Вы находитесь на странице: 1из 631

(...

) este trabalho aprofunda substancialmente nossa compre-


ensão sobre a complexidade da escravidão moderna. Stanley
Engerman e Eugene Genovese, University of Rochester.

(...) esta tese mudou completamente a maneira de entender


a economia do Império. Maria Lígia Coelho Prado. Professora
emérita, USP.

(...) Até agora os historiadores consideravam a escravidão


brasileira como parte intrínseca e inseparável do setor expor-
tador; por isso evitamos nos confrontar com esse fenôme-
no. Martins Filho e Martins esfregaram nossos narizes nele.
Warren Dean, New York University.

(...) Roberto Martins tem contribuído muito para derrubar ver-


dadeiros mitos acerca da economia e demografia de Minas do
século passado. Douglas Libby, História UFMG.

(...) Roberto Martins [demonstra] o que parecia indemonstrá-


vel, desfazendo, de maneira veemente uma série de hipóteses
já cristalizadas como verdade em alguns dos melhores traba-
lhos de história econômica. José Roberto Amaral Lapa. Profes-
sor emérito, UNICAMP.

(...) as pesquisas e formulações teóricas de Roberto Martins fo-


ram o ponto de partida desta profunda revisão. Clotilde Paiva e
Marcelo Godoy, FACE UFMG.

ISBN 978-85-63449-08-5

9 788563 449085
Crescendo em silêncio:
A incrível economia escravista de Minas Gerais no século XIX
Roberto B. Martins

Crescendo em silêncio:
A incrível economia escravista de Minas Gerais no século XIX

ICAM - ABPHE
Belo Horizonte
2018
Título original: Growing in silence: the slave economy of nineteenth-century Minas Gerais, Brazil.
Tese de doutorado, Universidade de Vanderbilt, Nashville, 1980.

Publicação realizada através de convênio com o Ministério da Cultura – convênio 874626/2018.

Coordenação Editorial: Lucilene Rodrigues


Revisão: Maria do Carmo Salazar Martins
Projeto gráfico e capa (sobre imagens de Debret): Sérgio Luz
Editoração eletrônica: Alan David Vasconcelos

M386

Martins, Roberto Borges

Crescendo em silêncio: a incrível economia escravista de Minas


Gerais no século XIX / Roberto B. Martins. – Belo Horizonte: ICAM: ABPHE,
2018.
632 p.: Il. tabs., gráfs.; 18 cm.

Inclui bibliografia.

ISBN 978-85-63449-08-5

1. Trabalho escravo – Minas Gerais – Séc. XIX 2. Minas Gerais –


Condições econômicas – Séc. XIX I. Título
CDD 326
CDU 326

ICAM
Instituto Cultural Amilcar Martins

ABPHE
Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica
Para Duca
ICAM – Instituto Cultural
Amilcar Martins

É
com grande entusiasmo que o Instituto Cultural Amilcar Martins se junta
à Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica para a
publicação de Crescendo em Silencio: a incrível economia escravista de Minas
Gerais no século XIX, de Roberto Martins, que contém a primeira edição integral,
em português, da importante tese Growing in Silence: the Slave Economy of Ninete-
enth-Century Minas Gerais, Brazil, defendida pelo autor na Universidade de Van-
derbilt, nos Estados Unidos, em 1980.
Apesar de até hoje só ter sido divulgado por meio de artigos, seminários e con-
gressos, o trabalho de Roberto Martins tornou-se leitura e referência obrigatória
para os estudiosos da escravidão no Brasil, especialmente para aqueles interessados
na história da província de Minas Gerais. É considerado um verdadeiro divisor de
águas, não apenas por sua reinterpretação da história de Minas, mas também por
desafiar, com sucesso, a visão tradicional, até então dominante na historiografia
brasileira e internacional, de que a escravidão só teve viabilidade nas economias
exportadoras de produtos primários.
Há quase 40 anos, as teses defendidas por Roberto Martins têm estado no cen-
tro de um debate acadêmico internacional sobre a origem da população escrava e a
própria natureza da economia mineira do século XIX, que foi iniciado nas páginas
da prestigiosa Hispanic American Historical Review, e se prolonga até os nossos
dias, enriquecendo cada vez mais a historiografia sobre a escravidão, sobre Minas
e sobre o Brasil.
Para nós do ICAM, que somos uma instituição dedicada a promover estudos e
pesquisas sobre a história e a cultura de Minas, não há como exagerar a importân-
cia da presente publicação, que certamente terá grande impacto no conhecimento
sobre o nosso passado. Obrigado, Roberto, por esse livro que já devia estar entre
nós há muitos anos, e que é muito benvindo agora.

Letícia Martins Azeredo


presidente do ICAM
ABPHE – Associação Brasileira de
Pesquisadores em História Econômica

A
tese de doutorado de Roberto Borges Martins – “Growing in silence: the
slave economy of nineteenth-century Minas Gerais, Brazil” - defendida em
1980 na Vanderbilt University, teve uma trajetória única no pensamento
social brasileiro. Texto muito citado e nem sempre lido, tornou-se referência obri-
gatória entre aqueles que estudam a economia brasileira no oitocentos e impôs
reflexões e inflexões no fazer historiográfico que até hoje são sentidas para a com-
preensão da importância que a escravidão teve na formação de nossa sociedade.
Orgulhosa de ter o professor Roberto como um dos seus mais antigos mem-
bros, e orgulhosa de participar, juntamente com o ICAM, da publicação de tão
importante obra, a ABPHE reafirma seu compromisso de apoiar e difundir estudos
que, ao deslindarem nosso passado, contribuam ativamente para a discussão crítica
de nosso presente.

Luiz Fernando Saraiva


presidente da ABPHE
Agradecimentos

A
milcar Vianna Martins, foi o pai mais generoso do mundo. Homem pobre
de dinheiro – viveu e criou seus nove filhos com o salário de professor –
nunca teve nada de seu, para que pudéssemos ter tudo. Sem nenhum luxo
e com muita luta, nos deu tudo o que realmente importa, principalmente uma edu-
cação de qualidade, e uma casa cheia de livros.
Médico, biólogo, e cientista, tinha uma vasta cultura humanista e era um incan-
sável lutador pela democracia, no Brasil e no mundo. Voluntário na FEB, lutou con-
tra o nazismo na Itália. Sua militância pela justiça social o levou a ser perseguido
pela ditadura militar de 64.
Era apaixonado pela UFMG, onde se formou em medicina aos 22 anos, e foi
professor durante mais de quatro décadas. Só se afastou dela por alguns momentos,
para dirigir instituições nacionais de pesquisa, ou quando, cassado em 1969 pelo
AI-5, teve de encontrar trabalho em outros países. Voltou como Professor Emérito,
em 79, e retomou suas pesquisas até morrer, anos depois, vítima do mal de Chagas,
que o pegou no campo de trabalho. Hoje é nome de um auditório na Faculdade de
Medicina, de uma rua no campus e do prédio do Instituto de Ciências Biológicas, o
que o deixaria muito feliz, porque estas eram as suas casas.
Sem nunca o ter dito, incutiu em todos nós – talvez excessivamente – a ideia de
que o dinheiro não vale nada, que a única coisa que importa é estudar, e pesquisar,
e viver a academia – de preferência na UFMG. Gosto de pensar que tentei seguir
esse caminho. Queria que ele estivesse aqui agora, e em sua homenagem publico
esse livro através do ICAM, instituto cultural que leva o seu nome.
Minha mãe, Beatriz, era uma mulher culta e carinhosa, que cuidou de nós – tam-
bém excessivamente – até o dia em que morreu, perfeitamente lúcida, aos 97 anos.
Desenhava, e pintava muito bem, bordava e fazia ótimos doces. Lia muito, escreveu
um livro, e nos obrigava a levantar cedo para não perdermos nenhuma aula.
Meus irmãos e irmãs, Lúcia, Renato, Ângela, Eliana, Sérgio, Amilcar, Letícia e
Eduardo, completaram o ambiente alegre, seguro e inteligente, no qual tive a feli-
cidade de crescer. Sou muito grato a todos, por serem do jeito que são, ou que
foram, e por formarem, com seus maridos, mulheres, filhos e netos, uma família
maravilhosa.

Graduei-me em economia na UFMG, e tornei-me professor da Face, por con-


curso público, com 23 anos, em 1971. No ano seguinte surgiu uma oportunidade de
fazer pós-graduação nos Estados Unidos. Fui aceito na Universidade de Vanderbilt,
mas faltava resolver o problema do dinheiro. As bolsas que pedi à Capes e ao CNPq
foram recusadas, e com muito custo consegui saber que o problema era político.
Meu pai tinha sido cassado pouco antes, junto com outros professores e pesquisa-
dores de esquerda, da UFMG, da USP, da UFRJ, de Manguinhos, e de outras uni-
versidades. As “autoridades” diziam que eu tinha “ficha no DOPS”. Anos depois,
com a divulgação dos arquivos da repressão pelo Arquivo Público Mineiro, fiquei
sabendo que tinha mesmo. Meu “prontuário”, de nº 10.107, é um atestado da estu-
pidez da ditadura, pois diz que eu era, ao mesmo tempo, do Partidão e da AP (da
esquerda católica), que eram inimigos mortais no movimento estudantil. Absurdo
total – eu era só do Pecezão – mas a tal ficha me custou as bolsas.
Fui socorrido pelo Professor Werner Baer, de Vanderbilt, e pela UFMG. Wer-
ner me conseguiu uma bolsa da Ford Foundation, para pagar as passagens de ida
(minha e da Duca, já éramos casados), e as tuition and fees da universidade. O
departamento de economia, a Face e a reitoria da UFMG concordaram em me dar
licença remunerada e continuar pagando meu salário de “auxiliar de ensino”. O
dinheiro era pouco, e era em cruzeiros. Nossa vida oscilava com o câmbio – cada
desvalorização era um susto, uma maxi em 79 quase nos fez passar fome. Mas aos
25 anos tudo é festa – o Simonsen desvalorizava o cruzeiro, a gente comia macar-
rão, e a vida seguia em frente. Voltei doutor, Duca voltou mestre.
Sou profundamente grato por isso ao meu departamento, à minha faculdade, e
aos reitores Marcelo de Vasconcelos Coelho, Eduardo Osório Cisalpino e Celso de
Vasconcelos Pinheiro que, mantendo a tradição de resistência da UFMG, desobe-
deceram à ditadura e viabilizaram meu doutorado.
Agradeço também, de todo coração, a Werner Baer, a quem devo a aceitação em
Vanderbilt e a bolsa da Ford, e de quem me tornei grande amigo, até sua morte, em
2016. Depois fiquei sabendo que não fui o único a receber esse socorro. Academica-
mente, Werner era aberto a todas as ideologias, e a todas correntes de pensamento.
Pessoalmente não era um homem de esquerda, mas ficou conhecido por ajudar
pessoas atormentadas por ditaduras, em vários países. Ajudou Celso Furtado, per-
seguido no Brasil, a conseguir uma posição em Yale. Em Vanderbilt fui colega e
amigo de José Almino Alencar, filho de Miguel Arraes, que também fora para lá
ajudado por ele. Fui também contemporâneo de vários hispano-americanos resga-
tados por ele das horrorosas ditaduras da América Central daquele tempo. Logo
depois de 1973 começaram a chegar alguns chilenos. Em 1977, foi a vez do meu
irmão Amilcar, que já tinha sido preso e julgado duas vezes por tribunais militares,
e vivia na corda bamba, sempre com risco de novas prisões. Werner viabilizou sua
ida para Illinois onde, com grande ajuda de Joseph Love, conseguiu recursos para
financiar seu doutorado e sua manutenção.
Por várias razões, sou também muito agradecido a meu sogro, Guttenberg
Salazar Júnior. Assim como meu pai, ele era médico, funcionário público e pobre.
Acho que foi a pessoa mais bondosa que conheci. Ajudava todo mundo. Tratava de
graça do pessoal da favela vizinha de sua casa. Era um homem simples e corajoso.
Nos anos de chumbo, costurava, engessava e remendava, escondido, militantes da
esquerda clandestina que, feridos pela repressão, não podiam aparecer nos hospi-
tais. Além de ser um grande sogro e um grande amigo até morrer, o Gute, mesmo
sendo apenas remediado, nos ajudou financeiramente várias vezes, durante o dou-
torado, quando a coisa apertava.

Qualquer estudante de economia que tenha passado por Vanderbilt no terceiro


quartel do século XX guarda uma forte lembrança de Nicholas Georgescu-Roegen,
um romeno de maus bofes, com quem fiz cursos de advanced statistical methods e
de teoria econômica avançada. Era um matemático e estatístico da pesada, foi aluno
de Karl Pearson e de Joseph Schumpeter, e tornou-se um economist’s economist
mundialmente respeitado. Foi um importante teórico heterodoxo da economia,
precursor de concepções revolucionárias, e criador da bioeconomia ou economia
ecológica. Era também um exímio torturador de estudantes, mas me dei muito bem
com ele, e tirei notas excelentes em todos os seus cursos, onde aprendi o pouco que
sei de estatística. Georgescu escreveu que eu tinha “levado encantamento às suas
aulas” – “a student who brought delight in my classes” – e achava que eu deveria me
tornar um economista teórico. Sou muito feliz por não ter seguido seu conselho.
Rudolph Blitz, meu professor de história econômica, era austríaco e tinha os
erres mais rascantes que já ouvi. Dizia que nunca mais voltaria para a Áustria, por-
que, de um país de artistas, ela havia se transformado em um país de innkeeperrrrs.
Tornei-me amigo dele – eu era o único estudante do doutorado em economia que
fazia um field em história econômica, e ele era o único professor de história do
departamento de economia. Com Rudi Blitz fiz bons cursos de história econômica
da Europa e dos Estados Unidos, além de vários cursos de leituras sobre escravidão
no Caribe, economia da escravidão, questões metodológicas em história econô-
mica e outros.
James Wesson era um fantástico professor do Departamento de Matemática,
onde fiz os cursos do meu outro field. Escreveu um belo livro de álgebra linear,
e fui da turma de cobaias, onde esse livro foi testado. Fiz com ele dois cursos de
matrizes e sistemas lineares, nos quais, sem nenhuma frescura, me fez ver como a
matemática pode ser bonita e prazerosa. Até aprendi um pouco.
Agradeço também a Paula Covington, das Joint University Libraries, em Vander-
bilt. Mrs. Covington era a bibliotecária especializada em assuntos latino-americanos,
e me ajudou, incontáveis vezes, a encontrar, em bibliotecas do país inteiro, os livros
raros e os artigos que eu precisava para a pesquisa da tese, e não encontrava em
Vanderbilt. Fiquei emocionado ao saber, no ano passado, por meio de Marshall
Eakin e Jane Landers, que Mrs. Covington continua lá, em seu posto, ajudando
estudantes in distress.
Samuel Morley era um excelente professor de Macroeconomia e foi meu orien-
tador na tese. Já tínhamos um ótimo relacionamento antes, e ao longo do traba-
lho nos tornamos muito amigos. Sou-lhe muito grato pela liberdade, pela atenção,
pelas muitas horas de conversa, e pelas críticas e sugestões com que enriqueceu
meu trabalho.
Além de Morley e Blitz, também fizeram parte da banca da tese, os professores
Andrea Maneschi e William Thweatt, do Departamento de Economia, e Eul Soo
Pang, do Departamento de História, aos quais agradeço por seus comentários, crí-
ticas e sugestões.

Eustáquio José Reis é meu amigo desde 1959, no Colégio Estadual e depois na
faculdade. Nossa amizade resistiu (talvez por isso mesmo) ao fato de morarmos
em cidades diferentes desde 1970. Resistiu aos quatro anos em que trabalhamos
juntos no IPEA (ele no Rio e eu em Brasília). Resistiu até mesmo ao grande cisma
político que rachou o Brasil nos últimos anos. Além de amigo, o Bola é um pre-
cioso interlocutor, tanto para bobagens quanto para conversas sérias. É para ele que
pergunto todas as (muitas) coisas de macroeconomia, de econometria, e de vários
outros assuntos que não sei. Foi ele que me apresentou, em 1974, quando estudava
no MIT, à hipótese de Domar sobre as causas da escravidão, através da qual cheguei
a Wakefield, Merivale, Nieboer, Kloosterboer, e aos outros membros da família de
teorias que ocupa um lugar importante na minha tese e, até hoje, no meu entendi-
mento da instituição da escravidão. Sou grato a ele, por isso e pelos quase 60 anos
de amizade.

Agradecimentos atrasados mais de trinta e quarenta anos correm o risco de


omitir alguém pelo esquecimento. Mas têm a vantagem de permitir manifestar gra-
tidão não só pelo que aconteceu antes e durante, mas também por coisas que vie-
ram depois do doutorado e da tese pronta.
Ao professor José Jobson Arruda, agradeço pelo grande empenho que teve, há
alguns anos, quando editor-chefe de uma grande editora universitária, em publicar
esta tese. De sua iniciativa resultou uma primeira versão da tradução que, revista e
modificada por mim, serviu de base para a tradução atual.
Meu irmão, Eduardo Borges Martins, ajudou muito na edição dos originais
desta versão.
Agradeço de coração aos colegas que receberam Growing in Silence e suas novi-
dades com aprovação, principalmente àqueles que manifestaram calorosamente
essa aprovação em seus escritos. O aplauso aquece o coração, mas a boa crítica
também merece gratidão. É ela que desafia, provoca e faz o conhecimento avançar.
Com o mesmo coração, agradeço aos colegas que criticaram vários de seus aspec-
tos, severamente algumas vezes, mas sempre nos limites da boa educação e da ética
acadêmica. Douglas Libby, Robert Slenes, Clotilde Paiva, Marcelo Godoy, muito
obrigado. Vocês não fazem ideia do quanto me fizeram pensar, estudar, pesquisar
e progredir.

O ICAM – Instituto Cultural Amilcar Martins, é o mais importante centro


de estudos e documentação bibliográfica sobre a história e a cultura de Minas. A
ABPHE - Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, é a prin-
cipal organização científica brasileira na área de história econômica, e congrega o
que há de melhor no país no campo da pesquisa nessa disciplina. A parceria dessas
duas instituições de excelência para a publicação deste livro é motivo de muita
honra para mim. Agradeço à direção do ICAM através de sua presidente Letícia
Martins Azeredo, e à ABPHE, na pessoa de seu presidente Luiz Fernando Saraiva.
Por último, meus agradecimentos mais especiais.

Minha filha Mariana nasceu quando morávamos nos Estados Unidos. É brasi-
leira, mineira e belo-horizontina, porque quisemos que fosse assim, e a Duca veio
para o Brasil no final da gravidez. Mariana participou intensamente do meu dou-
torado. Frequentemente, ainda engatinhando, escalava minha mesa de trabalho,
bagunçava e amarrotava todos os papéis que encontrava. Uma vez sentou-se em
cima de um livro aberto, novinho em folha, e fez xixi. Mais tarde especializou-se
em rabiscar meus livros com aquelas canetinhas coloridas que não saem nunca
mais. Essays Concerning the Socioeconomic History of Brazil and Portuguese Índia,
editado por Alden e Dean, mijado e manchado, e The Destruction of Brazilian
Slavery 1850-1888, de Robert Conrad, um dos rabiscados, continuam nas minhas
estantes, me lembrando daqueles bons tempos. Quando defendi a tese, Mariana
tinha seis anos, hoje ela tem dois filhos, João Pedro, de 23, e Maria Clara, de 20, que
são meus netos muito queridos.

Amilcar Vianna Martins Filho, meu irmão menor, parceiro e sócio em aventu-
ras e trapalhadas desde a infância, teve um papel fundamental na história desta tese
e de suas inovações. Foi ele que, em 1979, analisou, pela primeira vez, a distribuição
dos escravos pelas paróquias de Minas Gerais no recenseamento de 1872, e che-
gou ao surpreendente resultado de que a grande maioria dos cativos não morava
nas paróquias cafeeiras da Zona da Mata. Me ligou, de madrugada, em Vanderbilt,
assustado com a descoberta. Não acreditei, achei que estava tudo errado – aquilo
era uma heresia que contrariava toda a historiografia conhecida. Todo mundo
sabia que a escravidão em Minas no século XVIII era o mesmo que ouro, e que,
no século XIX, em Minas e em todo o sul do Brasil, era sinônimo de café. Que era
impossível haver escravidão fora da grande lavoura exportadora. As contas foram
refeitas e trefeitas, conferidas e reconferidas. Então vimos que estávamos diante de
algo muito importante, que iria mudar a história da província. Eu trabalhava em
outro projeto – as diferentes transições regionais para o trabalho livre no Brasil,
pela ótica da hipótese de Wakefield – que já estava aprovado com todas as forma-
lidades. Convenci meu orientador da importância da descoberta, e trabalhei como
um alucinado durante um ano e meio para transformar o achado do Amilcar em
Growing in Silence, que defendi em outubro de 1980. Assim, devo a ele o ponto de
partida, que deflagrou toda a tese e muito do meu trabalho subsequente. Depois,
escrevemos e publicamos artigos em parceria, fizemos juntos muitas outras coisas,
e continuamos hoje, na velhice, as aventuras e as trapalhadas da infância.
Eu e Duca fomos juntos para Vanderbilt, e vivemos juntos todos os apertos e
alegrias dessa jornada. Me ajudou em tudo na tese, e foi um dos meus raros interlo-
cutores durante esse trabalho. Ela socióloga, eu economista, viramos historiadores
juntos. De volta ao Brasil nos tornamos parceiros em pesquisas, em artigos e em
publicações. Na vida, já éramos parceiros desde os meus dezessete, e os seus catorze
anos. A amo muito e não sei viver sem ela. Esse livro é para ela.
Introdução geral

E
ste livro é a tradução da minha tese de doutorado em economia, Growing
in Silence: The Slave Economy of Nineteenth-Century Minas Gerais, Brazil,
defendida na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, em outubro
de 1980.
Desde então, Growing in Silence foi apresentada e discutida em palestras, debates,
seminários e congressos, mas nunca foi publicada. Muito pouca gente leu o texto
completo. Até agora, ele só estava disponível, em inglês, na University Microfilms
International. Recebi uma vez, décadas atrás, um cheque de dezessete dólares, que
guardo como uma relíquia, pela venda de um único exemplar. A imensa maioria das
pessoas que dela tomou conhecimento o fez através de um artigo escrito em par-
ceria com Amilcar Martins Filho, publicado em 1983 na Hispanic American Histo-
rical Review ou, mais frequentemente, por meio do resumo A Economia Escravista
de Minas Gerais no século XIX, que circulou mimeografado. Esse pequeno texto foi
escrito em novembro de 1980 para ser submetido ao Encontro Nacional da ANPEC.
Foi recusado: uma senhora da Unicamp (Aureliana não-sei-de-que), deu bomba nele
dizendo que era de interesse apenas regional, e não nacional.
Malgré cela, a tese foi muito bem recebida, como comento adiante, pela comu-
nidade científica no Brasil e no exterior, e é considerada um divisor de águas na
interpretação da história econômica da província e do império, e um desafio a anti-
gos dogmas da historiografia internacional sobre a escravidão moderna. Growing
in Silence, e os artigos dela derivados, frequentam até hoje as listas de leitura aqui
e “lá fora”, recebendo muitas citações e comentários, e ainda gerando animados
debates.
Publiquei vários artigos e recebi propostas para publicá-la em livro, aqui e nos Esta-
dos Unidos, mas nunca as aceitei, porque achava que, apesar da boa acolhida dos pares,
o texto ainda não estava em condições de ser entregue ao prelo, que várias coisas pre-
cisavam ser consertadas. Eu não percebia que uma tese não é o único, nem o último
trabalho, mas apenas o primeiro. Que opera prima e obra-prima são duas coisas com-
pletamente diferentes.
Historiador calouro, demorei a entender que não poderia cometer o pecado
do anacronismo, corrigindo no documento de 1980, com conhecimento adquirido
anos depois, erros inerentes ao estado da arte e à minha própria ignorância na
época em que foi produzido. Que isso seria uma falsificação, e até um desrespeito
àquele estudante, de quem tenho muita saudade.
Assim, resolvi publicá-la agora exatamente como foi escrita, com todos os erros
e defeitos. E com todos os exageros de um doutorando, como todos, apaixonado
pela própria cria. Acrescentei apenas, no capítulo final, algumas notas importantes
que estavam prontas em 1980, mas não puderam ser incorporadas ao texto, no
sufoco para cumprir o deadline da defesa. Essa mesma correria impediu que eu
escrevesse até mesmo a clássica – e indispensável – seção de agradecimentos, que
acrescento agora. Suprimi alguns gráficos de difícil leitura, e acrescentei alguns
outros, bem simples, bem como umas poucas tabelas. Lembrando que naquela
época não existia Excel, e que o próprio microcomputador pessoal era uma coisa
desconhecida, é facil imaginar que fazer um gráfico era um luxo e um sofrimento.
Envolvia papel “milimetrado”, um monte de cálculos, e talentos de desenhista.
Depois tinha de ser recortado e colado no texto “datilografado”. Dá para entender
que a tentação agora é muito grande.
A tradução corrige também alguns erros formais, como referências erradas,
notas, tabelas e até páginas que estavam fora do lugar no manuscrito original e, é
claro, enseja algumas melhorias de estilo. Afinal, agora é a minha própria língua.
Mas a disciplina da história em geral, o conhecimento acumulado sobre a escra-
vidão e o tráfico no Brasil e no mundo, e sobre a história de Minas (em parte pelas
provocações geradas pela própria tese) mudaram tanto nessas quatro décadas, que
não posso deixar de registrar que tenho consciência dessas mudanças. Que não
fiquei congelado em 1980.
Para isso resolvi incluir um postscriptum, um longo comentário, que terminei
agora, em 2018. Aí sim posso corrigir, confessar erros, acrescentar dados, evidências,
leituras, rever posições e opiniões, sem afetar a integridade do texto original. Posso
incorporar livremente as novidades, as importantes contribuições de gente que não
tinha nem nascido em 1980, as novas tendências e as minhas próprias mudanças.
Esse comentário não é uma revisão da tese de 1980. São apenas notas soltas,
sem um roteiro definido. Nelas corrijo alguns erros – talvez cometa outros –
reafirmo a maioria das minhas posições antigas, radicalizo algumas, e modifico
outras tantas. Sugiro sua leitura, porque nessas notas relato revisões, para mim
importantes, na minha visão da história de Minas, particularmente sobre a eco-
nomia do século XVIII e a transição para o século XIX. Apresento principal-
mente a minha opinião atual sobre alguns temas que abordo na tese, e as críticas
que faço a mim mesmo, quarenta anos depois. Discuto alguma coisa de outros
autores, mas não trato de todas as controvérsias levantadas pelo meu trabalho.
Reservo alguns debates para espaços maiores e mais adequados. Espero refletir
nestas notas meu entendimento pessoal das mudanças cruciais que têm ocorrido
na visão geral sobre o passado de Minas nessas quatro décadas.
A primeira parte deste volume é composta pela tradução de Growing in Silence,
com o título de Crescendo em Silêncio: A Incrível Economia Escravista de Minas
Gerais no século XIX. A segunda parte, intitulada Quarenta anos depois, contém o
postscriptum, com as notas e comentários escritos em diferentes momentos e fina-
lizados em 2018.
Para poupar o leitor daquela chatice de ter de buscar a todo momento as refe-
rências e os comentários no final do capítulo, ou do livro, optei por colocar as
notas no rodapé das próprias páginas. Resolvi, também, para maior limpeza do
texto, agrupar todas as fontes, notas e explicações da metodologia das tabelas, que
normalmente ficam no pé de cada uma delas, em um apêndice específico. O estilo
que usei para as citações, com pequenas indisciplinas, é o notes-bibliography style,
conforme o Manual for Writers of Research Papers, Theses, and Dissertations, de
Kate L. Turabian, que era exigido em Vanderbilt e que decidi manter na tradução. A
primeira referência traz o nome e sobrenome do autor, na ordem normal, seguidos
pelo título completo da publicação em itálicos, o local da publicação, o editor, a
data da publicação e o número da página da citação, quando for o caso. Nas ocor-
rências subsequentes da mesma referência, apenas o último sobrenome do autor,
uma versão reduzida do título, e o número da página.
Para maior facilidade de consulta, acrescentei ainda, separadamente, ao final de
cada parte, a lista de referências bibliográficas, ordenadas pelo último sobrenome
do autor.
Sumário

Parte I

CRESCENDO EM SILÊNCIO:

A Incrível Economia Escravista de Minas Gerais no século XIX

Capítulo 1 - Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

Capítulo 2 - A escravidão no setor minerador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37


A corrida do ouro do século XVIII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
O setor minerador de ouro no início dos anos 1800 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
A mineração de diamantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
A primeira geração de companhias inglesas de mineração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
O emprego de escravos na mineração na primeira metade do século XIX . . . . . . . . . . . . . . 71
As companhias inglesas de mineração na segunda metade do século . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
O emprego de escravos na mineração na segunda metade do século XIX . . . . . . . . . . . . . . . 79

Capítulo 3 - A Escravidão no Setor Cafeeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89


O surgimento da cultura cafeeira em Minas Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
A geografia do café em Minas Gerais no século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
O trabalho escravo no café . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

Capítulo 4 - População escrava, tráfico e manumissão em Minas no século XIX . . . . . . . . 135


A primeira metade do século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138
Do fim do tráfico africano ao Censo do Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
A década de 1870 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172
A década de 1880 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187
Manumissão e o apego dos mineiros à escravidão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195
Capítulo 5 - Uma Economia Vicinal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199
Transformação estrutural durante o declínio da mineração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
Isolamento e autossuficiência no século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206
Algodão e têxteis de algodão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226
A indústria açucareira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240
A indústria do ferro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243
A fazenda mineira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
Distribuição ocupacional da força de trabalho escrava . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Uma ilha econômica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256

Capítulo 6 - Conclusão: terra, camponeses e escravos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 259


A hipótese de Wakefield . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
A hipótese de Wakefield na história do Novo Mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288
A hipótese de Wakefield e o fim da escravidão no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 308
Terra livre, camponeses livres e escravos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 317

Apêndice A - A População de Minas Gerais no século XIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321

Apêndice B - Estimativas do tráfico: Metodologia e resultados por município . . . . . . . . . . . 325

Apêndice C - Fontes, notas e metodologia das tabelas do texto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 347

Bibliografia e referências da parte I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 375

Lista das tabelas da Parte I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 395

Lista dos gráficos da Parte I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 399


Parte II

QUARENTA ANOS DEPOIS

Growing in Silence e a historiografia econômica do século XX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 403


A corrida aos arquivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 413
Repercussão de Growing in Silence . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 420
Muita água passou debaixo da ponte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 425
Voo quase solo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 426
Pecados veniais e pecados mortais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 429
Uma ilha econômica? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 435
O milagre dos porcos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 441
O porco e o rabo do porco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 465
O avesso da plantation . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 470
O xis do problema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 490
Os quatro cavaleiros do falso apocalipse . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 492
Uma nova história de Minas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 504
Diversificação precoce . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 504
É a oportunidade que faz o sapo pular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 519
Pobreza de Minas ou pobreza da história? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 530
Fartura pra dar e vender . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 539
A importação de escravos nunca parou . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 541
A lenda da transferência de escravos para o café . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 551
A lenda das alforrias na crise do ouro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 570
O mito da articulação das economias da colônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 575
O Rio é uma dádiva do Caminho Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 586

Bibliografia e referências da parte II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 597

Lista das tabelas da parte II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 623

Sobre o ICAM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 625

Sobre a ABPHE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 627

Sobre o autor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 629


Parte I

Crescendo em Silêncio:
A Incrível Economia Escravista de
Minas Gerais no século XIX
Capítulo 1 - Introdução

E
ste é um estudo sobre o maior sistema escravista regional que jamais existiu
no Brasil: o da província de Minas Gerais no século XIX. Durante todo esse
século a população escrava de Minas foi maior do que a de qualquer outra
província brasileira. Essa população não só era grande, mas era também vigorosa-
mente crescente: de aproximadamente 170 mil em 1819 passou para mais de 380
mil em 1873. Nesta última data, um quarto de todos os cativos do Brasil residia
em Minas, onde havia mais escravos do que em todas as dez províncias situadas
ao norte da Bahia mais as de Goiás, Mato Grosso e Paraná somadas. O plantel
mineiro era maior do que o de Cuba na mesma época, ou que o da Jamaica, princi-
pal colônia inglesa no Caribe, e um dos maiores produtores mundiais de açúcar no
século XVIII, em qualquer momento de sua história. Superava a população escrava
de qualquer sociedade escravista das Américas, em qualquer época, com exceção
dos Estados Unidos, do Brasil, de Cuba, ou de Saint Domingue (Haiti), nos seus
apogeus. As evidências disponíveis indicam que, como importadora de escravos,
Minas Gerais ocupou o segundo lugar dentre todas as regiões americanas nos anos
1800, sendo suplantada apenas por Cuba.1
Diante da óbvia importância desta região na história da escravidão moderna, é
espantoso verificar quão pouca pesquisa se tem feito sobre ela. Não existe um único
estudo sistemático do sistema escravista provincial mineiro. Os mais elementares
fatos e números, sobre os quais qualquer interpretação histórica deveria ser base-
ada, têm sido completamente ignorados ou grosseiramente distorcidos. Nenhum
estudo de abrangência nacional sobre a escravidão no Brasil do século XIX con-
tém mais do que referências sumárias a Minas Gerais. As fontes mineiras estão

1 Com exceção dos Estados Unidos e do Brasil, as maiores populações escravas da América foram: Cuba,
436.495 em 1841; Saint Domingue, 434.424 em 1789 e Jamaica, 345.252, em 1817. Franklin Knight.
Slave Society in Cuba During the Nineteenth Century. Madison: University of Wisconsin Press, 1970,
p. 22; David Cohen e Jack Greene (eds.). Neither Slave nor Free: The Freedmen of African Descent
in the Slave Societies of the New World. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1972, p. 337; B.
W. Higman. Slave Population and Economy in Jamaica, 1807-1834. Cambridge: Cambridge University
Press, 1976, p. 256.

29
inteiramente ausentes de todos esses trabalhos, mesmo de alguns mais recentes,
que são bem pesquisados e bem documentados a respeito de outras áreas.2
Isso não impediu, no entanto, que alguns autores tirassem (e proclamassem)
conclusões categóricas sobre a história de Minas Gerais. O resultado é que, fre-
quentemente, eles têm acrescentado mais à nossa ignorância do que ao nosso
conhecimento sobre o assunto, repetindo, sem nenhuma crítica, velhos equívocos,
ou criando alguns novos.
A escassez de pesquisas não se restringe à questão da escravidão. A economia e
a sociedade de Minas Gerais do século XIX, em geral, não receberam melhor tra-
tamento nas mãos dos historiadores. Exceto por seu próprio livro sobre a política
econômica do governo provincial, a queixa de Francisco Iglésias seria tão justifi-
cada hoje como há mais de vinte anos atrás, quando foi formulada: “É verdadeira-
mente chocante a ausência de bibliografia para essa fase: nada de estudos gerais,
pouco de aspectos. A vida provincial mineira ainda não existe como tema para o
historiador.”3
Parte da culpa deve ser atribuída aos próprios mineiros. A maioria dos histo-
riadores locais se deixou fascinar inteiramente pelo esplendor da “idade do ouro”, o
século XVIII, quando Minas era o centro do império português. A República Velha
trouxe nova proeminência para o estado no cenário político nacional, e também
tem tido seus cultores. Assim, a capitania e o estado receberam uma razoável aten-
ção, mas a província foi completamente ignorada.
O trabalho acadêmico estrangeiro, a cujo olhar culturally unbounded a historio-
grafia de outras partes do Brasil deve, em anos recentes, várias revisões e insights
importantes, ainda está por prestar uma contribuição positiva para a história pro-
vincial de Minas. Por enquanto, nessa área sua presença tem significado mais atrasos
do que avanços, pois a maioria dos Brasilianistas estrangeiros, apesar de suas poucas
incursões pelo tema, também tem ajudado a propagar noções distorcidas sobre esse
período da história mineira.
O principal obstáculo para um melhor entendimento de Minas no século XIX
tem sido, entretanto, uma distorção legada pelo colonizador e ainda profunda-
mente arraigada na historiografia econômica do Brasil, qual seja, a noção de que a

2 Veja, por exemplo, Robert Conrad. The Destruction of Brazilian Slavery, 1850-1888. Berkeley: University
of California Press, 1972; Robert W. Slenes. The Demography and Economics of Brazilian Slavery, 1850-
1888. Tese de doutorado, Stanford University, 1975; Robert Brent Toplin. The Abolition of Slavery in
Brazil. New York: Atheneum, 1972.
3 Francisco Iglésias. Política Econômica do Governo Provincial Mineiro, 1835-1889. Rio de Janeiro: MEC/
Instituto Nacional do Livro, 1958, p. 11. Esse trabalho foi escrito em 1953.

30 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


exportação é a única coisa que interessa. De um modo geral, a evolução econômica
do país é descrita como uma série de “ciclos de exportação”: açúcar no nordeste nos
séculos XVI e XVII, ouro em Minas no século XVIII, café no sudeste no século XIX
e no começo do século XX.
Em qualquer desses períodos as regiões que não participavam da atividade
exportadora são sumariamente descartadas como decadentes, estagnadas e indig-
nas de estudos e pesquisas. É negada a elas uma identidade econômica própria:
são tratadas, no máximo, como periféricas, ou “dependentes”, ou meros coadjuvan-
tes dos setores de exportação. Se nem essa conexão puder ser estabelecida, a área
recebe o mais reles de todos os rótulos possíveis – “economia de subsistência” – e
fica condenada ao esquecimento.4
A pouca atenção que se dedicou à Minas Gerais do século XIX se concentrou
no setor exportador (cafeeiro) da província. Mesmo isso não significa, entretanto,
que se tenha pesquisado muito sobre ele: a maioria dos historiadores da escravidão
no Brasil, brasileiros e brasilianistas, têm se contentado em projetar sobre Minas
Gerais suas teses e interpretações sobre São Paulo e o Rio de Janeiro. O tratamento
típico consiste em incluir Minas num pacote rotulado de “províncias cafeeiras”,
pesquisar e discutir a história das duas vizinhas, e supor que o caso mineiro siga
o mesmo roteiro, por analogia. Assim, como se sabe que naquelas províncias a
sobrevivência e o crescimento da escravidão, no século XIX, pode ser atribuído
ao desenvolvimento do setor cafeeiro, aceita-se como ponto pacífico que isso vale
também para Minas Gerais.
As linhas principais da interpretação dominante podem ser resumidas da
seguinte maneira: no século XVIII, devido às descobertas de ouro e de diamantes,
um grande contingente de escravos se concentrou em Minas Gerais. À medida que
o boom minerador foi se esvaindo os escravos foram se espalhando pelo interior,
retirando-se com seus senhores para o setor de subsistência, onde se tornaram eco-
nomicamente “redundantes” ou “sub-utilizados”. A economia regional entrou em
um período de dormência até ser despertada pelo surgimento do setor cafeeiro,
algumas décadas mais tarde. Os escravos foram então transferidos em massa para
as áreas cafeeiras, que se tornaram o baluarte do sistema escravista provincial.

4 Um dos mais importantes trabalhos nessa linha é o conhecido livro de Celso Furtado, Formação
Econômica do Brasil, cuja primeira edição é de 1959. O tratamento de Furtado sobre Minas Gerais,
especialmente das transformações econômicas ocorridas depois do ciclo do ouro, é particularmente
inepto.

PARTE I - CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO


31
As regiões não-cafeicultoras de Minas, apressadamente reunidas sob o rótulo
de “áreas mineradoras decadentes”, são apresentadas como um reservatório de tra-
balho escravo não só para a própria zona cafeeira mineira, mas principalmente
para as de São Paulo e do Rio de Janeiro. Tem-se argumentado que essas áreas
não-cafeeiras eram menos comprometidas com a escravidão do que as zonas de
plantation e que a “manumissão se tornou claramente mais extensa (...) no velho
estado minerador de Minas Gerais do que no Rio de Janeiro e em São Paulo”.5
Em resumo, a tendência geral da historiografia dominante é afirmar que em
Minas, assim como em São Paulo e no Rio de Janeiro, o café “explica” a evolução
da instituição servil nos anos 1800. A maioria dos historiadores parece ter aceito
literalmente o argumento do cearense Capistrano de Abreu de que “o Sul, basica-
mente, é São Paulo”.6 As raras vozes discordantes, como a de Daniel de Carvalho,
que lutou tenazmente contra a obsessão plantacionista-exportadora da historio-
grafia brasileira e pelo reconhecimento da identidade histórica de Minas no século
XIX, permaneceram totalmente ignoradas.7
As conclusões apresentadas nesta tese estão em aberto confronto com a inter-
pretação resumida acima. No capítulo 2 demonstramos que, no começo do período
estudado, a fase mineradora da história mineira já estava em grande parte encer-
rada. Durante o século XIX a mineração foi um setor menor na economia provin-
cial. Em particular, sua importância como empregador de escravos era muito limi-
tada. Mostra-se também que a população escrava existente em Minas no começo
do século não era uma herança do ciclo do ouro, mas sim o resultado de importa-
ções recentes não motivadas pela mineração.
No capítulo 3 analisa-se o setor cafeeiro de Minas. Aí argumentamos que a
associação entre escravidão e cultura de café ou, na verdade, entre escravidão e

5 Os principais trabalhos dos quais foi extraído este sumário são referidos nos lugares apropriados do
texto, onde aparecem as citações específicas. A citação sobre manumissões é de Thomas Merrick and
Douglas Graham. Population and Economic Development in Brasil, 1800 to the Present. Baltimore: The
Johns Hopkins University Press, 1979, p. 70. Apenas como uma curiosidade, observe-se o equívoco da
expressão “o velho estado minerador”. Minas Gerais é seguramente um dos “estados” mais jovens do
Brasil, pois só foi colonizado no século XVIII.
6 A citação é da introdução de Capistrano de Abreu à Geografia Geral do Brasil, de Alfred W. Sellin. Rio
de Janeiro, 1889. Para um nordestino como Capistrano, o “sul” significa tudo que se situa ao sul da
Bahia.
7 Veja Daniel de Carvalho. Formação Histórica das Minas Gerais. In: Universidade de Minas Gerais.
Primeiro Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: Imprensa da UMG, 1957, especialmente p.
25; Ensaios de Crítica e História. Rio de Janeiro: edição do autor, 1964; Estudos e Depoimentos (1ª.
série). Rio de Janeiro: José Olympio, 1953; e Estudos de Economia e Finanças. Rio de Janeiro: Livraria
Agir Editora, 1946.

32 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


qualquer tipo de plantation exportadora, não tem, nem de longe, a importância que
se costuma atribuir a ela. Até a metade do século a indústria cafeeira mineira era
muito pequena e seu crescimento não pode, de forma alguma, explicar o grande
aumento da população escrava no período. Nas quatro décadas seguintes o setor
se expandiu rapidamente e atingiu um tamanho absoluto considerável. No entanto,
mesmo no seu apogeu no período imperial, era pequeno em comparação com o
conjunto da economia provincial e empregava somente uma fração de sua força
de trabalho servil. A vasta maioria dos escravos mineiros permaneceu, mesmo nos
anos finais do regime, fora da plantation exportadora. Nos anos 1870 o número de
escravos não ocupados na agricultura de exportação ou na mineração em Minas
Gerais, era maior do que a população escrava total da maioria das sociedades escra-
vistas do Novo Mundo em qualquer momento de suas histórias.
O crescimento da população escrava mineira no século XIX e a participação
da província no tráfico de escravos são estudados no capítulo 4, onde mostramos
que Minas não foi um fornecedor de trabalho cativo para outras áreas, mas, pelo
contrário, um grande importador líquido durante a maior parte do século, o maior
entre as províncias brasileiras.
Nas décadas de 1870 e 1880, o tráfico de escravos é analisado no nível dos
municípios: as estimativas apresentadas demostram que a ideia de que a zona cafe-
eira estava exaurindo a população servil do restante da província não tem nenhuma
base empírica. Nessa época, a região cafeeira foi, de fato, a principal importadora
de cativos, mas um grande número de municípios não-cafeicultores também apre-
senta saldos importadores positivos. A análise dos dados disponíveis sobre as alfor-
rias mostra que, ao contrário das teses convencionais, Minas Gerais tinha as mais
baixas taxas de manumissão do país durante quase todos os anos para as quais tais
taxas podem ser computadas. As evidências sobre o tráfico, a manumissão e os pre-
ços de escravos, não sugerem nenhuma diferença no comprometimento das duas
partes da província com o regime servil: com base nesses dados pode-se afirmar
que ambas se apegaram tenazmente a ele até o fim.
No capítulo 5 mostramos que o grosso da economia mineira, onde a grande
maioria desses escravos era empregada, não era constituido por plantations nem
era orientado para a exportação. Isolamento dos mercados externos, diversificação
e autossuficiência eram suas principais características. Minas tinha o mais baixo
nível de exportação per capita do país e, fora da região cafeeira, esse nível diminuiu
em termos reais ao longo do século. A agricultura plantacionista exportadora per-
maneceu restrita a uma pequena área e teve pouco impacto sobre a vida econômica

PARTE I - CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO


33
do resto da província. A essência da economia provincial consistia em unidades
agrícolas internamente diversificadas – grandes propriedades, fazendas, sítios ou
pequenas roças8 – produzindo para seu próprio consumo ou para a venda em mer-
cados locais, e, em muitas áreas da província, apenas parcialmente integradas em
uma economia monetária.
Mas sendo, por sua própria natureza, menos visível, e deixando relativamente
poucos registros para a posteridade, esse vasto complexo agrícola foi ignorado
pela maioria dos historiadores. A produção para a subsistência e para o comér-
cio local não gera, dentro do contexto institucional e ideológico de uma econo-
mia exportadora como a do Brasil do século XIX, fluxos de comércio e de receitas
tributárias (ou mesmo estradas de ferro e baronatos) tão claramente perceptíveis
como a monocultura exportadora. Não estando conectado às oscilações típicas dos
mercados internacionais, esse sistema econômico não era susceptível a booms ou
a depressões espetaculares. Assim, talvez fosse natural que alguns atores contem-
porâneos desprezassem esses tipos de atividades, ou que simplesmente não conse-
guissem perceber sua extensão e importância, mas os mesmos enganos são menos
desculpáveis em um historiador moderno.
Embora a agricultura fosse o principal campo de emprego da força de trabalho
servil no século XIX, os escravos de Minas eram também usados em uma variedade
de outras ocupações, incluindo uma ampla gama de ofícios e atividades manufatu-
reiras. Em algumas delas, como têxteis de algodão ou fundição de ferro, o uso de
trabalho servil parece ter sido considerável. As ocupações dos escravos eram cla-
ramente mais diversificadas em Minas do que nas verdadeiras províncias cafeeiras,
como o Rio de Janeiro e São Paulo.
A maioria dos historiadores se apegou tanto à ideia da associação entre o traba-
lho forçado e o sistema de plantation, que a simples menção da escravidão no Novo
Mundo lhes traz automaticamente à mente as ilhas-fábrica de açúcar do Caribe, as
plantações de algodão do Old South dos Estados Unidos, e as fazendas de café ou os
engenhos de açúcar do Brasil. A existência de “um produto cujo cultivo exige com-
binação e organização de trabalho em larga escala” e fortes conexões com mercados
internacionais ou, em uma palavra, a existência da plantation monocultora e expor-
tadora, é frequentemente considerada como condição sine qua non para a viabilidade
e a sobrevivência da escravidão como um sistema dominante de trabalho. Por outro

8 Uma roça é qualquer plantação, especialmente de mantimentos. No sentido aqui empregado


significa uma propriedade camponesa composta por um casebre e um pedaço de terra plantado para
subsistência.

34 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


lado, atividades como o cultivo de mantimentos, a criação de gado ou a manufatura,
voltadas para o mercado interno, como as que prevaleceram em Minas, são sempre
consideradas incompatíveis com os sistemas de trabalho compulsório.9
Assim, a existência de um grande sistema escravista, que sobreviveu e se expan-
diu por mais de um século sem estar associado à plantation exportadora, como o
que descrevemos aqui, tem uma importância que transcende o âmbito da história
mineira ou brasileira. Este é, provavelmente, o mais importante dos resultados que
apresentamos, pois revela uma situação que tem sido até hoje rejeitada ou ignorada
pelos historiadores da escravidão moderna.
No capítulo 6 sugerimos uma explicação para o prolongado apego da provín-
cia ao sistema escravista. Argumentamos que não há nada paradoxal nisso, desde
que se perceba que a existência da plantation não é a condição crucial para a
sobrevivência da escravidão. O caso mineiro se enquadra perfeitamente bem na
hipótese enunciada, há muito tempo atrás, por E. G. Wakefield e vários outros
autores que o seguiram. Ao longo de todo o século não existiu uma oferta voluntária
de trabalho assalariado porque a fronteira agrícola permaneceu amplamente aberta,
com grande abundância de terras livres, da qual os camponeses livres podiam
extrair uma subsistência independente. Nesse contexto uma classe de proprietários
não-trabalhadores só poderia subsistir através de uma contínuada dependência do
trabalho escravo.
O caso aqui estudado levanta questões importantes quanto ao papel desempe-
nhado pelo sistema fundiário na história brasileira. Sempre se aceitou como ponto
pacífico que o predomínio dos latifúndios e a exclusão dos camponeses da terra
foram os componentes determinantes na formação da estrutura socioecônomica
do Brasil rural. Isso pode ter sido verdadeiro, durante boa parte do século XIX, na
região nordeste do país, onde a maioria das terras cultiváveis já tinha sido apro-
priada e a população camponesa foi sendo reduzida a um status de dependência dos
senhores da terra, enquanto a escravidão se extinguia gradualmente. Essa evolução,
entretanto, não se verificou de forma alguma em Minas Gerais (nem no restante do
Brasil central e meridional). Os latifúndios não eram menos comuns nessas áreas,
mas controlavam somente uma fração das terras e não podiam, por essa razão,
controlar os camponeses. Terra livre, camponeses independentes e escravidão são,
portanto, complementares, e são ingredientes fundamentais para o entendimento
da realidade histórica de Minas no século XIX.

9 O locus classicus desse argumento é John Elliot Cairnes. The Slave Power: Its Character, Career and
Probable Designs. New York: Negro Universities Press, 1969. A citação utilizada está na p. 46.

PARTE I - CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO


35
Capítulo 2 - A escravidão
no setor minerador

A
historiografia econômica da escravidão em Minas Gerais é fortemente con-
centrada em dois setores: a mineração e o cultivo de café. Durante o século
XVIII as minerações de ouro e de diamantes foram, de fato, as atividades
dominantes da região e empregavam a grande maioria dos trabalhadores escravos e
livres. Entretanto, já no início dos anos 1800 o ciclo da mineração estava em grande
parte encerrado e durante o século XIX essa indústria foi um setor de importância
relativamente menor na economia provincial.
Neste capítulo examinamos o setor minerador da província. Depois de uma
breve descrição das corridas do ouro e dos diamantes do século XVIII, a análise
focaliza o século XIX. As companhias inglesas de mineração que se instalaram em
Minas são objeto de atenção especial, e mostramos que sua presença não restaurou
a importância anterior dessa indústria. Ao longo de quase todo o século, os escra-
vos continuaram a ser empregados na mineração, mas a participação do setor no
total do emprego de trabalho servil foi insignificante.

A CORRIDA DO OURO DO SÉCULO XVIII


A colonização do que hoje é o estado de Minas Gerais foi deflagrada pela
descoberta de grandes depósitos de ouro e de pedras preciosas. Os primeiros
achados, nos últimos anos do século XVII, desencadearam uma corrida do ouro
de grandes proporções. O rápido influxo de pessoas vindas de outras regiões da
colônia foi de tal ordem que a própria sobrevivência dos assentamentos agrícolas
chegou a preocupar a administração colonial. Novas descobertas continuaram a
ocorrer ao longo da primeira metade do século XVIII, e no final dos anos 1720,
o fascínio dos diamantes foi acrescentado ao brilho do ouro. À medida que a
administração portuguesa foi se instalando, com força total, para cobrar a parte
do Rei, os acampamentos dos mineradores foram se transformando em arraiais,
vilas e cidades, engrossadas por legiões de funcionários, soldados e comerciantes.

37
As jazidas auríferas e as povoações que se formavam à sua volta estavam disper-
sas por um território imenso – maior do que a França, para usar uma comparação
predileta dos mineiros de antigamente – distantes dos núcleos do litoral, e situadas
em áreas que até pouco tempo antes eram terras completamente virgens, intocadas
por qualquer tipo de “civilização”. As comunicações eram extremamente difíceis
e garantir o abastecimento dos núcleos mineradores e das povoações foi um pro-
blema constante nos primeiros anos.10
A distribuição geográfica das jazidas de ouro e de diamantes apresenta uma
orientação geral sudoeste-nordeste, acompanhando mais ou menos a Mantiqueira
e as outras grandes cadeias de montanhas do centro de Minas Gerais, numa faixa
de algumas centenas de quilômetros de largura, ao longo de todo o estado. A maior
concentração das ocorrências de ouro se situava em torno de Ouro Preto, Mariana,
Sabará, Pitangui, São João del Rei, Caeté e São José del Rei, e as de diamantes ao redor
de Diamantina e do Serro, mas ocorreram importantes descobertas muito além des-
sas áreas principais. Lugares tão afastados como Bagagem, Desemboque e Paracatu,
na direção oeste, ou como São Romão e Grão Mogol, no rumo norte, foram sítios de
consideráveis minas de ouro ou de diamantes. Na verdade, quase não se encontra
nenhum lugar em Minas Gerais que não tenha sido cenário de algum tipo de minera-
ção durante algum período de sua história. A toponímia de Minas nos séculos XVIII
e XIX, grande parte da qual sobreviveu até nossos dias, está repleta de nomes como
Ouro Preto, Ouro Branco, Ouro Fino, Minas Novas, Lavras, Catas Altas, etc., que são
uma lembrança permanente da origem mineradora desses lugares.
O isolamento da região das minas tornava seu abastecimento muito difícil e a
fome foi uma visita frequente nas primeiras décadas da ocupação. Alimentos e outros
artigos essenciais tinham que ser trazidos de São Paulo ou do Rio de Janeiro por
perigosas trilhas através das montanhas, ou da Bahia, por uma rota mais longa, mas
mais fácil, ao longo da margem direita do rio São Francisco. Artigos básicos de ali-
mentação alcançavam preços fantásticos: por volta de 1700 uma arroba de carne de

10 A corrida do ouro em Minas é bem documentada e bem estudada. Algumas das melhores descrições
das descobertas, das técnicas iniciais e da legislação portuguesa sobre a mineração se encontram
em W. L. von Eschwege. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. 2 vols. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1944; em Paul Ferrand. L’Or a Minas Geraes, Brèsil, 2 vols. Ouro
Preto: Imprensa Official do Estado de Minas Gerais, 1894; e em João Pandiá Calógeras. As Minas do
Brasil e sua Legislação. 2ª. ed. atualizada e dirigida por Djalma Guimarães. São Paulo: Cia. Editora
Nacional, 1938. C. R. Boxer. The Golden Age of Brasil, 1695-1750. Growing Pains of a Colonial Society.
Berkeley, Los Angeles e Londres: University of California Press, 1962, oferece um relato mais curto,
mas mais abrangente do período, incluindo aspectos sociais e políticos da sociedade mineradora em
sua fase ascendente. Esses trabalhos também oferecem muita informação bibliográfica sobre fontes
arquivísticas, escritos contemporâneos e a historiografia do “ciclo” do ouro.

38 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


vaca e um alqueire de farinha valiam, em São Paulo, 240 e 640 réis, respectivamente,
enquanto eram vendidos por 2.400 e 4.800 réis na região mineradora. Uma galinha,
que podia ser comprada no Rio de Janeiro a 800 réis, em 1702, não podia ser adqui-
rida em Minas por menos de cinco a nove vezes esse preço.11
Era natural, portanto, que núcleos de agricultura de subsistência e fazendas de
gado começassem a se desenvolver ao redor das áreas mineradoras e ao longo das
principais rotas comerciais. Vários colonos acharam mais lucrativo cultivar feijão,
milho, mandioca e batata doce, ou criar porcos, gado e aves para vender aos mine-
radores do que revirar a terra em busca de ouro. A ocupação agrícola dos vales dos
grandes rios São Francisco, Doce, Paraíba e outros, começou dessa forma, e data
das primeiras décadas da mineração. Algumas vezes o estabelecimento de roças e de
fazendas de gado até mesmo antecedeu a descoberta do metal: esse foi o caso de luga-
res como Mariana, Pitangui e São João del Rei, que mais tarde tornaram-se famosos
pela riqueza de suas minas de ouro.12
A corrida do ouro provocou grandes conturbações na vida econômica da colô-
nia e mesmo de Portugal. De acordo com um contemporâneo, o jesuíta Antonil,
Cada ano vem nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros
para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do
Brasil vão brancos, pardos e pretos e muitos índios, de que os paulistas se
servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres,
moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e
religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil nem
convento nem casa.13

Boxer cita uma fonte contemporânea que afirma que “metade de Portugal”
estava migrando para as minas e alguns historiadores modernos asseveram que

11 Maurício Goulart. A Escravidão Africana no Brasil. Das Origens à Extinção do Tráfico, 3ª. ed. revista.
São Paulo: Alfa-Omega, 1975, p. 135. Informações adicionais sobre as condições de vida dos primeiros
mineradores e sobre os preços contemporâneos podem ser encontradas em Boxer. The Golden Age,
p. 48 e, especialmente, pp. 330-31; André João Antonil. Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas
e Minas. 8ª ed. prefácio e notas por Orlando Valverde, ilustrações por Francisco Barbosa Leite e Percy
Lau. Rio de Janeiro: IBGE, Conselho Nacional de Geografia, 1963; Mafalda Zemella. O Abastecimento
da Capitania de Minas Gerais no Século XVIII. São Paulo: 1951; João Dornas Filho. O Ouro das Gerais e
a Civilização da Capitania. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, pp. 12-13.
12 Paul Singer. Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana: análise da evolução econômica de São
Paulo, Blumenau, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. São Paulo: Cia. Editora Nacional e EDUSP,
1968., pp. 202-04; Boxer. The Golden Age, pp. 47-48.
13 João Antônio Andreoni (André João Antonil). Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minasl.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 264. Apesar de ser o autor do mais famoso relato
sobre a corrida do ouro, o jesuíta Antonil nunca esteve em Minas Gerais.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


39
não menos do que 800 mil imigrantes portugueses chegaram a Minas Gerais na
primeira metade do século XVIII. Embora este autor rejeite as duas afirmações, e
sugira que três ou quatro mil imigrantes por ano seria uma estimativa mais razoá-
vel, não resta dúvida de que a drenagem da força de trabalho de algumas províncias
agrícolas da metrópole foi grande bastante para levar a Coroa a impor restrições à
imigração para o Brasil em 1720.14
O impacto sobre a economia colonial foi ainda maior. Os preços das mercadorias
nas regiões não-mineradoras sofreram uma drástica revolução, causada tanto pela
nova demanda dos mineradores como pelo deslocamento de braços da agricultura
para as minas. Em São Paulo, por exemplo, entre 1690 e 1700, o preço do feijão cres-
ceu 220%, o do açúcar subiu 300%, o toucinho e o milho aumentaram 500 e 1.300 por
cento respectivamente. A escassez se manifestou nas cidades portuárias e em outros
lugares. Antonil comenta que os altos preços em Minas Gerais,
foram causa de subirem tanto os preços de todas as outras cousas, como
se experimenta nos portos das cidades e vilas do Brasil, e de ficarem
desfornecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias e
de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos, por se
levarem quase todos aonde vendidos hão de dar mais lucro.15

Durante a corrida do ouro, homens deixavam suas guarnições na Bahia, no Rio


de Janeiro e na Colônia de Sacramento em tais números que a segurança desses
lugares ficou ameaçada. A tripulação dos navios que chegavam aos portos brasi-
leiros desertava para correr às minas, assim como os trabalhadores e artesãos das
cidades costeiras. Um observador contemporâneo escreveu que bastava visitar as
cidades de Pernambuco, da Bahia, o Rio de Janeiro e São Paulo para verificar o
“terrível dano” causado pelo êxodo para as minas de ouro.16
Com os migrantes brancos vieram os escravos e, desde suas origens, no final
do século XVII, até as décadas finais do século XVIII, a história da escravidão
em Minas Gerais está intimamente ligada à história da mineração. Durante esse
período a maior parte do ouro era encontrada em depósitos de aluvião nos leitos
dos riachos ou em formações superficiais nas encostas dos morros. As tecnologias

14 Boxer. The Golden Age, p. 49. O historiador mineiro Augusto de Lima Júnior estima que, entre 1705 e
1750, mais de 20.000 pessoas imigraram de Portugal para o Brasil, por ano. Augusto de Lima Júnior. A
Capitania das Minas Gerais. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1943, p. 79.
15 Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, p. 136; Boxer. The Golden Age, p. 55; Antonil. Cultura e
Opulência do Brasil, p. 269.
16 Boxer. The Golden Age, p. 54; Lima Júnior. A Capitania das Minas Gerais, p. 76.

40 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


empregadas em sua extração, que os portugueses aprenderam com os africanos,
eram extremamente intensivas em trabalho, o que fez com que a corrida do ouro
gerasse uma enorme procura por mão de obra.
Nos primeiros anos essa demanda foi satisfeita por transferências de escravos
de outras partes da colônia, especialmente das áreas agrícolas da Bahia e de Per-
nambuco. Além dos muitos cativos que migraram com seus senhores, um grande
número foi vendido para as minas onde, de acordo com uma fonte, valiam dez
vezes mais do que no litoral.17 Mesmo as pessoas que não abandonaram as cidades
frequentemente participavam das especulações minerais, entrando com quotas de
capital na forma de escravos.
A drenagem de escravos de outras capitanias alarmou o governo colonial, pois
ameaçava de aniquilamento não somente a produção de mantimentos, mas tam-
bém as principais indústrias de exportação - açúcar e fumo - que eram, até então,
as “verdadeiras minas” do Brasil. Desde os primeiros anos do século XVIII, a cor-
respondência entre as autoridades coloniais e metropolitanas está repleta de recla-
mações sobre a escassez de braços para a agricultura causada pela corrida do ouro.
No relatório apresentado ao rei, em 1706, o Conselho Ultramarino português, por
exemplo, endossou o diagnóstico de D. Rodrigo da Costa, recentemente chegado
do Brasil, dizendo que
todo o dano de que padece o Brasil (...) procede da falta de negros, e de
não bastarem os que se introduzem para a fábrica dos engenhos, cultura
de tabacos e trabalho das minas, porque o maior interesse que tem neles
os particulares, faz extrair para as mesmas minas os negros que haviam
de servir nas fábricas dos engenhos e dos tabacos.18

Vãos foram os esforços da Coroa para sustar essa drenagem. Vinte anos mais
tarde, repetindo a reclamação, o governador da Bahia confessava sua impotência
nesse assunto:
Não posso eu evitar, nem descubro meio algum que sirva de remédio a
este dano, porque a opulência [das minas] arrasta os ânimos, de sorte
que nenhuma diligência que respeita a impedir-lhes aquela jornada será

17 Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, pp. 149-50; Lima Júnior. A Capitania das Minas Gerais, p. 75 e
p. 80. Essa afirmação parece ser um exagero. D. Rodrigo da Costa, Governador Geral do Brasil na época,
afirma que o preço dos escravos na região mineradora era somente duas ou três vezes mais alto do que
nas áreas agrícolas. Citado por Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, p. 152.
18 Relatório do Conselho Ultramarino ao Rei, 1o de setembro de 1706, citado por Goulart. A Escravidão
Africana no Brasil, p. 151.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


41
bem executada, de tal forma que nenhuma medida com o objetivo de
impedir tal debandada pode ser implantada.19

Em pouco tempo, as descobertas de ouro tiveram o efeito de estimular o tráfico


atlântico de escravos. Já nas primeiras duas décadas do setecento, a média anual de
importação de cativos dobrou em relação à dos cinquenta anos anteriores e cresceu
firmemente à medida que o século se desenrolava, como é mostrado na tabela 2.1.

Tabela 2.1 - Brasil: Médias anuais de


importação de escravos, 1651-1760

Período Média de escravos


importados por ano

1651-1675 7.400
1676-1700 7.000
1701-1720 14.600
1721-1740 15.600
1741-1760 17.700
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Os traficantes de escravos responderam com grande agilidade à crescente


demanda, e os primeiros impactos se manifestaram na Bahia: entre 1681 e 1700
uma média de 76 navios por década havia deixado esse porto em direção à costa
africana; enquanto entre 1701 e 1710 esse número quase triplicou, aumentando
para 217.20
A partir de 1715 o porto do Rio de Janeiro tornou-se o principal fornecedor
de escravos para Minas Gerais. Navios negreiros de Angola começaram a passar
ao largo de Pernambuco e da Bahia, indo direto para o Rio de Janeiro, de onde sua
carga podia ser mais facilmente transportada para as minas.21
Essa substituição da Bahia pelo Rio não se restringiu ao tráfico de escravos.
A descoberta do ouro causou deslocamentos decisivos tanto na atividade econô-
mica, como na dinâmica demográfica e política, cujo resultado foi a transferência
do “centro de gravidade” do Brasil colonial das capitanias do nordeste para as do

19 Governador D. Vasco da Cunha Menezes, em 1728, citado por Goulart. A Escravidão Africana no Brasil,
p. 137.
20 Boxer. The Golden Age, pp. 45-46; Philip Curtin. The Atlantic Slave Trade: A Census. Madison: University
of Wisconsin Press, 1969, p. 210.
21 Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, p. 153; Boxer. The Golden Age, p. 55.

42 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


sudeste: Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Outros fluxos econômicos con-
firmam a tendência mostrada pelo tráfico de escravos e revelam que as mudanças
começaram bem cedo no século XVIII. Nos primeiros anos do rush, a principal
rota comercial para Minas era o Caminho da Bahia: até 1721 a arrecadação média
de direitos de entradas nessa rota foi de 15 arrobas de ouro por ano, enquanto nos
trajetos de São Paulo e do Rio de Janeiro, o Caminho Geral do Sertão e o Caminho
Novo, somados, não passou de 11,5 arrobas.
Em 1724, os direitos de importação pela Bahia atingiram um máximo de 25 arro-
bas de ouro, declinando drasticamente em seguida, enquanto as receitas nas rotas do
Rio e de São Paulo cresciam continuamente, alcançando, já em 1722, as cifras de 26 e
32 arrobas, respectivamente.22 Em 1763, refletindo a mudança de suas importâncias
relativas, a capital da colônia foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro.
A média anual das importações de escravos para Minas Gerais foi estimada em
2.500 a 2.700 entre 1698 e 1717; 3.500 a 4.000 no período de 1717 a 1723; 5.700 a
6.000 de 1723 a 1735 e 6.500 de 1735 a 1760, representando cerca de 38% e 36% de
todas as importações brasileiras de escravos nos dois últimos períodos.23
Na fase ascencional do ciclo do ouro a população escrava da capitania acom-
panhou pari passu a produção aurífera, e podemos acompanhar a evolução dessas
variáves a partir dos registros da cobrança do quinto real e da capitação.24
As tabelas 2.2 e 2.3 mostram que a produção de ouro cresceu rapidamente durante
as primeiras décadas do período até atingir seu zênite em torno da metade do século, e
que durante a fase de expansão foi seguida de perto pela população escrava. O número
total de escravos triplicou nas duas décadas entre 1717 e 1737, atingiu seu pico em 1738
e aí permaneceu estável, com uma ligeira tendência ao declínio, até 1749.
Os dados também deixam claro que a idade do ouro de Minas Gerais já
estava começando a se esvair por volta da quarta década. À medida que o século
avançava, os depósitos aluviais facilmente acessíveis iam dando sinais de cres-
cente esgotamento, e a manutenção dos níveis de produção alcançados até então

22 Boxer. The Golden Age, pp. 39-40; Lima Júnior. A Capitania das Minas Gerais, pp. 98-99.
23 Goulart. A Escravidão Africana no Brasil, pp. 165-70.
24 O imposto por capitação permaneceu em vigor em Minas Gerais de 1735 a 1749. “Todos os escravos
dos dois sexos acima da idade de 12 anos eram tributados a uma taxa fixa de 4,75 oitavas de ouro
por cabeça (...) negros livres, mulatos e mestiços que não possuissem escravos, deviam pagar uma
taxa de capitação idêntica sobre si mesmos. Artífices e trabalhadores pagavam a mesma quantia,
enquanto lojas, armazéns e estalagens eram divididos em três categorias, seus proprietários pagando
vinte e quatro, dezesseis e oito oitavas respectivamente (...) A capitação tinha que ser paga em duas
prestações, vencíveis em 15 de março e 15 de setembro”. Boxer. The Golden Age, pp. 198-99.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


43
exigiria uma tecnologia e investimentos que estavam fora do alcance da maioria
dos mineradores.

Tabela 2.2 - Minas Gerais: Arrecadação do quinto real e produção


total de ouro, 1700-1820, em quilos1
Períodos Quinto real Produção de ouro Índice

Total Média Total Média 1736-51 = 100


1700-1713 203 14 1.014 72 0,8
1714-1725 4.589 382 22.944 1.912 20,3
1726-1735 7.345 734 36.723 3.672 39,0
1736-1751 2 30.110 1.882 150.548 9.409 100,0
1752-1777 3 36.652 1.410 183.260 7.048 74,9
1778-1800 18.408 800 92.041 4.002 42,5
1801-1820 7.535 377 37.677 1.884 20,0

1700- 1820 104.841 866 524.206 4.332 46,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 2.3 - Minas Gerais: População escrava no século XVIII

Ano População Escrava Ano População Escrava


1717 33.000 (1) 1742 94.128 (4)
1723 50.000 (2) 1743 94.424 (4)
1735 96.541 (3)
1745 95.366
1738 101.607 1749 88.286
1740 94.632 1786 188.941 (5)
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Uma vez iniciada, a decadência não foi revertida. A arrecadação do quinto real
permite acompanhar esse declínio: de um máximo de 1.733 quilos em 1754 caiu
para 1.351 em 1770, 999 em 1780, 779 em 1790, 573 em 1800, 411 em 1810, até atin-
gir somente 29 quilos em 1820. Entretanto, de uma perspectiva mais ampla, exa-
minando um período maior, e com dados mais desagregados, podemos perceber
que, na segunda metade do século, a queda foi inexorável, porém bastante lenta.25

25 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 166-68. A série anual que usamos no gráfico 2.1 é o Mappa

44 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Gráfico 2.1 - Minas Gerais: Arrecadação dos quintos do ouro, 1715 - 1805,
em arrobas (médias móveis de 3 anos)
300

250

200

150

100

50

0
1715

1720

1725

1730

1735

1740

1745

1750

1755

1760

1765

1770

1775

1780

1785

1790

1795

1800

1805
Nota: Entre 1735 e 1749 a cobrança foi feita pelo sistema da capitação
Fonte: “Mappa do Rendimento que produzio o Real Quinto do Oiro na Capitania de Minas Gerais
de 1707 a 1787.” RAPM VIII (1908) rep. por Maxwell, Conflicts, p. 253; complementada por dados
de Eschwege, Pluto, pp. 166-68.

À medida que o ouro diminuía, a população começou a deixar os núcleos mine-


radores, espalhando-se pelo interior, pontilhando ainda mais com fazendas, currais
e roças de mantimentos os vales dos rios São Francisco, Grande, Paranaíba e Doce.
Em contraste com a época do boom, quando a maior parte da população se dedi-
cava à mineração, um autor do século XX estimou que, em 1776, algo em torno de
80% da força de trabalho (livre e escrava) já não estava empregada nesse setor.26

O SETOR MINERADOR DE OURO NO INÍCIO DOS ANOS 1800


Na virada do século a idade do ouro já pertencia ao passado. Depois da transfe-
rência da corte portuguesa para o Brasil, foram dadas permissões, pela primeira vez,

do rendimento que produzio o Real Quinto do Oiro na Capitania de Minas Gerais de 1700 a 1787.
Revista do Arquivo Público Mineiro VIII (1908): 575-577, reproduzida por Kenneth R. Maxwell. Conflicts
and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750-1808. Cambridge: At the University Press, 1973, p. 253;
complementada no período 1787 a 1805 com dados de Eschwege. Nesta série, o ano de maior
arrecadação do quinto é 1744, quando a receita atingiu 280 arrobas ou 4.113 quilos de ouro.
26 Singer. Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana, p. 204.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


45
para estrangeiros viajarem pelo interior do país. Muitos se apressaram em correr para
as regiões do ouro e dos diamantes de Minas Gerais para ver as lendárias riquezas tão
ciosamente escondidas pelos portugueses por mais de um século.
Seus diários de viagem, em vez de relatos de um Eldorado, registraram ape-
nas histórias de decadência.27 As vilas do ouro estavam semi-desertas; suas casas,
igrejas e edifícios públicos, em ruínas. A terra ao seu redor era estéril, o cascalho
aurífero tinha sido lavado vezes sem conta, e na maioria dos lugares era trabalhado
somente por uns poucos faiscadores, que mal conseguiam retirar dele um miserá-
vel sustento. A maior parte da população tinha migrado para a agricultura e para
a criação de gado. Os únicos lugares que mostravam algum sinal de prosperidade
eram aqueles que, em virtude de uma localização privilegiada, tinham-se tornado
entrepostos comerciais ou que tinham conseguido efetuar com sucesso a transição
da mineração para outras atividades.
John Mawe, o primeiro inglês que obteve permissão “para ultrapassar a barreira
das montanhas alpinas que se estendem ao longo da costa”, visitou Minas Gerais em
1809. Ficou surpreso com o que chamou de “comparativa pobreza” da região. Vila
Rica, a capital do distrito do ouro, uma cidade que já fora “reputada o lugar mais
rico do globo”, estava em decadência. “Uma boa parte das mais de duas mil habita-
ções existentes na cidade estava desocupada e os aluguéis das demais estavam em
queda constante. As casas podiam ser compradas pela metade do seu valor real”. Os
moradores lhe disseram que todo o ouro tinha sido levado para a Inglaterra e que
o próprio nome da cidade deveria ser mudado, pois ela agora devia ser chamada de
Vila Pobre.28
O Barão von Eschwege, um engenheiro de minas alemão a serviço da coroa
portuguesa, que foi enviado a Minas Gerais em 1811, com a missão de estudar as
causas e de sugerir soluções para o declínio da mineração, deixou um relatório
detalhado sobre estado da indústria na segunda década do século XIX. Ele descreve

27 Descrições detalhadas das condições do setor minerador no início do século XIX, a decadência urbana e
a transição geral para a agricultura podem ser encontradas, entre outros, nos seguintes trabalhos: John
Mawe. Travels in the Interior of Brazil. Philadephia: M. Carey and Boston: Wells and Lilly, 1816; Auguste
de Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, trad. Clado Ribeiro Lessa, 2
vols. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938; Auguste de Saint-Hilaire. Segunda Viagem do Rio
de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo, 2ª. ed., trad. Affonso de Taunay. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1938; Auguste de Saint-Hilaire. Viagem ao Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil, trad.
Leonam de Azeredo Pena. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1941; W. L. von Eschwege. Pluto Brasiliensis;
G. W. Freireyss. Viagem ao Interior do Brasil nos annos de 1814-1815. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo, vol. XI, 1906 (São Paulo, 1907), pp. 158-228; J. B. von Spix e C. F. P. von Martius.
Viagem pelo Brasil, 4 vols., trad. Lucia Furquim Lahmeyer. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1938; Rev.
Robert Walsh. Notices of Brazil in 1928 and 1829, 2 vols. London: F. Westley and A. H. Davis, 1830, vol. 2.
28 John Mawe. Travels, pp. 149, 177 e 179.

46 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


inúmeras localidades que tinham contido ricas lavras, mas estavam agora decaden-
tes ou abandonadas, e conclui a análise dizendo que poderia citar dezenas de outros
lugares que foram sustentados pela mineração de ouro no passado, mas que haviam
se tornado empobrecidos.29
O naturalista Freireyss, viajando pela região em 1815, também ficou chocado
com o que viu.
(...) eu fantasiava grandes estabelecimentos mineradores; enorme,
porém, foi minha surpresa quando me mostraram, aqui e acolá, uns
poucos negros nus, sem outras ferramentas (...) além de uma enxada,
uma gamela de madeira e uns trapos de pano.30

O Reverendo Robert Walsh registrou que a transição para a agricultura estava


quase completa nos anos 1820. Do vale do rio Paraopeba, no coração da zona mine-
radora, ele escreveu que
os habitantes haviam exaurido seus recursos na busca pelo ouro, tinham
abandonado as tentativas e, por necessidade, voltaram sua atenção para a
agricultura; por isso não encontramos uma única lavra nos dois últimos
dias, mas vimos muitas fazendas bem cultivadas.31

Fica claro que, desde as primeiras décadas do século XIX, a província de Minas
Gerais já não mais poderia ser caracterizada como uma economia mineradora. A
evidência disponível também mostra que a dissociação entre escravidão e mineração,
que já tinha começado há algum tempo, estava quase completa nessa época.
Dos dados colhidos por Eschwege, na sua permanência de dez anos em Minas,
podemos aferir a importância da mineração como setor empregador de escravos no
período. Ele estimou que o número total de pessoas empregadas na mineração do
ouro que, por volta de 1750, tinha sido cerca de 80 mil, ou um terço da população,
diminuira para cerca de 6.000 por volta de 1820, o que não representava mais do que
1,2% da população na época.32
As detalhadas tabelas que publicou, referentes aos anos de 1810 e 1814, regis-
tram a força de trabalho do setor aurífero, desagregada segundo a condição. A com-
paração entre as tabelas 2.4 e 2.5 revela a rapidez com que o setor estava decaindo.
No curto espaço de quatro anos, 114 de lavras deixaram de operar. O número de

29 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 43-47.


30 Freireyss. Viagem, p. 178.
31 Walsh. Notices, vol. 2, p. 171. A palavra fazendas está em português no original.
32 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 361-62.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


47
escravos e o emprego total nas lavras, ambos já pequenos em 1810, diminuíram na
mesma proporção, quase 40%.
A força de trabalho nas lavras era predominantemente escrava (97% nos dois
anos), como sempre fora, desde o começo do rush. Os poucos trabalhadores livres
empregados nas lavras eram supervisores ou feitores.33 O inverso era verdadeiro no
caso dos faiscadores, onde os escravos eram minoria. Os faiscadores livres não eram
assalariados, mas trabalhadores independentes, em muitos casos libertos, para quem
a faiscagem era uma atividade de subsistência. Isso não surpreende porque a pró-
pria natureza dessa exploração a tornava inadequada para qualquer tipo de emprego,
escravo ou livre. A produtividade era muito baixa, deixando um excedente mínimo
acima do nível de subsistência, especialmente no período do declínio.
Tipicamente, o faiscador trabalhava em alguma lavra abandonada ou a jusante
das lavras ainda em operação, revolvendo areia e cascalho que já tinham sido proces-
sados, na esperança de recuperar as poucas gramas de ouro que podiam ter escapado
das técnicas rudimentares empregadas. Eschwege observou que, na estação seca, um
faiscador costumava obter de 100 a 150 réis por dia, ficando no limite da subsistência,
enquanto na estação das chuvas seus ganhos podiam aumentar para 500 a 600 réis em
poucas horas de trabalho, e assim podia ficar à toa pelo resto da semana.
Um faiscador disse a Saint-Hilaire que 5 vinténs (0,560 gramas) de ouro seria
um resultado excepcionalmente bom para um dia de trabalho e que habitualmente
ele não conseguia nem a metade disso. Gardner avaliou o teto dos ganhos dos fais-
cadores em um shilling por dia; Spix e Martius estimaram suas rendas em 600 réis
por semana. Diversos outros observadores concordaram que o padrão de vida dos
faiscadores era miserável.34

33 Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias, vol. 1, p. 217.


