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CULTURA ORGANIZACIONAL E A GESTÃO DA INFORMAÇÃO


CONTÁBIL COMO ESTRATÉGIA NAS EMPRESAS FAMILIARES

Profa. Mestre Marinês Santana Justo Smith1 (Uni-FACEF)


Profa. Dra. Barbara Fadel2 (Uni-FACEF)

Introdução

Em uma economia de mercado globalizado, onde os diversos agentes


são relativamente livres para tomar decisões a respeito do que comprar, produzir,
como ganhar ou aplicar dinheiro, a informação tem papel fundamental. Sendo assim,
dificilmente a empresa alcançará vantagem competitiva sem utilizar devidamente
abordagens e métodos de gestão da informação e do conhecimento.
Neste sentido, o sistema de informação contábil se apresenta como um
processo de coleta e transformação de dados das operações cotidianas das
empresas em informações contábeis capazes de gerar conhecimento para o
processo decisório a nível estratégico. No entanto, muitos autores mencionam que o
núcleo mais profundo da cultura organizacional, em nível de valores, crenças e
pressupostos, como sendo um dos principais fatores impactantes no processo de
tomada de decisões na empresa.
Diante do exposto, este estudo, de cunho descritivo, tem como objetivo
discutir a relação da cultura organizacional com a gestão da informação contábil em
empresas familiares. Com o intuito de averiguar se elementos da cultura empresarial
têm influência inibidora na produção, organização e uso da informação contábil
como matéria-prima na construção de conhecimento para o processo de tomada de
decisões.
Para tanto, através da pesquisa bibliográfica busca-se mostrar como os
autores pontuam o valor da leitura e interpretação dos elementos da cultura
organizacional para a prática empresarial; discutir a gestão da informação e do

1
Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação pela UNESP/Marília
Mestre em Administração com ênfase em Gestão Empresarial – Uni-FACEF – Franca
Profa. do Departamento de Ciências Contábeis – Uni-FACEF - Franca
2
Doutora em História Social pela USP
Profa. do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação - UNESP/Marília
Profa. do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional – Uni-FACEF
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conhecimento como ativos organizacionais; a informação contábil como estratégia


no processo administrativo e de tomada de decisões.
A partir de estudos dedicados às pequenas empresas foi possível
relacionar a percepção do empresário e do contador do valor da gestão da
informação contábil com o referencial teórico dos elementos da cultura
organizacional e desta forma responder a questão que norteia este estudo, ou seja,
se elementos da Cultura Organizacional podem limitar o desempenho estratégico da
informação contábil no processo decisório nas empresas familiares.

1 Cultura Organizacional
Sob a perspectiva da Antropologia, a cultura é constituída por um
conjunto de significados, classificados em termos de representações e símbolos,
sendo o mundo social construído segundo o significado que as coisas, os eventos e
as interações assumem para determinado grupo social (MORAES, 2004).
Holanda (1975, p.74) retrata que “Cultura é tudo que com o passar do
tempo se incorpora na vida dos indivíduos, impregnando o seu cotidiano”.
Pode-se dizer que formação da cultura acontece dentro de um
processo histórico, no qual as pessoas, em interação entre si e com o ambiente vão
absorvendo valores, princípios, que ditam regras, comportamentos e ações para
esta sociedade. Corroborando com esta percepção, Schein (2001 p.178) que diz
que “a cultura é, portanto, produto do aprendizado social, e as maneiras de pensar e
agir compartilhadas que funcionam acabam se tornando elementos da cultura”.
Desta forma, a cultura pode ser definida como um comportamento
transmitido socialmente e que não é adquirido individualmente nem geneticamente,
é algo que aprende com os outros (MORAES, 2004).
Ao trazer o conceito de Cultura, para o contexto das organizações
busca-se subsídios para o conhecimento de Cultura Organizacional. Visto que as
organizações podem ser consideradas como um subsistema em interação com um
sistema maior e mais abrangente.
Uma visão apresentada por Freitas (2000, p. 97) mostra a
“cultura organizacional primeiro como instrumento de poder; segundo,
como conjunto de representações imaginárias sociais que se
constroem e reconstroem nas relações cotidianas dentro da
organização e que se expressam em termos de valores, normas,
significados e interpretações, visando um sentido de direção e
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unidade, tornando a organização fonte de identidade e re


reconhecimento para seus membros”.

