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COPYRIGHT @ Martha Abreu, Rachel Soihet e Rebeca Gontijo (orgs.

CAPA
Euelyn Grutnach

PROJETO GRÁFICO
Euelyn Gruttuch e Jodo de Souza Leite

crP-BRASrL. CATALOGAÇÃO-Ne-rONTS
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
C974 Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de
/ Martha Abreu, Rachel Soihet e Rebeca Gontijo (orgs.). - Rio
história
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-200-0695-5

1. História - Estudo e ensino. 2 Ciência política - Esrudo e ensino,


3. Política e cultura. 4. Cultura política. 5. Pesquisa histórica. L Abreu,
Martha. II. Soihet, Rachel, 1938- . III. Gontijo, Rebeca.

cDD - 907
06-4642 CDU - 930(072)

Todos os direitos reservados. hoibida a reprodução, armzenamento ou


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Impresso no Brasil
2007
Dos "Estados nacionais" ao "sentido
da colonizaçâo": história moderna e
historio grafia do Brasil colonial
Maria Fernanda Bicalho*

membro do
da universidade Federal Fluminense;
[ .pr.f.rr-" d. Departamenro de História (Nupehc)'
I i;.b" de Pesquisas em História Cultural
Mas há uma distância enorme entre os conselhos distribuídos a aprendi-
zes em certos momentos e duma maneira discursiva e fragmentada
- há
uma enorme distância entre essas indicaçóes de trabalho e essa espécie de
confiança humana de mestre-de-obras explicando aos seus leitores, que
não sáo necessariamente 'da sua especialidade", o que para ele represen-
ta o seu trabalho, que fins lhe propõe e em que espírito o pratica: e tudo
isto, não como pedante que dogmatiza, mas como homem que procura
compreender-se na íntegra.

Lucien Febvre, 'Vers une autre histoire" (1949), em Combats pour I'histoire;
comentando a experiência e a obra de Marc Bloch.

ESTADOS NACIONAIS E MONARQUIAS COMPÓSITAS:


A PROJEçÃO DO PRESENTE SOBRE O PASSADO

Encontramos, em geral, nos livros didáticos, principalmente nos de ensino


médio, conceitos como *nação", "nacionalismo" ou'sentimento nacional"
anacronicamente utílizados para caracterízar processos ocorridos nos
primórdios da época moderna, Exemplo comum dessa projeção do presen-
te sobre o passado é recorrente no tópico "formação dos Estados moder-
nos", processo muitas vezes intirulado "formaçáo dos Estados nacionais".
Nesses casos, o sentimento e a existência de instituições nacionais sur-
gem precocemente, no momento da crise do feudalismo e no movimento
de centralização do poder das monarquias européias.r Esse processo não
raro vem seguido da constituição de uma "buroctâcia", do reforço de um
'exército nacíonal", da criaçáo de leis, taxas e procedimentos jurídicos

69
CUTTURA POríÏICA E TEITURAS DO PASSADO

em "âmbito nacional", e da vivência de um sentimento de nacionalidade


experiências vistas como indissociáveis à centralidade do poder
-
quico e à constituição dos Estados modernos.
monár-

No entanto, estudos recentes vêm contradizendo essa idéia.2 Referin-


do-se aos trabalhos que têm revisto e relativizado a natureza
do absolutis-
mo francês, o historiador catalão Xavier Gil pujol afirma que o termo
"centralização' foi empregado pela primei tavez em 1794,em plena épo-
ca do Terror, no seio da Revolução Francesa, convertendo-se,
a partir de
então, no objetivo político dos governos liberais do século xIX.j
Em artigo publicado em 199z,John Elliott afirma que a formação
de
Estados centralizados, absolutistas e "nacionais, era um tema
caro à
historiografia do século XIX, inserida numa conjuntura de fortalecimen-
to dos Estados-nações e preocupada com â sua compreensão, projetando
retroativamente suas origens para as nascentes monarquias em formação
nos séculos XV e XVI. De acordo com essa perspectiva, os
Estados-na-
ções que então se afirmavam na Europa oitocentista constituiriam a
culminação lógica de um movimento linear e contínuo, cujas
origens eram
identificadas nos primórdios dos tempos modernos.a
Elliott nos chama a atenção para que diferentes momentos históricos
implicam questionamentos distintos e perspectivas historiográficas
espe-
cíficas. E ele náo é o único, nem foi o primeiro a nos fazer.e.o.du,
essa
lição fundamental de história. Em7949,Lucien Febvre, um
dos fundado-
res da Escola do Annales, já afirmava que

a história não apresenta aos homens uma coleção de fatos


isolados. Ela
organiza esses fatos. Ela explica-os, e portanto, para os explicar,
transfor-
ma-os em séries, a que não presta igual atenção. porque, quer
queira quer
não, é em função das suas necessidades presentes que ela recolhe
sistema-
ticamente' e em seguida classifica e agrupa os fatos passados.
É em função
da vida que ela interroga a morte.s

o historiador é um sujeito de seu tempo, e as questões que apresenta ao


seu objeto de estudo e às fontes que escolhe analisar
- não estão
dissociadas da conjuntura política, social, econômica e -
cultural na qual

