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13.10.

10 - BRASIL
Um momento crítico

Carlos Francisco Signorelli *

Adital -
O fato

As pesquisas, todas, davam como certa a vitória da candidata Dilma Rousseff, do PT, nas últimas
eleições majoritárias no país. O candidato oposicionista já tinha como certa a sua derrota,
manifestada no desânimo dos últimos dias em suas aparições públicas.

Entretanto, num movimento impossível de ser detectado pelas empresas de pesquisas do sentimento
público, muitas delas absolutamente idôneas e confiáveis, o resultado final das urnas, em 3 de
outubro, viu um empate entre a candidata apresentada pela continuidade do governo Lula e os
demais, levando uma eleição já consagrada no primeiro turno, para um insondável segundo
momento.

Baixado o momento de choque, as análises sólidas mostram não uma vitória da candidata Marina,
mas como desaguadouro dos votos de cunho moralista, em torno de questões religiosas e do aborto.
Praticamente pela primeira vez a internet foi usada para manchar reputações, agindo sobre
inverdades, sobre frases feitas, imagens dantescas, nas quais a candidata Dilma Rousseff ela
colocada como assassina, como guerrilheira, como algoz de criancinhas, esta última desenvolvida
pela própria esposa do candidato Serra na orla marítima do Rio de Janeiro. No lado da Igreja
católica, bispos assumem-se como direção de um organismo regional da CNBB e, sob o beneplácito
de alguns milhões de reais da campanha Serra distribuem milhões de folhetos por todas as igrejas e
colégios confessionais, explicitando o nome da candidata em quem católico não deveria votar,
nomeando-a e dando-lhe características demoníacas que não só nunca tinham sido provadas mas
como também já tinham sido desmentidas em pronunciamentos anteriores feitos pela candidata.

Estranha simbiose entre parte do episcopado e prelados e a coordenação de campanha do candidato


da oposição!

Por fim, do púlpito, presbíteros absolutamente mal preparados, faltos de teologia, pregavam o
antivoto em Dilma, sob a afirmação de quem o fizesse estaria cometendo pecado mortal. Um deles,
inclusive, brandia uma certa fórmula, ainda por ser entendida, de que não falava em nome dos
homens, pois que não era sacerdote dos homens, mas simplesmente sacerdote do Altíssimo.

Como dóceis criancinhas

Já o Vaticano II havia eliminado a concepção que de o laicato era como que "dóceis criancinhas
levadas pelas mãos da hierarquia". Sua vocação, já o dizia Paulo VI em sua Evangelii Nuntiandi,
deve se explicitar no mundo "no vasto mundo da política, da economia, dos meios de comunicação
social". Aparecida afirma que o mundo da política é, eclesialmente, o mundo dos leigos e das
leigas. Ali são eles os protagonistas da nova evangelização inculturada, como bem o disse "Santo
Domingo".

A Hierarquia, o episcopado, cerne da Igreja (a Igreja está aí onde está o bispo) tem a função
máxima do discernimento do pastoreio, mas nunca, de forma vociferante, assumir parcerias com
poderes políticos e indicar aos leigos e leigas que votem em determinado candidato ou, não votem
em determinada candidata, ainda mais embasadas em falsas premissas. Insistimos em que os leigos
e leigas não mais podem ser levadas como "dóceis criancinhas". O discernimento necessário deve

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se dar, certamente, em questões de fé e doutrina. Aí a palavra do pastor é fundamental para a vida
da Igreja e de seus membros, quando, então, devem ser acatadas. Como o diz a CNBB:
"Reafirmamos, ainda, que a CNBB não indica nenhum candidato, e recordamos que a escolha é
um ato livre e consciente de cada cidadão. Diante de tão grande responsabilidade, exortamos os
fiéis católicos a terem presentes critérios éticos, entre os quais se incluem especialmente o
respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana."

Sobre o aborto

O aborto não é um problema religioso, somente. E num mundo plural, onde o religioso não mais
determina a prática de todo o conjunto da sociedade, outro deve ser o caminho de tal discussão. De
nossa parte, nosso posicionamento radical contra toda forma de interrupção da vida por meios não
naturais é o de que o aborto ofende a dignidade do ser. O outro tem sua individualidade desde que é
gerado até que morre. Ele é, e não sou eu quem deve dar o seu ser. Ele está vivo e não sou eu quem
deve eliminá-lo. Isto é crime, é extirpá-lo da face da terra sem que ele o queira, sem que ele tenha
sido consultado.

