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CONGREGAÇÃO PARA O CLERO

O PRESBÍTERO, PASTOR E GUIA


DA COMUNIDADE PAROQUIAL

INSTRUÇÃO

Premissa

A presente Instrução, que através dos Bispos dirige-se aos sacerdotes Párocos e a seus
coirmãos colaboradores na "cura animarum", insere-se de maneira conseqüente em um
amplo contexto de reflexão, já iniciado há alguns anos.

Com os Diretórios para o ministério e a vida dos Presbíteros e dos Diáconos


Permanentes, com a Instrução interdicasterial Ecclesiae de mysterio e com a Carta
Circular O Presbítero, mestre da palavra, guia da comunidade e ministro dos
sacramentos, percorre-se um caminho traçado pelos documentos do Concílio Vaticano
II, especialmente Lumen gentium e Presbyterorum Ordinis, pelo Catecismo da Igreja
Católica, pelo Código de Direito Canônico e pelo Magistério constante.

O documento, concretamente, segue o sulco da grande corrente missionária do duc in


altum, que marca a obra indispensável da nova evangelização do Terceiro milênio
cristão. Eis por que, também em consideração das muitas solicitações provenientes de
uma consulta realizada em nível internacional, escolheu-se a ocasião para propor
novamente uma parte doutrinal capaz de oferecer elementos de reflexão sobre aquelas
valores fundamentais que conduzem à missão e que, às vezes, estão obscurecidos.
Procurou-se também evidenciar a relação entre dimensão eclesiológica e pneumática,
que atinge a essência do ministério sacerdotal, e a dimensão eclesiológica, que ajuda a
compreender o significado da sua função específica.

Com a presente Instrução, procurou-se reservar uma particular e afetuosa atenção aos
presbíteros que revestem o importante cargo de Párocos e que, enquanto tais, às vezes
com grande dificuldade, estão em contato constante com o povo. Tal situação, delicada
e preciosa, oferece uma ocasião para enfrentar com maior clareza a diferença
essencial e vital entre sacerdócio comum e sacerdócio ordenado, para fazer emergir, de
maneira exata, a identidade dos presbíteros e a essencial dimensão sacramental do
ministério ordenado.
Uma vez que se procurou seguir as indicações, particularmente ricas também no plano
prático, que o Santo Padre traçou, na sua Alocução aos participantes da Assembléia
Plenária da Congregação, é oportuno transcrevê-la integralmente, a seguir:

Discurso do Papa João Paulo II

Senhores Cardeais
Veneráveis Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Caríssimos Irmãos e Irmãs
1. É com alegria que vos recebo, por ocasião da Assembleia Plenária da Congregação
para o Clero. Saúdo cordialmente o Senhor Cardeal Darío Castrillón Hoyos, Prefeito
desta Congregação, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me quis dirigir em nome de
todos os presentes. Saúdo os Senhores Cardeais, os veneráveis Irmãos no Episcopado e
os outros participantes na vossa Assembleia Plenária, que dedicou a sua atenção a um
tema extremamente importante para a vida da Igreja: "O presbítero, pastor e guia da
comunidade paroquial". Realçando a função do sacerdote na comunidade paroquial,
põe-se em evidência a centralidade de Cristo, que deve distinguir-se sempre na missão
da Igreja.

Cristo está presente na sua Igreja da maneira mais sublime no Santíssimo Sacramento
do Altar. Na Constituição dogmática Lumen gentium, o Concílio Vaticano II ensina que,
in persona Christi, o sacerdote celebra o Sacrifício da Missa e administra os
Sacramentos (cf. n. 10). Além disso, como observava oportunamente o meu venerado
Predecessor Paulo VI, na Carta Encíclica Mysterium fidei, a propósito da Constituição
Sacrosanctum concilium (cf. n. 7), Cristo faz-se presente através da pregação e da
orientação dos fiéis, tarefas estas para as quais o presbítero é interpelado pessoalmente
(cf. AAS 57 [1965] 762s.).

2. A presença de Cristo, que assim se realiza de maneira ordinária e quotidiana, faz da


paróquia uma autêntica comunidade de fiéis. Por conseguinte, é de fundamental
importância que a paróquia disponha do seu próprio pastor. E o título de pastor é
reservado especificamente ao sacerdote. Com efeito, a Ordem sagrada do presbiterado
representa para ele a condição indispensável e imprescindível para ser nomeado pároco
de modo válido (cf. Código de Direito Canónico, cân. 521 § 1). Sem dúvida, também os
outros fiéis podem colaborar activamente com ele, até mesmo a tempo inteiro, mas dado
que não receberam o sacerdócio ministerial, não podem substituí-lo como pastor.

O que determina esta peculiar fisionomia eclesial do sacerdote é a sua fundamental


relação com Cristo, Cabeça e Pastor, como sua representação sacramental. Na
Exortação Apostólica Pastores dabo vobis, observei que "a referência à Igreja se
inscreve na única e mesma referência do sacerdote a Cristo, no sentido que é a
"representação sacramental" de Cristo a fundamentar e animar a relação e referência do
sacerdote à Igreja" (n. 16). A dimensão eclesial pertence à substância do sacerdócio
ordenado. Ele está totalmente ao serviço da Igreja, a tal ponto que a comunidade eclesial
tem absoluta necessidade do sacerdócio ministerial para que Cristo, Cabeça e Pastor,
esteja presente na mesma. Se o sacerdócio comum é uma consequência do facto de que
o Povo cristão é escolhido por Deus como ponte com a humanidade e diz respeito a
cada crente, uma vez que está inserido neste mesmo povo, contudo o sacerdócio
ministerial é fruto de uma eleição, de uma vocação específica: "Jesus chamou a si os
seus discípulos e de entre eles escolheu os Doze" (cf. Lc 6, 13-16). Graças ao sacerdócio
ministerial, os fiéis tornam-se conscientes do seu sacerdócio comum e actualizam-no
(cf. Ef 4, 11-12); com efeito, o sacerdote recorda-lhes que são o Povo de Deus e
capacita-os para a "oferta destes sacrifícios espirituais" (cf. 1 Pd 2, 5), mediante os
quais o próprio Cristo faz de nós um dom eterno ao Pai (cf. 1 Pd 3, 18). Sem a presença
de Cristo representado pelo presbítero, guia sacramental da comunidade, ela não seria
plenamente eclesial.

3. Como afirmei antes, Cristo está presente na Igreja de maneira eminente na Eucaristia,
fonte e ápice da vida eclesial. Encontra-se realmente presente na celebração do santo
Sacrifício, como quando o pão consagrado é conservado no tabernáculo "como o
coração espiritual da comunidade religiosa e paroquial" (Paulo VI, Carta Encíclica
Mysterium fidei, AAS 57 [1965] 772).
Por este motivo, o Concílio Vaticano II recomenda: "Procurem os párocos que a
celebração do Sacrifício eucarístico seja o centro e o vértice de toda a vida cristã da
Comunidade" (Decreto Christus Dominus, 30 2).

Sem o culto eucarístico, como seu próprio coração pulsante, a paróquia torna-se árida. A
este propósito, é útil recordar tudo o que escrevi na Carta Apostólica Dies Domini: "De
entre as numerosas actividades que uma paróquia realiza... "nenhuma é tão vital ou
formativa para a comunidade, como a celebração dominical do Dia do Senhor e da sua
Eucaristia"" (n. 35). Nada jamais será capaz de a substituir. A própria liturgia da
Palavra, quando é efectivamente possível assegurar a presença dominical do sacerdote,
é louvável para manter viva a fé, mas deve conservar sempre, como meta para a qual há-
de tender, a celebração eucarística regular.

Onde falta o sacerdote é necessário, com fé e insistência, suplicar a Deus para que
suscite numerosos e santos trabalhadores para a sua messe. Na citada Exortação
Apostólica Pastores dabo vobis, afirmei que "hoje, mais do que nunca, a expectativa
orante de novas vocações deve tornar-se um hábito constante e largamente partilhado na
comunidade cristã e em toda e qualquer realidade eclesial" (n. 38). O esplendor da
identidade sacerdotal, o exercício integral do consequente ministério pastoral,
juntamente com o compromisso de toda a comunidade na oração e na penitência
pessoal, constituem os elementos imprescindíveis para uma urgente e improrrogável
vocação pastoral. Seria um erro fatal resignar-se às actuais dificuldades e comportar-se
efectivamente como se tivéssemos de nos preparar para uma Igreja do futuro, imaginada
quase desprovida de presbíteros. Deste modo, as medidas adoptadas para resolver as
carências actuais seriam para a Comunidade eclesial, apesar de toda a boa vontade,
realmente perniciosas.

4. Além disso, a paróquia é um lugar privilegiado do anúncio da Palavra de Deus. Isto


desenvolve-se de diversas formas, e cada fiel é chamado a participar activamente, de
maneira especial com o testemunho da vida cristã e a proclamação explícita do
Evangelho, tanto aos não-crentes em ordem a conduzi-los para a fé, como às pessoas
que já são crentes, para as instruir, confirmar e induzir a uma vida mais ardente. Quanto
ao sacerdote, ele "anuncia a Palavra na sua qualidade de "ministro", participante da
autoridade profética de Cristo e da Igreja" (Pastores dabo vobis, 26). E para cumprir
fielmente este ministério, correspondendo ao dom recebido, ele "deve ser o primeiro a
desenvolver uma grande familiariadade pessoal com a Palavra de Deus" (Ibidem).
Mesmo que ele fosse superado por outros fiéis na eloquência, isto não anularia o seu ser
representação sacramental de Cristo, Cabeça e Pastor, e é disto que deriva sobretudo a
eficácia da sua pregação. Desta eficácia tem necessidade a comunidade paroquial, de
modo especial no momento mais característico do anúncio da Palavra por parte dos
ministros ordenados: precisamente por isso, a proclamação litúrgica do Evangelho e a
homilia que a acompanha são ambas reservadas ao sacerdote.

5. Também a função de orientar a comunidade como pastor, tarefa própria do pároco,


deriva do seu peculiar relacionamento com Cristo, Cabeça e Pastor. Trata-se de uma
função que reveste um carácter sacramental. Não é confiada ao sacerdote pela
comunidade mas, através do Bispo, é-lhe concedida pelo Senhor. Afirmar isto com
clarividência e exercer esta função com autoridade humilde constitui um serviço
indispensável à verdade e à comunhão eclesial. A colaboração das pessoas que não
receberam esta configuração sacramental a Cristo é desejável e, muitas vezes,
necessária. Todavia, elas não podem substituir de forma alguma a tarefa de pastor,
própria do pároco. Os casos extremos de escassez de sacerdotes, que aconselham uma
colaboração mais intensa e alargada por parte dos fiéis não dotados do sacerdócio
ministerial, no exercício do cuidado pastoral de uma determinada paróquia, não
constituem absolutamente uma excepção a este critério essencial para a salvação das
almas, como foi estabelecido de modo inequívoco pelas normas canónicas (cf. Código
de Direito Canónico, cân. 517 § 2). Neste campo, hoje muito actual, a Exortação
interdicasterial Ecclesiae de mysterio, que aprovei de forma específica, constitui a linha
recta a seguir.

No cumprimento do seu próprio dever de guia, com responsabilidades pessoais, o


pároco trará benefícios preciosos dos organismos de consulta, previstos pelo Direito (cf.
Código de Direito Canónico, cânn. 521-537); todavia, estes organismos deverão
manter-se fiéis à sua finalidade de consulta. Portanto, será necessário guardar-se de
todas as formas que, efectivamente, tendam a desautorizar a orientação do sacerdote
pároco, porque a própria fisionomia da comunidade paroquial seria desnaturada.

6. Agora, dirijo o meu pensamento repleto de carinho e de reconhecimento aos párocos


espalhados pelo mundo inteiro, de forma especial àqueles que trabalham nas linhas de
vanguarda da evangelização. Encorajo-os a continuar a sua tarefa cansativa, mas
verdadeiramente preciosa para toda a Igreja. Recomendo a cada um que recorra, no
exercício do seu "múnus" pastoral quotidiano, à ajuda maternal da Bem-Aventurada
Virgem Maria, procurando viver em profunda comunhão com Ela. No sacerdócio
ministerial, como pude escrever na Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira
Santa de 1979, "está a dimensão maravilhosa e penetrante da proximidade da Mãe de
Cristo" (n. 11). Caríssimos Irmãos no Sacerdócio, quando celebramos a Santa Missa, ao
nosso lado está a Mãe do Redentor, que nos introduz no mistério da oferta redentora do
seu Filho divino. "Ad Jesum per Mariam": seja este o nosso programa diário de vida
espiritual e pastoral!

Com estes sentimentos, enquanto asseguro a minha oração, concedo a cada um de vós
uma especial Bênção Apostólica que, de bom grado, faço extensiva a todos os
sacerdotes do mundo!

Discurso do Santo Padre aos participantes


na Assembleia Plenária da Congregação para o Clero.
Sexta-feira, 23 de novembro de 2001.

PARTE I

SACERDÓCIO COMUM
E SACERDÓCIO ORDENADO

1. Levantai os vossos olhos (Jo 4, 35)


1. "Eis que vos digo: Levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão
prontos para a ceifa" (Jo 4, 35). Estas palavras do Senhor têm a força de mostrar o
horizonte ilimitado da missão de amor do Verbo encarnado. O Filho eterno de Deus foi
enviado "para que o mundo seja salvo por ele" (Jo 3, 17) e toda a sua existência terrena,
de plena identificação com a vontade salvífica do Pai, é uma manifestação constante
daquela vontade divina que todos se salvem, todos sejam alcançados pela salvação
querida eternamente pelo Pai. Confia em herança este projeto histórico a toda a Igreja e,
de modo particular, dentro dela, aos ministros ordenados. "Realmente é grande o
mistério de que todos fomos feitos ministros. Mistério de um amor sem limites, pois
'Ele que amara os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por
eles' (Jo 13, 1)".[1]

Habilitados, portanto, pelo caráter e pela graça do sacramento da Ordem e tornando-se


testemunhas e ministros da misericórdia divina, os sacerdotes ministros de Jesus Cristo
comprometeram-se voluntariamente a servir a todos na Igreja. Em todos os contextos
sociais e culturais, em todas as circunstâncias históricas, também nas atuais nas quais se
sente o clima carregado do secularismo e do consumismo, que esmaga o sentido cristão
nas consciências de muitos fiéis, os ministros do Senhor estão conscientes de que "esta é
a vitória que vence o mundo: a nossa fé" (1 Jo 5, 4). As circunstâncias sociais dos
nossos dias constituem, de fato, ocasião oportuna para chamar a atenção para a força
vitoriosa da fé e do amor em Cristo e para lembrar que, não obstante as dificuldades e as
"friezas", os fiéis cristãos e, de outro modo, também tantos não-crentes contam muito
com a ativa disponibilidade pastoral dos sacerdotes. Os homens desejam encontrar no
sacerdote o homem de Deus, que diga com Santo Agostinho: "A nossa ciência é Cristo e
a nossa sabedoria é ainda Cristo. É ele quem infunde em nós a fé a respeito das
realidades temporais e é ele quem nos revela aquelas verdades concernentes às
realidades eternas".[2] Estamos em um tempo de nova evangelização: devemos saber ir
buscar as pessoas que também aguardam a possibilidade de encontrar Cristo.

2. No sacramento da Ordem Cristo transmitiu, em diversos graus, a sua qualidade de


Pastor das almas aos Bispos e aos presbíteros, tornando-os capazes de agir em seu nome
e de representar a sua potestade capital na Igreja. "A unidade profunda deste novo povo
não exclui, no seu âmago, a existência de tarefas distintas e complementares. Assim,
àqueles primeiros apóstolos estão ligados, a título especial, os que foram constituídos
para renovar in persona Christi o gesto que Jesus realizou na Última Ceia, instituindo o
Sacrifício Eucarístico, "fonte e centro de toda a vida cristã" (Lumen gentium, 11). O
caráter sacramental que os distingue, em virtude da Ordem recebida, faz com que a sua
presença e o seu ministério sejam únicos, necessários e insubstituíveis".[3] A presença
do ministro ordenado é condição essencial da vida da Igreja e não só de uma sua boa
organização.

3. Duc in altum! [4] Todo o cristão que sente no coração a luz da fé e quer caminhar ao
ritmo impresso pelo Sumo Pontífice, deve procurar traduzir em fatos este urgente
convite decididamente missionário. Deverão saber captá-lo e colocá-lo em prática, com
diligente prontidão, especialmente os pastores da Igreja, de cuja sensibilidade
sobrenatural depende a possibilidade de compreender as vias pelas quais Deus quer
guiar o seu povo. "Duc in altum! O Senhor convida-nos a fazermo-nos ao largo,
confiados na Sua palavra. Enriquecidos por esta experiência jubilar, prossigamos no
empenho de testemunhar o Evangelho com o entusiasmo que suscita em nós a
contemplação do rosto de Cristo!".[5]
4. É importante recordar que as perspectivas de fundo estabelecidas pelo Santo Padre ao
final do Grande Jubileu do Ano 2000 foram por ele entendidas e apresentadas para
serem realizadas pelas Igrejas particulares, chamadas pelo Papa a traduzirem em
"ardentes propósitos e diretrizes concretas de ação" [6] a graça recebida durante o Ano
jubilar. Esta graça chama em causa a missão evangelizadora da Igreja, para a qual é
necessária a santidade pessoal de pastores e fiéis e um ardente sentido apostólico por
parte de todos, no específico das vocações próprias, ao serviço das suas, conscientes de
que a salvação eterna de muitos homens depende da fidelidade no manifestar Cristo
com a palavra e com a vida. Emerge a urgência de dar mais impulso ao ministério
sacerdotal na Igreja particular, especialmente na paróquia, com base na compreensão
autêntica do ministério e da vida do presbítero.

Nós, sacerdotes, "fomos consagrados na Igreja para este ministério específico. Somos
chamados, de vários modos, a contribuir, lá onde a Providência nos coloca, para a
formação da comunidade do Povo de Deus. A nossa missão (...) é apascentar o rebanho
de Deus que nos foi confiado, não com a força, mas de bom ânimo, não com a atitude
de dominadores, mas oferecendo um testemunho exemplar (cf. 1 Pd 5, 2-3) (...) É esta
para nós a via da santidade (...) Esta é a nossa missão ao serviço do Povo cristão".[7] Commented [BH1]:

2. Elementos centrais do ministério e da vida dos presbíteros [8]

a) A identidade do presbítero

5. A identidade do sacerdote deve ser meditada no âmbito da vontade divina de


salvação, porque fruto da ação sacramental do Espírito Santo, participação da ação
salvífica de Cristo e porque orientada plenamente ao serviço de tal ação na Igreja, no
seu contínuo desenvolvimento ao longo da história. Trata-se de uma identidade
tridimensional, pneumatológica, cristológica e eclesiológica. Não se pode perder de
vista esta arquitetura teológica primordial do mistério do sacerdote, chamado a ser
ministro da salvação, para poder esclarecer depois, de modo apropriado, o significado
do seu ministério pastoral concreto na paróquia.[9] Ele é o servo de Cristo para ser, a
partir dele, por ele e com ele, servo dos homens. O seu ser ontologicamente assimilado
a Cristo constitui o fundamento do ser ordenado para o serviço da comunidade. A
pertença total a Cristo, tão convenientemente potenciada e evidenciada pelo sagrado
celibato, faz com que o sacerdote esteja ao serviço de todos. Com efeito, o dom
admirável do celibato [10] recebe luz e motivação da assimilação à doação nupcial do
Filho de Deus crucificado e ressuscitado à humanidade redimida e renovada.

O ser e o agir do sacerdote – a sua pessoa consagrada e o seu ministério – são realidades
teologicamente inseparáveis e têm como finalidade o serviço ao desenvolvimento da
missão da Igreja: [11] a salvação eterna de todos os homens. No mistério da Igreja – Commented [BH2]:
revelada como Corpo Místico de Cristo e Povo de Deus que caminha na história,
estabelecida como sacramento universal de salvação – [12] encontra-se e descobre-se a
razão profunda do sacerdócio ministerial. "A tal ponto que a comunidade eclesial tem
absoluta necessidade do sacerdócio ministerial para que Cristo, Cabeça e Pastor, esteja
presente na mesma".[13]

6. O sacerdócio comum ou batismal dos cristãos, como participação real do sacerdócio


de Cristo, constitui uma propriedade essencial do Novo Povo de Deus. [14] "Vós sois
uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular
propriedade... (1 Pd 2, 9); "Fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai" (Ap
1, 6); "deles fizeste para nosso Deus um reino de sacerdotes (Ap 5, 10)... serão
sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele" (Ap 20, 6). Estas passagens evocam
o que se diz no Êxodo, transferindo ao Novo Israel o que ali se afirmava do antigo
Israel: "Entre todos os povos... me sereis um reino de sacerdotes e uma nação
consagrada" (Êx 19, 5-6); e mais ainda evocam o que se diz no Deuteronômio: "És um
povo consagrado ao Senhor, teu Deus, o qual te escolheu para seres o seu povo, sua
propriedade exclusiva, entre todas as outras nações da terra" (Dt 7, 6)". Se o sacerdócio
comum é uma conseqüência do fato de que o povo cristão é escolhido por Deus como
ponte com a humanidade e diz respeito a cada crente uma vez que está inserido neste
mesmo povo, contudo o sacerdócio ministerial é fruto de uma eleição, de uma vocação
específica: ""Jesus chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles" (Lc 6, 13-
16). Graças ao sacerdócio ministerial, os fiéis tornam-se conscientes do seu sacerdócio
comum e atualizam-no (cf. Ef 4, 11-12); com efeito, o sacerdote recorda-lhes que são o
povo de Deus e capacita-os para a "oferta destes sacrifícios espirituais" (cf. 1 Pd 2, 5)
mediante os quais o próprio Cristo faz de nós um dom eterno ao Pai (cf. 1 Pd 3, 18).
Sem a presença de Cristo representado pelo presbítero, guia sacramental da
comunidade, ela não seria plenamente eclesial".[15]

No seio deste povo sacerdotal o Senhor instituiu portanto um sacerdócio ministerial, a


que são chamados alguns fiéis para que sirvam a todos os outros com caridade pastoral
e por meio da sagrada potestade. O sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial
diferenciam-se por essência e não só por grau: [16] não se trata somente de uma maior
ou menor intensidade de participação no único sacerdócio de Cristo, mas de
participações essencialmente diversas. O sacerdócio comum fundamenta-se no caráter
batismal, que é o selo espiritual da pertença a Cristo que "capacita e compromete os
cristãos a servirem a Deus em uma participação viva na sagrada Liturgia da Igreja e a
exercerem o seu sacerdócio batismal pelo testemunho de uma vida santa e de uma
caridade eficaz".[17]

O sacerdócio ministerial, ao invés, fundamenta-se no caráter impresso pelo sacramento


da Ordem, que configura a Cristo sacerdote, de modo a poder agir na pessoa de Cristo
Cabeça com a sagrada potestade, para oferecer o Sacrifício e para perdoar os
pecados.[18] Aos batizados, que receberam depois o dom do sacerdócio ministerial, foi
conferida sacramentalmente uma missão nova e específica: a de personificar no seio do
povo de Deus o tríplice múnus – profético, cultual e régio – do próprio Cristo como
Cabeça e Pastor da Igreja.[19] Portanto, no exercício das suas funções específicas, agem
in persona Christi Capitis e, do mesmo modo, conseqüentemente, in nomine
Ecclesiae.[20]

7. O nosso Sacerdócio sacramental, portanto, é sacerdócio "hierárquico" e,


simultaneamente, "ministerial". Ele constitui um particular "ministerium", ou seja,
"serviço" em relação à comunidade dos crentes. Não se origina, porém, desta
comunidade, como se fosse ela a "chamar", ou a "delegar". Ele é, na verdade, dom para
esta comunidade e provém do mesmo Cristo, da plenitude do seu Sacerdócio (...)
Cônscios desta realidade, compreendemos de que modo o nosso sacerdócio é
"hierárquico", ou seja, está conexo com o poder de formar e de reger o povo sacerdotal
e precisamente por isso "ministerial". Nós desempenhamos este múnus, mediante o qual
o mesmo Cristo "serve" incessantemente o Pai na obra da nossa salvação. Toda a nossa
existência sacerdotal é e deve ser profundamente imbuída por este serviço, se quisermos
realizar de maneira adequada o Sacrifício eucarístico in persona Christi".[21]

Nos últimos decênios, a Igreja teve experiência de problemas de "identidade


sacerdotal", derivados, por vezes, de uma visão teológica menos clara entre os dois
modos de participação no sacerdócio de Cristo. Em alguns ambientes, veio-se a romper
aquele equilíbrio eclesiológico profundo, tão próprio do Magistério autêntico e perene.

Dão-se hoje todas as condições para superar tanto o perigo da "clericalização" dos
leigos,[22] como o da "secularização" dos ministros sagrados.

O generoso compromisso dos leigos nos ambientes do culto, da transmissão da fé e da


pastoral, em um momento de escassez de presbíteros, induziu, por vezes, alguns
ministros sagrados e leigos à tentação de irem mais além daquilo que permite a Igreja e
mesmo daquilo que supera a sua capacidade ontológica sacramental. Conseqüência
disso foi também uma subestimação teórica e prática da missão específica dos leigos de
santificaram, a partir de dentro, as estruturas da sociedade.

Por outro lado, nesta crise de identidade origina-se também a "secularização" de alguns
ministros sagrados, pelo ofuscamento do seu papel específico, absolutamente
insubstituível, na comunhão eclesial.

8. O sacerdote, alter Christus, é na Igreja o ministro das ações salvíficas essenciais.[23]


Pelo seu poder sacrifical sobre o Corpo e o Sangue do Redentor, pela sua potestade de
anunciar autorizadamente o Evangelho, de vencer o mal do pecado mediante o perdão
sacramental, ele – in persona Christi Capitis – é fonte de vida e vitalidade na Igreja e na
sua paróquia. O sacerdote não é a fonte desta vida espiritual, mas aquele que a distribui
a todo o povo de Deus. É o servo que, na unção do Espírito, tem acesso ao santuário
sacramental: Cristo Crucificado (cf. Jo 19, 31-37) e Ressuscitado (cf. Jo 20, 20-23), do
qual brota a salvação.

Em Maria, Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote, o sacerdote toma consciência de ser com
Ela, "instrumento de comunicação salvífica entre Deus e os homens", ainda que de
modo diverso: a Santa Virgem, mediante a Encarnação, o sacerdote, mediante os
poderes da Ordem.[24] A relação do sacerdote com Maria não é só necessidade de
proteção e de ajuda; trata-se, antes, de uma tomada de consciência de um dado objetivo:
"a proximidade de Nossa Senhora" como "presença operante, juntamente com a qual a
Igreja quer viver o mistério de Cristo".[25]

9. Como partícipe da ação diretiva de Cristo Cabeça e Pastor sobre o seu Corpo, [26] o
sacerdote é especificamente habilitado a ser, no plano pastoral, o "homem da
comunhão", [27] da guia e do serviço a todos. Ele é chamado a promover e a manter a
unidade dos membros com a Cabeça e de todos entre si. Por vocação, ele une e serve na
dúplice dimensão da mesma função pastoral de Cristo (cf. Mt 20, 29; Mc 10, 45; Lc 22,
27). A vida da Igreja requer, para o seu desenvolvimento, energias que apenas este
mistério da comunhão, da guia e do serviço pode oferecer. Exige sacerdotes que,
totalmente assimilados a Cristo, depositários de uma vocação originária à plena
identificação com Cristo, vivam "nele" e "com ele" o conjunto das virtudes
manifestadas em Cristo Pastor, e que, além do mais, recebe luz e motivação da
assimilação à doação nupcial do Filho de Deus crucificado e ressuscitado à humanidade
redimida e renovada. Exige que haja sacerdotes que queiram ser fonte de unidade e de
doação fraterna a todos – especialmente aos mais necessitados – homens que
reconheçam a sua identidade sacerdotal no Bom Pastor [28] e que tal imagem seja
vivida internamente e manifestada externamente, de modo que todos possam captá-la,
por toda a parte.[29]

O sacerdote torna presente Cristo Cabeça da Igreja mediante o ministério da Palavra,


participação da sua função profética.[30] In persona et in nomine Christi, o sacerdote é
ministro da palavra evangelizadora, que convida todos à conversão e à santidade; é
ministro da palavra cultual, que magnifica a grandeza de Deus e rende graças pela sua
misericórdia; é ministro da palavra sacramental, que é fonte eficaz de graça. Nestas
multíplices modalidades, o sacerdote, com a força do Paráclito, prolonga o ensinamento
do Divino Mestre no seio da sua Igreja.

b) A unidade de vida

10. A configuração sacramental a Jesus Cristo impõe ao sacerdote um novo motivo para
alcançar a santidade, devido ao ministério que lhe foi confiado, que é santo em si
mesmo. Não significa que a santidade,[31] a que são chamados os sacerdotes, seja
subjetivamente maior do que a santidade a que são chamados todos os fiéis cristãos em
virtude do batismo. A santidade é sempre a mesma,[32] embora com diversas
expressões,[33] mas o sacerdote deve tender a ela por um novo motivo: para
corresponder àquela nova graça que o configurou para representar a pessoa de Cristo,
Cabeça e Pastor, como instrumento vivo na obra da salvação.[34] No exercício do seu
ministério, portanto, aquele que é "sacerdos in aeternum" deve esforçar-se por seguir
em tudo o exemplo do Senhor, unindo-se a Ele "na descoberta da vontade do Pai e no
dom de si mesmos e na doação de si mesmos ao rebanho".[35] Sobre esse alicerce de
amor à vontade divina e de caridade pastoral se constrói a unidade de vida,[36] ou seja,
a unidade interior [37] entre vida espiritual e atividade ministerial. O crescimento desta
unidade de vida fundamenta-se na caridade pastoral,[38] nutrida por uma sólida vida de
oração, de tal modo que o presbítero seja inseparavelmente testemunha de caridade e
mestre de vida interior.

11. Toda a história da Igreja está iluminada por modelos esplêndidos de doação pastoral
verdadeiramente radical; trata-se de uma numerosa legião de santos sacerdotes, como o
Cura d'Ars, patrono dos párocos, que chegaram a uma reconhecida santidade mediante a
generosa e incansável dedicação ao cuidado das almas, acompanhada de uma profunda
ascese e vida interior. Estes pastores, devorados pelo amor de Cristo e da conseqüente
caridade pastoral, constituem um Evangelho vivido.

Algumas correntes da cultura contemporânea mal interpretam a virtude interior, a


mortificação e a espiritualidade como formas de intimismo, de alienação e, portanto, de
egoísmo incapaz de compreender os problemas do mundo e da gente. Verificou-se,
inclusive, em alguns lugares, uma tipologia multiforme de presbíteros: do sociólogo ao
terapeuta, do operário ao político e ao empresário... até ao padre "aposentado". Em
propósito, deve-se recordar que o presbítero é portador de uma consagração ontológica
que se estende por tempo integral. A sua identidade de fundo há-de buscar-se no caráter
que lhe foi conferido pelo sacramento da Ordem, sobre o qual se desenvolve fecunda a
graça pastoral. Ele, como dizia São João Bosco, é sacerdote no altar e no confessionário,
como na escola, pelas ruas e em toda a parte. Por vezes, os próprios sacerdotes, ante
algumas situações atuais, são como que induzidos a pensar que o seu ministério se
encontre na periferia da vida, ao passo que, na realidade, ele se encontra no seu próprio
centro, pois tem a capacidade de iluminar, reconciliar e fazer novas todas as coisas.

Pode acontecer que alguns sacerdotes, depois de se terem encaminhado no seu


ministério com um entusiasmo repleto de ideais, possam experimentar desafeto,
desilusão até chegar ao fracasso. Multíplices são as causas: da carente formação à falta
de fraternidade no presbitério diocesano, do isolamento pessoal à falta de interesse e
apoio por parte do próprio Bispo [39] e da comunidade, dos problemas pessoais, mesmo
de saúde, até à amargura de não encontrar resposta e soluções, da desconfiança pela
ascese e o abandono da vida interior até à falta de fé.

Com efeito, o dinamismo ministerial sem uma sólida espiritualidade sacerdotal traduzir-
se-ia em um ativismo vazio e desprovido de todo profetismo. Resulta claro que a
ruptura da unidade interior no sacerdote é conseqüência, antes de mais nada, do
esfriamento da sua caridade pastoral, ou seja, do "amor vigilante do mistério que traz
em si para o bem da Igreja e da humanidade".[40]

Deter-se em colóquio íntimo de adoração, perante o Bom Pastor presente no Santíssimo


Sacramento do altar, constitui uma prioridade pastoral altamente superior a qualquer
outra.O sacerdote, guia de uma comunidade, deve atuar tal prioridade para não se tornar
árido interiormente e não transformar-se em um canal seco, que já nada poderia dar a
ninguém.

A obra pastoral de maior relevância decididamente resulta ser a espiritualidade. Todo


plano pastoral, projeto missionário, dinamismo na evangelização, que prescindisse do
primado da espiritualidade e do culto divino, estaria destinado ao fracasso.

c) Um caminho específico para a santidade

12. O sacerdócio ministerial, na medida em que configura ao ser e ao operar sacerdotais


de Cristo, introduz uma novidade na vida espiritual de quem recebeu este dom. É uma
vida espiritual conformada através da participação do senhorio de Cristo na sua Igreja e
que matura no serviço ministerial à Igreeja: uma santidade no ministério e pelo
ministério.

13. O aprofundamento da "consciência de ser ministro" [41] é, portanto, de grande


importância para a vida espiritual do sacerdote e para a eficácia do seu próprio
ministério.

A relação ministerial com Jesus Cristo "fundamenta e exige no sacerdote um ulterior


ligame que lhe é proporcionado pela "intenção", ou seja, pela vontade consciente e livre
de fazer, mediante o gesto ministerial, aquilo que a Igreja entende fazer" [42] . A
expressão: "ter a intenção de fazer o que faz a Igreja" ilumina a vida espiritual do
ministro sagrado, convidando-o a reconhecer a instrumentalidade pessoal ao serviço de
Cristo e da Igreja, e a atuá-la nas ações ministeriais concretas. A "intenção", neste
sentido, contém necessariamente uma relação com o agir de Cristo Cabeça na e pela
Igreja, adequação à sua vontade, fidelidade às suas disposições, docilidade aos seus
gestos: o agir ministerial é instrumento do operar de Cristo e da Igreja, seu Corpo.
Trata-se de uma vontade pessoal permanente: "Uma tal ligação tende, pela sua própria
natureza, a tornar-se o mais ampla e profunda possível, implicando a mente, os
sentimentos, a vida, ou seja, uma série de disposições morais e espirituais
correspondentes aos gestos ministeriais do padre". [43]

A espiritualidade sacerdotal exige que ele respire um clima de proximidade ao Senhor


Jesus, de amizade e de encontro pessoal, de missão ministerial "compartilhada", de
amor e serviço à sua Pessoa na "pessoa" da Igreja, seu Corpo, sua Esposa. Amar a Igreja
e doar-se a ela no serviço ministerial requer um amor profundo ao Senhor Jesus. "Esta
caridade pastoral proflui, antes de mais nada, do Sacrifício Eucarístico que, por isso, se
apresenta como centro e raiz de toda a vida do Presbítero, de sorte que a alma sacerdotal
se esforçará por interiorizar o que na ara sacrifical se passa. Não se pode alcançá-lo
porém, a não ser que os mesmos sacerdotes pela oração penetrem sempre mais
intimamente no mistério de Cristo".[44] Na penetração de tal ministério vem em nossa
ajuda a Virgem Santíssima, associada ao Redentor, pois "quando celebramos a Santa
Missa, no meio de nós encontra-se a Mãe do Filho de Deus, e introduz-nos no mistério
da sua Oferenda de Redenção. Desta forma, Ela torna-se mediadora das graças que, para
a Igreja e para todos os fiéis brotam desta mesma Oferenda". [45] Com efeito, "Maria
esteve associada, de modo singular, ao sacrifício sacerdotal de Cristo, compartilhando a
Sua vontade de salvar o mundo mediante a Cruz. Ela foi a primeira e mais perfeita
partícipe espiritual da Sua oblação de Sacerdos et Hostia. Como tal, pode obter e dar,
àqueles que no plano ministerial participam no sacerdócio do seu Filho, a graça do
impulso para responderem cada vez melhor às exigências da oblação espiritual, que o
sacerdócio comporta: de modo particular, a graça da fé, da esperança e da perseverança
nas provas, reconhecidas como estímulos a uma participação mais generosa na oferta
redentora".[46]

A Eucaristia deve ocupar para o sacerdote "o lugar verdadeiramente central no seu
ministério", [47] porque ela contém todo o bem espiritual da Igreja e é, em si, fonte e
ápice de toda a evangelização".[48] Daí, a relevante importância da preparação à Santa
Missa, da sua celebração quotidiana,[49] da ação de graças e da visita a Jesus
Sacramentado no arco do dia!

14. O sacerdote, além do Sacrifício Eucarístico, celebra diariamente a Sagrada Liturgia


das Horas, que ele livremente assumiu com grave obrigação. Da imolação incruenta de
Cristo no altar, à celebração do Ofício divino juntamente com toda a Igreja, o coração
do sacerdote intensifica o seu amor ao divino Pastor, tornando-o evidente diante dos
fiéis. O sacerdote recebeu o privilégio de "falar a Deus em nome de todos", de tornar-se
"como que a boca de toda a Igreja";[50] cumpre no ofício divino aquilo que falta ao
louvor de Cristo, e, como embaixador credenciado, a sua intercessão é uma das mais
eficazes para a salvação do mundo.[51]

d) A fidelidade do sacerdote à disciplina eclesiástica

15. A "consciência de ser ministro" comporta também a consciência do agir orgânico do


Corpo de Cristo. Com efeito, a vida e a missão da Igreja, para poderem desenvolver-se,
exigem um ordenamento, regras, leis de conduta, ou seja, uma ordem disciplinar. É
necessário superar todo preconceito ante a disciplina eclesiástica, a começar da própria
expressão, e superar também todo temor e complexo no citá-la e no solicitar
oportunamente o seu cumprimento. Quando vige a observância das normas e dos
critérios que constituem a disciplina eclesiástica, evitam-se aquelas tensões que,
diversamente, comprometeriam o esforço pastoral unitário de que a Igreja necessita para
cumprir eficazmente a sua missão evangelizadora. A assunção madura do próprio
compromisso ministerial compreende a certeza de que a Igreja "tem necessidade de
normas, para que a sua estrutura hierárquica e orgânica seja visível; para que o exercício
das funções a ela divinamente confiadas, especialmente a do sagrado poder e da
administração dos Sacramentos, possa ser adequadamente organizado".[52]

Além disto, a consciência de ser ministro de Cristo e do seu Corpo Místico implica o
empenho do cumprimento fiel da vontade da Igreja, que se expressa concretamente nas
normas.[53] A legislação da Igreja tem por fim uma maior perfeição da vida cristã, para
um melhor cumprimento da missão salvífica e deve, portanto, ser vivida com ânimo
sincero e boa vontade.

De entre todos os aspectos merece particular destaque o da docilidade às leis e às


disposições litúrgicas da Igreja, isto é, o amor fiel a uma normativa que tem a finalidade
de ordenar o culto de acordo com a vontade do Sumo e Eterno Sacerdote e do seu
místico Corpo. A Sagrada Liturgia é considerada como o exercício do sacerdócio de
Jesus Cristo,[54] ação sagrada por excelência, "cume para o qual tende a ação da Igreja
e, ao mesmo tempo, a fonte donde emana toda a sua força".[55] Conseqüentemente, é
este o âmbito em que maior deve ser a consciência de ser ministro e de agir em
conformidade com os compromissos livre e solenemente assumidos perante Deus e a
comunidade. "Regular a Sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a
qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas do direito, ao Bispo (...) Ninguém
mais, absolutamente, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, suprimir ou
mudar seja o que for em matéria litúrgica".[56] Arbitrariedades, expressões
subjetivistas, improvisações, desobediência na celebração eucarística constituem iguais
patentes contradições com a própria essência da Santíssima Eucaristia, que é o sacrifício
de Cristo. O mesmo vale para a celebração dos outros sacramentos, principalmente para
o Sacramento da Penitência, mediante o qual se perdoam os pecados e se é reconciliado
com a Igreja.[57]

Prestem os presbíteros a mesma atenção à participação autêntica e consciente dos fiéis


na Sagrada Liturgia, que a Igreja não deixa de promover.[58] Na Sagrada Liturgia há
funções que podem ser exercidas por aqueles fiéis que não receberam o sacramento da
Ordem; outras, pelo contrário, são próprias e absolutamente exclusivas dos ministos
ordenados.[59] O respeito das diversas identidades do estado de vida, a sua
complementariedade para a missão, exigem que se evitem toda confusão nessa matéria.

e) O sacerdote na comunhão eclesial

16. Para servir a Igreja – comunidade organicamente estruturada de fiéis dotados da


mesma dignidade batismal, mas de diversos carismas e funções – é necessário conhecê-
la e amá-la, não como a desejariam as modas transeuntes de pensamento ou as diversas
ideologias, mas como foi querida por Jesus Cristo, que a fundou. A função ministerial
de serviço à comunhão, a partir da configuração a Cristo Cabeça, requer o
conhecimento e o respeito da especificidade do papel do fiel leigo, promovendo de
todos os modos possíveis a assunção por parte de cada um das suas responsabilidades.
O sacerdote está a serviço da comunidade, mas é também apoiado pela sua comunidade.
Ele tem necessidade da contribuição do laicato, não só para a organização e a
administração da sua comunidade, mas também para a fé e a caridade: há uma espécie
de osmose entre a fé do presbítero e a fé dos outros fiéis. As famílias cristãs e as
comunidades fervorosas ajudaram muitas vezes os sacerdotes nos momentos de crise. É
igualmente importante, pelo mesmo motivo, que os presbíteros conheçam, estimem e
respeitem as características do seguimento de Cristo próprio da vida consagrada, tesouro
preciosíssimo da Igreja e testemunho da operosidade fecunda do Espírito Santo nela.

Quanto mais os presbíteros forem sinais vivos e servidores da comunidade eclesial,


tanto mais eles se inserirão na unidade viva da Igreja no tempo, que é a Sagrada
Tradição, da qual é custódio e garante o Magistério. A referência fecunda à Tradição dá
ao ministério do presbítero a solidez e a objetividade do testemunho da Verdade, vinda
em Cristo a revelar-se na história. Isto o ajuda a fugir daquele prurido de novidade, que
danifica a comunhão e esvazia de profundidade e de credibilidade o exercício do
ministério sacerdotal.

O pároco, de modo especial, deve ser o tecelão paciente da comunhão da sua paróquia
com a sua Igreja particular e com a Igreja universal. Deveria ser também um verdadeiro
modelo de adesão ao Magistério perene da Igreja e à sua grande disciplina.

f) Sentido do universal no particular

17. "É necessário que o sacerdote tenha a consciência de que o seu "estar numa Igreja
particular" constitui, por natureza, um elemento qualificante para viver a espiritualidade
cristã. Nesse sentido, o presbítero encontra, precisamente na sua pertença e dedicação à
Igreja particular, uma fonte de significados, de critérios de discernimento e de ação, que
configuram quer a sua missão pastoral como a sua vida espiritual".[60] Trata-se de uma
matéria importante na qual se deve adquirir uma visão ampla, que considere como "a
pertença e a dedicação à Igreja particular não confinam a esta a atividade e a vida do
sacerdote: não podem, de fato, ser confinadas pela própria natureza, quer da Igreja
particular, quer do ministério sacerdotal.[61]

O conceito de incardinação, modificado pelo Concílio Vaticano II e expresso no


Código,[62] permite superar o perigo de confinar o ministério dos presbíteros dentro de
limites estreitos, não tanto geográficos, mas mais psicológicos ou até teológicos. A
pertença a uma Igreja particular e o serviço pastoral à comunhão no seu seio elementos
de ordem eclesiológica enquadram também existencialmente a vida e a atividade dos
presbíteros e dão-lhes uma fisionomia constituída de orientações pastorais específicas,
de metas, de doação pessoal em tarefas determinadas, de encontros pastorais, de
interesses compartilhados. Para compreender e amar efetivamente a Igreja particular e a
pertença e dedicação a ela, servindo-a e sacrificando-se por ela até ao dom da própria
vida, é necessário que o ministro sagrado esteja cada vez mais consciente de que a
Igreja universal "é uma realidade ontologicamente e temporalmente prévia a toda Igreja
particular singular".[63] Com efeito, não é a soma das Igrejas particulares que constitui
a Igreja universal. As Igrejas particulares, na e a partir da Igreja universal, devem estar
abertas a uma realidade de verdadeira comunhão de pessoas, de carismas, de tradições
espirituais, sem fronteiras geográficas, intelectuais ou psicológicas.[64] O presbítero
deve ter bem claro que uma só é a Igreja! A universalidade, ou seja, a catolidade, deve
encher de si a particularidade. A ligação de comunhão profunda, verdadeira e vital com
a Sé de Pedro constitui a garantia e a condição necessária de tudo isto. A mesma
motivada acolhida, difusão e aplicação fiel dos documentos papais e dos Dicastérios da
Cúria Romana é uma expressão disso.

Consideramos o ser e a ação do sacerdote como tal. Agora, a nossa reflexão concentra-
se mais especificamente no sacerdote, constituído no múnus de pároco.

PARTE II

A PARÓQUIA E O PÁROCO

3. A paróquia e o ofício de pároco

18. Os traços eclesiológicos mais significativos da noção teológico-canônica de


paróquia são pensados pelo Concílio Vaticano II à luz da Tradição e da doutrina
católica, da eclesiologia de comunhão, e traduzidos depois em leis pelo Código de
Direito Canônico. Foram desenvolvidos sob diversos pontos de vista no magistério
pontifício pós-conciliar, quer de maneira explícita quer implícita, sempre no âmbito do
aprofundamento sobre o sacerdócio ordenado. Portanto, é útil resumir as principais
características da doutrina teológica e canônica sobre a matéria, principalmente em vista
de uma melhor resposta aos desafios pastorais que se apresentam neste início do
Terceiro milênio ao ministério paroquial dos presbíteros.

O que se diz do pároco, por analogia, em ampla medida, sob o aspecto do compromisso
pastoral de guia, refere-se também àqueles sacerdotes que prestam, de qualquer forma, a
sua ajuda na paróquia e aos que desempenham cargos pastorais específicos, por
exemplo, nos lugares de detenção, nos nosocômios, nas universidades e nas escolas, na
assistência aos migrantes e aos estrangeiros, etc.

A paróquia é uma comunitas christifidelium concreta, constituída estavelmente no


âmbito de uma Igreja particular, cujo cuidado pastoral é confiado a um pároco, como a
seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano.[65] Toda a vida da paróquia,
assim como o significado das suas tarefas apostólicas ante a sociedade, devem ser
entendidos e vividos com sentido de comunhão orgânica entre sacerdócio comum e
sacerdócio ministerial, de colaboração fraterna e dinâmica entre pastores e fiéis, no mais
absoluto respeito dos direitos, dos deveres e das funções de uns e dos outros, onde cada
um tem competências e responsabilidades próprias. O pároco "em íntima comunhão
com o Bispo e com todos os fiéis, evitará de introduzir no seu ministério pastoral, seja
formas de autoritarismo extemporâneo, seja modalidades de gestão inspiradas ao
democratismo, ambas estranhas à realidade mais profunda do ministério".[66] A
respeito mantém por toda a parte o seu pleno vigor a Instrução interdicasterial Ecclesia
de mysterio, aprovada de forma específica pelo Sumo Pontífice, cuja aplicação integral
assegura a praxe eclesial correta neste campo fundamental para a própria vida da Igreja.

O ligame intrínseco com a comunidade diocesana e com o seu Bispo, em comunhão


hierárquica com o Sucessor de Pedro, assegura à comunidade paroquial a pertença à
Igreja universal. Trata-se portanto de uma pars dioecesis [67] animada por um mesmo
espírito de comunhão, de ordenada co-responsabilidade batismal, por uma mesma vida
litúrgica, centralizada na celebração da Eucaristia [68] e por um mesmo espírito de
missão, que caracteriza toda a comunidade paroquial. Com efeito, cada paróquia "está
fundada sobre uma realidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística. Isso
significa que ela é uma comunidade idônea para celebrar a Eucaristia, na qual se situam
a raiz viva do seu edificar-se e o vínculo sacramental do seu estar em plena comunhão
com toda a Igreja. Essa idoneidade mergulha no fato de a paróquia ser uma comunidade
de fé e uma comunidade orgânica, isto é, constituída pelos ministros ordenados e pelos
outros cristãos, na qual o pároco que representa o Bispo diocesano é o vínculo
hierárquico com toda a Igreja particular".[69]

Neste sentido, a paróquia, que é como uma célula da diocese, deve oferecer "um
exemplo luminoso de apostolado comunitário, congregando na unidade todas as
diversidades humanas que aí encontra e inserindo-as na universalidade da Igreja".[70] A
comunitas christifidelium, na noção de paróquia, constitui o elemento pessoal essencial
de base e, com tal expressão, quer-se ressaltar a relação dinâmica entre pessoas que, de
maneira determinada, sob a guia efetiva indensável de um pastor próprio, a compõem.
Em regra geral, trata-se de todos os fiéis de um determinado teritório; ou então, somente
de alguns fiéis, no caso das paróquias pessoais, constituídas com base no rito, na língua,
na nacionalidade ou em outras motivações precisas.[71]

19. Outro elemento básico da noção de paróquia é a cura pastoral ou cura das almas,
própria do múnus de pároco, que se manifesta, principalmente, na pregação da Palavra
de Deus, na administração dos sacramentos e na guia pastoral da comunidade.[72] Na
paróquia, âmbito da cura pastoral ordinária, "o pároco é o pastor próprio da paróquia a
ele confiada; exerce o cuidado pastoral da comunidade que lhe foi entregue, sob a
autoridade do Bispo diocesano, em cujo ministério de Cristo é chamado a participar, a
fim de exercerem favor dessa comunidade o múnus de ensinar, santificar e governar,
com a cooperação dos outros presbíteros ou diáconos e com o auxílio dos fiéis leigos,
de acordo com o direito".[73] Esta noção de pároco manifesta uma grande riqueza
eclesiológica e impede que o Bispo determine outras formas da cura animarum,
segundo a norma do direito.

A necessidade de adaptar a assistência pastoral nas paróquias às circunstâncias do


tempo presente, caracterizado em alguns lugares pela escassez de sacerdotes, mas
tembém pela existência de paróquias urbanas superpovoadas e paróquias rurais
dispersas, ou por escasso número de paroquianos, aconselhou a introdução de algumas
inovações, certamente não de princípio, no direito universal da Igreja a respeito do
titular da cura pastoral da paróquia. Uma dessas consiste na possibilidade de confiar in
solidum a mais sacerdotes a cura pastoral de uma ou mais paróquias, com a condição
peremptória de que seja somente um deles o moderador, que dirija a atividade comum e
dela responda pessoalmente ao Bispo.[74] Confia-se portanto o único múnus paroquial,
a única cura pastoral da paróquia a um titular multíplice, constituído por diversos
sacerdotes, que recebem uma idêntica participação no múnus confiado, sob a direção
pessoal de um confrade moderador. Confiar a cura pastoral in solidum manifesta-se útil
para resolver algumas situações naquelas dioceses em que poucos sacerdotes devem
organizar o seu tempo na assistência a atividades ministeriais diversas, mas torna-se
também um meio oportuno para promover a co-responsabilidade pastoral dos
presbíteros e, de maneira especial, para facilitar o costume da vida comum dos
sacerdotes, que deve ser sempre encorajado.[75]
Não podem prudentemente ignorar-se, todavia, algumas dificuldades que a cura pastoral
in solidum – sempre e de qualquer forma integrada apenas por sacerdotes – pode
comportar, pois é conatural aos fiéis a identificação com o seu pastor, e pode ser
desorientadora e não compreendida a presença variante de mais presbíteros, ainda que
coordenados entre si. É evidente a riqueza da paternidade espiritual do pároco, como um
"pater familias" sacramental da paróquia, com os conseqüentes vínculos que geram
fecundidade pastoral.

Nos casos em que o exijam as necessidades pastorais, o Bispo diocesano pode


oportunamente proceder a confiar temporariamente mais paróquias à cura pastoral de
um só pároco.[76]

Quando as circunstâncias o sugiram, confiar uma paróquia a um administrador [77]


pode constituir uma solução provisória.[78] É oportuno lembrar, todavia, que o múnus
de pároco, sendo essencialmente pastoral, requer plenitude e estabilidade.[79] O pároco
deveria ser um ícone da presença do Cristo histórico. É a exigência da configuração a
Cristo, que ressalta este compromisso prioritário.

20. Para realizar a missão de pastor numa paróquia, missão que comporta a cura plena
das almas, requer-se absolutamente o exercício da ordem sacerdotal.[80] Portanto, além
da comunhão eclesial, [81] o requisito explicitamente exigido pelo direito canônico para
que alguém seja validamente nomeado pároco é que tenha sido constituído na Ordem
sagrada do presbiterato.[82]

No que concerne à responsabilidade do pároco no anúncio da Palavra de Deus e na


pregação da autêntica doutrina católica, o cân. 528 menciona expressamente a homilia e
a instrução catequética; a promoção de iniciativas que difundam o espírito evangélico
em todos os setores da vida humana; a formação católica das crianças e dos jovens e o
compromisso a fim de que, com a ordenada cooperação dos fiéis leigos, a mensagem do
Evangelho possa alcançar aqueles que abandonaram a prática religiosa ou não
professam a verdadeira fé,[83] e possam, assim, com a graça de Deus, chegar à
conversão. Como é lógico, o pároco não está obrigado a realizar pessoalmente todas
estas funções, mas a procurar que se realizem de maneira oportuna, conforme à reta
doutrina e à disciplina eclesial, no seio da paróquia, segundo as circunstâncias e sempre
sob a sua responsabilidade. Algumas destas funções, por exemplo, a homilia durante a
celebração eucarística, [84] deverão ser realizadas sempre e exclusivamente por um
ministro ordenado. "Mesmo que ele fosse superado por outros fiéis na eloqüência, isto
não anularia o seu ser representação sacramental de Cristo, Cabeça e Pastor, e é disto
que deriva sobretudo a eficácia da sua pregação".[85] Algumas outras funções, ao
contrário, por exemplo, a catequese, poderão ser executadas, mesmo habitualmente, por
fiéis leigos, que tenham recebido a devida preparação, segundo a reta doutrina e
conduzam uma coerente vida cristã, sempre salvo o dever do contacto pessoal. O Beato
João XXIII escrevia que "é de suma importância que o clero, em toda a parte e em todo
o tempo, seja fiel ao seu dever de ensinar. 'Aqui é oportuno dizia a este propósito São
Pio X a isto só tender e sobre isto só insistir, ou seja, que todo sacerdote não tem o
dever de nenhum outro ofício mais grave, nem é obrigado por nenhum outro vínculo
mais estreito'".[86]

Sobre o pároco, como é óbvio, por efetiva caridade pastoral, grava o dever de exercer
atenta e cuidadosa vigilância, para além do encorajamento, sobre todos e cada um dos
colaboradores. Em alguns países nos quais se contam fiéis pertencentes a diversos
grupos lingüísticos, se não tiver sido erigida uma paróquia pessoal [87] ou não tiver sido
adotada outra solução adequada, será o pároco territorial, como pastor próprio,[88] a ter
o cuidado de respeitar as necessidades peculiares dos seus fiéis, também no que
concerne às suas sensibilidades culturais específicas.

21. Quanto aos meios ordinários de santificação, o cân. 528 estabelece que o pároco
cuide, de modo especial, que a Santíssima Eucaristia seja o centro da comunidade
paroquial e que todos os fiéis possam alcançar a plenitude da vida cristã mediante uma
participação consciente e ativa na Sagrada Liturgia, na celebração dos sacramentos, na
vida de oração e nas boas obras.

Merece consideração o fato de o Código mencionar a recepção freqüente da Eucaristia e


a prática igualmente freqüente do sacramento da Penitência. O que sugere a
oportunidade que o pároco, ao estabelecer os horários das Santas Missas e das
confissões na paróquia, considere quais sejam os momentos mais apropriados para a
maioria dos fiéis, permitindo também aos que têm particulares dificuldades de horário,
de se aproximarem com facilidade aos sacramentos. Solicitude toda especial os párocos
deverão reservar à confissão individual, no espírito e na forma estabelecida pela
Igreja.[89] Lembrem-se, outrossim, que esta obrigatoriamente precede a primeira
comunhão das crianças.[90] Tenha-se, ainda, presente que, por óbvios motivos
pastorais, a fim de facilitar os fiéis, podem ser ouvidas as confissões individuais durante
a celebração da Santa Missa.[91]

Esforcem-se, ainda, por "respeitar a sensibilidade do penitente no que se refere à


escolha da modalidade da confissão, a saber, se face a face ou através da grade do
confessionário".[92] Também o confessor pode ter motivos pastorais para preferir o uso
do confessionário com a grade.[93]

Dever-se-á também favorecer ao máximo a prática da visita ao Santíssimo Sacramento,


dispondo e estabelecendo, de modo fixo, o mais amplo espaço de tempo possível para
que a igreja seja mantida aberta. Não poucos párocos, louvavelmente, promovem a
adoração mediante a exposição solene do Santíssimo Sacramento e a bênção eucarística,
experimentando os seus frutos na vitalidade da paróquia.

A Santíssima Eucaristia é custodiada com amor no tabernáculo "como o coração


espiritual da comunidade religiosa e paroquial".[94] "Sem o culto eucarístico, como o
seu coração pulsante, a paróquia torna-se árida".[95] "Se quiserdes que os fiéis rezem de
bom grado e com piedade dizia Pio XII ao clero de Roma precedei-os na igreja com o
exemplo, rezando diante deles. Um sacerdote ajoelhado diante do tabernáculo, em
atitude digna, em recolhimento profundo, é um modelo de edificação, uma advertência e
um convite à emulação orante para o povo".[96]

22. Por sua vez, o cân. 529 contempla as principais exigências para o cumprimento do
ofício pastoral paroquial, configurando, de certa forma, a atitude ministerial do pároco.
Como pastor próprio, ele esforça-se em conhecer os fiéis confiados a seus cuidados,
evitando cair no perigo do funcionalismo: não é um funcionário que desempenha um
papel e oferece serviços a quem os pede. Como homem de Deus, ele exerce, de modo
integral, o seu ministério, procurando os fiéis, visitando as famílias, participando das
suas necessidades, das suas alegrias; corrige com prudência, cuida dos anciãos, dos
fracos, dos abandonados, dos doentes e ajuda com exuberante caridade os moribundos;
dedica particular atenção aos pobres e aos aflitos; empenha-se pela conversão dos
pecadores, dos que se encontram no erro e ajuda cada um a cumprir o seu dever,
incentivando o crescimento da vida cristã nas famílias [97] .

Educar ao exercício das obras de misericórdia espiritual e corporal permanece uma das
prioridades pastorais e sinal de vitalidade de uma comunidade cristã.

É também significativa a tarefa confiada ao pároco na promoção da função própria dos


fiéis leigos na missão da Igreja, a saber, a de animar e aperfeiçoar com o espírito
evangélico, a ordem das realidades temporais e assim dar testemunho de Cristo,
especialmente no exercício das atividades seculares [98] .

Por outro lado, o pároco deve colaborar com o Bispo e com os outros presbíteros da
diocese para que os fiéis, participando da comunidade paroquial, se sintam também
membros da diocese e da Igreja universal [99] . A crescente mobilidade da sociedade
atual torna necessário que a paróquia não se feche em si mesma e saiba acolher os fiéis
de outras paróquias que a freqüentam, como também evite de ver com desconfiança que
alguns paroquianos participam da vida de outras paróquias, igrejas reitorais ou
capelanias.

Incumbe também, especialmente ao pároco, o dever de promover com zelo, sustentar e


acompanhar com cuidado especial as vocações sacerdotais.[100] O exemplo pessoal no
mostrar a sua identidade, mesmo visivelmente,[101] no viver coerentemente com ela,
juntamente com o cuidado das confissões individuais e da direção espiritual dos jovens,
como também da catequese sobre o sacerdócio ordenado, tornarão realista a
irrenunciável pastoral vocacional. "Sempre foi tarefa especial do ministério sacerdotal
lançar as sementes da vida totalmente consagrada a Deus e suscitar o amor pela
virgindade".[102]

As funções que no Código, são confiadas especialmente ao pároco [103] são:


administrar o batismo; administrar o sacramento da confirmação aos que se acham em
perigo de morte, segundo o cân. 883, § 3;[104] administrar o Viático e a Unção dos
Enfermos, salva a prescrição do cân. 1003 §§ 2 e 3, [105] e dar a bênção apostólica;
assistir aos matrimônios e dar a bênção nupcial; realizar funerais; benzer a fonte
batismal no tempo pascal, fazer procissões e dar bênçãos solenes fora da igreja; celebrar
mais solenemente a Santíssima Eucaristia nos domingos e festas de preceito.
Mais do que funções exclusivas do pároco, ou mais do que direitos exclusivos seus, são-
lhe confiadas, de modo especial em razão da sua particular responsabilidade; deve,
portanto, realizá-las pessoalmente, quando for possível, ou ao menos acompanhar a sua
realização.

23. Onde há escassez de sacerdotes, pode conceber-se, como acontece em alguns


lugares, que o Bispo, tendo tudo considerado com prudência, confie, nas modalidades
permitidas canonicamente, uma cooperação "ad tempus" no exercício do cuidado
pastoral da paróquia a uma pessoa ou a uma comunidade de pessoas não revestidas do
caráter sacerdotal.[106] Todavia, nesses casos, devem ser cuidadosamente observadas e
protegidas as propriedades originárias de diversidade e complementaridade entre os
dons e as funções dos ministros ordenados e dos fiéis leigos, próprias da Igreja, que
Deus quis organicamente estruturada. Há situações objetivamente extraordinárias que
justificam essa colaboração que, todavia, não pode legitimamente superar os confins da
especificidade ministerial e laical.

No desejo de purificar uma terminologia que poderia induzir à confusão, a Igreja


reservou as expressões que indicam "senhorio" como as de "pastor", "capelão",
"diretor", "coordenador" ou equivalentes exclusivamente aos sacerdotes.[107]

O Código, com efeito, no título dedicado aos direitos e aos deveres dos fiéis leigos,
distingue as tarefas e as funções que, como direito e dever próprio, pertencem a
qualquer leigo, de outras que se situam na linha de cooperação no ministério pastoral.
Estas constituem uma capacitas ou habilitas, cujo exercício depende do chamado dos
legítimos pastores a assumi-las. [108] Não são, portanto, direitos.

