dodd. Os proprietários judeus do Frankfurter Zeitung tinham sido forçados a
abandonarem o controlo da empresa, tal como os proprietários judeus do famoso império
editorial Ullstein. Uma grande companhia de borracha foi notificada de que teria de
apresentar provas de não empregar funcionários judeus antes de poder participar em
concursos públicos. De repente, a Cruz Vermelha alemã tinha de certificar que os novos
contribuintes eram de origem ariana. E dois juízes, em cidades distintas, autorizaram que dois
homens se divorciassem das mulheres pelo simples motivo de estas serem judias, justificando-
se com o facto de tais casamentos irem resultar em filhos mestiços, que enfraqueceriam a raça
alemã.

Dodd escreveu: «Estas instâncias, bem como outras de menor importância revelam um
método diferente aplicado ao tratamento dos judeus — talvez um método menos calculado
para causar repercussões no estrangeiro, mas não obstante refletindo a determinação dos
nazis em expulsar os judeus do país.»

A população ariana da Alemanha também vivenciava um controlo mais apertado. Noutro


despacho, escrito no mesmo dia, Dodd descrevia a forma como a semana de aulas passaria a
dividir-se, devotando os sábados e as tardes de quarta às exigências da Juventude Hideriana.

Daí em diante, o sábado passaria a chamar-se Staatsjugendtas, o Dia Nacional para a


Juventude.

310
NO JARDIM DOS MONSTROS

O tempo MANT1NHA-SE quente, com pouca chuva. No sábado, 2 de junho de 1934, com as
temperaturas à volta dos 25° C, o embaixador podd anotou no seu diário: «Pela primeira vez, a
Alemanha parece seca; as árvores e os campos estão amarelos. Os jornais estão cheios de
relatos da seca na Baviera e também nos Estados Unidos.»

Em Washington, Moffat, também tomava nota do tempo. No seu diário chamava-lhe «o


grande calor» e referia domingo, 20 de maio, como o dia em que começara, com um máximo
de 34° C. No seu gabinete.

Ainda ninguém o sabia, mas a América entrara na segunda de uma série de secas cataclísmicas
que, em breve, transformariam as Grandes Planícies numa imensa área deserta.

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CAPÍTULO 41

''"'"' PROBLEMAS COM OS VIZINHOS

Quanto mais o verão se aproximava, mais agudo se tornava a sensação de desconforto em


Berlim. O ambiente era «tenso e elétrico», escreveu Martha. «Todos sentiam que algo pairava
no ar, mas ninguém sabia o que seria.»

A estranha atmosfera e a frágil condição da Alemanha foram temas de conversa num Tee-
Empfang — um lanche — que teve lugar ao final da tarde de sexta-feira, 8 de junho de 1934,
organizado por Putzi Hanfstaengl e ao qual a família Dodd foi.

No regresso a casa, os Dodd não puderam evitar reparar que algo invulgar estava a acontecer
na Bendlerstrasse, a última rua perpendicular por que passavam antes de chegarem. Bem
visíveis, ali se encontravam os edifícios da Bendler Block, o quartel-general do exército. Na
verdade, os Dodd e o exército eram praticamente vizinhos com um quintal das traseiras a
separá-los — um homem com um braço forte poderia atirar uma pedra do pátio da família e
esperar quebrar uma das janelas do quartel.

A mudança era óbvia. Havia soldados nos telhados dos edifícios do quartel-general. Patrulhas
altamente armadas percorriam os passeios. Camiões do exército e carros da Gestapo entupiam
a rua.

Aquelas forças permaneceram durante a noite de sexta e ao longo de todo o sábado. Então, no
domingo de manhã, 10 de junho, as tropas e os camiões desapareceram.

Na casa dos Dodd, espalhou-se um viço proveniente dos terrenos florestais do Tiergarten.
Havia cavaleiros no parque, como sempre, e o som dos cascos era audível na calma da manhã
de domingo.

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CAPÍTULO 42

OS BRINQUEDOS DE HERMÁNN

Por entre os muitos rumores de um levantamento iminente, Dodd e os seus pares do corpo
diplomático continuavam a ter dificuldades em imaginar que Hitler, Góring e Goebbels se
manteriam no poder durante muito mais tempo. Dodd ainda os via como adolescentes ineptos
e perigosos — «miúdos de 16 anos», como já se lhes refega — que se viam perante um
acumular de problemas intimidantes. A seca tornava-se cada vez mais severa. A economia
dava poucos sinais de melhoria, para além do ilusório declínio do desemprego. A cisão entre
Rohm e Hitler parecia ter-se aprofundado. E continuava a haver momentos — momentos
estranhos e enganadores — que sugeriam que a Alemanha não passava do palco de uma
comédia grotesca, não um país sério numa circunstância séria.

O dia 10 de junho de 1934, domingo, forneceu um desses episódios, quando Dodd, o


embaixador francês François-Poncet e o britânico sir Eric Phipps, bem como três dúzias de
outros convidados, participaram numa espécie de receção na vasta propriedade de Gõ-ring, a
uma hora de carro de Berlim. Chamara-lhe Carinhall, em honra da esposa sueca falecida, Carin,
que reverenciava; planeava, no final desse mês, exumar o corpo dela da jazida na Suécia,
transportá-lo para a Alemanha e sepultá-la num mausoléu nos terrenos da propriedade.
Naquele dia, todavia, queria tão-só exibir as suas florestas e o novo cercado para bisontes,
onde esperava criar essas criaturas e depois libertá-las na propriedade.

Os Dodd chegaram um pouco tarde no novo Buick, que os traíra pelo caminho com uma
pequena falha mecânica, mas, ainda assim, conseguiram chegar antes do próprio Góring. As
instruções que tinham recebido pediam-lhes que conduzissem até um determinado

313
ERIK LARSON

ponto da propriedade. Para impedir que os convidados se perdessem, Gõring dispusera


homens em cada cruzamento, dando indicações. Dodd e a mulher encontraram os outros
convidados reunidos em redor de um orador que discorria sobre algum aspeto dos terrenos.
Os Dodd ficaram a saber que estavam na extremidade do cercado para bisontes.

Por fim, Gõring chegou, a conduzir depressa e sozinho, no que Phipps descreveu como um
carro de corridas. Ao sair, revelou envergar um uniforme que era em parte a roupa de um
aviador e, por outro lado, a de um caçador medieval. Tinha botas de borracha natural e, presa
no cinto, uma grande faca de caça.

Ocupou o lugar do primeiro orador. Serviu-se de um microfone, mas falava muito alto, o que
surtiu um efeito chocante naquele local tão silvestre. Descreveu o seu plano para criar uma
reserva florestal que reproduziria as condições da Germânia primeva, a que não faltariam
animais primitivos, como aquele bisonte que se encontrava ali perto. Três fotógrafos e um
operador de «cinematógrafo» capturavam a ocasião em filme.

Elisabetta Cerruti, a bela esposa húngara e judia do embaixador italiano, recordaria o que
aconteceu em seguida.

— Senhores e Senhoras — disse Gõring —, dentro de alguns minutos, testemunharão o


espetáculo único da natureza em ação. — Apontou para uma jaula de ferro. — Nesta jaula
encontra-se um poderoso bisonte macho, um animal praticamente inaudito no continente...
Encontrará aqui, diante dos vossos olhos, a fêmea da sua espécie. Por favor, mantenham o
silêncio e não tenham medo.

Os empregados de Gõring abriram a jaula.

— Ivan, o Terrível — bradou Gõring —, ordeno-te que saias da jaula.

O animal não se mexeu.

A ordem foi repetida. O animal tornou a ignorá-la.

Então, os empregados começaram a tentar incitar Ivan a agir. Os fotógrafos preparavam-se


para a carga fortíssima que decerto se seguiria.

O embaixador britânico Phipps escreveu no seu diário que o animal saiu da jaula «com uma
tremenda relutância e, depois de olhar para as vacas com alguma tristeza, tentou regressar
para o interior.»

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NO JARDIM DOS MONSTROS

phipps também descreveu o caso num memorando mais tardio enviado para Londres, que se
tornaria conhecido no corpo diplomático co-0JO «o despacho do bisonte».

Em seguida, Dodd, Mattie e os outros convidados entraram em trinta carruagens de dois


lugares conduzidas por camponeses e encetaram um longo passeio serpenteante por entre
florestas e prados. Gõring ia na dianteira, numa carruagem puxada por dois cavalos
imponentes, com Elisabetta Cerruti sentada à sua direita. Uma hora depois, a procissão
interrompeu-se junto a um pântano. Gõring saiu da sua carruagem e proferiu outro discurso,
desta feita sobre as glórias dos pássaros.

Mais uma vez, os convidados subiram para as carruagens e, após outro longo passeio,
chegaram a uma clareira onde os seus carros os esperavam. O corpulento Gõring enfiou-se no
automóvel e partiu a alta velocidade. Os outros convidados seguiram-no, a um ritmo mais
lento e, ao fim de vinte minutos, alcançaram um lago, junto ao qual se encontrava uma imensa
casa de madeira recém-construída, que parecia pretender evocar a residência de um lorde
medieval. Gõring aguardava-os, tendo mudado de roupa por completo e envergando então
«um belo fato branco de verão», segundo Dodd escreveu — sapatilhas brancas, calças brancas
de cotim, uma camisa branca e um colete de caça de cabedal verde, em cujo cinto surgia a
mesma faca de caça. Com uma das mãos, segurava um longo acessório que parecia uma
mistura entre o cajado de um pastor e um arpão.

Já eram seis da tarde e o sol da tarde dava à paisagem uma agradável tonalidade âmbar. De
cajado na mão, Gõring conduziu os convidados para a casa. Havia uma coleção de espadas
pendurada mesmo à entrada. Exibiu as suas salas de «ouro» e «prata», o salão de jogo, a
biblioteca, o ginásio e o cinema. Um corredor estava apinhado de dezenas de armações de
veados. Na sala de estar principal, depara-ram-se com uma árvore viva, uma imagem de
bronze de Hider e um espaço «ainda livre» no qual Gõring planeava instalar uma estátua de
Wotan, o deus teutónico da guerra. Gõring «dava mostras da sua vaidade a cada passo»,
comentou Dodd, que reparou que vários convidados iam trocando olhares divertidos mas
discretos.

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ERIK LARSON

Depois, Góring levou o grupo para o exterior, onde foi pedido a todos que se sentassem em
mesas ao ar livre para uma refeição orquestrada pela atriz Emmy Sonnemann, que Gõring
identificou como sua «secretária pessoal», ainda que fosse do conhecimento público que
estavam envolvidos. (A Sra. Dodd gostou de Sonnemann e, nos meses subsequentes tornar-se-
ia, nas palavras de Martha «bastante apegada a ela».) O embaixador Dodd viu-se sentado a
uma mesa com o vice-chanceler Papen, Phipps e François-Poncet, entre outros. Ficou
desiludido com o resultado. «A conversa não teve qualquer valor» — ainda que, por breves
instantes, se tenha deixado animar quando a discussão se centrou num novo livro sobre a
Marinha alemã na Primeira Guerra Mundial, durante a qual comentários demasiado
entusiastas a respeito da guerra o levaram a dizer: «Se as pessoas conhecessem a verdade da
história, nunca haveria outra grande guerra.»

Phipps e François-Poncet reagiram com risos constrangidos.

Depois fez-se silêncio.

Alguns momentos depois, a conversa reavivou-se: «voltámo-nos», escreveu Dodd, «para


outros temas menos arriscados».

Dodd e Phipps presumiam — esperavam — que, quando a refeição terminasse, poderiam


despedir-se e dar início à viagem de regresso a Berlim, onde ambos tinham um evento noturno
a que comparecer, mas Gõring informou então todos os convidados que o clímax daquela
saída — «daquela estranha comédia», chamou-lhe Phipps — ainda estava para acontecer.

Gõring levou-os até outra zona da costa do lago, a uns quatrocen-to e cinquenta metros dali,
onde se deteve diante de um túmulo erigido nas margens das águas. Ali, Dodd deparpu-se
com «a estrutura mais elaborada deste género que alguma vez vi». O mausoléu estava entre
dois enormes carvalhos e três grandes blocos de arenito, semelhantes aos de Stonehenge.
Gõring aproximou-se de um dos carvalhos e colocou-se diante dele, de pernas afastadas, como
um monstruoso espírito dos bosques. Continuava com a faca de caça no cinto e voltou a
brandir o cajado medieval. Enunciou as virtudes da esposa falecida, a localização idílica do seu
túmulo e os planos que tinha para a sua exumação e reenterro, que ocorreria dali a dez dias,
no solstício de verão, um dia que a ideologia pagã dos nacional-socialistas tinha

316
NO JARDIM DOS MONSTROS

imbuído de importância simbólica. Hitler estaria presente, tal como legiões do exército, das SS
e das SA.

Por fim, «fartos do espetáculo curioso», Dodd e Phipps move-ram-se em conjunto para se
despedirem de Gõring. Elisabetta Cerruti, claramente à espera da sua própria oportunidade
para fugir, foi mais célere. «Lady Cerruti viu o nosso movimento», escreveu Dodd, «e le-
vantou-se depressa para não permitir que alguém a ultrapassasse no ensejo de liderar todas as
ocasiões possíveis.»

No dia seguinte, Phipps escreveu acerca da festa de Gõring. «Foi tudo tão estranho que, por
vezes, transmitiu uma sensação de irrealidade», comentou, mas o episódio facultara-lhe uma
perceção valiosa, ainda que perturbadora, da natureza do poder nazi. «A impressão principal
foi a da ingenuidade patética do general Gõring, que nos mostrou os seus brinquedos como
uma criança grande, gorda e mimada; os seus bosques primevos, os seus bisontes e pássaros,
o seu amplificador de gritos, o lago e a praia, a sua "secretária pessoal" loura, o mausoléu para
a sua esposa, com cisnes e blocos de arenito [...] e depois lembrei-me de que havia outros
brinquedos, menos inocentes apesar de alados, que poderão um dia ser lançados numa
missão assassina com o mesmo espírito infantil, a mesma alegria infantil.»
CAPITULO 43

' "' í;•-'—r- • • FALA UM PIGMEU

Onde quer que Martha e o pai fossem, escutavam rumores e especulação a respeito do
iminente colapso do regime de Hitler. A cada dia quente de junho, os rumores ganhavam
pormenores. Em bares e cafés, clientes dedicavam-se ao decididamente perigoso passatempo
de compor e comparar listas de quem formaria o novo governo. Os nomes de dois antigos
chanceleres surgiam com frequência: o do general Kurt von Schleicher e o de Heinrich Brúning.
Um rumor afiançava que Hitler continuaria a ser chanceler, mas seria controlado por um
governo novo, mais forte, com Schleicher como vice-chance-ler, Brúning como ministro dos
Negócios Estrangeiros e o capitão Rohm com a pasta da Defesa. A 16 de junho de 1934, a um
mês do primeiro aniversário da sua chegada a Berlim, Dodd escreveu ao secretário de Estado
Hull: «Em todos os lugares a que vou, há homens a falar de resistência, de possíveis putsches
nas grandes cidades.»

E então aconteceu algo que, até àquela primavera, teria parecido impossível, dadas as
potentes barreiras à divergência estabelecidas sob o jugo de Hitler.

A 17 de junho, um domingo, o vice-chanceler Papen tinha um discurso agendado em Marburg,


na universidade homónima da cidade, a que se chegava após uma breve viagem de comboio
para sudoeste de Berlim. Ele não viu o texto até estar no comboio, devido a uma conspiração
silenciosa entre o seu redator de discursos, Edgar Jung, e o secretário, Fritz Gunther von
Tschirschky und Boegendorff. Jung era um conservador proeminente que desenvolvera tal
oposição ao partido nazi que, por um breve intervalo de tempo, considerou a hipótese de
assassinar Hider. Até então, mantivera as suas opiniões antinazis afastadas dos discursos de
Papen, mas pressentia que o conflito crescente

318
NO JARDIM DOS MONSTROS

entre os membros do governo fornecia uma oportunidade única. Se o próprio Papen falasse
contra o regime, calculava Jung, os seus comentários poderiam, por fim, levar o presidente
Hindenburg e o exército a expulsar os nazis do poder e a esmagar as Tropas de Assalto,
servindo o interesse de restaurar a ordem da nação. Jung reviu o discurso cautelosamente com
Tschirschky, mas ambos o tinham retido até ao último momento, para que Papen não tivesse
escolha a não ser proferi-lo. «Demorámos meses a preparar o discurso», revelaria Tschirschky
mais tarde. «Foi necessário encontrar a ocasião adequada para ser proferido e depois tudo
teve de ser preparado com o maior cuidado possível.»

Agora, no comboio, enquanto o vice-chanceler lia o texto pela primeira vez, Tschirschky
apercebia-se da expressão de medo que lhe perpassava o rosto. É uma prova do cariz alterado
da Alemanha — da perceção disseminada de que uma mudança drástica poderia estar
iminente — que Papen, uma personalidade nada heróica, sentisse que poderia avançar,
proferir tal discurso e, ainda assim, sobreviver. Não que tivesse grande escolha. «Forçámo-lo,
mais ou menos, a fazer aquele discurso», disse Tschirschky. Já tinham sido distribuídas cópias a
correspondentes estrangeiros. Mesmo que Papen recuasse à última hora, o texto continuaria a
circular. Era óbvio que partes do conteúdo já eram conhecidas, pois, quando Papen chegou à
sala, esta vibrava de expectativa. A sua ansiedade decerto terá aumentado ao ver que vários
lugares estavam ocupados por homens a envergar camisas castanhas e braçadeiras com a
suástica.

Papen caminhou até ao palanque.

«Dizem-me», começou ele a ler, «que a minha responsabilidade quanto aos acontecimentos
na Prússia e quanto à formação do presente governo» — uma alusão ao seu papel para a
nomeação de Hitler como chanceler — «tem surtido um efeito tão importante nos
desenvolvimentos na Alemanha que me vejo obrigado a vê-los com um olhar mais crítico do
que o da maioria das pessoas.»

Os comentários que se seguiam teriam valido a qualquer homem de menor estatura política
uma ida para as galés: «O governo está bem ciente do egoísmo, da falta de princípios, da
insinceridade, do comportamento pouco cavalheiresco, da arrogância que crescem sob

319
ERIK LARSON

a guisa da revolução alemã.» Se o governo esperava estabelecer «uma relação íntima e


amistosa com o povo», avisou, «então não poderá subestimar a inteligência das pessoas, a
confiança depositada terá de ser retribuída e não deverá haver uma tentativa constante de as
depreciar.»

O povo alemão, declarou, seguiria Hitler com lealdade absoluta «desde que lhe seja permitido
ter uma quota na tomada e na execução das decisões, desde que cada palavra crítica não seja
de imediato interpretada como maliciosa, e desde que patriotas desesperados não sejam
marcados como traidores.»

Chegara a altura, proclamou, «de silenciar os fanáticos doutrinários».

A audiência reagiu como se os membros que a compunham esperassem há muito por ouvir
tais comentários. Quando o vice-chanceler terminou o discurso, a multidão ergueu-se. «O
estrondo de aplausos», observou Papen, abafou «os protestos furiosos» dos nazis fardados ali
presentes. O historiador John Wheeler-Bennett, na altura residente em Berlim, escreveu: «é
difícil descrever a alegria com que foi recebido na Alemanha. Era como se um fardo tivesse de
repente sido levantado da alma alemã. A sensação de alívio era quase palpável. Papen
transpusera para palavras aquilo que milhares e milhares dos seus compatriotas trancavam
nos corações, com receio das terríveis penalizações impostas ao discurso livre.»

Nesse mesmo dia, Hitler discursaria noutra zona da Alemanha, onde falaria sobre a visita que
acabava de fazer à Itália, onde se encontrara com Mussolini. Hitler transformou a
oportunidade num ataque a Papen e aos seus aliados conservadores, sem referir diretamente
o vice-chanceler. «Todos esses minúsculos anões que acham que têm algo a dizer contra a
nossa ideia serão varridos do mapa pela sua força coletiva», gritou Hitler. Encolerizou-se com
«esta minhoca pequena e ridícula», este «pigmeu que imagina poder parar, com algumas
frases, a gigantesca renovação da vida de um povo.»

Lançou um aviso ao campo de Papen: «Se fizerem alguma tentativa, mesmo que pequena, de
passar da crítica a um novo ato de perjúrio, poderão ter a certeza de que o que os confronta
hoje não é a burguesia

320
NO JARDIM DOS MONSTROS

cobarde e corrupta de 1918, mas o punho de todo um povo. É o punho da nação que está
cerrado e que esmagará qualquer um que ouse perpetrar nem que seja a mais ligeira tentativa
de sabotagem.»

Goebbels agiu de imediato para suprimir o discurso do vice-chance-]er. Proibiu que fosse
transmitido e ordenou a destruição dos registos de gramofone que o tinham gravado. Proibiu
os jornais de o transcreverem ou de relatarem o conteúdo, embora pelo menos um, o
Frankfurter Zei-tuns. tenha conseguido publicar excertos. Estava tão decidido a travar a
disseminação do discurso que exemplares do jornal «foram arrancados às mãos de convivas
em restaurantes e cafés», informou Dodd.

Os aliados do vice-chanceler serviam-se da gráfica do jornal do próprio Papen, Germânia, para


produzir cópias do discurso que foram discretamente distribuídas por diplomatas,
correspondentes estrangeiros e outras pessoas. O discurso causou alvoroço um pouco por
todo o mundo. O New York Times pediu à embaixada que lhe telegrafasse o texto integral.
Jornais em Londres e Paris tornaram-no uma sensação.

O acontecimento intensificou a sensação de inquietude que permeava Berlim. «Havia algo no


ar tórrido», escreveu Hans Givesius, o memorialista da Gestapo, «e uma torrente de rumores
prováveis e absolutamente fantásticos corria pela populaça intimidada. Acreditava-se
piamente em histórias loucas. Todos sussurravam e espalhavam novos rumores.» Homens de
ambos os lados da cisão política «ficaram extremamente preocupados com a hipótese de
terem sido contratados assassinos para os aniquilar e com quem poderiam ser esses
assassinos.»

Alguém atirou uma granada de mão do telhado de um edifício para a Unter den Linden.
Explodiu, mas o único dano foi provocado à psique de vários dirigentes governamentais e das
SA que se encontravam por perto. Karl Ernst, o jovem e implacável comandante da divisão de
Berlim das SA, passou pela avenida cinco minutos antes da explosão e afirmava ser ele o alvo e
que Himmler estava por trás do ataque.

Neste caldeirão de tensão e medo, a ideia de Himmler querer matar Ernst era perfeitamente
plausível. Até uma investigação policial ter identificado o potencial assassino como um
trabalhador descontente com o seu emprego a tempo parcial, subsistiu uma aura de receio e
dúvida, como o fumo que se esvai do cano de uma arma disparada.

321
ERIK LARSON

Nas palavras de Gisevius, «havia tantos sussurros, tantas piscadelas de olho e acenos de
cabeça que resquícios de suspeita se mantinham».

A nação parecia estar em alerta para o clímax de algum thrilkr cinematográfico. «A tensão
estava no auge», escreveu Gisevius. «Era mais difícil suportar a incerteza atormentadora do
que o excesso de calor e humidade. Ninguém sabia o que aconteceria a seguir e todos sentiam
que algo temível pairava no ar.» Victor Klemperer, o filólogo judeu, sentia o mesmo. «Por todo
o lado incerteza, fermento, segredos», escreveu no seu diário, em meados de junho. «Vivemos
um dia de cada vez.»

Para Dodd, o discurso de Papen em Marburg parecia marcar aquilo em que ele há muito
acreditava — que o regime hitieriano era demasiado brutal e irracional para durar. O próprio
vice-chanceler de Hider criticara o regime e sobrevivera. E se aquele fosse, na realidade, o
golpe que precipitasse o governo de Hider para o seu fim? E, se assim fosse, que estranho ter
sido executado por uma alma tão pouco corajosa como Papen.

«Assiste-se agora a uma grande agitação por toda a Alemanha», escreveu o embaixador no
diário a 20 de junho, uma quarta-feira. «Todos os alemães mais velhos e intelectuais estão
altamente satisfeitos.» De repente, fragmentos de outras notícias começavam a fazer mais
sentido, incluindo uma fúria maior nos discursos de Hider e dos seus delegados. «Diz-se que
todas as guardas dos dirigentes demonstram sinais de revolta», escreveu Dodd. «Ao mesmo
tempo, regista-se que treinos aéreos e manobras militares são visões cada vez mais comuns
para quem conduz pelo campo.»

Nessa mesma quarta, Papen foi ver Hider para se queixar da supressão do seu discurso. «Falei
em Marburg na qualidade de representante do Presidente», disse ao chanceler. «A
intervenção de Goebbels obrigar-me-á a demitir-me. Informarei Hindenburg imediatamente.»

Para Hitler, tratava-se de uma ameaça séria. Reconhecia que o presidente Hindenburg detinha
a autoridade constitucional para o depor e a lealdade do exército; e compreendia também que
estes dois fatores faziam de Hindenburg a única força verdadeiramente poderosa sobre a qual
não exercia qualquer controlo. Estava ciente, para

322
NO JARDIM DOS MONSTROS

mais, de que Hindenburg e Papen — o Fràmçchen do presidente — tinham uma relação


pessoal muito próxima e que Hindenburg enviara ao vice-chanceler um telegrama a
congratulá-lo pelo discurso.

Então, Papen disse a Hitler que iria à propriedade do presidente, Neudeck, e lhe pediria que
autorizasse a publicação integral do discurso.

