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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO, LETRAS, ARTES, CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Ana Jennifer Dimas de Araújo

Isabela Morais da Silva

Guilherme de Oliveira Junior

Avaliação de Leitura e Produção de Texto

Prof. Dr. Rodrigo Valverde Denubila

UBERABA, 2018
Mulher, mãe, maternidade e a banalidade da naturalização: a construção do amor
materno

Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar os processos que configuraram a
representação feminina, especificamente, a ideia do afeto natural e incondicional da mulher
​ tilizou-se da observação e entendimento das mentalidades
pelos filhos: o amor materno. U
sobre feminino e masculino, da investigação dos papéis atribuídos a cada um desses e, por
fim, da discussão dos possíveis caminhos percorridos até a constituição do mito do amor
materno. Para tal, partiu-se dos debates, atualmente em voga, de desconstrução e da não
naturalização da mulher enquanto, exclusivamente, mãe.

Palavras-chave:​​ Mãe; Mulher, Maternidade; Amor materno.

Introdução

O amor materno é um tanto quanto complexo: envolve o instintivo, em que grande


parte das mulheres nascem biologicamente preparadas para conceber; está intrínseco aos
papéis exercidos por cada pessoa na sociedade, de acordo com sua raça, gênero e classe, que
ao contrário do biológico é constituído na prática social. Quando se pensa sobre esse
sentimento, tem-se a ideia de um afeto puro e incondicional que só a mãe pode ter pelos
filhos. Amor materno é proteção, segurança, carinho e amor.
Por outro lado, podemos refutar que não há regra universal para esse comportamento e
que essa ligação é, como as outras, incerta, frágil e imperfeita. Ele surge, à medida que, cresce
a convivência e é diferente de acordo com a personalidade, opiniões e experiências de cada
pessoa. Ou seja, o amor é uma construção, uma condição que não é natural, e portanto,
construída nas relações humanas.
Então, porque entendemos como natural e incondicional esse amor que às mães têm
por seus filhos? Porque o afeto absoluto e imaculado dos pais, ou o amor paterno, não é
extenuantemente lembrado nas datas comerciais, nas maçantes apresentações infantis de dia
dos pais, ou em músicas - salvo exceções, como na exaustivamente tocada “Pai” do cantor
Fábio Junior - , livros e filmes? Seria um caso de concorrência desleal por parte das mulheres,
que anularia todos os esforços dos pais de serem lembrados como pessoas amorosas, aqueles
para qual se recorre toda vez que ralou o joelho andando de bicicleta ou em uma dor de
cotovelo?
Antes de prosseguir, elucidamos que a intenção deste artigo não é insultar o amor das
mães pelos filhos, tampouco, ignorar o amor dos pais pelos filhos. Mas entender o que está
por trás dessa nossa ideia de amor materno. Questionar esse amor não é dizer que ele é falso
ou que ele não deve existir. Buscamos compreender como foi constituído e de que forma
influencia nossa época.
Para muitos, a figura da mãe é contemplada por uma expressão angelical, quase
extraterrena, dentro de um invólucro azul, de um tom claro que acalenta às vistas, em uma
posição de suplício pedindo pela proteção e salvação do seu rebento, tal qual seria a imagem
de Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil. Essa figura é, obviamente, sagrada e está
acima de todos, só abaixo de Deus - um homem branco e de idade avançada, ainda que não se
possa dizer que é velho, envolto por um tecido alvo celeste quase tão branco que os olhos não
podem enxergar. Como Elisabeth Badinter conta no seu livro ​Um amor conquistado: o mito
do amor materno “a maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado”. Pois, “ai” de nós se
propusemos a investigar esse amor e problematizá-lo, então, não seríamos mais filhos dele.