34 Os observadores contemporâneos são unânimes nas afirmações de que a produtividade dos
faiscadores era geralmente muito baixa. Descrições do trabalho dos faiscadores, suas técnicas e
estimativas de suas rendas podem ser encontradas em: Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 309-
10, vol. 2, pp. 10-11, 16-17 e 21-22; Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias, vol. 1, pp. 143, 152, 224-26;
George Gardner. Viagens pelo Brasil. trad. Albertino Pinheiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1942, p. 424; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 314, 332; Hermann Burmeister. Viagem ao Brasil
através das Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. trad. Manoel Salvaterra e Hubert Schoenfeldt.
São Paulo: Livraria Martins, 1952, pp. 181-82; Conde de Suzannet. O Brasil em 1845, trad. Márcia de
Moura Castro. Rio de Janeiro: Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1954, pp. 90-91, 99;
Walsh. Notices, vol. 2, p. 200; José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo. Memórias Históricas do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948, vol. 8, tomo 2, pp. 263-64. Um vintém de ouro é
igual a 1/32 oitavas, ou sejam, 0,112 gramas.

48 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Tabela 2.4 - Minas Gerais: O setor minerador de ouro em 1810 (*)
Termos Lavras em Trabalhadores nas lavras Faiscadores
operação
Livres Escravos Livres Escravos
Vila Rica 67 23 3.457 479 315
Cidade de Mariana 126 44 1.886 600 591
São João del Rei 31 27 362 – 3
São José del Rei 34 7 307 46 8
Barbacena 12 11 77 122 154
Sabará 55 25 757 457 143
Vila Nova da Rainha 95 33 1.813 801 385
Paracatu 17 7 141 139 60
Vila do Príncipe** 15 23 317 120 293
Serro do Frio** 74 81 288 159 42
Campanha da Princesa 50 5 788 3 22
Minas Novas 8 2 60 20 22
Pitangui 47 47 350 345 10
Total 631 335 10.603 3.291 2.048
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 2.5 - Minas Gerais: O setor minerador de ouro em 1814


Termos Lavras em Trabalhadores Produção Faiscadores Produção dos
operação das lavras faiscadores

Livres Escravos Livres Escravos


Ouro Preto 66 45 536 17,7 572 307 95,1
Mariana 94 12 1.491 143,3 848 450 57,6
Vila do Príncipe 48 * 365 33,0* 95 130 0,6*
Minas Novas 13 17 56 1,5 57 3 2,2
Caeté 98 14 1.869 78,6 903 562 121,8
Sabará 85 80 1.136 80,4 782 340 80,2
Pitangui 8 * 82 1,9 110 56 13,2
Paracatu 17 7 129 4,6 177 53 17,5
S. João del Rei 29 11 292 * * 12 *
S. José del Rei 1 * 16 * * * *
Campanha 48 * 486 42,6 14 * 1,2
Barbacena 10 11 77 8,8 46 144 4,2
Total 517 197 6.535 412,4 3.604 2.057 393,6
Dados de produção em quilogramas.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

O controle da força de trabalho era outro problema que dificultava o uso de


escravos na faiscagem. A prevenção de roubos pelos trabalhadores era uma preo-
cupação constante para todas as empresas mineradoras porque, de acordo com os
depoimentos contemporâneos, quantidades substanciais de ouro e de diamantes

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


49
eram roubadas pelos escravos apesar do grande número de feitores e supervisores.
Na faiscagem esses problemas eram muito mais complexos e constituíam um ver-
dadeiro pesadelo para o empresário: como controlar uma grande força de trabalho,
trabalhando a céu aberto, espalhada por uma grande área, lidando todo o tempo
com um produto de pequeno volume, que não exigia nenhum processamento pos-
terior e valia, literalmente, seu peso em ouro? Os custos de supervisão certamente
a tornariam inviável.
Não é surpresa, portanto, que a faiscagem permanecesse essencialmente como
uma atividade de subsistência. Era o equivalente, no setor da mineração, das roças
de subsistência dos camponeses pobres das áreas agrícolas. Mesmo os faiscadores
escravos nem sempre trabalhavam para seus senhores. Muitos faiscavam por conta
própria, nos domingos e dias santos – para eles a faiscagem era o equivalente das
slave patches das plantations.35
O número de faiscadores, escravos e livres, aumentou ligeiramente entre 1810
e 1814. Esse fenômeno, um claro sinal de decadência do setor, não ocorreu ape-
nas nesse período. As estimativas da produção dos faiscadores em anos posterio-
res apresentam grandes variações e devem ser consideradas como tentativas, na
melhor das hipóteses. Elas mostram, não obstante, que o número de faiscadores
nos primeiros anos do século XX era algo entre 6.500 e 10.500.36

35 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 10-11, 65. Russell-Wood cita um tipo de faiscador escravo
que corresponde exatamente aos “negros de ganho” frequentemente encontrados nas áreas urbanas
brasileiras. O escravo era obrigado a entregar ao seu senhor, todo sábado, uma quantia determinada
de ouro, além de prover seu próprio sustento. Cabia a ele decidir onde, quando e como trabalhar. Não
há evidência, entretanto, de quão disseminada era essa espécie de arranjo. Nos primeiros anos do
século XIX certamente não era importante, dado o pequeno número de faiscadores escravos, como
mostram as tabelas 2.4 e 2.5. A. J. R. Russel-Wood. Technology and Society: The Impact of Gold Mining
on the Institution of Slavery in Portuguese America. Journal of Economic History, vol. 37, n°. 1 (março
de 1977), pp. 59-63, 76-77.
36 A produção total dos faiscadores foi estimada em 2.200 quilos de ouro no período 1901-1903,
resultando em uma média anual de 733,3 quilos. Usando o nível de produtividade observado em
1814 (cerca de 69,5 gramas por homem, por ano), chegamos à estimativa mais alta. Goulart sugere
que a produção anual de um faiscador era ao redor de 112,5 gramas. Essa produtividade resulta
na estimativa mais baixa do número de faiscadores. Calógeras estimou a produção de ouro pelos
faiscadores em 20.000 quilos no período 1896-1900, o que daria uma média anual de 4.000 quilos
e um número de faiscadores entre 35.000 e 57.000. Isso parece ser uma enorme superestimativa.
O número que usamos, também devido a Calógeras, está de acordo com o do engenheiro de minas
contemporâneo William Jory Henwood, que estimou a média de produção anual dos faiscadores
e das companhias brasileiras de mineração em 747 quilos no período 1820-1860. Uma vez que as
companhias brasileiras do setor não eram importantes no período, esses números podem ser tomados
como uma aproximação para a produção dos faiscadores. Calógeras. As Minas, p. 473; Goulart. A
Escravidão, pp. 160-61; William Jory Henwood. Observations on Metalliferous Deposits. Transactions
of the Royal Geological Society of Cornwall, vol. 8, t. 1 (1871), pp. 367-69.

50 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


As lavras ainda em operação em 1814 eram apenas pálidas sombras do que
tinham sido poucas décadas antes. Jazidas que haviam ocupado centenas, ou
mesmo milhares de escravos, estavam quase abandonadas. Um caso típico foi o
das lavras do Morro de São João, perto de São João del Rei, que tinham empregado
2.426 escravos até 1780 e estavam reduzidas, em 1814, a cerca de 50 cativos.37

Tabela 2.6 - Minas Gerais: Escravos nas lavras de ouro, 1814


Escravos por lavra Número de lavras %
Zero* 6 1,2
1a5 162 31,3
6 a 10 164 31,7
11 a 20 110 21,3
21 a 50 60 11,6
51 a 100 14 2,7
100 ou mais 1 0,2

Total 517 100,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Nesse último ano, o número médio de escravos por lavra era de 12,6 mas a
grande maioria delas tinha bem menos que isso. Quase dois terços das lavras em
atividade tinham dez ou menos escravos, enquanto apenas uma, a famosa mina
de Morro Velho, em Congonhas do Sabará (com 122 escravos), ultrapassava uma
centena de cativos.
Algumas poucas lavras ainda apresentavam uma alta produtividade por traba-
lhador e certamente geravam bons retornos. Esse foi o caso, por exemplo, das lavras
do Morro das Almas, no distrito de Água Quente. Essas duas lavras produziram,
em 1814, 46.690 gramas de ouro, usando uma força de trabalho de 48 escravos. A
produção por escravo, 973 gramas de ouro, representava, segundo Eschwege, quase
o dobro do valor de cada escravo.38 A maioria das lavras, entretanto, tinha um nível
de produtividade baixíssimo.
Como se pode ver na tabela 2.7, 340, ou 76%, das 446 lavras para as quais temos
informações sobre a produção e a força de trabalho, tiveram uma produção média
por trabalhador inferior a 70 gramas de ouro, ou seja, menor que a produção média

37 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 31-32.


38 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 22. Na página 22, Eschwege dá a produção total de 14.040
oitavas de ouro (50.396 gramas) para essas duas lavras, o que significaria uma produção de 1.049
gramas por escravo. Mas, pela tabela na página 41 obtemos os números ligeiramente mais baixos
usados no texto.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


51
de um faiscador, nesse mesmo ano.39 Tendo em mente que a renda dos faiscado-
res não ultrapassava o nível de subsistência, fica óbvio que a maioria das lavras
não poderia produzir lucros. A maior parte do ouro fácil já tinha sido colhida e,
à medida que tentavam prosseguir, os mineradores se deparavam com problemas
para cuja solução não tinham nem o conhecimento técnico nem os recursos finan-
ceiros necessários. As minas eram constantemente inundadas por águas subterrâ-
neas e os deslizamentos de terra, desabamentos e outras catástrofes tornavam-se
mais frequentes. Algumas vezes tinham proporções trágicas: um único acidente, no
morro de São João, causou a morte de 200 escravos e 11 feitores.40

Tabela 2.7 - Minas Gerais: Produtividade do trabalho em 4461 lavras de ouro, 1814
(número de lavras segundo a localização e a produção por trabalhador)
Municípios Produção por trabalhador, em gramas Total
0 - 10 11 - 20 21 - 40 41 - 70 71 - 100 101 - 200 201 - 500 500 +

Ouro Preto 16 14 15 12 5 1 * * 63
Mariana 9 18 22 26 10 6 * 2 93
Vila do Príncipe 2 3 5 9 8 15 2 * 44
Minas Novas * 3 10 * * * * * 13
Caeté 18 13 16 6 5 6 5 * 69
Sabará 6 9 27 20 11 6 3 * 82
Pintangui 2 * 2 3 * * * * 7
Paracatu * 2 6 8 1 * * * 17
Campanha 2 5 15 13 3 7 2 1 48
Barbacena * * 1 2 3 3 1 * 10
Total 55 67 119 99 46 44 13 3 446
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Não surpreende, portanto, que o número de lavras em operação declinasse con-


tinuamente. Não são disponíveis dados detalhados para anos posteriores a 1814,
mas Eschwege relatou que, entre aquele ano e 1820, o número de lavras diminuira
“extraordinariamente” e que mesmo naquelas ainda em operação no final do último

39 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 65. Eschwege questiona o resultado de que a produção por
trabalhador era, em média, mais alta na faiscagem do que nas lavras. Na p. 65 apresenta algumas
razões para justificar o argumento de que os dados de 1814 superestimam a produtividade dos
faiscadores. Uma fonte do século XVIII sugere que em 1780 a produção por trabalhador nas lavras já
era muito baixa, embora algo mais alta do que em 1814. Essa estimativa, de 20 oitavas (71,7 gramas)
por escravo está em José João Teixeira Coelho. Instrução para o Governo da Capitania de Minas Gerais.
Revista do Instituto Histórico e Geographico do Brazil. 3ª. série, nº. 7, 4º. trimestre de 1852, p. 377.
40 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 32.

52 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


ano, o nível de atividade tinha sido muito reduzido.41 A maioria dos escravos nelas
empregados já não eram mais mineiros em tempo integral, e trabalhavam vários
meses por ano no cultivo dos mantimentos necessários para sua manutenção. Nessa
época, um tipo de estabelecimento misto, combinando mineração e agricultura,
que já era comum em Minas Gerais desde o início da colonização, tornou-se ainda
mais disseminado.42

A MINERAÇÃO DE DIAMANTES
Nenhuma história da mineração em Minas Gerais pode deixar de mencionar
o setor diamantino.43 A primeira comunicação oficial sobre a ocorrência de dia-
mantes foi apresentada em 1729 à Coroa Portuguesa por D. Lourenço de Almeida,
governador da capitania. As primeiras descobertas, entretanto, certamente ocor-
reram vários anos antes, pois a resposta da Coroa a D. Lourenço foi uma severa
reprimenda pelo atraso da notícia, uma vez que os diamantes de Minas já estavam
chegando a Lisboa, há pelo menos dois anos, nas frotas do Brasil.44

41 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 361-62 e vol. 2, p. 64.


42 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 64; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 279 e 332; Mawe. Travels,
p. 192; Dornas Filho. O Ouro das Gerais, p. 208. O estudo de Kenneth Maxwell sobre a economia
mineira na segunda metade do século XVIII mostra que, nesse período, a ocorrência de propriedades
rurais horizontalmente integradas já era muito comum. Apresenta diversos exemplos de fazendas que
combinavam mineração, açúcar, criação de gado e outros produtos agrícolas. Veja Maxwell. Conflicts
and Conspiracies, pp. 87-88. Miguel Costa Filho dedica um capítulo inteiro a essas fazendas mistas
mostrando que elas eram a regra, desde as primeiras décadas da colonização. Miguel Costa Filho. A
Cana de Açúcar em Minas Gerais. Rio de Janeiro: MEC/ Instituto Nacional do Livro, 1958, pp. 159-65.
43 Aqui, como no caso da mineração de ouro, nosso foco principal é dirigido às relações entre mineração
e escravidão no século XIX. A inclusão de um curto relato do setor de diamantes no século XVIII,
entretanto, atende a um duplo objetivo: dá alguma autossuficiência a esta seção e descreve as
condições do setor no começo do período em estudo. Boas descrições da mineração de diamantes em
Minas Gerais no século XVIII podem ser encontradas em Augusto de Lima Jr. História dos Diamantes
nas Minas Gerais. Rio de Janeiro: Edições Dois Mundos, 1945; Joaquim Felício dos Santos. Memórias do
Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio. Não pude ter em mãos nenhuma das edições brasileiras
desse livro clássico, lançado em 1868. As citações são da tradução francesa Le Diamant au Brésil.
trad. Manoel Gahisto. Paris: Société d’Editions Les Belles Lettres, 1931; Mawe. Travels, Spix e Martius.
Viagens, vol. 2, especialmente pp. 99-136; Richard Francis Burton. Explorations of the Highlands of
the Brazil: with a full account of the gold and diamond mines, 2 vols. London: Tinsley Brothers, 1869,
vol. 1; Saint-Hilaire. Viagens pelo distrito; Boxer. The Golden Age; Pizarro e Araújo. Memórias, vol. 8,
tomo 2; Jean Claude Rose Milliet de Saint-Adolphe. Diccionario Geographico, Histórico e Descriptivo
do Império do Brasil. trad. Caetano Lopes de Moura, 2 vols. Paris: J. P. Aillaud, 1845, vol. 1; Eschwege.
Pluto Brasiliensis, vol. 2. Essas obras cobrem vários aspectos do setor diamantino, mas, como regra,
concentram-se na política, na legislação portuguesa e nas descrições da tecnologia adotada na época.
A história dos diamantes em Minas no século XIX ainda está por ser escrita.
44 Lima, Jr. História dos Diamantes, pp. 27-30. Essa fonte reproduz a carta de D. Lourenço ao Rei, em 27
de julho de 1729, e a resposta do Rei, em 8 de fevereiro de 1730.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


53
Logo depois do anúncio das descobertas, as autoridades coloniais e metropolitanas
agiram rapidamente para obter o controle do tesouro recém-encontrado. Os instrumen-
tos dessa ação, um emaranhado de decretos e regulamentos que se estendeu por mais de
um século, constituiu um dos códigos coloniais mais repressivos e mais violentamente
cumpridos jamais impostos por qualquer metrópole a uma colônia americana.
Nas palavras de um especialista na expansão ultramarina portuguesa, a minera-
ção de diamantes e a região diamantina de Minas Gerais se sobressaem em meio à
relativa frouxidão e mesmo brandura da administração colonial portuguesa, como
o “único objeto e a única região aos quais essas qualificações não se aplicaram, e
nos quais a Coroa demonstrou uma ferocidade deliberada na defesa de seus direi-
tos e na opressão de seus vassalos que faria inveja um déspota oriental”.45
A política diamantina da Coroa perseguiu obsessivamente dois objetivos. O pri-
meiro, assegurar o monopólio das pedras, revelou-se logo na primeira peça da legis-
lação sobre o assunto. Em 8 de agosto de 1730, todos os diamantes foram declara-
dos propriedade da Coroa, e o governador de Minas foi instruído a tomar quaisquer
medidas que julgasse necessárias para garantir isso. Consequentemente, D. Lourenço
cancelou todas as concessões de mineração anteriormente outorgadas em terrenos
diamantinos e impôs uma capitação sobre todos os escravos empregados na minera-
ção de diamantes.46
O Distrito Diamantino, que compreendia partes dos vales dos rios Jequitinho-
nha e Pardo, foi, desde o início, submetido a leis especiais, muito mais severas do
que as que vigoravam em outras partes da colônia. Era uma região áspera e deso-
lada no centro de Minas Gerais, cercada de “penhascos que bem poderiam orna-
mentar a boca do inferno” e merecidamente chamada de Serro do Frio. Por um
decreto de 1733, implementado no ano seguinte, foi feito um levantamento do dis-
trito e foram definidas as fronteiras da Demarcação Diamantina. Era uma área de
forma ovalada, com 42 léguas de circunferência e um diâmetro de 14 a 15 léguas,
tendo como centro o arraial do Tejuco, hoje cidade de Diamantina. À medida que

45 A citação é de Boxer. The Golden Age, p. 205. A copiosa legislação portuguesa sobre o assunto é
estudada nas fontes citadas na nota 43 acima. Essas fontes estão, às vezes, em desacordo quanto
a datas e o conteúdo específico de alguns dos atos. Uma possível fonte de conflito está no fato de
que, muitas vezes, se legislava na colônia e na metrópole sobre o mesmo assunto. O governador
da capitania podia promulgar “bandos” ou medidas provisórias, mais tarde submetidas à apreciação
real. Quando aprovadas pela Coroa a decisão contida no “bando” era repromulgada na forma de um
decreto definitivo, dessa forma gerando duas peças de legislação sobre a mesma questão, com datas
diferentes e, algumas vezes, com diferentes disposições.
46 Eschwege. Pluto Brasiliensis, pp. 116-17; Lima, Jr. História dos Diamantes, pp. 30 e 76; Saint-Hilaire.
Viagens pelo Distrito, p. 3; Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 239.

54 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


ocorriam novas descobertas fora dos limites originais, as fronteiras eram estendi-
das para incluir os novos sítios na jurisdição especial. Quando eram encontradas
jazidas em lugares não adjacentes à Demarcação, as áreas eram transformadas em
“destacamentos diamantinos”, como foi o caso de Abaeté e Indaiá.47
O Distrito Diamantino foi descrito por vários autores como “um Estado dentro
do Estado”. A partir de 1733 passou a ser governado por uma agência especial, a
Intendência dos Diamantes, cuja principal autoridade, o Intendente, era indicado
diretamente pelo rei. Era a autoridade suprema para todas as questões administra-
tivas, judiciais e policiais e suas decisões não eram passíveis de apelação.
Para impedir o contrabando, as fronteiras do distrito foram fechadas e as estra-
das principais eram continuamente patrulhadas por companhias de elite de dragões.
Ninguém, nem mesmo o governador da capitania, tinha permissão para entrar sem
um passaporte especial; ninguém podia sair sem ser minuciosamente revistado.
A posse de um diamante ou de uma ferramenta de mineração era punida com
penas que variavam de multas e expulsão do distrito até o degredo para a África e a
morte. A ostentação pública de riqueza era um convite à investigação pelos agentes
do Intendente. Lojas, tavernas e outros estabelecimentos comerciais, sempre sob
a suspeição de abrigar transações ilícitas, sofriam constante vigilância e as vilas e
arraiais viviam sob uma espécie de toque de recolher permanente. Especialmente
tenaz era a perseguição aos garimpeiros, como eram chamados os mineradores
clandestinos nos terrenos diamantinos. Havia uma constante guerrilha entre eles e
as tropas da Coroa e, de tempos em tempos, eram organizadas grandes operações
militares para varrê-los do distrito.
A legislação repressiva alcançou seu clímax com os atos de julho e agosto de
1771. O livro no qual esses atos foram reunidos tornou-se um símbolo da opressão
colonial no Brasil, conhecido como o Livro da Capa Verde.48
O segundo objetivo da política portuguesa era o controle da oferta de dia-
mantes. Logo após as primeiras descobertas, sua mineração foi tratada da mesma

47 Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 330; Pizarro e Araújo. Memórias, vol. 8, tomo 2, pp. 107-115;
Lima Jr. História dos Diamantes, p. 38; Boxer. The Golden Age, pp. 207-08; Burton. Explorations, vol.
2, p. 106; Spix e Martius. Viagem, vol. 2, p. 108; Felício dos Santos. Le Diamant, pp. 55-56. Lima Jr.
e Felício dos Santos descrevem os limites do distrito com maiores detalhes e Mawe. Travels, p. 144,
apresenta um esboço do seu mapa na época de sua visita.
48 Spix e Martius. Viagem, vol. 2, p. 103; Saint-Hilaire. Viagens pelo distrito, p. 1. A legislação repressiva
e sua aplicação são descritas com algum detalhe pela maioria dos autores citados na nota 43,
especialmente Lima Jr., Felício dos Santos e Eschwege. Sobre os garimpeiros, veja especialmente
Felício dos Santos, filho ilustre do Serro e morador de Diamantina, que os retrata como folk heroes.
Seu relato, escrito no terceiro quartel do século XIX, tem fortes tons emocionais, e revela o ódio dos
diamantinenses pela legislação diamantina, mesmo várias décadas depois de sua abolição.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


55
maneira que a mineração de ouro: qualquer pessoa podia obter uma concessão
para sua exploração, desde que pagasse uma capitação de cinco mil réis por cada
escravo empregado no empreendimento.49 O resultado dessa liberalidade foi uma
tal pletora dessas pedras nos mercados europeus que fez seu preço despencar, no
início dos anos trinta, para cerca de um quarto do nível anterior a 1730.50
Em 1731 a Coroa já tinha percebido que, para estancar a queda do preço, a
oferta teria que ser judiciosamente controlada e ordenou, portanto, pelo decreto de
16 de março, que toda a mineração fosse suspensa e os mineradores expulsos do
distrito. Uma forte oposição popular tornou a medida insustentável e tudo o que o
governador pôde fazer foi aumentar a capitação para 20 mil réis por escravo. Em
1733 a taxa foi elevada para 40 mil réis, com o objetivo explícito de desencorajar a
mineração de diamantes.51 Como esse múltiplo aumento da taxação não conseguiu
impedir o crescimento da produção, a Coroa decidiu, de novo, em 19 de julho de
1734, proibir toda a mineração.52
Desta vez a proibição surtiu o efeito desejado: por volta de 1736, os preços
começaram a se recuperar, e em 1740 a exploração foi reaberta, em bases intei-
ramente diferentes.53 Naquele ano a mineração foi retomada em escala limitada,
sob um sistema de arrendamento, chamado de Contratação, no qual o contratador,
por meio de um leilão (arrematação) e do pagamento de uma soma fixa à Coroa,
obtinha o monopólio da extração das pedras. A Coroa reservava para si o direito
exclusivo de comprar toda a produção e o contrato estipulava que, a fim de mantê-
-la sob controle, o contratador não poderia empregar mais do que 600 escravos.54

49 Felício dos Santos. Le Diamant, pp. 42-43; Luis Beltrão Gouveia de Almeida. Discurso sobre os Sistemas
de Arrecadação dos Diamantes, em Pizarro e Araújo. Memórias, vol. 8, tomo 2, pp. 232-33; Saint-
Adolphe. Diccionário, vol. 1, p. 329.
50 Lima Jr. História dos Diamantes, pp. 42-43; Saint-Hilaire. Viagens pelo Distrito, p. 3; Boxer. The Golden
Age, p. 210.
51 Eschwege. Pluto Brasiliensis, p. 117; Lima, Jr. História dos Diamantes, pp. 32-33 e 37; Pizarro e Araújo.
Memórias, vol. 8, tomo 2, p. 110; Gouveia de Almeida, Discurso, pp. 232-33; Felício dos Santos. Le
Diamant, pp. 44-52. Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 329, afirma que poucos meses mais tarde a
taxa foi aumentada para 50 mil réis por escravo, mas de acordo com Pizarro e Araújo, somente foi dada
ao governador a opção para fazê-lo.
52 Lima Jr. História dos Diamantes, p. 77; Felício dos Santos. Le Diamant, p. 57; Boxer. The Golden Age, p.
210.
53 Boxer. The Golden Age, p. 211.
54 Boxer. The Golden Age, pp. 212, 221; Felício dos Santos. Le Diamant, pp. 74-75; Gouveia de Almeida,
Discurso, p. 235; Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 330; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 120.
Pizarro e Araujo. Memórias, vol. 8, tomo 2, p. 112, cita um contrato de 1735 a 1739, que está em
conflito com todas as outras fontes.

56 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Entre 1740 e o final de 1771 foram firmados seis contratos desse tipo envolvendo
sete indivíduos, como mostra a tabela 2.8.

Tabela 2.8 - Minas Gerais: Produção de diamantes sob o sistema de Contratação,


em quilates*

Contratos Nome dos Contratadores Produção Média anual

1740 - 1743 João Fernandes de Oliveira e Francisco F. Silva 134.071 33.518


1744 - 1748 João Fernandes de Oliveira e Francisco F. Silva 177.200 35.440
1749 - 1752 Felisberto Caldeira Brant e três irmãos 154.579 38.645
1753 - 1758 João Fernandes de Oliveira 390.094 65.016
1759 - 1762 João Fernandes de Oliveira e filho 106.416 26.604
1763 - 1771 João Fernandes de Oliveira e filho 704.209 78.245

Total 1.666.569 52.080


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Durante as três décadas de vigência do regime de Contratação, os contratadores


conseguiram abocanhar a parte do leão: a Coroa recebeu somente 4.644 contos de
réis, ou seja, menos de 30% do total dos 15.515 contos produzidos no período. É
claro que isso levantou muitas suspeitas na corte portuguesa e os críticos do sis-
tema acusavam os contratadores de fraudar a Coroa de várias maneiras. Dizia-se
que eles não respeitavam o limite contratual de 600 escravos, mineravam fora das
áreas especificadas e entravam em conluio com os garimpeiros e os contrabandistas
para desviar parte da produção dos cofres reais.55
Em 1771 o sistema de Contratação foi suspenso e, a partir de 1º de janeiro de
1772, as terras diamantinas começaram a ser exploradas diretamente pela Coroa,
através de uma empresa estatal denominada Real Extração. A Real Extração era
regulamentada pelos atos contidos no supracitado Livro da Capa Verde, operava
com escravos alugados e tinha uma meta de produção de 2.200 oitavas (38.500 qui-
lates) por ano. A companhia revelou-se um fracasso, com resultados muito inferio-
res aos do período da Contratação. Em pouco tempo o sistema mostrou-se incapaz
de cumprir a meta, e tornou-se fortemente deficitário.

55 Boxer. The Golden Age, pp. 220-23; Gouveia de Almeida. Discurso, pp. 235-40; Lima Jr. História dos
Diamantes, pp. 83-92; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 120-22 e 177; Felício dos Santos. Le
Diamant, pp. 72-85 e 152-184.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


57
Nos anos 1790 a companhia se encontrava em profundas dificuldades financei-
ras e foi fechada, em 19 de maio de 1803, por um decreto que tentou restabelecer
a exploração privada com base no arrendamento das terras diamantinas. Esse sis-
tema também não funcionou, ocasionando a reativação da Real Extração, em 1808.

Tabela 2.9 - Minas Gerais: Produção de diamantes no período da Real Extração,


em quilates 1
Período Produção segundo diversas fontes Média anual 2
(A) (B) (C) 3 (D)
1772 - 1785 583.767 586.949 * 587.173 41.941
1786 - 1795 293.162 293.337 290.648 288.047 28.805
1796 - 1806 182.483 * 182.579 183.780 16.707
1807 - 1818 * * 185.296 220.843 18.404
1819 - 1827 * * 58.635 * 6.515

1772 - 1827 4 23.901


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Sob a competente direção do Intendente Câmara por quatorze anos consecu-


tivos, a empresa melhorou ligeiramente seu desempenho nessa fase, mas no final
do período colonial encontrava-se novamente em crise. A independência do Brasil
não significou o fim da odiada instituição, que perdurou, de forma modificada, por
mais de dez anos. O ato de 25 de outubro de 1832, que finalmente estabeleceu a
liberdade da mineração de diamantes, foi comemorado pelos diamantinenses com
desfiles nas ruas e a queima pública do Livro da Capa Verde.56
Por causa da atividade dos garimpeiros, que absolutamente não era insignifi-
cante, é impossível estimar a produção total de diamantes em Minas Gerais nesta
ou em qualquer outra época durante a era colonial. A produção legal, da Real
Extração, entretanto, foi cuidadosamente registrada e, uma vez que os garimpeiros
eram homens livres em sua grande maioria, ela pode ser considerada como uma
boa estimativa da produção escravista de diamantes no período.
A produção total da Real Extração foi de 1.338.478 quilates, resultando em uma
média anual de 23.901 quilates. Esses números são bem próximos aos calculados por

56 Dornas Filho. O Ouro das Gerais, pp. 219-33; Lima Jr. História dos Diamantes, pp. 137-76; Eschwege.
Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 122-58, 164, nota do tradutor 353; Gouveia de Almeida. Discurso, pp.
241-60; Felício dos Santos. Le Diamant, pp. 185-281; Pizarro e Araújo. Memórias, vol. 8, tomo 2, pp.
112-14.

58 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Calógeras, que estimou a produção total de 1.319.192 quilates entre 1772 e 1828, com
uma média anual, portanto, de 23.144 quilates.57 A tabela 2.9 mostra que, nas primei-
ras décadas do século XIX, o setor diamantino também estava em crise, claramente
visível na trajetória da produção média anual que, de 52.080 quilates sob o sistema de
Contratação (1740-1771), caiu para 6.515 quilates nos anos 1819-1827.
A força de trabalho escrava empregada na mineração de diamantes durante
o período colonial flutuou muito, mas aparentemente, raramente excedeu cinco
mil cativos. No final dos anos 1720 foi estimada em 1.500 escravos, crescendo
para 2.500 no início da década seguinte.58 O sistema de Contratação estipulava o
emprego de 600 escravos no máximo. Tudo indica, entretanto, como os críticos
do sistema repetidamente apontaram, que os contratadores sempre violaram essa
limitação contratual, empregando até quatro ou cinco mil escravos, sob o disfarce
de lenhadores, lavradores e outros serviços auxiliares.59
Para o período da Real Extração existem dados muito mais precisos. O ato de
1771, que criou a agência, estabeleceu instruções detalhadas sobre o emprego de
escravos. A administração recebeu permissão para comprar os escravos do antigo
contratador, mas proibiu qualquer compra adicional. O grosso da força de trabalho
deveria ser formado por escravos alugados, de modo a permitir um fácil ajuste às
variações sazonais no serviço.60
A Real Extração iniciou suas operações com 3.610 escravos, dos quais 581
tinham sido comprados do último contratador ao preço médio de 90 milréis cada.
Entre 1772 e 1795 foram geralmente empregados cerca de 500 escravos durante a
estação fraca (os cinco meses de estiagem), crescendo até 4.200 ou 4.400 durante o
período forte (os sete meses de chuva).61

57 Para a produção total e a média anual no período 1772-1827 usamos os números na coluna (D) para
1772-1818 e na coluna (C) para 1819-1827. As estimativas de Calógeras estão em Dornas Filho. O Ouro
das Gerais, p. 222.
58 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 116-17, notas do tradutor. Lima Jr. História dos Diamantes, p.
47, cita uma fonte de 1735 que dá uma estimativa, aparentemente exagerada, de 18.000 escravos no
início dos anos 1730. De acordo com os números da capitação citados por Boxer. The Golden Age, p.
217, o número não excedia 8 a 9 mil nos anos 1730.
59 Gouveia de Almeida. Discurso, pp. 238, 244; Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 330. Boxer, mesmo
concordando que os contratadores frequentemente burlavam a limitação contratual, não acredita
que números tão grandes de escravos clandestinos pudessem ter passado despercebidos pelos
Intendentes. Boxer. The Golden Age, p. 221.
60 Artigos 16 a 21 do “Regimento para a Extração Real dos Diamantes no Arraial do Tejuco do Serro do
Frio, 2 de agosto de 1771”, reproduzidos em Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 130-31.
61 Felício dos Santos. Le Diamant, p. 186; Gouveia de Almeida. Discurso, p. 242; Pizarro e Araújo.
Memórias, vol. 8, tomo 2, p. 113. Spix e Martius. Viagem, vol. 2, p. 109, dão 4.500 a 5.000 como

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


59
Em 1795, devido aos problemas financeiros da empresa, o número foi reduzido
para 1.500, sendo aumentado logo depois para 1.700 e permanecendo nesse nível
até 1801. Desse ano até 1814 a força de trabalho oscilou entre 2.100 e 2.800 cativos,
caindo para 1.000 a 1.800 entre 1814 e 1817. Os últimos dados disponíveis indicam
que em 1818 a Real Extração empregava 1.200 escravos.62
Esses números são confirmados pelos relatos dos viajantes que visitaram o dis-
trito diamantino no início do século XIX. Mawe, Pohl e Freireyss referem-se a 2.000
escravos na época de suas visitas, enquanto Saint-Hilaire encontrou o contingente
reduzido para cerca de um milhar. Poucos anos mais tarde d’Orbigny afirmou que
eram apenas uma centena, no máximo.63
Havia outras pedras preciosas em Minas Gerais. A ocorrência de topázios, safi-
ras, berilos, ametistas e euclásios era bastante disseminada, mas as explorações
eram pequenas e irregulares. Eschwege visitou o principal distrito produtor de
topázios e relatou que os dois maiores mineradores dessa pedra empregavam, res-
pectivamente, 10 a 14 e 4 a 5 escravos. “Todos os outros”, acrescenta, “não empre-
endem esse trabalho senão em caso de necessidade, e são antes faiscadores, que
vendem suas pedras aos dois mineiros principais mencionados.”64
O número total de escravos regularmente ocupados em todas os tipos de mine-
ração no final do período colonial mal atingiria a cifra de dez mil, constituindo
cerca de 5,5 a 6,0 porcento da população escrava de Minas Gerais no período,
dependendo da estimativa populacional que usarmos. Na distribuição ocupacional
da população livre, o emprego na mineração era ainda menos importante. Os 3.801
trabalhadores livres empregados na mineração de ouro em 1814 não representa-
vam mais do que um porcento da população livre dessa época.65

o número empregado em 1771-75, Alcide d’ Orbigny. Voyage pittoresque dans les deux Amériques.
Paris, 1836, p. 163, menciona 6.000 em 1776.
62 Pizarro e Araujo. Memórias, vol. 8, tomo 2, p. 114, Spix e Martius. Viagem, vol. 2, p. 109.
63 Mawe. Travels, p. 265; Johann Emanuel Pohl. Viagem no interior do Brasil empreendida nos anos de
1817 a 1821. trad. Teodoro Cabral, 2 vols. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1951, vol. 2, p.
405; Freireyss. Viagem, p. 190; Saint-Hilaire. Viagem pelo distrito, p. 9; D’Orbigny. Voyage, p. 163.
64 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 172.
65 O Conselheiro Antonio Rodrigues Velloso de Oliveira estimou que, em 1819, havia 168.543 escravos
e 463.342 pessoas livres em Minas. Eschwege dá 181.882 escravos e 332.225 livres em 1821. Como
número total de escravos empregados na mineração usamos 8.592 no setor de ouro, mostrado na
tabela 2.5, mais 1.500 no setor de diamantes. Para as fontes dos dados de população veja o Anexo A.
Não é possível estimar a força de trabalho, escrava ou livre, nesse período.

60 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


A PRIMEIRA GERAÇÃO DE COMPANHIAS INGLESAS DE MINERAÇÃO
Apesar do quadro sombrio do setor aurífero no início do século XIX, a maioria
dos especialistas contemporâneos insistia que as jazidas não estavam esgotadas.
Argumentavam que apenas as camadas superficiais tinham sido arranhadas e que,
com tecnologia mais avançada e o necessário capital, a mineração ainda poderia
oferecer perspectivas animadoras.66
Sob a influência de Eschwege, a Coroa portuguesa decidiu, em 1817, autorizar a
formação de sociedades por ações para explorar a mineração de ouro. A Carta Régia
determinava que as companhias deveriam ter um mínimo de 25 e um máximo de
128 quotas. Cada quota podia ser comprada por 400 mil réis em dinheiro ou com
três escravos sadios, com idade entre 16 e 26 anos.
O próprio Eschwege foi o primeiro a se beneficiar da nova legislação, formando,
em 1819, a Sociedade Mineralógica da Passagem, para a exploração da mina de Pas-
sagem, perto de Mariana. A companhia começou suas operações com 20 escravos e
um engenho de pilões de nove cabeças, uma considerável novidade para a época e
o lugar. Embora festejada como o início de uma nova era, a Mineralógica teve um
sucesso apenas moderado, durante poucos anos, e não sobreviveu ao retorno de seu
fundador à Europa.67
A Carta Régia não estimulou muitos empreendedores locais mas teve, não obs-
tante, implicações de longo alcance. Logo depois da independência, os ingleses –
novos amigos e parceiros comerciais do Brasil – começaram a assumir o controle
do setor minerador de ouro. “A imensa quantidade de ouro extraída do Brasil” com
os métodos rudimentares dos dias coloniais,
despertou grandes ideias de sua riqueza nos estrangeiros, que tinham sido
impedidos de participar dela; mas quando o país abriu suas portas (...)
acreditava-se que um território tão rico, trabalhado com a competência
e a riqueza de uma companhia formada na Inglaterra, produziria os mais
valiosos retornos.68

66 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 242; Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias, vol. 1, p. 171.
Diversos outros escritores contemporâneos fizeram comentários semelhantes. É interessante notar
que não houve no século XIX nenhuma nova descoberta importante. Todas as companhias inglesas
estabelecidas em Minas Gerais, operaram minas já conhecidas, algumas das quais já tinham sido
exploradas por mais de um século.
67 Carta Régia de 12 de agosto de 1817 ao governador D. Manoel de Portugal e Castro. Sobre isso e sobre
a formação da companhia de mineração de Eschwege, ver Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 93-96, 135.
68 Walsh. Notices, vol. 2, pp. 114-15.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


61
Nos anos 1820 e 1830 pelo menos cinco companhias foram constituídas na
Inglaterra para explorar minas de ouro em Minas Gerais. A primeira, a Imperial
Brazilian Mining Association, organizada em 1824, começou suas operações em
1826 na mina de Gongo Soco em Caeté.
Em 1830 veio a Saint John d’El Rey Mining Company, no município de São João
del Rei. Em 1835 a companhia transferiu suas operações principais para a mina de
Morro Velho, em Congonhas do Sabará que, com o tempo, veio a ser um dos mais
bem sucedidos investimentos britânicos em toda a América Latina no século XIX.
Foram seguidas pela Brazilian Company, em 1832, com a mina de Cata Branca
em Ouro Preto, a National Brazilian Mining Association, em 1833, em Cocais, e
pouco depois pela Serra da Candonga Company, no Serro Frio. Uma sexta compa-
nhia, a General Mining Association, estabelecida em 1828 com quatro minas em
São José del Rei, é citada por Walsh.69
As companhias inglesas trouxeram muitas mudanças ao combalido setor mine-
rador. Eram empresas capitalistas, com gestão capitalista e novas tecnologias, ope-
rando em larga escala. As poucas que foram bem-sucedidas tiveram um grande
impacto sobre a economia das regiões onde se localizavam. Isso é especialmente
verdadeiro com respeito à Saint John d’El Rey Company. Entre 1838 e 1885, a

69 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 100-47; Burton. Explorations, vol. 1, pp. 211-14; Walsh. Notices, vol. 2,
pp. 90, 111, 116. A Companhia da Serra da Candonga é citada somente por Burton e por Gardner,
Viagens. p. 407. Não consegui encontrar nenhuma outra informação sobre ela. A companhia inglesa
em São José del Rei, a qual, segundo Walsh, se denominava General Mining Association, é citada
somente por ele e por Charles James Fox Bunbury. Narrativa de Viagem de um Naturalista Inglês ao
Rio de Janeiro e Minas Gerais (1833-1835). Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, vol. 62
(1940), Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942, p. 135. Provavelmente era a General South American
Mining Association, uma companhia que, de acordo com J. Fred Rippy. British Investments in Latin
America, 1822-1949. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1959, p. 23, foi formada em 1824-
25, “principalmente (...) para operar no Brasil”. Henry English, autor de um levantamento de 1825
sobre as companhias britânicas criadas para operar minas estrangeiras, informa sobre a formação
da General South American mas não informa a localização de suas operações. English também cita a
Imperial Brazilian Mining Association, a Brazilian Company, e uma quarta, planejada para operar na
província do Espírito Santo, a Castello e Espírito Santo Brazil Mining Association. A Brazilian Company,
aparentemente, teve problemas em seu início: em 1825 English relatava que “ainda não tinha vindo
à luz” e, em outro levantamento, em 1827, ainda a cita como uma companhia em projeto. Veja Henry
English. A General Guide to the Companies Formed for Working Foreign Mines. London: Boosey and
Sons, 1825, pp. 9, 10, 25, 35 e 76-88, e seguintes; e Henry English. A Complete View of the Joint-
Stock Companies Formed During the Years 1824 and 1825. London: Boosey and Sons, 1827, pp. 4, 6
e 17. Quase todos os viajantes estrangeiros que estiveram em Minas Gerais no século XIX visitaram
as minas inglesas e escreveram sobre elas. Além dos já citados, veja também: Burmeister. Viagem, p.
222; Francis Castelnau. Expedição às Regiões Centrais da América do Sul. trad. Olivério M. de Oliveira
Pinto. 2 vols. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1949, vol. 1, pp. 158-78; Charles d’Ursel. Sud-
Amérique. Séjours et Voyages au Brèsil, a La Plata, au Chili, en Bolivie et au Perou, 2ª. ed. Paris: E. Plon
et Cie., 1879, pp. 50-67; e Suzannet. O Brasil, pp. 107-23.

62 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


empresa dispendeu uma média de 75.000 libras esterlinas por ano em custos opera-
cionais, a maior parte das quais foi injetada diretamente na economia da província.
Suas grandes demandas por madeira para escoramento das galerias, carvão para
o processo de amalgamação, pólvora para as explosões, ferro para as cabeças dos
pilões, brocas e outras ferramentas, alimentos e outras necessidades de sua grande
força de trabalho eram supridas localmente e certamente geravam emprego para
homens livres e escravos.70
As companhias inglesas retardaram um pouco a decadência do setor minerador
mas a tendência geral não foi revertida. A produção média anual de ouro, que tinha
sido de 1.884 quilos no período 1800-1820, caiu para 1.635 quilos em 1820-1860,
dos quais 52,3 por cento foram produzidos somente por Gongo Soco, Morro Velho
e Cata Branca.71
Mais do que tudo, a presença britânica não reverteu a crescente dissociação
entre escravidão e mineração. Não porque tivessem qualquer escrúpulo a respeito
do uso do trabalho escravo – eles sabiam pefeitamente que a escravidão “relates not
to vice and virtue, but to production” – e não davam muita bola para os saints da
campanha abolicionista na Inglaterra.72
Essas companhias utilizaram largamente a mão de obra cativa, mas seu impacto
no emprego de escravos em Minas Gerais foi muito limitado porque elas eram pou-
cas, usavam tecnologia mais intensiva em capital e foram, com uma única exceção,
grandes fracassos, de vida curta. Embora conseguissem se apropriar de algumas
das minas mais ricas da província, eram bastante incompetentes e, aparentemente,
desonestas. Algumas eram claramente “esquemas” para enganar o investidor inglês.
Comentando os primeiros anos da Imperial Brazilian, Eschwege acusou sua
administração de ser tecnicamente ineficiente e levantou sérias dúvidas sobre sua
integridade ética. De acordo com ele, a administração, entre outros delitos, ado-
tava a prática de comprar ouro contrabandeado para inflar a produção da mina,

70 Douglas Cole Libby. O Trabalho Escravo na Mina de Morro Velho. Dissertação de Mestrado. Departa-
mento de Ciência Política, Universidade Federal de Minas Gerais, 1979, pp. 61-62, 79-81, 84-85; Caló-
geras. As Minas, p. 484. A afirmação de Libby que a St. John del Rey sustentava “sozinha a economia
regional” é um claro exagero. Burton, um grande admirador da empresa, manifestou um juízo muito
mais comedido sobre seu impacto econômico: “Ela emprega diretamente 2.521 almas; indiretamente
o dobro desse número”. Burton. Explorations, vol. 1, p. 278.
71 Henwood. Observations, pp. 367-69.
72 A citação é de Edward Gibbon Wakefield. A View of the Art of Colonization, with Present Reference to
the British Empire [1849], reprinted: New York: Augustus M. Kelley Publishers, 1969, p. 323. Saints era
o apelido dado aos abolicionistas ingleses no final do século XVIII e início do XIX.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


63
enganando os acionistas. Escrevendo quarenta anos mais tarde, o capitão Richard
Burton voltou ao tema, afirmando:
Havia uma grotesca incompetência gerencial, tanto aqui [na Inglaterra]
como no estrangeiro (...) em alguns casos foram organizadas verdadeiras
pilhagens, esquemas mirabolantes foram lançados no mercado, os mais
reles especuladores enriqueceram.73

A National Brazilian Association arrendou, em 1833, por cinquenta anos, a


mina de Cocais. As operações começaram em 1834 e se depararam, desde o início,
com problemas de infiltração de água. Em 1846 a mina desmoronou e foi aban-
donada. Depois de romper o contrato, em 1851, a companhia tentou explorar as
minas de Cuiabá e Brucutu, mas os resultados foram pífios. Em 1867 foi descrita
como “se arrastando”. O empreendimento foi um desastre financeiro: entre 1834 e
1846 produziu 207,9 quilos de ouro, no valor de 27.711 libras esterlinas enquanto,
por volta de 1840, as despesas já tinham atingindo a mais de 200.000 libras.74
A Brazilian Company revelou-se um fiasco semelhante. Seus principais traba-
lhos, na mina de Cata Branca, começaram em 1832 e, como em Cocais, por incom-
petência gerencial e técnica, não conseguiu controlar as abundantes águas subter-
râneas que encontrou. A mina desmoronou em 1844, soterrando 30 mineiros. A
falta de capacidade técnica foi a causa do fracasso, uma vez que a jazida era razoa-
velmente rica. Entre 1840 e 1844 produziu uma média de 12,8 gramas de ouro por
tonelada de minério, totalizando 1.181,3 quilos de ouro em quatro anos e meio.75
Pouco se sabe sobre a companhia da Serra da Candonga, exceto que não durou
mais do que dois ou três anos. A empresa foi formada no final dos anos 1830 e,
quando visitou a região em 1841, Gardner relatou que ela estava prestes a ser
abandonada.76
A Imperial Brazilian Mining Association saiu-se melhor e foi capaz de produ-
zir lucro durante seus trinta anos de operação. A companhia comprou, em 1824,
as minas de Gongo Soco, Cata Preta, Antonio Pereira e Água Quente, e as opera-
ções começaram em 1826, concentrando-se no Gongo Soco, uma das jazidas mais
ricas jamais descobertas em Minas Gerais. Do final dos anos 1820 até a metade
dos anos 1830 essa mina produziu mais de uma tonelada de ouro por ano, com a

73 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 66-104; Burton. Explorations, vol. 1, p. 215-18.
74 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 126-27; Burton. Explorations, vol. 1, p. 215.
75 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 124-25.
76 Burton. Explorations, vol. 1, p. 214; Gardner. Viagens, p. 407.

64 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


produtividade atingindo o assombroso nível de dois quilos por trabalhador, em
1829. Em 1828 um visitante registrou que a propriedade tinha a aparência de uma
aldeia inglesa nos trópicos, incluindo até mesmo uma capela e um capelão consa-
grados pelo Bispo de Londres. Foi descrita, em 1830, como um “estabelecimento
impecável”, sob “judiciosa disciplina militar”.
Entretanto, a bonança não durou muito tempo. Os veios mais ricos tornaram-se
profundos demais para serem seguidos, a qualidade da administração se deterio-
rou. Os problemas de drenagem, que tanto tinham atormentado as outras empre-
sas britânicas, começaram a aparecer. A produção caiu drasticamente: de 1845 em
diante ficou constantemente abaixo de 100 quilos de ouro por ano, atingindo ape-
nas 25 e 27 quilos nos dois últimos anos de operação. Nem mesmo as sucessivas
reduções “compassivas” de impostos, feitas pelo governo brasileiro, conseguiram
salvar o empreendimento. Em 1856 a mina encontrava-se inteiramente inundada
e sua operação tornou-se impossível. No ano seguinte um credor brasileiro confis-
cou os escravos da companhia, tornando-se seu proprietário.
Alguns anos antes, quando Gongo Soco começou a fraquejar, a empresa tentou,
sem sucesso, explorar suas outras minas. Cata Preta produziu somente 10,5 quilos
de ouro de 1844 a 1846, enquanto Água Quente rendeu 300 quilos entre 1847 e
1853, mas caiu abruptamente em seguida. Entre 1826 e 1856, a Imperial Brazilian
extraiu 12.887 quilos de ouro, que geraram uma receita de 1.697.295 libras ester-
linas. As despesas totais foram, no mesmo período, de 1.347.781 libras, deixando
um lucro de 349.514 libras esterlinas, das quais 348.750 foram distribuídas como
dividendos aos acionistas.77
A grande exceção ficou por conta de Morro Velho. Essa mina, que é produtiva
até hoje, foi operada pela Saint John del Rey até 1960. Entre 1845 e 1875 produziu
um dividendo médio nominal ordinário de 23% por ano, crescendo para 36% nos
cinco anos seguintes. Durante todo o período de operação de Morro Velho durante
o império, de 1835 a 1886, o retorno médio do capital foi de 18% ao ano.
A companhia foi organizada em Londres, em abril de 1830, com um capital de
165 mil libras esterlinas. No mesmo ano começou a explorar alguns depósitos ao
norte da cidade de São João del Rei. Em dezembro de 1834, depois de registrar um

77 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 100-13. Os dados de produção são de Henwood. Observations; Walsh.
Notices, vol. 2, p. 212; Burton. Explorations, vol. 1, pp. 212-14. Burton cita uma outra fonte que dá
números diferentes para a receita, despesas e lucros da companhia. Os números apresentados no
texto são de Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 111-112, cuja fonte, Henwood, foi um antigo superintendente
da companhia.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


65
prejuízo de 26.287 libras, a Saint John decidiu transferir suas operações para Morro
Velho, no distrito de Congonhas do Sabará, hoje município de Nova Lima.78

Tabela 2.10 - Mina de Morro Velho:


Produção de ouro, 1835 - 1885 (em quilogramas*)

Período Produção total Média anual


1835 - 1840 1.070,6 178,4
1841 - 1850 5.933,3 593,3
1851 - 1860 12.227,5 1.222,7
1861 - 1870 13.438,8 1.343,9
1871 - 1880 11.412,8 1.141,3
1881 - 1885 4.305,3 861,1
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Apesar do lento começo em Morro Velho, o empreendimento apresentou desde


o início um progresso constante. Em 1850 produziu, pela primeira vez, uma tone-
lada de ouro, e permaneceu acima desse nível ao longo dos dezessete anos seguin-
tes, com apenas duas exceções. Em dezembro de 1867, o “poderoso escoramento”
da mina, descrito poucos meses antes como “uma vasta floresta subterrânea”, se
incendiou. Diversas galerias cederam, matando 21 escravos e um mineiro inglês. A
atividade foi reduzida de 1868 até 1873, mas em 1874 a produção já tinha recupe-
rado o nível anterior ao sinistro. Em 1879, Morro Velho, sozinha, foi responsável
por 83% de todo o ouro produzido em Minas Gerais.79
Em 1886, após cinquenta anos de quase ininterrupta prosperidade, Morro
Velho foi o cenário de outra catástrofe, de proporções ainda maiores, quando toda

78 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 114; Libby. O Trabalho Escravo, pp. 24-25; Rippy. British Investments, pp. 157,
175-77. A dissertação de mestrado de Libby, baseada em uma extensa pesquisa nos arquivos da
companhia, é a melhor história de Morro Velho disponível até o presente. Outra história da mina, de
autoria de Bernard Hollowood. A História de Morro Velho. edição particular. London: Saint John del
Rey Mining Co., Ltd., 1955, foi escrita com o patrocínio da Saint John del Rey e não é confiável. Além
desses trabalhos existem os relatos dos viajantes europeus, para quem uma visita ou mesmo uma
permanência prolongada em Morro Velho tornou-se obrigatória durante o século XIX. Infelizmente
esses depoimentos são claramente marcados pelo tratamento vip que a companhia dispensava aos
seus visitantes europeus. A tabela de Rippy, na página 175, onde lista as empresas britânicas mais
rentáveis na América Latina, não faz justiça ao desempenho da Saint John no século XIX. O período
incluído, 1875 a 1950, além de se situar em sua maior parte no século XX, contém quinze anos nos
quais não foram distribuídos dividendos, em virtude do desmoronamento de 1886
79 Libby. O Trabalho Escravo, pp. 49, 60. A citação é de Burton. Explorations, vol. 1, p. 247.

66 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


a mina desmoronou. Permaneceu fechada pelo resto do período imperial, sendo
reaberta somente na metade dos anos 1890.80
A Saint John del Rey possuía e operava outras minas em Minas Gerais, nenhuma
das quais, entretanto, chegou perto de Morro Velho em importância. As minas de
Gaia e Gabiroba foram adquiridas em 1862, mas só foram exploradas, com fracos
resultados, durante a interrupção forçada, causada pelo incêndio de 1867. A mina
de Cuiabá foi comprada em 1877 e foi trabalhada por 16 anos, durante os quais
rendeu somente um total de 700 quilos de ouro.81
Alguns observadores afirmaram que as companhias inglesas não eram parti-
cularmente avançadas em termos de tecnologia. Eschwege comentou que a com-
panhia do Gongo Soco havia aderido a métodos locais e Gardner não se mostrou
favoravelmente impressionado por seu maquinário. Um recente historiador de
Morro Velho observou que “a Saint John se destacou mais pela organização racio-
nal dos recursos humanos (...) do que por avanços tecnológicos”.82
Essa é, obviamente, uma questão de padrões de comparação. As companhias cer-
tamente não estavam na fronteira técnica do setor minerador do século XIX, mas,
não obstante, introduziram mudanças significativas em todos os estágios da mine-
ração de ouro em Minas. Os métodos do período colonial, trazidos pelos escravos
africanos, eram altamente intensivos em mão de obra. Só eram usadas as ferramentas
mais rudimentares, e a principal fonte de energia era a força física do escravo. A água,
embora sempre usada para a lavagem do minério, só muito raramente era empregada
como energia hidráulica, para movimentar máquinas. Além de ignorar totalmente
métodos mais avançados, os donos das minas eram inteiramente avessos a inovações.
Eschwege reclamava amargamente que seus esforços didáticos eram quase sempre
recebidos com ceticismo e escárnio.83
Muito disso, entretanto, foi mudado pelas companhias inglesas. Uns poucos
exemplos serão suficientes para ilustrar a extraordinária economia de trabalho que
resultou das inovações relativamente simples introduzidas por elas.
O esgotamento de água sempre foi um dos principais problemas que os minera-
dores tinham de enfrentar. Na maioria dos estabelecimentos a água era levada para a
superfície em recipientes rudimentares de madeira (carumbés) passados de mão em

80 Libby. O Trabalho Escravo, p. 64.


81 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 123.
82 Eschwege Pluto Brasiliensis, vol. 1, p. 83; Gardner. Viagens, p. 410; Libby. O Trabalho Escravo, p. 74.
83 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, p. 68-76.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


67
mão ou carregados na cabeça pelos negros. Umas poucas minas usavam os antiquís-
simos sistemas de noras montadas em correntes, que frequentemente eram movidas
por escravos. Bombas hidráulicas e galerias de drenagem eram totalmente desco-
nhecidas e Eschwege não conseguiu convencer as pessoas a adotá-las. Segundo ele
os mineradores preferiam usar todos os seus escravos no transporte da água do que
escavar uma galeria de drenagem afastada do veio aurífero.
O transporte do minério para a superfície era outra operação que envolvia
um grande número de trabalhadores. “Nem um carrinho de mão é usado”, assina-
lou Mawe, “tudo que tem de ser movido é carregado em gamelas nas cabeças dos
pobres negros que, em muitos casos, têm que subir íngremes encostas, ao invés de
planos inclinados, que poderiam ser empregados com grande proveito.84 Eschwege
fez a mesma observação e Saint-Hilaire declarou que somente em Itabira viu carre-
tas serem empregadas para esse fim.85
É obvio que nessas e em outras etapas do processo de produção havia um enorme
potencial para grandes economias nos custos de trabalho. Esse potencial foi, em
grande medida, aproveitado pelas companhias inglesas. E nem podia ser diferente:
essas empresas foram a Minas Gerais para explorar jazidas que tinham se tornado
impraticáveis pelos métodos locais tradicionais e sua única possibilidade de torná-las
novamente rentáveis era através da aplicação de mais capital e de novas tecnologias.
O uso mais eficiente da água, bombas hidráulicas e sistemas de drenagem,
vagonetes e caçambas ou kibbles, a adoção de pólvora e, mais tarde, de dinamite
para as explosões, processos modernos de amalgamação, tudo isso contribuiu para
aumentar a produtividade e poupar trabalho.86
A operação de redução era a área onde se podiam obter os ganhos mais signifi-
cativos, pois o método local de pulverização do minério baseava-se exclusivamente
na utilização de ferramentas manuais. Primeiro as pedras de minério eram quebradas
(britadas) com martelos de ferro, sendo em seguida moídas, também manualmente,

84 Ferrand. L’Or, p. 46; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 307, 326-27; Mawe. Travels, p. 229.
85 Mawe. Travels, p. 283; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, p. 327; Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias,
vol. 1, p. 220. Essas observações aplicam-se às minas de ouro. No distrito diamantino, diversas
inovações técnicas foram experimentadas com diferentes graus de sucesso pelo empreendedor
Intendente Câmara.
86 Kibble era o nome dado pelos mineiros da Cornualha, em Morro Velho, a um grande balde de ferro
puxado por correntes e rodas d’água, usado para trazer o minério do poço da mina para a superfície.
Burton. Explorations, vol. 1, pp. 246, 253. Castelnau. Expedição, tomo I, p. 174, descreve um mecanismo
semelhante no Gongo Soco.

68 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


com pedras roliças. Com esse processo um escravo era capaz de produzir, em um dia de
trabalho, cerca de cinquenta quilos de minério em pó, pronto para ser lavado.
Eschwege descreveu o estágio técnico dessa operação como “deplorável” e disse
que o desperdício de mão de obra era tão evidente que alguns empresários já esta-
vam começando a descobrir as vantagens dos engenhos de pilões.87 A maioria dos
donos das minas, entretanto, apegava-se aos velhos métodos: das 517 lavras regis-
tradas em 1814 somente cinco empregavam baterias de pilões, e mesmo estes eram
descritos como extremamente rudimentares.
Um dos primeiros engenhos de redução eficientes usados em Minas foi ins-
talado por Eschwege em sua mina da Passagem. Pouco antes, em 1815, ele tinha
construído um outro para o Coronel Romualdo José Monteiro de Barros, em Con-
gonhas do Campo. A economia de mão de obra era imensa, embora a instalação
fosse modesta: segundo o proprietário, ela podia fazer, com dois escravos em dois
dias, a mesma tarefa que anteriormente exigia o trabalho de trinta homens durante
uma semana, significando, portanto, um aumento de quarenta e cinco vezes na
produtividade do trabalho nessa operação.
Grandes moinhos de redução eram equipamentos padrão nas companhias
inglesas. A britagem continuou a ser feita manualmente até, pelo menos, os anos
1890, mas a pulverização foi mecanizada desde o princípio.88 Em Cata Branca “três
enormes máquinas hidráulicas (...) punham em movimento um número infinito de
pilões”, de acordo com um visitante de 1842. A arrumação e a eficiência das insta-
lações em Cocais mereceram grande louvor por parte de outro viajante, que viu ali
um nítido contraste com os métodos brasileiros. A água, trazida de uma distância
de sete léguas, movimentava uma serraria, um moinho de grãos, foles e malhos
na tenda do ferreiro; irrigava uma grande horta, e acionava bombas de drenagem,
ventiladores e duas máquinas de triturar minério.
No Gongo Soco as instalações não eram tão boas, carecendo da aparência
“quase coquette” da anterior. Mesmo assim, a companhia tinha um engenho de
pilões capaz de pulverizar 3.250 quilos de minério por dia, um trabalho que teria
exigido 65 escravos se usasse a tecnologia local.89

87 Ferrand. L’Or, p. 60; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, pp. 349-50. O processo descrito por Eschwege
é ligeiramente diferente.
88 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 34-63; vol. 1, pp. 75-76, 352-55. Usei uma semana de seis
dias para comparar a produtividade do trabalho antes e depois da instalação do engenho na mina do
Coronel Romualdo. Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 147 diz que na mina do Faria, operada por uma companhia
francesa desde 1867, a trituração ainda era feita manualmente.
89 Castelnau. Expedição, tomo I, pp. 161-175; Gardner. Viagens, p. 406; Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 106-7.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


69
Por ocasião da visita de Burton, o departamento de redução de Morro Velho
empregava 550 pessoas, ou 38% da força de trabalho escrava da companhia, 350
das quais eram empregados na britagem manual. A operação de pulverização era
inteiramente mecanizada. O número total de pilões, que era de 27 em 1835, aumen-
tou para 65 em 1838, e para 135 por volta da metade do século. Eram aparelhos
modernos, pesando 290 quilos cada, e capazes de desferir de 60 a 80 golpes por
minuto. As quantidades de minério triturado em 1856, 1865 e 1877, por exemplo,
teriam exigido, com os métodos antigos, o emprego de 5.056, 3.347 e 3.527 escra-
vos, respectivamente.90
O resultado das inovações técnicas introduzidas pelos ingleses foi aumentar
substancialmente a produtividade da mão de obra, com relação às 59,3 gramas por
trabalhador por ano observada em 1814. Em algumas minas os dados disponí-
veis permitem comparar com razoável precisão a produção por trabalhador antes e
depois da chegada dos ingleses.
Em Cata Branca a produtividade decuplicou, de 65 gramas por escravo em 1814
para 654,8 em 1842, com a Brazilian Company. Gongo Soco tinha produzido 11,3
gramas por escravo em 1814. No primeiro ano de operação da Imperial Brazilian, a
produtividade foi de 460 gramas por escravo, aumentou continuamente até atingir
2.000 gramas em 1829, e permaneceu acima de 500 gramas até 1842. Quando a
mina foi abandonada, em 1856, a produtividade ainda era mais de cinco vezes mais
alta do que em 1814. Em Morro Velho a produção por trabalhador foi de 111,4
gramas em 1814, aumentou, sob a administração da Saint John, para 446 gramas
em 1838, e atingiu 1.927 gramas em 1875. A única queda na produtividade por
trabalhador, sob administração inglesa, ocorreu em Cocais: de 77,3 gramas por
trabalhador em 1814 diminuiu para 48,1 gramas em 1841, quando a mina já estava
enredada em sua crise terminal.91

90 Burton. Explorations, vol. 1, pp. 253-55; Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 117-19. Burton relatou que a
companhia estava experimentando ansiosamente máquinas que poupassem mão de obra nos
trabalhos de trituração. Ao lado dos 135 pilões do engenho principal, havia duas outras baterias, com
um total de 56 cabeças, usadas para triturar minério mais pobre. Para computar as exigências de mão
de obra da velha tecnologia usamos os dados fornecidos por Ferrand e assumimos que em 1856 o ano
de trabalho teve 356 dias, como em 1865 e 1877.
91 A produtividade da mão de obra em 1814 foi computada a partir dos dados de Eschwege. Pluto
Brasiliensis, vol. 2, pp. 34-63. Para os outros anos dados são de: Cata Branca: Ferrand. L’Or, p. 125 e
Castelnau. Expedição, tomo I, p. 160. Gongo Soco: Ferrand. L’Or, p. 110. Morro Velho: Libby. O Trabalho
Escravo, pp. 167-68. Cocais: Gardner. Viagens, pp. 405-06 e Ferrand. L’Or, pp. 126-27. A mina de Gongo
Soco não foi citada com esse nome em 1814. Aparentemente é a lavra Paciência em Santa Bárbara,
propriedade do Guarda Mor José Alves da Cunha Porto. A localização e o nome do proprietário são os
fornecidos por Ferrand para Gongo Soco.

70 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


De qualquer maneira, seja pela adoção de tecnologia mais intensiva em capital,
seja por uma administração mais eficiente, ou pela combinação dos dois fatores, o
fato é que os altos ganhos de produtividade do trabalho das companhias inglesas
resultaram em um limitado emprego de escravos na mineração de ouro.

O EMPREGO DE ESCRAVOS NA MINERAÇÃO NA PRIMEIRA METADE DO


SÉCULO XIX
Individualmente consideradas, todas essas companhias eram grandes empre-
gadoras de escravos. A Imperial Brazilian começou suas operações no Gongo Soco
com um contingente de 40 mineiros ingleses e 410 nativos, a maioria dos quais
era composta por escravos alugados. Em 1828 Walsh informou que o número de
ingleses, presumivelmente incluindo trabalhadores, administradores e suas famí-
lias, era de 180, e que havia 600 trabalhadores nativos entre negros e outros. Em
1832 a força de trabalho era composta por 183 europeus, 207 brasileiros livres e 404
escravos. O conde de Suzannet visitou a mina em 1842 e registrou 500 escravos e
80 mineiros ingleses. Em 1848, J. C. Westwood, cônsul britânico no Rio de Janeiro
informou ao Visconde Palmerston que a companhia tinha cerca de 400 escravos.
De acordo com Burton, a maior força de trabalho de Gongo Soco, durante todo o
tempo em que foi operada pelos ingleses, foi constituída por 217 europeus, 200 bra-
sileiros livres e 500 escravos. Quando abriu falência, em 1856, a Imperial Brazilian
ainda empregava 14 europeus e 446 escravos.92
A General Mining Association, em São José, quando visitada por Walsh tinha
cerca de uma dúzia de mineiros alemães do Hartz e empregava acima de cem pes-
soas, presumivelmente escravos.93 A National Brazilian Association, em Cocais,
tinha uma força de trabalho de 30 mineiros ingleses, 30 brasileiros livres e 300
escravos quando foi visitada pelo botânico Gardner em 1841. Em 1848, o supraci-
tado cônsul Westwood relatou que ela tinha entre 300 e 400 escravos.94 Em 1835 a
Brazilian Company (Cata Branca) empregava, além de trabalhadores contratados
(presumivelmente nativos livres), 38 europeus, 76 escravos e 34 escravas. Tinha 450

92 Burton. Explorations, vol. 1., p. 212. Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 1, p. 81; Walsh. Notices, vol. 2,
p. 212; Acting-consul Westwood to Viscount Palmerston, December 28th, 1848. British and Foreign State
Papers, volume 37, p. 152; p. 429. Inclosure - List of 15 English Subjects within the District of the British
Consulate at Rio de Janeiro who are the Owners of about 2,231 Slaves. Suzannet. O Brasil, p. 119.
93 Walsh. Notices, vol. 2, pp. 118,120.
94 Gardner. Viagens, pp. 405-06; Westwood to Palmerston, December 28th, 1848, p. 152.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


71
escravos em 1842, de acordo com o viajante francês Francis Castelnau, mas Suzan-
net registrou somente 300, no mesmo ano.95
A Saint John del Rey foi provavelmente a maior empresa escravista privada de
todos os tempos em Minas Gerais.96 Ela importava, como as demais, mineiros euro-
peus da Cornualha e contratava brasileiros livres, mas o grosso de sua força de tra-
balho era escrava. Um visitante da metade do século notou que somente os ingleses
e os escravos trabalhavam dentro da mina, os brasileiros livres eram empregados
apenas nas operações de superfície.97
A companhia tinha 263 escravos ao iniciar sua exploração em Morro Velho,
em 1835. Seu contingente servil cresceu continuamente até 1863, quando atingiu o
ponto máximo, com 1.691 indivíduos, e só começou a declinar em 1872-73. Nessa
época a companhia estava retomando a plena capacidade de suas operações depois
da redução causada pelo incêndio de 1867, e encontrou um mercado de escravos
cada vez mais tensionado. Foi uma das poucas empresas do Brasil a importar coo-
lies chineses.98 Em 1875 os escravos ainda constituiam 71% dos trabalhadores não
europeus, mas a companhia estava iniciando sua transição para o trabalho livre.
Em 1879, pela primeira vez na longa história de Morro Velho, os trabalhadores
livres ultrapassaram os escravos. Em 1885, último ano de operação no período
escravista, a Saint John ainda tinha 258 escravos.99 A tabela 2.11 mostra a evolução
da força de trabalho escrava de Morro Velho.
O Brougham Act, de 1843, que tornou ilegal a compra de escravos por súditos
britânicos, encontrou a Saint John no meio de uma forte expansão, que incluia pla-
nos para grandes aquisições de cativos. A companhia foi então forçada a se voltar
para o mercado do aluguel. Uma importante fonte de escravos de aluguel foram as
companhias inglesas falidas. É irônico constatar que, por um contrato assinado em
Londres em 1845 – o ano e o lugar da promulgação do Bill Aberdeen – os esquires
da Brazilian Company, entre os quais havia pelo menos um “proeminente membro

95 Castelnau. Expedição, tomo I, p. 160; Suzannet. O Brasil, p. 112; Burton. Explorations, vol. 1, p. 183.
96 Tanto quanto pude apurar, a única empresa em Minas Gerais que teve, em qualquer época, mais
escravos do que a Saint John del Rey foi a estatal Real Extração, no Distrito Diamantino.
97 Burmeister. Viagem, p. 222.
98 Libby. O Trabalho Escravo, pp. 167-88, 63. Libby afirma que a Saint John foi a única empresa a usar
o trabalho de coolies chineses no Brasil. Não foi o caso: a Fazenda de Santa Cruz, de propriedade da
Coroa, empregava-os no cultivo de chá, e a malfadada Companhia de Colonização do Mucuri, em
Minas, também usou indentured labor chinês nos anos 1850. Pode ter havido outros casos além
destes. Ver Robert Avé-Lallemant. Viagem pelo Norte do Brasil no ano de 1859. trad. Eduardo de Lima
Castro, 2 vols. Rio de Janeiro: MEC-Instituto Nacional do Livro, 1961, vol. 1, pp. 184-86, 204-05.
99 Libby. O Trabalho Escravo, pp. 167-68.

72 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


da Anti-Slavery Society” concordaram em alugar seus escravos para os esquires da
Saint John del Rey Company. Assim, 385 escravos foram transferidos para Morro
Velho por um período de três anos, para gerar lucros que seriam distribuídos aos
acionistas britânicos da empresa.100

Tabela 2.11 - St. John del Rey Mining Company:


Força de trabalho escrava, 1835 - 1885

Período Média de escravos por ano

1835 -1840 373


1841 -1850 793
1851 -1860 1.181
1861 -1867 1.476
1868 -1872 1.182
1873 -1880 702
1881 -1885 331
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Em 1867, dos 1.450 escravos empregados, 1.196 eram alugados, dos quais 245
eram de Cata Branca e 155 pertenciam à também falida Companhia de Cocais (Natio-
nal Brazilian). Entre os restantes, 414 podem ter sido antigos escravos de Gongo
Soco, pois 269 foram alugados do Comendador Francisco de Paula Santos que, em
1856, tinha confiscado os escravos daquela empresa e se tornado seu proprietário,
enquanto outros 145 foram alugados de seu genro.101
Em 1879 a Saint John del Rey tornou-se o centro de um escândalo de vastas
proporções. O contrato de 1845 com Cata Branca, cujos termos não foram divulga-
dos no Brasil, estipulava que os escravos transferidos para Morro Velho deveriam

100 O título completo do Brougham Act é: An act for the more Effectual Suppression of the Slave Trade, 24
de agosto de 1843. Ao introduzir sua proposta, Lord Brougham disse explicitamente que um dos seus
alvos eram as companhias inglesas de mineração em Minas Gerais. Veja-se seu discurso na House of
Lords, em 2 de agosto de 1842. Veja também: Libby. O Trabalho Escravo, pp. 57-58. A informação de
que um membro da Anti-Slavery Society possuía ações da companhia Cata Branca é de Frank Bennett.
Forty Years in Brasil. London: Mills and Boon Ltd., 1914, pp. 84-85.
101 Burton. Explorations, vol. 1, pp. 273-74. Tudo indica que “o aluguel” dos escravos de Cata Branca foi
uma fraude para burlar o Brougham Act. Apesar de não serem contados entre os company blacks,
estes cativos também não eram incluídos entre os hired blacks. Seus uniformes, assim como os dos
“pretos da companhia” portavam número de identificação enquanto que os “pretos alugados” tinham
somente as inicias M.V.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


73
ser libertados após 14 anos de serviço e que seus filhos deveriam ser emancipados
ao completarem 21 anos. A Saint John ignorou essa cláusula até ser denunciada
no parlamento brasileiro por manter mais de 385 pessoas em escravidão ilegal
por mais de vinte anos. A comunidade norte-americana do Rio teve importante
papel na divulgação do escândalo, que alcançou a Inglaterra através da Anti-Slavery
Society, e a França, em artigos publicados na importante Revue des Deux Mondes.
A subsequente batalha judicial chegou ao Supremo Tribunal, no Rio de Janeiro,
o qual, em 1881, confirmou a decisão de um tribunal inferior, declarando livres,
desde 1860, os 165 escravos sobreviventes, e condenando a companhia a pagar-lhes
dezenove anos de salários atrasados. Os últimos 28 escravos envolvidos no caso
foram libertados em junho de 1882.102
Comparado com a população escrava provincial, o contingente escravo total
empregado pelas companhias inglesas era claramente insignificante. No início dos
anos 1840, quando as quatro maiores companhias estavam todas em atividade,
o número total de escravos empregados por elas não excedia 1.750, incluindo as
crianças. Pela metade do século, com Cata Branca fora de operação, pode ter alcan-
çado 2.000, no máximo. Daí em diante, com o fechamento de Gongo Soco e a lenta
agonia de Cocais, o número certamente decaiu, apesar do crescimento de Morro
Velho.
Não existem, até o presente, dados confiáveis sobre a população escrava total da
província no meado do século. Aplicando à população de 1819 a taxa de crescimento
observada entre aquele ano e 1873, chega-se a 269.550 escravos em 1850, um número
que é certamente subestimado pois, com toda probabilidade, a população servil cres-
ceu muito mais rapidamente antes do fechamento do tráfico internacional do que
depois dele. Assim, a estimativa de 2.000 cativos empregados conjuntamente por
todas as empresas inglesas em torno da metade do século, não representa mais do que
0,7 por cento dessa provável subestimativa da população escrava total da província.103

102 Libby. O Trabalho Escravo, pp. 68-71; Conrad. The Destruction, p. 136; Richard Graham. Britain and the
Onset of Modernization in Brazil, 1850-1914. Cambridge: At the University Press, 1972, pp. 184-85. Os
norte-americanos e os franceses sempre tiveram imenso prazer em expor publicamente as hipocrisias
de que acusavam o abolicionismo britânico. O Rio News, jornal da comunidade norte-americana,
desempenhou um importante papel no escândalo de 1879. Para denúncias das práticas trabalhistas da
Saint John del Rey, veja, por exemplo, d’Ursel. Sud-Amerique, p. 65; e Paul Berenger. Le Brèsil en 1879.
Revue des Deux Mondes, tomo 37 (Paris, 1880), pp. 440-41. Veja também, C. F. Van Delden Laerne.
Brazil and Java. Report on Coffee–culture in America, Asia and África. London: W. H. Allen and Co. and
The Hague: Martinus Nijhoff, 1885, pp. 92-93.
103 Para uma discussão dos dados sobre a população escrava de Minas Gerais no século XIX, veja o Anexo A.

74 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


É difícil quantificar o emprego de escravos no setor aurífero fora das companhias
inglesas, mas podemos estar certos de que era muito reduzido.
O setor nativo da indústria do ouro estava decaindo rapidamente na virada do
século e não há nenhuma evidência de que essa tendência tenha sido revertida. Na
verdade, seus problemas devem ter se agravado com a passagem do tempo. Os escra-
vos estavam se tornando mais caros, a produtividade das minas estava declinando e
as exigências de capital e de tecnologia para a sobrevivência na indústria tornavam-se
cada vez mais difíceis de alcançar.
As empresas locais não conseguiram acompanhar a mudança estrutural do setor,
e é pouco provável que mais que um punhado delas estivessem vivas no meado do
século. Além da efêmera Sociedade Mineralógica da Passagem, a única empresa
nacional de mineração na primeira metade do século XIX citada por Ferrand foi
a Sociedade União Mineira, organizada em 1835 pelo Comendador Francisco de
Paula Santos. A empresa não teve sucesso e em pouco tempo suas atividades foram
interrompidas.104
Estima-se que entre 1820 e 1860 as empresas brasileiras e os faiscadores pro-
duziram, juntos, um total de 29.889 quilos de ouro, ou uma média de 729 quilos
por ano. Por volta da metade do século a produção anual foi, certamente, muito
menor que essa média, uma vez que a produção mencionada acima se concentrou
no começo do período. Um dado de 1879 confirma a tendência de queda: naquele
ano as companhias brasileiras e os faiscadores produziram somente 95,9 quilos
de ouro, representando 5,2 por cento da produção da província. Há também indi-
cações que a parcela dos faiscadores nessa produção declinante estava crescendo
rapidamente. Em 1814 tinha sido 49,4 por cento; em 1879 aumentou para 94,3 por
cento da produção não-inglesa.105
Lembrando que os faiscadores eram predominantemente homens livres, pode-
-se concluir que o número de escravos empregados na mineração de ouro fora das
companhias inglesas deve ter sido insignificante por volta de 1850, contribuindo
apenas marginalmente para o total de cativos envolvidos no setor.106

104 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 135.