24. Tudo isto foi expresso por João Paulo II na Exortação Apostólica pós-sinodal
Christifideles laici: "A missão salvífica da Igreja no mundo realiza-se, não só pelos
ministros, que o são em virtude do sacramento da Ordem, mas também por todos os
fiéis leigos: estes, com efeito, por força da sua condição batismal e da sua vocação
específica, na medida própria a cada um, participam do múnus sacerdotal, profético e
real de Cristo. Por isso, os pastores devem reconhecer e promover os ofícios e as
funções dos fiéis leigos, que têm o seu fundamento sacramental no Batismo e na
Confirmação, bem como, para muitos deles, no Matrimônio. E quando a necessidade ou
a utilidade da Igreja o pedir, os pastores podem, segundo as normas estabelecidas pelo
direito universal, confiar aos fiéis leigos certos ofícios e certas funções que, embora
ligadas ao seu próprio ministério de pastores, não exijam, contudo, o caráter da Ordem"
(n. 23). O mesmo documento lembra, ainda, o princípio básico que regulamenta essa
colaboração e os seus limites intransponíveis: "Todavia, o exercício de semelhante
tarefa não transforma o fiel leigo em pastor: na realidade, o que constitui o ministério
não é a tarefa, mas a ordenação sacramental. Só o sacramento da Ordem confere ao
ministro ordenado uma peculiar participação no ofício de Cristo, Chefe e Pastor, e no
Seu sacerdócio eterno. A tarefa que se exerce como suplente recebe a sua legitimidade,
formalmente e imediatamente, da delegação oficial que lhe dão os pastores e, no
exercício concreto, submete-se à direção da autoridade eclesiástica" (n. 23).[109]

Nos casos em que vier a ser confiada a fiéis não ordenados a participação no exercício
do cuidado pastoral da paróquia, deve ser necessariamente constituído como moderador
um sacerdote, com o poder e os deveres de pároco, que dirija pessoalmente o cuidado
pastoral.[110] Como é lógico, a participação no ofício paroquial é diversa no caso do
presbítero designado para dirigir a atividade pastoral munido das faculdades de pároco
que exerce as funções exclusivas do sacerdote, e no caso das outras pessoas que não
receberam a ordem do presbiterato e participam subsidiariamente no exercício das
outras funções.[111] O religioso não sacerdote, a religiosa, o fiel leigo, chamados a
participar no exercício da cura pastoral, podem exercer funções de tipo administrativo,
como também de formação e de animação espiritual, mas não podem logicamente
exercer funções de cura plena das almas, pois esta requer o caráter sacerdotal. Podem,
em todo o caso, suprir a ausência do ministro ordenado naquelas funções litúrgicas
adequadas à sua condição canônica, enumeradas pelo cân. 230 § 3: "Exercer o
ministério da palavra, presidir às orações litúrgicas, administrar o batismo e distribuir a
sacrada Comunhão, de acordo com as prescrições do direito". [112] Os diáconos,
embora não podendo ser situados no mesmo nível dos outros fiéis, não podem contudo
exercer uma plena cura animarum.[113]
É conveniente que o Bispo diocesano verifique, com a máxima prudência e visão
pastoral, sobretudo o autêntico estado de necessidade e, então, estabeleça as condições
de idoneidade das pessoas chamadas a esta cooperação e defina as funções a atribuírem-
se a cada uma delas, segundo as circunstâncias das respectivas comunidades paroquiais.
Em todo o caso, na falta de uma clara distribuição de funções, cabe ao presbítero
moderador determinar o que se deve fazer. A excepcionalidade e a provisoriedade
destas fórmulas exigem que no seio dessas comunidades paroquiais, se promova ao
máximo a consciência da absoluta necessidade das vocações sacerdotais, se cultivem os
seus germes com amorosa atenção e se promova a oração, quer comunitária quer
pessoal, também pela santificação dos sacerdotes.

Para que as vocações sacerdotais possam florescer mais facilmente numa comunidade é
muito útil que nela seja vivo e difuso o sentimento de afeto autêntico, de profunda
estima, de forte entusiasmo pela realidade da Igreja, Esposa de Cristo, colaboradora do
Espírito Santo na obra de salvação.

Seria necessário manter sempre viva no ânimo dos fiéis aquela alegria e aquele santo
orgulho da pertença eclesial, que é tão patente, por exemplo, na primeira carta de Pedro
e no Apocalipse (cf. 1 Pd 3, 14; Ap 2, 13.17; 7, 9; 14, 1ss.; 19, 6; 22, 14). Sem a alegria
e o orgulho desta pertença, tornar-se-ia árduo, no plano psicológico, salvaguardar e
desenvolver a própria vida de fé. Não é de admirar que, pelo menos em nível
psicológico, em alguns contextos, as vocações sacerdotais tenham dificuldade de
germinar e de chegar à maturação.

"Seria um erro fatal resignar-se às atuais dificuldades e comportar-se efetivamente como


se tivéssemos de nos prepararnos para uma Igreja do futuro, imaginada quase
desprovida de presbíteros. Deste modo, as medidas adotadas para resolver as carências
atuais seriam para a comunidade eclesial, apesar de toda a boa vontade, realmente
perniciosas".[114]

25. "Quando se trata de participar no exercício do cuidado pastoral de uma paróquia nos
casos em que esta, por escassez de presbíteros, não pudesse valer-se do cuidado
imediato de um pároco os diáconos permanentes têm sempre a precedência sobre os
fiéis não ordenados".[115] Em virtude da Ordem sagrada, "O diácono 'é mestre,
enquanto proclama e esclarece a palavra de Deus; é santificador, enquanto administra o
sacramento do Batismo, da Eucaristia e os sacramentais, participa na celebração da
Santa Missa, em veste de 'ministro do sangue', conserva e distribui a Eucaristia; é guia,
enquanto é animador de comunidade ou setor da vida eclesial'".[116]

Grande acolhida será reservada aos diáconos, candidatos ao sacerdócio, que prestam
serviço pastoral na paróquia. Para eles o pároco, em entendimento com os superiores do
seminário, será guia e mestre, na consciência de que também do seu testemunho de
coerência com a sua identidade, de generosidade missionária no serviço e de amor à
paróquia, poderá depender a doação sincera e total a Cristo por parte do candidato ao
sacerdócio.

26. À imagem do conselho pastoral da diocese, [1117] a normativa canônica prevê a


possibilidade de constituir – se o Bispo diocesano, ouvido o conselho presbiteral,[118] o
julgar oportuno – também um conselho pastoral paroquial, cuja finalidade básica será a
de servir, num álveo institucional, a ordenada cooperação dos fiéis no desenvolvimento
da atividade pastoral [119] própria dos presbíteros. Trata-se de um órgão consultivo,
constituído a fim de que os fiéis, exprimindo uma responsabilidade batismal, possam
ajudar o pároco que o preside, [120] mediante a sua consultoria em matéria
pastoral.[121] "Os fiéis leigos devem convencer-se cada vez mais do particular
significado que tem o compromisso apostólico na sua paróquia; é necessário encorajar a
uma "valorização mais convicta e ampla dos Conselhos pastorais paroquiais".[122] A
razão é clara e convergente: "Nas atuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem
fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão eclesial no seio das
suas paróquias e para o despertar do impulso missionário em ordem aos não-crentes e,
mesmo, aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a prática da vida cristã".[123]
"Todos os fiéis têm a faculdade, melhor, por vezes também o dever de fazer conhecer o
seu parecer sobre coisas concernentes ao bem da Igreja, o que pode acontecer também
graças a instituições estabelecidas para esta finalidade: [...] O conselho pastoral poderá
prestar ajuda muito útil... fazendo propostas e dando sugestões acerca das iniciativas
missionárias, catequéticas e apostólicas [...] acerca da promoção da formação doutrinal
e da vida sacramental dos fiéis; acerca da ajuda a dar à ação pastoral dos sacerdotes nos
diversos âmbitos sociais ou zonas territoriais; acerca do modo de sensibilizar cada vez
mais a opinião pública, etc."[124] O conselho pastoral pertence ao âmbito das relações
de serviço recíproco entre o pároco e os seus fiéis e, portanto, não teria sentido
considerá-lo como um órgão que substitui o pároco na direção da paróquia ou que, com
um critério de maioria, condicione praticamente a guia do pároco.

No mesmo sentido, os sistemas de deliberação concernentes às questões econômicas da


paróquia, salvo restando a norma de direito para a reta e honesta administração, não
podem condicionar o papel pastoral do pároco, o qual é representante legal e
administrador dos bens da paróquia.[125]

4. Os desafios positivos do presente na pastoral paroquial

27. Se toda a Igreja foi convidada, neste início de novo milênio, a haurir um "renovado
impulso na vida cristã", fundamentado na consciência da presença de Cristo
ressuscitado entre nós,[126] devemos saber tirar daí as conseqüências para a pastoral
nas paróquias.

Não se trata de inventar novos programas pastorais, já que o programa cristão,


centralizado no próprio Cristo, é sempre o de conhecê-lo, amá-lo e imitá-lo, de viver
nele a vida trinitária e transformar com ele a história até a sua plenitude: "Um programa
que não muda com a variação dos tempos e das culturas, embora se tenha em conta o
tempo e a cultura para um diálogo verdadeiro e uma comunicação eficaz".[127]

No vasto quanto empenhativo horizonte do pastoral ordinária: "É nas Igrejas locais que
se podem estabelecer as linhas programáticas concretas – objetivos e métodos de
trabalho, formação e valorização dos agentes, busca dos meios necessários – que
permitam levar o anúncio de Cristo às pessoas, plasmar as comunidades, permear em
profundidade a sociedade e a cultura através do testemunho dos valores
evangélicos".[128] São estes os horizontes "da entusiasmante obra de relançamento
pastoral; uma obra que nos toca a todos".[129]

Guiar os fiéis a uma vida interior sólida, sobre o fundamento dos princípios da doutrina
cristã, como foram vividos e ensinados pelos Santos, é a obra pastoral muito mais
relevante e fundamental. Nos planos pastorais é precisamente este aspecto, que deveria
ser privilegiado. Hoje, mais do que nunca, é necessário redescobrir a oração, a vida
sacramental, a meditação, o silêncio adorante, o coração a coração com Nosso Senhor, o
exercício quotidiano das virtudes que a Ele configuram; tudo isto é muito mais
produtivo do que qualquer discussão e é, de qualquer forma, a condição para a sua
eficácia.

São sete as prioridades pastorais que a Novo millennio ineunte indicou: a santidade, a
oração, a Santíssima Eucaristia dominical, o sacramento da Reconciliação, o primado da
graça, a escuta da Palavra e o anúncio da Palavra.[130] Estas prioridades, que
emergiram particularmente da experiência do Grande Jubileu, oferecem não apenas o
conteúdo e a substância das questões sobre as quais os párocos e todos os sacerdotes
envolvidos na cura animarum nas paróquias devem meditar com atenção, mas
sintetizam também o espírito com que se deve fazer frente a esta obra de retomada
pastoral.

A Novo millennio ineunte evidencia também "outro vasto campo, em que se torna
necessário um decidido empenho programático a nível da Igreja universal e das Igrejas
particulares: o da comunhão (koinonia) que encarna e manifesta a própria essência do
mistério da Igreja" (n. 42) e convida a promover uma espiritualidade de comunhão.
"Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no
milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às
expectativas mais profundas do mundo" (n. 43). Especifica, ainda: "Antes de programar
iniciativas concretas, é necessário promover uma espiritualidade da comunhão,
elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o
homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes
pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades" (n. 43).

Uma verdadeira pastoral da santidade nas nossas comunidades paroquiais implica uma
autêntica pedadogia da oração, uma renovada, persuasiva e eficaz catequese sobre a
importância da Santíssima Eucaristia dominical e também quotidiana, da adoração
comunitária e pessoal do Santíssimo Sacramento, sobre a prática freqüente e individual
do sacramento da Reconciliação, sobre a direção espiritual, sobre a devoção mariana,
sobre a imitação dos Santos, um novo impulso apostólico vivido como compromisso
quotidiano das comunidades e das pessoas, uma adequada pastoral da família, um
coerente compromisso social e político.

Esta pastoral não é possível, se não for inspirada, amparada e reavivada por sacerdotes
dotados desse mesmo espírito. "Do exemplo e do testemunho do sacerdote os fiéis
podem tirar grande proveito (...) redescobrindo a paróquia como "escola" de oração,
onde o encontro com Cristo não se exprime apenas em pedidos de ajuda, mas também
em ação de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, afetos de alma, até se
chegar a um coração verdadeiramente apaixonado".[131] (...) Ai de nós, se esquecermos
que "sem Cristo, nada podemos fazer" (cf. Jo 15, 5). É a oração que nos faz viver nesta
verdade, recordando-nos constantemente o primado de Cristo e, consequentemente, o
primado da vida interior e da santidade. Quando não se respeita este primado (...)
repete-se então conosco aquela experiência dos discípulos narrada no episódio
evangélico da pesca milagrosa: "Trabalhamos durante toda a noite e nada apanhamos"
(Lc 5, 5). Esse é o momento da fé, da oração, do diálogo com Deus, para abrir o coração
à onda da graça e deixar a palavra de Cristo passar por nós com toda a sua força: Duc in
altum!".[132]

Sem sacerdotes verdadeiramente santos, seria muito difícil ter um bom laicato e tudo
seria como apagado; como também sem famílias cristãs Igrejas domésticas é bem difícil
que chegue a primavera das vocações. Portanto, engana-se quem, para enfatizar o
laicato, transcura o sacerdócio ordenado, porque, assim fazendo, acaba por penalizar o
próprio laicato e por esterilizar toda a missão da Igreja.

28. A perspectiva na qual deve colocar-se o caminho e o fundamento de toda a


programação pastoral está em ajudar a redescobrir nas nossas comunidades a
universalidade da vocação cristã à santidade. É necessário lembrar que a alma de todo o
apostolado está radicada na intimidade divina, no nada antepor ao amor de Cristo, no
procurar em todas as coisas a maior glória de Deus, no viver a dinâmica cristocêntrica
do mariano "totus tuus"! A pedagogia da santidade coloca "a programação sob o signo
da santidade" [133] e é o principal desafio pastoral no contexto do tempo presente. Na
Igreja santa todos os fiéis são chamados à santidade.

Uma tarefa central da pedagogia da santidade consiste, portanto, em saber ensinar a


todos, e em lembrá-lo incansavelmente, que a santidade constitui a meta da existência
de cada cristão. "Na Igreja todos, quer pertençam à hierarquia, quer sejam por ela
apascentados. são chamados à santidade, segundo as palavras do Apóstolo: "Esta é a
vontade de Deus: a vossa santificação" (1 Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4)".[134] Eis aí o primeiro
elemento a desenvolver pedagogicamente na catequese eclesial, até que a consciência da
santificação no interior da própria existência não chegue a ser uma convicção comum.

O anúncio da universalidade da vocação à santidade exige a compreensão da existência


cristã como sequela Christi, como conformação a Cristo; não se trata de encarnar de
modo extrínseco comportamentos éticos, mas de deixar-se pessoalmente abranger no
evento da graça de Cristo. Esta conformação a Cristo é a substância da santificação e
constitui a meta específica da existência cristã. Para conseguir isto, cada cristão
necessita da ajuda da Igreja, mater et magistra. A pedagogia da santidade é um desafio,
tão exigente quanto atraente, para todos os que na Igreja detêm responsabilidade de guia
e de formação.

29. Prioridade de singular importância para a Igreja, e, portanto, para a pastoral


paroquial, é o compromisso ardentemente missionário da evangelização.[135] "Já
deixou de existir, mesmo nos Países de antiga evangelização, a situação de "sociedade
cristã" que, não obstante as muitas fraquezas que sempre caracterizam tudo o que é
humano, tinha explicitamente como ponto de referência os valores evangélicos. Hoje,
tem-se de enfrentar com coragem uma situação que se vai tornando cada vez mais
variada e difícil com a progressiva mistura de povos e culturas que caracteriza o novo
contexto da globalização".[136]

Na sociedade, assinalada hoje pelo pluralismo cultural, religioso e ético, parcialmente


caracterizada pelo relativismo, pelo indiferentismo, pelo irenismo e pelo sincretismo,
parece que alguns cristãos se tenham quase habituado a uma espécie de "cristianismo"
destituído de reais referências a Cristo e à sua Igreja; tende-se, dessa forma, a reduzir o
projeto pastoral a temáticas sociais colhidas numa perspectiva exclusivamente
antropológica, no âmbito de um genérico apelo ao pacifismo, ao universalismo e a uma
referência não bem especificada a "valores".

A evangelização do mundo contemporâneo será realizada somente a partir da


redescoberta da identidade pessoal, social e cultural dos cristãos. Isto significa
sobretudo a redescoberta de Jesus Cristo, Verbo Encarnado, único Salvador dos
homens! [137] Desta convicção promana a exigência da missão que preme no coração
de cada sacerdote de modo todo especial e que, por ele, deve caracterizar toda paróquia
e comunidade por ele guiada pastoralmente. "Julgamos que não seja sequer pensável a
existência de um método pastoral aplicável e adaptável a todos; antes de nós, Gregório
Nazianzeno, fez disto um axioma do seu magistério. Exclui-se a unicidade do método.
Para edificar a todos na caridade, será necessário variar os modos com que tocas os
corações, não a doutrina. Será portanto uma pastoral de adaptação modal, não de
adaptação doutrinal".[138]

Será solicitude do pároco fazer com que também as associações, os movimentos e as


várias agremiações presentes na paróquia ofereçam a sua contribuição específica â vida
missionária da mesma. "Reveste uma grande importância para a comunhão o dever de
promover as várias realidades agregativas que, tanto nas suas formas mais tradicionais
como nas mais recentes dos movimentos eclesiais, continuam a dar à Igreja uma grande
vitalidade que é dom de Deus e constitui uma autêntica 'primavera do Espírito'. É, sem
dúvida, necessário que associações e movimentos, tanto a nível da Igreja universal
como das Igrejas particulares, atuem em plena sintonia eclesial e obediência às
diretrizes autorizadas dos Pastores". [139] Há-de evitar-se na estrutura paroquial todo
exclusivismo e fechamento dos vários grupos, pois a missionariedade está na certeza,
que deve ser compartilhada por todos, de que "Jesus Cristo tem para o gênero humano e
para a sua história um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios,
exclusivos, universais, absolutos. Jesus é, de fato, o Verbo de Deus feito homem para a
salvação de todos". [140]

A Igreja confia na fidelidade quotidiana dos presbíteros ao ministério pastoral,


comprometidos na sua missão insubstituível a favor da paróquia confiada à sua guia.

Não faltam certamente aos párocos e aos outros presbíteros, que servem as várias
comunidades, dificuldades pastorais, cansaço interior e físico pelo excesso de trabalho,
nem sempre equilibrado com sadios períodos de retiro espiritual e de justo repouso. E
mais: quantas amarguras quando se vêem obrigados a constatar que muitas vezes o
vento da secularização torna árido o terreno em que se semeou com relevantes e
diuturnos esforços!

Uma cultura amplamente secularizada, que tende a homologar o sacerdote nas malhas
das suas categorias de pensamento, despojando-o da sua esssencial dimensão mistério-
sacramental, é amplamente responsável pelo fenômeno. Daí nascem aqueles desalentos,
que podem levar ao isolamento, a uma espécie de deprimente fatalismo ou a um
ativismo dispersivo. Isto não quer dizer que a ampla maioria dos sacerdotes, em toda a
Igreja, correspondendo à solicitude dos seus bispos, não enfrente positivamente os
difíceis desafios da presente conjuntura histórica e não consiga viver em plenitude e
com alegria a sua identidade e o generoso compromisso pastoral.
Não faltam, todavia, também internamente, perigos como os da burocratização, do
funcionalismo, do democratismo, da planificação mais empresarial do que pastoral.
Infelizmente, em algumas circunstâncias o presbítero pode ser oprimido por um cúmulo
de estruturas nem sempre necessárias, que acabam por sobrecarregá-lo, com
conseqüências negativas tanto sobre o estado psicofísico como sobre o espiritual e,
afinal, em detrimento do próprio ministério.

O Bispo não deixará de vigiar atentamente sobre tais situações, pois ele é pai sobretudo
dos seus primeiros e mais preciosos colaboradores. É atual quanto urgente a união de
todas as forças eclesiais para responder positivamente às insídias de que são alvo o
sacerdote e o seu ministério.

A Congregação para o Clero, ante as circunstâncias atuais da vida de Igreja, ante as


exigências da nova evangelização, considerando a resposta que os sacerdotes são
chamados a dar, achou por bem oferecer o presente documento como uma ajuda, um
encorajamento e um estímulo ao ministério pastoral dos presbíteros no cuidado
paroquial. Com efeito, o contacto mais imediato da Igreja com toda a gente se dá
normalmente no âmbito das paróquias. Por isto, as nossas considerações limitam-se à
pessoa do sacerdote enquanto pároco. Nele faz-se presente Jesus Cristo como Cabeça de
seu Corpo Místico, o Bom Pastor que que cuida de cada ovelha. Quisemos ilustrar a
natureza mistério-sacramental deste ministério.

Este documento, à luz do ensinamento do Concílio Ecumênico Vaticano II e da


Exortação apostólica Pastores dabo vobis, coloca-se em continuidade com o Diretório
para o ministério e a vida dos presbíteros, com a Instrução interdicasterial Ecclesiae de
mysterio e a Carta circular O Presbítero, Mestre da Palavra, Ministro dos sacramentos
e Guia da comunidade em vista do Terceiro milênio cristão.

Só é possível viver o próprio ministério quotidiano, mediante a santificação pessoal, que


deve sempre estar fundamentada na força espiritual dos sacramentos da Santíssima
Eucaristia e da Penitência.

"A Eucaristia é o ponto donde tudo irradia e para o qual tudo conduz (...) Ao longo dos
séculos, muitos sacerdotes encontraram nela o conforto prometido por Jesus na noite da
Última Ceia, o segredo para vencer a sua solidão, o apoio para suportar seus
sofrimentos, o alimento para retomar o caminho depois do desalento, a energia interior
para confirmar a própria decisão de fidelidade". [141]

Ajuda não pouco ao aprofundamento da vida sacramental e à formação permanente


[142] uma vida fraterna dos sacerdotes, que não seja simples conveniência sob o mesmo
teto, mas comunhão na oração, na compartilha de intentos e na cooperação pastoral,
unida ao valor da amizade recíproca e com o Bispo; tudo isto constitui uma ajuda
relevante para superar as dificuldades e as provações no exercício do sagrado
ministério. Todo presbítero tem necessidade não só da ajuda ministerial dos seus
confrades, mas tem necessidade deles como confrades.

Poder-se-ia, aliás, destinar na Diocese uma Casa para todos aqueles sacerdotes que,
periodicamente, têm necessidade de retirar-se em lugar apropriado ao recolhimento e à
oração, para aí encontrar os meios indispensáveis à sua santificação.
No espírito do Cenáculo, onde os apóstolos perseveravam unanimente na oração com
Maria, mãe de Jesus (At 1, 14), a Ela confiamos estas páginas redigidas com afeto e
reconhecimento a todos os sacerdotes comprometidos no cuidado das almas
disseminados no mundo. Cada um, no exercício do seu "múnus" pastoral diário, possa
gozar da ajuda maternal da Rainha dos Apóstolos e saiba viver em comunhão profunda
com Ela. Com efeito, no sacerdócio ministerial, "há a dimensão estupenda e penetrante
da proximidade à Mãe de Cristo".[143] "É consolador ter a consciência de que '... ao
nosso lado está a Mãe do Redentor, que nos introduz no mistério da oferta redentora do
seu Filho divino. 'Ad Iesum per Mariam': seja este o nosso programa diário de vida
espiritual e pastoral'"![144]

O Sumo Pontífice João Paulo II aprovou a presente Instrução e ordenou a sua


publicação.

Roma, na sede da Congregação para o Clero, 4 de agosto de 2002, memória litúrgica


de São João Maria Vianney, Cura d'Ars, padroeiro dos párocos.

Darío Card. CASTRILLÓN HOYOS


Prefeito

+ D. Csaba TERNYÁK
Arcebispo Titular de Eminenziana
Secretário

Oração do Pároco a Maria Santíssima

Ó Maria, Mãe de Jesus Cristo,


Crucificado e Ressuscitado,
Mãe da Igreja, povo sacerdotal (1 Pd 2, 9),
Mãe dos sacerdotes, ministros de teu Filho:
acolhe a humilde oferta de mim mesmo,
para que na minha missão pastoral
possa anunciar a infinita misericórdia
do Sumo e Eterno Sacerdote:
ó "Mãe de Misericórdia".

Tu que compartilhaste com o teu Filho,


a sua "obediência sacerdotal"
(Hb 10, 5-7; Lc 1, 38),
e preparaste para Ele um corpo (cf. Hb 10, 7)
na unção do Espírito Santo,
introduz a minha vida sacerdotal
no mistério inefável
da tua divina maternidade,
ó "Santa Mãe de Deus".
Dá-me força nas horas obscuras da vida,
ergue-me na fadiga do meu ministério,
que me foi confiado por teu Jesus,
para que, em comunhão contigo,
eu possa cumpri-lo,
com fidelidade e amor,
ó Mãe do Eterno Sacerdote,
"Rainha dos Apóstolos,
Auxílio dos presbíteros". [145]

Tu que acompanhaste silenciosamente Jesus


na sua missão de anúncio
do Evangelho de paz aos pobres.
torna-me fiel ao rebanho
que me foi confiado pelo Bom Pastor.
Faze que eu possa conduzi-lo sempre
Com sentimentos de paciência, de doçura,
de firmeza e amor,
na predileção pelos doentes,
pelos pequenos, pelos pobres, pelos pecadores,
ó "Mãe Auxiliadora do Povo cristão".

Consagro-me e confio-me a Ti, ó Maria,


que, junto à cruz do teu Filho,
foste feita partícipe da sua obra redentora,
"unida indissoluvelmente à obra salvífica".[146]
Faze que no exercício do meu ministério
possa cada vez mais sentir
"a dimensão estupenda e penetrante
da tua proximidade maternal" [147]
em todos os momentos da minha vida,
na oração e na ação,
na alegria e na dor, na fadiga e no repouso,
ó "Mãe da Confiança".

Concede-me, ó Mãe,
que na celebração da Eucaristia,
centro e fonte do ministério sacerdotal,
possa viver a minha proximidade a Jesus
na tua proximidade materna,
pois "quando celebramos a Santa Missa,
tu estás ao nosso lado"
e nos introduzes no mistério
da oferta redentora
do teu Filho divino,[148]
"ó Medianeira das graças que brotam
desta Oferenda para a Igreja
e para todos os fiéis",[149]
ó "Mãe do Salvador".
Ó Maria: desejo colocar a minha pessoa,
a minha vontade de santificação,
sob a tua materna proteção e inspiração
para que Tu me guies
para aquela "conformação com Cristo,
Cabeça e Pastor",
que requer o ministério de pároco.
Faze que eu tome consciência
de que "Tu estás sempre
ao lado de cada sacerdote",
na sua missão de ministro
do único Mediador Jesus Cristo:
ó "Mãe dos Sacerdotes",
"Auxiliadora e Medianeira" [150]
de todas as graças.

Amém!

****

Ato de Amor do Santo Cura d'Ars, São João Maria Vianney

Eu Vos amo, ó meu Deus,


e amar-Vos até ao último suspiro
da minha vida é o meu único desejo.

Eu Vos amo, ó Deus infinitamente amável,


e prefiro morrer amando-Vos
do que viver um só instante sem Vos amar.

Eu Vos amo, ó meu Deus, e não desejo o céu


senão para ter a alegria
de Vos amar perfeitamente.

Eu Vos amo, ó meu Deus,


e temo o inferno porque lá jamais
haverá a suave consolação de Vos amar.

Ó meu Deus, se a minha língua


não pode dizer-Vos a todo momento
que Vos amo, quero ao menos
que o meu coração Vo-lo repita a cada suspiro.

Concedei-me a graça de sofrer amando-Vos,


de amar-Vos sofrendo e de expirar um dia
amando-Vos e sentindo que Vos amo.
E quanto mais me aproximo do meu fim,
mais Vos imploro que aumenteis
o meu amor e o aperfeiçoeis.
Notas

[1] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2001 (25
de março de 2001), n. 1.

[2] Santo Agostinho, De Trinitate, 13, 19, 24: NBA 4, pág. 555.

[3] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2000 (23
de março de 2000), n. 5.

[4] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n.
15: AAS 93 (2001), pág. 276.

[5] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2001 (25
de março de 2001), n. 2.

[6] João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n. 3:
l.c., pág. 267.

[7] João Paulo II, Homilia por ocasião do Jubileu dos Presbíteros (18 de maio de
2000), n. 5.

[8] Cf. Congregação para o Clero, O presbítero, mestre da palavra, ministro dos
sacramentos e guia da comunidade, em vista do terceiro milênio cristão (19 de março
de 1999).

[9] Neste sentido, é importante refletir, como se fará a seguir nestas páginas, sobre o que
Sua Santidade João Paulo II chamou: "A consciência de ser ministro de Jesus Cristo,
Cabeça e Pastor da Igreja" (Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis [25
de março de 1992], n. 25: AAS 84 [1992] pp. 695-696).

[10] Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 59: Livraria Editora Vaticana, 1994.

[11] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de
março de 1992), n. 70: l.c., pp. 778-782.

[12] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, n.
48.

[13] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001): AAS 94 (2002), pp. 214-215.

[14] Cf. Constituições Apostólicas, III, 16, 3: SC 329, pág. 147; Santo ambrósio, De
Mysteriis 6, 29-30: SC 25bis, pág. 173; S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III,
63, 3; Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição dogmática Lumen gentium, nn. 10-
11; Decreto Presbyterorum ordinis, n. 2; CDC, cân. 204.
[15] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001), l.c., pág. 215.

[16] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n.
10; Presbyterorum ordinis, n. 2; PIO XII, Carta Encíclica Mediator Dei (20 de
novembro de 1947): AAS 39 (1947), pág. 555; Alocução Magnificate Dominum: AAS 46
(1954), pág. 669; Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos,
Congregação para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), "Princípios teológicos", n. 1:
AAS 89 [1997], pp. 860-861).

[17] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1273.

[18] Cf. Concílio Ecumênico de Trento, Sessão XXIII, Doctrina de sacramento ordinis
(15 de julho de 1563), DS, 1763-1778; Concílio Ecumênico Vaticano II, Presbyterorum
ordinis, nn. 2, 13; Decreto Christus Dominus, n. 15; Missale Romanum: Institutio
generalis, nn. 4-5 e 60; Pontificale Romanum: de Ordinatione, nn. 131 e 123;
Catecismo da Igreja Católica, nn. 1366-1372, 1544-1553, 1562-1568 e 1581-1587.

[19] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de
março de 1992), nn. 13-15: l.c., pp. 677-681.

[20] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium, n. 33;
Constituição Dogmática Lumen gentium, nn. 10, 28 e 37; Decreto Presbyterorum
ordinis, nn. 2, 6 e 12; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida
dos Presbíteros Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), nn. 6-12; S. Tomás de Aquino, S.
Th., III, 22, 4.

[21] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 1979
Novo incipiente (8 de abril de 1979), n. 4: AAS 71, (1979), pág. 399.

[22] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30 de
dezembro de 1988), n. 23: AAS 81 (1989), pág. 431; Congregação para o Clero,
Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação para a Doutrina da Fé, Congregação
para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Congregação para os Bispos,
Congregação para a Evangelização dos Povos, Congregação para os Institutos de Vida
Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Pontifício Conselho para a
Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução acerca de algumas questões sobre a
colaboração dos fiéis leigos no ministério dos sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de
agosto de 1997), "Princípios teológicos", n. 4: l.c., pp. 860-861; Congregação para o
Clero, O presbítero, mestre da palavra, ministro dos sacramentos e guia da
comunidade, em vista do terceiro milênio cristão (19 de março de 1999), pág. 36.

[23] Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 7.
[24] Cf. Paulo VI, Catequese na Audiência geral de 7 de outubro de 1964:
Ensinamentos de Paulo VI 2 (1964), pág. 958.

[25] Cf. Paulo VI, Marialis cultus (2 de fevereiro de 1974), n. 11, 32, 50, 56: AAS 66
(1974), pp. 123, 144, 159, 162.

[26] Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de
março de 1992), n. 21: l.c., pág. 689.

[27] Ibid., n. 18: l.c., pág. 684; cf. Congregação para o Clero, Diretório para o
ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 30.

[28] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 13.

[29] Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 46.

[30] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de
março de 1992), n. 26: l.c., pág. 698; Congregação para o Clero, Diretório para o
ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), nn. 45-47.

[31] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 12; CDC,
cân. 276 § 1.

[32] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n.
41.

[33] Cf. SÃO FRANCISCO DE SALES, Introdução à vida devota, parte 1, cap. 3.

[34] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 12; CDC,
cân. 276 § 1.

[35] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 14.

[36] Cf. Ibid.

[37] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de
março de 1992), n. 72: l.c., pág. 786.

[38] Ibid.

[39] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n. 16: "(Os Bispos)
tratem sempre com especial caridade os sacerdotes, que compartilham das suas funções
e solicitude, e tão zelosamente satisfazem esses deveres com o trabalho de cada dia.
Considerando-os como filhos e amigos e, portanto, mostrando-se prontos a ouvi-los e
tratando-os com confiança, procurem dar nova vida a toda a atividade pastoral da
diocese inteira. Preocupem-se com as condições espirituais, intelectuais e materiais dos
mesmos, para que possam viver santa e piamente, e exercer com fidelidade e fruto o seu
ministério".
[40] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março
de 1992), n. 72: l.c., pág. 787.

[41] Ibid., n. 25: l.c., pág. 695.

[42] Cf. ibid.

[43] Ibidem.

[44] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 14.

[45] João Paulo II, Introdução à Santa Missa por ocasião da memória litúrgica de Nossa
Senhora de Czestochowa, L'Osservatore Romano, Edição semanal em português, 1 de
setembro de 2001.

[46] João Paulo II, Catequese na Audiência geral de 30 de junho de 1993, Maria é a
Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote: L'Osservatore Romano, Edição semanal em
português, 4 de julho de 1993.

[47] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março
de 1992), n. 26: l.c., pág. 699.

[48] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 5.


[49] Ibid., n. 13; cf. CDC, cânn. 904 e 909.

[50] São Bernardino de Sena, Sermo XX: Opera omnia, Veneza 1591, pág. 132.

[51] Beato Columbano Marmion, Le Christ idéal du prêtre, cap. 14: Maredsous 1951.

[52] João Paulo II, Constituição Apostólica Sacrae disciplinae leges (25 de janeiro de
1983): AAS 75, II (1983), pág. XIII.

[53] Cf. ibid.

[54]Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium, n. 7.

[55] Ibid., n. 10.

[56] Ibid., n. 22.

[57] Cf. CDC, cân. 959.

[58] Ibid., n. 23.

[59] Cf. Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), "Princípios teológicos", n. 3;
"Disposições práticas", art. 6 e 8: l.c., pp. 859, 869, 870-872; e 60-861. Pontifício
Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Resposta (11 de julho de 1992):
AAS 86 (1994), pp. 541-542.

[60] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março
de 1992), n. 31: l.c., pág. 708. "A Igreja de Cristo lê-se no n. 7 da Carta Communionis
notio (28 de maio de 1992), da Congregação para a Doutrina da Fé (...) é a Igreja
universal (...) que se torna presente e operante na particularidade e diversidade das
pessoas, grupos, tempos e lugares. Entre estas múltiplas expressões particulares da
presença salvífica da única Igreja de Cristo, encontram-se desde a época apostólica as
que em si mesmas são Igrejas, porque, embora particulares, nelas se torna presente a
Igreja universal com todos os seus elementos essenciais. São por isso constituídas à
imagem da Igreja universal, e cada uma delas é uma porção do Povo de Deus confida à
cura pastoral do Bispo coadjuvado pelo seu presbitério" (AAS 85 [1993], pág. 842).

[61] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março
de 1992), n. 32: l.c., pág. 709.

[62] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n. 28; Decreto
Presbyterorum ordinis, n. 10; CDC, cânn. 265-272.

[63] Congregação para a Doutrina da Fé, Carta Communionis notio aos Bispos da Igreja
Católica sobre alguns aspectos da Igreja entendida como Comunhão (28 de maio de
1992), l.c., pág. 843.

[64] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n.
23.

[65] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, DecretoChristusDominus,n.30;CDC,cân. 515


§ 1.

[66] Congregação para o Clero, O presbítero, mestre da palavra, ministro dos


sacramentos e guia da comunidade em vista do terceiro milênio cristão (19 de março de
1999), n. 3; cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos
Presbíteros Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 17.

[67] Cf. CDC, cân. 374 § 1.

[68] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium, n. 42;
Catecismo da Igreja Católica, n. 2179; João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini (31
de maio de 1998), nos 34-36: AAS 90 (1998), pp. 733-736; Carta Apostólica Novo
millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n. 35: l.c., pág. 290.

[69] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30 de
dezembro de 1988), n. 26: l.c., pág. 438; cf. Congregação para o Clero, Pontifício
Conselho para os Leigos, Congregação para a Doutrina da Fé, Congregação para o
Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Congregação para os Bispos,
Congregação para a Evangelização dos Povos, Congregação para os Institutos de Vida
Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Pontifício Conselho para a
Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução acerca de algumas questões sobre a
colaboração dos fiéis leigos no ministério dos sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de
agosto de 1997), Disposições práticas, art. 4: l.c., pág. 866.

[70] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Apostolicam actuositatem, n. 10.

[71] Cf. CDC, cân. 518.

[72] Cf. Concílio Ecumênico Tridentino, Sessão XXIV (11 de novembro de 1563), cân.
18; Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Cristus Dominus, n. 30: "Os principais
colaboradores do Bispo sáo todavia os párocos, a quem, como Pastores próprios, é
confiada a cura de almas numa parte determinada da diocese, sob a autoridade do
Bispo".

[73] CDC, cân. 519.

[74] Cf. CDC, cân. 517 § 1.

[75] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n. 30; Decreto
Presbyterorum ordinis, n. 8; CDC, cânn. 280, 550 § 2; Congregação para o Clero,
Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia (31 de janeiro de
1994), n. 29.

[76] Cf. Concílio Ecumênico Tridentino,, Sessão XXI (16 de julho de 1562), cân. 5;
Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Nota explicativa,
publicada em entendimento com a Congregação para o Clero, sobre os casos nos quais a
cura pastoral de mais de uma paróquia é confiada a um só sacerdote (13 de novembro de
1997): Communicationes 30 (1998), pp. 28-32.

[77] Cf. CDC, cân. 539.

[78] Cf. Ibid., cân. 526 § 1.

[79] Cf. Ibid., cânn. 151, 539-540.

[80] Cf. Concílio Ecumênico de Latrão III (a. 1179), cân. 3; Concílio Ecumênico de
Lião (a. 1274), Constituição 13; CDC, cân. 150.

[81] Cf. CDC, cân. 149, § 1.

[82] Cf. Ibid., cân. 521 §1. No § 2 assinalam-se, não exaustivamente, as qualidades
principais que integram a idoneidade canônica para o candidato ao ministério paroquial:
sã doutrina e probidade de costumes, dotado de zelo pelas almas e de outras virtudes, e
tenha também as qualidades requeridas para cuidar da paróquia em questão, de acordo
com o direito universal (isto é, aquelas obrigações estabelecidas para os clérigos em
geral, cf. cânn. 273-279) e particular (a saber, aquelas qualidades que mais incidam na
própria Igreja particular).

[83] Cf. Ibid., cân. 528 § 1.


[84] Cf. Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), Disposições práticas, art. 3:
l.c., pág. 864.

[85] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001): l.c., pág. 216.

[86] João XXIII, Carta Encíclica Sacerdotii nostri primordia, no XI Centenário do


pientíssimo trânsito do Santo Cura d'Ars (1 de agosto de 1959), III parte: AAS 51
(1959), pág. 572.

[87] Cf. CDC, cân. 518.

[88] Cf. ibid., cânn. 519, 529 § 1.

[89] Cf. as "Propositiones" acerca das partes que integram o sinal sacramental e as
formas da celebração, recolhidas por João Paulo II na Exortação Apostólica pós-sinodal
Reconciliatio et paenitentia (2 de dezembro de 1984), nos 31, III; 32: AAS 77 (1985),
pp. 260-264; 267.
[90] Cf. CDC, cân. 914.

[91] Cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em: Notitiae
37 (2001), pp. 259-260.

[92] João Paulo II, Discurso aos membros da Penitenciaria Apostólica (27 de março de
1993): AAS 86 (1994), pág. 78.

[93] Cf. CDC, cân. 964 § 3; João Paulo II, motu proprio Misericordia Dei (7 e abril de
2002), 9b; Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Resposta
acerca do cân. 964 § 2 (7 de julho de 1998): AAS 90 (1998) pág. 711.

[94] Paulo VI, Carta Encíclica Mysterium fidei (3 de Setembro de 1965): AAS 57
(1965), pág. 772.

[95] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembre de 2001): l.c., pág. 215.

[96] João XXIII, Carta Encíclica Sacerdotii nostri primordia, no XI Centenário do


pientíssimo trânsito de São Cura d'Ars (1 de agosto de 1959), II parte: l.c., pág. 562.

[97] Cf. CDC, cân. 529 § 1.

[98] Cf. Ibid., cân. 225.

[99] Cf. Ibid., cân. 529, § 2.


[100] Cf. CDC, cân. 233 § 1; João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores
dabo vobis (25 de março de 1992), n. 41: l.c., pág. 727.

[101] Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 66.

[102] Santo Ambrósio, De virginitate 5, 26: PL 16, pág. 286.

[103] CDC, cân. 530.

[104] Ibid., cân. 883 3: "Pelo próprio direito, têm a faculdade de administrar a
confirmação: (...) 3: no que se refere aos que se acham em perigo de morte, o pároco e
até qualquer sacerdote".

[105] Ibid., cân. 1003 § 2: "Têm o dever e o direito de administrar a unção dos enfermos
todos os sacerdotes encarregados da cura de almas, em favor dos fiéis confiados a seus
cuidados pastorais; por causa razoável, qualquer outro sacerdote pode administrar esse
sacramento, com o consentimento, ao menos presumido, do sacerdote acima
mencionado". § 3: " É lícito a todo o sacerdote levar consigo o óleo bento, para poder
administrar, em caso de necessidade, o sacramento da unção dos enfermos".

[106] Cf. ibid., cân. 517 § 2.

[107] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001), l.c., pág. 214.

[108] Cf. CDC, cânn. 228; 229 §§ 1 e 3; e 230.

[109]Cf. também Presbyterorum ordinis, n. 2; Catecismo da Igreja Católica, n. 1563.

[110] Cf. CDC, cân. 517 § 2; Catecismo da Igreja Católica, n. 911.

[111] Cf. Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), "Princípios teológicos" e
"Disposições práticas": l.c., pp. 856-875; CDC, cân. 517 § 2.

[112] Cf. Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), "Disposições práticas", art. 6;
8: l.c., pp. 869; 870-872.
[113] Cf. CDC, cân. 150; Catecismo da Igreja Católica, nn. 1554 e 1570.

[114] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001): l.c., pág. 216.

[115] Congregação para o Clero, Diretório do ministério e da vida dos diáconos


permanentes Diaconatus originem (22 de fevereiro de 1998), n. 41: AAS 90 (1998), pág.
901.

[116] Ibid., n. 22: l.c., pág. 889.

[117] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Christus Dominus, n. 27; CDC,
cânn. 511-514.

[118] Cf. CDC, cân. 536 § 1.

[119] Ibidem.

[120] Ibidem.

[121] Cf. Congregação para o Clero, Pontifício Conselho para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
acerca de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), "Disposições práticas", art. 5:
l.c., pp. 867-868.

[122] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30 de
dezembro de 1988), n. 23: AAS 81 (1989), pág. 431.

[123] Ibidem.

[124] Sagrada Congregação para o Clero, Carta circular Omnes christifideles (25 de
janeiro de 1973), nn. 4 e 9.

[125] Cf. CDC, cânn. 532 e 1279 § 1.

[126] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001),
n. 29: l.c., pp. 285-286.

[127] Ibidem.

[128] Ibidem.

[129] Ibidem.

[130] Ibidem.
[131] João Paulo II, Discurso aos párocos e ao clero de Roma (1 de março de 2001), n.
3; cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n. 33: l.c., pág.
289.
[132] Ibid., n. 38: l.c., pág. 293.

[133] Ibid., n. 31: l.c., pág. 287.

[134] Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 39.

[135] Cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n. 14; João Paulo II,
Alocução à Sagrada Congregação para o Clero (20 de outubro de 1984): AAS 77
(1985), pp. 307-308: "Daqui a necessidade de que a paróquia redescubra a sua função
específica de comunidade de Fé e de caridade, que constitui a sua razão de ser e a sua
característica mais profunda. Isto significa fazer da evangelização o eixo de toda a ação
pastoral, como exigência prioritária, preeminente, privilegiada. Deste modo se supera
uma visão simplesmente horizontal de presença apenas social, e se reforça o aspecto
sacramental da Igreja".

[136] João Paulo II, Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n. 40: l.c., pág. 294.

[137] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Dominus Iesus (6 de agosto
de 2000): AAS 92 (2000), pp. 742-765.

[138] São Gregório Magno, Regra pastoral, Introdução à terceira parte.

[139] João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 de janeiro de 2001), n.
46: l.c., pág. 299.

[140] Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Dominus Iesus (6 de agosto de


2000), n. 15: l.c., pág. 756.

[141] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2000
(23 de março de 2000), nn. 10 e 14.

[142] Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), cap. III.

[143] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 1979
Novo incipiente (8 de abril de 1979), n. 11: l.c., pág. 416.

[144] João Paulo II, Alocução aos participantes na Plenária da Congregação para o
Clero (23 de novembro de 2001): l.c., pág. 217.

[145] Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto Presbyterorum ordinis, n. 18.

[146] Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium, n. 103.

[147] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 1979
Novo incipiente (8 de abril de 1979), n. 11: l.c., pág. 416.
[148] Cf. João Paulo II, Alocução aos participantres na Plenária da Congregação para
o Clero (23 de novembro de 2001): l.c., pág. 217.

[149] João Paulo II, Introdução à Santa Missa por ocasião da memória litúrgica de
Nossa Senhora de Czestochowa: L'Osservatore Romano, Edição semanal em português,
1 de setembro de 2001.

[150] Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 62.

ONGREGAÇÃO PARA O CLERO

O PRESBÍTERO,
MESTRE DA PALAVRA,
MINISTRO DOS SACRAMENTOS
E GUIA DA COMUNIDADE,
EM VISTA DO TERCEIRO MILÊNIO

Do Vaticano, 19 de março de 1999


Solenidade de São José
padroeiro da Igreja Universal

Aos Eminentíssimos e Excelentíssimos Ordinários,

A Igreja toda se prepara, em espírito de penitência, ao iminente ingresso no Terceiro


Milênio após a Encarnação do Verbo, estimulada pela contínua solicitude apostólica
do Sucessor de Pedro por uma sempre mais viva memória da vontade do seu Fundador
divino.

Em íntima comunhão de intentos com tal fervor, a Congregação para o Clero, na sua
Assembléia Plenária celebrada nos dias 13 a 15 de outubro de 1998, decidiu confiar a
cada um dos Ordinários a presente Carta Circular, endereçada, por seu intermédio, a
todos os sacerdotes. O Santo Padre, na alocução pronunciada naquela circunstância,
dizia: « A perspectiva da nova evangelização encontra um seu momento forte no
empenho do Grande Jubileu. Nele, encontram-se providencialmente os caminhos
traçados pela Carta apostólica Tertio Millennio adveniente e as indicadas pelos
Diretórios para os Presbíteros e para os Diáconos Permanentes, pela Instrução acerca
de algumas questões sobre a colaboração dos fiéis leigos no ministério pastoral dos
sacerdotes, bem como pelo que será o fruto da presente Plenária. Graças à universal e
convicta aplicação destes documentos, a expressão "nova evangelização", já consueta,
poderá traduzir-se mais eficazmente em realidade operante ».

Trata-se de um instrumento que, atento às atuais circunstâncias, é destinado a suscitar


um exame de consciência de cada sacerdote e dos presbitérios, bem sabendo que o
nome do amor, no tempo, é fidelidade. No texto, reafirmam-se os ensinamentos
conciliares e pontifícios como também são recordados os outros documentos, acima
mencionados pelo próprio Sumo Pontífice. Com efeito, trata-se de documentos
fundamentais para se responder às autênticas exigências dos tempos e para não correr
em vão na missão evangelizadora.

As sugestões para a reflexão, colocadas ao termo de cada capítulo, não têm como
finalidade uma resposta a ser enviada à Congregação; elas pretendem ser, tão
somente, um auxílio à reflexão, enquanto procuram interpelar a realidade de cada dia
à luz dos documentos acima acenados. Os destinatários poderão servir-se delas da
maneira que julgarem mais frutuosa.

Na consciência de que nenhuma empresa missionária poderá ser realisticamente


realizada sem o empenho motivado e entusiasta dos sacerdotes, primeiros e mais
valiosos colaboradores da Ordem Episcopal, com a presente Carta Circular se
pretende oferecer também um subsídio para as jornadas sacerdotais, os retiros,
exercícios espirituais e as reuniões presbiterais, promovidas pelas respectivas
circunscrições, neste tempo propedêutico ao Grande Jubileu e, sobretudo, durante o
desenvolvimento do mesmo.

Com os votos de que a Rainha do Apóstolo, Estrela luminosa, guie os passos dos seus
diletos filhos Sacerdotes, filhos no seu Filho, pelos caminhos da comunhão efetiva, da
fidelidade e do exercício generoso e integral do seu indispensável ministério, desejo-
lhes a plenitude do bem no Senhor, exprimindo-lhes os sentimentos de cordial obséquio
no vínculo do afeto colegial.

DARÍO Card. CASTRILLÓN HOYOS


Prefeito

CSABA TERNYÁK
Secretário

INTRODUÇÃO

Nascida e desenvolvida no terreno fértil da grande tradição católica, a doutrina que


descreve o presbítero como mestre da Palavra, ministro dos sacramentos e guia da
comunidade cristã a ele confiada, constitui um roteiro de reflexão sobre a sua
identidade e sobre a sua missão na Igreja. Sempre a mesma e, no entanto, sempre nova,
esta doutrina precisa ser meditada ainda hoje, com fé e esperança, em vista da nova
evangelização para a qual o Espírito Santo está chamando todos os fiéis, por intermédio
da pessoa e da autoridade do Santo Padre.

É necessário um crescente empenho apostólico de todos na Igreja, ao mesmo tempo


pessoal e comunitário, renovado e generoso. Pastores e fiéis, particularmente
encorajados pelo testemunho pessoal e pelo luminoso ensinamento de João Paulo II,
devem compreender, de maneira sempre mais profunda, que chegou o tempo de acelerar
o passo, de olhar adiante com ardente espírito apostólico, de preparar-se a atravessar os
umbrais do século XXI com uma atitude de abrir totalmente as portas da história a Jesus
Cristo, nosso Deus e único Salvador. Pastores e fiéis devem sentir-se chamados a se
empenhar para que, no ano 2000, ressoe « com renovada intensidade, a proclamação da
verdade: "Ecce natus est nobis Salvator mundi" ».[1]

« Nos países de antiga tradição cristã, mas, por vezes, também nas Igrejas mais jovens,
grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo mais
como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do Seu Evangelho.
Neste caso, torna-se necessária uma « nova evangelização », ou « reevangelização ».[2]
A nova evangelização representa, pois, antes de tudo, uma reação materna da Igreja
diante do enfraquecimento da fé e do obscurecimento das exigências morais da vida
cristã na consciência de tantos filhos seus. Com efeito, são muitos os batizados que,
cidadãos de um mundo religiosamente indiferente, embora mantendo uma certa fé,
vivem praticamente no indiferentismo religioso e moral, distantes da Palavra e dos
Sacramentos, fontes essenciais da vida cristã. Mas existem também tantas outras
pessoas, nascidas de genitores cristãos e, talvez, até mesmo batizadas, que não
receberam os fundamentos da fé e vivem uma vida praticamente atéia. A todos eles a
Igreja olha com amor, sentindo particularmente o urgente dever de atraí-los à comunhão
eclesial, onde encontrarão, com a graça do Espírito Santo, Jesus Cristo e o Pai.

Juntamente com este empenho de evangelização, que reacenda em muitas consciências


cristãs a luz da fé e faça ecoar novamente na sociedade o alegre anúncio da salvação, a
Igreja sente fortemente a responsabilidade da sua perene missão ad gentes, isto é, o
direito e o dever de levar o Evangelho a todos os homens que não ainda conhecem
Cristo e não participam dos seus dons salvíficos. Para a Igreja, Mãe e Mestra, a missão
ad gentes e a nova evangelização são, hoje mais do que nunca, inseparáveis aspectos do
mandato de ensinar, santificar e guiar todos os homens ao Pai. Também os cristãos
fervorosos, que são tantos, precisam de um amável e contínuo encorajamento na busca
da própria santidade, à qual são chamados por Deus e pela Igreja. Aqui reside o
verdadeiro motor da nova evangelização.

Todo fiel cristão, cada filho da Igreja, deveria sentir-se interpelado por esta
responsabilidade comum e urgente, mas, de maneira toda particular, os sacerdotes,
especialmente escolhidos, consagrados e enviados para fazerem emergir a
contemporaneidade de Cristo, de quem se tornam representantes autênticos e
mensageiros.[3] Impõe-se, pois, a necessidade de ajudar todos os presbíteros diocesanos
e religiosos a assumirem pessoalmente « a prioritária tarefa pastoral da nova
evangelização »[4] e a descobrirem, à luz de tal empenho, o apelo divino a servir a
porção do Povo de Deus a eles confiada, como mestres da Palavra, ministros dos
Sacramentos e pastores do rebanho.

CAPÍTULO I

AO SERVIÇO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

« Eu vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes frutos » (Jo 15, 16)

1. A nova evangelização, tarefa de toda a Igreja

A chamada e o envio, por parte do Senhor, são sempre atuais mas, nas atuais
circunstâncias históricas, adquirem uma importância particular. O final do século XX
manifesta, com efeito, alguns fenômenos contrastantes do ponto de vista religioso. Se,
por um lado, constata-se um alto grau de secularização da sociedade, que dá as costas a
Deus e se fecha a qualquer referência transcendente, por outro lado, emerge sempre
mais uma religiosidade que procura saciar o inato anseio de Deus, presente no coração
de todos os homens, mas que nem sempre consegue encontrar uma realização
satisfatória. « A missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do
seu pleno cumprimento. No termo do segundo milênio, após a Sua vinda, uma visão de
conjunto da humanidade mostra que tal missão está ainda no começo, e que devemos
empenhar-nos com todas as forças no seu serviço ».[5] Este urgente esforço missionário
desenvolve-se hoje, em larga medida, no contexto da nova evangelização de tantos
Países de antiga tradição cristã, onde, porém, o sentido cristão da vida parece ter
decaído em grande parte. Mas também no âmbito mais amplo da humanidade inteira, lá
onde os homens ainda não tenham ouvido, ou ainda não tenham bem compreendido, o
anúncio da salvação trazida por Cristo.

É um fato dolorosamente real, em muitos lugares e em diversos ambientes, a presença


de pessoas que ouviram falar de Jesus Cristo, mas parecem conhecer e aceitar a sua
doutrina mais como um complexo de valores éticos gerais do que como compromissos
de vida concreta. É elevado o número de batizados que se afastam do seguimento de
Cristo e que vivem segundo um estilo marcado pelo relativismo. O papel da fé cristã é
reduzido, em muitos casos, ao de um fator puramente cultural, restrito freqüentemente a
uma dimensão meramente privada, sem importância alguma na vida social dos homens
e dos povos.[6]

Não são poucos nem pequenos os campos abertos à missão apostólica, após vinte
séculos de cristianismo. Todos os cristãos devem saber-se chamados, por força do seu
sacerdócio batismal (cfr. 1 Pd 2, 4-5.9; Ap 1, 5-6. 9 10; 20, 6), a colaborarem, segundo
as suas circunstâncias pessoais, na nova missão evangelizadora, que se configura como
uma responsabilidade eclesial comum.[7] A responsabilidade pela atividade missionária
« incumbe antes do mais ao colégio dos Bispos, tendo à sua cabeça o sucessor de Pedro
»[8] Como « colaboradores do Bispo, os presbíteros, por força do sacramento da
Ordem, são chamados a partilhar a solicitude pela missão ».[9] Pode-se dizer que, em
um certo sentido, os presbíteros são « os primeiros responsáveis desta nova
evangelização do Terceiro Milênio ».[10]

A sociedade contemporânea, encorajada pelas muitas conquistas científicas e técnicas,


desenvolveu um profundo sentido de independência crítica diante de qualquer
autoridade ou doutrina, seja ela secular ou religiosa; isto requer que a mensagem cristã
de salvação, que resta sempre misteriosa, seja explicada a fundo e seja apresentada com
a amabilidade, a força e a capacidade de atrair que ela teve na primeira evangelização,
servindo-se, de maneira prudente, de todos os meios idôneos oferecidos pelas técnicas
modernas, sem todavia esquecer que os instrumentos nunca poderão substituir o
testemunho direto de uma vida de santidade. A Igreja precisa de testemunhas autênticas,
comunicadores do Evangelho em todos os setores da vida social. Disso deriva que os
cristãos em geral, e os sacerdotes em particular, devem adquirir uma profunda e correta
formação filosofico-teológica,[11] que lhes permita dar razão da própria fé e da própria
esperança e perceber a necessidade imperiosa de apresentá-las de uma maneira sempre
construtiva, com uma atitude pessoal de diálogo e de compreensão. O anúncio do
Evangelho, no entanto, não pode, de maneira alguma, exaurir-se no diálogo; a coragem
da verdade é, com efeito, um desafio indiscutível diante da tentação do conformismo, da
busca de popularidade fácil ou da própria tranqüilidade!
Não se deve tampouco esquecer, no momento de realizar a obra de evangelização, que
algumas noções e palavras, com as quais ela foi conduzida tradicionalmente, tornaram-
se quase incompreensíveis para a maior parte das culturas contemporâneas. Conceitos
como os de pecado original com as suas conseqüências, de redenção, cruz, necessidade
de oração, sacrifício voluntário, de castidade, de sobriedade, de obediência, humildade,
penitência, de pobreza, etc., em alguns contextos, perderam o seu original sentido
cristão positivo. Por isso, a nova evangelização, com extrema fidelidade à doutrina da fé
ensinada constantemente pela Igreja e com um forte sentido de responsabilidade para
com o vocabulário doutrinal cristão, deve ser capaz também de encontrar modos
idôneos de se expressar nos dias de hoje, ajudando a recuperar o sentido profundo
destas realidades humanas e cristãs fundamentais, sem por isso renunciar às
formulações da fé, fixas e já adquiridas, contidas, de maneira sintética, no Credo.[12]

2. O papel necessário e insubstituível dos sacerdotes

Embora saibam « que não foram instituídos por Cristo a fim de. assumirem sozinhos
toda a missão salvífica da Igreja no mundo », [13] " os Pastores desempenham um papel
evangelizador absolutamente insubstituível. A exigência da nova evangelização torna,
pois, premente a necessidade de encontrar uma maneira de exercer o ministério
sacerdotal que seja realmente cônsona com a situação hodierna, que o impregne de
incisividade e o torne apto a responder adequadamente às circunstâncias nas quais deve
desenvolver-se. No entanto, isso deve ser feito voltando-se sempre para Cristo, nosso
único modelo, sem que as condições do tempo afastem o nosso olhar da meta final.
Com efeito, não são somente as circunstâncias socioculturais as que nos devem levar a
uma renovação pastoral válida, mas, sobretudo, o amor ardente por Cristo e pela sua
Igreja.

A meta de nossos esforços é o Reino definitivo de Cristo, a recapitulação, n'Ele, de toda


a criação. Tal meta será atingida somente ao final dos tempos, mas já agora está
presente através do Espírito vivificante, por meio do qual Jesus Cristo constituiu o seu
Corpo, que é a Igreja, como sacramento universal de salvação.[14]

Cristo, Cabeça da Igreja e Senhor de toda a criação, continua a agir salvificamente entre
os homens e é justamente neste contexto operativo que o sacerdócio ministerial encontra
o seu lugar exato. Na ação de atrair todos a si (cfr. Jo 12, 32), Cristo quer associar, de
modo especial, os seus sacerdotes. Encontramo-nos aqui diante de um desígnio divino
(a vontade de Deus que coopta a Igreja com os seus ministros na obra da redenção) que,
embora claramente demonstrável do ponto de vista da doutrina da fé e da teologia,
apresenta, no entanto, não poucas dificuldades para ser aceito por parte dos homens do
nosso tempo. Hoje, com efeito, são contestadas, por muitos, a mediação e a estrutura
hierárquica da Igreja, questionando-se qual seja a sua necessidade e a sua motivação.

Como a vida de Cristo, também a do sacerdote deve ser uma vida consagrada, no Seu
nome, ao anúncio autorizado da vontade amorosa do Pai (cfr. Jo 17, 4; Hb 10, 7-10).
Tal foi o comportamento do Messias: os seus anos de vida pública foram dedicados a «
fazer e a ensinar » (cfr. At 1, 1), com uma pregação cheia de autoridade (cfr. Mt 7, 29).
Essa autoridade vinha-lhe, certamente e em primeiro lugar, da sua condição divina, mas
também, aos olhos do povo, do seu modo de agir sincero e perfeito. Da mesma maneira,
o sacerdote deve unir à autoridade espiritual objetiva, que possui por força da ordenação
sagrada,[15] a autoridade subjetiva, proveniente da sua vida sincera e santificada,[16] da
sua caridade pastoral, manifestação da caridade de Cristo.[17] Não perdeu a sua
atualidade a exortação que São Gregório Magno dirigia aos sacerdotes: « E preciso que
ele [o Pastor] seja puro no pensamento, exemplar na ação, discreto no seu silêncio, útil
com a sua palavra; seja próximo a todos com a sua compaixão e seja, mais do que todos,
dedicado à contemplação; seja humilde aliado de quem faz o bem, mas, pelo seu zelo da
justiça, seja inflexível contra os vícios dos pecadores; não atenue a cura da vida interior
nas ocupações externas, nem se descuide de prover às necessidades exteriores pela
solicitude do bem interior ».[18]

Em nossos dias, como em todas as épocas, a Igreja necessita de « arautos do Evangelho


peritos em humanidade, que conheçam a fundo o coração do homem de hoje, participe
das suas alegrias e esperanças, angústias e tristezas, e ao mesmo tempo sejam
contemplativos enamorados de Deus. Por isto – afirmava o Santo Padre, referindo-se
concretamente à recristianização da Europa, com palavras, porém, que têm uma
valência universal – são necessários novos santos. Os grandes evangelizadores da
Europa foram os santos. Devemos suplicar ao Senhor que aumente o espírito de
santidade da Igreja e nos envie novos santos para evangelizar o mundo de hoje ».[19] É
preciso ter presente que não poucos contemporâneos se fazem uma idéia de Cristo e da
Igreja antes de tudo a partir dos ministros sagrados; torna-se, portanto, ainda mais
urgente o seu testemunho genuinamente evangélico, como « imagem viva e transparente
de Cristo sacerdote ».[20]

No âmbito da ação salvífica de Cristo, podemos individuar dois objetivos inseparáveis.