Sou radicalmente contra o aborto. E não por motivos religiosos. Falar a alguém que a vida é um
Dom de Deus, é falar com pessoas religiosas, que têm a mesma fé que a nossa. Mas é necessário
falar com aqueles e aquelas que não a tendo, precisam refletir a partir de outro paradigma filosófico.
E aí é que eu entendo que o aborto é um atentado à vida, e um atentado hediondo, pois matamos
alguém profundamente indefeso, a quem deveríamos cuidar com a nossa própria vida. E estou
dizendo isto mesmo que amigas pessoais me venham criticar posteriormente.

Não creio que tenhamos o corpo como alguma propriedade nossa. O "meu" corpo não é para mim,
mas para o outro e para o Outro. Eu existo para construir um mundo com o outro, e ele, o outro, é
total responsabilidade minha. Dizer que o corpo é meu e eu faço com ele o que eu quiser é assumir
que o nosso corpo é, em última instância, uma mercadoria. E não é!

Mas a sociedade civil é quem vai determinar esse posicionamento, e nós, católicos, teremos que ir
às ruas, universidades, escolas, igrejas, para debatermos duramente contra esse tipo de postura. Mas
não sem antes analisar e exigir posturas na saúde pública que reduzam e até eliminem os milhões de
mortes de mulheres, principalmente as mais jovens, vítimas de relacionamentos infrutuosos que as
carregam como vítimas, primeiro de um abandono do macho e em seguida um abandono da família
e da sociedade. Ser contra o aborto de forma simples, e virando as costas ao crime de homens
irresponsáveis (como o diz Aparecida) e do sofrimento moral, psicológico e físico de mulheres que
são as maiores vítimas, é agir como o samaritano, o doutor na lei que passaram ao largo do homem
ferido pelos ladrões. Jesus nos clama a que sejamos o Samaritano, exatamente aquele que era
odiado pelos "homens de bem".

Em reunião no CEFEP, Centro Nacional de Fé e Política, organismo da CNBB, preocupamo-nos


com isso, ou seja, com candidatos que brandem a defesa da família, a luta contra o aborto, mas são
exemplos indignos de uma vida voltada à corrupção, ao dando (ao executivo) que dele se recebe(a
propina), o pagamento mensal pela pertença à bancada de sustentação do prefeito ou do governador,
homens e mulheres defensores da família, mas da sua família, colocando nos cargos mais elevados
de seus gabinetes e da estrutura administrativa todos os seus parentes mais próximos

A Defesa da Vida

Mas a DEFESA DA VIDA, parte constituinte do Documento 91 da CNBB e do documento do


CEFEP, do CNLB, das PASORAIS SOCIAIS e da COMISÃO BRASILEIRA DE JUSTIÇS E
PAZ, condição sine-qua-nom do voto consciente, tem que ser feita na sua totalidade. "Alguns

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candidatos fazem sua campanha enfocando questões de bioética de modo quase exclusivo.
Embora os valores que estes candidatos defendam neste campo sejam importantes, encontram-se
muitas vezes em contradição com as opções e compromissos que estes mesmos candidatos têm em
relação aos direitos humanos, à economia, à vida social e política e, de modo especial, às
necessidades dos pobres. A defesa de alguns valores importantes pode ser feita por estes
candidatos para iludir e esconder compromissos e práticas que estão, na verdade, a serviço da
morte"(Cartilha: Eleições 2010, o Chão e o Horizonte).

Ser cristão, seguir a Palavra Encarnada, é ter os gestos e ações daquele que disse: "Quem me vê, vê
o Pai" (João). Pessoalmente me choca o absurdo do Deus que se faz um de nós para nos mostrar
como é ser Humano. Fico chocado com esse Deus que exige coisas muito difíceis de fazer. Afinal,
acostumado às minhas missas diárias e aos terços que rezo nos 4 quilômetros que faço toda manhã
para ir à minha missa das 7h00, porque ele exige mais? Quando Lei Mateus 25, fico pensando em
como esse Humano Deus é exigente.

Quando, no interior da Basílica de Aparecida, eu o menor dos menores, convidado como


representante leigo do Brasil, me vi frente àquele tímido teólogo que chamamos de Bento XVI,
senti que era muito indigno para aquilo. Mas 5 minutos depois de iniciado seu discurso, senti a
grandiosidade de suas palavras, tanto que pensei em ter ouvido errado. Ele disse: "a opção
preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós,
para enriquecer-nos com sua pobreza (cf. 2Cor 8,9)"

Mas porque estou falando disso? Afinal, será que não misturei textos?

Não!

Quando 30 milhões de homens, cujo rosto era o da humilhação e da fome, deixam esse patamar de
injustiça e passam a fazer parte da classe média, consumindo mais alimentos, e vivendo mais
dignamente, isso é, sim, vida.

