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Fundação Cecierj

Pré-Vestibular Social

Geografia

Ronaldo P. de Carvalho Junior


Sonia V. G. da Gama
Carla M. Salgado

8ª edição
revisada e ampliada

Módulo 2
2015
Governo do Estado do Rio de Janeiro

Governador
Luiz Fernando de Souza Pezão

Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia


Gustavo Tutuca

Fundação Cecierj

Presidente
Carlos Eduardo Bielschowsky

Vice-Presidente de Educação Superior a Distância


Masako Oya Masuda

Vice-Presidente Científica
Mônica Damouche

Pré-Vestibular Social

Rua da Ajuda 5 - 15º andar - Centro - Rio de Janeiro - RJ - 20040-000


Site: www.pvs.cederj.edu.br

Diretora
Celina M. S. Costa

Coordenadoras de Geografia
Ronaldo P. de Carvalho Junior
Sonia V. G. da Gama

Material Didático Copyright © 2015, Fundação Cecierj


Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por
Elaboração de Conteúdo qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização,
Ronaldo P. de Carvalho Junior por escrito, da Fundação.
Sonia V. G. da Gama
Carla M. Salgado C331p

Revisãode Conteúdo Carvalho Junior, Ronaldo P. de


Ronaldo P. de Carvalho Junior Pré-vestibular social: geografia. v. 2. / Ronaldo P. de Carvalho Junior, Sonia
Sonia V. G. da Gama V. G. da Gama, Carla M. Salgado. – 8. ed. rev. – Rio de Janeiro: Fundação
Cecierj, 2015.
Capa, Projeto Gráfico, Manipulação de Imagens 128 p.; 20,0 x 27,5 cm
e Editoração Eletrônica ISBN: 978-85-458-0043-9
Cristina Portella
Filipe Dutra 1. Geografia. 2. População. 3. Clima. 4. Cartografia. I. Gama, Sonia V. G. da.
Mario Lima II. Salgado, Carla M. 1. Título.
CDD: 900
Foto de Capa
Fabian Kron
Sumário

Capítulo 1
A dinâmica mundial da população
7

Capítulo 2
A população brasileira
19

Capítulo 3
Regiões brasileiras
33

Capítulo 4
Tipos climáticos do Brasil
49

Capítulo 5
Biomas e domínios do relevo do Brasil
61

Capítulo 6
As questões ambientais
75

Capítulo 7
Fundamentos de cartografia
91

Capítulo 8
Estado do Rio de Janeiro
99

Capítulo 9 155
Exercícios de fixação

Referências
bibliográficas 128
Apresentação

Caro Aluno,

Este conjunto de apostilas foi elaborado de acordo com as necessidades e a lógica do projeto do Pré-
Vestibular Social. Os conteúdos aqui apresentados foram desenvolvidos para embasar as aulas semanais
presenciais que ocorrem nos polos. O material impresso por si só não causará o efeito desejado,
portanto é imprescindível que você compareça regularmente às aulas e sessões de orientação acadêmica
para obter o melhor resultado possível. Procure, também, a ajuda do atendimento 0800 colocado à sua
disposição. A leitura antecipada dos capítulos permitirá que você participe mais ativamente das aulas
expondo suas dúvidas o que aumentará as chances de entendimento dos conteúdos. Lembre-se que o
aprendizado só acontece como via de mão dupla.

Aproveite este material da maneira adequada e terá mais chances de alcançar seus objetivos.

Bons estudos!

Equipe de Direção do PVS


1
A Dinâmica mundial da população

:: Objetivo ::
• Caracterizar aspectos socioeconômicos da população mundial.
8 :: Geografia :: Módulo 2

População mundial na tabela 1.1, a China é o país mais populoso, ou seja, possui a maior população
absoluta (1.339 milhões). Mas quando consideramos a distribuição deste número
Com o acelerado crescimento da população mundial, sobretudo nos países de habitantes pelo território chinês, o valor da densidade demográfica não é tão alto
subdesenvolvidos, no ano de 2013, a população mundial atingiu cerca de 7,1 (140,48 hab/km ), porque a China tem uma grande superfície (mais de 9 milhões
2

bilhões de habitantes. Nesta perspectiva, ela poderá alcançar, no ano de 2050, de km ). Por outro lado, o Japão é o país mais povoado (343,49 hab/km ), pois,
2 2

em torno de 10 bilhões de habitantes em todo o planeta. apesar de ter um número menor de habitantes que a China (128 milhões), a sua
Os países que terão a maior contribuição no crescimento da população área territorial é bem pequena para tantas pessoas (pouco mais de 372 mil).
mundial, neste século XXI, devem ser Índia, Paquistão, Nigéria, República
Democrática do Congo, Bangladesh, Uganda, Etiópia e China. Contudo, este Tabela 1.1: População absoluta, densidade demográfica e área de alguns países.
crescimento populacional não é igual em todas as regiões do mundo. Vários População em Densidade
País 2013 (hab./km²) Área (km²)
países da África subsaariana (localizados ao sul do deserto do Saara), como
(em milhões) (2013)
Chade, Congo, Libéria, Uganda e Burundi, juntos com o Afeganistão (situado na
Alemanha 80,22 224,87 356.733
região sudoeste da Ásia) devem triplicar a sua população no decorrer das primeiras
Angola 24,30 19,50 1.246.700
décadas deste século XXI.
Austrália 21,73 2,83 7.682.300
Mas, você sabe o significado do termo população? Qual a importância de se
Brasil 200,00 23,52 8.514.205
conhecer o número de pessoas no mundo ou em algum país em particular? Por
Canadá 33,47 3,36 9.970.610
que devemos estudar as características da população?
China 1339,72 140,48 9.536.499
Podemos responder, de forma geral, que conhecer as características da
Estados Unidos 308,75 32,94 9.372.614
população mundial ou de uma região específica nos ajuda a entender em que
Nigéria 140,43 152,02 923.768
condições estas pessoas vivem. A partir daí podemos planejar ações para resolver
Federação Russa 143,44 8,40 17.075.400
problemas, ou, pelo menos, minimizá-los.
Japão 128,06 343,49 372.819
O termo “população” significa um conjunto de pessoas que vivem em um
Fonte: http://unstats.un.org/unsd/demographic/products/dyb/dybsets/2013.pdf, acesso em
território (uma área delimitada politicamente). Podemos nos referir à população de 25/11/2014
uma cidade, região, estado, país, ou ainda, à população do planeta. Neste capítulo
vamos estudar vários aspectos da população mundial, especialmente por meio dos
Atividade 1
indicadores sociais (as taxas de natalidade e de mortalidade, a expectativa de
vida, os índices de analfabetismo, a participação na renda, dentre outros), para Considerando a tabela 1.1:
entendermos melhor as diferenças nas condições de vida das pessoas. a) Faça uma lista, em ordem crescente, dos países populosos e dos países
Não podemos esquecer que a população mundial caracteriza-se ainda pela povoados.
disparidade social. Vivemos num mundo onde apenas um terço da população
desfruta de benefícios, enquanto uma outra parte vivencia as desigualdades, a
fome, a miséria e o desemprego. b) O Brasil pode ser considerado um país populoso ou povoado?
Seguem alguns significados importantes para a compreensão da dinâmica
populacional:
A análise das características socioeconômicas da população mundial leva
População absoluta e População relativa ao uso frequente dos termos superpopulação e superpovoamento. Uma área é
considerada superpovoada quando sua população é muito grande em relação
O total de habitantes de um lugar constitui sua população absoluta. Podemos
à disponibilidade de recursos para sua subsistência. A Nigéria, por exemplo,
dizer que a população absoluta da Terra é superior a 7 bilhões de habitantes.
é considerada superpovoada, pois os recursos socioeconômicos do país não
Considerando a presença humana num determinado espaço, utilizamos, além
conseguem atender às necessidades básicas da população. Deste modo, é comum
disso, o conceito de população relativa, que indica a distribuição da população em
ocorrer a situação de fome, propagação de vários tipos de doenças, falta de
relação à superfície (área total) do lugar. Portanto, a população relativa, também
atendimento médico e educacional, grande desemprego, entre outros problemas.
chamada de densidade demográfica, corresponde ao número de habitantes por
De forma inversa, países com maior desenvolvimento econômico e
unidade de área, ou seja, é uma relação matemática, onde geralmente a unidade
tecnológico possuem maior capacidade de fornecer boa qualidade de vida para
(de medida) utilizada é o quilômetro quadrado (hab/km ). 2

os seus habitantes. Neste caso, um bom exemplo são os Estados Unidos, cuja
população é mais que o dobro da Nigéria, entretanto, os norte-americanos
Populoso e povoado
possuem bons serviços médicos, educacionais, opções de emprego etc.
Populoso é o conceito que se refere à população absoluta, e povoado diz Nos últimos anos, a China vem superando a situação de superpovoamento.
respeito à população relativa de um determinado lugar. Dos países relacionados No passado, a maior parte da população passava fome, havia elevado índice de
Capítulo 1 :: 9

mortalidade infantil, entre outros problemas. As reformas realizadas pelo governo Crescimento demográfico
nas últimas décadas mudaram esse quadro, garantindo um melhor padrão de vida
para as pessoas. O termo crescimento demográfico corresponde ao aumento da população de
um país. Este crescimento está relacionado a dois índices (figura 1.1):

Crescimento Demográfico

Crescimento Natural ou Vegetativo Migração

Diferença entre as taxas de nascimentos Diferença entre as taxas de entrada (imigração) e


(taxa de natalidade) e de óbitos (taxa de mortalidade) de saída (emigração) de pessoas de uma região

Figura 1.1: Esquema ilustrativo de crescimento demográfico.

Países como Nigéria, Haiti e Bangladesh apresentam um elevado crescimento • crescimento natural ou vegetativo – diferença entre nascimentos (taxa de
natural, isto é, a população aumenta devido ao maior número de nascimentos do natalidade) e óbitos (taxa de mortalidade);
que de óbitos (morte). No entanto, em outros países verifica-se um crescimento • taxa de migração – diferença entre a entrada (imigração) e a saída
vegetativo nulo ou negativo. Na Alemanha, Japão e Rússia, por exemplo, o (emigração) de pessoas de uma região.
número de óbitos supera ou fica igual ao número de nascimentos, diminuindo ou
mantendo a quantidade de habitantes no país. Neste caso, a quantidade total da Tabela 1.2: Crescimento da população mundial por diferentes períodos.
população só vai ser alterada se ocorrer a entrada de imigrantes (pessoas vindas Ano/Era Número de Habitantes
de outras partes do mundo). Era Cristã 250 milhões
Os Estados Unidos, por exemplo, possuem uma elevada taxa de imigração, 1650 500 milhões
pois milhares de pessoas de outros países entram (de forma legal ou ilegal) no seu 1850 1 bilhão
território a cada ano. De forma inversa, Ruanda e Nigéria perdem vários habitantes 1950 2 bilhões
por ano, que saem para outro país em busca de melhores condições de vida. 1995 5,6 bilhões
Podemos concluir que para ocorrer crescimento demográfico num país um dos 2004 + 6 bilhões
dois índices (taxa de migração e crescimento vegetativo) tem que ser elevado, 2010 + 7 bilhões
para aumentar o número de habitantes.
No entanto, este crescimento vegetativo (ou populacional) vem ocorrendo de
As fases do crescimento forma diferenciada nas várias regiões do mundo, como foi colocado anteriormente.
demográfico Cada área ou país passa por um processo de transição demográfica, que contém
basicamente 3 fases (figura 1.2):
No decorrer da história, a população mundial tem crescido em função de • Primeira fase ou pré-industrial: caracterizada pelo equilíbrio demográfico e
a taxa de natalidade ser superior à de mortalidade. Avaliando a marcha de por baixos índices de crescimento vegetativo, já que há elevadas taxas de natali-
crescimento populacional, podemos distinguir duas fases: dade e de mortalidade. A elevada taxa de mortalidade relaciona-se principalmente
1. Crescimento lento: até o séc. XVII, em função da inexistência de condições às precárias condições higiênico-sanitárias, às epidemias, às guerras, fome etc.
sanitárias adequadas, guerras, epidemias etc., a taxa de mortalidade era elevada; • Segunda fase ou transicional: redução da mortalidade com o fim de epide-
2. Crescimento rápido: compreende principalmente os séculos XVIII, XIX e a mias e com os avanços médicos (decorrentes da Revolução Industrial). Contudo a
segunda metade do séc. XX, quando os avanços científicos e das melhorias das natalidade ainda se mantém elevada, ocasionando um grande crescimento popu-
condições higiênico-sanitárias provocaram uma queda nas taxas de mortalidade. lacional; numa segunda etapa, a natalidade começa a cair, reduzindo-se, então,
Nessa fase, o mundo deparou-se com um acelerado crescimento populacional o crescimento populacional.
(tabela 1.2). • Terceira fase ou Evoluída, momento em que a transição demográfica fina-
liza-se, com a retomada do equilíbrio demográfico, este apoiado em baixas taxas
10 :: GeoGrafia :: módulo 2

de natalidade e de mortalidade. Atualmente, estão nessa fase os países desenvol- Teoria Neomalthusiana
vidos, a maior parte dos quais apresenta taxas de crescimento inferiores a 1% e
A segunda aceleração do crescimento populacional ocorreu a partir de
até negativas, ou seja, países cujo crescimento vegetativo encontra-se estagnado.
1950, particularmente nos países subdesenvolvidos. Nesta época houve grandes
conquistas na área da saúde, como a produção de antibióticos e de vacinas contra
uma série de doenças. Tais conquistas espalharam-se pelos países subdesenvolvidos
graças à atuação de entidades internacionais de ajuda e cooperação, como a
Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Cruz Vermelha Internacional.
Deste modo, ocorreu uma acentuada redução nas taxas de mortalidade,
principalmente a infantil, que até então eram muito elevadas nos países
subdesenvolvidos. A diminuição da mortalidade e a permanência das altas taxas
de natalidade resultaram num grande crescimento populacional, que atingiu seu
apogeu na década de 1960 e ficou conhecido como explosão demográfica.
Com a nova aceleração populacional, voltaram a surgir estudos baseados
nas ideias de Malthus, dando origem a um conjunto de teorias e propostas
denominadas neomalthusianas. Os teóricos relacionavam o subdesenvolvimento e
Figura 1.2: Diferenças nas taxas de natalidade e mortalidade no decorrer do tempo caracterizando a pobreza ao crescimento populacional, o qual provocaria a elevação dos gastos
as fases de transição demográfica. governamentais com os serviços de educação e saúde. Com isso, os investimentos
produtivos nos setores agrícola e industrial diminuiriam e o país, sem produção
Os países que já chegaram na 3a fase correspondem basicamente aos desen- econômica, se tornaria cada vez mais pobre.
volvidos. A maior parte da população mora em cidades, onde há acesso fácil a Segundo esta teoria, para acabar com a pobreza da população e o
métodos anticoncepcionais, a mulher entra para o mercado de trabalho e o custo subdesenvolvimento do país, os seus governos deviriam estimular o controle
de criação dos filhos é alto pela necessidade de manter uma boa educação. Para da natalidade – diminuindo a população, acabaria a pobreza do país e da sua
preservar um bom padrão de vida, os casais escolhem ter um ou dois filhos. Com população. Na verdade, esta ideia servia para mascarar os reais fatores do
isso, a taxa de natalidade se reduziu intensamente nas últimas décadas. subdesenvolvimento.
Alguns países subdesenvolvidos, que já alcançaram um significativo nível de É sempre bom lembrar que planejamento familiar é muito diferente de
industrialização e urbanização, caso do Brasil, Argentina, África do Sul etc., tam- controle da natalidade e que a mulher deve ser o sujeito e não apenas um objeto
bém estão entrando na 3a fase de transição demográfica. desse planejamento. Essas políticas são adotadas até hoje e conduzidas pela
Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI),
As teorias demográficas que condicionam a aprovação de empréstimos para os países subdesenvolvidos à
adoção de programas de controle de natalidade, que são financiados pelo Banco
Ao longo do tempo, o aumento da população mundial estimulou a Mundial (Bird).
formulação de teorias populacionais para tentar explicar como ocorria o O planejamento familiar é feito por entidades privadas e públicas, que se
crescimento populacional. Dentre as teorias, podemos citar a Teoria de Malthus, a associam à indústria farmacêutica e à classe médica e recebem apoio dos meios
Neomalthusiana e a Reformista, que serão vistas a seguir. de comunicação. O controle populacional é realizado de várias maneiras, indo
da distribuição gratuita de anticoncepcionais até a esterilização em massa de
Teoria Malthusiana populações pobres como Índia, Colômbia e Brasil.

Esta teoria foi criada por Thomas Malthus em 1798 (final do século XVIII), Teoria Reformista (ou marxista)
quando ocorria um forte crescimento populacional na Europa (esta região
estava na 2a fase da transição demográfica). Para o autor, em poucos anos, a Seguidores do filósofo socialista Karl Marx, os teóricos desse pensamento
produção de alimentos não seria suficiente para alimentar tantas pessoas. Assim, afirmam que a causa da superpopulação é o modo de produção capitalista, e
a população tenderia a crescer além dos limites de sua sobrevivência, e disso que a sobrevivência do capitalismo, como sistema, exige um crescimento
resultariam a fome e a miséria. excessivo da população. Em outras palavras, ao contrário dos neomalthusianos, os
Ao lançar suas ideias, Malthus desconsiderou as possibilidades de aumento reformistas consideram a miséria como a principal causa do acelerado crescimento
da produção agrícola com o avanço tecnológico. Ele não previu, também, os populacional. Assim, defendem a necessidade de reformas socioeconômicas que
efeitos decorrentes da urbanização na evolução demográfica. Aos poucos, essa permitam a melhoria do padrão de vida da população mais pobre. Essa teoria foi
teoria foi caindo em descrédito e desmentida pela própria realidade. elaborada em resposta aos neomalthusianos e ela inverte a conclusão das duas
teorias demográficas anteriores.
Capítulo 1 :: 11

Sobre este assunto, vejamos o que diz a citação a seguir:


Portanto, é necessário estabelecer estas relações (população/
desenvolvimento/ recursos) com muito cuidado e sempre com uma ampla
discussão desses conceitos, sob pena de reforçar o discurso neomalthusiano,
já incorporado ao senso comum pela mídia, e privar os alunos dos diversos
níveis de uma reflexão crítica e fundamental para definições de escolhas
pessoais e coletivas.(João Rua)

Estrutura da população
Outros conceitos importantes no estudo da população são:
• Estrutura etária – quantidade de jovens (crianças e adoslecentes), adultos
e idosos. É analisada por meio de “pirâmides etárias”, que são gráficos que
caracterizam a população por faixa de idade e por sexo.
• Distribuição da população economicamente ativa (PEA) pelos setores
econômicos – primário (atividades agropecuárias, extrativismos), secundário
(atividades industriais) e terciário (atividades de comércio e serviços).
• Distribuição de renda – o que cada segmento da população recebe de salário.
A análise destes dados ajuda a entender e a prever problemas numa região
ou país. Por exemplo, um país com grande número de jovens precisaria investir
Figura 1.4: Pirâmide etária da Austrália, considerando dados populacionais do ano de 2010.
em educação, com o objetivo de preparar esta parte da população para o mercado
de trabalho formal. No caso de um país com grande número de adultos, o governo
deveria criar opções de trabalho por meio de estímulos às atividades econômicas.
Atualmente, vários países desenvolvidos vêm passando por um problema
sério de envelhecimento da população. O aumento no número de idosos (que
não trabalham mais) significa um grande gasto com a previdência social
(aposentadorias) e com atendimento médico. Como o número de adultos que
contribuem com a previdência social está diminuindo, os governos destes países
têm que arcar com estes custos e/ou reformular o sistema de aposentadorias.

Figura 1.5: Pirâmide etária do Japão, considerando dados populacionais do ano de 2010.

Atividade 2

Observe as pirâmides etárias de Angola, Austrália e Japão (Figuras 1.3, 1.4 e


1.5). Com base na diferença de quantidade de pessoas por faixa etária, responda:
a. Que país deve ser considerado como jovem? Justifique.
Figura 1.3: Pirâmide etária de Angola, considerando dados populacionais do ano de 2010.
12 :: Geografia :: Módulo 2

Coreia do Sul 5,7 41,1 53,2


Estados Unidos 2,3 22,0 75,6
b. Que país deve investir na criação de novos empregos? Justifique. Alemanha 1,4 31,7 67,0
Tabela 1.3: Distribuição da População Economicamente Ativa (PEA) por setores da economia.
Fonte: L´état du munde, 1999.
c. Que país apresenta a maior expectativa de vida (pessoas que conseguem
viver além dos 80 anos)? Justifique. As atividades de serviço e comércio, além de englobarem o setor formal da
economia, contêm o setor informal, ou seja, o subemprego. Em praticamente
todos os países do mundo, mas principalmente nos subdesenvolvidos, as atividades
A população economicamente ativa de um país (PEA) corresponde aos trabalha- informais vêm crescendo devido a problemas econômicos (cria desemprego
dores formais. De maneira geral, a PEA engloba pessoas que trabalham com carteira conjuntural), falta de investimentos no setor produtivo e avanço tecnológico (onde
de trabalho assinada, profissionais liberais (prestam serviços – médico, dentista, o homem é substituído pela máquina – desemprego estrutural).
contador etc.), mas que contribuem para a arrecadação de impostos, além de pes- Em vários países subdesenvolvidos, este problema do trabalho sem carteira
soas desempregadas, desde que estejam procurando emprego na economia formal. assinada e garantias trabalhistas vem atingindo também o setor industrial,
A PEA se distribui por setores econômicos: especialmente de confecção de roupas, sapatos e outras mercadorias de pouco
• Setor primário – agricultura, pecuária, pesca, extrativismo; valor agregado. A “indústria” da pirataria (de CDs, vídeos, DVDs etc.) movimenta
• Setor secundário – indústria, onde ocorre a transformação dos produtos hoje milhões de dólares pelo mundo.
primários; Por outro lado, o setor informal ajuda a movimentar o setor formal da
• Setor terciário – comércio e prestação de serviços (hospitais, bancos, economia. Os camelôs, flanelinhas, pedreiros, traficantes, catadores de lixo,
escolas, transporte, turismo etc.) biscateiros etc., usam seu dinheiro na compra de mercadorias e pagamento de
A distribuição da PEA por setores econômicos de um país pode indicar o seu grau serviços formais (banco, dentista, transporte em trem e/ou ônibus etc.).
de desenvolvimento. Assim, quando a maior parte dos trabalhadores está no setor Embora alguns tipos de trabalho estejam sumindo, outros estão aparecendo
primário, significa que o país é subdesenvolvido e que não utiliza técnicas modernas ou se tornando mais valorizados. É comum nas grandes cidades do mundo
de produção. A tabela 1.3 traz alguns exemplos dessa situação, como Angola e aparecerem trabalhos como “personal trainer” (profissional de educação física
Bolívia. De modo inverso, a Alemanha e os Estados Unidos possuem muito poucas que dá aulas particulares), gastronomia e culinária, gestão de festas e eventos,
pessoas trabalhando neste setor. Isto acontece porque estes países empregam paisagismo, estilista de moda, técnicos em informática, entre outras atividades.
insumos agrícolas e sistemas de produção que não exigem mão de obra humana, ou Antes, oficinas de carros realizavam consertos, mas hoje pode-se encontrar oficinas
seja, usam alta tecnologia para obter elevada produtividade neste setor. que instalam ar condicionado ou “kits” de gás, além de outras que transformam
A análise nos outros dois setores deve ser mais cuidadosa, pois não evidencia o quase todo o carro com blindagens, para aumentar a segurança do veículo diante
tipo de indústria ou a qualidade do serviço. O valor da população economicamente da violência das grandes cidades.
ativa (PEA) do setor secundário (industrial) da Bolívia (17,5%) é bem próximo Mas a atual geração de novos ofícios necessita de uma formação educacional
ao do Brasil (22,4%) e ao dos Estados Unidos (22%). No entanto, sabemos que e técnica muito elevada do trabalhador. Por isso, os países que investem
o setor industrial deste último é muito mais avançado e diversificado, produzindo maciçamente na educação têm perspectivas melhores de superar o problema de
mercadorias de alta tecnologia e de ótima qualidade (indústrias eletrônicas, desemprego da sua população.
aeroespacial, entre outras).
O setor terciário dos países em desenvolvimento (também denominados eco- :: Dinheiro no lixo!!! ::
nomias emergentes ou países semiperiféricos) e dos países desenvolvidos (países No Brasil, uma forma de a população de baixa renda ganhar
centrais) concentra a maior parte da PEA. Mas, novamente, deve ser analisado dinheiro atualmente é a coleta e reciclagem de lixo. Este é um novo
com cuidado, pois não expressa a qualidade dos serviços. Por exemplo, o setor de tipo de emprego informal, mas que se relaciona com a economia
educação da Alemanha e dos Estados Unidos apresenta uma qualificação muito formal, podendo gerar, inclusive, menor gasto com energia e
maior do que no Brasil. menor impacto ambiental. Como?
A indústria de transformação de alumínio (um tipo de metalurgia)
População Economicamente Ativa (PEA) por Setores consome muita energia. O alumínio das latas usadas pode ser repro-
País Econômicos (dados de 1997)
cessado e utilizado na fabricação de novas latas. Assim, a indústria
Primário (%) Secundário (%) Terciário (%)
metalúrgica não precisa manter uma produção alta (consumindo
Angola 73,3 8,3 18,4
muita energia) e a quantidade de lixo nas cidades diminui.
Bolívia 43,1 17,5 39,4
Outro exemplo é a reciclagem de papel, diminuindo-se a
Brasil 15,6 22,4 62,0
necessidade de corte de árvores.
Austrália 4,9 22,5 72,7
%
100

80 Capítulo 1 :: 13

60
Atividade 3 Figura 1.6: Distribuição da renda nacional por diferentes classes sociais. Classe A – 20% mais
40 Classe E – 20% mais pobres; Classes B, C e D – classes intermediárias. Fonte: ONU/Banco
ricos;
Considerando a tabela 1.3, verifique se as afirmativas a seguir são falsas ou Mundial, 2002.
verdadeiras: 20
( ) O baixo percentual de PEA no setor secundário de Angola mostra que este 0
A figura 1.7 demonstra melhor a desigualdade social dos países. A diferença
país é muito pouco industrializado. de renda entre os 10% maisBrasil
Paraguai ricos e os 20% EUA
mais pobres éAlemanha
muito grande tanto no
Áustria
( ) O baixo valor da PEA no setor primário dos Estados Unidos indica que este Paraguai Classe
quantoA no Brasil. Por outro lado, na Áustria a renda dos 10% mais ricos
Classe B Classe C Classe D Classe E
país quase não produz mercadorias agropecuárias, como alimentos e carne.
é somente um pouco maior do que a dos 20% mais pobres do país.
( ) Na Austrália a maior parte das pessoas trabalha em atividades como turismo,
bancos, comércio, administração pública etc.
%
( ) Boa parte da PEA da Coreia do Sul está trabalhando no setor secundário, 50
caracterizado por indústrias bem diversificadas, desde indústrias de base até de
eletrônicos. 40
( ) Na Bolívia o setor primário emprega a maior parte da PEA, indicando que a 30
agropecuária e o extrativismo vegetal é altamente produtivo.
Observando a tabela 1.4, verifica-se que em alguns países a população tem 20
uma renda per capita bem melhor do que em outros.
10
Mas este é um dado que representa a realidade da população de um país?
Todos os brasileiros recebem o equivalente a 12.594 dólares por ano? 0
Este índice é calculado dividindo-se o valor de todas as riquezas do país pela Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria
quantidade de habitantes. Ele só representa uma média que permite comparar, de 20% mais pobres 10% mais ricos
forma geral, um país com outro.
País PIB per capita (em US$) (2011) Figura 1.7: Distribuição da renda nacional considerando os 20% mais pobres e os 10% mais ricos
Paraguai 3.485 da população. Fonte: ONU/Banco Mundial, 2002.
Brasil 12.594
Estados Unidos 47.882 A distribuição de renda desigual num país está associada a vários fatores:
Alemanha 43.865 • Boa parte da população tem baixo nível educacional, não conseguindo
Áustria 49.683 empregos de melhor renda.
• Grande carga tributária, especialmente impostos indiretos (cobrado sobre
Tabela 1.4: Renda per capita calculada em dólares considerando o ano de 1999. Fonte: ONU/
Banco Mundial as mercadorias), que acaba aumentando o custo de vida no país. Neste caso, uma
família pobre paga o mesmo imposto que uma família rica quando compra um
A distribuição de renda em qualquer país não é igual para todas as classes pacote de biscoito.
sociais. Há trabalhos que são melhor remunerados do que outros, relacionando-se • Grande desemprego estrutural e conjuntural.
ao tipo de qualificação e nível educacional da pessoa, entre outras coisas. No • Baixo investimento nos setores produtivos, que não cria novas
entanto, nos países subdesenvolvidos existe claramente a concentração de renda oportunidades de empregos.
nas mãos de poucas pessoas. Observe na figura 1.6, que no Paraguai e no Brasil A desigualdade social cria o problema da exclusão social. São pessoas que
a classe A (20% mais ricos da população) concentra mais de 60% de toda a renda não conseguem ter acesso a meios de se qualificarem melhor, para a partir daí
do país, enquanto as demais classes possuem menos de 40% desta renda. conseguirem ter melhor renda, educação, saúde e qualidade de vida (saneamento
Nos Estados Unidos, na Alemanha e na Áustria existe um maior equilíbrio na básico, casa própria, água potável etc.).
distribuição da renda entre as classes. Considerando o exemplo da Alemanha, os
20% mais ricos da população controlam em torno de 38% da renda nacional e as
demais classes dividem mais de 60% da renda do país.
Os movimentos populacionais
% Os movimentos populacionais são muito antigos na história da humanidade.
100
Mas os autores são unânimes em afirmar que nunca foram tão intensos quanto nas
80
últimas décadas do século passado (XX) e os a primeiros anos deste século (XXI).
60 O deslocamento de pessoas entre diferentes regiões do mundo está relacionado a
40 questões religiosas, naturais, guerras, problemas econômicos, entre outros fatores.
Atualmente, os principais motivos que provocam a migração de pessoas são de
20
ordem econômica (pobreza, desemprego, concentração de renda, crises financeiras).
0 Neste caso, os países subdesenvolvidos, especialmente os africanos, são áreas de re-
Paraguai Brasil EUA Alemanha Áustria
pulsão, enquanto os países desenvolvidos (Estados Unidos e países da Europa ociden-
Classe A Classe B Classe C Classe D Classe E
tal – Inglaterra, Alemanha, Itália, França etc.) são áreas de atração de imigrantes.

%
50

40
14 :: Geografia :: Módulo 2

Há também países, que, mesmo sendo subdesenvolvidos, mas que direita pudessem ter sucesso nos “democráticos” países industrializados
regionalmente apresentam melhores condições econômicas, podem atrair europeus. Na Alemanha, onde especialmente o antissemitismo marcou a
imigrantes. Por exemplo, o Brasil atrai pessoas de outros países sul--americanos; história, impera o silêncio diante do avanço da extrema-direita nos países
os pequenos estados-nação produtores de petróleo da região do Golfo Pérsico vizinhos... É notável, também, que o fenômeno do neonazismo tem
recebem paquistaneses, indianos, iraquianos e filipinos. aumentado nas escolas. Ocorrem em paralelo a muitas demonstrações
Os dados da ONU apontam que cerca de 190 milhões de pessoas vivem nazistas que já há bastante tempo vêm acontecendo, com ódio a
atualmente fora de seus países de origem. Elas vão em busca de trabalho e melhor imigrantes e resistência contra o governo alemão, manifestações
remuneração, muitas vezes enviando parte da sua renda para os familiares que contrárias de combate a um possível crescimento da xenofobia. Mas,
vivem na terra natal. Essas remessas são bastante significativas, principalmente também, entre o leste e o oeste da Alemanha, o “muro na cabeça” dos
considerando a economia de certos países pobres. alemães ainda não caiu. Os salários mais baixos e o maior desemprego
Alguns países, como Inglaterra, França e Alemanha, necessitam de no leste demonstram que, após 12 anos, a unificação alemã ainda não
imigrantes, pois a população destes países está envelhecendo rapidamente. A foi alcançada. A divisa continua sendo publicamente reforçada através
taxa de fecundidade não passa de 1,5 filhos por mulher, ou seja, as mulheres das constantes comparações e da rotulagem do leste como “os novos
destes países praticamente só têm um filho. Segundo a ONU, se não fosse o Estados” o que, de fato, confirma a existência de uma Alemanha no
grande número de migrantes, a Europa ocidental poderia apresentar redução de leste e outra no oeste... A crise da economia e do Estado de bem-estar
população absoluta. social, associada às rápidas transformações tecnológicas, ocasionou um
A baixa taxa de fecundidade, acompanhada pelo envelhecimento da crescente desemprego e colocou a competitividade a qualquer custo como
população, diminui a disponibilidade de mão de obra para vários tipos de serviços. única alternativa de sobrevivência. Esta conjuntura gera insegurança,
A migração compensa esta queda natural da mão de obra, principalmente em se ressentimento e violência. Com o gradativo desmonte do Estado de bem-
tratando de atividades de baixa remuneração que a população nativa dos países estar social por parte dos governos social-democratas, os quais até agora se
desenvolvidos não querem exercer. apresentaram como alternativa contra os partidos de direita, a população
ficou desorientada, especialmente os desempregados, trabalhadores e
Atividade 4 jovens... É, por exemplo, mais fácil responsabilizar os estrangeiros pelo
desemprego, pela criminalidade e pela insegurança, do que entender as
Analise a afirmativa:
complexas razões dos problemas. As soluções apresentadas são, então,
A Europa ocidental já foi, no passado, uma área importante de
também bem simples e conduzem à xenofobia, quando os estrangeiros são
repulsão de migrantes, mas, de meados do século XX para cá, se tornou
tratados como concorrência indesejada. Mas, a xenofobia expõe os países
uma área de forte atração populacional.
europeus a uma séria contradição econômica. Por causa do baixo índice
de natalidade e da crescente expectativa de vida da população, existe a
tendência de que a Europa venha a ser a sociedade mais idosa do mundo.
(Antonio Inacio Andrioli - Revista Espaço Acadêmico Ano II, no 13, Junho 2002)

O fenômeno da xenofobia
Os dicionários explicam o termo “xenofobia” como aversão a outras raças
e culturas e, muitas vezes, pode ser compreendido como característica de um
nacionalismo excessivo. Apresenta-se como um medo injustificado perante a
estranhos ou estrangeiros. Esse medo chega a ser intensivo, descontrolado
e desmedido em relação a pessoas ou grupos diferentes, com as quais nós
habitualmente não entramos em contato. É bom esclarecer que, muitas pessoas
confundem com “racismo” – este não passa de uma crença que diz que algumas
raças são superiores sobre outras.

Atividade 5

Leia o texto com atenção e prepare pelo menos duas perguntas ao seu
professor:
Na Europa, muitas pessoas estão chocadas com o avanço do
neofascismo. A maioria não queria acreditar que partidos de extrema
Capítulo 1 :: 15

Exercícios
1) A tabela a seguir mostra outros dados importantes sobre população. Analise os dados e responda às questões.
Crescimento Expectativa de vida Expectativa de vida
Fecundidade População urbana
País demográfico para homens para mulheres
(filhos por mulher) 1
(%) (2000)
(% ao ano) 1
(em anos) 1
(em anos) 1

Nigéria 2,61 52,0 52,2 5,42 44


Bolívia 2,15 61,9 65,3 3,92 63
Haiti 1,55 50,2 56,5 3,98 36
Índia 1,52 63,6 64,9 2,97 28
Brasil 1,60 64,3 72,3 2,15 81
China 0,71 69,1 73,5 1,80 32
Estados Unidos 0,89 74,6 80,4 1,93 77
Reino Unido 0,18 75,7 80,7 1,61 90
Japão 0,14 77,8 85,0 1,33 79
Alemanha -0,04 75,0 81,1 1,29 88
1
Estimativa para o período entre 2000 e 2005. Fonte: Banco Mundial (2000).

a) Comente a diferença da taxa de crescimento demográfico dos diferentes países.

b) Relacione a expectativa de vida dos diferentes países às suas características socioeconômicas.

c) Justifique a taxa de fecundidade dos diferentes países com base na taxa de população urbana.

2) (UFRRJ/2005) Os dados abaixo demonstram as consequências da política (C) as mulheres que trabalham neste setor têm direito à licença maternidade.
demográfica adotada pela China nos últimos 30 anos. (D) não dá garantias trabalhistas estabelecidas em lei.
Mais homens que mulheres
• 642,7 milhões de homens 4) (UERJ/1998) No conjunto das regiões metropolitanas brasileiras, a do
• 616,2 milhões de mulheres Rio de Janeiro vem se destacando nas últimas décadas por apresentar um dos
Apresente os princípios básicos dessa política relacionando-a a situação retratada. mais baixos índices de incremento demográfico. A forte desaceleração de seu
crescimento populacional se deve fundamentalmente à:
(A) elevação da taxa de mortalidade, ligada ao aumento da violência na área
metropolitana
3) (UFRRJ/2005, modificada) (B) redução da taxa de natalidade, promovida pela política municipal de
planejamento familiar
A vida econômica nas aglomerações latino-americanas apresenta
(C) elevação do fluxo migratório para a periferia metropolitana, preferida pela
características peculiares. A modernização (...), que produziu esse processo qualidade ambiental
de metropolização, introduziu atividades econômicas seletivas, com índice (D) redução da capacidade de atração de fluxos migratórios, relacionada à baixa
elevado de tecnologias que não exigem grande absorção de mão de obra. oferta de empregos
Ao lado desse setor, desenvolveu-se um conjunto enorme de atividades
de menor porte econômico, que não dependem de avanços tecnológicos 5) (UFF/1997)
e oferecem um grande número de empregos ou ocupações. O geógrafo PARIS – Advogados de organizações humanitárias invadiram a
Milton Santos chamou esse fenômeno de circuito inferior da economia Justiça francesa com uma série de apelos para evitar a expulsão dos 210
urbana (camelôs, biscateiros, pequenos prestadores de serviços). imigrantes africanos que foram desalojados à força na sexta-feira da Igreja
Adap. de OLIVA, J.;GIANSANTI, R. Temas da geografia Mundial. São Paulo: Atual,1996, p. 133.
de S. Bernardo, em Paris, que ocuparam por 50 dias, 10 deles em greve
de fome de protesto contra a política de imigração francesa.
Sobre o fenômeno de “circuito inferior da economia urbana” é ERRADO afirmar que:
(A) é constituído por trabalhadores sem trabalho regular. Jornal do Brasil, 25/8/96
(B) Não há vínculo empregatício. O texto fala dos “sem documentos”, ilustrando uma forma típica de movimento
16 :: Geografia :: Módulo 2

migratório internacional do final do século XX. Uma característica correta desse do planeta será maior, crescerá em ritmo mais lento, será cada vez mais
movimento é: urbana e também mais idosa do que foi nos últimos 100 anos.
(A) Mudança da direção das migrações, concentrando-se entre os “países Assim como ninguém que tenha vivido até 1930 conseguiu presenciar a
desenvolvidos”.
população mundial dobrar de tamanho, tudo indica que nenhum ser humano
(B) Acentuação das migrações, dos “países desenvolvidos” para os “países
subdesenvolvidos”. nascido após 2050 viverá tempo suficiente para testemunhar esse fenômeno
(C) Acentuação das migrações, dos “países subdesenvolvidos” para os “países novamente. Nunca é demais recordar que o ritmo máximo de crescimento da
desenvolvidos”. população mundial foi atingido por volta da segunda metade da década de
(D) Reorientação da direção das migrações, que passam a ser predominantes no 1960 e se o total de seres humanos no planeta só atingiu seu primeiro bilhão
interior dos “países subdesenvolvidos”. no início do século XIX, atualmente esse número é incorporado à população
(E) Indefinição dos fluxos migratórios, que tomaram direções aleatórias.
mundial a cada 15 anos.
Segundo estimativas, em 2050, o planeta deverá abrigar um número
6) (UFF/2000)
pouco superior a 9 bilhões de habitantes, isto é, mais ou menos 2,5 bilhões
África Subsaariana - Principais indicadores sociais de pessoas a mais do que possui atualmente. Esse aumento corresponde
Renda per Expectativa Taxa de ao número de pessoas que o mundo possuía em 1950. Atualmente, a
País
capita (US$) de vida analfabetismo cada ano são incorporados à população do planeta, cerca de 75 milhões de
África do Sul 3.040 65 anos 18,0% seres humanos, isto é, um pouco menos da metade da população brasileira,
Uganda 190 45 anos 50,0% ou cerca de quase duas vezes o contingente populacional da Argentina.
Angola 430 46 anos 57,5% Todavia, a dinâmica do crescimento demográfico mundial é muito
Nigéria 280 56 anos 43,0% desigual. Estima-se que ao longo dos primeiros 50 anos do século XXI,
Ruanda 80 46 anos 40,0% a população de alguns países asiáticos, como o Afeganistão e um grande
República do número de nações da porção subsaariana da África (como Libéria, Uganda,
650 48 anos 33,0%
Congo Burundi, Chade e Congo), assistirão seu contingente populacional triplicar.
Fonte: Banco Mundial, 1996 Deve-se recordar que estes países estão entre os mais pobres do mundo.
Considerando as informações do quadro e a realidade que as sociedades da África Mesmo tendo taxas de mortalidade acima da média mundial, os países
Subsaariana têm vivido, pode-se assegurar: em questão têm apresentado taxas de natalidade persistentemente altas.
(A) O longo período das guerras de libertação colonial explica os péssimos
Nesses países, em média, uma mulher tem o dobro de filhos do que as
indicadores de Uganda, Ruanda e Nigéria em termos da expectativa de vida e dos
índices de analfabetismo da população. mulheres que vivem nas nações mais ricas.
(B) Embora a África do Sul apresente os melhores indicadores, ainda persistem, Cerca de metade do incremento populacional que ocorrerá até 2050,
no país, fortes desigualdades sociais em função do “recorte racial” econômico, terá como “responsáveis” nove países: Índia, Paquistão, Nigéria, República
diferenciando as condições de vida entre a minoria branca e a maioria negra. Democrática do Congo, Bangladesh, Uganda, Estados Unidos, Etiópia e
(C) Na África Subsaariana, a maioria dos países que se orientaram pelo modelo China. A surpresa fica por conta da presença dos Estados Unidos nesta lista,
soviético de socialismo — a exemplo da República do Congo —conseguiram
fato explicado pelo alto número de imigrantes que o país deverá receber ao
aliviar os mais sérios problemas socioeconômicos da região.
(D) A descolonização mais recente da Nigéria e as violentas guerras civis em longo das próximas décadas.
Angola respondem pelos indicadores sociais que, inclusive, são os menos Por outro lado, pelo menos 50 países, a maioria de alto nível
favoráveis de toda a África Subsaariana. econômico, como a Alemanha, o Japão e a Itália, provavelmente terão
(E) A inserção subordinada do continente africano na globalização da economia uma diminuição de sua população em termos absolutos. Outros países,
obrigou os governos de Uganda e do Congo a concentrarem seus investimentos na embora com um padrão econômico inferior ao dos países citados, como é o
extração e comercialização do petróleo, deixando de lado o bem-estar da população.
caso da Rússia, também deverão ter sua população diminuída. O exemplo
russo é emblemático, pois reflete a falência dos sistemas públicos de
Complemente seus saúde e o incremento de mortes causadas por câncer, doenças cardíacas,
conhecimentos alcoolismo, suicídios e homicídios, decorrentes da brutal queda do padrão
de vida após o fim da União Soviética.
Previsões da população mundial para a metade século XXI O século XX foi o único da história em que o número de jovens foi maior
que o de idosos. Até a metade do século passado, o contingente de crianças
Nelson Bacic Olic. Revista Pangea, 14/11/2005.
com idade inferior a 5 anos era maior que a de pessoas com mais de 60
Nos dias que correm vêm ocorrendo e se cristalizando importantes anos. Atualmente, cada um desses grupos etários corresponde a 10% da
mudanças na composição e na dinâmica da população mundial. Apesar população mundial, mas daqui para frente, os idosos serão cada vez mais
de muitas dessas transformações terem se iniciado nas últimas décadas numerosos. Contudo, o envelhecimento da população não ocorre de forma
do século XX, pode-se afirmar que ao longo do século atual, a população semelhante em todos os países. Em 2050, nas regiões mais desenvolvidas
Capítulo 1 :: 17

do mundo, uma em cada três pessoas terá mais de 60 anos, enquanto que
nas áreas menos desenvolvidas elas serão cerca de 20% do total.
Mantendo as tendências demográficas observadas na atualidade, até
2050 a quase totalidade do crescimento da população mundial acontecerá
em áreas urbanas. Estima-se que por volta de 2007, o número de pessoas
morando em cidades será superior ao contingente de pessoas do campo.
As populações urbanas crescem mais rápido nos países pobres do que
nos países mais ricos. Aproximadamente 60% do crescimento urbano nos
países pobres será devido ao crescimento vegetativo ao qual será acrescido
o êxodo rural, fenômeno que ocorrerá com maior intensidade no sul,
sudeste e leste da Ásia e também na África Subsaariana.
As projeções que indicam bilhões de pessoas a mais nos países pobres,
mais idosos no mundo, juntamente com a expectativa de um crescimento
econômico mundial maior que o atual, levanta questões sobre o grau de
sustentabilidade da população atual e futura.
A princípio, nosso planeta pode fornecer espaço e alimento para pelo
menos três bilhões a mais de pessoas das que existem atualmente. O
problema é que grande parte dos 6,5 bilhões de seres humanos que vivem
atualmente na Terra, não se satisfaz apenas em ter o que comer.
Segundo organismos internacionais que estudam o problema,
estabelecendo-se uma relação entre alimentos, energia e recursos naturais,
na atualidade, os habitantes da Terra já estariam consumindo 42,5% além
da capacidade de reposição da biosfera, déficit que tem aumentado cerca
de 2,5% ao ano. Se todos os seres humanos passassem a consumir o
que consome um europeu ou um norte-americano, seriam necessários três
planetas como o nosso!
2
A população brasileira

:: Objetivo ::
• Apresentar as características da população brasileira quanto à diversidade racial, dinâmica de
crescimento demográfico, faixa etária, renda e mobilidade espacial.
20 :: Geografia :: Módulo 2

Há quem elabore um raciocínio simplista e pérfido de hectares por brasileira atual, por outro, a sofrer um extermínio, a enfrentar conflitos diversos
índios viventes em reservas, comparando o seu pedaço percentual de terras (garimpeiros, fazendeiros, industriais, posseiros e grileiros) e a sofrer preconceitos
com a parcela que caberia a cada brasileiro caso se dividisse o território por parte da sociedade brasileira.
total do Brasil pela população total do país, sem levar em conta que a maior Antes da colonização do Brasil (século XVI), a população indígena era
parte das terras rurais estão nas mãos de poucos privilegiados brasileiros e estimada entre dois a cinco milhões de índios pertencentes a várias nações cujos
que mais de 70% da nossa população encontram-se em cidades de todos grupos linguísticos (Tupi, Jê, Aruaque, Caraíba, Pano, dentre outros) estavam
os portes...A ideia vitoriosa das reservas indígenas destina-se à proteção presentes em todo o território nacional, com predomínio dos grupos Jê e Tupi-
de comunidades herdeiras da pré-história, vivendo uma proto-história Guarani.
incômoda, devido aos assédios de grupos humanos rústicos, empurrados Ao final do século XXI, no ano de 2010, o Censo do IBGE apontou uma
por capitalistas vorazes para dentro da territorialidade indígena. população indígena de aproximadamente 818 mil indivíduos, concentrados nas
Ab’Saber, Aziz Nacib. A Amazônia: do discurso à praxis.
regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A ausência da noção de propriedade
privada da terra, ou seja, a apropriação simbólica da terra pelos indígenas (a terra
é um bem coletivo), a concepção da natureza como fonte de vida (produção de
Os povos formadores do valor de uso), que por sua vez não provoca a geração de produção de excedentes
Brasil: os que aqui estavam e para a comercialização (produção de valor de troca), dentre outros, são aspectos
os que aqui chegaram importantes que devem ser considerados na análise que se faz sobre a situação
atual das populações indígenas.
Os indígenas, o branco e o negro africano são os três tipos étnicos formadores A distribuição geográfica atual das terras indígenas* demonstra que as
da população brasileira e, mais recentemente, os asiáticos, representados pelos mais extensas estão localizadas em áreas de menor densidade demográfica do
japoneses, chineses e coreanos. A miscigenação dessas etnias vêm contribuindo território nacional como é o caso da região Norte do país (figura 2.1). Nesta
para a formação de diversos outros grupos, denominados de mestiços, dentre os região brasileira encontram-se as reservas Vale do Javari, perto da fronteira
quais destacam-se o mulato (branco e negro), os mamelucos, caboclo, caiçara, com o Peru, Alto Rio Negro, perto da fronteira com a Colômbia, e Ianomâmi,
caipira, capiau (índio e branco), o cafuzo (índio e negro) e o ainocô (amarelo e perto da fronteira com a Venezuela – todas com grandes dimensões e em áreas
outras etnias). Mas, é o Brasil indígena que antecede o Brasil europeu (lusitano), fronteiriças. Nesta faixa da fronteira há sérios problemas de tráfico de drogas e
africano e o Brasil contemporâneo, conforme veremos a seguir. de armas, movimentos guerrilheiros de outros países, tráfico de animais silvestres
As populações indígenas foram, por um lado, as primeiras a habitar o e dificuldade de monitoramento de outras atividades ilegais, como biopirataria,
território brasileiro e a participar consideravelmente da formação da população desmatamento etc.