O chanceler tentou acalmá-lo. Prometeu anular a proibição emitida pel° ministro da


Propaganda quanto à publicação e disse-lhe que o acompanharia a Neudeck, para que ambos
pudessem encontrar-se com Hindenburg. Num momento de ingenuidade surpreendente,
Papen concordou.

Nessa noite, aqueles que comemoravam o solstício atearam fogueiras por toda a Alemanha. A
norte de Berlim, o comboio fúnebre que transportava o corpo da esposa de Gõring, Carin,
parou numa estação perto de Carinhall. Fileiras de soldados e oficiais nazis encheram a praça
diante da estação, enquanto uma banda tocava a Marcha Fúnebre de Beethoven. Em primeiro
lugar, oito polícias levaram o caixão, que, então, com grande cerimónia, foi passado a outro
grupo de oito homens e assim sucessivamente, até ser colocado numa carruagem puxada por
seis cavalos, no qual faria a viagem final até ao mausoléu junto ao lago. Hitler juntou-se à
procissão. Soldados empunhavam tochas. No túmulo, havia grandes piras a arder. Dando um
toque sinistro e cuidadosamente orquestrado à cerimónia, o brado choroso de trompas de
caça elevou-se na floresta por trás das labaredas.

Himmler chegou. Era óbvio que estava agitado. Chamou Hitler e Gõring à parte, para lhes
transmitir uma notícia perturbadora — falsa, como certamente ele saberia, mas útil para instar
o chanceler a agir contra Rohm. Enfurecido, Himmler afirmou que alguém acabava de tentar
matá-lo. Uma bala furara-lhe o para-brisas. Culpou Róhm e as SA. Não havia tempo a perder,
dizia: era certo que as Tropas de Assalto estavam à beira da rebelião.

O buraco do para-brisas, porém, não fora provocado por uma bala. Hans Gisevius teve acesso
ao relatório final da Polícia. O estrago condizia mais com o que teria sido causado por uma
pedra projetada

323
ERIK LARSON

pelo pneu de outro automóvel a passar. «Foi com um frio calculismo que [Himmler], portanto,
culpou as SA da tentativa de assassínio», escreveu ele.

No dia seguinte, 21 de junho de 1934, Hider voou até à propriedade de Hindenburg — sem
Papen, o que decerto fora a sua intenção desde o início. Em Neudeck, todavia, encontrou-se
primeiro com o ministro da Defesa, Blomberg. O general, fardado, recebeu-o na escadaria de
acesso ao castelo de Hindenburg. Mostrou-se severo e franco, dizendo ao chanceler que o
presidente estava preocupado com a tensão crescente na Alemanha. Se Hider não controlasse
a situação, transmitiu Blomberg, Hindenburg instauraria a lei marcial e colocaria o governo nas
mãos do exército.

Quando Hitier se encontrou na presença do presidente, recebeu a mesma mensagem. A sua


visita a Neudeck durou trinta minutos. Voou de volta para Berlim.

Ao longo dessa semana, Dodd foi ouvindo falar do vice-chanceler Papen e do seu discurso,
bem como do simples milagre que era ter sobrevivido. Correspondentes e diplomatas
tomavam nota das atividades de Papen — a que almoços comparecia, quem falava com ele,
quem o evitava, onde estacionava o carro, se ainda dava o seu passeio matinal pelo Tiergarten
— em busca de sinais do que poderia esperá-lo e à Alemanha. A 21 de junho, quinta-feira,
Dodd e Papen assistiram a um discurso feito pelo presidente do Reichsbank, Hjalmar Schacht.
Depois, segundo Dodd reparou, Papen parecia receber ainda mais atenção do que o orador.
Goebbels também estava presente. Dodd apercebeu-se de que Papen se aproximou da mesa
dele, lhe deu um aperto de mão e o acompanhou a tomar uma chávena de chá. O embaixador
ficou atónito, pois tratava-se do mesmo Goebbels «que, depois do discurso de Mar-burg, teria
ordenado a execução imediata do vice-chanceler, caso Hitler e Von Hindenburg não tivessem
intervindo».

A atmosfera de Berlim mantinha-se carregada, anotou Dodd no diário a 23 de junho, domingo.


«A semana termina com tranquilidade, mas com um grande mal-estar.»

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CAPÍTULO 44

A MENSAGEM NA CASA DE BANHO

Papen movimentava-se por Berlim numa aparente descontração e a 24 de junho de 1934,


viajou até Hamburgo como emissário de Hindenburg no Derby Alemão, uma corrida de
cavalos, onde a multidão o presenteou com uma ovação emocionada. Ao chegar, Goebbels
avançou por entre a multidão atrás de uma falange de SS, suscitando assobios e vaias. Os dois
homens cumprimentaram-se com um aperto de mão enquanto os fotógrafos capturavam o
instante.

Edgar Jung, redator de discursos de Papen, mantinha-se discreto. Por aquela altura,
convencera-se de que o discurso de Marburg lhe custaria a vida. O historiador Wheeler-
Bennett conseguiu marcar um encontro clandestino com ele numa área florestal nos arredores
de Berlim. «Estava absolutamente calmo e fatalista», recordaria Wheeler--Bennett, «mas
falava com a liberdade de um homem que nada tem à sua frente e, por conseguinte, que nada
pode perder e, assim, con-tou-me muitas coisas.»

A retórica do regime tornava-se mais ameaçadora. Num discurso radiofónico emitido a 25 de


junho, segunda-feira, Rudolf Hess avisava: «Triste daquele que trai a confiança, acreditando
que, através de uma revolta, poderá servir a revolução.» O partido, disse, reagiria à rebelião
com determinação absoluta, guiado pelo princípio: «Se atacas, ataca com força!»

No dia seguinte, terça-feira, 26 de junho, a governanta de Edgar Jung chegou à casa deste e
encontrou-a saqueada, com mobília virada do avesso e roupas e papéis espalhados. Na
farmácia da casa de banho, Jung escrevinhara uma única palavra: Gestapo.

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ERIK LARSON

Diels preparava-se para ser ajuramentado como comissário regional de Colónia. Gõring voou
para a cidade para estar presente. O seu avião branco emergiu de um céu límpido e cerúleo
num dia que Diels descreveu como «um belo dia de verão na Renânia». Na cerimónia Diels
envergou a sua farda negra das SS, Gõring um uniforme branco que ele mesmo tinha
desenhado. Depois, Gõring chamou-o à parte e disse-lhe: «Tenha cuidado nos próximos dias.»

Diels levou o alerta a sério. Já adepto de saídas oportunas, abandonou a cidade para uma
estada na região montanhosa de Eifel.

326
*w

CAPÍTULO 45

A INQUIETAÇÃO DA SRA. CERRUTI

Na quinta-feira, 28 de junho de 1934, o embaixador Dodd escreveu no seu diário: «Ao longo
dos últimos cinco dias, histórias de vários géneros têm contribuído para tornar a atmosfera de
Berlim mais tensa do que em qualquer altura desde que me encontro na Alemanha.» O
discurso de Papen continuava a ser um tema das conversas quotidianas. Com uma ferocidade
crescente, Hider, Góring e Goebbels alertavam para as terríveis consequências de quem quer
que ousasse opor-se ao governo. Num telegrama que enviou ao Departamento de Estado,
Dodd comparava o ambiente ameaçador ao da Revolução Francesa — «a situação era muito
semelhante à de Paris em 1792, quando os giron-dinos e os jacobinos se degladiavam pela
supremacia.»

Na sua própria casa, havia uma camada extra de tensão que nada tinha que ver com o clima
ou a agitação política. Contra a vontade dos pais, Martha continuava a planear a sua viagem à
Rússia. Insistia que o seu interesse não tinha relação alguma com o comunismo per se, mas
antes com o seu amor por Boris e pela crescente repulsa que nutria pela revolução nazi.
Admitia que Boris era um comunista leal, mas declarava que a única influência política que
exercia sobre si era «através do exemplo do seu magnetismo e simplicidade, bem como do
amor ao seu país». Confessava sentir uma ambivalência corrosiva «quanto a Boris, às suas
crenças, ao sistema político do país dele, ao nosso futuro conjunto». Fazia questão de fazer a
viagem sem ele.

Queria ver tanto quanto pudesse da Rússia e ignorou o conselho de Boris de se concentrar
somente nalgumas cidades. Ele queria que ela ganhasse uma compreensão profunda da sua
pátria, não apenas a apreciação de relance de uma turista. Reconhecia ainda que viajar no seu
país não era tão veloz ou confortável como na Europa ocidental,

327
ERIK LARSON

assim como que as cidades e vilas não tinham o encanto das pitorescas aldeias alemãs ou
francesas. Na verdade, a União Soviética era tudo exceto o paraíso dos trabalhadores que
muitos estrangeiros de esquerda a julgavam. Sob o jugo de Estaline, os camponeses tinham
sido obrigados a formar vastas cooperativas. Muitos tinham resistido e estima-se que cinco
milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — tenham simplesmente desaparecido,
muitos deles enviados para campos de trabalho remotos. As condições de alojamento eram
primitivas, os bens de consumo praticamente inexistentes. A fome assolava a Ucrânia. A
quantidade de animais criados sofreu um declínio drástico. De 1929 até 1933, o número total
de cabeças de gado passou de 68,1 milhões para 38,6 milhões; de cavalos, de 34 milhões para
16,6 milhões. Boris sabia muito bem que, para um visitante ocasional, o cenário físico e social
e, sobretudo, o vestuário pardacento dos trabalhadores russos poderiam parecer menos do
que cativantes, em especial se esse visitante se encontrasse exausto por uma viagem árdua e
pela presença obrigatória de um guia da agência de viagens oficial, a Intourist.

Não obstante, Martha escolheu a Viagem n.° 9, com o itinerário Volga-Cáucaso-Crimeia, que
teria início a 6 de julho com um voo — o primeiro da sua vida — de Berlim para Leninegrado.
Depois de dois dias nessa cidade, partiria de comboio para Moscovo, onde passaria quatro
dias, tomando então um comboio noturno para Gorki e, duas horas depois da sua chegada às
10h04, embarcaria num barco a vapor do Volga que a levaria a fazer um cruzeiro de quatro
dias, com paragens em Kazan, Samara, Saratov e Estalinegrado, onde realizaria a visita
obrigatória a uma fábrica de tratores; de Estalinegrado, apanharia um comboio para Rostov-
do-Don, onde teria a opção de visitar uma quinta do Estado, embora ali o itinerário emanasse
uma ligeira lufada a capitalismo, pois a visita à quinta requeria um «pagamento extra». Em
seguida, Ordzhonikidze, Tíflis, Batumi, Ialta, Sebastopol, Odessa, Kiev e, por fim, regressaria a
Berlim de comboio, onde chegaria a 7 de agosto, no trigésimo terceiro dia sua viagem,
precisamente — ainda que com bastante otimismo — às 19h22.

A sua relação com Boris continuava a cimentar-se, apesar de manter as costumeiras oscilações
selvagens entre paixão e fúria, bem como a cascata habitual de notas de perdão e flores
enviadas por ele.

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w

NO JARDIM DOS MONSTROS

A dada altura, ela devolveu-lhe os três macacos de cerâmica. Ele resti-tuiu-lhos.

«Martha!», escreveu ele, cedendo à paixão que tinha pelas exclamações. «Agradeço-te as
cartas e o "não esquecimento"». Os teus três macacos cresceram (tornaram-se grandes) e
querem estar contigo. Envio-tos. Tenho de ser muito franco: os três macacos têm suspirado
por ti. E não só os três macacos, sei de outro jovem elegante, louro (ariano!!) que anseia por
estar contigo. Este jovem (não tem mais de 30 anos) — sou eu.

Martha! Quero ver-te, preciso de te dizer que também não esqueci a minha pequena, adorável
e encantadora Martha!

Amo-te, Martha! O que tenho de fazer para te instilar mais confiança?

Teu, Boris.»

Em qualquer época, esta relação teria provavelmente chamado a atenção, mas, naquele mês
de junho em Berlim, tudo ganhava uma gravidade acrescida. Toda a gente vigiava todos os
outros. Na altura, Martha pouca importância dava às perceções alheias, mas, anos mais tarde,
numa carta para Agnes Knickerbocker, a mulher do seu amigo correspondente Knick,
reconheceu a prontidão com que a perceção poderia distorcer a realidade. «Nunca conspirei
para derrubar nem sequer para subverter o governo norte-americano, nem na Alemanha nem
nos Estados Unidos!», escreveu. «Julgo contudo que o mero facto de conhecer e amar Boris
fosse suficiente para que algumas pessoas suspeitassem do pior.»

Na altura, não havia motivos para suspeita, insistiu. «Em vez disso, tratou-se de uma daquelas
coisas que nos absorvem sem qualquer base política, excetuando que, através dele, fiquei a
saber algo acerca da URSS.»

Sexta, 29 de junho de 1934, comportou o mesmo clima de tempestade iminente que marcara
as semanas anteriores. «Foi o dia mais quente que tínhamos tido naquele verão», recordou
Elisabetta Cerruti, esposa do embaixador italiano. «O ar estava tão condensado que mal se
conseguia respirar. Nuvens negras espreitavam no horizonte, mas um sol inclemente brilhava
sobre nós.»

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ERIK LARSON

Nesse dia, os Dodd organizaram um almoço em casa, para o qual tinham convidado o vice-
chanceler Papen e outras figuras diplomáticas e governamentais, incluindo o casal Cerruti e
Hans Luther, embaixador alemão nos Estados Unidos que, nessa altura, se encontrava em
Berlim.

Martha também participou e observou o pai e Papen afastarem-se dos convidados para terem
uma conversa privada na biblioteca, em frente à lareira então adormecida. Papen, escreveu
ela, «parecia tão confiante e amável como era costume».

A certa altura, Dodd reparou que Papen e Luther se aproximavam um do outro com uma
«atitude bastante tensa». Dodd avançou para intervir e os guiar para o encantador jardim de
inverno, onde outro convidado se juntou à conversa. Dodd, referindo-se às fotografias da
imprensa tiradas no dia do Derby Alemão, disse a Papen que «o senhor e o Dr. Goebbels
pareciam bastante amistosos naquele dia em Hamburgo».

Papen riu-se.

Ao almoço, a Sra. Cerruti sentou-se à direita de Dodd e Papen à frente dela, ao lado da Sra.
Dodd. A ansiedade da embaixatriz era palpável, até para Martha, que a observava ao longe, e
que escreveu: «Ela sentou-se ao lado do meu pai num estado de quase colapso, praticamente
sem falar, pálida, preocupada e nervosa.»

A italiana disse a Dodd: «Sr. Embaixador, algo terrível vai acontecer na Alemanha. Sinto-o no
ar.»

Um rumor disseminado mais tarde alegava que a Sra. Cerruti, de alguma forma, saberia
antecipadamente o que estava prestes a acontecer. Ela ficou espantadíssima. O comentário
que fizera, viria a afirmar anos depois, referia-se apenas ao clima.

Nos Estados Unidos, o «grande calor» piorou nessa sexta-feira. Em locais húmidos, como
Washington, tornou-se quase impossível trabalhar. Moffat tomou nota no seu diário:
«Temperatura hoje: 38,5° C à sombra.»

O calor e a humidade eram tão insuportáveis que, ao cair da noite, Moffat, Phillips e outro
funcionário foram a casa de um amigo de

330
NO JARDIM DOS MONSTROS

lyfoffat, para usufruírem da piscina. O amigo estava ausente na altura. qs três homens
despiram-se e entraram. A água estava quente e ofe-feCia um alívio escasso. Nenhum deles
nadou. Em vez disso, limita-rarn-se a ficar ali, conversando em voz baixa, apenas com a cabeça
acima da linha da água.

Que Dodd tenha sido um dos temas daquela conversa parece provável. Apenas uns dias antes,
Phillips escrevera no diário acerca do incessante ataque do embaixador à fortuna dos
diplomatas e funcionários consulares. «Suponho que o embaixador se tenha queixado ao
presidente», censurava Phillips no diário. Dodd «queixa-se sempre porque gastam em Berlim
mais do que os seus honorários. Opõe-se a isto com tanto afinco, provavelmente pela simples
razão de ele próprio não ter dinheiro para gastar, para além do que aufere. Ora isto é, sem
dúvida, uma atitude provinciana.»

Por coincidência, a mãe de Moffat, EUen Low Moffat, encon-trava-se em Berlim nessa sexta,
de visita à filha (irmã de Moffat), que era casada com o secretário da embaixada, John C.
White. Nessa noite, a mãe compareceu num jantar onde ficou sentada ao lado de Papen. O
vice-chanceler estava, como ela depois diria ao filho, «bem e com uma disposição
extremamente alegre».

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CAPÍTULO 46

SEXTA À NOITE

Nessa sexta à noite, 29 de junho de 1934, Hitler instalou-se no hotel Dreesen, um dos seus
preferidos, na estância de Bad Godes-berg, situada à beira do Reno, nos arredores do centro
de Bona. Tinha viajado para lá a partir de Essen, onde recebera mais uma dose de notícias
perturbadoras — que o vice-chanceler Papen planeava cumprir a sua ameaça de se encontrar
com o presidente Hindenburg no dia seguinte, sábado, 30 de junho, para persuadir o Velho
Cavalheiro a tomar medidas para refrear o governo de Hider e as SA.

Esta notícia, juntando-se à acumulação de relatórios de Himmler e Góring sobre Rohm estar a
planear um golpe, convenceu-o de que chegara a altura de agir. Gõring partiu para Berlim,
para tratar dos preparativos. Hitler ordenou que o Reichswehr ficasse em alerta, apesar de as
forças de que tencionava servir-se fossem sobretudo unidades das SS. Telefonou a um dos
delegados principais de Rohm e convocou todos os líderes das SA para uma reunião a ter lugar
na manhã de sábado, em Bad Wiessee, perto de Munique, onde Rohm já se encontrava
confortavelmente recolhido no hotel Hanselbauer, a fazer uma cura que, nessa noite de sexta,
envolvia beber bastante. O seu adjunto, Edmund Heines, fora para a cama com um belo
soldado de dezoito anos das Tropas de Assalto.

Goebbels juntou-se a Hitler em Bad Godesberg. Conversavam no terraço enquanto um desfile


ruidoso ia passando na rua. Relâmpagos azuis iluminavam o céu de Bona e os trovões
ribombavam por todo o lado, amplificados pelas estranha acústica do vale do Reno.

Mais tarde, Goebbels faria um relato melodramático destes momentos carregados de tensão
que antecederam a decisão final de Hider. O ar ficara estagnado e a tempestade distante
avançava. De repente, começou a cair uma chuva fortíssima. Ele e Hider mantiveram-se
sentados no

332
NO JARDIM DOS MONSTROS

terraÇ° durante mais alguns instantes, apreciando a chuvada purificante, O chanceler ria-se.
Depois foram para o interior, mas, quando a tempestade passou, regressaram para o terraço.
«O Fiihrer parecia estar com uma disposição pensativa e séria», disse Goebbels. «Fitava a
escuridão límpida da noite que, após a purificação da tempestade, se espraiava pacificamente
por uma paisagem vasta e harmoniosa.»

A multidão permaneceu na rua, apesar da tempestade. «Nem uma das muitas pessoas lá em
baixo sabe a ameaça que aí vem», escreveu Goebbels. «Mesmo entre os que rodeiam o Líder
no terraço, só alguns foram informados. Nesta hora, merece mais do que nunca a nossa
admiração. Nem um trejeito do seu rosto revela o menor sinal do que se passa no seu íntimo.
Contudo, os poucos de nós que o acompanhamos em todas as horas difíceis sabemos quão
profundamente contristado se encontra, mas também quão determinado está a esmagar os
rebeldes reacionários que rompem com o juramento de lealdade que lhe fizeram, sob o
estandarte de levarem a cabo uma segunda revolução.»

Passava da meia-noite quando Himmler telefonou com mais uma má notícia. Informou Hitler
de que Karl Ernst, comandante da divisão de Berlim das SA, ordenara às suas forças que
ficassem em alerta. O chanceler exclamou: «É um putschh> — embora, na verdade, e como
Himmler decerto sabia, Ernst tivesse casado recentemente e se encaminhasse para o porto de
Bremen, onde daria início a um cruzeiro de lua de mel.

Às duas da manhã de sábado, 30 de junho de 1934, Hitler saiu do hotel Dreesen e foi levado, a
toda a velocidade, para o aeroporto, onde embarcou num avião ]u 52, uma das duas
aeronaves a postos para o seu uso. Acompanhavam-no dois adjuntos e um alto oficial das SA
em que em ele confiava, Viktor Lutze. (Fora Lutze quem o tinha informado dos comentários
depreciativos de Rohm após o discurso de Hitler, em fevereiro de 1934, diante dos dirigentes
do exército e das SA.) Os motoristas de Hitler também entraram no avião. A segunda aeronave
continha um esquadrão de soldados armados das SS. Ambos os aviões voaram para Munique,
onde chegaram às quatro e meia da manhã, quando o Sol começava a nascer. Um dos
motoristas de Hider, Erich Kempka, ficou impressionado com a beleza da manhã e a frescura
do ar lavado pela chuva, com a relva «a brilhar sob a luz da manhã».

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ERIK LARSON

Pouco depois de aterrar, Hitler recebeu uma última notícia incendiária — no dia anterior, cerca
de três mil Tropas de Assalto tinham percorrido as ruas de Munique a protestar. Não o
informaram, contudo, de que a manifestação fora espontânea, executada por homens que lhe
eram leais e se sentiam ameaçados e traídos, receosos de um ataque desencadeado pelo
exército oficial.

A fúria de Hitler atingiu um novo máximo. Declarou que aquele era «o dia mais negro da
minha vida». Decidiu que não poderia sequer esperar pela reunião com os dirigentes das SA,
marcado para essa manhã em Bad Wiessee. Virou-se para Kempke: «Para Wiessee, o mais
depressa possível!»

Goebbels telefonou a Gõring e disse-lhe a palavra-chave para lançar a fase berlinense da


operação — com o inocente nome Kolibri.

Em Berlim, o último resquício do crepúsculo nortenho perdurava no horizonte enquanto os


Dodd se preparavam para uma tranquila noite de sexta-feira. Dodd lia um livro e ia
consumindo o seu habitual digestifàe. pêssegos em calda e leite. A esposa deixava os
pensamentos vogarem para a grande festa que ela e o marido planeavam fazer no relvado da
casa a 4 de julho, dali a menos de uma semana, para a qual tinham convidado todo o pessoal
da embaixada e várias centenas de outros convivas. Bill Jr. ficou em casa naquela noite e fazia
tenção de ir dar um passeio no Bukk da família na manhã seguinte. Também Martha ansiava
pela manhã, em que ela e Boris partiriam para mais uma excursão pelo campo, desta feita para
fazerem um piquenique e tomarem banhos de sol numa praia da região de Wannsee. Dali a
seis dias, partiria para a Rússia.

Lá fora, cigarros brilhavam na escuridão do parque e, de vez em quando, um grande carro


descapotável passava pela Tiergartenstrasse. No parque, insetos enxameavam os halos dos
candeeiros e as estátuas brilhantes e brancas da Siegesallee destacavam-se como fantasmas.
Apesar de mais quente e estagnada, a noite assemelhava-se bastante à primeira que Martha
passara em Berlim, tranquila, com aquela serenidade provinciana que ela considerara tão
cativante.

334
SÉTIMA PARTE

QUANDO TUDO MUDOU


CAPÍTULO 47

«FUZILEM, FUZILEM!»

Na manhã seguinte, sábado, 30 de junho de 1934, Boris foi até à casa de Martha no seu Ford
descapotável e, pouco depois, munidos de um cesto de piquenique e um cobertor, fizeram-se
a caminho da região de Wannsee, a sudoeste de Berlim. Para local de encontros amorosos,
tinha uma história turbulenta. Ali, num lago chamado Kleiner Wannsee — Pequeno Wannsee
—, o poeta alemão Heinrich von Kleist suicidara-se com um tiro em 1811, depois de alvejar a
amante, vítima de doença terminal. Martha e Boris encaminhavam-se para outro pequeno
lago pouco frequentado, mais para norte, chamado Gross Glienicke, que era o preferido dela.

A cidade em redor estava sonolenta, o calor começava a despontar. Embora o dia prometesse
ser mais um de dificuldades para agricultores e trabalhadores, para qualquer um decidido a
tomar banhos de sol seria ideal. Enquanto Boris conduzia em direção aos arredores da cidade,
tudo parecia absolutamente normal. Outros residentes, ao relembrarem o dia, comentaram o
mesmo. Berlinenses «passeavam-se serenamente pelas ruas, tratavam dos seus afazeres»,
observou Hedda Adlon, esposa do proprietário do hotel Adlon. O hotel seguia os seus ritmos
habituais, ainda que o calor do dia prometesse ampliar os desafios logísticos inerentes a servir
um banquete para o rei do Sião, que teria lugar nesse dia no Schloss Belkvue — Palácio
Bellevue —, na zona norte do Tiergarten, na Spree. O hotel teria de enviar os seus canapés e
entradas na carrinha de serviço que enfrentaria o tráfego e o calor, quando se esperavam
temperaturas na ordem dos trinta e tantos graus.

Junto ao lago, Boris e Martha estenderam o cobertor. Nadaram e deitaram-se ao sol, nos
braços um do outro até o calor os afastar.

337
ERIK LARSON

Beberam cerveja e vodca e almoçaram sanduíches. «Foi um dia lindo azul e sereno, com o lago
a cintilar e brilhar à nossa frente e o Sol a lançar o seu fogo sobre nós», escreveu ela. «Foi um
dia silencioso e calmo — não tínhamos sequer a energia ou a vontade para falar de política ou
discutir a nova tensão que se sentia na atmosfera.»