Isto é opção pelos pobres!

Quando 10 milhões de empregos com carteira assinada são criados, em verdade é, certamente, a
criação da vida não só para homens e mulheres que voltam a se sentir úteis e cidadãos de primeira,
sujeitos e não objetos, mas partícipes da vida social, incluindo também aqueles e aquelas,
principalmente crianças, de deles dependem.

Isto é opção pelos pobres!

Quando a mortalidade infantil, em função das políticas públicas adotadas ao longo dos últimos oito
anos, é reduzida a índices nem pensados pela Rodada do Milênio, alcançando metas que tinham
como parâmetro os futuros 20 anos, e quando organismos internacionais vêm ao Brasil para
entender e copiar tais políticas públicas, não só o nosso orgulho de brasileiros deve ser exaltado,
mas a nossa prática de cristãos deve nos chamar à alegria de ver que a Vida está sendo buscada
incessantemente em nosso país, através do comprometimento de seus governantes.

Isto é opção pelos pobres!

Assim, brandir a luta contra o aborto, desligada de outras lutas em defesa da plenitude da vida, não
condiz com o documento do organismo fonte da Igreja Católica no Brasil, ou seja, a CNBB.

Tive fome...

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Nesta mesma linha, não conseguimos eliminar de nossa mente dois textos bíblicos, Em Amós, um
clamor de Deus pouco ouvido entre nossas elites, daquelas que montam pomposas celebrações,
exigem língua morta, trocam a Palavra Encarnada em Jesus pelo Cristo oriundo de nossa fé
teologal: "Aborreço, desprezo as vossas festas e as vossas assembléias solenes não me dão
nenhum prazer. E ainda que me ofertais holocaustos, e ofertas de manjares, não me agradarei
delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o
estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias dos teus instrumentos. Corra porém o
juízo como as águas e a justiça como o ribeiro impetuoso."(Am 5,21-24)

Como é fácil pensar a política a partir de princípios teóricos! Como é fácil viver a religião cristã
sem a recorrência ao ensangüentado Jesus que viveu, anunciou e morreu em virtude da busca de
vida plena aos oprimidos de sua época. Como é fácil esconder suas opções preconceituosas e
elitistas por trás de afirmações falsas, mas que caem como uma luva e arredondam a consciência.
Vota-se num candidato, e vai-se para casa com a consciência tranqüila porque conseguiu afastar a
"comedora de criancinhas", a "guerrilheira assassina", e nem se dão conta de que a lei do aborto foi
aprovada por atos administrativos exarados exatamente do candidato que ousam chamar de ilibado.

Aliás, como é fácil acusar uma e livrar outro, o mesmo que em novembro de 1998 assinou uma
norma acerca da "Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra
mulheres e adolescentes". Nesta norma, o antigo Ministro e hoje candidato trata o aborto como um
direito da mulher. E naquele momento, a própria CNBB critica a norma e afirma: "Dispomo-nos a
fazer o que estiver a nosso alcance para assistir as mulheres estupradas, sem, porém, jamais
atentarmos contra a vida do nascituro."Porque uma é demônio e outro é anjo?

Esta discussão não se faz assim, aqui, usando-se meias palavras e imagens dantescas para manchar
reputação e buscar alterar resultados eleitorais. Ela será, quando o for, feita pela sociedade civil.

Mas nada importa quando o que está á frente é a disposição de afastar deste país essa raça que ousa
colocar os pobres no centro do cenário político nacional e internacional.

Nem importa ouvir a Palavra Encarnada dizer, em Mt 25: "vinde benditos de meu Pai, porque tive
fome..." Afinal, as celebrações litúrgicas ( nas quais as mulheres cobrem a cabeça com véus), as
comunhões de joelhos, da mão do padre e na língua, substituem a reflexão sobre os milhões de
homens, mulheres e crianças que tiveram fome e foram saciados, que tiveram sede e estão sendo
feitos todos os procedimentos para que sejam saciados, estavam nas ruas e estão já esperando seu
teto...

Nada disso é importante, desde que os pobres sejam alijados, a senzala cale-se, e se dê, de novo, a
voz à Casa Grande.

O retorno das elites

Vinculadas na internet, mas também ouvidas em nossos locais de trabalho e nas ruas, aqui no
Estado de São Paulo, ataques preconceituosos de uma elite que, sendo poder ao longo dos últimos
500 anos, não consegue entender que o mundo mudou, que o Brasil mudou, que a América Latina
mudou, Estamos em crise final do paradigma da modernidade e com ela novos sujeitos históricos
estão batendo à porta para dizerem que existem e que querem ser, somo todos os demais, sujeitos de
nossa história. Isso o diz claramente o Documento 91 da CNBB.