70
O ANTIGO REGIME E A COIONIZAçÃO EM QUEsTÃO

nos inserimos. O que temos vivenciado nas últimas décadas são movimen-
tos de explosão ou de implosão das antigas nacionalidades e a emer-
- -
gência de outras identidades, locais, regionais, religiosas, étnicas. Sobre
elas vem se pautando um profundo rearranjo da geografia, da política e
do próprio conceito que tínhamos até então de Europa. Por outro lado, a
Europa e não só ela tem presenciado, em termos econômicos e po-
- -
líticos, o desenvolvimento de organizações supranacionais, como a Co-
munidade Européia. Tâis processos levam necessariamente a um exercício
de reinterpretação histórica daquilo que há cerca de cinqüenta anos
em plena Guerra Fria- era visto e sentido como dado e, quiçá, imutável.
-
Não é por acaso que nas últimas décadas novos objetos, novos méto-
dos, novas teorias, novas interpretaçóes têm povoado e provocado
- -
os estudos históricos. E essas rupturas vêm incitando a construçáo de novos
conceitos e a ressignificação de antigas noções. Um desses conceitos é o
de "Estados compósitos" ou, como prefere Elliott, de "monarquias
compósitas": formações políticas que incluíam diferentes reinos, regióes,
liovos e tradições sob a soberania de um governante. Essa era a experiên-
cia da monarquia hispânica dos Habsburgo, que reunia, sob a soberania
de Castela, os reinos de Aragão, Leão, Catalunha, Navarra; mais tarde,
Milão, Nápoles, Sicília, Países Baixos e, por último, Portugal. Ourro exem-
plo pode ser depreendido da reunião do País de Gales, da Escócia e da
Irlanda sob o domínio da Inglaterra.
Algum grau de integração deveria ser aringido pelas monarquias
compósitas se o soberano quisesse ter efetivo controle sobre o território
anexado, seja por meio da guerra, seja por união dinástica. Certamente a
força e a coerção desempenharam seu papel, mas tornava-se dispendioso
manter um exército de ocupação no território anexado,alémdo risco de
rebeliões locais ou provinciais. A reunião das cortes espécie de assem-
-
bléias compostas pelo rei e os representantes das três Ordens ou Estados
constitutivos do reino6
-, assim como a nomeação de conselheiros "au-
tóctonesD para os órgãos colegiados que aconselhavam o monarca eram
formas de 'ouvir as vozes" e os interesses dos súditos e das comunidades
locais, além de aproveitar suas experiências na implementação de futuras
políticas.

?1
cuLTuRA poLírtca e LEtruRAs Do pAssADo

No caso específico da Uniáo Ibérica (1580-1640), o historiador Jean-


Frédéric Schaub, superando as interpretações "nacionalistas"T algumas
-
baseadas no discurso artiçulado pelo próprio movimento de Restauração
portuguesa afirma não ser mais possível compreender a incorporaçáo
-,
de Portugal à monarquia hispânica insistindo apenas no argumento da
conquista territorial do mais fraco pelo mais forte. Sem descartar as dife-
rentes estratégias utilizadas por Filipe II para consumar seu intento
- a
diplomacia, o reconhecimento de seus direitos à sucessão do trono portu-
guês, o domínio militar Schaub recupera a importância do acordo
-,
contratual entre o rei espanhol e os súditos portugueses reunidos em cor-
tes, no Convento de Tomar, em 1581, quando Filipe II se comprometeu a
respeitar a imunidade jurisdicional da coroa lusa. A pârtir do que ficou
estabelecido pelo pacto, oucontrato, entre o rei e o reino.

No que diz respeito ao governo político, é criado um Conselho de Portu-


gal que tem de funcionar sempre junto do rei, onde quer que ele se encon-
tre. No caso de o rei ser levado a afastar-se do reino, o governo só poderia
ser encarnado por um vice-rei de sangue real ou por uma junta de gover-
nadores portugueses [...]. Dos cargos e ofícios da Justiça e da Fazenda,
excluem-se todos os estrangeiros, isto é, todas as pessoas não naturais de
Portugal. [...] O comando militar das tropas e das frotas portuguesas rem
necessariamente de caber a um natural de Portugal. A exclusáo dos foras-
teiros aplica-se de igual modo no domínio do padroado eclesiástico [...]
Os Estados do reino, reunidos em cortes, devem ser convocados pelo rei
como única forma de representaçáo legítima do reino. Em suma, o novo
rei prometia não suprimir nenhuma função ou ofício do aparelho mo-
nárquico português no qual sucedia e garantia aos seus súditos a exclusivi-
dade total das futuras nomeações,8

Em geral, as tentativas de conquista, integração e subordinação à autori-


dade de um único monarca- estrangeiro ou não levaram a uma gran-
-
de interdependência entre o rei e as elites locais, cuja lealdade foi, náo
raro, ganha e mantida por meio do clientelismo. Em contrapartida, estas
mesmas elites senhoriais e urbanas podiam exercer maior pressão
- -
sobre a Coroa e, simultaneamente, estender seu domínio çocial e econô-

72
O ANTIGO REGIME E A COLONIZAçÁO EM QUESTÃO

mico sobre a própria comunidade. Referindo-se a recentes estudos sobre


a imposição do poder central na região do Languedoc, no sul da França,
Pujol afirma que:

As facções locais foram quase sempre decisivas no momento de determi-


nar o resultado final da intervenção real, já que as lealdades ao país [na
acepção do termo na época] ou à coroa dependeram muitas vezes dos
pequenos conflitos e desordens dentro da esfera local e regional. uma vez
mais se constata que as relações não eram facilmente dicotômicas, Mes-
mo numa questão tão clara de ação estatal como os impostos, há que ver
o Estado não só como um extrator de riqueza mas também como um dis-
tribuidor. [...] Durante as décadas cenrrais do século XVII, as incrementadas
receitas fiscais da coroa não saíram do país [do Languedoc] na sua totali-
dade, [...] e metade do total recolhido foi desembolsado dentro da pró-
pria regiáo; esses fatos explicam o interesse dos dirigentes de Languedoc
na manutenção da situação criada por Richelieu.e