Noutro local, nessa manhã, três carros muito maiores aceleravam pelas estradas rurais entre
Munique e Bad Wiessee — o automóvel de Hitler e dois outros, cheios de homens armados.
Chegaram ao hotel Hanselbauer, onde o capitão Rohm se encontrava no quarto, a dormir.
Hitler liderou um esquadrão de homens armados para o hotel. Um relato indica que levava um
chicote; outro, uma pistola. Os homens subiram as escadas num estrondo de tacões de botas.

O próprio chanceler bateu à porta de Rohm, após o que forçou a entrada, seguido por dois
detetives.

— Rohm — bradou Hitler —, está preso.

O capitão estava grogue, obviamente ressacado. Olhou para Hitler.

— Hei/, mein Fiihrer — disse. Hitler tornou a gritar:

— Está preso!

Saindo então para o corredor, avançou para o quarto do adjunto de Rohm, Heines,
encontrando-o na cama com o jovem amante das SA. O motorista de Hider, Kempka, estava no
corredor. Ouviu Hitler gritar:

— Heines, se não estiver vestido dentro de cinco minutos, terei de o matar aqui!

Heines saiu do quarto, precedido por, nas palavras de Kempke, «um rapazinho louro de dezoito
anos e andar afetado à frente dele».

Os corredores do hotel retumbavam com os gritos de homens das SS a levar Tropas de Assalto
sonolentas, estupefatas e ressacadas para a lavandaria, que ficava na cave do hotel. Houve
momentos que, noutro contexto, poderiam ter sido cómicos, como quando a expedição de
assalto de Hider emergiu de um quarto e reportou, num tom agressivo:

338
NO JARDIM DOS MONSTROS

__yiein Fiihrer! O comandante da Polícia de Breslau reeusa-se

avestir-se!

Ou este: O médico de Rohm, um Gmppenfuhrer das SA chamado Ketterer, saiu de um quarto


acompanhado por uma mulher. Para es-nto de Hitler e dos seus detetives, a mulher era a
esposa de Kette-,ef Viktor Lutze, o oficial das SA que tinha a confiança de Hitler e o
companhara no avião nessa manhã, persuadiu-o de que o doutor era um aliado leal. Hitler
aproximou-se do homem e cumprimentou-o cordialmente. Apertou a mão à esposa do médico
e recomendou ao casal que abandonasse o hotel. Eles obedeceram sem qualquer objeção.

Em Berlim, nessa manhã, Frederick Birchall, do jornal New York Times, foi acordado pelo toque
persistente do telefone na mesa de cabeceira. Tinha saído até altas horas na noite anterior e,
em primeira instância, sentiu-se inclinado a ignorar a chamada. Especulava, desejoso, que não
seria importante, talvez apenas um convite para almoçar. O telefone continuava a tocar. Por
fim, seguindo a máxima «nunca é seguro desprezar um telefonema, sobretudo em Berlim»,
agarrou no aparelho e ouviu uma voz da sua redação: «E melhor acordares e deitares mãos à
obra. Passa-se qualquer coisa aqui.» O que foi dito em seguida capturou por completo a
atenção de Birchall: «parece que andam a alvejar uma data de gente».

Louis Lochner, o correspondente da Associated Press, foi informado por um funcionário


administrativo que chegou tarde ao escritório da AP que a Prinz-Albrecht-Strasse, onde ficava
o quartel-general da Gestapo, fora encerrada ao trânsito e estava cheia de camiões e de SS
armados, com os seus típicos uniformes negros. Lochner fez alguns telefonemas. Quanto mais
ficava a saber, mais perturbador tudo parecia. Como medida de precaução — crendo que o
governo poderia impedir todas as chamadas telefónicas para o exterior —, Lochner ligou para
a redação da AP de Londres, pedindo ao pessoal de lá que lhe telefonasse de quinze em quinze
minutos até ordem em contrário, seguindo a teoria de que chamadas provenientes do
estrangeiro continuariam a ser permitidas.

339
ERIK LARSON

Sigrid Schultz partiu para a área do governo central, mantendo-se atenta a certas matrículas de
automóveis, sobretudo à de Papen. Trabalharia sem cessar até às quatro da manhã seguinte,
quando anotaria na sua agenda diária: «morta de cansaço — [capaz de] chorar».

Um dos rumores mais alarmantes era o de um conjunto de disparos proveniente do átrio da


velha escola de cadetes, no enclave geralmente pacífico de Gross-Lichterfelde.

No hotel Hanselbauer, Rohm vestiu um fato azul e saiu do seu quarto, ainda confuso e, ao que
parecia, não muito preocupado com a ira de Hitler ou a comoção que se apoderara do hotel.
Um charuto pendia-lhe a um canto da boca. Dois detetives levaram-no até ao átrio do hotel,
onde ele se sentou numa cadeira e pediu café a um empregado que ia a passar.

Houve mais detenções, mais homens atirados para a lavandaria. Rohm mantinha-se sentado
no átrio. Kempka ouviu-o pedir outra chávena de café, que já era a terceira.

Rohm foi levado de carro; o resto dos prisioneiros foi metido num autocarro fretado com
destino a Munique, à prisão de Stadel-heim, onde o próprio Hitler passara um mês, em 1922.
Os captores seguiram por estradas secundárias para evitarem cruzar-se com quaisquer SA que
tentassem levar a cabo uma operação de socorro. Hider e a sua cada vez maior equipa de
assalto entraram nos respetivos carros, que já somavam cerca de vinte, e aceleraram por uma
rota mais direta para Munique, parando quaisquer carros com dirigentes das SA que, alheios a
tudo o que acabava de acontecer, ainda fizessem tenções de comparecer à reunião convocada
por Hider para o fim dessa manhã.

Em Munique, Hider leu a lista dos prisioneiros e marcou um «X» junto a seis nomes. Ordenou
que esses seis tivessem morte imediata. Um esquadrão das SS cumpriu a ordem, dizendo aos
homens antes de os fuzilar: «Foram condenados à morte pelo Fiihrer! Hei/ Hitler!»

O sempre prestável Rudolf Hess ofereceu-se para disparar ele mesmo contra Rohm, mas Hider
não ordenou essa morte. Por ora, até ele achava repulsiva a ideia de matar um amigo de longa
data.

340
NO JARDIM DOS MONSTROS

Pouco depois de chegar ao seu escritório de Berlim nessa manhã, Hans Gisevius, o
memorialista da Gestapo, sintonizou o seu rádio em frequências da Polícia e ouviu relatos que
esboçavam uma ação de abrangência vasta. Oficiais de altas patentes das SA estavam a ser
presos, bem como homens que nenhuma ligação tinham às Tropas de Assalto. Gisevius e o
chefe, Kurt Daluege, saíram em busca de informação mais detalhada e encaminharam-se
diretamente para o palácio de Góring, em Leipziger Platz, a partir do qual Gõring estava a dar
ordens. Gisevius mantinha-se perto de Daluege, crendo que estaria mais seguro na companhia
dele do que a sós. Também calculava que ninguém se lembraria de o procurar na residência de
Gõring.

Apesar de o palácio não ficar longe, foram de carro. Espantou-os a calma absoluta nas ruas,
como se nada de invulgar se passasse. Mas repararam na ausência total de Tropas de Assalto.

A sensação de normalidade desapareceu de imediato ao dobrarem uma esquina e chegarem


ao palácio de Gõring. Havia metralhadoras a espreitar de todos os promontórios. O átrio
estava cheio de polícias.

Gisevius escreveu: «Enquanto seguia Daluege por entre a sucessão de guardas e subia os
poucos degraus que davam para o átrio enorme, sentia que mal conseguia respirar. Parecia
que uma atmosfera malévola de pressa, nervosismo, tensão e, acima de tudo, sangue
derramado, me acertava na cara.»

Gisevius avançou até uma divisão ao lado do estúdio de Gõring. Adjuntos e mensageiros
apressavam-se. Um homem das SA estava sentado e a tremer de medo, tendo sido informado
por Gõring de que seria fuzilado. Empregados iam levando sanduíches. Apesar de apinhada, a
divisão estava silenciosa. «Toda a gente sussurrava como se estivesse na morgue», recordou
Gisevius.

Por uma porta aberta, viu Góring a conferenciar com Himmler e o novo comandante da
Gestapo que este nomeara, Reinhard Hey-drich. Estafetas da Gestapo chegavam e partiam
com pequenas folhas de papel nas quais, presumia Gisevius, constariam os nomes dos mortos
ou dos que em breve o seriam. Apesar da natureza grave da tarefa

341
ERIK LARSON

em mãos, o ambiente do gabinete de Góring assemelhava-se mais ao que se esperaria numa


corrida de cavalos. Gisevius ouvia gargalhadas cruéis e ruidosas, bem como gritos frequentes
de «Embora!», «Aha!» «Fuzilem-no».

«Todo o grupo parecia estar de ótimo humor», lembrou Gisevius.

De vez em quando, vislumbrava Gõring a caminhar pelo gabinete, envergando uma larga
camisa branca e umas calças azuis-acinzen-tadas enfiadas numas botas militares que lhe
tapavam os joelhos. «Gato das Botas», pensou Gisevius de repente.

A dada altura, um major da Polícia de rosto ruborizado saiu do estúdio, seguido por Gõring,
igualmente encolerizado. Ao que tudo indicava, um alvo proeminente tinha escapado.

Gõring gritava ordens.

«Fuzilem-nos! [...] levem uma companhia inteira [...] fuzilem-nos [...] Fuzilem-nos de uma
vez!»

Gisevius achou aquilo consternador, para lá de qualquer descrição. «A palavra escrita não
poderá reproduzir a indisfarçada sede de sangue, a fúria e a vingança violenta e, em
simultâneo, o medo, o pavor puro que a cena revelava.»

Dodd nada soube acerca do cataclismo que tomava lugar na cidade até à tarde de sábado,
quando ele e a mulher se sentaram no jardim para almoçar. Praticamente ao mesmo tempo, o
filho Bill apareceu, tendo acabado de voltar do seu passeio. Estava com um ar perturbado.
Disse-lhes que várias ruas tinham sido fechadas, incluindo a Unter den Linden, no centro da
área governamental, e que estavam a ser patrulhadas por esquadrões fortemente armados
das SS. Também tinha ouvido dizer que tinham sido feitas detenções no quartel-general das
SA, a poucos quarteirões daquela casa.

Dodd e a esposa ficaram de imediato muitíssimo preocupados com Martha, que estava a
passar o dia com Boris Winogradov. Não obstante o estatuto diplomático de que gozava,
tratava-se de um homem que, mesmo em circunstâncias normais, se poderia esperar que os
nazis vissem como inimigo do Estado.

342
CAPITULO 48

ARMAS NO PARQUE

Boris e Martha ficaram todo o dia na praia, retirando-se para a sombra quando o sol se tornava
demasiado, mas regressando para mais. Já passava das cinco da tarde quando juntaram as
suas coisas e, relutantes, deram início à viagem de volta para a cidade, «com as cabeças
estonteadas», segundo Martha, «e os corpos a arder com o sol». Percorreram o caminho o
mais devagar possível, nenhum a querer que o dia terminasse, ambos ainda a saborear o
alheamento da luz do sol na água. O dia estava ainda mais quente, pois o solo devolvia à
atmosfera o calor acumulado.

Conduziram por uma paisagem bucólica suavizada pela névoa de calor que os campos e as
florestas em redor emanavam. Velocípedes ultrapassavam-nos, alguns com crianças pequenas
nos cestos por cima dos guiadores ou em carrinhos laterais. Mulheres transportavam flores e
homens com mochilas dedicavam-se à paixão germânica por uma boa caminhada acelerada.
«Era um dia acolhedor, quente e amistoso», escreveu Martha.

Para apanhar os últimos raios de sol e as brisas que passavam pelo descapotável, Martha subiu
a bainha da saia até às coxas. «Estava feliz», escreveu, «satisfeita com o meu dia e com a
minha companhia, imbuída de compaixão pelas gentes alemãs honestas, simples e amáveis,
que tão obviamente aproveitavam uma caminhada ou um descanso merecido a custo, que
desfrutavam de si mesmas e do campo com tanta intensidade.»

Às seis da tarde, entraram na cidade. Martha endireitou-se e puxou a saia para tapar os
joelhos, «como convém à filha de um diplomata».

343
1

ERIK LARSON

A cidade tinha mudado. Foram-se apercebendo disso de forma faseada, à medida que se
aproximavam cada vez mais do Tiergarten Havia muito menos pessoas nas ruas do que seria
considerado normal e estas tendiam a reunir-se em «curiosos grupos estáticos», corno Martha
descreveu. O trânsito avançava lentamente. Quando Boris ia virar para a Tiergartenstrasse, o
fluxo de carros parou quase por completo. Viram camiões militares e metralhadoras e, de
súbito, apercebe-ram-se de que as únicas pessoas que os rodeavam eram homens fardados, na
maioria com o negro das SS e o verde da força policial de Góring. A ausência dos uniformes
castanhos das SA era notória. O que a tornava ainda mais bizarra era o quartel-general das SA
e a residência do capitão Rohm se encontrarem ali tão perto.

Chegaram a um posto de controlo. A matrícula do carro do russo indicava o seu estatuto


diplomático. O polícia fez-lhes sinal para que seguissem.

Boris conduziu lentamente por uma paisagem nova e sinistra. Na rua em frente à casa de
Martha, ao lado do parque, havia uma linha de soldados, armas e camiões militares. Mais
abaixo na Tiergartenstrasse, onde esta se cruzava com a Standartenstrasse — a rua de Rohm
—, viram mais soldados e uma barreira de corda que assinalava que a rua estava vedada.

Havia uma sensação de sufoco. Camiões pardos bloqueavam a vista do parque. E fazia calor.
Era o final do dia, bem depois das seis, mas o Sol continuava alto e quente. Antes tão tentador,
agora Martha via o Sol como «a ferver». Ela e Boris despediram-se. A jovem correu para a
porta da frente e apressou-se a entrar. A escuridão e frescura do átrio de pedra foram tão
súbitas e contrastantes que ela se sentiu tonta, «com os olhos momentaneamente cegados
pela falta de luz».

Subiu pela escadaria obscurecida até ao primeiro andar, onde encontrou o irmão. «Estávamos
preocupados contigo», disse-lhe ele. Contou-lhe que o general Schleicher fora assassinado. O
pai fora para a embaixada, preparar uma mensagem para o Departamento de Estado. «Não
sabemos o que está a acontecer», disse Bill. «A lei marcial foi instaurada em Berlim.»

Naquele primeiro instante, desorientada pela escuridão repentina, o nome Schleicher nada lhe
disse. Depois, lembrou-se: Schleicher,

344
NO JARDIM DOS MONSTROS

general, um homem de porte e integridade militares, ex-chanceler e ministro da Defesa.

«Sentei-me, ainda confusa e terrivelmente perturbada», recordaria, isjão era capaz de


compreender porque teria o general Schleicher sido m0rto. Lembrava-se dele como «cortês,
atraente, inteligente».

A mulher de Schleicher também morrera, contou-lhe Bill. Ambos tinham sido alvejados por
trás, quando estavam no seu jardim; ambos tinham recebido disparos múltiplos. A história
alterar-se-ia nos dias subsequentes, mas o facto irrevogável era que o casal Schleicher estava
morto.

A Sra. Dodd desceu dos seus aposentos. Ela, Bill e Marfha foram para uma das salas de estar.
Sentaram-se perto uns dos outros e conversaram em voz baixa. Repararam que Fritz aparecia
com uma frequência inusitada. Fecharam todas as portas. Fritz continuava a levar--lhes
notícias de novos telefonemas de amigos e correspondentes estrangeiros. Parecia receoso,
«pálido e assustado», escreveu Martha.

A história que Bill contava era pavorosa. Apesar de um nevoeiro de rumores ensombrar cada
revelação, certos factos eram claros. As mortes dos Schleicher eram apenas duas entre as
dezenas, talvez centenas, de assassínios oficiais cometidos até então naquele dia, e a matança
prosseguia. Dizia-se que Rohm estava detido, com um destino incerto.

Cada telefonema trazia mais notícias, a maioria demasiado disparatadas para serem credíveis.
Dizia-se que havia esquadrões de assassinos a percorrer o país, à caça de alvos. Karl Ernst,
comandante das SA de Berlim, fora arrancado do navio onde estava em lua de mel. Um
dirigente proeminente da Igreja Católica tinha sido assassinado no seu gabinete. Um general
da segunda armada fora fuzilado, tal como um crítico de música de um jornal. Os assassínios
pareciam fortuitos e caprichosos.

Houve um momento de comicidade perversa. Os Dodd receberam uma resposta concisa do


gabinete de Rohm, que declarava que «com muita pena sua», não poderia comparecer no
jantar em casa do embaixador, marcado para a sexta-feira seguinte, 6 de julho «porque estará
ausente, procurando uma cura para uma doença.»

«Tendo em conta a incerteza das circunstâncias», anotou Dodd no seu diário, «talvez ele tenha
feito bem em não aceitar.»

345
ERIK LARSON

A somar À sensação de alvoroço do dia, ocorreu uma colisão

mesmo à porta do número 27a, quando o motorista da embaixada__.

um homem chamado Pickford — embateu numa motocicleta e partiu a perna do condutor.


Uma perna de madeira.

No meio de tudo aquilo, uma questão de carácter particularmente premente incomodava


Dodd: o que teria acontecido a Papen, o herói de Marburg, que Hitler tanto abominava? Havia
relatos de que Edgar Jung, o autor do discurso do vice-chanceler, fora morto, e de que o
secretário de relações públicas de Papen sofrera o mesmo destino. Naquele clima assassino,
seria possível que Papen tivesse sobrevivido?

346
CAPITULO 49

OS MORTOS

Às três da tarde de domingo, os correspondentes estrangeiros iuntaram-se na chancelaria do


Reich, na Wilhelmstrasse, onde Her-mann Góring daria uma conferência de imprensa. Uma das
testemunha foi Hans Gisevius, que parecia estar em todo o lado naquele dia.

Góring chegou tarde, fardado, enorme e arrogante. A sala estava quente e impregnada de
«tensão insuportável», segundo Gisevius. Góring ocupou o palanque. Com uma atitude muito
dramática, perscrutou o público e depois, com o que dava a ideia de ser uma série de gestos
ensaiados, pousou o queixo na mão e revirou os olhos, como se o que estivesse prestes a dizer
fosse portentoso até para si mesmo. Falou, descreveu Gisevius, «com o tom lúgubre e a voz
inexpressiva de um orador fúnebre experiente».

Góring facultou um breve sumário da «ação» que disse estar ainda em curso. «Há semanas
que estamos de atalaia; sabíamos que alguns dos líderes das Sturmabteilung [SA] tinham
adotado posições bem distantes dos objetivos e propósitos do movimento, dando prioridade
aos seus próprios interesses e ambições, servindo os seus gostos infelizes e perversos.» Rohm
estava preso, afirmou. Uma «potência estrangeira» também se encontrava envolvida. Todos
presumiram que se referia a França. «O Líder Supremo, em Munique, e eu, como seu delegado
em Berlim, reagimos, rápidos como relâmpagos, sem atendermos a quem quer que fosse.»

Góring aceitou responder a perguntas. Um repórter questionou-o a propósito das mortes do


redator de discursos do vice-chanceler Pa-pen, jung, do seu secretário de relações públicas,
Herbert von Bose, e de Erich Klausener, um proeminente católico, detrator do regime -— que
ligação poderiam ter com xxvnputsch das SA?

347
ERIK LARSON

«Expandi a minha missão a aniquilar também reacionários», disse Gõring, num tom tão
impassível como se recitasse uma lista telefónica.

E o general Schleicher?

Gõring fez uma pausa e sorriu.

«Ah, sim, vocês, jornalistas, gostam sempre de uma manchete especial; pois bem, ei-la. O
general Von Schleicher tinha conspirado contra o regime. Dei ordem para que fosse preso. Ele
cometeu a tolice de resistir. Está morto.»

E afastou-se do palanque.

Ninguém sabia ao certo quantas pessoas tinham perdido a vida na purga. Contagens oficiais
nazis declaravam que o total fora inferior a cem. O ministro dos Negócios Estrangeiros,
Neurath, por exemplo, disse ao embaixador britânico, sir Eric Phipps, que tinha havido
«quarenta e três ou quarenta e seis» execuções e alegava que quaisquer outras estimativas
eram «inconsistentes e exageradas». Dodd, numa carta ao seu amigo Daniel Roper, escreveu
que os relatórios que chegavam de consulados norte-americanos de outras cidades alemãs
sugeriam um total de 284 mortes. «A maioria das vítimas não era, de forma alguma, culpada
de traição; somente de oposição política ou religiosa.» Outras contagens feitas por
funcionários norte-americanos indicam um número bem mais elevado. O cônsul de
Brandeburgo escreveu que um oficial das SS lhe dissera que 500 pessoas tinham sido
assassinadas e 15 000 detidas, e ainda que Rudolf Diels fora marcado como alvo a abater,
sendo poupado a pedido de Gõring. Um memorando de um dos secretários da embaixada de
Dodd também referia o número de 500 execuções e tomou nota de que os habitantes da
vizinhança dos quartéis de Lichterfelde «ouviram os pelotões de fuzilamento a trabalhar
durante toda a noite». Mais tarde, Diels estimaria 700 mortes; outros envolvidos calculavam
que o total fosse superior a 1000. Não existe um número definitivo.

A morte do general Schleicher foi confirmada — fora alvejado sete vezes, tendo o seu corpo e
o da mulher sido descobertos pela filha de dezasseis anos. Outro general, Ferdinand von
Bredow, membro do governo de Schleicher quando este era chanceler, também foi
assassinado. Apesar destas mortes, o exército continuava alheado, já que

348
r

NO JARDIM DOS MONSTROS

ódio nutrido pelas SA se sobrepunha ao desagrado pela morte de dois dos seus. Gregor
Strasser, antigo dirigente nazi com ligações passadas a Schleicher, estava a almoçar com a
família quando dois automóveis da Gestapo estacionaram em frente à sua casa e seis homens
lhe bateram à porta. Foi levado e fuzilado numa cela da prisão na cave do quartel-general da
Gestapo. Hitler era o padrinho dos seus filhos gémeos. Um amigo de Strasser, Paul Schulz, alta
patente das SA, foi levado para uma floresta e alvejado. Enquanto os seus potenciais algozes
regressavam ao carro para o taparem com um lençol, ele le-vantou-se, fugiu e sobreviveu. Fora
esta fuga, ao que tudo indica, que desencadeara a explosão sanguinária e furiosa de Gõring.
Gustav Ritter von Kahr, que aos setenta e três anos dificilmente seria uma ameaça para Hitler,
também foi assassinado — «retalhado até à morte», de acordo com o historiador Ian Kershaw
—, aparentemente como vingança pelo seu papel na frustração de uma tentativa de putsch
nazi uma década antes. Karl Ernst, casado apenas há dois dias, não fazia ideia alguma do que
estava a ocorrer até ter sido detido em Bremen, momentos, antes de o seu cruzeiro de lua de
mel ter início. Hitler fora um dos convidados do seu casamento. Quando Ernst se apercebeu de
que estava prestes a ser alvejado, exclamou: «Estou inocente! Longa vida à Alemanha! Heil
Hitlerh. Pelo menos cinco judeus foram assassinados, pelo pecado de serem judeus. E depois
houve as inumeráveis e anónimas almas executadas pelo pelotão de fuzilamento nos quartéis
de Lichterfelde. A mãe de um soldado das Tropas de Assalto morto só recebeu notificação
oficial do seu falecimento seis meses após a consumação do facto, numa carta concisa de
apenas um parágrafo, que afirmava que tinha sido fuzilado em nome da defesa do Estado, pelo
que não seria necessária outra explicação. A carta terminava como todas na nova Alemanha:
Heil Hitler!

Também aqui houve momentos de comédia negra. Um alvo, Gottfried Reinhold Treviranus,
ministro do general Schleicher quando este era chanceler, estava a meio de um jogo de ténis
no clube de Wannsee quando divisou quatro homens das SS no exterior. Confiando
sensatamente nos seus instintos, desculpou-se por ter de partir e fugiu. Escalou uma parede,
apanhou um táxi e, a seu tempo, acabou por chegar a Inglaterra.

349
ERIK LARSON

No centro de Berlim, um soldado das SA que ganhava um extra como motorista da carrinha de
serviço do hotel Adlon foi mandado parar pelas SS num ponto de controlo perto das Portas de
Brandeburgo, a pouca distância do hotel. O desgraçado condutor tomara a decisão infeliz de
usar a camisa castanha das Tropas de Assalto por baixo do casaco da farda do hotel.

O agente das SS perguntou-lhe onde ia.

«Ter com o rei do Sião», respondeu o motorista, a sorrir.

O homem das SS pensou que se tratasse de uma piada. Enfurecido pelo desrespeito do
condutor, ele e os outros controladores arran-caram-no da carrinha e obrigaram-no a abrir as
portas da carrinha. O espaço da carga estava cheio de travessas de comida.

Ainda desconfiado, o agente das SS acusou o motorista de ir levar comida a uma das orgias de
Rohm.

Já sem sorrir, o motorista insistiu: «Não, é para o rei do Sião.»

O SS continuava convicto de que o homem estava simplesmente a ser insolente. Dois agentes
entraram na carrinha e ordenaram-lhe que conduzisse até ao palácio onde alegava haver uma
festa. Desconsolados, descobriram que estava de facto planeado um banquete para o rei do
Sião e que Gõring era um dos convidados esperados.

