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TRADUÇÃO DE

JOÃO MAIA

REVISTA POR

ALEXANDRE ADDOR

4ª EDIÇÃO

Conselho Editorial:
Antônio Cândido
Celso Furtado
Fernando Gasparian Paz e Terra
Fernando Henrique Cardoso
APRESENTAÇÃO

Copyright © by E. J. Hobsbawm, 1964

As notas de Marx (1857-8) sobre as FORMAS QUE PRE-


CEDERAM A PRODUÇÃO CAPITALISTA só recentemente
chegaram ao alcance dos estudiosos do ocidente: até 1964 não
tinham sido traduzidas sequer para o inglês e o prefácio de
Hobsbawm demonstrava desconhecimento de edições em ou-
tras línguas, além do russo e do alemão.
Posteriormente, foram lançadas edições em italiano,
Direitos adquiridos pela
francês e espanhol. E, agora, cabe-nos apresentar nossa edi-
ção em português.
EDITORA PAZ E T E R R A S / A
Concisas e complexas, estas notas de Marx, escritas com
Rua São José, 90 — 18.° andar o intuito de disciplinar o próprio raciocínio e de preparar
Centro — Rio de Janeiro, RJ obra de maior envergadura, constituem uma visão ampla
Tel.: 22 1- 39 9 6 de sua concepção do desenvolvimento da sociedade, abran-
gendo desde os tempos primitivos até o capitalismo de feição
Rua Carijós, 128 contemporânea.
Lapa — São Paulo, SP
A edição inglesa de 1964 foi enriquecida por um prefácio
Tel.: 8 64-075 5
de Eric Hobsbawm, de tal gabarito que ligou seu nome ao de
que se reserva a propriedade desta tradução Marx, ao que parece, indelevelmente: a edição inglesa dá-lhe
a honra de figurar na própria capa do Livro com destaque
igual ao do autor. E a edição espanhola coloca lado a lado
Karl Marx e Eric Hobsbawm no cabeço, como se fossem co-au-
tores.
O estudo de Hobsbawm é que deve ser apresentado por
nós, já que ninguém melhor do que ele próprio apresentou as
FORMAÇÕES PRÉ-CAPITALISTAS. Seu prólogo dá-nos va-
1985
Impresso no Brasil 1
Printed in Brazil
OBSERVAÇÕES SOBRE O TEXTO, REFERÊNCIAS E
TRADUÇÃO

O texto principal de Marx, aqui apresentado, é constituí-


do pelas notas "Formen die der Kapitalistischen Produktion
vorhergehen (über den Prozess der der Bildung des Kapital-
verhalinisses oder der Ursprünglichen Akkumulation vorher-
lioso estudo do pensamento marxista, em linguagem clara geht"), suplementadas por alguns trechos da IDEOLOGIA
e essencialmente didática. Situa Marx e Engels no seu mo- ALEMÃ de Marx e Engels e de sua correspondência.
mento cultural, apreciando o instrumental científico de que Na tradução das FORMEN os parágrafos de Marx, por
se poderiam valer para a elaboração de suas teorias. Busca vezes demasiado longos, foram divididos. As divisões do pró-
traçar o panorama da formação cultural dos dois criadores prio Marx estão indicadas por um asterisco no início do pa-
do marxismo, sem subestimar o atraso das pesquisas históri- rágrafo. Possíveis ambigüidades de tradução são assinaladas
cas, arqueológicas e sociológicas daquela época, nem a im- por notas de pé-de-página. As notas de pé-de-página do pró-
portância da cultura clássica dos dois pensadores. Apresenta- prio Marx estão devidamente identificadas. Trechos em lín-
nos os principais autores que abriram os sendeiros que Marx guas estrangeiras, além da alemã, também foram traduzidos,
e Engels retomaram com apurado senso crítico. a não ser quando apenas termos técnicos, como ager publicus.
Esta edição portuguesa das FORMAÇÕES PRÉ-CAPITA- Passagens que Marx escreveu em inglês foram mantidas in-
LISTAS acompanha edição inglesa de Hobsbawm, inclusive tatas. Trechos ou palavras em tipo itálico indicam ênfases do
na seleção que fez de trechos adicionais de Marx e Engels próprio Marx.
onde há referências ao tema central do estudo básico. A tra- As referências feitas na introdução a outros trabalhos de
dução do texto das FORMEN do alemão para o inglês foi Marx e Engels estão, principalmente, na coleção em trin-
feita por Jack Cohen. ta volumes — incompleta, à época desta obra — KARL
MARX, FRIEDRICH ENGELS, WERKE (Dietz Verlag, Berlim,
1956), citado como WERKE. E, como os volumes pertinentes
ainda não estavam prontos ao tempo em que o presente era
escrito, as referências ao CAPITAL III dizem com a edição
Dietz Verlag de 1956; as cartas são, simplesmente, identifica-
das pelas datas, o escritor e o destinatário. O CAPITAL I é ci-
tado segundo a Edição Dona Torr (Allen & Unwin, 1938), da
tradução inglesa editada por Engels.

E.J.H.

9
do feudalismo para o capitalismo: M. Dobb, "A Evolução do
Capitalismo", Ed. Zahar; P. Sweezy, M. Dobb, H. Takahashi,
R. Hilton e C. Hill, "Do Feudalismo ao Capitalismo", Publi-
cações Dom Quixote (Lisboa), aos quais se poderia acrescen-
tar (embora não citado neste volume) o livro "Capitalismo
NOTA do REVISO R — transição", com textos de Hobsbawm, Parain, Vilar, Tre-
vor-Roper, Lefebvre, Soboul e Procacci, editora Eldorado, que
contém uma boa bibliografia sobre o assunto. A "Contribui-
ção para a Crítica da Economia Política", de Marx, foi po-
i
blicada pela Editorial Estampa, de Lisboa, em 1971, e "O
Capital" teve recentemente encerrada a publicação do seu
texto integral pela Editora Civilização Brasileira. Há ainda
O texto de que foi traduzida esta obra é da edição in- referência a obras de Engels, como o "Anti-Dühring" e a
glesa de 1964; a primeira parte deste volume (a Introdução "Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado",
de Hobsbawm) foi, pois, traduzida diretamente do original que também foram publicadas em português. Apesar de to-
escrito em inglês; já a segunda e a terceira parte, respectiva- das essas obras acima citadas — e possivelmente outras que
mente as Formações Econômicas Pré-capitalistas e os Textos figuram no texto — terem tido edições em nossa língua,
Suplementares, não foram vertidas do original alemão, mas decidimos, por questão de uniformidade nas referências, con-
também do texto inglês da referida edição. Levando isto em servar os títulos das obras como no original inglês.
conta, bem como as dificuldades do texto de Marx nas FOR-
MEN (por motivos que Hobsbawm esclarece), tentamos, ao A. A.
rever a tradução, minimizar os efeitos desses dois fatores,
utilizando, quando houvesse dúvidas quanto à interpretação
de qualquer passagem, duas outras edições das FORMEN: a
em espanhol, de Cuadernos de Pasado y Presente, e a ingle-
sa da editora Penguin, publicada em 1973 ( a rigor, não se
trata de uma edição apenas das FORMEN, mas do texto in-
tegral dos G RUN DRISS E) . Com isso, esperamos ter evitado
as dificuldades maiores do texto de Marx.
Quando houve dúvidas quanto à melhor correspondên-
cia no vernáculo de termos do original, procuramos a forma
mais aproximada, explicando a escolha em nota de pé-de-
página.
Finalmente, cremos poder ser de utilidade a informação
de que algumas das referências bibliográficas contidas neste
volume são encontráveis em português. É este o caso de al-
gumas das obras citadas quanto ao problema da transição

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12
dos por Marx em plena maturidade de seu pensamento. São
o resultado de uma década de intensos estudos na Inglaterra
e representam claramente a etapa de seu pensamento que
precede, de imediato, o esboço do CAPITAL, nos primeiros
INTRODUÇÃO anos da década de 1860, constituindo-se, como dissemos, no
trabalho preliminar da obra máxima.
I GRUNDRISSE é, portanto, o ultimo dos trabalhos de en-
vergadura do Marx maduro a ser apresentado ao público.
Nestas circunstâncias, é surpreendente o fato destes ma-
nuscritos terem sido negligenciados, especialmente a parte in-
titulada Formen die der Kapitalistischen vorhergehen, na qual
Marx aborda o problema da evolução histórica pré-capitalis-
Este trabalho é parte de um volumoso manuscrito elabo- ta e que aqui apresentamos. Porque não se trata de obser-
rado por Marx em 1857-58, como preparação às suas obras vações ocasionais ou pouco importantes. O presente trabalho
não representa apenas — como o próprio Marx escreveu or-
CONTRIBUIÇÃO À CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA e O CAPITAL.
gulhosamente a Lassalle (a 12 de Novembro de 1858) — "o
Foi publicado em Moscou em 1939-41 sob o título de Grundris- resultado de quinze anos de pesquisas, ou seja, dos melhores
se der Kritik der Politischen ökonomie, embora alguns extra-
anos da minha vida". Não somente nos mostra Marx no má-
tos já tivessem aparecido na Neue Zeit em 1903. O momento
ximo de seu brilhantismo e profundidade: é, também, sob
e o local da publicação determinaram que o trabalho ficasse
vários aspectos, sua mais sistemática tentativa de enfrentar
virtualmente desconhecido até 1952, ocasião em que esta
o problema da evolução histórica e complemento indispensá-
mesma parte foi publicada em Berlim, como folheto, e 1953
vel do Prefácio da Crítica da Economia Política, escrito logo
quando os Grundrisse foram reeditados, integralmente, na
após e que apresenta o materialismo histórico em sua forma
mesma cidade. Esta edição alemã de 1953 continua a ser a
única disponível. Desconheço qualquer tradução para línguas mais rica.
da Europa ocidental, exceto uma para o italiano (*) em 1956. Pode-se afirmar, sem hesitação, que qualquer discussão
Os GRUNDRISSE pertencem, pois, ao grande grupo de manus- histórica marxista realizada sem levar em consideração o pre-
critos de Marx e Engels não publicados durante a vida dos au- sente trabalho — o que significa, virtualmente, a totalidade
tores e que só se tornaram acessíveis ao estudo a partir de das discussões anteriores a 1941 e, desgraçadamente, muitas
1930. A maior parte deles pertencem à Juventude de Marx e do das posteriores — terá de ser reconsiderada à luz do mesmo.
marxismo, como é o caso dos MANUSCRITOS ECONÔMICO- Há, entretanto, razões óbvias para esta falha. Os
FILOSÓFICOS DE 1844 que tiveram importante papel em de- Grundrisse, conforme Marx escreveu a Lassale, eram "mo-
bates recentes. Os GRUNDRISSE, entretanto, foram elabora- nografias escritas em períodos muito diversos, para meu
próprio esclarecimento, não para publicação". Não apenas
(•) Posterior me nte a esta ap r ese nt açã o de Hobsbawm f or a m la n - exigem do leitor uma grande familiaridade com o estilo do
çadas edições em f rancê s e espanhol, além da italiana. Em 1973 a pensamento de Marx — isto é, com toda sua evolução inte-
editora Penguin publicou versão integral em inglês dos " G R U N - lectual e especialmente com o Hegelianismo — mas, ainda,
DRISSE ", co m tr aduçã o e apr ese nta ção de Martin Nicolaus ( N . E . ) . foram notas escritas numa espécie de taquigrafia intelectual
particular, algumas vezes impenetrável, sob a forma de ob-
13 servações em esboço, intercaladas com notas colaterais que,
embora claras para Marx, freqüentemente são, para nós, de
caráter ambíguo. Qualquer um que tenha tentado tradu-
zir o manuscrito, ou mesmo estudá-lo e interpretá-lo, saberá

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que, às vezes, torna-se quase impossível precisar o sentido
exato de certas passagens. Ainda que Marx tivesse tido o tas vezes baseados nos trabalhos do jovem Marx) vêem o
propósito de esclarecer o significado de suas observações, o pensamento de Marx meramente como uma exigência ética
resultado não seria um texto fácil, porque sua análise trans- de libertação do homem, encontrarão qualquer apoio aqui.
corre num nível elevado de generalização, ou seja, em termos Para Marx, o progresso é algo objetivamente definível, que
altamente abstratos. Primeiramente, Marx preocupa-se — indica, ao mesmo tempo, o que é desejável. A força da cren-
como em seu Prefácio à CRÍTICA — em estabelecer o meca- ça marxista no triunfo do livre desenvolvimento de todos
nismo geral de todas as transformações sociais: isto é — a os homens não depende do vigor das esperanças de Marx neste
formação das relações sociais de produção que correspondem sentido, mas da pretendida justeza da análise, segundo a qual
a um estágio definido de desenvolvimento das forças produ- é neste rumo que o desenvolvimento histórico, finalmente,
tivas materiais; o desenvolvimento periódico de conflitos entre conduzirá a humanidade.
as forças produtivas e as relações de produção; as "épocas A base objetiva do humanismo de Marx e, simultanea-
de revolução social" em que as relações de produção se ajus- mente, de sua teoria da evolução social e econômica é a aná-
tam novamente ao nível das forças produtivas. Esta análise lise do homem como um animal social. O homem — ou me-
geral não implica nenhuma formulação sobre períodos his- lhor, os homens — realizam trabalho, isto é, criam e reprodu-
tóricos específicos nem sobre relações de produção e forças zem sua existência na prática diária, ao respirar, ao buscar
produtivas concretas. Assim, a palavra ''classe" nem sequer alimento, abrigo, amor, etc. Fazem isto atuando na natureza,
é mencionada no Prefácio, na medida em que as classes são tirando da natureza (e, às vezes, transformando-a consciente-
apenas casos especiais das relações sociais de produção em mente) com este propósito. Esta interação entre o homem e
períodos históricos específicos, embora, de certo, muito lon- a natureza é — e ao mesmo tempo produz — a evolução so-
gos. A única referência a formações e períodos históricos
cial. Retirar algo da natureza, ou determinar um tipo de uso
consiste em uma breve e não explicada nem justificada rela-
para alguma parte da natureza (inclusive o próprio corpo)
ção de "épocas no progresso da formação econômica da so-
ciedade" — expressas como os modos de produção "asiático, pode ser considerado e é o que acontece na linguagem comum,
antigo, feudal e burguês moderno", este último representan- uma apropriação, que é, pois, originalmente, apenas um as-
do a forma antagônica final do processo social de produção. pecto do trabalho. Isto se expressa no conceito de propriedade
(que não deve ser, de forma alguma, identificado com a for-
As FORMEN são ao mesmo tempo mais gerais e mais
ma histórica específica da propriedade privada). No começo,
específicas do que o Prefácio, embora elas também — e é
diz Marx, "o relacionamento do trabalhador com as condições
importante observar isto de início — não constituam "his-
objetivas de seu trabalho é de propriedade; esta constitui- a
tória" em sentido estrito. Num aspecto, o manuscrito tenta
evidenciar, na análise da evolução social, as características unidade natural do trabalho com seus pré-requisitos mate-
de toda teoria dialética, ou mesmo de toda teoria satisfatória riais (sachliche)" (p. 6 5) . Sendo um animal social, o homem
sobre qualquer tema. Busca, e realmente consegue, aquelas desenvolve tanto a cooperação como uma divisão social do
qualidades, de economia intelectual, generalização e lógica trabalho (isto é, especialização de funções) que não só é
interna consistente, que os cientistas costumam denominar possibilitada pela produção de um excedente acima do que
de "beleza" e "elegância", e o faz empregando o método dia- é necessário para manter o indivíduo e a comunidade da
lético de Hegel, ainda que em bases materialistas e não idea- qual participa, mas também amplia as possibilidades adi-
listas. cionais de geração desse excedente. A existência deste exce-
dente e da divisão social do trabalho tornam possível a troca.
Isto nos leva de imediato ao segundo aspecto. As
Mas, inicialmente, tanto a produção como a troca têm, como
FORMEN tentam formular o conteúdo da história na sua
finalidade, apenas, o uso — isto é, a manutenção do produ-
forma mais geral. Este conteúdo é o progresso.. Nem os que
tor e de sua comunidade. Estes são os elementos analíticos
negam a existência do progresso histórico nem os que (mui-
principais em que a teoria se baseia e constituem, na reali-
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16
dade, extensões ou corolários do conceito original do homem
como um animal social de tipo especial 1 que, em suas possíveis variações, Marx tenta analisar aqui.
O progresso, naturalmente, é observável na crescente Embora as formações econômico-sociais específicas sejam
emancipação do homem relativamente à natureza e no seu muito importantes, expressando fases particulares desta evo-
domínio cada vez maior sobre a mesma. Esta emancipação — lução, é o processo completo que ele tem em mente, compre-
a partir de uma determinada situação na qual os homens pri- endendo os séculos e os continentes. Portanto, seu esquema
mitivos têm de lutar pela sobrevivência e a partir das relações é cronológico somente no sentido mais lato, e problemas
originais e espontâneas (como diz Marx, naturwüchsig — como, digamos, a transição de uma fase para outra não
"em seu desenvolvimento natural") que nascem do processo constituem sua preocupação básica, salvo na medida em que
de evolução dos animais em grupos humanos — não apenas esclarecem as transformações a longo prazo.
afeta as forças produtivas, como também, as relações de pro- Mas, ao mesmo tempo, este processo de emancipação do
dução. É precisamente deste último aspecto que Marx se homem em reiação às suas condições naturais originais de
ocupa nas FORMEN. De um lado, as relações que os ho- produção, é um processo de individualização humana. "O
mens estabelecem entre si, como resultado da especialização homem só se individualiza (vereinzelt sich) através do pro-
do trabalho — especialmente a troca — se tornam cada vez cesso histórico. Surge, originalmente, como um ser genérico,
mais claras e sofisticadas, até que a invenção do dinheiro tribal, um animal de re b a n h o . . . A própria troca atua como
e, com ele, da produção de mercadorias e da troca, proporcio- um agente fundamental desta individualização. Torna supér-
na uma base para procedimentos anteriormente inimaginá- fluo o animal gregário e o dissolve." (p. 9 0 ) . Isto determina,
veis, inclusive a acumulação de capital. Este processo, embo- automaticamente, transformação nas relações do indivíduo
ra mencionado no início do presente ensaio (p. 65) não é seu com o que era, originalmente, a sua comunidade. A antiga
tema principal. De outro lado, a dupla relação de trabalho- comunidade transformou-se, no caso extremo do capitalis-
propriedade é progressivamente rompida, na medida em que mo, em um mecanismo social desumanizado que, embora
o homem afasta-se da naturwüchsig, isto é, de sua relação torne possível a individualização, é hostil e estranho ao in-
primitiva (ou desenvolvida espontaneamente) com a nature- divíduo. Apesar disso, este processo encerra imensas pos-
za. Esta relação vai assumir a forma de uma progressiva sibilidades para a humanidade. Como observa Marx num
"separação entre o trabalho livre e as condições objetivas de trecho pleno de otimismo e profundidade (p. 80-81):
sua realização — ou seja, separação entremos meios de traba- "A antiga concepção segundo a qual o homem sempre
lho (Arbeitsmittel) e o objeto de t r a b a l h o . . . E, portanto, aparece (por mais estreitamente religiosa, nacional ou políti-
acima de tudo, separação entre o trabalhador e a terra como ca que seja a apreciação) como o objetivo da produção parece
seu laboratório natural" (p. 6 5 ) . Est a separação se completa, muito mais elevada que a do mundo moderno, na qual a pro-
finalmente, sob o capitalismo, quando o trabalhador é reduzido dução é o objetivo do homem, e a riqueza, o objetivo da pro-
a simples força-de-trabalho e, podemos acrescentar, inversa- dução. Na verdade, entretanto, quando despida de sua estreita
mente a propriedade se reduz ao controle dos meios de produ- forma burguesa, o que é a riqueza senão a totalidade das ne-
ção, inteiramente divorciado do trabalho. No processo de pro- cessidades, capacidades, prazeres, forças produtivas, e t c ,
dução dá-se, então, uma separação total entre o uso (que não
dos indivíduos, adquirida no intercâmbio universal? O que
tem importância direta), e a troca e a acumulação (que vão
é, senão o completo desenvolvimento do domínio humano
constituir o objetivo direto da produção). Este é o processo
sobre as forças naturais — tanto as suas próprias quanto as
da chamada "natureza"? O que é, senão a plena elaboração
1 Quanto à explica çã o de Engels sobre a evolução do ho me m a de suas faculdades criadoras, sem quaisquer precondições
partir dos m a c a c o s e, portanto , da dif erença entre o ho mem e os além da evolução histórica precedente que transforma num
outros pr i m a ta s , cf. seu esboço de 1876 sobre "O papel do tr a b al h o fim em si, a totalidade desta evolução — isto é, a evolução de
na t r a n s f o r m a ç ã o do m ac a c o em h o m e m " em DIALÉTICA DA NA-
TUREZA, W E R K E , X X , 444-55. todas as forças humanas, como tais, não medidas por nenhum
critério previamente estabelecido? E o que é isto, senão
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18
uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo Um exemplo desta complexidade pode ser mencionado,
numa forma determinada, limitada, mas produz sua tota- em especial: é a recusa de Marx em separar as diversas disci-
lidade, se desvencilhando do passado e se integrando no con- plinas acadêmicas. É possível fazê-lo em seu lugar. O falecido
tínuo movimento em busca do dever? Na economia política J. Schumpeter, um dos mais inteligentes críticos de Marx,
burguesa — e na forma de produção correspondente — este tentou estabelecer uma distinção entre Marx, o sociólogo, e
completo desenvolvimento das potencialidades humanas apa- Marx, o economista — e, se poderia, facilmente, ainda isolar
rece como um a total alienação, e a destruição de todos os o Marx historiador. Mas, tais classificações mecânicas resul-
objetivos fixos e unilaterais, como o sacrifício do fim em si tam enganadoras e inteiramente contrárias ao método de
mesmo, em proveito de forças que lhe são estranhas". Marx. Foram os economistas acadêmicos burgueses que se
Mesmo nesta forma tão desumanizada e aparentemen- propuseram a traçar uma linha divisória rígida entre análise
te contraditória o ideal humanista do livre desenvolvimento estática e dinâmica, no intuito de transformar uma em ou-
individual está mais próximo do que jamais esteve em qual- tra através da simples incorporação de algum elemento "di-
quer fase anterior da história. Apenas aguarda a passagem do namizador" no sistema estático, assim como são os economis-
que Marx chama, em frase lapidar, a etapa prehistórica da tas acadêmicos que ainda elaboram um modelo puro de "cres-
sociedade humana — a era das sociedades de classe, das quais cimento econômico", preferentemente expresso em equações
o capitalismo é a final — para a era em que o homem contro- matemáticas, relegando o que não se encaixa nele para o
lará seu destino, a era do comunismo. campo dos "sociólogos". A sociologia acadêmica faz distin-
A visão de Marx é, assim, uma força unificadora. Seu mo- ções semelhantes num nível bem mais baixo de interesse
delo de desenvolvimento social e econômico é tal que, diversa- científico e os historiadores num ainda mais modesto. Mas
mente do de Hegel, pode ser aplicado à história para produzir este não é o tipo de pensamento de Marx. As relações sociais
férteis e originais resultados em lugar de tautologia; mas, ao de produção (i.é, organização social no mais lato dos senti-
mesmo tempo, pode ser apresentado como o desdobramento dos) e as forças produtivas materiais (a cujo nível aquelas
das possibilidades lógicas latentes numas poucas formulações correspondem) não podem ser separadas.
elementares e quase axiomáticas sobre a natureza do homem "A estrutura econômica da sociedade é formada pela to-
— a resolução dialética das contradições trabalho/proprieda- talidade dessas relações de produção" (Prefácio, Werke, XIII ,
de e da divisão do trabalho. Trata-se de um modelo de fatos,
2 8 ) . O desenvolvimento econômico não pode ser visto simples-
mas, visto de ângulo um pouco diverso, o mesmo modelo nos mente como "crescimento econômico" e muito menos decom-
proporciona juízos de valor. É esta multi-dimensionalidade da por-se numa variedade de fatores isolados tais como produti-
teoria de Marx que leva todos, exceto os de pouco entendimento vidade ou taxa de acumulação de capital, como fazem alguns
ou preconceituosos, a respeitá-lo e a admirá-lo como pensador, vulgares economistas modernos, argumentando que o cresci-
mento se dá quando, por exemplo, mais do que 57% da renda
mesmo que não concordem com ele. Ao mesmo tempo, especial-
nacional são investidos. Este tipo de crescimento não pode
3

