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Parte I

Teoria
1 ASPECTO GENÉTICO

M. HOUSER

INTRODUÇÃO
Muito raras na literatura, para não dizer inexistentes, são as obras que expõem de maneira
sistemática e bastante sintética uma teoria freudiana do desenvolvimento da personalidade.
Sem ter a pretensão de preencher essa lacuna, pensamos dever, em primeiro lugar, apre-
sentar pelo menos esquematicamente as grandes etapas da psicogênese, do ponto de vista da
psicanálise, preâmbulo indispensável à compreensão do conjunto deste livro.
Destaquemos, inicialmente, nossa decisão de nos mantermos dentro de uma abordagem
clássica, referindo-nos em primeiro lugar à obra do próprio Freud, aos trabalhos de seus
contemporâneos e sucessores, tais como Abraham (1924, 1925) e Fenichel (1953), a livros
como aquele já antigo, de Gerald S. Blum, enfim a publicações mais recentes, como a obra de
Laplanche e Pontalis (1967), para não citar aqui senão as principais de nossas referências.
Assinalemos que cada etapa será considerada segundo o duplo ponto de vista:
o
1 Do desenvolvimento psicossexual, por um lado, orientado pela entrada em jogo suces-
sivo das diferentes zonas erógenas.
o
2 Da relação de objeto (ou relação objetal), por outro lado, expressões que designam so-
bretudo as formas assumidas pela relação do sujeito com seus “objetos” (ele mesmo compreen-
dido como objeto), no curso desses diferentes momentos evolutivos.

INFLUÊNCIAS PRÉ- E NEONATAIS

Influências pré-natais
Phyllis Greenacre (1971) pensa que a constituição, as experiências pré-natais e a situação
que segue imediatamente o nascimento contribuem para criar uma predisposição à angústia
ou pré-angústia, diferente da angústia ulterior, pelo fato de que ela carece de conteúdo psicoló-
gico e opera em nível reflexo.
Está claro que o feto é capaz de uma grande variedade de atividades, pois ele se mexe, dá
pontapés, vira-se, manifestações que toda mulher grávida espera, até mesmo com certa impa-
ciência. Sabe-se também que o feto reage a estímulos exteriores por movimentos acrescidos,
uma aceleração do ritmo cardíaco, por exemplo, quando um som forte e agudo, uma sineta
elétrica, etc., fazem-se ouvir perto da mãe. Do mesmo modo, o feto apresentaria um acréscimo
considerável de atividade, quando a mãe passa por períodos de graves provas emocionais, o
que provaria que o estado psicofisiológico desta exerce influência sobre o tipo de comporta-
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mento do feto normal. Enfim, este poderia até mesmo gritar in utero se, por acidente, fosse
admitido ar na cavidade uterina.
Phyllis Greenacre interpreta todas essas reações reflexas ao mal-estar como uma prova
de que existe, antes do nascimento, um esquema de conduta que se assemelha à angústia.
Esse esquema, ainda influenciado pelo nascimento e pelas primeiras experiências pós-natais,
constitui, de acordo com a autora, um potencial organo-fisiológico que, se for particularmente
forte, pode ter por conseqüência reações mais violentas aos perigos psicológicos que sobrevi-
rão posteriormente, no curso da vida.
Outros autores já tinham demonstrado que é mesmo possível condicionar o feto. Mas, é
evidente que não estamos ainda em condições de avaliar os efeitos do meio pré-natal sobre
o desenvolvimento ulterior da personalidade. É, portano, a título de simples anedota, sem
fundamento científico real, que citaremos a prática dos ciganos, que consiste, quando se quer
produzir um músico de valor, em lhe fazer “ouvir”, desde a vida intra-uterina, nas proximida-
des do ventre da mãe, árias de violão tocadas por um mestre.
Quanto a Fodor, seus argumentos são essencialmente reconstruções – de validade duvi-
dosa – baseadas nas fantasias e nos sonhos ditos “sonhos pré-natais”, feitas por ele mesmo e
por seus pacientes. De acordo com esse autor, o aspecto traumático do meio pré-natal deveria
ser relacionado, antes de mais nada, à violência das relações sexuais entre os pais. Fodor,
então, postula uma “consciência organísmica”, dirigida para um conteúdo e tornada possível
por comunicações de tipo telepático entre a mãe e o feto; porém, está claro que a existência da
telepatia como meio de comunicação permanece como uma premissa não-verificada.

EM RESUMO
Parece bastante difícil conduzir bem pesquisas decisivas nesse domínio. Se se puder admi-
tir que o que se passa durante a gestação talvez tenha influência sobre o feto, principalmente
sobre seu equipamento biopsíquico, ainda permanece impossível tirar conclusões rigorosas
dos estudos empreendidos.
Como poderíamos, por exemplo, decidir se as angústias de uma criança de 4 anos são
devidas ao meio carregado de angústia que constitui uma mãe infeliz antes do nascimento ou
então depois? Pois é impossível escapar do fato de que a mãe continua, depois do nascimento
– e diríamos, até mesmo, sobretudo nesse momento –, a exercer uma influência sobre a perso-
nalidade de seus filhos.

Trauma do nascimento
Sabe-se que é uma noção à qual Otto Rank ligou seu nome.
Entretanto, foi Freud quem primeiro sublinhou a significação psicológica desse trauma do
nascimento, destacando o perigo contido no afluxo inicial de excitações oriundas do mundo
exterior, quando da saída do organismo de um meio relativamente calmo e aprazível, para se
encontrar submerso pela nova situação. O recém-nascido não pode enfrentar esse perigo de
maneira adequada, pois ele ainda não dispõe de nenhum mecanismo de defesa utilizável para
se proteger.
Essa situação do nascimento torna-se o modelo ou protótipo de toda angústia ulterior,
cujo fator comum se enuncia, pois, na origem, em termos de separação biológica da mãe, mas
que, a seguir, se manifesta de maneira mais psicológica e mais simbólica.
Freud (1926) tende a minimizar a importância dos acidentes que sobrevêm no decorrer do
nascimento, não admitindo que a criança possa ter, nesse momento, consciência de conteúdos
reais: “o que representa um perigo?” – escreve. “No ato do nascimento, um perigo objetivo se
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apresenta para a conservação da vida; sabemos o que isso quer dizer, segundo a materialidade
dos fatos. Mas, psicologicamente, isso não nos diz nada, em absoluto. O perigo do nascimento
não possui ainda nenhum conteúdo psíquico” (“Inibições, sintomas e angústias”).
Otto Rank, ao contrário, dará a essa teoria, que ele sistematizou em excesso, um desenvol-
vimento que afastará seu autor das concepções clássicas da psicanálise. Este, com efeito, faz o
trauma do nascimento desempenhar um papel central no desenvolvimento da personalidade,
a ponto de explicitar que o nascimento constitui um choque profundo que cria um reservatório
de angústia cujas partes se descarregarão, se liberarão por meio de toda a existência. Isto é,
para esse autor, todas as neuroses encontrarão aí sua explicação original e se pode interpretar
toda angústia ulterior em termos de angústia de nascimento, não somente quando esta cons-
titui o modelo, mas a própria fonte da angústia.
Levando ainda mais longe sua concepção, Rank declara que o recém-nascido forma impres-
sões visuais duradouras dessa penosa separação da mãe, responsáveis sobretudo pelo horror ex-
perimentado mais tarde pelos órgãos genitais femininos, enquanto que as separações ulteriores
de toda natureza, reais ou imaginárias, serão vividas como um trauma ameaçador: separação do
seio, pelo desmame, separação fantasmática do pênis, pelo medo da castração, etc.
De acordo com Rank, cada prazer teria por alvo final aceder ao sentimento de contenta-
mento sem mistura e de beatitude primitiva intra-uterina, o meio mais satisfatório para rea-
lizar esse retorno à vida intra-uterina sendo o ato sexual, que representa a reunião simbólica
com a mãe: então, o homem conceberia seu pênis como uma criança retornando ao ventre
da mãe, enquanto a mulher acederia à satisfação se identificando com seu próprio filho, no
momento em que ele ainda não nasceu. Para o autor, a angústia primária do nascimento repre-
senta um obstáculo a essa satisfação, pois ela constitui um sinal de perigo contra a vontade
de retornar ao seio materno.
Quanto a Phyllis Greenacre, ela ocupa, nesse domínio, uma posição intermediária entre Freud
e Rank. Ela admite a ação de dois fatores, constitucionais ou hereditários e acidentais, surgindo
no momento do nascimento, mas substitui a concepção de Rank, relativa às impressões visuais,
pela sua teoria da resposta de “pré-angústia”. Para ela, a influência real do trauma do nascimento
se situaria em algum lugar entre as duas concepções: ela não seria nem tão importante quanto
pensa Rank, nem tão mínima, como o crêem Freud e a maioria de seus sucessores.

FASES PRÉ-GENITAIS

Fase oral
As diferentes fases que descrevemos não são claramente delimitadas ou separadas umas
das outras. Todas essas fases passam antes gradualmente uma pela outra e se interpenetram.
Assim, a fase oral se estende não apenas sobre o primeiro ano da vida da criança, mas bem
além. Classicamente, dá-se esse nome de “fase oral” à fase de organização libidinal que vai do
nascimento ao desmame.

Desenvolvimento psicossexual
Indiquemos, inicialmente, que a expressão “sexualidade infantil” é apenas uma facilidade
de linguagem pouco satisfatória. Com efeito, uma tal “sexualidade”, se ela se apresenta em
primeiro lugar como muito indiferenciada e muito pouco organizada, difere bastante da do
adulto, em pelo menos três pontos:
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– As regiões corporais de maior sensibilidade (ou fontes pulsionais) não são forçosamente as
regiões genitais. Outras zonas erógenas (regiões que proporcionam prazer) predominam.
– Os alvos são diferentes: é evidente que a “sexualidade infantil” não conduz a relações
genitais propriamente ditas, mas ela comporta atividades que, mais tarde, desempenharão um
papel, sobretudo no prazer dito “preliminar”.
– Essa “sexualidade infantil” possui a tendência a ser auto-erótica, antes de dirigida aos
objetos.

❑ Primado da zona bucal como zona erógena ou fonte corporal pulsional


De fato, é preciso entender aqui algo mais do que simplesmente a boca:
– Inicialmente, todo o entroncamento aerodigestivo, até o esôfago e o estômago; órgãos
respiratórios também, em jogo na aspiração e na expiração do ar, até os pulmões (cf. as fixa-
ções orais dos asmáticos, por exemplo).
– Os órgãos da fonação e, portanto, da linguagem.
– Os órgãos dos sentidos, igualmente: a gustação, o nariz e o olfato, o olho e a visão (diz-
se “comer ou devorar alguém com os olhos”) são órgãos e funções em relação com a oralidade,
o perceber implicando, aliás, uma espécie de preensão e de colocação no interior de si de ele-
mentos pertencentes ao mundo exterior ambiente.
– O tocar e a própria pele pertencem também ao mundo da oralidade. As pessoas que têm
sempre calor demais ou frio demais, aqueles que apresentam dermatoses psicossomáticas, ou,
ainda mais simplesmente, aqueles que, nos jogos amorosos, são hipersensíveis a carícias em
regiões cutâneas às vezes bem afastadas das zonas genitais – possuem todos uma oralidade
muito forte.
Não esqueçamos que esse primeiro ano da vida é a época em que o bebê é mais sensibiliza-
do ao aporte não apenas nutritivo, mas também a todas as carícias, beijos, “cócegas”, etc., em
os quais uma mãe amorosa é generosa, na hora ou fora dos momentos de higiene do bebê.

❑ Objeto original do desejo


É o objeto digamos “erótico” desse lactente; é constituído pelo seio materno ou seu subs-
tituto, a primeira expressão da libido é a ação de mamar. Com efeito, não somente esse ato de
mamar satisfaz a necessidade de nutrição, mas ainda proporciona prazer em si mesmo.
– A separação da mãe, no momento do nascimento, instaura uma nova relação mãe-bebê,
relação dependente e praticamente simbiótica, fusional, porém com um mediador a partir de
então: a função alimentar ou nutricional. A essa função relaciona-se um prazer que o bebê
prova, aprende, no momento de ser nutrido.
– E eis que essa satisfação libidinal, apoiada, como se diz, sobre a necessidade fisiológica
de ser nutrido, vai separar-se desta. O bebê descobre que a excitação pela boca e pelos lábios
proporciona um prazer em si, ainda que não seja acompanhada de nutrição (chupar os lábios,
sucção do polegar).

OBSERVAÇÃO
A literatura contém, de fato, muitas referências que sugerem a existência de uma pulsão
de mamar, que operaria independentemente do processo da nutrição. Dito de outra forma: a
partir de algumas constatações – por exemplo, sabe-se agora que desde o período intra-uterino
o feto suga o polegar –, podemos nos perguntar se não existiria uma pulsão oral primária,
talvez adquirida pela aprendizagem e que estaria na origem ao mesmo tempo da sucção e de
outras manifestações vizinhas de atividade oral. De qualquer modo, o problema da gênese
dessa pulsão oral primária permaneceria intacto.
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❑ Alvo pulsional
Nessa fase, pode-se dizer que ele é duplo:
– Por um lado, é a estimulação agradável da zona erógena bucal, prazer que é auto-
erótico. O sujeito não tem ainda a noção de um mundo exterior diferenciado de si; tem-se
o costume de descrever esse estado como “anobjetal” ou, pelos termos de indiferenciação,
“Ego/não-Ego”.
– Por outro lado, é o desejo de incorporar os objetos, desejo específico da oralidade que,
apesar do emprego do termo “objeto”, não confere a este o verdadeiro estatuto de objeto exte-
rior. O bebê dessa idade não percebe nos indivíduos ou nas coisas senão um alimento ou uma
fonte de alimento, ao qual, em suas fantasias, ele se imagina unido, engolindo ou se incorpo-
rando a ele. O objeto quase que não é senão uma parte do sujeito, a criança leva à boca tudo o
que lhe interessa e o prazer “de ter” se confunde, para ela, com o prazer “de ser”.

NOTA IMPORTANTE
A esses fins de incorporação correspondem medos e angústias orais específicos, tais como
o medo de ser comido que se vê reviver nos sonhos e fantasias, não somente dos psicóticos,
mas ainda de muitos pacientes em análise, no decorrer de fases regressivas profundas e mes-
mo em cada um de nós.
Abraham (1924, 1925) divide esse período oral em duas subfases:
– A fase oral primitiva (de 0 a 6 meses), ainda chamada de “fase pré-ambivalente”. É a
verdadeira fase oral de Freud, que este subdivide em “fase narcisista primária” e “fase anaclíti-
ca”. É a que acabamos de descrever. Retomemos suas principais características.
• Prevalência da sucção, da aspiração a partir do sistema de absorção (boca, órgãos
sensoriais...) que tende ao mesmo tempo à incorporação, à assimilação oral das excitações
oriundas do exterior, ou seja, de um “objeto” sentido como bom e que, teoricamente, não
é destruído; à satisfação auto-erótica de compensação, sobretudo nas frustrações (sucção
masturbatória do polegar, pelo simples prazer de chupar).
• Ausência de diferenciação entre corpo próprio e objeto exterior, ausência de distin-
ção entre o bebê que mama no seio e o seio que o nutre.
• Ausência de amor e ódio propriamente ditos, com o psiquismo estando, então, livre
de toda ambivalência afetiva. Essa não é a opinião de todos os autores, principalmente a
de Melanie Klein.
– A fase oral tardia (de 6 a 12 meses), ou fase sádico-oral, no decorrer da qual predomi-
nam as pulsões que Freud chegou a chamar de “canibalísticas”, é marcada pelo surgimento
dos dentes, a mordida e os mordiscamentos dos objetos, inicialmente o seio materno, comple-
tando então a simples sucção da subfase precedente.
Nessa época, em que o bebê responde a uma frustração mordendo, para fazer sua revan-
che, ou em que ele exprime, ao morder, uma pulsão agressiva em si, o resultado é o mesmo:
a incorporação, sempre em jogo, tornou-se sádica, ou seja, destrutiva; o objeto incorporado
é vivido nas fantasias do bebê como atacado, mutilado, absorvido e rejeitado, no sentido da
destruição.

