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A religião popular*

o autor desta síntese deve-se fazer invisível atrás das


contribuições de que dá conta, pois esta reflexão foi apre-
sentada como introdução a um número especial de Monde
alpin e rhodanien sobre a religião popular. Porém, a pró-
pria riqueza das contribuições analisadas, vindas de todos
os horizontes (historiadores, etnólogos, sociólogos ... ), con-
vida a uma extrapolação em termos do estado atual do pro-
blema, Cultura e religião populares, indissociáveis até data
recente, levantam, muito diretamente, o problema mais ge-
ral da definição do "popular", a partir de pesquisas nas
áreas alpina e meridional.
o tema da religião popular nas sociedades tradicio-
nais se impôs aos historiadores há alguns anos: a ele se
consagram livros e artigos; a bem da verdade, constituía já
um velho conhecimento para os folcloristas e etnólogos,
cabendo mesmo uma dose de surpresa diante de uma des-
coberta tão tardia e indiscreta. A religião exumada pelos
" "La religion populaire, problemes et méthodes", Le Monde alpin
et rhodanien. n." 1-4, 1977.
o pOPULAR EM QUESTAO 159
158 MICHEL VOVELLE
historiadores, e que assume um lugar legítimo no repertó- como uma religião diferente, porém concebida como resi- (
rio das abordagens atuais da cultura popular, não pode ser dual e imóvel. Um tesouro, de qualquer. m~d~, ou o ,que
a mesma de seus precursores. É preciso que ambos afinem resta dele, e que convém inventariar o mais rápido posstvel. \
seus violões; e que os pesquisadores, sentindo ao caminhar, Seria artificial aproximar, como faz Cada Russo, essas
senão o movimento pelo menos a confiabilidade de seu definições estáticas da proposta por Meslin, baseada. ~:n
tema de pesquisa, ao mesmo tempo reflitam sobre uma certo número de traços estruturais intangíveis? A rel~~lao
definição de "religião popular" aceitável para todos. popular, sendo para ele antiintelectual, ~fetiva, pr~g~atlca,
é definida nesses termos; "... o fenom~~o reh~10so. s~
torna popular quando manifesta uma hostlhdad: a obJe~l-
Uma definição contestada vação sistemática da crença religiosa, quando e. explosa?
-
de afetividades subjetivas e quando pretende rehgar o di-
Antigas, novas ou simplesmente renovadas, as defini- vino ao horizonte quotidiano do homem: em resumo, quan-
ções propostas são hoje suficientemente numerosas para que do ele humaniza o deus para senti-lo mais próximo, e quan-
se possa considerá-Ias com algum distanciamento e reagru- do deseja captar seu poder através d~ ,técnicas ~ue inventa:'.
pá-Ias em tipos. Não pretendemos inovar ao apresentar o Podem o historiador social e o sociólogo aceitar se~ dIS-
estado atual dessa questão que outras sínteses recentes e úteis cussão um modelo onde o caráter "popular" se define a
já abordaram - Carla Russo, Società, chiesa e vita reli- partir de simples traços estruturais da prática?
giosa nell' "Ancien Régime" (Sociedade, Igreja e vida reli- Tenho minhas dúvidas: a abordagem atual de nume-
giosa no "Antigo Regime"). rosos historiadores tende antes a fazê-los se inte~rogar. sobr~
Em primeiro lugar, encontram-se as teorias que postu- a realidade da religião popular. Não se poden~ aphcar a
lam que a religião popular tem uma existência própria, in- religião popular a pergunta estimulante que [ulia, Revel e
tangível, independente da religião recebida e ensinada. Certeau formularam a propósito da cultura popular, da qual
Assim, Boglioni opõe a religião popular autêntica à religião ela não é, afinal, mais do que uma área, indagando se es~~
"popularizada": isto é, a que penetrou nas camadas po- conceito sedutor não se beneficiaria da "beleza do mo;to .
pulares da mensagem cristã. Entre o que é produto da es- Em outras palavras, se o surgimento do te:mo no_ secu~o
pontaneidade popular e o que é recebido pelo povo, a cisão passado, nos escritos positivistas dos folc~onstas, nao sena
subsiste, distinguindo o autor entre a "storia della vita reli- o resultado do fim da civilização que abrigava as suas r~a-
giosa popolare" (história da vida religiosa popular) e a lidades ao mesmo tempo destruída e transformada em ob~e-
"storia della vita religiosa del popolo christiano" (história to de estudo ou de coleção? .. A religião popular nao
da vida religiosa do povo cristão). seria senão um artefato fabricado pela ciência da segunda
Essa distinção não está muito longe da que se observa metade do século XIX?
entre folcloristas, para quem, na perspectiva tradicional, a
Sem retomar todos os argumentos à sua disposição,
religião popular, reduzida a um corpo de sobrevivências
pagãs, de superstições e de gestos mágicos, apenas pene- os historiadores atualmente se questionam. A reduçã? ~
trada por traços de sincretismo pagão-cristão, se organiza uma dialética povo-elite lhes parece empobrecedora, limi-
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tando O debate a um confronto caricatural. Eles se inquie- católica, a religião popular, mesmo vivida, não se conf
tam, também, diante da imobilidade de uma religião popu- em boa parte com a rede de gestos da prática?
lar acrônica, toda pronta, incapaz de se enriquecer, mas
no máximo de se desagregar, pouco a pouco, ao longo dos Uma etapa do debate foi vencida com a argumenta ão
séculos. Em termos históricos, que Robert Mandrou propõe, apresentada por Jean Delumeau e outros pesquisado es
em 1961, um modelo de estratificação religiosa para a ida- atuais sobre a dialética, historicamente pensada, das rel
de clássica em três níveis: piedade de elite, individualizada ções entre cristianismo e religião popular. Seremos acusa-
e aberta às aventuras místicas; religião dos grupos urbanos, dos de anexionismo abusivo se, levando até a imprudência
fortemente enquadrada e imersa nos gestos da prática, do- o que nos foi sugerido por C. Russo, observarmos que essa
minada, além disso, pelo medo da morte e da vida eterna' abordagem se encontra já entre as páginas muito ricas
religião do mundo rural, sincretismo de traços da cristia- - mas forçosamente alusivas - que Gramsci consagrou
nização e de elementos antigos, freqüentemente herdados do à questão religiosa e ao folclore, tanto nos Quaderni daI
paganismo, onde se reencontra talvez, mas reposta em seu carcere (Cadernos do cárcere) quanto em suas "Osserva-
lugar, a religião "popular". zioni sul folklore" ("Observações sobre o folclore") (in
No caminho aberto pela abordagem proposta em Piété Litteratura e vita nazionale)? Para Gramsci, a religião po-
baroque et déchristianisation: les attitudes devant Ia mort pular e a religião oficial são duas forças culturais operando
em Provence au XVIII" siêcle, descortina-se uma Sociologia dentro de uma relação dialética: em grandes traços, o autor
das atitudes em função da participação social que tenta ir evoca as oscilações da Igreja entre a repressão e o compro-
mais longe ainda, analisando desde a barraca à loja, dos misso, desde o Baixo-Império em uma relação de força que
assalariados urbanos operários ou domésticos ao mundo do ecoou sobre outras realidades profundas, assim como o eixo
mar. e aos grupos múltiplos da sociedade camponesa, os cidade-campo.
quais revelam formas muito diferenciadas de comportamen- Não é dos mesmos pressupostos metodológicos que par-
to diante de uma passagem tão essencial como a morte. te J. Delumeau, mas a reconstrução que ele propõe, na
Onde está, portanto, a religião popular? longa duração, encontra, em certos aspectos, a oscilação
Não ignoramos absolutamente, pelo contrário, somos secular. Parece-lhe que a Igreja aceitou, durante a Idade
sensíveis ao argumento que se opõe, a essa História quanti- Média, o sincretismo pagão-católico, que constitui desde
tativista, se ela se fechar em uma simples sociografia sem então o núcleo da religião "popular", à medida que ela se
ter definido suficientemente seu objeto. Nossa demonstra- elabora. Para ele, antes da mudança dos séculos XIV e XV,
ção, compatibilizando os gestos da prática, nada vale se a a "folclorização" da religião camponesa (se podemos arris-
prática social revelar apenas. .. a socialização das atitu- car esse anacronismo) não foi percebida como um obstáculo
des para grupos inteiros, e se ela deixa, portanto, na som- para a graça. As coisas começaram a mudar a partir da fun-
bra a outra religião que é a parte submersa do iceberg, dação das ordens mendicantes, cuja pastoral é precisamente
religião popular paralela cujos gestos e ritos passam desa- orientada em direção a essas camadas populares. Ao nível
percebidos. Resta perguntar, como já fizeram muitos - nós, das elites religiosas, nascia, então, a idéia de que a cristan-
inclusive - em que medida, no apogeu da reconquista dade ocidental ainda estava para se converter em profun-
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didade, para se cristianizar. Essa tomada de consciência forço avassalador teve seus limites; e foi nesses lugares
culmina na crise do Renascimento: "Tudo se passa como
se a cultura escrita e urbana nascida da conjunção do cris-
tianismo, da conquista medieval e do humanismo, se sen-

que a religião popular encontrou refúgio, ~inda que e:a


não tenha assimilado das devoções novas senao uma versao
modificada, conforme o perfil tradicional (como o Santo Sa-
(
tisse frágil então e mesmo ameaçada pela extensão de uma cramento ou o Rosário).
cultura rural e oral, cuja imensidade se avaliava então me-
Por fim, o conjunto de antigas crenças se esterilizou.
lhor do que antes.
Deseja-se prolongar essa perspectiva de longa duração até o
século XIX, quando os folcloristas se apropriam do tema
Uma das chaves mestras da pastoral comum às "duas
da religião popular como parte integrante de sua c~leta.
Reformas", segundo um conceito caro a J. Delumeau, foi
O que representa, porém, o que eles desco~rem e f~xam
a imensa campanha de aculturação dirigida aos grupos po-
no instantâneo da palavra escrita, desde o fim do seculo
pulares, sobretudo os rurais, que se procura habituar à re- até agora? Muito mais, me parece, do que restos de um
gularidade do culto. A civilização cristã, na qual a religião tesouro vindo das profundezas do tempo, a síntese ambí-
durante séculos se confundiu em boa parte com o gestual gua das antigas contribuições e estratificações da idade
da prática, consolidou-se, assim, nos séculos XVI e XVII, clássica, enfim digeridas, "popularizadas" e transformadas
dominando ainda o século seguinte. Em sua fase de con- em parte integrante da religião popular no campo, no mo-
quista, com uma rudeza notável, esse esforço de acultura- mento mesmo em que as elites se afastam da religião ou
ção trai sua feição repressiva: é um modelo dominado pelo se orientam progressivamente para um novo modelo de fé,
temor da danação, que é levado ao povo, e a erradicação livre de seus aspectos dolorosos e meticulosos, para retor-
da religião popular se transforma na caça às bruxas da pri- nar à autenticidade de uma "boa nova". Enquanto isso,
meira metade do século XVII. É evidente que a unanimi- parte importante das categorias populares novas perdeu con-
dade e a homogeneidade aparente da prática escondem, de tato ao mesmo tempo com as heranças de longa duração
fato, uma realidade mais complexa, isto é, a de que a reli- e com a prática religiosa; acentuou-se o aspecto residual
gião popular não desapareceu. Também a Igreja pós-triden- e como que defensivo da religião popular ruralizada, ainda
tina teve que aceitar seus compromissos, dos quais o mais que esta evolução coloque o problema da gênese de uma
usual (e também tradicional) foi a cristianização (até que
outra religião "popular" sem raízes, procurando seus ca-
profundidade?) dos gestos e das festas tradicionais. Lutan-
minhos ou suas formas de expressão nos meios urbanos da
do por um lado, transigindo por outro, a pastoral ativista sociedade industrial.
conseguiu' arrebatar o controle da igreja paroquial, da qual
Calcar o peso da História sobre a noção de religião
ela havia feito o centro da vida religiosa coletiva, domi-
popular acarretará, inevitavelmente, contestar os bons fun-
nando ainda os altares das novas devoções (Santo Sacra- damentos da enquete sobre as origens? O fato é que os
mento, Rosário) e afastando para o fundo da nave os san- reformadores de todos os matizes do século XVI não luta-
tos intercessores tradicionais; e ainda mais, relegando-os ram unicamente com uma sombra e que existia perfeita-
aos limites das paróquias nas capelas provinciais. Esse es- mente uma religião popular estruturada e viva, muito mais
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUEST AO 165
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ativa do século XIII ao século XVI que no fim do século Existe uma "outra religião" das origens, essencialmen-
X IX, quando os folcloristas a estudaram em seu leito de te pré-cristã, mesmo sob seus disfarces ocasionais. Ela\foi
morte. Como a definiremos? detectada por C. Gaignebet na análise do fenômeno carna-;
valesco a partir de dados do folclore e - um pouco -
li partir da História. Do Natal à Páscoa, o período carna-
Vimos o universo da "magia", dos terapeutas popu-
lares, que lêem a sorte e dos gestos que esconjuram. É com valesco, numa ampla definição, permite reencontrar dentro
esses traços que a magia é evocada, tanto por [ean Delu- do calendário litúrgico o outro ritmo lunar da antiga reli-
meau como por Keith Thomas. Falta ainda chegarmos a gião, cujo movimento das almas - cativas e depois libe-
um consenso sobre a palavra "magia", sob pena de incor- radas, para finalmente serem atraídas pela lua - forma o
rerrnos na crítica justificada de certos autores (N. Z. Davis) segredo: e que a mitologia popular celebra consciente ou
que nos acusam de nos alinharmos inconscientemente nas inconscientemente, desde o gás intestinal da desibernação
posições incompreensíveis e reducionistas do poder reli- do urso até as atribuI ações do gigante Gargântua, como
gioso. também a festa carnavalesca.
E. Le Roy Ladurie autopsia em "Montaillou" o que Em oposição a esse modelo da religião popular origi-
ele denomina "carneiro de cinco patas" da religião popu- nal ressuscitada (mas será totalmente oposto?), dispomos
lar rural no início do século XIV: uma parte da herança de uma leitura inteiramente diversa na obra essencial de
pré-cristã, uma parte de heresia albigense, uma parte de M. Bakhtine sobre Rabelais e a cultura popular no século
materialismo popular, para duas partes de Cristianismo (pro- XVI, malgrado uma certa identidade de fontes (o folclore).
vavelmente para arredondar a conta). Ele insiste no fato A cultura popular não é para Bakhtine um conjunto de
de que o setor das práticas mágicas (taumatúrgicas ou crenças mágicas ou risíveis perpetuadas (mas em que es-
outras) ocupa apenas um espaço muito reduzido, sobretudo tado!) até a aurora da Idade Moderna. Bakhtine nos pre-
em relação a uma escatologia complexa que conserva entre vine antecipadamente, de maneira tópica, contra a imper-
os habitantes rurais um papel aparentemente desmesurado, turbável seriedade da reconstrução de C. Gaignebet. Para
se organizando em um, aliás, em vários sistemas elaborados ele, a religião popular é antes um conjunto de atitudes e
sobre o outro mundo, como as relações entre mortos e vi- comportamentos, uma dinâmica, em uma palavra, fundada
vos. Para Montaillou, a religião popular, em suas próprias na inversão dos valores e das hierarquias, na corrosão do
contradições e incoerências, reveste-se ainda de toda a ri- riso e da loucura, opondo uma contraleitura espontânea e
queza de uma visão superabundante do mundo. constantemente desmistificadora à religião e à ordem ofi-
Em que medida se pode generalizar a partir de um cial. Tese instigante e reveladora, mesmo que suscite ine-
caso limitado a uma área que continua excepcional como vitavelmente interrogações e reticências. Não estaríamos,
Montaillou? desse modo, nos arriscando a fazer da cultura popular,
assim definida, uma nova criatura da imaginação, tão in-
Interrogar atualmente os historiadores sobre esse pon-
temporal quanto a dos folcIoristas do passado, definindo de
to, é o mesmo que se defrontar, não com um modelo de
imediato a sua identidade: valores positivos e contesta-
religião popular original. mas com dois.
dores = cultura popular? (O que corresponderia a negar
Ibb MICHgL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 167
a priori os fantasmas populares nascidos do sono da razão rniurgos" intermediários do mundo social que começamos
como ainda as criaturas nascidas do medo ou do terror po- a descobrir, do que de uma cultura autenticamente oral.
pular. Basta pensar na recorrência da Morte Negra sobre
Não devemos contrastar em detalhes o ~ do
a sensibilidade das massas no tempo das danças maca-
bras ... ) Frioul e os beneandanti, saídos do mesmo mundo e dos
mesmos autos da Inquisição. Não há, de fato, contradição
Entre esses dois modelos - estático (a religião popu-
entre os dois estudos. Pelo contrário, confirma-se a idéia
lar original de Gaignebet) e dinâmico (a cultura popular
de uma plasticidade real da religião popular; e rejeita-se a
segundo Bakhtine) - os mais lúcidos historiadores atuais
idéia de uma passividade das massas conservadoras, ou re-
se questionam e buscam um caminho. Não conhecemos me-
lhor exemplo na produção desses últimos anos do que as ceptoras à força, à uma mensagem imposta.
ilustrações estimulantes que C. Ginzburg expôs primeira-
mente em Beneandanti e, depois, em sua recente obra Il Com essa reflexão preliminar, verificamos que estamos
[ormaggio e i vermi (O queijo e os vermes). O universo longe de nosso ponto de partida. A religião popular que se
noturno dos beneandanti, os feiticeiros brancos do Frioul pode propor como objeto de estudo não é uma realidade
citados nas fontes inquisitoriais do século XVI, que se des- imóvel e residual cujo núcleo seria uma "outra religião"
dobram durante a noite para irem combater nas monta- vinda do paganismo e conservada pelo mundo rural: pelo
nhas os maus feiticeiros a fim de defender a prosperidade menos, não exclusivamente. Ela inclui também todas as
das vilas, cumprindo antigos ritos agrários, mas também, formas de assimilação ou de contaminação e, sobretudo.
acumulação significativa, a fim de proteger a passagem das a leitura popular do cristianismo pós-tridentino, como tam-
almas: eis um universo que nos conduz ao núcleo da reli- bém - por que não? - as formas de criatividade espe-
gião das origens; ou seja, simplificando muito, a religião cificamente populares (os cultos revolucionários de 1794?).
de C. Gaignebet. Essa definição reformulada é a uma só vez mais flexível
Recolhido pelo mesmo autor nas mesmas fontes de e aparentemente mais hábil em satisfazer' o historiador.
fins do século XVI, o personagem do moleiro Menocchio Não se deve elidir que ela impõe igualmente um caderno
- o herói trágico de li formaggio e i vermi, obstinado até de tarefas mais graves. Na caça ao tesouro, se implanta a
a morte -- é um herói, segundo Bakhtine. Esse homem do pesquisa de uma realidade muito mais fluida e dinâmica,
povo, mas que lia, elaborou sua própria cosmogonia, inge- em um domínio onde as técnicas de abordagem e utiliza-
nuamente materialista, começando pelo caos original do ção das fontes colocam de saída uma série de problemas.