105 Henwood. Observations, pp. 367-69; Estatística da Produção de Ouro na Província de Minas Gerais,
no ano de 1879, Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto, vol. 1, p. 168 (1881), citado por Libby. O
Trabalho Escravo, p. 49.
106 Há também evidência sugerindo alguma disseminação de tecnologia poupadora de trabalho nas
minerações nativas que sobreviveram. Ferrand afirma que quando a mina de Parí foi comprada por
uma companhia inglesa em 1862, já possuía duas baterias com seis pilões cada. Outra companhia
inglesa, que operou entre 1863 e 1873, substituiu um engenho de pilões estragado por outro

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


75
AS COMPANHIAS INGLESAS DE MINERAÇÃO NA SEGUNDA METADE
DO SÉCULO
Por volta do terceiro quartel do século, o sucesso de Morro Velho tinha reabi-
litado a mineração de ouro em Minas Gerais aos olhos do investidor inglês. Entre
1860 e 1880, oito novas companhias foram formadas na Inglaterra, mas suas histórias
não foram diferentes das de suas predecessoras. Somente duas delas conseguiram ser
lucrativas e a maioria durou apenas poucos anos. Em pelo menos dois casos houve
uma clara intenção de enganar o investidor sugerindo, nos nomes das empresas, uma
falsa associação ou proximidade geográfica com a Saint John del Rey.107
A East del Rey Mining Company foi formada em 1861 para explorar as minas do
Capão e Papafarinha, próximas de Sabará. Em 1863, em virtude da baixa produção
dessas jazidas, suas operações foram transferidas para as minas do Morro de São João
e do Morro das Almas, que foram exploradas até 1875 e 1876, respectivamente.108
A Don Pedro North del Rey Gold Mining Company foi organizada em 1862.
Apesar do nome enganoso, que induz uma identificação espúria não somente com
Morro Velho mas também com o imperador D. Pedro II, este empreendimento foi
lucrativo, embora de vida curta. Após um começo malsucedido no Morro de San-
tana, em Mariana, transferiu-se, em 1865, para a mina de Maquiné, onde produziu
2.427 quilos de ouro de 1865 a 1868. O rendimento por tonelada foi extremamente
alto: em 1868, por exemplo, um único lote de 102 toneladas de minério rendeu 124
quilos de ouro, ou seja, um incrivelmente alto rendimento de 1.204,9 gramas por
tonelada. Mesmo depois desses anos de riqueza e prosperidade incomuns, a pro-
dução se manteve muito rentável, no nível de 15 gramas por tonelada, em média. A
infiltração de água foi, mais uma vez, o flagelo. Em 1878 a mina estava inundada e
os esforços para salvá-la arruinaram a companhia.109
A outra história de sucesso da segunda geração de companhias inglesas é a da
Santa Barbara Gold Mining Company. A companhia começou a explorar, em 1862,
a mina de Parí em Santa Bárbara. Apesar de um desmoronamento, em 1882, que
interrompeu o trabalho regular por três anos, a mina produziu 2.682 quilos de ouro
entre 1862 e 1892, com uma média de 9,91 gramas por tonelada de minério. Entre

“comprado na vizinhança”. Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 130-138.


107 Para um relato irônico sobre como “levantar” uma companhia de mineração inglesa no Brasil, veja
Burton. Explorations, vol. 1, pp. 216-17.
108 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 127-28.
109 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 128-29.

76 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


1876 e 1882 a Santa Bárbara apresentou um retorno de 14% por ano sobre o capital
investido, tornando-se o segundo investimento britânico mais lucrativo no Brasil
do século XIX, logo abaixo da Saint John del Rey.110
Em 1863, a recém-formada Anglo-Brazilian Gold Mining Company comprou
as minas do Fundão, Mineralógica (Passagem) e Paredão. Começou a funcionar
em janeiro de 1864, concentrando os trabalhos em Fundão e Passagem e, em 1865,
adquiriu a mina de Mata-Cavalos. Logo surgiram problemas de infiltração em Pas-
sagem, e no Fundão o veio se revelou pobre demais para ser lucrativo. Em 1871 a
Anglo-Brazilian tentou explorar a mina de Pitangui, mas foi novamente frustrada
pela inundação das galerias. As pesadas perdas sofridas na última tentativa selaram
o destino da empresa, que foi fechada no início de 1873. Em seus nove anos de
existência, de 1864 a 1873, produziu somente 735,5 quilos de ouro, acumulando
um prejuízo de 28.167 libras esterlinas.111
Em 1864 veio a Rossa Grande Brazilian Gold Mining Company, com a mina
de Roça Grande, em Caeté. Circunstâncias suspeitas cercaram sua formação, pois
a mina esteve à venda por 1.000 libras esterlinas, por longo tempo, sem encontrar
comprador, e foi adquirida pelos organizadores da companhia por 22.000 libras.
Foi anunciado também que ensaios com amostras de minério dessa mina tinham
produzido 150 gramas de ouro por tonelada o que, mais tarde, verificou-se ser
inteiramente falso. Não surpreende, portanto, que o empreendimento tenha che-
gado rapidamente ao fim.112
Seguiu-se a Brazilian Consols Gold Mining Company, formada em 1873, explo-
rando a mina de Taquara Queimada, perto de Mariana. Dois anos mais tarde os
trabalhos foram suspensos, tendo produzido somente 4.750 gramas de ouro.113 Em
1876 a Pitangui Gold Mining Company foi organizada para retomar a exploração
da mina de Pitangui, adquirida da falida Anglo-Brazilian Company. Durante algum
tempo foi capaz de superar os problemas que tinham arruinado suas predecessoras,
retirando, entre 1876 e 1887, 285 quilos de ouro de 18.227 toneladas de minério,
com a altamente respeitável produtividade de 15,6 gramas por tonelada, mas em
1887 novas infiltrações forçaram seu abandono.114

110 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 130-34, Rippy. British Investments, pp. 156-57.
111 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 135-38.
112 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 139.
113 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 139.
114 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 140.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


77
A última tentativa britânica no período imperial aconteceu em 1880, com a
Brazilian Gold Mines Ltd., que comprou a mina de Descoberto, em Caeté e seguiu,
sem novidades, a tradição estabelecida por suas antecessoras. Segundo Ferrand, “o
resultado das operações foi desastroso... em menos de três anos tudo estava termi-
nado e apenas 15 quilos de ouro tinham sido extraídos”.115
Em 1883 foi formada a Ouro Preto Gold Mines of Brazil Ltd. Apesar do nome
inglês, foi fundada por um sindicato francês, que tinha adquirido as minas de Pas-
sagem, Raposos, Espírito Santo e Borges, poucos anos antes. Espírito Santo nunca
entrou em operação, o mesmo acontecendo com Borges, onde sucessivos ensaios
não produziram mais do que 1,5 gramas por tonelada. As operações foram inicia-
das em abril, 1883, em Passagem e Raposos. Esta última gerou grande excitação
em 1886, quando um rico filão foi encontrado, mas ele logo se exauriu. A velha
Passagem, com sua tecnologia renovada (e com Morro Velho temporariamente fora
de ação), era, na época que Ferrand escrevia seu livro, a mais importante mina de
ouro de Minas Gerais. De 1883 a 1893, ela produziu 2.567 quilos de ouro, com um
rendimento médio de 11,8 gramas por tonelada de minério.116
Outra empresa francesa encerra a história das companhias estrangeiras durante
o Império. A Société des Mines d’Or de Faria, organizada em Paris em abril de
1887, comprou a mina de Faria, perto de Congonhas do Sabará e começou a explo-
rá-la no mesmo ano, mas as operações de redução somente começaram em 1890,
já no período republicano.117 Somente duas companhias brasileiras foram registra-
das por Ferrand, entre 1850 e 1888. Foram a Associação Brasileira de Mineração,
formada em 1874 para explorar diversas minas em Itabira do Mato Dentro e a
Empresa de Mineração do Município de São José del Rey. Ambas foram malsucedi-
das e tiveram vidas bem curtas.118

115 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 141.


116 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 142-46.
117 Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 147.
118 Ferrand. L’Or, vol. 1, pp. 139 e 140-41. O autor revela na página 139 a existência de outra companhia
inglesa que não consegui identificar. Segundo ele a Associação Brasileira de Mineração comprou suas
minas de uma companhia inglesa falida que operou em Itabira do Mato Dentro entre 1870 e 1874.

78 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


O EMPREGO DE ESCRAVOS NA MINERAÇÃO NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XIX
A importância das companhias inglesas da segunda geração, no que diz respeito
ao emprego de escravos, foi, de novo, mínima. A maioria delas, de fato, nunca deco-
lou. Algumas das últimas, aquelas organizadas no final dos anos 1870 e 1880, pos-
sivelmente não usaram trabalho escravo em números significativos. A mais bem-
-sucedida, a Santa Bárbara Company, foi um empreendimento surpreendentemente
pequeno. Em 1867 o capitão Burton encontrou os trabalhos “nas mãos de um ex-me-
cânico, dois mineiros ingleses e muito poucos brasileiros livres. Não havia mais escra-
vos.” A despeito do quadro sombrio diante de seus olhos, ele corretamente previu que
a empresa “poderia renascer.” De fato, ela se firmou, mas permaneceu bem pequena.
Em 1886, ano de sua maior produção, tanto em termos de minério extraído como de
ouro produzido, a companhia empregava somente 308 pessoas: 132 no poço da mina
e 160 nos trabalhos de superfície, provavelmente todos livres.119
A North del Rey Company começou suas operações, em 1863, com 12 euro-
peus, 65 brasileiros livres, 123 escravos e 30 escravas. Em 1867 estava empregando
350 “braços, entre brancos e pretos.”120 A Anglo-Brazilian tinha, também em 1867,
19 europeus, incluindo a administração. A força de trabalho “não-branca” era com-
posta de 380 a 400 homens e mulheres. A informação de que o recrutamento para
a guerra do Paraguai estava interferindo com a oferta de mão de obra pouco con-
tribui para determinar o status da força de trabalho, já que tanto escravos como
homens livres foram recrutados para essa campanha. Mas a fonte informa que
todos os trabalhadores no poço da mina eram escravos.121
A Rossa Grande Company, formada somente três anos antes, estava moribunda
quando visitada por Burton em 1867. “O lugar tinha a aparência do fracasso”, escre-
veu, “viam-se apenas quatorze homens brancos bastante desanimados, uns poucos
brasileiros livres e nenhum escravo.”122
Nenhum escravo foi encontrado na East del Rey Company. Nessa época a com-
panhia tinha abandonado as operações em Sabará e tinha se transferido para a mina
do Morro de São Vicente, onde foi feita uma experiência com uma força de trabalho
inteiramente livre.

119 Burton. Explorations, vol. 1, p. 308; Ferrand. L’Or, vol. 1, p. 133.


120 Burton. Explorations, vol. 1, p. 337.
121 Burton. Explorations, vol. 1, p. 340.
122 Burton. Explorations, vol. 1, p. 288.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


79
Um banqueiro filantrópico de Falmouth, “notável antiescravista”, deter-
minado a maravilhar e a convencer o mundo com a demonstração dos
grandes resultados do trabalho dos negros livres (...) O resultado, como
se poderia esperar, foi pure perte.123

Das companhias da primeira geração, somente duas sobreviveram até os anos


1860: a Saint John del Rey, cuja força de trabalho já examinamos, e a National
Brazilian, ou Cocais Company, que tinha estado, por vários anos, sob intervenção
judicial. Somente a mina de Cuiabá estava em operação, empregando um minera-
dor inglês e cerca de quarenta a cinquenta brasileiros livres.124
Mesmo se admitirmos que todos os trabalhadores cuja condição não estivesse
claramente especificada fossem escravos, concluiremos que as sete companhias
mineradoras inglesas em operação em 1867 não empregavam mais do que 2.200
escravos, dos quais dois terços trabalhavam em Morro Velho. Esses cativos repre-
sentavam 0,6 por cento da população servil da província, a qual, em 1873, era de
381.893 indivíduos, segundo o Censo do Império.
Nesse meio tempo o setor diamantino tinha atravessado um ciclo completo de
ascensão e declínio. O fim do monopólio real, em 1832, deflagrou um segundo rush
diamantino de proporções consideráveis. Esse fenômeno, como a maioria dos pro-
cessos econômicos do século XIX, foi negligenciado pelos historiadores de Minas
Gerais, com sua excessiva concentração no período colonial. Por isso, os dados
sobre o segundo boom diamantino são escassos e fragmentários, mas a tendência é
inequívoca. A produção média anual, que tinha sido de 23.901 quilates sob a Real
Extração, cresceu para 207.820 quilates no período de 1828 a 1849.125 A exploração
finalmente se tornou livre e era fácil obter uma concessão diamantina:
Depois da prospecção, para explorar os terrenos diamantinos basta
solicitar ao governo uma concessão, que atualmente é facilmente
obtida. O solicitante especifica os limites da área que pretende explorar.
A terra é levada a leilão público, qualquer um pode fazer seu lance, e
a concessão é dada para a melhor oferta. O proprietário da terra tem

123 Burton. Explorations, vol. 1, p. 418.


124 Burton. Explorations, vol. 1, pp. 440-41.
125 A produção total até 1827 tinha sido (tabelas 2.8 e 2.9) de 3.005,047 quilates. A estimativa de
Wappaus para 1849 foi que esse total tinha crescido para 7.577,097 quilates. A produção para 1828-
1849 foi então obtida por subtração. O tradutor de Eschwege fornece alguns dados sobre exportações
de diamantes da metade do século XIX em diante, mas não indica se se referem ao Brasil ou a Minas
Gerais. Não pude usar sua reprodução das estimativas de Calógeras porque não ficou claro se as
unidades eram gramas ou quilates. Ver Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 191-192.

80 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


prioridade, e se forem oferecidos somente 200 réis por braça ele pode
ficar com a concessão.126

Assim libertados, depois de um século de proibição e de repressão, ricos senho-


res de escravos, homens pobres livres e forros, todos correram para fazer, aberta-
mente, o que sempre tinham feito ilegalmente e com alto risco. Em Diamantina,
“quase todos os proprietários empregam seus escravos nos garimpos”, observou
Gardner em 1840. Em suas andanças pela região observou também que “muitos
negros forros são faiscadores independentes, tirando daí uma pobre subsistência.”
Aos escravos era permitido garimpar nos domingos e feriados e – “um fato notável”
- as maiores pedras eram invariavelmente encontradas nessas ocasiões. “Pode-se
dizer que no mínimo dez mil pessoas vivem inteiramente da extração de ouro e
diamantes.”127
O antigo Arraial do Tejuco tinha se tornado a Vila Diamantina em 1832. Ele-
vada à categoria de cidade em 1839, estava em franco progresso. Suas lojas eram bem
abastecidas de artigos europeus, pareciam-se, no aspecto, com as do Rio de Janeiro;
os lojistas e os comerciantes enriqueciam.128 Anos mais tarde sua prosperidade era
de tal ordem que, de acordo com a fonte, Gardner não a teria reconhecido. “A cidade
tinha uma aparência de riqueza e importância,” sua elite causava a “mais agradável
impressão”, mesmo a visitantes europeus sempre prontos a esnobar a elite nativa.129
Aparentemente a exploração dos diamantes ocorria em todas as escalas, indo
desde a lavagem do pobre faiscador até alguns garimpos de grande porte, que
empregavam muitos escravos. No rio Jequitinhonha, Gardner examinou o garimpo
que lhe pareceu ser o maior do distrito. Começara em 1840 com 150 escravos,
“todos alugados dos vizinhos”, e era um grande empreendimento, com bombas
hidráulicas que tinham custado mil libras esterlinas.130
O Conde de Suzannet visitou a região em 1843 e encontrou uma atividade intensa.
Descreveu o Arraial de Grão Mogol, fundado há menos de dez anos, como repleto
de pessoas que para lá tinham migrado depois do fim do monopólio, para explorar

126 Burton. Explorations, vol. 2, p. 136.


127 Gardner. Viagens, p. 386-87. Os termos garimpo, garimpar, garimpeiro, originalmente usados para
designar a mineração clandestina de diamantes, mais tarde foram estendidos a qualquer indivíduo ou
operação em pequena escala. O ouro era um subproduto dos aluviões de diamantes.
128 Gardner. Viagens, pp. 382-83, 386-87.
129 Burton. Explorations, vol. 2, pp. 94-95, 98. Até mesmo Suzannet, que achou tudo detestável no Brasil,
teve coisas agradáveis para dizer sobre a sociedade de Diamantina. Ver Suzannet. O Brasil, pp. 134-35.
130 Gardner. Viagens, pp. 373-74.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


81
os ricos depósitos da Serra do Grão Mogol. Outros lugares da região foram descritos
da mesma maneira. Suzannet visitou também um garimpo em Coités, explorado por
vários pequenos proprietários: “Cerca de 200 escravos, pertencentes a vinte diferentes
donos são empregados nesses trabalhos. No primeiro ano, Coités foi explorado por
apenas dois proprietários, auxiliados por 30 escravos. As boas descobertas atraíram
os concorrentes (...) quando estive lá a maioria dos empresários já estava pensando
em sair”. Ele informou ainda que nessa época a região diamantina estava importando
escravos africanos através do porto da Bahia.131
Mais tarde, na região em torno de Diamantina, Burton descreveu diversas
lavras, algumas das quais eram, ou tinham sido, bem grandes. Uma delas, perten-
cente ao Sr. Vidigal, empregava 300 escravos, alugados cada um a 1.200 réis por dia,
durante o período de atividade. A lavra do Duro, em São João do Descoberto, teve,
em seu apogeu, mais de 100 escravos. A lavra do Barro empregou 200 escravos em
1834.132
O renascimento não ficou restrito ao velho distrito diamantino. Com a explo-
ração livre foram descobertas novas jazidas, tanto em regiões diamantíferas já
conhecidas, como Abaeté, Indaiá, Grão Mogol e Paracatu, quanto em áreas novas
como Bagagem e Desemboque. Bagagem forneceu algumas das maiores gemas já
extraídas no Brasil: ali foram encontrados o “Estrêla do Sul”, em 1853, pesando 262
quilates, e o “English Dresden”, em 1854, com 119, 5 quilates. No presente século
diversos diamantes pesando acima de 400 quilates foram encontrados lá.133
A extensão geográfica do segundo boom diamantino, entretanto, parece ter
sido bastante restrita. Fora do distrito diamantino as descobertas permaneceram
circunscritas a alguns bolsões, nunca se aproximando, mesmo remotamente, da
grande dispersão do setor minerador de ouro.
Sua duração também foi limitada: os diamantes aluvionais, de fácil extração,
logo escassearam e a continuação de operações lucrativas passou a exigir capital e
tecnologia. De acordo com um residente, na época da visita de Burton, no final dos
anos 1860, a riqueza de Diamantina já tinha atingido seu apogeu e já estava decli-
nando: “Nos últimos anos sua prosperidade diminuira. Antigamente os diamantes

131 Suzannet. O Brasil, pp. 145, 154, 156-57, 162.


132 Burton. Explorations, vol. 2, pp. 115-32. Dornas Filho. O Ouro, pp. 228-29, afirma que “muitas
companhias brasileiras e estrangeiras, foram formadas durante o século (XIX) para extrair diamantes
na região”, mas todas as companhias que cita foram formadas depois de 1897. A mina do Vidigal tinha
muitos trabalhadores livres, assim como escravos, de acordo com Burton. Explorations, vol. 2, p. 113.
133 Iglésias. Política Econômica, p. 193; Dornas Filho. O Ouro, pp. 231-32.

82 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


eram facilmente encontrados em lavras superficiais, agora os trabalhos estão restri-
tos aos capitalistas.” O informante de Burton lhe disse ainda que os escravos tinham
sido vendidos para as províncias cafeeiras e que os donos das minas comemoravam
a perspectiva de imigração dos Confederados para a região: “Que o Senhor os traga
(...) e logo estarão usando nossos inúteis escravos”.134
Outro fator, provavelmente mais decisivo, contribuiu para aprofundar a depres-
são da região diamantina. Ela foi duramente atingida pelas grandes descobertas
no Cabo (atual África do Sul), as quais, a partir de 1867, geraram uma inundação
no mercado mundial da gema, derrubando drasticamente seu preço. Pedristas de
Diamantina, surpreendidos com grandes estoques depreciados, tentaram, em vão,
negociar os diamantes pessoalmente nos mercados europeus. O desespero chegou
a levar um deles ao suicídio, atirando-se ao mar na viagem de volta.135
No início dos anos 70, “com o intuito de aliviar o desemprego entre os minera-
dores atingidos pelo surto de diamantes na África do Sul”, o bispo de Diamantina
organizou, junto com alguns parentes, uma fábrica de tecidos de algodão.136 As
exportações de diamantes, que haviam chegado a 207.820 quilates por ano entre
1828 e 1840, declinaram abruptamente no quarto de século seguinte.

Tabela 2.12 - Diamantes exportados pelo


Rio de Janeiro 1, 1854 - 1876
Médias anuais,
Período
em quilates 2
1854/55 - 1860/61 107.256
1861/62 - 1866/67 103.315
1867/68 - 1875/76 3
62.229
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Dados coletados por Burton para os anos de 1861 a 1867 mostram uma média
anual de exportações de 91.902 quilates. Não é claro, entretanto, qual era a proce-
dência desses diamantes.137

134 Burton. Explorations, vol. 2, p. 104.


135 Berenger. Le Brèsil, p. 444; Dornas Filho. O Ouro, pp. 223-24.
136 Stanley J. Stein. The Brasilian Cotton Manufacture. Textile Enterprise in an Underdeveloped Area, 1850-
1950. Cambridge: Harvard University Press, 1957, p. 26. Essa foi a fábrica do Biribiri, que iniciou as
operações em 1876.
137 Burton. Explorations, vol. 2, p. 108.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


83
Nos anos 1870 e 1880 tornaram-se disponíveis novas fontes de informação sobre
o emprego de escravos na mineração. O Censo do Império, que em Minas Gerais se
realizou em 1873, registrou somente 1.625 escravos empregados como “mineiros,
canteiros, calceteiros e cavouqueiros”. Pela abrangência da categoria ocupacional,
esse é, naturalmente, o limite máximo do número de mineradores escravos na pro-
víncia. Em somente doze, dos setenta e dois municípios existentes, o censo regis-
trou algum escravo nessa categoria e, com poucas exceções, estes constituíam uma
porcentagem insignificante dos cativos do município. No conjunto da província, o
setor de mineração empregava, no máximo, 0,44 por cento da população escrava
recenseada, como mostra a tabela 2.13.
A primeira coisa que se observa na tabela, além do pequeno número de escra-
vos mineradores, é a surpreendente ausência do município de Sabará, onde se loca-
lizava a Saint John del Rey, que ainda empregava 726 escravos nesse ano. O censo
registrou 3.284 escravos na paróquia de Congonhas do Sabará, que continha a mina
de Morro Velho, mas nenhum deles é listado como mineiro.
Podem ser tentadas algumas explicações para essa lacuna. Primeiro, como
vimos, a maioria dos escravos da Saint John era alugada. É possível que esses cati-
vos viessem de fora do município e poderiam ter sido recenseados nos locais de
residência de seus donos. Mesmo os do município de Sabará podem ter sido clas-
sificados como jornaleiros. Uma segunda, embora menos plausível, especulação, é
que, na época do censo, Morro Velho ainda estava com a atividade reduzida, cau-
sada pelo incêndio de 1867. A companhia tinha diminuído sua força de trabalho
e tinha transferido escravos para as minas de Gaia e Gabiroba, tornando-os muito
menos visíveis. A explicação mais provável, entretanto, é que os dados tenham sido
pura e simplesmente fraudados. A Saint John del Rey era notoriamente sensível a
má publicidade, especialmente sobre a espinhosa questão do trabalho escravo, e
tinha razões de sobra para tentar encobrir esse flanco.138
A tabela também mostra uma alta concentração (78%) dos mineradores escra-
vos nas áreas diamantinas. Todos os quatro municípios onde a porcentagem de
escravos nessa categoria era significativamente superior a um por cento, eram
zonas diamantíferas. Esses números, embora confirmem o segundo boom diaman-
tino, também indicam que ele já estava no ocaso em 1873. Nessa época o uso de

138 Sobre as relações entre a Saint John e o governo provincial e sobre as tentativas da companhia de
ocultar acidentes que resultaram na morte de trabalhadores, ver Libby. O Trabalho Escravo. Era
particularmente fácil fraudar o censo de 1872, uma vez que os questionários eram entregues nos
domicílios, preenchidos por seus responsáveis e recolhidos depois pelos agentes censitários. Ver
Oliveira Vianna. Resumo Histórico dos Inquéritos Censitários Realizados no Brasil. In: Brasil. Directoria
Geral de Estatística. Recenseamento do Brasil, Realizado em 1 de setembro de 1920 (Rio de Janeiro:
Typografia de Estatística, 1922), vol. 1.

84 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


escravos na mineração de diamantes pode ter tido alguma importância local, mas
era insignificante em comparação com a população escrava provincial.

Tabela 2.13 - Minas Gerais: Número máximo


de escravos empregados na mineração em 1873
Escravos na % dos escravos
Setor 1 Municípios
mineração 2 do município
Ouro Caeté 30 1,07
Campanha 84 1,25
Conceição 3 46 1,13
Mariana 132 1,57
Montes Claros 9 0,22
Santa Bárbara 23 0,30
Ouro Preto 27 0,48
Diamantes Bagagem 12 0,40
Diamantina 3 325 15,96
Grão Mogol 197 5,32
São João Batista 3 87 3,76
Serro 653 6,86

Total Minas Gerais 1.625 0,44


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Existem dados disponíveis sobre a população escrava de alguns municípios dia-


mantinos na metade do século XIX. Em 1854, Diamantina tinha 9.795 escravos,
Paracatu tinha 7.576, Serro e Minas Novas tinham cerca de 8 mil e 10 mil, respec-
tivamente. Esses números são estimativas cuja precisão é difícil de avaliar mas, se
forem corretos, mostram que esses quatro municípios tinham, respectivamente, a
terceira, a décima, a oitava e a segunda maior população escrava entre os vinte e
sete municípios que responderam ao inquérito feito pelo presidente da província.139
Em todos, exceto no Serro, a população escrava tinha diminuído em 1873. Em
Paracatu e Minas Novas a redução foi drástica: tinham apenas 2.638 e 4.312 escra-
vos, respectivamente, no ano do censo, e nenhum deles foi listado como minerador.
Em Diamantina o censo foi incompleto, mas é quase certo que o número de escra-
vos tenha declinado desde o meado do século.140

139 Os números da população escrava para os 27 municípios de Minas Gerais, em 1854, estão nos rela-
tórios das autoridades municipais anexas ao Relatório... pres. Pereira de Vasconcellos, 25 de março,
1855.
140 Brazil. Directoria Geral de Estatística. Recenseamento da população do Império do Brasil a que se

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


85
Tabela 2.14 - Minas Gerais: Escravos empregados
na mineração de ouro, 1872 - 1883

Ano Fiscal Arrecadação do Número de


imposto (milréis) escravos
1872-73 1.944 972
1873 -74 1.834 917
1874-75 1.596 798
1875-76 1.376 688
1876-77 1.288 644
1877-78 1.804 902
1878-79 1.714 857
1879-80 1.636 818
1880-81 1.268 634
1881-82 1.306 653
1882-83 1.288 644
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Em 1871 a Assembléia Provincial aprovou um imposto de dois mil réis sobre


cada escravo diretamente ou indiretamente empregado na mineração de ouro. A
receita anual desse imposto nos permite avaliar o número de escravos no setor
aurífero nos anos finais da escravatura.141
Uma desagregação por estações fiscais, disponível para 1881-82, mostra que,
dos 653 escravos tributados naquele ano, 309 se localizavam em Sabará, o que coin-
cide aproximadamente com o número então empregado pela Saint John del Rey.
Outros 241, entretanto, estavam em Santa Bárbara. Isso sugere que, ao contrário
das evidências encontradas para o final dos anos 1860, a Santa Bárbara Company
poderia estar usando um número considerável de escravos em sua mina de Pari.142

procedeu no dia 1°. de agosto de 1872. Rio de Janeiro: Leuzinger e Filhos, 1873-1876. Em Minas Gerais
só foi realizado em 1°. de agosto de 1873. O censo é a única fonte de informação sistemática sobre a
distribuição ocupacional da população escrava de Minas Gerais. Os resultados para Minas da matrícula
de escravos de 1873 nunca foram completamente publicados. Somente sobreviveu uma lista parcial
dos totais por municípios. Para uma breve discussão sobre o censo e a matrícula, veja o anexo A.
A mera comparação das populações em dois pontos do tempo pode ser enganosa. No capítulo 4
discutimos a utilização de dados de população para estimar exportações e importações de escravos.
141 Lei provincial n°. 1811, de 10 de outubro de 1871. Essa lei estipulava uma taxa de dois mil réis sobre
cada escravo que, direta ou indiretamente, fosse empregado no serviço de mineração de ouro, por
qualquer pessoa particular, se ela tivesse mais do que cinco escravos empregados nesse serviço. Livro
da Lei Mineira, tomo 38, parte 1ª., p. 9.
142 Falla... pres. Antonio Gonçalves Chaves, 2 de agosto de 1883. Anexo A: Directoria da Fazenda Provincial.
Sem número de página. A Saint John del Rey empregava em 1881 uma média de 376 escravos e em

86 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Em 1883, foi criada pela Assembléia Provincial uma taxa de cinco por cento
sobre valor dos contratos de aluguel de escravos a serem empregados na mineração.
Até três anos mais tarde nada havia sido arrecadado dessa taxa.143 Na última matrí-
cula de escravos de escravos do império, em 1887, a classificação ocupacional nem
mesmo incluía a categoria “minerador”.144
As evidências apresentadas neste capítulo mostram que, além de qualquer
dúvida, Minas Gerais tinha deixado de ser uma economia “mineradora” no raiar do
século XIX. Do ciclo minerador tinham permanecido alguns pontos isolados, com
um papel bastante limitado na vida econômica posterior da província. A impor-
tância da mineração como campo de emprego de escravos foi mínima e à medida
que o século se desenrolava essa tendência foi sendo claramente acentuada. Os 75
mil escravos mineradores dos meados do século anterior reduziram-se a cerca de
10 mil em 1814, uns 2.000 por volta de 1850, pouco mais de 1.500 em 1873, e umas
poucas centenas nos anos 1880.145
Esses números têm algumas implicações imediatas. Antes de qualquer outra
coisa, eles excluem completamente a possibilidade de transferências de trabalho
escravo, mesmo pequenas, da mineração para o café, em Minas Gerais ou em qual-
quer outro lugar. Muito antes da decolagem do setor cafeeiro, a indústria da mine-
ração já não dipunha de qualquer quantidade significante de escravos que pudesse
ser liberada ou transferida.
É possível que a região diamantina preencha, num sentido bastante limitado, o
papel que a historiografia tem atribuído ao “decadente setor minerador”. Seu tardio
segundo boom e sua abrupta crise podem ter tornado seus escravos “redundantes”,
bem a tempo de serem drenados para as regiões cafeeira paulista e mineira, nos
anos 1870 e 1880. Voltaremos a essa questão no capítulo 4. É importante notar, por
enquanto, que, mesmo nesse caso, as tranferências teriam resultado de um novo,
curto e localizado ciclo de boom and bust, e não da decadência de longo prazo do
setor minerador.

1882 uma média de 383. Libby. O Trabalho Escravo, pp. 167-68.


143 Lei provincial n°. 3117, 17 de outubro de1883. A informação de que nada foi arrecadado até o ano
fiscal de 85-86 é de Breve Notícia do Estado Financeiro das Províncias, organizada por ordem de S. Ex.
o Sr. Barão de Cotegipe, Presidente do Conselho de Ministros. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887.
144 Os resultados, por província, da matrícula de escravos de 1887, estão no Relatório Agricultura, ministro
Rodrigo Augusto da Silva, 1888, p. 24.
145 75.000 escravos na mineração é a estimativa de Maurício Goulart para o período 1735-1777. Goulart.
A Escravidão, p. 168. As fontes dos outros números são dadas no texto.

PARTE I - CAPÍTULO 2 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR MINERADOR


87
Capítulo 3 - A Escravidão
no Setor Cafeeiro

A
maioria dos historiadores, mesmo concordando que a grande e crescente
população escrava de Minas Gerais não pode ser atribuída, no século XIX,
ao agonizante setor minerador, não hesitaria em atribuir esse papel pro-
tagonista à produção do café. O setor cafeeiro é geralmente apresentado como a
atividade que resgatou a província, e na verdade, todo o império, de um impasse
econômico. O cultivo do café teria inaugurado uma nova era, dando novo sopro de
vida ao regime escravista e cumprindo, nesse particular, um papel semelhante ao
que é atribuído ao algodão no Sul dos Estados Unidos.
Já ressaltamos que, pelo menos no caso de Minas Gerais, esse ponto de vista é
altamente questionável e significa um enorme exagero da importância do café na
economia provincial. É uma visão míope que implica na adoção, pelo historiador,
da mentalidade legada pelo colonizador – a de que a atividade exportadora é o
único objetivo econômico respeitável, e que somente através dela se pode medir
o “progresso”. Neste capítulo analisamos a relação entre a escravidão e o café em
Minas, objetivando, em particular, chegar a uma estimativa da mão de obra escrava
empregada neste setor durante o período imperial.

O SURGIMENTO DA CULTURA CAFEEIRA EM MINAS GERAIS


O café foi cultivado nas terras altas de Minas Gerais desde o século XVIII. Os
primeiros pés foram provavelmente plantados nas vilas mineradoras de Ouro Preto,
Mariana e São João del Rei, e em Barbacena, mas permaneceu até o século XIX como
uma cultura “de chácara ou de quintal”. Caríssimo, “bebida de fidalgo”, era um artigo
de luxo, cultivado em pequena escala para o consumo dos mineiros ricos. Os pobres
e os escravos bebiam chá de congonha, o “chá mineiro”, colhido no mato.
Foi somente na segunda década dos oitocentos que seu cultivo chegou à Zona da
Mata Mineira, na fronteira com o Rio de Janeiro, onde veio a se tornar a principal ati-
vidade de exportação da província. Por volta dessa época, famílias mineiras começa-
ram a se retirar da mineração em declínio, migrando para a Mata Fluminense, onde

89
iniciaram a plantação de café em larga escala, estabelecendo as primeiras fazendas.
A partir desse núcleo a cultura começou a se expandir através do vale do Paraíba, no
rumo sudoeste, em direção a São Paulo, e no rumo norte, atravessando os rios Para-
íba e Paraibuna e entrando na Zona da Mata de Minas Gerais.
Cerca de 1817 já havia plantações de café em Mar de Espanha, antes de 1830
em Matias Barbosa. Por volta da metade do século alcançaram São João Nepomu-
ceno e estavam começando a se espalhar para Leopoldina, Ubá e Muriaé, a leste, e
até Juiz de Fora e Rio Preto, a oeste.
O movimento foi rápido e existem registros de café exportado para o Rio de
Janeiro desde o princípio do século, mas até os anos 50 o setor cafeeiro mineiro foi
muito pequeno. Suas exportações eram apenas 3,5% do café exportado pelo porto
do Rio em 1820, 4,6% em 1830, e 5,6% no ano fiscal de 1851-52. Mesmo durante a
década de 1850, a exportação de café de Minas não chegava a 10% da fluminense.146
A evolução do setor cafeeiro mineiro, no século XIX, é mostrada na tabela 3.1. O
crescimento aparentemente espetacular dos índices deve-se ao fato de partirem de
uma base muito pequena.
No período compreendido entre o fim do tráfico africano, em 1850, e a eman-
cipação final dos escravos, em 1888, o café apresentou notável expansão em Minas.
Seu crescimento seguiu de perto, com uma defasagem determinada pelo inter-
valo entre o plantio de novos cafezais e sua maturação, as oscilações do preço
internacional.

146 Sócrates Alvim. Projeção Econômica e Social da Lavoura Cafeeira em Minas. In: Secretaria da
Agricultura. Minas e o Bicentenário do Cafeeiro no Brasil. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1929, pp.
41-42. Outras fontes sobre os primórdios do café são: Rio de Janeiro: Stanley J. Stein. Vassouras. A
Brazilian coffee county, 1850-1890. New York: Atheneum, 1970, p. 53; Minas Gerais: Aristóteles Alvim.
Confrontos e Deduções. In: Secretaria da Agricultura. Minas e o Bicentenário do Cafeeiro no Brasil.
Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1929. pp. 80-83. O desenvolvimento inicial do setor cafeeiro mineiro
é descrito por: Hildebrando de Magalhães. Subsídios para a História do Café em Minas Gerais. O Café
no Segundo Centenário de sua Introdução no Brasil. Rio de Janeiro: Edição do Departamento Nacional
do Café, 1934; Honorio Silvestre. A Colonização Mineira nos Grandes Latifúndios de Café do Estado
do Rio de Janeiro. O Café no Segundo Centenário de sua Introdução no Brasil. Rio de Janeiro: Edição
do Departamento Nacional do Café, 1934; Manoel Xavier de Vasconcellos Pedrosa. Zona Silenciosa
da Historiografia Mineira – A Zona da Mata. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 257
(outubro-dezembro) de 1962, pp. 122-62. O papel dos migrantes mineiros como pioneiros no setor
cafeeiro fluminense é também destacado por Stein. Vassouras, pp. 9-12, 17-21. Veja também Daniel
de Carvalho. O Café em Minas Gerais. In: Secretaria da Agricultura. Minas e o Bicentenário do Cafeeiro
no Brasil. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1926, pp. 218-27.

90 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Tabela 3.1 - Minas Gerais: Exportações de café, 1819 - 1899
(médias anuais em arrobas e toneladas)

Período 1 Arrobas 2 Toneladas 1819-20 = 100


1819-20 15.635 230 100
1821-25 38.740 569 248
1826-30 72.780 1.069 466
1831-35 139.000 2.042 889
1836-40 218.195 3.205 1.396
1841-45 305.912 4.494 1.957
1846-50 444.939 6.536 2.846
1851-55 703.265 10.330 4.498
1856-60 882.169 12.958 5.642
1861-65 1.120.547 16.460 7.167
1866-70 2.146.655 31.532 13.730
1871-75 2.210.606 32.472 14.139
1876-80 3.133.121 46.022 20.039
1881-85 4.486.461 65.902 28.695
1886-87 5.934.458 87.171 37.957
1888-93 5.270.565 77.419 33.711
1894-99 7.994.386 117.430 51.132
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Gráfico 3.1 - Minas Gerais: Exportações de café, 1820-1900 (mil arrobas)

12.000

10.000

8.000

6.000

4.000

2.000

0
1820 1830 1840 1850 1860 1870 1880 1890 1900

Fonte: Aristóteles Alvim. Confrontos e Deduções, pp. 80-83

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


91
Preços baixos no início dos anos cinquenta levaram a um lento crescimento
no fim do decênio. No começo dos anos 1860 o preço teve grande incremento,
causando uma aceleração da expansão durante a década, especialmente em sua
segunda metade. De 1866 a 1870 os preços permaneceram altos, mas ficaram estag-
nados, resultando em um crescimento praticamente nulo da produção nos cinco
anos seguintes. O movimento ascensional foi retomado em 1871 e os dois anos
seguintes registraram os preços de café mais altos do período imperial. O setor res-
pondeu, consequentemente, com uma alta taxa de crescimento durante o final dos
anos setenta e o início dos oitenta. A euforia dos preços foi seguida por um longo
declínio, que durou de 1874 até 1887. As velhas áreas de café do Vale do Paraíba,
especialmente as de São Paulo e do Rio de Janeiro, foram as mais afetadas, e sua
produção decaiu, de fato, em termos absolutos nos últimos anos da escravidão. A
Mata Mineira não escapou incólume: outras fontes mostram uma desaceleração em
sua expansão, mas na província como um todo, o impacto da queda dos preços foi
compensado pelo aumento da produção dos novos cafezais da Zona Sul. A tendên-
cia de crescimento das exportações também se manteve na outra área pioneira, o
Oeste Paulista.147
Ao longo de todo o império Minas Gerais foi o terceiro maior produtor do
Brasil, imediatamente abaixo do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entre 1852 e 1870
o setor mineiro cresceu mais rapidamente do que qualquer outra área cafeeira
do país, incluindo o Oeste de São Paulo. Foi somente depois desse período que o
Oeste paulista saltou à frente de todas as demais regiões, assumindo, no final dos
anos oitenta, a liderança da produção no Brasil. Nesse ínterim, a região cafeeira de
Minas continuou a crescer rapidamente, enquanto as áreas fluminense e paulista
do Vale do Paraíba permaneceram estagnadas ou declinaram, da metade do século
em diante. No início do período republicano Minas Gerais ultrapassou o Rio de
Janeiro na produção de café.
As fazendas de café foram as únicas plantations que existiram em Minas Gerais
no século XIX. Informações a respeito de propriedades individuais são muito escas-
sas e, para os anos anteriores a 1880 não consegui encontrar nada. Felizmente, em
1883, o perito holandês C. F. van Delden Laerne foi enviado ao Brasil com a missão
de estudar o setor cafeeiro, que era o principal concorrente de Java, do Suriname

147 A evolução do índice dos preços médios do café com base em 1853-55 =100 foi a seguinte:
1856-60 =121,5; 1861-65 =176,5; 1866-70 =167,9; 1871-75 =187,6; 1876-80 =137, 2; 1881-85 =101,8;
1886-88 =141,9. Os dados são de Affonso d’Escragnolle Taunay. História do Café no Brasil, 15 vols. Rio
de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1939-1941.

92 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


e de outras colônias neerlandesas, no mercado mundial. Seu relatório ao ministro
holandês das colônias contém grande riqueza de dados sobre a situação nas três
principais províncias produtoras.148 São especialmente valiosas as informações que
reproduz sobre 543 fazendas de café penhoradas ao Banco do Brasil em 1883, pois
constituem, no meu conhecimento, o único conjunto publicado de dados sistemá-
ticos sobre plantations brasileiras de café anteriores à abolição da escravidão.149

Tabela 3.2 - Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo:


Evolução das exportações de café, 1852 - 1888. Médias anuais, em toneladas 1
São Paulo São Paulo
Minas Gerais Rio de Janeiro
Período Vale do Paraíba Oeste2
Ton. índice Ton. índice Ton. índice Ton. índice
1852 - 1855 3 10.264 100 117.372 100 18.790 100 9.369 100
1856 - 1860 12.958 126 119.272 102 17.191 91 14.302 153
1861 - 1865 16.460 160 85.442 73 14.886 79 19.871 212
1866 - 1870 31.532 307 117.841 100 18.014 96 28.213 301
1871 - 1875 32.472 316 106.610 91 17.206 92 35.250 376
1876 - 1880 46.022 448 116.521 99 20.379 108 58.318 622
1881 - 1885 65.902 642 131.572 112 23.368 124 106.647 1.138
1886 - 1888 82.829 807 97.995 83 15.382 82 117.797 1.257
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A comparação das fazendas mineiras com as de São Paulo e do Rio de Janeiro


mostra notáveis semelhanças entre elas, especialmente entre as que pertencem à
zona cafeeira do Rio. A Zona do Rio, isto é, a região que exportava seu café através
do porto do Rio de Janeiro, compreendia os distritos cafeeiros das províncias do
Rio de Janeiro, de Minas Gerais e da parte paulista do Vale do Paraíba. A Zona de
Santos, cujo escoadouro era o porto de Santos, compreendia os distritos cafeeiros
de São Paulo situados ao norte e a oeste da capital provincial, e era também conhe-
cida como Oeste Paulista.150

148 Laerne, Brazil and Java.


149 Na verdade a amostra de Laerne contém mais do que 543 fazendas. Estamos usando aqui somente
aquelas localizadas nos municípios classificados por ele como plantadores exclusivamente de café.
150 A importante região cafeeira desenvolvida mais tarde no sudoeste de Minas Gerais exportava através
do porto de Santos e, portanto, fazia parte da zona cafeeira de Santos. Mostramos abaixo que no
nosso período de análise essa região era pequena e relativamente sem importância.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


93
Tabela 3.3 - Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo: 543 fazendas* de café em 1883
Características Zona do Rio (Vale do Paraíba) Zona de Santos
Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo** Oeste Paulista
Número de fazendas incluídas 191 153 53 146
Tamanho médio (hectares) 628 591 895 633
Número médio de pés de café 197.060 134.856 148.856 88.383
Número médio de escravos 56 36 37 36
Média de pés de café por escravo 3.514 3.706 3.623 2.450
Valor médio dos escravos (milréis) 1.170 1.196 1.239 1.404
Valor médio das fazendas (milréis) 73.927 55.312 66.685 82.063
Valor escravos/valor fazendas (%) 47 44 41 38
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

As fazendas do Oeste Paulista, que nessa época (1883) já constituíam o seg-


mento mais próspero e de crescimento mais rápido do setor cafeeiro do Brasil,
tinham um menor número médio de cafeeiros e eram relativamente melhor supri-
das de escravos, resultando em uma média de pés de café por escravo considera-
velmente menor do que nas propriedades da Zona do Rio. A qualidade superior de
suas terras se reflete no fato do Oeste Paulista apresentar um maior valor médio por
fazenda, apesar do número menor de cafeeiros, e também nas porcentagens mais
baixas que os escravos representavam nos valores totais das fazendas.
Entre as fazendas da Zona do Rio, as da área fluminense eram maiores em ter-
mos dos cafeeiros e escravarias, mas notavelmente similares às suas correspon-
dentes mineiras e paulistas com respeito a outras características, tais como a razão
de cafeeiros por escravo, o valor médio dos escravos e o peso do plantel cativo
no valor total dos estabelecimentos. A amostra inclui 153 fazendas localizadas em
onze municípios de Minas Gerais, que estão descritas na tabela 3.4.
A tabela revela que essas fazendas eram surpreendentemente pequenas, em
número de cafeeiros, em comparação com as enormes plantations do século XX,
que frequentemente continham milhões de pés de café. Seus plantéis de escravos
também eram relativamente modestos. Os estabelecimentos eram grandes em
extensão fundiária, mas a terra não era um componente importante no valor total
das propriedades. Seu valor médio, que presumivelmente inclui as terras, os pré-
dios, os equipamentos e os cafezais, não apresenta nenhuma correlação com seu
tamanho médio (r = – 0,118). O número de cafeeiros, por outro lado, mostra forte
associação positiva com os valores das fazendas (r = 0,93). O número de cafeeiros
também apresenta alta correlação com o plantel de escravos (r = 0,84), resultando

94 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


em uma razão relativamente uniforme de cafeeiros por escravo, um coeficiente téc-
nico de grande importância para nossa análise posterior.

Tabela 3.4.1 - Minas Gerais: Características de 153 fazendas de café em 1883


Tamanho Número Número Média de
Número de
Municípios médio em médio de médio de pés de café
fazendas
hectares pés de café escravos por escravo
Leopoldina 42 703,7 114.047 33 3.456
Mar de Espanha 36 474,2 165.555 37 4.431
Juiz de Fora 26 522,2 166.692 50 3.331
Rio Novo 15 357,3 110.800 31 3.566
S. P. do Muriaé 14 1.145,0 134.928 32 4.207
Rio Preto 5 241,4 97.200 31 3.176
Ubá 4 367,2 116.250 46 2.513
Cataguazes 4 530,0 62.000 17 3.757
Pomba 3 599,7 73.000 26 2.808
Pouso Alegre 2 762,5 62.500 21 2.976
Além Paraíba 2 368,5 227.500 49 4.691

Total 153 591,2 134.856 36 3.706


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 3.4.2 - Minas Gerais: Características de 153 fazendas de café em 1883 (continuação)
Valor Valor Valor Valor total Escravos
Municípios médio dos médio dos médio das médio das como % do
escravos dos plantéis fazendas propriedades valor total
Leopoldina 1.174 38.742 51.077 89.819 43,1
Mar de Espanha 1.198 44.805 62.714 107.519 41,6
Juiz de Fora 1.183 59.150 62.330 121.480 48,7
Rio Novo 1.198 37.258 43.481 80.739 46,1
S. P. do Muriaé 1.272 40.831 58.763 99.594 41,0
Rio Preto 1.255 38.403 44.801 83.204 46,2
Ubá 1.079 49.850 51.078 100.928 49,4
Cataguazes 1.295 21.368 35.122 56.490 37,8
Pomba 1.137 29.562 31.605 61.167 48,3
Pouso Alegre 1.483 31.143 42.180 73.323 42,5
Além Paraíba 1.271 61.644 108.175 169.819 36,3

Total 1.196 43.534 55.312 98.846 44,0


Todos os valores em milréis.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


95
O preço médio dos escravos mostra uma variação muito pequena entre os
municípios, sendo muito concentrado em torno do valor médio de 1.196 mil réis.
Os escravos representavam uma porcentagem uniformemente alta do valor total
das fazendas, entre 40 e 50 por cento na maioria dos casos.
Laerne visitou pessoalmente e colheu dados em primeira mão sobre 31 fazen-
das de café, dez das quais situadas em Minas Gerais. Eram propriedades incomuns
por seu tamanho e importância, muito pouco representativas das fazendas de café
típicas de Minas, mas servem para ilustrar como eram as grandes plantations cafe-
eiras da província nessa época.

Tabela 3.5 - Minas Gerais: Fazendas de café visitadas por Laerne em 1883

Tamanho Pés de café Colheita Pés por


Fazendas Município Escravos
(hectares) (milhares) (toneladas) escravo
Boa Vista Juiz de Fora 435 295 118,2 132 2.235
São Marcos Juiz de Fora 368 233 105,7 63 3.698
Recato Juiz de Fora 2.178 400 88,1 71 5.634
Cedofeita1 Juiz de Fora 2.900 900 227,6 220 4.091
Fortaleza Juiz de Fora 3.617 700 143,8 140 5.000
Pouso Mar de
968 250 48,7 55 4.545
Alegre Espanha
Trimonte Leopoldina 1.687 500 146,8 80 6.250
Cruz Alta Leopoldina 1.326 800 117,4 150 5.333
Médias2 1.685 510 124,5 91 4.598
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A GEOGRAFIA DO CAFÉ EM MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


O café era cultivado em pomares ou quintais para consumo doméstico em quase
toda Minas Gerais. O cultivo comercial, entretanto, era limitado a uma pequena
parte do território provincial. Era uma estreita faixa de terra, que se estendia de
sudoeste a nordeste, ao longo da fronteira com o Rio de Janeiro, limitada ao norte
pela serra da Mantiqueira e ao sul pelos afluentes do rio Paraíba. A região além da
Mantiqueira também se prestava à cultura da planta, mas os custos de transporte
impediam que fosse lucrativa. Em seu compêndio sobre a geografia botânica do
Brasil, publicado em 1872, Emmanuel Liais, então diretor do Observatório Impe-
rial do Rio de Janeiro, anotou que

96 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


O café é a principal cultura da província do Rio de Janeiro e da região
fronteiriça de Minas Gerais, até a Serra da Mantiqueira. Mesmo além
[desse limite] a planta tem bom desenvolvimento, e vi em Sabará, e até
mais para o interior, cafeeiros com mais de sessenta e mesmo oitenta anos
de idade. Parece que vivem mais tempo nesses lugares do que no vale
do Paraíba, mas o cultivo aí está praticamente limitado às necessidades
locais, por falta de rotas fáceis de comunicação com a capital.151

Não existem dados desagregados por município sobre a produção de café


durante todo o século XIX. Felizmente, para o historiador, o café estava sujeito
ao imposto provincial de exportação, e os postos fiscais espalhados ao longo das
rotas comerciais registraram as quantidades que cruzavam as fronteiras provin-
ciais. Nem todos esses registros sobreviveram, mas aqueles que chegaram até nós
permitem reconstituir com razoável precisão as origens regionais das exportações
mineiras de café durante o período imperial. Foi possível recuperar dados para os
anos fiscais de 1818-19, 1842-43, 1844-45, 1847-48, 1850-51, 1867-68, 1881-82,
1882-83 e 1883-84, cobrindo praticamente todo o período em estudo.
As tabelas seguintes deixam claro que a produção de café em Minas Gerais era
fortemente concentrada na Zona da Mata. A participação dessa região no total
provincial se manteve perto de 100% durante todo o período, só caindo para 93%
no último ano da série. Essa queda na participação se explica muito mais por uma
grande quebra (de aproximadamente 40%) na produção da própria Mata, e menos
pelo crescimento do produto das outras regiões.
Em vista dos dados aqui alinhados, é surpreendente constatar como era gene-
ralizada a noção de que a Zona Sul era um importante produtor de café durante
o Império. Essa ideia, aparentemente originada da interpretação errônea de uma
observação feita por Saint Hilaire no começo do século XIX, ilustra quão pouco se
pesquisou sobre a história econômica de Minas Gerais.152

151 Emmanuel Liais. Climat, Géologie, Faune et Géographie Botanique du Brésil. Paris: Garnier Frères,
1872, pp. 631-32.
152 Daniel de Carvalho atribui a origem desse erro a uma interpretação equivocada da observação de
Saint-Hilaire de que o café era exportado du Midi de la Province de Minas. No mesmo estudo sustenta
que o Sul não foi um produtor de café no século XIX e apresenta evidências sobre isso. Carvalho, O
Café, pp. 152-53.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


97
Tabela 3.6 - Minas Gerais: Exportações de café,
1818 - 1819, por registros e regiões, em toneladas
Registros Café (toneladas) %
Caminho Novo 136,0 95,0
Rio Preto 0,6 0,4
Presídio do Rio Preto 3,8 2,6
Porto do Cunha 2,2 1,6
Barra do Pomba 0,0 0,0
Total da Zona da Mata 142,6 99,7
Mantiqueira 0,0 0,0
Jaguari 0,0 0,0
Campanha de Toledo 0,0 0,0
Itajubá 0,0 0,0
Sapucaí Mirim 0,0 0,0
Total da Zona Sul 0,0 0,0
Malhada 0,5 0,3
Rio Pardo 0,0 0,0
Rio das Velhas 0,0 0,0
Total de outras regiões 0,5 0,3

Total de Minas Gerais 143,1 100,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 3.7 - Minas Gerais: Exportações de café,


1842-43 e 1844-45, por registros e regiões, em toneladas

Café exportado Café exportado


Registros % %
em 1842 - 43 em 1844 - 45
Paraibuna 1.491,6 38,47 1.813,7 32,98
Mar de Espanha 114,4 2,95 390,5 7,10
Porto Velho do Cunha 22,8 0,59 65,0 1,18
Porto Novo do Cunha 186,2 4,80 432,7 7,87
Ponte de Sapucaia 1.397,9 36,05 2.013,5 36,61
Pomba 0,5 0,01 7,6 0,14
Presídio 283,3 7,31 232,6 4,23
Rio Preto 2,6 0,07 0,0 0,00
Ponte do Zacarias 30,3 0,78 13,0 0,24
Barra das Flores 342,7 8,84 530,2 9,64
Total da Zona da Mata 3.872,3 99,86 5.498,8 99,99
Ouro Fino 0,5 0,01 0,0 0,00
Jacuí 4,8 0,12 0,0 0,00
Total da Zona Sul 5,3 0,14 0,0 0,00
Santa Bárbara 0,0 (+) 0,4 (+)
Rio Pardo 0,0 0,00 0,3 (+)
Total de outras regiões 0,0 (+) 0,6 0,01
Total de Minas Gerais 3.877,6 100,00 5.499,5 100,00
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

98 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX


Tabela 3.8 - Minas Gerais: Exportações de café, 1847-48 e 1850-51,
por registros e regiões, em toneladas
Café exportado Café exportado
Registros % %
em 1847 - 48 em 1850 - 51
Patrocínio do Muriaé 0,0 0,00 1,8 0,01
Paraibuna 2.701,2 24,67 3.271,9 24,75
Ericeira 481,9 4,40 695,0 5,26
Mar de Espanha 1.406,5 12,85 2.025,7 15,32
Sapucaia 3.614,8 33,02 3.775,5 28,56
Porto Novo do Cunha 1.169,6 10,68 1.843,1 13,94
Porto Velho do Cunha 146,0 1,33 29,5 0,22
Barra do Pomba 99,1 0,90 124,4 0,94
Flores do Rio Preto 956,4 8,74 1.079,2 8,16
Presídio do Rio Preto 335,5 3,06 336,9 2,55
Ponte do Zacarias 12,7 0,12 6,7 0,05
Total da Zona da Mata 10.923,7 99,78 13.189,7 99,76
Carrijo 0,2 (+) 0,7 0,01
Itajubá 0,0 0,00 0,4 (+)
Sapucaí Mirim 0,0 0,00 1,3 0,01
Monte Belo 0,1 (+) 0,0 0,00
Ouro Fino 13,9 0,13 0,9 0,01
Porto do Machado 5,3 0,05 22,8 0,17
Total da Zona Sul 19,6 0,18 26,1 0,20
Ponte Alta 0,1 (+) 0,0 0,00
Morrinhos 1,4 0,01 1,1 0,01
Rio Pardo 3,6 0,03 4,1 0,03
Total de outras regiões 5,0 0,05 5,2 0,04

Total de Minas Gerais 10.948,3 100,00 13.221,0 100,00


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


99
Tabela 3.9 - Minas Gerais: Exportações de café,
1867-68, por registros e regiões, em toneladas
Registros Café (toneladas) %
Barra do Pomba 1.906,8 6,09
Flores do Rio Preto 1.160,5 3,71
Gameleira 2.765,4 8,83
Mar de Espanha 2.055,1 6,57
Paraibuna 10.579,9 33,80
Patrocínio 1.559,4 4,98
Porto Novo do Cunha 2.367,7 7,56
Porto Velho do Cunha 1.268,3 4,05
Porto do Avelar 1.503,0 4,80
Presídio do Rio Preto 514,3 1,64
Pirapetinga 157,4 0,50
Sapucaia 3.889,2 12,42
Três Ilhas 1.342,3 4,29
Zacarias 151,9 0,49
Total da Zona da Mata 31.221,2 99,74
Caldas 3,1 0,01
Dores do Guaxupé 0,2 (+)
Monte Santo 9,1 0,03
Ouro Fino 37,1 0,12
Passa Vinte 23,6 0,08
Total da Zona Sul 73,1 0,23
Rio Pardo 2,7 0,01
Ponte Alta 0,0 (+)
Pontal do Escuro 4,3 0,01
Salto Grande 0,9 (+)
Total de outras regiões 8,0 0,03

Total de Minas Gerais 31.302,3 100,00

Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

100 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 3.10 - Minas Gerais: Exportações de café, 1881-82, 1882-83 e 1883-84,
por registros e regiões, em toneladas
Café Café Café
Registros exportado % exportado % exportado %
em 1881-82 em 1882-83 em 1883-84
E. F. União Mineira 0,0 0,00 13.420,8 15,95 8.609,8 15,98
E. F. Pirapetinga 0,0 0,00 1.722,6 2,05 0,0 0,00
E. F. Leopoldina 0,0 0,00 16.482,2 19,59 17.623,6 32,70
Flores do Rio Preto 1.615,6 2,57 1.909,4 2,27 1.463,9 2,72
Ilha dos Pombos 0,0 0,00 566,1 0,67 193,5 0,36
Juiz de Fora 7.330,5 11,68 18.506,5 22,00 9.735,5 18,07
Paraibuna 1.512,8 2,41 1.827,6 2,17 1.186,9 2,20
Patrocínio do Muriaé 1.106,2 1,76 1.681,7 2,00 489,7 0,91
Presídio do Rio Preto 1.135,6 1,81 1.116,2 1,33 825,4 1,53
Porto Novo do Cunha 27.935,4 44,52 21.780,3 25,89 7.677,9 14,25
Tombos do Carangola 763,1 1,22 896,6 1,07 639,9 1,19
Três Ilhas 1.486,0 2,37 1.513,4 1,80 1.079,2 2,00
Zacarias 152,1 0,24 169,4 0,20 55,9 0,10
Serraria 17.821,6 28,40 0,0 0,00 0,0 0,00
Chiador 0,0 0,00 0,0 0,00 613,6 1,14
Rio Pardo 0,8 (+) 0,4 (+) 1,7 (+)
Total da Zona da Mata 60.859,8 96,98 81.593,2 96,99 50.196,5 93,15
Caldas 117,9 0,19 284,6 0,34 672,2 1,25
Dores do Guaxupé 769,5 1,23 849,1 1,01 1.096,9 2,04
Itajubá 9,0 0,01 25,0 0,03 29,6 0,05
Jaguari 42,5 0,07 64,1 0,08 43,2 0,08
Monte Santo 331,5 0,53 626,2 0,74 938,5 1,74
Ouro Fino 275,2 0,44 298,9 0,36 350,2 0,65
Passa Vinte 107,0 0,17 108,4 0,13 181,1 0,34
Picu 19,0 0,03 17,5 0,02 7,4 0,01
Sapucaí Mirim 87,9 0,14 94,9 0,11 111,4 0,21
E. F. Minas e Rio 0,0 0,00 0,0 0,00 24,8 0,05
Total da Zona Sul 1.759,5 2,80 2.368,7 2,82 3.455,2 6,41
Jaguara 7,5 0,01 5,3 0,01 0,0 0,00
E. F. do Oeste 0,0 0,00 0,2 (+) 0,6 (+)
Januária 0,5 (+) 1,0 (+) 3,7 0,01
Filadélfia 121,2 0,19 151,2 0,18 228,6 0,42
Salto Grande 5,2 0,01 8,7 0,01 2,2 (+)
Total de Outras Regiões 134,4 0,21 166,6 0,20 235,0 0,44

Total de Minas Gerais 62.753,7 100,00 84.128,4 100,00 53.886,7 100,00


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


101
Tabela 3.11 - Minas Gerais: Exportações de café,
1818-1884: participação das regiões, em porcentagens
Anos Zona da Mata Zona Sul Outras Regiões
1818-19 99,7 0,0 0,3
1842-43 99,9 0,1 *
1844-45 100,0 0,0 *
1847-48 99,8 0,2 *
1850-51 99,8 0,2 *
1867-68 99,7 0,2 *
1881-82 97,0 2,8 0,2
1882-83 97,0 2,8 0,2
1883-84 93,2 6,4 0,4
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Esse erro é insistentemente repetido na literatura recente, e é muitas vezes


acompanhado pela afirmação de que a Zona Sul também atraiu grande número de
escravos para trabalhar em seus cafezais. Herbert Klein, por exemplo, afirma que
“a maior concentração de escravos em Minas Gerais estava na região Sul e na Zona
da Mata, as duas áreas que constituiam o centro da importante zona de plantation
de café de Minas”. Argumentando na mesma linha, em seu famoso estudo sobre
a escravidão nas áreas cafeeiras, Emilia Viotti da Costa sustenta que, em Minas
Gerais, a falta de braços para o café “não se revelava tão urgente quanto nas zonas
cafeeiras paulistas, em virtude do deslocamento da mão de obra escrava para as
zonas de expansão econômica da Mata e do Sul.”153
A evidência em contrário é tão forte que causa surpresa que tal erro possa sequer
ter aflorado. A participação da Zona Sul na produção cafeeira provincial se manteve
muito abaixo de um por cento durante a maior parte do século. Nos anos finais do
regime escravista essa participação estava em crescimento, mas permaneceu abaixo
de 3%. Em todos os anos para os quais temos dados, somente em 1884 o Sul produziu
mais do que 5% do café da província, e mesmo então, esse aumento relativo resultou,
em grande parte, de uma queda substancial na produção da Zona da Mata.

153 Herbert S. Klein, The Internal Slave Trade in 19th. Century Brazil. The Middle Passage: Comparative
Studies in the Atlantic Slave Trade. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1978, p. 114;
Emilia Viotti da Costa. Da Senzala à Colônia. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1966, p. 110. Essas
duas citações são apenas uma amostra, colhida em dois autores bem conhecidos. Muitas outras
poderiam ser apresentadas, tanto de historiadores mineiros como não-mineiros. Esta proposição está
errada nas duas pontas: O Sul de Minas não era um produtor importante de café nesse período, e nem
estava atraindo escravos em números consideráveis.

102 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
O volume total das exportações de café da Zona Sul até os anos 1870 era equi-
valente à colheita de uma única plantation de porte médio. Cresceu rapidamente
na década de 1880, mas mesmo então poderia ter sido produzido por apenas um
punhado de grandes fazendas. Todas as outras evidências apontam na mesma dire-
ção: o setor cafeeiro do Sul foi uma extensão do Oeste Paulista e durante os últimos
anos da escravidão estava apenas começando a se desenvolver.
A edição de 1874 do Almanaque Sul-Mineiro informa que, nos vales dos rios
Verde e Sapucaí, o café, “até o presente é plantado quase que somente para consumo
local”, acrescentando que em Pouso Alegre e Jaguarí já havia grandes plantações
das quais “algum” café era exportado.154
José Joaquim da Silva, em seu Tratado de Geographia Descriptiva Especial da
Província de Minas Geraes, publicado em 1878, menciona um incipiente cultivo de
café em Caldas, Alfenas, São José do Paraíso, Ouro Fino e Carmo do Rio Claro, dei-
xando claro, entretanto, que todos esses municípios mantiveram sua diversificação
agrícola e que, em todos os casos, o café era suplantado em importância pela cana
de açúcar, pelo fumo, pelos cereais e pela pecuária. Em outros treze municípios da
Zona Sul a cultura do café não é sequer mencionada.155
Todos esses municípios estão localizados na porção oeste da Zona Sul, próximos
à fronteira com São Paulo. Os dados de exportação confirmam que essa área estava
começando a se integrar com o Oeste Paulista nos anos 1870 e 1880: os registros
fiscais de Caldas, Guaxupé, Jaguarí, Monte Santo e Ouro Fino se situavam perto da
fronteira, e o aumento das exportações de café através deles mostra que esses distritos
estavam começando a se aproveitar da expansão da rede ferroviária paulista.
Entretanto, durante a maior parte do período em questão, a Zona Sul era uma
região isolada da costa por uma formidável barreira natural e não dispunha de rotas
exportadoras importantes. Os produtos de sua agropecuária diversificada (princi-
palmente fumo, toucinho e porcos em pé) eram enviados para o Rio de Janeiro, mas
como dependiam do transporte por tropas de mulas através de trilhas montanho-
sas que datavam do século XVIII, era impossível qualquer desenvolvimento de um
fluxo importante de exportações para o exterior.
Por volta da metade do século houve uma tentativa de quebrar o isolamento da
região, com a estrada do Passa Vinte, projetada para ligar Lavras ao litoral. Somente

154 Almanaque Sul-Mineiro, 1874, citado por Daniel de Carvalho. O Café em Minas Gerais, p. 152.
155 José Joaquim da Silva, Tratado de Geographia Descritiva Especial da Província de Minas Gerais. Rio de
Janeiro: Typographia Universal de E. e H. Laemmert, 1878, pp. 78-175. Em alguns dos cinco municípios
onde se menciona o café, esse artigo não é listado entre as exportações. Silva cita a cultura do café em
Aiuruoca, mas deixa claro que era somente para consumo local.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


103
uma parte do projeto original (o trecho de Barra Mansa a Livramento) foi execu-
tada e a construção foi logo abandonada.156
A primeira estrada de ferro a penetrar a região, a Minas and Rio Railway, de
propriedade britânica, só foi aberta ao tráfego em 1884 e, com certeza, não percorria
território cafeeiro. Laerne, um observador particularmente atento ao café, se refe-
riu a essa ferrovia como um exemplo de investimento britânico mal planejado: “Um
caso em foco é a estrada de ferro Lavrinhas – Três Corações (...) que é totalmente
supérflua, por atravessar uma região pouco cultivada, no sul de Minas Gerais”. Em
seu primeiro ano de operação a estrada carregou somente vinte e quatro toneladas
de café e “seu principal negócio foi transportar as boiadas de uma área esparsamente
povoada.”157 Outro contemporâneo relatou que o empreendimento fora condenado
por alguns como a railway to the clouds, mas previu “um próspero, embora remoto,
futuro para essa linha, pois ela atravessa um território próprio para a agricultura e a
pecuária, os fretes não dependem de produtos específicos e o clima é admirável.”158
Só depois que a Estrada de Ferro Mogiana ligou a Zona Sul ao porto de San-
tos, em 1889, o cultivo de café realmente começou a espalhar-se pela região. Suas
exportações subiram a 7.376 toneladas em 1894, a 18.816 toneladas em 1898 e a
39.502 toneladas em 1905, que correspondiam, respectivamente a 8,4%, 14,6% e
26,9% do total do estado.159
A ascensão da Zona Sul a uma posição de destaque na exportação de café é,
portanto, um fenômeno da era republicana e antes da abolição da escravidão ela
não tinha nenhuma importância nesse setor. Usando os dados de exportação apre-
sentados acima, estimei que a força de trabalho necessária para a cultura do café
nessa região não alcançaria 100 indivíduos até os anos 1870, crescendo para algo
entre 1.755 e 2.178 escravos em 1884.160

156 Carvalho. Estudos e Depoimentos, p. 133.


157 Laerne. Brazil and Java, p. 178; Graham. Britain and the Onset, pp. 58-59.
158 James W. Wells. Exploring and Travelling Three Thousand Miles through Brazil. 2 vols. London:
Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, 1887, vol. 2, p. 339. Os itálicos são meus.
159 Usamos como estimativas das exportações da zona sul em 1894 e 1898 as exportações do café mineiro
através do porto de Santos, dadas por Taunay. História do Café, vol. 9, p. 242. Os números de 1905
foram estimados a partir dos dados fornecidos por Rodolpho Jacob. Minas Gerais no XXº século. Belo
Horizonte: Gomes e Cia., 1911, pp. 48 e 58.
160 O procedimento usado nas estimativas está descrito nas páginas abaixo. Como usamos coeficientes
técnicos estimados para a Zona da Mata, esses números provavelmente superestimam a força de
trabalho necessária na Zona Sul, pois é consensual a maior produtividade dos cafezais do Sul nessa
época. Uma fonte de 1897, por exemplo, afirma que a produção por cafeeiro era duas vezes mais alta
no Sul que na Mata.

104 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Além de ser localizada quase que exclusivamente na Zona da Mata, a produção
mineira de café era ainda mais concentrada, não abrangendo sequer a totalidade
desta zona geográfica. Várias fontes registram que nem todos os municípios desta
região eram produtores comerciais de café durante o império. Diversas corografias
e relatos de viajantes do século XIX, abrangendo todo o período em estudo, mos-
tram claramente que os municípios do interior da Zona da Mata, aqueles situados
além das serras Mantiqueira, da Gameleira e do Caparaó, não podem ser carac-
terizados como distritos cafeeiros. O Tratado de Geographia Descriptiva Especial
descreve Piranga e Santa Rita do Turvo (Viçosa) como áreas de agricultura diver-
sificada e não lista o café entre seus produtos. Sobre Ponte Nova afirma que a cana
era sua principal cultura, com 140 engenhos de açúcar, e menciona o café como
uma lavoura incipiente.
O detalhado estudo de Laerne, poucos anos depois, lista como distritos cafeei-
ros de Minas Gerais apenas Juiz de Fora, Leopoldina, Mar de Espanha, São Paulo
do Muriaé, Rio Novo, Cataguazes, Rio Preto, Pomba e Ubá. Seu mapa situa a fron-
teira norte da região cafeeira em uma linha que passa por Rio Preto, Rio Novo e
Ubá, isto é, em uma faixa contida entre a fronteira do Rio de Janeiro e as cadeias de
montanhas citadas acima.
Quase quinze anos mais tarde, em 1886, viajando pela E. F. Pedro II, do Rio de
Janeiro rumo ao interior de Minas, o visconde Ernest de Courcy observou que o
cultivo comercial de café não tinha rompido esse limite norte, comentando que, até
a altura de Entre Rios, “todas as encostas do país são cobertas de plantações de café
(...) em Barbacena o país se transforma e a vegetação torna-se mais rarefeita. Sobre
as encostas o milho tomou o lugar do café.161 Toda a zona cafeeira de Minas não
compreendia, na época da abolição da escravidão, mais do que quatro por cento do
território da província.162

O TRABALHO ESCRAVO NO CAFÉ


Não foi realizado nenhum censo econômico no Brasil no século XIX. A clas-
sificação ocupacional do censo demográfico de 1872 não é suficientemente deta-
lhada para permitir a identificação das culturas em que eram empregados os

161 José Joaquim da Silva. Tratado, pp. 145-46, 154; Laerne. Brazil and Java, p. 118 e mapa no fim do
volume. Vicomte Ernest de Courcy. Six Semaines aux Mines d’Or du Brésil. Paris: L. Sauvaître, Editeur,
1889, pp. 92 e 97.
162 A área territorial da zona cafeeira foi estimada por Pedrosa. Zona Silenciosa, p. 157, como sendo de
25.000 km2, dos 587.000 km2 da província.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


105
trabalhadores agrícolas. Não há, portanto, estatísticas diretas sobre o emprego de
escravos no setor cafeeiro. Partindo dos dados de produção é possível, entretanto,
estimar com razoável segurança o contingente de escravos engajados nesse cultivo
em diferentes épocas. O procedimento consiste em estimar a produtividade por
trabalhador, e em seguida calcular os requisitos totais de mão de obra a partir dos
dados de produção. As técnicas de plantio e de colheita do café eram as mesmas em
toda a região cafeeira e, com exceção do beneficiamento dos grãos para o mercado,
não mudaram ao longo do século XIX.163
Para começar um novo cafezal a primeira tarefa era escolher o lugar adequado.
Isso era feito segundo dois critérios principais: a qualidade da terra e a exposição
do local às geadas. A qualidade do solo era geralmente determinada com base na
presença ou ausência de certas espécies específicas de árvores, conhecidas como
padrões. Proteção contra geadas era fundamental porque mesmo uma curta expo-
sição a elas pode queimar as folhas do arbusto e destruir a colheita, enquanto uma
mais longa pode matar o cafeeiro.
Depois vinha a preparação da terra para o plantio. Uma vez que o café era
sempre plantado em terras virgens de matas, este estágio envolvia um trabalho con-
siderável. As árvores eram derrubadas a machado, o mato era roçado com foices
e deixado no chão para secar. No final da estação seca a clareira era queimada.
Isso completava a preparação e as sementes eram plantadas entre os tocos ainda
fumegantes.
Por todo o vale do Paraíba o café era geralmente plantado nas encostas das
montanhas. Nesse caso a derrubada das árvores era quase sempre feita através de
uma técnica conhecida como picaria. Uma árvore grande, estrategicamente situ-
ada no topo da colina, era escolhida para ser o matador. As outras árvores, morro
abaixo, eram só parcialmente cortadas. A queda do matador gerava um efeito
dominó, derrubando toda a encosta. Havia consenso entre os contemporâneos que
estas operações envolviam uma habilidade considerável e bastante perigo, espe-
cialmente quando era empregado o método da picaria, que poupava trabalho, mas
era mais arriscado. Existe substancial evidência de que em toda a região cafeeira
a derrubada era feita por trabalhadores livres, mesmo nos anos iniciais do ciclo.
Segundo Laerne, “escravos nunca são empregados nesse trabalho árduo e frequen-
temente perigoso. A tarefa de derrubar as florestas é geralmente feita por caboclos

163 Descrições detalhadas da tecnologia e das práticas de plantio e processamento do café no Brasil do
século XIX podem ser encontradas em: Laerne. Brazil and Java e Stein, Vassouras.

106 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
e mineiros, isto é, brasileiros do interior, especialmente de Minas Gerais, que fazem
disso seu ofício predileto”.164
Esses lenhadores caboclos gozavam de grande reputação por suas habilidades.
Um engenheiro ferroviário inglês, trabalhando em áreas densamente florestadas
comentou:” Nunca vi os famosos madeireiros do interior dos Estados Unidos, mas
duvido que possam superar um traquejado matuto brasileiro no trabalho de der-
rubar florestas; cada golpe da foice ou do machado é desferido no ponto exato, e
raramente cometem algum erro”.165
A técnica usada para plantar os cafeeiros era extremamente simples. Stanley
Stein recolheu de um velho trabalhador do eito a seguinte descrição da operação:
“Coloque uma muda no buraco, aperte levemente com a enxada; coloque outra
muda e aperte de novo; jogue terra vermelha na raiz. Encha o buraco com terra e
aperte com força.”166 O plantio era outro estágio raramente executado pelos escra-
vos da fazenda. O cafeeiro somente começa a dar frutos no terceiro ano de vida e só
atinge seu potencial máximo em quatro ou seis anos. Por essa razão a maioria dos
fazendeiros considerava mais lucrativo contratar homens livres para esse trabalho.
Esses homens, conhecidos como empreiteiros ou formadores de cafezal, faziam o
plantio e cuidavam dos cafeeiros até a maturidade, capinando o mato e replantando
os arbustos mortos.
Frequentemente os empreiteiros eram, eles próprios, proprietários de escravos,
de Minas Gerais, que migravam de lugar em lugar com suas turmas, mas usual-
mente eram camponeses livres, muitas vezes também mineiros. Em alguns casos
os escravos da fazenda plantavam os novos cafezais, que eram então entregues aos
mineiros para a manutenção durante os primeiros anos. Além de receberem uma
soma fixa por cada árvore madura entregue ao fazendeiro, permitia-se que os for-
madores cultivassem feijão, milho e outros mantimentos entre as fileiras de café.167

164 Laerne. Brazil and Java, p. 279. As palavras caboclos e mineiros estão em português no original. Mais
evidências de que a limpeza dos terrenos para o café era sempre feita por trabalhadores livres podem
ser encontradas em Warren K. Dean. Rio Claro. A Brazilian Plantation System, 1820-1920. Stanford:
Stanford University Press, 1976, p. 35; Stein. Vassouras, p. 32. Um historiador da Zona da Mata mineira
afirma que nessa região o trabalho de “índios amansados” era extensamente usado nesta tarefa. Ver
Pedrosa. Zona Silenciosa, p. 132.
165 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 148. A palavra matuto está em português no original.
166 Stein. Vassouras, p. 33.
167 Viotti da Costa. Da Senzala à Colonia, p. 144; Dean. Rio Claro, p. 35; João Pedro Carvalho de Moraes.
Relatório apresentado ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Rio de Janeiro:
Typographia Nacional, 1870, pp. 67-68; Laerne. Brazil and Java, pp. 292-93. Dean e Carvalho de Moraes
mencionam grupos de escravos trazidos por empreiteiros das áreas centrais de Minas Gerais para São

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


107
No quinto ou sexto ano, quando os arbustos atingiam a maturidade, eram
devolvidos ao fazendeiro, e daí em diante eram cuidados pelos escravos da fazenda.
As principais tarefas rotineiras, nesse estágio, eram as capinas e as carpas do cafe-
zal. Em ambas só eram utilizadas enxadas, sendo, portanto, altamente intensivas
em trabalho. Eram feitas várias vezes por ano dependendo da disponibilidade de
mão de obra e do tamanho das plantações.
Os escravos do eito, dispostos em filas sob os olhares dos feitores, avançavam
lentamente pelo cafezal, limpando ao redor dos pés de café, um por um, fileira após
fileira. “É uma cena curiosa a visão dessas turmas de escravos trabalhando nos
campos”, escreveu Laerne,
uma turma consiste geralmente de 20 a 25 escravos, homens e mulheres,
sob o comando de um feitor que é, geralmente, ele próprio um escravo
(...) Se várias turmas trabalham juntas (vi grupos de 100 a 125 pessoas),
há um capataz português, usualmente chamado administrador, para
supervisionar o trabalho.168

Nas carpas, ou seja, a limpeza completa dos cafezais, o mato tinha que ser arran-
cado e suas raízes inteiramente expostas ao sol, para que não brotasse de novo, com
vigor renovado, logo na primeira chuva. As capinas se resumiam em simplesmente
cortar o mato no nível do solo. Se os trabalhadores fossem poucos as carpas podiam
ser substituídas por simples capinas, e mesmo o número de capinas podia ser redu-
zido. Essa foi a tendência na Zona do Rio nos últimos anos da escravidão, à medida
que a mão de obra ficou cada vez mais escassa. Mas os fazendeiros tinham plena cons-
ciência da relação entre a qualidade da manutenção dos cafezais e sua produtividade.
Importantes tarefas auxiliares eram a poda das árvores e a interminável guer-
rilha contra a saúva, o mais temido predador do cafezal. Essas tarefas especiais
exigiam pequena parcela do plantel, por serem executadas por uns poucos escravos
especialmente treinados. Toda grande fazenda mantinha alguns cativos com a mis-
são permanente de procurar e destruir os formigueiros. Outras tarefas auxiliares, de

Paulo. J. McFaden Gaston. Hunting a Home in Brazil. Philadelphia: King and Baird Printers, 1867, pp.
133-135, também ouviu dizer que isso era comum, mas afirma que os escravos geralmente vinham
da zona cafeeira mineira. Laerne menciona camponeses mineiros livres como empreiteiros. A questão
de os escravos da fazenda serem ou não usados para formar cafezais e para cuidar dos cafeeiros
jovens não é importante para o cálculo dos requisitos de trabalho. Se fossem usados somente escravos
para essas tarefas, tudo que teríamos que fazer era introduzir uma defasagem de quatro ou cinco
anos entre o produto e a correspondente mão de obra necessária. Exceto por essas defasagens as
estimativas não seriam modificadas.
168 Laerne. Brazil and Java, p. 293. Laerne está, evidentemente, descrevendo uma grande plantação. As
palavras turma, feitor e administrador estão em português no original.