Antes do amor materno

A representação do masculino e feminino detém suas raízes na antiguidade grega com


o pensador Aristóteles, que justificava a superioridade do homem sobre a mulher. O princípio
que sustentava a lógica de todo esse pensamento seria: “a autoridade do homem é legítima,
porque repousa sobre a desigualdade natural que existe entre os seres humanos”
(BADINTER, 1985, p. 31). Dessa forma, Aristóteles julgava que a mulher era um ser inferior.
Segundo Elisabeth Badinter, essa autoridade paterna estava vinculada a autoridade
marital, isto é, ser pai e chefe de família era estar acima tanto dos filhos e filhas quanto da
esposa. A origem dessa autoridade é discorrida pela autora no primeiro capítulo do seu livro.

A acreditar nos historiadores e nos juristas, essa dupla autoridade teria sua
origem remota na Índia. Nos textos sagrados dos Vedas, Árias, Bramanas e
Sutras, a família é considerada como um grupo religioso do qual o pai é o
chefe. Como tal, ele tem funções essencialmente judiciárias: encarregado de
velar pela boa conduta dos membros do grupo familiar (mulheres e crianças),
é o único responsável pelas ações destes frente à sociedade global. Seu
poderio exprime-se portanto, em primeiro lugar, por um direito absoluto de
julgar e punir (BADINTER, 1985, p. 27).

Com base na vida marital, o homem/marido tem sua autoridade assemelhada ao


divino. Suas responsabilidades políticas, econômicas e jurídicas são comparáveis com as de
Deus. É o Rei, possuindo poderes de comando. A mulher era desvalorizada e sua única
virtude seria ter um bom ventre. Além disso, não poderia questionar o homem nas decisões.
A companheira, logo, seria destinada a ser um bem, um objeto adquirido.
No entanto, as pregações do profeta bíblico Jesus Cristo, no fim da idade antiga, traria
consigo algumas alterações, a princípio: primeiro, traziam um novo significado para palavra
amor; segundo, a mulher passaria de subordinada à companheira; terceiro, os filhos não
estariam vinculados aos interesses do pai. O profeta reforçava que o casamento era uma obra
divina, colocando um fim - em teoria - no poder exacerbado que o homem teria na família.
“Marido e mulher eram iguais e partilhavam dos mesmos direitos e deveres em relação aos
filhos” (BADINTER, 1985, p. 29 ).
Jesus Cristo, em tese, pregava o amor igualitário. Contudo, nem isso faria seu povo
romper com as justificativas da autoridade do homem, que estavam atreladas a ideia de
concepção de como a vida na Terra começou: Deus cria Adão e da costela deste cria Eva, que
o leva a pecar e, então, são amaldiçoados pelo pai criador. Às autoridades do cristianismo -
homens que postularam a religião cristã com base nas interpretações de pregações do profeta
Jesus Cristo, após a morte dele - validaram o mito que considerava a mulher como inferior, o
que na mitologia cristã tinha justificativa no pecado original, cometido por Eva. Mesmo
admitindo-a como semelhante ao homem, - a mulher também seria filha de Deus - não
significaria que estivessem na mesma posição, colocando a mulher sob a tutela do homem.
A relação dos pais com os filhos também baseava-se na obediência e submissão.
Obedecendo a autoridade paterna, os filhos poderiam viver por muito tempo. Caso contrário,
