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O EMPIRISMO DE DAVID HUME

A filosofia inglesa do século XVIII, apaixonada pelo concreto, pelo dado, desconfiando das abstrações e
das hipóteses, pretende ser simultaneamente ingénua e rigorosa; rigorosa porque ingénua, porque
desejosa de permanecer fiel à experiência vivida, ao imediato.
Isto é (…) mais percetível em Hume (…). (…) Hume é um perfeito filósofo que aceita deixar-se conduzir
até aos limites da sua reflexão, quaisquer que sejam os resultados e as consequências daí advindas. Ao
discutir o problema da liberdade salienta com firmeza que "não é correto considerar falsa uma opinião
em virtude do que ela contenha de perigoso nas suas consequências".
O radicalismo filosófico de Hume manifesta-se, em primeiro lugar, na pretensão de remontar a dados
originários. O ponto de partida da reflexão filosófica encontrar-se-á então nesses dados da consciência,
que Locke e Berkeley designavam, em sentido mais lato, por ideias e a que Hume chama perceções.
Enquanto que Locke e Berkeley consideram ideias tudo o que constitui o conteúdo da consciência, Hume
opera uma distinção importante. A primeira frase do Tratado da Natureza Humana diz, com efeito, que
"todas as perceções do espirito humano se resumem em dois géneros distintos que designarei por
impressões e ideias". Apenas as impressões são originárias; as ideias são somente "cópias das nossas
impressões", reflexos atenuados das nossas sensações no espelho dos nossos pensamentos.
Sumariamente apresentada, esta tese parece ser a do empirismo mais elementar.
A doutrina de Hume identificar-se-ia com um sensualismo rudimentar e contentar-se-ia com retomar a
célebre frase de Locke: "Não há nada no entendimento que primeiro não tenha estado nos sentidos.
(…)"
Mas, se a examinarmos com alguma atenção, veremos que a distinção humiana entre impressões e
ideias se revela bastante mais interessante c bastante mais profunda.
Em primeiro lugar, não seria correto supor que, para Hume, o espírito fosse meramente passivo, uma
"tábua rasa", uma massa mole onde se inscreveriam mecanicamente os estímulos externos. Um cego de
nascença não saberia certamente, devido à falta de estímulos, fazer a menor ideia das cores. Mas,
suponhamos "um homem familiarizado com todo o tipo de cores, exceto com uma tonalidade particular
de azul que o acaso nunca lhe permitiu encontrar. Que se coloquem diante deste homem todas as
diversas tonalidades desta cor, à exceção dessa tonalidade particular, numa gradação decrescente da
mais escura para a mais clara". Tal homem, assegura Hume, "aperceber-se-á de um vazio", podendo
"suprir essa falta unicamente através da sua imaginação" e "conceber a ideia dessa tonalidade particular
que os seus sentidos nunca lhe forneceram". Única exceção, mas muito significativa. Isto é testemunho
de um impulso da imaginação, de um dinamismo de espírito humano, de uma atividade psicológica
subjetiva que, no empirismo original do filósofo escocês, é fundamental.
Além disso, a impressão não se opõe à ideia como uma sensação de origem externa se oporia a um
fenómeno psicológico interior. Na realidade, Hume não se interroga sobre a origem das impressões. Para
ele, as impressões são dados originários, para além dos quais não se pode remontar. Neste sentido,
Hume não é, de modo algum, adversário do inatismo, e afirma expressamente: "Se se entender por
inato o que é primitivo, o que não é a cópia de nenhuma impressão interior, então podemos afirmar que
todas as nossas impressões são inatas que as nossas ideias o não são".
A. Vergez, David Hume, Edições 70, 2009, pp. 17-18.