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O Lugar Antropológico - Marc Auge

Qual é o lugar de pesquisa para o etnólogo? Auge vem afirmar que seria o mesmo lugar onde
ocupam os indígenas, ou aqueles a quem estuda, onde eles trabalham e defendem contra ameaças
externas. Esse autor vem trazer em sua obra “Não Lugares” uma compreensão quanto a pesquisa
antropológica, remetendo a ideia das pesquisas pelos etnólogos sobre indígenas. Aqui nesse texto
se tentará fazer um paralelo das explicações dadas por Auge com a pesquisa na feira.

Auge vem afirmar que o lugar comum tanto dos etnólogos quanto dos indígenas pode ser
considerado invenções, já que a marca social do solo nem sempre é original. O etnólogo ao
reencontrar essa marcação através de sua intervenção e curiosidade, devolve aos indígenas o gosto
pelas origens que os fenômenos ligados à atualidade atenuaram como a migração de cidades,
novos povoamentos e extensões das culturas industriais.

Pensando isso para o campo da feira, significaria dizer que a inserção do pesquisador no meio dos
feirantes poderia estar estimulando ou motivando um certo orgulho ou interesse em continuar
participando da feira. Ao mesmo tempo, não se pode afirmar que não exista uma valorização sendo
criada não só pelos feirantes envolvidos na pesquisa, como pelo pesquisador.

De acordo com Auge, existe uma dupla invenção ou concepções criadas na pesquisa antropológica,
uma refere-se ao pensamento dos indígenas diante do lugar e outra a dos pesquisadores ou
etnólogo. A primeira invenção Auge chama de Fantasia indígena que remete aos tempos imemoriais
de uma terra intocada, um mundo fechado, onde tudo já se conhece e se assegura a estabilidade
através da legitimidade dos relatos de origem e o calendário de rituais.

Esses artifícios ou ideias propagadas pelos indígenas exprimem a identidade do grupo, defende
uma tribo contra as ameaças externas e fissões internas, conservando um sentido da identidade da
linguagem. Mas essa fantasia do lugar fundado, o qual é incessantemente refundado, é considerada
uma semifantasia, visto que se deve aos dispositivos de adivinhação e prevenção. A partir destas
estratégias é possível fazer com que ninguém duvide da realidade do lugar comum e dos poderes
que o ameaçam ou o protegem, nem a realidade dos outros grupos. Nada permite duvidar desse
mundo fechado e auto-suficiente com o qual se identificavam os mitos aproximados aos solo e que
fundava uma singularidade.

A feira pode ser considerada um lugar onde se construiu uma história, costumes, modos de se
portar na comunidade. Há a fantasia de que ser um lugar que nunca se acabará, já que muitas
gerações já passaram por esse lugar. Porém essa fantasia não se sustenta diante das diversas
ameaças de uma facção de pessoas que não toleram a feira, geralmente comerciantes locais que
sentem ter suas vendas prejudicadas. Algumas feiras possuem sua associação de feirantes, mas
nem todas se mantém e continuam na luta pelo bem comum, enfim, algo a se investigar caso a
caso.

A segunda invenção nas pesquisas antropológicas Auge denominou de Ilusão do Etnólogo o qual
remete a aquilo que se estuda, a uma sociedade transparente, que acaba encontrando a
semifantasia dos indígenas, sendo considerada uma semi-ilusão. O etnólogo fica tentado a
identificar aquele que estuda através da paisagem e espaço descoberto e que eles indicam. Mas os
indígenas ignoram a história, sua mobilidade, a multiplicidade de espaços dos quais se referem e a
flutuação de suas fronteiras, por sua vez de suas identidades. Tentam se apegar a uma estabilidade
do passado.

A esse movimento de querer manter uma imagem identitária arraigada ao passado poderia se
chamar de “tentação da totalidade”. Auge expõe duas ideias de totalidade do fato social: uma que se
remete a Mauss e outra de Levi-Strauss. A primeira se ramifica em mais duas que acredita na
totalidade ser a soma das diversas instituições ou também ao conjunto das diversas dimensões que
compõem a individualidade de cada um. De acordo com Mauss, o homem médio na sociedade
moderna seria qualquer um que não pertencesse a elite. Nesse sentido, a sociedade moderna
possuiria um objeto etnológico dominável, localizado no tempo e espaço. Levi-Strauss vem afirmar
que o fato social é algo totalmente percebido, cuja interpretação está integrada a visão que se tem
de qualquer um, baseando-se na concepção do homem “médio” ou “total”, que é afetado por tudo e
qualquer coisa. De qualquer forma, as ideias de totalidade e sociedade localizada remetem a uma
transparência entre cultura, sociedade e indivíduo.