a punição seria a morte. Porém, durante a alta Idade média, Igreja e o Estado passaram a
interferir cada vez mais na vida familiar, limitando os deveres que os pais deveriam ter em
relação aos filhos. Um dos conceitos mudados foi a morte como punição. O abandono, o
aborto e o infanticídio passam a ser veemente condenados pelas autoridades religiosas. Os
pais passam a ter uma obrigação maior na sobrevivência dos seus rebentos - defendidos pela
religião Cristã como peças de reposição divina, dado que, os bons cristãos iriam surgir através
das boas crianças.
Já durante a idade moderna, as mulheres começam a ser mais autônomas e,
consequentemente, vão se distanciando da criação dos filhos. Com as ideias iluministas e a
crescente luta das mulheres, a emancipação feminina era cada vez mais eminente. Por outro
lado, com advento da revolução industrial, as mulheres mais pobres abrem mão de uma
suposta maternidade para conseguirem trabalhar.
Nesse período, logo que os bebês nasciam eram enviados para casa das amas,
mulheres responsáveis pelos cuidados maternos com o recém nascido. A mortalidade infantil
nessa época era muito grande. Os bebês que sobreviviam eram alimentados poucas vezes ao
dia. Algumas amas alimentavam até três crianças e as condições higiênicas eram muito
precárias. A entrega dos filhos às amas não passava de infanticídio velado, tendo em vista que
muitas mães, mesmo sabendo das mortes, continuavam a mandar seus filhos.
Haviam justificativas para entrega dos filhos às amas de leite. Nas classes mais pobres,
a mulher teria que ajudar seu marido nos afazeres domésticos e sua única atenção deveria ser
voltada para ele. Era mais ganho pagar uma ama para cuidar de seu filho que contratar uma
pessoa para ajudar o homem. Já nas classes mais abastadas, a mulher chamada civilizada não
dava o seio, pois, a prática de amamentar fazia os peitos caírem e assim inferiorizava a beleza
da mulher - a amamentação também era vista como uma falta de moral, associada ao
primitivo e animalesco. Além do mais, seja em qualquer classe, a mulher teria que se dedicar
exclusivamente ao homem. Outro fator, os médicos da época recomendavam abstenção sexual
durante o período em que a mulher estava amamentando, pois o esperma azedava o leite.
Os filhos conviviam pouco com seus familiares, portanto, tinham pouco ou nenhum
laço de afetividade com os pais. Além disso, a morte prematura criava uma falta de laços
afetivos entre mãe e filhos, o que explicaria o contínuo envio de crianças às amas, dado que,
não existiria, ainda, uma forte de ideia de amor incondicional entre mãe e filho.
As crianças eram considerada bonecas, designadas pela palavra francesa “poupart”,
segundo Elisabeth Badinter. Os filhos só serviriam para divertir e distrair os pais, quando já
não serviam mais, eram ignorados.
O poupart é considerado com muita freqüência pelos pais como um
brinquedo divertido do qual se gosta pelo prazer que proporciona, e não pelo
seu bem. É uma espécie de pequeno ser sem personalidade, um "jogo" nas
mãos dos adultos. Assim que deixa de distrair, deixa de interessar. É o que
alguns moralistas censuram nos pais do século XVIII (BADINTER, 1985, p.
77).