Raposa serra do sol


Parque do Situação jurídica das terras indígenas
Tumucumaque
Ianomâmi
Alto Waiãpi Equador Reservada/Homologada
Rio negro Waimiri- Rio paru Áreas ocupadas e demarcadas, aprovadas pelo
Atroari D’este
Nhamundá mapuera Alto turiaçu Presidente da República e com publicação no
Diário Oficial da União
Tapeba
Araribóia
Rio biá
Vale do Baú
Javari Identificada
Mundurucu Caiapó Área que já possui estudo realizado pela Funai e
Xucuru
Menkragnoti publicado em decreto federal
Mamoadate Parque do
Uru-eu-wau-wau Aripuanã Araguaia
Parque do Xingu Delimitada
Ava-canoeiro Área declarada juridicamente de posse permanente
dos indígenas
OCEANO
ATLÂNTICO
A identificar/Em identificação
Áreas reconhecidas pela existência de indígenas,
Kadiwéu mas não aprovadas pela Funai
Trópico de capricórni
o

0 400K m

Figura 2.1: Terras indígenas. Fonte: Ferreira, Graça M. L. Atlas Geográfico. Espaço mundial, p.14. (adaptada)
Capítulo 2 :: 21

que também, como outros colonos das demais nacionalidades, sofreram por
*Segundo o IBGE (2000), “as terras indígenas correspondem ao escravidão e por dificuldades de adaptação e integração cultural. Destacam-se
espaço físico reconhecido oficialmente pela União como sendo de ainda os coreanos e os chineses que, assim como os japoneses, se fixaram nos
posse permanente de grupos tribais que a ocupam. Tal ocupação se dá estados de São Paulo e Paraná, principalmente.
com o intuito de preservar o habitat e garantir a sobrevivência físico-
cultural dos grupos indígenas, reproduzindo, dessa forma, condições A imigração e a
para a continuidade econômica e sociocultural da comunidade”. emigração no Brasil
Os movimentos migratórios, em geral, se caracterizam por populações de
O grande número de reservas indígenas na região Norte pode ser explicado baixa renda, em que a condição de pobreza e miséria prevalece, podendo ser
pela ocupação intensa do litoral desde a Colônia, o que resultou no extermínio expressa pelas precárias condições das moradias que se instalam. Historicamente,
das populações nativas dessas regiões que não submeteram-se à lógica produtiva as possibilidades de sucesso para as populações de migrantes estão muito
imposta pelos colonizadores. Por isso, as regiões Norte e a porção setentrional relacionadas com as disponibilidades de recursos para a ocupação de novos
da região Centro-Oeste (áreas de ocupação mais recente )concentram o maior territórios. Quando os recursos foram abundantes, os imigrantes encontraram
percentual de povos nativos pois sofreram menos o impacto dos sucessivos ciclos pouca resistência, se fixaram e, em muitos casos, alcançaram ascensão social. As
econômicos ao longo dos séculos. Somente em meados do século XX, após a populações de imigrantes, num primeiro momento, lutam para não perderem sua
implantação da ditadura civil-militar em 1964, é que os estados do Norte passaram identidade, procuram manter as lembranças e as tradições dos lugares de origem
a ter uma inserção mais efetiva na economia nacional (política de integração e, num segundo momento, lutam para garantir seus privilégios como pioneiros.
nacional – governos militares), com a tomada de iniciativas e incentivos vários Sobre a imigração brasileira, esta pode ser compreendida em três fases: a
(construção de rodovias, exploração agropecuária e mineral, construção de primeira de 1808 (abertura dos portos do Brasil às nações amigas) ao ano de
hidrelétricas). A partir daí, agravaram-se os conflitos entre os indígenas e os 1850 (proibição do tráfico de escravos), a segunda de 1850 ao ano de 1930
garimpeiros, posseiros, grileiros, fazendeiros, empresas agropecuárias ou (queda da bolsa de Nova Iorque) e a terceira, de 1930 até os dias atuais. Analise
mineradoras. as principais características de cada fase:
O branco que participou da formação da população brasileira é originário de • 1808-1850: a primeira fase foi marcada por um pequeno fluxo imigrató-
vários grupos étnicos, tanto europeus como asiáticos e africanos. Os imigrantes rio, explicado pelas facilidades de obtenção de mão de obra escravizada; instabi-
europeus dividem-se em três grupos, segundo a origem: os atlanto-mediterrâneos, lidade política do período da Regência; Guerra dos Farrapos que se prolongara e
dos quais descendem a maior parte da população brasileira (representada pelos existência da escravidão no Brasil que fazia com que os imigrantes temessem ser
portugueses, italianos, espanhóis e franceses), os germanos ou teutões (alemães, tratados como os escravos. Neste período, 1.500 famílias açorianas foram para o
austríacos, neerlandeses ou holandeses, suíços, ingleses e escandinavos) os Rio Grande do Sul, 100 famílias suíças para o Rio de Janeiro (hoje Nova Friburgo),
eslavos (russos, poloneses, tchecos, eslovacos e iugoslavos). Os imigrantes inúmeras famílias alemãs se dirigiram para o Rio Grande do Sul, Paraná, Santa
asiáticos são representados pelos sírio-libaneses e os judeus e os imigrantes Catarina e São Paulo, e 140 prussianos vieram para Pernambuco.
africanos pelos egípcios. • 1850-1930: a segunda fase caracterizou-se por ser o período de maior
Destes, o destaque é para os imigrantes portugueses cuja história se entrada de imigrantes no Brasil, favorecido pelo desenvolvimento da cafeicultura
confunde com a própria história do Brasil. São considerados como os que iniciaram (que exigiu numerosa mão de obra), pela proibição do tráfico de escravos (Lei
a neopopulação brasileira por meio da miscigenação com os índios e os negros Euzébio de Queirós), pela disposição do fazendeiro de café que facilitava a vinda
africanos, uma vez que, durante três séculos, eram os únicos que podiam entrar do imigrante, cobrindo-lhe as despesas no primeiro ano, além de fornecer uma
livremente no Brasil. parcela de terra (para cultivo de produtos de primeira necessidade), pelo paga-
O negro foi trazido da África para o Brasil na condição de escravo e participou mento de gastos com o transporte do próprio imigrante (até o ano de 1889),
das principais atividades econômicas como a da agroindústria da cana-de-açúcar pela abolição da escravatura e pelo desemprego na Itália (tanto no setor industrial
iniciada no século XVI (Nordeste e Recôncavo Baiano), a lavoura do algodão nos como no agrícola) à época da unificação política do país.
séculos XVII e XVIII (Maranhão), a mineração nos séculos XVII e XVIII (Planalto • 1930- dias atuais: a terceira fase caracterizou-se pela queda acentuada do
Central e em Minas Gerais), a lavoura da cana-de-açúcar no século XIX (Rio de fluxo migratório, com exceção das décadas de 1950 e 1970. Foi no início da década
Janeiro) e a cultura cafeeira, também no século XIX (Espírito Santo, Rio de Janeiro de 1950 que o Brasil recebeu muitos imigrantes europeus, todos em busca de novas
e São Paulo). Assim como os indígenas (ou até mais do que eles), os negros oportunidades (pois estavam arrasados pela guerra) e, por outro lado, se sentiram
foram submetidos a brutais condições de existência e, nos dias atuais, grande atraídos pelas condições favoráveis da indústria brasileira na época da construção de
parte da população negra sofre discriminação e preconceito. Brasília, que precisou de um enorme contingente populacional. Já a década de 1970
Os asiáticos aportaram no Brasil no início do século XX para trabalhar nas (época do chamado “milagre brasileiro”) atraiu famílias, investimentos e mão de
lavouras de café no interior do estado de São Paulo. Eram colonos japoneses obra estrangeiros (principalmente chilenos, argentinos e uruguaios).
22 :: Geoografia :: Módulo 2

Por outro lado, é bom reforçar que vários foram os motivos que frearam a Igreja). Essa data é considerada como marco para os estudos geográficos da
imigração nesse mesmo período: as revoluções de 1930 e 1932 que geraram população brasileira, quando se teve o controle dos registros de nascimentos,
instabilidade política, a Lei de Cotas de Imigração (Constituição de 1934 e 1937 mortes e casamentos.
que restringiam o número de imigrantes), a determinação de que 80% dos Alguns recenseamentos foram realizados de maneira muito irregular até a
imigrantes deveriam ser agricultores, a Segunda Grande Guerra (1939-1945), criação do IBGE em 1938 e, a partir de 1940, é que são realizados com uma
o desenvolvimento econômico de vários países europeus, que reorientou o fluxo certa periodicidade. Observe a tabela a seguir, com dados até o censo de 2010
migratório, o Golpe de Estado de 1964 e o grande endividamento externo com (tabela 2.1):
reflexos na economia interna (desemprego, inflação alta, diminuição do ritmo da
atividade econômica). Ano População
Já na década de 1980, o Brasil tornou-se um país de emigração, basica- 1872 9.930478
mente por ter enfrentado uma grave crise econômica. Esta gerou desemprego, 1890 14.333915
fez com que houvesse uma perda sistemática do valor real do salário e elevou os 1900 17.438434
índices de inflação (queda do crescimento do PIB e da atividade econômica). Em 1920 30.635605
sua maioria, os que deixavam o país eram descendentes de japoneses (cerca de 1940 41.236315
150.000, com o objetivo de juntar dinheiro no Japão e retornar com o seu próprio 1950 51.944397
negócio). Nas décadas de 1980 e 1990, estima-se que cerca de 330.000 bra- 1960 70.119071
sileiros buscaram nos EUA (Miami, Nova York e Boston) uma nova oportunidade 1970 93.139037
de vida, cuja expectativa maior é conseguir maiores salários e guardar dinheiro 1980 119.070865
para investimentos. 1991 146.155000
Cabe destacar, ainda, aqueles brasileiros que emigraram para o Paraguai 2010 190.732.694
(“brasiguaios”) compreendendo sem-terra ou agricultores de posse atraídos por Tabela 2.1: Evolução da População Brasileira. Fonte: IBGE, Anuário Estatístico, 2010 (dados
terras mais baratas para cultivo, sendo que muitos deles voltaram ao Brasil mais preliminares de 1991)
tarde; para o Uruguai, motivados pelos preços das terras mais baixos e pela
implantação do Mercosul e para a Bolívia, fazendeiros de soja à procura de solos O período de 1940 – 1960 é considerado pelos autores como aquele em
férteis e motivados pela doação de terras por parte do governo. que a população brasileira sofreu uma certa aceleração demográfica ou mesmo
Cerca de 600.000 brasileiros deixaram o país no decorrer das décadas de explosão demográfica, acompanhando o fenômeno que ocorreu em todo o mundo,
1980 e 1990, dentre eles cientistas, pesquisadores e professores que emigraram principalmente nos “países subdesenvolvidos”. A explicação para tal deve-se à
devido às precárias condições de trabalho e, hoje, o Brasil se tornou um país onde persistência de elevadas taxas de natalidade e à redução de taxas de mortalidade,
o fluxo migratório é negativo, ou seja, o total de emigrantes é maior que o número relacionadas, principalmente, à revolução da tecnologia bioquímica (progresso
de pessoas que ingressam no país. Muitos brasileiros têm se transferido para os da medicina no campo da terapêutica, com a descoberta dos antibióticos e de
Estados Unidos, Japão e Europa, sempre em busca de melhor qualidade de vida, quimioterápicos e pela melhoria das condições sanitárias).
lembrando que os salários médios do Brasil estão entre os mais baixos do mundo. Neste período, a taxa de fecundidade (relação entre o número de crianças
com menos de 5 anos de idade e o número de mulheres em idade reprodutiva –
O crescimento natural da 15 e 49 anos) situava-se em torno de 6,0, ou seja, elevada se comparada ao dos
população brasileira países desenvolvidos que era em torno de 2,5. Os casamentos ou uniões livres em
idade precoce também contribuíram para o crescimento populacional (os métodos
Vamos relembrar como a população brasileira se comportou em relação ao contraceptivos ainda não se encontravam tão disseminados e a população em
seu crescimento natural. Vocês se lembram da definição de crescimento vegetativo geral não tinha acesso a eles).
ou natural? Pois é, o crescimento natural ou vegetativo corresponde à diferença Existe, portanto, uma relação estreita entre “desenvolvimento econômico e
entre as taxas de natalidade e de mortalidade. Para calcularmos essas taxas é taxa de fecundidade e de natalidade”. Os países “desenvolvidos” apresentam
essencial que os números (absoluto e relativo da população – nascimento e baixa taxa de fecundidade e de natalidade, acrescidos do alto nível educacional e
morte) estejam disponíveis e, para tal, que o recenseamento tenha sido realizado. da presença da mulher no mercado de trabalho. Já nos países “subdesenvolvidos”
Para o crescimento vegetativo aumentar, é necessário que a taxa de ocorre o inverso.
mortalidade seja menor que a de natalidade e, para o crescimento vegetativo Mas foi a partir da década de 1960 que ocorreu uma desaceleração
diminuir, é necessário que a queda da natalidade seja mais acentuada que a de demográfica e iniciou-se uma transição demográfica. O Brasil registrou uma
mortalidade. diminuição significativa da taxa de crescimento vegetativo, quando a urbanização
Pois bem, no Brasil, somente a partir do ano de 1889 é que o Estado acelerada fez com que a taxa de natalidade passasse a cair de forma mais
implantou o registro civil obrigatório, até então sob o controle da Igreja (época acentuada que a taxa de mortalidade. Entre as décadas de 1960 e 1970, a
em que houve a consolidação da República e a separação entre o Estado e a taxa era de 2,76%, entre 1970 e 1980 de 2,48% e entre 1980 e 1991 de
Capítulo 2 :: 23

1,89%, estando esse decréscimo, segundo a maioria dos autores, relacionado


com a redução da taxa de fecundidade da população brasileira. Paralelamente, Cabe lembrar que a política demográfica brasileira passou de
houve uma redução da taxa de mortalidade infantil devido aos melhores acessos natalista a antinatalista. Até os anos de 1970 era totalmente
aos centros de puericultura (especialidade que acompanha o desenvolvimento da populacionista ou natalista. Nessa época, a ênfase dada era
criança) nas cidades. no sentido de povoar o território, alegando a necessidade de
Convencionou-se, então, definir o processo de transição demográfica por segurança nacional e o aproveitamento dos recursos naturais. Em
meio de etapas de comportamento demográfico. Acompanhe na tabela 2.2. meados dessa década, adotou-se uma política neomalthusiana que
procurava justificar a pobreza, a miséria e o atraso econômico
Fases Taxas Características dos países ditos subdesenvolvidos, como sendo o resultado da
Pré-transicional Mortalidade alta Até 1940 as condições elevada natalidade e não da distribuição socialmente desigual
Natalidade alta sanitárias eram péssimas de renda. Um bom exemplo dessa política é a ação da BEMFAM
= Crescimento ocasionando epidemias de peste (Sociedade Brasileira do Bem-Estar da Família), instituição que já
Vegetativo regular bubônica, febre amarela, varíola vinha operando no Brasil, subsidiada por fundações estrangeiras
e cólera. Falta de acesso à água (Ford, Rockfeler e Banco Mundial) e que passou a atuar mais
potável. Famílias numerosas intensamente , instituindo assim uma política antinatalista.
onde os filhos também eram
mão de obra mantinham a
natalidade alta. Segundo o IBGE, no século XX o Brasil entrou, no estágio de transição
demográfica avançada, quando a taxa de natalidade é inferior a 20% e a de
Primeira fase da Mortalidade baixa Avanços na medicina e nas
fecundidade deverá declinar ainda mais (tabela 2.3).
transição Natalidade alta condições sanitárias diminuem a
= Crescimento mortalidade, principalmente nas
Taxa de fecundidade (nº de filhos por mulher)
Vegetativo alto cidades. Entre 1940 e 1960,
Regiões 1980 1991 2000 2006
a natalidade se manteve alta
Brasil 4,4 2,9 2,4 2,0
provocando um “boom” no
Norte 6,5 4,2 3,2 2,5
crescimento demográfico.
Nordeste 6,1 3,8 2,7 2,2
Segunda fase da Mortalidade baixa A natalidade começa a diminuir, Sudeste 3,5 2,4 2,1 1,8
transição Natalidade diminui pois a partir da década de Sul 3,6 2,5 2,2 1,9
= Crescimento 1960 a população começa a Centro-Oeste 4,5 2,7 2,3 2,0
Vegetativo diminui se concentrar em cidades, onde
Tabela 2.3: As Regiões Brasileiras segundo as taxas de fecundidade (1980 – 2006). Fonte:
criar os filhos (alimentação e IBGE, Indicadores Sociodemográficos e de Saúde no Brasil, 2009.
educação) se torna caro. Mulher
entra no mercado de trabalho Embora a população brasileira tenha reduzido o número de filhos, de acordo
e opta por usar métodos com o IBGE, as médias de filhos variam com o grau de escolaridade da mulher. A
anticonceptivos. análise dos dados da tabela 2.4 nos revela que o Brasil não apresenta um único
Transição em Mortalidade baixa Em poucos anos a taxa de perfil de família. A redução do número de filhos se dá nas camadas com maior
conclusão Natalidade baixa natalidade brasileira se reduziu escolaridade, enquanto nas camadas mais populares o número de filhos ainda é
= Crescimento intensamente, apesar de não significativo, comprovando as ideias da teoria reformista (veja quadro no final deste
Vegetativo baixo implantar políticas antinatilistas capítulo). Assim, o país apresenta índices populacionais de países centrais como
agressivas, como China e França, Suécia, Alemanha e de países periféricos como Angola, Paquistão ou Nigéria.
Índia. A taxa de fecundidade
em 1970 era de 5,8 filhos por Fecundidade da Mulher segundo seu Grau de Escolaridade
mulher e, em 2006, reduziu Anos de Estudo Até 3 anos De 4 a 7 anos 8 anos ou mais
para 2 filhos. Média Brasil 4,0 filhos 3,1 filhos 1,5 filhos
Tabela 2.2: Características da transição demográfica no Brasil. Tabela 2.4: Taxa de fecundidade da mulher brasileira de acordo com o grau de escolaridade.
Fonte:IBGE
24 :: Geografia :: Módulo 2

Contudo, a queda no crescimento da população brasileira observada nos a demanda populacional; qual é o investimento necessário que deve ser feito para
últimos trinta anos não interferiu no desempenho da economia, principalmente em atender às demandas de infraestrutura sanitária, dentre outras questões.
relação ao desenvolvimento e à distribuição de renda. É o que veremos a seguir. A composição por idades e por sexo de uma população pode ser melhor
compreendida por meio de gráficos que relacionem a quantidade de habitantes
A estrutura da população: de um dado país, estado, região ou município, segundo a sua constituição por
faixas etárias e distribuição idade e por sexo.
de renda Essa representação gráfica é o que denominamos de pirâmide etária, que pode
ser interpretada a partir de suas três partes: a base (porção inferior) que representa
Vocês devem estar acostumados a estudar os componentes da população a população jovem (0-14 anos ou 19 anos); o corpo (porção intermediária) que
por idade e por sexos sem, contudo, dar maior importância para os dados e as representa a população adulta (de 15 a 59 anos ou de 20 a 59 anos) e o topo
representações na forma de pirâmides. (porção superior) que representa a população idosa (60 anos ou mais).
Segundo Melhem Adas “o total absoluto da população de um país, região Observe a figura 2.2 que se segue: ela mostra as pirâmides etárias do Brasil
ou um município não tem grande significado se não estiver relacionado a outros nos anos de 1980 a 2010, segundo os dados de recenseamentos e estimativas
dados populacionais e estes, por sua vez, a dados de economia, saúde, educação, do IBGE. Vamos acompanhar o comportamento da população brasileira, segundo
habitação, transportes, produção agrícola, dentre outros”. Destacam-se, contudo, o perfil que cada pirâmide apresenta, e tentar compreender o significado das
os dados sobre a composição da população por idades e sexos. mudanças mostradas por elas. Essas mudanças são resultado de alterações na
Sua relevância constitui-se na possibilidade de interpretação da situação de dinâmica demográfica brasileira nos últimos vinte anos (conforme visto nesse
uma dada população em relação ao planejamento socioeconômico, podendo, dessa capítulo), onde destacam-se: o declínio das taxas de natalidade, fecundidade e
maneira, compreender: quantos empregos podem ser criados anualmente para mortalidade geral, o aumento da população idosa no conjunto da população e a
absorver o contingente populacional que entra todos os anos no mercado de trabalho; tendência para o ano de 2010 do Brasil atingir um perfil de “país desenvolvido”,
quantas vagas escolares ou quantos leitos hospitalares são necessários para atender que é aquele país no estágio de transição demográfica concluída.

Figura 2.2: Pirâmides Etárias do Brasil – anos de 1980, 1991, 2000, 2010 (recenseamento e projeção do IBGE).
Capítulo 2 :: 25

Atividade 1 (PEA) segundo as atividades econômicas, que acaba fornecendo elementos ou um


quadro de referência para a avaliação da economia. Entende-se por PEA as pessoas
Seguindo o modelo de interpretação da pirâmide 1, faça o mesmo para as
que trabalham em atividades remuneradas e podem estar ocupadas (que têm
outras quatro pirâmides.
trabalho) ou não (sem trabalho, mas que procuram por trabalho).
Pirâmide 1 – ano de 1980:
Em 2001, segundo o IBGE, o Brasil tinha 81.175.749 pessoas economi-
• base larga e topo estreito;
camente ativas. Desse total, 90,3% estavam ocupadas e apenas 9,7% desocu-
• a população de mulheres supera um pouco a população de homens;
padas. As transformações de uma economia alteram a distribuição da população
• a população de idosos é pequena;
economicamente ativa pelos setores de produção. Dentre os fatores que alteraram
• características de país que possui taxas de natalidade, mortalidade,
a estrutura da população, segundo os setores de produção, podemos destacar a in-
fecundidade e expectativa de vida elevadas;
dustrialização, a urbanização e a modernização do setor primário e, pensando no
• características de país que apresenta elevado crescimento populacional;
Brasil, podemos incluir a estrutura fundiária injusta na contramão da democracia.
• perfil típico de comportamento demográfico de país “subdesenvolvido”;
A cada ano, no Brasil, precisa ser criado aproximadamente 1 milhão de
• perfil típico que apresenta estágio de transição demográfica inicial.
novos empregos para atender à necessidade. Em 2001, o setor primário absorveu
20,6% da mão de obra, o setor secundário 22,9% e o setor terciário 56,5% do
Pirâmide 2 – ano de 1990:
total da população economicamente ativa. Observe o gráfico que se segue (figura
2.3) e analise o comportamento e a distribuição da população economicamente
ativa por setores de produção por ano, desde 1940.

Pirâmide 3 – ano de 2000: %


80
60
40
20
Pirâmide 4 – ano de 2010:
0 Anos
1940 1950 1960 1970 1980 1990 2001
Primário Secundário Terciário

Conforme pudemos acompanhar, no Brasil, a pirâmide de idades vem


apresentando uma significativa redução de volume na base, onde estão os jovens, Figura 2.3: Distribuição percentual (%) da População Economicamente Ativa (PEA) por setores da
economia no Brasil. Fonte: IBGE.
e um aumento da participação percentual de pessoas adultas e idosas. Apresenta
ainda a mesma dinâmica global em relação à distribuição da população por sexo,
onde nascem cerca de 106 homens para cada 100 mulheres, sendo a taxa de A partir do gráfico, podemos notar principalmente:
mortalidade masculina maior e a expectativa de vida menor. Dessa maneira, • o declínio do setor primário (70,2% em 1940; 20,6% em 2001): o
embora nasçam mais homens que mulheres, é comum as pirâmides apresentarem Brasil deixa de ser predominantemente um país de economia rural, além da
uma quantidade ligeiramente superior de população feminina, já que as mulheres concentração fundiária, houve mecanização das atividades agrícolas;
vivem mais. • uma queda do setor secundário (25% em 1980; 22,9% em 2001): pode
O envelhecimento da população brasileira, evidenciado pelo aumento ser explicada pela crise no setor, pela racionalização no trabalho (automação),
do volume nas faixas etárias mais elevadas (acima de 60 anos), provoca um levando à dispensa de mão de obra, e pelo aumento da importação de produtos
grande desequilíbrio nas contas da previdência social. Ao longo da vida produtiva industrializados de outros países.
(formal), um trabalhador contribui para a previdência social na perspectiva de O elevado percentual de participação do setor terciário (serviços, comércio
receber um salário após se aposentar. No entanto, o tempo de contribuição tem e administração pública) na população economicamente ativa está relacionado
sido menor que o tempo de vida deste trabalhador (aposentado). Além disso, há a vários fatores:
pessoas que não contribuíram realmente para a previdência mas recebem pensão • uma parte das atividades deste setor não exige grande qualificação
e outros benefícios (pensão a viúvas, aposentadoria por invalidez, auxílio doença, (porteiro, faxineiro, pedreiro etc.), facilitando a absorção da população rural (que
auxílio desemprego etc.). Esta situação vem causando um grande déficit nas saiu do setor primário) e das pessoas com baixa escolaridade;
contas previdenciárias, obrigando o governo a desviar verba de outras atividades. • este setor absorveu mão de obra que veio do setor secundário, já que as
Agora vamos passar aos estudos relacionados à distribuição de renda, ou atividades industriais foram, aos poucos, sendo automatizadas;
seja, as atividades econômicas ou setores econômicos. Vocês se lembram quais • crescimento da economia informal, onde os trabalhadores não têm carteira
são os setores de produção de um país? São os setores primário, secundário e assinada e há várias atividades não legalizadas, como por exemplo transporte
terciário. É possível estudar a distribuição da população economicamente ativa alternativo (em vans), comércio ambulante (camelôs), flanelinhas etc.
26 :: Geoografia :: Módulo 2

A economia informal que se instalou no Brasil está intimamente interligada RENDA MÉDIA MENSAL (em R$) – ANO BASE 2005
à economia formal, pois os negócios informais fornecem produtos e serviços Brasil e 40% mais pobres 10% mais ricos
(a baixos preços) para as empresas legalizadas. Por outro lado, quando um regiões Total Homem Mulher Total Homem Mulher
trabalhador informal tem sua renda, pode se utilizar de serviços (hospitais, escolas Brasil 226 255 196 3.579 4.067 2.769
etc.) e comércio (fazer crediário em grandes lojas etc.) formais. Norte* 230 256 196 2.627 2.875 2.166
O grande crescimento da economia informal no Brasil também está Nordeste 129 148 101 2.299 2.510 1.933
relacionado ao desemprego, que pode ser conjuntural ou estrutural. O primeiro Sudeste 285 336 235 4.060 4.687 3.077
caso (desemprego conjuntural) está relacionado a recessão econômica e a Sul 289 335 243 3.734 4.349 2.682
situações específicas, como a abertura da economia às importações a partir da Centro-
década de 1990, isenções fiscais que atraem indústrias e negócios de uma região 268 311 224 4.302 4.846 3.440
Oeste
para outra etc. Nestes momentos, algumas indústrias e/ou empresas podem
Tabela 2.6: Diferença da renda média mensal (em R$) entre as regiões brasileiras, entre os 40%
ir à falência ou serem obrigadas a reduzir o quadro de empregados, podendo, da população brasileira mais pobres e os 10% mais ricos e entre homem e mulher. Fonte: IBGE,
posteriormente, reequilibrar as finanças e readmitir os funcionários, sem que os Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD), 2005. * Não inclui a população rural dos
estados do Norte.
postos de trabalho tenham se extinguido.
No caso do desemprego estrutural, o avanço tecnológico em várias atividades,
principalmente relacionado à informatização e automação, diminui ou extingue
alguns postos de trabalho. Os exemplos clássicos desta situação são o uso de Atividade 2
braços mecânicos em indústrias e a informatização (caixas eletrônicos) do setor
Com base nos dados apresentados na tabela 2.6, analise as diferenças de
bancário. Mas ao mesmo tempo em que ocorre a extinção de alguns postos de
salário entre as regiões brasileiras.
trabalho, outros são criados. No entanto, os novos postos geralmente exigem
maior qualificação profissional e nível de instrução, o que o Estado brasileiro não
tem conseguido fornecer por meio da educação. Assim, um trabalhador demitido
de um banco, que poderia se inserir no mercado formal aprendendo a lidar com
computadores e programas, ao não conseguir esta qualificação por meio de A distribuição e a mobilidade
cursos, acaba procurando emprego no setor informal da economia. espacial da população
Os dados estatísticos mostram que a participação dos pobres na renda
Quais são os fatores que comandam a distribuição espacial de uma popula-
nacional diminuiu e a dos ricos aumentou. Essa dinâmica pode ser explicada pelo
ção? Lembrando que ao lado dos fatores naturais, os fatores de ordem histórica
processo inflacionário de preços que não é repassado aos salários, e também
também pesam consideravelmente na distribuição da população pelo espaço
por um sistema tributário em que a carga de impostos indiretos (ICMS, IPI, ISS,
geográfico, vamos pensar na ocupação do território brasileiro em seus primórdios.
dentre outros) chega a 50% da arrecadação e não distingue as faixas de renda.
A história das imigrações para o Brasil, os movimentos migratórios internos e
Os impostos diretos (renda, IPTU, IPVA), que possuem alíquotas progressivas e
ainda a marcha do povoamento do território brasileiro podem ser bons exemplos
são diferenciados segundo a renda, ou são sonegados ou incluídos no preço de
de como os fatores históricos também podem influenciar na ocupação e na
mercadorias, tornando-se indiretos para os consumidores de modo geral.
produção do espaço geográfico.
Em 2001, apenas 42% dos trabalhadores eram do sexo feminino (enquanto
A distribuição espacial da população nos dias atuais obedece à mesma dinâmica
que nos países desenvolvidos é de 50%; ver tabela 2.5). A inserção da mulher
da formação de áreas de atração e de repulsão da população, característica do
brasileira no mercado de trabalho está ligada à perda de poder aquisitivo dos
povoamento do território brasileiro. O recurso que se utiliza na avaliação da
salários, fazendo com que ela trabalhe para complementar a renda familiar.
distribuição da população pelo espaço geográfico é denominado de densidade
demográfica. A densidade demográfica, também conhecida como população relativa
Participação (%) feminina e masculina na PEA
(Pr), é a relação entre a população absoluta (Pa) e a área territorial ou a superfície
Ano
1940 1950 1960 1970 1980 1990 1995 2001 por ela ocupada (S). Desse modo, temos: Pr = Pa/S.
Sexo
No Brasil, em 2000, a densidade demográfica era de 19,94 habitantes por
Fem. 19 14,5 18 21 27 35,5 40,4 41,8
quilômetro quadrado, ou seja, Pr = 19,94 hab/km². Mas qual é o significado
Masc. 81 85,5 82 79 73 64,5 59,6 58,2
desse número? Comparando-se a outros países, pode-se dizer que é um país de
Tabela 2.5: Percentual (%) de participação feminina e masculina na PEA (anos de 1940 – 2001), baixa densidade demográfica, ou ainda, pouco povoado (apesar de populoso, não
segundo o IBGE (Anuário Estatístico do Brasil)
é mesmo?). Observe a tabela que se segue (tabela 2.7) e compare a densidade
Alguns autores comentam que tal situação faz com que os empresários prefi-
demográfica dos países com a classificação de mais populoso.
ram, para suas diversas atividades, a mão de obra feminina que, por necessidade
de trabalho, acaba se sujeitando a salários menores àqueles pagos pelos homens
numa mesma função (tabela 2.6).
Capítulo 2 :: 27

Densidade Países mais Quanto às migrações pelo território brasileiro, assim como qualquer
País
demográfica populosos movimento populacional, ocorrem por motivos que forçam a população a se
Nigéria 428,4 10º deslocar pelo espaço de forma permanente ou temporária. Nessa mobilidade
Japão 349,3 9º espacial da população brasileira, destacamos as migrações internas que se
Bangladesh 1078,4 8º dividem em:
Paquistão 188,1 7º • migrações inter-regionais: movimentos das pessoas entre as regiões;
Fed. Russa 8,6 6º • migrações intrarregionais: movimentos das pessoas dentro de uma mes-
Brasil 19,94 5º ma região;
Indonésia 118,6 4º • transumância: movimentos pendulares ou temporários, relacionados às es-
EUA 31,1 3º tações do ano ou às atividades econômicas (migração temporária do campo para
Índia 344,8 2º a cidade; migração dos indígenas já aculturados para as cidades; deslocamento
China 137,8 1º dos filhos de pequenos proprietários para servirem como peões; deslocamento de
Tabela 2.7: Densidade demográfica dos dez países mais populosos do mundo (2000) (IBGE) trabalhadores rurais e urbanos para se empregarem em usinas hidrelétricas; deslo-
camento de trabalhadores de entressafra para áreas de garimpo e os movimentos
O Brasil possui uma distribuição espacial desigual da população, resultado, realizados diariamente por milhares de trabalhadores urbanos que se deslocam
sobretudo, de fatores histórico-econômicos. A concentração e a dispersão para sua moradia).
populacional brasileira acompanharam, em certa medida, a própria evolução do Ao longo da história, verificamos que esses movimentos migratórios estão
capitalismo. Procure consultar um Atlas Geográfico para acompanhar melhor o associados, desde o período colonial, a fatores econômicos. A transumância, por
desenvolvimento desse tema (identifique o Mapa de Densidade Demográfica). exemplo, é observada em vários lugares do país: no Nordeste, onde ocorre entre o
Consultando o mapa, observe que a maior concentração populacional é na Sertão e o Agreste e a Zona da Mata; em São Paulo, quando trabalhadores rurais
porção leste do território, ou seja, no litoral do Brasil ou em suas proximidades, se deslocam para o Paraná a fim de colher o algodão e depois retornam para a
onde também estão localizadas as metrópoles brasileiras (com exceção de Belo colheita da cana-de-açúcar; os trabalhadores rurais da Bahia, Minas Gerais, Piauí e
Horizonte, no interior do estado de Minas Gerais). Maranhão que se deslocam para São Paulo na época do corte da cana-de-açúcar;
A maior concentração populacional localiza-se nas regiões Sudeste e Nordeste dentre outros.
do país. As maiores densidades demográficas localizam-se nas áreas metropolita- O êxodo rural, também denominado migração campo-cidade, é o mais
nas (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Fortaleza), nos municípios que importante movimento populacional interno do país, tendo como marco a
correspondem às capitais (Natal, João Pessoa, Maceió, Aracaju e Vitória) e na segunda metade do século XX (1950). Foi a partir do declínio da população
zona cacaueira do sul da Bahia (municípios de Ilhéus, Itabuna e Ipiaú), com índi- rural, em 1940, que o percentual da população urbana começou a aumentar,
ces superiores a 100 hab/km² e as imediações dos municípios citados, alcançam ultrapassando a rural nos anos de 1970. Em 2001, no conjunto das Grandes
entre 25,01 e 100 hab/km2. Dos estados brasileiros, é o estado de São Paulo Regiões, o destaque foi para a região Sudeste por possuir o maior percentual de
aquele que apresenta a maior área contínua de densidade demográfica acima população em área urbana (93,1% contra 6,9% em áreas rurais), seguida das
de 100 hab/km², representada por importantes eixos rodoviários como as Vias regiões Centro-Oeste e Sul. Atualmente, as regiões Norte e Nordeste são as que
Anhanguera, Washington Luís, Castelo Branco e Raposo Tavares. possuem o maior percentual de população vivendo em áreas rurais.
Dirigindo-se para o interior do país, as densidades demográficas declinam Essas migrações, que ocorreram no país a partir do ano de 1940, podem ser
para os intervalos de 10 a menos de 25 hab/km², 1 a menos de 10hab/km² assim resumidas:
e menos de 1hab/km², com algumas exceções como as áreas de entorno das • 1940 a 1950: deslocamentos para a região Centro-Oeste e para o Norte
capitais e as próprias capitais. As áreas com o menor índice estão nas áreas do Paraná, tendo como atrativo a busca de terras para agricultura (do Sudeste e
cobertas pela Floresta Amazônica e por trechos do Cerrado. Verifique a evolução Nordeste);
das densidades demográficas na tabela que se segue (tabela 2.8). • 1950 a 1960: grande fluxo migratório para o Sudeste, tendo a indústria
como principal atrativo, e para outros locais com atrativos diversos (Maranhão:
Densidades demográficas (hab/km2)
babaçu; Mato Grosso: garimpo; Rondônia: mineração; Paraná: café; Goiás:
Regiões 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000
construção de Brasília);
Norte 0,41 0,52 0,72 1,01 1,65 2,59 3,35
• 1960 a 1970: continuidade da marcha para o Centro-Oeste e expansão
Centro-Oeste 0,67 0,92 1,57 2,7 4,01 5,85 7,24
para a Amazônia, tendo como principal atrativo os projetos agropecuários com
Nordeste 9,36 11,65 14,38 18,23 22,57 27,22 30,72
incentivos fiscais pelo governo;
Sul 10,2 13,95 20,95 29,35 33,86 38,34 43,57
• 1970 a 1990: os movimentos em direção à Amazônia, no contexto da
Sudeste 19,97 25,54 33,34 43,38 56,31 67,66 78,32
ideologia dos governos militares em promover a ocupação (construção de rodovias);
Brasil 4,88 6,14 8,29 11,01 14,07 17,18 19,94
• 1970 a 1991: migrações realizadas para Rondônia por meio do Programa
Tabela 2.8: As densidades demográficas (hab/km2) no Brasil por regiões. Fonte: IBGE, Anuário
Estatístico, 2001. Integrado de Colonização, do Projeto de Assentamento e do Planoroeste;
28 :: Geoografia :: Módulo 2

• 1970 a 1991: migrações realizadas para Roraima atraídas principalmente Exercícios de vestibular
pela garimpagem;
• década de 1990: mesmas tendências observadas na década de 1980 1) (CEDERJ / 2001) Nos últimos quinze anos, registra-se uma significativa
(queda do movimento migratório interno em direção à região Sudeste; diminuição emigração de brasileiros para o Paraguai e para a Bolívia. No Paraguai, por
exemplo, já há cerca de 300 mil imigrantes brasileiros legalizados.
do crescimento populacional do município de São Paulo; permanência do vetor
Pode-se afirmar que esse fluxo migratório:
em direção à Amazônia; crescimento dos municípios de médio e pequeno portes). (A) é produto do deslocamento, para o Cone Sul, de empresas brasileiras dos
As indicações são, portanto, no sentido de uma redistribuição geográfica, setores industriais e de serviços;
quando as grandes cidades deverão sofrer uma desconcentração populacional, (B) faz parte de um movimento sazonal vinculado às oportunidades da expansão
e as pequenas e médias deverão crescer. As indústrias já estão se estabelecendo do comércio varejista;
em cidades de pequeno e médio portes, fazendo com que o fluxo interno (C) resulta da livre circulação da força de trabalho e capitais entre os países-
membros do Mercosul;
sofra alterações. Atreladas a essas novas possibilidades de emprego, estão as
(D) está relacionado às melhores condições de apropriação de terras e à expansão
oportunidades nos negócios, a oferta de centros médicos e hospitalares, as da produção de soja e trigo;
faculdades e universidades, o custo de vida mais baixo e a perspectiva de uma (E) foi determinado pela estratégia geopolítica brasileira de ocupação de áreas
melhor qualidade de vida. devolutas da fronteira oeste.

2) (UFRJ / 2006) Observe as pirâmides etárias da população urbana e rural do


Os fluxos migratórios brasileiros podem influenciar na
Estado da Bahia nos anos de 1980 e 2000.
distribuição de homens e mulheres nas regiões brasileiras. As
regiões Norte e Centro-Oeste apresentam um número de homens 1980 2
maior que o Nordeste, onde predominam mulheres. Tal fato se 70 e mais 70 e mais
Grupo de idade

Grupo de idade
deve às migrações direcionadas às regiões Norte e Centro-Oeste, 60 - 69 Urbana Rural 60 - 69
que datam desde final do século XIX com atividades ligadas aos
50 - 59 50 - 59
seringais e se intensificam a partir da década de 60 com as políticas
40 - 49 40 - 49
de colonização dessas regiões. Os homens deixam suas famílias
30 - 39 30 - 39
no Nordeste e migram para essas regiões em busca de trabalho,
20 - 29 20 - 29
porém muitas vezes não retornam aos seus lares. Um dos principais
10 - 19 10 - 19
motivos são as dificuldades de juntar dinheiro para o retorno, já
0-9 0-9
que as relações de trabalho nestes lugares são extremamente
precárias, ocorrendo casos de escravidão por dívida. 2.000 1.600 1.200 800 400 0 400 800 1.200 1.600 2.00
População (em 1.000)

Fonte: Bárbara-Christine Silva et.al. In Atlas Escolar da Bahia, 2004.

a) Identifique uma tendência demográfica quanto à distribuição espacial da


Exercício de Fixação população.
1) Explique a influência da estrutura fundiária brasileira nas migrações sulistas
ocorridas no final da década de 70.
b) Indique o que ocorreu, em termos absolutos e relativos, com a estrutura etária
da população baiana.

3) (UFF/2000)

Texto 1 :: Os DEKASSEGUI

A palavra dekassegui surgiu para designar, no passado, a população


de japoneses do norte que migraram para o sul do arquipélago, em busca
de trabalho durante o período de inverno. Composto dos ideogramas
japoneses “sair” e “ganhar dinheiro”, o termo tornou-se sinônimo do
migrante que alimentava o desejo de voltar à terra de origem.
Capítulo 2 :: 29

Texto 2 :: Os Dekassegui brasileiros 6) (UERJ / 2007)

Diferentemente do uso da expressão no passado, o termo dekassegui


vem sendo utilizado para designar os brasileiros que têm migrado, na
atualidade, para o Japão, em busca de empregos oferecidos por anúncios
publicados nos principais jornais de São Paulo.
Norte
I. O tipo de migração a que o texto 1 se refere é denominado transumância,
Nordeste
que se caracteriza por:
Centro-Oeste
(a) Migração da população de um país com economia agrícola para um com
economia industrial.
(b) Migração periódica da população que se desloca de acordo com as estações
do ano em busca de melhores condições de vida e trabalho. 100.610 a 128.171 MG
(c) Migração de áreas rurais para as cidades na perspectiva de empregos com 177.050 a 186.580
melhores salários. ES
193.890 a 215.530
(d) Fuga da população de um país devido a perseguições religiosas e políticas. SP RJ
286.345

II. Das opções a seguir, quais NÃO explicam as principais características e 390.000 a 403.510

condições de migração dos brasileiros para o Japão na década de 90 deste século. 456.546 Sul
(a) Busca de melhores condições de emprego e salário.
(b) Migração seletiva em função da descendência étnica.
(c) Migração subordinada à permissão do governo brasileiro. Observe, no mapa acima, o fluxo migratório de ida e volta entre o Nordeste e o
(d) Mão de obra destinada às atividades industriais, sobretudo no setor de Estado de São Paulo.
autopeças, de eletrônica e alimentar. Identifique e explique a sua característica principal.

4) (UERJ / 2004) Analise os dados a seguir.

A evolução das matrículas no país 7) (UERJ / 2003) Analise os textos a seguir.


Ensino Médio Ensino Fundamental
Ano 2002 Ano 2003 Ano 2002 Ano 2003 Brasil perde jovens para mercado externo
8.710.584 9.132.698 35.150.362 34.719.506 O mercado de trabalho brasileiro está perdendo grande fatia de jovens
+4,8% -1,2% com boa escolaridade e que poderiam se tornar profissionais qualificados.
São pessoas de 15 a 24 anos que estão deixando o País em busca de
O Globo, 02/09/2003
novas oportunidades e experiências profissionais. Na década de 1990,
As variações no número de matrículas escolares no Brasil podem ser explicadas cerca de 1,3 milhão de jovens cruzaram as fronteiras brasileiras em busca
pelas seguintes mudanças demográficas: de chances de melhorar o rendimento. Talvez, nunca mais voltem. (...)
(A) sobre mortalidade feminina e redução da taxa de mortalidade.
(B) elevação da expectativa de vida e redução da taxa de natalidade. Adaptado de O Estado de Minas, 07/05/2002
(C) ampliação da taxa de fecundidade e redução da mortalidade infantil.
(D) aumento da emigração e manutenção da taxa de crescimento vegetativo. Um de cada cinco argentinos pensa em ir-se do país
Uma pesquisa revela que na capital e Grande Buenos Aires 22% das
5) (UERJ / 2004) A eliminação do trabalho infantil é um dos principais desafios pessoas pensam em emigrar. A maior parte quer ir para a Espanha e os EUA.
para os países em desenvolvimento, pois tem impacto direto sobre os seguintes (...) Os mais propensos são os menores de 35 anos, os desempregados e
indicadores sociais:
as pessoas com bom nível de instrução.
(A) redução do índice de analfabetismo e retração da mortalidade infantil.
(B) aumento da taxa de escolaridade e redução do crescimento populacional. Adaptado do jornal argentino Página 12, 17/05/2002
(C) aumento da taxa de crescimento populacional e elevação da renda per capita.
A alternativa que contém a melhor explicação para esse processo de emigração é:
(D) elevação do índice de desenvolvimento humano e aumento da taxa de
(A) fracasso das políticas agrária e industrial para as classes camponesas
fecundidade.
(B) ausência de metas econômicas e educacionais para os setores populares
(C) indefinição da identidade cultural e política dos segmentos da alta burguesia
(D) frustração das expectativas de emprego e de ascensão social das camadas
médias urbanas
30 :: Geoografia :: Módulo 2

8) (UERJ / 2003) Se em números absolutos a população sempre cresceu, a taxa média


de crescimento anual vem apresentando significativa diminuição. Assim,
Canção do exílio
segundo o censo de 1960 (que revelou as tendências demográficas da
Minha terra tem palmeiras,
década anterior), o ritmo de crescimento da população brasileira naquela
Onde canta o Sabiá;
data era ligeiramente superior a 3,0%. O censo de 2000 revelou que
As aves, que aqui gorjeiam,
esta taxa caiu para quase a metade (1,6%). A principal explicação para
Não gorjeiam como lá.
esta queda tem sido a redução do ritmo do crescimento vegetativo,
Nosso céu tem mais estrelas,
causado principalmente pela expressiva queda das taxas de natalidade.
Nossas várzeas têm mais flores,
Grande parte dessa situação é decorrência do intenso e rápido processo de
Nossos bosques têm mais vida,
urbanização pelo qual o país vem passando.
Nossa vida mais amores. (...)
Quando analisamos o crescimento populacional sob a ótica das regiões
(Gonçalves Dias, 1847) político-administrativas que compõem o país, podemos constatar uma
série de fatos. Primeiramente, a população absoluta de todas as regiões
Marginália 2 apresentou um expressivo crescimento, embora o ritmo desse incremento
(...) tenha sido bastante diferenciado. Por exemplo, as regiões Norte e Centro-
Minha terra tem palmeiras Oeste tiveram no período, um ritmo de crescimento sempre superior à
Onde sopra o vento forte média brasileira, enquanto a Região Nordeste sempre foi aquela área do
Da fome, do medo e muito Brasil que apresentou os menores índices de incremento populacional. Essa
Principalmente da morte variação nos ritmos de crescimento é explicada fundamentalmente por dois
(...) aspectos: as diferenças na intensidade do crescimento vegetativo de cada
Aqui é o fim do mundo região e as migrações internas.
Aqui é o fim do mundo Neste ponto, vale a pena chamar a atenção para outros dois aspectos
Aqui é o fim do mundo da evolução demográfica das regiões. O primeiro deles é que, embora
Torquato Neto e Gilberto Gil, 1967 o crescimento vegetativo venha apresentando uma queda de ritmo em
todas as unidades regionais, este decréscimo tem se verificado de forma
Aqui temos duas maneiras distintas de imaginar “minha terra” – Brasil. Cada uma
dessas imagens expressa características da sociedade brasileira associadas aos diferente no tempo e no espaço. Assim, nas regiões consideradas mais
respectivos contextos históricos. desenvolvidas (Sul e Sudeste), a diminuição aconteceu antes que no Norte
Essas características são respectivamente: e Nordeste, as duas áreas tidas como as menos desenvolvidas do país.
(A) a ideia da nação como resultado da preservação ambiental – a ideologia Um segundo aspecto é que o comportamento das migrações internas
pessimista decorrente da globalização também mudou, especialmente no que diz respeito às origens e destinos
(B) o elogio da natureza como elemento de construção da nação brasileira – a
dos deslocamentos. Entre as décadas de 1950/70, os mais expressivos
instabilidade social decorrente do subdesenvolvimento
(C) o exílio político dos intelectuais como negação da nação – as desvantagens fluxos populacionais verificavam-se entre as regiões (especialmente do
ecológicas da nação decorrentes de suas condições naturais Nordeste para as outras unidades regionais) e tinham fundamentalmente
(D) a imaturidade dos intelectuais como resultado da dominação monárquica – a origem rural e destino urbano. Da década de 1980 em diante, os mais
miséria e a fome decorrentes do extrativismo econômico. expressivos deslocamentos internos da população passaram a ser mais
intrarregionais e ter origem urbana (pequenas e médias cidades) e destino
Complemente seus urbano (médias e grandes cidades).
conhecimentos Apesar de todas transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos
50 anos, praticamente não houve alteração no ranking das regiões mais e
menos populosas do país. Aquelas com maior população absoluta atual, isto é,
Evolução da população das regiões brasileiras nos últimos 50 anos
a Sudeste (72,3 milhões), a Nordeste (47,7 milhões) e a Sul (25,1 milhões)
Nelson Bacic Olic, Revista Pangea, 1/6/2001. mantiveram-se, como em 1960, nas primeiras colocações. A única modificação
Nos últimos 50 anos, a população brasileira teve seu efetivo mais que ocorreu na colocação das regiões Norte e Centro-Oeste que contam hoje,
duplicado (2,4 vezes), passando de pouco mais de 70 milhões em 1960, respectivamente, com 12,9 milhões e 11,6 milhões de habitantes.
para cerca de 170 milhões segundo os dados do censo 2000. Como Até o censo de 1980, o Centro-Oeste era mais populoso que o
pode se ver, ao longo da segunda metade do século XX, o contingente Norte, situação esta que se inverteu em 1991. A explicação para o fato é
populacional brasileiro foi acrescido de aproximadamente 100 milhões de principalmente de natureza político-administrativa: em 1988 foi criado o
pessoas, isto é, quase três vezes a população da Argentina.
Capítulo 2 :: 31

estado do Tocantins, desmembrado de Goiás, um estado do Centro-Oeste. Teorias


Período Ideia central Solução
O novo estado foi então incorporado à Região Norte que, com isso, passou Demográficas
a ter cerca de 900 mil pessoas a mais em seu efetivo populacional. Malthusiana Século XVIII *Afirma que a *Casamentos
população cresce tardios, controle
Uma evolução peculiar: o caso da Região Norte em progressão da natalidade
A Região Norte que possuía cerca de 2,5 milhões de pessoas em geométrica e os compulsória,
1960, teve seu efetivo aumentado cerca de 5 vezes, passando para quase alimentos, em *Aumento das
13 milhões em 2000. O ritmo de crescimento da população regional aritmética. Com horas de trabalho da
passou por dois momentos distintos. Entre as décadas de 1950 `e 1970, isso, a produção população.
o ritmo foi crescente; nas décadas posteriores, esse ritmo diminuiu. Mesmo de alimentos não
assim, desde os anos 70, a região tem sido aquela que apresenta os seria suficiente
maiores ritmos de crescimento dentre todas as unidades regionais do país. para alimentar as
O aumento do efetivo demográfico da maior e menos populosa região do pessoas.
Brasil é explicado por um conjunto de fatores onde se ressaltam as migrações
Neomalthusiana Meados do * Associava o *Planejamento
internas. A criação da Zona Franca de Manaus, a implantação de projetos
Século XX subdesenvolvimento familiar, controle da
agrominerais, pecuários e florestais, a construção de rodovias de integração e
dos países ao natalidade.
a descoberta de ouro, atraíram expressivos contingentes de pessoas de outras
crescimento
regiões, a maioria delas proveniente do Nordeste, Sul e Sudeste.
populacional,
De maneira geral, os migrantes nordestinos dirigiram-se especialmente
uma vez que o
para o Tocantins, as porções meridionais do Pará, o Amapá e Roraima.
governo teria
Muitos vieram atraídos pela descoberta de veios e garimpos de ouro.
gastos excessivos
Outros, em busca de terras, estabeleceram-se como posseiros em terras
em educação e
devolutas ou de latifúndios improdutivos. Alguns, ainda, se empregaram
saúde reduzindo os
em projetos minerais, florestais ou participaram da construção de estradas
investimentos nos
e usinas hidrelétricas.
setores produtivos.
Já os fluxos migratórios originários do Sul e do Sudeste foram
* Difusão do
atraídos pelos processos particulares de colonização. Implantados por
ecomalthusinismo
empresas privadas, estes projetos ofereciam terras a preços baixos,
especialmente em Rondônia. Assim, paranaenses, gaúchos, mineiros, *Investimento nos
dentre outros, estabeleceram-se como pequenos proprietários e, não *O crescimento
Últimas setores sociais, com
só foram responsáveis pelo surgimento de novas áreas de agricultura populacional é fruto
Reformista décadas do isso o planejamento
comercial modernizada, como também pelo aparecimento e crescimento das desigualdades
século XX familiar seria uma
explosivo de novas cidades. sociais.
opção das famílias.
Todavia, o fluxo de imigrantes para a Região Norte na década de
1990, embora ainda expressivo, diminuiu sensivelmente. A migração
originária do Sul e do Sudeste praticamente estancou. Rondônia, o
maior polo de recepção de migrantes na década de 70, foi substituído
por Roraima na década seguinte. Este último estado, por sua vez, foi
substituído pelo Amapá como o maior centro receptivo de migrantes na
ultima década do século XX.
Por fim, um outro aspecto que vale destacar é o grande desequilíbrio
demográfico existente entre os estados que compõem o Norte do país.
Assim, o Pará concentra atualmente quase metade (47,9%) da população
regional, seguido do Amazonas (21,7%). Portanto, apenas essas duas
unidades federativas, das sete que compõem a região, concentram
praticamente 70% de todo o efetivo da população regional.
Você se lembra!
3
Regiões brasileiras

:: Objetivos ::
• Apresentar as formas de regionalização do Brasil.
• Caracterizar aspectos ambientais e socioeconômicos dos complexos regionais.
34 :: Geografia :: Módulo 2

O Brasil é um país de grandes dimensões. O nosso território possui cerca de país, elaborar propostas de planejamento adequadas a cada região. Além disso,
8,5 milhões de km2, onde podemos perceber uma grande diversidade ambiental os estudos para estabelecer uma divisão regional do Brasil criavam a necessidade
(grande variedade de tipos climáticos, de vegetação e de formas de relevo). de aprofundar o conhecimento sobre o território nacional (seus recursos naturais,
Somando-se a essa diversidade de paisagens naturais, há enormes diferenças aspectos da população, atividades industriais etc.).
quanto às características sociais e econômicas. Dentro desse contexto, foram criados dois órgãos federais: o Conselho
Nacional de Estatística, criado em 1936, e o Conselho Nacional de Geografia,
Atividade 1 criado em 1937. Em 1938, tais órgãos foram unificados, constituindo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IBGE estabeleceu, a partir de 1942,
Você é capaz de identificar a que regiões brasileiras pertencem as fotos abaixo?
uma divisão regional do Brasil oficial, a ser adotada em todos os ministérios. As
características físicas do território brasileiro continuavam como o principal critério
de definição das macrorregiões, entretanto, o limite destas seguia a divisão
política dos estados e municípios. Deste modo, atendia-se a uma necessidade
prática de divulgação de dados estatísticos.
A divisão regional do IBGE passou por reavaliações, estabelecendo, em 1970,
cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Embora esta
Foto A (Foto de Silvio Bahiana) Foto B (Foto de Rosana dos Santos)
divisão seja fixa, houve algumas adaptações no decorrer do tempo, pois novos
estados foram criados. O exemplo mais recente é o do Estado de Tocantins,
criado em 1988, a partir da divisão do Estado de Goiás. Oficialmente, o Tocantins
pertence à região Norte, entretanto, quando esta área ainda fazia parte de Goiás,
era integrada à região Centro-Oeste. Acompanhe esta mudança pela figura 3.1.
Por que o novo Estado de Tocantins foi considerado integrante da região
Norte e não da região Centro-Oeste?
Foto C (Foto do acervo do NEQUAT/UFRJ) Foto D (Foto de Carla Maciel Salgado)
Será que a divisão regional do IBGE é realmente ideal?
Responder tais questões não é uma tarefa fácil, pois vários critérios podem
Marque com um X o nome das regiões brasileiras relacionadas a cada foto. ser empregados para delimitar uma região. No caso do IBGE, os critérios estão
Regiões Brasileiras associados a aspectos naturais e a algumas características socioeconômicas. Além
Fotos Centro- disso, este órgão dá ênfase ao limite político-administrativo, ou seja, um estado
Norte Nordeste Sudeste Sul
Oeste
não pode pertencer a mais de uma região. Para o IBGE, o Estado de Tocantins
A
apresenta mais semelhanças (vegetação, clima e atividades econômicas) com o
B
Norte do que com o Centro-Oeste.
C
A obediência ao limite político dos estados é um dos elementos mais criticados
D
nesta divisão regional do IBGE. Contudo, os diversos aspectos sociais, econômicos
e naturais encontrados no Brasil não coincidem com os limites estaduais. Vamos
Com tantos lugares apresentando aspectos naturais e socioeconômicos
ver alguns exemplos (acompanhe com o mapa B da figura 3.1):
diferentes, surgiu a necessidade de estabelecer uma divisão regional do Brasil. Este
• A área com clima semiárido, onde a população sofre com problemas de
procedimento de delimitar regiões é usado para planejar ações e investimentos
seca prolongada e latifúndios impedindo o acesso do pequeno agricultor à terra,
necessários ao desenvolvimento de uma área.
se estende desde o interior dos Estados do Nordeste até o setor norte de Minas
Neste capítulo, vamos conhecer alguns métodos de regionalização do Brasil
Gerais (região Sudeste).
e as características principais das macrorregiões brasileiras.
• As atividades agropecuárias realizadas em boa parte do Mato Grosso do
Sul (região Centro-Oeste) estão mais ligadas ao Estado de São Paulo (região
Regionalização do Brasil Sudeste), do que aos demais estados do Centro-Oeste. A mesma coisa acontece
com o norte do Paraná (região Sul), onde há também grande semelhança quanto
As primeiras propostas de divisão regional do Brasil datam do início do século
ao tipo de solo e de clima com o Estado de São Paulo.
XX, tomando como base apenas os elementos do meio físico. No entanto, as
• A vegetação densa e o clima quente e úmido que caracterizam a Amazônia
profundas transformações na organização do espaço brasileiro, principalmente a
não estão restritos aos estados da região Norte. Uma parte do Estado do Mato
partir da década de 1930 (Governo Vargas impulsionando a industrialização),
Grosso (região Centro-Oeste) e do Maranhão (região Nordeste) também possuem
estimularam novas discussões sobre os critérios de regionalização. Vários interesses
estas características ambientais.
estavam por trás destas discussões: aumentar o poder do governo federal sobre
as demais esferas políticas (estados e municípios), facilitar a administração do
Capítulo 3 :: 35

diferentes áreas deste complexo regional. Por exemplo: bancos com sede em São
Paulo investem pesadamente no agronegócio em estados do Sul e Centro-Oeste;
agricultores e pecuaristas do Sul e do Sudeste compraram terras no Centro-Oeste;
uma parte da soja produzida em Mato Grosso e Goiás é exportada pelo porto de
Santos (SP).
Complexo do Nordeste – Área de colonização mais antiga do país, que
começou a apresentar estagnação econômica, principalmente em meados do
século XX, devido à falta de investimentos em novas tecnologias de cultivo,
problemas de concentração fundiária, grande desemprego etc. Desde o século
XIX, vinha se caracterizando como uma área de repulsão populacional, que
migrou especialmente para estados do Sudeste e do Norte. Este complexo regional
engloba o polígono da seca – área frequentemente atingida por estiagens, que
podem durar mais de dois anos seguidos.
Complexo do Norte – As primeiras características que vêm à mente sobre
esta região são o clima quente e bem úmido e a vegetação densa (Floresta
Amazônica conhecida pela grande biodiversidade). No entanto, esta região
diferencia-se das demais devido à fraca densidade demográfica, exceto nas
grandes capitais (Manaus e Belém, principalmente), onde há desenvolvimento
de atividades industriais e comerciais. Sua economia caracteriza-se por atividades
primárias: extrativismo vegetal e mineral, agricultura e pecuária extensivas. Com
exceção de algumas modalidades de mineração, tais atividades são praticadas
com baixo nível tecnológico.
Esses grandes complexos regionais podem, ainda, ser divididos em regiões
menores, considerando uma análise histórica de alguns aspectos: tipos de
aproveitamento dos recursos naturais, objetivos da produção (para exportação ou
para consumo interno, por exemplo), estrutura social, entre outros.