Relação de objeto
Quando se fala de relação de objeto, fala-se, de fato, de uma inter-relação dialética: está
em causa não somente a maneira pela qual o sujeito constitui seus objetos (externos e inter-
nos), mas também a maneira com que estes modelam a atividade do sujeito.
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❑ O primeiro objeto de cada indivíduo é sua mãe


O termo “mãe” deve ser tomado no sentido amplo: a pessoa que cumpre a maior parte dos
cuidados a serem dados ao bebê. De fato, a própria noção “de objeto” constitui aqui um proble-
ma, pois se sabe que, bem no começo, não há imagens de objetos, no sentido psicológico desse
termo, as primeiras representações de objetos dispersas, mais ou menos fragmentadas e, em
todo caso, parciais e não-unificadas. Por outro lado, o recém-nascido não tem consciência do
mundo exterior, mas unicamente – se podemos falar aqui de “consciência” – de suas próprias
percepções internas de tensão e de relaxamento: ele não distingue a si mesmo dos outros. Se-
gue-se que o lactente está às voltas com “pedaços de objetos” – os ditos objetos parciais, e nem
mesmo localizados no espaço – do qual fazem parte, ao mesmo tempo, pedaços da mãe (seio
nutridor ou mamadeira substitutiva) e pedaços do próprio corpo do sujeito.
Sendo assim, a relação de nosso lactente com seus pedaços de objetos se estabelece em
duas direções:
• auto-erotismo, que se poderia chamar de primário, e do qual já falamos, acompa-
nhado muitas vezes de masturbação (primeira fase masturbatória), no quadro do narcisis-
mo ele próprio também primário;
• relação anaclítica, termo retirado de um verbo grego que significa deitar-se sobre,
apoiar-se em. Freud queria, por meio dessa expressão, significar o estado de dependên-
cia absoluta que liga fisicamente o bebê às pessoas cujas intervenções o mantêm vivo.
O que significa dizer, também, que nessa fase tais “objetos” não podem ser senão fun-
cionais, e que, além disso, permanecerão, em maior ou menor grau, ao longo de toda a
pré-genitalidade.

❑ A descoberta real dos objetos


Ela se faz, entretanto, pouco a pouco, por um processo gradual.
De início, admite-se que uma relação objetal, dita primitiva, se constitui por ocasião dos
momentos de ausência do objeto anaclítico (isto é, da mãe). Dito de outra forma: a primeira
tomada de consciência de um objeto deve provir, no bebê, do estado de espera nostálgica de
algo que lhe é familiar, que pode satisfazer suas necessidades... mas que, no momento, faz
falta (Fenichel, 1953).
A seguir, o bebê aprende a diferenciar suas impressões, e a primeira diferenciação é, sem
dúvida, a que se estabelece entre objetos “de confiança ou conhecidos” e os objetos “inabituais,
estranhos, e mesmo estrangeiros”. Estes são então percebidos como perigosos, enquanto que os
primeiros dão confiança e são amados.
À medida que a criança aprende a se distinguir da mãe, ela começa a se comunicar com
ela, a compreender o que ela lhe transmite, nem que seja por meio de sua mímica. Um papel
importante é, sem dúvida, desempenhado pelas reações ao contato, à pressão física, em suma,
à manipulação corporal real do bebê pela mãe.
A relação ambivalente é concomitante, de acordo com a teoria ortodoxa, à segunda parte
da fase oral, quando do surgimento das pulsões sádicas.
Assim, no período em que está em jogo a tendência a morder, o desejo de destruir a mãe se
associa à aspiração à união libidinal com ela. Primeiro conflito, em conseqüência, que ameaça
a unidade primitiva reconfortante com a mãe, e no qual o componente hostil assume um lugar
preponderante.
PSICOPATOLOGIA 21

Dizemos, às vezes, que o ódio é mais velho que o amor, e conhecemos a evolução das
idéias de Freud sobre a pulsão agressiva (parte do instinto de morte). Em todo caso, é especifi-
camente a projeção para o exterior do “mau” – ao que se junta, evidentemente, a cólera indu-
zida pela ausência do objeto anaclítico – que faz que o objeto (exterior) seja afetado pelo ódio.
Compreende-se que Freud tenha chegado a dizer: “o objeto nasce no ódio”.
Notemos que a maneira pela qual a pulsão agressiva a morder será recebida pelo objeto de
amor (permitida, proibida, tolerada sob condições, etc.) é de suma importância.

❑ Desmame
É o conflito relacional específico que liga à resolução da fase oral. Essa crise, ligada à
interrupção do aleitamento, pode parecer, à primeira vista, fundar-se em um dado biológico,
e portanto instintivo, da espécie. De fato, o desmame é indissociável da maternagem, da qual
Lacan sublinhou a dimensão cultural.
Por outro lado, o desmame é freqüentemente um trauma, no sentido corrente e restritivo,
que é vivido como uma conseqüência da agressão, como uma punição “taliônica”, sobre o
modo da frustração. E se pode sublinhar, por exemplo, que nas pessoas aleitadas até tarde
com o seio existe com freqüência uma dificuldade de gozar completamente de sua faculdade de
agressividade, sem provocar uma necessidade de auto-punição.
Enfim, trauma ou não, o desmame deixa no psiquismo humano o traço permanente da
relação primordial à qual ele vem pôr termo. Seja de maneira patológica ou não, a imagem do
seio materno domina mais ou menos toda a vida do sujeito.

Fase anal
Por volta dos 2 ou 3 anos, as faculdades de andar, falar, pensar, controlar os esfíncteres,
etc., se desenvolvem e abrem para a criança, de maneira progressiva, uma independência re-
lativa, mas já real.

Desenvolvimento psicossexual
Por certo, o prazer anal existe desde o começo da vida, mas ele não constitui a saída libi-
dinal principal e não está ainda conflitualizado. Somente quando se instala o controle esfinc-
teriano, quando o ato de defecação se torna um ato sobre o qual a criança pode adquirir um
domínio suficiente, que o prazer ligado a essa defecação, assim como os conflitos específicos
que se ligam a ela, ocupam uma situação privilegiada.

❑ Fonte pulsional corporal ou zona erógena parcial


É aqui a mucosa ano-retal, ou ano-reto-sigmoidiana, ou mesmo, ainda mais geralmente,
toda a mucosa da zona intestinal de excreção, investida de uma libido difusa a todo o interior
(e não apenas ligado aos orifícios).

❑ Objeto da pulsão anal


Ele é de descrição mais difícil, por causa da complexidade crescente do jogo pulsional.
A mãe, que permanece sendo o objeto privilegiado das pulsões da criança, tornou-se uma
pessoa inteira. Mas é um objeto que se mantém funcional, parcial, e estará sobretudo em
questão, para a criança, manipular, como ela “manipula” suas matérias fecais. Lembremos
que Freud descobriu a importância dessa “analidade” pela análise da neurose obsessiva, na
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qual precisamente a “manipulação” dos objetos – reais, imaginários e simbólicos – é uma das
características notáveis.
De qualquer modo, o “terceiro termo” em causa é aqui o conteúdo intestinal ou cilindro
fecal, verdadeiro objeto libidinal intermediário, se se pode dizer, cujos papéis ou funções não
são nem simples nem unívoco.
É, de início, um excitante direto da erogeneidade da zona corporal mucosa descrita acima.
A esse respeito, existe uma controvérsia paralela à que demarcamos, a propósito da fase oral:
o prazer anal é primariamente fisiológico, ou então se poderia explicá-lo melhor como uma
pulsão secundária, adquirida pela aprendizagem?
O cilindro fecal é também considerado pela criança como uma parte de seu próprio corpo,
que ela pode – não diremos “à vontade”, mas por uma decisão voluntária, permitindo pelo me-
nos diferir da exoneração – seja conservar no interior, seja expulsar, dele se separando, o que
permite à criança fazer a distinção muito importante entre objeto interno e objeto externo.
Se o medo de ser comido constituía a angústia oral específica, o de ser brutalmente des-
pojado do conteúdo do corpo, por arrancamento, de ser esvaziado literalmente, representa a
angústia anal típica.
Portanto, o cilindro fecal representa para a criança uma moeda de troca entre ela mesma e
os adultos. Lembremos as equivalências estabelecidas por Freud entre as fezes, o presente que
se oferece ou que se recusa, o dinheiro, etc.

❑ Alvo pulsional
Ele também não é muito simples de explicitar. É que, cedendo a facilidades, tem-se o
costume de assimilá-lo pura e simplesmente à função defecatória, o que não explica, de modo
algum, a complexidade de fato da experiência.
Com efeito, defecar, ou seja expulsar a produção intestinal, não é o único ato anal ao qual
está ligado um prazer que cada um de nós experiencia diariamente. Retardar essa defecação,
isto é, reter suas matérias ao menos durante um certo tempo, é de um poder erógeno também
indiscutível.
Abraham (1924) descreveu ainda duas subfases:

• Fase dita “expulsiva”


O alvo é, aqui, desfrutar sensações agradáveis durante a excreção. Paralelamente a uma
descarga da tensão, a eliminação produz uma estimulação da mucosa anorretal, estimulação
geradora de um prazer erótico comparável ao da sucção, durante a fase oral, prazer auto-eró-
tico evidente.
Além do prazer “natural”, uma estimulação adicional é obtida como conseqüência da im-
portância que os pais conferem às funções anais e que conduz a criança a aumentar seu inte-
resse por um ato neuromuscular que exige dele o esforço de “empurrar”.
Uma outra fonte de estimulação intensa, mas contingente, é enfim constituída pelas lava-
gens freqüentes, ministradas por mães ansiosas. De fato, a lavagem não possui somente uma
significação frustrante de esvaziamento intestinal forçado, mas também o sentido de uma
excitação erógena.
Retenhamos dessa primeira fase anal:
– O auto-erotismo narcisista, que ela sempre comporta.
PSICOPATOLOGIA 23

– Seu aspecto sádico, o qual, de resto, caracteriza a totalidade da fase anal, a ponto de se
designar habitualmente essa fase pelo qualificativo “sádico-anal”. Esse aspecto sádico deriva
aqui de uma dupla fonte:
• por um lado, na origem, o próprio ato de expulsão está em causa, as matérias
fecais sendo consideradas como objetos que são destruídos e pelos quais a criança não
experimenta nenhuma consideração;
• por outro lado, os fatores sociais desempenham mais tarde um papel, pois a crian-
ça pode utilizar sua faculdade de expulsão para desafiar os pais, que procuram lhe ensinar
a necessidade da limpeza.

• Fase retentiva
É a segunda fase. O prazer principal se dá na retenção, e aqui iremos reencontrar as mes-
mas origens desse prazer, simplesmente utilizadas de maneira diferente.
É, de início, a descoberta feita pela criança da estimulação intensa da mucosa que, a par da
expulsão, a retenção também pode provocar. Foi dito que se tratava aí da primeira descoberta do
prazer auto-erótico masoquista, que é um dos componentes normais da sexualidade. O termo
“masoquista” pode ser entendido aqui como da ordem do “faz-me alguma coisa”, e é claro que o
cilindro fecal não progride até a ampola retal sob o efeito de um ato voluntário, essa progressão
fornece inicialmente sensações experimentadas passivamente. Não é senão em um segundo
momento que o prazer ligado ao ato retentivo se torna o objeto de uma busca ativa.
Um outro determinante da aparição desse prazer é ainda constituído pela grande impor-
tância que os adultos conferem aos excrementos. Se os outros consideram esses produtos
como preciosos, então a criança prefere guardá-los para si, em lugar de dá-los. E é aqui que o
elemento sádico entra novamente em cena, com a criança podendo:
• utilizar suas matérias fecais como presente, para demonstrar seu afeto;
• ou, ao contrário, retê-las – o que tem a significação de um gesto hostil (sádico) em
relação aos pais preocupados com sua produção, mas que é mais conservadora, em face
do objeto (interno e externo).
Observação: é preciso notar que a exoneração intempestiva, coincidindo com a recusa de
cumprir, no momento ou nas circunstâncias desejadas pelo entorno, assume um caráter agres-
sivo de oposição, ao misturar os dois tipos de sadismo anal.

Relação de objeto
É no modelo das relações mantidas pela criança com suas matérias fecais, e em função
dos conflitos suscitados pela educação para a limpeza, que o sujeito vai orientar sua relação de
objeto, com suas características específicas.

❑ Sadismo
Vimos que esse período é caracterizado em sua totalidade pelo sadismo, definido como
uma agressão carregada de prazer contra um objeto.
Os componentes eróticos e agressivos da analidade se encontram nas duas fases descritas
por Abraham, assim como na bipolaridade da própria pulsão sádica, com uma das tendências
sendo a de destruir o objeto exterior, a outra de conservá-lo e de exercer sobre ele um controle,
tendências que são ambas gratificantes.
A conquista do controle esfincteriano permite à criança descobrir a noção de sua proprie-
dade privada (seus excrementos, que ela dá ou não), de seu poder (poder auto-erótico sobre seu
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trânsito intestinal e sobre seu próprio corpo; poder afetivo sobre a mãe, a quem a criança pode
recompensar ou frustrar), descoberta que anda junto tanto com o sentimento de onipotência
e de superestimação narcisista sentido pelo sujeito quanto com o prazer que ele experimenta
de controlar, dominar, opondo-se à sua mãe, em suma, de possuir. Todo objeto de seu desejo é
algo a respeito do qual ele exerce direitos, e todo objeto é assimilável até sua posse mais primi-
tiva, ou seja, suas matérias fecais.

❑ Masoquismo
Esse termo designa o alvo passivo de chegar ao prazer por experiências dolorosas.
Tanto o sadismo como o masoquismo – aliás, fala-se geralmente de sadomasoquismo – estão
ligados às punições corporais, para as quais as nádegas são, nesse momento, o alvo privilegiado.
Mas se compreendemos facilmente que bater em alguém ou lhe dar uma palmada representa uma
saída para tendências sádicas, a função masoquista é de maior complexidade.
Inicialmente, ela só pode operar apenas em algumas condições, a dor não deve ser nem
forte demais, nem representativa de algo muito grave. Por outro lado, o fato de que uma pal-
mada possa excitar eroticamente a criança resulta claro, se rememorarmos todos os casos de
masoquismo dessa ordem conhecidos publicamente. Ao contrário, as explicações dadas a esse
fenômeno e a suas conseqüências foram sujeitas à controvérsia. É assim que, de acordo com a
teoria ortodoxa, isso ocorre porque a libido se desloca do ânus para a pele das nádegas e seus
músculos. Para outros, “o papel desempenhado, no masoquismo, pela excitação [erótica] da
pele das nádegas é muito duvidoso. Explicações simples, sublinhando a satisfação psíquica
trazida pela punição são mais plausíveis” (Blum, 1955).
De qualquer modo, há uma relação bem conhecida entre sadismo e masoquismo: a que
utiliza a criança que se comporta de maneira muito ativa e agressiva, a fim de provocar os
outros a bater nela.

