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CULTURA SÁBADO, 24 DE OUTUBRO DE 2009 5

GUILHERME MARANHÃO, DIVULGAÇÃO


e sentimentos próprios. Foi uma espécie de compreen-
Antonio Candido

“A literatura é
sível reforço do processo de independência, processo
lento que começa com a vinda de Dom João em 1808 e
vai até a última revolta local em 1849. Foi um ponto de é Antonio Candido
vista historicamente compreensível e válido, marcado
pelo patriotismo e a euforia. O que se chama de nacio- No segundo número da
nalismo dos modernistas de 1922 me parece outra revista Serrote (Instituto Moreira
coisa. Teve cunho crítico e desmistificador, procurando Salles), Antonio Candido foi

uma transfiguração
destacar aspectos considerados negativos pela ideolo- apresentado de maneira direta:
gia tradicional: o negro, o imigrante, o pobre, a fala e a “Antonio Candido é Antonio
cultura popular etc. Sem falar que substituiu a euforia Candido”. Como se pode conferir
pela ironia, parecendo, às vezes, um antinacionalismo. pela entrevista publicada nestas
Tanto assim que talvez o retrato mais significativo do páginas, o maior intelectual
Brasil que surgiu então foi Macunaíma. O que se po- brasileiro vivo é um homem

da realidade”
deria aproximar do nacionalismo originário é o ver- humilde. Nascido no Rio de
de-amarelismo, derivante secundária que deu no que Janeiro, em 1918, depois de
deu. Quanto aos críticos estrangeiros, é bom lembrar passar a infância e o início da
que o nacionalismo romântico foi importante porque o adolescência em Minas Gerais,
Brasil era um país novo, precisava afirmar sua singula- Antonio Candido de Mello e
ridade e sua valia, começando pela beleza da paisagem Souza escolheu São Paulo para
e chegando ao índio transfigurado. Fenômeno de ado- estudar e viver. Ingressou no curso
lescência sem sentido nos países velhos. de Filosofia da Universidade de
Zero Hora – À distância de 50 anos, a Formação ZH – O prefácio da segunda edição da FLB iden- São Paulo em 1939. Em 1941,
da Literatura Brasileira (FLB) lhe parece padecer tifica “o último quartel do século 19” como “o mo- ZH – Aos 50 anos da FLB, que balanço íntimo o fundou a revista Clima, ao lado
de algum traço nacionalista, como se costuma di- mento em que a nossa literatura aparece integrada, senhor faz? Ocorre-lhe alguma crítica que a obra de Paulo Emílio Salles Gomes e
zer? Se o senhor escrevesse a obra hoje, faria dife- articulada com a sociedade”. A identificação desse poderia ter recebido e, para surpresa sua, não veio? Décio de Almeida Prado. Quatro
rente, especificamente na abordagem do nacional momento é baseada em qual grau de articulação Candido – O que me causou estranheza é sobretu- anos mais tarde, tornou-se livre
ou, ao contrário, na integração do não-nacional? com qual porção da sociedade? do o fato de FLB ter sido tratada como se fosse uma docente em Literatura Brasileira
Antonio Candido – Começando pelo fim, lembre Candido – A parte final do século 19 me parece o história truncada ou uma teoria geral. Creio que a com uma tese sobre o crítico
quanto ao “não-nacional” que eu refiro sempre os au- momento no qual a nossa literatura já demonstrava maioria se limitou a comentar a pertinência do prefá- Silvio Romero. A conclusão do
tores brasileiros aos inspiradores ou afins europeus, um grau de integração autor-obra-público que, segun- cio e da introdução, quando os quadros e critérios que doutorado em Sociologia, com a
porque a nossa é uma literatura que pertence organi- do o meu ponto de vista, permite considerá-la ativida- eles propõem sempre me pareceram menos importan- tese Os Parceiros do Rio Bonito,
camente ao quadro das literaturas ocidentais. Muitas de contínua, marcada por uma tradição local, sendo tes do que as análises, escolhas, filiações, articulações ocorreu em 1954.
