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Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares, vol.1. n. 1, 2004.

LEGISLAÇÃO E PRESERVAÇÃO
DO PATRIMÔNIO IMATERIAL
perspectivas, experiências e desafios
para a salvaguarda das culturas populares
Letícia C.R.Vianna

A legislação brasileira relativa à salvaguarda e proteção do


patrimônio cultural tem-se desenvolvido desde, pelo menos, a
primeira metade do século 20. Existem instrumentos de prote-
ção do patrimônio – sobretudo o tombamento – que já vêm
sendo experimentados e legitimados. Recentemente as aten-
ções foram voltadas para formulação de instrumentos de pre-
servação do patrimônio imaterial: o registro de bens culturais
imateriais e o Inventário Nacional de Referências Culturais.
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular tem testado
a aplicabilidade desses instrumentos e desenvolvido reflexões
sobre limites e perspectivas para a legislação de proteção do
patrimônio cultural das culturas populares.

Palavras-chave: CULTURA POPULAR, PATRIMÔNIO IMATERIAL, INVENTÁRIO, LEGISLAÇÃO.

O patrimônio cultural é constituído, prin- cultural, as tradições e o potencial para a


cipalmente, das obras, da memória, da criatividade dinâmica formam uma das
visão de mundo, das práticas e do poten- maiores, senão a maior, riquezas de um
cial criativo, dos conhecimentos desen- Estado-Nação no contexto contemporâ-
volvidos sobre biodiversidade, tecnolo- neo da globalização. Em contrapartida a
gias, dimensões do sagrado e formas de esse capital – que o distingue e afirma
autodeterminação e autonomia de grupos no contexto internacional – o Estado deve
sociais e comunidades. A diversidade zelar e criar as condições ideais para que

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as pessoas, os cidadãos, tenham sempre Estado reconhecer a cultura popular
motivações para manter vivo seu patri- como de interesse nacional, há, ainda,
mônio cultural. questões que se colocam e universos sim-
A legislação brasileira relativa à salva- bólicos expressivos e referenciais da ri-
guarda e proteção do patrimônio cultu- queza cultural que deveriam ser reconhe-
ral tem-se desenvolvido desde, pelo me- cidos oficialmente como nosso patrimô-
nos, a primeira metade do século 20. nio.
Nasceu quando a melancolia perante a No sentido de corrigir essa distorção a
ameaça de desaparecimento das tradições Constituição de 1988 formaliza a dimen-
e identidades culturais – típica do roman- são imaterial dos bens culturais. Nos ar-
tismo – foi sendo substituída pela ação tigos 215 e 216 o conceito de Patrimô-
pragmática moderna de criação de juris- nio Cultural abarca tanto obras arquite-
prudência e políticas com o objetivo de tônicas, urbanísticas e artísticas de gran-
desenvolver meios de controlar e enca- de valor (patrimônio material) quanto
minhar solução para as tensões e confli- manifestações de natureza “imaterial”,
tos de interesses na área. relacionadas à cultura no sentido antro-
Ao longo de décadas o esforço para de- pológico: visões de mundo, memórias,
senvolvimento de legislação de proteção relações sociais e simbólicas, saberes e
do patrimônio cultural proporcionou acú- práticas; experiências diferenciadas nos
mulo de experiências e conhecimentos grupos humanos – chaves das identida-
bastante significativo. Existem instru- des sociais afirmadas ao longo do secu-
mentos de proteção do patrimônio mate- lar processo de globalização. A partir e
rial – sobretudo o tombamento – que já para além da cultura material, dos mo-
vêm sendo experimentados e legitimados numentos e obras de arte, patrimônio é
desde a década de 1930. compreendido também como as coisas
que se passam na cabeça das pessoas, o
Mas, de modo geral, a orientação da le- que criam, como criam, os sentidos que
gislação e de políticas públicas foi um dão para o que criam...
tanto etnocêntrica, privilegiando a pre-
servação de apenas uma parte do patri- Por 12 anos essa imaterialidade foi, de
mônio cultural – sobretudo as obras de certa forma, inapreensível pela lei. De lá
influência européia reconhecidas pela para cá um grupo ligado ao Estado se pôs
cultura oficial. Tendo em vista que o Bra- a trabalhar na construção de um princí-
sil é um país culturalmente plural e di- pio regulamentador de políticas para o
verso, podemos dizer que por mais que patrimônio imaterial. O esforço resultou
tenha havido grande esforço e avanço no Decreto 3.551de 4/8/00, que institui
(sobretudo por parte dos intelectuais e o registro de bens culturais de natureza
artistas no movimento modernista e de imaterial e o Programa Nacional do
muitos outros intelectuais e artistas, nos Patrimônio Imaterial.
movimentos subseqüentes) em fazer o De acordo com esse decreto, cabe ao