Entretanto a idéia de “unidade” como uma única cultura dentro de uma


empresa é contestada por Louis apud Freitas ( 2007) o qual assevera que pode
haver diferentes culturas entre os grupos de trabalho e, portanto entre as categorias
profissionais de uma mesma empresa.
Pettigrew (1996) retrata a cultura empresarial como um conjunto
complexo de valores, crenças e pressupostos que definem os modos pelos quais
uma empresa conduz seus negócios. Ou seja, um sistema de significados que é
aceito coletivamente por determinado grupo durante específico tempo e que
interpreta para as pessoas as suas próprias experiências e situações.
Sendo assim, a descrição dos elementos que constituem e inserem
significados a cultura organizacional, seu funcionamento e, ainda as mudanças
comportamentais causadas por eles, são maneiras de dar à cultura um tratamento
mais concreto ou de mais fácil identificação (FREITAS, 2007).
Os elementos mais destacados para explicar e estudar a cultura
organizacional, segundo Freitas (2007, p. 16), representam as partes que
caracterizam o comportamento de uma organização e não da sociedade em geral e
são descritos pela autora como: a) Valores; b) Crenças e Pressupostos; c) Ritos,
Rituais e Cerimônias; d) Estórias, Mitos e Heróis; e) Tabus e Normas e f) Processo
de Comunicação;
Esses elementos promovem entendimento para o grupo, onde a
passagem dos significados se dá como uma coisa aceita e causa impacto para
novos funcionários, clientes e qualquer agente que interage com a empresa. E
passam a consistir em um conjunto de normas informais que indica como as
pessoas têm que se comportar.
Dentre esses elementos, Valores, Crenças e Pressupostos são
apontados como fatores que influenciam no processo de tomada de decisões.
Corroborando com esta assertiva Freitas (2007) destaca a influência dos Valores na
indicação das questões prioritárias e no tipo de informação que é mais relevante no
processo decisório.
Os Valores são vistos como o cerne da cultura organizacional. São
considerados como guias para o comportamento organizacional no dia-a-dia. Freitas
(2007) aponta como tarefa dos administradores e líderes a modelagem, realce e
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encarnação dos valores da organização. Uma vez bem definidos pela direção,
identificados e reforçados pelas lideranças, os valores podem ser assimilados
facilmente pelos subordinados.
Entretanto, Schein appud Freitas (2007) destaca os pressupostos como
elementos principais da cultura, em virtude de sua influência sutil na tomada de
decisões. As Crenças e pressupostos são termos utilizados como sinônimo, nos
estudos culturais, para expressar aquilo que é aceito como verdade na organização
e, portanto inquestionável, uma verdade natural (FREITAS, 2007 p. 17).
Pettigrew (1996) afirma que o núcleo de crenças e pressupostos é
evidente nas estruturas, nos sistemas, nos símbolos, mitos e até mesmo nos
padrões de recompensas dentro da organização.
Desta forma, as crenças e pressupostos participam, com os valores, do
núcleo da Cultura de uma empresa. Estes são os elementos base de todo o
comportamento, jeito de ser e personalidade da empresa. Mas as crenças e
pressupostos não são divulgados claramente aos seus integrantes, uma vez que
não se apresentam de forma clara, mas sim por ações, posições e visões. E por isso
são elementos críticos na cultura organizacional, pois além de definir o que os
tomadores de decisão percebem como relevantes, ainda orientam na identificação
de problemas, nos processos de escolha e de mudança na empresa.
Entretanto, Freitas ( 2000 ) observa que no ambiente das pequenas
empresas é mais difícil de apreender os elementos da cultura na mesma dimensão
das grandes empresas, isso devido à importância do papel do patrão, do chefe, da
autoridade, bem como à proximidade das relações interpessoais.
A partir do exposto entende-se que, no ambiente das pequenas
empresas, a origem de certos elementos da cultura organizacional pode estar
relacionada com base nos valores, crenças e pressupostos de seus dirigentes. Em
conseqüência, ocorre influência na indicação das questões prioritárias e na gestão
da informação contábil como estratégia no processo decisório em decorrência da
centralização de poder no dirigente.