De um lado, uma finalidade que podemos definir intelectual: ensinar, instruir as
multidões que eram como ovelhas sem pastor (cfr. Mt 9, 36), endereçar as inteligências
à conversão (cfr. Mt 4, 17). O outro aspecto é o de mover os corações daqueles que o
ouviam rumo ao arrependimento e à penitência pelos próprios pecados, abrindo o
caminho à recepção do perdão divino. E assim continua a ser ainda hoje: « a chamada à
nova evangelização é, antes de tudo, uma chamada à conversão », [21] e quando a
Palavra de Deus instruiu o intelecto do homem e moveu a sua vontade, afastando-a do
pecado, então a ação evangelizadora atinge o seu vértice na participação frutuosa dos
sacramentos e, sobretudo, na celebração da Eucaristia. Como ensinava Paulo VI, « o
papel da evangelização é precisamente o de educar de tal modo para a fé, que esta
depois leve cada um dos cristãos a viver — e a não se limitar a receber passivamente, ou
a suportar — os Sacramentos como eles realmente são, verdadeiros sacramentos da fé
».[22]

A evangelização compreende: anúncio, testemunho, diálogo e serviço, e se funda na


união dos três elementos inseparáveis: a pregação da Palavra, o ministério sacramental e
a guia dos fiéis.[23] Não teria sentido uma pregação que não formasse continuamente os
fiéis e não levasse à prática sacramental, assim como não teria sentido uma participação
aos sacramentos separada da plena aceitação da fé e dos princípios morais, ou na qual
faltasse a conversão sincera do coração. Se de um ponto de vista pastoral, o primeiro
lugar na ordem da ação corresponde, logicamente, à função da pregação,[24] na ordem
da intenção ou da finalidade o primeiro lugar deve ser dado à celebração dos
sacramentos e, em particular, da Penitência e da Eucaristia.[25] É conjugando
harmoniosamente ambas as funções que se encontra a integridade do ministério pastoral
do sacerdote, a serviço da nova evangelização.
Um aspecto da nova evangelização que está adquirindo uma importância cada vez maior
é a formação ecumênica dos fiéis. O Concílio Vaticano II exortou todos os fiéis
católicos a que « solicitamente participem no trabalho ecumênico » e « estimem os bens
verdadeiramente cristãos, oriundos de um patrimônio comum, que se encontram entre
os irmãos separados de nós ».[26] Ao mesmo tempo, deve-se observar que « nada é tão
alheio ao ecumenismo quanto aquele falso irenismo, pelo qual a pureza da doutrina
católica sofre detrimento e seu sentido genuíno e certo é obscurecido ».[27] Os
sacerdotes, por conseguinte, deverão zelar para que o ecumenismo seja conduzido no
fiel respeito dos princípios indicados pelo magistério da Igreja e este não conhece
fraturas e sim uma harmônica continuidade.

SUGESTÕES PARA A REFLEXÃO SOBRE O CAPÍTULO I

1. É realmente sentida, nas nossas comunidades eclesiais e, especialmente entre os


nossos sacerdotes, a necessidade e a urgência da nova evangelização?

2. É presente na pregação? É presente nas reuniões do presbitério, nos programas


pastorais, nos meios de formação permanente?

3. Os sacerdotes encontram-se especialmente empenhados na promoção de uma missão


evangelizadora nova « no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão » [28] — ad
intra e ad extra da Igreja?

4. Os fiéis consideram o sacerdócio como um dom divino, seja para quem o recebe, seja
para a comunidade mesma, ou o vêem em um contexto de pura funcionalidade
organizacional? É explicada a necessidade de rezar para que o Senhor conceda
vocações sacerdotais e para que não falte a generosidade necessária para responder
afirmativamente?

5. Na pregação da Palavra de Deus e na catequese, mantém-se a devida proporção


entre o aspecto de instrução na fé e o da prática sacramental? A atividade
evangelizadora dos presbíteros é caracterizada pela complementaridade entre
pregação e sacramentalidade, entre « munus docendi » e « munus sanctificandi »?

CAPÍTULO II

MESTRES DA PALAVRA

« Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura » (Mc 16, 15)

1. Os presbíteros, mestres da Palavra « nomine Christi et nomine Ecclesiae »

Um adequado ponto de partida para a correta compreensão do ministério pastoral da


Palavra é a consideração da Revelação de Deus em si mesma. « Mediante esta
revelação, o Deus invisível (cf. Cl 1, 15; 1 Tm 1, 17), levado por Seu grande amor, fala
aos homens como a amigos (cfr. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15), e com eles se entretém (cf.
Bar 3, 38) para os convidar à comunhão consigo e nela os receber ».[29] Na Escritura, o
anúncio do Reino não só fala da glória de Deus, mas a faz brotar do seu mesmo
anúncio. O Evangelho pregado na Igreja não é somente mensagem, mas uma divina e
salutar ação experimentada por aqueles que crêem, que sentem, que obedecem à
mensagem e que a acolhem.

A Revelação, portanto, não se limita a nos instruir sobre a natureza daquele Deus que
vive em uma luz inacessível, mas, ao mesmo tempo, nos informa sobre tudo o que Deus
faz por nós, com a graça. Feita presente e atualizada em » e « por meio » da Igreja, a
Palavra revelada é um instrumento mediante o qual Cristo age em nós com o seu
Espírito. Ela é, ao mesmo tempo, juízo e graça. Na escuta da Palavra, o confronto atual
com Deus interpela o coração dos homens e pede uma decisão, que não se resolve
apenas no conhecimento intelectual, mas exige a conversão do coração.

« Os Presbíteros, na qualidade de cooperadores dos Bispos, têm como primeira tarefa


anunciar o Evangelho de Deus a todos, para constituírem e aumentarem o Povo de Deus
».[30] Porque a pregação da Palavra não é mera transmissão intelectual de uma
mensagem, mas « força de Deus para a salvação de todo aquele que crê » (Rm 1, 16),
realizada uma vez para sempre em Cristo, o seu anúncio na Igreja requer, nos
anunciadores, um fundamento sobrenatural que garanta a sua autenticidade e a sua
eficácia. A pregação da palavra por parte dos ministros sagrados, em um certo sentido,
participa do caráter salvífico da Palavra mesma, não pelo fato de que eles falem de
Cristo, mas porque anunciam aos seus ouvintes o Evangelho, com o poder de interpelar
que provém da sua participação na consagração e na missão do próprio Verbo de Deus
encarnado. Aos ouvidos dos ministros ressoa ainda aquelas palavras do Senhor: « Quem
vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza » (Lc 10, 16), e eles podem
dizer com Paulo: « quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito
que vem de Deus, a fim de que conheçamos os dons da graça de Deus. Desses dons não
falamos segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas segundo aquela que
o Espírito ensina, exprimindo realidades espirituais em termos espirituais » (1 Cor 2,
12-13).

A pregação permanece, dessa forma, configurada como um ministério que brota do


sacramento da Ordem e que se desenvolve por autoridade de Cristo. Todavia, a força do
Espírito Santo não garante todos os atos dos ministros do mesmo modo. Enquanto na
administração dos sacramentos vem dada esta garantia, de maneira que nem mesmo o
pecado do ministro pode impedir o fruto da graça, existem muitos outros atos nos quais
a marca humana do ministro adquire uma importância notável. Tal marca pode ajudar,
mas também prejudicar, a fecundidade apostólica da Igreja.[31] Embora o caráter de
serviço deva impregnar todo o múnus pastoral, ele resulta particularmente necessário no
ministério da pregação, porque quanto mais o ministro se torna realmente servo da
Palavra, e não o seu senhor, tanto mais a Palavra pode distribuir a sua eficácia salvífica.

Este serviço exige a dedicação pessoal do ministro à Palavra pregada, uma dedicação
dirigida, em último termo, a Deus mesmo, àquele « Deus, a quem sirvo em meu
espírito, anunciando o evangelho do seu Filho » (Rm 1, 9). O ministro não deve opor-
lhe algum obstáculo, nem perseguindo fins estranhos à sua missão, nem apoiando-se
sobre a sabedoria dos homens ou sobre as suas experiências subjetivas, que poderiam
obscurecer o Evangelho mesmo. A Palavra de Deus nunca poderá, pois, ser
instrumentalizada! Pelo contrário, o pregador « deve ser o primeiro a desenvolver uma
grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus (...), ele deve ser o primeiro crente
» na Palavra, com plena consciência de que as palavras do seu ministério não são suas,
mas d'Aquele que o enviou » .[32]
Existe, pois, uma relação essencial entre oração pessoal e pregação. Da meditação da
Palavra de Deus na oração pessoal deverá também brotar espontaneamente « o primado
ao testemunho de vida, que faz descobrir a potência do amor de Deus e torna persuasiva
a sua palavra ».[33] Fruto também da oração pessoal é uma pregação que se torna
incisiva, não somente em virtude da sua coerência especulativa, mas porque nascida de
um coração sincero e que reza, consciente de que a tarefa do ministro é « não ensinar a
sua sabedoria, mas o Verbo de Deus, e convidar a todos com insistência para a
conversão e a santidade ».[34] A pregação dos ministros de Cristo, para ser eficaz,
requer, pois, que seja firmemente fundada sobre o seu espírito de oração filial: « sit
orator, antequam dictor ».[35]

Na vida pessoal de oração do sacerdote encontram apoio e impulso a consciência da sua


condição ministerial, o sentido vocacional da sua vida, a sua fé viva e apostólica. Nela
se obtém também, diariamente, o zelo pela evangelização. Esta, feita convicção pessoal,
se traduz em pregação persuasiva, coerente e convincente. Neste sentido, a recitação da
Liturgia das horas não diz respeito somente à piedade pessoal nem se esgota como
oração pública da Igreja; ela resulta também de grande utilidade pastoral,[36] porque se
torna ocasião privilegiada de crescimento na familiaridade com a doutrina bíblica,
patrística, teológica e magisterial, primeiro interiorizada e, em seguida, transmitida ao
Povo de Deus na pregação.

2. Por um anúncio eficaz da Palavra

Na perspectiva da nova evangelização seria necessário realçar a importância de fazer


amadurecer nos fiéis o significado da vocação batismal, ou seja, a consciência de terem
sido chamados por Deus a seguir de perto o Cristo e a colaborar pessoalmente na missão
da Igreja. « Transmitir a fé é revelar, anunciar e aprofundar a vocação cristã; isto é, a
chamada que Deus dirige a cada homem manifestando-lhe o mistério da salvação ».[37]
Tarefa da pregação é, portanto, apresentar Cristo aos homens, porque somente Ele, «
novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, manifesta
plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação ».[38]

Nova evangelização e sentido vocacional da existência do cristão procedem juntos. E é


esta a « boa nova » que deve ser anunciada aos fiéis, sem reduções, nem quanto à sua
bondade, nem quanto à exigência para alcançá-la, recordando, ao mesmo tempo, que « é
certo que a necessidade e o dever obrigam o cristão a lutar contra o mal através de
muitas tribulações e a padecer a morte. Mas, associado ao mistério pascal, configurado à
morte de Cristo e fortificado pela esperança, chegará à ressurreição » .[39]

A nova evangelização requer um ardente ministério da Palavra, integral e bem fundado,


com claro conteúdo teológico, espiritual, litúrgico e moral, atento às necessidades
concretas dos homens aos quais se deve atingir. Não se trata, evidentemente, de cair em
tentações de intelectualismo, que, pelo contrário, poderiam antes obscurecer do que
iluminar as inteligências cristãs, mas de desenvolver uma verdadeira « caridade
intelectual » através da catequese permanente e paciente sobre as verdades
fundamentais da fé e da moral católicas, e sobre o influxo das mesmas na vida
espiritual. A instrução cristã sobressai entre as obras espirituais de misericórdia: a
salvação acontece no conhecimento de Cristo, porque « não há, debaixo do céu, outro
nome dado aos homens pelo qual devamos ver salvos » (At 4, 12).
Este anúncio catequético não pode desenvolver-se sem o veículo da sã teologia, já que,
evidentemente, não se trata somente de repetir a doutrina revelada, mas de formar,
através da doutrina revelada, a inteligência e a consciência dos que têm fé, para que
possam viver com coerência as exigências da vocação batismal. A nova evangelização
realizar-se-á na medida em que, não somente a Igreja no seu conjunto ou cada uma das
suas instituições, mas cada cristão seja posto em condição de viver a fé e de fazer, da
sua vida, um motivo vivente de credibilidade e uma crivei apologia da fé.

Evangelizar significa, com efeito, anunciar e propagar, por todos os meios honestos e
côngruos de que se dispõe, o conteúdo das verdades reveladas (a fé trinitária e
cristológica, o sentido do dogma da criação, as verdades escatológicas, a doutrina sobre
a Igreja e sobre o homem, o saber da fé acerca dos sacramentos e dos outros meios de
salvação, etc.). E significa também, ao mesmo tempo, ensinar, através da formação
moral e espiritual, a traduzir essas verdades em vida concreta, em testemunho e
empenho missionário.

O esforço de formação teológica e espiritual exigido na formação permanente dos


sacerdotes e diáconos, empenho na formação de todos os fiéis, é ao mesmo tempo,
iniludível e enorme. É necessário, pois, que o exercício do ministério da Palavra e,
sobretudo, que os ministros dela, estejam à altura das circunstâncias. A eficácia
dependerá do fato que esse exercício, fundado essencialmente sobre o auxílio de Deus,
se realize também com a máxima perfeição humana possível. O renovado anúncio
teológico e doutrinal da mensagem cristã — um anúncio que deve acender e purificar
em primeira instância as consciências dos batizados — não pode ser improvisado
preguiçosa ou irresponsavelmente. Menos ainda pode faltar a responsabilidade dos
presbíteros de assumir em primeira pessoa a tarefa do anúncio, especialmente no que diz
respeito ao ministério da homilia, que não pode ser confiado a quem não foi
ordenado,[40] nem facilmente delegado a quem não se encontra bem preparado.

Pensando na pregação sacerdotal, é necessário insistir, como de resto sempre se fez,


sobre a importância da preparação remota, que pode ser concretizada, por exemplo,
orientando de maneira adequada as próprias leituras e até mesmo os próprios interesses
a aspectos que possam melhorar a preparação dos ministros ordenados. A sensibilidade
pastoral dos pregadores deve estar constantemente alerta, de maneira a individuar os
problemas que preocupam os homens do nosso tempo e as suas possíveis soluções. «
Além disso, para dar resposta acertada às questões agitadas pelos homens de nosso
tempo, é mister que os presbíteros conheçam bem os documentos do Magistério e
sobretudo os dos Concílios e Romanos Pontífices, e consultem os melhores e mais
acatados escritores da ciência teológica »,[41] sem omitir a consulta ao Catecismo da
Igreja Católica. Neste sentido, seria conveniente insistir, sem cessar, sobre a
importância do cuidado pela formação permanente do clero, tendo como referência de
conteúdo o Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros.[42] Todo esforço, nesse
campo, será recompensado com frutos abundantes. Além do que foi afirmado até agora,
é importante também uma preparação próxima à pregação da Palavra de Deus. Salvo
casos excepcionais, em que não terá sido possível agir de outro modo, a humildade e a
operosidade levarão, por exemplo, a preparar com cuidado pelo menos um esquema
daquilo que se deverá dizer.

Logicamente, a fonte principal da pregação deve ser a Sagrada Escritura,


profundamente meditada na oração pessoal e conhecida através do estudo e da leitura de
livros adequados.[43] A experiência pastoral ensina que a força e a eloqüência do Texto
Sagrado atingem em profundidade os ouvintes. Os escritos dos Padres da Igreja e de
outros grandes autores da Tradição ensinam a penetrar e a fazer compreender a outros o
sentido da Palavra revelada,[44] longe de toda forma de « fundamentalismo bíblico » ou
de mutilação da mensagem divina. A pedagogia com que a liturgia da Igreja lê,
interpreta e aplica a Palavra de Deus nos diversos tempos litúrgicos, deveria constituir
também um ponto de referência para a preparação da pregação. Ademais, a
consideração da vida dos santos — com as suas lutas e o seu heroísmo — sempre
produziu grande fruto nas almas dos cristãos. Também hoje, assediados por
comportamentos e doutrinas equívocas, os crentes têm particular necessidade do
exemplo destas vidas heroicamente doadas ao amor de Deus e, por Deus, aos demais
homens. Tudo isto é útil para a evangelização, como também a promoção nos fiéis, por
amor de Deus, do sentido de solidariedade para com todos, do espírito de serviço, da
generosa doação aos outros. A consciência cristã amadurece exatamente por meio de
um referimento à caridade, sempre mais estrito.

É também muito importante, para o sacerdote, o cuidado dos aspectos formais da


pregação. Vivemos na época da informação e da comunicação rápida, na qual estamos
todos habituados a ouvir e a ver competentes profissionais do rádio e da televisão. De
uma certa maneira, o sacerdote — que é também um particular comunicador social —
entra em pacífica concorrência com eles, diante dos fiéis, quando transmite uma
mensagem que requer ser apresentada de uma maneira decididamente atraente. Além de
saber aproveitar com competência e espírito apostólico os « novos púlpitos » que são os
meios de comunicação, o sacerdote deve, sobretudo, fazer com que a sua mensagem
esteja à altura da Palavra que prega. Os profissionais dos meios audiovisuais preparam-
se bem para realizar o seu trabalho; não seria exagerado se os mestres da Palavra se
ocupassem, com estudo inteligente e paciente, a melhorar a qualidade « profissional »
deste aspecto do ministério. Hoje, por exemplo, em vários ambientes universitários e
culturais está retornando o interesse pela retórica; ocorre despertá-lo novamente também
entre os sacerdotes, juntamente com a maneira humilde e digna de se apresentar e de
ser.

A pregação sacerdotal deve ser realizada, como a de Cristo, de maneira positiva e


estimulante, capaz de atrair os homens para a Bondade, a Beleza e a Verdade de Deus.
Os cristãos devem « fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na
face de Cristo » (2 Cor 4, 6), e devem apresentar de maneira interessante a verdade
recebida. Como não perceber o caráter atraente da exigência, ao mesmo tempo forte e
serena, da existência cristã? Nada há que temer. « Desde que recebeu, no Mistério
Pascal, o dom da verdade última sobre a vida do homem, a Igreja fez-se peregrina pelas
estradas do mundo, para anunciar que Jesus Cristo é « o caminho, a verdade e a vida »
(Jo 14, 6). De entre os vários serviços que ela deve oferecer à humanidade, há um cuja
responsabilidade lhe cabe de modo absolutamente peculiar: é a « diaconia da verdade
».[45]

É igualmente útil, logicamente, usar na pregação uma linguagem correta e elegante,


compreensível aos nossos contemporâneos de todos os níveis, evitando-se a banalidade
e a superficialidade.[46] É necessário falar com uma autêntica visão de fé, mas com
palavras compreensíveis nos diversos ambientes e nunca com um linguajar próprio de
especialistas e nem tampouco com concessões ao espírito mundano. O « segredo »
humano de uma pregação frutuosa da Palavra consiste, em boa medida, no «
profissionalismo » do pregador, que sabe aquilo que quer dizer e como dizê-lo, e que
traz consigo uma séria preparação remota e próxima, sem improvisações típicas de um
amador. Seria um irenismo prejudicial esconder a força da verdade toda inteira. Por
isso, deve ser cuidado atentamente o conteúdo das palavras, o estilo e a dicção; deve ser
pensado o que convém realçar com mais força e, na medida do possível, sem
ostentações lamentáveis, deve ser tratada até mesmo a qualidade agradável da voz.

É preciso saber aonde se quer chegar e conhecer bem a realidade existencial e cultural
dos próprios ouvintes habituais: não se fazem teorias ou generalizações abstratas e, por
isso, ocorre conhecer o próprio rebanho. Convém um estilo amável, positivo, que não
fira as pessoas, mesmo quando « atinge » as consciências, sem medo de chamar cada
coisa por seu próprio nome. E muito útil que os sacerdotes que colaboram nos diversos
encargos pastorais se ajudem mutuamente, com conselhos fraternos sobre estes e outros
aspectos do ministério da Palavra. Por exemplo, sobre o conteúdo das pregações, sobre
a qualidade teológica e lingüística, sobre o estilo, a duração — que deve sempre ser
sóbria —, os modos de dizer e de gesticular no púlpito, sobre o tom da voz, que deve ser
normal, embora variado nos diversos momentos da pregação, sem afetação, etc.
Também aqui a humildade se faz necessária ao sacerdote, para que se deixe ajudar por
seus irmãos e também, talvez indiretamente, pelos fiéis que participam das suas
atividades pastorais.

SUGESTÕES PARA A REFLEXÃO SOBRE O CAPÍTULO II

6. Possuímos os instrumentos para avaliar a incidência real do ministério da Palavra


na vida das nossas comunidades? Existe a preocupação de usar este meio essencial de
evangelização com o maior profissionalismo humano possível?

7. Nos cursos de formação permanente do clero se dá atenção ao aperfeiçoamento do


anúncio da Palavra nas suas diversas formas?

8. Os sacerdotes são encorajados a dedicar tempo ao estudo da teologia, à leitura dos


Padres, dos Doutores da Igreja e dos Santos? Manifesta-se um esforço positivo para
conhecer e fazer conhecer os grandes mestres da espiritualidade?

9. Favorece-se a constituição de bibliotecas sacerdotais, com espírito prático e


perspectiva doutrinal sadia?

10. Neste sentido, existem e são conhecidas as possibilidades locais de se conectar com
bibliotecas por Internet, inclusive com a incipiente biblioteca eletrônica do sito da
Congregação para o Clero (www.clerus.org)?

11. Os sacerdotes fazem uso das catequeses e dos ensinamentos do Santo Padre, como
também dos vários documentos da Santa Sé?

12. Existe a consciência da importância de formar profissionalmente pessoas


(sacerdotes, diáconos permanentes, religiosos, leigos) capazes de realizar, em alto
nível, este aspecto chave da evangelização da cultura contemporânea, que é a
comunicação?

CAPÍTULO III
MINISTROS DOS SACRAMENTOS

« Ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus » (1 Cor 4, 1)

1. « In persona Christi Capitis »

« A missão da Igreja não é acrescentada à de Cristo e do Espírito San-to, senão que é o


Sacramento dela: por todo o seu ser e em todos os seus membros a Igreja é enviada a
anunciar e dar testemunho, atualizar e difundir o mistério da comunhão da Santíssima
Trindade ».[47] Esta dimensão sacramental de toda a missão da Igreja brota do seu
próprio ser, como realidade « a um tempo, humana e divina, visível mas ornada de dons
invisíveis, operosa na ação e devotada à contemplação, presente no mundo e no entanto
peregrina ».[48] Neste contexto da Igreja « sacramento universal de salvação »,[49] no
qual Cristo « manifesta e ao mesmo tempo opera o mistério de amor de Deus para com
o homem »,[50] os sacramentos, como momentos privilegiados da comunicação da vida
divina ao homem, estão no centro do ministério dos sacerdotes. Estes são conscientes de
ser instrumentos vivos de Cristo Sacerdote. A sua função é própria de homens
habilitados pelo caráter sacramental a favorecer a ação de Deus, com uma eficácia
instrumental participada.

A configuração a Cristo por meio da consagração sacramental coloca o sacerdote dentro


do Povo de Deus, fazendo-o participar do tríplice múnus de Cristo de uma maneira sua
própria e em conformidade com a estrutura orgânica da comunidade eclesial. Agindo in
persona Christi Capitis, o presbítero apascenta o Povo de Deus, conduzindo-o rumo à
santidade.[51] Daí surge « a necessidade do testemunho da fé por parte do Presbítero
em toda a sua vida, mas sobretudo no modo de avaliar e de celebrar os mesmos
Sacramentos ».[52] Ocorre ter presente a doutrina clássica, retomada pelo Concílio
Ecumênico Vaticano II, segundo a qual, « embora a graça possa levar a ter-mo a obra da
salvação também por ministros indignos, no entanto prefere Deus, ordinariamente,
manifestar as Suas maravilhas através daqueles que se fizeram mais dóceis ao impulso e
à direção do Espírito Santo, pela íntima união com Cristo e santidade de vida, e que
podem dizer com o Apóstolo: "E, se vivo, já não sou eu, mas é Cristo que vive em mim"
(Gal 2, 20) ».[53]

As celebrações sacramentais, nas quais os presbíteros agem como ministros de Cristo,


participantes em modo especial do Seu sacerdócio por meio do Seu Espírito,[54]
constituem momentos cultuais de singular importância com relação à nova
evangelização. Tenha-se presente também que para todos os fiéis, mas particularmente
para aqueles habitualmente afastados da prática religiosa, que participam com uma certa
freqüência das celebrações litúrgicas por motivo de eventos familiares (batismos,
crismas, matrimônios, ordenações sacerdotais, funerais, etc.), estas ocasiões se tornaram
os únicos momentos efetivos para a transmissão do conteúdo da fé. A atitude do
ministro, plena de fé, deverá em todo caso ser acompanhada por « uma excelente
qualidade da celebração, sob os aspectos litúrgico e cerimonial »; [55] não orientada,
certamente, a buscar o espetaculoso, mas atenta a que, verdadeiramente, o elemento «
humano se ordene ao divino e a ele se subordine, o visível ao invisível, a ação à
contemplação e o presente à cidade futura, que buscamos ».[56]

2. Ministros da Eucaristia: « o centro mesmo do ministério sacerdotal »


« "Amigos": assim tratou Jesus os Apóstolos. E do mesmo modo nos quer chamar
também a nós que, graças ao sacramento da Ordem, somos participantes do seu
Sacerdócio. (...) Podia Jesus porventura manifestar-nos a sua amizade de modo mais
eloqüente do que permitindo-nos, como sacerdotes da Nova Aliança, agir em seu nome,
in persona Christi Capitis? Ora, é o que acontece em todo o nosso serviço sacerdotal,
sempre que administramos os Sacramentos e especialmente quando celebramos a
Eucaristia. Repetimos as palavras que Ele pronunciou sobre o pão e o vinho, e, através
do nosso ministério, realiza-se a mesma consagração por Ele realizada. Poderá haver
uma prova de amizade mais completa do que esta? E ela encontra-se mesmo no centro
do nosso ministério sacerdotal ».[57]

A nova evangelização deve significar para os fiéis também uma nova clareza acerca da
centralidade do Sacramento da Eucaristia, cume de toda a vida cristã.[58] Por um lado,
porque « não se edifica nenhuma comunidade cristã, se ela não tiver por raiz e centro a
celebração da Santíssima Eucaristia » ,[59] mas também porque « os demais
Sacramentos, como aliás todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se
ligam à Sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a Santíssima Eucaristia contém todo
o bem espiritual da Igreja ».[60]

No ministério pastoral, ela é também uma meta a alcançar. Para receber os seus frutos,
os fiéis devem ser preparados. Se, por um lado, fomenta-se neles a « digna, atenta e
frutuosa » participação da liturgia, por outro lado, resulta absolutamente necessário
torná-los conscientes de que « desta forma são convidados e levados a oferecerem a si
próprios, seus trabalhos e todas as coisas criadas, junto com Ele. Assim a Eucaristia
apresenta-se como fonte e ápice de toda evangelização »,[61] verdade essa da qual
derivam não poucas conseqüências pastorais.

É de fundamental importância formar os fiéis com relação ao que constitui a essência do


Santo Sacrifício e fomentar a sua participação frutuosa na Eucaristia.[62] É necessário
também insistir, sem cansaço nem medo, no dever de cumprir o preceito dominical [63]
e na conveniência de uma participação freqüente, se possível mesmo cotidiana, na
celebração da Santa Missa e na comunhão eucarística. É preciso igualmente recordar o
dever grave de receber o Corpo de Cristo com as condições espirituais e corporais
devidas, e, portanto, fazendo preceder a confissão sacramental individual, se alguém
tiver a consciência de não estar em estado de graça. O florescimento da vida cristã, em
cada Igreja particular e em cada comunidade paroquial, depende, em grande parte, do
redescobrimento do grande dom da Eucaristia, em um espírito de fé e de adoração. Se
no ensino doutrinal, na pregação e na vida, não se consegue manifestar a união entre
vida cotidiana e Eucaristia, a freqüência eucarística acaba por ser descuidada.

Também neste nível a exemplaridade do sacerdote celebrante é fundamental: « celebrar


bem constitui uma primeira e importante catequese sobre o Santo Sacrifício ».[64]
Mesmo se, evidentemente, esta não é a intenção do sacerdote, é todavia importante que
os fiéis o vejam recolhido a se preparar para celebrar o Santo Sacrifício, que sejam
testemunhas do amor e da devoção que ele demonstra durante a celebração e que
possam aprender dele a permanecerem em ação de graças, por um certo tempo, após a
comunhão.

Se uma parte essencial da ação evangelizadora da Igreja consiste em ensinar aos


homens a rezar ao Pai por Cristo no Espírito Santo, a nova evangelização implica o
retorno e o fortalecimento de práticas pastorais que manifestem a fé na presença real do
Senhor sob as espécies eucarísticas. « O Presbítero tem a missão de promover o culto da
presença eucarística, também fora da celebração da Missa, esforçando-se por fazer da
sua igreja uma "casa de oração" cristã » .[65] E necessário, antes de tudo, que os fiéis
conheçam em profundidade as condições imprescindíveis para receber com fruto a
comunhão. Do mesmo modo, é importante favorecer a devoção deles por Cristo, que os
espera amorosamente no tabernáculo. Um modo simples e eficaz de se fazer catequese
eucarística é o próprio cuidado material com tudo aquilo que se refere à igreja e, em
particular, ao altar e ao tabernáculo: limpeza e decoro, dignidade dos paramentos e dos
vasos sagrados, atenção na celebração das cerimônias litúrgicas,[66] prática fiel da
genuflexão, etc. Além disso, é particularmente importante assegurar um ambiente
recolhido na capela do Santíssimo, tradição plurissecular na Igreja, de maneira a
garantir o silêncio sagrado, que facilita o colóquio amoroso com o Senhor. Essa capela,
ou, em todo caso, o lugar onde se conserva e se adora Cristo Sacramentado, é
certamente o coração dos nossos edifícios sagrados, e como tal devemos procurar tê-lo
em evidência e facilitar o seu acesso diário durante o espaço de tempo o mais largo
possível, de adorná-lo na maneira devida, com amor.

É evidente que todas estas manifestações — que não pertencem a formas de vago «
espiritualismo », mas revelam uma devoção teologicamente bem fundada — serão
possíveis somente se o sacerdote for realmente um homem de oração e de autêntica
paixão pela Eucaristia. Somente o pastor que reza saberá ensinar a rezar, enquanto
saberá também atrair a graça de Deus sobre aqueles que dependem do seu ministério
pastoral, de maneira a favorecer conversões, propósitos de vida mais fervorosa,
vocações sacerdotais e de consagração especial. Em definitivo, somente o sacerdote que
experimenta diariamente a « conversatio in coelis », que faz da amizade com Cristo a
vida da sua vida, estará em condições de imprimir um impulso real a uma autêntica e
renovada evangelização.

3. Ministros da Reconciliação com Deus e com a Igreja

Em um mundo no qual o sentido do pecado desapareceu em larga medida,[67] é


necessário recordar insistentemente que é exatamente a falta de amor a Deus que
impede de perceber a realidade do pecado na sua malícia total. O início da conversão,
não somente como ato interior momentâneo mas como disposição estável, assume o seu
elã do conhecimento autêntico do amor misericordioso de Deus. « Aqueles que chegam
ao conhecimento de Deus assim, aqueles que O "vêem" assim, não podem viver de
outro modo que não seja convertendo-se a Ele continuamente. Passam a viver, pois, in
statu conversions" [68] . A penitência encontra-se, dessa forma, como patrimônio
estável na vida eclesial dos batizados, caracterizada porém pela esperança do perdão: «
vós, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia » (1
Ped 2, 10).

A nova evangelização exige, portanto — e se trata de uma exigência pastoral


absolutamente inevitável — um esforço renovado para conduzir os fiéis ao Sacramento
da Penitência,[69] « que aplana o caminho a cada um dos homens, mesmo quando estão
sobrecarregados com graves culpas. Neste Sacramento todos os homens podem
experimentar de modo singular a misericórdia, isto é, aquele amor que é mais forte do
que o pecado ».[70] Não devemos ter medo de encorajar com ardor a prática deste
sacramento, sabendo que, assim, se renovam e se revitalizam tradições cristãs longevas
e benéficas. Em um primeiro momento, procurar-se-á induzir os fiéis, com a ajuda do
Espírito Santo, a uma profunda conversão que provoque o reconhecimento sincero e
contrito das desordens morais presentes na vida de cada um; em seguida, será necessário
ensinar a importância da confissão individual freqüente, até chegar, enquanto possível, a
iniciar uma autêntica direção espiritual pessoal.

Sem confundir o momento sacramental com o da direção espiritual, os presbíteros


devem saber colher, exatamente a partir da celebração do sacramento, a oportunidade
para iniciar o colóquio de direção espiritual. « A descoberta e a difusão desta prática,
em momentos diversos da administração da Penitência, é um grande benefício para a
Igreja no tempo presente ».[71] Deste modo pode-se contribuir a uma nova descoberta
do sentido e da eficácia do sacramento da Penitência, criando as condições para superar
a sua crise. A direção espiritual pessoal possibilita formar verdadeiros apóstolos,
capazes de difundir a nova evangelização na sociedade civil. Para reevangelizar o maior
número possível de batizados que se afastaram da Igreja é necessário formar bem os que
nela se encontram.

A nova evangelização deve poder contar com um número adequado de sacerdotes: a


experiência plurisecular ensina que grande parte das respostas vocacionais positivas
surgem graças à direção espiritual, juntamente com o exemplo de vida dos sacerdotes
interior e exteriormente fiéis à própria identidade. « Todo o sacerdote reservará um
particular cuidado à pastoral vocacional, não deixando (...) de apoiar iniciativas
apropriadas mediante a relação pessoal que faça descobrir os talentos e saiba descobrir a
vontade de Deus em ordem a uma escolha corajosa no seguimento de Cristo. (...) É
exigência insuprimível da caridade pastoral que — secundando a graça do Espírito
Santo — cada presbítero se preocupe de suscitar ao menos uma vocação sacerdotal que
lhe possa continuar o ministério ».[72]

Oferecer a todos os fiéis a possibilidade de terem acesso à confissão requer, sem dúvida,
uma grande dedicação e tempo.[73] Aconselha-se vivamente ter períodos prefixados de
presença no confessionário, conhecidos por todos, sem limitar-se a uma disponibilidade
teórica. Às vezes, para dissuadir um fiel da intenção de se confessar é suficiente o fato
de obrigá-lo a procurar um confessor, enquanto os fiéis « de boa vontade vão receber
este sacramento onde houver sacerdotes disponíveis ».[74] As paróquias e, em geral, as
igrejas abertas ao culto, deveriam ter um horário para as confissões, claro, amplo e
cômodo; compete aos sacerdotes garantir que tal horário seja respeitado com
regularidade. De acordo com esta atenção, para facilitar aos fiéis o mais possível o
acesso ao sacramento da reconciliação, é conveniente também cuidar bem dos
confessionários: a limpeza, a sua visibilidade, a possibilidade de escolher o uso da grade
e, assim, permanecer no anonimato,[75] etc.

Nem sempre é fácil manter e defender estas práticas pastorais, mas nem por isso se deve
calar sobre a eficácia e a conveniência de retomá-las, ali onde tivessem caído em
desuso. Como também deve ser incentivado o auxílio entre sacerdotes diocesanos e
religiosos, para assegurar esta disponibilidade pastoralmente primária. Deve ser
reconhecido, também, com veneração, o serviço cotidiano de confessionário,
assegurado de maneira admirável por tantos sacerdotes anciãos, autênticos mestres
espirituais das diversas comunidades cristãs.
Todo este serviço à Igreja será extremamente mais fácil se forem os próprios sacerdotes
os primeiros a se confessar regularmente.[76] Condição indispensável para um generoso
ministério da Reconciliação é, com efeito, o recurso pessoal do presbítero ao
Sacramento, como penitente. « Toda a existência sacerdotal sofre uma inexorável
deterioração, se vem a faltar, por negligência ou por qualquer outro motivo, o recurso ao
sacramento da penitência, periódico e inspirado por autêntica fé e devoção. Em um
sacerdote que não se confessasse mais ou se confessasse mal, o seu ser padre e o seu
agir como padre se ressentiriam muito rapidamente, e também a comunidade, da qual
ele é pastor, o perceberia ».[77]

« O ministério do presbítero é, antes de mais, comunhão e colaboração responsável e


necessária no ministério do Bispo, na solicitude pela Igreja universal e por cada Igreja
particular para cujo serviço eles constituem, juntamente com o Bispo, um único
presbitério ».[78] Também os irmãos no presbiterato devem ser objetivo privilegiado da
caridade pastoral do sacerdote. Ajudar-lhes espiritual e materialmente, facilitar-lhes
delicadamente a confissão e a direção espiritual, tornar amável o caminho de serviço,
ser-lhes próximos nas suas dificuldades, acompanhá-los com atenção fraterna em
qualquer dificuldade, na velhice e na doença. Eis um campo realmente precioso para a
prática das virtudes sacerdotais.

Entre as virtudes necessárias para um frutuoso desenvolvimento do ministério da


Reconciliação é fundamental a prudência pastoral. Assim como ao administrar a
absolvição o ministro participa da ação sacramental com eficácia instrumental, assim
também nos demais atos do rito penitenciai, a sua tarefa é pôr o penitente diante de
Cristo, auxiliando, com extrema delicadeza, o encontro misericordioso. O que implica
evitar discursos genéricos que não levem em consideração a realidade do pecado, e por
isso torna-se necessária, no confessor, a ciência oportuna.[79] Mas, ao mesmo tempo, o
diálogo penitencial é sempre impregnado por aquela compreensão, que sabe conduzir as
almas gradualmente pelo caminho da conversão, sem cair em nenhuma concessão à
assim chamada « gradualidade das normas morais ».

Uma vez que a prática da confissão diminuiu em muitos lugares, com grande detrimento
da vida moral e da boa consciência dos crentes, apresenta-se o perigo real de uma
diminuição da densidade teológica e pastoral com que o ministro da confissão realiza a
sua função. O confessor deve pedir ao Paráclito a capacidade de preencher este
momento salvífico [80] com sentido espiritual e de transformá-lo em um encontro
autêntico do pecador com Jesus que perdoa. Ao mesmo tempo, deve aproveitar a
oportunidade da confissão para formar retamente a consciência do penitente tarefa
extremamente importante — dirigindo-lhe delicadamente as perguntas necessárias para
assegurar a integridade da confissão e a validade do sacramento, ajudando-o a agradecer
do profundo do coração a misericórdia de Deus para com ele, a formular um propósito
firme de correção da própria conduta moral e não deixando de apresentar algumas
palavras apropriadas de encorajamento, de conforto e de estímulo à realização de obras
de penitência que, além de satisfazer pelos próprios pecados, ajudem a crescer nas
virtudes.

SUGESTÕES PARA A REFLEXÃO SOBRE O CAPÍTULO III


13. A essência e o significado salvífico dos sacramentos são invariáveis. Partindo desta
firme certeza, como renovar a pastoral dos sacramentos, pondo-a a serviço da nova
evangelização?

14. As nossas comunidades são uma « Igreja da Eucaristia e da Penitência »?


Alimenta-se nelas a devoção eucarística em todas as suas formas? E motivada e
facilitada a prática da confissão individual?

15. Faz-se referência habitual à presença real do Senhor no tabernáculo, encorajando,


por exemplo, a frutuosa prática da visita ao Santíssimo Sacramento? São freqüentes os
atos de culto eucarístico? As nossas igrejas dispõem de um ambiente favorável à
oração diante do Santíssimo?

16. Reserva-se, com espírito pastoral, um cuidado particular à decorosa manutenção


das igrejas? Os sacerdotes se vestem regularmente e de maneira digna, segundo a
normativa canônica (cfr. CIC, can. 284 e 669; Diretório n. 66) e, no exercício do culto
divino, revestem todos os paramentos prescritos (cfr. can. 929)?

17. Os sacerdotes confessam-se regularmente e, por sua vez, fazem-se disponíveis para
este ministério tão fundamental?

18. São promovidas iniciativas capazes de fornecer uma formação permanente do clero
no âmbito do aperfeiçoamento do ministério de confessor? Encoraja-se a atualização
dos pastores neste ministério insubstituível?

19. Considerada a grande importância de um verdadeiro renascimento da prática da


confissão pessoal no contexto da nova evangelização, são respeitadas as normas
canônicas acerca da absolvição coletiva? São cuidadas com prudência e caridade
pastoral, em todas as paróquias e igrejas, as celebrações penitenciais litúrgicas?

20. Existem concretamente iniciativas oportunas para que os fiéis, bem motivados,
cumpram com o preceito festivo?

CAPÍTULO IV

OS PASTORES AMAM O REBANHO QUE LHES É CONFIADO

« O bom pastor dá sua vida pelas suas ovelhas » (Jo 10, 11)

1. Com Cristo, para encarnar e difundir a misericórdia do Pai

« A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais
admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes
da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora» [81] . Esta
realidade distingue essencialmente a Igreja de todas as demais instituições em favor do
homem, que, embora possam exercer um grande papel de solidariedade e de filantropia,
talvez até mesmo impregnado de espírito religioso, não poderiam nunca apresentar-se
sozinhas como efetivas dispensadoras da misericórdia de Deus. Diante de um conceito
secularizado de misericórdia, que não é capaz de transformar o homem a partir do seu
interior, a misericórdia de Deus oferecida na Igreja manifesta-se seja como perdão, seja
como medicina salutar. Para a sua eficácia no homem, requer, da parte deste, a aceitação
da verdade integral sobre o seu ser, sobre o seu agir e a sua culpabilidade. Daí deriva a
necessidade do arrependimento, o que torna ainda mais necessário relacionar o anúncio
da misericórdia com a verdade na sua plenitude. São afirmações de grande importância
para os sacerdotes, chamados na Igreja e pela Igreja, com vocação singular, a revelar e,
contemporaneamente, a atuar o mistério do amor do Pai, através do seu ministério,
vivido « segundo a verdade na caridade » (Ef 4, 15), e dócil aos impulsos do Espírito
Santo.

O encontro com a misericórdia de Deus acontece em Cristo, enquanto manifestação do


amor paterno de Deus. É revelando aos homens o seu papel messiânico (cf. Lc 4, 18),
que Cristo se apresenta como misericórdia do Pai para com todos os necessitados,
especialmente os pecadores que precisam de perdão e de paz interior. « Em relação a
estes últimos, de modo especial, o Messias torna-se um sinal particularmente legível de
Deus que é amor, torna-se um sinal do Pai. Do mesmo modo que os homens de então,
também os homens do nosso tempo podem ver o Pai, neste sinal visível ».[82] Deus,
que « é amor » (1 Jo 4, 16), só pode revelar-se como misericórdia.[83] O Pai quis se
envolver, por amor, no drama da salvação dos homens, através do sacrifício do seu
Filho.

Se na pregação de Cristo a misericórdia assume traços impressionantes, que ultrapassam


— como emerge da parábola do filho pródigo (cfr. Lc 15, 11-32) — toda realização
humana, é no sacrifício de si mesmo na cruz que ela se manifesta de maneira particular.
Cristo crucificado é a revelação radical da misericórdia do Pai, « ou seja, do amor que
se opõe àquilo que constitui a própria raiz do mal na história do homem: se opõe ao
pecado e à morte ».[84] A tradição espiritual cristã viu no Coração Sacratíssimo de
Jesus, que atrai a si os corações sacerdotais, uma síntese profunda e misteriosa da
misericórdia infinita do Pai.

A dimensão soteriológica do inteiro múnus pastoral dos presbíteros encontra, pois, o


seu centro no memorial da oferta da vida, feita por Jesus, ou seja, no Sacrifício
eucarístico. « Existe, com efeito, uma conexão íntima entre a centralidade da Eucaristia,
a caridade pastoral e a unidade de vida do presbítero (...). Se o presbítero empresta a
Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, a inteligência, a vontade, a voz e as mãos para,
mediante o seu ministério, poder oferecer ao Pai o sacrifício sacramental da redenção,
deverá fazer próprias as disposições do Mestre e viver, como Ele, sendo "dom" para os
seus irmãos. Deverá por isso aprender a unir-se intimamente à oferta, colocando sobre o
altar do sacrifício toda a sua vida como sinal manifestativo do amor gratuito e
previdente de Deus ».[85] No dom permanente do Sacrifício eucarístico, memorial da
morte e da ressurreição de Jesus, os sacerdotes receberam sacramentalmente a
capacidade única e singular de levar aos homens, como ministros, o testemunho do
amor inexaurível de Deus que, na perspectiva ulterior da história da salvação, se
confirmará mais forte do que o pecado. O Cristo pascal é a incarnação definitiva da
misericórdia, o seu sinal vivo: histórico-salvífico e, ao mesmo tempo, escatológico.[86]
O sacerdócio, dizia o Santo Cura d'Ars, « é o amor do Coração de Jesus [87] . Com Ele,
também os sacerdotes são, graças à sua consagração e ao seu ministério, um sinal vivo e
eficaz deste grande amor, daquele « amoris officium », de que falava Santo Agostinho
[88] .

2. « Sacerdos et hostia »
A autêntica misericórdia é essencial a sua natureza de dom. Ela deve ser acolhida como
um dom imerecido que é oferecido gratuitamente, que não provém da própria
benemerência. Esta liberalidade insere-se no desígnio salvífico do Pai, porque « nisto
consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e
enviou-nos o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados » (1 Jo 4, 10). E
é exatamente neste contexto que o ministério ordenado encontra a sua razão de ser.
Ninguém pode conferir a si mesmo a graça: esta deve ser dada e oferecida. O que supõe
a existência de ministros da graça, autorizados e habilitados por Cristo. A tradição da
Igreja chama « sacramento » a esse ministério ordenado, através do qual os convidados
por Cristo realizam e dão, por dom de Deus, aquilo que por si mesmos não podem nem
realizar nem dar [89] .

Os sacerdotes, portanto, devem considerar-se como sinais vivos e portadores da


misericórdia, que não oferecem como própria, e sim como dom de Deus. Eles são,
antes, os servidores do amor de Deus pelos homens, ministros da misericórdia. A
vontade de serviço insere-se no exercício do ministério sacerdotal como elemento
essencial que, por sua vez, exige, na pessoa, também a respectiva disposição moral. O
presbítero torna presente aos homens Jesus, que é o pastor que veio « não para ser
servido, mas para servir » (Mt 20, 28). O sacerdote serve, em primeiro lugar, a Cristo,
mas de uma maneira que passa necessariamente através do serviço generoso à Igreja e à
sua missão.

« Ele ama-nos, tendo derramado o seu sangue para lavar os nossos pecados: Pontifex
qui dilexisti nos et lavisti nos a peccatis in sanguine tuo. Entregou-Se a Si mesmo por
nós: tradidisti temetipsum Deo oblationem et hostiam. Cristo introduz, no santuário
eterno, o sacrifício de Si mesmo, que é o preço da nossa redenção. A oferta, isto é, a
vítima, é inseparável do sacerdote ».[90] Embora somente Cristo seja simultaneamente
Sacerdos et Hostia, o seu ministro, inserido na dinâmica missionária da Igreja, é
sacramentalmente sacerdos, mas com um permanente apelo a se tornar também hostia,
a nutrir em si « os mesmos sentimentos de Cristo Jesus » (Fil 2, 5). Desta inseparável
unidade entre sacerdote e vítima,[91] entre sacerdócio e Eucaristia, depende a eficácia
de toda a ação de evangelização. Da unidade sólida no Espírito Santo — entre Cristo e o
seu ministro, sem pretender, da parte deste último, substituir-se a Ele e sim apoiando-se
n'Ele e deixando-o agir em si e por seu intermédio, depende também hoje a obra eficaz
da misericórdia divina, contida na Palavra e nos Sacramentos. A esta conexão do
sacerdote com Jesus na ação ministerial estende-se também a importância das palavras:
« Eu sou a verdadeira videira ... Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não
permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim » (Jo 15, 4).

O apelo a se tornar hostia juntamente com Cristo encontra-se também à base da


coerência do compromisso celibatário com o ministério sacerdotal em favor da Igreja.
Trata-se da incorporação do sacerdote no sacrifício pelo qual « Cristo amou a Igreja e
entregou-se a si mesmo por ela, para torná-la santa » (Ef 5, 25-26). O presbítero é
chamado a ser « imagem viva de Jesus Cristo, Esposo da Igreja », [92] fazendo da sua
vida toda inteira uma oblação em favor dela. « O celibato sacerdotal é, então, o dom de
si em e com Cristo à sua Igreja e exprime o serviço do presbítero à Igreja no e com o
Senhor ».[93]

3. A cura pastoral dos sacerdotes: servir, conduzindo com amor e com fortaleza «
Exercendo o múnus de Cristo Cabeça e Pastor na parte de autoridade que lhes toca, os
Presbíteros reúnem, em nome do Bispo, a família de Deus, como fraternidade animada
por um só objetivo, e levam-na por Cristo no Espírito a Deus Pai ».[94] O indispensável
exercício do munus regendi do presbítero, longe de uma concepção meramente
sociológica de capacidade organizadora, brota, também ele, do sacerdócio sacramental:
« Em virtude do Sacramento da Ordem, segundo a imagem de Cristo, sumo e eterno
Sacerdote (Hb 5, 1-10; 7, 24; 9, 11-28), eles são consagrados para pregar o Evangelho,
apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, de maneira que são verdadeiros sacerdotes
do Novo Testamento ».[95]

Os sacerdotes, participando da autoridade de Cristo, gozam de um notável ascendente


sobre os fiéis. Estes sabem, porém, que a presença de Cristo no ministro « não deve ser
compreendida como se este estivesse imune de todas as fraquezas humanas, do espírito
de dominação, dos erros e até dos pecados » .[96] A palavra e a guia dos ministros são,
pois, suscetíveis de uma maior ou menor eficácia, segundo as suas qualidades, naturais
ou adquiridas, de inteligência, de vontade, de caráter e de maturidade. O
reconhecimento disso, unido à consciência das raízes sacramentais da função pastoral,
leva-os à imitação de Jesus, Bom Pastor, e faz da caridade pastoral uma virtude
indispensável para a frutuosa realização do ministério.

« A finalidade essencial da sua ação de pastores e da autoridade que lhes é conferida » é


a de « levar ao seu pleno desenvolvimento de vida espiritual e eclesial a comunidade
que lhes está confiada » .[97] No entanto, « a dimensão comunitária da cura pastoral (...)
não pode descurar as necessidades de cada um dos fiéis. (...) Pode-se dizer que Jesus
mesmo, bom Pastor que "chama pelo nome as ovelhas" com voz que elas conhecem
muito bem (Jo 10, 3-4), estabeleceu com o seu exemplo o primeiro cânone da pastoral
individual: o conhecimento e a relação de amizade com as pessoas ».[98] Na Igreja, a
visão comunitária deve harmonizar-se com a pessoal; mais ainda, na edificação da
Igreja o pastor procede da dimensão pessoal à dimensão comunitária. No
relacionamento com as pessoas individuais e com a comunidade, o sacerdote se prodiga
para tratar a todos « eximia humanitate »,[99] nunca se põe a serviço de uma ideologia
ou de uma facção humana [100] e trata com todos não « segundo o agrado dos homens,
mas segundo as exigências da doutrina e vida cristã ».[101]

Hoje mais do que nunca resulta especialmente necessário adequar o estilo da ação
pastoral ao estado daquelas sociedades com passado cristão, mas atualmente
amplamente secularizadas. Assume, portanto, maior relevo a consideração do munus
regendi, no seu autêntico sentido missionário, que não deve ser confundido com uma
tarefa burocrática-organizativa. O que exige, por parte dos presbíteros, um amoroso
exercício da fortaleza, cujo modelo deve ser descoberto na atitude pastoral de Jesus
Cristo. Como vemos nos Evangelhos, Ele nunca se recusa à responsabilidade que deriva
da sua autoridade messiânica, mas a exerce com caridade e fortaleza. Por este motivo, a
sua autoridade nunca é domínio oprimente, mas disponibilidade e espírito de serviço.
Este duplo aspecto — autoridade e serviço — constitui o sistema de referência no qual
enquadrar o munus regendi do sacerdote: ele deverá esforçar-se sempre para realizar
com coerência a sua participação na condição de Cristo como Chefe e Pastor do seu
rebanho.[102]

O sacerdote, com e sob o Bispo, é, também ele, pastor da comunidade que lhe foi
confiada e, animado pela caridade pastoral, não deve ter medo de exercer a própria
autoridade naqueles campos nos quais é obrigado a exercê-la, porque para isso ele foi
constituído em autoridade; é necessário recordar que mesmo quando ela é exercida com
a necessária fortaleza, é preciso fazê-lo procurando « non tam praeesse quam prodesse
» (não tanto comandar, mas servir).[103] Quem deve exercer a autoridade deve estar
atento à tentação de se eximir de uma tal responsabilidade; se não a exerce, se subtrai ao
serviço. Em íntima comunhão com o Bispo e com todos os fiéis, evitará de introduzir no
seu ministério pastoral seja formas de autoritarismo extemporâneo, seja modalidades de
gestão inspiradas ao democratismo, ambas estranhas à realidade mais profunda do
ministério e que trazem como conseqüência a secularização do sacerdote e a
clericalização dos leigos.[104] Não raramente, sob comportamentos deste tipo, pode
esconder-se o medo de assumir responsabilidade, de se enganar, de não agradar, o medo
da impopularidade, de andar ao encontro da cruz, etc.: no fundo, trata-se de um
obscurecimento que diz respeito à raiz autêntica da identidade sacerdotal: a assimilação
com Cristo, Pastor e Chefe.

Neste sentido, a nova evangelização exige também que o sacerdote torne evidente a sua
presença genuína. Deve-se ver que os ministros de Cristo estão presentes e disponíveis
entre os homens. Por isso é importante também uma sua inserção amiga e fraterna na
comunidade. Em tal contexto, compreende-se a importância pastoral da disciplina que
diz respeito à veste eclesiástica, da qual o presbítero não deve prescindir, enquanto ela
serve para anunciar publicamente a sua dedicação, sem limites de tempo e de lugar, ao
serviço de Cristo, dos irmãos e de todos os homens.[105] Quanto mais uma sociedade
traz consigo os sinais da secularização, tanto mais necessários são os sinais visíveis.

O sacerdote deve estar atento para não cair no comportamento contraditório pelo qual
poderia se eximir de exercer a sua autoridade nos setores da própria competência direta,
para depois, no entanto, intrometer-se em questões temporais, como as de ordem socio-
política,[106] deixadas por Deus à livre disposição dos homens.

Embora o sacerdote possa gozar de um notável prestígio junto aos fiéis e, pelo menos
em alguns lugares, também junto às autoridades civis, é necessário lembrar-se de que tal
prestígio deve ser vivido humildemente, dele servindo-se corretamente, para colaborar
efetivamente à « salus animarum » e recordando que somente Cristo é o verdadeiro
Chefe do Povo de Deus: para Ele devem ser conduzidos os homens, evitando que se
apeguem. à pessoa do sacerdote. As almas pertencem somente a Cristo, porque somente
Ele, para a glória do Pai, as resgatou a preço do seu sangue precioso. E somente Ele é,
no mesmo sentido, Senhor dos bens sobrenaturais e Mestre que ensina com autoridade
própria e original. O sacerdote é apenas um administrador, em Cristo e no Espírito
Santo, dos dons que a Igreja lhe confiou e, como tal, não tem o direito de omiti-los,
desviá-los ou de modelá-los a bel-prazer.[107] Não recebeu, por exemplo, a autoridade
de ensinar aos fiéis que lhe foram confiados somente algumas verdades da fé cristã,
deixando de lado outras, porque consideradas por ele mais difíceis de se aceitar ou
menos atuais ».[108]

Pensando, pois, na nova evangelização e na necessária direção pastoral dos presbíteros,


é importante esforçar-se por ensinar a todos como realizar uma obra de discernimento
atenta e sincera. Sob a atitude de « não querer impor-se », etc., poderia se esconder um
desconhecimento da substância teológica do ministério pastoral ou, talvez, uma falta de
caráter que busca fugir da responsabilidade. Não se deve dar menos importância
tampouco a eventuais apegos indevidos a pessoas ou a encargos pastorais, ou ainda o
mal disfarçado desejo de popularidade e as faltas de reta intenção. A caridade pastoral
nada seria sem a humildade. Freqüentemente, por detrás de uma rebelião aparentemente
motivada, por detrás da reticência diante de uma mudança de atividade pastoral
proposta pelo Bispo, ou de um excêntrico modo de pregar, de celebrar a liturgia, ou
ainda de não revestir as vestes previstas para o próprio estado ou de alterá-las a seu bel-
prazer, pode se esconder o amor próprio e o desejo, talvez inconsciente, de se fazer
notar.

A nova evangelização exige do sacerdote também uma renovada disponibilidade para


exercer o próprio ministério pastoral onde ele seja mais necessário. « Como sublinha o
Concilio, "o dom espiritual que os presbíteros receberam na ordenação não os prepara
para uma missão limitada e restrita, mas, pelo contrário, para uma imensa e universal
missão de salvação até aos últimos confins da terra, dado que todo e qualquer ministério
sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada por Cristo aos
Apóstolos" ».[109] A escassez numérica de clero, que se verifica em alguns Países,
unida ao dinamismo característico do mundo contemporâneo, torna particularmente
necessário poder contar com sacerdotes dispostos não somente a mudar de encargos
pastorais, mas também de cidade, região ou país, segundo as diversas necessidades, e a
exercer a missão que, segundo as circunstâncias, seja a mais necessária, deixando de
lado, por amor de Deus, os próprios gostos e projetos pessoais. « Pela própria natureza
do seu ministério, eles devem, portanto, ser penetrados e animados de um profundo
espírito missionário, "daquele espírito verdadeiramente católico que os habitua a olhar
para além dos confins da própria diocese, nação ou rito, e ajudar as necessidades de toda
a Igreja, dispostos a pregar o Evangelho em toda a parte" ». [110] O correto sentido da
Igreja particular, também na formação permanente, não deve nunca obscurecer o
sentido da Igreja universal, mas com este há de ser harmonizado.

SUGESTÕES PARA A REFLEXÃO SOBRE O CAPÍTULO IV

21. Como manifestar de maneira mais viva, através de nossas comunidades e, de


maneira especial, através dos sacerdotes, a misericórdia de Deus para com os
necessitados? Insiste-se suficientemente, por exemplo, na prática das obras de
misericórdia, tanto espiritual como corporal, como caminho de amadurecimento
cristão e de evangelização?

22. A caridade pastoral em todas as suas dimensões é realmente « alma e força da


formação permanente » de nossos sacerdotes?

23. Os sacerdotes são concretamente encorajados a cuidar, com sincero espírito de


fraternidade, de todos os outros coirmãos, particularmente dos enfermos, dos anciãos e
de quantos se encontrem em dificuldades? Existem formas de vida comum livremente
escolhidas ou experiências semelhantes?

24. Os nossos sacerdotes compreendem e exercem corretamente a sua específica função


de guia espiritual das comunidades que lhes são confiadas? Como a exercem
concretamente?

25. Na formação espiritual dos sacerdotes dá-se suficiente relevo à dimensão


missionário do ministério sagrado e à dimensão universal da Igreja?
26. Existem verdades de fé ou princípios de moral que facilmente são omitidos na
pregação?

27. Uma das funções próprias do ministério pastoral é a de unir as forças a serviço da
missão evangelizadora. São estimuladas todas as vocações ao interno da Igreja,
respeitando o carisma própria de cada uma?

CONCLUSÕES

« A nova evangelização tem necessidade de evangelizadores novos, e estes são os


presbíteros que se esforçam por viver o seu sacerdócio como caminho específico para a
santidade ».[111] Para que seja assim, é de fundamental importância que cada sacerdote
descubra novamente, cada dia, a absoluta necessidade da sua santidade pessoal. « É
preciso começar por se purificar a si mesmo antes de purificar os outros; é preciso ser
instruído para poder instruir; é preciso ser luz para iluminar, aproximar-se de Deus para
aproximar d'Ele os demais, ser santificado para santificar ».[112] Este empenho
concretiza-se na busca de uma profunda unidade de vida, que leva o sacerdote a
procurar ser e viver como um outro Cristo em todas as circunstâncias da vida.

Os fiéis da paróquia, ou aqueles que participam das várias atividades pastorais, vêem —
observam! — e ouvem — analisam! — não somente quanto se prega a Palavra de Deus,
mas também quando se celebram os diversos atos litúrgicos, particularmente a Santa
Missa; quando são recebidos no escritório paroquial e onde esperam modos acolhedores
e amáveis; [113] quando vêem o sacerdote que come ou que descansa, e se edificam
com a sua sobriedade e temperança; quando vão encontrá-lo em casa, e se alegram com
a simplicidade e pobreza sacerdotal nas quais vive; [114] quando o vêem vestir-se com
propriedade e perfeita ordem a sua veste própria, quando falam com ele, mesmo dos
assuntos mais comuns, e se sentem confortados ao comprovarem a sua visão
sobrenatural, a sua delicadeza e o seu estilo humano, com que trata mesmo as pessoas
mais humildes, com nobreza autêntica e sacerdotal. « A graça e a caridade do altar
dilatam-se dessa forma no púlpito, no confessionário, no arquivo paroquial, na escola,
no movimento juvenil, nas casas e nas estradas, nos hospitais, nos meios de transporte e
nos de comunicação social, onde quer que o sacerdote tenha a possibilidade de exercer o
seu trabalho de pastor: em todos os casos, é a sua Missa que se expande, é a sua união
com Cristo Sacerdote e Hóstia que o leva a ser — como dizia Santo Inácio de
Antioquia, « trigo de Deus para ser feito pão puro de Cristo » (cfr. Epist. ad Romanos,
IV, 1), pelo bem dos irmãos ».[115]

Deste modo o sacerdote do Terceiro Milênio permitirá que se repita novamente, em


nossos dias, a reação dos discípulos de Emaús, que, depois de ter ouvido do Mestre
divino Jesus a explicação da Bíblia, não podem deixar de se perguntar admirados: « Não
ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as
Escrituras? (Lc 24, 32) ».