E depois houve o caso do pobre Willi Schmid — Wilhelm Eduard Schmid, respeitado crítico de
música de um jornal de Munique — que estava a tocar violoncelo em casa, na companhia da
mulher e dos três filhos, quando os SS apareceram à sua porta, o tiraram de lá e o abateram.

Os SS tinham errado. O alvo pretendido era outro Schmid. Ou, para sermos precisos, um
Schmitt.

Hitler incumbiu Rudolf Hess de apresentar pessoalmente uma desculpa à esposa do crítico
morto.

Havia rumores de que Putzi Hanfstaengl, cuja relação com Hitler se tornara tensa, constava na
lista de alvos a abater. Quis a providência que se encontrasse nos Estados Unidos, a participar
na vigésima quinta reunião anual da sua turma de Harvard. O convite que lhe fora

350
NO JARDIM DOS MONSTROS

frigido causara escândalo na América e, até ao último momento, j^anfstaengl não dera
indicação alguma de ir ou não comparecer. Na noite de 10 de junho de 1934, organizou um
jantar, cuja oportunidade em retrospetiva, parecia demasiado conveniente, dado que decerto
saberia que a purga aconteceria em breve. A meio da refeição, ausen-tou-se da sala de jantar,
disfarçou-se com uma gabardina e óculos de sol, e partiu. Apanhou um comboio noturno para
Colónia, onde entrou num pequeno avião postal que o levou diretamente para Cher-burgo, em
França, a partir de onde embarcou no seu navio, o Europa, com destino a Nova Iorque. Levava
cinco malas e três arcas com esculturas de bustos que pretendia oferecer.

O departamento da Polícia de Nova Iorque, receando ameaças feitas a Hanfstaengl por


protestantes ultrajados, enviou seis jovens agentes ao navio para o ajudarem a sair.
Envergavam casacos e gravatas ao estilo de Harvard.

A 30 de junho, no dia da purga, Putzi foi ao casamento de Ellen Tuck French e John Jacob Astor
III, de quem se dizia sèr o mais rico solteiro dos Estados Unidos, que teve lugar em Newport,
Rhode Island. O pai dele perecera no Titanic. Uma multidão de cerca de mil pessoas reuniu-se
no exterior da igreja para ter um vislumbre dos noivos e dos convidados que iam chegado. Um
dos primeiros a «fazer a multidão arquejar de excitação», escreveu um exuberante colunista
social do New York Times, foi Hanfstaengl, «de cartola, casaco preto e calças cinzentas às
riscas».

Hanfstaengl nada sabia dos acontecimentos na sua pátria até ouvir perguntas de jornalistas a
esse respeito. «Não tenho quaisquer comentários», respondeu. «Encontro-me aqui para
assistir ao casamento da filha do meu amigo.» Mais tarde, depois de ficar ao corrente de mais
pormenores, declarou: «O meu líder, Adolf Hitler, teve de agir e agiu, como sempre. Hitler
nunca se revelou maior, mais humano, do que nas últimas quarenta e oito horas.»

No seu íntimo, porém, Hanfstaengl receava pela sua própria segurança, bem como pela da
mulher e do filho, que tinham ficado em Berlim. Com a maior das discrições, sondou o
ministro dos Negócios Estrangeiros, Neurath.

351
ERIK LARSON

Hitler regressou a Berlim nessa noite. Mais uma vez, Gisevius foi testemunha. O avião de Hitler
surgiu «contra o plano de fundo de um céu vermelho como sangue, um pormenor teatral que
ninguém ensaiara», escreveu ele. Depois de o avião aterrar, um pequeno exército de homens
avançou para saudar Hitler, entre os quais Gõring e Himmler. O chanceler foi o primeiro a
emergir da aeronave. Envergava uma camisa castanha, um casaco de cabedal castanho-escuro,
um laço preto e botas militares de cano alto, também pretas. Com um ar pálido e cansado, não
tinha feito a barba; mas, para além disso, não parecia perturbado. «Era óbvio que os
assassínios dos seus amigos não lhe tinham custado esforço algum», escreveu Gisevius. «Ele
nada sentia; tinha meramente dado vazão à sua raiva.»

Numa comunicação radiofónica, o responsável pela propaganda, Goebbels, tranquilizou a


nação.

«Na Alemanha», disse ele, «a paz e a ordem são agora totais. A segurança pública foi
restaurada. Nunca o Fiihrer esteve mais completamente senhor da situação. Que um destino
favorável nos abençoe, para que possamos prosseguir, com Aldolf Hitler, a nossa grande
missão até a concluirmos!»

Dodd, contudo, continuava a receber relatos que indicavam que a purga estava longe de ter
terminado. Ainda não havia notícias fiáveis quanto ao que acontecera a Rohm e a Papen.
Continuavam a ou-vir-se vagas de disparos no átrio de Lichterfelde.

352
CAPITULO 50

ENTRE OS VIVOS

: f

Domingo amanheceu fresco, soalheiro e com brisa. Dodd ficou impressionado pela falta de
sinais visíveis do que ocorrera durante as vinte e quatro horas anteriores. «Foi um dia
estranho», escreveu, «com apenas notícias irrelevantes nos jornais.»

Dizia-se que Papen estaria vivo, mas em prisão domiciliária no seu apartamento, com a família.
Dodd esperava usar a pouca influência que detinha para contribuir para que se mantivesse
vivo — se era que os relatos sobre a sobrevivência de Papen estavam corretos. Corriam
rumores de que o vice-chanceler estava marcado para ser executado e que isso poderia
acontecer a qualquer instante.

Dodd e Martha levaram o Buick da família até ao prédio do apartamento de Papen. Passaram
muito lentamente pela entrada, com o objetivo de que os guardas das SS vissem o automóvel
e reconhecessem a sua proveniência.

O rosto pálido do filho de Papen apareceu a uma janela, parcialmente ocultado por cortinas.
Um agente das SS de guarda à porta do prédio fez uma expressão zangada quando o carro
passou. Para Martha, não houve dúvidas de que o agente identificara a matrícula como sendo
de um diplomata.

Nessa tarde, Dodd conduziu de novo até à casa do vice-chanceler, mas, desta feita, deixou um
cartão de visita com um dos guardas, no qual escrevera: «Espero que possamos visitá-lo em
breve.»

Embora reprovasse as maquinações políticas de Papen e o comportamento que tivera nos


Estados Unidos, Dodd gostava do homem e apreciara os debates que tinham tido desde a
confrontação no Pequeno Baile da Imprensa. O que o motivava nesta altura era o repúdio da

353
1

ERIK LARSON

ideia de homens serem executados segundo um capricho de Hitler, sem mandado nem
julgamento.

Dodd regressou a casa. Mais tarde, o filho de Papen diria aos Dodd quão grata ficara a família
ao verem aquele simples Buick aparecer na rua nessa tarde letal.

Continuavam a chegar à residência dos Dodd relatos de novas detenções e mortes. No


domingo à noite, o embaixador tinha praticamente a certeza de que o capitão Rohm estava
morto.

A história, composta por várias partes reunidas mais tarde, era a seguinte:

Ao início, Hitler sentia-se indeciso quanto a executar o seu antigo aliado, encarcerado numa
cela da prisão de Stadelheim, mas acabou por ceder à pressão de Gõring e Himmler. Ainda
assim, insistiu que Rohm deveria ter a oportunidade de se suicidar.

O homem incumbido de oferecer esta oportunidade a Rohm foi Theodor Eicke, comandante
de Dachau, que, no domingo, se deslocou à prisão com um delegado, Michael Lippert, e outro
guarda das SS. Os três foram levados até à cela de Rohm.

Eicke deu-lhe uma Browning automática e uma edição recente do Võlkischer Beobachter, que
continha um relato daquilo a que o jornal chamava «o putsch de Rohm», aparentemente para
lhe demonstrar que já não havia esperança.

Eicke saiu da cela. Passaram-se dez minutos sem que se ouvisse um disparo. Ele e Lippert
regressaram à cela, levaram a Browning e regressaram com as suas próprias armas
empunhadas, onde se depararam com Rohm, que os enfrentava de tronco nu.

Há várias versões quanto ao que realmente aconteceu em seguida. Algumas afirmam que
Eicke e Lippert nada disseram e abriram fogo. Uma versão declara que Eicke terá gritado:
«Rohm, prepare-se», após o que Lippert terá disparado duas vezes. Outra ainda oferece a
Rohm um momento de valentia, durante o qual declara: «Se vou morrer, que seja o Adolf a
matar-me.»

O primeiro disparo não o matou. Ficou caído no chão, a gemer: «Mein Fuhrer, mein Fuhrer.»
Uma última bala atingiu-lhe a têmpora.

354
I

NO JARDIM DOS MONSTROS

Como recompensa, Eicke recebeu uma promoção que o tornou responsável por todos os
campos de concentração da Alemanha. Exportou os regulamentos draconianos que aplicara
em Dachau a todos os outros campos sob o seu comando.

Nesse domingo, um Reichswehr agradecido fez mais um pagamento prescrito no acordo


selado a bordo do Deutschland. O ministro da Defesa, Blomberg, na sua comunicação oficial
diária desse domingo, 1 de julho, anunciou: «O Fuhrer, com uma resolução marcial e uma
coragem exemplar, atacou e esmagou os traidores e os assassinos. O exército, como
depositário das armas de todo o povo, bem afastado dos conflitos da política interna,
demonstrará a sua gratidão através de dedicação e lealdade. A boa relação com as novas SA,
exigida pelo Fuhrer, será de bom grado acolhida pelo exército, com a consciência de que os
ideais de ambos são comuns. O estado de emergência chegou ao fim.»

À MEDIDA QUE O FIM DE SEMANA PROGREDIA, a família Dodd flCOU

a saber que uma nova expressão estava a tornar-se comum em Berlim, a ser usada quando se
encontrava um amigo ou conhecido na rua, de preferência com uma sobrancelha arqueada
numa expressão sardónica: «Lebst du noch?» Que queria dizer: «Ainda te contas entre os
vivos?»

355
CAPITULO 51

O FIM DA COMPREENSÃO

Apesar de os rumores continuarem a esboçar uma purga sanguinária de uma dimensão


impressionante, o embaixador Dodd e a esposa decidiram não cancelar a celebração da
embaixada do 4 de Julho para a qual tinham convidado cerca de trezentas pessoas. Na
verdade, era ainda mais premente dar aquela festa, como demonstração simbólica da
liberdade norte-americana e para oferecer um refrigério ao terror do exterior. Seria a primeira
ocasião formal desde o fim de semana em que Norte-americanos e Alemães se encontrariam
frente a frente. Os Dodd tinham convidado também vários amigos de Martha, incluindo
Mildred Fish Harnack e o marido, Arvid. Ao que parece, Boris não terá comparecido. Uma
convidada, Bella Fromm, a colunista de sociedade, observou uma «tensão elétrica» que
impregnava a festa. «Os diplomatas pareciam inquietos», escreveu. «Os Alemães estavam
exaltados.»

Dodd e a mulher mantiveram-se à entrada do salão de baile, onde cumprimentavam quem ia


chegado. Martha reparou que, aparentemente, o pai comportava-se como sempre nessas
ocasiões, disfarçando o enfado com comentários e investidas irónicas, exibindo uma expressão
de cético divertido prestes a rir. A mãe envergava um vestido comprido azul e branco e
cumprimentava os convidados com os seus habituais modos discretos — a personificação da
elegância sulista, de cabelo grisalho e um sotaque delicado —, mas Martha detetou um rubor
invulgar nas faces da mãe e que as íris quase negras dos seus olhos, sempre impressionantes,
estavam-no ainda mais.

As mesas no salão de baile e no jardim tinham sido decoradas com ramos de flores vermelhas,
brancas e azuis e com pequenas bandeiras dos Estados Unidos. Uma orquestra ia tocando
baixinho músicas

356
m

m NO JARDIM DOS MONSTROS

oorte-americanas. O tempo estava cálido, mas nublado. Os convidados iam deambulando pela
casa e pelo jardim. No total, era uma cena pacífica e surreal, num contraste potente com a
carnificina das setenta e duas horas anteriores. Para Martha e o irmão, a justaposição era
simplesmente demasiado patente para ser ignorada, pelo que fizeram questão de
cumprimentar os convidados alemães mais jovens com a pergunta: «Lebst du nochh

«Achávamos que estávamos a ser sarcásticos, revelando aos Alemães parte da fúria que
sentíamos», escreveu. «Sem dúvida, muitos terão considerado o comentário de mau gosto.
Alguns nazis mostraram uma irritação extrema.»

Os convidados chegavam com notícias novas. De quando em vez, um correspondente


estrangeiro ou membro de uma embaixada afasta-va-se com Dodd para conversarem por
alguns instantes. Um dos temas decerto terá sido a lei promulgada no dia anterior pelo
governo de Hitler, que legalizava todos os assassínios; justificava-os com ações tomadas numa
«emergência para a defesa do Estado». Havia quem chegasse com um ar pálido e abalado,
receando que o pior tivesse acontecido aos amigos que tinha na cidade.

Fritz, o mordomo, informou Martha de que um convidado a aguardava no andar de baixo.


«Derjunge Herr von Papea», disse Fritz. O jovem Herr Papen — Franz Jr., filho do vice-
chanceler. Martha estava à espera dele e alertara a mãe para o facto de, se ele aparecesse, ela
poder ter de ir embora. Tocou ao de leve no braço da mãe e deixou a linha de receção dos
convidados.

Franz era alto, louro e esguio, com um rosto cinzelado e, segundo Martha, «uma certa beleza
refinada — como a de uma raposa dourada». Também era gracioso. Dançar com ele, escreveu
ela, «era como viver na própria música».

Franz deu-lhe o braço e apressou-se a levá-la para fora de casa. Atravessaram a rua para o
Tiergarten, onde passearam durante algum tempo, atentos a sinais de estarem a ser seguidos.
Não os detetando, avançaram até à esplanada de um café e pediram bebidas.

O terror dos últimos dias repercutia-se no rosto e nos modos de Franz. A ansiedade reprimia-
lhe o humor descontraído habitual.

Ainda que estivesse grato ao embaixador Dodd por ter aparecido |unto à casa da família, Franz
compreendia que aquilo que de facto

357
ERIK LARSON

salvara o pai fora a relação que este tinha com o presidente Hinden-burg. Contudo, nem essa
proximidade impedira as SS de aterrorizarem Papen e a família, como Franz revelou então. No
sábado, homens armados das SS tinham ocupado posições dentro do apartamento da família e
à entrada da rua. Tinham dito ao vice-chanceler que dois membros do seu pessoal tinham sido
mortos e indicaram que o mesmo fim o esperava. A ordem, diziam, chegaria a qualquer
instante. A família tinha passado um fim de semana solitário e aterrorizador.

Franz e Martha conversaram um pouco mais, após o que ele a escoltou de novo até ao parque.
Ela regressou à festa sozinha.

Ao final de uma tarde dessa semana, a Sra. Cerruti, esposa do embaixador italiano, olhou por
acaso por uma janela da sua casa, que ficava do outro lado da rua da de Rohm. Nesse
momento, um grande carro estacionou. Dois homens saíram do automóvel e entraram na
casa, de onde surgiram carregados com fatos e outras roupas de Rohm. Repetiram a viagem
várias vezes.

A cena relembrou-a dos acontecimentos do fim de semana anterior de uma forma


particularmente vívida. «Ver aquelas roupas, já despojadas do proprietário, era nauseante»,
recordou nas suas memórias. «Era tão óbvio que se tratavam dos "trajes do enforcado" que
tive de desviar o olhar.»

Foi acometida por «um ataque de nervos». Correu escada acima e jurou sair imediatamente
de Berlim. No dia seguinte, partiu para Veneza.

Os Dodd ficaram a saber que Wilhelm Regendanz, o banqueiro opulento que organizara o
jantar fatídico para o capitão Rohm e o embaixador francês François-Poncet na sua casa de
Dahlem, conseguira fugir de Berlim no dia da purga e chegar são e salvo a Londres. Porém,
agora receava nunca poder regressar. Pior, a sua mulher ainda estava em Berlim e o filho
adulto, Alex, que também estivera presente no jantar, fora preso pela Gestapo. A 3 de julho,
Regendanz escreveu à Sra. Dodd, pedindo-lhe que fosse a Dahlem para ver

358
NO JARDIM DOS MONSTROS

com° estavam a mulher e os seus filhos mais novos e para «lhe transmitir os meus
cumprimentos mais sentidos». Escreveu: «parece que agora sou suspeito, por ter recebido
tantos diplomatas na minha casa e também por ser amigo do general von Schleicher.»

A Sra. Dodd e Martha foram de carro até Dahlem, para visitarem a Sra. Regendanz. Uma jovem
criada recebeu-as à porta, com os olhos vermelhos. Pouco depois, a própria Sra. Regendanz
surgiu, magra e com um ar sombrio, de olheiras profundas e com maneirismos hesitantes e
nervosos. Conhecia Martha e Mattie e ficou perplexa ao vejas em sua casa. Encaminhou-as
para dentro. Ao fim de alguns momentos de conversa, as Dodd falaram à Sra. Regendanz da
mensagem enviada pelo marido. Ela levou as mãos ao rosto e chorou discretamente.

A Sra. Regendanz contou-lhes que a casa tinha sido revistada e que lhe tinham confiscado o
passaporte. «Quando falou do filho», escreveu Martha, «o seu autodomínio desfez-se e o
medo deixou-a histérica.» Não fazia ideia de onde se encontraria Alex, se estaria vivo ou
morto.

Implorou a Martha e à mãe desta que localizassem Alex e o visitassem, que lhe levassem
cigarros, qualquer coisa que demonstrasse aos captores que ele tinha chamado a atenção da
embaixada dos Estados Unidos. Elas prometeram tentar. A Sra. Dodd e a Sra. Regendanz
combinaram que, doravante, esta usaria um nome de código, Carrie, para qualquer contacto
que estabelecesse com a família ou com a embaixada.

Ao longo dos dias seguintes, os Dodd falaram acerca da situação com amigos e diplomatas
influentes, bem como funcionários afáveis do governo. É impossível saber se tal intervenção
foi útil ou não, mas Alex foi libertado ao fim de cerca de um mês de cativeiro. Abandonou a
Alemanha de imediato, num comboio no turno, e juntou-se ao pai, em Londres.

Através de contactos, a Sra. Regendanz conseguiu adquirir outro passaporte e garantir uma
passagem aérea para sair da Alemanha. Assim que também ela e os seus filhos se encontraram
em Londres, enviou um postal à Sra. Dodd: «Sã e salva. Gratidão profundíssima. Afe-
tuosamente, Carrie.»

359
n

ERIK LARSON

Em Washington, o responsável pela Europa Ocidental, Jay Pier-repont Moffat reparou num
aumento de solicitações de viajantes nor-te-americanos querendo saber se ainda seria seguro
visitar a Alemanha. «Temos-lhes respondido», escreveu, «que em todas as perturbações até à
data nenhum estrangeiro foi lesado e que não vemos motivo para preocupação desde que não
se intrometam e se mantenham longe de problemas.»

A sua mãe, por exemplo, sobrevivera incólume à purga e confessava tê-la achado «bastante
entusiasmante», escreveu Moffat numa entrada posterior. A casa da irmã dele localizava-se na
área do Tiergar-ten, que «foi bloqueada por soldados e elas tinham de fazer um grande desvio
para entrarem ou saírem». Não obstante, mãe, filha e neta partiram de automóvel, com um
motorista, para verem a Alemanha, tal como planeado.

O que mais ocupava a atenção do Departamento de Estado era a dívida alemã pendente a
credores norte-americanos. Era uma justaposição estranha. Na Alemanha, havia sangue,
vísceras e disparos; no Departamento de Estado em Washington, havia camisas brancas, os
lápis vermelhos de Hull e uma frustração crescente em relação à incapacidade de Dodd de
fazer pressão a favor dos Estados Unidos. Num telegrama de Berlim, com a data de sexta-feira,
6 de julho, Dodd informava que se reunira com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Neurath,
para discutir a questão da dívida, e que Neurath dissera que faria o possível para assegurar que
os juros seriam pagos, mas que «isso seria extramente difícil». Quando Dodd perguntou a
Neurath se os EUA poderiam ao menos esperar um tratamento idêntico ao dado a outros
credores internacionais, Neurath «expressou somente a esperança de que isso pudesse ser
possível».

O telegrama enfureceu o secretário Hull e os membros mais antigos do Clube Bem-Bom. «De
acordo com o que o próprio revela», escreveu Moffat no seu diário, Dodd «oferece muito
pouca resistência e prefere deixar Von Neurath safar-se com a situação. O Secretário sabe que
[Dodd] tem escassa compaixão pelos nossos interesses financeiros, mas, mesmo assim, ficou
bastante incomodado com o telegrama de Dodd.»

360
V

NO JARDIM DOS MONSTROS

Zangado, Hull ordenou a Moffat que preparasse uma resposta dura que compelisse Dodd «não
só a aproveitar, mas também a criar, todas as oportunidades para fazer compreender a justiça
das nossas reclamações.»

O resultado foi um telegrama enviado às quatro da tarde de sábado, 7 de julho, em nome de


Hull, que questionava se Dodd teria desafiado a incapacidade da Alemanha de pagar a sua
dívida externa «com o máximo vigor, do ponto de vista da lógica, da equidade e do efeito
surtido nos estimados 60 000 investidores inocentes deste país [...]»

Moffat escreveu que «foi um telegrama bastante severo, ao qual o secretário Hull, seguindo a
sua natureza intensamente amável, modificou uma frase para não magoar Dodd.» Moffat
comentou que «os mais irreverentes» do departamento tinham começado a referir-se a Dodd
como «embaixador Dud1».

Durante outra reunião acerca da situação da dívida, que teve lugar nessa semana, Hull
continuou a expressar a sua insatisfação com Dodd. Segundo Moffat, «o Secretário repetiu
várias vezes que, ainda que em muitos aspetos Dodd fosse um bom homem, decerto tinha um
feitio peculiar.»

Nesse dia, Moffat participou numa festa ao livre no jardim de um amigo abastado — o mesmo
da piscina —, que tinha convidado também «todo o Departamento de Estado». Houve partidas
de ténis e campeonatos de natação. Moffat teve de partir cedo, porém, para fazer um cruzeiro
no rio Potomac, num iate a motor «equipado com um luxo que satisfaria a alma de qualquer
sibarita».

Em Berlim, Dodd não se deixava impressionar. Achava inútil insistir no pagamento total, pois a
Alemanha simplesmente não dispunha do dinheiro, e havia questões bem mais importantes
em jogo. Numa carta que enviou a Hull, algumas semanas depois, escreveu: «Os nossos
cidadãos terão de perder as suas obrigações.»

Jogo de palavras; a expressão DWpode ser traduzida como «imprestável». (Aí. da T.)

361
ERIK LARSON

Bem cedo na manhã de sexta, 6 de julho, Martha foi ao quarto do pai para se despedir. Sabia
que ele não aprovava a sua viagem à Rússia mas, enquanto se abraçavam e beijavam, ele
pareceu-lhe descontraído. Aconselhou-lhe que tivesse cuidado, mas esperava que fizesse
«uma viagem interessante».

A mãe e o irmão levaram-na ao aeroporto de Tempelhof; Dodd ficou na cidade, sem dúvida
ciente de que a imprensa nazi poderia tentar aproveitar-se da sua presença no aeroporto,
despedindo-se da filha que partia para a execrada União Soviética.

Martha subiu as escadas compridas de aço inoxidável para o Junker de três motores em que
faria a primeira parte da viagem. Um fotógrafo registou-a com um ar animado no cimo das
escadas, com o chapéu um pouco descaído. Estava a usar uma camisola simples por cima de
uma blusa às bolinhas e um lenço a condizer. O casaco comprido e as luvas brancas que rinha
sobre o braço pareciam inverosímeis, dado o calor.

Ela viria a declarar que não fazia ideia de que a sua viagem suscitasse o interesse da imprensa
ou que fosse criar uma espécie de escândalo diplomático. Isto, contudo, carece de
plausibilidade. Ao fim de um ano, durante o qual ficara a conhecer intimamente conspiradores
como Rudolf Diels e Putzi Hanfstaengl, não poderá ter-lhe escapado que, na Alemanha de
Hitler, até as ações mais pequenas possuíam um poder simbólico exagerado.

A um nível pessoal, a sua partida marcava o facto de que os últimos resquícios da


compreensão que sentira em relação aos estranhos e nobres seres da revolução nazi tinham
desaparecido e, quer ela o admitisse ou não, tal partida, capturada por fotógrafos noticiosos e
devidamente registada tanto por funcionários da embaixada como por observadores da
Gestapo, tratou-se de uma declaração pública da sua desilusão final.

Escreveu: «Tinha visto sangue e terror suficientes para me assombrarem para o resto da vida.»

O pai atingiu um momento similar de transformação. Ao longo daquele primeiro ano na


Alemanha, Dodd ficara impressionado, vezes sem conta, pela estranha indiferença perante a
atrocidade que se

362
NO JARDIM DOS MONSTROS

apoderara da nação, a disposição da populaça e dos elementos moderados do governo para


aceitarem cada novo decreto opressor, cada fl0vo ato de violência, sem protestarem. Era como
se ele tivesse entrado na floresta negra de um conto de fadas onde todas as regras de certo e
errado estivessem invertidas. Escreveu ao seu amigo Roper: «Não poderia ter imaginado o
surto de perseguição aos judeus quando todos sofriam, de uma forma ou de outra, com o
declínio do comércio. Tal como ninguém poderia ter imaginado que um desempenho tão
terrorista como o de 30 de junho pudesse ser permitido nos tempos modernos.»