o autor conclui que, por vezes, o fortalecimento do Estado se deveu me-


nos ao uso da força, a progressos institucionais ou a aperfeiçoamentos
administrativos impostos de cima para baixo, do centro sobre as localida-
des, do que à resposta a solicitações das elites regionais e locais interessa-
das em usar os mecanismos instituídos pelo centro em benefício próprio.
Nesse sentido, entre o poder central e o poder ou poderes locais havia
uma densa rede de relações, interesses e pactuações.
se os Estados tidos tradicionalmente pela historiografia como centra-
fii"^dos dependiam, para o sucesso da intervençáo real em
seus múltiplos
rrritórios, da aquiescência e colaboração das elites locais, o que dizer das
mnarquias compósitas? Uma de suas grandes fragilidades era o absen-
-Ímre régio, ou seja, a ausência física do rei nos diferentes reinos incor-
porados à monarquia; o que levou, no entanto, a que as elites locais
*símtassem um maior grau de autogoverno que estava longe de desafiar
G status quo. Exemplo disso nos é dado pela análise de schaub acerca
Õ poderio sempre crescente, ao longo da união Ibérica, da casa dos
Ìegança. Embora os duques de Bragança tivessem renunciado a partici-
1: diretamente dos assuntos portugueses durante o governo hispânico,
73
CULTURA POLíTICA E LEITURA5 DO PASSADO

exerciam um poder de verdadeira "corte na província". A vastidão de seu


patrimônio, sua dispersão territorial e a complexidade das redes cliente-
lísticas que mantinham com figuras proeminentes na condução da políti-
ca filipina fizeramcom que, iniciado o movimento de independência de
Castela, constituíssem a casa nobre que detinha as maiores credenciais para
assumir a Coroa lusa no Portugal restaurado.l0
A patronagem e a "economia de mercês" como estratégia de incorpo-
ração das elites locais tinham também sua eficácia na formação das monar-
quias européias. Segundo a historiadora Fernanda Olival, "a liberalidade,
o gesto de dar, era considerado, na cultura política do Antigo Regime, como
virtude própria dos reis, quer em Portugal, quer no resto da Europa Oci
dental. Assim a apresentavam inúmeros teólogos, homens de leis e trata-
distas políticos os mais diversos".1l Afirma que o papel dos príncipes não
era inovar, e sim garantir a ordem que, segundo muitos, era dada por Deus.
Nesse sentido, seu comportamento deveria ser moldado por imitação da
divindade, tornando-se o maior exemplo para os seus súditos. Seu perfil
moral deveria se basear na virtude, na bondade, na liberalidade. A acu-
mulaçáo de proventos materiais era condenada, pois equivalia àavateza,
um vício dos mais censurados. De acordo com a autora, "mais importan-
te do que a posse de muitos haveres, era saber governá-los e distribuí-los
de modo a atrair a fidelidade dos súditos'.12 A seu ver'

esse pecúlio de idéias, aliado a outros referentes greco-latinos e do cristia-


nismo, sob diferentes apropriações, marcou as relações políticas dos homens
do Antigo Regime, em tempos ditos de capitalismo comercial. Os reis devi-
am ter grandes riquezas, [...] exatamente pâÍa poderem distribuir mais re-
cursos e manterem mais servidores. Quanto mais fossem estes últimos, e
mais ricos, maiores poderiam ser os domínios e os meios dos príncipes.l3

Em outras palavras, as monarquias compósitas foram constituídas sobre um


mútuo pacto entre a Coroa e as elites nobres e plebéias, provinciais e urba-
nas, o que conferia, mesmo às unióes mais arbitrárias e artificiais, uma cer-
ta dose de flexibilidade e estabilidade. A nobreza sentia-se atraída pela cultura
da corte. Tânto ela quanto os magistrados, mercadores e principais homens

74
o ATTIGo REGIìIE E A coToI{IzAçÀo EM
QuEsTÃo

das cidades
- todos aqueres que tinham meios de servir ao rei - espera-
ram receber em retribui$o dádivas e mercês,
em títulos, cargos, proventos
cacrescentamento de status.A identidade
de homens e mulh-eres com a sua
ourunidade local com aupâtriau, no sentido em que esse termo
-
cntendido nos séculos XM e XVII
era
não era incompatível com a extensão
da lealdade a uma entidade mais - ampra" um rei, uma monarquia ou um
Estado, desde que as vantagens da união pudessem
ser reconhecidas.
segundo Ellioa, se por um rado a Europa do
século XVI era predomi-
rrntemente uma Europa de monarquias compósitas,
coexistindo com uma
miríade de unidades territoriais e jurisdicionais
independenres, por ou_
ro' essa mesma constatação ou interpretação não nos
-
Pensar que os Estados compósitos eram um meio - caminhodeve levar a
necessário,
cmbora incompleto e insatisfatório, no lento
e sempre contínuo processo
dc formação dos Estados unitários, em termos
políticos e curturais. Essa
linha inexorável e evolutiva de "formação
dos Estados nacionais,, traçada,
desde o século XVI até o sécuro XIX,
deve e rem sido
c revista pela historiografia dos nossos dias.- - questionada

O SENTIDO DA COLONIZAçÃO: E ENOIEçÃO


DO PASSADO SOBRE O PRESENTE

Também no que diz respeito ao Brasil corônia,


ou, de forma mais geral, ao
pÍocesso de colonização das Américas
portuguesa e espanhora, os livros
didáticos e me refiro, sobretudo, uo, do ensino
-
oorporar a revisão historiográfica, fruto
médìo
-tardam a in_
de pesquisas
que, nos últimos anos,
Ém sido desenvolvidas principarmente nos programas
de pós-graduação
&s universidades brasileiras. Em regra o clássico ensaio
ãe caio prado
Junior 'o sentido da colonização", publicado em 1942 no livro
Forma_
çb do Brasìl contemporâneo, êu ponto de partida paÍa ar.froauçao
nais do que a reflexão dos manuais de história adotado, em nossas-
cscolas. caio Prado era-um historiador
marxista e, como escreve
Roberto do Amaral r-aparseu olivro José
parece superar as obras dos demais
1nrtores que também se utilizaram do
marxismo para tentar decifrar a rea_
tdade brasileira, sempre com o objetivo de
mudáìa,.,l