mente porque o próprio Marx não faz concessões às exigências


ser discutido, a não ser em termos de épocas históricas de-
de um leitor superficial, as dificuldades de seu texto, indis-
terminadas e estruturas sociais particulares. O estudo de vá-
cutivelmente, aumentam. rios modos de produção pré-capitalistas neste ensaio é um
brilhante exemplo disto e, incidentalmente, ilustra quão in-
2 M a rx , diversamente de Hegel, n ã o se deixa seduzir pela possibi-
lidade — e, em certas e tapa s do pensamento , pela necessidade —
de um a apr esentaçã o a b st r a t a e aprioristica de sua teoria. Cf. a 3 Ma r x tin ha perfeita noção das possibilidades e do uso de tais
par te — brilhante, profunda e e x c i t a n t e como quase tudo o que simplificações, embora não lhes atribuísse demasiada impor tância .
Ma r x escreveu neste período cr ucial de seu pensamento — sobre o Mé - Daí sua sugestão de um estudo do crescime nt o histórico da produ -
todo da econo mia política na (inédita ) Introdução à CRITICA DA tividade como meio de dar significado cientifico às observações de
ECONOMIA POLÍTICA ( W E R K E , X I I I , 631-9) onde ele discute a Adam Smith sobre economias e stag na da s e progressistas. Intro du -
validade deste procedimento. dução à Critica da Economia Política, I, 1, Werke, 618.

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19
A maioria dos leitores interessar-se-á por um aspecto pri-
mordial do ensaio: o estudo de Marx sobre as épocas de desen-
teiramente errado é conceber o materialismo histórico como volvimento histórico, que constitui o substrato da breve lista
uma interpretação econômica (ou sociológica) da história. 1
apresentada no Prefácio da CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍ-
Ainda assim, mesmo que estejamos firmemente conscien- TICA. Este é, em si mesmo, um tema complexo que exige uma
tes de que Marx não pode ser dividido em segmentos corres-
certa familiaridade com o desenvolvimento do pensamento
pondentes às especializações acadêmicas de nossos dias, será
de Marx e Engels sobre história e evolução histórica, e com
difícil apreender a unidade de seu pensamento. Isto se deve,
o destino dado às suas principais periodizações ou divisões
em parte, porque o mero esforço de realizar uma exposição
históricas nas subseqüentes discussões marxistas.
sistemática e lúcida de um problema nos leva a discutir seus
A formulação clássica destas periodizações se encontra
diferentes aspectos seriatim(*), em vez de simultaneamente,
e em parte porque a árdua tarefa da investigação e verifica- no Prefácio da CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA, da qual
ção científica, em certo estágio, nos obriga a fazer o mesmo. os Grundrisse constituem esboço preliminar. Aí, Marx sugere
Esta é uma das razões pelas quais alguns trabalhos de Engels, que "em linhas gerais podemos designar de modos de produ-
que tem, evidentemente, a clareza expositiva por objetivo, ção asiático, antigo, feudal e burguês moderno às tantas épo-
dão a impressão — ao lado do presente ensaio, por exemplo cas de progresso da formação econômica da sociedade". A
— de simplificação excessiva ou de escassa densidade, diante análise que o levou a tal conclusão e o modelo teórico de evo-
da profundidade do pensamento de Marx. Algumas exposi- lução econômica que implica, não são discutidos no Prefácio,
ções marxistas posteriores, como o MATERIALISMO HISTÓ- embora vários trechos da CRÍTICA e do CAPITAL (especial-
RICO E DIALÉTICO de Stalin foram demasiadamente lon- mente o Vol. II I ) correspondam a este modelo e sejam difíceis
ge, talvez, neste sentido. Ao contrário, o desejo de enfatizar de ser compreendidos sem ele. As FORMEN, por sua vez, re-
a unidade e a interdependência dialéticas de Marx, pode ferem-se quase que inteiramente a este problema. Portanto são
conduzir a generalizações vagas sobre a dialética ou a obser- de leitura essencial para quem desejar entender o modo de
vações tais como a de que a super-estrutura não é mecanica- pensar de Marx, em geral, ou sua abordagem do problema da
mente, ou a curto prazo, determinada pela base, mas reage evolução e da classificação históricas, em particular.
contra esta e pode, às vezes, dominá-la. Tais afirmações po- Isto não significa que sejamos obrigados a aceitar a clas-
dem ter valor pedagógico e servir de advertência contra con- sificação de épocas históricas de Marx, tal como foram apre-
cepções simplificadas do marxismo (neste sentido, por exem- sentadas no Prefácio ou nas FORMEN. Como veremos, pou-
plo, Engels as formulou em sua conhecida cart a a Bloch) cas partes do pensamento de Marx foram objeto de tanta re-
mas realmente não nos levarão muito longe. Há, como En- visão, por parte de seus mais devotados seguidores, do que
gels chamou a atenção de B l och , um meio satisfatório de
5
esta lista — revisões estas nem sempre justificáveis — e nem
evitar tais dificuldades: "estudar profundamente a teoria em Marx nem Engels ficaram satisfeitos com ela. A lista, e boa
suas fontes originais e não em fontes de segunda-mão". Por parte das discussões subjacentes a ela, nas FORMEN, são o
este motivo o presente ensaio em que o leitor poderá acom- resultado da observação e não de dedução teórica. A teoria
panhar Marx "no próprio processo de pensamento deste", me- geral do materialismo histórico requer apenas a existência
rece estudo tão atento e respeitoso. de uma sucessão de modos de produção, e não a existência
de modos específicos, nem que h a j a uma ordem pré-deter-
4 Isto é reconhecido pelos crítico s mai s capazes do M a rx is mo . As- minada para esta sucessão. A partir do material histórico
6

sim, G. L c h t h e i m destaca, c o r r e t a m e nt e , que as teorias sociológicas


:

de M a x Weber — sobre religião e capitalismo ou sociedade oriental


— nã o são alternativa s a M a r x . Ela s fo ra m ou ante cipada s por ele 6_ Há, obviamente , certos limites: n ão é provável que uma f o r ma -
ou podem ser facilmente e n c a i x a d a s nos seus esquemas. M AR XI S M ção econõmico-social basead a n um a tecnologi a que exija máquinas
(1961) 385; M A R X AND T H E ASIATIC MODE OF PRODUCTION (St. a vapor ocorresse ante s de outra que nã o requeira tal nível t e cn o -
Antony's Papers, 14, 1 963 ), 106. lógico.
(*) Po nt o -p o r - po nt o . NT.
5 A Joseph Bloch, 2 1 . 9 . 1 8 9 0 . 22

21
disponível, Marx distinguiu um certo número de formações
econômico-sociais sucessivas. Mas, ainda que tivesse havido celino, Cassiodoro ou Orosio. Por outro lado, nem sua for-
7

equívoco em suas observações, ou se estas fossem baseadas mação clássica nem o material então disponível tornavam
possível um conhecimento profundo do Egito e do antigo
em informações parciais e por tanto enganadoras, a teoria
Oriente Médio. Marx e Engels, de fato, não se reportaram a
geral do materialismo histórico não teria sido afetada. Con-
estas regiões em seus estudos deste período. Mesmo referên-
corda-se, de um modo geral, que as observações de Marx e
cias ocasionais a elas são relativamente raras, o que não
Engels sobre épocas pré-capitalistas baseiam-se em estudos significa que Marx e Engels pusessem de lado seus proble-
8

bem menos profundos do que a descrição e análise do capi- mas históricos.


talismo feitas por Marx. Este concentrou suas energias no No terreno da história oriental, sua situação era bem
estudo do capitalismo, dedicando-se ao restante da história diversa. Não há evidência de que, antes de 1848, tives-
em graus diversos de detalhes, principalmente na medida em sem tratado de forma sistemática do assunto. É provável
que o levava às origens e ao desenvolvimento do capitalismo. que não conhecessem mais sobre história oriental do que há
Ambos, ele e Engels, eram, no que se refere à história, leigos nas "Lições sobre a filosofia da História" de Hegel (que não
excepcionalmente bem informados e tanto sua genialidade são muito esclarecedoras) e outras informações que pudessem
como sua teoria os capacitava a fazer um uso imensamente ser familiares aos alemães educados deste período. O exílio na
melhor de suas leituras do que qualquer de seus contempo- Inglaterra, os acontecimentos políticos da década de 1850 e,
râneos. Mas a literatura disponível na época era muito mais sobretudo, os estudos econômicos de Marx transformaram,
limitada do que a de hoje em dia. Portanto é útil pesquisar, rapidamente, seus conhecimentos. O próprio Marx familia-
brevemente, o que Marx e Engels conheciam de história e o rizou-se com a índia através dos economistas clássicos que leu
que eles ainda não podiam saber. Isto não significa que seu ou releu no início da década citada (PRINCÍPIOS de J. S. Mill,
conhecimento fosse insuficiente para a elaboração de suas Adam Smith, INTRODUCTORY LECTURE de Richard Jones
teorias das sociedades pré-capitalistas. O mais provável é que em 1 8 5 1 ) . Iniciou a publicação de artigos sobre a China (14
9

tenha sido perfeitamente adequado. É um vício profissional de junho) e índia (25 de junho) no New York Daily Tribune,
de "scholars" considerar que a mera acumulação de volumes em 1853. É evidente que neste ano, tanto ele quanto Engels
e artigos faz progredir a compreensão, quando na verdade estavam profundamente interessados nos problemas históri-
apenas serve para encher bibliotecas. Entretanto, o conheci- cos do Oriente, a ponto de Engels tentar aprender o p ers a. 10

mento das bases fatuais da análise histórica de Marx é, evi- No início do verão de 1853 sua correspondência refere-se
dentemente, desejável para melhor entendê-la. a A HISTORICAL GEOGRAPHY OF ARÁBIA do Rev. C. Fos-
ter, às VOYAGES de Bernier, a Sir William Jones, o orienta-
Quanto à história da antigüidade clássica (greco-roma- lista, a trabalhos parlamentares sobre a Índia e a HISTORY
n a ) , Marx e Engels estavam quase tão bem equipados quan- OF JAVA de Stamford Raffles. É razoável supor que a visão
11

to o estudioso moderno que confia em fontes puramente li-


terárias, se bem que a maior parte dos trabalhos arqueoló- 7 M A R X UND E NG E L S ZUR DEUTSCHE N GESCHICHTE (Berlim,
gicos, papiros e coleções de inscrições, que a partir de então 1953) I, 88, 616, 49.
revolucionaram o estudo da antigüidade clássica, não esti- 8 Cf. Engels a M ar x, 18 de maio de 1853, sobre a origem da Ba b i -
vessem à sua disposição quando as FORMEN foram escritas. lônia; Engels a M a rx , 6 de junho de 1853.
(Schliemann não começou a escavar em Tróia antes de 1870 9 K ar l M a r x , Chronik Seines Lebens, 96, 103, 107, 110, 139.
e o primeiro volume de CORPUS INSCRIPTIONUM LATINA- 10 Engels a M a rx , 6 de junho de 1853.
RUM de Mommsen só apareceu em 1863.) Conhecedores das 11 Correspondência de 18 de maio -1 4 de junho . Entr e ou tr a s fon-
línguas clássicas, eles não tinham dificuldade para ler em la- tes orientais mencionadas nos tr aba lho s de M a rx entre m a r ç o e
tim e grego "e sabemos que chegaram a familiarizar-se com dezembro de 1853 estão G. Campbell — MODERN IND1A ( 1 8 5 2 ) , J.
Child — T R E A T I S E ON EAST ÍNDIA T RA D E ( 16 8 1 ) , J. von H a m m e r
fontes de difícil manipulação como Jornandes, Amiano Mar- — "Geschichte des osmanischen Reiches" ( 1 83 5 ) , J a m e s Mill — H I S -
23
24
de Marx sobre a sociedade asiática tivesse recebido sua pri- em 1882, referem-se à evolução histórica da servidão. Evi- 14

meira formulação madura nesses meses e que não se tratasse, dencia-se que o interesse de Marx no tema cresceu no fim de
sua vida, quando os problemas da Rússia passaram a preo-
em absoluto, de um estudo superficial.
cupá-lo cada vez mais. As seções do volume III o CAPITAL,
Por sua vez, os estudos de Marx e Engels sobre o feuda-
que tratam das transformações da renda da terra, não mos-
lismo da Europa ocidental parecem ter tido uma orientação
tram qualquer sinal de estudo minucioso da literatura sobre
diversa. Marx acompanhava passo a passo as pesquisas reali- a agricultura feudal do Ocidente.
zadas na época sobre a história agrária medieval, ou seja, prin- O interesse de Marx nas origens medievais da burguesia
cipalmente os trabalhos de Hansen, Meitzen e Mau rer, a que 12
e no comércio e finanças feudais era — como se faz evidente
se referiu no CAPITAL, vol. I, mas há poucos indícios, na reali- no CAPITAL, vol. III — muito mais intenso. Não há dúvida
dade, de que, neste período, estivesse seriamente interessado quanto ao fato dele ter estudado não só as obras de caráter
nos problemas da evolução da agricultura medieval ou da geral sobre a Idade Média Ocidental mas, na medida em que
servidão. (As referências que faz têm conexão com a servidão estava a seu alcance, a literatura especializada sobre preços
então existente na Europa Oriental e, especialmente, na Ru- (Thorold Rogers), sistema bancário, comércio e moedas me-
mânia.) Só depois da publicação do vol. I do CAPITAL (i.é, dievais. Naturalmente, o estudo de tais temas dava os pri-
15