vezes, o que escrevemos parece, aos outros, diferente que o público, isto é, a parte da sociedade com a qual das obras e dos autores. Esta é a matéria do livro, e dela Ajudou a fundar o curso de
do que nos parece. O fato de a FLB estudar o nacio- se articula, era essencialmente a minoria capaz de ler. Aos 91 anos, o maior crítico literário brasileiro, Antonio Candido, comemora o lançamento da 12ª edição de sua obra “Formação da Literatura Brasileira” não se fala. Tenho razão em considerar Santa Rita Du- Letras de Assis, ligado a Unesp,
nalismo crítico não quer dizer que se enquadre nele. Por isso, parei o livro naquela altura. Quem o lê percebe rão um passadista e Basílio da Gama um inovador? O em 1958. A partir de 1960,
O que penso a respeito pode ser lido num trecho da que a pesquisa sobre tradição, implícita o tempo todo, Uraguai é uma obra-prima mal composta? Houve de retomou sua carreira na USP,
introdução: “(...) o nacionalismo crítico, herdado dos é um fio condutor, porque a tradição é a prova de que fato um “pré-romantismo franco-brasileiro”? A relação como professor de Teoria Literária
românticos, pressupõe também, como ficou dito, que o sistema vai se constituindo, de que a literatura vai se sa inteiramente diversa. A propósito, lembro que escre- põe as tentativas precedentes, que sublimou e coroou, pesada demais quando a empreendi, de 1945 a 1957. do Arcadismo e do Romantismo pode ser considerada e Literatura Comparada, onde se
o valor da obra dependia do seu caráter representativo. institucionalizando, ao longo de um processo esboçado vi em 1987 e publiquei em 1997 um resumo, no qual, porque já havia aqui uma tradição em andamento. Daí tantas lacunas na FLB. De lá para cá, a investiga- de cunho dialético? Sousa Caldas é de fato um crítico tornou professor titular em 1974.
Dum ponto de vista histórico, é evidente que o conte- em meados do século 18. Creio que a FLB chocou a ro- aí sim, apresento o conjunto, à luz do que denominei Ele incorporou e transcendeu os esforços medíocres ção se desenvolveu de maneira considerável, devido ilustrado da tradição clássica? O gênero romance foi Aposentou-se em 1978, mantendo
údo brasileiro foi algo positivo, mesmo como fator de tina, preocupada com a ocorrência dos fatos literários, sistema literário: Iniciação à Literatura Brasileira. de (Joaquim Manuel de) Macedo e os mais consisten- sobretudo aos programas de pós-graduacão, apoiados uma espécie de descoberta progressiva do país? A obra até 1992 as funções de orientador
eficácia estética, dando pontos de apoio à imaginação não com a sua articulação e a sua continuidade. A nos- tes de (José de) Alencar, fazendo da ficção narrativa por bolsas de estudos. Do Amazonas ao Chuí, como se de (José de) Alencar vale mais pelo realismo do que de teses e dissertações. Em 1980,
e músculos à forma. Deve-se, pois, considerá-lo subsí- sa historiografia procurava, por exemplo, estabelecer ZH – Vários intelectuais que lhe foram próxi- um instrumento refinado e moderno de análise da dizia, milhares de estudiosos, com mais ou menos ta- pelo indianismo? O conto Ierecê a Guaná, de Taunay, ajudou a fundar o Partido dos
dio da avaliação, nos momentos estudados, lembran- quando a literatura começou aqui (com a Carta de mos, como Mário de Andrade e Sérgio Buarque personalidade e da sociedade, com uma visão, por as- lento, com mais ou menos êxito, vêm realizando um pode ser considerado mola inconsciente de Inocência? Trabalhadores, ao lado de Luiz
do que, após ter sido recurso ideológico, numa fase de Caminha, com Bento Teixeira, com os “baianos”?), ou de Holanda, e mesmo alguém não próximo, como sim dizer, essencial, que o situa no nível dos grandes esquadrinhamento que torna difícil a uma só pessoa Esses são alguns exemplos das dezenas de proposi- Inácio Lula da Silva e Sergio
Ian Alexander construção e autodefinição, é atualmente inviável co- como foi exprimindo cada vez mais a realidade local. Gilberto Freyre, parecem não ter compreendido a ficcionistas europeus do seu tempo. Com ele, persona- a tarefa de escrever uma história, mesmo curta. O livro ções da FLB às quais ninguém deu atenção. Mas não Buarque de Holanda. No Exterior,