75
CULTURA POLÍTICA E LEITURAS DO PASSADO

Apesar de todos os méritos, que náo são poucos, o livro de Caio Pra-
do é tributário de uma perspectiva histórica de um regime de histori'
- própria das décadas
cifude, para usar o conceito de François Hartogls
-
de 1940,50 e 60. Ao analisar a constituição do Estado e da naçáo no Bra-
sil e na América Latina, traça, por um lado, uma linha mestra de evoluçáo
e desenvolvimento; entendendo-4, por outro, como decorrência ou ma-
nifestação interna de processos estruturais como o desenvolvimento
-
do capitalismo ocorridos externamente, nos centros dinâmicos da Eu-
-
ropa Ocidental. Preocupado em compreender os fundamentos da nacio-
nalidade brasileira, Caio Prado afirma que:

Todo povo tem na sua evoluçáo, vísta à distância, um certo "sentido'. Este
se percebe não nos pormenores de sua história, mas no coniunto dos fatos
e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tem-
po. Quem observa aquele conjunto, desbastando-o do cipoal de inciden-
tes secundários que o acompanham sempre e o fazemmuitas vezes confuso
e incompreensível, não deixará de perceber que ele se forma de uma linha
mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigo-
rosa, e dirigida sempre numa determinada orientação.16

O evolucionismo presente na argumentaçáo de Caio Prado combina-se, no


entanto, com uma perspectiva dialética. A historiadora Maria Odila Leite
da Silva Dias afirma gue o impasse da contradição entre o uir-a-ser da nacio-
nalidade e as relações sociais de dependência colonial levou Caio Prado

a construir seu livro Formação do Brasil contemporâneo sobre dois eixos


principais inter-relacionados numa relação permanente de oposição estru-
tural [...]: o eixo da dependência colonial, conduzindo à tese da anomia
dos oprimidos e sua incapacidade de articulação política, foi elaborado
nos capítulos "Sentido da colonização", "Grande lavoura", "Mineração',
"Qrganizaçâo social", "Administração" e "Organização social e política'.
Neles o historiador aprofundou as contradiçóes do sistema produtivo en-
quanto pólo do sistema capitalista internacional. [...] outro eixo de elabo-
ração desta obra diz respeito à formaçáo na nacionalidade brasileira, às
relações de dependência interna, às dificuldades de vir a ser do inorgânico.t7

76
O ANTIGO REGIME E A COTONIZAçÁO EM
QUESTÁO

caio Prado foi o primeiro historiador a explicitar as ligações enrre


o pro-
cesso de colonização e o desenvolvimento capitalista internacional. De
acordo com Amaral Lapa, o autor

insere o Brasil, sua descoberta e colonização, como parte do grande


mov!
mento encetado pero capitar mercantil, graças às descobertas e
avanços
tecnológicos com que se aceleram e se mundializam as comunicações.
uma
vasta empresa comercial, sem maiores preocupaçóes
em construir uma
sociedade unitária e integrada. Empresa de exploração
do que é encon-
trado e comercializável, que se estenderá à grande agricultura de
exporta-
çáo capaz de atender aos interesses europeus de consumo.rB

se o sentido comercial da colonizaçâo é desenvolvido por


caio prado
Júnior, o livro de Fernando Novais portugal e Brasil na crise do antigo
sistema colonial (1.777-1s1s), publicado na década
de l970,formula um
novo conceito: o de antigo sistema colonial, que relaciona
a dependência
da colônia à metrópole, a organi zaçáo das atividades produtivas
e das
relaçóes de produção coloniais, ao proces so de acumuúçao
primitiua de
capital na Europa, de acordo com as práticas mercantilistas
então em
voga.le A tese de Novais encontrou grande difusão
inclusive no ensino
médio no artigo "o Brasil nos quadros do antigo- sistema
-
inserido na coletânea organizada por carlos Guilheime
colonial,,,
Motta Brasil em
Pnspectiua. Nele se lê:

Temos assim os dois elementos essenciais à compreensão


do modo de orga-
nizaçáo e dos mecanismos de funcionamento do antigo
sistema colonial:
como instrução de expansão da economia mercantil européia,
em face das
condições desra nos fins da Idade Média e início
da épocã moderna, roda
atividade econômica colonial se orientará segundo os interesses
da bur_
guesia comercial da Europa; como resultado
do esforço econômico coor_
denado pelos novos Estados modernos, as colônias
se constituem em
instrumento de poder das respectivas metrópoles.20
CUTTURA POTÍTICA E TEITURAS DO PASSADO

E acrescenta:

É nesse contexto, e só neste contexto, que se torna possível compreender


o modo como se organizaram nas colônias as atividades produtivas e as
suas implicações sobre os demais setores da vida social.2r

Mais uma vez a chave de análise daorganização econômica, social e políti-


ca das Américas portuguesa e hispânica só poderia ser alcançada por meio
dalógicado capital, daformaçáo dos Estados centralizados e absolutistas e
do desenvolvimento do capitalismo na Europa. Não é à toa que a his-
toriografia da década de 1,970 cunhou igualmente o conceito de transição
do feudalisffio para o capitalismo ao se referir aos tempos modernos. Se
por um lado essa visão praticamente negavaaos atores engendrados na di-
nâmica do processo de colonizaçáo possibilidades múltiplas de escolha e de
negociação de suas estratégias individuais e sociais, tornando-os mais obie-
tos do que sujeitos de uma "política colonial'- e, portanto, de seus desti-
nos históricos minimizava, igualmente, as diversidades e singularidades
-,
regionais e temporais do que se convencionou chamar de'Brasil colônia".z
De acordo com Sílvia Hunold Lara, em arrigo publicado em 2005:

Mas foi sobretudo a ênfase nas análises macroestruturais, que marcaram


os anos 7970rque acabou por cristalizar a imagem da "colônia'como um
todo homogêneo. Nos debates marxistas dessa época, a expressão'Brasil
colonial" passou praticamente a desconsiderar diversidades políticas, geo-
gráficas, populacionais, econômicas e cronológicas. privilegiando o deba-
te conceitual, muitos empreenderam análises nas quais eram referenciados
lado a lado documentos dos séculos XVII e XIX ou que diziam respeito à
Bahia, ao Rio de Janeiro ou ao Maranhão.23

outro traço dessa historiografia consistiu na ênfase, para além da comple-


mentaridade, da oposiçáo e, progressivamente, da contradição de inte-
resses entre colônia e metrópole, entre colonizadores e colonos. Esta
dualidade aprofunda-se no momento da crise do antigo sistema colonial,
em fins do século xvlu. carlos Guilherme Mota, no livro ldéia de re-