quando já tinha elaborado o esboço básico dos volumes II e meiros passos, ainda, no período mais intenso de trabalho de
III) este problema começou, ?3 que parece, a preocupar os Marx, nas décadas de 1850 e 1860, de modo que algumas des-
dois amigos, sobretudo a partir de 1868, quando Marx iniciou, tas fontes, tanto sobre história comercial como agrária, são
seriamente, o estudo de Maurer, cujos trabalhos ele e Engels, consideradas obsoletas há muito tempo. 16

daí por diante, encararam como a base de seus conhecimentos De um modo geral, o interesse de Engels na Idade Média
neste c a m p o . Entretanto, o interesse de Marx parece ter-se
13
Ocidental e, especialmente, Alemã, era muito mais vivo que o
concentrado na luz que Maurer e outros lançaram sobre a de Marx. Ele lia muito, inclusive fontes primárias e mono-
comunidade camponesa primitiva, mais do que na servidão, grafias locais; redigiu esboços da história antiga da Alemanha
enquanto Engels, ao que tudo indica, desde o começo interes- e da Irlanda e tinha aguda noção da importância das evidên-
sou-se por este último aspecto também, apresentando a servi- cias lingüísticas e arqueológicas (especialmente do trabalho
dão com base em Maurer, em seu texto O MARCO (escrito em escandinavo que Marx já citara como notável na década de
1882). Algumas das derradeiras cartas trocadas entre os dois, 1860). Percebia, também, como qualquer estudioso moderno,
a importância crucial de documentos econômicos do início da
Idade Média, como o "Políptico" do Abade Irmino de St. Ger-
T O R Y OF ÍNDIA 0 8 2 6 ) , T h o m a s Mun — A DISCOURSE ON TRADE ,
FR O M ENGLAND INTO T H E E AS T INDIES ( 1 6 2 1) , J. Poüexfe n — main. Entretanto, não se pode escapar à impressão de que,
ENGLAND AND EAST Í N D I A . . . (1697) e S a l y k o w , L E T T R E S SUR como Marx, seu interesse real estava na comunidade campo-
L'INDE ( 1 8 4 8 ) . T a mb é m leu e a not o u vários outros t ra bal ho s e In- nesa primitiva, mais do que no desenvolvimento do regime
formes pa rl a men ta r es . senhorial.
12 G. Hassen — "Die Aufhebung der Leibeigenschaft and die Um-
gestaltung der gutsherrlich-bãuerlichen Verhèltnisse überhaupt in 14 Engels a M a r x , 15 de dezembro de 1882; Ma r x a Engels, 16 de
den Herzogthümern Schleswig und Holstein" (São Petersburgo , 1 8 61 ) ; dezembro de 1882.
August Meitzen — "Der Boden und die landwirtschaftlichen Verhalt-
nisse des preussischen Staates" (Berlim, 18 66) , G. von Maure r — 15 Thorold Rogers é elogiado como "a primeir a história a ut ê nt ic a
"Einleitung zur Geschichte der Mark, Ho}, Dor} und Stadtverfassung dos pre ços" da época em CAPITAL, I (E d. To rr , 692 n.) K . D . Huel -
und der òffentlichen Gewalt" (Munich, 1854) e "Geschichte der lmann — "Stüdtewesen des Mittelalters" (Bonn, 1826-9 é a m p l a -
Fronhöfe", e t c , 4 volumes. (E r lang e n, 1 8 6 2 -3 ) . mente citado no CAPITAL, HI .
13 M a r x a Engels, 14 de m a r ç o de 1868; Engels a Mar x, 25 de m a r - 16 Como Huellmann , ou a HI STO IRE DU T R A V A I L . . . EN FRAN CE
ço de 1868; M a r x a Vera Zasulich, 8 de març o de 1881: Engels a de Vincard (1845) ou Klndlinger — "Geschichte der deutschen
Bebel, 23 de setembro de 1882. Hòrigkeit" (1818).

25 26
gan, a maioria de seus pontos de vista sobre o assunto basea-
Quanto à primitiva sociedade comunal, os pontos de vista vam-se em parte nos autores clássicos, em parte em material
históricos de Marx e Engels foram, certamente, influenciados procedente do oriente e, principalmente, em documentos so-
pela leitura de dois autores: Georg von Maurer, que tentou bre as primeiras fases da Europa medieval ou em estudos das
demonstrar, a existência da propriedade comunal como uma sobrevivências comunais na Europa. Entre estas, as da Eu-
etapa da história germânica, e, sobretudo, Lewis Morgan, cuja ropa Oriental e Eslava desempenharam importante papel,
ANCIENT SOCIETY (1877) proporcionou a base para suas porque a força de tais sobrevivências, nestas regiões, há muito
análises do comunalismo primitivo. "O MARCO" (1882) de havia atraído a atenção dos estudiosos. A divisão em quatro
Engels é fundamentado no primeiro destes autores e sua tipos básicos oriental (indiano), greco-romano, germânico
ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE PRIVADA E DO e eslavo (cf. p. 90) — corresponde ao estágio de seus conhe-
ESTADO (1884) apóia-se, virtualmente, no segundo. O tra- cimentos na década de 1850.
balho de Maurer (que, como vimos, começou a causar impres- Quanto à história do desenvolvimento capitalista, Marx
são nos dois amigos, em 1868) era considerado por eles, em já era altamente especializado pelo fim dos anos 1850, à base,
certo sentido, como uma libertação acadêmica, em relação ao não tanto da literatura sobre história econômica que então
medievalismo romântico surgido como reação à Revolução mal existia, mas da volumosa literatura sobre teoria econô-
Francesa. (Sua própria falta de simpatia por este romantismo mica de que era profundo conhecedor. Para verificá-lo, basta
pode explicar algo da relativa negligência que demonstraram uma rápida revisão da bibliografia citada na maioria das edi-
quanto à história feudal ocidental.) O estudo das épocas an- ções do CAPITAL. A julgar pelos padrões modernos, as infor-
teriores à Idade Média, das primitivas épocas da história hu- mações disponíveis entre 1850 e 1860 eram extremamente de-
mana, como Maurer fizera, parecia coerente com a tendência ficientes mas, nem por isto, devemos considerá-las nulas, es-
socialista, embora os investigadores alemães que assim pro- pecialmente quando utilizadas por um homem da acuidade
cediam não fossem socialistas. Lewis Morgan desenvolveu-
17
mental de Marx. Assim, podemos afirmar que nosso conheci-
se intelectualmente em meio à atmosfera criada pelos socia- mento sobre a alta de preços no século XVI e o papel desem-
listas utópicos e delineou, com clareza, o relacionamento en- penhado neste processo pelo ouro e prata vindos da América,
tre o estudo da sociedade primitiva e o futuro. Era natural apenas alcançou uma sólida base documentária a partir de
que Marx, conhecendo a obra logo depois de publicada e per- 1929, aproximadamente, ou até mais tarde. Mas geralmente
cebendo imediatamente a semelhança das conclusões de Mor- se esquece que pelo menos um trabalho fundamental sobre o
gan com as suas próprias, a usasse e aplaudisse — o que fez tema circulava antes mesmo da morte de Ma rx , e que, an- 18

manifestando vivo reconhecimento, um costume bem carac- tes disto, muito já era conhecido em geral, sobre o tema, o
terístico de sua escrupulosa honestidade científica. Uma ter- bastante para permitir uma inteligente exposição, como a que
ceira fonte que Marx usou com freqüência em seus últimos Marx apresentou na CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA. 19

anos, foi a ampla literatura especializada russa, mormente Não é preciso acrescentar que Marx e Engels mantiveram-se
o trabalho de M. M. Kovalevsky. sempre a par dos trabalhos realizados neste campo.
Ao tempo em que as FORMEN foram escritas os conhe- Podemos, pois, resumir o nível geral dos conhecimentos
cimentos de Marx e Engels sobre a sociedade primitiva eram históricos de Marx e Engels da seguinte forma: no período em
apenas esquemáticos. Não se baseavam em qualquer investi- que foram elaboradas as FORMEN eram escassos os sobre
gação profunda sobre as sociedades tribais, pois a moderna
antropologia estava em sua infância e, apesar do trabalho de 18 A. Soetbeer — "Edelmetall-Produktion und Wertverhältnls
Prescott (que Marx leu em 1851 e, evidentemente, utilizou zwischen Gold u. SUber seit der Entdeckung Amerikas..." (G o th a ,
1879) foi conhecido por Engels.
nas FORMEN), no mesmo nível estavam os conhecimentos
19 Ma rx - E n g el s — WERKE, 13 (Berlim, 1961) 135-9 que, inciden-
sobre as civilizações pré-colombianas das Américas. Até Mor-
talmen te, a n t ec i p a a s criticas mo dern as às explicações m e r a me n t e
monetária s das al t as de preços
17 Eng els a M arx , 25 de m a r ç o de 1868.
28
27
pré-história, sociedades comunais primitivas e América Pré-
colombiana e virtualmente inexistentes os relativos à África. tende a desenvolver em seu seio não apenas a distinção entre
Quanto ao Oriente Médio, antigo e medieval — bem como o chefe e demais membros, mas, ainda, a escravidão, que se
o Japão — os estudos realizados pelos dois eram insuficientes, origina do aumento da população e suas necessidades e do
melhorando sensivelmente no que dizia respeito a outras par- incremento das relações externas, representadas pela guerra
ou pelo escambo. O primeiro avanço significativo na divisão
tes da Ásia, em especial a índia. O conhecimento da antigüi-
social do trabalho consiste em separar o trabalho industrial
dade clássica e da Idade Média européia podia ser considerado
e comercial do agrícola, o que conduz à distinção e oposição
bom, embora o grau de interesse demonstrado por Marx e entre cidade e campo. Isto, por sua vez, leva à segunda fase
Engels não fosse o mesmo. Considerando-se a época, era ex- histórica das relações de propriedade, a "propriedade comu-
cepcional o conhecimento que tinham sobre o capitalismo nal e estatal da antigüidade". Marx e Engels vêem suas ori-
em ascensão. Tanto Marx quanto Engels eram, naturalmen- gens na formação de cidades pela união (por acordo ou con-
te, assíduos estudiosos de história. Entretanto, é provável ter quista) de grupos tribais, continuando a existir a escravi-
havido dois períodos da carreira de Marx dedicados mais es- dão. A propriedade comunal urbana (inclusive a dos cida-
pecialmente à história das sociedades pré-industriais ou não- dãos sobre os escravos) é a forma principal de propriedade
européias: os anos da década de 1850, i.é, o período anterior mas, lado a lado com esta, a propriedade privada emerge,
ao do esboço da CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA e a embora a princípio subordinada à comunal. Com o advento
década de 1870, depois da publicação do volume I do CAPI- da propriedade privada móvel e, especialmente, mais tarde,
TAL e de substancialmente esboçados os volumes II e III, da propriedade imóvel privada, esta ordem social entra em
quando Marx parece ter retornado aos estudos históricos, es- decadência, o mesmo ocorrendo com os "cidadãos livres", cuja
pecialmente sobre a Europa Oriental e a sociedade primitiva, posição diante dos escravos se baseava em seu "status" cole-
talvez em correspondência a seu interesse quanto às possibi- tivo de membros da tribo originária.
lidades revolucionárias da Rússia. Nesta etapa, a divisão social do trabalho já é bastante
complexa. Não só existe a divisão entre cidade e campo — e,
às vezes, mesmo entre estados representativos de interesses
II urbanos e rurais próprios — como também, dentro da cida-
de, há divisão entre indústria e comércio exterior, e, na-
turalmente, entre homens livres e escravos. A sociedade ro-
Acompanhemos agora a evolução dos pontos de vista de mana representa o último estágio do desenvolvimento nesta
Marx e Engels sobre periodização e evolução histórica. fase da evolução. Sua base é a cidade e nunca teve êxito na
21

A primeira fase desta evolução pode ser melhor estudada superação de seus limites.
na IDEOLOGIA ALEMÃ de 1845-6, onde já se admite (o que A terceira forma histórica da propriedade, a "propriedade
não constituía novidade) que etapas diversas da divisão social feudal ou por estamentos" , segue-se cronologicamente, ainda
22

que, na realidade, a IDEOLOGIA ALEMÃ não sugira conexão


do trabalho correspondem a formas distintas de propriedade.
lógica entre elas mas, simplesmente, indique a sucessão e o
A primeira destas é a propriedade comunal e corresponde ao efeito da mistura das instituições dos romanos derrotados e das
"estágio não desenvolvido da produção, em que as pessoas se tribos (germânicas) conquistadoras. O feudalismo parece ser
sustentam caçando, pescando e criando animais ou, quando uma evolução alternativa do primitivo comunalismo em con-
muito, plantando". Nesta etapa a estrutura social baseia se
20

no desenvolvimento e modificação do grupo de parentesco e 21 WERKE, III , 22 -3 .


em sua divisão interna de trabalho. Este grupo (a "família") 22 Observa o tr aduto r inglês que não há tr adu ção adequada p a r a
o adjetivo alemão "ständisch" a nã o ser a palav ra medieval "estate",
20 W erke , III , 22 aí ambígua: em português parece que a melhor tradução seria " e s -
tamento" . NT.
29
30
dições em que nenhuma cidade se desenvolve devido à baixa dia, desenvolveu-se uma divisão do trabalho entre produção
densidade da população numa vasta região. O tamanho da
e comércio, às vezes como sobrevivência da antigüidade. Isto
área parece ser de importância decisiva, pois Marx e Engels
proporcionou a base de um comércio a grande distância e uma
sugerem que "o desenvolvimento feudal começa num territó-
conseqüente divisão do trabalho (especialização de produção)
rio muito mais extenso, preparado pelas conquistas romanas
entre diferentes cidades. A defesa dos habitantes dos bur-
e pela difusão da agricultura relacionada com e l a s " . 23

gos contra os senhores feudais e a interação entre as cidades


Nestas circunstâncias, a área rural e não a cidade é o
produziu uma classe de burgueses, a partir dos grupos de mo-
ponto de partida da organização social. Novamente, a proprie-
dade comunal — que, de fato, torna-se propriedade coletiva radores dos diversos burgos. "A burguesia desenvolveu-se
dos senhores feudais, como um grupo, apoiados pela organi- gradualmente, na medida em que as condições para sua exis-
zação militar dos conquistadores tribais germânicos — é sua tência foram surgindo, dividiu-se de novo em diversas facções
base. Mas a classe explorada, em oposição à qual a nobreza conforme a divisão do trabalho verificada e, finalmente, ab-
feudal organizou sua hierarquia e dirigiu seus dependentes sorveu todas as demais classes possuidoras (enquanto, para-
armados, não era constituída por escravos mas por servos. Ao lelamente, forma uma nova classe, integrada pelos não-pro-
mesmo tempo, nas cidades, se desenvolvia uma divisão para- prietários e parte dos que até então eram possuidores: o
lela: aí a forma básica de propriedade era o trabalho privado proletariado). Estas transformações se produzem na medida
dos indivíduos, mas fatores diversos, como a necessidade de em que as formas de propriedade existentes vão se transfor-
defesa, a competição e a influência da estrutura feudal cir- mando em capital industrial ou comercial". Marx ainda
cundante, produziram uma organização social análoga: as acrescenta em nota: "Primeiramente são absorvidos os seto-
guildas de mestres artesãos ou comerciantes, que, com o tem- res de trabalho diretamente pertencentes ao Estado, depois
po, ficaram em oposição a seus aprendizes e oficiais. Tanto a todos os estamentos mais ou menos ideológicos." 25

propriedade territorial, trabalhada pelos servos, quanto o ar- Enquanto o comércio não se tornou de âmbito mundial,
tesanato em pequena escala, trabalhado por aprendizes e jor- e não se baseou em indústria de grande porte, os progressos
naleiros, são, nesta etapa, descritos como "forma principal de tecnológicos continuaram inseguros. Baseados na cidade ou
propriedade" sob o feudalismo (Haupteigentum). A divisão na região, poderiam facilmente perder-se em conseqüência de
do trabalho estava relativamente pouco desenvolvida mas invasões ou guerras, o que impedia a generalização dos avan-
expressava-se, principalmente, na rígida separação dos vá- ços locais. (Observe-se, de passagem, que a IDEOLOGIA ALE-
rios "estamentos" — príncipes, nobres, clero e camponeses na MÃ toca, aqui, no problema importante da regressão ou deca-
área rural; mestres, oficiais, aprendizes e, eventualmente, a dência históricas.) O desenvolvimento definitivo do capita-
plebe dos jornaleiros nas cidades. Este sistema, baseado na lismo exige, portanto, o do mercado mundial.
grande extensão territorial, exigia unidades políticas relativa- A primeira conseqüência da divisão de trabalho entre as
mente grandes, no interesse da nobreza proprietária de terras cidades é o advento das manufaturas independentes das cor-
e das cidades: as monarquias feudais, satisfazendo esta exi- porações, baseado (como nos centros vanguardeiros da Itália
gência, tornaram-se, assim, universais. e Flandres) no comércio exterior, ou (como na Inglaterra e
A transição do feudalismo para o capitalismo, entretanto, França) no mercado interno. Este processo foi favorecido,
é um produto da evolução feudal. Começa nas cidades, pois
21 também, pela crescente densidade populacional — especial-
a separação entre cidade e campo é o elemento fundamental mente nas áreas rurais — e pelo incremento da concentração
e constante da divisão social do trabalho, bem como sua ex- de capital dentro e fora das corporações. Entre estas ativida-
pressão, desde o berço da civilização até o século X I X . Nas ci- des manufatureiras, a tecelagem (porque dependia de ma-
dades, que, com o correr do tempo, ressurgiram na Idade Mé- quinaria, embora rústica) revelou-se a mais importante, o
crescimento das manufaturas, por sua vez, proporcionou meios
23 W E R K E , m, 24. P a r a todo o debate, 24-5
24 Ibld. 60-61 . 25 Werke, III, 53-4.
31
32
tiguidade, o feudalismo e a sociedade burguesa. Parece su-
gerir as duas primeiras como vias alternativas a partir da
de ocupação aos camponeses feudais, que até então vinham sociedade comunal primitiva, vinculadas apenas porque o feu-
fugindo para as cidades mas eram, cada vez mais, rejeitados dalismo estabeleceu-se sobre as ruínas da sociedade clássica
pela exclusividade das guildas. A fonte desta força de traba- escravista. Não delineia qualquer mecanismo, que explique o
lho era constituída, em parte, pelos antigos exércitos e cria- colapso desta, embora, provavelmente, isto esteja implícito na
dos dos Senhores feudais, e em parte, pela população deslo- análise. A sociedade burguesa, em compensação, é vista como
cada pelos progressos introduzidos na agricultura e pela implantando-se nos interstícios da sociedade feudal. Seu cres-
transformação das plantações em pastagens. cimento é esboçado de modo completo, ao menos nas fases
Com o desenvolvimento das manufaturas as nações come- iniciais, a partir das cidades, cuja relação com o feudalismo
çaram a competir como tais, e o mercantilismo (com suas agrário consiste, especialmente, em formar, com antigos ser-
guerras comerciais, tarifas e proibições) se alça em escala na- vos, sua população originária bem como os acréscimos a esta.
cional. Nas manufaturas desenvolveu-se a relação entre ca- Não há, ainda, um sério esforço para descobrir as causas do
pitalista e trabalhadores. A vasta expansão do comércio, excesso de população que deve prover a força de trabalho das
como resultado da descoberta da América, da conquista cidades e manufaturas; as observações feitas a respeito são
da rota marítima para a Índia, e a importação maciça demasiado esquemáticas para servir a uma análise definiti-
de produtos de além mar, especialmente ouro, causou im- va. Devem ser encaradas como hipóteses provisórias sobre o"
pacto tanto na posição da propriedade territorial feudal desenvolvimento histórico, ainda que algumas observações
quanto na classe trabalhadora. A conseqüente transforma- ocasionais sejam sugestivas e, de certo modo, brilhantes.
ção das relações de classe, a conquista, a colonização "e so-
A etapa do pensamento de Marx representada pelas
bretudo a ampliação dos mercados, cuja possibilidade de se
FORMEN é consideravelmente mais sofisticada e elaborada,
tornar um mercado mundial agora se concretizava cada vez
baseando-se em estudos históricos muito mais amplos e va-
mais" abriram uma nova fase no desenvolvimento histó-
26