"queijo" de nosso globo terrestre, no qual se puseram a
fervilhar os "vermes" sob forma de anjos e o próprio Deus,
As dificuldades de uma pesquisa
verme entre os vermes, fruto de geração espontânea. Exem-
plo impressionante de criatividade popular, ainda que o
O etnólogo e o folclorista dispõem, para abordar o
personagem seja excepcional, até mesmo mais amplamente problema da religião popular, de uma multiplicidade de
informado, e talvez mais representativo do grupo dos "de- fontes e procedimentos comprovados, cujo centro é a pes-
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quisa de campo, concedendo amplo espaço à oralidade. O tive ou filigrana, os traços de um sistema diferente de cren-
historiador interessado em abordar essa área de pesquisas ças e de comportamento.
descobre muito rapidamente o peso dos silêncios que re- O que denominamos exploração "diferente" das fon-
caem sobre tudo que diz respeito à cultura popular. Não tes clássicas está ligado à rubrica essencia das e
podendo recorrer à pesquisa oral, segundo me parece pelo repressão propriamente ditas, valorizando as situações de
menos à primeira vista, ei-lo dependente de fontes que ruptura ou de desvio, em uma palavra, da patologia social
excluem o testemunho direto dos interessados, e forçado a da época. Desde as repressões às faltas até a disciplina so-
se colocar na perspectiva externa, e freqüentemente hostil cial, familiar ou sexual, e daí à caça às bruxas da primeira
dos que tiveram a função de controlar e punir ... Prima- metade do século XVII, todo um conjunto de fontes se
zia das fontes de repressão, com todo o peso das deforma- oferece aqui, cuja exploração já é conhecida na historio-
ções e das omissões que essa leitura implica. grafia francesa (Mandrou, Muchembled), anglo-saxã (Tre-
Mas é preciso ter astúcia: o historiador trabalha em vor-Roper, Keith Thomas) e italiana (Romanello, Ginzburg).
princípio com uma exploração diferente ou "tendenciosa" De uma abordagem que se projeta a partir das posições dos
de fontes que podem ser chamadas tradicionais: as visitas que olham e julgam (Mandrou, Magistrats et sorciers ...
pastorais, como nos foram mostradas por R. Chanaud a (Magistrados e feiticeiros» chega-se às que tentam o peri-
partir de um amplo material do monsenhor Le Camus na goso exercício de passar para o outro lado da barricada,
para dentro do universo da. "feitiçaria (que) parece trazer
diocese de Grenoble, ou melhor ainda, os documentos pre-
o testemunho de um mundo em retrocesso, combatido ... "
paratórios da visita, produzidos pelo próprio vigário, como
(P. Chaunu), postulando "um mundo imóvel ou quase, uma
por exemplo o de 1733 que R. Devos teve a sorte e o mé-
mentalidade popular à base de crenças mágicas ... ". Me-
rito de encontrar em ,Combloux, na Savóia. Convém escla-
nos ainda que as precedentes, essas fontes não estão livres
recer se, como supõe o autor, os documentos encontrados
de perigo para quem pesquisa esse mundo em sua autenti-
em vários locais na Savóia representam mais do que curio- cidade: não era o olhar do inquisidor que fazia nascer, no
sidades das dioceses regionais. Quando o relatório de visita século XVI, o feiticeiro ou a feiticeira, e que reunia fan-
pastoral faz alusões, às vezes desenvolvidas sobre as prá- tasticamente, sob a mesma intenção diabólica, o conjunto,
ticas populares, sob a rubrica de faltas e infrações, a des- embora mesmo anódino, de conjurações, gestos mágicos, he-
crição apresentada traz, então,· toda uma série de dados, rancas inocentes da "superstição" do paganismo? Amálgama
tanto sobre o objeto das devoções (nas capelas da Igreja que', sem dúvida, não pode ser acolhida sem exame.
paroquial ou do município distrito) como sobre os temas
que as motivam (a doença, a morte, os flagelos naturais ... ). Nessa rede de fontes, no mínimo "policiais", uma tran-
Provavelmente, o caráter fragmentário e parcial desse olhar sição se opera em termos de laicização, tornando-se muito
projetado sobre a população rural por um cura vindo da perceptível durante a segunda metade do século XVIII, no
cidade, impregnado de uma outra cultura e de uma leitura momento em que a elite do Iluminismo - estatísticos ou
repressiva do ofício paroquial, permanece como uma visão viajantes - começa a observar os traços dessa religião po-
do exterior. da qual é preciso fazer surgir, como um nega- pular com um "olhar frio", muito a Stendhal, que anuncia
170 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 171
o antropólogo e o folclorista. Nossa periodização é exage- porém) com a beleza da morte. Exemplo típico, porém não
radamente simplificadora, como convém aliás, não sendo único: modelados na mesma forma, os prefeitos consulares
difícil propriamente encontrar na tradição humanista do das estatísticas do tempo de Chaptal, depois os prefeitos
século XVII (ver Peiresc ou Gassendi) o prenúncio de um imperiais, seguidos pelos da monarquia censitária, tam~
olhar não clerical e já científico voltado para as tradições consagraram um lugar para a descríçãc-des-ccstumes de
e costumes populares, se incluindo nessa rubrica os erudi- seus administrados (ver Delacroix no Drôme, ou Ladoucette
tos de Aix, no século XVII, que se interrogam sobre a nos Altos Alpes). Eles não são simplesmente continua dores
origem dos jogos da Festa de Deus. Inversamente, a pers- dos agentes da pastoral pós-tridentina. Os curas e visitantes
pectiva do padre se pode mostrar menos severa e mais com- combatiam diretamente o diabo, enquanto uma indiferen-
preensiva, encontrando-se na Provença, um maravilhoso pe- ça, matizada de desprezo em relação às coisas mortas, tem-
queno manual sobre os hábitos e costumes marselheses, pu- pera um interesse que irá se desenvolver ao longo do sé-
blicado em 1685, da autoria de um padre local, Marchetti, culo XIX, chegando até os folcloristas eruditos dos anos
que é uma descrição preciosa, nos limites mesmo de seu 1860 a 1880 ou 1900. Esses por sua vez são colecionado-
pressuposto ideológico (provar o fundamento da cristiani- res: eles recolhem vestígios do que ainda está vivo no mun-
zação nas heranças do paganismo, ou seja, uma apologia do do rural de seu tempo. Para ficar na área meridional, cita-
método laxista contra o método terrorista). A religião po- mos Réminiscences populaire de Ia Provence (Reminiscên-
pular urbana sai, porém, aclarada desse registro, com o cias populares da Provença) de Bérenger-Féraud: mas não
cortejo das "mulheres boas" marselhesas, suas conjurações, teríamos dificuldade em encontrar similares em quase to-
velas verdes, e as festas e procissões onde se confundem dos os departamentos. É com essa geração - que anuncia
todas as heranças culturais que incidem sobre a cidade. os folcloristas contemporâneos e prepara os relatórios que
serão depois citados de um estudo a outro, como eco das
Estão lá, todavia, estatisticamente, os documentos que últimas recordações recolhidas de uma civilização moribun-
anunciam e precedem a mutação do Iluminismo. É então da - que começa a nascer esse "tesouro" do qual havía-
que aparecem os médicos (Achard, autor do Dictionnaire mos falado inicialmente: reunião insubstituível de dados,
de Ia Provence, em 1787), ensaístas (Bérenger, autor de mas ao mesmo tempo um acervo sem profundidade histó-
Soirées provençales) ou os sábios eruditos oficiais, que co- rica, para desespero do historiador.
meçam a percorrer a França em busca de tesouros arqueo- Do anátema dos atores da Contra-Reforma ao olhar
lógicos e artísticos. Millin, autor do Voyage dans les dé- fixo e um tanto irônico do Iluminismo, prolongados na
partements du midi de ia France (Viagem aos departamen- primeira metade do século XIX pelo enlevo, freqüentemen-
tos do Sul da França) realizado durante o Império, entre te, nostálgico dos folcloristas de fim do século, se acumu-
1800 e 1810, seria para a região alpina e provençal o re- lam, preciosos e suspeitos, os testemunhos sobre a religião
presentante típico dessa curiosidade que descreve os cos- popular dados de fora pelos representantes das elites: são
tumes e tradições profanas e religiosas, exatamente quando feixes de informações que se conservam ainda hoje como
elas se tornam para ele a expressão do exotismo de uma essenciais. Mas não podemos procurar em outras fontes tes-
outra época, sem ornamentar-se ainda (não estamos longe temunhos mais diretos e, portanto, mais autênticos? Não
172 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 173
é por não terem produzido por si mesmos um discurso e . para completar uma pesquisa regressiva, combinando dados
crito sobre sua religião - e por isso mesmo - que a de arqueologia, pesquisa oral e documentos escritos. na
pessoas do povo - camponeses ou citadinos. - estarão duração muito longa.
reduzidas ao silêncio. Convém, porém, para fazê-I os se ex Convenhamos: a maioria dos gestos de que tratamos
primirem, valorizar outras fontes além da escrita, pesqui- só existem agora em estado fóssil. É preciso reencontrá-Ios
sand~: .0 que se faz (a crença expressa em gestos), o que nos escritos que, escapando à mediação do disc.urso das eli-
se ve (iconografía e arqueologia) e o que se diz (pesquisa tes, registram sem rodeios os comportamentos e atitudes do
sobre a tradição oral).
passado: confissões extorquidas ou involuntárias, mas por
isso mesmo indiscutíveis. Realizamos uma pesquisa desse
Em resumo, tomar a religião popular em ato? Esse gênero sobre os gestos rituais e as atitudes coletivas diante
programa deixa intacto o problema das fontes, pois ele im- da morte em Provença no século XVII I, a partir de cláu-
põe ou a observação direta das sobrevivências atuais ou a sulas de testamentos. Acompanhamos, ao longo de um es-
descoberta de vestígios escritos de práticas passadas. Am- tudo serial, o triunfo, tanto entre o povo como na elite, do
bos os caminhos têm sido atualmente postos em .prática. ritual "barroco" da morte em seu apogeu (1680-1720 até
Tomaremos como exemplo do primeiro, a pesquisa feita 1730); e, em seguida, a sua ruptura e dec1ínio na segunda
sobre as peregrinações na Europa contemporânea, sob a di- metade do século. Temos consciência, trilhando esse cami-
reção do professor Dupront. É uma ilustração exemplar do nho, de haver observado em ato uma mutação importante,
método regressivo, que utiliza a observação das sobrevivên- e não meramente formal, da sensibilidade coletiva.
cias atuais da religiosidade popular pânica para remontar A pesquisa a partir de comportamentos registrados
à cadeia dos tempos e melhor compreender as formas pas- pode ser conduzida mediante outros "indicadores", como
sadas. Esse método pode ser aplicado a outros estudos, tais se diz atualmente. Quem se interessar pelo estudo das ati-
como peregrinações particularmente maciças e significati- tudes familiares diante da moral cristã pós-tridentina pode-
vas, e também festas (a festa votiva ou de padroeiro, atual- rá acompanhar, como fizeram Iean-Louis Flandrin, J. M.
mente). Ela supõe, em todos os casos, uma convergência Gouesse e outros, as curvas de registros paroquiais do An-
pluridisciplinar (com a colaboração de etnólogos, historia- tigo Regime, taxas de gravidez e nascimentos ilegítimos,
do~es, arqueólogos ... ) e enfoque freqüentemente compa- abandonos de crianças e pedidos de dispensa de proclamas
rattvo. Pode-se encontrar nas sociedades frias, conservado- por consangüinidade. Em uma outra linha de investigação
ras das tradições (como o Sul da Itália), a explicação re- ainda, poderá seguir a observância aos períodos de proibi-
trospectiva dos tipos de festas e peregrinações recorrentes ções para casamento ou concepção (Advento, Quaresma),
nas sociedades rurais, já existentes desde uma etapa ante- assim como os prazos para batismo dentro dos três dias se-
rior. Pode-se afirmar, tendo em vista uma monografia de- guintes ao nascimento. Todas as séries que permitem medir
terminada, que a pesquisa de Régis Bertrand sobre a pere- o grau de observância às disciplinas impostas, e por meio
grinação de Notre-Dame des CEufs (Nossa Senhora dos Ovos) disso, da "cristianização dos gestos, mas também o inverso,
em Gréoux, na Provença, é uma demonstração desse pro- ou seja, a persistência de sistemas diferentes (as intimida-
cedimento, remontando à descoberta atual da peregrinação. des pré-nupciais) que escapam ao controle da Igreja. O que
174 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 175
não quer dizer, absolutamente, que os grupos pouco repre- dual, se faz nos moldes de uma expressão codificada. Mais
sentados no quadro das disciplinas coletivas sejam por isso do que uma representação sem desvios, a imagem, objeto
menos "religiosos". Damos como exemplo os marinheiros ou lugar se apresentam assim mais freqüentemente como
e pescadores marselheses, cujas devoções originais e proli- expressão de um compromisso, ou mais ainda, de um con-
xas são bem conhecidas aliás, porém muito escassamente flito. Assim, como se verá, ocorre na decoração interior das
representados na relação dos grandes pedidos de missas, igrejas paroquiais, como também nas capelas rurais e ce-
casando-se em todas as estações e particularmente na Qua- mitérios ...
resma, quando os embarques na primavera "para comér- Não esperemos, pois, absolutamente que a fonte ico-
cio" lhes impõem regularizar suas atividades de inverno. nográfica ou arqueológica apresentem a religião popular
Mas é porque sua religião não passa pelas expressões em liberdade, sob a forma, digamos assim, do diabo de
oficiais. Bessans. O exemplo é claro demais para que possa ser ne-
A partir desse exemplo, essa abordagem expõe seus gligenciado. Esse diabo chifrudo e careteiro foi usado pelos
limites: o cômputo dos gestos (quando não se trata de ges- fabricantes de retábulos de Bessans na idade clássica ou
tos de recusa ou desobediência) pode fornecer um índice barroca, segundo alguns. Mas ele está acorrentado e ate-
sobre a amplitude da cristianização das atitudes populares, morizado pelos santos intercessores, representando ao mes-
como também das formas que estas assumem; pode eviden- mo tempo os perigos das montanhas e as antigas divinda-
ciar também, porém vazio, os empréstimos tomados de des pagãs, [úpiter e outras, ali refugiadas e respeitadas.
outro sistema preexistente ... Triunfo da Igreja sobre a solidão das alturas, da pastoral
voluntária sobre os velhos temores. .. Mais tarde, sai um
Pode-se esperar da iconografia, e mais amplamente da espírito mau desse meio de escultores de madeira banidos
arqueologia ou da análise do mobiliário religioso e do es- da Igreja pela estatuária sulpiciana do século XIX, e vem
paço sagrado, uma outra ordem de informações. Não que uma noite colocar, sobre a janela do cura de Bessans, a
se deva ver nisso produções espontâneas de uma criativi- efígie contorcida do diabo "laicizado". .. não mais acor-
dade popular se exprimindo diretamente e traduzindo gra- rentado, mas em liberdade, representação simbólica do ou-
ficamente suas representações coletivas. Na maioria dos tro mundo, emancipado da Igreja, que encontra seus demô-
casos, é uma dialética mais sutil que se exprime: a imagem nios familiares. O diabo de Bessans, porém, qualquer que
"popular" não é popular porque os produtores calcam sua seja o alcance simbólico da anedota para se compreender
produção nas demandas de um público popular, mas por- as aventuras da religião popular, permanece como a curio-
que a fazem dentro de um quadro de normas determinadas. sidade que confirma a regra enunciada mais acima.
A ornamentação interior das igrejas (quadros e retábulos) Podemos classificar as séries mais maciças de icono-
não exprime a evolução das representações coletivas senão grafia religiosa popular, no sentido mais amplo do termo,
por intermédio e sob controle, e até pela iniciativa, dos segundo o partido que é lícito tirar delas. Em primeiro lu-
sacerdotes que fizeram as encomendas, como também pela gar, se apresenta a imagem religiosa, talvez o mais direto
mediação da linguagem do artista. O ex-voto mesmo, fa- objeto de estudo, como expressão de devoções coletivas mas
bricado a pedido e respondendo a uma necessidade indivi- de uso doméstico ou individual. Recentes estudos sublinha-
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 177
176
IS. e na perspectiva que nos interessa, está ligada a mui-
ram seu interesse na Itália (A. Vecchi, Il culto delle imma
gini nelle stampe popolari (O culto das imagens nas gravu li) níveis e etapas de uma descoberta progressiva. O mais
ras populares»; a França começa a praticar a pesquisa sis unples, ou mais elementar em aparência, é o estudo dos
temática, e um recente trabalho foi consagrado à imaginá quadros, estátuas e retábulos das igrejas e capelas. Esta é
ria popular de Avignon (M. Mus, tese de mestrado, manus- , pista que exploramos. com a colaboração de Gaby Vo-
crito. Aix, 1973). Esse notável estudo, seguindo, na longa v Ile, em um estudo temático, Vision de Ia mort et du salut
e
duração, a produção de um centro em sua temática e suas Provence, d'aprês les autels des âmes du purgatoire, XV -
,'/l
representações, desde as imagens do século XVII à litogra- X' siêcle (Visão da morte e da salvação na Provença, se-
Ilundo os altares das almas do purgatório, século XV ao
fia do século XIX. observou o caráter arcaizante de uma
forma de expressão que se mantém em contato com a sen- .\sculo XX), como também a que foi utilizada em uma pes-
sibilidade popular: santos hieráticos "em representação sim- quisa exaustiva sobre um local privilegiado, pela equipe
ples", a importância esmagadora das devoções tradicionais organizada por V. L. Tapié para o estudo dos retábulos
(as Virgens de tradição mais do que a Virgem do Rosário. barrocos bretões.
e os santos intercessores locais), enfim uma extraordinária O que podemos esperar dessas fontes? Cremos ter
estabilidade de traços e de temas até meados do século XIX. mostrado em Vision de Ia mort e du salut ... como, apesar
A passagem da imagem à Iitografia em nada se desvia dos de a iconografia dos retábulos ser um reflexo de ensinamen-
modelos recebidos. tos transmitidos de cima para baixo, nela se inscrevem, na
Qual é. na iconografia e mobiliário das igrejas, cape- longa duração, as mutações da sensibilidade coletiva em re-
las e lugares sagrados. a parte que pode ser creditada a lação à vida, à morte e ao outro mundo.
uma religião popular e a que define, retomando uma ex-
pressão de Boglioni, uma religião "popularizada"? Senti- As fontes atuais de pesquisa enfatizam uma outra fon-
mo-nos tentados a valorizar a segunda hipótese, no caso te serial, hoje ativamente investigada: os ex-votos. Pode-se,
dos objetos de devoção coletiva, de uso pela comunidade a partir desses documentos ainda numerosos apesar das
e colocados pela Igreja para veneração dos fiéis. Isso seria perdas, destruições e roubos (5 mil na Provença, segun-
uma interpretação provavelmente apressada: as visitas pas- do as observacões de B. Cousin, e muitos milhares em
torais da idade clássica indicam uma atenção acentuada, e Oropa, no Piernonte), esperar encontrar a crônica da socie-
raramente benevolente, em relação aos quadros e estátuas dade no passado por intermédio do acidente, da doença, da
constantemente suspeitos de "indecência" no sentido an- morte evitada, do milagre. Em comparação à imagem po-
tigo e moderno do termo. Pór aí mesmo, se revelaria a he- pular, o ex-voto afirma sua originalidade de testemunho
rança de um período menos controlado - correspondente individual, mesmo que ele se produza sob forma de uma
à Idade Média no sentido amplo de J. Delumeau? - du- expressão estereotipada, e se preste ao tratamento quan-
rante o qual uma índole mais espontânea (e portanto po- titativo de longa duração: o ex-voto pintado ou esculpido,
pular?) pôde exprimir os traços do cristianismo vivido, de todos o mais explorável, iniciando-se no século XVII,
mesclado com sobrevivências pagãs. excepcionalmente no século XVI, para continuar até a ép~-
ca contemporânea. Será o ex-voto um testemunho de reli-
A exploração desse filão de informações iconográfi-
178 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 179
giosidade "popular"? Não nos apressemos em afirrná-lo pre Hrison e Mont-Saxonnex, nos mostram, por caminhos bem
maturamente, julgando a partir de sua popularização cres diferentes, a função do sino ou dos sinos na religião popu-
cente, e muito acentuada, do século XIX ao século XX; lar, duplamente como meio de comunicação e como objeto
entretanto, as elites do século XVII não desdenharam d mágico, cujo ruído afasta as tempestades e afugenta os
r~c?rrer a esses testemunhos. Sem antecipar esses comen- demônios. Citamos, nesse caminho, os estudos recentemente
tarios, podemos observar que os estudos realizados há anos realizados sobre a linguagem dos dobres de finados no Su-
pelos pesquisadores provençais coincidem com um movi- deste da França O.C. Bouvier). Entre o sino e o campaná-
mento de interesse geral, testemunhado, por outro lado, rio, lugar reivindicado (ou "grilado") pela comunidade para
pelas pesquisas dirigidas por M. Mollat sobre os ex-votos usos múltiplos, conforme denunciou o cura de Combloux,
mar~ti.mos d? Ponant. Dois enfoques de pesquisas na área se estabelece uma cumplicidade, subtraindo uma parte da
meridional Ilu.st~am duas alternativas possíveis e comple- Igreja ao controle do clero. Assim a reivindicação do sino
mentares. Christian Loubet explora a área piemontesa de como propriedade intocável está no centro da luta contra
Notre-Dam~ de Oropa, próxima a Biella, que se impõe por o "vandalismo" revolucionário. O sino conserva o valor
sua excepcíonel riqueza até muito recentemente, enquanto múltiplo e denso que lhe atribuía Schiller, o "grande poeta
na maioria das localidades francesas, a placa de mármore popular", como escreveu Aragon.
anônima suplantou em geral o ex-voto figurativo. O estudo
de um local consagrado por seus ex-votos se insere, para Porém, o que se diz de um objeto pode-se dizer de um
ele, em uma abordagem diversificada, recorrendo tanto às local: e o exemplo no qual pensamos é o do cemitério, que
fontes escritas (fundações, milagres), como também à tra- tem igual peso nas recriminações do cura de Combloux.
dição oral, valorizando uma área experimental a partir de Lugar onde se insere o confronto entre a leitura estrita do
uma bateria de fontes complementares. Bernard Cousin clero pós-tridentino, preocupado com a decência e o res-
por sua vez, explora um conjunto maciço de 5 mil ex-votos peito, e a sua apropriação coletiva por uma civilização pro-
provençais que ele registrou em sua homogeneidade. vinciana que associa sem remorsos o mundo dos mortos
Esse tratamento serial sistemático exige métodos de ao mundo dos vivos. Estão em curso estudos sobre o cemi-
análise e tratamento de dados que somente a informática tério da Idade Clássica ao século XIX, como o de M. Bée,
pode fornecer. Imagens, quadros, retábulos, ex-votos: as "Les cimetieres du Calvados en 1801" (" Os cemitérios de
contribuições atuais da iconografia ao estudo da religião Calvados em 1801"), no número especial dos Annales de
po~ular se org~nizam hoje em outros tantos campos de pes- Normandie (Anais da Normandia) sobre a vida religiosa no
qUls~. ~arecena~os. extrapolar abusivamente e pecar por século XIX. Espera-se uma investigação sistemática das for-
aneXIOllIsmo se msistíssemos sobre as inundações atuais mas laicizadas de culto aos mortos no século XIX, do qual
dessas pesquisas em duas direções? A primeira é sua exten- o cemitério torna-se, então, o centro.
são a objetos de estudo fora dos quadros da iconografia ou
~a arqueologia tradicionais, a elementos que deveriam antes Um estudo de J. O. Majastre ilustra essa abordagem,
Interessar ao historiador da vida material. Assim, as contri- a partir de uma pesquisa sociológica, associando em um
buições reunidas na Savóia, tanto em Combloux como em quadro regional tlsêre), o levantamento de campo (uma
180 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 181
arqueologia dos vestígios do culto aos mortos nos século
XIX e XX) com a pesquisa oral sobre as atitudes coletiv I mais ainda, na ausência de vestígios, a uma geografia his-
I rica das crenças, as quais conforme lembrou Ph. Joutard,
que condicionam aquelas expressões figurativas, constatan
do de maneira reveladora a discordância atual entre o triun se ancoram facilmente em acidentes naturais e se enraízam
fo do cemitério - varrido, polido, limpo enfim _ e m uma determinada paisagem.
debandada dos rituais coletivos ou familiares em torno da
morte. Refletiria o cemitério atualmente o remorso de um I Deixando para o final as fontes que recorrem à oral i-
sociedade que perdeu a impressão de ter realmente se posto dade ou ao oral escrito, não pretendemos marcar nossa
em ordem com relação a seus mortos? distância em relação à ótica do folclorista e do etnólogo,
mas antes retomar essas fontes privilegiadas dentro de uma
Esse tema introduz justamente à outra forma da esca
rede de abordagens complementares. Assim fazendo, talvez
lada atual a partir do estudo da iconografia, isto é, o enfo
esteja traindo também o embaraço do historiador diante de
que que leva cada vez mais em conta o plano do espaço
uma fonte que lhe parecia rebelde até os trabalhos de Ph.
sagrado da região. Desde os trabalhos dos discípulos de
Joutard.