À Rainha e Mãe da Igreja devemos confiar a nós mesmos, os Pastores, para que, em
unidade de intenções com o Vigário de Cristo, saiba-mos descobrir os modos para fazer
brotar em todos os sacerdotes da Igreja um sincero desejo de renovação na sua função
de mestres da Pa-lavra, ministros dos Sacramentos e guias da comunidade. A Rainha da
Evangelização pedimos que a Igreja de hoje saiba descobrir uma vez mais os caminhos
que a misericórdia do Pai, em Cristo pelo Espírito Santo, preparou desde toda a
eternidade para atrair também os homens de nossa época à comunhão com Ele.

Roma, na Sede da Congregação, no dia 19 de março de 1999, solenidade de São José,


Padroeiro da Igreja Universal.

DARÍO Card. CASTRILLÓN HOYOS


Prefeito

CSABA TERNYÁK
Arceb. tit. de Eminentiana
Secretário

***

ORAÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA

MARIA, Estrela da nova evangelização,


que desde o início apoiaste e encorajaste os Apóstolos e os seus colaboradores na
difusão do Evangelho, aumenta nos sacerdotes, no limiar do terceiro milênio, a
consciência de serem os primeiros responsáveis da nova evangelização.

MARIA, Primeira evangelizada e primeira evangelizadora,


que com fé, esperança e caridade incomparáveis, respondeste ao anúncio do Anjo,
intercede por aqueles que são configurados ao teu Filho, Cristo Sacerdote, para que
também eles respondam, com o mesmo espírito, ao urgente apelo que o Santo Padre, em
nome de Deus, lhes dirige por ocasião do grande jubileu.

MARIA, Mestra de fé vivida,


que acolheste a Palavra divina com plena disponibilidade, ensina aos sacerdotes a se
familiarizarem com aquela Palavra, mediante a oração, e a se colocarem ao seu serviço,
com humildade e ardor, de maneira que ela continue a exercer toda a sua força salvífica
no terceiro milênio da redenção.

MARIA, Cheia de graça e Mãe da graça,


cuida de teus filhos sacerdotes que, como ti, são chamados a ser os colaboradores do
Espírito Santo, que faz renascer Jesus no coração dos fiéis. Ensina-lhes, no aniversário
do nascimento do teu Filho, a serem fiéis dispensadores dos mistérios de Deus. Com teu
auxilio, que eles possam abrir a tantas almas o caminho da Reconciliação e façam da
Eucaristia a fonte e o cume da própria vida e da existência dos fiéis que lhe são
confiados.

MARIA, Estrela no alvorecer do terceiro milênio,


continua a guiar os sacerdotes de Jesus Cristo, para que, seguindo o exemplo do teu
amor por Deus e pelo próximo, saibam ser pastores autênticos e possam guiar os passos
de todos para Jesus, a luz verdadeira que ilumina cada homem (cfr. Jo 1, 9). Que os
sacerdotes e, por meio deles, todo o Povo de Deus, escutem o afetuoso e premente
convite que lhes diriges no limiar do novo milênio da história da salvação: « Fazei tudo
aquilo que ele vos disser » (cfr. Jo 2, 5). « No ano 2000 — diz-nos o Vigário de Cristo
— deve ressoar com força renovada a proclamação da verdade: Ecce natus est nobis
Salvator mundi » (Tertio millennio adveniente, 38).

Notas

[1] João Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994), n.
38: AAS 87 (1995), p. 30.

[2] João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n. 33: AAS
83 (1991), p. 279.

[3] Cfr. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia (31 de janeiro de 1994), n. 7: Libreria Editrice Vaticana, 1994, p. 11.

[4] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 19992), n.
18: AAS 84 (1992), p. 685.

[5] João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio, n. 1: l.c., p. 249.

[6] « Muitas vezes a religião cristã arrisca-se a ser considerada uma religião entre
muitas outras, senão mesmo a ser reduzida a uma pura ética social ao serviço do
homem. Assim nem sempre emerge a sua desconcertante "novidade" na história: ela é
"mistério", é o evento do Filho de Deus, que se faz homem, e dá a quantos o acolhem "o
poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1, 12) » (João Paulo II, Exort. apost. pós-
sinodal Pastores dabo vobis, n. 46.).

[7] Cfr. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 2; João Paulo
II, Exort. apost. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 13: 1.c., 677-678; Congregação
para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia, nn. 1, 3,
6: l.c., pp. 7, 9, 10 11; Congregação para o Clero, Conselho Pontifício para os Leigos,
Congregação para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
sobre algumas questões acerca da colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), Premissa: AAS 89 (1997), p.
852.

[8] João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio, n. 63: l.c., p. 311.

[9] Ibid., n. 67: 1.c., p. 315.

[10] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, Introdução: l.c., p. 4; cfr. João Paulo II, Exort. apost. pós-sinodal Pastores
dabo vobis, nn. 2 e 14: l.c., pp. 659-660; 678-679.

[11] Cfr. João Paulo II, Carta enc. Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 62.
[12] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 171.

[13] Cons. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 30.

[14] Cfr. ibid., n. 48.

[15] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 21: l.c., p. 688-
690.

[16] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 12; João Paulo II, Exort.
ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 25: l.c., pp. 695-697.

[17] Cfr. Congregação Para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia, n. 43: l.c., p. 42.

[18] São Gregório Magno, A Regra Pastoral, II, 1.

[19] João Paulo II, Alocução ao VI Simpósio dos Bispos europeus (11 de outubro de
1995): L'Osservatore Romano, ed. port., 20 outubro 1985, p. 4.

[20] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 12: l.c., pp. 675-
677.

[21] João Paulo II, Alocução inaugural da IV Conferência Geral do Episcopado latino-
americano, Santo Domingo (12 de outubro de 1992), n. 1: L'Osservatore Romano, ed.
port., 18 de outubro de 1992, p. 9.

[22] Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), n. 47: AAS 68
(1976), p. 37.

[23] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 28.

[24] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 4; João Paulo II, Exort.
ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 26: l. c., pp. 697-700.

[25] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, nn. 5, 13, 14; João Paulo II,
Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, nn. 23, 26, 48: l.c., pp. 691-694; 697-700;
742-747; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros
Tota Ecclesia, n. 48: l. c., pp. 48ss.

[26] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio, n. 4.

[27] Ibid., n. 11.

[28] Cfr. João Paulo II, Alocução aos Bispos do CELAM (9 de março de 1983):
Insegnamenti, VI, 1 (1983), p. 698; Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 18:
l.c., pp. 684-686.

[29] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, n. 2.


[30] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 4.

[31] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1550.

32. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 26: l. c., p. 698.

[33] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 45: l. c., p. 44.

[34] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 4.

[35] S. Agostinho, De doctr. christ., 4, 15, 32: PL 34, 100.

[36] Cfr. Paulo VI, Const. ap. Laudis canticum (1 de novembro de 1970): AAS 63
(1971), pp. 533-534.

[37] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 45: l. c., 43.

[38] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 22.

[39] Ibidem.

[40] Cfr. Congregação para o Clero, Conselho Pontifício para os Leigos, Congregação
para a Doutrina da Fé, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos, Congregação para os Bispos, Congregação para a Evangelização dos
Povos, Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução
sobre algumas questões acerca da colaboração dos fiéis leigos no ministério dos
sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de agosto de 1997), Premissa: AAS 89 (1997), p.
852 ss.

[41] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 19.

[42] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, nn. 70 e ss: l.c., pp.
778 ss; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia, n. 69 e ss: l. c., pp. 72 ss.

[43] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, nn. 26 e 47: l. c., pp.
697-700; 740-742; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos
Presbíteros Tota Ecclesia, n. 46: i.e., p. 46.

[44] Congregaçãopara a Educação Católica, dos Seminários e dos Institutos de Estudo,


Instrução sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de novembro
de 1989), nn. 26-27: AAS 82 (1990), pp. 618-619.

[45] João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de setembro de 1998), n. 2.

[46] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 46: l. c., p. 46.
[47] Catecismo da Igreja Católica, n. 738.

[48] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 2.

[49] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 48.

[50] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, n. 45.

[51] Cfr. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia, n. 7: l. c., pp. 11-12.

[52] João Paulo II, Catequese na Audiência geral (5 de maio de 1993): Insegnamenti
XVI, 1 (1993), p. 1061.

[53] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyteroruni ordinis, n. 12.

[54] Cfr. ibid., n. 5.

[55] João Paulo II, Catequese na Audiência geral (12 de maio de 1993): Insegnamenti
XVI, 1 (1993), p. 1197.

[56] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 2.

[57] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa (16 de março
de 1997), n. 5: AAS 89 (1997), p. 662.

[58] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Sacrosanctum Concilium, nn. 2. 10.

[59] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 6.

[60] Ibid. n. 5.

[61] Cfr. ibidem.

[62] Cfr. João Paulo II, Catequese na Audiência geral (12 de maio de 1998):
Insegnamenti, XVI, 1 (1993), p. 1197-1198.

[63] Cfr. João Paulo II, Carta ap. Dies Domini (31 de maio de 1998), n. 46: AAS 90
(1998), p. 742.

[64] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 49.

[65] João Paulo II, Catequese na Audiência geral (12 de maio de 1993): Insegnamenti,
XVI, 1 (1993), p. 1198.

[66] Cfr. ibidem; Conc. Ecum. Vat. II, Const. Sacrosanctum Conciliam, nn. 112, 114,
116, 120, 122-124, 128.
[67] Cfr. Pio XII, Radiomensagem ao Congresso Catequístico Nacional dos Estados
Unidos, 26 de outubro de 1946: Discorsi e Radiomessaggi VIII (1946), p. 288; João
Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de dezembro de 1984), n.
18: AAS 77 (1985), pp. 224-228.

[68] João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia (30 de novembro de 1980), n. 13:
AAS 72 (1980), pp. 1220-1221.

[69] Cfr. João Paulo II, Catequese na Audiência geral (22 de setembro de 1993):
Insegnamenti, XVI, 2 (1993), p. 826.

[70] João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia, n. 13: l.c., p. 1219.

[71] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 54: l.c., p. 54; cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et
paenitentia, n. 31: l.c., pp. 257-266.

[72] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 32: l. c., p. 31.

[73] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 13; Congregação para o
Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia, n. 52: l. c., 52-
53.

[74] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 52: l.c., p. 53; cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis n. 13.

[75] Cfr. Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos, Resposta
sobre o can. 964 4 2 CIC (7 de julho de 1998): AAS 90 (1998), p. 711.

[76] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 18; João Paulo II, Exort.
ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, nn. 26, 48: l.c., pp. 697-700; 742-745; Catequese
na Audiência geral (26 de maio de 1993), n. 4: Insegnamenti XVI, 1 (1993), p. 1331;
Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et poenitentia, n. 31: 1..c., pp. 257-266;
Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 53: l.c., p. 54.

[77] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, n. 31, VI: l.c., p.
266.

[78] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 17: l.c., p. 683.

[79] A este respeito, pede-se uma sólida preparação acerca daqueles temas que se
apresentam mais freqüentemente. Resulta, para isso, de grande ajuda o Vademecum
para os confessores sobre alguns temas de moral atinentes à vida conjugal (Conselho
Pontifício para a Família [12 de fevereiro de 1997]).

[80] Cfr. ibidem.

[81] João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia, n. 13: l.c., p. 1219.
[82] Ibid., n. 3: l. c., p. 1183.

[83] Cfr. ibid., n. 13: Lc., pp. 1218-1221.

[84] Ibid., n. 8: l. c., p. 1204.

[85] Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 48: 1.c., p. 49.

[86] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 8: 1.c., pp. 668-
669.

[87] Cfr. Jean-Marie Vìanney, cure d'Ars: sa pensée, son coeur, présentés par Bernard
Nodet, Le Puy 1960, p. 100.

[88] S. Agostinho, In Iohanms evangelium tractatus, 123, 5: CCL 36, 678.

[89] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 875.

[90] João Paulo II, Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa (16 de
março de 1997), n. 4: AAS 89 (1997), p. 661.

[91] Cfr. S. Tomás de Aquino, Summa Theol. III, q. 83, a. 1, ad 3.

[92] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 22: l. c., p. 691.

[93] Ibid., n. 29: l.c., p. 704.

[94] Conc. Ecum. Vat,. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 6.

[95] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 28.

[96] Catecismo da Igreja Católica, n. 1550.

[97] João Paulo II, Catequese na Audiência geral (19 de maio de 1993), n. 2:
Insegnamenti XVI, 1 (1993), p. 1254.

[98] Ibidem, n. 4: l.c., p. 1255-1256.

[99] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 6.

[100] Cfr. ibidem.

[101] Ibidem.

[102] Cfr. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos
Presbíteros Tota Ecclesia, n. 17: l. c., pp. 18-20.

[103] S. Agostinho, Ep. 134, 1: CSEL 44, 85.


[104] Cfr. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos
Presbíteros Tota Ecclesia, n. 19: l.c., p. 21; João Paulo II, Alocução ao Simpósio sobre a
Colaboração dos Leigos no ministério pastoral dos presbíteros (22 de abril de 1994), n.
4: « Sacrum Ministerium » 1 (1995), p. 64; Congregação para o Clero, Conselho
Pontifício para os Leigos, Congregação para a Doutrina da Fé, Congregação para o
Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Congregação para os Bispos,
Congregação para a Evangelização dos Povos, Congregação para os Institutos de Vida
Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Conselho Pontifício para a
Interpretação dos Textos Legislativos, Instrução sobre algumas questões acerca da
colaboração dos fiéis leigos no ministério dos sacerdotes Ecclesiae de mysterio (15 de
agosto de 1997), Premissa: AAS 89 (1997), p. 852.

[105] Cfr. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos
Presbíteros Tota Ecclesia, n. 66: l. c., p. 67-68.

[106] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 2442; C.I.C., can. 227; Congregação para o
Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota Ecclesia, n. 33: 1..c., p.
31-32.

[107] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Sacrosanctum Concilium, n. 22; C.I.C.,
can. 846; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia, nn. 49 e 64: 1.c., pp. 49 e 66.

[108] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dato vobis, n. 26: i.e., pp. 697-
700; Catequese na Audiência geral (21 de abril de 1993): Insegnamenti XVI, 1 (1993),
p. 938; Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros
Tota Ecclesia, n. 45: l. c., pp. 43-45.

[109] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 18: l. c., p. 684; cfr.
Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 10.

[110] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 18: l. c., p. 684; cfr.
Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Optatam totius, n. 20.

[111] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 82: l. c., p. 801.

[112] S. Gregório de Nanziano, Orationes 2, 71: PG 35, 480.

[113] Cfr. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 43: 1.c., pp.
731-733.

[114] Cfr. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Presbyterorum ordinis, n. 17; C.LC., can. 282;
João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 30: l.c., pp. 705-707;
Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos Presbíteros Tota
Ecclesia, n. 67: l. c., 68-70.

[115] João Paulo II, Catequese na Audiência geral (7 de julho de 1993), n. 7:


Insegnamenti XVI, 2 (1993), p. 38.
Congregação para o Clero

DIRETÓRIO
PARA O MINISTÉRIO
E A VIDA DOS PRESBÍTEROS

nova edição

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

I. IDENTIDADE DO PRESBÍTERO

O sacerdócio como dom


Raiz sacramental

1.1. Dimensão trinitária

Em comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito


Na dinâmica trinitária da salvação
Íntima relação com a Trindade

1.2. Dimensão cristológica

Identidade específica
Consagração e missão

1.3. Dimensão pneumatológica

Caráter sacramental
Comunhão pessoal com o Espírito Santo
Invocação do Espírito
Força para guiar a comunidade

1.4. Dimensão eclesiológica

“Na” e “diante da” Igreja


Participante do caráter esponsal de Cristo
Universalidade do sacerdócio
Missionariedade do sacerdócio para uma Nova Evangelização
Paternidade espiritual
Autoridade como “amoris officium”
Tentação do democratismo e do igualitarismo
Distinção entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial

1.5 Comunhão sacerdotal

Comunhão com a Trindade e com Cristo


Comunhão com a Igreja
Comunhão hierárquica
Comunhão na celebração eucarística
Comunhão na atividade ministerial
Comunhão no presbitério
A incardinação, autêntico vínculo jurídico com valor espiritual
Presbitério, lugar de santificação
Fraterna amizade sacerdotal
Vida comum.
Comunhão com os fiéis leigos
Comunhão com os membros dos Institutos de vida consagrada.
Pastoral vocacional
Empenho político e social

II. ESPIRITUALIDADE SACERDOTAL.

2.1. Contexto histórico atual

Saber interpretar os sinais dos tempos


A exigência da conversão para a evangelização
O desafio das seitas e dos novos cultos
Luzes e sombras da atividade ministerial

2.2. Estar com Cristo na oração

Primado da vida espiritual


Meios para a vida espiritual
Imitar a Cristo que reza.
Imitar a Igreja que reza
Oração como comunhão

2.3. Caridade pastoral

Manifestação da caridade de Cristo


Funcionalismo

2.4. A obediência

Fundamento da obediência.
Obediência hierárquica
Autoridade exercida com caridade
Respeito às normas litúrgicas
Unidade de planos pastorais
Importância e obrigatoriedade do hábito eclesiástico
2.5. Pregação da Palavra

Fidelidade à Palavra
Palavra e vida
Palavra e catequese

2.6. O sacramento da Eucaristia

O Mistério eucarístico
Celebrar bem a Eucaristia.
Adoração eucarística
Intenções das Missas

2.7. O Sacramento da Penitência

Ministro da Reconciliação
Dedicação ao ministério da Reconciliação
Necessidade de confessar-se
Direção espiritual para si e para os outros

2.8. Liturgia das Horas

2.9. Guia da comunidade

Sacerdote para a comunidadeSentir com a Igreja

2.10. O celibato sacerdotal

Firme vontade da Igreja


Motivação teológico-espiritual do celibato
Exemplo de Jesus
Dificuldades e objeções

2.11. Espírito sacerdotal de pobreza

Pobreza como disponibilidade

2.12. Devoção a Maria

Imitar as virtudes da Mãe


A Eucaristia e Maria.

III. FORMAÇÃO PERMANENTE

3.1. Princípios

Necessidade da formação permanente, hoje


Instrumento de santificação
Deve ser dada pela Igreja
Deve ser permanente
Deve ser completa.
Formação humana
Formação espiritual
Formação intelectual
Formação pastoral
Deve ser orgânica e completaDeve ser personalizada

3.2. Organização e meios

Encontros sacerdotais
Ano Pastoral
Tempos de repouso
Casa do Clero
Retiros e Exercícios Espirituais
Necessidade da programação

3.3. Responsáveis

O próprio presbítero
Ajuda dos colegas
O Bispo
A formação dos formadores
Colaboração entre as Igrejas
Colaboração de centros acadêmicos e de espiritualidade

3.4. Necessidades no tocante às idades e às situações especiais

Primeiros anos de sacerdócio


Depois de um certo número de anos
Idade avançada
Sacerdotes em situações especiais
Solidão do sacerdote

CONCLUSÃO

Oração a Maria Santíssima

APRESENTAÇÃO

O fenômeno da “secularização” – tendência a viver a vida numa projeção horizontal,


colocando de lado ou neutralizando, ainda que se acentue voluntariamente o discurso
religioso, a dimensão do transcendente – há diversas décadas vem envolvendo, sem
exceção, todos os batizados, em tal medida que aqueles que, por mandato divino,
possuem a missão de guiar a Igreja, foram levados a tomarem uma posição decidida.
Um destes efeitos, seguramente o mais relevante, é o distanciamento da prática
religiosa, com uma rejeição – às vezes consciente, outras vezes induzida por tendências
habituais subliminarmente impostas por uma cultura decidida a descristianizar a
sociedade civil – seja do depositum fidei, assim como autenticamente ensinado pelo
Magistério católico, seja da autoridade e do papel dos ministros sagrados, que Cristo
chamou para Si (Mc 3,13-19) a fim de cooperarem em seu plano de salvação e de
conduzirem os homens à obediência da fé (Eclo 48,10; Hb 4,1-11; Catecismo da Igreja
Católica, n. 144ss.). Daí o particular afã com o qual o Papa Bento XVI, desde os
primeiros momentos de seu pontificado, se esmera na re-apresentação da doutrina
católica como sistematização orgânica da sabedoria autenticamente revelada por Deus e
que em Cristo tem o seu cumprimento, doutrina cujo valor de veridicidade está ao
alcance da inteligência de todos os homens (Catecismo da Igreja Católica, n. 27ss.).

Porém, se é verdade que a Igreja existe, vive e se perpetua no tempo por meio da missão
evangelizadora (Cf. Concílio Vaticano II, Decreto Ad gentes), parece claro que, por isso
mesmo, o efeito mais prejudicial causado pela difusão da secularização é a crise do
ministério sacerdotal, crise que, por um lado, se manifesta numa sensível redução das
vocações, e, por outro, na propagação de um espírito de verdadeira e própria perda do
sentido sobrenatural da missão sacerdotal, formas de inautenticidade que, nas
degenerações mais extremas, em não poucas vezes, deram origem a situações de graves
sofrimentos. Por este motivo, a reflexão sobre o futuro do sacerdócio coincide com o
futuro da evangelização e, portanto, da própria Igreja. Em 1992, o Beato João Paulo II,
com a Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis, já tinha colocado
amplamente em evidência tudo isso que estamos dizendo, e, sucessivamente, tinha
impulsionado a considerar seriamente o problema, mediante uma série de intervenções e
iniciativas. Entre estas últimas, indubitavelmente recorda-se de modo todo especial o
Ano Sacerdotal 2009-2010, significativamente celebrado em concomitância com o 150º
Aniversário da morte de S. João Maria Vianney, patrono dos párocos e dos sacerdotes
com cura de almas.

Foram estas as razões fundamentais que, depois de uma longa série de pareceres e
consultas, nos viram envolvidos, em 1994, na redação da primeira edição do Diretório
para o Ministério e a Vida dos Presbíteros, um instrumento adequado para iluminar e
guiar no empenho pela renovação espiritual dos ministros sagrados, apóstolos que
necessitam sempre mais de orientação, já que estão imersos em um mundo difícil e
continuamente mutável.

A profícua experiência do Ano Sacerdotal (cujo eco está ainda próximo de nós), a
promoção de uma «nova evangelização», as ulteriores e preciosas indicações do
magistério de Bento XVI, e, infelizmente, as dolorosas feridas que atormentaram a
Igreja pela conduta de alguns de seus ministros, nos exortaram a repensar em uma nova
edição do Diretório, que pudesse ser mais adaptada ao presente momento histórico,
ainda que mantendo substancialmente inalterado o esquema do documento original e
também, naturalmente, o ensino perene da teologia e da espiritualidade do sacerdócio
católico. Já em sua breve introdução, aparecem claramente as suas intenções: «Parece
oportuno relembrar aqueles elementos doutrinais que são fundamentais e estão no
centro da identidade, da espiritualidade e da formação permanente dos presbíteros,
porque ajudam a aprofundar no significado de ser sacerdote e a crescer em sua exclusiva
relação com Cristo Cabeça e Pastor: o que necessariamente beneficiará todo o ser e agir
do presbítero». Que este não se torne um trabalho estéril, depende da medida com a qual
será concretamente acolhido por seus diretos destinatários. «Este Diretório é um
documento de edificação e santificação dos sacerdotes em um mundo, em muitos
aspectos, secularizado e indiferente».
Vale a pena considerar alguns temas tradicionais que foram aos poucos obscurecidos ou
às vezes rejeitados em benefício de uma visão funcionalista do sacerdote, considerado
como “profissional do sagrado”, ou de uma concepção “política”, que lhe confere
dignidade somente se for socialmente ativo. Tudo isto mortificou frequentemente a
dimensão mais conotativa, que se poderia definir “sacramental” do ministro que,
enquanto distribui os tesouros da graça divina, ainda que permanecendo nos limites de
uma humanidade ferida pelo pecado, é ele mesmo misteriosa presença de Cristo no
mundo.

Antes de tudo, a relação do sacerdote com o Deus Trino. A revelação de Deus como
Pai, Filho e Espírito Santo é ligada à manifestação de Deus como o Amor que cria e que
salva. Ora, se a redenção é uma espécie de criação e um prolongamento desta
(efetivamente é chamada de “nova”), então, o sacerdote, ministro da redenção, sendo,
em seu ser, fonte de vida nova, torna-se, por isto mesmo, instrumento da nova criação.
Isso já é suficiente para refletir a grandeza do ministro ordenado, independentemente
das suas capacidades e dos seus talentos, dos seus limites e das suas misérias. É isso que
induzia Francisco de Assis a declarar em seu Testamento : «E a eles e a todos os outros
quero temer, amar e honrar como meus senhores. E neles não quero considerar pecado,
porque neles escolho o Filho de Deus, e são meus senhores. E assim o faço porque nada
vejo corporalmente do próprio altíssimo Filho de Deus, neste mundo, senão o seu
santíssimo corpo e o seu santíssimo sangue, que eles recebem e somente eles ministram
aos outros». Aquele Corpo e aquele Sangue que regeneram a humanidade.

Outro ponto importante sobre o qual comumente pouco se insiste, mas de que procedem
todas as implicações práticas, é aquele da dimensão ontológica da oração, no qual a
Liturgia das Horas ocupa uma função especial. Acentua-se muitas vezes como esta seja,
no plano litúrgico, um tipo de prolongação do sacrifício eucarístico (Sl 49: «Honra-me
quem oferece um sacrifício de louvor»), e, no plano jurídico, um dever imprescindível.
Mas, na visão teológica do sacerdócio ordenado como participação ontológica na
“capitalidade” de Cristo, a oração do ministro sagrado, não obstante sua condição
moral, em todos os efeitos é oração de Cristo, com a mesma dignidade e a mesma
eficácia. Ademais, esta, com a autoridade que os Pastores receberam do Filho de Deus
de “empenhar” o Céu sobre as questões decididas na terra em benefício da santificação
dos fiéis (Mt 18,18), satisfaz plenamente o mandamento do Senhor de orar sem cessar,
em todo momento, sem se cansar (Lc 18,1; 21,36). Este é um ponto em que é bom
insistir. «Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe
presta culto e faz a sua vontade» (Jo 9,31). Ora, além de Cristo em pessoa, quem mais
honra o Pai e cumpre perfeitamente a sua vontade? Se, então, o sacerdote age in
persona Christi em cada uma de suas atividades de participação na redenção – com as
devidas diferenças: no ensino, na santificação, guiando os fiéis à salvação –, nada de sua
natureza pecadora pode ofuscar o poder da sua oração. Isto, obviamente, não nos deve
induzir a minimizar a importância de uma sã conduta moral do ministro (como, aliás, de
cada batizado), cuja medida deve ser a santidade de Deus (Lv 20,8; 1Pt 1,15-16); antes,
serve para sublinhar como a salvação vem de Deus e como Ele precisa de sacerdotes
para perpetuá-la no tempo, e como não são necessárias complicadas práticas ascéticas
ou particulares formas de expressão espiritual, porque todos os homens podem
desfrutar, também por meio da oração dos pastores, escolhidos por eles, dos efeitos
benéficos do sacrifício de Cristo.
Insiste-se ainda na importância da formação do sacerdote, que deve ser integral, sem
privilegiar um aspecto a despeito de outro. A essência da formação cristã, em cada caso,
não pode ser entendida como um “adestramento” que toque as faculdades espirituais
humanas (inteligência e vontade) nas suas, por assim dizer, manifestações exteriores.
Esta é uma transformação do próprio ser do homem, e cada mudança ontológica não
pode ser senão operada por Deus, por meio do Espírito, cuja obra, como se recita no
Credo, é de «dar a vida». “Formar” significa dar o aspecto de qualquer coisa, ou, em
nosso caso, de Alguém: «Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem
daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os Seus desígnios. Os
que Ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes a imagem
de seu Filho» (Rm 8,28-29). A formação específica do sacerdote, logo, já que ele é,
como dissemos acima, uma espécie de “co-criador”, requer um abandono todo especial
à obra do Espírito Santo, evitando, mesmo na valorização dos próprios talentos, que se
caia no perigo do ativismo, da impressão de que a eficácia da própria ação pastoral
dependa da notabilidade pessoal. Este ponto, bem considerado, pode certamente
infundir confiança naqueles que, num mundo amplamente secularizado e surdo às
requisições da fé, facilmente poderiam escorregar no desencorajamento e, deste, na
mediocridade pastoral, na tibieza e, por último, no questionamento daquela missão que,
no início, tinham acolhido com um entusiasmo tão grande e sincero.

O bom conhecimento das ciências humanas (em particular da filosofia e da bioética),


para enfrentar de cabeça erguida os desafios do laicismo; a valorização e o uso dos
meios de comunicação de massa, em auxílio à eficácia do anúncio da Palavra; a
espiritualidade eucarística como especificidade da espiritualidade sacerdotal (a
Eucaristia é o sacramento de Cristo que se faz dom incondicional e total do amor do Pai
aos irmãos, e tal deve ser também aquele que é participação de Cristo-dom) e da qual
depende o sentido do celibato (por muitas vozes combatido, porque mal compreendido);
a relação com a hierarquia eclesiástica e a fraternidade sacerdotal; o amor a Maria, Mãe
dos sacerdotes, cujo papel na economia da salvação é de primeiro nível, como elemento,
não decorativo ou opcional, mas essencial; esses, e outros temas, são sucessivamente
tratados neste Diretório, em um paradigma claro e completo, útil para purificar idéias
equívocas ou tortuosas sobre a identidade e a função do ministro de Deus na Igreja e no
mundo, e que, sobretudo, pode realmente servir de auxílio a cada presbítero para que se
sinta orgulhosamente membro daquele maravilhoso plano do amor de Deus, que é a
salvação do gênero humano.

Mauro Card. Piacenza


Prefeito

+Celso Morga Iruzubieta


Arcebispo tit. de Alba marittima
Secretário

INTRODUÇÃO
Bento XVI, em seu discurso aos participantes do Congresso promovido pela
Congregação para o Clero, em 12 de março de 2012, recordou que «o tema da
identidade presbiteral [...] é determinante para o exercício do sacerdócio ministerial no
presente e no futuro». Estas palavras sinalizam uma das questões centrais para a vida da
Igreja, como é, de fato, a compreensão do ministério ordenado.

Há alguns anos, partindo da rica experiência da Igreja acerca do ministério e da vida dos
presbíteros, condensada em diversos documentos do Magistério[1] e em particular nos
conteúdos da Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis [2], este Dicastério
apresentou o Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros[3].

A publicação deste documento respondia ainda a uma exigência fundamental: «a


prioritária tarefa pastoral da nova evangelização, que diz respeito a todo o Povo de Deus
e postula um novo ardor, novos métodos e uma nova expressão para o anúncio e o
testemunho do Evangelho, exige sacerdotes, radical e integralmente imersos no mistério
de Cristo, e capazes de realizar um novo estilo de vida pastoral»[4]. O referido
Diretório foi, em 1994, uma resposta a esta exigência e também às requisições feitas
por numerosos Bispos, seja durante o Sínodo de 1990, como por ocasião da consulta
geral ao Episcopado feita por este Dicastério.

Depois do ano de 1994, o Magistério do Beato João Paulo II foi rico de conteúdos sobre
o sacerdócio; um tema que, por sua vez, o Papa Bento XVI aprofundou com os seus
numerosos ensinamentos. O Ano Sacerdotal, de 2009-2010, foi um tempo
particularmente propício para meditar sobre o ministério sacerdotal e promover uma
autêntica renovação espiritual dos sacerdotes.

Enfim, com a transmissão da competência sobre os Seminários da Congregação para a


Educação Católica a este Dicastério, Bento XVI quis dar uma indicação clara referente a
relação inquebrantável entre a identidade sacerdotal e a formação dos chamados ao
sagrado ministério.

Por tudo isto, pareceu ser um dever providenciar uma versão atualizada do Diretório,
que recolhesse o rico Magistério mais recente[5].

Como é lógico, a nova redação respeita o esquema do documento original, que foi bem
acolhido pela Igreja, especialmente pelos próprios sacerdotes. Ao delinear os diversos
conteúdos, levaram-se em conta seja as sugestões de todo o Episcopado mundial,
consultado para este fim, seja aquilo que surgiu no curso dos trabalhos da Congregação
plenária, que aconteceu no Vaticano em outubro de 1993, seja, enfim, as reflexões de
não poucos teólogos, canonistas e especialistas na matéria, provenientes de diversas
áreas geográficas e inseridos nas atuais situações pastorais.

Na atualização do Diretório, procurou-se acentuar os aspectos mais relevantes do


ensinamento magisterial sobre o sagrado ministério desenvolvido desde 1994 até os
nossos dias, fazendo referência a documentos essenciais do Beato João Paulo II e de
Bento XVI. Mantiveram-se também as indicações práticas úteis para empreender
iniciativas, evitando, todavia, entrar naqueles detalhes que somente as legítimas práxis
locais e as condições reais de cada Diocese e Conferência Episcopal poderão utilmente
sugerir à prudência e ao zelo dos Pastores.
No atual clima cultural, convém recordar que a identidade do sacerdote como homem de
Deus não foi e não sará superada. Parece oportuno relembrar aqueles elementos
doutrinais que são fundamentais e estão no centro da identidade, da espiritualidade e da
formação permanente dos presbíteros, porque ajudam a aprofundar no significado de ser
sacerdote e a crescer em sua exclusiva relação com Cristo Cabeça e Pastor: o que
necessariamente beneficiará todo o ser e agir do presbítero.

Enfim, como dizia a Introdução da primeira edição do Diretório, esta versão atualizada
não quer oferecer uma exposição exaustiva sobre o sacerdócio ordenado, e também não
se limita a uma pura e simples repetição de tudo o que já foi autenticamente declarado
pelo Magistério da Igreja; deseja, mais precisamente, responder às principais
interrogações, de ordem doutrinal, disciplinar e pastoral, apresentadas aos sacerdotes
pelo desafio da nova evangelização, em vista da qual o Papa Bento XVI quis instituir
um oportuno Pontifício Conselho[6].

Deste modo, por exemplo, quis-se por especial ênfase na dimensão cristológica da
identidade do presbítero, e também sobre a comunhão, a amizade e a fraternidade
sacerdotais, considerados como bens vitais, dada sua incidência na existência do
sacerdote. Pode-se dizer o mesmo da espiritualidade presbiteral, enquanto fundada na
Palavra e nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Enfim, oferecem-se alguns
conselhos para uma adequada formação permanente, entendida como auxílio para
aprofundar no significado de ser sacerdote e, assim, viver com alegria e
responsabilidade a própria vocação.

Este Diretório é um documento de edificação e santificação dos sacerdotes em um


mundo, em muitos aspectos, secularizado e indiferente. O texto é destinado,
principalmente, através dos Bispos, a todos os presbíteros da Igreja latina, mesmo que
muitos dos seus conteúdos possam servir aos presbíteros da outros ritos. As diretivas
contidas aqui dizem respeito, em particular, aos presbíteros do clero secular diocesano,
embora muitas destas, com as devidas adaptações, devam ser levadas em consideração
também pelos presbíteros membros dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades
de vida apostólica.

Mas, como já indicado nas primeiras linhas, esta nova edição do Diretório representa
também um auxílio para os formadores de Seminário e os candidatos ao ministério
ordenado. O Seminário representa o momento e o lugar de crescimento e
amadurecimento da consciência do mistério de Cristo e, com esta, a consciência de que,
se no nível exterior a autenticidade do nosso amor a Deus se mede pelo amor que temos
pelos irmãos (1Jo 4,20-21), no nível interior o amor à Igreja é verdadeiro apenas se é
efeito de uma ligação intensa e exclusiva a Cristo. Refletir sobre o sacerdócio equivale,
assim, a meditar sobre Aquele pelo qual se dispôs a deixar tudo e seguí-Lo (Mc 10,17-
30). Deste modo, o projeto formativo se identifica em sua essência com o conhecimento
do Filho de Deus que, através da missão profética, sacerdotal e real, conduz cada
homem ao Pai por meio do Espírito: «A uns Ele constituiu apóstolos; a outros, profetas;
a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o
desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo, até que todos tenhamos
chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado
de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo» (Ef 4,11-13).
Que esta Nova edição do Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros possa
constituir para cada homem chamado a participar do sacerdócio de Cristo Cabeça e
Pastor um auxílio no aprofundamento da própria identidade vocacional e no
crescimento da própria vida interior; um encorajamento no ministério e na realização da
própria formação permanente, da qual cada um é o primeiro responsável; um ponto de
referência para um apostolado rico e autêntico, em benefício da Igreja e do mundo
inteiro.

Que Maria Santíssima faça ressoar em nossos corações, dia após dia, e particularmente
quando nos preparamos para celebrar o Sacrifício do altar, o seu convite nas bodas de
Caná da Galileia: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Confiemo-nos a Maria, Mãe dos
sacerdotes, com a oração do Papa Bento XVI:

«Mãe da Igreja,
nós, sacerdotes,
queremos ser pastores
que não se apascentam a si mesmos,
mas se oferecem a Deus pelos irmãos,
nisto mesmo encontrando a sua felicidade.
Queremos,
não só por palavras, mas com a própria vida,
repetir humildemente, dia após dia,
o nosso “eis-me aqui”.
Guiados por Vós,
queremos ser Apóstolos
da Misericórdia Divina,
felizes por celebrar cada dia
o Santo Sacrifício do Altar
e oferecer a quantos no-lo peçam
o sacramento da Reconciliação.
Advogada e Medianeira da graça,
Vós que estais totalmente imersa
na única mediação universal de Cristo,
solicitai a Deus, para nós,
um coração completamente renovado,
que ame a Deus com todas as suas forças
e sirva a humanidade como o fizestes Vós.
Repeti ao Senhor aquela
Vossa palavra eficaz:
“não têm vinho” (Jo 2, 3),
para que o Pai e o Filho derramem sobre nós,
como que numa nova efusão,
o Espírito Santo»[7].

I. IDENTIDADE DO PRESBÍTERO

Na sua Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis, o Beato João Paulo II
delineia a identidade do sacerdote: «Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma
representação sacramental de Jesus Cristo Cabeça e Pastor, proclamam a Sua palavra
com autoridade, repetem os Seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente
com o Batismo, a Penitência e a Eucaristia, exercitam a Sua amável solicitude, até ao
dom total de si mesmos, pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por
meio de Cristo no Espírito»[8].

O sacerdócio como dom

1. Toda a Igreja foi tornada participante da unção sacerdotal de Cristo no Espírito Santo.
Com efeito, na Igreja, «todos os fiéis formam um sacerdócio santo e real, oferecem
vítimas a Deus por meio de Jesus Cristo, e anunciam as virtudes d’Aquele que os
chamou das trevas para a sua luz admirável» (cf. 1Pd 2,5.9)[9]. Em Cristo, todo o seu
Corpo místico está unido ao Pai pelo Espírito Santo, para a salvação de todos os
homens.

Porém, a Igreja sozinha não pode levar para diante tal missão: toda a sua atividade tem
intrinsecamente necessidade da comunhão com Cristo, cabeça do seu Corpo.
Indissoluvelmente unida ao seu Senhor, ela recebe constantemente d’Ele mesmo o
influxo de graça e de verdade, de guia e de sustento (cf. Cl 2,19), para poder ser para
todos e para cada um «o sinal e o instrumento da íntima união do homem com Deus e
da unidade de todo o gênero humano»[10].

O sacerdócio ministerial encontra a sua razão de ser nesta união vital e operacional da
Igreja com Cristo. Com efeito, mediante tal ministério, o Senhor continua a exercer no
seu Povo aquela atividade que só a Ele pertence enquanto Cabeça do seu Corpo.
Portanto, o sacerdócio ministerial torna tangível a ação própria de Cristo Cabeça, e
testemunha que Cristo não se afastou da sua Igreja, mas continua a vivificá-la com o seu
sacerdócio perene. Por este motivo, a Igreja considera o sacerdócio ministerial como um
dom que Lhe foi concedido no ministério de alguns dos seus fiéis.

Tal dom instituído por Cristo para continuar a sua missão salvífica, foi conferido
inicialmente aos Apóstolos e continua na Igreja, por meio dos Bispos, seus sucessores,
que, por sua vez, o transmitem em grau subordinado aos presbíteros, enquanto
cooperadores da ordem episcopal; essa é a razão pela qual a identidade destes últimos,
na Igreja, deriva da sua confirmação com a missão da Igreja. Tal incumbência, para o
sacerdote, se realiza, por sua vez, na comunhão com o próprio Bispo[11], já que «a
vocação do sacerdote é excelsa e permanece um grande Mistério também para quantos a
receberam como dom. Os nossos limites e as nossas debilidades devem induzir-nos a
viver e a conservar com fé profunda esta dádiva preciosa, com a qual Cristo nos
configurou Consigo, tornando-nos partícipes da Sua Missão salvífica»[12].

Raiz sacramental

2. Mediante a ordenação sacramental, por meio da imposição das mãos e da oração


consecratória feita pelo do Bispo, estabelece-se no presbítero «um vínculo ontológico
específico que o une a Cristo, Sumo Sacerdote e Bom Pastor»[13].

A identidade do sacerdote deriva, portanto, da participação específica no Sacerdócio de


Cristo, pelo qual o ordenado se torna, na Igreja e para a Igreja, imagem real, viva e
transparente de Cristo Sacerdote, «uma representação sacramental de Cristo Cabeça e
Pastor »[14]. Por meio da consagração, o sacerdote «recebe como dom um “poder”
espiritual que é participação na autoridade com a qual Jesus Cristo, mediante o Seu
Espírito, guia a Igreja»[15].

Esta identificação sacramental com o Sumo e Eterno Sacerdote insere especificamente o


presbítero no mistério trinitário e, por intermédio do mistério de Cristo, na Comunhão
ministerial da Igreja, para servir o Povo de Deus[16], não como um encarregado de
questões religiosas, mas como Cristo, que veio «não para ser servido, mas para servir e
dar sua vida em resgate por uma multidão» (Mt 20,28). Deste modo, não é de se admirar
que «o princípio interior, a virtude que orienta e anima a vida espiritual do presbítero,
enquanto configurado a Cristo Cabeça e Pastor» seja «a caridade pastoral, participação
da própria caridade pastoral de Cristo Jesus: dom gratuito do Espírito Santo, e ao
mesmo tempo tarefa e apelo a uma resposta livre e responsável do sacerdote»[17].

Ao mesmo tempo, não se deve esquecer de que cada sacerdote é único como pessoa, e
possui os próprios modos de ser. Cada um é único e insubstituível. Deus não anula a
personalidade do sacerdote, antes, a requer completamente, desejando servir-se dela – a
graça, de fato, edifica a natureza – a fim de que o sacerdote possa transmitir as verdades
mais profundas e preciosas mediante as suas características, que Deus respeita e
também os outros devem respeitar.

1.1. Dimensão trinitária

Em comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito

3. O cristão, mediante o Batismo, entra na comunhão com o Deus Uno e Trino, que lhe
comunica a própria vida divina para fazê-lo tornar-se filho adotivo no Seu único Filho;
por isso, é chamado a reconhecer Deus como Pai e, pela da filiação divina, a
experimentar a providência paterna que nunca abandona os seus filhos. Se isto é
verdade para todo cristão, é igualmente verdade que, pela força da consagração recebida
no sacramento da Ordem, o sacerdote é colocado numa relação particular e específica
com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Com efeito, «a nossa identidade tem a
sua fonte última na caridade do Pai. Ao Filho, por Ele enviado como Sumo Sacerdote e
Bom Pastor, estamos unidos sacramentalmente mediante o sacerdócio ministerial pela
ação do Espírito Santo. A vida e o ministério do sacerdote são uma continuação da vida
e ação do próprio Cristo. Esta é a nossa identidade, a nossa verdadeira dignidade, a
fonte da nossa alegria, a certeza da nossa vida»[18].

A identidade, o ministério e a existência do presbítero estão, portanto, essencialmente


relacionados com a Santíssima Trindade, em ordem ao serviço sacerdotal à Igreja e a
todos os homens.

Na dinâmica trinitária da salvação

4. O sacerdote, «como prolongamento visível e sinal sacramental de Cristo na sua


própria presença diante da Igreja e do mundo como origem permanente e sempre nova
da salvação»[19], está inserido na dinâmica trinitária com uma responsabilidade
especial. A sua identidade provém do ministerium verbi et sacramentorum, o qual está
em relação essencial com o mistério do amor salvífico do Pai (cf. Jo 17,6-9; 1Cor 1,1;
2Cor 1,1), com o ser sacerdotal de Cristo, que escolhe e chama pessoalmente o seu
ministro para estar com Ele (cf. Mc 3,15) e com o dom do Espírito (cf. Jo 20,21), que
comunica ao sacerdote a força necessária para dar a vida a uma multidão de filhos de
Deus, convocados para o único corpo eclesial e encaminhados para o Reino do Pai.

Íntima relação com a Trindade

5. A partir daqui se compreende a característica essencialmente relacional (cf. Jo


17,11.21)[20] da identidade do sacerdote.

A graça e o caráter indelével, conferidos mediante a unção sacramental do Espírito


Santo[21], colocam, assim, o sacerdote em relação pessoal com a Trindade, uma vez
que ela constitui a fonte do ser e do agir sacerdotal.

O Decreto conciliar Presbyterorum Ordinis, desde o seu exórdio, sublinha a relação


fundamental entre o sacerdote e a Santíssima Trindade, mencionando distintamente as
três Pessoas divinas: «O ministério dos sacerdotes, enquanto unido à Ordem episcopal,
participa da autoridade com que o próprio Cristo edifica, santifica e governa o seu
corpo. Por isso, o sacerdócio dos presbíteros, supondo, é certo, os sacramentos da
iniciação cristã, é, todavia, conferido mediante um sacramento especial, em virtude do
qual os presbíteros ficam assinalados com um caráter particular e, dessa maneira,
configurados a Cristo sacerdote, de tal modo que possam agir em nome de Cristo
cabeça. [...] Por isso, o fim que os presbíteros pretendem atingir com o seu ministério e
com a sua vida é a glória de Deus Pai em Cristo»[22].

Portanto, tal relação deve ser necessariamente vivida pelo sacerdote duma maneira
íntima e pessoal, em diálogo de adoração e de amor com as Três Pessoas divinas,
consciente de que o dom recebido lhe foi dado para o serviço de todos.

1.2. Dimensão cristológica

Identidade específica

6. A dimensão cristológica, como a trinitária, deriva diretamente do sacramento que


configura ontologicamente a Cristo Sacerdote, Mestre, Santificador e Pastor do seu
Povo[23]. Os presbíteros, além disso, participam do único sacerdócio de Cristo como
colaboradores dos Bispos: esta determinação é propriamente sacramental e, por isso,
não pode ser entendida numa perspectiva meramente “organizativa”.

Aos fiéis que, permanecendo enxertados no sacerdócio comum ou batismal, são


constituídos no sacerdócio ministerial, é dada uma participação indelével no mesmo e
único sacerdócio de Cristo na dimensão pública da mediação e da autoridade, em
relação à santificação, ao ensino e à condução de todo o Povo de Deus. Assim, se, por
um lado, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico estão
necessariamente ordenados um ao outro, dado que um e outro, cada um a seu modo,
participam do único sacerdócio de Cristo, por outro lado, eles diferem entre si
essencialmente, e não apenas em grau[24].

Neste sentido, a identidade do sacerdote é nova em relação à de todos os cristãos que,


mediante o Batismo, já participam no único sacerdócio de Cristo e são chamados a dar
testemunho d’Ele em toda a terra[25]. A especificidade do sacerdócio ministerial,
entretanto, se define não a partir de uma suposta “superioridade” relativamente ao
sacerdócio comum, e sim pelo serviço que é chamado a prestar em favor de todos os
fiéis, para que estes possam aderir à mediação e ao poder de Cristo, que se tornam
visíveis pelo exercício do sacerdócio ministerial.

Nesta sua peculiar identidade cristológica, o sacerdote deve ter consciência de que a sua
vida é um mistério inserido totalmente no mistério de Cristo e da Igreja dum modo novo
e específico, e que isto o empenha totalmente no ministério pastoral e dá sentido à sua
vida[26]. Esta consciência da sua identidade é de especial importância no contexto
cultural secularizado, em que «o sacerdote parece “alheio” ao sentimento coral,
precisamente pelos aspectos mais fundamentais do seu ministério, como aqueles de ser
homem do sagrado, subtraído ao mundo para interceder a favor do mundo, constituído
em tal missão por Deus e não pelos homens (cf. Hb 5, 1)»[27].

7. Tal consciência – fundada sobre o ligame ontológico com Cristo – se afasta de


concepções “funcionalistas”, que pretenderam ver o sacerdote apenas como agente
social ou dispensador de ritos sagrados, «correndo o risco de atraiçoar o próprio
Sacerdócio de Cristo»[28] e reduzindo a vida do sacerdote a um mero cumprimento do
dever. Todos os homens têm um natural anseio religioso, que lhes distingue dos outros
seres vivos e que lhes faz procurar a Deus. Por isso, aquilo que as pessoas buscam no
sacerdote é o homem de Deus, junto do qual possam descobrir a Sua Palavra, a Sua
Misericórdia e o Pão do céu, «que dá vida ao mundo» (Jo 6,33): «Deus é a única
riqueza que, de modo definitivo, os homens desejam encontrar num sacerdote»[29].

Sendo cônscio da sua identidade, o sacerdote, diante da exploração, da miséria ou da


opressão, da mentalidade secularizada ou relativista, que põe em dúvida as verdades
fundamentais da nossa fé, ou de tantas outras situações da cultura pós-moderna,
encontrará ocasião para exercitar o seu ministério específico de pastor, chamado a
anunciar ao mundo o Evangelho. O presbítero é «escolhido entre os homens e
constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus»
(Hb 5,1). Diante das almas, ele anuncia o mistério de Cristo, a cuja luz apenas pode ser
compreendido plenamente o mistério do homem[30].

Consagração e missão

8. Cristo associa os Apóstolos à sua própria missão. «Como o Pai me enviou, assim eu
vos envio a vós» (Jo 20, 21). Na própria sagrada Ordenação está ontologicamente
presente a dimensão missionária. O sacerdote é escolhido, consagrado e enviado para
atualizar eficazmente esta missão eterna de Cristo[31], de quem se torna autêntico
representante e mensageiro. Não se trata de uma simples função de representação
extrínseca, mas constitui um verdadeiro instrumento de transmissão da graça da
Redenção: «Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem
me despreza, despreza Aquele que me enviou» (Lc 10, 16).

Pode-se, portanto, dizer que a configuração a Cristo, mediante a consagração


sacramental, define o sacerdote no seio do Povo de Deus, fazendo-o participar a seu
modo no poder santificador, de magistério e pastoral do próprio Jesus Cristo, Cabeça e
Pastor da Igreja[32]. O sacerdote, tornando-se mais parecido com Cristo, torna-se –
graças a Ele, não a si mesmo – colaborador da salvação dos irmãos: não é mais ele que
vive e existe, mas Cristo nele (cf. Gl 2,20).
Agindo in persona Christi Capitis, o sacerdote torna-se o ministro das ações salvíficas
essenciais, transmite as verdades necessárias à salvação e apascenta o Povo de Deus,
conduzindo-o rumo à santidade[33].

Mas a conformação do sacerdote a Cristo não passa somente pela atividade


evangelizadora, sacramental e pastoral. Verifica-se também na oblação de si mesmo e
na expiação, ou seja, aceitando com amor os sofrimentos e os sacrifícios próprios do
ministério sacerdotal[34]. O Apóstolo são Paulo expressou esta dimensão qualificante
do ministério com a célebre expressão: «Me alegro nos sofrimentos suportados por vós.
O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a
Igreja» (Cl 1,24).

1.3. Dimensão pneumatológica

Caráter sacramental

9. Na ordenação presbiteral, o sacerdote recebeu o selo do Espírito Santo, que fez dele
um homem assinalado com o caráter sacramental a fim de ser, para sempre, ministro de
Cristo e da Igreja. Seguro da promessa de que o Consolador permanecerá com ele para
sempre (cf. Jo 14,16-17), o sacerdote sabe que nunca perderá a presença e o poder
eficaz do Espírito Santo, para poder exercer o seu ministério e viver a caridade pastoral
– fonte, critério e medida do amor e do serviço – como dom total de si para a salvação
dos seus irmãos. Esta caridade determina no presbítero o seu próprio modo de pensar,
de agir e de comportar-se com os outros.

Comunhão pessoal com o Espírito Santo

10. É ainda o Espírito Santo que, na Ordenação, confere ao sacerdote a missão profética
de anunciar e explicar, com autoridade, a Palavra de Deus. Inserido na comunhão da
Igreja com toda a ordem sacerdotal, o presbítero será guiado pelo Espírito de Verdade,
que o Pai enviou por meio de Cristo, e que lhe ensina todas as coisas, recordando tudo o
que Jesus disse aos Apóstolos. Portanto, o presbítero, com a ajuda do Espírito Santo e o
estudo da Palavra de Deus nas Escrituras, à luz da Tradição e do Magistério[35],
descobre a riqueza da Palavra que deve anunciar à comunidade eclesial que lhe foi
confiada.

Invocação do Espírito

11. O sacerdote é ungido pelo Espírito Santo. Isto comporta não apenas o dom do sinal
indelével conferido pela unção, mas também a necessidade de invocar constantemente o
Paráclito – dom do Cristo ressuscitado – sem o qual o ministério do presbítero seria
estéril. O sacerdote pede diariamente a luz do Espírito Santo para imitar a Cristo.

Mediante o caráter sacramental e identificando a sua intenção com a da Igreja, o


sacerdote está sempre em comunhão com o Espírito Santo na celebração da liturgia,
sobretudo na Eucaristia e nos outros sacramentos. É o próprio Cristo que age em favor
da Igreja, por meio do Espírito Santo invocado na Sua potência eficaz pelo sacerdote,
celebrante in persona Christi[36].
Portanto, a celebração sacramental recebe a sua eficácia da palavra de Cristo, que a
instituiu, e da potência do Espírito, que a Igreja frequentemente invoca mediante a
epiclese.

Isto é particularmente evidente na Oração eucarística, na qual o sacerdote, invocando a


potência do Espírito Santo sobre o pão e sobre o vinho, pronuncia as palavras de Jesus
para que aconteça a transubstanciação do pão no corpo “dado” e do vinho no sangue
“derramado” de Cristo, e se torne sacramentalmente presente o seu único sacrifício
redentor[37].

Força para guiar a comunidade

12. É, enfim, na comunhão do Espírito Santo que o sacerdote encontra a força para guiar
a comunidade que lhe foi confiada e para mantê-la na unidade querida pelo Senhor[38].
A oração do sacerdote no Espírito Santo pode ser modelada pela oração sacerdotal de
Jesus Cristo (cf. Jo 17). Ele deve rezar, portanto, pela unidade dos fiéis, para que sejam
uma coisa só, a fim de que o mundo creia que o Pai enviou o Filho para a salvação de
todos.

1.4. Dimensão eclesiológica

“Na” e “diante da” Igreja

13. Cristo, origem permanente e sempre nova da salvação, é o mistério fontal de que
deriva o mistério da Igreja, seu Corpo e sua Esposa, chamada pelo seu Esposo a ser
instrumento de redenção. Por meio da missão confiada aos Apóstolos e aos seus
Sucessores, Cristo continua a dar a vida à sua Igreja. É nessa que o ministério dos
presbíteros encontra o seu locus natural e cumpre a sua missão.

Por meio do mistério de Cristo, o sacerdote, exercendo o seu múltiplo ministério, é


inserido também no mistério da Igreja que, «na fé, toma consciência de não existir por
si mesma, mas pela graça de Cristo, no Espírito Santo»[39]. Deste modo, o sacerdote,
enquanto é inserido na Igreja, coloca-se também à frente dela[40].

A expressão eminente desta colocação do sacerdote na e diante da Igreja é a celebração


da Eucaristia, na qual ele «convida o povo a elevar os corações para o Senhor, na oração
e na ação de graças, e associa-o a si na oração que ele, em nome de toda a comunidade,
dirige a Deus Pai por Jesus Cristo no Espírito Santo»[41].

Participante do caráter esponsal de Cristo

14. O sacramento da Ordem, efetivamente, torna o sacerdote participante não só do


mistério de Cristo Sacerdote, Mestre, Cabeça e Pastor, mas, de alguma maneira,
também de Cristo «Servo e Esposo da Igreja»[42]. Esta é o «Corpo» dEle, que a amou e
a ama a ponto de dar a vida por ela (cf. Ef 5,25); regenera-a e purifica-a continuamente
por meio da palavra de Deus e dos sacramentos (cf. ibid. 5,26); esforça-se por torná-la
cada vez mais bela (cf. ibid. 5,27) e, enfim, a sustenta e a trata com solicitude (cf. ibid.
5,29).
Os presbíteros, que – colaboradores da Ordem Episcopal – constituem com o seu Bispo
um único Presbitério[43] e participam, em grau subordinado, do único sacerdócio de
Cristo, de certo modo, participam, também, à semelhança do Bispo, daquela dimensão
esponsal em relação à Igreja, que é bem simbolizada no rito da ordenação episcopal
com a entrega do anel[44].

Os presbíteros, que «em cada uma das comunidades locais de fiéis tornam, por assim
dizer, presente o Bispo, a que estão unidos mediante um confiante e generoso
espírito»[45], deverão ser fiéis à Esposa e, como ícones viventes do Cristo Esposo,
tornar operante a multiforme doação de Cristo à sua Igreja. Chamado por um ato de
amor sobrenatural, absolutamente gratuito, o sacerdote deve amar a Igreja como Cristo a
amou, consagrando a ela todas as suas energias e dando-se com caridade pastoral até dar
quotidianamente a sua própria vida.

Universalidade do sacerdócio

15. O mandamento do Senhor de ir a todos os povos (cf. Mt 28,18-20) constitui uma


outra modalidade deste estar do sacerdote «à frente» da Igreja[46]. Enviado – missus –
pelo Pai, por meio de Cristo, o sacerdote pertence «in modo immediato» à Igreja
universal[47], que tem a missão de anunciar a Boa Nova até «aos confins da terra» (At
1, 8)[48].

«O dom espiritual, recebido pelos sacerdotes na ordenação, prepara-os para uma


vastíssima e universal missão de salvação»[49]. Com efeito, pela Ordem e ministério
recebido, todos os sacerdotes são associados ao Corpo Episcopal e, em comunhão
hierárquica com ele, segundo a sua vocação e graça, servem ao bem de toda a
Igreja[50]. Portanto, a incardinação[51] não deve fechar o sacerdote numa mentalidade
restrita e particularista, mas abri-lo ao serviço de outras Igrejas, porque toda a Igreja é a
realização particular da única Igreja de Jesus Cristo.

Neste sentido, cada sacerdote deve receber uma formação que lhe permita servir a Igreja
universal e não apenas especializar-se num único lugar ou numa tarefa específica. Esta
“formação para a Igreja universal” significa estar pronto a enfrentar as mais diversas
circunstâncias, com a constante disponibilidade de servir, sem condições, a Igreja
inteira[52].

Missionariedade do sacerdócio para uma Nova Evangelização

16. O presbítero, participante da consagração de Cristo, é envolvido na sua missão


salvífica de acordo com o seu último mandamento: «Ide, pois, e ensinai a todas as
nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar
tudo o que vos prescrevi» (Mt 28,19-20; cf. Mc 16,15-18; Lc 24,47-48; At 1,8). A tensão
missionária é parte constitutiva da existência do sacerdote – que é chamado a se fazer
“pão partido para a vida do mundo” –, porque «a missão primeira e fundamental, que
deriva dos santos mistérios celebrados, é dar testemunho com a nossa vida. O enlevo
pelo dom que Deus nos concedeu em Cristo, imprime à nossa existência um dinamismo
novo que nos compromete a ser testemunhas do seu amor. Tornamo-nos testemunhas
quando, através das nossas ações, palavras e modo de ser, é Outro que aparece e Se
comunica»[53].
«Os presbíteros, por força do sacramento da Ordem, são chamados a partilhar a
solicitude pela missão: “o dom espiritual que os presbíteros receberam na Ordenação
prepara-os, não para uma missão limitada e restrita, mas para uma vastíssima e
universal missão de salvação [...]” (Presbyterorum Ordinis, 10). Todos os sacerdotes
devem ter um coração e uma mentalidade missionária, estarem abertos às necessidades
da Igreja e do mundo»[54]. Esta exigência da vida da Igreja no mundo contemporâneo
deve ser sentida e vivida por cada presbítero. Por isso, cada sacerdote é chamado a ter
espírito missionário, isto é, um espírito verdadeiramente “católico” que, partindo de
Cristo, se dirige a todos, a fim de que «todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade» (1Tm 2,4).

Por isso, é importante que ele tenha plena consciência desta realidade missionária do
seu sacerdócio e a viva em total sintonia com a Igreja, que sente a necessidade de enviar
os seus ministros para os lugares onde é mais urgente a sua missão, especialmente junto
aos mais pobres[55]. Daí derivará também uma mais justa distribuição do clero[56]. A
propósito, devemos reconhecer o quanto estes sacerdotes que se disponibilizam a servir
noutras dioceses ou países são um grande dom, tanto para a Igreja particular para a qual
são enviados quanto para aquela que os envia.

17. «Todavia, hoje verifica-se uma crescente confusão que induz muitos a deixarem
inaudível e inoperante o mandato missionário do Senhor (cf. Mt 28,19). Muitas vezes,
pensa-se que toda a tentativa de convencer os outros em questões religiosas seja um
limite posto à liberdade. Seria lícito somente expor as próprias idéias e convidar as
pessoas a agir segundo a consciência, sem favorecer uma conversão a Cristo e à fé
católica. Diz-se que basta ajudar os homens a serem mais homens ou mais fiéis à
própria religião, que basta construir comunidades capazes de trabalhar pela justiça, pela
liberdade, pela paz e pela solidariedade. Além disso, alguns defendem que não se
deveria anunciar Cristo a quem não O conhece, nem favorecer a adesão à Igreja, pois
seria possível ser salvos mesmo sem um conhecimento explícito de Cristo e sem uma
incorporação formal à Igreja»[57].