riados, não confinados apenas à Europa. A principal inova-


rico.
ção no quadro dos períodos históricos é o sistema "asiático"
Não é preciso acompanhar a análise além deste ponto,
ou "oriental", incorporado ao famoso Prefácio da CRITICA
cabendo apenas observar que a IDEOLOGIA ALEMÃ regis-
DA ECONOMIA POLÍTICA.
tra dois outros períodos de desenvolvimento anteriores ao
Falando de modo genérico, pode-se considerar agora três
triunfo da indústria, um até o meio do século XVII e outro,
ou quatro vias alternativas de desenvolvimento a partir do
desta data até o fim do século XVIII. Sugere também que
o sucesso da Grã-Bretanha em termos de desenvolvimento in- sistema comunal primitivo, cada qual representando uma
dustrial foi devido à concentração do comércio e manufatura forma de divisão social do trabalho já existente ou implícita
neste país durante o século XVII, que criou, gradualmente nela — a oriental, a antiga, a germânica (embora Marx não
"um mercado relativamente mundial em benefício deste país a limite, naturalmente, a um só povo) e uma forma Eslava,
e, deste modo, uma demanda de seus produtos manufatura- um pouco obscura, que não será discutida ulteriormente mas
dos que não mais podia ser satisfeita apenas pelas forças tem afinidades com a oriental (pp. 84, 9 2 ) . Importante dis-
até então existentes da produção industrial." 27 tinção se estabelece entre os sistemas que favorecem a evo-
lução histórica e os que se opõem a ela. O modelo elaborado
Esta análise é, sem dúvida, a base das partes históricas em 1845-6 apenas toca de leve este problema, embora, como
do MANIFESTO COMUNISTA. Seu fundamento histórico é vimos, o ponto de vista de Marx sobre desenvolvimento his-
estreito, limitando-se à antigüidade clássica (principalmente tórico nunca tenha sido simplesmente unilinear, nem o te-
romana), Europa central e ocidental. Reconhece apenas três nha, jamais, encarado como um mero registro do progresso.
formas de sociedades de classe: a sociedade escravista da an- Seja como for, nos anos 1857-8 o estudo se encontrava con-
sideravelmente mais avançado.
26 ibid., 56-57.
27 ibid., 59. 34

33
O desconhecimento das FORMEN teve como resultado
o fato da discussão sobre o sistema oriental, no passado, ter-
se baseado principalmente nas cartas iniciais de Marx e En- que empregam como um fundo de trabalho" (p. 69) . O *

gels e nos artigos de Marx sobre a índia (ambos de 1 8 5 3 ) , 28


sistema asiático não é ainda, portanto, uma sociedade de
classe, ou, se for uma sociedade de classes, será, então, sua
em que é caracterizado — na linha dos pontos de vista dos
forma mais primitiva. Marx parece considerar as sociedades
primeiros observadores estrangeiros — pela "ausência da pro-
pré-colombianas mexicana e peruana como pertencentes ao
priedade da terra". Pensava-se que isto se devia a condições
mesmo gênero, e, também, certas sociedades celtas, embora
especiais, que impunham uma centralização excepcional, tais
nestas se verifique um grau maior de complexidade — e tal-
como a necessidade de realizar obras públicas e planos de ir-
vez de aperfeiçoamento — em conseqüência da conquista de
rigação em áreas que não pudessem ser, doutro modo, efe-
certas tribos ou comunidades por outras (pp. 68, 84) . Pode-
tivamente cultivadas. Entretanto, em posteriores considera-
se observar que isto não exclui a possibilidade de evolução
ções, Marx, evidentemente, sustentou que a característica maior, mas que esta se manifesta apenas como uma espécie
fundamental deste sistema era "a unidade auto-suficiente da de forma atípica, ocorrendo apenas na medida em que se
manufatura e agricultura", na aldeia comunal, que, assim, possa fundamentar sobre um excedente cedido pelas unida-
"contém todas as condições para a reprodução, e para a pro- des econômicas básicas auto-suficientes da tribo ou aldeia,
dução de excedente, dentro dela própria" (pp. 68, 79, 91) , re- ou extorquido destas.
sistindo portanto a desintegração e à evolução econômica O segundo sistema que emerge da sociedade primitiva
mais fortemente do que qualquer outro sistema (p. 79 ) . A — "produto de uma vida histórica mais dinâmica" (p. 69) —
ausência teórica da propriedade no "despotismo oriental" faz aparecer a cidade e, através dela, o modo antigo, uma so-
mascara, pois, a "propriedade comunal ou tribal" que é sua ciedade expansionista, dinâmica, mutante (pp. 69-74 e pas-
base (pp. 67-68-69). Tais sistemas podem ser descentralizados sim). "A cidade com seu território contíguo (Landmark) for-
ou centralizados, "mais despóticos ou mais democráticos" na mava o todo econômico" (p. 76 ) . Em sua forma desenvolvida
forma e diversamente organizados. Onde estas pequenas uni- — Marx mostra-se cuidadoso, entretanto, insistindo no lon-
dades comunitárias existem como partes de unidades maio- go processo que a precede, bem como na sua complexidade —
res podem dedicar uma parcela de seu produto excedente é caracterizada pela escravidão como bem móvel. Mas esta,
para pagar "os custos da comunidade (maior), isto é, a guer- por sua vez, tem suas limitações econômicas e deverá ser
ra, os serviços religiosos e t c " , e realizar operações economi- substituída por uma forma mais flexível e produtiva de ex-
camente necessárias, como a irrigação, a manutenção das ploração, a dos camponeses dependentes pelos senhores feu-
comunicações, que aparecerão como efetuadas pela comuni- dais (feudalismo), que, por sua vez, dará lugar ao capitalismo.
dade maior, pelo "governo despótico sobreposto às pequenas Há um terceiro tipo que não tem como unidade básica
comunidades". Entretanto, esta alienação do produto exce- nem a comunidade de aldeia nem a cidade, porém "cada lar,
dente contém o germe do "dominium senhorial, no seu sentido em separado, que constitui um centro independente de pro-
original" e o feudalismo (vilania) pode desenvolver-se daí. dução (manufatura, simplesmente, como o trabalho domésti-
A natureza "fechada" das unidades comunais significa co, subsidiário, das mulheres, e t c . ) " (p. 76 ) . Estes lares iso-
que as cidades mal pertencem à economia, surgindo "so- lados são mais ou menos frouxamente ligados uns aos outros
mente onde a localização seja particularmente favorável (desde que pertençam à mesma tribo) e, ocasionalmente,
ao comércio exterior ou onde o déspota e seus sátrapas tro- unem-se "para a guerra, a religião, a solução de disputas
cam suas receitas (produto excedente) por força de trabalho, legais, etc." (p. 77) ou para o uso — pelas famílias indivi-
dualmente auto-suficientes — dos pastos comunais, territó-
rios de caça, etc. A unidade básica é, assim, mais fraca e, po-
28 Principalment e M ar x a Engels, 2 . 6 . 1 8 5 3 ; Engels a M a rx , 6 . 6 . 1 8 5 3 ;
Ma r x a Engels, 1 4 .6 . 18 5 3 e W E R K E . tencialmente, mais "individualista" do que a comunidade al-

(•) "labour fund". N.T.


35
36
deã. Marx chama a este, de tipo Germânico, embora, repeti-
mos, não o restrinja, em absoluto, a qualquer povo determi-
nado. Como o antigo e o germânico são modalidades dis-
29 isto é incorreto, pois não somente o modo asiático de
tintas do sistema oriental, podemos inferir que Marx consi- produção coexistiu com todos os demais, como não há re-
derava o tipo germânico, em seu modo de ser, como poten- ferência, na argumentação das FORMEN ou em qualquer
cialmente mais dinâmico do que o oriental, o que, na verdade, outra parte, de que o modo antigo tivesse evoluído dele. De-
não é improvável. As observações de Marx sobre este tipo
30 vemos, portanto, entender que Marx não se refere à sucessão
são extremamente esquemáticas, mas sabemos que ele e En- cronológica, ou mesmo à evolução de um sistema a partir
gels deixaram em aberto a possibilidade de uma transição de seu predecessor (embora, obviamente, seja este o caso do
direta da sociedade primitiva ao feudalismo, como entre as capitalismo com relação ao feudalismo), mas à evolução num
tribos germânicas. sentido mais geral. Como vimos anteriormente, "O homem
A divisão entre cidade e área rural (ou produção agrá- somente se torna um indivíduo (vereinzelt sich selbst) por
ria e não agrária), fundamental na análise realizada por meio do processo histórico. Ele surge, inicialmente, como um
Marx em 1845-6, é também importante nas FORMEN, onde, ser genérico, um ser tribal, um animal de rebanho". As di-
porém, se apresenta sobre uma base mais ampla e numa for- versas formas desta individualização gradual do homem, que
mulação mais precisa: significa a ruptura da unidade original, correspondem aos
diversos estágios da história. Cada uma delas constitui, as-
"A história antiga é a história das cidades, mas das ci- sim, um passo em afastamento da "unidade original de uma
dades baseadas na agricultura e na propriedade rural; forma específica de comunidade (tribal) e da propriedade
a história asiática é uma espécie de unidade indiferen- natural correspondente a ela, ou da relação com as condições
ciada entre cidade e campo (a grande cidade, propria- objetivas de produção existentes na própria natureza (Natur-
mente dita, deve ser considerada simplesmente como um daseins)" (p. 8 9) . Representam, em outras palavras, passos
acampamento principesco superposto à real estrutura na evolução da propriedade privada.
econômica); a Idade Média (período germânico) come- Marx distingue quatro etapas analíticas desta evolução,
ça com a área rural sendo o cenário da história, cujo embora não cronológicas. A primeira é a propriedade comu-
posterior desenvolvimento, então, verifica-se na forma nal direta, como no sistema oriental e, em forma modifica-
de oposição entre a cidade e o c a m p o ; a história mo- da, no eslavo. Nenhum deles, ao que parece, pode ser ainda
derna consiste na urbanização da área rural e não, como considerado como sociedades de classes plenamente consti-
entre os antigos, na ruralização da cidade" (pp. 74-75). tuídas. A segunda é a propriedade comunal que perdura como
substrato do que já é um sistema "contraditório", i.é, de clas-
Entretanto, embora estas diferentes formas de divisão
se, como nas formas germânica e antiga. A terceira etapa
social do trabalho sejam, evidentemente, formas alternativas
surge, de acordo com a argumentação de Marx, não tanto
da ruptura da sociedade comunal, elas são apresentadas ao
como resultado da evolução propriamente dita do feudalis-
que parece — no Prefácio da CRÍTICA DA ECONOMIA PO-
mo, mas através do advento da manufatura artesanal em
LÍTICA, embora não de maneira específica nas FORMEN
que o artesão independente (corporativamente organizado
— como etapas históricas sucessivas. Em sentido literal,
em guildas) já representa uma forma muito mais individual
29 O abandono desta desig naçã o pode ser devida ao fato de estu-
de controle sobre os meios de produção e, na verdade, do con-
dos posteriores da literatura especializada terem levado M a r x a du - sumo — o que lhe permitirá viver enquanto produz. Pode
vidar da precisão de sua pr imeir a visão da sociedade g e r mâ ni ca . parecer que Mar* tivesse em mente aqui uma certa autono-
30 Cf. G. C. Homans, T H E R U R A L SOCIOLOGY OF MEDIEVAL mia do setor artesanal de produção, pois deliberadamente
ENGLAND, "Past and Present", 4, 1953, sobre as diversas tendência s exclui as manufaturas do antigo oriente, sem dar razões
do desenvolvimento de fo rma s co munais de ocupação e por unida-
des familiares isoladas.
para esta exclusão. A quarta etapa é aquela em que surge
o proletariado, o que vale dizer é aquela na qual a explora-
37 ção não mais ocorre na forma grosseira da apropriação de

38
homens — como escravos ou servos — mas na da apropria- cujas características o fazem resistente à desintegração e a
ção do "trabalho". " P a ra o Capital o trabalhador não é uma evolução econômica, até que seja destruído pela força exter-
condição de produção, só o trabalho o é. Se este puder ser na do capitalismo. Marx não é muito explícito sobre o sis-
executado por máquinas ou, mesmo, pela água ou o ar, mui- tema eslavo, nesta etapa, para permitir maiores comentários.
to melhor. E o capital se apropria não do trabalhador mas de Por outro lado, seus pontos de vista sobre a contradição in-
seu trabalho — e não diretamente, mas por meio de troca" terna dos sistemas feudal e do antigo são complexos, eviden-
(p. 9 3 ) . ciando alguns problemas muito difíceis.
Parece — embora, devido à dificuldade de captar o pen- A escravidão é a característica principal do sistema an-
samento de Marx e ao caráter impreciso de suas notas, não tigo, mas as opiniões básicas de Marx sobre suas contradições
se possa ter segurança — que esta análise corresponde a um internas são mais complexas do que a simples afirmação de
esquema de etapas históricas do seguinte tipo. As formas orien- que a escravidão impõe l imites à maior evolução econômica,
tal (e eslava) são, historicamente, mais próximas das origens assim produzindo seu próprio colapso. Deve ser indicado, de
do homem, uma vez que conservam a comunidade primitiva passagem, que a base desta análise parece ter sido mais a re-
(aldeia) funcionando em meio a uma superestrutura social gião Romana ocidental do que a grega do Mediterrâneo. Roma
mais elaborada e têm um sistema de classe insuficientemen- começou como uma comunidade de camponeses, embora sua
te desenvolvido. (Naturalmente, podemos acrescentar que organização fosse urbana. A história antiga é "uma história
Marx observa como ambos os sistemas se desintegram sob o das cidades baseadas na propriedade da terra e na agricul-
impacto do mercado mundial, desaparecendo, com isso, seu tura" (p. 7 4 ) . Não se trata, inteiramente, de uma comunidade
caráter específico.) Os sistemas antigo e germânico, embora, igualitária, pois o desenvolvimento tribal, juntamente com os
também, primários — i.é, não derivados do oriental — re- casamentos intergrupais* e as conquistas, já tende a pro-
presentam uma forma de evolução um tanto mais articulada, duzir grupos de parentesco socialmente mais elevados do que
a partir do primitivo comunalismo; mas o "sistema germâ- outros, embora o cidadão romano seja, essencialmente, um
nico", como tal, não constitui uma formação sócio-econômi- proprietário de terras, "mantendo-se a comuna com a repro-
ca especial. Constitui a formação econômico-social do feuda- dução de todos os seus membros como camponeses auto-sufi-
lismo, conjugada com a cidade medieval (o ponto de emer- cientes, cujo tempo excedente pertence à comuna, para aten-
gência da produção artesanal autônoma). Esta combinação, der a fins comunais, como a guerra etc." (p. 7 1 ) . A guerra é
que surge durante a Idade Média, conforma a terceira fase. sua ocupação principal porque a única ameaça à sua exis-
A sociedade burguesa, emergindo do feudalismo, constitui a tência provém de outras comunidades que cobiçam suas ter-
quarta. A afirmativa de que as formações asiática, antiga, ras, e o único meio de garantir a terra para todos os cida-
feudal e burguesa representam etapas de progresso, não im- dãos, na medida em que a população aumenta, é ocupá-la à
plica, portanto, qualquer visão unilinear e simplista, da his- força (p. 6 8 ) . Mas as próprias tendências guerreiras e ex-
tória, nem resulta na opinião primária de que toda a his- pansionistas de tais comunidades camponesas devem levá-las
tória é progresso. Apenas reconhece que cada um destes sis- à perda das qualidades camponesas que constituem sua base.
temas cada vez mais afasta-se, em aspectos cruciais, da si- Até certo ponto a escravidão, a concentração da propriedade
tuação primitiva do homem. territorial, trocas, economia monetária, conquistas, e t c , são
compatíveis com as bases desta comunidade. Além deste pon-
to conduzirão a seu colapso e deverão tornar a evolução da
III sociedade ou dos indivíduos impossível (pp. 79-80). Mesmo
antes do desenvolvimento de uma economia escravista, por-
O próximo ponto a ser considerado é a dinâmica interna tanto, a antiga forma de organização social estava rigida-
dos sistemas: o que os leva à ascensão e ao declínio? Isto é
relativamente simples no que se refere ao sistema oriental, (•) J a c k Cohen usa a palavr a " in te r ma r r ia g e s" , enquanto os t r a -
dutores p a r a o espanhol c h e g a r a m a " casamiento s mutuos''. N.T.
39
40
mente limitada, como indica o fato do desenvolvimento da
produtividade não ser e não poder ser uma preocupação fun-
volveu-se a escravidão e não a servidão. Pode-se conjecturar
damental. "Entre os antigos, jamais encontramos uma in-
que tenha sido devido ao nível das forças produtivas e à com-
vestigação sobre que formas de propriedade territorial, e t c ,
plexidade das relações sociais de produção já alcançada pelo
seriam mais produtivas, criariam o máximo de ri qu eza.. . A
Mediterrâneo antigo. *
questão sempre se referia ao tipo de propriedade que permi-
tisse a criação do melhor cidadão. Riqueza como um fim em O colapso do modo antigo está, portanto, implícito em
si surge apenas entre uns poucos povos comerciantes — mo- seu caráter econômico-social. Parece não haver uma razão
nopolistas do negócio dos transportes — que viviam nas fran- lógica para que ele deva conduzir inevitavelmente ao feuda-
jas do mundo antigo, como os judeus na sociedade medieval" lismo, como forma diferenciada de outras "novas, de outras
(p. 80) . Dois fatores tendem a minar, pois, esta situação. O combinações de trabalho" (p. 88) que fariam possível uma
primeiro, a diferenciação social dentro da comunidade, con- produtividade mais alta. Por outro lado, uma transição di-
tra a qual a peculiar combinação antiga da propriedade pri- reta do modo antigo para o capitalismo é excluída.
vada e comunal da terra não tinha defesa. O cidadão, indi- Quando chegamos ao feudalismo, a partir do qual o ca-
vidualmente, podia perder sua propriedade — i.é, a base da pitalismo desenvolveu-se, o problema torna-se muito mais com-
sua cidadania. Quanto mais rápido fosse o desenvolvimento plexo, até porque Marx afirma muito pouco a respeito. Ne-
econômico, mais rapidamente isto poderia ocorrer; daí a an- nhum esquema das contradições internas do feudalismo,
tiga oposição ao comércio e à manufatura, que eram deixa- comparável ao do modo antigo, é encontrado nas FORMEN.
dos em mãos dos libertos, clientes ou estrangeiros, e a crença Não se encontra, também, qualquer discussão real da servi-
nos perigos do relacionamento com estrangeiros, o desejo de dão (ou da escravidão). Na verdade, estas duas relações de
trocar produtos excedentes, etc. O segundo fator de desinte- produção surgem seguidamente reunidas e, às vezes, como
gração é, evidentemente, a escravidão. A própria necessidade "a relação de dominação e subordinação", em contraste com
de restringir a cidadania (ou, o que dá no mesmo, a proprie- a posição do trabalhador livre. O elemento interno da so-
31