A. Dupront (M.-H. Froeschlé-Chopard, L. Chatellier) e em
continuidade a certas sugestões anteriores (M. Agulhon em A comunicacão muito pessoal que apresentou um pes-
Pénitents et irancs-macons (Penitentes e franco-mações) de quisador de campo, Arsene Bourgeaux, sob o título "I~ter-
cobriu-se não somente na Provença, mas também na Alsá- férences religieuses dans les mentalités popula~res à ~:lson
cia, além dos Alpes, a importância da rede de capelas pro- et Mont-Saxonnex en Faucigny" ("InterferêncIas religiosas
vinciais, oratórios e cruzeiros, como lugar de fixação e re- sobre as mentalidades populares em Brison e Mont-Saxon-
nex no Faucigny"), graças à sua abundância e riqueza, pode
fúgio, das antigas devoções populares ou popularizadas às
Virgens protetoras ou aos intercessores locais na época do ser lida em diversos níveis. A. Bourgeaux é, além de eru-
rigor pós-tridentino. O remanejamento que se operou na dito e sábio, também um contador de histórias. A. ab~rda-
igreja paroquial, relegando ao fundo inferior da nave os gem que ele segue, encadeando te.mas por ~ssoclaçoes e
"santos de porta", afeta o espaço em seu conjunto, margi- permitindo-se digressões, é a do dlSCurS~ cuidadosamente
recolhido. Pode-se, a partir de uma pesquisa nesses moldes,
nalizando a antiga religião popular. Esta, por sua vez, con-
apreciar o que podem trazer as fontes da tradição oral:
serva e reforça seu contato com os lugares naturais (flo-
restas, fontes, grutas) que perpetuam locais de culto muito provérbios, contos, relatos, canções, lembranç~s em pr.ofu-
são. O autor tem, porém, a sabedoria de nao excluir o
antigos desde o paganismo. Em Notre-Dame des tEujs, nos
Alpes da Alta Provença, se encontra no local da acrópole, oral-escrito, as miudezas das crônicas de jornais locais o.u
uma fonte mesmo esgotada e um abrigo sob a rocha. Os de outros documentos que fixaram a oral idade ... e a partír
montanheses de Brison e de Mont-Saxonnex na Savóia, ci- dos quais também, às vezes, se enriquece e desenvolve a
tados mais acima, são habituados ao ar livre e praticam tradicão oral. O que aparece em estado nascente na coleta
sua religião em céu aberto, em um mundo povoado de pre- de A'. Bourgeaux, se traduz em um tratamento s~stemático
senças maléficas ou não. A iconografia nos levou bem longe nos estudos de R. C. Schüle, Ph. [outard e C. Ioisten, que
do ponto de partida, à arqueologia dos lugares sagrados, e ilustram, cada qual à sua maneira, as técnicas atuais de
pesquisa. R. C. Schüle e Ph. Ioutard desenvolveram pes-
IR2 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 183
quisas temáticas, um sobre relatos referentes ao nasciment )
l'rabalhar com o silêncio
e~ uma região alpina, e outro sobre a "superstição" em
Cev~nnes. No primeiro caso, duas investigações sucessiva A coleta de dados, para todas as direções para onde
realizadas nos últimos decênios permitem apreender em ato lia leva, tende a mascarar as armadilhas de sua prática.
as mutações do quase-presente, e a desestruturacão de urna Não há métodos fáceis para reconstituir a religião popular.
herança plurissecular: a pesquisa oral se articul~ à História l todos os procedimentos de abordagem devem enfrentar
ao nível do. tempo curto da época muito contemporânea. as dificuldades comuns ou particulares de cada fonte.
Esse procedimento é mais dificilmente aplicável às propos
A mais geral se prende à necessidade (exceto na pes-
tas de tempo longo de Philippe Ioutard, que se interroga
quisa oral) de recorrer a uma abordagem indireta das ex-
s~bre as formas de repressão praticadas durante quatro
pressões de comportamento coletivo. Essa é uma História
seculos. A. associação entre o testemunho histórico escrito
e a pesqlll.sa oral se afirma aqui particularmente fecunda. feita de silêncio: silêncio dos interessados e silêncio man-
Charles [oisten completa perfeitamente essa revisão de mé- tido pela sociedade, dos quais não faltariam exemplos em
t~dos atuais, demonstrando a conduta complementar e essen- todos os domínios para ilustrar essa afirmação. Na História
cial à utilização da pesquisa oral, acrescentando a coleta da festa, onde as conotações religiosas são essenciais. assis-
de etno-textos, elementos indispensáveis a qualquer pesquisa timos ser posta de lado e passar em silêncio toda uma rede
futur~. É verdade .que ele foi bastante favorecido pela per- de heranças muito antigas. Assim, é quase impossível, no
sO,na~ldade de sua Informante, Marie Vasserot, moradora de mínimo excepcional, fazer a história do carnaval por outro
~e~tJer. nos Altos Alpes, que expressa sobre a morte uma meio que não os textos da repressão. As saturnais contes-
vrsao à primeira vista n:uito pessoal, mas ao mesmo tempo tadoras do carnaval não são as únicas compreendidas nesse
r~f1ete as heranças e leituras aprendidas. A tal ponto que, caso; também as peregrinações secretas e manifestações lú-
finalmem«, os fantasmas do sensitivo do Alto Embrunais dicas insólitas se incluem nesse silêncio. Para dar um exem-
s~ Inscrevem em uma relação quase normal de trocas entre
plo saliente, os habitantes de Gras não se debruçaram jamais
V!v.os e mortos. na qual se reflete uma longa tradição his-
torica. sobre as jouvines, esta herança das juvenaliae antigas -
rito de passagem durante o qual rapazes e moças demons-
Em sua ambigüidade, preço de sua riqueza, o etno- tram seu vigor em um concurso do mais belo jato de urina.
texto aparece claramente aqui como o elemento de base de
toda pesquisa futura a partir do oral ou do oral escrito Também não é necessário procurar o incongruente e
uma das fontes às quais o historiador se deve habituar. ' o galhofeiro. Em um domínio mais austero, é em um de-
talhe de uma frase de monsenhor Soanem, bispo jansenista
Não é preciso dizer, e o historiador retoma aqui toda de Senez ("Tout lemal se fait au cimetiêre" ("Todo o mal
a sua aspereza crítica, que o recurso ao oral, mais ainda se pratica no cemitério")) que se descobre que, nos últimos
que outras fontes, desperta a consciência das dificuldades anos do século XVII, os montanheses da Alta Provença
específicas no tratamento das fontes relativas à religião po-
faziam ainda, sobre o túmulo dos defuntos do ano, repe-
pular ao se fazer dela um objeto da História.
tidas oblações de pão e vinho. Da mesma forma, tratando-
se das atitudes diante da vida, o sistema de intimidades
i84
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 185
pré-nupciais entra no quadro d
os "segredos funestos", qu ti ixar atrair por essas seduções deve-se acomodar às debi-
os con fessores denunciam ...
sem dar, contudo, a receua lidades reais de suas fontes.
E essas fontes são pobres. Apresentando o acervo im-
. As. contribuições reunidas nessa resenha d
multo dIretamente as dificuldades . emonstram pressionante das visitas pastorais de monsenhor Le Camus,
penetrar o silênci . que eXIstem ao se tent I R. Chanaud insiste, contudo, e corretamente, sobre o que
o, e, provavelmente a pesquisa de C'
nes mais do t d ' even nao se pode esperar delas. Conduzi das dentro de uma visão
. que o as as outras. Quando Philippe Iout I pastoral precisa, aquelas enquetes não foram feitas para nós.
comecou sua p . are
-' esqursa, estava aparentemente em cont di 1\ nas franjas do universo paroquial controlado por elas,
çao com a força estabelecida de um ra I
ti - - . pressuposto: a super que podemos, ao invés, somente advinhar ou entrever o
içao nao existe nas áreas de onde a R f .
. O e orma extlrpou 11 outro mundo, ou seja, o mundo das práticas condenadas e
magia. a mesma forma que Danilo DI'
S Id 1 T o CI encontrou no proscritas, da religião e dos comportamentos populares.
u _ a ta Ia zonas silenciosas, tão deserdadas ue a Uma visão em negativo - ou oca, para retomar uma ex-
la,çao local não canta absolutamente, admite-s~ que p::~~ pressão de Dominique [ulia - a partir da qual, porém, o
ha a esperar do silêncio de Cévennes Essas idéi autor nos mostra como, no próprio interior da esfera da
~ebidas não deixam de ter uma parte' de ver~a~~as ep~;~~~- religião oficial se advinham os traços de uma outra religião,
emos com Ch Joisten b . ' - projetada na relação dos santos de grande sucesso, como
. que, em ora haja regiões com e
~em contadores de histórias, também se pode ape di também na persistência, ao lado das novas confrarias con-
fazer falar uma ár ' sar ISSO,
AI ) A bsti ~a reputada como silenciosa (os Altos troladas de cima para baixo (Rosário ou Santo Sacramento),
pes . o stinaçâr, se frutifica igualmente na es ' também das confrarias de tradição (O Santo Espírito), fiéis
de Ioutard e Pelen revelando f I P quisa à tradição de sociabilidade do banquete coletivo.
I
A • '" ' ma mente, superado o si-
encro inicial, a existência de todo .
t ' d um outro sIstema que
a raves e práticas de feitiçaria e também d ' Passando do documento escrito à iconografia, os ex-
tivas à e crenças rela- votos se inscrevem dentro de um modelo imposto, um có-
morte, perpetua o pensamento mágico.
digo freqüentemente muito estereotipado e com número li-
Quer se recorra à fonte escrita ~ .
decifrar o silêncio supõe um trabalho ~u a pesqulsa_ oral, mitado de cenários ("jazendo no leito enfermo", ou, nas
negativo ou em filí d e reconstruçao em cenas exteriores, a charrete virada, o afogamento, a queda,
., _, , .1 Igrana e que falamos certa vez. O exer- a roda do moinho ... ). Eles nos dão a tarefa de decifrar, a
fonrs nao e pacifico a partir dos índices obtidos O uso d partir de sinais frágeis (a oração, a adoração, as mãos jun-
ontes de inf - d . as
ótica do inqU~;i~~;a~ at: ~:pressãof gera a dependência à tas, um olhar ou um raio de luz), o elo que une o mundo
. seus antasmas. É irrefutá I humano à revelação, ou simplesmente a natureza da cena
~i~~s as vez~s, nos sentim~s mais surpresos do que conv;~- representada (a mãe junto ao berço: criança doente, parto
loca 'd~~~: dOeaenge~hosldade de um pesquisador nos co- feliz ou criança desejada?). Da mesma forma, em um do-
um sisterna completo d " ..
(a d I I a outra religião" mínio inteiramente diverso, os testes demográficos, os índi-
o cu to unar ou das divindades pagãs) como faz G .
ces de disciplina ou de desobediência populares (tempos
nebet em l.e Carnaval (O carnaval) Que' _ . aig-
. m nao qutser se de proibições, interditos. ilegitimidade, prazo de batismo)
187
o pOPULAR EM QUESTAO
186 MICHEL VOVELLE
Il n ainda tem necessidade de Deus (e quanto!), e das
são rústicos e, freqüentemente, equívocos. B que o cal' II I .pobres almas", ao menos de sua f~mília. ~la quase não
elem~ntar ?a mensagem ainda seria o menor dos problem I I m mais necessidade do diabo e, afinal, muito pouco dos
se, nao estt~esse ainda tão envolvido e difícil de perceb I antos: toda uma evolução se revela dentro desse balanço.
Nos o se~ttm~s a propósito do tema das atitudes diante li O pesquisador se encontra, portanto, preso, na apa-
morte: dir-se-ia que ele se presta ao segredo devido a toda
rência, ao dilema entre dois sistemas, não somente de fontes,
a rede de tabus e gestos mágicos que cercam a derradeir I
mas de métodos: de um lado, devido às deformações da
passagem. Somente a longa duração nos permitiu discernir
pesquisa oral, que lhe dá uni contato di~eto C01~ a, ~eligião
através ~as s.éries de testamentos ou de imagens aparente'
popular, porém privada de sua profundidade histónce: ?e
mente cnstahz~das nos quadros do purgatório, a percepção outro devido a toda uma bateria de procedimentos sofis-
de uma evoluçao profunda nas atitudes.
iícados que recalibra os fatos na longa duração, porém
Po~eria-se supor que a pesquisa oral, por ser a única empobrecidos, reduzidos ao estado de indícios forçados.
que realiza o contato direto procurado com o interlocutor Isso impõe um conjunto de medidas, das quais algu-
popular, supere esses obstáculos. É engano: ela parece fazer mas já se delineiam com alguma clareza: ~~ ~rimeiro ,l~-
~ascer outras dificuldades, entre as quais uma das maiores gar, é indispensável a abordagem plundlsclplmar: Regls
e.~ de acentuar ao extremo o aparente imobilismo da reli- Bertrand a ela recorre naturalmente, em função do lugar
giao popular. Pela óti~a dos informantes de A. Bourgeaux, específico que ele descreve (a peregrinação de Bréoux);
como = outros pesquisadores, é um mundo imóvel que se enquanto Christian Loubet, dentro de um quadro ao m~smo
descortina, com suas grandes constâncias (o domingo, o tempo semelhante e diferente, mobiliza toda ~~a batena de
cura, a mo~te .... ) e seu aspecto de eternidade. B verdade abordagens convergentes em torno do santuano de Orop~.
q~e nosso informante reintroduz o tempo no interior do Pode-se dizer o mesmo da maioria de nossos autores> Phi-
discurso congelado devido à influência dos tempos fortes lippe ]outard associa, na área de Cévennes, a documentação
d~ grandes ~raumatismos (a Revolução Francesa, a separa- histórica e a pesquisa etnográfica; Robert Chanaud, explo-
çao da Igreja e o Estado). Essa mesma pesquisa, porém, rando os relatórios das visitas pastorais do monsenhor Le
r~vela com que poder reducionista ou simplificador fun- Camus, dialoga, por assim dizer, com Van Gennep, intro-
ciona a memó:ia c~letiva: de um a outro episódio (do mais duzindo a dimensão histórica na descrição de zonas repu-
rece~t~ ao mais antigo) rola-se perpetuamente. A lembrança tadas "folclóricas" do século XX. Essa metodologia se impõe
da vI~I~a de A.lbitte, representante em missão, em 1794, e a em vários casos: para analisar as atitudes coletivas diante
memona ~o~ inventários, em 1905, tendem a se fundir em da morte recorremos à iconografia (Vision de Ia mort et du
uma saga unica. Compreende-se, a partir desses dados simul- salut (Visão da morte e da salvação)); à pesquisa da his-
taneame~t: a irri.tação do historiador e sua injustiça' diante tória social serial (Piété baroque et déchristianisation ...
d.a descr.lça,o do folclorista ou do etnólogo, construindo um â'apre» les clauses de testaments (Piedade barroca e des-
sl~tema imóvel ou quase imóvel. Mas compreendemos tam- cristianização ... segundo as cláusulas de testamentos)) e a
?em, com_ que interesse ele acolhe a pesquisa oral ~tenta todas as fontes, da demografia à história literária, passando
a ?e:c~p~ao d.a mudança na longa duração (Joutard) ou na pela escultura. em Mourir autrefois. Somente uma aborda-
História Imediata (R. C. Schüle). A informante de Ch. [ois-
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 189
gern com múltiplas facetas pode responder às múltipla
questões da pesquisa. I . Chanaud, enfatizando na diocese de Grenoble a conver-
iência de tracos folclóricos dentro de microrregiões indivi-
dualizadas, não estreita seu objeto; pelo contrário, ele ajuda
Imposto pela própria natureza de um fenômeno do qual
11definir a problemática atual das "áreas culturais", vistas
podemos. ainda apreender um aspecto vivo - em alguns
ué aqui mediante uma escala bem mais vaga.
casos residual, bem vivo em outros - o método regressivo
É necessário declarar que o triunfo do quantitativismo
(e ao mesmo tempo comparativo), conforme foi aplicado às
não visa absolutamente a ser totalitário. Numerosos estudos
peregrinações, é provavelmente um dos meios mais fecundos
mostram o lugar insubstituível que cabe à ilustração e ao
para se tentar superar a oposição entre fontes do presente
estudo de caso. A anciã de Embrunais, que prestou teste-
e fontes do passado da qual partimos. Definidamente, para
munho a C. Joisten, não falou unicamente por si mesma.
quem .se empenha na reconstituição de gestos e crenças
Entre a monografia delimitada de Combloux, explorada em
esquecidas, a abordagem quantitativa serial se impõe nesse
profundidade por R. Devos, graças a uma excepcional feli-
domínio, da mesma forma que em outros: é a ela que re-
cidade de fontes, e a cobertura vasta, mas a partir de dados
correm C. Loubet, e mais sistematicamente ainda B. Cousin, pobres, efetuada por R. Chanaud na escala da diocese de
no estudo dos ex-votos. Pesquisadores que trabalham com Grenoble para uma época vizinha, há evidentemente com-
retãbulos, imagens populares e também os testamentos ou plementaridade, e não contradição. Philippe [outard for-
registros paroquiais, se encontram no mesmo caso. Esse mula, a partir de sua experiência em Cévennes, um certo
procedimento vale certamente como superação da técnica número de problemas suscitados pelo tema. O uso de uma
de i?ventário à qual ficou por longo tempo presa a icono- avaliação quantificada, ponderada, dos fenômenos lhe pa-
graf~a, mas avançando muito em seus objetivos e" suas pers- rece um recurso cada vez mais indispensável para ir além
pecttvas no curso de sua aplicação. A abordagem serial visa das generalizações apressadas, e compreender a qualidade
a_organizar, . cc:.m l~ma verdadeira estatística na longa dura- de um silêncio ou a representatividade dos testemunhos que
çao, as confissões lllvoluntárias ou extorquidas no seio das o transgridem.
quais se abriga, talvez, uma parte do segredo' das atitudes Dessas abordagens ainda descontínuas, seria possível
populares, A .evolução lenta das representações coletivas se extrair um balanço provisório, ou até mesmo um sistema
Inscreve na ltnha de evolução dessas curvas. Sem dificul- da religião popular?
dade, junta-se ,a. essa técnica d.a quantificação, organizando
no tempo a~ serres documentaís, também a organização no
espaço mediante a representação cartográfica. Isso não é, Um balanço provisório
de fato, uma completa novidade, como testemunham os
atla~ folclóricos. Mas se reconhece a importância da carto- Aberto esse campo, podemos pelo menos situar os vá-
grafia no estudo de R. C. Schüle, objetivando a existência rios níveis ou vários sistemas de "religião popular".
de fronteiras - como a cegonha contra a couve substi-
O primeiro é o da religião oficial ou. imposta: nível
tuindo o eremita de outrora - que se revelam mais com- exterior provavelmente, não negligenciável porém. Essa pre-
plexas do que as barreiras lingüísticas ou confessionais. senca de duas religiões, a da comunidade e a religião oficial.
191
o POPULAR FM QUESTAO
190 MICHEL VOVELLE
Il cura nessa época, então bem integrado à comunidade
se impõe por evidência no rico texto da Savóia explor \lI rural, da qual compartilha os vícios e, freqüentemente, tam-
por R. Dev,os. A dis~ância é criada pela própria posicü h m as superstições, antes do surgimento dos padres bons ...
como tambem pela VIsão do cura, originário de um outr um pouco terroristas do século XVIll. Nesse mundo re-
lugar, emissário de uma outra cultura e de uma outra h' tormado. Philippe [otard nos apresenta a imagem do pastor,
. N'os a descobrimos novamente, porém em termo'
r~rqUla. l nsivelmente mais maleável do que poderíamos esperar.
diferentes, nos traços ambíguos do cura 1900 (dos velho O pastor pode perfeitamente se recusar a operar ou sim-
e. velhas dos últimos decênios) evocado por A. Bourgeau pl smente a caucionar o compromisso rural entre crenças
slmultanea~ente aterrorizador e cúmplice. Aterrorizado r. mágicas e o discurso da religião. Mas ele pode também
porque ~Ie e o homem do catecismo, do descanso dominical, I 'char os olhos e até mesmo encontrar uma explicação jus-
o qu~ Impede de dançar, como no tempo de Paul-Loui lificadora para o que resta do domínio da fé.
~our~er. e talvez mais ainda pelo temor mágico (que nã )
~ u.m~amente de respeito), inspirado por si mesmo, como É isso que conduz a matizar, ou a modular historica-
indivíduo .. sem contar o que ele representa. Cúmplice, por mente, a afirmativa do caráter exterior e enfim superficial
~ue o homem de Deus se torna, apesar de tudo, ruralizado da religião imposta. Provavelmente, acentua-se, tanto no
Integrado pelo m~nos ao grupo de paroquianos que ele des' século XVIII como no início do século XX, a importância
~r~:e. e dos quais ele compartilha talvez parcialmente a da indisciplina e da transgressão, que fazem parte do sis-
Idela~ pouco ortodoxas (o cura que adivinha a sorte). Es c lema. O cura de Combloux conhece nitidamente seus adver-
r~lacI?na~ent~ é facilitado também pelo fato de que o cura sários, que vão dos confrades do Santo Nome, de Jesus aos
nao e mars simplesmente o agente da autoridade ou do que invadem o cemitério ou se apropriam do campanário,
aparelho re?ressivo, mas que, inversamente a separação
e também os jovens com excessiva urgência para se visita-
entre a Igreja e o Estado identifica a comunidade contra o
rem à noite. Os curas de Brison e de Mont-Saxonnex têm
Estado. De R. Devos a A. Bourgeaux, de Combloux a Bri-
os seus adversários: caçadores impenitentes, mas também
son, ~e deve seguir a trajetória de quatro personagens: a
autondade, o cura, a comunidade e o sino. O cura das franco-maçons e ateus.