Atividade 2

Compare a divisão regional do Brasil proposta por Pedro Geiger (figura 3.2)
com a do IBGE (figura 3.1) e responda às questões a seguir.

Figura 3.1: Macrorregiões brasileiras definidas pelo IBGE, antes (mapa A) e depois (mapa B) da
formação do Estado de Tocantins. OCEANO
ATLÂNTICO
Equador
Outros pesquisadores propuseram divisões regionais diferentes daquela
oficializada pelo IBGE. A mais conhecida foi elaborada por Pedro Geiger, em 1964. AMAZÔNIA
Nesta, o Brasil é dividido em três Complexos Regionais: Centro-Sul, Nordeste e
Norte (Amazônia) (figura 3.2). Enquanto a divisão do IBGE leva em consideração
os limites políticos dos estados, a proposta de Pedro Geiger desconsidera tais NORDESTE

fronteiras, privilegiando a evolução de estruturas econômicas e sociais do Brasil


ao longo do tempo. Assim, os Complexos Regionais são grandes regiões que CENTRO-SUL
abrangem áreas com diferenças na atividade produtiva e nas características
sociais, mas que funcionam de forma integrada. Trópico de Capricórnio
Para entender melhor os motivos que levaram Geiger a elaborar esta
proposta, vamos ver as características de cada uma.
Complexo do Centro-Sul – Reflete a integração econômica do Sudeste
industrializado (especialmente São Paulo) com a atividade agropecuária e 0 500 km

industrial do Sul e com a agricultura modernizada de algumas áreas do Centro-


Oeste. Há um intenso fluxo financeiro, de pessoas e de mercadorias entre as Figura 3.2: Divisão regional do Brasil proposta por Pedro Geiger.
36 :: Geografia :: Módulo 2

a) Aponte as principais diferenças entre elas. pelos extensos engarrafamentos que lançam gases na atmosfera. Nos meses de
inverno, quando há sequências de dias com pouco ou nenhum vento para dispersar
a poluição, a qualidade do ar fica péssima, prejudicando a saúde dos paulistanos.
b) Na tabela a seguir, escreva os estados (e parte destes) que compõem os
Os gases na atmosfera também podem formar chuva ácida, que corrói estruturas
Complexos Regionais.
de construções diversas (casas, prédios, pontes etc.).
Complexos Estados e áreas que
regionais integram os complexos regionais

Centro-Sul Impacto ambiental é consequência da ação ou atividade


natural ou antrópica, que produz alterações bruscas em todo
Nordeste o meio ambiente ou em parte de alguns de seus componentes.
Como exemplo de atividades modificadoras do ambiente
Norte podemos citar, dentre outras: a construção de rodovias e
ferrovias; os portos e terminais de minério, de petróleo ou
de produtos químicos; os emissários e esgotos sanitários;
Quanto aos aspectos ambientais, cabe destacar que cada região brasileira
as obras hidráulicas como barragens, hidrelétricas, diques
apresenta características diferenciadas de acordo com os ecossistemas predominan-
e transposição de rios; as usinas de geração de energia; as
tes e os impactos ambientais resultantes das atividades econômicas. Esses impactos
extrações de combustível fóssil, de minérios e de madeira; os
ambientais podem ser diferenciados nas escalas local, regional e global tanto em
aterros sanitários; os complexos industriais etc.
ecossistemas naturais e agrícolas como nos sistemas urbanos, e podem ser encon-
trados nos complexos regionais brasileiros e seus respectivos ecossistemas.
Veremos a seguir as características mais específicas para cada complexo regional.
Ecossistemas são unidades funcionais autossuficientes,
caracterizadas pelo intercâmbio de matéria e energia e Centro-Sul
pela interação das comunidades existentes entre si e com
Esta é a região com a economia mais dinâmica do país, pois há uma grande
o ambiente físico; são considerados um sistema aberto,
diversidade, qualidade e volume de produção industrial, agrícola e de serviços,
estável no tempo onde as entradas de energia e matéria
estabelecidos sobre uma enorme rede de infraestrutura – rodovias, ferrovias,
são representadas pela energia solar, elementos minerais
telecomunicações etc. Neste contexto, o Centro-Sul concentra centros de pesquisa
e atmosféricos e água e, as perdas ou saídas ocorrem sob
de alta tecnologia, grandes bancos nacionais e internacionais, agricultura e
forma de calor, oxigênio, gás carbônico, compostos húmicos,
indústrias bem desenvolvidas e um setor de comércio extremamente ativo, entre
substâncias orgânicas arrastadas pelas águas etc; podem ser
outros elementos.
agrupados em terrestres e aquáticos.
A importância econômica desta região pode ser visualizada por meio do
intenso fluxo de exportação e importação, que ocorre pelos seus portos. O porto
de Santos (Estado de São Paulo) é o principal deles, movimentando vários tipos
É bom lembrar que as interferências humanas nos ecossistemas ocorrem
de produtos: exportação de soja, café, suco de laranja, manufaturados etc., e
há milhares de anos e, em geral, causam impactos sobre o meio ambiente.
importação de trigo e produtos industrializados, dentre outros. A sua hinterlândia
Gradativamente esses impactos vêm se intensificando não somente no Brasil,
(área de influência) abrange Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além do
mas em todas as partes do mundo. São resultantes das atividades naturais e
próprio Estado de São Paulo. Assim, os produtos para exportação gerados nesses
(ou) humanas, a exemplo da ação dos vulcões e terremotos ou desmatamentos
estados saem do país pelo porto de Santos. Portanto, os meios de transporte
e lançamento de efluentes.
(rodovias e ferrovias) estão voltados para integrar esses estados.
As áreas rurais brasileiras sofrem grandes impactos com as queimadas para
Outros portos importantes no Centro-Sul são: Rio de Janeiro (RJ), Paranaguá
limpeza de pasto e de áreas de cultivo. Além de o fogo prejudicar o solo, gera gases
(PR), Vitória (ES) e Rio Grande (RS). Além dos fluxos de importação e exportação,
e fuligem que afetam a saúde da população que mora próximo. A combinação da
estes e outros portos menores são usados na navegação de cabotagem, isto é,
falta de vento e grande quantidade de fumaça de queimadas em alguns estados
transporte marítimo interligando os portos nacionais.
do Centro-Oeste já provocou o fechamento de aeroportos da região durante horas
O grau de urbanização do Centro-Sul é bem superior ao das demais regiões.
ou dias. Deste modo, além de determinadas ações humanas provocarem impactos
Reúne cerca de 56,6% do total dos municípios brasileiros e concentra mais de
sobre o meio ambiente e sobre a saúde da população, podem também prejudicar
62% da população do país. As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo polarizam
outras atividades econômicas.
(influenciam de forma econômica, social e cultural) uma grande área, constituindo-
No caso de áreas urbanas um exemplo de atividade que causa grande
se em metrópoles nacionais. O fluxo intenso de pessoas, mercadorias e negócios
impacto é a intensa circulação de veículos. A cidade de São Paulo é bem conhecida
estimulam o crescimento de várias cidades entre as duas metrópoles nacionais,
Capítulo 3 :: 37

principalmente ao longo do vale do rio Paraíba do Sul, levando à formação de artificiais encaixados entre o litoral e as escarpas da Serra do Mar) não eram
uma megalópole. propícias à instalação de atividades como essas.
Além do crescimento das cidades no eixo Rio-São Paulo, há o desenvolvimento É importante considerar que existem níveis diferenciados de comprometimento
urbano em diversos outros pontos desta região. Em Goiás e Mato Grosso do ambiental, devido principalmente à ocorrência das diversas combinações de fatores
Sul, por exemplo, as cidades estão florescendo por meio do estabelecimento que envolvem as atividades industriais, os diferentes tamanhos das fábricas, as
dos complexos agroindustriais. Estes atraem empresas dos setores de serviços tecnologias de transformação utilizadas e os aspectos de infraestrutura das áreas
(bancos, hospitais, escolas etc.) e de comércio, que se concentram em pequenas do entorno. Desse modo, resultam em ações poluidoras desiguais fazendo com
cidades, estimulando o seu desenvolvimento. que umas aglomerações sofram mais do que outras.
Contrastando com o elevado número de cidades médias e grandes, há extensas
áreas ocupadas pelas atividades agrícolas e pecuárias, praticadas em moldes Atividade 3
tradicionais ou adotando modernas tecnologias de produção. Este fato confere uma
Pesquise em jornais e revistas acontecimentos que ilustrem o contraste entre
grande diversidade de formas de ocupação do espaço na região Centro-Sul.
o “Centro-Sul moderno e próspero” e o “Centro-Sul antiquado e decadente”. Anote
O Estado de São Paulo se destaca, nesta região brasileira, devido à sua mo-
aqui sua análise.
derna estrutura produtiva. Tanto o setor agrícola quanto o industrial apresentam
alto nível tecnológico. A cidade de São Paulo concentra empresas de diversos seto-
res, promovendo fluxos nacionais e internacionais de capital, de mercadorias e de
pessoas. Para isso, esta cidade possui uma boa rede de comunicação, aeroportos
bem equipados e um sistema viário conectado ao resto do país.
Até aqui, você pode pensar que o Centro-Sul é um “mar de prosperidade
Nordeste
e de modernidade”. No entanto, o dinamismo econômico da região não atinge
a toda população ou a todos os municípios. Há algumas áreas com problemas O Nordeste apresenta questões sociais marcantes: grande concentração de
de estagnação econômica gerando desemprego, de concentração fundiária renda por parte de uma pequena elite ao lado de um baixo nível de vida da maior
dificultando o acesso do pequeno agricultor à terra, de desigualdade social parte da sua população. Esta profunda desigualdade social e a falta de perspectiva
devido à concentração de renda, aumento da criminalidade e do setor informal de trabalho leva uma parte da população nordestina a procurar empregos em outras
da economia etc. As modernas formas de produção atuais contrastam com antigas regiões. Assim, o Nordeste pode ser considerado um reservatório de mão de obra
relações de trabalho, inclusive trabalho escravo, como já foi detectado em São barata. Devido ao baixo nível de escolaridade, muitos nordestinos trabalham como
Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro nos últimos anos. porteiros de prédios, na construção civil, como empregados domésticos ou como
Quanto aos aspectos ambientais na região Centro-Sul, os efeitos da camelôs, quando migram para as cidades, especialmente as do Centro-Sul. As opções
industrialização como a poluição do ar e da água nos espaços urbanos e rurais de trabalho no Norte geralmente são como garimpeiro, empregados de fazendas (de
são de abrangência local e regional. Os municípios mais urbanizados apresentam cultivo ou de criação de gado), extrativistas ou eles se fixam como posseiros.
índices de poluição e de degradação ambiental mais elevados associados às Os problemas sociais verificados atualmente tiveram sua origem relacionada
indústrias que os municípios menos urbanizados. Esses últimos apresentam à grande exploração da mão de obra por parte de uma pequena elite, desde
elevados índices de poluição associados às práticas de monocultura, silvicultura o período colonial. A estrutura de sesmarias perpetuou-se com os latifúndios,
e ao agronegócio (queimada, uso excessivo de agrotóxicos, desmatamento de ocupando as melhores terras. Até o final do século XIX, a economia desta região
nascentes de rios etc.). era próspera, com a produção e a exportação de produtos tropicais. Contudo, esta
Cubatão, Paulínia, Itabira, João Monlevade, Resende, Mariana, Pindamo- riqueza não revertia-se em benefícios para toda a população.
nhangaba, Barroso são exemplos de cidades nas quais a industrialização predo- A partir do século XX, a economia do Nordeste entrou em declínio devido
minante baseia-se em atividades poluidoras como a metalurgia, a química e o à falta de investimentos e modernização das atividades. A concorrência com os
processamento e extração de minerais. As aglomerações urbanas de escala metro- produtos gerados nos estados do Sudeste, especialmente São Paulo, provocou
politana são também exemplos, destacando-se as regiões metropolitanas de São falências e prejuízos em vários setores econômicos nordestinos.
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e as aglomerações de Campinas, Santos, Com a estagnação econômica, as oligarquias (elite controladora de atividades
São José dos Campos, Vitória, Sorocaba, Jundiaí, Guaratinguetá/Aparecida, Barra econômicas e políticas) se beneficiam de políticas de planejamento do governo
Mansa/Volta Redonda, Ipatinga/Coronel Fabriciano, dentre outros. O exemplo federal. O problema das secas é usado como justificativa para receber vários
clássico de poluição por fontes industriais em área urbana é o de Cubatão, muni- tipos de auxílios: construção de açudes e de estradas dentro dos seus latifúndios,
cípio pertencente à aglomeração urbana de Santos e sede do complexo industrial facilidade de acesso a créditos e financiamentos bancários etc. Assim, foi criada
petroquímico e siderúrgico, que se vincula à grande estrutura portuária de Santos. a “indústria da seca”. A força política dos “coronéis” nordestinos levou à criação
Neste sentido, o resgate histórico mostra a instalação da primeira indústria na oficial do “Polígono das Secas” em 1936, cuja área foi alterada posteriormente
década de 1950, seguida de refinarias e companhias siderúrgicas, onde as con- para abranger outros municípios (figura 3.3).
dições geomorfológicas da baixada santista (estreitas áreas de mangue e aterros
38 :: Geografia :: Módulo 2

cultivo de algodão, café e sisal. As cidades de Campina Grande (PB), Caruaru (PE)
e Garanhuns (PE) se destacam como capitais regionais, devido ao comércio de
produtos do interior vendidos para o litoral.
4. Zona da Mata – Correspondendo ao litoral leste, apresenta clima tropical
úmido. As atividades econômicas tradicionais desta área são a cana-de-açúcar (do
Rio Grande do Norte até o norte da Bahia), o fumo (no Recôncavo Baiano) e o
cacau (no sul da Bahia). A exploração mineral, de sal marinho e de petróleo,
constitui-se em atividades lucrativas.

Figura 3.3: Área do Polígono das Secas na região Nordeste.

Ao lado das estruturas tradicionais e decadentes, há novos negócios que estão


trazendo uma pequena prosperidade para esta região. Ao longo do vale do Rio São
Francisco, projetos de irrigação possibilitaram o cultivo de frutas, cuja produção é
vendida nos mercados nacional e internacional. Além da fruticultura, o plantio de
soja está avançando da região Centro-Oeste para o interior da Bahia. Incentivos
fiscais também estão sendo adotados para atrair alguns tipos de indústrias (têxteis
e de calçados) para cidades do interior.
Internamente, a região Nordeste pode ser subdividida em quatro áreas, Figura 3.4: Subdivisão da região Nordeste.

diferenciadas pelos aspectos naturais (clima, vegetação, relevo, tipo de solo) e


pelas características socioeconômicas. Acompanhe pela figura 3.4 a localização Amazônia
das diferentes áreas. Quando falamos em Amazônia, geralmente a primeira coisa que lembramos
1. Meio-Norte – Área de transição entre as características ambientais (clima, é da floresta densa e com grande biodiversidade. No entanto, a Amazônia envolve
vegetação) da Amazônia e do Nordeste, abrangendo aproximadamente metade vários outros aspectos importantes, especialmente do ponto de vista social e
do Estado do Maranhão. Na divisão regional de Pedro Geiger, essa área está econômico.
inserida no Complexo Regional da Amazônia. A atividade de extrativismo vegetal Apesar dos estímulos do governo à sua ocupação, esta região ainda é
nesta área é tradicional, aproveitando-se a Mata dos Cocais (carnaúba e babaçu) relativamente despovoada. Desde o século XVII esta região tem sido usada para
para a produção de óleos, fibras etc. Outra atividade comum é o cultivo de a produção de drogas do sertão e da borracha. No século XX, outras atividades
algodão, da cana-de-açúcar e do arroz, geralmente com técnicas rudimentares. econômicas foram estimuladas para promover a sua ocupação como projetos de
Há uma estagnação econômica que está sendo superada com a implantação de mineração (exploração de minério de ferro em Carajás, por exemplo), criação da
estradas de ferro para escoar a produção de minérios do Estado do Pará (região Zona Franca de Manaus e atividades agropecuárias (principalmente em Rondônia).
Norte) até o porto de Itaqui, no Maranhão. Contudo, muitas dessas iniciativas trouxeram vários tipos de problemas à região,
2. Sertão – Área onde há predomínio do clima semiárido, caracterizado relacionados ao conflito de interesses entre os diversos agentes envolvidos.
pela pequena pluviosidade e pela irregularidade da chuva. Em alguns trechos do Os chamados povos da floresta (indígenas e extrativistas) têm interesse
Sertão, a estiagem pode durar anos. A vegetação típica desta área é a caatinga, na preservação desta, pois tiram seu sustento da biodiversidade presente. Do
com presença de cactos (mandacaru, xiquexique), arbustos e alguns tipos de lado oposto, há atividades que destroem e degradam o ambiente: o garimpo,
árvores (umbuzeiro, juazeiro). A atividade predominante é a pecuária. O rio São empregando técnicas de mineração altamente degradantes; a agropecuária, onde
Francisco atravessa a maior parte desta área, garantindo água o ano todo para as os fazendeiros querem formar grandes latifúndios; as madeireiras que, para extrair
propriedades ribeirinhas. as madeiras mais valorizadas (figura 3.5), destroem centenas de outras sem
3. Agreste – Faixa de transição entre o Sertão semiárido e a Zona da Mata valor comercial. Além disso, há o embate entre garimpeiros e grandes empresas
tropical úmida. Há o predomínio de pequenas e médias propriedades, com cultivos de mineração (figura 3.6), entre posseiros ou pequenos agricultores e os
diversificados para abastecer as cidades litorâneas (Zona da Mata), além do latifundiários, geralmente levando a mortes violentas.
Capítulo 3 :: 39

auxiliam na construção de infraestrutura (escolas, postos de saúde, estradas etc.).


O segundo compreende uma rede de instrumentos (radares, satélites, aviões etc.)
para monitorar todas as atividades desenvolvidas na região, havendo controle,
inclusive, do espaço aéreo.
Diante de todas essas formas de ocupação e de uso, surgem várias questões:
• Vale a pena construir rodovias (Transamazônica, Perimetral Norte, entre
outras), enquanto há hidrovias naturais que são subutilizadas?
• Como resolver os intensos conflitos de terras, que envolvem interesses de
especulação imobiliária e de produção de alimentos de subsistência?
• Como explorar os vários recursos minerais sem degradar o solo e a água
ou destruir a floresta?
• Como controlar a entrada de pesquisadores estrangeiros que realizam a
biopirataria (roubo de espécies vegetais e animais que podem conter substâncias
Figura 3.5: Toras de madeira extraídas no Sul do Pará. Foto: Isabela de Oliveira Carmo para elaboração de medicamentos etc.)?
• De que adianta detectar queimadas por meio de satélites, se não há
fiscalização suficiente para combatê-las?
• Como evitar o envolvimento de indígenas com madeireiros e garim-
peiros, que usam as reservas indígenas para não serem incomodados pela
fiscalização?
• Será que as atividades agropecuárias, que destroem grandes extensões de
floresta e empregam pouca mão de obra, são realmente adequadas a esta região?
Essas e outras questões são difíceis de responder, mas têm de ser
apresentadas à sociedade brasileira, para que as possíveis soluções beneficiem
o Brasil como um todo.

Exemplos de conflitos na Amazônia

A diferença de interesses nas formas de uso e ocupação na Amazônia leva


Figura 3.6: Carvoeiros, onde fornos de barro são usados na queima de lenha para produção de carvão à deflagração de diversos tipos de conflito. Atualmente, um dos que chama mais
vegetal. Este alimenta os altos-fornos de beneficiamento de minérios. Foto: Isabela de Oliveira Carmo
atenção é o caso da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima.
O processo de demarcação desta reserva começou na década de 1970. No
Portanto, a região da Amazônia, definida pela bacia hidrográfica do rio Ama- entanto, somente em 1998, o Ministério da Justiça publicou a Portaria nº 820,
zonas e coberta por floresta tropical (ecossistema dominante), vem sendo alvo de de 11/12, declarando como de posse permanente indígena a Terra Indígena
ação predatória, com apropriação indevida de terras públicas devolutas, com ação Raposa Serra do Sol. A partir de então, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e
de madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, mineradoras e grupos de práticas ilícitas. o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) teriam iniciado o
Destaca-se a entrada de drogas e armas ilegais, facilitada pela grande levantamento das benfeitorias realizadas pelos ocupantes não índios da região,
extensão da fronteira e pela densidade da floresta. Além disso, vigiar todo o para posterior indenização e reassentamento em outras localidades.
espaço amazônico, para garantir seu uso adequado, é uma tarefa extremamente A demarcação da reserva indígena começou a ser contestada na justiça,
difícil e complexa. Tais problemas vêm sendo usados como argumento de alguns principalmente por fazendeiros, sendo sua homologação também adiada por
países e organismos internacionais para a internacionalização desta região, ou anos. Somente em 2005, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou
seja, o Brasil perderia a soberania sobre a Amazônia. É claro que a preocupação decreto que homologa de forma contínua a terra indígena Raposa Serra do Sol.
internacional não é com a preservação da floresta e de seus povos, mas sim com O reconhecimento desta terra foi uma reivindicação histórica dos índios da região,
todos os recursos naturais que esta região contém – ouro, petróleo, gás natural, pertencentes às etnias macuxi, wapixana, ingarikó, taurepang e patamona. Ainda
ferro, cobre, espécies vegetais para fabricação de remédios etc. O Polo Siderúrgico há vários recursos na justiça contra a demarcação da reserva, principalmente por
de Carajás, o sistema de rodovias e ferrovias, o desflorestamento e a expansão da esta se estender por uma área contínua e muito grande dentro do Estado de
agricultura são atividades que levam à degradação ambiental na região. Roraima. Os conflitos continuaram ao longo de 2007 e 2008, pois há muitos
Como forma de ocupar e vigiar a região, o governo federal criou dois projetos: fazendeiros que cultivam arroz se recusando a sair da região.
o Calha Norte e o SIVAM. O primeiro, instalado na fronteira norte (com a Colômbia, Este conflito conta ainda com uma característica importante; pois a área
Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), consiste em bases militares que se encontra localizada próxima à fronteira do Brasil com a Venezuela. Um
40 :: Geografia :: Módulo 2

dos argumentos de defesa dos fazendeiros (arrozeiros/rizicultores) é que 3) Observe os dados apresentados na tabela.
eles garantiriam, de uma forma mais eficaz do que os índios, a soberania
e a segurança nacional. Outros, contudo, afirmam que essa hipótese não é Área em relação Grau de urbanização
Regiões
ao Brasil (%) (%)
verídica, pois apenas a ação efetiva do Estado pode garantir a soberania e
1 10,9 90,52
não a iniciativa privada.
O Pará é um dos estados da região Norte que mais apresentam problemas 2 18,7 86,73
de conflitos. No setor sul deste estado a situação é mais crítica, pois há fazendas 3 18,2 69,04
que estão há anos para ser desapropriadas devido à prática de trabalho escravo, 4 6,8 80,93
crimes ambientais e grilagem de terras da União, mas em virtude da demora dos Fonte: IBGE, 2000
processos e recursos na justiça, não podem ser ocupadas por trabalhadores sem Os números 1, 2, 3 e 4 representam, respectivamente, as seguintes regiões
terra. Deste modo, estabelece-se o conflito entre os ocupantes (famílias sem terra) brasileiras:
e os jagunços comandados por fazendeiros, gerando vários casos de assassinatos (a) Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste.
de trabalhadores, lideranças, além de religiosos e pessoas simpatizantes ao (b) Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
(c) Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Sul.
movimento de trabalhadores rurais sem terra.
(d) Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Sul.
O Estado do Pará também apresenta sérios problemas com desmatamento (e) Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul.
e trabalho escravo. Neste último caso, o aliciamento (recrutamento dos
trabalhadores) ocorre, normalmente, nos bolsões de pobreza da área rural e
urbana. Estas são áreas muito pouco atendidas pelo Estado na promoção de
Exercícios de vestibular
empregos, de qualificação profissional e de geração de renda.
1) (CEDERJ / 2002) O Censo-2000 do IBGE revela as seguintes informações
acerca dos estados da federação que apresentam as mais baixas taxas de
Exercícios de Fixação alfabetização e de renda média do responsável pelo domicílio:

1) O complexo regional Centro-Sul é marcado por profundas diversidades. Mais pobres


Menos alfabetizados
Caracterize tais diversidades considerando os seguintes aspectos e dando Renda média do responsável
Taxa de alfabetização
exemplos: pelo domicílio
a) urbanização
Alagoas 68,2% Maranhão R$ 343,00
b) atividade agrícola
Piauí 71,5% Piauí R$ 383,00
c) atividade de comércio e serviços
Paraíba 72,4% Paraíba R$ 423,00
d) atividade industrial
Maranhão 73,4% Ceará R$ 448,00
2) Estabeleça uma hierarquia entre as três regiões brasileiras apresentadas,
considerando a diversidade socioeconômica que caracteriza cada uma.
Ceará 75,3% Alagoas R$ 454,00

Hierarquia Região Características gerais


A respeito da situação social dos estados nordestinos em destaque, afirma-se:
(I) A preservação dos latifúndios nas áreas rurais reduziu, historicamente,
Diversidade elevada as oportunidades sociais da maioria da população nordestina. Por outro lado, o
crescente desemprego nas cidades e a insuficiência de políticas públicas educacionais
especialmente voltadas para os adultos geram o quadro de pobreza regional.
Diversidade moderada
(II) A explosão demográfica nas áreas urbanas, decorrente das elevadas
taxas de natalidade, implica demandas excessivas em termos de emprego e
educação. Os governos estaduais em situação deficitária, na sua grande maioria,
Diversidade pequena
não conseguem atender tais demandas, daí os péssimos indicadores sociais.
(III) Os sucessivos períodos de seca, que assolam a Região Nordeste,
fragilizam economicamente a maioria da população camponesa e são a causa da
queda de sua renda monetária e de seu baixo nível cultural.
Com relação a estas afirmativas, conclui-se:
Capítulo 3 :: 41

(A) Apenas a I é correta. 4) (UENF / 2000) O projeto Calha Norte


(B) Apenas a I e a II são corretas.
(C) Apenas a II é correta. Venezuela
Guiana Oceano Atlântico
(D) Apenas a II e a III são corretas. Suriname Guiana
Francesa
Colômbia
(E) Todas são corretas.
Amapá
Roraima

Rio Trombetas
2) (UFRJ / 2006) Pantanal – “Santuário Ecológico”
O Complexo do Pantanal é cortado por uma densa rede hidrográfica. Por sua
Rio S
rica biodiversidade foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO. Muitas das olimõ
es

ameaças à integridade ecológica do Pantanal estão nas regiões que o cercam. Peru nas Bauxita
Amazonas azo
Am Cassiterita
Rio
a) Apresente duas atividades praticadas nas regiões circunvizinhas que ameaçam Pará
Ouro
o equilíbrio ecológico do Pantanal. Urânio

Área indígena Calha Norte


Exército Reservas
b) Justifique. indígenas
Bolívia Aeronáutica

3) (PUC/2005) O texto abaixo se refere aos grandes conjuntos climatobotânicos. MAGNOLI, De & ARAÚJO, R. A nova Geografia: estudos de Geografia do Brasil.
A vegetação é reflexo das condições naturais, principalmente do solo e São Paulo: Moderna, 1996.
do clima do lugar onde ocorre. O Brasil, por contar com grande diversidade
Criado em 1985, o Projeto Calha Norte é uma comprovação de que a
climática, apresenta várias formações vegetais. Tem desde densas florestas
Amazônia não é mais uma “fronteira fria”, como se dizia há 40 ou 50 anos,
latifoliadas tropicais, que ocupam mais da metade de seu território, até
quando as atenções estavam direcionadas à Região Sul, ou seja, ao Prata. A
formações xerófitas, como a caatinga.
Amazônia é hoje uma “fronteira quente”, tendo em vista a ocorrência crescente
SENE, E. de e MOREIRA, J. C. Geografia Geral e do Brasil: Espaço Geográfico e Globalização. de conflitos diversos e o surgimento de problemas como o tráfico de drogas, que
São Paulo: Scipione, 1998. p.484.
põe em risco, até mesmo, a segurança do território brasileiro.
Correlacione as colunas, associando a vegetação aos tipos climáticos. a) Cite dois atores sociais presentes nesses conflitos.

1 – Floresta Amazônica ( ) Clima Tropical Típico


b) Explique a razão pela qual a questão das drogas na fronteira amazônica está
2 – Floresta de Araucária ( ) Clima Equatorial Úmido relacionada à segurança do território brasileiro.

3 – Floresta Atlântica ( ) Clima Tropical Litorâneo Úmido

4 – Cerrado ( ) Clima Subtropical 5) (UNIRIO / 2007)


A Amazônia, longe de ser homogênea, é uma região extremamente
5 – Caatinga ( ) Clima Tropical Semiárido complexa e diversificada. Há a Amazônia da várzea e a da terra firme. Há a
Amazônia dos rios de água branca e a dos rios de águas pretas. Há a Amazônia
dos terrenos movimentados e serranos, das planícies litorâneas, dos cerrados, dos
A sequência correta que representa a correlação acima está na opção:
manguezais e das florestas. Habitar esses espaços é um desafio à convivência
(A) 4, 1, 2, 3 e 5.
(B) 4, 1, 3, 2 e 5. com a diversidade.
(C) 4, 1, 5, 2 e 3. Adaptado de Carlos Walter Porto Gonçalves. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2001.
(D) 1, 2, 3, 4 e 5.
(E) 2, 1, 3, 4 e 5. Esta natureza complexa e desafiadora vem passando por um processo de
transformação como resultado de múltiplas ações.
Uma consequência dessas ações que, ainda, NÃO ocorreu na Amazônia é:
(A) a contaminação dos rios por rejeitos industriais e pelo mercúrio utilizado no
garimpo do ouro.
(B) a inundação de terras de camponeses, ribeirinhos e de comunidades indígenas
para a construção de hidrelétricas.
(C) o consumo da biomassa da floresta, seja como matéria-prima para fins
industriais, seja como combustível.
(D) os desmatamentos por meio de queimadas para a implantação de grandes
empresas pecuaristas e de produção de soja.
42 :: Geografia :: Módulo 2

(e) o esgotamento das reservas minerais de ferro e bauxita extraídas do subsolo 8) (UFF / 2002) No semiárido nordestino existem cerca de 70.000 açudes:
por grandes empresas mineradoras. “máquinas d’água” destinadas à irrigação de lavouras e ao abastecimento do
homem e dos animais. Apesar de sua importância para a população local e regional,
6) (UFF / 2002 – adaptada) Sabe-se que ao longo do século XX os governos os açudes geram problemas ambientais. Dentre esses problemas, destaca-se:
procuraram melhorar a qualidade dos serviços de saneamento em nosso extenso (A) a redução do potencial aquífero dos açudes, em função do uso inapropriado
país. Entretanto, não se pode negar que as condições desses serviços ainda são por parte de pequenos e médios agricultores;
precárias. As informações, a seguir, apresentam desigualdades regionais no tocante (B) a inundação de áreas agricultáveis na época das chuvas, em virtude da
à distribuição dos serviços de saneamento básico e aos casos de mortalidade infantil. utilização esporádica dos grandes reservatórios aquíferos;
(C) a salinização dos corpos d’água e, consequentemente, das áreas irrigadas,
Porcentagem dos
domicílios urbanos Crianças de 0 a 4 anos
devido à intensa evaporação e às características dos solos onde os açudes se
Regiões servidos por água que morrem por diarreia localizam;
tratada, esgoto e coleta e infecções intestinais (D) a alteração climática provocada pela elevada evapotranspiração de pequenos
de lixo. e médios reservatórios localizados nas chapadas e tabuleiros;
Norte 14,2% 3.394 (E) o desmatamento das áreas de várzea provocado pelas obras de drenagem de
Nordeste 31,0% 17.310 rios e pelo uso extensivo dos recursos hídricos.
Sudeste 85,1% 7.522
9) (UFF / 2002)
Sul 63,1% 2.561
O Urucúia vem dos montes oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá
Centro-Oeste 41,0% 1.829
– fazendões de fazendas, almagem de vargens de bom render, as vazantes;
Fonte: Fundação Nacional de Saúde. In Folha de São Paulo, 2000 culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens
Assinale a opção que explica uma relação entre as informações apresentadas e o dessas há lá. O geraes corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada
quadro regional brasileiro. um que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães (...). O
(A) As políticas públicas de implantação de serviços de saneamento, que Sertão está em toda parte.
privilegiaram as grandes concentrações urbanas, explicam a distribuição desigual
de casos de mortalidade infantil pelas regiões brasileiras. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 10a ed. Rio de Janeiro: J. Olympio,1976, p. 9
(B) A concentração da população no espaço rural das Regiões Sul e Centro-Oeste O trecho acima revela a visão particular de uma paisagem típica do Brasil – o
explica seus poucos casos de mortalidade infantil, quando comparados aos sertão – que se caracteriza por apresentar:
observados nas outras regiões mais urbanizadas. (A) espaços interioranos ocupados por lavouras e pecuária extensiva;
(C) Nas regiões mais desenvolvidas econômica, educacional e tecnologicamente é (B) lugares constituídos de vales fluviais cercados por matas, galerias e lavouras
maior o percentual de domicílios atendidos pelos serviços de saneamento, o que de subsistência;
explica os poucos casos de mortalidade infantil observados nessas regiões. (C) áreas litorâneas de vegetação rasteira e exploração extrativa;
(D) A Região Nordeste apresenta o maior número de casos de mortalidade infantil, (D) regiões de vegetação herbácea de domínio da pecuária intensiva;
o que é explicado pela grande concentração demográfica nas suas áreas rurais, (E) territórios de baixa densidade demográfica cobertos por florestas densas.
hoje desprovidas de serviços de saneamento.
(E) A distribuição do saneamento básico, os níveis de renda e a concentração
demográfica são fatores que explicam as diferenças regionais nos casos de 10) (UFPR / 2005)
mortalidade infantil. A dinâmica da natureza e as diferentes combinações entre os elementos
produziram certas diferenciações dentro do território brasileiro, configurando
7) (UERJ / 2008) a existência de seis porções relativamente distintas, chamadas domínios
Duas grandes secas abalaram o Nordeste em 1952 e em 1958. Cenas morfoclimáticos ou domínios naturais.
conhecidas desde os tempos coloniais se repetiam: rios secos, gado morrendo, COELHO, M. de A. Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna, 1996. p. 107.
retirantes. Fugindo da seca, milhares de nordestinos migravam para o sul do país.
Em relação ao relevo e à cobertura vegetal dos diferentes domínios, considere
Em 1953, por exemplo, segundo relatório do Ministério da Agricultura, 600.000
as afirmativas a seguir.
pessoas deixaram o Nordeste, em busca de melhores condições de vida em São
I. No domínio do cerrado, a vegetação característica é de herbáceas, com
Paulo, Rio de Janeiro e norte do Paraná.
predomínio das gramíneas.
Adaptado de Nosso Século. São Paulo: Abril Cultural, 1980. II. A Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta com Araucária, é típica das pradarias.
O texto apresenta problemas sociais que afligiram o Brasil na década de 1950. III. No domínio amazônico, o relevo caracteriza-se pela presença de planícies,
Uma ação governamental e uma reação da sociedade civil associadas a esses depressões e baixos planaltos.
problemas, naquele momento, foram: IV. Na faixa oriental do Brasil, marcadamente na região Sudeste, o relevo
(A) reforma agrária – êxodo rural
predominante é de planaltos e serras, constituindo paisagens conhecidas como
(B) criação da SUDENE – organização das Ligas Camponesas
(C) estímulo à emigração – fundação de cooperativas agrícolas “mares de morros”.
(D) ampliação do crédito para o pequeno produtor – invasão de terras devolutas Assinale a alternativa correta.
Capítulo 3 :: 43

(A) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras. 14) (UNESP / 2003) Leia o texto.
(B) Somente a afirmativa I é verdadeira. ...E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos
(C) Somente a afirmativa II é verdadeira. de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se
(D) Somente as afirmativas I, III e IV são verdadeiras.
morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte
(E) Todas as afirmativas são verdadeiras.
(de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em
qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos
11) (UFPR / 2005) Dentre as muitas visões estereotipadas sobre a diversidade
regional brasileira, duas são bastante comuns: a de que o conjunto da Amazônia Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras,
constitui um “vazio demográfico” e a que associa toda a região Nordeste ao clima suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre
seco. Com base nessa afirmação e nos conhecimentos de geografia brasileira, mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza.
assinale a alternativa correta. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor
(A) A noção de “vazio demográfico” serviu para justificar políticas de “integração possam seguir a história de minha vida, passo a ser
nacional” que objetivavam direcionar os imigrantes nordestinos para a Amazônia,
severino que em vossa presença emigra.
as quais resultaram em fracasso.
(B) A ideia de que o problema da seca afeta o conjunto do Nordeste advém do fato Esta pequena parte do Auto de Natal pernambucano – Morte e Vida Severina,
de que a maior parte da população nordestina habita o sertão, que possui clima árido. de João Cabral de Mello Neto – retrata a realidade do nordeste do Brasil.
(C) A Sudene foi instituída no período militar com o objetivo de implementar obras Assinale a alternativa que melhor expressa tal realidade.
contra a seca, o que generalizou a ideia de que a região é árida em seu conjunto. (a) Açudes, desnutrição e imigração.
(D) A noção de “vazio demográfico” é válida apenas para as áreas da Amazônia (b) Solo pedregoso, imigração e doenças.
ocupadas por populações indígenas, devido ao caráter nômade desses povos. (c) Desnutrição, emigração e escassez de água.
(E) A Sudam, com obras de saneamento e combate a epidemias, visa promover (d) Solo pedregoso, emigração e alta esperança de vida.
a ocupação da Amazônia Legal, devido a ser essa a área específica que, por ser (e) Escassez de água, roçado e imigração.
insalubre, apresenta-se “vazia”.
15) (UFF / 2004) Asa Branca Luiz Gonzaga
12) (UFPE / 2005) O Brasil é um país muito rico em biomas. Existem no Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João,
território brasileiro pelo menos cinco tipos de florestas, reunidos em dois grupos: Eu perguntei a Deus do céu, ai! por que tamanha judiação.
o das florestas ombrófilas e o das florestas estacionais. As florestas estacionais Que braseiro! Que fornalha! Nenhum pé de plantação.
são aquelas que:
Por falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão.
(A) se localizam em solos hidromórficos ou litólicos e não se prestam ao
extrativismo vegetal. Até mesmo a asa-branca bateu asas do sertão.
(B) apresentam árvores que perdem parcialmente ou quase totalmente as folhas Então, eu disse: Adeus, Rosinha! Guarda contigo meu coração.
na estação seca. Hoje longe, muitas léguas, numa triste solidão,
(C) se localizam em áreas de elevada umidade, semestação seca. Espero a chuva cair de novo pra eu voltar pro meu sertão.
(D) surgem apenas em áreas de clima subtropical. Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação,
(E) apresentam árvores as quais mantêm as folhas em todas as estações do ano.
Eu te asseguro, não chores não, viu? Eu voltarei pro meu sertão.(...)
Retratado na canção Asa Branca, o sertão nordestino se caracteriza como uma
13) (UFU / 2006) Na obra Os Sertões, ao descrever a travessia da caatinga por sub-região marcada por fortes conflitos.
um viajante, Euclides da Cunha escreveu que: Analise as condições sociais do sertão nordestino, tendo em vista sua estrutura
[...] a caatinda o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o econômica e fundiária.
na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com
o espinho, com os graveros estalados em lanças; o desdobra-se-lhe na frente
léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos
estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou Complemente seus
estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da conhecimentos
flora agonizante.
Sobre as principais características do domínio morfoclimatobotânico acima
mencionado, é correto afirmar que: Geopolítica da Amazônia
(A) esse constitui-se como área de transição na qual se destaca uma vegetação De início, cabe uma pequena explanação sobre geopolítica: trata-se de um
típica de clima tropical, com elevada temperatura. campo de conhecimento que analisa relações entre poder e espaço geográfico.
(B) Predominam extensos planaltos e chapadas sedimentares cobertas por solos Foi o fundamento do povoamento da Amazônia, desde o tempo colonial,
ácidos e profundos. uma vez que, por mais que quisesse a Coroa, não tinha recursos econômicos
(C) O relevo é formado basicamente por planaltos (planaltos da Bacia do Parnaíba
e população para povoar e ocupar um território de tal extensão. Portugal
e da Borborema) e por depressões (Depressão Sertaneja e do São Francisco)
(D) Possui solos profundos e formas mamelonares resultantes da ação do conseguiu manter a Amazônia e expandi-la para além dos limites previstos no
intemperismo químico. tratado de Tordesilhas, graças a estratégias de controle do território. Embora
44 :: Geografia :: Módulo 2

os interesses econômicos prevalecessem, não foram bem-sucedidos, e a para lidar com o trópico úmido. Essa riqueza tem de ser melhor utilizada. Sustar
geopolítica foi mais importante do que a economia no sentido de garantir a esse padrão de economia de fronteira é um imperativo internacional, nacional
soberania sobre a Amazônia, cuja ocupação se fez, como se sabe, em surtos e também regional. Já há na região resistências à apropriação indiscriminada
ligados a demandas externas seguidos de grandes períodos de estagnação e de seus recursos e atores que lutam pelos seus direitos. Esse é um fato
de decadência. novo porque, até então, as forças exógenas (externas) ocupavam a região
A geopolítica sempre se caracterizou pela presença de pressões de todo livremente, embora com sérios conflitos. Essa é uma das hipóteses deste texto.
tipo, intervenções no cenário internacional desde as mais brandas até guerras Com as resistências regionais, os conflitos na região alcançam um patamar
e conquistas de territórios. Inicialmente, essas ações tinham como sujeito mais elevado. Não se trata mais apenas de conflito pela terra; é o conflito de
fundamental o Estado, pois ele era entendido como a única fonte de poder, uma região em relação às demandas externas. Esses conflitos de interesse,
a única representação da política, e as disputas eram analisadas apenas entre assim como as ações deles decorrentes contribuem para manter imagens
os Estados. Hoje, esta geopolítica atua, sobretudo, por meio do poder de influir obsoletas sobre a região, dificultando a elaboração de políticas públicas
na tomada de decisão dos Estados sobre o uso do território, uma vez que a adequadas ao seu desenvolvimento.
conquista de territórios e as colônias tornaram-se muito caras. Para que se possa mudar esse padrão de desenvolvimento é necessário
Verifica-se o fortalecimento do que se chama de coerção velada. Pressões entender os diferentes projetos geopolíticos e seus atores, que estão na base dos
de todo tipo para influir na decisão dos Estados sobre o uso de seus territórios. conflitos, para tentar encontrar modos de compatibilizar o crescimento econômico
Essa mudança está ligada intimamente à revolução científico-tecnológica e com a conservação dos recursos naturais e a inclusão social. Enfim, não se trata
às possibilidades criadas de ampliar a comunicação e a circulação no planeta de mero ambientalismo, muito menos de mais um momento destrutivo.
através de fluxos e redes que aceleram o tempo e ampliam as escalas de Como efetuar tal compatibilização? Esse é um grande desafio para a Ciência
comunicação e de relações, configurando espaços-tempos diferenciados. e Tecnologia, e se apontarão aqui problemas em que a Ciência pode contribuir
O espaço sempre foi associado ao tempo. E hoje, na acentuação por meio de três hipóteses:
de diferentes espaços-tempos reside uma das raízes da geopolítica 1. o novo significado geopolítico da Amazônia em âmbito global como a
contemporânea. As redes são desenvolvidas nos países ricos, nos centros do grande fronteira do capital natural;
poder, onde o avanço tecnológico é maior e a circulação planetária permite 2. o novo lugar da Amazônia no Brasil;
que se selecionem territórios para investimentos, seleção que depende 3. a urgência de uma nova política de desenvolvimento e de estratégias
também das potencialidades dos próprios territórios. Ocorre que ao se básicas para implementá-la.
expandirem e sustentarem as riquezas circulante, financeira e informacional,
A Amazônia e a mercantilização da natureza
as redes se socializam. E essa socialização está gerando movimentos sociais
O ponto de partida para se fazer essa análise é o reconhecimento de profundas
importantes, os quais também tendem a se transnacionalizarem.
mudanças estruturais que ocorreram na Amazônia nas últimas décadas do século
Há, hoje, portanto, dois movimentos internacionais: um em nível do sistema
XX. Todos sabem como o projeto de integração nacional acarretou perversidades
financeiro, da informação, do domínio do poder efetivamente das potências; e
em termos ambientais e sociais. Mas, com sangue, suor e lágrimas deve-se
outro, uma tendência ao internacionalismo dos movimentos sociais. Todos os
reconhecer o que restou de positivo nesse processo, porque são elementos com os
agentes sociais organizados, corporações, organizações religiosas, movimentos
quais a região conta hoje para seu desenvolvimento. E não se pode esquecê-los.
sociais etc., têm suas próprias territorialidades, acima e abaixo da escala do
Estado, suas próprias geopolíticas, e tendem a se articular, configurando uma A dinâmica regional recente
situação mundial bastante complexa. No final do século XX, houve, portanto, impactos negativos, mas também
A Amazônia é um exemplo vivo dessa nova geopolítica, pois nela se mudanças estruturais e novas realidades geradas na fronteira, a qual tomo como
encontram todos esses elementos. Constitui um desafio para o presente, não espaço não plenamente estruturado e por isso mesmo capaz de gerar realidades
mais um desafio para o futuro. Qual é este desafio atual? A Amazônia, o Brasil, novas. Dentre as mudanças, destaca-se a da conectividade regional, um dos
e os demais países latino-americanos são as mais antigas periferias do sistema elementos mais importantes na Amazônia. Não se trata apenas das estradas,
mundial capitalista. Seu povoamento e desenvolvimento foram fundados de elementos que contribuíram para depredação dos recursos e da sociedade, mas
acordo com o paradigma (modelo) de relação sociedade-natureza, que Kenneth sim, sobretudo, das telecomunicações, porque a rede de telecomunicações na
Boulding denomina de economia de fronteira, significando com isso que o Amazônia permitiu articulações locais/nacionais, bem como locais/ globais.
crescimento econômico é visto como linear e infinito, e baseado na contínua Outra mudança importante é a da economia, que passou da exclusividade do
incorporação de terra e de recursos naturais, que são também percebidos como extrativismo para a industrialização, com a exploração mineral e com a Zona
infinitos. Esse paradigma da economia de fronteira realmente caracteriza toda Franca de Manaus, que foi um posto avançado geopolítico colocado pelo Estado na
a formação latino-americana. fronteira norte, em pleno ambiente extrativista tradicional. Há problemas na Zona
Hoje, o imperativo é modificar esse padrão de desenvolvimento que alcançou Franca, mas hoje ela é grande produtora não só de bens de consumo duráveis,
o auge nas décadas de 1960 a 1980. É imperativo o uso não predatório das como da indústria de duas rodas, de telefonia e mesmo de biotecnologia.
fabulosas riquezas naturais que a Amazônia contém e também do saber das Uma grande modificação estrutural ocorreu no povoamento regional que
suas populações tradicionais que possuem um secular conhecimento acumulado se localizou ao longo das rodovias e não mais ao longo da rede fluvial, como
Capítulo 3 :: 45