dade da terra) aos membros da comunidade conquistadora ciedade feudal do qual deriva o capitalismo parecia ser, em
conduzia à escravidão ou servidão dos conquistados. "Escra- 1857-8 como em 1845-6, a cidade — mais especificamente os
vidão e servidão são, portanto, simplesmente o posterior de- mercadores e artesãos da cidade (cf. pp. 91 92, 94). É a eman-
senvolvimento da propriedade baseada no tribalismo" (p. 86- cipação da propriedade sobre os meios de produção de suas
87). Por isto "a preservação da comunidade implica a des- bases comunais, como ocorreu entre os artesãos medievais,
truição das condições sobre as quais ela se fundamenta, e que dá base para a separação entre "trabalho" e "condições
transforma-as no seu contrário" (p. 88). A " n a ç ã o " * , pri- objetivas de produção". É o mesmo desenvolvimento — a
meiramente representada por todos os cidadãos, passa a sê-lo formação do "proprietário trabalhador" concomitante com e
pelos patrícios aristocratas, que são os únicos proprietários fora da propriedade da terra — a evolução artesanal e ur-
de terras absolutos, face aos homens de menor importância bana do trabalho — que "não é . . . um aspecto (Akzident)
e aos escravos, e pelos cidadãos face aos não-cidadãos e es- da propriedade da terra e integrado nela (p. 94 ) , que pro-
cravos. As contradições econômicas reais de uma economia porciona a base da evolução do capitalismo.
escravista não são discutidas por Marx neste contexto, No ní- O papel do feudalismo agrário neste processo não é dis-
vel muito geral da análise das FORMEN, estas contradições cutido, embora pareça ser, em verdade, negativo. Em dado
são simplesmente um aspecto particular da contradição fun- momento, tornará possível a separação entre o camponês e
damental da sociedade antiga. Também não se encontra nas a terra, entre o dependente e seu senhor — para transformá-
FORMEN uma explicação de por que na antigüidade desen- lo num trabalhador assalariado. É irrelevante que tome a for-
ma de dissolução da vilania (Hòrigkeit), de propriedade

(•) Em Inglês, " c o m mo nw e a lt h " . (N.R.) 31 Como, por exemplo, às p. 83, 84, 93. O emprego no CAPI TAL III
é, em geral, desta natureza , e . g . (Berlim, 1956) 357, 665, 684, 873.
41 885-6. 937.
pital" e o "trabalho" não puderam emergir de outras forma-
privada ou posse de pequenos fazendeiros ou camponeses ar- ções pré-capitalistas diversas do feudalismo? e por que o feu-
rendatários, ou de vários tipos de clientelismo. O que impor- dalismo, em sua forma agrária, possibilitou-lhes a emergên-
ta é que nenhum destes fique no caminho da transformação cia, não impondo obstáculos fundamentais a esta?
dos homens em força de trabalho ao menos potencialmente Tal colocação do problema pode explicar freqüentes hia-
livre. tos na sua exposição. Como em 1845-6, não há, agora, dis-
Entretanto, embora isto não seja colocado nas FORMEN cussão sobre o "modus operandi" específico da agricultura
(será no volume III do CAPITAL), a servidão e outras rela- feudal. Não é examinada a relação específica entre a cidade
ções de dependência análogas diferem da escravidão de modo feudal e a área rural ou a razão pela qual esta tem de pro-
economicamente significativo. O servo ainda que sob o con- duzir aquela. Por outro lado, insinua a idéia de que o feuda-
trole do senhor é, de fato, um produtor independente; o es- lismo europeu é singular, pois nenhuma outra forma deste
cravo não é . Retirando o senhor do quadro da servidão, so-
32
sistema produziu a cidade medieval, que é essencial para a
brará a pequena produção de mercadorias; se forem separa- teoria marxista da evolução do capitalismo. Na medida em
dos das plantações os escravos (ao menos até que estes se que o feudalismo é um modo de produção geral existente fora
dediquem a qualquer outra atividade), não restará qualquer da Europa (talvez no Japão, o que Marx nunca analisou em
tipo de economia. "Por isto, o que se faz necessário são con- profundidade), não há, em Marx, nenhuma indicação que
dições de dependência pessoal, falta de liberdade pessoal em nos autorize a buscar alguma "lei geral" de desenvolvimen-
qualquer grau, a vinculação do homem como um complemen- to que possa explicar sua tendência para evoluir no sentido
to da terra, a servidão no exato sentido da palavra" (Capital do capitalismo.
III, 841). Pois, sob condições de servidão o servo produz não O objeto de estudo nas FORMEN é o "sistema germâni-
apenas excedente de trabalho de que seu senhor, de uma for- co", i.é, uma sub-variedade particular do comunalismo pri-
ma ou outra, se apropria, mas poderá, também, acumular um mitivo que, por esta razão, tende a se transformar em um
lucro para si mesmo. Pois, por várias razões, em sistemas eco- tipo particular de estrutura social. Seu traço principal, como
nomicamente primitivos e sem desenvolvimento, como o feu- vimos, parece ser a fixação dispersa em unidades familiares
dalismo, há uma tendência para que o excedente permaneça economicamente auto-suficientes, em oposição à cidade de
invariável, como uma grandeza convencional e "o uso da camponeses dos antigos: "cada lar isolado contém uma eco-
força de trabalho (do servo) de modo algum se resume à nomia completa, se constituindo, assim, em centro indepen-
agricultura, mas inclui manufaturas domésticas rurais. Há, dente de produção (a manufatura sendo, meramente, o tra-
aí, a possibilidade de uma certa evolução e c o n ô m i c a . . . " balho doméstico subsidiário das mulheres, etc.) . No mundo
(CAPITAL III, 844-5). antigo a cidade com seu território circundante (Landmark)
Marx não discute estes aspectos da servidão nem as con- constituía o todo econômico, no mundo germânico são os la-
tradições internas da escravidão porque, nas FORMEN, não res isolados" (p. 76) . Sua existência é protegida pelos laços
é seu propósito esboçar "história econômica" de qualquer com outros núcleos semelhantes, pertencentes à mesma tri-
das duas. Na verdade, como sempre — embora, aqui, de um bo, vínculo que se expressa nas eventuais assembléias de to-
modo mais geral — não está preocupado com a dinâmica dos os chefes de família, para fins bélicos, religiosos, resolu-
interna dos sistemas pré-capitalistas, exceto na medida em ção de disputas e, em geral, para segurança recíproca (p. 7 7 ) .
que explicam as condições prévias do capitalismo. Seu inte-
33 Na medida em que há propriedade comum, como pastagens,
resse reside, simplesmente, em duas questões: Por que o "ca- territórios de caça, e t c , será usada pelos membros indivi-
dualmente, e não na condição de representantes da nação*,
32 CAPITAL III, 841. como na sociedade antiga. Pode-se comparar o ideal da or-
33 Mesmo no CAPITAL II I , onde debate mais dir e ta me nt e o tema ganização social romana a um colégio das universidades de
da agricultura feudal, ele neg a a intenção de analisar a propriedade
da t er r a em suas diversas fo r ma s históricas. Cf. cap. 37, p. 662 e, (*) " co m mo nw ea l t h " em inglês. (N.R.)
novamente , p. 842.
44
43
te " (STUDIES, 42), embora Marx pareça ter insistido na
Cambridge ou Oxford, cujos integrantes são co-possuidores
relativa inflexibilidade das demandas da classe dominante
dos terrenos e dos edifícios, somente enquanto con stituem
feudal e em sua tendência para fixá-las convencionalmente. 34

o corpo docente, mas não podem, como indivíduos, ser con-


Seria, igualmente, possível que ele tivesse aprovado o ponto
siderados "proprietários" de qualquer desses bens. O sistema
de vista de R. H. Hilton quanto à "luta pela renda (da terra)
germânico guarda semelhança com uma cooperativa habita-
ter sido o 'motor principal' da sociedade feudal" (TRANSI-
cional em que a ocupação individual de um apartamento de-
TION, 70) ainda que, certamente, rejeitasse corno super-sim-
pende de sua união e contínua cooperação com os demais
plificada a opinião de Porshnev de que a simples luta das mas-
membros, mas na qual, entretanto, a posse individual existe
sas exploradas constituísse tal motor principal. Mas, a ques-
de modo identificável. Esta forma frouxa de comunidade, que
tão é que Marx em parte alguma parece ter previsto qual-
implica uma potencialidade maior de individualização eco-
quer destas linhas de discussão — e, certamente, não o fez
nômica, faz do "sistema germânico" (via feudalismo) o an-
nas FORMEN.
cestral direto da sociedade burguesa.
A maneira como tal sistema evolui para o feudalismo O único dos participantes desses debates que pode ser
não é examinada, embora se apresentem várias possibilida- considerado como seguidor de seus passos é P. M. Sweezy,
des de diferenciação social interna e externa (ex.: por efeito que afirma (como Marx) ser o feudalismo um sistema de
da guerra e da conquista). Poder-se-ia arriscar a suposição produção paia u so , e que, em tais formações econômicas,
35

de que Marx atribuísse considerável importância à organiza- "nenhuma sede ilimitada de trabalho excedente se origina da
ção militar (desde que a guerra é, tanto no sistema germâ- própria natureza da produção" (CAPITAL I, 219, cap. X, se-
nico como no antigo, "u ma das mais precoces tarefas de to- ção 2 ) . Portanto, o principal agente de desintegração deve
das estas primitivas (naturwüchsig) comunidades, tanto para ser visto no crescimento do comércio, operando mais parti-
a preservação quanto para a aquisição de sua propriedade") cularmente através dos efeitos do conflito e inter-relação en-
(p. 84) . Esta é, certamente, a última orientação explicativa tre o campo feudal e as cidades que se desenvolviam às
de Engels em ORIGEM DA FAMÍLIA, onde o reino emerge suas margens (TRANSITION, 2, 7-12). Esta linha de argu-
da transformação da liderança militar gentílica entre as tri- mentação é muito semelhante à das FORMEN.
bos teutônicas. Não há razão para supor que Marx pensasse Para Marx a conjunção de três fenômenos é necessária
de modo diferente. para explicar o desenvolvimento do capitalismo a partir do
Quais as contradições internas do feudalismo? Como evo- feudalismo: primeiro, como vimos, uma estrutura social agrá-
luiu para o capitalismo? Estes problemas têm preocupado, ria que possibilite a "libertação" dos camponeses, num cer-
crescentemente, os historiadores marxistas, como o demons- to momento; segundo, o desenvolvimento dos ofícios urba-
tra a vigorosa discussão internacional armada em torno dos nos geradores da produção de mercadorias especializada, in-
STUDIES IN THE DEVELOPMENT OF CAPITALISM de dependente, não-agrícola, sob a estrutura gremial; e, ter-
M. H. Dobb, no início da década de 1950, e o debate que logo ceiro, a acumulação de riqueza monetária derivada do comér-
se seguiu na U.R.S.S. sobre "a lei econômica fundamental cio e da usura (Marx é categórico quanto a este último pon-
do feudalismo". Quaisquer que tenham sido os méritos duma to) (pp. 100-101). A formação de tais acumulações monetá-
ou doutra discussão — e os da primeira parecem ter sido rias "pertence à pré-história da economia burguesa" (p. 105),
maiores do que cs da segunda — ambas foram, evidentemen- e não são, ainda, capital. Sua mera existência ou, mesmo, sua
te, prejudicadas pela falta de alguma indicação sobre os pon- aparente predominância não produzem, automaticamente, o
tos de vista do próprio Marx a respeito do tema. Não seria
impossível que Marx tivesse concordado com Dobb que a cau- 34 CA PIT A L LU, 843-5 (capitulo 47, seção I I ) .
sa do declínio do feudalismo fosse "a ineficiência do feuda- 35 Isto não é amplame nt e neg ad o pelos mar xistas, embora não
lismo como sistema de produção, juntamente com as cres- deva ser confundido com a a f i r m a t iv a segundo a qual os sistemas
centes necessidades de receita por parte da ciasse dominan- de produção de valores-de-uso são, ta mbé m, às vezes, sistemas de eco -
nomia na t u r a l .

45 46
desenvolvimento capitalista, do contrário "a antiga Roma, série de efeitos do crescimento de uma economia de troca
Bizâncio, e t c , teriam terminado sua história no trabalho li- são mencionados de passagem (ex.: p. 104-105). Também é
vre e no capital" (p. 102). Mas são essenciais. observado que "em parte este processo de separação [do tra-
Igualmente essencial é o elemento artesanal urbano. As balho das condições objetivas de produção — alimentos, ma-
observações de Marx quanto a isto são gerais e alusivas, mas térias-primas, instrumentos] ocorreu sem [riqueza monetá-
sua importância nesta análise é clara. Acima de tudo, são os r i a ] " (p. 105). A interpretação que mais se aproxima da
elementos da habilidade, orgulho e organização artesanais realidade (p. 106) supõe que o capital, primeiro, surgiu es-
que ele destaca. A importância básica da formação do arte-
36
poradicamente, ou totalmente (sublinhado por Marx) ao lado
sanato medieval parece residir no fato de que, ao desenvolver (ênfase de Marx) dos antigos modos de produção mas, pos-
"o trabalho em si, como uma habilidade determinada pelo teriormente, terminou por destruí-los por toda parte.
ofício (torna-se) uma propriedade ele próprio, e não mera A manufatura para suprir os mercados estrangeiros apa-
fonte de propriedade" (p. 97) e, assim, introduz uma sepa-
rece, de início, à base do comércio de longa distância e nos
ração potencial entre o trabalho e as outras condições de
centros de tal comércio, não nas guildas artesanais,
produção, que expressa um mais alto grau de individualiza-
mas nos ramos suplementares, menos especializados e
ção do que o comunal e torna possível da formação da cate-
menos controlados por guildas, como fiações e tecela-
goria do trabalho livre. Ao mesmo tempo desenvolve habili-
gens, embora também, em ramos urbanos diretamente liga-
dades especiais e seus instrumentos. Mas no estágio do arte-
sanato-corporativo, "o instrumento de trabalho está tão in- dos à navegação, como a construção de navios. Por outro lado,
timamente unido ao trabalho vivo que, na verdade, não cir- na área rural surge o camponês arrendatário, bem como o
cula" (p. 101). E, ainda, embora por si mesmo não possa ge- processo de transformação da população rural em trabalha-
rar o mercado de trabalho, o desenvolvimento da produção dores diaristas livres. Todas estas manufaturas exigem a pre-
mercantil e do dinheiro somente pode criar o mercado de tra- existência de um mercado de massas. A dissolução da ser-
balho "nas pré-condições da atividade artesanal urbana, que vidão e o advento das manufaturas transformam, gradual-
não se baseia no capital e no trabalho assalariado mas, na mente, todos os ramos da produção em capitalistas, enquan-
organização do trabalho em guildas, etc." (p. 104). to nas cidades uma classe de jornaleiros, à margem das guil-
das, proporciona um elemento à criação de um verdadeiro
Mas tudo isto exige, também, a estrutura rural poten-
proletariado (p. 106 -10 9) .37

cialmente dissolúvel. Pois o capitalismo não pode desenvolver-


se sem "o envolvimento de toda a área rural na produção não A destruição dos ofícios rurais suplementares deu origem
de valores de uso — mas de valores de troca" (p. 108). Esta a um mercado interno para o capital, baseado na substitui-
é outra razão pela qual os antigos, que, embora desprezassem ção, por manufatura ou produção industrial, do antigo su-
e desconfiassem dos ofícios, tinham produzido uma versão de primento rural de bens de consumo. "Este processo emerge,
"atividade artesanal urbana", não puderam produzir indús- automaticamente (von selbst), da separação dos trabalhado-
tria em larga escala (ibid). Os fatores que tornaram dissolúvel res do solo e da sua propriedade (embora apenas propriedade
a estrutura rural do feudalismo, além das características do servil) nas condições de produção" (p. 110). A transformação
"sistema germânico" que estão no seu substrato, não são re- do artesanato urbano em indústrias ocorre mais tarde, pois
velados. De fato, no contexto da argumentação de Marx so- exige considerável avanço dos métodos produtivos para pos-
bre este ponto, não são necessárias maiores evidências. Uma sibilitar a produção industrial. Neste ponto termina o manus-
crito de Marx, que trat a especificamente das formações pré-
capitalistas: As fases do desenvolvimento capitalista não são
36 Expressões como würdiges Zunftwesen ("a dignidade do siste-
ma de guildas") p. 73, "trabalho meio artístico meio realizado como discutidas.
um fim em si (p. 92) , städitscher Gewerbefleiss ("atividade ar-
tesanal urbana", p. 104) são empregadas constantemente. Todas car- 37 Mar x, aqui, subestimou a diferenciação dos ar tesã o s urbanos em
regadas de sentido emocional e, na verdade, geralmente aprobatório. virtuais empregadores e virtuais trabalhadore s assalariados.