❑ Ambivalência
Destaca-se do que precede pelo fato de, durante esse período, as relações continuarem
a ser ambivalentes, de uma maneira até mesmo reforçada em relação à fase sádico-oral.
Essa ambivalência é aqui fisiologicamente fundada na atitude contraditória face às matérias
fecais, que serve de modelo às relações com outrem. Assim, os objetos exteriores, a mãe, o
entorno, etc. poderão ser:
– suprimidos, ou seja, recusados, expulsos e por isso mesmo destruídos;
– ou então, do mesmo modo, introjetados, isto é, guardados como objetos de apropriação,
retidos como uma possessão preciosa e amada.
1
❑ “Bi-” e “homossexualidade”. Atividade e passividade. Narcisismo anal
– A “bissexualidade” humana, como a chamava Freud depois de tê-la colocado em evidên-
cia, retiraria suas raízes psicológicas, e igualmente fisiológicas, precisamente e sobretudo dessa
fase anal do desenvolvimento. A relação do erotismo anal com a “bissexualidade” seria deter-
minada essencialmente pelo fato de que o reto aparece como um órgão de excreção oco:

1
Encontrar-se-á, em estudos recentes (de Jean Bergeret e colaboradores L’erotisme narcissique, 1999, Paris, Du-
nod), uma argumentação que conduz à recusa do sufixo “sexualidade” em “bissexualidade”, que colocaremos
doravante entre aspas, e “homossexualidade”, que substituiremos sistematicamente por “homo-erotismo”.
PSICOPATOLOGIA 25

• como órgão de excreção, ele pode ativamente expulsar qualquer coisa, e dessa fa-
culdade derivariam as tendências masculinas;
• como órgão oco, ele pode ser excitado passivamente pela penetração de um corpo
estranho, de onde derivariam as tendências femininas.
Notemos que isso não contradiz o fato de que a criança também pode expulsar passiva-
mente e reter ativamente suas matérias fecais. De qualquer maneira, é o caso de reencontrar
aqui a problemática ambivalente dos processos de incorporação e de extrojeção anal, que se
caracterizam, além disso: pela oposição do par atividade-passividade, que marca profunda-
mente as relações objetais próprias dessa fase, na qual ainda não está em questão, para a
criança, a oposição masculinidade-feminilidade, no sentido sexuado desses termos. É sobre
o modelo desse esquema dualista ativo-passivo, derivado do investimento anal, que a crian-
ça é sensibilizada, em sua relação com outrem, para a percepção de toda uma série de pares
antagônicos: par gentil-desagradável; bonito-feio; mas sobretudo o par grande-pequeno, bem
específico. Face ao adulto, a criança se sentirá ou o menor, ou o maior e o mais forte, por pouco
que se imagine leão, tigre ou general. O supra-sumo da relação valorizada de amor está, pois,
implicado no par subjugar-ser subjugado, dominar-ser dominado.
Portanto, o narcisismo está, aqui, no primeiríssimo plano, e pudemos destacar algumas
ocasiões em que a criança tem de colocá-lo em questão: qualidade de parte do corpo atribuída
ao cilindro fecal, conquista da independência sobretudo pela ativação e pelo controle esfinc-
teriano, possibilidades de oposição e de negociação face ao objeto materno, sentimento de
onipotência e auto-superestimação, etc. É preciso, além disso, insistir no caráter centrípeto, e,
2
portanto, narcisista dos alvos eróticos , uma vez mais dominados pelo auto-erotismo, nessa
época.
Se aproximarmos, então, em resumo:
– a oposição atividade-passividade;
– o aspecto dual, binário, de uma relação de objeto que exclui toda genitalização verda-
deira;
– o reforçamento narcisista do sentimento de potência, ao qual está subordinada a busca
de complementação entre um grande e um pequeno (é preciso que o objeto seja muito frágil ou
muito forte, o sujeito se comprazendo no papel inverso e dependente);
– o aspecto centrípeto, e, pois, narcisista dos alvos eróticos; compreenderemos que a rela-
ção de objeto assim caracterizada seja de tipo homo-erótico, qualquer que seja o sexo real do
objeto, sendo a característica genital deste, poder-se-ia dizer, acessória.

“Fase” fálica
Confluência, depois do terceiro ano, das fases precedentes, por abandono ou solução de
seus conflitos afetivos próprios, a “fase” fálica, assim nomeada e descrita por Freud, instaura
uma relativa unificação das pulsões parciais.
Evidentemente, não é sem motivo que colocamos o termo “fase” entre aspas. Sem contestar
Freud, ou mesmo contradizê-lo, parece-nos necessária uma nova abordagem das noções que o ge-
nial descobridor da psicanálise já tinha perfeitamente desenvolvido, sem, contudo, lhes conferir

2
Ter-se-á sublinhado – insistimos nisso em complemento da nota precedente – que, nos capítulos relativos à
pré-genitalidade, falamos de erotismo e não de sexualidade.
26 JEAN BERGERET

a sistematização que gostaríamos de lhes dar. Esta “fase” nos deterá longamente. Notemos desde
agora que o movimento fálico se verá consideravelmente reativado no começo da adolescência.

Desenvolvimento psicossexual
❑ O erotismo uretral
Certos analistas ortodoxos (Fenichel, 1953) introduzem uma “fase uretral” como interme-
diária entre as fases anal e fálica. Parece-nos mais racional considerar que, se o alvo primeiro
do erotismo uretral é o prazer de urinar, havendo igualmente um prazer de retenção, as próprias
palavras que empregamos remetem, evidentemente, à analidade. De nossa parte, ficaremos com
a idéia de que a “uretralidade” tem a ver sobretudo com a analidade. O que não impede que se
extraia disso alguma originalidade e que se digam algumas palavras sobre o assunto.
Inicialmente auto-erótico, o prazer de urinar volta-se a seguir para os objetos (fantasias de
urinar sobre os outros, por exemplo) enquanto que a enurese poderá, depois do auto-erotismo
original, adquirir o valor de um equivalente masturbatório inconsciente. O prazer de urinar
terá, em geral, um duplo caráter.
Por um lado, e nos dois sexos, uma significação fálica, e até mesmo sádica, a micção sendo
o equivalente de uma penetração ativa, ligada a fantasias de danificar ou de destruir.
Por outro lado, ele pode ser sentido como um “deixar-escorrer”, um prazer passivo de ren-
dição e de abandono dos controles.
Nos meninos, o “deixar-escorrer” passivo pode condensar-se com outros alvos passivos,
como de ter o pênis acariciado ou de receber excitações no períneo (próstata). Esses mesmos al-
vos passivos do erotismo uretral podem igualmente se combinar com fantasias antes sádicas,
como o demonstra a análise de casos severos de ejaculação precoce.
Nas meninas, a parte ativa serve mais tarde para exprimir conflitos mais freqüentemente
centrados na inveja do pênis. Quanto à significação passiva do “deixar-escorrer”, ela é aqui
muitas vezes deslocada da urina para as lágrimas.
De qualquer modo, o controle do esfíncter vesical traz consigo um orgulho narcísico que
seria devido ao fato de que os pais envergonham a criança, quando de fracassos nesse controle.
Outros pensam que a maior freqüência da micção (em relação à exoneração anal) traz recom-
pensas também mais freqüentes, reforçando o sentimento de orgulho. Porém, se a vergonha
permanece, para Fenichel, como a força específica dirigida contra as tentações erótico-uretrais,
a ambição seria o representante específico da luta contra o sentimento de vergonha.

❑ Masturbação infantil
Desde a fase oral, assiste-se no lactente o despertar de manifestações eróticas específicas
no nível dos próprios órgãos genitais. O determinante ocasional disso talvez seja, além dos
cuidados de higiene, a excitação natural da micção. Por essa época, os jogos manuais das
crianças representam o que se chama de masturbação primária. A partir do momento em que
está em jogo a disciplina do esfíncter vesical, o prazer hedonista apoiado na micção vai disso-
ciar-se dela, para procurar reproduzir-se em si, de maneira repetitiva. E é isso que se designa
pela expressão de “masturbação secundária”.
Primária ou secundária, essa masturbação infantil precoce é com freqüência negada pelos
adultos, em função, sem dúvida, de seu próprio Superego. Ela deixa, entretanto, traços pro-
fundos e inconscientes na memória e parece representar uma das causas principais da famosa
PSICOPATOLOGIA 27

amnésia infantil, a qual é sobretudo ligada à atividade, reprimida pelos pais, e sobretudo às
fantasias eróticas próprias a essa idade (fantasias masturbatórias, na maioria das vezes de
essência edipiana, e, pois, angustiantes e culpabilizantes).

❑ Curiosidade sexual infantil


A “descoberta” da diferença anatômica entre os sexos é, de fato, uma expressão ambígua.
Não há, ainda, para a criança senão um só sexo, o que é representado pelos seres providos de
um pênis. Seja pela masturbação, seja por meio de suas investigações, a criança irá pouco a
pouco tomar consciência da realidade anatômica do pênis; e começará a se fazer perguntas
sobre a existência ou a não-existência desse atributo corporal nela ou nos outros. Ao mesmo
tempo, irão propor-se outros enigmas: origem das crianças, procriação, gravidez...
A cena primitiva. É preciso entender a cena ou as cenas no decorrer das quais a criança foi
– ou fantasiou ser – testemunha do coito dos pais. Essa cena primitiva, ou ainda cena originária,
faz parte, segundo Freud, que inicialmente não manteve esse ponto de vista, das fantasias ditas
primitivas ou originárias, que a psicanálise reencontra como informando toda a vida fantasmá-
tica, quaisquer que sejam as experiências reais dos sujeitos (sedução, castração, abandono, etc.).
Os mecanismos em causa não são simples, nem unívocos. Intervêm sobretudo:
• A identificação com um dos parceiros, às vezes com os dois, e com muita freqüência
no sentido da passividade, diante da potência atribuída aos “grandes”.
• A projeção da própria violência do sujeito, essa “cena primitiva” sendo, na maior
parte do tempo, vivida pela criança como sádica, em função dos barulhos, gritos ou gemi-
dos percebidos – o que pode desembocar na agressividade.
• O sentimento de abandono, induzido na criança pelo fato de ser excluída dessas
relações – o que produz um estado variável de depressividade.
A escopofilia ou voyeurismo. Pode-se aproximar da “cena primitiva” esse instinto parcial
(instinto que deve participar, no adulto, do prazer preliminar, mas que, na criança, pede para
ser satisfeito por sua própria conta), que é, de fato, muitas vezes mais auditivo do que es-
tritamente visual. Por sublimação, ele poderá, mais tarde, dar lugar à epistemofilia, da qual
nascem os pesquisadores ou curiosos de toda ordem.

❑ Teorias sexuais infantis


À falta de receber – ou de poder integrar – respostas satisfatórias às suas interrogações,
a criança interpreta os fatos à sua maneira, em função de sua vivência libidinal, ficando toda
descoberta subordinada às forças pulsionais de que dispõe progressivamente. São sobretudo:
– As teorias infantis da fecundação:
• Fecundação oral, por ingestão de um alimento milagroso ou pelo beijo, essa crença
é, em geral, mais disseminada na menina, na qual ela persiste às vezes até a puberdade
e mesmo depois.
• Teorias que fazem apelo à micção e nas quais o papel de cada um dos parceiros está
mal-atribuído: urinar ao mesmo tempo, urinar na mulher, etc.
• Teorias que põem em jogo a exibição dos órgãos genitais, em um sentido fálico,
inicialmente.
• Quanto à troca do pênis por uma criança, trata-se aí de uma teoria já mais elabo-
rada...
– O nascimento anal. A crença em que as crianças são evacuadas pelo ânus está em rela-
ção com as fantasias e os interesses de receptividade da fase anal. Depois, surgem elaborações
28 JEAN BERGERET

mais evoluídas: nascimento pelo umbigo, ou na seqüência de uma extração forçada e sangren-
ta do corpo materno. A interpretação anal sofre, então, um recalcamento.
– A concepção sádica do coito depende bem mais dos restos fantasmáticos da fase anal, e
dos fenômenos projetivos violentos, do que de uma realidade qualquer da qual a criança teria
podido ser forçosamente testemunha.

Problemática da “fase” fálica


Pelo menos do modo como foi isolado e definido por Freud, o tempo evolutivo da psicogê-
nese ocupa um lugar ambíguo, que, em todo caso, não deixa de levantar numerosas questões,
teóricas e práticas.
– Por um lado, esse momento evidentemente depende da pré-genitalidade e do narcisismo,
o que não deixa de ter conseqüências, em se tratando das fixações-regressões patológicas,
freqüentes nesse nível, e da maneira de abordá-las pela terapia analítica.
– Por outro lado, esse momento também é, ao mesmo tempo, de maneira mais ou menos
sincrônica, de algum modo o avesso ou o contraponto dialético do Édipo.
Não somos nem os primeiros, nem os únicos a propor essas questões. Aprofundaremos
aqui um ponto de vista que, sem ser propriamente original, tem pelo menos o mérito, nos
parece, de trazer alguns esclarecimentos a essa questão. Levando-se em conta as dificuldades
encontradas pela exposição de um tal assunto, pedimos de antemão ao leitor que nos desculpe
por algumas repetições, que talvez não possamos evitar.