O Servo de Deus Paulo VI também se dirigiu aos sacerdotes ao afirmar: «não deixaria
de ter a sua utilidade que cada cristão e cada evangelizador aprofundasse na oração este
pensamento: os homens poderão salvar-se por outras vias, graças à misericórdia de
Deus, se nós não lhes anunciarmos o Evangelho; mas nós, poder-nos-emos salvar se,
por negligência, por medo ou por vergonha – aquilo que São Paulo chamava exatamente
“envergonhar-se do Evangelho” (cf. Rm 1,16) – ou por se seguirem ideias falsas, nos
omitirmos de o anunciar? Isso seria, com efeito, trair o apelo de Deus que, pela voz dos
ministros do Evangelho, quer fazer germinar a semente; e dependerá de nós que essa
semente venha a tornar-se uma árvore e a produzir todo o seu fruto»[58]. Por isso, mais
do que nunca, o clero deve sentir-se apostolicamente empenhado em unir todos os
homens a Cristo, na sua Igreja. «Todos os homens são chamados a esta unidade católica
do Povo de Deus, a qual anuncia e promove a paz universal»[59].

Portanto, não são admissíveis todas aquelas opiniões que, em nome dum malentendido
respeito às culturas particulares, tendem a desnaturar a ação missionária da Igreja,
chamada a cumprir o mesmo ministério universal de salvação, que transcende e deve
vivificar todas as culturas[60]. A dilatação universal é intrínseca ao ministério
sacerdotal e, por conseguinte, irrenunciável.
18. Desde os inícios da Igreja, os apóstolos obedeceram o último mandamento do
Senhor ressuscitado. Sobre as suas pegadas, a Igreja através dos séculos «evangeliza
sempre e jamais interrompeu o caminho da evangelização»[61].

«A evangelização, no entanto, realiza-se de um modo diferente, segundo as diversas


situações em que acontece. Num sentido próprio é a “missio ad gentes” dirigida àqueles
que não conhecem Cristo. Num sentido mais lato, fala-se de “evangelização”, relativo
ao aspecto ordinário da pastoral»[62]. A evangelização é a ação da Igreja que proclama
a Boa Notícia em vista da conversão, do convite à fé, do encontro pessoal com Jesus, do
tornar-se seu discípulo na Igreja, do empenhar-se em pensar como Ele, julgar como Ele
e viver como Ele viveu[63]. A evangelização começa com o anúncio do Evangelho e
encontra o seu último cumprimento na santidade do discípulo que, como membro da
Igreja, tornou-se evangelizador. Neste sentido, a evangelização é a ação global da
Igreja, «a tarefa central e unificadora do serviço que a Igreja, e nela os fiéis leigos, são
chamados a prestar à família dos homens»[64].

«O processo evangelizador, consequentemente, é estruturado em etapas ou “momentos


essenciais”: a ação missionária para os não crentes e para aqueles que vivem na
indiferença religiosa; a ação catequética e de iniciação para aqueles que optam pelo
Evangelho e para aqueles que necessitam completar ou reestruturar a sua iniciação; e a
ação pastoral para os fiéis cristãos já maduros, no seio da comunidade cristã. Esses
momentos, no entanto, não são etapas concluídas: reiteram-se, se necessário, uma vez
que darão o alimento evangélico mais adequado ao crescimento espiritual de cada
pessoa ou da própria comunidade»[65].

19. «Contudo, observamos um processo progressivo e preocupante de descristianização


e de perda dos valores humanos essenciais. Uma boa parte da humanidade de hoje não
encontra na evangelização permanente da Igreja o Evangelho, ou seja, uma resposta
convincente à pergunta: como viver? [...] Todos têm necessidade do Evangelho; o
Evangelho destina-se a todos e não apenas a um círculo determinado, e portanto somos
obrigados a procurar novos caminhos para levar o Evangelho a todos»[66]. Mesmo que
preocupante, esta descristianização não pode nos levar a duvidar da capacidade que o
Evangelho tem de tocar o coração dos nossos contemporâneos: «Alguém talvez se
pergunte se o homem e a mulher da cultura pós-moderna, das sociedades mais
avançadas, ainda saberão abrir-se ao querigma cristão. A resposta deve ser positiva. O
querigma pode ser compreendido e acolhido por qualquer ser humano, em qualquer
tempo ou cultura. Mesmo os ambientes mais intelectuais ou mais simples podem ser
evangelizados. Devemos, até, crer que também os chamados pós-cristãos possam, de
novo, ser tocados pela pessoa de Jesus Cristo»[67].

O Papa Paulo VI já afirmara que «as condições da sociedade obrigam-nos a todos a


rever os métodos, a procurar, por todos os meios ao alcance, e a estudar o modo de fazer
chegar ao homem moderno a mensagem cristã, na qual somente ele poderá encontrar a
resposta às suas interrogações e a força para a sua aplicação de solidariedade
humana»[68]. O Beato João Paulo II apresentou o novo milênio deste modo: «Hoje
tem-se de enfrentar com coragem uma situação que se vai tornando cada vez mais
variada e difícil com a progressiva mistura de povos e culturas que caracteriza o novo
contexto da globalização»[69]. Assim, iniciou-se uma “nova evangelização”, que não é
porém uma “reevangelização”[70], pois o anúncio é «sempre o mesmo. A cruz está
erguida sobre o mundo que gira»[71]. É nova, enquanto «procuramos, além da
evangelização permanente, jamais interrompida e que nunca se deve deter, uma nova
evangelização, capaz de se fazer ouvir por aquele mundo que não encontra o acesso à
evangelização “clássica”»[72].

20. A nova evangelização faz referência, sobretudo[73] mas não exclusivamente[74],


“às Igrejas de antiga fundação”[75], onde estiveram aqueles que, «batizados embora na
Igreja católica, abandonaram os sacramentos ou até mesmo a fé»[76]. Os sacerdotes têm
«o dever de anunciar a todos o Evangelho de Deus, realizando o mandato do Senhor:
“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a todas as criaturas” (Mc 16,15)»[77]. São
«ministros de Jesus Cristo no meio dos povos»[78], «devedores de todos, para
comunicarem a todos a verdade do Evangelho, de que gozam no Senhor»[79], tanto
mais quanto «o número daqueles que ignoram Cristo, e não fazem parte da Igreja está
em contínuo aumento; mais ainda: quase duplicou, desde o final do Concílio. A favor
desta imensa humanidade, amada pelo Pai a ponto de lhe enviar o Seu Filho, é evidente
a urgência da missão»[80]. O Beato João Paulo II afirmava solenemente: «Sinto
chegado o momento de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na
missão ad gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição da Igreja se pode esquivar deste
dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos»[81].

21. Os sacerdotes devem empenhar todas as suas forças nesta nova evangelização, cujas
características foram definidas pelo Beato João Paulo II: «nova em seu ardor, em seus
métodos e em sua expressão»[82].

Em primeiro lugar, «é preciso reacender em nós o zelo das origens, deixando-nos


invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu ao Pentecostes. Devemos
reviver em nós o sentimento ardente de Paulo que o levava a exclamar: “Ai de mim se
não evangelizar!” (1Cor 9,16)»[83]. De fato, «quem verdadeiramente encontrou Cristo,
não pode guardá-Lo para si; tem de O anunciar»[84]. A exemplo dos Apóstolos, o zelo
apostólico é fruto da experiência surpreendente que nasce da proximidade de Jesus. «A
missão é um problema de fé, é a medida exata da nossa fé em Cristo e no Seu amor por
nós»[85]. O Senhor não cessa de enviar o seu Espírito, de cuja força devemos nos
deixar regenerar em vista daquele «renovado impulso missionário, expressão de uma
nova e generosa abertura ao dom da graça»[86]. «É essencial e indispensável que o
presbítero se decida, com viva consciência e determinação, não apenas a acolher e
evangelizar aqueles que o procuram, tanto na paróquia como em outros lugares, mas a
“levantar- se e ir” em busca, primeiro, dos batizados que por motivos diversos não
vivem sua pertença à comunidade eclesial, e também daqueles que pouco ou nada
conhecem a Jesus Cristo»[87].

Os sacerdotes se recordem que não podem empenhar-se sozinhos na missão. Como


pastores do seu povo, formem as comunidades cristãs para o testemunho evangélico e o
anúncio da Boa Nova. A «nova missionariedade não poderá ser delegada a um grupo de
“especialistas”, mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus. [...]
É preciso um novo ímpeto apostólico, vivido como compromisso diário das
comunidades e grupos cristãos»[88]. A paróquia não é apenas um lugar para se fazer a
catequese, mas é também um ambiente vivo no qual deve acontecer a nova
evangelização[89], «concebendo-se numa “missão permanente”» [90]. Cada
comunidade é imagem da própria Igreja, «chamada, por sua natureza, a sair de si mesma
dirigindo-se ao mundo, para ser sinal do Emanuel, do Verbo que se fez carne, do Deus-
conosco»[91]. «Na paróquia, os presbíteros precisarão de convocar os membros da
comunidade, consagrados e leigos, para prepará-los adequadamente e enviá-los em
missão evangelizadora a cada pessoa, a cada família, até mesmo mediante visitas
domiciliares, e a todos os ambientes sociais nos próprios territórios»[92]. Recordando-
se que a Igreja é «mistério de comunhão e missão»[93], os pastores levarão as
comunidades a serem testemunhas com a sua «fé professada, celebrada, vivida e
rezada»[94] e com o seu entusiasmo[95]. O Papa Paulo VI exortava à alegria: «E que o
mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, possa receber a
Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou
ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, e a alegria de
Cristo que receberam por primeiro»[96]. Os fiéis precisam ser encorajados por seus
pastores, a fim de que não tenham mêdo de anunciar a fé com franqueza, tanto mais
quanto quem evangeliza experimenta que o próprio ato missionário é fonte de
renovação pessoal: «De fato, a missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade,
dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece!»[97].

22. A evangelização é também nova em seus métodos. Estimulado pelo Apóstolo, que
exclamava: «Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!» (1Cor 9,16), ele saberá
utilizar todos aqueles meios de transmissão que as ciências e a tecnologia moderna
oferecem[98].

Certamente, nem tudo depende de tais meios ou das capacidades humanas, pois a graça
divina pode alcançar o seu efeito independentemente da ação dos homens; mas, no
plano de Deus, a pregação da Palavra é, normalmente, o canal privilegiado para a
transmissão da fé e para a missão evangelizadora.

Saberá também envolver os leigos na evangelização através daqueles meios modernos.


Em todo caso, a sua participação nestes novos âmbitos deverá refletir sempre especial
caridade, sentido sobrenatural, sobriedade e temperança, de modo que todos se sintam
atraídos não tanto pela figura do sacerdote, mas sim pela Pessoa de Jesus Cristo Nosso
Senhor.

23. A terceira característica da nova evangelização é a novidade na sua expressão. Em


um mundo que muda, a consciência da própria missão de anunciador do Evangelho,
como instrumento de Cristo e do Espírito Santo, deverá concretizar-se pastoralmente
sempre mais, de modo que o sacerdote possa vivificar, à luz da Palavra de Deus, as
diversas situações e os diversos ambientes nos quais desenvolve o seu ministério.

Para ser eficaz e credível, é importante que o presbítero – na perspectiva da fé e do seu


ministério – conheça, com construtivo senso crítico, as ideologias, a linguagem, os
meandros culturais, as tipologias difundidas através dos meios de comunicação que, em
boa parte, condicionam a mentalidade. Saberá dirigir-se a todos «sem nunca esconder as
exigências mais radicais da mensagem evangélica, mas adaptando-a, em termos de
sensibilidade e linguagem, à situação de cada um, segundo o exemplo de Paulo que
afirmava: “Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo o custo” (1Cor 9,22)»[99].
O Concílio Ecumênico Vaticano II afirmou que a Igreja «aprendeu, desde os começos
da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos
diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de
adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios.
Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a
evangelização»[100]. No respeito devido ao caminho sempre diversificado de cada
pessoa e na atenção pelas diversas culturas, nas quais a mensagem cristã deve ser
recebida, permanecendo plenamente íntegra, na total fidelidade ao anúncio evangélico e
à tradição eclesial, o cristianismo do terceiro milênio levará o rosto de tantas culturas,
antigas e modernas, cujos específicos valores não são renegados, mas purificados e
levados à sua plenitude[101].

Paternidade espiritual

24. A vocação pastoral dos sacerdotes é grande e universal: destina-se a toda a Igreja e,
portanto, é também missionária. «Normalmente, está ligada ao serviço de determinada
comunidade do Povo de Deus, onde cada fiel espera encontrar atenção, dedicação e
amor»[102]. Por isso, o ministério do sacerdócio e também ministério de
paternidade[103]. Através da sua dedicação às almas, tantas são geradas à nova vida em
Cristo. Trata-se de uma verdadeira paternidade espiritual, como exclamava São Paulo:
«Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora,
fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho» (1Cor 4,15).

Como Abraão, o sacerdote também se torna «pai de muitos povos» (Rm 4,18), e, no
crescimento cristão que floresce entorno a si, encontra a recompensa para as fadigas e
sofrimentos do seu serviço cotidiano. Além disso, também no nível sobrenatural, tanto
quanto no nível natural, a missão da paternidade não termina com o nascimento, mas se
estende a abraçar toda a vida: «Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do
ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua
peregrinação? O sacerdote. Quem há de preparar para comparecer diante de Deus,
lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote.
E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a
serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […]
Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu»[104].

Os presbíteros transformam em vida aquelas palavras do Apóstolo: «Filhinhos meus,


por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós!» (Gl 4,19).
Deste modo, vivem com generosidade renovada cada dia este dom da paternidade
espiritual e orientam para esta o cumprimento de cada dever do seu ministério.

Autoridade como “amoris officium”

25. Uma manifestação ulterior da colocação do sacerdote à frente da Igreja está em ele
ser o guia que conduz à santificação os fiéis confiados ao seu ministério, que é
essencialmente pastoral, apresentando-se, porém, com aquele prestígio que fascina e faz
com que a mensagem se torne credível (cf. Mt 7,29). Toda autoridade deve ser exercida,
efetivamente, em espírito de serviço, como amoris officium e dedicação desinteressada
pelo bem do rebanho (cf. Jo 10,11; 13,14)[105].

Esta realidade, a ser viver com humildade e coerência, pode estar sujeita a duas
tentações opostas. A primeira é a de exercer o próprio ministério pondo e dispondo do
rebanho (cf. Lc 22,24-27; 1Ped 5,1-4), enquanto a segunda tentação é a de esvaziar,
mediante uma incorreta concepção de comunidade, a própria configuração a Cristo
Cabeça e Pastor.
A primeira tentação foi forte também para os próprios discípulos e recebeu de Jesus
uma correção precisa e repetida. Quando esta dimensão é descuidada, não é difícil cair
na tentação do “clericalismo”, com um desejo de subjugar os leigos que se torna fonte
de antagonismos entre os ministros sagrados e o povo.

O sacerdote não deve encarar a sua própria função como que reduzida a de um simples
dirigente. Ele é mediador – a ponte –, isto é, aquele que deve recordar sempre que o
Senhor e Mestre «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10,45); que se
ajoelhou a lavar os pés aos seus discípulos (cf. Jo 13,5) antes de morrer na Cruz e antes
de enviá-los por todo o mundo (cf. Jo 20,21). Assim, o presbítero, ocupado no cuidado
do rebanho que pertence ao Senhor, procurará «proteger a grei, alimentando-a e
conduzindo-a para Ele, o Bom Pastor que deseja a salvação de todos. Por conseguinte,
alimentar o rebanho do Senhor é um ministério de amor vigilante, que exige a dedicação
total, até esgotar as próprias forças e, se for necessário, até ao sacrifício da vida»[106].

Os sacerdotes darão autêntico testemunho do Senhor Ressuscitado, a quem foi dado


«todo o poder no céu e na terra» (cf. Mt 28,18), se exercerem o próprio poder gastando-
o no humilde e autorizado serviço em favor do rebanho[107] e no respeito das tarefas
que Cristo e a Igreja confiam aos fiéis leigos[108] e aos fiéis consagrados pela profissão
dos conselhos evangélicos[109].

Tentação do democratismo e do igualitarismo

26. Às vezes, acontece que, para evitar este primeiro desvio, se cai no segundo, tendente
a eliminar todas as diferenças de funções entre os membros do Corpo de Cristo que é a
Igreja, negando na prática a distinção entre o sacerdócio comum e o ministerial[110].

Entre as diversas formas desta negação, que hoje se notam, encontra-se o chamado
«democratismo», que leva a não reconhecer a autoridade e a graça capital de Cristo,
presente nos ministros sagrados, e a desnaturar a Igreja como Corpo Místico de Cristo.
A propósito, convém recordar que a Igreja reconhece todos os méritos e valores que a
cultura democrática trouxe consigo para a sociedade civil. Além disso, a Igreja combate
sempre com todos os meios à sua disposição para o reconhecimento da igual dignidade
de todos os homens. Com base na Revelação, o Concílio Vaticano II falou abertamente
da comum dignidade de todos os batizados na Igreja[111]. Entretanto, é necessário
afirmar que tanto esta igualdade radical quanto a diversidade de condições e serviços
têm como fundamento último a própria natureza da Igreja.

Efetivamente, a Igreja deve a sua existência e a sua estrutura ao desígnio salvífico de


Deus. Ela contempla-se a si mesma como dom da benevolência do Pai que a libertou
mediante a humilhação do seu Filho na cruz. Portanto, a Igreja quer ser – no Espírito
Santo – totalmente conforme e fiel à vontade livre e libertadora do seu Senhor Jesus
Cristo. Este mistério faz com que a Igreja seja, por sua própria natureza, uma realidade
diversa das puras sociedades humanas.

Por conseguinte, não é admissível na Igreja certa mentalidade, que se manifesta por
vezes em alguns organismos de participação eclesial, e que tende tanto a confundir as
tarefas dos presbíteros e as dos fiéis leigos, quanto a não distinguir a autoridade própria
do Bispo dos presbíteros como colaboradores dos Bispos, como a não dar a devida
adesão ao Magistério universal, exercido pelo Romano Pontífice na sua função
primacial, querida por Senhor. Em muitos aspectos, esta é uma tentativa de transferir
automaticamente à Igreja a mentalidade e a práxis existente em algumas correntes
culturais sócio-políticas do nosso tempo, sem levar suficientemente em conta que ela
deve a sua existência e estrutura ao desígnio salvífico de Deus em Cristo.

A propósito, é necessário recordar que tanto o presbitério quanto o Conselho Presbiteral


– instituição jurídica auspiciada pelo Decreto Presbyterorum Ordinis [112] – não são
expressões do direito de associação dos clérigos e tão pouco podem ser entendidos
segundo uma ótica sindical, com reivindicações e interesses de partido, alheios à
comunhão eclesial[113].

Distinção entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial

27. A distinção entre o sacerdócio comum ou batismal e o ministerial, longe de


comportar separação ou divisão entre os membros da comunidade cristã, harmoniza e
unifica a vida da Igreja, porque «o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio
ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau,
ordenam-se mutuamente um ao outro»[114]. Com efeito, enquanto Corpo de Cristo, a
Igreja é comunhão orgânica entre todos os membros, e nela cada um serve a vida do
conjunto na medida em que vive plenamente o seu papel distinto e a sua vocação
específica (1Cor 12, 12ss)[115].

Portanto, a nenhum é lícito mudar o que Cristo quis para a sua Igreja. Ela está
indissoluvelmente ligada ao seu Fundador e Cabeça, o qual é o único a dar-lhe,
mediante a potência do Espírito Santo, ministros para o serviço dos seus fiéis. Nenhuma
comunidade, mesmo em situação de particular necessidade, pode substituir Cristo que
chama, consagra e envia, por meio dos legítimos pastores, concedendo-se o próprio
sacerdote, contrariando as disposições da Igreja: o sacerdócio é uma escolha de Jesus, e
não da comunidade (cf. Jo 15,16). A resposta para resolver os casos de necessidade está
na oração de Jesus: «pedi ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a Sua
seara!» (Mt 9,38). Se a esta oração feita com fé se unir a intensa vida de caridade da
comunidade, então estaremos seguros de que o Senhor não deixará de dar pastores
segundo o seu coração (cf. Jr 3,15)[116].

28. Para salvar a ordem estabelecida pelo Senhor Jesus, é necessário evitar a chamada
“clericalização” do laicado[117], que tende a restringir o sacerdócio ministerial
do presbítero, que é o único, depois do Bispo, ao qual, em virtude do ministério
sacerdotal recebido mediante a ordenação, se pode atribuir dum modo próprio e unívoco
o termo “pastor”. A qualificação de «pastoral», com efeito, refere-se à participação no
ministério episcopal.

1.5. Comunhão sacerdotal

Comunhão com a Trindade e com Cristo

29. À luz de tudo quanto se disse sobre a identidade, a comunhão do sacerdote realiza-
se antes de tudo com o Pai, origem última de todo o poder; com o Filho, em cuja missão
redentora participa; e com o Espírito Santo, que lhe dá a força para viver e realizar a
caridade pastoral que, como «princípio interior, a virtude que orienta e anima a vida
espiritual do presbítero»[118], o qualifica sacerdotalmente. Uma caridade pastoral que,
longe de estar reduzida a um conjunto de técnicas e métodos direcionados à eficiência
funcional do ministério, faz referência à natureza própria da missão da Igreja, destinada
à salvação da humanidade.

Com efeito, «não se pode definir a natureza e a missão do sacerdócio ministerial, senão
nesta múltipla e rica trama de relações, que brotam da Trindade Santíssima e se
prolongam na comunhão da Igreja como sinal e instrumento, em Cristo, da união com
Deus e da unidade de todo o gênero humano»[119].

Comunhão com a Igreja

30. Desta fundamental união-comunhão com Cristo e com a Trindade deriva, para o
presbítero, a sua comunhão-relação com a Igreja nos seus aspectos de mistério e de
comunidade eclesial[120].

Concretamente, a comunhão eclesial do presbítero realiza-se de diversos modos. Com


efeito, mediante a ordenação sacramental, ele estabelece laços especiais com o Papa,
com o Corpo episcopal, com o Bispo próprio, com os outros presbíteros, com os fiéis
leigos.

Comunhão hierárquica

31. A comunhão como característica do sacerdócio funda-se na unicidade da Cabeça,


Pastor e Esposo da Igreja, que é Cristo[121].

Em tal comunhão ministerial, sobressaem alguns vínculos determinados em relação,


antes de tudo, com o Papa, com o Colégio Episcopal e com o Bispo próprio. «Não
existe ministério sacerdotal senão na comunhão com o Sumo Pontífice e com o Colégio
Episcopal e de modo particular com o próprio Bispo diocesano, aos quais se deve
guardar filial respeito e obediência prometidos no rito da ordenação»[122]. Trata-se,
portanto, duma comunhão hierárquica, isto é, duma comunhão na qual a hierarquia se
apresenta interiormente estruturada.

Em virtude da participação em grau subordinado aos Bispos – que são investidos de um


poder «próprio, ordinário e imediato, embora o seu exercício seja superiormente
regulado pela suprema autoridade da Igreja»[123] –, no único sacerdócio ministerial, tal
comunhão implica também o vínculo espiritual e orgânico-estrutural dos presbíteros
com toda a ordem dos Bispos e com o Bispo próprio, e com o Romano Pontífice. Isto é
reforçado pelo fato de que toda a ordem dos Bispos no seu conjunto e cada um dos
Bispos devem estar em comunhão hierárquica com a Cabeça do Colégio[124]. Tal
Colégio, com efeito, é constituído só pelos Bispos consagrados, que estão em comunhão
hierárquica com a Cabeça e os seus membros.

Comunhão na celebração eucarística

32. A comunhão hierárquica está expressa de modo significativo na oração eucarística,


quando o sacerdote, ao rezar pelo Papa, pelo Colégio Episcopal e pelo Bispo próprio,
não exprime apenas um sentimento de devoção, mas testemunha a autenticidade da sua
celebração[125].
A própria celebração eucarística, nas circunstâncias e condições previstas[126], quando
é presidida pelo Bispo e com a participação dos fiéis, sobretudo na Igreja catedral,
manifesta bem a unidade do sacerdócio de Cristo na pluralidade dos seus ministros, e a
unidade do sacrifício e do Povo de Deus[127]. Além disso, ela concorre para consolidar
a fraternidade ministerial existente entre os presbíteros[128].

Comunhão na atividade ministerial

33. Todo o presbítero tenha um profundo, humilde e filial vínculo de obediência e de


caridade para com a pessoa do Santo Padre e adira ao seu ministério petrino de
magistério, de santificação e de governo, com docilidade exemplar[129].

Também a união filial com o Bispo próprio é condição indispensável para a eficácia do
próprio ministério sacerdotal. Para os pastores mais entendidos, é fácil constatar a
necessidade de evitar toda a forma de subjetivismo no exercício do seu ministério,
aderindo corresponsavelmente aos programas pastorais. Tal adesão, que comporta
proceder de acordo com a mente do Bispo, para além de ser expressão de maturidade,
contribui para a edificação daquela unidade na comunhão que é indispensável para a
obra de evangelização[130].

No pleno respeito da subordinação hierárquica, o presbítero tornar-se-á promotor dum


relacionamento franco, vivo e filial com o seu Bispo, assinalado por uma confiança
sincera, por uma amizade cordial, oração pela sua pessoa e intenções, por um verdadeiro
esforço de conformidade e convergência ideal e programática, no espírito duma
inteligente capacidade de iniciativa e de coragem pastoral[131].

Em vista do próprio crescimento espiritual e pastoral, e por amor ao seu rebanho, o


sacerdote deveria acolher com gratidão, e, ainda mais, procurar com regularidade as
orientações do Bispo ou de seus representantes para o desenvolvimento do seu
ministério pastoral. É também um costume digno de admiração pedir o parecer de
sacerdotes mais experimentados e de leigos qualificados relativamente aos métodos
pastorais que sejam mais idôneos.

Comunhão no presbitério

34. Em virtude do sacramento da Ordem, «cada sacerdote está unido aos outros
membros do presbitério por particulares vínculos de caridade apostólica, de ministério e
de fraternidade»[132]. Com efeito, ele é inserido no Ordo Presbyterorum, constituindo
aquela unidade que se pode definir como uma verdadeira família na qual os laços não
vêm da carne nem do sangue, mas da graça da Ordem[133].

A agregação a um presbitério determinado[134] realiza-se sempre no âmbito de uma


Igreja particular, de um Ordinariato ou de uma Prelazia pessoal – isto é, de uma “missão
episcopal”, não somente por motivo da incardinação –, o que não cancela o fato de o
presbítero, enquanto batizado, pertencer de modo imediato à Igreja universal: na Igreja
ninguém é estrangeiro; toda a Igreja, e cada diocese, é família, a família de Deus[135].

Fraternidade sacerdotal e agregação ao presbitério são, portanto, elementos que


caracterizam o sacerdote. Particularmente significativo, na ordenação presbiteral, é o
rito da imposição das mãos por parte do Bispo, no qual tomam parte todos os
presbíteros presentes, para indicar a participação no mesmo grau de ministério e para
mostrar que o sacerdote não pode agir sozinho, mas sempre no interior do presbitério,
tornando-se irmão de todos aqueles que o constituem[136].

«Os bispos e presbíteros recebem a missão e a faculdade [o “poder sagrado”] de agir na


pessoa de Cristo Cabeça e os diáconos a força de servir o povo de Deus na “diaconia”
da Liturgia, da Palavra e da caridade, em comunhão com o Bispo e com o seu
presbitério»[137].

A incardinação, autêntico vínculo jurídico com valor espiritual

35. A incardinação «em alguma Igreja particular ou prelazia pessoal, ou em algum


instituto de vida consagrada ou sociedade dotados desta faculdade»[138], constitui um
autêntico vínculo jurídico[139] que tem também um valor espiritual, já que dela provém
«a relação com o Bispo no único presbitério, a partilha da solicitude pastoral, a
dedicação à cura evangélica do Povo de Deus nas condições históricas concretas e
ambientais»[140].

Não se esqueça, a propósito, de que os sacerdotes seculares não incardinados na


Diocese e os sacerdotes membros de um Instituto religioso ou de uma Sociedade de
vida apostólica, os quais residem na Diocese e exercem, para o seu bem, qualquer
missão, embora estejam sujeitos aos seus legítimos Ordinários, pertencem a pleno ou a
diverso título ao presbitério de tal diocese[141], onde «têm voz quer ativa quer passiva
para constituir o conselho presbiteral»[142]. Os sacerdotes religiosos, em particular,
numa unidade de forças, partilham da solicitude pastoral oferecendo o contributo de
carismas específicos e «estimulando com a sua presença a Igreja particular a viver mais
intensamente a sua abertura universal»[143].

Os presbíteros incardinados numa Diocese, mas que aí estão para o serviço de qualquer
movimento eclesial ou nova comunidade aprovados pela autoridade eclesiástica
competente[144], ao qual pertencem, estejam conscientes de ser membros do presbitério
da Diocese em que desempenham o seu ministério e de dever colaborar sinceramente
com ele. Por sua vez, o Bispo de incardinação favoreça positivamente o direito à própria
espiritualidade, que a lei reconhece a todos os fiéis[145], respeite o estilo de vida
exigido pela agregação ao Movimento e esteja disposto, de acordo com as normas do
direito, a permitir que o presbítero possa prestar o seu serviço noutras Igrejas, se isto faz
parte do carisma do mesmo movimento[146], se empenhando sempre em reforçar a
comunhão eclesial.

Presbitério, lugar de santificação

36. O presbitério é o lugar privilegiado para o sacerdote poder encontrar os meios


específicos de formação, de santificação e de evangelização e ser ajudado a superar as
limitações e as fraquezas próprias da natureza humana que hoje particularmente se
notam.

Portanto, ele fará todos os esforços para evitar viver o seu sacerdócio de um modo
isolado e subjetivista e favorecerá a comunhão fraterna dando e recebendo – de
sacerdote a sacerdote – o calor da amizade, da assistência cordial, do acolhimento, da
correção fraterna[147], muito consciente de que a graça da Ordem «assume e eleva as
relações humanas, psicológicas, afetivas, de amizade e espirituais [...] e se concretiza
nas mais variadas formas de ajuda recíproca, não só espirituais, mas também
materiais»[148].

Tudo isto é expresso, além do que na Missa crismal – manifestação da comunhão dos
presbíteros com o seu bispo –, na liturgia da Missa In Coena Domini da Quinta-Feira
Santa, a qual mostra como, da comunhão eucarística – nascida na última Ceia –, os
sacerdotes recebem a capacidade de se amarem uns aos outros, como o Mestre os
ama[149].

Fraterna amizade sacerdotal

37. O sentido profundo e eclesial do presbitério não só não impede, como ajuda as
responsabilidades pessoais de todos os presbíteros na realização do ministério particular
que o Bispo lhes confiou[150]. A capacidade de cultivar e viver amadurecidas e
profundas amizades sacerdotais aparece como fonte de serenidade e de alegria no
exercício do ministério, apoio decisivo nas dificuldades e ajuda preciosa no incremento
da caridade pastoral, que o presbítero deve exercer dum modo particular precisamente
para com os colegas em dificuldade, que têm necessidade de compreensão, ajuda e
apoio[151]. A fraternidade sacerdotal, expressão da lei da caridade, longe de reduzir-se
a um simples sentimento, se torna para os presbíteros uma memória existencial de
Cristo e um testemunho apostólico de comunhão eclesial.

Vida comum

38. Uma manifestação desta comunhão é também a vida comum, desde sempre apoiada
pela Igreja[152], recentemente recomendada pelos documentos do Concílio Vaticano
II[153] e do Magistério sucessivo[154], positivamente aplicada em não poucas dioceses.
«A vida comum manifesta uma ajuda que Cristo confere à nossa existência, chamando-
nos através da presença dos irmãos, a uma configuração cada vez mais profunda com a
sua própria Pessoa. Viver com os outros significa aceitar a necessidade de uma
conversão pessoal contínua e, sobretudo, descobrir a beleza de tal caminho, a alegria da
humildade, da penitência, mas também da conversão, do perdão recíproco e do sustento
mútuo. “Ecce quam bonum et quam iucundum habitare fratres in unum” (Sl
133,1)»[155].

Para enfrentar um dos problemas atuais mais importantes da vida sacerdotal, que é a
solidão do padre, «nunca será demasiado recomendar aos sacerdotes a utilidade de certa
vida comum entre eles, inteiramente orientada ao ministério propriamente espiritual; a
prática de frequentes encontros, com fraternas trocas de idéias, de conselhos e de
experiências; a promoção de associações que favoreçam a santidade sacerdotal»[156].

39. Entre as diversas formas de vida comum (casa, comunidade de mesa, etc.) deve
considerar-se como mais excelente a participação comunitária na oração litúrgica[157].
As diversas modalidades devem ser apoiadas, segundo as possibilidades e as
conveniências práticas, sem necessariamente recalcar louváveis modelos próprios da
vida religiosa. São particularmente dignas de louvor aquelas associações que favorecem
a fraternidade sacerdotal, a santidade no exercício do ministério, a comunhão com o
Bispo e com toda a Igreja[158].
Levando em conta a importância de que os sacerdotes vivam nas adjacências de onde
mora o povo ao qual servem, e de se desejar que os párocos estejam dispostos a apoiar a
vida comum na casa paroquial com os seus vigários[159], estimulando-os efetivamente
como seus colaboradores e participantes da solicitude pastoral; por seu lado, os vigários,
para construir a comunhão sacerdotal, devem reconhecer e respeitar a autoridade do
pároco[160]. Nos casos onde não houver mais que um sacerdote numa paróquia,
aconselha-se vivamente a possibilidade de uma vida comum com outros sacerdotes de
paróquias limítrofes[161].

Em muitos lugares, a experiência desta vida comum foi assaz positiva por ter
representado um verdadeiro auxílio para o sacerdote: cria-se um ambiente de família,
pode-se convenientemente ter – com a devida permissão do Ordinário[162] – uma
capela com o Santíssimo Sacramento, pode-se rezar em comum, etc. Ademais, como é
sabido pela experiência e ensinamento dos santos, «ninguém pode assumir a força
regeneradora da vida comum sem a oração [...] sem uma existência sacramental vivida
com fidelidade. Se não entrarmos no diálogo eterno que o Filho mantém com o Pai, no
Espírito Santo, nenhuma vida comum autêntica é possível. É necessário estar com Jesus
para poder estar com os outros»[163]. São muitos os casos de sacerdotes que
encontraram na adoção de oportunas formas de vida comunitária uma ajuda importante
tanto para as suas exigências pessoais quanto para o exercício do seu ministério
pastoral.

40. A vida comum é imagem daquela apostólica vivendi forma de Jesus com seus
discípulos. Com o dom do sagrado celibato pelo Reino dos Céus, o Senhor nos tornou
membros de sua família de um modo especial. Numa sociedade marcada fortemente
pelo individualismo, o sacerdote precisa de um relacionamento pessoal mais profundo e
de um espaço vital caracterizado pela amizade fraterna, em que possa viver como
cristão e sacerdote: «momentos de oração e estudo em comum, de partilha das
exigências da vida e trabalho sacerdotal são uma parte necessária da vossa vida»[164].

Assim, nesta atmosfera de auxílio recíproco, o sacerdote encontra o terreno adequado


para perseverar na vocação de serviço à Igreja: «na companhia de Jesus e dos irmãos,
cada sacerdote pode encontrar as energias necessárias para poder ocupar-se dos homens,
para responder às necessidades espirituais e materiais que encontra, para ensinar com
palavras sempre novas, ditadas pelo amor, as verdades eternas da fé, das quais também
os nossos contemporâneos têm sede»[165].

Na oração sacerdotal da última Ceia, Jesus orou pela unidade dos seus discípulos:
«Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós» (Jo
17,21). Cada comunhão na Igreja «deriva da unidade do Pai, do Filho e do Espírito
Santo»[166]. Os sacerdotes estejam convencidos de que a sua comunhão fraterna,
especialmente na vida comum, constitui um testemunho, segundo aquilo que o Senhor
Jesus encareceu na sua oração ao Pai: que os discípulos sejam um, para que o mundo
«creia que tu me enviaste» (Jo 17,21) e saiba «que os amaste, como amaste a mim» (Jo
17,23). «Jesus pede que a comunidade sacerdotal seja reflexo e participação da
comunhão trinitária: que sublime ideal»[167].

Comunhão com os fiéis leigos


41. Homem de comunhão, o sacerdote não pode exprimir o seu amor ao Senhor e à
Igreja sem traduzi-lo em amor real e incondicionado ao Povo cristão, objeto do seu
trabalho pastoral[168].

Como Cristo, o presbítero deve tornar-se «quase a sua transparência no meio do


rebanho» que lhe foi confiado[169], colocando-se em relação positiva com os fiéis
leigos. Reconhecendo a sua dignidade de filhos de Deus, promove o seu papel na Igreja,
e coloca ao seu serviço todo o seu ministério sacerdotal e a sua caridade pastoral[170].

Esta atitude de amor e de caridade está bem distante da assim chamada “laicização dos
presbíteros”, que, ao contrário, leva a diluir nos sacerdotes aquilo que constitui sua
própria identidade: os fiéis pedem aos seus pastores para mostrarem-se como tais, seja
no aspecto exterior como na dimensão interior, a todo o momento, lugar e circunstância.
A visita anual e a bênção pascal das famílias é uma preciosa ocasião para a missão
evangelizadora do pastor das almas.

Uma peculiar manifestação desta dimensão na edificação da comunidade cristã consiste


em superar qualquer atitude particularista; com efeito, os presbíteros não devem
colocar-se ao serviço de uma ideologia particular, pois isto tiraria eficácia do seu
ministério. O relacionamento do presbítero com os fiéis deve ser sempre essencialmente
sacerdotal.

Mediante a consciência da profunda comunhão que o liga aos fiéis leigos e aos
religiosos, o sacerdote fará todo o esforço para «suscitar e desenvolver a
corresponsabilidade na comunhão e única missão de salvação, com a pronta e cordial
valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito concede aos crentes para a
edificação da Igreja»[171].

Mais concretamente, o pároco, procurando sempre o bem comum na Igreja, apoiará as


associações de fiéis e os movimentos ou as novas comunidades que têm finalidades
religiosas[172], acolhendo-os a todos, e ajudando-os a encontrar entre elas a unidade de
intenções na oração e na ação apostólica.

Uma das tarefas que exigem mais atenção é a formação dos leigos. O presbítero não se
pode contentar em que os fiéis tenham um conhecimento superficial da fé, mas deve
procurar oferecer-lhes uma formação sólida, perseverando em seu esforço mediante
aulas de teologia, cursos sobre a doutrina cristã, especialmente com o estudo do
Catecismo da Igreja Católica e do seu Compêndio. Esta formação ajudará os leigos a
desenvolverem plenamente o próprio papel de animação cristã da ordem temporal
(política, cultural, econômica e social)[173]. Além disso, em certos casos, podem-se
confiar aos leigos, que tenham uma suficiente formação e o desejo sincero de servir a
Igreja, algumas tarefas – de acordo com as leis da Igreja – que não pertencem
exclusivamente ao ministério sacerdotal e que estes podem desenvolver com base na sua
experiência profissional pessoal. Deste modo, o sacerdote estará mais livre para cuidar
ainda mais de seus deveres primordiais, como a pregação, a celebração dos Sacramentos
e a direção espiritual. Neste sentido, uma das tarefas importantes dos párocos é
descobrir, entre os fiéis, pessoas com a capacidade, as virtudes e uma vida cristã
coerente – por exemplo, no que diz respeito ao matrimônio –, que possam ajudar
eficazmente nas diversas atividades pastorais: preparação das crianças para a primeira
comunhão e a primeira confissão, ou dos jovens para a crisma, a pastoral familiar, a
catequese para aqueles que estão para casar-se, etc. Efetivamente, a preocupação pela
formação destas pessoas – que são modelos para tantas outras – e o fato de ajudá-las em
seu caminho de fé deverá ser uma das inquietudes principais dos presbíteros.

Enquanto reúne a família de Deus e realiza a Igreja-comunhão, o presbítero torna-se o


pontífice, aquele que une o homem a Deus, tornando-se irmão dos homens pelo fato
mesmo de querer ser seu pastor, pai e mestre[174]. Para o homem de hoje, que procura
o sentido da sua existência, ele é guia que leva ao encontro com Cristo, encontro que,
embora de maneira não definitiva, se realiza, como anúncio e como realidade já
presente na sua Igreja. Deste modo, o presbítero, colocado ao serviço do Povo de Deus,
deve apresentar-se como perito em humanidade, homem de verdade e de comunhão,
testemunha da solicitude do Único Pastor por todas e cada uma das suas ovelhas. A
comunidade deve poder seguramente contar com a sua disponibilidade, o seu trabalho
de evangelização e, sobretudo, com o seu amor fiel e incondicionado. Manifestação
deste amor será principalmente a sua dedicação à pregação, à celebração dos
sacramentos, em particular da Eucaristia e do sacramento da penitência, à direção
espiritual como meio para ajudar no discernimento dos sinais da vontade de Deus[175].
Portanto, ele deve exercer a sua missão espiritual com amabilidade e firmeza, com
humildade e espírito de serviço[176], dobrando-se à compaixão, participando nos
sofrimentos humanos que derivam das várias formas de pobreza, espiritual e material,
velhas e novas. Que use de misericórdia em relação ao caminho difícil e incerto de
conversão dos pecadores, para os quais terá sempre disponível o dom da verdade, e a
paciente e encorajante benevolência do Bom Pastor, que não censura a ovelha perdida,
mas carrega-a aos ombros e faz uma festa pelo seu regresso ao rebanho (cf. Lc 15, 4-
7)[177].

Trata-se de afirmar a caridade de Cristo como origem e perfeita realização do homem


novo (cf. Ef 2,15), ou seja, daquilo que o homem é em sua verdade completa. Esta
caridade se traduz na vida do presbítero em uma autêntica paixão que configura
expressamente o seu ministério em função da geração do povo cristão.

Comunhão com os membros dos Institutos de vida consagrada

42. Reservará uma particular atenção às relações com os irmãos e as irmãs empenhados
na vida de consagração especial a Deus em todas as suas formas, mostrando-lhes um
apreço sincero e um real espírito de colaboração apostólica, respeitando e promovendo
os carismas específicos. Além disso, colaborará para que a vida consagrada apareça
cada vez mais luminosa para vantagem da Igreja inteira e cada vez mais persuasiva e
atraente para as gerações jovens.

Neste espírito de estima pela vida consagrada, o sacerdote terá particular cuidado com
aquelas comunidades que, por diversos motivos, mais precisarem da sã doutrina, da
assistência e do encorajamento na fidelidade e na busca pelas vocações.

Pastoral vocacional

43. Todo o sacerdote deve se ocupar com especial dedicação da pastoral vocacional, não
deixando de incentivar a oração pelas vocações, de prodigar-se na catequese, de cuidar
da formação dos acólitos, de apoiar iniciativas apropriadas mediante a relação pessoal
que faça descobrir os talentos e saiba descobrir a vontade de Deus em ordem a uma
escolha corajosa na sequela de Cristo[178]. Neste trabalho, têm uma fundamental
importância as famílias que se constituem como igrejas domésticas, nas quais os jovens
aprendem desde crianças a rezar, crescer nas virtudes e ser generosos. Os presbíteros
devem encorajar os esposos cristãos a configurar o próprio lar como uma verdadeira
escola de vida cristã, a rezar junto com os filhos, a pedir a Deus que chame alguém para
segui-lo mais estreitamente com o coração indiviso (cf. 1Cor 7,32-34), a estar sempre
alegres diante das vocações que possam surgir na própria família.

Esta pastoral deve estar fundamentada primeiramente sobre a grandeza do chamado –


escolha divina em favor dos homens. Em primeiro lugar, convém apresentar aos jovens
o precioso e belíssimo dom que consiste em seguir Cristo. Por isso, o ministro ordenado
está revestido do importante papel de dar exemplo por sua fé e por sua vida: a
consciência clara da própria identidade, a coerência de vida, a alegria transparente e o
ardor missionário constituem outros tantos elementos imprescindíveis daquela pastoral
das vocações que deve integrar-se na pastoral orgânica e ordinária. Portanto, a
manifestação alegre de sua adesão ao mistério de Jesus e a sua atitude de oração, o
cuidado e a devoção com a qual celebra a Santa Missa e os sacramentos, irradiam
aquele exemplo que fascina os jovens.

Além disso, a longa experiência da vida da Igreja sempre ressaltou a necessidade de


cuidar com paciência e constância, sem desencorajar-se, da formação dos jovens desde a
infância. Deste modo, estes terão aquelas necessárias recursos espirituais para responder
a uma eventual chamada de Deus. Por isso, é indispensável – e deveria fazer parte de
qualquer pastoral vocacional – fomentar neles a vida de oração e intimidade com Deus,
o recurso aos sacramentos, especialmente à Eucaristia e à confissão, à direção espiritual
como ajuda para progredir na vida interior. Os sacerdotes, assim, suscitarão de modo
adequado e generoso a proposta vocacional aos jovens que pareçam bem dispostos. Este
empenho, embora deva ser constante, deveria ser intensificado especialmente em
algumas circunstâncias, como, por exemplo, por ocasião dos exercícios espirituais ou da
preparação dos crismandos, ou da atenção aos jovens que servem o altar.

Com o seminário, berço da sua vocação e palco da primeira experiência de vida de


comunhão, o sacerdote manterá sempre relações de colaboração cordial e de afeto
sincero.

É «exigência insuprimível da caridade pastoral»[179], do amor ao próprio sacerdócio,


que – secundando a graça do Espírito Santo – cada presbítero se preocupe de suscitar ao
menos uma vocação sacerdotal que lhe possa continuar o ministério a serviço do Senhor
e em favor dos homens.

Empenho político e social

44. O sacerdote, servidor da Igreja que em virtude da sua universalidade e catolicidade


não pode ligar-se a nenhuma contingência histórica, estará acima de qualquer parte
política. Ele não pode tomar parte ativa em partidos políticos ou na condução de
associações sindicais, a menos que, na opinião da autoridade eclesiástica competente, o
exijam a defesa dos direitos da Igreja e a promoção do bem comum[180]. Com efeito,
embora estas coisas sejam boas em si mesmas, são, todavia, alheias ao estado clerical,
enquanto podem constituir um perigo grave de rotura da comunidade eclesial[181].
Como Jesus (cf. Jo 6,15ss), o presbítero «deve renunciar a empenhar-se em formas de
política ativa, especialmente quando ela é partidária, como quase sempre
inevitavelmente acontece, para permanecer o homem de todos num plano de
fraternidade espiritual»[182]. Por isso, todo o fiel deve sempre poder abeirar-se do
sacerdote sem se sentir excluído por nenhum motivo.

O presbítero recordará que «não compete aos Pastores da Igreja intervir diretamente na
ação política e na organização social. Esta tarefa faz parte, com efeito, da vocação dos
fiéis leigos, os quais por iniciativa própria trabalham juntamente com os seus
concidadãos»[183]. Ele não deixará de dedicar-se, seguindo os critérios do Magistério,
«ao esforço de formar retamente a sua consciência»[184]. Portanto, o sacerdote tem
uma particular responsabilidade de explicar, promover e, se necessário, defender –
sempre seguindo as orientações do direito e do Magistério da Igreja – as verdades
religiosas e morais, também diante da opinião pública e, mesmo até, caso possua a
necessária preparação específica, no amplo campo dos mass media. Em uma cultura
sempre mais secularizada, na qual a religião é frequentemente transcurada e considerada
como irrelevante ou ilegítima no debate social, ou mesmo totalmente confinada apenas
à intimidade das consciências, o sacerdote é chamado a sustentar o significado público e
comunitário da fé cristã, transmitindo-a de modo claro e convincente, em todas as
ocasiões, oportuna ou inoportunamente (cf. 2Tm 4,2), e levando em consideração o
patrimônio de ensinamentos que constitui a Doutrina Social da Igreja. O Compêndio de
doutrina social da Igreja é um instrumento eficaz que poderá ajudá-lo a apresentar este
ensinamento social e mostrar a sua riqueza no contexto cultural hodierno.

A redução da sua missão a tarefas temporais, puramente sociais ou políticas ou de


qualquer modo alheias à sua identidade, não é uma conquista, mas uma perda
gravíssima para a fecundidade evangélica da Igreja inteira.

II. ESPIRITUALIDADE SACERDOTAL

A espiritualidade do sacerdote consiste principalmente na profunda relação de amizade


com Cristo, porque ele é chamando a «ir até Ele» (cf. Mc 3,13). Neste sentido, na vida
do sacerdote, Jesus terá sempre a primazia sobre tudo. Cada sacerdote age num contexto
histórico particular, com os seus vários desafios e exigências. Exatamente por isto, a
garantia de fecundidade do ministério radica numa profunda vida interior. Se o
sacerdote não conta com o primado da graça, não poderá responder aos desafios dos
tempos, e cada plano pastoral, por mais elaborado que possa ser, estaria destinado à
falência.

2.1. Contexto histórico atual

Saber interpretar os sinais dos tempos

45. A vida e o ministério dos sacerdotes se desenvolvem sempre no contexto histórico,


de vez em quando carregado de novos problemas e de recursos inéditos, em que a
Igreja, peregrina neste mundo, vai vivendo.
O sacerdócio não nasce da história, mas da vontade imutável do Senhor. Todavia, ele
vai-se confrontando com as circunstâncias históricas e – embora permanecendo sempre
idêntico – configura-se, nas opções concretas, também por meio duma avaliação
evangélica dos “sinais dos tempos”. Por isso, os presbíteros têm o dever de interpretar
tais “sinais” à luz da fé e de submetê-los a um discernimento prudente. Em todo o caso
não poderão ignorá-los, sobretudo se quiserem orientar dum modo eficaz e pertinente a
própria vida, de modo que o seu serviço e o seu testemunho sejam cada vez mais
fecundos para o reino de Deus. Na atual fase da vida da Igreja, em um contexto social
assinalado por um forte secularismo, depois de ser reproposta a todos uma “medida
alta” da vida cristã, a santidade[185], os presbíteros são chamados a viver em
profundidade o seu ministério como testemunhas de esperança e transcendência, tendo
em conta as cada vez mais profundas, numerosas e delicadas exigências de ordem não
só pastoral, mas também social e cultural, às quais devem fazer frente[186].

Portanto, eles estão hoje empenhados nos diversos campos de apostolado que requerem
generosidade e dedicação completa, preparação intelectual e, sobretudo, uma vida
espiritual amadurecida e profunda, enraizada na caridade pastoral, que é a sua via
específica para a santidade e que constitui também um autêntico serviço aos fiéis no
ministério pastoral. Deste modo, se forem esforçados em viver plenamente a própria
vocação – permanecendo unidos a Cristo e deixando-se compenetrar pelo Seu Espírito –
, não obstante seus próprios limites, poderão realizar seu ministério, ajudados pela
graça, na qual colocarão a sua confiança. É a ela que devem recorrer, «conscientes de
que, assim, se pode tender à perfeição, com a esperança de progredir sempre mais na
santidade»[187].

A exigência da conversão para a evangelização

46. Daqui se conclui que o sacerdote está envolvido, de maneira muito especial, no
empenho da Igreja inteira na nova evangelização. Partindo da fé em Jesus Cristo,
Redentor do homem, tem a certeza de que n’Ele existe uma «imperscrutável riqueza»
(Ef 3, 8) que nenhuma cultura, nenhuma época pode exaurir e da qual os homens
sempre podem beber para se enriquecerem[188].

É esta, portanto, a hora duma renovação da nossa fé em Jesus Cristo, que é o mesmo
«ontem, hoje e sempre» (Hb 13, 8). Por conseguinte, «a chamada à nova evangelização
é, antes de mais nada, uma chamada à conversão»[189]. Ao mesmo tempo, é uma
chamada à esperança, «que se apoia nas promessas de Deus, na fidelidade à sua Palavra,
e que tem como certeza inabalável a ressurreição de Cristo, a sua vitória definitiva sobre
o pecado e sobre a morte, primeiro anúncio e raiz de toda a evangelização, fundamento
de toda a promoção humana, princípio de toda a autêntica cultura cristã»[190].

Em tal contexto, o sacerdote deve, antes de qualquer coisa, reavivar a sua fé, a sua
esperança e o seu amor sincero ao Senhor, de maneira a podê-lo apresentar à
contemplação dos fiéis e de todos os homens como verdadeiramente é: uma Pessoa
viva, fascinante, que nos ama mais do que ninguém, porque deu a Sua vida por nós;
«não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13).

Ao mesmo tempo, o sacerdote deveria agir movido por um espírito acolhedor e alegre,
fruto de sua união com Deus pela oração e pelo sacrifício, que é um elemento essencial
da sua missão evangelizadora de fazer-se tudo para todos (cf. 1Cor 9,19-23), para
ganhá-los para Cristo. Ao mesmo tempo, consciente da misericórdia imerecida de Deus
na própria vida e na vida dos seus irmãos, deve cultivar a virtude da humildade e da
misericórdia para com todo o povo de Deus, especialmente em relação àquelas pessoas
que se sentem alheias à Igreja. O sacerdote, consciente de que toda a pessoa, de
diferentes modos, vive à procura dum amor capaz de levá-la para além dos estreitos
limites da sua fraqueza, do seu egoísmo e, sobretudo, da sua morte, proclamará que
Jesus Cristo é a resposta a todas estas ânsias.

Na nova evangelização, o sacerdote é chamado a ser o arauto da esperança[191], que se


deriva também da consciência de que ele mesmo, antes de tudo, foi tocado pelo Senhor:
ele vive em si a alegria da salvação que Jesus lhe ofereceu. Trata-se de uma esperança
não apenas intelectual, mas também do coração, porque o presbítero foi tocado pelo
amor de Cristo: «não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi» (Jo
15,16).

O desafio das seitas e dos novos cultos

47. O proliferar das seitas e dos novos cultos, bem como a sua difusão mesmo entre os
fiéis católicos, constitui um particular desafio ao ministério pastoral. Na base dum tal
fenômeno existem motivações complexas. Em todo o caso, o ministério dos presbíteros
deve responder com prontidão e dum modo incisivo à procura do sagrado e, de modo
particular, da autêntica espiritualidade emergente hoje. Consequentemente, é necessário
que o sacerdote seja homem de Deus e mestre na oração. Ao mesmo tempo, impõe-se a
necessidade de fazer com que a comunidade confiada aos seus cuidados pastorais seja
realmente acolhedora, de maneira que ninguém que a ela pertença se sinta anônimo ou
objeto de indiferença. Trata-se de uma responsabilidade que recai certamente sobre cada
fiel, mas, de maneira muito particular sobre o presbítero, que é o homem da comunhão.
Se ele souber acolher com estima e respeito todo aquele que o contatar apreciando sua
personalidade, então criará um estilo de autêntica caridade que se tornará contagioso e
se estenderá gradualmente a toda a comunidade.

Para vencer o desafio das seitas e dos novos cultos, é particularmente importante – além
do desejo pela salvação eterna dos fiéis, que bate no coração de cada sacerdote – uma
catequese amadurecida e completa, a qual requer, hoje, um esforço especial por parte do
ministro de Deus, a fim de que todos os seus fiéis conheçam realmente o significado da
vocação cristã e da fé católica. Neste sentido, «a medida mais simples, óbvia e urgente a
ser tomada, que também poderia se mostrar como a mais eficaz, consiste em extrair o
melhor das riquezas do patrimônio espiritual cristão»[192].

De modo particular, os fiéis devem ser educados a conhecer bem a relação existente
entre a sua vocação específica em Cristo e a pertença à Igreja, que devem aprender a
amar filial e tenazmente. Tudo isto se realizará se o sacerdote, na sua vida e no seu
ministério, evitar tudo o que poderia provocar tibieza, frieza ou aceitação parcial da
doutrina e das normas da Igreja. Sem dúvida, para aqueles que procuram respostas entre
as múltiplas propostas religiosas, «o fascínio do cristianismo se fará sentir antes de tudo
no testemunho dos membros da Igreja, na sua fidelidade, calma, paciência e afeto, e no
seu concreto amor ao próximo, todos frutos de sua fé, nutridos pela autêntica oração
pessoal»[193].

Luzes e sombras da atividade ministerial


48. É um motivo de grande conforto sublinhar que hoje os presbíteros de todas as idades
e na sua maioria desenvolvem com alegre empenho, muitas vezes fruto de silencioso
heroísmo, o sagrado ministério, trabalhando até ao limite das próprias forças, sem ver,
por vezes, os frutos do seu trabalho.

Por este seu empenho, eles constituem atualmente um anúncio vivo daquela graça
divina que, conferida no momento da ordenação, continua a dar força renovada para o
trabalho ministerial.

Junto com estas luzes, que iluminam a vida do sacerdote, não faltam sombras que
tendem a enfraquecer a beleza e a tornar menos eficaz o exercício do ministério: «no
mundo de hoje, sendo tantos os deveres a cumprir e tão grande a diversidade de
problemas em que se angustiam os homens, frequentíssimamente com urgência de
solução, correm os mesmos homens o perigo de se dispersarem por muitas coisas.
Também os presbíteros, implicados e dispersos por muitíssimas obrigações do seu
ministério, podem perguntar, não sem ansiedade, como lhes será possível harmonizar a
sua vida interior com a sua ação exterior»[194].

O ministério pastoral é uma empresa fascinante, mas árdua, sempre exposta à


incompreensão e à marginalização e, sobretudo, hoje, ao cansaço, à desconfiança, ao
isolamento e, por vezes, à solidão.

Para vencer os desafios que a mentalidade secularista continuamente lhe coloca, o


sacerdote terá o cuidado de reservar o primado absoluto à vida espiritual, ao estar
sempre com Cristo e ao viver com generosidade a caridade pastoral, intensificando a
comunhão com todos, em primeiro lugar, com os outros presbíteros. Como recordava
Bento XVI aos sacerdotes, «a relação com Cristo, o diálogo pessoal com Cristo é uma
prioridade pastoral fundamental, é condição para o nosso trabalho para os outros! E a
oração não é algo marginal: a “profissão” do sacerdote é precisamente rezar, também
como representante do povo que não sabe rezar ou não encontra tempo para fazê-
lo»[195].

2.2. Estar com Cristo na oração

Primado da vida espiritual

49. O sacerdote foi, por assim dizer, concebido na longa oração durante a qual o Senhor
Jesus pediu ao Pai pelos seus apóstolos e, por todos aqueles que no decurso dos séculos
iriam participar da sua missão (cf. Lc 6,12; Jo 17,15-20)[196]. A mesma oração de
Jesus no Getsemani (cf. Mt 26,36-44), toda orientada para o sacrifício sacerdotal do
Gólgota, manifesta dum modo paradigmático «como o nosso sacerdócio deva ser
profundamente vinculado à oração: enraizado na oração»[197].

Nascidos destas orações e chamados a renovar de modo sacramental e incruento um


Sacrifício que é inseparável delas, os presbíteros manterão vivo o seu ministério
mediante uma vida espiritual, à qual darão absoluta preeminência, evitando esquecê-la
por causa das diversas atividades.

Precisamente para poder realizar frutuosamente o ministério pastoral, o sacerdote tem


necessidade de entrar numa particular e profunda sintonia com Cristo bom Pastor, o
qual permanece sempre o único protagonista principal de toda a ação pastoral: «[Cristo]
permanece sempre o princípio e a fonte de unidade da vida dos presbíteros. Eles
alcançarão a unidade da sua vida, unindo-se a Cristo no conhecimento da vontade do
Pai e no dom de si mesmos pelo rebanho que lhes foi confiado. Assim, fazendo as vezes
do Bom Pastor, encontrarão no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da
perfeição sacerdotal, que conduz à unidade de vida e ação»[198].

Meios para a vida espiritual

50. Com efeito, entre as graves contradições da cultura relativista, se evidencia uma
autêntica desintegração da personalidade, causada pelo obscurecimento da verdade
sobre o homem. O risco do dualismo na vida sacerdotal está sempre à espreita.

Tal vida espiritual deve ser encarnada na existência de cada presbítero mediante a
liturgia, a oração pessoal, o estilo de vida e a prática das virtudes cristãs que contribuem
para a fecundidade da ação ministerial. A própria conformação a Cristo exige que o
sacerdote cultive um clima de amizade e de encontro pessoal com o Senhor Jesus,
fazendo experiência de um encontro pessoal com Ele, e de colocar-se a serviço da
Igreja, seu Corpo, à qual o sacerdote demonstrará amar pelo cumprimento fiel e
incansável dos deveres próprios do seu ministério pastoral[199].

É necessário, portanto, que na vida de oração não falte nunca a celebração eucarística
cotidiana[200], com adequada preparação e sucessiva ação de graças; a confissão
frequente[201] e a direção espiritual já praticada no seminário[202] e frequentemente
antes; a celebração íntegra e fervorosa da liturgia das horas[203], à qual está
quotidianamente obrigado[204]; o exame de consciência[205]; a oração mental
propriamente dita[206]; a lectio divina[207], os momentos prolongados de silêncio e de
colóquio, sobretudo nos Exercícios e retiros Espirituais periódicos[208]; as preciosas
expressões da devoção mariana, como o Rosário[209]; a Via Sacra e os outros pios
exercícios[210]; a frutuosa leitura hagiográfica[211]; etc. Sem dúvida, o bom uso do
tempo, por amor a Deus e à Igreja, permitirá ao sacerdote manter mais facilmente uma
sólida vida de oração. De fato, aconselha-se que o presbítero, com o auxílio do seu
diretor espiritual, procure ater-se com constância a este plano de vida, que lhe permite
crescer interiormente num contexto em que as múltiplas exigências da vida poderiam
induzi-lo, muitas vezes, ao ativismo e a descuidar a dimensão espiritual.

Cada ano, como sinal do constante desejo de fidelidade, durante a Santa Missa crismal
da Quinta-Feira Santa, os presbíteros renovem perante o Bispo e juntamente com ele as
promessas feitas no momento da ordenação[212].

O cuidado da vida espiritual, que afasta o inimigo da tibieza, deve ser considerado pelo
sacerdote como um dever que infunde alegria e ainda como um direito dos fiéis, que
procuram nele, consciente ou inconscientemente, o homem de Deus, o conselheiro, o
mediador de paz, o amigo fiel e prudente, o guia seguro em quem as pessoas confiam
nos momentos duros da vida para encontrar conforto e segurança[213].