78
o ANTTGO REGTME E A COrOr{tzAçÂo EM QUESTÃO

wlução no Brasil (1789-1801), de 1979, ao discutir o "processo de ro-


mada de consciência no Brasil num momento crítico da história do antigo
sistema colonial português", ou seja, o de sua crui e, afirmaque "nesse uni-
verso de reflexos que é o mundo colonial do século xvlil há que observar,
nos mecanismos de tomada de consciência elaboração das nacionali-
dades
-
aquelas construçóes mentais que em vários casos nortearam a
-,
ação emancipadora".2a Portanto, para o historiador, o processo de tomada
de consciência do 'viver em colônias', que se desdobrou nas chamadas
inconfidências e conjurações, já continha em si "manifestações naciona-
listas, sendo que o nacionalismo emergente no final do século XVIII no
Brasil é, na base, anticolonialista. A consciência nacional começa a des-
p€rtar, e passa a não ser contida pelas estruturas do Estado dentro do qual
cmerge'.ã Mais uma vez o sentimento nacional é vislumbrado precoce-
mente.
comentando a historiografia marxisra brasileira da década de 1970,
.- geral, Sílvia Hunold Lara afirma que:
Em muitos trabalhos, aidéiade uma'unidade nacional'ainda continuou
a ser projetadapan a'colônia', construindo-se uma história que era do
'Brasil" colonial, não dos domínios portugueses na América; que era da
nação, não de sujeitos históricos múltiplos, desiguais e diferentes. por isso,
a oposição que separava radicalmente o arcaico-escravista colonial do
moderno-capitalista-nacional continuou de certo modo a ser a base das
reflexões históricas sobre o período colonial até bem pouco tempo atrâs.26

Embora primasse pela interpretação da lógica do capital, das práticas


rcantilistas e dos modos de produção, assim como do escravismo
olonial, a historiografia marxista dos anos 1970 não deu maior aten-
gio à cultura política que informava a visão de mundo dos sujeitos his-
Éicos, e que poderia explicar, etn seus próprios termos, as relaçóes
ooômicas, sociais, políticas e culturais que conectaram as colônias
L;etrópoles,
cur.TURA poLÍrtcn e LEtruRAs Do pAssAoo

OS IMPÉRIOs CoLoNIAIS E A CULTURA PoLíïcA DA ÉPocA MoDERNA

Se o Estado-nação náo deve ser visto como o resultado final de um pro-


cesso histórico iniciado na época moderna, seja qual for o lado do Atlân-
tico, torna-se necessário refletir sobre as estruturas mais amplas no seio
das quais situamos nossas pesquisas especializadas. Em coletânea publicada
em2002,Negotiated empires. Center and peripheries in the Americas, os
autores utilizam os conceitos de centro e periferia para analisar o relacio-
namento entre os Estados europeus e seus territórios ultramarinos. Na
introdução ao livro, os historiadores norte-americanosJack Greene e Amy
Turner discutem os estudos de Immanuel Wallerstein,The modern uorld'
systeru, publicado entre'1..974 e 1989.27
Os conceitos de centro e periferia de Wallerstein têm sido usados, in-
clusive por historiadores brasileiros, para entender o sistema mundial co-
lonial e mercantilista. Em sua perspectiva, um núcleo europeu composto
de Estados centrais, com máquinas estatais poderosas, integrava culturas
nacionais e complexas economias, que çrescentemente incorporaram e do-
minaram áreas periféricas com Estados fracos ou não existentes eco-
-
nomias simples baseadas na mineração, na agricultura, em vários tipos de
exploração de recursos, utilizando-se de trabalho compulsório. Nesse es-
quema, o centro sempre dominava a periferia, embora ele próprio não
fosse necessariamente estável, uma vez que mecanismos estruturais da
"economia-mundo" poderiam empurrar alguns Estados-centro para um
status periférico ou semiperiférico.
De acordo com Greene e Turner, apesar de wallerstein ter desenvolvi-
do essas categorias para facilitar a análise do processo que teve suas ori-
gens na época moderna, e embora historiadores daAmérica Latina utilizem
sua perspectiva de sistema mundial em çombinação com a teoria da depen-
dência que emergiu nos anos de 1960 para explicar o subdesenvol-
- -
vimento, essa conceituação específica do relacionamento centro-periferia
não tem sido fulcral nos argumentos de uma nova historiografia produzi-
da nas Américas sobre o período colonial. o esquema de'víallerstein con-
fere muito poder aos núcleos europeus, é exclusivamente focado na criação
dos sistemas de comércio internacionais, apresentando uma visão bastan-