OBSERVAÇÕES PRELIMINARES
Quando da leitura de seus escritos, constatamos que Freud empregava indiferentemente,
um pelo outro, os termos pênis e falo, o que não deixa de produzir muitas ambigüidades. É
importante ser aqui muito rigoroso e preciso: o pênis é o órgão masculino, em sua realidade
anatômica, enquanto que o falo sublinha a função simbólica atribuída erradamente ao pênis.
Voltaremos a isso. Parece que, para Freud, o que caracteriza mais o falo é o fato de este ser um
objeto destacável, transformável e, nesse sentido, objeto parcial.
A angústia de castração é a expressão consagrada para designar a reação afetiva que se
segue à constatação da ausência de pênis na menina; essa constatação traz consigo, no me-
nino, o medo fantasmático de perdê-lo, e, na menina, o desejo de possuí-lo. Essa angústia de
incompletude ou da falta determina a angústia de morte, contra a qual a fantasia de desejo de
ter uma criança (espécie de clivagem de si) representa uma defesa corrente.
Todavia, uma tal expressão merece exegese, à medida que seu emprego, muito geral e cor-
rente, pode-se prestar à confusão. Se um momento evolutivo e genético de tipo narcisista e pré-
genital, chamado de “fálico”, deve ser bem-distinguido da fase genital edipiana que estudaremos
mais adiante, é igualmente claro que esses dois movimentos têm entre si laços muito estreitos.
Como já dissemos, as fases como um todo não são de um desenrolar recortado, isoladas
umas das outras. Ora, isso é particularmente verdadeiro quanto aos movimentos fálico e edipia-
no. Essas duas fases, uma de essência narcisista, a outra referente à libido objetal, recobrem-se
e se jogam uma sobre a outra, em uma dialética contínua, tanto sincrônica como diacrônica, e,
assim, dificilmente dissociável na realidade. Desde já, deduziremos disso que há duas angústias
de castração, ao menos no sentido da significação formal tomada em cada uma dessas reações:
– Uma angústia de castração narcisista, pré-genital e fálica, desenvolvida, por definição,
em torno do falo e do que ele representa subjetivamente.
– Uma angústia de castração genital, edipiana e centrada no objeto, na qual, dessa vez, é
o pênis que está em causa, órgão apto a proporcionar prazer (a si mesmo e ao outro).
PSICOPATOLOGIA 29

Qualquer que seja, tal angústia é consciente ou pré-consciente, na criança que se apercebe
da falta de pênis no outro ou em si. Ela parte de uma interpretação falsa da realidade (fan-
tasia de mutilação peniana que, aliás, não é assimilável à verdadeira castração, que consiste
na ablação, não do pênis, mas das gônadas) e é uma interpretação à qual nenhuma criança
escapa.
Não há necessidade, em absoluto, da intervenção dos adultos para que a criança “so-
fra” de uma angústia de castração, face à qual ela deve aprender a se defender e ainda não
a capitular. (Autores como Françoise Dolto [1965] distinguem aqui fantasia ou angústia de
castração – fenômeno consciente, natural, transitório e estruturante – de complexo de castra-
ção – fenômeno inconsciente, duradouro, fonte de sofrimento, auto-punitivo e ligado à não-
resolução feliz da angústia de castração.) Por certo, os adultos intervêm mediante “proibições
castradoras”, como as defesas exteriores visando a reprimir as atividades carregadas de um
valor libidinal qualquer (curiosidade, coqueteria da menina, disposições belicosas do menino,
etc.). Porém, o que essas intervenções proibidoras exteriores fazem é sensibilizar, e não criar
uma angústia de castração que existe independentemente delas e que é não apenas normal,
mas, ainda, maturativa.
A criança vai, dessa forma, rejeitar esse mal-estar ou essa angústia, defender-se dela como
sempre, e nessa luta as atitudes do menino e da menina serão diferentes.

❑ No menino
Pelo fato de se saber possuidor de um pênis que falta às meninas, o menino supervaloriza
esse pênis:
Libidinalmente, como instrumento da satisfação sexual (masturbação e suas fantasias).
Mas também, e sobretudo, como símbolo da valorização narcísica de si, marcada principal-
mente pelas tendências exibicionistas, predominantes nessa fase. Diz-se que então o menino
se identificou com seu pênis. Aliás, é o resultado desse narcisismo levado ao extremo o medo
experimentado por esse menino de que se poderia causar algum mal ou dano a seu pênis.
Na origem, Freud destacava a idéia de fatores filogenéticos predispondo o indivíduo a
essa angústia. Fenichel prefere fundá-la sobre a lei de Talião: o órgão que pecou deve ser
punido.
Em um primeiro momento, a criança procura negar a realidade. E é no nível dessa mesma
recusa da diferença que se origina a perversão em geral.
Depois, é graças a um anseio de reparação mágica que nosso menino procura se recon-
fortar: aquilo lhes crescerá, pensa das meninas. O que não o impede de guardar sua angústia,
pois mesmo quando percebe e aceita a diferença, ele atribui a falta feminina, não a uma con-
dição fundamental, mas a uma mutilação sofrida, como sanção imaginária, infligida pelos
pais para punir certos desejos e prazeres análogos aos que ele mesmo sente como proibidos
(masturbação).
A recusa de estender a todas as mulheres essa ausência de pênis é ainda uma defesa, que
persistirá mesmo depois que a criança tenha que se render à evidência. Para ela, apenas tive-
ram que sofrer essa sorte aquelas que se tornaram culpadas de pulsões inadmissíveis. Durante
muito tempo – e isso é válido para a criança de ambos os sexos – ela mantém sua crença em
uma mãe peniana (expressão melhor do que fálica) que, idealizada, não seria derrubada sob o
golpe da castração e guarda, a seus olhos, esse pênis imaginário, símbolo e apanágio do falo,
ou seja, da potência adulta.
De uma maneira geral, é um pouco de abuso de linguagem falar de “mãe fálica”. De fato,
designa-se com isso uma imago de mãe de antes da distinção, um personagem parental todo-
poderoso, e isso é tudo. Quanto à expressão de “mulher fálica”, é preciso reconhecer que se
30 JEAN BERGERET

trata, aí, de um “termo de homem”, o qual projeta facilmente suas próprias angústias de cas-
tração sobre o suposto “falicismo” das mulheres. O que um tal homem busca em uma mulher
dessas, é ao mesmo tempo uma mãe e um objeto erótico (inclusive de maneira homoerótica).

❑ Na menina
Para Freud, menino e menina se parecem muito. A vagina seria ignorada e a atividade
erótica é clitoridiana, a passagem do clitóris à vagina, como zona erógena dominante, não
sobrevindo senão mais tarde na vida, o mais das vezes nos arredores da puberdade.
Descobrindo sua falta de pênis, a menina, depois de um período de denegação e de espe-
rança, vê-se forçada a aceitar bem rápido essa ausência. Nenhuma recusa pode apagar nela a
falta real, que não é vivida como a ameaça de uma castração imaginária, mas como um fato
fisiológico. Ao contrário do que se passa no menino, essa constatação e o grande desaponta-
mento que se segue, não apenas sobrevêm antes do Édipo, mas ainda permite à menina entrar
precisamente no Édipo. Todavia, trata-se, inicialmente, para a menina, de uma verdadeira e
profunda ferida narcísica que traz consigo um sentimento de inferioridade no plano corporal e
genital, ainda por cima complicado e reforçado por fatores socioculturais que ninguém sonha
em negar, cuja origem e gênese seria muito interessante estudar, assim como a variabilidade,
segundo as civilizações ou culturas.
A menina vai defender-se também contra esse mal-estar.
O primeiro elemento a aparecer é um tema de reivindicação. É a famosa inveja do pênis,
ou melhor, a reivindicação fálica (voltaremos a essas expressões), assimilável à recusa da dife-
rença, no menino. A menina vai chegar a pensar que, sem dúvida, ela possuía um pênis e que
o perdeu, o que reforça nela a idéia de reconquistá-lo.
Forçada, mesmo assim, a aceitar sua falta (aqui ainda narcísica, pois significando para
ela incompletude, inferioridade), a menina vai recriminar sua mãe e se aproximar do pai, rea-
lizando assim esse momento capital da evolução psicossexual da mulher que, ao contrário do
menino, deve operar uma verdadeira mudança de objeto, para entrar no Édipo. Freud pensa
que o fator decisivo em causa no afastamento da mãe reside no que se pode chamar aqui de
complexo de castração que, depois da ferida narcísica que ele provoca na menina, desvaloriza
a mãe, atingida pela mesma ausência de pênis. Assim, poder-se-ia dizer, em todo caso, sem
forçar demais as palavras, que a entrada no Édipo, por parte da menina, e por conseqüência
seu acesso à genitalidade, é de natureza mais ou menos reativa e defensiva.
Outra defesa, esta de natureza mais edipiana: o desejo de ter um filho, que irá substituir o
desejo de ter um pênis. Diz-se que a libido da menina desliza pela equação pênis = criança. É
com esse objetivo que a menina escolhe o pai como objeto de amor, abandonando seu primeiro
objeto libidinal, a mãe, que se torna assim o objeto de seu ciúme, essa ruptura com a mãe fica
marcada por uma extrema ambivalência, pelo fato de que ela é a primeira.

OUTRAS CONCEPÇÕES
Sem entrar aqui em muitos detalhes, sublinharemos que a afirmação freudiana do monis-
mo sexual fálico, para os dois sexos, foi a seguir vigorosamente contestada por certos psicana-
listas, sobretudo psicanalistas mulheres.
Para elas, a menina seria, desde o começo, mais feminina do que masculina, mais centra-
da no interior do corpo do que no exterior e a receptividade vaginal seria, pois, primária. Não
é senão secundariamente, pelo fato de que as pulsões vaginais são culpabilizadas e sentidas
como perigosas, que estas seriam recalcadas e transferidas para o clitóris.
Afinal de contas, para um grande número de psicanalistas atuais, a fase fálica de Freud
seria uma espécie de compromisso – digamos de tipo neurótico, no sentido de conflitual – em
PSICOPATOLOGIA 31

relação, nos dois sexos, com os desejos edipianos culpabilizados e trazendo consigo o medo de
ser castrado em represália (castração externa, para o menino, interna, para a menina).

EM RESUMO
Foi dito que a “fase” fálica é a da “descoberta” da diferença dos sexos. Não se deveria
antes afirmar, em função do que precede, que ela representa a fase da recusa dessa diferença?
Recusa totalmente característica e que vai consistir:
– Para o menino, em negar a castração (narcisista), pela negação do sexo feminino.
– Para a menina, em negar do mesmo modo essa mesma castração, pela reivindicação do
falo (narcisista) por meio da reivindicação do pênis (o clitóris crescerá).
Nesse momento, o pênis não é ainda percebido como um órgão genital, mas sim como um
órgão de potência ou de completude, ou seja, um falo, a partir do qual o nome foi dado a essa
“fase”. A criança não faz a diferença entre um homem em relação a uma mulher, mas entre a
presença ou a ausência de um só termo. Os pais são vividos em função de sua potência ou de
sua fraqueza, simbolizada pela posse ou pela falta de pênis.
Acrescentemos, ainda – e que nos perdoem por insistir – que, só podendo o sexo mascu-
lino verdadeiro se definir em relação à existência de um sexo feminino positivo, o reconheci-
mento desse aspecto positivo só será possível em uma fase genital e pós-edipiana, tanto na
menina como no menino. Na idade adulta, a mulher dita clitoridiana é, de fato, uma mulher
passiva, ao contrário do que se tem o costume de imaginar, e a mulher verdadeiramente geni-
tal encontra seu prazer em cingir ativamente o pênis, sem angústia, sem medo de engoli-lo ou
de destruí-lo, e nem de castrar seu parceiro.

NARCISISMO E GENITALIDADE
(OU O SEXUAL E O NARCÍSICO)3
Amor-próprio e sentimento de identidade, falo, Ideal de Si-mesmo*, ferida narcísica, trau-
ma, violência fundamental, angústia de perda de objeto, depressão... tais são os principais
parâmetros de uma “linhagem” fundadora da psique humana e diacronicamente evolutiva,
que se pode chamar de “linhagem narcisista”. Examinar seus diferentes aspectos, assim como
seus modos de relação com os outros componentes da organização mental constituirá o ob-
jeto deste item.

Problema do falo
Etimologicamente, o termo falo designa uma representação, uma imagem do membro
erétil masculino e, por extensão, um emblema de potência. É, pois, um símbolo, um “signifi-
cante”, e o termo, então, não deveria servir para nomear o “pênis”, atributo sexual corporal
que tem por correspondente simétrico e complementar a vagina.
Esses dois órgãos – pênis e vagina – são igualmente perfeitos, potentes e completos, tan-
to um como outro, e são percebidos já de início por seus respectivos portadores como a sede

3
Este item, no qual nos deteremos longamente, pretende ser uma seqüência ao mesmo tempo sintética (de onde
decorrem algumas repetições, sem dúvida) e complementar ao que precede. Ele vai desembocar em um sumário
dos problemas psicopatológicos levantados pela clínica e pela terapia da depressão.
* N. de T. Respeitando a escolha dos autores, de traduzir o self inglês para a forma francesa Soi, escolhemos Si-
mesmo, doravante, como tradução para Soi.
32 JEAN BERGERET

possível de intensos prazeres, que podem ser reproduzidos de maneira ativa ou passiva. Poder-
se-ia imaginar, pois, de bom grado, que cada um poderia mostrar-se satisfeito com o seu, o que
não é, entretanto, o caso.
É que, além de, ou a par (e sem dúvida mesmo por causa) de sua função hedonista,
a existência do pênis e da vagina induz na criança interesses, suscita curiosidades, produz
angústias que remetem não apenas ao prazer sexual (este, culpabilizado, dará lugar a uma
angústia de castração genital), mas também – ou sobretudo – põe em causa mais ou menos
dramaticamente o sentimento de identidade narcísica e de integridade corporal.
Descobrindo-se, com efeito, diferente pela presença-ausência de um órgão muito visível,
a criança de um e outro sexo está confrontada a uma realidade que, tendo em vista seu equi-
pamento conceitual do momento, ela é ainda incapaz de interpretar sexualmente. A angústia
específica resultante disso estará ligada à idéia – infundada, mas exigente – segundo a qual ter
um pênis é signo de completude e de perfeição, e não tê-lo (ou arriscar-se a perdê-lo, o que dá
no mesmo), signo de despossessão ou de falta. Isso implica sentimentos relativos à depressão.
Pode-se, falar aqui de uma angústia de castração narcísica.
Assim, o termo “falo” teria um duplo sentido:
– Por um lado, figura de interpretação – falsa – segundo a qual o possuidor do pênis seria
o único ser perfeito e completo. A criança percebe justamente observando uma diferença de
natureza, mas a conclusão que ela tira de sua percepção é errônea, no que concerne a uma
hierarquia dos sexos.
– Por outro lado – sentido positivo, ao contrário do precedente – o falo seria também uma
representação (como o sugere a etimologia) que o tornaria assimilável ao narcisismo existen-
cial, dito de outra forma, ao sentimento de identidade própria, integrando tanto a identidade
sexuada como a identidade propriamente dita. De acordo com isso, todas as mulheres, assim
como todos os homens, têm evidentemente um direito natural a possuir um “falo” simbólico.
Que os segundos, assim como as primeiras, possam sentir-se despossuídos dele, indica que
entramos no domínio da patologia, mais uma vez a do narcisismo e da depressão.
Em suma, a famosa “inveja do pênis”, descrita por Freud (1908), poderia ter duas verten-
tes: uma mais propriamente “genital”, expressão da identificação natural com o outro sexo (o
homem também, por sua vez, identifica-se com a mulher em sua relação com ela); e uma outra
vertente, “narcisista”, e bem mais conjuntural, ficando muitas “realidades” bio-sociopsicológi-
cas freqüentemente contingentes na história da humanidade.