Em seu Magistério, Bento XVI apresenta um texto altamente significativo sobre a luta
contra a tibieza espiritual que devem travar também aqueles que estão mais próximos ao
Senhor, em razão do seu ministério: «Ninguém está tão próximo do seu senhor como o
servo que tem acesso à dimensão mais privada da sua vida. Neste sentido, “servir”
significa proximidade, exige familiaridade. Esta familiaridade inclui também um perigo:
o de que o sagrado por nós continuamente encontrado se torne para nós um hábito.
Desaparece assim o temor reverencial. Condicionados por todos os costumes, não
deixamos de compreender o fato grande, novo, surpreendente, que Ele mesmo está
presente, nos fala, se doe a nós. Contra este acostumar-se à realidade extraordinária,
contra a indiferença do coração, devemos lutar sem tréguas, reconhecendo sempre de
novo a nossa insuficiência e a graça que existe no fato de que Ele se entregue assim nas
nossas mãos»[214].

Imitar a Cristo que reza

51. Por causa de numerosos empenhos provenientes em larga medida da atividade


pastoral, a vida do presbítero está exposta, hoje mais do que nunca, a uma série de
solicitações que poderiam conduzi-la para um crescente ativismo, submetendo-a a um
ritmo, por vezes, frenético e irresistível.

Contra tal tentação, é necessário não esquecer que a primeira intenção de Jesus foi a de
convocar à sua volta os Apóstolos para que «estivessem com ele» (Mc 3,14).

O próprio Filho de Deus quis deixar-nos o testemunho da sua oração. Com efeito, muito
frequentemente, os Evangelhos apresentam-nos Cristo em oração: na revelação da sua
missão por parte do Pai (cf. Lc 3,21-22) antes de chamar os Apóstolos (cf. Lc 6,12), ao
dar graças a Deus na multiplicação dos pães (cf. Mt 14, 19;15, 36; Mc 6,41; 8,7; Lc
9,16; Jo 6,11), na transfiguração no monte (cf. Lc 9,28-29), quando cura o surdo mudo
(cf. Mc 7,34) e ressuscita Lázaro (cf. Jo 11,41ss), antes da confissão de Pedro (cf. Lc
9,18), quando ensina os discípulos a rezar (cf. Lc 11,1) e quando eles regressam depois
de ter cumprido a sua missão (cf. Mt 11,25ss; Lc 10,21ss), ao abençoar as crianças (cf.
Mt 19,13) e ao rezar por Pedro (cf. Lc 22,32), etc.

Toda a sua atividade quotidiana derivava da oração. Assim, ele retirava-se para o
deserto ou para o monte para rezar (cf. Mc 1,35; 6,46; Lc 5,16; Mt 4,1; 14,23),
levantava-se de manhã muito cedo (cf. Mc 1,35) e passava a noite inteira em oração a
Deus (cf. Mt 14,23.25; Mc 6,46.48; Lc 6,12).

Até ao fim da sua vida, na última Ceia (cf. Jo 17,1-26), na agonia (cf. Mt 26,36-44 par.)
e na cruz (cf. Lc 23,34.46; Mt 27,46; Mc 15,34), o divino Mestre demonstrou que a
oração animava o seu ministério messiânico e o seu êxodo pascal. Ressuscitado de entre
os mortos, vive para sempre e intercede por nós (cf. Hb 7,25)[215].

Por isso, a prioridade fundamental do sacerdote é a sua relação pessoal com Cristo
através de abundantes momentos de silêncio e de oração, nos quais cultiva e aprofunda
o próprio relacionamento com a pessoa viva do Senhor Jesus. Seguindo o exemplo de
São José, o silêncio do sacerdote «não manifesta um vazio interior, mas, ao contrário, a
plenitude de fé que ele traz no coração, e que orienta todos os seus pensamentos e todas
as suas ações»[216]. Um silêncio que, como o do santo Patriarca, «conserva a Palavra
de Deus, conhecida através das Sagradas Escrituras, comparando-a continuamente com
os acontecimentos da vida de Jesus; um silêncio impregnado de oração constante, de
oração de bênção do Senhor, de adoração da sua santa vontade e de confiança sem
reservas na sua providência»[217].
Na comunhão da Sagrada Família de Nazaré, o silêncio de José se harmonizava com o
recolhimento de Maria, «realização mais perfeita» da obediência da fé[218], a qual
«conservava e meditava no seu coração todas as “maravilhas” feitas pelo
Omnipotente»[219].

Deste modo, os fiéis verão no sacerdote um homem apaixonado por Cristo, que leva
consigo o fogo do Seu amor; um homem que se sabe chamado pelo Senhor e está cheio
de amor pelos seus.

Imitar a Igreja que reza

52. Para permanecer fiel ao empenho de “estar com Jesus”, é necessário que o
presbítero saiba imitar a Igreja que reza.

Proclamando a Palavra de Deus, que ele mesmo recebeu com alegria, o sacerdote
recorde-se da exortação que o Bispo lhe dirigiu no dia da sua ordenação: «Por isso,
fazendo da Palavra o objeto da tua contínua reflexão, crê sempre no que lês, ensina o
que crês, realiza na vida o que ensinas. Deste modo, enquanto com a doutrina darás
alimento ao Povo de Deus e com o bom testemunho da vida lhe servirás de conforto e
sustento, tornar-te-ás construtor do templo de Deus, que é a Igreja». De forma
semelhante, em relação à celebração dos sacramentos e, em particular, da Eucaristia:
«Sê, portanto, consciente do que fazes, imita o que realizas e dado que celebras o
mistério da morte e da ressurreição do Senhor, leva a morte de Cristo no teu corpo e
caminha na sua novidade de vida». E, enfim, em relação à guia pastoral do Povo de
Deus para conduzi-lo até ao Pai: «Por isso não deixes nunca de ter o olhar fixo em
Cristo, bom Pastor, que veio, não para ser servido, mas para servir e para procurar e
salvar os que estavam perdidos»[220].

Oração como comunhão

53. Fortificado pela especial ligação ao Senhor, o presbítero saberá enfrentar os


momentos em que poderia sentir-se só no meio dos homens; renovando energicamente
o seu estar com Cristo na Eucaristia, lugar real da presença do seu Senhor.

Como Jesus, que enquanto estava só estava continuamente com o Pai (cf. Lc 3,21; Mc
1,35), assim também o presbítero deve ser o homem que, na solidão, encontra a
comunhão com Deus[221], de modo a poder dizer com S. Ambrósio: «Nunca estou
menos só do que quando pareço estar só»[222].

Ao lado do Senhor, o presbítero encontrará a força e os instrumentos para re-aproximar


os homens de Deus, para acender a sua fé, para suscitar empenho e partilha.

2.3. Caridade pastoral

Manifestação da caridade de Cristo

54. A caridade pastoral, intimamente conexa à Eucaristia, constitui o principio interior e


dinâmico capaz de unificar as múltiplas e diversas atividades pastorais do presbítero e
conduzir os homens à vida da Graça.
A atividade ministerial deve ser uma manifestação da caridade de Cristo, da qual o
presbítero saberá exprimir atitudes e comportamentos, até a doação total de si em
benefício do rebanho que lhe foi confiado[223]. Deve ser particularmente próxima aos
sofredores, aos pequenos, às crianças, às pessoas em dificuldade, aos marginalizados e
aos pobres, levando a todos o amor e a misericórdia do Bom Pastor.

Assimilar a caridade pastoral de Cristo de maneira a torná-la forma da própria vida, é


uma meta que exige do sacerdote uma intensa vida eucarística, bem como empenhos e
sacrifícios contínuos, já que ela não se improvisa, não conhece pausas nem pode ser
conseguida duma vez para sempre. O ministro de Cristo deve sentir-se obrigado a viver
e a testemunhar esta realidade sempre e em toda a parte, mesmo quando, por causa da
idade, fosse aliviado dos encargos pastorais.

Funcionalismo

55. A caridade pastoral corre, sobretudo hoje, o perigo de ser esvaziada do seu
significado pelo assim chamado funcionalismo. Com efeito, não é raro notar, mesmo em
alguns sacerdotes, o influxo duma mentalidade que tende erroneamente a reduzir o
sacerdócio ministerial só aos aspectos funcionais. Ser padre consistiria em realizar
alguns serviços e em garantir algumas prestações de trabalho. Tal concepção, redutora
da identidade e do ministério do sacerdote, corre o risco de lançá-lo num vazio, que
muitas vezes é preenchido por formas de vida que não estão de acordo com o próprio
ministério.

O sacerdote que sabe ser ministro de Cristo e da Igreja, que age como apaixonado por
Cristo com todas as forças da sua vida ao serviço de Deus e dos homens, encontra na
oração, no estudo e na leitura espiritual a força necessária para vencer também este
perigo[224].

2.4. A obediência

Fundamento da obediência

56. A obediência é uma virtude de importância primária e está estreitamente unida à


caridade. Como ensina o Servo de Deus Paulo VI, na «caridade pastoral» se pode
superar «a relação de obediência jurídica, para que essa obediência seja mais voluntária,
mais leal e mais segura»[225]. O próprio sacrifício de Jesus na Cruz adquiriu valor e
significado salvífico por causa da sua obediência e da sua fidelidade à vontade do Pai.
Ele «foi obediente até a morte e morte de cruz» (Fl 2,8). A carta aos Hebreus sublinha
também que Jesus «aprendeu por experiência a obediência pelas coisas que sofreu» (Hb
5,8). Pode, por isso, dizer-se que a obediência ao Pai está no próprio coração do
Sacerdócio de Cristo.

Como para Cristo, assim também para o presbítero, a obediência exprime a total e
alegre disponibilidade de se cumprir a vontade de Deus. Por isso, o sacerdote reconhece
que esta Vontade é manifestada também pelas indicações dos legítimos superiores. Esta
disponibilidade deve ser entendida como uma verdadeira realização da liberdade
pessoal, consequência duma escolha amadurecida constantemente diante de Deus na
oração. A virtude da obediência, requerida intrinsecamente pelo sacramento e pela
estrutura hierárquica da Igreja, é claramente prometida pelo clérigo, primeiro no rito da
ordenação diaconal e, depois, no da ordenação presbiteral. Mediante ela, o presbítero
fortalece a sua vontade de comunhão, entrando, assim, na dinâmica da obediência de
Cristo, feito Servo obediente até à morte de Cruz (cf. Fl 2,7-8)[226].

Na cultura contemporânea, é sublinhada a importância da subjetividade e da autonomia


da pessoa individual, como intrínseca à sua dignidade. Esta realidade, em si mesma
positiva, se for absolutizada e reivindicada fora do seu justo contexto, se torna
negativa[227]. Isso pode se manifestar também no âmbito eclesial e na própria vida do
sacerdote, no momento em que as atividades que realiza a favor da comunidade forem
reduzidas a um fato puramente subjetivo.

Na realidade, o presbítero está, pela natureza do seu ministério, ao serviço de Cristo e da


Igreja. Portanto, estará disponível a acolher quanto lhe é justamente indicado pelos
Superiores e dum modo particular, se não estiver legitimamente impedido, deverá
aceitar e cumprir fielmente o encargo que lhe foi confiado pelo seu Ordinário[228].

O Decreto Presbyterorum Ordinis descreve os fundamentos da obediência dos


sacerdotes a partir da obra divina à qual estão chamados, mostrando depois o contexto
desta obediência:

- o mistério da Igreja: «o ministério sacerdotal, porém, sendo ministério da própria


Igreja, só em comunhão hierárquica com todo o corpo se pode desempenhar»[229].

- a fraternidade cristã: «a caridade pastoral instiga os presbíteros [para que], agindo


nesta comunhão, entreguem a sua vontade por obediência ao serviço de Deus e dos seus
irmãos, recebendo com espírito de fé e executando o que lhes é preceituado ou
recomendado pelo Sumo Pontífice, pelo próprio Bispo e outros Superiores, entregando-
se e “super-entregando-se”, de todo o coração, a qualquer cargo, ainda que humilde e
pobre, que lhes seja confiado. Desta forma, conservam a necessária unidade e estreitam-
na com os seus irmãos no ministério, sobretudo com aqueles que o Senhor pôs como
chefes visíveis da sua Igreja, e trabalham para a edificação do corpo de Cristo, que
cresce “por toda a espécie de junturas que o alimentam”»[230].

Obediência hierárquica

57. O presbítero deve uma «especial obrigação de respeito e obediência» ao Sumo


Pontífice e ao Ordinário próprio[231]. Pelo fato de pertencer a um determinado
presbitério, o presbítero está agregado ao serviço duma Igreja particular, cujo princípio
e fundamento de unidade é o Bispo[232], que tem sobre ela todo o poder ordinário,
próprio e imediato, necessário para o exercício do seu múnus pastoral[233]. A
subordinação hierárquica, requerida pelo sacramento da Ordem, encontra a sua atuação
eclesiológico-estrutural na referência ao Bispo próprio e ao Romano Pontífice, o qual
detém o primado (principatus) do poder ordinário sobre todas as Igrejas
particulares[234].

A obrigação de adesão ao Magistério em matéria de fé e de moral está intrinsecamente


ligada a todas as funções que o sacerdote deve desenvolver na Igreja[235]. O
procedimento contrário neste campo deve considerar-se grave, dado que produz o
escândalo e a desorientação dos fiéis. O apelo à desobediência, especialmente ao
Magistério definitivo da Igreja, não é uma via para a renovação da Igreja[236]. A sua
inesgotável vivacidade pode derivar apenas do seguimento do Mestre, obediente até a
cruz, com cuja missão se colabora «com o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da
obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor»[237].

Ninguém mais do que o presbítero está consciente de que a Igreja tem necessidade de
normas, as quais servem para proteger adequadamente os dons do Espírito Santo
confiados à Igreja, porque, com efeito, uma vez que a sua estrutura hierárquica e
orgânica é visível, o exercício das funções confiadas por Deus, especialmente a de guia
e a da celebração dos sacramentos, deve ser adequadamente organizado[238].

Enquanto ministro de Cristo e da sua Igreja, o presbítero assume generosamente o


empenho de observar fielmente todas e cada uma das normas, evitando aquelas formas
de adesão parcial, segundo critérios subjetivos, que criam divisão e se repercutem, com
notável dano pastoral, também sobre os fiéis leigos e sobre a opinião pública. Pois, «as
leis canônicas, por sua mesma natureza, exigem a observância» e requerem «que quanto
é mandado pela cabeça seja observado nos membros»[239].

Obedecendo a autoridade constituída, o sacerdote, entre outras coisas, favorece a mútua


caridade no interior do presbitério e a unidade, que tem o seu fundamento na verdade.

Autoridade exercida com caridade

58. Para que a observância da obediência se dê e para ela poder alimentar a comunhão
eclesial, todos os que estão constituídos em autoridade – os Ordinários, os Superiores
religiosos, os Diretores de Sociedades de vida apostólica –, para além de oferecer o
necessário e constante exemplo pessoal, devem exercer com caridade o seu carisma
institucional, quer prevendo, quer pedindo, nos modos e ocasiões convenientes, a
adesão a todas as disposições no âmbito magisterial e disciplinar[240].

Tal adesão é fonte de liberdade, enquanto não impede, mas estimula a espontaneidade
amadurecida do presbítero, que saberá assumir uma atitude pastoral serena e
equilibrada, em relação ao que está estabelecido, criando a harmonia na qual o gênio
pessoal se funde numa unidade superior.

Respeito às normas litúrgicas

59. Entre os vários aspectos do problema, mormente percebidos hoje, merece especial
atenção o do convicto amor e respeito às normas litúrgicas.

A liturgia é o exercício do sacerdócio de Cristo[241], «o cume para o qual tende a ação


da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte da qual provém toda a sua virtude»[242]. Ela
constitui um âmbito em que o sacerdote deve ter particular consciência de ser ministro,
isto é, servo, e de dever obedecer fielmente à Igreja. «Regular a sagrada liturgia
compete unicamente à autoridade da Igreja, que reside na Sé Apostólica e no Bispo,
segundo as normas do direito»[243]. Portanto, em tal matéria, ele não acrescentará,
tirará ou mudará seja o que for por iniciativa própria[244].

Dum modo particular, isto vale para a celebração dos sacramentos, que são por
excelência atos de Cristo e da Igreja, e que o sacerdote administra na pessoa de Cristo
Cabeça e em nome da Igreja para o bem dos fiéis[245]. Estes têm um verdadeiro direito
de participar nas celebrações litúrgicas assim como as quer a Igreja e não segundo os
gostos pessoais de cada ministro e nem sequer segundo os particularismos rituais não
aprovados, expressões de grupos particulares que tendem a fechar-se à universalidade
do Povo de Deus.

Unidade de planos pastorais

60. É necessário que os sacerdotes, no exercício do seu ministério, não só participem


responsavelmente na definição aos planos pastorais que o Bispo – com a colaboração do
Conselho Presbiteral[246] – determina, mas também harmonizem com eles as
realizações práticas na própria comunidade.

A sábia criatividade e o espírito de iniciativa, próprios da maturidade dos presbíteros,


não só não serão anulados, como poderão ser adequadamente valorizados, com grande
vantagem para a fecundidade pastoral. Seguir por caminhos separados neste campo
pode significar não só rotura da comunhão necessária, mas também enfraquecimento da
própria obra de evangelização.

Importância e obrigatoriedade do hábito eclesiástico

61. Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, em que também os sinais


externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, sente-se
particularmente a necessidade de que o presbítero – homem de Deus, dispensador dos
seus mistérios – seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como
sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor de um ministério
público[247]. O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo seu comportamento,
mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente perceptível por cada fiel,
melhor ainda por cada homem[248], a sua identidade e pertença a Deus e à Igreja.

O hábito talar é sinal exterior de uma realidade interior: «efetivamente, o presbítero já


não pertence a si mesmo, mas, pelo selo sacramental por ele recebido (cf. Catecismo da
Igreja Católica, nn. 1563 e 1582), é “propriedade” de Deus. Este seu “ser de Outro”
deve tornar-se reconhecível por parte de todos, através de um testemunho límpido. [...]
No modo de pensar, falar, julgar os acontecimentos do mundo, servir e amar, e de se
relacionar com as pessoas, também no hábito, o presbítero deve haurir força profética da
sua pertença sacramental»[249].

Por este motivo, o clérigo, bem como o diácono transitório, deve[250]:

a) trazer o hábito talar ou «um hábito eclesiástico decoroso, segundo as normas


emanadas pela Conferência Episcopal e segundo os legítimos costumes locais»[251];
isto significa que tal hábito, quando não é o talar, deve ser diverso da maneira de vestir
dos leigos e conforme a dignidade e sacralidade do ministério. O feitio e a cor devem
ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos.

b) Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as praxes contrárias não
possuem a racionalidade necessária para que se possam tornar costumes
legítimos[252] e devem ser removidas pela autoridade eclesiástica competente[253].
Salvas situações excepcionais, o não uso do hábito eclesiástico por parte do clérigo
pode manifestar uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente
dedicado ao serviço da Igreja[254].

Além disso, a veste talar – também pela forma, cor e dignidade – é especialmente
oportuna, porque distingue claramente os sacerdotes dos leigos e dá a entender melhor o
caráter sagrado do seu ministério, recordando ao próprio presbítero que, sempre e em
qualquer momento, é sacerdote, ordenado para servir, para ensinar, para guiar e para
santificar as almas, principalmente pela celebração dos sacramentos e pela pregação da
Palavra de Deus. Vestir o hábito clerical serve, ademais, para a salvaguarda da pobreza
e da castidade.

2.5. Pregação da Palavra

Fidelidade à Palavra

62. Cristo confiou aos Apóstolos e à Igreja a missão de pregar a Boa Nova a todos os
homens.

Transmitir a fé é preparar um povo para o Senhor, revelar, anunciar e aprofundar a


vocação cristã; isto é, a chamada que Deus dirige a cada homem manifestando-lhe o
mistério da salvação e, contemporaneamente, o lugar que ele deve ocupar em relação a
tal ministério, como filho de adoção no Filho[255]. Este duplo aspecto é evidenciado
sinteticamente no Símbolo da Fé, uma das expressões mais autorizadas daquela fé com
que a Igreja sempre respondeu ao apelo de Deus[256].

Colocam-se, então, duas exigências ao ministério presbiteral. Há, em primeiro lugar, o


caráter missionário da transmissão da fé. O ministério da palavra não pode ser abstrato
ou distante da vida das pessoas; ao contrário, ele deve referir-se diretamente ao sentido
da vida do homem, de cada homem, e, portanto, deverá entrar nas questões mais vivas
que se colocam à consciência humana.

Por outro lado, há uma exigência de autenticidade e de conformidade com a fé da Igreja,


guardiã da verdade acerca de Deus e do homem. Isto deve ser feito com sentido de
extrema responsabilidade, consciente de que se trata de uma questão da máxima
importância, enquanto está em jogo a vida do homem e o sentido da sua existência.

Em ordem a um frutuoso ministério da Palavra, tendo presente tal contexto, o presbítero


deve dar o primado ao testemunho de vida, que faz descobrir a potência do amor de
Deus e torna persuasiva a sua palavra. Além disso, não descuidará da pregação explícita
do mistério de Cristo aos crentes, aos não cristãos e aos não crentes; da catequese, que é
a exposição ordenada e orgânica da doutrina da Igreja; e da aplicação da verdade
revelada à solução dos casos concretos[257].

A consciência da absoluta necessidade de «permanecer» fiéis e ancorados à Palavra de


Deus e à Tradição para ser verdadeiramente discípulos de Cristo e conhecer a verdade
(cf. Jo 8,31-32) acompanhou sempre a história da espiritualidade sacerdotal e foi
sublinhada com autoridade também pelo Concílio Ecumênico Vaticano II[258]. Por
isso, é de grande utilidade «antiga prática da lectio divina, ou “leitura espiritual” da
Sagrada Escritura. Ela consiste em permanecer prolongadamente sobre um texto bíblico,
lendo-o e relendo-o, quase “ruminando-o”, como dizem os Padres, e espremendo, por
assim dizer, todo o seu “sumo”, para que alimente como linfa a vida concreta»[259].

Sobretudo, na sociedade contemporânea, marcada em muitos Países pelo materialismo


teórico e prático, pelo subjetivismo e pelo relativismo cultural, é necessário que o
Evangelho seja apresentado como «a potência de Deus para salvar aqueles que crêem»
(Rm 1,16). Os presbíteros, recordando que «a fé depende da pregação e a pregação, por
sua vez, se atua pela Palavra de Cristo» (Rm 10,17), empenharão todas as suas energias
para corresponder a esta missão, que é primária no seu ministério. Com efeito, eles são
não só as testemunhas, mas também os anunciadores e transmissores da fé[260].

Tal ministério – realizado na comunhão hierárquica – habilita-os a exprimir com


autoridade a fé católica e a dar testemunho da fé em nome da Igreja. Com efeito, o Povo
de Deus «é reunido antes de mais mediante a palavra de Deus vivo, que todos têm o
direito de procurar nos lábios dos sacerdotes»[261].

Para ser autêntica, a Palavra deve ser transmitida sem duplicidade e sem nenhuma
falsificação, mas manifestando com franqueza a verdade diante de Deus (cf. 2Cor 4,2).
O presbítero, com uma maturidade responsável, evitará disfarçar, reduzir, distorcer ou
diluir o conteúdo da mensagem divina. Com efeito, a sua missão «não é de ensinar uma
sabedoria própria, mas sim de ensinar a palavra de Deus e de convidar insistentemente a
todos à conversão e à santidade»[262]. «Consequentemente, as suas palavras, as suas
opções e atitudes devem ser cada vez mais uma transparência, um anúncio e um
testemunho do Evangelho; “só ‘permanecendo’ na Palavra, é que o presbítero se tornará
perfeito discípulo do Senhor, conhecerá a verdade e será realmente livre”»[263].

Portanto, a pregação não se pode reduzir à comunicação de pensamentos próprios, à


manifestação da experiência pessoal, a simples explicações de caráter psicológico[264],
sociológico ou filantrópico; nem sequer ser excessivamente condescendente ao fascínio
da retórica, muitas vezes tão habitual na comunicação às multidões. Trata-se de
anunciar uma Palavra de que não é permitido dispor, dado que foi confiada à Igreja para
defender, compreender e transmitir fielmente[265]. Em todo caso, é necessário que o
sacerdote prepare adequadamente a sua pregação, mediante a oração, o estudo sério e
atualizado, e o esforço de aplicá-la concretamente às condições dos destinatários. De
modo particular, como recordou Bento XVI, «considera-se que é oportuno oferecer
prudentemente, a partir do Lecionário trienal, homilias temáticas aos fiéis que tratem, ao
longo do ano litúrgico, os grandes temas da fé cristã, haurindo de quanto está
autorizadamente proposto pelo Magistério nos quatro “pilares” do Catecismo da Igreja
Católica e no recente Compêndio: a profissão da fé, a celebração do mistério cristão, a
vida em Cristo, a oração cristã»[266]. Assim, as homilias, a catequese, etc., poderão
servir de verdadeiro auxílio aos fiéis, para a melhora de sua vida de relação com Deus e
com os outros.

Palavra e vida

63. A consciência da própria missão de anunciador do Evangelho, como instrumento de


Cristo e do Espírito Santo, deverá pastoralmente concretizar-se de modo que o
presbítero cada vez mais possa vivificar, à luz da Palavra de Deus, as diversas situações
e os diversos ambientes nos quais ele desenvolve o seu ministério.
Para ser eficaz e credível, é importante que o presbítero – na perspectiva da fé e do seu
ministério – conheça, com um sentido crítico construtivo, as ideologias, a linguagem, os
laços culturais, as tipologias difundidas pelos meios de comunicação e que, em grande
parte, condicionam as mentalidades.

Estimulado pelo Apóstolo, que exclamava: «ai de mim se não pregar o Evangelho!»
(1Cor 9,16), saberá utilizar todos os meios de transmissão que as ciências e a tecnologia
moderna lhe oferecem.

Certamente, nem tudo depende de tais meios ou das capacidades humanas, já que a
graça divina pode conseguir o seu efeito independentemente da obra dos homens. Mas,
no plano de Deus, a pregação da Palavra é, normalmente, o canal privilegiado para a
transmissão da fé e para a missão evangelizadora.

Para tantos, que hoje estão fora ou longe do anúncio de Cristo, o presbítero sentirá como
particularmente urgente e atual este questionamento dramático: «Como poderão
acreditar sem ter ouvido falar? E como poderão ouvir falar sem alguém que lhes
anuncie?» (Rm 10,14).

Para responder a tais questionamentos, ele deve sentir-se empenhado pessoalmente em


cultivar a Sagrada Escritura com o estudo duma sã exegese, sobretudo patrística, e com
a meditação, feita segundo os diversos métodos comprovados pela tradição da Igreja, de
maneira a obter dela uma compreensão animada pelo amor[267]. É particularmente
importante ensinar a cultivar esta relação pessoal com a Palavra de Deus já nos anos de
seminário, em que os aspirantes ao sacerdócio são chamados a estudar as Escrituras para
se tornarem mais «conscientes do mistério da revelação divina e alimentar uma atitude
de resposta orante ao Senhor que fala. Por sua vez, uma vida autêntica de oração não
poderá deixar de fazer crescer, na alma do candidato, o desejo de conhecer cada vez
mais a Deus que Se revelou na sua Palavra como amor infinito»[268].

64. Por esse motivo, o presbítero tem o dever de reservar particular atenção à
preparação, quer remota quer próxima, da homilia litúrgica, do seu conteúdo, fazendo
referência aos textos litúrgicos, sobretudo ao Evangelho, ao equilíbrio entre parte de
exposição e de aplicação, à pedagogia e à técnica de apresentar, até à boa dicção, que
respeite a dignidade do ato e dos destinatários[269]. Em particular, «devem-se evitar
tanto homilias genéricas e abstratas que ocultam a simplicidade da Palavra de Deus,
como inúteis divagações que ameaçam atrair a atenção mais para o pregador do que
para o coração da mensagem evangélica. Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo
que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada
homilia»[270].

Palavra e catequese

65. Hoje, quando em muitos ambientes se difunde um analfabetismo religioso, nos quais
os elementos fundamentais da fé são sempre menos evidentes, a catequese se revela
como parte fundamental da missão evangelizadora da Igreja, sendo instrumento
privilegiado do ensino e da maturação da fé[271].

O presbítero, enquanto colaborador e por mandato do Bispo, tem a responsabilidade de


animar, coordenar e dirigir a atividade catequética da comunidade que lhe está confiada.
É importante que ele saiba integrar tal atividade num projeto orgânico de evangelização,
garantindo, antes de tudo, a comunhão da catequese da própria comunidade com a
pessoa do Bispo, com a Igreja particular e com a Igreja universal[272].

Dum modo particular, ele deverá saber suscitar a justa e oportuna responsabilidade e a
colaboração em relação à catequese, quer dos membros dos Institutos de Vida
consagrada e das Sociedades de vida apostólica, quer dos fiéis leigos[273],
adequadamente preparados, mostrando-lhes reconhecimento e estima pelo trabalho
catequético.

Deve pôr especial cuidado na cura da formação inicial e permanente dos catequistas. Na
medida do possível, o sacerdote deverá ser o catequista dos catequistas, formando com
eles uma verdadeira comunidade de discípulos do Senhor, que sirva como ponto de
referência para os catequizandos. Assim, lhes ensinará que o serviço ao ministério do
ensino deve ser medido pela Palavra de Jesus Cristo e não por teorias e opiniões
privadas: é «a fé da Igreja da qual somos servidores»[274].

Mestre[275] e educador da fé[276], o presbítero fará com que a catequese seja parte
privilegiada da educação cristã na família, no ensino religioso, na formação dos
movimentos apostólicos, etc., e que ela se dirija a todas as categorias de fiéis: crianças e
jovens, adolescentes, adultos e idosos. Além disso, na transmissão do ensino catequético
fará uso de todas as ajudas, subsídios didáticos e instrumentos de comunicação que
possam ser eficazes, a fim de que os fiéis, de maneira adaptada à sua índole, capacidade,
idade e às condições práticas de vida, sejam capazes de apreender com maior plenitude
a doutrina cristã e de traduzi-la na prática da maneira mais conveniente[277].

Para tal fim, o presbítero terá como principal ponto de referência o Catecismo da Igreja
Católica e o seu Compêndio. Estes textos, com efeito, constituem norma segura e
autêntica do ensino da Igreja[278] e, por isso, se deve encorajar a sua leitura e o seu
estudo. Devem ser sempre o ponto de apoio seguro e insubstituível para o ensino dos
«conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja Católica a sua síntese
sistemática e orgânica»[279]. Como recordou o Santo Padre Bento XVI, no Catecismo,
«sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os
seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os
Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma
memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e
progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé»[280].

2.6. O sacramento da Eucaristia

O Mistério eucarístico

66. Se o serviço da Palavra é elemento fundamental do ministério presbiteral, o coração


e o centro vital desse é, sem dúvida, constituído pela Eucaristia, que é, sobretudo, a
presença real, no tempo, do único e eterno sacrifício de Cristo[281].

Memorial sacramental da morte e ressurreição de Cristo, representação real e eficaz do


único Sacrifício redentor, fonte e cume da vida cristã e de toda a evangelização[282], a
Eucaristia é princípio, meio e fim do ministério sacerdotal, uma vez que «todos os
ministérios eclesiásticos e as obras de apostolado estão estritamente unidos à Eucaristia
e a ela estão ordenados»[283]. Consagrado para perpetuar o Santo Sacrifício, o
presbítero manifesta, assim, de maneira mais evidente, a sua identidade[284].

Existe, com efeito, uma conexão íntima entre a centralidade da Eucaristia, a caridade
pastoral e a unidade de vida do presbítero[285], o qual encontra nela as indicações
decisivas para o itinerário de santidade a que é especificamente chamado.

Se o presbítero empresta a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, a inteligência, a vontade, a


voz e as mãos para, mediante o seu ministério, poder oferecer ao Pai o sacrifício
sacramental da redenção, deverá fazer próprias as disposições do Mestre e viver, como
Ele, sendo dom para os seus irmãos. Deverá, por isso, aprender a unir-se intimamente à
oferta, colocando sobre o altar do sacrifício toda a sua vida como sinal manifestativo do
amor gratuito e preveniente de Deus.

Celebrar bem a Eucaristia

67. O sacerdote é chamado a celebrar o Santo Sacrifício eucarístico, a meditar


constantemente sobre o seu significado e a transformar a sua vida numa Eucaristia, o
que se manifesta no amor ao sacrifício cotidiano, sobretudo no cumprimento dos
próprios deveres de estado. O amor à cruz conduz o sacerdote a tornar-se uma oferta
agradável ao Pai por meio de Cristo (cf. Rm 12,1). Amar a cruz, numa sociedade
hedonista, é um escândalo, porém, desde uma perspectiva de fé, esta é fonte de vida
interior. O sacerdote deve pregar o valor redentor da cruz com o seu estilo de vida.

É necessário chamar a atenção para o valor insubstituível que tem para o sacerdote a
celebração cotidiana da Santa Missa – “fonte e ápice”[286] da vida sacerdotal –, mesmo
sem a presença de fiéis[287]. A este respeito, ensina Bento XVI, juntamente com os
padres do Sínodo, recomendo aos sacerdotes “a celebração diária da Santa Missa,
mesmo quando não houver participação de fiéis”. Tal recomendação é ditada, antes de
mais nada, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é
motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé,
a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a
configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação»[288].

Ele deve vivê-la como o momento central do dia e do ministério cotidiano, fruto dum
desejo sincero e ocasião de encontro profundo e eficaz com Cristo. Na Eucaristia, o
sacerdote aprende a doar-se cada dia, não apenas nos momentos de grande dificuldade,
mas também nas pequenas contrariedades diárias. Esta aprendizagem se reflete no amor
com o qual se prepara para a celebração do Santo Sacrifício, para vivê-lo com piedade,
sem pressa, cuidando das normas litúrgicas e das rubricas, a fim de que os fiéis
assimilem, deste modo, uma verdadeira catequese[289].

Numa civilização cada vez mais sensível à comunicação mediante os sinais e as


imagens, o sacerdote concederá adequada atenção a tudo o que possa exaltar o decoro e
a sacralidade da celebração eucarística. É importante que, em tal celebração, se dê justo
ressalto à qualidade e à limpeza do lugar, bem como à arquitetura do altar e do
tabernáculo[290], à nobreza dos vasos sagrados, dos paramentos[291], do canto[292],
da música[293], ao silêncio sagrado[294], o uso do incenso nas celebrações mais
solenes, etc., repetindo aquele gesto amável de Maria para com o Senhor, quando
«tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e
enxugou-os com seus cabelos, e toda a casa encheu-se do perfume do bálsamo» (Jo
12,3). Todos estes são elementos que podem contribuir para uma melhor participação
no Sacrifício eucarístico. Com efeito, a escassa atenção aos aspectos simbólicos da
liturgia e, mais ainda, o desleixo e a pressa, a superficialidade e a desordem, esvaziam o
seu significado, enfraquecendo a sua função de incremento da fé[295]. Quem celebra
mal manifesta a fraqueza da sua fé e não educa os outros na fé. Ao contrário, celebrar
bem constitui uma primeira e importante catequese sobre o santo Sacrifício.

De modo especial, na celebração eucarística, as normas litúrgicas devem ser observadas


com generosa fidelidade. Estas «constituem uma expressão concreta da autêntica
eclesialidade da Eucaristia; tal é o seu sentido mais profundo. A liturgia nunca é
propriedade privada de alguém, nem do celebrante, nem da comunidade onde são
celebrados os santos mistérios. [...] Atualmente, também deveria ser redescoberta e
valorizada a obediência às normas litúrgicas como reflexo e testemunho da Igreja, una e
universal, que se torna presente em cada celebração da Eucaristia. O sacerdote que
celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas
adere, demonstram de modo silencioso, mas expressivo, o seu amor à Igreja»[296].

Por isso, o sacerdote, embora coloque ao serviço da celebração todos os seus talentos
para torná-la viva e participada pelos fiéis, deve ater-se ao rito estabelecido nos livros
litúrgicos aprovados pela autoridade competente, sem acrescentar, tirar ou mudar
nada[297].

Assim, a sua celebração se torna realmente uma celebração da Igreja e com a Igreja: não
faz “algo seu”, mas está, com a Igreja, em colóquio com Deus. Isto favorece também
uma adequada participação ativa dos fiéis na sagrada liturgia: «A ars celebrandi é a
melhor condição para a actuosa participatio. Aquela resulta da fiel obediência às
normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há
dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração
enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa (cf. 1Pd 2,4-5.9)»[298].

Os Ordinários, os Superiores religiosos, os Diretores das sociedades de vida apostólica e


os outros Prelados, têm o dever grave, para além de dar o exemplo, de vigiar, a fim de
que as normas litúrgicas concernentes à celebração da Eucaristia sejam fielmente
observadas por todos os seus fiéis, sempre e em todos os lugares.

Os sacerdotes que celebram ou que concelebram são obrigados a usar as vestes sagradas
prescritas pelas rubricas[299].

Adoração eucarística

68. A centralidade da Eucaristia deverá mostrar-se não só mediante a celebração digna e


vivida do Sacrifício, mas também mediante a adoração frequente do Sacramento, de
maneira que o presbítero se apresente como modelo do rebanho também na atenção
devota e na meditação assídua feita na presença do Senhor no sacrário. É desejável que
os presbíteros encarregados da direção de comunidades dediquem largos espaços de
tempo à adoração comunitária – por exemplo, todas as quintas-feiras, os dias de oração
pelas vocações, etc. – e reservem ao Santíssimo Sacramento do altar, mesmo fora da
missa, atenções e honras superiores a qualquer outro rito e gesto. «A fé e o amor à
Eucaristia não podem permitir que a presença de Cristo no Tabernáculo permaneça
solitária»[300]. Impulsionados pelo exemplo de fé dos pastores, os fiéis procurarão
ocasiões ao longo da semana para dirigir-se à Igreja e adorar nosso Senhor, presente no
Sacrário.

Momento privilegiado da adoração eucarística pode ser a celebração da Liturgia das


Horas, a qual constitui, durante o dia, o verdadeiro prolongamento do sacrifício de
louvor e de ação de graças que têm na Eucaristia o centro e a fonte sacramental. A
Liturgia das Horas, na qual o sacerdote, unido a Cristo, é a voz da Igreja para o mundo
inteiro, também será celebrada comunitariamente, quando for possível, e nas formas
convenientes, de maneira a ser «intérprete e veículo da voz universal que canta a glória
de Deus e pede a salvação do homem»[301].

Os Capítulos canonicais devem reservar a tal celebração uma solenidade exemplar.

Todavia, tanto a celebração comunitária como a individual, devem ser vividas com
amor e desejo de reparação, sem cair num puro «dever» a ser cumprido mecanicamente,
como simples e apressada leitura sem a necessária atenção ao sentido do texto.

Intenções das Missas

69. «A Eucaristia é, pois, um sacrifício, porque represen-ta (torna presente) o sacrifício


da cruz, porque é dele o memorial e porque aplica o seu fruto»[302]. Cada celebração
eucarística atualiza o sacrifício único, perfeito e definitivo de Cristo, que salvou o
mundo sobre a Cruz de uma vez por todas. A Eucaristia é, antes de tudo, celebrada para
a glória de Deus e em ação de graças pela salvação da humanidade. Segundo uma
antiquíssima tradição, os fiéis pedem ao sacerdote para celebrar a Santa Missa, a fim de
que seja «oferecida também em reparação dos pecados dos vivos e dos defuntos e para
obter de Deus benefícios espirituais ou temporais»[303]. «Muito se recomenda aos
sacerdotes que celebrem Missa por intenção dos fiéis»[304].

A fim de participar de algum modo do sacrifício do Senhor, não apenas com o dom de
si mesmos, mas também de uma parte daquilo que possuem, os fiéis associam uma
oferta, costumeiramente pecuniária, à intenção pela qual desejam que uma Santa Missa
seja aplicada. Não se trata, de nenhum modo, duma remuneração, pois o Sacrifício
Eucarístico é absolutamente gratuito. «Impulsionados pelo seu sentido religioso e
eclesial, os fiéis querem unir, para uma mais ativa participação na celebração
eucarística, um seu concurso pessoal, contribuindo assim às necessidades da Igreja e
particularmente ao sustento dos seus ministros»[305]. A oferta pela celebração de
Santas Missas deve ser considerada como «uma forma excelente» de esmola[306].

Tal uso, é «não apenas aprovado, mas também encorajado pela Igreja, que o considera
como uma espécie de sinal de união do batizado com Cristo, e do fiel com o sacerdote,
o qual propriamente em seu favor desempenha o seu ministério»[307]. Os sacerdotes
devem, portanto, encorajar esta prática com uma catequese apta, explicando o seu
sentido espiritual e a sua fecundidade aos fiéis. Eles mesmos terão o cuidado de celebrar
a Eucaristia com a viva consciência de que, em Cristo e com Cristo, são intercessores
diante de Deus, não somente para aplicar de modo geral o Sacrifício da Cruz à salvação
da humanidade, mas também para apresentar à benevolência divina a intenção particular
que lhe foi confiada. Constitui para eles um dos modos mais excelentes de participar
ativamente na celebração do memorial do Senhor.
Os sacerdotes devem também estar convencidos de que, «desde o momento em que a
matéria toca diretamente o augusto sacramento, qualquer aparência de lucro ou de
simonia causaria escândalo»[308]. Por isso, a Igreja emanou regras precisas a
respeito[309] e pune com uma justa pena «quem fizer ilegitimamente negócio com
estipêndios de Missas»[310]. Cada sacerdote que aceita o compromisso de celebrar uma
Santa Missa segundo as intenções do oferente, deve fazê-lo, por uma obrigação de
justiça, aplicando tantas Missas quantas são as intenções[311].

Não é lícito ao sacerdote pedir uma soma maior do que aquela determinada por um
decreto da autoridade legítima ou, se este não existir, correspondente ao costume
vigente na diocese. É-lhe permitido aceitar uma oferta menor do que aquela estabelecida
ou mesmo maior, se for oferecida espontâneamente[312].

«Todos os sacerdotes devem anotar cuidadosamente as Missas que tenham recebido


para serem celebradas e aquelas que já o foram»[313]. O pároco, como também o reitor
de uma Igreja, devem anotá-las em um registro especial[314].

Pode-se aceitar apenas as ofertas de Missas que possam ser celebradas dentro de um
ano[315]. «Os sacerdotes que recebem estipêndios por intenções particulares de santas
missas em grande número [...], em vez de rechaçá-lo, frustrando a pia vontade dos
doadores e afastando-os de seu bom propósito, devem transmiti-los a outros sacerdotes
(cf. C.I.C can. 955) ou bem ao próprio Ordinário (cf. C.I.C can. 956)»[316].

«No caso em que os doadores, prévia e explicitamente advertidos, consintam livremente


que seus estipêndios sejam acumulados com outros em um único estipêndio, se pode
satisfazer com uma só santa missa, celebrada segundo uma única intenção “coletiva”.
Neste caso, é necessário que seja publicamente indicado o dia, o lugar e o horário no
qual tal Santa Missa será celebrada, não mais de duas vezes por semana»[317]. Tal
exceção à vigente lei canônica, se fosse excessivamente ampliada, constituiria um
reprovável abuso[318].

Se o sacerdote celebra mais vezes no mesmo dia, reserva para si a oferta de uma só
Missa e entrega a outra para os fins determinados pelo Ordinário[319].

Cada pároco «está obrigado todos os domingos e dias festivos de preceito na sua
diocese a aplicar a Missa pelo povo que lhe foi confiado»[320].

2.7. O Sacramento da Penitência

Ministro da Reconciliação

70. O Espírito Santo para a remissão dos pecados é um dom do Ressuscitado aos
Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo; a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão
perdoados e a quem os retiverdes ser-lhe-ão retidos» (Jo 20,21-23). Cristo confiou a
obra de sacramental reconciliação do homem com Deus exclusivamente aos seus
Apóstolos e àqueles que lhes sucedem na mesma missão. Os sacerdotes são, portanto,
por vontade de Cristo, os únicos ministros do sacramento da reconciliação[321]. Como
Cristo, são enviados a chamar os pecadores à conversão e a reconduzi-los ao Pai,
mediante o julgamento de misericórdia.
A Reconciliação sacramental restabelece a amizade com Deus Pai e com todos os seus
filhos na sua família que é a Igreja, a qual, portanto, rejuvenesce sendo edificada em
todas as suas dimensões: universal, diocesana, paroquial[322].

Não obstante a triste constatação da perda do sentido do pecado, que caracteriza


largamente as culturas do nosso tempo, o sacerdote deve praticar, com alegria e
dedicação, o ministério da formação das consciências, do perdão e da paz.

Logo, é necessário que ele saiba identificar-se, em certo sentido, com este sacramento e,
assumindo a atitude de Cristo, saiba abeirar-se misericordiosamente, como bom
samaritano, da humanidade ferida, mostrando a novidade cristã da dimensão medicinal
da Penitência, que existe em ordem à cura e ao perdão[323].

Dedicação ao ministério da Reconciliação

71. Em virtude do seu múnus[324], e por causa da ordenação sacramental, o presbítero


deverá dedicar tempo, mesmo com dias e horas estabelecidos, e energias a ouvir as
confissões dos fiéis[325], os quais, como a experiência demonstra, de boa vontade vão
receber este Sacramento onde houver sacerdotes disponíveis. Além disso, nunca se
descuide da possibilidade de facilitar a cada fiel o recurso ao sacramento da Penitência e
Reconciliação, mesmo durante a celebração da Santa Missa[326]. Isto vale para toda a
parte, mas, sobretudo, para as Igrejas das zonas mais frequentadas e para os Santuários,
onde é possível uma colaboração fraterna e responsável com os sacerdotes religiosos e
com os idosos[327].

Não podemos esquecer que «a disponibilidade fiel e generosa dos sacerdotes à escuta
das confissões, segundo o exemplo dos grandes santos da história, de São João Maria
Vianney a São João Bosco, de São Josemaría Escrivá a São Pio de Pietrelcina, de São
José Cafasso a São Leopoldo Mandić, indica-nos a todos o modo como o confessionário
pode ser um “lugar” real de santificação»[328].

Cada sacerdote deve ater-se à norma eclesial que defende e promove o valor da
confissão individual e íntegra acusação dos pecados em colóquio direto com o
confessor[329]. «A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único
modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e
com a Igreja» e, por isso, «todo aquele que, em razão do ofício, tem cura de almas, está
obrigado a providenciar para que sejam ouvidas as confissões dos fiéis que lhe estão
confiados»[330]. Efetivamente, as absolvições sacramentais dadas de forma coletiva,
sem que sejam observadas as normas estabelecidas, devem ser consideradas como
graves abusos[331].

Acerca da sede para as confissões, as normas são estabelecidas pela Conferência


Episcopal, «com a reserva, porém, de que existam, sempre em lugar patente,
confessionários, munidos de uma grade fixa entre o penitente e o confessor, e que
possam utilizar livremente os fiéis que assim o desejem»[332]. O confessor encontrará
maneira de iluminar a consciência do penitente com uma palavra, que, embora breve,
seja apropriada à situação concreta, de maneira a contribuir para uma renovada
orientação pessoal à conversão com uma incidência profunda no caminho espiritual,
também mediante a imposição duma penitência conveniente[333]. Deste modo, a
confissão poderá ser vivida também como momento de direção espiritual.
Em todo o caso, o sacerdote saberá manter a celebração da Reconciliação no nível
sacramental, estimulando a dor pelos pecados, a confiança na graça, etc., e, ao mesmo
tempo, superando o perigo de reduzi-la a uma atividade puramente psicológica ou
simplesmente formalística.

Isto se manifestará, entre outras coisas, em viver fielmente a disciplina vigente acerca
do lugar e da sede para as confissões, que não devem ser recebidas «fora dos
confessionários, a não ser por causa justa»[334].

Necessidade de confessar-se

72. Como todo o bom fiel, também o presbítero tem necessidade de confessar os
próprios pecados e as próprias fraquezas. Ele é o primeiro a saber que a prática deste
sacramento o fortalece na fé e na caridade para com Deus e para com os irmãos.

Para se encontrar nas melhores condições de mostrar com eficácia a beleza da


Penitência, é essencial que o ministro do sacramento ofereça um testemunho pessoal,
precedendo os outros fiéis em fazer a experiência do perdão. Isto constitui também a
primeira condição para a revalorização pastoral do sacramento da Reconciliação: na
confissão frequente, o presbítero aprende a compreender os outros, e – seguindo o
exemplo dos Santos – é estimulado a «colocá-lo no centro das [...] preocupações
pastorais»[335]. Deste modo, é uma boa coisa para os fiéis saber e dar-se conta de que
os seus sacerdotes se confessam com regularidade[336]. «Toda a existência sacerdotal
sofre uma queda inexorável, se lhe falta, por negligência ou por qualquer outro motivo,
o recurso, periódico e inspirado por uma autêntica fé e devoção, ao Sacramento da
Penitência. Em um Padre que não se confessasse mais ou se confessasse mal, o seu ser
padre e o seu trabalho de padre ressentir-se-iam muito brevemente, e dar-se-ia conta
disso a Comunidade, de que ele é pastor»[337].

Direção espiritual para si e para os outros

73. Paralelamente ao Sacramento da Reconciliação, o presbítero não deixará de exercer


o ministério da direção espiritual[338]. A descoberta e a difusão desta prática, em
momentos diversos da administração da Penitência, é um grande benefício para a Igreja
no tempo presente[339]. A disponibilidade generosa e ativa os presbíteros para praticá-
la constitui também uma ocasião importante para determinar e sustentar as vocações ao
sacerdócio e às várias formas de vida consagrada.

Para contribuir para o melhoramento da sua espiritualidade, é necessário que os


presbíteros recebam eles mesmos a direção espiritual, porque «com a ajuda do
acompanhamento ou conselho espiritual [...] é mais fácil discernir a ação do Espírito
Santo na vida de cada indivíduo»[340]. Colocando nas mãos dum sábio colega –
instrumento do Espírito Santo – a formação da sua alma, a partir dos primeiros anos de
ministério, crescerão na consciência da importância de não caminhar sozinhos pelos
caminhos da vida espiritual e do empenho pastoral. Recorrendo a este meio eficaz de
formação, tão experimentado na Igreja, os presbíteros terão plena liberdade na escolha
da pessoa que lhes possa dirigir.

2.8. Liturgia das Horas


74. Um modo fundamental para que o sacerdote esteja diante do Senhor é a Liturgia das
Horas: nela rezamos como homens necessitados do diálogo com Deus, dando a voz e
colocando-nos no lugar de todos aqueles que não sabem, não querem ou não encontram
tempo para rezar.

O Concílio Ecumênico Vaticano II recorda que os fiéis «que rezam assim, cumprem,
por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa honra da
Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja diante do trono de Deus, a louvar o
Senhor»[341]. Esta oração é, «a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a
oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai»[342]. Neste sentido, o sacerdote
prolonga e atualiza a oração de Cristo Sacerdote.

75. A obrigação cotidiana de recitar o Breviário (a Liturgia das Horas) é também um


dos compromissos solenes assumidos na ordenação diaconal de modo público, que não
pode ser omitido sem uma causa grave. É uma obrigação de amor, que deve ser cuidada
em toda circunstância, inclusive nos tempos de férias. O sacerdote «têm a obrigação de
rezar diariamente todas as Horas»[343], isto é, as Laudes e as Vésperas, bem como o
Ofício de Leituras, ao menos uma das partes da Hora média, e as Completas.

76. Para que os sacerdotes aprofundem o significado da Liturgia das Horas, se «exige,
não somente harmonizar a voz com o coração que ora, mas também procurar “adquirir
maior instrução litúrgica e bíblica, especialmente quanto aos salmos”»[344]. Assim, é
necessário interiorizar a Palavra divina, estar atentos ao que o Senhor “me” diz nesta
Palavra, escutar o comentário dos Padres da Igreja ou também do Concílio Ecumênico
Vaticano II, aprofundar na vida dos Santos e também no discurso dos Papas, na segunda
Leitura do Ofício das Leituras, e rezar com esta grande invocação que são os Salmos,
com os quais somos inseridos na oração da Igreja. «Na medida em que interiorizamos
esta estrutura, compreendemos esta estrutura, assimilamos as palavras da Liturgia,
podemos entrar nesta consonância interior e assim não só falar com Deus como pessoas
individualmente, mas entrar no “nós” da Igreja que reza. Desta forma, transformamos
também o nosso “eu” entrando no “nós” da Igreja, enriquecendo, alargando este “eu”,
rezando com a Igreja, com as palavras da Igreja, estando realmente em diálogo com
Deus»[345]. Mais do que recitar o Breviário, trata-se de favorecer uma atitude de
escuta, de fazer também a «experiência do silêncio»[346]. De fato, a Palavra pode ser
pronunciada e escutada apenas no silêncio. Mas, ao mesmo tempo, o sacerdote sabe que
o nosso tempo não favorece o recolhimento. Tantas vezes, têm-se a impressão de que
exista quase um medo de desprender-se, mesmo que por um momento, dos instrumentos
de comunicação de massa[347]. Por isso, o sacerdote deve redescobrir o sentido do
recolhimento e da quietude interior, «obter a plena ressonância da voz do Espírito Santo
nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal à palavra de Deus e à oração
oficial da Igreja»[348]; desta forma, deve sempre mais interiorizar a própria natureza de
intercessor[349]. Com a Eucaristia, para a qual é “ordenado”, o sacerdote se torna
intercessor qualificado para tratar com Deus com grande simplicidade de coração
(simpliciter) as questões dos seus irmãos homens. O Papa João Paulo II o recordava em
seu discurso pelo 30o aniversário da Presbyterorum Ordinis: «A identidade sacerdotal é
uma questão de fidelidade a Cristo e ao povo de Deus, ao qual somos mandados. A
consciência sacerdotal não se limita a algo de pessoal. É uma realidade continuamente
examinada e sentida pelos homens, porque o sacerdote é “tomado” dentre os homens e
estabelecido para intervir nas suas relações com Deus. [...] Assim como o sacerdote é
um mediador entre Deus e os homens, muitas pessoas se dirigem a ele pedindo as suas
orações. A oração, num certo sentido, “cria” o sacerdote, especialmente como pastor.
Ao mesmo tempo, cada sacerdote “cria-se a si mesmo” graças à oração. Penso na
maravilhosa oração do Breviário, Officium Divinum, na qual toda a Igreja, pela boca dos
seus ministros, reza com Cristo»[350].

2.9. Guia da comunidade

Sacerdote para a comunidade

77. O sacerdote é chamado a confrontar-se com as exigências típicas de um outro


aspecto do seu ministério, para além daqueles já referidos. Trata-se do cuidado da
comunidade que lhe foi confiada e que se exprime, sobretudo, no testemunho da
caridade.

Pastor da comunidade – à imagem de Cristo, Bom Pastor, que oferece a sua vida por
toda a Igreja –, o sacerdote existe e vive para ela; por ela reza, estuda, trabalha e se
sacrifica; por ela está disposto a dar a vida, amando-a como Cristo, dirigindo para ela
todo o seu amor e a sua estima[351], prodigando-se com todas as forças e sem limites
de tempo por torná-la, à imagem da Igreja esposa de Cristo, cada vez mais bela e digna
da complacência do Pai e do amor do Espírito Santo.

Esta dimensão esponsal da vida do presbítero como pastor fará com que ele guie a sua
comunidade servindo com dedicação todos e cada um dos seus membros, esclarecendo
as suas consciências com a luz da verdade revelada, defendendo a autenticidade
evangélica da vida cristã com autoridade, corrigindo os erros, perdoando, sanando as
feridas, consolando as aflições, promovendo a fraternidade[352].

Este conjunto de atenções, para além de garantir o testemunho de caridade cada vez
mais transparente e eficaz, manifestará também a profunda comunhão que deve
estabelecer-se entre o presbítero e a sua comunidade, como prolongamento e atualização
da comunhão com Deus, com Cristo e com a Igreja[353]. À imitação de Jesus, o
sacerdote não é chamado para ser servido, mas para servir (cf. Mt 20,28).
Constantemente deve estar atento contra a tentação de, em vista de uma vantagem
pessoal, abusar do grande respeito e deferência que os fiéis demonstram para com o
sacerdócio e a Igreja.

Sentir com a Igreja

78. Para ser bom guia do seu Povo, o presbítero estará também atento a conhecer os
sinais dos tempos: desde os que dizem mais respeito à Igreja universal e ao seu caminho
na história dos homens, aos mais próximos da situação concreta da sua comunidade.

Este discernimento requer a constante e correta atualização no estudo das Ciências


sacras e dos diversos problemas teológicos e pastorais, e o exercício duma sábia
reflexão sobre os dados sociais, culturais e científicos que caracterizam o nosso tempo.

Na prática do seu ministério, os presbíteros saberão traduzir esta exigência numa


constante e sincera atitude em sentir com a Igreja, de modo a trabalhar sempre em
comunhão com o Papa, com os Bispos, com os outros irmãos no sacerdócio, com os
diáconos, com os outros fiéis consagrados pela profissão dos conselhos evangélicos e
com todos os fiéis.

Os presbíteros devem mostrar amor fervente para com a Igreja, que é a mãe da nossa
existência cristã, e viver a alegria da pertença eclesial como um testemunho precioso
para todo o povo de Deus. Além disso, no exercício da sua atividade, não deixarão de
pedir a cooperação dos fiéis consagrados e dos fiéis leigos, de acordo com as formas
legítimas e tendo em conta as capacidades de cada um.

2.10. O celibato sacerdotal

Firme vontade da Igreja

79. Convencida das profundas motivações teológicas e pastorais que sustentam a


relação entre celibato e sacerdócio e iluminada pelo testemunho que, não obstante casos
dolorosos e negativos, ainda hoje confirma a sua validade espiritual e evangélica em
tantas existências sacerdotais, a Igreja reafirmou no Concílio Vaticano II e
repetidamente no sucessivo Magistério Pontifício a «firme vontade de manter a lei que
exige o celibato livremente escolhido e perpétuo para os candidatos à ordenação
sacerdotal no rito latino»[354].

O celibato, com efeito, é um dom jubiloso que a Igreja recebeu e quer guardar,
convencida de que ele é um bem para ela e para o mundo.

Motivação teológico-espiritual do celibato

80. Como todo valor evangélico, também o celibato consagrado deve ser vivido como
dom da misericórdia, como novidade que liberta, como particular testemunho de
radicalismo na sequela de Cristo e sinal da realidade escatológica: «o celibato é uma
antecipação, tornada possível pela graça do Senhor, que nos “atrai” para Si rumo ao
mundo da ressurreição; convida-nos sempre de novo a transcender-nos a nós mesmos,
este presente, rumo ao verdadeiro presente do futuro, que hoje se torna presente»[355].

«Nem todos são capazes de compreender o sentido desta palavra, mas somente aqueles
a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos
tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos
por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda (Mt 19,10-
12)»[356]. O celibato se revela como uma correspondência de amor por parte de uma
pessoa que, deixando «pai e mãe, segue Jesus Bom Pastor, numa comunhão apostólica
ao serviço do Povo de Deus»[357].

Para viver o dom recebido com amor e generosidade, é particularmente importante que
o sacerdote compreenda, desde o tempo da formação seminarística, a dimensão
teológica e a motivação espiritual da disciplina eclesiástica sobre o celibato[358]. Este,
como dom e carisma particular de Deus, requer a observância da castidade, portanto da
continência perfeita e perpétua por amor do Reino dos céus, para que os ministros
sagrados possam aderir mais facilmente a Cristo com coração indiviso e dedicar-se mais
livremente ao serviço de Deus e dos homens[359]: «o celibato, elevando integralmente
o homem, contribui efetivamente para a sua perfeição»[360]. A disciplina eclesiástica
manifesta, antes da vontade do sujeito, expressa pela sua disponibilidade, a vontade da
Igreja, e encontra a sua razão última no laço estreito que o celibato tem com a
ordenação sagrada, que configura o sacerdote a Jesus Cristo Cabeça e Esposo da
Igreja[361].

A carta aos Efésios (cf. 5,25) coloca em relação estreita a oblação sacerdotal de Cristo
(cf. 5,25) com a santificação da Igreja (cf. 5,26), amada com amor esponsal. Inserido
sacramentalmente neste sacerdócio de amor exclusivo de Cristo pela Igreja, sua Esposa
fiel, o presbítero exprime com o seu empenho celibatário esse amor que se torna
também fonte fecunda de eficácia pastoral.

Portanto, o celibato não é um influxo que do exterior recai sobre o ministério sacerdotal,
nem pode ser considerado simplesmente uma instituição imposta por lei, até porque,
quem recebe o sacramento da Ordem, a isso se empenha com plena consciência e
liberdade[362], depois duma preparação de muitos anos, de profunda reflexão e de
oração assídua. Juntamente com a firme convicção de que Cristo lhe concede este dom
para o bem da Igreja e para o serviço dos outros, o sacerdote assume-o para toda a vida,
reforçando esta sua vontade na promessa já feita durante o rito da ordenação
diaconal[363].

Por estas razões, a lei eclesiástica, por um lado, confirma o carisma do celibato
mostrando que ele está em íntima conexão com o ministério sagrado na sua dupla
dimensão de relação com Cristo e com a Igreja, e, por outro, tutela a liberdade daquele
que o assume[364]. Por isso, o presbítero, consagrado a Cristo com um novo e excelso
título[365], deve estar bem consciente de que recebeu um dom de Deus que, sancionado
por um preciso vínculo jurídico, gera a obrigação moral da observância. Tal vínculo,
livremente assumido, tem caráter teologal e moral, antes que jurídico, e é sinal daquela
realidade esponsal que se atua na ordenação sacramental.

Mediante o dom do celibato, o presbítero adquire também aquela paternidade espiritual,


mas real, que se alarga de modo universal e, em particular, se concretiza na relação com
a comunidade que lhe é confiada[366]. «Esses são filhos do seu espírito, homens
confiados pelo Bom Pastor à sua solicitude. E são muito mais numerosos do que
quantos possa abranger uma família humana. [...] O coração do Sacerdote, a fim de estar
disponível para tal serviço, para tal solicitude e amor, tem de ser livre. O celibato é sinal
de liberdade para servir. De acordo com este sinal, o sacerdócio hierárquico, ou
“ministerial” – segundo a tradição da nossa Igreja – está assim mais estritamente
“ordenado” ao serviço do sacerdócio comum dos fiéis»[367].

Exemplo de Jesus

81. O celibato é, portanto, dom de si «em» e «com» Cristo à sua Igreja e exprime o
serviço do sacerdote à Igreja «em» e «com» o Senhor[368].

O exemplo é o do próprio Senhor, o qual, indo contra aquela que se pode considerar a
cultura dominante do seu tempo, escolheu livremente viver celibatário. Na sua sequela,
os discípulos deixaram «tudo» para realizar a missão que lhes foi confiada (Lc 18,28-
30).

