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Christian de Paul de Barchifontaine

Bioética e início da vida


Alguns desafios

DIRETORES EDITORIAIS:
Carlos Silva
Ferdinando Mancílio

EDITORES:
Avelino Grassi
Roberto Girola

COORDENAÇÃO EDITORIAL:
Elizabeth dos Santos Reis

COPIDESQUE:
Mônica Guimarães Reis
REVISÃO:
Ana Lúcia de Castro Leite
Maria Isabel de Araújo
PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO:
Alfredo Carracedo Castillo
CAPA:
Roberto de Castro Polisel
© Idéias & Letras, 2004
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
(CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Rua Pe. Claro Monteiro, 342 — Centro
12570-000 – Aparecida-SP Av. Nazaré, 1501 - Ipiranga - Barchifontaine, Christian de Paul de, 1946-
Tel. (12) 3104-2000 – Fax. (12) 3104-2036 04263–200 - São Paulo-SP Bioética e início da vida: alguns desafios
Televendas: 0800 16 00 04 Fone: (11) 6169–4003 - Fax: (11) 6215-2361 / Christian de Paul de Barchifontaine — Aparecida,
Vendas@redemptor.com.br SP: Idéias e Letras; São Paulo: Centro Universitário
http//www.redemptor.com.br São Camilo, 2004.
ISBN 85-98239-05-4 (impresso)
ISBN 978-85-7698-081-0 (e-book)
1. Bioética 2. Dignidade humana 3. Reprodução humana
–Aspectos morais e éticos
4. Vida – Origem 5. Vida humana – Ciclos I. Título.
04-0773 CDD-179.7

Índices para catálogo sistemático:


1. Bioética: Vida humana: Dignidade: Filosofia moral 179.7
2. Vida humana: Dignidade: Bioética: Filosofia moral 179.7

Apresentação
A bioética tem uma historia de pouco mais de trinta anos desde seu surgimento em 1971, nos EUA. Esta nova área do
conhecimento humano vem sendo saudada no âmbito científico como num grande lance de esperança para a humanidade neste
início de século XXI. É o clamor da sabedoria humana, que vai além do mero contexto das discussões éticas das múltiplas
profissões no âmbito das ciências da vida e da saúde humana, buscando a promoção e proteção da vida, desde o âmbito pessoal,
perpassando pelo nível societário, e chegando até o cósmico-ecológico.
Em terras brasileiras já despontam inúmeras iniciativas consistentes que estão levando à frente a discussão bioética. Temos a
Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), com suas várias regionais, que já promoveu quatro congressos nacionais e está em vias
de realizar o 5- no Recife em maio de 2004. A SBB, juntamente com a Associação Internacional de Bioética, realizou em 2002
(Brasília-DF), o VI Congresso Mundial de Bioética, o maior de todos até hoje, que aprofundou uma questão central da agenda
bioética dos países do mundo pobre: Bioética – poder e injustiça. Além disso, constatamos que inúmeras Universidades e
Instituições de Ensino Superior estão introduzindo no currículo de formação dos futuros profissionais, notadamente no âmbito da
saúde, a disciplina de bioética. Começamos a ter em nosso país uma produção acadêmica de bioética, em teses de mestrado,
doutorado, livros e revistas, que não fica atrás de muitos países ditos desenvolvidos.
É neste contexto de intensa busca de reflexão e discussão que chega às nossas mãos a oportuna obra Bioética e início da vida:
alguns desafios, de Christian de Paul de Barchifontaine. Trata-se de uma obra de cunho didático-pedagógico, sem a pretensão de
esgotar as questões, mas que para além da informação científica, segura e atual, instiga a reflexão e discussão ética. Mais do que
respostas prontas vamos nos encontrar diante de perguntas que nos obrigarão a sair do conforto de nossas certezas e nos lançarão
o desafio de dialogarmos, sermos humildes, respeitosos e tolerantes frente ao diferente e sobretudo que aprendamos a viver
solidariamente. Esses três conceitos-chave que definem a perspectiva do autor – diálogo, tolerância e solidariedade – são mais do
que nunca necessários neste início de novo século em que, frente a um crescente pluralismo cultural, surpreendentemente voltamos
a ter de enfrentar novos fundamentalismos e terrorismos que achávamos que já eram coisas de um passado distante. Esta
perspectiva me faz lembrar o que diz de si próprio Norberto Bobbio, considerado um dos maiores pensadores do século XX:
“Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a
discutir antes de condenar”. Uma verdadeira síntese de sabedoria!
Esta obra, Bioética e início da vida: alguns desafios, pela sua concepção estrutural, será de grande valia para o ensino da bioética
na universidade. Nos dois primeiros capítulos, apresenta uma fundamentação sobre o que entender sobre dignidade humana,
evolução histórica e abrangência temática da bioética, que são imprescindíveis para a reflexão, não somente das questões éticas
do nascer, mas também do viver e morrer. Nos capítulos seguintes o autor nos convida a mergulhar em questões complexas e
polêmicas do início da vida humana, que exigem nosso enfrentamento: questão do crescimento populacional (Cap. III); a reprodução
assistida (Cap. IV), o genoma humano (Cap. V) e a clonagem (Cap. VI). Uma série de documentos importantes de organizações e
organismos internacionais, relacionados às questões debatidas, constitui o bloco de anexos que merecem atenção e leitura.
O autor, Christian de Paul de Barchifontaine, belga de nascimento, brasileiro de coração, camiliano, atualmente é reitor do Centro
Universitário São Camilo, em São Paulo. Tem formação acadêmica na área de enfermagem e mestrado na área de gestão em
saúde. É docente de bioética desde 1984 nos cursos de pós-graduação em Administração Hospitalar e da Saúde da Universidade
São Camilo. É coautor da primeira obra didática de bioética, publicada em terras brasileiras (1991), Problemas atuais de bioética,
já na 6a. Edição (Ed. Loyola).
Parabenizo meu caro amigo, por mais esta iniciativa intelectual e faço votos de que esta obra seja um sucesso.

Prof. Dr. Léo Pessini


Membro da diretoria da Associação Internacional de Bioética
Superintendente da União Social Camiliana

Sumário
Introdução

Capítulo 1
Dignidade humana: uma reflexão ética
Preâmbulo
Reflexão filosófica
Reflexão biológica
Perspectivas
Capítulo 2
Bioética: contextualização, origem, conceituação e abrangência
Bioética: contextualização, origem, conceituação e abrangência
Introduçao
A pessoa humana
A nossa realidade
• Uma filosofia: existencialismo
• Uma cultura: da modernidade à pós-modernidade
• Uma ideologia: neoliberalismo
• Um sistema: capitalismo

Globalização, saúde e cidadania


• Globalização
• Saúde
• Cidadania: uma questão urgente

Ética, moral e bioética


• Evolução histórica da ética
• Conceituações de moral e ética
• Qual é a ética da bioética
• Histórico da bioética
• Origem da bioética
• Definições de bioética
• Fundamentação filosófica e paradigmas da bioética
• Algumas características da bioética
• Conteúdo e desafios da bioética
• Comissões de bioética e controle social
• Abrangência temática da bioética
• Bioética na América Latina: Três desafios entre outros
• Bioética global e sobrevivência humana: Algumas considerações de Van Rensselaer Potter

Conclusão
Capítulo 3
Políticas demográficas
Introdução
Políticas populacionais
Contracepção e anticoncepção
• Alguns pontos norteadores de nossa reflexão
• O mito da crise populacional
• Explosão demográfica – Retrato do Brasil
• Aspectos legais da contracepção
• Aconselhamento genético

Aborto
• Aborto: conceituações
• Aspecto legal no Brasil
• Quando começa a pessoa humana?

Posição do Magistério da Igreja Católica


Outro tipo de argumentação
• Gravidez indesejada ou inoportuna
• Aborto legal e malformação do feto

Conclusão
Capítulo 4
Técnicas de reprodução assistida
Introdução
Técnicas de reprodução assistida
Indicação
Alguns riscos
Alguns questionamentos
Legislação
• Código de ética médica
• Normas éticas para utilização das técnicas de reprodução assistida
• A lei de biotecnologia 8974 de 1995
• A resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS

Reflexões bioéticas
• Infertilidade
• Ponto de vista social
• Reprodução assistida e amor conjugal
• Embriões congelados
• Redução de embriões
• Consciência dos direitos das mulheres
• Clínica de infertilidade
• Perspectiva cristã católica

Conclusão
Capítulo 5
Genoma humano
Introdução
As revoluções da biologia
Uma breve histórico da genética
Célula
Glossário para entender o genoma
Nós temos o livro. Agora precisamos aprender a lê-lo
As promessas da descoberta
Medicina preditiva
Biopoder
• Genoma humano e engenharia genética
• Ética que cerca o Projeto Genoma Humano (PGH)

Reflexões bioéticas
• Benefícios da engenharia genética
• Patenteamento do genoma
• Privacidade
• Discriminação
• Determinação genética e liberdade humana
• Eugenismo
• Previdência social
• Clonagem
• Terapia gênica
• Alerta
• O Projeto Genoma Humano e a realidade brasileira (fome).
• A Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos (1997)

Conclusão
Capítulo 6
Clonagem humana
Introdução
Ética e tecno-ciência
Do que falamos?
Células-tronco
O que é um embrião
Clonagem de seres humanos
Reflexões bioéticas
• Discernimento ético
• Biotecnologia
• Clonagem de seres humanos
• Realidade brasileira

Conclusão
Para refletir
• O fim da era dos contratos?
• No último estágio, um ser vivo artificial
• Sem provas, empresa anuncia clone humano
• Clonagem é ineficaz, diz “pai” de Dolly

Anexos
Declaração Universal dos Direitos Humanos - 1948
Reprodução Assistida – 1992
Lei n° - 8.974 de 05/01/1995 – Biossegurança
Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS
Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos – 1997
Declaração sobre a Produção e Uso Científico e Terapêutico das Células Estaminais Embrionárias Humanas –
2000
Declaração Ibero-Latino-Americana sobre Direito, Bioética e Genoma Humano – 2001
Organismos Geneticamente Modificados (OGMS): Manifestação do Conselho Federal de Biologia – 2002
Bibliografia

Introdução
Os grandes problemas da humanidade de hoje, mesmo sem rejeitar a grande contribuição que a ciência e a tecnologia trazem para
superar as condições de miséria e de deficiências dos diferentes gêneros, só serão resolvidos com a reconstrução da comunhão
humana em todos os níveis.
Através da solidariedade, entendida como a determinação firme e perseverante de empenhar-se para o bem comum, isto é, para o
bem de todos e de cada um, todos devem ser verdadeiramente responsáveis por todos: a primazia da pessoa sobre o econômico.
Eis a grande vocação da bioética!
Que valor atribuímos à vida? De que modo podemos proteger e tornar melhor esse bem? Como melhorar a nossa convivência
humana? Se bioética significa fundamentalmente amor à vida, tenho certeza de que nossas vozes podem convergir para
estimulantes respostas a fim de melhorar a vida do nosso povo, bem como o nosso convívio, passando pelo respeito à dignidade da
vida das pessoas.
Entendemos a bioética como ética da vida, da saúde e do meio ambiente, tendo como finalidade o resgate da dignidade da
pessoa humana e da qualidade de vida frente aos progressos tecno-científicos e frente às políticas sociais e econômicas. Através
de um diálogo transdiciplinar, transprofissional e transcultural, baseados na tolerância e na solidariedade pretendemos, com este
livro, responder a alguns desafios bioéticos do início da vida.
Antes de tudo, é necessária uma reflexão ética sobre a dignidade humana, já que esta é o centro de todo o estudo da bioética.
Apoiado no documento de trabalho do Conselho Nacional de Ética para as ciências da vida do Portugal (1999), situamo-nos
filosófica e biologicamente quando falamos de dignidade humana (Capítulo I).
A seguir, nos estenderemos sobre o que é bioética, ética da vida (Capítulo II), entendendo que a reflexão deve passar pela análise
da realidade na qual vivemos, pelos conceitos de globalização, saúde e cidadania, chegando ao conceito de moral, ética e bioética
(o advento da bioética muito contribuiu para estabelecer a distinção entre moral e ética).
Inicialmente, acenamos que moral diz respeito a valores consagrados pelos usos e costumes de uma determinada sociedade.
Valores morais são, pois, valores eleitos pela sociedade e que cada membro a ela pertencente recebe – digamos passivamente –
e os respeita.
Ética é um juízo de valores, é um processo ativo que vem de “dentro de cada um de nós para fora”, ao contrário de valores morais
que vêm de “fora para dentro” de cada um. A ética exige um juízo, um julgamento, em suma, uma opção diante dos dilemas. Nesse
processo de reflexão crítica, cada um de nós vai pôr em jogo seu patrimônio genético, sua racionalidade, suas emoções e, também,
seus valores morais.
Bioética é ética. Não se pode dela esperar uma padronização de valores – ela exige uma reflexão sobre os mesmos e, como dito,
implica opção. Ora, opção implica liberdade. Não há bioética sem liberdade; liberdade para se fazer uma opção, por mais
“angustiante” que esta possa ser. O exercício da bioética exige pois liberdade e opção. E esse exercício deve ser realizado sem
coação, sem coerção e sem preconceito. A bioética exige também humildade para se respeitar o diferente e a grandeza para
reformulação, quando se reconhece o equívoco em uma opção. Condição sine qua non exigida pela bioética, enquanto tal, diz
respeito à visão pluralista e interdisciplinar dos dilemas éticos nas ciências da vida, da saúde e do meio ambiente. Ninguém é dono
da verdade.
Vamos analisar a trajetória da bioética: evolução histórica, origem, conceituações, fundamentos filosóficos. Assim, chegaremos à
identificação de dois polos essenciais no estudo da bioética: a bioética cotidiana, sendo voltada para assegurar condições dignas
de vida, para a exigência de humanizar a medicina, articulando fenômenos complexos como a evolução científica da medicina, a
socialização da assistência sanitária, a crescente medicalização da vida, inclusive a alocação de recursos para a saúde; e bioética
de fronteira sendo aquela que trata das novas tecnologias biomédicas aplicadas sobretudo à fase nascente e à fase terminal da
vida. E para finalizar o capítulo II, colocamos um panorama da abrangência da bioética, mostrando que ela perpassa toda a nossa
vida: do nascimento à morte.
No Capítulo III enfocaremos alguns assuntos da bioética ligados ao início da vida: bioética cotidiana – as políticas demográficas,
ressaltando os direitos reprodutivos e a saúde reprodutiva, a contracepção e a anticoncepção, seus aspectos legais e sociais; bem
como o aborto, suas conceituações e a questão ética delicada do início da pessoa humana. Na bioética de fronteira, analisaremos
as técnicas de reprodução assistida: técnicas, indicação, questionamentos, comentários e reflexões bioéticas (Capítulo IV), o
genoma humano, sua complexidade, o futuro da medicina preditiva e a questão do biopoder (Capítulo V), e a clonagem humana: a
tecno-ciência, clonagem reprodutiva e terapêutica, a questão das células-tronco e o embrião (Capítulo VI).
Anexo, apresentamos alguns documentos importantes relacionados aos assuntos estudados.
Bioética e início da vida: alguns desafios, não se trata de uma obra de moral religiosa ou confessional, mas de informação e
reflexão geral e global. Nasce num contexto pluralista e procura trabalhar as questões numa perspectiva dialogal, portanto multi, inter
e transdisciplinar, uma das características marcantes da bioética. A intenção é criar nas pessoas um senso crítico e despertar nelas
a capacidade de decidir, responsável e livremente diante das situações polêmicas, difíceis e conflituosas que as ciências da vida e
da saúde hoje nos apresentam.
Na linha da bioética, que a tolerância e a solidariedade sejam os nossos óculos na leitura deste livro, procurando sobretudo ajudar
as pessoas a serem mais felizes.

Capítulo 1

Dignidade humana:1 uma reflexão ética


Preâmbulo
A noção de dignidade humana, que varia consoante às épocas e aos locais, é uma ideia-força que atualmente possuímos e
admitimos na civilização ocidental, que é a base dos textos fundamentais sobre os Direitos Humanos. Diz-se nomeadamente no
preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 19482: “Os direitos humanos são a expressão direta da dignidade da
pessoa humana, a obrigação dos Estados de assegurarem o respeito que decorre do próprio reconhecimento dessa dignidade”.
Esta definição tem suas implicações em nível dos direitos econômicos, sociais, culturais, indispensáveis à concretização dessa
dignidade.
Esta noção de dignidade como característica comum a todos os seres humanos é relativamente recente, sendo por isso difícil
fundamentá-la senão como reconhecimento coletivo de uma herança histórica de civilização, colocando-se a questão de saber se a
dignidade humana não será o modo ético como o ser humano se vê a si próprio.
A abordagem atual da dignidade humana se faz sobretudo pela negativa, pela negação da banalidade do mal: é por se estar
confrontado com situações de indignidade ou de ausência de respeito que se tem indício de tipos de comportamento que exigem
respeito. Nesse sentido, ela é fundamental na definição dos direitos humanos, como na abordagem de novos problemas de bioética
e nomeadamente de uma ética do ambiente, uma ética que implica também solidariedade, já que se a dignidade se relaciona com
o respeito, as desigualdades sociais e econômicas nas sociedades modernas fazem com que em uma parte dessas sociedades
não se possa respeitar a si própria.
Devemos referir ainda o lugar que o ser humano se atribuiu a si próprio no âmbito de um mundo tecnicizado, que perdeu a ligação
com o mundo sensível, com o mundo vivo, cometendo atos indignos contra a vida animal, vegetal.
É neste contexto que o conceito de dignidade humana introduz um elemento de ordem e de harmonização no conflito das relações
das comunidades humanas.
Assim, a sobrevivência da nossa espécie está associada à sobrevivência da natureza e, deste modo, ao alargarmos o conceito de
dignidade asseguramos a continuidade dos seres humanos numa ética de responsabilidade pelo futuro, num alargamento não só
da concepção do que é ser humano, mas também do que é a comunidade sem a qual o ser humano não subsiste. Cabe aqui referir
a noção de ética de responsabilidade de Hans Jonas: “… que assenta no cuidado, que nos põe no centro de tudo o que nos
acontece e que nos faz responsáveis pelo outro, o outro que pode ser um ser humano, ou um grupo social, um objeto, um patrimônio,
a natureza; o que pode ser o nosso contemporâneo, mas que será cada vez mais um outro futuro, cujas possibilidades de existência
temos de garantir no presente” (Santos, 1991:40).
A dignidade humana é pois também um conceito evolutivo, dinâmico, abrangente, a tomada de consciência da pertença de todos
ao gênero humano confrontado na comunidade de destino, que se foi alargando a grupos diferenciados, dando-lhes um outro
estatuto, cabendo aqui citar a Conferência de Direitos Humanos de Viena (1993), em que foi afirmado que os direitos das mulheres
são direitos humanos. O que se liga com o cerne da definição de responsabilidade de Hans Jonas, a ideia de cuidado, que reforça
os campos éticos de atenção ao singular, abre a partilha e a solidariedade, afeta o modo, o olhar com que os outros são vistos. Ora,
“o valor do cuidado não aparece nem se encontra como aspecto importante dos princípios da bioética” (Camps, 1998:78). Uma
ética do cuidado, historicamente realizada sobretudo pelas mulheres na cultura ocidental, nas suas práticas cotidianas do cuidado
aos vulneráveis da sociedade, daqueles que justamente vêm, pouco a pouco, ocupando lugar nesse alargamento do conceito de
dignidade humana: as crianças, os idosos, os doentes, os deficientes.
Voltando à Declaração dos Direitos Humanos de 1948, tendo em conta esse alargamento do conceito de dignidade, podemos
referir os princípios que lhe estão associados: o da não-discriminação (nomeadamente em função da raça); o direito à vida; a
proibição de tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; o respeito pela vida privada e familiar; o direito à saúde; a liberdade
de investigação – conciliada com o respeito da pessoa humana (Lenoir e Mathieu, 1998:100–102).
Nesse alargamento do próprio conceito de dignidade humana, como nó fulcral da definição dos Direitos Humanos e da sua
salvaguarda, há uma ética social que, no âmbito da bioética, atualiza-se no acesso equitativo aos cuidados de saúde apropriada
para todos, respeitando a sua dignidade.
Estamos não só diante de outra noção do humano e da dignidade que lhe é devida, como de uma outra noção de comunidade que,
quanto mais aprofundou o que é a dignidade humana, mais se abriu, deu lugar ao encontro do que era considerado “não-humano”,
tornando-se mais humana e libertando-se de um poder totalitário, que também o oprime e destrói.

Reflexão filosófica
O conceito de dignidade humana tem fundamentos na filosofia do mundo ocidental. Embora a história nos informe que nem sempre
a dignidade humana foi respeitada, ou mesmo objeto de normas éticas e/ou legais de proteção, o certo é que a filosofia ocidental já
se preocupava com esta questão. Infelizmente, foi necessário um conflito mundial para uma tomada de consciência que levou à
proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. E, tal como se demonstra pela Convenção dos Direitos
Humanos e da Biomedicina, assinada em 1997, foi necessário quase meio século para que os países signatários da Convenção
dos Diretos Humanos chegassem à fase da aplicação da Convenção à medicina.
A História, desde a Antiguidade oriental até a Idade Contemporânea, demonstra que nem sempre houve reconhecimento do
primado do ser humano. Desde a escravatura, reinante nas civilizações orientais, clássicas e europeias, até as perseguições da
Inquisição, a discriminação social foi notória e pacificamente aceite pelos filósofos coevos. Já Aristóteles (384–322 a.C.) e Santo
Agostinho (354–430) haviam debruçado sobre a distinção entre coisas, animais e seres humanos. Deve-se a Immanuel Kant
(1724–1804), por suas críticas e análises sobre as possibilidades do conhecimento, nomeadamente a partir das questões: O que
posso conhecer? O que posso fazer? E o que posso esperar? Na Crítica da Razão Pura, na Crítica da Razão Prática e na
Fundamentação da Metafísica dos Costumes, uma das contribuições mais decisivas para o conceito de dignidade humana.
Como o próprio Kant reconheceu: As respostas às questões colocadas dependiam do nosso conhecimento da natureza do próprio
ser humano. O que posso conhecer, fazer ou esperar, depende, em última análise, da minha própria condição humana.
“Age de tal modo que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na do outro, sempre e ao mesmo tempo, como um fim e
nunca simplesmente como um meio” (Kant).
Devemos ainda pensar em dois conceitos: em Kant é principalmente o conceito de respeito que é sublinhado e em Hegel o
conceito de reconhecimento, mais básico do que o de respeito. Para ser humano é preciso ser reconhecido enquanto tal e não
somente reconhecido como organismo biológico. Por exemplo, se a criança não é reconhecida como aquilo para que tem
capacidade (autonomia, liberdade) mas que ainda não realiza, não é considerada como um ser digno. É na relação com o outro que
se é reconhecido como ser humano. A dignidade é, neste sentido, o efeito deste reconhecimento e a sua fundamentação, e, neste
reconhecimento recíproco, o ser humano torna-se capaz de liberdade. Aprendemos com Hegel que todo o processo da cultura é um
processo no qual procuramos chegar a níveis cada vez mais profundos de reconhecimento da igualdade. Assim, enquanto o outro
não for totalmente livre, eu não sou livre. Em resumo, a dignidade do ser humano repousa sobre o seu ser real, enquanto esta
realidade é capacidade daquilo que ele pode ser, e não apenas sobre o que ele faz efetivamente desta capacidade.
Depois da capacidade de autonomia, de autenticidade e de liberdade mediante o reconhecimento do outro, há um outro momento
da fundamentação da dignidade: o ser humano é capaz de se elevar acima das circunstâncias imediatas do seu ambiente para
colocar questões sobre o sentido do real. Temos, porém, de reconhecer que nós, como indivíduos, em referência às questões
acima enunciadas (o que posso conhecer, o que posso fazer, o que posso esperar), somos condicionados não só pela nossa
biologia, como também pelo contexto sociocultural em que nos inserimos.
Assim, o termo dignidade humana é o reconhecimento de um valor. É um princípio moral baseado na finalidade do ser humano e
não na sua utilização como um meio. Isso quer dizer que a dignidade humana estaria baseada na própria natureza da espécie
humana a qual inclui, normalmente, manifestações de racionalidade, de liberdade e de finalidade em si, que fazem do ser humano
um ente em permanente desenvolvimento na procura da realização de si próprio. Esse projeto de autorrealização exige, da parte de
outros, reconhecimento, respeito, liberdade de ação e não instrumentalização da pessoa. Essa autorrealização pessoal, que seria o
objeto e a razão da dignidade, só é possível através da solidariedade ontológica com todos os membros da nossa espécie. Tudo o
que somos é devido a outros que se debruçaram sobre nós e nos transmitiram uma língua, uma cultura, uma série de tradições e
princípios. Uma vez que fomos constituídos por essa solidariedade ontológica da raça humana e estamos inevitavelmente
mergulhados nela, realizamo-nos a nós próprios através da relação e ajuda ao outro. Não respeitaríamos a dignidade dos outros se
não a respeitássemos no outro.
Na ética moderna, a dignidade humana exprime-se em um “nós-humanidade” que não é a soma dos “eus” individuais. Segundo
Levinas, “nós” não é o plural de “eu”. O ponto de partida para a expressão dessa dignidade situa-se na totalidade dos seres
humanos e por isso foi possível afirmar-se que enquanto um ser humano não for livre nenhum ser humano será livre.
A socialização não é, porém, uma diluição do “eu” no conjunto da comunidade humana. Como vemos todos os dias, todo ser
humano aspira a repetir o “seu paraíso perdido”, que foi a fusão total com a mãe. Daí a procura, por vezes desenfreada, de uma
relação dual. Ora, o indivíduo acede à condição de ser único quando torna possível essa passagem da fusão com a mãe à
autonomia. É a aprendizagem do “eu/tu” que Martin Buber, tao eloquentemente, descreveu e na qual alicerçou as condições
indispensáveis para a alteridade efetiva. Quanto maior for o número de pessoas com quem estabelecemos a relação “tu/eu”, maior
é a nossa participação na noosfera e mais forte é a nossa dignidade humana.
Foi esta noção de uma camada de humanos que envolve toda a Terra que Teilhard de Chardin chamou a noosfera. Ela é
interdependente da biosfera e da atmosfera. A evidência desta afirmação encontra-se no nosso cotidiano (vivemos das espécies
biológicas e respiramos porque imersos na atmosfera). Mas também a encontramos em certas manifestações religiosas que têm
marcado profundamente algumas civilizações. Assim, por exemplo, no Budismo não há separação entre o humano e toda a
realidade natural que o rodeia. No nosso tempo, esta interdependência é sentida pela ação nefasta do humano sobre a biosfera e
sobre a atmosfera. Daí poder inferir-se que contribuir para a integridade e diversidade das espécies biológicas e para o equilíbrio
da atmosfera é, também, contribuir para a defesa da dignidade humana.

Reflexão biológica
A dignidade humana só é uma característica de cada ser humano à medida que é a característica de toda a humanidade.
A dignidade está na totalidade do humano e cada ser emerge com a sua própria dignidade dessa totalidade do humano. Daí a
importância fundamental do processo de individualização de cada ser. A capacidade de exprimir uma representação simbólica de
tudo o que vê, conhece ou faz, foi-se estruturando ao longo de várias etapas que trouxeram a humanidade até à etapa biogenética
atual.
O conceito de dignidade humana poderá estar também na diferença de dignidade e de respeito existente entre o ser humano e o
animal. Essa diferença não se fundamenta na afetividade, uma vez que o ser humano também a partilha com grande parte dos
animais e, possivelmente, basear-se-á na qualidade específica que ele possui de simbolizar, capaz de representar e projetar no
exterior os conteúdos de sua consciência e usá-los na criação da cultura humana. Parece existir, sim, uma diferença radical em nível
de manifestação do inconsciente no consciente do ser humano. Onde é que o inconsciente se enraíza biologicamente? Ou é um
construto cultural e, portanto, exclusivo do ser humano? A capacidade para a simbolização tem ou não um fundamento biológico?
Tem ou não uma explicação neurobiológica?
Pelo aspecto biológico ligado à teoria da evolução não se encontram suportes que fundamentam um estatuto especial para o ser
humano. Nesse sentido, torna-se difícil definir o conceito de Dignidade Humana quando, objetivamente, refere-se a um determinado
ser humano. Quando tem início o ser humano? No momento da fecundação do óvulo? Durante a gestação, quando se manifestam
as primeiras ondas elétricas no encéfalo do feto ou os primeiros batimentos cardíacos? No momento do nascimento completo?
Quando o indivíduo adquire consciência de si mesmo?
E quando termina a dignidade do ser humano: quando é verificado o óbito? Quando entra em estado vegetativo persistente?
Ou o ser humano deve ser sempre respeitado na sua dignidade, independentemente da respectiva condição biológica?
Será possível aceitar sem dignidade humana a pessoa que padece de grave perturbação mental ou deficiência física profunda? E
os mais capazes, os mais inteligentes e mais cultos serão biologicamente mais dignos? Poderá existir uma dignidade biológica?
Pode-se ser biologicamente indigno ou, pelo contrário, não há qualquer indignidade na forma como existimos? Pode-se ser mais ou
menos biologicamente digno? Existe um determinismo biológico para a dignidade ou indignidade? Pensamos que não. Todo e
qualquer ser humano é portador à nascença da sua própria dignidade só pelo fato de ser pessoa.
A dignidade humana é pois um valor que se baseia nas capacidades originais da pessoa e supera a estrutura biológica do ser
humano. Mesmo assim, pode perguntar-se de novo se há uma fundamentação biológica para a dignidade humana. A resposta a
esta pergunta depende da posição que se tome com respeito às relações existentes entre a pessoa e o seu corpo.
Numa posição dualista extrema de corpo e espírito (cartesiana ou outra, hoje ultrapassadas) evidentemente que não haveria
qualquer forma de fundamentação corpórea da dignidade humana. Mas na tese contemporânea da profunda e densa unidade do
ser humano, a questão existe.
Por um lado, a análise biológica do ser humano, mesmo em nível molecular, não encontra nada que justifique uma dignidade
especificamente superior à de outros animais. Não há justificação biológica da dignidade humana. É certo que o substrato biológico
é, sem dúvida, uma condição indispensável para a existência da pessoa e, portanto, da sua dignidade: se os seus mecanismos
bioquímicos colapsam, a pessoa extingue-se, e com ela a sua dignidade. Mas não são esses mecanismos bioquímicos
(basicamente idênticos aos dos animais) que justificam, especificam ou medem a dignidade humana. E, por isso, talvez se possa
dizer que a qualidade biológica de uma vida humana não altera a sua dignidade. O demente, o doente terminal, que está
inconsciente ou em estado vegetativo persistente, têm a mesma dignidade que eu.
Mas, por outro lado, o ser humano parece ser o único animal em que a realidade biológica foi inteiramente assumida e
redimensionada pela integração em uma outra ordem, que é simbólica e cultural. Nesse sentido, o corpo puramente biológico é uma
abstração. O corpo real não é só biológico ou mecânico: é um corpo-assumido ou corpo-vivido ou corpo pessoal. Esse corpo
constitui a mediação obrigatória da pessoa em todas as suas relações para dentro e para fora de si mesma. Se pensa, se reflete,
se decide, se comunica com os outros ou se capta deles nova informação, é sempre e obrigatoriamente através do corpo e do seu
mecanismo biológico. Neste sentido, todo o biológico humano é assumido pela pessoa e, nessa medida, toda a violência contra o
corpo biológico pode denominar-se como violência contra a pessoa, e toda a instrumentalização do corpo biológico significa
instrumentalização da pessoa.
A dignidade humana é sentida e expressa através do corpo humano como suporte biológico da existência. Nem a pessoa é seu
corpo, nem tampouco é proprietária do seu corpo. A pessoa é um sistema psicossomático que toda a vida humana nos torna cada
vez mais presente.
Como se disse, a diferença fundamental entre o ser humano e os animais não radica na afetividade mas sim na sua capacidade de
pensar simbolicamente, de representar e projetar no exterior os conteúdos da sua consciência e usá-los na criação da cultura
humana. Ou seja, na esfera do cognitivo. A consciência de si mesmo como pessoa e dos outros também como pessoas,
consequência dessa capacidade simbolizadora do ser humano, será condição sine qua non para a reflexão ética. Por isso, a
natureza biológica do corpo humano não é mais do que o substrato, suporte ou mediação da pessoa, que está subjacente em toda
a reflexão sobre a dignidade humana.
Existe, pois, uma dimensão ética na existência humana, isto é, a pessoa existe enquanto pessoa somente quando é reconhecida
por outras pessoas. Há uma ética para a pessoa que vive no seu corpo. O corpo não é portador da dimensão ética, mas é a pessoa
no seu corpo que é portadora desta dimensão. Para o corpo isolado, não há ética.
Portanto, a sociabilidade do ser humano funda-o em dignidade. A pessoa humana advém na comunidade humana; o isolamento
torna-a igual aos animais. O processo de individualização, garantia da dignidade humana, tem etapas de socialização até atingir a
maturidade. É a comunidade humana que confere a cada ser a capacidade de linguagem, de dar um nome a cada coisa e de
estruturar, assim, a sua agilidade e amplitude de representação simbólica.
Estamos, assim, em face de uma situação em que os mecanismos biológicos estão implicados em todas as atividades da pessoa
como condição básica inespecífica, mas não constituem a sua justificação causal e determinante. E à pergunta sobre se há uma
fundamentação biológica da dignidade humana, teríamos de responder sim e não. Sim, à medida que os mecanismos biológicos
constituem o suporte indispensável do campo de ação de todas as atividades pensantes, volitivas e relacionais da pessoa. Não, à
medida que as capacidades de autorrealização na linha de um projeto pessoal, as quais constituem a verdadeira fundamentação da
dignidade humana, não são, de modo algum, determinadas especificamente por mecanismos biológicos conhecidos.

Perspectivas
A partir do exposto, percebemos que o conceito de dignidade humana é importante para salvaguardar o valor maior que é a
pessoa. Deste modo, os comportamentos que mais indignificam a própria pessoa são os que indignificam os outros, sobretudo os
mais débeis e vulneráveis. Nomeadamente as crianças, os idosos, os doentes, os excluídos por todas as razões, desde a falta de
amor até o poder econômico.
Como já foi acenado na introdução deste livro, os grandes problemas da humanidade de hoje – mesmo sem rejeitar a grande
contribuição da ciência e da tecnologia para superar as condições de miséria e de deficiências dos diferentes gêneros – só podem
ser resolvidos com a reconstrução da comunhão humana em todos os níveis, através da solidariedade que deve ser entendida
como a determinação firme e perseverante de se empenhar para o bem comum, isto é, para o bem de todos e de cada um, para
que todos sejam verdadeiramente responsáveis por todos.
A tolerância designa o fato de se abster de intervir nas ações ou opiniões de outras pessoas mesmo quando essas opiniões ou
ações nos parecem desagradáveis ou moralmente repreensíveis. Assim, a tarefa cotidiana do cultivo da tolerância inclui uma atitude
proativa de procura do ponto ideal de encontro com o outro nos momentos de discordância e enfrentamentos. A tolerância é uma
conquista no caminho em direção à solidariedade, que é o laço recíproco que une pessoas como corresponsáveis pelo bem umas
das outras.
Neste sentido, são necessários lugares de escuta do sofrimento, da dor, da alegria, da ternura, nos quais o humano se revela de
muitas maneiras. Assim, como o eu supõe a vinda à palavra, também são esses lugares de escuta que podem permitir de novo o
pleno acesso à palavra. É neste contexto que a escola, entre outras instituições formadoras da dignidade humana e de um
aprendizado para a vivência da tolerância e da solidariedade, deveria ser tanto transmissora de conhecimento quanto lugar de
escuta que, ao reenviar o eco da palavra titubeada, possa ajudá-la a surgir inédita.
1. Fonte: Documento de Trabalho do Conselho Nacional de Ética para as ciências da Vida do Portugal: Lisboa, 05 de janeiro de 1999.
2. Cfr Anexo 1.

Capítulo 2

Bioética: contextualização, origem,


conceituação e abrangência
“De todas as ciências que o homem pode e deve saber, a
principal é a ciência de viver fazendo o mínimo de mal e o
máximo possível de bem.”
Leon Tolstoi

Introdução
Hoje, através dos meios de comunicação social, jornais, revistas, televisão, internet, ouvimos falar de bioética. É bom lembrar que o
estopim que contribuiu para o desenvolvimento da bioética, sem usar ainda o termo, nos anos de 1960, foram reportagens de
jornalistas a respeito de experiências em seres humanos, com crianças, prisioneiros e doentes mentais.
Pode-se conceituar bioética como um mecanismo de coordenação e instrumento de reflexão para orientar o saber biomédico e
tecnológico, em função de uma proteção cada vez mais responsável da vida humana. A bioética, por ser um ramo da ciência que
procura estar a serviço da vida, engloba em suas reflexões os aspectos sociais, políticos, psicológicos, legais e espirituais. É uma
reflexão sobre o resgate da dignidade da pessoa humana frente aos progressos técnico-científicos na área da saúde, frente à vida.
Com sua possibilidade de redesenhar o ser humano, com o seu poder de destruir ou construir, esses progressos podem alterar a
identidade da pessoa humana. O homem está se tornando o senhor da vida e de sua própria vida, como bem ilustra a expressão:
“em lugar de consultar os astros, consultam-se agora os genes”.
Para entender melhor o que é a bioética vamos refletir sobre quem é o sujeito da nossa reflexão bem como do seu ambiente, o que
é moral, ética e a sua evolução. A seguir, esclareceremos qual o histórico, a origem, a conceituação bem como a fundamentação
filosófica e os paradigmas da bioética. Mostraremos o conteúdo e os desafios da bioética, bem como três desafios concretos para
a América Latina, e terminaremos com uma fala de Potter sobre bioética global.

A pessoa humana
A abordagem de uma conceituação de pessoa humana é complexa. Mas, antes, é necessário fazer uma distinção, já que muitos
escritos confundem vida humana, ser humano e pessoa humana. “Vida humana – ser humano é membro da espécie homo sapiens:
o fato de o indivíduo pertencer ou não a uma determinada espécie é algo que pode ser determinado cientificamente mediante um
exame da natureza dos cromossomos das células dos organismos vivos. Nesse sentido, não há dúvida de que, desde os primeiros
momentos de sua existência, um embrião concebido de esperma e óvulo humanos é um ser humano, uma vida humana” (Singer,
1994:97–98). “Vida humana indica vida dos organismos pertencentes à espécie homo sapiens, quer dizer somente a vida do corpo
prescindindo da alma. A ciência nos diz somente que no momento da concepção se forma um ser humano (um corpo), mas não
pode nos dizer nada sobre a pessoa composta de alma e corpo” (Mori, 1997:43–67).
O direito brasileiro reserva a expressão pessoa física para regulamentar o imposto de renda. A preferência brasileira vai para a
expressão pessoa natural: trata-se de “um atributo jurídico reconhecido aos seres humanos individualmente ou aos indivíduos em
grupos, como entes morais, exprimindo a aptidão para adquirir direitos e contrair obrigações” (Viana, 1988:3). Hoje em dia, esta
personalidade está sendo estendida aos seres humanos desprovidos de consciência ou de vontade capazes de se
autorresponsabilizar.
Segundo o Código Civil, Artigo 4, a personalidade do ser humano, no Brasil, começa com o nascimento com vida. Contudo, desde
o direito romano, os direitos do nascituro eram salvaguardados por uma ficção que não pretendia ontologia alguma no seu
interesse. Esta ficção jurídica só vale se o nascituro consegue, depois, nascer com vida; se não, este ser nunca foi pessoa para o
direito. Assim, o direito brasileiro segue o romano: o nascituro não tem a personalidade jurídica, mas será considerado como a
tendo, se nascer com vida. “O nascituro não é ainda uma pessoa, não é um ser dotado de personalidade jurídica. Os direitos que se
lhe reconhecem, permanecem em estado potencial. Se o feto não vem a termo, ou se não nasce vivo, a relação de direito não
chega a se formar, nenhum direito se transmite por intermédio do natimorto e sua frustração opera como se ele nunca tivesse sido
concebido, o que bem prova a sua inexistência ao mundo jurídico, a não ser que tenha nascido. A personalidade do nascituro é
geralmente chamada, então, fictícia” (Viana, 1988:11).
Atualmente, não há consenso sobre o que é pessoa humana. A partir de quando podemos falar de pessoa humana? “Não é possível
querer resolver a pendência do debate filosófico sobre a pessoa humana. A lei não pode responder à pergunta sobre quando se
impõe a realidade da pessoa humana. Debates seculares nunca resolveram essa interrogação. Nem os médicos nem os teólogos
conseguiram trazer argumentos determinantes, nem Santo Agostinho, nem Santo Tomás de Aquino. A noção de ‘pessoa humana’
remete a convicções filosóficas e metafísicas” (Mattei, 1994:90).
E lembremo-nos sempre de que o sujeito da nossa atenção é a pessoa humana, ser físico, psíquico, social e espiritual. Para
entender melhor, usarei a palavra saúde no sentido ideal para qualificar as quatro dimensões do ser humano:
• Saúde física: é a ausência de mutilações, de lesões, de dor, de cansaço, de fome, de sede. É o desenvolvimento normal do
indivíduo, é o equilíbrio entre os componentes orgânicos.
• Saúde psíquica: implica orientação no tempo e no espaço, ausência de alienação, capacidade de equilibrar-se nas diversas
situações de vida, autorrealização, abertura para o outro e para si mesmo, liberdade de pensamento, de expressão e de criação.
• Saúde social: é o ajustamento do indivíduo no grupo social (entende-se por ajustamento a capacidade que a pessoa tem de se
situar, de se relacionar com as outras). A saúde social implica habitação adequada, equilíbrio dos fatores econômicos (trabalho e
salário condizentes), lazer, educação (que permita, pela observação e análise, o questionamento da realidade), amizade, simpatia,
relacionamento.
• Saúde espiritual: se revela na maneira de encarar a vida: toda pessoa tem uma finalidade na vida, sede de um absoluto (ou
transcendente). Para os cristãos, Deus; para os muçulmanos, Alá; para os ateus, o homem. Esse absoluto é fundamental para a
superação das dificuldades, de um sofrimento ou de uma doença.
Essas quatro dimensões formam um conjunto no qual o relacionamento humano é a chave principal. Como veremos a seguir,
vivemos numa sociedade que dificulta todo relacionamento profundo. Ora, o relacionamento humano é imprescindível para se
entender o que é ética.

A nossa realidade
Didaticamente, e de uma maneira objetiva, podemos dizer que a nossa sociedade é movida por quatro forças:

Uma filosofia: existencialismo


O existencialismo é uma doutrina que centraliza toda a filosofia no valor do indivíduo concreto. Não existe uma natureza humana,
uma definição do que seja o homem anterior ao ato de existir: não há uma essência precedente, que determinaria o que cada
indivíduo vai ou deva ser. Numa das correntes, a do filósofo francês Jean-Paul Sartre, o que conta é: minha liberdade.

Uma cultura: da modernidade à pós-modernidade


A modernidade, realidade complexa, é um processo histórico de vida a partir de ideias, metas, valores, que vai configurar uma
maneira de viver. Ela nasce com a Revolução Francesa (1789) e a sociedade burguesa, e se concretiza através de transformações
radicais. Tradicionalmente, o poder é concebido como uma forma repressiva, portanto, negativa, que emana do Estado e de seus
aparelhos. Dois valores são importantes: poder e saber. Saber é poder. A modernidade é também o processo de autonomia da
razão: ênfase na ciência e na tecnologia, economicismo (primazia do econômico: produzir, lucrar), matematicidade (pensamento
racional), sensibilidades florescentes (pluralismo, direitos humanos, ecologia e participação).
Vejamos algumas características da Modernidade:
a) Poder: Sociedade de classes na qual uma minoria detém em suas mãos o ter, o saber e o poder.
b) Razão técnico-científica: Possibilitou as sucessivas revoluções industriais a partir do século XIX.

c ) Individualismo: Emergência do sujeito, descoberta do EU e do mundo subjetivo. Supremacia do indivíduo:


anonimato, solidão.
d) O homem como dono da história.
e) Secularização: Autonomia das ciências humanas (sociologia, política). A Igreja é uma instituição no meio de outras
instituições. A religião é relegada à esfera do privado, das escolhas individuais.
f) Pluralismo: Experiências religiosas subjetivas, mistura de crenças e práticas, experimentação de novos cultos.

g) Centralidade da economia em detrimento do social.

A Pós-modernidade: As novas tecnologias, como a informática, a cibernética, a telemática, o descartável, transformam a


organização social. Em nível filosófico vive-se o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e sentido da vida. Morto Deus e os
grandes ideais do passado, a pessoa moderna valorizou a arte, a história, o desenvolvimento, a consciência social para se salvar. A
pessoa pós-moderna já sabe que não existe céu nem sentido para a história, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao
consumo e ao individualismo. Em nível psicológico, a sociedade aprisiona as pessoas por meio de regras morais, valores sociais e
religiosos. A pessoa pós-moderna deve dar mais importância a sua sensibilidade do que a sua inteligência; deve viver procurando
sensações e emoções sem limites com o mínimo de dor. A pessoa pós-moderna cultiva uma mentalidade imediatista, e tudo é
relativo e ilusório, sem ideologia e ideais verdadeiros, deve-se libertar os instintos reprimidos e deixar-se levar pela sensibilidade, a
pessoa aproveita ao máximo o presente e não se preocupa com o que vem depois, que pode ser até a morte. A pessoa pós-
moderna vive um pacifismo consensual: “Paz e Amor” (1968), a paz em um nivelamento no qual ninguém diz o que é certo, onde não
existam normas de conduta nem valores a serem seguidos, muito menos uma moral transcendente. O amor situa-se dentro de uma
liberalização sem limites, sem fidelidade, sem compromisso. Poderíamos falar também da apatia política e da civilização da
imagem. A grande justificativa para a pós-modernidade seria que o mundo moderno não conseguiu cumprir suas promessas com o
paradigma do crescimento econômico infinito, da erradicação das doenças, prolongamento da vida e até a extinção da morte.

Uma ideologia: neoliberalismo


O liberalismo é uma ideologia que sustenta a iniciativa privada e a propriedade privada através do sistema capitalista. É uma
doutrina de acumulação do capital que não valoriza o trabalho (visto como mercadoria) e nem o trabalhador, reinventando a pobreza
através da concentração da renda.
O neoliberalismo é a radicalização do liberalismo: reza um mercado sem fronteiras, um “Estado mínimo”, sem leis, sem empresas
estatais, sem alfândega. O neoliberalismo tem também como característica a apropriação dos bens públicos, inclusive ambientais.
Considerando que as condições ambientais são o suporte da vida, apropriar-se desses recursos e gerenciá-los de acordo com
interesses privados significa deter o poder de determinar a qualidade e até mesmo a possibilidade de vida para uma coletividade.
Não é exagero constatar como esse poder sobre a vida e a morte de uma coletividade tem sido exercido por interesses privados
em detrimento do interesse público. O neoliberalismo nasce também por causa de novas formas de mercado: Comunidade
Europeia, Mercosul, Empresas transnacionais. Aparecem novas tecnologias: microeletrônica (chips de computador); optoeletrônica
(laser); a biogenética (controle da vida); a informática...
Esta ideologia é limitada devido: à exploração do trabalhador; ao empobrecimento, à miséria, ao mercado informal; à concentração
da renda; à massificação da pessoa através dos meios de comunicação social e da propaganda; à destruição da natureza; à
desqualificação da mão-de-obra, à divisão em classes sociais...

Um sistema: capitalismo
Toda ideologia se concretiza através de um sistema. Do sistema capitalista, destacamos algumas características:
a) A produtividade, o lucro. “Quem produz é gente, quem não produz não é (mais) gente”; descuido da parte psíquica,
social e espiritual das pessoas; primazia do econômico sobre o social.
b) A concorrência, que é considerada a chave do desenvolvimento pelo neoliberalismo, seria a nova palavra para
substituir a palavra ética. Para concorrer, é preciso ter chances iguais.
c) A concentração de bens, terra, poder, informação, saber, comunicação. Quem tem dinheiro, tem poder; quem tem
poder, faz a verdade e impõe essa verdade.
d) A dependência resultante da dívida externa, da política salarial ligada aos acordos com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), responsável em grande parte pelo arrocho salarial, desemprego e recessão.
e) Autoritarismo: a tradição do país é autoritária e elitista. O povo sempre ficou à margem do processo político, decidido
normalmente por “caciques” e “coronéis”.
f) A injustiça: a própria Justiça, que deveria ser o reduto intacto do exercício ético do Direito, em determinados casos é
desvirtuada, lenta e elitizada, protelando o processamento de causas, especialmente criminais. A cumplicidade e a
impunidade favorecem os corruptos e estimulam, no campo e na cidade, o sacrifício de vítimas inocentes.
g) A intolerância: o capitalismo não tolera a diferença. A marcha do desenvolvimento só conseguiu produzir
desigualdades, que são negadas ou justificadas pelas teses sobre a competição e a eficiência. A lei do mercado
recompensa os melhores; portanto, os não-beneficiados devem isso a sua pouca qualidade. Absolvido o sistema, são
culpabilizados os indivíduos.