2 Gestão da Informação

Valentim (2006, p. 10) ressalta que muitos gestores percebem,


erroneamente, a gestão da informação resumida apenas em implantação de
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tecnologias. Sendo que os vários elementos inerentes à informação e conhecimento


como, por exemplo, a cultura organizacional e informacional, a comunicação
organizacional e informacional, a estrutura formal e a informal, a racionalização dos
fluxos e processos, são essenciais ao processo de gestão da informação no
ambiente das organizações.

Com a gestão dos processos de informação e de conhecimento é


possível impelir-se na aprendizagem constante, o que inclui o desuso de
pressupostos, normas e crenças que perderam validade e também mobilizar o
conhecimento e a experiência de seus membros para gerar inovação e criatividade
(VALENTIN, 2008).

Moraes e Fadel (2008) definem gestão da informação como sendo o


processo que abrange a obtenção, o desenvolvimento ou a utilização de recursos
básicos como econômicos, físicos, humanos e materiais, para o manejo da
informação no ambiente em que está inserido.

2.1 Dado, Informação e Conhecimento

Segundo Sordi (2008, p.7) “Dados são a coleção de evidências


relevantes sobre um fato observado”. Ainda segundo o autor, com a manipulação
destes dados, organizando-os, consolidando-os, dando-lhes um significado, gera-se
a informação.
Corroborando com esta perspectiva Carvalho ( 2006, p.85) assegura
que “O Sistema de Informação (SI) permite que uma série de dados seja captada,
manual ou automaticamente, e sejam processados de forma que se convertam e se
transformam em informações úteis”.
No sentido de mostrar que a criação e o uso da informação
desempenham um papel estratégico na administração organizacional Choo (2006)
destaca 3 arenas distintas, mas consideradas como processos interligados e
prementes para ação organizacional:

 Uso da informação para criar significado – trata-se de dar


sentido às mudanças do ambiente externo, visto que as empresas estão sob a
influência de estatutos fiscais e legais que definem sua identidade e regras
societárias, opinião pública como fatores limitadores de sua atuação.
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 Uso estratégico da informação – a criação, organização e


processamento da informação de modo a gerar novos conhecimentos por meio de
aprendizado e partilhados entre os membros da empresa e transformados em
inovação.
 Uso da informação e conhecimento para a tomada de decisão –
quando há conhecimento suficiente a empresa está preparada para escolha racional
de seu curso de ação, ao encontro de seus objetivos.
Percebe-se que “A organização que for capaz de integrar
eficientemente os processos de criação de significado, construção do conhecimento
e tomada de decisões pode ser considerada uma organização do conhecimento”
(CHOO, 2006, p. 30).

Sendo que a soma destes conhecimentos, intrínsecos aos membros de


uma empresa construindo vantagem competitiva, é conceituada Capital Intelectual
como citado por Stewart (1998). Assim no contexto deste estudo, pode-se definir
como material intelectual a eficácia da aprendizagem da organização e a eficiência
da gestão da informação e do conhecimento pela empresa.

Moraes e Fadel (2006) destacam que o valor da informação pode ser


medido pela maneira como ela possibilita aos tomadores de decisões atingirem seus
objetivos e metas da organização.