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Conselho Consultivo do Instituto do Pa- O objetivo é que os inventários e regis-
trimônio Histórico e Artístico Nacional tros proporcionem ampla base de dados
– Iphan – o registro nos quatro livros até no sentido de orientar as políticas públi-
agora estabelecidos: o Livro dos Sabe- cas de preservação cultural e regulamen-
res e Modos de Expressão, o Livro das tação de direitos para as comunidades
Celebrações, o Livro das Formas de Ex- criadoras dos bens culturais em questão.
pressão e o Livro dos Lugares. Outros Pois entende-se que, dada a natureza
livros poderão ser criados. Núcleos de imaterial do bem cultural, ele só se con-
trabalho instituídos em diferentes instân- servará, efetivamente, se vivido por pes-
cias e parcerias serão organizados para soas em condições, ou seja, com garan-
instruir os registros – que já têm uma tias e interesses de vivenciá-lo de modo
metodologia de inventário básica a ser dinâmico e criativo
preferencialmente aplicada: o Inventário Espera-se, assim, que o programa sirva
Nacional de Referências Culturais – como um canal e um estímulo para a so-
INRC. ciedade brasileira e seus múltiplos seg-
mentos estabelecerem comunicação com
Registro e inventário são instrumentos à o Estado, de modo a encaminhar as de-
disposição do Estado e da sociedade para mandas sobre suas referências culturais.
a sistematização dos métodos de identi- E que crie, efetivamente, condições para
ficação, documentação e reconhecimen- a articulação, fomento e apoio às políti-
to dos bens que constituem o patrimônio cas de estados e municípios para promo-
cultural brasileiro cuja preservação es- ver o reconhecimento e o registro, ela-
cape ao âmbito dos instrumentos tomba- borar políticas públicas de valorização e
mento e legislação autoral atual, isto é, o de apoio à diversidade cultural.
patrimônio que, de maneira geral, este-
ve à margem das políticas de preserva-
ção, em especial o patrimônio cultural O CNFCP E A
das camadas populares. SALVAGUARDA DAS
Não são instrumentos fechados, CULTURAS POPULARES
normativos e restritivos, como o tomba-
mento tem que ser. São abertos, pois o O Centro Nacional de Folclore e Cultura
bem protegido não tem forma e substân- Popular – CNFCP – esteve entre as vári-
cia absoluta e imutável, mas relativa aos as instituições que participaram desse
pontos de vista e expectativas dos porta- processo de elaboração do texto do de-
dores de tradições culturais específicas. creto, formulação e implantação do Pro-
Pressupõem a dinâmica própria dessas grama Nacional de Patrimônio Imateri-
tradições, sem pretender “engessar” suas al.
formas e conteúdos no tempo e no espa- Ao longo de sua trajetória institucional
ço. o Centro Nacional de Folclore e Cultura