Globalização, saúde e cidadania


Globalização
Trata-se de um processo que visa a unificação de todos os mercados do mundo sob a articulação das multinacionais. Ela quer o
predomínio das regras de mercado sobre regulamentos ditados pelos governos dos países. Marca o ingresso do capitalismo em
uma nova etapa de seu desenvolvimento, em que as corporações multinacionais começam a contestar a soberania dos estados
nacionais. Considera que o Estado deve prioritariamente exercer a função de garantir a liberdade do mercado, o cumprimento dos
contratos e a propriedade. Coloca, em segundo plano, qualquer outra função do Estado, em especial, a sua função social.
O liberalismo, em termos políticos, proporcionou importante contribuição à democracia ao se opor a variadas formas de
absolutismo e autoritarismo, defendendo a liberdade do cidadão. Contudo, em termos práticos, a maioria dos adeptos do
neoliberalismo tem preconizado grandes cortes nos gastos sociais do Estado, elevação das taxas de juros, promoção da
privatização das companhias estatais, como no setor de transporte, saúde, educação, energia e telecomunicações, e defesa do
livre comércio internacional e dos grandes investimentos financeiros especulativos. A questão fundamental é que o modelo
econômico-político neocapitalista admite a exclusão como princípio de funcionamento. Em todos os países onde está sendo
aplicado, tem levado a uma situação em que as macrocontas destes são ajustadas, com queda da inflação, saldo da balança
financeira e estabilidade econômica, embora aumente o desemprego e piore sensivelmente a situação dos mais pobres,
promovendo o alargamento da distância que separa as classes sociais mais abastadas das menos favorecidas, gerando ainda
mais bolsões de miséria.
Concretamente, o fim do século e do milênio foram marcados pela violência física e simbólica contra os excluídos, contra a
liberdade de sonhar e construir uma “terra sem males”. A globalização, novo rosto do projeto de dominação, é baseada na
apropriação privada dos recursos e da terra, na exploração da força de trabalho, na expansão de um sistema de mercado
integrador e homogenizador. Alguns modelos de globalização querem impor a abertura arrasadora da economia do país aos
interesses externos e financiamentos multinacionais, o desmonte do Estado e a dramática diminuição dos investimentos públicos,
dos programas sociais. Educação, saúde, moradia e lazer são tratados como mercados rentáveis. Essa lógica de organização
econômica, política e social gera violentos mecanismos de exclusão social, o desrespeito aos direitos humanos, a exploração sem
limites dos recursos naturais, com repercussões desastrosas para as futuras gerações.
O conceito “globalização” está manchado pela face escura da modernidade, por sua racionalidade instrumental e eficácia
funcionalista, e pela face antissocial do capitalismo em sua forma tardia de neoliberalismo. Seu produto final é sofrimento e
exclusão econômica, em função da maximização dos lucros.
Só globalizou-se o econômico! E o social?
Outro engano é o desenvolvimento sustentável. Como o próprio termo sugere, a primeira preocupação não é com o meio ambiente,
mas com o desenvolvimento e, consequentemente, com as possibilidades de exploração dos recursos naturais existentes,
exaurindo-lhes toda a capacidade de produzir capital. Dessa forma, a sustentabilidade almejada é a dos sistemas econômicos, e
não de seres humanos e toda a vida existente no planeta.
Conclusão: A globalização é uma tragédia para a maioria da humanidade, tanto a economia mundialmente integrada como o
mercado se regem pela competição e não pela cooperação. Se dermos livre curso à competição sem a cooperação, podemos nos
devorar e colocar em risco todo o sistema de vida. A verdadeira globalização – a verdadeira sustentabilidade planetária – depende
de mudanças profundas na concepção de pessoa, de natureza e da implementação de um outro modelo de sociedade, onde o
determinante não seja o capital, o lucro, mas a vida de homens e mulheres interagindo com toda a natureza. Precisamos
redescobrir a solidariedade, a corresponsabilidade, a compaixão, a partilha, o cuidado.

Saúde
Por que o povo não tem saúde?
Numa sociedade que tem como valores a produção, o lucro, a concorrência desleal, a concentração e a dependência, não há lugar
para uma prática social fraterna e solidária; só existe a exploração como forma de acumulação. Essa sociedade oferece pouca
possibilidade e oportunidade de escolha para decidir onde viver, que alimento comer, onde trabalhar, que notícias ver e ouvir, que
tratamento escolher etc. Todo esse contexto favorece uma injustiça social alarmante, tendo como consequência a deterioração da
saúde, principalmente em relação aos pobres que são duas vezes desgraçados, porque além de morrer das doenças dos pobres
(fome, desnutrição, verminose, diarreia...), morrem também das doenças dos ricos (cardiovasculares, stress, câncer...). Para
entender melhor, podemos reunir em quatro grupos as causas que fazem com que o povo brasileiro esteja sem saúde:
• Causas ligadas às condições naturais de vida e suas variações como o clima, a água, a qualidade da terra. Quando se fala de
qualidade de vida, o primeiro requisito enunciado é a proteção do meio ambiente. Como uma das características da ideologia
vigente é a propriedade privada, assistimos à apropriação dos bens públicos (onda de privatizações), inclusive ambientais. A
origem primeira de tudo o que é bem é o próprio ato de Deus que criou a terra e o homem, e ao homem deu a terra para que a
domine com seu trabalho e goze dos seus frutos. Deus deu a terra a toda a humanidade, para que ela sustente todos os seus
membros sem excluir nem privilegiar ninguém.
• Causas ligadas aos determinantes estruturais (sociopolíticos e econômicos) da produção de bens materiais (a comida, a
mercadoria, o dinheiro). A selvageria do sistema reside no grau da exploração da força do trabalho. Os baixíssimos salários pagos
aos trabalhadores exigem, para garantia de sobrevivência, o prolongamento da jornada de trabalho e a aceitação de condições de
trabalho perigosas e insalubres, bem como a entrada precoce das crianças em atividades produtivas. O resultado da
superexploração da força de trabalho conduziu ao quadro de salário extremamente crítico: trata-se da mais perversa combinação de
doenças da miséria (desnutrição, infecções) com as chamadas doenças do desenvolvimento (acidentes de trabalho, de trânsito,
doenças ocupacionais, violência, intoxicações), atingindo especialmente as camadas oprimidas da sociedade. Hoje, precisamos
acrescentar a recessão que provoca mais desemprego e uma classe social chamada “massa sobrante”. O mais interessante é que
a própria sociedade culpa os indivíduos por estarem nessas situações.
• Causas ligadas a condições sociais de vida (moradia, higiene, vestuário e, principalmente, alimentação). A VIII Conferência
Nacional de Saúde (1986) definiu a saúde como resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio
ambiente, trabalho, transporte, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde. É, antes de tudo, o
resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida.
As duas primeiras causas impedem a grande maioria da população de ter saúde e inviabilizam o cumprimento dessa definição.
Além dessas três causas já acenadas, a quarta complica ainda mais a situação.
• Causas ligadas a outras condições de vida diretamente associadas aos recursos e serviços de cura (atendimento médico e
acesso a medicamentos). A medicalização da vida efetiva-se cada vez mais no hospital, do parto aos últimos instantes na UTI, sem
refletir bastante sobre as causas e implicações desse fenômeno que desestruturou o relacionamento tradicional do doente no seu
meio familiar. Para quem puder entrar num hospital, o progresso e desenvolvimento científico e tecnológico investigam de maneira
cada vez mais sofisticada, obrigando as pessoas a permanecerem no hospital e fazendo do seu corpo uma máquina. Muitos
hospitais transformaram-se em oficinas mecânicas e os profissionais da saúde em mecânicos especializados ou não. O sistema de
saúde em nosso país reforça a tese de que ele não é organizado com a preocupação de ajudar o povo, mas aqueles que vivem às
custas do sistema: indústrias de equipamento, hospitais particulares, empresas farmacêuticas e de seguro médico, médicos
empresários... A preocupação é o lucro. Nessas condições, não é difícil imaginar a dificuldade da maioria da população em ter
acesso aos serviços médico-hospitalares (direito consagrado na Constituição, artigo 196) e comprar remédios. Todos conhecem o
drama das filas, sem contar as pessoas que morrem sem a mínima assistência.

Cidadania: uma questão urgente


Cidadania deve ser conceituada levando-se em consideração o contexto social do qual se está falando, e com isto a mesma
adquire características que se diferenciam conforme o tempo, o lugar, e, sobretudo, as condições socioeconômicas existentes.
Assim, num contexto desenvolvido, a cidadania é vista com ênfase nos direitos políticos; num contexto terceiro-mundista, a
cidadania envolve as questões da autonomia, da democracia e do desenvolvimento pensados como totalidade, que se relacionam
dialeticamente entre si.
Podemos citar três relações importantes:
Cidadania diz respeito à autonomia de uma sociedade, no sentido de a mesma ter condições de traçar suas políticas.
Democracia, sob o viés político, é a capacidade em se organizar e participar ativamente; sob o viés sociopolítico-econômico,
é a consagração dos direitos mínimos do homem (educação, saúde, habitação...); sob o viés sociocultural, é uma educação
que propicia ao povo definir seus próprios valores.
Cidadania é sinônimo de democracia, e como tal não existe jamais em uma sociedade cuja participação nas estruturas
sociopolítica-econômica-cultural, é permitida apenas a uma minoria, que para exercê-la tem como condição a exclusão e,
consequentemente, a marginalização da maioria.
Cidadania não é apenas crescimento, mas também desenvolvimento na dimensão propriamente social, o que significa, para
nós, mudança na organização da desigualdade social.
É impossível falar de cidadania sem fazer uma referência ao Estado, à sociedade civil e ao mercado.
O Estado é a resultante da correlação de forças políticas, econômicas, sociais e culturais; é o conjunto de organizações e leis que
regulamentam e permitem a vida de um país através de três poderes: legislativo, executivo e judiciário. O Estado tem por finalidade
promover o bem comum, respeitando os direitos e deveres de cada cidadão e a sociedade civil. O bem comum é o conjunto de
condições materiais, institucionais, culturais e morais necessárias para garantir a todos as possibilidades concretas de atingir níveis
de vida compatíveis com a dignidade humana.
A sociedade civil ou sociedade dos cidadãos é a organização de pessoas humanas, de cidadãos, para defender interesses,
direitos como religião, sexo, cor, idade e classes econômicas. A sociedade civil deve vigiar o Estado para que cumpra seu dever
de atender as necessidades básicas da população.
O mercado é anterior à sociedade moderna; ele está associado à formação das cidades, cujos suprimentos dependiam de
relações comerciais com produtores externos, notadamente camponeses. A sociedade de mercado surge no Ocidente a partir do
século XVI. Agora, a produção não é mais regida pelas necessidades humanas, mas pelas necessidades do mercado. Hoje, o
mercado está dando origem a uma forma moderna de religião: a da mercadoria; gerando uma imensa idolatria. O dogma central
dessa religião é: “O dinheiro tudo pode, move o Céu e a Terra”. E o mercado é a mão invisível que rege nossos destinos melhor que
nossa consciência, pois toma sempre a decisão mais adequada. Existem os templos dessa religião que são os bancos, existe a
romaria aos espaços mais carregados de significação que são os grandes shoppings e cidades de consumo como Manaus, Miami,
Paris... Existem também os sacerdotes que são os banqueiros e os financistas que prestam o maior culto ao dinheiro. Precisamos
resgatar o mercado como realidade humana. As relações de mercado são relações sociais que regem a produção, distribuição e
consumo de bens e serviços. Tratando-se de relações sociais, não o individual, mas o social, deveria ocupar o centro do mercado.
Portanto, o mercado tem por finalidade atender as metas sociais, as necessidades básicas. Infelizmente, pela lei da oferta e da
demanda, o mercado produz o que se vai comprar (bens supérfluos) e se preocupa somente com as pessoas que têm dinheiro para
tal, isto em função da ideologia vigente.
Todo compromisso na área da saúde, na nossa realidade, é desafiado a favorecer o processo de conquista da cidadania do povo.
É importante saber o que se entende por cidadania: é o exercício da plenitude dos direitos, como garantia da existência física e
cultural e reconhecimento como ator social, por exemplo, participar dos Conselhos Municipais ou Estaduais de Saúde. A realização
pessoal e comunitária da cada indivíduo é sempre considerada um valor acima do Estado e do mercado. A inversão desta lógica
implica encontrar um mercado ou um Estado com caráter autoritário, coercitivo e absoluto. No centro de todo processo político tem
de estar o cidadão. Mas, quem é o cidadão? Ele é um indivíduo revestido de plenos direitos civis, políticos e sociais, e o indivíduo
tem a obrigação de trabalhar pela proteção vigilante do Estado no usufruto dos direitos.
Aprofundando os direitos, podemos afirmar a respeito de cada um:
a) Direitos sociais: Aqueles que o Estado tem por função e obrigação assegurar a todo cidadão – moradia, saúde,
educação, lazer, trabalho, cultura...
b ) Direitos civis: Os que dizem respeito ao indivíduo como a liberdade de reunião, de expressão, de escolha
profissional, de pensamento, de locomoção...
c) Direitos políticos: Visam a liberdade de associação sindical, religiosa, partidária, de escolha dos governantes, de
participação no poder público e na determinação da política do Estado.
Dentro da nossa realidade vamos analisar e refletir sobre conceitos essenciais que irão embasar e fundamentar nossa posição
frente a assuntos tão delicados e importantes como os do início da vida.

Ética, moral e bioética


Em um estudo sobre bioética, ética da vida, é importante conceituar moral e ética para entender melhor o seu alcance. Mas antes é
interessante ver como a palavra ética evoluiu.

Evolução histórica da ética


• Para os gregos (Sócrates, Platão e Aristóteles), a ética obedecia ao movimento da natureza humana. Eram considerados éticos
os atos realizados segundo a razão. A razão e a vontade compreendiam as faculdades superiores e constitutivas do ser humano.
Todo o agir era dirigido por estas faculdades. Por isso, a ética estava subordinada ao horizonte metafísico. A metafísica definia a
essência humana e a ética definia os comportamentos adequados, segundo a natureza humana. Tratava-se de uma ética
metafísica.
O ideal ético estava ou na busca teórica e prática da ideia do bem, da qual as realidades mundanas participariam de alguma
maneira (Platão), ou estava na felicidade, entendida como uma vida bem ordenada, virtuosa, na qual as capacidades superiores do
homem tivessem a preferência, e as demais capacidades não fossem, afinal, desprezadas, na medida em que o homem, ser
sintético e composto, necessitava de muitas coisas – Aristóteles. Para outros gregos, o ideal ético estava no viver de acordo com a
natureza, em harmonia cósmica. Os estoicos insistiram mais nesta vida bem natural. Já os epicuristas afirmavam que a vida devia
ser voltada para o prazer: o sentir-se bem. Tudo o que dá prazer é bom.
Ora, como certos prazeres em demasia fazem mal, acabam por produzir desprazer. Certa economia dos prazeres, certa sabedoria,
certo refinamento, até certa moderação ou temperança, eram exigências da própria vida de prazer.
• Na Idade Cristã a teologia passou a ser a instância julgadora do comportamento. A ética que emergiu da natureza humana, em
última análise, deveria submeter-se aos ditames da teologia, como ciência das ciências. A natureza humana passou a ser enfim
criatura de Deus que deve submeter-se à sua vontade e julgamento. Os ideais éticos se identificavam com os religiosos. O homem
viveria para conhecer, amar e servir a Deus diretamente e em seus irmãos. O lema socrático “Conhece-te a ti mesmo” voltou à tona,
em Santo Agostinho, que ensinava que “Deus nos é mais íntimo que o nosso próprio íntimo”. O ideal ético era o de uma vida
espiritual, isto é, de acordo com o espírito, vida de amor e fraternidade.
• Na Idade Moderna assistimos ao movimento de autonomia da ciência e da filosofia face à teologia. A ciência diversificou seus
ramos. Cada uma instaurou seus postulados e tirou suas conclusões autonomamente. A psicologia fez seu progresso
independentemente da filosofia e da teologia. O mesmo se pode dizer da sociologia e da política. Todas essas ciências aceitavam,
no máximo, um diálogo respeitoso com as demais. O intercâmbio de investigações e conclusões enriqueceu cada ciência.
A ética, como estudo dos comportamentos humanos, entrou em estado de provisoriedade e flutuação desde Descartes. Ele foi o
primeiro a colocar entre parênteses as conclusões da ética baseada na metafísica e na teologia. Criou para si uma ética
“provisória” enunciada no “discurso do método”. O ideal ético seria viver de acordo com a própria liberdade pessoal, e em termos
sociais, o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade, fraternidade. O grande pensador da burguesia e do iluminismo,
Kant, identificou bastante o ideal ético como o ideal da autonomia individual. O homem racional, autônomo, autodeterminado,
aquele que age segundo a razão e a liberdade... eis o critério de moralidade. Para Hegel, o ideal ético estava numa vida livre dentro
de um Estado livre, um Estado de direito, que preservasse os direitos dos homens e cobrasse deles seus deveres, onde a
consciência moral e as leis do direito não estivessem nem separadas e nem em contradição.
• A Idade Contemporânea tem enorme dificuldade na elaboração de um quadro ético coerente. Por um lado, os avanços da
psicologia abalaram o sistema de comportamentos fundados na tradição metafísica e teológica; por outro, a ciência e a técnica
criam literalmente novos modos de comportamentos, quase padronizados mundialmente. As tradições culturais desenvolvidas
durante séculos perdem a força diante da invasão de comportamentos vinculados pela televisão e outros meios de comunicação.
Igualmente os sistemas políticos vigentes pressionam sobre o comportamento humano. Os sistemas econômicos fundados no lucro
e na oferta e procura alteraram as preocupações básicas do homem. Nossa sociedade contemporânea ocupa-se sobretudo de
assuntos imediatos, cumpre tarefas ligadas a resultados imediatos. Tudo isto afasta o homem da consideração das grandes
perguntas pelo sentido da existência. A luta pela sobrevivência cotidiana não permite a meditação de assuntos mais profundos. Os
pensadores da existência, em suas posições muito diversas, insistiram todos sobre a liberdade como um ideal ético, em termos
que privilegiam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resolução, cuidados etc. Já o pensamento social
e dialético buscou como ideal ético, à medida que aqui ainda se usa esta expressão, a ideia de uma vida social mais justa, com a
superação das injustiças econômicas mais gritantes. A ética se volta sobre as relações sociais, em primeiro lugar, esquece o Céu e
se preocupa com a Terra, procurando, de alguma maneira, apressar a construção de um mundo mais humano, onde se acentua
tradicionalmente o aspecto de uma justiça econômica, embora esta não seja a única característica deste paraíso buscado. A ética
contemporânea aprendeu a preocupar-se, ao contrário das tendências privativas da moral, com o julgamento do sistema econômico
como um todo. O bem e o mal não existem apenas nas consciências individuais, mas também nas próprias estruturas
institucionalizadas de um determinado sistema.

Conceituações de moral e ética


O termo moral deriva do latim mós ou mores, significando costumes, conduta de vida. Refere-se às regras de conduta humana no
cotidiano. O termo ética se equivale etimologicamente a moral, pois provém do grego ethos, que também significa caráter, modo
de ser, costumes, conduta de vida. Portanto, hoje, muitos autores usam a palavra ética para designar também moral... eu, inclusive.
Porém, “outros autores alegam que a vida cotidiana confere às palavras uma história específica que agrega a cada uma um sentido
próprio: no Ocidente, onde prevaleceu o latim, difundiu-se a palavra moral, e com a primazia cultural do cristianismo, a palavra
ganhou uma conotação religiosa. Da mesma maneira, a descoberta dos filósofos gregos colocou em realce a palavra ética, com a
conotação não religiosa, isto é, de moral natural ou secular. Como a moral dominante no Ocidente tem sido apresentada como um
sistema de princípios imutáveis e aparentemente definidos, a palavra tomou com frequência um sentido conservador e fechado”
(Durand, 1995:12–14). Assim, nos documentos da Igreja Católica, moral ou ética significa princípios definidos e imutáveis.

Para Leonardo Boff, “a palavra ética que vem do grego ethos, designa a morada humana. A ética, como morada humana, não é
algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si. Ética significa,
portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável. Na ética, há o permanente e o
mutável. O permanente é a necessidade do ser humano de ter uma moradia; o mutável é o estilo com que cada grupo constrói sua
moradia. Quando o permanente e o mutável se casam surge uma ética verdadeiramente humana” (Boff, 1997:90).
Como articular ética e moral? Ética deve ser entendida como reflexão, sistematização da moral: princípios fundamentais de conduta
moral. Moral é vida, vivência dos valores éticos, vida do dia-a-dia. A moral representa um conjunto de atos repetidos, tradicionais,
consagrados. A moral determina um repertório de comportamentos, costumes, para preservar um sistema, uma organização. A
ética corporifica um conjunto de atitudes que vão além desses atos. A ética lida com comportamentos e atitudes que visam o bem
comum: convívio, acolhida do diferente, cuidado. O ato é sempre concreto e fechado em si. A atitude é sempre aberta à vida com
suas incontáveis possibilidades. Cabe à ética garantir a moradia humana, sob diferentes estilos, para que seja efetivamente
habitável. Assim, “ética é um dos mecanismos de regulação das relações sociais das pessoas, que visa garantir a coesão social e
harmonizar interesses individuais e coletivos” (Fortes, 1998:25).

Qual é a ética da bioética?


Ética é a ciência dos costumes. Costumes são os hábitos de uma pessoa, de um povo, de uma comunidade. Os costumes, de fato,
são os comportamentos médios aceitos por uma comunidade. O afastamento dessa média gera surpresas, críticas e repreensões.
Os inovadores são considerados ousados e escandalosos; os que pretendem manter sem alterações a tradição de costumes são
considerados conservadores. O comportamento médio da comunidade conta sempre com essas duas tendências. O movimento
ético precisa prestar atenção a ambas.
Face à evolução do sentido do homem e do seu quadro de referência, podemos dizer que a ética e a moral estão em transição:
A ética é uma análise do comportamento humano (conjunto de relações).
A moral é a avaliação do comportamento humano à luz da teologia, da Bíblia, como critério do juízo de Deus ou à luz de uma
ideologia.
Objetivos da ética:
Procurar analisar, interpretar e organizar o comportamento humano segundo a dignidade do ser humano, a ser sempre
esclarecida.
Visar sempre a felicidade social, cultural, política e religiosa.
A reflexão ética acompanhou com dificuldade as transformações das estruturas organizacionais do mundo e das consequentes
formas ou estilo de vida da humanidade. Duas alterações maiores são apontadas no campo da ética: a passagem da microética
para a macroética; e o debate público dos assuntos éticos.
a) No que se refere à primeira alteração, é sabido que a ética – grega, medieval e moderna –, até meados do século XX, ocupou-
se, com ênfase prioritária e às vezes exclusiva, com a ação individual (microética). Hoje, vivemos a experiência da prioridade do
sujeito-social devido às transformações operadas na sociedade. Isto abre espaço à macroética, à ética das ações feitas com a
participação de muitos atores (grupo, associação, comunidade, partido político...).
b) A segunda alteração refere-se aos interlocutores do debate ético. O assunto, outrora reservado aos estudiosos de filosofia e aos
mestres religiosos, passou a ser discutido pelos cidadãos comuns, nas concentrações de grupos, nas revistas de massa e nos
canais de comunicação. Os cidadãos debatem sobre a eticidade dos modos de limitação da natalidade, eutanásia, pena de morte,
homossexualismo, código genético. Ademais, os cidadãos são convocados a intervir nas discussões sobre a ética na política, na
economia, na administração pública, na ecologia, na ciência e na tecnologia. Portanto, a micro e a macroética, longe de serem uma
área restrita a especialistas, ganham, pelo contrário, uma característica nitidamente pública e política.
Frente a estas alterações, qual é a nossa chave de leitura?
a) A ética aplicada, que ela se propõe a responder de modo rápido, urgente e eficaz aos problemas éticos da pós-modernidade.
Sua base de reflexão são os dados tecno-científicos, os resultados que eles garantem produzir e a livre escolha dos interlocutores
do debate. É uma ética individualista (microética).
b) A ética fenomenológica, que investiga a temporalidade e a historicidade da existência humana como ser-no-mundo, histórico,
munido de poucas certezas, trabalhado por muitas dúvidas e sujeito às vicissitudes do viver-com-os-outros na comunidade política.
A microética ou do sujeito individual cede a prioridade à macroética ou do sujeito pessoal que preside as relações interpessoais na
comunidade humana. Esta ética temporal, pessoal e interpessoal ainda não envolve com a necessária profundidade a ordem
política e as macroestruturas econômicas, tecno-científicas e organizacionais criadas pelo mundo contemporâneo.
c) A ética da Justiça, a ética política de John Rawls, que tenta dar uma solução a um conflito básico de ordem social: a disputa dos
bens primários produzidos por uma comunidade política. Como os bens são quantitativamente limitados, e o apetite de cada
cidadão é sem medida, torna-se necessário a intervenção de um princípio que ordene a distribuição no seio da comunidade
política: um novo contrato social baseado na garantia dos direitos de participação política, de opinião, de reunião, de consciência,
de religião etc. (fundamento do Estado de direito e da democracia constitucional) e baseado também no princípio da diferença que
uma vez aceito se deduz que o mínimo social vital deve ser fixado em um nível que maximize as expectativas do grupo menos
favorecido.
d) A ética comunitária, na qual o “Ethos” se refere à organização da casa, de um povo ou de toda a sociedade. Assim, ético é o
comportamento que tem por princípio a realização de todos; não haverá comportamento ético no indivíduo sem uma dimensão
política (política entendida como arte de cuidar do bem-estar b) da cidade). A relação com o outro necessita da mediação de canais
de informação e participação nas decisões, de instituições e estruturas adequadas, que reduzam as desigualdades sociais. A
consciência fundamental discerne os princípios éticos e, particularmente, aquele imperativo que existe em toda pessoa: “Faça o
bem”.
Assim, a origem da transição não vem de uma abstração, mas de um processo de transformação da realidade: a natureza, a
sociedade política, cultural e religiosa, que gera uma nova compreensão – ou uma nova leitura – desta realidade. O que está em
transição é a organização mundial: o nosso quadro de referência filosófico, científico e religioso mudou. No início do século XX
tínhamos uma compreensão estática do nosso mundo: aceitação da ordem natural das coisas, religião dogmática, moral na base
de postulados, filosofia perene.
Passamos da ordem individual, felicidade do indivíduo (durante dois mil anos), para a ordem pessoal, graças às ciências humanas
(psicanálise, psicologia, sociologia): abertura para o outro (durante a primeira metade do século XX) e, hoje, estamos passando
pela ordem social com a construção de uma ética comunitária.

Histórico da bioética
Foi a verdadeira revolução biológica, desencadeada pela descoberta do Ácido Desoxirribonucleico – DNA (fonte da vida) por Crick
e Watson, em 1953, nos Estados Unidos, que criou as condições para o vertiginoso movimento de inovação tecnológica que se lhe
seguiu e que foi coroado por grandes sucessos em áreas diversas como: transplantes, reprodução, genética, ressuscitação, entre
outras. Há também outros elementos que fazem parte da história:

Acontecimento em torno da diálise em Seattle (1960)


Frente à escassez de máquinas para a diálise, quais os critérios e quem iria selecionar os candidatos? Um grupo de médicos
entregou a um comitê leigo decisões prospectivas de vida ou morte e na base de caso-por-caso. Uma prerrogativa que até então
tinha sido exclusivamente reservada ao médico foi delegada a representantes da comunidade.
Experimentação em seres humanos: três casos notáveis
a) Hospital Israelita de doenças crônicas (Nova York – 1963) Pesquisadores queriam obter maiores informações sobre
o processo de rejeição de transplantes em seres humanos. Um grupo de 22 idosos doentes recebeu injeções de células
cancerígenas, mas a diminuição na capacidade de rejeição às células cancerosas estava ligada à debilidade.

b) Estudo no hospital estatal de Willowbrook (Nova York) Instituição para deficientes mentais. Os participantes da
pesquisa eram crianças que foram deliberadamente infectadas com o vírus da hepatite A (1950–1970), com a finalidade
de encontrar uma vacina. Para observar a história natural da doença, investigadores infectavam deliberadamente parte
das crianças recém-ingressadas que eram encaminhadas para uma “unidade de hepatite”. Quando questionados, os
investigadores justificaram-se alegando que as crianças iriam se infectar de qualquer forma durante sua estadia na
instituição, assim não estavam causando prejuízos maiores do que a que estavam expostas.

c) Estudo da sífilis em Tukesgee (Alabama)


Foram deixados sem tratamento 400 negros sifilíticos para pesquisar a história natural da doença. A pesquisa continuou
até 1972, apesar do descobrimento da penicilina em 1945.

Transplantes:
Em 1967 aconteceu um transplante de coração realizado pelo Dr. Christian Barnard. Frente a perguntas como: “o doador do órgão
estava verdadeiramente morto?” “O coração foi retirado com respeito aos desejos da pessoa ainda em vida?” ...criou-se o Comitê
da Escola Médica de Harvard para elaborar uma definição de morte cerebral com a participação de teólogos e filósofos.

Envolvimento de teólogos:
Enquanto os teólogos católicos discutiam questões como eutanásia e aborto, dois teólogos protestantes, Joseph Fletcher (1954) e
Paulo Ramsey (1970), enfatizavam a liberdade do paciente bem como as dimensões morais do relacionamento médico-paciente.

Nova definição da morte (1968):


A definição da morte pelo critério cerebral era nova e muito controvertida, mas ganhou rápida aprovação pública devido a sua
utilidade: promessa de mais órgãos para transplantes que salvariam vidas. Os casos de Karen Ann Quilan (1975), jovem norte-
americana que ingressou na UTI em estado de coma “depassé”, devido à ingestão de drogas e álcool, e travou batalha judicial para
desligar os aparelhos; e de “Baby Doe”, recém-nascido, mantido vivo por máquina, obrigam a uma reflexão sobre o difícil conceito
de “qualidade de vida”.
Simultaneamente, em relação à situação sociopolítica, revigora-se o poderoso movimento dos direitos humanos, sobretudo durante
os anos de 1960 e 1970, com a contestação da guerra do Vietnã e o consequente desafio da autoridade, também com a luta pela
igualdade de direitos entre brancos e negros, entre homens e mulheres. Na confluência destes fatores, encontramos a crise da
noção de progresso como essencialmente positiva e a intensificação do questionar a ciência. É o despertar de uma nova
consciência do ser, de um apurado sentido do humano, que se interroga pelo que devo fazer face ao que posso fazer. É neste
ambiente marcado por grandes evoluções e sentimentos contraditórios que a bioética emerge como novo domínio da reflexão e da
prática, que torna como seu objeto específico as questões humanas na sua dimensão ética.

Origem da bioética
Bioética – ética da vida – é um neologismo, primeiramente forjado por Van Rensselaer Potter, biólogo e oncologista da
Universidade de Wisconsin, Madison, na obra Bioethics (Potter:1971), publicada em janeiro de 1971. O objetivo desta disciplina,
dizia ele, seria de ajudar a humanidade em direção a uma participação racional, mas cautelosa, no processo da evolução biológica
e cultural, como uma nova disciplina que combina conhecimento biológico com o conhecimento dos sistemas de valores humanos.
Potter escolheu “bio” para representar o conhecimento biológico, a ciência dos sistemas viventes, e “ética” para representar o
conhecimento dos sistemas de valores humanos. Para Potter, o objetivo último desta disciplina seria não somente enriquecer as
vidas individuais, mas prolongar a sobrevivência da espécie humana numa forma aceitável de sociedade.
Seis meses mais tarde, em 1º de julho do mesmo ano, André Hellegers, obstetra, fisiologista fetal e demógrafo, introduziu o mesmo
termo num sentido mais restrito, aplicando-o à ética médica e pesquisa biomédica. É este significado que acabou se consagrando
nos meios acadêmicos e na opinião pública.
Importa, desde já, destacar que o efetivo ponto de partida da bioética é a consideração da pessoa humana e das condições éticas
para uma vida humana. A perspectiva originária da bioética é fundamentalmente humanista.

Definições de bioética
Enfocando essa perspectiva, nos deparamos com várias conceituações da bioética.

“Bioética é um neologismo derivado das palavras gregas bios (vida) e ethike (ética); pode-se defini-la como sendo o estudo
sistemático das dimensões morais – incluindo visão, decisão, conduta e normas morais – das ciências da vida e do cuidado da
saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas num contexto interdisciplinar” (Reich, 1995: Int.).
Outra definição que complementa a conceituação de Reich, “bioética significa ética aplicada à vida (solucionadora de problemas) e
se apresenta como a procura de um comportamento responsável por parte daquelas pessoas que devem decidir tipos de
tratamentos, pesquisas ou posturas com relação à humanidade” (Garrafa, 1995:166).
As dimensões éticas examinadas na bioética estão constantemente evoluindo, mas tendem a enfocar várias questões maiores:
Qual é a visão moral da pessoa ou da sociedade? Que tipo de pessoa humana devemos ser, ou que tipo de sociedade devemos
construir? O que deve ser feito em situações específicas? Como viver harmoniosamente? Neste sentido, completaria a
conceituação de bioética com outro enfoque: “a bioética, inicialmente um movimento social que lutava pela ética nas ciências
biológicas e áreas correlatas, hoje é também uma disciplina norteadora de teorias para o biodireito e para a legislação, com a
finalidade de assegurar mais humanismo nas ações do cotidiano das práticas médicas e nas experimentações científicas que
utilizam seres humanos. Essa dupla face, disciplina e movimento social, movimento bioético —, confere à bioética a peculiaridade
de ser ao mesmo tempo reflexão sobre as implicações sociais, econômicas, políticas e éticas dos novos saberes biológicos e ação
que objetiva estabelecer um novo contrato social entre a sociedade, cientistas, profissionais da saúde e governo, sobre as questões
do presente e as perspectivas de futuro” (Oliveira, 1997:47–48).

Fundamentação filosófica e paradigmas da bioética


“Não se pode fazer bioética seriamente se não se apoiar sobre um fundamento antropológico, antropologia no sentido filosófico,
isto é, no sentido de um conhecimento da pessoa como sujeito na sua globalidade, filosofia humanista atenta em compreender a
pessoa em todas as suas dimensões e, por isso, um humanismo o mais global possível” (Malherbe, 1990:90).
São várias as vertentes de análise teórica, de enfoque filosófico e de orientação prática para a compreensão e tomada de decisão
na bioética: são os chamados paradigmas.
Paradigma principialista: sistematizado por Beauchamp e Childress enfatiza os princípios da tradição da ética médica:
autonomia, que diz respeito à capacidade que tem a racionalidade humana de fazer leis para si mesma, significa a capacidade de
a pessoa governar-se a si mesma, ou a capacidade de se autogovernar, escolher, dividir, avaliar, sem restrições internas ou
externas; beneficência: fazer o bem, cuidar da saúde, favorecer a qualidade de vida; não-maleficência: não fazer o mal; e justiça:
princípio que obriga a garantir a distribuição justa, equitativa e universal dos benefícios dos serviços de saúde.
Paradigma liberal: decorrente das ideias emitidas por Engelhard – baseia-se na tradição filosófica do liberalismo norte-
americano: radicalização do valor central da autonomia e do indivíduo, e defesa dos direitos e da propriedade dos indivíduos: corpo
como propriedade do próprio paciente, com direito a vender seu sangue ou seus órgãos.
Paradigma casuístico: elaborado por Jonsen e Toulmin não se orienta por princípio algum, e sim pela análise de caso, buscando
soluções tanto na singularidade de um caso como na comparação entre eles.
Paradigma do cuidado: apresentado por Gilligan – o cuidado é a força motriz da sociedade, da sobrevivência, evidenciado no
papel que tradicionalmente coube às mulheres, o de nutridora, no sentido de cuidar, nutrir. Contrapõe o valor do cuidado,
característica mais feminina, ao de justiça, característica mais masculina. Parte mais da psicologia evolutiva, sendo mais de
natureza psicológica do que filosófica. Superação de uma perspectiva exclusivamente técnica da medicina.
Paradigma contratualista: sistematizado por Veatch – explicita as deficiências e limites da ética hipocrática, propõe um contrato
tripartite entre médico-paciente, entre médicos e a sociedade, com o objetivo de se chegar a um contrato amplo que de fato defina
os princípios norteadores da relação médico-paciente. Para regular essas relações, alguns princípios são fundamentais:
beneficência, proibição de matar, dizer a verdade e cumprir as promessas.
Paradigma da ética das virtudes: descrito por Pellegrino e Thomasma – focaliza o valor e a necessidade da virtude para o
estabelecimento de relações éticas, a virtude sendo uma característica inata no ser humano que precisa apenas ser despertada;
assim, manter-se virtuoso é uma resultante do hábito de praticar boas ações e de exercitar a virtude. Enfatiza a ação pela formação
dos profissionais da saúde e na prática clínica que conduziria naturalmente à prática do bem.
Paradigma narrativo: propõe que, na análise de casos e na tomada de decisão ética, trabalhe-se com a metodologia da narração
da história de vida das pessoas; as pessoas adquirem identidade e intimidade ao contar e seguir histórias; é uma variação do
modelo casuístico com a diferença de que valoriza os recortes de classe, sexo/gênero e raça/etnia, entremeados à situação em que
a pessoa se encontra.
Paradigma do direito natural: apresentado por Finnis elenca alguns bens essenciais em si mesmos: o conhecimento, a vida, a
vida estática, a vida lúdica, a racionalidade prática, a religiosidade e a amizade e, para ele, só é considerada moral a ação que
reverencia e pode desenvolver tais valores.
Paradigma antropológico ou perspectiva personalista humanizante: afirma que a bioética carece de fundamentação
antropológica; é baseado em uma filosofia humanista e globalizante que tem como referência o conceito de pessoa na totalidade de
suas expressões e na infinitude de sua realização como pessoa. A fundamentação teleológica considera a pessoa humana na sua
dignidade universal e como valor supremo do agir.
Paradigma da responsabilidade: formulado por Hans Jonas – para quem as questões referentes à ecologia e ao desenvolvimento
da genética e da tecnologia devem ser analisadas em uma perspectiva filosófica que considera a natureza um bem comum da
humanidade.
Paradigma fenomenológico e hermenêutico: toda experiência está sujeita à interpretação, existem sempre duas dimensões em
cada situação: uma subjetiva e outra objetiva. A experiência humana não pode ser facilmente capturada e dirigida para uma escolha
moral informada por meio da simples imposição de regras e princípios abstratos.
Frente aos paradigmas, descobrimos a ambiguidade ética: as dimensões morais da experiência humana não podem ser
capturadas por uma única perspectiva. A grandeza e a profundidade da experiência humana sempre estarão além de qualquer
sistema filosófico ou teológico.

Algumas características da bioética


• Ela nasce num contexto científico (Primeiro Mundo - USA), como uma necessidade de proteger a vida humana diante de todas as
inovações tecno-científicas na área das ciências da vida.
• Surge como um esforço interdisciplinar da parte de muitos profissionais da saúde. É uma busca participativa a partir dos diversos
campos do saber biomédico e profissionais em geral, com a participação de sociólogos, eticistas, biólogos, enfermeiros,
psicólogos, juristas, teólogos etc., que unem seus esforços na investigação de valores humanos que inspirem seu trabalho.
• Não se trata de uma ciência construída com fórmulas éticas pré-fabricadas. Como muitos dos problemas bioéticos são novos, não
é raro que brote a necessidade de buscar novos valores que direcionem os trabalhos de investigação científica. Parte-se dos
princípios e valores tradicionais e, a partir deles, procura-se encontrar soluções novas para os problemas emergentes que trazem a
biologia, a genética, a engenharia genética e outras ciências.
• Apoia-se mais na razão e bom juízo moral de seus investigadores que numa determinada corrente filosófica ou religiosa.
• Procura de maneira especial humanizar o ambiente das clínicas e hospitais em particular, bem como promover os direitos do
paciente.
• Trata de integrar a ética com as ciências biomédicas.
• A problemática bioética é particularmente intensa no seio das sociedades pluralistas, em que coexistem concepções de vida
diversas e diferentes valores éticos. Ressalta-se aí a importância do clima de diálogo e respeito mútuo.

Conteúdo e desafios da bioética


Resumindo: Bioética, ética da vida, é um espaço de diálogo transprofissional, transdisciplinar e transcultural na área da saúde e da
vida, um grito pelo resgate da dignidade da pessoa humana, dando ênfase na qualidade de vida: proteção à vida humana e seu
ambiente. Não é ética “pré-fabricada” mas um processo.
Somos humanos chamados a altos vãos. A bioética foi proposta com esta preocupação: questionar o progresso e para onde o
avanço materialista da ciência e tecnologia estava levando a cultura ocidental; que tipo de futuro estamos construindo e se temos
algumas opções.
Desde o início, Potter usa a palavra “ponte” – bioética ponte – ponte entre ciência biológica e ética, mas como um meio para um
fim, ponte para o futuro – disciplina que guiaria a humanidade como uma ponte para o futuro.
Assim, o objetivo da bioética é ajudar a humanidade em direção a uma participação racional, mas cautelosa, no processo da
evolução biológica e cultural.
A ética que está proposta na bioética é global, prospectiva, abrangente e contextualizada:
combina humildade (posso estar errado), responsabilidade e uma competência interdisciplinar, intercultural que potencializa o
senso de humanidade;
busca resgatar a dignidade e a cidadania de cada pessoa;
entende a autonomia de cada ser humano, mas também entende que as vidas individuais estão interligadas e inseridas em
um contexto social de relacionamentos. Como consequência, tem-se a obrigação de agir de forma responsável para consigo
próprio e para com os outros seres humanos, buscando manter esta conexão de interdependência, de modo que ninguém
seja excluído ou deixado sozinho.
Isto exige:
um esforço enorme do diálogo inclusivo, pois estamos em uma época marcada pela superespecialização e, muitas vezes, por
um individualismo exacerbado, conquista da Modernidade;
um pluralismo religioso, político e moral, um ideal de sociabilidade, um progressivo descobrimento e afirmação dos direitos
humanos;
lidar com o pluralismo, apontar para um novo tipo de comunidade; o consenso social não exclui a diferença e nem mesmo o
conflito, ao contrário, clama por uma nova consciência de solidariedade e de tolerância.
A bioética é mais que debater, é fazer coisas junto uns com os outros porque é tendo a responsabilidade de agir, de justificar as
escolhas feitas ou não, de dar razões da ação e de arcar com as consequências, que se aprende a viver junto, que se constrói
comunidade, que se pratica solidariedade, que se exercita tolerância.
A tarefa cotidiana do cultivo da tolerância inclui uma atitude proativa de procura do ponto ideal de encontro com o outro nos
momentos de discordância e enfrentamento. A tolerância é uma conquista no caminho em direção à solidariedade, este laço
recíproco que une pessoas como corresponsáveis pelo bem umas das outras.
Importantes questões éticas ligadas à engenharia genética, ao debate do aborto e eutanásia, envolvem nossa compreensão de
natureza e pessoa. Temos três modelos;
• A natureza dotada de poder e elasticidade – a natureza é vista como essencialmente alheia e independente da pessoa, não
possui um valor inerente e é dominada por forças e causas impessoais. É “plástico” no sentido de que a pessoa pode usar, dominar
e dar-lhe uma variedade de arranjos possíveis. Esse modelo sugere que a pessoa tem o direito ilimitado de dominar, manipular e
controlar a natureza. A implicação óbvia: a pessoa deve buscar alcançar tudo quanto pode porque conhecimento é poder.
• A natureza como algo sagrado – este modelo vê a natureza como uma realidade a ser reverenciada e respeitada. Na sua forma
religiosa ocidental, a natureza é vista como uma parte da criação de Deus e aceita como sagrada pela sua origem. O
relacionamento que emerge dessa descrição é de administração.
• A natureza como portadora de uma teleologia em si – esta é a visão secular da versão anterior. Ela vê um sentido e lógica na
natureza em si, sem uma mão invisível por três que está guiando. Nesta perspectiva é possível estudar a natureza e descobrir seu
sentido e o significado da vida humana. Este modelo também sugere que, embora não sejamos escravos da natureza num sentido
rígido, somos, pelo menos, capazes de contemplar limitações em intervenções violentas na natureza.
Numa primeira abordagem, temos três grandes áreas de problemas sobre os quais a bioética trabalha. Questões que se referem
ao início e ao fim da vida humana e as que se situam numa área intermediária.
Entre as questões que dizem respeito ao início da vida, temos: contracepção, esterilização, exame pré-natal, aborto, concepção
medicamente assistida (inseminação artificial, fecundação “in vitro”), doação de sêmen, óvulo, embrião, mãe de aluguel etc.
Entre as questões relacionadas com o fim da vida, temos: a morte e o morrer, paciente terminal, eutanásia, suicídio, transplantes
etc.
Enfim, as questões que se situam numa área intermediária (vida):
compreende os problemas relacionados com valores que surgem em todas as profissões de saúde, inclusive nas profissões
“afins” e nas vinculadas à saúde mental;
aplica-se às investigações biomédicas e às do comportamento independentemente de influírem ou não de forma direta na
terapêutica;
aborda uma ampla gama de questões sociais, as quais se relacionam com a saúde ocupacional, nacional e internacional e
com a ética do controle da natalidade, entre outras;
vai além da vida e saúde humanas, enquanto compreende questões relativas à vida dos animais e das plantas, por exemplo,
no que concerne às experimentações com animais e demandas ambientais conflitivas;
aborda a questão da justiça no acesso aos cuidados de saúde em geral, incluindo a política de saúde;
trata dos códigos de ética das diversas profissões, experimentação em seres humanos, direito à saúde, pena de morte,
fome...

Comissões de bioética – controle social


Controle social é aqui entendido como o controle sobre o Estado pelo conjunto da sociedade organizada em todos os segmentos
sociais. Evidentemente, esse controle deve visar o benefício do conjunto da sociedade e deve ser permanente. Por isso, quanto
mais os segmentos da sociedade se mobilizarem e se organizarem, maior será a pressão e o resultado para que seja efetivado o
Estado Democrático.
O cidadão deve ser um agente de transformação na sociedade no resgate da dignidade da pessoa e da qualidade de vida. É tendo
a responsabilidade de agir, de dar razões da ação e de arcar com as consequências que se aprende a viver junto. Assim, gostaria
de refletir sobre a participação pública na tomada de decisões:

Exercício da cidadania: lembrando a distinção que o bioeticista italiano Giovani Berlinguer faz entre bioética de fronteira – sendo
aquela que trata das novas tecnologias biomédicas aplicadas sobretudo à fase nascente e à fase terminal da vida e bioética
cotidiana, sendo voltada para a exigência de humanizar a medicina, articulando fenômenos complexos, como a evolução científica
da medicina, a socialização da assistência sanitária, a crescente medicalização da vida, inclusive a alocação de recursos para a
saúde. A bioética cotidiana nos faz entrar no concreto do exercício da cidadania. A cidadania é compreendida como o exercício da
plenitude dos direitos, como garantia da existência física e cultural e reconhecimento como ator social. A realização pessoal e
comunitária de cada pessoa é sempre considerada um valor acima do Estado e do Mercado. A inversão desta lógica implica
encontrar um mercado ou um estado com caráter autoritário, coercitivo e absoluto. Assim, precisamos de instâncias representativas
que defendam direitos e deveres na tomada de decisões frente à alocação e gestão de recursos em saúde.
Conselhos (Municipal, Estadual e Nacional) de Saúde: É conquista das mobilizações sociais e democráticas dos anos 1980,
que se consolidaram na Constituição Federal de 1988 e nas Leis 8.080/90 e 8.142/90. Ao integrar os Conselhos de Saúde na
estrutura legal do Poder Executivo, esta conquista acrescenta uma trincheira decisiva para o controle social, que é um enclave do
controle social dentro do Estado: os Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional de Saúde. Estes órgãos do Poder Executivo
possuem uma composição e papel de características inusitadas e diferenciadas: sua composição é tão heterogênea e plural quanto
a própria sociedade – é constituída por conselheiros: metade é das entidades representantes dos usuários, e na outra metade, além
do governo, entidades representantes dos prestadores de serviços e dos profissionais da saúde. O grande objetivo: assegurar a
construção de um modelo assistencial baseado nos direitos de cidadania de toda a população, intersetorial, em defesa da vida e
da saúde, e com acesso universal e equitativo a todos os níveis da atenção integral à saúde, da coletividade, dos grupos
populacionais expostos a riscos específicos e de cada indivíduo. Tudo isso efetivado por um modelo de gestão descentralizado e
participativo. Sem a clareza do que significa este objetivo e o consequente compromisso, o controle social através dos Conselhos
de Saúde fica exposto a pressões estreitas de tendências e grupos, da sociedade e do Governo, desviando-se da totalidade da
sociedade e da cidadania.
Comissões de bioética: As comissões de bioética, no nosso caso, são formadas por diversos profissionais ligados à
comunidade. Basicamente são enfatizadas três funções: educativa, consultiva e normativa. Trata-se da educação nos grandes
temas da bioética, da análise e discussão de casos e problemas éticos, e da elaboração de normas éticas, bem como da
implementação das já existentes. Os componentes dessas comissões poderiam ser profissionais da saúde, representantes dos
vários segmentos da sociedade e gestores (municipais, estaduais e nacionais) escolhidos a partir dos conselhos de saúde para
firmar o compromisso desses com as decisões tomadas para promover e garantir a saúde da população, como por exemplo o
funcionamento a contento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Comissões de Bioética nas Instituições de Saúde: as comissões de bioética são formadas por diversos profissionais ligados
ao hospital ou à comunidade, tais como o diretor administrativo, o diretor clínico, a diretora de enfermagem, um representante da
psicologia, do serviço social, da nutrição, um jurista, um representante de culto. Basicamente, são enfatizadas as três funções:
educativa, consultiva e normativa. Trata-se da educação do hospital e da comunidade nos grandes temas da bioética, da análise e
discussão dos casos clínicos para esclarecer seus problemas éticos, e da elaboração de normas éticas, bem como da
implementação das já existentes.
Função educativa: os componentes da comissão devem passar por uma etapa de autoformação prévia. A tarefa educativa no
hospital consta de conferências, jornadas, cursos, seminários etc. Por último, a comissão de bioética projeta-se na comunidade
atingindo os pacientes, familiares, centros comunitários, para estudar e refletir sobre os temas mais importantes da bioética. Entre
as questões que dizem respeito ao início da vida, temos: contracepção, esterilização, exame pré-natal, aborto, concepção
medicamente assistida (inseminação artificial, fecundação “in vitro“), doação de sêmen, óvulo, embrião, mãe de aluguel...
Entre as questões relacionadas com o fim da vida, temos: a morte e o morrer, paciente terminal, eutanásia, distanásia, suicídio,
transplantes... Enfim, as questões que se situam numa área intermediária: códigos de ética das diversas profissões,
experimentação em seres humanos, direito à saúde, pena de morte, fome...
Função consultiva: a comissão começa com uma revisão retrospectiva dos casos já resolvidos para adquirir habilidade em
identificar os problemas, cursos de ação e justificação ética das alternativas. Logo decide que casos receberá para consulta: todos
os serviços, ou da terapia intensiva ou serviço de pesquisa... Nos distintos casos, a comissão deve estabelecer se suas conclusões
serão em forma de exposição de vantagens e desvantagens das alternativas, sugestões de ação ou recomendações.
Função normativa: a comissão, em primeiro lugar, deve fazer com que sejam respeitadas no hospital as normas éticas de
aceitação mundial no campo da saúde: Declaração da Associação Médica Mundial, Declaração Universal dos Direitos Humanos e
outros documentos de grande relevância. Em seguida, se dedicará à elaboração de normas éticas de procedimento. A Comissão
define o tema que será objeto de normatização ética, recompila informações já existentes, consulta os profissionais do hospital ou
da instituição de saúde sobre a factibilidade das normas, avalia a linguagem dessas normas e revisa legalmente o texto para
aprovação.
Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP)3: em toda instituição de saúde, bem como universidades e faculdades que
realizam pesquisas com seres humanos e animais, é preciso ter um Comitê de Ética em Pesquisa, segundo definição da
Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde.
O comitê de ética em pesquisa tem por finalidade analisar a cientificidade e eticidade da pesquisa, defender os interesses do
sujeito da pesquisa e os interesses do pesquisador. A ênfase é dada ao consentimento livre e informado, à análise dos riscos
versus benefícios e à não-maleficência da pesquisa.
Comissão Nacional de Bioética (A ser criada): ligada à Presidência da República, constituída de membros das comissões de
bioética, representativos de todos os segmentos da sociedade, capazes de discutir os assuntos bioéticos.