no passado, e no crescimento demográfico, sobretudo urbano. Processou-se isótopos de hidrogênio, questão teórica ainda não solucionada, mas que vem
na região uma penosa mobilidade espacial, com forte migração e contínua sendo pesquisada em muitos países, especialmente na Alemanha e nos EUA.
expropriação da terra e, assim, ligada a um processo de urbanização. Em vista Torna-se patente que, se há uma valorização da natureza e da Amazônia, há
disso, a Amazônia teve a maior taxa de crescimento urbano no país nas últimas também a relativização do poder da virtualidade dos fluxos e redes do mundo
décadas. No censo de 2000, 70% da população na região Norte estavam contemporâneo, com a globalização, que acaba com as fronteiras e com os Estados.
localizados em núcleos urbanos, embora carentes dos serviços básicos. Muitos Na verdade, os fluxos e redes não eliminam o valor estratégico da riqueza localizada,
discordam dessa tese, porque não consideram tais nucleamentos como urbanos. in situ; eles sustentam a riqueza circulante do sistema financeiro, da informação,
Mas esse é o modelo de urbanização no Brasil e, ademais, a urbanização não mas a riqueza localizada no território também tem seu papel e seu valor.
se mede só pelo crescimento e surgimento de novas cidades, mas também pela Isso, consequentemente, trouxe uma disputa das potências pelos estoques
veiculação dos valores da urbanização para sociedade. Por essa razão, desde a das riquezas naturais, uma vez que a distribuição geográfica de tecnologia
década de 1980, chamo a Amazônia de uma “floresta urbanizada”. e de recursos está distribuída de maneira desigual. Enquanto as tecnologias
Por outro lado, organizou-se a sociedade como nunca antes verificado. avançadas são desenvolvidas nos centros de poder, as reservas naturais
Os grandes conflitos de terras e de territórios das décadas de 1960 a 1980 estão localizadas nos países periféricos, ou em áreas não regulamentadas
constituíram um aprendizado político e, na década de 1990, transformaram- juridicamente. Esta é, pois, a base da disputa.
se em projetos alternativos, com base na organização da sociedade civil. É Há três grandes eldorados naturais no mundo contemporâneo: a Antártida,
extremamente importante lembrar que hoje, essa sociedade tem voz ativa na que é um espaço dividido entre as grandes potências; os fundos marinhos,
Amazônia e no Brasil, inclusive muitos grupos indígenas. Essa organização da riquíssimos em minerais e vegetais, que são espaços não regulamentados
sociedade política trouxe, por sua vez, mudanças no apossamento do território, juridicamente; e a Amazônia, região que está sob a soberania de estados
com a multiplicação de unidades de conservação federais e estaduais, assim nacionais, entre eles o Brasil.
como também com a demarcação de terras indígenas. Esse contexto geopolítico, principalmente na década de 1980 e 1990,
Que projetos e que atores produzem hoje a dinâmica regional e os novos gerou sugestões mundiais pela soberania compartilhada e o poder de gerenciar
significados da Amazônia? Essas transformações não são vistas de forma a Amazônia, que abalou até o Direito Internacional. Hoje, contudo, são
homogênea pelos diferentes atores, porque dependem de interesses diversos crescentes os interesses ligados à valorização do capital natural, que tende a se
e geram ações diferentes na região. Existem muitos conflitos dentro dessas sobrepor à lógica cultural.
percepções, mas há algumas dominantes. Observa-se um processo de mercantilização da natureza. Elementos da natureza
O uso do método geográfico para análise dos projetos geopolíticos e seus estão se transformando em mercadorias fictícias, usando a expressão de Karl
atores por diferentes escalas geográficas é útil para colaborar nessa análise. Polanyi, em seu livro “A grande transformação”. Fictícias por quê? Porque elas não
foram produzidas para venda no mercado – o ar, a água, a biodiversidade. Mas,
Globalização e Amazônia como fronteira do capital natural
no entanto, através desta ficção são gerados mercados reais e isto se deu, como
A primeira hipótese é a constituição da Amazônia como fronteira do capital
Polanyi mostra muito bem, no início da industrialização, quando terra, dinheiro e
natural em nível global, em que se identificam dois projetos: o primeiro é um
trabalho foram transformados em mercadorias fictícias, gerando mercados reais.
projeto internacional para a Amazônia, e o segundo é o da integração da
O que é o protocolo de Kyoto se não o mercado do ar? É a tentativa
Amazônia, sul-americana, continental.
de estabelecer cotas de emissão de carbono nos países fortemente
Até recentemente, dominava no projeto internacional a percepção da
industrializados e poluidores em troca de manutenção de florestas em
Amazônia como uma imensa unidade de conservação a ser preservada, tendo
países com elas dotadas. O mercado do ar é o mais avançado. Em outras
em vista a sobrevivência do planeta, devido aos efeitos do desmatamento sobre
palavras, esses mercados reais tentam se institucionalizar em fóruns
o clima e a biodiversidade. A base dessa percepção teve como origem, em
globais, o que também é uma vertente nova dentro do Direito Internacional.
grande parte, a tecnologia dos satélites, que permitiu pela primeira vez uma
Não é fantasia o fato de que está em curso na Amazônia a
visão de conjunto da superfície da Terra e da sua unidade trazendo o sentimento
transformação de bens da natureza em mercadorias. É o caso da Peugeot,
da responsabilidade comum, assim como a percepção do esgotamento da
que faz investimentos no sentido de sequestro do carbono no Mato Grosso;
natureza, que se tornou um recurso escasso.
na ilha do Bananal, a empresa inglesa S. Barry; a Mil Madeireira que, tem
A natureza foi então reavaliada e revalorizada a partir de duas lógicas
um projeto neste sentido no estado do Amazonas; a Central South West
muito diferentes, mas que convergem para o mesmo projeto de preservação
Corporations, de Dallas, uma empresa de energia que fez uma aquisição
da Amazônia. A primeira lógica é a civilizatória ou cultural, que possui uma
no Paraná de setecentos mil hectares, através da mediação da National
preocupação legítima com a natureza pela questão da vida, o que dá origem
Conservancy, da reserva da Serra de Itaqui; além dos projetos que não
aos movimentos ambientalistas. A outra lógica é a da acumulação, que vê
conhecemos, visto que uns são oficiais e outros não. Há restrições a colocar
a natureza como recurso escasso e como reserva de valor para a realização
nesse sentido porque a terra e a floresta são bens públicos, e a venda de
de capital futuro, fundamentalmente no que tange ao uso da biodiversidade
floresta significa venda de território e não é correta do ponto de vista do país.
condicionada ao avanço da tecnologia. Outro recurso de que pouco se fala, mas
É digno de nota lembrar que existem esforços para regular o mercado da
que já é fundamental, é a água como fonte de vida e de energia em razão dos
biodiversidade, como a Prototipe Carbon Fund, do Banco Mundial, sistema
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difícil de implementar, visto que as patentes e a distribuição de benefícios Primeiro, porque a união dos países amazônicos pode fortalecer o Mercosul
para as populações locais não foram ainda regulamentadas no país. e, de certa maneira, construir um contraponto nas relações com a Alca e com
O mercado dos recursos hídricos é o mais atrasado, embora haja a própria União Europeia. Em segundo lugar, para ter uma presença coletiva e
múltiplas tentativas de regularização desse mercado. A água é considerada uma estratégia comum no cenário internacional, fortalecendo a voz da América
o ouro azul do século XXI, em termos globais, porque há escassez e do Sul. Em terceiro lugar, porque é fundamental para estabelecer projetos
consumo crescente no mundo, sobretudo nos países semiáridos que conjuntos quanto ao aproveitamento da biodiversidade e da água, inclusive nas
utilizam a irrigação. Ademais, há previsões de que a disputa por água pode áreas que já possuem equipamento territorial e intercâmbio, como é o caso das
chegar até a conflitos armados. cidades gêmeas localizadas em pontos das fronteiras políticas.
Polanyi mostra que há uma necessidade de organização da sociedade para Além disso, esse dado é importante porque pode ajudar a conter as atividades
impedir o livre jogo das forças de mercado em relação aos elementos vitais para ilícitas – narcotráfico, contrabando, lavagem de dinheiro etc. – e uma possível
o homem. Para tanto, foram criados sindicatos para proteger o mercado do “ajuda” militar no território brasileiro. Há uma crescente presença militar na
trabalho e organizadas associações para regular o mercado da terra e o papel fachada do Pacífico e na América Central, através do que se denomina de
do estado tornou-se fundamental. Que vamos fazer no Brasil, e qual deve hoje “localidades de operação avançada”, cuja maior expressão é o Plano Colômbia.
ser nossa reação? Temos todos esses trunfos – florestas, biodiversidade, água; O Brasil virou uma ilha cercada de “localidades de operação avançada” por todos
como a sociedade e o governo brasileiro devem se comportar em relação ao os lados, com instalações norte-americanas apoiadas pela União Europeia, com
seu uso? Hoje, o movimento de mercantilização é irreversível e temos de saber exceção das fronteiras com a Venezuela e a Argentina. O Brasil tenta impedir esse
como lidar com ele. Parece-me que caberia ao governo e à sociedade lutar pela cerco com várias respostas, como com a criação do Ministério do Meio Ambiente
regulação desses mercados, mas ela deveria ser bem negociada. e o projeto Sipam (Sistema de Informação para Proteção da Amazônia), embora
Quais são os principais atores nesse projeto internacional? Os tenha apoio financeiro para o aparelhamento da Polícia Federal.
movimentos ambientalistas, onde se destacam as ONGs nacionais e Esse processo levou a uma forte reativação das fronteiras políticas da
internacionais, a cooperação internacional técnica, financeira, científica Amazônia, consideradas anteriormente como fronteiras mortas, e basta ir
em grandes projetos, como é o caso do Programa Piloto para Proteção a Tabatinga e a Letícia para constatar a vivificação das mesmas, o que vem
das Florestas Tropicais Brasileiras (PP-G7), do LBA e do Probem1, além a constituir uma preocupação para todos os países.
de organizações religiosas de todos os tipos, assim como de agências Mas o fato de a globalização incidir na Amazônia dos países vizinhos
de desenvolvimento de governos estrangeiros e também de empresas através da presença militar, e no Brasil por intermédio da cooperação
voltadas para o sequestro de carbono e/ ou madeira certificada. internacional, constitui uma diferença importante.
A cooperação internacional é fundamental para o desenvolvimento Realiza-se uma articulação sul-americana por meio do resgate do Tratado
da Ciência e da Tecnologia no Brasil. Mas, por vezes, essa cooperação de Cooperação Amazônica (OTCA), e também a partir da iniciativa do
tecnocientífica tem um excesso de autonomia. A questão crucial é o planejamento físico da integração por meio de transporte multimodal, difusão
controle da informação, porque muitas vezes os pesquisadores brasileiros, da internet nos países vizinhos e intercâmbio energético. Em Roraima deu-se
em parcerias, conhecem o subprojeto ligado à sua parceria, mas não o o primeiro passo para a integração oficial através da construção da estrada
projeto como um todo. Deve haver, portanto, uma conscientização dos que liga Manaus à Venezuela. O gás já vem sendo transferido da Bolívia e
pesquisadores no sentido da globalização da pesquisa, de modo que não do Peru, e a Bolsa de Mercadorias e Estudos propõe a extensão da fronteira
tenham acesso apenas a uma parte da informação. agropecuária do centro-oeste brasileiro para os países vizinhos.
A cooperação internacional tem um lado extremamente importante que é Desejamos que a integração sul-americana se faça nos moldes do que foi
o da relação com as comunidades locais, graças às redes de telecomunicação. a integração dos anos de 1970? Nada contra expandir a soja e a pecuária
Há uma forte presença internacional que se estabeleceu na Amazônia devido para áreas propícias do cerrado, mas não que se faça tal expansão em áreas
também aos impactos do projeto anterior, que excluía as populações de florestas. Esse é um desafio à Ciência e à Tecnologia. A integração deve ser
regionais, expulsava pequenos produtores e ameaçava índios, e esses baseada na circulação fluvial, que merece um investimento enorme, pois sempre
grupos conseguiram apoios internacionais, como foi o caso de Chico Mendes, foi o grande meio de circulação na Amazônia, e também na aérea, que foi muito
que foi a Washington para obter um reforço a fim de manter sua própria importante e ainda o é para o transporte de cargas de alto valor agregado.
sobrevivência. É necessário que a sociedade e o governo estejam atentos Um outro elemento importante da integração reside nas cidades gêmeas
à questão da face interna da soberania, no sentido de reconhecer que o – Santa Helena e Pacaraima em Roraima, Tabatinga e Letícia no Amazonas,
povo não é homogêneo, tem demandas diferentes que não são devidamente além de outras no Acre, onde já existem embriões de integração, fluxos
atendidas, o que gera conflitos que afetam a governabilidade. e equipamentos que podem acelerar o intercâmbio. Aliás, a cidade é um
elemento fundamental no desenvolvimento e planejamento da Amazônia,
A integração da Amazônia sul-americana
porque nela a população está concentrada, constitui o nó das redes de
Um segundo projeto internacional diz respeito à integração da Amazônia
relações, e pode, inclusive, impedir a expansão demográfica na floresta.
transnacional, da Amazônia sul-americana. Trata-se de uma nova escala para
pensar e agir na Amazônia. Esse dado é importante por múltiplas razões. A Amazônia no espaço nacional: uma região em si
Capítulo 3 :: 47

A segunda hipótese proposta para debate diz respeito ao lugar da e fazem a grilagem em imensas glebas. Um lado tragicômico é que existem, no
Amazônia no Brasil. Afirma-se aqui que a Amazônia não é mais mera área Sul do Amazonas, muitos fazendeiros que vieram do Pontal do Paranapanema
de expansão da fronteira móvel, mas sim uma região em si, com base em (SP), expulsos pelo MST, porque não tinham terras regularizadas, e o MST sabe
dois argumentos: a nova feição da fronteira e os avanços regionais em muito bem quem possui ou não terras regularizadas.
termos econômicos, sociais e políticos. Mas o mais importante elemento que justifica a hipótese aqui tratada
A situação de conflito entre desenvolvimento e proteção ambiental é a consolidação do povoamento, em contrapartida às frentes de expansão.
transparecia nas políticas públicas da década de 1990 que eram, a um só
A consolidação do povoamento
tempo, expressão e indução do conflito. Por um lado, o Ministério do Meio
A tendência à consolidação do povoamento é patente no avanço econômico
Ambiente que fazia a política da proteção das florestas e, por outro lado, o
significativo e na tecnificação da agroindústria no cerrado, particularmente
Ministério do Planejamento e Orçamento, criando corredores de exportação.
no Mato Grosso, que planta soja e agora também algodão colorido. Com o
Evidentemente, os corredores de exportação coincidiam com os ecológicos.
crescimento da produção e o aumento da produtividade da soja, a terra não é
Multiplicaram-se as unidades de conservação, foram demarcadas terras
mais ocupada como reserva de valor, como foi na época da fronteira anterior.
indígenas e se criou o projeto Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), uma
Agora o que sucede é o uso produtivo da terra. Acrescem mudanças também na
iniciativa do Banco Mundial e do WWF para ampliar em 10% as áreas
pecuária, principalmente no Sudeste do Pará e no Mato Grosso, onde ocorrem
protegidas até 2010. Trata-se de um projeto preservacionista que só com
melhorias com respeito às pastagens, aos rebanhos e à indústria de couro e de
a pressão da ministra Marina Silva aceitou aumentar muito pouco a área de
leite. Mudanças bastante significativas em termos econômicos.
uso sustentável (noventa mil quilômetros quadrados). Portanto, a Amazônia
As redes e cidades permitem a expansão dessa área econômica avançada
terá, em breve, mais de 30% do seu território em áreas protegidas, uma área
que é chamada de “arco de fogo”, ou do desmatamento ou “de terras
equivalente ao território da Espanha. Que resultou desse conflito?
degradadas”, porque foi onde se expandiu a fronteira e o desmatamento. Mas
As novas feições da fronteira móvel está na hora de mudar essa denominação, tendo em vista que se trata da
Aqui se coloca uma hipótese polêmica: na década de 1990, o maior área produtora mundial de soja. O Rio de Janeiro já foi um pântano,
ambientalismo dominou e se delineou como uma tendência ao esgotamento mas não é, hoje, denominado de pântano, e sim de metrópole. Sugere-se,
da Amazônia como fronteira móvel, isto é, como fronteira de expansão então, a mudança de nome para área de povoamento consolidado, porque a
econômica e demográfica no território. As frentes passaram a apresentar denominação de arco do fogo atrapalha a política pública.
diferenças com a expansão da fronteira na década de 1970, tais como: Existe, assim, um gigantesco confronto entre a expansão da
1. Nos anos de 1970, o que sustentou a fronteira foram os incentivos agroindústria da soja, da pecuária, assim como da exploração da madeira
fiscais e a migração generalizada do país inteiro, esta induzida pelo governo e o uso conservacionista da floresta, defendido pela produção familiar,
federal. Atualmente, a migração dominante é intrarregional, de um estado pelos ambientalistas e por diversas categorias de cientistas.
para o outro e, sobretudo, rural-urbana (exceção feita ao Mato Grosso, que Nos últimos anos, houve uma retomada vigorosa das frentes, nas três
continua atraindo população de fora, principalmente do Sul e do Nordeste). localizações referidas, devido à valorização da soja no mercado internacional
2. Outro elemento importante de diferenciação é o comando das frentes por e as incertezas da economia nacional. Conclui-se, assim, que a fronteira é um
parte de Belém e de Cuiabá, sobretudo, hoje de âmbito regional. Assim, o que elemento estrutural do crescimento econômico no Brasil, mas hoje depende
há de novo na expansão das frentes é que são comandadas por madeireiras,
da conjuntura; ou seja, ela se expande ou se retrai em função da conjuntura
pecuaristas e produtores de soja já instalados na região, que a promovem com
econômica e política. É, portanto, um conceito espaço-temporal. É muito difícil
recursos próprios. Não se trata mais, pois, de uma expansão subsidiada pelo
estabelecer um prognóstico sobre o conflito entre agronegócio e conservação
governo federal, como foi a da fronteira nos anos de 1970.
da floresta. Um grupo de pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de
3. Ademais, as frentes hoje são localizadas. Nos anos de 1970 elas se
Pesquisas da Amazônia), liderado por um norte-americano, realizou um
localizavam nas duas grandes artérias, Belém-Brasília e Brasília-Cuiabá, de
modelo afirmando que, em 2020, a Amazônia estaria totalmente destruída.
modo que a expansão seguiu a fímbria das florestas. Agora, as frentes estão
Um modelo linear, que não prevê alteração alguma, o que não se pode
mais localizadas em torno das estradas que já existiam, as que pretendem
aceitar num mundo de imprevisibilidade.
ser pavimentadas ou as abertas pelos próprios madeireiros e pecuaristas.
Hoje, a Amazônia não é mais mera fronteira de expansão de forças
Na virada do milênio, entretanto, a fronteira tomou novo alento. São
exógenas nacionais ou internacionais, mas sim uma região no sistema espacial
três as grandes frentes na Amazônia hoje: uma parte de São Felix do
nacional, com estrutura produtiva própria e múltiplos projetos de diferentes
Xingu, Sudeste do Pará, em direção ao rio Iriri; outra parte do extremo
atores. Nela, a sociedade civil passou a ser um ator fundamental, tanto no campo
Norte de Mato Grosso pela rodovia Cuiabá-Santarém, em torno de cuja
como nas cidades, especialmente pelas suas reivindicações de cidadania, que
pavimentação há grande discórdia, pois ela atravessa não mais a borda,
inclusive influem no desenvolvimento urbano. O Grupo de Trabalho Amazônico
mas o meio da floresta; a terceira parte do Norte de Mato Grosso e de
(GTA) tem 315 associações, entre elas a federação das organizações indígenas.
Rondônia em direção ao Sul do Estado do Amazonas.
Os índios são espertíssimos, aprendem tudo rapidamente, mantêm a sua cultura
A tecnologia serve também para a destruição da floresta: os madeireiros
e crescem num ritmo que é o dobro da taxa nacional. Além disso, criam ONGs
estão se apossando de terras via satélite, descobrem onde há terras disponíveis
48 :: Geografia :: Módulo 2

para ajudar outras comunidades não tão informadas como a deles. discussão com a sociedade: gestão ambiental e ordenamento do território, novo
Outro grupo importante, mais localizado, é o de Altamira, antigo projeto padrão de financiamento, inclusão social, infraestrutura para o desenvolvimento
de colonização em que a produção familiar é organizada e tem uma força e produção sustentável com inovação tecnológica e competitividade.
política significativa, resistindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte. O ponto central, que gera conflitos, é a questão da pavimentação da
Atores fundamentais são os governos estaduais, que, com a crise do Estado rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163), porque as corporações da soja, por um lado,
central, assumiram responsabilidades e força política. É interessante e importante pressionam o governo para a pavimentação rápida, visto que é considerada um
saber que esses governos, por suas condições histórico-geográficas, têm estratégias elemento central para o escoamento da produção, pelo Norte, com o objetivo de
diferentes. O Mato Grosso e o Pará têm estratégias extensivas de uso da terra, o encurtar distâncias e baixar custos. Por outro lado, os ambientalistas e a produção
estado do Amazonas tem uma estratégia pontual industrial, localizada em Manaus; familiar não querem a pavimentação. O governo propôs que se fizesse um
o Acre e o Amapá se baseiam na estratégia da florestania, modernização do modelo para transformar a rodovia Cuiabá-Santarém numa estrada indutora de
extrativismo; em Rondônia procura-se expandir a pecuária e mesmo a soja, e, em desenvolvimento, em vez de uma indutora de depredação. É importante registrar
Roraima, a soja no lavrado (cerrado) cercado por florestas e terra indígenas. O que há em Brasília a criação de grupos de trabalho interministeriais para os planos
município também é um ente político que tem voz na região, embora sem recursos governamentais, algo extremamente positivo, com catorze ministérios participando
financeiros. Economicamente, não tem força, mas a tem do ponto de vista político, e para fazer o novo planejamento da estrada como instrumento de desenvolvimento.
é responsável pela urbanização recente, transformando as vilas em cidades. O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) está fazendo
As empresas do agronegócio, além das madeireiras e pecuaristas, são um esforço no sentido de preparar um cadastro tendo em vista a centralidade da
outros atores que estão se firmando e se expandindo não só no Mato Grosso. questão fundiária. Em vez de dar títulos de terra, poder-se-ia fazer concessões de
O que tem passado despercebido, no meu entender, em todos os projetos e em terra condicionadas a determinados comportamentos. O problema é que todos
todas as escalas, é justamente o fato de a Amazônia hoje ser uma região que os atores na Amazônia (pecuaristas, madeireiros, índios, pequenos produtores)
possui uma dinâmica própria: tem vinte milhões de habitantes, há demandas querem, como primeira demanda, a presença do Estado, por motivações diferentes.
específicas e resistências organizadas e uma estrutura produtiva própria, o que Como segunda demanda desejam o zoneamento. Tais demandas expressam,
comprova a sua mudança de caráter, inclusive com uma nova geografia. Nela por um lado, a necessidade de definição clara das regras do jogo, ou seja, do
reconheço três macrorregiões: a primeira é essa que chamam de “arco do fogo” fortalecimento institucional e, por outro, a pertinência da sub-regionalização,
e que denomino de “arco do povoamento consolidado”, porque é onde estão as porque as regiões têm finalidades próprias e problemas específicos. O Estado
cidades, as densidades demográficas maiores, as estradas e o cerne da economia; pode dialogar melhor com essas necessidades específicas, encontrar as parcerias
a outra macrorregião, da “Amazônia central”, corresponde ao restante do estado necessárias e direcionar melhor os recursos para melhor atendê-las.
do Pará, que é a porção mais vulnerável da Amazônia, porque cortada pelos eixos, Finalmente, mas não menos importante, a par do fortalecimento
pelas estradas e onde estão duas das frentes localizadas; a última é a “Amazônia institucional e da regionalização, cabe à Ciência, Tecnologia e Inovação,
ocidental”, que tem a maior área de fronteira política e é a mais preservada papel primordial na sustentabilidade dos ecossistemas florestais, por sua
(porque não foi cortada por estradas e seu povoamento foi pontual, na Zona importância econômica, social e política.
Franca de Manaus, enquanto o resto do estado ficou abandonado). E o fato de A floresta só deixará de ser destruída se tiver valor econômico para com-
ser uma região em si, constitui uma força de resistência à destruição da floresta. petir com a madeira, com a pecuária e com a soja. Mesmo com os grandes
avanços na sua proteção, a questão de manter a capacidade sustentável da
Como impedir a destruição das florestas?
floresta ainda não foi solucionada. Florestas e terras são bens públicos e, por
O papel das políticas públicas
isso, são trunfos que estão sob o poder do Estado, que tem autoridade para
Se a Amazônia é efetivamente uma região, então há que se substituir a
dispor deles, segundo o interesse da nação. Propõe-se, assim, uma verdadei-
“política de ocupação” por uma “política de consolidação do desenvolvimento”.
ra revolução científico-tecnológica para a Amazônia Florestal.
Uma política de ocupação não tem mais cabimento, porque a região já está
O Brasil já efetuou três grandes revoluções tecnológicas: a exploração
ocupada. As florestas que restaram devem permanecer com seus habitantes.
do petróleo em águas profundas; a transformação de cana-de-açúcar em
É necessário articular os diferentes projetos e os diversos interesses e conflitos
combustível (álcool) na Mata Atlântica e a correção dos solos do cerrado, que
que incidem na região. O governo atual pretende ser um marco no rumo do
permitiu a expansão da soja. Está na hora de implementar uma revolução
desenvolvimento regional. Elaborou um novo Plano Amazônia Sustentável
científico-tecnológica na Amazônia que estabeleça cadeias tecnoprodutivas
(PAS), com o qual pretende superar a polaridade conflitiva entre a política
com base na biodiversidade, desde as comunidades da floresta até os centros
ambiental e a de desenvolvimento.
da tecnologia avançada. Esse é um desafio fundamental hoje, que será ainda
O governo atual propõe também no PPA, (Plano Plurianual 2004-2007)
maior com a integração da Amazônia sul-americana.
a necessidade tanto da produtividade e competitividade, como da inclusão
Notas - LBA é um vasto projeto de pesquisa coordenado pelo Brasil em parceria com a
social, emprego e renda. No caso da Amazônia, existe um novo princípio,
Nasa e, em menor escala a União Europeia, denominado Large Scale Biosphere-Atmosphere
da transversalidade, em que o meio ambiente deixa de ser tratado como Experiment in the Amazon. O Probem foi criado para implantar a pesquisa e desenvolver o uso
uma variável independente e participa das políticas de todos os ministérios. da biodiversidade através do fortalecimento da biotecnologia.

Importante também são os cinco eixos estratégicos do PAS, que vai ser posto em Becker, Bertha K. Revista Estudos Avançados, vol.19, no. 53, São Paulo, 2005.
4
Tipos climáticos do Brasil

:: Objetivos ::
• Mostrar o funcionamento da circulação geral da atmosfera;
• Caracterizar os principais tipos climáticos brasileiros.
50 :: Geografia :: Módulo 2

Circulação geral da Como a superfície da Terra não é homogênea e ainda há o movimento de


atmosfera rotação, os cinturões de pressão atmosférica (baixa equatorial, 2 altas subtropicais,
2 baixas subpolares e 2 altas polares) podem se quebrar em células e os ventos
Para entender a formação dos diferentes tipos climáticos da Terra e do Brasil, é emitidos a partir dos centros de alta pressão sofrem desvios pelo Efeito de Coriolis
importante conhecer antes a circulação de ar pelo nosso planeta. A Circulação Geral (Figura 4.2).
da Atmosfera corresponde a um modelo de deslocamento de ventos planetários a
partir de diferenças de temperatura do ar e pressão atmosférica no globo.
B
O excesso de energia solar recebido no Equador provoca aquecimento do
B
ar nesta latitude, que, se tornando mais “leve”, tende a subir. Essa corrente Trópico A A A
de Câncer
ascendente de ar chega até a tropopausa (16km de altitude – limite acima do Equador
ÁFRICA

B B
qual a atmosfera se torna muito estável), passando a se deslocar em direção
Trópico
aos polos. É importante lembrar que próximo ao chão no Equador a pressão de Capricórnio A
A A
atmosférica se torna baixa, já que o ar está deixando de exercer pressão no local
devido à sua ascensão. ESCALA B
0 2870 5740
Nos polos ocorre o inverso: a pouca intensidade da radiação solar que Km
A Centro de Alta Pressão Atmosférica Ventos Alísios
atinge essas áreas gera temperaturas extremamente frias, fazendo com que as B Centro de Baixa Pressão Atmosférica Ventos de Oeste
moléculas do ar fiquem “pesadas” (pouca agitadas) e “desçam”. Essa corrente
Figura 4.2: Deslocamento dos ventos alísios e de oeste pelo planeta.
de ar descendente chega até o chão e se desloca em direção ao Equador. Essa
movimentação de descida do ar cria um ponto de alta pressão atmosférica junto à Na figura 4.3 observa-se a circulação dos principais ventos do planeta
superfície polar, já que as moléculas estão se acumulando. em planta e em perfil. Em setas diferentes, destacam-se os ventos alísios, que
Verifique que na figura 4.1 a corrente de ar que subiu na faixa equatorial não convergem para o Equador constituindo a Zona de Convergência Intertropical
alcança os polos, pois em altitude (12 a 16 km de altitude) o ar fica muito frio (ZCIT); os ventos de oeste, que saem das altas pressões subtropicais e vão para a
(-70º C) e denso, constituindo uma corrente de ar descendente na latitude aproximada latitude de 60º, encontrando os ventos de leste (polares).
de 30º Norte e Sul. Com a descida do ar, ocorre o acúmulo de moléculas gasosas junto à
superfície, formando um centro de Alta Pressão atmosférica na latitude subtropical (altas
subtropicais). A partir deste ponto são gerados ventos que se deslocam junto à superfície
em direção ao polo (ventos de oeste) e em direção ao Equador (ventos alísios). 90º N A
Quando este centro de alta pressão ocorre sobre os continentes cria um clima 60º N B
B
seco (desertos), pois o ar descendente possui pouca umidade. Consequentemente,
as áreas das altas subtropicais apresentam céu claro e chuvas raras, pois qualquer 30º N A
A
umidade junto à superfície não consegue subir e se condensar para formar nuvens
e, posteriormente, se precipitar. 0º B B
ZCIT
O vento que se desloca para os polos a partir da latitude de 30º se encontra
com o vento frio que vem do polo, formando um centro de baixa pressão na 30º S A A A
latitude de 60º, onde se configura uma corrente de ar ascendente. As massas de
ar frias trazidas do polo e as massas de ar quentes trazidas do trópico quando 60º S
B B
se encontram não se misturam, mas formam uma superfície de contato onde
90º S A
geralmente ocorrem tempestades (sistema frontal). A massa tropical (mais leve e, Ventos Alísios
às vezes úmida) é “jogada” para cima pela massa polar (mais pesada). Ventos de Oeste
Ventos de Leste
Circulação Geral da Atmosfera Outros deslocamentos de ar
Figura 4.3: Circulação geral da atmosfera representada em planta e em perfil, destacando-se os
Corrente de ar Corrente de ar Corrente de ar
ascendente descendente principais ventos planetários (ventos alísios, ventos de oeste e ventos de leste).
descendente
Baixa Pressão Ventos Alísios Ventos de Oeste Alta Pressão
0º 30º 60º 90º A circulação de ar na faixa entre os trópicos de Câncer (Hemisfério Norte)
Equador Alta Pressão Baixa Pressão Polo
e Capricórnio (Hemisfério Sul), abrangendo o Equador, é constituída pela
convergência de ventos (ventos alísios) e ascensão do ar, ocasionando acúmulo,
Figura 4.1: Esquema da Circulação Geral da Atmosfera, constituída a partir de centros de alta e
baixa pressões atmosféricas e deslocamento de ventos por todo o planeta.
subida e condensação de vapor d’água. Deste modo, a subida e condensação
constantes de vapor d’água formam nuvens com grande desenvolvimento
Capítulo 4 :: 51

vertical, chamadas cumulonimbus (nuvens de temporais), que ocasionam chuvas O modelo de circulação de ar apresentado na figura 4.4 pode ser aplicado
frequentes na região equatorial. Todo este conjunto de circulação de ar, nuvens e para entender a formação de brisas marítima e terrestre e de monções.
precipitação é denominado Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Considerando a grande extensão territorial do Brasil, verifica-se a atuação
Os cinturões e células de pressão se deslocam de acordo com as estações do sazonal de segmentos da Circulação Geral da Atmosfera em diferentes regiões
ano (Figura 4.4). Durante o inverno do Hemisfério Norte, a atividade polar ártica brasileiras, influenciando as características climáticas. A Zona de Convergência
se intensifica empurrando todo o sistema de circulação para o sul (Figura 4.4A). Intertropical (convergência dos ventos alísios na faixa equatorial), por exemplo,
Por outro lado, no Hemisfério Sul seria verão, atraindo a Zona de Convergência se desloca para o Hemisfério Sul durante o verão, provocando chuvas abundantes
Intertropical (ZCIT). O sistema de circulação se desloca para a direção norte nos estados do litoral norte da Região Nordeste (Ceará, Piauí, Maranhão, por
quando no inverno do Hemisfério Sul a atividade polar na Antártica aumenta exemplo) e em alguns estados da Região Norte (Pará, Amapá e Amazonas).
(Figura 4.4B) e a ZCIT se desloca para o Hemisfério Norte, quando este está no O grande centro de Alta Pressão Atmosférica situado no oceano Atlântico Sul se
período de verão. aproxima do Brasil durante o inverno, deixando o tempo muito seco, especialmente
nos estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Este centro de alta pressão
ZCIT
Inverno no Hemisfério Norte Verão no Hemisfério Sul também é responsável pela formação dos ventos alísios (ventos permanentes), que
A atuam constantemente no litoral dos estados do Nordeste (Figura 4.6). O Estado
do Rio Grande do Norte, por exemplo, tem um grande potencial de produção de
energia eólica e de sal devido à atuação dos ventos alísios.
90ºN 60ºN 30ºN 0º 30ºS 60ºS 90ºS

Inverno no Hemisfério Sul Açores


B Verão no Hemisfério Norte

Equador

90ºN 60ºN 30ºN 0º 30ºS 60ºS 90ºS

Figura 4.4: Direções de deslocamento da Circulação Geral da Atmosfera relacionadas às estações


do ano (inverno e verão) dos hemisférios Norte e Sul. Na figura A verifica-se a ZCIT posicionada no
Hemisfério Sul devido à estação de verão neste. A figura B representa o verão no Hemisfério Norte e
a ZCIT posicionada neste. Trópico de
Capricórnio
De uma forma mais simplificada, verifica-se que na Terra há centros de pressão Atlântico
atmosférica (ou células de alta e baixa pressões atmosféricas), que se conectam por Sul
Oceano Pacífico
meio do deslocamento de ventos junto à superfície e em altitude, ocorrendo ainda o
deslocamento de todo o sistema de acordo com as estações do ano. Ventos Alísios
Pela figura 4.5 observa-se que os centros de Alta Pressão Atmosférica têm Centro de Alta Oceano Atlântico
corrente de ar descendente (ar descendo e exercendo alta pressão na superfície), Pressão Atmosférica
que impede o vapor d’água subir, condensar e formar nuvens – por isso são áreas
Figura 4.6: Centros de Alta Pressão dos Açores (Hemisfério Norte) e do Atlântico Sul (Hemisfério
com climas mais secos. O ar que se acumula nestas áreas tende a se deslocar
Sul) que geram os ventos alísios direcionados para o litoral da Região Nordeste do Brasil.
para os centros de Baixa Pressão Atmosférica, onde há uma corrente de subida.
Deste modo, os centros de baixa pressão atmosférica são áreas de convergência
(chegada) de ventos, enquanto os centros de alta pressão são áreas dispersoras Principais fatores climáticos
(saída) de ventos. Observa-se ainda na figura 4.5 que a corrente ascendente do Brasil
de ar na célula de Baixa Pressão ajuda na subida de vapor d’água, que em
altitude se resfria e se condensa, podendo formar nuvens que geralmente causam Os tipos climáticos encontrados no Brasil são definidos a partir da combinação
precipitação e deixam o local com clima mais úmido. de diferentes fatores geográficos e dinâmicos. Os fatores geográficos (ou estáticos)
são a latitude, a altitude e orientação do relevo, as correntes marítimas quente e
Fluxo convergente fria (efeito de maritimidade), a distância do mar (efeito da continentalidade) e a
em altitude Fluxo divergente
em altitude
Corrente de ar Corrente de ar vegetação. Os fatores dinâmicos estão relacionados às características atmosféricas
Divergência de descendente ascendente
ventos AP e aos sistemas meteorológicos, como massas de ar, centros de alta e baixa
BP
Convergência de
ventos pressão atmosférica, Zona de Convergência Intertropical, entre outros, que atuam
e/ou se movimentam pelo território brasileiro em intervalos de tempo diferentes
Figura 4.5: Modelo simplificado de circulação atmosférica, onde os ventos saem de uma célula de
alta pressão atmosférica e chegam numa célula de baixa pressão atmosférica. (dias ou meses).
52 :: Geografia :: Módulo 2

O Brasil é um país cortado pelas latitudes do Equador e do Trópico de Ao lado da latitude, as massas de ar constituem um outro fator climático
Capricórnio. Isto significa que a radiação solar incide de forma direta na superfície extremamente importante na definição dos climas brasileiros. As massas de ar
(em ângulo de 90º ou um pouco menor), causando um grande aquecimento influenciam na intensidade e na sazonalidade dos períodos chuvoso e seco que
(Figura 4.7). A latitude tropical do Brasil também faz com que o tempo de caracterizam os climas do país.
incidência solar não varie muito ao longo do ano. Assim, a faixa equatorial tem A Massa Equatorial Continental (mEc) é formada na zona aquecida e úmida da
um tempo de exposição ao sol de 12 horas durante todo o ano, apresentando floresta Amazônica. Esta área recebe ventos oceânicos (alísios) que vão constituir
então baixíssima variação da temperatura do ar entre inverno e verão (baixa a mEc, contribuindo para sua elevada umidade. O intenso aquecimento da área
amplitude térmica anual). provoca instabilidade convectiva (ascensão do ar quente) levando à formação de
grandes nuvens (cumulonimbus) e precipitação abundante. Durante o verão a
mEc se amplia atingindo as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil (Figura 4.8),
Sol
levando grande umidade, o que favorece a formação de precipitação, às vezes
muito forte. Esta massa de ar pode alcançar também alguns estados da Região
Nordeste e do Sul, levando calor e umidade. Durante o outono esta massa de ar
começa a diminuir sua atuação sobre o Brasil e se desloca para a direção Norte,
ficando restrita a uma pequena área ao norte do Brasil no período de inverno. Na
primavera a mEc volta a se ampliar.

Condição de Verão (exemplo de janeiro)


Ângulos de
Incidência mEn
Solar
0º CIT

Solo mEc mEa


Polo Equador

Figura 4.7: Variação dos ângulos de incidência da radiação solar na superfície terrestre de acordo 20º
com as diferentes latitudes (equatorial e polar). Quanto menor o ângulo, menos aquecimento da
superfície irá ocorrer, como nos polos. mTc

mTa
No entanto, ao sul da linha do Trópico de Capricórnio ocorre uma significativa 40º FPA
variação da incidência solar: o ângulo e o tempo de exposição ao sol mudam. Esta
mudança pode ser sentida desde o Estado do Rio de Janeiro, quando no verão mPa

o Sol se põe depois das 18:00h e no inverno começa a escurecer às 17:30h.


Com essa pequena variação, as pessoas que moram no estado já percebem as Condição de Inverno (exemplo de junho)
diferenças de temperatura entre inverno e verão.
Nos estados do Sul do Brasil (latitudes acima de 25ºS) a variação é bem CIT
0º mEc
maior entre inverno e verão. Apresentando a situação de forma hipotética para
o Estado do Rio Grande do Sul, se o sol nascesse às 6h da manhã, o por do sol
seria às 19:30h no verão (mais de 13h de exposição ao sol) e às 16h no inverno mEa

(10h de exposição ao sol). Por isso, as temperaturas ficam muito diferentes entre 20º
inverno e verão, constituindo uma significativa amplitude térmica anual. Observe
na tabela 4.1 as variações de temperatura entre verão (mês de janeiro) e inverno mTa
(mês de julho) de diferentes cidades brasileiras.
40º FPA

Temperatura ( C) o
Amplitude mPa
Cidade Latitude mPp
Janeiro Julho Térmica (oC)

Manaus 3oS 26 26 0 mEc – massa Equatorial continental mTa – massa Tropical atlântica
mEa – massa Equatorial atlântica mPa – massa Polar atlântica
Rio de Janeiro 22 So
26 21 5 mEn – massa Equatorial norte mPp – massa Polar pacífica
mTc – massa Tropical continental FPA – Frente Polar atlântica
Porto Alegre 30oS 24 14 10
Figura 4.8: Atuação de massas de ar sobre o Brasil nos períodos de verão e inverno. Fonte: Nimer, E.
Tabela 4.1: Variação de temperatura de diferentes cidades brasileiras. Climatologia do Brasil. IBGE, 1989 (modificado).
Capítulo 4 :: 53

Ao diminuir sua atuação durante os meses de outono e inverno, a massa litorâneos). Quando a mPa chega ao sul da região amazônica causa o fenômeno
Equatorial continental deixa espaço para outras massas de ar quente avançar. da friagem, expresso pela queda repentina da temperatura do ar, já que esta área
Deste modo, as massas Equatorial atlântica (mEa) e Tropical atlântica (mTa) é bastante quente.
ocupam a maior parte do Brasil no período de inverno. Embora a área de origem A massa Tropical continental (mTc) tem atuação restrita ao setor oeste
dessas massas de ar seja no oceano, há um movimento de descida do ar (sub- da região Sul do Brasil. É uma massa de ar quente e seca, pois se desenvolve
sidência) que dificulta a formação de nuvens e de precipitação. Portanto, tais no interior do continente durante o verão. Devido a mTc, várias cidades do sul
massas deixam o tempo seco, sendo que em alguns locais a umidade relativa do apresentam problemas de estiagem que afetam o abastecimento de água para o
ar pode chegar a 12%. Esta baixíssima umidade relativa causa muitos problemas meio urbano e para as atividades pecuárias, comuns na região.
respiratórios, especialmente em crianças e idosos. A altitude e orientação do relevo também interferem na formação dos climas
A estabilidade destas massas de ar pode ser quebrada com a chegada da brasileiros. Grande parte do Brasil tem baixas altitudes (até 500m), quase não
massa Polar atlântica (mPa), constituindo uma frente fria sobre o continente. interferindo na temperatura. No entanto, para os estados do Sul e do Sudeste
A frente fria faz parte de um sistema meteorológico maior, conhecido como há planaltos e serras com altitudes superiores a 800m, deixando o ar mais
sistema frontal. Este surge a partir do contato entre as massas de ar polar e tropi- frio. Além disso, a orientação do relevo mais elevado pode ser um obstáculo a
cal, que se deslocam fazendo um giro (Figura 4.9). Durante este giro, o segmento ventos úmidos, como é a situação da Serra do Mar no Sudeste. Neste caso, os
em que a massa polar avança sobre a massa tropical é chamada de frente fria. ventos úmidos vindos do mar são forçados a subir a serra, o que provoca um
Percebemos a frente fria com uma mudança das condições do tempo: rajadas de resfriamento do ar. O conteúdo de vapor d’água então se condensa formando
vento, formação de nuvens grandes, queda de temperatura e precipitação. nuvens e precipitação.
A frente quente corresponde a um outro segmento do sistema frontal, em que Outro fator climático importante é a vegetação, embora seu efeito seja
a massa tropical avança sobre a massa polar. No caso do Brasil, geralmente a frente mais local do que regional. Assim, em áreas onde há preservação de cobertura
quente ocorre em alto mar. No decorrer do giro entre as duas massas de ar, a massa vegetal densa o ar tende a ficar mais fresco e úmido, conferindo um bom conforto
tropical é jogada para cima por ser mais leve, enquanto a massa polar avança sobre térmico aos habitantes do local. Mas no Brasil ainda há a extensa cobertura de
a superfície por ser mais pesada. Este conjunto de movimentos das massas de ar floresta amazônica, que fornece para a atmosfera uma grande quantidade de
causa grande instabilidade, provocando precipitação por onde avança. vapor d’água e núcleos de condensação (partículas sólidas), que em conjunto são
responsáveis pela formação de nuvens.
A grande extensão territorial do Brasil ainda possibilita a atuação de dois
fatores climáticos: continentalidade e maritimidade. As áreas mais distantes do
mar sofrem com o efeito da continentalidade, que corresponde à capacidade do
solo rapidamente se aquecer (durante o dia e ao longo do verão) e se resfriar
Equador
(durante a noite e ao longo do inverno). Com isso, o ar acima do solo apresenta
temperaturas contrastantes entre o dia e a noite e entre o verão e o inverno,
caracterizando uma grande amplitude térmica.
As áreas próximas ao mar sofrem o efeito da maritimidade, pois a água
Massa demora mais a se aquecer e a se resfriar. Por isso a variação de temperatura do
Trópico de Tropical ar fica menor. No entanto, deve ser também considerada a presença de correntes
Capricórnio Atlântica
marítimas quentes, que deixam o ar mais úmido e quente. Em áreas com presença
de correntes marítimas frias, a tendência é o ar ser mais frio e seco, já que a
Oceano Pacífico
evaporação se torna mais difícil.
Massa
Polar
Atlântica
Oceano Atlântico
Características climáticas
Frente Fria
do brasil
Frente Quente
Direção do deslocamento Apesar de o Brasil ser um país com predominância de clima tropical, há
algumas diferenças climáticas devido à atuação diversificada de fatores. Deste
Figura 4.9: Sistema frontal, constituído por frente fria (segmento sobre Climas
o continente)
doe frente
Brasil quente
(Classificação segundoos Strahler)
na América do Sul/Brasil. O sistema frontal surge a partir do encontro das massas de ar diferentes. modo, veremos principais fatores climáticos que contribuem para a formação dos
climas brasileiros, definidos a partir da classificação do geógrafo Strahler (Figura
A massa Polar atlântica (mPa) atua durante o ano Boa todo
Vistanos estados do Sul do 4.10). Esta classificação se baseia principalmente na ocorrência e movimentação
Brasil, formando frentes frias (e consequente precipitação) que às vezes avançam de massas deCorrente das Guianas
ar, gerando grandes extensões de unidades climáticas no território
sobreEquador
os estados do Sudeste. Mas durante os meses de inverno, a mPa tem mais força Macapá
brasileiro. Contudo, são apontados outros fatores que influenciam
Corrente os climas em
Sul Equatorial
e pode alcançar estados das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste (estados escalas de maior detalhe, seguidos de climogramas.

Belém São Luís Fortaleza


Manaus
Teresina Natal
54 :: Geografia :: Módulo 2
Equador

:: Climogramas ou climatograma ::
São gráficos reunindo os valores mensais de temperatura e de precipitação de um local. Na base do gráfico (eixo X) ficam dispostos os meses
Massa
do ano, enquanto os eixos laterais (eixos Y) correspondem à temperatura e à precipitação.
Trópico de Tropical
A temperatura é geralmente representada porAtlântica
Capricórnio linha, enquanto a precipitação é ilustrada por colunas. Ao analisar o gráfico de climograma,
deve-se prestar atenção à escala de valores de temperatura e precipitação.
Os dados
Oceano de médias mensais usados na montagem de climogramas correspondem, preferencialmente, a normais climatológicas. Estas
Pacífico
compreendem médias calculadas com Massavalores obtidos num intervalo de 30 anos. A última normal climatológica calculada foi a de 1961-1990 e a
Polarcoletados entre 1991 e 2020.
próxima será calculada com os dados
Atlântica
Frente Fria Oceano Atlântico
Frente Quente
Direção do deslocamento

Climas do Brasil (Classificação segundo Strahler)

Boa Vista
Corrente das Guianas
Macapá Corrente Sul Equatorial
Equador

Belém São Luís Fortaleza


Manaus
Teresina Natal
João Pessoa
Recife
Porto Velho Corrente
Rio Branco Palmas Maceió do Brasil
Aracaju
Salvador
Cuiabá OCEANO
Climas controlados DF ATLÂNTICO
por massas de ar Brasília
equatoriais e tropicais Goiânia
Equatorial Úmido Belo Horizonte
Litorâneo Úmido Corrente
Campo Grande Vitória
Tropical do Brasil
Trópico de Capricórnio
Tropical Semiárido Rio de Janeiro
São Paulo
Climas controlados Curitiba
por massas de ar
tropicais e polares Florianopólis
Subtropical Úmido Porto Alegre
Corrente quente
Corrente fria
Corrente das Falkland

Figura 4.10: Distribuição espacial dos tipos climáticos encontrados no Brasil.


mm Manaus ºC
400 30
300 25
20
200
15
100 10
0 5
J F M A M J J A S O N D

Precipitação Temperatura
Co
Cuiabá
Climas controlados
por massas de ar
Belém São Luís Fortaleza Goiânia
mmequatoriais e tropicais Manaus ºC
Manaus 400 30
Equatorial Úmido B
300 Teresina Capítulo Natal4 :: 2555
Litorâneo Úmido
João Pessoa
Campo
20 Grande
200 Tropical Trópico de Capricórnio 15
Tropicalatlântica
100e Tropical Semiárido Recife
Clima equatorialPortoúmido norte) (atua mais no centro-sul), além da proximidade 10 do
Corrente
Velho Maceió
Rio Branco centro de Palmas
0 alta pressão atmosférica do Atlântico Sul. No verão, por outro 5 lado,
do Brasil
Climas
J Fcontrolados
M A M J J A S O
Aracaju N D Cur
O clima equatorial úmido apresenta muito pouca variação de temperatura a precipitação
por massasmensal de pode chegar a 200mm, sendo causada principalmente
arPrecipitação Temperatura
ao longo do ano, devido ao efeito da latitude, visto anteriormente. A temperatura pela expansão
tropicais da massa Equatorial continental (mEc),
e polares Salvadororiunda da Amazônia. Flo
Cuiabá OCEANO
também é praticamente a mesma por toda extensão territorial em que este tipo
Climas controlados DF Úmido
Subtropical ATLÂNTICOºC Porto Ale
climáticopor
ocorre (EstadosdedoarPará, Amazonas, Amapá etc.).
massas
mm Brasília Brasília
400 Corrente quente 30
Porequatoriais
meio da figurae 4.11, percebe-se a linha quase reta de temperatura na
tropicais Goiânia Corrente fria
300 25 C
cidade de Manaus (estado do Amazonas). Por outro lado, a precipitação não é Belo Horizonte 20
Equatorial Úmido 200
homogênea Litorâneo
ao longo Úmido
do ano, com alguns meses bem mais chuvosos do que Corrente 15
Campo Grande Vitória
outros. Os meses de
Tropical fevereiro, março e abril, por exemplo, apresentam os maiores 100 do Brasil 10
Trópico de Capricórnio mm
0 Manaus 5ºC
acumulados Tropical
de chuvaSemiárido
(acima de 288mm), refletindo a atuação da Zona de 400 J F M A RioMde Janeiro J J A S O N D 30
Convergência Intertropical (ZCIT) e da massa Equatorial continental (mEc) como São Paulo 25
300 Precipitação Temperatura
sistemasClimas controlados
produtores de precipitação neste período. Nos meses de julho, agosto e Curitiba 20
setembropor massas dediminuiar significativamente (menor que 87mm), mas não 200
a pluviosidade 15
tropicais e polares 100 Florianopólis
caracteriza seca ou estiagem vivenciada em outras áreas brasileiras. Figura 4.12: Climograma da cidade de Brasília (Distrito Federal), relacionando precipitação 10
e
Subtropical Úmido temperatura Fortaleza
0 mm com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. ºC5
Apesar da cidade de Manaus se localizar aproximadamente no centro da 400 Porto
J Alegre
F M A M J J A S O N D 30
Corrente
região amazônica, comquente
milhares de quilômetros de distância do mar, o efeito da 25
300
A região ocupada pelo clima tropical apresenta
Precipitação variações de altitudes, que
Temperatura
Corrente fria
continentalidade é amenizado pela grande quantidade de vapor d’água fornecido Corrente das Falkland
200 influenciar nas médias de temperatura. Brasília, por exemplo, está numa
20
podem 15
pela floresta e trazido pelos ventos alísios que penetram na região.
altitude
100 de 1159m, apresentando temperatura média anual de 21ºC, enquanto
mm Brasília 10
ºC
cidades próximas, como Goiânia (741m de altitude) e Paranã (275m de altitude)
4000 530
mm Manaus ºC J F M A M J J A S O N D
apresentam
300 temperaturas médias de 23ºC e 25ºC, respectivamente. 25
400 30
Precipitação Temperatura
300 25 O clima tropical se estende até o litoral norte do Nordeste. Neste20caso
200
15
20 outros
100 fatores influenciam este tipo climático. A atuação dos ventos alísios,10 que
200
15 vêm do oceano, deixa o ar mais úmido, mesmo no inverno. As chuvas ocorrem
100 0
mm Recife (PE) ºC5
10
400 J
principalmente Fno final
M doA verão M e JinícioJ do Aoutono, S relacionando-se
O N D com30 o
0 5
J F M A M J J A S O N D deslocamento
300 da Zona de Convergência
Precipitação Intertropical (ZCIT) para o hemisfério
Temperatura 25 Sul.
Observe 20
Precipitação Temperatura 200 o climograma de Fortaleza que exemplifica esta situação (Figura 4.13).
15
100 10
mm
0 Fortaleza ºC5
Figura mm
4.11: Climograma da cidade de Manaus (Estado do Amazonas), relacionando precipitação
Brasília ºC 400 30
e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. 30 J F M A M J J A S O N D
400
300 25
25 Precipitação Temperatura
300 20
Em outros locais da região a quantidade de precipitação pode ser20bem 200
15
200
grande. Em Soure (Ilha de Marajó no Pará), por exemplo, a média anual de chuva
15 100 10
100
é de 3.215mm, enquanto em Manaus a média anual é de 2.286mm. 10 0mm Cabo Frio (RJ) ºC 5
0 5 400 J F M A M J J A S O N D 30
J F M A M J J A S O N D
300 Precipitação Temperatura 25
Clima tropical
Precipitação Temperatura 20
200
15
O clima tropical também ocupa grande parte do território brasileiro (Figura 1004.13: Climograma da cidade de Fortaleza (Estado do Ceará), relacionando precipitação
Figura 10 e
mm Recife (PE) ºC
4.10) e, dependendo do estado e/ou cidade, pode apresentar características um 0 com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990.
temperatura
400 J
5
30
mm Fortaleza ºC F M A M J J A S O N D
pouco
400diferenciadas. 30
300 25
Precipitação Temperatura
Pelo
300 climograma de Brasília (Figura 4.12), observa-se que a linha de tempe-
25 Atividade 1 20
200
ratura 20
200apresenta uma ligeira queda nos meses de junho e julho, caracterizando o
15
15 100
Compare os climogramas de Brasília e de Fortaleza e descreva aqui10suas
inverno
100
com temperaturas amenas. A precipitação entre os meses de maio e se- mm Ubatuba (litoral SP) ºC
10 semelhanças
0 e diferenças. 5
tembro fica extremamente baixa (menor que 38mm), caracterizando um período 400 J F M A M J J A S O N D 30
0 5
de outono/inverno
J F bem
M seco.
A ÉM típico JnestaJ época
A do Sano aO umidade
N Drelativa do 300 25
Precipitação Temperatura
20
ar baixar até 10% em algunsPrecipitação
dias, afetando aTemperatura
saúde dos habitantes. 200
15
A falta de chuva e a baixa umidade relativa do ar podem durar 2 ou 3 meses, 100 10
dependendo da intensidade das massas de ar Equatorial atlântica (atua mais ao 0
mm Cabo Frio (RJ) ºC5
mm Recife (PE) ºC J F M A M J J A S O N D
400 30
400 30 Precipitação Temperatura 25
300
300 25 20
20 200
200 15
15 100
100 mm Petrolina (PE) ºC10
10
Corrente fria
0 5 Corrente das Falkland
J F M A M J J A S O N D