Por esse motivo, a Igreja, desde os tempos apostólicos, quis conservar o dom da
continência perpétua dos clérigos e se orientou a escolher os candidatos às Ordens
sagradas entre os celibatários (cf. 2Ts 2,15; 1Cor 7,5; 9,5; 1Tm 3,2.12; 5, 9; Tt
1,6.8)[369].

O celibato é um dom que se recebe da misericórdia divina[370], como escolha de


liberdade e acolhimento agradecido de uma vocação especial de amor a Deus e aos
homens. Por isso, não deve ser compreendido e vivido como se fosse simplesmente um
efeito colateral do presbiterato.

Dificuldades e objeções

82. No atual clima cultural, condicionado, muitas vezes, por uma visão do homem
destituída de valores e, sobretudo, incapaz de dar um sentido pleno, positivo e libertador
à sexualidade humana, coloca-se frequentemente a pergunta sobre a importância e o
significado do celibato sacerdotal ou ao menos sobre a oportunidade de afirmar o seu
vínculo estrito e a sua profunda sintonia com o sacerdócio ministerial.

«Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num
tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa
total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de
viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em
todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o
que tirar da vida; e portanto um “não” ao vínculo, um “não” à definitividade, um ter a
vida só para si mesmos. Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um “sim”
definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no
seu “eu”, e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a
fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que
não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo»[371].

O presbítero não anuncia a si mesmo, «mas, dentro e através da própria humanidade,


cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo.
Deus é a única riqueza que, de modo definitivo, os homens desejam encontrar num
sacerdote»[372]. O modelo sacerdotal é o de ser testemunha do Absoluto: o fato de que,
hoje, em muitos ambientes, o celibato seja pouco compreendido ou pouco apreciado não
deve conduzir a hipotizações de cenários diferentes, mas requer redescobrir de um
modo novo este dom do amor de Deus pelos homens. Com efeito, o celibato sacerdotal
é também admirado e amado por muitas pessoas, também não cristãs.

Não se pode esquecer de que o celibato é vivificado pela prática da virtude da castidade,
de que pode ser vivido somente mediante o cultivo da pureza, com maturidade
sobrenatural e humana[373], enquanto essencial à finalidade de desenvolver o talento da
vocação. Não é possível amar Cristo e os outros com um coração impuro. A virtude da
pureza torna capaz de viver a indicação do Apóstolo: «Glorificai a Deus em vosso
corpo!» (1Cor 6,20). Quando falta esta virtude, todas as outras dimensões ficam
prejudicadas. Se é verdade que no contexto atual existem diversas dificuldades para
viver a santa pureza, é tanto mais verdade que o Senhor derrame com abundância a sua
graça e ofereça os meios necessários para praticar esta virtude com alegria e júbilo.

É claro que, para garantir e defender este dom, num clima de sereno equilíbrio e de
progresso espiritual, devem ser postas em prática todas as medidas que afastem o
sacerdote das dificuldades possíveis[374].
É necessário, portanto, que os presbíteros se comportem com a devida prudência nas
relações com as pessoas cuja familiaridade pode colocar em perigo a fidelidade ao dom
ou então suscitar o escândalo dos fiéis[375]. Nos casos particulares, deve atender-se ao
parecer do Bispo, que tem obrigação de estabelecer normas precisas sobre o
assunto[376]. Como é lógico, o sacerdote deve abster-se de toda conduta ambígua e não
esquecer o prioritário dever que tem de testemunhar o amor redentor de Cristo.
Infelizmente, no que concerne a esta matéria, algumas situações que lamentavelmente
aconteceram produziram um grande dano à Igreja e à sua credibilidade, embora tenham
acontecido muito mais situações do gênero no mundo. O atual contexto requer, também
por parte dos presbíteros, sensibilidade e prudência ainda maiores no que diz respeito às
relações com as crianças e as pessoas em situação de risco[377]. Em particular, se
devem evitar situações que pudessem dar espaço a murmurações (por exemplo, permitir
que crianças entrem sozinhas na casa paroquial ou levar menores de idade dentro do
carro). No que diz respeito à confissão, seria oportuno que, habitualmente, os menores
se confessem no confessionário durante o tempo no qual a Igreja está aberta ao público
ou que, se por qualquer razão fosse necessário agir de outro modo, sejam respeitadas as
correspondentes normas de prudência.

Além disso, os sacerdotes não deixem de seguir aquelas regras ascéticas garantidas pela
experiência da Igreja e que são ainda mais exigidas nas circunstâncias atuais. Evitem
prudentemente frequentar lugares, assistir a espetáculos, fazer leituras ou frequentar
sites na internet que constituam uma insídia à observância da castidade celibatária[378]
ou até ocasião e causa de graves pecados contra a moral cristã. No uso dos meios de
comunicação social, como agentes ou como usufrutuários, observem a discrição
necessária e evitem tudo o que pode prejudicar a vocação.

Para guardar com amor o dom recebido, em um clima de exasperado permissivismo


sexual, os sacerdotes recorram a todos aqueles meios naturais e sobrenaturais, dos quais
a tradição da Igreja é rica. Por um lado, a fraternidade sacerdotal, o cuidado de ter bons
relacionamentos com as pessoas, a ascese e o domínio de si mesmo, a mortificação; é
também útil incentivar uma cultura da beleza nos vários campos da vida, que auxilie na
luta diante de tudo aquilo que é degradante e nocivo, nutrir certa paixão pelo próprio
ministério apostólico, aceitar serenamente certo tipo de solidão, uma sapiente e profícua
gestão do tempo livre para que não se torne um tempo vazio. Por outro lado, são
essenciais a comunhão com Cristo, uma forte piedade eucarística, a confissão frequente,
a direção espiritual, os exercícios e os retiros espirituais, um espírito de aceitação das
cruzes da vida cotidiana, a confiança e o amor à Igreja, a filial devoção à Bem-
aventurada Virgem Maria e a consideração dos exemplos dos sacerdotes santos de todos
os tempos[379].

Dificuldades e objeções acompanharam sempre, ao longo dos séculos, a escolha da


Igreja Latina e de algumas Igrejas Orientais de conferir o sacerdócio ministerial só
àqueles homens que receberam de Deus o dom da castidade no celibato. A disciplina
das outras Igrejas Orientais, que admitem o sacerdócio dos casados, não se contrapõe à
da Igreja latina. Com efeito, as mesmas Igrejas Orientais exigem o celibato aos Bispos.
Além disso, não permitem o matrimônio dos sacerdotes e nem permitem núpcias
sucessivas aos que ficaram viúvos. Trata-se sempre e só da ordenação de homens já
casados.
As objeções que alguns, ainda hoje, apresentam contra o celibato sacerdotal se fundam
frequentemente sobre argumentos baseados em pretextos como, por exemplo, a
acusação de que o celibato é reflexo de um espiritualismo desencarnado ou de que se
comporta com desconfiança ou desprezo para com a sexualidade; outras vezes, tomam
como desculpa a consideração de casos tristes e dolorosos, mesmo sendo sempre
particulares, aos quais se tende a generalizar. Pelo contrário, esquece-se o testemunho
dado pela imensa maioria dos sacerdotes, que vivem o seu celibato com liberdade
interior, com fortes motivações evangélicas, em fecundidade espiritual, num horizonte
de convencida e contente fidelidade à própria vocação e missão, para não falar de tantos
leigos que assumem felizmente um fecundo celibato apostólico.

2.11. Espírito sacerdotal de pobreza

Pobreza como disponibilidade

83. A pobreza de Jesus tem uma finalidade salvífica. Cristo, sendo rico, fez-se pobre por
nós, para que nos tornássemos ricos pela sua pobreza (2Cor 8,9).

A carta aos Filipenses mostra a relação entre despojamento de si e o espírito de serviço


que deve animar o ministério pastoral. São Paulo diz, com efeito, que Jesus não
considerou «um bem precioso o ser igual a Deus, mas humilhou-se a si mesmo
assumindo a forma de servo» (Fl 2,6-7) Na verdade, dificilmente o sacerdote se tornará
verdadeiramente servo e ministro dos seus fiéis, se estiver excessivamente preocupado
com as suas comodidades e com um excessivo bem estar.

Por meio da condição de pobre, Cristo manifesta que tudo recebeu do Pai desde a
eternidade e tudo lhe restitui até à oferta total da sua vida.

O exemplo de Cristo deve levar o presbítero a conformar-se com Ele, na liberdade


interior, em relação a todos os bens e riquezas do mundo[380]. O Senhor ensina-nos que
o verdadeiro bem é Deus e que a verdadeira riqueza é ganhar a vida eterna: «Que
aproveita, com efeito, ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua alma?.
E que coisa poderia o homem dar em troca da sua alma?» (Mc 8,36-37). Cada sacerdote
é chamado a viver a virtude da pobreza, que consiste essencialmente em entregar o
coração a Cristo, que é o verdadeiro tesouro, e não às riquezas materiais.

O sacerdote, cuja parte de herança é o Senhor (cf. Nm 18,20)[381], sabe que a sua
missão, como a da Igreja, se realiza no seio do mundo e que os bens criados são
necessários para o desenvolvimento pessoal do homem. Porém, ele usará tais bens com
espírito de responsabilidade, moderação, reta intenção e distância, próprio de quem tem
o seu tesouro nos céus e sabe que tudo deve ser usado para a edificação do reino de
Deus (Lc 10,7; Mt 10,9.10; 1Cor 9,14; Gl 6,6)[382]. Portanto, abster-se-á daquelas
atividades lucrativas, que não estão de harmonia com o seu ministério[383]. Ademais,
que o presbítero evite dar motivos, até a mais leve insinuação, relativos ao fato de que
possa conceber o próprio ministério como uma oportunidade para obter benefícios,
favorecer os seus ou buscar posições privilegiadas. Ele, ao contrário, deve estar em
meio aos homens para servir os outros sem medida, seguindo o exemplo de Cristo, o
Bom Pastor (cf. Jo 10,10). Recordando, além disso, que o dom que recebeu é gratuito,
esteja disposto a dar gratuitamente (Mt 10,8; At 8,18-25)[384] e a empregar para o bem
da Igreja e para obras de caridade o que recebe por ocasião do exercício do seu múnus,
depois de ter providenciado à sua honesta sustentação e ao cumprimento dos deveres do
próprio estado[385].

O presbítero, embora não tenha assumido a pobreza com uma promessa pública, é
obrigado a levar uma vida simples e a abster-se de tudo o que pode ter sabor de
vaidade[386], abraçando assim a pobreza voluntária, para seguir mais de perto a
Cristo[387]. Em tudo (habitação, meios de transporte, férias, etc.), o presbítero elimine
todo o tipo de requinte e de luxo[388]. Neste sentido, o sacerdote deve lutar diariamente
para não cair no consumismo e numa vida mole, que hoje invade a sociedade em muitas
partes do mundo. Um sério exame de consciência o ajudará a verificar como é o seu teor
de vida, a sua disponibilidade de cuidar dos fiéis e a cumprir os seus próprios deveres; a
perguntar-se se os meios dos quais se serve respondem a uma verdadeira necessidade,
ou se, ao contrário, ele está buscando sua própria comodidade e fugindo do sacrifício. É
propriamente na coerência entre aquilo que diz e que faz, especialmente no que diz
respeito à pobreza, que se condiciona a credibilidade e a eficácia apostólica do
sacerdote.

Amigo dos mais pobres, reservará para eles as mais delicadas atenções da sua caridade
pastoral, com uma opção preferencial por todas as pobrezas, velhas e novas,
tragicamente presentes no mundo, recordando sempre que a primeira miséria de que
deve ser libertado o homem é o pecado, raiz última de todo o mal.

2.12. Devoção a Maria

Imitar as virtudes da Mãe

84. Existe uma «relação essencial entre a Mãe de Jesus e o sacerdócio dos ministros do
Filho», derivante daquela que existe entre a maternidade divina e o sacerdócio de
Cristo[389].

Nesta relação, se enraíza a espiritualidade mariana de todo o presbítero. A


espiritualidade sacerdotal não pode dizer-se completa se não toma seriamente em
consideração o testamento de Cristo crucificado, que quis entregar a mãe ao discípulo
predileto e, mediante ele, a todos os sacerdotes chamados a continuar a sua obra de
redenção.

Como a João aos pés da Cruz, assim a cada presbítero é confiada, de modo especial,
Maria como mãe (cf. Jo 19,26-27).

Os sacerdotes, que estão entre os discípulos prediletos de Jesus crucificado e


ressuscitado, devem acolher Maria como sua mãe na própria vida, fazendo dela objeto
de contínua atenção e oração. A sempre Virgem torna-se, então, a mãe que os conduz a
Cristo, que os faz amar autenticamente a Igreja, que intercede por eles e os guia para o
Reino dos céus.

85. Todo o presbítero sabe que Maria, porque mãe, é também a mais eminente
formadora do seu sacerdócio, uma vez que é Ela que sabe modelar o seu coração
sacerdotal, protegê-lo dos perigos, dos cansaços, dos desencorajamentos e de vigiar,
com materna solicitude, para que ele possa crescer em sabedoria, idade e graça, diante
de Deus e dos homens (cf. Lc 2,40).
Mas, não se pode ser filho devoto se não se sabem imitar as virtudes da mãe. Portanto, o
presbítero deve olhar para Maria, a fim de ser um ministro humilde, obediente, casto e
para testemunhar a caridade na doação total ao Senhor e à Igreja[390].

A Eucaristia e Maria

86. Em cada celebração eucarística, escutamos novamente aquele «Eis o teu filho!» dito
pelo Filho à sua Mãe, enquanto Ele mesmo nos repete: «Eis a tua Mãe!» (Jo 19,26-27).
Viver a Eucaristia implica também em receber continuamente este dom: «Maria é
mulher “eucarística” na totalidade da sua vida. A Igreja, vendo em Maria o seu modelo,
é chamada a imitá-La também na sua relação com este mistério santíssimo. [...] Maria
está presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações
eucarísticas. Se Igreja e Eucaristia são um binômio indivisível, o mesmo é preciso
afirmar do binômio Maria e Eucaristia»[391]. Deste modo, o encontro com Jesus no
Sacrifício do Altar comporta, inevitavelmente, o encontro com Maria, sua Mãe. Na
realidade, «pela sua identificação e conformação sacramental com Jesus, Filho de Deus
e Filho de Maria, cada sacerdote pode e deve sentir-se verdadeiramente filho predileto
desta Mãe excelsa e humilíssima»[392].

Obra prima do Sacrifício sacerdotal de Cristo, a Sempre Virgem Mãe de Deus


representa a Igreja no modo mais puro, «sem mancha nem ruga», toda «santa e
imaculada» (Ef 5,27). Esta contemplação da bem-aventurada Virgem – à qual também
se junta São José, mestre de vida interior –, coloca diante do presbítero o ideal para o
qual tender no ministério junto à sua comunidade, a fim de que esta seja «Igreja toda
gloriosa» (ibid.) mediante o dom sacerdotal da sua própria vida.

III. FORMAÇÃO PERMANENTE

O sacerdote precisa aprofundar a sua formação constantemente. Ainda que tenha


realmente recebido, no dia da sua ordenação, o permanente selo que o configurou in
æternum a Cristo Cabeça e Pastor, ele é chamado a uma melhora contínua, a fim de ser
mais eficaz em seu ministério. Neste sentido, é fundamental que os sacerdotes estejam
conscientes do fato de que a sua formação não terminou com os anos de seminário. Pelo
contrário, desde o dia da sua ordenação, o sacerdote deve sentir a necessidade de
aperfeiçoar-se continuamente para ser sempre mais de Cristo Senhor.

3.1. Princípios

Necessidade da formação permanente, hoje

87. Como lembrava Bento XVI, «o tema da identidade presbiteral [...] é determinante
para o exercício do sacerdócio ministerial no presente e no futuro»[393]. Estas palavras
do Santo Padre constituem o ponto de referência sob o qual a formação permanente do
clero deve ser abordada: ajuda a aprofundar no significado de ser sacerdote. «O
sacerdote tem como referência fundamental a relação com Jesus Cristo Cabeça e
Pastor»[394] e, neste sentido, a formação permanente deveria ser um meio para
aumentar esta relação “exclusiva” que, necessariamente, repercute em todo o ser e agir
do presbítero. A formação permanente é exigência que nasce e se desenvolve a partir da
recepção do sacramento da Ordem, com o qual o sacerdote é não só «consagrado» pelo
Pai, e «enviado» pelo Filho, como também é «animado» pelo Espírito Santo. Portanto,
ela é destinada a assimilar progressivamente, e em termos cada vez mais amplos e
profundos, toda a vida e ação do presbítero, na fidelidade ao dom recebido: «Por este
motivo, recordo-te que reavives o dom que recebeste mediante a imposição das minhas
mãos» (2Tm 1,6).

Trata-se duma necessidade intrínseca ao próprio dom divino[395], que deve ser
cotidianamente vivificado para que o presbítero possa responder adequadamente à sua
vocação. Com efeito, enquanto homem historicamente situado, ele tem necessidade de
aperfeiçoar-se em todos os aspectos da sua existência humana e espiritual, para poder
alcançar aquela conformação com Cristo, que é o princípio unificante de tudo.

As transformações rápidas e difundidas e um tecido social frequentemente secularizado,


típicos do mundo contemporâneo, são fatores que tornam absolutamente iniludível o
dever do presbítero estar adequadamente preparado para não perder a sua identidade e
para responder às necessidades da nova evangelização. A este dever grave, corresponde
um direito expresso por parte dos fiéis sobre os quais recaem positivamente os efeitos
da boa formação e da santidade dos sacerdotes[396].

88. A vida espiritual do sacerdote e o seu ministério pastoral estão unidos ao contínuo
trabalho de perfeição pessoal – correspondência à obra de santificação do Espírito Santo
– que possibilita aprofundar e reunir em síntese harmoniosa, quer a formação espiritual,
quer a humana, intelectual e pastoral. Esse trabalho, que se deve iniciar no tempo de
seminário, deve ser promovido pelos Bispos em vários níveis: nacional, regional e,
sobretudo, diocesano.

Constitui um motivo de encorajamento constatar que são já muitas as Dioceses e as


Conferências Episcopais que atualmente promovem iniciativas promissoras na
realização de uma verdadeira formação permanente dos seus sacerdotes. Deseja-se que
todas as Dioceses possam responder a esta necessidade. Todavia, onde isso ainda não
for possível, é desejável que elas se ponham de acordo com outras, ou entrem em
contato com instituições ou pessoas particularmente preparadas para a realização desta
tão delicada tarefa[397].

Instrumento de santificação

89. A formação permanente apresenta-se como um meio necessário ao presbítero para


conseguir o fim da sua vocação, que é o serviço de Deus e do seu Povo.

Na prática, ela consiste em ajudar todos os sacerdotes a responder generosamente ao


empenho requerido pela dignidade e responsabilidade que Deus lhe conferiu por meio
do sacramento da Ordem; em guardar, defender e desenvolver a sua específica
identidade e vocação; em santificarem-se a si mesmos e aos outros, mediante o
exercício do sagrado ministério. Isso significa que o presbítero deve evitar toda a
espécie de dualismo entre a espiritualidade e a ministerialidade, origem profunda de
algumas crises. É claro que, para conseguir estas finalidades de ordem sobrenatural,
devem ser descobertos e analisados os critérios gerais sobre os quais se deve estruturar a
formação permanente dos presbíteros.
Tais critérios ou princípios gerais de organização devem ser pensados a partir da
finalidade que nos propomos ou, melhor dizendo, devem ser procurados nela.

Deve ser dada pela Igreja

90. A formação permanente é um direito-dever do presbítero e dá-la é um direito-dever


da Igreja, tanto que este último está estabelecido na lei universal[398]. Com efeito,
como a vocação ao sagrado ministério se recebe na Igreja, assim, só à Igreja compete
ministrar a formação específica de acordo com a responsabilidade própria de tal
ministério. Portanto, sendo a formação permanente uma atividade ligada ao exercício do
sacerdócio ministerial, pertence à responsabilidade do Papa e dos Bispos. A Igreja tem,
por isso, o dever e o direito de continuar a formar os seus ministros, ajudando-os a
progredir na resposta generosa ao dom que Deus lhes concedeu.

Por sua vez, o ministro recebeu também, como exigência do dom conexo com a
ordenação, o direito de ter a ajuda necessária por parte da Igreja para realizar eficaz e
santamente o seu serviço.

Deve ser permanente

91. A atividade de formação baseia-se numa exigência dinâmica, intrínseca ao carisma


ministerial, que é em si mesmo permanente e irreversível. Por conseguinte, ela nunca se
pode considerar terminada, nem por parte da Igreja que a dá, nem por parte do ministro
que a recebe. É necessário, portanto, pensá-la e desenvolvê-la de maneira que todos os
presbíteros possam recebê-la sempre, tendo em conta as possibilidades e características
resultantes das variações da idade, da condição de vida e das tarefas atribuídas[399].

Deve ser completa

92. Tal formação deve compreender e harmonizar todas as dimensões da formação


sacerdotal, isto é, deve tender a ajudar cada presbítero: a conseguir o desenvolvimento
da sua personalidade humana, amadurecida no espírito de serviço aos outros, seja qual
for o encargo recebido; a estar intelectualmente preparado nas ciências teológicas, em
harmonia com o Magistério da Igreja[400], e também nas ciências humanas, enquanto
conexas com o seu ministério, de modo a realizar com maior eficácia a sua função de
testemunha da fé; a possuir uma vida espiritual sólida, alimentada pela intimidade com
Jesus Cristo e pelo amor à Igreja; a realizar o seu ministério pastoral com empenho e
dedicação.

Na prática, tal formação deve ser completa: humana, espiritual, intelectual, pastoral,
sistemática e personalizada.

Formação humana

93. A formação humana é particularmente importante, pois «sem uma oportuna


formação humana, toda a formação sacerdotal ficaria privada do seu necessário
fundamento»[401]; constitui objetivamente a plataforma e o fundamento sobre o qual é
possível edificar o edifício da formação intelectual, espiritual e pastoral. O presbítero
não deve esquecer que «escolhido entre os homens, [...] permanece um deles e é
chamado a servi-los, doando-lhes a vida de Deus»[402]. Por isso, como irmão entre os
seus irmãos, para santificar-se e para ser bem-sucedido em sua missão sacerdotal, ele
deverá se apresentar com uma bagagem de virtudes humanas que o tornem digno da
estima dos outros. É necessário recordar que, «para o sacerdote, que terá de acompanhar
os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele
mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e
alma, e que seja humanamente “íntegro”»[403].

Em especial, com o olhar fixo em Cristo, o sacerdote deverá também praticar a bondade
de coração, a paciência, a amabilidade, a força de ânimo, o amor à justiça, o equilíbrio,
a fidelidade à palavra dada, a coerência com os compromissos livremente assumidos,
etc[404]. A formação permanente neste campo favorece o crescimento nas virtudes
humanas, ajudando os presbíteros a viverem cada momento em «unidade de vida [...] na
prática do ministério»[405], desde a cordialidade no trato até às ordinárias regras de
boas maneiras ou a capacidade de comportar-se adequadamente em cada situação.

Existe um nexo entre a vida humana e a vida espiritual que depende da unidade de alma
e corpo, própria da natureza humana, razão pela qual, aonde restam graves déficits
humanos, a “estrutura” da personalidade não está nunca preparada para “choques”
imprevistos.

É importante também que o sacerdote faça uma reflexão sobre o seu comportamento
social, sobre a correção e boa educação – que nascem sempre da caridade e da
humildade – nas várias formas de relações humanas, sobre os valores da amizade, sobre
a distinção no trato, etc.

Finalmente, no atual contexto cultural, deve-se abordar esta formação também com a
finalidade de contribuir – recorrendo, se for necessário, ao auxílio das ciências
psicológicas[406] – com o amadurecimento humano: que indubitavelmente implica,
mesmo que seja difícil de precisá-lo nos seus conteúdos, equilíbrio e harmonia na
integração das tendências e dos valores, estabilidade psicológica e afetiva, prudência,
objetividade nos juízos, fortaleza no domínio do próprio caráter, sociabilidade, etc.
Deste modo, os presbíteros, especialmente os jovens, são ajudados a crescer em
maturidade humana e afetiva. Neste último aspecto, também se deve ensinar a viver a
castidade com delicadeza, conjuntamente com a modéstia e com o pudor, de modo
particular no uso da televisão e da internet.

De fato, reveste-se de especial importância a formação para o uso da internet e, em


geral, das novas tecnologias de comunicação. A sobriedade e a temperança são
necessárias para evitar obstáculos para a vida de intimidade com Deus. O mundo da web
apresenta muitas potencialidades para a evangelização, que, todavia, se forem mal
gerenciadas, podem acarretar graves danos às almas; às vezes, com o pretexto de um
melhor aproveitamento do tempo ou da necessidade de estar informado, pode-se
fomentar uma curiosidade desordenada, que obstaculiza o sempre necessário
recolhimento, do qual deriva a eficácia do compromisso.

Nesta linha, mesmo que o uso da internet também seja uma oportunidade útil para levar
o anúncio do Evangelho a muitas pessoas, o sacerdote deve avaliar com prudência e
ponderação o seu envolvimento, de tal modo que não se subtraia tempo de seu
ministério pastoral em aspectos tais como a Pregação da Palavra de Deus, a celebração
dos sacramentos, a direção espiritual, etc., nos quais ele é verdadeiramente
insubstituível. Em todo caso, a sua participação nestes novos âmbitos deverá refletir
sempre especial caridade, sentido sobrenatural, sobriedade e temperança, de tal modo
que todos se sintam atraídos tanto pela sua figura, quanto ainda mais pela Pessoa de
Jesus Cristo nosso Senhor.

Formação espiritual

94. Tendo presente tudo quanto foi já largamente exposto sobre a vida espiritual,
limitamo-nos aqui a apresentar alguns meios práticos de formação.

Seria necessário, antes de tudo, aprofundar os aspectos principais da existência


sacerdotal, fazendo referência, em particular, ao ensino bíblico, patrístico e
hagiográfico, no qual o presbítero deve continuamente atualizar-se, não só por meio de
leituras de bons livros, mas também participando em cursos de estudo, congressos,
etc[407].

Poderiam ser dedicadas seções particulares ao cuidado na celebração dos sacramentos,


bem como ao estudo de questões de espiritualidade, como as virtudes cristãs e humanas,
os métodos de oração, a relação entre a vida espiritual e o ministério litúrgico, pastoral,
etc.

Mais concretamente, é de se desejar que cada presbítero, talvez em concomitância com


os periódicos exercícios espirituais, elabore um concreto plano de vida pessoal,
possivelmente de acordo com o diretor espiritual, para o qual se assinalam alguns
pontos: 1. Meditação cotidiana da Palavra ou dum mistério da fé; 2. encontro pessoal
cotidiano com Jesus na Eucaristia, para além da devota celebração da Santa Missa e da
confissão frequente; 3. devoção mariana (rosário, consagração ou entrega, colóquio
íntimo); 4. momento formativo doutrinal e hagiográfico; 5. repouso devido; 6. renovado
compromisso de pôr em prática as indicações do Bispo próprio e de avaliação da própria
adesão convicta ao Magistério e à disciplina eclesiástica; 7. solicitude pela comunhão e
fraternidade sacerdotal. Devem-se aprofundar também outros aspectos, como a
administração do próprio tempo e dos próprios bens, o trabalho e a importância de se
trabalhar em conjunto com os outros.

Formação intelectual

95. Dada a enorme influência que as correntes humanístico-filosóficas têm na cultura


moderna, e o fato de que alguns presbíteros nem sempre tenham recebido uma
preparação adequada em tais disciplinas, mesmo porque vindos de diferentes
proveniências escolares, é necessário que, nos encontros, se tenham em conta as mais
importantes temáticas de caráter humanístico e filosófico, ou que, de algum modo,
«tenham uma relação com as ciências sagradas, particularmente enquanto podem ser
úteis no exercício do ministério pastoral»[408].

Estas temáticas constituem também uma ajuda válida para tratar corretamente os
principais temas de Sagrada Escritura, de teologia fundamental, dogmática e moral, de
liturgia, de direito canônico, de ecumenismo, etc., tendo presente que o ensino destas
matérias não deve desenvolver excessivamente a problematização nem ser apenas
teórico ou informativo, mas deve levar a uma autêntica formação, isto é, à oração, à
comunhão e à ação pastoral. Ademais, dedicar um tempo – possivelmente cotidiano –
ao estudo dos manuais ou ensaios de filosofia, teologia e direito canônico será muito útil
para aprofundar o sentire cum Ecclesia; nesta tarefa, o Catecismo da Igreja Católica e o
seu Compêndio constituem um precioso instrumento de base.

Nos encontros sacerdotais, proceda-se de tal modo que os documentos do Magistério


sejam estudados comunitariamente, sob a guia duma autoridade competente, de maneira
a conseguir, na pastoral diocesana, a unidade de interpretação e de praxe que tanto ajuda
à obra de evangelização.

Uma particular importância na formação intelectual deve ser dada aos temas que hoje
têm mais relevo no impacto cultural e na prática pastoral, como, por exemplo, os
relativos à ética social, à bioética, etc.

Uma atenção especial deve ser dada às questões postas pelo progresso científico,
particularmente influentes na mentalidade e na vida dos homens contemporâneos. O
presbítero não deve dispensar-se de estar adequadamente atualizado e pronto para dar
razão da sua esperança (cf. 1Pd 3,15) diante das interrogações que os fiéis – muitos dos
quais de elevada cultura – possam apresentar, estando a par do progresso das ciências e
não deixando de consultar especialistas preparados e de doutrina segura. De fato, ao
apresentar a Palavra de Deus, o presbítero deve levar em conta o crescimento
progressivo da formação intelectual das pessoas e, por isso, saber adequar-se ao seu
nível, também de acordo com os vários grupos ou lugares de proveniência.

É de interesse máximo estudar, aprofundar e difundir a doutrina social da Igreja.


Seguindo o estímulo do ensinamento magisterial, é necessário que o interesse de todos
os sacerdotes e, por meio deles, de todos os fiéis a favor dos necessitados, não fique
apenas no nível do piedoso desejo, mas que se converta num concreto empenho de vida.
«Hoje, mais do que nunca, a Igreja está consciente de que a sua mensagem social
encontrará credibilidade no testemunho das obras, antes de encontrá-la na sua coerência
e lógica interna»[409].

Uma exigência imprescindível para a formação intelectual dos sacerdotes é o


conhecimento e a prudente utilização, na sua atividade pastoral, dos meios de
comunicação social. Estes, se bem utilizados, constituem um instrumento providencial
de evangelização, podendo não só atingir uma massa enorme de fiéis e de afastados,
mas também incidir profundamente sobre a sua mentalidade e sobre o seu modo de agir.

A este propósito, seria conveniente que o Bispo ou a própria Conferência Episcopal


preparassem programas e instrumentos técnicos aptos para tal fim. Ao mesmo tempo, o
sacerdote deve evitar qualquer protagonismo, de tal modo que seja o Senhor Jesus, não
ele, a brilhar diante dos homens e das mulheres do seu tempo.

Formação pastoral

96. Para uma adequada formação pastoral, é necessário realizar encontros que tenham
como objetivo principal a reflexão sobre o plano pastoral da Diocese. Neles não deveria
faltar também a abordagem de todas as questões relativas à vida e à prática pastoral dos
presbíteros como, por exemplo, a moral fundamental, a ética na vida profissional e
social, etc. Pode ser particularmente interessante a organização de cursos ou seminários
sobre a pastoral do sacramento da Confissão[410] ou sobre questões práticas de direção
espiritual, tanto em geral como em situações específicas. A formação prática no campo
da liturgia também tem uma importância especial. Dever-se-ia reservar particular
atenção para se aprender a celebrar bem a Santa Missa – como já foi sublinhado, a ars
celebrandi é uma condição sine qua non da actuosa partecipatio dos fiéis – e a
adoração fora da Missa.

Outros temas, particularmente úteis a tratar para uma adequada formação pastoral,
podem ser os referentes à catequese, à família, às vocações sacerdotais e religiosas, ao
conhecimento da vida e da espiritualidade dos santos, aos jovens, aos idosos, aos
enfermos, ao ecumenismo, aos assim chamados «afastados», às questões bioéticas, etc.

É muito importante para a catequese, nas atuais circunstâncias, organizar ciclos


especiais para aprofundar e assimilar o Catecismo da Igreja Católica que, sobretudo
para os sacerdotes, constitui um instrumento precioso de formação, quer para a
pregação, quer, em geral, para a obra de evangelização.

Deve ser orgânica e completa

97. Para que a formação permanente seja completa, é necessário que ela seja estruturada
«não como qualquer coisa de episódico, mas como uma proposta sistemática de
conteúdos, que se desenrola por etapas e se reveste de modalidades precisas»[411]. Isto
comporta a necessidade de uma certa estrutura organizativa, que estabeleça
oportunamente instrumentos, tempos e conteúdos para a sua concreta e adequada
realização. Neste sentido, na vida do sacerdote, será útil retornar a temas como: o
conhecimento da Escritura em sua totalidade, dos Padres da Igreja e dos grandes
Concílios; de cada um dos conteúdos da fé em sua unidade; de questões essenciais da
teologia moral e da doutrina social da Igreja; da teologia ecumênica e da orientação
fundamental sobre grandes religiões em relação ao diálogo ecumênico, inter-religioso e
intercultural; da filosofia e do direito canônico[412].

Tal organização deve ser acompanhada pelo hábito do estudo pessoal, uma vez que
mesmo os cursos periódicos teriam escassa utilidade se não fossem acompanhados da
aplicação ao estudo[413].

Deve ser personalizada

98. Embora seja para todos, a formação permanente tem como objetivo direto o serviço
de cada um dos que a recebem. Assim, ao lado dos meios coletivos ou comuns, devem
existir todos aqueles outros meios que tendem a personalizar a formação de cada um.

Por este motivo, deve ser promovida, sobretudo entre os responsáveis, a consciência de
dever atingir cada sacerdote pessoalmente, tomando cuidado de cada um, não se
contentando em colocar à disposição de todos as diversas oportunidades.

Por sua vez, cada presbítero deve sentir-se encorajado, com a palavra e com o exemplo
do seu Bispo e dos seus irmãos no sacerdócio, a assumir a responsabilidade da sua
própria formação, sendo ele o primeiro formador de si mesmo[414].

3.2. Organização e meios


Encontros sacerdotais

99. O itinerário dos encontros sacerdotais deve ser unitário e progressivo. Tal
característica unitária deve convergir para a conformação com Cristo, de modo que a
verdade de fé, a vida espiritual e a atividade ministerial conduzam ao amadurecimento
progressivo de todo o presbitério.

O caminho formativo unitário caracteriza-se por etapas bem definidas. Isto exigirá uma
atenção específica às diversas faixas etárias dos presbíteros, sem esquecer nenhuma,
bem como uma verificação das etapas realizadas, tendo o cuidado de fazer concordar,
entre elas, os caminhos de formação comunitários com os pessoais, sem os quais os
primeiros não poderiam surtir efeito.

Os encontros dos sacerdotes devem ser considerados necessários para crescer na


comunhão para uma cada vez maior tomada de consciência e para uma adequada
resolução dos problemas próprios de cada faixa etária.

Acerca do conteúdo de tais reuniões pode recorrer-se aos temas eventualmente


propostos pelas Conferências Episcopais nacionais e regionais. Em todo o caso, é
necessário que eles sejam estabelecidos num plano preciso de formação na Diocese,
possivelmente cada ano[415].

A sua organização e o seu desenvolvimento poderão ser prudentemente confiados pelo


Bispo a Faculdades ou institutos teológicos e pastorais, ao Seminário, a organismos ou
federações empenhados na formação sacerdotal[416], a qualquer outro Centro ou
Instituto especializado que, segundo as possibilidades e oportunidades, poderá ser
diocesano, regional ou nacional, desde que seja verificada a correspondência às
exigências da ortodoxia doutrinal, de fidelidade ao Magistério e à disciplina eclesiástica,
bem como a competência científica e o conhecimento adequado das situações pastorais
de fato.

Ano Pastoral

100. Estará aos cuidados do Bispo, mesmo por meio de eventuais cooperadores
prudentemente escolhidos, providenciar que, no ano sucessivo à ordenação presbiteral e
à diaconal, seja programado um ano chamado pastoral, que facilite a passagem gradual
da indispensável vida de seminário ao exercício do ministério sagrado, facilitando um
progressivo e harmônico amadurecimento humano e especificamente sacerdotal[417].

Durante o curso deste ano, será necessário evitar que os recém-ordenados sejam
colocados em situações excessivamente duras ou delicadas, bem como se deverão
também evitar lugares onde eles se encontrem trabalhando longe dos colegas. Pelo
contrário, será bom, se for possível, propor alguma forma conveniente de vida comum.

Este período de formação poderia ser passado numa residência de propósito destinada a
esse fim (Casa do Clero) ou num lugar que possa ser um ponto de referência preciso e
sereno para todos os sacerdotes que realizam as primeiras experiências pastorais. Isto
facilitará o colóquio e o diálogo com o Bispo e com os colegas sacerdotes, a oração
comum, em particular a Liturgia das Horas, e o exercício de outras frutuosas práticas de
piedade, tais como a adoração eucarística, o santo Rosário, etc., bem como a troca de
experiências, o encorajamento recíproco, o florescer de boas relações de amizade.

É oportuno que o Bispo envie os neo-sacerdotes para junto de colegas de vida exemplar
e zelo pastoral. O primeiro cargo, não obstante as frequentes urgências pastorais graves,
deveria, sobretudo, ter em vista encaminhar corretamente os jovens presbíteros. O
sacrifício de um ano poderá, então, frutificar largamente no futuro.

Não é supérfluo sublinhar o fato de que este ano, delicado e precioso, deverá ajudar no
amadurecimento pleno do conhecimento entre o presbítero e o Bispo, que, iniciado no
seminário, deve tornar-se uma verdadeira relação de filho para com o pai.

No que se refere à parte intelectual, este ano não deverá ser tanto um período de
aprendizagem de novas matérias, quanto, sobretudo, de profunda assimilação e
interiorização do que se estudou nos cursos institucionais, de maneira a ajudar a
formação de uma mentalidade capaz de avaliar as particularidades à luz do desígnio de
Deus[418].

Em tal contexto, poderão oportunamente ser organizadas lições e seminários sobre


prática da confissão, de liturgia, de catequese e de pregação, de direito canônico, de
espiritualidade sacerdotal, laical e religiosa, de doutrina social, da comunicação e dos
seus meios, de conhecimento das seitas e das novas religiosidades, etc.

Na prática, o ano pastoral deve constituir um trabalho de síntese. Cada elemento deve
corresponder ao projeto fundamental de amadurecimento da vida espiritual.

O êxito do ano pastoral é, de qualquer modo e sempre, condicionado pelo empenho


pessoal do próprio interessado que deve tender cada dia à santidade, procurando
continuamente os meios de santificação que o ajudaram desde o tempo de seminário.
Além disso, quando em algumas dioceses existem dificuldades práticas – escassez de
sacerdotes, muito trabalho pastoral, etc. – para organizar um ano com as características
supramencionadas, o Bispo deve estudar como adaptar as diversas propostas para o ano
pastoral às situações concretas, levando em conta que este é de grande importância para
a formação e a perseverança no ministério dos jovens sacerdotes.

Tempos de repouso

101. O perigo da habituação, o cansaço físico devido ao excesso de trabalho, a que,


sobretudo, hoje, são submetidos os presbíteros, por causa do seu ministério, o próprio
cansaço psicológico, causado, frequentemente, por ter de lutar continuamente contra a
incompreensão, o equívoco, os preconceitos, a oposição contra forças organizadas e
poderosas que agem para confirmar publicamente a opinião segundo a qual, atualmente,
o sacerdote pertence a uma minoria culturalmente obsoleta, constituem alguns fatores
que podem instilar mal-estar no ânimo dos pastores.

Não obstante as urgências pastorais, antes, precisamente para enfrentá-las de modo


adequado, é conveniente reconhecer os nossos limites, «encontrar e ter a humildade, a
coragem de repousar»[419]. Mesmo que, normalmente, o repouso ordinário seja o meio
mais eficaz para retomar as forças e continuar a trabalhar pelo Reino de Deus, pode ser
útil que sejam concedidos tempos mais ou menos amplos para que os presbíteros
possam descansar mais serenamente e intensamente poderem estar com o Senhor Jesus,
retomando força e coragem para continuarem o caminho de santificação.

Para responder a esta exigência particular, em muitos lugares já foram experimentadas,


muitas vezes com resultados promissores, diversas iniciativas. Estas experiências são
válidas e podem ser tomadas em consideração, não obstante as dificuldades que se
encontram em algumas zonas onde mais se sofre a carência numérica dos presbíteros.

Para esse fim, poderiam ter uma função notável os mosteiros, os santuários ou outros
lugares de espiritualidade, possivelmente fora dos grandes centros, deixando o
presbítero livre de responsabilidades pastorais diretas pelo período em que aí se
hospeda.

Em certos casos, poderá ser útil que estas pausas tenham finalidade de estudo ou de
aprofundamento nas ciências sagradas, sem esquecer, entretanto, o objetivo do
fortalecimento espiritual e apostólico.

Em todo o caso, seja cuidadosamente evitado o perigo de considerar estes períodos


como um tempo de meras férias ou de reivindicá-los como um direito; e, mais do que
nunca, o sacerdote sinta a necessidade de, nos dias de repouso, celebrar o Sacrifício
eucarístico, centro e origem da sua vida.

Casa do Clero

102. Onde for possível, é desejável a ereção de uma “Casa do Clero”, que poderia ser
também um lugar onde se pudessem reunir para aí realizar os mencionados encontros de
formação, e também um ponto de referência para numerosas outras circunstâncias. Tal
casa deveria apresentar estruturas organizativas de modo a tornar-se confortável e
atraente.

Onde, ainda, não existir e as necessidades o sugerirem, é aconselhável criar, em nível


nacional ou regional, estruturas aptas para a recuperação físico-psíquico-espiritual de
sacerdotes com necessidades especiais.

Retiros e Exercícios Espirituais

103. Como demonstra a longa experiência espiritual da Igreja, os Retiros e os


Exercícios Espirituais são um instrumento idôneo e eficaz para uma adequada formação
permanente do clero. Eles conservam, ainda hoje, toda a sua necessidade e atualidade.
Contra a praxe que tende a esvaziar o homem de tudo o que é interioridade, o sacerdote
deve encontrar Deus e a si mesmo fazendo paragens espirituais para mergulhar na
meditação e na oração.

Por isso, a legislação canônica estabelece que os clérigos: «são obrigados a participar
nos retiros espirituais, segundo as disposições do direito particular»[420]. As duas
modalidades mais usuais, que poderiam ser prescritas pelo Bispo na própria diocese, são
o retiro espiritual de um dia, possivelmente mensal, e os retiros anuais, por exemplo, de
seis dias.
É muito oportuno que o Bispo programe e organize os retiros periódicos e os exercícios
espirituais anuais de maneira que cada sacerdote possa escolher entre aqueles que
normalmente são feitos na diocese ou fora, por sacerdotes exemplares, Associações
sacerdotais[421] ou por Institutos religiosos particularmente experimentados pelo seu
carisma na formação espiritual ou em mosteiros.

É também aconselhável a organização de um retiro especial para os sacerdotes


ordenados nos últimos anos, no qual participe ativamente o próprio Bispo[422].

Durante tais encontros, é importante que se tratem temas espirituais, que haja largos
espaços de silêncio e de oração e celebrações litúrgicas bem feitas, o sacramento da
Penitência, a adoração eucarística, a direção espiritual e os atos de veneração e de culto
à Bem-Aventurada Virgem Maria.

Para conferir mais importância e eficácia a estes meios de formação, o Bispo poderia
nomear um sacerdote com o encargo de organizar os tempos e os modos do seu
desenvolvimento.

Em todo o caso, é necessário que os retiros e especialmente os exercícios espirituais


anuais sejam vividos como tempos de oração e não como cursos de atualização
teológico-pastoral.

Necessidade da programação

104. Embora reconhecendo as dificuldades que a formação permanente costuma


encontrar, sobretudo por causa das numerosas e difíceis tarefas a que os sacerdotes são
chamados, é necessário dizer que todas as dificuldades são superáveis, se existir um
verdadeiro e responsável compromisso.

Para manter-se à altura das circunstâncias e enfrentar as exigências do trabalho urgente


de evangelização, torna-se necessária – entre outros meios – uma corajosa ação pastoral
com o fim de cuidar dos sacerdotes. É indispensável que os Bispos exijam, com a força
da caridade, que os seus sacerdotes ponham em prática generosamente as legítimas
instruções emanadas acerca desta matéria.

A existência dum “plano de formação permanente” comporta que ele seja não só
concebido ou programado, mas também realizado. Por isso, é necessária uma clara
organização do trabalho, com objetivos, conteúdo e meios para realizá-lo. «Esta
responsabilidade leva o Bispo, em comunhão com o presbitério, a delinear um projeto e
a estabelecer uma programação capaz de configurar a formação permanente não como
algo de episódico, mas como uma proposta sistemática de conteúdos, que se desenrola
por etapas e se reveste de modalidades precisas»[423]

3.3. Responsáveis

O próprio presbítero

105. O primeiro e principal responsável por sua formação permanente é o próprio


presbítero. De fato, sobre cada sacerdote recai o dever de ser fiel ao dom de Deus e ao
dinamismo de conversão cotidiana que provém do próprio dom[424].
Tal dever deriva do fato de que ninguém pode substituir cada um dos presbíteros no
vigiar sobre si mesmo (cf. 1Tm 4,16). Com efeito, participando no único sacerdócio de
Cristo, cada um deles é chamado a revelar e a pôr em prática, segundo uma sua vocação
única e não repetível, qualquer aspecto da extraordinária riqueza de graça que recebeu.

Por outro lado, as condições e situações de vida de cada um dos sacerdotes são tais que,
mesmo do ponto de vista simplesmente humano, exigem que se empenhe pessoalmente
na sua formação, de maneira a fazer e frutificar as próprias capacidades e
possibilidades.

Portanto, ele participará de boa vontade nos encontros de formação, dando o próprio
contributo com base nas suas competências e nas possibilidades concretas e deve
comprar e ler livros e revistas de doutrina segura e de utilidade experimentada para a
sua vida espiritual e para a realização frutuosa do seu ministério.

Entre as leituras, o primeiro lugar deve ser ocupado pela Sagrada Escritura; depois,
pelos escritos dos Padres, dos Doutores da Igreja, dos Mestres de espiritualidade antigos
e modernos, e pelos Documentos do Magistério eclesiástico, os quais constituem a fonte
mais autorizada e atualizada da formação permanente; além disso, os escritos e as
biografias dos santos serão também de grande utilidade. Por isso, os presbíteros os
estudarão e aprofundarão direta e pessoalmente para podê-los apresentar
adequadamente aos fiéis leigos.

Ajuda dos colegas

106. Em todos os aspectos da existência sacerdotal, emergirão «especiais vínculos de


caridade apostólica, de ministério e de fraternidade»[425], sobre os quais se funda a
ajuda recíproca que os presbíteros darão uns aos outros[426]. É desejável que cresça e
se desenvolva a cooperação de todos os presbíteros no cuidado da sua vida espiritual e
humana, bem como no serviço ministerial. A ajuda, que neste campo deve ser dada aos
sacerdotes, pode encontrar um sólido apoio nas diversas Associações sacerdotais. Trata-
se de realidades que «tendo estatutos aprovados pela autoridade competente, mediante
uma regra de vida, adaptada e convenientemente aprovada, e pela ajuda fraterna,
estimulam à santidade no exercício do ministério e promovem a unidade dos clérigos
entre si e com o próprio Bispo»[427].

Deste ponto de vista, é necessário respeitar, com todo o cuidado, o direito de cada
sacerdote diocesano organizar a própria vida espiritual da maneira que julgar mais
conveniente, sempre de acordo – como é óbvio – com as características da própria
vocação e dos vínculos que dela derivam.

O trabalho que estas Associações, bem como os Movimentos e as novas comunidades


aprovados, realizam em favor dos sacerdotes é tido em grande consideração pela
Igreja[428], que o reconhece hoje como um sinal da vitalidade com que o Espírito Santo
continuamente a renova.

O Bispo
107. Por maior e necessitada que seja de atenção pastoral a porção do Povo de Deus que
lhe foi confiada, o Bispo deve reservar uma solicitude muito particular à formação
permanente dos seus presbíteros[429].

Existe, com efeito, uma relação especial entre estes e o Bispo, devido ao «fato de que os
presbíteros recebem através dele o seu sacerdócio e partilham com ele a solicitude
pastoral pelo Povo de Deus»[430]. Isto determina, também, responsabilidades
específicas do Bispo no campo da formação sacerdotal. De fato, o Bispo deve ter uma
atitude de Pai para com os seus sacerdotes, começando desde o seminário, deve evitar a
distância e o estilo pessoal que são próprios de um simples empregador. Em virtude
desta sua função, deve estar sempre próximo aos seus presbíteros, facilmente acessível:
a sua primeira preocupação deve ser com os próprios sacerdotes, que são, vale a pena
dizê-lo, colaboradores de seu ministério episcopal.

Tais responsabilidades manifestam-se, quer em relação a cada um dos presbíteros, para


o qual a formação deve ser a mais personalizada possível, quer em relação a todos,
enquanto componentes do presbitério diocesano. Neste sentido, o Bispo não deixará de
cultivar cuidadosamente a comunicação e a comunhão entre os presbíteros, em especial,
tendo o cuidado de guardar e promover a verdadeira índole da formação permanente, de
educar a sua consciência acerca da importância e necessidade desta e, enfim, de
programá-la e organizá-la, estabelecendo um plano de formação com as estruturas
necessárias e as pessoas aptas para realizá-lo[431].

Provendo à formação dos seus sacerdotes, é necessário que o Bispo se comprometa


mediante a sua própria formação permanente pessoal. A experiência ensina que quanto
mais o Bispo, começando por ele mesmo, estiver convencido e empenhado na sua
formação, tanto mais saberá estimular e sustentar a do seu presbitério.

Para este trabalho delicado, o Bispo, embora realizando um papel insubstituível e


indelegável, pedirá a colaboração do Conselho presbiteral o qual, pela sua natureza e
finalidades, é o organismo idôneo a coadjuvá-lo, especialmente no que se refere, por
exemplo, à elaboração do plano de formação.

Depois, cada Bispo deve sentir-se apoiado e ajudado na sua missão pelos outros irmãos
Bispos, reunidos em Conferência[432].

A formação dos formadores

108. Não é possível nenhuma formação se, além do sujeito que se deve formar, não
existir também o sujeito que forma, o formador. O valor e a eficácia de um plano de
formação dependem em parte das estruturas, mas, principalmente das pessoas dos
formadores.

É evidente que, relativamente a tais formadores, é particularmente imprescindível a


responsabilidade do Bispo, que tem em primeiro lugar o delicado dever de formar os
formadores para que tenham «a “ciência do amor”, que só se aprende de “coração a
coração” com Cristo»[433]. Assim, sob a guia do Bispo, estes presbíteros aprenderão a
não ter outro desejo, senão o de servir os seus colegas com este trabalho de formação.
Portanto, é necessário que o próprio Bispo nomeie um “grupo de formadores” e que as
pessoas sejam escolhidas entre aqueles sacerdotes altamente qualificados e estimados
pela sua preparação e maturidade humana, espiritual, cultural e pastoral. Com efeito, os
formadores devem ser antes de mais homens de oração, docentes com forte sentido do
sobrenatural, de profunda vida espiritual, de conduta exemplar, com adequada
experiência no ministério sacerdotal, capazes de conjugar, como os Padres da Igreja e os
santos mestres de todos os tempos, as exigências espirituais com as exigências mais
propriamente humanas do sacerdote. Eles podem ser escolhidos também entre os
membros dos Seminários, dos Centros ou Instituições acadêmicas aprovadas pela
Autoridade eclesiástica, bem como naqueles Institutos Religiosos cujo carisma é próprio
o da vida e espiritualidade sacerdotal. Em todo o caso, devem ser garantidas a ortodoxia
da doutrina e a fidelidade à disciplina eclesiástica. Além disso, os formadores devem ser
colaboradores de confiança do Bispo, que permanece o último responsável da formação
dos presbíteros, que são os seus mais preciosos colaboradores.

É conveniente que se crie também um grupo de programação e de realização, diferente


daquele dos formadores, com o fim de ajudar o Bispo a fixar o conteúdo a ser
desenvolvido todos os anos em cada um dos âmbitos da formação permanente; a
preparar os subsídios necessários, os cursos, as sessões, os encontros, e os retiros; a
organizar oportunamente os horários, de maneira a prever as ausências e as
substituições dos presbíteros, etc. Para uma boa programação pode também consultar-se
qualquer especialista sobre temas determinados.

Enquanto é suficiente um só grupo de formadores, é ao contrário possível que existam,


se as necessidades o exigirem, vários grupos de programação e de realização.

Colaboração entre as Igrejas

109. No que se refere, sobretudo, aos meios coletivos, a programação dos diferentes
meios de formação permanente e do seu conteúdo concreto pode ser estabelecida –
permanecendo a firme responsabilidade de cada Bispo pela sua circunscrição – de
comum acordo entre as várias Igrejas particulares, quer em nível nacional e regional –
por meio das respectivas Conferências dos Bispos – quer, principalmente, entre
Dioceses limítrofes ou mais próximas. Assim, por exemplo, poder-se-iam utilizar, se
forem consideradas adaptadas, as estruturas interdiocesanas, como as Faculdades e os
Institutos teológicos e pastorais, bem como os organismos ou as federações empenhadas
na formação presbiteral. Tal união de forças, para além de realizar uma autêntica
comunhão entre as Igrejas particulares, poderia proporcionar a todos, mais qualificadas
e estimulantes possibilidades para a formação permanente[434].

Colaboração de centros acadêmicos e de espiritualidade

110. Além disso, os institutos de estudo e de investigação, bem como os mosteiros de


observância exemplar e os Santuários constituem outros tantos pontos de referência para
a atualização teológica e pastoral, e espaços para se cultivar o silêncio, a oração, a
confissão sacramental e a direção espiritual, um salutar repouso também físico,
momentos de fraternidade sacerdotal. Deste modo, também as famílias religiosas
poderiam colaborar na formação permanente e contribuir para aquela renovação do
clero, que é exigida pela nova evangelização do Terceiro Milênio.
3.4. Necessidades no tocante às idades e às situações especiais

Primeiros anos de sacerdócio

111. Durante os primeiros anos depois da ordenação, os sacerdotes deveriam ser


sumamente ajudados a encontrar aquelas condições de vida e de ministério que lhes
permitam pôr em prática os ideais aprendidos durante o período de formação no
seminário[435]. Estes primeiros anos, que constituem uma avaliação necessária da
formação inicial depois do primeiro impacto com a realidade, são os mais decisivos para
o futuro. Por isso, eles requerem um amadurecimento harmônico para fazer frente, com
fé e fortaleza, aos momentos de dificuldade. Para isso, os jovens sacerdotes devem ter
um contato pessoal com o seu Bispo e com um sábio padre espiritual, e gozar de
momentos de repouso, de meditação, de retiro mensal. Ademais, parece importante
destacar a necessidade que, em especial, os jovens presbíteros sejam inseridos num
autêntico caminho de fé no presbitério ou na comunidade paroquial, acompanhados pelo
Bispo e pelos irmãos sacerdotes delegados para isto.

A partir de tudo que foi tratado sobre o ano pastoral, é necessário organizar, nos
primeiros anos de sacerdócio, encontros anuais de formação nos quais se tratem e
aprofundem adequados temas teológicos, jurídicos, espirituais e culturais, sessões
especiais dedicadas a problemas de moral, de pastoral, de liturgia, etc. Tais encontros
podem servir também de ocasião para renovar a faculdade de confessar, segundo o que
está estabelecido pelo Código de Direito Canônico e pelo Bispo[436]. Seria útil,
também, que fosse promovida a convivência familiar entre os jovens presbíteros e
aqueles mais amadurecidos, de maneira a permitir a troca de experiências, o
conhecimento recíproco e também a delicada prática evangélica da correção fraterna.

Em muitos lugares, tem sido uma boa experiência organizar, sob a direção do Bispo,
breves encontros ao longo do ano para os sacerdotes jovens, por exemplo, para aqueles
com menos de dez anos de sacerdócio, com o objetivo de acompanhá-los mais de perto
nestes primeiros anos; sem dúvida, serão também ocasiões para falar da espiritualidade
sacerdotal, dos desafios para os ministros, da prática pastoral, etc., em um ambiente de
convivência fraterna e sacerdotal.

É necessário, enfim, que o clero jovem cresça num ambiente espiritual de verdadeira
fraternidade e delicadeza, que se manifesta na atenção pessoal, mesmo no que diz
respeito à saúde física e aos diversos aspectos materiais da vida.

Depois de um certo número de anos

112. Depois de um certo número de anos de ministério, os presbíteros adquirem uma


grande experiência e grande mérito de se terem gasto pela dilatação do Reino de Deus
no trabalho cotidiano. Estes sacerdotes constituem um grande recurso espiritual e
pastoral.

Eles têm necessidade de encorajamento, de inteligente valorização, de aprofundamento


da formação em todas as suas dimensões, para uma revisão de si mesmos e do seu
próprio agir; de reavivar as motivações do sagrado ministério; de refletir sobre as
metodologias pastorais à luz do essencial, na comunionalidade presbiteral e na amizade
com seu Bispo; de superar eventuais manifestações de cansaço, de frustração, de
solidão; e enfim, de redescobrir as veias nas quais nasce a espiritualidade
sacerdotal[437].

É importante, por isso, que estes presbíteros beneficiem de especiais e aprofundadas


sessões de formação nas quais, para além do conteúdo teológico-pastoral, se examinem
todas as dificuldades psicológicas e afetivas que podem nascer em tal período. É, pois,
aconselhável que em tais encontros tomem parte não só o Bispo, mas também
especialistas que possam dar um contributo válido e seguro à solução dos problemas
referidos.

Idade avançada

113. Os presbíteros anciãos ou de idade avançada, para os quais devem convergir todos
os sinais de afetuosa consideração, entram também no circuito vital da formação
permanente, não tanto como empenho de estudo aprofundado e de debate cultural,
quanto «pela confirmação serena e tranquilizadora do papel que são chamados ainda a
realizar no Presbitério»[438].

Para além da formação organizada para os padres de meia idade, eles poderão fruir de
convenientes momentos, de ambientes e de encontros especiais para aprofundar o
sentido contemplativo da vida sacerdotal, para redescobrir e saborear as riquezas
doutrinais de tudo o que estudaram, para se sentirem úteis – como o são, de fato –,
podendo ser valorizados em formas adaptadas de verdadeiro e próprio ministério,
sobretudo como confessores e diretores espirituais experimentados. De um modo
particular, eles poderão partilhar as suas experiências com outros, encorajar, acolher,
ouvir e dar serenidade aos colegas, estar disponíveis sempre que se lhes peça o serviço
de «eles mesmos se tornarem mestres válidos e formadores de outros sacerdotes»[439].

Sacerdotes em situações especiais

114. Independentemente da idade, os presbíteros podem encontrar-se «numa condição


de debilidade física ou de cansaço moral»[440]. Com o oferecimento do seu sofrimento,
contribuem de um modo eminente para a obra da redenção, dando «um testemunho
assinalado pela opção da cruz acolhida na esperança e na alegria pascal»[441].

Para estes presbíteros, a formação permanente deve oferecer estímulos para «continuar
de maneira serena e forte o seu serviço à Igreja»[442] e ser sinal eloquente do primado
do ser sobre o agir, do conteúdo sobre a técnica, da graça sobre a eficiência exterior.
Deste modo, poderão viver a experiência de São Paulo: «Estou contente com os
sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta à Paixão de
Cristo, em favor do seu Corpo que é a Igreja» (Cl 1,24).

O Bispo e os colegas sacerdotes não deixarão de visitar periodicamente estes irmãos


doentes, que poderão ser informados, sobretudo, sobre os acontecimentos da diocese, de
maneira a fazer-lhes sentir que são membros vivos do presbitério e da Igreja universal,
que edificam com o seu sofrimento.

Com um particular e afetuoso cuidado, devem ser circundados os presbíteros já


próximos a concluir os seus dias neste mundo e que se consumiram no serviço de Deus
para a salvação dos irmãos.
Ao contínuo conforto da fé, à solicitude na administração dos Sacramentos, devem
seguir-se os sufrágios por parte de todo o presbitério.

Solidão do sacerdote

115. O sacerdote pode experimentar, em qualquer idade e em qualquer situação, o


sentimento da solidão[443]. Esta, longe de compreender-se como isolamento
psicológico, pode ser perfeitamente normal e consequente à sincera sequela evangélica e
constituir uma dimensão preciosa da própria vida. Porém, em alguns casos, tal
circunstância poderia ser resultado de dificuldades especiais, como marginalização,
incompreensões, desvios, abandono, imprudências, limitações do próprio caráter ou de
outros, calúnias, humilhações, etc. Daí pode derivar um sentimento pungente de
frustração que seria extremamente nocivo.

Todavia, também estes momentos de dificuldade podem tornar-se, com a ajuda do


Senhor, ocasiões privilegiadas de crescimento no caminho da santidade e do apostolado.
Com efeito, neles o padre pode descobrir que «se trata duma solidão habitada pela
presença do Senhor»[444]. É claro que isto não deve fazer esquecer a grave
responsabilidade do Bispo e de todo o presbitério em evitar toda a solidão produzida
pelo desleixo na comunhão sacerdotal. É tarefa da diocese, estabelecer como realizar
encontro entre sacerdotes, para que se sintam agregados, aprendam um com o outro, se
congreguem e ajudem mutuamente, porque ninguém é sacerdote sozinho, e é
exclusivamente nesta comunhão com o Bispo que o serviço de cada um poderá render.

Nem, sequer, dever-se-ão esquecer os irmãos que abandonaram o exercício do sagrado


ministério, oferecendo-lhes a ajuda necessária, sobretudo da oração e da penitência. A
devida atitude de caridade para com eles não deve, todavia, induzir de nenhum modo à
consideração de confiar-lhes funções eclesiais, que poderiam criar confusão e
desconcerto entre os fiéis, precisamente por causa da sua situação.

CONCLUSÃO

O Senhor da messe, que chama e convida os trabalhadores que devem trabalhar no seu
campo (cf. Mt 9,38), prometeu com fidelidade eterna: «dar-vos-ei pastores segundo o
meu coração» (Jr 3,15 ). Nesta fidelidade divina, sempre viva e ativa na Igreja[445],
repousa a esperança de receber abundantes e santas vocações sacerdotais, aliás, já
constatáveis em muitos Países, bem como a certeza de que o Senhor não faltará à Igreja
com a luz necessária para afrontar a aventura apaixonante de lançar as redes ao largo.