47 48
IV qualquer forma, revelou-se infundada. Talvez a dificuldade de
Marx para esboçar uma justificação teórica disto reflita 39

uma certa sensação de embaraço. Faz contraste gritante com


Devemos, agora, considerar até que ponto trabalhos e es- o retorno de Engels, lúcido e brilhante, à principal tradição
tudos posteriores de Marx e Engels os levaram a modificar, marxista — e ao apoio aos marxistas russos — quando da
ampliar e prosseguir os pontos de vista expressos nas FOR- discussão do mesmo tema, alguns anos mais t a r d e . De qual- 40

MEN. quer modo, poderá conduzir-nos à segunda razão da crescen-


Neste caso se enquadra, perfeitamente, a análise a res- te preocupação de Marx com o comunalismo primitivo: seu
peito do primitivo comunalismo. Está provado que o interesse progressivo ódio e desprezo da sociedade capitalista. (A opi-
histórico de Marx, após a publicação do CAPITAL (1867) se nião de que o velho Marx perdeu algo do ardor revolucioná-
concentrou, predominantemente, nesta etapa do desenvolvi- rio do jovem Marx é sempre popular entre os críticos que
mento social, para a qual Maurer, Morgan e a vasta litera- desejam abandonar a prática revolucionária do marxismo
tura russa de que se ocupou, de 1875 em diante, proporcio- sem desvincular-se de sua teoria.) Pareceria provável que
naram uma base de estudos muito mais sólida do que a que Marx, que anteriormente saudara o impacto do capitalismo
estivera disponível em 1857-8. Além da orientação agrária ocidental como uma força desumana mas historicamente
de seu trabalho no CAPITAL III, duas razões podem ser su- progressista sobre as estagnadas economias pré-capitalistas,
geridas para explicar esta sua concentração de interesse. Pri- fosse ficando cada vez mais impressionado com sua desuma-
meiro, o desenvolvimento de um movimento revolucionário nidade.
russo levou, crescentemente, Marx e Engels a depositar na Sabemos que ele sempre admirara os valores sociais po-
Rússia suas esperanças relativas a uma revolução européia. sitivos incorporados à comunidade primitiva, embora em for-
(Nenhum erro de interpretação de Marx é mais grotesco do ma atrasada. E é certo que depois de 1857-8 — tanto no
que o que sugere possibilidades de revolução, exclusivamente, CAPITAL III como na subseqüente discussão russa — ele
41 42

nos países industrialmente avançados do Ocidente). Desde 38 cada vez mais enfatizou a viabilidade da comuna primitiva,
que a situação da comunidade aldeã era assunto de funda seu poder de resistência à desintegração histórica e mesmo
mental desacordo teórico entre os revolucionários russos, que — embora, talvez, somente no contexto da discussão dos
consultaram Marx sobre o ponto, era natural que ele investi- Narodniks — sua capacidade de desenvolver-se numa for-
gasse o tema mais profundamente. ma superior de economia, sem prévia destruição. Esta 43

É interessante constatar que — de certo modo até ines- não é a oportunidade para apresentar detalhado relato
peradamente — seus pontos de vista se inclinassem no sen-
tido dos Narodniks, que sustentavam que a comunidade al- 39 Em c a r t a a Vera Zasulich, 1881. Quatro esboços desta ca r ta ,
três deles impressos no W E R K E , X I X . 384-406, sobrevivem.
deã russa poderia fornecer a base da transição para o socia-
40 N achwo r t (1894) zu "So ziales aus Russland" ( W E R K E , 6 6 3 - 4 ) .
lismo sem prévia desagregação através do desenvolvimento
capitalista. Esta opinião não flui da orientação natural do 41 CAPITA L III, 365-6.
pensamento histórico anterior de Marx, e não foi aceita pelos 42 E x . : esboços a Zasulich, loc. clt., 387, 388, 402, 404.
marxistas russos (que se enfileiravam entre os opositores dos 43 G. L ichthel m (loc. cit., 89) está cert o c h a m a n d o a a t e nç ã o p ar a
Narodniks, neste ponto) ou pelos marxistas posteriores; de esta crescente hostilidade ao capitalismo e apreço pelas co mun id a -
des primitivas sobreviventes, mas errad o ao sugerir que o M a r x de
1858 as visse sob luz to ta lment e negativ a. Que o comunismo seria
38 Engels registra suas espera nça s nu ma revolução russa pelo fim uma recr iação , em mais alto nível, das virtudes sociais do co m u -
da década de 1870 e, em 1894, especificamente, aventou a possibilidade nalismo primitivo, é uma idéia que per tence à mais precoce h e r a n -
da "revolução russa dar o sinal p a r a a revolução dos trabalhadores ça do socialismo. "O gênio", disse Fourier , "deve descobrir o roteiro
do Ocidente, de modo que se co mpl eme nte m" W E R K E , X VI I I , 668 dessa primitiva felicidade e ad a p tá - l o às condições da indústria m o -
Outras referências: M A R X a SORGE, 2 7 . 9 . 1 8 7 7 ; E N G E L S a B E R N S- d e r n a " (citado por J. Talmo n, POL I TI CA L ME3SIANISM, Londres,
TEIN, 2 2 . 2 .1 8 8 2 . 1930) p. 127. P a r a a opinião do jovem M arx , cf. DAS PH I LO SO PH IS -

49 50
do esboço de Marx sobre a evolução primitiva, em geral, como
consta da ORIGEM DA FAMÍLIA** de Engels, e sobre a co- Segundo, a análise da evolução social "arcaica" é. em
munidade agrária em particular. Entretanto, duas observa- todos os sentidos, consistente com a análise esquematizada na
ções gerais sobre este trabalho cabem aqui. Primeiro, a socie- IDEOLOGIA ALEMÃ e nas FORMEN. Esta análise, simples-
dade pré-classista compreende uma grande e complexa época mente.sofistica as anteriores, como quando as curtas referên-
histórica em si mesma, com sua própria história, suas leis cias à crucial importância da reprodução humana (sexual)
de desenvolvimento e -suas próprias variedades de organiza- e à família, na IDEOLOGIA, são desenvolvidas, à luz de
47

ção econômico-social, que Marx tende a chamar, agora, co- Morgan, na ORIGEM DA FAMÍLIA, ou quando a análise su-
letivamente, "formação ou tipo a rca i co " . Isto, parece claro,
45
mária da propriedade comunal primitiva era completada e
inclui as quatro variantes básicas do comunalismo primitivo, modificada (à luz de trabalhos como o de Kovalevsky, que.
como são apresentadas nas FORMEN. Provavelmente, inclui incidentalmente, foi também influenciado por Marx) com as
também o "modo asiático" (que vimos ser a mais primitiva etapas de desintegração da comunidade agrária dos esboços
das formações econômico-sociais desenvolvidas), e pode expli- de carta a Zasulich.
car porque este modo desaparece do trabalho sistemático de
Engels sobre o tema no ANTI-DÜHRING e na ORIGEM DA Um outro campo em que os fundadores do marxismo
FAMÍLIA. É possível que Marx e Engels também tivessem
16 realizaram estudos especiais foi o do período feudal. Este foi
em mente alguma espécie de fase histórica intermediária de o favorito de Engels mais do que de Marx. Boa parte de seu
48

desintegração comunal, da qual classes dominantes de dife- trabalho sobre o tema fixou-se nas origens do feudalismo, so-
rentes tipos poderiam ter emergido. brepondo-se aos estudos de Marx sobre as formas de comuna-
lismo primitivo. Entretanto, o interesse de Engels parece ter
sido levemente diverso do de Marx. Provavelmente, estava
CHE MANIFEST DER HISTORISCHE N REC HTS SC HUL E, de 1842
i W E R K E , I, 7 8 ) : " U m a ficção corrent e do século X V I I I viu o estado menos preocupado com a sobrevivência ou desagregação da
nat ura l como o verdadeiro estad o da natureza h u m a n a . O homem comunidade primitiva e mais interessado na emergência e
desejou ver a Idéia do Homem com seus próprios olhos e, portanto, declínio do feudalismo. Seu interesse na dinâmica da agri-
criou o "h o mem n a t u r al " , Pap agenos , c uj a própria pele empluma- cultura servil foi mais intenso que o de Marx. Na medida em
da expressava su a Ingenuidade; Nas últimas décadas do século X V II I
os povos primitivos foram considerados possuidores da sabedoria que temos análises destes problemas originárias dos último:
original e caçadores de pássaro s puderam ser ouvidos em todas as anos de vida de Marx, elas estão contidas nas formulações
partes , Imitando o c a n t a r dos Iroqueses ou índios, na c re n ç a de de Engels. Ainda mais, no trabalho de Engels os elementos
que, graç as a tais meios, os pássaros pudessem ser capturados . Todas políticos e militares desempenham papéis mais importantes
estas excentricidades b as ei am- s e na Idéia c o r re t a de que condições
rústicas sejam pin turas Ingênuas, à moda holandesa, de condições Por último, este se concentrou quase inteiramente na Ale-
verdadeiras". Cf. t amb ém, M A R X a ENGELS , 2 5 . 3 . 1 8 6 8 , sobre a con- manha medieval (com uma ou outra digressão sobre a Ir-
tribuição de Maurer à história. landa, com que tinha vínculos pessoais), e estava, evidente-
44 Est e era o trabalh o que Mar x desejava escrever e par a o qual mente, mais interessado do que Marx no advento da nacio-
pr ep arar a volumosas an ot açõ es sobre as quais Engels baseou-se, nalidade e sua função no desenvolvimento histórico. Algu-
tan t o quanto possível. Cf. Prefác io à Primeira Edição, 1884 ( W E R K E . mas dessas diferenças de ênfase são devidas, apenas, ao fato
XXI, 27).
da análise de Engels atuar em nível menos geral do que a
45 Esboços a Vera Zasulich, loc. cit., passim.
de Marx; o que constitui uma razão para ser, muitas vezes,
46 "A escravidão é a primeira ( mi nh a ênfase, E.J.H.) forma de e x -
ploração e é própria da anti güidade; é seguida pela servidão na
mais acessível e estimulante para os que tomam seu primei-
Idade Média, pelo trab al h o assalariado nos tempos modernos. Estas
são as três grandes formas de submissão, c ara c t erí s t i c as das três
grandes épocas da civilização" (ORIGEM, in W E R K E , X X I , 170) . Fic a 47 W E R K E , III , 29-30.
evidente, por este texto, que nenh u ma t en t at i v a é feita aqui para 48 ANTI-DÜKRINO, ORIGEM DA FAMÍLIA, o pequeno ensaio "O
incluir o que Mar x c h a m a v a "modo asiáti co " em qualquer dos três MARCO " e As G UER RA S CAMPONESAS NA ALEMANHA são as prin -
indicados. É omitido como pertencent e à pré-história da "civilização". cipais obras publicadas, ma s existem esboços e nota s (a maioria in-
completas) sobre a história medieval g er mân ic a e irlandesa. Cf.
W E R K , XVI , 459-50; X I X , 425-521 ; X X , 392-401.
51
52
ro contato com o marxismo. Algumas não são assim. Entre- garantia que qualquer sistema senhorial (necessariamente
tanto, ao reconhecer que os dois pensadores não eram irmãos baseado no controle de grandes propriedades ou do corpo de
siameses e que (como Engels reconhecia) Marx era o pensa- seus cultivadores) tinha "forçosamente de produzir grandes
dor mais profundo, deveremos manter-nos em guarda contra proprietários de terras dominantes e pequenos camponeses
a tendência moderna de confrontar Marx com Engels, geral- dependentes", também fazia impossível a exploração dessas
mente com desvantagem para o segundo. Quando dois ho- grandes propriedades seja pelos velhos métodos escravistas,
mens colaboram tão intimamente como o fizeram Marx e En- seja pela moderna agricultura servil em grande escala; como
gels, durante mais de quarenta anos, sem qualquer desacordo ficou provado pelo fracasso das "vilas" imperiais de Carlos
teórico de importância, é de presumir que cada um deles tinha Magno. A única e x c e ç ã o eram os mosteiros, que consistiam
pleno conhecimento do que estava na mente do companhei- em corpos sociais anormais", baseados no celibato, e conse-
ro. Sem dúvida, se Marx tivesse escrito o ANTI-DUHRING qüentemente, seu excepcional desempenho econômico conti-
(publicado quando ainda vivia), seu texto seria diferente nuará a constituir uma exceção. 51

e, talvez contivesse algumas novas e profundas suges- Ainda que esta análise subestime, francamente, o papel
tões. Mas não há razão alguma para crer que ele discor- da agricultura leiga, castelã, em grande escala, na Idade Mé-
dasse de seu conteúdo. Isto é aplicável aos trabalhos que dia posterior, é muito acurada, especialmente em sua distin-
Engels escreveu depois da morte de Marx. ção entre a grande propriedade como unidade social, fiscal
A análise de Engels sobre o desenvolvimento feudal (que e política, e como unidade de produção, bem como na ênfase
é visto, exclusivamente, em termos europeus) tenta preen- posta na predominância da agricultura camponesa, mais do
cher várias das lacunas deixadas na análise extremamente que na das terras senhoriais, no feudalismo. Entretanto, isto
global de 1857-8. Primeiramente, estabelece uma conexão ló- deixa a origem da servidão e domínio feudais, de certa for-
gica entre o declínio do modo antigo e o advento do modo ma, no ar. A própria explicação de Engels parece ser mais
feudal, a despeito do fato de um ter sido fundado, por inva- social, política e militar do que econômica. Os camponeses
sores bárbaros, sobre as ruínas do outro. Na antigüidade a teutões livres foram empobrecidos pelas guerras constantes
única forma possível de agricultura em larga escala era a e (dada a fragilidade do poder real) tiveram de colocar-se
do latifúndio escravista, mas além de certo ponto isto tor- sob a proteção dos nobres ou do clero. No fundo isto era de-
52

nou-se anti-econômico dando lugar, novamente, à agricul- vido à incapacidade de uma forma de organização social ba-
tura em pequena escala como "a única forma lucrativa seada no parentesco para administrai ou controlar as grandes
(lohnende)".49
Por isto a antiga agricultura já estava a meio estruturas políticas criadas por suas conquistas: estas, auto-
caminho da medieval. A pequena cultura era a forma domi- maticamente, portanto, implicam tanto a origem das classes
nante na agricultura feudal, sendo "operacionalmente" irre- como a do E st ado. Em sua formulação básica esta hipótese
53

levante que alguns camponeses fossem livres e alguns esti- não é muito satisfatória, mas a derivação das origens das clas-
vessem obrigados, de vários modos, aos senhores. O mesmo ses das contradições da estrutura social (e não, simplesmente,
tipo de pequena produção, por pequenos proprietários de seus de um primitivo determinismo econômico) é importante. Isto
próprios meios de produção, predominava nas cidades. Em-
50
amplia a linha de pensamento dos manuscritos de 1857-8, por
bora esta fosse, naquelas circunstâncias, uma forma de pro- exemplo, sobre a escravidão.
dução mais econômica, o atraso geral da vida econômica no
período feudal inicial — a predominância da auto-suficiên- O declínio do feudalismo depende, uma vez mais, do ad-
cia local, que dava margem à venda ou desvio de, apenas, um vento dos ofícios e do comércio, além da divisão e conflito en-
excedente marginal — impunha suas limitações. Enquanto tre a cidade e o campo. Em termos do desenvolvimento agrá-

51 ORI GEM DA FAMÍLIA, loc. cit., 148-9.


49 ORIG EM DA FAMÍLIA, W E R K E , X X I , 144
52 ibid. 146-8.
50 ANTI-DUHRING, W E R K E , X X , 164, 220, 618.
53 Ibld. 146, 164. O MARCO ( W E R K E X I X , 3 2 4 - 5 ) .
53
54
rio expressou-se num aumento das demandas dos senho- feudal e, especialmente, as relações entre os senhores e os
res feudais quanto a bens de consumo (e armas ou equipa- camponeses dependentes. Isto se deve, quase seguramente, a
mentos) disponíveis apenas por meio da compra. Até um 54
Engels, pois foi ele que (nas cartas relacionadas com a elabora-
certo ponto — dadas as condições técnicas de estagnação da ção de O MARCO) pôs ênfase especial nos movimentos de pres-
agricultura — um aumento do excedente extraído dos cam- tação de serviços e, inclusive, advertiu a Marx de que este
poneses só poderia ser conseguido extensivamente — por estivera enganado anteriormente quanto a i st o. Introduziu 56

exemplo, acrescentando novas terras à área de cultura, fun- (em grande parte baseado em Maurer) uma linha de análise
dando novas aldeias. Mas, isto implicava "o acordo amistoso da história agrária medieval que, desde então, demonstrou
dos colonos, fossem servos ou homens livres". Portanto ser extraordinariamente fértil. Por outro lado, deve ser obser-
— e também porque a primitiva forma de domínio não tinha vado, ainda, que este campo de estudo parece ser marginal
incentivo para intensificar a exploração, mas, antes, uma ten- ao interesse principal de Marx e Engels. Os textos em que
dência para que se fizessem mais leves as sobrecargas fixas do Engels aborda o tema são curtos e sumários, comparados
camponês, com o passar do tempo — a liberdade camponesa àqueles em que se dedica à origem da sociedade feud al." A
tendia a aumentar, acentuadamente, de modo especial depois discussão não foi de modo algum esgotada. Nenhuma expli-
do século XIII. (Aqui, novamente, a natural ignorância de cação adequada ou direta foi dada, relativamente à causa
Engels sobre o desenvolvimento da agricultura de mercado da agricultura em larga-escala, anti-econômica nas fases ini-
das terras-castelãs na alta Idade Média e sobre a "crise feu- ciais da Idade Média, ter-se tornado, de novo, econômica em
dal" do século XIV, de certo modo, super-simplifica e destorce base servil (ou outra) ao fim dela. Mais surpreendentemente
esta imagem.) (dado o intenso interesse de Engels nos desenvolvimentos
Mas, a partir do século XV, a tendência oposta prevaleceu tecnológicos durante a transição da antigüidade à Idade Mé-
e os senhores reconverteram homens livres em servos, in- dia, como foram registrados pela arqueologia) não foram 58

corporando as terras dos camponeses a suas propriedades. Isto discutidas as transformações tecnológicas da agricultura, na
foi (ao menos na Alemanha) devido não apenas à crescente realidade, e há uma série de outros aspectos inconclusos. Ne-
demanda dos senhores, que doravante só podiam ser satis- nhuma tentativa foi feita para analisar a situação além da
feitas por meio de vendas crescentes de produtos dos seus Europa central e ocidental, exceto uma observação muito
próprios domínios, mas ao aumento do poder dos príncipes sugestiva sobre a existência da comunidade agrária primitiva
que privou a nobreza de outras antigas fontes de rendas sob a forma de servidão direta e indireta (Hörigkeit) como
como os assaltos nas estradas e extorsões semelhantes. Por 55
na Rússia e na Irlanda e uma observação — que parece, de
59

isto o feudalismo chega ao fim com uma ressurreição da agri- certo modo, uma antecipação da exposição posterior de O
cultura em larga escala à base da servidão e com uma expro-
MARCO — sobre a Europa oriental, cuja segunda imposição
priação dos camponeses correspondente ao — e derivada do
de servidão aos camponeses teria sido devida ao advento de
— crescimento do capitalismo. "A era capitalista na área um mercado de exportação de produção agrícola, desenvol-
rural foi precedida de um período de agricultura em larga
escala (landwirtschaftlichen Grossbetriebs) à base de ser-
viços de trabalho servil". 55 O MARCO, loc. cit., 326-7.
O quadro do declínio do feudalismo não é completamen- 56 E N GE L S a Mar x, 1 5 .1 2 . 1 8 82 , 16 .1 2. 18 8 2 .
te satisfatório, embora assinale importante avanço na aná- 57 O MARCO — cujo objetivo é estudar, de passagem , os movi-
lise marxista original do mesmo — expressamente, a tenta- mento s da agricultur a feudal — de stinav a- se a ser um apêndice de
8-10 pág inas pa r a o ANTI-DUHRING, e o nã o publicado Ueber den
tiva de estabelecer, e considerar, a dinâmica da agricultura
Verfall u m a no t a prefacial à nova edição das G U E R R A S CAMPO-
NESAS NA ALEMANHA.
54 O MARCO, loc. clt., 326-7. Sobre a necessidade de a r m a s de f a -
brico urbano Engels esboçou Über den Verfall des Feudalismus und 58 Cf. Zur Ur geschicht e der Deutschen, W E R K E , X I X , 450-60.
das Aufkommen der Bourgeoisie ( W E R K E , X X I , 3 9 2 ) . 59 ANTI-DÜHRING, no t a s prepar atór ias (WERKE, X X , 587-8).