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Popular tem acumulado amplo conheci- Celebrações e Saberes da Cultura Popu-
mento e boa articulação com a academia, lar com o apoio da Secretaria de Patri-
a sociedade civil e o Estado no sentido mônio Museus e Artes Plásticas do Mi-
de executar ações no âmbito nacional nistério da Cultura.
voltadas para a salvaguarda do patrimô- Partindo de amplo acervo e da atualiza-
nio cultural brasileiro. ção de informações em pesquisas de cam-
O CNFCP é composto das unidades po, há todo um esforço de integrar as
Museu de Folclore Edison Carneiro, Bi- várias linhas de ação da instituição ao
blioteca Amadeu Amaral e dos setores projeto de inventário e registro da cultu-
de Pesquisa, Difusão e Ação Educativa. ra imaterial brasileira, de modo a produ-
A instituição mantém reserva técnica, zir uma sistematização de dados relati-
uma exposição permanente, uma galeria vos a temas que equacionem a unidade
de exposições temáticas temporárias nacional e a pluralidade cultural a par-
(duas a três por ano); uma sala de expo- tir das seguintes frentes: as diferentes ce-
sições de curta duração (oito a 10 por lebrações relacionadas ao complexo cul-
ano) voltadas para a pesquisa, difusão e tural do boi, os diferentes modos de fa-
comercialização da arte e do artesanato zer relacionados ao artesanato em bar-
popular tradicional, e uma loja. Tem três ro; as diferentes formas de expressão e
projetos itinerantes de ação educativa – modos de fazer relacionados à musicali-
De Mala e Cuia, Olhando em Volta, Fa- dade das violas e percussões; os dife-
zendo Fita – que atendem às escolas das rentes modos de fazer relacionados aos
redes pública e particular de ensino. De- sistemas culinários a partir dos elemen-
senvolve várias linhas de publicações e tos mandioca e feijão.
co-edições, como os catálogos de expo- Procuramos criar experiências piloto no
sições, séries acadêmicas, livros, cds. No âmbito do Programa Nacional de Patri-
que se refere ao apoio à pesquisa pro- mônio Imaterial, um esforço concentra-
move concursos, cursos e projetos desen- do para:
volvidos em campo. Além de outras ati-
vidades, como a Mostra Internacional do 1- sistematizar documentos e referên-
Filme Etnográfico, seminários, encon- cias sobre bens culturais expressivos
tros, oficinas e exposições itinerantes. da diversidade cultural brasileira, em
Grande parte dessas ações é desenvolvi- especial os relativos ao patrimônio
da com bons parceiros. Anualmente a ins- oriundo das culturas populares;
tituição recebe mais de 100 mil usuári-
os/visitantes que usufruem dos resulta- 2 - descrever e localizar os referidos
dos das várias frentes de trabalho. bens, suas ocorrências, recorrências
e transformações em seus contextos
No sentido de se integrar ao Programa específicos, por meio de pesquisas
Nacional de Patrimônio Imaterial o etnográficas e documentos analíticos
CNFCP está desenvolvendo o Projeto produzidos por técnicos especialistas;

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3 - atuar localmente no sentido de mo- térias-primas, oficinas de repasse de sa-
bilizar, orientar e articular instituições beres tradicionais, exposições, publica-
públicas e diferentes instâncias das ções, encaminhamentos para registro.
comunidades para os processos de Na linha da musicalidade das violas e
reconhecimento, registro, fomento e percussões, foram abertos inventários do
preservação dos bens culturais em jongo, no Sudeste, e da viola-de-cocho,
questão; no Pantanal. Na linha da cerâmica brasi-
leira, os inventário dos modos de fazer a
4 - disponibilizar os conhecimentos cerâmica de Candeal (MG) e Rio Real
reunidos por diversos meios (expo- (BA); quanto à culinária relacionada aos
sições, publicações impressas, audio- feijões, inicialmente foi aberto o inven-
visuais e cd roms, programas educa- tário do acarajé, em Salvador; e relacio-
tivos...) para diferentes públicos, no nado à mandioca, o inventário da fari-
sentido de informar amplamente e nha (partindo do Pará, mas abrangendo
subsidiar políticas na área; o país como um todo). Na linha do com-
plexo cultural do boi, o inventário do
5 - colaborar com o aprofundamento bumba-meu-boi do Maranhão – posto
teórico e prático dos rumos e signifi- que é considerado referência nacional,
cados das pesquisas e políticas pú- não obstante vários outros estados da fe-
blicas na área das culturas populares. deração terem suas manifestações espe-
cíficas de brincadeiras do boi.
BOI, BARRO, FEIJÃO, Todo o trabalho tem sido desenvolvido
com rede de parceiros locais, pois esta-
MANDIOCA, VIOLA E mos certos de que as parceiras locais são
PERCUSSÃO: fundamentais para que um inventário e
INVENTARIANDO O qualquer política de proteção cultural
PATRIMÔNIO POPULAR tenham êxito. Só com a adesão e o inte-
resse comum dos envolvidos é que o es-
Para potencializar as ações da institui- forço do inventário ganha sentido, isto
ção estão sendo abertos, preferencial- é, mobiliza as comunidades e amplia a
mente, inventários diretamente relacio- consciência e o cuidado sobre o patri-
nados com as ações em andamento, como mônio que detêm. De maneira geral as
os projetos do Programa de Apoio às comunidades acolhem o projeto com
Comunidades Artesanais, Sala do Artis- curiosidade e boa vontade, colaborando
ta Popular, Galeria Mestre Vitalino, etc. como for possível.
Assim, além de pesquisas de campo, reu- Observamos que o INRC é
niões com os envolvidos e documenta- potencialmente uma boa base de dados
ção sistemática, foram realizadas ações e fonte de informação, cujo conteúdo, em
de fomento relativas à obtenção de ma- larga medida, pode ser disponibilizado