Abrangência temática da bioética


A bioética tem a ver com o viver do dia-a-dia. De uma maneira esquematizada e simples, apresentaremos agora a abrangência
temática da bioética perpassando o nascer, o viver e o morrer.

a) Nascer
1) Vida humana
Conceito de natureza e pessoa
Quando começa? (teorias)
Sacralidade x Qualidade
Sacralidade: vitalismo, vida biológica como absoluto.
Qualidade: alguém escolhe qualidade antes que quantidade.
A vida biológica é fundamental, mas não é um absoluto. Absoluto é o amor.
Qualidade e sacralidade da vida não são opostas; elas tornam-se tais em argumentações simplistas. O crucial é que as decisões
sejam ponderadas nos princípios de justiça e razão.
Natureza: Sim. Ser Humano: Não – Como não ter os filhos que não se quer?
Sexualidade x Reprodução (separação)
Contracepção – métodos contraceptivos: camisinha, pílula, esterilização: vasectomia, ligadura das trompas
Exames pré-natais (ultrassom, amniocentese, amostra do vílio corial)
Abortamento
Natureza: Não. Ser Humano: Sim — Como ter os filhos que a natureza recusa?
Concepção medicamente assistida
Inseminação artificial
Doação de sêmen, óvulo, ovo ou embrião
Bancos de esperma (paternidade pós-morte)
Úteros (mães, barrigas) de aluguel
Embrião – direitos

Genética e Engenharia Genética


Três megaprojetos do século XX:
Manhattan – Energia Atômica (1945)
Apollo – Cosmos (Lua – 1969)
Genoma – Genes (anos 1990)
Internética – Informática (anos 2000)
O primeiro foi o Projeto Manhattan – descobriu e utilizou a energia nuclear que gera hoje energia elétrica; é utilizada na cura do
câncer, mas também produziu a bomba atômica que matou mais de 80 mil pessoas, destruindo Hiroshima e Nagasaki (1945) e pôs
fim à Segunda Guerra Mundial. Descobriu-se o coração da matéria, o átomo, e dele se extraiu energia. Projeto Apollo – levou o
homem até a lua (1969). O ser humano criou estações orbitais, enviou sondas exploratórias para outros planetas e se
instrumentalizou para navegar interplanetariamente. Descobrimo-nos como um grãozinho de areia na imensidão do universo.
Começou a se falar e a procurar vida em outros planetas. Projeto Genoma Humano – iniciado oficialmente em 1990, objetivou
mapear e sequenciar todos os genes humanos (de 30 a 50 mil segundo os geneticistas), onde estão guardados todos os segredos
biológicos e genéticos da vida. Este empreendimento levou o ser humano ao mais profundo de si mesmo em termos de
conhecimento de sua herança biológica, numa verdadeira caça aos genes. Ele tem suas raízes na chamada “descoberta do século”,
o DNA (ácido desoxirribonucleico) por Watson, Crik e Rosalin Franklin, em 1954. tem aí início a terceira revolução biológica e que
neste limiar de um novo tempo está sendo renomeada como sendo a era genômica. A internética nos faz tomar consciência de que
vivemos numa aldeia global em termos de comunicação: “o mundo online”.
Século XXI:
Clonagem: Realidade ou mito? Clones humanos? Clonagem reprodutiva x clonagem terapêutica.
Colonialismo genético (manipulações e experimentos no mundo pobre).
Cartografia genética (Identidade do ser humano).
Medicina preventiva: Uma doença pode ser definida de maneira biológica – DNA – Genoma humano.

b) Viver (desenvolvimento da vida)


Anseio de viver – viver bem – viver sumamente bem!
1) Saúde
Definição: realidade e perspectivas
Alocação de recursos (investimentos, recursos)
Organização Mundial da Saúde (OMS): um novo paradigma mundial para a saúde.
Ottawa (Canadá — 1986): A promoção da saúde é o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua
qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo. Alcançar a equidade consiste em eliminar
as diferenças desnecessárias, evitáveis e injustas que restringem as oportunidades para se atingir o direito ao bem-estar.
Adelaide (Austrália — 1988): Prioriza as políticas públicas saudáveis que se caracterizam pelo interesse e preocupação explícitos
de todas as áreas das políticas públicas em relação à saúde e à equidade, e pelos compromissos com o impacto de tais políticas
sobre a saúde da população. Quatro áreas prioritárias: apoio à saúde da mulher; alimentação e nutrição; tabaco e álcool; criação de
ambientes favoráveis. Reafirmação do apelo à construção de novas alianças na saúde (parcerias) que envolvam políticos, ONGs,
grupos de defesa da saúde, instituições educacionais, mídia etc.
Sundsval (Suécia — 1991): Ambientes e saúde são interdependentes e inseparáveis. Atingir essas metas deve ser o objetivo
central ao se estabelecer prioridades para o desenvolvimento e devem ter precedência no gerenciamento diário das políticas
governamentais.
Bogotá (Colômbia — 1992): A promoção da saúde na América Latina busca a criação de condições que garantam o bem-estar
geral como propósito fundamental do desenvolvimento, assumindo a relação de mútua determinação entre saúde e
desenvolvimento. O desafio da promoção da saúde no Continente consiste em transformar as relações excludentes, conciliando
interesses econômicos e propósitos sociais de bem-estar para todos. Ressalte-se o papel fundamental da educação, informação e
comunicação na promoção da saúde: importância da participação ativa das pessoas na modificação das condições sanitárias e na
maneira de viver, indutoras da constituição de uma cultura da saúde. A divulgação de informações e a promoção do conhecimento
constituem valiosos instrumentos para a participação e para a mudança nos estilos de vida das comunidades.
Jacarta (Indonésia — 1997): A declaração de Jacarta apresenta as prioridades da ação de promoção da saúde da OMS para o
século XXI: promover a responsabilidade social a respeito da saúde, incrementar os aportes de capital para o desenvolvimento das
condições sanitárias, reforçar e incrementar as alianças na área da saúde, incrementar as aptidões comunitárias e promover a
responsabilidade individual, implantar uma infraestrutura de promoção da saúde.
México (México — 2000): o processo da Conferência esteve orientado para abordar algumas linhas fundamentais que devem
confrontar-se para assegurar um progresso constante ao abordar a falta de equidade da saúde usando o conceito e as estratégias
da promoção da saúde.
2) Ecologia
ECO 92 (Rio) – Agenda 21
• Ética e tratamento de animais.
Ecologia humana.
3) Pesquisa envolvendo seres humanos
Código de Nuremberg (1947).
Declaração dos direitos do homem (1948).
Declaração de Helsinque (1964) e suas versões posteriores: 1975 – Tóquio; 1983 – Veneza; 1989 – Hong-Kong; 1996 –
Somerset Oeste, República da África do Sul; 2000 – Edimburgo, Escócia.
Proposta e diretrizes éticas internacionais para pesquisas biomédicas envolvendo seres humanos (CIOMS/OMS 1982/1993).
Diretrizes internacionais para revisão ética de estudos epidemiológicos (CIOMS, 1991).
Normas e legislação brasileira (Resolução 196/96 – MS/CNS): Comitê de Ética em Pesquisa – Cientificidade da Pesquisa e
Eticidade: defender os interesses do sujeito da pesquisa e assim defender os interesses do pesquisador. 1. Consentimento
livre e informado; 2. Riscos x benefícios; 3. Não-maleficência.
4) Políticas de População (demografia)
ONU – Conferências mundiais sobre população:
Bucareste (1974): A Conferência de Bucareste foi extremamente pessimista e falou-se em bomba demográfica, mais
perigosa que a bomba de hidrogênio.
México (1984): A Conferência de México constatou que, de um lado, existem países em crescimento populacional
preocupante (Terceiro Mundo) e, de outro, países com déficit populacional (Alemanha, França...).
Cairo (1994): Consenso internacional sobre a existência de um direito humano sobre planejamento da natalidade.
5) Normas, códigos e legislação
Códigos de ética dos profissionais da saúde

c) Morrer
a) Aspectos Histórico-Culturais
Alguns temas importantes sobre o fim da vida:
Novo conceito de morte encefálica (1968).
Transplantes (coração, rim, fígado, pulmão etc.).
Doação de órgãos.
Paciente Terminal (cuidados paliativos, direitos, saber a verdade?).
Eutanásia – suicídio assistido, distanásia (obstinação terapêutica).
Dignidade no adeus à vida.

Bioética na America Latina: Três desafios, entre outros


“Os problemas bioéticos mais importantes em relação à América Latina estão relacionados com a justiça, a equidade e a alocação
de recursos na área da saúde. A equidade equivale à justiça distributiva, leva em conta as diferentes necessidades individuais e a
existência de desigualdades entre as pessoas. Propõe que haja um tratamento desigual dos desiguais, de acordo com suas
necessidades, ou seja, uma discriminação positiva. Equidade significa a disposição de reconhecer igualmente o direito de cada um
a partir de suas diferenças. A igualdade é a consequência desejada da equidade, sendo esta o ponto de partida para aquela. É o
ponto de chegada da justiça social, referencial dos direitos humanos na qual o próximo passo é o reconhecimento da cidadania. A
equidade, ou seja, o reconhecimento de necessidades diferentes, de sujeitos também diferentes, para atingir direitos iguais, é o
caminho da ética prática em face da realização dos direitos humanos universais, entre eles o direito à vida representado pela
possibilidade de acesso à saúde” (Garrafa, 1997:27-33).
A bioética elaborada no mundo desenvolvido (USA e Europa), na maioria das vezes, ignora questões básicas que milhões de
excluídos enfrentam e enfoca outras que, para eles, simplesmente não existem. Por exemplo, fala-se muito de morrer com dignidade
no mundo desenvolvido; aqui, na América Latina, somos impelidos a proclamar a dignidade humana que garanta primeiramente um
viver com dignidade e não simplesmente uma sobrevivência aviltante, antes que um morrer digno. Entre nós, a morte é precoce e
injusta, ceifa milhares de vidas desde a infância, enquanto que no primeiro mundo, morre-se depois de se ter vivido muito e
desfrutado da vida com elegância. Assim, o grande desafio é desenvolver uma bioética latino-americana que corrija os exageros de
outras perspectivas e que resgate e valorize a cultura latina no que lhe é único e singular, uma visão verdadeiramente alternativa que
possa enriquecer o diálogo multicultural. Não podemos esquecer que, na América Latina, a bioética tem o encontro obrigatório com
a pobreza e a exclusão social. Elaborar uma bioética somente no nível micro de estudos de casos de sabor deontológico somente,
sem levar em conta esta realidade, não responderia aos anseios e necessidades por mais dignidade na vida. Não estamos
questionando o valor incomensurável de toda e qualquer vida que deva ser salva, cuidada e protegida. temos sim que não perder a
visão global da realidade excludente latino-americana na qual a vida se insere.
Vejamos três desafios:
1. Entendendo a bioética num sentido amplo de ética da vida, não há como escapar à reflexão sobre esse confronto travado entre
vida e antivida e não há como não perceber a tarefa de resgatar a esperança quando o começo é tão próximo do fim! A vida situa-
se dentro de um contexto que favorece ou mata sua expressão.
Numa consideração de bioética, há uma série de fatores econômicos, sociais, políticos e psicológicos que interferem diretamente
nos problemas éticos da vida humana. Nesta direção, percebemos ideologias que exploram a vida e a própria morte.
A questão da bioética, pensada somente em torno de assuntos médicos, estritamente ligada à ética médica, amplia-se. Na
América Latina temos de levar em consideração a vida dos marginalizados pela classe social, pelo sexo, pela raça. A questão de
fundo é o lugar social a partir do qual se pensa a bioética.
Assim, os temas concretos, que a bioética deveria incluir, além dos costumeiros, deveriam tratar da infraestrutura básica da vida, de
tal forma que se levassem em conta as condições reais dos marginalizados (pobres, mulheres, negros, índios). Poderíamos chegar,
assim, a uma pauta de questões tais como: alimentação, fome, saúde, emprego, racismo, ecologia, direitos reprodutivos, entre
outros.
Percebemos o quanto deve ser levado em conta o contexto mais amplo em que a vida, dialeticamente, se situa e as ideologias e
mecanismos que manipulam a vida e estruturam a antivida.
2. Ao falar de procriação humana, não podemos ignorar que o mínimo não está acontecendo ainda. De fato, saúde e direitos
reprodutivos não são ainda direitos! E sabemos que uma grande parcela da população desconhece seus direitos reprodutivos.
Mais ainda, como falar de bioética, ética da vida, se 70% da população não vive, mas sobrevive? Fala-se de procriação
medicamente assistida (para quem?) quando o mínimo, a respeito dos direitos reprodutivos, não foi alcançado!
A conceituação de direitos reprodutivos é uma reivindicação dos movimentos de mulheres que está se impondo,
internacionalmente, e que envolve a ética e a política de saúde. Os direitos reprodutivos consistem no direito básico de todos os
casais e indivíduos (homem e mulher) de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e o momento de ter
filhos e de ter informações e acesso aos meios contraceptivos, e no direito de obter um melhor padrão de saúde sexual e
reprodutiva. É o direito de ter relações sexuais prazerosas. Isso inclui o direito de todos de tomar decisões em relação à
reprodução, livres de discriminação, coerção e violência, termos esses expressos em documentos internacionais sobre direitos
humanos.
Assim, com a descoberta pela ciência, a partir da década de 60, dos métodos contraceptivos, pôde-se ter a liberdade sexual e o
controle reprodutivo. Separou-se um processo que nunca aconteceu anteriormente na história: de um lado a sexualidade, de outro a
reprodução. Começa a ganhar expressão a ideologia de que a reprodução deve ser conduzida racionalmente. É dentro dessa
realidade que surgem com força questões éticas relacionadas aos direitos reprodutivos e às implicações da participação de
governos na questão da política populacional.
Alguns pontos para uma reflexão bioética sobre o aborto: o elevado número de abortos provocados anualmente no mundo,
calculado em torno de 50 milhões, faz refletir. Mesmo que esse número esteja superestimado, ele dá a impressão de uma reflexão
inútil. O aborto é uma questão complexa porque envolve não somente a mulher, mas também o homem e a sociedade. É visto
ideologicamente como causa quando na verdade é efeito. Nos estudos e debates em geral, o assunto costuma ser analisado com
posições bem definidas: pró ou contra. Precisamos enfocá-lo de modo mais elaborado, mais discutido em função da qualidade de
vida das pessoas. É imprescindível, no plano social, refletir e debater essa realidade do aborto de maneira desarmada, tentando
entender com amor, sem julgar.
E, no fundo, cada um de nós deveria se perguntar: Qual é meu compromisso com a vida humana e principalmente com a vida
ameaçada na sociedade na qual vivemos?
3. A biotecnologia: Constata-se que o avanço técnico-científico tem um alto custo antes de render gordos dividendos. Na maioria
absoluta dos países da América Latina os pobres assistem ao avanço tecnológico em concomitância com seus baixos salários. No
Brasil, por exemplo, estamos nestes últimos anos com um salário mínimo mensal dos mais baixos do mundo. Não há como não
suspeitar que a tecnologia biogenética esteja financiada pelo salário não pago ao trabalhador, tanto em nível de sistema
internacional (dívida externa) como em nível de organização político-econômica dos próprios países do terceiro mundo.
O custo da tecnologia, via expropriação, dizem as vozes abalizadas tecnicamente, é um sacrifício necessário. Mas o que se
percebe é que as grandes conquistas da biotecnia continuam reservadas aos ricos, prestando-se à formação de monopólios e
latifúndios nos quais a produção agrícola e animal são controlados por quem possui a tecnologia biológica.
A experimentação e manipulação em nível embriológico humano também levanta questionamentos sérios, quer a respeito da
sustentação do custo das pesquisas, quer a respeito do endereçamento social das conquistas. Quem se beneficiará de todos
esses avanços? É muito comum o refrão pela busca da qualidade de vida para legitimar a experimentação nesta área. Se por um
lado, teoricamente, a qualidade de vida ganharia com os avanços, na prática, o que assistimos, é uma paradoxal distância entre as
conquistas pró-vida e a realidade da miséria. Pode-se argumentar que os benefícios das pesquisas têm aplicação social somente a
longo prazo e que é preciso muita paciência, mas isto não elimina a suspeita da hipocrisia de que, realmente, é a qualidade de vida
de todos que está sendo buscada. Essa suspeita acabaria se, paralelamente às pesquisas genéticas, houvesse igual solicitude em
outras áreas em que a vida é posta em perigo.
É bom frisar que não é o progresso técnico que é questionado, mas sim, a posição que ele ocupa na rede de nossas relações
humanas. Hoje, sacraliza-se a ciência e coisifica-se a pessoa humana.

Bioética global e sobrevivência humana: algumas considerações de Van


Rensselaer Potter4
A função da bioética ponte é a de construir pontes em direção a cada uma das especialidades e entre as especialidades para
possível desenvolvimento de uma bioética global, que vê o bem-estar humano no contexto do respeito pela natureza.
As éticas especializadas incluem:
• A Ética Médica é amplamente definida como bioética, mas trata-se de uma especialidade não interessada em construir ponte,
segundo Potter. A bioética foi definida como especialidade em 1978, por Leroy Walters: “Bioética é um ramo da ética aplicada que
estuda as práticas e o desenvolvimento no campo biomédico”. Esta definição ignora a visão de 1971 da bioética ponte para o futuro
Segundo Potter, um dos dilemas que enfrenta hoje a ética médica é o problema de quando não aplicar toda a tecnologia disponível.
Já em 1971 discutia-se que o problema moral surge porque a “ciência médica alcançou um sucesso parcial na manutenção da
maquinaria sem manter a pessoa”. Nos tempos presentes, eticistas médicos devem ir além do monitoramento tecnológico utilizado
somente pelos superprivilegiados. Eles devem colaborar com os eticistas sociais e exigir medidas de saúde para os menos
afortunados em casa (nos EUA) e nos países em desenvolvimento, onde a pobreza combina com AIDS, malária, parasitismo e
afortunados em casa (nos EUA) e nos países em desenvolvimento, onde a pobreza combina com AIDS, malária, parasitismo e
tuberculose.
• A Ética Ambiental é uma ética que lida com a relação da humanidade com a terra, as plantas, os animais que crescem nela.
Como na medicina, o dilema é como atingir o sucesso a curto prazo e obter lucro sem destruir as opções futuras de sobrevivência.
• A Ética Agrícola é uma especialidade recente que vê uma obrigação ética de prover reservas sustentáveis de alimento para uma
população mundial em expansão. O dilema é, novamente, como prover a necessidade de alimentos sem aumentar as dificuldades
futuras, ao ignorar a necessidade de diversidade biológica no mundo natural. A utilização de reservas florestais e as indústrias de
pesca enfrentam problemas que se entrelaçam com os dilemas da ética ambiental e da agricultura.
• A Ética Social procura soluções para o conflito entre os superprivilegiados e os pobres. As questões em maior ou menor
intensidade versam sobre o conflito: a tendência para os mais privilegiados versus a luta pela sobrevivência. Precisamos refletir
sobre as necessidades de saúde para todos no mundo e não somente para alguns escolhidos. Entre outras questões, que fazem
parte da bioética global, temos a diminuição de mortalidade infantil e taxas de controle da reprodução humana voluntariamente
controladas. A ética social precisa estar ligada com todas as outras especialidades éticas que lidam com este conflito básico.
• A Ética Religiosa busca uma moralidade básica que transcenda os conflitos sectários. O dilema básico é o fracasso da
educação secular em desenvolver um senso de responsabilidade individual e integridade moral nos jovens, enquanto os informa dos
fatos biológicos básicos da evolução e da adaptação.
• A Ética Capitalista é uma categoria usualmente não considerada, mas a filosofia do livre mercado é proclamada como um
instrumento para o agir do bem social através da chamada mão invisível do próprio interesse que Adam Smith, um economista
escocês, desenhou em 1776. Mas, de fato, são as mãos de rapina operando no livre mercado da economia global que cortam as
florestas tropicais e esvaziam o mar de peixes. Essa ética falhou redondamente em resolver o dilema da simples justiça em
equilibrar direitos humanos com a maximização do lucro para poucos.
Segundo Potter, “desde o início chamei de bioética uma nova disciplina que combinaria conhecimento e reflexão. A bioética deve
ser vista como uma abordagem cibernética em relação à contínua busca de sabedoria pela humanidade, que define como usar o
conhecimento para a sobrevivência humana e para o aperfeiçoamento da condição humana”.
A bioética deve ser pensada como uma nova ciência ética que combina humildade, responsabilidade e uma competência que é
interdisciplinar, intercultural potencializadora do senso de humanidade.

Conclusão
Relembramos que o advento da bioética muito contribuiu para estabelecer a distinção entre moral e ética.
MORAL diz respeito a valores consagrados pelos usos e costumes de uma determinada sociedade. Valores morais são, pois,
valores eleitos pela sociedade e que cada membro a ela pertencente recebe (digamos passivamente) e os respeita.
ÉTICA é um juízo de valores, é um processo ativo que vem de “dentro de cada um de nós para fora”, ao contrário de valores morais
que vêm de “fora para dentro” de cada um. A ética exige um juízo, um julgamento, em suma, uma opção diante dos dilemas. Nesse
processo de reflexão crítica, cada um de nós vai pôr em jogo seu patrimônio genético, sua racionalidade, suas emoções e, também,
os valores morais.
BIOÉTICA é ética. Não se pode dela esperar uma padronização de valores – ela exige uma reflexão sobre os mesmos e, como dito,
implica opção. Ora, opção implica liberdade. Não há bioética sem liberdade; liberdade para se fazer uma opção, por mais
“angustiante” que possa ser. O exercício da bioética exige, pois, liberdade e opção. E esse exercício deve ser realizado sem
coação, sem coerção e sem preconceito. A bioética exige também humildade para se respeitar o diferente, e a grandeza para
reformulação, quando se reconhece o equívoco em uma opção. Condição sine qua non exigida pela bioética, enquanto tal, diz
respeito à visão pluralista e interdisciplinar dos dilemas éticos nas ciências da vida, da saúde e do meio ambiente. Ninguém é dono
da verdade.
Hoje, a bioética pode ser definida como um instrumental de reflexão e ação, a partir de três princípios: autonomia, beneficência e
justiça. Busca estabelecer um novo contrato social entre sociedade, cientistas, profissionais da saúde e governos. Além de ser uma
disciplina na área da saúde é também um crescente e plural movimento social preocupado com a biossegurança e o exercício da
cidadania, diante do desenvolvimento das biociências. Procura resgatar a dignidade da pessoa humana e a qualidade de vida.
3. Cfr Anexo 4: Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS.

4. Principais trechos do script do vídeo em que Van Rensselaer Potter fala de sua intuição pioneira a respeito da bioética, que foi apresentado
especialmente para o IV Congresso Mundial de Bioética (Tóquio – 1998).

Capítulo 3

Políticas demográficas
Introdução
Numa abordagem sobre o tema “bioética e políticas demográficas”, faz-se necessário, antes de tudo, falar dos direitos reprodutivos.
Como sabemos, saúde e direitos reprodutivos não são ainda direitos. E também sabemos que uma grande parcela da população
desconhece seus direitos reprodutivos. Mas como falar de bioética, ética da vida, se 70% da população não vive, mas sobrevive? A
conceituação de direitos reprodutivos é uma reivindicação dos movimentos de mulheres que está se impondo internacionalmente, e
que envolve a ética e a política de saúde.
Os direitos reprodutivos consistem no direito básico de todos os casais e indivíduos (homem e mulher) de decidir livre e
responsavelmente sobre o número, o espaçamento e o momento de ter filhos e de ter informações e acesso aos meios
contraceptivos, e no direito de obter um melhor padrão de saúde sexual e reprodutiva. É o direito de ter relações sexuais
prazerosas. Isso inclui o direito de todos de tomar decisões em relação à reprodução, livres de discriminação, coerção e violência,
termos esses expressos em documentos internacionais sobre direitos humanos.
Assim, com a descoberta pela ciência, a partir da década de 60, dos métodos contraceptivos, pode-se ter a liberdade sexual e o
controle reprodutivo. Separou-se um processo que nunca aconteceu anteriormente na história: de um lado a sexualidade, de outro a
reprodução. Começa a ganhar expressão a ideologia de que a reprodução deve ser conduzida racionalmente.
É nesta realidade que surgem com força questões éticas relacionadas aos direitos reprodutivos e às implicações da participação
de governos na questão da política populacional: planejamento familiar, contracepção e aborto.
Antes de uma reflexão mais pontual, vamos tentar visualizar a problemática das políticas demográficas.

Políticas populacionais
Desde a Antiguidade até o fim da Idade Média o crescimento demográfico foi de 0,1%. Estima-se que havia, no tempo do
nascimento de Cristo, 250 milhões de pessoas no mundo. Em 1492, quando Colombo descobriu a América Latina, a população
girava em torno de 400 milhões. De 1960 a 1970, a humanidade alcançou o pico máximo de crescimento global: 2,69%. A
população do mundo duplica a cada 33 anos.
Estudos a respeito da demografia são recentes. Datam do século XVIII. A obrigatoriedade do censo demográfico periódico
começou nos Estados Unidos em 1790 e, em seguida, na Inglaterra e na França, em 1901. A humanidade atingiu a casa do
primeiro bilhão em 1850 e em 1930, o segundo bilhão. Foram necessários milhares de anos para se chegar ao primeiro bilhão, e
somente 80 anos para o segundo. Tivemos três Conferências Mundiais sobre População e Desenvolvimento: Bucareste (1974),
México (1984) e Cairo (1994). A Conferência de Bucareste foi extremamente pessimista e falou-se em bomba demográfica, mais
perigosa que a bomba de hidrogênio. Na conferência do México, constatou-se que, de um lado, existem países com crescimento
populacional preocupante (Terceiro Mundo) e, de outro, países com déficit populacional (por exemplo, Alemanha e França).
Na Conferência do Cairo houve certo consenso internacional quanto aos seguintes pontos:
Existe um direito humano sobre planejamento da natalidade. Isso é reconhecido também pela maioria dos representantes dos
países do Sul e é um avanço em relação à primeira Conferência de Bucareste.
Aborto e esterilização forçada não podem constituir meios de planejamento da natalidade.
É urgente superar a pobreza estrutural no mundo, e sobretudo uma mudança no comportamento de consumo das pessoas
ricas do Norte.
A posição da mulher deve ser melhorada em todos os aspectos, mas, sobretudo, no sentido de melhor formação básica.
São urgentes a criação de planos especiais de ação que possibilitem em âmbito universal o planejamento da natalidade.

É importante enfocar a saúde reprodutiva: segundo as palavras do Plano de Ação do Cairo, isso significa o direito à
informação e acesso a métodos seguros, baratos e inofensivos para a regulação da fertilidade, bem como o direito a
serviços adequados de saúde que proporcionem à mulher uma gravidez e um parto seguros e ajudem os pais a ter um filho
saudável. Disso faz parte também a educação sexual dos jovens, a conscientização dos homens e mulheres sobre seus
problemas de saúde, a descoberta e o tratamento de doenças venéreas, os cuidados matemos antes e depois do parto, a
vacinação de bebês e crianças pequenas.

Contracepção – anticoncepção
Alguns pontos norteadores de nossa reflexão
• Thomas Robert Malthus (1766-1834), economista e demógrafo inglês, descreveu uma teoria de contenção demográfica conhecida
como malthusianismo, que sobrevive ainda hoje com o nome de neomalthusianismo. A tese é a seguinte: é impossível alcançar o
bem-estar geral sem contenção demográfica, pois o crescimento demográfico é sempre maior que a produção de bens: a produção
de bens cresce em proporção aritmética; a população, em proporção geométrica.
• Os fatos, até hoje, desmentiram os neomalthusianistas. Contra todas as suas previsões, a humanidade, apesar de todo o seu
crescimento populacional, nunca dispôs de tantos bens materiais, inclusive alimentos, quanto hoje. Há centenas de milhões de
pessoas que passam fome e sofrem de muitas outras carências básicas, é verdade, mas a humanidade, como um todo, teria
condições de resolver satisfatoriamente o problema.
• Não podemos desconsiderar um dado essencial da tese neomalthusianista: o planeta Terra, único habitat do ser humano, é
limitado em seu espaço e seus recursos. Bem ou mal, a humanidade conseguiu extrair da mãe terra o necessário para alimentar e
melhorar o padrão de vida de sua massa crescente.
• Hoje, há um fato e uma previsão a considerar:
a) o fato: o crescimento populacional vem caindo lenta e sistematicamente, não por força do controle da humanidade,
mas por determinação sua, com meios que descobriu e adotou para a implementação de um programa populacional;
b) a previsão: por volta do ano 2100, a humanidade passará a ter um crescimento populacional zero, isto é, nascimentos
e mortes se equivalerão. Se a previsão for correta, a humanidade terá condições de se administrar e os bens
disponíveis com muito mais segurança do que hoje, pois o crescimento populacional implica em demanda sempre
crescente. É claro que isso não é tudo, mas não deixa de ser um dado fundamental.
• É essencial ter presente uma condição posta pelos defensores da natalidade: os recursos naturais e as capacidades técnicas do
homem permitem encarar o futuro com confiança desde que se saiba partilhar de forma equitativa. Está aqui um nó da questão: os
países ricos, com apenas 20% da população mundial, consomem 80% do que se produz.
• O crescimento populacional não está associado ao crescimento da fecundidade, que vem caindo sistematicamente em todo o
mundo. O crescimento populacional decorre de dois fatores: queda da mortalidade infantil, fruto de melhores condições de vida e
cuidados médicos, sobretudo elementares como as vacinas e antibióticos, e o aumento da média de vida, fruto não só da
contenção da mortalidade infantil, mas de melhores condições de vida e cuidados médicos, só que nesta segunda ponta devem ser
mais sofisticados e dispendiosos. Podemos, pois, afirmar que o crescimento populacional é resultado direto do progresso.
• Os países do Primeiro Mundo tem crescimento zero, mas há estabilização econômica por causa da taxa de substituição pela
migração.

O mito da crise populacional


Apesar de existirem realmente países que devem aguentar crises populacionais sérias em nível regional ou nacional, a “bomba
demográfica” mundial se revela gradativamente como um mito. Mas esse mito continua a ser a base da ideologia que se poderia
chamar de imperialismo contraceptivo. A ideologia pode se reduzir à concepção segundo a qual uma população menos numerosa
permite realizar uma melhor economia. Organizações internacionais, que operam em todo o mundo, parecem ser tão fortemente
engajadas na consecução dessa ideologia que anseiam fortalecê-la por meio de métodos que excedem os princípios e os valores
éticos de numerosas culturas. Tendo fracassado no esforço de reduzir de forma adequada a população em determinadas áreas do
Terceiro Mundo e no esforço de concretizar o “crescimento populacional zero” no Primeiro Mundo, os protagonistas dessa ideologia
tentam atualmente promover em escala mundial a esterilização e o aborto contraceptivo.
Em determinados países, a população exerce forte pressão, embora, muitas vezes, seja confundida com problemas subjacentes de
injustiça econômica, de subdesenvolvimento de recursos e de planejamento econômico fraco. A densidade populacional não é
necessariamente a causa original da fome e da pobreza. E uma população de seis bilhões de pessoas não é mais
obrigatoriamente uma população mundial excessiva, levando-se em conta realizações gerais da produção alimentar e do potencial
existente para um sucessivo desenvolvimento dos recursos e da tecnologia.
O imperialismo contraceptivo impôs aos povos e às culturas toda forma de contracepção, esterilização ou aborto julgado “eficaz”,
sem nenhum respeito pelas tradições familiares, étnicas ou religiosas de determinada população ou cultura. Tal desrespeito,
insensível pela ética e pelos valores morais no planejamento familiar, poderia ser superado: a) rejeitando o mito do fim do mundo
devido a uma crise populacional; b) considerando o crescimento demográfico no contexto do desenvolvimento econômico; c)
considerando os diferentes problemas, não somente da superpopulação de determinadas áreas, mas também de subpopulação; d)
enfrentando esses diversos problemas promovendo a justiça econômica por meio do desenvolvimento e da descentralização.
Não se pode negar a existência, especialmente no Sul de nosso planeta, de um problema populacional que cria dificuldades ao
desenvolvimento. E é bom acrescentar, imediatamente, que no Norte esse problema se apresenta em termos diversos: aqui, o
preocupante é a quebra do índice de natalidade, com repercussões sobre o envelhecimento da população, que se torna incapaz
mesmo de se renovar biologicamente. Esse fenômeno é por si só suscetível de constituir um obstáculo para o desenvolvimento.
Por outro lado, parece ser algo muito alarmante verificar em numerosos países a difusão de campanhas sistemáticas contra a
natalidade, por iniciativa dos próprios governos, em contraste não só com a identidade cultural e religiosa desses mesmos países,
mas também com a natureza do verdadeiro desenvolvimento. Acontece frequentemente que tais campanhas são devidas a
pressões e financiadas por capitais provenientes do estrangeiro e mesmo, em alguns casos, postas como condição a que se
subordinam os auxílios e a assistência econômico-financeira.
Em qualquer hipótese, trata-se de absoluta falta de respeito pela liberdade de decisão das pessoas interessadas, homens e
mulheres, não raro submetidas a intoleráveis pressões, incluindo as econômicas, a fim de cederem a essa nova forma de opressão.

Explosão demográfica – Retrato do Brasil


Explosão demográfica? Só para desinformados5.
Reagindo ao recente ressurgimento na mídia da preocupação com a explosão demográfica no país, as demógrafas Elza Berqud e
Suzana Cavenaghi estão preocupadas com a afirmação de que a população brasileira teria duplicado nos últimos trinta anos —
quando passou de 93.139.037 em 1970 para 169.799.170 em 2000. É ignorar que se tivesse prevalecido a taxa anual de
crescimento populacional registrada até 1970, de 2,9%, teríamos chegado a 219.570.223! O fato é que deixaram de nascer 50
milhões de pessoas nesse período, fruto do acentuado e sistemático declínio da taxa de fecundidade, que desacelerou o
crescimento anual da população.
Estimada hoje em 2,3 filhos por mulher, a taxa de fecundidade sofreu grande redução em relação ao patamar observado até
meados dos anos 1960, de 6,2. Como média nacional, essa taxa abriga diferenças regionais e econômicas. Do ponto de vista
regional, os maiores valores correspondem ao Norte e ao Nordeste, de 3,2 e 2,6 respectivamente, enquanto Centro-Oeste e Sul
registram 2,2 e o Sudeste 2,1. As cinco regiões apresentaram reduções na década de 90: o Nordeste teve queda de 42%; o Norte,
de 31%; o Centro-Oeste, de 23%; Sul e Sudeste, de 14%.
Entre as mulheres mais pobres a fecundidade é de 4,0 filhos, em contraste com a taxa referente àquelas em melhores condições
socioeconômicas, de 1,6. Todavia, foi justamente nas classes menos favorecidas que a fecundidade exibiu declínio mais acentuado
na última década, da ordem de 20,5%. Entre as mulheres com renda domiciliar mensal a partir de cinco salários mínimos, ela já se
encontra abaixo do nível de reposição e o descenso é mais discreto, de apenas 6,0%.
A redução média de 23% na fecundidade entre as décadas de 80 e 90 foi determinante para reduzir de 1,9% a 1,6% a taxa média
anual de crescimento da população. Só não teve impacto ainda maior porque, felizmente, houve redução nas taxas de mortalidade.
Portanto, explosão demográfica só para desinformados!
A queda da fecundidade em tão curto espaço de tempo decorreu do maior uso de métodos de contracepção modernos: a pílula e a
esterilização. O último dado nacional disponível, de 1996, indicava 70% de usuárias de algum contraceptivo, índice superior ao
encontrado dez anos antes.
Retrato do Brasil6: número médio de filhos chega a 5,3 quando a mãe é de família com renda per capita de até R$ 50,00.
A taxa de fecundidade das mulheres brasileiras que vivem em famílias com rendimento per capita inferior a R$ 50,00 é 3,8 vezes
maior do que a das mulheres de famílias com rendimento superior a R$ 1.000,00.
Segundo o IBGE, enquanto as brasileiras de maior renda têm, em média, 1,11 filhos, entre as de menor renda essa taxa é de 5,3.
A diferença é encontrada também quando se analisa a taxa de fecundidade de acordo com os anos de estudo. As brasileiras sem
instrução ou que não completaram nem a primeira série do ensino fundamental têm, em média, 4,12 filhos. Entre as que
completaram pelo menos o ensino médio, essa taxa cai para 1,48.
O rendimento familiar per capita, sem dúvida, atua no sentido de estabelecer grandes diferenças. Mas é com o aumento da
escolaridade feminina que são observados os maiores declínios relativos nas taxas.
Na maioria dos países da Europa7, as taxas de natalidade preocupam: as taxas de natalidade têm diminuído nas últimas
décadas, trazendo as famílias com uma criança muito perto da norma estatística.
Na Espanha, Suécia, Alemanha e Grécia, a taxa de fertilidade total – ou o número médio de crianças que se espera que uma mulher
venha a dar à luz, com base nos indicadores atuais, era de 1,4 ou menos no último ano, de acordo com a Organização Mundial da
Saúde (OMS).
Em nenhum país da Europa Ocidental a taxa alcançou 2,1 – a marca, segundo os demógrafos, que representa uma exata reposição
da população. Em contraste, os Estados Unidos têm uma taxa de 2,0 que os demógrafos atribuem a um grande movimento de
imigração.
Embora essa tendência tenha estado evidente por vários anos, suas consequências construídas lentamente estão agora vindo à
tona, com mais e mais países da Europa Ocidental reconhecendo e chamando a atenção para o espectro de uma força de trabalho
menos competitiva, menos benefícios aos que se aposentam e um sistema de aposentadoria que vai sofrer cortes cada vez mais
profundos.

Aspectos legais da contracepção


Poderia-se evitar muitos abortos se fossem colocadas em prática todas as disposições legais de prevenção e contracepção.
No Brasil, o movimento de mulheres, em aliança com professionais da saúde, conseguiu, em 1983, elaborar um modelo assistencial
para a saúde da mulher: PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher 8, que objetiva atender as mulheres de modo
integral em todas as fases de sua vida: infância, adolescência, idade adulta e terceira idade. De fato, o atendimento à mulher pelo
sistema de saúde tem-se limitado, quase que exclusivamente, ao período gravídico-puerperal e, mesmo assim, de forma deficiente.
As repercussões biopsicossociais da gravidez não desejada, abortamento e acesso a métodos e técnicas de controle da fertilidade
têm sido relegados a piano secundário. “Poucas mulheres têm acesso à cobertura integral oferecida pelo PAISM. O atendimento à
grande maioria se limita à verificação do peso e da pressão arterial, consolidando a mais evidente distorção do programa – a
quantidade em detrimento da qualidade. Por exemplo, as ações de planejamento familiar estão abaixo de 10 % da necessidade da
população9.” Embora tenha sido assumido pelo governo brasileiro desde 1985, até hoje só foi implantado precariamente.
A Constituição Federativa do Brasil (1988), no seu Art. 226, parágrafo 7, reza: “Fundado nos princípios de dignidade da pessoa
humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos
educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais e
privadas”. E para regular o parágrafo 7 deste artigo da Constituição, foi sancionada a Lei n. 9.263, de 12 de janeiro de 1996 e as
Portarias 144/97 e 48/99 do Ministério da Saúde que normatizam os procedimentos, permitindo que o SUS (Sistema Único de
Saúde) os realize gratuitamente, em acesso universal. Atualmente, são estes os critérios legais para a realização da esterilização
cirúrgica pelo SUS: ter capacidade civil plena; ter no mínimo dois filhos vivos e ter mais de 25 anos de idade, independentemente
do número de filhos; manifestar por escrito a vontade de realizar a esterilização, no mínimo 60 dias antes da realização da cirurgia;
ter tido acesso a serviço multidisciplinar de aconselhamento sobre anticoncepção e prevenção de DST/AIDS, assim como a todos
os métodos anticoncepcionais reversíveis; ter consentimento do cônjuge, no caso da convivência conjugal. O serviço que realizar o
procedimento deve oferecer todas as opções e métodos anticoncepcionais reversíveis e seguros, bem como serviço multidisciplinar
de aconselhamento sobre anticoncepção, visando desencorajar a esterilização precoce informando sobre os riscos da cirurgia,
possíveis efeitos colaterais e dificuldade de reversão. A lei impõe, ainda, restrições quanto à realização da laqueadura durante o
parto cesáreo, buscando coibir o abuso de partos cirúrgicos realizados exclusivamente com a finalidade de proceder à
esterilização.
Alguns impactos da lei: falta de insumos adequados, ou seja, a oferta de todos os métodos contraceptivos reversíveis existentes
dificilmente será incluída pela CEME na sua lista de distribuição, pelo rápido avanço tecnológico dessa área e pela falta de oferta
de todos os meios e métodos no mercado brasileiro; clientela eleitoral; arraigada cultura de resistência à esterilização entre
médicos e outros profissionais da saúde; idade mínima estabelecida pela lei: risco de arrependimento por se tratar de método
irreversível.
Como questão social, temos um quadro grave no país: o uso massivo da esterilização feminina e da pílula anticoncepcional; a falta
de oferta de métodos reversíveis e de práticas educativas nos serviços públicos de saúde; uma profunda desinformação da
população sobre todos os meios de se evitar a gravidez; e tudo isso dentro de um contexto de acentuada pobreza e relações de
gênero desiguais.
No entanto, dada a forma perversa como tem sido tratada a anticoncepção no país, faz-se necessário um sério trabalho educativo
com profissionais da saúde e com a população, a fim de superar a cultura do método único e irreversível e reinstaurar uma demanda
diversificada e democratizada.
Segundo o CELSAM (Centra Latino-Americano Saúde da Mulher), associação sem fins lucrativos que reúne outras importantes
ONGs e médicos ligados à saúde feminina na América Latina, que tem por objetivo contribuir para elevar a qualidade de vida e de
saúde da mulher, com sede em Belo Horizonte (MG), na América Latina, 116 milhões de mulheres geram, em média, três filhos
cada uma. Quase metade destas mulheres em idade fértil não usa métodos contraceptivos de planejamento familiar. Dezessete por
cento dos bebês nascem de mães com menos de 19 anos e um quarto das gestações não é planejada.
O resultado é que muitas mulheres simplesmente não têm acesso aos métodos que lhes permitiriam exercerem seus direitos de
cidadãs, usufruindo de uma qualidade de vida melhor e gerando filhos em condições mais equilibradas.

Aconselhamento genético
Aconselhamento genético é um conjunto de procedimentos que visa informar, orientar uma pessoa e/ou a família sobre questões
relativas ao surgimento e/ou risco de ocorrência de doenças genéticas. O aconselhamento genético pode ser: prospectivo (o que a
pessoa ou sua descendência poderá ter) e retrospectivo (o que a ancestralidade ou familiares de alguém tem ou teve). Durante o
processo de aconselhamento genético tenta-se: descobrir o que é (diagnóstico); descobrir qual a causa (etiologia); compreender a
evolução da doença; se tem cura ou não; e definição de um tratamento curativo ou paliativo (prognóstico); avaliar o risco de
repetição ou aparecimento em outros membros da família atual e/ou da prole futura.
O “mercado” de aconselhamento genético criado pelos programas populacionais (testagem genética de uma população) pode
acarretar inúmeras questões de ordem ética, jurídica e social, dependendo da forma como a informação será utilizada. Um exemplo:
a quem se destina a informação e a orientação no aconselhamento genético? À pessoa portadora da doença ou a quem legalmente
é responsável? Mãe e pai? Família biológica? A sociedade – mas quem na sociedade necessitaria dessa informação e quando?
Serviços de saúde? O governo? Quem tem o direito de saber da intimidade genética de alguém? E por quê? E em quais
situações?
Os dilemas éticos no aconselhamento genético são inúmeros. Diante do desencadeamento de tantos conflitos, os serviços de
aconselhamento devem possibilitar à pessoa e à família a mais profunda compreensão da doença, o prognóstico e as opções de
acompanhamento médico e de terapêuticas disponíveis e as que melhor se adequem ao caso e que garantam a melhor qualidade e
dignidade possível de vida; transmitir com absoluta transparência, facilidade de entendimento os riscos de transmissão e do
reaparecimento; ensinar a melhor forma de lidar com a doença; fornecer orientação não terrorista quanto às questões de
procriação; explicar por que a pessoa está realizando um teste genético, explicar-lhe que nada a obriga a submeter-se ao teste e
que só será realizado após o seu livre consentimento (consentimento informado).

Aborto
Aborto: conceituações
Etimologicamente, aborto, do latim abortus, significa privação de nascimento porque vem de ab, que quer dizer privação, e ortus,
nascimento. No corpo do ensaio, usarei a palavra aborto como sinônimo de abortamento: “alguns autores preferem o termo
abortamento para designar a interrupção dolosa da gravidez, antes do sexto mês, com o argumento de que aborto seria o produto
desta intervenção, e porque a palavra abortamento guardaria maior significação técnica. Entretanto, o termo, na forma contraída, é o
mais comumente utilizado, seja popularmente, seja na linguagem erudita e ambos possuem o mesmo sentido. Ademais, aborto,
pela sua sinonímia revela, por si só, o caráter de abortar” (Parreira, 1993:47-64).
Uma conceituação clássica do aborto, representando um consenso para a maioria das correntes filosóficas, médicas e religiosas
seria “a expulsão ou extração de toda ou qualquer parte da placenta ou das membranas, sem um feto identificável, ou de um recém-
nascido vivo ou morto, que pese menos de quinhentos gramas. Na ausência do conhecimento do peso, uma estimativa da duração
da gestação de menos de vinte semanas completas, contando desde o primeiro dia do último período menstrual normal, pode ser
utilizada” (Abel, 1980:99). Ou do ponto de vista médico, “aborto é a interrupção da gravidez até a 20a ou 22a semana, ou quando o
feto mede até 16,5 cm. Este conceito foi formulado baseado na viabilidade fetal extrauterina e é mundialmente aceito pela literatura
médica” (Rosas, 1996:15). “O estágio de viabilidade extrauterina foi definido arbitrariamente por diferentes organismos nacionais e
internacionais, e está sujeito a modificações em função do aperfeiçoamento da medicina neonatal e da melhora da taxa de
sobrevivência dos bebês de baixo peso” (Hottois, Parizeau, 1993:31).
“Na visão estritamente médica, obstétrica de aborto, a palavra é reservada para a interrupção de gestação até 24 semanas de
gravidez, ou seja, até a ocasião em que o feto passa a se tornar capaz de vida, independentemente do útero materno; daí em diante
o fato passaria a se chamar parto prematuro. Não há diferença substancial, salvo a exigência que a lei faz de que, para se
denominar algo como aborto, é indispensável que tenha ocorrido a morte do nascituro, a vida do qual é o valor a ser juridicamente
preservado (Almeida, 1998).
Distingue-se aborto espontâneo, aquele que acontece por causas naturais. Segundo uma pesquisa realizada na França10, 75% das
concepções terminam em aborto: 60% antes de reparar o atraso da menstruação e 15% quando a gravidez é conhecida; em dois
terços dos abortos espontâneos precoces (antes da sétima semana de amenorreia), o aborto é uma espécie de eliminação dos
produtos da concepção apresentando uma anomalia cromossômica.
O aborto provocado ou induzido é aquele que acontece pela intervenção especial do homem. As causas ou motivos costumam
chamar-se de indicações (Anjos, 1976:19-20; Barchifontaine, 1993:19): indicação médica ou terapêutica, quando o aborto é
provocado para salvaguardar a vida ou a saúde da mãe; indicação eugênica, quando o aborto é provocado para se livrar de um
nascituro com taras, anomalias, defeitos ou doença fetal previstos, eventualmente já constatados em exame pré-natal; indicação
socioeconômica, quando o aborto é provocado por falta de condições para criar uma família, moradia sem espaço, insegurança de
emprego, baixo salário, doenças na família, responsabilidade com os idosos, sensibilidade à defesa da qualidade de vida acima de
sua quantidade numérica, falta de proteção à mãe solteira e aos filhos excepcionais; indicação psicossocial, quando o aborto é
provocado por medo da discriminação da mãe solteira, complicação de filho sem pai, desonra da família, incapacidade de tomar
conta do filho, medo da gravidez e de seus riscos, falta de vontade de ter filhos ou este filho, para não perder seu emprego, seu
sustento ou forma física, gravidez indesejada causada pelo fracasso dos meios anticoncepcionais, as exigências da educação dos
filhos; indicação ética, quando o aborto é provocado por motivos chamados morais, como a gravidez resultante de estupro
(violência carnal), incesto, adultério, relação fora do matrimônio; indicação cultural, quando o aborto é provocado pela mudança do
papel da mulher e da família na sociedade, sociedade de consumo e sua propaganda pelos bens materiais, culturais e conforto
físico; indicação política, quando o aborto é provocado por causa da política de salários, de seguridade social, do serviço de
maternidade que reprimem a taxa de natalidade, medo de uma explosão demográfica e de superpopulação, mentalidade antivida.
Do ponto de vista médico, encontramos também outra terminologia e tipos de aborto (Diniz, Almeida, 1998:126-7): interrupção
eugênica da gestação (IEG), interrupção em função de valores racistas, sexistas e étnicos; interrupção terapêutica da gestação
(ITG), interrupção em nome da saúde da mulher; interrupção seletiva da gestação (ISG), interrupção em função de patologias
incompatíveis com a vida extrauterina; interrupção voluntária da gestação (IVG), interrupção em nome da autonomia reprodutiva da
mulher ou do casal, gravidez indesejada por estupro ou relação consensual: há limites gestacionais à prática.
Do ponto de vista legal, “aborto é a interrupção da gravidez com intuito de morte do concepto, não fazendo alusão à idade
gestacional” (Rosas, 1996:15). Mas a grande maioria das legislações mundiais apontam 12 semanas: “o melhor estudo sobre o
assunto é o realizado por Rahman, que vem fazendo um acompanhamento da legislação mundial desde 1985, ocasião da
publicação do primeiro relatório comparativo, sendo que o último levantamento foi publicado em junho de 1998, com dados relativos
até janeiro do mesmo ano” (Diniz, Almeida, 1998:129).
No sentido moral, “aborto é a interrupção de uma gravidez em um modo fatal para o nascituro. Em sede moral, exige-se que a
interrupção da gravidez seja um ato humano e, portanto, de qualquer forma voluntária” (Anjos, 1976:29-30). Fatal é o elemento que
distingue o aborto da aceleração do parto, na qual a interrupção do processo normal da gravidez permite ainda a vida do nascituro.
“O aborto moral baseia-se na realidade do aborto médico, mas acrescenta a peculiaridade da instância ética: o peso da valoração
da vida. Assim, aborto moral é o comportamento abortivo negativo enquanto intervém a responsabilidade numa ação que traz um
contravalor neste âmbito da gestação” (Vidal, 1981:217).
No âmbito da bioética, “o aborto espontâneo refere-se à interrupção espontânea da gravidez antes da viabilidade (em torno de 25
ou 26 semanas de gestação). As interrupções de uma gravidez após essa época são chamadas de partos precoces, ou no caso de
parto de um feto que já morreu, partos de natimortos. A terminologia comumente utilizada no caso de um aborto induzido é diferente.
Nesse caso, a viabilidade não é um ponto chave. Qualquer interrupção de gravidez por meio de técnicas médicas ou cirúrgicas
denomina-se aborto, independente do estágio” (Reich, 1995:1).
“O aborto precoce é aquele realizado no primeiro trimestre ou até 12 semanas de gestação, depois é chamado de aborto tardio.
Nos Estados Unidos os índices de complicações gerais dos abortos legais realizados no primeiro trimestre são menores do que 0,5
mortes por 100.000 abortos realizados. As complicações médicas associadas ao aborto induzido têm uma relação direta com o
tempo de gestação e com o tipo de procedimento utilizado para interrompê-la. A maior parte dos abortos (mais de 90%) nos
Estados Unidos é realizada dentro das primeiras 12 semanas de gestação, período em que essa prática é mais segura.
Complicações mais graves podem ocorrer quando o aborto é realizado após esse período” (Reich, 1995:2). A respeito do aborto
precoce, há um consenso geral de que “embora o feto possa exibir reflexos primitivos antes da vigésima semana de gestação, não
há evidência que o cérebro e o sistema neurológico estejam suficientemente desenvolvidos, nem sequer na vigésima quarta
semana, para que o feto sinta dor; as técnicas de aborto do segundo trimestre que poderiam parecer mais humanas ou apresentar
mais respeito pelo feto, em geral implicam em maior risco para a mulher; os médicos comprometidos nos procedimentos abortivos
têm a intenção de oferecer os procedimentos mais seguros para a mulher e consideram que o benefício para a mulher substitui a
meta de minimizar o dano ao feto” (Reich, 1995:5).