Lu:es, age.nte da autoridade, disputa com seus paroquianos
Entretanto, levando em conta todas as diferenças que
o smo,. cujos poderes misteriosos ele conhece. Em 1794, a
se assinalam entre um período e outro, a importância da
comu.mdade defende, na própria ausência do cura emigrado,
indisciplina ou das transgressões, longe de demonstrar o
seu SInO contra a rapina do Estado; em 1904, se encontram
caráter superficial ou periférico do verniz da religião oficial,
o cura e a comunidade associados para a defesa de seu bem
põe-lhe em relevo a insistência e a presença, enfim esmaga-
comum contra o coletor e seus guardas.
dora e aceita. Não poderíamos, todavia, nos manter nesse
. E:se modelo, provavelmente, esboçado a partir de dois nível "dom camiliano" da relação entre o padre e a comu-
mstantaneos .de Savóia, impõe, para não parecer absoluta- nidade; e os autores estão conscientes disso. A religião po-
mente grosseiro, nuances consideráveis. As visitas de mon- pular por eles descoberta é, antes de tudo, um catolicismo
senh?r Le Camus no fim do século XVII nos lembram, certamente digerido e modificado. porém reconhecido. Isto
confirmada por uma ampla base estatística, a importância
o pOPULAR EM QUESTAO
19,
192 MICHEL VOVELLE
é, aquele cuja expressão pode ser verificada no inventar unde se acham ainda traços de devoção a uma divindade
das ca~elas, altares, imagens e lugares santos; e cuja pr pr tetora da fecundidade, é que se cultua Nossa Senhora
sença e assegurada pelos testamentos na relação das atitu dos Ovos em Gréoux-Ies-Bains até hoje. Um exemplo entre
des cruciais no momento da morte. Aquele cuja presen I mtos outros possíveis ...
na comunidade as confrarias preservam, enfim, com ccrt
ambigüidade. No mundo reformado de Cévennes, o suces Podemos apreender o imediatismo da intervenção di-
da "cr~s~ianização" continua impressionante, mesmo depoi vina nas confissões muito diretas de Marie Vasserot, infor-
~e _venflcado o, carát:r suspeito do silêncio sobre a super mante de Charles [oinsten. É um caso extremo comparado
tl~ao. Porque e o universo das crenças mágicas que se v ) sensibilidade atual, mas um caso mediano, provavelmen-
afinal remodelado e repensado no segredo das consciência I , na mentalidade tradicional. Marie Vasserot, como o
populares em função de uma leitura mais conformista do papa Gregório, viu o Senhor na missa, no momento da
discurso da religião: o alcance dessa transformacão vai devacão; não crucificado, com as chagas sangrantes, mas
muito além de um simples disfarce ou de uma vestimenta como' um personagem semelhante ao padre. Porém, se a
superficial. Virgem, e às vezes os santos, continuam a lhe dar t~do
apoio, o panteão dos intercessores se tornou bem reduzido,
No âmago mesmo da cristianização imposta, não
difícil descobrir, em ambos, os traços da "outra religião". como que residual.
Deus ou os seus santos? Não nos admiremos da au-
. ~ outra religião, propriamente popular, se exprime
.ência quase total de Cristo no universo rural que A. Bour-
pnmeiramente por meio de uma relação com Deus, formu-
geaux descreve. Da mesma forma, em. Combloux, ~m, 1733,
lada em termos específicos, isto é, ao mesmo tempo direta
o esforço da Igreja pós-tridentina para reconduzlr a con-
e muito hierarquizada. Direta, porque os paroquianos deso-
templação dos mistérios essenciais da fé se choca contra
bedientes, na ótica da prática imposta, esperam da divindade
a inércia. Recebe-se o Santo Sacramento, mas é a confra-
uma .presença imediata em sua vida pessoal. A psicologia
ria do Santo Nome de Jesus que reagrupa os pais de fa-
do m~lagre, que se expressa, desde a idade clássica até hoje
mília em seus banquetes anuais. Podemos perguntar se nessa
atraves dos ex-votos, não permaneceu inalterável. B. Cousin
localidade tal como na diocese de Vence estudada por
e C. Loubet acompanharam sua evolução através da estru-
M.-H. Fro~schlé-Chopard, o Santo Sacramento, em sua gló-
t~ra, da composição e dos gestos dos doadores. É impres- ria, foi assimilado às relíquias e outros talismãs protetores
sionante o contraste, em Oropa, entre o milagre à moda da sensibilidade popular. As estatísticas da diocese de Gre-
antiga, implorado a uma divindade ou um intercessor pre- noble, em fins do século XVIi, registram ainda as confra-
sente no próprio quadro; e o milagre automobilístico dos rias equívocas do Santo Espírito, em concorrência direta
últimos decênios, em um quadro de onde desapareceu a
com as do Santo Sacramento.
representação celeste e onde somente o instantâneo da cena
O significado da morte e paixão de Nosso Senhor Jesus
vivida revela o retorno da sensibilidade em pânico ... Mas,
Cristo é reconhecido tanto nos testamentos como em outros
qual é a divindade? Não tenhamos a ingenuidade de nos
lugares, mas se apaga diante de presenças mais próximas.
surpreender com os resgates de heranças facilmente adivi-
Não constitui, de fato, uma contradição com o que acaba
nhadas: sobre uma acrópole de antiquíssima tradição pagã,
194 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTJ.O 195
de ser afirmado quanto à relação direta com o divino, obser ssim se configura um panteão, acrescido ainda de santos
var-se que esta se produz a partir de toda uma rede li que se invocam em horas de necessidade. Para compreen-
intercessores. Em primeiro lugar, a Virgem. A Mariolatri I d -10, é necessário não encarar essa constelação estatica-
que vimos configurar-se na longa série de quadros das alma 111 mte, mas ao invés disso, no tempo e no espaço paroquial,
do purgatório, para triunfar durante a idade clássica 11 I conforme nos demonstram estudos recentes. Os altares no-
imagem da madona à italiana, não se desfaz verdadeira hres da igreja foram reservados às devoções da pastoral
men;e .no s~culo XIX. Protetora nas horas de perigo, como nova (Santo Sacramento, Rosário); enquanto os santos de
no último .mstante, ela vem a nós sob as duas aparência tradição foram repelidos para a porta, interior ou no exte-
que assumiu desde a Contra-Reforma: Virgem do Rosário rior das igrejas (Santo Antônio, São Cláudio, São Sebastião,
(ou do Escapulário), isto é, da igreja paroquial, das con São Roque), até das capelas rurais (São Félix e São Mau-
frarias e das procissões organizadas; e a Virgem tradicional rício). A nova redistribuição do espaço revela o conflito em
de Piedade, de Beauvoir, das Luzes, da Proteção, da desenvolvimento, atestado por outros indicadores ao longo
Consolação, da Misericórdia, dos Anjos ou dos Ovos _ do século XVIII (invocações nos testamentos e despovoa-
que é a das capelas provinciais e lugares de culto seculares. mento dos quadros do purgatório).
Entre as duas não há, certamente, nenhuma separação abso- Às mediações celestes, a religião popular acrescenta
luta, mas o cura de Combloux aspira, porém sem grande uma rede de solidariedades humanas constituída pelas con-
esperança de consegui-Io, fazer seus paroquianos compreen- frarias. Pode-se afirmar que o traço não é específico de uma
derem os mistérios do rosário. forma de religião popular na idade clássica; mas se apreende
A Virgem não está absolutamente na relação dos inter- em ato, a partir dos exemplos da diocese de Grenoble, e
cessores invocados: a diocese de Grenoble, ao fim do século depois mais precisamente de Combloux em Savóia, que essa
XVII, apresenta uma nebulosa de mediadores celestes, entre forma de associação responde simultaneamente à linguagem
os qua.~ se distinguem os milagrosos - Antônio, Roque e nova da pastoral (Santo Sacramento, Rosário), porém não
Sebastião -, mas que se abre ainda para uma multidão de sem conflito, e permanece como lugar de encontro de uma
san,tos agrários, às vezes muito locais (Bernardo, Grat ou sociabilidade essencialmente masculina, assim na confraria
Teodu~o: .. ) e de propiciadores da fecundidade. Enquanto do Santo Nome de Jesus, em Combloux, como nas confra-
u~a VIS~Ogeral de uma diocese mostra o conjunto, de uma rias do Santo Espírito, no Dauphiné. Desse modo, se mede
hierarquia, outro estudo mais ampliado, na paróquia de também o recuo e desaparição das confrarias tradicionais:
Combloux, na Savóia, no século XVIII, coloca, tanto nos São Sebastião, São Roque, São José e mesmo da Virgem
altares como nas capelas provinciais, uma dúzia de santos do Carmelo, suplantada, pode-se supor, pela Virgem do
padroeiros ou protetores: apóstolos (Pedro e Paulo), santos Rosário.
protetores tradicionais (São Félix, São Maurício, São Nico-
lau) ~ o.u taum.aturgos para animais e para pessoas (Santo Todos esses traços iluminam as formas vividas do pro-
Antônio eremita, São Sebastião, São Roque). Nesse caso a cesso de cristianização no campo; emergindo muito mais
novi~ade é representada por São Francisco d~ Sales, porém em termos de dialética. e até de conflito, do que como uma
aSSOCIadoa São Roque, invocado em períodos de epidemia. empresa linearmente conduzida. Percebe-se, a partir deles.
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 197
o artifício em opor termo a termo as "duas religiões" I itada mediante condutas apropriadas e auxílios invocados.
I) cura de Combloux - contemporâneo do cura de Thiers,
intimamente mescladas. A outra religião, porém, existe in
.1 cura erudito de Vibraye que havia escrito trinta anos
parável da oficial, e podemos mesmo dizer, subterran
mente. Caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo pensarnent .mtcs sobre as superstições - se pergunta sobre a legitimi-
e comportamento mágicos. São, antes de tudo, gestos, r ti ide de soar os sinos contra os raios e para exorcizar os
peitando um código muito antigo, cujo encadeamento Ilugelos naturais; mas ele não vê, nos textos de referência
finalidade os informantes atuais às vezes não perceb I ropostos pelo discurso da Igreja, uma razão imperativa
mais, como os dois ovos que as mulheres estéreis levam n pura recusar o que ele mesmo considera suspeito de heresia.
peregrinação a Nossa Senhora em Gréoux, sorvendo de 1II
trago o primeiro e enterrando o segundo durante um an Atrás desses comportamentos pré-racionais, podem-se
no chão do lugar sagrado. Não resta, hoje em dia, mais ti perceber elementos de um sistema ou de uma leitura do
que a omelete do piquenique, último traço de um rito eva mundo? Um certo número de temas, pelo menos, atraem a
nescente. É todo um sistema de proibições que recaem sobr itenção: a vida, a morte, a relação com a terra, o espaço
locais, dias, homens e animais; o respeito cristão ao do . o trabalho.
mingo se acha sancionado, ao fim do século XIX, por toda A vida é, antes de tudo, reprodução: os ritos de fecun-
uma rede de punições imediatas ou adiadas; os passos im didade: a constituição de um casal, com alusão clara, em
prudentes do caçador o levam freqüentemente a lugare Combloux, ao sistema de intimidades pré-nupciais que, se
onde ele não deveria absolutamente ir: lugares malditos, ou não chegam a uma clara coabitação antes do casamento,
lugares sagrados? Os dois a um só tempo, pois são sítios toleram as visitas noturnas freqüentes dos rapazes às moças.
onde operam as forças da natureza e as do outro mundo Adivinha-se, sem dificuldade, comportamento equivalente
conjugadas. Inclusive os indivíduos participam dessa maldi no Dauphiné de monsenhor Le Camus, devido à inquieta
ção: como enfeitiçados-enfeitiçadores: o caçador sacrílego, atencão dada a tudo que possa favorecer a aproximação
cuja simples passagem faz o leite das cabras secar; o veado entre os sexos: desde a peregrinação "mista" até a festa, a
enfeitiçado que se empareda em um estábulo, e - por que vigília, ao trenó invernal ou ramasse, inocente aos nossos
não? - o cura, ele próprio, no personagem do homem que olhos, mas culpado, segundo o prelado, das desordens que
dá medo. Em Cévennes, onde a ofensiva reformista des- ocasiona. Entretanto, o universo carnal de intimidades pós-
mantelou mais profundamente o sistema preexistente, a fi- nupcias continua sendo o verde paraíso dos segredos infan-
gura do enmaskaire ou bruxo se conserva como uma das tis, o lugar daquele outro sistema mágico para uso da
manifestações mais irredutíveis do universo da magia. Mas infância, de onde o eremita traz as crianças que ele encon-
ele produz seu antagonista na pessoa do adivinhador da tra nas couves ...
sorte ou do curandeiro.
Contra essa hostilidade ambiente se mobiliza, com efei- Os poucos instantâneos descontínuos que resenhamos
to, todo um conjunto de exorcismos e conjurações: o código nessa comunicação ilustram até certo ponto como, a partir
diz tanto o que é preciso fazer como o que é preciso evitar; de alguns elementos, se pode tentar reconstituir sistemas a
um só tempo muito vigiados e. .. muito mal conhecidos,
os presságios anunciam a infelicidade, mas ela pode ser
198 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTÃO 199
desde a denúncia inquieta do cura às sobrevivências nu
prática, mais o testemunho indireto dos ex-votos. As cenas linda a .morte violenta, da beira do caminho, a que não
figurativas dos ex-votos espelham a estrutura e a visão d permite pôr em ordem os seus negócios, aquela afastada
fa~íJia. Assim, é predominantemente para o homem, at pelos libera: "De morte repentina libera nos Domine ... "
hoje no mundo piemontês de Oropa, que se mobilizam as r! a das cruzes do exorcismo que sinalizam, na montanha
preces. A criança, descoberta a partir do século XVIII de Brison, os lugares dos acidentes mortais ou dos assassi-
conquista um lugar sensível, sem ultrapassar de um certo natos. Em contraste, se projeta a imagem pacífica de "ja-
limite: a criança desejada ou a criança doente. A mulher, zendo no leito enfermo", que aparece nos testamentos, tam-
reduzida,n~sse nível ao seu papel modesto na família, ocupa bém ilustrada pelos ex-votos, e no exemplo que a igreja
ao contrano um lugar preponderante, porém como a supli- paroquial oferece no modelo dos quadros de São José ago-
cante que implora a intervenção divina, enquanto, nesse nizante nos altares da Boa Morte. Será esse modelo rece-
aspecto a atuação dos homens se faz cada vez mais discreta bido sem resistências? A onipresença dos mortos e sua
revelando indiferença. Desde as grandes guerras do sécul; coabitação com os viventes não é absolutamente tranqüila,
XX à hecatombe automobilística, o homem, no Piemonte, pelo contrário. Se focalizarmos de um ponto de vista tão
e, provavelmente também em outros lugares, continua sendo amplo como Pierre Chaunu os dois grandes sistemas do
aquele por quem se ora.
outro mundo, herdados das tradições indo-européias - os
O tema da família conduz diretamente ao da morte que crêem no duplo, no mundo das larvas, que é necessário
que cristaliza uma parte importante dos traços sublinhados apaziguar, e os da crença na ressurreição - parece bem
no decorrer dos testemunhos. Morte "domesticada" como que a Savóia de 1900 de A. Bourgeaux se mantém crispada
já se disse, dessas sociedades tradicionais. Mas é preciso no temor ao duplo. Espíritos errantes, confundidos com as
que se compreenda que a morte é também muito temida' forças naturais, retornam ansiosos para solicitar a ajuda dos
e Marie Vasserot, aterrorizada pela morte, o confessa sem vivos. Essa presença inquietante é a das "almas penadas",
rodeios. Os dois aspectos, porém, coexistem sem contradi- segundo a expressão citada, que sinaliza os que não paga-
ção verdadeira. A morte domesticada é a dos velhinhos de ram suas dívidas e não podem ser liberados senão pela
Brison, em Savóia "d'viendrais t'cri" ou "t'vindrez m'cri" solidariedade dos vivos. Esses mortos que retornam e vagam
("virei te buscar" ou "serás tu que virás"). É a mesma tam-
não são todos inteiramente trágicos. Longe disso. Sob a sua
bém com que o cemitério tradicional, lugar de passagem,
última aparência familiar, como são descritos nas confidên-
de pasto, de encontro, materializa a coabitação procurada
cias de Marie Vasserot, eles guardam os defeitos, as mes-
entre os mortos e os vivos. O cemitério tradicional é mal
quinharias, as manias e os pequenos cuidados dos seres que
conservado, pouco respeitado, lugar comum para muitos
se conhecem muito bem. Alguns deles, que não eram abso-
usos: é isso que denunciam os curas e prelados, e também
lutamente bons enquanto vivos, também não melhoraram
o que d~screve o sociólogo J. O. Majastre evocando o pas-
depois de mortos. No entanto, ei-los prestes a dar uma ajuda
sado. Nao lhe ~~rece porém, como mostrou, que esse lugar
aos animais ou nos trabalhos do campo. Essa solidariedade
tenha se benefICIado em se tornar mais policiado.
não seria, contudo, o reflexo também da dialética nova que
A morte temida é a dos ex-votos: em grande parte triunfa, ao final do século XIX, nas relações entre os vivos
e as pobres almas do purgatório (sobre as quais encontra-
o pOPULAR EM QUESTAO 201
200 MICHEL VOVELLE
mos elementos nos episódios da infância de Santa Teresa chinhos da idade clássica, vindos de La Roche-sur-Foron,
de Lisieux)? a família invisível das pobres almas auxilia- viram seu terrorismo inicial contra a religião popular ceder
lugar a uma cumplicidade... no mais baixo nível, não
doras, do final do século XIX, testemunha o extraordinário
impacto da operação por meio da qual o catolicismo pós- parecia mais haver compromisso possível com o novo mundo
tridentino conseguiu cristianizar o duplo, desenvolvendo a urbano.
devoção às almas do purgatório. Essa possibilidade da re- Em seguida deve-se salientar, também, o destaque dado
denção a prazo, graças às missas, aos serviços e às obras, aos animais, ao gado e à caça, que abundam nos relatos de
materializa a solidariedade entre mortos e vivos, e fornece A. Bourgeaux, inclusive seu papel de liturgia concorrente
o meio também de afugentar, mas ao mesmo tempo de libe- da missa celebrada na aldeia, e que também tem seus mis-
rar as pobres almas "penadas". Compreendem-se assim as térios. Ele sinaliza, no mínimo, o laço muito forte que une
minúcias do sistema de missas de mortuis e dos servicos pessoas, animais e coisas. A questão que se coloca, ao fim
anuais nos quais o cura de Combloux se acha engajado 'ao dessa discussão, consiste em definir o que foi percebido
longo de todo o ano, e a importância desmedida de um através dela: uma "outra religião", ou então os disjecta
ritual que certamente o irrita um pouco, mas representa membro de um sistema talvez coerente outrora, mas hoje
para seus paroquianos um dos serviços essencias que espe- reduzido a algumas lembranças desarticuladas? Pode-se di-
ram dele. zer que alguns exemplos apresentados aqui não pretendem,
absolutamente, trazer uma visão panorâmica de um fenô-
Como temas essenciais - a vida, a família, a morte - meno tão difícil de se apreender. Dir-se-á, também, que os
emergem sem dificuldade na relação dos traços maiores exemplos selecionados no mundo alpino, da Savóia à Pro-
dessa religião popular. Com a mesma importância, embora vença, remetem, provavelmente, a um sistema em estágio
mais dif usas, surgem as referências à natureza, ao espaço de desestruturação sensivelmente mais avançado que nos
e ao trabalho no curso das entrevistas recolhidas pelo etnó- outros sítios "conservatórios". A propósito, pensamos nas
logo. Na religião popular, o plano espacial da aldeia tem informações que puderam ser reunidas sobre as ilhas e pe-
um papel de primeira importância: lugares habitados contra nínsulas do Mediterrâneo ocidental por ocasião do colóquio
lugares despovoados dia e noite, lugares cultivados contra realizado em Bonifácio, na primavera de 1976, sobre a
terras incultas; toda uma geografia e uma cronologia (dos representação da morte no Mediterrâneo.
dias e das estações) do sagrado se delineiam. A homogenei- lá falamos das reticências que nos despertam, quem
dade do espaço no interior do qual essas forças estão em sabe injustamente, as reconstruções avançadas e perfeitas
jogo é destacada pelo papel das fronteiras (mesmo se Com- demais talvez, como as que propõe Gaignebet em sua obra
bloux apresenta uma confraria "intercomunal " junto com sobre o carnaval, malgrado as seduções que esse procedi-
uma aldeia vizinha: o que não deixa de chocar o cura); o mento exerce sobre nós. Essa religião popular, completa e
contraste cidade/campo, em princípio muito forte, se enri- elaborada, cujas estruturas são decifradas pelo etnólogo.
jece até o conflito entre Brison e Mont-Saxonnex, em Sa- poderia ela ser encontrada intacta? Não seria melhor tentar
vóia, por ocasião das lutas da Revolução Francesa, e após apreender o seu dinamismo no quadro de uma história me-
a separação entre a Igreja e o Estado. Quando os capu- nos imóvel do que parece"
202 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 203
Imobilidade ou movimento?
provençais e piemonteses, inclusive a outros indicadores
Não se pode deixar, ao fim desta resenha, de retomar (testamentos), valoriza, ao contrário, o movimento. Ele evi-
o problema colocado abstratamente ao início da reflexão dencia uma evolução, geralmente na longa duração secular
~eligião im?:,el ou em movimento, ainda que seguindo u~ ou plurissecular, que é aquela na qual se inserem as mudan-
ritmo específico?
ças nas atitudes coletivas. Pode-se indagar, por outro lado,
O que mais chama atenção, através dos testemunhos se, em contraste com o que foi dito mais acima, um estudo
é a permanência de certas heranças. Ela é impressionant~ serial dos vestígios da prática social não ampliaria, por sua
na. rede de atitudes em torno da morte por parte dos paro- vez, a percepção do processo de mudança, deixando de lado
qU.Janos de Brison até data bem recente. Não se podem a parte submersa do iceberg, isto é, a religião popular que
deixar de notar, também, a extraordinária estabilidade das não se projeta nem nos escritos nem nas representações.