Se a luta contra o aborto é fundamental, assim também é fundamental olharmos que a vida plena foi
buscada e, mais do que em todos os tempos de nossa história de 500 anos, ela foi construída como
plano de governo que a priorizou, coisa que nunca aconteceu quando as elites estiveram à frente do

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Estado brasileiro, numa complexa relação entre o público e o privado. Afinal, "esse processo
perdura até hoje com a soberania do privado, da não distinção entre os dois âmbitos no processo
político-administrativo do Brasil. Na verdade, o resultado deste processo histórico foi que os
setores dominantes nunca se preocuparam em forjar um projeto nacional, um projeto que levasse
em conta o conjunto da sociedade brasileira, o bem comum de todos os brasileiros. Construiu,
sim, um Estado voltado para, com e por meio destes mesmos setores dominantes."(Documento 91
da CNBB, 27) E quando se busca a extinção desse modelo genocida, através da inclusão de amplos
setores antes excluídos, brandam-se bandeiras falsas, falaciosas, mas que, exaradas por autoridades,
têm aura de verdade.

Quando ouvimos segmentos não esclarecidos da classe média dizendo que este governo tira
dinheiro de seu bolso, dos impostos (que acreditam altíssimos) que pagam, e os dão para
vagabundos nordestinos que não trabalham e vivem nababescamente à sombra e água fresca, não
são somente preconceituosos, mas também incompetentes no ver, estudar e compreender o que está
ocorrendo neste país.

E é isso que devemos defender a ferro e fogo!

Recordando o Documento 91 da CNBB ("Pela Reforma do Estado com Participação Democrática"),


a Elite brasileira, nascida de um processo de colonização predatória, como empreendimento que
tinha que dar lucros à metrópole, ao longo dos séculos e das transformações políticas ocorridas (
Independência, República, Revolução de 30) construiu um país e um processo político de si para si.
Nunca esteve em seu horizonte a construção de uma Nação brasileira, já que não consideravam os
negros, os mestiços, os índios, os imigrantes pobres, como componentes de "seu país". Esta "plebe
ignorante" não podia falar e nem agir, deixando que isso fosse feito pelos engravatados de plantão,
pais e filhos da mesma elite. Quanto às mulheres das elites, estas serviam para exigir das mucamas,
antes, e depois das semi-escravas domésticas, o serviço aos potentados da casa. Seus filhos iam à
Europa para saberem ser gente, para entenderem as língua da civilização e voltarem com hábitos de
gente, e, como sempre, ocuparem os cargos políticos que a eles já estavam guardados. Ao rebotalho
que se constituía em imensa maioria, a chibata, os baixíssimos salários, a morte inglória, a
mortalidade infantil em mais de 500 por mil nas vivos vivos, e as encostas dos morros e as
periferias infectas das cidades. E tudo aquilo que vislumbrava pequenas modificações, pequenas
manifestações que a "plebe ignorante" empurrada pela fome, sua e de seus familiares, era visto
como motivo de golpe: 1950, 1954, 12955, 19565, 1961, 1964.

O Brasil precisa continuar mudando!

O Brasil mudou, e isto sem alterações constitucionais. Não houve golpe (como alguns
representantes da direita, mancomunados com a grande mídia, tentaram dar na última década). A
democracia está em pleno vigor.

O processo eleitoral, construído dentro dos parâmetros legais já consolidados, precisa continuar o
seu curso. Apenas temos que nos perguntar o lugar político que ocupamos, o que fazemos dele, e, se
estivermos no campo religioso, que o façamos dentro dos preceitos que regem a nossa fé.

Fazer acordos espúrios, brandir campanhas anti-aborto que absolutamente significam uma opção
não religiosa, mas de classe, de uma elite que em sua falência histórica, está perdendo o poder, isso
é imoral. E é perigosa! Mais perigosa ainda quando todo o material distribuído é pago por uma das
campanhas. O teólogo Padre Comblim, em texto memorável em defesa de D. Demétrio ousou tocar
na ferida: na Europa a Igreja já se esvaziou. No Brasil, a opção pelos pobres foi sempre o seu norte,
e, com isso, os pobres a entendem como sua defensora.

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Mas determinadas atitudes de algumas de suas lideranças podem estar pondo tudo isso a perder, em
função de suas alianças com as classes dominantes.

* Centro Nacional Fé e Política (CEFEP), Organismo da CNBB