O problema do narcisismo
O termo narcisismo (tanto como os de “falo”, “sexo” ou “castração”) não é de um sentido
unívoco. Aliás, tem-se escrito e reescrito a propósito do narcisismo e de sua especificidade, e está
fora de questão retomar aqui todas as visões teóricas às quais essas pesquisas deram lugar. Li-
mitar-nos-emos ao que pode ser útil para o estudo de sua patologia, ou seja, a depressão.
Pode-se admitir que Narciso e Édipo designam “de maneira diferencial dois modelos dis-
tintos de funcionamento afetivo e relacional [e que] essas duas correntes correspondem a
etapas tópicas e psicogenéticas em perfeita continuidade progressiva”. Mas pode-se também
acrescentar que essas duas correntes poderiam ser consideradas como “um conflito diacrônico
ao mesmo tempo inicial e permanente (e, pois, sincrônico) em todo indivíduo”. Afinal de con-
tas, o conflito se situa “como uma oposição entre duas gerações de conflitos” (Bergeret, 1996).
Dito de outra forma, mesmo sendo de aparição sucessiva no tempo, do ponto de vista da psi-
cogênese, Narciso e Édipo não deixam de ser atores concomitantes, agindo em alternância ou
em concomitância ao longo de toda a existência.
PSICOPATOLOGIA 33

Acrescentemos que, embora se tenha atribuído ao primeiro uma função não somente pré-
mas anti-genital, eles não são antinômicos, mas, ao contrário, idealmente colaboradores, pelo
menos quando sua entrada em ação equilibrada, sua integração, apresenta sucesso. De fato,
o termo “narcisismo” sofre por sua história, ou seja, pelo hábito desagradável que se desen-
volveu, de utilizá-lo para designar apenas os avatares ou desvios, dito de outra forma, apenas
sua patologia.
É verdade que a infeliz odisséia do personagem que lhe deu o nome tem por que torná-lo
circunspecto. Vê-se nela um herói devorado de amor por um objeto que não é outro senão ele
próprio. Ora, a exclusividade dessa relação imatura, auto-centrada, erotizada, mais que sexua-
lizada, detida em uma contemplação especular do idêntico ao “Si-mesmo” do sujeito, não pode
levar senão ao derradeiro e mortal fracasso. Mas existe, muito felizmente, um outro aspecto
do narcisismo que, fazendo deste o guardião e o testemunho da vida, eleva-o ao estatuto de
protetor perfeitamente positivo do psiquismo.
Pode-se assim descrever um narcisismo – um “bom” narcisismo – que promove a consti-
tuição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e inteira; que, “complemento libidi-
nal do egoísmo” próprio ao instinto de conservação, como dizia Freud, ultrapassa o auto-ero-
tismo primitivo para favorecer a integração de uma figuração positiva e diferenciada do outro,
e sobretudo do outro em seu estatuto sexuado; enfim, que suscita e mantém o indispensável
e mínimo “amor-próprio”, necessário a toda sobrevida física e mental, na expressão clínica
cotidiana de um verdadeiro “prazer de funcionamento”.
Pode-se ainda acrescentar o que se segue. O importante é o que ocorre no âmbito da co-
municação/ligação entre os diferentes níveis, engrenagens ou etapas, tanto da gênese como
da organização acabada da psique. O que conta, em um sujeito dado, não é tanto uma “arqui-
tetura” fixa, ou descrita em termos de tipo estrutural fechado e imóvel, mas as capacidades
mobilizadoras desse sujeito, sua aptidão em utilizar com flexibilidade os diferentes compo-
nentes parciais de sua organização mental, e, em particular, sua liberdade ou não em ligar (a
Bindung, de Freud) sobretudo seu narcisismo e sua sexualidade.

“Fase” fálica
Classicamente repertoriada, desde Freud, como um intermediário evolutivo entre a fase
anal, à qual sucede, e a fase edípica, que ela introduz, a “fase fálica” é geralmente etiquetada
sob a rubrica das fases ditas “pré-genitais”. Entretanto, as coisas são bastante complexas
nesse ponto.
Com efeito, a criança que ultrapassa, então, grosso modo, seu terceiro ano, pôde instaurar
uma relativa unificação de suas pulsões parciais sob um certo primado, o dos órgãos e das
fantasias genitais. Mas não se pode ainda falar de primado do genital ou, dito de outro modo,
de uma verdadeira genitalização da libido. De fato, a criança não é ainda capaz de diferenciar
um “sexo” propriamente dito. Ela não pode ver no órgão masculino, o pênis, que é, nessa
idade, o objeto prevalente de sua observação e de sua curiosidade, senão uma parte do corpo
dotada da simples significação atributiva de uma existência e de uma posse. E isso é verdade,
tanto para o menino, que é provido dele, como para a menina, que não o tem. Tanto para um
como para a outra, esse pênis não é um “sexo”, mas um apêndice anatômico que tem valor
– além de suas potencialidades hedonistas auto-eróticas – de signo, gratificando o sentimento
de completude e de perfeição corporal. Se ousarmos o contraste semântico, o pênis não é senão
um “sexo narcísico”.
Encontramos, pois, com a “fase” fálica, o mesmo problema de posicionamento em relação
ao Édipo que descrevemos acima, a propósito do narcisismo em relação à genitalidade. É por
34 JEAN BERGERET

isso que seria mais satisfatório, para designar essa etapa seqüencial da psicogênese, falar
justamente de “posição fálica”. Uma “posição” que, ocupando na origem o curso de uma fase
evolutiva diacrônica, permanecerá sincronicamente presente e ativa, por repetição ou perma-
nência estrutural, durante toda a vida.

Ideal “do Ego” e ideal “de Si-mesmo”


O termo de “Ideal do Ego” não deixa, hoje em dia, de levantar muitas interrogações.
Sabe-se que “Ideal do Ego” ou “Ego Ideal” (formulações primitivamente sinônimas) são as
expressões pelas quais Freud nomeou uma subestrutura do Ego – “herdeiro do narcisismo”, ele
nomeia com precisão. Esse ideal, promulgado pelo outro, e principalmente o objeto narcísico
materno, implicando o próprio pai da mãe, preenche, de algum modo, uma função vocacio-
nal, submetendo a criança à injunção incitativa virtual: “faça isso; seja grande, belo, forte
– subentendido: como teus pais”. Modelo ao qual o sujeito procura se conformar e referência
permanente do Ego, o Ideal do Ego é, ao mesmo tempo, o substituto do narcisismo perdido da
infância (onipotência infantil) e o produto da identificação às figuras parentais, assim como a
seus intermediários sociais.
Dito isso, observemos que o termo “Ego”* foi mantido para traduzir o alemão “Ich”, que
significa “Eu” e não “Ego”. Além disso, “Ego”** não é um nominativo, mas um acusativo; ele
não poderia, pois, designar a pessoa verbal que sustenta o lugar do sujeito. Com todo o rigor
semântico-lingüístico, é conveniente, pois, substituir “Ego” por “Si-mesmo”, forma reflexiva
que vai, aliás, no sentido dos trabalhos tanto de Freud (1914) como de Abraham, trabalhos se-
gundo os quais o Ego é a sede de um investimento libidinal, assim como qualquer objeto exte-
rior. Dito de outra forma, o Ego não é somente um mediador entre o “Eu” e a realidade externa,
mas também (e trata-se, então, de um “Si-mesmo”) um objeto de amor. Aparece, assim, uma
“libido do Si-mesmo” (melhor denominação que “libido do Ego”), oposta à libido de objeto.
Essas considerações teóricas não deixam de ter importância prática. De fato, depois da
primeira geração freudiana, que faz da sexualidade a chave da elucidação das neuroses, depois
dos kleinianos, que situam o ódio e a destruição no coração de toda relação de objeto, eis uma
terceira via de pesquisa. Ela visa a recentrar o interesse da psicanálise em transtornos mistos,
por sinal cada vez mais encontrados na clínica cotidiana, que foram chamados de borderlines
ou estados-limítrofes, e que parecem estar ligados essencialmente a representações e à identi-
dade de si. Passa-se, assim, no plano teórico, à idéia de um Si-mesmo (self ),4 tornado objeto de
todos os investimentos narcisistas.
As pesquisas desenvolvidas na França (Grunberger, 1971 e Bergeret, 1984 ) produziram
uma rica elaboração de conceitos novos, teóricos e práticos, como os de “díade e tríade narci-
sista”, de “trauma precoce”, de “violência fundamental”, de “depressão essencial”, etc.

Depressão
É a expressão maior e quase específica da patologia do narcisismo. Parece-nos, pois, tanto
natural como obrigatório terminar nossa exposição por um resumo teórico-clínico dessa afec-
ção tão freqüentemente encontrada em prática cotidiana.

* N. de T. Em francês, “Moi”.
** N. de T. Ver nota anterior.
4
Termo usado correntemente pelos anglófonos.
PSICOPATOLOGIA 35

Façamos menção, inicialmente, a um preconceito tenaz que se encontra, inclusive, nos


meios especializados. Esse preconceito consiste em dar uma importância claramente excessiva
à existência daquilo que se chama de depressões “reativas”. Dito de outro modo, para muitos
psicopatologistas, e como quer o senso comum, na maioria das vezes, muitas depressões de-
penderiam de “causas” imediatamente próximas e identificáveis: não apenas emocionais ou
afetivas, mas sociais, econômicas, etc. Ora, parece difícil subscrever, sem expressas reservas,
essa maneira de ver as coisas. Tais depressões são de fato raras, e até mesmo raríssimas, a
menos que se faça de uma tristeza natural, mesmo intensa, consecutiva a um luto cruel, por
exemplo, uma “depressão” que não é uma depressão. Diga-se de passagem, uma tal concepção
não deixa de ter conseqüências no plano terapêutico.
Em segundo lugar, consideremos o fato de que, em diversas situações, dir-se-á: “Mas,
enfim, o que ele (ou ela) tem para se deprimir assim? Ele (ou ela) tem tudo para ser feliz!”,
escandalizando-nos com o fato de que a “felicidade” não representa uma vacina ou uma pílula
eficaz contra a depressão. Infelizmente, poucos clínicos irão aqui se fazer as interrogações con-
venientes, um grande número deles cederá à facilidade que consiste em recorrer à repressão
sintomática, permitida pelo uso de uma farmacopéia moderna e repousante da qual se conhece
a extensão, assim como, a longo prazo, os resultados medíocres.
Terceira observação: os deprimidos vão geralmente muito melhor – o fato é bem-conhe-
cido, senão interpretado – quando atravessam dificuldades reais, às vezes graves, inclusive
lutos objetivos particularmente dolorosos. Estranho enigma, julgado contraditório, paradoxal,
incompreensível, quando não irritante. Enquanto a psicanálise nos ensina muito simplesmen-
te que a necessidade masoquista e inconsciente de punição, no deprimido ou depressivo, é
naturalmente satisfeita por uma infelicidade real.
Transição a ser superada – deixando de lado o ponto de vista das neurociências, que re-
duzem todo funcionamento mental e, em conseqüência, toda patologia nesse domínio, a uma
questão estritamente “cientificista” de jogos de sinapses e de neurotransmissores – e à qual,
não é de hoje, a psicanálise tenta aplicar um modelo coerente de compreensão etiopatogênica
da depressão. As neurociências jamais conseguiram, até hoje, dar uma explicação causal satis-
fatória das doenças mentais. As terapêuticas biológicas cujo desenvolvimento elas permitiram
não são senão terapias sintomáticas, “camisas-de-força químicas”, para utilizar essa expres-
são bem-sucedida, em voga desde os anos de 1960.
A prática psicanalítica nos mostra, além disso, que depressividade e depressão se desen-
volvem sobre um terreno preparado e favorável, dito de outra forma: no quadro de uma certa
estrutura, de uma certa organização da personalidade. Não faz uma depressão quem quer, é
preciso estar predisposto para isso. A questão é, agora, saber de onde vem essa predisposição.
Ponhamos de lado as grandes depressões psicóticas, que entram no quadro da psicose
maníaco-depressiva, da qual não está fora de questão que ela possa depender por meio de en-
grama biogenético mais ou menos hereditário, como alguns estudos tendem a demonstrar.
Constatam-se, nos deprimidos, qualquer que seja o tipo de sua depressão, sintomas que
se poderia chamar de “genéricos”. Ao lado do decréscimo ideomotor, que está presente, o sen-
timento de não-valor aparece na maioria das vezes em primeiro plano, expresso por idéias de
ruína, de indignidade, de vergonha, de culpa... por “faltas” ou “erros”, presentes ou passados,
perfeitamente imaginários. Essas idéias, testemunho de profundas modificações dos processos
de pensamento, podem ir até o delírio e, por certo, conduzir ao suicídio, risco maior de toda de-
pressão verdadeira. O que significa essa autodepreciação, essa perda da estima de si realmente
constitutiva da fenomenologia da depressão?
Não há dúvida de que, no fundo e de certo modo, toda depressão é “reativa”, mas não no
sentido criticado acima. O que está realmente em jogo em uma depressão é um luto interior,
36 JEAN BERGERET

uma perda do objeto narcísico constitutivo do Si-mesmo, ou seja, do sentimento de valor. O so-
frimento experimentado está essencialmente ligado à desvalorização da imagem narcísica de
si mesmo, qualquer que seja o fator conjuntural do momento. O que explica melhor a angústia
de abandono ou de perda de objeto que caracteriza a economia da depressão; melhor, também,
talvez a relação de objeto dita “anaclítica”, que representa uma espécie de tentativa positiva de
preencher permanentemente a falta interior experimentada.
Porém, antes de ser perdido, o objeto narcísico interno provavelmente jamais foi consti-
tuído, de maneira completa e satisfatória, nos sujeitos depressivos e/ou deprimidos. Portanto,
talvez o luto se deva mais a uma não-constituição do que a uma perda, o que, funcionalmente,
senão estruturalmente, dá no mesmo. A isso se deve acrescentar que, estabelecida na primei-
ra infância, no curso do desenvolvimento do psiquismo, essa não-constituição, dependente de
causas sobre as quais não nos deteremos aqui (essencialmente carências ou complicações nas
relações primitivas, no nível narcisista), é, por essa razão, histórica. “Doença” do narcisismo,
a depressividade, assim como a depressão, é um transtorno do desenvolvimento do narcisis-
mo. Em tais personalidades, ela chegou a se tornar permanente, ou seja, estrutural.

NOTAÇÕES DE ORDEM TERAPÊUTICA


Encarregar-se de um deprimido não é coisa simples, nem desprovida de risco.
A primeira necessidade, para o psicoterapeuta ou analista, será a compreensão dos fenô-
menos observados; e a segunda necessidade deverá ser a paciência. A terapia de uma depres-
são é obrigatoriamente longa e delicada.
Trata-se, de fato, de se afastar de toda interpretação prematura daquilo que poderia apa-
recer como “material edipiano”, o que seria a melhor maneira de se tornar cúmplice de uma
forma de resistência (pelo Édipo, justamente) que o paciente utiliza com facilidade. O que seria
também, e ao mesmo tempo, favorecer o fracasso do tratamento. Convém não esquecer que a
culpabilidade pulsional protege da ferida narcísica.
Em terceiro lugar, é preciso manter-se vigilante diante de toda participação contra-
transferencial que se arriscaria, mais ou menos conscientemente, a ser marca de solicitude
ativa. A neutralidade e a firmeza se mantêm aqui como regra.
Afinal de contas, deve-se ter em mente o conselho substancial dado por Béla Grunberger
(1971), para, aliás, toda psicoterapia, analítica ou não: frustrar as pulsões, certamente, mas
sobretudo confirmar o narcisismo. É para uma restauração deste que se deverá colaborar, em
um primeiro momento que poderá ser muito longo. O próprio Freud dizia que “cessando de
infligir ao paciente as interpretações [genitais] habituais, poder-se-ia, sem dúvida, mais facil-
mente avançar”.