55 56
vendo-se proporcionalmente a ele. Em síntese, não parece
60
grantes da classe nobre (roturiers)." Engels, mais interes-
61

que Engels tivesse qualquer intenção de alterar o quadro sado nas possíveis combinações da senhoria e o substrato da
geral da transição do feudalismo ao capitalismo que ele e comunidade primitiva, parece menos categórico, embora ex-
Marx haviam formulado muitos anos antes. clua, especificamente, o Oriente do feudalismo e, como vi-62

Nenhuma outra incursão de importância na história das mos, não faça tentativa alguma para ampliar sua análise do
"formas que precedem o capitalismo" ocorreu durante os úl- feudalismo agrário para além da Europa. Não há nada a
timos anos de Marx e Engels, embora fosse realizado impor- sugerir que Marx e Engels encarassem a combinação especial
tante trabalho sobre o período a partir do século XVI e, es- do feudalismo agrário e da cidade medieval como algo que
pecialmente, sobre história contemporânea. Resta, portanto, não fosse peculiar à Europa.
apenas a discussão breve de dois aspectos de seus últimos Por outro lado, uma interessantíssima elaboração do con-
trabalhos sobre o problema das fases de desenvolvimento so- ceito de relações sociais de produção é sugerida por uma série
cial. Até onde eles mantiveram a lista das formações, como de passagens destes últimos anos. Aqui, novamente, parece
foram apresentadas no Prefácio à CRÍTICA DA ECONOMIA que Engels tomou a iniciativa. Assim, sobre a servidão ele
POLÍTICA? Que outros fatores gerais do desenvolvimento escreve (a Marx, 2 2 .1 2 .1 8 8 2 — possivelmente seguindo su-
sócio-econômico foram considerados ou reconsiderados por gestão do próprio M a r x ) : "é certo que a servidão e a vassa-
eles? lagem não são, especificamente, formas medievais, ocorrem
Como vimos, em seus últimos anos, Marx e Engels ten- por toda a parte, ou quase, onde os conquistadores fizeram
deram a distinguir ou sugerir sub-variedades, sub-fases e for- os habitantes nativos cultivar o solo para eles". E, novamen-
mas de transição dentro de suas mais amplas classificações te, sobre o trabalho-assalariado : "Os primeiros capitalistas
63

sociais e, notavelmente, dentro da sociedade préclassista. já encontraram o trabalho-assalariado como uma forma. Mas
Mas não ocorrem maiores alterações na lista geral das for- o encontraram como algo ancilar, excepcional ou temporá-
mações, a não ser que contemos a quase formal alteração do rio, ou um ponto de transição". Esta distinção entre modos
"modo asiático" para "tipo arcaico" de sociedade. Não há — de produção caracterizados por certas relações e as "formas"
pelo menos da parte de Marx — qualquer inclinação para de tais relações, que podem existir numa variedade de perío-
abandonar o modo asiático (e até há uma tendência para dos ou situações econômico-sociais estava, já, implícita no
reabilitar o "modo eslavo"); e, certamente, há uma recusa pensamento marxista inicial. Às vezes, como em discussões
deliberada a reclassificá-lo como feudal. Argumentando con- sobre dinheiro e atividades mercantis, era explícita. Tem con-
tra o ponto de vista de Kovalevsky de que três dos quatro siderável importância, pois não apenas ajuda a dirimir certas
principais critérios do feudalismo greco-romano podiam ser discussões antigas como as que negavam a originalidade do
encontrados na Índia, que deveria, pois, ser considerada feu- capitalismo porque os mercadores existiam no antigo Egito,
dal, Marx adverte que "Kovalevsky esquece, entre outras coi- ou porque os feudos medievais pagavam o trabalho de co-
sas, a servidão, que não tem importância substancial na Ín- lheita em dinheiro, mas por chamar a atenção para o fato
dia. (Além do mais, quanto ao papel individual dos senhores das relações sociais básicas, necessariamente limitadas em
feudais como protetores não só dos camponeses não-livres número, serem "inventadas" e "reinventadas" pelos homens
como dos l i v re s. . . isto é sem importância na Índia exceto em numerosas ocasiões e de todos os modos de produção
quanto aos wakuf, áreas dedicadas a propósitos religiosos).
Nem se encontra aquela "poesia do solo" tão característica
61 Citado por L. S. G a m a y u n o v , R. A U lyanov sky : O T R A BA L H O
do feudalismo romano-germânico (cf. Maurer) na Índia, como DO SOCIÓLOGO RU SSO M. M. K o v a l e v s k y . . . E A CR I T I C A DE
tampouco em Roma. Na Índia a terra não é nunca nobre M A R X Vigésimo Quinto Congresso I n te rn a cio na l de O rientalistas,
no sentido de ser, por exemplo, inalienável aos não inte- Moscou, 1960, p. 8.
62 A N TI -D Ü HR IN G , loc. cit., 164.
60 lbid., 588. 63 AN T I-DÜ H RI NG , loc. cit., 252.

57 58
monetários (exceto, talvez, o capitalismo) serem complexos
feitos de toda espécie de combinações delas. politicamente desnecessário pois, qualquer que seja a diferen-
ça do desenvolvimento histórico remoto, o marxismo sustenta,
firmemente, a opinião de que todos os povos, independente-
V mente de raça ou passado histórico, são igualmente capazes
de alcançar todas as conquistas da civilização moderna, desde
Finalmente, compensa resumir as discussões sobre as que tenham liberdade para buscá-las.
principais formações econômico-sociais, entre os marxistas, A abordagem unilinear também conduz à busca de "leis
desde a morte de Marx e Engels. Elas foram, em muitos as- fundamentais" correspondentes a cada formação, que expli-
pectos, insatisfatórias, embora tivessem a vantagem de nunca quem sua transição para a próxima forma mais elevada. Tal
encarar os textos de Marx e Engels como repositórios da ver- mecanismo geral já foi sugerido por Marx e Engels (especial-
dade absoluta. Estes têm sido, de fato, amplamente revisados. mente na ORIGEM DA FAMÍLIA) quanto à transição do es-
Entretanto, o processo desta revisão tem sido estranhamente
tágio comunal primitivo, admitido como universal, à socie-
não-sistemático e não-planejado; o nível teórico da maior par-
dade de classe e quanto ao desenvolvimento muito diferente
te da discussão sendo desapontador e o tema, como um todo,
foi, antes, mais confundido do que esclarecido. do capitalismo. Uma série de tentativas foram feitas, recen-
Duas tendências podem ser observadas. A primeira, que temente, para descobrir "leis gerais", análogas, do feudalis-
implica uma considerável simplificação do pensamento de mo e, mesmo, da etapa escravista. Elas não foram bem su-
66 67

Marx e Engels, reduz as principais formações econômico- cedidas, segundo o entendimento geral, e mesmo as fórmulas
sociais a uma simples escada que todas as sociedades huma- finalmente sugeridas para compromisso parecem ser pouco
nas sobem, degrau por degrau, mas a diferentes velocidades, mais do que definições. Este fracasso quanto à descoberta de
de modo que todas, eventualmente, chegam ao cimo. Isto 64
"leis fundamentais" geralmente aceitáveis e aplicáveis ao feu-
tem algumas vantagens, do ponto de vista da política e da dalismo e à sociedade escravista não é, em si, sem significado.
diplomacia, porque elimina as distinções entre sociedades que A segunda tendência acompanha, em parte, a primeira
mostraram no passado maior e menor tendência interna a um e, em parte, entra em conflito com ela. Conduziu a uma revi-
rápido desenvolvimento histórico, e porque faz difícil a deter-
são formal da lista das formações econômico-sociais de Marx
minados países a alegação de que constituem exceções às leis
históricas gerais, mas não tem vantagens científicas óbvias,
65
ao omitir o "modo asiático", limitar o campo do "antigo"
também diferendo dos pontos de vista de Marx. Além disto, é mas, correspondentemente, ampliando o do "feudal". A omis-
são do "modo asiático" ocorreu, falando em sentido lato, en-
64 "Todos os povos p er c o r r e m pr a t ic am en t e o mesm o r o t e i r o . . . O tre o fim da década de 1920 e os últimos anos da de 1930:
desenvolvimento da sociedade verifica-se a tr a v é s de substituições deixou de ser mencionada por Stalin em MATERIALISMO
consecutivas, co nfo rme leis definidas, de u m a f o r m a çã o econômlco- HISTÓRICO E DIALÉTICO (1938), embora continuasse a ser
social por o u t r a " . O. K uusinne ed. FUNDAMENTALS OF M A RX I SM -
LENINISM (Londres, 1 9 6 1 ) , 153. usado por alguns marxistas — principalmente de língua in-
65 O medo de e n co r a j a r um "excepcionalismo as iá t ic o " e desenco -
r a j a r um a posição suficientemente firme de oposição à Influência 66 Quanto à discussão soviética dos primeiros ano s da década de
do imperialismo (ocidental) foi um forte, ou mesm o decisivo, elemen- 1950, cf. VOPROSI I ST OR H, 6, 1953; 2, 1954; 2, 4 e 5, 1955. A dis-
to no abandono do " mo do a si á ti co " de M a r x pelo movimento c o - cussão ocidental sobre a t ra nsiçã o do feudalismo, que em part e
munist a internacional , após 1930. Cf. discussões de Leningrado, em aborda te ma s similares, cf. T H E TRANSITION F R O M FEUDALISM
1931, como as reportou (tendencio sa me nte) K. A. Wittfogel em TO CAPITALISM, de P. M. Sweezy, M. H. Dobb, H. K. T ak ah ash i,
ASIATIC DESPOTISM ( 1 9 5 7 ) , 402-4. O Par tido Comunista Chinês, R. H. Hilton, C. Hlll (Londres, sem d a t a ) . T a m b é m G. Lefebvre, LA
independentemente, t i n h a tomado o mesmo roteiro alguns anos a n - PEN SÉ E, 65. 1956; G. Pr o cacci , SOCIETA, I, 1955.
tes. P a r a conhece r sua opinião, que parece muito padronizada e uni- 67 Cf Guenther & Schr ot, P RO BL È M E S T HÉ O RI Q UE S DE LA SO -
linear, cf. Mao T se -t un g , O BRA S ESCOLHIDAS, II I , 74-7. CIÉT É ESCLAVAGIST E in Recherches Internationales à la lumière
du marxisme (Paris ) 2, ma i o -j u nh o de 1957.
59
60
como uma categoria residual. Desde logo após a morte de Marx
glesa — até muito mais t ard e. Como a resistência à evolu-
68
houve tentativas para ver uma espécie de primitivo ou
ção histórica fosse o característico, para Marx, sua elimina- proto-feudalismo como primeira forma geral — ainda que
ção produziu um esquema mais simples que se presta mais não, necessariamente, de incidência universal — de socieda-
facilmente a interpretações universais e unilineares. Mas, de de classe, desenvolvendo-se da desintegração do comuna-
também, elimina o erro de considerar as sociedades orientais lismo primitivo. (Esta transição direta do primitivo comu-
73

como essencialmente "imutáveis" ou a-históricas. Foi obser- nalismo ao feudalismo foi, naturalmente, prevista por Marx
vado que "o que o próprio Marx disse da Índia não pode ser e Engels). Fora deste proto-feudalismo, sugere-se, as várias
aceito como está", embora, também, que "a base teórica (da outras formações se desenvolveram, inclusive o feudalismo
história da Índia) permanece marxista". A restrição do modo
69
avançado do tipo europeu (e japonês). Por outro lado, uma
"antigo" não apresentou maiores problemas políticos, nem reversão ao feudalismo por formações que, embora potencial-
(aparentemente) refletiu debates políticos. Foi devida, sim- mente menos progressistas, fossem mais desenvolvidas, na
plesmente, ao fracasso dos estudiosos em descobrir uma fase realidade — como a do Império Romano para os Reinos Tri-
escravista em toda a parte, e em considerar um modelo bem bais Teutônicos — sempre foi admitida. Owen Lattimore foi
simples de economia escravista que se tornara corrente (mui- tão longe que "sugeriu que pensássemos, experimentalmente,
to mais simples do que o do próprio Marx) , adequado mesmo em termos de feudalismo evolutivo e regressivo (ou retroa-
para as sociedades clássicas da antigüidade. A ciência sovié- 70
tivo)'" e, ainda, convidou-nos a ter em mente a possibilidade
tica oficial não está mais comprometida com um estágio uni- de uma feudalização temporária de sociedades tribais, em in-
versal de sociedade escravista. 71
teração com outras mais desenvolvidas. 74

O "feudalismo" ampliou seu âmbito, em parte, para pre-


O saldo destas várias tendências tem sido o de fizer cir-
encher a brecha deixada por estas alterações — nenhuma
cular uma ampla categoria de "feudalismo" que abrange con-
das sociedades afetadas pôde ser reclassificada como capita-
tinentes e milênios, incluindo desde os emiratos do norte da
lista ou foi reclassificada como comunal-primitiva ou "arcai-
Nigéria até a França de 1788, as tendências visíveis na socie-
c a " (como, lembremo-nos, Marx e Engels estavam inclinados
dade Azteca ao tempo da conquista espanhola e a Rússia Tza-
a fazer) e, parcialmente, à custa das sociedades até então
rista do século X I X . É plausível, na verdade, que todos estes
classificadas como comunais-primitivas e dos estágios iniciais
casos possam ser colocados sob uma classificação geral como
do desenvolvimento do capitalismo. Pois agora está claro que
esta e que isto tenha valor analítico. Ao mesmo tempo, é cla-
a diferenciação de classe em algumas sociedades, antes con-
ro que, sem boa dose de sub-classificações e análises de sub-ti-
sideradas, sem rigor, "tribais" (ex.: muitas zonas da
pos e fases históricas particulares, o conceito geral corre o ris-
África), tinha feito consideráveis progressos. No outro extre-
co de tornar-se não operacional. Várias destas sub-classifica-
mo da escala-de-tempo, a tendência para classificar todas às ções foram tentadas — por exemplo, "semi-feudal" — mas,
sociedades como "feudais", até que ocorresse uma formal "re-
por enquanto, o esclarecimento do feudalismo pelos marxistas
volução burguesa", ganhou terreno, principalmente na Grã-
não fez progressos apreciáveis.
Bretanha. Mas o "feudalismo" — não cresceu, simplesmente,
72

72 Cf. S T A T E AND REVOLUTION IN TUDOR AND ST UAR T EN-


68 E x . : E . M . S . Namboodiripad — T H E NATIONAL QUESTION IN GLAND, "Communist Review", julho de 1948. E st a opinião, e n tr e -
KERALA (Bombaim , 19 5 2) . tanto , sempre teve seus críticos, especialmente J . J . Kuczynskl
69 D . D . Ko sambl , — AN INTRODUCTION TO TH E STUDY OF I N- Geschichte d. Lage d. Arbeiter unter dem Kapitalismus, vol. 22,
DIAN HI STO RY (Bombaim , 1956), 11-12. cap. 1 - 2 ) .
70 Cf. Recherches Internationales, loc. cit., (1957) seleção de es- 73 Cf. Bogdanov , SHORT COURS E OF ECONOMIC SCIENCE, 1897,
tudos. revisado em 1919 (Londres, 19 7 2) , e em fo r ma mais elaborada, K.A.
Wittfogel, "Geschichte der bürgerlichen Gesellschaft (Viena, 1 924 ) .
71 E . Zhukov, T H E PERIODIZATION O F W ORL D H ISTOR Y, I n te r - 74 O. La tt imo re , FEUDALI SM IN H IST ORY , Past and Present, 12,
national Historica l Congress, Estocolmo , 1960: Relatório, I, 74-88. 1957.
especialmente 77.