Aspecto legal no Brasil


O Código Penal Brasileiro – Decreto-lei n. 2848, de 7 de dezembro de 1940, Artigos 124 a 128, reza:
Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento:
Art.124. Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque: Pena – detenção de 1 (um) a 3 (três) anos.
Aborto provocado por terceiro:
Art. 125. Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena – reclusão de 3 (três) a 10 (dez) anos.
Art. 126. Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena – reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos.
Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior se a gestante não é maior de 14 (quatorze) anos, ou é alienada ou débil mental,
ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência.
Forma qualificada
Art. 127. As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço se, em consequência do aborto ou dos
meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas
causas, lhe sobrevem a morte.
Art. 128. Não se pune o aborto praticado por médico:
1. Aborto necessário: se não há outro meio de salvar a vida da gestante.
2. Aborto no caso de gravidez resultante de estupro: se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da
gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.

Quando começa a pessoa humana?


Numa análise fenomenológica do aborto, o questionamento a respeito do começo da vida humana é diftcil de ser decidido com
bases irrefutáveis e menos ainda quando comega a pessoa, se esta distinção entre a vida humana e a vida pessoal tiver alguma
relevância no caso. Não temos dados convincentes para decidir quando comega a pessoa humana, por isso o Magistério da Igreja
Católica considera como mais seguro que a pessoa exista desde a fecundação, quando aparece um genótipo distinto do pai e da
mãe. Qual o momento em que o embrião deve ser considerado como pessoa humana? Até hoje, nem a ciência nem a teologia têm
uma resposta exata.

Posição do Magistério da Igreja Católica


A posição do Magistério da Igreja Católica não foi sempre unânime. Assim, Santo Agostinho (séc. IV) dizia que só a partir de 40
dias após a fecundação podia-se falar em pessoa (unidade corpo-espírito ou hominização) para o feto masculino Para o feto
feminino exigia-se o dobro, 80 dias para falar em pessoa.
Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) reafirmou que não se pode reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40
dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”. Essa posição virou doutrina oficial da Igreja Católica a partir do Concílio de
Trento (encerrado em 1563). Mesmo assim, sempre foi contestada por outros teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano
(séc. Ill) e de Santo Alberto Magno (séc. XIII), defendiam a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação já tratar de um ser
humano em processo. Santo Afonso de Ligório (morreu em 1787) admitia o aborto terapêutico, caso a vida da mãe corresse risco
imediato. Contudo, essa discussão sobre o feto “inanimado” (que ainda não teria alma) encerrou-se oficialmente com a divulgação
da “Apostolica Sedia” em 1869, na qual o papa Pio IX condenou toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez. Neste século,
introduziu-se a discussão sobre aborto direto e indireto. Roma passou a admitir o aborto indireto, em caso de gravidez tubária ou de
câncer no útero. Matar diretamente o feto é sempre proibido. A extirpação de um câncer do útero ou a preservação da vida da mãe
exigem, por vezes, medidas que não matam diretamente o embrião, mas tem por consequência “indireta” (porque não querida por
si) a expulsão do mesmo, não viável.
A posição do Magistério da Igreja Católica baseia-se:
a) Na visão da lei natural (ordem estabelecida por Deus, realidade estática), a moral tem princípios absolutos e indiscutíveis,
iluminados pelo que podemos chamar de “teologia escatológica”, pois aponta para uma situação ideal do homem e da mulher, da
sociedade e da ação histórica. A estrutura física da fecundidade humana é, portanto, algo sagrado, intocável e inalterável
(encarnação dos desígnios de Deus).
Hoje há um novo modo de entender a lei natural, pelo qual se pode dizer que a nossa participação racional é o próprio plano de
Deus. Deste ponto de vista, a base para o juízo moral não reside em atos predeterminados como intrinsecamente maus, mas na
resposta da pessoa ao chamado de Deus nas realidades concretas da existência. Para muitas pessoas, a lei natural, como
embasamento da posição do Magistério da Igreja Católica, deve evoluir. De fato, a missão do homem é humanizar o criado, romper
com o fatalismo e estender o domínio humano sobre as forças cegas da natureza. Em matéria de fecundidade, no mesmo tempo
que o homem domina a tecnologia, ele deve estender também seu domínio sobre a perspectiva, sobre o dever coletivo, prever mais
seguramente e confiar menos no acaso que a reação religiosa interpreta como providencial.
b) A escola genética (Callahan, 1970:378) define como humano todo ser que tem um código genético. Desde que o genótipo
esteja presente no momento da fertilização, isso significa que o indivíduo que está se desenvolvendo é humano a partir da
concepção. Crescimento e desenvolvimento são simplesmente a explicitação do que está inscrito no código genético desse
indivíduo particular.

Outro tipo de argumentação


Pesquisando os dados das ciências biológicas, os especialistas distinguem vida humana e pessoa humana. Zigoto é vida humana,
mas é pessoa humana, sujeito de direitos? A reflexão necessita do concurso de várias ciências: biologia, genética, fisiologia,
embriologia, sociologia, filosofia, ética, teologia, direito, antropologia.
Além da escola genética, Callahan (Callahan, 1970:378) identifica mais duas escolas de opinião na questão de definir o status do
feto: a escola desenvolvimentista defende que, enquanto a fertilização estabelece as bases genéticas de um ser humano, certo grau
de desenvolvimento é necessário para que um indivíduo seja considerado um ser humano. Os desenvolvimentistas reconhecem uma
necessidade de interação entre o genótipo e o meio ambiente. Esta visão sugere que o potencial genético de alguém não estará
totalmente atualizado enquanto não interagir na sua maneira única com o meio ambiente; portanto, abre uma compreensão maior de
toda gama de atributos humanos. Assim, a vida começaria a partir da nidação, ou a partir de formação do córtex cerebral, ou a
partir da constituição física do nascituro, ou a partir de sua saída do útero. A segunda escola é a das consequências sociais, que
muda a questão de “quando a vida começa” para “quando a vida humana começa”. De acordo com esse grupo, o nascituro deve
ser definido na base das consequências sociais daquela decisão. Se definir certos tipos de nascituros como humanos cria
problemas, então talvez a classe de nascituros não deve ser definida como humana. Ao estabelecer normas sociais, essa escola
começa com a questão: que tipo de pessoas queremos? A partir desta perspectiva, o importante não é a dimensão biológica ou
desenvolvimentista, mas os desejos da sociedade em termos de normas sociais e morais.
Aprofundando a reflexão, podemos reconhecer que a vida é um continuum: “Muitos supõem que a resposta à questão, quando a
vida começa a importar moralmente, é a mesma resposta à questão de quando começa a vida humana. O momento da concepção
aparenta ser a resposta óbvia para a pergunta. Sobre outras possíveis respostas, tem a vantagem decisiva de que é um evento
identificável e um ponto a partir do qual o óvulo inicia o processo permanente que leva à maturidade. Se o óvulo fertilizado é
potencialmente uma pessoa humana, devemos atribuir-lhe os mesmos direitos de que são possuidores os seres humanos
completos. Esse argumento, embasado na potencialidade tem vários tipos de dificuldades: sim, todos nós morremos
inexoravelmente um dia, mas isto é (supomos) uma razão inadequada para nos considerar agora como se já estivéssemos todos
mortos; ou o aborto é errado porque uma pessoa que teria existido no futuro não vai existir se um aborto for realizado: eu não estaria
aqui se minha mãe, quando grávida de mim, optasse pelo aborto, mas também não estaria aqui se ela tivesse tomado um
anticoncepcional. Mas é claro que o óvulo já está vivo muito antes da concepção e de fato sofre um processo de desenvolvimento e
maturação prévios, sem os quais a concepção é impossível. O espermatozoide também já está vivo e se contorcendo. Por outro
lado, já é possível dispensar o espermatozoide na produção de um novo ser, retirando o núcleo haploide do óvulo, e colocando em
seu lugar o núcleo diploide de uma célula somática, processo conhecido como clonagem. A vida é um processo contínuo que
prossegue ininterruptamente de geração para geração”.(…). “Tudo o que pode ser dito com segurança sobre o óvulo fertilizado é
que se trata de tecido humano vivo. A vida não começa na fertilização, pois o óvulo e o espermatozoide são também vivos. A vida é
um continuum e, portanto, o que nós precisamos não é um conceito de quando a vida se inicia, mas quando a vida começa a ter
significado moral” (Almeida, 1988:9-11).
Existem cinco argumentos que impedem termos a certeza científica de que desde a fecundação há pessoa humana (Múnera,
1993:10-13):
1. A grande maioria dos zigotos não se implanta no útero; será possível que a natureza desperdiça tantas pessoas ao eliminar
tantos zigotos?
2. Antes da nidação, não existe individualização, e sem individualização não se pode falar de pessoa.
3. Para que haja pessoa se requer informações genéticas que não estão presentes no zigoto, também informações operativas
exógenas e a informação que possui o zigoto é operativa para gerar os processos ulteriores do desenvolvimento.
4. Entre o zigoto e a pessoa futura não existe relação física contínua como da potência ao ato, porque o zigoto sozinho é
potência em termos de informação genética; se não entram em jogo muitos elementos exógenos, a potência que é o zigoto
nunca passará a ser ato; somente com seis a oito semanas o embrião terá as características de formação física e fisiológica.
5. O processo do zigoto para a pessoa futura não é um contínuo físico senão um desenvolvimento em continuidade, porque no
período inicial embrionário (seis a oito semanas) sucedem importantíssimas e decisivas mudanças qualitativas.
A neurofisioembriologia pesquisa a atividade elétrica do cérebro do feto: existe uma discussão sobre quando são estabelecidas as
conexões com o córtex, o que ocorre, certamente, antes da trigésima semana, porém, com certeza também, após a vigésima
semana. Vários cientistas, entre eles, Bergstrom e Bergstrom (Bergstrom, 1963:117-129), registraram eletroencefalogramas em
embriões de 8,5 a 22,5 semanas e encontraram atividades elétricas a partir dos 63 dias em tronco cerebral, a partir dos 84 dias no
hipocampo e jamais conseguiram leitura em córtex cerebral. O caderno ciência e tecnologia do Estado de São Paulo11 relata que
especialistas em medicina fetal concordam que o embrião não sente dor antes da décima segunda semana. Especialistas em
neurofisioembriologia (Linnas, 1990; Dworkin, 1994, entre outros) também provam a impossibilidade de um nascituro de 12
semanas sentir dor.
“A pessoa é um indivíduo racional: individualidade significa indivisível, o que acontece a partir do décimo quarto ou décimo quinto
dia após a fertilização; a racionalidade individualiza a característica não-natural da pessoa, isto é, aquela que permite transcender à
natureza físico-biológica. O pedido é uma condição mínima, capaz de nos assegurar que, aquém dessa condição, não existe senão
a mera naturalidade do mundo orgânico. Essa característica nos é oferecida pela capacidade de exercer a racionalidade, condição
que podemos presumir estar satisfeita somente quando já se tenha formado o córtex cerebral de forma suficientemente completa,
pois é ele que constitui o substrato biologicamente necessário do qual emerge a novidade do nível cultural-racional. Considerando
os melhores conhecimentos hoje disponíveis, pode-se dizer que isso acontece, sem dúvida, após o terceiro mês da gravidez. Com
base nestes elementos, cientificamente, até três meses, não se pode afirmar que o embrião deva ser considerado como pessoa
humana” (Mori, 1997:43-67).
Gravidez indesejada ou inoportuna
Em muitos casos, em consequência de um domínio insuficiente das leis da fecundação, de uma falta de informações, de uma falha
dos métodos contraceptivos, uma gravidez chega de maneira imprevista. Proibir todo aborto é forçar a mulher e o casal a aceitar
um processo fisiológico de criação que foi desencadeado involuntariamente. Não será perverter a ordem humana dar a um
processo biológico uma força normativa que elimina, em muitos casos, toda possibilidade de escolha responsável e livre?
Atualmente, com o progresso científico e tecnológico, o processo de fecundação representa uma reviravolta fundamental na
compreensão dos fenômenos biológicos. Ver o processo de fecundação exclusivamente como dinamismo biológico parece limitar
e contrariar o instinto vital primário. Portanto, a contracepção, que é um processo de fecundação “humanizado”, procura instaurar
valores de respeito e amor na sua geração e o vir a ser da pessoa humana. Mas, na falha da contracepção ou por motivos
econômicos, sociais, psicológicos e de saúde, proibir toda interrupção de gravidez, é obrigar muitas mulheres a gerarem, mesmo
que elas vivam essa gravidez como gravemente contraindicada, ou mais, como comprometendo importantes valores de vida. E o
que representa para a criança a primeira etapa de vida feita de constrangimento, de não consentimento, de oposição? O que
permite pensar que forçando a mulher a levar a termo uma gravidez, a aceitação e o acolhimento do filho, ausentes no início, irão
nela desabrochar?
No fundo, a proibição de abortar tira da mulher a responsabilidade por sua maternidade; coloca a criança, desde a primeira etapa
de sua vida, numa situação marcada por certas distorções íntimas: uma mãe que a alimenta e ao mesmo tempo a rejeita. Não é
contradizer gravemente a dimensão especificamente humana da fecundação? A relação interpessoal é um elemento constitutivo da
vida humana. A criança nasce de um homem e de uma mulher, é colocada numa trava vincular e nela se desenvolve. Se ela recebe
o seu próprio ser dos outros, o reconhecimento é revelador, senão instaurador do caráter humano no ser em gestação. Quando o
casal reconhece e aceita o ser em gestação, atribui e afirma a humanidade desse ser. Todo julgamento sobre o aborto deve ser
modificado a partir do reconhecimento materno e paterno à criança.
A mulher que decide prosseguir ou interromper uma gravidez, não o faz ou não deveria fazê-lo, a não ser em nome da possibilidade
ou impossibilidade de suscitar humanamente a vida, isto é, a decisão de ter um filho deverá ser devidamente pesada em todos os
seus riscos e responsabilidades.
A possibilidade da contracepção e do aborto imprime uma autonomia crescente da sexualidade humana. O encontro entre as
pessoas e o prazer que possam usufruir juntas, distancia-se cada vez mais de uma subordinação indireta ou direta à fecundação.
A qualidade humana da relação situa-se, acima de qualquer regulamentação, onde o interpessoal se reveste de um caráter único,
que nenhuma referência pode totalmente circunscrever. Daí, o embaraço das morais unicamente normativas e das instâncias de
poder.
A aventura do encontro é sempre marcada pelo imponderável, ela se abre ao mistério da alteridade, dá um novo sentido, afinado,
único, aos imperativos do respeito e do amor. Numa época em que aparece, com uma acuidade trágica, a terrível pobreza dos
relacionamentos entre as pessoas, quer se trate de laços íntimos, de transações de negócios ou de realidades coletivas, não é
indiferente ser confrontado à sexualidade e aí descobrir os apelos e as exigências, especificamente mais humanas.
A geração de um ser humano comporta, no interior de uma realidade psicobiológica, uma dimensão espiritual: é uma relação
marcada pelo desejo e pelo acolhimento que deveria unir, desde a fase uterina, o ser em crescimento a seus genitores.
A mulher e o casal são responsáveis, diante da sociedade, pelo nascimento da criança, cujo corpo social se constitui e se reproduz.
Mas trata-se de ajudar a mulher, não de tirar a sua responsabilidade. Objetar-se-á que haveriam abusos, soluções nas quais certos
valores de vida não serão bastante promovidos, e mulheres assumirão mal sua responsabilidade. Nenhuma instância fica fora de
passos falsos, de erros e de julgamentos. Mas quem pode dizer ou pretender que as objeções da mulher sejam inexatas?

Aborto legal e malformação do feto


Especialistas em bioética defendem a ampliação do aborto legal para os casos de malformação do feto ou doença hereditária que
impossibilite a criança de ter uma vida normal. Dizem que a decisão de ter ou não uma criança nessas condições deve ser do
casal.
Pela lei atual, o aborto é permitido em dois casos: quando a gravidez resulta de estupro ou para salvar a vida da gestante.
Uma nova proposta, que está no anteprojeto do novo Código Penal, ampliou as hipóteses de aborto legal para os casos em que o
feto apresentar “graves e irreversíveis anomalias que o tornem inviável”, e para preservar a saúde da gestante.
Mas há uma restrição quando se coloca “graves e irreversíveis anomalias que tornem a vida inviável”. E como ficam as crianças
condenadas a uma vida vegetativa? A decisão deveria ser dos pais e não uma imposição do Estado. Só o casal sabe se terá
condições financeiras ou emocionais para ter um filho com doença grave.

Conclusão
A respeito da anticoncepção ou planejamento familiar, é importante observar que o conhecimento científico do mecanismo
reprodutor do ser humano é relativamente recente. Da década de 20 à década de 30, dois médicos, Ogino e Knaus, descobriram o
período fértil e infértil da mulher (tabelinha). Somente na década de 60 temos a descoberta dos métodos químicos, notadamente a
pílula, por Pincus e Rook. Antes dessas descobertas, para evitar filhos de forma segura, só tínhamos a abstinência sexual ou a
castração. A grande mudança que se operou foi de, no campo da esterilização, manter os órgãos reprodutores intactos (vasectomia
ou ligação tubária), sem o risco de reproduzir. Com a anticoncepção, pode-se ter a liberdade sexual e o controle reprodutivo.
Separou-se um processo que nunca aconteceu anteriormente na história. De um lado a sexualidade, de outro a reprodução.
Começa a ganhar expressão a perspectiva cultural de que a reprodução deve ser conduzida racionalmente. É na perspectiva dessa
realidade que surgem com força questões éticas relacionadas a controle da natalidade, direitos reprodutivos, paternidade
responsável e as implicações da participação de governos na questão da política populacional.
Na realidade em que vivemos, em condições socioeconômicas ruins, com uma taxa elevada de analfabetismo, falta de educação
sexual adequada, torna-se difícil para a maioria da população usar os métodos naturais (tabelinha, Billings). Por isso, consideramos
como “mal menor”, ou melhor dizendo, “bem maior”, o uso dos métodos artificiais para chegar a um planejamento familiar e à
paternidade responsável, a partir de uma informação honesta sobre todos os meios de anticoncepção para que o casal possa
escolher livre e conscientemente, junto com o médico, a melhor maneira de planejar sua família. É melhor usar um método artificial
do que abortar.
Numa reflexão sobre o aborto, é bom lembrar que “a tolerância é um conceito essencial para o exercício da democracia, designa o
fato de se abster de intervir nas ações ou opiniões de outras pessoas, mesmo quando essas opiniões ou ações nos parecem
desagradáveis, ou moralmente repreensíveis. Portanto, tolerar é em primeiro lugar estar de acordo sobre o fato de que as
diferenças vão permanecer, sobre a persistência de desacordos fundamentais, permitindo a justaposição harmoniosa de grupos
que não tenham a mesma visão do mundo. O fiador dessa harmonia é o Estado republicano, universalista, baseado na existência
da obediência política da pessoa pública e na liberdade interna de cada um no foro privado” (Ardaillon, 1998:4-5). Quanto à
tolerância diante da diversidade moral: “a diversidade não é atraente e pode ofender porque possuir crenças particulares contra
outras pessoas, é o mesmo que atrair o julgamento. Uma visão canônica de conteúdo pretensamente universal tem dentes. Assim,
tanto o judaísmo ortodoxo como o catolicismo condenam o aborto por conveniência, assim como a eutanásia. Essas religiões
consideram tais atividades erradas não apenas por seus fiéis, mas para todas as pessoas” (Engelhardt, 1998:44).
“O aborto é uma das questões paradigmáticas da bioética porque nele reside a essência trágica dos dilemas morais que, por sua
vez, são nó conflitivo da bioética. Para certos dilemas morais não existem soluções imediatas. Os dilemas-limite, os Teyku (noção
talmúdica que significa problema não solucionado no raciocínio moral, indica os limites da razão para a resolução de dilemas
morais), dos quais, talvez, o aborto componha um de seus melhores exemplos, são situações que desafiam os estranhos (inimigos)
morais à coexistência pacífica” (Engelhardt, 1998-167).
“A bioética substitui a proibição pela liberdade incorporando a ética da responsabilidade. Neste sentido, a bioética passa a ser
entendida como a resultante moral do conjunto de decisões e medidas técnico-científicas, políticas e sanitárias, individuais ou
coletivas, públicas ou privadas – que proporcionam aumento de cidadania e diminuição da exclusão social” (Garrafa, 1999).
Assim, em relação à bioética, o problema é integrar na justa medida e para cada caso concreto, uma ética da tolerância, uma ética
da responsabilidade e uma ética de solidariedade, “sendo a tolerância uma conquista no caminho em direção à solidariedade, o
laço que une pessoas como corresponsáveis pelo bem umas das outras” (Zoboli, 1999:20-21).
5. Observatório de Imprensa – Matérias – 26/02/2003. http://observatorio.ig.br/artigos.
6. Folha de São Paulo, C7, 07 de março de 2003.

7. Estado de São Paulo, A8, 27 de dezembro de 2002.


8. ASSISTÊNCIA INTEGRAL À SAÚDE DA MULHER. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da saúde, 1984.
9. Comissão de Cidadania e Reprodução/Centro Brasileiro de Pesquisa-Cebrap. In: MEDICINA. Brasília: Conselho Federal de Medicina, Ano X,
n.86, out/97. p.18.

10. TECHNIQUES HOSPITALIÈRES. Paris, 45e année, mars 1990, n. 534. P. 8.


11. ESTADO DE SÃO PAULO. 25/01/97. Caderno Ciência e tecnologia – A15.

Capítulo 4

Técnicas de reprodução assistida


Introdução
Ao conjunto de técnicas que auxiliam o processo de reprodução humana foi dado o nome de técnicas de reprodução assistida
(TRA), as quais podem ser divididas em métodos de baixa e de alta complexidade. Entre as técnicas de baixa complexidade
podemos incluir o coito programado e a inseminação intrauterina (IIU), que apresentam a vantagem de menores custos, além de não
precisarem ser realizadas em centros de reprodução assistida. Entre as técnicas de alta complexidade incluímos a fertilização in
vitro (FIV) convencional e a injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) – em inglês, intracytoplasmatic sperm injection.
As técnicas de reprodução assistida despertam questões muito controvertidas, mexendo com preconceitos e afetando diretamente
as mulheres. Além de colocar em cheque algumas certezas com relação a gênero e a família, como a necessidade de um casal
para gerar um filho, ou mesmo de um relacionamento prévio entre um homem e uma mulher, a tecnologia da reprodução assistida
mexe diretamente com a saúde das mulheres, despertando preocupações éticas e políticas. Atualmente, essa é uma área de
grande expansão na pesquisa científica, e a maior parte das experiências vem sendo feita em mulheres, a título de “tratamento”.
Além de ser uma área de pesquisa, os tratamentos contra infertilidade mobilizam grandes interesses da indústria de medicamentos
e jogam para último plano as preocupações com os aspectos éticos da questão.
O Brasil carece de uma legislação específica sobre a reprodução medicamente assistida. O código de ética médica (1988), através
de quatro artigos, não especifica ou limita nada, desde que os participantes estejam cientes do procedimento. Em novembro de
1992, o Conselho Federal de Medicina baixou a Resolução n°- 1.358/92, sobre a utilização da reprodução assistida.

Técnicas de reprodução assistida


Inseminação artificial (Mulheres com muco hostil, doença inflamatória pélvica e homens com pouca concentração de
espermatozoides no sêmen): técnica na qual o sêmen ou espermatozoides são capacitados em meio de cultura e introduzidos por
meio de sonda no trato genital feminino. Os tipos:
a) do parceiro (homóloga): quando é utilizado o sêmen ou espermatozoides do parceiro;
b) de doador (heteróloga): implica a utilização do sêmen ou espermatozoides de um doador;
c) intrauterina: espermatozoides processados são introduzidos na cavidade uterina;
d) cervical: sêmen ou espermatozoides processados são introduzidos no canal cervical;
e) vaginal: sêmen é colocado na vagina.
Fivete – Fertilização In Vitro e Transferência de Embriões (Mulheres com problemas nas trompas, anovulação crônica,
endometriose ou com ovários policísticos): técnica de reprodução assistida em que a fertilização do óvulo pelo espermatozoide
ocorre em laboratório. A ovulação é geralmente estimulada, os óvulos são colhidos por meio de punção guiada por ultrassonografia
endovaginal e colocados juntamente com os espermatozoides processados em ambiente com 5% de CO2 e temperatura de 37oC.
Após 24 a 28 horas, os pré-embriões formados contendo quatro a oito células são transferidos para a cavidade uterina.
GIFT – Gamete Intrafallopian Transfer (Transferência Intratubária de Gametas). Neste caso, os espermatozoides processados e os
óvulos colhidos anteriormente por aspiração vaginal são transferidos diretamente para as trompas por laparoscopia. A fertilização
ocorre in vivo.
ICSI – Intracytoplasmic Sperm Injection (Injeção Intracitoplasmática do Espermatozoide). Neste tipo de técnica é feita a injeção de
um único espermatozoide no citoplasma do óvulo por meio de um aparelho especialmente desenvolvido contendo microagulhas
para injeção (micromanipulador). Segue os mesmos passos da fertilização in vitro.
Transferência de citoplasma (mulheres com mais de 40 anos ou que produzem óvulos fracos). De 10 a 20% do óvulo de uma
doadora jovem é transferido para o óvulo da paciente para dar origem a embriões de melhor qualidade e com maior poder de
implantação.
Fecundação sem espermatozoides (homens sem espermatozoide no sêmen e/ou nos testículos, mas que tem espermátides –
12,5% dos casos de infertilidade). As espermátides (células precursoras dos espermatozoides) são resgatadas dos testículos,
maturadas em laboratório e inseridas no óvulo pela ICSI.

Indicação
A indicação é a infertilidade que atinge 20% da população: a percentagem é igual para ambos os sexos. Mas cuidado: a causa
mais comum de infertilidade masculina é a varicocele, uma dilatação anormal das veias na área genital, que atinge
aproximadamente 15% da população masculina, chegando a 30% entre os homens inférteis. Depois da cirurgia da varicocele, a
taxa de gravidez fica em 40% mais alta que os 25% de bebê de proveta. Outro exemplo é a reversão de vasectomia, cuja taxa de
gravidez sobe para 70% depois da cirurgia. Por isso o diagnóstico é importante, já que é possível tratar as causas sem precisar da
fertilização assistida. Assim, se opta pela reprodução assistida nos casos mais complicados: contagem baixa de espermatozoides,
no homem; obstrução das duas trompas e problemas graves de ovulação, na mulher.
O sucesso de gravidez com as técnicas de reprodução assistida diminui conforme a idade aumenta. Em mulheres de até 30 anos, a
taxa fica em torno de 45%; aos 35 anos diminui para 35%; de 35 a 40 anos, a chance é de 25 a 30%; e acima de 40 anos, de 18 a
20%.
Antes de optar pela reprodução assistida, o casal precisa ser bem analisado, pois deve ser a última opção.

Alguns riscos
Segundo Corrêa12, todas aquelas etapas da FIV comportam riscos, como os efeitos indesejáveis de doses elevadas de hormônios,
o desconforto ligado ao monitoramento laboratorial de todo o processo, as repetidas intervenções médico-cirúrgicas etc. A
transferência de vários embriões é responsável pelos principais efeitos iatrogênicos para a saúde de mulheres e bebês, ligados às
gestações múltiplas (baixo peso ao nascer, problemas respiratórios de recém-nascidos e outros danos associados às gestações
de mais de um feto). Esse procedimento “padrão” na medicina reprodutiva acabou por ser caracterizado como uma má prática
médica, passando a ser mais fortemente criticado. Apesar do surgimento da crítica, mesmo no campo médico, e de propostas para
limitar o número de embriões gerados e transferidos na FIV, nem todas as equipes seguem, efetivamente, essa tendência.
As possibilidades e propostas de intervenção sobre o embrião são mais do que uma interface entre clínica e pesquisa na área de
reprodução. É muito importante deixar assinalado que a pesquisa com embriões depende do “tratamento” proposto através da FIV.
Assim, esses desdobramentos “mais tecnológicos” não podem ser desvinculados da discussão das implicações de ordem social,
ética, psicológica e mesmo legal ligadas à medicalização do desejo de filhos.
Segundo Oliveira13, as novas técnicas de reprodução conceptivas propiciam a materialização de desejos sexistas, racistas,
eugênicos e potencializam a exploração de classe, basta que se possa pagar por eles. O recorte de classe é o sustentáculo de tais
desejos, cujas decorrências são: a exploração de classe (mulheres/casais ricos custeiam o “tratamento” das pobres e assim se
livram de parte da super-hormonização e obtêm óvulos); o tráfico e a comercialização de embriões, sêmen, óvulos (há vários sites
que comercializam óvulos); a industrialização e a venda de óvulos obtidos do tecido ovárico de mulheres ainda vivas, de cadáveres
de mulheres e de fetos abortados. À medida que as tecnologias conceptivas se expandem, sua concepção industrial também
cresce: os óvulos tornam-se matéria-prima e são tirados do ovário de uma mulher para serem implantados no útero de outra. Essas
mulheres serão consideradas procriadoras, como animais de procriação, vendidas como tais.

Alguns questionamentos
Algumas questões precisam ser resolvidas do ponto de vista legal quanto à possibilidade de se realizar a fecundação
extracorpórea:
• Quanto à experimentação com embriões ou fetos humanos, é preciso decidir se são pessoas humanas ou simples produtos da
concepção, visto que sua conceituação implica também em princípios éticos.
• A experimentação e preservação de gametas humanos devem ser submetidas a determinados critérios como: ocorrida a
fecundação, por quanto tempo podem-se realizar pesquisas em embriões humanos? Deve-se permitir o congelamento de
embriões, óvulos ou esperma por um longo período? Se um embrião permanece congelado, por muitos anos, o que acontece com o
conceito de geração?
• Deve o embrião ou feto possuir um estatuto jurídico ou ele se apoia no direito da mãe? Por se tratar de duas pessoas jurídicas
(embrião e mãe), existe o perigo de intervenções médicas e do Estado no período da gravidez em detrimento da mãe? Se a mãe
não quiser se submeter a uma intervenção terapêutica, gerando um conflito entre o seu direito e o direito do feto, a quem os
tribunais protegem?
• Qual o estatuto do embrião (congelado) fora do útero? A quem eles pertencem? Se somente os pais têm direitos sobre eles, o que
fazer em caso de morte do casal? Qual será doravante sua relação social? No caso de divórcio, podem ser objeto de uma divisão?
Qual o direito da clínica de dá-los a um terceiro? Possuem direitos de herança? No caso de morte do pai, a mãe pode implantá-los?
Possuem os mesmos direitos que outros irmãos nascidos quando o pai estava vivo? É crime vender embrião? Que itens podem
constar num contrato de doação de embriões? Quais são as garantias de que a clínica não utilizará os embriões sem conhecimento
dos pais? Quem controlará bancos de gametas e embriões?
• Podem pré-embriões legalmente humanos serem submetidos à perda planejada? Na redução embrionária, eliminam-se alguns
embriões. O que diferencia esta destruição dos embriões de um aborto?
• Há necessidade de se estabelecer critérios para recrutamento e seleção de doadores de sêmen/embriões? Como garantir que a
possibilidade de escolha do sexo (no caso de embrião), ou de semelhança com o genótipo dos pais não estabeleça critérios
discriminatórios e racistas?
• Deve-se limitar o número de doações para cada doador(a)?
• O doador(a) deve, por escrito, abandonar todos os direitos e deveres de descendência? A autorização de dois doadores de
gametas é necessária para reimplantar o embrião num terceiro?
• A pessoa gerada por reprodução medicamente assistida pode ter o direito de conhecer seus pais genéticos?
• Qual o conceito de paternidade e maternidade quanto à família?
• Quanto a critérios socioeconômicos: como avaliar um casal quanto à normalidade psíquica? Casais homossexuais ou indivíduos
solteiros poderiam se candidatar? É necessário definir o estado conjugal das pessoas e as condições socioeconômicas?
• Uma pessoa concebida com sêmen heterólogo é legítima ou ilegítima?

Legislação
Código de Ética Medica
“É vedado ao médico:
Art. 67 – Desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre os métodos contraceptivos ou conceptivos, devendo o
médico sempre esclarecer sobre a indicação, a segurança, a reversibilidade e o risco de cada método.
Art. 68 – Praticar fecundação artificial sem que os participantes estejam de inteiro acordo e devidamente esclarecidos sobre o
procedimento.
Art. 122 — Participar de qualquer tipo de experiência no ser humano com fins bélicos, políticos, raciais ou eugênicos.

Art. 127 – Realizar pesquisa médica em ser humano sem submeter o protocolo à aprovação e acompanhamento de comissão
isenta de qualquer dependência em relação ao pesquisador.”
Normas Éticas para utilização das Técnicas de Reprodução Assistida
(Resolução nº 1.358/92 do Conselho Federal de Medicina)14
Partindo da consideração da legitimidade do anseio de se superar a infertilidade, a Resolução reafirma princípios bioéticos como a
inviolabilidade e a não comercialização do corpo humano, exige a gratuidade do dom e que a prática da doação de material
reprodutivo seja anônima, devendo ser ainda respeitado o segredo médico. Indica a necessidade de observação do chamado
“consentimento informado” para participação de mulheres em programas de FIY Estabelece regras para diminuir a possibilidade de
incesto inadvertido, através de um controle do número de receptores por doação e um limite em termos espaciais. Delimita em 14
dias o tempo máximo admissível para desenvolvimento de um embrião fora do corpo feminino. Nesses pontos, a resolução segue
linhas gerais estabelecidas por um documento que se tornou histórico na bioética da reprodução assistida que é o Warnock Report
(1984). Em outros pontos, entretanto, afasta-se da linha de recomendações ali encontradas. Assim, como no Brasil o abortamento é
crime, não se admite a destruição de embriões supranumerários, nem a redução embrionária no caso de gravidez múltipla. Todo
embrião resultante da reprodução assistida tem de vir a ser em algum momento gestado pela própria pessoa ou por doação,
mesmo que após seu congelamento. Diferencia-se mais ainda quando admite a “doação temporária do útero”, e também quando
inclui pessoas solteiras como clientes potenciais.

A Lei de Biotecnologia 8.974, de 199515


Regulamenta, entre outras coisas, as experiências com embriões humanos, células reprodutivas, material genético, indicando o
princípio de indisponibilidade de material biológico e da pessoa. Em seu artigo 13, a lei define como crime a produção,
armazenamento ou manipulação de embriões humanos destinados a servirem como material biológico disponível.

A Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS16


São Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo seres humanos. A Resolução estabeleceu nove áreas
temáticas especiais nas quais a CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) acompanha diretamente os protocolos de
pesquisa; dentre elas, é indicada a “reprodução humana” tout court. São listadas ainda outras áreas relacionadas a ela,
destacando-se “genética humana”, “procedimentos ainda não consagrados na literatura”, “projetos que envolvam biossegurança”.

Reflexões bioéticas
Infertilidade
A prevenção da infertilidade é, sem dúvida, preferível às tentativas de sua superação. Entre os fatores ambientais causadores da
infertilidade estão a poluição, o fumo, o estresse, os contraceptivos, a prática de abortos clandestinos, as doenças sexualmente
transmissíveis e os problemas emocionais. A título de exemplo, no Brasil, há uma situação de infertilidade decorrente do uso
distorcido da esterilização feminina: mulheres esterilizadas, com ou sem prévio consentimento, e desejosas de uma nova gravidez,
têm composto cerca de 15% a 25% da clientela de alguns ambulatórios de infertilidade.
Urge desenvolver programas de prevenção, de educação para a saúde e para a sexualidade, bem como serviços de
aconselhamento da população. As opções sociais, como adoção, iniciativas assistenciais, atitude de assumir voluntariamente a
condição de infértil, poderão constituir para muitos casais a melhor forma de superar a ausência de filhos. Interessa que, com
serviços bem organizados de aconselhamento, os casais inférteis sejam conhecedores e conscientes das possibilidades destas
opções, às quais deve ser dado o relevo que merecem.

Ponto de vista social


A realidade socioeconômica do país interpela, já que, com a técnica de bebê de proveta, por exemplo, o casal tem chance de 20%
a 25% de engravidar, e cada tentativa custa de R$ 8.000,00 a R$ 10.000,00. E, muitas vezes, é necessário fazer mais de uma
tentativa. Devemos pensar num justo equilíbrio entre direitos individuais e coletivos face à existência de milhares de crianças
totalmente carentes de ambiente e cuidados familiares. Há também o problema da equação justa da alocação de verbas para a
saúde e o estabelecimento de prioridades.

Reprodução assistida e amor conjugal


O conjunto do ato sexual e das intervenções da reprodução medicamente assistida pode considerar-se como integrado numa ação
significativa única de amor do casal. Consequentemente, é o amor, tendencialmente procriador, de um casal infértil e o ato técnico
que estabelecem a unidade entre a sua vida conjugal e as técnicas da reprodução assistida a que ele se submete. Poder-se-ia
dizer até que as próprias dificuldades físicas e psicológicas dessas técnicas constituem uma prova de amor recíproco do casal e
prova de amor para com o nascituro. Mas, pelo fato de a dissociação entre ato sexual e procriação não corresponder à situação
ideal, as técnicas de reprodução medicamente assistida são consideradas o último recurso.

Embriões congelados
Embriões congelados deixados em clínicas de reprodução por casais que não querem mais ter filhos deflagram debate ético e
religioso.
Depois de 20 anos de uso das técnicas de inseminação artificial no Brasil, o bebê de proveta faz tanto sucesso que provoca um
efeito inesperado: a explosão populacional nos laboratórios de reprodução assistida. As melhores clínicas acumulam milhares de
embriões congelados. Os embriões são o excedente de tratamentos de fertilização artificial e estão estocados em geladeiras de
nitrogênio líquido à espera de uma decisão dos pais sobre nova inseminação. O problema é que a maioria não pretende ter mais
filhos, mas também rejeita doar os embriões para outros casais. Resultado: os médicos são obrigados a manter as geladeiras
ligadas porque a destruição dos embriões é proibida pelo Conselho Federal de Medicina.

Na técnica do FIVET (fecundação in vitro e transferência do embrião), a mesma necessita da constituição de embriões excedentes.
Existe, em nível mundial, uma irredutível controvérsia sobre a liceidade do destino dos embriões excedentes, baseada na
diversidade de opiniões acerca do estatuto do embrião: tem ele, ou não, a mesma dignidade da pessoa humana plenamente
desenvolvida? Merece, ou não, a mesma proteção e respeito? Face a essa controvérsia, há apenas a solução de garantir que todos
os embriões excedentes sejam, mais tarde, transferidos para a mulher.
A polêmica sobre a destruição dos embriões congelados vai além da discussão sobre ética médica. Médicos e especialistas em
bioética dividem o debate com padres e rabinos. A Igreja Católica e a Congregação Israelita Paulista querem que o embrião seja
tratado como um ser humano e defendem a norma do Conselho Federal de Medicina: jogar fora embriões congelados é
assassinato, eles são seres humanos plenos. A Igreja Católica também desaprova o uso de técnicas de inseminação artificial:
essas técnicas criam o problema dos embriões congelados; o melhor é evitar que eles sejam produzidos.
A favor da destruição dos embriões: o médico que não descarta embriões que sobram é um aprendiz de feiticeiro, pois faz o feitiço
e depois não sabe desfazer. Embrião congelado não é vida; a vida comega no momento que ele está no útero, não antes disso.
O problema surge quando o casal se separa e não consegue chegar a um acordo. Ou em casos em que o pai morre e o sêmen fica.

Redução de embriões
No Brasil, onde o aborto é proibido, a redução de embriões é ilegal, como diz explicitamente a resolução do CFM. Essa resolução é
de uma enorme prudência e defesa da saúde e da vida da mulher. Ela limita em até quatro embriões para a implantação para cada
ciclo de reprodução assistida. Atualmente, a gravidez múltipla é considerada, pelos profissionais mais conscientes da área, como
uma má prática da FIV, visto que já é possível evitar o implante múltiplo de embriões e viabilizar a gravidez que resulte em bebês.
No Brasil, considerando-se a resolução do CFM e a ilegalidade do aborto, a redução de embriões é ilegal, mas prática corrente. No
dia em que legalizarmos o aborto, a redução de embriões será automaticamente legalizada.

Consciência dos direitos das mulheres


Os movimentos feministas que se tem pronunciado sobre a reprodução medicamente assistida exprimem um forte receio da
medicalização excessiva das funções reprodutivas de que a mulher é sujeito inalienável e fazem-se eco de numerosos testemunhos
do sofrimento das mulheres que se submeteram à reprodução medicamente assistida. Além do mais, “não podemos perder de vista
que o comércio da infertilidade é um negócio fabuloso, movimenta milhões de dólares e só respeita a ética do mercado”.

Clínicas de infertilidade
Há pouco ou nenhum controle das clínicas de infertilidade apesar da resolução do Conselho Federal de Medicina.

Perspectiva cristã católica


Oficialmente, sabemos que a moral católica se opõe à fecundação in vitro ou em laboratório. Mas a reflexão em busca da verdade e
do bem continua, não é questão fechada. Notamos que a fecundação in vitro recebe uma crescente aceitação nos meios científicos,
que a submetem, todavia, a condições e restrições éticas, ora na perspectiva clínica, ora na científica. Essas condições foram
expressas pelo Comitê Federal de Ética norte-americano e receberam aprovação de moralistas católicos como Patrik Vespieren,
Oliver de Dinechin e outros participantes do 1-Congresso Internacional de Transferência de Embriões (Annecy, set. 1982). Deixando
de lado a validade das experimentações puramente científicas, três condições básicas são exigidas para que o processo aconteça:
1. A inseminação artificial deve ser intraconjugal.
2. Que ela tenha o objetivo de contornar um caso de esterilidade.
3. Que ela tenha o objetivo de almejar uma criança que o casal quer assumir e criar.
Como se percebe, as condições para a fecundação in vitro e para a inseminação artificial são substancialmente as mesmas para
vários moralistas católicos. Eles frisam que o dom da vida deve se situar no contexto de um relacionamento personalizado no
amor. Na caminhada da conquista da verdade, das descobertas, observamos a conflitividade dos princípios ético-religiosos já
estabelecidos num contexto sócio-histórico-cultural e técnico determinado, com as novas realidades e descobertas técnicas no
campo da medicina. São questões de fronteira, que de um lado (ético-religioso) procura-se sempre salvaguardar a dignidade do
ser humano, o respeito à vida, e de outro (científico), procura-se sempre descobrir algo novo do ser humano, quando por vezes
técnicas agressivas brincam com a vida. E a situação de conflito, na qual encontramos o posicionamento ético-religioso, a moral
católica deve ser repensada à luz das conquistas das ciências humanas.
Uma pergunta instigante: em tempos em que mulheres estéreis já se podem reproduzir; em que a clonagem de seres humanos é
perspectiva próxima; em que os pais escolhem as características de seus bebês e até em que pessoas do mesmo sexo já podem
partilhar um processo de maternidade (por exemplo, retirada de óvulo de mulher, fecundação em banco de sêmen, implantação do
embrião no útero de outra), como ficarão o erotismo, a sexualidade e a ligação afetiva entre os protagonistas (pais, mães e filhos)
da utilização dessas mudanças?
Conclusão
Embasando-me no relatório-parecer sobre reprodução medicamente assistida do Conselho Português de Ética para as Ciências
da vida, concordo que “O princípio da não-instrumentalização da pessoa humana aplicado à utilização das técnicas de reprodução
medicamente assistida leva-nos a concluir que essas técnicas:
1. Não devem ser eticamente rejeitadas por motivo da dissociação que de fato estabelecem entre ato sexual e procriação.
2. Não constituem um método alternativo à reprodução natural e só devem ser utilizadas quando não for possível, por outros
meios, o tratamento da infertilidade.
3. Devem aplicar-se exclusivamente a casais heterossexuais com garantias de estabilidade (legalmente constituídos ou não) e
de condições adequadas para o completo e harmônico desenvolvimento do nascituro, ficando excluídas as situações em que
ele viesse a ter só mãe ou só pai, quer por inseminação post mortem, quer por procriação de uma mulher isolada (sem
ligação, nem de direito nem de fato, a um homem) ou de um homem isolado (por recurso a mãe de substituição).
4. Devem excluir o recurso a mães de substituição, quer estas contribuam ou não com seus ovócitos.
5. Devem igualmente excluir outras formas de instrumentalização do processo reprodutivo, como a criação de embriões só para
fins de investigação, a criação de seres humanos geneticamente idênticos por clonagem ou outros meios, a transferência de
embriões humanos para o útero em outras espécies, e a fusão interespecífica de gametas ou embriões.”
Sem dúvida, a bioética não deve e nem pode ignorar o processo legislativo em curso nessa área. Mas um contexto complexo como
este, que implica sexualidade, reprodução, família, casamento, futuras gerações e o próprio conceito de vida, coloca desafios
permanentes, e que se renovam, para o debate sobre ética, ciência e política, bem como para a reflexão bioética de um modo
geral, que deve se manter aberta e permeável às vozes ativas no campo da reprodução humana.
Cabe-nos, portanto, aceitar o desenvolvimento tecnológico por um lado e enfrentá-lo ao mesmo tempo, deixando de lado respostas
imediatas e simplistas de aprovação ou reprovação, mas buscando a articulação de uma permanente discussão sobre os desejos e
poderes nas relações de gênero focalizando as estruturas jurídicas, antropológicas e psicológicas da maternidade e da
paternidade.
12. CORRÊA, Marilena Cordeiro Dias Villela. Ética e reprodução assistida: a medicalização do desejo de filhos. In: BIOÉTICA. Brasília:
Conselho Federal de Medicina, vol.9, n. 2, 2001, p. 71-82.
13. OLIVEIRA, Fátima. As novas tecnologias reprodutivas conceptivas a serviço da materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos?
In: BIOÉTICA. Brasília: Conselho Federal de Medicina, vol.9, n. 2, 2001, p. 99-112.
14. Cfr. Anexo 4.

15. Cfr. Anexo 3.


16. Cfr. Anexo 4.

Capítulo 5

Genoma humano
Introdução
Uma auscultação prospectiva inquietante se apresenta a respeito do legado que estamos deixando para as gerações vindouras.
Começa-se a falar em justiça transgeracional! Como será o mundo no fim do século XXI? Que desafios enfrentaremos? Que
condições de vida e saúde? Estas são apenas algumas das interrogações emergentes.