~~tn:.tura! formais, dos gestos encontrados (mesmo quando
ja nao sao mais compreendidos) na peregrinação de Nossa Não advogaremos absolutamente o compromisso bur-
Senhoroa dos Ovos; o que coloca o problema dos próprios guês, embora concluindo pela plasticidade da religião po-
rnecarnsrnos da transmissão. pular. Tal como aconteceu na idade clássica, assistimos à
Certamente, pode-se indagar se a natureza Elo testemu- formação de um novo compromisso, fundado em um antigo
nho oral, por sua própria intemporalidade, não acentua, em equilíbrio posto em questão, e onde temas antigos e novos
parte, essa impressão de imobilidade, e o percebemos no se encontram, mas que não se poderia considerar como
ato mesmo como a transmissão das lembranças contribui metamorfose de uma experiência antiga. O século XIX,
para abolir essa dimensão histórica. apreendido através da memória dos velhos, testemunha uma
Não é menos aparente que a maioria dos testemunhos outra etapa: a cristianização autoritária da idade clássica
:ecolhi.dos denota antes mudança do que estabilidade. O fato foi ao mesmo tempo assimilada, digerida e folc1orizada, o
e partIcularmente notório em Combloux de 1733 como que se traduz na mudança do personagem do cura, dali em
também nas visitas pastorais ao Dauphiné em fins do século diante integrado (apesar da manutenção de alguns aspectos
XVII: tanto mais, provavelmente, quando a própria natu- terroristas) ao jogo coletivo da comunidade. Enquanto isso,
reza .dos documentos, quadros realizados em uma data de- os dados referentes à outra religião conservam-se, mas ao
terminada, pareceriam privilegiar a imobilidade. Ora a si- mesmo tempo esterilizam-se e se esgotam, mesmo que im-
tuação conflitual na qual nos envolve a crônica do cura pregnem duravelmente certas atitudes. É um estoque resi-
de Combloux faz, ao contrário, aparecer com clareza as dual, e em boa parte incompreendido, atualmente inventa-
estratificações do que está morto, ou moribundo, dos en- riado. Isso não quer dizer, por outro lado, que toda uma
xertos, alguns que pegaram bem, outros que foram rejeita- História se tenha encerrado: evocando a cegonha e o ere-
dos, c~mo. também nos põe diante das feições tomadas por mita portadores de crianças, R. C. Schüle fala no presente
uma .0fensIva surpreendida no ato de remodelar, as atitudes de uma rede de símbolos bem vivos ainda, há menos de vinte
coletivas.
anos. O período pré-natal conservará talvez a imagem da ce-
O estudo serial, tal como foi aplicado aos ex-votos gonha, quando já estiverem mortos os velhos galhofeiros que
aconselham a telefonar para o eremita. Uma História terrni-
204 \/IICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 205
n~ e outr.a começa: J. O. Majastre lembra, nas rransform t tividade do momento reemprega, às vezes, formas e lingua-
çoes atuais do cemitério, subtraído da família e da comuni gens da festa antiga, reprimida e proscrita, como as masca-
da de rural para se tornar um tema de pompas fúnebres. radas e cortejos iconoclastas, que se fizeram elementos do
~m~ e:ol~ção se esboça na dialética das relações Com cortejo carnavalesco e do charivari. Mais do que uma res-
a IgreJ~-mstltulção, condicionando uma parte das evoluçõe surgência, um ressurgimento de um lençol subterrâneo, po-
percebidas, mas onde outros movimentos de longa duração rém, essas manifestações testemunham a plasticidade ines-
desempenham um papel essencial ao nível das atitudes vi. perada (talvez injustamente) da religião popular que supú-
t~IS: a evo~ução da comunidade, da família, das atitudes nhamos imutável.
d~ante da vlda.e diante da morte. Suas mutações essenciais
nao podem deixar de se inscrever tanto ao nível do que Introduzir uma dimensão diacrônica no estudo da reli-
resta da herança a mais longínqua, como da realidade gião popular: mais do que um desejo anexionista do histo-
cO,m~lexa da religião popular cristianizada desde a idade riador das mentalidades, é uma perspectiva que pode pare-
classtca.
cer apropriada a atrair amplo consenso por parte de estu-
~ssa evolução percebida privilegia a longa, ou melhor, diosos cujas abordagens convergentes contribuem para um
a .multo longa duração, e com justiça. O tempo curto, que investimento pluridisciplinar nesta realidade; e que, por
rem~rod~z ,0. acontecimento. tem em todo caso, um lugar terem algumas vezes trabalhado mais extensamente nesse
nessa Hlstona. E se a transformação da memória coletiva assunto, conhecem as dificuldades em abordá-lo.
tende a esfumar os contornos, e até mesmo a apagá-Ios final- Por outro lado, impõem-se outros caminhos de apro-
mente, (quer se trate da Revolução ou da Separação) o fundamento, ainda que o estudo aqui apresentado sublinhe
tempo cu.rto também pode manter sua vitalidade (a gue~ra menos a sua necessidade. Pensamos em uma geografia mais
dos Carnisards em P. J outard) e depois influir em todas detalhada das diferentes formas da religião ,popular a que
a~. ~e~orrências ulteriores. Tomaremos, como exemplo, a fizemos alusão tratando dos ritos em torno da morte na
história da festa (com fronteiras muito fluidas com his-
,. r' a IS área mediterrânea. Nessa mesma direção, pensamos também
tona re rgiosa e da sociabilidade) cujas transformações estu- no grande problema da religião popular urbana, muito
damos, para a Provença de 1750 a 1820 (Les Métamorpho- pouco estudada até aqui dentro de uma leitura histórica,
ses .de .Ia fê te en Prol'ence ... ). O trauma revolucionário, assim como na relação campo-cidade, onde a clivagem reli-
aqlll. vivamente percebido e, poderia-se dizer, vivido no giosa é um dos elementos mais expressivos. Tudo isso con-
ambiente das festas revolucionárias, representa claramente duz a reformular, em termos refinados, o problema da socio-
uma n~u~a~ça essencial na história da festa, no mínimo pela logia da religião popular. Uma sociologia que ultrapasse a
~estrlllça? .Irrecllperável de toda uma parte do sistema fes- atual dicotomia, simples demais, entre povo e elite, para
trvo .tradicional. A Restallracão. , nesse aspecto , sera ' apenas penetrar a realidade dos grupos sociais; e que, desse modo,
parcialmenn- recebida.
permite propor uma definição mais sensível (e historica-
_ Es~e exemplo chama inclusive a atenção para as cria- mente modulada) da noção de religião "popular".
çoes efe_meras ao nível da religião popular, das quais a Como se vê, a religião popular aparece atualmente
Revolução Francesa fornece igualmente um exemplo. A cria- como uma das mais estimulantes áreas de pesquisa graças
206 MICHEL VOVELLE
às perspectiva~ de pesquisas pluridisciplinares que ela apre-
senta, como ainda pela introdução de novas fontes e técni-
s
caa1ded·a~ordaglem, tanto no domínio da iconografia como
d ra içao ora Impõe .
vad d A . -se, aquI e agora, uma leitura reno-
a de um fenomeno que já acreditávamos conhecer de
Ionga ata.
Os intermediários culturais*
Debate aberto com a intenção deliberada de renovar
o diálogo, que se tornou acadêmico, entre a cultura popular
e a cultura de elite. O número e a riqueza das respostas que
foram formuladas a convite do "Centre Méridional d'His-
toire Sociale, des Mentalités et des Cultures" (Centro Meri-
dional de História Social, das Mentalidades e das Culturas),
em 1978, mostrou que o desafio fora aceito, considerando-
se a prodigalidade de respostas pondo em questão o esta-
tuto das duas culturas, e levando a refletir sobre a noção
bastante ambígua de "aculturação".
Quadro inicial em termos de aberturas
Adaptando aqui os termos da introdução geral que
apresentei ao seminário, não pretendo me substituir aos
* Introdução ao volume Les Intermédiaires culturels (Os interme-
diários culturais), ata do colóquio "Les Intermédiaires culturels",
organizado em junho de 1978 pelo "Centre Méridional d'Histoire
Sociale, des Mentalités et des Cultures't.T'ublicação da Universidade
da Provença, H. Champion. 1981.
208 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO
discursos dos partIcIpantes, nem, sobretudo, às comunicu
decepções, levando-nos para os caminhos do inesperado.
ções sintéticas apresentadas ao final das sessões. Colocado
As decepções - digamos antes, os silêncios - são eles
a posteriori diante da opção ou de antecipar abusivamente
próprios ensinamentos. Talvez tenha sido por simples fat~
aLI de simular ignorar o que foi dito, prefiro deixar a e S'I
do acaso (mas não creio totalmente) que o grupo de parti-
reflexão o caráter de que ela deseja revestir-se, isto é, o de
cipantes, em sua maioria formado de pedagogos, tenha tra-
uma introdução, no sentido estrito, apresentando o problema
tado do médico, do cura e da parteira, evitando colocar-se
tal c~mo ele se delineia aos numerosos participantes, diante
a si próprios em questão e respeitando uma espécie de tabu
da leitura das cinqüenta comunicações que Ihes foram sub
metidas à discussão. implícito sobre o personagem do professor. Lamentamos
também, em vista das várias contribuições muito sugestivas,
, Esse número mesmo testemunha ao mesmo tempo o que o ~éculo XVI e, sobretudo, o período medieval não
caráter do colóquio, o que esperavam os organizadores, e tenham sido mais extensamente abordados em nosso encon-
o sucesso que o convite encontrou. Esse colóquio foi pen- tro, apesar dos problemas específicos que eles colocam.
sado como um seminário aberto, captando em toda a Sua Uma frente pioneira se esboça aqui, com a qual os colegas
diversidade as contribuições ao tema proposto. Lançar um italianos, ingleses e americanos que nos fizeram a cortesia
tema amplo e aguardar sem preconceitos os ecos que ele de comparecer (P. Burke e C. Ginzburg) estão hoje mais
despertará, não é absolutamente inócuo: significa arriscar familiarizados, parece-me, do que a historiografia francesa.
uma dispersão aos quatro ventos. .. Se nos mantivermos
Em contrapartida. as surpresas são notáveis. Poderia-se
atentos ao tema definido, todavia. essa prática acolhedora
crer, até uma data recente e malgrado as exceções de vulto
e sem laxismo afirmará seu lado bom, e sobretudo, como
(os campos atuais de M. Agulhon o testemunham, dando
prêmio, a parte inesperada das respostas recebidas.
apenas um exemplo), que a História contemporânea tivesse
reservas com relação à História das mentalidades e às mo-
Esperávamos, devido ao perfil do Centro-Sul (da Fran-
dalidades de história cultural que os modernistas praticam
ça) e das tendências atuais da história das mentalidades,
de mão cheia. Por isso, são tanto mais apreciadas contri-
uma maioria de contribuições modernistas, e certamente de
buicões sobre os séculos XIX e XX, sinal de que a proble-
~istoriadores. Esperávamos, com certa apreensão, uma quan-
mática proposta correspondeu a uma necessidade. Essa visão
tidade de estudos de tipologia descritiva, em resposta ao
mais ampla da História contemporânea contribuiu larga-
convite que havíamos implicitamente fixado quanto aos
mente para evitar uma tipologia estática dos mediadores
intermediários obrigatórios da sociedade tradicional: o cura,
o médico, o notário ou o burgomestre professor. Não que tradicionais, que pudemos então apreender na perspectiva
desejássemos fechar-Ihes a porta: eles vieram em sua maio- de longa duração. desde o século XVI aos nossos dias.
ria e nos alegramos com isso; mas receávamos que a manu-
tenção de encontros balizados não fizesse avançar muito Da mesma ótica, a acolhida demonstrada pelos não-
as coisas. historiadores, isto é, pelos literatos, historiadores da arte,
sociólogos, etnólogos, e também praticantes atuais e novos
Ora, o retorno das respostas acedendo ao nosso pedido "mediadores", foi uma das aberturas mais sugestivas e mais
de contribuições trouxe-nos mais surpresas positi vas do que valorizadas. Sem querer me antecipar, sublinharei logo, a
210 MICHE:L VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 211
título de exemplo, o ângulo que se pode obter desse tem I
burguês de Aix, Seguido de algumas chaves para leitura dos
graças exatamente à participação de assistentes sociais.
ingênuos), [oseph Sec, herói anônimo que somente um curio-
exemplo típico de mediador atual. A meio caminho entr
so monumento cenotáfico, erigido em 1792, salva do esque-
a satisfação e o pesar, podemos ao mesmo tempo nos reju
bilar com alguns lances comparativos em universos sociai cimento, ilustra por sua inserção sócio-cultural, o grupo dos
ou culturais diferentes, e até exóticos (os mediadores no "mesticos culturais" que não pertencem mais ao mundo
mundo muçulmano) e lamentar que esse caminho não tenha popular, sem integrar-se verdadeiramente nos quadros de
sido mais amplamente explorado, por exemplo, no Terceiro elite, mas forjam seu próprio universo de representações,
Mundo atual, que abre um campo fantástico para uma abor- alcançando assim, com um pouco de sorte, o status de
dagem comparativa no espaço e no tempo, "inspirados" que André Breton, depois dos surrealistas, teve
Assim, não é em termos de uma proliferação anárquica o mérito de sublinhar tLes Inspirés et leurs demeures (Os
que vemos o balanço dessa convergência de interrogaçõe inspirados e suas moradas). com fotos de Gilles Ehrmann)
e respostas; porém antes como demonstração de um ques- antes que a moda atual se apropriasse deles, Substituindo
tionamento coletivo, que deve refletir algo mais que um o conceito de naii pelo de "inspirado", Breton teve não
fenômeno de moda, A problemática inicial foi imediata- somente o mérito de eliminar toda conotação depreciativa,
mente ampliada e pudemos sem receio, desde a abertura mas ainda de realçar a dinâmica que esses franco-atiradores
das sessões, traçar um programa de pesquisa articulado, ba- comunicam à cultura ao procurar uma forma de expressão
seado nas sugestões e hipóteses de trabalho já amadureci das , apropriada ao seu universo interior: pintura, escultura ou
obra-prima heteróclita, cujo melhor exemplo foi por lon~o
tempo o palácio do agente Cheval, antes que se descobns-
Uma problemática ampliada sem, em vários lugares, outros similares. "Ingênuos", "ins-
pirados", 'demiurgos do mundo social", "mestiços cultu-
Seria útil, provavelmente, sem cair na complacência rais": encontramos todos esses tipos no quadro anexo à
de uma evocação retrospectiva apenas anedótica, recapitu- minha biografia de [oseph Sec, como "chaves para leitura
lar em que bases a equipe de pesquisa do Centre Méridional dos ingênuos", desdobrando-se em uma multiplicidade de
d'Histoire Sociale chegou a se interrogar sobre o que final- rótulos possíveis, reflexos ao mesmo tempo de uma riqueza
mente definiu como "mediadores culturais". e de uma perplexidade. Após exame, esses marginais, apa-
Uma das primeiras abordagens, na qual confesso mi- rentemente murados no segredo de uma aventura individual,
nha responsabilidade pessoal, incidiu sobre o grupo dos que freqüentemente um tanto estranha, parecem oferecer um
havíamos classificado como os "demiurgos do mundo so- testemunho aos grupos sociais mais amplos, dos espaços
cial", uma denominação provisória que eu havia arriscado dúbios que separam a cultura de elite da cultura das classes
a propósito do self-made man e autodidata Joseph Sec, cuja
populares.
carreira reconstituí sob o título L'irrésistible ascension de
Não nos supreenderíamos, nessas condições, de sermos
losepli Sec, bourgeois d'Aix. Suivi de quelques clefs pour
conduzidos, como desenvolvimento natural, da marginali-
Ia lecture des naijs (A irresistívelascensão de Joseph Sec,
dade dos "inspirados" para uma interrogação mais vasta.
212 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 213
sobre a dialética cultural da cultura de elite - cultura crições precisas de Albert Soboul, o universo sócio-cultural
popular.
dos sans-culottes parisienses. Como situá-lo na problemática
. Duplo te~a, hoje amplamente investigado pela histó- que nos preocupa? Uma cultura popular? Certamente não,
na das mentahdades, desde os trabalhos' pioneiros de Man- no sentido como a entendem muitos, como uma cultura de
drou ou de Bollême na França até os de Muchembled e transmissão predominantemente oral e ancorada na tradição.
?utr?s, inclusive em outros lugares, citando, em um resumo Reflexo então da cultura das elites, veiculando por caminhos
inevitavelmente injusto. Nathalie Davis, Peter Burke, Keith que ainda estão para ser analisados precisamente as idéias
Thomas, Carlo Ginzburg, no que diz respeito à cultura po- matrizes da cultura burguesa da elite das Luzes? Essa lei-
pular. Enquanto isso, a abordagem da cultura de elite, após tura também é bastante empobrecedora, reduzindo a um
os m~rcos colocados pelos tomos de Livre et sociétés (Livro simples reflexo, expressões originais e autônomas. É preciso
e sO~ledades), as contribuições reunidas por A. Dupront e portanto, imperativamente, para avançar, sair, de hoje em
depois por F. Furet, até a obra magistral de Daniel Roche diante da oscilação esterilizante entre cultura de elite -
sobre as academias provinciais no século XVIII também cultura popular. Porém, como fazê-lo?
conquistou seus louros, acedendo a uma incontes~ável ma-
Uma outra resposta simplista à questão seria, prova-
luridade. Se cada uma dessas duas vertentes oferece, atual-
velmente, ceder ao compromisso burguês e, insatisfeitos com
me,nt~, referências sugestivas e convincentes, não creio ser
lima estrutura de dois níveis, inventar um terceiro, que seria
o UOlCO a sentir a necessidade de sair de um dualismo su-
precisamente o dos mediadores, passando, se me desculpam
mário que se arrisca a tornar-se empobrecedor. Entre, de
a trivialidade da metáfora, de um sorvete de duas bolas ...
um lado, o universo dos "analfabetos", retomando a ex-
a lima cassa ta napolitana! Foi sobre esse tema ou essa even-
pre~são d,~ Pierre Goubert, ou mesmo o dos "apenas alfa- tualidade que, com uma agressividade de boa índole, nos
betizados . qu: os censos recentes - inspirados nos mapas
questionaram alguns dos participantes desse colóquio: J. P.
de alfabetlz~çao da França, criados no final do século pas-
Poitou sob o título "Une histoire à étages" ("Uma História
sado pelo reitor Maggiolo delimitam mediante técnicas cada
em estágios") e J. Molino perguntando-se "Combien de
vez mais sofisticadas, e, de outro, o mundo das "elites" cultures?" ("Quantas culturas?"). Dizer que esse perigo -
definidas pela passagem pelo curso colegial, o acesso à;
criar uma estrutura fictícia - não escapou aos promotores
humanidades clássicas e até a posse de uma biblioteca e a
desse encontro não significa suspender por antecipação uma
freqüência de Ju?ares de encontro próprios (gabinetes,' aca-
indispensável discussão sobre esse ponto, ainda mais que
de~las ... ), se Impõe cada vez mais a impressão de um
vazro a preencher. eles se protegeram do risco de reificar o intermediário cultu-
ra I ou de fixá-lo em uma posição estática na encruzilhada
. Um vazio que não reflete uma ausência: a explicação de duas culturas.
serra ao mesmo tempo ingênua e fácil demais, porém cor-
respondente àquela faixa intermediária das sociedades de Com efeito, essa reflexão, ao fim da recapitulação com
antigo estilo: artesãos ou mercadores rurais, produtores ur- a qual tentamos explicitar historicamente o surgimento de
banos independentes, barraqueiros e lojistas, citando apenas nossa questão, desemboca em uma definição preliminar de
alguns exemplos. Começamos a conhecer, a partir das des- que não podemos nos esquivar: o que é o mediador cultural?