A atenção dos pais pelos filhos dependia também do sexo da criança. Se nascesse
menino teria maior afeto dos pais e teria mais privilégios dentro de casa. Os mais novos
teriam dois destinos: o militar ou o eclesiástico. Se fosse menina, o pai teria gastos com dotes
ou para enviá-la a algum convento. A mãe precisava manter boas relações com o filho mais
velho, pois se o marido lhe viesse a faltar, ela teria nele sua sobrevivência. Já no caso da
criança de família abastada, logo quando voltava da casa das amas, seriam entregues a uma
governanta para cria-la. Depois dos 8 anos de idade, se fosse menino seria entregue a um
tutor, após essa trajetória, outra vez, os filhos seriam mandados para viver longe de casa. As
meninas iriam para o convento esperar o casamento e os meninos, para um internato, com
objetivo de concluírem seus estudos.
Não havia convivência entre os pais e os filhos. Dessa forma, a criança era
considerada como um fardo, por essa razão, era enviada para longe de casa para que pudesse
receber uma boa educação. Isso, possivelmente, era uma forma de livrar-se deles, sem um
sentimento maior de culpa.

Alteração de mentalidades

Segundo Elisabeth Badinter, a partir do século XVIII se desenvolveu uma espécie de


revolução das mentalidades. A imagem da mãe, o seu papel e relevância ganham novos
conceitos, diferenciando radicalmente dos conceitos anteriores, ainda que na prática os
comportamentos demorassem a se alterar. Uma vez que, na época, ainda, era muito comum a
presença de amas de leite e criadas, começam a surgir “publicações que recomendam às mães
cuidar pessoalmente dos filhos e que lhes ‘ordenam’ amamenta-los” (BADINTER, 1985, p.
144). Essas publicações impunham a mulher serem mães antes de tudo, como uma obrigação
a todas as mulheres e incitava nelas o amor incondicional por sua prole.
No final do século XVIII, o que é novo em relação aos outros anteriores, é o amor
materno como um valor ao mesmo tempo natural e social, favorável a espécie e à sociedade.
A divulgação desse sentimento significou muito para a função da mulher enquanto mãe. O
foco se voltava cada vez mais para a mãe, colocando o pai, progressivamente, em
obscuridade. Pois, se outrora insistia-se em formar súditos dóceis para sua majestade, o
essencial, durante a idade moderna, era produzir seres humanos que seriam a riqueza do
Estado. E para isso, o amor da mãe e a educação dos filhos seria o único caminho.
Influenciadas por discursos sedutores, que prometiam um lugar reconhecido e
importante na sociedade através da realização dos trabalhos familiares, parte das mulheres
atendem às exigências e se voltam para a educação dos filhos. Assim sendo, as mulheres
desejam ser mães para conquistarem o direito ao respeito dos homens e para possuírem
alguma autoridade no lar, pois, ocupariam um lugar que os mesmos não podiam ou não
queriam ocupar. O interesse em ser mãe, então, não tinha ligação com amor e ternura pelo
filho e sim uma relação de poder.
O amor maternal, os cuidados e a participação completa da mãe na vida dos filhos
passaram a ser fortemente exaltados, elevando a mulher/mãe ao um status de poder na
sociedade, almejado por muitas. A mulher passa do ser astuto e ambicioso, advindo de Eva
para a doce e sensata Maria, mãe de Jesus. Recebe o cargo de adjutora do lar, a qual se espera
condimentos, indulgências e a geração de um filho, incomparavelmente amado. Dessa forma,
o conceito de ser mãe, ou melhor o de ser uma boa mãe foram se alterando e cada vez mais as
mulheres iam se habituando a esse status, permeando esse pensamento até os dias atuais.
Assim sendo, limitando mais uma vez a mulher ao eixo doméstico.

No século XVIII, mas ainda do que no século XIX, insiste-se


particularmente nos atrativos da maternidade. Todos esses homens que se
dirigem às mães se põem de acordo para dizer que não há ocupação mais
agradável do que zelar pelos filhos. Não há dever mais delicioso
(ELISABETH BADINTER, 1985, p. 191).