108 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
natureza ocasional e não diretamente ligadas ao cultivo, como serviços de pedreiro
e carpinteiro, construção de cercas, regos, etc., eram geralmente executadas por
homens livres, contratados por empreitada ou como jornaleiros.169
Além da manutenção do cafezal, as outras operações que envolviam grande
quantidade de trabalho eram a colheita e o beneficiamento do produto para o
mercado. Ambas eram executadas pelos escravos da fazenda. A colheita, de maio
a setembro, era feita manualmente e exigia a participação de toda a escravaria,
homens, mulheres e crianças. No Brasil os frutos do café nunca eram colhidos um
a um. Devido à crônica escassez de mão de obra, o sistema da derriça, mais rudi-
mentar, mas poupador de trabalho, era o método sempre adotado:
Cada ramo era preso pelo polegar e pelo indicador, e a mão era então
movida para baixo e para fora, debulhando-o com um movimento
rápido e enchendo a peneira de folhas, gravetos secos e cerejas de café.
Quando esta se enchia, o conteúdo era lançado ao ar. O café caía no
fundo, e as folhas e gravetos que ficavam por cima eram varridos para o
chão com um movimento da mão.170

Era costume atribuir metas diárias a um apanhador de café, que variavam de


3 a 9 alqueires por dia, de acordo com o volume da colheita. O não cumprimento
dessas metas poderia resultar em castigo físico ou no cancelamento de pequenos
privilégios do escravo. Na Zona do Rio era usual oferecer incentivos em dinheiro
aos escravos durante o período da colheita, assim como pagar pelo trabalho nos
domingos, que não era obrigatório.171
Ocasionalmente o plantel da fazenda precisava ser suplementado por trabalha-
dores de fora. “Quando a colheita era grande, nas fazendas onde havia de 7.000 a
10.000 cafeeiros por escravo, os fazendeiros tentavam contratar apanhadores, que
podiam tanto ser escravos dos sitiantes e quitandeiros vizinhos, como trabalhadores
livres.” Quando isso era necessário, os escravos homens eram alugados por cerca de
20 mil réis por mês, e as mulheres escravas por cerca de 15 mil réis, no início dos
anos 1880.172

169 Os plantéis das grandes fazendas podiam incluir oficiais cativos, como pedreiros, carpinteiros e
ferreiros. Aparentemente a tendência no final do século foi concentrar a escravaria nas tarefas
agrícolas e contratar pessoas de fora para esses trabalhos. Ver Carvalho de Moraes. Relatório.
170 Stein. Vassouras, p. 35.
171 Laerne. Brazil and Java, p. 301.
172 Laerne. Brazil and Java, p. 302. As palavras sitiantes e quitandeiros estão em português no original.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


109
Depois de colhidas, as cerejas de café passavam à fase de preparação para o mer-
cado. Eram lavadas em tanques e depois postas para secar nos terreiros. Quando
estavam completamente secas, “quando quebram entre os dentes em vez de rasgar”,
eram estocados em depósitos até que toda a produção fosse colhida. O café seco
podia então ser enviado para os estágios finais de processamento, ou podia ficar
estocado durante anos, uma decisão que dependia da conjuntura do mercado, da
disponibilidade de mão de obra e da situação financeira do cafeicultor.
Os passos restantes do beneficiamento envolviam a pilagem, a remoção da
casca, a seleção dos grãos, o polimento e o ensacamento do café. Em todo o pro-
cesso produtivo esse era o estágio mais suscetível de mecanização e, à medida que
o século avançou e o problema da mão de obra foi se agravando, os fazendeiros
passaram cada vez mais a adotar tecnologias poupadoras de trabalho.
Escrevendo em 1884, Laerne comentou que
nos últimos dez anos o processamento mecanizado progrediu enorme-
mente. Para poupar trabalho manual e melhorar, por meio de uma pre-
paração cuidadosa, o produto mal colhido, os brasileiros não hesitam em
gastar fortunas em busca da maquinaria mais moderna (...) Desde a Lei
do Ventre Livre, de 1871, toda sua atenção se concentrou em um único
ponto: como poupar trabalho braçal. Há muitas fazendas onde o produto
é transportado para o engenho, ou casa das máquinas, descascado, sepa-
rado, brunido, ensacado e pesado por maquinas, saindo pronto para ser
despachado.173

Pela descrição acima podemos concluir que as necessidades de mão de obra da


cultura cafeeira eram determinadas pela manutenção rotineira dos cafezais madu-
ros. Na formação e no tratamento dos cafezais novos raramente eram utilizados
escravos. A colheita era feita pelos mesmos escravos que cultivavam os cafeeiros,
com a ajuda ocasional de trabalhadores de fora. Na etapa do beneficiamento os
escravos foram cada vez mais substituídos por máquinas.
É, portanto, na fase do cultivo que devemos nos fixar para calcular os requisitos
de mão de obra do setor. Essa é a metotodologia adotada tanto pelos especialistas
contemporâneos, como Laerne, quanto por historiadores recentes como Thomas
Holloway, em seu detalhado estudo sobre o setor cafeeiro paulista. A mesma abor-
dagem foi sempre predominante nas discussões contemporâneas sobre a substitui-
ção dos escravos por trabalhadores imigrantes, as quais, quase sempre, giravam em
torno do número de cafeeiros que poderia ser tratado por cada colono.174

173 Laerne. Brazil and Java, p. 317.


174 Laerne. Brazil and Java, pp. 336-38, 352-54; Thomas H. Holloway. Migration and Mobility: Immigrants

110 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Toda a questão gira em torno de dois coeficientes técnicos: a produção de
café por cafeeiro e a média de cafeeiros por escravo, isto é, o número de pés que
eram efetivamente cuidados por um escravo. A combinação desses dois parâme-
tros resulta na produtividade por escravo e assim o cálculo do número de escravos
engajados na produção de café se transforma na simples divisão da produção total
por esse coeficiente.
A produtividade dos cafezais (sempre medida em termos de arrobas de café
processado por mil pés) era uma das questões mais debatidas entre os cafeicultores.
Era uma discussão interminável, alimentada não só pela precariedade dos proces-
sos de medição, mas também pelo grande prestígio ligado à obtenção de altas taxas
de produtividade. Por isso, quando falavam de suas próprias plantações, os fazen-
deiros eram sempre bastante propensos a exagerar.
Um fazendeiro, falando com certa autoridade de suas colheitas de 200
arrobas por mil pés, toma ares de grandeza, e acredita que seus vizinhos
logo o estarão elogiando, e cumprimentando publicamente como “um
fazendeiro muito, muito importante”, um título muito valorizado com
vistas às eleições para Deputado Provincial.175

Durante o Império, as discussões sobre a produtividade do setor cafeeiro se con-


centravam principalmente em comparações entre o Vale do Paraíba e o Oeste Paulista,
e geralmente as estimativas se referiam às lavouras paulistas e fluminenses. Dados refe-
rentes a Minas Gerais são muito mais escassos. A variação das estimativas de produti-
vidade que se encontram na literatura é bastante ampla, mas parece haver um razoável
consenso em torno de dois pontos. O primeiro é que a produtividade era muito mais
alta, talvez o dobro, na Zona de Santos do que no Vale do Paraíba, no início dos anos
1880.176 O outro é que a produtividade acompanhava o ciclo de vida do cafeeiro, cres-
cendo nos primeiros anos, passando por um máximo e depois caindo rapidamente. A
tabela a seguir, atribuída a um especialista da época, ilustra o ciclo produtivo do cafe-
eiro, medido por seu valor de mercado nos meados da década de 1870.
Os dois pontos acima estão relacionados. O forte declínio na produção do cafe-
eiro era causado não somente pela decadência biológica da planta à medida que

as Laborers and Landowners in the Coffee Zone of São Paulo, Brazil, 1886-1934. Tese de doutorado,
University of Wisconsin, 1974, pp. 152-55; Johann Jacob von Tschudi. Viagem às Províncias do Rio de
Janeiro e São Paulo. trad. Eduardo de Lima Castro. São Paulo: Livraria Martins, 1953, pp. 46-47, 50.
175 Laerne. Brazil and Java. p. 307. A expressão um fazendeiro muito, muito importante está em português
no original.
176 Laerne. Brazil and Java, p. 308.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


111
envelhecia, mas também, em grande parte, pelo esgotamento do solo no qual estava
plantada. Dadas as técnicas agrícolas da época, para manter seu nível de produtivi-
dade a lavoura cafeeira precisava de uma fronteira aberta, ou seja, de ter reservas de
mata virgem. Só assim a produtividade declinante dos cafezais mais velhos poderia
ser continuamente compensada pela alta produtividade das novas plantações em
terras virgens.

Tabela 3.12 - Valor de um pé de café,


segundo sua idade (em réis, circa 1876)
Idade do cafeeiro, em anos Valor, em réis
1 60
2-3 100
3-5 160
5-8 200
8 - 16 280
16 - 20 180
20 - 25 120
25 ou mais 60
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Nos últimos anos do Império, os setores paulista e fluminense da Zona do Rio


já tinham atingido seus limites naturais. Não dispunham de terras novas para se
expandir e já estavam mergulhados na dramática decadência tão habilmente des-
crita por Stanley Stein em sua monografia sobre Vassouras. O diferencial de produ-
tividade observado entre a Zona do Rio e a de Santos se devia, em grande medida, a
esse fator, já que nas últimas décadas do período imperial a colonização e a expan-
são da cafeicultura estavam apenas começando no Oeste Paulista.
A discussão anterior é importante para o nosso objetivo por duas razões. Pri-
meiro, é claro que, à medida que retrocedemos no tempo, a produção por cafeeiro
na Zona do Rio deve ter sido mais alta do que a observada nos anos 1880, e o dife-
rencial entre essa zona e a de Santos deve ter sido menor. Segundo, e mais impor-
tante, é a questão da identificação da região cafeeira de Minas Gerais com a Zona
do Rio. É fora de dúvida que, em termos de clima, composição geológica e outras
características físicas, a Mata mineira pertencia a essa zona. Historicamente ela foi
uma extensão da cultura cafeeira no setor fluminense do Vale do Paraíba e pode-
mos estar certos que a tecnologia e as práticas agrícolas eram muito semelhantes
nas duas áreas.

112 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Quando se discute a questão da produtividade deve-se, entretanto, lembrar uma
diferença importante. Ao contrário do resto da Zona do Rio, a região cafeeira de
Minas não estava em decadência nas últimas décadas do século. Tinha uma grande
quantidade de terras virgens à sua disposição e estava crescendo vigorosamente,
não só no Sul mas também dentro da própria Mata. A fronteira do café continuava
aberta na entrada do século XX e, no final da Primeira República, Minas Gerais
estava exportando três vezes mais café do que no final do Império.177
Não se deve, portanto, associar o setor cafeeiro de Minas com o quadro som-
brio do Vale do Paraíba. É bem plausível, e de fato parece ter sido o caso, que a
produtividade média em Minas Gerais tenha permanecido constante ou até mesmo
aumentado no período em questão.
A consequência disso é que as estimativas de produtividade para a Zona do Rio,
baseadas, como foram, em observações no Vale do Paraíba fluminense no final do
século XIX, devem ser vistas como subestimações da produvidade real que, em
média, prevaleceu em Minas Gerais.
As informações mais antigas que encontrei sobre a produtividade de café na
Zona do Rio, são aquelas colhidas por Johann Jakob von Tschudi, o naturalista
suíço enviado ao Brasil em 1860, como ministro ad hoc para investigar as condi-
ções de vida dos imigrantes suíços na cultura do café. Em uma fazenda de Can-
tagalo, um distrito cafeeiro fluminense próximo de Minas Gerais, ele anotou a
produtividade média de 63,9 arrobas por mil pés em 1847-50; 55,8 arrobas em
1851-54 e 49,3 arrobas em 1855-60. Essa fazenda aparentemente não era típica
porque, usando “informações detalhadas obtidas em várias províncias”, o Dr.
Tschudi concluiu que a produtividade média era de 61,7 arrobas por mil pés em
cafezais com seis a dez anos de idade, e de 69,4 arrobas para aqueles entre dez e
dezoito anos. Ele usou o coeficiente de 61,7 arrobas em todas as estimativas em
seu relatório e observou que essa média foi a mesma obtida no Suriname, Santo
Domingo, Jamaica e Bourbon.178
Para o final dos anos 70 e o início dos 80, existem várias estimativas. Louis
Couty, cientista francês que viveu no Brasil e escreveu extensamente sobre café e
escravidão, sugeriu, em 1884, que nas fazendas escravistas a média foi de 40 a 80

177 Para um estudo sobre a evolução da ocupação e o movimento da frente pioneira na Zona da Mata, veja
Orlando Valverde. Estudo Regional da Zona da Mata, de Minas Gerais. Revista Brasileira de Geografia.
Ano XX, n°. 1 (Jan.-mar. 1958), pp. 25-29.
178 Tschudi. Viagem, pp. 39 e 46.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


113
arrobas por mil pés.179 Em outros escritos, o mesmo Couty mencionou produtivi-
dades médias de 140 a 160 arrobas por mil pés180 e de de 100 arrobas por mil pés.181
Esse último coeficiente também foi estimado, em 1884, para a Zona do Rio, pelo
engenheiro brasileiro André Rebouças.182
O historiador do café brasileiro, Afonso de Taunay, rejeitava, como exageros, as
duas últimas estimativas, e sugeriu o intervalo de 35 a 60 arrobas por mil pés como
a produtividade no Vale do Paraíba.183 Laerne também critica Couty por suas altas
estimativas e apresenta números consideravelmente mais baixos em seu relatório:
“Segundo as informações que recebi de vários fazendeiros escrupulosamente since-
ros, é extremamente raro que a produtividade de uma plantação excepcionalmente
boa na Zona do Rio supere 125 ou 130 arrobas por mil pés. E mesmo uma colheita
desse nível é considerada um verdadeiro aborto, uma produtividade anormal”.
Laerne descartou como fantasiosas mesmo as médias muito mais modestas de 50 a
70 arrobas por mil pés que lhe foram relatadas por vários fazendeiros, e se mostrou
muito mais inclinado a aceitar “as declarações de outros agricultores, para os quais
uma produtividade média de 25 a 35 arrobas por mil pés (...) é considerada muito
boa”.184 Suas próprias estimativas, baseadas nos dados colhidos em 31 plantações
na Zona do Rio, dez das quais se localizavam em Minas, são ainda mais baixas.
A produvidade média calculada por ele foi de 23,4 arrobas por mil pés, tanto nas
fazendas mineiras como nas fluminenses.185
Ao computar a produtividade média dessas 31 fazendas, Laerne cometeu um
erro, obtendo 333 gramas por pé ou 22,65 arrobas por mil pés. Uma vez que esses
números são constantemente usados na literatura eles merecem um breve comen-
tário. Como fica claro em seus cálculos, na página 336, Laerne se confundiu com
uma estatística elementar. Tirando a média da variável “produtividade por mil pés”
ele obteve 23,4 arrobas, a mesma a que chegamos na tabela 3.13. Em seguida somou
as produções das 31 fazendas e dividiu essa produção agregada pela soma dos cafe-
eiros, obtendo 21,9 arrobas por mil pés. E, “para reduzir tanto quanto possível as

179 Citado por Taunay. História do Café, vol. 8, p. 131.


180 Citado por Laerne. Brazil and Java, p. 307.
181 Citado por Taunay. História do Café, vol. 8, p. 129.
182 Citado por Taunay. História do Café, vol. 8, p. 127.
183 Taunay. História do Café, vol. 8, pp. 127-29 e vol. 7, pp. 167-81.
184 Laerne. Brazil and Java, pp. 306-08.
185 Laerne. Brazil and Java, pp. 325-29.

114 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
discrepâncias que sempre ocorrem em cálculos desse tipo”, tirou a média das duas
estimativas, obtendo o número, tantas vezes citado, de 22,65 arrobas por mil pés.
Obviamente as duas variáveis não são a mesma coisa, e tirar sua média não
faz nenhum sentido. A primeira (23,4) é a produtividade média, isto é, a média da
distribuição das produtividades observadas. A segunda (21,9) é a produtividade
agregada, não é a média de coisa nenhuma, não é comparável com a produtividade
média e não pode ser usada como representativa da distribuição das produtivida-
des, pois não leva em consideração as variações entre as fazendas.
Temos fortes razões para acreditar que a produtividade média de 23,4 arrobas
por mil pés não era representativa da cultura do café em Minas Gerais nessa época.
Taunay sugeriu que uma produção tão baixa era típica das plantações de café em
terras exauridas186, e um exame da tabela 3.13, abaixo, mostra imediatamente que,
de fato, todas as fazendas visitadas por Laerne em Minas Gerais estavam localiza-
das em alguns dos mais velhos distritos cafeeiros da província. Um exame mais
atento das próprias propriedades, especialmente das que apresentam as produtivi-
dades mais baixas, revela que estavam muito longe de serem típicas.
A fazenda Pouso Alegre (13,8 arrobas por mil pés), quando visitada por Laerne,
tinha sido comprada apenas seis anos antes “em uma condição muito abandonada”
por seu dono atual, que estava tentando “tirar a propriedade da ruína”. Seus cafezais
eram velhos, e os novos, que tinham sido plantados há apenas um ano, ainda não
estavam produzindo. A fazenda Recato (16,0 arrobas por mil pés) era, da mesma
forma, descrita como “muitíssimo mal cuidada”. O dono, embora residente na pro-
priedade, não visitava as plantações há vários anos. Tudo era administrado por um
feitor escravo.
As propriedades de Cedofeita, Belmonte e Joazal pertenciam ao mesmo dono,
o conde de Cedofeita, que era um proprietário absenteísta. A Fortaleza de Sant’Ana
foi descrita como “não sendo uma das mais produtivas.” A fazenda Cruz Alta, a
despeito das baixas colheitas obtidas, era a mais bem cuidada dentre as examinadas
por Laerne em toda a Zona do Rio. Era uma propriedade bem administrada, em
rápido crescimento, mas era ainda muito nova. Seu problema não era a velhice dos
cafeeiros, mas, pelo contrário, sua juventude. Seus cafeeiros mais antigos tinham
somente nove anos de idade, e apenas 300 mil dos seus 800 mil pés tinham seis
anos ou mais. A colheita prevista para 1884 é mais informativa sobre essa fazenda
do que as dos cinco anos anteriores: para aquele ano esperava-se uma produção de
35 arrobas por mil pés, e esse número certamente aumentaria nos anos seguintes,

186 Taunay. História do Café, vol. 10, pp. 436-37.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


115
à medida que a plantação fosse ficando mais madura. Deve-se também notar que a
inclusão de todos os cafeeiros com três anos ou mais no cálculo da produtividade,
com certeza deprimiu os resultados de Laerne para a Zona do Rio.187

Tabela 3.13 - Produtividade de 31 fazendas de café visitadas por Laerne


na Zona do Rio, 1874-1883, em arrobas por mil pés
Produtividade
Fazenda Município Safras observadas
média por safra
Boa Vista Juiz de Fora 1879 - 83 32,2
São Marcos Juiz de Fora 1879 - 83 35,8
Recato Juiz de Fora 1879 - 83 16,0
Cedofeita 1 Juiz de Fora 1880 - 83 18,2
Fortaleza Juiz de Fora 1875 - 83 19,5
Pouso Alegre Mar de Espanha 1878 - 83 13,8
Trimonte Leopoldina 1883 28,6
Cruz Alta Leopoldina 1879 - 83 22,9
Média de Minas Gerais 23,4
Areias Cantagalo 1874 - 83 28,0
Santa Rita Cantagalo 1874 - 83 25,7
Boa Sorte Cantagalo 1874 - 83 21,8
Boa Vista Cantagalo 1874 - 83 27,9
Jacotinga Cantagalo 1874 - 83 31,6
Itaoca Cantagalo 1874 - 83 28,0
Aldeia Cantagalo 1874 - 83 30,1
Gavião Cantagalo 1874 - 83 31,3
Cafés Cantagalo 1874 - 83 30,1
Boa Esperança São Fidélis n. d. 21,6
Santa Clara Cantagalo 1874 - 83 28,6
São Clemente Cantagalo 1875 - 82 18,2
Mata Porcos Cantagalo 1875 - 82 22,0
Bela Vista Cantagalo 1878 - 82 19,5
Lordelo Sapucaia 1874 - 83 18,1
Cantagalo Paraíba do Sul 1877 - 82 24,1
Ubá Vassouras 1878 - 83 12,4
Aliança Valença 1874 - 83 15,2
Santana Valença 1874 - 83 16,3
Monte Alegre Valença 1874 - 83 14,2
Ibitira Valença 1880 - 83 26,1
Média do Rio de Janeiro 23,4
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

187 Laerne. Brazil and Java, pp. 344-46.

116 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
A amostra de Laerne é ainda enviesada em outra direção. Era opinião consen-
sual (e empiricamente confirmada) que havia uma relação inversa entre a produção
por cafeeiro e o número de pés sob os cuidados de cada escravo. O cafeeiro é, em
outras palavras, muito sensível à intensidade do tratamento. Uma regressão linear
nos dados de Laerne, entre a produtividade por pé e o número de pés por escravo,
mostra uma inclinação negativa e coeficientes negativos de correlação, tanto na
Zona do Rio como na de Santos. Os mesmos resultados foram obtidos com uma
amostra de cafeeiros tratados por famílias de imigrantes livres em São Paulo.188
As fazendas mineiras incluídas na amostra de 31 propriedades da Zona do Rio
(tabela 3.5) tinham uma média de 4.598 pés por escravo, que é 24% mais alta do
que a média de 3.706 pés por escravo, obtida na outra amostra, de 153 proprieda-
des, apresentada na tabela 3.4. A amostra maior, infelizmente, não contém dados
de produção. Uma reta de mínimos quadrados ajustada às fazendas mineiras da
amostra de Laerne indica que, se a fazenda típica tinha 3.706 pés por escravo, a
produtividade média estimada seria de 36,7 arrobas por mil pés.189
As evidências disponíveis para anos posteriores também sugerem que a estima-
tiva de produtividade de Laerne é baixa. Em 1897, depois da abolição da escravidão
e de um período de preços baixos terem causado grandes danos ao setor cafeeiro da
Mata, Bernardino de Campos estimou a produtividade por mil pés em 30 arrobas
na Zona da Mata e o dobro desse número na Zona Sul, que estava em uma fase de
crescimento acelerado.190
As estimativas para o início do século XX, mais confiáveis porque pela primeira
vez os cafeeiros foram efetivamente contados, também indicam produtividades bem
mais altas do que os números de Laerne. Em um detalhado estudo sobre as condições
da agricultura na Zona da Mata, em 1905, o engenheiro Carlos Prates estimou a pro-
dutividade média em 36 arrobas por mil pés, chegando até a 70 arrobas nos distritos
da fronteira em expansão.191 Duas décadas mais tarde, em 1926, dados da Inspectoria

188 Usando as 29 observações na zona do Rio (três das 31 fazendas estavam reunidas em um único
estabelecimento), a reta de regressão entre a produtividade por cafeeiro (medida em gramas por pé)
e o número de pés por escravo tem uma inclinação igual a - 4,97.
189 A regressão para as fazendas mineiras tem a equação y = – 66,615x + 6.155,4, onde x = arrobas por mil
pés e y = pés por escravo.
190 Citado por Taunay. História do Café, vol. 9, pp. 189-90. É razoável presumir que um dos efeitos da crise
seria uma paralização na plantação de novos cafezais e que, por causa da escassez de mão de obra,
haveria uma deterioração na manutenção dos cafezais existentes. Os dois fatores tenderiam a baixar
a média produtividade da região.
191 Estado de Minas Gerais. A Lavoura e a Indústria da Zona da Mata. Relatório apresentado ao Exmo. Sr.
Secretário das Finanças pelo Engenheiro Carlos Prates, Inspector de Indústria, Minas e Colonização.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


117
Agrícola Federal de Minas Gerais mostram que a produção média na Zona da Mata
foi de 42,6 arrobas por mil pés.192 Esses números, incidentalmente, conferem peso
empírico ao argumento, apresentado acima, de que a produtividade média não deve-
ria diminuir com a passagem do tempo em um sistema cafeeiro em expansão.
Na estimativa dos requisitos de mão de obra da cultura cafeeira usaremos
36 arrobas por mil pés como a produtividade média do setor em Minas Gerais.
Note-se que esse parâmetro provavelmente ainda está subestimado. Ele se situa
no limite inferior do intervalo sugerido por Taunay, está ligeiramente abaixo das
36,7 arrobas que estimamos usando a amostra de Laerne, e é igual ou menor que as
produtividades observadas no início do século XX. Esse número também não leva
em consideração as produtividades muito mais altas obtidas na Zona Sul, que, no
início da década de 1880 estava produzindo uma porcentagem ainda pequena, mas
rapidamente crescente do total da safra mineira.
O outro componente da medida da produtividade escrava é o coeficiente pés de
café por escravo. Mais uma vez, os dados mais antigos que encontrei na literatura
são aqueles anotados por Tschudi, na Fazenda Cantagalo. O número médio de cafe-
eiros alocados a cada escravo era 3.934 em 1847-50; 3.790 em 1851-54 e 3.811 em
1855-60. O autor observou que
segundo as estatísticas da fazenda (...) cada escravo estava encarregado de
3.790 a 3.900 pés. O milho para as mulas e o feijão (...) eram trazidos de
fora e os escravos se ocupavam exclusivamente com o cafezal. Não sendo
assim um negro nunca será capaz de cuidar de mais de 3.000 pés.193

Nas décadas que se seguiram ao fim do tráfico africano e especialmente depois


que as três províncias cafeeiras mais importantes impuseram pesadas taxas sobre
as importações interprovinciais de escravos, no final de 1880 e início de 1881, o
número de pés por escravo parece ter aumentado. Escrevendo em 1883, Laerne
observou que
um escravo da roça, ou seja, um escravo empregado no trabalho do eito,
deveria cuidar (na Zona do Rio) de um máximo de 4.500 ou, no limite, de

Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1906. Anexo, quadro n°. 2, sem número
de página. A produtividade de 70 arrobas por 1.000 pés, observada em Ponte Nova, confirma que, em
1905, o município estava na zona fronteiriça da região cafeeira.
192 O Café no Segundo Centenário, p. 601.
193 Tschudi. Viagem, p. 46. Uma fonte de 1828, citada por Eulália Lobo, afirmou que um negro podia cuidar
de apenas 1.000 cafeeiros, enquanto que um branco era capaz de cuidar de 1.500. Esse testemunho é
contrário a toda a evidência acumulada ao longo do século.

118 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
5.000 pés, considerando que, além da manutenção das estradas e pontes,
ele tem que se ocupar do plantio de milho, feijão, mandioca, batatas,
enfim, de tudo que é necessário para o consumo dos trabalhadores em
uma fazenda. Entretanto, a paixão pelo plantio de café foi tão violenta
que, na maioria dos distritos da Zona do Rio, um escravo tem agora que
cuidar de mais de 7.000 pés.194

Nas 31 fazendas que visitou, Laerne registrou uma distinção entre escravos do
eito (field slaves) e escravos da fábrica (factory slaves), isto é, aqueles empregados no
beneficiamento da produção. O número de cafeeiros por escravo, acima mencionado,
refere-se apenas aos escravos do eito. Não o acompanhamos nesse procedimento, por
várias razões. Primeiro, não é claro, de forma alguma, que uma divisão tão rígida da
mão de obra fosse adotada nas fazendas de café. Na maioria dos casos, o trabalho
do campo e o trabalho da fábrica eram executados pelos mesmos escravos. Alguns
produtores, sobretudo os pequenos, nem sequer beneficiavam a colheita, preferindo
fazê-lo nas fazendas maiores e melhor equipadas de seus vizinhos.
Nas fazendas mineiras que visitou, Laerne registrou 0,61 escravos “da fábrica”
para cada escravo “do campo”. É muito improvável que uma proporção tão grande
fosse permanentemente empregada no beneficiamento, exceto, talvez durante
o período da colheita. Por essas razões, e porque a amostra maior não registra
nenhuma separação entre escravos de campo e de fábrica, decidi usar a razão dos
pés de café pelo número total de escravos nas fazendas. Poder-se-ia acrescentar
que o próprio Laerne abandonou a distinção entre essas diferentes funções quando
computou as necessidades de mão de obra.
No mesmo relatório, comentando sobre as tentativas de introduzir imigrantes
livres na cultura do café, o autor afirmou que os colonos “só cuidarão de uns dois
mil cafeeiros produtivos por homem, ou seja, nem um terço do número atribuído a
um escravo.”195 Nas 31 fazendas que observou pessoalmente, Laerne averiguou que
o número médio de pés por escravo era 3.379 nas 21 fazendas fluminenses e 4.598
nas dez propriedades em Minas Gerais, resultando em uma média de 3.715 pés por
escravo na Zona do Rio.196
Como mencionado acima, a média de 4.598 pés por escravo parece alta demais
para Minas Gerais. A amostra das 153 fazendas penhoradas ao Banco do Brasil

194 Laerne. Brazil and Java, p. 290. As palavras roça e batatas estão em português no original.
195 Laerne. Brazil and Java, p. 215.
196 Laerne. Brazil and Java, pp. 328-29. Nos cálculos da página 336 Laerne encontrou a média de 3.644
pés por escravo na zona do Rio. Aqui ele cometeu o mesmo erro referido acima.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


119
em 1883 registra uma média de somente 3.706 pés por escravo. Essa amostra é
mais confiável do que a pesquisa pessoal de Laerne não apenas porque inclui um
número muito maior de fazendas, mas também por abranger um número maior de
municípios.
Nas estimativas da mão de obra escrava empregada no setor cafeeiro adotamos
a produtividade de 36 arrobas por mil pés e a média de 3.706 pés por escravo, daí
resultando que um escravo produzia, em média, 134 arrobas de café por ano.
Há duas fontes principais de dados sobre a exportação de café de Minas Gerais
durante o século XIX. A primeira é a série estimada por Aristóteles Alvim para o
período de 1818 a 1926, com base nas receitas do imposto de exportação. A outra
é uma série para os anos de 1851 a 1890, obtida nos registros fiscais da província
fluminense, por onde passava a maior parte do café mineiro, para alcançar o porto
do Rio de Janeiro.197
Essas séries são baseadas em fontes independentes, numa época em que as esta-
tísticas brasileiras eram bastante deficientes e, portanto, é inevitável que apresen-
tem algumas discrepâncias. No geral, porém, a concordância entre elas é razoavel-
mente boa: uma reta de mínimos quadrados ajustada aos dois conjuntos de dados,
cobrindo todo o período para o qual ambas são disponíveis, tem uma inclinação
de 0,98, mostrando que a divergência sistemática entre elas é desprezível. O coefi-
ciente de correlação é 0,86. Em alguns anos, entretanto, as diferenças são conside-
ráveis. Isso é especialmente verdade na década de 1880. Ajustando uma linha reta
para os dados entre 1880 e 1888 obtemos uma inclinação de – 0,09 e um coeficiente
de correlação de – 0,10.
Parte da divergência poderia ser explicada pelo fato de que os dados fluminen-
ses incluem somente o café mineiro exportado via Rio de Janeiro, enquanto a outra
série incorpora também o café produzido na Zona Sul, que era exportado através
de Santos. Mas essa explicação é apenas parcial, pois vimos que na década de 1880
a parcela da Zona Sul na produção total de Minas variou entre 3 e 7 por cento, e
as discrepâncias entre as duas séries são muito maiores, chegando a 39% em 1886.
Além disso, a divergência não é sistemática: em vários anos os números da fonte
fluminense são maiores do que os da fonte mineira (Alvim).

197 As estimativas de Alvim estão em A. Alvim. Confrontos e Deduções, pp. 80-83. Os dados fluminenses
são das seguintes fontes: 1851-70: Relatório do diretor da Fazenda Provincial do Rio de Janeiro, Dr.
Almeida Torres, ao Presidente da província, Visconde de Prados, 1878. Reproduzidos em Taunay.
História do Café, vol. 6, pp. 316, 318-19. 1871-88: Estado do Rio de Janeiro, Relatório apresentado ao
Sr. Vice-Presidente do Estado...pelo Secretário das Finanças... em 31 de julho de 1893. Reproduzido
por Pedro Carvalho de Mello. The Economics of Labor in Brazilian Coffee Plantations, 1850-1888. Tese
de doutorado, University of Chicago, 1977, pp. 32-33.

120 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Utilizamos as duas séries nas estimativas das necessidades de mão de obra
escrava na lavoura cafeeira. A estimativa A usa a série mineira e a estimativa B é
baseada nos dados fluminenses, corrigidos nos anos 1880 para incluir a produção
da Zona Sul, imputando a esta região uma participação de 3 por cento na produção
total da província entre 1880 e 1883, e de 7 por cento entre 1884 e 1887.
Nos dois casos os dados foram convertidos de anos comerciais para anos calen-
dário. Para suavizar as flutuações anuais usamos uma média móvel de três anos.
Isso é especialmente importante no caso da cultura cafeeira porque nela, além das
oscilações anuais normais em qualquer cultura, havia, segundo os especialistas
contemporâneos, um padrão cíclico peculiar ao café, no qual uma safra boa era
geralmente seguida por um ou dois anos de colheitas fracas.
Não se fez nenhuma tentativa para corrigir as séries de exportação no sentido de
incluir o consumo doméstico de café. Isso se justifica porque, como já foi mencionado,
a maior parte do café consumido internamente era produzido em toda a província,
e não apenas na zona cafeeira. Se incluirmos essa produção nos cálculos, estaremos
atribuindo aos escravos das fazendas de café uma produção que estava ocorrendo em
outros lugares, fora da região de plantation utilizando cativos que não pertenciam a
essa região ou trabalhadores rurais livres. Assim, desde que o objetivo aqui é estimar
o emprego de escravos no setor plantacionista de café, não foi feita nenhuma tenta-
tiva de ajustar as séries de exportação para incluir o consumo doméstico.
Não distinguimos entre o café produzido na Zona da Mata e na Zona Sul. Para
a maior parte do período essa distinção é irrelevante por causa da insignificância
da produção do Sul. Na década de 1880, entretanto, dado o rápido crescimento da
participação do Sul, e o fato de que a sua produtividade era duas vezes mais alta do
que o da Mata, isso introduz um ligeiro viés para cima nas estimativas de emprego.
As estimativas na tabela 3.14 nos permitem avaliar o verdadeiro peso do setor
cafeeiro na economia escravista de Minas Gerais. Único setor de plantations que
existiu na província, ele era totalmente baseado no trabalho escravo e cresceu vigo-
rosamente ao longo do século. Porém, visto em perspectiva, contra o conjunto
da economia provincial, seu papel como empregador de cativos foi relativamente
modesto, mesmo nas décadas finais do regime servil.
Em particular, a expansão do café não é capaz de explicar, nem mesmo parcial-
mente, a sobrevivência ou o crescimento da escravidão em Minas Gerais depois
do declínio da mineração. Mesmo que venham a ser feitas correções consideráveis
nessas estimativas, isso não mudará a essência dessa conclusão.
No começo do período estudado os escravos empregados no cultivo do café
representavam menos de 0,1% da população cativa da província. Nas três décadas

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


121
seguintes, até o fim do tráfico africano, o setor cafeeiro teve uma rápida expansão,
mas o número total de escravos também cresceu fortemente. É possível que a popu-
lação escrava de Minas Gerais tenha atingido seu máximo no começo dos anos 1850,
sendo nessa época maior do que em 1873, quando foi realizado o Censo do Império.
Isso significaria que na primeira metade do século, enquanto o emprego de escra-
vos no café cresceu em torno de 5.000 trabalhadores, a população cativa provincial
aumentou cerca de 200.000 indivíduos. Usando como um proxy da população cativa
no meado do século, os 381.893 escravos recenseados em 1873 (dados corrigidos
pela Diretoria Geral de Estatística), vemos que o contingente empregado no café não
poderia ter abrangido, até 1860, mais do que dois por cento dessa população.198
As estimativas da tabela 3.14 podem ser ajustadas para incluir a mão de obra
escrava empregada no transporte do café para o Rio de Janeiro. Até a metade do
século XIX os meios de transporte eram extremamente rudimentares e altamente
intensivos em mão de obra, o que levou mais de um historiador a afirmar que
um grande número de escravos seria necessário para levar a produção até o porto.
Naqueles dias o transporte do café, ou de qualquer outra coisa, de Minas ou para
Minas, dependia quase exclusivamente das tropas de mulas. Na topografia aciden-
tada e nas péssimas trilhas da província, carroções, carroças e carros de boi eram
virtualmente inúteis para os transportes de longa distância, e a mula – mais firme,
mais resistente e mais inteligente do que o cavalo – era universalmente preferida,
mesmo como animal de montaria.
Os viajantes do século XIX, em Minas, se deparavam por toda parte com grandes
tropas de mulas pesadamente carregadas com todo tipo de mercadorias, variando de
sal a porcelana, de ouro a galinhas ou porcos vivos. Os tropeiros eram importantes e
onipresentes na vida econômica da província. A profissão de tropeiro, ou seja, o chefe
da tropa, que muitas vezes era também o seu dono, carreava considerável prestígio

198 Os números da população escrava sobre os quais essas porcentagens foram calculadas estão no
capítulo 4. Luiz Corrêa do Lago, usou um procedimento análogo, para estimar que, em 1870-71, cerca
de 60.000 escravos estavam empregados no cultivo do café em Minas Gerais. Considero esse número
exagerado, pelas seguintes razões: 1) O autor usou, sem nenhuma crítica, a estimativa extremamente
baixa de Laerne, de 17,8 sacas de café por escravo por ano. 2) Ao produto exportado acrescentou
350.488 sacas com o objetivo de incluir o consumo doméstico, um procedimento que rejeitamos
pelos motivos apontados no texto. Isso acrescentou 19.688 escravos à estimativa. 3) O ano escolhido
para a estimativa, 1870-71, foi um ano atípico, com uma produção anormalmente alta. As 3.034,4 mil
arrobas exportadas nesse ano foram mais do que o dobro dos dois anos adjacentes, acima e abaixo.
Note-se, incidentalmente, que mesmo se esta estimativa estivesse correta, os escravos empregados
no setor cafeeiro não representariam mais do que 15,7% dos 381.893 cativos registrados pelo Censo
do Império.

122 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
social e era sempre exercida por um homem livre. Seus subordinados, os tocadores
das mulas, podiam ser escravos ou trabalhadores livres.

Tabela 3.14 - Minas Gerais: Estimativa dos requisitos de mão de obra escrava
na lavoura cafeeira, 1820-1887, segundo duas fontes de dados de exportações
Escravos Escravos Escravos Escravos Escravos
Ano Ano Ano
(A) (A) (B) (A) (B)
1820 141 1843 2.236 1866 13.078 13.773
1821 190 1844 2.526 1867 15.746 15.743
1822 240 1845 2.754 1868 16.777 16.809
1823 289 1846 2.861 1869 17.079 16.532
1824 338 1847 2.908 1870 16.262 17.131
1825 388 1848 2.856 1871 15.753 15.759
1826 437 1849 3.611 1872 15.281 15.184
1827 486 1850 4.420 1873 15.771 15.516
1828 535 1851 5.014 1874 17.369 18.131
1829 597 1852 5.090 1875 17.966 19.502
1830 685 1853 5.007 5.718 1876 18.496 19.710
1831 797 1854 5.358 6.155 1877 20.193 20.775
1832 918 1855 5.876 6.424 1878 23.021 23.286
1833 1.037 1856 6.222 6.218 1879 26.889 26.070
1834 1.157 1857 6.237 5.934 1880 29.814 30.447
1835 1.276 1858 5.981 5.660 1881 32.584 33.113
1836 1.396 1859 6.696 6.290 1882 33.832 35.240
1837 1.515 1860 8.010 7.351 1883 32.420 33.415
1838 1.635 1861 8.211 8.212 1884 33.401 36.545
1839 1.744 1862 7.481 8.496 1885 37.160 36.104
1840 1.830 1863 7.280 8.535 1886 35.936 33.287
1841 1.892 1864 8.573 9.270 1887 36.202 30.078
1842 2.004 1865 10.826 11.164
Série A: Dados de exportação de Aristóteles Alvim.
Série B: Dados fiscais da província do Rio de Janeiro.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

As evidências sobre a condição desses tocadores não são inteiramente conclu-


sivas. Não há dúvida de que escravos eram empregados na tarefa, mas não é menos
certo que homens livres não somente exerciam esse trabalho como se orgulhavam
dele.199

199 A maioria dos viajantes do século XIX descreveu com algum detalhe as tropas de mulas e os tropeiros.
Boas descrições podem ser encontradas em Burmeister. Viagem ao Brasil, pp. 71-72; Saint-Hilaire.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


123
Gráfico 3.2 - Minas Gerais: Estimativa do número de escravos
empregados na lavoura cafeeira, 1820-1887
40.000

35.000

30.000

25.000

20.000

15.000

10.000

5.000

0
1820 1825 1830 1835 1840 1845 1850 1855 1860 1865 1870 1875 1880 1885

Fonte: Tabela 3.14

Stanley Stein afirma que “vinte por cento da força de trabalho masculina das
fazendas (...) sempre escolhidos entre os melhores (...) era retirada do trabalho do
campo e ocupada na função de tropeiro.” Tschudi sugeriu que deve-se acrescentar
um terço sobre o número de escravos empregados no campo, para incluir os requi-
sitos do beneficiamento e do transporte. O Príncipe Adalbert da Prússia, John Luc-
cock, Spix e Martius, e Gardner também assinalaram que a maioria dos tocadores
de mulas eram escravos.200 John Codman, por outro lado, observou, em 1865, que
a “maioria dos tropeiros são açorianos rudes ou índios mestiços,” e o Reverendo
Ballard Dunn, um ex-confederado de Nova Orleans, escreveu, um ano mais tarde,

Viagem pelas Províncias, p. 70; Freireyss. Viagem, pp. 164-66. Veja também João Dornas Filho. Tropas
e Tropeiros. In: Universidade de Minas Gerais. Primeiro Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte:
Imprensa da UMG, 1957: 89-127; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 147-48; Gardner. Viagens, p. 394.
200 Stein. Vassouras, p. 91; Tschudi. Viagem, pp. 46-47; Prince Adalbert of Prussia. Travels of His Royal
Highness Adalbert of Prussia in the South of Europe and in Brazil. trad. Sir Robert H. Schomburg e
John Edward Taylor, 2 vols. London: David Bogue, 1849, vol. 2, p. 7; John Luccock. Notas sobre o Rio
de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil. trad. Milton da Silva Rodrigues. São Paulo: Livraria Martins,
1942, pp. 226, 246; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 148-49; Gardner, Viagem, pp. 394-95.

124 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
que era comum para os brasileiros pobres, que viviam quase vegetando, “seguir a
vida quase totalmente selvagem de tropeiro”.201
Adotando a hipótese extrema de que todos os empregados no transporte do
café fossem escravos, podemos estimar o limite superior do número de cativos
necessários para a tarefa, uma vez que os coeficientes técnicos relevantes podem
ser determinados com uma precisão razoável.
Várias fontes informam que a capacidade usual de carga de uma mula era de 250
a 300 libras. No transporte do café essa carga era sempre exatamente de 256 libras,
ou oito arrobas, distribuídas igualmente nos dois lados do animal para garantir
o equilíbrio. Na verdade, foi essa imposição técnica que deu origem à prática de
embalar o café em sacas de 60 quilos, que sobrevive até nossos dias.202
As tropas, às vezes com centenas de animais, eram divididas em lotes ou grupos
de sete mulas cada um, cada lote a cargo de um condutor. Essa organização não se
modificou através dos tempos, tendo sido observada por Saint-Hilaire, por Luc-
cock, pelo Príncipe Maximilian Wied-Neuwied e por Spix e Martius na década de
1810, por Gardner em 1841, por Burmeister em 1851 e por Wells em 1873.203 Por-
tanto, um tocador com sete mulas carregando oito arrobas cada uma, transportaria
56 arrobas de café em uma viagem à costa.
Para avaliar a duração dessas jornadas, os diários dos viajantes europeus são
de muito menos ajuda. Embora seguissem muitas vezes pelas mesmas estradas e
nas mesmas condições que o café – suas mulas totalmente carregadas de provisões,
equipamentos e instrumentos científicos, e outros estorvos – esses homens eram na
maioria dos casos naturalistas em lua de mel com o trópico, inclinados, portanto,
a parar e se extraviar por qualquer coisa que vissem – plantas, índios, insetos ou

201 John Codman. Ten Months in Brazil with Incidents of Voyages and Travels, Descriptions of Scenery and
Character. Boston: Lee and Shepard, 1867, p. 60; Ballard Dunn. Brazil, The Home for Southerners. New
York: George B. Richardson and New Orleans: Bloomfield and Steel, 1866, p. 225. Codman escreveu
“rough, shaggy Western islanders”, referindo-se aos imigrantes das ilhas portuguesas de Açores e
Cabo Verde.
202 Burmeister. Viagem, pp. 71-72; Freireyss. Viagem, pp. 164-65; Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias,
p. 70; Stein. Vassouras, p. 92; Laerne. Brazil and Java, p. 190; Taunay. História do Café, vol. 3, p. 125.
203 Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias, p. 70; Luccok. Notas; Maximilian Wied-Neuwied. Viagens pelo
Brasil, 1815-1817. trad. Edgar Sussekind de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo. São Paulo: Cia
Editora Nacional, 1940; Burmeister. Viagem, pp. 71-72; Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 55;
Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 147-48; Gardner. Viagem, pp. 394-95. A mesma organização foi
descrita pelo Barão do Pati do Alferes em 1848, de acordo com Dornas Filho. Tropas e Tropeiros, p.
109. Walsh está errado ao dizer que havia um condutor para cada três ou quatro mulas e Stein repete
esse erro. Agassiz também está errado ao dizer que cada lote era composto por oito mulas. Walsh.
Notices, vol. 2, p. 27; Stein. Vassouras, p. 92; Louis and Elizabeth Agassiz. A Journey in Brazil. Boston:
Ticknor and Fields, 1868. rep. New York: Frederick A. Praeger, 1969, p. 72.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


125
rochas. Podemos ter certeza que não viajavam mais depressa do que os calejados
tropeiros que, além de estarem em seu meio natural, não eram dados a se distrair
com borboletas ou orquídeas.
Gardner observou que uma tropa viajava de 3 a 4 léguas por dia. Freireyss
afirmou que uma mula carregada podia marchar de cinco a oito horas por dia, e
comentou que uma viagem de 3 a 4 léguas (20 a 26 quilômetros) era uma jornada
leve, que não apenas pouparia os animais mas também permitiria muito trabalho
de coleta. Codman relata que as tropas de mulas carregando café faziam em média
“cerca de dezesseis milhas por dia.” Stein cita uma fonte contemporânea que sugere
que a jornada diária de uma tropa de café era de 37 a 50 milhas.204
Já observamos que a zona cafeeira de Minas Gerais durante o império ficava
relativamente próxima do Rio de Janeiro. Seus limites mais remotos não estavam
a mais de 50 léguas do Porto da Estrela, que era o destino das tropas, e o grosso da
colheita ocorria ainda mais perto do Rio. Podemos assumir que dez a doze dias é
uma estimativa razoável da duração média de uma viagem à costa. Assim, jornada
de ida e volta levaria um mês, incluindo uma margem generosa para o descanso e a
recarga da tropa com artigos importados.
Depoimentos contemporâneos apoiam essa estimativa. Agassiz relata que a
centena de milhas entre Juiz de Fora e Petrópolis “representa uma difícil jornada
de três a quatro dias”. Burton concorda, dizendo que esta viagem consumia meia
semana em lombo de mula. Hadfield anotou que era necessária uma semana para
ir de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro. Os historiadores Daniel de Carvalho e Manoel
Pedrosa informam que as tropas de mulas geralmente levavam de 10 a 12 dias de
Juiz de Fora ao Porto da Estrela, e cerca de trinta dias para a viagem de ida e volta.205
Se um tocador escravo pudesse fazer doze viagens anuais à costa, estaria condu-
zindo, em um ano, 672 arrobas de café. Usando esses números e os dados de expor-
tação das tabelas 3.1 e 3.2, calculamos o número máximo de escravos necessários
para o transporte do café ao Rio de Janeiro, apresentado na tabela 3.15.

204 Freireyss. Viagem, pp. 164-65; Codman. Ten Months, p. 59; Stein. Vassouras, p. 92; Gardner. Viagem,
pp. 394-95. Burmeister. Viagem, pp. 71-72 está evidentemente errado quando dá de 3 a 5 milhas
por dia como a velocidade usual de uma tropa de mulas. Pode ser um erro de tradução. Uma légua é
equivalente a 6,56 quilômetros ou 4,08 milhas.
205 Agassiz. A Journey, p. 64; Burton. Explorations, 1;34; William Hadfield. Brazil and the River Plate in
1868. London: Bates, Hendy and Co., 1869, p. 97; Daniel de Carvalho. Estudos e Depoimentos, p. 128;
Pedrosa. Zona Silenciosa, p. 138. Daniel de Carvalho calcula em 10 a 12 dias a jornada de Juiz de fora
até a “raiz da serra” em Petrópolis.

126 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 3.15 - Escravos necessários para
o transporte da safra de café, 1820 -1860
Número máximo
Período
(médias anuais)
1819 - 1825 48
1826 - 1830 108
1831 - 1855 207
1836 - 1840 325
1841 - 1845 455
1846 - 1850 662
1851 - 1855 1.047
1856 - 1860 1.313
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A partir do início da década de 1860, os requisitos de mão de obra para o trans-


porte de café foram drasticamente reduzidos. O primeiro agente dessa transforma-
ção foi a estrada União e Indústria que, atravessando o coração da zona cafeeira
mineira, unia Juiz de Fora a Petrópolis, onde se conectava com a estrada de ferro
Mauá, chegando assim até o Rio de Janeiro. Essa estrada não é muito impressio-
nante hoje, mas quando foi aberta ao tráfego, em 23 de junho de 1861, represen-
tou um empreendimento notável, que provocou aplausos entusiásticos de vários
observadores. Um deles foi o geógrafo francês Emmanuel Liais: “No meio de um
dos vales mais acidentados do mundo, um verdadeiro vale alpino, uma estrada
magnífica... dificilmente igualada mesmo na Europa (...) um feito gigantesco (...)
que honra o Brasil”.
Richard Burton, um globetrotter que conhecia vários continentes, classificou-a
como uma “nobre estrada”, admirável pela “perfeição de sua construção”. Agassiz
escreveu que a União e Indústria era uma “estrada que não ficava a dever a nenhuma
outra do mundo”, e Hadfield a considerou “decididamente uma das maravilhas do
Brasil.”206
A União e Indústria percorria os mais importantes distritos cafeeiros de Minas
Gerais. Tinha ramais para Rio Preto, Pomba, Mar de Espanha, Ubá e Rio do Peixe e,
quando foi visitada por Agassiz em 1865, a companhia trabalhava na construção de
ligações com os menores lugarejos em sua vizinhança.”207 Logo se tornou a princi-
pal artéria do comércio de café mineiro. Dados referentes ao início da década de 60

206 Liais é citado por Burton. Explorations, vol. 1, pp. 34-35. Agassiz. A Journey, p. 64; Hadfield. Brazil, p. 98.
207 Pedrosa. Zona Silenciosa, p. 138; Agassiz. A Journey, p. 66.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


127
mostram que pelo menos 60%, provavelmente mais, do café exportado por Minas
era transportado através da União e Indústria.208
A redução do tempo de viagem foi espetacular. Diligências cobriam a distância
em nove ou dez horas, jornais podiam ser trazidos da capital no mesmo dia em que
eram publicados. No transporte do café e de outras mercadorias, os comboios de
mulas foram rapidamente substituídos pelos carroções da companhia, que podiam
entregar a carga à estrada de ferro em Petrópolis em dois dias. Já em 1865 Agassiz
notou que as “tropas de mulas estavam começando a desaparecer do litoral desde o
surgimento da estrada de ferro e das linhas de diligências.”209
“Em abril de 1868, road lomotives foram testadas nessa estrada com inteiro
sucesso: planejava-se substituir as mulas por ônibus a vapor para passageiros e por
traction engines (locomotivas a vapor) para as mercadorias pesadas.”210 Entretanto,
a despeito do alegado sucesso do experimento, essas “locomotivas de estrada”
nunca entraram em serviço ativo.
Em seu relatório de 1869 à Assembléia Legislativa Provincial, o Presidente José
Maria Corrêa de Sá e Benevides anunciou, com grande alegria, que a ferrovia final-
mente chegara ao território mineiro.211
Sinto o mais vivo júbilo participando-vos que, no dia 27 de junho
último, Suas Majestades Imperiais e Sua Alteza, o Sr. Duque de Saxe (...)
assistiram à inauguração das estações da estrada de ferro denominadas
Santa Fé e Chiador. A estrada de ferro percorre já o solo mineiro. Eis um
grande acontecimento precursor de uma grande revolução econômica e
social.

Com efeito, em poucos anos a Zona da Mata dispunha de uma rede ferroviária
respeitável, abrangendo todos os distritos cafeeiros importantes. Mesmo antes que
os trilhos tocassem Minas Gerais, a ferrovia D. Pedro II já estava desviando tráfego
da União e Indústria. Em 1864, apenas três anos depois de sua inauguração, a com-
panhia se viu em sérios problemas financeiros e foi vendida ao governo. Em 1869
todo o transporte de carga foi transferido para a estrada de ferro.212 Escrevendo

208 De acordo com Codman a companhia transportou em 1865, 12.000 toneladas, aproximadamente 60
por cento do total das exportações de café de Minas Gerais. Codman. Ten Months, p. 119.
209 Hadfield. Brazil, pp. 96-97; Burton. Explorations, vol. 1, p. 34; Daniel de Carvalho. Estudos e
Depoimentos, p. 128; Agassiz. A Journey, pp. 64, 72.
210 Burton. Explorations, vol. 1, p. 35.
211 Relatório... pres. Sá e Benevides, 1869, p. 23.
212 Daniel de Carvalho. Estudos e Depoimentos, p. 128; Hadfield. Brazil, p. 97; Pedrosa. Zona Silenciosa,

128 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
em 1883, Laerne anotou que “agora os tropeiros vêem sua ocupação chegar ao fim,
exceto nos distritos onde a máquina a vapor ainda não fez sua aparição, isto é, no
longinquo interior, entre as fazendas e as estações ferroviárias”. O engenheiro fer-
roviário britânico James Wells, que tinha trabalhado na região em 1873, retornou
em 1885, encontrando as tropas de mulas “consideravelmente reduzidas” mesmo
no interior, além da zona cafeeira, por causa da extensão da Pedro II.213
Para as duas últimas décadas da escravidão existem dados mais detalhados sobre
a população escrava, sua distribuição geográfica e sua estrutura ocupacional. Com-
parando a mão-de-obra escrava empregada no setor cafeeiro, com essas informações,
podemos ter uma avaliação ainda mais clara da real importância do café na economia
escravista de Minas Gerais no período, como mostram as tabelas 3.16.1 e 3.16.2. Os
resultados apresentados desqualificam seriamente qualquer tentativa de associação
exclusiva entre a escravidão e o café em Minas Gerais, mesmo no final do século XIX.
Até 1886, menos de 15% da força de trabalho escrava (definida como todos
os indivíduos entre 11 e 60 anos de idade) estava empregada na cultura do café.
Mesmo em 1887, quando o regime já estava no estado terminal que conduziu à sua
abolição, e a população escrava estava se reduzindo dramaticamente, o contingente
escravo ocupado no café não atingia um quinto da força de trabalho servil.
Em 1821 havia em Minas cerca de 170 mil escravos fora do setor cafeeiro. Esse
número cresceu continuamente, até atingir 366 mil no censo do Império, e só dimi-
nuiu a partir da Lei do Ventre Livre, acompanhando o declínio geral da população
cativa. Na última contagem do “elemento servil”, em 1887, um ano antes da abolição,
ainda havia na província 155 mil escravos não empregados nas fazendas de café.
Confrontados com os escravos classificados pelo censo como lavradores, os
escravos empregados na cafeicultura representavam, em 1873, apenas 13,5% do
total. Essa porcentagem é certamente superestimada, uma vez que o recenseamento
registrou apenas 116.750 escravos lavradores em Minas, visivelmente uma subenu-
meração, pois representa somente 40% da força de trabalho cativa da província.
Na Matrícula de 1887, os escravos cafeicultores compunham 23,5% dos 153.743
escravoss classificados como “agrícolas”.

pp. 139-40.
213 Laerne. Brazil and Java, p. 190; Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 66. Ver também Dornas Filho.
Tropas e Tropeiros, p. 109.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


129
Tabela 3.16.1 - Minas Gerais: Escravos empregados no café comparados com a
população e e com a força de trabalho escravas, 1873-1887
Escravos População População Força de trabalho Força de trabalho
Ano ocupados escrava da escrava da escrava da escrava da
no café 1 província 4 região cafeeira 3 província 2 região cafeeira 2
1873 15.771 381.893 82.341 291.206 58.411
1880 29.814 324.538 84.102 - -
1884 33.401 298.931 91.505 274.341 76.784
1886 35.936 286.491 88.814 262.924 81.488
1887 36.202 191.952 - 191.952 -
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 3.16.2 - Minas Gerais: Escravos empregados no café comparados com a


população e com a força de trabalho escravas, 1873-1887 (continuação)
Escravos % da
% da força de % da população % da força de
residentes na população
trabalho escrava escrava da região trabalho escrava
Ano província não escrava total
total ocupada cafeeira ocupada da região cafeeira
ocupados ocupada
no café no café ocupada no café
no café no café
1873 366.122 4,1 5,4 19,2 27,0
1880 294.724 9,2 - 35,4 -
1884 265.530 11,2 12,2 36,5 43,5
1886 250.555 12,5 13,7 40,5 44,1
1887 155.750 18,9 18,9 - -
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Mesmo dentro da região cafeeira um número substancial de escravos não se ocu-


pava com a produção de café. Em 1873 somente 27% da força de trabalho escrava
e 60% da força de trabalho escrava agrícola da região cafeeira estava empregada
no café. Na década de 80 a participação do café no emprego de escravos aumentou
consideravelmentem, mas nunca chegou a atingir 50% da força de trabalho cativa
da própria região cafeeira.
Esses resultados estão em linha com outras evidências, discutidas no capítulo 5,
que mostram que em Minas Gerais a região cafeeira não era, nem de longe, tão espe-
cializada nesse produto como as áreas correspondentes do Rio de Janeiro e de São
Paulo. Além do café, a zona cafeeira de Minas era também uma importante produ-
tora e exportadora de grãos, laticínios, toucinho, açúcar, fumo e outras mercadorias.
A comparação entre Minas Gerais e as outras duas principais províncias cafeeiras é
gritante, como se pode observar nas tabelas a seguir, onde são apresentados os resul-
tados de estimativas, semelhantes às desenvolvidas para Minas Gerais, sobre a parti-
cipação do café no emprego de escravos no Rio de Janeiro e em São Paulo.

130 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 3.17 - Rio de Janeiro: Escravos empregados no café, anos selecionados
Exportação Escravos Força de Escravos Força de trabalho
Ano de café 1 empregados trabalho empregados escrava residente
(arrobas) no café 2 escrava 3 na agricultura 4 na região cafeeira 5
1872 7.003.131 92.219 208.264 141.575 99.587
1882 9.467.787 124.675 238.408 199.167 138.114
1885 8.242.267 108.537 222.511 - 129.001
1887 7.766.832 102.276 162.421 149.815 101.480
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 3.18 - São Paulo: Escravos empregados no café, anos selecionados


Exportação Escravos Força de Escravos Força de trabalho
Ano Região de café empregados trabalho empregados escrava residente
(arrobas) no café escrava na agricultura na região cafeeira
1854 Vale do Paraíba 1.285.846 17.566 29.581 – –
Oeste 624.683 4.643 33.880 – –
São Paulo (total) 1.910.529 22.209 87.796 – 63.461

1874 Vale do Paraíba 1.183.541 16.177 36.173 – –


Oeste 2.302.168 17.110 64.323 – –
São Paulo (total) 3.485.709 33.287 116.755 84.620 100.496

1883 Vale do Paraíba 1.942.922 26.557 48.524 – –


Oeste 7.294.378 54.212 97.203 – –
São Paulo (total) 9.237.300 80.769 163.488 – 145.727

1887 Vale do Paraíba 2.327.666 31.816 28.541 – –


Oeste 8.525.933 63.364 71.329 – –
São Paulo (total) 10.853.599 95.180 107.076 95.782 99.870
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A tabela 3.19 e o gráfico 3.3 deixam claro o enorme contraste que havia entre
Minas Gerais, de um lado e o Rio de Janeiro e São Paulo, do outro. Nas duas últi-
mas províncias a escravidão era, de fato, largamente identificada com o cultivo
do café. Essa associação se tornou especialmente forte nos anos finais do período
escravista, quando quase dois terços de todos os escravos do Rio de Janeiro e perto
de 90% dos de São Paulo, estavam empregados no café. Nas zonas cafeeiras des-
sas províncias a concentração era ainda maior, envolvendo virtualmente todos os
escravos dessas áreas.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


131
Tabela 3.19 - Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo:
Emprego de escravos no setor cafeeiro (anos selecionados)
% da força de % dos escravos % de força de Escravos na
trabalho escrava agricultores trabalho escrava força de trabalho
Província e ano
empregada no empregados da região cafeeira não empregados
café no café no café no café
Minas Gerais (1873) 5,4 13,5 27,0 275.435
Rio de Janeiro (1872) 44,3 65,1 92,6 116.045
São Paulo (1874) 28,5 39,3 33,1 83.468

Minas Gerais (1884) 12,2 - 43,5 240.940


Rio de Janeiro (1882) 52,3 62,6 90,3 113.733
São Paulo (1883) 49,4 - 55,4 82.719

Minas Gerais (1887) 18,9 23,5 - 155.750


Rio de Janeiro (1887) 63,0 68,3 100,0* 60.145
São Paulo (1887) 88,9 99,4 95,3 11.896
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Gráfico 3.3 - Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo:


Porcentagem da força de trabalho escrava empregada no café,
anos selecionados
100
88,9

80

63,0
60
52,3
49,4
44,3

40
28,5

18,9
20
12,2
5,4

0
Minas Rio de São Minas Rio de São Minas Rio de São
Gerais Janeiro Paulo Gerais Janeiro Paulo Gerais Janeiro Paulo
1873 1872 1874 1884 1882 1883 1887 1887 1887

Fonte: Tabela 3.19

132 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
A situação em Minas Gerais era inteiramente diferente. A participação do café
no emprego da força de trabalho escrava da província aumentou somente de 5,4%,
em 1873, para 18,9%, em 1887 (nesse último ano, como observado acima, a força
de trabalho escrava era idêntica à população escrava em todas as províncias, por-
que todos os cativos estavam na faixa de 16 a 60 anos de idade). O grande con-
tingente de escravos mineiros não empregados no café mostra que é um grande
equívoco caracterizar a economia escravista de Minas Gerais como um sistema
de plantations exportadoras, mesmo nos anos finais do Império e do regime ser-
vil. O setor cafeeiro era, sem dúvida, grande em tamanho absoluto, e importante,
mas, diante de sua concentração geográfica e dos números apresentados acima, fica
claro que as áreas não-cafeeiras da província merecem muito mais atenção do que
tem recebido até hoje.

PARTE I - CAPÍTULO 3 - A ESCRAVIDÃO NO SETOR CAFEEIRO


133
Capítulo 4 - População escrava, tráfico e
manumissão em Minas no século XIX

O
papel de Minas Gerais nos tráficos internacional e interprovincial de
escravos no século XIX nunca foi estudado. Apesar disso, a província tem
sido frequentemente apresentada como uma importante fornecedora de
escravos para as regiões vizinhas. A decadência da mineração, afirma-se, gerou
um grande reservatório de escravos “redundantes” ou “sub-utilizados”, no qual os
emergentes setores cafeeiros do Rio de Janeiro, de São Paulo e até mesmo da pró-
pria Minas obtiveram a mão de obra necessária para sua implantação e expansão.
Nessa linha de argumentação, Celso Furtado escreveu:
Ao transformar-se o café em produto de exportação, o desenvolvimento
de sua produção se concentrou na região montanhosa próxima da capital
do país. Nas proximidades dessa região, existia relativa abundância de
mão de obra, em consequência da desagregação da economia mineira (...)
Dessa forma, a primeira fase da expansão cafeeira se realiza com base num
aproveitamento de recursos pré-existentes e sub-utilizados (...) O segundo,
e principalmente o terceiro quartel do século passado são basicamente a
fase de gestação da economia cafeeira (...) Como em sua primeira etapa a
economia cafeeira dispôs do estoque de mão de obra escrava sub-utilizada
da região da antiga mineração, explica-se que seu desenvolvimento haja
sido tão intenso, não obstante a tendência pouco favorável dos preços.214

Escrevendo sobre um período posterior, Richard Morse sustentou que: “à


medida em que o centro de gravidade econômica do Brasil voltou-se para o Sul,
em direção às áreas cafeeiras paulistas, milhares de escravos foram transferidos, a
preços exorbitantes, de Minas Gerais e do norte”.215
Também se tem afirmado repetidamente que o mesmo padrão de transferên-
cias teria ocorrido dentro da própria Minas Gerais. No século XIX, o café teria se

214 Celso Furtado. The Economic Growth of Brazil. trad. R. W. de Aguiar e E. C. Drysdale. Berkeley:
University of California Press, 1963, pp. 123-24. Na 7ª. edição brasileira, de 1967, p. 122.
215 Richard M. Morse. From Community to Metropolis: A Biography of Sao Paulo, Brazil. Gainesville:
University of Florida Press, 1958.

135
tornado o setor dominante da economia provincial, e escravos teriam sido transfe-
ridos, em massa, dos decadentes distritos mineradores para as plantations cafeeiras
em expansão. Em seu estudo sobre a escravidão nas áreas cafeeiras, Emilia Viotti da
Costa afirmou que, para Minas Gerais,
O problema do trabalho rural não se colocava de maneira tão urgente
como no Rio, e principalmente em São Paulo. As atividades mineradoras
tinham propiciado a concentração de grande massa de escravos. Ao
iniciar-se o século XIX, com a decadência das minas, havia abundante
mão de obra escrava disponível. O desenvolvimento da lavoura cafeeira
provocou a migração interna. Primeiramente foram os proprietários que
se deslocaram com seus escravos para as regiões fluminenses e, mais
tarde, encaminharam-se para as regiões cafeeiras paulistas.
(...) Ao mesmo tempo, a Zona da Mata mineira povoava-se de gente
vinda das antigas zonas de mineração. O deslocamento da mão de obra
escrava concentrada nas antigas áreas de mineração, para as zonas de
expansão econômica da Mata ou Sul de Minas, suprirá em parte as
necessidades de braços.216

Estudando o tráfico interno no Brasil do século XIX, Herbert Klein concluiu


que “o grosso dos escravos necessários às plantações de açúcar e de café foi drenado
de áreas decadentes dentro dos próprios estados em expansão, ou trazidos de áreas
contíguas.” Em Minas Gerais, em especial, o setor plantacionista “parece ter sido
capaz de recrutar a maior parte de suas necessidades de mão de obra através do
crescimento interno e da redistribuição força de trabalho escrava dentro do vasto
território da própria província.”217
Francisco Iglésias escreveu que o agonizante setor minerador foi a fonte da mão
de obra empregada no setor cafeeiro das regiões mineiras do Sul e da Mata,218 e o
historiador da agricultura Luís Amaral descreveu essas transferências dizendo –
com um lirismo que nos lembra os apologistas contemporâneos da jolly institution

216 A autora prossegue dizendo que o “êxodo de negros em direção às zonas cafeeiras” estava esvaziando
a força de trabalho de algumas áreas da província. Emília Viotti da Costa. Da Senzala à Colônia,
pp. 60-61. Na página 132 afirma ainda que, na década de 1870, Minas forneceu grande quantidade de
escravos para o setor cafeeiro paulista.
217 Herbert Klein. The Internal Slave Trade, pp. 111-13.
218 Francisco Iglésias. Política Econômica, pp. 130-31. Afirmações semelhantes podem ser encontradas em
Norma de Goes Monteiro. Imigração e Colonização em Minas, 1889-1930. Belo Horizonte: Imprensa
Oficial, 1973, p. 16; João Heraldo Lima. Café e Indústria em Minas Gerais, 1870-1920. Dissertação de
Mestrado, Universidade de Campinas, 1977, pp. 2, 12; Peter Blasenheim. Uma História Regional da
Zona da Mata Mineira. Artigo não publicado, junho de 1977, p. 3; e Evantina Pereira Vieira. Economia
Cafeeira e Processo Político: Transformações na População Eleitoral da Zona da Mata Mineira (1850-
1889). Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná, 1978, p. 56.

136 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
– que “em vez de estiolar-se dentro de escuras e úmidas e podres galerias subter-
râneas, os escravos iriam cantar por entre aleias de cafezais ensolarados e álacres e
salubres.”219
Robert Slenes afirmou que em Minas, como no Rio de Janeiro e em São Paulo,
nas décadas de 1870 e 1880 os principais municípios cafeeiros foram importadores
líquidos de escravos, enquanto aqueles onde a grande lavoura não era importante
“tenderam a ser perdedores líquidos de cativos.”220
Robert Conrad argumentou que a concentração de escravos nas províncias
cafeeiras criou uma profunda clivagem regional no até então monolítico apoio ao
regime escravista. Segundo ele, as diferenças no compromisso com a instituição
servil podiam ser observadas não só entre as províncias cafeeiras e as não-cafeeiras,
mas também dentro das primeiras: nelas próprias a escravidão era mais arraigada
nas regiões produtoras de café e estava perdendo apoio rapidamente nas outras
áreas.
Isto era especiamente verdadeiro na ampla e populosa Minas Gerais, que
possuía uma pequena zona cafeeira pró-escravidão na fronteira de áreas
semelhantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde se concentrava uma
grande parte da população escrava da província. Mais para o interior,
entretanto, havia regiões mineradoras e criadoras mais pobres que,
assim como o Nordeste, tinham perdido escravos para zonas cafeeiras
e continuaram a fazê-lo, em larga escala, durante os últimos anos da
escravidão. Dentro de Minas Gerais, portanto, o interesse pelo sistema
servil variava tanto quanto no Império como um todo – distritos
cafeeiros defendendo este sistema de trabalho, e zonas não-cafeeiras,
maiores, porém mais pobres, demostrando menos preocupação com sua
sobrevivência ou até mesmo ansiosas para ver o seu fim.221

À província mineira, ou às suas regiões não-plantacionistas (que constituíam


a maior parte de seu território) foi atribuído – embora nenhum autor o tenha dito
explícitamente – um papel muito semelhante ao dos chamados breeding states do
Sul dos Estados Unidos: uma economia estagnada onde a escravidão deixara de ser

219 Luis Amaral. História Geral da Agricultura Brasileira. 3 vols. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1940, vol.
3, p. 87. “Jolly institution” foi a expressão usada por C. Vann Woodward para ironizar a imagem da
escravidão no sul dos Estados Unidos formulada por Robert Fogel e Stanley Engerman em seu famoso
livro Time on the Cross. The Economics of American Negro Slavery. Boston and Toronto: Little, Brown
and Company, 1974; C. Vann Woodward. The Jolly Institution. The New York Review of Books. May 2,
1974.
220 Robert W. Slenes. The Demography, p. 208.
221 Conrad. The Destruction, pp. 127-28.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


137
lucrativa, que transferia seus escravos redundantes para as regiões mais dinâmicas,
da grande lavoura exportadora.
Neste capítulo examinamos a participação de Minas Gerais no tráfico inter-
nacional e interprovincial de escravos no século XIX, bem como a distribuição da
população escrava dentro da província e suas mudanças ao longo do tempo.

A PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX


Tudo indica que a ideia de que Minas Gerais teria fornecido a mão de obra
servil para a implantação da lavoura cafeeira no Sudeste do Brasil, ou mesmo que
tenham ocorrido quaisquer exportações significativas de escravos da província, só
existe na imaginação de alguns historiadores do século XX. O extenso levanta-
mento que fizemos de relatos, depoimentos e autores contemporâneos, bem como
de documentos governamentais da primeira metade do século XIX, não revelou
uma única menção a exportações de escravos, ou à existência de excedentes de mão
de obra em Minas. O contrário – reclamações sobre o alto preço dos cativos, sobre
sua escassez, e referências a importações de escravos pela província foram frequen-
temente encontradas.
O naturalista Freireyss relatou, em 1815, que a agricultura de Minas sofria
escassez de mão de obra e que, entre 1803 e 1815, a província tinha importado mais
de quatro mil escravos por ano.222 Spix e Martius, que estiveram no Brasil entre
1817 e 1820, observaram que os escravos eram um dos principais artigos enviados
do Rio de Janeiro para Minas Gerais, além de um pequeno número que vinha da
Bahia, pela rota do São Francisco.223
Esta informação é confirmada pelos registros das importações de Minas no
ano fiscal de 1818-19, publicados por Eschwege. Nesse ano foram arrecadadas nos
registros da capitania, taxas referentes a 1.963 “escravos novos”, 92,7% dos quais
vinham do Rio de Janeiro e 2,7% da Bahia ou de Pernambuco. Os impostos pagos
sobre estas importações representaram o quarto maior item da receita no exercício.
Em sua primeira viagem para Minas Gerais, em 1811, ao passar pelo registro do
Paraibuna, o geólogo alemão anotou que apenas por aquela aduana tinham entrado
na capitania 3.704 africanos: “cada negro novo que se leva paga 5.400 réis (...) [e]
no ano de 1810, o tributo pelos escravos novos rendeu perto de 20 contos. Essa
receita já é muito considerável e provavelmente irá crescendo de ano para ano”.

222 Freireyss. Viagem, p. 216


223 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 208-09, 312; vol. 2, pp. 241-42.

138 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Finalmente, em sua obra mais conhecida, o Pluto Brasiliensis, publicado em 1833,
Eschwege afirmou que “na província de Minas importavam-se anualmente de 5 a 6
mil escravos para substituição dos que morriam”.224
Uma petição dirigida ao príncipe regente, em 1810, por alguns pequenos pro-
prietários de minas de Minas Gerais, reivindicava a abolição dos impostos sobre a
importação de escravos, e se queixava dos seus altos preços na capitania.225
Auguste de Saint-Hilaire provavelmente conheceu Minas melhor que qualquer
outro viajante. Nos vários livros que escreveu nunca mencionou qualquer excesso
de escravos, e se referiu, pelo contrário, a escassez de mão de obra em diversos luga-
res. Em sua primeira viagem a Minas, vindo do Rio, encontrou um grupo de afri-
canos recém-chegados sendo conduzidos para o interior. No Distrito Diamantino
observou que “para muitos habitantes do Tejuco, a compra de escravos é um meio
fácil de aplicar seu capital,” e que a maioria dos escravos vendidos naquela região
vinha da Bahia.226
Johann Emmanuel Pohl, que visitou Minas duas vezes entre 1818 e 1821, tam-
bém lista escravos entre as importações mineiras vindas do Rio. Em Barbacena
ele ouviu queixas sobre sua escassez, apesar da existência de quase seis mil cativos
(41% da população). Comentou que a falta de mão de obra servil impedia o cresci-
mento da agricultura e paralizava o setor minerador. Os mesmos problemas foram
notados mais para o interior, em São José del Rei. Na estrada encontrou trinta
jovens africanos, comprados no Rio, sendo conduzidos para Minas.227
Na década de 1820, Jean Baptiste Debret observou que a depreciação do papel
moeda tinha tornado os escravos mais caros para os moradores do Rio de Janeiro,
mas os paulistas e os mineiros, que pagavam em moeda metálica, continuavam a
comprá-los. Em seu famoso desenho do mercado do Valongo no Rio, o cliente que
negocia com o vendedor de escravos é, significativamente, um mineiro.228

224 W. L. von Eschwege. Notícias e Reflexões Estadísticas da Província de Minas Gerais. Revista do Arquivo
Público Mineiro, IV (1899), p. 747. Em face das outras afirmações do próprio Eschwege, os números da
tabela de importações parecem ser incompletos. W. L. von Eschwege. Diário de uma Viagem do Rio de
Janeiro a Villa Rica, na Capitania de Minas Geraes, no anno de 1811. São Paulo: Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 1936, p. 16. Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 450.
225 Vicissitudes da Indústria Mineira (1810). Revista do Arquivo Público Mineiro, 3 (1898), p. 80.
226 Saint-Hilaire. Viagem pelas Províncias, vol. 1, p. 171; Saint-Hilaire. Viagens pelo Distrito dos Diamantes,
pp. 48-49.
227 Pohl. Viagem, vol. 1, pp. 197, 204-05; vol. 2, p. 441
228 Jean Baptiste Debret. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. 2 vols. trad. Sérgio Milliet. São Paulo:
Livraria Martins Editora, 1940, vol. 1, p. 189 e figura 23.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


139
Em virtude de uma série de tratados negociados pelos britânicos com o governo
português na segunda década do século XIX e, depois da independência, com o
governo imperial, a participação de brasileiros no comércio internacional de escravos
tornou-se ilegal. A Convenção Anglo-brasileira, “com o fim de pôr termo ao comér-
cio da escravatura da Costa d’África”, foi assinada no Rio de Janeiro em 23 de novem-
bro de 1826 e, três anos depois da troca de ratificações, que teve lugar em Londres em
13 de março de 1827, entrou em vigor em 13 de Março de 1830. Seu artigo primeiro
equiparava o tráfico à pirataria, e pouco depois, a lei de 7 de novembro de 1831 decla-
rou livres todos os escravos que entrassem no Brasil após aquela data e estabeleceu
punições severas para os envolvidos nesse comércio, agora ilegal.229
Pouco antes da vigência desses atos, o Reverendo Robert Walsh, ministro angli-
cano da legação britânica, observou um grande aumento no fluxo de escravos
importados através do Rio de Janeiro, e o envio de uma grande parte destes para o
interior (Minas).230
A lei e o tratado antitráfico, contudo, foram totalmente ignorados nas décadas
seguintes e grandes números de africanos continuaram entrando no Império. Já em
1835, no Universal, de Ouro Preto, o articulista queixava-se de que, apesar da lei de
1831, o tráfico africano continuava a todo vapor, e que qualquer pessoa poderia ver,
a todo momento, “grandes comboios destas infelizes criaturas” sendo conduzidos
para Minas.231 No início da década de 40, o conde de Suzannet relatou que escravos
africanos estavam sendo introduzidos, através da Bahia, nas áreas diamantinas que
visitou.232
As evidências disponíveis indicam que, pelo menos enquanto durou o tráfico
internacional, os preços dos escravos eram mais altos em Minas Gerais do que no

229 Veja: Convenção entre o Senhor D. Pedro I, Imperador do Brasil e Jorge IV, Rei da Grã-Bretanha, com o
fim de pôr termo ao commercio da escravatura da Costa d’Africa, assignada no Rio de Janeiro em 23
de novembro de 1826, e ratificada por parte do Brasil no mesmo dia e anno, e pela Grã-Bretanha a 28
de fevereiro de 1827. As ratificações foram trocadas em Londres aos 13 de março de 1827. Coleção das
Leis do Império do Brasil. Perdigão Malheiro reproduz a lei antitráfico de 1831 na íntegra. Existe uma
extensa literatura sobre a abolição do tráfico internacional de escravos no Brasil. Veja, por exemplo,
Agostinho Marques Perdigão Malheiro. A Escravidão no Brasil. Ensaio Histórico, Jurídico, Social. 2 vols.
3ª. ed. Petrópolis: Editora Vozes e INL, 1976; Leslie Bethell. The Abolition of the Brazilian Slave Trade.
Britain, Brazil and the Slave Trade Question 1807-1869. Cambridge: Cambridge University Press, 1970;
Robert Conrad. The Struggle for the Abolition of the Bazilian Slave Trade. Tese de Doutorado, Columbia
University, 1967; Goulart. A Escravidão Africana no Brasil.
230 Walsh. Notices, vol. 2, pp. 321-22, 328-29..
231 O Universal (Ouro Preto), 10 de abril de 1835, citado por Marina de Avelar Sena. Compra e Venda de
Escravos. Belo Horizonte: Edição da autora, 1977, p. 109.
232 Suzannet. O Brasil em 1845, pp. 145, 162.