Olhando retrospectivamente o século XX, vemos que foi marcado por três grandes projetos: O primeiro foi o Projeto Manhattan, que
descobriu e utilizou a energia nuclear, bem como produziu a bomba atômica que destruiu Hiroshima e Nagasaki (1945), pondo fim à
2ª Guerra Mundial. Foi descoberto o “coração” da matéria, o átomo, e dele se extraiu a energia.

O segundo grande projeto foi o Projeto Apollo , que jogou o ser humano no coração do cosmos. A data-símbolo ficou sendo o
primeiro passo do homem na Lua (1969). O ser humano começou a navegar interplanetariamente. Descobrimo-nos como um
grãozinho de areia na imensidão do universo. Buscou-se e buscamos vida em outros planetas!
O terceiro e mais recente é o Projeto Genoma Humano, que começou no início de 1990, e o dia 26 de junho de 2000 ficou
marcado como o dia do mapeamento ou sequenciamento do código genético humano. Isso leva o ser humano ao mais profundo de
si mesmo em termos de conhecimento de sua herança biológica, numa verdadeira caça aos genes.
É sobre este último megaprojeto que gostaríamos de tecer alguns comentários. Ele tem suas raízes na chamada “descoberta do
século XX”, o DNA (Ácido Desoxirribonucleico) descoberto por Watson e Crick, em 1953, inaugurando a terceira revolução
biológica. Tudo indica que o fio condutor da economia do século XXI será a engenharia genética, tendo como locomotiva o Projeto
Genoma Humano.
A engenharia genética consta de um conjunto de técnicas que permite identificar, isolar e multiplicar genes dos mais diversos
organismos.
Ela faz parte do nosso dia-a-dia e os seus avanços interferem em nossas vidas. Seja para discutir a questão de soberania de
alguns países – os direitos de patentear genes que teoricamente pertencem a toda a humanidade, o progresso do diagnóstico e
das terapias de doenças, a interferência no genoma humano; a possibilidade de clonar até mesmo seres humanos, a ética de todas
essas condutas, o direito à propriedade intelectual sobre conhecimentos alcançados; a produção de seres exóticos, de espécies
animais e vegetais melhoradas, de medicamentos, vacinas, alimentos – o certo é que já não podemos ignorá-la. Daí a necessidade
de estarmos familiarizados com a sua terminologia para que possamos entender o que dizem os noticiários e ter sobre esse
assunto a postura crítica que se espera do cidadão participante que está no século XXI.
Para além da medicina preventiva e curativa, falamos de medicina preditiva: começamos a tratar de predisposições para
determinadas doenças e, consequentemente, chegamos à intervenção antes da manifestação dos sintomas. O incrível é que
podemos prever doenças genéticas, mas não curá-las. Saberemos que ficaremos doentes sem sê-lo de fato. Você já imaginou uma
questão ética e psicológica mais dramática?

As revoluções da biologia
Através da história, podemos identificar três revoluções da biologia.
1a Revolução: Teoria celular, elaborada nos anos de 1838 e 1839. A célula foi descoberta em 1665 pelo físico inglês Robert
Hooke (1635-1703). Quase dois séculos depois, o botânico alemão Mattias-Jakob Schleiden (1804-1881) e o zoólogo prussiano
Theodore Schwann (1810-1882) elaboraram a Teoria Celular, respectivamente em 1838 e 1839, que diz: todos os seres vivos são
constituídos por células. A célula é uma unidade morfológica e funcional dos seres vivos e elas se agrupam para formar os tecidos,
estes se reúnem para formar os órgãos.
2a Revolução: Teoria da Evolução de Darwin/Wallace, elaborada em 1858. A Teoria da Evolução é uma das maiores revoluções
intelectuais de todos os tempos. Reuniu evidências de que os seres vivos evoluem e, no aspecto cultural, separou definitivamente a
ciência da religião. O evolucionismo é uma ideia antiga. Muitos filósofos, desde os gregos e naturalistas, formularam teorias
tentando explicá-lo, todavia uma teoria científica comprovada em fatos só foi elaborada em 1858, isoladamente, pelos naturalistas
ingleses Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913), que reuniram dados de que os seres vivos
sofrem modificações e já nascem com as “variações” que possibilitam sobreviver em um determinado meio. A descendência com
estas variações é a evolução.
3a Revolução: Descoberta da estrutura da molécula de DNA – Ácido Desoxirribonucleico (a dupla hélice), em 1953, pelo biólogo
norte-americano James Dewey Watson, pelos físicos ingleses Francis Harry Compton Crick e Maurice Huge Frederick Wilkins e
pela cristalógrafa inglesa Rosalind Franklin (1920-1958). Watson e Crick conseguiram, através das fotografias obtidas por Rosalind
– que trabalhava no Laboratório dirigido por Maurice Wilkins, King’s College, Londres, Inglaterra – propor o modelo da estrutura do
DNA, uma hélice dupla, que “guarda” e transmite o código de produção de proteínas (código genético). A engenharia genética –
ramo da biologia molecular que utiliza biotecnologias específicas para a recombinação genéticas – é uma decorrência direta da
descoberta da dupla hélice, portanto é considerada parte da 3a Revolução da Biologia.

Um breve histórico da genética


1866: Ao cultivar ervilhas, o botânico e monge austríaco Gregor Mendel percebe que uma geração de plantas poderia passar certas
características às seguintes. Com isso se estabeleceu as leis da hereditariedade.
1910: Ao estudar as moscas da fruta, as drosófilas, o americano Thomas Morgan demonstrou que os cromossomos contêm os
genes, unidades básicas da herança genética.
1953: O americano James Watson e o inglês Francis Crick enxergaram pela primeira vez a estrutura do DNA como uma escada
espiralada.
1961: Descobriu-se que o funcionamento do código genético é idêntico em todos os seres vivos, do vírus ao homem, passando por
bactérias, plantas e animais. Em todos eles, o DNA usa o mesmo mecanismo para instruir as células a produzir proteínas.
1977: Pesquisadores decodificaram o código genético do primeiro ser vivo, um vírus.
1978: Alterações genéticas em bactérias as transformaram nas primeiras fábricas biológicas de insulina.
1984: Surgiu a técnica que permite identificar pessoas pelo DNA.
1989: Foi lançado o Projeto Genoma Humano, o ambicioso projeto de mapear a sequência genética do DNA humano.
1997: Nasceu a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado produzido a partir de uma célula comum de um animal adulto.
1998: James Thomson e John Gearhart notaram que as células-tronco, retiradas de embriões com poucos dias de vida,
transformam-se em vários tipos de células do corpo.
26/6/2000: Apresentação do primeiro esboço do Genoma Humano. Uma junta científica mundial e a empresa privada americana
Celera concluíram o rascunho do genoma humano, uma coleção de material genético humano, estimado em 30 mil genes.
2002: Em 26 de dezembro, a bioquímica francesa, Brigitte Boisselier, da seita dos realianos, anunciou o nascimento do primeiro
bebê clonado.
2003: Em 14 de fevereiro, Dolly morreu de envelhecimento precoce. Empalhada, a ovelha está exposta no museu real de
Edimburgo.

Célula
O mundo vivo, microrganismos, plantas, animais e o ser humano são constituídos de células.
O núcleo da célula contém os cromossomos: 23 pares no ser humano.
Os cromossomos são constituídos do DNA (Ácido DesoxirriboNucleico), molécula que guarda todas as informações codificadas na
forma de genes. O DNA é compactado dentro do núcleo celular em 23 pares de cromossomos.
O DNA é constituído de quatro bases ou “letras”: adenina (A), citosina (C), guanina (G), timina (T). O genoma humano é formado por
3,5 bilhões de pares de bases. Sequências de milhares de letras formam “palavras”: os genes (mais ou menos 50 mil).
Estima-se que as células produzem um milhão de proteínas diferentes. São elas que fazem funcionar nosso corpo.
O fato de conhecermos o código de um gene não significa que sabemos qual proteína ele produz e como ela interage com outras
substâncias para fazer o corpo funcionar. Apenas uma ínfima parte do genoma (três por cento) é formada por genes, sequências de
DNA que sintetizam proteínas. O restante é uma sopa de letrinhas que se acredita não fazer sentido. O próprio gene é inócuo,
exceto por sua capacidade de produzir e liberar proteínas. Um simples gene pode conter o código de uma dezena de diferentes
proteínas e ser responsável por muitas funções. Para realizar suas tarefas, essas substâncias podem variar em quantidade, operar
em diferentes combinações ou passar por modificações. Estima-se que em nosso organismo sejam codificadas um milhão de
proteínas. O que é preciso fazer agora é ligar essas substâncias aos genes que as produzem, localizá-los corretamente no genoma
e descobrir como é o processo de codificação. É isso que permitirá corrigir os casos de mau funcionamento genético e evitar que
as doenças apareçam.

Glossário para entender o genoma


Genética: Ciência que trata da reprodução, herança, variação e o conjunto de fenômenos e problemas relativos à descendência.
Cromossomo: Material hereditário cuja principal função é conservar, transmitir e expressar a informação genética que contém. A
espécie humana tem 46 cromossomos (23 pares).
Gene: Unidade física e funcional do material hereditário que determina uma característica do indivíduo e é transmitida de geração
em geração.
DNA: Sigla em inglês de ácido desoxirribonucleico. É um complexo filamento de substâncias químicas que, ordenadas de forma
especial em cada pessoa, diferenciam um indivíduo do outro, como uma “marca registrada” genética que condiciona desde a cor
dos olhos até a ocorrência de uma moléstia.
Genoma: Material genético contido nos cromossomos de um organismo.
Projeto Genoma Humano: programa que visa mapear e sequenciar os genes humanos.
Genoma humano: Conjunto de genes de um organismo, o patrimônio genético armazenado no conjunto de seu DNA ou de seus
cromossomos. Contém informações sobre as principais características hereditárias, alterações e doenças que o ser humano pode
sofrer em sua vida. Conhecer e localizar os genes possibilita intervir sobre aqueles responsáveis pelas doenças.
Sequenciar: Determinar a ordem exata em que estão dispostas as bases químicas ou nucleotídeos (as quatro letras) do DNA. O
homem possui cerca de 3,5 bilhões de pares de bases.
O projeto genoma não deve ser confundido com:
Clonagem: Não é necessário esmiuçar as entranhas do DNA para se produzir novas Dollies. Basta colocar o núcleo de uma célula
adulta num óvulo esvaziado de seu conteúdo genético. O processo resulta num embrião que é implantado na mãe adotiva.
Teste de paternidade: Nos testes de DNA são analisadas, em média, 13 regiões específicas dos cromossomos do pai, da mãe e
do filho. São genes conhecidos há quase duas décadas.
Produtos transgênicos: Os pesquisadores lidam com genes vegetais bem conhecidos e alteram características isoladas, de
modo a obter produtos resistentes a pragas ou com maior teor de vitamina.
Drogas recombinantes: Centenas de remédios já foram fabricados com a ajuda de bactérias modificadas geneticamente em
laboratórios. Não foi preciso desvendar o genoma humano para sintetizá-las.
Reprodução medicamente assistida: Os bebês de provetas e as mais ousadas formas de inseminação artificial foram feitos
antes que o Projeto Genoma Humano começasse suas atividades.

“Nós temos o livro. Agora precisamos aprender a lê-lo”


(James Watson, cuja descoberta da estrutura do DNA,
em 1953, marca o início da genética moderna.)

Se o genoma fosse um livro…


O genoma é o conjunto de instruções necessárias para formar um ser humane Essas informações estão no DNA, uma longa
molécula em formato de dupla hélice que carrega os genes compostos por quatro elementos básicos: adenina (A), timina (T),
citosina (C) e guanina (G).

… Os componentes do DNA seriam as letras


O código da vida é formado pela combinação de A, T, C e G. Eles funcionam como letras arrumadas numa longa receita que
determina desde a cor dos cabelos até a predisposição para certas doenças.

… Os genes seriam as palavras


As letras A, C, T e G formam os genes, estruturas com funções específicas. Estima-se que sejam cerca de 50 mil genes distribuídos
ao longo do DNA.

… Os cromossomos seriam os capítulos


Os genes estão agrupados em conjuntos maiores, os cromossomos. Cada célula humana contém 23 pares de cromossomos.

… O DNA seria o texto


Cada cromossomo carrega um trecho de fita de DNA. Junto, no núcleo da célula, reúnem todas as informações genéticas de uma
pessoa.

… O homem seria uma coleção de 100 trilhões de livros


O corpo humano é constituído de 100 trilhões de células, todas elas contêm uma cópia completa de DNA.

As promessas da descoberta
A conquista científica do mapeamento genético deve demorar até 50 anos para ser totalmente compreendida. Até lá, os cientistas
ainda precisam identificar cerca de 90% de genes, separar pedaços inúteis do DNA e encontrar maneiras eficientes de controlar as
mutações que ocorrem dentro das células. Vejamos os próximos passos:
Hoje, alguns tipos de câncer e doenças hereditárias já podem ser diagnosticados com testes genéticos. Vários genes foram
identificados com base em dados do Projeto Genoma Humano. No entanto, esses testes beneficiam poucas pessoas.
De 6 meses a 1 ano: Os cientistas esperam separar os genes do lixo genético, que estima em cerca de 97% do DNA. Esse é um
passo decisivo para localizar com exatidão e entender o funcionamento de cada gene.
Em 5 anos: Estima-se que o genoma esteja realmente pronto, com a identificação de 100% dos genes. Leis de alguns países,
como os Estados Unidos, protegerão os cidadãos de discriminação genética. Serão criados bancos de dados genéticos; com eles,
será possível saber se determinado paciente sofrerá ou não efeitos colaterais ao tomar um medicamento.
Em 10 anos: Testes genéticos estarão disponíveis para o diagnóstico antecipado e preciso de mais de 25 doenças, como o
câncer, diabetes e enfarte. A terapia genética, hoje ainda restrita e ineficaz, começará a ter seus primeiros sucessos nas doenças
cardíacas, hemofilia e alguns tumores. O diagnóstico precoce e a consequente mudança de hábitos de vida permitirão diminuir o
risco de surgimento de doenças genéticas.
Em 20 anos: Já estarão disponíveis os diagnósticos e tratamentos genéticos para doenças mentais. Os geneticistas aprenderão
como realizar a terapia genética em genes específicos de embriões sem afetar o restante do DNA do futuro bebê. Os médicos
poderão receitar remédios personalizados depois de consultar o DNA do paciente.
Em 30 anos: Doenças hereditárias serão eliminadas com a correção de genes defeituosos. Os cientistas conhecerão os
mecanismos genéticos envolvidos no processo de envelhecimento. A análise completa do genoma de uma pessoa será um exame
comum e custará menos de U$1.000,00. Os testes laboratoriais, como os de sangue, serão substituídos por análises
computadorizadas de células, mesmo nas doenças mais comuns.
Em 50 anos: A terapia genética estará disponível para a maioria das doenças. Com os avanços da genética, a expectativa média
de vida das pessoas poderá chegar aos 90 anos.

Medicina preditiva
A sequência completa do genoma humano – a lista, em ordem, de todas as bases químicas contendo as informações necessárias
para formar um ser humano – é uma conquista científica de primeira grandeza. Erros nessas instruções biológicas causam a
maioria das doenças humanas ou contribuem para elas. O conhecimento da raiz biológica dos seres humanos e de outras espécies
irá transformar a medicina, permitir o desenvolvimento de novos remédios, expandir o número de doenças tratáveis e facilitar os
diagnósticos.
O nosso código genético é agora um livro aberto à leitura de todos os interessados. Isso cria uma expectativa de que as doenças
com causas ligadas a problemas em nossos genes – catalogados em mais de 11.000 – estão com os dias contados. Infelizmente,
não é bem assim. Deu-se um passo gigantesco no campo do conhecimento da biologia molecular humana. Os resultados práticos
disso, porém, ainda estão a décadas de distância. A ciência não sabe sequer ler direito as informações que acabam de ser
decifradas.
Com o Projeto Genoma Humano entramos na era da medicina preditiva. O que é medicina preditiva e quais as repercussões do
projeto genoma humano? Do ponto de vista da bioética, a medicina preditiva é a medicina preventiva genética e cria a
possibilidade de prevenir doenças passíveis de prevenção, sem discriminações; ampliar propostas de tratamentos e curas; e
garantir a dignidade humana, considerando-se os contextos socioculturais. A medicina preditiva ainda é um campo repleto de
incógnitas, inclusive técnicas e científicas, algumas incomensuráveis, o que a torna alvo de esperanças, desconfianças e medo. A
medicina preditiva é um caminho a se construir, visando responder aos anseios do que deve ser: a possibilidade de aumentar a
qualidade de vida e minorar o sofrimento sempre, e de curar quando possível.

Biopoder
O conhecimento confere poder e o poder cresce por si mesmo, ou melhor, em aliança ambívoca com a riqueza: um promove o outro
e ambos progridem. O latifundiário do Brasil Colônia detinha o biopoder primitivo, emanado do saber tecnológico – manejo das
culturas, do gado, dos escravos. Oswaldo Cruz, eliminando a febre amarela e a varíola no Rio de Janeiro e elevando o instituto que
fundou ao primeiro lugar no mundo em medicina tropical, foi o brasileiro de maior biopoder de nossa história. Nos tempos atuais, o
biopoder é exercido principalmente pelas multinacionais que fabricam medicamentos e aparelhos para diagnóstico e cirurgia, bem
como pelas empresas que produzem linhagens novas de animais, plantas e micróbios. Nas universidades e institutos de pesquisa,
cada vez mais o biopoder produz conhecimento, que reverte em mais biopoder.
Aceitando-se uma sociedade democrática capitalista, o biopoder pode ser benéfico, como o de Oswaldo Cruz. Mas é preciso
combater suas distorções, como fez a campanha de abolição da escravatura contra o biopoder do latifundiário. Como a genética
moderna continuará abrindo novos campos para o biopoder, é urgente intensificar as discussões sobre seus aspectos éticos.
Igualmente importante é inibir a proliferação do pseudobiopoder, pelo desmascaramento e controle da atividade de charlatões,
ingênuos ou de má-fé (Frota – Pessoa, 1997; 5 – 253 – 261). As aplicações da engenharia genética estão revolucionando a
agronomia. Criou-se dúvidas sobre a legitimidade de certas patentes. A própria privacidade das pessoas parece ameaçada pelo
biopoder da genética molecular, capaz de, no nível de DNA, esquadrinhar nossa Constituição. Existe um exagerado temor em
relação aos tratamentos de doenças hereditárias por transferência de genes: genoterapia de células somáticas e até germinativas.
Portanto, emerge uma crescente preocupação sobre como serão utilizados, nessa área, os aportes gerados pelos saberes
oriundos do Projeto Genoma Humano, sobretudo via seus resultados mais imediatos – os “Kits de diagnósticos genéticos” – o que
traz à tona as imensas preocupações de ordem moral e ética na área da medicina fetal, da genética e da clonagem, sob a égide da
engenharia genética e o biopoder decorrente da manipulação da vida. Os tópicos citados levantam preocupações sobre as quais
precisamos refletir, opinar e decidir (Oliveira; 1997:177).

Genoma humano e engenharia genética


Seria o fim da fatalidade? A medicina está no alvorecer de uma revolução que vai mexer com tudo: tanto com os corpos quanto com
as mentes. No século XXI o ser humano será mais do que nunca senhor do seu destino, com capacidades de intervir diretamente no
mecanismo fundamental de sua existência, de seu futuro e de sua saúde. Existem enormes perspectivas de consequências
imprevisíveis, sobre as quais já se debruçam pesquisadores, cientistas, filósofos. Essa revolução chama-se medicina genética.
Não se trata mais de simplesmente cuidar dos órgãos doentes. Trata-se de demonstrar a loteria da hereditariedade e de suas
injustiças distribuídas ao acaso. O segredo reside numa longa molécula de DNA, que forma os cromossomos, dobrado no centro da
cada uma de nossas células, como uma fita magnética no ventre de um computador. Nessa fita química estão inscritas as etapas de
nossa vida. Ela é o suporte dos genes que recebemos de nossos antepassados. É aí que repousam dezenas de milhares de
instruções que definem nossas características físicas e dirigem a fabricação de proteínas, aquelas fundações sobre as quais nosso
corpo é construído.
Decodifica-se o programa para prever as doenças, muito antes de elas se manifestarem. Isto já está sendo realizado. Modificam-se
seus dados para que elas sejam eliminadas. Isto já começa a ser feito. Os pesquisadores já aprenderam a destrinchar a cadeia vital
do DNA, a recopiá-la e a transferir pedaços dela de uma criatura para outra. Agora estão em condições de alterar a natureza
programando qualquer organismo vivo. Pesquisam os genes das bactérias, a fim de produzir medicamentos e vacinas; modificam
aqueles das plantas, a fim de criar híbridos eficientes; fabricam-se novas raças de animais, que Noé não poderia ter imaginado em
sua arca. O ser humano era sem dúvida o próximo da lista.
Começamos com uma nova etapa do Gênesis: no sétimo dia, Deus descansou, após ter criado o mundo; no oitavo, o homem toma
conta das coisas e se reprograma a si mesmo.
Sabe-se hoje que existem mais de três mil doenças hereditárias – da hemofilia à miopatia, passando por diversas formas de
câncer, todas provocadas por defeito de um ou vários genes. Analisando o DNA de um adulto ou de um feto, podem-se atualmente
identificar inúmeras dessas afecções, sem que haja o menor sintoma delas: algumas, como a coreia de Huntington, constituem
verdadeiras bombas de efeito retardado. Mas surgem dificuldades: deve-se diagnosticar, quando não se sabe curar? Deve-se
interromper uma gravidez quando se descobre que a criança que vai nascer traz em seus cromossomos um erro que lhe permitiria,
contudo, viver normalmente dezenas de anos?
Os pesquisadores falam hoje da existência em torno de 6.000 doenças genéticas. Até recentemente, pesquisar um gene era como
ler um alfabeto do fim para o começo: como não era possível entrar ele, estudavam-se as proteínas por ele codificadas. A partir da
segunda metade da década de 80, e, sobretudo agora, com o desenvolvimento, do Projeto Genoma Humano, a ciência está
conseguindo cada vez mais estudar o próprio gene. O novo método consiste em localizar o gene responsável por uma determinada
doença e isolá-lo, e tem uma valiosa aplicação prática: o diagnóstico pré-natal. Estudar um gene significa observar em seu interior a
sequência dos pares em que se agrupam as quatro substâncias indispensáveis para que haja a vida: adenina, timina, citosina e
guanina, a que se agrupam em pares e integram o DNA. Há cerca de 3,5 bilhões desses pares no corpo humano e,
aproximadamente, 30 mil genes. O diagnóstico pré-natal é feito sempre que os pais o requisitam – ou por saberem que integram
grupos genéticos de risco ou porque já tiveram algum filho não saudável. Por exemplo, o risco de alguém que seja filho de pai e mãe
esquizofrênicos tornar-se também esquizofrênico é de 12%. Esse índice sobe para 46% quando ambos os cônjuges são portadores
da enfermidade.
Um esclarecimento se faz necessário: Existe a terapia somática, que afeta apenas a pessoa que está sendo tratada e a terapia
germinal, a qual implica mudanças que podem passar às gerações futuras. Até o momento, todos os esforços na terapia genética
em seres humanos se concentram nas células somáticas. O grande receio é que, se a terapia genética somática em seres humanos
é aceita pela medicina, haverá fortes motivos para estender a terapia genética também às células germinativas. Embora as terapias
de células germinativas e de zigotos sejam muito promissoras para o futuro, o abuso da tecnologia do DNA para fins não-
terapêuticos levanta sérias questões éticas acerca de nossa relação com a posteridade. Técnicas de junção de genes podem ser
usadas para eugenia positiva a fim de mudar as características básicas da natureza humana em vez de para curar desordens
cromossômicas. Podem, além disso, tornar-se um instrumento da malevolência tirânica que manipule seres humanos para fins
políticos e sociais.

Ética que cerca o projeto genoma humano (PGH)


O PGH é o maior e mais promissor dentre todos os projetos já desenvolvidos no campo das ciências biológicas. Pretende-se, até o
ano 2005, a identificação e o mapeamento de todos os genes humanos e o sequenciamento dos três bilhões de pares de base que
constituem o nosso genoma. Como objetivos secundários, visa-se à descoberta de novas ferramentas diagnósticas e de novos
tratamentos para doenças de etiologia genética e à transferência do conhecimento para outras áreas, por exemplo, estimulando o
desenvolvimento da biotecnologia moderna na agricultura e zootecnia.
Pela sua própria natureza, o PGH cerca-se de algumas incertezas éticas, legais e sociais (ELSI). Reconhecendo isso, o projeto
dedicou 10% de seu orçamento total à discussão desses temas. Esta questão é tão importante que a UNESCO adotou, em 1997, a
chamada “Declaração Universal do Genoma Humano e Direitos Humanos”. Três itens se destacam na agenda ELSI:
1. Privacidade da informação genética.
2. Segurança e eficácia da medicina genética.
3. Justiça no uso da informação genética.
Subjacentes a esses itens existem cinco princípios básicos sobre os quais está sendo constituído o edifício ético consensual do
PGH: autonomia, privacidade, justiça, igualdade e qualidade. O princípio da autonomia estabelece que os testes deverão ser
estritamente voluntários após aconselhamento apropriado, e que a informação resultante deles é absolutamente pessoal.
O princípio da privacidade determina que os resultados dos testes genéticos de um indivíduo não poderão ser comunicados a outra
pessoa sem seu consentimento expresso, exceto talvez a familiares com elevado risco genético, e mesmo assim após a falha de
todos os esforços para obter permissão do paciente.
O princípio da justiça garante proteção aos direitos de populações vulneráveis, tais como crianças, pessoas com retardo mental ou
problemas psiquiátricos e culturais especiais.
O princípio da igualdade rege o acesso igual aos testes independentemente de origem geográfica, raça, etnia e classe
socioeconômica.
Finalmente, o princípio da qualidade assegura que todos os testes oferecidos terão especificidade e sensibilidade adequados e
serão realizados em laboratórios capacitados com monitoração profissional e ética. A questão crucial é que não existem maneiras
legais de implementar e garantir que esses princípios éticos serão aceitos – e provavelmente de interesses econômicos – para
implementação de testes genéticos sem adesão a eles.
Toda a problemática ELSI vai convergir na interação social de três elementos:
1. A comunidade científica do PGH, que vai gerar o novo conhecimento.
2. O mundo empresarial, que vai transformar esse conhecimento em produtos e oferecê-los à população.
3. A sociedade como um todo, que vai absorver e incorporar o novo conhecimento em uma visão do mundo e suas práticas
sociais, além de consumir os novos produtos.
A humanidade espera pela conclusão do Projeto Genoma Humano, que acontecerá daqui a uma década, com a mesma ansiedade
de alguém que espera pela realização de um sonho que acontecerá amanhã. O sonho que está em jogo é grande: a conquista da
chave da vida. Todo sonho tem o seu preço, e o PGH já começa a cobrar do ser humano novas posições éticas. Dos cerca de US$
3 bilhões orçados para o mapeamento e sequenciamento de todo o genoma, os EUA entram com 50%. Depois vem a Grã-
Bretanha com 15%, enquanto a França, a Itália, o Japão e a Alemanha praticamente se equivalem no restante do investimento do
projeto. Quando todos os genes estiverem nas mãos dos pesquisadores e cientistas, a propriedade do genoma humano será então
fatiada de forma mais ou menos proporcional a quanto cada país investiu?
A questão das patentes foi levantada pela primeira vez pelos americanos, em 1988, quando o PGH ainda não existia oficialmente.
O protagonista da história foi uma ratinha de um laboratório dos EUA, batizada de Myc Mice, que entrou para a história da genética
por ter sido o primeiro animal oficialmente reconhecido como uma invenção do homem. Seus criadores foram os biólogos
americanos da Harvard Medical School, em Boston, que inocularam na cobaia um oncogene (gene do câncer) humano capaz de
desencadear o câncer de mama. Geneticamente, ela não era mais a mesma após a experiência. Era um animal produzido em
laboratório.
A coisa ficou no ar e pegou fogo quando a equipe do geneticista Craig Venter, do Instituto Nacional de Saúde de Maryland, EUA,
isolou, em 1990, de uma só vez, 337 genes. A conquista foi festejada nos principais laboratórios do mundo. Pouco depois, o
Instituto de Maryland requereu patentes para todos os genes descobertos. A discussão começou e está na ordem do dia.
Questiona-se a tentativa de controlar a exploração comercial dos genes, um patrimônio que pode ser considerado de toda a
humanidade.
Na ordem ética que terá de chegar na virada do século, à medida que o PGH vá concluindo suas pesquisas, existem situações
absolutamente novas. Imagine-se a seguinte cena entre empregador e empregado: “temos vaga, mas não podemos admiti-lo
porque sua ficha genética diz que o senhor tem propensão ao câncer de pulmão”. Ou então, a alguém que procura um convênio
médico, diz o vendedor: “tudo bem, saudável, mas nós cobraremos uma taxa adicional porque sua ficha genética mostra que o
senhor é um sério candidato ao diabetes daqui a alguns anos”. No item convênio, pode também ocorrer o contrário: uma bela
modelo ou um excepcional atleta, saudáveis de corpo por dentro e por fora, apresentam as suas fichas privilegiadas e tentam
barganhar um desconto. Ou, então, jornais podem algum dia estampar a seguinte manchete: Aberta a CPI do caso das fichas
genéticas. Quer dizer, alguém começou a vender fichas genéticas limpas mas frias.
Sem dúvida, é preciso cuidado a fim de se evitar discriminações para que não se forme um quadro de pessoas geneticamente não
aceitas.

Reflexões bioéticas
Além de apontar caminhos para a cura de doenças e outras revelações extraordinárias, o Projeto Genoma Humano traz, nas
mesmas proporções, dilemas éticos, como a necessidade de futuras legislações, e ainda dúvidas de natureza econômica, sobre os
interesses que movem as pesquisas: é necessário estar atento ao perigo do uso indevido das informações genéticas. Estes
avanços devem ser usados para proteger e beneficiar os seres humanos e não para estigmatizá-los. As descobertas científicas não
são, e nunca serão, éticas ou antiéticas. Será antiética a sua utilização de forma atentatória aos valores que cultivamos, como o
respeito à vida, à individualidade, à diversidade; valores como a compreensão e a solidariedade.
Conhecimento é poder. Portanto, tem muita gente apavorada com o que irá ocorrer agora com o sequenciamento do genoma
humano. De fato, entre as ondas de bioliberalismo (tudo o que se sabe fazer deve ser feito) e de biofundamentalismo (a
intocabilidade/ sacralidade da vida, “salta aos olhos” que, sendo a bioética o consenso possível temporário e mutável entre
diferentes setores da sociedade, envolve questões de poder, pois consenso sempre tem a ver com a força política dos grupos
protagonistas. Em qualquer consenso, quern “pode” mais, embora sempre “leve tudo”, leva mais, sempre. Isto é, a bioética não é
apolítica.

Benefícios da Engenharia Genética


• Novas tecnologias farmacêuticas: milhares de drogas deverão ser criados para doenças que antes não tinham tratamento. As
drogas serão feitas especialmente para cada indivíduo, diminuindo os efeitos colaterais; produção de vacinas.
• Terapia gênica: genes com erro poderão ser substituídos, acabando com doenças na sua origem.
• Diagnóstico mais preciso das doenças genéticas (medicina preditiva) e talvez até a cura de algumas delas.

Patenteamento do genoma
É apropriado estabelecer-se direitos de propriedade sobre regiões do DNA, que constituem a base da vida?
Patenteia-se uma invenção. Um gene não é uma invenção, é uma descoberta de algo que a natureza levou milhões de anos para
desenvolver.
No final do Congresso Mundial de Bioética celebrado em Guijón (Espanha), de 20 a 24 de junho de 2000, o Comitê Científico da
Sociedade Internacional de Bioética (SIBI) insistiu que “a ciência e a tecnologia devem tomar em consideração o interesse geral.
De tal forma, consciente dos progressos rápidos da biologia e da medicina, a imperiosa necessidade de assegurar o respeito dos
direitos humanos e o perigo que os desvios destes progressos poderiam significar, assim como é papel da bioética clarear a
opinião pública sobre as consequências de todo tipo de avanços científicos e técnicos, por meio de observações e
recomendações”, declarou que “as biociências e suas tecnologias devem servir ao bem-estar da humanidade, ao desenvolvimento
de todos os países, à paz mundial e à proteção e conservação da natureza. Isso implica que os países desenvolvidos devem
partilhar os benefícios das biociências e de suas tecnologias com os habitantes das zonas menos favorecidas do planeta e servir ao
bem-estar de cada ser humano” e que “uma tarefa importante da bioética, que constitui uma atividade pluridisciplinar, é harmonizar
o uso das ciências biomédicas e suas tecnologias com os direitos humanos, em relação aos valores e princípios éticos
proclamados nas Declarações Universais dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 10 de dezembro de 1948, e da UNESCO,
sobre o genoma humano e os direitos humanos, do 11 de novembro de 1997”. É nesse marco que se inscreve sua oitava
recomendação: “O genoma humano é patrimônio da humanidade, e como tal não é patenteável”, reiterando o critério da
comunidade científica internacional na matéria, como por exemplo, a Declaração Íbero-Latino-americana sobre ética e genética
(Declaração de Manzanillo de 1996, revisada em Buenos Aires, em 1998).
Há anos, bioeticistas vêm proclamando que o carro-chefe da luta pelos direitos humanos no século XXI seria o lema: “nossos genes
nos pertencem”. Pressentia-se que o desenvolvimento das biociências poderia ter como decorrência a apropriação privada do
patrimônio genético humano, alegando benefícios aparentemente humanitários, como fabricação de remédios para doenças raras e
incuráveis. As tentativas de acesso à intimidade genética das pessoas, contra a vontade, ou desconhecimento, e de tornar o DNA
humano uma mercadoria, são várias. Também são inúmeras as denúncias de instituições e pesquisadores que em nome do
“progresso científico” desconsideram os mais elementares direitos das pessoas pesquisadas como, por exemplo, o direito de
saber, de compreender, de dar ou não o consentimento e o de decidir, explicitamente, qual o destino que deseja para seus genes
ou produtos deles derivados. Assim, a comercialização de informações genéticas humanas não encontra respaldo ético, pois se em
uma sociedade democrática cada pessoa não é dona de seus genes e não tem o direito de decidir sobre a sua intimidade
genética, o que lhe resta de seu? O que concede a um governo ou parlamento o direito de comercializar as informações genéticas
de alguém (Islândia, por exemplo)? E o conjunto da população? Como a pessoa ou a população poderá se defender de tamanha
arbitrariedade?
Mais grave ainda foi a pirataria genética praticada por cientistas inescrupulosos do primeiro Mundo em relação a certos grupos
indígenas da América do Sul. Para ter acesso a troncos genéticos mais puros, foi retirado sangue desses indígenas para estudos,
fazendo-se promessas enganosas e deixando-os sem informação sobre o uso posterior dos dados coletados.
Em 1998, a ONU oficializou sua posição a respeito desse tema. Para a entidade, em seu estado natural o genoma não deve dar
margem a ganhos financeiros por se tratar de um patrimônio da humanidade. Muitos empresários, porém, reivindicam o direito de
patentear determinadas sequências de genes que possam dar origem a produtos farmacêuticos. A questão está ainda sendo
discutida.
É bom lembrar que há recomendações de âmbito regional (Conselho da Europa, Comissão Europeia) sobre biossegurança e
comércio que, em comum, proíbem em humanos a clonagem, a manipulação genética de células germinais e a venda do patrimônio
genético. Os países membros da ONU, em tese, possuem uma orientação que veda o comércio de genes humanos, a Declaração
Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos (UNESCO, 1997), mas a ONU não pode impor juridicamente tal declaração
aos países membros, o que indica que na área de genética não serão elaboradas leis/ normas universais.

Privacidade
Quem terá direito de acesso às informações genéticas de cada indivíduo? Apenas ele próprio, o cônjuge, familiares, pais adotivos,
empregadores, seguradoras de saúde, instituições de ensino ou militares, a polícia? É uma das perguntas ainda sem resposta.
Segundo a posição do Comitê Internacional de bioética da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (UNESCO), a pessoa tem o direito de guardar apenas para si, se desejar, as informações sobre sua herança genética, mas
garantir esse direito será um famoso desafio.
A divisão brasileira da Polícia Criminal Internacional (INTERPOL) cria um banco de dados de DNA para localizar crianças
desaparecidas em parceria com a USP (Universidade de São Paulo) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Também
coleta material genético de pais que tiveram seus filhos desaparecidos. É também uma arma para a polícia para evitar tráfico,
sequestros e roubo de crianças. O teste do pezinho passa a ser feito em todas as crianças recém-nascidas no país. Assim, nas
próximas décadas, o governo terá a informação genética de toda a população!
Como basta uma gotinha de sangue para acessar o genoma, as leis têm que garantir a privacidade genética do indivíduo.
Carteira genética. A carteira de identidade poderá incluir um código de barra que expresse o genoma do portador. A pessoa será
como cristal, totalmente transparente, ao menos no seu aspecto biológico-genético. A carteira genética poderá ser colocada a
serviço de uma prática de contratação de empregos que estigmatiza pessoas portadoras de herança genética anômala. O fator
genético poderá tornar-se um elemento de estratificação e discriminação social ao lado do fator racial, étnico, sexual e
socioeconômico. Também os convênios privados de saúde e de aposentadoria e as apólices de seguro de vida poderão usar os
testes. Essas instituições querem diferenciar as quotas de pagamento de acordo com o baixo ou alto risco de contrair determinadas
doenças de tratamento longo e custoso.

Discriminação
Discriminação baseada na quebra de sigilo acima considerado. A divulgação de predisposições genéticas a determinadas
doenças pode provocar a discriminação de um indivíduo. A partir da leitura do mapa genético do indivíduo emergem vários
questionamentos: em que momento ele deve ser informado? Como garantir o sigilo de tal informação, de forma que, preservando
sua intimidade, ele não seja prejudicado pessoal e profissionalmente no decorrer de sua vida? Emprego, convênio de saúde,
seguro de vida… uma empresa poderá deixar de contratar um funcionário se souber, via genoma, que ele tem uma tendência a ser
depressivo ou alcoólatra? Seu plano de saúde poderá excluir problemas cardíacos porque você tem um gene que o predispõe a
altas taxas de colesterol?
E mais: se houver um gene capaz de determinar a predisposição a comportamentos agressivos, um governo poderá manipulá-lo
para intensificar essa tendência e criar um exército extremamente violento ou poderá minorá-lo para ter uma massa de operários
dóceis, ou determinar que este ou aquele feto seja abortado porque existe a probabilidade de vir a ser um assassino em potencial.

Determinismo genético e liberdade humana17


A crença no determinismo promulgada pelo mito dos genes suscita a questão da culpabilidade moral e jurídica. Uma disposição
genética para a conduta antissocial torna uma pessoa culpada ou inocente perante a lei? Ao longo desta década, nosso sistema
terá de repensar as bases filosóficas sobre as quais construímos conceitos como livre-arbítrio, culpa, inocência e fatores
atenuantes. Não há dúvida de que a pesquisa da ligação entre determinismo genético e conduta humana continuará e de que novas
descobertas irão se tornar imediatamente relevantes para a acusação e a defesa dos acusados de crimes. O foco incidirá no
conceito de livre-arbítrio porque o pressuposto da filosofia ocidental, desde Agostinho, subjacente a nossa compreensão de lei, é o
de que a culpa só pode ser atribuída a um agente humano que age livremente.
O espectro no horizonte genético é o de que as disposições genéticas que possam ser confirmadas em certas formas de conduta
constituirão compulsão, e isso nos colocará em uma bifurcação no caminho jurídico: ou declaramos inocente a pessoa com uma
disposição genética para o crime e a libertamos, ou a declaramos constitucionalmente deficiente de modo a justificar o
encarceramento e o isolamento do resto da sociedade. O primeiro caminho poria em risco o bem-estar da sociedade; o segundo,
violaria os direitos individuais.
As implicações éticas, se for confirmada uma base biológica, genética para o homossexualidade, poderiam seguir mais de um
percurso. O fato científico não determina a direção da interpretação ética desse fato. A questão ética central é esta: a disposição
genética para a homossexualidade torna o portador desse gene inocente ou culpado? Logicamente as duas respostas são
possíveis.
Por um lado, uma pessoa homossexual poderia afirmar que, como herdou o gene gay e não escolheu uma orientação gay por
vontade própria, é inocente. A posição da inocência biológica poderia ser sustentada por um argumento adicional: a atividade
homossexual não é pecaminosa, mas simplesmente uma forma natural de expressão sexual entre outras. Seria possível ir ainda
mais longe e dizer que, como foi herdada biologicamente, ela é vontade de Deus, que a predisposição homossexual de uma
pessoa é uma dádiva de Deus.
Por outro lado, poderíamos seguir o caminho oposto e identificar o gene gay a uma disposição carnal para o pecado. A sociedade
poderia afirmar que o corpo herdado por nós pertence a quern somos – quern sou como eu é determinado, pelo menos em parte,
pelo que meus pais me legaram – e que uma disposição herdada para o comportamento homossexual é exatamente como outras
disposições inatas, por exemplo, a luxúria, a ganância ou formas similares de concupiscência compartilhadas pela raça humana em
geral, e tudo isso constitui o estado de pecado original em que nascemos.
Para além da questão de culpa ou inocência, os eticistas antecipam outra questão: o risco de estigma. A presença do gene gay em
um feto poderia ser considerada um defeito genético e fundamento para o aborto? Os testes genéticos de rotina levariam a uma
redução geral de pessoas homossexuais de uma maneira paralela à redução de crianças com síndrome de Down? Isso seria
considerado discriminação de classes?

Eugenismo
Um risco que assombra estudiosos é a possibilidade de retorno do eugenismo, doutrina em voga no período que antecedeu a 2ª
Guerra Mundial, pela qual se busca o aperfeiçoamento genético da raça humana. Laboratórios “planejariam” seres humanos
determinando tipo de pele, olhos, cabelos… Além disso, fetos que antecipadamente fossem identificados como portadores de
genes de doenças graves, para as quais ainda não houvesse sido descoberta a cura, correriam o risco de sofrer aborto. teme-se o
recrudescimento do preconceito e da intolerância contra certos tipos étnicos e portadores de deficiências física e mental.

Previdência Social
Segundo previsões de cientistas, dentro de 40 anos, a expectativa de vida dos seres humanos será de 90 anos e não 70 como
agora, graças ao gene da longevidade. Se muita gente optar pelo gene da longevidade, os sistemas previdenciários vão ter de se
adaptar a uma nova situação. Quern vai pagar a conta?

Clonagem
Com o advento da ovelha Dolly, gestada a partir de uma célula de uma outra ovelha, a comunidade científica começou a discutir a
possibilidade de clonagem de seres humanos. Clonar significa a reprodução do idêntico. Há dois tipos de clonagem: clonagem
reprodutiva e clonagem terapêutica. Segundo parecer da ONU, a clonagem para a produção de tecidos humanos deve ser fruto de
pesquisa, porque pode ajudar a salvar vidas. Mas a clonagem de indivíduos – reprodutiva – é condenada pela entidade. Voltaremos
ao assunto no próximo capítulo.

Terapia gênica
Nova era da medicina. Dois tipos:
A célula com gene disfuncional é retirada do corpo e tratada em laboratório. Nesse procedimento o gene com mutação é substituído
por um gene normal e a célula é novamente colocada no corpo.
Vírus podem ser usados como vetores que carregam genes normais para dentro do corpo. Uma vez no organismo, esses vírus
utilizam o DNA da célula que tem o gene defeituoso para duplicar o próprio DNA (com gene normal) criando, assim, uma célula
normal.
As terapias genéticas prometem revolucionar a medicina com a prevenção e até mesmo a “correção” dos “erros genéticos”
detectados nos códigos dos pacientes. Tais terapias poderão ser aplicadas tanto em nível somático (afetando somente o indivíduo
tratado) como em nível germinativo (operando nas células sexuais e embrionárias), habilitando assim a transmissão do novo traço
para toda a descendência do organismo alterado. Por outro lado, a engenharia genética oferece um catálogo de “tecnologias da
alma”, surgidas de um campo de saber que hoje recebe atenção permanente das mídias: a genética comportamental. Esta
disciplina se propõe a identificar as supostas relações entre um determinado gene e certo traço da subjetividade (inteligência,
ansiedade, preguiça, ambição, pessimismo etc.) utilizando a estatística como método básico para estabelecer as
correspondências. Seu objetivo final coincide com o da genética médica: diagnosticar, prevenir e eventualmente “ajustar”
determinados “erros” inscritos nos códigos genéticos dos indivíduos. Assim, alterando a informação contida no DNA seria possível
transformar um criminoso – potencial ou real – em um “homem honesto”, por exemplo.
O desafio está lançado: se a propensão à violência é controlada pelos genes, por que não intervir para corrigi-la? E se ela é
transmitida geneticamente, por que não praticar logo uma terapia em nível germinativo, em vez de limitar-se à extirpação somática
no indivíduo, para assim eliminar o “gene violento” de toda a descendência do sujeito e livrar-se para sempre desse grave problema
social?
Além das trocas e alterações na informação genética, que apontam para a modelagem dos corpos e das subjetividades, a tecno-
ciência contemporânea também facilita a inserção subcutânea de elementos não-orgânicos, hibridizando os corpos com materiais
inertes. Trata-se de um processo denominado endocolonização: a conquista do interior do corpo por parte da tecno-ciência mais
recente, da aparelhagem videoscópica utilizada para diagnóstico e tratamento de diversas doenças até as experiências mais
inovadoras de cirurgias sem cortes por meio da inserção de dispositivos nanotecnológicos. Cada vez mais introjetados,
transparentes e diluídos em trocas íntimas e fluidas, os agentes artificiais se misturam com os orgânicos, dissolvendo as fronteiras e
tornando obsoleta a antiga diferenciação, visto que ambos compartilham a mesma lógica da informação digital. Assim, hoje são
criados materiais inéditos, híbridos de ambos os mundos, representados pelos microchips com componentes orgânicos e pelos
implantes biônicos. Estes últimos se apresentam como capazes de devolver a visão aos cegos e a possibilidade de andar aos
paraplégicos, graças à implantação cirúrgica de microprocessadores nos cérebros e outros dispositivos teleinformáticos ligados
aos nervos, aos músculos ou a órgãos específicos. Soluções semelhantes estão sendo testadas para tratar de doenças como a
epilepsia e os males de Parkinson e Alzheimer; e, inclusive, de distúrbios nervosos como a obsessão compulsiva, a síndrome do
pânico e a depressão.
Deverá ser limitada a tecido somático, que desaparece com a morte do indivíduo, ou deverá ser estendida ao tecido germinativo
alterando, portanto, a constituição genética das próximas gerações?
A terapia gênica ainda levará tempo para ultrapassar as paredes dos laboratórios. As principais barreiras são as dificuldades em
colocar os genes normais no tecido ou órgão afetado pela enfermidade e fazê-los funcionar de forma adequada.

Alerta
Cientistas lembram que fatores ambientais e culturais têm influência tão forte na vida e no comportamento quanto à herança
genética. Os genes e a genética estão envolvidos em quase tudo. Estão claramente envolvidos no fato de eu estar careca ou de eu
ser ruivo, o que são coisas triviais; mas também, provavelmente, contribuem para eu ter ou não hipertensão, para ter ou não a
doença de Alzheimer. Os genes provavelmente definem minhas habilidades atléticas, minha inteligência e daí para frente; eles estão
por trás do que faço.
Também há a questão do ambiente: algumas coisas são mais influenciadas pelo meio ambiente, outras mais pelos genes.
Inteligência, por exemplo, não sabemos se se deve mais aos genes ou ao ambiente. Os estudos que comparam gêmeos são
perfeitos como exemplo: você tem dois indivíduos com o mesmo código genético, e se eles crescem em ambientes diferentes,
apesar de terem muitas similaridades, se tornarão indivíduos diferentes.

O projeto Genoma Humano e a realidade brasileira (fome)


Segue uma reflexão da médica, professora de bioética da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, Eliane S. Azevêdo:
“Reconhecemos ser dever moral de cidadão brasileiro aplaudir o grande feito científico realizado pelo Projeto Genoma Humano, e
aproveitar o momento para dizer, com a mesma voz dos aplausos, que toda criança neste mundo tem mais um direito que nunca
especificamente enunciado em documentos internacionais sobre Direitos Humanos. Que toda criança tem direito a desenvolver-se
em ambiente que não anule ou iniba o potencial biológico inscrito em seu genoma. Que toda criança tem direito ao pleno
desenvolvimento das capacidades físicas e mentais inscritas em seu genoma. Que a desnutrição e a fome anulam o
desenvolvimento biológico destas capacidades levando à morte precoce ou incapacitação da vida. Nada justifica permitir que uma
criança seja vítima de desnutrição, pois nem mesmo a expressividade do genoma humano consegue ser mais forte que a fome”.

A Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos (1997)18


Esta declaração objetiva assegurar o desenvolvimento da genética humana, na perspectiva de respeito da dignidade e direitos
humanos da pessoa e ser benéfica para a humanidade como um todo. O progresso da pesquisa em genética humana, que traz uma
grande esperança de saúde e bem-estar da humanidade, pode também ser usada com objetivos danosos, contrários para a
dignidade humana, direitos humanos, ou respeito pela integridade da raça humana. A declaração lembra três princípios vitais, que
são fundamentais na proteção da humanidade em relação às implicações da biologia e genética: dignidade humana, liberdade de
pesquisa e solidariedade humana.
Ela também reafirma a necessidade de um debate democrático sobre o progresso da genética, bem como capacitar a sociedade
para cumprir suas responsabilidades. A partir deste ponto de vista enfatiza a importância da cooperação internacional em ampliar o
conhecimento e as vantagens de prover o ensino da bioética.
Não somente os indivíduos, mas também os seres humanos enquanto raça, estão envolvidos no progresso da genética. Esta dupla
natureza do genoma humano significa que os objetivos de proteção do indivíduo devem estar relacionados em nível individual e
comunitário: de um lado, salvaguardar a integridade da raça humana e de outro, respeitando a dignidade, a liberdade e os direitos
de cada um dos seus membros.
Estes dois objetivos são indissociáveis. O reconhecimento da dignidade do indivíduo e o reconhecimento da unidade e valor da
raça humana necessariamente caminham juntos. Nenhuma violação desta unidade deve ser tolerada, o que significa que devemos
proibir toda espécie de experimentos que prejudicam a identidade da raça humana.
Por contraste, o objetivo de salvaguardar a integridade da raça humana, não deve ser tornado para significar ação positiva para
conservar a diversidade genética humana, com a visão de proteger a singularidade genética de certos grupos humanos. Tal ação
seria incompatível com o respeito da dignidade da pessoa, liberdade e direitos humanos, que é o segundo pilar da proteção da
pessoa.
O respeito pela dignidade individual, liberdade e direitos humanos é um imperativo rico, a partir do qual nascem os princípios vitais
de proteção da pessoa, já afirmados na declaração – a rejeição de toda discriminação em base a características genéticas: a
exigência do consentimento livre; proteção da confidencialidade dos dados genéticos associados à pessoa.

Conclusão
O anúncio do rascunho (mapeamento) genético humano lança a mais profunda pergunta ético-filosófica: quem é a pessoa humana?
Seremos somente o nosso código genético? Poderemos “fabricar” o ser humano nos laboratórios? Poderemos dar-nos “a vida
eterna” pela conservação e o rejuvenescimento de nossas células? O que é ser pessoa? Quem somos nós?
Estamos diante de questões bioéticas de grande vulto. É necessário e importante lutar por uma legislação que fiscalize os feitos e
efeitos da engenharia genética, pois, esta e outras biotecnologias são saberes que encerram um poder incomensurável, além do
que muitos destes conhecimentos são sigilosos. As biotecnologias produzem “coisas” de grande utilidade para a humanidade, mas
também podem criar instrumentos de discriminação, como o “certificado de predisposição para doenças”; as testagens genéticas
compulsórias (diagnóstico genético populacional) e a “a carteira de identidade genética”. Também podem fabricar armas
bioengenheiradas letais.
Provavelmente, cada pessoa terá respostas diferentes às perguntas acima enumeradas. Em uma sociedade democrática é
indispensável que os valores individuais sejam plenamente assegurados, sem o cerceamento de qualquer tipo de liberdade, a não
ser que ela prejudique a liberdade de outra pessoa.
Estas questões estão sendo agora cuidadosamente consideradas por comissões de ética que existem em qualquer instituição de
ensino ou pesquisa, criadas em nosso país por legislação que também estabeleceu órgãos nacionais de controle, como a
Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Obviamente que não se trata pura e simplesmente de temer os perigos, mas de perceber também os benefícios e novas
esperanças que surgem. Sem dúvida, os conhecimentos podem ser utilizados para a prevenção e cura de doenças incuráveis que
hoje infernizam os seres humanos. Mas é bom lembrar que nem tudo o que cientificamente é possível, logo, ipso facto, seria
eticamente admissível. Surge, com urgência e necessidade, a bioética ou ética da vida.
Não há razão, portanto, para a histeria de certos grupos anticiência de desenvolvimento de “elites genéticas”. O conhecimento
científico, em si, não é bom nem mau. O que existem são aplicações éticas ou não-éticas deste conhecimento. Cabe à sociedade
em geral, e a cada um de nós em particular, manter-se vigilante para que esse conhecimento seja aplicado visando ao máximo de
felicidade para o maior número de pessoas.
Para aprofundar ainda mais a nossa reflexão, aconselho a leitura da Declaração sobre a produção e uso científico e terapêutico
estaminais embrionárias humanas19, Documento da Pontifícia Academia para a vida (Academia do Vaticano que estuda os
problemas éticos relacionados com a vida na perspectiva cristã católica) - 2000; da Declaração Íbero-Latino-americana sobre
direito, bioética e genoma humano20 (2001), recomendando a difusão, o estudo, o intercâmbio sobre os aspectos sociais, éticos e
jurídicos relacionados com a genética humana, a partir da Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos e
da Manifestação do Conselho Federal de Biologia21 sobre os organismos geneticamente modificados (OMGs) 2002,
recomendando a promoção da defesa da soberania dos povos e das nações sobre seu patrimônio genético e o uso de uma
linguagem acessível na discussão dos aspectos éticos no uso da biotecnologia.
17. PETERS, Ted. Genética, teologia e ética. In: PETERS, Ted e BENNETT, Gaymon (Orgs.). Construindo pontes entre a Ciência e a religião.
Tradução Luís Carlos Borges; supervisão científica Eduardo R. Cruz. São Paulo: Edições Loyola e Editora UNESP, 2003, p. 117-134.
18. Cfr. Anexo 5 a íntegra da Declaração.
19. Cfr. Anexo 6.
20. Cfr. Anexo 7.
21. Cfr. Anexo 8.

Capítulo 6

Clonagem humana
Introdução
A finitude física é uma certeza intragável e impossível de se compartilhar. Os filósofos dizem que a cada um pertence a sua própria
morte, não a dos outros. Adiar ao máximo esse encontro foi o maior desafio da ciência. Se pouco a pouco o homem dominou a
natureza, por que não alcançaria a imortalidade e se faria à imagem e semelhança de Deus? Os alquimistas, que na Idade Média
perseguiram o elixir da longevidade, ficariam excitados se pudessem ver o cenário que inaugura o século XXI. Ao mesmo tempo
fascinante e amedrontador.
Tudo indica que o fio condutor da economia neste século será a biotecnologia, tendo como locomotiva o Projeto Genoma Humano e
a clonagem. É um aprofundamento “no mundo do infinitamente pequeno e no mundo do infinitamente complexo” (Teilhard de
Chardin). Entreabre-se um cenário fantástico em que realidade e ficção científica se dão as mãos. A possibilidade de “um admirável
mundo novo” (Aldous Huxley), ou de um “Frankenstein” (Mary Shelley) nos inquietam…
Estamos entrando definitivamente num mundo novo. O desenvolvimento rápido da ciência e da técnica, na área da biologia,
genética e medicina, traz muitas novidades associadas a esperanças e temores, com enormes desafios éticos para a humanidade.
Está em jogo nada mais nada menos que o bem maior, que é a própria vida humana!
Alguns fatos científicos são a ponta do iceberg de uma revolução subterrânea silenciosa em curso cuja relevância e possíveis
consequências só muito recentemente começamos a perceber. A clonagem da ovelha Dolly na Escócia (Instituto Rosling pelo Dr.
Wilmut) no início de 1997, espantou o mundo científico e a humanidade em geral. O anúncio recente da decifração do código
genético humano (26/6/2000) nos introduziu definitivamente na era da genômica. “Estamos aprendendo a decifrar a linguagem
com que Deus descreveu a vida”, disse o Presidente Clinton, no dia do anúncio.

Ética e tecno-ciência
Em nenhum outro momento da história humana a ciência e a técnica colocaram tantos desafios para o ser humano quanto hoje.
Fala-se que a medicina mudou mais nos últimos cinquenta anos que nos 50 séculos precedentes. Aumentou espantosamente a
responsabilidade do ser humano em relação ao seu próprio futuro, uma vez que o que antes era atribuído ao acaso, à natureza, ao
destino, à vontade de Deus, passa doravante a ter a interferência direta da ação humana.
Basicamente, existem quatro atitudes fundamentais quando entramos na discussão ética e tecno-ciência em relação à natureza
humana.

1. A ciência tem o direito de fazer tudo o que é possível! Nessa visão, o único limite é aquele imposto pela capacidade técnica e
imaginação humana. O direito de conhecer é uma liberdade humana básica, e qualquer cerceamento é visto como uma violação
dos direitos do pesquisador. Caso se tenha a capacidade de fazer algo, assume-se que se tem o direito de fazê-lo.
2. A ciência não tem o direito de intervir no processo da vida pois este é sagrado! Popularmente é dito que “os cientistas não
deveriam querer ser Deus”. Deus é o dono da vida, a Ele a vida pertence, é considerada intangível como dom sagrado. Submissão
e obediência cega aos processos biológicos é o que se espera do ser humano. É obvio que esta atitude radicalizada não favorece
tipo de progresso científico algum, que acaba sempre visto como usurpador dos “direitos de Deus”.

3. A ciência não tem o direito de mudar as qualidades humanas mais características! Essa abordagem insiste que há um limite
para a intervenção científica e que este limite é a natureza da pessoa humana como ela é atualmente entendida e valorizada.
Levantam-se questões de ordem política em que a ciência é produzida. O que aconteceria se este conhecimento para mudar a
natureza humana caísse nas mãos de um “Hitler”, por exemplo, ou então a possibilidade de se clonar pessoas.

4 . A ciência tem o direito de incentivar o aperfeiçoamento de características humanas de valor e eliminar aquelas que são
prejudiciais. Esta perspectiva exige discussão ética que leve em conta os valores culturais, sociais e religiosos entre outros. A
motivação básica é atingir certo controle sobre os processos que afetam o desenvolvimento da vida humana. O objetivo é continuar
a melhorar a qualidade de vida, diminuir o sofrimento e erradicar doenças que infernizam a humanidade.
Precisamos estar conscientes dessas visões, para avaliar criticamente quando a utilização do conhecimento científico beneficia ou
não a humanidade. Não se trata de pura e simplesmente satanizar a ciência de forma ingênua. Ética e ciência precisam andar
juntas e se iluminar mutuamente, no objetivo maior de preservar e aperfeiçoar a vida e a dignidade do ser humano.

Do que falamos?
Faz parte da nossa natureza tentar entender como as coisas funcionam e querer melhorá-las. Estamos dando continuidade a algo
que começou há muito tempo, nos primórdios da História humana. Individualmente, todos os dias tomamos decisões que, de
alguma forma, afetam outras pessoas e o mundo em que vivemos. A tendência é que no futuro a clonagem se torne um
procedimento cada vez mais seguro e viável, cujos resultados poderão ser usados em benefício da humanidade. O objetivo é
conhecer o mecanismo essencial da vida. O código genético é responsável por todas as características físicas de uma pessoa e
também por boa parte do seu comportamento. Ao entender como esse mecanismo funciona, talvez possamos melhorá-lo ou corrigir
alguns de seus defeitos.
Uma das dificuldades da reflexão sobre a clonagem provem do fato que o mesmo termo, evocando sempre uma “reprodução do
idêntico”, designa operações diversas, cujas modalidades e finalidades são diferentes. E mais, a clonagem pode se reportar a
entidades biológicas diferentes. Do ponto de vista ético ou jurídico, não é o mesmo clonar um gene humano para fazer produzir por
bactérias insulina para tratar diabéticos, clonar células da pele para obter tecidos e assim tratar grandes queimados e clonar um
embrião, uma criança ou um adulto humanos; em outras palavras, devemos fazer a diferença entre clonagem reprodutiva e
clonagem terapêutica.
Clonagem de seres humanos significa criação de seres humanos adultos copiados de outros. É uma forma de reprodução
assexuada. Isso representaria uma verdadeira reviravolta da condição humana: o modo sexuado de procriação faz com que todo
ser humano, até agora, deva sua existência a duas pessoas, de sexos diferentes, tão indispensáveis uma como a outra. Assim, o
modo sexuado de geração mostra que a vida humana é o fruto de uma relação entre duas pessoas, um homem e uma mulher. A
clonagem de seres humanos permitiria a emancipação da reprodução humana de toda forma de relação. Admiti-la socialmente
transformaria radicalmente a sociedade, as representações a respeito da procriação e da relação entre os sexos.
Vejamos: um dos encantos da clonagem da ovelha Dolly é que a célula somática (não sexual) extraída da glândula mamária que lhe
deu origem se transformou em célula reprodutora – portanto, Dolly não tem pai. Isso abre caminho para estonteantes batalhas éticas
e judiciais.
Assim, a clonagem tem duas finalidades diferentes: a mais polêmica é a clonagem reprodutiva, cujo objetivo é formar um novo ser
humano geneticamente idêntico a outro. A motivação, nesse caso, seria ajudar casais inférteis ou que perderam um filho e
gostariam de ter outro igual. A técnica consiste em fertilizar um óvulo sem núcleo com o material genético de uma célula da pessoa
que deseja ser clonada. A outra categoria é a clonagem terapêutica, na qual embriões são clonados para obter células-tronco.
Pesquisadores acreditam que essas células indiferenciadas – com potencial para se transformar em qualquer um dos cerca de 220
tipos de célula do corpo – podem ser cultivadas para uso em transplantes e no tratamento de doenças degenerativas. Como seriam
obtidas a partir de um embrião clonado do próprio paciente, não haveria risco de rejeição. O processo é igual ao da clonagem
reprodutiva, mas em vez do embrião ser implantado no útero para formar um feto, ele é cultivado em pratinhos de laboratório por no
máximo sete dias e, depois, destruído para a retirada das células.

Células-tronco
As células-tronco são a base da clonagem humana. São células ainda não especializadas, que chamamos de pluripotentes, e
podem se diferenciar em vários tecidos. Ou seja, tornam-se células de coração, de fígado ou de pele, por exemplo. Quando o óvulo
se junta ao espermatozoide e forma o embrião, há apenas uma célula que começa a se dividir e, no início, todas são iguais. Estas
células vão se dividindo até que recebem uma ordem, não sabemos como, para se especializarem. Algumas se transformam em
célula de fígado; outras, de ossos. Isto ocorre por volta do 14° dia da fecundação.
O lado positivo da clonagem embrionária é abrir novas perspectivas de sobrevivência e de cura de doenças. Os seres vivos são
concebidos a partir da multiplicação de uma única célula-ovo, contendo em seu DNA toda a informação hereditária. Antes de
começar a se dividir e a se diversificar para formar os tecidos do corpo, as células do embrião, batizadas de células-tronco, são
indiferenciadas. Podem funcionar como curinga de órgãos doentes, ajudando a substituir seus tecidos degenerados.
A técnica que gerou a ovelha Dolly é a mesma utilizada para a reprodução de seres humanos e para a clonagem com fins
terapêuticos:
1. Esvazia-se o óvulo da doadora, sugando seu núcleo com uma agulha.
2. Por meio de choques elétricos, funde-se ao óvulo uma célula contendo material genético da pessoa a ser clonada.
3. O óvulo com os novos genes é colocado num meio que estimula sua multiplicação e a formação do embrião. Para cura: cultivado
em laboratório, o embrião dá origem a células-tronco. Antes de se diferenciarem para formar o corpo humano, elas são induzidas a
se transformar em tecidos específicos e, depois, injetadas para substituir células doentes dos órgãos: neurônios, células do
coração, células hepáticas. Para reprodução: o embrião é introduzido no útero da mãe de aluguel para que as células se
multipliquem, se diferenciem e deem origem ao clone humano.
O grande problema é que essas células são derivadas de embriões excedentes de processos de fertilização in vitro. Tais embriões,
normalmente descartados com consentimento do casal, são destruídos para extrair as células-tronco embrionárias. Para algumas
pessoas, isso significa destruir uma vida, o que seria inaceitável. Essa é uma questão delicada, que envolve aspectos morais,
culturais e religiosos. Vale lembrar que estamos falando de um embrião de cinco dias, basicamente um conglomerado amorfo de
células, que se fosse gerado no ventre de uma mulher teria somente 20% de chance de se transformar em um bebê. Uma coisa se
pode garantir: aquele embrião excedente trará muito mais benefícios na forma de células-tronco embrionárias do que em uma lata
de lixo.
Outro argumento contra o uso de células-troco embrionárias é o medo de que seja criado um comércio de embriões. Seguindo essa
argumentação, não deveriam ser permitidas transfusões de sangue nem doações de órgãos, pois isso também poderia degenerar
em comércio. A proibição cega invariavelmente leva ao atraso da ciência e da melhoria da qualidade de vida. Precisamos, sim, de
legislação e vigilância, para introduzir o desenvolvimento das células-tronco embrionárias no Brasil sem ferir direitos nem deveres.
Pesquisas mais recentes descobriram a existência de células-tronco adultas que também são pluripotentes, isto é, podem gerar
células de outros órgãos e tecidos. Descobriu-se células-tronco de medula óssea, tecido fetal e cordão umbilical. Esta é uma boa
notícia, pois são eliminadas não só as questões ético-religiosas envolvidas na utilização das células-tronco embrionárias, mas
também os problemas de rejeição imunológica, já que células-tronco do próprio paciente adulto podem ser utilizadas para regenerar
seus tecidos ou órgãos lesados. Prevê-se o desaparecimento das filas para transplantes e, em vez de transplantes de órgãos,
serão feitos transplantes de células retiradas do próprio paciente. Não há dúvida de que a terapia com células-tronco adultas será a
medicina do future O que preocupa os pesquisadores é que a ameaça de clonagem de seres humanos freie as pesquisas de
clonagem terapêutica.
O que é um embrião?22
Essa definição é importante para a discussão sobre células-tronco – aquelas que seriam indicadas para a produção de órgãos
usados para transplantes.
De forma teórica, para que possamos produzir um determinado órgão, devemos partir de células muito jovens denominadas
pluripotenciais. Como o nome indica, essas células possuem a capacidade de se transformar em vários tipos de tecidos presentes
no organismo. Em tese, uma única célula dessa linhagem, sofrendo um estímulo adequado, poderia originar um fígado ou um rim, ou
quem sabe um coração. Então seria muito compensador e gratificante para as pessoas que precisam de um novo fígado, rim ou
coração, que pudéssemos fabricar um desses órgãos. Ele sairia da “linha de produção” novinho em folha e pronto para substituir o
órgão velho ou danificado.
Essas células-tronco podem ser obtidas a partir de várias fontes. As mais divulgadas na atualidade são: a partir da medula óssea,
do sangue do cordão umbilical e da própria estrutura do pré-embrião em desenvolvimento. No entanto, apesar de já ser possível
obter a célula-tronco e dos vários estudos em andamento, a maneira pela qual fazemos essas células se transformarem em um
determinado tipo de tecido ainda não foi determinada. Portanto, temos os “ingredientes”, mas ainda não sabemos a “receita do
bolo”.
Os estudos mais recentes demonstram, por exemplo, que já é possível produzir células sanguíneas a partir das células-tronco da
medula óssea e do sangue do cordão umbilical. Porém, não há nada comprovado em humanos sobre como essas células podem
originar outros órgãos e quais os estímulos mais adequados de diferenciação devem ser aplicados.
Do ponto de vista ético retirar células-tronco da medula óssea ou do cordão umbilical é um ato aceitável, pois nenhum
comprometimento sério é causado ao doador das mesmas. Questões éticas, morais e mesmo científicas surgem quando tentamos
trabalhar com células-tronco que seriam retiradas da estrutura que corresponde aos primeiros 14 dias de desenvolvimento humano,
após a concepção. Será que estaríamos retirando essas células de um embrião? Ou de um feto? Ou de um pré-embrião?
Estaríamos comprometendo o desenvolvimento de um novo ser? A sociedade deveria diferenciar uma estrutura com potencial para
se desenvolver de uma outra da qual esse potencial já foi colocado em ação? É nesse ponto que a definição precisa de vários
estágios de desenvolvimento. É necessário que a comunidade científica esclareça a sociedade e seus membros dos períodos do
desenvolvimento humano para que a discussão sobre as consequências de se retirar células-tronco dessa estrutura, no período
inicial de desenvolvimento, fique clara e não cause problemas de consciência, éticos ou morais, nem aos cientistas nem à
sociedade como um todo.

Clonagem de seres humanos


“A diversidade genética é a grande maravilha da natureza e seu maior poder23.”
O clone será mesmo idêntico à sua matriz? Eles terão o mesmo físico, o mesmo tipo de cabelos, cor de olhos, temperamento,
inteligência, gostos, aptidões? Vejamos: o clone possui exatamente os mesmos genes que sua matriz. Se os genes determinam
todas as nossas características físicas e, quem sabe, até psíquicas, o clone será, sim, idêntico à matriz? Não. Estamos esquecendo
de uns temperos muito importantes, que não estão inscritos nos genes mas dão uma graça toda especial a cada um de nós: o meio
ambiente, nossas experiências de vida. Alimentação, quantidade de exercício e tempo de exposição ao Sol; também a quantidade
de ingestão de álcool e de nicotina são exemplos de fatores ambientais que influenciam muitas de nossas características, desde a
altura e a cor da pele, até a susceptibilidade a doenças e o QI. Junto com nossos genes, esses fatores moldam cada um de nós.
Somos um produto de nossa genética e do nosso meio ambiente, onde inúmeras características são mais ou menos influenciadas
por esses dois fatores.
Assim, apesar de o clone ser geneticamente idêntico à matriz, suas experiências de vida particulares influenciarão uma série de
suas características de uma forma que não podemos prever. Reproduzir a genética é relativamente fácil agora, com a clonagem…
Mas como reproduzir essa rede tão complexa de relações e experiências de vida que, junto com os nossos genes, dão origem a
quem somos? Quanto à ideia de utilizar a clonagem como forma de ressuscitar um ente querido, teoricamente, o clone seria o ser
mais próximo a esse indivíduo, porém, não seria a mesma pessoa.

Reflexões bioéticas
Discernimento ético
O discernimento ético deve ser feito tomando consciência da ambivalência de todo progresso humano. Esta situação de
ambivalência é expressa hoje pela categoria da sociedade do risco. Vivemos num momento histórico em que é preciso tomar
decisões de caráter técnico: para isso é preciso avaliar o risco e, em consequência, ponderar as opções de acordo com as
vantagens e os inconvenientes24.
Diante da situação de risco não há outra atitude ética senão a da responsabilidade. Foi o filósofo alemão, H. Jonas, que sublinhou
de modo especial o princípio de responsabilidade para a ética do presente, sobretudo tratando-se das opções a fazer diante dos
avanços científico-tecnológicos25. Na responsabilidade, não podemos esquecer as gerações subsequentes: é preciso servir-se da
criação e realizar os progressos levando em conta que as gerações posteriores também hão de desfrutar dos bens que nós
utilizamos.
As duas referências anteriores – medida do risco e apelo à responsabilidade – levam a um terceiro critério de conteúdo axiológico.
Os riscos e a responsabilidade devem ser medidos a partir do valor do autêntico processo de humanização. É o critério da
humanização que dá sentido e orientação às decisões a tomar no campo do progresso científico-tecnológico. Por humanização
entende-se a realização “do homem todo e de todos os homens”, isto é, buscar o bem integral de todas as pessoas por igual.

Biotecnologia
A biotecnologia, na ordem do dia, é o divisor de águas entre a atual era da informação digital para a “nova era” da informação
genética digital (biodigital), que por meio de recombinações, de engenharia genética, indubitavelmente controlará todos os
processos relativos à agricultura e à pecuária (e, portanto, à subsistência da espécie humana), ao meio ambiente – e às suas
consequentes zonas de influência sobre o homem —, e à saúde, nascimento, vida e morte do próprio homem (por intermédio das
diversas aplicações do “Projeto Genoma Humano”, da manipulação genética, das técnicas de procriação humana artificial etc.).
O ponto crucial, que constitui o vértice de todas as variáveis implicadas nas pesquisas biotecnológicas, reside no fato de que os
limites a serem estabelecidos para essas investigações não irão advir do grau de evolução em que se encontra o conhecimento
científico (visto que não há limites para a ciência), mas dos valores éticos (bioéticos) aceitos pela sociedade internacional. É nesse
contexto que se abre o espaço para a fundamental intervenção reguladora do Direito.

Clonagem de seres humanos


É digna de elogio qualquer tentativa que pretende construir uma humanidade melhor; não se pode condenar, em princípio, o desejo
de conseguir uma melhora da espécie humana, mesmo em terreno tão importante como a genética. Entretanto, também é preciso
reconhecer que existem limites a esse desejo de melhora ou de variação, limites que são ao mesmo tempo referências positivas
para uma melhor orientação do progresso.
Na reflexão atual, a clonagem de seres humanos acarreta alguns contravalores, tais como:
• O ser humano tem a dignidade de pessoa e não pode ser reduzido a um “objeto”; no processo de clonagem existem tantas e tais
intervenções que é quase impossível deixar de tratar a realidade humana como um “objeto”.
• Na célula da qual se obtém o núcleo clônico é preciso realizar previamente importantes “manipulações”, o que pode dar lugar a
sérias “deformações” transmissíveis ao novo ser; lembrando como os responsáveis pela clonagem de Dolly tiveram de contar com
a criação de quimeras e monstros antes de obter o resultado perseguido; seria eticamente razoável destruir um número grande de
embriões para obter um clone humano?
A biodiversidade também é um critério ético a ser levado em conta na espécie humana.
Algumas perguntas de cunho antropológico: a clonagem humana coloca em cheque a unicidade do ser humano? Rompem-se com
ela as fronteiras da identidade única de cada ser humano? A alma é também clonada? A clonagem não seria uma realização
tecnológica de reencarnação? Não seria também um passo muito próximo em direção à imortalidade? O momento é propício para
se revisarem as raízes neoplatônicas desta antropologia da dicotomia entre corpo e alma. A sugestão seria entender a alma como
princípio vital do ser, pensar o ser humano como corpóreo e “animado” ou espiritual e cuidar para que a descrição do ser humano
como “composto de corpo e alma” não venha distorcer nossa compreensão de seu caráter unitário e indivisível. Com esta luz,
entende-se que também o ser clonado tem seu princípio vital próprio que o impulsiona a construir sua história, agindo e reagindo em
um meio ambiente dado e na rede de relações humanas em que interage. Ali se tecem as características da identidade de sua
personalidade. É então importante distinguir a identidade biológica da identidade biográfica. Ao clonar características genéticas,
clona-se a biologia do indivíduo, não sua personalidade. Nestes termos, parece ficar claro a inexistência de elos entre a clonagem
humana e a reencarnação e imortalidade.
Mas, estas razões éticas que invalidam, no estágio atual da reflexão bioética, a viabilidade moral da clonagem de seres humanos
não deveriam cortar as asas do pensamento humano.
O homem deve continuar levantando graves questões filosóficas relacionadas com o sentido da evolução humana.
Porém, mais do que em leis e castigos, temos de confiar numa tomada de consciência ética por parte da humanidade inteira. É
necessária uma elevação da responsabilidade que ande par a par com o progresso científico-técnico. À ciência deve acompanhar a
consciência, se quisermos que a aventura humana caminhe para cotas cada vez mais elevadas de humanização para todos, e de
modo especial para os indivíduos e os grupos menos favorecidos.

Realidade brasileira
As leis e penalidades conseguirão conter as pesquisas quando não só interesses mas também convicções teóricas somam em
favor da clonagem (pelo menos em fase anterior à implantação)? Isto sugere que o momento atual seja de diálogo e retomada de
referenciais éticos fundamentais para se estabelecerem diretrizes e normas, bem além das leis e penalidades. Nos mais diversos
ambientes em que se reflete a bioética hoje, cresce a convicção de que as leis e penalidades são insuficientes para gerarem uma
resposta ética aos novos tempos com seus novos desafios.
“A ética do laboratório terá de ser decidida em conjunto com a ética da sociedade”, diz o geneticista Carlos Alberto do Vale, da
Universidade de São Paulo, e acrescenta: “Desconfio das proibições categóricas assim como desconfio das permissões
categóricas”.
“A sociedade é que deve pregar o regulamento na porta do laboratório”, sugere o biólogo americano Steve Grebe. Parodiando o
político francês Georges Clemenceau (1841-1929), Grebe adverte: “Assim como se diz que a guerra é assunto grave demais para
ser decidido pelos generais, a ciência é perigosa demais para ser decidida apenas pelos cientistas”.

No Brasil, a explosão do tema foi enfrentada pela da Comissão Nacional Técnica de Biossegurança, do Ministério de Ciência e
Tecnologia, que julgou estar este assunto suficientemente legislado na chamada “Lei de Biossegurança” (Lei n. 8974, Decreto n.
1752/95)26. Ali se contemplam aspectos de tecnologia aplicada à genética e reprodução humanas e se condenam como crime a
manipulação genética de células germinais humanas; a intervenção em material genético humano in vivo, a não ser em casos de
terapia genética; a produção, armazenamento e/ou manipulação de embriões humanos. Para infratores estão previstas multas e
penas de três meses a vinte anos de prisão. Mas logo entram os comentários levantando dúvidas de interpretação: a proibição de
manipular “células germinais humanas” compreenderia realmente a clonagem efetuada a partir de células somáticas adultas?
Para dialogar, há uma iniciativa brasileira formulada pelo Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, que resultou na
Resolução 196/9627 sobre a Ética em pesquisa envolvendo seres humanos. Esta resolução propicia ao Brasil uma Comissão
Nacional de Ética em Pesquisa, bem como incentiva a instauração de Comitês de Ética em Pesquisa nas diversas instituições
que desenvolvem as pesquisas, instituindo uma verdadeira rede de “comunidades de ética na base”.
Em nível internacional, temos a Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos da Unesco (1997)28 que é um
verdadeiro hino à dignidade humana. Este documento, no fundo, complementa a Declaração Universal dos Direitos Humanos
(1948)29. A Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos da Unesco objetiva assegurar o desenvolvimento da
genética humana, na perspectiva de respeito da dignidade e direitos humanos do indivíduo e ser benéfica para a humanidade como
um todo. O progresso da pesquisa em genética humana, que traz uma grande esperança para a saúde e bem-estar da humanidade,
pode também ser usado com objetivos danosos, contrários à dignidade humana, aos direitos humanos ou respeito pela integridade
da raça humana. A Declaração lembra três princípios vitais, que são fundamentais na proteção da humanidade em relação às
implicações da biologia e da genética: dignidade humana, liberdade de pesquisa e solidariedade humana.

Conclusão
O respeito pela dignidade individual, liberdade e direitos humanos é um imperativo ético, a partir do qual nascem princípios vitais de
proteção do indivíduo afirmado na Declaração: a rejeição de toda discriminação em base a características genéticas: a exigência
do consentimento livre e proteção da confidencialidade dos dados genéticos associados com o indivíduo.
Ciência e ética não precisam e não devem ser consideradas como antagônicas, pelo contrário, necessitam-se e se iluminam
reciprocamente. É esta a perspectiva que garante o respeito pela dignidade humana e por mais qualidade de vida. Precisamos
zelar por vigilância ética no âmbito técnico-científico, que é uma instância de discernimento relacionada com o bom ou mau uso que
se fizer dos novos conhecimentos científicos. Necessitamos além do conhecimento científico, sabedoria ética, a fim de proteger o
ser humano, este universo singular que traz em seus genes a história da humanidade.
Não seria simplesmente tragicômico a humanidade ter o domínio do mais íntimo da matéria (átomo), do Universo (cosmos) e de si
própria (gene) e se perder num projeto de morte, sem se entender e organizar num projeto global de mais qualidade de vida e
felicidade, utilizando-se dos conhecimentos e instrumentos da tecno-ciência à sua disposição?
A clonagem como forma de reprodução é um procedimento caracterizado pelo desconhecido, comprovadamente perigoso, que não
deve ser realizado em seres humanos. Porém, não sigamos o modelo americano que transformou a clonagem no inimigo público
número um; vamos investir no lado bom da clonagem, na clonagem terapêutica. Esta sim fará do nosso mundo, um admirável mundo
novo.
Lembremo-nos de que a ciência deve servir às pessoas e as pessoas não devem ser postas a serviço da ciência.

Para refletir
Selecionamos a seguir alguns textos paradigmáticos e polêmicos para discussão e reflexão.

O fim da era dos contratos?


O clone mexe diariamente com nosso imaginário. Antes da ovelha Dolly, já se pensava em duplicar as pessoas. Lembremos uns
dez anos atrás, quando Calvin, das histórias em quadrinhos, produziu vários clones para não ter de executar tarefas aborrecidas,
como levantar cedo, tomar banho, ir à escola. Não deu certo isso. Cada “replicante” desejava o mesmo que ele: nenhum queria
cumprir as tarefas chatas, ou seja, ser escravo de Calvin. Mas esse fracasso, nos quadrinhos, não perturbou o imaginário, tão
humano, de ter um duplo. Devemos perguntar: o que move esse desejo?
Nascer sempre exigiu um pai e uma mãe. Simplificando, cada um de nós é, geneticamente, metade seu pai, metade sua mãe.
Enquanto estivemos presos à reprodução natural, não havia como fugir disso, como ter uma cópia perfeita, completa. A condição
humana esteve sujeita a essas limitações e a outras. Mas, na Segunda metade do século XX, as fronteiras do humano foram sendo
superadas.
Faz só uns 20 anos que se difundiu a possibilidade de saber o sexo do feto. Ninguém mais precisa preparar um estoque de
roupinha azul e outro rosa. Antes de nascer o bebê, ele já tem nome, personalidade, brinquedos. Mas o ultrassom que informa o
sexo também permite práticas odiosas, como o aborto sistemático de fetos femininos, praticado no Oriente.
De todo modo, o controle do futuro pelo ser humano se ampliou muito. O Projeto Genoma talvez seja o que mais mobiliza esses
desejos de controle. Poderemos, assim espera-se, acabar com alguns defeitos congênitos antes mesmo do nascimento. Faz parte
da condição humana superar os limites que a natureza colocou para nós.
Mas a clonagem de um ser humano vai mais longe: pretende gerar alguém que não nasça de dois genitores, e sim de um só. Ora,
muito antes de Calvin, a ideia mais forte por trás da clonagem já aparecia na trilogia “A Oréstia”, de Ésquilo, 2.500 anos atrás.
Orestes matou a mãe, para vingar o pai, assassinado por ela. As Fúrias, uma espécie de semideusas, querem puni-lo. A deusa da
sabedoria, Atena, propõe que ele seja julgado. O deus Apolo o defende no júri: ele pergunta por que as Fúrias perseguem o
matador da mãe, mas nada fizeram contra ela, assassina do esposo? Elas respondem que só punem crimes contra o sangue; um
casal não está nesse caso. Mas os jurados absolvem Orestes.
São dois os argumentos contra as Fúrias. O primeiro é que o contrato, unindo o casal, é tão importante (ou mais) que os elos de
sangue. Se toleramos crimes contra os contratos, não teremos sociedade, apenas clãs em guerra uns contra os outros. Este
argumento, nós aceitamos sem dificuldade. Já o segundo, hoje, soa muito estranho. A mulher, diz, Apolo, não passa de um vaso,
que recolhe o sêmen do homem. Tudo o que alguém será está na semente de seu pai. O papel da mãe é passivo. Daí que ela seja
subordinada ao homem. Ora, por uns bons 2.000 anos essa tese será sustentada, com certo êxito, e só será refutada com a
moderna genética.
Será a clonagem um modo de voltarmos aos tempos de Ésquilo ou à ideia de que um ser nasça de apenas um genitor? É claro que
nada impede clonar uma menina com base na mãe. Enquanto Ésquilo, num paradigma machista, entendia que todos nós, homens
ou mulheres, viríamos só do pai, hoje teríamos meninas copiando a mãe, meninos replicando o pai. Quer dizer, não se trata de voltar
ao machismo, mas, talvez, de voltar aos tempos pré-contratuais.
O contrato não é só um procedimento capitalista. Simboliza a essência de uma sociedade democrática, na qual as pessoas
ocupam seus lugares não pelo que são (por seu status), mas pelo que fazem, combinam e pactuam. Como forma de ordenação do
mundo, ele é recente. Foi teorizado há apenas 400 anos. É praticado há somente 200. Não chegou a dominar o mundo. Um filme
como o chinês “Nenhum a menos” (1999), todo construído sobre a impossibilidade dos diálogos e dos contratos, mostra como é
difícil construir a sociedade sobre a relação negociada com o outro.
Estará terminando, tão precocemente, a era dos contratos? Dispensar a associação de um homem com uma mulher para ter um
filho pode ser sinal disso. O narcisismo atual faria gerar filhos de um só. Mas concluamos com duas notas.
Primeira: esse é um desejo, não necessariamente algo viável. Calvin já o percebeu: nada garante que nossa cópia seja nosso
escravo. Se o filho-cópia nos dispensa da negociação com a parceira (ou o parceiro) para gerá-lo, ele também é um outro em
relação a nós, e teremos de negociar com ele, para criá-lo. Mesmo o que geneticamente é cópia será, socialmente, um outro. O
sonho narcisista pode dar bem errado.
Segunda: ainda que a clonagem seja uma técnica tão nova, o desejo de não dever nada a ninguém, até na geração de um ser
humano, não é novo. Citei Ésquilo, não por tola erudição, mas porque nossos desejos talvez sejam bem arcaicos, atávicos. As
técnicas tem poder quando ativam os nossos desejos: são eles que devemos conhecer, é com eles que devemos negociar.

No último estágio, um ser vivo artificial


É o sonho final dos raelianos: fazer viver um ser humano 100% construído em laboratório.
Embora nenhuma lei internacional enquadre ou proíba essas experiências, a clonagem humana é condenada pela grande maioria
dos cientistas, dos médicos, ou dos filósofos. “Se a notícia for exata, trata-se de uma atividade pura e simplesmente criminosa”,
disse na França o professor Atlan, sobre o clone humano anunciado pela seita raeliana.
A identidade dessa seita não esclarece muito as coisas. É francesa, dirigida por seu fundador, o jornalista esportivo francês Claude
Vorilhon que, em 1973, encontrou um extraterrestre nas montanhas vulcânicas de Auvergne, na França.
Esse extraterrestre era muito tagarela. Ensinou-lhe muitas coisas. Os seres humanos foram criados em laboratório e depois
colocados sobre a terra há 25 mil anos. Esta história é relatada pela Bíblia. Infelizmente, houve um erro de tradução da palavra
“Elohim” que significa “aqueles que caíram do céu”, como sabe o jornalista, foi traduzia pela palavra “Deus”. Daí veio toda a
confusão.
Um pouco mais tarde, por ocasião de uma viagem extraterrestre, Vorilhon, já “rebatizado” Rael, recebeu a missão de realizar
clonagens humanas. Por quê? Ora, porque simplesmente a clonagem é a chave da vida eterna.
A próxima etapa será a clonagem pela “via acelerada”, com o objetivo de reproduzir um adulto e “nele armazenar nossa
personalidade, nossa memória, o acervo de informações acumuladas em nosso cérebro sob a forma de fluxos eletroquímicos”.
Além disso, será preciso pensar no último estágio, “a criação de um ser vivo totalmente artificial, 100% forjado em laboratório”.
Somente então se abrirá o caminho para a vida eterna.
Religião: O que distingue a seita raeliana da maioria das outras é seu gênio científico. Não apenas porque ela afirma que “a ciência
é uma religião” (o mesmo dizem outras seitas), mas ainda porque ela tem projetos científicos muito ambiciosos e porque,
finalmente, soube seduzir cientistas de grande competência.
Entre eles estão os seis especialistas que deram origem ao nascimento do primeiro clone humano. E também uma pesquisadora
francesa, Brigitte Boisselier, que deu a notícia na Flórida. Brigitte tem um duplo doutorado em química analítica na França e nos
Estados Unidos e um “colar de plumas” da Ordem dos Anjos de Rael, uma Ordem na qual mulheres colocam a serviço de seus
profetas “sua beleza interior e exterior”.
Podemos facilmente imaginar que um profeta tão obstinado como Rael não se contenta apenas em fazer progredir a ciência e a
religião. Ele produz também uma filosofia e dá conselhos para a vida cotidiana. Há oito anos, no Canadá, Rael mandou distribuir
preservativos para meninos de 13 anos em frente a escolas. No ano seguinte, recomendou a masturbação. Mais recentemente,
incentivou os jovens católicos do Canadá a “queimar as cruzes” – o que não é uma coisa muito cortês, se se levar em conta que o
profeta é meio-irmão de Jesus, pois nasceu no dia de Natal, de 1945, de uma relação adúltera entre um judeu refugiado e uma
mulher chamada Maria.
Proibição – A seita foi proibida e definida como “perigosa” na França, mas não nos outros países. Na maioria das vezes, o povo se
contenta em considerar os raelianos como tipos burlescos, barrocos, parecidos como tantos outros cérebros que surgem em
nossas sociedades modernas.
Serão delirantes? Exaltados? Sim, mas esses tipos ridículos souberam atrair cientistas de altíssimo nível. E, além disso, a hipótese
de um nascimento por clonagem, embora preocupe tantos cientistas, não é considerada como absolutamente impensável. Ninguém
duvida que, a partir de agora, um nascimento desse tipo possa ocorrer a qualquer momento.

Sem provas, empresa anuncia clone humano


Sem testes: Boisselier, uma química francesa, faz parte da seita dos raelianos, grupo que acredita que a raça humana foi clonada
por extraterrestres e que a clonagem é a chave para a vida eterna. A Clonaid, com sede nas Bahamas, promete ainda o nascimento
de quatro outros bebês clonados para as próximas semanas: mais um da América do Norte, um da Europa e dois da Ásia.
Segundo Boisselier, dois casais estão usando células preservadas de filhos mortos e um outro é um casal de lésbicas. Outras 20
tentativas estão marcadas para janeiro. “Acredito que cada casal deve escolher a criança que deseja ter, mesmo se não tiver
nenhum problema de fertilidade”. Segundo ela, a Clonaid não solicitou pagamento dos casais, mas alguns fizeram contribuições à
empresa.
O trabalho da Clonaid é visto com repúdio e ceticismo pela comunidade científica internacional. O geneticista Axel Kahn, diretor do
Centro Francês de Genética Molecular, considerou “revoltante e repulsivo” o anúncio. “Enquanto a seita raeliana não produzir a
prova científica dessa procriação industrial, pela qual se trata a vida humana da mesma forma como se fabrica uma salsicha, não
devemos considerar o anúncio”, afirmou, lembrando que a diretora da Clonaid “já se habituou a proclamar verdades não
confirmadas pelos fatos”.
Os presidentes dos EUA George Bush, e da França Jacques Chirac, também criticaram. George Bush classificou a clonagem
humana como algo “profundamente perturbador” e defendeu uma legislação para proibir todo tipo de clonagem, inclusive com fins
terapêuticos. Chirac pediu que todos os Estados proíbam e punam qualquer tentativa de clonar seres humanos.
Disputa – Com o anúncio de ontem, a Clonaid assume, pelo menos temporariamente, a liderança da corrida para clonar o primeiro
ser humano, travada ao lonço dos últimos dois anos com os médicos Severino Antinori, na Itália e Panayiotis Zavos, nos EUA. No
início do mês, Antinori disse que seu primeiro clone, um menino, nasceria em Janeiro. De Roma, ele menosprezou o anúncio da
Clonaid, dizendo que a empresa não tem credibilidade científica. “(A notícia) me faz rir e ao mesmo tempo me preocupa, porque
cria confusão entre aqueles que fazem pesquisa científica séria”, disse.

Clonagem é ineficaz, diz “pai” de Dolly


Ian Wilmut, o “pai” de Dolly afirma: “nossa experiência com mamíferos mostra que, atualmente, qualquer tentativa de clonar seres
humanos é intrinsecamente insegura”.
Wilmut diz que a clonagem hoje ainda é uma espécie de “loteria”, na qual é impossível prever quais clones vão vingar ou não.
Pesquisadores de vários países já clonaram ovelhas, porcos, camundongos, uma gata, cavalos, jumentos e, mais recentemente,
ratos, mas a eficiência do processo é baixíssima. De acordo com ele, um dos fatores que interfere no processo da experiência é o
tipo de célula adulta cujo núcleo é extraído para implantação: algumas, como as que circundam o óvulo, parecem ter mais chances
de produzir clones saudáveis do que outras.
Cada espécie também requer uma estratégia diferenciada de transferência de núcleo, lembra o pesquisador. Uma das hipóteses
para o fracasso na clonagem de primatas, segundo ele, é a de que na extração do núcleo da célula adulta sejam perdidas as
proteínas que produzem o fuso mitótico, onde os cromossomos se prendem durante a divisão celular. Nas tentativas de clonagem
de primatas, os cromossomos se espalham pela célula e ela não se divide.
De acordo com Wilmut, porém, a maioria dos problemas apresentados pelos clones – de fígado, pulmão, deficiências imunológicas,
obesidade – são provavelmente causados por problemas na reprogramação do genoma da célula adulta. O genoma de uma
espécie funciona como o conjunto de programas de uma rede de computadores: cada seção ou célula especializada de um tecido
usa um grupo deles, embora todos tenham acesso a todos os programas. É exatamente esse o maior desafio da clonagem: fazer
com que o genoma de uma célula adulta especializada volte a “rodar” os programas (genes) capazes de produzir um embrião.
Wilmut propõe uma abordagem multidisciplinar para enfrentar esses problemas, unindo esforços de geneticistas, especialistas em
embriologia e patologistas.
22. FG Press 1 a 15 de julho de 2002. Clínica de Ginecologia e Obstetrícia Dr. Flávio Garcia de Oliveira.
23. PEREIRA, Lygia V. O admirável mundo novo da clonagem. In: VALLE, Silvio e TELLES, José Luiz (0rgs). Bioética e biorrisco: abordagem
transdisciplinar. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2003. p. 31-45.
24. G. BECHMANN (ed.), Risiko und Gesellschaft. Grundlagem und Ergebnisse interdisziplinären Risiko-forchung, Opladen 1993.
25. H. JONAS, Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt 4 1979.

26. Cfr Anexo 3.


27. Cfr Anexo 4.
28. Cfr Anexo 5.
29. Cfr Anexo 1.

Anexos
1. Declaração Universal dos Direitos Humanos – 1948

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e
inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a atos de barbárie que revoltam a
consciência da humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do
terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do homem.
Considerando que é essencial à proteção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja
compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão.
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações.
Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do homem, na
dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer
o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla.
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas,
o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais.
Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal
compromisso.

A Assembleia Geral
Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as
nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo
ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de
ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efetivos tanto entre as populações dos
próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo I – Todos os homens nascem livre e iguais em dignidade.
São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo II – Todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de
raça, cor, sexo, língua ou religião.
Artigo III – Todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV – Ninguém será mantido em escravidão ou servidão.
Artigo V – Ninguém será submetido à tortura ou castigo cruel desumano ou degradante.
Artigo VI – Todo homem tem direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa humana perante a lei.
Artigo VII – Todos são iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.
Artigo VIII – Todo homem tem direito a receber, dos tribunais nacionais competentes, remédio efetivo para os atos que violem os
direitos fundamentais reconhecidos pela constituição ou pela lei.
Artigo IX – Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo X – Todo homem tem direito a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir
seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo XI – Todo homem acusado de ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que sua culpabilidade tenha sido
provada de acordo com a lei.
Artigo XII – Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na correspondência, nem a
ataques a sua honra e reputação.
Artigo XIII – Todo homem tem direito à liberdade de locomoção e residência, dentro das fronteiras de cada Estado.
Artigo XIV – Todo homem, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e gozar asilo em outros países.
Artigo XV – Todo homem tem direito a uma nacionalidade.
Artigo XVI – Os homens e as mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de
contrair matrimônio e fundar uma família.
Artigo XVII – Todo homem tem direito à prioridade.
Artigo XVIII – Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião.
Artigo XIX – Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão.
Artigo XX – Todo homem tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.
Artigo XXI – Todo homem tem direito de tomar parte no governo do próprio país e de ter acesso ao livre desenvolvimento de sua
personalidade.
Artigo XXII – Todo homem, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela
cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais
indispensáveis a sua dignidade e ao livre desenvolvimento de sua personalidade.
Artigo XXIII – Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha do emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à
proteção contra o desemprego.
Artigo XXIV – Todo homem tem direito a repouso e lazer, inclusive à limitação razoável das horas de trabalho e a férias
remuneradas periódicas.
Artigo XXV – Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar.
Artigo XXVI – Todo homem tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais.
Artigo XXVII – Todo homem tem direito a participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar do
progresso científico e de seus benefícios.
Artigo XXVIII – Todo homem tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na
presente Declaração possam ser plenamente realizados.
Artigo XXIX – Todo homem tem deveres para com a comunidade, na qual é possível o livre e pleno desenvolvimento de sua
personalidade. No exercício de seus direitos e liberdades, todo homem está sujeito apenas às limitações determinadas pela lei,
exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às
justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
Artigo XXX – Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado,
grupo ou pessoa do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer direitos e
liberdades aqui estabelecidos.