Ao dom de Deus, a Igreja responde com a ação de graças, a fidelidade, a docilidade ao


Espírito, a oração humilde e perseverante.

Para realizar a sua missão apostólica, cada sacerdote deve trazer esculpidas no seu
coração as palavras do Senhor: «Pai, eu glorifiquei-te na terra, tendo cumprido a obra
que tu me deste para fazer, dar a vida eterna aos homens» (Jo 17,2-4). Por isso, ele fará
da própria vida dom de si – raiz e síntese da caridade pastoral – à Igreja, à imagem do
dom de Cristo[446]. Deste modo, gastará com alegria e paz todas as suas forças no
auxílio aos irmãos, vivendo como sinal de caridade sobrenatural na obediência, na
castidade celibatária, na simplicidade de vida e no respeito da disciplina de comunhão
da Igreja.

Na sua obra evangelizadora, o presbítero transcende a ordem natural para fixar-se «nas
coisas que dizem respeito a Deus» (Hb 5,1). Com efeito, ele é chamado a elevar o
homem, gerando-o para a vida divina e fazendo-o crescer nela até a plenitude de Cristo.
É por isso que um autêntico sacerdote, motivado na sua fidelidade a Cristo e à Igreja,
constitui de fato uma força incomparável de verdadeiro progresso para todo o mundo.

«A nova evangelização tem necessidade de novos evangelizadores e estes são os


sacerdotes que se empenham em viver o seu sacerdócio como caminho específico para a
santidade»[447]. As obras de Deus são cumpridas pelos homens de Deus!

Como Cristo, o sacerdote deve apresentar-se ao mundo como modelo de vida


sobrenatural: «dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, vós façais também» (Jo 13,15).

O testemunho dado com a vida qualifica o presbítero e constitui a sua pregação mais
convincente. A mesma disciplina eclesiástica, vivida com autênticas motivações
interiores, revela-se como um cuidadoso serviço para viver a própria identidade, para
fomentar a caridade e para fazer brilhar o testemunho, sem o qual toda a preparação
cultural ou rigorosa programação seriam só ilusão. A nada serve o fazer se falta o ser
com Cristo.

Aqui reside o horizonte da identidade, da vida, do ministério, da formação permanente


do sacerdote: uma tarefa de trabalho imenso, aberto, corajoso, iluminado pela fé,
sustentado pela esperança, enraizado na caridade.

Nesta obra, tão necessária quanto urgente, ninguém está só. É necessário que os
presbíteros sejam ajudados por uma exemplar, autorizada e vigorosa ação pastoral dos
seus Bispos, em clara comunhão com a Sé Apostólica, bem como pela fraterna
colaboração do conjunto do presbitério e de todo Povo de Deus.

A Maria, estrela da nova evangelização, se confie todo o sacerdote. Nela, que «foi o
modelo daquele amor materno, do qual devem ser animados todos os que na missão
apostólica da Igreja cooperam para a regeneração dos homens»[448], os sacerdotes
encontrarão constante proteção e ajuda para a renovação da sua vida e para fazer brotar
do seu sacerdócio um mais intenso e renovado impulso evangelizador, neste terceiro
milênio da Redenção.

O Sumo Pontífice Bento XVI aprovou o presente Diretório e ordenou a sua publicação
no dia 14 de janeiro de 2013.

Roma, Palácio das Congregações, 11 de fevereiro, memória de Nossa Senhora de


Lourdes, do ano de 2013.

Mauro Card. Piacenza


Prefeito
+ Celso Morga Iruzubieta
Arcebispo tit. de Alba marittima
Secretário

Oração a Maria Santíssima

Maria,
Mãe de Jesus Cristo e Mãe dos sacerdotes
recebei este preito que nós Vos tributamos
para celebrar a Vossa maternidade
e contemplar junto de Vós o Sacerdócio
do Vosso Filho e dos vossos filhos,
ó Santa Mãe de Deus.

Mãe de Cristo,
ao Messias Sacerdote destes o corpo de carne
para a unção do Espírito Santo
a salvação dos pobres e contritos de coração,
guardai no Vosso Coração
e na Igreja os sacerdotes,
ó Mãe do Salvador.

Mãe da fé,
acompanhastes ao templo o Filho do Homem,
cumprimento das promessas feitas aos nossos Pais,
entregai ao Pai para Sua glória
os sacerdotes do Filho Vosso,
ó Arca da Aliança.

Mãe da Igreja,
entre os discípulos no Cenáculo,
suplicastes o Espírito
para o Povo novo e os seus Pastores,
alcançai para a ordem dos presbíteros
a plenitude dos dons,
ó Rainha dos Apóstolos.

Mãe de Jesus Cristo,


estivestes com Ele nos inícios
da Sua vida e da Sua missão,
Mestre O procurastes entre a multidão,
assististe-l'O levantado da terra,
consumado para o sacrifício único eterno,
e tivestes perto João, Vosso filho,
acolhei desde o princípio os chamados,
protegei o seu crescimento,
acompanhai na vida e no ministério
os Vossos filhos,
ó Mãe dos sacerdotes.

Amém! [449]

[1] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen
gentium: AAS 57 (1965), 28; Decreto sobre a formação sacerdotal Optatam totius: AAS
58 (1966), 22; Decreto sobre o ofício pastoral dos Bispos Christus Dominus: AAS 58
(1966), 16; Decreto sobre o ministério e a vida dos Presbíteros Presbyterorum Ordinis:
AAS 58 (1966), 991-1024; Paulo VI, Carta enc. Sacerdotalis caelibatus (24 de junho de
1967): AAS 59 (1967), 657-697; Sagrada Congregação para o Clero, Carta circular Inter
ea (4 de novembro de 1969): AAS 62 (1970), 123-134; Sínodo dos Bispos, Documento
sobre o sacerdócio ministerial Ultimis temporibus (30 de novembro de 1971): AAS 63
(1971), 898-922; Codex Iuris Canonici (25 de janeiro de 1983), cann. 273-289; 232-
264; 1008-1054; Sagrada Congregação para a Educação Católica, Ratio Fundamentalis
Institutionis Sacerdotalis (19 de março de 1985), 101; João Paulo II, Cartas aos
Sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa; Catequeses sobre os presbíteros, nas
Audiências gerais de 31 de março a 22 de setembro de 1993.

[2] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março de 1992):
AAS 84 (1992), 657-804.

[3] Congregação para o Clero, Diretório para o Ministério e a Vida dos


Presbíteros (31 de março de 1994), LEV, Cidade do Vaticano 1994.

[4] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 18.

[5] Cf., por exemplo, João Paulo II, Carta ap. em forma de Motu proprio
Misericordia Dei (7 de abril de 2002): AAS 94 (2002), 452-459; Carta enc. Ecclesia de
Eucharistia (17 de abril de 2003): AAS 95 (2003), 433-475; Exort. ap. pós-sinodal
Pastores gregis (16 de outubro de 2003): AAS 96 (2004), 825-924; Cartas aos
sacerdotes (1995-2002; 2004-2005); Bento XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum
caritatis (22 de fevereiro de 2007): AAS 99 (2007), 105-180; Mensagem aos
participantes da XX edição do Curso para o Foro interno, promovido pela
Penitenciaria Apostólica (12 de março de 2009): Insegnamenti V/1 (2009), 374-377;
Discurso aos participantes da plenária da Congregação para o Clero (16 de março de
2009): Insegnamenti V/1 (2009), 391-394; Carta para a proclamação de um ano
sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do “Dies natalis” do Santo Cura d’Ars (16
de junho de 2009): AAS 101 (2009), 569-579; Discurso aos participantes do Curso
promovido pela Penitenciaria Apostólica (11 de março de 2010): Inse

INSTRUÇÃO
ACERCA DE ALGUMAS QUESTÕES
SOBRE A COLABORAÇÃO DOS FIÉIS LEIGOS
NO SAGRADO MINISTÉRIO DOS SACERDOTES

LIBRERIA EDITRICE VATICANA


CIDADE DO VATICANO 1997

PREMISSA

Do mistério da Igreja provém o chamamento, dirigido a todos os membros do Corpo


Místico, a participar ativamente da missão e da edificação do Povo de Deus, numa
comunhão orgânica, segundo os diversos ministérios e carismas. O eco desse apelo vem
ressoando constantemente nos documentos do Magistério, particularmente a partir do
Concílio Ecumênico Vaticano II.(1) Sobretudo nas três últimas Assembléias gerais
ordinárias do Sínodo dos Bispos, reafirmou-se a identidade própria, na dignidade
comum e na diversidade das funções, dos fiéis leigos, dos ministros sagrados e dos
consagrados; e todos os fiéis foram incentivados a edificar a Igreja, colaborando em
comunhão para a salvação do mundo.

É necessário ter presente a urgência e a importância da ação apostólica dos fiéis leigos
no presente e no futuro da evangelização. A Igreja não pode prescindir desta obra,
porque lhe é conatural enquanto Povo de Deus e porque dela necessita para realizar a
própria missão evangelizadora.

O apelo à participação ativa de todos os fiéis na missão da Igreja não permaneceu


desapercebido. O Sínodo dos Bispos de 1987 constatou « como o Espírito tem
continuado a rejuvenescer a Igreja, suscitando novas energias de santidade e de
participação em tantos fiéis leigos. Prova-o, entre outras coisas, o novo estilo de
colaboração entre sacerdotes, religiosos e fiéis leigos; a participação ativa na liturgia, no
anúncio da Palavra de Deus e na catequese; a multiplicidade de tarefas e serviços
confiados aos fiéis leigos e por eles assumidos; o exuberante florescer de grupos,
associações e movimentos de espiritualidade e de empenho laicais; a participação cada
vez mais ampla e significativa das mulheres na vida da Igreja e no progresso da
sociedade ».(2) Igualmente, na preparação do Sínodo dos Bispos de 1994 sobre a vida
consagrada, observou-se « como é generalizado o desejo sincero de instaurar autênticas
relações de comunhão e de colaboração entre os Bispos, os Institutos de vida
consagrada, o clero secular e os leigos ».(3) Na sucessiva Exortação apostólica pós-
sinodal, o Sumo Pontífice confirma a contribuição específica da vida consagrada para a
missão e a edificação da Igreja.(4)

Com efeito, constata-se a colaboração de todos os fiéis em ambos os âmbitos da missão


da Igreja, tanto no espiritual, de levar aos homens a mensagem de Cristo e a sua graça,
como no temporal, de permear e aperfeiçoar a ordem das realidades seculares com o
espírito evangélico.(5) De maneira especial no primeiro setor — evangelização e
santificação — « completam-se mutuamente o apostolado dos leigos e o ministério
pastoral ».(6) Nele, os fiéis leigos, de ambos os sexos, têm inúmeras ocasiões de se
tornarem ativos, com o testemunho coerente da vida pessoal familiar e social, com o
anúncio e a partilha do Evangelho de Cristo em todos os ambientes e com o
compromisso de explicar, defender e aplicar retamente os princípios cristãos aos
problemas atuais.(7)Os Pastores, em particular, são exortados a « reconhecer e
promover os ministérios, os ofícios e as funções dos fiéis leigos, que têm o seu
fundamento sacramental no Batismo e na Confirmação, bem como, para muitos deles,
no Matrimônio ».(8)

Na realidade, a vida da Igreja nesse campo conheceu realmente um surpreendente


florescer de iniciativas pastorais, sobretudo após o notável impulso dado pelo Concílio
Vaticano II e pelo Magistério Pontifício.

Hoje, particularmente, a tarefa prioritária da nova evangelização, que compete a todo o


povo de Deus, exige, juntamente com o « especial protagonismo » dos sacerdotes,
também uma plena recuperação da consciência da índole secular da missão do leigo.(9)

Essa empresa abre aos fiéis leigos os imensos horizontes — alguns dos quais ainda por
serem explorados — do compromisso no século, no mundo da cultura, da arte e do
espetáculo, da investigação científica, do trabalho, dos meios de comunicação, da
política, da economia, etc., e pede-lhes criatividade na busca de modalidades cada vez
mais eficazes para que estes ambientes encontrem em Jesus Cristo a plenitude do seu
significado.(10)

Nessa vasta área de harmoniosa operosidade — quer seja especificamente espiritual ou


religiosa, quer seja na consecratio mundi — existe um campo especial, o que diz
respeito ao sagrado ministério do clero, em cujo exercício podem ser chamados a
colaborar os fiéis leigos, homens e mulheres, e, naturalmente, também os membros não-
ordenados dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica. A este
campo particular refere-se o Concílio Ecumênico Vaticano II, quando ensina: «
Finalmente, a Hierarquia confia aos leigos certas funções que estão mais intimamente
relacionadas com os deveres dos Pastores como, por exemplo, a exposição da doutrina
cristã, alguns atos litúrgicos, a cura de almas ».(11)

Exatamente porque se trata de tarefas mais intimamente relacionadas com os deveres


dos pastores — que, para o serem, devem ter recebido o sacramento da Ordem — exige-
se de todos os que de alguma maneira estão nelas envolvidos uma particular diligência
para que sejam bem salvaguardadas tanto a natureza e a missão do ministério sagrado,
como a vocação e a índole secular dos fiéis leigos. Com efeito, colaborar não significa
substituir.

Devemos constatar com viva satisfação que em muitas Igrejas particulares a


colaboração dos fiéis não-ordenados no ministério pastoral do clero desenvolve-se de
maneira muito positiva, com abundantes frutos de bem, no respeito dos limites
estabelecidos pela natureza dos sacramentos bem como da diversidade dos carismas e
das funções eclesiais, com soluções generosas e inteligentes para enfrentar situações de
falta ou de escassez de ministros sagrados.(12) Deste modo tornou-se manifesto aquele
aspecto da comunhão, pelo qual alguns membros da Igreja se esforçam solicitamente
por remediar situações de emergência e de necessidades crônicas em algumas
comunidades, na medida em que lhes é possível, não sendo assinalados com caráter do
sacramento da Ordem.(13) Esses fiéis são chamados e deputados para assumir tarefas
específicas, importantes e delicadas, sustentados pela graça do Senhor, acompanhados
pelos ministros sagrados e bem acolhidos pelas comunidades a favor das quais prestam
o próprio serviço. Os pastores sagrados estão profundamente gratos pela generosidade
com que numerosos consagrados e fiéis leigos se oferecem para este serviço específico,
realizado com fiel sensus Ecclesiae e edificante dedicação. Particular gratidão e
encorajamento sejam tributados a todos aqueles que cumprem estas tarefas em situações
de perseguição da comunidade cristã, ou nos âmbitos de missão, sejam estes territoriais
ou culturais, onde a Igreja ainda está em fase de implantação e a presença do sacerdote é
somente esporádica.(14)

Não é este o lugar para aprofundar toda a riqueza teológica e pastoral do papel dos fiéis
leigos na Igreja, a qual já foi amplamente ilustrada pela Exortação apostólica
Christifideles laici.

A finalidade do presente documento, no entanto, é simplesmente a de fornecer uma


resposta clara e autorizada aos prementes e numerosos pedidos enviados aos nossos
Dicastérios por Bispos, presbíteros e leigos, os quais solicitaram esclarecimentos em
face de novas formas de atividade « pastoral » de fiéis não-ordenados no âmbito das
paróquias e das dioceses.

De fato, trata-se freqüentemente de práticas que, embora nascidas em situações de


emergência e de precariedade e no mais das vezes desenvolvidas no desejo de prestar
um generoso auxílio na atividade pastoral, podem acarretar conseqüências gravemente
negativas em detrimento da reta compreensão da verdadeira comunhão eclesial. Tais
práticas, na realidade, estão mais presentes em algumas regiões e, às vezes, dentro das
mesmas regiões, variam muito.

Elas, no entanto, reclamam a grave responsabilidade pastoral de todos os que são


encarregados da promoção e da tutela da disciplina universal da Igreja, sobretudo dos
Bispos,(15) segundo alguns princípios doutrinais já claramente enunciados pelo
Concílio Ecumênico Vaticano II(16) e pelo sucessivo Magistério Pontifício.(17)

Em nossos Dicastérios realizou-se um trabalho de reflexão, reuniu-se um Simpósio, no


qual participaram representantes dos Episcopados mormente interessados pelo problema
e, enfim, fez-se uma ampla consulta a numerosos Presidentes de Conferências dos
Bispos e a outros Prelados, bem como a peritos de diversas disciplinas eclesiásticas e
áreas geográficas. O resultado foi uma ampla convergência no sentido preciso da
presente Instrução que, todavia, não pretende ser exaustiva, tanto porque se limita a
considerar os casos atualmente mais conhecidos, como por causa da imensa variedade
de circunstâncias particulares nas quais esses casos se verificam.

O texto, redigido sobre a base segura do magistério extraordinário e ordinário da Igreja,


é confiado, para ser fielmente aplicado, aos Bispos interessados, mas também é dado a
conhecer aos Prelados das circunscrições eclesiásticas onde atualmente não se verificam
tais práticas abusivas, mas que, dada a atual rapidez da difusão dos fenômenos, em
breve poderiam ser por elas atingidas.

Antes de responder aos casos concretos que nos foram apresentados, considera-se
necessário expor brevemente alguns elementos teológicos essenciais sobre o significado
da Ordem sagrada na constituição da Igreja, aptos a favorecer uma motivada
compreensão da própria disciplina eclesiástica que, no respeito pela verdade e pela
comunhão eclesial, pretende promover os direitos e os deveres de todos, em vista da «
salvação das almas que deve sempre, na Igreja, a lei suprema ».(18)

PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS

1. O sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial

Cristo Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, quis que a Sua Igreja fosse partícipe do seu
único e indivisível sacerdócio. Ela é o povo da Nova Aliança, no qual « pela
regeneração e unção do Espírito Santo, os batizados são consagrados para formar um
templo espiritual e um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, mediante
todas as suas atividades, e dar a conhecer os prodígios dAquele que das trevas os
chamou à Sua luz admirável (cfr. 1 Pd 2, 4-10) ».(19) « Um é, pois, o Povo eleito de
Deus: "um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4, 5). Comum a dignidade dos
membros pela regeneração em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à
perfeição ».(20) Existindo entre todos « verdadeira igualdade quanto à dignidade e ação
comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo », alguns são constituídos, por
vontade de Cristo, « mestres, dispensadores dos mistérios e pastores em benefício dos
demais ».(21) Tanto o sacerdócio comum dos fiéis como o sacerdócio ministerial ou
hierárquico « ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas
em grau, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo
».(22) Entre eles dá-se uma eficaz unidade, porque o Espírito Santo unifica a Igreja na
comunhão e no serviço e a provê de diversos dons hierárquicos e carismáticos.(23)

A diferença essencial entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial não está,


portanto, no sacerdócio de Cristo — que sempre permanece uno e indivisível — nem
tampouco na santidade à qual todos os fiéis são chamados: « O sacerdócio ministerial,
com efeito, não significa, de per si, um maior grau de santidade em relação ao
sacerdócio comum dos fiéis; mas através dele é outorgado aos presbíteros, por Cristo no
Espírito, um dom particular para que possam ajudar o Povo de Deus a exercer com
fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhe é conferido ».(24) Na edificação da
Igreja, Corpo de Cristo, vige a diversidade de membros e de funções, mas um só é o
Espírito, que para a utilidade da Igreja distribui os seus vários dons com magnificência
proporcional à sua riqueza e à necessidade dos serviços (1 Cor 12, 1-11).(25)

A diferença está no modo de participação no sacerdócio de Cristo e é essencial no


sentido de que « enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento
da graça batismal — vida de fé, de esperança e de caridade, vida segundo o Espírito —
o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum, refere-se ao
desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos ».(26) Por conseguinte, o
sacerdócio ministerial « difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis porque
confere um poder sagrado para o serviço dos fiéis ».(27) Para este fim, o sacerdote é
exortado a « crescer na consciência da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus
», para « suscitar e desenvolver a co-responsabilidade na comum e única missão de
salvação, com a pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o
Espírito oferece aos crentes para a edificação da Igreja ».(28)

As características que diferenciam o sacerdócio ministerial dos Bispos e dos presbíteros


do sacerdócio comum dos fiéis e que conseqüentemente delineiam os limites da
colaboração destes no sagrado ministério, podem ser assim sintetizados:
a) o sacerdócio ministerial tem a sua raiz na sucessão apostólica e é dotado de um poder
sagrado(29) que consiste na faculdade e na responsabilidade de agir na pessoa de Cristo
Cabeça e Pastor;(30)

b) esse sacerdócio torna os ministros sagrados servidores de Cristo e da Igreja, mediante


a proclamação autorizada da palavra de Deus, a celebração dos sacramentos e o governo
pastoral dos fiéis.(31)

Colocar os fundamentos do ministério ordenado na sucessão apostólica, já que esse


ministério continua a missão que os Apóstolos receberam de Cristo, é ponto essencial
da doutrina eclesiológica católica.(32)

Portanto o ministério ordenado é constituído sobre o fundamento dos Apóstolos para a


edificação da Igreja:(33) « ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja
».(34) « Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério eclesial está o seu
caráter de serviço. Com efeito, inteiramente dependentes de Cristo que confere missão e
autoridade, os ministros são verdadeiramente "servos de Cristo" (Rm 1, 1), à imagem de
Cristo que assumiu livremente por nós "a condição de servo" (Fil 2, 7). E porque a
palavra e a graça de que são ministros não são deles, mas de Cristo que lhas confiou em
favor dos outros, eles se farão livremente servos de todos ».(35)

2. Unidade e diversificação das tarefas ministeriais

As funções do ministério ordenado, consideradas no seu conjunto, constituem uma


unidade indivisível, por causa do seu único fundamento.(36) Una e única, com efeito,
como em Cristo,(37) é a raiz da ação salvífica, significada e realizada pelo ministro na
atuação das funções de ensinar, de santificar e de governar os demais fiéis. Esta unidade
qualifica de maneira essencial o exercício das funções do ministério sagrado, que, sob
perspectivas diversas, são sempre exercício da função de Cristo, Cabeça da Igreja.

Se, portanto, o exercício do munus docendi, sanctificandi et regendi por parte do


ministro ordenado constitui a substância do ministério pastoral, as diversas funções dos
ministros sagrados formam uma unidade indivisível e, portanto, não podem ser
compreendidas separadamente umas das outras; pelo contrário, devem ser consideradas
na sua mútua correspondência e complementaridade. Somente em algumas delas, e em
certa medida, é que outros fiéis não-ordenados podem colaborar com os pastores, se
forem chamados a prestar tal colaboração pela legítima Autoridade e o fizerem no
devido modo. « [Jesus Cristo] distribui continuamente os dons dos serviços pelo seu
corpo, que é a Igreja, através dos quais, pela força derivada dEle, nos prestamos
mutuamente os serviços para a salvação ».(38) « O exercício de semelhante tarefa não
transforma o fiel leigo em pastor: na realidade, o que constitui o ministério não é a
tarefa, mas a ordenação sacramental. Só o Sacramento da Ordem confere ao ministério
ordenado dos Bispos e dos presbíteros uma peculiar participação no ofício de Cristo,
Cabeça e Pastor, e no Seu sacerdócio eterno. A tarefa que se exerce como suplente, ao
invés, recebe a sua legitimidade, formal e imediatamente, da delegação oficial que lhe
dão os pastores e, no seu exercício concreto, submete-se à direção da autoridade
eclesiástica ».(39)

É imperioso reafirmar esta doutrina porque algumas práticas que visam suprir a carência
numérica de ministros ordenados na comunidade, em certos casos, pretenderam apoiar-
se em uma concepção de sacerdócio comum dos fiéis que confunde a sua índole e o seu
significado específico, favorecendo, entre outras coisas, a diminuição dos candidatos ao
sacerdócio e obscurecendo a especificidade do seminário como lugar típico para a
formação do ministro ordenado. São fenômenos intimamente relacionados, sobre cuja
interdependência se deverá refletir oportunamente, para que se encontrem sábias
conclusões operativas.

3. O ministério ordenado é insubstituível

Uma comunidade de fiéis, para ser chamada Igreja e para o ser realmente, não se pode
governar seguindo critérios organizacionais de natureza associativa ou política. Cada
Igreja particular deve a Cristo o seu governo, porque foi Ele, fundamentalmente, quem
concedeu à Igreja o ministério apostólico. Por essa razão, nenhuma comunidade tem o
poder de dá-lo a si própria(40) ou de estabelecê-lo por meio de uma delegação. O
exercício do múnus de magistério e de governo requer, com efeito, a determinação
canônica ou jurídica por parte da autoridade hierárquica.(41)

O sacerdócio ministerial é, portanto, necessário à própria existência da comunidade


como Igreja: « Não se deve, pois, pensar no sacerdócio ordenado [...] como posterior à
comunidade eclesial, de modo que esta pudesse ser concebida como já constituída
independentemente de tal sacerdócio ».(42) Com efeito, se na comunidade vem a faltar
o sacerdote, ela fica privada do exercício e da função sacramental de Cristo Cabeça e
Pastor, essencial para a própria vida da comunidade eclesial.

O sacerdócio ministerial é, portanto, absolutamente insubstituível. Donde se deduz


imediatamente a necessidade de uma pastoral vocacional que seja zelosa, bem ordenada
e contínua, para dar à Igreja os ministros necessários, bem como de proporcionar uma
cuidadosa formação a todos os que, nos seminários, se preparam para receber o
presbiterado. Qualquer outra solução que pretenda enfrentar os problemas provenientes
da carência de ministros sagrados será necessariamente precária.

« O fomento das vocações sacerdotais é dever de toda a comunidade cristã, que deve
promovê-las, sobretudo, por uma vida plenamente cristã ».(43)Todos os fiéis são co-
responsáveis por contribuir para o encorajamento das respostas positivas à vocação
sacerdotal, com um seguimento cada vez mais fiel de Jesus Cristo, superando a
indiferença do ambiente, sobretudo nas sociedades fortemente marcadas pelo
materialismo.

4. A colaboração de fiéis não-ordenados no ministério pastoral

Nos documentos conciliares, entre os vários aspectos da participação dos fiéis não
ordenados na missão da Igreja, toma-se em consideração a sua colaboração direta nas
tarefas específicas dos pastores.(44) Com efeito, « quando a necessidade ou a utilidade
da Igreja o requer, os pastores podem, segundo as normas estabelecidas pelo direito
universal, confiar aos fiéis leigos certos ofícios e funções que, embora ligados ao seu
próprio ministério de pastores, não exigem, contudo, o caráter da Ordem ».(45) Tal
colaboração foi posteriormente regulamentada pela legislação pós-conciliar e, de modo
particular, pelo novo Código de Direito Canônico.
Este, depois de referir-se aos direitos e deveres de todos os fiéis,(46) no título seguinte,
dedicado aos direitos e deveres dos fiéis leigos, trata não somente daqueles que são
específicos da sua condição secular,(47) mas também de outras tarefas ou funções que
não lhes pertencem de modo exclusivo. Destas, algumas competem a qualquer fiel,
ordenado ou não,(48) outras, ao invés, colocam-se no contexto de um serviço direto ao
ministério sagrado dos fiéis ordenados.(49) Com relação a estas últimas tarefas ou
funções, os fiéis não-ordenados não detêm um direito a exercê-las, mas são « hábeis
para ser assumidos pelos Pastores sagrados para aqueles ofícios eclesiásticos e encargos
que eles podem desempenhar segundo as prescrições do direito »,(50) ou ainda « na
falta de ministros [...] podem suprir alguns dos seus ofícios [...] de acordo com as
prescrições do direito ».(51)

Para que uma tal colaboração seja inserida harmoniosamente na pastoral ministerial, é
necessário que, evitando desvios pastorais e abusos disciplinares, os princípios
doutrinais sejam claros e que, por conseguinte, com determinação coerente, seja
promovida em toda a Igreja uma aplicação leal e acurada das disposições vigentes, não
estendendo abusivamente os termos de exceção a casos que não podem ser julgados «
excepcionais ».

Se, em alguns lugares, se verificarem abusos e práticas transgressoras, os Pastores


apliquem os meios necessários e oportunos para impedir prontamente a sua difusão e
evitar que se prejudique a correta compreensão da própria natureza da Igreja.
Particularmente, procurarão aplicar as normas disciplinares já estabelecidas, que
ensinam a conhecer e a respeitar, concretamente, a distinção e a complementaridade de
funções, que são vitais para a comunhão eclesial. Portanto, onde estas práticas
transgressoras já estão difundidas, torna-se absolutamente impreterível a intervenção
responsável da autoridade que o deve fazer. Assim agindo, tornar-se-á verdadeiro
artífice da comunhão, que não pode ser constituída senão em torno da verdade.
Comunhão, verdade, justiça, paz e caridade são termos interdependentes.(52)

À luz dos princípios acima recordados, indicam-se a seguir os remédios oportunos para
enfrentar os abusos denunciados aos nossos Dicastérios. As disposições que seguem são
inferidas das normas da Igreja.

DISPOSIÇÕES PRÁTICAS

Artigo 1

Necessidade de uma terminologia apropriada

O Santo Padre, no discurso pronunciado aos participantes do Simpósio sobre a «


Colaboração dos fiéis leigos no ministério presbiteral », sublinhou a necessidade de
esclarecer e de distinguir as várias acepções que o termo « ministério » tem assumido na
linguagem teológica e canônica.(53)

§ 1. « Há já algum tempo foi estabelecido o uso de chamar ministérios não só os officia


(ofícios) e os munera (funções) exercidos pelos Pastores em virtude do sacramento da
Ordem, mas também os exercidos pelos fiéis não-ordenados, em virtude do sacerdócio
batismal. A questão léxica torna-se ainda mais complexa e delicada, quando se
reconhece a possibilidade do exercício — na qualidade de suplentes, por deputação
oficial concedida pelos Pastores — de certas funções mais próprias dos clérigos, as
quais, contudo, não exigem o caráter da Ordem. É preciso reconhecer que a linguagem
se torna incerta, confusa e, por conseguinte, inepta para exprimir a doutrina da fé, todas
as vezes que, de algum modo, se ofusca a diferença de "essência e não apenas de grau",
existente entre o sacerdócio batismal e o sacerdócio ordenado ».(54)

§ 2. « O que permitiu, em alguns casos, a extensão do termo ministério aos munera


próprios dos fiéis leigos, é o fato de que também estes munera, em certa medida,
constituem uma participação no único sacerdócio de Cristo. Os officia, que lhes são
confiados temporariamente, são porém exclusivamente fruto de uma delegação da
Igreja. Só a constante referência ao único e fontal "ministério de Cristo" [...] permite,
numa certa medida, aplicar sem ambigüidade também aos fiéis não-ordenados o termo
ministério: isto é, sem que isto seja percebido e vivido como indevida aspiração ao
ministério ordenado, ou como erosão progressiva da sua especificidade.

Neste sentido originário o termo ministério (servitium) exprime tão somente a obra com
a qual os membros da Igreja prolongam, no interior dela e para o mundo, a missão e o
ministério de Cristo. Quando, porém, o termo é diferenciado na relação e no confronto
entre os diversos munera e officia, então é preciso advertir com clareza que só em
virtude da Sagrada Ordenação ele obtém aquela plenitude e univocidade de significado,
que a tradição sempre lhe atribuiu ».(55)

§ 3. O fiel não-ordenado pode assumir a denominação genérica de « ministro


extraordinário » somente se e quando é chamado pela Autoridade competente a
desempenhar, unicamente em função de suplência, os encargos de que falam o cân. 230,
§ 3,(56) bem como os cânn. 943 e 1112. Naturalmente, pode ser utilizado o termo
concreto com o qual se determina canonicamente a função que é confiada, por exemplo,
catequista, acólito, leitor, etc.

A deputação temporária nas ações litúrgicas, de que fala o cân. 230, § 2, não confere
nenhuma denominação especial ao fiel não-ordenado.(57)

Não é lícito, portanto, que os fiéis não-ordenados assumam, por exemplo, a


denominação de « pastor », de « capelão », de « coordenador », « moderador » ou outras
semelhantes que possam, em todo caso, confundir o seu papel com o próprio do pastor,
que é exclusivamente o Bispo e o presbítero.(58)

Artigo 2

O ministério da Palavra(59)

§ 1. O conteúdo desse ministério consiste na « pregação pastoral, na catequese e em


toda a instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter um lugar de destaque ».(60)

O exercício originário das respectivas funções é próprio do Bispo diocesano, enquanto


moderador na própria Igreja de todo o ministério da palavra,(61) e é próprio também
dos presbíteros, seus cooperadores.(62) Esse ministério compete também aos diáconos,
em comunhão com o Bispo e o seu presbitério.(63)
§ 2. Os fiéis não-ordenados participam, segundo a própria índole, da função profética de
Cristo, são constituídos suas testemunhas e ornados com o senso da fé e a graça da
palavra. Todos são chamados a tornar-se cada vez mais « valiosos pregoeiros da fé nas
coisas que se esperam (cfr. Hb 11, 1) ».(64) Hoje, a obra da catequese, em particular,
muito depende do seu empenho e da sua generosidade a serviço da Igreja.

Os fiéis, portanto, e especialmente os membros dos Institutos de vida consagrada e


Sociedades de vida apostólica, podem ser chamados a colaborar, segundo os modos
legítimos, no exercício do ministério da palavra.(65)

§ 3. Para que seja eficaz a colaboração, de que se fala no § 2, é necessário relembrar


algumas condições relativas às suas modalidades.

O Código de Direito Canônico, no cân. 766, estabelece as condições segundo as quais a


Autoridade competente pode admitir os fiéis não-ordenados a pregar in ecclesia vel
oratorio. A própria expressão usada, admitti possunt, salienta que em nenhum caso se
trata de um direito próprio, como é o específico dos Bispos,(66) ou de uma faculdade
como a dos presbíteros ou dos diáconos.(67)

As condições a que está submetida essa admissão — « se em determinadas


circunstâncias a necessidade o exigir, ou em casos particulares a utilidade o aconselhar
» — evidenciam o caráter excepcional do fato. O cân. 766, ademais, precisa que se deve
agir sempre iuxta Episcoporum conferentiae praescripta. Nesta última cláusula, o cânon
citado estabelece a fonte primária para discernir de maneira correta a necessidade ou
utilidade nos casos concretos, pois nas mencionadas prescrições da Conferência dos
Bispos — que necessitam da recognitio da Sé Apostólica — devem estar indicados os
critérios oportunos que possam ajudar o Bispo diocesano a tomar as decisões pastorais
apropriadas, que lhe competem pela própria natureza do ofício episcopal.

§ 4. Nas circunstâncias de escassez de ministros sagrados em determinadas regiões,


podem apresentar-se situações permanentes e objetivas de necessidade ou de utilidade
tais, que sugiram a admissão de fiéis não-ordenados à pregação.

A pregação nas igrejas e oratórios, por parte dos fiéis não-ordenados, pode ser
concedida em suplência dos ministros sagrados ou, por especiais razões de utilidade,
nos casos particulares previstos pela legislação universal da Igreja ou pelas
Conferências dos Bispos e, portanto, não se pode tornar um fato ordinário, nem pode ser
compreendida como uma autêntica promoção do laicado.

§ 5. Sobretudo na preparação para os sacramentos, os catequistas procurem despertar o


interesse dos catequizandos pelo papel e pela figura do sacerdote como único
dispensador dos divinos mistérios para os quais se preparam.

Artigo 3

A homilia

§ 1. A homilia, forma eminente de pregação « qua per anni liturgici cursum ex textu
sacro fidei mysteria et normae vitae christianae exponuntur »,(68) é parte integrante da
liturgia.
Por essa razão, durante a celebração eucarística a homilia deve ser reservada ao ministro
sagrado, sacerdote ou diácono.(69) Estão excluídos os fiéis não-ordenados, ainda que
exerçam a tarefa de « assistentes pastorais » ou de catequistas em qualquer tipo de
comunidade ou de agregação. Não se trata, com efeito, de uma eventual maior
capacidade expositiva ou de preparação teológica, mas de função reservada àquele que é
consagrado com o sacramento da Ordem sagrada, razão porque nem mesmo o Bispo
diocesano é autorizado a dispensar da norma do cânon,(70) uma vez que não se trata de
lei meramente disciplinar e sim de lei que diz respeito às funções de ensino e de
santificação estreitamente ligadas entre si.

Não se pode, portanto, admitir a prática adotada em algumas ocasiões de se confiar a


pregação homilética a seminaristas estudantes de teologia, que ainda não são
ordenados.(71) Com efeito, a homilia não pode ser considerada como um treino para o
futuro ministério.

Deve-se considerar ab-rogada pelo cân. 767, § 1 qualquer norma anterior que tenha
permitido a pregação da homilia, durante a celebração da Santa Missa, por parte de fiéis
não ordenados.(72)

§ 2. É lícita a proposta de um breve comentário para favorecer uma maior compreensão


da liturgia que se celebra, e também, excepcionalmente, de algum eventual testemunho,
desde que adequado às normas litúrgicas e pronunciado por ocasião de liturgias
eucarísticas celebradas em jornadas particulares (dia do seminário ou do enfermo, etc.),
se julgadas objetivamente convenientes para ilustrar a homilia regularmente
pronunciada pelo sacerdote celebrante. Estes comentários e testemunhos não devem
assumir características tais que os possam confundir com a homilia.

§ 3. A possibilidade do « diálogo » na homilia(73) pode, às vezes, ser usada


prudentemente pelo ministro celebrante, como meio expositivo através do qual não se
delega a outrem o dever da pregação.

§ 4. A homilia fora da Santa Missa pode ser pronunciada por fiéis não-ordenados em
conformidade com o direito ou com as normas litúrgicas e na observância das cláusulas
neles contidas.

§ 5. A homilia não pode ser confiada em nenhum caso a sacerdotes ou diáconos que
tenham perdido o estado clerical ou que, de algum modo, tenham abandonado o
ministério sagrado.(74)

Artigo 4

O pároco e a paróquia

Os fiéis não-ordenados podem desenvolver, como de fato acontece admiravelmente em


numerosos casos, nas paróquias, no âmbito dos hospitais, dos locais de assistência, dos
locais de instrução, nas prisões, junto dos Ordinariados militares, etc., tarefas de
colaboração efetiva no ministério pastoral dos clérigos. Uma forma extraordinária de
colaboração, nas condições previstas, é a regulamentada no cân. 517, § 2.
§ 1. A correta compreensão e aplicação desse cânon, segundo o qual « si ob sacerdotum
penuriam Episcopus dioecesanus aestimaverit participationem in exercitio curae
pastoralis paroeciae concredendam esse diacono aliive personae sacerdotali charactere
non insignitae aut personarum communitati, sacerdotem constituat aliquem qui,
potestatibus et facultatibus parochi instructus, curam pastoralem moderetur », exige que
uma medida assim excepcional aconteça no cuidadoso respeito das cláusulas contidas
na norma, ou seja:

a) ob sacerdotum penuriam e não por razões de comodidade ou de uma equívoca


"promoção do laicado", etc.;

b) que seja claro tratar-se de uma participatio in exercitio curae pastoralis e não de
dirigir, coordenar, moderar ou governar a paróquia; o que, segundo o texto do cânon,
compete exclusivamente a um sacerdote.

Justamente porque se trata de casos excepcionais, é necessário antes de tudo considerar,


por exemplo, a possibilidade de servir-se de sacerdotes anciãos ainda saudáveis, ou de
confiar diversas paróquias a um só sacerdote ou a um coetus sacerdotum.(75)

Não se ignore, em todo caso, a preferência que o próprio cânon estabelece pelo diácono.

De qualquer maneira, nas mesmas normas canônicas se afirma que estas formas de
participação no cuidado das paróquias não podem em caso algum substituir o ofício de
pároco. A norma estabelece, com efeito, que mesmo nos casos excepcionais «
Episcopus dioecesanus [...] sacerdotem constituat aliquem qui, potestatibus et
facultatibus parochi instructus, curam pastoralem moderetur ». O ofício de pároco, com
efeito, só pode ser confiado validamente a um sacerdote (cfr. cân. 521, § 1), mesmo nos
casos de objetiva penúria de clero.(76)

§ 2. A esse respeito, é preciso considerar que o pároco é o pastor próprio da paróquia


que lhe é confiada(77) e permanece tal enquanto não tiver cessado o seu ofício
pastoral.(78)

A apresentação da renúncia do pároco por ter completado os 75 anos de idade não faz
cessar ipso iure o seu ofício pastoral. A cessação se verifica somente quando o Bispo
diocesano — após prudente consideração de todas as circunstâncias — aceitar
definitivamente a sua renúncia, segundo a norma do cân. 538, § 3, comunicando-lho por
escrito.(79) Antes, à luz das situações de penúria de sacerdotes, existentes em algumas
partes, será sábio proceder com particular prudência.

Considerando ainda o direito que cada sacerdote tem de exercer as funções inerentes à
ordem recebida, a menos que não ocorram graves motivos de saúde ou de disciplina,
recorda-se que a idade de 75 anos não constitui motivo obrigatório para o Bispo
diocesano aceitar a renúncia. Isso também para evitar uma concepção meramente
funcionalista do ministério sagrado.(80)

Artigo 5

Os organismos de colaboração na Igreja particular


Estes organismos, postulados e experimentados positivamente no caminho da renovação
da Igreja segundo o Concílio Vaticano II e codificados pela legislação canônica,
representam uma forma de participação ativa na vida e na missão da Igreja como
comunhão.

§ 1. As normas do Código de Direito Canônico acerca do conselho presbiteral


determinam quais sacerdotes podem ser membros.(81) Com efeito, ele é reservado aos
sacerdotes, porque tem o seu fundamento na comum participação do Bispo e dos
presbíteros no mesmo sacerdócio e ministério.(82)

Não podem, portanto, gozar do direito à voz ativa e passiva nem os diáconos, nem os
fiéis não-ordenados, ainda que colaboradores dos ministros sagrados, bem como os
presbíteros que tenham perdido o estado clerical ou que, de algum modo, tiverem
abandonado o ministério sagrado.

§ 2. O conselho pastoral, diocesano e paroquial,(83) e o conselho econômico


paroquial,(84) dos quais fazem parte também fiéis não-ordenados, gozam unicamente
de voto consultivo e não podem, de modo algum, tornar-se organismos deliberativos.
Podem ser eleitos para tais encargos somente os fiéis que possuam as qualidades
requeridas pelas normas canônicas.(85)

§ 3. É próprio do pároco presidir os conselhos paroquiais. Eis porque são inválidas e,


portanto, nulas, as decisões deliberadas por um conselho paroquial reunido sem a
presidência do pároco, ou contra ele.(86)

§ 4. Todos os conselhos diocesanos podem exprimir validamente o próprio


consentimento a um ato do Bispo somente nos casos em que esse consentimento é
expressamente requerido pelo direito.

§ 5. Consideradas as realidades locais, os Ordinários podem servir-se de especiais


grupos de estudo ou de peritos em questões particulares. Todavia, eles não podem
constituir organismos paralelos ou de exautoração nem dos conselhos diocesanos,
presbiteral e pastoral, nem dos conselhos paroquiais, regulados pelo direito universal da
Igreja nos cânn. 536, § 1 e 537.(87) Se tais organismos surgiram no passado em base a
costumes locais ou a circunstâncias particulares, empreguem-se os meios necessários
para adequá-los à vigente legislação da Igreja.

§ 6. Os Vigários forâneos, também chamados decanos, arciprestes ou com outro nome,


e aqueles que os substituem, « pró-vigários », « pró-decanos », etc., devem sempre ser
sacerdotes.(88) Portanto, quem não é sacerdote não pode ser nomeado validamente para
tais encargos.

Artigo 6.

As celebrações litúrgicas

§ 1 As ações litúrgicas devem manifestar claramente a unidade ordenada do Povo de


Deus na sua condição de comunhão orgânica(89) e, portanto, a íntima conexão entre a
ação litúrgica e a natureza organicamente estruturada da Igreja.
Isto acontece quando todos os participantes desempenham, com fé e devoção, o papel
que é próprio de cada um.

§ 2. Para salvaguardar, também neste campo, a identidade eclesial de cada um, devem
ser removidos os abusos de vários tipos que são contrários à norma do cân. 907,
segundo o qual, na celebração eucarística, aos diáconos e aos fiéis não-ordenados não é
consentido proferir as orações e qualquer outra parte reservada ao sacerdote celebrante
— sobretudo a oração eucarística com a doxologia conclusiva — ou executar ações e
gestos que são próprios do mesmo celebrante. Constitui igualmente abuso grave que um
fiel não-ordenado exerça, de facto, uma quase « presidência » da Eucaristia, deixando
ao sacerdote somente o mínimo para garantir a sua validade.

Na mesma linha aparece evidente a ilicitude do uso nas ações litúrgicas de paramentos
reservados aos sacerdotes ou aos diáconos (estola, planeta ou casula, dalmática) por
quem não é ordenado.

Deve-se evitar cuidadosamente até mesmo a aparência de confusão que pode surgir de
comportamentos liturgicamente anômalos. Assim como se recorda aos ministros
sagrados o dever de vestirem todos os paramentos sagrados prescritos, assim também os
fiéis não-ordenados não podem revestir aquilo que não lhes é próprio.

Para evitar confusão entre a liturgia sacramental presidida por um sacerdote ou diácono
e outros atos animados ou dirigidos por fiéis não-ordenados, é necessário que estes
últimos usem fórmulas claramente distintas.

Artigo 7

As celebrações dominicais na ausência do presbítero

§ 1. Em alguns lugares, as celebrações dominicais(90) são dirigidas, na falta de


presbíteros ou diáconos, por fiéis não-ordenados. Esse serviço, tão importante quanto
delicado, é desempenhado segundo o espírito e as normas específicas emanadas, a esse
respeito, pela competente Autoridade eclesiástica.(91) Para dirigir as mencionadas
celebrações, o fiel não-ordenado deverá ter um mandato especial do Bispo, que deverá
dar as indicações oportunas acerca da duração, do lugar, das condições e do presbítero
responsável.

§ 2. Tais celebrações, cujos textos deverão ser os aprovados pela Autoridade eclesiástica
competente, configuram-se sempre como soluções temporárias.(92) É proibido inserir
na sua estrutura elementos próprios da liturgia sacrifical, sobretudo a « oração
eucarística », ainda que em forma narrativa, para não induzir os fiéis ao erro.(93) Para
este fim, deve-se recordar sempre aos participantes destas celebrações que elas não
substituem o Sacrifício Eucarístico e que o preceito dominical é satisfeito somente
através da participação na Santa Missa.(94) Nesses casos, onde as distâncias e as
condições físicas o permitirem, os fiéis devem ser estimulados e ajudados a fazer o
possível para cumprir o preceito.

Artigo 8

O ministro extraordinário da Sagrada Comunhão


Os fiéis não-ordenados, já há tempos, vêm colaborando com os ministros sagrados, em
diversos âmbitos da pastoral, para que « o dom inefável da Eucaristia seja cada vez mais
profundamente conhecido e para que se participe da sua eficácia salvífica com uma
intensidade cada vez maior ».(95)

Trata-se de um serviço litúrgico que responde a necessidades objetivas dos fiéis,


destinado sobretudo aos enfermos e às assembléias litúrgicas nas quais são
particularmente numerosos os fiéis que desejam receber a sagrada comunhão.

§ 1. A disciplina canônica sobre o ministro extraordinário da sagrada comunhão deve,


porém, ser corretamente aplicada para não gerar confusão. Ela estabelece que ministros
ordinários da sagrada comunhão são o Bispo, o presbítero e o diácono,(96) enquanto é
ministro extraordinário o acólito instituído ou o fiel para tanto deputado conforme a
norma do cân. 230, § 3.(97)

Um fiel não-ordenado, se o sugerirem motivos de real necessidade, pode ser deputado


pelo Bispo diocesano, com o apropriado rito litúrgico de bênção, na qualidade de
ministro extraordinário, para distribuir a Sagrada comunhão também fora da celebração
eucarística, ad actum vel ad tempus, ou de maneira estável. Em casos excepcionais e
imprevistos, a autorização pode ser concedida ad actum pelo sacerdote que preside a
celebração eucarística.(98)

§ 2. Para que o ministro extraordinário, durante a celebração eucarística, possa distribuir


a sagrada comunhão, é necessário ou que não estejam presentes ministros ordinários ou
que estes, embora presentes, estejam realmente impedidos.(99) Pode igualmente
desempenhar o mesmo encargo quando, por causa da participação particularmente
numerosa dos fiéis que desejam receber a Santa Comunhão, a celebração eucarística
prolongar-se-ia excessivamente por causa da insuficiência de ministros ordinários. (100)

Este encargo é supletivo e extraordinário(101) e deve ser exercido segundo a norma do


direito. Para este fim é oportuno que o Bispo diocesano emane normas particulares que,
em íntima harmonia com a legislação universal da Igreja, regulamentem o exercício de
tal encargo. Deve-se prover, entre outras coisas, que o fiel deputado para esse encargo
seja devidamente instruído sobre a doutrina eucarística, sobre a índole do seu serviço,
sobre as rubricas que deve observar para a devida reverência a tão augusto Sacramento e
sobre a disciplina que regulamenta a admissão à comunhão.

Para não gerar confusão, devem-se evitar e remover algumas práticas que há algum
tempo foram introduzidas em algumas Igrejas particulares, como por exemplo:

— o comungar pelas próprias mãos, como se fossem concelebrantes;

— associar à renovação das promessas sacerdotais, na Santa Missa Crismal da Quinta –


Feira Santa, também outras categorias de fiéis que renovam os votos religiosos ou
recebem o mandato de ministros extraordinários da comunhão eucarística;

— o uso habitual de ministros extraordinários nas Santas Missas, estendendo


arbitrariamente o conceito de « numerosa participação ».

Artigo 9
O apostolado dos enfermos

§ 1. Neste campo, os fiéis não-ordenados podem oferecer uma valiosa colaboração.


(102) São inumeráveis os testemunhos de obras e de gestos de caridade que pessoas não
ordenadas, individualmente ou em formas de apostolado comunitário, realizam em favor
dos enfermos. Eles constituem uma presença cristã de primeira linha no mundo do
sofrimento e da doença. Onde os fiéis não-ordenados acompanham os enfermos nos
momentos mais graves, é seu precípuo dever suscitar neles o desejo dos sacramentos da
Penitência e da Unção dos Enfermos, favorecendo as suas disposições e ajudando-os a
se preparar para uma boa confissão sacramental e individual, como também para
receber a Sagrada Unção. Quando recorrerem ao uso dos sacramentais, os fiéis não-
ordenados cuidarão que tais gestos não sejam confundidos com os sacramentos, cuja
administração é própria e exclusiva do Bispo e do Presbítero. Em nenhum caso pode
fazer unções quem não é sacerdote, nem com o óleo abençoado para a Unção dos
Enfermos, nem com óleo não abençoado.

§ 2. Para a administração deste sacramento, a legislação canônica acolhe a doutrina


teologicamente certa e a praxe multissecular da Igreja,(103) segundo as quais o único
ministro válido é o sacerdote. (104) Essas normas são plenamente coerentes com o
mistério teológico significado e realizado por meio do exercício do serviço sacerdotal.

Deve-se afirmar que a reserva exclusiva do ministério da Unção ao sacerdote é posta em


relação com o liame do mencionado sacramento com o perdão dos pecados e a digna
recepção da Eucaristia. Nenhum outro pode desempenhar a função de ministro ordinário
ou extraordinário do sacramento, e qualquer ação nesse sentido constitui simulação do
sacramento. (105)

Artigo 10

A assistência aos Matrimônios

§ 1. A possibilidade de delegar fiéis não-ordenados para assistir aos matrimônios pode


revelar-se necessária, em circunstâncias muito particulares de grave falta de ministros
sagrados.

Ela está, porém, condicionada à verificação de três requisitos. O Bispo diocesano, com
efeito, pode conceder tal delegação unicamente nos casos em que faltem sacerdotes ou
diáconos e somente após ter obtido, para a própria diocese, o voto favorável da
Conferência dos Bispos e a necessária licença da Santa Sé. (106)

§ 2. Mesmo nesses casos também devem ser observadas as normas canônicas sobre a
validade da delegação (107) e sobre a idoneidade, capacidade e aptidão do fiel não-
ordenado. (108)

§ 3. Com exceção do caso extraordinário previsto no cân. 1112 do Código de Direito


Canônico, por absoluta falta de sacerdotes ou de diáconos que possam assistir à
celebração do matrimônio, nenhum ministro ordenado pode autorizar um fiel não-
ordenado a essa assistência e a relativa petição e recepção do consentimento
matrimonial, segundo a norma do cân. 1108, § 2.
Artigo 11

O ministro do Batismo

É particularmente louvável a fé com a qual não poucos cristãos, em dolorosas situações


de perseguição, mas também nos territórios de missão e em casos de especial
necessidade, têm assegurado — e asseguram ainda hoje — o sacramento do Batismo às
novas gerações, na falta dos ministros ordenados.

Além do caso de necessidade, as normas canônicas prevêem que, na falta do ministro


ordinário ou estando o mesmo impedido, (109) o fiel não-ordenado possa ser designado
ministro extraordinário do Batismo. (110) Todavia, é preciso tomar cuidado com
interpretações por demais extensivas e evitar conceder essa faculdade de forma habitual.

Assim, por exemplo, a ausência ou impedimento, que tornam lícita a deputação de fiéis
não-ordenados para administrarem o Batismo, não podem configurar-se com o
excessivo trabalho do ministro ordinário ou com a sua não residência no território da
paróquia e nem tampouco com a sua não disponibilidade no dia previsto pela família.
Tais motivações não constituem razões suficientes.

Artigo 12

A direção da celebração das Exéquias Eclesiásticas

Nas atuais circunstâncias de crescente descristianização e de afastamento da prática


religiosa, o momento da morte e das exéquias pode constituir, às vezes, uma das mais
oportunas ocasiões pastorais para um encontro direto dos ministros ordenados com os
fiéis que, habitualmente, não freqüentam.

É, portanto, desejável que, mesmo com sacrifício, os sacerdotes ou os diáconos


presidam pessoalmente os ritos fúnebres segundo os mais louváveis usos locais, para
rezar pelos defuntos de maneira conveniente, aproximando-se também das famílias e
aproveitando a ocasião para uma oportuna evangelização.

Os fiéis não-ordenados podem dirigir as exéquias eclesiásticas somente nos casos de


verdadeira falta de um ministro ordenado e observando as respectivas normas litúrgicas.
(111) Eles devem ser bem preparados para essa tarefa, tanto do ponto de vista doutrinal
como litúrgico.

Artigo 13

Necessidade de discernimento e formação adequada

É dever da Autoridade competente, quando ocorra a objetiva necessidade de uma «


suplência », nos casos acima indicados, escolher o fiel que seja de sã doutrina e de
exemplar conduta de vida. Não podem, portanto, ser admitidos ao exercício destas
funções os católicos que não vivem uma vida digna, que não gozam de boa fama ou que
se encontram em situações familiares incoerentes com o ensinamento moral da Igreja.
Além disso, devem possuir a devida formação, para o cumprimento adequado da função
a eles confiada.
Segundo as determinações do direito particular, aperfeiçoem os seus conhecimentos
freqüentando, na medida do possível, os cursos de formação que a Autoridade
competente organizará no âmbito da Igreja particular, (112) em ambientes distintos dos
seminários, que devem ser reservados exclusivamente aos candidatos ao sacerdócio,
(113) cuidando com atenção que a doutrina neles ensinada seja absolutamente conforme
ao magistério eclesial e que o ambiente seja verdadeiramente espiritual.

CONCLUSÃO

A Santa Sé entrega o presente documento ao zelo pastoral dos Bispos diocesanos das
diversas Igrejas particulares e aos demais Ordinários, na confiança de que a sua
aplicação produzirá frutos abundantes em favor do crescimento na comunhão dos
ministros sagrados e dos fiéis não-ordenados.

Na verdade, como recordou o Santo Padre, « é preciso reconhecer, defender, promover,


discernir e coordenar com sabedoria e determinação o dom peculiar de cada membro da
Igreja, sem confusão de papéis, de funções ou de condições teológicas e canônicas ».
(114)

Se, de um lado, a escassez numérica de sacerdotes é especialmente sentida em algumas


regiões, em outras verifica-se um promissor florescimento de vocações, que permite
entrever perspectivas positivas para o futuro. As soluções propostas para a escassez de
ministros ordinários, portanto, só podem ser transitórias e sincronizadas com uma
pastoral específica e prioritária em prol da promoção das vocações ao sacramento da
Ordem. (115)

A esse propósito, recorda o Santo Padre que « em algumas situações locais procuraram-
se soluções generosas e inteligentes. A própria norma do Código de Direito Canônico
ofereceu possibilidades novas que, porém, devem ser corretamente aplicadas, para que
não se caia no equívoco de considerar ordinárias e normais as soluções normativas que
foram previstas para situações extraordinárias de falta ou escassez de ministros sagrados
». (116)

Este documento pretende traçar diretrizes precisas, para assegurar a colaboração eficaz
dos fiéis não-ordenados nessas contingências e no respeito da dimensão integral do
ministério pastoral dos sacerdotes. « É preciso fazer compreender que estes
esclarecimentos e distinções não nascem da preocupação de defender privilégios
clericais, mas da necessidade de ser obedientes à vontade de Cristo, respeitando a forma
constitutiva que Ele imprimiu de maneira indelével na sua Igreja ». (117)

A sua correta aplicação, no contexto da vital communio hierárquica trará proveito aos
próprios fiéis leigos, convidados a desenvolver todas as ricas potencialidades da sua
identidade e a « disponibilidade cada vez maior para vivê-la no cumprimento da própria
missão ». (118)

A veemente exortação que o Apóstolo dos gentios dirige a Timóteo, « Conjuro-te diante
de Deus e de Jesus Cristo [...] prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente,
repreende, censura e exorta [...], sê prudente em tudo [...], consagra-te ao teu ministério
» (2 Tm 4, 1-5), interpela de modo especial os Pastores sagrados, chamados a
desempenhar a sua específica missão de « promover a disciplina comum a toda a Igreja
[...], urgir a observância de todas as leis eclesiásticas ». (119)

Este grave dever constitui o instrumento necessário para que as ricas energias presentes
em cada estado de vida eclesial sejam corretamente orientadas segundo os admiráveis
desígnios do Espírito e a communio seja realidade efetiva no caminho cotidiano de toda
a Comunidade.

A Virgem Maria, Mãe da Igreja, a cuja intercessão confiamos este documento, ajude a
todos na compreender as suas disposições e a realizar todo esforço para a sua fiel
aplicação, em vista de uma mais ampla fecundidade apostólica.

São revogadas as leis particulares e os costumes vigentes, que sejam contrários a estas
normas, como igualmente quaisquer eventuais faculdades concedidas ad experimentum
pela Santa Sé ou por qualquer outra autoridade a ela subalterna.

O Sumo Pontífice, no dia 13 de Agosto de 1997, aprovou em forma específica a


presente Instrução, ordenando a sua promulgação.

Do Vaticano, 15 de Agosto de 1997, solenidade da Assunção da Bem-aventurada


Virgem Maria.

Congregação para o Clero

Darío Castrillón Hoyos


Pró-Prefeito

Crescenzio Sepe
Secretário

Conselho Pontifício para os Leigos

James Francis Stafford


Presidente

Stanislaw Rylko
Secretário

Congregação para a Doutrina da Fé

Joseph Card. Ratzinger


Prefeito

Tarcisio Bertone SDB


Secretário

Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

Jorge Arturo Medina Estévez


Pró-Prefeito
Geraldo Majella Agnelo
Secretário

Congregação para os Bispos

Bernardin Card. Gantin


Prefeito

Jorge María Mejía


Secretário

Congregação para a Evangelização dos Povos

Jozef Card. Tomko


Prefeito

Giuseppe Uhac
Secretário

Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida


Apostólica

Eduardo Card. Martínez Somalo


Prefeito

Piergiorgio Silvano Nesti CP


Secretário

Conselho Pontifício para a Interpretação dos Textos Legislativos

Julián Herranz
Presidente

Bruno Bertagna
Secretário

INDICE

Premissa

Princípios teológicos

1. O sacerdócio comum e o Sacerdócio Ministerial


2. Unidade e diversificação das tarefas ministeriais
3. O ministério ordenado é insubstituível
4. A colaboração dos fiéis não-ordenados no ministério pastoral .

Disposições práticas

Conclusão
NOTE

(1) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 33; Decr.
Apostolicam actuositatem, n. 24.

(2) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30 de dezembro
de 1988), n. 2: AAS 81 (1989), p. 396.

(3) Sínodo dos Bispos, IX Assembléia Geral Ordinária sobre a Vida Consagrada,
Instrumentum laboris, n. 73.

(4) Cfr. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodalVita consecrata (25 de março de
1996), n. 47: AAS 88 (1996), p. 420.

(5) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Decr. Apostolicam actuositatem, n. 5.

(6) Ibidem, n. 6.

(7) Cfr. ibidem.

(8) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodalChristifideles laici, n. 23: l.c., p. 429.

(9) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 31; João
Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici, n. 15: l.c., pp. 413-416.

(10) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 43.

(11) Ibidem, Decr. Apostolicam actuositatem, n. 24.

(12) Cfr. João Paulo II, Discurso ao Simpósio sobre a « Colaboração dos leigos ao
ministério pastoral de presbíteros », 22 de abril de 1994, n. 2, in L'Osservatore Romano,
edição portuguesa, 118 (30 de abril de 1994), p. 21.

(13) Cfr. C.I.C., cânn. 230, § 3; 517, § 2; 861, § 2; 910, § 2; 943; 1112; João Paulo II,
Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici, n. 23 e nota 72: l.c., p. 430.

(14) Cfr. João Paulo II, Carta encíclica Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n.
37: AAS 83 (1991), pp. 282-286.

(15) Cfr. C.I.C., cân. 392.

(16) Cfr. sobretudo: Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium,
Const. Sacrosanctum Concilium; Decr. Presbyterorum Ordinis e Decr. Apostolicam
actuositatem.

(17) Cfr. sobretudo as Exortações apostólicas Christifideles laici e Pastores dabo vobis.

(18) C.I.C., cân. 1752.


(19) Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 10.

(20) Ibidem, n. 32.

(21) Ibidem.

(22) Ibidem, n. 10.

(23) Cfr. ibidem, n. 4.

(24) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de março
de 1992), n. 17: AAS 84 (1992), p. 684.

(25) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 7.

(26) Catecismo da Igreja Católica, n. 1547.

(27) Ibidem, n. 1592.

(28) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis, n. 74: l.c., p.
788.

(29) Cfr. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, nn. 10, 18, 27,
28;