140 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Rio de Janeiro. Freireyss observou que os escravos crioulos eram, em geral, mais
caros do que os africanos, e os autores da petição de 1810, mencionada acima, afir-
mavam que, em Minas Gerais os escravos não podiam ser comprados por menos de
240 a 280 mil réis, enquanto uma amostra de vendas no Rio de Janeiro, entre 1807
e 1812, apresenta preços médios de 145 mil réis para os homens e 123 mil réis para
as mulheres.233
No final da década de 1820, devido às maciças importações especulativas que
se seguiram à convenção de 1826 com a Inglaterra, os preços de escravos no Rio de
Janeiro parecem ter sofrido uma forte queda. O Reverendo Walsh observou que,
em 1829, havia “tal pletora de carne humana nos mercados do Rio que esse artigo
tinha deixado de ser lucrativo. Os compradores conseguem até dez anos de crédito,
e o leitor gostará de saber que muitos especuladores têm sido arruinados por suas
pecaminosas importações”.234
A Saint John del Rey, uma empresa conhecida por suas atiladas práticas comer-
ciais, recorria sistematicamente ao mercado do Rio para efetuar suas principais
compras de escravos na década de 1830 e início da década de 1840. Aparentemente,
tinha bons motivos para fazê-lo: durante 1835, a companhia comprou 42 escravos
no Rio ao preço de 500 mil réis cada, enquanto 17 outros comprados em sua vizi-
nhança custaram, em média, 574 mil réis. Noventa cativos foram adquiridos no
Rio, em 1839, ao preço médio de 478 mil réis, enquanto 36 outros comprados na
região custaram 600 mil réis por cabeça, em 1841.235

233 Freireyss. Viagem, p. 222; Vicissitudes, p. 80. Os preços de escravos no Rio de Janeiro são de Mary
Catherine Karasch. Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850. Tese de Doutorado, University of Wisconsin,
1972, pp. 525-27. Ao computar o preço médio dos escravos homens, excluí o escravo Jacinto, vendido
em 1807 por 12.800 réis, pois seu preço parece excepcionalmente baixo. Os preços dos homens nesta
amostra variam de 64 a 256 mil réis. O único escravo cuja idade foi registrada tinha vinte anos, e seu
preço foi de 102.400 réis. Lobo. História do Rio de Janeiro, vol. 1, p. 127 afirma que o preço médio
dos escravos no Rio de Janeiro, em 1821, variava entre 140 a 150 mil réis. Eschwege é mais específico,
dizendo que, nesse mesmo ano, um escravo saudável, do sexo masculino, entre 16 e 20 anos de idade,
custava no Rio de Janeiro, de 150 a 200 mil réis. Veja Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 447.
234 Walsh. Notices, vol. 2, pp. 321-22. Eltis observou que “durante 1831 e 1832 houve, sem dúvida, poucas
importações, em parte por causa da saturação do mercado criada pelos maciços influxos de 1829 e
1830, e em parte porque os traficantes não sabiam quão rigorosa seria a aplicação da lei”. David Eltis.
The Direction and Fluctuation of the Transatlantic Slave Trade, 1821-1843: A Revision of the 1845
Parliamentary Paper. In: H. A. Gemery e J. S. Hogendorn (eds.). The Uncommon Market: Essays in
the Economic History of the Atlantic Slave Trade. New York: Academic Press, 1979, p. 280. Note-se,
entretanto, que na fonte mencionada na nota 235, abaixo, há indicações de um abrupto aumento nos
preços de escravos no Rio de Janeiro em 1830-1831.
235 Dados de documentos não-publicados da Saint John del Rey Mining Co., coletados por Douglas Cole
Libby, que gentilmente os tornou disponíveis para mim em carta de 31 de outubro de 1979.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


141
Estas diferenças de preço podem ter sido causadas, em parte, pelo fato
dos escravos comprados no Rio serem provavelmente negros novos ou boçais,
recém-chegados da África. Entretanto, o anúncio abaixo, publicado em 1835 no
Universal de Ouro Preto, sugere que os ladinos, ou escravos já aculturados, também
alcançavam preços mais altos em Minas:
Antônio Pereira Cardoso, novamente chegado do Rio de Janeiro, traz
uma não pequena porção de negros ladinos, oficiais carpinteiros,
pedreiros, ferreiros, cozinheiros, etc., e também negras costureiras,
lavadeiras, e hábeis para todo o serviço de uma casa. O anunciante os
pretende vender em leilão, que terá lugar no domingo, 25 do corrente,
pelas 10 horas da manhã, na Praça d’Alegria, esquina da Ladeira de
Simão da Rocha, nesta Cidade.236

Tais peças de evidência direta, apesar de fragmentárias, deixam poucas dúvidas


sobre a direção do fluxo desse tráfico. Qualquer mercadoria sempre flui do lugar
onde é mais barata para o lugar onde é mais cara, e não vice-versa – ninguém com-
pra caro para vender barato. Os escravos estavam sendo enviados do Rio de Janeiro
(ou melhor, da África, via Rio de Janeiro) para Minas Gerais, e não o contrário.
Em particular, as incipientes fazendas de café do Vale do Paraíba, fossem no Rio de
Janeiro, em São Paulo, ou na Zona da Mata Mineira, não estavam sendo tripuladas
por escravos originários da região central de Minas Gerais.
Durante a primeira metade do século XIX, o Brasil importou mais escravos
africanos do que em qualquer outro período de sua história.
A imensa maioria desses escravos se destinou à região Sudeste do país. Os
registros do British Foreign Office, analisados por Philip Curtin, mostram que,
no período de 1817 a 1843, das cargas de negreiros cujos portos de destino são
conhecidos, 76,9% desembarcaram no Rio de Janeiro e outros 7,1% seguiram para
portos localizados em São Paulo. As províncias do Norte e do Nordeste do Império
(incluindo a Bahia) tiveram uma parcela de apenas 15,0%, enquanto o Paraná rece-
beu menos de 1,0% dos escravos.237 Nos últimos anos do tráfico africano, a parcela
do Rio de Janeiro parece ter aumentado. Estes números significam que bem mais
de um milhão de escravos africanos desembarcaram nos portos do Rio de Janeiro e
de São Paulo durante a primeira metade do século XIX.

236 O Universal (Ouro Preto), 23 de setembro de 1835, citado por Sena. Compra e Venda, p. 5.
237 Curtin. The Atlantic Slave Trade, p. 240. Segundo Curtin, durante os vinte e sete anos de 1817 a 1843,
o British Foreign Office monitorou 1.308 navios negreiros chegados no Brasil, transportando 517.300
escravos. Foram identificados os portos de destino final de 491.000 destes escravos.

142 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 4.1 - Brasil: Importações de escravos africanos,
1801-1851, por períodos
Período Escravos importados Média anual

1801 - 18101 108.322 10.832


1811 - 1820 266.800 26.680
1821 - 1843 829.100 36.048
1844 - 18511 289.002 41.286

1801 - 1851 1.493.224 29.864


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Mauricio Goulart estimou que somente o Rio de Janeiro importou, neste perí-
odo, 940.000 escravos, e Mary Karasch sugere um número mínimo de 895.949 cati-
vos. Karasch usou, para os anos de 1817 a 1843, a estimativa elaborada por Curtin,
que foi recentemente revista e aumentada em 30%, por David Eltis. Incorporando
a revisão de Eltis, o número mínimo de escravos africanos importados apenas atra-
vés do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX, ultrapassa um milhão
de indivíduos.238 Esta, e não os supostamente “sub-utilizados” escravos de Minas
Gerais, foi a fonte da mão de obra para a decolagem do setor cafeeiro.
O tráfico atlântico e o início da grande lavoura cafeeira estão intimamente
interligados em mais de uma maneira. Muitos plantadores importantes, como
Vergueiro, de São Paulo, eram ou tinham sido grandes negociantes de escravos, e
pelo menos um – Souza Breves, do Rio de Janeiro – tinha suas próprias instalações
portuárias e importava diretamente da África para suas grandes propriedades. Até
mesmo em Minas Gerais encontram-se exemplos de agricultores que obtiveram
seu capital inicial através do tráfico negreiro.239
A historiografia tem dado muita ênfase ao fato de algumas famílias terem
migrado, no final do século XVIII e início do XIX, de áreas mineradoras de Minas
Gerais para a fronteira agrícola no Rio de Janeiro, na Mata Mineira e em São Paulo,
onde eventualmente formaram o núcleo pioneiro da plantocracia cafeeira.240 Nisso,

238 Karasch. Slave Life, pp. 105-06; Eltis. The Direction and Fluctuation, p. 289.
239 Dean. Rio Claro. p. 48; Francisco de Paula Ferreira de Rezende. Minhas Recordações. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1944, p. 343; Taunay. História do Café, vol. 8, pp. 267, 270.
240 Viotti da Costa. Da Senzala a Colônia, pp. 60-61; Amaral. História Geral, vol. 3, pp. 90-91; Stein.
Vassouras, p. 21; Ferreira de Rezende. Minhas Recordações, pp. 369, 390-98 passim. Para as migrações
de mineiros, principalmente das regiões do sul da província para várias regiões de São Paulo, veja
Mario Leite. Paulistas e Mineiros, Plantadores de Cidades. São Paulo: Edart, 1961, especialmente a
segunda parte, O Grande Refluxo, pp. 163-257.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


143
e exclusivamente nisso, repousa a tese da “origem mineradora” dos escravos empre-
gados nos primórdios do café. Algumas destas migrações ocorreram de fato, e com
toda certeza os migrantes levaram seus escravos consigo, mas jamais foi apresen-
tada qualquer evidência concreta de transferências significativas de escravos das
áreas mineradoras para as regiões cafeeiras emergentes. O volume dessas migrações
nunca foi estimado e, em muitos casos, não foi devidamente estabelecida sequer a
origem “mineradora” das famílias migrantes.241
Em seu detalhado estudo sobre o município cafeeiro fluminense de Vassouras,
Stanley Stein demonstrou a existência de muitos laços entre os pioneiros da cafei-
cultura e abastadas famílias mineiras, mas não menciona quaisquer transferências
de escravos vindos de Minas. Ao contrário, os vínculos familiares dos pioneiros
representaram fontes de capital e de crédito, com os quais compraram escravos
no mercado do Rio de Janeiro. Um fazendeiro por ele citado, por exemplo, tomou
empréstimos de seus parentes mineiros “para comprar doze escravos africanos
novos”.
Entre os primeiros povoadores de Vassouras, encontravam-se mineiros
que vieram de São João del Rei e Barbacena para o sul, rumo à “mata do
Rio”, com capital bastante para fornecer crédito aos primeiros fazendeiros
de café para a compra de escravos. O desenvolvimento da economia
cafeeira de Vassouras foi atribuído [por um contemporâneo] “em parte,
à chegada dos traficantes, que compravam e vendiam escravos com
prazos de mais de cinco anos (…) sem outra garantia além dos cafeeiros
plantados. Conheci um mineiro, meu amigo íntimo, João Francisco
Junqueira, que vendeu, dessa forma, mais de dois mil escravos nessas
paróquias quando o café começou”.

Além dos traficantes, dos tropeiros e dos comboieiros eram também impor-
tantes nessa tarefa os comissários no Rio de Janeiro, que “proviam mercadorias
e créditos e, logicamente, assumiam a função de fornecer escravos dos mercados
litorâneos para seus clientes do interior.”242

241 Viotti da Costa e Amaral simplesmente listam os nomes de um pequeno número de famílias mineiras
que se tornaram cafeicultores proeminentes nos vales do Paraíba fluminense e mineiro. Algumas
destas famílias, como os Leite Ribeiro e os Monteiro de Barros, tinham ligação com a mineração.
Outras, como a família Werneck, não vieram de áreas mineradoras e aparentemente adquiriram seus
capitais no comércio. Veja: Gardner. Viagens. pp. 447-48; Ferreira de Rezende. Minhas Recordações,
pp. 369-70; Stein. Vassouras, p. 21.
242 Stein. Vassouras, p. 18, 73-75. Os itálicos são meus. Além de João Francisco Junqueira, Stein também
menciona como negociantes de escravos vários membros da proeminente família mineira que
congregava os Leite Ribeiro, os Ferreira Leite e os Teixeira Leite.

144 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Outro estudo sobre a região do Vale do Paraíba descreve o surgimento da grande
lavoura cafeeira como resultante da convergência de dois fluxos migratórios: “Os
cafeeiros e os escravos partiram da costa (Rio de Janeiro) em direção ao interior, os
empresários (...) migraram do interior em direção à costa, sendo em sua maioria,
nativos de Minas Gerais”.243
Os dados demográficos disponíveis sustentam a ideia de que a província era
uma forte importadora líquida de escravos durante a primeira metade do século
XIX. Entre 1819 e 1872, como mostra a tabela 4.2, a população servil de Minas
cresceu rapidamente, comparada às outras províncias brasileiras.244
No início desse século (na verdade desde o século XVIII), Minas Gerais já
possuía a maior população escrava da colônia, depois império. Esta posição foi
reforçada pelo rápido crescimento observado nas décadas seguintes, entre 1819 e
1872, quando a participação mineira na população escrava total do Brasil cresceu
de 15,2% para 24,7%.
Durante o mesmo período, a população escrava mineira cresceu à uma taxa
quase 2,5 vezes maior que a média nacional, superada apenas pelas taxas do Rio de
Janeiro e do Rio Grande do Sul. Em termos absolutos, o incremento do contingente
escravo de Minas só foi igualado pelo do Rio de Janeiro, sendo ambos quase o triplo
daquele observado em São Paulo, e cinco vezes maior do que o de qualquer outra
província brasileira. Na época do censo, Minas Gerais tinha, sozinha, mais escravos
do que todas as dez províncias situadas ao norte da Bahia, mais Goiás, Mato Grosso
e Paraná somados.
Entretanto, a simples comparação da população escrava em dois pontos no
tempo, não é suficiente para avaliar o volume das importações ocorridas no inter-
valo entre eles. Uma população cresce (ou diminui) pela interação de dois fatores:
o crescimento natural (o saldo entre nascimentos e mortes, que pode ser positivo
ou negativo) e o saldo das migrações (que também pode ser positivo ou negativo).
Quando simplesmente constatamos que a população cresceu, os dois componentes
estão misturados, e para sabermos o que é crescimento (ou declínio) natural e o
que é imigração (ou emigração) temos de separá-los. No caso de uma população

243 Orlando Valverde. La Fazenda de Café Esclavista em el Brasil. Cuadernos Geográficos 3 (Universidad
de los Andes, Venezuela, 1965), p. 10. Pedrosa. Zona Silenciosa, p. 132, registra o emprego de índios
“domesticados” na preparação de terras para plantio na Zona da Mata mineira. Slenes concorda que a
disponibilidade de trabalho barato foi importante para o início da expansão do café, mas aponta para
a oferta africana, ao invés de escravos redundantes de Minas. Veja Slenes. The Demography, p. 198.
244 Os anos de 1819 e 1872 foram escolhidos por serem os dois únicos anos para os quais são disponíveis
números confiáveis das populações escravas de todas as províncias.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


145
escrava há um terceiro componente, que são as alforrias. Do ponto de vista numé-
rico, as alforrias são simplesmente um vazamento da população, e podem ser trata-
das em conjunto com as mortes.

Tabela 4.2 - Brasil: Crescimento da população escrava, por províncias, 1819 -1872
Províncias População População Taxa média Crescimento % %
escrava em escrava em anual de absoluto do Brasil do Brasil
1819 1872 crescimento 1819 -1872 em 1819 em 1872

Rio de Janeiro 90.970 306.425 2,29 215.455 8,2 19,8


Minas Gerais 168.543 381.893 1,51 213.350 15,2 24,7
São Paulo 77.667 156.612 1,28 78.945 7,0 10,1
Rio G. do Sul 28.253 69.685 1,70 41.432 2,6 4,5
Bahia 147.263 167.824 0,25 20.561 13,3 10,9
Piauí 12.405 23.924 1,24 11.519 1,1 1,5
Santa Catarina 9.172 14.984 0,93 5.812 0,8 1,0
Paraíba 16.723 21.526 0,48 4.803 1,5 1,4
Rio G. do Norte 9.109 13.020 0,67 3.911 0,8 0,8
Sergipe 26.213 30.119 0,26 3.906 2,4 1,9
Espírito Santo 20.272 22.659 0,21 2.387 1,8 1,5
Paraná 10.191 10.560 0,07 369 0,9 0,7
Amazonas 6.040 979 -3,43 -5.061 0,5 0,1
Pará 33.000 27.458 -0,35 -5.542 3,0 1,8
Côrte 55.090 48.939 -0,23 -6.151 5,0 3,2
Mato Grosso 14.180 6.667 -1,42 -7.513 1,3 0,4
Pernambuco 97.633 89.028 -0,17 -8.605 8,8 5,8
Goiás 26.800 10.652 -1,71 -16.148 2,4 0,7
Ceará 55.439 31.913 -1,04 -23.526 5,0 2,1
Alagoas 69.094 35.741 -1,24 -33.353 6,2 2,3
Maranhão 133.332 75.272 -1,08 -58.060 12,0 4,9

Brasil 1.107.389 1.545.880 0,63 438.491 100,0 100,0


Taxa de crescimento em porcento por ano.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Um determinado volume de crescimento em um determinado período de


tempo, tem de ser integralmente rateado entre os dois componentes. Assim, dado
um determinado crescimento positivo da população, quanto maior for o cresci-
mento natural, menor será a parcela imputável à imigração, e vice-versa. Se, diante
de um crescimento populacional positivo, o crescimento natural for negativo (as
mortes forem maiores que os nascimentos) então, o componente imigração (ou
importação de escravos) será maior que o próprio incremento total da população.

146 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Para separar os dois componentes, estimamos o tráfico líquido de escravos de
Minas Gerais, nos períodos 1808-1819 e 1819-1873, usando uma adaptação do
método dos sobreviventes intercensitários, utilizado pelos demógrafos para o cál-
culo de migrações. Seria altamente desejável ter dados populacionais que permi-
tissem separar o impacto do tráfico internacional, que permaneceu ativo até o iní-
cio dos anos 1850, do efeito do tráfico interprovincial, que ganhou importância
depois dessa época. Infelizmente, não há dados seguros sobre a população escrava
de Minas na metade do século.

Tabela 4.3.1- Minas Gerais:


Importações líquidas de escravos, 1808-1819
(com taxas hipotéticas de crescimento interno)
(r)  Importação líquida Média anual
-20,00 55.224 5.020
-10,00 37.350 3.395
0,00 19.771 1.797
10,00 2.426 221
11,41 0 0
20,00 -14.470 -1.315
r = Taxa hipotética de crescimento interno (por mil por ano).
r* ( valor crítico de r) = 11,41
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 4.3.2- Minas Gerais:


Importações líquidas de escravos, 1819-1873
(com taxas hipotéticas de crescimento interno)
(r)  Importação líquida Média anual
-20,00 561.245 10.393
-10,00 372.459 6.897
0,00 213.350 3.951
10,00 71.431 1.323
15,26 0 0
20,00 -63.947 -1.184
r = Taxa hipotética de crescimento interno (por mil por ano).
r* ( valor crítico de r) = 15,26
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


147
O método empregado depende crucialmente do parâmetro que chamaremos
de taxa de crescimento interno (r) da população escrava, que reflete os efeitos com-
binados dos nascimentos, mortes e alforrias dos cativos. Como não há informa-
ções observadas e confiáveis sobre qualquer destas variáveis na primeira metade
do século, calculamos estimativas para um amplo intervalo de valores hipotéticos
dessa taxa. Em seguida, determinando através de evidências indiretas o valor pro-
vável da taxa verdadeira, poderemos balizar o volume do tráfico efetivamente ocor-
rido. A lógica e os procedimentos utilizados nesta e em todas as outras estimativas
do tráfico de escravos são descritas em detalhe no apêndice B.245
Os números apresentados nas tabelas acima se referem a importações líquidas,
ou seja, um número negativo significa que a província exportou a quantidade indi-
cada de cativos, e um número positivo significa que aqueles escravos foram impor-
tados por Minas Gerais. O número estimado de escravos importados é, obviamente,
muito sensível à taxa de crescimento interno adotado, mas a direção do fluxo do
tráfico é, sem sombra de dúvida, muito clara. Chamei de r* o valor crítico da taxa de
crescimento interno, isto é, aquele que torna as importações líquidas iguais a zero,
e cuja ultrapassagem muda o sinal (direção) do fluxo do tráfico. Assim, se r fosse
maior que r*, a província se tornaria exportadora líquida de escravos, se r fosse
menor que r*, ela seria uma importadora líquida.
No período 1808-1819 o valor de r* era igual a 11,41 por mil por ano, e
no período 1819-1873 esse valor foi igual a 15,26 por mil por ano. Como a taxa de
crescimento interno (r) inclui, por definição, os efeitos dos nascimentos, mortes e
alforrias, e como as alforrias sempre existiram e representavam um vazamento da
população escrava, para que o fluxo migratório fosse invertido seria necessário que
a taxa de crescimento natural (nascimentos menos mortes) fosse algo maior do que
r*, para acomodar a taxa de alforrias, sempre positiva por definição, uma vez que
não havia re-escravização de pessoas livres.

245 Como descrito no apêndice B, adotamos a hipótese de que todo o tráfico ocorreu no ponto médio
do período em foco. Os números das tabelas 4.3.1 e 4.3.2 foram comparados com o conjunto de
estimativas que resulta da hipótese alternativa de que a quantidade total importada foi uniformemente
distribuída ao longo de todo o período, isto é, que as importações de cada ano foram iguais à média
do período todo. As razões entre a primeira (T1) e a segunda (T2) estimativas são: para r (taxa de
crescimento interno, por mil) = 10, T1/T2 = 1,007; para r = 0, T1/T2 = 1; para r = - 10, T1/T2 = 1,017;
para r = - 20, T1/T2 = 1,060; para o período 1819-1873. No período 1808-1819, com os valores de
r listados na mesma ordem, os valores de T1/T2 são respectivamente: 0,995, 0, 1,005, e 1,012. Fica
claro que a diferença entre as duas hipóteses de distribuição do tráfico no tempo é desprezível. O
modelo alternativo também é descrito em detalhe no apêndice B.

148 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Gráfico 4.1 - Minas Gerais 1808-1819: Trade-off entre crescimento interno e tráfico
100

80

60
Escravos importados (mil)

40

20
r* = 11,41
0

-20

-40

-60
-40 -30 -20 -10 0 10 20 30 40
Taxa de crescimento interno

Gráfico 4.2 - Minas Gerais 1819-1873: Trade-off entre crescimento interno e tráfico
1.200

1.000

800
Escravos importados (mil)

600

400

200
r* = 15,26
0

-200

-400

-600
-40 -30 -20 -10 0 10 20 30 40
Taxa de crescimento interno

Portanto, a província teria sido uma grande importadora líquida, nos dois
perío­dos, mesmo com uma população escrava internamente estável ou razoavel-
mente crescente. Na verdade, dados os valores absolutos de sua população escrava,
até mesmo para ser um pequeno exportador de cativos, Minas Gerais teria que ter
sido um verdadeiro criatório de escravos, um autêntico breeding state.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


149
Mesmo correndo o risco de ser repetitivo, mas apenas para ilustrar e para enfa-
tizar, as estimativas do tráfico podem ser invertidas para demonstrar que, mesmo se
postularmos exportações líquidas extremamente baixas (seja em número de escra-
vos exportados, seja em termos do percentual do plantel da província), para que
essas exportações fossem viabilizadas, as taxas implícitas de crescimento teriam
de ter sido muito mais altas do que aquelas observadas em qualquer população
escrava das Américas, com exceção dos Estados Unidos durante o século XIX.246

Tabela 4.4 - Taxas implícitas de crescimento interno da população escrava,


com diferentes hipóteses de exportações líquidas anuais
Hipótese 1808 - 1819 1819 - 1873
Escravos Exportações Taxa implícita Exportações Taxa implícita
exportados como % de crescimento como % de crescimento
por ano no do plantel interno no período do plantel interno no período
período inicial (por mil por ano) inicial (por mil por ano)
2.000 1,34 24,3 1,19 23,2
1.000 0,67 17,8 0,59 19,3
500 0,34 14,6 0,30 17,3
200 0,13 12,7 0,12 16,1
100 0,07 12,0 0,06 15,7
0 0,00 11,4 0,00 15,3
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Essas estimativas mostram quão improvável é a hipótese de que Minas Gerais


tenha exportado escravos durante a primeira metade do século. Para ter sido um
exportador, mesmo modesto, a província teria que ter replicado, ou até superado, a
experiência demográfica, única nas Américas, dos Estados Unidos, cuja população
escrava apresentou uma taxa de crescimento interno de 23,9 por mil por ano, entre
1820 e 1860.247

246 O modelo é o mesmo utilizado para as estimativas das tabelas 4.3.1 e 4.3.2. As taxas implícitas são
obtidas tomando como dados os valores de T (exportações líquidas) e resolvendo as equações para r,
a taxa de crescimento interno da população.
247 A taxa bruta de crescimento da população escrava nos Estados Unidos foi computada a partir de dados
dos censos, reproduzidos por Claudia Dale Goldin. Urban Slavery in the American South, 1820-1860. A
Quantitative History. Chicago: University of Chicago Press, 1976, p. 67. Como o tráfico internacional de
escravos para os Estados Unidos já estava fechado há mais de dez anos, e as manumissões eram muito
poucas, esta taxa é também a taxa de crescimento interno, e é muito próxima à taxa de crescimento
natural.

150 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Em nenhuma outra sociedade escravista do Novo Mundo, a população escrava
foi demograficamente autossustentável. No Caribe Britânico, a taxa de crescimento
natural variou entre – 20 e – 50 por mil por ano durante o século XVIII, segundo
registros contemporâneos.248 No século XIX, depois da abolição do tráfico, em
1807, esta taxa tornou-se menos negativa em algumas colônias, mas na grande
maioria dos casos a transição para o crescimento positivo não se completou sob o
regime da escravidão.249
A população escrava de Cuba caiu de 370.553 em 1860, para 287.620 em 1871,
logo antes da Lei Moret entrar em vigor, apesar da importação de 49.532 africanos
entre 1861 e 1864, os últimos anos do tráfico escravo cubano. No meado do século,
a taxa de declínio foi estimada entre 30 e 50 por mil por ano.250 Na Martinica, colô-
nia francesa no Caribe, a taxa de declínio natural foi de 11,1 por mil por ano, de
1835 até a abolição, em 1848.
As matrículas de escravos realizadas na Jamaica entre 1817 e 1832 mostram
taxas de declínio natural variando de 0,7 a 4,8 por mil por ano. Deve-se observar,
entretanto, que em 1817 o tráfico atlântico para as colônias inglesas do Caribe já
havia terminado havia dez anos, de modo que todos os africanos vivendo na ilha
já tinham ultrapassado o seasoning period, fase crítica durante a qual ocorriam as
maiores taxas de mortalidade. Segundo uma das maiores autoridades nesse campo,
“mesmo sem uma taxa solidamente estabelecida, o fato do declínio natural é con-
firmado também em outras ilhas do Caribe.”251
O quadro não era diferente no continente. No Suriname a taxa de declínio natu-
ral foi de 13,2 por mil por ano entre 1830 e 1863, quando foi abolida a escravidão

248 Philip D. Curtin. Epidemiology and the Slave Trade. Political Science Quarterly 83 (June 1968), p. 214.
249 A única exceção é o caso de Barbados, que alcançou a sustentabildade logo após o fim do tráfico
africano para as colônias inglesas do Caribe, em 1807. Sua população escrava cresceu de 71.286 em
1815, para 80.861 em 1833. Segundo Curtin, havia uma clara relação negativa entre o volume de
importações de africanos e a taxa de crescimento natural das populações escravas do Novo Mundo:
“a parcela africana da população apresentava o maior desequilíbrio entre os sexos, as mais altas taxas
de morbidade e as mais altas taxas de mortalidade, era ela que deprimia a taxa de crescimento da
população como um todo”. No início do século XIX, Barbados era uma economia estagnada, que
tinha virtualmente cessado de importar escravos mesmo antes da abolição legal do tráfico. Curtin.
Epidemiology, p. 215.
250 Knight. Slave Society in Cuba, pp. 53, 63, 86 e 172-176. A Lei Moret emancipou os filhos de mulher
escrava e os escravos sexagenários em Cuba e Porto Rico. Foi assinada em 4 de Julho de 1870, mas,
devido a oposição dos donos de engenho, só se tornou efetiva algum tempo depois.
251 Cohen e Greene (eds.). Neither Slave nor Free, p. 337; Higman. Slave Population in Jamaica, p. 102;
Curtin. Epidemiology, p. 124. Em todos os casos onde a fonte não diz explicitamente o contrário,
assumimos que as manumissões eram desprezíveis.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


151
nas colônias holandesas. A Guiana Inglesa apresentou uma taxa de declínio natural
de 11,0 por mil por ano entre 1817 e 1829.252
A experiência brasileira não foi diferente. Aqui também a população escrava
não foi capaz de se manter sem ser constantemente realimentada pelo tráfico atlân-
tico. Em 1819 havia 1.107.389 escravos no Brasil e, entre aquele ano e 1851, foram
importados cerca de 1.192.642 africanos. Apesar disso, por volta de 1872 a popu-
lação escrava atingira apenas 1.545.880 indivíduos. Usando esses números e duas
hipóteses diferentes sobre a distribuição temporal das importações de africanos,
estimei a taxa de crescimento interno da população escrava brasileira entre 1819 e
1873.
A primeira hipótese – de que todas as importações ocorreram no ponto médio
do período 1819-1872 resultou em uma taxa de crescimento interno igual a – 8,9
por mil por ano. A segunda, de que as importações se distribuiram uniformemente
ao longo do intervalo 1819-1850 (equivalentes em cada ano à média anual do perí-
odo 1821-1851) e se tornaram iguais a zero após 1851, resultou em uma taxa de
crescimento interno de – 9,32 por mil por ano. Estes números são fortemente con-
sistentes com as estimativas das taxas vitais dos escravos brasileiros calculadas por
Robert Slenes. Usando uma abordagem diferente, Slenes concluiu que a taxa de
crescimento natural era, de fato, negativa, e que a taxa de crescimento interno se
situava no intervalo entre 0 e – 15 por mil por ano.253
Não há nenhum motivo para supor que a taxa de crescimento natural da popu-
lação escrava de Minas fosse positiva, ou menos negativa do que em outras partes do
Brasil. Pelo contrário, por ter importado, desde o século XVIII, muito mais africanos
do que a maioria das outras províncias, a taxa mineira era provavelmente mais nega-
tiva do que a média brasileira. A maior proporção de africanos, com sua mortalidade
mais alta e sua menor fertilidade, certamente contribuiu para deprimir a taxa de cres-
cimento natural da população cativa provincial para abaixo da média do país.254
Estimativas específicas para Minas Gerais são raras e, em geral, pouco con-
fiáveis, pois são geralmente baseadas em registros de nascimentos e óbitos, que
eram notoriamente deficientes com relação às mortes dos escravos. O subregistro
de nascimentos, tanto de livres quanto de escravos, era muito menor, pois ambos
eram ordináriamente batizados. Mas a maior parte dos escravos não era sepultada

252 A taxa para o Suriname foi computada a partir de dados em Cohen e Greene (eds.). Neither Slave, p.
336; e a da Guiana Inglesa é dada por Curtin. Epidemiology, p. 216.
253 Slenes. The Demography, pp. 363-65.
254 Ver nota 249, acima.

152 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
nas igrejas, e sim em cemitérios nas fazendas, ou no próprio campo, não deixando
rastro de seus óbitos.
Eschwege estimou, por volta de 1820, que a taxa de declínio natural da popula-
ção de escravos mulatos em Minas se situava em torno de 21,9 por mil por ano, e a
dos escravos pretos (que eram em sua maioria africanos) em um nível muito mais
alto, atingindo 39,5 por mil por ano. A taxa de declínio natural da população cativa
total da província seria, então, igual a 37,2 por mil por ano.255 Herbert Klein, por
outro lado, parece ter se convencido de que a população escrava de Minas tinha
um crescimento natural positivo e, baseado em dados para um único ano (1814),
concluiu que a taxa de crescimento natural era de 0,5 por mil por ano.
Esta estimativa é, no mínimo, suspeita. Além de se basear, sem nenhuma crí-
tica, em uma fonte pouco confiável, parece não se dar conta do problema mencio-
nado acima, do subregistro das mortes dos cativos. Nas estimativas de Klein, a taxa
bruta de mortalidade dos escravos (32,9) é menor do que a dos negros e mulatos
livres (34,3); e apenas ligeiramente mais alta do que a da população branca (27,4).
As taxas brutas de natalidade por mil pessoas, são 36,6; 41,7 e 33,4; para brancos,
negros e mulatos livres e escravos, respectivamente. Dado o grande desequilíbrio
entre os sexos na população escrava, as taxas apresentadas por Klein implicam que
as mulheres escravas eram mais férteis do que as brancas e as mulatas e negras
livres. Usando as razões de sexo registradas para 1808 e as taxas brutas de natali-
dade de Klein, obtemos taxas de natalidade por mil mulheres de 91,9, 82,4 e 74,3
para escravas, negras e mulatas livres, e brancas, respectivamente. Com as razões
de sexo observadas em 1821, essas taxas seriam 82,9, 80,7 e 75,1, com os grupos na
mesma ordem.256
É perfeitamente razoável sugerir que Minas Gerais importou cerca de 400 a
500 mil escravos durante as primeiras sete décadas do século XIX, em termos
líquidos. Se, como parece ter sido o caso, a grande maioria destas importações
ocorreu enquanto o tráfico atlântico ainda estava aberto, então Minas terá sido,
sem dúvida, a principal província importadora de africanos no século XIX, com

255 Eschwege. Notícias, p. 741. A taxa provincial é o somatório das taxas específicas de cada grupo
multiplicadas pela participação do grupo na população total. Em 1821, 13,3 por cento dos escravos
mineiros eram mulatos e 86,7 por cento eram pretos. Em outros escritos Eschwege revela perfeita
consciência da sub-enumeração dos óbitos dos escravos.
256 Herbert Klein. Nineteenth-Century Brazil, em Cohen e Greene (eds.). Neither Slave nor Free, pp. 314-
316. A taxa de natalidade por mil mulheres é dada por: (razão de sexo + 1) multiplicada pela taxa
bruta de natalidade. A razão de sexo é definida como o número de homens dividido pelo número de
mulheres. As razões de sexo de 1808 e 1821 estão em População da Província de Minas Gerais. Revista
do Arquivo Público Mineiro. Ano IV (1899), pp. 294-296.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


153
uma participação de pelo menos 30% no total das importações brasileiras. Os
dados disponíveis sobre a população escrava das outras províncias também sus-
tentam a conclusão de que Minas deve ter sido um forte importador. Sem impu-
tar a ela uma parte considerável do total nacional das importações, não é possível
alocar para o restante do país os quase 1,2 milhões de indivíduos importados pelo
Brasil entre 1819 e 1851.

DO FIM DO TRÁFICO AFRICANO AO CENSO DO IMPÉRIO


Tanto observadores contemporâneos como historiadores sempre deram muito
destaque ao tráfico interprovincial que foi deflagrado pela abolição do tráfico afri-
cano. Não há dúvida de que as transferências de escravos entre as províncias assu-
miram proporções sem precedentes no terceiro quartel do século. E nem poderia
ser de outra forma: com o fechamento da fonte africana, as condições econômicas
muito divergentes que prevaleciam nas diferentes regiões do Brasil só poderiam
resultar em fortes pressões para realocação da força de trabalho servil entre elas.
A economia da região Sudeste vivia uma excelente fase: o café estava em rápida
expansão em Minas Gerais e no Oeste Paulista, e mesmo no Vale do Paraíba flu-
minense havia algum crescimento localizado. Depois da metade do século, a pro-
dução de suas seções mais antigas estava em declínio, mas novas terras cafeeiras
estavam sendo abertas na parte ocidental do vale, em áreas fronteiriças a Minas e
ao Espírito Santo257.
As condições econômicas eram muito piores no Nordeste, cujo principal setor
exportador – o açucareiro – permaneceu enredado em uma crise crônica durante
a maior parte do século. Além disso, e mais importante do que a própria estagna-
ção do açúcar, as províncias do Nordeste começaram, nesse período, a substituir
escravos por trabalhadores livres num ritmo relativamente rápido. Nesta região,
por volta da metade do século, a maior parte das terras cultiváveis já tinha sido
apropriada, e já havia claros sinais de pressão populacional sobre os recursos natu-
rais, até mesmo em áreas do sertão semi-árido. A resultante massa de camponeses
sem terra tornou-se uma fonte de mão de obra barata e voluntária, que permitiu
aos proprietários se desfazerem gradualmente de seus escravos, vendendo-os em
quantidades crescentes para os vorazes mercados do Sudeste.258

257 Ver a tabela 3.2 e Mello. The Economics of Labor, p. 78.


258 A transição para o trabalho livre no Nordeste tem sido mais estudada na província de Pernambuco.
Estima-se que, no início da década de 1870, cerca de metade do açúcar da província já era produzido
por mão de obra livre. Nas áreas algodoeiras, durante o surto exportador causado pela Guerra Civil

154 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Entretanto, até a década de 1870, o volume dessas transferências não parece
ter sido tão grande quanto se costumava acreditar. O censo de 1872 revelou que
somente 18.513 escravos nascidos no Norte e no Nordeste estavam vivendo nas
províncias do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Este número
representava apenas 3,6% dos escravos nascidos nas onze províncias situadas ao
norte de Minas. O fluxo do Sul era ainda menos importante: de um total de 86.858
escravos nascidos no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, somente
1.569 (1,8%) residiam no Sudeste.259
Rio de Janeiro e São Paulo foram os principais importadores. O setor cafeeiro
fluminense se encontrava estagnado, mas apenas para manter sua força de traba-
lho estabilizada no nível do meado do século, foi necessário um grande volume
de importações. Em São Paulo, a expansão do café gerou uma forte demanda por

Americana, aparentemente a transição estava ainda mais avançada. Várias fontes relatam que na
metade da década de 60, eram empregados quase exclusivamente trabalhadores livres na agricultura
do Ceará e que o trabalho assalariado estava também sendo utilizado em escala crescente no Rio
Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Maranhão. Vejam-se: Perdigão Malheiro. A Escravidão no Brasil,
p. 460; Aureliano Cândido Tavares Bastos. A Província. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2ª. ed., 1937,
p. 245; Herbert Huntington Smith. Brazil: The Amazons and the Coast. New York: Scribner’s Sons, 1879,
p. 444, 470; Peter L. Eisenberg. The Sugar Industry of Pernambuco. Modernization without Change,
1840-1910. Berkeley: University of California Press, 1974; Peter L. Eisenberg. Abolishing Slavery: The
Process on Pernambuco’s Sugar Plantations. Hispanic American Historical Review 53 (4) (December
1972); John H. Galloway. The Sugar Industry of Pernambuco during the Nineteenth Century. Annals
of the Association of American Geographers 58 (2) (June 1968); John H. Galloway. The Last Years of
Slavery on the Sugar Plantations of Northeastern Brazil. Hispanic American Historical Review 51 (4)
(November 1971); Manuel Correia de Andrade. A Terra e o Homem no Nordeste. São Paulo: Editora
Brasiliense, 1963; Roger L. Cunniff. The Great Drought: Northeast Brazil, 1877-1880. Tese de doutorado,
University of Texas, 1970; Jaime B. G. Reis. Abolition and the Economics of Slaveholding in North East
Brazil. Boletin de Estudios Latinamericanos y del Caribe 17 (1974); Jaime B. G. Reis. Brazil: The Peculiar
Abolition. Ibero-Amerikanishes Archiv N. F. Jg 3 H.3 (1977); Jaime B. G. Reis. From Banguê to Usina:
Social Aspects, Growth and Modernization in the Sugar Industry of Pernambuco, Brazil, 1850-1920. In:
K. Duncan and I. Rutledge (eds.) Land and Labor in Latin America. Cambridge: Cambridge University
Press, 1977; Jaime B. G. Reis. The Impact of Abolitionism in Northeast Brazil: A Quantitative Approach.
In: V. Rubin and A. Tuden (eds.). Comparative Perspectives on Slavery in the New World Plantation
Societies. Annals of the New York Academy of Sciences, volume 292. June 1977.
259 “População em relação à nacionalidade brasileira”. Tabelas provinciais 4 e 5. Recenseamento de 1872.
Como explicado abaixo, há grandes erros de agregação nas tabelas provinciais do censo que registram
a província de nascimento dos habitantes. Nos casos de Minas Gerais e São Paulo usamos as tabelas
paroquiais e corrigimos a agregação, mas para as outras províncias tivemos que usar as tabelas
provinciais. Os dados sobre o local de nascimento dos escravos não são suficientes, é claro, para
descrever o tráfico interprovincial, mas podem oferecer insights valiosos. Outro problema sério é que
não podemos detectar as transferências interprovinciais de escravos nascidos na África. É também
difícil determinar a precisão das informações prestadas ao censo: muitos escravos residentes em Minas
e São Paulo e registrados como nascidos no Rio de Janeiro, podem ter sido nordestinos comprados
no mercado do Rio. De qualquer maneira, mesmo se contiverem muitos erros, as estatísticas de local
de nascimento mostram que o Sudeste não foi invadido por escravos nordestinos, pelo menos até o
Censo do Império.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


155
novos escravos: sua população servil aumentou em um terço entre 1854 e 1874. O
mesmo ocorria no Espírito Santo, que quase dobrou seu pequeno plantel de cativos
entre 1857 e 1872.260 Por outro lado, as províncias nordestinas parecem ter perdido
escravos neste período, sendo a Bahia e Pernambuco provavelmente os maiores
exportadores.261
É dificil determinar com precisão o papel de Minas Gerais no período entre o
fim do tráfico atlântico e o censo, pela falta de dados confiáveis sobre a população
da província na metade do século.262 A evidência disponível é indireta, fragmentada
e frequentemente contraditória.

260 A população escrava do Rio de Janeiro aumentou apenas de 293.554, em 1850, para 306.425 escravos
em 1872. Em São Paulo, o aumento foi de 117.731 em 1854 para 156.612 em 1874, e no Espírito Santo
de 11.819, em 1857, para 22.659 em 1872. Usando uma taxa de crescimento interno de – 10 por mil
por ano, estimamos que essas províncias importaram, em termos líquidos, 79.415, 66.696 e 13.471
escravos, respectivamente, nos períodos mencionados. As fontes são as mesmas da tabela 4.2. Robert
Slenes está certo ao concluir que o tráfico de longa distância não foi muito intenso antes da década de
70, mas sua estimativa de que o conjunto do Sudeste importou somente 110.000 escravos nos anos
1850-1872, é provavelmente muito baixa, a menos que Minas Gerais tivesse perdido cerca de 50.000
escravos no período, o que é totalmente improvável. Veja Slenes. The Demography, pp. 136-38. O caso
mineiro é discutido abaixo.
261 Usando o mesmo procedimento anterior, estimei que Pernambuco exportou 24.637 escravos, em
termos líquidos, entre 1845 e 1872. Dados para a população escrava baiana por volta da metade
do século não foram encontrados, mas os registros de local de nascimento do censo mostram que
mais escravos nascidos na Bahia viviam fora de sua província de nascimento do que aqueles nascidos
em qualquer outra província, enquanto que somente um pequeno número de escravos nascidos em
outras províncias vivia na Bahia. No início da década de 50, a perda de escravos para o Centro-Sul
já estava causando alarme na Bahia. Em 11 de agosto de 1854, um projeto de lei foi apresentado à
Câmara dos Deputados pelo representante baiano João Maurício Wanderley, visando proibir o tráfico
interprovincial de escravos. Embora apoiado por deputados de várias províncias nordestinas, o projeto
foi derrotado pela oposição do Sudeste. É interessante observar que, em sua defesa do projeto,
Wanderley afirmou que os senhores de engenho do norte ainda não tinham começado a vender
seus escravos nessa época. Os escravos exportados para o sul eram originários de áreas urbanas e de
pequenas fazendas, “onde o trabalho poderia ser feito por homens livres”. Conrad. The Destruction,
pp. 65-67.
262 As únicas estimativas que conheço da população escrava de Minas para o período entre a década
de 1820 e o censo são, com exceção de algumas observações casuais em relatos de viajantes, as
de Tomaz Pompeo de Souza Brazil, para 1864, e de Sebastião Ferreira Soares, para 1865. Ambas
são reproduzidas em Perdigão Malheiro. A Escravidão, vol, 2, pp. 150-51, e não são mais do que
chutes, que o Censo de 1872 demonstrou estarem grosseiramente errados. As estimativas do Padre
Pompeo, contudo, foram recentemente usadas por dois autores norte-americanos para sustentar
algumas conclusões ousadas sobre migrações de escravos no período pós-1850. Baseados nesses
números, Thomas Merrick e Douglas Graham concluíram que “até 1864, a velha região nordestina
ainda detinha aproximadamente metade do número total de escravos do país, e mais do que a região
cafeeira do Sudeste. Por volta de 1872, essas posições relativas tinham mudado abruptamente, com
o Sudeste abrangendo quase 60 por cento da população escrava, e o Nordeste somente 32 por cento.
Portanto, o auge das transferências inter-regionais de escravos no Brasil ocorreu nos anos 1860 e
início da década de 70”. Merrick and Graham. Population and Economic Development, pp. 65-66. Esses
autores ignoraram a forte advertência sobre a precariedade das estimativas, na mesma página em

156 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Observadores contemporâneos tenderam a enfatizar as exportações de escravos
de algumas regiões mineiras, mas outras fontes indicam o contrário. As inferências
que podem ser feitas a partir dos dados populacionais incompletos existentes para
a década de 1850 e do censo de 1872 sugerem que a província como um todo era
uma importadora líquida, ou uma exportadora líquida insignificante de escravos.
As condições econômicas eram muito variadas dentro do “mosaico mineiro” e o
padrão do tráfico era, consequentemente, bastante complexo. Alguns locais esta-
vam perdendo escravos para outras partes da província e para outras províncias,
enquanto outras regiões mineiras os estavam importando, através de fontes tanto
intraprovinciais como interprovinciais.263 Embora difícil de ser fixado com pre-
cisão, o impacto líquido das transferências sobre o conjunto da província parece
ter sido pequeno. Durante esse período, encontramos, pela primeira vez, referên-
cias a exportações de escravos de Minas. Sebastião Ferreira Soares registra que um
pequeno número de escravos mineiros foi enviado ao mercado do Rio de Janeiro
durante os anos 50.264
Em São João del Rei, em 1867, o Capitão Richard Burton foi informado que
os escravos eram um “elemento em rápido declínio”, tendo sido “principalmente
vendidos aos distritos agrícolas do Rio de Janeiro.” Em Diamantina, disseram-lhe
que os cativos “estavam sendo negociados para as províncias cafeeiras”, e que os
mineradores arruinados estavam muito animados com a perspectiva da imigração

que obtiveram os números. Se estivessem corretas, elas implicariam em que pelo menos 360.000
escravos teriam mudado de província no curto período de oito anos entre 1864 e 1872. O Nordeste
teria perdido, em termos líquidos, 287.000 cativos, enquanto as quatro províncias do Sudeste teriam
ganho mais de 300.000. Pernambuco e Bahia teriam exportado, respectivamente, 153.000 e 108.000
escravos, e Minas Gerais, sozinha, teria recebido um contingente líquido de 154.000 escravos. Essas
implicações devem ser comparadas, por exemplo, com o fato de que em 1873 Minas Gerais tinha
somente 8.578 escravos nascidos em outras províncias, ou com as estimativas recentes de que, em
todo o período de 1850-1888, o tráfico de escravos entre o Centro-Sul e o resto do país não envolveu
mais do que 200.000 indivíduos. Veja Slenes. The Demography, pp. 136-38 e Klein. The Internal Slave
Trade, p. 98. No cálculo das transferências que seriam decorrentes dessas estimativas, usamos a taxa
de crescimento interno de – 12,8 por mil por ano para o conjunto do Brasil, que está implícita nas
populações escravas de 1.715.000 em 1864 (estimativa de Pompeo) e 1.546.880 em 1872 (censo).
263 Tomei emprestada de John Wirth a caracterização de Minas como um mosaico de áreas econômicas
diversificadas e fracamente articuladas entre si. O reconhecimento de que as condições locais
variavam entre as regiões mineiras e que havia um ativo tráfico de escravos entre elas não significa
concordar que essas transferências fossem um fluxo unidirecional das áreas não-cafeeiras para as
áreas cafeeiras.
264 Sebastião Ferreira Soares. Notas Estatísticas sobre a Produção Agrícola e Carestia dos Gêneros
Alimentícios no Império do Brasil. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1977, p. 135. Segundo Ferreira Soares,
“pelo menos 305 escravos” foram enviados todos os anos de Minas e do Rio Grande do Sul para o Rio
de Janeiro.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


157
de Confederados dos Estados Unidos: “que o Senhor os traga: (...) e logo eles terão
ocupação para nossos inúteis escravos! ” De Januária, no norte de Minas, Burton
escreveu que “desde algum tempo os escravos vinham sendo negociados para o Rio
de Janeiro, e recentemente trinta deles tinham sido enviados para lá. ”265
Os relatos dos viajantes devem, muitas vezes, ser tomados cum grano salis. No
caso de São João del Rei, por exemplo, a informação está pura e simplesmente
errada: o censo do Império revelou, em 1873, que o município possuía 8.092 escra-
vos, e não os 1.350 relatados por Burton em 1867. Nossas estimativas mostram que
ele certamente foi um importador líquido de cativos, talvez um importador pesado,
entre o final dos anos 1850 e o censo.266
É possível, contudo, que Burton estivesse certo com relação à região diaman-
tina, que estava envolvida em uma grave crise no final dos anos 60 e, principal-
mente, durante a década de 1870. O segundo rush diamantino, deflagrado pela
liberação da mineração em 1832, tinha sido abruptamente interrompido pelas des-
cobertas na África do Sul, e o boom do algodão, um dos principais produtos da
região, entrou em colapso com a recuperação da oferta norte-americana após a
Guerra da Secessão. A rapidez desses processos, aliada à falta de alternativas em
uma área pobremente dotada para a agricultura, pode ter gerado desemprego na
força de trabalho servil da região.267 Em 1876, foi inaugurada uma fábrica de teci-
dos de algodão, fundada pelo Bispo de Diamantina, com a intenção explícita de
“aliviar o desemprego dos trabalhadores no diamante afetados pelas descobertas na
África do Sul.”268

265 Burton. Explorations, vol. 1, pp. 114-15, vol. 2, pp. 104, 260.
266 Veja a tabela 4.5, abaixo.
267 Essa situação – uma crise econômica localizada, causada por acontecimentos em mercados externos,
em virtude da qual escravos teriam ficado sem ocupação – constitui um caso muito incomum no
cenário econômico mineiro do século XIX. Como mostraremos no capítulo 5, a economia provincial
(com exceção do setor cafeeiro) era quase inteiramente voltada para mercados locais, não sendo,
portanto, vulnerável a flutuações nos mercados internacionais. A natureza quase autárquica das
unidades produtivas e seu relativo isolamento dos mercados davam a elas condições de reter seus
escravos, independentemente do que acontecesse no resto do mundo. A fragilidade da região
diamantina em relação ao mercado internacional de gemas, agravada por seu envolvimento na
cotton famine da Inglaterra, causada pela guerra civil dos Estados Unidos, foi, portanto, uma situação
conjuntural e atípica.
268 Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, p. 26. A fonte não especifica que estes trabalhadores
desempregados eram escravos. É muito improvável que um grande número de escravos fosse
usualmente empregado no cultivo de algodão, que era predominantemente uma cultura camponesa
(veja o capítulo 5). Entretanto isto pode ter se modificado durante a bolha causada pela cotton
famine, a exemplo do que aconteceu nas províncias nordestinas. A afirmação de que escravos foram
transferidos dos distritos algodoeiros em retração no norte de Minas para as zonas cafeeiras de São

158 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Há também evidencias de que, na segunda metade da década de 1860, escravos
mineiros estavam sendo contratados para trabalhar em plantações de café de São
Paulo. O Dr. J. McFaden Gaston, da Carolina do Sul, que visitou aquela província
em 1865 como scout para uma possível imigração de Confederados desenganados,
foi informado, por um importante fazendeiro, que turmas de escravos de Minas
podiam ser contratadas para a derrubada das matas e formação de novos cafezais.
Outro agricultor o informou que escravos mineiros eram alugados ao preço de 40
a 60 dólares por ano.269 Isto é confirmado pelo relatório de João Pedro Carvalho de
Moraes, em 1870, sobre a questão do trabalho na cafeicultura paulista, que informa
que alguns dos empreiteiros de formação de cafezais eram mineiros que tinham
migrado com seus escravos.270
Em sua monografia sobre o município cafeeiro paulista de Rio Claro, Warren
Dean localizou contratos “para o plantio de mais de um milhão de pés por emprei-
teiros que, juntos, introduziram 332 escravos no município”, entre 1864 e 1878.271
Não é claro, entretanto, que esses escravos eram originários de áreas não-cafeeiras
de Minas. A afirmação de Dean, de que eles foram trazidos de “regiões menos
favorecidas, como a área central de Minas Gerais”, é contrariada pela observação do
Dr. Gaston, segundo a qual, “esses negros tinham sido, até então, empregados em
fazendas de café que tinham deixado de ser lucrativas naquela região [Minas].”272
Outras evidências sugerem que, apesar desses depoimentos, Minas Gerais não
poderia ter sido uma exportadora líquida de escravos, mesmo modesta, nesse perí-
odo. Estimativas baseadas em dados sobre a população escrava de 27 municípios
mineiros (cerca de metade do total da província) em meados da década de 1850 e
no censo de 1872 mostram um saldo líquido altamente favorável à província (con-
trariamente à prática usual na literatura sobre comércio, estamos usando o termo
“favorável” para designar um excesso das importações sobre as exportações).
Esta é uma estimativa parcial, que reflete tanto o tráfico interprovincial como
também os fluxos intraprovinciais, entre os próprios municípios mineiros. É bem
provável, conforme sugerido por outras evidências discutidas abaixo, que o ganho
líquido total da província fosse menor do que a soma das importações líquidas

Paulo e da Zona da Mata encontra-se em Daniel de Carvalho. Notícia Histórica sobre o Algodão em
Minas. Rio de Janeiro: Typografia do Jornal do Comércio, 1916, p. 18.
269 Gaston. Hunting a Home, pp. 125, 193.
270 Moraes. Relatório apresentado ao Ministério da Agricultura, p. 69.
271 Dean. Rio Claro, pp. 35, 55. 205.
272 Dean. Rio Claro, p. 35; Gaston. Hunting a Home, p. 125.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


159
destes municípios. Em tese, é até mesmo concebível que os 25 municípios não
incluídos tivessem um saldo negativo grande bastante para superar as importações
dos 27 incluídos, tornando, portanto, a província em exportadora líquida de escra-
vos nessa época.
É muito pouco provável, no entanto, que esta inclusão pudesse transformar
Minas em uma grande exportadora. Dentre os municípios omitidos, alguns pou-
cos, como Abaeté, Desemboque, Rio Pardo e Grão Mogol eram distritos diaman-
tinos, que podem ter estado em crise durante o período. Por outro lado, alguns
deles, como Leopoldina, Muriaé, Juiz de Fora e Rio Preto, eram distritos cafeeiros
em franca expansão, e estavam certamente entre os maiores importadores. A maior
parte, como, por exemplo, aqueles localizados na Zona Sul, eram áreas agrícolas e
pecuárias diversificadas e prósperas, que podem ter perdido alguns, mas não um
grande número de cativos.273

Tabela 4.5 - Estimativas das importações de escravos


por 27 municípios mineiros, 1854 - 1873

Município Importações r* Município Importações r*


líquidas líquidas

Queluz 8.854 35,6 Lavras 3.968 19,7


Bonfim 1.859 8,0 Formiga -375 -14,6
Sabará 12.752 50,6 Tamanduá 3.598 26,2
S. José del Rei -954 -21,7 Pium-í 2.595 37,3
Mariana 7.633 20,0 Pitanguí -712 -14,8
Itabira 1.103 2,4 Patrocínio 9.507 64,7
Santa Bárbara 5.615 49,5 Januária -137 -15,4
Caeté -249 -14,0 M. Claros 2.766 33,1
S. João del Rei 2.903 19,2 Serro 3.096 8,6
M. de Espanha 13.021 39,4 Diamantina 36 -9,7
Ubá 7.476 26,0 Minas Novas 2.179 1,2
Pomba 2.714 12,7 Paracatu -3.983 -53,9
Cristina 1.759 12,8 Uberaba -912 -21,6
Aiuruoca -697 -14,3 Total 85.415
Nota: r = taxa de crescimento interno da população escrava, e r* = valor crítico de r.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

273 A economia do Sul de Minas estava muito saudável nessa época. O principal produto de sua agricultura
comercial era o fumo, cujas exportações para outras províncias cresceram de 134.270 arrobas, em
1844-45 para 282.090 arrobas, em 1867-68, num salto de 210%. As exportações de queijos, outro
artigo importante da região, embora não exclusivo dela, cresceram, no mesmo período, de 395.202
para 545.401 unidades.

160 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Como já foi mencionado acima, o valor crítico da taxa de crescimento interno
(r*) é definido como o valor limite além do qual o saldo líquido do tráfico mudaria
de sinal (transformando o município de importador em exportador, ou vice-versa).
Assim, por exemplo, se o valor crítico para Queluz é r* = 35,6, isso significa que,
dados os plantéis inicial e final, este município teria sido um exportador líquido
de escravos no período se, e somente se, sua população escrava estivesse crescendo
internamente a uma taxa mais alta do que 35,6 por mil por ano.274
Os valores de r* podem, portanto, ser usados para avaliar a confiabilidade da
direção dos fluxos estimados do tráfico. Estes valores mostram que, mesmo man-
tendo reservas com relação aos números estimados, podemos ter bastante confiança
com respeito à separação dos municípios entre importadores ou exportadores de
escravos. Podemos admitir uma razoável margem de erro na taxa de crescimento
interno adotada na estimativa, ou uma ampla variação dessa taxa entre os muni-
cípios, sem que isso acarrete mudanças significativas nos sinais dos seus saldos
migratórios líquidos.
Assim, por exemplo, se a taxa real divergir da adotada (– 10 por mil por ano),
mas se situar em qualquer ponto do intervalo entre – 8 a – 12 por mil por ano (uma
variação de 20% para cada lado da taxa adotada), isso poderia provocar a rever-
são do sinal de, no máximo, um saldo líquido municipal. Da mesma forma, uma
variação da taxa real de 50% para cada lado da taxa adotada (entre – 5 e – 15 por
mil por ano) poderia inverter os sinais dos saldos líquidos de, no máximo, cinco
municípios. As estimativas sugerem que houve uma considerável movimentação de
escravos dentro das fronteiras provinciais, mas não indicam um padrão claramente
perceptível. Os três municípios cafeeiros incluídos (Mar de Espanha, Ubá e Pomba)
eram fortes importadores líquidos, mas outros dezesseis municípios localizados
fora da região de grande lavoura cafeeira, incluindo a maioria dos antigos distritos
mineradores incluídos na tabela também o eram.
Outro conjunto importante de dados são as estatísticas de província de nas-
cimento versus local de residência (paróquia), registradas pelo censo de 1872. A
primeira surpresa desses dados é o pequeno número de escravos africanos recen-
seados em Minas. À primeira vista, dadas as maciças importações de africa-
nos feitas pela província antes de 1851, este número – apenas 27.946 indivíduos
– sugeriria que Minas estaria exportando africanos durante o terceiro quartel do
século. Entretanto, há fortes motivos para suspeitar desses dados. Como o tráfico

274 O valor de r* é obtido fazendo T = 0 na equação Pt = Po (1+r) t + T (1+r) t/2, e resolvendo para r.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


161
internacional se tornara ilegal desde 1831, a grande maioria dos escravos africanos
existentes na época do censo tinha entrado no país ilegalmente, como contrabando
e era, portanto, livre.
Somente mais tarde os abolicionistas adotaram a tática de levar esses casos aos
tribunais, mas o problema dos “africanos livres” e das importações ilegais já era uma
questão importante e motivo de sérios confrontos entre o Brasil e a Inglaterra há
várias décadas.275 Os senhores de escravos, e o próprio governo brasileiro tinham,
portanto, motivos de sobra para esconder a origem africana de seus cativos, e apa-
rentemente o fizeram em larga escala nas respostas ao recenseamento. Muito tem
sido dito na historiografia sobre a falsificação das idades dos africanos, para escon-
der sua importação ilegal, mas não se deu nenhuma atenção, até agora, a este outro
tipo de fraude. A conclusão sobre sua ampla ocorrência parece inevitável.
A comparação do número de africanos importados entre 1819 e 1851, com o
número de africanos sobreviventes recenseados em 1872, indica que a taxa bruta de
mortalidade dos africanos no Brasil estaria entre 60 e 70 por mil por ano, durante o
período de 1818 a 1872. Essa taxa seria o triplo daquela estimada por Slenes para o
conjunto da população escrava durante a década de 1870, e duas vezes mais alta que
a taxa de mortalidade de escravos africanos na Jamaica, registrada por Higman.
Esta taxa anormalmente alta corrobora a hipótese de uma grande sub-enumeração
dos escravos africanos no censo do Império.276

275 As palavras do futuro primeiro ministro, Gladstone, em 1850, definem bem a atitude e o humor do
governo britânico com relação ao assunto: “Temos um tratado com o Brasil, que foi quebrado por
ele todos os dias, nos últimos vinte anos. Tentamos garantir o direito dos emancipados; conseguimos
fazer com que os brasileiros declarassem ser crime a importação de escravos no Brasil. Este tratado
foi repetidamente violado e temos pleno direito de exigir seu cumprimento e, se temos o direito de
exigí-lo, temos o direito de fazê-lo na ponta da espada, em caso de recusa. Temos agora pleno direito
de ir até o Brasil e exigir a emancipação de todos os escravos importados desde 1830 e, diante de
uma recusa, guerrear contra ele até o extermínio”. William Ewart Gladstone, citado por W. D. Christie.
Notes on Brazilian Questions. London and Cambridge: Macmillan and Co., 1865, pp. 81-82. Gladstone
se refere, é claro, à convenção anglo-brasileira de 1826, que proibia o tráfico de africanos a partir de
1830. A palavra emancipados está em português no original.
276 Sobre a falsificação das idades dos escravos africanos, veja, por exemplo, Conrad. The Destruction,
pp. 215-16. Para estimar a taxa de mortalidade dos africanos, usamos a equação apresentada no item
2 do apêndice B, com Po e Pt significando, neste caso, as populações inicial e final de escravos nascidos
na África. O número de africanos sobreviventes em 1872 é dado pelo censo (138. 560). Para gerar o
limite inferior da taxa, supusemos que não havia nenhum escravo africano em 1819: isto produz uma
taxa bruta de mortalidade (desprezando as manumissões) de 62 por mil por ano. Assumindo que os
africanos constituíssem 20% da população escrava de 1819, a taxa de mortalidade estimada sobe para
66 por mil por ano. É claro que quanto maior for a população africana inicial (mantendo constante o
número de sobreviventes, ou população africana final) mais alta será a taxa de mortalidade resultante.
Robert Slenes concluiu que as taxas de mortalidade entre os escravos no Brasil foram provavelmente

162 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Os dados sobre a província de residência dos escravos nascidos no Brasil reve-
lam que apenas 11.563 (3,3%) dos escravos nascidos em Minas residiam em outras
províncias. Na mesma data havia 8.578 cativos nascidos em outras províncias
vivendo em Minas Gerais (2,3% dos escravos residentes em Minas). Esses números
sugerem que a província pode ter tido um saldo ligeiramente desfavorável no trá-
fico com seus vizinhos nos anos anteriores ao censo.277

Tabela 4.6 - Local de residência dos escravos nascidos em Minas


e local de nascimento dos escravos residentes em Minas, 1872
Províncias Província de Porcentagem Porcentagem Província de Porcentagem
residência dos dos escravos dos escravos nascimento dos escravos
nascidos em nascidos em da província dos residentes residentes em
Minas Minas de residência em Minas Minas
São Paulo 4.018 1,16 2,56 1.309 0,35
Rio de Janeiro 3.704 1,07 1,26 3.757 1,01
Goiás 1.311 0,38 12,31 185 0,05
Espírito Santo 756 0,22 3,33 97 0,03
Município Neutro 728 0,21 1,48 (**) (**)
Bahia 542 0,16 0,32 2.094 0,57
Pernambuco 7 (*) (*) 667 0,18
Outras exceto Minas 497 0,14 0,14 469 0,13
Minas Gerais 333.853 96,65 90,14 333.853 90,14

Nascidos em Minas 345.416 100,00 333.853 90,14

Nascidos no Brasil 342.431 92,45

Nascidos na África 27.946 7,55

Residentes em Minas 370.377 100,00


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

mais altas no início do século XIX do que mais tarde no mesmo século, mas não dramaticamente. Mesmo
considerando que, pelas razões já mencionadas, a taxa de mortalidade africana era certamente mais
alta do que a dos crioulos, as taxas implícitas calculadas acima são exageradamente altas, indicando
erro ou fraude no número de africanos registrado pelo censo. Slenes. The Demography, pp. 354-63; e
Higman. Slave Population, p. 109.
277 A fonte desses números são as tabelas paroquiais de Minas Gerais. Os dados sobre o local de
nascimento do censo devem ser usados com cuidado. As tabelas provinciais contêm enormes erros. A
tabela “Província de Minas Gerais. População em relação à Nacionalidade Brasileira”, na parte 9, vol.
2, p. 1.084, por exemplo, registra somente 793 escravos nascidos em outras províncias e vivendo em
Minas Gerais.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


163
O padrão do tráfico indicado pelos dados de residência/nascimento é bem dife-
rente daquele sugerido na historiografia. Em primeiro lugar, estes números contes-
tam a ideia, transmitida por alguns relatos da segunda metade do século, de que
Minas Gerais era uma grande fornecedora de trabalhadores para o setor cafeeiro
do Rio de Janeiro. Na verdade, segundo o recenseamento, havia mais escravos flu-
minenses residindo em Minas (3.757), do que escravos mineiros morando na pro-
víncia do Rio de Janeiro (3.704).278
A esmagadora maioria dos escravos mineiros vivendo fora de Minas (96,9% do
total) estava localizada em províncias lindeiras, em muitos casos em municípios
situados junto da divisa. Nenhuma província detinha uma porcentagem superior
a 1,2 porcento do total dos escravos nascidos em Minas e, em nenhum caso, com
exceção de Goiás, onde os escravos nascidos em Minas representavam 12,3 por-
cento da população cativa, as transferências de cativos mineiros significaram mais
que um impacto trivial sobre a população escrava da província receptora.
Os dados sobre o local de nascimento sugerem que, longe de ser um fluxo forte
e unidirecional em direção a áreas cafeeiras, o que estava de fato ocorrendo era um
border trade sem um padrão definido.279
Estes dados também revelam que uma parte considerável das transferências
interprovinciais de escravos mineiros estava associada a migrações de mineiros
livres, pequenos proprietários de escravos. Em São Paulo, pelo menos 36% dos
escravos mineiros não estavam nas áreas da grande lavoura cafeeira. Dos quinze
municípios paulistas com maior número de escravos nascidos em Minas, sete esta-
vam situados além da fronteira cafeeira da época, e em alguns outros o cultivo do
café era incipiente. A área de maior concentração – a zona da Mogiana, adjacente à
divisa sudoeste de Minas Gerais – estava apenas começando a ser colonizada, e era
um dos destinos favoritos dos migrantes mineiros. A colonização desta região foi
feita quase exclusivamente por mineiros – fazendeiros e criadores, não cafeiculto-
res – que ocupavam terras virgens além da fronteira do café, se estabeleciam como
posseiros e viviam da agricultura de subsistência e da criação de gado.

278 A maioria dos escravos mineiros no Rio de Janeiro (2.992 de 3.704) estava em áreas cafeeiras, e o
mesmo ocorria com os escravos fluminenses residentes em Minas (2.182 de 3.757).
279 Robert Slenes apresenta uma visão semelhante, embora menos incisiva, concluindo que “está claro
que nenhuma redistribuição maciça da população escrava ocorreu no Centro-Sul durante as décadas
de 50 e 60”. Não podemos, entretanto, compartilhar de sua afirmação de que “a grande maioria dos
escravos mineiros em 1872 eram residentes de seu município de origem”. O censo registrou apenas a
província de nascimento dos escravos, e não o município. Ver Slenes. The Demography, pp. 142-43. Os
itálicos são meus.

164 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
A maioria dos municípios com números relativamente altos de escravos minei-
ros – como São João da Boa Vista, Mococa, Batatais, Mogi-mirim, Franca e Caconde
se localizava nesta região. Os primeiros povoadores de todos estes lugares tinham
sido mineiros e todos eram áreas de forte imigração mineira. Outros locais com
grandes contingentes de escravos de Minas, como Rio Verde, Botucatu e Sorocaba
(na região da Sorocabana) ou São Carlos do Pinhal (na região da Paulista) eram
também áreas de colonização mineira. Outros ainda, como Itatiba, Taubaté, Belém
do Descalvado e Brotas, não eram fruto de colonização mineira, mas eram focos
de imigração relativamente intensa de mineiros livres. Somente em Campinas (347
escravos mineiros) e Limeira (113 escravos mineiros) encontramos contingentes
relativamente grandes de escravos mineiros não associados a uma grande popula-
ção de mineiros livres.280 No conjunto da província de São Paulo, a correlação, por
regiões, entre a presença de escravos mineiros e a de mineiros livres era bastante
alta (r = 0,72), sendo ainda maior (r = 0,84), por municípios, na zona da Mogiana.
Por outro lado, estudos sobre a região cafeeira paulista mostram que, nesse
período, o recrutamento de mão de obra para o café foi feito principalmente em
fontes intraprovinciais, especialmente através da transferência de escravos das
áreas urbanas para as rurais, e da pequena lavoura para a grande lavoura.281 Warren
Dean verificou que, em Rio Claro, “até bem tarde na década de 1860, o suprimento
de escravos continuou vindo de municípios próximos.”282 As importações interpro-
vinciais nesse período foram de importância secundária no recrutamento de mão
de obra para a cafeicultura paulista, e em particular, aquelas originárias de Minas
Gerais, foram totalmente insignificantes. Em Campinas, que nessa época era o cen-
tro da região cafeeira paulista e o mercado de escravos mais ativo da província, uma

280 As maiores concentrações de escravos mineiros estavam em São João da Boa Vista (onde os mineiros
representavam 27,8% da população escrava), Rio Verde (23,4%) e Mococa (16,0%). Nestes municípios,
os mineiros livres eram 26,8%, 21,1% e 26,8% da população livre, respectivamente. Nos casos de
Campinas e Limeira, os escravos de Minas eram parcelas sem importância da população escrava total
dos municípios (2,5% e 3,7%, respectivamente). A fonte desses dados é o censo de 1872. Sobre a
colonização de pioneiros mineiros em São Paulo, veja Pierre Monbeig. Pionniers et Planteurs de São
Paulo. Paris: Librairie Armand Colin, 1952, pp. 116-20; e Leite. Paulistas e Mineiros, Plantadores de
Cidades, 2ª. parte, O Grande Refluxo, pp. 165-257.
281 Veja Samuel H. Lowrie. O Elemento Negro na População de São Paulo. Revista do Arquivo Municipal
48. São Paulo (junho de 1938), pp. 13-15. Sebastião Ferreira Soares, importante economista contem-
porâneo, argumentou que a realocação de mão de obra escrava da pequena lavoura para as planta-
ções de café no Rio de Janeiro e São Paulo, no período imediatamente posterior ao fim do tráfico afri-
cano, foi a principal causa da forte inflação nos preços dos alimentos observada no período. Ferreira
Soares. Notas Estatísticas, p. 137.
282 Dean. Rio Claro, p. 54.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


165
amostra de cinco grandes fazendas (com uma média de 108 escravos por fazenda)
em 1872-73 revela que, dos 523 escravos cuja origem era conhecida, 19,9% tinham
vindo da África, 47,0% da própria província de São Paulo, 31,7% de outras provín-
cias brasileiras, e somente 1,3% de Minas Gerais.283
Em outras províncias também se observa uma robusta associação entre a pre-
sença de escravos mineiros e de mineiros livres. Goiás foi outra região de forte
imigração mineira durante todo o século, e em 1872 quase 8,0% de sua popula-
ção livre era nativa de Minas Gerais. O coeficiente de correlação (por municí-
pios) entre mineiros livres e escravos mineiros é igual a 0,80.284 No Espírito Santo,
96,3% dos escravos mineiros estavam concentrados em apenas dois municípios
do sul da província, Cachoeiro do Itapemirim e Itapemirim, os quais também
detinham 77,3% dos mineiros livres nela residentes. Esta região era uma área
cafeeira incipiente, mas em rápido crescimento, e a presença relativamente forte
de mineiros sugere que a expansão de café no Espírito Santo tem relação com
esses fluxos migratórios. No conjunto da província, o coeficiente de correlação
(por municípios) entre mineiros escravos e livres é igual a 0,98.285 O Mato Grosso
não era uma região de imigração mineira muito significativa, mas ali também a
localização dos poucos escravos de origem mineira era fortemente associada à
dos mineiros livres (r = 0,93).
O envolvimento da província como importadora no tráfico interprovincial de
longa distância também era pequeno: 86,8% dos escravos naturais de outras pro-
víncias e residentes em Minas tinham origem em províncias limítrofes. Somente
12,3% vinham do Nordeste (excluindo a Bahia), e menos de 1,0% vinham das três
províncias do Sul.
Como se poderia esperar, a Zona da Mata era, de longe, a mais ativa região
importadora mineira, tanto no tráfico de fronteira como no de longa distância. Ela
detinha, em 1873, 49% de todos os escravos nascidos em outras províncias, seguida
pela região Sul com 19,7%, e pela Metalúrgica-Mantiqueira, com 11,5%. A parte
da Mata que continha a região cafeeira mineira continha 42,8% dos escravos não

283 Slenes. The Demography, pp. 113-34.


284 Viajantes do início do século XIX que visitaram Goiás mencionam a migração de mineiros para aquela
província. Pohl, por exemplo, descreve uma povoação de 100 agricultores mineiros na região de Santa
Cruz, no final da década de 1810. Pohl. Viagem, p. 238.
285 O principal porto da região, o porto de Itapemirim exportou 2.081 toneladas de café (46,2% do total
provincial) em 1873; 3.296 toneladas (31,6% do total) em 1883-84, e 5.648 toneladas (30,6% do total)
em 1884-85. Durante esse período, foi o maior porto de café do Espírito Santo. Taunay. História do
Café, vol. 6, pp. 300, 308-09.

166 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
nascidos em Minas e, consequentemente, a maior parte dos escravos de fora da
província (57,2%) residia em áreas não-cafeeiras.

Tabela 4.7- Local de nascimento dos escravos residentes em Minas Gerais em 1873,
por região de residência
 Região de residência Local de nascimento Porcentagem de nascidos em

Outras África Minas Todos Outras África Minas


províncias Gerais províncias Gerais

Metalúrgica-Mantiqueira 985 6.755 86.393 94.133 1,0 7,2 91,8


Mata 4.205 8.256 82.641 95.102 4,4 8,7 86,9
Sul 1.691 6.268 71.938 79.897 2,1 7,8 90,0
Oeste 702 2.382 30.627 33.711 2,1 7,1 90,9
Alto Paranaíba 227 906 17.360 18.493 1,2 4,9 93,9
Triângulo 0 413 7.553 7.966 0,0 5,2 94,8
São Francisco-M. Claros 55 580 6.872 7.507 0,7 7,7 91,5
Paracatu 228 196 2.215 2.639 8,6 7,4 83,9
Jequit.-Mucuri-Doce 485 2.190 28.254 30.929 1,6 7,1 91,4

Minas Gerais 8.578 27.946 333.853 370.377 2,3 7,5 90,1


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

8 7
9

6 5
4 1

2
3

Regiões: 1. Metalúrgica-Mantiqueira; 2. Mata; 3. Sul; 4. Oeste; 5. Alto Paranaíba;


6. Triângulo; 7. São Francisco-Montes Claros; 8. Paracatu; 9. Jequitinhonha-Mucuri-Doce.
Veja no Apêndice B a lista dos municípios incluidos em cada região.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


167
Os dados também sugerem que a Zona da Mata (e sua área cafeeira, em parti-
cular), podem ter importado mais africanos do que as outras regiões, individual-
mente, nos últimos anos do tráfico atlântico, pois ela também lidera a província na
quantidade de escravos nascidos na África. No entanto, isto é apenas uma conjec-
tura, já que esses africanos poderiam ter sido adquiridos em qualquer época ante-
rior ao censo, em outras províncias ou em outras regiões de Minas.