FASES GENITAIS

Complexo de Édipo
Por seu papel fundamental de organizador central na estruturação da personalidade, o
complexo de Édipo, ao qual Freud deu o nome por analogia ao mito antigo, representa o eixo
de referência maior da psicogenética humana, para os psicanalistas freudianos, qualquer que
seja a pertença de escola destes últimos.
O conflito em causa (que surgiria, de acordo com as opiniões clássicas, entre 3 e 5 anos)
é um conflito doravante sexualmente especificado, inscrito em uma problemática a três – dita
PSICOPATOLOGIA 37

também triangular ou ternária – entre os três personagens familiares – que são a criança, seu
pai e sua mãe –, inaugurando, enfim, a verdadeira genitalização da libido.

Generalidades e definição
❑ Descoberta do complexo de Édipo
Foi no decorrer de sua própria auto-análise que Freud diz ter descoberto esse complexo,
auto-análise que lhe permite aprender que, em certa época de sua primeira infância, sua “libi-
do [teria se] voltado para matrem” (notar essa latinização do nome da mãe, no texto de Freud),
enquanto ele teria experimentado, ao mesmo tempo, por seu pai, um ciúme em conflito com o
afeto que sentia por ele.
É bem assim, em sua aparente simplicidade, a formulação da situação edipiana, tal como
é entendida geralmente para o menino, situação cujo aspecto negativo – aqui, a hostilidade em
relação ao pai – foi, durante muito tempo, mais difícil de admitir, em função tanto da ambiva-
lência quanto da cobertura afetuosa reativa existente em relação ao pai (Édipo tornado Hamlet,
dizia Freud), que podem mascarar esse aspecto negativo.
Todavia, e além das simplificações correntes, a experiência se mostra, sem sombra de
dúvida, muito mais complexa. Com efeito, não se trata apenas, nem, talvez, principalmente,
de uma situação de rivalidade amorosa simples. Uma situação dessas se reveste de formas di-
versas e isso na mesma criança. Tomemos por exemplo o típico caso do menino, cujo complexo
de Édipo vai apresentar-se:
Seja sob a forma dita positiva, com:
• seu aspecto positivo propriamente dito (seria melhor dizer libidinal): o amor pela
mãe;
• seu aspecto negativo (ou melhor, agressivo): o ódio ao pai.
Seja sob a forma negativa ou invertida, na qual:
• o aspecto positivo ou libidinal é representado pela atitude feminina terna do meni-
no em relação ao pai;
• enquanto que o aspecto negativo ou agressivo será a hostilidade ciumenta sentida
em relação à mãe.
Seja, enfim, e o que é mais freqüente, em toda uma série de casos mistos e também de
períodos mistos, em que as duas formas precedentes podem entrar em jogo ao mesmo tempo
ou separadamente, em uma relação dialética, pondo em ação, além da ambivalência relativa
a cada um dos pais, os componentes heterossexuais e homo-eróticos de cada criança. Essas
duas formas (positiva e negativa) “se encontram em graus diversos, na forma dita completa do
complexo de Édipo” (Laplanche e Pontalis, 1967).

❑ Antropologia psicanalítica
Ela se aplica em reencontrar a estrutura triangular do Édipo, cuja universalidade ela afir-
ma, nas culturas mais diversas e não apenas – como sustenta, por exemplo, Malinowski, ao
argüir o “relativismo cultural” dos complexos fundamentais – nas sociedades de tipo patriarcal
e nas quais predomina a família conjugal.
Por certo, como modelo imaginário sob o qual é vivido, o complexo de Édipo é, sem dúvida
alguma, influenciado pela natureza da instituição social que é a família e é, por isso, suscetível
de mudar, ao sabor das transformações desta, assim como, aliás, se pôde demonstrar. Mas as
diferenças efetivamente observadas nas formas de expressão do Édipo, de acordo com as socie-
dades e culturas, não fazem senão confirmar a tese de Freud, que tende a extrair a importância
38 JEAN BERGERET

da estrutura familiar no estabelecimento de um sistema simbólico destinado a transmitir, em


um contexto sociocultural dado, uma lei fundamental nas relações sociais.

❑ Proibição do incesto
Essa lei se encontra sempre e por toda parte, como condição universal e mínima para que
uma “cultura” se diferencie da “natureza” (Lévi-Strauss).
Aliás, desde suas primeiras formulações, Freud faz referência a um determinante que
transcende a história e as variações da vivência individual. É, pois, necessário lembrar aqui
a hipótese desenvolvida em “Totem e Tabu” (1912-1913), hipótese certamente discutível e
inverificável, devendo ser entendida como um mito. Esse mito traduz a exigência, imposta a
todo ser humano, de dominar a situação edipiana, e descreve a humanidade primitiva como
organizada em hordas conduzidas por um chefe o qual teria sido, um dia, morto e comido por
seus filhos, sendo esse assassinato do pai primitivo considerado como o momento original da
humanidade. Essa incorporação teria inaugurado o primeiro “remorso” – ou seja, o primeiro
pecado – e a primeira inibição.

❑ Sobre a questão de uma “estrutura” pré-edípica


A posição de Freud será nuançada. Sabe-se, todavia, que ele sempre admitiu a existência,
na vida do indivíduo, de um período anterior ao Édipo, contrariamente à escola kleiniana, que
faz o complexo de Édipo remontar à posição dita depressiva, já que intervém na relação com
pessoas totais. Igualmente, quando se diferencia o pré-edípico do Édipo e até mesmo quando se
opõe a ele, sublinha-se a existência e os efeitos de uma relação complexa, de tipo dual, entre a
mãe e o bebê, e busca-se encontrar as fixações a uma tal relação nas diversas estruturas psico-
patológicas. Nessa perspectiva, pode-se ainda sustentar como absolutamente válida a célebre
fórmula que faz do Édipo o “complexo nuclear das neuroses”? Podem-se fazer as seguintes
considerações:
Hoje em dia, parece que se fala mais naturalmente de “triangulação” do que de “conflito
edipiano”, no sentido em que o entendia Freud. E se põe cada vez mais o destaque no momento
bastante precoce no qual, depois do nascimento, a mãe “retorna ao leito do pai”, ou seja, rein-
veste seu parceiro sexual – desinvestindo, ao mesmo tempo, seu filho, pelo menos de maneira
relativa, mas traumatizante para ele (ver, Braunschweig e Fain: Éros e Anteros, 1971).
A idade do Édipo ficou, de início, relativamente indeterminada para Freud. Uma vez afir-
mada a existência de uma organização genital infantil, o Édipo é referido a essa fase, esque-
maticamente, no período que vai dos 3 aos 5 anos. Entretanto, o pensamento de Freud evolui
nesse ponto: depois de ter afirmado, a princípio, que o Édipo seria destruído em torno dos 5
anos, pelo menos no menino, ele admitirá, a seguir, que ele não está senão recalcado, e a esco-
lha do objeto só se efetua plenamente na puberdade. A “sexualidade” infantil permanece, pois,
essencialmente auto-erótica.
O problema do Édipo feminino liga-se a essa questão, sobretudo pelo destaque da ligação
pré-edípica à mãe, particularmente notável na menina, à medida que o complexo de Édipo
significará, para ela, uma mudança de objeto de amor, da mãe para o pai, o que levou os psi-
canalistas a pôr em evidência a especificidade do Édipo feminino.

❑ Tentativa de definição
Depois dessas generalidades, pode-se, em resumo e sem pretensão de esgotar o assunto,
definir o Édipo como: uma problemática relacional fundamental da dimensão social; conflitual
e estruturante; histórica, no sentido de que ela sobrevém em um momento relativamente pre-
PSICOPATOLOGIA 39

coce do desenvolvimento de cada indivíduo e no sentido de que ela confere à evolução afetivo-
sexual deste último e a seu prognóstico um caráter de quase-conclusão; universal; especificada,
enfim, por uma estrutura triangular entre a criança, seu objeto natural e o portador da lei.
Seria preciso ainda insistir no caráter fundador do Édipo, como representante do nó ori-
ginal de todas as relações humanas, e em seu papel fundamental na estruturação da persona-
lidade e na orientação que deveria ter o desejo de um adulto, papel que se atesta nas funções
capitais que lhe são reconhecidas e sobretudo:
– na escolha do objeto de amor definitivo;
– no acesso à genitalidade;
– nos efeitos sobre a constituição de um autêntico Superego e do verdadeiro Ideal do Ego.

Relação edipiana de objeto


❑ História de Édipo
Tal como aparece na tragédia de Sófocles, ela aqui não nos deterá, pois está em todas as
memórias. Lembraremos, entretanto, que depois de Édipo-Rei (430 a. C.), Sófocles escreveu
também – aos 90 anos, o que não é supérfluo assinalar – Édipo em Colona (406 a. C.) em que
um Édipo envelhecido, fisicamente cego e conduzido por Antígona, encontrou nada menos que
uma clarividência serena e apaziguada sobre seu destino trágico, permitindo-lhe assumi-lo
com lucidez e força de alma.
Acrescentemos que há neurose quando fixações arcaicas fortemente investidas, no pai
e/ou na mãe, são reproduzidas sobre um outro homem ou uma outra mulher. Dito de outra
forma, superar as tendências edipianas representa uma condição preliminar para o acesso à
sexualidade adulta normal, enquanto que prender-se a elas inconscientemente equivale a colo-
car a pedra angular da neurose.

❑ Complexo de Édipo no menino


O desenvolvimento das relações objetais é aqui relativamente simples, pois o menino per-
manece ligado a seu primeiro objeto, a mãe, mesmo que a pessoa desta mude, evidentemente,
de sentido, no plano do investimento.

• Inicialmente, dependendo da mãe


Dependendo do poder e do desejo da mãe, depois confrontado com as relações entre os
pais, o menino introduz o pai na díade inicial mãe-criança, ao mesmo tempo que toma cons-
ciência de que o objeto do desejo materno se encontra, de fato, no pai, que possui o falo, que é
o atributo da autoridade, da potência, da lei. A partir de então, nosso menino vai manifestar
dois tipos de apego.

• Investimento objetal da mãe


É inicialmente, por certo, um investimento francamente sexual na mãe, para a conquista
da qual ele vai empregar todas as fontes captativas e agressivas que afirmam sua posição
fálica. Graças a uma primeira identificação com o pai, ele pode até mesmo se sentir parti-
cipando de sua potência mágica. Entretanto, a partir desse momento e em contato com a
realidade:
– A agressividade pulsional bruta sofre uma sublimação (atividades lúdicas, desempenhos
escolares).
40 JEAN BERGERET

Do mesmo modo, o alvo hedonista primitivo é ele próprio sublimado em alvo sentimental,
o que permite à criança ganhar a estima dos adultos e fortificar sua confiança em si.
De qualquer modo, em sua tentativa de conquista do objeto materno, o menino encontra
um rival na pessoa de seu pai, rival de quem tem ciúmes, por causa de sua superioridade real
e do que ele superestima, por causa de sua significação simbólica, enquanto que as fantasias
edipianas não fazem senão reforçar os temas fantasmáticos da castração.
A culpabilidade da criança se torna crescente, pois a presença, real ou simbólica, da ima-
gem paterna é o bastante para afirmar o direito contra o qual se insurge a criança.

• Apego libidinal ao pai


O segundo tipo de apego consiste, mesmo na forma dita positiva do Édipo do menino, no
apego libidinal ao pai, o qual deve ser capaz de sustentar o investimento fantasmático de seu
filho em dois planos:
– O de um rival a suplantar, por certo.
– Mas também e, talvez, sobretudo o de um modelo a imitar, com quem se parecer (pelo
processo da identificação). O desejo do filho não se reduz a suplantar seu pai, mas também a
imitá-lo como modelo. Isso pressupõe que o menino tem necessidade de investir no pai, pos-
suidor masculino da mãe, de libido passiva. Dito de outra forma, imitar o pai significa também
agradar o pai, deixar-se formar, modelar, e até mesmo fecundar por ele – o que define tipica-
mente uma posição homoerótica passiva cujo papel, nessa fase, não é nada mais que maturante
e estruturante.
De qualquer maneira, esse apego propriamente libidinal ao pai, por parte do menino, dá
conta, ao mesmo tempo:
– Do problema, aliás complexo, da dupla identificação materna e paterna da criança.
– Do fato de que as relações com o pai do menino, na fase edípica, são marcadas antes de
mais nada pela ambivalência, e não são redutíveis a uma simples manifestação de ódio.
Enfim, de um outro aspecto da psicogênese da “bissexualidade” humana do qual já desta-
camos os determinantes de ordem anal.

• Competição edipiana fantasmática e não real


De fato, a mãe já escolheu o pai, e não pode dar ao menino senão consolos maternos des-
providos de libido erótica. A partir de então,
A certeza da inutilidade de seus esforços permitirá à criança:
• superar sua angústia de castração, que é determinante no abandono do objeto
incestuoso;
• renunciar ao mesmo tempo à tentativa de sedução erótica da mãe e à competição
com o pai;
• visar, enfim, à conquista de objetos de substituição, pois a liquidação completa do
conflito edipiano será acompanhada de um desligamento que, sem destruir os objetos
anteriormente investidos, permitirá ao menino “fazer o luto” desses objetos, liberando a
energia libidinal, pronta para ser reinvestida em novos objetos.
Mas é preciso também que o menino possa abandonar toda atitude de sedução em relação
ao rival paterno.
A atitude feminina terna do menino em relação ao pai só é estruturante quando puder ser
ultrapassada. À falta disso, essa fixação contribuirá para determinar atitudes homoeróticas
passivas inconscientes, ao mesmo tempo que existirá um complexo de castração (inconsciente)
que testemunhará uma não-resolução do Édipo.
PSICOPATOLOGIA 41

EM RESUMO
Encontramos no menino a seguinte seqüência:
– Desejo edipiano.
– Ameaça fantasmática de castração pelo pai e angústia de castração, superada, ao mesmo
tempo, pela identificação com o pai (agressor) e a pela renúncia à mãe (objeto incestuoso).
– Final abrupto do Édipo e entrada na latência.
Na menina, isso ocorre de maneira diferente, pois aí se dá o contrário, a angústia de cas-
tração que estaria, para Freud, na origem do desejo edipiano.

❑ O Édipo da menina: a mudança de objeto


O desenvolvimento objetal é aqui mais complicado, pois é preciso que a menina cumpra
um passo suplementar: a transferência da mãe para o pai.
As experiências importantes são as decepções que afastam a menininha de sua mãe. Dentre
elas, encontramos o desmame, a educação para a limpeza, o nascimento de irmãos e irmãs...
mas há, além disso, uma decepção especificamente feminina, ainda mais importante: a menina
tem a impressão de que ela possuía outrora um pênis, e que sua mãe o tomou.
Seu alvo, agora, é obter do pai o que sua mãe lhe teria recusado. Ora, escreveu Freud, “A
renúncia ao pênis [durante muito tempo confundido com o falo narcisista, ao qual a menina
tem tanto direito quanto o menino] não se realiza senão depois de uma tentativa de reparação
– obter, como presente, um filho do pai, pôr no mundo uma criança”. A partir de então, em
todo caso, as tendências receptivas substituem as tendências ativas. E a menina se dirige ao
pai – e, secundariamente, aos homens – agora não mais com uma atitude de reivindicação
viril, mas para captar a admiração deste que sua mãe escolheu como objeto de amor, ou seja,
para seduzi-lo.
A isso se acrescenta – de maneira análoga ao que se passa no menino – um ódio ciumento,
carregado de culpa em relação à mãe. Entretanto, certos vestígios da ligação pré-edípica à mãe
– mais longa, lembremos, que no menino – continuam a existir, e se admite, em geral, que as
mulheres são mais ambivalentes em relação à sua mãe do que os homens em relação ao pai.