Partindo para os dias atuais, é nítido o pensamento instaurado no século XVIII


intrínseco na sociedade contemporânea. Como por exemplo, em primeiro plano, a obrigação e
o dever de que todas as mulheres nasceram para ser mães, como algo biologicamente natural e
imutável. E quando há uma delas que não deseja se tornar mãe, o espanto e os
questionamentos são constantes, consoantes a visão machista das mulheres, como se a mesma
não estivesse cumprindo uma etapa de seu ciclo natural, de se preparar para possuir um
casamento estável e feliz, de gerar uma vida e se tornar boa mãe. Visto que, quando um
homem e uma mulher se casam o passo seguinte é terem um filho.
A mentalidade do século XVIII enraizou uma fantasia em torno da maternidade, como
algo heróico e sublime. Tal argumento pode ser comprovado pelas inúmeras publicidades,
pelas intensas inovações de objetos e marketing no meio maternal, sempre objetivando
idealizar a gestação e o amor materno, amor este, dito como incondicional e inato. Isso
corrobora para a fundamentação de uma visão de que o amor da mãe para com seu filho é
sempre natural e instintivo. Porém, há diversos casos de mulheres, mesmo com boas
condições sociais, financeiras e psicológicas, que rejeitam ou doam seus filhos. Como o
instinto ou o amor materno inato, inerente a toda mulher, pode ser explicado frente a esses
casos?
O amor materno, assim como outras formas de amor, é uma decisão, a mulher decide
cuidar daquele ser, decide proteger, decide priorizar, decide educar, decide amar no momento
em que escolhe ser mãe. E se essa escolha lhe é imposta ou acidental, esse amor pode não
ocorrer. Ademais, o julgamento após se tornar mãe é constante, uma vez que no século
supracitado não bastava ser mãe, tinham que ser boas mães e se doarem completamente
àquela função, e se sozinhas – sem a ajuda de amas de leite ou babás - conseguissem a boa
criação de seus filhos, eram vistas como heroínas, ditas de honra.
A mulher que tendo conquistado, ainda que não totalmente, seu papel no meio
profissional e após o nascimento do filho decide continuar trabalhando – as que possuem essa
opção - é vista como ambiciosa e desnaturada por deixar sua prole a mercê de outros
cuidados, suscitando nas mulheres - também das que precisam trabalhar - o sentimento de
culpa. Dessa forma, ao nos voltarmos para os dias atuais, é nítido a persistência desse
pensamento. Os próprios termos usados nos meios maternais nos trazem reflexões, como
“desnaturadas”, ou seja, não natural. Ainda hoje, o sinônimo de ser boa mãe é viver em
função do filho, abstrair se de outras funções ou até de si para cuidar da criança,
exclusivamente na primeira etapa dos pequenos. Isso nos reflete em como as cobranças em
torno da figura feminina ainda são obsoletas.
Outra questão é o aleitamento materno, as mulheres no fim da idade moderna - devido
a influência de pensamentos médicos que preconizavam a saúde do bebê através dos cuidados
maternos adequados - viam na amamentação algo glorioso e uma justificativa para a
naturalização de que foram feitas para serem mães e amamentarem, devido às estruturas
biológicas de seus seios. Precisaríamos da bioquímica e biologia para explicarmos a
necessidade que as crianças possuem do leite materno. Mas em outro âmbito, é válido
ressaltar a ambivalência que envolve essa questão. Na sociedade contemporânea, a
amamentação, depois do nascimento, é o elo mais precioso entre mãe e filho. Os cuidados e a
exaltação nesse aspecto são fortemente instigados. Podemos observar no trecho a seguir,
extraído do livro ​Visões do feminino - a medicina da mulher nos séculos XIX e XX,​ da autora
Ana Paula Vosne Martins, a construção do significado de amamentar, através da pintura do
pintor francês Pierre-Auguste Renoir.

O quadro de Renoir, de 1886, tem como título Maternidade, ou Mulher


amamentando seu bebê. É um quadro em que as duas figuras principais
foram desenhadas com grande realismo, destacando-se do fundo tipicamente
impressionista, o que só acentua a definição das duas figuras. A mulher é
bastante corpulenta, tem o rosto redondo e corado, e está dando o seio farto
para o bebê roliço que brinca com os pés. Além do aspecto físico da mãe,
chama a atenção seu olhar sereno e tranqüilo. É uma exaltação à maternidade
centrada na amamentação, um ato de relevância moral, celebrado pela
medicina de então como a maior demonstração do amor materno e a garantia
de um filho, e futuro cidadão, saudável (MARTINS, 2004, p. 63).

Distinção entre maternidade e paternidade

Ao nos voltarmos para a distinção dos papéis femininos e masculinos, a dificuldade