Tabela 4.8 - Brasil: Características de sexo e idade da população escrava,


por províncias ou regiões, 1872
Província de Homens de Escravos de Razão de Razão de Razão de
residência dos 11 a 40 anos 11 a 40 anos masculinidade masculinidade masculinidade
escravos como % dos como % dos dos escravos de dos escravos dos escravos
homens escravos 11 a 40 anos africanos totais
Minas Gerais 60,3 60,6 1,15 1,54 1,16
São Paulo 58,2 58,1 1,30 1,82 1,30
Rio de Janeiro 51,1 51,3 1,24 1,71 1,25
Norte e Nordeste 54,8 55,7 1,03 1,31 1,06
Demais províncias 51,2 53,8 0,98 1,76 1,09

Brasil 55,4 56,1 1,12 1,61 1,14


Nota: Razão de masculinidade = número de escravos dividido pelo número de escravas.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Devido à natureza seletiva do tráfico interprovincial que, assim como o tráfico


atlântico, envolvia mais homens do que mulheres, e mais indivíduos em idades pro-
dutivas do que em outras faixas, os dados sobre sexo e idade registrados pelo censo
fornecem indicações valiosas. No caso de províncias exportadoras de escravos, as
distorções causadas pelas perdas de cativos devem se revelar através de uma razão
de masculinidade mais baixa do que nas províncias importadoras, principalmente
na faixa etária mais produtiva e mais suscetível ao tráfico, e uma relativa escassez
de escravos dos dois sexos nessa faixa etária, especialmente entre os homens. A
maior incidência de alforrias entre as mulheres, que ocorria em todos os lugares,
não afetaria esses resultados, pois não há evidências de variações significativas nas
taxas de manumissão entre as províncias, até a década de 1870.286

286 Só nas décadas de 70 e 80, quando a erosão da escravidão se acelerou nas províncias do Norte e do
Sul, é que surgiram largas discrepâncias entre as taxas provinciais de alforria. No Nordeste, além das
razões já mencionadas, o processo foi fortemente estimulado pela longa seca de 1877-1880. Parece
haver consenso entre os autores recentes sobre a predominância das manumissões de mulheres. As
explicações oferecidas variam de ligações afetivas entre senhores e escravas, pretensas vantagens das

168 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Os dados do censo confirmam as conjecturas feitas acima. As diferenças entre
as províncias não são muito grandes, mas são perfeitamente consistentes com o que
sabemos sobre o tráfico interprovincial desse período. A porcentagem de escra-
vos na faixa etária mais produtiva (11 a 40 anos), tanto dos homens quanto do
total, é nitidamente maior nas províncias de Minas Gerais e de São Paulo, e em
ambas está acima da média nacional. Nas províncias do Norte e do Nordeste e nas
demais (incluindo o Município Neutro) essas porcentagens são menores e estão
abaixo da média nacional. No caso do Rio de Janeiro, outro grande importador,
a parcela do grupo de 11-40 anos é surpreendentemente baixa. A falsificação das
idades dos africanos pode ser a resposta: Todos os africanos importados entre 1831
e 1851 (a grande maioria dos quais teria menos de 40 anos em 1872) eram ilegais,
e um número ignorado, mas presumivelmente grande, deles teria sido declarado
ao recenseador como tendo mais de quarenta anos. Essa fraude foi praticada em
todos os lugares, mas no Rio de Janeiro, que possuía, de longe, o maior contingente
africano, ela certamente distorceu a distribuição etária mais do que nas outras
províncias.
As razões de masculinidade nas províncias do Norte e Nordeste, e nas demais,
são muito mais baixas que as de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, indicando que,
de fato, aquelas províncias estavam exportando cativos para o Sudeste nos anos
anteriores ao censo. A razão de masculinidade dos escravos africanos ainda reflete,
pelo menos em parte, a época do tráfico internacional, confirmando a grande dis-
paridade entre os sexos que se verificava naquele tráfico.
À luz dessa análise é, mais uma vez, muito difícil acreditar que Minas tenha
sido um exportador líquido de escravos, e muito menos um grande exportador.
Possuía as mais altas porcentagens de escravos de ambos os sexos na faixa etária
mais produtiva, e todos os outros indicadores estavam acima das médias do país,
com exceção da razão de masculinidade dos escravos nascidos na África.287

mulheres para a compra de sua liberdade, principalmente nas áreas urbanas, até o seu menor valor
de mercado. Além de outras evidências discutidas pelos autores mencionados abaixo, deve-se notar
que os dados populacionais mostram uma consistente preponderância de mulheres sobre homens
na população livre de cor, durante todo o período da escravidão. Veja: Slenes. The Demography, pp.
484-550; Klein. The Internal Slave Trade, p. 116; Karasch. Slave Life, pp. 490-528, e Stuart B. Schwartz.
The Manumission of Slaves in Colonial Brazil, Bahia 1648-1745. Hispanic American Historical Review
54 (4) (Novembro de 1974). No local indicado acima, Klein faz referência a outros estudos locais que
chegaram à mesma conclusão.
287 A razão de masculinidade dos escravos africanos em Minas era apenas ligeiramente inferior à média
nacional, diferentemente de algumas províncias nordestinas (como Ceará e Sergipe) onde as mulheres
africanas escravas excediam os escravos africanos homens em números absolutos, deixando pouca
dúvida quanto à sua exportação. A possibilidade de pequenas exportações de africanos não pode ser

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


169
Tabela 4.9 - Minas Gerais: Características da população escrava, por regiões, 1873
Regiões Homens Escravos RM dos RM dos RM dos RM da
11 a 40 11 a 40 escravos escravos escravos população
como % como % nascidos nascidos nascidos escrava
dos dos em em outras na África total
homens escravos Minas províncias

Metal.- Mantiqueira 60,4 60,5 1,10 1,60 1,63 1,13


Mata 59,6 59,9 1,18 1,29 1,47 1,21
Sul 62,3 62,4 1,12 1,28 1,58 1,15
Oeste 64,3 63,1 1,08 1,23 1,75 1,12
Alto Paranaíba 56,4 58,0 1,19 1,04 1,50 1,20
Triângulo 47,1 49,5 1,14 * 1,27 1,15
S. Francisco-M. Claros 57,2 57,7 1,11 1,04 1,26 1,11
Paracatu 60,4 63,0 0,92 2,40 2,38 1,06
Jequit.-Mucuri-Doce 59,5 60,5 1,17 1,01 1,28 1,18

Minas Gerais 60,3 60,6 1,14 1,31 1,54 1,16


RM = Razão de masculinidade
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

O mesmo raciocínio pode ser usado para detectar movimentos de escravos


dentro de Minas Gerais. Os dados sugerem fortemente que não ocorreram grandes
realocações nos anos anteriores ao censo. A Zona da Mata apresenta característi-
cas evidentes de uma região importadora. Ela tinha mais escravos africanos, mais
escravos nascidos em outras províncias e um contingente total maior que as outras
regiões, além da mais alta razão de masculinidade total. Mas fica claro que ela não
estava drenando os escravos do resto da província. Outras regiões se equiparavam
a ela, seja com respeito ao tamanho da população cativa, seja nos indicadores da
qualidade – distribuição etária e razão de masculinidade – dessa população como
força de trabalho. A nata da mão de obra escrava, isto é, os jovens adultos do sexo
masculino, estava bem distribuída entre as regiões e, na verdade, várias das áreas
não plantacionistas estavam em uma posição melhor do que a região de plantation,
no tocante à estrutura de idade e sexo da população escrava.
Finalmente, o censo registrou quantos escravos estavam ausentes de suas paró-
quias de residência (o domicílio de seus senhores). Essa informação pode ser usada

descartada, contudo, principalmente em vista da alta razão de masculinidade dos africanos em São
Paulo.

170 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
para estimar um limite máximo do número de escravos alugados ou contratados
para trabalhar nas plantações de café de outras províncias. Em toda a província
de Minas, os escravos ausentes eram apenas 2.886, dos quais 1.776 eram homens e
1.110 eram mulheres. Dada a natureza das tarefas envolvidas na abertura de novos
cafezais, principalmente o pesado trabalho da derrubada de matas virgens, é muito
pouco provável que as mulheres fossem empregadas em quantidade significativa
nessas tarefas.
Entre os escravos homens ausentes, 87,3%, ou 1.551 indivíduos, tinham ida-
des entre 15 a 50 anos, a faixa etária compatível com esse tipo de trabalho. Esse
contigente constituia cerca de 0,4% da população escrava mineira da época e pode
ser considerado o número potencial máximo de escravos contratados para o setor
cafeeiro fora de Minas.
O número real era certamente bem menor, por diversos motivos. Em primeiro
lugar, estes escravos estavam fora de suas paróquias de residência, mas não neces-
sariamente do seu município ou da província. Era uma prática comum dos pro-
prietários alugar ou emprestar, escravos para parentes ou amigos nas vizinhanças,
mas há indicações de que muitos senhores eram relutantes em alugá-los para luga-
res distantes. Além disso, é provável que muitos dos escravos que estavam fora de
suas paróquias não tivessem nada a ver com o café. O governo e os empreiteiros
de obras públicas normalmente usavam escravos alugados para uma variedade de
trabalhos, principalmente para a construção e manutenção de estradas. No final da
década de 1860 e no início da década de 1870, escravos foram largamente empre-
gados na construção das primeiras ferrovias de Minas. As companhias inglesas de
mineração, impedidas desde 1843, pelo Brougham Act, de comprar escravos, eram
também grandes usuárias de mão de obra servil alugada.288
E, é claro, os escravos poderiam estar fora de suas paróquias de residência por
outros motivos além dos mencionados acima: eles poderiam estar acompanhando
seus donos em alguma viagem, ou trabalhando em tropas. Em vista de tudo isso,
está claro que apenas uma fração insignificante de escravos mineiros poderia ter
sido contratada para trabalhar em plantações paulistas de café nesse período.

288 Sobre o trabalho de escravos na construção de estradas em Minas, e a relutância de seus senhores
em alugá-los para trabalhar em distritos distantes, veja Falla... pres. Bernardo Jacinto da Veiga, 1839,
p. 37 e Falla...pres. Bernardo Jacinto da Veiga, 1840, p. 14. Sobre escravos trabalhando na construção
da ferrovia D. Pedro II, veja John Codman. Ten Months in Brazil, p. 76. Já mencionamos acima que
o discurso de Lord Brougham na Câmara dos Lordes, em 2 de agosto de 1842, deixa claro que as
companhias inglesas que operavam em Minas Gerais eram um dos alvos explícitos da medida proposta.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


171
A DÉCADA DE 1870
A década de 1870 assistiu a uma intensificação do tráfico interprovincial, na
qual o Sudeste absorveu escravos do Nordeste e do Sul a uma taxa mais rápida do
que em qualquer outro período.
Os contrastes econômicos regionais esboçados na seção anterior foram aguda-
mente acentuados. Na primeira metade da década, o preço do café atingiu níveis
inéditos, e os produtores responderam com um surto de plantio, em todas as partes
da região cafeeira. Quando as novas plantações alcançaram a maturidade, no iní-
cio da década de 1880, o nível de produção tinha quase quadruplicado no Oeste
Paulista, e mais do que dobrado em Minas Gerais, com relação à primeira metade
dos anos 70. Até mesmo no Vale do Paraíba, o crescimento foi notável: a produção
aumentou em 23% no Rio de Janeiro e em 35% na seção paulista do Vale.289
No Nordeste a transição para o trabalho livre continuou, e foi acelerada pela
grande seca de 1877-79. O frágil equilíbrio entre a população e os recursos naturais
no sertão semiárido foi dramaticamente rompido, forçando centenas de milhares
de sertanejos a buscar sua sobrevivência nas áreas litorâneas. A seca estimulou
a liberação da mão de obra escrava para o Centro-Sul de duas maneiras: por um
lado aniquilou temporariamente a economia do sertão tornando impossível a
retenção de quaisquer escravos que ainda tivesse; e por outro, aumentou forte-
mente a oferta de mão de obra assalariada nas regiões açucareiras do litoral.290
A década de 1870 também assistiu ao fim do surto algodoeiro deflagrado pela
Guerra Civil Americana. A desorganização da produção nos estados do Sul e o
bloqueio dos portos confederados pela União gerou uma cotton famine na indústria
têxtil inglesa, favorecendo outros produtores, como o Brasil e o Egito. As expor-
tações brasileiras, que se originavam em grande parte no Nordeste, tinham quin-
tuplicado, entre 1860 e 1870, e sua fatia do mercado britânico tinha crescido de
menos de 3%, em 1860, para quase 20% em 1872. Em tempos normais, o algodão
era principalmente uma cultura camponesa do sertão, mas no período do boom
algumas plantations de açúcar foram convertidas parcialmente para o algodão, alo-
cando terras e escravos para sua produção. Com a recuperação da oferta norte-a-
mericana, as exportações brasileiras mergulharam do pico de 717 mil fardos (bales)
em 1872 para apenas 77 mil em 1879. As exportações de Pernambuco e Ceará, que

289 Veja o capítulo 3, especialmente a tabela 3.2.


290 Ver referências na nota 258, acima, principalmente Cunniff. The Great Drought, que documenta bem
a migração do sertão para o litoral e mostra o impacto que isso teve na oferta de trabalho e no nível
dos salários nos distritos açucareiros.

172 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
tinham atingido 31 mil toneladas em 1871-72 foram reduzidas a 2,6 mil toneladas
em 1878-79.291
A região Sul também tinha seus problemas. Lá, a escravidão estava concen-
trada no Rio Grande do Sul e a maior parte de sua mão de obra servil estava
empregada na indústria do charque. Apoiada por um extenso setor pecuário, e
estimulada pela crescente demanda da região cafeeira (o charque era um item
básico na dieta dos escravos das plantations), a indústria expandiu-se rapida-
mente no terceiro quartel do século, mas por volta do fim da década de 1870
viu-se envolvida em uma grave crise. Economicamente, ela não conseguia com-
petir com os saladeros do Rio da Prata, e politicamente era incapaz de obter pro-
teção tarifária de um governo imperial dominado pelos barões do café. As char-
queadas entraram em rápido declínio, do qual nunca mais se recuperariam.292
O resultado disso tudo foi a intensificação do fluxo de escravos para o Sudeste.
Uma estimativa recente de Robert Slenes situa as importações médias dessa região
em mais de 11 mil por ano, de 1873 a 1881, mais que o dobro da média anual veri-
ficada entre 1850 e 1872. Slenes também demontrou que os cativos continuaram
chegando do Nordeste em números crescentes, e o impacto da Grande Seca foi
claramente detectado por ele no mercado escravo de Campinas, na forma de um
aumento imediato nas vendas de escravos originários das províncias afetadas pela
estiagem. O tráfico por via terrestre da região Sul para as províncias cafeeiras tam-
bém ganhou nova importância na década de 1870.293
As avaliações sobre o papel desempenhado por Minas no tráfico interno nesse
período variam largamente: alguns autores apresentam a província como um grande

291 Gavin Wright. Cotton Competition and the Post-Bellum Recovery of the American South. Journal of
Economic History 34 (3) (Set. 1974), p. 611; Cunniff. The Great Drought, p. 81. Ver também Eisenberg.
The Sugar Industry; Andrade A Terra e o Homem; Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, pp. 45-
46; John Casper Branner. Cotton in the Empire of Brazil. The antiquity, methods and the extent of its
cultivation, together with statistics of exportation and home consumption. Department of Agriculture.
Miscellaneous. Special Report nº. 8. Washington: Government Printing Office, 1885, p. 48, e John
Casper Branner. The Cotton Industry in Brazil. Popular Science Monthly, vol. 40 (1891), pp. 666-674.
Além do Nordeste, a cotton famine da Inglaterra também gerou booms de produção de algodão em
São Paulo e em Minas Gerais. O surto paulista foi estudado por Alice Piffer Canabrava em sua tese de
cátedra na USP em 1951, publicada como O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de
São Paulo, 1861-1875. São Paulo: Martins, 1951. O caso mineiro é analisado brevemente no capítulo
5, adiante. Bales são a unidade usada nos Estados Unidos para medir quantidades de algodão, desde
os tempos coloniais até hoje. 1 bale = 250 pounds = 113,4 quilos = 7,72 arrobas.
292 Sobre a ascensão e queda da indústria de charque e da escravidão no Rio Grande do Sul, veja Fernando
Henrique Cardoso. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional: O Negro na Sociedade Escravocrata
do Rio Grande do Sul. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962.
293 Slenes. The Demography, pp. 124, 136-38, 188-90, 196.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


173
exportador, enquanto outros, historiadores e contemporâneos, tendem a enfati-
zar suas importações de escravos. Emilia Viotti da Costa argumenta que depois
que a Assembleia Provincial de São Paulo suprimiu o imposto sobre a importação
de escravos, em 1873, o influxo de cativos do Nordeste, da Bahia, do Rio Grande
do Sul e de Minas para plantações de café tornou-se grande. Herbert Klein sus-
tenta que a província “perdeu escravos através da emigração” nos anos 1872-1876.
Warren Dean encontrou evidências de vendas de escravos mineiros em Rio Claro,
e informa que uma empresa de Minas Gerais era um das mais importantes nego-
ciantes de escravos no município durante a década de 1870.294
A maioria dos observadores contemporâneos, entretanto, afirma que Minas
Gerais importava um grande número de escravos nessa época. Robert Conrad cita
Prudente de Morais, deputado por São Paulo e futuro Presidente da República,
dizendo à Câmara dos Deputados, em 1885, que “metade, ou mais da metade,” dos
escravos de Minas Gerais e de São Paulo tinham sido comprados do norte desde
1871. “Na mesma ocasião”, relata Conrad, “outro futuro presidente, Campos Sales,
concordou que ‘certamente mais da metade’ tinha sido importada das províncias
do norte.”295
O engenheiro Theodoro Sampaio, em seu levantamento do rio São Francisco,
relatou, em 1879, que grandes comboios de escravos eram enviados rio abaixo,
da Bahia para Minas Gerais, vendidos para as zonas cafeeiras. O correspondente
internacional e representante dos interesses cafeeiros de Ceilão, A. Scott Blacklaw
escreveu, no início da década de 80, que “durante os últimos oito anos houve uma
migração geral da população escrava do norte para as três províncias cafeeiras, Rio
de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.”296
O influxo durante a década de 1870 foi grande bastante para fazer com que a
Assembleia Provincial aprovasse, em 1880, uma taxa de dois contos de réis sobre
cada escravo trazido para Minas, o que tornava essas importações praticamente
inviáveis. Dois relatórios presidenciais mineiros de 1881 informam que a medida

294 Viotti da Costa. Da Senzala à Colonia, p. 132; Klein. The Internal Slave Trade, p. 98; Dean Rio Claro,
pp. 56-57. O imposto que foi suprimido em São Paulo havia sido criado em 1871 e taxava em 200
milréis cada escravo que entrasse na província.
295 Conrad. The Destruction, p. 131.
296 Theodoro Sampaio. O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina. Bahia: Editora Cruzeiro, 1938, p.
105. Este relato é mencionado por John Wirth. Minas Gerais, p. 20, como evidência de exportações de
cativos do norte de Minas para a zona cafeeira. Ele está equivocado: Sampaio, que subia o rio, da Bahia
para Minas, estava se referindo a Carinhanha, uma localidade baiana, perto da fronteira mineira. A.
Scott Blacklaw. Slavery in Brazil. South American Journal and Brazil and River Plate Mail (6 de julho,
1882), p. 9.

174 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
tinha enfrentado forte oposição nos círculos traficantes do Rio, e indicam que antes
de sua entrada em vigor, pelo menos a Zona da Mata tinha sido uma grande impor-
tadora. O presidente José Francisco Neto não deixa dúvida de que a província era
importadora, alertando para o fato de que “se a execução fosse retardada, a estatís-
tica da população escrava, que no fim de 1876 era de 289.919, ascenderia a propor-
ções incalculáveis; a lavoura no futuro sofreria as consequências de uma importa-
ção em grande escala”. No relatório seguinte, do presidente Meira de Vasconcelos,
o diretor da Fazenda Provincial relata que, diante do início da cobrança da taxa,
“em poucos dias viu-se a repartição a meu cargo abarrotada de reclamações e con-
sultas, que afluiam principalmente das coletorias colocadas nas zonas próximas e
limítrofes das províncias de São Paulo e Rio de Janeiro, e dos próprios comerciantes
de escravos”.297
Os dados coletados por Robert Slenes não sustentam a posição de que Minas
tenha exportado qualquer quantidade considerável de escravos para São Paulo neste
período. Uma grande amostra de vendas no mais importante mercado daquela pro-
víncia, nos anos de 1875, 1877, 1878 e 1879, revela que, de todos os escravos cuja
origem provincial era conhecida, somente 1,6% (35 indivíduos) vieram de Minas
Gerais, enquanto 53,5% eram do Nordeste, e 21,2% das províncias do Sul. Slenes
também localizou evidências de que “um número substancial” dos escravos que
chegou ao porto do Rio de Janeiro “estava, na verdade, a caminho de Minas Gerais
e São Paulo. Suas próprias estimativas colocam Minas como uma das províncias
mais importadoras no período de 1873-1887.298
Existem mais dados sobre a população escrava e seus movimentos para as déca-
das de 1870 e 1880 do que para qualquer período anterior, permitindo uma análise
mais minuciosa do tráfico interno. A partir desse período dispomos, pela primeira

297 Segundo o Presidente José Francisco Neto, sua regulamentação da Lei n. 2.716, que estabelecia o
gravame, e o início de sua cobrança suscitou “vivíssima oposição em um dos órgãos da imprensa da
Corte. Muitas reclamações apresentaram-me os comerciantes, alegando prejuízos que lhes impunha a
execução do Regulamento, tendo sido feitas as transações no pressuposto de que lei só teria execução
em julho”. Relatório…pres. José Francisco Netto, 4 de maio de 1881, pp. 19-20. No relatório seguinte,
o diretor da Fazenda Provincial registrou novamente que “grande foi a celeuma levantada na imprensa
e fora dela contra o ato patriótico que (...) mandou por em execução o imposto de dois contos de réis
(...) sobre cada escravo que viesse residir na província (...). Quiseram enxergar os traficantes de carne
humana não só excesso e abuso de poder no referido ato, mas sobretudo surpresa. Relatório...pres.
Meira de Vasconcellos, 7 de agosto de 1881, Anexo 4, Diretoria da Fazenda, pp. 80-81.
298 Slenes. The Demography, pp. 600, 627-28, 660. Slenes tem, entretanto, reservas sobre as generalizações
baseadas no mercado de Campinas, o qual, devido ao seu tamanho, pode ter atraído uma parcela
desproporcional do tráfico de longa distância. Em mercados paulistas menores, a parcela de escravos
de outras partes do Sudeste pode ter sido maior. Suas estimativas sobre as importações mineiras são
discutidas abaixo.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


175
vez, de dados razoavelmente confiáveis sobre a população escrava de Minas Gerais
em nível municipal.

Tabela 4.10 - Minas Gerais: População escrava, por regiões, 1873 - 1886
Regiões População escrava % sobre o total da província % Livres
1873 1880 1884 1886 1873 1880 1884 1886 1873
Metal.-Mantiqueira 95.401 63.160 51.820 49.436 24,9 19,5 17,3 17,3 24,7
Mata 100.776 100.248 106.939 104.360 26,3 30,9 35,8 36,4 16,9
Sul 81.511 71.682 63.982 61.270 21,3 22,1 21,4 21,4 19,0
Oeste 33.711 29.806 24.440 23.152 8,8 9,2 8,2 8,1 10,1
Alto Paranaíba 18.493 11.616 10.443 9.998 4,8 3,6 3,5 3,5 5,2
Triângulo 7.966 9.436 5.921 5.522 2,1 2,9 2,0 1,9 2,1
São Franc.-M. Claros 7.983 8.325 7.574 7.411 2,1 2,6 2,5 2,6 4,9
Paracatu 2.639 1.714 1.587 1.548 0,7 0,5 0,5 0,5 1,9
Jequit.-Mucuri-Doce 34.160 28.551 26.225 23.794 8,9 8,8 8,8 8,3 15,2

Minas Gerais 382.640 324.538 298.931 286.491 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Em 1873, a distribuição dos escravos pelas regiões de Minas seguia de perto a


da população livre: a correlação entre as porcentagens de escravos e de livres, por
regiões, é igual a 0,92. Em três regiões, a Mata, o Sul e a Metalúrgica-Mantiqueira, a
porcentagem dos escravos (no total provincial de escravos) era maior do que a das
pessoas livres (no total provincial de livres), mas nas duas últimas a diferença era
insignificante. Somente na Mata (que detinha 26,3% dos escravos contra 16,8% dos
livres) havia uma distância significativa. No Triângulo as porcentagens se equiva-
liam e nas demais regiões a parcela dos livres superava a dos escravos. Em apenas
três regiões, todas situadas ao norte do paralelo 19, a porcentagem de escravos era
significantemente menor do que a da população livre. Estas áreas, com exceção de
uma parte do Vale do Rio Jequitinhonha, eram regiões de sertão ou distritos espar-
samente povoados, muitos dos quais permaneceram assim até o século presente.
Os dados mostram uma crescente concentração de escravos na Zona da Mata
ao longo do período em exame. Entretanto, como já foi mencionado acima, a sim-
ples comparação dos estoques em diferentes datas, não é um procedimento acei-
tável para detectar fluxos migratórios. Por não considerar as mortes (e, no caso de
populações escravas, as manumissões), esta comparação tem um viés implícito que

176 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
exagera as perdas das áreas exportadoras e subestima os ganhos das áreas impor-
tadoras de cativos.
Foram exercícios enganosos desse tipo que levaram alguns autores a concluir,
e proclamar, que a escravidão estava desaparecendo nas regiões não-cafeeiras da
província, pois todas elas pareciam estar perdendo escravos para a zona da grande
lavoura plantacionista de café.299 Para evitar esse erro primário, recorremos, mais
uma vez, à técnica dos sobreviventes intercensitários para estimar as transferências
líquidas de escravos de cada município.
Desde a aprovação da Lei Rio Branco, em 28 de setembro de 1871, todos os
filhos de mães escravas nasciam livres. Como consequência, o crescimento natural
da população escrava, que já era negativo, tornou-se ainda mais negativo (a taxa
bruta de natalidade tornou-se igual a zero) e a taxa de crescimento natural tornou-
-se idêntica à taxa bruta de mortalidade.
Nas estimativas para o intervalo 1873-1880, usamos, para todos os municípios,
a taxa de mortalidade de 23 por mil por ano, computada por Slenes para a zona
central de São Paulo no mesmo período. Não há razão para supor que os padrões
de mortalidade da amostra de Slenes diferissem significativamente daqueles de
Minas Gerais: a distribuição etária dos escravos era razoavelmente similar, as duas
populações estavam expostas ao mesmo ambiente nosológico e tinham padrões de
vida semelhantes.
A mortalidade de 23 por mil, por ser inferior às taxas prevalecentes no mesmo
período em vários países da Europa ocidental e do norte, pode parecer muito baixa,
mas deve-se ter em mente a singularidade da estrutura etária da população em
questão. Após 1871, não havia mais nascimentos de escravos e a idade mínima
dos cativos (que era de dois anos em 1873) cresceu até atingir nove anos em 1880,
ficando assim eliminados da população os segmentos etários com as maiores taxas
específicas de mortalidade.300
Estimamos o total de alforrias na província no período 1873-1880 em 7.700, e
adotamos a hipótese de que elas eram proporcionais à população escrava de cada

299 Veja por exemplo, Conrad. The Destruction, tabela nº. 12 no anexo, p. 293. A maior parte dos municípios
listadas por Conrad como mining municípios não mais o eram por quase um século, e alguns daqueles
listados como sendo localizados em Central Minas, como Paracatu, Rio Pardo e Januária, são tão
centrais em Minas como são o Alaska e o Maine nos os Estados Unidos.
300 As estimativas para a região central de São Paulo, e um breve levantamento das estimativas contem-
porâneas da taxa de mortalidade escrava, podem ser encontrados em Slenes. The Demography, pp.
341-46. Scott Blacklaw reporta que, em 1882, dados referentes a oito províncias revelaram uma taxa
de declínio (englobando mortes e alforrias) de 25/1000 por ano. Blacklaw. Slavery in Brazil, p. 10.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


177
município em 1873. Novamente, não há razão suficiente para presumir outra coisa
e, sobretudo, como demonstraremos abaixo, a taxa de manumissão em Minas Gerais
era baixa bastante para ser considerada um vazamento desprezível nas populações
escravas municipais.301 As transferências desagregadas por municípios são apresen-
tadas no Apêndice B. Nesse anexo apresentamos também uma descrição detalhada
da metodologia empregada nessas estimativas, bem como as populações escravas
por município nos anos 1873, 1880, 1884 e 1886.

Tabela 4.11 - Minas Gerais: Transferências interregionais de escravos, 1873-1880


Regiões Municípios Municípios Exportações Importações Saldo Saldo
exportadores importadores líquidas dos líquidas dos líquido da como %
líquidos líquidos municípios municípios região de 1873

Metal.-Mantiqueira 10 4 19.388 1.889 -17.499 -18,3


Mata 3 8 1.680 19.568 17.888 17,7
Sul 9 9 8.075 12.341 4.266 5,2
Oeste 5 3 1.988 3.927 1.939 5,8
Alto Paranaíba 3 2 4.631 558 -4.073 -22,0
Triângulo 1 2 506 3.560 3.054 38,3
S. Franc.-M. Claros 1 3 768 2.601 1.833 23,0
Paracatu 1 0 520 0 -520 -19,7
Jequit.-Muc.-Doce 4 3 5.108 5.279 171 0,5

Minas Gerais 37 34 42.664 49.723 7.059 1,8


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Consideremos inicialmente a província como um todo. A agregação das transfe-


rências líquidas dos municípios resulta em uma importação líquida de 7.059 escravos
por Minas Gerais, indicando um leve envolvimento líquido no tráfico interprovincial
durante esse período. Olhando para dentro da província, observamos que, também
nesse período, os dados da população escrava e as estimativas de tráfico não susten-
tam a ideia de que o regime escravista continuava forte apenas na região da mono-
cultura exportadora. Além dessa região, várias outras, como a Metalúrgica, o Sul, o

301 Pelo menos parte das alforrias de cada município – aquelas com recursos do Fundo Imperial de
Emancipação – eram grosso modo proporcionais à sua população escrava, pois as cotas do fundo eram
distribuídas em proporção ao número de escravos existentes. A proporcionalidade das manumissões
resultantes não era exata porque havia variações no preço de compra dos escravos alforriados.
Experimentei maneiras alternativas de distribuir as manumissões estimadas entre os municípios e o
impacto sobre as estimativas de tráfico líquido foi mínimo. A alforria representava um vazamento tão
pequeno que o ganho de refinar a metodologia das estimativas nesse particular é desprezível.

178 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Oeste e o Jequitinhonha, mantinham grandes plantéis (tabela 4.10). A Zona da Mata
era o maior importador líquido, mas cinco outras regiões também tiveram saldos
positivos de importações de escravos, como mostra a tabela 4.11.
No nível dos municípios, os resultados mostram uma divergência ainda maior
com esta visão. A importação de escravos não estava, de forma nenhuma, associada
exclusivamente com a cultura cafeeira: dos trinta e quatro importadores líquidos,
somente seis eram distritos cafeeiros consolidados e em poucos outros, ao longo
da fronteira com São Paulo, esse cultivo estava apenas começando. A maioria dos
importadores estava localizada fora da zona de plantations.
Outras evidências disponíveis para o mesmo período apontam para um cenário
semelhante.
A legislação determinou que, a partir da matrícula de 1873, fossem registrados
os “movimentos” da população escrava, tais como mortes, alforrias ou mudanças do
município de domicílio. Segundo estes registros, entre setembro de 1873 e junho de
1881, 64.718 escravos entraram nos municípios mineiros enquanto outros 58.782
partiram dos mesmos, deixando, portanto, um saldo positivo de 5.936 importações
pela província.302
Como a matrícula dos escravos em seus municípios de residência valia como
prova legal de propriedade, os compradores de escravos de fora de seus municí-
pios tinham motivos óbvios para registrar as entradas dos cativos em seu domicí-
lio, mas, segundo fontes oficiais, por falta de motivação e de sanções adequadas,
os vendedores muitas vezes não se incomodavam em registrar as saídas. Por essa
razão, o saldo positivo registrado de entradas sobre saídas pode inflar o total real
das importações líquidas de Minas Gerais.303

302 As entrada e saídas dos municípios encontram-se no Relatório Agricultura. Ministro Henrique d’Ávila,
10 de maio de 1883, p. 10. Cinco municípios (5,6% do total) não relataram os dados. Nenhuma
tentativa foi feita para corrigir essa omissão. Infelizmente os registros dos municípios individuais não
sobreviveram.
303 Sobre a sub-declaração das saídas de escravos dos municípios, veja o Relatório da Seção de Estatística
Anexa à 3ª Directoria da Secretaria de Estado dos Negócios do Império. Rio de Janeiro, 10 de maio
de 1883. Pode-se ficar tentado a ajustar os dados de entrada e saída assumindo, como fez Slenes,
que o percentual de sub-declaração em cada província era o mesmo do conjunto do país. No Brasil
inteiro os dois fluxos deveriam necessariamente coincidir, mas o número de entradas relatadas no
período de 1873-1882 excede o das saídas relatadas em 3,9%. Usando esse coeficiente para ajustar
as importações líquidas mineiras, o número seria reduzido a 4.143 escravos. No entanto, essa
tentação deve ser evitada, pois os dados para outros períodos mostram que essa hipótese está
longe de ser segura. Os registros sugerem que, durante a década de 80, enquanto em todo o Brasil
as saídas ainda eram fortemente sub-reportadas, nas principais províncias cafeeiras as entradas é
que eram sub-declaradas. Tomados por seu valor de face, ou com a hipótese de que as saídas eram

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


179
A única outra tentativa de estimar as migrações interprovinciais de escravos no
Brasil foi feita por Robert Slenes. Usando um modelo diferente de sobreviventes
intercensitários, Slenes concluiu que Minas importou 23.745 escravos durante o
período de 1873 a 1887. Como, desde o início de 1881, as importações interprovin-
ciais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro foram efetivamente interrompi-
das, o período coberto pelas duas estimativas é efetivamente o mesmo, e a grande
discrepância entre elas precisa, portanto, ser explicada.
Acredito que essa valorosa tentativa foi comprometida por uma escolha infeliz
de dados. Ao invés de usar o Recenseamento do Império de 1872, Slenes preferiu
adotar os dados da Matrícula de 1873, o registro nacional de escravos determi-
nado pela Lei Rio Branco. Não há dúvida de que está certo ao argumentar que
os senhores de escravos tinham um forte motivo para registrar corretamente sua
propriedade e que isto deveria fazer da matrícula uma fonte presumivelmente mais
confiável do que o censo.
Acontece que a matrícula foi uma autêntica lambança. Sua apuração e a divul-
gação dos seus resultados oferecem um raro espetáculo de confusão e de incom-
petência. Os dados foram publicados em prestações desordenadas, todas parciais e
incompletas. Várias vezes uma suposta atualização divulgava números provinciais
menores do que aqueles apresentados em publicações anteriores.
No que se refere a Minas Gerais, seus dados são particularmente deficientes
e totalmente imprestáveis. Não há quaisquer indicações de que os mineiros não
tenham registrado devidamente seus escravos, mas aparentemente, muitas cole-
torias locais da província não reportaram (ou não o fizeram tempestivamente)
os resultados às autoridades centrais no Rio de Janeiro. Seja qual for o motivo,
o fato é que os números completos de matrícula de Minas Gerais nunca foram
divulgados. Os primeiros resultados, publicados em 1875, atribuem 235.115
cativos a Minas Gerais, e declaram explicitamente que esse número se refere a
apenas 51 dos 72 municípios existentes. A correção de Slenes, ajustando esse
total publicado para 333.436 é claramente insuficiente. Este ajuste desconsi-
dera, por exemplo, as sucessivas atualizações oficiais posteriores que, embora

incompletamente relatadas, os registros implicariam que as três províncias principais cafeeiras seriam
todas exportadoras líquidas de escravos, o que não é plausível. É verdade que foi somente depois de
1880 (devido à severa taxação das importações interprovinciais em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São
Paulo) que os importadores dessas províncias passaram a ter um forte motivo para evitar o registro,
mas os dados para Minas Gerais apresentados no texto incluem o primeiro semestre de 1881, quando
a taxa já estava em vigor.

180 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
ainda incompletas, elevaram o número de escravos matriculados em Minas em
1873 para 356.254.304
As duas estimativas aqui apresentadas indicam saldos líquidos de importações
favoraveis a Minas, mas relativamente modestos. Isto não significa, entretanto, que
o envolvimento total da província no tráfico interprovincial nesse período fosse
necessariamente pequeno: nos dois casos o resultado líquido obtido é compatível
com fluxos de importações e de exportações de qualquer tamanho absoluto. Na
realidade, há vários motivos para supor uma participação bruta muito maior do
que aquela sugerida pelos saldos líquidos.
As regiões da província eram fracamente integradas e as comunicações entre
elas eram notoriamente deficientes. Seria muito mais conveniente para algumas
áreas negociar escravos com outras províncias do que com outras regiões de Minas,
exatamente como faziam com outras mercadorias. Desde os tempos coloniais, o
vale do São Francisco tinha relações comerciais mais intensas com a Bahia e com
Pernambuco do que com o resto da província. O mesmo era verdadeiro para a zona
de Paracatu com relação a Goiás, e para as regiões mais meridionais com relação
às vizinhas províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro. A Zona da Mata, em espe-
cial, era fortemente ligada à capital imperial desde a abertura do Caminho Novo.

304 Os primeiros resultados da Matrícula de 1873 foram publicados em Directoria Geral de Estatística.
Relatório e Trabalhos Estatísticos apresentados ao Illm. e Exm. Sr. Conselheiro Dr. João Alfredo Corrêa
de Oliveira, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império pelo Diretor Geral Interino
Dr. José Maria do Couto, em 30 de abril de 1875. Rio de Janeiro: Typ. de Pinto Brandão e Comp.,
1875. Essa fonte apresenta os números para 51 municípios mineiros e declara não dispor daqueles
referentes a Sabará, Baependí, Curvelo, Conceição, Cristina, Diamantina, São Sebastião do Paraíso,
São João del Rei, São José del Rei, Minas Novas, Pium-í, São Romão, Serro, Tamanduá, Muriaé, Guaicuí
e Boa Esperança. Entretanto, além dos municípios citados pela fonte, são também omitidos os dados
referentes a Bonsucesso, Monte Alegre, Ouro Fino e São José do Paraiso. Nos anos seguintes foram
feitas sucessivas correções oficiais, a última das quais, publicada no Relatório de 1884 do Ministro da
Agricultura, atribuiu a Minas o registro, ainda deficiente, de 356.254 escravos na Matrícula de 1873.
Relatório apresentado à Assembléa Geral na primeira sessão da décima nona legislatura pelo Ministro e
Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Commercio e Obras Públicas, João Ferreira de Moura
(1884). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1885, p. 372. Diferentemente de outras províncias, nunca
foram publicados dados individuais completos para os municípios mineiros, nem as desagregações
por sexo, idade e ocupação. Alguns dados municipais publicados são flagrantemente errados e alguns
são copiados do censo, revelando artifícios dos agentes responsáveis para encobrir seus atrasos e
suas inadimplências. Os dados do recenseamento para Minas Gerais também são deficientes, como
apontei várias vezes neste trabalho. Mas o mais incompleto número do censo (370.459) é maior que o
resultado mais atualizado da Matrícula. A estimativa de Slenes está em The Demography, pp. 616, 700-
01. Na p. 660, nota 16, ele admite ter dúvidas sobre a mesma, reconhecendo que ela “pode exagerar
a importância da migração de escravos para Minas”. Nas pp. 609-10, Slenes apresenta uma outra
estimativa sobre o tráfico líquido para Minas, usando os registros de entradas e saídas dos municípios
entre 1873 e 1885. Seu ajustamento nos dados, usando um coeficiente nacional de sub-registro das
saídas jjá foi criticado na nota 303 acima.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


181
Durante todo o século XIX, exportou todo seu café através do Rio de Janeiro, e era
seu principal fornecedor de diversos produtos.
A Mata, após a abertura da rodovia União e Indústria, e principalmente depois
que a conexão ferroviária foi concluída, no final dos anos 60, distava apenas algu-
mas horas da capital. O Rio de Janeiro, por sua vez, era um importante entreposto
de escravos do Nordeste, ao qual estava ligado por telégrafo desde 1874. A viagem
de navio a vapor entre Salvador e o Rio levava menos de quatro dias e, segundo
Slenes, “o custo da passagem marítima era mínimo.” O custo da transferência de
um escravo entre esses dois portos “em 1877 era de 10 a 15 mil réis, menos de 1%
do preço que um escravo jovem adulto, do sexo masculino obteria nesse período
nos mercados do Centro-Sul”.305
É bastante provável, portanto, que os escravos pudessem ser transferidos muito
mais facilmente, e a um custo menor, do Nordeste para a Mata mineira, do que de
várias outras regiões de Minas. Além disso, o preço médio dos escravos nas pro-
víncias nordestinas era muito inferior aos que prevaleciam em qualquer parte de
Minas. Nunca é demais lembrar que, em qualquer sistema comercial não-idiota, as
mercadorias são vendidas das praças onde são mais baratas para aquelas onde são
mais caras, e não o contrário.
A única fonte de informação sistemática sobre os preços de escravos, disponí-
vel para todas as províncias, é o custo médio das alforrias financiadas pelo Fundo
Imperial de Emancipação. Como a manumissão era concentrada nas mulheres e nos
escravos mais velhos, esse custo pode não refletir adequadamente o valor absoluto
dos jovens do sexo masculino, que eram os principais objetos do tráfico. Entretanto,
há bons motivos para acreditar que, como um indicador dos níveis relativos (entre
as províncias) dos preços, o custo médio das emancipações seja bastante confiável.
Os registros incluem um número razoavelmente grande de casos para a maioria das
unidades do império, e a existência de critérios nacionais rígidos para a seleção dos
escravos a serem adquiridos pelo Fundo impede a ocorrência de grandes diferenças
na composição sexo-etária dos cativos libertados nas diferentes províncias.306
A tabela 4.12 mostra claramente que o preço médio das emancipações em Minas
Gerais era o mais alto de todas as províncias (com exceção do Mato Grosso, para
o qual existem apenas 19 registros) e em todas as regiões mineiras, consideradas
individualmente, se situava substancialmente acima do da maioria das províncias.

305 Slenes. The Demography, pp. 150-52.


306 Uma boa discussão sobre a confiabilidade desses dados é apresentada em Slenes. The Demography.
p. 645.

182 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Em algumas delas, como a Mata, o Oeste e o Alto Paranaíba, os preços médios atin-
giam quase o dobro daqueles do Norte e do Nordeste. Nestas regiões era mais alto
do que em São Paulo, e consideravelmente mais alto que no Rio de Janeiro. Mesmo
na região de Paracatu, que tinha o índice mais baixo de Minas, o preço médio era
mais alto do que no Nordeste.
Embora sejam necessárias pesquisas mais aprofundadas, em vista desses dados
e dos outros argumentos apresentados acima, não seria surpreendente descobrir
que algumas áreas de Minas, especialmente a zona cafeeira, estavam importando
nessa época um número considerável de escravos nordestinos ao invés de adqui-
ri-los de fontes intraprovinciais, enquanto outras regiões mineiras poderiam estar
exportando cativos para fora da província. Este padrão mais complexo de tráfico
poderia, incidentalmente, ajudar a explicar as avaliações conflitantes de alguns
autores sobre a posição de Minas no tráfico interno na década de 1870.

Tabela 4.12 - Preço médio dos escravos comprados pelo Fundo Imperial de
Emancipação, por regiões do Brasil, províncias selecionadas e regiões de Minas,
1875 -1880
Escravos Preço médio Índice Índice Índice Índice
comprados (milréis) BR = 100 MG = 100 SP = 100 NE = 100
Brasil 4.569 764 100 78 80 121

Sudeste exceto Minas 1.453 876 115 90 92 139


Sul 278 784 103 80 82 124
Centro Oeste 65 775 101 79 81 123
Nordeste 2.008 632 83 65 66 100
Norte 136 493 64 50 52 78
Minas Gerais 629 976 128 100 102 154
São Paulo 413 954 125 98 100 151
Rio de Janeiro 775 887 116 91 93 140
Rio Grande do Sul 207 817 107 84 86 129
Corte 186 674 88 69 71 107
Alto Paranaíba 20 1.259 165 129 132 199
Oeste 45 1.169 153 120 123 185
Mata 165 1.109 145 114 116 175
Triângulo 11 930 122 95 97 147
Metal.-Mantiqueira 167 926 121 95 97 146
Sul 157 865 113 89 91 137
Jequit.-Mucuri-Doce 42 828 108 85 87 131
S. Francisco-M. Claros 16 822 108 84 86 130
Paracatu 6 761 100 78 80 120
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


183
Como já foi mencionado diversas vezes, as quantidades de escravos importa-
dos ou exportados pelos municípios não podem ser estabelecidas com precisão,
pois as estimativas são bastante sensíveis às taxas de crescimento natural adotadas.
Entretanto, os sinais dos saldos migratórios líquidos, são estáveis e confiáveis. Isso
nos permite identificar, com razoável segurança, os municípios importadores e os
municípios exportadores. Usando os valores críticos da taxa de crescimento natural
(r*) podemos determinar, para cada município, quanto a taxa real poderia divergir
da taxa adotada na estimativa sem reverter o sinal do saldo líquido estimado.
A tabela B.4: Estabilidade dos saldos municipais do tráfico, 1873-1880, no
Apêndice B, mostra que variações relativamente grandes na taxa adotada afeta-
riam os sinais de apenas um pequeno número de casos. Fica também claro que
existe uma margem de segurança considerável para acomodar possíveis variações
da taxa entre os municípios. Nessa tabela as taxas críticas de crescimento natural
dos 71 municípios foram listadas em ordem crescente (da mais negativa para a mais
positiva). A taxa de crescimento natural usada na estimativa (– 23 por mil por ano,
no caso presente) divide os municípios em importadores líquidos e exportadores
líquidos: aqueles cujas taxas críticas são menores (mais negativas) do que a taxa
adotada são exportadores, os outros são importadores.
Percebe-se prontamente que uma redução de 25% na taxa de crescimento natu-
ral adotada (de – 23 por mil para – 28,8 por mil) inverteria os sinais de apenas
sete saldos municipais (sete exportadores se tornariam importadores). O mesmo
aumento percentual nessa taxa (de – 23 por mil para – 17,3 por mil) reverteria
apenas um sinal (um importador se tornaria exportador). Uma redução de 50% na
taxa (de – 23 por mil para – 34,5 por mil) mudaria somente 10 sinais (10 exporta-
dores se tornariam importadores) enquanto um aumento da mesma ordem (de –
23 por mil para – 11,5 por mil) inverteria os sinais de somente três saldos líquidos
(3 importadores se tornariam exportadores).
Assim, se a taxa “verdadeira” de crescimento natural se situar entre – 17,3 por
mil a – 28,8 por mil, poderia inverter, no máximo, os sinais dos saldos de 8 muni-
cípios, mas os outros 63 não seriam afetados. Os municípios não afetados serão
denominados “estáveis no intervalo de 25%.” Da mesma forma, os 58 municípios
cujas taxas críticas estão fora intervalo de – 11,5 a – 34,5 por mil serão denomina-
dos “estáveis no intervalo de 50%”.
Não existem dados sobre a produção de café desagregada por municípios nesse
período, e não é possível sequer ordenar os produtores segundo o volume produ-
zido. O melhor que podemos fazer, é identificar, usando fontes contemporâneas,

184 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
quais eram os municípios cafeeiros. Assim, mesmo não sendo possível conseguir
níveis mais altos de mensuração (cardinal ou ordinal) das variáveis “produção
de café” e “migração de cativos”, podemos classificar os municípios, por um lado,
como cafeeiros ou não-cafeeiros e, por outro, como importadores ou exportadores
de escravos, com bastante segurança. Daí decorre que o coeficiente de contingên-
cia (C), que permite medir o nível de associação ou de relação entre conjuntos de
atributos, é uma medida particularmente apropriada para o problema em foco.307
Computamos três coeficientes de contingência para medir a associação entre
o cultivo de café e o e a posição no tráfico de escravos: o primeiro inclui todos os
71 municípios mineiros (entre 1873 e 1880 a fusão de Montes Claros e Guaicuí eli-
minou um dos 72 municípios existentes no Censo), o segundo inclui apenas os 63
municípios “estáveis no intervalo de 25%” e, finalmente, o terceiro inclui somente
os 58 “estáveis no intervalo de 50%”. Nos três casos, o coeficiente C é muito baixo,
indicando fraca correlação entre os atributos (cafeeiro/não-cafeeiro) e (importa-
dor/exportador de escravos).

Tabela 4.13 - Minas Gerais: Associação entre café e tráfico, 1873-1880


Municípios incluídos Coef. de contingência (C)

Todos os 71 municípios* 0,19


63 municípios estáveis no intervalo de 25% 0,29
58 municípios estáveis no intervalo de 50% 0,30
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Da mesma forma, a exportação ou importação de escravos não estava rela-


cionada com a mineração. A caracterização das regiões exportadoras como áreas
mineradoras decadentes, como afirmaram muitos autores, não tem nenhuma base
factual. É verdade que muitos dos exportadores líquidos, como grande parte dos
lugares de Minas, tiveram um passado minerador mas, em quase todos, esse pas-
sado já havia se esvaído várias décadas antes do período em foco. Por outro lado,
as estimativas mostram que muitos municípios que tiveram suas raízes na minera-
ção colonial foram importadores líquidos durante 1873-1880. Como não existem
dados desagregados por município sobre a produção mineral nessa época, usamos

307 Na classificação dos municípios como cafeeiros e não-cafeeiros seguimos Laerne. Brazil and Java, p.
118. Sobre o conceito e a computação do coeficiente de contingência veja, por exemplo, Sidney Siegel.
Nonparametric Statistics for the Behavioral Sciences. New York: McGraw-Hill, 1956, pp. 196-202.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


185
quatro diferentes critérios para definir se um município era minerador ou não-mi-
nerador, para o cálculo do coeficiente de contingência.
No primeiro critério consideramos como sendo mineradores aqueles muni-
cípios que tinham pelo menos um escravo empregado nesse setor em 1873 – ou
seja, aquelas localidades nas quais qualquer número de escravos, não importa quão
poucos, poderia ter sido liberado da mineração e exportado. A segunda definição
incluiu aqueles municípios onde foi arrecadada qualquer receita do imposto sobre
escravos empregados na mineração de ouro em 1881-82. A seguir, o critério foi
expandido para incluir todos os municípios onde o censo registrou qualquer traba-
lhador (livre ou escravo) empregado na mineração em 1873, isto é, todos aqueles
onde havia qualquer atividade mineratória. Finalmente, classificamos como mine-
radores todos os municípios que tinham lavras em operação em 1814 – uma ten-
tativa de incluir todos os lugares que tiveram um passado minerador no século
XIX.308 A tabela 4.14 mostra que, independentemente da definição adotada, a
correlação, medida pelo coeficiente de contingência, entre a mineração e o papel
desempenhado pelo município no tráfico de escravos (importador ou exportador)
era praticamente inexistente nesse período.

Tabela 4.14 - Minas Gerais: Associação entre mineração e tráfico, 1873-1880

Definição de município minerador Todos os 71* 63 municípios 58 municípios


municípios estáveis no estáveis no
intervalo de 25% intervalo de 50%
1. Municípios com escravos empregados C = 0,17 C = 0,19 C = 0,26
na mineração no Censo do Império

2. Municípios com escravos empregados C = 0,23 C = 0,23 C = 0,26


na mineração de ouro em 1881-82

3. Municípios com quaisquer empregados C = 0,18 C = 0,23 C = 0,23


na mineração no Censo do Império

4. Municípios com passado minerador C = 0,25 C = 0,26 C = 0,29


C = coeficiente de contingência.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

308 Na primeira definição incluímos Sabará, que não foi listado no censo, mas sediava a Saint John del Rey
Mining Company (Morro Velho), e certamente tinha escravos empregados na mineração. As fontes
desses dados encontram-se no capítulo 2.

186 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
A DÉCADA DE 1880
Em dezembro de 1880, a Assembléia Provincial de Minas Gerais, temendo que
a excessiva concentração de escravos no Centro-Sul pudesse alienar o apoio do
resto do Império à instituição servil, aprovou uma lei impondo severas restrições
às importações de escravos de outras províncias. Cada escravo trazido para Minas
passou a ser taxado em dois contos de réis (mais do que o preço de mercado de
um jovem adulto do sexo masculino), além de serem aumentados o imposto já
existente sobre vendas de cativos e a taxa de licenciamento para comerciantes de
escravos.309
Uma medida semelhante havia sido adotada pela província do Rio de Janeiro
algumas semanas antes, e São Paulo fez o mesmo em janeiro do ano seguinte. Essa
ação conjunta – uma clara manifestação de compromisso de longo prazo com o
regime – fechou simultaneamente os três maiores mercados provinciais compra-
dores de escravos e parece ter congelado definitivamente a distribuição regional
da população servil brasileira.310 Depois de 1881, segundo Slenes, “virtualmente
nenhum escravo entrou nos dois portos (Santos e Rio) consignado para venda”.311
No longo prazo, entretanto, a legislação antitráfico da “trindade negra” saiu
claramente pela culatra: em vez de fortalecer o compromisso da nação com a

309 Lei Provincial nº 2.716, de 18 de dezembro de 1880. O artigo décimo desta lei elevou para dois contos
de réis a taxa cobrada pela “anotação da mudança do escravo procedente de outra província com
transferência de domínio”, que já existia desde 1871.
310 Análises sobre a adoção dessas leis contra o tráfico interprovincial em Minas Gerais, Rio de Janeiro
e São Paulo podem ser encontradas em Conrad. The Destruction, pp. 170-74 e Toplin. The Abolition,
pp. 88-91. Esses autores, bem amparados por evidências contemporâneas, concordam que a principal
motivação desta legislação era impedir a drenagem da população escrava nordestina, e que ela
implicava em um sacrifício no curto prazo para prolongar a vida da instituição. O correspondente
residente do jornal Observer, do Ceilão (concorrente brasileiro no mercado de café), escreveu em
1882, que “parece pouco generoso supor que o verdadeiro objeto que os legisladores tinham em
mente fosse o prolongamento do prazo para a extinção da escravidão”, mas “há uma forte evidência
circunstancial de que foi isso que aconteceu”. Blacklaw. Slavery in Brazil, p. 9. Outro observador
contemporâneo, C. F. van Delden Laerne, observou que a motivação dessas leis foi que “as pessoas
pensaram ter percebido uma tentativa, por parte das províncias do norte (...) de transferir seus
escravos para as províncias cafeeiras, com o intuito de – sem prejudicar seus próprios interesses –
insistir na emancipação dos escravos tão logo a desova fosse efetivada”. Laerne. Brazil and Java, p.
85. No mesmo lugar o autor informa que a Bahia e o Ceará também cobravam taxas de 800 a 1.000
mil réis, respectivamente, sobre as importações interprovinciais durante 1881-82. Estas taxas eram
certamente inócuas, visto que ambas as províncias eram fortes exportadoras. Toplin afirma que uma
fonte de apoio para essa legislação, em São Paulo, vinha de cafeicultores que já tinham escravos
suficientes para suas necessidades e esperavam que, reduzindo a oferta, a lei aumentaria o valor de
seus plantéis, propiciando-lhes um bônus extra no caso de abolição com indenização aos proprietários.
311 Slenes. The Demography, p. 123.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


187
sobrevivência do regime escravista, ela aprofundou a clivagem regional e acabou
favorecendo a causa da emancipação. Pode ser que os legisladores de São Paulo,
Minas e Rio de Janeiro estivessem certos em seu cálculo político, mas não conside-
raram, ou subestimaram, alguns aspectos econômicos da questão.
Os preços de escravos nas províncias exportadoras vinham sendo, em grande
medida, sustentados pela demanda da região cafeeira. O fechamento abrupto dos
grandes mercados do Sudeste causou uma queda drástica no valor da proprie-
dade escrava – portanto no interesse econômico pela manutenção da instituição
– em quase todo o resto do país. No período 1880-1883, os preços dos escravos no
Nordeste e no Sul já eram consideravelmente mais baixos do que nos anos 70, ape-
sar dos dados disponíveis incluirem a maioria das compras que ocorreram ao longo
1880, antes das restrições ao tráfico interprovincial entrarem em vigor. Em Minas,
no Rio de Janeiro e em São Paulo, os preços dos escravos subiram, aumentando a
distância entre essas províncias e o resto do país.312

Tabela 4.15 - Preço médio dos escravos comprados pelo Fundo Imperial de
Emancipação, por regiões e províncias selecionadas, 1875 - 1888
Escravos comprados 1875 - 1880 1883 - 1885 1885 - 1888
e preços médios Escravos Preço Escravos Preço Escravos Preço
comprados médio comprados médio comprados médio

Nordeste 1.874 634 5.825 311 1.892 497


Sul 278 784 900 272 95 484
Rio de Janeiro 775 887 2.131 650 953 643
São Paulo 413 954 1.821 718 679 555
Minas Gerais 629 976 2.297 693 1.034 617

Evolução dos preços 1875 - 1880 1883 - 1885 1885 - 1888

Nordeste 100 49 78
Sul 100 35 62
Rio de Janeiro 100 73 72
São Paulo 100 75 58
Minas Gerais 100 71 63
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

312 Em Minas Gerais, os preços dos escravos, medidos pelo custo médio de emancipação, aumentaram
no período 1880-82, em relação a 1875-80, em cinco regiões, e cairam ligeiramente nas quatro
restantes. Os dados são do Relatório Agricultura, Ministro José Antonio Saraiva, 1881, pp. 27-29.
Deve-se observar que não há razão para esperar que o preço em qualquer região de Minas devesse
ter reagido às leis antitráfico em qualquer direção definida. As áreas exportadoras perderam seus
clientes paulistas e fluminenses, mas ganharam um mercado cativo dentro de Minas Gerais. As zonas
importadoras perderam seus fornecedores nordestinos, mas tinham agora a oferta mineira quase
completamente represada dentro das fronteiras provinciais.

188 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Essa tendência foi acentuada nos anos seguintes. Nessa época, devido à cres-
cente pressão abolicionista, já havia um pessimismo generalizado sobre o futuro
da escravidão, e os preços de escravos estavam caindo em todas as regiões do país,
mas os custos médios das emancipações mostram que essa queda foi mais lenta no
Centro-Sul. Em 1883-85, os escravos comprados pelo Fundo em São Paulo, Minas
e no Rio de Janeiro ainda custaram duas vezes mais do que aqueles libertados no
resto do país.313
No último período, especialmente após 1887, a instituição já estava em ruínas.
Grandes números de escravos começaram a abandonar as fazendas em direção às
cidades, onde eram protegidos pela população urbana, em grande parte já conver-
tida ao abolicionismo. Curvando-se ao inevitável, os senhores de escravos começa-
ram a conceder alforrias em massa. Todos sabiam que a abolição final era iminente.
Nesta situação caótica, é muito pouco provável que os custos das emancipações
pudessem refletir qualquer coisa além da desordem que reinava nos mercados de
escravos.
Em Minas Gerais, a lei de 1880 interrompeu efetivamente as importações de
escravos. Nenhuma receita jamais foi arrecadada pelo imposto sobre as importa-
ções interprovinciais por ela determinado. As legislações paulista e fluminense,
por seu lado, parecem ter encerrado as exportações mineiras para essas províncias.
Mercados menores permaneceram abertos nas províncias vizinhas de Goiás, Mato
Grosso e Espírito Santo, que podem ter importado um pequeno número de escra-
vos de Minas após 1880.
Os dados de entrada e saída de escravos mostram que, entre junho de 1881 e
junho de 1884, as saídas registradas dos municípios mineiros excederam as entra-
das registradas em apenas 717 indivíduos. Já mencionamos que nesse período as
saídas podem ter sido subregistradas, mas, em qualquer hipótese, o fluxo de trans-
ferências foi insignificante. Para todos os efeitos práticos, a população escrava pro-
vincial mineira tornou-se “fechada” na década de 1880.314
Assim, como se poderia prever, durante o período de 1880 a 1884, houve uma
intensificação do tráfico intraprovincial de cativos. A zona cafeeira e as outras
áreas importadoras tinham sido privadas de suas fontes externas de abastecimento,
enquanto os mercados paulista e fluminense tinham sido fechados para as regiões

313 Uma análise bem-feita e bem documentada sobre a evolução da confiança (sanguinity) dos
proprietários de escravos na instituição, nas décadas de 70 e 80, encontra-se em Slenes. The
Demography, pp. 234-62.
314 Breve Notícia do Estado Financeiro das Províncias, informação nº. 4, tabela nº. 3, sem número de

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


189
exportadoras. A maior parte do tráfico legal tinha agora que se realizar dentro das
fronteiras da província. Os registros de entrada e saída mostram que, entre 1881 e
1884, foram transferidos entre os municípios de Minas 12.636 escravos, em média,
por ano, um número pelo menos 56% mais alto do que a média observada nos anos
1873-1881.315

Tabela 4.16 - Minas Gerais: Transferências interregionais de escravos, 1880-1884

Regiões Municípios Municípios Exportações Importações Saldo Saldo


exportadores importadores líquidas dos líquidas dos líquido como %
líquidos líquidos municípios municípios da região de 1880
Metal.-Mantiqueira 11 3 7.433 811 -6.622 -10,5
Mata 1 8 814 16.028 15.214 15,2
Sul 9 7 5.557 3.428 -2.129 -3,0
Oeste 6 2 3.332 190 -3.142 -10,5
Alto Paranaíba 3 2 424 156 -268 -2,3
Triângulo 3 0 2.887 0 -2.887 -30,6
S. Francisco-M.
Claros 2 2 505 406 -99 -1,2
Paracatu 0 1 0 9 9 0,5
Jequit.-Mucuri-Doce 3 4 1.446 1.370 -76 -0,3

Minas Gerais 38 29 22.398 22.398 0 0,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Entre 1873 e 1880 foram criados vários novos municípios em Minas Gerais.
Para manter a comparabilidade territorial das regiões, a população dos municípios
criados durante o período foi agregada de volta aos municípios aos quais seu terri-
tório pertencia em 1873. Alguns desses novos municípios foram constituídos por
partes desmembradas de diferentes municípios existentes em 1873. Nesses casos
tivemos de utilizar clusters de municípios, o que reduziu o número de unidades de
análise para 67. Os clusters são explicitados na tabela desagregada por municípios,
no Apêndice B.

página. Os dados de entrada e saída são do Relatório Agricultura, Ministro Henrique d’Avila, 1882, p.
10; e Relatório Agricultura, Ministro João Ferreira de Moura, 1884, p. 372. Robert Toplin apresenta
evidências de que após a lei de 1881 houve algum tráfico ilegal de escravos para o Oeste de São Paulo,
mas não dá nenhuma indicação de seu volume. Toplin. The Abolition, p. 91.
315 Dos 8.089 escravos que entraram nos municípios mineiros, a cada ano, entre 1873 e 1880, um número
não determinado, mas provavelmente considerável, veio de fora da província, enquanto que todas as
12.636 entradas anuais médias, em 1881-84, tiveram sua origem em outros municípios de Minas. As
fontes dos dados são as mesmas da nota 314.

190 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
O padrão do tráfico não foi significativamente diferente daquele observado no
período anterior. A Mata continuou a ser o principal importador mas, com exceção
do Triângulo, as perdas das regiões exportadoras foram pequenas em relação às
suas populações escravas. No nível de agregação usado na tabela 4.16, as estima-
tivas parecem indicar um padrão bastante assimétrico de tráfico, no qual a área
cafeeira sugava os escravos de quase todas as outras regiões. Entretanto, a análise
desagregada por municípios revela, novamente, que não foi assim tão simples. De
fato, quase todos os municípios cafeeiros foram importadores líquidos e a Zona da
Mata absorveu quase 70% das importações líquidas. Mas 21 municípios fora dessa
região também foram importadores líquidos. Vários outros mantiveram popula-
ções escravas grandes e estáveis, e dez deles aumentaram seus plantéis de cativos,
em termos absolutos.
Os sinais dos saldos líquidos estimados dos municípios são muito estáveis nesse
período também. Nos dois últimos períodos em análise (1880-84 e 1884-86), não
há possibilidade de divergência entre as taxas reais e as taxas adotadas nas estima-
tivas, porque usamos as taxas de crescimento interno observadas no conjunto da
província (–20,34 por mil em 1880-84 e –21,03 por mil em 1884-86). Resta ainda,
naturalmente, a possibilidade de variações dessas taxas entre os municípios.316 A
tabela B.5: Estabilidade dos saldos municipais do tráfico, 1880-1884, no Apêndice
B, mostra entretanto, que essas flutuações poderiam reverter os sinais dos saldos
líquidos de apenas um pequeno número de municípios.
Flutuações de 25% para cima ou para baixo na taxa usada nas estimativas (de
–15,3 por mil a –25,4 por mil) poderiam reverter no máximo os sinais de sete
municípios. Aumentando o intervalo de variação para 50% (–10,2 por mil a –30,5
por mil) traria para dentro da zona de instabilidade mais dez municípios. Portanto,
usando a terminologia adotada acima, temos, no período 1880-84, 60 municípios
(89,5% do total) “estáveis no intervalo de 25%”, e 56 (74,6% do total) “estáveis no
intervalo de 50%”.

316 Como a população escrava de Minas Gerais tornou-se fechada depois de 1880, não foi necessário
usar uma taxa de crescimento natural da população escrava estimada exógenamente. Computamos
a taxa implícita de crescimento interno para o conjunto da província, fazendo T = 0 na equação
Pt = P0 (1 + r)t + T(1 + r)t/2 e resolvendo para r. Assumimos que ela era uniforme através dos municípios.
Não são disponíveis dados de manumissão para os municípios individualmente. Seria ocioso, portanto,
estimar o total provincial das alforrias e depois alocá-lo proporcionalmente às populações escravas
municipais, como fizemos para o período 1873-1880. Em outras palavras, como assumiríamos, de
qualquer forma, que tanto a taxa de mortalidade como a taxa de manumissão eram iguais em todos
os municípios, podemos simplesmente aceitar que a taxa de crescimento interno (que inclui os dois
vazamentos) era uniforme.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


191
Para avaliar a associação entre o cultivo de café e o papel desempenhado no trá-
fico durante 1880-84, computamos, como antes, três coeficientes de contingência,
incluindo no primeiro todos os municípios, e nos demais somente aqueles estáveis
nos intervalos de 25% e de 50%, respectivamente. Além dos oito municípios lis-
tados por Laerne como cafeeiros na Zona da Mata, incluímos como produtores
outros dez municípios, na Zona Sul, onde o cultivo comercial do café estava se
desenvolvendo rapidamente no início dos anos 1880.317
Para avaliar a relação entre a mineração e o papel no tráfico, usamos duas defi-
nições de município minerador: os que tinham escravos empregados na mineração
de ouro em 1881-82 (atividade mineradora no presente) e aqueles que tinham tido
lavras em operação em 1814 (um passado minerador). Os valores muito baixos dos
coeficientes de contingência obtidos mostram, uma vez mais, que nem o plantio
de café nem a mineração (passada ou presente) são capazes de explicar os papéis
importadores ou exportadores dos municípios no tráfico intraprovincial.

Tabela 4.17 - Minas Gerais: Associação entre café e tráfico, 1880-1884


Municípios incluídos Valor de C
Todos os 67 municípios* 0,18
60 municípios “estáveis no intervalo de 25%” 0,15
50 municípios “estáveis no intervalo de 40%” 0,13
C = coeficiente de contingência.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 4.18 - Minas Gerais: Associação entre mineração e tráfico, 1880-1884


Definição de Todos os 67* 60 municípios estáveis 50 municípios estáveis
município minerador municípios no intervalo de 25% no intervalo de 50%
1. Municípios com escravos na
C = 0,21 C = 0,23 C = 0,23
mineração em 1881-82

2. Municípios com passado


C = 0,14 C = 0,24 C = 0,25
minerador
C = coeficiente de contingência.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

317 Esses municípios são: Alfenas, Cabo Verde, Caldas, Jaguari, Ouro Fino, São José do Paraíso, São
Sebastião do Paraíso, Muzambinho, Jacui e Guaxupé. Nas estimativas de tráfico, os três últimos estão
agregados em outros municípios.

192 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Depois de 1884 observa-se uma queda brusca no volume do tráfico intrapro-
vincial. Os escravos continuaram a ser transferidos em todas as direções através da
província, mas agora em números bem menores. Além das perspectivas políticas
sombrias do regime escravista, esse foi um período de queda nos preços do café e
de desaceleração da expansão do setor. Na Mata as importações líquidas em 1884-
86 pouco passaram de um quarto do nível atingido nos quatro anos anteriores.
Entre junho de 1884 e junho de 1885, foram registradas apenas 4.989 entra-
das de escravos no conjunto dos municípios mineiros, apenas um terço da média
anual registrada nos três anos precedentes.318 A arrecadação do imposto sobre
vendas de escravos caiu do valor médio de 295 contos de réis nos anos fiscais de
1879-80 a 1882-83, para 160 contos em 1883-84, e 117 contos em média no biênio
1884-85 /1885-86.319

Tabela 4.19 - Minas Gerais: Transferências interregionais de escravos, 1884-1886


Regiões Municípios Municípios Exportações Importações Saldo Saldo
exportadores importadores líquidas dos líquidas dos líquido da como %
líquidos líquidos municípios municípios região de 1884

Metal.-Mantiqueira 4 10 1.240 1.008 -232 -0,4


Mata 2 7 2.220 4.132 1.912 1,8
Sul 8 8 2.943 2.893 -50 -0,1
Oeste 2 6 1.181 904 -277 -1,1
Alto Paranaíba 2 3 209 199 -10 -0,1
Triângulo 2 1 180 23 -157 -2,6
S. Franc.-M. Claros 2 2 66 221 155 2,1
Paracatu 0 1 0 27 27 1,7
Jequit.-Mucuri-Doce 5 2 1.701 333 -1.368 -5,2

Minas Gerais 27 40 9.740 9.740 0 0,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Nesse último período, 40 dos 67 municípios tiveram saldos importadores posi-


tivos e as perdas de escravos se concentraram apenas nos 27 restantes. A realoca-
ção da escravaria dentro da província foi mínima. Em 1886 nenhuma região tinha
uma participação na população escrava total sequer um ponto percentual maior ou

318 Relatório Agricultura, Ministro Antonio da Silva Prado, 1885 (publicado em 1886)
319 Falla... pres. Antonio Gonçalves Chaves, 1º de agosto de 1884, Anexo B (Directoria da Fazenda
Provincial). Apêndice nº 17, e Relatório...pres. Manoel do Nascimento Machado Portela, 13 de abril
de 1886, Anexo B (Directoria da Fazenda Provincial).

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


193
menor que em 1884. O plantel total da província em 1886 era 4% menor que em
1884. O declínio ocorreu em todas as regiões, mas em nenhuma delas foi maior do
que 9%. Mesmo entre os 67 municípios as variações foram muito pequenas: em 46
deles elas se situaram abaixo de 9% para mais ou para menos.
Como nos períodos anteriores, a tabela B.6: Estabilidade dos saldos municipais
do tráfico, 1884-1886, no Apêndice B, mostra a estabilidade dos sinais dos saldos
líquidos estimados para 1884-86: dentro do intervalo de 25% (as taxas de cres-
cimento interno variando de –15,77 a –26,29 por mil) 56 municípios têm saldos
líquidos estáveis; dentro do intervalo de 50% (taxas de crescimento interno entre
–10,52 a –31,55 por mil) os saldos líquidos de 44 municípios são estáveis.
Novamente, e ainda menos do que nos períodos anteriores, nem o cultivo do
café nem a mineração podem explicar o papel dos municípios no tráfico de escra-
vos. As tabelas 4.20 e 4.21 mostram os resultados da análise de contingência para
esse período.

Tabela 4.20 - Minas Gerais: Associação entre café e tráfico, 1884-1886


Municípios incluídos Valor de C

Todos os 67* municípios 0,058


56 municípios “estáveis no intervalo de 25%” 0,006
44 municípios “estáveis no intervalo de 50%” 0,015
C = coeficiente de contingência.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 4.21 - Minas Gerais: Associação entre mineração e tráfico, 1884-1886


Definição de Todos os 67* 56 municípios estáveis 44 municípios estáveis
município minerador municípios no intervalo de 25% no intervalo de 50%

1. Municípios com escravos


C = 0,077 C = 0,055 C = 0,023
na mineração em 1881-82

2. Municípios com passado


C = 0,092 C = 0,026 C = 0,052
minerador

C = coeficiente de contingência.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

194 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
MANUMISSÃO E O APEGO DOS MINEIROS À ESCRAVIDÃO
A análise apresentada neste capítulo demonstra que Minas Gerais manteve um
vínculo forte e obstinado com o regime escravista durante todo o século XIX. Sua
grande população escrava não era constituída por sobras da época da mineração, e
não exerceu o papel de reservatório de mão de obra para a expansão do setor cafe-
eiro no Sudeste brasileiro.
Não se trata apenas de constatar que Minas Gerais não foi um exportador de
cativos: muito ao contrário, a evidência empírica mostra que, ao longo do século, a
província foi um ativo importador que adquiriu, em termos líquidos, consideravel-
mente mais escravos do que qualquer outra província brasileira. Na verdade, se as
estimativas do tráfico atlântico atualmente disponíveis estiveram corretas, Minas
só fica abaixo de Cuba como destino final dos africanos que cruzaram o oceano no
século XIX.320
A cronologia das importações mineiras é extremamente importante. O maior
influxo ocorreu enquanto o tráfico africano ainda estava aberto, ou seja, numa
época em que o setor minerador estava definhando e o setor cafeeiro ainda estava
na sua infância, e nenhum deles empregava mais do que uns poucos milhares de
escravos. Mesmo depois da metade do século, quando a grande lavoura atingiu sua
maturidade, o café não é capaz de explicar, por si só, nem o volume nem o padrão
do tráfico mineiro de escravos.
Segundo nossas estimativas os distritos cafeeiros foram os principais impor-
tadores de cativos entre 1873 e 1886, e no mesmo período a porcentagem da
população escrava da província residente na região cafeeira, aumentou de 21,5%
para 31,0%. Entretanto, os mesmos números demonstram que a grande maioria
dos escravos de Minas permaneceu fora da zona de plantations. Longe de esta-
rem “ansiosas para ver seu fim”, as áreas onde a grande lavoura exportadora não se
implantou permaneceram apegadas ao regime servil, mantiveram um contingente
cativo numeroso, e um grande número de municípios não cafeeiros continuaram a
ser importadores ativos até os anos finais. Em contraste com as regiões brasileiras
onde a escravidão estava sendo realmente descartada, os preços dos escravos em
todas as regiões mineiras se mantiveram entre os mais altos do Brasil, em níveis
comparáveis aos observados nas áreas de plantation, até os dias finais do regime.
A afirmação de que os escravos foram maciçamente transferidos da mineração
para a cultura do café, está errada nas duas pontas da jornada. É óbvio que o setor
minerador já não dispunha, desde a virada do século, de escravos excedentes que

320 Segundo Curtin, Cuba importou 616.200 africanos entre 1801 e 1865. Curtin. The Atlantic Slave Trade,
p. 40.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


195
pudessem ser exportados, e a evidência analisada demonstra que é um erro iden-
tificar as áreas exportadoras com a mineração presente ou passada, ou as regiões
importadoras de escravos exclusivamente com o café.
O comportamento da província com relação às alforrias oferece outro ângulo
revelador do comprometimento dos mineiros com respeito à instituição servil. O
exame dos dados disponíveis para as províncias brasileiras, nos anos 1870 e 1880,
mostra que os níveis de manumissão refletiam a vitalidade do regime escravista
em cada região. As taxas mais altas de manumissão ocorreram nas áreas onde a
disponibilidade de fontes alternativas de mão de obra tornou os escravos menos
necessários, como no Nordeste e na Corte. Ou nas regiões onde a base econômica
do sistema servil estava se desmoronando, como foi o caso do Rio Grande do Sul e
de algumas províncias nordestinas atingidas pela seca nos anos setenta. Não cons-
titui surpresa o fato de que as províncias com altas taxas de manumissão fossem
também exportadoras de escravos.
Baixos níveis de manumissão foram observados nas províncias economica-
mente prósperas e fortemente dependentes do regime escravista, como o Rio de
Janeiro e São Paulo. É, portanto, muito significativa a constatação de que Minas
Gerais teve, ao longo de todo o período para o qual tais taxas podem ser compu-
tadas de maneira sistemática, os mais baixos índices de alforria do Brasil, como se
pode ver na tabela 4.22. Os dados também mostram que Minas Gerais foi a pro-
víncia que manumitiu a menor porcentagem de sua população escrava entre 1873
e 1885.321
Não foi possível obter dados de manumissão desagregados por municípios, mas
podemos afirmar que as baixas taxas observadas em Minas Gerais não podem ser
atribuídas apenas ao comportamento da zona cafeeira. A taxa provincial é, por defi-
nição, uma média ponderada das taxas das regiões que a compoem. Logo, devido
à grande parcela da população escrava residente fora da área da grande lavoura
exportadora, as baixas taxas observadas no conjunto da província implicam, neces-
sariamente, em baixos níveis de alforria também nessa área. O exercício abaixo, no
qual atribuimos níveis hipotéticos de manumissão para a região cafeeira, permite
balizar as taxas verificadas no restante do território provincial.

321 Thomas Merrick e Douglas Graham, baseados em sua própria imaginação, afirmaram que “a
manumissão se tornara claramente mais extensa no Nordeste (e no velho estado minerador de
Minas Gerais) do que no Rio de Janeiro e São Paulo.”. Merrick and Graham. Population and Economic
Development, p. 70. Não apresentam nenhum dado, fonte ou referência em apoio a essa afirmativa.

196 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 4.22 - Brasil: Alforrias de escravos, por províncias, 1877-1881
Províncias Taxa anual de alforria 1 % alforriada
1877 1878 1879 1880 1881 1873 -1885 2
Amazonas 7,7 6,1 7,2 14,4 69,8 *
Ceará 12,2 13,1 10,9 13,5 31,8 *
Rio G. do Sul 10,2 10,9 13,9 15,9 18,0 47,1
Município Neutro 20,6 19,0 26,0 33,5 33,3 32,2
Pará 17,8 18,1 16,0 19,5 20,4 25,4
Santa Catarina 8,2 11,2 19,7 30,1 14,5 24,5
Paraná 13,1 22,6 20,5 36,9 18,7 20,4
Mato Grosso 3,7 13,2 12,1 25,6 8,3 13,6
Piauí 12,7 9,5 10,2 15,5 11,8 13,3
Rio G. do Norte 9,9 10,7 10,3 12,7 10,1 12,4
Goiás 6,6 6,7 5,4 12,9 5,8 12,2
Pernambuco 5,4 5,0 6,5 8,7 8,4 11,4
São Paulo 3,9 3,5 3,7 4,7 5,6 9,8
Espírito Santo 5,2 5,9 7,1 8,2 7,4 9,6
Bahia 11,8 10,1 10,5 11,5 16,9 9,2
Sergipe 9,2 5,8 5,7 7,6 6,7 8,8
Alagoas 6,2 5,5 5,4 10,1 6,9 8,7
Maranhão 9,3 7,8 10,7 10,2 11,2 7,4
Rio de Janeiro 4,5 3,9 5,1 5,5 5,8 6,9
Paraíba * * * * * 6,2
Minas Gerais 3,9 3,0 3,2 5,2 5,1 5,0

Brasil 7,0 6,3 7,1 9,1 11,1 11,8


(1) A taxa de alforria é definida como o número de alforrias por mil escravos registrados
no ano.
(2) Porcentagem da população escrava existente em 1873 alforriada entre este ano e 1885.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 4.23 - Taxas de alforria 1 na região não-plantation de Minas Gerais,


1877 - 1881

Taxa hipotética de alforria Taxa implícita de alforria na região não-plantation


na zona cafeeira de Minas 1877 1878 1879 1880 1881
1. Igual à taxa de São Paulo 3,9 2,8 3,0 5,5 4,9

2. Metade da taxa de São Paulo 4,5 3,4 3,6 6,2 5,8


(1) A taxa de alforria é o número de alforrias por mil escravos registrados no ano.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 4 - POPULAÇÃO ESCRAVA, TRÁFICO E MANUMISSÃO EM MINAS NO SÉCULO XIX


197
Ou seja, se a zona cafeeira mineira tiver se comportado com respeito a manu-
missão, exatamente como São Paulo (que tinha a taxa mais baixa entre as províncias
cafeeiras), as taxas da área não-plantation de Minas Gerais ainda seriam as mais
baixas do país. Mesmo no caso improvável de que a zona cafeeira mineira tivesse
níveis de alforria iguais à metade daqueles praticados em São Paulo, sua região
não-cafeeira ainda teria taxas comparáveis às das províncias cafeeiras e muito mais
baixas do que as observadas em qualquer outra parte do Brasil.322

322 Se M, Mc e Mn são respectivamente as taxas de manumissão da província toda, da zona cafeeira e da


zona não-cafeeira, a última é dada por: Mn = (M – Mc · Sc)/Sn (onde Sc e Sn são as participações das duas
regiões na população escrava provincial).

198 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Capítulo 5 - Uma Economia Vicinal

(...) les seuls cordonniers de France


produisaient dix fois plus que les mines réunies
du Pérou, du Brésil et du Mexique (...)
Pierre-Joseph Proudhon
Système des contradictions économiques ou Philosophie de la misère
Paris: Chez Guillaumin et Cie. Libraires, 1846, tome I, p. 35.

N
os capítulos anteriores argumentamos que a Minas Gerais do século XIX
não pode ser descrita nem como uma economia mineradora nem como
uma economia cafeeira. Mostramos que estes dois setores desempenharam
papéis relativamente modestos na vida econômica da província como um todo e,
em particular, que não se pode atribuir a eles a grande população escrava existente
em Minas, nem seu crescimento nesse período. O que foi então a economia pro-
vincial no oitocentos? O que mantinha ocupado seu vasto contigente de escravos?
Quais eram as atividades econômicas de sua grande população livre?
Neste capítulo tentamos responder a estas questões. Argumentamos que em
Minas, excetuado o setor cafeeiro da Zona da Mata, a produção para exportação
era a exceção e não a regra. O grosso da economia mineira era a antítese da grande
lavoura monocultora e exportadora organizada em plantations. Ao longo de todo o
século essa economia era constituída principalmente por estabelecimentos agríco-
las e pecuários que produziam basicamente para seu próprio consumo e vendiam
seus excedentes dentro da própria província ou no mercado brasileiro interno,
sobretudo para a cidade do Rio de Janeiro. As mercadorias enviadas para fora de
Minas eram alimentos básicos, animais vivos, queijos e outros derivados da pecu-
ária bovina e suína, fumo e algumas manufaturas simples como panos de algodão
grosseiro. Todos esses itens eram largamente consumidos dentro da província e, na
maioria dos casos, as quantidades exportadas eram desprezíveis em comparação
com a produção e o consumo provinciais desses artigos.