Precipitação Temperatura mm Cabo Frio (RJ) ºC


400 30
mm Manaus ºC
400 30 300 25
56 mm :: Geografia :: MBrasília
ódulo 2 ºC 20
300 25 200
400 30
20 15
200
300 25 100
15 umidade e ventos oriundos do oceano, mas que são forçados a ascender devido 10 às
Clima
100
200
tropical 20
0 5
10 encostas daJ SerraF do MMar serem
litorâneo úmido 15 A MmuitoJ altasJe próximas
A S ao litoral.
O NEste relevo
D com
0100 5
J F M A M J J A S O N D 10 grandes altitudes também se Precipitação
constitui em barreira orográfica ao deslocamento de
Temperatura
0
Como oJ próprio nome expressa, este tipo climático recebe influência do5 mar frentes frias, causando chuvas muito intensas.
F M A Precipitação
M J J Temperatura
A S O N D
deixando-o mais úmido que o clima tropical anterior. Entretanto, a influência do
Precipitação Temperatura
mar pode ser profundamente diferente, dependendo da temperatura da superfície mm Ubatuba (litoral SP) ºC
Brasília 400 30
do marmm(relacionada a correntes marítimas). ºC
Outros fatores também ocorrem,
400 30 25
como os tipos de ventos oceânicos e épocas de atuação, as massas de ar25e o 300
300mm Fortaleza ºC 20
relevo 200
400costeiro. 20
30 15
200
Considerando
300
estes fatores, observe que os climogramas das cidades
15
25 100 10
de 100
Recife (Figura 4.14), Cabo Frio (Figura 4.15) e Ubatuba (Figura 4.16) 10
20 0 5
200 J F M A M J J A S O N D
0
apresentamJ diferenças, especialmente quanto àAquantidade 5
de Nprecipitação15e à
100 F M A M J J S O D
Precipitação Temperatura
sua distribuição ao longo do ano. Neste sentido, a época de maior precipitação10em
0 Precipitação Temperatura 5
Recife (litoral
J do FEstado
M de APernambuco/NE)
M J J corresponde
A S aosO meses
N Dde outono
e inverno, quando ventos vindos do oceano seTemperatura
Precipitação tornam intensos e as frentes frias Figura 4.16: Climograma da cidade de Ubatuba (Estado de São Paulo), relacionando precipitação
mm com os meses do ano. Fonte:
e temperatura Petrolina (PE) Climatológicas 1961-1990. ºC
INMET. Normais
oriundas do sul do Brasil podem alcançar o Nordeste brasileiro. 400 30
mm Fortaleza ºC
400 30 300 25
As temperaturas das referidas cidades também são diferentes, com Recife 20
mm
300 Recife (PE) 25
ºC
200
apresentando média anual de 25ºC, Cabo Frio com média anual de 23º15C e
400 30
20
200 100 com 21º C. Essas diferenças de temperatura têm relação com as latitudes
300 25
15 Ubatuba 10
100 20
10 0 cidade.
de cada 5
200 J F M A M J J A S O N D
0 515
100 J F M A M J J A S O N D 10 Precipitação Temperatura
0 Precipitação Temperatura 5 Clima tropical semiárido
J F M A M J J A S O N D
Precipitação Temperatura Ommclima tropical semiárido,Florianópolis
existente no(SC) interior da Região Nordeste,ºC
está
mm Recife (PE) ºC
relacionado
400 à presença de uma célula de alta pressão atmosférica. Como foi30visto
400 30 anteriormente,
300 este tipo de movimentação do ar apresenta uma corrente 25 de ar
Figura 4.14: Climograma da cidade de Recife (Estado de Pernambuco), relacionando precipitação 20
300mm com os meses do ano. Fonte:
e temperatura Cabo (RJ) Climatológicas 1961-1990. ºC25
FrioNormais
INMET. descendente
200 (subsidência do ar) que dificulta a subida do vapor d’água para
20 15
400 30 formar nuvens e, consequentemente, provocar chuvas.
200 100 10
15
25
300
A quantidade de precipitação em Cabo Frio (litoral do Estado do Rio
100 No
0 entanto, alguns sistemas atmosféricos, como a Zona de Convergência 5
10
20
de Janeiro/SE)
200 é muito menor, recebendo influência direta da ressurgência J e Ffatores,
Intertropical, M como
A aumento
M J daJ temperatura A S da O superfície
N D do mar,
0 515
100 J marítima
da corrente F Mfria Adas Malvinas.
M J Neste
J A
caso, Sa água
O friaN queD aflora na
10 podem enfraquecer a célula dePrecipitação
alta pressão atmosférica,
Temperaturapossibilitando a formação
superfície
0 estabelece um sistema de ventos
Precipitação do mar para
Temperatura o continente, levando 5 a de nuvens de chuva. Tais condições é que caracterizam o clima semiárido, com
J F M A M J J A S O N D
umidade em direção à região serrana próxima a Cabo Frio. este apresentando uma grande irregularidade de precipitação – durante dois ou
Precipitação Temperatura mm podem ocorrer chuvas,São
três anos Joaquimde(SC)
seguidos outros anos em que não háºCquase
400 30
mm Cabo Frio (RJ) ºC nenhuma precipitação.
300 25
400 30 O climograma da cidade de Petrolina (Figura 4.17), situada no sertão
mm Ubatuba (litoral SP) ºC25 20 de
300 200
400 30 Pernambuco, mostra a pequena quantidade de precipitação ao longo do15ano.
20 100 os meses de janeiro a abril apresentam valores de precipitação em10
200
300 25 Somente torno
15
100 20 0
de 100mm, período em que a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) atua na 5
200 10 J F M A M J J A S O N D
0 515 região. Entre junho e outubro, a quantidade de chuva raramente ultrapassa 10mm
100 J F M A M J J A S O N D 10 Precipitação Temperatura
por mês, quando ocorre.
0 Precipitação Temperatura 5
J F M A M J J A S O N D Outro fator que pode dificultar a formação de chuvas no interior do Nordeste
Precipitação Temperatura são os planaltos e chapadas próximos ao litoral. Assim, o ar úmido vindo do oceano
Figura 4.15: Climograma da cidade de Cabo Frio (Estado do Rio de Janeiro), relacionando é forçado pelo relevo (com altitudes raramente superiores a 800m) a subir,
mm Ubatuba (litoral SP) ºC
precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. formando nuvens e precipitação nasMinas vertentes
400 30 Gerais oceânicas das elevações. No entanto,
mm
300 Petrolina (PE) ºC25 as áreas mais elevadas são fragmentadas no espaço nordestino e insuficientes para
Em Ubatuba, cidade no litoral norte do Estado de São Paulo, chove bastante Rio de Janeiro
400
200
30
20 explicar a irregularidade e poucaFrquantidade
ent
e
de precipitação nesta região.
ao longo do ano, principalmente nos meses de verão. Esta localidade recebe
25
15 Fria
300
100 20
10
200
0 515
100 J F M A M J J A S O N D 10 São Paulo

0 Precipitação Temperatura 5
J F M A M J J A S O N D
Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado)
Precipitação Temperatura
15
20
100 200
mm Ubatuba (litoral SP) ºC 10
15
0 400
100 30 5
J F M A M J J A S O N D 10
mm Ubatuba (litoral SP) ºC 3000 25
5
400 30 F Precipitação M Temperatura D 20
200 J M A J J A S O N
300 25 15
Precipitação Temperatura
Capítulo 4 :: 10
57
20 100
200
15 0 5
mm Ubatuba (litoral SP) ºC
100 10 J F M A M J J A S O N D
A temperatura do ar fica em torno de 26º C e, combinada com a pouca400 mm Florianópolis (SC)
30
ºC
0 5 Precipitação Temperatura 25
precipitação,
J criaF ótimas
M condições
A M para J cultivos
J A de SfrutasO o ano
N todo,
D desde300 400 30
20
que haja irrigação. Deste modo, o vale do rio São Francisco, que corta a região200 300 25
Precipitação Temperatura 15 20
semiárida, se tornou um grande produtor e exportador de frutas. 100 200 10
mm Petrolina (PE) ºC15
0 100
400 5 30
10
J F M A M J J A S O N D
mm Petrolina (PE) ºC 300 0 25
5
400 30 J F Precipitação
M A M Temperatura
J J A S O N D 20
200
300 25 15
Precipitação Temperatura
20 100 10
200
15 0 5
mm Petrolinade(PE) ºC relacionando
100 10 400 Figura 4.18: J Climograma
F Mda cidade
A MFlorianópolis
J J(EstadoA de Santa
S Catarina),
O N
30
D
precipitação
mm e temperatura com os meses Sãodo ano. Fonte: (SC)
Joaquim INMET. Normais Climatológicas 1961-1990.
ºC
0 5 Precipitação Temperatura 25
J F M A M J J A S O N D 300 400 30
20
Precipitação Temperatura 200 Na
300 região Sul do Brasil há presença de relevo com altitudes significativas
25
15
20 a
100 (Serras200mmGaúcha e Catarinense com altitudes em torno de 1000m), deixando
Florianópolis (SC) 10 ºC15
Figura 4.17: Climograma da cidade de Petrolina (Estado de Pernambuco), relacionando precipitação 0 temperatura
400 mais baixa ao longo do ano. O relevo elevado também 5 funciona
30
100 10
e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990. Jcomo F M A M J J A S O N D
mm Florianópolis (SC) ºC 3000barreira orográfica para o deslocamento de sistemas atmosféricos (ventos 25
5
400 30 oceânicos, Jfrentes
F Precipitação
frias
M etc.),
A provocando
M Temperatura
J aumento
J A na quantidade
S O Ne, àsD 20 na
vezes,
200
300 25 15
intensidade
100
da chuva na região serrana. Um exemplo
Precipitação desta situação é a cidade
Temperatura de
20 10
200
:: Temperatura do Ar e Sensação Térmica :: 15 São Joaquim (Figura 4.19), situada em Santa Catarina, a uma altitude de 1.360m.
0 5
100
Às vezes, no inverno, os jornais divulgam que a temperatura 10 400 Nesta cidade,
mm F Florianópolis
J durante M o inverno,
A (SC)J
M pode ocorrer
J precipitação
A S OemºCforma
N Dde neve e
30
0 do ar é um determinado valor, mas a sensação térmica é de 5 congelamento da superfície dosPrecipitação
riachos. ObserveTemperatura
como a linha de temperatura
25 entre
J F M A M J J A S O N D 300
um frio maior. Isto acontece porque o corpo humano pode as duas cidades catarinenses mostram temperaturas bem diferentes. 20
Precipitação Temperatura 200
Minas Gerais 15
se resfriar (causando a sensação de frio) com a ocorrência 100
mm São Joaquim (SC) 10 ºCRio de Janeiro
de ventos que “roubam” calor do nosso corpo, por exemplo. Fre
0 400 nte 5 30
Por outro lado no verão, podemos sentir mais calor do que J F M A M J J FriaA S O N D
mm São Joaquim (SC) ºC 300 25
400 o registrado pela temperatura do ar. Esta sensação térmica de 30 Precipitação Temperatura 20
200
300 calor pode estar relacionada à alta umidade do ar e à falta de 25
São Paulo 15
20 100
200 ventos, exigindo que o nosso corpo transpire mais para buscar
10
15 0 5
100 resfriamento, causando inclusive fadiga. 10 400
mm
J F
São Joaquim (SC)
M A M J J A Fonte:
ºC
S OOGlobo,N 12/07/2003.
D (adaptado)
30
0 5 Precipitação Temperatura 25
J F M A M J J A S O N D 300
20
Precipitação Temperatura 200 Figura 4.19: Climograma da cidade de São Joaquim (Estado de Santa Catarina), 15relacionando
Clima subtropical úmido 100 precipitação e temperatura com os meses do ano. Fonte: INMET. Normais Climatológicas 1961-1990.
10 Climogramas
0 5
Os estados da Região Sul do Brasil e o extremo sul do estado de São Paulo J F M A M J J A S O N D
Precipitação Precipitação Minas Gerais
possuem um clima com temperaturas mais amenas e chuvas bem distribuídas Exercícios mm
Temperatura
Rio de Janeiro
ao longo do ano. Estas características climáticas se relacionam principalmente
Minas Gerais 400 Fre
nte
1) (UERJ / 2004) O esquema abaixo I Fria representa o avanço de umaII frente fria no
III
à latitude extratropical (ao sul do Trópico de Capricórnio) e à ocorrênciaRioquase de Janeiro
Fre
semanal de frentes frias. nte dia 12 de julho
300 de 2003, no Estado do Rio de Janeiro.
Fria
Em comparação aos demais climogramas, o da cidade de Florianópolis São Paulo
Minas Gerais
(Estado de Santa Catarina) apresenta a linha de temperatura mais sinuosa (Figura 200
4.18), evidenciandoSãoumPaulo
maior contraste de temperatura entre inverno e verão do Fre
Rio de Janeiro
Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado)
nte
que os gráficos anteriores. Esta variação maior de temperatura está relacionada à 100 Fria
latitude extratropical, que cria uma significativa diferença do tempo de exposição
Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado)
ao sol entre o verão e o inverno, como colocado no início do capítulo. 0
São Paulo JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASON
Neste climograma também se verifica a ausência de um período de seca. Climogramas
Em todos os meses há quase a mesma quantidade de precipitação, característica Fonte: FERREIRA, Graça Maria
Climogramas Fonte: O Globo, 12/07/2003. (adaptado)
fornecida pela passagem semanal de frentes frias, mesmo no verão. Precipitação
mm
a) Explique o processo de formação de uma frente fria.
Precipitação 400 Temperatura
mm mm I ºCºC II III
400 400
300
40 30 Climogramas
I II III IV
300 25
300 Precipitação 30
200
mm 200 20
Precipitação Temperatura Manaus
100 15

mm São Joaquim (SC) ºC


400 30
0 10
25
300 JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND
20
200
Minas Gerais
15
100 10 Cuiabá p. 6. (adaptado)
Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico,
0
58 F ::
M AG O ::N
5
Rio de Janeiro
J Meografia
J J A S
FreDMódulo 2
Precipitação Temperatura nte
Fria
Trópico de Capricórnio
b) A partir da dinâmica mm das massas de ar, justifique por que a frequência
ºC ea a) Descreva as principais características do clima representado no gráfico.
400 30 período. Curitiba
intensidade das Minas
frentes friasPaulo
Gerais São que atingem o Rio de Janeiro são maiores nesse
Rio de Janeiro
Fre
nte
Fria
300 25
b) Identifique qual das três cidades assinaladas no mapa apresenta as características
200 Fonte: O Globo,2012/07/2003. (adaptado)
do climograma e explique os fatores relacionados ao regime de chuvas.
2) (UERJ / 2004, 2º dia) Observe os climogramas abaixo, que apresentam as
São Paulo

médias mensais de chuvas e OdeGlobo,temperatura


100 Fonte: do ar atmosférico, de quatro
12/07/2003. (adaptado)
15 cidades
brasileiras.
0 10
J F M A M J J A S O N D 4) (UERJ / 2009) Os climogramas são gráficos que permitem comparar os climas
Climogramas por meio de dados referentes a temperatura e umidade.
Climogramas
Precipitação Temperatura T (ºC) Kuala Lampur (Malásia) P (mm3) T (ºC)
mm ºC
400 Equador
40 300 20
Precipitação
I II III IV Temperatura 280
300 mm 30 ºC
Manaus 260
400 40
200
I II 20
III IV 240
100 15 220 10
300 30 200
0 10
JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND
Cuiabá 180
200
Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado)
20 160
Adaptado de ADAS, M. Panorama Geográfico do Brasil. São Paulo: Moderna, 1998.
140
Trópico de Capricórnio 0
Os diferentes tipos de clima identificados pelos números , ,
mm e são,
ºC 120
400 100 30 15
respectivamente: Curitiba 100
300 25
(A) equatorial úmido – tropical20 semiárido – desértico – subtropical úmido 80
200
(B) 0
tropical semiúmido – Jsubtropical 30 10 60
100 F M15 A M J Júmido
A S O –N Ddesértico J–Fequatorial
M A M J J Aúmido
SOND J F M A M20J J A S O N D JFMAMJJASOND 40
–10
(C)
0
tropical semiúmido – desértico
10
– tropical semiárido – equatorial úmido
10 20
(D) Jequatorial úmido – tropical semiúmido – tropical semiárido – subtropical úmido
F M A M J J A S O N D
Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Moderno atlas geográfico, p. 6. (adaptado)
0 0
J F M A M J J A S O N D
Equador
3) (UFRJ / 2005, modificada) Observe o climograma e o mapa a seguir. Média anual Total anual –20
Manaus 27,1ºC 2479 mm3
mm T (ºC) ºC P (mm3)
Kuala Lampur (Malásia) T (ºC) Barrow (Canadá) P (mm3)
400 Cuiabá 30 300 20 40
280
–30
300
Trópico de Capricórnio 25 260 J
240
Curitiba Média anual
200 20 220 10 20 –12,5ºC
200
100 15 180
160
0 10 140
J F M A M J J A S O N D 0 0
T (ºC) P (mm3) 120
Kuala Lampur (Malásia) T (ºC) Barrow (Canadá) P (mm3)
300 20 40
100
280
260 80
240
30 60
220 10 Equador 20
–10
20 200 40
180
10 160
20
0 Manaus140 0 0 0
J F M 120A M J J A S O N D
100
Média anual 80
Total anual –20
30 27,1ºC 60 2479 mm3
–10
20 40
10 20
0 0
J
Média anual
F M A M J J A S O N D
Total anual
Cuiabá
–20
27,1ºC 2479 mm3 –30
J F M A M J J A S O N D
Média anual Total anual
Trópico de Capricórnio –30
–12,5ºC 109 mm3
J F M A M J J A S O N D
Média anual Total anual
–12,5ºC 109 mm3
Curitiba A partir da análise desses climogramas, justifique as diferenças de amplitude
térmica e de total anual de chuva verificadas entre os dois tipos climáticos
representados.

T (ºC) Kuala Lampur (Malásia) P (mm3) T (ºC) Barrow (Canadá) P (mm3)


Capítulo 4 :: 59

5) (UFF/ 2010) O fenômeno registrado na fotografia remete à importância de Complemente seus


se conhecer a dinâmica da natureza. conhecimentos
Possíveis impactos da mudança de clima no Nordeste
Jose A. Marengo

Clima do Nordeste: o presente


É conhecido que as chuvas do semiárido da região Nordeste
apresentam enorme variabilidade espacial e temporal. Anos de secas e
chuvas abundantes se alternam de formas erráticas, e grandes são as secas
de 1710-11, 1723-27, 1736-57, 1744-45, 1777-78, 1808-09, 1824-
25, 1835-37, 1844-45, 1877-79, 1982-83, e 1997- ocorrência de
chuvas, por si só, não garante que as culturas de subsistência de sequeiro
serão bem-sucedidas, e um veranico ou período seco dentro da quadra
chuvosa pode ter impactos bastante adversos à agricultura da região.
O regime pluviométrico de uma determinada região mantém uma forte
O principal fator de formação das ondas e a causa específica do fenômeno
relação com as condições hídricas do solo. Visto que a precipitação na
apresentado estão corretamente associados em:
(A) corrente marítima, vinculada à diferença de temperatura. região Nordeste apresenta uma grande variabilidade no tempo e espaço,
(B) vento, provocado por ciclone extratropical no oceano. a ocorrência de chuvas, por si, não garante que as culturas de subsistência
(C) salinidade, produto do variável índice pluviométrico. serão bem-sucedidas. No semiárido é frequente a ocorrência de períodos
(D) abalo sísmico, decorrente de acomodações na crosta terrestre. secos durante a estação chuvosa que, dependendo da intensidade e
(E) relevo litorâneo, resultante da formação geológica no continente. duração, provocam fortes danos nas culturas de subsistência.
A região Nordeste caracteriza-se naturalmente como de alto potencial
6) (UFF / 2009)
para evaporação da água em função da enorme disponibilidade de
Tempo Real / Tempo Virtual
energia solar e altas temperaturas. Aumentos de temperatura associados
[...] O verão é feroz. Especialmente um verão como este, ilegítimo, fora de
à mudança de clima decorrente do aquecimento global, independente do
época, produto de uma subversão planetária. Tudo nele está fora da lei, como a
que possa vir a ocorrer com as chuvas, já seriam suficientes para causar
poesia e a paixão desvairada. Por isso mesmo, tudo nele é intenso e efêmero, como
maior evaporação dos lagos, açudes e reservatórios e maior demanda
se decidisse esbanjar toda a sua vida num dia apenas, com a urgência de quem vai
evaporativa das plantas. Isto é, a menos que haja aumento de chuvas, a
morrer às seis da tarde, sangrando, esquartejado, sobre as montanhas do Leblon.
água se tornará um bem mais escasso, com sérias consequências para a
O verão lembra uma máquina anômala cujas correias e roldanas se estendem
sustentabilidade do desenvolvimento regional.
por avenidas e rodam nas nuvens, espiralando, em câmera lenta, numa velocidade
O sistema elétrico brasileiro depende do regime de chuvas. Uma
diferente dos aviões que sobrevoam os quarteirões do Flamengo e o Morro da
pequena redução da quantidade de chuvas ou um pequeno aumento da
Viúva, preparando-se para descer na pista do Santos Dumont. [...]
evaporação pode levar a zero a geração de energia em grandes áreas do
Ferreira Gullar, Revista O Globo, 30/12/07 Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Sentimos isso em 2001, durante
O texto de Ferreira Gullar refere-se, de maneira poética, às mudanças climáticas o “apagão”. Aquilo foi provocado pelas poucas chuvas no sistema hidrelétrico
ocorridas no globo terrestre ao longo das últimas décadas. do Sudeste, e bastou um aumento da temperatura de um ou dois graus, e a
Assinale a caracterização correta desse fenômeno. quantidade de água perdida para a evaporação, e o excesso de uso de energia
(A) Ocorrência de tempestades e catástrofes naturais, causadas pelo movimento para fazer funcionar sistemas de ar acondicionado e refrigeração, foram
de placas tectônicas.
suficientes para levar os níveis dos reservatórios das usinas hidroelétricas a
(B) Irregularidade das condições climáticas em áreas do planeta, provocada por
fatores naturais e humanos. níveis próximos a zero, comprometendo a geração de energia.
(C) Aumento da temperatura nas cidades, em função da formação de “ilhas de
calor” nas áreas rurais. Clima do Brasil: o futuro
(D) Modificações do ciclo das estações em virtude de mudanças orbitais da Terra As projeções de clima, liberadas pelo Quarto Relatório do IPCC (IPCC
e da atividade solar. AR4), têm mostrado cenários de secas e eventos extremos de chuva em
(E) Alterações bruscas no tempo, devido à inversão térmica decorrente do avanço
grandes áreas do planeta. No Brasil, a região mais vulnerável, do ponto de
de massas de ar.
vista social, à mudança de clima, seria o interior de Nordeste, conhecida
como semiárido, ou simplesmente o “sertão”. Reduções de chuva aparecem
na maioria dos modelos globais do IPCC AR4, assim como um aquecimento
que pode chegar até 3-4ºC para a segunda metade do século XXI. Isso
60 :: Geografia :: Módulo 2

acarreta reduções de até 15-20% nas vazões do rio São Francisco. Aquecimento global, com a elevação do nível dos oceanos, aumento
O Relatório do Clima do Brasil, produzido recentemente pelo Instituto da intensidade e da frequência das ressacas nos últimos anos, a ocupação
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), tem estudado as mudanças de irregular da orla e mudanças provocadas pelo homem nos rios que
clima no Brasil, e para o Nordeste, para finais do século XXI. Este relatório desaguam no mar são apontados, por especialistas em climatologia e
tem usado modelos regionais de até de resolução animados no modelo fenômenos marinhos, como causas mais prováveis da redução das praias.
global de HadAM3 do Centro Climático do Reino Unido (Hadley Centre). Uma elevação de no nível do Atlântico poderia consumir de praia no Norte
Segundo este relatório do Inpe, estes seriam os possíveis impactos da e no Nordeste. Em Recife, por exemplo, a linha costeira retrocedeu de
mudança de clima, considerando os cenários otimistas e pessimistas 1950, e mais de de 1985 e 1995.
propostos pelo IPCC: Os ambientalistas estão preocupados também com a caatinga,
No cenário climático pessimista, as temperaturas aumentariam de 2 apontada como uma das ações mais urgentes. A caatinga é o único bioma
ºC a 4 ºC e as chuvas de reduziriam entre 15-20% no Nordeste até o final exclusivamente brasileiro, abriga uma fauna e uma flora únicas, com
do século XXI. No cenário otimista, o aquecimento seria entre 1-3 ºC e a muitas espécies endêmicas, ou seja, que não são encontradas em nenhum
chuva ficaria entre 10-15% menor que no presente. outro lugar do planeta. Trata-se de um dos biomas mais ameaçados do
Essas mudanças no clima do Nordeste no futuro podem ter os Brasil, com grande parte de sua área tendo já sido bastante modificada
seguintes impactos: pelas condições extremas de clima observadas nos últimos anos, e
• A caatinga pode dar lugar a uma vegetação mais típica de zonas potencialmente são muito vulneráveis às mudanças climáticas.
áridas, com predominância de cactáceas. O desmatamento da Amazônia O clima mais quente e seco poderia ainda levar a população a migrar
também afetará a região. para as grandes cidades da região ou para outras regiões, gerando ondas
• Um aumento de 3ºC ou mais na temperatura média deixaria ainda de “refugiados ambientais”, aumentando assim os problemas sociais já
mais secos os locais que hoje têm maior déficit hídrico no semiárido. existentes nos grandes centros urbanos do Nordeste e do Brasil.
• A produção agrícola de subsistência de grandes áreas pode se
tornar inviável, colocando a própria sobrevivência do homem em risco. O que pode ser feito: avaliações do impacto e vulnera-
• O alto potencial para evaporação do Nordeste, combinado com o bilidade às mudanças climáticas
aumento de temperatura, causaria diminuição da água de lagos, açudes A população mais pobre é a que sofrerá mais e a região mais afetada
e reservatórios. seria um quadrilátero no Nordeste, compreendendo desde o oeste do Piauí,
• O semiárido nordestino ficará vulnerável a chuvas torrenciais o sul do Ceará, o norte da Bahia e oeste de Pernambuco, onde estão as
e concentradas em curto espaço de tempo, resultando em enchentes e cidades com menor desenvolvimento humano. As projeções de clima para
graves impactos socio-ambientais. Porém, e mais importante, espera-se o futuro indicam riscos de secas de 10 anos ou mais.
uma maior frequência de dias secos consecutivos e de ondas de calor Para um país com tamanha vulnerabilidade, o esforço atual de mapear
decorrente do aumento na frequência de veranicos. tal vulnerabilidade e risco, conhecer profundamente suas causas setor por
• Com a degradação do solo, aumentará a migração para as cidades setor, e subsidiar políticas públicas de mitigação e de adaptação ainda se situa
costeiras, agravando ainda mais os problemas urbanos. bem aquém de suas necessidades. O conhecimento sobre impactos setoriais
avançou um pouco sobre a vulnerabilidade da mega diversidade biológica e de
Consequências da mudança do clima no Nordeste: alguns agroecossistemas (milho, trigo, soja e café) às mudanças climáticas,
As projeções apresentadas no Relatório do Clima do Inpe foram com indicações iniciais de significativa vulnerabilidade. Nos setores de saúde,
geradas usando modelos climáticos globais e regionais, e o fato de recursos hídricos e energia, zonas costeiras, e desenvolvimento sustentável
todos os modelos convergirem numa situação de clima mais quente e do semi-árido e da Amazônia, a quantidade de análises de impactos e
seco pode fazer com que consideremos essas projeções como tendo vulnerabilidade é substancialmente menor, o que aponta para uma premente
um grau de certeza grande. Considerando um modelo em particular necessidade de induzir estudos para esses setores.
(o modelo do Centro Climático britânico – Hadley Centre) e o cenário São mais comuns os estudos de vulnerabilidade a mudanças dos usos
pessimista, apresenta uma tendência de extensão da deficiência hídrica por da terra, aumento populacional e conflito de uso de recursos naturais,
praticamente todo o ano para o Nordeste, isto é, tendência a “aridização” porém, é urgente um esforço nacional para a elaboração de um “Mapa
da região semiárida até final do século XXI. Define-se “aridização” como Nacional de Vulnerabilidade e Riscos às Mudanças Climáticas”, integrando
sendo uma situação na qual o déficit hídrico que atualmente apresenta- as diferentes vulnerabilidades setoriais e integrando estas com as demais
se no semiárido durante 6-7 meses do ano seja estendido para todo o causas de vulnerabilidade. Um plano contra a mudança climática incluiria
ano, consequência de um aumento na temperatura e redução das chuvas. tanto ações de adaptação (como mudar o zoneamento em cidades
Em resumo, grande parte do semiárido nordestino, onde a agricultura não litorâneas para evitar o avanço do mar) quanto de mitigação.
irrigada já é atividade marginal, tornar-se-ia ainda mais marginal para a Jose A. Marengo é pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do
prática da agricultura de subsistência. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) - Email: marengo@cptec.inpe.br.
5
Biomas e Domínios
do Relevo do Brasil
62 :: Geografia :: Módulo 2

SOBRE OS BIOMAS, é baseada nas ligações dos aspectos biológicos e físicos de uma determinada
OS ECOSSISTEMAS formação. Cada tipo de bioma apresenta um conjunto de ecossistemas que
E OS DOMÍNIOS funcionam de forma estável, sendo caracterizado por um tipo principal de
MORFOCLIMÁTICOS vegetação (num mesmo bioma podem existir diversos tipos de vegetação). Desse
modo, os sistemas ambientais utilizam-se da classificação de vegetação para
Este capítulo tem como objetivo entender quais são os principais bio- melhor evidenciar as diversas paisagens naturais, aqui entendidas como biomas.
mas, ecossistemas e domínios morfoclimáticos brasileiros ou mesmo, o Quanto aos ecossistemas, são considerados como as unidades naturais do
significado destes na dinâmica terrestre. Para tal, é importante destacar planeta que compõem os diferentes tipos de biomas, constituindo-se no foco de
conceitos, definições, terminologias, características, distribuição e principais estudo da Ecologia. São formados por seres vivos (meio biótico), por locais onde
usos. Iniciaremos com os termos fitofisionomia, formação e bioma. Fitofisio- vivem (meio abiótico) e por todas as relações destes com o meio e dividem-se em
nomia indica o aspecto da vegetação que se encontra em determinado lugar terrestres e aquáticos, podendo variar de tamanho, desde uma poça d’água até
e foi proposto praticamente ao mesmo tempo que o termo formação, que indica uma grande floresta. Em outras palavras, são considerados como o “conjunto de
a vegetação como resultante da interação entre solo, relevo, clima, fauna, flora, todos os organismos (biocenose) que habitam em um determinado espaço vital
hidrografia e outros. O termo bioma, proposto mais tarde, apenas adicionou a (ecótopo), com a totalidade de fatores inanimados desse espaço” ou, conjunto
fauna à uniformidade fitofisionômica e climática, características desta unidade bio- formado por todas as comunidades que vivem e interagem em uma certa região
lógica. Várias modificações conceituais foram apresentadas por diversos autores, e pelos fatores abióticos que agem sobre essas comunidades. E, finalmente, a
ao longo do tempo, acrescentando outros fatores ambientais ao conceito original, associação de ecossistemas similares formam então um tipo de bioma.
como o solo, por exemplo. Walter propôs um conceito essencialmente ecológico, Os domínios morfoclimáticos (morpho = formas + clima) foi proposto nos
considerando bioma como uma área de ambiente uniforme, definido de acordo anos de 1970 por Aziz Ab´Saber, para classificar as interações entre os elementos
com a zona climática em que se encontra. naturais construídas ao longo do tempo. Os domínios se referem a unidades
paisagísticas resultantes, principalmente, das relações entre clima e relevo.
De origem grega, a palavra bioma (bio = vida + oma = Quanto à conceituação de domínios, podem ser entendidos como ‘faixas ou zonas
grupo) foi utilizada pela primeira vez por Frederic Clements nos de transição’ que funcionam como ‘limites’ entre as paisagens, evidenciando que
anos de 1940. O objetivo era o de designar grandes unidades essa passagem se dá de forma gradual e não abrupta.
caracterizadas por certa uniformidade em sua distribuição As diferentes paisagens que se estendem pelo globo terrestre podem
no planeta, bem como o predomínio de espécies de flora e ser agrupadas segundo alguns critérios, capazes de agregar regiões com
fauna, associadas às outras características do meio físico como características semelhantes e facilitar o entendimento dos fenômenos naturais e
relevo, solo e clima. Essa classificação foi aprimorada e passou sociais. Isso significa que, quando falamos em paisagens naturais, dois conceitos
a designar grandes unidades com características semelhantes, são importantes: bioma e domínio morfoclimático.
destacando-se a fisionomia, as formas de vida, as estruturas
e os fatores ambientais associados, introduzindo-se o fator BIOMAS NO MUNDO
hidrografia. Há muitas definições sobre esse conceito, mas
começou de fato a ser mais utilizado a partir da década de A nossa visão de mundo é político-administrativa, não é mesmo? Dividido
1990 para facilitar o planejamento de ações de conservação e em continentes, países, estados, cidades, vilas, povoados, aldeias... Raramente
proteção ambiental específicas para cada bioma. nos damos conta de que vivemos em um determinado bioma, cujas características
são únicas e se diferenciam dos outros biomas. Na escala global, os biomas são
unidades que evidenciam grande homogeneidade na natureza de seus elementos,
O bioma pode ser considerado como uma área do espaço geográfico, com como por exemplo as florestas tropicais que distribuem-se pela América, África, Ásia
dimensões de até mais de um milhão de quilômetros quadrados e que tem por e Oceania. Embora semelhantes, possuem diferentes comunidades ecológicas e são
características a uniformidade de um macroclima definido, de uma determinada essas particularidades, que fazem com que algumas vegetações embora parecidas
fitofisionomia ou formação vegetal, de uma fauna e outros organismos vivos entre si, mostrem-se distintas. Assim como em outros biomas, cada uma dessas
associados, e de outras condições ambientais, como a altitude, o solo, alagamentos, florestas tem sua importância no contexto local.
o fogo, a salinidade, entre outros. Estas características todas lhe conferem uma Os biomas são classificados de acordo com algumas características, tais
estrutura e uma funcionalidade peculiares, ou seja, uma ecologia própria. como: grau de umidade, folhas e formas e a maioria dos autores concordam em
Entende-se então, que os biomas apresentam um somatório de ecossistemas identificar onze biomas no globo: Tundra, Taiga, Florestas Temperadas, Vegetação
vizinhos e semelhantes, podendo ser divididos em terrestres e aquáticos. Mediterrânea, Pradaria, Estepes, Deserto, Savana, Florestas Tropicais e Subtropicais
Como vocês sabem, o ambiente terrestre é dividido em grandes comunidades, e Vegetação de Montanha (Figura 5.1). Lembramos que, atualmente, além da
apresentando características distintas entre si, e essa classificação dos biomas irreversível extinção de espécies (ou da biodiversidade), podemos mencionar outra
Capítulo 5 :: 63

crise, a dos biomas, que por resultar na perda dos ambientes naturais onde as Interessante notar que, ainda que sua riqueza baseia-se em espécies nativas,
espécies nascem, desenvolvem-se e deslocam-se, passou a ser uma preocupação a maior parte das atividades econômicas nacionais são de espécies exóticas. Na
recorrente mencionada na literatura. agricultura, destacam-se a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), o arroz
(Filipinas), a soja e a laranja (China), o cacau (México) e o trigo (Ásia); na
silvicultura, os eucaliptos (Austrália) e pinheiros (América Central); na pecuária, os
bovinos (Índia), os equinos (Ásia) e os caprinos (África); na piscicultura, as carpas
(China), as tilápias (África Oriental); e na apicultura, as variedades de abelha
provenientes da Europa e da África.
Os produtos da biodiversidade no Brasil respondem por 31% das exportações,
com destaque para o café, a soja e a laranja. As atividades de extrativismo
florestal e pesqueiro empregam mais de três milhões de pessoas. A biomassa
vegetal, incluindo o etanol da cana-de-açúcar, e a lenha e o carvão derivados de
florestas nativas e plantadas respondem por 30% da matriz energética nacional
– e em determinadas regiões, como o Nordeste, atendem a mais da metade
da demanda energética industrial e residencial. Além disso, grande parte da
população brasileira faz uso de plantas medicinais para tratar seus problemas de
saúde. Diante deste quadro, é de fundamental importância que as pesquisas sejam
intensificadas no país para o melhor aproveitamento da biodiversidade brasileira
pois, ainda é reduzido o conhecimento sobre as espécies, principalmente nas
áreas tropicais úmidas. Essa condição torna-se crítica à medida que as alterações
ambientais antropogênicas se acentuam, modificando habitats e impingindo uma
perda de patrimônio biológico.
Figura 5.1: Biomas no Mundo

PRINCIPAIS TIPOS DE
BRASIL: PAÍS DE MAIOR BIOMAS DO BRASIL
BIODIVERSIDADE DO
PLANETA É grande a variedade de formações vegetais pelo planeta, como florestas
equatoriais, tropicais, desertos, savanas, campos, dentre outros, sendo
Segundo a Conservation International (CI), o Brasil é considerado “megabio
possível identificarmos características comuns em todo o mundo. Apesar da
diverso” ou seja, um país que reúne pelo menos 70% das espécies vegetais e
homogeneização dos biomas, cada formação no planeta apresenta espécies
animais do Planeta. Primeiro país signatário da Convenção sobre a Diversidade
específicas daquela área. A divisão político-administrativa do Brasil está no nosso
Biológica (CDB), sua biodiversidade é qualificada pela diversidade de ecossistemas,
imaginário e rapidamente nos situamos diante de um mapa. Mas qual é o bioma
de espécies biológicas, de endemismos e de patrimônio genético.
que vivemos por exemplo, aqui no estado do Rio? Este bioma está associado a
As dimensões continental, as variações geomorfológica e climática, além da
qual zona climática?
maior rede hidrográfica, são responsáveis pela formação de zonas biogeográficas
Vamos rever de modo sucinto quais são os principais biomas brasileiros e
distintas ou biomas, a saber: a Floresta Amazônica, maior floresta tropical úmida
como estão distribuídos espacialmente. O espaço geográfico brasileiro se estende
do mundo; o Pantanal, maior planície inundável; o Cerrado de savanas e bosques;
por mais de 8,5 milhões de km², situados em latitudes que vão desde aproxima-
a Caatinga de florestas semiáridas; os campos dos Pampas; e a floresta tropical
damente 5ºN até quase 34ºS, onde cada bioma tem seus limites definidos por
pluvial da Mata Atlântica. Além disso, em seu litoral estão os ecossistemas como
uma combinação de diferentes fatores tais como clima, temperatura, precipitação
recifes de corais, dunas, manguezais, lagoas, estuários e pântanos.
de chuvas, umidade relativa, tipo de componentes do solo, compartilhando das
Essa variedade de biomas reflete a enorme riqueza da flora e da fauna e faz
mesmas características biológicas e climáticas. Podemos citar alguns exemplos
com que o Brasil tenha a maior biodiversidade do planeta. Podemos citar, além
como os dos moradores de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória que encon-
disso, as espécies endêmicas e diversas espécies de plantas de importância econô-
tram-se nos limites do bioma de Mata Atlântica e os de Goiânia, Brasília e Cuiabá
mica mundial – como o abacaxi, o amendoim, a castanha do Brasil (ou do Pará),
nos limites do bioma do Cerrado.
a mandioca, o caju e a carnaúba – que são originárias do Brasil. Abriga ainda,
São inúmeras as divisões dos tipos de biomas no Brasil e, neste curso
uma rica sociobiodiversidade, representada por mais de 200 povos indígenas e
adotamos as propostas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
por diversas comunidades – como quilombolas, caiçaras e seringueiros, para citar
que define o bioma como “conjunto de espécies animais e vegetais que vivem
alguns – que reúnem um inestimável acervo de conhecimentos tradicionais sobre
em formações vegetais vizinhas em um território que possui condições climáticas
a conservação da biodiversidade.
similares e história compartilhada de mudanças ambientais, o que resulta em uma
64 :: Geografia :: Módulo 2

diversidade biológica própria”. Nessa perspectiva, o bioma pode ser nomeado O bioma da Amazônia (conhecida como Floresta Equatorial, Tropical e Úmida)
em função da vegetação predominante (Cerrado, Mata Atlântica), do relevo compreende cerca de 42% do território nacional e está presente nos estados do Acre,
(Pantanal), das condições climáticas (Caatinga no semiárido nordestino) ou do Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins,
meio físico ( zonas costeira e marinha). além de outros países sul-americanos, em áreas de climas Equatorial e Tropical
Lançado em 2004 pelo IBGE, o Mapa dos Biomas Brasileiros apresenta úmido. Possui a maior biodiversidade do planeta e compõe-se por vegetação de
uma divisão onde um mesmo bioma contém paisagens distintas da vegetação grande porte, verdes, com grandes folhas (latifoliadas) e grande densidade.
dominante. É o caso dos Campos e Manchas de Cerrado existentes na Amazônia. O bioma da Caatinga, cuja vegetação é adaptada às condições de aridez,
Ao considerar ecossistemas distintos do predominante em um mesmo bioma, é único no mundo, abrange cerca de 10% do território nacional e engloba os
tenta-se mostrar que eles precisam ser tratados de maneira integrada. O que afeta estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
um ecossistema provoca impactos em outros ecossistemas vizinhos, mesmo que o Alagoas, Sergipe, Bahia (região Nordeste do Brasil) e parte do norte de Minas
primeiro não seja a paisagem preponderante. Gerais (região Sudeste do Brasil).
De acordo com o IBGE (Figura 5.2 e Tabela 5.1), são seis os grandes biomas O bioma dos Campos são formados basicamente por herbáceas, gramíneas
brasileiros continentais (Caatinga, Campos, Cerrado, Amazônia, Mata Atlântica e e pequenos arbustos de diversas características, variando de acordo com a região,
Pantanal) e um bioma aquático (Oceânico, Litorâneo e Lacustre). Observe ainda, ocupando áreas descontínuas no país. Na região Norte, apresenta-se como savanas
os limites dos Biomas e os limites dos tipos Climáticos (Figura 5.3) de gramíneas baixas; na região Sul, como pradarias mistas subtropicais formadas
principalmente pelo Pampa gaúcho, onde o clima é subtropical e a vegetação
(aberta e de pequeno porte) se estende do Rio Grande do Sul à Argentina e ao
Uruguai. Podem ainda ser encontrados em diversas regiões do planeta tais como,
nas estepes russas, nas pradarias norte-americanas e nas savanas africanas.
O bioma do Cerrado localiza-se principalmente no Planalto Central Brasileiro,
ocupa cerca de 20% do território brasileiro e é o segundo maior bioma do
Brasil. Composto por árvores relativamente baixas (distribuídas entre arbustos e
gramíneas), de troncos e ramos retorcidos, cascas espessas e folhas grossas. É um
ecossistema similar às chamadas Savanas da África e da Austrália, e é reconhecido
como a savana mais rica do mundo em biodiversidade.
O bioma do Pantanal localiza-se no sudoeste de Mato Grosso e oeste de
Mato Grosso do Sul e faz a ligação entre o Cerrado (no Brasil Central), o Chaco
(na Bolívia) e a Floresta Amazônica (ao Norte do país). Constitui-se numa área
de transição e é considerado uma das maiores planícies inundáveis do planeta,
formado por uma grande variedade de ecossistemas.
O bioma Mata Atlântica ocupa toda a faixa continental atlântica leste brasileira
e se estende para o interior nas regiões Sudeste e Sul do País, ou seja, do Piauí ao
Figura 5.2: Biomas Brasileiros. Fonte: IBGE, 2004
Rio Grande do Sul, ocupando inteiramente três estados – Espírito Santo, Rio de
Janeiro, Santa Catarina, 98% do Paraná, além de porções de outras 11 unidades da
federação. Definido pela vegetação florestal e por relevo diversificado, é considerado
um dos biomas mais ricos do mundo em espécies da flora e da fauna.

Tabela 5.1: Área Territorial ocupada pelos Biomas no Brasil


(IBGE, 2004)
Biomas Continentais Área Aproximada Área Total/Brasil
Brasileiros km² %
Bioma Amazônia 4.196.943 49,29%
Bioma Cerrado 2.036.448 23,92%
Bioma Mata Atlântica 1.110.182 13,04%
Bioma Caatinga 844.453 9,92%
Bioma Campos (Pampas) 176.496 2,07%
Bioma Pantanal 150.355 1,76%
8.514.877 100,00%
Figura 5.3: Climas do Brasil
Capítulo 5 :: 65

O bioma Áquático brasileiro constitui-se dos lagos, rios e mares, ou seja,


por ambientes de água doce (lênticos e lóticos) ou ambientes de água salgada
(plataforma continental, costões rochosos e mar aberto). Os lênticos são formados
por lagos e lagoas, ambos de águas paradas e os lóticos, pelos cursos d’água (rios
e correntezas) mais velozes, sendo que apresentam diferentes formas da nascente
até a foz. Lembramos que, são muitos os cursos d’água, tais como:
• cursos de pântanos (águas escuras que drenam terras úmidas e recebem
principalmente águas de chuva);
• cursos montanhosos (águas turbulentas que formam sedimentos finos);
• rios que drenam áreas de solo argiloso (águas turvas e contribuem para a
fertilidade do solo local);
• rios de mananciais (recebem grandes quantidades de águas limpas que se
infiltram na terra, podendo constituir cursos subterrâneos, águas claras);
• rios de maré (correm para o mar e sofrem os efeitos das marés nas regiões
mais baixas).
Já no ambiente marinho, estão manguezais, restingas, dunas, praias, ilhas,
costões rochosos, baías, falésias, recifes de corais instalados nas áreas de transição
entre litoral, praia, plataforma continental e fundo oceânico. Figura 5.5: Biomas do Brasil e Unidades de Conservação

Apresentamos os principais tipos de biomas encontrados no Brasil de acordo


com a classificação do IBGE. Seguem outros mapas (Figura 5.4) que vocês O desmatamento no Brasil está reduzindo de modo significativo sua cober-
eventualmente encontrarão na literatura ou mesmo nas provas do ENEM, cujas tura vegetal original. Estima-se que, cerca de 20.000 km² de vegetação nativa
divisões utilizam outros critérios. é desmatada anualmente em consequência de derrubadas e incêndios para fins
agrícolas, industriais ou urbanos que, no conjunto, transformam o ambiente com
a construção de estradas, viadutos, túneis, hidrelétricas, minerações, impermea-
bilização do solo e causam perda da biodiversidade, empobrecimento do solo,
emissão de gás carbônico na atmosfera, erosões, alterações na dinâmica hídrica,
alterações climáticas, dentre outros (Figura 5.6). Podemos mencionar alguns
exemplos: - introdução de espécies exóticas e grandes plantações, como é o caso
do eucalipto introduzido principalmente nos biomas de Cerrado, Pampa e Floresta,
alterando a paisagem e a economia regional, além de causar impactos irreversí-
veis no ambiente; - introdução da soja no Cerrado, Pantanal, causando impactos
ambientais como o assoreamento do leito dos rios, a poluição de nascentes de
rios das bacias Amazônica e do São Francisco por agrotóxicos, etc.; - atividades
agropecuárias com impactos sociais graves (trabalhadores escravos).
A preocupação em relação à extinção de espécies e à alteração de dinâmicas
Figura 5.4: Biomas do Brasil (11 tipos)
sistêmicas, tem levado ambientalistas e governos a desenvolver pesquisas com
a finalidade de conhecer mais as mudanças provocadas por diferentes usos dos
É com o agravamento dos problemas ambientais em nível global, como
biomas e propor planejamentos adequados que possam colaborar na preservação
as queimadas de florestas, o aumento de gás carbônico na atmosfera e seu
em consonância com a produção de alimentos. Essa mesma preocupação tem
consequente efeito no aquecimento do Planeta, o crescimento do buraco de
levado à ações de Organizações Não Governamentais a se dedicarem a pesquisa,
ozônio sobre o polo sul, o avanço das fronteiras agrícolas, em detrimento das
como é o caso do GREENPEACE.
áreas naturais dentre outros, tem aumentado muito o interesse dos pesquisadores
e de toda a mídia em denunciar tais fatos e procurar alternativas, além da criação
de Unidades de Conservação que protegem legalmente os biomas (Figura 5.5).
O Brasil possui grandes áreas em estado crítico ou ameaçadas, resultante
principalmente, pela fragmentação de habitats e perda de área florestada e
diversidade biológica
66 :: Geografia :: Módulo 2

dos homens habitantes. De forma que a palavra utilizada epidermicamente


teve apenas um valor demagógico. No que tange aos sertões pseudamente
receptores dos recursos hídricos a serem tirados do São Francisco, desde o
início se falou em “águas para todos”, como se um projeto linear tivesse
força para abranger areolarmente todos os sertões povoados de além-
Araripe. Mais do que isso, procurou-se dizer que a transposição garantiria
águas para beber. Sem lembrar que um certo volume de águas poluídas
misturadas com águas salinizadas de alguns grandes açudes impediria o
uso imediato das águas para fins potáveis.
Propagou-se desde o início uma estatística aproximada dizendo que a
retirada das águas do São Francisco seria de apenas 1% do volume total do
rio. Um fato que, segundo os dizeres técnicos limitados, não iria prejudicar
nem o rio, nem tampouco a população ribeirinha são-franciscana. Somente
não se falou, nem se quis falar, que a maior necessidade de águas para
além-Araripe coincidiria com a estação seca dos meados do ano em que o
Rio São Francisco permanecia com menor volume de água.
Convém lembrar sempre aos técnicos mal orientados sobre a hidro-
Figura 5.6: Biomas do Brasil e Áreas Desmatadas. Fonte: Atlas Geográfico Escolar. Ensino climatologia regional dos sertões de aquém e além-Araripe que será mais
Fundamental - do 6o ao 9o ano. necessário ter águas exatamente quando o Nordeste semi-árido designado
por Grande Sertão Norte estiver mais quente e seco com seus rios “corta-
dos”, para usar de uma palavra tradicional criada pelos sertanejos. Tanto
COMPLEMENTE SEUS o rebaixamento e corte das águas dos sertões além-Araripe quanto aqueles
CONHECIMENTOS ocorrentes no médio-baixo Vale do São Francisco correspondem ao inverno
astronômico; entretanto, devido a um conjunto de fatores hidroclimáticos
complexos, nos sertões de além-Araripe ocorre uma secura prolongada que
TEXTO 1 faz a intermitência sazonária dos rios e que, por uma razão pragmática
compreensível, conduziu as populações regionais a falarem em verão. Fato
A Transposição das Águas do Rio São Francisco - Análise Crítica que, aliás, não é único no mundo, já que existem outras áreas onde, no
O conhecimento sobre a dinâmica climática e hidrológica de um rio inverno astronômico, ocorrem condições quentes e secas que conduzem a
perene, que cruza caatingas em um certo trecho de seu longo vale, é uma inversão terminológica regional justificável.
essencial para qualquer tipo de planejamento. Nos estudos básicos para O primeiro ponto a destacar é que o Rio São Francisco cruza os sertões
fundamentação de projetos para os sertões secos do Nordeste, há que baianos, pernambucanos, pro parte alagoanos e sergipanos, com as águas
considerar todas as territorialidades que estão ao norte do Araripe, dotadas de suas cabeceiras e uma parte das chuvas sazonárias importantes do
de rios intermitentes, sazonários, exorréicos, assim como toda a área domínio dos cerrados. Na realidade, o São Francisco possui quatro setores
sertaneja localizada ao sul da chapada divisora. principais hidroclimáticos sub-regionais a serem considerados com atenção
Além do mundo físico e ecológico, é absolutamente necessário para qualquer tipo de projeto, como esse ora em discussão. Nas suas ca-
realizar estudos básicos sobre a projeção da sociedade sertaneja sobre o beceiras, desde a Serra da Canastra até algumas centenas de quilômetros,
espaço total da área reconhecida como Polígono das Secas, e identificar os existem condições tropicais úmidas de planalto com precipitações relativa-
problemas enfrentados pelas comunidades residentes de todos os sertões. mente bem distribuídas, totalizando de 1.100 a 1.400 mm anuais.
No caso da transposição do Rio São Francisco para além-Araripe, torna-se A seguir, por outras centenas de quilômetros ocorrem climas tropicais
imprescindível conhecer melhor a região semi-árida da qual se pretende úmidos a duas estações (verão chuvoso e inverno seco), existindo, porém,
tirar um certo volume de água fluvial. um total de chuvas anuais que se acrescenta às águas provindas do alto
No caso do projeto governamental ora sob pressão para transpor vale. Em seguida, a partir da fronteira de Minas Gerais com a Bahia, ocorre
águas do São Francisco, de início se fez um branco no tratamento da uma dualidade hidrográfica na área em que o rio transpõe o semi-árido
região semi-árida são-franciscana. Quando se percebeu a grandiosidade no espaço interior de Bahia, Pernambuco, Alagoas e adjacências. Em
do erro em termos sociais e políticos, passou-se a falar, entre os maiores outras palavras, somente o São Francisco continua perene, porém com
interessados na implantação do projeto, em uma revitalização prévia do rebaixamento do volume da água corrente. A oeste da Bahia, os rios se
Vale do Rio São Francisco. Como se essa tarefa fosse factível em face da comportam como se fossem tropicais úmidos a duas estações, conseguindo
ordem de grandeza espacial do vale e da complexidade socioeconômica chegar até a margem esquerda do São Francisco em “pleno inverno”. No
Capítulo 5 :: 67

entanto, numerosos pequenos afluentes da região semi-árida cruzada pelo relativamente chuvosas, ou de rios espaçados do domínio de cerrados.
Rio São Francisco, na Bahia, comportam-se segundo o modelo mais amplo Trata-se, portanto, de um curso d’água perene de tipo marcadamente
dominante no semi-árido brasileiro, ou seja, como rios intermitentes, alóctone. O Jaguaribe, para onde se pretende transpor parte das suas
sazonários, exorréicos. As chuvas do semi-árido são-franciscano totalizam águas, enquadra-se na categoria de rios intermitentes, sazonários e
volumes de 500 a 600 mm anuais por oposição aos 1.500-1.800 mm abertos para o mar (exorréicos). Fato que precisa ser repetido muitas
predominantes no domínio dos cerrados. vezes para os planejadores dotados de baixa interdisciplinaridade. Convém
O quarto conjunto hidroclimático do Rio São Francisco corresponde lembrar também, nesse sentido, que quase 100% dos rios brasileiros inter
à chamada Zona da Mata costeira, onde as precipitações, num espaço e subtropicais chegam ao mar pelos mais variados caminhos, enquadrando-
relativamente limitado (Sergipe, Alagoas), atingem um total de 1.200 se na categoria de drenagens abertas para o oceano (tecnicamente dito
a 2.100 mm, aproximadamente. Para ser mais detalhado, convém, exorréicos). Não existem verdadeiras drenagens endorréicas e arréicas no
entretanto, registrar as fortes transições progressivas existentes entre os território brasileiro. Trata-se de uma vantagem a nosso favor, relacionada
climas tropicais úmidos das cabeceiras, os climas do médio vale mineiro ao fato de que todos os sais minerais retirados das rochas decompostas
do São Francisco, o clima da região semi-árida baiana e, por fim, os climas ou alteradas são dejetados para o oceano de tal modo que é uma idiotice
tropicais úmidos da região costeira. Com um detalhe a mais, em relação total quando alguém comenta que os problemas do Nordeste seco estariam
à transição rápida e complexa entre o clima dos sertões secos do São relacionados ao fato de que todas as suas águas escoariam para o mar.
Francisco e as faixas úmidas da Zona da Mata. Há muito, o próprio povo Mal sabem eles que a qualidade relativa dos solos de todos os sertões
identificou a longa e irregular faixa de transição entre o muito seco e e, sobretudo, os do Ceará está relacionada com a dinâmica chamada
o relativamente muito úmido sob o nome de área dos agrestes. De tal exorreísmo. Sem conhecer esses fatos alguém já comentou para justificar a
forma que essa expressão tem validade tanto hidroclimática e ecológica, transposição das águas do São Francisco para além-Araripe que: “Já que as
assim como de suas ofertas para atividades agrárias, valendo como uma águas vão para o mar que mal existe com que elas sejam transpostas?”.
identificação científica intuitiva quase perfeita. Tais raciocínios são mais tristes quando se sabe que as grandes barragens
De toda esta análise, fica bem patente que o semi-árido nordestino do sertão provocam localmente salinização, sobretudo no caso de Orós.
brasileiro possui o mesmo ritmo sazonário dos planaltos interiores Por meio desses raciocínios singelos e inconseqüentes, não se pode
dominados por cerrados, existindo, porém, uma diferença fantástica de avaliar que as águas doces poluídas do São Francisco, ao serem despejadas
volume de precipitações anuais entre os extensos cerrados e os grandes do outro lado do Araripe, irão se misturar com as águas semi-salinizadas de
sertões. Nos planaltos interiores recobertos por cerrados e recortados por um grande açude (Orós), ou prejudicar as águas doces retidas abaixo dos
densas florestas de galerias, as precipitações anuais totais chegam a três ou sedimentos arenosos, dos leitos de rios dependentes, das águas de alta
quatro vezes mais do que os totais de chuvas tombadas na mesma época qualidade provenientes de chuvas dos sertões semi-áridos (“de inverno”
nos sertões quentes e secos, dotados de caatingas herbáceas, arbustivas, no dizer do sertanejo).
altos “pelados” e cactáceas em lajedos de solos líticos e inselbergs. Deve-se lembrar que até hoje normalmente as águas poupadas entre
Convém lembrar que a melhor maneira para delimitar o Polígono das soleiras rochosas que seccionam transversalmente os rios dos sertões
Secas, em relação aos domínios morfoclimáticos e fitogeográficos do seu nordestinos constituem o mais importante manancial para obtenção de
entorno, é o espaço até onde ocorrem as caatingas e áreas de rios e riozi- água potável nas áreas cortadas por rios de leito arenoso. Bastaria lembrar
nhos intermitentes, sazonários: aí está a core-área do domínio dos sertões o cenário das crianças sertanejas puxando jegues com pipotes para obter
nordestinos. De tal maneira que fica fácil para os cientistas, os planeja- águas doces nas pequenas cavas feitas no leito superficialmente seco, mas
dores e os governantes saberem alguma coisa do espaço total regional, dotado de águas subsuperficiais retidas, não-evaporadas, a um ou dois
dominado por rusticidades e grandes problemas para o homem habitante. metros de profundidade.
Um fato absolutamente deplorável no projeto de transposição de Ao se iniciar a idéia da transposição de águas do São Francisco para o
águas do São Francisco para o setor além-Araripe do Nordeste seco diz Ceará e Rio Grande do Norte, ninguém se preocupou com os problemas da
respeito à total ausência de estudos básicos sobre a dinâmica climática própria região de onde sairiam as águas. Era uma idéia fixa por transpor,
macrorregional. Não é possível afirmar, em termos genéricos, que o apesar das observações corretas feitas pelo então bispo de Barra ao
projeto prevê a retirada de apenas 1% do volume das águas do “Velho então candidato a presidente e alguns de seus companheiros. Caberia ao
Chico” e que, por essa razão mesma, não haverá prejuízo para as funções sucessor de dom Itamar Vian – Luiz Flávio Cappio – a tarefa histórica de
permanentes do rio em relação às hidroelétricas de Paulo Afonso, Itaparica um protesto contra o simplismo e a desatenção dos responsáveis pelo
e Xingó. Em uma comparação muito próxima, já se sabe que o Nilo projeto em relação aos próprios problemas do setor semi-árido do São
atravessa o deserto, enquanto o São Francisco cruza um bom trecho de Francisco. Tinha muita razão dom Cappio ao fazer sua greve de fome em
caatinga em seu baixo-médio vale até a Bahia, Pernambuco e Alagoas. Cabrobó, em frente à represa de Sobradinho. O episódio balanceou os
Na realidade, o São Francisco é dependente das áreas úmidas de seu alto ânimos dos autoritários e incompetentes mentores do projeto. Dom Cappio
vale acrescidas das águas de alguns de seus afluentes provindos de áreas foi induzido a acabar com seu histórico protesto de repercussão nacional.
68 :: Geografia :: Módulo 2