3 Informação contábil financeira para o processo decisório a nível estratégico


nas pequenas empresas

Segundo Cia (1998), a informação contábil pode se distinguir dos


outros tipos de informações por ser: a) desenhada para ser usada em decisões
econômicas, assim as informações históricas da empresa, ou seja, o que aconteceu
no passado pode ser utilizado para decidir sobre o futuro. Analisando o passado, há
possibilidade de se esclarecer quando a relação causa e efeito do passado se
repetirá no futuro; b) de natureza quantitativa e financeira, sendo de grande
importância nas decisões do que aplicar ou quanto financiar em uma tomada de
decisões.
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Chiavenato (1997, p. 710) esclarece sobre tomada de decisões quando


define decisão como “o processo de análise e escolha, entre várias alternativas
disponíveis, do curso de ação que a pessoa deverá seguir”.

E este processo de tomada de decisões ocorre a nível estratégico ao


abarcar os altos executivos da organização, responsáveis pelo estabelecimento dos
objetivos e planos da empresa, e ainda pelas decisões quanto às questões de longo
prazo da empresa relacionadas com sua sobrevivência, crescimento e eficácia geral
(BATEMAN; SNELL, 1998).

Na concepção de Chiavenato (1997) o processo decisório é complexo


e depende das características pessoais do tomador de decisão, pois o processo
inicia-se pela percepção da situação, que pode ser um problema ou aproveitamento
de uma oportunidade até a escolha e implementação de uma alternativa para
alcance de um objetivo proposto ou na solução de um problema.
O autor ainda versa que para ativar o processo de tomada de decisão,
a empresa precisa coletar e processar uma enorme variedade de informações para
permitir a escolha de alternativas. Em uma economia de mercado, onde os
indivíduos são relativamente livres para tomar decisões a respeito do que comprar,
produzir, como ganhar ou aplicar dinheiro, a informação tem papel fundamental.
Cia (1998) ressalta que é através da informação disponível no mercado
que se torna possível alocar, de forma eficiente, os recursos disponíveis e ainda
possibilitar o fluxo dos recursos financeiros entre os poupadores e os investidores.
A contabilidade se apresenta como um processador ao transformar
dados das operações cotidianas em informações contábeis capazes de gerar
conhecimento para o processo decisório a nível estratégico. Nesse sentido,
Hendriksen (1999) corrobora ao citar que a Associação Americana de Contabilidade
afirma que a contabilidade é o processo de identificação, mensuração, classificação,
acumulação e comunicação de informação, principalmente de natureza quantitativa,
sobre as empresas, que seja útil para tomada de decisões por usuários.
Assim, um sistema de informação contábil deve identificar as
informações relevantes oriundas de fatos econômicos e administrativos passíveis de
registro e útil para a tomada de decisões. E ainda, classificar e acumular as
informações por categoria: vendas, custos, despesas, investimentos, entre outras. E
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finalmente, resumir e comunicar na hora e na forma certa, através de


demonstrativos, relatórios e controles, provendo os dirigentes e os demais usuários
de uma variedade de ferramentas para tomar decisões.
Dessa forma, um sistema de informação contábil deve ter como
propósito fornecer informações úteis aos usuários internos (dirigentes e funcionários)
e a usuários externos (investidores e credores), visto que a qualidade das decisões
está diretamente ligada à qualidade das informações.
Mas estas informações precisam ter transparência, comparabilidade,
confiabilidade, relevância e entendimento. Sordi (2008), no sentido de exemplificar a
importância das boas práticas da administração da informação na área contábil,
destacou a importância das informações serem íntegras, precisas, confiáveis, de
abrangência nem excessiva e nem escassa e que tenham principalmente alta
disponibilidade.
No sentido de especificar os tipos de informações contábeis, Kaplan e
Atkinson (2000) definem a contabilidade financeira como sendo histórica e
informante principalmente aos usuários externos e a contabilidade gerencial como
sendo atual e orientada para o futuro como ferramenta para os usuários internos.
Desta forma, a contabilidade financeira tem o propósito de prestar
informações do impacto de decisões tomadas pelas empresas no seu valor
patrimonial, financeiro e econômico, através do registro histórico de suas transações
ao longo do tempo. O principal usuário externo das informações contábeis das
pequenas empresas é o governo, que impõe exigências em relação às legislações
tributárias, fiscal e previdenciária.
Já a contabilidade gerencial é voltada essencialmente aos usuários
internos, como apoio na tomada de decisões para promover a eficiência na atividade
operacional básica das empresas, pode-se destacar práticas como cálculo de custos
de mão-de-obra, matéria prima e despesas gerais; orçamentos de caixa, receitas e
capital; orçamentos flexíveis; previsões de vendas, custos padrão, preços de
transferência e indicadores de desempenho divisional (KAPLAN; ATKINSON 2000).
Entretanto, a contabilidade fiscal é permeada de informações
estruturadas para apuração e cumprimento das obrigações fiscais e trabalhistas.
São informações peculiares e específicas para uso dos órgãos oficiais demandantes
destas, que nem mesmo servem para gerenciamento do negócio.
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A complexidade e a competitividade do ambiente empresarial de hoje


