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‘Assistimos ao
renascimento da família
imperial’, critica FHC
Ex-presidente considera ‘abusivo’ o uso das redes sociais pelo clã
Bolsonaro: ‘Polariza. Isso, para a democracia, não é bom’

Entrevista com

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República


Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo
17 de março de 2019 | 05h00

De sapatênis marrom e meia verde-abacate, Fernando Henrique Cardoso


recebeu o Estado nesta segunda-feira, 11, no centro de São Paulo, para falar do
tema de seu mais recente livro: a juventude. Contou entusiasmado que tem ido
caminhar na Avenida Paulista aos domingos, quando a via é fechada para os
carros, e disse que tem procurado se adaptar ao modo de pensar das redes
sociais, nas quais procura sempre se manter presente. “Eu tenho 87 anos.
Quando nasci, a vida era diferente. E daí? Bom não é o passado, é o futuro”,
disse o sociólogo e presidente do Brasil por dois mandatos (1995-1998 e 1999-
2002).

FHC queria deixar a política partidária de lado na conversa e se concentrar


apenas no lançamento de Legado para a Juventude Brasileira (Editora
Record), uma coautoria com a educadora Daniela de Rogatis. Porém, ao
abordar as redes sociais, acabou analisando o uso do Twitter pelo presidente
Jair Bolsonaro: “É muito difícil pensar ‘tuitonicamente’, você pode, no
máximo, emitir um sinal”. Para o ex-presidente, a democracia exige raciocínio
e a rede social é operada por impulso.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso Foto: JF DIORIO/ESTADÃO

Questionado diretamente sobre o comportamento de Bolsonaro e de seus


filhos (Flávio, Eduardo e Carlos) nas rede sociais, FHC se disse preocupado
com o envolvimento da família no “jogo do poder” porque “leva o sentimento
demasiado longe” e disparou: “Eu acho perigoso. É abusivo, polariza (...) Nós
estamos assistindo ao renascimento de uma família imperial de origem
plebeia. É curioso isso. Geralmente, na República, as famílias não têm esse
peso”. Segundo ele, “Bolsonaro está indo mal por conta própria”. Leia a
entrevista:

Como surgiu a ideia deste seu mais recente livro?

A ideia foi da Daniela de Rogatis, de fazer um livro que resumisse um pouco o


que eu tento passar para as novas gerações. É uma coautoria. Também foram
acrescentadas aulas que eu dei, uma coisa é falar, outra é escrever.

Qual é o legado que se pode deixar para a juventude brasileira neste


momento?

Procuro transmitir um sentimento de amor ao País, respeito ao povo e valorar


a democracia. Fui ministro da Fazenda, conheço um pouco de economia, acho
que o crescimento econômico é importante, mas a mensagem principal está
nos valores e na crença de se ter organizações abertas em que todos possam
participar. Tenho em minha fundação atividades com os jovens. Uma é essa,
que se deve basicamente a Dani Rogatis, que tem como alvo jovens de famílias
empresariais. Há um outro grupo de pessoas, estudantes de curso secundário,
escolas públicas e privadas, escolas profissionalizantes. Eles me perguntam
qualquer coisa e eu só não gosto de responder a questões de política
partidária, não é o meu objeto fazer pregação. O curioso é que as perguntas
dos dois grupos, que são diferentes quanto à renda, não são muito diferentes.

O senhor se atualiza com esses encontros?

Claro, é bom manter contato com as gerações mais jovens, participar das
inquietações deles também. Eu tenho 87 anos. Quando nasci a vida era
diferente. E daí? Bom não é o passado, é o futuro. Sem desprezar o que já
aconteceu.

O livro expressa uma grande preocupação com a ausência de líderes de peso.


Por quê?

A sociedade contemporânea, paradoxalmente, na medida em que as estruturas


e os partidos deixaram de ser tão significativos, porque o contato direto é mais
fácil, requer referências. Essas referências só existem quando existem pessoas
que as simbolizam. Isso significa que pode estar faltando rumo, alguém para
dizer para onde nós vamos. O (Nelson) Mandela na África era isso. Certa vez
fui com ele a uma reunião em uma área quase florestal da África do Sul.
Quando ele chegou, mesmo sem falar, ele transmitia uma emoção. O que ele
estava dizendo não era tão surpreendente. Ele era surpreendente, ele
transmitia, ele significa. O mundo precisa disso, de pessoas que apontem
rumos mesmo sem falar. Aqui no Brasil, infelizmente, tem muita gente falando
e muito pouca gente simbolizando qualquer coisa. Eu posso não estar de
acordo com o Lula, mas ele simbolizou em certo momento. Eu vi, em greves,
ele simbolizava, por exemplo.

E na transição de seus mandatos para o dele ambos simbolizaram alguma


coisa, não?