Dodd continuava com esperanças de que os assassínios ultrajassem de tal forma o público
alemão que o regime caísse, mas, à medida que os dias passavam, não via quaisquer sinais de
tal extravasamento de raiva. Até o exército se mantivera impávido, não obstante o assassínio
de dois dos seus generais. O presidente Hindenburg enviou a Hitler um telegrama elogioso: «A
partir dos relatórios que me são apresentados, sei que o senhor, através da sua ação
determinada e valente intervenção pessoal, cortou a traição pela raiz. Salvou a nação alemã de
um perigo sério. Por isso, expresso-lhe o meu mais profundo agradecimento e transmito-lhe
um reconhecimento sincero.» Noutro telegrama, Hindenburg agradecia a Gõring a «forma
enérgica e eficiente com que esmagara a alta traição».

O embaixador tomou conhecimento de que Gõring ordenara pessoalmente mais de setenta e


cinco execuções. Ficou satisfeito quando ele, tal como Rohm já fizera, lhe respondeu dizendo
lamentar não poder comparecer à festa planeada para a noite de sexta-feira, 6 de julho. Dodd
escreveu: «Foi um alívio ele não ter aparecido. Não sei o que teria feito se tivesse vindo.»

Para Dodd, diplomata por acidente, não por feição, tudo aquilo era absolutamente
consternador. Ele era um académico e um democrata jeffersoniano, um agricultor que adorava
História e a antiga Alemanha onde estudara enquanto jovem. Agora havia assassínios oficiais a
uma escala aterradora. Os seus amigos e conhecidos, pessoas que tinham frequentado a sua
casa em lanches e jantares, tinham sido

363
ív^pi

ERIK LARSON

fuziladas. Nada no seu passado o preparara para aquilo. Trazia à luz com mais acuidade do que
nunca, as dúvidas que tinha sobre ser ou não capaz de alcançar algo enquanto embaixador. Se
não fosse, de que valeria permanecer em Berlim, quando a sua grande paixão, o seu O/d
South, estiolava na secretária?

Algo o abandonou: um último elemento vital de esperança. Na entrada do seu diário de 8 de


julho, uma semana após o início da purga e pouco antes do aniversário da sua chegada a
Berlim, escreveu: «A minha missão aqui é trabalhar em nome da paz e de melhores relações.
Não vejo como possa alguma coisa ser feita enquanto Hitler, Gõring e Goebbels forem os
dirigentes do país. Nunca ouvi falar ou li acerca de três homens mais impróprios para um lugar
elevado. Deverei demitir-me?»

Jurou nunca receber Hitler, Gõring ou Goebbels na embaixada ou em sua casa e resolveu,
ainda, «que nunca mais comparecerei num discurso do Chanceler ou pedirei que me receba
exceto por motivos oficiais. Invade-me uma sensação de terror quando olho para o homem.»

364
CAPÍTULO 52

SÓ OS CAVALOS

Contudo, tal como parecia ser o caso de toda a gente em Berlim, Dodd queria ouvir o que
Hitler tinha a dizer a respeito da purga. O governo anunciou que Hitler falaria na tarde de
sexta-feira, 13 de julho, num discurso diante dos delegados do Reichstag, nas instalações
oficiais provisórias, a ópera de Kroll, ali perto. Dodd decidiu não comparecer mas antes ouvi-lo
pela rádio. A perspetiva de ir pessoalmente lá e escutar Hitler a justificar um assassínio em
massa enquanto centenas de bajuladores esticavam os braços repetidas vezes era demasiado
repugnante.

Nessa sexta à tarde, ele e François-Poncet combinaram encontrar--se no Tiergarten, como


tinham feito antes para evitarem que ouvissem as suas conversas. Dodd queria saber se
François-Poncet planeava assistir ao discurso, mas receava que, se visitasse a embaixada
francesa, espiões da Gestapo observassem a sua chegada e concluíssem que conspirava para
que as grandes potências boicotassem o discurso, o que correspondia à verdade. Tinha ido à
embaixada de sir Eric Phipps no início da semana, ficando a saber que também Phipps fazia
tenções de não assistir ao discurso. Duas visitas a embaixadas importantes num período de
tempo tão curto decerto atrairiam as atenções.

O dia estava ameno e soalheiro e, por conseguinte, o parque estava cheio de pessoas, a
maioria a pé, mas também bastantes a cavalo, que avançavam lentamente pelas sombras. De
vez em quando ou-viam-se risos e cães a ladrar, e os fantasmas de cigarros perduravam no ar
parado, esbatendo-se devagar. Os dois embaixadores caminharam durante uma hora.

365
ERIK LARSON

Quando se preparavam para se separar, François-Poncet infor-mou-o: «Não assistirei ao


discurso.» Depois acrescentou um comentário que Dodd nunca esperara ouvir de um
diplomata moderno numa das grandes capitais da Europa: «Não ficaria surpreendido se, a
dada altura, me alvejassem nas ruas de Berlim», disse ele. «É por causa disso que a minha
mulher continua em Paris. Os Alemães odeiam-nos e os seus dirigentes são loucos.»

Às oito da noite, na biblioteca do número 27a da Tiergartenstrasse, Dodd ligou a telefonia e


começou a escutar enquanto Hider subia ao palanque para se dirigir ao Reichstag. Uma dúzia
de delegados encon-travam-se ausentes — tinham sido assassinados na purga.

A ópera distava apenas vinte minutos de caminhada do Tiergar-ten, em frente ao qual Dodd se
sentou então a ouvir. No seu lado do parque, tudo estava calmo e tranquilo, numa noite
fragrante com o aroma das flores que se abriam à noite. Até através da telefonia Dodd ouvia
que a audiência se levantava e oferecia a saudação hitleriana várias vezes.

«Delegados», disse Hitler. «Homens do Reichstag Alemão!»

O chanceler explanou detalhadamente o que descrevia como uma conspiração do capitão


Rohm para se usurpar do governo, auxiliado por um diplomata estrangeiro que não
identificou. Ao comandar a purga, dizia, agira apenas no melhor interesse da Alemanha, para
salvar a nação de tumultos.

«Só uma repressão feroz e sanguinária poderia cortar a revolta pela raiz», disse à sua
audiência. Ele próprio liderara o ataque em Munique, declarou, enquanto Gòring, com o seu
«punho de aço» o fizera em Berlim. «Se alguém me perguntasse porque não nos servimos dos
tribunais, eu responderia: naquele momento, eu era responsável pela nação alemã; em
consequência, só eu, durante aquelas vinte e quatro horas, fui o Supremo Tribunal da Justiça
do Povo Alemão.»

Dodd ouviu o clamor da audiência a pôr-se de pé num salto, a ovacionar, saudar e aplaudir.

Hider prosseguiu:

«Ordenei que os líderes dos culpados fossem fuzilados. Também ordenei que os abcessos
causados por venenos internos e externos fossem cauterizados até a carne viva ficar
queimada. Também ordenei

366
NO JARDIM DOS MONSTROS

que qualquer rebelde que tentasse resistir à detenção fosse morto de ;. imediato. A nação tem
de saber que a sua existência não pode ser ameaçada de forma impune por quem quer que
seja, e que quem quer que erga a mão contra o Estado deverá morrer por isso.»

Referiu o encontro do «diplomata estrangeiro» com Rohm e outros alegados conspiradores,


bem como a declaração subsequente desse diplomata de que o encontro fora
«completamente inócuo». Era ?uma alusão clara ao jantar a que François-Poncet fora em
maio, em ¦casa de Wilhelm Regendanz.

} «Mas», continuou Hitler, «quando três homens capazes de cometer alta traição organizam
um encontro na Alemanha com um estadista estrangeiro, um encontro que eles próprios
caracterizam como uma Reunião "de trabalho", quando mandam os criados embora e dão ins-
ruções precisas para que eu não seja informado desse encontro, or-enarei a morte desses
homens, mesmo que essas conversas secretas atem apenas de temas como o clima, moedas
velhas ou objetos sibilares.»

Hitler admitiu que o custo da sua purga «foi grande» e depois mentiu à sua audiência,
declarando que o total de mortes fora de setenta e sete. Tentou ainda moderar essa contagem,
alegando que duas das vítimas se tinham suicidado e — num toque ridículo — que o total
incluía três homens das SS fuzilados por terem «maltratado prisioneiros».

Terminou: «Estou disposto a, perante a História, assumir a responsabilidade pelas vinte e


quatro horas da decisão mais amarga da minha vida, durante a qual o destino me ensinou a
apegar-me com todos os pensamento à coisa mais benquista que possuímos — o Povo Alemão
e o Reich Alemão.»

A sala ressoou com o estrondo dos aplausos e da vozearia a cantar Horst WesselUed. Se Dodd
tivesse estado presente, teria visto duas meninas a oferecer ramos de flores a Hitler, meninas
vestidas com o uniforme do Bund Deutscher Mádel, o ramo feminino da Juventude Hitleriana;
e teria visto Góring a aproximar-se rapidamente do palanque para apertar a mão de Hitler,
seguido por uma onda de oficiais decididos a oferecer os seus próprios panegíricos. Góring e
Hitler mantiveram-se perto um do outro e sustiveram a pose para as dezenas de fotógrafos
que tentavam acercar-se. Fred Birchall, do Times, foi

367
m

ERIK LARSON

testemunha: «Ficaram frente a frente no palanque durante quase um minuto, mantendo o


forte aperto de mão, fitando-se nos olhos enquanto os flashes iam disparando.»

Dodd desligou o rádio. Do seu lado do parque, a noite continuava calma e serena. No dia
seguinte, a 14 de julho, um sábado, enviou um telegrama em código ao secretário Hull. «nada
mais repugnante do

QUE VER O PAÍS DE GOETHE E BEETHOVEN REVERTER AO BARBARISMO DA INGLATERRA DOS


STUART E DA FRANÇA DOS BOURBON [...]»

No final dessa tarde, devotou duas horas tranquilas ao seu O/d South, perdendo-se numa era
distinta e mais nobre.

Putzi Hanfstaengl, com a segurança garantida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros,
Neurath, regressou a casa. Quando chegou ao seu gabinete, ficou espantado com o aspeto
sombrio e estonteado daqueles que o rodeavam. Comportavam-se, escreveu, «como se
tivessem sido neutralizados com clorofórmio».

A purga de Hitler ficaria conhecida como «A Noite das Facas Longas» e, a seu tempo, viria a ser
considerado um dos episódios mais importantes da sua ascensão, o primeiro ato da grande
tragédia que foi a política de apaziguamento. Ao início, porém, o significado do ato passou
despercebido. Nenhum governo retirou embaixadores do país ou apresentou um protesto; a
população não se manifestou.

A reação mais satisfatória de um funcionário oficial dos Estados Unidos proveio do general
Hugh Johnson, administrador da Administração de Recuperação Nacional que, por essa altura,
se tornara famoso pelos seus discursos imoderados sobre um vasto leque de temas. (Quando,
em julho, houve uma greve geral em São Francisco, liderada por um estivador que imigrara da
Austrália, Johnson apelou à deportação de todos os imigrantes.) «Há uns dias, na Alemanha,
ocorreram situações que chocaram o mundo», disse Johnson num comentário público. «Não
sei como vos afetaram, mas a mim provo-caram-me vómitos — não num sentido figurativo,
provocaram-me realmente vómitos. Não há palavras que justifiquem a ideia de que

368
NO JARDIM DOS MONSTROS

adultos responsáveis possam ser arrancados às suas casas, encostados a uma parede com
espingardas nas costas e assassinados.»

O gabinete diplomático alemão protestou. O secretário Hull respondeu que Johnson «falava a
título individual e não em nome do Departamento de Estado ou da Administração».

Esta ausência de reação ocorria em parte porque muitos na Alemanha e no mundo optaram
por acreditar na reivindicação de Hitler de que teria suprimido uma rebelião iminente que
teria causado um derramamento de sangue muito maior. Não tardaram, porém, a surgir
provas que demonstravam que a pretensão do ditador era falsa. Ao início, Dodd parecia
inclinado a acreditar que tal conspiração existira deveras, mas depressa se tornou cético. Havia
um facto que parecia ser o que mais claramente refutava a justificação oficial: quando o
comandante das SA de Berlim, Karl Ernst, fora preso, estava prestes a partir num cruzeiro em
lua de mel, o que não correspondia exata-mente ao comportamento de um homem que
estivesse a planear um golpe para o mesmo fim de semana. Não se sabe ao certo se Hitler, ao
início, acreditava na sua própria história. Seguramente Gõring, Goebbels e Himmler terão feito
tudo o que podiam para que ele acreditasse. O embaixador da Grã-Bretanha, j7rEric Phipps,
começou por aceitar a história oficial; precisou de seis semanas para compreender que tal
conspiração nunca tinha existido. Quando Phipps se encontrou com Hitler vários meses
depois, os seus pensamentos regressaram à purga. «Não lhe aumentou o encanto ou a
atração», escreveu Phipps no seu diário. «Enquanto eu falava, observava-me com o olhar
faminto de um tigre. Cheguei à conclusão de que, se a minha nacionalidade e o meu estatuto
fossem diferentes, eu teria feito parte da refeição dele desta noite.»

Com esta avaliação, era quem se aproximava mais de perceber a verdadeira mensagem da
purga de Rohm, que o mundo continuava a não ver. Os assassínios demonstravam, no que
deveriam constituir termos impossíveis de ignorar, a que ponto Hitler estava disposto a chegar
para preservar o poder; ainda assim, o mundo exterior optava por interpretar a violência como
um mero ajuste de contas interno — «uma espécie de matança do submundo criminoso,
semelhante ao

369
ERIK LARSON

massacre de Al Capone no Dia de S. Valentim», nas palavras do historiador Ian Kershaw.


«Continuavam a pensar que, na diplomacia, poderiam lidar com Hitler como com um estadista
responsável. Os anos seguintes revelar-se-iam uma lição amarga de que o Hider que tratava da
política externa era o mesmo que se comportara com tanta brutalidade selvática e cínica na
sua própria nação, a 30 de junho de 1934.» Rudolf Diels, nas suas memórias, admitiu que
também ele, ao início, não entendeu a mensagem: «Eu [...] não fazia ideia de que aquela hora
de relâmpagos pressagiava uma tempestade, cuja violência derrubaria os diques podres dos
sistemas europeus e poria o mundo inteiro a arder — pois era, de facto, esse o significado de
30 de junho de 1934.»

A imprensa controlada, sem surpresas, louvava Hitler pelo seu comportamento decisivo e, na
opinião pública, a sua popularidade cresceu imenso. Os Alemães estavam de tal modo fartos
da intrusão das Tropas de Assalto nas suas vidas que a purga lhes parecia uma dádiva divina.
Um relatório de espionagem dos social-democratas exilados aferia que muitos alemães
estavam a «exaltar Hitler pela sua determinação implacável» e que muitos dos trabalhadores
«também se deixaram escravizar pela deificação acrítica de Hitler».

Dodd continuava a esperar que algum catalisador desencadeasse o fim do regime e acreditava
que a morte iminente de Hindenburg — de quem Dodd dizia ser «a única alma distinta» da
Alemanha moderna — poderia providenciá-lo, mas de novo ficaria desapontado. A 2 de
agosto, três semanas após o discurso de Hitler, o presidente morreu na sua propriedade. Hitler
apressou-se a agir. Antes de o dia terminar, acumulou as funções de presidente com as de
chanceler, alcançando assim, finalmente, poder absoluto sobre a Alemanha. Justificando com
falsa humildade que o título «Presidente» só poderia ser associado a Hindenburg, que o
ocupara durante tanto tempo, Hitler proclamou que, doravante, o seu título oficial seria
«Fiihrer e Chanceler do Reich».

Numa carta confidencial que enviou ao secretário Hull, Dodd antevia «um regime ainda mais
terrorista do que o que temos suportado desde 30 de junho».

A Alemanha aceitou a mudança sem quaisquer protestos, para consternação de Victor


Klemperer, o filólogo judeu. Também ele acalentara esperanças de que a purga instasse por
fim o exército a intervir

370
NO JARDIM DOS MONSTROS

'; e depor Hitler. Nada acontecera. E, agora, este novo ultraje. «O povo 0ial repara neste
absoluto coup d'étatt>, escreveu no seu diário, «tudo ocorre em silêncio, abafado por hinos
em honra do falecido Hinden-burg. Seria capaz de jurar que milhões e milhões não fazem ideia
da coisa monstruosa que acaba de acontecer.»

O jornal de Munique Miinchner Neueste Nachrichten exaltava «Hoje Hitler é Toda a


Alemanha», aparentemente optando por ignorar que, apenas um mês antes, o afável crítico de
música do periódico fora as-

! sassinado por engano.

Foi um fim de semana chuvoso, uma chuvada contínua durante três dias que ensopou a
cidade. Com as SA adormecidas — com os uniformes castanhos prudente, ainda que
temporariamente, guardados — e a nação de luto por Hindenburg, uma sensação rara de paz
disseminou-se pela Alemanha, o que permitiu a Dodd ter alguns momentos para ponderar
num tema carregado de ironia, mas querido àquela parte de si que continuava a ser um
agricultor da Virgínia.

A 5 de agosto de 1934, um domingo, Dodd comentou no seu diário uma característica do povo
alemão em que reparara nos seus tempos de Leipzig e que persistia mesmo sob o jugo de
Hitler: o amor aos animais, sobretudo a cavalos e cães.

«Numa altura em que praticamente todos os Alemães receiam dizer o que quer que seja se
não aos seus amigos mais íntimos, os cavalos e os cães regozijam-se por haver quem sinta que
desejam conversar», escreveu. «Uma mulher que pode acusar um vizinho de ser desleal e
deixar-lhe a vida em risco, até provocar-lhe morte, leva o seu grande cão de aspeto afável a dar
um passeio pelo Tiergarten. Fala com ele e mima-o enquanto se senta num banco e ele atende
ao que a Natureza lhe exige.»

Na Alemanha, observara ele, ninguém maltratava um cão e, por conseguinte, os cães nunca se
mostravam receosos juntos de pessoas, para além de serem sempre roliços e obviamente bem
cuidados. «Só os cavalos parecem ser igualmente felizes, nunca as crianças ou os jovens»,
escreveu. «Paro muitas vezes a caminho do meu gabinete e digo qualquer coisa a uma parelha
de cavalos que aguarda enquanto

371
ERIK LARSON

a carruagem puxada é descarregada. Estão tão limpos, gordos e contentes que dão a sensação
de estarem prestes a falar.» Chamava «felicidade equina» ao fenómeno e tinha reparado no
mesmo em Nuremberga e em Desden. Sabia que, em parte, aquela felicidade era incentivada
pela lei germânica, que proibia a crueldade para com animais e punia os transgressores com a
prisão, o que Dodd considerava profundamente irónico. «Numa altura em que centenas de
homens foram mortos sem um julgamento ou um indício de culpa, em que a população
literalmente treme de medo, os animais têm direitos garantidos que homens e mulheres não
podem sequer ousar esperar que se lhes sejam concedidos.»

E acrescentou: «Facilmente poderá desejar-se ser um cavalo!»

372
w

CAPÍTULO 53

*' ¦ JULIET 2

Boris tinha razão. Martha escolhera um itinerário demasiado reenchido e, por conseguinte,
considerou a expedição tudo menos nimadora. As viagens deixaram-na maldisposta e crítica,
tanto de Bo-'s como da Rússia, que lhe pareceu uma terra enfadonha e cansativa, soviético
ficou desiludido. «Fico muito triste por saber que não ostas de tudo na Rússia», escreveu-lhe
ele a 11 de julho de 1934. «Deverias observá-la com olhos completamente diferentes dos da
América. Não deverias contentar-te com um olhar superficial (reparando em coisas como
roupas e comida más). Por favor, querida menina, olha "para dentro", com mais
profundidade.»

O mais a incomodava, injustamente, era o facto de Boris não a acompanhar nas suas viagens,
apesar de, pouco depois da sua partida, também ele ter ido para a Rússia, primeiro para
Moscovo, depois para uma estância no Cáucaso, onde passou umas férias. Numa carta enviada
a 5 de agosto dessa estância, Boris recordava-a de que «foste tu quem disse que não
deveríamos encontrar-nos na Rússia». Admitia, porém, que outros obstáculos também tinham
surgido, embora fosse vago quanto à natureza exata de tais obstáculos. «Não pude passar as
minhas férias contigo. Não foi possível por vários motivos. O mais importante: tive de ficar em
Moscovo. A minha estada em Moscovo não foi muito feliz, o meu destino é incerto.»

Professava-se magoado com as cartas dela. «Não deverias escre-ver-me cartas tão zangadas.
Não as mereci, já estava muito triste, em Moscovo, depois de receber algumas das tuas cartas,
pois sentia que estavas muito longe e inalcançável. Mas depois da tua carta zangada, fiquei
mais do que triste. O que te fiz, Martha? O que aconteceu? Não consegues passar dois meses
sem mim?»

373
ERIK LARSON

Tal como exibira outros amantes para magoar o ex-marido Bas-sett, ela insinuava a Boris que
era capaz de reavivar o seu caso com Armand Berard, da embaixada francesa. «Já me ameaças
com o Ar-mand?» escreveu ele. «Não posso ditar-te nem sugerir-te o que quer que seja. Mas
não faças estupidezes. Mantém-te calma e não destruas todas as coisas boas que temos.»

A dada altura na sua viagem, Martha foi abordada por emissários do NKVD soviético, com o
objetivo de a recrutarem como fonte secreta de informação. É provável que Boris tenha
recebido ordens para se manter afastado dela, de forma a não interferir no processo, ainda
que também tenha desempenhado um papel no recrutamento, de acordo com registos dos
serviços secretos revelados e disponibilizados a académicos por um dos maiores especialistas
na história do KGB (e ex-agente), Alexander Vassiliev. Os superiores de Boris consideraram que
este não demonstrara a energia necessária para formalizar o papel de Martha. Transferiram-no
de novo para Moscovo e depois para um posto na embaixada russa em Bucareste, que ele
detestava.

Martha, entretanto, regressou a Berlim. Amava Boris, mas o casal continuava separado; ela
saía com outros homens, incluindo Armand Berard. No outono de 1936, Boris tornou a ser
transferido, desta feita para Varsóvia. O NKVD incumbiu outro agente, o camarada Bukhartsev,
do esforço de recrutar Martha. Um relatório sobre os progressos efetuados constante dos
ficheiros do NKVD declara: «Toda a família Dodd odeia os nacional-socialistas. Martha tem
contactos interessantes de que se serve para obter informação para o pai. Tem relações
íntimas com alguns dos seus conhecidos.»

Apesar da separação contínua, das batalhas emocionais e da exibição periódica de Armand e


de outros amantes, o romance com Boris progrediu a ponto de, a 14 de março de 1937, numa
segunda visita a Moscovo, ela ter requerido autorização formal a Estaline para casar com Boris.
Não se sabe se Estaline alguma vez viu ou respondeu à requisição, mas o NKVD encarava a
relação com ambivalência. Apesar de os chefes de Boris afirmarem não terem quaisquer
objeções ao casamento, por vezes também pareciam decididos a afastarem Boris para se
concentrarem melhor em Martha. A dada altura, a agência

374
y1

H| NO JARDIM DOS MONSTROS

ordenou que se mantivessem separados durante seis meses, «a bem da atividade».

Boris, na verdade, estava mais relutante do que Martha alguma vez soube. Num memorando
irritado que enviou aos seus superiores a 21 de março de 1937, queixava-se: «Não
compreendo porque se concentraram tanto no nosso casamento. Pedi-vos que lhe indicassem
que, em termos gerais, é impossível e, seja como for, isso não acontecerá nos próximos anos.
Mostraram-se mais otimistas quando a esta questão e ordenaram um atraso de apenas seis
meses ou um ano.» Mas o que aconteceria então?, perguntava Boris. «Seis meses passarão
depressa e quem sabe? Ela é capaz de apresentar uma conta que nem vocês nem eu
pagaremos. Não é melhor suavizarem ligeiramente as vossas promessas explícitas, se
realmente lhas fizeram?»

No mesmo memorando, refere-se a Martha como «Juliet 2», um referência que o especialista
no KGB, Vassiliev, e Allen Weinstein, no livro The Haunted Wood [O Bosque Assombrado] vêm
como indicador de que pudesse haver outra mulher na sua vida, uma «Juliet 1».

Martha e Boris encontraram-se em Varsóvia em novembro de 1937, após o que Boris enviou
um relatório para Moscovo. O encontro «correu bem», escreveu ele. «Ela estava bem-
disposta.» Ela continuava decidida a casar-se e «espera pelo cumprimento da nossa promessa
apesar de os pais a terem avisado de que nada se concretizaria».

Contudo, mais uma vez, Boris revelava uma definida falta de interesse em casar-se de facto
com ela. Alertava: «Penso que ela não deverá continuar a ignorar a verdadeira situação pois,
se a enganarmos, ela poderá ficar amargurada e perder a fé que deposita em nós.»