destacam a necessidade de informações contábeis com qualidade. E, a combinação
da enorme expansão da tecnologia eletrônica com a tecnologia de informação
facilita a criação de sistemas de informações contábeis direcionados aos usuários
externos: credores, investidores e ao fisco. Em paralelo, pode gerar informações
gerenciais mais precisas aos gestores da empresa para tomada de decisões e ainda
com destaque para o fator tempo, ou seja, facilidade de acesso em pouco tempo.
Kaplan e Johnson (1996) ao relatarem a história da contabilidade
gerencial asseveram que esta não é conseqüência das necessidades das grandes
empresas e sim as grandes empresas é que são conseqüências da utilização da
informação contábil gerencial. Desta forma, os autores atestam os benefícios da
utilização das informações contábeis como propulsores do crescimento das
pequenas empresas.
Neste sentido, vimos que Choo ( 2006, p.29) destaca a relevância do
uso estratégico, de forma racional, da informação nas decisões, o que caracteriza
uma teoria a ser aplicada. Entretanto, o autor observa que “Na prática, a
racionalidade da decisão é atrapalhada pelo choque de interesses entre sócios da
empresa, pelas barganhas e negociações entre grupos e indivíduos, pelas limitações
e idiossincrasias que envolvem as decisões, pela falta de informações e assim por
diante”.

O autor ainda chama atenção que uma forma de analisar o


comportamento de uma organização é analisar a estrutura e processo decisório
desta. O que instiga conhecer o comportamento dos gestores das pequenas
empresas frente à informação contábil.

4 A relação da informação contábil com os contadores e os dirigentes das


pequenas empresas
Parece clara a relevância da gestão da informação contábil como
estratégia para qualquer empresa, mas muitos empresários de pequena empresa
parecem não estar convencidos da importância desta, como instrumento
administrativo e no processo decisório.
Em seu estudo Resnik (1990, p.139) apurou que muitos empresários
de pequenas empresas atribuem a falta de interesse por se acharem envolvidos
demais à área produtiva da empresa, não sobrando tempo para se dedicar aos
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relatórios contábeis. O que levou o autor concluir que, sob a perspectiva do