Bastante. Eu vou publicar o último volume dos meus Diários da Presidência e


você verá como trabalhamos com muito afinco para ter uma transição
civilizada. Sabe por quê? Pelo meu amor à democracia. É preciso entender que
na democracia mudam os ventos, mas certas regras permanecem e precisam
ser valorizadas. No caso do Lula é visível. Ele vinha contra mim, contra o
PSDB, mas ele ganhou a eleição. Eu digo a mesma coisa com relação ao Jair
Bolsonaro. Ele ganhou a eleição e eu não torço para que ele vá mal. Ele está
indo mal por conta própria.

De que maneira o senhor acha que essa comunicação via redes sociais
impacta a política?

Primeiro, é difícil o Twitter. Você dizer alguma coisa naquele pouco espaço
disponível não é fácil. Em geral as pessoas não dizem quase nada, apenas
manifestam o que estão fazendo. Isso passou a ser o modo com que as pessoas
acham que pensam. É muito difícil pensar “tuitonicamente”. Você pode, no
máximo, emitir um sinal. Nós estamos vivendo uma transformação de uma
sociedade na qual as elites eram reflexivas para uma sociedade na qual todos
são impulsivos. Isso tem efeito. É bom? É mau? Eu não quero julgar. Como a
democracia vai se ajeitar com isso é a grande questão. A democracia requer
reflexão, escolhas. O Twitter leva mais ao impulso do que a uma escolha
racional, e democracia necessita de algo um pouco racional.

Como o senhor vê a maneira como o presidente Bolsonaro e os filhos dele,


que são jovens, usam as redes sociais?
Eu acho perigoso. É abusivo, polariza. O Twitter facilita isso, o nós contra eles.
Isso para a democracia não é bom. Os líderes de várias tendências não
deveriam entrar nesse choque direto. Nós estamos assistindo ao renascimento
de uma família imperial de origem plebeia. É curioso isso. Geralmente, na
República, as famílias não têm esse peso. Quando têm, é complicado, porque a
instituição política não é a instituição familiar, são coisas diferentes. Quando
você tem a instituição familiar assumindo parcelas do jogo de poder, você leva
o sentimento demasiado longe. O jogo de poder requer um equilíbrio
estratégico, de objetivos e meios para se chegar lá. Quando a pura emoção
domina é um perigo, porque você leva ao nós e eles: está do meu lado ou está
contra mim?

A preocupação do senhor com a radicalização tem sido grande.

Radicalizar no sentido de ir à raiz da questão, não como oposição. O que é


central para um sujeito que não seja do Centrão fisiológico? Para mim, são
duas coisas basicamente, a crença na democracia e o sentimento de que é
preciso maior igualdade social, isso é o miolo do que é radicalmente centro.
Nesse livro, isso reaparece, porque faz parte de treinar a pensar no Brasil. Eu
tenho uma preocupação com a concentração de renda e poder, me preocupa
também que a diferença entre Nordeste e São Paulo seja muito grande. Você
não deve deixar que uma nação se divida. A função do Estado é ter maneira de
induzir o crescimento e equalizar as oportunidades. Está muito desigual o
Brasil.

O senhor diria que este livro é mais pessimista ou otimista?

A despeito de tudo, é mensagem de otimismo. Eu não posso ser pessimista.


Vim para São Paulo em 1940, vi esta cidade crescer e continua crescendo. Tem
18 milhões de habitantes e todos os dias de manhã tem pão, ônibus, luz
elétrica. Ainda é precário? Pode até ser, mas o Brasil mudou para melhor, não
foi para pior. Para a classe média alta, talvez a vida seja mais dura. Mas quem
pertencia a essa classe há 50 anos? Um grupo pequeno. De vez em quando eu
vou passear a pé na Avenida Paulista aos domingos, quando ela está fechada
para carros. Você vê o pessoal usufruindo a cidade, não tem briga, é só você
não ter medo dos outros. Estão desfrutando a vida. Isso não havia. É uma
experiência interessante. É gente que mora na periferia e vem para a Paulista,
para a Augusta, para o Minhocão aos domingos usufruir democraticamente da
cidade.

O conceito de democracia está em risco no Brasil?

Isso me preocupa. A juventude atual é mais bem-nascida do que a anterior.


Desfruta de algumas coisas como se elas fossem dadas. Não sei se isso vai
gerar solidariedade. Com quem as pessoas se preocupam na Europa? Com os
de fora, com os imigrantes. Aqui, não. São os de dentro que não têm. É preciso
despertar nos jovens desse grupo a consciência disso, sem fazer demagogia.

Por que a juventude chegou a um momento de descrédito com os partidos e


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as instituições?

A forma de organização da produção e da vida na sociedade, com a ligação


direta na internet, mudou as coisas. Os partidos não se adaptaram. Os
candidatos, alguns, sim. As instituições ficaram aquém das pessoas no mundo
todo e isso criou a ilusão de que você pode ter a democracia direta.

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Jair Bolsonaro

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