❑ Declínio do complexo de Édipo


A evolução do complexo de Édipo vai permitir que Freud apreenda a especificidade dos
destinos masculino e feminino.
O menino renuncia aos desejos sensuais dirigidos para a mãe e aos anseios hostis em
relação ao pai, e isso sob o choque da ameaça de castração. Nos termos de Freud, não se trata
de um simples recalcamento do complexo, mas de um verdadeiro despedaçamento, de uma
explosão e mesmo de uma destruição. De fato, já destacamos as variações do pensamento
de Freud a esse respeito. Sabe-se, por outro lado, que há um segundo movimento edipiano no
momento da puberdade, o qual deixa, para o indivíduo, a última chance de resolver o Édipo
espontaneamente.
Na menina, a renúncia ao complexo de Édipo é mais gradual e menos completa. Essa
renúncia provém do medo de perder o amor da mãe, medo que não constitui uma força tão
potente e tão dinâmica quanto a da angústia de castração, que desempenha, entretanto, seu
papel igualmente. Enfim, a ferida narcísica (ligada à realidade corporal) intervirá do mesmo
modo para desencadear o recalcamento do primeiro movimento edipiano (infantil). Notemos
que essa ferida narcísica também ocorre no menino, que se vivencia como possuidor de um
pênis demasiado pequeno.
42 JEAN BERGERET

AFINAL DE CONTAS
Com a resolução do complexo de Édipo, as escolhas objetais (termo que designa o desejo
de possuir sexualmente um indivíduo, por exemplo a atração do menino pela mãe) são regres-
sivamente substituídas por identificações (o que implica o desejo de se assemelhar a alguém,
por exemplo, no menino que imita as características do pai).
Todavia, uma tal “regressão” é, de fato, um progresso. A dissolução ou o abandono do
complexo de Édipo são acompanhados de uma liberação energética considerável. Essa energia
liberada será geralmente investida na aquisição de um aparelhamento intelectual. Do mesmo
modo, ela ficará pronta para ser, mais tarde, reinvestida em novos objetos.

❑ Efeitos, papéis e funções do complexo de Édipo


O Édipo é o ponto nodal em torno do qual se ordenam as relações que estruturam a famí-
lia humana, no sentido amplo da sociedade como um todo. É o momento em que o ser humano
confronta-se pela primeira vez com o fenômeno social. Pode-se considerar que um dos efeitos do
complexo de Édipo – e sobretudo pela proibição do incesto e da instauração da moral – consti-
tui uma vitória da espécie sobre o indivíduo (Freud, 1924).
O Édipo é também o momento fundador da vida psíquica. A sexualidade que o condiciona
atinge aqui seu apogeu, com o acesso à genitalidade, caracterizado, entre outros:
• pelo primado da zona genital;
• pela superação do auto-erotismo primitivo por um homoerotismo em espelho;
• pela orientação para objetos exteriores diferentes de natureza, iguais em valor e
complementares de função...
Porém, se o Édipo marca o auge da “sexualidade infantil”, ele anuncia também o apaga-
mento temporário que caracteriza a relativa quietude pulsional da latência.
O conflito edipiano participa também da constituição da realidade do objeto, que se au-
tentica como um objeto global, inteiro e sexuado, substituindo o objeto parcial das pulsões
pré-genitais. Entretanto, objeto sexual só terá – como objeto edipiano – uma existência efê-
mera, pois está destinado a ser abandonado, sendo feita sua revivescência normalmente pelo
deslocamento da imagem parental para outros objetos inteiros.
Assim se compreende, em todo caso, como o Édipo poderá determinar a escolha do objeto
de amor definitivo, o que não constitui um dos menores efeitos da experiência.
O Édipo, desempenha um papel de primeiríssimo plano na constituição das dife-
rentes instâncias intrapessoais, ao exame das quais iremos consagrar, agora, a última parte
de nosso estudo do complexo de Édipo.

Ego, Superego, Ideal do Ego, Ideal de Si-mesmo...


“O Superego é o herdeiro do complexo de Édipo”. Essa afirmação fundamental de Freud
não foi jamais desmentida nem contestada, mas deve ser entendida em seu rigor. Freud escre-
ve, além disso, que “o estabelecimento do Superego pode ser considerado como um caso de
identificação exitosa.”

❑ Identificação
Esse termo designa, de acordo com Laplanche e Pontalis, um “processo psicológico pelo
qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade ou um atributo do outro e se transfor-
PSICOPATOLOGIA 43

ma, total ou parcialmente, a partir do modelo deste. A personalidade se constitui e se diferen-


cia por uma série de identificações”. Para Freud, “o Ego é constituído pela sedimentação das
antigas relações objetais”, ou ainda “a relação de objeto perdida é substituída pela identificação
do Ego com o objeto”.
Existem, grosso modo, dois grandes movimentos identificatórios, constitutivos da perso-
nalidade e diferenciando-a:
• A identificação primária, modo primitivo de constituição do sujeito sobre o mo-
delo do outro, correlativa da relação de incorporação oral, visando, antes de mais nada,
a assegurar a identidade do sujeito, a constituição do Si-mesmo e do Eu.* Ou seja, esse
movimento pertence essencialmente ao registro narcisista.
• A identificação secundária, contemporânea do movimento edipiano, se fazendo su-
cessivamente em relação aos dois pais, em suas características sexuadas, e constitutiva
da identidade sexuada e da diferenciação sexual.
No Édipo, há duas ligações simultâneas, psicologicamente diferentes: a ligação objetal
com a mãe e a identificação com o pai, nascendo a forma positiva do Édipo do encontro dessas
duas ligações (caso do menino).
De fato, na forma completa do movimento edipiano coexistem quatro tendências e duas
identificações: tendência terna em relação ao pai e à mãe; tendência hostil em relação ao pai
e à mãe; identificação com o pai e com a mãe, e as diferenças de intensidade apresentadas
por essas duas identificações refletem a desigualdade das duas variedades de disposições
sexuais.
Portanto, a destruição do complexo de Édipo dá lugar a duas instâncias “morais”:
– O Ideal de Si-mesmo, como o chamamos no item “Narcisismo e genitalidade”,5 herdeiro
ainda uma vez do narcisismo. Ele possui o valor de um apelo: seja como teu pai...
– O Superego, herdeiro do Édipo, e que é uma proibição interiorizada: não faças o que jul-
gas nefasto para ti ou para o outro.
O conflito edipiano do menino se dá entre o desejo de ter o pai e o sentimento de que isso
o impede de se identificar com ele. A saída é a renúncia ao desejo de ter para poder ser como.
Do mesmo modo, a menina deve renunciar a possuir falicamente a mãe para se identificar com
ela, renuncia a ser o pai, na esperança de ter o pai.
Observemos, a propósito do Ideal de Si-mesmo, que a idealização ocorre mais cedo, ou
seja, anteriormente ao Édipo, quando a criança atribui aos pais poderes mágicos. Porém, pode-
se dizer que é então a primeira vez que a idealização tem a ver com o comportamento moral.
Além disso, além da introjeção parental sob a imagem legiferante do Superego, o Édipo deve
ser resolvido pela sublimação da imagem parental interiorizada.

❑ Desenvolvimento do Superego
É a interiorização de todas as proibições passadas e presentes (sobretudo em relação à
pulsão sexual) que completa a formação da instância psíquica chamada de Superego. Mas é
preciso notar que, para escapar dos conflitos centrados no amor, no ódio, na culpa e na an-

* N. de T. Escolhemos traduzir o “Je” francês por “Eu”, até mesmo para diferenciá-lo do Ego como conceito.
5
Ver acima. Pode-se, sem dúvida, conservar a expressão “Ideal do Ego”, mas para reservá-la a um nível objetal e
egóico. Lembremos que foram muito debatidas as noções de “Ideal do Ego” e de “Ego ideal” (controvérsias com
D. Lagache e H. Nunberg, por exemplo).
44 JEAN BERGERET

gústia, não é com os pais, tais como são na realidade, que a criança se identifica, mas com
pais idealizados, puros, sem falha, fiéis a seus próprios princípios, etc. Se bem que, afinal de
contas, o que é interiorizado é o próprio Superego dos pais.
Fenichel pensa que muitos dos problemas permanecem em aberto, no que concerne à
formação do Superego. Se este fosse simplesmente uma identificação com o objeto frustrante
do complexo de Édipo, poder-se-ia esperar que o menino tivesse um Superego “materno”, e a
menina, um Superego “paterno”. Ora, embora todos tenham traços de ambos os pais em seu
Superego, esse não parece ser o caso. Fenichel acrescenta que, em nossas condições sociais,
o “Superego paterno é em geral decisivo para ambos os sexos”, sendo a identificação mais
importante, tendo por objeto aquele dentre os pais que é considerado a fonte das frustrações
decisivas: em geral o pai, tanto para a menina como para o menino.

❑ Funções do Ego, do Superego e do Ideal de Si-mesmo


As funções do Ego estão centradas na relação com a realidade. Em suma, seu alvo é rea-
lizar um certo compromisso entre as pressões do Id, do Superego e do mundo exterior.
As funções do Superego estão centradas nas exigências morais. A função crítica assim
designada constitui uma instância que se separou do Ego e parece dominá-lo: “uma parte do
Ego se opõe à outra, julga-a de maneira crítica e, por assim dizer, toma-a por objeto” (Freud,
1917).
Essa censura opera em grande parte de maneira inconsciente, de modo que se pode falar
de um “sentimento de culpa inconsciente”, malgrado a aparente contradição em termos. Isso é
o que explica, por um lado, o rigor irracional do Superego.
Sua constituição transforma muitas funções mentais. Desse modo, a angústia se trans-
forma, em parte, em sentimentos de culpa. Sendo o Superego o herdeiro dos pais como fonte
não apenas de ameaças e de punições, mas igualmente de proteção e de amor reconfortante,
torna-se também importante estar em bons ou maus termos com seu Superego, do mesmo
modo que, outrora, estar em bons ou maus termos com os pais. Dito de outra forma, a estima
de Si-mesmo – e sua recarga permanente em aportes narcísicos – não depende mais da apro-
vação ou da rejeição pelos objetos exteriores, mas antes do sentimento interior de ter ou não
ter feito o que era preciso.
Quanto ao Ideal de Si-mesmo, essa noção será por muito tempo confundida com a do
Ideal do Ego e também com a do Superego. Enquanto instância diferenciada, o Ideal de Si-mesmo
constitui um modelo ao qual o sujeito busca se conformar. Sua função essencial é a de ser uma
referência ao sentimento de estima de si-mesmo, necessário para cada um. Sua origem – apesar de
sua atualização reforçada, no momento do Édipo – permanece principalmente narcisista.

EM RESUMO
No que concerne ao Superego
Este é uma vez mais o herdeiro do complexo de Édipo e se edifica por meio de um mecanis-
mo de identificação com as imagens parentais interiorizadas, introjetadas.
Ele toma para si as exigências atribuídas aos pais, função que é, pois, dependente em
grande parte da projeção e que pode ser facilmente reprojetada, ou seja, deslocada para os
personagens de autoridade que aparecerem. Ele pode, então, mostrar-se – e mostra-se freqüen-
temente – mais severo que os próprios pais.
Enfim, desde que se atenue, progressivamente, a crença na onipotência parental, o Supe-
rego irá prosseguir como sistema autônomo, que forma a base da consciência moral.
PSICOPATOLOGIA 45

Período de latência
Sucedendo ao Édipo (entre 5 e 6 anos até a puberdade) e a suas agitações, a fase seguinte
do desenvolvimento é classicamente considerada como uma fase de repouso e de consolidação
das posições adquiridas. Trata-se de uma etapa de parada no desenvolvimento sexual. Nela,
não deixam de surgir manifestações sexuais, mas não se pode, entretanto, descrever uma “or-
ganização” nova da sexualidade. É por isso que em geral se fala de “período” e não de “fase” de
latência: os instintos sexuais turbulentos adormecem, o comportamento tende a ser dominado
por sublimações parciais e por formações reativas; enfim, a criança aí se volta, de preferência,
para outros domínios que não os sexuais: escola, companheiros de brincadeiras, livros e outros
objetos do mundo real, ainda que a energia desses novos interesses seja sempre derivada dos
interesses sexuais.

Desenvolvimento psicossexual
No declínio do Édipo, as impossibilidades reais de satisfação pulsional – sejam externas (a
lei), sejam internas (inadequação antepuberal) –, em conjunto com a criação do Superego, pou-
co a pouco internalizado, e com as pressões sociais exteriores, vão se acrescentar para provocar
a entrada na fase de latência, durante a qual se constata essencialmente uma modificação
estrutural das pulsões sexuais.
Essa transformação não somente torna possível a utilização da energia pulsional, in-
vestindo-a em outros objetos, mas sobretudo permite perseguir outros alvos, a tensão cres-
cente tende a se satisfazer de maneira substitutiva. Desse modo, observa-se inicialmente
uma dessexualização ao mesmo tempo das relações de objeto e dos sentimentos, com uma
prevalência da ternura sobre os desejos sexuais. Diz-se que as tendências libidinais se en-
contram “inibidas quanto ao alvo” e transformadas em emoções ternas (Zärtlichkeit). Freud
vê no período de latência uma verdadeira redistribuição das energias pulsionais.
De fato, esse repouso aparente freqüentemente não é profundo, e a masturbação, as ten-
dências edipianas e as regressões pré-genitais continuam em certa medida. É por isso que a
clássica menor importância assumida aqui pela sexualidade é relativa, e não absoluta.

Relação de objeto
Repitamos, ainda, que se observa nesse período a transformação dos investimentos de obje-
tos em identificações com os pais e que os desejos libidinais dirigidos aos pais, como objetos de
amor, irão ser substituídos pelas expressões sublimadas da afeição: ternura, devoção, respeito...
Do mesmo modo, esse período é particularmente favorável às aquisições educativas, es-
colares, culturais – e é, de fato, um tempo de aquisição eminentemente receptivo, no domínio
intelectual. A idade de 7 anos é considerada, em nossas civilizações, como “a idade da razão”
em todos os sentidos da palavra (inclusive, ou sobretudo, o da “idade em que se raciocina”),
e bastaria lembrar a intensa necessidade de explicações lógicas que as crianças manifestam e
da qual elas se mostram até mesmo ávidas, até cansarem com suas perguntas os adultos de
seu entorno.
Enfim, pode-se dizer também que a energia pulsional disponível é canalizada nos jogos
ou nas atividades sociais mais diversas, o que leva a destacar aqui uma verdadeira mudança
de objeto. Foi dito, a esse respeito, que a criança é cada vez mais atraída por objetos concretos,
não representando um produto da imaginação como os contos de fadas de que tanto gostava
durante toda a sua primeira infância. E se quis dar a isso duas explicações:
46 JEAN BERGERET

– Durante o período de latência, as crianças não ousam se comprazer com pensamentos


abstratos, em função do perigo de despertar novamente conflitos sexuais.
– As crianças não têm necessidade disso, porque seu Ego é relativamente forte e não se
encontra em perigo imediato.
Entretanto, a criança ainda procura estar nas proximidades do objeto de amor, pelo menos
no começo do período de latência, no qual a ambivalência cresce, o que se exprime, no compor-
tamento, por uma alternância de obediência e de rebelião, seguida de remorsos. Depois, com as
reações hostis tendendo a ser eliminadas, a criança começa a se aproximar das outras pessoas
de seu entorno para estabelecer com elas relações amigáveis. Ela está, então, pronta para ser
influenciada pelas outras crianças e por outros adultos que não seus pais. Como ela se tornou
capaz de comparar esses últimos, sua crença na onipotência parental se enfraquece.