U t'ut'ULAN. EM QUESTAO
215
214 MICHEL VOVELLE
dai as feições diversas, contraditórias e sucessivas dos inter-
Dar de saída uma definicão elaborada seria congelar um mediários culturais.
debate que permanece aberto, e evitaremos fazê-lo. Será ao
final, como resultado do encontro, se possível, que a questão
deverá ser retomada, nos resumos ou nos debates. Pos o Modelo e modelos: ." .
várias feições contraditórias do mtermedlarlo cultural
logo afirmar que é em termos dinâmicos que entendo o
intermediário cultural, como seu próprio nome sugere, tran É cômodo, e em todo caso legítimo, partir do modelo
sitando entre dois mundos. O mediador cultural, nas diver
do mediador no "antigo estilo", conforme presente na Idade
- . .d nte como
sas feições que assume, é um guarda de trânsito (me per- Clá Ele se apresenta, na versao mais eVI e ,
assica. bai d m
doem este deslize em uma metáfora duvidosa). Situado um agente da difusão vertical: de ci~a -para aIXO, e u
entre o universo dos dominantes e o dos dominados, ele ou de uma ideologia dommante. O que, como
sa b er. . . f d essar
adquire uma posição excepcional e privilegiada: ambígua diriam alguns, é apenas um modo di erente e expr
também, na medida que pode ser visto tanto no papel de as coisas.
cão de guarda das ideologias dominantes, como porta-voz As comunicações apresentadas deram destaque, e com
das revoltas populares. Em outro plano, ele pode ser o re- justiça, ao intermediário por função, instalado ~m ,s:u p.aPd~1
de comutador, desde o cura ao notário e .funclOnanos JU 1-
flexo passivo de áreas de influências que convergem para
diciários, incluindo o médico ou ~ parteira. mas passando
sua pessoa, apto todavia a assumir, dependendo das circuns-
por cima do professor, que não VImos. .
tâncias, o status de um "logoteta", como diz Barthes e o Na verdade, esse personagem não perdeu a validade:
percebera A. Breton, criando um idioma para si mesmo, tendo-se remodelado sob novas feições, ~o:ta~o.r de novas
expressão de uma visão de mundo bem particular. .' s desde Pierre Larousse, cujo dicionário, como se
pe d agogia , f d
Não se trata de escolher prematuramente entre essas sabe, é instrumento e suporte do gigantesco. es orço e
pistas profundas e aparentemente contraditórias que se de- - do século XIX até os recentes ammadores de
acu lt uraçao ' . d
A'
lineiam de início, e logo prender nossos personagens à canga rádio, aos quais os mídia conferem uma influência espro-
de uma definição preconcebida. Por isso, não quisemos re- porcional à realidade.
correr de imediato a um dos modelos nos quais não podía- Entre esses mediadores, por sua função mesmo, cor-
mos deixar de pensar, como fizeram justamente vários au- reias de transmissão de uma cultura ou de um saber, e há
tores de comunicação, desde o "intelectual orgânico" de orta-vozes populares, que colocamos em contraponto, a
Gramsci ao bricoleur de Lévi-Strauss. ~m certo número de tipos de transiç~o: a começar pelos
mediadores "de contrabando", exempl~f~c~do pel~s ~uran-
O mais legítimo, para ordenar sem empobrecer nem deiros. Esses trapaceiam as fileiras oficiais de difusão do
fossilizar, me pareceu fazer os reagrupamentos necessários saber de elite, do qual eles se contentam em arremedar as
a partir das contribuições apresentadas, em função das pró- aparências .. , ficando talvez, por isso mesmo, em contato
prias categorias, diferenciadas mas não múltiplas, que as . , 'mo com o universo popular que lhes fornece o
mais proxi
respostas sugeriam. Uma nomenclatura sem nada de fixo, público.
visando a contextualizar em uma dimensão histórica essen-
216 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 217
Classificaremos em seguida, no grupo de medo d . contrarn nos estados do papa do durante a Renascença, nos
.. f -.. Ia ore
~or .u.nçao ou "por posição", grupos e profissões muito traços do herói de que nos fala C. Ginzburg; como também
díversífícados, cuja natureza mesma os coloca entre o uni na Revolução Francesa, mais no gestual do que no discurso
vers~ d.os senhores e o dos dominados, como os empregado dos setembristas de 1792: uma trajetória que nos conduz
~o~estlcos. cuja cultura e comportamento, até a roupa, par aos militantes operários, obreiros, socialistas ou utopistas
.ncipam
. de ambos. Os empregados domésticos de M anvaux
. do século XIX, lembrados através de alguns perfis e itine-
imrtarn s~us patrões, mimetizando o grupo do qual depen rários significativos.
demo ReCIprocamente, é através dos servidores domésticos
Mediadores da difusão do saber e do poder de um
ou das amas, que a elite fica em contato com os fragmentos
lado, heróis prometéicos de outro: como seriam simples as
das ~ulturas populares, pronta a se vulgarizar; às vezes com
coisas se elas se revestissem dessa limpidez linear, .. Basta,
deleite, na França ou na Espanha das Luzes. Embora desi-
todavia, estar situado nessa posição, isto é, na encruzilhada
gual. essa troca continua bilateral.
de dois mundos, para ser levado - volens nolens - a par-
ticipar de dois sistemas, e até a trair a finalidade da função
" Passemos aos antípodas: imaginemos um grupo prorne-
que ocupa. O intermediário cultural típico, em sua ambi-
teíco de porta-vozes da outra cultura, a cultura do mundo
güidade radical, é Babeuf, feudalista tornado porta-voz das
popular '. Esse. representante não é forçosamente o revoltado
aspirações dos camponeses sem terra, , .
que se .lmagIna. As comunicações apresentadas propõem
antes a Imagem do representante tranqüilo da "outra cultu- Forçado a abrir seu caminho, ou a procurar seu ca-
ra ". Imaginemos uma cultura popular ainda não marginali- minho, no estuário das influências culturais de que era o
zada, e nem subterrânea, na qual ele oficie como cura ou receptáculo, esse personagem social, em contraste com o
como notário: é o armier occitano ou o mensageiro das cura ou o médico, portadores de uma mensagem codificada,
almas, .que nos lembra o Sul da França medieval ou mo- se apresentará bem freqüentemente como um autodidata.
derno, Instalado em seu papel de intermediário entre vivos bricolant sua cultura à sua maneira, e com maior ou menor
e mortos. Mais que tolerado, é originalmente parte inte- felicidade. Para um resultado. também, muito diferente,
grante da sociedade rural, variando segundo os casos. Ao personagem do revoltado ou
_Posterior~ente, s~ esboça a passagem do demiurgo ou do herói popular que acabamos de situar, se oporá, no
xam~, dos antigos universos da magia, para um tipo de mesmo grupo ou quase, o do "inspirado" que procura sua
med~ador popular já conceituado como subversivo, sem que satisfação pessoal, voltado para o universo que forjou para
por ISSO seja um revolucionário: é o taberneiro, por exem- si mesmo. Intermediário não-funcional, em contraste abso-
plo, tal como se encontra na Savóia do século XVIII, e luto, parece, com os personagens pacíficos e eficazes com
como ~ ~escrevet~ Balza,c. ~gente de contato e de circulação, os quais iniciamos nossa resenha.
sem dúvida, porem muno Justamente suspeito aos olhos do
poder estabelecido.
De fato, há transições múltiplas entre o inspirado mes-
A partir dele, como de outros, se opera a transição aos siânico, que sonha em mudar o mundo levando a palavra
porta-vozes verdadeiros: os da revolta popular, que' se en- a uma multidão; e o sonhador doce e egoísta enclausurado
219
o POPULAR EM QUESTAO
218 MICHEL VOVELLE
Antes da idade clássica, digamos, antes do fim do
atrás das grades da vila "Mon Rêve" (" Meu Sonho"). O século XVI, as percepções embora descontínuas de que dis-
exemplos. que foram propostos e mais aqueles que ainda pomos autorizam algumas aberturas sugestivas. Na baixa
pode~ citar pululam com esses mistificadores consciente Idade Média, quando o médico ainda não havia imposto o
ou f
Rémvnao como
d a pro feti . . .
etiza samt-simornana Marie de Saint•. seu saber em oposição radical ao tesouro das receitas popu-
lares, ainda que ele tivesse seus códigos de referência eru-
y, a ada a consolar a decepcão dos opri id
da cultura da I _ .' nrm os, vetore ditos, podia-se encontrar com facilidade, segundo D. Fabre
no século XIX c~nsof~ça~, c~Jos exemplos se multiplicam
ou E. Le Roy Ladurie (em Montaillou), o intermediário
ue d . T' or im, inspirado em tudo, há um profet I
q orrruta: oseph Sec ou o ne . funcional e tranqüilo da cultura popular, mediador entre o
ped;stalirrisório,palácio,cenotáfi;:a~~~x;~:v:~í,ã~e~~': mundo dos mortos e dos vivos.
se mgem ao mundo e comunicam uma mensagem. ' As contribuições de P. Burke e de G. Ginzburg ilus-
Apre~e_ntada assim, achatada e sem referência históri tram, assim como outras obras suas (penso particularmente
ca, esta visao de conjunt d dif
di d I o as 1 erentes expressões do me em Jl jormaggio e i vermi de C. Ginzburg, a efervescente
â
Ia or
I eu tural se arrisca ao mesmo tempo a ennjecer .. os descrição do universo mental de um moleiro subersivo do
ngu os, ma~carando uma continuidade bem real e de se Frioul em 1580), essa troca ativa e procurada entre as duas
t ornar tambem enga d P , culturas até meados do século XVI: cultura popular e cultu-
entre o intermediári~a ora. a:.a d~r apenas um exemplo.
de ed . por funçao, Instalado em seu papel ra de elite, uma idéia que os trabalhos de Bakhtine sobre
aqu~le ~~~!O a servlço_ de u~a ideologia estabelecida e
programaçao subitamente se desconcerta Ia-
"Rabelais e a cultura popular de seu tempo" nos tornou
familiar, mas que requer ser aprofundada. Na aventura trá-
zen d o-setânci
uma di o profeta . d e um pequeno cenáculo marginal ' há gica da "Conjura di um buffone" (Conjuração de um bufão)
Ven s ancia muito pequ ena. A"ssim e o cura jansenista , de
.. . discutida por Carlo Ginzburg, processo e morte de um líder
e quece,il cuja biografia
,. no século XVIII nos f 01. mostrada popular em Bolonha no início do século XVII, se inscrevia
ue 1, u~tra a. perfeição essa oscilação e continuidade entr~
já com uma teatralidade barroca, a mudança para a repres-
esses C~dlgOS simplificadores que acabo de propor por
são do intermediário - porta-voz popular, no limiar da
comodidade pedagógica. mera
Contra-Reforma.
Na segunda etapa, cujo centro poderia ser a idade clás-
A necessária dimensão histórica sica .. , porém uma idade clássica tão amplamente com-
preendida que eu não veria o inconveniente em identificar
Para romper com essas ambi üid d . - seus traços até os burgomestres da conquista pedagógica do
século XIX, um outro modelo global me parece prevalecer.
:;~~~:nte recorrerà História.c:rta~e~~~,l~;;:: ~~~~~
Em um mundo que continua dominado pelas estruturas das
evident~re~ c~lturais, e~ resposta a uma necessidade social
sociedades rurais tradicionais, opera uma rede codificada e
reuni . or~m,_ a pa~tlr dos comentários específicos que
estruturada de intermediários, cuja tipologia se desdobra
evol m_osaqUl; nao sera impossível identificar uma ou duas
facilmente: o cura, o burgomestre, a parteira o cirurgião-
racã~Ç~:cs IPro und1as e significativas, sugerindo uma respi-
. u ar na onga duração.
220 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 22\
barbeiro, o sacristão, em uma lista que nada tem de limi Uma explosão se produz então, cuja eclosão se poderia
t~dora. Nessa. estrutura, se diria que mesmo o espírito nega- atribuir à Revolução Francesa, mesmo sob risco de exces-
tIVOou suspeito pela função - o mascate, o taberneiro, sem siva simplificação, mais exatamente, aos porta-vozes dos
falar ~a prostituta - desempenham um papel e uma fun- massacres de setembro de 1792, ao mesmo tempo tão anco-
ção, dito sem gracejo, de aculturação descendente. rados em toda uma tradição de antigas linguagens da re-
volta e também anunciadores de um novo estilo de relações
A partir do século XIX. esse quadro relativamente e de troca.
estável se desfaz (a foto de família no enterro de Ornaws), Um novo espectro de intermediários se estrutura pro-
tor~ando~se menos lírnpido, sob pressão de uma evolução gressivamente nos estudos consagrados aos séculos XIX e
mars social do que cultural, que modifica profundamente XX. E verdade que o modelo clássico se encontra bem longe
~s dados. Assiste-se a um desenvolvimento acelerado do de estar sepultado no passado. Nesse domínio, a conver-
livro e depois, graças à imprensa e aos mídia, dos meios de gência de uma série de intervenções complementares nos
difusão (e/ou) da domesticação ideológica, ao mesmo tempo permite esclarecer mais precisamente a silhueta exemplar
talvez em que uma relativa despersonalização dos contatos do assistente social, personagem ao mesmo tempo contem-
menos diretos (apesar dos animadores de rádio que citamos: porâneo e tradicional. Também a do mediador" atualizado",
e das novas formas de cumplicidade a distância).
reflexo da revolução técnica dos mídia, tal corno o vimos
Nesse novo contexto, os intermediários culturais à an- analisado na tipologia dos animadores de rádio. O perso-
tiga. quando nãAose reciclam. traem sua idade e fadiga, nagem do porta-voz talvez seja um dos que apresentam as
enquanto o fenomeno de desenvolvimento das sociedades mutações mais profundas: do rebelde primitivo ao militante,
urbanas - no qual justamente insistem várias comunica- ele é um aculturado certamente, porém portador de uma
ções - introduz condições novas: ruptura dos contatos cultura operária específica, apontando a uma vertente pio-
pessoais codificados da sociedade rural, e também nasce- neira essencial de pesquisa.
douro de novas configurações, entre as quais a "cultura Prolifera, enfim, o grupo dos que tomam a tangente:
intersticial" dos logradouros suburbanos representa um tes- os inspirados. Eles não existiam antes, e seu surgimento não
temunh~ eloqüente. Toda uma multiplicidade de posições seria apenas uma ilusão de ótica, facilitada pelas condições
sociars interrnediãrias, principalmente urbanas - entre as externas? Quantas coisas mudaram desde que o cimento
quais o "retirante" não seja talvez o mais inesperado _ armado e o pré-moldado conferiram ao bricoleur doméstico
se presta a novos fenômenos culturais.
os meios para perenizar, por um certo tempo, a expressão
É preciso sublinhar o peso que exerce a alfabetização de seu universo imaginário! Mais profundamente penso que
crescente, a generalização da instrução primária e a difusão essa proliferação reflete a multiplicação de status e de per-
d? livro, q~le estimulam o surgirnento do personagem auto- sonagens sociais outrora desconhecidos, desde toda a pe-
didata, assim como, em outro plano, o nascimento de um quena burguesia até as profissões do setor terciário dos
movimento operário - lima poderosa escola de aculturação quadros inferiores, onde essa cultura ambígua encontra um
de estilo novo? terreno preferencial.
Como se vê, essa respiração secular conduz, mais do
222 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 223
que ao enriquecimento de uma tipologia que integraria no
~os personagens, tal como o presépio provençal da mesma o intermediário como "testemunha privilegiada"
epoca, ante,s a. uma revolução mais profunda, cujos dados
no~os a propna natureza dos temas propostos não poderia Preveniram-nos em uma das contribuições (Roger Cor-
deixar de refletir. nu) contra as ambigüidades inerentes à natureza da teste-
munha privilegiada. Nós acolhemos essa advertência com
toda a atenção que ela merece. Não queremos incorrer na
Dos mediadores às mediações crítica dirigida aos africanistas, etnólogos e até historiadores
que acreditavam indispensável - se fazerem mistificar por
. ? que denominei, simplificando muito, a despersona- um informante sarcástico para conferir autenticidade ao seu
hza~ao que começa no século XIX, para conceituar um propósito. Mas, vamos aceitar o desafio com todos os riscos
fenomeno que uma comunicação que não pôde ser apresen- que ele comporta.
tada neste encontro chamava "a morte do intermediário Demiurgo do mundo social, inspirados, mestiços cultu-
c~ltu:.al na fáb~ica moderna", emergiu ao longo das comu- rais. .. para retomar a litania com a qual abrimos nossa
rucaçoes recebidas, através da importância crescente do comunicação, em nome de quem testemunham esses inter-
e~tudo dos meios de comunicação em confronto com a rela- mediários culturais?
çao_ humana direta, à medida que nos afastamos da civili- A sociologia dos inspirados, descrita há pouco por
zaçao oral tradicional. Não se justifica, certamente o exa- André Breton, os situa na casa cronológica onde se insere
gero d~ só ver claro à nossa frente e extrapolar abusivamenn, o grupo que ele focaliza, na fronteira entre o assalariado
a partir do conjunto de comunicações reunidas. Percebe-se (muito pouco representado) e a burguesia cultivada. Não
em certos estudos, a riqueza de mediações tradicionais do existem mais, como no universo fantástico do castelão de
tempo em que funcionava ainda plenamente a troca entre Bomarzo, príncipes italianos suficientemente perdulários
cultura de elite - cultura popular, segundo o que disse para despender sem retorno as produções de sua imaginação.
Peter Burke sobre. o teatro, que foi o happeníng carnava- Quem encontramos atualmente no grupo dos inspira-
lesco na Europa ehzabetana. Evidentemente, o período con- dos? Autodidatas, bricoleurs como Piquassiette, o coveiro
t:mporâneo ~xige que concentremos a atenção sobre a fun- de Chartres que diz: "Trabalhei o mínimo, dentro de meus
çao dos meIOS, das técnicas e dos agentes: fazendo-nos próprios limites". Isso nos proporciona meios de informação
passar dos mascates de livros de porta em porta do século específicos: a autobiografia, o ex-voto, o monumento ceno-
~I~ (,o~ chamagnons da Champagne) até a aventura do táfico ou a vila "Mon Rêve"; como formas de expressão
d~cl.on~no de Pierre Larousse ao Petit lournal e depois ao particulares, a grafomania, o proselitismo, uma pedagogia
rádio, a casa de cultura ... ingênua, um messianismo que conduz, às vezes, a uma visão
N~ssa proliferação de instrumentos, apoios e estrutu- cósmica ou escatológica ...
ras, teria o intermediário cultural se tornado um personagem Tomemos essas limitações como se fossem outras tantas
ultrapassado e, no limite, suspeito? riquezas: lembrando-nos, todavia, de que não é suficiente
estar na situação de intermediário para ser um inspirado.
Desde que saibamos penetrar com simpatia em seu mundo,
224 MICHEL VOVELLE
sem nos deixar lograr por eles, esses personagens em pro
cesso de ruptura ou de instabilidade são "testemunhas privi-
legiadas", no sentido positivo do termo, de tudo que eles
podem nos trazer como contribuição a essa história do
sonhos, dos fantasmas e de um imaginário que não lhes é
próprio.
Uma cultura, duas culturas ou mais?
Dez anos de
Do leque de sugestões recebidas. a impressão que nos sociabilidade meridional*
fica não é de lima mistura confusa, mas precisamente a
convicção de que não se pode mais deixar de pôr em questão
o tema fundamental escolhido para essa ocasião: o da dia-
lética esterilizante entre cultura popular e cultura de elite. A sociabilidade é uma noção criada ou redescoberta há
A guerra de trincheiras onde parecíamos soterrados cedeu mais de dez anos na lista dos conceitos básicos de que a
lugar, da forma mais auspiciosa, a uma guerra de movimen- J-Iistória das mentalidades precisa para penetrar as realida-
to, que corresponde a essa leitura "dinâmica e pluralista" des coletivas com as quais lida. Foi uma tentativa de defini-
que com razão reclama lean Molino, autor de uma contri- ção desse tema que se propôs por ocasião de um encontro
buição com o título "Cornbien de cultures?" ("Quantas sobre as comunidades meridionais.
culturas?").
Acreditamos ter alcançado nosso objetivo se este semi- Dez ou quinze anos? Foi em 1966 que Maurice Agu-
nário tiver contribuído para essa tomada de consciência. Ihon apresentou a primeira versão de sua obra sobre a so-
ciabilidade provençal, subtitulada: Coniréries et associations
(Confrarias e associações). Imediatamente transformada em
clássico, abria uma senda nova na História, não só das men-
talidades, mas também das sociedades mediterrâneas e da
"rneridionalidade". Marco na história das mentalidades, in-
troduziu nesse campo a noção de temperamento coletivo,
acentuando a passagem dos estudos ideológicos para o estu-
do das atitudes que a caracteriza atualmente.
Seria prematuro tentar fazer um balanço ou uma sín-
tese em processo? Poderá dizer-se que seria preferível que
* Texto inédito de uma contribuição apresentada nos encontros de
Bendor (1980). sobre as comunidades meridionais. '
226 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 227
ele fosse apresentado por Maurice Agulhon mesmo e. de Primeiro, a análise de um modelo estrutural: uma espé-
minha parte. estou de acordo. Mas um dos sinais do sucesso cie de tipologia que postula a universalidade do fenômeno
do conceito assim introduzido, ou reintroduzido, é bem essa das confrarias no mundo meridional, e lhe dá uma nomen-
banalização que confirmou de início que ele correspondia clatura: as "confrarias-instituições" municipalizadas, do tipo
a uma necessidade de pesquisa. E o fato mesmo de que confrarias da juventude ou confrarias beneficentes; as con-
simultaneamente a Pénitents et francs-maçons, de Maurice frarias profissionais; depois as confrarias de "luminares";
Agulhon, também tenha aparecido Chambrettes des proven- e finalmente as confrarias de penitentes.
çaux (Cubículos dos provençais), de Lucienne Roubin, ates-
Codificação analítica que, a um só tempo, reutiliza com
tando bem o caráter operatório do conceito.
flexibilidade as nomenclaturas da época, como se permite,
Dez ou quinze anos, é justo o tempo necessário para
senão o anacronismo, pelo menos uma rec1assificação dentro
verificar se uma noção se esvazia, se ela corresponde a suas
de um quadro de categorias modernas normalizadas. Enfim,
promessas Oll simplesmente se foi logo tudo dito de saída.
um panorama sintético, identificando as constantes e traços
comuns.
Sociabilidade meridional: um conceito recebido e operatório O segundo tema, em poucas palavras, é justamente o
da construção de um modelo estrutural que conduza a um
Um dos paradoxos menores da noção de sociabilidade modelo dinâmico, cuja chave me parece ser a ênfase no
não é o de ser, enfim, uma recriação ou uma reprise. Sabe- reemprego de estruturas formais, mas também a transição
se o histórico da noção, que remete à escola dos historia- de umas para outras - dos penitentes aos franco-maçons
dores sociólogos conservadores de fins do século XIX, sob - revelando uma constância relativa (mas não um inva-
influência de Le Play e da qual Ribbe, em suas obras sobre riante no sentido dos antropólogos), sob a forma de uma
a família provençal sob o Antigo Regime, foi o represen-
sociabilidade que se perpetua sob feições diversas.
tante mais característico. Tradição familiar. leitura conser-
vadora dos temperamentos coletivos, de sociedades ordena- A terceira novidade do método, e que o distingue de-
das e do que lhe constitui o cimento, isto é, aquela hierar- cisivamente da sociabilidade à antiga (traço intemporal do
quização consentida que sereflete como eco desde os grupos temperamento coletivo), é justamente a tentativa, mesmo
elementares, como a família, aos mais complexos, como a que ela continue antes como projeto do que demonstração,
aldeia. A retomada por M. Agulhon, quase um século mais de associar esse traço de comportamento coletivo a um certo
tarde. de um conceito tão historicamente datado aparente- número de estruturas sócio-econômicas, de cuja existência a
mente, abre o exemplo de uma "esquerdização" (em todos pequena vila meridional urbanizada seria a base e o centro.
os sentidos do termo) extraordinariamente bem-sucedida de
um reemprego a serviço de uma história social nova, volta- Ancorando solidamente os traços de temperamento em
da para as mentalidades. Se tentarmos, com o recuo relativo uma História social, essa abordagem revela uma outra novi-
de que dispomos atualmente, estabelecer os elementos mais dade metodológica: o princípio da interdisciplinaridade,
novos e duravelmente fecundos dessa análise, parecem-me tanto no interior como fora do terreno histórico. Mesmo
que eles se articulam em torno de alguns grandes temas: que. com uma discrição às vezes excessiva, M. Agulhon te-
22!; MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTÃO 229
nha se abstido de fazer história religiosa, de qualquer modo §
ele pescou voluntária e frutiferamente em águas turvas. na 8
confluência das histórias - institucional, religiosa. política. o
c.
social - e. certamente. das mentalidades, como também ~
~ N
§'
no contato com a antropologia. o que a pesquisa simultânea "
"O o
;r._r-If.g
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v ~ ~ o
c.