2. Reprodução assistida – 1992


Igualmente assinada por Ivan de Araújo Moura Fé, presidente, e Hércules Sidnei Pires Liberal, secretário, em 11 de novembro de
1992, a Resolução n. 1.358/92, do Conselho Federal de Medicina, sobre a utilização da Reprodução Assistida, tem o seguinte teor:
O Conselho Federal de Medicina, no uso das atribuições que lhe confere a Lei n. 3.268, de 30 de setembro de 1957, regulamentada
pelo Decreto n. 44.045, de 19 de julho de 1958:
Considerando a importância da infertilidade humana como um problema de saúde, com implicações médicas e psicológicas, e a
legitimidade do anseio de superá-la.
Considerando que o avanço do conhecimento científico já permite solucionar vários dos casos de infertilidade humana.
Considerando que as técnicas de Reprodução Assistida têm possibilitado a procriação em diversas circunstâncias em que isto não
era possível pelos procedimentos tradicionais.
Considerando a necessidade de harmonizar o uso destas técnicas com os princípios da ética médica.
Considerando, finalmente, o que ficou decidido na Sessão Plenária do Conselho Federal de Medicina realizada em 11 de
novembro de 1992, resolve.
Art. 1° — Adotar as Normas Éticas para a Utilização das Técnicas de Reprodução Assistida anexas à presente Resolução, como
dispositivo doentológico a ser seguido pelos médicos.
Art. 2° — Esta Resolução entra em vigor na data da sua publicação.
Normas técnicas
I. Princípios gerais
1. As técnicas de Reprodução Assistida (RA) tem o papel de auxiliar na resolução dos problemas de infertilidade humana,
facilitando o processo de procriação quando outras terapias tenham sido ineficazes ou ineficientes para a solução da situação atual
de infertilidade.
2. As técnicas de RA podem ser utilizadas desde que exista probabilidade efetiva de sucesso e não se incorra em risco grave de
saúde para o paciente ou o possível descendente.
3. O consentimento informado será obrigatório e extensivo aos pacientes inférteis e doadores. Os aspectos médicos envolvendo
todas as circunstâncias da aplicação de uma técnica de RA serão detalhadamente expostos, assim como os resultados já obtidos
naquela unidade de tratamento com a técnica proposta. As informações devem também atingir dados de caráter biológico, jurídico,
ético e econômico. O documento de consentimento informado será em formulário especial e estará completo com a concordância,
por escrito, da paciente ou do casal infértil.
4. As técnicas de RA não devem ser aplicadas com a intenção de selecionar o sexo ou qualquer outra característica biológica do
futuro filho, exceto quando se trate de evitar doenças ligadas ao sexo do filho que venha a nascer.
5. É proibida a fecundação de oócitos humanos, com qualquer outra finalidade que não seja a procriação humana.
6. O número ideal de oócitos e pré-embriões a serem transferidos para a receptora não deve ser superior a quatro, com o intuito de
não aumentar os riscos já existentes de multiparidade.
7. Em casos de gravidez múltipla, decorrente do uso de técnicas de RA, é proibida a utilização de procedimentos que visem a
redução embrionária.
II. Usuários das técnicas de RA
1. Toda mulher, capaz nos termos da lei, que tenha solicitado e cuja indicação não se afaste dos limites desta Resolução, pode ser
receptora das técnicas de RA, desde que tenha concordado de maneira livre e consciente em documento de consentimento
informado.
2. Estando casada ou em união estável, será necessária a aprovação do cônjuge ou do companheiro, após processo semelhante
de consentimento informado.
III. Referente às clínicas, centros ou serviços que aplicam técnicas de RA
As clínicas, os centros ou serviços que aplicam técnicas de RA são responsáveis pelo controle de doenças infecto-contagiosas,
coleta, manuseio, conservação, distribuição e transferência de material biológico humano para a usuária de técnicas de RA,
devendo apresentar como requisitos mínimos:
1. Um responsável por todos os procedimentos médicos e laboratoriais executados, que será, obrigatoriamente, um médico.
2. Um registro permanente (obtido mediante informações observados ou relatadas por fonte competente) das gestações,
nascimentos e malformações de fetos ou recém-nascidos, provenientes das diferentes técnicas de RA aplicadas na unidade em
apreço, bem como dos procedimentos laboratoriais na manipulação de gametas e pré-embriões.
3. Um registro permanente das provas diagnósticas a que é submetido o material biológico humano que será transferido aos
usuários das técnicas de RA, com a finalidade precípua de evitar a transmissão de doenças.
IV. Doação de gametas ou pré-embriões
1. A doação nunca terá caráter lucrativo ou comercial.
2. Os doadores não devem conhecer a identidade dos receptores ou vice-versa.
3. Obrigatoriamente será mantido o sigilo sobre a identidade dos doadores de gametas e pré-embriões, assim como dos
receptores. Em situações especiais, as informações sobre doadores, por motivação médica, podem ser fornecidas exclusivamente
para médicos, resguardando-se a identidade civil do doador.
4. As clínicas, os centros ou serviços que empregam a doação devem manter, de forma permanente, um registro de dados clínicos
de caráter geral, características fenotípicas e uma amostra de material celular dos doadores.
5. Na região de localização da unidade, o registro das gestações evitará que um doador tenha produzido mais que 2 (duas)
gestações, de sexos diferentes, numa área de um milhão de habitantes.
6. A escolha dos doadores é de responsabilidade da unidade. Dentro do possível, deverá garantir que o doador tenha a maior
semelhança fenotípica e imunológica e a máxima possibilidade de compatibilidade com a receptora.
7. Não será permitido ao médico responsável pelas clínicas, unidades ou serviços, nem aos integrantes da equipe multidisciplinar
que nelas prestam serviços, participarem como doadores nos programas de RA.
V. Criopreservação de gametas ou pré-embriões
1. As clínicas, os centros ou serviços podem criopreservar espermatozoides, óvulos e pré-embriões.
2. O número total de pré-embriões produzidos em laboratório será comunicado aos pacientes, para que se decida quantos pré-
embriões serão transferidos a fresco, devendo o excedente ser criopreservado, não podendo ser descartado ou destruído.
3. No momento da criopreservação, os cônjuges ou companheiros devem expressar sua vontade, por escrito, quanto ao destino que
será dado aos pré-embriões criopreservados, em caso de divórcio, doença grave ou de falecimento de uma deles ou de ambos, e
quando desejam doá-los.
VI. Sobre a gestação de substituição (doação temporária de útero)
As clínicas, os centros ou serviços de reprodução humana podem usar técnicas de RA para criar a situação identificada como
gestação de substituição, desde que exista um problema médico que impeça ou contraindique a gestação na doadora genética.
1. As doadoras temporárias do útero devem pertencer à família da doadora genética, num parentesco até segundo grau, sendo os
demais casos sujeitos à autorização do Conselho Regional de Medicina.
2. A doação temporária do útero não poderá ter caráter lucrativo ou comercial.

3. Lei n° 8.974, de 05 de Janeiro de 1995 – Biossegurança

Regulamenta os incisos II e V do parágrafo 1º do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas para o uso das técnicas de
engenharia genética e liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados, autoriza o Poder Executivo a criar,
no âmbito da Presidência da República, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º — Esta Lei estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização no uso das técnicas de engenharia genética na
construção, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, liberação e descarte de organismo geneticamente
modificado (OGM), visando proteger a vida e a saúde do homem, dos animais e das plantas, bem como o meio ambiente.
Art. 2º — As atividades e projetos, inclusive os de ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e de produção industrial
que envolvam OGM no território brasileiro, ficam restritos ao âmbito de entidades de direito público ou privado, que serão tidas
como responsáveis pela obediência aos preceitos desta Lei e de sua regulamentação, bem como pelos eventuais efeitos ou
consequências advindas de seu descumprimento.
§ 1º — Para os fins desta Lei consideram-se atividades e projetos no âmbito de entidades como sendo aqueles conduzidos em
instalações próprias ou os desenvolvidos alhures sob a sua responsabilidade técnica ou científica.
§ 2º — As atividades e projetos de que trata este artigo são vedados a pessoas físicas enquanto agentes autônomos
independentes, mesmo que mantenham vínculo empregatício ou qualquer outro com pessoas jurídicas.
§ 3º — As organizações públicas e privadas, nacionais, estrangeiras ou internacionais, financiadoras ou patrocinadoras de
atividades ou de projetos referidos neste artigo, deverão certificar-se da idoneidade técnico-científica e da plena adesão dos entes
financiados, patrocinados, conveniados ou contratados às normas e mecanismos de salvaguarda previstos nesta Lei, para o que
deverão exigir a apresentação do Certificado de Qualidade em Biossegurança de que trata o art. 6º, inciso XIX, sob pena de se
tornarem corresponsáveis pelos eventuais efeitos advindos de seu descumprimento.
Art. 3º — Para os efeitos desta Lei, define-se:
I – organismo – toda entidade biológica capaz de reproduzir e/ou de transferir material genético, incluindo vírus, príons e outras
classes que venham a ser conhecidas;
II – ácido desoxirribonucleico (ADN), ácido ribonucleico (ARN) – material genético que contém informações determinantes dos
caracteres hereditários transmissíveis à descendência;
III – moléculas de ADN/ARN recombinante – aquelas manipuladas fora das células vivas, mediante a modificação de segmentos de
ADN/ARN natural ou sintético que possam multiplicar-se em uma célula viva, ou ainda, as moléculas de ADN/ARN resultantes dessa
multiplicação. Consideram-se, ainda, os segmentos de ADN/ARN sintéticos equivalentes aos de ADN/ARN natural;
IV – organismo geneticamente modificado (OGM) – organismo cujo material genético (ADN/ARN) tenha sido modificado por
qualquer técnica de engenharia genética;
V – engenharia genética – atividade de manipulação de moléculas ADN/ARN recombinante.
Parágrafo único. Não são considerados como OGM aqueles resultantes de técnicas que impliquem a introdução direta, num
organismo, de material hereditário, desde que não envolvam a utilização de moléculas de ADN/ARN recombinante ou OGM, tais
como: fecundação in vitro, conjugação, transdução, transformação, indução poliploide e qualquer outro processo natural;
Art. 4º — Esta Lei não se aplica quando a modificação genética for obtida através das seguintes técnicas, desde que não
impliquem a utilização de OGM como receptor ou doador:
I – mutagênese;
II – formação e utilização de células somáticas de hibridoma animal;
III – fusão celular, inclusive a de protoplasma, de células vegetais, que possa ser produzida mediante métodos tradicionais de
cultivo;
IV – autoclonagem de organismos não-patogênicos que se processe de maneira natural.
Art. 5º – (VETADO)
Art. 6º – (VETADO)
Art. 7º Caberá, dentre outras atribuições, aos órgãos de fiscalização do Ministério da Saúde, do Ministério da Agricultura, do
Abastecimento e da Reforma Agrária e do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, dentro do campo de suas
competências, observado o parecer técnico conclusivo da CTNBio e os mecanismos estabelecidos na regulamentação desta Lei:
I – (VETADO)
II – a fiscalização e a monitorização de todas as atividades e projetos relacionados a OGM do Grupo II;
III – a emissão do registro de produtos contendo OGM ou derivados de OGM a serem comercializados para uso humano, animal ou
em plantas, ou para a liberação no meio ambiente;
IV – a expedição de autorização para o funcionamento de laboratório, instituição ou empresa que desenvolverá atividades
relacionadas a OGM;
V – a emissão de autorização para a entrada no País de qualquer produto contendo OGM ou derivado de OGM;
VI – manter cadastro de todas as Instituições e profissionais que realizem atividades e projetos relacionados a OGM no território
nacional;
VII – encaminhar à CTNBio, para emissão de parecer técnico, todos os processos relativos a projetos e atividades que envolvam
OGM;
VIII – encaminhar para publicação no Diário Oficial da União resultado dos processos que lhe forem submetidos a julgamento, bem
como a conclusão do parecer técnico;
IX – aplicar as penalidades de que trata esta Lei nos artigos 11 e 12. Art. 8º – É vedado, nas atividades relacionadas a OGM:

I – qualquer manipulação genética de organismos vivos ou o manejo in vitro de ADN/ARN natural ou recombinante, realizados em
desacordo com as normas previstas nesta Lei:
II – a manipulação genética de células germinais humanas;

III – a intervenção em material genético humano in vivo, exceto para o tratamento de defeitos genéticos, respeitando-se princípios
éticos tais como o princípio de autonomia e o princípio de beneficência, de acordo com o art. 6é, inciso I V, e com a aprovação
prévia da CTNBio;
IV – a produção, armazenamento ou manipulação de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível;
V – a intervenção in vivo em material genético de animais, excetuados os casos em que tais intervenções se constituam em
avanços significativos na pesquisa científica e no desenvolvimento tecnológico, respeitando-se princípios éticos, tais como o
princípio da responsabilidade e o princípio da prudência, e com aprovação prévia da CTNBio;
VI – a liberação ou o descarte no meio ambiente de OGM em desacordo com as normas estabelecidas pela CTNBio e constantes
na regulamentação desta Lei.
§ 1º – Os produtos contendo OGM, destinados à comercialização ou industrialização, provenientes de outros países, só poderão ser
introduzidos no Brasil após o parecer prévio conclusivo da CTNBio e a autorização do órgão de fiscalização competente, levando-
se em consideração pareceres técnicos de outros países, quando disponíveis.
§ 2º – Os produtos contendo OGM, pertencentes ao Grupo é conforme definido no Anexo I desta Lei, só poderão ser introduzidos no
Brasil após o parecer prévio conclusivo da CTNBio e a autorização do órgão de fiscalização competente.
§ 3º – (VETADO)
Art. 9º – Toda entidade que utilizar técnicas e métodos de engenharia genética deverá criar uma Comissão Interna de
Biossegurança (CIBio), além de indicar um técnico principal responsável por cada projeto específico.
Art. 10º – Compete à Comissão Interna de Biossegurança (CIBio) no âmbito de sua Instituição:
I – manter informados os trabalhadores, de qualquer pessoa e a coletividade, quando suscetíveis de serem afetados pela atividade,
sobre todas as questões relacionadas com a saúde e a segurança, bem como sobre os procedimentos em caso de acidentes;
II – estabelecer programas preventivos e de inspeção para garantir o funcionamento das instalações sob sua responsabilidade,
dentro dos padrões e normas de biossegurança, definidos pela CTNBio na regulamentação desta Lei;
III – encaminhar à CTNBio os documentos cuja relação será estabelecida na regulamentação desta Lei, visando a sua análise e a
autorização do órgão competente quando for o caso;
IV – manter registro do acompanhamento individual de cada atividade ou projeto em desenvolvimento envolvendo OGM;
V – notificar à CTNBio, às autoridades de Saúde Pública e às entidades de trabalhadores, o resultado de avaliações de risco a que
estão submetidas as pessoas expostas, bem como qualquer acidente ou incidente que possa provocar a disseminação de agente
biológico;
VI – investigar a ocorrência de acidentes e as enfermidades possivelmente relacionados a OGM, notificando suas conclusões e
providências à CTNBio.
Art. 11º – Constitui infração, para os efeitos desta Lei, toda ação ou omissão que importe na inobservância de preceitos nela
estabelecidos, com exceção dos parágrafos 1º e 2º e dos incisos de é a VI do art. 8é, ou na desobediência às determinações de
caráter normativo dos órgãos ou das autoridades administrativas competentes.
Art. 12º – Fica a CTNBio autorizada a definir valores de multas a partir de 16.110,80 UFIR, a serem aplicadas pelos órgãos de
fiscalização referidos no art. 7é, proporcionalmente ao dano direto ou indireto, nas seguintes infrações:
I – não obedecer às normas e aos padrões de biossegurança vigentes;
II – implementar projeto sem providenciar o prévio cadastramento da entidade dedicada à pesquisa e manipulação de OGM, e de
seu responsável técnico, bem como da CTNBio;
III – liberar no meio ambiente qualquer OGM sem aguardar sua prévia aprovação, mediante publicação no Diário Oficial da União;
IV – operar os laboratórios que manipulam OGM sem observar as normas de biossegurança estabelecidas na regulamentação
desta Lei;
V – não investigar, ou fazê-lo de forma incompleta, os acidentes ocorridos no curso de pesquisas e projetos na área de engenharia
genética, ou não enviar relatório respectivo à autoridade competente no prazo máximo de 5 (cinco) dias a contar da data de
transcorrido o evento;
VI – implementar projeto sem manter registro de seu acompanhamento individual;
VII – deixar de notificar, ou fazê-lo de forma não imediata, à CTNBio, e às autoridades da Saúde Pública, sobre acidente que possa
provocar a disseminação de OGM;
VIII – não adotar os meios necessários à plena informação da CTNBio, das autoridades da Saúde Pública, da coletividade, e dos
demais empregados da instituição ou empresa, sobre os riscos a que estão submetidos, bem como os procedimentos a serem
tomados, no caso de acidentes;
IX – qualquer manipulação genética de organismo vivo ou manejo in vitro de ADN/ARN natural ou recombinante, realizados em
desacordo com as normas previstas nesta Lei e na sua regulamentação.
§ 1º – No caso de reincidência, a multa será aplicada em dobro.
§ 2º – No caso de infração continuada, caracterizada pela permanência da ação ou omissão inicialmente punida, será a respectiva
penalidade aplicada diariamente até cessar sua causa, sem prejuízo da autoridade competente, podendo paralisar a atividade
imediatamente e/ou interditar o laboratório ou a instituição ou empresa responsável.
Art. 13º – Constituem crimes:
I – a manipulação genética de células germinais humanas;

II – a intervenção em material genético humano in vivo, exceto para o tratamento de defeitos genéticos, respeitando-se princípios
éticos tais como o princípio de autonomia e o princípio de beneficência, e com a aprovação prévia da CTNBio;
Pena – detenção de três meses a um ano.
§ 1º – Se resultar em:
a) incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias;
b) perigo de vida;
c) debilidade permanente de membro, sentido ou função;
d) aceleração de parto;
Pena – reclusão de um a cinco anos.
§ 2º – Se resultar em:
a) incapacidade permanente para o trabalho;
b) enfermidade incurável;
c) perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
d) deformidade permanente;
e) aborto;
Pena – reclusão de dois a oito anos.
§ 3º – Se resultar em morte;
Pena – reclusão de seis a vinte anos.
III – a produção, armazenamento ou manipulação de embriões humanos destinados a servirem como material biológico disponível;
Pena – reclusão de seis a 20 anos.

IV – a intervenção in vivo em material genético de animais, excetuados os casos em que tais intervenções se constituam em
avanços significativos na pesquisa científica e no desenvolvimento tecnológico, respeitando-se princípios éticos, tais como o
princípio da responsabilidade e o princípio da prudência, e com aprovação prévia da CTNBio;
Pena – reclusão de três meses a um ano.
V – a liberação ou o descarte no meio ambiente de OGM em desacordo com as normas estabelecidas pela CTNBio e constantes
na regulamentação desta Lei.
Pena – reclusão de um a três anos.
§ 1º – Se resultar em:
a) lesões corporais leves;
b) perigo de vida;
c) debilidade permanente de membro, sentido ou função;
d) aceleração de parto;
e) dano à propriedade alheia;
f) dano ao meio ambiente;
Pena – reclusão de dois a cinco anos.
§ 2º – Se resultar em:
a) incapacidade permanente para o trabalho;
b) enfermidade incurável;
c) perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
d) deformidade permanente;
e) aborto;
f) inutilização da propriedade alheia;
g) dano grave ao meio ambiente; Pena – reclusão de dois a oito anos;
§ 3º – Se resultar em morte;
Pena – reclusão de seis a 20 anos.
§ 4º – Se a liberação, o descarte no meio ambiente ou a introdução no meio de OGM for culposo:
Pena – reclusão de um a dois anos.
§ 5º — Se a liberação, o descarte no meio ambiente ou a introdução no País de OGM for culposa, a pena será aumentada de um
terço se o crime resultar de inobservância de regra técnica de profissão.
§ 6º – O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal por
danos causados ao homem, aos animais, às plantas e ao meio ambiente, em face do descumprimento desta Lei.
Art. 14º – Sem obstar a aplicação das penas previstas nesta Lei, é o autor obrigado, independentemente da existência de culpa, a
indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade.
Disposições Gerais e Transitórias
Art. 15º – Esta Lei será regulamentada no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data de sua publicação.
Art. 16º – As entidades que estiverem desenvolvendo atividades reguladas por esta Lei na data de sua publicação, deverão
adequar-se às suas disposições no prazo de 120 dias, contados da publicação do decreto que a regulamentar, bem como
apresentar relatório circunstanciado dos produtos existentes, pesquisas ou projetos em andamento envolvendo OGM.
Parágrafo único. Verificada a existência de riscos graves para a saúde do homem ou dos animais, para as plantas ou para o meio
ambiente, a CTNBio determinará a paralisação imediata da atividade.
Art. 17º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 18º – Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 5 de janeiro de 1995; 174º da Independência e 107º da República
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Nelson Jobim
José Eduardo de Andrade Vieira
Paulo Renato Souza
Adib Jatene
José Israel Vargas
Gustavo Krause
Anexo I
Para efeitos desta Lei, os organismos geneticamente modificados classificam-se da seguinte maneira:
Grupo I: compreendem os organismos que preenchem os seguintes critérios:
A. Organismo receptor ou parental
– não-patogênico;
– isento de agentes adventícios;
– com amplo histórico documentado de utilização segura, ou a incorporação de barreiras biológicas que, sem interferir no
crescimento ótimo em reator ou fermentador, permita uma sobrevivência e multiplicação limitadas, sem efeitos negativos para o
meio ambiente.
B. Vetor/inserto
– deve ser adequadamente caracterizado e desprovido de sequências nocivas conhecidas;
– deve ser de tamanho limitado, no que for possível, às sequências genéticas necessárias para realizar a função projetada;
– não deve incrementar a estabilidade do organismo modificado no meio ambiente;
– deve ser escassamente mobilizável;
– não deve transmitir nenhum marcador de resistência a organismos que, de acordo com os conhecimentos disponíveis, não o
adquira de forma natural.
C. Organismos geneticamente modificados: – não-patogênicos;
– que ofereçam a mesma segurança que o organismo receptor ou parental no reator ou fermentador, mas com sobrevivência e/ou
multiplicação limitadas, sem efeitos negativos para o meio ambiente.
D. Outros organismos geneticamente modificados que poderiam se incluir no Grupo I, desde que reúnam as condições estipuladas
no item C anterior:
– micro-organismos construídos inteiramente a partir de um único receptor procariótico (incluindo plasmídeos e vírus endógenos) ou
de um único receptor eucariótico (incluindo seus cloroplastos, mitocôndrias e plasmídeos, mas excluindo os vírus) e organismos
compostos inteiramente por sequências genéticas de diferentes espécies que troquem tais sequências mediante processos
fisiológicos conhecidos.
Grupo II: todos aqueles não incluídos no Grupo I.

4. Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS

O plenário do Conselho Nacional de Saúde em sua Quinquagésima Nona Reunião Ordinária, realizada nos dias 09 e 10 de outubro
de 1996, no uso de suas Competências regimentais e atribuições conferidas pela Lei nº 8080 de 19 de setembro de 1990, e pela
Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990, resolve:
Aprovar as seguintes diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos:
I. Preâmbulo
A presente Resolução fundamenta-se nos principais documentos internacionais que emanaram declarações e diretrizes sobre
pesquisas que envolvem seres humanos: O Código de Nuremberg (1947), a Declaração dos Direitos do Homem (1948), a
Declaração de Helsinque (1964 e suas versões posteriores de 1975, 1983 e 1989), o Acordo Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos, ONU, 1966, Aprovado pelo Congresso Nacional Brasileiro em 1992), as Propostas de Diretrizes Éticas internacionais
para pesquisas Biomédicas Envolvendo Seres Humanos (CIOMS/OMS 1982 e 1983) e as Diretrizes internacionais para Revisão
Ética de Estudos Epidemiológicos (CIOMS, 1991). Cumpre as disposições da Constituição da República Federativa do Brasil de
1988 e da legislação brasileira correlata: Código de Direitos do Consumidor, Código Civil e Código Penal, Estatuto da Criança e
do Adolescente, Lei Orgânica da Saúde 8080, de 19/09/90 (dispõe sobre as condições de atenção à saúde, à organização e o
funcionamento dos serviços correspondentes), Lei 8.142, de 28/12/90 (participação da comunidade na gestão do Sistema Único de
Saúde), Decreto 99.438 de 07/08/90 (organização e atribuições do conselho Nacional de Saúde).
Decreto 98.830, de 15/01/90 (coleta por estrangeiros de dados e materiais científicos no Brasil), Lei 8.489, de 18/11/92, e Decreto
879, de 22/07/93 (dispõem sobre retirada de tecidos, órgãos e outras partes do corpo humano com fins humanitários e científicos),
Lei 8.501, de 30/11/92 (utilização de cadáver), Lei 8.974, de 05/01/95 (uso das técnicas de engenharia genética e liberação do
meio ambiente de organismos geneticamente modificados), Lei 9.279, de 14/05/96 (regula direitos e obrigações relativas à
propriedade industrial) e outras.
Essa Resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e das coletividades, os quatro referenciais básicos da bioética: autonomia, não
maleficência, beneficência e justiça, entre outros, e visa assegurar os direitos e deveres que dizem respeito à comunidade científica,
aos sujeitos da pesquisa e ao Estado.
O caráter contextual das considerações aqui desenvolvidas implica em revisões periódicas desta Resolução, conforme
necessidades nas áreas tecno-científica e ética.
Ressalta-se, ainda, que cada área temática de investigação e cada modalidade de pesquisa, além de respeitar os princípios
emanados deste texto, deve cumprir as exigências setoriais e regulamentações específicas.

II. Termos e definições


A presente Resolução adota no seu âmbito as seguintes definições:
II.1. Pesquisa – classe de atividades cujo objetivo é desenvolver ou contribuir para o conhecimento generalizável. O conhecimento
generalizável consiste em teorias, relações ou princípios ou no acúmulo de informações sobre as quais estão baseados, que
possam ser corroborados por métodos científicos aceitos de observações e interferência.
II.2. Pesquisa envolvendo seres humanos – pesquisa que, individual ou coletivamente, envolva o ser humano, de forma direta ou
indireta, em sua totalidade ou partes dele, incluindo o manejo de informações ou materiais.
II.3. Protocolo de Pesquisa – Documentos contemplando a descrição da pesquisa em seus aspectos fundamentais, informações
relativas ao sujeito da pesquisa, à qualificação dos pesquisadores e a todas as instâncias responsáveis.
II.4. Pesquisador responsável – pessoa responsável pela coordenação e realização da pesquisa e pela integridade e bem-estar dos
sujeitos da pesquisa.
II.5. Instituição de pesquisa – organização, pública ou privada, legitimamente constituída e habilitada na qual são realizadas
investigações científicas.
II.6. Promotor – indivíduo ou instituição, responsável pela promoção da pesquisa.
II.7. Patrocinador – pessoa física ou jurídica que apoia financeiramente a pesquisa
II.8. Risco da pesquisa – possibilidade de danos à dimensão física, psíquica, moral, intelectual, social, cultural ou espiritual do ser
humano, em qualquer fase de uma pesquisa e dela decorrente.
II.9. Dano associado ou decorrente da pesquisa – agravo imediato ou tardio, ao indivíduo ou à coletividade, com nexo causal
comprovado, direto, ou indireto, decorrente do estudo científico.
II.10. Sujeito da pesquisa – é o(a) participante pesquisado(a), individual ou coletivamente, de caráter voluntário, vedada qualquer
forma de remuneração.
II.11. Consentimento livre e esclarecido – anuência do sujeito da pesquisa e/ou de seu representante legal, livre de vícios
(simulação, fraude ou erro), dependência, subordinação ou intimidação, após explicação completa e pormenorizada sobre a
natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, benefícios previstos, potenciais riscos e o incômodo que esta possa acarretar,
formulada em um termo de consentimento, autorizando sua participação voluntária na pesquisa.
II.12. Indenização – cobertura material, em reparação a dano imediato ou tardio, causado pela pesquisa ao ser humano a ela
submetida.
II.13. Ressarcimento – cobertura, em compensação, exclusiva de despesas decorrentes da participação do sujeito na pesquisa.
II.14. Comitês de Ética em Pesquisa – CEP – colegiados interdisciplinares e independentes com “manus público”, de caráter
consultivo, deliberativo e educativo, criados para defender os interesses dos sujeitos da pesquisa em sua integridade e dignidade e
para contribuir no desenvolvimento da pesquisa dentro dos padrões éticos.
II.15. Vulnerabilidade – refere-se a estado de pessoas ou grupos que, por quaisquer razões ou motivos, tenham a sua capacidade
de autodeterminação reduzida, sobretudo no que se refere ao consentimento livre e esclarecido.
II.16. Incapacidade – refere-se ao possível sujeito da pesquisa que não tenha capacidade civil para dar seu consentimento livre e
esclarecido, devendo ser assistido ou representado de acordo com a legislação brasileira vigente.

III. Aspectos éticos da pesquisa envolvendo seres humanos


As pesquisas envolvendo seres humanos devem atender às exigências éticas e científicas fundamentais:
III.1. A eticidade da pesquisa implica em:
a) consentimento livre esclarecido dos indivíduos-alvo e a proteção a grupos vulneráveis e aos legalmente incapazes (autonomia).
Neste sentido, a pesquisa envolvendo seres humanos deverá sempre tratá-los em sua dignidade, respeitá-los em sua autonomia e
defendê-los em sua vulnerabilidade;
b) ponderação entre riscos e benefícios, tanto atuais quanto potenciais, individuais ou coletivos (beneficência), comprometendo-se
com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos;
c) garantia de que danos previsíveis serão evitados (não maleficência);
d) relevância social da pesquisa com vantagens significativas para os sujeitos da pesquisa e minimização do ônus para os sujeitos
vulneráveis, o que garante a igual consideração dos interesses envolvidos, não perdendo o sentido de sua destinação sócio-
humanitária (justiça e equidade).
III.2. Todo procedimento de qualquer natureza envolvendo o ser humano, cuja aceitação não esteja ainda consagrada na literatura
científica, será considerado como pesquisa e, portanto, deverá obedecer às diretrizes da presente Resolução. Os procedimentos
referidos incluem, entre outros, os de natureza instrumental, ambiental, nutricional, educacional, socióloga, econômica, física,
psíquica ou biológica, sejam elas farmacológicos, clínicos ou cirúrgicos e de finalidade preventiva, diagnóstica ou terapêutica.
III.3. A pesquisa em quaisquer áreas do conhecimento, envolvendo seres humanos deverá observar as seguintes exigências:
a) ser adequada aos princípios que a justifiquem e com possibilidades concretas de responder a incertezas;
b) estar fundamentada na experimentação prévia realizada em laboratórios, animais ou em outros fatos científicos;
c) ser realizada somente quando o conhecimento que se pretende obter não possa ser obtido por outro meio;
d) prevalecer sempre as probabilidades dos benefícios esperados sobre os riscos previsíveis;
e) obedecer a metodologia adequada. Se houver necessidade de distribuição aleatória dos sujeitos da pesquisa, em grupos
experimentais e de controle, assegurar que, a priori, não seja possível estabelecer as vantagens de um procedimento sobre outro
através da revisão da literatura, métodos observacionais ou métodos que não envolvam seres humanos;
f) ter plenamente justificada, quando for o caso, a utilização de placebo, em termos de não maleficência e de necessidade
metodológica;
g) contar com o consentimento livre e esclarecido do sujeito da pesquisa e/ou seu representante legal;
h) contar com os recursos humanos e materiais necessários que garantam o bem-estar do sujeito da pesquisa, devendo ainda
haver adequação entre a competência do pesquisador e projeto proposto;
i) prever procedimentos que assegurem a confidencialidade e a privacidade, a proteção da imagem e a não estigmatização,
garantindo a não utilização de informações em prejuízo das pessoas e/ou das comunidades, inclusive em termos de autoestima, de
prestígio e/ou econômico-financeiro;
j) ser desenvolvida preferencialmente em indivíduos com autonomia plena, indivíduos ou grupos vulneráveis não devem ser sujeitos
de pesquisa quando a informação desejada possa ser obtida através de sujeito com plena autonomia, a menos que a investigação
possa trazer benefícios diretos aos vulneráveis. Nestes casos, o direito dos indivíduos ou grupos que queiram participar da
pesquisa deve ser assegurado, desde que seja garantida a proteção à sua vulnerabilidade legalmente definida;
l) respeitar sempre os valores culturais, sociais, morais, religiosos e éticos, bem como os hábitos e costumes quando as pesquisas
envolverem comunidades;
m) garantir que as pesquisas em comunidades, sempre que possível, traduzir-se-ão em benefícios cujos efeitos constituem a se
fazer sentir após sua conclusão. O projeto deve analisar as diferenças presentes entre elas, explicitando como será assegurado o
respeito às mesmas;
n) garantir o retorno dos benefícios obtidos através das pesquisas para as pessoas e as comunidades onde as mesmas forem
realizadas. Quando, no interesse da comunidade, houver benefício real em incentivar ou estimular mudanças de costumes ou
comportamentos, o protocolo de pesquisa deve incluir, sempre que possível, disposições para comunicar tal benefício às pessoas
e/ou comunidades;
o) comunicar às autoridades sanitárias os resultados da pesquisa, sempre que os mesmos puderem contribuir para a melhoria das
condições de saúde da coletividade, preservando, porém, a imagem e assegurando que os sujeitos da pesquisa não sejam
estigmatizados ou percam a autoestima;
p) assegurar aos sujeitos da pesquisa os benefícios resultantes do projeto, seja em termos de retorno social, acesso aos
procedimentos, produtos ou agentes da pesquisa;
q) assegurar aos sujeitos da pesquisa as condições de acompanhamento, tratamento ou orientação, conforme o caso, nas
pesquisas de tratamento ou de orientação, conforme o caso, nas pesquisas de rastreamento; demonstrar a preponderância de
benefícios sobre riscos e custos;
r) assegurar a inexistência de conflito de interesses entre o pesquisador e os sujeitos da pesquisa ou patrocinador do projeto;
s) comprovar, nas pesquisas conduzidas do exterior ou com cooperação estrangeira, os compromissos e as vantagens, para
sujeitos das pesquisas e para o Brasil, decorrente de sua realização. Nestes casos deve ser identificado o pesquisador e a
instituição nacionais corresponsáveis pela pesquisa. O protocolo deverá observar as exigências da Declaração de Helsinque e
incluir documento de aprovação, no país de origem, entre os apresentados para avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa da
Instituição Brasileira, que exigirá o cumprimento de seus próprios referenciais éticos. Os estudos patrocinados no exterior também
devem responder às necessidades de treinamento de pessoal no Brasil, para que o país possa desenvolver projetos similares de
forma independente;
t) utilizar o material biológico e os dados obtidos na pesquisa exclusivamente para a finalidade prevista no seu protocolo;
u) levar em conta, nas pesquisas realizadas em mulheres em idade fértil ou em mulheres grávidas, avaliação e riscos e benefícios e
as eventuais interferências sobre a fertilidade, a gravidez, o embrião ou o feto, o trabalho de parto, o puerpério, a lactação e o
recém-nascido;
v) considerar que as pesquisas em mulheres grávidas devem ser precedidas de pesquisa em mulheres fora do período gestacional,
exceto quando a gravidez for o objetivo fundamental da pesquisa;
x) propiciar, nos estudos multicêntricos, a participação dos pesquisadores que desenvolverão a pesquisa na elaboração do
delineamento geral do projeto; e z) descontinuar o estudo somente após a análise das razões da descontinuidade pelo CEP que a
aprovou.

IV. Consentimento livre e esclarecido


Respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos,
indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus representantes legais manifestam anuência à participação na pesquisa.
IV.1. Exige-se que o esclarecimento dos sujeitos se faça em linguagem acessível e que se inclua necessariamente os seguintes
aspectos:
a) a justificativa, os objetivos e os procedimentos que serão utilizados na pesquisa;
b) os desconfortos e riscos possíveis e os benefícios esperados;
c) os métodos alternativos existentes;
d) a forma de acompanhamento e assistência, assim como seus responsáveis;
e) a garantia de esclarecimentos, antes e durante o curso da pesquisa, sobre a metodologia, informando a possibilidade de
inclusão em grupo controle ou placebo;
f) a liberdade do sujeito se recusar a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem penalização
alguma e sem prejuízo ao seu cuidado;
g) a garantia de sigilo que assegure a privacidade dos sujeitos quanto aos dados confidenciais envolvidos na pesquisa;
h) as formas de ressarcimento das despesas decorrentes da participação na pesquisa; e
i) as formas de indenização diante de eventuais danos decorrentes da pesquisa.
IV.2. O termo de consentimento livre e esclarecido obedecerá aos seguintes requisitos:
a) ser elaborado pelo pesquisador responsável, expressando o cumprimento de cada uma das exigências acima;
b) ser aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa que referenda a investigação;
c) ser assinado ou identificado por impressão dactiloscópica, por todos e cada um dos sujeitos da pesquisa ou por seus
representantes legais; e
d) ser elaborado em duas vias, sendo uma retirada pelo sujeito da pesquisa ou por seu representante legal e uma arquivada pelo
pesquisador.
IV.3. Nos casos em que haja qualquer restrição à liberdade ou ao esclarecimento necessários para o adequado consentimento,
deve-se ainda observar:
a) em pesquisas envolvendo crianças e adolescentes, portadores de perturbação ou doença mental e sujeitos em situação de
substancial diminuição em suas capacidades de consentimento, deverá haver justificação clara da escolha dos sujeitos da
pesquisa, especificada no protocolo, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, e cumprir as exigências do consentimento livre e
esclarecido, através dos representantes legais dos referidos sujeitos, sem suspensão dos direitos de informação do indivíduo, no
limite de sua capacidade;
b) a liberdade do consentimento deverá ser particularmente para aqueles sujeitos que, embora adultos e capazes, estejam expostos
a condicionamentos específicos ou à influência de autoridade, especialmente estudantes, militares, empregados, presidiários,
internos em centros de readaptação, casas, abrigos, asilos, associações religiosas ou semelhantes, assegurando-lhes a inteira
liberdade de participar ou não da pesquisa, sem quaisquer represálias;
c) nos casos em que seja impossível registrar o consentimento livre e esclarecido, tal fato deve ser devidamente documentado, com
explicação das causas da impossibilidade, e parecer do Comitê de Ética em Pesquisa;
d) as pesquisas em pessoas com o diagnóstico de morte encefálica só podem ser realizadas desde que sejam preenchidos as
seguintes condições:
documento comprobatório da morte encefálica (atestado de óbito);
consentimento explícito dos familiares e/ou do responsável legal, ou manifestação prévia da vontade da pessoa;
respeito total à dignidade do ser humano sem mutilação ou violação do corpo;
sem ônus econômico ou financeiro adicional à família;
sem prejuízo para outros pacientes aguardando internação ou tratamento;
possibilidade de obter conhecimento específico relevante, novo e que não possa ser obtido de outra maneira;
e) em comunidades culturalmente diferenciadas, inclusive indígenas, deve-se contar com a anuência antecipada da comunidade
através dos seus próprios líderes, não se dispensando, porém, esforços no sentido de obtenção do consentimento individual;
f) quando o mérito da pesquisa depender de alguma restrição de informação ao sujeito, tal fato deve ser devidamente explicitado e
justificado pelo pesquisador e submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa. Os dados obtidos a partir dos sujeitos da pesquisa não
poderão ser usados para outros fins que os não previstos no protocolo e/ou no consentimento.

V. Riscos e benefícios
Considera-se que toda pesquisa envolvendo seres humanos envolve risco. O dano eventual poderá ser imediato ou tardio,
comprometendo o indivíduo ou a coletividade.
VI. Não obstante, os riscos potenciais, as pesquisas envolvendo seres humanos serão admissíveis quando:
a) oferecerem elevada possibilidade de gerar conhecimento para entender, prevenir ou aliviar um problema que afete o bem-estar
dos sujeitos da pesquisa e de outros indivíduos;
b) o risco se justifique pela importância do benefício esperado;
c) o benefício seja maior, ou no mínimo igual, a outras alternativas já estabelecidas para a prevenção, o diagnóstico e o tratamento.
V2. As pesquisas sem benefício direto ao indivíduo devem prever condições de serem bem suportadas pelos sujeitos da pesquisa,
considerando sua situação física, psicológica, social e educacional.
V3. O pesquisador responsável é obrigado a suspender a pesquisa imediatamente ao perceber algum risco ou dano à saúde do
sujeito participante da pesquisa, consequente à mesma, não previsto no termo de consentimento. Do mesmo modo, tão logo
constatada a superioridade de um método em estudo sobre outro, o projeto deverá ser suspenso, oferecendo-se a todos os sujeitos
os benefícios do melhor regime.
V.4. O Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição deverá ser informado de todos os efeitos adversos ou fatos relevantes que
alterem o curso normal do estudo.
V.5. O pesquisador, o patrocinador e a instituição devem assumir a responsabilidade de dar assistência integral às complicações e
danos decorrentes dos riscos previstos.
V.6. Os sujeitos da pesquisa que vierem a sofrer qualquer tipo de dano previsto ou não no termo de consentimento e resultante de
sua participação, além do direito à assistência integral, têm direito à indenização.
V.7. Jamais poderá ser exigido do sujeito da pesquisa, sob qualquer argumento, renúncia ao direito de indenização por dano. O
formulário do consentimento livre e esclarecido não deve conter nenhuma ressalva que afaste essa responsabilidade ou que
implique ao sujeito da pesquisa abrir mão de seus direitos legais, incluindo o direito de procurar obter indenização por danos
eventuais.

VI. Protocolo de pesquisa


Protocolo a ser submetido à revisão ética somente poderá ser apreciado se estiver instruído com os seguintes documentos, em
português:
VI.1. folha de rosto: título do projeto, nome, número da carteira de identidade, CPF, telefone e endereço para correspondência do
pesquisador responsável e do patrocinador, nome e assinatura dos dirigentes da instituição e/ou organização;
VI.2. descrição da pesquisa, compreendendo os seguintes itens:
a) descrição dos propósitos e das hipóteses a serem testadas;
b) antecedentes científicos e dados que justifiquem a pesquisa. Se a propósito for testar um novo produto ou dispositivo para a
saúde, de procedência estrangeira ou não, deverá ser indicada a situação atual de registro junto a agências regulatórias do país de
origem;
c) descrição detalhada e ordenada do projeto de pesquisa (material e métodos, casuística, resultados esperados e bibliografia);
d) análise crítica de riscos e benefícios;
e) duração total da pesquisa, a partir da aprovação;
f) explicitação das responsabilidades do pesquisador, da instituição, do promotor e do patrocinador;
g) explicitação de critérios para suspender ou encerrar a pesquisa;
h) local da pesquisa: detalhar as instalações dos serviços, centros, comunidades e instituições nas quais se processarão as várias
etapas da pesquisa;
i) demonstrativo da existência de infraestrutura necessária ao desenvolvimento da pesquisa e para atender eventuais problemas
dela resultantes, com a concordância documentada da instituição;
j) orçamento financeiro detalhado da pesquisa: recursos, fontes e destinação, bem como a forma e o valor da remuneração do
pesquisador;
k) explicitação de acordo preexistente quanto à propriedade das informações geradas, demonstrando a inexistência de qualquer
cláusula restritiva quanto à divulgação pública dos resultados, a menos que se trate de caso de obtenção de patenteamento; neste
caso, os resultados devem se tornar públicos, tão logo se encerre a etapa de patenteamento;
l) declaração de que os resultados da pesquisa serão tornados públicos, sejam eles favoráveis ou não; e
m) declaração sobre o uso e destinação do material e/ou dados coletados.
VI.3. Informações relativas ao sujeito da pesquisa:
a) descrever as características da população a estudar: tamanho, faixa etária, sexo, cor (classificação do IBGE), estado geral de
saúde, classes e grupos sociais etc. Expor as razões para a utilização de grupos vulneráveis;
b) descrever os métodos que afetem diretamente os sujeitos da pesquisa;
c) identificar as fontes de material de pesquisa, tais como espécimens, registros e dados a serem obtidos de seres humanos.
Indicar se esse material será obtido especificamente para os propósitos da pesquisa ou se será usado para outros fins;
d) descrever os planos para o recrutamento de indivíduos e os procedimentos a serem seguidos. Fornecer critérios de inclusão e
exclusão;
e) apresentar o formulário ou termo de consentimento, específico para pesquisa, para apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa,
incluindo informações sobre as circunstâncias sob as quais o consentimento será obtido, quem irá tratar de obtê-lo e a natureza da
informação a ser fornecida aos sujeitos da pesquisa;
f) descrever qualquer risco, avaliando sua possibilidade e gravidade;
g) descrever as medidas para proteção ou minimização de qualquer risco eventual. Quando apropriado, descrever as medidas para
assegurar os necessários cuidados à saúde, no caso de danos aos indivíduos. Descrever também os procedimentos para
monitoramento da coleta de dados para prover a segurança dos indivíduos, incluindo as medidas de proteção à confidencialidade;
h) apresentar previsão de ressarcimento de gastos aos sujeitos da pesquisa. A importância referente não poderá ser de tal manta
que possa interferir na autonomia da decisão do indivíduo ou responsável de participar ou não da pesquisa.
VI.4. qualificação dos pesquisadores: “Curriculum Vitae” do pesquisador responsável e dos demais participantes.
VI.5. termo de compromisso do pesquisador responsável e da instituição de cumprir os termos desta Resolução.

VII. Comitê de ética em pesquisa – CEP


Toda pesquisa envolvendo seres humanos deverá ser submetida à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa:
VII.1. As instituições nas quais se realizem pesquisas envolvendo seres humanos deverão constituir um ou mais de um Comitê de
Ética em Pesquisa – CEP, conforme suas necessidades.
VII.2. Na impossibilidade de se constituir CEP, a instituição ou o pesquisador responsável deverá submeter o projeto à apreciação
do CEP de outra instituição, preferencialmente dentre os indicado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/MS).
VII.3. Organização – A organização e criação do CEP serão da instituição, respeitadas as normas desta Resolução, assim como o
provimento de condições adequadas para o seu funcionamento.
VII.4. Composição – O CEP deverá ser constituído por colegiado com número não inferior a 7 (sete) membros. Sua constituição
deverá incluir a participação de profissionais da área de saúde, das ciências exatas, sociais e humanas, incluindo, por exemplo,
juristas, teólogos, sociólogos, filósofos, bioeticistas e, pelo menos, um membro da sociedade representando os usuários da
instituição. Poderá variar na sua composição, dependendo das especificidades da instituição e das linhas de pesquisa a serem
analisadas.
VII.5. Terá sempre caráter multi e transdisciplinar, não devendo haver mais que metade de seus membros pertencentes à mesma
categoria profissional, participando pessoas dos dois sexos. Poderá ainda contar com consultores “ad hoc”, pessoas pertencentes
ou não à instituição com a finalidade de fornecer subsídios técnicos.
VII.6. No caso de pesquisas em grupos vulneráveis, comunidades e coletividades, deverá ser convidada um representante como
membro “ad hoc” do CEP, para participar da análise do projeto específico.
VII.7. Nas pesquisas em população indígena deverá participar um consultor familiarizado com os costumes e tradições da
comunidade.
VII.8. Os membros do CEP deverão se isentar de tomada de decisão, quando diretamente envolvidos na pesquisa em análise.
VII.9. Mandato e escolha dos membros – A composição de cada CEP deverá ser definida a critério da instituição, sendo pelo
menos, metade dos membros com experiência em pesquisa, eleitos pelos seus pares.
A escolha da coordenação de cada Comitê deverá ser feita pelos membros que compõem o colegiado, durante a primeira reunião
de trabalho. Será de três anos a duração do mandato, sendo permitida recondução.
VII.10. Remuneração – Os membros do CEP não poderão ser remunerados no desempenho desta tarefa, sendo recomendável,
porém, que sejam dispensados nos horários de trabalho do Comitê das outras obrigações nas instituições às quais prestam
serviços, podendo receber ressarcimento de despesas efetuadas com transporte, hospedagem e alimentação.
VII.11. Arquivo – O CEP deverá manter em arquivo o projeto, o protocolo e os relatórios correspondentes, por 5 (cinco) anos após o
encerramento do estudo.
VII.12. Liberdade de trabalho – Os membros dos CEPs deverão ter total independência na tomada das decisões no exercício das
suas funções, mantendo sob caráter confidencial as informações recebidas. Deste modo, não podem sofrer qualquer tipo de
pressão por parte de superiores hierárquicos ou pelos interessados em determinada pesquisa, devem isentar-se de envolvimento
financeiro e não devem estar submetidos a conflito de interesse.
VII.13. Atribuições do CEP
a) revisar os protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos, inclusive os multicêntricos, cabendo-lhe a responsabilidade
primária pelas decisões sobre a ética da pesquisa a ser desenvolvida na instituição, de modo a garantir e resguardar a integridade
e os direitos dos voluntários participantes nas referidas pesquisas;
b) emitir parecer consubstanciado por escrito, no prazo máximo de 30 (trinta) dias, identificando com clareza o ensaio, documentos
estudados e datas de revisão. A revisão de cada protocolo culminará com seu enquadramento em uma das seguintes categorias:
aprovado
com pendência: quando o Comitê considera o protocolo como aceitável, porém identifica determinados problemas no
protocolo, no formulário do consentimento ou em ambos, e recomenda uma revisão específica ou solicita uma modificação ou
informação relevante, que deverá ser atendida em 60 (sessenta) dias pelos pesquisadores;
retirado: quando, transcorrido o prazo, o protocolo permanece pendente;
não aprovado; e
aprovado e encaminhado, com o devido parecer, para apreciação pela Comissão nacional de Ética e Pesquisa-CONEP/MS,
nos casos previstos no capítulo VIII, item 4.c.
c) manter a guarda confidencial de todos os dados obtidos na execução de sua tarefa e arquivamento do protocolo completo, que
ficará à disposição das autoridades sanitárias;
d) acompanhar o desenvolvimento dos projetos de relatórios anuais dos pesquisadores;
e) desempenhar papel consultivo e educativo, fomentando a reflexão em torno da ética na ciência;
f) receber os sujeitos da pesquisa ou de qualquer outra parte, denúncias abusos ou notificação sobre fatos adversos que possam
alterar o curso normal do estudo, decidindo pela continuidade, modificação ou suspensão da pesquisa, devendo, se necessário,
adequar o termo de consentimento. Considera-se como antiética a pesquisa descontinuada sem justificativa aceita pelo CEP que a
aprovou;
g) requerer instauração de sindicância à direção da instituição em caso de denúncias de irregularidades de natureza ética nas
pesquisas e, em havendo comprovação, comunicar à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/MS) e, no que couber, a
outras instâncias; e
h) manter comunicação regular e permanente com a CONEP/MS.
VII.14. Atuação do CEP:
a) a revisão ética de toda e qualquer proposta de pesquisa envolvendo seres humanos não poderá ser dissociada da sua análise
científica. Pesquisa que não se faça acompanhar do respectivo protocolo não deve ser analisado pelo Comitê.
b) cada CEP deverá elaborar suas normas de funcionamento, contendo metodologia de trabalho, a exemplo de: elaboração das
atas; planejamento anual de suas atividades; periodicidade de reuniões; número mínimo de presentes para início das reuniões;
prazos para emissão de pareceres; critérios para solicitação de consultas de experts na área em que desejam informações
técnicas; modelo de tomada de decisão, etc.