Seu principal argumento era que a faixa de utilização agrária, no sudoeste para nordeste, marcados por estreitas e alongadas florestas
setor sertanejo do São Francisco, era muito restrita. Nesse sentido, tinha ciliares (florest galarie): um conjunto espacial sujeito à expansão da soja
bastante razão; mesmo porque, comparado com os sertões do Ceará, onde e à multiplicação do sistema de irrigação por pivôs. As precipitações nessa
existia gente por toda a parte, as beiradas do “Velho Chico” eram mais área atingem, em média, pouco mais do que 1.600 mm anuais, com uma
rústicas e pobres do que as colinas sertanejas de além-Araripe. grande predominância de chuvas de verão e inverno relativamente seco.
Esses argumentos tornam-se mais verdadeiros quando se considera a Uma transição brusca nas condições climáticas acontece nos confins do São
grande extensão de dunas da região de Xique-Xique, que elimina qualquer Francisco baiano, surgindo bruscamente diferentes fácies de caatingas, em
possibilidade de uso do espaço na margem esquerda do rio, frente à velha terras baixas, encarceradas entre a Chapada Diamantina e os chapadões
cidadezinha. A não-consideração da fantástica quantidade de areias do sedimentares cretácicos de oeste (areado).
paleodeserto de Xique-Xique, além da limitação para usos tradicionais É, grosso modo, a partir da fronteira de Minas Gerais com a Bahia,
de sobrevivência da população regional, constitui uma área matriz de que o São Francisco começa a cruzar o setor regional de caatingas. As
fornecimento detrítico para assoreamento do rio. Um atestado a mais precipitações baixam gradualmente de 1.100 mm para 600 ou 400 mm,
do pouco conhecimento dos mentores do projeto, que teimam em dar prosseguindo em condições semi-áridas por todo o médio-baixo vale até o
propostas simplistas para o que chamam de revitalização do vale. Uma cotovelo do rio e os sertões de Alagoas e Sergipe; estendendo caatingas
tarefa para a qual não estão preparados, pelo pouco conhecimento que pelas próprias paredes do cânion de Xingó.
possuem em relação a um rio que tem 2.000 quilômetros de extensão sul- Por longos espaços, o São Francisco comporta-se como o único curso
norte, desde as suas cabeceiras tropicais úmidas de planalto, e pela região d’água perene da região, em que, no seu conjunto, efetivamente predo-
dos cerrados tropicais a duas estações, até chegar ao baixo-médio vale, mina uma drenagem intermitente sazonária exorréica, que é incapaz de
onde atravessam caatingas na condição de curso d’água alóctone. Não manter qualquer lençol d’água subsuperficial que garanta uma perenidade
considerando a grande extensão sul-norte do vale e seus diferentes setores de todos os córregos, rios e riozinhos regionais; já que o aprofundamento
climático-hidrológicos, assim como a diversidade de ocupação antrópica do lençol força um sistema hidrológico em que o calor e a evaporação obri-
nos diferentes setores do vale, é totalmente impossível aplicar um termo gam os pequenos cursos de água a alimentarem o lençol abaixo de seus
tão genérico quanto “(re)vitalização”. leitos temporariamente secos por cinco a sete meses do ano. Exatamente
Em função de seu longo traçado sul-norte no Brasil tropical centro- quando, em pleno inverno astronômico, o exagerado aquecimento produz
-oriental, o Rio São Francisco atravessa quatro setores de domínios da uma condição chamada de “verão sertanejo”.
natureza do território brasileiro. Desde o altiplano cristalino da Serra da Ultrapassados os “altos sertões” de Pernambuco e Alagoas e pro
Canastra – a nordeste do Triângulo Mineiro – até o mar, na fronteira parte Sergipe, o São Francisco cruza faixas irregulares de agrestes. Essa
de Alagoas com Sergipe; devendo ser lembrado que o rio totaliza 2.170 banda leste do espaço principal dos sertões semi-áridos inclui o mais
quilômetros de extensão. Atravessando setores de quatro domínios morfo- variado mosaico de ecossistemas nordestinos, envolvendo caatingas
climáticos e fitogeográficos intertropicais brasileiros – em um eixo maior arbóreas, matinhas ralas e, por fim, na periferia interior da Zona da Mata
nitidamente longitudinal –, o “Velho Chico” percorre espaços climático- costeira típica, uma alongada e sinuosa faixa de vegetação designada
-hidrológicos muito diferentes entre si: como já expusemos, nasce em um por “matas secas biodiversas”. No interior desse conjunto complexo do
altiplano dotado de campestres e matinhas biodiversas de cimeira, passan- agreste, em áreas rebaixadas de solos razoáveis, acontece um protótipo
do logo a percorrer regiões tropicais úmidas de planalto, outrora recobertas regional de atividades agrárias que comporta cercas-vivas reticuladas;
por matas biodiversas de transição, hoje dominadas por atividades agrárias onde se separam terrenos para plantações e terrenos para criação de
diversificadas. Recebendo precipitações anuais superiores a 1.100 mm em gado. Esse agroecossistema indica sempre condições climáticas, fitogeo-
média, bem distribuídas, as terras regionais têm condições de possuir len- gráficas e ecológicas moderadas de grande tipicidade e importância social,
çóis d’água subsuperficiais suficientes para manter a perenidade de todo o recebendo de 750 a 950 mm em média de precipitação anual. Somente
Alto Vale do São Francisco. Após algumas centenas de quilômetros para o as chamadas matas secas se diferenciam dos agrestes, localizando-se
norte, ocorre uma rápida transição para a vegetação do cerrado, cerradões sempre nos confins da mata atlântica sublitorânea, onde ocorrem estreitas
e campestres cruzados por florestas-galerias. faixas de florestas tropicais úmidas biodiversas em colinas e tabuleiros,
Aos poucos, passam a dominar cerrados e cerradões degradados na com verdadeiras faixas de florestas tropicais biodiversas. Esta última é
depressão interplanáltica do médio vale são-franciscano, sob um clima uma área que, ao longo de cinco séculos de ocupação agrária baseada
tropical a duas estações. Florestas-galerias e eventuais veredas marcam sobretudo na plantação de cana de açúcar, na prática perdeu quase todos
a relativamente estreita planície do rio. A leste, a partir das montanhas do os seus ecossistemas naturais.
quadrilátero auro-ferrífero, estende-se a dorsal da Serra do Espinhaço, e os Tão importante quanto entender o transecto geral dos espaços cli-
altiplanos da Chapada Diamantina, onde ocorrem campestres de cimeira e mático-ecológicos do Vale do São Francisco, em um curso de mais de
mini-relictos de cactáceas. A oeste, pronunciam-se os chapadões cretácicos 2.100 quilômetros de extensão, é o entendimento de suas complexas
do noroeste da Bahia, com sua rede de cursos afluentes, orientados de áreas de transição e contacto, que muitas vezes apresentam mosaicos
Capítulo 5 :: 69

de ecossistemas diferenciados em sucessivas áreas, desde o extremo sul projetos de irrigação nas colinas das margens do vale. A maneira pela qual
até a área em que o rio transpõe caatingas. Além da presença de minibio- os técnicos e funcionários das instituições gerenciadoras dos projetos de
mas relictuais; redutos de matas na cimeira de morros e maciços antigos; irrigação vêm tratando os pobres sertanejos que se associaram aos projetos
baixios de pé-de-serra; bizarros montes cársticos; vazantes ribeirinhas lo- é mais do que injusta e incompreensível.
dosas, envolvendo argilas e partículas de calcários; corpos de dunas de um Pior do que isso é a desatenção que os técnicos têm tido para com
paleodeserto arenoso (psamo-bioma); além de rios afluentes empestados os que procuram a direção dos açudes por ocasião das grandes secas.
por resíduos de defensivos agrícolas; e um afluente de exceção na margem O autoritarismo e a ausência de sensibilidade social e humana dos
direita do rio, proveniente de grandes cidades e áreas minero-siderúgicas. gestores têm sido abomináveis e discriminatórios. Além de uma total
De tal forma que o alto e médio Vale do Rio das Velhas possui um comple- falta de criatividade e espírito de inovações técnicas, socioeconômicas e
xo metabolismo urbano-industrial e forte poluição hídrica. socioculturais em relação aos brios culturais da gente sertaneja. Se tal
No espaço total da bacia hidrográfica do Rio São Francisco existe, situação continuar prevalecendo, não será possível acreditar minimamente
portanto, uma setorização climático-hidrológica regional que garante sua nos efeitos sociais e psicossociais da propalada transposição.
perenidade, possibilitando o cruzamento das caatingas e paleodesertos Tinha, portanto, mais do que razão dom Luiz Flávio Cappio em protes-
arenosos, ocorrentes no médio vale inferior da bacia hidrográfica regio- tar contra o ligeirismo e a deficiência dos conhecimentos dos fatos antrópi-
nal. É importante relembrar que a área dos cerrados do médio vale são- cos nos projetos elaborados às pressas de transposição das águas do São
-franciscano tem a mesma sazonalidade que o Polígono das Secas; porém, Francisco para o Ceará, Rio Grande do Norte, e os cariris novos, cabeceiras
totaliza de três a quatro vezes mais o volume de chuvas de inverno do que do Rio Paraíba do Norte. Convém lembrar que, em um projeto democrático,
o total das precipitações do Nordeste seco. Esta última pode ser conside- inteligente e bem elaborado, nunca se poderá dizer autoritariamente que
rada a mais ampla, complexa e socialmente importante faixa de transição “se trata de um projeto político do presidente”, mesmo porque todo pro-
de todo o Nordeste, por toda a parte reconhecida pelo termo “agrestes” jeto exclusivamente político é, por princípio, uma auto-afirmação sobre o
ou “terras agrestadas”. Na continuidade espacial para a zona litorânea e seu caráter demagógico e eleitoreiro. Ao invés desse enunciado preferimos
sublitorânea – zona da mata propriamente dita – os totais de precipita- que se diga que se trata de um projeto de governo metodicamente bem
ções anuais sujeitas a chuvas de verão e de inverno alcançam de 1.500 a elaborado, e de aplicabilidade macrorregional, interdisciplinar, de grande
2.100 mm anuais, em média. O conhecimento de tais fatos, para qualquer interesse social. Ninguém seria contra a transposição de águas do São
tipo de planejamento, é indispensável, obrigando os órgãos de gerencia- Francisco se houvesse projetos paralelos simples e bem distribuídos por
mento regional a um aprofundamento do conhecimento e da obtenção de todos os sertões a fim de fazer ascender socioeconômica e sociocultural-
dados meteorológicos sobre os mais diversos espaços do sertão. Sendo mente os mais pobres e desventurados habitantes do interior brasileiro.
absolutamente necessário incorporar sempre, às condicionantes do mundo No Nordeste seco existe gente por toda a parte: um fato que
físico e ecológico, o conhecimento socioambiental das comunidades serta- transformou a nossa região sertaneja sofrida na região semi-árida mais
nejas residentes, semi-escravizadas pelas dificuldades quase incorrigíveis povoada do mundo e de mais difícil atendimento social efetivo a sua brava
da radical estrutura agrária vigorante na região. Por fim, um fato básico, gente (Jean Dresch). Tudo levando a crer que um projeto certamente
nem sempre levado em consideração por políticos e planejadores: é exa- eleitoreiro e desenvolvimentista somente vai atender a fazendeiros
tamente no inverno (astronômico), quando as águas do Rio São Francisco absenteístas da beira alta de alguns vales e a empreiteiras desesperadas
ficam mais baixas, que é necessário maior volume delas para manter as por um novo ciclo de lucratividades.
hidrelétricas de Paulo Afonso, Itaparica e Xingó. No mesmo período em As considerações aqui feitas são uma homenagem a Luiz Flávio Cappio
que seria necessário transpor mais águas para além-Araripe, onde todos os e ao seu antecessor Itamar Vian, grandes conhecedores das realidades
rios sertanejos perdem correnteza por longos meses. físicas, sociais e econômicas do Vale do São Francisco.
Para justificar o projeto de transposição de águas perante a opinião Fonte: REVISTA USP, São Paulo, nº 70, p. 6-13, junho/agosto 2006; http://www.usp.br/
pública nacional, falou-se em “águas para todos” – todos os nordestinos, revistausp/70/01-aziz.pdf, acesso em 22/10/2014
evidentemente – e, a partir daí, passou-se a falar que seriam beneficiados
milhões de sertanejos. E nunca se mencionou para que classes sociais a
TEXTO 2
transposição iria interessar. Os proprietários de terras absenteístas ficaram
radiantes porque, antes que as obras começassem, houve valorização des-
O QUE PRECISA SER FEITO
sas terras. Os vazenteiros, que cultivavam o leito e faziam culturas de ciclo
curto no leito exposto do rio por cinco a seis meses, ficaram apavorados Pelo Governo Brasileiro
porque iriam perder o único espaço possível de utilização pelos sertanejos • Adotar medidas urgentes para zerar o desmatamento na Amazônia
roceiros sem-terras. Brasileira até 2015. Isso inclui a adição imediata de uma moratória de
Os mentores do projeto nem mesmo previram um sentido de prioridade cinco anos para o desmatamento, dando tempo para o país desenvolver os
para que os vazenteiros tivessem a possibilidade de se integrar a possíveis
70 :: Geografia :: Módulo 2

instrumentos necessários para atingir o desmatamento zero; planeta. Em particular, pressionar governos por um forte acordo para a
• Apoiar um forte protocolo de Clima a ser firmado em Copenhagem redução de emissões em Copenhagen em 2009;
em 2009, que inclua um fundo internacional para reduzir emissões por • Adotar um estilo de vida visando a reduzir suas próprias emissões
desmatamento e degradação (conhecido como REDD). Para que este de carbono. Isto pode incluir a redução na quantidade de carne consumida
mecanismo financeiro tenha credibilidade para proteger as florestas, ele ou exigir que comerciantes apresentem a origem dos produtos que vendem.
deve obedecer aos seguintes princípios: Fonte: GREENPEACE, O Rastro da Pecuária na Amazônia, Manaus, AM, 2008; http://www.
–– prover imediatamente fundos anuais suficientes para reduzir o greenpeace.org.br/amazonia/pdf/atlasweb.pdf, acesso em 22/10/2014
desmatamento em florestas tropicais;
–– ser acessível a todos os países com florestas tropicais, mesmo
aqueles com baixas taxas de desmatamento;
OS DOMÍNIOS
–– proteger a biodiversidade e o modo de vida dos povos indígenas;
MORFOCLIMÁTICOS
–– ser protegido contra manobras contábeis nacionais e abordagens de
DO BRASIL
redução de desmatamento;
O geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, propôs ainda na década de 1960 uma
–– não incluir diretamente a comercialização de títulos de carbono;
classificação de ambientes que denominou de Domínios Morfoclimáticos. Nestes,
–– não encorajar a substituição de florestas naturais por plantadas e
as formas do relevo e os tipos climáticos caracterizam cada domínio (limite, zona)
não subsidiar a expansão da indústria madeireira, do agronegócio e outras
e também faixas de transição entre eles (Figura 5.7), levando em consideração
práticas destrutivas em áreas de floresta;
também os aspectos de vegetação, solo, e hidrografia. Apresentam localização, área,
• Não permitir alterações no Código Florestal brasileiro que
povoamento, condições bio-hidro-climáticas, preservação ambiental e economia local
possibilitem ampliar o desmatamento legalizado;
bem distintas. São 6 áreas nucleares e 3 áreas de transição, a saber:
• Redirecionar os investimentos hoje destinados a atividades
• Domínio Amazônico: região norte do Brasil (60% território), bacia amazônica,
destrutivas para iniciativas sustentáveis, incluindo uso responsável de
terras baixas e grande processo de sedimentação; clima e floresta equatorial; baixa
produtos florestais por populações tradicionais;
densidade demográfica; devastação da floresta é antiga (borracha, minérios,
• Ampliar os recursos materiais e humanos destinados a monitorar
madeira) compromete os ecossistemas;
e controlar os crimes ambientais, para garantir o cumprimento da lei e a
• Domínio dos Cerrados: região central do Brasil, vegetação tipo cerrado,
presença do Estado na Amazônia. pela indústria
formações de chapadões e chapadas; devastado primeiramente na construção de
• Apoiar publicamente o Desmatamento Zero na Amazônia;
Brasília, projetos agropecuários; processos erosivos;
• Interromper a produção e o comércio de produtos relacionados com
• Domínio dos Mares de Morros: região leste (litoral brasileiro), onde se
novos desmatamentos e comunicar aos seus fornecedores que não comprarão
encontra a floresta Atlântica e clima diversificado; morros de formas residuais;
mais de fazendas ou empresas responsáveis por novos desmatamentos;
devastado desde os primórdios;
• Divulgar amplamente a origem de seus produtos, como carne ou
• Domínio das Caatingas: região nordestina do Brasil (polígono das secas),
couro, aos consumidores;
formações cristalinas, área depressiva intermontanas e clima semiárido; devastado
• Reduzir suas próprias emissões de gases do efeito estufa, em
desde os primórdios da colonização;
acordo com os cortes globais de emissões necessários;
• Domínio das Araucárias: região sul brasileira, habitat da araucária (pinheiro
• Exigir publicamente dos governos um forte protocolo do Clima a ser
brasileiro), região de planalto e clima subtropical; devastação mais recente, século XIX;
firmado em Copenhagen em 2009, que inclua um fundo internacional para
• Domínio das Pradarias: região do sudeste gaúcho, local de coxilhas
proteger as florestas e reduzir emissões por desmatamento e degradação.
subtropicais; latifúndios agropastoris;
Este fundo deve financiar os serviços ambientais prestados pelas florestas
• Faixas de Transição Nordestinas: zona dos cocais (importante fonte de
em terras públicas e privadas.
renda à população nordestina) e o meio-norte que se estabelece entre a caatinga
Pelos Bancos e Investidores do sertão e a Amazônia (carnaúba e babaçu);
• Interromper o financiamento de empresas envolvidas em desmatamento • Faixa de Transição da Região Sul Brasileira: transição entre Araucária e
no bioma Amazônia. Pradarias;
• Faixa de Transição Pantanal: reservatório de água, exploração mineral,
Pelos Cidadãos monoculturas.
• Unir-se ao Greenpeace na campanha pelo Desmatamento Zero na Ama-
zônia até 2015, participando de petições ao governo brasileiro, governos de
outros países e à comunidade internacional, para acabar com o desmatamento;
• Exigir, junto com o Greenpeace, que governos e empresas adotem
medidas reais para interromper o desmatamento e salvar o clima do
Capítulo 5 :: 71

Figura 5.8: Mapa das Unidades de Relevo do Brasil (Jurandyr Ross, 1998)
Fonte: Geografia do Brasil, Jurandyr L. S. Ross.

Vejam as principais características desses tipos de relevo:

Planaltos
Figura 5.7: Mapa dos Domínios Morfoclimáticos e Faixas de transição (Ab Saber, 1970)
1. Planalto da Amazônia Oriental: planalto sedimentar que se estende de Ma-
Já o geógrafo Jurandyr Ross, na década de 1990, redefiniu e atualizou os naus até o oceano Atlântico, constituindo-se nos limites norte e sul da bacia Amazô-
domínios morfoclimáticos, propondo uma classificação a partir do levantamento nica. Em seu limite norte, o relevo é escarpado e definido por uma frente de cuesta,
realizado pelo projeto RADAMBRASIL e dos avanços em estudos geomorfológicos com altitude média de 400 metros, recoberto por mata densa (seringueira e cacauei-
(processos de erosão, transporte e sedimentação; cotas altimétricas e estruturas ro). Seus topos são arredondados, e alguns são morros residuais de topo plano.
geológicas). Identificou portanto, 3 tipos de relevo: os planaltos (porções 2. Planaltos e Chapadas da Bacia do Parnaíba: são formados por terrenos de
residuais salientes do relevo, que oferecem mais resistência ao processo bacia sedimentar e ocupam vasto território que se estende do Maranhão à Brasília,
erosivo); as planícies (superfícies essencialmente planas, nas quais o processo de onde as formas de chapadas são predominantes.
sedimentação supera o de erosão) e; as depressões (áreas rebaixadas por erosão 3. Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná: são terrenos sedimentares com
que circundam as bordas das bacias sedimentares, interpondo-se entre estas e os formação arenítico-basálticas que se estendem de Goiás até o Rio Grande do Sul,
maciços cristalinos). cujas altitudes atingem cerca de 1.000 m.
Para explicar essa nova divisão do relevo brasileiro, baseou-se contudo, em 4. Planaltos Residuais Norte Amazônicos: estendem-se do Amapá até o
três importantes fatores geomorfológicos: morfoestrutural (leva em consideração norte do estado do Amazonas, com altitudes que variam de 600 a l.000 metros,
a estrutura geológica), morfoclimático (onde considera o clima e o relevo) e, chegando a atingir 3.000 metros nas partes mais elevadas. Compostos por rochas
morfo escultural (que considera a ação dos agentes externos). Na verdade, cada cristalinas e de formas serranas residuais e descontínuas (Tapirapecó, Imeri,
um desses fatores utilizados criou um grupo diferente de formas de relevo ou, Parima, Acaraí, Tumucumaque e do Navio), são ricos em manganês. É nessa
níveis diferentes denominados taxons. unidade de relevo que encontram-se os picos mais elevados do Brasil: o pico da
O primeiro taxon – morfoestrutural, considera a forma de destaque na Neblina, com 3 014 metros, e o pico 31 de Março, com 2 992 metros, ambos
paisagem, sejam os planaltos, as planícies ou as depressões; o segundo taxon situados no estado do Amazonas.
- morfoclimático considera a estrutura geológica em que os planaltos foram 5. Planaltos Residuais Sul Amazônicos: são planaltos cristalinos que se
modelados (bacias sedimentares, núcleos cristalinos arqueados, cinturões estendem desde o sul do Pará até Rondônia, cujo aspecto é de uma vasta área
orogênicos, coberturas sedimentares sobre o cristalino) e; o terceiro taxon - morfo plana com morros de topos arredondados, distribuídos de modo descontínuo. Ao
escultural, considera a modelagem do relevo ou nas unidades morfo esculturais lado desses morros encontram-se áreas de coberturas sedimentares antigas, que
(formadas por planaltos, planícies ou depressões), somando no total, 11 apresentam topo plano e correspondem às chapadas, como a do Cachimbo. Nessa
planaltos, 6 planícies e 11 depressões conforme mostra a Figura 5.8: formação, localiza-se a serra dos Carajás, onde há grande ocorrência de minerais,
como ferro, manganês, cobre e ouro.
6. Planalto e Chapada do Parecis: são planaltos que se estendem no
sentido leste-oeste, indo de Mato Grosso até Rondônia, formados por terrenos
sedimentares, com altitudes entorno de 800 m. O relevo de chapadas de topo
plano servem como divisores de águas das bacias do Amazonas - Paraguai.
7. Planalto de Borborema: são terrenos de formação pré-cambriana
72 :: Geografia :: Módulo 2

localizados no leste de Pernambuco, com grande núcleo cristalino isolado e 5. Planície e Pantanal do Rio Paraguai ou Mato-Grossense: ocupa a parte
altitudes que atingem cerca de 1.000m. mais ocidental do Brasil Central, estendendo-se também pela Bolívia e Paraguai.
8. Planalto Sul Rio-grandense: localizado no sul do Rio Grande do Sul com Altitudes entorno dos 100 metros e caracterizam-se pela deposição sedimentar
altitudes que não ultrapassam os 450 m. recente, no verão/outono o rio causa inundações e esse alagamento origina as
9. Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste: formação pré-cambriana, ocu- “bacias” conhecidas como Baías do Pantanal Mato-Grossense.
pam terrenos cristalinos (em sua maior parte) e se estendem de Santa Catarina até 6. Planícies das Lagoas dos Patos e Mirim: estendem-se pelo litoral gaúcho
a Bahia. Caracterizados por serras de altitudes elevadas (mais de 2.000m), como até o Uruguai, formadas por sedimentos depositados pelas correntes marinhas.
é o caso da Serra da Mantiqueira com 2.890m. Nestes planaltos estão as serras do
Mar e do Espinhaço, além de fossas tectônicas como o vale do Paraíba do Sul (Fi- Depressões
gura 5.8). No reverso das serras, há o domínio de superfícies bastante acidentadas
1. Depressão da Amazônia Ocidental: faz limite com as depressões Norte
caracterizadas por morros baixos e convexos, denominadas como mares de morros.
Amazônica e Sul Amazônica, cortada pela Planície do Rio Amazonas. Os terrenos
baixos apresentam altitudes inferiores a 200 metros, cujos topos planos são
sustentados principalmente por rochas sedimentares.
2. Depressão Marginal Norte Amazônica: situada entre os Planaltos Residuais
Norte Amazônicos ao norte, e a Depressão da Amazônia Ocidental e o Planalto da
Amazônia Oriental, ao sul. Altitude oscila entre 200 e 300 metros; no limite norte,
apresenta escarpas e, ao sul, frentes de cuesta.
3. Depressão do Araguaia-Tocantins: situa-se na região central do Brasil,
acompanhando o rio Araguaia, com formas de relevo quase planas e de baixas
altitudes que não passam de 350 m.
Figura 5.9: Esquema simples da Fossa tectônica do Vale do Paraíba
4. Depressão do Tocantins: terrenos de formação cristalina pré-cambriana
que acompanham o rio Tocantins e altitudes de até 400 metros.
10. Planaltos e Serras de Goiás - Minas:são terrenos predominantemente
5. Depressão Cuiabana: ocupa terrenos localizados na parte central do Brasil,
cristalinos, de formação antiga, que se estendem de Brasília até o sul de Minas
caracterizados pela presença de terrenos sedimentares e de altitudes moderadas
Gerais, cujas altitudes atingem cerca de 1.960m. Destacam-se as serras da
que oscilam entre 150 à 400 m.
Canastra e Dourada e as chapadas próximas do Distrito Federal e a dos Veadeiros.
6. Depressão do Alto Paraguai-Guaporé: localizada no extremo norte da Planí-
11. Serras Residuais do Alto Paraguai: são terrenos predominados por
cie do Pantanal e a Chapada dos Parecis, no Mato Grosso, caracteriza-se pelo pre-
rochas cristalinas e rochas sedimentares antigas, e compõem o cinturão orogênico
domínio de rochas sedimentares e com altitudes que variam entre 150 à 200 m.
Paraguai - Araguaia. Concentrados ao sul e ao norte do Pantanal Mato-Grossense,
7. Depressão do Miranda: situada no Mato Grosso do Sul, nas proximidades
onde a porção Meridional corresponde à Serra da Bodoquena, e a porção
do Pantanal com predomínio de rochas cristalinas pré-cambrianas e é cortada pelo
setentrional corresponde à Província Serrana.
rio Miranda com altitudes que não passam de 150 m.
8. Depressão Sertaneja e do São Francisco: considerada uma das mais lon-
Planícies
gas depressões, estendendo-se do litoral do Nordeste setentrional até o interior de
1. Planície do Rio Amazonas: faixa que acompanha as margens do rio Minas Gerais, acompanhando quase todo rio São Francisco. Apresentam formas e
Amazonas e de alguns afluentes, delimitada por terrenos do Planalto da Amazônia estruturas geológicas variadas, com predomínio de terrenos sedimentares e crista-
Oriental, a leste, e da depressão da Amazônia Ocidental, a oeste; sua área mais linos, como por exemplo a Chapada de Diamantina (norte da Serra do Espinhaço)
ampla situa-se na ilha de Marajó. Coberta por uma mata densa e por áreas ou Chapada das Mangabeiras.
alagadas, onde nos trechos inundados, desenvolve-se a mata de igapó. 9. Depressão Periférica da Borda Leste da Bacia do Paraná: ampla faixa de
2. Planície do Rio Araguaia: estende-se pelas regiões Norte e Centro-Oeste, terra que se estende de São Paulo até o limite do Rio Grande do Sul com Santa
planas, com altitudes de até 200 metros, constituída por sedimentos recentes e Catarina. Com formas enrugadas, altitudes que variam entre 600 e 900 m. Em
vegetação de cerrados abertos e campos limpos. São Paulo é conhecida como Depressão Periférica Paulista e no Paraná como
3. Planície e Pantanal do Rio Guaporé: ocupa trechos do estado de Segundo Planalto.
Rondônia e da Região Centro-Oeste, com forma de relevo plana e pantanosa e 10. Depressão Periférica Sul Rio-Grandense: localizada nas terras sedimenta-
altitude média de 200 metros. res drenadas pelas águas dos rios Jacuí e Ibicuí, no Rio Grande do Sul e com baixas
4. Planícies e Tabuleiros Litorâneos: ocorrem no litoral do Pará e do altitudes (em média 200 m).
Amapá, formados por sedimentos recentes de origem marinha, sendo que, nas
proximidades da ilha de Marajó, misturam-se aos sedimentos carregados pelo
rio Amazonas.
Capítulo 5 :: 73

Atividade
Acesse o site: <http://www.colegioweb.com.br/trabalhos-escolares/geografia/relevo/unidades-do-relevo.html#ixzz3IDL2ecgU>
Qual a diferença entre Biomas, Domínios Morfoclimáticos e os Domínios morfoestruturais? O que mudou? Observe bem as Figuras 5.7 e 5.8 que mostram os mapas dos
professores Aziz Ab’Saber e Ross. E as Figuras 5.2 e 5.3 que mostram os mapas dos Tipos de Biomas e de Climas. Após uma rápida comparação entre as classificações,
complete o quadro:
Biomas - IBGE Domínios - Ab'Saber Domínios - Jurandyr Ross
(vegetação + clima) (relevo + clima + processos) (relevo+ clima + processos + geologia)
Planalto: região alta, sofre processo de erosão Planalto: região alta, sofre processo de erosão
Tropical, Equatorial, Semiárido, Subtropical, Tropical Planície: região baixa, sofre processo de sedimentação Planície: região baixa, sofre processo de sedimentação
Litorâneo, Tropical de Altitude Áreas de Transição Depressão: região intermediária entre Planalto
e Planície
O que muda:
6 Biomas Continentais e 1 Bioma Aquático 6 Domínios e 3 Áreas de Transição 11 Planaltos, 11 depressões e 6 Planícies
1. Bioma Cerrado 1. Domínio do Cerrado Planalto Central foi dividido em 12 partes:
5 planaltos, 2 planícies, 5 depressões
2. Bioma Amazônia – clima equatorial 2. Domínio Amazônico Planalto, Planície, Depressão
3. Bioma 3. Domínio de Mares de Morros
4. Bioma 4. Domínio das Caatingas Depressão Sertaneja e do São Francisco
5. Bioma 5. Domínio das Araucárias
5. Bioma 6. Domínio das Pradarias
7. Áreas de Transição

EXERCÍCIOS 3) Em razão de sua grande extensão territorial, o Brasil possui diversos tipos de ve-
getação, apresentando um complexo mostruário das principais paisagens e ecologias
do planeta. Faça a correspondência correta entre os biomas e as regiões brasileiras.
(Adaptado, UERJ/UDESC/ UFRGS - Vestibular 2013) (1) Região Norte ( ) Pampa
(2) Região Centro ( ) Cerrado
1) Na linha de costa brasileira, uma vegetação de mata em solo lamacento
desenvolve-se no encontro das águas do mar com as águas fluviais e apresenta-se (3) Região Sudeste ( ) Pantanal
como berçário para inúmeras espécies de peixes, crustáceos, mamíferos, aves e (4) Região Nordeste ( ) Caatinga
insetos. Marque a opção que corresponde ao bioma descrito: (5) Estado do Mato Grosso do Sul ( ) Mata Atlântica
(A) Cerrado
(6) Estado do Rio Grande do Sul ( ) Floresta Amazônica
(B) Mangue
(C) Caatinga
(D) Pantanal 4) Na Região Centro-Oeste, encontra-se um bioma que é caracterizado pela
(D) Mata de Cocais presença de pequenos arbustos e árvores retorcidas, com cascas grossas e folhas
recobertas de pelos. O solo apresenta deficiência em nutrientes e alta concentração
2) “... Essa formação é característica das áreas onde o clima apresenta duas de alumínio. Marque a alternativa que corresponde ao bioma que apresenta as
estações bem marcadas: uma seca e outra chuvosa, como no Planalto Central. características descritas:
Dois estratos a identificam: um arbóreo - arbustivo, onde as espécies tortuosas têm (A) Mangue
os caules geralmente revestidos de casca espessa, e outro herbáceo, geralmente (B) Caatinga
dispostos em tufos”. Marque a opção que corresponde ao bioma descrito: (C) Campos
(A) Cerrado (D) Cerrado
(B) Caatinga (E) Mata de araucária
(C) Floresta tropical
(D) Mata semiúmida 5) Sobre os Biomas existentes no Brasil, assinale a(s) proposição(ões) correta(s).
(E) Formação do Pantanal (A) A Caatinga é caracterizada por ser uma floresta úmida da região litorânea do
Brasil, hoje muito devastada.
(B) O Mangue ocorre desde o Amapá até Santa Catarina e desenvolve-se em
estuários, sendo utilizados por vários animais marinhos para reprodução.
(C) O Pampa ocorre na Região Centro-Oeste onde o clima é quente e seco. A flora
e a fauna dessa região são extremamente diversificadas.
74 :: Geografia :: Módulo 2

(D) A Floresta Amazônica está localizada nos estados do Maranhão e do Piauí e as essa energia seria devolvida para a atmosfera em forma de calor, o que elevaria
árvores típicas dessa formação são as palmeiras e os pinheiros. as temperaturas médias.
(E) O Cerrado é uma formação fitogeográfica caracterizada por uma floresta III. O aumento do processo erosivo leva a um empobrecimento dos solos, como
tropical que cobre cerca de 40% do território brasileiro, ocorrendo na Região Norte. resultado da retirada de sua camada superficial. Isso, muitas vezes, acaba invia-
(F) A Mata Atlântica é uma formação que se estende de São Paulo ao Sul do bilizando a agricultura.
país, onde predominam árvores como o babaçu e a carnaúba, e está muito bem
preservada. Das afirmativas acima,
(G) O Pantanal ocorre nos estados do Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso, carac- (A) apenas I está correta.
terizando-se como uma região plana que é alagada nos meses de cheias dos rios. (B) apenas II está correta.
(C) apenas III está correta.
6) Numere as colunas relacionando a vegetação à sua característica: (D) apenas I e II estão corretas.
(1) Floresta de Coníferas (E) I, II e III estão corretas.
(2) Vegetação Mediterrânea
(3) Tundra 8) De acordo com Jurandyr Ross (1998), no território brasileiro, as estruturas e
(4) Pradaria as formações litológicas são antigas, mas as formas de relevo são recentes, pois
(5) Savana foram produzidas:
(6) Estepe (A) pelo vento, que exerce importante papel de desgaste e transporte de partículas.
(B) pelos desgastes erosivos que ocorreram e continuam ocorrendo.
( ) Vegetação rasteira de ciclo vegetativo curto. Exemplo: musgos e líquens. (C) pelos processos mais recentes associados aos falhamentos.
( ) Vegetação herbácea, esparsa e ressecada. Surge em climas semiáridos, na (D) pelo desgaste erosivo de climas anteriores.
faixa de transição de climas úmidos para desertos. (E) pelo vento e desgaste erosivo de climas atuais.
( ) Formação florestal típica da zona temperada. É conhecida como Taiga e
predominam os pinheiros. 9) Sobre o domínio amazônico, assinale a alternativa falsa:
( ) Vegetação esparsa que possui três estratos. Um arbóreo, um arbustivo e um (A) Compõe-se em sua maior parte por baixos planaltos e planícies.
herbáceo. Predomina em regiões de clima mediterrâneo. (B) A hidrografia é riquíssima, com furos, igarapés, paranás-mirins e lagos da várzea.
( ) Formação herbácea, composta por capim, que aparece em regiões de clima (C) Devido a riqueza mineral orgânica das águas dos rios é grande a piscosidade.
temperado continental. (D) Devido à exportação de peixes a matança tem-se descontrolado, colocando
Vegetação complexa que surge por influência do clima tropical, alternadamente em risco várias espécies.
úmido e seco. Ocorre na África e abriga animais de grande porte como leões, (E) O solo amazônico tem-se mostrado fertilíssimo, prestando-se a grande mono-
elefantes e girafas. cultura exportadora.

Assinale a alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo.


(A) 2 – 1 – 6 – 4 – 5 – 3 Gabarito
(B) 1 – 2 – 3 – 6 – 5 – 4
(C) 3 – 6 – 1 – 2 – 4 – 5 1) B
(D) 6 – 5 – 4 – 3 – 2 – 1 2) a
(E) 4 – 3 – 2 – 5 – 1 – 6 3) 5; 6; 2; 4; 3; 1
4) d
7) 5) B
A Amazônia ocupa uma área de mais de 6,5 milhões de km² na parte norte 6) c
da América do Sul e abrange nove países: Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru, 7) e
Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Devido aos elevados 8)
índices de desmatamento, uma pesquisa da revista Science alerta que, até 2050, 9) A
poderá ocorrer a extinção de cerca de 80% das espécies de vertebrados, em áreas
que sofreram desmatamento.
FARIA, C. Desmatamento da Amazônia. Disponível em: WEARN, O. R.; REUMAN, D. C.; EVERS,
R. M. Extinction Debt and Windows of Conservation Opportunity in the Brazilian Amazon. Science, v.
337, n. 6091, p. 228-232, 13 July 2012. Acesso em: 22 out. 2012

Analise as afirmativas abaixo, relacionadas ao processo de desmatamento.

I. A menor evapotranspiração diminui os índices pluviométricos. Estima-se que


metade das chuvas que ocorrem nas florestas tropicais são resultantes da evapo-
transpiração, ou seja, da troca de água da floresta com a atmosfera.
II. Boa parte da energia solar é absorvida pelas florestas para os processos de
fotossíntese e evapotranspiração. Sem a floresta, com o solo exposto, quase toda
6
As questões ambientais

:: Objetivos ::
• Mostrar os problemas ambientais decorrentes das atividades humanas e os aspectos políticos
da questão ambiental.
76 :: Geografia :: Módulo 2

As Paisagens do Mesmo nas regiões mais antropizadas da superfície terrestre as paisagens


Espaço Geográfico culturais ainda apresentam elementos naturais. São os morros, os rios, as árvores,
que se destacam entre construções, pontes, estradas, torres de comunicação.
Muitas mudanças aconteceram nas paisagens terrestres ao longo dos tempos No espaço rural, as atividades econômicas predominantes são aquelas
geológico e histórico, e estas transformações não ocorreram todas de uma vez. que fornecem os recursos primários, ordenam e configuram espacialmente os
Tanto os elementos da natureza como os construídos pela sociedade foram elementos culturais e naturais neste espaço. Veja a figura 6.1:
gradativamente alterados ou substituídos por outros.
Na compreensão das transformações do espaço geográfico, é importante
investigar de que forma os homens estão organizados em sociedade e atuam
sobre a configuração territorial modelando as paisagens. As características atuais
do espaço geográfico mundial podem ser atribuídas a um longo e contínuo processo
de transformações sociais e técnicas, desencadeado pelos seres humanos.
Os elementos da natureza são aqueles que se originaram de processos e
fenômenos da natureza, tais como vegetação, relevo, solo, cursos d’água, clima,
seres vivos. Já os elementos construídos pela sociedade são aqueles criados pelo
homem, que se utiliza de instrumentos e técnicas diferentes, tais como edificações, Figura 6.1: Paisagem rural. Cultivos em Paty do Alferes (RJ). Foto do acervo
lavouras, pontes, hidrelétricas, aterros. Destes decorrem as paisagens naturais NEQUAT/UFRJ, 2000.
e as paisagens culturais, ou humanizadas, resultando nas paisagens terrestres,
denominadas de espaço geográfico. Nos centros urbanos, as atividades econômicas predominantes decorrem do
Há alguns milhares de anos, povos de origens distintas passaram a procurar desenvolvimento das atividades do comércio, serviços e indústria. A ocupação de
e a ocupar áreas da superfície terrestre onde a natureza oferecesse recursos que um território por um grupo social é orientada por um conjunto de regras que se
lhes permitissem sobreviver, aliados ao desenvolvimento e ao uso de técnicas e traduzem na forma de códigos, posturas, normas, leis (uso dos solos, ambientais,
instrumentos diferenciados. religiosas), que possibilitam a vida em sociedade.
Somente no século XVIII esta realidade começou a mudar com o advento da
sociedade industrial (originário da Europa), que passou a empregar novos recursos
tecnológicos, mudando os modos de produção de bens e fabricando-os de forma
padronizada e em larga escala.
O crescimento e a expansão da indústria por várias partes do mundo
ocasionaram intensas transformações na Natureza, pois a atividade industrial
necessita de grande quantidade de recursos para a sua sustentação. Reduziram-
se, pois, as paisagens naturais, e multiplicaram os elementos criados pelo homem,
resultando em áreas agrícolas e extrativas minerais; regiões urbanas e regiões
industriais; estradas e redes de comunicação.
Os remanescentes das paisagens naturais estão distribuídos pelo mundo.
São os biomas: florestas tropicais, savanas, desertos, florestas boreais, pradarias Figura 6.2: Paisagem urbana. Porto Madeira (Buenos Aires) – Concentração
temperadas e tundras. de Atividades. Foto Acervo Sonia Gama, 2010.

A ONG Conservation International realizou em


2003 mapeamento por todos os continentes e
As Dinâmicas da Natureza
identificou as últimas 37 Grandes Regiões Naturais da
e da Sociedade
Terra (aquelas com mais de 10.000 km2 de extensão; A dinâmica da Natureza revela-se por meio de mudanças de tipos de tempo
70% de sua vegetação original intactos e menos de 5 atmosférico ocasionadas pela passagem das estações do ano, que interferem
pessoas por km2). sazonalmente nas características da vegetação, no comportamento dos animais
silvestres e no regime dos rios. Também a ação continuada das chuvas, dos
ventos, dos vulcões e dos terremotos colabora para a transformação do modelado
Atualmente, existem, na superfície terrestre, grandes extensões de paisagens
terrestre, como os movimentos de marés e de correntes marítimas, que esculpem
culturais, resultantes do contínuo processo de transformação do espaço geográfico.
os litorais de todo o planeta.
O espaço geográfico é também o alvo de disputas e de interesses político-
A dinâmica da sociedade revela-se na ocupação de novas áreas e no ritmo
econômicos por parte de nações ou empresas.
Capítulo 6 :: 77

das construções, que incluem a abertura de áreas de cultivo e de pastagens,


a derrubada de antigos edifícios, a construção de fábricas, a implantação de
conjuntos habitacionais e a expansão de áreas urbanas.

Os tempos da Sociedade
e da Natureza
As transformações impostas pelos fenômenos da natureza e pelas ações
humanas às paisagens terrestres possuem temporalidades muito diferenciadas. Os
seres humanos passaram a transformar as paisagens há apenas alguns milhares
de anos, e aquelas decorrentes de fenômenos naturais podem ter origem em
épocas longínquas, ou mesmo bilhões de anos atrás.
Para a melhor compreensão destas diferenças, foi criada uma escala temporal
que distingue o período de ocorrência dos eventos naturais (correspondente ao
tempo geológico) do período de ocorrência dos eventos humanos (correspondente
ao tempo histórico).
Figura 6.3: Esquema representativo de uma indústria – marco da apropriação
e transformação dos recursos naturais. Ilustração: Sami Sousa
Tempo Histórico: é o período de ocorrência dos
eventos humanos. O tempo é subdividido em Idades
e Períodos com suas características e duração em A utilização econômica
milhares de anos, por exemplo, da Pré-História à dos recursos
Idade Contemporânea, que são 600 mil anos atrás
aos dias atuais. O uso intensivo de determinados elementos da Natureza marca a civilização
Tempo Geológico: É o período de ocorrência dos urbano-industrial da atualidade e está diretamente ligado ao processo de
eventos naturais. O tempo é subdividido em Eons, degradação ambiental, que se caracteriza por uma crise ecológica de escala global.
Eras, Períodos e Épocas com características e duração Os recursos naturais são divididos em recursos renováveis e recursos não
em milhões de anos. Por exemplo: de 4,6 bilhões de renováveis.
anos, surgimento da Terra até o surgimento dos seres
humanos primitivos. Recursos Renováveis

• podem ser repostos ou reproduzidos pela natureza ou pelo trabalho humano;


• alguns recursos minerais (água e solo);
A Natureza e os • os recursos biológicos (florestas, pastos, vegetais cultivados, biodiversidade
Recursos Naturais animal e vegetal);
• os recursos marinhos.
Vimos o meio natural como resultado da ação integrada de seus diversos
elementos e a Natureza artificial como resultado da combinação entre os objetos
Recursos Não Renováveis
naturais e os objetos técnicos (cujo marco é a Revolução Industrial). Daqui por
diante, vamos explorar um pouco a apropriação dos recursos naturais (figura 6.3). • não podem ser repostos;
Os elementos naturais não foram elevados à condição de recursos naturais • os combustíveis fósseis (carvão mineral e petróleo);
pela Natureza, e sim pelas sociedades humanas, que transformam a Natureza • a maior parte dos recursos minerais (não reproduzidos em escala de
em recursos, de modo que passam a satisfazer suas necessidades econômicas e tempo compatível com a dos homens);
culturais por meio deles. • estoque finito.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico tende a ampliar as Ambos merecem algumas considerações. Os recursos renováveis não são
necessidades sociais e os meios técnicos, para incorporar novos recursos e assim necessariamente infinitos ou inesgotáveis. Por exemplo, a água — há, pelo
sucessivamente. Nesta perspectiva, o elemento natural torna-se verdadeiramente menos, 500 milhões de anos, a quantidade de água no planeta permanece
um recurso de acordo com as necessidades do momento. Como exemplo, podemos inalterada, porém o estoque de recursos hídricos (ou a água que serve ao consumo
citar o petróleo, que, até bem pouco tempo atrás, jorrava sem despertar maiores humano e às suas necessidades) está diminuindo.
interesses, até que se tornou um recurso essencial às diversas modalidades Os recursos não renováveis são considerados finitos. Por exemplo, as reservas
industriais e, atualmente, motiva a pesquisa de novas fontes de energia. de ferro ou de petróleo, quando atingirem a exaustão, não poderão ser respostas.
78 :: Geografia :: Módulo 2

Neste caso, o avanço da tecnologia de prospecção (descoberta de novas O consumismo como padrão de comportamento
reservas) e de exploração contribui para valorizar ainda mais o recurso. Por en-
Os autores são unânimes em afirmar que as raízes do comportamento
quanto, o problema não é o esgotamento físico dos recursos, e sim o investimento
consumista estão na sociedade norte-americana do século XX. Os Estados Unidos
para torná-los acessíveis.
foram o primeiro país a sentir os impactos da revolução tecnológica industrial.
Veja a observação do ambientalista Maurício Andrés Ribeiro:
Além de novos tipos de bens de consumo, criou novas formas de entretenimento
No início do século XXI, o planeta Terra já abriga mais de 6 bilhões de
e lazer, como o cinema, a televisão e os shopping centers, introduzindo um novo
habitantes. Os recursos naturais – água, terra cultivável, bens minerais, a
estilo de vida, o American way of life.
biodiversidade, na forma de alimentos e produtos para outras finalidades
Assim, o “consumismo” pode ser entendido como a aquisição de produtos
–, são exigidos em grandes quantidades, devido aos crescentes padrões
totalmente dispensáveis à subsistência ou o simples desejo de comprar algo
de consumo per capita. A sociedade industrial contemporânea acostumou-
que não seja necessário. Com a implantação de indústrias multinacionais nos
se a conviver com curvas geométricas de crescimento populacional, de
continentes europeu, asiático e latino-americano, o estilo de vida “consumista”
necessidade de energia, de invenções, de consumo dos mais variados
americano foi levado para outros países (facilitado pelas redes de supermercados,
bens. Entretanto, é limitada a capacidade do planeta para prover recursos e
hipermercados, magazines e shoppings).
para absorver resíduos. Noutras palavras, a capacidade de suporte da Terra
No Brasil, até o início da década de 1970, os produtos industrializados eram
e de cada uma de suas regiões é insuficiente para atender às necessidades
vendidos em pequenos e médios estabelecimentos. Hoje, estes produtos são
ilimitadas de sua população.
vendidos em grandes redes de super e hipermercados.
Mauricio Andrés Ribeiro, in Jornal do Meio Ambiente, MT – 19/10/2004
Os Estados Unidos também exportaram suas produções televisivas,
cinematográficas e fotográficas. Diversos países receberam influências no modo
Como os padrões de vestir, nos hábitos alimentares, na língua, nos estilos de música com o jeans,
capitalistas vêm atingindo o os fast foods, o rock, o rap ou a dance music.
meio ambiente e a sociedade?
A possível falência do modelo consumista

A elevação dos níveis de consumo nas últimas décadas exige a ampliação e


A explosão do comércio
a diversificação da produção industrial. Assim, para atender às necessidades do
A segunda metade do século XX marcou o aumento dos níveis de consumo mercado, aumenta-se a exploração dos recursos primários, sejam eles agrícolas,
nos países desenvolvidos e nos países subdesenvolvidos que passavam pelo florestais, minerais ou energéticos. Este fato explica as intensas e rápidas
processo de industrialização tardiamente. Este é o caso do Brasil e de países como transformações no espaço geográfico, onde as paisagens naturais cedem lugar
o México, a Argentina, a África do Sul e a Índia. às paisagens culturais.
Nesta ocasião, novos tipos de bens de consumo foram colocados no mercado, Atualmente, os países desenvolvidos somam um quinto da população mundial,
a preços acessíveis e em grande quantidade, como automóveis, máquinas de lavar que consome 80% dos recursos naturais do planeta. Os países subdesenvolvidos
roupa, televisores e todos os objetos que viriam a mudar os hábitos da população somam os quatro quintos restantes e utilizam somente 20% dos recursos naturais.
e criar outras necessidades na classe média, alvo das empresas multinacionais. Vale destacar que apenas duas das maiores potências econômicas do mundo atual
Novas estratégias se estabelecem e o marketing passa a ser o principal somam juntas uma população de quase 500 milhões, responsáveis pelo consumo
recurso para a divulgação dos produtos, com o objetivo de despertar nas pessoas de aproximadamente um terço dos recursos do planeta.
o desejo de consumir. A indústria passa a produzir bens de curta durabilidade, A ideia de que a natureza é fonte inesgotável de recursos contribuiu para a
pois é importante diversificar a produção e atualizar os modelos para substituir elevação dos níveis de consumo, e até então, os impactos provocados ao meio
aqueles ultrapassados pela inovação tecnológica. As linhas de crédito facilitam as ambiente pelas atividades econômicas não eram levados em consideração ou eram
compras, à medida que a empresa e a população precisem dispor do valor total considerados espacialmente limitados, apenas com repercussão nas escalas local e
do produto no ato da compra. As campanhas veiculadas na mídia induzem ao regional. Hoje, já é consenso que os impactos ambientais ocorrem em escala global,
consumo, estimulam a produção, aumentam os lucros e favorecem a acumulação e pode-se concluir que a Natureza como fonte de recursos tem “prazo de validade”.
de capital. Por outro lado, provocam o endividamento pessoal. A expansão do capitalismo e da sociedade de consumo é considerada como
um dos fatores desencadeadores dos problemas ambientais em escala planetária.
Atividade 1 Um dos problemas é a possibilidade imediata de esgotamento dos recursos não
renováveis, como os minérios, o petróleo, o carvão mineral e as florestas tropicais,
Observe as propagandas no seu trajeto do dia a dia (centros comercias, out que abrigam imensa biodiversidade. Outro é a falta de destino para o lixo, que
doors, busdoors ou mesmo na TV ou nos jornais) e anote os seus comentários. acaba sendo lançado em locais impróprios.
Capítulo 6 :: 79

por volta do ano de 1850. Atualmente, somos mais de 7 bilhões de habitantes.