em distinguir o que é, exatamente, um e outro é preponderante. Afinal, já nascemos com a
ideia de que meninos vestem azul e meninas vestem rosa incutida nas nossas mentes. Gênero,
portanto, seria a representação que cada um exerce de acordo com o seu órgão sexual.
Contudo, podemos dizer que "gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo
sexuado" (SCOTT, 1995). Entre a maioria das pessoas, pode haver uma tendência na
naturalização dos papéis sociais, isto é, homem é homem e mulher é mulher. Todavia,
veremos que os papéis que cada um exerce dentro da sociedade são mais complexos.
Uma forma de exemplificar, o que aqui vamos chamar de banalidade da naturalização,
é quando se sentencia toda e qualquer mulher à função única e exclusiva de mãe. Por
exemplo, o dito popular “ser mãe é padecer no paraíso” não encontra equivalente quando se
diz respeito a ser pai. E quando analisamos melhor a frase, fica evidente a ideia de que a
mulher ao ser mãe alcança o paraíso, ainda que padeça. E se formos considerar o paraíso
como o último estágio da elevação do espírito na mitologia cristã, a mulher só se está plena
quando é mãe.
Essa função materna, como nos mostra Elisabeth Badinter, é uma condição social e
histórica, portanto, está sujeita a flutuações de acordo com a época e, com as diferentes
sociedades. Isto é, ser homem nem sempre foi o que é ser homem e ser mulher nem sempre
foi o que é ser mulher. Principalmente, ser mulher e mãe.
Imaginemos a cena: em uma maternidade de hospital um casal está prestes a ganhar
seu primeiro filho, ambos jovens inexperientes, desatam a chorar quando finalmente ouvem o
choro da criança. A enfermeira corta o cordão umbilical e envolve o bebê em uma manta, e ao
ver a alegria do pai pergunta se ele gostaria de segurar o recém nascido, o pai
desajeitadamente o segura enquanto ouve às recomendações da enfermeira - “cuidado com a
cabeça, você precisa segurar assim” -, ela com muita paciência, de quem faz aquela
demonstração pela primeira vez, mostra ao homem como se segura o bebê. De imediato,
como quem já refletiu horas a fio pelos anos de experiência, ao ver o pai e sua prole a
enfermeira diz, com um tom de sabedoria: “a mulher se torna mãe ao engravidar, mas o
homem se torna pai ao segurar bebê pela primeira vez”. Essa frase corriqueira, a primeira
vista inocente, pode instigar inúmeras questões, uma delas: o homem não tem a capacidade de
carregar uma criança dentro de seu ventre por nove meses, porém é capaz de ver o
crescimento da barriga da mãe, sentir os chutes e até ouvir o pequeno coraçãozinho batendo,
então porque ele só se torna pai ao segurar o bebê?
Podemos observar, à vista disso, uma distinção entre a maior relevância da
maternidade para a mulher e a menor relevância da paternidade para o homem. Ou seja, ser
pai é tão impactante para um homem que só após os nove meses de gestação ele cai em si,
“agora me tornei pai” diria o homem da cena imaginada acima. Logicamente, não é uma regra
geral, nem sequer a cena é um relato fiel de qualquer acontecimento.
De qualquer forma, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), em 2015, as famílias compostas por mães solteiras representavam 16,3 por cento.
Enquanto, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de
2011, apontavam para 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de
nascimento - aproximadamente, 10% da população composta por crianças, considerando a
estimativa do IBGE que 57,6 milhões da população têm menos de 18 anos de idade. Em
outras palavras, a cada 6 famílias pelo menos 1 é composta apenas por mãe e filhos e a cada
10 crianças 1 não tem o nome do pai no registro.
Observamos melhor essas estatísticas quando saímos da frieza dos números. No rap
brasileiro - gênero musical que compõe a cultura Hip-Hop, nascida nos EUA através da
diáspora afro americana -, vários artistas se dedicam a fazer poesia, a partir, do dia-a-dia na
periferia. Por meio dessas canções, podemos ouvir o relato dessas pessoas que sabem na carne
o que é não ter um pai. Na música ​Nego drama​, do grupo Racionais MC’s, um dos versos diz
“Luz, câmera e Ação / Gravando a cena vai / Um bastardo / Mais um filho pardo / Sem pai”.
Em Na rua até às dez,​ do grupo A Família, ouvimos “E aí pai, lembra de mim recorda meu