VIII. Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/MS)


A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/MS) é uma instância colegiada de natureza consultiva, deliberativa,
normativa, educativa, independente, vinculada ao Conselho Nacional de Saúde.
O Ministério da Saúde adotará as medidas necessárias para o funcionamento pleno da Comissão e de sua Secretaria Executiva.
VIII.1. Composição: A CONEP terá composição multi e transdisciplinar, com pessoas de ambos os sexos e deverá ser composta
por 13 (treze) membros titulares e seus suplentes, sendo 05 (cinco) deles personalidades destacadas no campo da ética na
pesquisa e na saúde e 08 (oito) personalidades com destacada atuação nos campos teológico, jurídico e outros, assegurando-se
de que pelo menos um seja da área de gestão da saúde.
Os membros serão selecionados, a partir de listas indicativas elaboradas pelas instituições que possuem CEP registrados na
CONEP, sendo que 07 (sete) serão escolhidos pelo Conselho Nacional de Saúde e 06 (seis) serão definidos por sorteio.
Poderá contar, também, com consultores e membros “ad hoc”, assegurada a representação dos usuários.
VIII.2. Cada CEP poderá indicar duas personalidades.
VIII.3. O mandato dos membros do CONEP será de quatro anos com renovação alternada a cada dois anos, de sete ou seis de
seus membros.
VIII.4. Atribuições do CONEP – Compete à CONEP o exame dos aspectos éticos da pesquisa envolvendo seres humanos, bem
como, a adequação e atualização das normas atinentes. A CONEP consultará a sociedade sempre que julgar necessário, cabendo-
lhe, entre outras, as seguintes atribuições:
a) estimular a criação de CEPs institucionais e de outras instâncias;
b) registrar os CEPs institucionais e de outras instâncias;
c) aprovar, no prazo de 60 dias, e acompanhar os protocolos de pesquisa em áreas temáticas especiais como:
1. genética humana;
2. reprodução humana;
3. fármacos, medicamentos, vacinas e testes diagnósticos novos (fases I, II e III) ou não registrados no país (ainda que em fase
IV) ou quando a pesquisa for referente a seu uso com modalidades, indicações, doses ou vias de administração diferentes
daquelas estabelecidas, incluindo seu emprego em combinações;
4. equipamentos, insumos e dispositivos para a saúde novos, ou não registrados no país;
5. novos procedimentos ainda não consagrados na literatura;
6. população indígena;
7. projetos que envolvam aspectos de biossegurança;
8. pesquisas coordenadas do exterior ou com participação estrangeira e pesquisas que envolvam remessa de material biológico
para o exterior; e
9. projetos que, a critério do CEP, devidamente justificado, sejam julgados merecedores de análise pela CONEP;
10. prover normas específicas no campo da ética em pesquisa, inclusive nas áreas temáticas especiais, bem como
recomendações para aplicação das mesmas;
e) funcionar como instância final de recursos, a partir de informações fornecidas sistematicamente, em caráter ex-ofício ou a partir
de denúncias ou de solicitação de partes interessadas, devendo manifestar-se em prazo não superior a 60 (sessenta) dias;
f) rever responsabilidades, proibir ou interromper pesquisas, definitiva ou temporariamente, podendo requisitar protocolos para
revisão ética inclusive, os já aprovados pelo CEP;
g) constituir um sistema de informação e acompanhamento dos aspectos éticos das pesquisas envolvendo seres humanos em todo
o território nacional, mantendo atualizados os bancos de dados;
h) informar e assessorar o MS, o CNS e outras instâncias do SUS, bem como do governo e da sociedade, sobre questões éticas
relativas à pesquisa em seres humanos;
i) divulgar esta e outras normas relativas à ética em pesquisa envolvendo seres humanos;
j) o CONEP, juntamente com outros setores do Ministério da Saúde, estabelecerá normas e critérios para o credenciamento de
Centres de Pesquisa. Este credenciamento deverá ser proposto pelos setores do Ministério da Saúde, de acordo com suas
necessidades, e aprovado pelo Conselho Nacional de Saúde; e
1) estabelecer suas próprias normas de funcionamento.
VIII.5. A CONEP submeterá ao CNS para sua deliberação:
a) propostas de normas gerais a serem aplicadas às pesquisas envolvendo seres humanos, inclusive modificações desta norma;
b) plano de trabalho anual;
c) relatório anual de suas atividades, incluindo sumário dos CEP estabelecidos e dos projetos analisados.

IX. Operacionalização
IX.1. Todo e qualquer projeto de pesquisa envolvendo seres humanos deverá obedecer às recomendações desta Resolução e dos
documentos endossados em seu preâmbulo. A responsabilidade do pesquisador é indelegável, indeclinável e compreende os
aspectos éticos e legais.
IX.2. Ao pesquisador cabe:
a) apresentar o protocolo, devidamente instruído ao CEP, aguardando o pronunciamento deste, antes de iniciar a pesquisa;
b) desenvolver o projeto conforme delineado;
c) elaborar e apresentar os relatórios parciais e final;
d) apresentar dados solicitados pelo CEP, a qualquer momento;
e) manter em arquivo, sob sua guarda, por 5 anos, os dados da pesquisa, contendo fichas individuais e todos os demais
documentos recomendados pelo CEP;
f) encaminhar os resultados para publicação, com os devidos créditos aos pesquisadores associados e ao pessoal técnico
participante do projeto;
g) justificar, perante o CEP, interrupção do projeto ou a não publicação dos resultados.
IX.3. O Comitê de Ética em Pesquisa Institucional deverá estar registrado junto à CONEP/MS.
IX.4. Uma vez aprovado o projeto, o CVEP passa a ser corresponsável no que se refere aos aspectos éticos da pesquisa.
IX.5. Consideram-se autorizados para execução, os projetos aprovados pelo CEP, exceto os que se enquadrarem nas áreas
temáticas especiais, os quais, após aprovação pelo CEP institucional deverão ser enviados à CONEP/MS, que dará o devido
encaminhamento.
IX.6. Pesquisas com novos medicamentos, vacinas, testes diagnósticos, equipamentos e dispositivos para saúde deverão ser
encaminhados do CEP à CONEP/MS e desta, após parecer, à Secretaria de Vigilância Sanitária.
IX.7. As agências de fomento a pesquisas e o corpo editorial das revistas científicas deverão exigir documentação comprobatória
de aprovação do projeto pelo CEO e/ou CONEP, quando for o caso.
IX.8. Os CEP institucionais deverão encaminhar trimestralmente à CONEP/MS a relação dos projetos de pesquisa analisados,
aprovados e concluídos, bem como dos projetos em andamento e, imediatamente, aqueles suspensos.

X. Disposições transitórias
X.l. O Grupo Executivo de Trabalho – GET, constituído através da Resolução CNS 170/95, assumirá as atribuições da CONEP até
sua constituição, responsabilizando-se por:
a) tomar as medidas necessárias ao processo de criação da CONEP/MS;
b) estabelecer normas para registro dos CEP institucionais.
X.2. O GET terá 180 dias para finalizar as suas tarefas
X.3. Os CEP das instituições devem proceder, no prazo de 90 (noventa) dias, ao levantamento e análise, se for caso, dos projetos
de pesquisa em seres humanos já em andamento, devendo encaminhar à CONEP/MS. A relação dos mesmos.
X.4. Fica revogada a Resolução 01/88.

ADIB D. JATENE – Presidente do Conselho


Homologo a Resolução CNS nº 196, de 10 de Outubro de 1996, nos termos do Decreto de Delegação de
Competência de 12 de Novembro de 1991.
ADIB D. JATENE – Ministro de Estado da Saúde

5. Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos


Humanos – 1997

O Comitê de Especialistas Governamentais, convocado em julho de 1997 para a conclusão de um projeto de declaração sobre o
genoma humano, examinou o esboço preliminar revisto redigido pelo Comitê Internacional de Bioética. Ao término de suas
deliberações, em 25 de julho de 1997, o Comitê de Especialistas Governamentais, no qual mais de 80 Estados estiveram
representados, adotou por consenso o Projeto de uma Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos, que foi
apresentado para adoção na 29a sessão da Conferência Geral da Unesco (de 21 de outubro a 12 de novembro de 1997).

Dignidade Humana e o Genoma Humano


Artigo 1º
O genoma humano subjaz à unidade fundamental de todos os membros da família humana e também ao reconhecimento de sua
dignidade e diversidade inerentes. Num sentido simbólico, é a herança da humanidade.
Artigo 2º
a) Todos têm o direito ao respeito por sua dignidade e seus direitos humanos, independentemente de suas características
genéticas.
b) Essa dignidade faz com que seja imperativo não reduzir os indivíduos a suas características genéticas e respeitar sua
singularidade e diversidade.
Artigo 3º
O genoma humano, que evolui por sua própria natureza, é sujeito a mutações. Ele contém potencialidades que são expressas de
maneira diferente segundo o ambiente natural e social de cada indivíduo, incluindo o estado de saúde do indivíduo, suas condições
de vida, nutrição e educação.
Artigo 4º
O genoma humano em seu estado natural não deve dar lugar a ganhos financeiros.

Direitos das Pessoas Envolvidas


Artigo 5º
a) Pesquisas, tratamento ou diagnóstico que afetem o genoma de um indivíduo devem ser empreendidas somente após a rigorosa
avaliação prévia dos potenciais riscos e benefícios a serem incorridos, e em conformidade com quaisquer outras exigências da
legislação nacional.
b) Em todos os casos é obrigatório o consentimento prévio, livre e informado da pessoa envolvida. Se esta não se encontrar em
condições de consentir, o consentimento ou autorização deve ser obtido na maneira prevista pela lei, orientada pelo melhor
interesse da pessoa.
c) Será respeitado o direito de cada indivíduo de decidir se será ou não informado dos resultados de seus exames genéticos e das
consequências resultantes.
d) No caso de pesquisas, os protocolos serão, além disso, submetidos a uma revisão prévia em conformidade com padrões ou
diretrizes nacionais e internacionais relevantes relativos a pesquisas.
e) Se, de acordo com a lei, uma pessoa não tiver a capacidade de consentir, as pesquisas relativas a seu genoma só poderão ser
empreendidas com vistas a beneficiar diretamente sua própria saúde, sujeitas à autorização e às condições protetoras descritas
pela lei. As pesquisas que não previrem um benefício direto à saúde somente poderão ser empreendidas a título de exceção, com
restrições máximas, expondo a pessoa apenas a riscos e ônus mínimos e se as pesquisas visarem contribuir para o benefício da
saúde de outras pessoas que se enquadram na mesma categoria de idade ou que tenham as mesmas condições genéticas,
sujeitas às condições previstas em lei, e desde que tais pesquisas sejam compatíveis com a proteção dos direitos humanos do
indivíduo.
Artigo 6º
Ninguém será sujeito à discriminação baseada em características genéticas que vise infringir ou exerça o efeito de infringir os
direitos humanos, as liberdades fundamentais ou a dignidade humana.
Artigo 7º
Quaisquer dados genéticos associados a uma pessoa identificável e armazenados ou processados para fins de pesquisa ou para
qualquer outra finalidade devem ser mantidos em sigilo, nas condições previstas em lei.
Artigo 8º
Todo indivíduo terá o direito, segundo a lei internacional e nacional, à justa reparação por danos sofridos em consequência direta e
determinante de uma intervenção que tenha afetado seu genoma.
Artigo 9º
Com o objetivo de proteger os direitos humanos e as liberdades fundamentais, as limitações aos princípios do consentimento e do
sigilo só poderão ser prescritas por lei, por razões de força maior, dentro dos limites da legislação pública internacional e da lei
internacional dos direitos humanos.

Pesquisas com o Genoma Humano


Artigo 10º
Nenhuma pesquisa ou aplicação de pesquisa relativa ao genoma humano, em especial nos campos da biologia, genética e
medicina, deve prevalecer sobre o respeito aos direitos humanos, às liberdades fundamentais e à dignidade humana dos indivíduos
ou, quando for o caso, de grupos de pessoas.
Artigo 11º
Não serão permitidas práticas contrárias à dignidade humana, tais como a clonagem reprodutiva de seres humanos. Os Estados e
as organizações internacionais competentes são convidados a cooperar na identificação de tais práticas e a determinar, nos níveis
nacional ou internacional, as medidas apropriadas a serem tomadas para assegurar o respeito pelos princípios expostos nesta
Declaração.
Artigo 12º
a) Os benefícios decorrentes dos avanços em biologia, genética e medicina, relativos ao genoma humano, deverão ser colocados à
disposição de todos, com a devida atenção para a dignidade e os direitos humanos de cada indivíduo.
b) A liberdade de pesquisa, que é necessária para o progresso do conhecimento, faz parte da liberdade de pensamento. As
aplicações das pesquisas com o genoma humano, incluindo aquelas em biologia, genética e medicina, buscarão aliviar o
sofrimento e melhorar a saúde dos indivíduos e da humanidade como um todo.
Condições para o Exercício da Atividade Científica
Artigo 13º
As responsabilidades inerentes às atividades dos pesquisadores, incluindo o cuidado, a cautela, a honestidade intelectual e a
integridade na realização de suas pesquisas e também na apresentação e na utilização de suas descobertas, devem ser objeto de
atenção especial no quadro das pesquisas com o genoma humano, devido a suas implicações éticas e sociais. Os responsáveis
pelas políticas científicas, em âmbito público e privado, também incorrem em responsabilidades especiais a esse respeito.
Artigo 14º
Os Estados devem tomar medidas apropriadas para fomentar as condições intelectuais e materiais favoráveis à liberdade na
realização de pesquisas sobre o genoma humano e para levar em conta as implicações éticas, legais, sociais e econômicas de tais
pesquisas, com base nos princípios expostos nesta Declaração.
Artigo 15º
Os Estados devem tomar as medidas necessárias para prover estruturas para o livre exercício das pesquisas com o genoma
humano, levando devidamente em conta os princípios expostos nesta Declaração, para salvaguardar o respeito aos direitos
humanos, às liberdades fundamentais e à dignidade humana e para proteger a saúde pública. Eles devem buscar assegurar que os
resultados das pesquisas não sejam utilizados para fins não-pacíficos.
Artigo 16º
Os Estados devem reconhecer a importância de promover, nos diversos níveis apropriados, a criação de comitês de ética
independentes, multidisciplinares e pluralistas, para avaliar as questões éticas, legais e sociais levantadas pelas pesquisas com o
genoma humano e as aplicações das mesmas.

Solidariedade e cooperação Internacional


Artigo 17º
Os Estados devem respeitar e promover a prática da solidariedade com os indivíduos, as famílias e os grupos populacionais que
são particularmente vulneráveis a, ou afetados por doenças ou deficiências de caráter genético. Eles devem fomentar pesquisas
“inter alia” sobre a identificação, prevenção e tratamento de doenças de fundo genético e de influência genética, em particular as
doenças raras e as endêmicas, que afetam grande parte da população mundial.
Artigo 18º
Os Estados devem envidar todos os esforços, levando devidamente em conta os princípios expostos nesta Declaração, para
continuar fomentando a disseminação internacional do conhecimento científico relativo ao genoma humano, a diversidade humana e
as pesquisas genéticas e, a esse respeito, para fomentar a cooperação científica e cultural, especialmente entre os países
industrializados e os países em desenvolvimento.
Artigo 19º
a) No quadro da cooperação internacional com os países em desenvolvimento, os Estados devem procurar encorajar:
1. que seja garantida a avaliação dos riscos e benefícios das pesquisas com o genoma humano, e que sejam impedidos os
abusos;
2. que seja desenvolvida e fortalecida a capacidade dos países em desenvolvimento de promover pesquisas sobre biologia e
genética humana, levando em consideração os problemas específicos desses países;
3. que os países em desenvolvimento possam se beneficiar das conquistas da pesquisa científica e tecnológica, para que sua
utilização em favor do progresso econômico e social possa ser feita de modo a beneficiar todos;
4. que seja promovido o livre intercâmbio de conhecimentos e informações científicas nas áreas de biologia, genética e
medicina.
b) As organizações internacionais relevantes devem apoiar e promover as medidas tomadas pelos Estados para as finalidades
acima mencionadas.

Promoção dos Princípios Expostos na Declaração


Artigo 20º
Os Estados devem tomar medidas apropriadas para promover os princípios expostos nesta Declaração, por meios educativos e
relevantes, inclusive, “inter alia”, por meio da realização de pesquisas e treinamento em campos interdisciplinares e da promoção
da educação em bioética, em todos os níveis, dirigida em especial aos responsáveis pelas políticas científicas.
Artigo 21º
Os Estados devem tomar medidas apropriadas para encorajar outras formas de pesquisa, treinamento e disseminação de
informações, meios estes que conduzam à conscientização da sociedade e de todos seus membros quanto as suas
responsabilidades com relação às questões fundamentais relacionadas à defesa da dignidade humana que possam ser levantadas
pelas pesquisas em biologia, genética e medicina e às aplicações dessas pesquisas. Também devem se propor a facilitar a
discussão international aberta desse tema, assegurando a livre expressão das diversas opiniões socioculturais, religiosas e
filosóficas.

Implementação da Declaração
Artigo 22º
Os Estados devem envidar todos os esforços para promover os princípios expostos nesta Declaração e devem promover sua
implementação por meio de todas as medidas apropriadas.
Artigo 23º
Os Estados devem tomar as medidas apropriadas para promover, por meio da educação, da formação e da disseminação da
informação, o respeito pelos princípios acima mencionados e para fomentar seu reconhecimento e sua aplicação efetiva. Os
Estados também devem incentivar os intercâmbios e as redes entre comitês éticos independentes, à medida que forem criados,
com vistas a fomentar uma cooperação integral entre eles.
Artigo 24º
O Comitê Internacional de Bioética da Unesco deve contribuir para a disseminação dos princípios expostos nesta Declaração e
para fomentar o estudo detalhado das questões levantadas por suas aplicações e pela evolução das tecnologias em questão. Deve
organizar consultas apropriadas com as partes envolvidas, tais como os grupos vulneráveis. Deve fazer recomendações, de acordo
com os procedimentos estatutários da Unesco, dirigidas à Conferência Geral, e emitir conselhos relativos à implementação desta
Declaração, relativos especialmente à identificação de práticas que possam ser contrárias à dignidade humana, tais como
intervenções nas células germinativas.
Artigo 25º
Nada do que está contido nesta Declaração pode ser interpretado como uma possível justificativa para que qualquer Estado, grupo
ou pessoa se engaje em qualquer atividade ou realize qualquer ato contrário aos direitos humanos e às liberdades fundamentais,
incluindo, “inter alia”, os princípios expostos nesta Declaração.

6. Declaração sobre a produção e o uso científico e terapêutico


das células estaminais embrionárias humanas 2001

Pontifícia academia para a vida


A finalidade deste documento é dar uma contribuição ao debate em curso na literatura científica e ética e na opinião pública sobre a
produção e a utilização das células estaminais embrionárias. De fato, considerando a importância cada vez maior que vem
assumindo o debate acerca de seus limites e licitude, impõe-se uma reflexão que coloque em evidência suas explicações éticas.
Na primeira parte, serão brevemente expostos os dados mais recentes fornecidos pela ciência sobre as células estaminais e pela
biotecnologia, a propósito de sua produção e uso. Na segunda parte, serão evidenciados os problemas éticos mais relevantes
levantados por essas novas descobertas e aplicações.

Aspectos científicos
Uma definição, vulgarmente aceita, de “célula estaminal” – embora alguns aspectos requeiram maior aprofundamento – é esta: uma
célula que tem duas características:
1. a propriedade de uma autoconservação ilimitada, ou seja, o poder de reproduzir-se durante muito tempo sem se diferenciar;

2. a capacidade de produzir células progenitoras de transição, com uma limitada capacidade proliferadora, das quais deriva
uma variedade de linhas de células altamente diferenciadas (nervosas, musculares, hemáticas etc.).
Há cerca de trinta anos estas células tem constituído um amplo campo de pesquisa, quer em tecidos adultos1, quer em tecidos
embrionários, quer ainda na cultura in vitro de células estaminais embrionárias de cobaias2. Mas a atenção pública concentrou-se
recentemente nelas por causa de um novo objetivo alcançado: a produção de células estaminais embrionárias humanas.

As células estaminais embrionárias humanas


Hoje, a preparação de células estaminais embrionárias humanas (ES, ESc, Embryo Stem cells) implica3:
1. a produção de embriões humanos e/ou a utilização dos embriões excedentes da fecundação in vitro ou crioconservados;
2. o desenvolvimento desses embriões até a fase inicial de blastócito;

3. a separação do embrioblasto ou massa celular interna (ICM)— o que implica a destruição do embrião;
4. a cultura dessas células sobre uma camada nutriente de fibroblastos embrionários de ratos irradiados e num ambiente
apropriado, onde se multipliquem e combinem até formar colônias;
5. a repetida subcultura dessas colônias, que leva à formação de linhas celulares capazes de se multiplicarem indefinidamente,
conservando as características de células estaminais (ES) durante meses e anos.

Todavia, essas ES constituem apenas o ponto de partida para a preparação das linhas de células diferenciadas, ou seja, de
células com características próprias dos distintos tecidos (musculares, nervosos, epiteliais, hemáticos, germinais etc.). Os métodos
para obtê-las ainda estão em fase de estudo4; mas a inoculação das ES humanas em cobaias (ratos) ou a sua cultura in vitro em
circunstâncias controladas até à sua combinação demonstrou que elas são capazes de dar origem a células diferenciadas que
derivariam, numa evolução normal, dos três estratos embrionários: endoderma (epitélio intestinal), mesoderma (cartilagem, osso,
músculo liso e estriado) e exoderma (epitélio neural, epitélio escamoso)5.
Esses resultados abalaram não só o mundo científico e biotecnológico – particularmente médico e farmacológico –, mas também o
mundo comercial e dos meios de comunicação: grandes eram as esperanças de que as aplicações daí derivadas haveriam de abrir
sendas novas e mais seguras para a terapia de graves doenças – sendas há muitos anos procuradas6. Mas, sobretudo, foi abalado
o mundo político7. De modo particular nos Estados Unidos – onde o Congresso já há anos é contrário a sustentar com fundos
federais pesquisas em que sejam destruídos embriões humanos — fizeram-se sentir, além de outras, as fortes pressões do NIH
(National Institutes of Health), para obter fundos pelo menos para utilizar as células estaminais produzidas por grupos privados, e as
recomendações feitas pelo NBAC (National Bioethics Advisory Committee) – instituído pelo Governo Federal para o estudo do
problema –, para que sejam atribuídos fundos públicos não apenas para pesquisa sobre células estaminais embrionárias, mas
também para a sua produção; mais ainda, insiste-se para que seja rescindida de vez a proibição legal vigente relativa ao uso de
fundos federais para a pesquisa sobre embriões humanos.
Registram-se pressões na mesma direção também na Inglaterra, no Japão, na Austrália.

A clonagem terapêutica
Tornava-se claro que o uso terapêutico das ES, como tais, possuía riscos notáveis, sendo ele, como se constatou em experiências
com ratos, causador de tumores. Assim, seria preciso preparar linhas especializadas de células diferenciadas conforme a
necessidade; e o tempo requerido para obtê-las não era breve. Mas, ainda que fosse possível consegui-lo, seria muito difícil ter a
certeza da absoluta ausência de células estaminais durante a inoculação ou a implantação terapêutica, com os respectivos riscos;
além disso, ter-se-ia de recorrer a ulteriores tratamentos para superar a incompatibilidade imunológica. Por esses motivos, foram
propostas três vias de “clonagem terapêutica”8, capazes de preparar células estaminais embrionárias humanas pluripotenciadas
com uma informação genética bem definida, para se obter depois a desejada diferenciação.

1. A substituição do núcleo de um oócito pelo núcleo de uma célula adulta de um determinado sujeito, seguindo-se a evolução
do embrião até a fase de blastócito e a utilização da massa interna celular (ICM) para obter as ES e, a partir destas, as
desejadas células diferenciadas.

2. A transferência do núcleo de uma célula de um determinado sujeito para um oócito de animal . Caso fosse bem-sucedida, a
operação deveria permitir – supõe-se – o desenvolvimento de um embrião humano, que seria utilizado como no caso anterior.

3. A reprogramação do núcleo da célula de um determinado sujeito pela fusão do citoplasma da ES com o carioplasma de
uma célula somática. Obtendo-se assim um “cybrid”. É uma possibilidade ainda em estudo. De qualquer forma, também esta
via parece exigir a preparação prévia da ES a partir de embriões humanos.
Na fase atual, a pesquisa científica está mais inclinada para a primeira via, mas é óbvio, como veremos, que as três soluções
apontadas são inaceitáveis do ponto de vista moral.

As células estaminais adultas


Ao lonço desses 30 anos de estudos das células estaminais adultas (ASC – Adult Stem Cells) ficou claro que existem em muitos
tecidos adultos, células estaminais, mas capazes de dar origem somente a células próprias de certo tecido, isto é, não se pensava
na possibilidade de uma nova programação delas. Nos anos mais recentes9, porém, descobriram-se também em vários tecidos
humanos células estaminais pluripotenciadas – na medula óssea (HSCs), no cérebro (NSCs), no mesênquima (MSCs) de vários
órgãos e no sangue do cordão umbilical (P/CB: Placental/Cord Blood) —, isto é, células capazes de dar origem a outros tipos de
célula, em sua maioria hemáticas, musculares e nervosas. Descobriu-se como reconhecê-las, selecioná-las, ajudá-las a
desenvolver-se e levá-las a formar diversos tipos de célula madura por meio de fatores de crescimento e outras proteínas
regularizadoras. Aliás, foi já percorrido um notável caminho no campo experimental, aplicando inclusive os métodos mais avançados
de engenharia genética e de biologia molecular para a análise do programa genético que opera nas células estaminais10, e para a
comutação de genes desejados em células estaminais ou progenitoras que, implantadas, sejam capazes de devolver a tecidos
doentes suas funções específicas11. Basta dizer, apoiado nos textos transcritos, que, no homem, as células estaminais da medula
óssea, de onde se formam todas as várias linhas de células hemáticas, tem como sinal identificador a molécula CD34, e que,
depois de purificadas, são capazes de reconstruir toda a população hemática em pacientes que recebem doses ablativas de
radiações e de quimioterapia, e isso numa velocidade proporcional à quantidade de células usadas. Além disso, já há indícios de
como guiar o desenvolvimento de células estaminais nervosas (NSCs) utilizando diversas proteínas – tais como a neurorregulina e a
proteína duas hosteomorfógena (BMP2, Bone Morphogenetic Protein 2) – que são capazes de encaminhar as NSCs para se
tornarem neurônios ou glúten (células neuronais de apoio, produtoras de mielina) ou mesmo músculo liso.
A satisfação, embora prudente, resultante de muito dos trabalhos citados é um índice das grandes promessas que as “células
estaminais adultas” reservam para uma terapia eficaz de muitas patologias. Assim D. J. Watt e G. E. Jones afirmam: “As células
estaminais musculares, seja de linha mioblástica embrionária, seja da adulta, podem tornar-se células da maior importância para
tecidos distintos do original, e ser a chave de futuras terapias, inclusive para doenças diversas das de origem miógena” (p. 93); J. A.
Nolta e D. B. Kohn ressaltam: “Os progressos no uso da comutação genética nas células estaminais hematopoéticas permitiu iniciar
experiências clínicas. AS informações assim obtidas orientação avanços futuros. Em última análise, a terapia genética poderá
permitir o tratamento de doenças genéticas e adquiridas sem as complicações dos transplantes de células alogênicas” (p. 460); e
D.L. Clarke e J. Frisen confirmam: “Estes estudos sugerem que as células estaminais nos diferentes tecidos adultos podem ser
muito mais semelhantes do que até hoje se pensava, às células embrionárias humanas, chegando a ter alguns casos um repertório
muito parecido”, e “demonstram que as células nervosas adultas possuem uma ampla capacidade de desenvolvimento e são
potencialmente aptas a ser usadas para produzir uma variedade de tipos celulares para transplante em diversas doenças”.
Todos esses progressos e os resultados já alcançados no campo das células estaminais adultas (ASC) deixam entrever não só sua
grande plasticidade, mas também uma ampla possibilidade de aplicações, presumivelmente não distintas das utilizações das
células estaminais embrionárias (ES), visto que a plasticidade depende em grande parte de uma informação genética, que pode
ser reprogramada.
Evidentemente, não é possível ainda confrontar os resultados terapêuticos real e possivelmente alcançados utilizando as células
estaminais embrionárias e as células estaminais adultas. Quanto a estas, estão já em curso, em vários laboratórios farmacêuticos,
experimentações clínicas12 que deixam prever bons resultados e abrem sérias esperanças num futuro mais ou menos próximo.
Quanto às células estaminais embrionárias, embora várias tentativas experimentais tenham dado sinais positivos13, sua aplicação
no campo clínico – devido precisamente aos graves problemas éticos e legais conexos – requer uma séria ponderação e um
grande sentido de responsabilidade diante da dignidade de todo o ser humano.

Problemas éticos
Em vista da índole do documento, formulam-se brevemente os problemas éticos essenciais que essas novas tecnologias implicam,
indicando a resposta que resulta de uma atenta consideração do sujeito humano desde o momento de sua concepção –
consideração que está na base da posição afirmada e proposta pelo Magistério da Igreja.

O primeiro problema ético, que é fundamental, pode ser formulado assim: “É moralmente lícito produzir e/ou utilizar embriões
humanos vivos para a preparação de ES?
“A resposta é negativa”, pelas seguintes razões:
1. Partindo de uma completa análise biológica, o embrião humano vivo é, a partir da fusão dos gametas, um sujeito humano
com uma identidade bem definida, que começa, a partir daquele instante, o seu próprio desenvolvimento coordenado,
contínuo e gradual, de forma que, em nenhuma etapa posterior, se pode considerar como um simples aglomerado de
células14.
2. Conseqüentemente, como “indivíduo humano”, tem direito à sua própria vida: e por isso, toda a intervenção que não seja em
benefício do próprio embrião constitui um ato que viola este direito. A teologia moral sempre ensinou que, no caso do “ jus
certum tertii”, o sistema do probabilismo não é aplicável15.
3. Assim, a ablação da massa celular interna (ICM) do blastócito, que lesiona grave e irremediavelmente o embrião humano,
interrompendo sua evolução, é um ato gravemente imoral e portanto, gravemente ilícito.
4. 4. Nenhum fim considerado bom, como seja o uso das células estaminais obtidas a partir deles para a preparação de outras
células diferenciadas para procedimentos terapêuticos há muito esperados, pode justificar tal intervenção. Um fim bom não
torna boa uma ação que, em si mesma, é má.

5. Para um católico, tal posição está confirmada pelo Magistério explícito da Igreja que, na encíclica Evangelium vitae –
referindo-se à Instrução Donum vitae da Congregação para a Doutrina da Fé —, afirma: “A Igreja sempre ensinou – e ensina
– que tem de ser garantido ao fruto da geração humana desde o primeiro instante de sua existência, o respeito incondicional
que é moralmente devido ao ser humano em sua totalidade e unidade corporal e espiritual: ‘O ser humano deve ser respeitado
e tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem lhe ser reconhecidos os
direitos da pessoa, entre os quais, e primeiro de todos, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida’” (n.60)16

O segundo problema ético pode ser formulado assim: “É moralmente lícito efetuar a chamada ‘clonagem terapêutica’ por meio
da produção de embriões humanos clonados e sua posterior destruição para a produção de ES”?
“A resposta é negativa”, pela seguinte razão:
Todo o tipo de clonagem terapêutica que implique a produção de embriões humanos e sua posterior destruição com o fim de obter
células estaminais é ilícita; cai-se no mesmo problema ético anteriormente exposto, que não pode ter senão uma resposta negativa.

O terceiro problema ético pode-se formular assim: “É moralmente lícito utilizar as ES e as células diferenciadas delas obtidas
que sejam eventualmente fornecidas por outros pesquisadores ou encontradas à venda”?
“A resposta é negativa”, porque:
Para além de compartilhar, formalmente ou não, a intenção moralmente ilícita do agente principal, no caso em exame dá-se a
cooperação material próxima na produção e manipulação de embriões humanos por parte do produtor ou fornecedor.
Em conclusão, resultam evidentes a seriedade e a gravidade do problema ético levantado pela vontade de estender ao campo de
pesquisa humana a produção e/ou o uso de embriões humanos, mesmo por motivos humanitários.
A possibilidade, já comprovada, de utilização de células estaminais adultas para conseguir os mesmo objetivos pretendidos com
as células estaminais embrionárias – apesar de se exigirem ainda muitos passos, em ambas as áreas aliás, até se obter resultados
claros e definitivos — indica-a como a via mais razoável e mais humana a percorrer para um progresso correto e válido neste novo
campo que se abre à pesquisa e a promissoras aplicações terapêuticas. Essas representam, sem dúvida, uma grande esperança
para um número considerável de pessoas doentes.

Prof. Juan de Dios Vial Correa – Presidente Exmo. e Revmo. Mons. Elio Sgreccia. – Vice-Presidente
Vaticano, 25 agosto, de 2000.
(Texto original de “L’Osservatore Romano”, sexta-feira, 25 agosto 2000, p. 6.)

7. Declaração Íbero-latino-americana sobre direito, bioética e


genoma humano

Declaração de Manzanillo de 1996, revista em Buenos Aires, em 1998, e em


Santiago, em 2001.
Considerando que os constantes avanços que estão sendo produzidos sobre o conhecimento do genoma humano, e os benefícios
que poderão obter-se de suas aplicações e derivações, convidam a manter um diálogo aberto e permanece sobre suas
consequências para o ser humano.
Destacando a importância que comportam para esse diálogo a Declaração Universal da Unesco sobre o Genoma Humano e os
Direitos Humanos de 1997, adotada e elaborada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1998, assim como o Convênio do
Conselho da Europa para a Proteção dos Direitos Humanos e Biomedicina de 1997.
Assumindo que é irrenunciável a participação dos povos íbero-latino–americanos no debate intemational sobre o genoma humano,
com a finalidade de que possam aportar suas próprias perspectivas, problemas e necessidades.
Os participantes nos Encontros sobre Direito, Bioética e Genoma Humano de Manzanillo (1996), de Buenos Aires (1998) e de
Santiago (2001), procedentes de diversos países da Íbero-América e da Espanha, e de diferentes disciplinas relacionadas com a
bioética,
DECLARAMOS
PRIMEIRO: Nossa convicção nos valores e princípios proclamados tanto na Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os
Direitos Humanos como no Convênio Europeu sobre Direitos Humanos e
Biomedicina, enquanto constituem um primeiro passo importante para proteger o ser humano dos efeitos indesejáveis dos
desenvolvimentos científicos e tecnológicos no âmbito da genética por meio de instrumentos jurídicos internacionais.
SEGUNDO: A reflexão sobre as diversas implicações do desenvolvimento científico e tecnológico no campo da genética humana
deve ser feita considerando:
a) o respeito à dignidade, à identidade e a integridade humana e os direitos humanos reafirmamos nos instrumentos
jurídicos internacionais.
b) que o genoma humano forma parte do patrimônio comum da humanidade como uma realidade e não como uma
expressão meramente simbólica.
c) o respeito à cultura, às tradições e aos valores próprios de todos os povos.
TERCEIRO: Dadas as diferenças sociais e econômicas no desenvolvimento dos povos, nossa região participa em menor grau dos
benefícios derivados do referido desenvolvimento científico e tecnológico, o que faz necessário:
a) uma maior solidariedade entre os povos, promovida em particular por parte daqueles Estados que possuem um maior
grau de desenvolvimento;
b) o desenho e a realização pelos governos de nossos países de uma política planejada de pesquisa sobre genética
humana.
c) a realização de esforços para estender de forma geral a toda a população, sem nenhum tipo de discriminação, o
acesso às aplicações dos conhecimentos genéticos no campo da saúde;
d) respeitar a especificidade e diversidade genética dos indivíduos e dos povos, assim como sua autonomia e
dignidade enquanto tais;
e) o desenvolvimento de programas de informação e educação extensivos a toda sociedade, nos quais de destaque a
especial responsabilidade que concerne neste assunto aos meios de comunicação e aos profissionais da educação.
QUARTO: Os princípios éticos que devem guiar as ações da genética médica são:
a) a prevenção, o tratamento e a realidade das pessoas com doenças genéticas como parte do direito à saúde, para
que possam contribuir para atenuar o sofrimento que elas ocasionam nos indivíduos afetados e em seus familiares.
b) a equidade no acesso aos serviços de acordo com as necessidades do paciente, independente de sua capacidade
econômica.
c) a voluntariedade no acesso aos serviços, a ausência de coerção na sua utilização e o consentimento livre e informado
baseado no assessoramento genético não diretivo;
d) as provas genéticas e as ações que deveriam delas têm como objetivo o bem-estar e a saúde do indivíduo, sem que
possam ser utilizadas para imposição de políticas populacionais, demográficas ou sanitárias, nem para a satisfação de
requerimentos de terceiros.
e) o respeito e a autonomia de decisão dos sujeitos para realizar as ações que se seguem aos resultados das provas
genéticas, de acordo com os marcos normativos de cada país, que deverão respeitar os critérios éticos e jurídicos
aceitos pela comunidade internacional.
f) a informação genética individual é privativa do indivíduo do qual provém e não pode ser revelada a terceiros sem seu
consentimento expresso.
QUINTO: Algumas aplicações da genética humana operam já como uma realidade cotidiana em nossos países sem uma adequada
e completa regulamentação jurídica, deixando em situação indefesa e de vulnerabilidade tanto o paciente quanto aos seus direitos,
como o profissional da saúde quanto à sua responsabilidade. Isto torna necessário que, mediante processos democráticos e
pluralistas, se promova uma legislação que regule, ao menos, os seguintes aspectos.
a) o manejo, o armazenamento e a difusão da informação genética individual, de tal forma que garanta o respeito, a
privacidade e a intimidade de cada pessoa.
b) a atuação do geneticista como conselheiro ou assessor do paciente e de seus familiares e sua obrigação de guardar
a confidencialidade da informação genética obtida;
c) o manejo, o armazenamento e a disposição dos bancos de amostras biológicas (células, DNA etc.), que deverão ser
regulamentados garantindo que a informação individualizada não seja divulgada sem assegurar o direito a privacidade
do indivíduo, nem seja usada para fins distintos daqueles que motivaram sua coleta;
d) o consentimento livre e informado para a realização de provas genéticas e intervenções sobre o genoma humano, que
deve ser garantido por instâncias adequadas, em particular quando se trate de menores, incapacitados e grupos
vulneráveis que requerem uma atenção especial.
SEXTO: Além dos profundos questionamentos éticos que geram o patenteamento do material genético humano, cabe reiterar em
particular:
a) a necessidade de proibir a comercialização do corpo humano, de suas partes e de seus produtos;
b) a necessidade de reduzir nesse assunto o objeto das patentes aos limites restritos do aporte científicos realizado,
evitando extensões injustificadas que coloquem obstáculos a futuras pesquisas, e excluindo-se a possibilidade de
patentear a informação e o material genético. Assim, limitar as expectativas de ganhos das empresas com fins
lucrativos, de modo a facilitar o acesso a todos seres humanos sem distinções econômicas.
c) a necessidade de facilitar a pesquisa neste campo mediante o intercâmbio livre e irrestrito da informação científica,
em especial o fluxo de informação dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento.
SÉTIMO: Sem prejuízo de reafirmar a validade universal dos princípios contidos na Declaração Universal sobre o Genoma Humano
e os Direitos Humanos de 1997, estimam que este texto, além de seu valor jurídico próprio, deveria constituir o primeiro passo de
um processo normativo que haveria de culminar com Convênio ou Tratado Internacional sobre Genoma Humano e os Direitos
Humanos.
Em consonância com as considerações precedentes

RESOLVEMOS:
1. Manter o contato e o intercâmbio de informação entre os especialistas da região, fomentar o estudo, o desenvolvimento de
projetos de pesquisa e a difusão da informação sobre os aspectos sociais, éticos e jurídicos relacionados com a genética humana,
assim como promover a criação de redes de informática sobre estes temas.
2. Remeter aos governos de nossos países a presente Declaração, incitando-os a adotar as medidas necessárias, em especial
legislativas para desenvolver e aplicar os princípios contidos nesta Declaração e na Declaração Universal sobre o Genoma Humano
e os Direitos Humanos.

Santiago, República do Chile, 29 de agosto de 2001.

8. Organismos Geneticamente Modificados (OGMs):


Manifestação do Conselho Federal de Biologia (CFBio) - 2002

O Conselho Federal de Biologia (CFBio está acompanhando os novos avanços que vêm ocorrendo na biotecnologia e pretende,
com o presente documento, propor uma orientação no exercício profissional, introduzindo uma variável que seja compatível com as
atividades de cada Biólogo e respeite as diferentes formas de vida e suas interações com o meio ambiente.
Diante desse quadro de grandes inovações, o CFBio houve por bem criar um grupo para a elaboração do presente documento,
composto pelos colegas. Professora Doutora Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano do Instituto de
Biociências da Universidade de São Paulo, Professora Doutora Luiza Chomenko, da FEPAM do Estado do Rio Grande do Sul e
conselheira do Conselho Regional de Biologia da 3a Região – CRBio-3. Professor Doutor Celso Luiz Marino, do Instituto de
Biociências da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho”— UNESP, Campus de Botucatu no Estado de São Paulo, e
conselheiro do Conselho Regional de Biologia da la Região – CRBio-1, e com a inestimável colaboração da Professora Doutora
Lygia Pereira do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Cabe registrar que os três membros do grupo do Estado
de São Paulo são partícipes dos Projetos de Genoma da FAPESP.
Historicamente, sabe-se que os grandes avanços da ciência movidos pelo instinto dos pesquisadores que sempre tiveram a
liberdade de desenvolver suas pesquisas sem se preocupar para onde ela os levaria. Nas últimas décadas, os resultados gerados
nas bancadas dos laboratórios foram rapidamente integrados na atual forma de vida da sociedade. Por sua vez, a evolução do
modelo de desenvolvimento mundial promove o aumento da atividade biotecnológica por meio dos avanços obtidos na técnica do
DNA recombinante e nos métodos de transformação genética de células de plantas e animais que tornaram possível a transferência
de genes de várias classes de organismos, ultrapassando os limites impostos pela incompatibilidade sexual. Essas técnicas são
ferramentas que podem ser analisadas a partir de muitas perspectivas, e possuem o potencial de aportar benefícios e riscos, iguais
a outras tecnologias. No entanto, outorgam também à humanidade um novo poder sem precedentes, pois permitem manipular de
forma seletiva o germo plasma, e assim desenvolver organismos geneticamente modificados, mas ao mesmo tempo trazem um
dilema ético e moral para a sociedade. Dessa conjuntura, começa-se a vislumbrar a possibilidade de ações sobre a vida e a avaliar
os riscos nos campos ético e sociológico. Verifica-se que há uma questão importante que se relaciona com o fato de serem as
atividades dos cientistas protegidas pelas barreiras de seus laboratórios; barreiras, por vezes, intransponíveis, pois a ciência pode
exercer esse totalitarismo e não buscar a percepção da sociedade. Pelo fato de as pesquisas nem sempre serem submetidas a
comitês de ética ou ao rígido cumprimento dos princípios definidos por esta, pode-se pressupor que as noções de segurança
dependam de cada pesquisador. A sociedade encontra-se cada dia mais preocupada com aspectos relacionados às atividades
científicas e a seus efeitos. Essa participação iniciou-se logo após a Segunda Guerra Mundial, quando a tecnologia nuclear e as
pesquisas da definição da molécula do DNA causaram impactos. Por um lado, isso fez com que as populações humanas
procurassem estar mais informadas, obter conhecimentos para Ter condições de exercer e exigir seus direitos. Por outro lado,
aumentaram as preocupações com o perigo de ser desenvolvidos organismos mutantes ou novos agentes químicos que possam,
além do impacto no meio ambiente, colocar em risco o futuro da espécie humana neste planeta. Portanto, é fundamental que a
sociedade seja informada de maneira compreensível e, sobretudo, neutra sobre as atividades científicas, a fim de permitir-lhe
decisões e tomadas de posição equilibradas e concretas, nunca emocionais.
Em todo o mundo, e no Brasil não poderia ser diferente, é motivo de grande polêmica o emprego dos organismos geneticamente
modificados (OMGs), considerados por alguns pesquisadores como uma tecnologia avançada, capaz de produzir grandes
progressos em questões relacionadas com mais saúde, mais e melhores alimentos, entre outros aspectos. Outros, contrariamente,
temem que possa haver riscos ao meio ambiente ou à saúde do homem e, ainda criar dependência econômica cada vez maior dos
países “pobres” em relação àqueles mais desenvolvidos, detentores da maioria das tecnologias e patentes.
Por um lado a ciência avança e disponibiliza uma grande quantidade de informações para os pesquisadores diariamente, por outro
lado, a gestão da vida continua demonstrando claramente que os sistemas vivos são complexos, diversos e mantidos por estruturas
de auto-organização que lhes permitem interagir com o meio ambiente, sendo esta a base da manutenção da vida. No momento em
que se introduzem mecanismos externos de regulação nos sistemas vitais, deve-se atentar para o fato de que as alterações podem
vir a promover modificações na dinâmica vital, operacional e evolutiva dos organismos envolvidos, levando inclusive a discussões
sobre sua valoração e as formas de utilizá-los.
O CFBio vem procurando avaliar cuidadosamente a polêmica existente, bem como a divulgação de resultados, adotando uma
postura de muita cautela e cuidado, principalmente considerando-se que em grande parte os pesquisadores envolvidos são
biólogos. Além disso, a adoção de uma posição definitiva ainda não foi possível, pois não se tem suficientes garantias da ausência
de riscos à saúde, ao meio ambiente, à agricultura, aos aspectos socioeconômicos e culturais. Também se entende que urge
ampliar as discussões sobre a liberação ampla de produção, uso, consumo de OGMs, relacionando estes com os aspectos éticos
envolvidos, pois tem-se a noção de que apenas a exigência de identificação ou rotulagem de OGMs não propicia garantias de
qualidade e segurança.
Faz-se necessário que sejam estabelecidos normas e comportamentos aceitáveis e éticos, os quais englobem as várias tendências
e respeitem a pluralidade de opiniões. Entretanto destaca-se como indispensável que a base legal e o regulamento legislativo que
dispõem sobre o desenvolvimento científico e tecnológico da nação sejam cuidadosamente elaborados, baseando-se
principalmente em aspectos de responsabilidade, justiça e ética.

Recomendações
Considerando que o processo de desenvolvimento internacional vigente exige a implantação contínua de estratégias que promovam
a melhoria de condições de vida das populações envolvidas, por meio da redução das desigualdades sociais e regionais e da
proteção ao ambiente;
Considerando que a natureza contem valores fundamentais específicos, sendo que a vida e sua proteção devem estar acima dos
acordos comerciais internacionais.
Considerando as diretrizes sócio-econômicas contempladas nas disposições sobre a Defesa do consumidor, os Direitos Sociais,
os Princípios Gerais da Atividade Econômica, a Função Social da Propriedade e a Saúde pela Constituição Federal, além da
Política Nacional do Meio Ambiente, da Política Nacional de Saúde e do Código de Defesa do Consumidor;
Considerando os Princípios da Democrata, do direito de receber e ter acesso à informação e da publicidade previstos na
Constituição Federal, na Política Nacional do Meio Ambiente e no Código de Defesa do Consumidor;
Considerando o Princípio da Precaução referendado em inúmeros acordos/convenções internacionais e legislações vigentes no
País;
Considerando que o emprego da biotecnologia pode permitir que venham a ser desenvolvidos de forma controlada organismos
vivos com características e funções conhecidas e que poderão, potencialmente, trazer uma melhora de qualidade de vida humana;
Considerando que a engenharia genética difere fundamentalmente de outras ferramentas e processos biotecnológicos, conforme
referido na Lei n° 8.974/95, e que a liberação ambiental de OGMs não tem precedentes na natureza e por isso desconhece os
possíveis impactos ambientais causados.
O CFBio recomenda aos biólogos do Brasil:
• A promoção da defesa da soberania dos povos e da nação sobre seu patrimônio genético, por meio da criação de estratégias
sustentáveis que propiciem condições adequadas de preservação da biodiversidade e da vida das populações humanas
envolvidas nestes processos.
• Que a discussão dos aspectos éticos no uso da biotecnologia deve ser conduzida no piano da informação científica à sociedade,
em uma linguagem acessível, do argumento, e não através da consciência privada, sendo abominável falar em foro íntimo quando o
assunto em questão é por exemplo a ética (sem esse cuidado, corre-se o risco de agir de forma que ocorra uma defesa corporativa
contra os interesses de toda a sociedade).
• Que se mantenham permanentemente atentos aos avanços científicos relacionados a “Biotecnologia e uso de OGMs” e aos
benefícios de sua utilização, como as melhorias nas condições de saúde e o desenvolvimento das populações humanas, sem,
contudo, perder de vista as consequências econômicas, culturais e sociais, além de considerar os eventuais riscos ambientais, à
saúde, e outros, destacando-se a obediência constante aos preceitos básicos do Código de Ética profissional.
Observação: As definições utilizadas neste documento são as constantes no Art. 3º da Lei Federal 8974 de 05.01.1975 (Lei de
Biossegurança).

Brasília, 10 de julho de 2002.

Dra. NOEMY YAMAGUCHI TOMITA


CFBio 00015/01-D
Presidente do CFBio
1. Fonte: Documento de Trabalho do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida do Portugal: Lisboa, 5 de janeiro de 1999.

2. Cfr. Anexo 1.
3. Cfr. Anexo 4: Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/MS.
4. Principais trechos do script do vídeo em que Van Rensselaer Potter fala de sua intuição pioneira a respeito da bioética, que foi apresentado
especialmente para o IV Congresso Mundial de Bioética (Tóquio – 1998).
5. Observatório de Imprensa – Matérias – 26 de fevereiro de 2003. http:// observatorio.ig.br/artigos.
6. Folha de São Paulo, 7 de março de 2003, p. C7.
7. Estado de São Paulo, A8, 27 de dezembro de 2002.
8. Cfr. Anexo 2.
9. Cfr. Anexo 3.
10. Cfr. Anexo 4.
11. PETERS, Ted. Genética, teologia e ética. In: PETERS, Ted e BENNETT, Gaymon (Orgs.). Construindo pontes entre a ciência e a religião.
Tradução Luís Carlos Borges; supervisão científica Eduardo R. Cruz. São Paulo: Edições Loyola e Editora UNESP, 2003, pp. 117-134.
12. Cfr. Anexo 6.

13. Cfr. Anexo 7.


14. Cfr Anexo 8
15. PEREIRA, Lygia V. O admirável mundo novo da clonagem. In: VALLE, Silvio e TELLES, José Luiz (0rgs). Bioética e biorrisco: abordagem
transdisciplinar. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2003. pp. 31-45.
16. Cfr. Anexo 3.

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