.~ Q ~ .g N - Ir.
de L. Roubin por sua vez testemunha. g
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ee .-: ..a M eu <.;
EN....:...:E
Esse é um simples esboço que pretendemos ter redu- -es '"
-;
c.
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zido ao essencial: não estamos pronunciando um balanço '~
c.
como oração fúnebre. muito pelo contrário. ao nos pergun- e
tarmos em que se transformou. quinze anos depois. o tema
da sociabilidade.
Pode-se reconhecer, quinze anos depois, que o modelo
superou vitoriosamente as provas de validade e de confia-
bilidade. Em Provença, e mais amplamente na área medi-
terrânea, as abordagens, algumas monográficas, outras de
maior escala, atualizaram e confirmaram os termos da des- rI-
?:l
coberta proposta. tF.
8 ""o ""o ""o "
-e-
'O
""
>O
Sem dar às minhas pesquisas importância maior do
que merecem nessa evolução, lembrarei o lugar que têm as
confrarias - luminares. beneficentes, ou de penitentes -
na rede de gestos em torno da morte, tal como as analisei
em Piété baroque et déchristianisation, e da mesma forma
a importância da rede de sociedades populares no Sudeste
da França, seguindo as indicações cartográficas que apre-
sentei em 1979 em um quadro do Atlas historique de Pro-
vence.
Naturalizado em Provença e no Sul. e mesmo além do
Sul (Savóia, Norrnandia), o que não deixa de colocar uma
série de problemas a que voltaremos. o modelo recebeu o
direito de cidadania. Ele tornou caducas. e prematuramente
superadas. algumas pesquisas ainda em curso que haviam
subestimado o fato das confrarias (tal como o relatório em
vias de publicação das "visitas pastorais" que peca nesse
campo por um evidente excesso de simplificação).
230 MICHEL VOVEJ,.LE
o POPULAR EM QUESTAO 231
Fora da França, a abordagem foi bem acolhida na áre I
8
.-.....
mediterrânea e particularmente na Itália. Estudos realiza
dos tanto em Veneza (G. de Rosa) como no Basilicato 6
~
....
(idem) ou na arquidiocese de Nápoles (Galasso e C. Russo)
testemunham a atenção dada a uma perspectiva desde então
valorizada em toda a área mediterrânea.
A partir daí, o conceito difundiu-se progressivamente.
Começou-se a abordar. ainda que não fosse de forma mono
gráfica, o delicado problema da transição que ocorre no
século XVI e também o surgimento medieval das confrarias.
Estudos como os de M. T. Lorcin, de M. Gonon no Lyon-
nais e Forez, ou de Nuce de Lamothe ou de Baccrabêre em
Toulousain permitiram essa ampliação. De modo geral, ti
questão evidenciou metamorfoses, reconversões e declíni
das estruturas de sociabilidade; e para confirmá-lo, reme-
temos, por exemplo, a Phanette Cornu, no estudo sobre as
sociedades de morte no baixo Adour, ou mais ambiciosa-
mente a M. Segalen, na síntese geral que apresentou sobre
as confrarias na França moderna.
~
Em uma palavra, o conceito revelou-se operatório. Eu ....
-o
apresentaria como prova disso, o fato de que ele foi reto- §.....
mado na recente História da Occitânia - uma dimensão
regionalista que M. Agulhon não havia introduzido na pes-
quisa -; mas não nos surpreendemos que a sociabilidade
tenha sido utilizada para reanimar a noção de herança co-
letiva, cujo inventário o occitanismo atual tenta empreender.
Esta ampliação mesma, em todas as dimensões, remete
a um certo número de problemas, de cuja solução depende,
em meu juízo, o desenvolvimento ou a estagnação do con-
ceito. Passaremos a resumi-los em alguns pontos, ou algu-
mas interrogações.
Difusão das Confrarias de Penitentes segundo a rela-
ção das Visitas Pastorais.
MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 2)3
As fronteiras da meridionalidade: um problema aberto três senes de fontes aparentemente heterogêneas, a carto-
grafia da sociabilidade: na primeira, um mapa de inventário
Se me permitem usar uma expressão um tanto popular, das confrarias de penitentes no quadro da baixa Provença
Maurice Agulhon, trabalhando na Provença oriental, "acer- e do país de Nice: depois, em um desenvolvimento superior,
tou na mosca", no coração ou no epicentro da sociabilidade o mapa das sociedades populares revolucionárias em vinte
meridional. Isso traz imensas vantagens, permitindo apre- departamentos do Sudeste, considerado no sentido amplo.
ender em ato, dentro de toda a sua complexidade, o fenô- E, finalmente, na escala do Estado francês, uma cartografia
meno que tentamos analisar. de localização das lojas maçônicas ao fim do século XVIII,
Sem nos queixarmos de que a noiva é bonita demais, a partir da relação clássica de Le Bihan, propondo os ele-
pode-se também supor que uma localidade de fronteira mentos para uma reflexão global.
talvez seja igualmente apropriada para se avaliar, por con- Assumindo o que ela própria inevitavelmente continha
tato e por contraste, os traços específicos procurados. Em de disparatado, esta abordagem, constituída de enfoques
um domínio inteiramente diferente, a obra clássica de Paul entrecruzados, ainda assim levantava uma série de questões.
Bois, Pavsans de I'Ouest (Camponeses do Oeste) demons- O mapa das sociedades populares do Sudeste, tracejando ao
trou todos os beneficios que se podem obter de uma tal norte uma fronteira límpida e legível, punha em evidência
localização. Até onde, no espaço francês, pode-se legitima- o eixo de Durance, na Alta Provença alpina, assim como
mente utilizar o termo "sociabilidade meridional "? Recen- o vale do Ródano, até Valence. Mas levava também a ma-
tes trabalhos, como a síntese de ,M. Segalen sobre confrarias tizar as explicações simples demais, quer pela estrutura
na França antiga, estendendo a ocorrência do fenômeno até sócio-econômica (o povoado urbanizado), quer pela geogra-
áreas que evidentemente nada têm de meridional, da Nor- fia (o relevo), ou pela cultura (o grau de alfabetização e a
mandia à Flandres, implicam em colocar diversamente a língua falada). Esse mapa carece ainda de um desdobra-
questão. mento em direção ao Sudoeste aquitano, porém essa lacuna
De minha parte, bem cedo propus elementos para a pode ser preenchida em parte pelo mapa das lojas maçônicas
resposta, em 1971, em uma breve síntese intitulada "Essaí que sugerem, dependendo de verificação e inventário, uma
de cartographie des limites de Ia sociabilité méridionale à geografia plausível de uma outra sociabilidade meridional,
Ia fin du XV I11" siêcle " (Ensaio de cartografia sobre os a do Sudeste, até aqui bem menos conhecida.
limites da sociabilidade meridional ao fim do século XVIII), Desde então, as pesquisas têm avançado e permitem,
(atas do Congresso da Sociedade de Estudiosos de Tou- sem responder a todas as questões, sair da expectativa pru-
louse), a qual se apoiava, entre outros elementos, no mapa dente em que nos mantínhamos há dez anos. A publicação
das sociedades populares revolucionárias que eu havia antes em curso de Répertoire des visites pastorales (Relação das
realizado para o Atlas historique de Provence. A comuni- visitas pastorais), datadas do Antigo Regime, autoriza desde
cação que proponho hoje responde como um eco àquela já, apesar da imprecisão relativa de sua classificação das
primeira síntese de dez anos atrás. Minha primeira aborda- confrarias, uma cartografia por dioceses do Antigo Regime.
gem, lembrada resumidamente, tentava apreender em três assinalando a presença ou ausência de confrarias mencio-
vertentes diferentes. se assim se pode dizer, e a partir de nadas naquela relação. Teste grosseiro, admitimos. para
234 MICHEL VOVELLE o pOPULAR EM QUESTAO 235
supor a ausência ou presença das confrarias. Porém. no meridionais, cujos primeiros traços se verificam no. século
estado atual dessa pesquisa em andamento, os resultados j I XVI. Nossos mapas, porém, reflexo do ponto de vista d.o
estão prenhes de sugestões, à medida que o levantamento prelado visitante, são uma prova de difusão maciça, mais
permitiu estabelecer uma série de cartas cinéticas, ou cine que da simples presença ou ausência.
máticas conforme queiram, e por isso mesmo, enfocar em Segundo os mapas de difusão das confrarias ~e peni-
termos dinâmicos a abordagem da fronteira que tentamo' tentes considerados nos limites de precisão que admite a re-
definir. lação das visitas pastorais, outras formas de confrarias, es?e-
cialmente as beneficentes, permitem apreender, no essencial,
A bem da verdade, considerando a série de mapas de um outro modelo de sociabilidade de base religiosa. Isto é:
confrarias de penitentes que apresentamos, escalonados de se o Sul se encontra em boa classificação, aparecem outros
cinqüenta em cinqüenta anos, de 1550, a 1800, começamos pólos na França setentrional: Flandres e Normandia, nota-
a duvidar senão da pertinência da noção de fronteira, pelo damente, região de caridade e de "caridosos" ... Volt~m?~,
menos de sua estabilidade. É, com efeito, como um fluxo assim, ao tema inicial da especificidade de uma sociabili-
contínuo, semelhante a uma mancha de óleo, que se espalha dade meridional, que algumas obras recentes, como a de
a partir de um epicentro estreitamente circunscrito no final M. Segalen, tendem talvez a obscurecer.
do século XVI (Condado de Nice, baixa Provença e Comtat.
Savóia), até um Sudeste mais uniformemente compreendido
na primeira metade do século XVII; enquanto a segunda
Uma problemática enriqueci da
metade assiste não somente o Languedoc, mas também a
região de Lião, largamente considerada, incluir-se na área Essa sociabilidade meridional existe, certamente, mas
em estudo, realizando-se a última expansão para o Norte e fitar mais adiante ou simplesmente olhar em torno leva,
para o Sul, no início do século XVIII, desde Borgonha ao graças a uma multiplicidade de estudos monográficos reali-
Limusine e no vale de Garonne. O final do século das Luzes zados há dez anos, a complexificar o modelo, sem obscure-
registra, senão um recuo caracterizado, pelo menos uma cer seus traços.
tendência à retração ou à concentração em direção aos cen- Pode-se meditar, a partir de um certo número de indí-
tros originais da difusão. cios, alguns específicos, outros mais gerais. Será, por ex~m-
Em sua simplicidade, que pode parecer ingênua, essa plo, um traço específico o contraste entre espaço masculm.o
cartografia é valiosa: ela nos encaminha a uma noção muito e o espaço feminino, tão importante em M. Agulhon, e mal,s
mais dinâmica, historicamente contextualizada, das formas ainda em L. Roubin em Chambrettes des provençaux (Cubi-
de sociabilidade que podem aparecer melhor fundamenta- culos dos provencais)? Mundo de penitentes, mundo de ho-
das. Ela sugere também uma origem muito mais recente do mens: a correlação parece evidente na baixa provença; e
que se acreditava. mesmo pondo em dúvida a importância no geral não cabe contestá-Ia. Outras localidades, porem,
da segunda metade do século XV I para o início da Contra- nos apresentam uma clivagem menos clara. Os estudos rea-
Reforma nesse movimento; ainda que não seja o caso de lizados por nossos alunos nos Alpes, assim como em Barce-
refutar emergência medieval das confrarias de penitentes lonnette e em Vallouise, "conservatórios" dos altos vales.
o POPULAR EM QUESTAO 217
23ó MICHEL VOVELLE
diocese de Annecy (Genebra) e no Dauphiné, na diocese
como ta~bém na ~avóia (Tarentaise), demonstram a pre
sença muito generalizada de confrarias mistas de penitente de Grenoble.
Ao longo dos estudos feitos nas penínsulas mediterrânea
Chega-se, assim, senão a pôr em questão, pelo menos
-:- Itália e .Es~anha - percebe-se que o modelo alpino nao
a distinguir fortemente a diferença entre confrarias lumi-
e uma curiosidade. Depois, tomando o problema não no
nares e confrarias de penitentes; e, mais amplamente ainda,
espaço mas no tempo, é incontestável que se produziu uma
talvez, a valorizar a importância de heranças históricas di-
feminização crescente das confrarias, pondo progressivamen
versificadas na estrutura de um fenômeno como o das con-
te em questão o modelo inicial da clivagem de sexos.
frarias. Meio provavelmente de evitar uma leitura reducio-
. Mais amplamente, pode-se também perguntar se o pró nista, que não é a de Agulhon, mas da qual nem sempre
pno modelo ou o código e a forma propostos por M. Agu escapa M. Segalen, pondo no mesmo saco, se assim se pode
Iho~, com base em Provença, seriam transferíveis sem adap- dizer, penitentes, caridosos e "caridosos". normandos, fla-
taçoes e em que lugares. mengos e provençais.
O próprio autor, cuja prudência metodológica se co-
nhece, logo responderia "não", eliminando de pronto as Observemos que indiretamente o problema de Irontei-
contestações às vezes intolerantes dos que o acusam de se ras que acabamos de abordar mais acima emerge ele próprio
ter aventurado em um terreno - o da história religiosa - revalorizado dessa consideração, que impõe dar uma atenção
que não era o seu. Por ter, de minha vez, testado na Pro- especial aos postos avançados da meridionalidade: os peni-
vença, a partir de outras fontes e outros enfoques, a con- tentes de Creuse ou do alto Loire (até mesmo da Savóia),
fiabilidade de sua hipótese, posso dar minha caucão a um estranhos ao poderoso condicionamento que representa, no
modelo que não caducou. E preciso levar em conta, ainda, Sul, a estrutura social diversificada do povoado urbanizado.
que a diversificação tanto no espaço, isto é, das áreas de São penitentes urbanos, de Puy-en-Velay até Chambéry, bem
investigação, como também no tempo, visto que se remonta mais que penitentes de vilas ou de aldeias.
à época medieval, leva a tomar consciência da complexi- Isso implica mais do que discussões sobre detalhes.
dade das coisas, freqüentemente maior do que se pensava. São antes questões gerais, que testemunham a fecundidade
A distinção introduzida entre confrarias de penitentes de de um tema da sociabilidade, que não deixou de provocar
uma parte e confrarias luminares de outra, devotadas à
interrogações. Saindo da leitura laica, à qual M. Agulhon
manutenção de uma capela ou de ,um altar, muito nítida na
havia prudentemente esperado se restringir, para entrar no
Provenca durante a idade clássica, se turva quando fora daí.
campo da história religiosa, que ele não pode evitar, en-
Por exemplo, na Savóia, onde um recente estudo sobre as
trando em contato com a etnografia - outro encontro ine-
visitas pastorais da diocese de Tarentaise, ao fim do século
vitável - mas em um confronto mais pacífico do que per-
XVII. mostra a confusão constante entre a confraria do
mitia prever a coexistência pacífica Agulhon-Roubin, o tema
Santo Sacramento e a dos penitentes brancos, o que repre-
se enriqueceu sem perder seu valor.
senta mais do que uma curiosidade, visto que o traço se
dilata mais tarde pelo século XVII J e até o século XI X na
238 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 239
Estamos hoje, sem dúvida, dentro de uma perspectiva en Languedoc" (A festa no Languedoc) evocada por D.
mais ampla, tentados a estender o estudo da sociabilidade Fabre.
meridional para outras solidariedades não-institucionais e De uma nota a outra, mais que de um conteúdo a
não formalizadas. O recente investimento maciço operado outro, e sem nada perder de sua validade, a noção de so-
sobre a família nos convida a isto, e as aberturas como as ciabilidade meridional avança como aquisição duradoura
propostas por Y. Castan iHonnêteté et relations sociales en dos anos sessenta, incorporando novos campos à história
Languedoc, 1705-1780 (Honestidade e relações sociais no das atitudes e dos comportamentos coletivos.
Languedoc, 1705-1780» sobre a família meridional enco-
rajam esse caminho. Convém também, ao nível das solida-
riedades não formais mas invisíveis, abrir um espaço cres-
cente para os aspectos de clã e de máfia (pesquisados na
Córsega, por exemplo, por F. Pomponi); ou na Provença,
mais modestamente, as clientelas verticais, que, desde as
oligarquias municipais do Antigo Regime às lutas revolu-
cionárias, alcançaram um lugar a meio-caminho, por assim
dizer, entre a família e a confraria.
Da mesma maneira, uma nova corrente de pesquisas
recentes foi levada, por um outro caminho, a pensar a socia-
bilidade meridional antes por via do conflito que da insti-
tucionalização. A festa, em Pénitents et [rancs-maçons de
l'ancienne Provence (Penitentes e maçons da Provença an-
tiga) , nos fez abordar, através das estruturas organizacionais
(capitanias ou abadias da juventude) e dos .encontros oficiais
de romarias, de que forma, a partir dos círculos e cubículos,
se gerou a revolta. Há hoje uma tentação para se. revalori-
zar a outra festa, que se realiza fora das ficções de unani-
midade e da hierarquia de uma sociedade de ordem: isto
é, a festa carnavalesca ou selvagem, precisamente aquela
que rejeita os quadros e as consolidações.
Através dessas transições, se delineiam em filigrana as
mudanças de uma sensibilidade coletiva, talvez mais que a
evolução de uma problemática histórica. É significativo que
a Occitânia atual se reconheça no carnavalesco de "La fête
o POPULAR EM QUESTAO 241
trar O que me parece se traduzir ultimamente como a nova
exigência da festa.
Festa redescoberta, festa reivindicada
No Centro de Encontros de Saint-Maximin , na Proven-
ça, na primavera de 1980, fui convidado, na qualidade de
historiador - não ouso dizer historiador-conselheiro -
o retrocesso pela História para uma mesa redonda reunindo pesquisadores, animado-
res e autoridades locais, como prefeitos e conselheiros mu-
na redes coberta da festa* nicipais das vilas da região.
A contribuição essencial desses últimos atestava o de-
sejo coletivo, pelo menos muito generalizado, de fazer re-
D(/ mesma maneira que os historiadores redescobriram nascer a festa em suas localidades e se baseava no relato
de um certo número de experiências: reconstituições de
a morte no momento em que a sensibilidade coletiva expe-
"romarias" ou de festas votivas caídas em desuso, mas tam-
nment.al'a essa necessidade - ou exatamente às vésperas
bém, dentro de novos rumos, banquetes fraternais, até
- o interesse pela festa ressurgiu quase simultaneamente
méchouis '.' comunitários, um termo que, como se vê, não
entre os historiadores e o público. Fenômeno de mod ? A
r a.
e,:p icação parece um tanto míope: a dialética entre a curio-
remete exatamente à herança cultural provençal!
Essas experiências, geralmente positivas, colocavam vá-
sld~de científica e ([ demanda social nos exige uma medi- rias interrogações e problemas, surgidos da prática e ama-
taçâo que me parece mais profunda sobre a forma como durecidos através dela. Qual festa e para quem? Para os
muda a sensibilidade coletiva e a consciência que dela habitantes rurais? Para os residentes, pelo menos, em uma
10 111 (J 111 os,
Provença onde a estrutura atual da vila urbanizada atra-
vessa mutações profundas? Ou para os novos habitantes,
_ A reflexão que se propõe aqui não tem outra pretensão recentemente estabelecidos e naturalizados, não sem reticên-
senao a de condensar algumas idéias "no ar". Convidado cias por parte dos nativos, o que não os impede de estar
como historiador das mentalidades, e particularmente da freqüentemente na origem dessas iniciativas para pesquisa
festa, a me pronunciar ou opinar sobre a forma como se das raizes ou tradições, tão valiosas ainda que fabricadas.
coloca o p:~bl~ma atualmente, me permitirei partir de algu- Em seguida, no decorrer dos relatos de experiências, impu-
mas expenencias ou de alguns encontros pessoais para ilus- nha-se o problema da viabilidade dessas reconstituições: o
que denominarei, usando uma expressão que os animadores
,;, Comunjca~ão apresentada em outubro de 1980 ao colóquio de
estudos rurais (La Roche-sur-Yonj A ser publicada nas atas. " Em árabe: assado. O autor se refere a "churrascos" pieds-noirs.
(NT.l
242 MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 243
d: cam~o conhecem bem, o cansaço do terceiro ano, o qu convidado juntamente com Daniel Fabre, Georges Duby e
,!e decair o efeito inicial de surpresa e curiosidade. Tud ilguns outros, o sentimento de um certo equívoco na forma
IS.SOd~sembocando sem dúvida, na questão central, onde como se pode interpretar o ressurgimento da festa, diante
historiador pode se ver perguntado: é possível ressuscit r das formas de festas vulgarizadas e comercializadas da atua-
a festa à. moda antiga, fazer reviver hoje a romaria ou lidade. Embora D. Fabre e G. Duby estivessem de acordo
festa VOtIV~em um~ sociedade para a qual toda uma par m condenar, em nome da autenticidade, a "odiosa baliza"
c:l~ de antIg~s. motivações - desde a religião até a socia rtual, isso não decorria, evidentemente, dos mesmos pres-
blhd,ade tradicional - não desperta mais que ressonância supostos, nem de uma visão idêntica. Por outro lado, des-
longínquas e tornadas tão exóticas, com tudo que isso poss crições e testemunhos recentes nos levam a refletir, a partir
acarreta~ de reações positivas mas fugazes de curiosidad das festividades tradicionais reativadas do Languedoc, sobre
ou negativas de desinteresse, sobretudo da parte dos jovens'? li noção do popular na festa. São "populares" os palhaços
E, se for o caso de recusar receitas antigas e tratar d de Cournonterral? Sim e não, observando a reserva de uma
encontrar novos cenários. que festa "inventar"? parte da população a seu respeito, e não somente da fração
estrangeira e não nativa dessa localidade repovoada em
In~errogado .diret~mente, no terreno mesmo, se assim parte por quadros de Montpellier. E certo que não espera-
p_osso dizer, me sinto igualmente instigado por outras ques mos que a festa provocada ou ressuscitada corresponda
toes, quer de ordem hvresca ou então nascidas do contato àquela unanimidade que foi sempre ilusória. A presença de
com os grupos que procuram atualmente soluções novas em tensões é constitutiva da festa; contudo, é preciso que ela
Provença. seja integrada nesse nível mesmo.