empresariado pesquisado “as funções contábeis e de controle são tidas como não
produtivas” subestimando sua contribuição ao desempenho administrativo e seus
reflexos na eficiência operacional.
Tranjan (1996) lembra que nas empresas familiares o empresário é
responsável pelo processo decisório a nível estratégico.
Corroborando com esta reflexão Maximiano (1995) destaca que o
processo de resolver problemas é influenciado por algumas condições e fatores
ligados ao próprio problema e também por características pessoais do tomador de
decisões.
Há uma tendência em confundir informação com opinião, fator que
muitas vezes dificulta a solução de um problema. Com base em informações
insuficientes as pessoas passam a utilizar opiniões próprias, ocorrendo assim o
predomínio da intuição sobre a racionalidade (MAXIMIANO, 1995).
E isso ocorre com veemência nas pequenas empresas, observa
Tranjan (1996) sobre o drama destas, em que seus dirigentes acumulam funções, e
ficam envolvidos nos problemas do cotidiano, não sobrando tempo para reconhecer
uma oportunidade ou o problema real. Muitas vezes eles não têm competência em
determinado assunto e deixam ser levados pela intuição e desprezam o amparo da
informação sistematizada.
Maximiano (1995) corrobora ao discorrer sobre o excesso de confiança
na experiência que leva o tomador de decisões a acreditar que sua experiência é
suficiente para resolver problemas, desprezando o valor do conhecimento e da
validade das informações. Neste sentido, Tranjan (1996) observa que muitos
administradores de pequenas empresas freqüentemente se inserem nesta situação,
pois trabalham com a improvisação e principalmente com a intuição e adverte sobre
as situações imediatistas que têm trazido conseqüências drásticas à permanência
das pequenas empresas no mercado.
Smith (2000) em seu estudo com as pequenas empresas calçadista de
Franca apurou que a maioria das empresas pesquisadas não fazia uso da
informação contábil para o processo administrativo e na tomada de decisões, isso
sob a alegação do costume e da preferência do uso da “própria experiência e
intuição”. Importante ressaltar que a maioria dos empresários pesquisados é oriunda
de setores produtivos de outras empresas calçadistas e em suas empresas estão
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envolvidos nas tarefas operacionais “apagando incêndios” do dia-a-dia. E quando


questionados sobre a contabilidade, a maioria disse entender a importância desta na
gestão dos negócios, mas para eles o papel da contabilidade em suas empresas é
principalmente para cumprir as exigências fiscais.
Por outro lado, também foi apontado no estudo de Smith (2000) o fato
de alguns empresários, que gostariam das informações contábeis para apoio na
tomada de decisões, se depararem com muitos profissionais contábeis que atuam
apenas como mediadores entre empresa e governo. Isso, devido só oferecerem
serviço contábil para o cumprimento das exigências fiscais, sob a justificativa da
constante burocracia e forte instabilidade dos procedimentos legais e tributários que
envolvem a rotina contábil para atender o fisco.

Considerações
A partir do exposto, constatou-se que a preferência em usar a intuição
e elementos empíricos, ao invés de informações contábeis sistematizadas, para o
processo de decisão, passou a ser considerada como um pressuposto básico do
dirigente. E, com a repetição desta prática ao longo do tempo, este pressuposto foi
incorporado à cultura organizacional das empresas familiares estudadas.
O que denota que elementos da cultura organizacional,
especificamente valores, crenças e pressupostos podem inibir a atividade do
contador no tocante à gestão da informação contábil como estratégia nestas
empresas familiares. Visto que, os empresários dispensam a elaboração da
informação contábil, independente do valor que o contador qualifica a informação
contábil para gestão empresarial.
Entretanto, também foi observado alguns casos onde empresários
gostariam de ter a informação contábil para auxiliar no curso de suas ações, mas
enfrentam contadores que trazem consigo traços culturais, influenciados por
experiência em outras empresas, por instituições de ensino e principalmente pelos
órgãos arrecadadores das obrigações fiscais e tributárias. Este fato caracteriza o
contador como metódico, detalhista, formal e focado apenas no cumprimento das
obrigações fiscais. Neste contexto, o valor que guia o comportamento deste
profissional gera uma subcultura, no sentido que seus valores diferem dos valores
da empresa e, inibe a construção do conhecimento para o processo decisório
nestas empresas.
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Pode-se inferir a partir deste estudo que, a tendência da elaboração de


informações apenas para atender o fisco e tomar decisões com base na experiência
empírica gera ausência do conhecimento para ser usado na seleção do curso de
ação orientado para os objetivos. E conseqüentemente, a empresa deixa de ter o
conhecimento como ativo organizacional, o Capital Intelectual, como vantagem
competitiva e como fator impulsionador do valor de mercado de seu
empreendimento.
É necessário o entendimento, pelas pequenas empresas, da
necessidade de rever o que aprenderam no passado no tocante à administração de
uma empresa. O que foi bom no passado pode não servir com eficiência na
dinâmica e concorrência do mercado atual, portanto é premente reexaminar crenças
e pressupostos e questionar as práticas atuais como as únicas alternativas
aplicáveis.

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