Apague estas ideia >> A natureza é inesgotável! / Consumir Observe a tabela 1.1:
intensamente é bom! Ano População mundial
Pense >> É preciso (re)discutir o modelo de desenvolvi- 1850 1,2 bilhão de pessoas
mento econômico, levando-se em consideração o padrão 1950 2,5 bilhões de pessoas
de consumo, a desigual distribuição de riqueza e o padrão 1970 + de 3,5 bilhões de pessoas
tecnológico existentes! 1990 + de 5 bilhões de pessoas
2004 + de 6 bilhões de pessoas
2010 + de 7 bilhões de pessoas
Tabela 6.1: Crescimento da população mundial entre 1850 e 2010.
Os Problemas Ambientais
O rápido crescimento da população humana criou uma enorme demanda
A melhor coisa que se pode dizer sobre as condições do meio ambiente
(necessidade de consumo), que o desenvolvimento tecnológico pretende com-
mundial é que as pessoas em todo o mundo estão começando a preocupar-
portar, submetendo o meio ambiente a uma agressão que está provocando o
se com esse problema.
declínio cada vez mais acelerado de sua qualidade e de sua capacidade para
Relatório do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas.
sustentar a vida. Os autores afirmam que, pela primeira vez na história, a humani-
dade põe em risco a sua própria sobrevivência, como resultado dos desequilíbrios
A transformação do meio ambiente pelo homem provocados pela interferência na Natureza. Estes desequilíbrios são decorrentes
Embora o homem tenha surgido tardiamente na Terra, é enorme o impacto do encadeamento de problemas ambientais, que por sua vez, causam impactos.
de suas intervenções no meio ambiente. No início, as intervenções do homem
não causavam impactos (pelo menos, na concepção dos dias atuais), pois o ser Quais são os principais problemas ambientais?
humano ainda era bastante impotente ante a Natureza, visto que não dominava São aqueles que, de alguma forma, possam causar danos, impactos negati-
técnicas capazes de realizar grandes transformações. vos ou qualquer outro tipo de degradação ao meio ambiente. São eles:
De caçador e coletor, num período de até aproximadamente 10.000 anos • a escassez de água pelo mau uso, pela contaminação e por mau
a.C., a ação do homem na natureza restringia-se à interferência nas cadeias gerenciamento das bacias hidrográficas;
alimentares. O fogo, a primeira grande descoberta do homem primitivo, pode ser • a contaminação das águas por esgotos sanitários e por outros resíduos
considerado um marco que permitiu um avanço no seu modo de vida. O próximo industriais;
passo foi cultivar alimentos e criar animais, fazendo com que se fixassem em • a degradação dos solos pelo mau uso, especialmente na agricultura e na
determinados lugares da superfície terrestre, o que o levou a tornar-se sedentário. pecuária;
O impacto sobre a natureza começa a aumentar com a revolução agrícola, há • a poluição do solo por lixo sólido e líquido;
aproximadamente 10.000 anos a.C., quando começou a ocorrer devastação de • a perda de biodiversidade, devida ao desmatamento e às queimadas;
florestas para permitir as práticas da agricultura e da pecuária, além da utilização • a degradação da faixa litorânea por ocupação desordenada e;
da madeira na construção de abrigos. • a poluição do ar nos grandes centros urbanos e devido às queimadas.
Registram-se, desde então, alguns impactos no meio ambiente – alterações Os problemas ambientais quase sempre resultam de impactos ambientais,
das cadeias alimentares (causando a extinção de espécies), a erosão dos solos entendidos como um desequilíbrio provocado pela ação humana ou ainda por
(resultado de práticas inadequadas), a poluição do ar (queima de florestas), a acidentes naturais. Eles ocorrem em ambientes naturais (ecossistemas naturais)
poluição do solo e da água (por excesso de matéria orgânica). e em ambientes construídos (ecossistemas agrícolas e sistemas urbanos) e tem
Como resultado da revolução agrícola e da sedentarização do homem, temos repercussão em escala local, regional ou global.
o surgimento das primeiras cidades, há mais ou menos 4.500 anos. O ritmo de Nos ecossistemas naturais a devastação das florestas tropicais em todo o
crescimento da população se intensificou, e consequentemente, deu-se o aumento mundo (são as mais ricas em biodiversidade) está relacionada, principalmente, a
dos impactos sobre o meio ambiente (apenas numa escala local). fatores econômicos como a extração da madeira, a construção de usinas geradoras
Desde o surgimento do homem, a população mundial demorou mais de 200 de energia, a instalação de projetos agropecuários ou de mineração, além da
mil anos para atingir 170 milhões de habitantes, no início da era cristã. Depois, propagação do fogo (incêndios).
precisou de “apenas” 1.700 anos para quadruplicar-se, chegando a 700 milhões Como consequências do desmatamento podemos destacar:
de pessoas às vésperas da Revolução Industrial. Com a revolução da indústria, o • a destruição da biodiversidade;
homem começou a transformar a face do planeta, a composição de sua atmosfera • a diminuição das nações indígenas;
e a qualidade de sua água. • a erosão e o empobrecimento dos solos;
Em ritmo acelerado, a população mundial chegou a 1,2 bilhão de pessoas • as enchentes e o assoreamento dos rios;
80 :: Geografia :: Módulo 2

• a extinção de nascentes; – NOx, monóxidos de carbono – CO) e materiais particulados (chumbo – Pb,
• a diminuição de índices pluviométricos; poeiras industriais, aerossóis, fumaças negras, hidrocarbonetos, solventes, ácidos)
• a elevação de temperaturas; na atmosfera. Os responsáveis são: as indústrias, as centrais termoelétricas, as
• a desertificação; instalações de aquecimento e, principalmente, alguns sistemas de transportes.
• a redução ou mesmo o fim de práticas extrativas vegetais; Os efeitos destes gases sobre os seres humanos são graves, atingindo o
• a proliferação de pragas e a disseminação de doenças. sistema respiratório, causando perturbações nervosas e anemia; quanto às
Nos ecossistemas agrícolas o impacto ambiental manifesta-se com intensidade partículas, os efeitos são irritantes, fibrosantes, alérgenos ou cancerígenos.
na degradação dos solos. Na busca de aumentar a produtividade do cultivo, foram A inversão térmica é um fenômeno natural que agrava a concentração de
introduzidas novas técnicas agrícolas. Tais técnicas causam desequilíbrios, graças poluentes na atmosfera, dificultando a sua dispersão, ou circulação atmosférica.
à poluição por agrotóxicos, à erosão do solo e à irrigação descontrolada, associada Quando ocorre em grandes cidades provoca problemas na saúde da população.
a uma insuficiente drenagem do terreno. De forma geral, a inversão térmica ocorre em qualquer parte do planeta,
O aumento da produção de alimentos foi favorecido pela padronização especialmente nos meses de inverno, quando no final da madrugada se registram
dos cultivos (predomínio de determinadas culturas em uma mesma região, as temperaturas mais baixas do ar e do solo. É mais comum em lugares onde o
a exemplo dos cinturões agrícolas). As monoculturas, por sua vez, fizeram solo ganha muito calor de dia e perde à noite, deixando a camada atmosférica
com que aumentasse a utilização de inseticidas no combate às pragas, que, mais baixa (próxima ao chão) muito fria. O ar frio é mais pesado e impede a
consequentemente, favorece a diminuição de predadores naturais, provocando dispersão dos poluentes emitidos pelos carros, ônibus, indústrias etc.
desequilíbrios nas cadeias alimentares. Nas grandes cidades também ocorre o fenômeno “ilha de calor”, caracterizado
Como consequência, há maior incidência de processos erosivos nos solos, que pela elevação das temperaturas médias nas zonas centrais da mancha urbana
estão se tornando improdutivos: as terras moderadamente degradadas abrangem (figura 6.4). Os materiais utilizados nas construções (como o asfalto, cimento e
quase 9 milhões de quilômetros quadrados (aproximadamente a área da China), e o concreto) absorvem e emitem muito calor, que fica retido entre as ruas estreitas
as terras severamente degradadas abrangem 3 milhões de quilômetros quadrados junto com os poluentes. Em casos extremos, a diferença de temperatura entre as
(dois terços dessas áreas estão na África). A perda de milhares de toneladas de zonas periféricas e o centro pode ser de até 10º C.
solos agricultáveis por erosão, principalmente na zona tropical do planeta, é um
dos principais problemas enfrentados pela economia agrícola.
Nos sistemas urbanos o impacto ambiental manifesta-se nas escalas local,
regional e global. A cidade interfere em vários ecossistemas situados a milhares
de quilômetros de distância na medida em que é considerada uma etapa
consumidora. Pode consumir matéria, energia e gerar subprodutos, traduzidos nos
resíduos sólidos (lixos), líquidos (esgotos) e gasosos (fumaças e gases), e não
tem a capacidade de reciclar nada.
Como consequência, os resíduos excedentes, acumulados no ar, no solo Figura 6.4: Fenômeno da ilha de calor na zona central da cidade.

e na água causam impactos no meio ambiente e uma série de desequilíbrios


Entre os diversos poluentes emitidos pelas atividades antrópicas,
ambientais, que se traduzem em:
provavelmente os gases CFCs (clorofluorocarbonos) contribuem para outro
• poluição do ar (ilha de calor; intensificação do efeito estufa; chuvas ácidas);
problema ambiental: a destruição da camada de ozônio (O3). O gás Ozônio se
• poluição do solo (lixo sólido);
forma acima de 25 km de altura e se concentra na camada Estratosfera (situada
• poluição das águas.
entre 12 km e 30 km de altura), constituindo a Camada de Ozônio. A molécula
A poluição é uma doença universal que interessa a toda humanidade,
de ozônio é capaz de absorver a radiação ultravioleta emitida pelo Sol, protegendo
mas existem tipos de poluição diferentes no mundo inteiro. Os países ricos
os seres vivos (plantas, animais e o próprio homem) de doenças e mutações
conhecem a poluição direta, física, material, a do ambiente natural. Os países
genéticas causadas por este tipo de radiação. No entanto, como o ozônio é
subdesenvolvidos são presas da fome, da miséria, das doenças de massa, do
pouco estável, pode ser destruído pelos raios ultravioleta ou por outras moléculas
analfabetismo. O Homem do Terceiro Mundo conhece essa forma de poluição
e átomos de origem natural (produzidos na própria atmosfera ou lançados por
chamada “subdesenvolvimento”. E devo dizer que esta é a forma mais grave,
erupções vulcânicas). Por isso, a camada de ozônio pode apresentar “buracos”
mais terrível de todas (Josué de Castro).
em alguns lugares, que posteriormente podem se fechar.
As chuvas ácidas também são um outro fenômeno relacionado à emissão
A poluição do ar
de poluentes, especialmente pelas atividades industriais. Têm como principais
A poluição do ar (atmosférica) resulta do lançamento de enormes quantidades responsáveis o trióxido de enxofre – SO3 (SO2 emitido a partir da queima de
de gases (dióxido de carbono – CO2, dióxido de enxofre – SO2, óxidos de azoto combustíveis fósseis + O2 presente na atmosfera) e o dióxido de nitrogênio – NO2,
Capítulo 6 :: 81

que reagem com a água da chuva, deixando-a com um pH ácido. A chuva ácida A poluição das águas em ecossistemas naturais
provoca a corrosão de metais, de pinturas e de monumentos históricos, além da
A poluição das águas caracteriza-se pelo lançamento de resíduos inorgânicos
destruição da cobertura vegetal. Como na atmosfera não há barreiras entre uma
não-biodegradáveis (que não se degradam facilmente) e o de resíduos orgânicos
região e outra, é comum os poluentes emitidos numa cidade provocarem chuva
acima da capacidade de absorção pelos organismos decompositores nos córregos,
ácida em regiões vizinhas, pois os poluentes podem viajar vários quilômetros de
rios, lagos, águas subterrâneas e mares.
distância. Até há pouco tempo, as chuvas ácidas eram um problema restrito aos
As fontes de água doce são as que mais recebem poluentes, e muitos lugares
países da Europa e dos Estados Unidos. No entanto, está se tornando comum em
do planeta estão ameaçados de ficar sem água, devido, principalmente, ao aumento
áreas industrializadas do mundo subdesenvolvido – por exemplo no leste asiático
acelerado da ocupação desordenada em regiões de preservação de nascentes.
e na América Latina.
Uma das piores fontes de poluição das águas num ecossistema natural é
o derrame de mercúrio (metal pesado e tóxico). O homem utiliza o mercúrio
A poluição do solo
na separação do ouro de outros materiais, como os cascalhos e a areia, que,
A poluição do solo resulta do acúmulo de excedentes de resíduos sólidos contaminados, são despejados novamente nos rios ou nos solos. Uma vez
(lixo) presentes nas cidades. Tende a se agravar com o crescimento populacional introduzido no organismo humano (pela alimentação, pele ou respiração) o
e, principalmente, com o estímulo ao consumismo. Como exemplo, temos a mercúrio pode causar sérios problemas neurológicos. Nas áreas de garimpo, é
cidade de São Paulo que produz, aproximadamente, 16 mil toneladas de lixo comum o registro de animais e peixes contaminados, além do homem.
sólido por dia, para uma população de 10 milhões de habitantes, ou seja, são 1,6 As águas também podem ser poluídas por agrotóxicos (pesticidas, herbicidas,
kg de lixo produzidos por cada habitante. inseticidas) e por fertilizantes, quando tais substâncias são carreadas das áreas
O acúmulo de lixo no solo traz uma série de problemas: de cultivo pelas águas de escoamento superficial e pelas águas que se infiltram
• proliferação de insetos e ratos, que podem transmitir doenças como a nos solos. O carreamento de matérias nutritivas (nitratos e fosfatos) ocasiona
peste bubônica e a leptospirose, dentre outras; o fenômeno conhecido como eutrofização (eu = bem; trofe = alimentado) das
• decomposição bacteriana da matéria orgânica, que, além de gerar mau águas, em que o excesso de “alimento” provoca uma enorme proliferação de
cheiro, produz o chorume, um caldo escuro e ácido que se infiltra no subsolo algas. Quando uma grande quantidade de algas morre, a sua decomposição
(contaminando o lençol freático); consome muito de oxigênio da água, matando os peixes por asfixia.
• contaminação do solo e de pessoas que manipulam o lixo com produtos Os acidentes em águas doces ou oceanos são considerados como fontes de
tóxicos; poluição. Um exemplo é o derramamento de petróleo (ou derivados), que causa
• acúmulo de materiais não-biodegradáveis. graves danos ambientais afetando peixes e aves, além do próprio homem.
A destinação final do lixo é o segmento do Sistema de Limpeza Urbana mais
crítico no Brasil – em 1999 apenas 17% dos resíduos coletados são dispostos em A poluição das águas em sistemas urbanos
aterros sanitários (locais preparados para receber o lixo sem haver contaminação
Em sistemas urbanos, a poluição das águas assume proporções catastróficas,
do solo e da água), segundo dados do IBGE (2000). Contudo, a mudança na
pois é nas cidades que estão concentrados os maiores contingentes populacionais
Política Nacional de Resíduos Sólidos (em 2010, a Lei nº 12.305 alterou a Lei
e a maioria das indústrias. O consumo de água é elevado, e existe uma infinidade
9.605/98) tornou mais rigoroso o controle e destinação final dos resíduos sólidos.
de fontes poluidoras, desde esgotos domésticos até efluentes industriais, sendo
Mesmo antes da entrada em vigor da nova legislação, melhorias foram observadas
esta enorme quantidade de água retirada da Natureza e devolvida ao meio
na destinação final dos resíduos sólidos, porém, ainda é um grave problema. As
ambiente parcial ou totalmente poluída. A poluição tóxica é a mais perigosa,
formas mais usuais são os lixões, depósitos de resíduos a céu aberto, que devem ser
sendo metade dela lançada pelas indústrias químicas e, em torno de um terço,
localizados afastados das aglomerações, o que, infelizmente, não é o que se vê. Em
pelas fábricas de metais.
2008, o lixo coletado diariamente no Brasil chegava a 259.547 toneladas, sendo
que 50,8% era destinado a lixões, 22,5% a aterros controlados e apenas 27,7% a
De quem é a responsabilidade maior?
aterros sanitários (Fonte: Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008 (PNSB
2008), http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/ Os países desenvolvidos são os maiores consumidores de recursos naturais.
pnsb2008/, acesso em 22/102/2014). Estes recursos são necessários para abastecer os parques industriais e as filiais
A grande dificuldade para um melhor aproveitamento do lixo está exatamente das multinacionais localizadas nas nações subdesenvolvidas e nos países ex-
na forma de coleta. Para uma coleta seletiva, seria necessário aumentar o número socialistas. Por outro lado, são também responsáveis pela maior parte dos rejeitos
de coletas e melhorar a conscientização da sociedade. O problema continua sendo industriais, do lixo e dos gases tóxicos lançados na atmosfera.
o combate à poluição, composta basicamente de dejetos orgânicos. A composição A transformação do espaço geográfico também tem sido intensa nos países
do lixo varia de país para país, de cidade para cidade, sendo que se tem registro subdesenvolvidos e de economia em transição. Portanto, não estão isentos de
do aumento da presença de plástico. responsabilidade em relação à degradação ambiental.
As políticas voltadas para a preservação ambiental em países economicamente
82 :: Geografia :: Módulo 2

mais pobres não são consideradas como prioritárias e favorecem o desenvolvimento biodiversidade natural (fauna e flora), o desenvolvimento social, o conhecimento
de atividades econômicas que comprometem a qualidade ambiental. científico e a educação ambiental. São 350 reservas em mais de 80 países, com
área correspondente a aproximadamente 220 milhões de hectares, destinados à
A aculturação das sociedades tradicionais preservação.
As Unidades de Conservação Ambiental podem ser divididas em várias
No mundo ainda devem existir cerca de cinco mil comunidades tradicionais,
categorias – Parques, Reservas Ecológicas, Estações, Áreas de Proteção e as
vivendo de acordo com seus costumes originais ou hábitos nativos total ou
Reservas Biológicas já citadas.
parcialmente preservados. Este número vem caindo, e essas sociedades estão
cada vez mais influenciadas pelas tecnologias e pelos costumes da sociedade de
consumo. Os biomas atuais são alvos de madeireiros, fazendeiros, mineradores e
Os Interesses Econômicos:
demais grupos que exercem forte pressão sobre as decisões governamentais na
a Situação Atual
legalização da exploração ambiental para fins econômicos.
Biopirataria
As perspectivas para o futuro: Rio-92
A biopirataria caracteriza-se pelo comércio ilegal operado por traficantes,
A Rio-92 reuniu chefes de Estado e representantes de ONGs da maioria dos
que, por sua vez, são recrutados pelos laboratórios farmacêuticos internacionais.
países. Foram discutidos problemas ambientais e seus impactos, tendo-se em
Esses traficantes se fazem passar por turistas, pesquisadores ou missionários e
vista minimizá-los no futuro. Para tal, foram elaboradas as Convenções sobre a
vendem a informação sobre o uso de plantas no exterior. Apropriam-se de recursos
Biodiversidade (medidas para a preservação de espécies) e Mudanças Climáticas
biológicos e dos conhecimentos de indígenas e de comunidades tradicionais.
(medidas para diminuir a emissão de poluentes e impedir a destruição da camada
No Brasil, a biopirataria está presente principalmente na Floresta Amazônica.
de ozônio), a Declaração de Princípios, a Declaração sobre as Florestas e um Plano
Como consequência, o país perde anualmente cerca de um bilhão de dólares em
de Ação (Agenda 21, atual Programa 21).
recursos naturais e deixa de registrar patente sobre produtos, perdendo, assim, os
A Rio-92 ficou marcada por ter sido o primeiro encontro após o término da Guerra
royalties a que faria jus.
Fria. Seus resultados significaram, também, a realização de princípios internacionais
de direitos humanos, como os da indivisibilidade e da interdependência, agora
Biossegurança
conectados às regras internacionais de proteção ao meio ambiente e aos seus
princípios instituidores. No ano de 2002, em Joanesburgo (África do Sul), na ocasião Questões de biossegurança são as que dizem respeito ao controle e à
da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (também conhecida como minimização dos riscos provenientes da aplicação de diferentes tecnologias
Rio+10 ou Cúpula da Terra II) o ponto principal era discutir os avanços da Agenda 21. ao meio ambiente. Estas questões levantam a necessidade de assegurar-se o
No ano de 2012, a cidade do Rio de Janeiro sediou a Rio+20 a Conferência desenvolvimento científico, proteger-se a saúde humana e manter-se o equilíbrio
das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, visando a renovação do de ecossistemas.
engajamento dos lí­deres mundiais com o desenvolvimento sustentável do planeta.
Nesta perspectiva, as ONGs (Organizações Não Governamentais) têm uma Tecnologias limpas
atuação importante como defensoras das questões ambientais, discutindo a relação
A tecnologia limpa é aquela utilizada sem causar danos ou minimizando
entre a natureza e a sociedade. São o símbolo da conscientização e da organização das
impactos ao meio ambiente. Produz menos resíduos sólidos, emite menor
sociedades na luta pela preservação ambiental e atuam em todas as partes do mundo.
quantidade de efluentes e utiliza-se de matérias-primas recicláveis ou
Destacam-se a WWF, que atua em prol da preservação de ecossistemas ameaçados; o
biodegradáveis.
Greenpeace, criado em 1971, hoje com mais de 5 milhões de filiados em 29 países; a
A dificuldade relativa ao uso de tecnologias limpas reside na necessidade de
SOS Mata Atlântica (Brasil), criada em 1986 com o objetivo de preservar as florestas.
cooperação de países desenvolvidos com nações economicamente mais pobres,
promovendo intercâmbio de conhecimentos e transferência de tecnologias.
A criação de unidades de conservação

Por iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) foram criadas áreas
destinadas à proteção ambiental em todo o mundo. Por conta disto, o Sistema
de Reservas da Biosfera da Unesco determina áreas para a conservação da
Capítulo 6 :: 83

As Políticas Ambientais Alguns fenômenos


e os Impasses Ambientais naturais que causam
impactos ambientais e
No Brasil, a política ambiental começou a se desenvolver no final da década socioeconômicos
de 1930, quando o Estado passou a se preocupar com a exploração dos recursos
– água, vegetação, minerais e pesqueiros, além da proteção de áreas florestais. Alguns fenômenos naturais causam impactos ambientais e atingem
Naquela época, foram criados os Parques Nacionais de Itatiaia e o de Foz de populações, ocasionando prejuízos econômicos e perdas de vidas. Vamos ver
Iguaçu. Outros interesses fizeram com que as questões ambientais fossem para alguns destes fenômenos.
segundo plano. Nos anos de 1950, instalou-se uma política desenvolvimentista,
que investia na indústria sem dar a devida importância para a questão ambiental. • Terremotos e tsunamis
Somente nos fins da década de 1970, os ambientalistas começaram suas Os terremotos surgem a partir da liberação de vibrações devido ao
manifestações. Combatiam o alto grau de degradação dos solos, a poluição movimento das placas tectônicas ou à ruptura numa rocha, causada por fortes
atmosférica, a poluição das águas, o desmatamento e as queimadas nas áreas de pressões internas da Terra. O ponto que tiver se deslocado ou rompido é chamado
fronteira agrícola no interior do país. hipocentro, ou foco. A partir dele, propagam-se vibrações (ou ondas em todas em
A evolução das preocupações ambientais no restante do mundo nos todas as direções), que podem atingir a superfície. O primeiro ponto da superfície
mostra que foi na década de 1970 que as maiores discussões aconteceram, atingido pelas vibrações é denominado epicentro. A partir dele, surgem tremores
proporcionando a elaboração de normas e favorecendo a inserção do tema nas com diferentes intensidades.
políticas públicas. É no ano de 1972 que surge a Ecodiplomacia, o novo campo Os termos “terremoto”, “abalo sísmico” e “tremor de terra” estão relacionados
nas relações internacionais sobre o meio ambiente. As conferências nos anos de ao mesmo processo; entretanto, o primeiro é geralmente usado para designar
1992 e 2002 reforçaram as discussões sobre o meio ambiente e as políticas eventos com grande poder de destruição, como o que ocorreu recentemente no
ambientais, mas não produziram grandes avanços. norte do Paquistão (outubro de 2005). Em função deste terremoto milhares de
Atualmente, parece haver retrocessos na diplomacia ambiental pressionada pessoas morreram devido ao desabamento de prédios e casas.
pela economia mundial. As negociações são sempre marcadas por resistências à fixa- A partir do episódio de um terremoto outros problemas podem surgir, como
ção de limites às diversas formas de poluição com efeitos locais, regionais ou globais. rompimento de tubulações de gás e óleo, explosões, contaminação da água etc.
Procure se informar sobre: Se o terremoto ocorre em áreas já pobres e sem estrutura de socorro adequada, a
• o Clube de Roma e o Sistema Global; perda de vida e os prejuízos são ainda maiores.
• o Relatório de Brundtland; Caso o hipocentro ocorra na crosta do fundo oceânico (figura 6.5), uma
• a Convenção do Clima e o Protocolo de Kyoto; grande coluna de água é deslocada, gerando, na superfície do mar, ondas muito
• a Convenção de Viena e o Protocolo de Montreal; largas e velozes (chamadas tsunamis). O deslocamento da onda na direção de
• a Convenção sobre a Diversidade Biológica, a Rio 92 (Rio de Janeiro), Rio um continente provoca seu crescimento em altura devido à menor profundidade da
+ 10 (Johannesburgo) e Rio + 20 (Rio de Janeiro – 2012). lâmina d’água. A partir daí, podem-se formar ondas com mais de 20m de altura,
capazes de provocar grande destruição no litoral.
Atividade 2

Pesquise sobre as mudanças propostas para o Código Florestal no Brasil.

Figura 6.5: Geração de um sismo a partir do atrito entre duas placas tectônicas oceânicas. As
vibrações se propagam, até atingir a lâmina d’água e formar um tsunami.

Em dezembro de 2004, ocorreu um tsunami que atingiu a região sudeste


da Ásia (figura 6.6). O tsunami invadiu ruas, casas, prédios e hotéis situados no
litoral, matando milhares de pessoas. Após os primeiros estragos pelo alagamento,
seguiram-se outros: contaminação de água potável, propagação de doenças devido
à água parada e surgimento de ratos nos escombros das construções destruídas,
84 :: Geografia :: Módulo 2

dificuldades de atendimento médico às áreas isoladas pelos alagamentos etc.


Os terremotos, ou abalos sísmicos, podem ocorrer por influência do homem
em explosões nucleares, injeção de água e gás sob pressão no subsolo, extração
de fluidos do subsolo (água, petróleo), enchimento de barragens hidroelétricas.
No entanto, os abalos causados nestas situações são geralmente pequenos,
causando pouco ou nenhum estrago.
No Brasil, há terremotos fracos, possivelmente devidos a tensões exercidas
em rochas com pontos de fraqueza ou falhamentos. A posição do território
brasileiro no meio da placa Sul-americana reduz a atividade sísmica e suas
consequências, mas não as elimina.
Figura 6.8: Escorregamento de terra e material rochoso na Ilha Grande, obstruindo a estrada Abraão-
Vila Dois Rios (Angra dos Reis, sul do Estado do Rio de Janeiro). Fonte: Carla M. Salgado, 2011.

As formas de uso e ocupação da terra, como construção de estradas e de


edificações (residenciais, comerciais ou industriais) em cidades e em áreas rurais,
podem deixar as encostas mais sensíveis para a ocorrência deste tipo de processo.
Em outros casos, os próprios depósitos de lixo e entulhos criados em encostas pela
população sofrem deslizamento. Um exemplo emblemático foi o escorregamento
no Morro do Bumba, no município de Niterói, em abril de 2010. O local abrigava
até 1986 um lixão que, depois de desativado, não foi devidamente isolado. Com
o passar dos anos, famílias de baixa renda começaram a ocupar o terreno, que
Figura 6.6: Localização das áreas atingidas por um tsunami em dezembro de 2004.
veio a sofrer escorregamento após intensa chuva.

• Movimentos de Massa • Enchentes


Os movimentos de massa são comuns em climas tropicais (como no Brasil) As enchentes são fenômenos naturais quando o fluxo de água de um rio
e estão relacionados principalmente ao relevo acidentado, às propriedades das (vazão) se torna maior do que a área do canal fluvial, em situações de chuvas
rochas e dos solos, podendo ser desencadeados por chuvas concentradas. O índice mais intensas. Deste modo, as águas se espalham, inundando centenas de metros
de pluviosidade elevado faz com que o solo e/ou material rochoso encharcados ou alguns quilômetros a partir das margens do rio. Numa área rural as enchentes
deslizem encosta abaixo (Figuras 6.7 e 6.8). A presença de vegetação reduz o podem levar sedimentos que contribuem para fertilizar os solos desenvolvidos ao
impacto da chuva sobre o solo e evita a compactação, mas não é suficiente para longo das planícies dos rios.
impedir que os escorregamentos ocorram. No entanto, em áreas urbanizadas as características naturais dos rios e das
Além dos escorregamentos, há outros tipos de movimentos de massa, como bacias hidrográficas podem ser profundamente modificadas, aumentando a
corridas de lama, quedas de blocos e rastejos. Essa diferenciação se dá a partir frequência e a intensidade das enchentes. Como exemplo de tais mudanças, citamos:
do tipo de material mobilizado (blocos rochosos, solo ou mistura destes), da • obras no leito dos rios, deixando-os mais retilíneos e estreitos e menos
velocidade de deslocamento do material, do mecanismo do movimento, do profundos;
conteúdo de água, entre outros aspectos. • impermeabilização do solo, com a construção de ruas e edificações, impedin-
do a infiltração da água da chuva e aumentando seu escoamento superficial;
• assoreamento dos rios devido ao despejo de entulhos e lixo (Figura 6.9),
diminuindo a profundidade do rio.
No período de verão, várias cidades no Estado do Rio de Janeiro sofrem com
os problemas de enchentes, pois os episódios de chuvas mais intensas (grande
precipitação em intervalo de tempo pequeno) se tornam mais frequentes. Além das
intervenções urbanas nas bacias hidrográficas e rios, as características naturais do
relevo também podem contribuir para a ocorrência de enchentes. Como exemplo
podemos citar os municípios da Baixada Fluminense, que se situam em áreas muito
planas e com influência da maré. No caso dos rios que deságuam diretamente no
Figura 6.7: Escorregamento de material rochoso, acompanhado de restos de árvores e terra, em mar (Baía de Guanabara), a coincidência de horário de chuvas intensas com a maré
encosta íngreme na Ilha Grande (Angra dos Reis, sul do Estado do Rio de Janeiro). Fonte: Carla M. alta impede que o fluxo intenso de água do rio chegue até o mar.
Salgado, 2011.
Capítulo 6 :: 85

Dependendo da intensidade do El Niño, outras áreas do planeta vão ser afetadas


por secas ou excesso de chuva. No caso do Brasil, o clima semiárido do interior do
Nordeste fica mais forte, agravando as condições de seca. Nos estados do Sul e
Sudeste, especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, as frentes frias ficam
bloqueadas, ocasionando chuva forte e persistente, que gera grandes enchentes.
As consequências deste fenômeno interferem não somente no clima, mas
também em atividades econômicas. Um dos principais exemplos é a mortandade
de peixes, ou a redução da procriação, na costa do Peru e Chile, devida ao
predomínio de água quente na superfície, impedindo o desenvolvimento de
plânctons (microrganismos trazidos pela água fria, que são a base da alimentação
dos peixes). Há ainda quebra de safras agrícolas devido à seca ou a enchentes,
dependendo do local. Surgem também problemas de saúde pública, na medida
em que o excesso de chuva, acompanhado de aumento de temperatura, leva ao
aparecimento e proliferação de mosquitos, que transmitem malária e dengue.
O fenômeno La Niña corresponde à intensificação da situação normal de
circulação de ventos e correntes marítimas na área do Pacífico. Neste caso, os
ventos alísios que sopram da América do Sul para a Austrália e Sudeste Asiático
ficam mais intensos. Tal intensificação aumenta a área de afloramento das águas
frias da corrente de Humboldt.

Situação normal Corrente de ar Célula de alta pressão


descendente do NE brasileiro

Figura 6.9: Grande quantidade de lixo retido pela base de uma ponte, construída de forma
inadequada, no rio Imboassu (município de São Gonaçalo/RJ). Foto de Tatiane da Cruz Silva (2005). Ventos alísios com direção normal

Célula de alta pressão no NE brasileiro


Situação de El Niño intensificada pelo El Niño
• El Niño e La Niña
O El Niño e La Niña são ótimos exemplos da interação oceano-atmosfera,
cuja formação leva a alterações, às vezes muito intensas, do clima em grandes América do Sul
Austrália Nordeste do Brasil
áreas do planeta. Ambos correspondem à modificação da temperatura da água do Ventos alísios invertidos
Oceano Pacífico Sul, provavelmente causada pela alteração da intensidade dos
Água quente
ventos alísios (figura 6.10). Normalmente, tais ventos se deslocam da latitude
Água fria
aproximada de 30º Sul a partir do Chile para o Equador, atravessando todo o
oceano. Neste deslocamento, os ventos carregam água quente superficial, que
Figura 6.10: Circulação de ventos na situação normal e na situação de El Niño.
se acumula na costa da Austrália e do Sudeste Asiático (Indonésia, Papua Nova
Guiné). Deste modo, a corrente marítima fria de Humboldt aflora entre o litoral do
Chile e do Peru, causando aridez (deserto de Atacama). De modo inverso, a água Efeito estufa e
quente acumulada no setor oeste do Pacífico Sul contribui para maior evaporação, aquecimento global
formando clima chuvoso na Austrália e no Sudeste Asiático.
O fenômeno El Niño se inicia quando os ventos alísios se enfraquecem, A atmosfera terrestre é constituída por diferentes gases. Os gases mais
deixando de levar a água quente para o setor oeste do Oceano Pacífico. A água abundantes são o nitrogênio (participação de 78% na atmosfera) e o oxigênio
quente se acumula no litoral entre o Chile e Peru, impedindo o afloramento da (participação de 20% na atmosfera). A concentração destes e de outros gases
corrente marítima de Humboldt. Por outro lado, o setor oeste do oceano fica com é constante na atmosfera, isto quer dizer que, em qualquer ponto da superfície
água mais fria que o normal. A inversão da temperatura da água dos dois lados terrestre sempre vamos encontrar 78% de nitrogênio, e assim por diante. Neste
do Oceano Pacífico altera as características atmosféricas de cada local. Por isso, caso, tais gases são chamados de gases permanentes (tabela 6.3). Há um outro
durante a vigência do El Niño, chove no deserto de Atacama, e o tempo fica seco grupo de gases cuja concentração varia de um local a outro na Terra ou ao longo
na Austrália, às vezes causando grandes incêndios nas florestas. do ano – são os chamados gases variáveis. Exemplos deste grupo são o vapor
86 :: Geografia :: Módulo 2

d’água e o dióxido de carbono. O vapor d’água tem sua quantidade aumentada partir do momento em que a radiação solar atinge a superfície terrestre (superfícies
em áreas litorâneas, enquanto no interior dos continentes ou nos desertos seu continental e oceânica), esta é aquecida e passa a transferir o seu calor para a
percentual é muito baixo. atmosfera (figura 6.11). Somente alguns gases conseguem captar a radiação
Todos os gases atmosféricos têm fontes de origem naturais: o oxigênio é emitida pela superfície terrestre (radiação infravermelha): são os chamados gases
produzido por algas marítimas e plantas terrestres; o vapor d’água é gerado pela estufa. O vapor d’água, o dióxido de carbono (CO2), o óxido de nitrogênio (N2O) e
evaporação de corpos hídricos (oceanos, rios e lagos); o dióxido de carbono e o metano (CH4) são exemplos de gases estufa. Deste modo, a atmosfera inferior se
o metano são lançados na atmosfera pelos vulcões, decomposição de materiais aquece pelo contato com o chão, ou seja, de baixo (mais quente) para cima (mais
orgânicos etc. frio). De forma geral, os gases estufa ajudam a equilibrar a temperatura da Terra,
Os gases permanentes e os variáveis que constituem a atmosfera da Terra reduzindo a variação térmica entre o dia e a noite ou entre o inverno e o verão.
praticamente não se aquecem com o tipo de radiação emitido pelo Sol. Mas, a

Composição da atmosfera próxima à superfície (% por volume de ar seco)

Gás Símbolo % Gás Símbolo %

Gases Permanentes Gases Variáveis

Vapor d’água 0a4


Nitrogênio N2 78,08 H2O
Dióxido de Carbono 0,036
Oxigênio O2 20,95 CO2
Metano 0,00017
Argônio Ar 0,93 CH4
Óxido de Nitrogênio 0,00003
Neônio Ne 0,0018 N2O
Ozônio 0,000004
Hélio He 0,0005 O3
Partículas 0,000001
Hidrogênio H2 0,00006
CFCs 0,00000002
Tabela 6.2: Gases permanentes (a quantidade não varia na composição da atmosfera) e gases variáveis (a quantidade pode variar de um lugar para outro ou ao longo do ano) que constituem a atmosfera terrestre.

Observando novamente a tabela 6.2, vocês podem verificar que a quantidade No entanto, pesquisas realizadas nas últimas décadas em diferentes regiões
de gases estufa na atmosfera é extremamente pequena (não chega a 1%), mas do planeta indicam uma pequena elevação da temperatura na atmosfera terrestre
esta concentração é suficiente para manter a média geral de temperatura na Terra – processo chamado de aquecimento global. Tal processo pode estar relacionado
em 15º C. Se não houvesse gases estufa, a temperatura média do planeta seria ao grande lançamento de gases estufa por fontes antrópicas (indústrias, veículos,
-18º C (dezoito graus negativos!). queimada de florestas etc.), principalmente a partir do século XX, quando o
petróleo se tornou a principal fonte de energia.
Radiação solar Radiação terrestre
absorvida pelos A tabela 6.3 mostra como os gases estufa tiveram suas concentrações
gases estufa aumentadas entre 1750 e 1992, devido a diferentes atividades realizadas pelo
homem. O potencial de aquecimento de cada gás é medido a partir da capacidade
de aquecimento do dióxido de carbono. Isto quer dizer que 1kg do gás metano
(CH4) aquece a atmosfera 21 vezes mais que o dióxido de carbono (CO2). Mas,
por outro lado, o metano pode durar até 17 anos na atmosfera, enquanto o CO2
Terra pode permanecer na atmosfera por até 200 anos.
O dióxido de carbono vem sendo apontado como grande responsável pelo
aquecimento global pois sua participação na atmosfera é muito grande em relação
a outros gases estufa – em 1992 sua concentração era 355 partes por milhão
Atmosfera terrestre em volume (ppmv), isto significa que num volume de um milhão de moléculas
de gás, 355 são de CO2. A concentração de metano é bem menor – em 1992
havia 1714 partes por bilhão em volume, ou seja, num volume de um bilhão de
Figura 6.11: Aquecimento da atmosfera pela radiação terrestre (radiação infravermelha). A
radiação solar não aquece diretamente a atmosfera. moléculas de gás, 1714 moléculas eram de metano.
Capítulo 6 :: 87

Principais fontes Potencial de Tempo de vida


Gás Estufa Concent. em 1750 Concent. em 1992
antropogênicas aquecimento global atmosférico
Queima de combustível 1 (1kg de gás para
CO2 280ppmv 355ppmv fóssil; desmatamento reter Infravermelho em 50-200 anos
e uso do solo 100 anos)
Cultivo de arroz; criação
CH4 700ppbv 1714ppbv de gado; produção de 21 12-17 anos
derivados do petróleo
Fertilizantes; queima
N2O 275ppbv 311ppbv 310 120 anos
de combustíveis fósseis
Fabricação de solventes;
CFC 0 503pptv 8500 102 anos
refrigerantes e aerossóis
Tabela 6.3: Exemplos de gases estufa. Fonte: IPCC, 1995. Ppmv – parte por milhão em volume; ppbv – parte por bilhão em volume.

A partir do momento que a atmosfera fica mais aquecida, alguns fenômenos que também pode afetar algumas regiões litorâneas. A elevação do nível do mar
meteorológicos podem se tornar mais intensos – é o que vem sendo apontado também está relacionada ao aumento do volume da água, devido à expansão das
pelos estudos reunidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas moléculas com o aquecimento.
(sigla em inglês IPCC), criado em 1988 pela Organização Mundial de Meteorologia
e Organização das Nações Unidas. Tipos de armazenamento de água % de água
Oceanos 97,3
Calotas polares 1,86
O IPCC é uma organização de vários cientistas e
Lençóis freáticos 0,81
representantes de governos de diversos países, que se
Rios e lagos 0,008
reúnem periodicamente para discutir resultados de pesquisas
Outros (pântanos, solos) 0,022
relacionadas a fatores e elementos que possam afetar o clima
da Terra. Seus integrantes se dividem em três grupos de Tabela 1.4: Distribuição de água segundo as formas de armazenamento.

trabalho relacionados a temas específicos: Grupo I – aborda


Há regiões costeiras, que devido ao somatório de fatores específicos,
os aspectos científicos do sistema climático e de mudanças
poderiam se tornar mais vulneráveis a desastres naturais diante do processo do
climáticas; Grupo II – analisa a vulnerabilidade de sistemas
aquecimento global: áreas com altitude muito baixa (poucos metros acima do
socioeconômicos e naturais frente a mudanças climáticas;
mar), que são atingidas por fenômenos atmosféricos intensos (como furacões e
Grupo III – discute opções para limitar a emissão de gases
tempestades severas) e que possuem infraestrutura deficiente.
estufa e outras formas de reduzir os impactos de mudança
Este foi o caso de Nova Orleans, cidade situada na foz do rio Mississipi
climática.
nos Estados Unidos. Em 29 de agosto de 2005, o furacão Katrina atingiu a
Alguns cientistas criticam o IPCC devido ao envolvimento de
cidade e rompeu os diques, antigos e sem manutenção, que evitavam que as
representantes de governos de diferentes países no que diz
águas do rio Mississipi e de um lago alagassem a cidade. Com o rompimento
respeito à seleção de resultados divulgados pelos relatórios.
dos diques pelo Katrina, 80% da área da cidade foi alagada, matando milhares
de pessoas e causando grande prejuízo socioeconômico. Por outro lado, a cidade
Os relatórios produzidos pelo IPCC são extremamente importantes como de Miami, localizada na Península da Flórida, também nos Estados Unidos, quase
ponto de reflexão sobre a política industrial e energética dos países, sobre o estilo não sofre grandes prejuízos e não tem perdas de vidas humanas na passagem
de vida consumista da sociedade atual e sobre a necessidade de se discutir os de furacões. Embora esta seja uma região atingida por tempestades severas e
problemas climáticos em escala global. No entanto, alguns dados divulgados pela furacões frequentemente (praticamente todos os anos), a infraestrutura da cidade
imprensa estão exagerando quanto às consequências do aumento recente da foi construída para suportar eventos atmosféricos extremos.
temperatura da Terra. Mudanças climáticas no nosso planeta não é uma novidade! Vários períodos
Um caso emblemático é o aumento do nível dos oceanos devido ao geológicos foram marcados por importantes modificações nas características do
derretimento das calotas polares e da neve retida nas cadeias montanhosas mais clima, o que causou a morte de diferentes espécies animais e vegetais que não se
elevadas. Algumas notícias divulgadas pela mídia apontam para a elevação de até adaptaram às novas condições climáticas. Nos últimos milhares de anos, houve
7 metros do nível dos oceanos. No entanto, devemos lembrar que somente 1,86% oscilações climáticas (pequenas variações nas características climáticas) que
da água do planeta corresponde a esta forma de armazenamento (tabela 6.4). afetaram a evolução das sociedades humanas. Em alguns séculos, as oscilações
Outras pesquisas indicam um aumento de até 50cm, valor mais coerente, mas favoreceram a ocupação humana em áreas inóspitas (com condições
88 :: Geografia :: Módulo 2

ambientais que dificultam as atividades humanas) ou permitiram ampliar áreas Período de verão no hemisfério norte

de cultivo agrícola. Um exemplo foi a expansão do cultivo de uvas no sul da


Europa até o século XVI (por volta do ano de 1500, aproximadamente). Nos
séculos seguintes (entre os séculos XVI e XVIII), ocorreu uma queda acentuada
da temperatura média na Europa, levando a invernos cada vez mais rigorosos e Equador
longos, os quais prejudicavam o cultivo de alimentos. Esta situação de resfriamento
causou muita fome, epidemias e mortes na Europa. Oceano
Pacífico
Oceano
Atlântico
A preocupação atual com o aquecimento global é que os modelos compu-
tacionais, que simulam as consequências deste processo, mostram o papel das Período de inverno no hemisfério sul

emissões de gases realizadas pelo homem – emissões relacionadas a fontes ener- Corrente ascendente de ar Furacão
géticas que não serão substituídas facilmente nas próximas décadas. Tempestades que dão
Corrente descendente de ar origem a furacões
Além disso, há um número muito maior de pessoas no mundo, que certamen-
te serão prejudicadas com eventos atmosféricos intensos (furacões, tempestades, Figura 6.12: Correntes ascendentes de ar no Oceano Atlântico ao norte do Equador (Hemisfério
secas, enchentes etc.). Os países subdesenvolvidos, inclusive algumas áreas de Norte), causando tempestades e furacões, e corrente descendente de ar, inibindo a formação de
nuvens e causando seca na Amazônia.
países desenvolvidos, que possuem infraestrutura deficiente, em termos de organi-
zação de cidade, abastecimento de água potável, saneamento básico, áreas de ris-
co de deslizamento etc., podem ter grande perda de vidas e prejuízos econômicos.
Exercícios
Eventos atmosféricos extremos no ano de 2005
1) (UFMG/2002) Considerando-se a degradação dos recursos naturais brasileiros,
O ano de 2005 foi marcado pela ocorrência de uma temporada de muitos e é incorreto afirmar que:
(A) a extração dos recursos minerais no país é acompanhada pelo desmatamento
intensos furacões (incluindo o Katrina) e pela seca na Amazônia. Esta duas situações
de áreas expressivas, pelo acúmulo de grande volume de rejeitos sólidos não
estão interligadas, pois fazem parte da mesma célula de circulação atmosférica. biodegradáveis, que, uma vez transportados até os cursos de água, têm resultado
Próximo à linha do Equador, há correntes de ar ascendentes, que elevam na morte de rios e ribeirões;
o vapor d’água, formando nuvens altas. Estas podem se constituir em grandes (B) as atividades econômicas desenvolvidas na atual área de expansão da
tempestades no mar e, quando se intensificam, podem gerar furacões. Esta fronteira agrícola brasileira, situada na Amazônia Legal, resultaram na criação de
situação é comum de ocorrer no oceano Atlântico ao norte do Equador, durante os extensas áreas desertificadas, onde os solos se encontram em estado de exaustão
e esterilidade irreversíveis;
meses de verão do Hemisfério Norte. O ar que subiu tende a descer no meio dos
(C) o processo histórico de destruição dos recursos naturais do país teve início
oceanos (Atlântico e Pacífico) – formando uma corrente descendente de ar. Nos no século XVI, com a exploração do pau-brasil, a que se seguiu, entre outras
locais em que o ar desce não há formação de nuvens e de chuva, pois o vapor ações, a derrubada das matas para implantação de atividades de monoculturas
d’água não consegue se elevar – gerando áreas mais secas. e pecuaristas;
Em 2005, as correntes ascendentes de ar ficaram muito fortes (figura 6.12), (D) os recursos hídricos vêm sendo poluídos, orgânica e quimicamente, seja por
levando à formação de tempestades severas e vários furacões, que atingiram resíduos industriais, esgotos e lixo provenientes de grandes aglomerações urbanas,
seja pela contaminação das águas de superfície e dos aquíferos mediante, entre
países do Caribe e os Estados Unidos. Enquanto isto ocorria ao norte do Equador,
outros fatores, o uso indiscriminado de defensivos agrícolas nas áreas rurais.
formou-se uma corrente de ar descendente sobre a região sul da Amazônia, a qual
inibiu a formação de nuvens e provocou uma intensa seca. Este episódio de seca já 2) (UFMG/2002) Com relação ao lixo produzido pelas aglomerações urbano-
ocorreu algumas vezes no passado, mas atualmente esta região encontra-se mais industriais do mundo, é incorreto afirmar que:
densamente povoada e sofreu com grandes prejuízos sociais e econômicos (doenças, (A) a parcela da população urbana pertencente à classe economicamente
falta de água potável e alimentos etc.). favorecida, que tem melhores condições de acesso a bens e serviços, produz maior
quantidade de lixo per capita;
(B) a reciclagem já é uma realidade em muitos países industrializados, na busca
de solução para o destino final do lixo urbano, e constitui um processo que,
comumente, reaproveita papel, plástico, metal e vidro.
(C) o lixo, de procedência doméstica, hospitalar e industrial, é acumulado a
céu aberto em depósitos, chamados lixões, e em aterros sanitários ou, ainda, é
incinerado ou reciclado;
(D) os hábitos modernos de consumo e o aumento do nível de escolaridade têm
provocado a redução do volume de lixo produzido nas sociedades urbano-industriais.
Capítulo 6 :: 89

3) (UFSCAR/2003) A organização das Nações Unidas realizou três importantes Cite dois problemas relacionados à atual crise da água.
conferências sobre o meio ambiente: na Suécia, em 1972; no Brasil em 1992 e,
na África do Sul em 2002. Fazendo-se uma avaliação desses trinta anos, pode-se
afirmar que:
(A) os problemas ambientais ampliaram-se, apesar dos países industrializados
diminuírem muito o consumo de produtos agropecuários;
(B) os países de agricultura moderna deixaram de utilizar agrotóxicos para evitar
problemas vividos pelos países já industrializados;
Complemente seus
(C) aumentou a preocupação com o meio ambiente, mas os países capitalistas não conhecimentos
se dispõem a diminuir a produção industrial e a modificar os padrões de consumo;
(D) os conflitos religiosos entre países ricos e pobres são as causas da não
A questão da água no mundo e no Brasil
obediência aos acordos assinados nas conferências sobre meio ambiente;
(E) os países pobres, em função da falta de educação ambiental, são os principais A água potável é um recurso finito, que se reparte desigualmente
responsáveis pelo aumento dos problemas ambientais. pela superfície terrestre. Se pelo ângulo de seu ciclo natural a água é um
recurso renovável, suas reservas não são ilimitadas. Diversos especialistas
4) (UFRRJ/2002) A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, têm alertado que, se o consumo continuar crescendo como nas últimas
encerrada em 4 de setembro de 2002, vem recebendo análises nada entusiásticas décadas, todas as águas superficiais do planeta estarão comprometidas
de delegados e observadores, em função do pouco que foi alcançado em termos por volta de 2100.
de metas, prazos e meios de financiamentos concretos para implementar os A carência de água é resultado da combinação de efeitos naturais,
compromissos assumidos na Conferência do Rio de Janeiro, em 1992. Leia as
demográficos, socioeconômicos e até culturais. Chuvas escassas, alto
afirmativas abaixo:
crescimento demográfico, desperdício e poluição de mananciais se
I. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente foi
combinam para gerar uma situação denominada de “estresse hídrico”.
realizada em 1982, em Nova Iorque, quando a comunidade internacional se
A escassez de água em áreas do mundo, especialmente no Oriente
reuniu para discutir a composição do conselho de proteção ambiental e formas
Médio, tem feito surgir situações hidroconflitivas, isto é, casos de tensões
alternativas de crescimento.
geopolíticas geradas por conta da disputa pelo domínio e utilização de
II. No Relatório “Nosso Futuro Comum” foi usada, pela primeira vez, a
fontes de água, especialmente rios, quando estes atravessam regiões de
definição de desenvolvimento sustentável, caracterizado como o desenvolvimento
vários Estados. Um dos pontos da explosiva Questão Palestina diz respeito
que atende às necessidades atuais sem comprometer a capacidade de as futuras
à utilização das fontes hídricas existentes na Cisjordânia, região localizada
gerações terem suas próprias necessidades atendidas.
junto ao baixo vale do rio Jordão.
III. A Conferência do Rio gerou o documento Agenda 21 – que define o
Síria, Iraque e Turquia há muito tempo vêm tendo desavenças sérias
contorno de políticas essenciais para alcançar o modelo de desenvolvimento
no que diz respeito à utilização das águas dos rios Tigre e Eufrates, que
sustentável que atendesse às necessidades dos pobres e reconhecesse os limites
têm suas nascentes em território turco mas, que cruzam áreas dos outros
do desenvolvimento.
dois países. Muitos especialistas já chegam a afirmar que os eventuais
IV. O que motivou a realização da Cúpula de Johannesburgo foi a constatação
conflitos que ocorrerem no Oriente Médio ao longo do século XXI serão
de que, num quadro de crescente exclusão social e degradação ambiental planetárias,
causados cada vez mais pela água e cada vez menos pelo petróleo.
são necessárias profundas mudanças no sistema vigente de governança global.
Apesar de 75% da superfície do planeta ser recoberta por massas
V. Na Rio + 10, o Brasil defendeu a proposta de utilização de apenas 30%
líquidas, a água doce não representa mais que 3% desse total. O problema
das reservas de petróleo, para evitar o esgotamento, contrariando os interesses
é que apenas um terço da água (presente nos rios, lagos, lençóis freáticos
dos produtores de petróleo, sobretudo os países árabes.
Marque a alternativa correta: superficiais e atmosfera) é acessível. O restante está imobilizado nas
(A) Todas as afirmativas estão corretas. geleiras, calotas polares e lençóis freáticos profundos.
(B) Somente as alternativas III e V estão corretas. Atualmente cerca de 50% das terras emersas já enfrentam um estado
(C) Somente as alternativas I, III e V estão corretas. de penúria em água. De cada 5 seres humanos, um está privado de água
(D) Somente as alternativas II e IV estão corretas. de boa qualidade para consumo e cerca de metade dos habitantes do
(E) Somente as alternativas II, III e IV estão corretas.
planeta não dispõe de uma rede de abastecimento satisfatória.
Ao longo do século XX, a população mundial foi multiplicada por três,
9) (UFRJ/2001)
as superfícies irrigadas por seis e o consumo global de água por sete.
A água limpa do planeta caminha para assumir o papel que tinha o
Ao mesmo tempo, nas últimas cinco décadas, a poluição dos mananciais
petróleo em 1973: uma “commodity” em crise, com potencial para lançar
reduziu as reservas hídricas em um terço.
a economia mundial num estado de choque (...)
Os recursos disponíveis atualmente poderiam ser utilizados de forma
“Folha de São Paulo”, 02/07/1999.
mais eficaz se fossem reduzidas a poluição, desenvolvidos processos de
90 :: Geografia :: Módulo 2

reciclagem das águas, houvesse uma melhor conservação das redes de decorrem da combinação da irregularidade das condições climáticas,
distribuição, fosse evitado o desperdício e aceleradas as pesquisas sobre especialmente pluviométricas (Sertão do Nordeste), do crescimento
culturas agrícolas menos exigentes à água e mais tolerantes ao sal. A exagerado do consumo e degradação ambiental de outras áreas (grandes
dessalinização da água do mar só é realizada em poucos países e, mesmo metrópoles, por exemplo).
assim, as quantidades obtidas não cobrem as grandes necessidades. Essa situação tem como pano de fundo o rápido e caótico processo
A escassez de água, que muitos apontam como um dos principais de expansão urbano-industrial e a ausência de planejamento ambiental na
problemas ambientais do mundo para o século XXI, afeta ou pode afetar o valorização econômica de amplas áreas do país.
Brasil? Do ponto de vista genérico, a resposta é não. Em outras escalas de Nelson Bacic Olic. Revista Pangea, 28/9/2001
análise a resposta é positiva.
Localizado em sua maior parte na Zona Intertropical, com domínio
de climas quentes e úmidos, cerca de 90% do território brasileiro recebe
chuvas cujos totais normalmente variam de 1.000 a 3.000 milímetros
anuais. A única grande área que foge a este padrão é o Sertão nordestino,
região que ocupa cerca de 10% do território nacional.
Devido a estas características climáticas e às condições geomorfológicas
dominantes, o Brasil possui importantes excedentes hídricos cujo resultado
é o da existência de uma das mais vastas e densas redes de drenagem
fluvial do mundo. Como consequência, nossa produção hídrica equivale a
pouco mais que metade do total da América do Sul e cerca de 12% do
total mundial.
Quatro grandes bacias hidrográficas – Amazônica, Tocantins-Araguaia,
São Francisco e Paraná – são responsáveis por 85% de nossa produção
hídrica. Se é verdade que o Brasil possui abundância de águas superficiais,
é também verdade que esses recursos hídricos não estão distribuídos
equitativamente pelo território.
Apenas na área das bacias Amazônica e do Tocantins-Araguaia,
a produção hídrica corresponde a 73% do total do país. Nessas áreas,
de forma geral, as densidades demográficas são muito baixas e variam
de 2 a 5 hab/km . No outro extremo, na bacia do Paraná (6,5% da
2

produção hídrica), as densidades dominantes estão entre 25 e 100 hab/


km . Justamente aí situam-se a maior metrópole do país e algumas das
2

áreas mais dinâmicas da economia brasileira. Aí que estão também os


mananciais mais exigidos e poluídos do país.
Organizações internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas)
e o Banco Mundial adotam índices para classificar a disponibilidade hídrica social
e seu impacto social. Segundo a ONU, as áreas críticas do mundo são aquelas
cuja disponibilidade não chega a 1.000m3 anuais por habitante. Para o Banco
Mundial, provavelmente influenciado pelos altos níveis de consumo verificados
nos Estados Unidos, utiliza critérios mais exigentes: considera que a situação de
“estresse hídrico” ocorre quando a disponibilidade hídrica é inferior a 2.000m 3

anuais por habitante.