199
A propriedade rural típica de Minas Gerais, embora frequentemente incluisse
grandes extensões de terra, e algumas vezes uma grande força de trabalho escravo,
em nada se parecia com a grande lavoura exportadora. Faltavam-lhe quase todas as
características definidoras de uma plantation, ou sejam, a concentração monocul-
tora, a disciplina e o método quase-fabril de trabalho e administração e, acima de
tudo, a orientação exportadora da grande lavoura.
As fazendas mineiras eram, bem ao contrário, unidades autossuficientes, espa-
lhadas por um vasto território, isoladas dos grandes mercados internacionais e,
em algumas regiões, apenas parcialmente integradas na economia monetária. Sua
tecnologia era bastante rudimentar e sua produção extremamente diversificada
internamente. Geralmente incluía produtos “coloniais” historicamente associados
à plantation exportadora, como o açúcar e o algodão, mas em Minas esses artigos
eram cultivados quase exclusivamente para consumo dentro da própria província.
Ainda mais distantes do paradigma da plantation estavam o sítio, a roça e a fazenda
de gado, os quais, juntos com a fazenda diversificada e polivalente, continuaram
a ser o cerne da vida econômica de Minas mesmo durante o período da expansão
do café. Resumir a história econômica de Minas do século XIX como uma mera
transição da mineração para o café é um erro grosseiro. Caracterizar a província
como uma província cafeeira é concentrar o foco no apêndice, e ignorar a essência
dessa economia.

TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL DURANTE


O DECLÍNIO DA MINERAÇÃO
Descrever sinteticamente a economia da província não é uma tarefa fácil, pois
nela não encontramos em lugar algum a simplicidade estrutural típica das econo-
mias de plantation exportadora. Desde o começo de sua colonização, Minas Gerais,
apresentou características que contrastavam marcadamente com a
economia de latifúndios e plantations do litoral. As descobertas de ouro
criaram pela primeira vez, a centenas de quilômetros da costa, novos
mercados para produtos como aguardente e açúcar, que até então só
tinham sido exportados. Muito cedo os próprios mineiros começaram
a produzir localmente alguns produtos básicos essenciais para o
abastecimento dos núcleos mineradores em expansão.323

323 Maxwell. Conflicts and Conspiracies, p. 87.

200 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Durante a fase ascensional do ciclo de ouro a sociedade mineira era mais urba-
nizada do que qualquer outra região da América portuguesa e uma considerável
parte de sua população estava engajada em uma atividade não-agrícola especiali-
zada. As grandes distâncias que separavam os centros mineradores da costa e de
outras áreas já colonizadas, e os altos preços das necessidades mais básicas, gera-
ram um forte estímulo para o surgimento de uma oferta local. A diversificação da
economia regional foi, portanto, concomitante com a expansão da mineração e
representou, inicialmente, uma resposta à demanda gerada pelos setores urbanos
e mineradores.324 O declínio da mineração, no terceiro e quarto quartéis do século
XVIII, intensificou o processo de diversificação e conduziu a economia regional
em direção a um crescente isolamento dos mercados externos, à medida em que a
queda da produção de ouro reduzia progressivamente sua capacidade de importar.
Essa tendência está claramente refletida na arrecadação dos direitos de entra-
das. Esses impostos de importação sobre as mercadorias que entravam em Minas
Gerais eram divididos em duas grandes categorias: “as fazendas secas, que incluíam
todos os itens não-comestíveis estavam sujeitas a uma taxa fixa de 1.125 réis por
arroba, e os molhados (alimentos e bebidas) que pagavam 750 réis por cada carga
de duas até três arrobas de peso”.
Como essas alíquotas permaneceram fixas de 1714 em diante, a receita arreca-
dada reflete basicamente o volume físico das importações. A arrecadação também
era afetada, é claro, pela composição da pauta, que evoluiu no sentido da queda na
participação dos artigos molhados e do aumento das fazendas secas, que consis-
tiam principalmente em manufaturados europeus, mais dificilmente substituídos
pela produção local. Então, como a alíquota das fazendas secas era mais alta do que
dos molhados, a receita registrada dos direitos de entrada subestima o declínio da
quantidade física das importações.325
Em 1818-19, foram arrecadados 183.834 mil réis de direitos de entradas, indi-
cando que o volume das importações tinha apresentado alguma recuperação com

324 Sobre a diversificação precoce da economia mineira, ver Zemella. O Abastecimento, pp. 206-08; Singer.
Desenvolvimento Econômico, pp. 202-05; Maxwell. Conflicts and Conspiracies, pp. 87-90. Singer é
especialmente enfático ao criticar o empenho de “muitos historiadores em apresentar a economia de
Minas, no século XVIII, como sendo de quase mono-produção de ouro e pedras preciosas, datando
o surgimento das atividades agrícolas no solo mineiro apenas do fim da mineração, como atividade
substitutiva desta. Esta distorção na análise dos fatos históricos permeia toda a historiografia
brasileira e se explica pelo menosprezo com que eram encaradas as atividades de subsistência pelos
contemporâneos, cujos depoimentos chegaram até nós”.
325 A citação é de Maxwell. Conflicts and Conspiracies, pp. 84-85. Sobre os direitos de entrada, ver
também Boxer. The Golden Age, pp. 189-90.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


201
relação à última década do século anterior, mas ainda se situava abaixo do nível da
década 1751-60. Algumas décadas mais tarde, em 1844-45, a receita desse tributo
foi somente 104.592 mil réis. As importações tinham voltado a cair, atingindo o
nível de apenas 55% do máximo da série, observado em 1751-60. Em termos per
capita, a tendência ao declínio foi monotônica: do índice 100 em 1776 caiu para 79
em 1786, 73 em 1818-19 e apenas 29 em 1844-45.326

Tabela 5.1 - Minas Gerais: Arrecadação dos


direitos de entradas, 1717-1800, por períodos, em milréis
Período Direitos Média Índice
arrecadados anual (1751-60 = 100)
1717-1720 125.635 31.409 16,7
1721-1730 900.241 90.024 47,9
1731-1740 1.352.190 135.219 71,9
1741-1750 1.832.025 183.203 97,4
1751-1760 1.881.170 188.117 100,0
1761-1770 1.765.043 176.504 93,8
1771-1780 1.412.594 141.259 75,1
1781-1790 1.244.286 124.429 66,1
1791-1800 1.206.673 120.667 64,1
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A crescente restrição da capacidade de importar deflagrou um vigoroso pro-


cesso de substituição de importações, de profundas e duradouras consequências.
Atividades que tinham sido ancilares ao setor minerador tornaram-se centrais na
vida econômica provincial. O processo foi acompanhado pela dispersão da popu-
lação pelo território e o foco principal da economia se transferiu das cidades e
vilas para as fazendas e roças. Com exceção de alguns poucos lugares, os animados
centros urbanos da era do ouro tornaram-se villes de dimanche, onde a maioria das
casas permanecia fechada durante a semana, despertando somente nos domingos

326 Os direitos de entradas, em 1818-19 e 1844-45 são, respectivamente, de Eschwege. Notícias e


Reflexões, p. 747 e Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, p. 122. Os dados da população usados
para computar os índices per capita são de População da Província de Minas Gerais, p. 294; Oliveira
Viana. Resumo Histórico, p. 405 e Iglésias. Política Econômica, pp. 119-20. A população em 1845 foi
calculada aplicando-se à população de 1819 a taxa de crescimento observada no período 1819-1854.
Não foi possível determinar positivamente se as alíquotas permaneceram inalteradas até 1844-45,
mas a não ser que tenham caído muito, ocorreu claramente uma forte queda nas importações. O
volume total da arrecadação das entradas nesse ano foi somente 57% do nível de 1818-19.

202 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
e feriados, quando seus proprietários, fazendeiros da vizinhança, se reuniam para
a missa.327
No final do século XVIII, Minas Gerais tinha se tornado autossuficiente na
produção de alimentos e começou a exportar o excedente, principalmente para o
mercado urbano do Rio de Janeiro, mas também para a Bahia e Pernambuco. Os
viajantes do início do século XIX frequentemente encontravam tropas de mulas
carregadas de artigos mineiros a caminho dessas províncias. Ao Rio de Janeiro
eram enviados fumo, toucinho, pano de algodão, queijos, gado vacum, porcos em
pé, galinhas, couros e solas, milho, feijão, vários alimentos processados e muitas
manufaturas simples, além do café, que se destinava ao mercado externo. Para a
Bahia e Pernambuco, descendo o rio São Francisco, as exportações eram de farinha
de mandioca, feijão, milho, toucinho, carne seca, couro e rapaduras.328
As importações, que vinham principalmente do Rio de Janeiro, consistiam
basicamente de sal, tecidos e manufaturas européias, matérias primas (ferro, cobre,
chumbo, estanho) e alimentos de luxo, como vinhos e outras bebidas, azeitonas
e azeite de oliva, vinagres e presuntos – e, é claro, muitos escravos. Nenhum item
básico da dieta mineira era importado. A província era totalmente autossuficiente na
produção de seus alimentos.329
No setor manufatureiro o escopo da substituição de importações foi muito mais
limitado, mas, mesmo assim, a resposta foi bastante impressionante, para a época
e o lugar. Em vários lugares apareceram fundições de ferro, que começaram a pro-
duzir substitutos locais para as ferramentas agrícolas e de mineração anteriormente
importadas. Seu desenvolvimento foi de tal ordem que, quando a Coroa suspendeu
a proibição sobre a produção colonial de ferro, ela estava apenas se curvando diante
de um fato consumado.330
Ainda mais importante foi a vasta indústria têxtil, apoiada por um extenso
cultivo do algodão. Considerada pelas autoridades metropolitanas como uma das

327 Todos os viajantes do século XIX deixaram descrições da sonolenta vida urbana de Minas no período.
Veja, por exemplo, Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 140-41, 270; e Viagem às Nascentes,
vol. 1, p. 160.
328 Veja Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 118, 120, 148, 187; vol. 2, pp. 236, 241-48; Pohl. Viagem,
vol. 1, p. 190; vol. 2, p. 44; Eschwege. Notícias, pp. 748-49. As exportações de Minas Gerais no século
XIX são analisadas adiante, neste capítulo.
329 A única listagem detalhada das importações de Minas Gerais no começo do século XIX, que conheço,
é referente a 1818-19, e foi publicada por Eschwege em Notícias, p. 747. Veja também Pohl. Viagem,
vol. 1, p. 190; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 187, vol. 2, pp. 236 e 241-48.
330 Zemella. O Abastecimento, p. 254.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


203
causas do declínio da mineração e uma séria ameaça para o desenho mercantilista
do império português, a indústria têxtil mineira foi o verdadeiro alvo do famoso
Alvará de 1785, que determinou a destruição dos teares no Brasil.
Referindo-se, em particular, ao desenvolvimento têxtil e, mais genericamente, à
visível tendência à diversificação e à autossuficiência econômica da região, o preo-
cupado Secretário dos Negócios Ultramarinos, Martinho de Mello e Castro, preve-
niu o recém-nomeado Governador de Minas, Luiz Antônio Furtado de Mendonça,
em 1788, que “é indispensavelmente necessário que a capitania de Minas Gerais se
conserve em alguma dependência das outras capitanias pelo que respeita ao seu
consumo e giro do seu comércio (...)”. Os mineiros, explicou Mello e Castro,
não satisfeitos com os tesouros que a terra lhes oferece, nem com o
útil comércio que deles lhes resulta, estendendo as suas vistas a outros
objetos, se determinaram a estabelecer em Minas Gerais, diferentes
fábricas e manufaturas, levando-as a um tal adiantamento que (...) se
continuassem nele, dentro de muito pouco tempo ficariam os habitantes
dessa capitania independentes das desse reino pela diversidade de
gêneros que já nas suas fábricas se trabalhavam.331

O Marquês de Lavradio, Vice-rei do Brasil de 1769 a 1779, não estava menos


alarmado, quando reportou, ao transmitir o governo a seu sucessor,
a independência, que os povos de Minas se tinham posto dos gêneros
da Europa, estabelecendo a maior parte dos particulares, nas suas
próprias fazendas, fábricas e teares, com que vestiam a si, e à sua família e
escravatura, fazendo panos e estopas, e diferentes outras drogas de linho
e algodão, e ainda de lã.332

O Vice-rei alertava que “deviam considerar que uns povos compostos de tão
más gentes, em um país tão extenso, fazendo-se independentes, era muito arris-
cado a poderem algum dia dar trabalho de maior consequência.”333 A tenaz oposi-
ção da metrópole às fábricas têxteis não impediu o crescimento da indústria têxtil
doméstica. No início da década de 1800, sua produção era grande bastante para
suprir a massa da população mineira e ainda exportar para as províncias vizinhas o

331 Martinho de Mello e Castro. Instrução para o Visconde de Barbacena, Luiz Antônio Furtado de
Mendonça, Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais. Revista Trimensal de História
e Geographia ou Jornal do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, n. 21, abril de 1844, pp. 19 e 47.
332 Relatorio do Marquez de Lavradio, Vice-Rei do Rio de Janeiro, entregando o Governo a Luiz de
Vasconcellos e Souza, que o succedeu no vice-reinado. Revista Trimensal de História e Geographia ou
Jornal do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, n. 16, janeiro de 1843, p. 457.
333 Relatório do Marquez de Lavradio, p. 458.

204 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
que pareceu a um observador contemporâneo “uma quantidade colossal” de panos
grosseiros de algodão.334
As principais linhas do desenvolvimento de Minas Gerais na segunda metade
do século XVIII são, portanto, bastante claras. A direção da mudança foi da mine-
ração para a agricultura, do urbano para o rural e, acima de tudo, de um alto grau
de especialização no ouro e dependência de fontes externas de abastecimento para
uma crescente diversificação, autossuficiência e crescimento baseados principal-
mente no mercado interno.
Os registros fiscais da capitania nos permitem construir uma medida da intro-
versão da economia mineira nesse período. Os já mencionados direitos de entradas
são um indicador do volume das importações. Os dízimos eram tributos cobrados
sobre uma ampla lista de produtos agrícolas e outros bens e serviços, com uma
única alíquota, de 10% sobre seus valores.335 Sua arrecadação, fornece, portanto,
uma medida do nível da atividade econômica doméstica. A razão entre os dois
indicadores (dízimos divididos por entradas) mostra a evolução da importância
relativa da produção interna versus importações.336 O persistente crescimento do
índice por toda a segunda metade do século XVIII indica claramente o movimento
em direção à autossuficiência e ao isolamento.

334 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, p. 118. O desenvolvimento da indústria têxtil de algodão mineira no
século XIX é descrito mais adiante. As evidências aqui apresentadas devem ser comparadas com
a citação abaixo, de Celso Furtado, que ilustra o estado deplorável da pesquisa sobre a história
econômica de Minas: “Este conjunto de circunstâncias tornava a região mineira muito mais propícia
ao desenvolovimento de atividades ligadas ao mercado interno do que havia sido até então a região
açucareira. Contudo, o desenvolvimento endógeno, isto é – com base em seu próprio mercado – da
região mineira, foi praticamente nulo. É fácil compreender que a atividade mineratória haja absorvido
todos os recursos disponíveis na etapa inicial. É menos fácil explicar, entretanto, que, uma vez
estabelecidos os centros urbanos, não se hajam desenvolvido suficientes atividades manufatureiras
de grau inferior, as quais poderiam expandir-se na etapa subsequente de dificuldades de importação”.
Furtado. Formação Econômica, p. 86.
335 O dízimo compreendia a décima parte de todos os produtos da agricultura e da pecuária e dos
rendimentos de qualquer emprego, ofício ou negócio. Boxer. The Golden Age, p. 189.
336 A fonte dos dados é Maxwell. Conflicts and Conspiracies, pp. 147-48. As séries das receitas do dízimo
e das receitas das entradas foram suavizadas tomando-se suas médias móveis de três anos e em
seguida os dízimos foram divididos pelas entradas. Essa razão foi denominada “indice de introversão”.
Por construção, valores crescentes do índice significam que a podução doméstica se tornava mais
importante em relação às importações. Deve ser notado que, embora a arrecadação do dízimo seja
uma medida direta do produto nominal, a receita das entradas é apenas um índice das importações.
Portanto, a razão entre essas duas grandezas não mede o grau de abertura da economia. Os valores
do índice de introversão não carregam, em si, nenhum significado específico, apenas sua tendência é
significante.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


205
Gráfico 5.1 - Índice de introversão da economia mineira, 1750 - 1800
80

70

60

50

40

30

20
1750 1755 1760 1765 1770 1775 1780 1785 1790 1795 1800

Fonte: Maxwell. Conflicts and Conspiracies, pp. 147-48. Veja a nota 336 para a definição do índice.

ISOLAMENTO E AUTOSSUFICIÊNCIA NO SÉCULO XIX


É fundamental perceber que a transformação pela qual passou a economia
mineira depois do apogeu da mineração, não foi um arranjo provisório, um entre-
ato, uma pausa para arrumação, nem um estupor passageiro do qual foi despertado
pela chegada do café. Quando o “ciclo” do ouro se esgotou, Minas Gerais deixou
de ser uma economia exportadora, para sempre. A estrutura econômica que tomou
forma no final do setecentos permaneceu essencialmente inalterada, e suas linhas
principais - autossuficiência e independência dos mercados externos - foram refor-
çadas ao longo do século XIX. Em muitos lugares da província essa estrutura sobre-
viveu ao império e persistiu até o século atual.337
As administrações provinciais e imperial tentaram desesperadamente reinte-
grar Minas nos circuitos do comércio internacional. Suas tentativas para estimular
a produção de mercadorias exportáveis incluíram experimentos com diversos tipos

337 Para uma análise da economia e da política de Minas durante a primeira república (1889-1930), que
destaca sua diversificação e crescimento interno, e desenfatiza o papel do setor cafeeiro, veja Amilcar
Martins Filho. Minas e São Paulo na Primeira República Brasileira: a ‘Política Café com Leite’ (1900-
1930). Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Minas Gerais, 1978.

206 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
de chá, trigo, centeio, cevada, uvas para vinho, bichos-da-seda, cochonilhas, lhamas,
alpacas, camelos e dromedários e, como se poderia prever, resultaram, sem exce-
ção, em completos fracassos.338 Minas Gerais manteve seu caráter não-exportador.
O surgimento da lavoura do café, e seu rápido crescimento após a metade do
século não mudaram esse panorama. A área cafeeira foi desde o começo, e per-
maneceu por todo o império, um enclave plantacionista-exportador, que teve um
impacto bastante reduzido sobre o cerne da economia da província. Inferir, a par-
tir do tamanho absoluto do setor cafeeiro, que Minas Gerais era uma economia
exportadora, ou rotulá-la de “província cafeeira”, é uma generalização equivocada,
baseada em informação incompleta e superficial sobre a economia provincial.
A grande e crescente participação do café nas exportações totais de Minas tam-
bém tem sido invocada para arguir o peso dessa atividade no cenário mineiro, mas
na verdade o que os números revelam é a pequena importância das exportações no
conjunto da economia provincial. A parte não-cafeeira de Minas, que compreen-
dia, nas últimas décadas do império, cerca de 96% do território, 79% dos escravos
e mais de 80% da população livre, gerou bem menos de 30% das exportações no
período 1850-1888.339
Ao longo deste capítulo usaremos o termo exportação para designar todos os arti-
gos enviados para mercados fora da província. As exportações incluem, portanto,
tanto as vendas para outras províncias como as vendas para outros países. Importação,
por seu lado, se refere a todos as mercadorias trazidos de fora da província, sejam elas
originadas em outras províncias ou em outros países. Da mesma forma, os termos
interno e doméstico se referem sempre a Minas Gerais, e não ao Brasil.
A evolução das exportações não-cafeeiras é mais representativa do comporta-
mento exportador de Minas do que o desenvolvimento das exportações de café,
porque reflete a história da maior parte da economia provincial. O valor per capita
das exportações não-cafeeiras foi muito baixo durante todo o século. Seu cresci-
mento foi lento e inconstante em termos nominais e, em termos reais, apresentou
uma queda significativa ao longo do período estudado. Em dólares americanos as
exportações não-cafeeiras per capita diminuíram de 2,70 em 1819 para 1,71 em
1888.340 No caso de alguns produtos importantes, como porcos vivos e panos de

338 Iglésias. Política Econômica, pp. 70-81, passim.


339 As populações das zonas cafeeira e não-cafeeira são do Recenseamento 1872. Os dados de exportação
são de A. Alvim. Confrontos e Deduções, pp. 80-83. Os produtos não-café responderam por 31% do valor
total das exportações em 1885-1888, mas uma grande parte delas era produzida na região cafeeira.
340 As taxas cambiais usadas para converter milréis em dólares são de Julian Smith Duncan. Public and

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


207
algodão, as quantidades totais exportadas declinaram, especialmente após a metade
do século.341

Gráfico 5.2 - Minas Gerais: Valor das exportações de café


como porcentagem das exportações totais, 1839-1888
90

80

70

60

50

40

30

20

10

1884-1885
1875-1876

1878-1879

1881-1882
1869-1870

1872-1873
1860-1861

1863-1864

1866-1867
1851-1852

1854-1855

1857-1858
1845-1846

1848-1849
1839-1840

1842-1843

1888
Fonte: Aristóteles Alvim. Confrontos e Deduções, pp. 80-83

Tabela 5.2 - Minas Gerais: Exportações per capita de café


e produtos não-café, 1819-1888, anos selecionados
Ano Valor nominal Valor real
(milréis correntes) (milréis de 1819)
café não-café total café não-café total
1819 0,05 2,60 2,65 0,05 2,60 2,65
1845 0,78 1,86 2,64 0,58 1,30 1,88
1868 6,20 3,18 9,38 2,02 0,90 2,92
1882 10,60 3,33 13,93 2,77 0,68 3,45
1888 13,60 3,36 16,96 2,63 0,60 3,23
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Private Operation of Railways in Brazil. New York: Columbia University Press, 1932, pp. 183-84.
341 Veja a Tabela 5.6, adiante.

208 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Para os observadores contemporâneos era perfeitamente claro que Minas não
era nem uma economia exportadora, nem uma economia de plantation. Sua ima-
gem como “província cafeeira” é uma criação dos historiadores do século XX. Louis
François de Tollenare, que viveu no Brasil de 1816 a 1818, expressa com precisão
esse ponto de vista, ao observar que,
a província mais interessante é a de Minas Gerais, que conta um milhão
de habitantes, fornece poucos gêneros para o comércio, mas produz
muitos para o consumo interno ... Concebe-se que não é só a extração de
(...) ouro que ocupa toda aquela população, e sim a pequena lavoura, que
nós europeus, acostumados a não ver nos produtos da América senão
açúcar café e algodão, desdenhamos.342

Escrevendo sobre o mesmo período, Auguste de Saint-Hilaire observou que,


em muitas outras partes da província, os donos de terra não consideram
lucrativo cultivar milho além da quantidade necessária para o consumo
de suas próprias casas e, a despeito de seu maior valor, o açúcar e o café
também não podem ser exportados para lugares distantes, uma vez que
têm que ser transportados por mulas.

A dificuldade para exportar não significava, entretanto, um problema, na opi-


nião do botânico francês. Em um comentário que lhe valeu a eterna simpatia dos
mineiros, ele observou que a província era superiormente dotada para uma vida
autárquica: “Se existe alguma região que possa dispensar o resto do mundo, será
certamente a Província das Minas, quando seus inúmeros recursos forem explora-
dos por uma população mais densa.343
Outras fontes valiosas sobre a estrutura da economia regional desse período são
as corografias, um tipo de publicação muito popular no século XIX, que apresenta
sumários descritivos dos municípios ou distritos, listando suas atividades econô-
micas e seus produtos, além de registrar, em muitos casos, indicações sobre os flu-
xos de comércio. As corografias sobre Minas Gerais na primeira metade do século
confirmam a visão aqui apresentada.344

342 Louis François de Tollenare. Notas Dominicais tomadas durante uma viagem em Portugal e no Brasil
em 1816, 1817 e 1818. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1956, p. 315.
343 Saint-Hilaire. Viagem pelas províncias, vol. 2, p. 154, vol. 1, p. 86.
344 Algumas boas corografias, focalizando ou incluindo Minas Gerais no século XIX, são: Manuel Ayres
de Casal. Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil. São Paulo: Editora
Cultura, 1943 (originalmente publicada em 1817); José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo. Memórias
Históricas do Rio de Janeiro e das Províncias anexas à jurisdição do Vice-Rei do Estado do Brasil. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1948 (originalmente publicadas em 1822), vol. 8, tomo 2; J. C. R. Milliet de

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


209
Na maioria dos lugares a base da vida econômica era o cultivo de gêneros
“comuns” e a criação de gado para consumo local, ou para venda nas cidades vizi-
nhas. A manufatura em pequena escala, também para mercados locais, é frequen-
temente citada. Em muitos poucos casos a produção era comercializada em merca-
dos localizados fora da província. Entre esses, o mais importante foi o curto boom
de exportação de algodão em rama nas duas primeiras décadas do século.
Bovinos, suínos e seus derivados, assim como fumo em rolo e têxteis de algodão
foram exportados em quantidades razoavelmente grandes durante a maior parte
do período, mas todas essas atividades eram basicamente voltadas para o mercado
interno, e suas exportações eram inferiores ao consumo provincial. Mesmo no caso
do café, a maior parte da produção era consumida dentro da província até a década
de 1850.
Na segunda metade do século várias fontes registram o crescimento do setor
cafeeiro, mas indicam que nada tinha mudado no resto da província. Os obstácu-
los para o desenvolvimento das exportações não tinham sido superados, exceto na
Zona da Mata. Minas era, nas palavras de um deputado provincial, em 1875,
fértil, prodigiosamente fértil, não só em produtos naturais, mas ainda
em produtos estrangeiros; em todos os seus municípios dá muito bem
o café, o algodão, a cana, todos esses gêneros que podiam enriquecê-la
(...) Entretanto, nós não exportamos uma arroba de açúcar, um litro de
aguardente; não exportamos, por assim dizer, senão algum café desses
ricos municípios da Mata, que estão mais em contato com a província do
Rio de Janeiro, e mais próximos do mercado da Côrte. A razão de tudo
isso é a falta de estradas; não vale a pena cultivar esses gêneros porque a
despesa do transporte absorve todo o preço que eles alcançam.345

A descrição que James Wells faz de São José, no coração da província, é típica
de muitos lugares de Minas, em 1873: “Não há, na verdade, nenhuma exportação
de excedentes, pois quase toda a produção é consumida localmente; alguns artigos

Saint Adolphe. Diccionário Geográfico, Histórico e Descriptivo do Império do Brasil. 2 vols. trad. Caetano
Lopes de Moura. Paris: J. P. Aillaud, 1845; H. G. F. Halfeld und J. J. von Tschudi. Die Brasilianische
Provinz Minas Gerais. Erganzungsheft Nr. 9 zu Peterman’s Geograhischen Mitteilugen. Gotha: Justus
Perthes, 1862. Para a década de 1870, veja José Joaquim da Silva. Tratado de Geographia Descriptiva
Especial da Província de Minas Geraes. Rio de Janeiro: Typografia Universal de E. e H. Laemmert, 1878.
Também muito informativo é o relatório sobre o “Estado moral e material dos diversos municípios da
província”, inserido na Falla... pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59. Os livros de Saint-Hilaire,
Spix e Martius, Pohl, Burton e Wells, listados na bibliografia, não são em formato corográfico, mas são
também muito ricos em informações sobre a economia de Minas no século XIX.
345 Deputado provincial Batista Pinto, citado por Miguel Costa Filho. A Cana de Açúcar em Minas Gerais.
Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1963, p. 216.

210 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
simples, tais como morins e estampados baratos, xales coloridos, pólvora, balas, sal,
algumas ferragens, bacalhau e vinho, são importados de Barbacena, mas o misté-
rio é saber de onde vêm os meios para pagar por eles”. A ausência de exportações,
entretanto, não significava uma prostração da economia local. Muito pelo contrá-
rio, aparentemente havia fartura e prosperidade, pois Wells registrou que “todos os
artigos de consumo local são baratos: galinhas gordas custam cerca de 8 d. e uma
dúzia ovos se compra por 1 d.; milho, legumes e verduras, e peixes de água doce são
extremamente baratos”.346 Mais para o interior, na bacia do São Francisco, o mesmo
autor comentou que mesmo o comércio interno era muito limitado:
todos produzem as mesmas coisas e sabem que, se a produção exceder
a demanda dos pequenos mercados locais, os preços deixam de ser
remunerativos. Se a colheita foi ruim, aqueles que, por sorte, têm algum
excedente disponível, são beneficiados pelos preços altos; se foi boa,
armazenam o feijão, o milho, a farinha, etc, para a estação seguinte; mas
recebem pequena recompensa por seus excedentes, já que todo mundo
está na mesma condição e não precisa de comprar ou trocar.347

O isolamento das regiões de Minas e a deficiência do sistema de transportes


como obstáculos para o desenvolvimento das exportações foram, uma vez mais,
observados em 1879 por Henri Gorceix. Viajando pelo vale do Jequitinhonha,
Gorceix notou que a agricultura (incluindo gêneros próprios para o mercado
externo) e a pecuária prosperavam em muitos lugares,
O algodão ergue-se por toda parte, o milho produz uma média de 150 a 200
por um, a cana desenvolve-se tão bem como nas melhores e tão afamadas
terras do litoral da Bahia e Pernambuco e, apesar da seca que havia quando
passei, o gado estava todo gordo e sadio. Entretanto o progresso ali não
se produz: a dez ou quinze léguas distante desses celeiros manifestou-se
a fome (...) Por que? Não há meios de comunicação! (...) quem há de se
aventurar a produzir em grande escala tendo que esperar meses e meses,
ou mesmo um ano, um vapor que não lhe poderá exportar senão uma
partida, e lhe importar com frete oneroso os objetos de necessidade?348

O problema do transporte era, de fato, uma séria limitação para Minas Gerais.
Até bem tarde no século XIX, as principais saídas para a exportação da província
eram as acidentadas trilhas do período colonial. A única alternativa para a tropa de

346 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 111.


347 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, pp. 297-98.
348 Henri Gorceix, citado no Relatório...pres. Rebello Horta, 1879, pp. 47-48.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


211
mulas, exceto pela limitada navegação de uns poucos rios do norte, era o pesado,
e ainda mais rudimentar, carro de bois. Tinha uma capacidade de carga maior,
mas era muito mais lento e mais exigente com relação à qualidade das estradas.
Trafegando por estradas favoráveis, um carro puxado por dezoito bois podia carre-
gar 1.200 quilos e percorrer 12 quilômetros por dia.349 O carro de boi era, portanto,
limitado ao transporte local, enquanto o comércio de longa distância permanecia
inteiramente dependente da mula.
No sudeste de Minas a situação começou a mudar radicalmente com a inaugu-
ração da estrada União e Indústria em 1861, mas no resto da província não ocor-
reu nenhum progresso significativo até cerca de vinte anos mais tarde. Em 1869,
a ferrovia chegou à Zona da Mata quando a Pedro II alcançou à fronteira mineira.
Em 1871, a linha atingiu Porto Novo do Cunha, de onde partiu a Estrada de Ferro
Leopoldina. O primeiro trecho dessa ferrovia foi aberto ao tráfego em 1874, e em
poucos anos ela tinha se transformado em uma extensa rede, que cobria a maioria
dos distritos cafeeiros. No início dos anos oitenta também foram construídas na
Mata as ferrovias Juiz de Fora a Piau (que chegou a Lima Duarte em 1884, e a Rio
Novo em 1888) e a E. F. União Mineira, comprada pela Leopoldina em 1884.

Tabela 5.3 - A malha ferroviária mineira, 1884-1889

Ferrovia Região servida Quilômetros em operação


1884 1887 1889
D. Pedro II Mata e Metalúrgica-Mantiqueira 242 250 392
Leopoldina Mata 277 523 1
764
União Mineira 2 Mata 117
Juiz de Fora-Piau Mata 40 40 60
Oeste de Minas Metalurgica-Mantiqueira e Oeste 99 99 320
Minas and Rio Sul 170 179 179
Mogiana 3 Sul, Alto Paranaiba e Triângulo 0 121

Total 945 1.091 1.836


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

349 Iglésias. Política Econômica, p. 160.

212 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Fora da região cafeeira o transporte ferroviário só teve início no final dos anos
setenta. A construção teve um ritmo relativamente rápido durante a década de
1880, mas, nos últimos anos do Império, a rede ferroviária mineira ainda era extre-
mamente pequena em relação ao território provincial. Em 1883, a linha tronco da
Pedro II tinha atingido Carandaí, já bem além da fronteira do café. Em 1884, o
tráfego foi aberto até Queluz, e a construção continuou no rumo norte em direção
ao interior mineiro, alcançando Ouro Preto em 1889. A Estrada de Ferro Oeste
de Minas partiu da D. Pedro II na estação de Sítio, perto de Barbacena, rumando
para oeste, em direção a São João del Rei (1881) e Oliveira (1889). O Sul foi servido
inicialmente pela Minas and Rio Railway, inaugurada em 1884, que começava em
Cruzeiro, na fronteira com São Paulo, e chegava até Três Corações, e depois por
um ramal da E. F. Mogiana, que atingiu Poços de Caldas em 1886. Outra extensão
da Mogiana servia o Triângulo Mineiro, inaugurando o tráfego para Uberaba em
1889.350
Fica claro, portanto, que o preâmbulo da história ferroviária de Minas refletiu
a bipolaridade da economia provincial. Na Mata, o avanço dos trilhos foi alavan-
cado pela vigorosa expansão da plantation exportadora: a zona cafeeira, que não
ocupava mais do que 4% do território mineiro, detinha 55% da extensão ferroviária
total de Minas em 1884, 60% em 1887, e 50% em 1889.
No resto da província o desenvolvimento foi mais lento e muitas vezes determi-
nado por critérios não-econômicos. Comentando sobre os resultados da D. Pedro
II na região central de Minas, um engenheiro ferroviário salientou, em 1885, que
a escassez de tráfego nesta seção da linha já tinha causado consideráveis prejuízos
à companhia, e previu que sua subsequente extensão para o interior mineiro, em
construção na época, “reduziria grandemente, por muitos anos, os lucros da ferro-
via, pois o insignificante volume de tráfego terá de ser feito com um considerável
excesso de despesas sobre receitas”.351

350 As notas sobre os primórdios da malha ferroviária mineira são baseadas em Iglésias. Política
Econômica, pp. 161-67; Wells. Exploring and Travelling, vol. 2, pp. 331-43; Hastings Charles Dent. A
Year in Brazil. With notes on the abolition of slavery, the finances of the Empire, religion, meteorology,
natural history, etc. London: Kegan Paul, Trench and Co., 1886., pp. 267-72; Ricketts (Consul). British
Consulat Rio de Janeiro. Foreign Office. Miscellaneous Series, vol. 82, n. 58. Reports on Subjects of
General and Commercial Interest. Brazil. Report on the Province of Minas Geraes. 1887, p. 13; Falla...
pres. Gonçalves Chaves, 1884, pp. 93-99; Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1883, p. 75; e Relatório...
pres. Sá e Benevides, 1869, p. 23.
351 Wells. Exploring and Travelling, vol. 2, pp. 332-22. No capítulo 3 já mencionamos que as perspectivas
de tráfego de outra estrada de ferro não-cafeeira, a Minas and Rio Railway, eram também vistas com
grande pessimismo pelos contemporâneos.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


213
As contrastantes estruturas econômicas da Mata e do resto de Minas prevalece-
ram até o fim do Império. Em sua Falla de 1883 à Assembleia Provincial, o presi-
dente Antônio Gonçalves Chaves descreveu Minas como uma província
dividida, como sabeis, em duas zonas distintas: a da Mata, em que se
pratica a grande cultura; e a dos campos, em que se exerce a indústria
pastoril e quase exclusivamente a cultura de cereais” (...) Produzir
quase exclusivamente para o consumo é a sorte da pequena lavoura que
predomina na região dos campos. (...) Nossa agricultura, “com exceção
feita da produção do café, não passou ainda, em geral, do período que se
denomina – doméstico.”352

Em 1887, o cônsul britânico no Rio informou ao Foreign Office que a provín-


cia do Rio de Janeiro, “com uma população muito menor, gera muito mais receita
do que Minas.” Segundo ele, “este estado de coisas pode ser atribuído em grande
medida ao fato de que, na província do Rio os habitantes estão, em sua maior parte,
engajados em plantations de café e de cana de açúcar, enquanto em Minas a maioria
se ocupa com a criação de gado, fazendas e posses de subsistência (squatting).”353
O cônsul Ricketts não poderia ser mais preciso em seu diagnóstico. Com o
tosco aparato fiscal daquele tempo, as receitas governamentais eram altamente
dependentes da taxação do comércio de mercadorias, especialmente do de longa
distância. Em um sistema econômico como o que vigorava em Minas, onde a maio-
ria das pessoas produzia para seu próprio sustento ou para o comércio local, o
coletor de impostos tinha, com certeza, uma vida difícil.
No final da década de 1880, Minas Gerais tinha, com exceção de Goiás, o mais
baixo nível de receitas governamentais per capita entre as províncias brasileiras,
tanto em termos das receitas gerais (do governo central), quanto em termos das
receitas provinciais, que eram baseadas principalmente nos impostos de exporta-
ção. Na receita total (soma dos dois níveis de governo), apesar de ter, de longe,
a maior população do Império, classificava-se, em termos da arrecadação global,
apenas em sétimo lugar no país, abaixo de São Paulo, Bahia, Pará, Pernambuco, Rio
Grande do Sul e Rio de Janeiro.354

352 Falla...pres. Antonio Gonçalves Chaves, 1883, pp. 37-38. A palavra doméstico está em itálicos no
original.
353 Ricketts. Report on the Province of Minas Geraes.
354 Breve Notícia do Estado Financeiro das Províncias. Tabela n°. 3, sem número de página. Para calcular
os valores per capita usamos os dados de população das províncias, agora estados, do recenseamento
de 1890.

214 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 5.4 - Brasil: Receita total e per capita dos governos geral e provinciais,
por províncias, 1886-87

Receita do Receita do Receita Receita Receita Receita Total per


Governo Governo total geral per provincial total per capita
Geral * Provincial (soma) capita per capita capita SP = 100

Pará 9.029 3.961 12.989 27,49 12,06 39,55 368


Amazonas 961 1.939 2.900 6,50 13,11 19,61 182
Pernambuco 10.126 2.715 12.841 9,83 2,64 12,46 116
Rio G. do Sul 7.379 2.807 10.186 8,22 3,13 11,35 106
São Paulo 9.659 5.237 14.895 6,97 3,78 10,76 100
Rio de Janeiro 1.284 6.017 7.301 1,46 6,86 8,33 77
Bahia 10.885 3.047 13.932 5,67 1,59 7,26 67
Maranhão 2.237 716 2.953 5,19 1,66 6,85 64
Mato Grosso 395 228 623 4,25 2,46 6,71 62
Paraná 548 969 1.517 2,19 3,88 6,07 56
Espírito Santo 306 439 745 2,25 3,23 5,48 51
Santa Catarina 783 374 1.157 2,76 1,32 4,08 38
Sergipe 383 800 1.183 1,23 2,57 3,80 35
Alagoas 928 742 1.670 1,81 1,45 3,27 30
Ceará 1.173 977 2.149 1,46 1,21 2,67 25
Rio G. do Norte 178 391 569 0,66 1,46 2,12 20
Piauí 271 273 544 1,01 1,02 2,03 19
Paraíba 395 523 918 0,86 1,14 2,01 19
Minas Gerais 1.660 3.410 5.071 0,52 1,07 1,59 15
Goiás 61 240 301 0,27 1,06 1,32 12
Valores totais em contos de réis e valores per capita em milréis.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 5.5 - Brasil: Valor das exportações per capita, por regiões,
1869-1873 e 1879-1882 (médias anuais, em milréis)
1869 - 1873 1879 - 1882
Exportação Índice Exportação Índice
per capita Centro-Sul = 100 per capita Centro-Sul = 100
Norte 38,0 57,9 71,2 101,2
Nordeste 21,2 32,3 15,6 22,2
Sul 39,7 60,5 26,8 38,1
Centro-Sul exceto Minas 65,6 100,0 70,3 100,0
Minas Gerais 8,5 12,9 11,9 16,9

Zona cafeeira de Minas 39,9 60,8 68,8 97,9


Resto da província 4,0 6,1 3,8 5,4
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


215
Na tabela 5.5 vemos, sem surpresa, que o mesmo panorama se repetia com
respeito ao comércio exterior. As exportações per capita de Minas, entre o final dos
anos 60 e início dos 80, eram significativamente menores do que as de qualquer
outra região do país, e atingiam pouco mais de 10% das exportações per capita do
Centro-Sul. No final do período enfocado na tabela, as exportações per capita da
zona cafeeira de Minas se aproximaram daquelas da região Centro-Sul, mas as do
resto da província continuaram mínimas, evidenciando com ênfase, mais uma vez,
a estrutura bipolar da economia mineira. Esses números subestimam a diferença
entre Minas Gerais e o resto do país e, dentro de Minas, entre a zona cafeeira e o
resto da província. As exportações mineiras incluem todos os produtos que deixa-
vam o território provincial, enquanto as das outras províncias compreendem ape-
nas as mercadorias exportadas por mar, para o exterior e outras partes do Império,
excluindo, portanto, todo o comércio terrestre dessas províncias.
Além disso, os dados disponíveis para Minas Gerais não permitem uma identi-
ficação dos locais de origem das exportações não-cafeeiras. Por isso alocamos todas
as exportações de café à zona cafeeira (onde de fato era produzido) e atribuimos
todas as exportações não-café ao resto da província. Mesmo não podendo estabe-
lecer números precisos, pode-se demonstrar que uma parte substancial das últimas
se originava na região do café. O resultado desse procedimento é que os valores per
capita da região cafeeira ficam subestimados enquanto os do resto da província são
superestimados, reduzindo a diferença que existia realmente entre elas.

Tabela 5.6 - Minas Gerais: Principais produtos exportados, 1818-1884


(em milhares de unidades)
Produtos 1818-19 1839-40 1842-43 1844-45 1867-68 1882-83 1883-84
Café 9,7 243,5 264,0 374,4 2.131,0 5.727,3 3.668,5
Gado vacum 62,1 50,4 45,4 53,5 67,3 100,8 145,1
Toucinho 1 145,5 181,1 220,3 220,4 207,2 234,9 230,9
Porcos em pé 40,2 21,5 44,8 47,0 28,1 26,5 26,0
Queijos 2 1.059,6 399,0 377,2 395,2 545,4 885,2 996,5
Açúcar 22,8 5,9 2,0 7,1 6,9 (*) (*)
Rapaduras (*) 9,9 4,2 1,1 185,6 221,3 239,5
Fumo 58,6 133,3 154,2 134,3 282,1 208,6 249,5
Pano de algodão 1.242,5 1.023,3 1.247,0 1.910,6 1.568,3 172,3 171,4
Algodão em rama 92,0 1,0 0,2 1,3 25,3 0,1 (*)
Unidades: Café, toucinho, açúcar, fumo e algodão em arrobas. Gado e porcos em cabeças.
Queijos e rapaduras em unidades. Pano de algodão em varas.
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

216 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 5.7 - Minas Gerais: Valor das exportações, 1818-1884,
por produtos, em contos de réis correntes

Produtos 1818-19 1839-40 1842-43 1844-45 1867-68 1882-83 1883-84


Café 29,2 365,2 528,0 748,8 9.802,6 31.548,2 21.859,4
Gado vacum 248,4 503,7 454,2 534,6 2.018,0 4.030,2 5.225,0
Toucinho 291,0 289,8 440,6 440,8 1.243,1 1.725,0 1.471,8
Porcos em pé 120,5 86,2 201,7 211,3 280,8 397,5 389,6
Queijos 106,0 79,8 90,5 94,8 327,2 584,2 664,4
Açúcar 45,7 8,8 3,0 10,6 20,6 (*) (*)
Rapaduras (*) 0,4 0,0 0,0 18,6 22,1 23,9
Outros alimentos e bebidas 1 41,7 31,7 28,2 28,3 87,0 225,9 91,9
Pano de algodão 186,4 163,7 199,7 305,8 313,7 37,9 31,7
Algodão em rama 368,0 3,1 0,8 4,1 151,7 0,6
Fumo 70,4 266,5 308,4 268,5 1.128,4 1.225,9 1.466,0
Outros produtos 2 166,2 88,9 77,7 73,3 154,0 519,1 313,0

Valor total das exportações 1.673,5 1.887,9 2.332,8 2.721,0 15.545,6 40.316,6 31.536,6
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 5.8 - Minas Gerais: Participação dos produtos no valor total das exportações,
1818-1884, em porcentagens

Produtos 1818-19 1839-40 1842-43 1844-45 1867-68 1882-83 1883-84


Café 1,7 19,3 22,6 27,5 63,1 78,3 69,3
Gado vacum 14,8 26,7 19,5 19,6 13,0 10,0 16,6
Toucinho 17,4 15,3 18,9 16,2 8,0 4,3 4,7
Porcos em pé 7,2 4,6 8,6 7,8 1,8 1,0 1,2
Queijos 6,3 4,2 3,9 3,5 2,1 1,4 2,1
Açúcar 2,7 0,5 0,1 0,4 0,1 (*) (*)
Rapaduras (*) (+) 0,0 (+) 0,1 0,1 0,1
Outros alimentos e bebidas 1 2,5 1,7 1,2 1,0 0,6 0,6 0,3
Pano de algodão 11,1 8,7 8,6 11,2 2,0 0,1 0,1
Algodão em rama 22,0 0,2 0,0 0,1 1,0 (+) (*)
Fumo 4,2 14,1 13,2 9,9 7,3 3,0 4,6
Outros produtos 2 9,9 4,7 3,3 2,7 1,0 1,3 1,0

Valor total das exportações 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


217
Tabela 5.9 - Minas Gerais: Outros alimentos e bebidas exportados, 1818-1884
Milho Patos, marrecos e gansos Pinhões, batatas e carás
Feijão Perus Amendoins
Arroz pilado ou com casca Galinhas d’Angola Cevada
Farinha de mandioca Marmelada Cerveja
Farinha de milho Doce de qualquer qualidade Vinagre
Farinha de trigo Carne seca Mel de abelha
Farinha de tapioca Gengibre Ovos
Fubá Araruta Perdizes
Polvilho Melado Aguardente de cana
Galinhas Cebolas e alhos
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 5.10 - Minas Gerais: Outros produtos exportados, 1818-1884


Ametistas Colchas de algodão Selotes de liteira
Cristal branco ou outros Mantas de algodão Couros curtidos de bezerro
Pedras preciosas exc. diamante Mantas de retalho Couros de boi
Topázios Cobertores Couros de veado
Anil Novelos de linha de algodão Meios de sola
Azeite de mamona Redes Chapéus de palha inferiores
Mamona em grão Toalhas Chapéus de palha superiores
Cera branca Toalhas de mesa Chapéus de lebre, seda ou lã
Cera da terra Guardanapos Chicotes ordinários
Cera preta Lã Chicotes com anéis de prata
Poaia ou ipecacuanha Tecidos de lã Cigarros
Pumada Tecidos de linho Tabaco e fumo em folhas
Quina Cravos para ferraduras Fumo pixuá
Extrato de quina Estribos Mel de fumo
Leite de mangabeira Facas ordinárias Gamelas grandes e pequenas
Sabão Facas aparelhadas de prata Panelas e vasos de pedra
Salitre Ferraduras Pólvora
Velas de cera Ferro em barra Sebo em rama
Couçoeiras de jacarandá Armações de cangalha Telhas, tijolos e cal
Dormentes Capim de cangalha Ovinos
Paus para dormentes Carros Caprinos
Tábuas Liteiras Muares
Canoas de madeira Selas e selins Equinos
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

218 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
A composição das exportações mineiras lança ainda mais luz sobre a estrutura
da economia regional. A grande variedade da pauta de exportações não é senão o
espelho da grande diversidade da economia da província, pois, como já ressaltamos
anteriormente, tudo que se exportava era também consumido pelos mineiros. Ou,
dito de forma mais direta, os mineiros exportavam aquilo que consumiam.
As listas indicam uma agricultura, uma pecuária e uma manufatura extrema-
mente diversificadas. A pecuária não só comercializava grande quantidade de bois,
porcos e galinhas, mas também um imenso volume de derivados processados,
como queijos e toucinho, além de couros, bestas muares, cavalos, cabras, ovelhas e
lã, esses últimos em pequena escala.
O setor agrícola produzia café e fumo, largamente consumidos internamente
e exportados em grande quantidade. O açúcar e o algodão eram objeto de grande
consumo doméstico, mas só eram exportados em quantidades ínfimas. Essas duas
commodities são, sem sombra de dúvida, os dois maiores ícones da escravidão no
Novo Mundo, e sua peculiar situação em Minas Gerais será tratada adiante. A agri-
cultura era também responsável, como mostra a tabela 5.9, por uma imensa gama
de alimentos processados ou in natura, que eram parte da dieta cotidiana das popu-
lações mineiras, e eram também exportados em pequenas quantidades.
A tabela 5.10 arrola uma grande variedade de artigos manufaturados, que
engloba desde itens simples, de processamento de produtos agrícolas e extrativos,
de fabricação caseira, até produtos metalúrgicos de fabrico mais complexo. A lista
contém artigos medicinais, madeiras e artefatos de madeira, manufaturas têxteis,
produtos metalúrgicos, material de transporte, couros e artigos de couro, utensílios
diversos e materiais de construção.
Além dessas mercadorias, Minas exportava, e consumia internamente, uma
infinidade de outros itens que, por não estarem sujeitos ao imposto de exportação,
não aparecem nos registros das aduanas. Entre estes, podemos citar, por exemplo e
por curiosidade, botas, botas de montar, calçados de homens ou senhoras, sapatos
de cordovão, chinelos rasos, chinelos de talão, freios de ferro, esporas de prata, de
ferro e de latão, cabeçadas, rédeas e cilhas para aparelho de sela ou selim, cabelos e
crinas, malas, peneiras de taquara, violas, pitos ou cachimbos, canudos de pitar de
barro, e “oratórios de santos com imagens de pedra mármora polida”. Esses artigos,
juntamente com os cerca de um a dois milhões de varas de pano de Minas que eram
exportadas anualmente, e somados com o imenso consumo doméstico que se fazia
de todos eles, configuram um setor manufatureiro, simples e pré-industrial, mas

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


219
com uma extensão e uma variedade que dificilmente seriam igualadas por qual-
quer outra província.
Uma característica importante dos produtos exportados é que eles, com exce-
ção do café, não provinham de plantations, e nada tinham a ver com a grande
lavoura monocultora. Eram originários da pequena lavoura, produzidos em fazen-
das diversificadas, fazendas de criação, sítios, roças, quintais, hortas, pomares, ou
em oficinas de artesãos, fábricas de ferro, tendas de ferreiro, pequenas manufaturas
e domicílios rurais e urbanos.
Os produtos da pecuária, especialmente gado, porcos e seus derivados, como
carne de porco, banha, toucinho, queijos e couros, constituiam, durante todo o
período, cerca de 70% do valor das exportações não-cafeeiras. A criação de gado
era disseminada por toda a província, mas a pecuária em larga escala estava concen-
trada em duas áreas principais. Uma delas era o vasto sertão do rio São Francisco
no centro e no norte de Minas. A outra era a comarca do Rio das Mortes, compre-
endendo o vale do Alto Rio Grande (partes das zonas Sul e Mantiqueira) e, do outro
lado da serra da Mantiqueira, a porção sudoeste da Mata.
A distância entre o vale do São Francisco e os principais mercados não permitia
que ele fosse um exportador importante. Abastecia algumas áreas urbanas, como
Serro e Diamantina, e a região algodoeira de Minas Novas (especialmente com cou-
ros para as bruacas de embalagem do algodão), mas exportava muito pouco para
outras províncias. A comarca do Rio das Mortes era, de longe, a principal expor-
tadora de gado, porcos, aves e seus derivados. O principal destino era a cidade do
Rio de Janeiro.355
Em nenhuma das principais áreas pecuárias de Minas as fazendas se pareciam
com as estâncias patriarcais do Rio Grande do Sul. No sertão do São Francisco
seguiam o modelo do agreste nordestino, que foi sua origem no período colonial.
A pecuária era uma atividade quase de subsistência e pouco empregava escravos,
nesta região. “Os vaqueiros geralmente eram os filhos dos proprietários, ou homens
livres, que eram remunerados com a terça parte do aumento do rebanho”.356

355 No ano comercial de 1818-19, 85,5% do gado, 100% dos porcos, 97,7% do toucinho e 99,9% dos queijos
que Minas exportou, foram despachados através de registros localizados no sudeste da província, na
zona da Mata ou na zona Sul. No final do período (1881-82) essas regiões exportaram: 96,2% do gado,
99,9% dos porcos, 99,1% do toucinho e 100% dos queijos.
356 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 2, p. 263. Spix e Martius, Viagem, vol. 2, pp. 174-75, também
indicam que, no sertão, a mão de obra para a criação de gado era fornecida pelos “membros da
família”. Não se deve inferir que não havia escravos nessa área. Muitas fazendas eram grandes e
diversificadas, e tinham numerosos escravos, como atesta o próprio Saint-Hilaire. Veja, por exemplo,
as páginas. 283 e 286 do trabalho mencionado acima.

220 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Uma pequena quantidade de gado em pé era enviada à Bahia, mas o principal
objeto de comércio eram os couros, porque o alto custo do sal tornava inacessível à
maioria dos fazendeiros até mesmo a produção de carne seca.

Tabela 5.11 - Minas Gerais: Valor das exportações de animais e derivados não
manufaturados da pecuária, 1818-1884, em contos de réis correntes

1818-19 1839-40 1842-43 1844-45 1867-68 1882-83 1883-84


Gado vacum 248 504 454 535 2.018 4.030 5.225
Porcos em pé 121 86 202 211 281 398 390
Toucinho, banha e c. de porco 291 290 441 441 1.243 1.725 1.472
Queijos 106 80 91 95 327 584 664
Galinhas 17 14 12 14 25 87 63
Solas e couros, curtidos ou não 12 22 17 14 51 24 18
Bestas, ovelhas, cavalos, etc. 130 55 50 40 76 92 71

Total dos produtos pecuários 925 1.050 1.266 1.349 4.021 6.940 7.902

Pecuária s/ o total (%) 55,3 55,6 54,3 49,6 25,9 17,2 25,1

Pecuária s/ o total não-café (%) 56,3 68,9 70,1 68,4 70,0 79,2 81,7
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

No Alto Rio Grande as fazendas de gado eram muito mais diversificadas: cria-
vam bovinos e porcos para o mercado do Rio de Janeiro, e carneiros, cuja lã era
tecida em teares domésticos. Queijos e toucinho também eram produzidos em
grande quantidade. As fazendas eram geralmente extensas e possuiam escravos,
mas os fazendeiros não eram ricos: suas casas eram modestas e os plantéis de cati-
vos eram pequenos. Os proprietários e seus filhos trabalhavam lado a lado com os
vaqueiros que, nessa área, eram geralmente escravos. Apesar de serem mais orien-
tadas para o mercado que suas similares do norte, essas fazendas se caracterizavam
por um alto grau de autossuficiência: exportavam apenas parte da produção, e usa-
vam essas receitas para adquirir os artigos que não podiam produzir, principal-
mente escravos, sal e uns poucos produtos manufaturados.357

357 Uma descrição detalhada dessa área no início do século XIX está em Saint-Hilaire. Viagem às Nascentes,
vol. 1, especialmente pp. 69-81, 89, 116, 118-19, e Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais
e a São Paulo, especialmente pp. 68-69, 75, 84, 90, 92, 94, 98, 102-04. Vale a pena notar que seu
testemunho contradiz frontalmente o mito, muito difundido, da incompatibilidade entre escravidão e
criação de gado. Para excelentes comentários sobre essa questão e informações sobre outras regiões
do Brasil, veja Jacob Gorender. O Escravismo Colonial. São Paulo: Editora Ática, 1978, pp. 414-22.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


221
Depois dos produtos da pecuária, o artigo mais importante era o fumo, que
respondeu por cerca de 15% a 20% das exportações não-cafeeeiras durante a
maior parte do século. Seu cultivo era muito disseminado: os primeiros viajantes
mencionam essa cultura em lugares tão afastados entre si como Abaeté, Minas
Novas, Serro, São João del Rei, Tamanduá e outros.358 Nos meados dos anos qua-
renta, dos vinte e oito municípios que responderam a uma enquete do governo
provincial, doze mencionam o fumo entre suas principais produções, incluindo
Queluz, Itabira, Barbacena, Pium-i, Montes Claros e, especialmente, os municí-
pios da Zona Sul.359

Tabela 5.12 - Minas Gerais: Exportações de fumo, 1818-1886


Ano Quantidade Valor
(toneladas) (milréis)
1818-19 861 70.377
1820 797 (*)
1828 1.170 (*)
1839-40 1.958 266.546
1842-43 2.265 308.358
1844-45 1.972 268.540
1867-68 4.144 1.128.359
1881-82 2.891 1.156.586
1882-83 3.065 1.156.586
1883-84 3.665 1.465.999
1886 3.645 (*)
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Durante a primeira metade do século foi essa região que concentrou a produ-
ção mineira de fumo para exportação. Os principais exportadores eram Baependi,
Cristina, Aiuruoca, Campanha e as áreas circunvizinhas. Na segunda metade, o
cultivo comercial tinha se expandido para muitas partes da Mata, especialmente
Pomba e Rio Novo. A maior parte das exportações consistia de fumo em rolo, mas

Especificamente sobre o Rio Grande do Sul, veja Spencer Leitman. Slave Cowboys in the Cattle Lands
of Southern Brazil, 1800-1850. Revista de História (São Paulo) 5 (1975), pp. 167-77.
358 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 293; vol. 2, p. 153; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 248, 304; Saint-Hilaire.
Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 374-75; Saint-Hilaire. Viagem às Nascentes, vol. 1, p. 142.
359 Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59.

222 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
havia também uma pequena indústria de cigarros que exportava para o Rio de
Janeiro.360
Apesar do considerável volume exportado, a produção de fumo não era um
grande empregador de mão de obra. Supondo que a produtividade por trabalhador
em Minas Gerais fosse comparável à observada nos Estados Unidos no século XVII
e no início do século XVIII, a produção da quantidade exportada não exigiria mais
do que 1.200 trabalhadores em 1819, 3.200 na década de 1840 e 5.100 nos anos
1880.361
Alguns produtores de fumo, especialmente na região Sul operavam em grande
escala, utilizavam escravos e eram grandes exportadores. Como regra geral, entre-
tanto, em Minas, assim como na vega cubana e em vários outros lugares da América,
o fumo não era cultivado em plantations, mas sim como um cash crop de pequenos
lavradores. Os baixos requisitos de capital, os cuidados intensivos exigidos pela
planta e a possibilidade de utilizar trabalho feminino e infantil faziam do fumo um
produto muito adequado para o cultivo em unidades de agricultura familiar.362
Outra característica notável da economia mineira no século XIX é que, em
nítido contraste com o paradigma da economia primário-exportadora, os produ-
tos exportados eram o excedente do consumo local. Com exceção do setor cafe-
eiro, nenhum cultivo objetivava primordialmente a exportação. Mesmo os setores

360 Saint-Hilaire. Segunda Viagem, pp. 120-21; Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59; Ferreira
Soares. Notas Estatísticas, pp. 65-67; Burton. Explorations, vol. 1, pp. 68, 94; Ricketts. Report, p. 6.
361 A média de diversas estimativas de produtividade apresentadas por Lewis Gray para o século XVII
e início do século XVIII nos Estados Unidos é de 1.580 libras, ou 717 quilos por trabalhador. Em
muitos casos as estimativas contemporâneas indicam que, como no Brasil, os trabalhadores também
produziram consideráveis quantidades de milho. Há várias razões para acreditar que as produtividades
provavelmente não eram muito diferentes nos dois lugares. Como mencionado acima, nos dois casos,
o tabaco era plantado em associação com o milho. Arados não eram empregados nessa cultura nos
Estados Unidos até depois do período colonial. O cultivo era feito com a enxada como no Brasil. Os
métodos de adubação eram os mesmos. A preparação das folhas não era mais avançada nos Estados
Unidos nessa época: assim como o americano, o tabaco brasileiro era air-cured e, de fato, como Gray
indica, o processo brasileiro de cura era considerado superior. Finalmente várias das estimativas de
produtividade referem-se claramente ao tabaco cultivado em pequenas fazendas, como era o caso em
Minas. Veja Lewis Cecil Gray. History of Agriculture in the Southern United States to 1860. Gloucester,
Mass.: Peter Smith, 1958, vol. 1, pp. 215-19.
362 Segundo a descrição dada em Franklin Knight. Slave Society in Cuba, pp. 5-6, a vega de tabaco cubana,
antes da revolução do açúcar, deve ter sido muito parecida com a fazenda de fumo mineira. Eram
pequenas, com poucos escravos e os proprietários trabalhavam lado a lado com os cativos. Para o
caso mineiro ver a descrição de Saint-Hilaire, do sul de Minas, nos lugares mencionados na nota 358
acima. Para outras evidências de que o cultivo de tabaco era pequena lavoura e empregava mão de
obra escrava veja Elemento Servil. Parecer e Projecto de Lei apresentado à Câmara dos Srs. Deputados
na secção de 16 de agosto de 1870 pela Commissão especial nomeada pela mesma Câmara em 24 de
maio de 1870. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1870, p. 51.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


223
do fumo e da pecuária, que se tornaram grandes exportadores, e do algodão, que
exportou um volume considerável durante um curto período, têm suas raízes forte-
mente fincadas na demanda interna da província, e seus produtos nunca deixaram
de ser intensamente consumidos domesticamente.
Vale a pena enfatizar uma vez mais que, quando dizemos que a economia se
baseava no mercado interno, não estamos nos referindo ao mercado interno bra-
sileiro. Mercado interno, ao longo de todo este trabalho significa o mercado interno
da província de Minas Gerais. A importância do mercado do Rio de Janeiro para a
economia mineira tem recebido uma ênfase exagerada, sugerindo uma espécie de
divisão do trabalho dentro do Sudeste brasileiro, na qual o Rio de Janeiro e São Paulo
teriam se especializado na produção para o mercado internacional, tocando a Minas
a função de abastecer essas províncias com alimentos. Segundo essa visão, a província
mineira teria desempenhado o papel de uma periferia de apoio ao setor exportador,
semelhante ao que geralmente é atribuído pela historiografia econômica brasileira
ao Rio Grande do Sul durante os “ciclos” da mineração e do café, ou ao interior do
Nordeste com relação ao setor plantacionista-exportador de açúcar do litoral.363
Nada poderia estar mais longe da verdade. A razão de ser da economia mineira
era a própria Minas. Qualquer que tenha sido a importância real das exportações
mineiras no abastecimento do Rio de Janeiro, elas não eram mais do que uma
pequena fração da produção provincial total dessas mercadorias. Mesmo nos pou-
cos casos excepcionais mencionados acima, as quantidades consumidas interna-
mente eram muito superiores aos volumes exportados.
Dentro da própria província, as áreas não-plantacionistas não eram produtoras
de alimentos para a região da grande lavoura exportadora: a zona cafeeira mineira
não era, nem de longe, tão especializada como suas similares fluminense e paulista.
A própria Mata era uma grande produtora de gêneros alimentícios básicos, açúcar,
fumo, porcos, gado e queijos, e um exportador líquido dessas mercadorias.
O milho e vários de seus derivados (especialmente o fubá, do qual se fazia o angu,
que era a principal fonte de calorias para os escravos), o feijão, o arroz, a carne de
porco e o toucinho, as aves domésticas, alguns vegetais, o café, o açúcar (principal-
mente na forma de rapadura), o leite, os queijos e, em menor escala, a carne bovina
e a farinha de mandioca, compunham a dieta básica da população mineira. Além de
sua importância na alimentação humana, o milho tinha um papel vital como insumo:

363 Sobre essa ilação veja, por exemplo, Antonio Barros de Castro. A Herança Regional no Desenvolvimento
Brasileiro. In: Antonio Barros de Castro. Sete Ensaios sobre a Economia Brasileira. Rio de Janeiro:
Editora Forense, 1971, especialmente p. 68; e Celso Furtado. Formação Econômica do Brasil.

224 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
era indipensável na alimentação das mulas e, portanto, no funcionamento do sistema
de transportes, e também como ração de cavalos, porcos e galinhas. 364
Era a produção desses artigos, juntamente com os já citados algodão, fumo e
mamona (cujo azeite era universalmente usado em lamparinas, para iluminação),365
além do fabrico de algumas manufaturas simples, também para consumo local – ou
seja, a produção das necessidades cotidianas de sua grande população – que consti-
tuía a atividade do grosso da força de trabalho provincial, escrava ou livre.

Tabela 5.13 - Minas Gerais: Consumo interno como porcentagem


do produto total 1 de alguns bens, 1818-1883
Produto 1818-19 1839-40 1842-43 1844-45 1867-68 1882-83
Açúcar 68,7 92,0 97,2 91,1 95,3 (*)
Cachaça 99,8 100,0 100,0 100,0 100,0 99,4
Rapaduras 100,0 98,2 99,2 99,8 85,3 88,7
Arroz 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 99,9
Feijão 99,9 99,2 99,4 99,9 99,6 99,1
Milho 100,0 99,9 99,9 99,9 99,9 99,9
Farinha de mandioca 97,0 100,0 100,0 100,0 99,9 99,6
Porcos 76,9 89,3 80,7 80,5 92,9 95,1
Gado bovino 52,6 64,9 68,1 65,1 73,9 80,3
Algodão 2 33,3 83,4 82,6 75,5 76,5 97,0
Azeite de mamona 99,1 99,4 98,3 99,3 99,9 100,0
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

O cultivo desses produtos era muito disseminado, e a precariedade dos trans-


portes não permitia o desenvolvimento de especialização regional e nem mesmo
local. Quase todas as famílias cultivavam os mantimentos básicos necessários
para seu próprio consumo. “Todos os agricultores plantam milho”, escreveu Saint-
Hilaire, acrescentando que, além de ser consumido diretamente pela população,
esse produto era também importante na alimentação de cavalos, mulas, porcos e

364 Todos os viajantes são pródigos em detalhes sobre a dieta mineira. Alguns descreveram quase todas
as refeições que fizeram. Para uma amostra de descrições, que cobrem dos anos 1810 aos anos 1870,
e registram semelhanças notáveis, veja Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, p. 186; Burmeister.
Viagem, p. 253; Burton. Explorations, vol. 1, pp. 104-05; Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 186.
365 Sobre o uso universal de óleo de mamona para iluminação, como medicamento emético e purgativo,
e o cultivo da mamoneira em Minas, ver: Spix e Martius. Viagem, vol. 2, pp. 140-41; Pohl. Viagem, vol.
1, pp. 237-40, vol. 2, pp. 287, 305; Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 237-28, vol. 2, p. 36.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


225
galinhas. “O cultivo de feijão é ainda mais geral”.366 A tabela 5.13 dá uma idéia do
grau de autossuficiência da economia mineira, mostrando como eram insignifican-
tes os fluxos de exportação de alguns produtos básicos, em comparação com seu
consumo interno.

ALGODÃO E TÊXTEIS DE ALGODÃO


O algodão e o açúcar, par excellence as culturas da plantation exportadora e
escravista das Américas, ilustram, talvez melhor do que qualquer outra coisa, a sin-
gularidade da economia mineira no século XIX, e seu afastamento do paradigma
da grande lavoura plantacionista exportadora.
O algodão era cultivado em Minas desde o começo da colonização e no início
do século XIX sua cultura já tinha se espalhado pela capitania/província. Os pri-
meiros relatos dos viajantes mencionam seu extenso cultivo em Itabira, Queluz,
Carandaí, São João del Rei e em outras partes da comarca do Rio das Mortes.367 No
vale do São Francisco era cultivado na vasta área situada de Abaeté até Pirapora e a
foz do Rio das Velhas.368 A principal zona produtora era o termo de Minas Novas,
no nordeste mineiro, ao longo dos vales dos rios Jequitinhonha e Araçuaí: Fanado,
Água Suja, Peçanha, São Domingos, Chapada, Sucuriú, Bom Jardim e São Miguel,
nessa região, eram todos grandes produtores.369
O algodão não era cultivado em plantations. Embora haja evidências de algum
emprego de escravos, essa era essencialmente uma cultura camponesa, já que esse
produto, mais ainda que o fumo, prestava-se facilmente à pequena lavoura familiar.
O investimento de capital era nulo, e os requisitos de trabalho eram tão reduzidos
que não interferiam com o cultivo das lavouras de mantimentos.
Em Minas Novas, Saint-Hilaire anotou que “nada é tão barato neste país como
o plantio de algodão e nada produz tão bem.” Enquanto cultivava um alqueire de

366 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 204-07. A única maneira de dar uma idéia adequada da
disseminação do cultivo de mantimentos básicos em Minas é remeter o leitor a todos os relatos dos
viajantes, todas as corografias e toda a literatura descritiva mencionada. Como um pobre substituto,
veja a seção sobre a fazenda mineira abaixo.
367 Saint-Hilaire. Viagem pelo Distrito dos Diamantes, pp. 186, 207; Viagem às Províncias, vol. 1, p. 230;
Spix e Martius. Viagem, vol. 1, p. 293; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 297-312, 342, 362.
368 Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 256, 259-61, 272, 274, 281.
369 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 289, 337-39; vol. 2, pp. 16, 98: 216 passim, Spix e
Martius. Viagem, vol. 2, pp. 141, 148-50; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 297-312, 342, 362.

226 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
algodão um trabalhador podia cuidar da mesma área em milho e feijão.370 Por essa
razão, o algodão era extremamente adequado como um cash crop em uma agricul-
tura camponesa. Na região de Minas Novas, mesmo no auge do surto algodoeiro,
esse artigo era cultivado principalmente por agricultores que não possuiam escra-
vos ou tinham plantéis muito pequenos. Não havia plantadores ricos nessa área.371
Em 1812 havia somente mil escravos em todo o termo, que constituíam apenas
4,1% de sua população.372
Décadas mais tarde, Richard Burton observou que, em Minas, o algodão era
uma “lavoura de pobre”373 Nos anos 1870, James Wells visitou uma das maiores
fábricas têxteis da província e registrou que ela “recebia algodão cru, sem benefi-
ciamento, entregue na porta do estabelecimento por sitiantes que o cultivavam em
pequenas roças no vizinho vale do Rio das Velhas.”374
A revolta dos escravos no Haiti criou a primeira cotton famine na Inglaterra
e abriu grandes oportunidades no mercado mundial de algodão. Em 1790, ano
imediatamente anterior a ela, a colônia francesa era o maior produtor do mundo,
e detinha 24% do mercado inglês. O colapso desta oferta e a avidez da demanda
inglesa, em plena revolução industrial, geraram uma alta sustentada do preço que
se manteve em níveis sem precedentes por mais de duas décadas, oferecendo forte
estímulo a outros produtores, entre eles o Brasil. No período 1816-1820 o país tinha
se tornado o segundo maior exportador do mundo, com 28% do mercado inglês,
abaixo apenas dos Estados Unidos, que detinham 49%, acima da Índia, que tinha
14,1% e do Caribe Britânico, com 9%. Foi capaz de manter a segunda colocação
até 1826-1830, mas com uma participação declinante, por não conseguir competir
com a produção norte-americana, que nessa época já se tornara completamente
hegemônica, com quase 70% das importações inglesas.

370 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 339-40. Pohl. Viagem, vol. 2, p. 302, também apontou a
facilidade do cultivo de algodão, mas observou o emprego de escravos.
371 Para evidências de que o algodão era principalmente uma cultura camponesa no início do século
XIX, veja: Spix e Martius. Viagem, vol. 2, pp. 166-67; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 272, 342; Saint-Hilaire.
Viagem às Províncias, vol. 1, p. 350, vol. 2, pp. 17, 41, 128, 159, 199, 216. Os mesmos autores também
indicam algum emprego de escravos em alguns lugares.
372 Spix e Martius. Viagem, vol. 2, pp. 166-67.
373 Burton. Explorations, vol. 1, p. 106.
374 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 124. Para outras evidências de que o algodão não era
geralmente uma cultura de plantation em outras partes do Brasil, veja: Branner. Cotton in the Empire,
p. 36; Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, p. 47; Andrade. A Terra e o Homem, pp. 150-55, e
Cuniff. The great Drought.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


227
Nas duas primeiras décadas do século XIX, Minas Gerais foi um exportador
relativamente importante de algodão. O produto do termo de Minas Novas tinha
alta reputação entre os importadores de Liverpool por sua qualidade, e agentes das
casas importadoras costumavam viajar do Rio de Janeiro até lá para comprar as
colheitas in loco. O algodão era embalado em bruacas de couro e transportado por
mulas para o Rio de Janeiro, ou para a Bahia através do rio Jequitinhonha. Nesse
período Minas Novas era a principal área algodoeira do sul do Brasil, produzia a
maior parte do algodão exportado pelo Rio e esse artigo era, de longe, o principal
item da pauta das exportações mineiras.375

Tabela 5.14 - Minas Gerais: Exportações de algodão em rama, 1819-1888


Ano Exportação % do total Ano Exportação % do total
(toneladas) do Brasil (toneladas) do Brasil
1819 1.379,9 11,43 1866 679,4 1,59
1820 1.034,0 8,56 1867 323,6 0,82
1823 1.485,0 11,79 1868 387,4 0,93
1828 120,9 0,97 1869 400,3 1,02
1829 105,0 0,78 1870 531,1 1,23
1840 23,1 0,22 1871 455,6 1,03
1843 5,0 0,05 1872 508,6 0,65
1845 19,1 0,16 1873 210,5 0,46
1850 2,4 0,01 1874 107,1 0,19
1851 5,0 0,04 1875 73,9 0,17
1852 10,7 0,08 1876 35,3 0,13
1853 5,1 0,03 1877 15 0,05
1854 3,0 0,02 1878 12,5 0,07
1855 4,0 0,03 1879 3,4 0,01
1857 4,5 0,03 1880 4,6 0,04
1858 2,7 0,02 1881 16,5 0,13
1860 0,7 (*) 1882 5,1 0,02
1861 0,4 (*) 1883 1,1 (*)
1865 502,8 1,98 1888 0,5 (*)
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

375 Sobre a evolução do mercado internacional de algodão e a participação brasileira nesse período
veja Gray. History of Agriculture, vol. 2, p. 693. Segundo Gray, nesse período o algodão brasileiro era
considerado o segundo melhor do mundo, só inferior ao produto egípcio em termos de qualidade e
comprimento da fibra. Informações sobre o comércio algodoeiro de Minas Novas, sua importância nas
exportações mineiras, seu conceito entre os comerciantes ingleses de algodão, as rotas comerciais,
etc., podem ser encontradas em Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 120, 148; vol. 2, pp. 140-150,
164; Saint-Hilaire. Viagens às Províncias, vol. 2, pp. 16, 199. Sobre a participação do algodão nas
exportações mineiras, veja as tabelas 5.6, 5.7 e 5.8, acima.

228 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
O boom de exportação de algodão mineiro teve vida extremamente curta.
Começou, segundo Saint-Hilaire, por volta de 1808, e no final da década de 20
já estava completamente encerrado. As razões dessa abrupta queda são claras. O
enorme crescimento da produção norte-americana, bem como das exportações
do Egito – que por suas características competia mais diretamente com o produto
brasileiro – deprimiu os preços no mercado internacional, tornando o algodão
mineiro inframarginal. De quase 35 centavos de dólar por libra em 1818, o preço
do algodão despencou para cerca de 11 centavos em 1825. Entre 1829 e 1831 per-
maneceu abaixo de 10 centavos por libra e, depois de uma curta recuperação (para
cerca de 15 centavos, nos meados dos anos trinta), retomou a tendência declinante,
chegando a 5 centavos em 1842 e 1844. Entre 1845 e 1860 oscilou entre 5 e 12 cen-
tavos por libra.376
A região Nordeste conseguiu manter o volume de suas exportações pratica-
mente inalterado até os anos 1860, mas o algodão de Minas, muito onerado pelos
custos de transporte, ficou inteiramente excluído do mercado internacional.377 O
argumento, sugerido por Luís Amaral, de que a queda das exportações mineiras foi
causada pela substituição do cultivo do algodão pelo de café durante os anos 1820,
não tem sustentação lógica nem empírica.
Como vimos no capítulo 3, nos anos 1820, o cultivo do café era totalmente
incipiente. Até o final dessa década, as exportações de café não passavam de uns
poucos milhares de arrobas, que empregavam umas poucas centenas de escravos.
Além disso, o algodão e o café não competiam nem por terras, nem por capitais, e
nem por mão de obra. O algodão era uma cultura camponesa, de pobre, não exigia
capital, e não utilizava trabalho escravo. Ao longo de todo o século, a produção
comercial de café ocorreu quase exclusivamente (mais de 99%) nas zonas da Mata e
Sul, enquanto a produção de algodão para o mercado externo acontecia na metade
norte, especialmente na região de Minas Novas. Algodão e café, em Minas Gerais,
nunca competiram por nenhum insumo ou fator de produção.378

376 Estes são os preços de exportação do algodão americano de fibra curta, dados por Gray. History of
Agriculture, vol. 2, p. 697. Os preços do algodão brasileiro possívelmente diferiam um pouco, mas a
tendência era a mesma.
377 As exportações brasileiras de algodão oscilaram sem uma tendência definida entre 12 mil e 17 mil
toneladas desde o início da década de 1820 ao final dos anos 1850. Veja Stein. The Brazilian Cotton
Manufacture, p. 198.
378 Luis Amaral. História Geral da Agricultura, vol. 2, p. 235. Ele se baseia no comentário de Daniel de
Carvalho, Notícia Histórica, p. 17, de que é “curioso” notar o contraste entre a queda das exportações
algodoeiras e o aumento nas de café. Antonio de Castro, em Sete Ensaios, p. 45, repete esse erro sem
críticas.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


229
As exportações mineiras de algodão permaneceram em níveis insignificantes
até o novo surto gerado pela segunda grande crise do algodão, a Lancashire cotton
famine. Esta crise foi causada pela guerra civil americana e o bloqueio dos portos
confederados, por onde era escoada a safra do sul dos Estados Unidos, que repre-
sentava antes do conflito, 80% de todas as importações inglesas. A escassez aguda
de matéria prima se arrastou pela década de 1860, provocando grande desemprego,
sofrimento e miséria entre os trabalhadores do setor têxtil da Inglaterra, especial-
mente no Lancashire, mas gerou novo surto de exportações em outras partes do
mundo.
Entretanto, esse novo boom exportador não teve nem a força nem a duração do
primeiro. No seu ponto mais alto, em 1866, Minas exportou somente 679 tonela-
das, e o declínio subsequente foi novamente abrupto e rápido. A participação da
província nas exportações brasileiras de algodão nesse período nunca atingiu 2%
do total.
O surto exportador do começo do oitocentos não foi a origem da cultura algo-
doeira em Minas, e o fim da bonança, no terceiro quartel, também não causou seu
desaparecimento. O cultivo do algodão aparentemente declinou na principal área
exportadora, Minas Novas, mas subsistiu e se espalhou para outras partes do terri-
tório. Um levantamento realizado em vinte e oito municípios, na metade dos anos
1840, registrou o cultivo do algodão em Bonfim, Queluz, Barbacena, Pitangui, Três
Pontas, Aiuruoca, Jacuí, Caldas e Araxá.379 Em 1851, Burmeister mencionou essa
cultura em Pomba e em Lagoa Santa.380
No início dos anos 70, o vale do rio das Velhas era uma importante região coto-
nicultora. Em 1878, Pitangui, Tamanduá, Baependí, Bonfim, Santa Luzia, Alfenas,
Três Pontas, Curvelo, Sacramento, Pará e Abaeté foram citados como produtores,
assim como Araçuaí, Minas Novas e São João Batista, em 1879. Quatro anos mais
tarde, Montes Claros, Grão Mogol, Rio Pardo e Salinas foram listados como muni-
cípios algodoeiros.381
Quase todo o algodão produzido em Minas ao longo de todo o século foi con-
sumido na própria província. A manufatura doméstica de pano de Minas, já for-
temente enraízada no século XVIII, cresceu rapidamente no começo do século

379 Estado Moral, em Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59.
380 Burmeister. Viagem, p. 169, 234.
381 Silva. Tratado de Geographia, pp. 234-5; Relatório...pres. Rebello Horta, 1879, pp. 47-48; Falla...pres.
Gonçalves Chaves, 1883, pp. 37-38.