rosto / Sou aquele bebê mal criado que por você era aborto / Cresci, consegui sobreviver, mas
tô aqui / Vivendo a lei da rua sem ver minha mãe sorrir”. E na ​O que separa os homens dos
meninos​, do Sant, vemos uma reflexão a respeito disso “Normal no meu convívio é crescer
sem pai, oh que triste”. Nos três trechos percebemos o recorrente abandono paterno e
sentimento de ausência da figura do pai.
Para mais, é sabido da existência de mulheres que ao dar a luz também abandonam
seus filhos, no entanto, em uma rápida busca pela internet você dificilmente encontra dados
para famílias compostas apenas por pai e filho ou para crianças sem o nome da mãe na
certidão de nascimento. Assim sendo, podemos entender da falta desses dados: um, a menor
ocorrência desses casos não estimula uma demografia mais aprofundada; dois, a própria
distinção da maternidade para a mulher e da paternidade para o homem não justifica um maior
trato nesses casos, uma vez que, a mãe abandonar um filho não é algo concebível,
diferentemente do abandono do pai.
Tanto pelas estatísticas que mostram somente mães e filhos como um expressivo
grupo entre os tipos de família, ou, justamente, pela falta de estatísticas que mostram somente
pais e filhos como um tipo de família, ou, ainda, pelos relatos da música rap, podemos
concluir que, a ideia de mulher, ainda hoje, pelo menos no Brasil, é estreitamente ligada à
figura da mãe, uma vez que, na maioria dos casos, quando pode, o homem abandona a mãe
dos seus filhos e os seus filhos.
Quando imaginamos de novo a cena da maternidade do hospital onde há um casal
prestes ganhar o primeiro filho e tiramos o pai do cenário ainda existe verossimilhança,
porém, não há possibilidades de se imaginar essa cena sem a mãe. Nos casos em que a mãe
abandona um filho, geralmente ela já está sozinha carregando um recém nascido que não tem
condições nenhuma de criar. Provavelmente, ela já foi abandonada por um homem, antes de
desesperadamente ser levada a abandonar seu filho.
Não existe aqui uma defesa para o crime de abandono de incapaz. Ainda que o
contexto sobre o qual uma mulher abandona uma criança seja entendido, ele não é justificado.
Muito pelo contrário, procuramos refletir aqui o porque recai na mulher toda e qualquer culpa
referente ao crime do abandono.
É curioso que quando discutimos a descriminalização do aborto, não se leva em conta
essas mulheres que são obrigadas a sacrificar tudo na vida para se dedicar à cuidar de uma
vida indefesa ou são obrigadas a abrir mão de todos os seus princípios e cometer um dos mais
indefensáveis crimes na nossa sociedade: abandonar uma vida indefesa ao léu. Novamente
nos deparamos com a distinção entre maternidade para mulher e a paternidade para o homem,
dado que, não é execrável os pais que aos montes abandonam seus filhos, é justificável ao
ponto de “eu não queria ter o filho” ou “ela engravidou porque quis” serem considerados
argumentos plausíveis. Entretanto, se um homem não quer ter filhos ele pode recorrer à
alguns métodos anticontraceptivos, assim como a mulher.
Vivemos em uma sociedade que notoriamente privilegia os homens, a distinção entre
maternidade para mulheres e paternidade para os homens, explicada neste artigo, que não nos
deixa mentir. Seria tarefa difícil exaurir todas às problemáticas acerca dos privilégios de ser
homem na nossa atual sociedade, apesar de corroborar para nossas reflexões, não vamos
entrar em todos os méritos desse tema. Contudo, como já foi colocado, certas condições não
recaem com o mesmo impacto sobre os homens, diferentemente, das mulheres. Ser pai e mãe
são funções distintas, ocorre que à uma é dado um valor e à outra respectivamente um outro
valor.
(...) os defensores do amor materno "imutável quanto ao fundo" são
evidentemente os que postulam a existência de uma natureza humana que só
se modifica na "superfície". A cultura não passa de um epifenômeno. Aos
seus olhos, a maternidade e o amor que a acompanha estariam inscritos deste
toda a eternidade na natureza feminina. Desse ponto de vista, uma mulher é
feita para ser mãe, e mais, uma boa mãe. Toda exceção à norma será
necessariamente analisada em termos de exceções patológicas. A mãe
indiferente é um desafio lançado à natureza, a a-normal por excelência
(ELISABETH BADINTER, 1985, p. 14).