Nenhuma unidade federativa do Brasil apresenta índices inferiores a
1.000m anuais por habitante. Todavia, estão em situação de estresse
3

hídrico segundo os critérios do Banco Mundial, os estados do Rio Grande do


Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e o Distrito Federal.
A aparente abundância de água no Brasil tem sustentado uma
cultura de desperdícios, enquanto legitima a carência de investimentos
em programas de uso e proteção de mananciais. Os problemas de
abastecimento na atualidade ainda estão restritos a poucas áreas e
7
Fundamentos de cartografia

:: Objetivos ::
• Apresentar as possibilidades de espacialização da informação geográfica;
• Ajudar na compreensão de mapas e escalas;
• Explicar o porquê das mudanças de horários no globo terrestre.
92 :: Geografia :: Módulo 2

O que devemos saber Então, como entender e projetar um mapa?


sobre cartografia? De modo simples, o mapa representa, reproduz e reduz a realidade. Através
dele é possível conhecer a estrutura do fenômeno que se quer representar. Lembre-
Palavra que deriva do grego “graphein”, cartografia significa escrita ou
se de que a redução deverá ser proporcional ao nível de detalhe que queremos
descrita, e do latim “charta” significa papel. Portanto, “escrita em papel” é
obter, por exemplo: uma baixa redução obtém maiores detalhes e, uma grande
um modo gráfico de informação. Cartografia é a ciência, a arte e a técnica para
redução obtém detalhes limitados. É o mapa que possibilita trazer o mundo até
produzir mapas e cartas, que são compostos por elementos gráficos utilizados para
onde estamos. Veja:
transmitir uma mensagem qualquer. Então, podemos entender que o mapa é uma
ferramenta de comunicação.
Os primeiros mapas foram esboçados ainda na Pré-História, quando a Segundo a Sociedade Brasileira de Cartografia (1977),
cartografia era usada na delimitação de territórios de caça e pesca. Os registros Mapa é a “representação cartográfica plana dos fenômenos
apontam que no século III a.C. está a base da moderna Cartografia, quando o da sociedade e da natureza, observados em uma área
globo já tinha essa forma em sua representação juntamente com os sistema de suficientemente extensa para que a curvatura terrestre não
latitude e longitude. Se você quiser pesquisar mais sobre a origem e a trajetória seja desprezada e algum sistema de projeção tenha que ser
dessa ciência ao longo dos séculos, faça uma busca nos sites acadêmicos. adotado, para traduzir com fidelidade a forma e dimensões da
Os elementos gráficos mais importantes que compõem os mapas e cartas área levantada”.
são: o sistema de coordenadas geográficas, o sistema de projeção, a escala
e a simbologia. Todo mapa vem acompanhado de uma legenda que define a
medida dos objetos gráficos e obedece a um padrão internacional. Atualmente Desse modo, entendemos que todos os mapas são representações
a Cartografia é feita através de fotografias aéreas (aeronaves) e por meio de aproximadas da superfície terrestre, pois não se pode passar de uma superfície
sensoriamento remoto (satélite e radar). curva (Terra) para uma superfície plana sem que haja deformações. Para projetar
um Mapa em superfície plana, faz-se necessário utilizar um Sistema de Projeção.
Você sabe qual a interface da cartografia A Projeção mais simples é a de Mercator. As técnicas foram avançando e
com a ciência geográfica? muitas outras projeções foram aprimoradas, sempre para desfazer ou minimizar
as desigualdades de área perto dos Polos (achatamento) com as de perto do
A Cartografia apresenta-se de modo geral como linguagem de representação Equador. Não há como evitar as deformações do globo e, por isso, classifica-se
de fatos e fenômenos geográficos ou de representação do espaço geográfico. cada tipo de projeção de acordo com a característica que permanece correta:
Essa representação poderá ocorrer através de cartas topográficas, plantas, croquis
(ou desenhos), mapas, globos, fotografias, imagens de satélites, gráficos, a. Projeções equidistantes = distâncias corretas;
perfis topográficos, maquetes, textos dentre outros meios que possam utilizar a b. Projeções conformes = igualdade dos ângulos e das formas dos continentes e;
linguagem cartográfica. c. Projeções equivalentes = mostram corretamente a distância e a proporção
entre as áreas.
Para entender a cartografia, é preciso ter noção de alguns
princípios e fundamentos. Os principais tipos de projeção são: Cilíndrica, Cônica e Azimutal. Observe as
representações (figura 1) que se seguem:
A Cartografia apresenta-se como uma ferramenta de apoio e possibilita
a espacialização de toda e qualquer tipo de informação geográfica. Para o
a. Cilíndrica: é aquela em que a projeção dos paralelos e meridianos se dá
profissional de Geografia, é importante o conhecimento dos aspectos básicos da
sobre um cilindro envolvente e, posteriormente, é planificado. A projeção cilíndrica
Cartografia bem como dos fundamentos de projeto de mapas. Portanto, destaca-se
mais utilizada é a de Mercator, com a Europa centrada no planeta.
que, tanto o Geógrafo quanto o Cartógrafo deverá perceber a perspectiva espacial
b. Cônica: é a projeção feita sobre um cone que depois é planificada. É mais
do ambiente, bem como ter a habilidade de abstraí-lo e simbolizá-lo. Observe o
utilizada para representar as latitudes médias, pois somente as áreas próximas do
Modelo Simples de Comunicação Cartográfica:
Equador aparecem retas.
[Comunicação Cartográfica = Cartógrafo + Tema (o quê?) do Mapa
c. Azimutal: é aquela em que a projeção da superfície terrestre é feita sobre
(Como?) + Usuário (pra quê?)]
um plano a partir de determinado ponto. São chamadas de planas ou zenitais,
São duas as Classes de Operações para a Cartografia: a classe de preparação
pois deformam áreas distintas do ponto central, e são usadas para representar as
de mapas gerais (mapas topográficos, cartas aeronáuticas, cartas hidrográficas,
áreas polares.
dentre outras e; a classe de preparação de mapas usados para referência geral e
ensino (mapas temáticos, atlas, mapas rodoviários, mapas de planejamento etc.).
Capítulo 7 :: 93

E as coordenadas geográficas? Para que servem?

As Coordenadas Geográficas são chamadas de Latitude e Longitude. São


linhas imaginárias que cortam o nosso Planeta e também servem para localizar
qualquer lugar na superfície terrestre. O Meridiano 0° divide a Terra em dois
hemisférios: ocidental (oeste) e oriental (leste) e passa pelo Observatório
1- Cilíndricas 2- Cônicas 3- Azimutais Astronômico Real de Greenwich (Inglaterra). Todos os meridianos têm o mesmo
Figura 7.1: Principais tipos de projeção utilizados para representação do globo terrestre
comprimento, pois se encontram nos polos. A Linha do Equador 0º divide a Terra
em dois hemisférios: setentrional (norte) que inclui o Polo Norte e meridional (sul)
No Brasil, o mapeamento sistemático que compreende a elaboração de que inclui o Polo Sul. Veja:
cartas topográficas, é feito na projeção UTM (“Universal Transverse Mercator”), • Latitude: é a distância, em graus, de qualquer lugar da superfície terrestre
nas escalas de 1:250.000, 1:100.000, 1:50.000
Brasil - Fusos Horários e 1:25.000.
até o Equador. Varia de 0 a 90º N ou S. Podemos a partir do Equador, traçar círculos
- 5h GMT - 4h GMT - 4h GMT - 2h GMT
paralelos (imaginários), diminuindo de tamanho conforme se afastam para o norte
- 2h de Brasília - 1h de Brasília Hora de Brasília +1h de Brasília
Sobre as linhas astronômicas ou para o sul.
RR AP • Longitude: é a distância, em graus, de qualquer lugar da superfície ao
A partir de observaçõesAMastronômicas e de observações a olho nu, os filósofos Meridiano de Greenwich. Varia de 0 a 180º para o leste ou para o oeste.
PA MA CE RN
Gregos na Antiguidade concluíram que a Terra é redonda. PI Esse
PB
PE fato que pode nos
AC TO AL
parecer simples, é responsável pela MTexistência das diferentes zona climáticas em
RO BA SE
DF :: Curiosidade ::
nosso planeta. Pense: os raios solares incidem GO
MG
na superfície terrestre de modo
MS
desigual.Essa inclinação dos raios solares incidindo na
ES No Brasil, a Linha do Equador corta a capital Macapá
RJ superfície terrestre aumenta
SP
PR
quando nos afastamos do Equador, portanto,SCmaior será a áreaLimite aquecida
teórico pela mesma
(Amapá). Destaca-se o Marco Zero com um obelisco de 30m de
RS
quantidade de energia, o que torna as temperaturas mais baixas, não é mesmo?
Limite prático altura que tem uma abertura no alto. Nos Equinócios (março
A Terra é 4ºinclinada
Fuso 3º Fuso
em relação ao seu próprio2º Fuso
eixo, seguindo1º Fuso
a sua órbita ao e setembro) a luz do sol projeta um feixe de luz sobre a Linha
redor do Sol. Os raios solares incidem perpendicularmente apenas nos trópicos do do Equador. Belém é considerada a maior cidade e metrópole
planeta. Como75ºconsequências, da zona da Linha do Equador. A Linha do Equador cruza os
70º 65º temos 60º as estações
55º do ano45º(solstícios
50º 40º e 35º equinócios)
e a5ºdiferença entre o dia e a noite. Oceanos Índico, Atlântico e Pacífico.

No Brasil, o ponto leste mais extremo localiza-se em Cabo
0º 0º Branco (PB) e é conhecido como Ponta do Seixas. O ponto
:: Estações doAAno :: B oeste mais extremo localiza-se na Serra do Contamana (AC).
C
5º 21 de dezembro: solstício de verão no hemisfério sul (quan- 5º
10º do recebe os raios solares perpendicularmente ao Trópico de 10º
Capricórnio) e solstício de inverno no hemisfério norte;
D
15º 21 de junho: essas posições se invertem (pois o trópico 15º Sobre os fusos horários, é bom lembrar:
20º de Câncer recebe os raios solares perpendicularmente, se 20º
tornando o centro da parte da Terra iluminada pelo Sol), assim Os Fusos Horários, também chamados de Zonas Horárias, correspondem a
25º Rio de Janeiro 25º cada uma das 24 áreas em que se divide a Terra. Observe-os nos mapas do Brasil
no hemisfério norte ocorre o solstício de verão;
21 e 23 de março ou setembro: equinócio, caracterizando o e do Mundo que se seguem. É fácil, veja:
30º 30º
início da primavera ou outono (quando os raios solares incidem
sobre75º
a superfície
70º 65ºda Terra
60ºperpendicularmente
55º 50º 45º ao Equador).
40º 35º O movimento de rotação da Terra é responsável pelo ‘dia’
Diferenças entre o dia e a noite durante o ano: e ‘noite’, além da diferença de horário nos diversos pontos
Solstício de verão: o dia é mais longo e a noite mais curta; longitudinais da Terra e este movimento dura 24h. Cada uma
solstícios de inverno: o dia é mais curto que a noite; das áreas corresponde a 1 hora. Portanto, dividindo os 360°
Equinócio: tanto o dia456
como a noite tem a mesma duração do globo, em 24 horas de duração o resultado é 15°, ou seja,
em qualquer parte do planeta (12440 horas);432 a cada 15° que a Terra gira, passa-se 1 hora. Cada um dos 24
20m

Nos círculos polares, existem dias e noites que420duram mesesEquidistância


pontos longitudinais corresponde a um fuso horário.
Vertical
20m

(nos polos só irá raiar o dia à medida que o planeta avança


416
400
em seu movimento de translação, e não de rotação).
O Meridiano de Greenwich é o meridiano de referência (fuso 0º), a partir dele
440 456 416 432 se acertam os relógios, pode ser horas a mais se nos direcionarmos para um fuso
420
400 horário ao leste, ou horas a menos se mudarmos a um fuso ao oeste (Greenwich

Vista oblíqua Vista oblíqua


94 :: Geografia :: Módulo 2

Meridian Time, cuja sigla é GMT). Isto ocorre porque a Terra gira de oeste para les- Veja os horários dos voos internacionais que saem do Aeroporto Internacional Tom
te. Por exemplo, se tem alguem vindo da Europa para o Brasil, é preciso diminuir Jobim (Rio de Janeiro) para a Europa e depois a Ásia. É um bom exercício que fixa
as horas e, se tem alguém indo do Brasil para a Europa, é preciso somar as horas. bem esse conteúdo.
A partir de 1986, a hora GMT foi substituída pelo sistema chamado de UTC Vocês podem estar perguntando: e quando estivermos no horário de verão?
(ou seja, Universal Time Coordinated), mensuração baseada nos padrões atômicos Como fazer esse cálculo para não errarmos a hora? O horário de verão é adotado
e não mais na rotação da Terra. Com isso, todos os fusos horários são definidos no Brasil, na Europa, como também os Estados Unidos e o Japão. A justificativa é
em relação ao Tempo Universal Coordenado em Londres, cuja sigla é UTC. É bom a economia de energia elétrica no início da noite, horário em que ocorre sobrecarga
lembrar que, apesar de cada fuso ser múltiplo de 15º, encontraremos formas no sistema e que chega a causar blackout. A solução encontrada foi a de utilizar o
diferenciadas de acordo com as fronteiras ou questões políticas dos países. Desse máximo a luminosidade natural e para tal, adianta-se em uma hora os relógios.
modo, podemos citar a China como exemplo: o país poderia ter até quatro fusos Agora que você já entendeu um pouco sobre fusos horários, pergunta-se: em
horários distintos, no entanto, utiliza o horário de Pequim, o que causa algumas que localidade o Ano Novo entra primeiro? Essa é uma boa pergunta para pesquisa.
diferenças no oeste quando o sol nasce mais tarde (9:00h da manhã). A seguir, estão os mapas do Brasil e do Mundo com a divisão de zonas horárias.
Então, para calcular a hora em qualquer localidade do mundo, é preciso saber Chama-se a atenção para o fato de que, atualmente, o Brasil não mais utiliza o quarto
em que meridiano se encontra, e se está a oeste ou leste do meridiano de Greenwich. fuso (com – 5 horas GMT e – 2 horas de Brasília) conforme está mostrando o mapa.

Figura 7.2: Fusos Horários no Brasil e no Globo, respectivamente.

Para acompanhar a hora oficial do Brasil, visite os endereços: <http:// • Escala Gráfica: é expressa através de um gráfico dividido em km.
pcdsh01.on.br/HoraLegalBrasileira.asp> e <http://www.on.br/conteudo/ Ex: 100m – 200m – 300m ou seja, a cada parte do mapa é equivalente a
modelo.php?endereco=dsho/projetos/hora_legal.html> 100m no espaço representado.
Entre no endereço <http://24timezones.com/hora_certa.php> e verifique • Escala Numérica: é expressa por representação de fração ordinária.
a hora em qualquer parte do mundo. Ex: 1:10.000 (um por dez mil) ou seja, um mapa com essa escala indica que a
distância real é 10 mil vezes maior do que no mapa, onde 1cm tem 100m ou 1km.
Vamos entender o que é escala de um mapa Vamos fazer um exercício juntos, desse modo você entenderá a lógica da
escala, adotaremos:
A Escala é a relação entre a distância gráfica (mapa) e a distância do mundo
E=Escala;
real. Com a escala podemos avaliar a extensão espacial seja local, estadual,
D=Distância da realidade e;
regional, nacional, continental, internacional..., além de nos apontar o nível de
d=Distância do mapa
redução da realidade. Os principais tipos de Escala são a Gráfica, que permite a
leitura da distância diretamente sobre o mapa e, a Numérica, quando a unidade
do terreno é a mesma do mapa. Portanto,
Capítulo 7 :: 95

Exemplo 1 3) Às linhas imaginárias que têm como função localizar qualquer ponto da
superfície terrestre, dá-se o nome de:
Qual é a distância real aproximada entre o Rio de Janeiro e Niterói? (A) cartografia
No mapa, cuja escala é de 1:1000.000, a distância mede 1,5cm (em (B) projeções cartográficas
linha reta) (C) coordenadas geográficas
E=1:1.000.000; logo 1cm = 10km (D) linhas astronômicas
(E) latitude e longitude
D=1,5cm
Aplica-se a fórmula: D= d.E (ou d x E)
4) Marque V (verdadeiro) ou F (falso).
D=1,5cm x 10km = 15km (A) O movimento de rotação da Terra é responsável pela geração do dia e noite e
Resposta: a distância real é 15km aproximadamente pelas diferenças no horário dos diversos pontos longitudinais da Terra. ( )
(B) O meridiano de Greenwich é referencia para a latitude. ( )
Exemplo 2 (C) Latitude é a medida, em graus, de qualquer lugar até o Equador. ( )
(D) A escala expressa o quanto a realidade foi reduzida para se caber em um
Vamos inverter o processo para descobrirmos a distância no mapa mapa. Ela pode ser numérica ou gráfica. ( )
d= D/E = 15km/10km = 1,5cm (E) Longitude é medida em graus de qualquer lugar até o Equador. ( )
d= 1,5cm
5) Numa situação hipotética, você está na praça principal do centro de uma
cidade e pretende chegar até o teatro municipal que situa-se ao final da rua. Você
Exemplo 3 consulta o mapa para saber “quanto” deverá caminhar. Este mapa tem escala
1:8.000 e a distância de onde você se encontra até o teatro é equivalente a
Para descobrir a escala é preciso dividir D por d.
20cm. Portanto, quanto deverá caminhar?
D/d= 15/1,5=10
Ou seja, cada 1cm equivale a 10km.
Para você guardar:
Classificação dos Mapas segundo Escalas de Representação
6) Exercícios sobre Fuso Horário (se for preciso, consulte o Mapa Mundi de Fuso
Escalas Classificação Horário):
< 1:5.000.000 Global muito pequena a) Quando são 14:00h em Greenwich (Europa), qual será a hora em Nova York
(EUA)?
1:5.000.000 – 1:250.000 Geográfica pequena
1:250.000 – 1:50.000 Topográfica média
b) quando são 18:00h em Rio Branco (Acre, Brasil), qual será a hora em
1:50.000 – 1:5.000 Cadastral grande
Greenwich (Inglaterra, Europa)?
> 1: 5.000 Planta muito grande

c) Quando forem 11:00h no Rio de Janeiro (Brasil), qual será a hora em Moscou
Exercícios (Eurásia)?
1) Quando os raios solares atingem perpendicularmente o trópico de Capricórnio,
ocorre:
(A) solstício de verão no hemisfério sul d) São 21:00h em São Paulo (Brasil), qual será a hora em Tóquio (Japão, Ásia)?
(B) solstício de inverno no hemisfério sul
(C) solstício de verão no hemisfério norte
(D) equinócio
(E) solstício de inverno no hemisfério norte

2) É solstício de inverno no hemisfério sul:


(A) quando os raios solares incidem perpendicularmente ao trópico de Capricórnio.
(B) quando o trópico de Câncer se torna o centro da face da Terra iluminada pelo sol.
(C) quando o trópico de Capricórnio se torna o centro da face da Terra iluminado
pelo sol.
(D) quando os raios solares atingem a superfície da Terra perpendicularmente ao
Equador.
(E) quando os raios solares atingem a superfície da Terra perpendicularmente
aos Polos.
AM PA MA CE RN
PB
PI PE
AC TO AL 0º
30º 0º 30º
RO BA SE
MT A B
DF C
GO 5º 5º
MG 75º 70º 65º 60º 55º 50º 45º 40º 35º
MS ES
SP
RJ
96 :: Geografia :: Módulo
PR 2 10º 10º
SC Limite teórico
RS Limite prático
15º D 15º
7) (UFU / adaptado)
4º Fuso A partir3º Fuso
da observação2º Fuso
do Mapa do Brasil,
1º Fuso responda às 456
perguntas que se seguem: 20º 20º
440
432

20m
25º Rio de Janeiro Equidistância
25º
75º 70º 65º 60º 55º 50º 45º 40º 35º 420 Vertical

20m
5º 5º 416
30º 400 30º
0º 0º
A B 75º 70º 65º 60º 55º 50º 45º 40º 35º
C
5º 5º
440 456 416 432
420
10º 10º 400

D Figura 7.3: Curvas de Nível. Fonte:


456IBGE, adaptado.
15º 15º
440
20º 20º Na representação cartográfica, a equidistância
Vista oblíqua 432 entre uma
Vistadeterminada
oblíqua curva

20m
Equidistância
e outra tem que ser constante. Essa equidistância é o espaçamento
420 ou a distância
Vertical
Rio de Janeiro 25º

20m
25º vertical entre as curvas de nível e pode 416
variar de acordo com400 a escala da carta com
o relevo e com a precisão do levantamento. Atenção: equidistância portanto, não
30º 30º
significa a distância constante entre uma curva e outra e sim, o desnível altimétrico
75º 70º 65º 60º 55º 50º 45º 40º 35º
do relevo ou seja, a 440altitude 456
entre elas. Para
432
facilitar a leitura, convencionou-se
420 416
adotar dentro de 400umdamesmo
Vista carta intervalo altimétrico, algumasVistacurvas desenhadas
da carta
http://www.ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas (adaptado) com um traço mais grosso conhecidas como Curvas Mestras, outras com traço
a) O segmento AB no norte do País possui 2 cm no mapa. O mesmo segmento mais fino conhecidas como Curvas Auxiliares.
corresponde a 1.112 km na realidade.
456 Essa correspondência é a escala do mapa.
Então, qual é a escala desse mapa? Vista oblíqua Vista oblíqua
440
432
20m

Equidistância
420 Vertical
b) Os pontos C e D representam duas localidades,
416 no NE e no CO respectivamente. Vista de perfil Vista de perfil
20m

400
Quais são as coordenadas geográficas dessas localidades?

c) Outros dois pontos estão 440


localizando
456 as416
cidades432
de Porto Velho (RO) e do Rio de Vista da carta Vista da carta
420
Janeiro (RJ). Se no Rio400de Janeiro são 14 horas, que horas são em Porto Velho?

d) Observando as informações presentes no mapa, determine a circunferência


equatorial da Terra.Vista oblíqua Vista oblíqua
Praia
Vista de perfil Vista de perfil
Vermelha

Aplicando o conhecimento
cartográfico na geografia
Vista da carta Vista da carta
O relevo de uma determinada área pode ser representado por curvas de nível,
por perfis topográficos, por cores hipsométricas, por sombreamento, dentre outros.
Figura 7.4: Diferentes vistas das curvas de nível. Fonte: IBGE, adaptado.
Veremos então, os métodos mais convencionais.
A
A representação por Curvas de Nível nos permite ter um valor aproximado URC
Resumindo, Curvas Mestras são aquelasPraia em destaque para ajudar na
da altitude em qualquer parte da Carta Topográfica. Nesta, o relevo é cortado por leitura do mapa, principalmente quando trata-seVermelha
de relevo escarpado e as curvas
planos horizontais Vista
paralelos entre si. As curvas de nível correspondem
de perfil às linhas
Vista de perfil aparecem muito juntas e; as Curvas Auxiliares, são aquelas de desenho mais
de interseção do relevo com os planos horizontais, projetados ortogonalmente fino e apontam a equidistância entre as curvas, principalmente para ressaltar as
no plano da carta topográfica e facilitam a leitura do mapa (observe a figura pequenas altitudes. Observe a Figura 7.5 e a Tabela 7.1 que se seguem:
400
7.3 - Curvas de Nível).
300

200
A
100 URC

0
Praia
Vermelha
456

440 400
432

20m
Equidistância 300
420 Vertical

20m
416
400 200
Capítulo 7 :: 97
A
URC
100
Vamos fazer uns exercícios juntos para vocês entenderem as duas formas de
440 456 416 432 representação do relevo e testarem o que aprenderam até o momento.
420 0
400
8) Observem as Figuras 1 e 2 que hipoteticamente podem representar um relevo
400
similar ao do Morro do Pão de Açucar.
300
Vista oblíqua Vista oblíqua Figura 1
380 380
200
360
100
520
0 C Y
X A 540 B 500 480 460
440
Figura 7.5: Reprodução de Carta Topográfica (as curvas mestras dão o realce ao relevo
Vista da carta Vista da carta 420 Escala
escarpado). Fonte: IBGE, adaptado. 360 380 400 0 500
m
FiguraFigura
1 2
Escala Equidistância Curvas mestras 380 380
560
1:25.000 10m 50m 360
540
520
1:50.000 20m 100m 500
480
460 520
1:100.000 50m 250m 440 C Y
Vista de perfil Vista de perfil X420
A 540 B 500 480 460
1:250.000 100m 500m 400 440
380
1:1.000.000 100m 500m X A B C Escala Y (km)
380 420
360 400 0 500
m
Tabela 7.1: Relação entre a Escala do Mapa, a Equidistância das Curvas e as Curvas Mestras. a) Identifique o tipo de representação do relevo utilizada em cada figura.
Figura 2
Figura 1:
O Perfil Topográfico é a representação cartográfica de um corte vertical da 560
540
superfície terrestre. Para realizar o Perfil, é preciso conhecer as altitudes e a Figura 2:
520
500
distância entre elas. Observe a figura 7.6. 480
460 N
b) Identifique as áreas A, B e C nas duas figuras. Cite pelo menos um uso do solo
440
420
mais adequado em cada uma dessas áreas e justifique.
400
380
Praia
Vermelha X A B C Y (km)
9) (UNICAMP / adaptado) A seguir, você tem uma figura que representa parte
540
do relevoAde uma carta topográfica. Essa carta é de umBmunicípio hipotético de
Minas Gerais,
x cuja escala é de 1:50.000 com distância x entre as curvas de nível
de 20 metros.

520 N
Rio

A
URC
540
A 500 B 600
x x
500 560
580
520 520 540 620
640
400 Rio

300

200
500 600
100
500 560
580
0
520 540 620
640
Figura 7.6:Perfil Topográfico do Morro do Pão de Açúcar na morro do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte: IBGE, adaptado.

Figura 1
380 380
360
98 :: Geografia :: Módulo 2

a) Considere a distância de 5 cm entre os pontos A e B na carta topográfica. Qual coordenadas dos pontos de controle com GPS (Sistema de Posicionamento Global)
é a distância real em quilômetros entre esses dois pontos? ou então com o erro planimétrico associado à escala dos mapas.
Cabe mencionar, que o Sensoriamento Remoto representa importante fonte
de informação atualizada para o SIG e decorre de alguns procedimentos tais como
b) Observe a orientação da carta e indique o sentido dos rios e qual margem do
rio é mais apropriada para cultivos temporários. o de correção geométrica das imagens, o de georeferenciamento das imagens
e o processamento digital dessas imagens. Os dados obtidos pelos satélites da
série LANDSAT, SPOT, CBERS, IKONOS, GOES, METEOSAT, RADARSAT vêm sendo
utilizados nas mais diferentes áreas do conhecimento e, em especial, pela Geografia.
Cartografia e cartografia
automatizada :: base para o
geoprocessamento
Conforme vimos até aqui, ficou claro que a Cartografia tem uma missão
importante que é a de criar um modelo de representação de dados para os
processos que ocorrem no espaço geográfico. De outro, a Geografia requer uma
Cartografia mais dinâmica, que consiga expressar as marcas da sociedade no
passado, no presente e também no futuro. Com a introdução das ferramentas
computacionais nas diversas áreas da pesquisa principalmente no final do século
XX, deu-se um novo impulso aos estudos do espaço geográfico e portanto,
nas técnicas cartográficas. Os desenhos que utilizavam lápis (grafite) e caneta
(nanquim) passaram a ser traçados pelo mouse do computador. Os programas
de desenho gráfico foram aprimorados (Auto Cad), o que se convencionou a
chamar de Cartografia Automatizada. E, desde então, programas específicos Figura 7.6: Imagem obtida do satélite LANDSAT: áreas queimadas por incêndios florestais a leste
de San Diego. Fonte: http://science.nasa.gov/media/medialibrary/2010/03/31/landsatfire.jpg
da Cartografia foram desenvolvidos sob um novo conceito: o dos Sistemas de (Acessado em 01/11/11)
Informação Geográfica (SIG).
Os Sistemas de Informação Geográfica fornecem as técnicas matemáticas
e os modelos computacionais para tratar os processos que ocorrem no espaço Gabarito
geográfico. Então, o Geoprocessamento representa a área do conhecimento que
utiliza essas técnicas. 1) A
Portanto, os dados espaciais são caracterizados pelo atributo da localização
geográfica, importante em todo o processo de representação. Qualquer objeto 2) B
somente terá sua localização geográfica estabelecida quando for possível
descrevê-lo em relação a outro objeto ou em relação ao sistema de coordenadas. 3) C
Chamamos de objeto uma cidade, uma ponte, um pico de uma montanha, a foz
4) V, F, V, V; F
de um rio, dentre outros.
A ciência cartográfica utiliza-se de conceitos apropriados que são a base do
5) D= 1.600m
geoprocessamento, tais como: geodésia, elipsoide, datum planimétrico, datum
vertical ou altimétrico, dentre outros, todos importantes para a precisão da 6) a) Pelo mapa, NY está no fuso Q, correspondendo a UT – 4, ou seja, quatro
informação gerada. horas a menos que em Greenwich, logo HNY = HG (UT) –4 = 14:00 – 4 = 10:00
Para a nossa aula, basta lembrarmos que no Brasil , o ponto de referência para b) Fuso do Acre = UT –5
o datum vertical é o marégrafo de Imbituba, em Santa Catarina e que coexistem HAC = UT –5 18:00 = UT –5 •• UT = 18:00 + 5 = 23:00
dois sistemas geodésicos de referência: Córrego Alegre (antigo datum planimétrico c) Fuso do Rio de Janeiro UT –3. Fuso de Moscou UT + 3, logo HRJ = UT –3
e HM = UT + 3. Considerando então que UT = HM = (HRJ + 3) + 3, portanto
brasileiro) e SAD- 69 (atual datum planimétrico). As discrepâncias entre eles são
HM = HRJ + 6, assim a hora em Moscou será 17:00, do mesmo dia.
de algumas dezenas de metros sobre a superfície do território brasileiro. O erro d) Fuso de São Paulo UT –3 (P)
de localização é sempre uma preocupação para os cartógrafos e, desse modo, Fuso de Tóquio UT + 9, logo pelas mesmas considerações do exercício anterior HT =
o componente de erro mais explorado é o da incerteza quanto à localização (HSP + 3) + 9, assim HM = (21:00 + 3) + 9 = 33:00, ultrapassando as 24:00,
do objeto. A exatidão no posicionamento será dada pelo erro na posição ou na que subtraídas fornecem o valor de 9:00. Houve transposição da linha de mudança
localização, com relação ao sistema de referência da base de dados e de pontos de data, caracterizando a data do dia D+1 em relação ao dia em São Paulo.
bem definidos. Cabe ao usuário de SIG preocupar-se com o erro na medição das
8
Estado do Rio de Janeiro

:: Objetivo ::
• Apresentar a evolução urbana da cidade do Rio de Janeiro e características socioeconômicas
do Estado do Rio de Janeiro.
100 :: Geografia :: Módulo 2

Neste capítulo, nós vamos estudar o Estado do Rio de Janeiro. Além de


Duque de Caxias Magé
conhecer as características socioeconômicas e ambientais do estado, vamos ver Guapimirim
que a cidade do Rio de Janeiro passou por transformações políticas e econômicas
Nova Iguaçu Belford Roxo Itaboraí
que afetaram sua população e os municípios vizinhos, constituindo, então, a
Região Metropolitana do Rio de Janeiro. S.J.Meriti
Mesquita
É interessante notar que os bairros da cidade do Rio de Janeiro possuem Nilópolis São Gonçalo
formas urbanas que indicam políticas de investimentos públicos diferenciadas.
Deste modo, fica claro que o dinheiro público favorece os bairros que já são os
mais valorizados. Podemos verificar que praticamente não há políticas sociais Morro do Castelo Niterói
mais inclusivas, como financiamento de habitações populares, implementação de Maricá
infraestrutura básica nos bairros populares e um esforço real para a implementação Rio de Janeiro
Morro Cara de Cão
de bons serviços para a população carente (saúde, educação, lazer etc.). Esta
Pão de Açúcar Direções de expansão da cidade
construção diferenciada do espaço urbano se reproduz em várias cidades brasileiras.
a partir do núcleo inicial
Oceano Atlântico Zona Sul
Formação e evolução urbana Zona Norte
da cidade do Rio de Janeiro Zona Oeste

Figura 8.1: Local de fundação da cidade do Rio de Janeiro (Morro Cara de Cão), local de transfe-
Do século XVI ao século XVII, a cidade do Rio de Janeiro se constituía rência da cidade (Morro do Castelo) e direções de expansão da cidade. Fonte: Fundação CIDE, 2006.
basicamente num ponto de defesa do litoral sudeste brasileiro. A estreita entrada
da Baía de Guanabara servia para a defesa, enquanto que o extenso litoral e as O surgimento de novos bairros residenciais mais afastados levou a um
águas tranquilas da baía favoreciam a construção de diversos portos e a pesca. esvaziamento de antigos casarões da área mais antiga da cidade. Alguns foram
O clima tropical úmido, a Mata Atlântica e os maciços litorâneos constituíam convertidos em prédios comerciais e muitos outros em casas de cômodos (cortiços).
fonte de águas, madeira, rochas para construção civil e produtos para exploração As ruas estreitas, não pavimentadas, a ausência de saneamento básico e a
extrativista. Tais fatores ambientais mostraram-se extremamente favoráveis à deficiente infraestrutura de transporte e energia transformaram o centro do Rio
instalação da cidade, inicialmente no Morro Cara de Cão, no lado oeste da entrada em um espaço insalubre e decadente ao fim do século XIX. A opção política feita
da baía, e posteriormente na altura da Praça XV, entre os morros do Castelo, Santo para reverter este aspecto foi a realização de grandes reformas urbanas no centro
Antônio, São Bento e da Conceição (área hoje designada como o Corredor Cultural da cidade, no início do século XX: alargamento de ruas (como a Av. Primeiro de
do centro da cidade do Rio de Janeiro). Março, a Av. Rio Branco e, posteriormente, a Av. Presidente Vargas), demolição de
A transferência da sede do poder político colonial brasileiro para o Rio de diversos morros (como o do Senado, do Castelo e de Santo Antônio) e a realização
Janeiro em 1763, a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e a de grandes aterros litorâneos, a fim de ampliar a zona portuária e os acessos viários
independência em 1822 fizeram crescer a importância, a população e os limites (Av. Beira-Mar, Aterro do Flamengo, aeroporto Santos Dumont etc.).
da cidade com o surgimento de novos bairros. A partir de meados do século XIX, A demolição do casario antigo no centro da cidade deu lugar a grandes ave-
a urgência em implantar meios de transporte para esses novos bairros levou à nidas, a prédios públicos e privados. A implantação das redes de infraestrutura de
construção de ferrovias em direção à Zona Norte (E.F. Leopoldina) e à Zona Oeste transporte, saneamento básico e energia trouxe a esta região central um aspecto
(E.F. Central do Brasil) onde surgiram diversos bairros populares (figura 8.1). As mais “civilizado”, salubre e moderno. No entanto, tais procedimentos foram ex-
áreas mais próximas do Centro foram beneficiadas com a construção de bondes tremamente criticados por terem negligenciado a população de baixíssima renda
(bairros da Zona Sul , Santa Teresa, Tijuca e Méier, este último também atendido que habitava os cortiços. Grande parte dessa população não dispunha de recursos
por ferrovias). para comprar casas em outras áreas ou não desejava morar nos bairros populares
Cabe destacar que, historicamente, os bairros surgidos ao longo das redes afastados do centro. Estas pessoas tinham necessidade de morar em áreas pró-
ferroviárias foram menos favorecidos pelos investimentos para a instalação de ximas ao mercado de trabalho e que oferecessem benefícios públicos (hospitais,
serviços públicos (como escolas e hospitais) e infraestrutura (água, saneamento, escolas etc.). Muitos aproveitaram os restos de demolições para construir residên-
pavimentação, drenagem urbana etc.). Os bairros mais elitizados (concentrando cias precárias nas encostas dos morros e maciços da região central, o que resultou
população de renda média e alta), mais próximos ao centro, sempre foram na consolidação do processo de favelização dessas áreas.
priorizados neste aspecto, resultando em áreas mais valorizadas e melhor A partir da década de 1940, muitos novos elementos entraram em pauta
atendidas pelo poder público (figura 8.2). para compreender os processos urbanos no Rio de Janeiro. A industrialização
intensificou-se no país, sobretudo após os anos 1950. Este fato estimulou a
construção de grandes rodovias na periferia da cidade, a fim de criar eixos para
implantação de infraestrutura que atraísse indústrias, como ocorreu ao longo da
Avenida Brasil e da Rodovia Presidente Dutra.
Capítulo 8 :: 101

aumento da população desses bairros, bem como de atividades econômicas e dos


fluxos de veículos e de pessoas, levou a população de maior poder aquisitivo a se
transferir para novos bairros (como a Lagoa e o Leblon) e, portanto, ao aumento
dos limites urbanos da Zona Sul.
A necessidade de expansão dos eixos viários nesses bairros (Zona Sul) e a sua
acessibilidade ao centro da cidade levou à construção de diversos túneis (Rebouças,
Santa Bárbara), elevados (viaduto Paulo de Frontin) e grandes avenidas (Princesa
Isabel, Atlântica etc.). Grandes obras também foram realizadas nos bairros próximos
ao centro, especialmente na área conhecida como “Grande Tijuca”: avenidas foram
Figura 8.2: Distribuição espacial das ferrovias e divisão da cidade do Rio de Janeiro em Área construídas (Radial Oeste, Av. Maracanã, Av. 28 de Setembro) e também grandes
Central (Centro da Cidade), Zona Sul, Zona Norte e Zona Oeste. Observa-se também a localização investimentos públicos acabaram por valorizar esses bairros – colégios públicos
de morros e colinas litorâneos, que orientaram as direções de expansão da cidade do Rio de Janeiro.
Esboço elaborado a partir de informações da Fundação CIDE, 2006. (Pedro II, Colégio Militar, Instituto de Educação), hospitais públicos (Andaraí, Gafrée
e Guinle) e áreas de lazer (Estádio do Maracanã etc.).
Entre as décadas de 1940 e 1950, a então capital da República recebeu A construção da Ponte Presidente Costa e Silva (Ponte Rio–Niterói), na
grandes fluxos migratórios, resultando num acréscimo notável da população da década de 1970, representou a ligação rodoviária do Rio de Janeiro com os
área metropolitana. O alto custo da moradia nas áreas mais próximas ao centro municípios ao leste da Baía de Guanabara, especialmente Niterói e São Gonçalo.
do Rio de Janeiro associado à presença dos novos eixos rodoviários fizeram Este fato promoveu uma maior integração dos municípios da Região Metropolitana,
com que a população de mais baixa renda se deslocasse para os municípios permitindo que moradores do leste da Baía de Guanabara se deslocassem com
adjacentes – conhecidos como “municípios da Baixada Fluminense” (Belford rapidez para o trabalho na cidade do Rio de Janeiro. Como os terrenos em Niterói,
Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São Gonçalo e Itaboraí eram mais baratos, muitas pessoas fixaram residência
São João de Meriti) – e bairros cariocas que lhes são fronteiriços (como Irajá, nessas cidades, mas continuavam a trabalhar no Rio de Janeiro.
Pavuna e Campo Grande). Nos municípios da Baixada, as exigências jurídicas para A Ponte Rio–Niterói também estimulou a ocupação dos municípios da Região
ordenar a construção de novas residências eram extremamente benevolentes. dos Lagos. Nos finais de semana e no período de férias, há um intenso deslocamento
Mesmo sem um planejamento urbano ou infraestrutura básica, houve legalização de pessoas para esses municípios, que oferecem atividades de turismo e lazer.
de construções clandestinas, permissão para construção de imóveis em terrenos A multiplicação do número e da área das favelas na cidade do Rio de
muito pequenos, além da ocupação de áreas sujeitas a enchentes e a outros riscos Janeiro, entre os anos de 1970 e 1990, tornou-se um fenômeno urbano que
ambientais. Desta forma, a periferia metropolitana passou a se constituir numa exigia políticas específicas. Até os anos de 1970, predominou a política de
área extremamente carente, com grandes problemas urbanos e socioeconômicos. erradicação (eliminação) de favelas das áreas mais valorizadas da cidade e
Cabe destacar que, por mais vantagens e incentivos oferecidos para atrair remoção da população para conjuntos habitacionais em bairros distantes, com
empresas para a área metropolitana do Rio de Janeiro, a área preferencial para precários sistemas de infraestrutura e serviços públicos. A partir da década de
tais empreendimentos foi São Paulo, que suplantou a capital como principal polo 1980, tais políticas foram sendo progressivamente substituídas por projetos
econômico do país ao longo do século XX. Se por um lado as empresas não se públicos que criavam melhores condições para a população favelada, culminando
sentiam tão atraídas para o Rio de Janeiro, por outro a população do país ainda com a transformação de favelas em “bairros”, pela legitimação das edificações e
acreditava ser a “capital” uma área capaz de oferecer emprego e moradia a todos implantação de infraestrutura e serviços públicos básicos em trechos específicos –
os imigrantes. A transferência da capital federal para Brasília, em 1960, e o tímido especialmente nas entradas dessas áreas.
crescimento industrial da cidade não ajudaram a criar novos empregos, levando A falta de atuação do poder público nas favelas deu espaço para a
a um esvaziamento econômico e político da cidade. Por outro lado, a deficiente constituição de um poder paralelo: comandos reunindo traficantes de drogas. Os
política habitacional criava dificuldades para a população de baixa renda, que diante moradores das favelas, que já sofriam preconceito social e racial, têm de conviver
de imensos terrenos providos de infraestrutura ao longo das avenidas Brasil e Dutra, em meio a tiroteios provocados pela disputa entre comandos rivais e entre a
acabaram ocupando tais áreas, criando favelas imensas nos subúrbios da Zona polícia e os traficantes. O dinheiro da venda das drogas para a “população do
Norte e Oeste da cidade – destaque para os Complexos da Maré e do Alemão. asfalto” (população de classe média e alta consumidora de drogas) cria condições
Enquanto isso ocorria nas áreas suburbanas do Rio de Janeiro e municípios também para o tráfico de armas e munições, aumentando, mais ainda, a violência
metropolitanos, os bairros mais valorizados da cidade – especialmente os da orla na cidade do Rio de Janeiro.
litorânea, como, por exemplo, Copacabana e Ipanema, designados como bairros Mesmo com tais problemas sociais, grandes investimentos públicos continuam
da “Zona Sul” – cresciam graças à intensa verticalização, ou seja, pela demolição sendo aplicados em “novos bairros”, que abrigam empreendimentos imobiliários
de antigas casas para a construção de edifícios de vários pavimentos, com diversos para população de alta renda – notadamente os bairros da Barra da Tijuca e Recreio
apartamentos por andar. Isso permitiu o acesso da população de classe média a dos Bandeirantes. A justificativa de “preparar esses bairros para a expansão urbana”
esses bairros, num processo conhecido como a “democratização” da Zona Sul. O é fortemente criticada, tendo em vista a precariedade das redes de infraestrutura e
102 :: Geografia :: Módulo 2

serviços públicos em bairros populares, há muito tempo habitados, e a gravidade do Características físico-
problema das favelas. Esses novos bairros apresentam formas urbanas específicas, Ambientais do Estado
como grandes avenidas expressas, condomínios fechados, prédios extremamente do Rio de Janeiro
altos, grandes centros comerciais (shoppings) e empresariais.
O relevo do Estado do Rio de Janeiro caracteriza-se pela presença de serras
(que integram a unidade geomorfológica da Serra do Mar), de maciços litorâneos
:: Origem e expansão das favelas na cidade
do Rio de Janeiro :: (agrupamento de morros ou morros isolados) e de terrenos de baixada (figura 8.3).
Segundo o geógrafo Andrelino Campos (2005), as favelas
cariocas originaram-se de três principais processos: (1) da ocu-
pação das encostas das áreas centrais por parte da população
negra que retornara da guerra do Paraguai; (2) da reforma
urbana promovida no governo de Pereira Passos, que resultou
na derrubada das “cabeças de porco” e na expulsão dos mora-
dores mais pobres do centro da cidade; (3) da necessidade da
população mais pobre em residir próximo às áreas onde se con-
centravam as oportunidades de trabalho. Em todos os processos,
verifica-se a política de exclusão das classes mais pobres, política
esta adotada e reproduzida em tempos atuais pelo Estado bra-
sileiro, e que em muito contribui para o processo de expansão
das favelas.
Figura 8.3: Distribuição espacial das três principais unidades de relevo do Estado do Rio de Janeiro.
Esboço elaborado segundo informações do IBGE, 2006.

Atividade 1 Nas áreas serranas, sobretudo nos pontos mais elevados, há remanescentes
da Mata Atlântica. Apesar do desmatamento contínuo por séculos, verificam-se
Há diferenças entre os bairros na sua cidade?
evidências de regeneração natural da floresta.
Descreva as características que diferenciam um bairro do outro quanto
Os terrenos de baixada distribuem-se por várias áreas do estado: Baixada
a arruamento (rua com ou sem asfalto, presença de calçadas), tipos de
dos Goytacazes (ou Campista), Baixada dos Rios Macaé e São João, Baixada da
equipamentos urbanos (ponto de ônibus com toldos de cobertura, com bancos ou
Guanabara e Baixada de Sepetiba. A denominação Baixada Fluminense refere-se
simplesmente com uma placa; postes de luz; latas de lixo; placas de localização
à área que abrange os municípios de Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados,
etc.), abastecimento regular de água, coleta de lixo, entre outros aspectos
Belford Roxo, Japeri, Mesquita, Nilópolis e São João de Meriti.
importantes para a qualidade de vida da população.
A bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é a mais importante, devido à sua
Faça um desenho esquemático da sua cidade e localize os bairros, para você
grande extensão e o expressivo número de afluentes, sendo estes responsáveis
entender a disposição espacial das principais diferenças.
pelo abastecimento de água para consumo doméstico, industrial e agrícola de
várias cidades do Estado. Outras bacias hidrográficas importantes são as dos rios
Guandu, Itabapoana, Macabu, Macaé, São João e o Mambucaba.
Apenas 31,7% do território estadual são cobertos por vegetação remanescente
(florestas, mangues e restingas) e secundária, segundo o levantamento do Uso
e Cobertura do Solo (2001), realizado pela Fundação CIDE (atual CEPERJ). O
restante da área do estado é ocupado principalmente por pastagens, áreas
cultivadas e/ou urbanizadas.
Os ecossistemas de florestas, mangues e restingas têm sofrido intensa e
contínua degradação devido à expansão urbana, especulação imobiliária e/
ou ampliação de áreas agropecuárias. As áreas naturais legalmente protegidas
(denominadas Unidades de Conservação) pelo poder federal e estadual cobrem
cerca de 10,7% da área do Estado. A fiscalização deficiente nas unidades de
conservação possibilita a degradação da fauna e da flora dessas áreas, já que
essa fiscalização não consegue evitar incêndios, queimadas, desmatamentos e
ocupações irregulares.
Capítulo 8 :: 103

A preservação da cobertura vegetal nas áreas serranas, inseridas ou não em Dens.


População Área
unidades de conservação oficiais, é extremamente importante, pois tais áreas Regiões do Estado demográfica
englobam nascentes de grandes rios do estado, garantindo o fornecimento de no. % % (hab/km2)
água para várias atividades. Além disso, as poucas matas ainda existentes são Região
10.710.515 74,4 11 2 285,49
resquícios do bioma Mata Atlântica, retratando, em parte, a sua biodiversidade. Metropolit