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por vários meios. E deve ter, também, cururu, a dança do siriri, as festas do ci-
áreas protegidas, de acesso controlado, clo junino, as rodas e reuniões domésti-
no sentido de garantir a privacidade e cas, meio profanas, meio sagradas...
salvaguardar direitos das pessoas e
comunidades envolvidas. Em relação ao acarajé, não basta a pre-
Do ponto de vista técnico observamos servação das receitas. É importante dar
que, além de fundamentarem os registros atenção a todo um sistema cultural que
nos livros do Iphan, os inventários e do- envolve muitos mundos interligados, tais
cumentos complementares constituem como os interiores dos terreiros de can-
base para interlocução institucional, domblé; os cantos e pontos dos tabulei-
mobilização das comunidades e grupos ros das baianas nas ruas das cidades; as
em torno da organização de suas deman- receitas e sentidos dos demais quitutes
das em relação à proteção do patrimônio que vão dentro desses tabuleiros. E, so-
cultural. bretudo, os sentidos que vão dentro das
cabeças de quem faz e de quem come,
Assim, o INRC serve para indicar onde de quem vende e de quem compra esse
estão, quais e como são os bens culturais “bolinho de fogo”...
que, nesse momento, deverão ser objeto Os inventários de cerâmicas evidenciam
das políticas; e quais são as políticas ade- técnicas e padrões artesanais refinados e
quadas para garantir a salvaguarda des- especiais no contexto da produção arte-
se patrimônio. sanal brasileira; bem como modos de vi-
No caso do bumba-meu-boi do Mara- ver e sobreviver em comunidades muito
nhão, por exemplo, ficou claro que o foco pobres e excluídas dos processos de de-
das atenções preservacionistas deveria senvolvimento social.
estar sobre as inúmeras possibilidades de Nesse sentido, chamam a atenção para o
brincadeiras e sotaques que estão invisí- fato de que, no limite, além do potencial
veis, com riscos de desaparecimento, criativo da cultura brasileira, além da di-
pois ofuscados pelas brincadeiras e so- versidade, das tradições e riquezas cul-
taques amplamente apoiados pela cultu- turais, o que deve ser preservado é a vida
ra oficial. Expressões essas que não cor- humana em sua integridade e dignidade,
rem riscos; pelo contrário, florescem. mediante políticas sinceras e eficazes de
O inventário da viola-de-cocho, por sua distribuição de renda e inclusão social .
vez, indicou que o caminho para a pre- O Projeto Celebrações e Saberes da
servação do instrumento musical, singu- Cultura Popular tem sido bem-sucedido
lar e especial, passa pela preservação do como um piloto para avaliar as questões
meio ambiente e demanda plano de ma- e potencialidades das políticas instituídas
nejo para sua matéria-prima. E passa, para a proteção do patrimônio imaterial
também, pela preservação do complexo em nosso país. Entretanto ainda há longo
cultural que compreende a música do caminho a ser percorrido até chegarmos