375
CAPITULO 54

' UM SONHO DE AMOR

Nos meses que se seguiram à ascensão final de Hitler, a sensação de inutilidade de Dodd
aprofundou-se, tal como um anseio colateral por regressar à sua quinta nas colinas suaves dos
Apalaches, entre as suas maçãs de um vermelho vivo e as suas vacas indolentes. Escreveu:
«Sinto-me tão humilhado por apertar as mãos de assassinos reconhecidos e assumidos».
Tornou-se uma das poucas vozes no governo dos Estados Unidos a avisar quanto às
verdadeiras ambições de Hitler e os perigos da postura isolacionista norte-americana. Disse ao
secretário Hull, numa carta com a data de 30 de agosto de 1934: «Com a Alemanha unida
como nunca antes, assiste-se ao armamento e treino fervorosos de um milhão e meio de
homens, a quem é ensinado, todos os dias, a acreditar que a Europa continental deverá
subjugar-se-lhes.» Acrescentava: «Penso que devemos abandonar o nosso alegado
isolamento.» Escreveu ao chefe do Estado-Maior, Douglas MacArthur: «Na minha opinião, as
autoridades alemãs preparam-se para um enorme conflito continental. Há provas abundantes.
É apenas uma questão de tempo.»

Roosevelt era da mesma opinião, mas nos Estados Unidos a maioria parecia mais decidida do
que nunca a manter-se afastada das escaramuças europeias. Dodd espantava-se com isto. Em
abril de 1935, escreveu a Roosevelt: «Se os ossos de Woodrow Wilson não dão voltas na
sepultura da Catedral, então não há ossadas que o façam. Talvez possa fazer algo, mas, do que
ouço acerca das atitudes do Congresso, tenho grandes dúvidas. Tantos homens [...] julgam que
o isolamento absoluto é um paraíso vindouro.»

Dodd resignou-se àquilo que descrevia como «a delicada tarefa de observar e,


cautelosamente, nada fazer».

376
NO JARDIM DOS MONSTROS

A sua sensação de repulsa moral levou-o a afastar-se de qualquer ivolvimento ativo com o
Terceiro Reich de Hitler. O regime, por ua vez, reconheceu que ele se tornara um oponente
intratável e pro-irava isolá-lo do discurso diplomático.

A atitude de Dodd consternava Phillips, que escreveu no seu diá-"o: «de que nos serve termos
um embaixador que se recusa a dialogar com o governo para o qual foi acreditado?»

A Alemanha prosseguia a sua marcha em direção à guerra e intensificava a perseguição aos


judeus, promulgando uma série de leis segundo as quais estes deixavam de ser cidadãos,
independentemente de há quanto tempo as suas famílias vivessem na Alemanha ou de com
quanta bravura tivessem combatido na Grande Guerra ao serviço do país. Agora, quando
caminhava pelo Tiergarten, Dodd via que alguns bancos do jardim tinham sido pintados de
amarelo, para indicar que eram para judeus. Os restantes, os mais desejáveis, estavam
reservados para arianos.

Assistiu, absolutamente impotente, à ocupação da Renânia por tropas germânicas a 7 de


março de 1936, sem qualquer resistência. Viu Berlim transformada para as Olimpíadas,
enquanto os nazis poliam a cidade e retiravam as faixas antissemitas, apenas para
intensificarem a perseguição assim que as multidões estrangeiras partiram. Via a estatura de
Hitler na Alemanha elevar-se à de um deus. Mulheres gritavam quando ele passava por perto;
caçadores de souvenirs colhiam porções de terra do solo que ele tinha pisado. No comício do
partido de setembro de 1936, a que Dodd não compareceu, Hider levou a audiência à beira da
histeria. «Que me tenham encontrado [...] entre tantos milhões é o milagre da nossa era!»,
bradou ele. «E que eu vos tenha encontrado, essa é a fortuna da Alemanha!»

A 19 de setembro de 1936, numa carta marcada como «Pessoal e Confidencial», Dodd falava
ao secretário Hull da frustração que sentia ao ver os acontecimentos sucederem-se sem que
ninguém ousasse interceder. «Com exércitos a aumentar em tamanho e eficiência a cada dia
que passa; com milhares de aviões preparados para responderem a ordens para largarem
bombas e disseminarem gás venenoso sobre

377
ERIK LARSON

grandes cidades; e com todos os outros países, pequenos e grandes, a armarem-se como
nunca, não há lugar onde uma pessoa possa sen-tir-se segura», escreveu. «Que erros e
equívocos cometidos desde 1917, e sobretudo nos últimos doze meses — e nenhum povo
democrático faz o que quer que seja, exerce penalizações económicas ou morais, para travar o
processo!»

A ideia de se demitir ganhava cada vez mais apelo para Dodd. Escreveu à filha: «Não deverás
mencioná-lo a vivalma, mas não vejo como possa continuar neste ambiente para lá da próxima
primavera. Não consigo prestar serviço algum ao meu país e a tensão é demasiada para estar
sempre a nada fazer.»

Entretanto, os seus opositores no Departamento de Estado incrementavam a campanha para o


afastar. O seu antagonista de longa data, Sumner Welles, foi empossado subsecretário de
Estado, substituindo William Phillips que, em agosto de 1936, ocupou o posto de embaixador
na Itália. Mais perto, surgiu um novo adversário, William C. Bullitt, outro homem selecionado
por Roosevelt (mas licenciado de Yale), que abandonou o cargo de embaixador na Rússia para
dirigir a embaixada dos EUA em Paris. Numa carta para Roosevelt, escrita a 7 de dezembro de
1936, Bullitt dizia: «Dodd tem muitas qualidades admiráveis e louváveis, mas é quase
absolutamente inadequado para o posto que ocupa. Detesta demasiado os nazis para
conseguir fazer algo com eles ou obter o que quer que seja. Em Berlim, precisamos de alguém
que possa ao menos ser cordial com os nazis e que fale alemão perfeitamente.»

A recusa constante de Dodd quanto a participar nos comícios do partido nazi continuava a
irritar os seus inimigos. «Pessoalmente, não consigo perceber porque é tão sensível», escreveu
Moffat no seu diário. Aludindo ao discurso de Dodd no Dia de Colombo de outubro de 1933,
Moffat perguntava: «Porque será pior para ele ouvir as inve-tivas alemãs contra a nossa forma
de governar, quando escolheu, na Câmara do Comércio, invetivar, perante uma audiência
alemã, uma forma autocrática de governar?»

O padrão de fugas de informação persistia, aumentando a pressão pública para o afastamento


de Dodd. Em dezembro de 1936, o cronista Drew Pearson, autor principal, em parceria com
Robert S. Allen,

378
:!ir

NO JARDIM DOS MONSTROS

de uma crónica do United Features Syndicate, um jornal sindical, chamada Washington Merry-
Go-Round [O Carrossel de Washington], publicou uma crítica fortíssima a Dodd, «atacando-me
violentamente como sendo um fracasso absoluto aqui e alegando que o Presidente tem a
mesma opinião», escreveu o embaixador a 13 de novembro. «Isso para mim é novidade.»

O ataque de Pearson magoou-o profundamente. Tinha passado quase quatro anos a tentar
corresponder à procuração de Roosevelt, que o incumbira de servir como exemplo dos valores
norte-americanos, e acreditava que fizera o melhor possível, dada a natureza estranha,
irracional e brutal do governo de Hitler. Receava que, ao demitir-se nesse momento, sob uma
nuvem tão negra, transmitisse a impressão de ter sido forçado a fazê-lo. «A minha posição é
difícil; mas, sob críticas tão fortes, não poderei demitir-me, conforme planeava, na próxima
primavera», escreveu no seu diário. «Abrir mão do meu trabalho aqui, nestas circunstâncias,
deixar-me-ia numa posição defensiva e absolutamente falsa perante a nação.» A sua demissão,
reconhecia, «seria vista de imediato como uma admissão de fracasso».

Decidiu adiar a partida, embora soubesse que chegara a altura de se afastar. Entretanto,
requereu outro período de licença, que passaria nos Estados Unidos, para descansar na sua
quinta e se encontrar com Roosevelt. A 24 de julho de 1937, Dodd e a esposa percorreram o
longo caminho até Hamburgo, onde ele embarcou no City ofBaltimore e, às sete da tarde, deu
início à lenta viagem pelo Elba, em direção ao mar.

Deixar Dodd a bordo destroçou o coração da sua mulher. No dia seguinte, domingo, ela
escreveu-lhe uma carta para que ele a recebesse assim que chegasse. «Pensei em ti, meu
querido, durante todo o caminho de volta a Berlim, e senti-me muito triste e só, sobretudo por
te ver partir tão mal e infeliz.»

Instava-o a descontrair-se e a tentar apaziguar as «cefaleias nervosas» persistentes que o


tinham atormentado nos dois meses anterior. «Por favor, por favor, por nós, se não por ti,
cuida melhor de ti e vive

379
ERIK LARSON

com menos tensão e exigência.» Se se mantivesse de boa saúde, dizia--lhe, ainda teria tempo
de atingir as coisas que queria atingir — e aqui deveria estar a referir-se à conclusão do Olá
South.

Preocupava-a que toda aquela mágoa e tensão, aqueles quatro anos em Berlim, tivessem sido,
em parte, culpa sua. «Talvez tenha tido demasiadas ambições para ti, mas isso não quer dizer
que te ame menos», escreveu. «Não consigo evitar — o que ambiciono para ti. É inato.»

Mas tudo isso tinha acabado, garantia-lhe. «Decide o que é melhor e o que mais queres, e eu
ficarei satisfeita.»

A sua carta foi ficando sombria. Descreveu o caminho de volta a Berlim naquela noite.
«Avançámos depressa, apesar de nos termos cruzado por muitos camiões militares — com
aqueles horrendos instrumentos de guerra e destruição que contêm. Ainda sinto arrepios
quando os vejo, bem como aos tantos outros sinais de uma catástrofe vindoura. Não haverá
uma forma possível de impedir os homens e as nações de se destruírem mutuamente? É
horrível!»

Faltavam quatro anos e meio para que os Estados Unidos interviessem na Segunda Guerra
Mundial.

Dodd precisava daquele intervalo. A saúde começara, de facto, a importuná-lo. Desde que
chegara a Berlim que sofria de problemas de estômago e de dores de cabeça, mas,
ultimamente, estas tinham-se agravado. Por vezes, as cefaleias duravam semanas. A dor,
escreveu, «espalhava-se pelas ligações nervosas entre o estômago, os ombros e o cérebro até
o sono ser praticamente impossível». Os sintomas pioraram a ponto de, numa das licenças
anteriores, ter consultado um especialista, o Dr. Thomas R. Brown, diretor da Divisão de
Doenças Digestivas do hospital Johns Hopkins, em Baltimore (que, num simpósio sobre
perturbações gastrointestinais, comentara com uma seriedade absoluta que «não devemos
esquecer-nos de que é essencial analisar as fezes de todos os ângulos»). Depois de saber que
Dodd trabalhava numa história épica do Sul e que completá-la era o grande objetivo da sua
vida, o Dr. Brown sugeriu-lhe delicadamente que abandonasse o posto de Berlim. Disse-lhe:
«aos sessenta e cinco anos,

380
p

NO JARDIM DOS MONSTROS

é necessário fazer um balanço, decidir o que é essencial e fazer planos para completar o mais
importante, se possível.»

No verão de 1937, Dodd registava cefaleias contínuas e surtos de problemas digestivos que,
numa ocasião, o obrigaram a ficar sem comer durante trinta horas.

Algo mais sério do que o stresse do trabalho poderá ter estado na origem dos seus problemas
de saúde, embora sem dúvida o stresse fosse um fator concorrente. George Messersmith, que
acabou por se mudar de Viena para Washington, onde se tornou secretário de Estado adjunto,
escreveu, numas memórias inéditas, que estava convicto de que Dodd sofrera um declínio
intelectual orgânico. As cartas de Dodd foram ficando incoerentes e a sua caligrafia degradara-
se a ponto de haver gente no departamento que as passava a Messersmith para que as
«decifrasse». Dodd cada vez mais escrevia as suas cartas à mão, à medida que a desconfiança
que sentia pelos estenógrafos crescia. «Era bastante óbvio que algo acontecera a Dodd»,
escreveu Messersmith. «Sofria de alguma espécie de deterioração mental.»

A causa de tudo isto, na opinião de Messersmith, era a incapacidade que o embaixador tinha
para se ajustar ao comportamento do regime hitleriano. A violência, a marcha obsessiva em
direção à guerra, o tratamento implacável dos judeus — tudo isso deixara Dodd
«tremendamente deprimido». Dodd não compreendia como poderiam aquelas coisas estar a
acontecer na Alemanha que conhecera e adorara enquanto jovem académico em Leipzig.

Messersmith escreveu: «Creio que ele estava de tal maneira consternado por tudo o que
ocorria na Alemanha e pelos perigos que isso acarretava para o mundo que deixou de ser
capaz de pensar e analisar racionalmente.»

Ao fim de uma semana na sua quinta, Dodd sentia-se muito melhor. Foi a Washington e, na
quarta-feira, 11 de agosto, encontrou-se com Roosevelt. Numa conversa que durou horas, o
presidente disse--lhe que gostava que ele ficasse mais alguns meses em Berlim. Instou-o a dar
tantas palestras quantas pudesse enquanto estivesse nos Estados Unidos e a «dizer a verdade
acerca das coisas», uma ordem que confirmou a Dodd que ainda detinha a confiança do
presidente.

381
ERIK LARSON

Porém, enquanto Dodd estava na América, o Clube Bem-Bom engendrou uma afronta singular.
Um dos mais recentes membros da embaixada, Prentiss Gilbert, agindo na qualidade de
embaixador interino — o encarregado de negócios — foi aconselhado pelo Departamento de
Estado a comparecer no comício nazi que teria lugar em Nuremberga. Gilbert assim fez. Viajou
no comboio especial para diplomatas, cuja chegada a Nuremberga foi saudada por dezassete
aviões militares que voavam numa formação que desenhava uma suástica.

Dodd pressentiu a mão do subsecretário Sumner Welles. «Acreditava há muito que Welles se
me opunha e a tudo o que eu recomendava», escreveu Dodd no seu diário. Um dos poucos
aliados que tinha no Departamento de Estado, R. Walton Moore, um secretário de Estado
adjunto, partilhava o desagrado de Dodd quanto a Welles e con-firmou-lhe os receios: «Não
tenho a mínima dúvida de que localizou com exatidão a influência que tem vindo a determinar
a ação do Departamento desde maio passado.»

O embaixador enfureceu-se. Manter-se afastado daqueles congressos era uma das poucas
formas de que acreditava poder servir-se para assinalar o que ele — e os Estados Unidos —
pensavam verdadeiramente acerca do regime de Hitler. Enviou um protesto violento e —
julgava ele — confidencial ao secretário Hull. Para seu grande espanto, até essa carta chegou à
imprensa. Na manhã de 4 de setembro de 1937, viu um artigo sobre aquele tema publicado
pelo jornal New York Herald Tribune, que citava um parágrafo inteiro da missiva, juntamente
com um telegrama ulterior.

A carta de Dodd inflamou o governo hideriano. O novo embaixador alemão nos Estados
Unidos, Hans-Heinrich Dieckhoff, disse ao secretário Hull que, ainda que não estivesse a
apresentar um pedido formal da demissão de Dodd, «desejava deixar explícito que o Governo
Alemão não o considerava persona grata.»

A 19 de outubro de 1937, Dodd teve uma segunda reunião com Roosevelt, desta feita na
residência presidencial de Hyde Park — «um lugar maravilhoso», avaliou Dodd. O seu filho Bill
acompanhou-o.

382
NO JARDIM DOS MONSTROS

«O Presidente revelou a ansiedade que sente quanto às questões internacionais», escreveu


Dodd no seu diário. Discutiram o conflito sino--japonês, que então deflagrava, e as perspetivas
de uma importante conferência de paz que teria lugar em Bruxelas, com o intuito de lhe

| pôr fim. «Uma coisa preocupava-o», escreveu Dodd. «Poderiam os

\ Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a Rússia cooperar de facto?»

A conversa passou então para Berlim. Dodd pediu a Roosevelt

que o mantivesse no cargo pelo menos até 1 de março de 1938, «em

} parte porque não quero que os extremistas alemães julguem que as

« suas queixas [...] funcionaram com demasiada eficiência.» Ficou com a impressão de que
Roosevelt concordava.

Instou o presidente a escolher um professor de História, o seu colega James T. Shotwell, da


Universidade de Columbia, para o substituir. Roosevelt pareceu disposto a ponderar a ideia. No
fim da conversa, o presidente convidou Dodd e Bill a almoçarem. A mãe de Roosevelt e outros
membros do clã Delano juntaram-se-lhes. Dodd

{ afirmou ter-se tratado de «uma ocasião encantadora».

Enquanto se preparava para partir, Roosevelt disse-lhe: «Escreva--me pessoalmente acerca do


estado das coisas na Europa. Leio perfei-

; tamente a sua caligrafia.»

No diário, Dodd acrescentou: «Prometi escrever-lhe essas cartas

/confidenciais, mas como conseguirei fazê-las seguir sem serem lidas por espiões?»

Partiu para Berlim. A entrada do diário de sexta, 29 de outubro, o dia da sua chegada, foi breve
mas reveladora: «De novo em Berlim. Que posso fazer?»

Ignorava que, na verdade, Roosevelt cedera à pressão tanto do Departamento de Estado como
do ministério alemão dos Negócios Estrangeiros, concordando que Dodd deveria abandonar
Berlim antes do final do ano. Ficou estupefato quando, na manhã de 23 de novembro de 1937,
recebeu um telegrama conciso de Hull, assinalado como «Estritamente Confidencial», que
declarava: «Por muito que o Presidente lamente qualquer inconveniência pessoal que possa
ser-lhe causada, deseja que lhe peça que trate de deixar Berlim, se possível até 15 de
dezembro e de forma alguma nunca depois do Natal, devido às complicações de que está a par
e que ameaçam aumentar.»

383
ERIK LARSON

Dodd protestou, mas Hull e Roosevelt mantiveram-se firmes. Dodd comprou bilhetes para si e
para a esposa e, a bordo do navio a vapor Washington, partiriam a 29 de dezembro de 1937.

Martha embarcou duas semanas mais cedo mas, antes, encon-trou-se com Boris em Berlim
para se despedirem. Para o fazerem, escreveu ela, ele abandonou o posto de Varsóvia sem
autorização. Foi um interlúdio romântico e desolador, pelo menos para ela, que voltou a
expressar o desejo de se casar com ele.

Foi a última vez que se viram. Boris escreveu-lhe a 29 de abril de 1938, da Rússia. «Até agora,
tenho vivido com a memória do nosso último encontro em Berlim. Que pena ter durado
apenas duas noites. Quero prolongar este tempo para o resto das nossas vidas. Foste tão
bondosa e amável para mim, querida. Nunca me esquecerei disso [...] Como foi a travessia do
oceano? Um dia cruzaremos este oceano juntos e observaremos as ondas eternas e
sentiremos o nosso amor eterno. Amo-te. Sinto-te e sonho contigo e connosco. Não me
esqueças.

Teu, Boris.»

De regresso aos Estados Unidos, fiel à sua natureza, ainda que não a Boris, Martha conheceu e
logo se apaixonou por outro homem, Alfred Stern, um nova-iorquino com uma sensibilidade
de esquerda. Era uma década mais velho, media um metro e setenta e oito, era elegante e
rico, tendo recebido uma compensação generosa do seu divórcio de uma herdeira do império
Sears Roebuck. Ficaram noivos e, com uma rapidez estonteante, casaram-se, a 16 de junho de
1938, embora notícias da época comprovem que houve uma segunda cerimónia mais tarde, na
quinta de Round Hill, na Virgínia. Ela usou um vestido de veludo negro com rosas vermelhas.
Anos depois, escreveria que Stern foi o terceiro e último grande amor da sua vida.

Contou a Boris que se casara numa carta de 9 de julho de 1938. «Sabes, querido, que foste
mais importante na minha vida do que qualquer outra pessoa. Também sabes que, se
precisares, estarei preparada para ir ter contigo quando me chamares». Acrescentou: «Penso
no futuro e em ver-te de novo na Rússia.»

Quando a sua carta chegou à Rússia, Boris estava morto; fora executado, um dos inúmeros
agentes do NKVD vitimados pela paranóia

384
NO JARDIM DOS MONSTROS

de Estaline. Mais tarde, ficou a saber que Boris fora acusado de colaborar com os nazis.
Considerou que a acusação era «disparatada». Muito depois, perguntar-se-ia se a relação
deles, e sobretudo aquele último encontro não autorizado em Berlim, teria sido relevante para
lhe selar o destino.

Nunca ficou a saber que a última carta de Boris, na qual ele afirmava sonhar com ela, era falsa,
escrita por Boris sob as ordens do NKVD pouco antes de ser executado, para impedir que a sua
morte destruísse a simpatia que ela sentia pela causa soviética. .

385
CAPITULO 55

"' ' ; ¦' AO CAIR DAS TREVAS

Uma semana antes da sua viagem de regresso a casa, Dodd proferiu um discurso de despedida
num almoço formal na Câmara de Comércio Norte-Americana em Berlim, onde, pouco mais de
quatro anos antes, inflamara pela primeira vez a ira nazi com as suas alusões a ditaduras
antigas. O mundo, disse ele, «terá de enfrentar o triste facto de que, numa era em que a
cooperação internacional deveria ser a palavra-chave, as nações estão cada vez mais
afastadas.» Disse ao seu público que as lições da Grande Guerra não tinham sido aprendidas.
Elogiou o povo alemão como «basicamente democrático e amável nas relações entre si». E
declarou: «Duvido de que algum embaixador na Europa desempenhe adequadamente os seus
deveres ou justifique o que recebe.»

Ao chegar aos Estados Unidos, assumiu outro tom. A 13 de janeiro de 1938, num jantar
organizado em sua honra no Waldorf Astoria de Nova Iorque, proclamou: «A Humanidade
corre grave perigo, mas parece que os governos democráticos não sabem o que fazer. Se nada
fizerem, a civilização ocidental e a liberdade religiosa, pessoal e económica correrão um perigo
imenso.» Os seus comentários suscitaram protestos imediatos da Alemanha, aos quais o
secretário Hull respondeu que Dodd era agora um cidadão privado e que poderia dizer o que
bem entendesse. Em primeiro lugar, porém, houve algum debate entre funcionários do
Departamento de Estado quanto a este dever também pedir desculpa com uma declaração
que dissesse algo como «lamentamos sempre qualquer coisa que possa causar ressentimento
no estrangeiro». A ideia foi rejeitada, com a oposição surpreendente de Jay Pierrepont Moffat,
que anotou no seu diário: «Senti com grande

386
NO JARDIM DOS MONSTROS

convicção que, por mais que eu desgostasse do Sr. Dodd e reprovasse a sua conduta, não
deveríamos pedir desculpa pelo que diz.»

Com esse discurso, Dodd deu início a uma campanha para lançar o alerta em relação a Hitler e
aos seus planos, combatendo a tendência crescente dos Estados Unidos para o isolacionismo;
mais tarde, chamar-lhe-iam a «Cassandra» dos diplomatas norte-americanos. Fundou o
Conselho Americano Contra a Propaganda Nazi e tornou-se membro dos Amigos Americanos
da Democracia Espanhola. Num discurso que proferiu em Rochester, Nova Iorque, a 21 de
fevereiro de 1938, diante de uma congregação judaica, Dodd avisou que, assim que Hitler
conquistasse o domínio da Áustria — um acontecimento que parecia iminente —, a Alemanha
continuaria a tentar expandir a sua autoridade para outros locais e que a Roménia, a Polónia e
a Checoslováquia ficariam em risco. Previu, para mais, que Hider se veria livre para dar
seguimento às suas ambições sem encontrar resistência armada de outras democracias
europeias, pois estas escolheriam concessões em vez de guerra. «A Grã-Bretanha», disse,
«está terrivelmente exasperada, mas também terrivelmente desejosa de paz.»

A família dispersou-se; Bill aceitou um emprego como professor, Martha partiu para Chicago e,
depois, para Nova Iorque. Dodd e Mattie mudaram-se para a quinta de Round Hill, na Virgínia,
mas faziam incursões ocasionais a Washington. A 26 de fevereiro de 1938, depois de deixar o
marido na estação de comboio de Washington para dar início a uma viagem cheia de palestras,
Mattie escreveu à filha, que se encontrava em Chicago: «Desejava que estivéssemos todos
mais perto uns dos outros, para podermos falar das coisas e passar algum tempo juntos. As
nossas vidas esgotam-se tão depressa. O pai fala muitas vezes de te ter connosco e da alegria
que seria ter-te e ao Bill por perto. Gostava mesmo que ele fosse mais jovem e vigoroso. Está
muito frágil & a sua energia nervosa está exaurida.»

Mattie estava profundamente preocupada com os acontecimentos na Europa. Noutra carta,


enviada pouco depois a Martha, escreveu: «O mundo parece estar numa confusão tão grande,
não sei o que acontecerá. Que pena terem permitido que aquele maníaco chegasse

387
ER1K LARSON

tão longe sem ser travado. É possível que, mais cedo ou mais tarde, nos vejamos envolvidos,
Deus nos livre.»

A Sra. Dodd não partilhava o profundo amor que o marido devotava à quinta de Round Hill. Era
muito boa para passar o verão e as férias, mas não como residência a tempo inteiro. Esperava
que pudessem arranjar um apartamento em Washington onde ela pudesse viver durante parte
do ano, com ou sem ele. Entretanto, dedicava-se a tornar a quinta mais habitável. Comprou
cortinas de seda dourada, um novo frigorífico da General Electric e um fogão novo. A medida
que a primavera avançava, ia ficando cada vez mais insatisfeita com a falta de progressos tanto
na procura de uma habitação em Washington como nos arranjos da casa da quinta. Escreveu a
Martha: «Até agora, não consegui fazer nada do que quero na casa, mas [há] uns oito ou dez
homens a trabalhar em cercas de pedra, a embelezarem-lhe os campos, a retirar pedras, a
alisar os terrenos. Dá-me vontade de "atirar a toalha ao chão" e desistir de toda esta mald—
coisa.»