comenta: mo critério, constituindo um calamitoso erro de visão”. Ora, ela não começou em momento nenhum, porque importância de Machado de Assis (Mário preferia lidade e sociedade deixam de ser na ficção objetos de de Alfredo Bosi é notável, e eu mencionaria também o faltou quem dissesse que, para mim, a literatura brasi- foi professor de Literatura
“Para entender o Terei incorrido neste erro? Levar em conta a ocorrência veio pronta de Portugal, ou veio vindo, com todo o pe- Alencar a Machado, Sérgio considerava Machado a validade local para se tornarem universais. Daí o valor de Luciana Stegagno Picchio. E há outra questão: será leira começa em 1750. Essa atenção aos pressupostos e Brasileira da Universidade de
que ele (Candido) nas obras de elementos característicos do país, tanto so erudito do Renascimento. Quanto à importância da “flor da estufa do formalismo” etc).Até que ponto a simbólico que lhe atribuí, como sinal de coroamento que ainda há interesse nesse tipo de livro? Houve mo- esse desinteresse pela realização me fazem pensar que Paris (1964-1966) e professor
está dizendo é preciso humanos quanto naturais, é necessário num trabalho tradição como força constitutiva, a meu ver, a literatura FLB pode ser vista como uma tentativa de explicar do processo de formação do sistema literário. dificação profunda nos estudos literários, e o tratamen- não fui capaz de explicar claramente o que pretendia. visitante de Literatura Brasileira e
ler bastante literatura de história literária, mas nem é exclusividade do na- amadurece quando é possível a um escritor reportar- essa importância a tais figuras? to histórico parece ter perdido o prestígio anterior, o Mas como o livro continua a ser editado meio século Comparada na Universidade
brasileira. É preciso cionalismo crítico, nem basta para caracterizá-lo. O na- se, para elaborar a sua linguagem e os seus temas, ao Candido – Isso nunca me passou pela cabeça, mas ZH – A última história da literatura brasileira que é uma pena e, sobretudo, uma perda. depois parece que tem sido mais apreciado pelos es- de Yale (1968).
ter lido diversas obras cionalismo crítico propriamente dito tem entre os seus exemplo de escritores precedentes do seu país. Quais aproveito para aludir ao significado de Machado de importante foi a de Alfredo Bosi, História Conci- tudantes, pelos professores e pelos leitores em geral do Candido foi casado com Gilda
para entender o que pressupostos a noção de que o conteúdo temático local os antecessores locais de Gregório de Matos? Não há, é Assis no projeto do meu livro. Ele foi o primeiro escri- sa da Literatura Brasileira, escrita há mais de três ZH – O Modernismo da década de 1920 contri- que pela crítica. Por outro lado, mais recentemente, a de Mello e Souza, sobrinha de
ele estava fazendo em determina o valor das obras. Isso não estava nas mi- claro.A formação do sistema pressupõe a continuidade, tor verdadeiramente genial de nossa literatura e mar- décadas. A que se pode atribuir o silêncio atual na buiu para a afirmação nacionalista no estudo da li- FLB vem sendo elevada a alturas que não merece. De Mário de Andrade, professora
termos de conceitos.” nhas intenções, mas é possível que tenha se infiltrado. que determina a fisionomia geral da literatura. É o que cou a superação do nacionalismo, inclusive sob seus tarefa de historiar a literatura brasileira? teratura brasileira. Para críticos estrangeiros, como fato, alguns o situam ao lado de Casa-Grande & Sen- de Estética na USP, falecida
Seja como for, continuo aceitando os pontos de vista da me parece haver no fim do século 19. Mas sou obriga- aspectos pitorescos, valorizados pelos estrangeiros in- Candido – Hoje, a tarefa de escrever uma história Erich Auerbach e Edmund Wilson, o nacionalismo zala e Raízes do Brasil como interpretação do Brasil, o em 2005.