Segundo Elisabeth Badinter - que no decorrer de seu livro explicita as especificidades


do ser mãe na França entre os séculos XVI, XVII e XVIII -, esse epifenômeno, que é a
cultura, só modificaria a superfície, portanto, ser mãe seria mais enraizado e primitivo, o que
dificilmente seria alterado. Ao banalizar a naturalização, se torna evidente como ser mãe para
a mulher teria um valor sagrado e imutável, ao passo que ser pai não é uma atribuição natural,
isto é, você nasce predestinada a ser mãe mas só se torna pai quando quer, vide a frase da
enfermeira na cena imaginada.
Ser pai não é natural, ainda que o homem possa ser considerado o provedor e protetor
da família e da casa, a figura paterna como conhecemos hoje é uma categoria imposta assim
como a figura materna, e o que cada um se ocupa de fazer na criação dos filhos também é
construído. E essa construção das funções atribuídas ao homem e a mulher é feita pelas
representações, que cada um adquire, no decorrer dos séculos. Assim sendo, o que foi ser
mulher em um dado período não é o mesmo que ser mulher em outro período mais a frente,
ainda que tenha relação. Essas representações estão em constante mudança e influenciam na
forma como vemos os papéis de gênero na nossa sociedade.
No livro ​Minha História das Mulheres,​ da autora Michelle Perrot, vemos como ao
passar do tempo essas representações sobre o feminino foram se modificando, e como ser
mulher é uma categoria construída. Podemos observar como a representação da mulher foi em
muito influenciada pela ideia bíblica: Eva enquanto pecadora e figura que desvirtua Adão.
Como às representações são pautadas por uma extrema visão misógina. E como a mulher saiu
da posição de um ser imperfeito para um segundo sexo. A autora usa importantes pensadores,
utilizados até os dias de hoje, e suas opiniões sobre o feminino.

(...) De Aristóteles a Freud, o sexo feminino é visto como uma


carência, um defeito, uma fraqueza da natureza. Para Aristóteles, a mulher é
um homem mal-acabado, um ser incompleto, uma forma mal cozida. Freud
faz da "inveja do pênis" o núcleo obsedante da sexualidade feminina. A
mulher é um ser em concavidade, esburacado, marcado para a possessão,
para a passividade. Por sua anatomia. Mas também por sua biologia. Seus
humores - a água, o sangue (o sangue impuro), o leite - não têm o mesmo
poder criador que o esperma, elas são apenas nutrizes. Na geração, a mulher
não é mais que um receptáculo, um vaso do qual se pode apenas esperar que
seja calmo e quente ( PERROT, 2007, p. 63).

Indo de Aristóteles a Freud, o feminino foi interpretado e reinterpretado por várias


vezes, de diversas formas e entre várias épocas. Fundamentando-se no corpo da mulher, essas
visões do feminino se tornaram uma categoria social imposta à mulher, mas variável com o
tempo. Isso denota uma camada histórica à construção do feminino. Ao banalizar a
naturalização da mulher como mãe incondicional ignora-se a historicidade, e logo, a
complexidade do processo. Existem motivações e contextos diferentes que vão exigir da
sociedade atribuições de papéis diferentes, isto é, foi imposto à mulher da antiguidade uma
função que na idade média era diferente e na moderna também, portanto, naturalizar essa
condição como inerente a mulher é negar os processos históricos e sociais dos homens e
mulheres no tempo.
Referências Bibliográficas

A FAMÍLIA. ​Na Rua Até As 10.​ São Paulo: A Família, 2004. Disponível em:
https://www.vagalume.com.br/a-familia/na-rua-ate-as-10.html. Acesso em 16 de nov. 2018.

BADINTER, Elisabeth. ​Um Amor conquistado: o mito do amor materno.​ Tradução de


Waltensir Dutra. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

EXAME. Brasil tem 5,5 milhões de crianças sem pai no registro. Disponível em:
https://exame.abril.com.br/brasil/brasil-tem-5-5-milhoes-de-criancas-sem-pai-no-registro.
Acesso em 16 de nov. 2018.

G1. Famílias chefiadas por mulheres são 37,3% do total no país, aponta IBGE. Disponível
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