A 23 de maio de 1938, noutra carta para a filha, escreveu: «Quem me dera ter uma casa — em
Washington em vez de Chicago. Seria maravilhoso.»

Quatro dias depois, a Sra. Dodd morreu. Na manhã de 28 de maio de 1938, não se juntou ao
marido para tomar o pequeno-almoço, como era costume. Dormiam em quartos separados.
Ele foi ver o que se passava. «Foi o maior choque que alguma vez tive», escreveu ele. Morreu
de falha cardíaca enquanto dormia, sem qualquer sinal que o prenunciasse. «Só tinha sessenta
e dois anos e eu sessenta e oito», escreveu Dodd no seu diário. «Mas ali estava ela, morta, e
nada poderia valer-lhe; e eu fiquei tão surpreendido e triste que mal conseguia decidir o que
fazer.»

Martha atribuiu a morte da mãe «à tensão e ao terror da vida» em Berlim. No dia do funeral,
prendeu rosas ao vestido com que a mãe foi enterrada e usou flores idênticas no cabelo.
Então, apenas pela segunda vez, viu lágrimas nos olhos do pai.

De repente, a quinta de Round Hill deixou de ser um local de descanso e paz, tornando-se
antes um lugar melancólico. A mágoa e a solidão de Dodd afetaram-lhe a saúde já precária,
mas ele seguiu em frente, dando palestras pelo país, no Texas, no Kansas, no Wisconsin,

388
NO JARDIM DOS MONSTROS

no Illinois, em Maryland e Ohio, focando sempre os mesmos temas .— que Hitler e o nazismo
representavam um grande perigo para o mundo, que uma guerra europeia era inevitável e
que, quando esta deflagrasse, seria impossível que os Estados Unidos se mantivessem
afastados. Uma palestra atraiu um público de sete mil pessoas. Num discurso proferido a 10 de
junho de 1938, no Harvard Club, em Boston, — esse antro de privilégio —, Dodd falou do ódio
devotado por Hitler aos judeus e avisou que a sua verdadeira intenção era «matá-los a todos».

Cinco meses depois, de 9 para 10 de novembro, ocorreu a Kristall-nacht, o pogrom nazi que
agitou a Alemanha e que instigou Roosevelt, por fim, a emitir uma condenação pública. Disse a
jornalistas que «mal conseguia acreditar que tal coisa pudesse ocorrer na civilização do século
xx».

A 30 de novembro, Sigrid Schultz escreveu a Dodd, de Berlim. «O meu palpite é que tem
muitas oportunidades para dizer ou pensar "eu não avisei?" Não que seja grande consolo ter
tido razão quando o mundo parece dividir-se entre vândalos impiedosos e pessoas decentes
incapazes de lidar com eles. Fomos testemunhas quando muita destruição e saque ocorreram
e, ainda assim, há alturas em que duvidamos da verdade daquilo que vimos — há uma
essência de pesadelo por aqui, que chega a suplantar a opressão de 30 de junho.»

Um episódio estranho distraiu Dodd. A 5 de dezembro de 1938, enquanto conduzia em direção


a uma palestra em McKinney, na Virgínia, o seu carro embateu numa menina negra de quatro
anos, chamada Gloria Grimes. O impacto causou danos significativos, incluindo o que parece
ter sido uma concussão. Dodd não parou. «A culpa não foi minha», explicou depois a um
repórter. «A criança atravessou-se no caminho do meu automóvel a menos de dois metros de
distância. Carreguei no travão, virei o carro e continuei porque achei que a criança tinha
fugido.» Piorou as coisas ao dar a impressão de lhes ser insensível quando, numa carta dirigida
à mãe da criança, acrescentou: «Para além disso, não queria que os jornais de todo o país
publicassem uma história acerca do acidente. Sabe que os jornais adoram exagerar coisas
deste género.»

389
ERIK LARSON

Foi acusado, mas, no dia em que o julgamento iria começar, a 2 de março de 1939, alterou o
seu depoimento, dando-se como culpado. O seu amigo, o juiz Moore, encontrava-se a seu
lado, tal como Martha. O tribunal condenou-o a uma compensação de 250 dólares mas não a
tempo de prisão, alegando o seu estado de saúde frágil e o facto de já ter pago 1100 dólares
em despesas médicas da criança que, por aquela altura, ao que se dizia, já estava praticamente
recuperada. Perdeu, contudo, o direito a conduzir e a votar, uma perda especialmente dura
para alguém que acreditava com tanto fervor na democracia.

Prostrado pelo acidente, desiludido com a experiência como embaixador e esgotado pela
saúde em declínio, Dodd recolheu-se na sua quinta. A sua saúde piorou. Foi-lhe diagnosticada
uma síndrome neurológica chamada paralisia bulbar, uma paralisação lenta e progressiva dos
músculos da garganta. Em julho de 1939, foi internado no Hospital Mount Sinai de Nova Iorque
para uma pequena cirurgia abdominal mas, antes da operação, contraiu pneumonia bronquial,
uma complicação frequente nos casos de paralisia bulbar. Adoeceu gravemente. Às portas da
morte, os nazis atormentavam-no de longe.

Um artigo de primeira página no jornal de Goebbels, Der Angrijf, dizia que Dodd estava numa
«clínica judaica». A manchete declarava: «Fim do famoso agitador antigermânico Dodd.»

O autor produzira um género de malícia pueril típica do Der An-griff: «O septuagenário que foi,
em tempos, um dos diplomatas mais estranhos que alguma vez existiu está agora entre
aqueles que serviu durante vinte anos — os ativistas judeus a favor da guerra.» O artigo
chamava a Dodd um «homem pequeno, seco, nervoso, pedante [...] cuja comparência em
eventos diplomáticos e sociais provocava inevitavelmente um enfado interminável.»

Salientava a campanha de Dodd de alerta quanto às ambições de Hitler. «Depois de regressar


aos Estados Unidos, Dodd expressou-se da forma mais irresponsável e desavergonhada sobre
o Reich Alemão, cujos funcionários tinham, durante quatro anos, com uma generosidade
quase super-humana, ignorado os casos escandalosos, fauxpas e indiscrições políticas tanto
dele como da sua família.»

Dodd teve alta do hospital e foi para a sua quinta, onde continuou a acalentar a esperança de
ter tempo para completar os restantes volumes do seu Olà South. O governador da Virgínia
restituiu-lhe o direito
NO JARDIM DOS MONSTROS

de votar, explicando que, na altura do acidente, Dodd estava «doente e não inteiramente
responsável».

Em setembro de 1939, as tropas de Hitler invadiram a Polónia s e desencadearam a guerra na


Europa. A 18 de setembro, Dodd escreveu a Roosevelt que tudo poderia ter sido evitado se «as
democracias europeias» tivessem simplesmente agido em conjunto para travarem Hitler, como
ele sempre instara. «Se tivessem cooperado», escreveu Dodd, «poderiam ter sido bem-
sucedidas. Agora é tarde de mais.» No outono, Dodd estava confinado à cama e já só
conseguia co-unicar escrevendo num bloco. Suportou esta condição durante vá-'os meses, até
ao início de fevereiro de 1940, quando contraiu uma »nova pneumonia. Morreu no leito na
sua quinta, a 9 de fevereiro de M940, às 15.10, com JVlartha e Bill Jr. a seu lado e o trabalho da
sua ;¦¦ vida — o Olá South — longe de estar terminado. Foi enterrado dois \ dias depois na
quinta, com Cari Sandburg a servir de carregador ho-* norário do caixão.

Cinco anos mais tarde, durante a última investida a Berlim, um bombardeamento russo
acertou num estábulo na ponta oeste do Tier-garten. A Kurfúrstendamm adjacente, outrora
uma das principais vias berlinenses de compras e entretenimento, tornou-se então um palco
para um espetáculo absolutamente macabro — cavalos, as criaturas mais felizes da Alemanha
nazi, a galoparem rua afora, em pânico e com as crinas e caudas em chamas.

O julgamento dos compatriotas de Dodd quanto à sua carreira de embaixador parecia


depender em grande parte do lado do Atlântico em que se encontravam.

Os isolacionistas viam-no como desnecessariamente provocador; para os seus opositores no


Departamento de Estado, era um dissidente que se queixava demasiado e não correspondia às
exigências do Clube Bem-Bom. Roosevelt, numa carta a Bill Jr., revelou-se de uma neutralidade
enlouquecedora: «Sabendo da sua paixão pela verdade histórica e da sua capacidade rara para
esclarecer os significados da História», escreveu o presidente, «o seu falecimento é uma
verdadeira perda para a nação.»

391
ERIK LARSON

Para os que o conheceram em Berlim e que testemunharam pessoalmente a opressão e o


terror do governo de Hitler, Dodd seria sempre um herói. Sigrid Schultz chamou-lhe «o melhor
embaixador que tivemos na Alemanha» e louvou a sua vontade de representar os ideais norte-
americanos mesmo tendo de enfrentar a oposição do seu próprio governo. Escreveu:
«Washington não lhe deu o apoio devido a um embaixador na Alemanha nazi, em parte
porque demasiados homens do Departamento de Estado eram adeptos fervorosos dos
Alemães e também porque demasiados dos homens de negócios mais influentes no nosso país
julgavam "possível estabelecer relações comerciais com Hitler".» O rabi Wise escreveu nas
suas memórias, Challenging Years [Anos Desafiantes]: «Dodd tinha um avanço de anos em
relação ao Departamento de Estado, na forma como compreendia as implicações tanto
políticas como morais do hitlerismo e o preço que pagou por essa compreensão foi ser
praticamente demitido por ter tido a decência e a coragem, única entre embaixadores, de se
recusar a participar na celebração anual de Nuremberga, que era uma glorificação de Hider.»

Nos seus últimos anos, até Messersmith aplaudiu a clarividência de Dodd. «Penso muitas vezes
que poucos homens compreenderam mais exaustivamente o que estava a acontecer na
Alemanha e decerto foram muito poucos os que se aperceberam como ele das implicações
que o que estava a acontecer no país teria para o resto da Europa, para nós e para todo o
mundo.»

O maior elogio proveio de Thomas Wolfe que, durante uma visita à Alemanha na primavera de
1935, teve um breve affair com Martha. Escreveu ao seu editor, Maxwell Perkins, que o
embaixador Dodd o ajudara a conjurar «um orgulho e uma fé renovados na América e uma
crença em que, de alguma maneira, o nosso grande futuro ainda existe». A casa dos Dodd, no
número 27a da Tiergartenstrasse, disse ele a Perkins, «tem sido um porto seguro e destemido
para pessoas de todas as opiniões e, ali, pessoas que vivem e se movimentam no terror têm
sido capazes de respirar sem medo e de dizer aquilo que pensam. Sei que isto é verdade e,
para mais, a despreocupação seca, simples e doméstica com que o embaixador observa toda a
pompa, brilho, decorações e pose dos soldados a marchar é algo que lhe alegraria o coração.»

392
NO JARDIM DOS MONSTROS

O sucessor de Dodd foi Hugh Wilson, um diplomata ao modo antiquado contra o qual Dodd
tanto protestara. Na verdade, fora Wilson quem descrevera o serviço diplomático como «um
clube bem bom». A máxima de Wilson, cunhada por Talleyrand antes dele, não era
exatamente apaixonante: «Acima de tudo, não agir com demasiado zelo.» Como embaixador,
Wilson procurou enfatizar os aspetos positivos da Alemanha nazi e prosseguiu numa
campanha individual de apaziguamento. Prometeu ao novo ministro alemão dos Negócios
Estrangeiros, Joachim von Ribbentrop, que, se se iniciasse uma guerra na Europa, ele faria
tudo o que estívesse ao seu alcance para manter os Estados Unidos fora dela. Wilson acusava a
impressa norte-ameri-cana de ser «controlada por judeus» e de cantar «um hino de ódio
enquanto aqui se fazem esforços no sentido de construir um futuro melhor». Louvava Hitler
como «o homem que arrancou o seu povo ao desespero moral e económico, levando-o para o
estado de orgulho e prosperidade evidente de que agora goza». Admirava sobretudo o
programa nazi «Força através da Alegria», que proporcionava a todos os trabalhadores
alemães férias sem despesas e outros entretenimentos. Wilson encarava o programa como
uma ferramenta poderosa para ajudar a Alemanha a resistir às incursões comunistas e para
suprimir as exigências dos trabalhadores por salários mais elevados — dinheiro que os
trabalhadores desperdiçariam em «coisas idiotas, na maior parte das vezes». Via esta
abordagem como algo que «será benéfico para o mundo em geral».

William Bullitt, numa carta de Paris com a data de 7 de dezembro de 1937, elogiava Roosevelt
pela nomeação do colega, declarando: «Creio, de facto, que as hipóteses de paz na Europa
aumentam definitivamente com a sua nomeação de Hugh para Berlim, e agradeço-lhe
profusamente.»

No final, como é óbvio, nem a abordagem de Dodd nem a de Wilson tiveram grande
importância. A medida que Hider consolidava o seu poder e amedrontava o público, só um
gesto extremo de reprovação norte-americana poderia ter surtido algum efeito, talvez a
«intervenção de força» sugerida por George Messersmith em setembro de 1933. Tal ato,
todavia, teria sido politicamente impensável enquanto os Estados Unidos sucumbiam cada vez
mais à fantasia de poderem evitar envolver-se nas escaramuças da Europa. «Mas a História»,

393
1

ERIK LARSON

escreveu um amigo de Dodd, Claude Bowers, embaixador em Espanha e depois no Chile,


«registará que, num período em que as forças da tirania se mobilizavam para o extermínio da
liberdade e da democracia em toda a parte, quando uma errónea política de "apazigua-
mento" fornecia os arsenais do despotismo e quando em muitos altos círculos sociais — e
nalguns políticos — o fascismo era uma moda e um anátema da democracia, ele manteve-se
firme pela nossa forma de vida democrática, lutou com garra e manteve a fé e, mesmo quando
a morte o alcançou, o seu estandarte ainda se agitava.»

E, na verdade, temos de nos interrogar: para o Der Angriff de Goebbels o atacar enquanto ele
se encontrava prostrado numa cama de hospital, seria Dodd assim tão ineficaz quanto os seus
inimigos julgavam? No final, Dodd provou ser exatamente aquilo que Roosevelt tinha querido,
um farol solitário da liberdade americana e da esperança numa terra de trevas crescentes.

394
EPILOGO

'A AVE RARA EXILADA

Martha e Alfred Stern foram morar para um apartamento na zona oeste do Central Park, em
Nova Iorque, e tinham uma propriedade em Ridgefield, no Connecticut. Em 1939, ela publicou
um livro de memórias intitulado Through Embassy Eyes [Pelos Olhos da Embaixada]. A
Alemanha baniu-o de imediato, o que não constitui surpresa, dada algumas das observações
de Martha sobre os altos dirigentes do regime. Por exemplo: «Se houvesse alguma lógica ou
objetividade nas leis nazis de esterilização, o Dr. Goebbels há muito deveria ter sido
esterilizado.» Em 1941, ela e Bill Jr. publicaram o diário ào pai. Também esperavam publicar
uma coletânea de cartas de e para o pai, e pediram a George Messersmith que lhes permitisse
usar várias das que ele enviara a Dodd quando estava em Viena. Messersmith recusou.
Quando Martha lhe disse que as publicaria de qualquer forma, Messersmith, que nunca fora
grande admirador dela, mostrou-se duro. «Disse-lhe que, se publicasse as minhas cartas, fosse
numa editora responsável ou numa irresponsável, eu escreveria um pequeno artigo sobre o
que sabia a seu respeito e sobre certos episódios da sua vida, e que o meu artigo seria muito
mais interessante do qualquer coisa que constasse no livro dela.» E acrescentou: «Isso pôs fim
à questão.»

Foram anos cativantes. A guerra que Dodd previra foi travada e vencida. Em 1945, finalmente,
Martha alcançou um objetivo com que sonhava há muito. Publicou um romance. Com o título
Sowing the Wind [Semeando o Vento] e obviamente baseado na vida de um dos seus antigos
amantes, Ernst Udet, o livro descrevia a forma como o nazismo seduzia e degradava um bem-
intencionado ás da aviação da

395
ERIK LARSON

Primeira Guerra Mundial. No mesmo ano, ela e o marido adotaram um bebé, a quem
chamaram Robert.

Por fim, Martha criou o seu próprio salão literário bem-sucedido, que, de tempos a tempos,
atraía nomes como Paul Robeson, Lillian Hellman, Margaret Bourke-White e Isamu Noguchi. A
conversa era animada e boa, evocando aquelas tardes encantadoras passadas na casa da sua
amiga Mildred Fish Arnack — embora por aquela altura a recordação de Mildred fosse
emoldurada a negro. As notícias que tinha recebido de Mildred faziam subitamente com que o
último encontro que tinham tido em Berlim parecesse impregnado de presságios. Martha
lembrava-se de que tinham escolhido uma mesa isolada num restaurante fora do circuito
habitual e da forma orgulhosa como Mildred descrevera «a eficácia crescente» da rede
clandestina que ela e o marido tinham estabelecido. Mildred não era uma mulher dada a
efusões físicas, mas, no final daquele almoço, dera-lhe um beijo.

Naquela altura, porém, Martha já sabia que, uns anos depois desse encontro, Mildred fora
presa pela Gestapo, juntamente com Arvid e dezenas de outros membros da rede. Arvid foi
julgado e condenado a morrer na forca; foi executado na prisão Plõtzensee, em Berlim, a 22 de
dezembro de 1942. O algoz usou uma corda curta para garantir uma morte lenta por asfixia.
Mildred foi obrigada a assistir. No seu julgamento, condenaram-na a seis anos de prisão. O
próprio Hitler ordenou uma repetição do julgamento. Dessa vez, a sentença foi a morte. A 16
de fevereiro de 1943, às seis da tarde, foi guilhotinada. As suas últimas palavras: «E eu que
tanto amei a Alemanha.»

Durante algum tempo depois de deixar Berlim, Martha continuou a sedução furtiva com os
serviços de espionagem soviéticos. O seu nome de código era <diza», embora isto sugira mais
drama do que os registos oficiais existentes indicam. A sua carreira de espia parece ter
consistido sobretudo em conversa e possibilidades, ainda que a perspetiva de uma
participação menos vaporosa decerto tenha intrigado os funcionários dos serviços secretos
soviéticos. Um telegrama confidencial de Moscovo para Nova Iorque, enviado em janeiro de
1942,

396
p

NO JARDIM DOS MONSTROS

afirmava que Martha era «uma mulher dotada, inteligente e educada», mas realçava que
«precisa de controlo constante quanto ao seu comportamento.» Outro operacional bem mais
pudico não ficou impressionado. «Ela considera-se comunista e afirma aceitar o programa do
partido. Na verdade, "Liza" é uma representante típica da boémia americana, uma mulher
sexualmente decadente disposta a dormir com qualquer homem bonito.»

Através dos esforços de Martha, também o marido se alinhou com o KGB — o nome de código
dele era «Louis». Martha e Stern falavam publicamente do interesse que dedicavam ao
comunismo e a causas de esquerda e, em 1953, chamaram a atenção do Comité de Atividades
Antiamericanas, dirigido então pelo congressista Martin j Dies, que os intimou para que
prestassem declarações. Eles fugiram para o México, mas, à medida que a pressão das
autoridades federais f foi aumentando, tornaram a viajar, acabando por se instalar em Praga,
onde desfrutavam de um estilo de vida muito pouco comunista, numa villa de três andares e
doze quartos, servidos por criados. Compraram um Mercedes preto em primeira mão.

Ao início, a ideia de ser uma fugitiva internacional apelava à ideia persistente que Martha fazia
de si mesma como uma mulher perigosa, mas, à medida que os anos foram passando, um
certo cansaço apode-rou-se dela. Durante os primeiros anos de exílio, o filho do casal começou
a demonstrar sinais de graves perturbações psíquicas e foi diagnosticado como esquizofrénico.
Martha ficou «obcecada» — o termo é do marido — com a ideia de que a agitação da fuga e
das viagens subsequentes tinham provocado a doença de Robert.

Martha e Stern consideravam Praga um lugar estranho com uma língua incompreensível. «Não
podemos dizer que gostamos de estar aqui, para ser completamente honesta», escreveu a
uma amiga. «Naturalmente, preferiríamos regressar a casa, mas ainda não nos querem lá [...] É
uma vida de limitações consideráveis, intelectual e criativamente (também não dominamos a
língua; é uma grande falha) e sentimo-nos isolados e, não raro, muito sozinhos.» Ocupava o
tempo a tratar da casa e do jardim: «árvores de fruto, lilases, vegetais, flores, pássaros, insetos
[...] uma única cobra, em quatro anos!»

397
ERIK LARSON

Martha ficou a saber neste período que um dos seus ex-amantes, Rudolf Diels, morrera, e de
uma forma completamente inesperada para um homem tão apto à sobrevivência. Depois de
dois anos em Colónia, tornara-se comissário regional em Hanôver, de onde fora despedido por
demonstrar demasiados escrúpulos morais. Aceitou um emprego como diretor de transportes
fluviais de uma empresa privada, mas depois fora preso na grande operação que se seguira à
tentativa de assassínio de Hitier, a 20 de julho de 1944. Sobreviveu à guerra e, durante os
julgamentos de Nuremberga, foi uma das testemunhas da acusação. Mais tarde, participou no
governo da Alemanha Ocidental. A sua sorte terminou a 18 de novembro de 1957, durante
uma expedição de caça. Quando estava a tirar uma espingarda do carro, a arma disparou e
matou-o.

Martha ia ficando cada vez mais desiludida com a prática quotidiana do comunismo. O seu
desencantamento transformou-se em repulsa total durante a «Primavera de Praga» de 1968,
quando acordou certo dia com a passagem de tanques na sua rua, durante a invasão soviética
da Checoslováquia. «Foi», escreveu ela, «uma das visões mais feias e repugnantes que alguma
vez tínhamos presenciado.»

Renovava velhas amizades, por correio. Ela e Max Delbrúck encetaram uma correspondência
animada. Ela tratava-o por «Max, meu amor»; ele chamava-lhe «minha querida e adorada
Martha». Gracejavam a respeito das suas crescentes imperfeições físicas. «Estou bem, bem,
perfeitamente bem», dizia-lhe ele, «à exceção de uma pequena doença cardíaca e de um
pequeno mieloma múltiplo [...]» Jurava que a quimioterapia o fizera voltar a ter cabelo.

Outros homens eram menos felizes na avaliação retrospetiva de Martha. O príncipe Luís
Fernando tornara-se «aquele burro» e Putzi Hanfstaengl «um verdadeiro bufão».

Contudo, um grande amor parecia brilhar então com o esplendor de outrora. Martha escreveu
a Bassett, o seu ex-marido — o primeiro dos seus três grandes amores —, e em breve
começaram a correspon-der-se como se tivessem novamente vinte anos, escrutinando o
romance para tentarem descobrir o que correra mal. Bassett confessou

398
!f

NO JARDIM DOS MONSTROS

ter destruído todas as cartas de amor que ela lhe enviara, ao aperce-ber-se «de que, mesmo
com a passagem do tempo, nunca suportaria ; lê-las e muito menos quereria que alguém as
divulgasse depois de eu morrer.»

Martha, porém, guardara as dele. «Que cartas de amor!», escreveu.

«Uma coisa é certa», disse-lhe numa carta de novembro de 1971, j quando tinha sessenta e
três anos, «se tivéssemos ficado juntos, teríamos tido uma vida vital, diferente e apaixonante
em conjunto [...] Per-gunto-me se terias continuado satisfeito com uma mulher tão pouco
convencional como eu sou e fui, ainda que nunca tivéssemos passado ' pelas complicações que
me atingiram mais tarde. Ainda assim, tenho tido alegria com tristeza, produtividade com
beleza e choque! Amei--te, e ao Alfred e a outro, e ainda amo. Assim é a ave rara, ainda
animada, que tu em tempos amaste e desposaste.»

Em 1979, um tribunal federal ilibou o casal de todas as acusações, embora com relutância,
citando falta de provas e as mortes de testemunhas. Eles ansiavam por regressar aos Estados
Unidos e ponderaram fazê-lo, mas aperceberam-se de que ainda havia um obstáculo nesse
caminho. Durante todos aqueles anos de exílio, não pagaram impostos. A dívida acumulada
atingira um valor proibitivamente alto.

Consideraram mudar-se para outro lado — talvez Inglaterra ou Suíça —, mas outro obstáculo
se impôs, o mais teimoso de todos: a idade avançada.