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a um esboço aceitável de política para a cadas com o registro de bens culturais
área. Questões prementes devem ser imateriais nos livros do Iphan. Que tipos
enfrentadas de frente. de titularidades, direitos, deveres, limi-
tes, penalidades e prerrogativas podem
estar envolvidos.
SOBRE LEGISLAÇÃO É preciso investimento e mobilização
DE PROTEÇÃO E nacional, em todas as instâncias, para o
SALVAGUARDA DO entendimento e conformação de legisla-
PATRIMÔNIO IMATERIAL ção apropriada; e políticas orientadas
para a proteção do patrimônio cultural.
Fato é que o Decreto 3.551 está fazendo Sobretudo para o aprimoramento e alar-
três anos e não foi regulamentado ainda; gamento das possibilidades institucionais
e a sociedade brasileira só ouve ecos lon- de salvaguarda das tradições populares
gínquos do Programa Nacional do Patri- e dos direitos das comunidades e grupos
mônio Imaterial. Foram efetuados ape- produtores dos bens culturais que cons-
nas dois registros nos Livros de Patrimô- tituem o patrimônio cultural brasileiro –
nio Imaterial do Iphan e pouco se conhe- parte significativa do patrimônio da hu-
ce sobre os inventários abertos em todo manidade.
o país.
A missão não é nada simples. Os instru-
Ao mesmo tempo muitas questões não mentos inventário e registro são muito
estão resolvidas e precisam ser mais de- importantes. Mas não bastam para garan-
batidas. O que significa o registro como tir a salvaguarda e proteção para o patri-
patrimônio imaterial? O registro nos li- mônio imaterial, posto que a natureza
vros do Iphan é meramente declaratório. imaterial do bem cultural não existe em
Agrega sentido e pode legitimar decisão si. Ela é indissociável de uma base, di-
jurídica, mas não implica necessariamen- mensão ou natureza material – seja ela
te jurisprudência, como o tombamento. humana, dos criadores de sentidos e suas
Por outro lado, o patrimônio imaterial é práticas; ou simbólica, observáveis por
reconhecido como bem de interesse pú- meio das representações ou de sentidos
blico. E cabe perguntar como esse bem construídos coletivamente. Assim faz-se
se coloca frente ao direito de autoria, de necessário o desenvolvimento de direito
propriedade, de usufruto. Quais os direi- positivo coordenado e suplementar ao já
tos e deveres dos cidadãos, do Estado, desenvolvido para o patrimônio materi-
das unidades federativas e municípios em al. O estabelecimento de uma perspecti-
relação à proteção aos bens imateriais de va no direito que dê conta da “natureza
interesse público nacional. Quais os li- imaterial” e de uma “titularidade difusa”
mites que a lei impõe, ou deve impor, dos bens culturais.
aos direitos privados e à evasão desse Os bens de interesse público de natureza
patrimônio... Quais as instâncias impli- imaterial conformam uma ‘nova