FLB, que, no entanto, é um livro de outro tempo. Por- do a reconhecer que grande parte dos equívocos sobre teressados, sobretudo, em nosso lado exótico (Denis, da nossa literatura que ultrapasse a escala de compên- não é um problema a ser pensado. A que o senhor que é constrangedor pelo exagero e equivocado como
tanto, desgastado. Parafraseando Carlos Drummond de o meu livro deve ter sido motivada pelo título impró- Monglave, Garrett etc). De maneira muito própria, ele dio ou, como se dizia dantes, de bosquejo, dificilmente atribui essa necessidade do nacionalismo no Bra- juízo. Não apenas a sua escala é incomparavelmente
Andrade num dos seus mais belos poemas, sinto que prio. Deveria ser: Arcádia e Romantismo – Momentos traduziu a nossa realidade humana em valor univer- poderá ser realizada por um só autor.Afrânio Coutinho sil? Não parece ter havido influência demasiada do mais modesta, mas as interpretações pressupõem a
sobre ele o tempo abateu a sua mão pesada. Sobretudo Decisivos na Formação do Sistema Literário Brasileiro. sal, mas – aqui, entra o meu ponto de vista – isso não sentiu isso bem quando recorreu, já nos anos de 1950, Modernismo na historiografia brasileira? abordagem da realidade social diretamente registrada
Luís Augusto levando em conta que, no último meio século, consti- Mas isso o editor não aceitaria, nem eu ousaria propor, quer dizer, como se disse durante muito tempo, que te- a uma equipe variada para realizar o seu importante Candido – O nacionalismo dos românticos foi um na documentação, sendo por isso efetuada por histo-
Fischer comenta: tuiu-se e amadureceu, de Norte a Sul, a crítica universi- porque ele já estava sendo compreensivo demais ao nha sido uma espécie de bólido caído no Brasil não se A Literatura do Brasil, em seis volumes. A experiência instrumento de afirmação nacional e sobretudo patrió- riadores, sociólogos, economistas. Ora, a literatura é
“Este livro nasceu do tária, investigadora e retificadora por natureza. Quando aceitar que eu lhe desse, ao cabo de 12 anos, não a pe- sabe por quê. É certo que não foi um produto neces- pessoal me mostrou que mesmo o estudo mais ou me- tica, sendo tentativa de demonstrar que a literatura bra- uma transfiguração da realidade, de maneira que não Confira trechos da “FLB” em
www.zerohora.com/mundolivro
convite de um amigo escrevi a FLB, a partir de 1945, ela estava começando. quena história que havia encomendado, mas uma coi- sário do que lhe era anterior, mas o fato é que pressu- nos aprofundado de apenas dois períodos era tarefa sileira era diferente da portuguesa, porque tinha temas pode servir de base para as interpretações.
dele editor, que pediu ao
Candido que escrevesse
um manual escolar, Luís Augusto Fischer comenta:
em 1945. Enquanto ele “Há cerca de sete anos um grupo de professores
escrevia a Formação, se encontrou com Candido na casa dele dizendo Marcelo Frizon comenta:
fazia muitas outras Luís Augusto Fischer Marcelo Frizon comenta: querer escrever uma história da literatura. A ideia era “O nacionalismo foi a principal bandeira daqueles períodos
coisas: doutorado comenta: “Se pararmos para olhar minha, eu tinha proposto para o grupo. Candido foi que o Candido considera cruciais para a literatura brasileira:
em Sociologia e em “A FLB é um livro exigente, é para a obra do Candido de calorosamente receptivo: “Que coisa boa, tem que fazer. Romantismo e Modernismo. Não é à toa, portanto, que o
Literatura, crítica um livro que trata o leitor como uma maneira mais global toda Homero Vizeu A história da literatura brasileira mais recente que tem nacionalismo influenciou tanto a FLB. Afinal, o Romantismo FORMAÇÃO DA
LITERATURA
literária. E aí este amigo um ser inteligente. Não é um livro ela é uma grande história da Araújo, professor da é a do Bosi, da década de 1970. Como um país pode é mais importante do que o Arcadismo porque é ali que se BRASILERIA
o convida para escrever que fica preso a conceitos como o literatura, porque ele acabou UFRGS, comenta: se dar por satisfeito com isso?”. E disse assim: “Vocês inicia o romance no Brasil, para lembrarmos os períodos que Momentos
um livro didático. Foi Barroco, o Arcadismo. O Candido escrevendo sobre autores que ele “Foi ficando cada conhecem aquele filme O Poderoso Chefão? Há um o Candido estudou na obra. Já com relação ao Modernismo, Decisivos
um livro que nasceu sai deste problema, olha para a não escreveu na Formação – vez mais claro que momento em que Dom Corleone chama um capanga não podemos esquecer que o Candido acompanhou o seu auge, Antonio Candido
quase sem querer. A literatura brasileira, mas com uma autores anteriores e posteriores Machado estava fora e diz:‘Escuta, Fulano, nós temos que matar o Beltrano. o momento em que Mário de Andrade já era um intelectual
Editora Ouro Sobre
sensação que eu tenho pergunta de outra ordem: como ao período que a FLB aborda da Formação porque Dá pra ser?’. O capanga olha para ele e diz :‘Impossível respeitado unanimamente. A FLB é um livro com um projeto Azul, 12ª edição,
é que nasceu de uma essa literatura forma um país que – e pôde revisar muita coisa era um ponto alto da não é, mas é difícil’. É isso aí: escrever uma história da definido, com um ponto de vista claro. A formação do Candido 800 páginas, R$ 90
vontade pessoal dele.” está começando a existir?” que ele escreveu.” literatura brasileira.” literatura é muito difícil, mas não é impossível.” foi muito modernista. A FLB não poderia ser diferente.”