Naquela altura, os anos e a doença tinham surtido um efeito gravoso no mundo das
recordações de Martha. Bill Jr. morrera em outu-I' bro de 1952, de cancro, deixando a esposa e
dois filhos. Tinha passa-I do os anos pós-Berlim a saltar de emprego em emprego, acabando

I como funcionário da secção de livros dos armazéns Macy's de São Francisco. Pelo caminho,
as suas próprias tendências esquerdistas ti-nham-no incompatibilizado com o Comité de Dies,
que o declarara «inapto» a ser empregado por qualquer agência federal, numa altura em que
trabalhava para a Comissão Federal de Comunicações. A sua morte fez de Martha a única
sobrevivente da família. «O Bill era um homem formidável, uma pessoa calorosa e afável, que
teve a sua quo-ta-parte de frustração e sofrimento — talvez mais do que a sua quota--parte»,
escreveu Martha numa carta que enviou à primeira mulher de

Bill, Audrey. «Faz-me tanta falta e sinto-me vazia e sozinha sem ele.»

t|,

II 399
ERIK LARSON

Quentin Reynolds morreu a 17 de março de 1965, numa idade não muito avançada: sessenta e
dois anos. Putzi Hanfstaengl, cujo tamanho parecia torná-lo invulnerável, morreu a 6 de
novembro de 1975, em Munique. Tinha oitenta e oito anos. Sigrid Schultz, o Dragão de
Chicago, morreu a 14 de maio de 1980, aos oitenta e sete anos. E Max Delbrúck,
presumivelmente com uma cabeleira farta, faleceu em março de 1981, tendo a sua
exuberância sido finalmente vencida. Tinha setenta e quatro anos.

Todos estes desaparecimentos eram muito tristes e suscitavam questões potentes. Em março
de 1984, quando Martha tinha setenta e cinco anos e Stern oitenta e seis, ela perguntou a uma
amiga: «Onde achas que deveríamos morrer, se pudéssemos escolher? Aqui ou noutro país?
Seria mais fácil para o sobrevivente ficar aqui com memórias dolorosas? Ou antes pôr-se a
andar daqui para fora e ir sozinho para um novo lugar; ou será melhor irmos juntos e depois
ficarmos desprovidos e entristecidos por sonhos não concretizados e nenhuns ou poucos
amigos num ambiente novo, mas ainda com alguns anos para estabelecermos alguma espécie
de lar noutro sítio?»

Foi Martha quem sobreviveu. Stern morreu em 1986. Martha permaneceu em Praga, apesar
de, como escreveu a amigos, «nenhum lugar poder ser tão solitário como este».

Morreu em 1990, aos oitenta e dois anos, não exatamente uma heroína, mas decerto uma
mulher de princípios que nunca vacilou quanto à certeza de ter feito a coisa certa ao ajudar os
soviéticos contra os nazis, numa altura em que a maior parte do mundo demonstrava pouca
propensão para fazer o que quer que fosse. Morreu ainda a dançar à beira do perigo — uma
ave rara exilada, prometendo, seduzindo, recordando —, incapaz, depois de Berlim, de se
adaptar ao papel de hausfrau e precisando, ao invés, de se ver de novo como algo grandioso e
brilhante.

Bassett, o velho e leal Bassett, viveu mais seis anos do ela. Trocara a magnífica faia de
Larchmont por um apartamento no Upper East Side de Manhattan, onde morreu
tranquilamente aos 102 anos.

400
CODA

«CONVERSA À MESA»

Anos depois da guerra, uma catadupa de documentos foi emer-; gindo, revelando tratar-se de
transcrições de conversas entre Hitler • e os seus homens, gravadas pelo delegado Martin
Bormann. Uma ; destas transcrições dizia respeito a uma conversa que teve lugar num jantar
em outubro de 1941, no Wolfsschan^e, ou Toca do Lobo, o refúgio de Hitler na Prússia de
Leste. Martha Dodd veio à baila.

Hitler, que uma vez lhe beijara a mão, disse: «Pensar que ninguém .. deste ministério
conseguiu deitar a mão à filha do antigo embaixador *norte-americano, Dodd — e, no
entanto, não era difícil abordá-la. -Era esse o trabalho deles e deveria ter sido feito. Em suma,
a rapariga deveria ter sido subjugada [...] Nos velhos tempos, quando queríamos apertar o
cerco a um industrial, atacávamo-lo através dos filhos. O velho Dodd, que era um imbecil; tê-
lo-íamos atingido através da filha.»

Um dos convivas perguntou: «Era bonita, ao menos?»

Outro convidado riu-se: «Hedionda.»

«Mas é preciso sermos superiores a essas coisas, meu caro amigo», disse Hitler. «E um dos
requisitos. Caso contrário, pergunto-lhe, porque haveriam os nossos diplomatas de ser pagos?
Nesse caso, a diplomacia já não seria uma missão, mas sim um prazer. E poderia ter acabado
em casamento!»

401
pllj
FONTES E AGRADECIMENTOS

Aquilo de que não me apercebi ao aventurar-me naqueles dias tenebrosos do jugo de Hitler foi
da quantidade de trevas que se infiltraria na minha própria alma. Regra geral, orgulho-me de
possuir uma distância jornalística, a capacidade de lamentar a tragédia e, ao mesmo tempo,
apreciar a sua força narrativa; mas viver entre nazis dia após dia revelou-se uma experiência
singularmente desafiadora. Durante algum tempo, mantive em cima da secretária um
exemplar do livro de lan Kershaw, Hitler, 1889-1936: Hubris, um trabalho de fundo que me
serviu de manual de consulta quanto à política da era. A capa tem uma fotografia que se
tornou tão repugnante para mim — peço desculpa a sir lan — que tinha de o deixar virado ao
contrário, pois começar cada dia a ver aqueles olhos cheios de ódio, aquelas faces descaídas e
o pedaço de esfregão de palha d'aço que passava por bigode íera demasiado desanimador.

Existe uma obra vasta de escritos históricos acerca de Hider e da Segunda Guerra Mundial que
tem de ser lida, por menor que seja o episódio que se pretenda estudar. Toda essa leitura
aprofundou o meu mal-estar espiritual, não devido ao puro volume em questão, mas por
causa dos horrores revelados. E difícil imaginar a dimensão e a profundidade da paisagem de
guerra criada por Hitler — as deportações de judeus para campos de extermínio mesmo
depois de a inevitabilidade da derrota germânica se tornar óbvia para todos; as batalhas de
tanques contra as forças russas, que ceifaram dezenas de milhares de vidas numa questão de
dias; as mortes vingativas pelas quais os nazis se tornaram infames, em que, numa tarde
soalheira numa aldeia francesa, uma dúzia de homens e mulheres eram arrancados

403
m

ERIK LARSON

às suas casas e lojas, encostados a uma parede e fuzilados. Sem preâmbulos, sem despedidas;
apenas o canto dos pássaros e sangue.

Alguns livros, dos quais se destaca o Hubris de Kershaw, prova-ram-se excecionalmente úteis
na descrição pormenorizada do largo jogo de forças e homens nos anos que precederam a
Segunda Guerra Mundial. Incluo aqui alguns clássicos antigos mas ainda preciosos, Hitler: A
Study in Tyranny, de Alan Bullock e The Rise and Fali ofthe Third Reich, de William Shirer, bem
como as obras mais recentes do doppel-gãnger académico de Kershaw, Richard J. Evans, cujos
The Third Reich in Power: 1933-1939, e The Third Reich at War: 1939-1945 são volumes
imensos e cheios de detalhes cativantes, ainda que transtornadores.

Vários livros que se concentram mais na minha parcela de terreno a cobrir revelaram ser de
uma grande utilidade, entre os quais Resisting Hitler: Mildred Harnack and the Red Orchestra,
de Shareen Blair Brysac; The Haunted Wood, dos historiadores do KGB Allen Weinstein e Ale-
xander Vassiliev; e Spies: The Rise and Fali oj the KGB in America, de Vassiliev, John Earl Haynes
e Harvey Klehr.

De valor especial — e óbvio — foram Ambassador Dodd's Diary, editado por Martha e Bill Jr., e
as memórias de Martha, Through TLm-bassy Eyes. Nenhuma destas obras é completamente
fiável; ambas têm de ser tratadas com cuidado e usadas apenas em conjunção com outras
fontes que as corroborem. O livro de memórias de Martha é, forçosamente, a sua própria
versão das pessoas e dos eventos com que se deparou e é, como tal, uma janela indispensável
para os seus pensamentos e sentimentos, mas contém omissões interessantes. Em parte
alguma, por exemplo, se refere a Mildred Fish Harnack ou a Boris Winogradov pelos seus
nomes, provavelmente porque fazê-lo numa obra publicada em 1939 os teria deixado em
grave perigo. Contudo, existem documentos, entre os pertencentes a Martha que se
encontram na Biblioteca do Congresso, que revelam, por triangulação, os pontos das suas
memórias em que tanto Harnack como Winogradov aparecem. Os seus documentos incluem
relatos minuciosos e inéditos da sua relação com Boris e com Mildred, bem como
correspondência de ambos. Boris escrevia as suas cartas em alemão, polvilhando-as com
expressões em inglês e, de quando em vez, um «Darlingk Para as traduzir, recorri a uma amiga
de Seatde, Britta Hirsch, que também se

404
NO JARDIM DOS MONSTROS

'sponibilizou para traduzir porções longas de documentos bem mais Ltediantes, entre os quais
uma velha nota de compra e venda da casa de Tiergartenstrasse e partes das memórias de
Rudolf Diels, Lúcifer Ante Portas.

Quanto ao diário do embaixador Dodd, persistem dúvidas quanto a tratar-se de facto de um


diário no sentido convencional, ou se será antes um compêndio dos seus escritos, compilados
em forma de diário pelos filhos. Martha sempre insistiu que o diário era real. Robert Dalleck,
biógrafo de presidentes, debateu-se com a questão na sua biografia de Dodd, publicada em
1968, com o título Democrat and Di-plomat, e teve o privilégio de receber uma carta da
própria Martha, na qual ela descrevia a génese da obra. «E absolutamente autêntico», dis-se-
lhe. «Dodd tinha uma meia dúzia de cadernos de tamanho médio, de capas pretas brilhantes,
nos quais escrevia todas as noites em que podia, no seu escritório de Berlim antes de se deitar
e também noutras alturas.» Estes cadernos, explicou ela, formavam o cerne do diário, ainda
que ela e o irmão tivessem incluindo elementos de discursos, cartas e relatórios que tinham
encontrado agrafados às páginas. O projeto inicial, escreveu Martha, era um diário de 1200
páginas, reduzido por um editor profissional contratado pela editora. Dalleck acreditava que o
diário era «em termos gerais, rigoroso».

Tudo o que posso acrescentar à discussão são algumas pequenas descobertas que eu próprio
fiz. Na minha pesquisa na Biblioteca do Congresso, encontrei um diário com capa de couro,
cheio de apontamentos do ano de 1932. No mínimo, isso atesta a propensão de Dodd a
manter um registo destes. Encontra-se na Caixa 58. Noutros documentos de Dodd, encontrei
referências oblíquas a um diário mais abrangente e confidencial. A referência mais reveladora
surge numa carta com a data de 10 de março de 1938, enviada pela Sra. Dodd a Martha,
escrita pouco depois da viagem que o embaixador já reformado fez a Nova Iorque. A Sra. Dodd
diz à filha: «Ele vai levar alguns dos diários para tu dares uma vista de olhos. Devolve-lhos, pois
vão fazer-lhe falta. Tem cuidado com o que citas.»

Por fim, depois de ter lido as memórias de Martha, o seu romance sobre Udet e os seus
documentos, depois de ter lido milhares de páginas da correspondência, telegramas e
relatórios do embaixador Dodd,

405
ERIK LARSON

posso oferecer um daqueles comentários intangíveis que só surge depois de uma longa
exposição a um determinado corpus de material, e o comentário é que o diário publicado de
Dodd soa como ele, parece autêntico e expressa sentimentos que estão em perfeita harmonia
com as cartas que enviou a Roosevelt, a Hull e a outros.

A divisão dos Arquivos Nacionais em College Park, no estado de Maryland — conhecida como
Arquivos Nacionais II — revelou possuir uma coleção incrível de material (vinte e sete caixas no
total) relativo à embaixada e ao consulado de Berlim, incluindo um inventário da louça de cada
um, com um detalhe que chega a enunciar o número de tigelas para limpar os dedos. A
Biblioteca do Congresso, onde estão os documentos de William e Martha Dodd, Cordell Hull e
Wilbur J. Carr, foi, como sempre, uma dádiva dos céus para a pesquisa. Na Universidade de
Delaware, em Newark, examinei os documentos de George Messersmith, uma das coleções
mais belamente arquivadas com que alguma vez me cruzei, e tive o prazer de ficar em casa dos
meus grandes amigos Karen Kral e John Sherman e de beber mesmo demasiado. Em Harvard
— que rejeitou a minha candidatura a frequentar o bacharelato lá há alguns anos, o que
decerto terá sido um lapso, um descuido que eu perdoei, quase —, passei vários dias
encantadores a esquadrinhar os documentos de William Phillips e Jay Pierrepont Moffat,
ambos antigos alunos. O pessoal da Biblioteca Beinecke de Livros e Manuscritos Raros da
Universidade de Yale teve a gentileza de escrutinar a coleção de documentos de Thornton
Wilder e de me facultar cartas que Martha Dodd lhe enviou. Houve ainda outros arquivos
úteis, sobretudos as coleções de história oral da Universidade de Columbia e da Biblioteca
Pública de Nova Iorque.

Tenho tendência para desconfiar de recursos online, mas localizei vários que se revelaram
extremamente úteis, incluindo uma coleção digitalizada de correspondência trocada entre
Roosevelt e Dodd, cortesia da Biblioteca Presidencial Franklin Delano Roosevelt, em Hyde Park,
Nova Iorque, e os cadernos de Alexander Vassiliev, o agente do KGB que se tornou académico
e que os disponibilizou graciosamente ao público através do sítio do Projeto de História
Internacional da Guerra Fria, do Centro Académico Woodrow Wilson, em Washington. Quem o
desejar também pode folhear digitalmente as chamadas

406
NO JARDIM DOS MONSTROS

gscutas de Venona, comunicações entre o Centro de Moscovo e agentes do KGB nos Estados
Unidos, intercetadas e descodificadas por funcionários dos serviços secretos norte-
americanos, incluindo missivas que incluíam referências a Martha Dodd e a Alfred Stern.
Outrora um dos segredos mais bem guardados da América, estes materiais residem agora no
sítio público da Agência de Segurança Nacional e revelam não só que os Estados Unidos
estavam cheios de espiões, mas também que a espionagem tendia a ser uma atividade
dolorosamente mundana.

Um desafio com que me deparei ao fazer pesquisa para este livro foi obter uma ideia da zona
do Tiergarten na Berlim pré-guerra, onde Dodd e Martha passaram tanto tempo, e que foi em
grande parte obliterada por bombardeiros dos Aliados e pelo derradeiro ataque russo à
cidade. Adquiri um guia Baedeker dessa altura que se demonstrou precioso para localizar
pontos importantes, tais como o Romanisches Café no número 238 da Kurfúrstendamm e o
hotel Adlon, no número 1 da Unter den Linden. Li tantas memórias da era quantas consegui,
escavando em busca de visões da vida quotidiana de Berlim, sem deixar de ter em mente que
as memórias da época nazi tendem a conter uma boa dose de autoconstrução com o objetivo
de fazer com que o autor ou a autora pareça menos cúmplice da ascensão e do governo do
partido nazi do que talvez tenha sido. O exemplo mais flagrante disto deverão ser as Memoirs
de Franz von Papen, publicadas em 1953, nas quais ele alega ter preparado o seu discurso de
Marburg «com grande cuidado», uma pretensão que ninguém leva a sério. Foi uma surpresa
tão grande para ele como para a audiência.

As memórias romanceadas de Christopher Isherwood, nomeada-i mente The Last ofMr. Norris
e Adeus a Berlim, foram especialmente úteis pelas descrições que contêm da aparência e da
sensação da cidade nos anos imediatamente anteriores à ascensão de Hitler, quando
Isherwood vivia em Berlim. De vez em quando, foi com grande gosto que visitei o YouTube em
busca de velhas filmagens de Berlim, e encontrei bastantes, incluindo o filme mudo Berlin: Die
Sinfonie der Gros-stadi [Berlim: Sinfonia de uma Grande Cidade], que procurava registar um
dia inteiro da vida berlinense. Fiquei particularmente agradado ao encontrar um filme
propagandístico de 1935, Wunder des Fliegens

407
%

ERIK LARSON

[O Milagre do Voo], que pretendia atrair jovens para a Luftwaffe, no qual o amante de uma
noite de Martha, Ernst Udet, surge a represen-tar-se a si mesmo e até mostra o seu
apartamento de Berlim, que é muito semelhante ao que Martha descreve nas suas memórias.

Descobri que a Sociedade Histórica do Estado de Wisconsin é uma arca do tesouro com
materiais relevantes que transmitem uma sensação do que era a vida na Berlim de Hitler. Ali,
num só lugar, encontrei os documentos de Sigrid Schultz, Hans V. Kaltenborn e Louis Lochner. A
uma curta e encantadora caminhada, na biblioteca da Universidade de Wisconsin, encontrei
também bastantes materiais sobre a única aluna da UW que foi guilhotinada a mando de
Hitler, Mildred Fish Harnack.

Mais importante, contudo, foi a minha experiência na própria cidade de Berlim. Mantém-se
ainda uma boa parte da cidade como era então para que se tenha uma ideia da disposição
geral das coisas. Por estranho que pareça, os edifícios do ministério da Aviação de Góring
resistiram praticamente intactos à guerra, tal como os do quartel-ge-neral do Exército, o
Blender Block. O que me pareceu mais impressionante foi a proximidade a que tudo se
encontrava da casa de Dodd, com cada edifício governamental a uma mera caminhada de
distância, incluindo o quartel-general da Gestapo e a chancelaria de Hitler, que não existem
hoje em dia. Onde estava a casa dos Dodd, no número 27 da Tiergartenstrasse, encontra-se
agora um lote vago e cheio de vegetação, rodeado por arame farpado. Vê-se o Bender Block lá
ao fundo.

Devo um agradecimento especial a Gianna Sommi Panofsky e ao marido Hans, filho de Alfred
Panofsky, o senhorio berlinense dos Dodd. O casal instalou-se em Evanston, no Illinois; Hans
deu aulas na Universidade Northwestern. A Sra. Panofsky teve a delicadeza de me facultar a
planta original da casa de Tiergartenstrasse (que uma estudante de jornalismo da
universidade, Ashley Keyser, guardou e copiou por mim). Foi uma delícia falar com a Sra.
Panofsky. Infelizmente, faleceu no início de 2010, vítima de cancro do cólon.

Acima de tudo, agradeço aos meus primeiros e leais leitores, Car-rie Dolan e o marido, Ryan
Russell; às minhas filhas Kristen, Lauren e Erin; e, como sempre, à minha mulher e arma
secreta, Christine

408
NO JARDIM DOS MONSTROS

Gleason, cujas notas à margem — a que não faltam expressões de choro e linhas de zzzzzz —
mais uma vez foram indispensáveis. Agradeço ainda às minhas filhas pelas suas críticas cada
vez mais astutas quanto à forma como me visto. Estou em grande dívida para com Betty
Prashker, minha editora há quase duas décadas, e a John Glusman, cuja mão hábil guiou este
livro até à publicação. Agradeço também a Tina Constable pela sua confiança, e a David Black,
meu agente de longa data, acon-selhante de vinhos e fiel amigo. Por fim, um grande, grande
abraço à Molly, a nossa querida e encantadora cadela, que sucumbiu ao cancro do fígado
quando tinha dez anos e este livro chegava ao fim. Nas suas últimas semanas, contudo,
conseguiu apanhar um coelho, algo que tinha tentado fazer, em vão, ao longo de anos.
Sentimos a sua falta todos os dias. ,

Quando estava em Berlim, aconteceu uma coisa estranha, um daqueles pequenos momentos
bizarros de harmonia espácio-temporal que parecem ocorrer quando me encontro
profundamente imerso na pesquisa para um livro. Hospedei-me no Ritz-Carlton, perto do Tier-
garten, não por ser um Ritz mas por ser um Ritz acabado de construir que oferecia quartos a
um preço atraente de «venham para cá». Que o mês fosse fevereiro também ajudou. Na
minha primeira manhã, a sofrer demasiado com ojet-lag para fazer algo demasiado ambicioso,
saí do hotel e encaminhei-me para o Tiergarten, com a vaga ideia de caminhar até encontrar a
morada dos Dodd, a menos que morresse gelado primeiro. Era uma manhã gélida e chuvosa,
marcada por alguns flocos de neve ocasionais que caíam na diagonal. Enquanto andava,
deparei-me com um pormenor particularmente interessante de preservação arquitetónica —
uma grande porção da fachada de um velho prédio cravejado de balas, por trás de uma parede
gigantesca de vidro. Uma plataforma semelhante a uma ponte abarcava o cimo daquela
fachada e suportava vários andares de apartamentos modernos e luxuosos. Por mera
curiosidade, aproximei-me de uma placa informativa que identificava a fachada. Pertencia ao
hotel Esplanade, onde os Dodd tinham ficado quando chegaram a Berlim. Ali, também por trás
de uma barreira de vidro, estava uma parede interior da sala de pequenos-almoços do
Esplanade, que fora restaurada de acordo com

409
%

ERIK LARSON

a condição original. Era estranho ver aqueles artefactos arquitetónicos alojados atrás de vidro,
como peixes gigantes e imóveis, mas também era revelador. Por um instante, consegui ver
Dodd e Martha a prepara-rem-se para darem início aos seus dias, Dodd encaminhando-se para
norte a passos velozes, em direção ao Tiergarten, de onde seguia para a embaixada na
Bendlerstrasse, Martha a apressar-se para sul, ao encontro de Rudolf Diels na velha escola de
artes na Prinz-Albrecht-Strasse antes de um almoço tranquilo nalgum local discreto.

As notas que se seguem não pretendem de forma alguma ser exaustivas. Tive sempre o
cuidado de creditar o material citado de outros trabalhos e de anotar os factos e observações
que, por uma razão ou por outra, precisam de ser atribuídas, como a revelação de Ian Kershaw
— Hubris, página 485 — de que um dos filmes preferidos de Hitler era King Kong. Como
sempre, para os leitores que gostam de ler notas de rodapé — e vocês são muitos — incluí
pequenas histórias e factos que não se adequavam à narrativa principal mas que também me
pareceram demasiado interessantes ou intrigantes para serem omitidas. Queiram perdoar-me
esta indulgência.

410
NOTAS

O HOMEM POR TRÁS DA CORTINA

19 Era comum: Para pormenores acerca do caso Schachno, veja-se «Conver-sation with
Goering», memórias inéditas, pp. 5-6; e Messersmith para HuU, 11 de julho de 1933, e 18 de
julho de 1933, tudo isto nos Documentos de Messersmith. Veja-se também o relatório sobre
vários ataques a norte-americanos in Phillips para Roosevelt, 23 de agosto de 1933, ficheiro n.°
362.1113/4 1 /2, State/Decimal.

19 «Do pescoço aos calcanhares»: Messersmith, «Conversation with Goering», memórias


inéditas, 6, Documentos de Messersmith.

20 «Das omoplatas aos joelhos»: Messersmith para HuU, 11 de julho de 1933, Documentos de
Messersmith.

21 «Desejava que fosse»: Messersmith para Phillips, 26 de junho de 1933, Documentos de


Messersmith.

21 Aquando da tomada de posse: A Vigésima Emenda, promulgada em 1933, passou a data da


tomada de posse de 4 de março para aquela que já nos é famiUar, 20 de janeiro, uma medida
para reduzir o período de tempo durante o qual um presidente cessante se manteria em
funções.

21 Por incrível que parecesse, o novo embaixador: Para mais pormenores do que alguma vez
será necessário saber acerca do transporte do carro de Dodd, veja-se Howard Fyfe para Harry
A. Havens, 8 de julho de 1933; Herbert C. Hengs-tler para Dodd, 10 de julho de 1933; e Paul T.
Culbertson para Dodd, 19 de junho de 1933, tudo in Caixa 40, Documentos de W. E. Dodd.

PRIMEIRA PARTE: ENTRAR NO BOSQUE

CAPÍTULO 1: MEIO DE FUGA . ' .:. .: 't. :'

25 O telefonema: Dodd, Diary, 3. •.,..,,,

25 Dodd também possuía: «Farming Implements» e Levantamento, Caixa 59, Documentos de


W. E. Dodd.

411
ERIK LARSON

26 «A fruta é tão bela»: William E. Dodd para Martha Dodd, 15 de outubro de 1926, Caixa 2,
Documentos de Martha Dodd.

26 «surpresa súbita»: Dodd para Westmoreland Davis, 22 de junho de 1933, Caixa 40, W. E.,
Documentos de Dodd.

26 requereu aquecimento: Dodd para Lester S. Ries, 31 de outubro de 1932, Caixa 39,
Documentos de W. E. Dodd.

27 «embaraçosa»: Dodd para Charles E. Merriam, 27 de agosto de 1932, Caixa 39,


Documentos de W. E. Dodd.

27 «homens duros»: Bailey, 6. 27 «Monge Dodd»: Dallek, 6.

27 Outros estudantes divertiam-se: Ibid., 9.

28 «Quão indefesos»: «Brief Note», 6, Caixa 58, Documentos de W. E. Dodd. 28 «Havia


demasiado»: Ibid., 1.

28 na Escola Randolph-Macon: Bailey, 35-36; Dallek, 31-32.

29 Em outubro de 1912: Dallek, 70; Dodd para a Sra. Dodd, 26 de março de 1930, Caixa 2,
Documentos de Martha Dodd.

Na carta que escreveu à esposa, numa bela noite em que se encontrava na sua quinta, Dodd
dizia: «Estou sentado à mesa da sala de jantar, com roupas de trabalho, a velha camisola
vermelha e os chinelos — com um grande toro de carvalho na lareira e uma camada de brasas
com oito centímetros de profundidade, tudo rodeado por cinzas brancas. Os velhos trempes
(«cães da chaminé» como dizia em criança) inclinam as sólidas cabeças negras numa
contemplação satisfeita do serviço eficiente que prestam — estand