A recente obra de Daniel Fabre, La Fête en Languedoc, Nos últimos anos, fui levado a acompanhar com aten-
oferece todo um, espectro de perspectivas estimulantes, pro- ção e simpatia uma experiência teatral que nos introduz
postas p:l~ etnologo, ao mesmo tempo como conhecedor diretamente no mundo da festa: a do grupo occitano arle-
e co-partJcI~ante da civilização occitana, sobre o tema de siano, do "Théâtre de Ia Carriéra", cujo público é muito
~m retorno a festa carnavalesca, da qual ele apresenta uma mais amplo que o local. Nas últimas peças de sua produção
lIustraçã~ rica, vívida e ao mesmo tempo dominada. Con- (Bogre de Carnaval, Monsieur Occitania, etc.) emerge, de
t~to preclOs~ para o provençal por adoção que sou, à me- forma cada vez mais consciente, a aplicação de um novo
dida que, ~Iem m~Asmoda reflexão que me foi proposta de modelo de festa no centro das novas cenografias: o carna-
fora, to~e~ consciência de toda uma série de experiências val, veículo tradicional da festa subversiva na longa dura-
e de cenanos - de Pézenas até Cournonterral e outros lu- ção, materializa o encontro da herança histórica e do tempo
gares - que testemunham a real vitalidade de uma festa curto da mensagem teatral contestatória.
que se conserva viva, ou reinventada, o que não é sempre Foi no decorrer desses diferentes contatos que vi deli-
o caso na Provença.
nearem-se vários problemas, o que é muito saudável, mas
..?uardei, todavia, de um diálogo a muitas vozes por também presenciei alguns descompassos. A festa carnava-
~~aslao de u~ encontro radiofônico sobre o tema da festa lesca do Languedoc, tal como a descreve D. Fabre, será ela
( Segundas-feiras da História", em 1978), para o qual fui plenamente aceita (não se pode negar que seja intensamente
244 MICHli:L VOVELLE o POPUL_\R EM QUESTAO 245
vivida por seus participantes) ou rejeitada? E ela o veículo mente, era um dos únicos a poder se permitir essa, imperti-
de massa de uma nova .linguagem? Não existe um risco nência - de dizer que a festa francesa, tal como a obser-
constante de uma espécie de marginalização dessas expe- vamos ainda hoje em dia. ainda que amortecida mas pos-
riências? Da mesma forma. através da seqüência de produ- sivelmente ainda viva em suas manifestações orféicas, é
ções do teatro da Carriéra nos últimos cinco ou seis anos, no essencial uma festa do século XIX. último lampejo de
parece-me acompanhar, das primeiras às últimas peças, um uma sociedade rural ainda existente quando ela surgiu.
processo que coloca, de maneira muito nítida, o problema Afirmação ao mesmo tempo verdadeira e falsa. e que se
do "popular", exacerbado ainda mais pela transferência da admite como tal. Georges Duby não ignora as pacientes
festa ao ar livre para a cena teatral. Passando da agitação vinculacões de certas festas até o século XIV e às vezes
e propaganda política do início, dilatada mas facilmente além, que hoje em dia nos esforçamos para reconstituir em
decifrável, ao carnavalesco de hoje, expressão paradoxal- sua continuidade na longa duração, como fizemos, Noel
mente mais sofisticada dos idiomas da loucura, terá o teatro Coulet e eu, recentemente em relação aos jogos da Festa
da Carriéra conseguido sua mutação? Algumas peças-enig- de Deus em Aix-en-Provence. Estatisticamente, porém, e de
mas para intelectuais iLa Liberté ou Ia mort (A liberdade maneira geral, a festa que se vem tentando revi ver hoje. se
ou a morte)), (triunfo imaginário da Revolução na Provença) origina. no essencial, das criações mais recentes do século
lançam dúvidas sobre isso. passado.
Assim, através desses poucos elementos descontínuos. Constatando a revivescência, vivida ou desejada, do
chego a uma colocação mais global de certas proposições. carnavalesco na atualidade, defrontamo-nos inevitavelmente
O reconhecimento de uma nova exigência festiva, nos com o problema, ao mesmo tempo velho e novo, do carna-
últimos anos. e singularmente no mundo rural ou do que val como forma acrônica e suporte contínuo das expressões
dele resta, me aparece como incontestável.· Ele se apresenta de inversão e das linguagens subversivas, sendo ao mesmo
igualmente em outros lugares, mas em termos específicos, tempo uma herança de longa duração. Esse carnaval, porém,
no mundo urbano das animaçõs de bairro. Porém, essa exi- não estará morto? Como morto está seu primo - o chari-
gência passa pela História e pela redescoberta? E um pro- vari - cujo desaparecimento, ao final do século XIX.
blema de historiador, se dirá, e, portanto, ocioso. Mas a Thompson e outros demonstraram resultante de sua inadap-
questão: "pode-se ressuscitar a romaria?" não é simples- tacão às novas estruturas e aos novos conflitos da sociedade
mente acadêmica. Ela nos remete aos precedentes históricos, industrial. A ressurreição do Carnaval pode ser mistifica-
tanto no Sul provençal da época felibreana, como na re- dora como reintrodução de uma ficção de muito longa du-
constituição enfim bem-sucedida de um certo tutu-pampan, ração a partir de uma forma vazia ou vale-tudo.
hoje em desuso, mas que foi eficaz, ainda que pareça evi- O problema sempre central, em toda a sua simplici-
dentemente um precedente que hesitaríamos hoje em repetir. dade. é que toda festa só pode pertencer ao seu próprio
No diálogo por ocasião das "Segundas-feiras da Histó- tempo; e, no limite, o retrocesso pela História se torna uma
ria", ao qual fiz alusão mais acima, Georges Duby lançou facilidade enganadora. Por outro lado, ocorre que os idio-
um paradoxo saudavelmente provocador - e. provável- mas da festa não se inventam da noite para o dia. e não
o pOPULAR EM QUESTAO 247
246 MICHEL VOVELLF.
que um grupo ou uma coletividade projeta simbolicamente
temos m_otivos para privilegiar uma modernidade pela sim- sua representação de mundo, e até filtra metaforicamente
ples razao de ser nova, e cujo caráter alienante já é com-
todas as suas tensões.
pr?vado. Se não. é o caso de se queimarem as balizas por
É lugar comum afirmar-se que a influência do con-
cnrne de vulgaridade agressiva, também não deveríamos
juntural se fez sentir na descoberta desse novo território.
ceder sem um exame aprofundado às tentações americani-
Mesmo que não tenha sido Maio de 68 o que levou os
zadas que elas nos oferecem.
historiadores a se interessarem pela festa, é certo que o
Será o retorno da História inteiramente supérfluo?
movimento de curiosidade coletiva suscitado pela grande
festa pseudo-revolucionária contribuiu para o amadureci-
Convergência: onde a História redescobre a festa mento de curiosidades novas.
Talvez seja o peso real ou superestimado da contesta-
. Estamos há anos no campo das redescobertas sincrô-
ção de Maio de 68 que explique por que a festa da Revo-
mcas, que vêem historiadores, sociólogos e práticos de cam-
lução Francesa foi um dos primeiros campos abertos nesse
po s~ debruçarem sobre os mesmos problemas, às vezes, ou
frequentemente, desconhecendo uns aos outros: 'o da morte domínio com a obra de Mona Ozouí, La fê te révolutionnaire
d.a famíli~, da criança ou do amor maternal. Observa-se ~ (A festa revolucionária), reflexão voltada para os rumos e
sImultanelda~e .~as descobertas pela história das mudanças meios da invenção de uma nova sacralidade, no seio desse
de u~a sensibilidade, ela própria inserida na História, e acontecimento fundador, que condiciona duravelmente o
d~ efeito de demonstração que daí resulta. O que não quer imaginário coletivo do, século XIX aos nossos dias. Parale-
dizer que o historiador trabalhe por encomenda assim lamente, em Les Métamorphoses de Ia fête en Provence,
como também não é ele quem abre os caminhos A' h . tó . 1750-1820, dediquei-me a acompanhar, na história da festa,
d f '1 . . IS ona
a esta I, ustra inteiramente esse propósito, provavelmente as variações na duração curta e na duração longa. Isto é,
nada superfluo, de .se, p.erguntar por que, na França e em como o sistema festivo provençal, ao fim do século XVIII,
outros lugares, a História redescobriu a festa há uns vinte profuso, organizado, complexo e já "folclorizado" anteci-
anos. padamente, se defrontou com a intrusão da festa revolucio-
Em uma perspectiva mais ampla, se pode ver nisso nária cívica e nacional: coexistência ou rejeição, fusão par-
~m aspecto da evolução atual da história das mentalidades cial, ou empréstimo pela festa de um novo estilo de ele-
a francesa, a ~ual, partindo, há uns vinte anos, de temas mentos ou de padrões de festa à moda antiga? Na Provença
que. estavam ainda ao nível de uma história cultural no descortinam-se os elementos para uma, reflexão na qual a
sentido amplo do termo, se orientou de maneira crescente festa de tipo carnavalesco, que tentamos redescobrir hoje,
para uma abor.dagem do gestual, das atitudes e dos compor- encontre seu lugar, principalmente no período entre 1792
tamentos coletivos, reflexos inconscientes das sensibilidad
- d . es e 1794, quando a eclosão dos "Maios" da liberdade foi
e expressao o Imaginário,
seguida de manifestações de descristianização da localidade:
_ ,Nessa perspectiva, que maravilhoso campo de observa- o auto-de-fé, eco invertido das fogueiras de São [oão, a
çao e a festa para o historiador: momento de verdade em
24~ MICHEL VOVELLE o POPULAR EM QUESTAO 249
mascarada anti-religiosa encenada no cortejo bur\esco du tFrançois Rabelais), assim como Hervé Cox tLa jête des
charivari e o julgamento de Caramantran. [ous - A festa dos foliões) e os diversos estudos de Na-
thalie Oavis sobre os grupos e confrarias da juventude no
Se a festa revolucionária serviu, de algum modo, como século XVI. antes das grandes transformações da idade
foco pa~a .reflexões posteriores, ainda falta muito por fazer clássica. Esse tema aponta para um lugar sobretudo residual
no domínio do estudo da festa revitalizada e folclorizada dessas estruturas, como se pode julgar pela síntese maior
d? sé.cul~ X IX, e no redespertar regionalista do qual o de M. Agulhon sobre a sociabilidade meridional, discutida
[élibrige ,. fornece um exemplo expressivo. fá o domínio sob o título Pénitents e [rancs-maçons.
da festa cí:ica, expressão da sacralização, cujas raízes M.
Oz~uf analtsou desde a Revolução Francesa, se acha assim, Limitando-me a recordar títulos e temas, nossa revisão
senao explorada, pelo menos aflorada mais que marginal- é certamente rápida demais. Mas não é nosso propósito
~e~te nos es~udos de M. Agulhon sobre as formas do culto produzir um inventário por si mesmo dessa vertente de
CIVICO republtcano no século XIX. redescoberta da festa na historiografia contemporânea. Vi-
Na esteira da Revolução Francesa, a História do pe- samos antes, de maneira mais modesta e ao mesmo tempo
ríodo clássico apoderou-se do tema da festa, polarizando os mais precisa, a avaliar como esse movimento respondeu às
curiosidades e exigências atuais da nova sensibilidade à
aspectos carnavalescos que fazem da festa um dos meios
Icsta .
. privilegiados da subversão de antigo estilo. Esse inclusive
é o título e, ao mesmo tempo, o tema da obra de Y. M. O balanço é inequívoco: se trabalhamos também, e de
modo interessante, com as grandes liturgias oficiais (entra-
Bercé, Fête et révolte (Festa e revolta), que analisa o con-
das jubilosas e procissões) é, no entanto, na festa carnava-
f1ito, senão constante, pelo menos freqüente nas manifesta-
lesca, na multiplicidade de suas significações, que se con-
ções festivas das emoções ou "furores" populares do século
centra atualmente maior interesse.
XVI ao século XVIII. Mas essa mistura de gêneros, que
faz passar da festa ao massacre e reciprocamente, é também Sentimo-nos assim autorizados a passar às franjas da
o tema central do ensaio de Emmanuel Le Roy Ladurie História, com uma obra como a de Claude Gaignebet so-
Le Carnaval de Romans (O carnaval dos romanos), onde: bre o carnaval, um ensaio que se pretende etnográfico,
no contexto das guerras de religião, os ódios de classes mesmo que se trate também de mitologia histórica. Pro-
ódios de clãs e ódios confessionais se organizam sob os tra- curando encontrar em um passado pré-cristão bem longín-
vestimentos e mesmo sob a forma da festa. O século XVI quo os elementos constitutivos da "outra religião", que tem
e a primeira metade do século XVI I guardam um interesse nos ritos e gestos do período carnavalesco um reflexo em
particular à luz dessa ótica, visto que aí se confrontam as migalhas, Gaignebet nos traz a tentação da História imóvel
tensões de um universo ainda não regulado, e onde a cultura e de uma festa sem idade, pelo menos cristalizada em he-
p.opula! conserva seu potencial subversivo. A esse propó- ranças remotas a serem decifradas. Por mais reservados que
srto, sao esclarecedoras as aberturas de Mikhail Bakhtine sejamos, por falta de imaginação talvez, em relação a uma
parte dessas reconstituições, nem por isso o conjunto con-
* Félibrige: escola literária fundada na Provença. em J 854. (N .T.) serva menos o grande mérito de nos colocar diante do gran-
o POPULAR EM QUESTAO 251
250 MICHEL VOVELLE
que a História sirva de loja de acessórios, nos arriscamos a
de ~roblema dos invariantes, ou simplesmente das formas
ter encontros inesperados em seus estoques.
obstinadas - das quais as estruturas de inversão carnava-
Convenhamos portanto, definitivamente, que em todos
lesca são um exemplo notável - e de sua longevidade como
os tempos a festa cria a herança que lhe é propícia. O que,
suporte e roupagem ("ouropel", teria dito um de nossos
aliás, não é destituído de interesse para o próprio historia-
antep~ss~dos) dos gestos de hoje. Vemo-nos, assim, de volta
dor, atento a perceber de que se nutre o imaginário coletivo
~~ ~ropno centro dos problemas dos quais havíamos partido
da época. Que me permitam um exemplo pessoal recente,
inicialmente,
que ultrapassa talvez os simples limites de anedota. Em
1980, velho jacobino que sou, havia desejado que os avi-
nhoneses celebrassem o segundo centenário do jovem Agri-
Mais amplamente informado: retorno à festa atual col Viala, o herói-criança da Revolução Francesa, ferido
na idade de treze anos pelos federalistas marselheses, quan-
Deve.mos retomar à festa contemporânea, depois dessa
do defendia a passagem de Durance. Viala é aquele que,
retrospectiva pela História em busca das bases, e, por vezes
talvez se lembrem, M. J. Chénier nos ensinou a homenagear
mesmo, das heranças ou justificativas? A honestidade mí- em Chant du départ: "De Bara, de Viala, a sorte nos dá
nima, p~e~iminar ~ todo discurso do historiador, me parece vontade ... ". Infelizmente, a municipalidade de Avignon
ser a?mltIr em princípio a inutilidade de sua disciplina a nem mesmo se deu ao trabalho de responder à minha carta,
respeito desse assunto. A História não saberia dar nem re- e assim fiquei com meus botões e meu herói fora de moda,
c~itas, nem cenários e nem mesmo legitimamente atribuir reflexo de um jacobinismo malvisto e provavelmente muito
rotulos de autenticidade. Seria risível retomar hoje os velhos pouco occitano .. , Feito, é possível, de um certo estilo de
mi.tos, felibreanos e outros, de redescoberta ou retorno às festa cívica republicana, embora atualizada ao sabor do dia.
~n~ens. Sabemos que esse ponto de origem, longe da auten- Mesmo que o historiador reconheça, sem muita amar-
ticidade da festa original, não existe naquilo que se deve gura, sua inutilidade, isso não significa, parece-me, que o
conceber como uma série de transformações que são teste- retorno na História, tal como nós o sugerimos, não possa
munhos. ~a plasticidade das estruturas formais. A direção ser um campo útil para reflexões.
do comitê de festas que me entrevistava quanto aos meios Ele nos ensina a rejeitar, nesse domínio também, o
para fazer reviver os jogos da Festa de Deus, em Aix so- mito cômodo da imobilidade: assim como não há uma His-
nhando com uma idade de ouro de 1900, com os estudantes tória imóvel, também não há uma festa imóvel. A festa na
a ~aráter com a faluche (boné tradicional de veludo negro, longa duração, assim como a podemos analisar através dos
hoje em desuso), passou a se mostrar muito mais reservada séculos, não é uma estrutura fixa, mas um continuum de
quando, após 'as eruditas pesquisas de meu amigo Noel mutações, de transições, de inclusões com uma das mãos e
Coulet sobre o cortejo carnavalesco do rei dos Mouros e afastamentos com a outra ...
dos. h~~ens selvagens encontrados na versão original da Essa plasticidade real não dispensa, todavia, que se
cenrnorua, eu o aconselhei a contratar a mão-de-obra do coloque o problema do que denomino as "formas obstina-
Ma~hreb, ~a cidade antiga, a fim de cor responder ao perfil das", isto é: as estruturas formais da festa, aptas a renascer
mats proxrmo da autenticidade original. Se pretendermos
152 MICHEL VOVELLE
o POPULAR EM QUESTAO 253
de suas cinzas em contextos totalmente diferentes, como transmitido pelas celebrações cívicas ou folclorizadas do
vê, por exemplo, em um recente estudo sobre a Históri .éculo X IX, com uma real continuidade na festa oficial.
da festa, por referência à peregrinação de Nossa Senhor
Do lado oposto, está a festa carnavalesca, estrutura
dos Ovos em Gréoux-les-Bains nos Alpes da Alta Provenç
fulgurante da inversão e da contestação, tão antiga certa-
(Régis Bertrans, em Monde alpin et rhodanien, 1978). Tra
mente quanto as liturgias oficiais das quais ela é o oposto.
ta-se de antiga peregrinação a um santuário da Virgem que,
De fato, no decorrer de nossos contatos e encontros, cons-
como seu nome indica, é intercessora para as mulherc
tatamos ser o carnaval que absorve hoje a simpatia dos
atormentadas pelo problema de esterilidade. Segundo a ve
organizadores. Mas pode o carnaval se organizar? A libe-
lha prática, que ouso denominar cristã, as mulheres da vilu
ração das paixões, catarse institucionalizada, tende inevita-
sobem arduamente, a cada ano, com dois ovos nos bolsos
velmente a ser recuperação. O carnaval-instituição se fossi-
de seu avental, um para ser enterrado durante um ano na
Iiza, após ter-se infantiJizado no século XIX, seguindo um
porta da capela e exumado no ano seguinte; o outro para
processo bem conhecido na sociologia clássica. Ou, pelo
ser consumido prontamente... Hoje, o velho ritual está
menos, ele continua sendo uma porta falsa.
bem esquecido, exceto pelos folcloristas e pelos historiado.
res: mas a peregrinação ressurge anualmente, sob forma de
Não podemos finalmente deixar de refletir sobre a
uma omelete festiva de predominância feminina ...
natureza e finalidade da festa, ainda que o historiador passe
Obstinação dos gestos mesmo transformados... Em a palavra nesse domínio ao personagem ambíguo do anima-
recente colóquio no Centro Meridional de História Social, dor, esse herdeiro do abade ou do capitão dos foliões. Esses
das Mentalidades e das Culturas em':Aix-en-Provence, depa- últimos, porém, administradores ou delegados pela comu-
ramo-nos com o grande problema da história das mentali- nidade na antiga sociedade, não se defrontavam com a ne-
dades como "história das resistências" ou das "prisões de cessidade de inventar. Convidar a refletir é o mesmo que
longa duração": isto é, do que se convencionou chamar, impedir conclusões prematuras. Um certo número de ques-
em uma explicação um tanto verbal, talvez, a força da tões, que não podem ser elididas, se colocam entretanto,
inércia das estruturas mentais. Nesse domínio, é evidente para iniciar o debate.
que a festa oferece lima multiplicidade de exemplos 'demons- Deveríamos admitir que a festa-herança sob a forma
trativos.
religiosa folclórica (do tipo romaria no Sul provençal) ou
Pode-se dizer que isso não é propriamente surpresa, cívica (criada no século XIX) está morta junto com a socie-
sendo previsível essa dimensão. Parece-me, com efeito, veri- dade rural dita tradicional? Seria talvez subestimar as pos-
ficar-se, tanto no campo histórico como nas estruturas atuais sibilidades de sobrevivência ou de adaptação nada des-
da festa, a coexistência de dois modelos que, para simpli- prezíveis.
ficar, denominarei a festa e a antifesta (que é uma outra É preciso, em todo caso, meditar sobre a legitimidade
festa, mesmo que se possa duvidar). Em primeiro lugar, a ou a possibilidade do retorno a um estágio da festa carna-
festa como liturgia institucionalizada, regulada, repousando valesca supostamente anterior ao precedente, sob risco de
sobre a ficção da unanimidade, da comunhão sem falhas substituir a mitologia passadista e conservadora da renas-
de lima comunidade, Modelo do antigo estilo, que nos foi cença felibreana por outra mitologia, sobre a qual também
254 1.iLCHEL VOVELLE
se poderia indagar se é autenticamente popular. Em segin
mento, teríamos um novo conformismo, no antípoda d,
verdadeiro carnaval, estando bem entendido que o verti
deiro carnaval de hoje é a saída do baile de sábado à noit
onde os HeLl Angels da esquina se chocam ferozmente.
Resta a constatação de uma necessidade, de um sonho Quarta Parte
que é testemunha do clima atual e de um momento hi tl
rico bem particular, que denominarei, para simplificar, I
nostalgia das raízes (roots), tal como buscamos atualment "Um tempo mais longo":
encontrá-Ias, seja na memória como no gestual. resistências e longa
Com o. papel de discrepante que ela desempenha ness
debate, a musa da História, como a de Chirico, é, por defi
duração nas
nição, inquietante. mentalidades coletivas

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