Uma função ideal para os etnólogos é caracterizar particularidades singulares, de forma que cada
etnia fosse diferente da outra. Porém essa visão culturalista da sociedade tem limites, pois
substantificando cada cultura singular se ignora tanto o caráter problemático (quando há reações
ante às outras culturas e movimentos bruscos da história), quanto a complexidade da trama social e
de posições individuais. Apesar das desvantagens em se afirmar uma postura identitária definitiva
uma sociedade, não se deve ignorar a fantasia indígena e a ilusão etnológica que, na organização
do espaço e constituição de lugares, compõe as motivações e uma das modalidades práticas
coletivas e individuais no interior de um mesmo grupo social.

Voltando ao campo da feira como exemplo, a concepção que se construiu ao longo da história que
se tem desse lugar já produz nos indivíduos algum afeto e os prepara para o que encontram nesse
ambiente. Ao mesmo tempo, cada feira tem suas particularidades, seus modos de se organizar, as
pessoas que a compõem, entre outras características que são compartilhadas numa comunidade.
Essas características compartilhadas contribuem para se construir uma opinião generalizada sobre
esse lugar, que ao mesmo tempo faz imaginar uma identidade contribui na união entre os que fazem
parte, principalmente, os feirantes. Estes podem se sentir impelidos a organizar associações que os
ajudem a manter esse lugar.

Auge vem afirmar que se constitui uma necessidade para as coletividades pensar a identidade e a
relação, que para tanto deve simbolizar os constituintes da identidade partilhada (conjunto de um
grupo), da identidade particular (determinado grupo ou indivíduo) e identidade singular (indivíduo ou
grupo não semelhante a nenhum outro). Para fazer essa simbolização, um dos meios é o tratamento
do espaço, que faz com que o etnólogo se sinta tentado a dar sentido do espaço ao social, como
produzindo algo definitivamente. Esse é um percurso “cultural”, que se faz passar pelos signos mais
visíveis, instituídos e reconhecidos da ordem social, o qual esboça um lugar comum.

A esse lugar comum Auge chama de Lugar Antropológico, que se caracteriza por uma construção
concreta e simbólica do espaço, mas que não dá conta das contradições da vida social. Referir-se-ia
a todos a quem designa naquele espaço. Este lugar seria um princípio de sentido para aqueles que
habitam e um princípio de inteligibilidade para quem os observa, mas com uma escala variável.
Auge acredita que existam pelo menos três características comuns que são identitárias, relacionais
e históricas. A primeira pode ser representada como o lugar do nascimento como constitutivo da
identidade individual, um lugar próprio, singular e exclusivo. A segunda característica diz do lugar
que, para Michel de Certeau, tem seus elementos distribuídos em relações de coexistência, ao lado
do outro, onde num mesmo lugar podem coexistir elementos distintos e singulares. Por último, o
lugar histórico ao conjugar a identidade e a relação, definindo uma estabilidade mínima. “O habitante
do lugar antropológico não faz história, vive na história” (AUGE, 1994, p.53).

Os percursos e recursos que desaparecem no lugar antropológico na realidade se transformam, pois


já não falam mais de lembranças e recordações do tempo que passa ou o indivíduo que muda. Os
habitantes se sentem turistas da intimidade desse lugar, espectadores de si a partir do momento que
projetam os lugares que viveram através de celebrações, rituais e encenações. Essas
transformações trazem uma série de consequências, como no fato do lugar antropológico ser
ambíguo, uma ideia parcialmente materializada ou mitificada, quando varia a depender do lugar e do
ponto de vista de quem ocupa. Além disso, uma série de marcas propostas e impostas pelo lugar
quando desaparecem não voltam a ser preenchidas com facilidade. O etnólogo, sensível ao que
observa, busca a proximidade do sentido, os signos.

A feira se encaixa e pode ser considerada um lugar antropológico, pois apesar das mudanças que
carrega durante seu percurso histórico, diante das diversas gerações que passaram por ela, ainda
se compõe um sentido, modos de experienciar a feira, um identidade que marca esse lugar. Aliado a
essa construção identitária da feira, existem as contradições, as pesculiaridades de cada tipo de
feira, a depender da localidade, dos habitantes que a compõem, dos feirantes que a organizam, de
toda uma gama de fatores que não a tornam simples de se identificar, mas não deixa de promover
uma ligação forte entre aqueles que fazem a feira.