230 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
seguinte, para tornar-se, provavelmente, uma das principais atividades manufatu-
reiras do Brasil durante a primeira metade do século XIX.
Mesmo no auge do boom exportador de algodão, uma grande parte da produ-
ção era manufaturada localmente e Minas já era um grande exportador de tecidos.
A queda do preço internacional do algodão bruto estimulou ainda mais a manu-
fatura local . Em 1836 um observador registrou que “nas partes mais remotas da
província de Minas não vale a pena colher o algodão para exportação (...) sua fiação
e o fabrico de panos grosseiros, para consumo doméstico e para exportação para o
litoral torna-se, portanto, quase uma questão de necessidade”.382
Uma grande quantidade de pano e outros produtos têxteis de algodão eram
exportados, desde o século XVIII até, pelo menos, o final da década de 1860, espe-
cialmente para o Rio de Janeiro, de onde era distribuído para uma grande área.
Pano de Minas era uma marca forte, e o produto tinha mercados em várias pro-
víncias. Era largamente consumido nas fazendas de café do Vale do Paraíba flu-
minense: podia ser encontrado rotineiramente no comércio local de Vassouras e,
nos inventários post-mortem de alguns fazendeiros do município encontram-se
grandes estoques desse produto. Seu uso era tão comum que “encontrar fiapos do
‘algodão de Minas’ em algum lugar, era sinal certo de que escravos tinham estado
na vizinhança”. Os autores de dois manuais de agricultura recomendavam o tecido
mineiro para vestuário dos escravos. Carlos Augusto Taunay, em seu Manual do
Agricultor Brasileiro, publicado em1839, prescreve que “seria para desejar… que
tudo quanto se consome em uma fazenda saísse dela, e mesmo o pano de algodão
de que se vestem os pretos. Todavia, nem todos os fazendeiros têm as comodidades
de mandarem fiar e tecer em casa o pano de seu uso; mas os tecidos de algodão
de Minas são baratos e próprios para a escravatura”. O Padre Antonio Caetano
da Fonseca, vigário da Freguesia de São Paulo do Muriaé, proprietário de terras
e de escravos, também redigiu um manual de orientação agrícola, o Manual do
Agricultor dos Generos Alimentícios, publicado em 1863, no qual recomendava
que “cada escravo deveria receber anualmente duas camisas, duas calças de pano
grosso de Minas e dois casacos de lã.” Segundo observadores contemporâneos, o
mercado do pano de Minas chegava até o extremo sul do Império, e até mesmo a
Buenos Aires nos primeiros anos do século. Saint-Hilaire anotou que, em 1816,

382 Johann Jakob Sturz. A Review, Financial, Statistical and Commercial of the Empire of Brazil and its
Resources, together with a suggestion of the expediency and mode of admitting Brazilian and other
foreign sugars into Great Britain for refining and exportation. London: Effingham Wilson, 1837, pp.
112-13.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


231
o Rio Grande do Sul importou 167.904,5 varas de tecido de algodão de Minas, e
Spix e Martius observaram a mesma coisa.383 Na tabela 5.10 já mostramos que as
exportações da província incluíam também colchas de algodão, mantas de algodão,
mantas de retalhos, cobertores, novelos de linha de algodão, redes, toalhas, toalhas
de mesa e guardanapos.

Tabela 5.15 - Minas Gerais: Exportações de pano de algodão,


1818-1884
Anos Pano exportado Pano como % do peso total do
(metros) algodão exportado
1818-19 1.366.797 14,2
1828 2.139.335 82,6
1839-46 1.346.674 (*)
1839-40 1.125.672 89
1842-43 1.369.752 97,9
1844-45 2.100.525 94,9
1867-68 1.725.092 40,6
1881-82 148.676 70,2
1882-83 189.487 93,6
1883-84 188.546 100
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

O algodão era fiado e tecido em quase toda a província, empregando um grande


número de pessoas, tanto nas fazendas como nos núcleos urbanos. Sua manufatura
era a base da vida econômica de povoações inteiras. “Quase todas as mulheres de
Sucuriú fiam algodão e em muitas casas dessa aldeia também se tece. Os panos
mais finos são consumidos pela família e o resto é vendido,” escreveu Saint-Hilaire,
no nordeste de Minas. Na mesma região ele anotou que “o que sustenta a maior
parte dos moradores de Água Suja e seus arredores é a manufatura de cobertores
e panos grosseiros”, e no Fanado observou que as pessoas se vestiam bem porque
“o tecido de algodão é barato e um grande número de pessoas o fabrica em suas
casas”. Em Conceição, no centro de Minas, registrou que “quase todo mundo faz

383 Stanley Stein. Vassouras, pp. 85, 180-81; C. A. Taunay. Manual do Agricultor Brazileiro. Rio de Janeiro:
Typographia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve Comp., 1839, p. 10; Antonio Caetano da
Fonseca. Manual do Agricultor dos Generos Alimentícios ou Methodo da Cultura Mixta desses Gêneros
nas Terras Cansadas. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1863, p. 103; Augusto de Saint
Hilaire. Viagem ao Rio Grande do Sul. Belo Horizonte e São Paulo: Editora Itatiaia/ EDUSP, 1974, p. 75;
Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 120, 148, 187.

232 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
panos de algodão, cobertores, colchas e toalhas que são consumidos localmente ou
exportados para o Rio”.384
Apesar do grande volume das exportações, o grosso da produção doméstica
de pano era consumido localmente. Em 1828, o tecido artesanal produzido e con-
sumido dentro da província foi estimado em 5,3 milhões de metros,385 enquanto
outros 2,1 milhões foram exportados, apenas para o Rio de Janeiro. A produção total
da província atingiu, portanto, segundo esta estimativa, pelo menos 7,4 milhões de
metros de pano de algodão, não contando outros produtos têxteis como toalhas,
cobertores, linha e outros, além de tecidos de linho e de lã, para os quais não temos
dados. Para avaliar o significado desse número, basta notar que ele é quase o dobro
da produção total de todas as fábricas têxteis brasileiras quarenta anos mais tarde,
em 1866, e bem superior à produção de todas as fábricas mineiras desse setor no
início da década de 1880. A produção mineira de 1828 foi equivalente a quase 20%
da média anual de importações brasileiras de tecidos ingleses de algodão nos cinco
anos de 1827 a 1831.386 A manufatura doméstica de algodão cresceu continuamente
durante a primeira metade do século. Doze dos vinte e oito municípios cobertos
pelo levantamento incompleto citado acima são arrolados como produtores têxteis,
incluindo vários não citados por fontes anteriores.387
Os primeiros viajantes registraram que o pano de Minas tinha a reputação de
ser forte e durável, mas observaram que era um tecido grosseiro, adequado somente
para o consumo dos escravos e dos camponeses pobres. Existem, entretanto, evi-
dências de que isso mudou com o passar do tempo: fontes posteriores indicam uma
considerável diversificação e registram o fabrico de panos de melhor qualidade,
que eram usados na confecção de roupa de baixo e roupas para homens. Algumas
fontes chegam a afirmar que a produção de alguns lugares competia em qualidade
com os melhores panos importados. Quando o Conselho da Província se reuniu,
em 1831, alguns deputados se vestiam com o pano de Minas. Mais tarde, Martinho

384 Saint-Hilaire. Viagem ao Distrito, p. 75, e Viagem às Províncias, vol. 2, pp. 84, 212, 216. Ver também,
vol. 1, pp. 230, 337; vol. 2, pp. 73, 98, 199 e Pohl. Viagem, vol. 1, pp. 201-02, 229. As técnicas da
indústria têxtil doméstica são descritas por Carvalho. Notícia, pp. 22-25.
385 Sturz. A Review, p. 111.
386 Branner. Cotton, p. 41; Ricketts. Report, p. 8; Sturz. A Review, pp. 104-05. De acordo com essa última
fonte, entre 1827 e 1831 o Brasil importou uma média anual de 40,7 milhões de metros de tecido
de algodão da Inglaterra. De acordo com Branner, que cita um relatório oficial, a produção total de
algodão industrial no Brasil em 1866 foi de 3.944.600 metros.
387 Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59. Os municípios arrolados como produtores de
tecido de algodão são: Queluz, Piranga, Barbacena, Sabará, Três Pontas, Aiuruoca, São João del Rei,
Oliveira, Caldas, Pium-i, Araxá e Montes Claros.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


233
Campos, deputado mineiro à Assembleia Geral, era conhecido na Corte por suas
calças de pano tecido em seu distrito de Pitangui.388
Na década de 1860 se comentava que a indústria têxtil doméstica estava em
decadência, sucumbindo às “incursões dos importados ingleses baratos e à pro-
dução de umas poucas fábricas brasileiras.”389 Escrevendo em 1862, Tavares Bastos
atribuiu esse fato à melhoria dos transportes entre o Rio de Janeiro e Minas, que
tinha facilitado a distribuição dos produtos importados para o interior.390
Durante a guerra do Paraguai um observador mencionou o declínio o setor,
mas registrou que ele sobrevivia em várias fazendas e localidades do interior.391
Em 1869, o presidente da província lamentou que a indústria manufatureira já não
era tão próspera como antes, e tendia a continuar decaindo, devido à competição
dos produtos estrangeiros, melhores e mais baratos, introduzidos na província pelo
progresso dos meios de comunicação.”392 Esses depoimentos parecem subestimar
a resiliência do pano artesanal de Minas. No final dos anos 60 ele continuava a
ser largamente consumido internamente e suas exportações continuavam em um
patamar bem alto.
Atravessando o territorio mineiro em 1867, Richard Burton encontrou mui-
tas rodas de fiar e teares manuais, e anotou que o processamento doméstico do
algodão “era, em toda Minas, um passe-temps tão comum como na antiga França.”
Observou, entretanto, que embora fosse de boa qualidade e mais durável que os
tecidos industrializados, o pano caseiro era caro e sua oferta não conseguia acom-
panhar o crescimento da demanda.”393 Nos anos 70, James Wells registrou a fabri-
cação do pano de Minas em diversos lugares, comentando que ele era “largamente
usado pelos habitantes.”394
No início dessa década o Recenseamento do Império revelou que o pano de
Minas ainda tinha grande vitalidade. A classificação de ocupações do censo é
tosca e os dados parecem conter muitas incorreções, mas mesmo assim oferece

388 Silva. Tratado, pp. 56-77, passim; Iglésias. Política Econômica, p. 106; João Dornas Filho. Aspectos da
Economia Colonial. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1959, p. 169; Carvalho. Notícia, pp. 21-22.
389 Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, p. 4.
390 Tavares Bastos. A Indústria Manufatureira e as Tarifas Protetoras. In: Cartas do Solitário, p. 432.
391 Visconde de Taunay. A Marcha das Forças. São Paulo: Weisflog Irmãos, s.d., p. 105, citado por Dornas
Filho. Aspectos da Economia Colonial, p. 169.
392 Relatório...pres. Andrade Figueira, 1869, p. 37, citado por Iglésias. Política Econômica, p. 107.
393 Burton. Explorations, vol. 1, pp. 133-34, 157. A expressão passe-temps está em francês no original.
394 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, pp. 100, 104, 131.

234 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
informações valiosas. Na rubrica “profissões manuais”, a categoria de “operários em
tecidos” é certamente uma denominação vaga, por não discriminar trabalhadores
fabris de artesãos, ou assalariados de autônomos. Mas indica, com certeza que os
indivíduos recenseados nesta categoria eram produtores de tecidos. Como se pode
ver na tabela 5.16, a distribuição desses “operários” entre as províncias era extre-
mamente desigual, e Minas detinha, sozinha, mais indivíduos classificados como
trabalhadores têxteis, do que todas as outras províncias somadas.

Tabela 5.16 - Brasil: Operários em tecidos, por províncias, 1872


Províncias Número %
Minas Gerais 70.457 50,7
Ceará 16.656 12,0
São Paulo 12.412 8,9
Goiás 9.969 7,2
Bahia 6.485 4,7
Demais províncias 22.950 16,5

Brasil 138.929 100,00


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

O censo não especifica que as mais de 70 mil pessoas que tinham esta ocupação
em Minas Gerais trabalhavam na manufatura doméstica de algodão, mas essa é a
única possibilidade. Em 1873, o setor têxtil industrial mineiro tinha, no máximo,
três fábricas que, conjuntamente, não empregavam mais do que umas duzentas
pessoas. Assim, em Minas, a quase totalidade dos “operários em tecidos” estava
necessáriamente produzindo pano artesanal. Isso sugere que, apesar de já existirem
vários estabelecimentos têxteis fabris em outras províncias, a província mineira
continuava sendo um empório importante de tecidos para os pobres e escravos e,
embora não tenhamos obtido dados concretos para o restante da década, provavel-
mente o pano de Minas continuava sendo exportado em larga escala. Em Minas,
como no resto do país, essa era uma ocupação sobretudo de gente livre, mais pre-
cisamente, de mulheres livres.
Tanto em Minas, como nas outras províncias, as pessoas livres representavam
mais de 90% dessa categoria ocupacional e, entre estas mais de 90% eram do sexo
feminino. Isso está perfeitamente alinhado com as observações de cronistas da
primeira metade do século, sugerindo que a composição da força de trabalho da
manufatura têxtil se manteve basicamente inalterada.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


235
Tabela 5.17 - Brasil e Minas Gerais: sexo e condição dos operários em tecidos, 1872
Homens Mulheres Homens Mulheres Total % % %
livres livres escravos escravas geral total operários mulheres
geral livres livres
Minas Gerais 5.892 58.111 972 5.482 70.457 50,7 90,8 90,8
Demais províncias 3.875 59.459 576 4.562 68.472 49,3 92,5 93,9

Brasil 9.767 117.570 1.548 10.044 138.929 100,0 91,7 92,3


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A difusão desta atividade entre as mulheres mineiras era impressionante.


Segundo o censo, havia 821.684 mulheres livres, das quais 322.954 tinham “pro-
fissão”, 215.965 se dedicavam ao “serviço doméstico”, e 282.765 foram classificadas
como “sem profissão”. Portanto, as 58.111 operárias em tecidos representavam nada
menos que 18% das mulheres livres “com profissão”. Isso significa que uma em cada
5,6 mulheres livres “com profissão” foi registrada como ocupada específicamente
com a produção de pano. Ou ainda, uma em cada 10,6 mulheres livres entre 11 e
60 anos de idade.
Com toda a certeza as mulheres livres ocupadas no setor têxtil eram muito mais
do que as quase 60 mil arroladas pelo censo. Entre as 215.965 ocupadas no “ser-
viço doméstico” certamente um grande número também fazia parte deste grupo.
A tecelagem, e principalmente a fiação, eram parte integrante das tarefas rotineiras
das donas de casa e suas filhas, e não seriam sequer citadas como uma ocupação
à parte, e muito menos como uma profissão. Havia ainda 529.061 mulheres livres
recenseadas nas ocupações de lavradora (104.481), costureira (141.815) e sem pro-
fissão (282.765). Sem dúvida muitas dessas mulheres também se dedicavam a fiar e
tecer, pelo menos durante parte de seu tempo.395
No momento do censo, como em períodos anteriores, era também notável a
dispersão geográfica dessa ocupação e, consequentemente, da produção artesanal.
Mais de três quartos dos 72 municípios existentes tiveram pessoas classificadas
como “operários em tecidos”. Esses municípios estavam bem distribuídos pelas
regiões, cobrindo toda a província. Os 67.620 trabalhadores do ramo se espalhavam
por todo o território, acompanhando, grosso modo, a distribuição da população.

395 O Recenseamento de 1872 arrolou 614. 945 mulheres livres com idades entre 11 e 60 anos. As 282.765
listadas como “sem profissão” certamente incluíam mulheres fora das idades ativas, mas também
incluíam muitos milhares em idade de trabalhar. Lembre-se ainda que a fiação era um trabalho e
mesmo um desenfado comum entre pessoas muito idosas ou muito jovens.

236 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 5.18 - Brasil e Minas Gerais, por regiões: Operários em tecidos, 1872
Regiões Operários em tecidos Municípios Total de
Livres Escravos Total c/ operários municípios

Metalúrgica-Mantiqueira 21.355 1.997 23.352 10 14


Mata 7.002 774 7.776 9 11
Sul 7.355 1.078 8.433 12 18
Oeste 8.060 695 8.755 7 8
Alto Paranaiba 5.234 652 5.886 5 5
Triângulo 49 15 64 1 3
S. Francisco-Montes Claros 2.152 67 2.219 4 5
Jequitinhonha-Mucuri-Doce 8.527 1.141 9.668 6 7
Paracatu 1.431 36 1.467 1 1
Total de Minas Gerais 61.165 6.455 67.620 55 72
Total de outras províncias 63.273 5.165 68.438 (*) (*)
Total do Brasil 124.438 11.620 136.058 (*) (*)
Minas como % do Brasil 49 56 50 (*) (*)
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Em 1878, o Tratado de Geographia, de José Joaquim da Silva, informava que a


manufatura têxtil doméstica ainda prosperava em quase todos os municípios. Vinte
e dois deles, não incluindo aqueles onde havia fábricas têxteis em operação são
citados como grandes produtores.396 Porém, no início da década de 1880 os dados
de exportação mostram que o pano artesanal mineiro havia perdido seu mercado
externo para os tecidos industriais e para as importações. Apesar disso, a indústria
doméstica sobreviveu pelo menos até a Primeira Guerra Mundial. Uma monografia
de 1916 sobre algodão e têxteis de algodão em Minas afirma que “a maioria dos
municípios de hoje preserva a tradição da tecelagem doméstica” e lista dezessete
deles como produtores comerciais.397
A produção industrial de tecidos de algodão foi tentada durante a primeira
metade do século XIX, mas só se consolidou de fato na década de 1870. Em 1847
foi estabelecida, em Conceição do Serro, a fábrica Cana do Reino, que operou irre-
gularmente até 1874. O primeiro estabelecimento têxtil realmente bem sucedido,

396 Silva. Tratado, pp. 41, 56-177 passim. Os municípios citados como produtores de tecido doméstico são:
Queluz, Barbacena, Bonfim, São João del Rei, São José del Rei, Lavras, Oliveira, Pitangui, Bonsucesso,
Tamanduá, Campo Belo, Formiga, Pium-i, Araxá, Patrocínio, Bagagem, Uberaba, Paracatu, Passos,
Sabará, Aiuruoca e Pará.
397 Carvalho. Notícia, pp. 21-22.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


237
a fábrica do Cedro na paróquia do Taboleiro Grande (Sete Lagoas), começou suas
operações em 1872. James Wells visitou suas instalações no início da década de 1870
e ficou tão impressionado “com os méritos e vantagens” dessa iniciativa que voltou
para a Inglaterra acalentando sonhos de embarcar em um projeto semelhante.398
A fábrica do Cedro foi seguida por várias outras, nos anos setenta e oitenta,
em Pitanguí, Curvelo, Sabará, Diamantina (a já mencionada fábrica do bispo),
Machado, Pará, Oliveira, Tamanduá, Dores do Indaiá, Araçuaí, Itabira, Uberaba,
Montes Claros, Juiz de Fora, Santa Rita do Turvo, Gouveia e Mariana. Em 1883,
usando dados muito incompletos, o presidente da província informou que a indús-
tria produzia 12 mil metros por dia e empregava 700 trabalhadores. A produção
anual foi calculada em 6,2 milhões de metros em 1884 e cerca de 9 milhões em
1887.399
O setor têxtil fabril de Minas conservou algumas características importantes
da indústria doméstica. As fábricas eram dispersas na zona rural, e algumas eram
parte integrante de propriedades rurais grandes e diversificadas. O maquinário
era importado da Inglaterra ou dos Estados Unidos, mas o capital e a iniciativa
empresarial eram, quase sem exceção, locais. A matéria prima era produzida nas
vizinhanças e em distritos próximos, algumas vezes na própria fazenda onde se
localizava a fábrica. Das sete fábricas que indicaram a fonte de matéria prima em
1883, três a obtinham no mesmo município onde se situavam, duas recebiam algo-
dão de municípios vizinhos, uma indicou a “área ao redor” como fonte, e uma tinha
sua própria plantação.400
Em pelo menos um caso a integração vertical era completa: a Fábrica São
Sebastião, localizada perto de Curvelo, na fazenda de mesmo nome, foi descrita
como “um acessório de um importante estabelecimento agrícola”, que produzia não
só o algodão, mas também a mão de obra que usava. De acordo com a fonte, “o
serviço é em grande parte feito por ingênuos”, filhos dos escravos da propriedade.401
A indústria têxtil fabril era ainda mais direcionada para o consumo local do
que a própria indústria doméstica. Numa enquete de 1883-84, todas as fábricas que
informaram seus mercados relataram que a produção era vendida na vizinhança
imediata ou em outros municípios mineiros. Nesse ano foram exportados somente

398 Iglésias. Política Econômica, pp. 106-08; Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, pp. 212-15.
399 Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1883, p. 41; Ricketts. Report, p. 8.
400 Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1883, pp. 40-44; e Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1884, p. 72.
401 Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1884, p. 74.

238 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
188 mil metros, cerca de 3% da produção provincial de 6,2 milhões de metros.
Provavelmente toda essa exportação consistia de pano artesanal.402
Não há dúvida a respeito do emprego de escravos nas primeiras fábricas, mas
sem uma pesquisa mais aprofundada não é possível determinar a extensão de sua
utilização no início da fase fabril da indústria têxtil mineira.403 O trabalho escravo
participava da manufatura doméstica mas, aparentemente, não tanto nas fábri-
cas instaladas nos anos setenta e oitenta. O único caso seguro é o da fábrica São
Sebastião, que, como mencionado acima, utilizava extensamente o trabalho de
ingênuos.404 Entretanto, tudo indica que as fábricas se apropriaram de outra fonte
de trabalho de facto compulsório, talvez até mais barato e mais cruel que o pró-
prio trabalho escravo: todas os seis estabelecimentos que tiveram a natureza de sua
força de trabalho explicitada registraram o emprego de crianças, órfãos e “meninos
desvalidos”.405

Tabela 5.19 - Minas Gerais: Fábricas de


tecidos em operação, 1852-1888
Ano Número de fábricas
1852 1
1868 2
1876 10
1883 14
1884 17
1887 19
1888 20
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

402 Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1883, pp. 38, 30-33; Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, p. 72.
403 Veja Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, pp. 35, 51, 53, 55, 61.
404 Veja a nota 402, acima. De acordo com a lei Rio Branco, ou do Ventre Livre, de 28 de setembro de
1871, ingênuos eram os filhos de mães escravas nascidos a partir daquela data. Não eram escravos,
mas, quando atingiam a idade de 8 anos os senhores de suas mães tinham a opção de entregá-los
ao Estado ou utilizar seu trabalho até completarem 21 anos. Para todos os efeitos o trabalho dos
ingênuos era tão compulsório como o dos outros escravos;
405 Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1883, pp. 41-44 e Falla...pres. Gonçalves Chaves, 1884, pp. 72-74.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


239
A INDÚSTRIA AÇUCAREIRA
A cana de açúcar foi cultivada em Minas Gerais desde o começo de sua colo-
nização. No século XIX essa cultura se alastrou pelo território e a produção pro-
vincial de açúcar, rapadura e cachaça, parece ter sido muito grande. Ao longo de
todo o século, observadores notaram que os canaviais, os engenhos e os alambiques
eram presenças constantes em qualquer propriedade rural de porte razoável, na
maior parte da província.406

Tabela 5.20 - Minas Gerais:


Engenhos de cana no século XIX

Ano Número de engenhos


1845 5.000
1853 1 3.702
1854 2 3.296
1863 4.500
1869 2.717
1874 8.800
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 5.21 - Minas Gerais: Localização de 3.702


engenhos de cana em 1853, por regiões
Regiões Engenhos %
Metalúrgica-Mantiqueira 1.326 35,8
Mata 311 8,4
Sul 228 6,2
Oeste 462 12,5
Alto Paranaíba 149 4,0
Triângulo 320 8,6
São Francisco-Montes Claros 309 8,3
Paracatu 90 2,4
Jequitinhonha-Mucuri-Doce 507 13,7

Total* 3.702 100,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

406 Sobre isto veja toda a literatura de descrição e viagem mencionada neste capítulo. Por exemplo, veja:
Spix e Martius. Viagens, vol. 1, pp. 279; vol. 2, p. 194; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 284-85; Saint-Hilaire.
Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 122, 327-28; Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59;
Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 202.

240 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
As estimativas disponíveis do número de engenhos em Minas são incompletas e
pouco confiáveis, mas não deixam margem a nenhuma dúvida. O número de enge-
nhos era enorme, e a atividade era disseminada por todo o território. A estrutura
e a escala da produção de cana e derivados em Minas eram diferentes de outras
regiões produtoras, mas mesmo assim a comparação do número de unidades é
impressionante.
A Bahia tinha somente 869 engenhos em 1875. Em Pernambuco, o mais impor-
tante produtor brasileiro, seu número nunca chegou a dois mil no século XIX.
Durante os anos 1860, a província tinha 1.672 engenhos que produziam, em média,
33,4 toneladas de açúcar cada um. Na safra de 1860, Cuba tinha 1.318 engenhos,
com uma produção média de 391,3 toneladas por engenho.407
Diferentemente do Nordeste, e mesmo das províncias do Rio de Janeiro e de São
Paulo, em Minas nunca existiu um setor de monocultura açucareira. Os engenhos
de cana não eram, como em várias outras partes do Brasil e da América, estabeleci-
mentos especializados na produção de açúcar, mas sim, em geral, apenas um entre
os vários equipamentos da fazenda diversificada, como a roça de milho, a tenda do
ferreiro, o engenho de farinha, ou o curral de gado. Eram muito numerosos, mas,
em geral, pequenos, e muitos não produziam açúcar, concentrando-se no fabrico
de rapadura e de cachaça.
Eram muito atrasados tecnologicamente, “the simplest expression of a
mill”, nas palavras de Richard Burton. A maioria era tocada por bois e durante a
primeira metade do século todos ainda empregavam cilindros verticais de madeira.
A primeira moenda com cilindros horizontais revestidos de ferro só foi instalada
em 1843. Com o desenvolvimento da indústria metalúrgica, os cilindros de ferro,
movidos por força hidráulica – “engenhos de água” – tornaram-se mais comuns.
Em 1867, o mesmo Burton registrou que as antigas moendas verticais de madeira
eram “cada vez mais obsoletas”, mas não tinham desaparecido.408
Os engenhos mineiros não precisavam ser eficientes porque não estavam com-
petindo com ninguém, nem mesmo entre si. A produção de açúcar era consumida

407 Nas grandes regiões exportadoras de açúcar, a concorrência eliminava os engenhos pequenos e
ineficientes. Os dados são de: Costa Filho. A Cana de Açúcar, p. 348; Eisenberg. The Sugar Industry
in Pernambuco, p. 15, 124; Manoel Moreno Fraginals. The Sugarmill: The Socio-Economic Complex of
Sugar in Cuba 1760-1860, trad. Cedric Belfrage. New York: Monthly Review Press, 1976, p. 84. Para
uma discussão sobre o tamanho dos engenhos mineiros veja o capítulo Microengenhos, de Costa
Filho, pp. 347-56.
408 Burton. Explorations, vol. 2, pp. 40-41; Costa Filho. A Cana de Açúcar, pp. 246-47. Sobre a tecnologia
do açúcar em Minas e sua evolução veja o capítulo de Costa Filho, Tecnologia, pp.237-249.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


241
localmente, ou enviada para as cidades, vilas e povoados vizinhos. Se a oferta supe-
rava as limitadas demandas locais, os produtores remanejavam os recursos produ-
tivos para outras culturas. Alguns engenhos alternavam entre rapadura e cachaça
para evitar que o mercado ficasse saturado, deixando-os com estoques invendáveis.
Minas Gerais não importava açúcar e suas exportações desse produto eram
francamente irrisórias.409 Em nenhum dos anos da tabela abaixo a quantidade total
exportada de açúcar mineiro foi maior do que a produção de uns poucos engenhos
pernambucanos médios na década de 1860 e, em todos eles, foi nitidamente menor
do que a safra de um único engenho cubano de porte mediano em 1860.410

Tabela 5.22 - Minas Gerais: exportações de açúcar,


1818-1880 (anos selecionados)
Ano Exportações % das exportações
(toneladas) brasileiras 4
1818-19 336 (*)
1839-40 87 0,11
1842-43 29 0,03
1844-45 104 0,12
1851-60 1 127 0,11
1861-69 2 158 0,14
1871-80 3 70 0,04
Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Nos últimos anos do Império ocorreram algumas tentativas tímidas de moder-


nização da indústria açucareira mineira, com a construção de engenhos cen-
trais tecnicamente mais avançados. O primeiro desses engenhos centrais come-
çou a operar em 1885, no município de Visconde do Rio Branco, e cinco outros
foram construídos até 1888: o Engenho Central de Aracati, em Leopoldina, os
Engenhos Centrais Vieira Martins, Piranga e Vau-açu, todos em Ponte Nova, e o
Engenho Central Cabral, em Cataguazes. O fato de estarem todos localizados na
Zona daMata atesta, uma vez mais, a diversificação agrícola da região cafeeira da

409 Para depoimentos sobre a natureza local da produção de açúcar em Minas em diferentes anos ao
longo do século XIX, veja Spix e Martius. Viagem, vol. 1, p. 279; Saint-Hilaire. Viagem às Províncias,
vol. 1, pp. 327-38; Falla...pres. Quintiliano José da Silva, 1846, pp. 28-59; Burmeister. Viagem, p. 334;
Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. 202; Ricketts. Report, p. 6.
410 Veja as fontes na nota 407, acima.

242 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
província. Vários outros foram projetados, mas não foram construídos antes do fim
do Império.
Entre todos que efetivamente entraram em operação nesse período, somente
o de Rio Branco se credenciou, pela capacidade instalada, a receber o incentivo
governamental de garantia de juros sobre o capital investido. Os outros eram técni-
camente modernos, mas de dimensões modestas. Aracatí, Piranga e Vau-açu dei-
xaram de funcionar poucos anos depois de sua inauguração e o próprio Rio Branco
teve problemas financeiros desde o começo.411
É muito interessante notar que mesmo a instalação dos engenhos centrais
não mudou o caráter não-exportador da indústria açucareira mineira. Em 1885,
quando a Assembleia Provincial debatia uma emenda que isentava de impostos
o açúcar exportado e aumentava a taxação sobre o importado, um parlamentar
observou que as duas medidas eram inteiramente inócuas. “Não temos exportação
de açúcar”, disse o deputado Barbosa da Silva, acrescentando que se havia impor-
tação, esta era insignificante.412 No mesmo ano, o presidente da província relatou à
Assembleia que
a exportação deste produto é de pequena escala.Temos apenas funcio-
nando o Engenho Central Rio Branco, e os outros pequenos engenhos
dos fazendeiros, que já são tributados conforme o motor, unicamente
produzem para o consumo da província. Entende o diretor da Fazen-
da que o imposto sobre os engenhos centrais deve recair sobre a sua
produção anual, pois que, na provável hipótese de que seja também
consumida somente na província, ficarão esses mesmos engenhos sem
contribuição alguma.413

A INDÚSTRIA DO FERRO
O ferro era um dos produtos mais essenciais tanto para os agricultores como
para os mineradores. No início da colonização todo o suprimento necessário tinha
que ser importado da Europa, chegando a Minas com preços exorbitantes, por causa
dos altos custos de transporte e das pesadas taxas de importação. Pode parecer

411 Todas as informações sobre os engenhos centrais mineiros usadas aqui são de Costa Filho. A Cana de
Açúcar, pp. 377, 385-86.
412 Deputado provincial Antonio Joaquim Barbosa da Silva, citado por Costa Filho. A Cana de Açúcar, pp.
216-17.
413 Falla...pres. Alves de Brito, 1885, p. 22.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


243
incrível, mas é perfeitamente lusitano, que uma arroba de ferro, que era classifi-
cada como “fazenda seca”, pagasse exatamente a mesma tarifa que uma arroba da
mais fina seda. Era, portanto, inteiramente natural que os mineiros, sentados como
estavam, sobre alguns dos mais ricos depósitos de minério de ferro do planeta,
começassem a substituir as importações pela produção local, usando a tecnologia
aprendida com os escravos africanos.
No início do século XIX a fundição de ferro, talvez o mais tipicamente mineiro
de todos os setores produtivos, já estava amplamente disseminada, apesar das res-
trições legais impostas pela metrópole portuguesa. A suspensão da proibição de
produção de ferro, em 1795, desencadeou um período de rápido desenvolvimento
da indústria, no qual Eschwege desempenhou um papel muito importante, espe-
cialmente na disseminação de tecnologia mais avançada.
“Por ocasião de minha chegada a Minas, em 1811, era comum esse bárbaro
processo de produção de ferro. A maioria dos ferreiros e dos grandes fazendeiros
que possuíam ferrarias tinha também o seu forninho de fundição”, diz Echwege,
acrescentando que eram extremamente rudimentares e nunca produziam mais que
umas poucas libras de ferro.414 No início da década de 1810, Itabira já tinha uma
fundição de tamanho considerável, com vários fornos e uma fábrica de espingar-
das. Com a assistência técnica de Eschwege esse estabelecimento foi o primeiro a
construir um malho hidráulico, que operou pela primeira vez em 1812.415 Outros
produtores começaram a adotar os novos processos e “em pouco tempo trabalha-
vam dezesseis pequenos fornos, com diversos malhos de ferro forjado, movidos a
água. Em Cocais, perto da Vila do Príncipe, em Antonio Pereira e em muitos outros
lugares apareceram fabricantes de ferro em número sempre crescente.”416
No final da década, vários viajantes registraram a multiplicação das fundições.
Saint-Hilaire afirmou que o fim da proibição produzira uma “feliz revolução” em
Itabira. Quando lá esteve, além daquela já mencionada acima, encontrou doze fábri-
cas de ferro em funcionamento, com ótimas perspectivas. Visitou outra fundição
em Penha, na região de Minas Novas, que produzia ferro com um quarto do custo
do material importado. Em Cocais alguns proprietários de minas tinham constru-
ído fornos, onde produziam suas próprias ferramentas, vendendo o excedente nos

414 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 340-41. Para exemplos de pequenas fundições observadas
pelos primeiros viajantes nas fazendas espalhadas por toda Minas, veja Saint-Hilaire. Viagem às
Nascentes, vol. 1, p. 134; Viagem, vol. 2, p. 283.
415 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 342.
416 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 342.

244 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
mercados locais.417 Pohl e Freireyss também registraram muitas fundições peque-
nas em vários lugares.418
Após seu retorno à Europa, no início dos anos vinte, Eschwege se vangloriava
de que, graças a seus esforços, “o fabrico de ferro tinha se desenvolvido em toda a
província (...) Cerca de trinta fundições tinham se estabelecido, cada uma das quais
produzia de 100 a 400 arrobas por ano.”419
A maior parte das fundições era pequena, mas algumas atingiram uma dimen-
são considerável. As Forjas do Girau, perto de Conceição, tinham oito fornos e
empregavam 25 trabalhadores quando foi visitada por Saint-Hilaire. Vinte anos
mais tarde ainda estavam muito prósperas, “produzindo toda espécie de imple-
mentos usados no país”, de acordo com Gardner. A produção era de 100 arrobas
por dia e todos os equipamentos eram movidos a água. O proprietário tinha pla-
nos para dobrar a capacidade da planta.420 A fábrica do Bonfim, fundada em 1815,
entre Diamantina e São João Batista, foi descrita como o mais belo estabelecimento
industrial de toda a província. Tinha uma força de trabalho de 80 pessoas e produ-
zia “ótimos machados, enxadas, facas e ferraduras”, que eram comercializados nas
regiões de Diamantina e Minas Novas.421
As fundições mais importantes da década de 1810 foram a Real Fábrica de
Ferro do Morro do Pilar, fundada em Conceição, pelo Intendente dos Diamantes,
Ferreira Câmara, e a Fábrica Patriótica ou Fábrica de Ferro do Prata, construída em
Congonhas do Campo, por Eschwege. Os projetos dessas duas empresas revelam
concepções diferentes sobre a economia mineira, e o contraste entre seus destinos
oferece insights interessantes sobre a província.
Câmara tinha mercados externos em mente: sua fábrica foi projetada com a
intenção de abastecer não somente Minas Gerais, mas também os arsenais do Rio
de Janeiro e da Bahia e até mesmo exportar para outros países. Essas considerações
foram determinantes na definição da localização e da escala da planta. O plano
incluia a abertura de um canal que, ligando a fábrica ao rio Doce, permitiria o
escoamento da produção até o litoral, e daí para o mundo.

417 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 230-40, 247, 250, vol. 2, p. 21.
418 Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 436-37; Freireyss. Viagem, p. 150.
419 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 442. Ver também seu Notícias e Reflexões, pp. 757-58.
420 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 249-50; Gardner. Viagem, pp. 399-400. Saint-Hilaire
afirma que as Forjas do Girau se localizavam perto de Itabira, enquanto Gardner as coloca perto de
Conceição.
421 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 2, pp. 235-37; Saint-Adolphe. Diccionario, vol. 1, p. 151.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


245
Financiado por recursos da Real Extração Diamantina, Câmara construiu um
grande estabelecimento com uma numerosa força de trabalho, mas o projeto foi
um fracasso desde o começo. Sempre atormentado por incapacidade técnica, supri-
mentos inadequados de água e de combustível, e por sua escala visionária, o empre-
endimento foi um desastre financeiro. Entre 1815 e 1821, Morro do Pilar produ-
ziu 6.865 arrobas, com um custo médio muito mais alto que o preço de mercado
do ferro. O canal nunca foi construído e a produção nunca foi exportada: a Real
Extração absorvia 60% do ferro produzido, 10% eram consumidos pela própria
fábrica e o restante era vendido localmente. Em 1830 a empresa foi liquidada.422
Eschwege revelou uma compreensão muito mais correta do ambiente econô-
mico de Minas. Defendeu reiteradamente a construção de pequenas fundições,
espalhadas pelo território, e produzindo para as necessidades locais, como a melhor
maneira para desenvolver a indústria mineira de ferro. Tinha consciência de que os
custos de transporte e a concorrência estrangeira asfixiariam quaisquer planos de
exportar, mas que, no mercado provincial, as pequenas fundições eram plenamente
competitivas.423
Sua Fábrica do Prata era pequena e foi bem sucedida. Compunha-se de quatro
fornos que produziam uma média anual de 1.300 arrobas de ferro em lingotes,
vendidos localmente com um lucro razoável. Mais do que uma grande contribuição
à produção total, a fundição de Eschwege deixou uma marca duradoura no setor
siderúrgico de Minas, que se desenvolveu em grande parte segundo o padrão esta-
belecido por ele.424
Na década de 1820, Jean de Monlevade instalou uma fundição em São Miguel
do Piracicaba, que se tornou a fábrica de ferro mais duradoura e mais importante
de Minas durante o Império. Por volta da metade do século, Monlevade estava pro-
duzindo 30 arrobas de ferro por dia, que eram transformadas em enxadas, macha-
dos, facas, utensílios domésticos e especialmente cabeças de pilão para as empresas
mineradoras, bigornas, engenhos de serra e engenhos de açúcar.425

422 As fontes para a história da fábrica de ferro do Morro do Pilar são: Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2;
Eschwege. Notícias, p. 757; Spix e Martius. Viagem, vol. 2, pp. 91-92; Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 369-72;
Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 259-63; Marcos Carneiro de Mendonça. A Economia
Mineira no século XIX. Primeiro Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: Editora da UMG, 1957.
423 Eschwege. Pluto Brasiliensis, pp. 436-444.
424 Sobre a Fábrica do Prata ver: Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 418-38; Eschwege. Notícias, p.
757; Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 368-69; Saint-Hilaire. Viagem ao Distrito, pp. 170-72.
425 Mendonça. A Economia Mineira, pp. 133-34; Halfeld und Tschudi. Die Brasilianische Provinz, p. 22;
Dornas Filho. O Ouro das Gerais, pp. 188-209.

246 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Ao visitar a Saint John del Rey, em Morro Velho, em 1867, Ricard Burton obser-
vou que as cabeças de pilão importadas da Inglaterra eram quatro vezes mais caras
e que nenhuma durava mais que as revestidas com “chapas de ferro de Minas”,
fornecidas por Monlevade.426 A produção da província foi estimada, em 1815, em
cinco mil arrobas de ferro, que supriam mais de 70 por cento do seu consumo
total.427
Segundo uma memória produzida por Monlevade, a pedido do presidente da
província, em 1853, somente na área entre Ouro Preto e Itabira, existiam “84 ofici-
nas onde se funde o ferro, sem contar as numerosas tendas onde se elabora o ferro
comprado nas fábricas, as quais, entre forros e cativos, empregam ao menos duas
mil pessoas e produzem anualmente de 145 a 150 mil arrobas de ferro [2.175 a
2.250 toneladas]”.428 Em 1864, o número de fundições foi calculado em 120, produ-
zindo 1.550 toneladas, e em 1876, estimou-se que eram 110, com uma produção de
três mil toneladas.429 Em 1883 foram arroladas, “no centro da província”, 75 fábricas
de ferro, que produziam entre 1.500 a 1.600 toneladas por ano.430
Toda a produção mencionada por Monlevade era consumida dentro de Minas,
“em parte já reduzido a obras, e o restante é vendido e disseminado por toda a pro-
víncia, principalmente ao norte e ao oeste”. Ou seja, seu mercado abrangia toda a
região central, onde se localizava a maioria das fundições, mas, “ao sul ele chega até
Barbacena, onde se vende em concorrência com o ferro estrangeiro”, afirma o fran-
cês, que prossegue dizendo que era a produção local que atendia às necessidades
dos mineiros: “quase se pode afirmar que se não houvesse no país essa produção de
ferro barato para suprir a mineração de ouro e diamantes, a agricultura, etc., etc.,
estaria esta província quase abandonada”.431
Escravos eram extensamente empregados em todas as fundições, grandes ou
pequenas. Metade dos trabalhadores das Forjas do Girau eram cativos. Em Bonfim,

426 Burton. Explorations, vol. 1, p. 255. A expressão chapas de ferro está em português no original. Burton
visitou a siderúrgica de Monlevade e a descreveu nas páginas 298, 304-306, do mesmo volume.
427 O cálculo se deve a Eschwege, citado em Dornas Filho. O Ouro das Gerais, p. 172.
428 João Antônio de Monlevade. Memória anexa ao Relatório que ao Ilmo. e Exmo. Sr. Desembargador
José Lopes da Silva Viana, muito digno 1º. Vice-Presidente da Província de Minas Gerais, apresentou
ao passar-lhe a Administração, o Presidente Francisco Diogo Pereira de Vasconcelos. Ouro Preto:
Typographia do Bom Senso, 1854. Anexo S3, p. 1.
429 Dornas Filho. O Ouro das Gerais, p. 206; Dent. A Year in Brazil, p. 264.
430 Iglésias. Política Econômica, p. 97.
431 Monlevade. Memória, p. 1; Mendonça. A Economia Mineira, pp. 133-34; Carvalho. Formação Histórica,
p. 27.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


247
o proprietário tinha tentado, sem sucesso, empregar somente homens livres, e por
ocasião da visita de Saint-Hilaire a maior parte da força de trabalho era escrava.432
Eschwege também planejou usar apenas mão de obra livre, mas logo precisou
recorrer aos escravos, que foram treinados e utilizados em todos os tipos de tarefa,
tanto braçais como especializadas. A força de trabalho de sua fundição, constituída
inicialmente por 20 cativos, poucos anos depois tinha crescido para 50 escravos.433
Morro do Pilar empregava escravos alugados: em certa época havia na empresa,
além do pessoal normal, que já incluía pelo menos 70 cativos, uma força suplemen-
tar de 120 escravos. Câmara não tinha a fama de ser um senhor bondoso: “durante
toda a operação o tronco nunca permanecia vazio”.434 Monlevade tinha 150 escra-
vos trabalhando em São Miguel em 1853. Por ocasião de sua morte, em 1872, seu
patrimônio incluía nada menos de 200 escravos, muitos dos quais eram hábeis
fundidores.435 Pelo menos até 1883, segundo um relatório do professor Bovet, da
recém-fundada Escola de Minas de Ouro Preto, a maioria dos fabricantes de ferro
ainda dependia do trabalho escravo.436

A FAZENDA MINEIRA
Durante o século XIX a grande maioria dos mineiros vivia e trabalhava no
campo. Isso é especialmente verdade no que diz respeito aos escravos: a única dis-
tribuição conhecida desta população por situação de domicílio (urbano ou rural),
mostra que no último ano do regime escravista somente 4,9 % dos cativos mora-
vam nas cidades e vilas da província.437

432 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 1, pp. 249-50; vol. 2, pp. 235-37.
433 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 421-22, 428; Freireyss. Viagem, p. 150.
434 Pohl. Viagem, vol. 2, pp. 369-72; Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 351, 356, 358. A citação é do
mestre fundidor alemão Schonewolf, que trabalhou no Morro do Pilar, reproduzida por Eschwege.
Dados sobre as despesas da fábrica, também fornecidos por Eschwege, permitem identificar, pelo
menos, 70 escravos entre a força do trabalho normal da empresa.
435 Dornas Filho. O Ouro das Gerais, pp. 205, 208-09. Sobre o emprego de escravos por Monlevade veja
também Suzannet. O Brasil em 1845, p. 126; e Burton. Explorations, vol. 1, pp. 298, 304-06.
436 Iglésias. Política Econômica, p. 97.
437 Os dados são da Matrícula dos escravos do Império, determinada pela Lei de 28 de setembro de 1885,
encerrada em 30 de março de 1887, anexa ao Relatório apresentado à Assembleia Geral da Terceira
Sessão da Vigésima Legislatura, pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura,
Comércio e Obras Públicas, Rodrigo Augusto da Silva. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1888. São
Paulo, com 4,6%, Pará, com 4,7%, e Minas Gerais, com 4,9%, eram as províncias com as menores
porcentagens de escravos com residência urbana. Esses números provavelmente exageram a
ruralização da população escrava em períodos anteriores. Em várias sociedades escravistas houve uma

248 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Havia uma grande variedade de tipos de estabelecimentos rurais, que iam
desde propriedades camponesas rústicas (compreendendo um casebre e uma roça
de subsistência), a sítios ou situações (propriedades familiares trabalhadas pelos
membros da família, algumas vezes com a ajuda de uns poucos escravos),438 até
grandes fazendas, que podiam abranger até centenas de milhares de acres e cente-
nas de escravos. No próximo capítulo examinaremos rapidamente o modo de vida
da população camponesa, aqui estamos interessados nas fazendas porque era nelas
que vivia a maioria dos escravos. Embora sua dimensão variasse muito, as fazendas
possuiam, em geral, grandes extensões de terra. Já vimos que o tamanho médio das
fazendas mineiras de café era de 591,2 hectares, ou 1.491 acres e, aparentemente, as
fazendas não-cafeeiras eram ainda maiores.
Não existem dados sistemáticos sobre isso, mas encontramos nos relatos dos
viajantes constantes referências a propriedades com mais de 50 mil acres. Na região
oeste da província, Saint-Hilaire notou que as fazendas frequentemente tinham de
oito a dez léguas de comprimento (sic). A fazenda da Jaguara, perto de Santa Luzia,
tinha mais do que 400 mil acres, e a fazenda de Pompeu, na região de Pitangui,
atingia mais de um milhão.439
Havia também muita variação no tamanho dos plantéis de escravos. No começo
do século essa variação apresentava um padrão regional claro. Nas regiões sul e
sudoeste da província as fazendas tinham poucos escravos: em grande parte des-
sas regiões o povoamento era esparso e os habitantes eram relativamente pobres:
“aqueles que possuem de oito a dez escravos são considerados ricos”. A vasta região
norte era uma zona predominantemente pecuária e também possuia poucos escra-
vos. Os grandes plantéis estavam concentrados no centro de Minas Gerais. Mas
mesmo naquelas regiões onde a população cativa era mais rarefeita encontravam-se,

redução da população escrava urbana nos últimos anos do regime servil. As crescentes demandas
da agricultura drenaram os cativos para o campo, enquanto nas cidades eles eram substituídos em
diversas funções por mão de obra livre. Para o principal debate sobre o declínio da escravidão urbana
nos Estados Unidos, veja Goldin. Urban slavery in the American South, e Richard C. Wade. Slavery in
the Cities. The South 1820-1860. London, Oxford and New York: Oxford University Press, 1964.
438 As duas palavras significam literalmente “lugar”. Esta nota era, óbviamente, voltada para o leitor não-
brasileiro.
439 Saint-Hilaire. Viagem às Nascentes, vol. 1, pp. 118-19, 217, 229; Wells. Exploring and Travelling,
vol. 1, p. 258; Burton. Explorations, vol. 2, p. 23. Em 1860, o tamanho médio das fazendas no Sul dos
Estados Unidos era de 399 acres, e no país todo, 202 acres. Em Pernambuco, em 1850, as plantations
(engenhos) de cana de açúcar de um município típico tinham 2.871 hectares em média, enquanto as
fazendas não açucareiras tinham somente 350 hectares. Gray. History of Agriculture, vol. 1, p. 530;
Eisenberg. The Sugar Industry, pp. 129-30.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


249
com frequência, fazendas com considerável número de escravos.440 Para o restante
do século são poucas as informações disponíveis sobre o tamanho dos plantéis.
Entretanto os relatos dos viajantes mostram que propriedades de 50, 100 ou mais
cativos não eram incomuns. Em algumas grandes fazendas a população escrava
atingia até 400 ou 500 indivíduos.
As principais características da fazenda mineira eram sua diversificação interna
e sua autossuficiência. A produção mercantil era limitada e praticamente não
tinham nenhuma ligação com mercados distantes. Seus produtos eram consumidos
localmente, ou vendidos para vilas e cidades em sua vizinhança. A fazenda mineira
não era uma empresa: apesar de produzir alguns artigos para venda (cash crops),
ela nunca se especializava na produção mercantil, e suas decisões econômicas eram
apenas parcialmente determinadas pelas forças do mercado. O absenteísmo dos
proprietários era raro, pois a própria fazenda era o centro da vida social da classe
dominante. Booms ou crises econômicas, revoluções no Haiti, ou quebras da safra
em Java, quase não afetavam sua vida, que permaneceu essencialmente inalterada
ao longo do século.
“A fazenda é algo entre uma família e um reino”, escreveu um observador no
início do século XX, acrescentando que
foi em Minas que existiram, e talvez ainda se possam encontrar, aquelas
fazendas onde uma família vive com abundância, mas sem riqueza,
exportando pouco, demandando poucas coisas do resto do mundo,
quase não sendo tocada em sua vida isolada pelo impacto de revoluções
econômicas que perturbam mercados distantes.441

Existem descrições detalhadas de muitas fazendas mineiras em diferentes


períodos do século XIX. Na década de 1810, Pohl descreveu uma propriedade no
nordeste da província, onde havia muitos escravos, um alambique de cachaça, um
engenho de açúcar e outro de azeite de mamona. As criações incluiam gado bovino,
porcos e carneiros. Plantava cana, café, trigo, mandioca e milho (que eram trans-
formados em farinha) e tinha sua própria fundição de ferro.442

440 Sobre as diferenças regionais entre as propriedades e seus plantéis de escravos, veja Saint-Hilaire.
Viagem às Nascentes, vol. 1, pp. 76-79. Para exemplos de fazendas importantes, com muitos escravos
em áreas pouco povoadas, veja o mesmo livro, vol. 1, pp. 88, 118-19, 132-34, 165, 167, 181; e Viagem
às Províncias. vol. 2, p. 286.
441 Pierre Dennis. Le Brèsil au XXe Siècle. Paris: Librarie Armand Colin, 1909, pp. 6-7.
442 Pohl. Viagem, vol. 2, p. 287. Para outras fazendas descritas por esse autor, veja: vol. 1, p. 217-18, vol.
2, pp. 229, 375.

250 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
No mesmo período, no outro extremo de Minas, Spix e Martius visitaram uma
fazenda onde se minerava ouro e se produzia uma quantidade “colossal” de milho,
além de mandioca, farinha, feijão, sabão e alguma cana de açúcar. Um pequeno
engenho produzia aguardente e melado, que eram parcialmente vendidos aos vizi-
nhos. Seiscentas cabeças de gado abasteciam “a economia doméstica” com carne,
leite, queijos e couros. A propriedade era inteiramente autossuficiente e, em sua
opinião, seus muitos escravos pareciam “saudáveis e alegres”. Em outro trecho,
Martius comentou que
As fazendas isoladas estão privadas de todo auxílio dos centros mais
habitados. Cada fazendeiro rico vê-se, portanto, forçado a prover por si
mesmo às necessidades de sua casa, mandando ensinar ofícios aos seus
escravos. Em geral encontram-se, nestas fazendas, oficinas com todos
os operários, como sapateiros, alfaiates, tecelões, serralheiros, ferreiros,
pedreiros, oleiros, caçadores, mineiros, lavradores, etc., bem como as
ferramentas necessárias para esses trabalhos.443

Saint-Hilaire descreveu muitas fazendas de diferentes partes de Minas. Em


Itacambira visitou uma onde a cana de açúcar, o arroz, o feijão, o milho e o algodão
eram cultivados. O pano de algodão era tecido em casa e todo o ferro necessário
era produzido na propriedade. Um grande pomar fornecia uvas e café. O proprie-
tário, Sr. Vieira, como muitos outros da região, só precisava comprar sal fora de sua
fazenda.
A fazenda Santo Elói, em Montes Claros, era outro grande estabelecimento,
com numerosos escravos, e exibia engenhos hidráulicos de mandioca, cana, milho
e mamona. Tinha receitas monetárias provenientes das vendas de gado e de açúcar,
mas todos os outros produtos eram consumidos internamente. Quando Gardner
visitou Santo Elói, em 1841, nada tinha mudado em relação à descrição de Saint-
Hilaire, exceto pela marca do tempo na senhora da casa, cuja beleza tinha cativado
o olhar do botânico francês, vinte anos antes.444
Em Minas, mesmo as fazendas cafeeiras eram muito diversificadas. No início
da década de quarenta, a fazenda do Capitão Francisco Leite Ribeiro, no distrito
de Mercês do Cágado, atual Mar de Espanha, então no município de Barbacena,
“talvez o homem mais rico dessa parte do país”, tinha um engenho movido a água, e
produzia grande quantidade de queijo, açúcar e cachaça, além de onze mil arrobas

443 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 84-85, 279.


444 Saint-Hilaire. Viagem às Províncias, vol. 2, p. 286; Gardner. Viagem, pp. 361-62.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


251
de café por ano.445 A fazenda Soledade, perto de Paraibuna, cultivava café, milho,
arroz, cana de açúcar e algodão, tinha engenho de açúcar e fábrica de farinha, bem
como um alambique. Seus 200 escravos eram vestidos pelos teares domésticos, que
também produziam os sacos para a exportação do café.446
O caráter da fazenda mineira não se alterou ao longo do século, como pode-
mos ver na descrição do estabelecimento rural típico de Minas, feita por Richard
Burton, em 1867.
Essas fazendas são aldeias isoladas em pequena escala. Abastecem a vizi-
nhança de suas necessidades simples: carne seca, toucinho, carne de por-
co e banha, farinha de mandioca e de milho, açúcar e aguardente, fumo
e azeite de mamona, panos grosseiros e fio de algodão; café e diversos
tipos de chá de Caparrosa e folhas de laranja. Importam somente ferro
para fazer ferraduras; sal, vinho e cerveja, charutos, manteiga, porcelana,
remédios e outras “miudezas.” Geralmente tem oficinas de ferreiro, de
carpinteiro e de sapateiro, chiqueiros de porcos (...) e um grande gali-
nheiro.
A vida do fazendeiro é muito simples. Levanta-se de madrugada e seu
escravo de quarto lhe traz café, uma bacia e um jarro, ambos de prata
maciça, para lavar o rosto. Depois de uma olhada no engenho (...) e de
uma cavalgada pela fazenda, para ver se os trabalhadores não estão à toa,
volta... para o café da manhã. As horas quentes do dia são passadas, ou
fazendo a sesta, ajudada por um copo de cerveja inglesa – que de inglesa
nada tem além do nome – lendo os jornais ou recebendo visitas. O jantar
é entre as 3 e 4 horas da tarde (...) e é invariavelmente seguido de café e
fumo. Muitas vezes outra rodada de café é servida antes de se sentar para
o chá (...) e o dia termina com uma conversa em algum lugar fresco. A
monotonia dessa vida de frade é quebrada por uma visita ocasional a um
vizinho ou ao vilarejo mais próximo.447

445 Gardner. Viagem, pp. 447-78.


446 Castelnau. Expedição, vol. 2, pp. 122-23.
447 Burton. Explorations, vol. 2, pp. 39-40. Esse livro apresenta várias descrições de fazendas do final da
década de 1860. Burton usa o termo planter para designar o proprietário desse estabelecimento, não
porque sua propriedade fosse uma plantation, mas, claramente, pela falta de uma tradução adequada
para fazendeiro, na língua inglesa. Nem planter, nem farmer, são capazes de abarcar corretamente o
significado dessa palavra: planter, no sentido de dono de uma plantation é muito específico, e farmer
indica um proprietário rural de pequeno ou médio porte, que geralmente participa pessoalmente
do trabalho agrícola, coisa impensável para um planter. Da mesma forma, planter e farmer não tem
correspondentes exatos na língua portuguesa. As palavras plantador e fazendeiro carregam conotações
claramente diferentes dos seus false friends do inglês. A expressão vida de frade está em português no
original.

252 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
No meado dos anos setenta, James Wells descreveu a pequena fazenda onde se
hospedou enquanto trabalhava no projeto de uma estrada de ferro. O estabeleci-
mento tinha vários escravos e era moderadamente próspero. “No final das contas”,
pensava Wells, “existem muitos lugares e muitas vidas piores do que as da velha
fazenda Mesquita e dos seus moradores afáveis e simples.” Não obstante,
seus trabalhos não podem ser considerados ocupações lucrativas; eles
apenas permitem uma subsistência simples; não há aluguéis, impostos
ou salários a pagar, e o pequeno excedente da produção da fazenda, ou
a venda ocasional de um boi, proporcionam os meios suficientes para
a compra das poucas necessidades básicas que a fazenda não produz,
como uma peça de pano estampado ou de roupa branca, chapéus, alguns
utensílios de ferro para a cozinha, ou para o contrato de um carpinteiro
para consertar algum estrago na carruagem da família – o carro de boi.

Todas as excelentes descrições que Wells deixou sobre diversas fazendas enfati-
zam, sem exceção, que seus excedentes eram comercializados em mercados locais,
e são especialmente valiosas porque a literatura de viagens desse período é muito
escassa.448
Algumas outras propriedades parecem ter sido ainda mais diversificadas do
que essas já descritas. A fazenda da Jaguara, por exemplo, combinava uma ampla
variedade de culturas com a pecuária, engenhos de açúcar, curtumes, tecelagem de
algodão e mineração. A produção de seus quinhentos escravos não era exportada, e
sim consumida no próprio estabelecimento ou vendida a varejo na vizinha cidade
de Sabará.449

DISTRIBUIÇÃO OCUPACIONAL DA FORÇA DE TRABALHO ESCRAVA


O censo de 1872 oferece o único conjunto sistemático de dados sobre a dis-
tribuição ocupacional dos escravos nas paróquias, municípios e províncias brasi-
leiras na segunda metade do século.450 A comparação entre Minas e as províncias

448 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, pp. 163-65. Para outras descrições de unidades rurais, incluindo
pequenas fazendas e pequenas propriedades agrícolas familiares, veja vol. 1, pp. 105, 125-27, 134,
160-61, 202, 209, 224, 258, 275-76, 301-02, 315-16.
449 Carvalho. Estudos e Depoimentos, p. 67; Dornas Filho. Tropas e Tropeiros, pp. 94-95.
450 Tudo indica que os dados ocupacionais do censo têm muitas deficiências, mas são os melhores
disponíveis. A matrícula de 1873 também apresenta uma distribuição das populações escravas
provinciais por ocupação, mas os dados para Minas Gerais nunca foram publicados. Além disso, a
confiabilidade dos números dessa matrícula para todas as outras províncias é muito questionável.
Em São Paulo, por exemplo, todos os escravos foram registrados como trabalhadores agrícolas,
trabalhadores especializados ou diaristas. Não havia um único trabalhador doméstico e nenhum

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


253
plantacionistas exportadoras do Rio de Janeiro e São Paulo mostra diferenças notá-
veis. A distribuição mineira reflete claramente a estrutura econômica mais diversi-
ficada da província. Os escravos estavam muito menos concentrados na agricultura,
e outras ocupações, como ofícios e manufatura, detinham uma parcela substancial-
mente maior em Minas do que nas províncias cafeeiras. A alta concentração nos
serviços domésticos sugere que a vida econômica estava mais centrada em torno do
domicílio e menos orientada para a produção mercantil.
Robert Conrad, Robert Slenes e outros que analisaram as ocupações dos escra-
vos no censo de 1872 apresentam um quadro radicalmente diferente. De acordo
com eles, 75,2 % de todos os escravos mineiros, ou 85,5 % daqueles cujas ocupa-
ções foram registradas, eram trabalhadores agrícolas. Esses autores repetiram sem
críticas os dados da tabela provincial da distribuição ocupacional do censo (vol. 9,
p. 1.085), que contém grandes erros de soma.451

Tabela 5.23 - Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo:


Distribuição ocupacional da força de trabalho escrava, 1872
Ocupação Porcentagem dos escravos com ocupação conhecida (*)
Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo
Agricultura 45,4 69,9 68,9
Ofícios e manufatura 10,4 3,7 6,4
Criados e jornaleiros 11,0 12,7 7,2
Serviço doméstico 32,5 13,5 17,2
Outras ocupações 0,7 0,2 0,3

Total 100,0 100,0 100,0


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

escravo foi incluído na categoria “sem ocupação”. Ao mesmo tempo, a distribuição etária dos
matriculados mostra que 25.473 cativos estavam abaixo dos 6 anos de idade, e 51.518 abaixo dos
13 anos. Absurdos semelhantes estão presentes nos dados para outras províncias. A matrícula de
1887 tem uma distribuição ocupacional muito sumária, na qual há algumas óbvias inconsistências.
Há também considerável suspeita de que houve muita evasão nesse último registro, tornando seus
dados incompletos. A matrícula de 1873 está reproduzida em Slenes. The Demography, pp. 695-96, e
a matrícula de 1887 está no Relatório Agricultura, Ministro Rodrigo Silva, 1888.
451 Conrad. The Destruction, pp. 65, 300; Slenes. The Demography, p. 79. Embora esses autores não
sejam responsáveis pelos erros do censo, algumas inconsistências evidentes deveriam tê-los alertado
do problema. Os quase 280 mil escravos agrícolas dados pela tabela provincial significariam que
virtualmente todos os escravos entre 11 e 60 anos estavam empregados nesse setor. Os 326.142
escravos com ocupação declarada implicariam que quase todos os escravos com mais de 6 anos
tinham uma ocupação específica incluindo quase 35 mil pessoas com seus sessenta, setenta e oitenta
anos, ou mais.

254 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
Tabela 5.24.1 - Minas Gerais: Distribuição ocupacional da população escrava,
por regiões, 1873 (número de escravos por grupo ocupacional)

Regiões Agricultura Criados e Serviço Ofícios e Mineração Sem profissão


jornaleiros doméstico manufatura ou ocupação
desconhecida
Metal.-Mantiqueira 29.045 7.996 22.497 6.691 258 27.814
Mata 30.447 7.198 18.534 5.333 0 33.650
Sul 24.801 5.559 18.787 5.017 84 25.365
Oeste 8.720 2.718 9.017 3.534 0 9.653
Alto Paranaíba 5.959 2.016 3.199 1.495 12 5.804
Triângulo 2.472 87 1.859 516 0 3.032
S. Francisco-M. Claros 2.590 114 1.351 569 9 2.867
Paracatu 588 185 790 314 0 758
Jequit.-Mucuri-Doce 9.678 1.875 5.960 2.743 1.262 9.407

Minas Gerais 114.300 27.748 81.994 26.212 1.625 118.350


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

Tabela 5.24.2 - Minas Gerais: Distribuição ocupacional da população escrava,


por regiões, 1873 (porcentagens do total de escravos com ocupação conhecida)
Regiões Agricultura Criados e Serviço Ofícios e Mineração Total com
    jornaleiros doméstico manufatura   ocupação
      conhecida 
Metal.-Mantiqueira 43,7 12,0 33,8 10,1 0,4 66.489
Mata 49,5 11,7 30,1 8,7 0,0 61.519
Sul 45,7 10,2 34,6 9,2 0,2 54.256
Oeste 36,3 11,3 37,5 14,7 0,0 24.025
Alto Paranaíba 47,0 15,9 25,2 11,8 0,1 12.687
Triângulo 50,1 1,8 37,7 10,5 0,0 4.934
S. Francisco-M. Claros 55,8 2,5 29,1 12,3 0,2 4.640
Paracatu 31,3 9,9 42,1 16,7 0,0 1.877
Jequit.-Mucuri-Doce 45,0 8,7 27,7 12,7 5,9 21.518

Minas Gerais 45,4 11,0 32,5 10,4 0,6 251.945


Fontes, notas e metodologia: veja o Apêndice C.

A correta agregação dos dados das paróquias mineiras, apresentada nas tabelas
5.24.1 e 5.24.2, a seguir, revela uma estrutura ocupacional inteiramente diferente
daquela obtida na tabela provincial, mostrando que em Minas os escravos estavam
muito mais uniformemente distribuídos entre as ocupações. Essas tabelas tam-
bém mostram que eram muito pequenas as diferenças percentuais dos principais
grupos ocupacionais entre as regiões da província, especialmente entre as regiões

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


255
Metalúrgica-Mantiqueira, Mata e Sul, que continham mais de 70% dos escravos.
Em especial, deve-se notar que a concentração na categoria dos trabalhadores agrí-
colas na Mata, onde o setor de plantations estava localizado, era apenas ligeira-
mente mais alta do que no resto da província. Esse resultado é consistente com
nossa argumentação anterior, de que a lavoura cafeeira era somente uma parte da
estrutura econômica da Mata, convivendo lado a lado com atividades semelhantes
às que predominavam nas outras regiões.

UMA ILHA ECONÔMICA


A caracterização de Minas no século XIX como uma “ilha econômica” pode
envolver algum exagero, especialmente tendo em vista as pesadas e contínuas
importações de escravos, mas, sem dúvida, está muito mais próxima da realidade
do que a imagem de uma economia exportadora ou de uma “província cafeeira”.452
Estava esta ilha decadente ou estagnada? Somente aos olhos dos frustrados cole-
tores de impostos para os quais a visão de comunidades autossuficientes – “meros
arranhadores de terra” – sempre pareceu ofensiva, e de algumas correntes historio-
gráficas ainda escravas da mesma mentalidade. O monótono padrão de expansão –
continuidade estrutural sem reviravoltas na ordem econômica, sem grandes booms
ou depressões – levou alguns observadores contemporâneos a enxergar estagnação
ou decadência, onde havia apenas permanência.
Tendo visitado extensamente a região na década de 1870, James Wells escreveu
que “onde quer que eu cruzasse ou seguisse as rotas de Mr. Gardner (1841) ou do
capitão Burton (1867), não percebi nenhuma mudança digna de nota nas diversas
localidades, com relação às descrições desses autores”.453
De fato, se compararmos esses relatos com as de escritores ainda mais antigos,
como Saint-Hilaire, no final da década de 1810, encontraremos semelhanças extra-
ordinárias na maioria dos lugares. Isso não significa que não houve crescimento.
Novas terras foram continuamente incorporadas à economia, em todo o território,
durante todo o século, e a população se expandiu mais rapidamente do que na
maioria das províncias, crescendo entre 1819 e 1890 a uma taxa substancialmente
acima da média nacional.
Os três milhões de habitantes existentes no final do Império eram tão autos-
suficientes em sua alimentação, vestuário e moradia como os 600 mil mineiros do

452 A imagem de Minas do século XIX como uma ilha econômica foi sugerida por Carvalho. Formação
Histórica, p. 54.
453 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, p. LX.

256 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
final do período colonial.454 O padrão de vida da população era baixo, por critérios
atuais, mas não mais baixo do que em outras partes do Brasil, e provavelmente mais
alto do que na maioria. Não há qualquer evidência de que tenha se deteriorado ao
longo do século. O comentário de Richard Burton pode ser considerado represen-
tativo de muitas outras avaliações contemporâneas do padrão de vida dos minei-
ros: “não existe pobreza, muito menos miséria; não existe riqueza, muito menos
opulência”.455

454 Entre 1819 e 1890 a população total de Minas aumentou a uma taxa de 2,3% ao ano, enquanto a
população brasileira cresceu a apenas 1,6% por ano. Os números para 1890 são do recenseamento
daquele ano.
455 Burton. Explorations, vol. 2, p. 62.

PARTE I - CAPÍTULO 5 - UMA ECONOMIA VICINAL


257
Capítulo 6 - Conclusão: Terra,
camponeses e escravos

U.
B. Philllips escreveu, certa vez, que o plantation system “era menos depen-
dente da escravidão do que a escravidão dele; e se manteve em escala con-
siderável (...) apesar da destruição da escravidão.456 Ele estava se referindo
especificamente ao sul dos Estados Unidos, mas idênticos pontos de vista sempre
foram sustentados a respeito de todas as regiões escravistas do Novo Mundo. Os
historiadores se acostumaram tanto a associar o trabalho compulsório com a plan-
tation monocultora e exportadora, que a simples menção da escravidão no Novo
Mundo lhes traz à mente a ilha-fábrica de açúcar do Caribe, a plantation de algo-
dão do Old South, a fazenda de café e o engenho do Brasil.
Em Minas Gerais, um sistema escravista de grande porte – um dos maiores da
história da escravidão moderna – sobreviveu e se expandiu por longo tempo em
áreas onde a plantation exportadora nunca existiu. E sua extinção não se deu por
morte natural: a instituição foi politicamente derrotada por forças situadas além do
controle dos senhores de escravos mineiros.
Por que Minas se agarrou tão tenazmente à escravidão, por tanto tempo? Foi
um caso sui generis, que em seu exotismo desafia uma explicação? Acredito que
não. Na verdade, o caso mineiro desafia apenas a teoria de que a plantation expor-
tadora e o regime escravista precisavam caminhar o tempo todo de mãos dadas, e
que o último não poderia sobreviver sem a primeira.
Teremos, então, que procurar a resposta no love to domineer, de que nos falava
Adam Smith,457 numa postura mental enraizada, ou algum estilo de vida profun-
damente sedimentado? Fatores culturais sempre desempenham um papel na vida
das instituições, mas a questão claramente envolve algo mais fundamental do que
ideologia ou preconceito.

456 Ulrich Bonnell Phillips. The Slave Economy of the Old South. Selected Essays in Economic and Social
History, edited by Eugene D. Genovese. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1968, p. 245.
Como veremos adiante, Phillips estava equivocado: o fim da escravidão significou o aniquilamento da
plantation algodoeira no Sul dos Estados Unidos.
457 Adam Smith. The Wealth of Nations. New York: The Modern Library, 1937, p. 365.

259
Se assim não fosse, como poderíamos explicar que estrangeiros estranhos à
nossa cultura tenham se rendido tão facilmente a um sistema que diziam repudiar
éticamente, e tenham tantas vezes redescoberto a peculiar institution? Considere,
por exemplo, as companhias mineradoras inglesas: organizadas como empre-
sas capitalistas, não vieram a Minas com o intuito de empregar trabalho escravo.
Como chegaram a esta situação aparentemente bipolar, de capitalistas e escravistas,
“modernas” e “arcaicas”, uma ética na Europa e outra no trópico? O que fazia os
britânicos despirem sua plumagem abolicionista quando atravessavam o Equador?
Pensem em Spix e Martius: como é que esses cientistas esclarecidos e cultos viram-
-se, de repente, na “dolorosa” contingência de “ter que comprar um jovem negro?”458
Como veremos adiante, a questão não é moral, e “não tem relação com o vício
ou a virtude, mas com a produção”.459 A escravidão era necessária, do ponto de vista
da classe proprietária, porque não havia uma oferta voluntária de trabalho assala-
riado. Durante todo o século existia muita gente, mas, para desespero dos emprega-
dores potenciais, braços de aluguel eram cronicamente escassos. O camponês livre
aceitava trabalhos eventuais, como os de camarada de tropa, roçador de mato ou
campeiro. Mas nunca o de trabalhador do eito. Não podia ser persuadido a traba-
lhar para um patrão, de forma permanente, “com constância e em combinação”.460
No começo do século, o barão de Eschwege, homem estrangeiro, instruído, e
aspirante a empresário capitalista, justificou sua conversão ao sistema escravista:
No início não foram comprados escravos porque eu, ainda imbuído da
mentalidade européia, acreditava que somente homens livres deveriam
ser empregados na fábrica. A consequência de minha atitude foi que os
anos se passaram sem que fosse possível treinar um único fundidor ou
aprendiz (...) tão logo aprendiam o trabalho, os operários sumiam (...) Eu
não tinha meios de fazê-los ficar (...) Finalmente, cheguei à conclusão de
que era absolutamente necessário comprar escravos (...) Daí em diante
pude operar muito melhor (...) É virtualmente impossível, no Brasil,
fazer uma indústria prosperar quando se tem que depender de homens
livres.461

458 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, p. 112.


459 Wakefield. A View, p. 323.
460 A citação é de Wakefield. A View, p. 324. Com a expressão in combination, Wakefiel quer dizer em
equipe, ou em combinação com outros trabalhadores.
461 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 421-22, 447.

260 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
No mesmo período, Saint-Hilaire observou que “ninguém queria ter um traba-
lho permanente, mesmo leve, por dinheiro”, e sua própria experiência ensinou-lhe
que o empregador tinha “que suportar o aborrecimento de ser servido por escravos
ou colocar-se à mercê dos homens livres”. O dono da fundição do Bonfim lhe disse
que,
[quando] começou as operações queria somente homens livres como
trabalhadores, mas não conseguiu levar esse projeto adiante. Os
homens livres e pobres têm, nessa região, meios muito fáceis de viver
sem trabalhar, e por isso não se submetem ao duro trabalho das forjas.
Somente adiantando dinheiro, dando-lhes roupas e tratando-os quase
como iguais, conseguia manter uns poucos na fábrica.

Na fábrica de ferro do Morro do Pilar, o francês observou que “nada é tão difícil
quanto reter trabalhadores livres”. Com uma força de trabalho livre de cerca de 100
jornaleiros, a empresa registrou mil ausências por mês, ou seja, uma taxa de absen-
teísmo de quase metade dos dias de trabalho.462
Pohl também relatou, de Oliveira, que os habitantes “preferiam o dolce far niente
ao trabalho, ao qual somente podiam ser persuadidos, em caso de necessidade, com
muitas súplicas e bom dinheiro”.463 Spix e Martius notaram que o principal pro-
blema enfrentado pela Fábrica do Prata era a “repugnância da classe pobre em se
dedicar a ocupações fixas”.464
Várias décadas mais tarde a situação não tinha se modificado. Fazendo o levan-
tamento para uma estrada de ferro, nos anos 1870, James Wells enfrentou o mesmo
problema todas as vezes que tentou recrutar trabalhadores. Uma vez engajados, os
camponeses eram, “em geral, sujeitos sérios, confiaveis e esforçados, que trabalha-
vam duro, do raiar do dia até o pôr do sol”. Mas,
a dificuldade é convencê-lo a aceitar, pois ele não trabalhará por um
salário, a não ser compelido pela falta de um dinheirinho para comprar
algo indispensável para si ou sua família; do contrário, ficará balançando
na rede, pitando seu cigarro, dedilhando seu violão, ou dormindo, e dirá
que está muito ocupado, e que talvez possa vir, quem sabe, se Deus quiser,
na próxima semana ou na outra...

462 Saint-Hilaire. Viagem às Nascentes, vol. 1, pp. 124, 163; Viagem às Províncias, vol. 2, pp. 237, vol.1, pp.
263.
463 Pohl. Viagem, vol. 1, p. 219.
464 Spix e Martius. Viagem, vol. 1, pp. 368-69.

PARTE I - CAPÍTULO 6 - CONCLUSÃO: TERRA, CAMPONESES E ESCRAVOS


261
Os camponeses poderiam, ocasionalmente “dar uma mão em um trabalho extra
nas fazendas, algumas vezes em troca da permissão para ser posseiro na proprie-
dade, outras vezes por um pequeno pagamento de seis ou oito pence por dia”, mas o
engenheiro ficou surpreso ao verificar que os salários oferecidos não eram a prin-
cipal questão: “embora eu pagasse aos meus trabalhadores o dobro dos salários
locais, nunca fiquei, de modo algum, sufocado por pedidos de emprego” e, quando
era possível conseguir alguns homens aqui e ali, sempre “deixavam claro que seu
trabalho (...) deveria ser considerado um grande favor”.465
Em 1883, os diretores de uma fábrica de tecidos, em Minas, reclamavam que
“bem poucos [trabalhadores] têm qualquer interesse por suas obrigações (...) não
se submetem a nenhum controle sistemático, não se fixam no emprego, e não se
importam com os contratos”. Os frustrados empregadores descreviam os trabalha-
dores da fábrica como “intransigentes, queixosos, refratários à disciplina e indife-
rentes a estímulos”, e concluiam que “não se pode contar com eles, nem proporcio-
nam qualquer lucro.”466
Os camponeses, altamente ciosos de sua liberdade, eram uma gente simples e
altiva. Suas maneiras, sua independência e sua autossuficiência ofendiam o euro-
peu da classe dominante, já desacostumado à visão de um campesinato livre: “Todo
mundo se considera absolutamente livre e independente. Mesmo os criados não
toleram um tom imperativo de seus patrões”, escreveu o barão von Eschwege – “não
sou escravo – é a resposta imediata, e não há nada que possamos fazer, senão nos
tornarmos obedientes servos de nossos servos”.467
Em seus contatos com a classe alta, eram educados e respeitosos, mas não sub-
servientes. Os viajantes estrangeiros registraram, por todo o século, a calorosa hos-
pitalidade com que eram recebidos nas casas dos camponeses mineiros. Recebiam
deles comida e abrigo, mas em geral, só lhes era cobrado o milho consumido pelas
mulas.468
Wells descreveu a área em que trabalhou como um “vale de verdadeira igual-
dade,” onde, para seus hábitos ingleses, “havia apertos de mão demais, pois nesse

465 Wells. Exploring and Travelling, vol. 1, pp. 168, 103, 267. As expressões muito ocupado e se Deus
quiser estão em português no original.
466 Citado por Stein. The Brazilian Cotton Manufacture, pp. 55, 61.
467 Eschwege. Pluto Brasiliensis, vol. 2, pp. 422-23. Itálicos no original.
468 Os relatos não são unânimes sobre essa questão. Alguns viajantes registraram fortes reclamações
sobre preços que consideraram exorbitantes.

262 CRESCENDO EM SILÊNCIO: A INCRÍVEL ECONOMIA ESCRAVISTA DE MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX
país livre