80
O ANTIGO REGIME E A COTONIZAçÃO
EM QUESTÃO

te generalista para ser proficuamente aplicada


à análise da história das
múltiplas e complexas estruturas imperiais que
emergiram tanto nas Amé_
ricas quanto em regiões daÁfrica e
do orieni. lonjo da época moderna.
Em um dos artigos que assina no mesmo "o
livro, Greene critica o uso
indiscriminado de um modero coercitivo
e centrarizado de organização
imperial, no qual poderosos Estados-naçóes
exproravam colônias, cuja
autoridade fluía de cima para baixo, do centro
sobre as popurações sujeitas
nas distantes e distintas periferias.
fusim como as monarquias compósitas,
c impérios da época moderna podiam espelhar
uma rob.ì"nia fragmenta_
d4 além de consideráver autoridade poder ser
mantida pelas ditas periferias.
Em suma, a formação d's hoje chamados
impérios a
onstrução de novos centros ultramarinos "oroniairkpressupôs
igualmente detentores de
-
antoridade, por meio de complexos mecanismo, - J. n.go.iação.28
o que tem sido a linha de argumentaçáo aqui desenvorviãa
é que novas
guestões, assim como um outro recorte
metodìlógico e, portanto, uma
diferente perspectiva historiográficâ -
vêm se impondo na aurora deste
novo milênio. Em decorrência de um conjunto-,
de lransformações econô_
micas, políticas e culturais vividas nas
últimas décadas, a esìabilidade e a
coerência do Estado-nação, convencionalmente
tomadocomo uma criação
da'modernidade" européia, não é mais tão
evidente quanto há meio sécu_
b- Aliás, muitas têm sido as críricas ao acentuado
.urà..rrrrismo imprícito
pessÍl visão. Em "connected
histories: notes towards a reconfiguration
carly modern Eurasia", o historiador
of
indiano sanjay subramanyam denun_
cb a 'ditadura", "camisa-de-força" ou "imposição,,
do modero da trajetó_
rà européia nos tempos modernos para anárises
de outras rearidades, como
e asiática' ou seja, contrapõe-se
a uma noção de modernidade que
classifi-
ca e hierarquiza sociedades tão
distintas e territórios tão distantes de
acor_
do com um processo histórico que parte
sempre da Europa.2e
Pode-se dizer que, diante da "crise"
-
óricos vêm tomando duas direções: (1)
do Eìtado-n"çao, o, estudos his-
uns encontraram na micro-histó_
rÈ um "espaço" pertinente no interior do quar
definem seus objetos; (2)
-,rros extrapolaram as estruturas nacionais que lhes eram familiares, en_
onrrando na flexibilidade das constantes negociações
e dos diferenres
tctos entre governantes e governados, entre elites reinóis e ultramarinas

81
CULTURA POLiTICA E LEITURAS DO PASSADO

das múltiplas rela-


e entre senhores e escravos a chave de interpretaçáo
a
ções e conexões entre
centro e localidades, dominantes e dominados' Se
analítica e peda-
historia global adquiriu certa visibilidade como entidade
de instrumentos teóri-
gfugícarresta-nos' no entanto, inventar uma série
Io, . -.todológicos Pertinentes à sua elaboração'
rede, que alguns historia.
Um desses instrumentos seria o conceito de
dorestêmelegidoparaanalisaradinâmicaeconômica,políticaesocial
época moderna. Estes se cons-
dos impérios.,lt,u-a,inos ou coloniais da
políticas, econômicas,
tituíam por meio de múltiplas redes de relaçóes -
que conectavam os sujeitos históricos para além
do
sociais, culturais
-
territórioeuropeu'podendocomportarumouvárioscentroseconômi.
de laços en-
ç6s30 sendo constìtuídas pela multiplicidade e diversidade
-
tre diferentes agentes históricos e regiões ultramarinas'
o que' no conjunto,
e singularidades' A força e
consrirui um amplo inventário de experiências
a substância desses laços sáo suscetíveis
de mudanças' e estas são capazes
de alterar a própria r.d. ot' relaçáo de maneira fundamental'

JoãoFragosoeMariadeFátimaSilvaGouvêavêmdesenvolvendodo
esrudos sobre redes imperiais que, entre fins do
século XVII e início
xvlll, envolviam diferlntes agentes do império português: casas aristo-
e, inclusive,
cráticas do reino, magistrados, oficiais régios, negociantes
regiões ultramari-
membros das elites coloniais residentes em diferentes
e troca entre esses
nas. Elas eram tecidas pela circulaçáo, comunicaçáo
homens e mulheres de mercadorias, informaçóes, bens materiais e
- - e clientelísticas'
culturais, e eram adensadas por relaçóes de parentesco
de alianças políti-
aproximando e afastando diferentes grupos, em termos
que
cas e interesses pecuniários. Os autores argumentam

este circuito de relaçóes deu lugar a determinadas


formas não só de acu-
mulaçãoecirculaçãodeinformaçóes,bemcomodedefiniçãodeestraté.
giasgovernativas,voltadasparaoacrescentamentopolíticoematerialdos
interessesportugueses,[...]sejamosinteressesindividuaisederedes
clientelares, sejam os corporativos da Coroa como um
todo'31

por fim, como o rexto de Maria de Fátima Gouvêa e Marília Nogueira


das redes em termos de
dos Santos publicado neste livro propõe, o estudo

82
o AiTtco REGtUE G A CoroxtzAçÃO EM
QuEsTÃ0

sa importânciq no que tange às sociabilidades curturais,


poríticas e eco-
oômicas vivenciadas no interior dos impérior.rlt."-"rìno,
d" época
mdcrna descentrariza a análise .- r..-o, de movimento qu. p"rr. excru-
riçarnente dos Estados metropolitanos,
conferindo flexibilidade às rera-
çócs imperiais, o que promove conexões intercoloniais.32
outros caminhos vêm sendo tr'hados por novos
estudos que, por não
c calcarem em generarizações e formarizações
dos processos sociais, par-
-nr dq plgssuposto de que eres são eminentemente históricos, que
têm uma
E$oricidade, isto é, úo datados e localizados
no tempo e no espaço, não
podcndo ser bem compreendidos a não
ser pera incrusão de uma dimensão
-ta"'' são trabalhos produzidos nas últimas
duas décadas muitos deles
cscrtações de mestrado ou teses de doutorado -
que partem das repre-
rntações, experiências e açóes dos atores -
históricos, oL ,e,a, da curtura
pdítica e dos padrões sociais de homens
e murheres qu. uiu.*iaram o pro_
re de colonização nos tempos modernos.
um exempro dos mais signifi-
civos dessas abordagens encontra-se nos
trabalhos que, nos úrtimos vinte
=g vêm sendo desenvolvidos sobre'as práticas cotidianas, os costumes,
úcntamentos, resistências, acomodações e soridariedades,
modos de ver,
irr, pensar e agir dos escravos". De acordo, mais uma ve ,r ro^sflvia
Lara:

A partir da década de 19g0, os estudos


sobre a escravidão dos africanos e
seus descendentes no Brasil passar:rm
por transformações que redimen-
sionaram a abordagem do tema.
euestionando * estruturais de
paradigmas explicativos fixados na "."1r",
década de 1960,vários historiadores
enfatizaram a necessidade de procurar
oufias perspectivas de anáüse. Ao
criticar o enfoque estritamente macroeconômico
e a ênfase no caráter vio_
lento e inexoráver da escravidão, observaram
que o resurtado da maior
parte da produção sobre o temâ era uma
história que, mesmosem o dese-
iarrapoiava-se numa óptica seúorial que era, inevitavelmente,
excrudente.
Recuperando movimentos e ambigüid"d.,
que antes pod.riu- pârecer
nupreendentes, varorizaram a experiência
escrav", qua p*rou a ser ana-
li.ada com base em outros parâmetros.
Assim, o, ,"lor., e as ações dos
*cravos foram incorporados como elementos
importantes para a com-
preensão da própria escravidão e
de suas transformações.33

83
CUITURA POTÍTICA E TEITURAS DO PASSADO

A partir dessa inflexão teórico-metodológica creio que podemos, por meio


de nossos estudos e pesquisas, contribuir para dar sentido não apenas a
temas coloniais, mas também ao nosso sempre renovado ofício de historia-
dores. Afinal, como nos lembra François Hartog, comentando os ensina-
mentos de Lucien Febvre, explicar o mundo ao mundo, responder às
questões que se apresentam aos homens de hoje, é decididamente a tarefa
do historiador. Não se trata de fazer tábula rasa do passado, mas de com-
preender em que ele difere do presente, por que e em que ele êpassado,
num mundo que, se em todos os sentidos é comandado pelo presente, é,
também e profundamente, diferente dos tempos atuais, quer em suas prá-
ticas, quer em suas representações.3a

Notas

1, Segundo o Dicionório de Política de Norberto Bobbio, oo termo nação, utilizado


para designar os mesmos contextos significativos a que hoje se aplica, isto é, aplica-
do à França, à Alemanha, à Itália etc., Íaz seu aparecimento no discurso político
-
na Europa
- durante a Revolução Francesa'. Cf. N. Bobbio et al., Dicionário dc
Política, v. 2, Brasília/São Paulo, Ed. UnB/Imprensa Oficial do Estado de São paulo,
2004, p.796.
2. Recentes interpretações historiográficas problematizam tanto a extrema centraliza-
ção quanto a unificação cultural ou a existência de um sentimento nacional, inclu-
sive na França do século XVI. Cf. Emmanuel Le Roy Ladurie,O Estado monárquicu
França 1460-1610, São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
3. Xavier Gil Pujol, "Centralismo e localismo? Sobre as relações políticas e culturais
entre capital e territórios nas monarquias européias dos séculos XYI e xYll" , Pené-
lope. Fazer e Desfazer a História, n. 6, 1991, p. 123-4.
4. John H. Elliott, "A Europe of composite monarchies", Past and Present, n. 137 , 199\
p.48-71.
5. Lucien Febvre, "caminhando para uma outra História", em combates pela histótia
II, Lisboa, Editorial Presença, 1977, p.225-6. Mais recentemente, François Hartog
cunha o conceito de regimes de historicidade, que pode ser entendido de duas for-
mas: numa acepção restrita, como uma sociedade trata o seu passado, e nele se vê;
e numa acepção mais vasta, de acordo com a qual regìmes de historicidade serve par.

84
O ANTIGO REGIME E A COLONIZAçÃO EM QUESTÃO

designar a modalidade de consciência de si de uma comunidade humana. A seu ver,


essa noção pode fornecer um instrumento de comparação de tipos de história dife-
rentes no sentido de iluminar distintas formas de relacionamento com o tempo ou,
em outras palavras, formas específicas de experiência do tempo. Cf. François Hartog,
"Ordres du temps, regimes d'historicité', em Regimes d'historicité. Présentisme et
expériences du temps, Paris, Seuil, 2003, p. 19-20.
6. Sobre as Cortes, cf. Pedro Cardim, Cortes e cultura política no Portugal do Attigo
Regìme, Lisboa, Edições Cosmos, 1998.
7. Cf., a esse
respeito, o capítulo "Manifestos de Portugal. Reflexões acerca de um Estado
moderno', de Rodrigo Bentes Monteiro e Jorge Miranda Leite, neste livro.
t.
Jean-FrédéricSchaub,Portugalnamonarquiahispânica(1580-1640),Lisboa,Livros
Horizonte, 2001, p.21.
9. Puiol, op. cit., p. 126-7.
10. Segundo Schaub, "o afastamento espetacular dos titulares da casa não deve, porém,
alimentar ilusões. Uma leitura atenta da correspondência política trocada entre Lis-
boa, Vila Viçosa [*corte' dos duques de Bragança] e Madri revela a multiplicidade
de canais através dos quais os sucessivos duques exerceram a sua influência no seio
dos grandes conselhos das polissinodias portuguesa e hispânica. [...] o duque de
Bragança teria sido, na viragem dos anos 20, o patrono direto de quatro dos sete
membros do Conselho de Portugal, e teria tecido, de forma indireta, laços fortes
com outros dois dos seus membros" (Schaub, op. cit., p. 64).
I L Fernanda Olival, As Ordens militares e o Estado moderno. Honra" mercê e uenalidade
ant Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar Editora, 2001, p. 15.
12- Ibidem, p. 18.
lI lbidetn, p. 17.
l{ *Caio Prado. Formação
José Roberto do Amaral Lapa, do Brasil contemporâneo',
cor Lourenço Dantas Mota (org.), Introdução ao Brasil, Um banquete no trópico,
São Paulo, Ed. Senac, 1999,p.259.
lJ- Cf. nota 5.
lí- caio Prado Júnior, "o sentido da colonização', em Formaçtro do Brasil conternpo-
tizeo,75^ ed., São Paulo, Brasiliense, 1977, p. 19.
F- trÍaria odila Leite da silva Dias, *Impasses do inorgânico", em Maria Ângela D'Incao
(org.), Ensaios sobre Caio Prado Júnior, São Paulo, Brasiliense/Ed. Unesp/Secretaria
de Estado da cultura, 1989, p.389-90. Analisando outro imporrante livro de caio
hado Júnior, Hìstória econômica do Brasil, Rubem M. L. Rego afirma que a tese
antral do autor sobre o largo processo de transformação por que passa a formação
ncial brasileira, principalmente durante a segunda metade do século XIX e as pri-
nciras décadas do século XX, é a de que a integração na nova etapa de desenvolvi-
ocnto do capitalismo internacional, a que denomina oordem imperialista", "se

85
CULTURA PO!ÍTICA € !EITURAS DO PASSADO

proceesou scm modificação subetancial do caráter fundamental da economia do paíso.