Puberdade
Não se trata, aí, nem de uma “fase”, nem de um “período”, mas freqüentemente – para
não dizer a maior parte do tempo – de uma “crise”, a que se tem o hábito de considerar como
a “crise da adolescência, cujo começo põe fim, bastante bruscamente, ao período de latência
que a precede”.
Notaremos, aqui, que se tem cada vez mais tendência a distinguir a puberdade (somática)
da adolescência (afetiva e relacional).
De qualquer modo, a tarefa psicológica essencial é a adaptação da personalidade às novas
condições produzidas pelas transformações físicas, e podem-se considerar todos os fenôme-
nos psíquicos que caracterizam a puberdade como tentativas de restabelecimento do equilíbrio
perturbado.

Desenvolvimento psicossexual
Ele é, antes de tudo, caracterizado por uma revivescência pulsional maciça, brutal ou pelo
menos dramática, por reativação e superativação tanto das pulsões agressivas como da libido,
tanto narcisistas como objetais.

❑ “Pré-puberdade” ou “pré-adolescência”
É uma fase intermediária, entre a latência e a puberdade, no curso da qual todas as pul-
sões presentes são investidas sem discriminação. Dito de outra forma, as tendências infantis
reaparecem com força, ainda que em condições diferentes, enquanto que os mecanismos de
defesa, que transformavam as tendências negativas em positivas, atenuam-se ou desapare-
cem. O desenvolvimento sexual parece ser retomado exatamente no ponto em que havia sido
abandonado, na época da resolução do complexo de Édipo, e então se produz regularmente
uma intensificação das pulsões edipianas.

❑ Crise narcísica e identificatória


Associada a essa revivescência, o desenvolvimento psicossexual é também uma crise nar-
císica, sobretudo com dúvidas angustiantes a respeito da autenticidade de si, do corpo, do
sexo, realizando, de acordo com Male, uma nova “fase do espelho”, e caracterizando a famosa
“idade ingrata”. Observam-se muitas vezes, mesmo fora de qualquer fator ou contexto psicó-
tico, sentimentos de “bizarrice” e de “estranheza”. Manifestam-se inquietudes às vezes vivas
a propósito do nariz, dos olhos, das olheiras, da modificação dos traços, das fadigas sentidas
PSICOPATOLOGIA 47

– sem falar, por certo, do desenvolvimento dos próprios órgãos genitais e de suas conseqüên-
cias (primeiras poluções e primeiras menstruações) assim como do surgimento dos caracteres
sexuais secundários (pilosidade, mudança da voz, etc.).

❑ Relação com o corpo


Observemos que o menino continuará, durante toda a vida, a conferir um grande valor
narcísico a seu pênis, fácil de exibir. Na menina, efetua-se, no momento da puberdade, uma
mudança de direção com tendência a transferir – sempre sob o ângulo narcisista – o interesse
conferido aos órgãos genitais (clitóris, seios nascentes), ao corpo por inteiro e ao potencial que
ele contém: são todas as preocupações conhecidas, concernentes sobretudo à beleza do rosto
e da silhueta, o cuidado em “manter a linha”, os cuidados dados às vestimentas, à higiene – à
própria alimentação, enquanto permite ou desfavorece um certo “ideal” na constituição ou na
manutenção das “formas” exteriores (signos exteriores de riquezas internas).
Enfim, por essa época, as estruturas psíquicas podem se recolocar (psicótica, neurótica,
estado-limítrofe), e, em todo caso, a puberdade será a última chance oferecida ao adolescente
de resolver espontaneamente o conflito edipiano, se isso já não tiver sido feito.

❑ Puberdade propriamente dita


Ela é autenticada pelo acesso à maturidade sexual física, é marcada – sobretudo no
menino – pelo fato de que, se, antes, o aumento do investimento instintual permanecia,
apesar de tudo, relativamente indiferenciado, a partir de agora, a libido vai se concentrar
especificamente em sentimentos, alvos e idéias genitais, ficando as tendências pré-genitais
(pelo menos aparente e temporariamente) relegadas a segundo plano, o que não as impede
em absoluto de reaparecer na primeira oportunidade. Esta é condicionada principalmente
pelo fato de, em nossas civilizações, as vias de saída heterossexual serem limitadas por um
consenso social que se opõe violentamente às relações sexuais durante a adolescência. Isso
permanece globalmente verdadeiro, na véspera do ano 2000, quaisquer que possam ser as
aparências.

❑ Masturbação
Cedo ou tarde, entretanto, as tendências genitais crescentes encontram sua expressão
em uma atividade masturbatória cuja necessidade é sentida (sobretudo no menino, e menos
claramente na menina, é verdade) como uma necessidade ao mesmo tempo imperiosa e muito
reprovada, tanto por si mesmo como por outrem. O que dá, logicamente, nascimento aos sen-
timentos de culpa muito intensos, se bem que se trate, em nosso contexto sociocultural, de
um fenômeno bem banal, enquanto única saída possível, no momento, para a satisfação das
necessidades sexuais.
A masturbação é freqüentemente vivida como culpabilizante e angustiante:
– Seja pelo fato da pressão externa. E basta fazer menção aos relatos atemorizadores
e correntes concernentes à sua pretensa nocividade, com suas conseqüências imaginárias:
loucura, impotência, esterilidade, perda dos órgãos genitais... Temores o mais das vezes sus-
tentados pelos adultos, que se defendem assim de sua própria culpa e de sua própria angústia
6
a esse respeito.

6
Outrora, um cardeal romano, conhecido por seu rigorismo e sua intransigência, dizia que não existiam, a seus
olhos, senão dois “remédios” contra a masturbação: as vagens (entenda-se: valorizar a oralidade pré-genital?)
e o pavor (entenda-se o terror do inferno).
48 JEAN BERGERET

– Seja, sobretudo, pelo fato de que essa culpa se relaciona com a revivescência dos con-
flitos edípicos não-resolvidos e do complexo de castração. Não esqueçamos que o Superego se
constituiu em substituição à proibição externa, e que o que conta, sobretudo, mais mesmo que
a própria masturbação, são as fantasias masturbatórias que acompanham, que são então,
muito freqüentemente, de tipo edipiano.

OBSERVAÇÕES
Na menina, a masturbação passa a ser principalmente clitoridiana, ainda que suscetível
de ser mais facilmente “deslocada” que no menino para substitutos: nariz, boca, cabelos... com
fantasias bissexuais referenciadas nas relações entre os pais, enquanto que o sujeito imagina
manter os dois papéis, sobretudo, talvez, o papel masoquista (Freud, 1909).
A proibição total, em ambos os sexos, de toda atividade auto-erótica não parece menos
patológica que a masturbação compulsiva. Uma e outra atestam o fato de que os conflitos sub-
jacentes (sobretudo edipianos) não foram resolvidos e que suas conseqüências se fazem sentir
tanto no plano das condutas sexuais quanto no das relações sociais.
É preciso dizer também que há uma ligação entre neurose e masturbação, mas... no neuró-
tico somente, pois as fantasias e a reprodução da masturbação só são patogênicas em função
dos conflitos Id/Superego, eles próprios patogênicos. Dito de outra forma, as conseqüências
psicológicas da culpa e da angústia é que são temíveis, e não a masturbação como tal.

❑ A puberdade superada
“A puberdade é superada, ou seja, a sexualidade é instalada na personalidade, quando
o sujeito é capaz de ter um orgasmo completo”,7 escreve Fenichel (1953), acrescentando que
transtornos nesse domínio, tendo como fonte recalcamentos passados, podem servir de base a
neuroses. Aqueles, por exemplo, que têm medo dos caracteres da maturidade, a saber, o reco-
nhecimento da realidade das pulsões, sem angústia diante delas, nem necessidade de passa-
gem compulsiva ao ato, tentam prolongar um estado de dependência real com uma esperança
“irreal” de onipotência.

Relação de objeto, escolha objetal


No período da pré-adolescência, a libido se dirige novamente para os objetos de amor da
infância, ou seja, os objetos de amor parentais, e a primeira tarefa do Ego será integrar, fazer
desaparecer a qualquer preço a necessidade objetiva de viver essa escolha parental. De fato, o
dilema se coloca novamente entre a relação materna objetiva pré-genital e dual, por um lado,
e, por outro, a relação imaginária objetal triangular e genital com os homens e mulheres que
vão substituir os pais.
Como regra geral e de maneira característica, o jovem indivíduo vai isolar-se e se com-
portar como um estranho em relação à sua família; é a revolta pubertária contra os pais, a
autoridade ou seus substitutos simbólicos. Emancipação tanto mais barulhenta e espetacular
quanto ela tiver sido mais tardia e tanto quanto as fixações criança-pais – fixação da criança
pela submissão, ou dos pais pela reprovação – tiverem sido mais ou menos constrangedoras.
Essa luta contra os antigos investimentos pode desembocar seja na rejeição aparente e
total dos pais, e, pois, na ruptura, em direção a um modo de vida totalmente diferente, seja
no restabelecimento de um equilíbrio, em uma tolerância recíproca e na afeição sublimada e

7
Ou seja, em uma perspectiva objetal.
PSICOPATOLOGIA 49

compartilhada. Acrescentemos que a saída desse conflito depende – mais ainda que da atitude
real dos pais – do modo de resolução ou de não-resolução do conflito edipiano, sendo deixa-
da ainda uma última chance ao indivíduo para liquidar espontaneamente esse último. Uma
possibilidade de passagem ao ato (oposta à inserção normal no imaginário) pode surgir nas
condutas de reivindicação ativa e geralmente violenta em relação tanto ao “burguês”, inicial-
mente, e em um contexto afetivo-político obscuro, quanto, mais tarde, ao parceiro sexual, no
nível afetivo, ou ao “patrão”, no plano social.
De qualquer modo, nessa tentativa de solução do conflito, a escolha de novos objetos
libidinais desempenhará, para o adolescente, um papel considerável. Na maioria das vezes,
trata-se, então, de ligações compulsivas e passageiras a pessoas da mesma idade, com as
quais a relação assume a forma de uma amizade apaixonada ou de um amor real, seja, ou
ao mesmo tempo, a mais velhas, que representam claramente substitutos parentais, as quais
terão cada vez menos traços comuns com as imagens parentais originais, à medida que se dá
a maturação afetiva.
Essas fixações amorosas passageiras, freqüentemente abandonadas, tanto mais rápida
e completamente quanto tiverem sido mais apaixonadas e exclusivas, não representam real-
mente relações objetais, mas antes ligações identificatórias, dominadas que são pelo esforço
desenvolvido para se vincularem ao mundo exterior de uma maneira narcisista. Anna Freud
diz que o adolescente, em sua vida libidinal, regride do amor objetal ao narcisismo.
Isso explica, em todo caso, uma das razões pelas quais os jovens púberes procuram, em
geral, se assemelhar: “com a finalidade, escreve Fenichel, de trocar histórias sobre a sexuali-
dade, ou mesmo de ter atividades instintuais em comum” (identificação narcisista), do mesmo
modo que para provar a si mesmos que “não são piores do que os outros” (Ideal de Si-mesmo,
narcisista). A tendência é, em todo caso, em função ao mesmo tempo dos fatores sociais e das
identificações parentais, de se reunirem grupos homossexuados, para evitar a presença exci-
tante do outro sexo e, ao mesmo tempo, evitar estar sós, o que permite se reconfortarem.
Mas eis que o que tinha sido afastado retorna, e as amizades que tinham sido travadas
na esperança de evitar as relações sexuais objetais assumem, mais ou menos abertamente, um
tom sexual de superfície: a primeira escolha objetal da puberdade será, pois, muitas vezes uma
escolha homoerótica, até mesmo com experiências homoeróticas ocasionais entre adolescentes
(sobretudo, talvez, nas meninas), experiências que não devem ser consideradas como automa-
ticamente determinantes para o porvir, pois:
– Elas testemunham, freqüentemente, apenas a solidez da identificação parental que o
adolescente procura dissolver.
– Elas aparecem como um fenômeno temporário de adaptação.
– Elas não conduzem a fixações definitivas.
– Elas são muitas vezes devidas tanto à timidez em relação ao outro sexo (e às tradições
culturais) como ao prolongamento da orientação narcisista da maioria das necessidades obje-
tais dessa época.

CONCLUSÃO
Freud não teme comparar, algures, o tratamento psicanalítico a uma partida de xadrez;
porém, poder-se-ia também retomar essa comparação para encerrar uma proposição sobre o
desenvolvimento da personalidade. Com efeito, o que precede incita a pensar que, uma vez
realizadas as aberturas, o jogo da partida se manterá, de qualquer modo, em grande parte
dependente dos primeiros lances.
50 JEAN BERGERET

Em todo caso, é quase o que dizemos, grosso modo, pelo menos de forma imajada, quando
procuramos definir, em um indivíduo dado, doente ou não, uma estrutura psíquica, descom-
pensada ou não, que é como o modo de organização global, formal e definitivo da personali-
dade. Essa estrutura:
– Marcará, em maior ou menor grau, com seu selo indelével, todas as condutas ou os
comportamentos do adulto, caracterizando sobretudo o tipo relacional próprio do sujeito con-
siderado. Se ela se decompensa, no sentido patológico, ela o fará de acordo com as linhas
de clivagem previamente estabelecidas em seus limites, suas direções, suas angulações, um
pouco como o que se passa em um cristal mineral que vem a se fragmentar, segundo a célebre
comparação de Freud.
– Por outro lado – e isso não é ser estreitamente determinista, e muito menos fatalista,
mas é dar a maior importância, contrariamente às teorias constitucionalistas, a todas as aqui-
sições, até as de uma adolescência que se prolonga além do 20o ano – uma tal estrutura não
é considerada como fixada senão ao termo de um longo desenvolvimento, rico de todos os
potenciais, bem como de todos os riscos e perigos.
Ainda é preciso acrescentar que a psicanálise, antes mesmo de se tornar uma “psicologia”,
foi, para seu fundador, e permanece sempre, um método terapêutico virtualmente capaz, sob
algumas condições – não sendo estas somente de ordem formal ou exterior –, de modificar
essas linhas de clivagem e, por conseqüência, a personalidade por inteiro.
Afinal de contas, isso é justificar a importância de primeira ordem conferida, na clínica,
à vivência, tanto subjetiva quanto objetiva, tanto inconsciente e recalcada como memorizada,
dos primeiros anos de vida.

REFERÊNCIAS
ABRAHAM (K.) – Esquisse du développement de la libido basée sur la psychanalyse des troubles mentaux
(1924). In “Oeuvres complètes”, tomo II, p. 255-313 (tradução francesa, Payot).
ABRAHAM (K.) – Étude psychanalytique de la formation du caractère (1925). In “Oeuvres complètes”,
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