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categoria de bens’ que, segundo Carlos pela salvaguarda dos direitos que os ci-
F. Marés, demanda um ‘novo direito’ que dadãos têm aos meios de produção e re-
se sobreponha ao direito individual, de produção cultural, irredutíveis ao univer-
titularidade bem definida e voltado para sal monetário, em última instância, pas-
a dimensão da materialidade do bem sível, porém, de comensurabilidade nas
cultural. A teoria jurídica está aquém medidas compensatórias paliativas –
dessa demanda, mas o autor observa que como acontece na jurisprudência ambi-
já houve avanços significativos, ental, com as indenizações cobradas por
principalmente com a introdução dos crimes ambientais. Uma tragédia ambi-
direitos ambientais. É preciso, contudo, ental não se compensa, assim como o pa-
continuar avançando. trimônio imaterial não tem preço. Cada
Assim, a construção de jurisprudência do caso é um caso, e cada bem deve ser tra-
patrimônio imaterial deve levar em con- tado levando em conta sua exclusivida-
ta a legislação já existente, como o direi- de no contexto geral.
to de autor, de propriedade e de tomba- Para a elaboração de um código eficaz
mento, e definir onde cabe ou não cabe para o patrimônio imaterial é preciso que
ao bem cultural ou à circunstância sobre algumas questões fiquem claras. Se es-
a qual se pretende legislar. Quando não tamos tratando de patrimônio nacional
for possível aplicar ou aperfeiçoar o di- estamos atribuindo titularidade difusa à
reito estabelecido, deverá ser criada ju- nação? Se for assim, não se pode negar
risprudência sui generis exclusiva ao o direito de autoria ou de propriedade
patrimônio imaterial. intelectual a grupo específico que com-
E é preciso um grande esforço dos espe- põe a nação, como as práticas de medi-
cialistas e dos segmentos sociais para cina tradicional desenvolvidas em uma
debater os limites, vícios e distorções que comunidade bem determinada, ou a pro-
esses mecanismos legais preexistentes já dução artesanal de um grupo específico...
apresentam, de modo a evitar incorrer em Também, em alguns casos, não se pode
equívocos graves já atestados em outras negar o reconhecimento de direito sui
dimensões do universo de criação e cir- generis aplicável a titular difuso (por in-
culação dos bens culturais. É importante dicação geográfica, por exemplo) que
regular a ação punitiva e estar atento para compõe a nação, como os conhecimen-
não criar mecanismos que limitam a li- tos tradicionais associados à construção
berdade fundamental de criação, favore- de barcos e canoas pelos nativos do Pan-
cendo a corrupção e espoliação econô- tanal, ou o conhecimento dos detalhes
mica de indivíduos e de segmentos das fundamentais da brincadeira do boi em
culturas populares pelas vias legais (!). certas regiões de um estado da federa-
A proteção não passa, nesse caso, ape- ção.
nas por leis que resguardem os direitos Como equacionar os interesses relativos
nos mercados de bens simbólicos, mas às diferentes titularidades (de autor, de

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propriedade, coletiva difusa...) somando- REFERÊNCIAS
se a elas os interesses dos sujeitos indi- BIBLIOGRÁFICAS
viduais que, em nome da liberdade de
criação, difusão e intercâmbio, preten-
SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés:
dem se valer, de alguma forma mais ou
Bens Culturais e Proteção Jurídica. Porto
menos ética, desses conhecimentos tra- Alegre: Prefeitura de Porto Alegre, 1997.
dicionais... seja pelo direito ao conheci-
mento, pela curiosidade e livre fruição, IPHAN/FUNARTE/MINC. O Registro do
seja por interesses escusos de explora- Patrimônio Imaterial. Brasília, 2000.
ção?
Assim, temos que a sociedade brasileira
já avançou bastante na criação dos me- Letícia Costa Rodrigues Vianna é mestre e
canismos de proteção do patrimônio cul- doutora em antropologia social, professora
tural, mas observa-se a necessidade de universitária e pesquisadora no Centro Naci-
formulação de código que dê conta da onal de Folclore e Cultura Popular. Tem li-
vro e artigos publicados sobre universos da
“natureza imaterial” do bem cultural. Um
cultura popular no Brasil.
esforço significativo de integração entre
diferentes instâncias da sociedade com
o Parlamento no sentido de criar um có-
digo jurídico para o patrimônio cultural
imaterial que atenda à demanda interna
e internacional. Um código que contri-
bua para justiça e eqüidade, e promova a
preservação e ampliação do patrimônio
cultural no país. Que não seja meramen-
te uma instância de defesa e ataque ou
mais um campo de criação de hegemo-
nias de poder e corrupção. Que dê conta
da complexidade e diversidade ao mes-
mo tempo em que seja simples o bastan-
te para ser uma forma eficaz de relação
dos grupos e cidadãos entre si e com o
Estado, de modo a promover o bem co-
mum.

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