Cf. Rubem M. L. Rego, Sentìmento do Brasil. &io hado lúnior. Contìnuifudes e
mufunças no fuwnuoluìmento da suiefu& brasilera, Campinag Ed. Unicamp, 2000.
18. Lapa, op. cit., p.263.
1.9. Fernando Novais, PorÍngal e Brasil na crìse do antigo sistens colonìal (1777-1808),
São Paulo, Hucitec, 1979, p. 62.
20. Ifumr"O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial", em Carlos Gúlherme Mota
(org.), Brasil em perspectìua, 10â ed,, Rio de Janeiro/São Paulo, Difel, 1978, p.49.
Esse artigo foi novamente publicado em Fernando Novais, Aproxhnações. Estudos
de história e historìografia, São Paulo, Cosac Naify, 2005, p. 45-60,
21. lbìdem, p. 57.
22. Para uma magistral análise do conceito de região colonial afinada com a tese da
colonização de exploração nos quadros do antigo sistema colonial, cf. Ilmar Rohloff
de Mattos, O tempo slqulrema, São Paulo, Hucitec, 1987,p.24-5.
23. Sílvia Hunold Lara, 'Conectando historiografias: a escravidão africana e o Antigo
Regime na América portuguesa", em Maria Fernanda Baptista Bicalho e Vera L. A
Ferlini (orgs.), Modos de gouernar, lüias e próticas políticss no império português.
Séçulos )NI a )fX, São Paulo, Alameda Editorial, 2005, p.24.
24. Carlos Guilherme Mota,Idéia de reuoluçdo no Brssil (1.789-1801). Estuda fus for-
mcs de pensofiento, Petrópolis, Yozes, 1979, p.22,
25. Ibìdem, p.90.
26, Lara, op. cìt,, p.24.
27. Immanuel Wallerstein, The modern woild-system, 3 v., Nova York, Academic Presg
1,974-89.
28. J. Greene, "ïansatlantic colonization and the redefinition of empire in the early modern
era. The British-American experience", em C. Daniels e M. Kennedy (eds.),Negotiated
Empìrel Centers and Peilpheries in the Amhicas, 1500-1820, Nova York/Londreq
Routledge, 2002, p.267-82. Certamente Greene desenvolve sua argumentação com
base na experiência da América inglesa, cuja singularidade e diferença em relação à
espaúola e à portuguesa têm que ser levadas em conta. Para uma análise cufo foco é o
império português nos tempos modernos, cf. João Lús Ribeiro Fragoso, Maria Fernanda
Baptista Bicalho e Maria de Fátima Silva Gouvêa, "Uma leitura do Brasil çolonial: bases
da materialidade e da governabilidade no Império", Penélop: revista de História e de
Ciências Sociaig n. 23, Lisboa,2000, p. 67-88; eJ. L. R Fragoso, M. F. B. Bicalho e Àí.
de F. Silva Gouvêa (orgs.), O Áz tìgo Regìme nos trófuos: a dinômìca ìmryial portugtuv
GéculosXVI-XVll), Rio de Janeiro, Civilizago Brasileira, 2001.
29. Sanjay Subrahmanyam, "Connected histories: notes towards a reconfiguration of early
modern Eurasia", em Victor Lieberman (ed.), Beyond Binary Hìstories. Re-imaginìng
Eurasia to c. 1.830, Michigan, University of Michigan Press, 1999, p,289-316.
o AxrtGo REGTME E A COtONtzAçÂo EM QUESTÃO

30. cf., a esse respeito, A.J, R, Russell-síood, "centro e periferia no mundo luso-bra-
sileiro, 1500-1808", Reuista Brasileira de História, v 18, n. 36, lggï, p.202.
31. João Luís Ribeiro Fragoso e Maria de Fátima silva Gouvêa, "vtorino Magalhães
Godinho et les réseaux impériaux", Arquiuos do centro cultural calouste Gul-
benkian, v 50,2005, p. 89.
3Z Maria de Fátima Silva Gouvêa e Marília Nogueira dos Santos, "Cultura política na
dinâmica das redes imperiais portuguesas", publicado neste livro, Cf,, também, Maria
de Fátima silva Gouvêa, G. de A, Frazão e Marília Nogueira dos sanros, "Redes de
poder e conhecimento na governação do império português, 1688-1735-,Tbpoi:
revista de História, v 5, n. 8, jan.-jun. 2004, p, 96-137.
33. Iara, op. cit,, p.25.
í. Hartog, op, cit., p. 14.

87
Sumário

AGRADECIMENTOS 9

ReneserureçÃo 11

PARTE I

Política, história e memória 21

O presente do passado: as artes de Clio em temPos de memória 23

Manoel Luiz Salgado Guimarães

Cultura política e cultura histórica no Estado Novo 43

Angela de Castro Gomes

PARTE II

O Antigo Regime e a colonização em questão 6s

*Estados nacionais' ao *sentido da colonização":


Dos
história moderna e historiografia do Brasil colonial 67
Maria Fernanda Bicalho

Cultura política na dinâmica das redes imperiais portuguesas'


séculos XVII e XVIU 89

Maria de Fátima Silva Gouvêa/tVlarilia Nogueira dos Santos