Outra característica que pode ser constatada no lugar antropológico, de acordo com Auge, é o fato
de ser geométrico. É possível percebê-lo em três formas espaciais simples que são aplicadas em
dispositivos institucionais diferentes, que constituem as formas elementares do espaço social. Essas
formas simples são a linha, a interseção de linha e o ponto de interseção que refletem nos
dispositivos de itinerários, cruzamentos e centros os quais podem até coincidir parcialmente por não
serem noções absolutamente independentes. Os itinerários são definidos como os locais de
ajuntamento; já os mercados são pontos fixos que se encontram nos itinerários, funcionando como
centro de atração. O centro de cidades são lugares ativos onde ficam espaços de maior
movimentação como lojas, bares, hotéis, praça, sendo neste lugar que funciona a feira. O sistema
rodoviário é que liga esses centros através de uma rede. Constrói-se dessa maneira uma
complexidade institucional com esses vários espaços.

Já se sabe que a identidade e a relação estão no cerne de todos os dispositivos espaciais clássicos
estudados pela antropologia. Auge vem afirmar que a história também faz parte dos espaços, pois
também possuem duração. Além disso, as formas espaciais simples só se concretizam no e pelo
tempo. Criam-se as condições de uma memória que se vincula a certos lugares e contribui para
reforçar o caráter sagrado. Entende-se que a noção de sagrado está ligado ao caráter retrospectivo
que decorre do caráter alternativo dos rituais.

Entre outros recursos que fazem menção a história do lugar existe o monumento que indica uma
idéia de permanência, duração, continuidade das gerações. Cria-se uma ilusão monumental que
permite a história não ser uma abstração. O espaço social possui muitos monumentos não
diretamente funcionais que trazem a idéia de preexistência e que sobreviveram. Paradoxalmente,
uma série de rupturas e descontinuidades no espaço representam a continuidade do tempo.

Pode-se considerar, de acordo com Auge, o corpo humano também uma porção do espaço, um
espaço construído, hierarquizado, onde pode ser investido do exterior no plano da imaginação. O
corpo seria então pensado como território, um lugar de culto. Nesse sentido o corpo centralizado se
transforma em um monumento e dentro de um simbolismo político faz com que se expresse o poder
da autoridade unificada. Este corpo simbolizado numa única figura soberana representaria as
diversidades internas de uma coletividade social.

O soberano geralmente ocupa uma residência fixa, condenado a quase imobilidade, exposto no
trono real, apresentado como objeto aos súditos. Percebe-se com isso uma passividade do corpo
soberano. Mas existem outros corpos ou objetos, como o trono ou a coroa, que substituem o corpo
do soberano para garantir o centro fixo do reino que o condena a longas horas de imobilidade.
Interessante notar que justamente essa situação de imobilidade que reforça a perenidade da
dinastia, que ordena e unifica a diversidade do corpo social. É através da identificação do poder num
lugar fixo onde se abriga ou exerce como monumento ou representante que consta a regra do
discurso político dos Estados modernos. A centralidade seria expressão mais aproximada para se
pensar simultaneamente unidade e diversidade. Percebe-se que a metáfora geográfica perece dar
conta da vida política que se quer centralizada.

Há nos espaços coletivos uma reinvindicação à profundidade histórica, bem como a abertura para o
exterior, um equilibre o outro. Para tanto, vem-se colocando uma série de painéis que constituem
uma espécie de cartão de visitas, que atraem o passante e turista, mas que só dá certo ao
relacioná-los à história e a identidade arraigados na terra. Essa alusão ao passado torna mais
complexo o presente. Entre os artifícios para acrescentar essa dimensão histórica tem-se os
monumentos datados também se transformam em provas de autenticidade dessa história resgatada
que provoca um interesse por si só. Além disso, tem os nomes de ruas, na maior parte das vezes
são notabilidades da vida social e nacional ou grandes fatos históricos. Essa incessante referência a
história provoca frequentes coincidências entre itinerários, cruzamentos e monumentos.
Mas a relação com a história está em vias de se artificializar, quando cidades se transformam em
museus porque surgem desvios, rodovias e trens de alta velocidade que convidam a ignorar as
marcas identitárias da terra e vestígios da história. Esse contraste ou paradoxo marcado por
estradas de cidades, grandes conjuntos, zonas industrializadas e supermercados são locais onde
existem os painéis que convidam a visitar monumentos antigos. Os locais de passagem ou grande
aglomeração efêmera de sujeitos são usados a fazer referência a aquilo que dura, que possui
história. Multiplicam-se as referências às curiosidades locais que deveriam nos reter, mas que na
realidade só faz apenas alusão ao tempo e lugares antigos dizendo algo daquele espaço presente.
Postado por Andressa às 11:30
Marcadores: feira, resenha

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