62
61
A combinação das duas tendências citadas aqui produziu
uma ou duas dificuldades incidentais. Assim, o desejo de
classificar cada sociedade ou período, firmemente, em uma ou É demasiado cedo entretanto, para apresentar mais do que
outra das categorias aceitas deu como resultado disputas de- o registro do reinicio de tais debates.
marcatórias, como é natural quando se insiste em encaixar Podemos concluir que o estado atual da discussão marxis-
conceitos dinâmicos dentro de estáticos. Houve, deste modo, ta sobre o tema é insatisfatória. Muito disto deve-se ao desen-
muita discussão na China sobre a data da transição da es- volvimento histórico do movimento marxista internacional
cravidão ao feudalismo desde que "a luta foi de natureza na geração anterior a meados dos anos 1950, que teve, inega-
muito prolongada, cobrindo vários séculos. .. Modos de vida velmente, efeito negativo sobre o nível da investigação mar-
sociais e econômicos diversos coexistiram temporariamente xista neste e em muitos outros terrenos. A abordagem original
no amplo território da Ch in a ". No ocidente, dificuldade
75 de Marx do problema da evolução histórica foi, em certos as-
semelhante conduziu a debates sobre o caráter dos séculos pectos, simplificado e alterado, e não foram usados certos lem-
que vão do XIV ao XVIII. Estas discussões tiveram, ao me-
76 bretes da natureza profunda e complexa de seu método, como
nos, o mérito de levantar os problemas da mistura e coexis- a publicação das FORMEN, para a correção destas tendências.
tência de diferentes "formas" de relações sociais de produ- A lista original das formações econômico-sociais de Marx foi
ção, embora, por outro lado, não tenham interesse tão grande alterada, mas nenhum substituto satisfatório foi apresentado.
quanto outras discussões m arxistas. 77 Algumas das lacunas na discussão de Marx e Engels — bri-
Entretanto, recentemente e em parte sob o estímulo das lhante mas incompleta e tentativa — foram reveladas,e
FORMEN, as discussões marxistas mostraram uma bem-vin- preenchidas, mas algumas das partes mais fecundas de sua
da tendência a reviver e questionar várias opiniões que ti- análise, também, terminaram desaparecendo de nosso campo
nham sido aceitas nas últimas décadas. Esta revivescência visual.
parece ter começado, independentemente, numa porção de Isto é absolutamente lamentável porque os últimos trin-
países, socialistas e não-socialistas. Informe recente registra ta anos, aproximadamente, constituem, em muitos aspectos,
contribuições da França, República Democrática Alemã, Hun- um período de grandes êxitos da focalização marxista da his-
gria, Grã-Bretanha, Índia, Japão e E g i t o . Estas relacionam-
78 tória. Em verdade, um dos mais convincentes indícios da
se, em parte, com os problemas gerais da periodização históri- superioridade do método marxista é que, mesmo num período
ca, como eles são examinados no debate de MARXISMO TO- em que o marxismo criador foi, demasiadas vezes, abandona-
DAY em 1962, e parcialmente com os problemas e formações do à ossificação, o materialismo histórico, apesar de tudo,
econômico-sociais pré capitalistas específicas e, em parte, com inspirou grande volume de valiosos trabalhos históricos e in-
a contestada e agora reaberta questão do "modo asiático" . 79 fluenciou os historiadores não marxistas mais do que nunca,
maior razão, portanto, para que sejam empreendidas, hoje,
tão imprescindíveis investigações esclarecedoras dos pontos de
75 E. Zhukov, loc. cit., 78 vista marxistas sobre a evolução histórica e em especial, sobre
76 T H E TRANSITION FRO M FEUDALISM TO CAPITALISM, loc. cit. as principais etapas do desenvolvimento. Um cuidadoso
77 Cf. ZUR PE R IO D IS IE R UN G DE S FEUD A LI SM U S UND K A P I T A - estudo das FORMEN — que não implica a aceitação au-
LISMUS IN DE R GESCHICHTLICHE N E N T W I CK L UN G DER U.S.S.R., tomática das conclusões de Marx — será de grande valia para
Berlim, 1952
este objetivo e, de fato, uma indispensável parte dele.
78 ASIATICUS, IL MODO Dl PRODUZIONE ASIÁTICO (Rinascita,
Ro m a 5 de outubro de 1963, 1 4 ) . E. J. Hobsbawm
79 Recherches Internationales 37 ( m a io - j un h o 1963) que se ocupa
do feudalismo, co n té m alg uma s importantes contribuições polêmicas.
Sobre a sociedade a nti ga , cf. os de batt s e ntr e Welskopf (DIE P R O - S c h r o t (ZTSCHR F. GESCHICHTSWISSENSCHAFT, 1957 e W I S -
DUKTIONSVERHAL TNISSE IM ALTEN O RI EN T UND IN H E R SENSCH. ZTSCHR. d. KARL- MARK- UNIV. , Leipzlg 1 9 6 3 ) ; p ar a a s o-
GRIECH ISCH-ROMISCHE N i J J T T K E , Berlim, 1957) e Guenther e ciedade oriental , F. Tõkel, SUR LE MODE DE PRODUCTION ASIATI-
QUE, Paris , Centro de Estudos e Pesquisas Marxi st as , 1964. Mimeo-
grafad o.
63
64
os outros são proprietários independentes que coexistem com
o indivíduo, proprietários privados independentes. Neste úl-
timo caso a propriedade comum que, anteriormente, a tudo
absorvia e a todos compreendia, subsiste, então, como uma
FORMAÇÕES ECONÔMICAS PRÉ-CAPITALISTAS especial ager publicus (terra comum), ao lado dos numerosos
proprietários fundiários privados.
I * Em ambos os casos, os indivíduos comportam-se não como
trabalhadores, mas como proprietários — e membros de uma
comunidade em que trabalham. A finalidade deste trabalho
não é a criação de valor, embora eles possam realizar traba-
lho excedente de modo a trocá-lo por trabalho estrangeiro ao
grupo, isto é, por produtos excedentes alheios. Seu propósito
é a manutenção do proprietário individual e sua família, bem
* Um dos pressupostos do trabalho assalariado e uma das como da comunidade como um todo. A posição do indivíduo
condições históricas do capital é o trabalho livre e a troca de como trabalhador, em sua nudez, é propriamente um produto
trabalho livre por dinheiro, com o objetivo de reproduzir o histórico.
dinheiro e valorizá-lo; de o trabalho ser consumido pelo di- * O primeiro pressuposto desta forma inicial da proprieda-
nheiro — não como valor de uso para o desfrute, mas como de da terra é uma comunidade humana, tal como surge a
valor de uso para o dinheiro. Outro pressuposto é a separação partir da evolução espontânea (naturwüchsig): a família,
do trabalho livre das condições objetivas de sua efetivação — a tribo formada pela ampliação da família ou pelos casamen-
dos meios e do material do trabalho. Isto significa, acima de tos entre famílias, e combinações de tribos. Pode-se consi-
tudo, que o trabalhador deve ser separado da terra enquanto derar como certo que o pastoreio ou, dito de forma mais
seu laboratório natural — significa a dissolução tanto da pe- geral, a vida nômade é a p r i m e i r a forma de sobrevivência,
quena propriedade livre como da propriedade comunal da na qual a tribo não se estabelece em lugar fixo, aproveitan-
terra assentada sobre a comuna oriental. do, antes, o que encontra no local e logo indo adiante. Os ho-
Nestas duas formas, o relacionamento do trabalhador mens não foram fixados pela natureza (salvo, talvez, em
com as condições objetivas de seu trabalho é o de propriedade: certos ambientes tão férteis que pudessem subsistir com base
esta constitui a unidade natural do trabalho com seus pressu- em uma simples árvore, como os macacos; fora disto, eles
postos materiais. Por isto, o trabalhador tem uma existência teriam de mover-se, como os animais selvagens). Portanto, a
objetiva, independentemente de seu trabalho. O indivíduo re- comunidade tribal, o grupo natural, não surge como conse-
laciona-se consigo mesmo como proprietário, como senhor das qüência, mas como a condição prévia da apropriação e uso
ocndições de sua realidade. A mesma relação vigora entre o conjuntos, temporários, do solo.
indivíduo e os demais. Quando esse pressuposto deriva da Quando os homens, finalmente, se fixam, a maneira
comunidade, os outros são, para ele, seus co-proprietários, como esta comunidade original se modifica vai depender
encarnações da propriedade comum; quando deriva das famí- de várias condições externas — climáticas, geográficas, fí-
lias específicas que em conjunto constituem a comunidade, sicas e t c , bem como de sua constituição específica, isto é, de
seu caráter tribal. A comunidade tribal espontânea ou, se
65 preferimos dizer, a horda (laços comuns de sangue, língua,
costumes, etc) constitui o primeiro passo para a apropriação
das condições objetivas de vida, bem como da atividade que a
reproduz e lhe dá expressão material, tornando-a objetiva
(vergegenstandlichenden) (atividade de pastores, caçadores,

66
agricultores, etc.) A terra é o grande laboratório, o arsenal binação de manufatura e agricultura dentro da pequena co-
que proporciona tanto os meios e objetos do trabalho como a munidade que, assim, faz-se completamente auto-suficiente,
localização, a base da comunidade. As relações do homem em si mesma contendo todas as condições de produção e de
com a terra são ingênuas: eles se consideram como seus produção de excedentes.
proprietários comunais, ou sejam membros de uma comuni- Parte de seu excedente de trabalho pertence à comunida-
dade que se produz e reproduz pelo trabalho vivo. Somente de mais elevada que, por fim, assume a forma de uma pessoa.
na medida em que o indivíduo for membro de uma comuni- Este trabalho excedente se realiza ao mesmo tempo como tri-
dade como esta — literal e figuradamente — é que se consi- buto e trabalho comum para a glória da unidade, destinada
derará um proprietário ou possessor. * Na realidade, a apro- em parte para o déspota e em parte para a divindade tribal,
priação pelo processo de trabalho dá-se sob estas pré-condições imaginária. Na medida em que este tipo de proprie-
que não são produto do trabalho, mas parecem ser seus pres- dade comum é efetivado, na realidade, no trabalho,
supostos naturais ou divinos. pode aparecer de dois modos. Ou as pequenas comu-
A forma desta apropriação poderá se realizar de manei- nidades vegetam lado a lado, e em cada uma delas
ras diversas, embora a relação básica se mantenha a mesma. o indivíduo trabalhará, independentemente, com sua fa-
No caso, por exemplo, da maioria das formas asiáticas funda- mília a terra que lhe foi confiada. (Haverá, também, certo mon-
mentais, ela é compatível com o fato de que "unidade geral tante de trabalho para a reserva comum — para segurança,
mais abrangente", situada acima dos corpos comuns apareça poderia dizer-se — por um lado; e por outro, para pagar os
como o proprietário único ou superior, enquanto as comuni- custos da comunidade, tais como os das guerras, dos serviços
dades reais se constituem apenas em possuidoras hereditárias. religiosos, etc. O domínio dos senhores, num sentido o mais
Como a unidade é o proprietário efetivo e, ao mesmo tempo, primitivo, surge somente nesta fase, por exemplo, nas comu-
pré-condição real da propriedade comum, torna-se perfeita- nidades Romenas e Eslavas e aí se dá a transição para a servi-
mente possível que apareça como algo separado, superior às dão, e t c ) . No 2.° caso, a unidade pode envolver uma orga-
numerosas comunidades particulares reais. O indivíduo é, nização comum do trabalho tal, que se constitui num verda-
então, na verdade, um não-proprietário. A propriedade — ou deiro sistema, como no México e, especialmente, no Peru, en-
seja, a relação do indivíduo com as condições naturais de tra- tre os antigos Celtas e algumas tribos da Índia. Além disto,
balho e reprodução, a natureza inorgânica que ele descobre e pode haver uma tendência a surgir a comunalidade dentro
faz sua, o corpo objetivo de sua subjetividade — aparece como do corpo tribal, seja como uma representação de sua unidade,
cessão (Ablassen) da unidade global ao indivíduo, através da através do chefe do grupo tribal consanguíneo, ou como um
mediação exercida pela comunidade particular. O déspota relacionamento entre os chefes de famílias. Daí poder ocorrer
surge, aqui, como o pai das numerosas comunidades menores, uma forma mais despótica ou mais democrática de comuni-
realizando, assim, a unidade comum de todas elas. Conclui-se, dade. As condições comunais de apropriação real através do
portanto, que o produto excedente (determinado, incidental- trabalho, como os sistemas de irrigação (importantíssimos
mente, de forma legal, mediante [infolge] a apropriação efe- entre os povos asiáticos), meios de comunicação, e t c , surgi-
tiva pelo trabalho) pertencerá à unidade suprema. O despo- rão, assim, como obras da unidade superior — o governo des-
tismo oriental aparentemente leva a uma ausência legal de pótico que se impõe às comunidades menores. As cidades,
propriedade. Mas, de fato, seu fundamento é a propriedade propriamente ditas, surgem ao lado destas aldeias apenas
tribal ou comum criada, na maioria dos casos, por uma com- naqueles pontos de localização particularmente favorável ao
comércio exterior ou onde o chefe de Estado e seus sátrapas
(*) Nesta frase do te x t o inglês, e no utra s posteriores, há expressa trocam suas receitas (o produto excedente) p or trabalho,
distinção entr e " o w n e r " e "possessor", r azã o por que reservaremo s
par a o primeiro a t r a d u çã o "pr o pr iet ár io " e p a r a o segundo a p a l a - receitas essas que gastavam como fundo-de-trabalho.
vra idêntica "possessor" que Caldas Aulete registra com o signifi- * A segunda forma (de propriedade) deu, como a primeira,
cado de "possuidor". NT. origem a alterações substanciais, históricas, locais, etc. É pro-

67 68
duto de vida histórica mais dinâmica (bewegten), do destino
e da transformação das tribos originais. A comunidade é, aqui Na medida em que se acentua a atuação destes fatores,
também, a condição prévia mas, diferentemente de nosso pri- e quanto mais cresce a tendência de se definir o caráter
meiro caso, não mais constitui a substância da qual os indi- comunal da tribo — enquanto unidade negativa contra o
víduos são simples acidentes (Akzidenzen) ou meros compo- mundo exterior — mais se impõem as condições que permi-
nentes naturais espontâneos. A base, aqui, não é a terra mas tirão ao indivíduo tornar-se proprietário privado de um lote
a cidade, núcleo já estabelecido (centro) da população rural definido de terra, cujo cultivo corresponderá somente a ele
(proprietários de terras). A área cultivada é território da ci- e à sua família.
dade, enquanto, no outro caso, a aldeia era simples apêndice A comunidade — como um estado — passa a ser, por um
da terra. Por maiores que sejam os obstáculos que a terra pos- lado, a relação recíproca entre estes proprietários privados
sa opor aos que a trabalham e dela realmente se apropriam, livres e iguais, sua aliança contra o mundo exterior — e, ao
não é difícil estabelecer uma relação com ela, enquanto natu- mesmo tempo, sua garantia. A comunidade baseia-se, aí, no
reza inorgânica do indivíduo vivo, como sua oficina, meio fato de seus membros serem trabalhadores proprietários, pe-
de trabalho, objeto de trabalho e meio de subsistência do su- quenos camponeses que cultivam terra; mas, igualmente, a
jeito. As dificuldades encontradas pela comunidade organi- independência destes consiste em seu mútuo relacionamento
zada poderão originar-se, apenas, de outras comunidades que como integrantes da comunidade, na defesa do ager publicus
já tenham ocupado anteriormente a terra ou que perturbem (terra comum) para as necessidades comuns, para a glória
a comunidade em sua ocupação do solo. A guerra é, por- comum, etc. Ser membro da comunidade continua sendo con-
tanto, a grande tarefa que a todos compete, o grande dição prévia para a apropriação da terra mas, na qualidade de
trabalho comunal, e se faz necessária, seja para a ocupação membro da comunidade, o indivíduo é um proprietário privado.
das condições objetivas da existência, seja para a proteção e Sua relação com sua propriedade privada é ao mesmo tempo
perpetuação de tal ocupação. A comunidade integrada por uma relação com a terra e com sua existência enquanto mem-
grupos de parentesco, é, pois, em primeira instância, organi- bro da comunidade — sua manutenção como membro da co-
zada militarmente como força guerreira militar, e esta é uma munidade significa a manutenção da própria comunidade e
das condições de sua existência como proprietária. A concen- vice-versa, etc. Como a comunidade — que não é, aqui, mera-
tração de moradias na cidade é a base desta organização bé- mente um produto "de facto" da história, mas, algo de que os
lica. A natureza da estrutura tribal conduz à diferenciação de homens têm consciência como tal — tem portanto, uma ori-
grupos de parentesco superiores e inferiores e esta diferencia- gem, temos a condição prévia da propriedade da terra, vale
ção social se desenvolve ainda mais pela mistura das tribos dizer, da relação entre o sujeito que trabalha com as condi-
conquistadoras e conquistadas etc. A terra comum — como ções naturais de seu trabalho como algo que lhe pertence.
propriedade estatal, ager publicus — se separa, aqui, da pro- Mas este "pertencer" é mediado por sua existência como mem-
priedade privada. A propriedade do indivíduo, diversamente de bro do Estado, pela existência do Estado — portanto, por
nosso primeiro caso, não é mais a propriedade comunal direta, uma condição prévia encarada como divina, etc. Há uma con- 1

em que o indivíduo não é um proprietário, quando isolado da centração na cidade, com a terra como território seu; a agri-
comunidade, mas apenas seu ocupante. Nas circunstâncias cultura em pequena escala, produzindo para o consumo ime-
em que a propriedade individual não exige trabalho comunal diato; e a manufatura, como trabalho subsidiário, doméstico,
para valorizar-se (como exige, por exemplo, com os sistemas de das esposas e filhas (fiando e tecendo) ou alcançando exis-
irrigação do Oriente), o caráter primitivo da tribo pode desa- tência independente em umas poucas ocupações artesanais
parecer pela própria dinâmica da história ou por migração; a
tribo pode mudar-se de seu local de fixação original e ocupar 1 U m a tr aduçã o alte rnati v a poderia ser; " U m a vez que a comuni -
solo estrangeiro, passando a viver sob novas condições de tra- d a d e . . . origem (e é assim) aqui a pré-condição este pertence r
é e ntr et an to , intermediado p o r . . . " O hábito de M ar x , ocasionalmen -
balho e desenvolvendo mais as energias dos indivíduos. te, omitir verbos auxiliares t or n a impossível i nter pre tar , sempre,
sem ambigüidade o que quer dizer.
69
70
(fabri, etc.). O pré-requisito para a continuação da existência
terras se configura como tal, apenas, em virtude de sua con-
da comunidade é a manutenção da igualdade entre seus cam-
dição de romano, mas qualquer romano é, também, um pro-
poneses livres auto-suficientes, e de seu trabalho individual co-
prietário privado de terras.
mo condição da persistência de sua propriedade. Suas rela-
Outra forma de propriedade dos indivíduos que traba-
ções com as condições naturais de trabalho são as de proprie-
lham, membros auto-suficientes da comunidade, em condições
tários; mas o trabalho pessoal tem de estabelecer, continua- naturais de trabalho, é a Germânica. Nesta, o membro da co-
mente, tais condições como condições reais e elementos obje- munidade como tal não é, como na forma especificamente ori-
tivos da personalidade do indivíduo, de seu trabalho pessoal. ental, co-proprietário da propriedade comunal. (Quando a pro-
Por outro lado, a tendência desta pequena comunidade mili- priedade existe apenas como propriedade comunal, o membro
tar leva-a além de tais limites etc. (Roma, Grécia, Judeus, etc.) individual é, como tal, apenas possuidor de uma parte deter-
Como afirma Niebuhr: "Quando os augúrios confirmaram a minada da mesma, hereditariamente ou não, pois nenhuma
Numa a aprovação divina de sua eleição, a primeira preocupa- fração da propriedade pertence ao indivíduo por si mesmo,
ção do piedoso monarca não foi a de adorar os deuses e sim mas, somente, enquanto parte da comunidade e, conseqüente-
outra, bem mais humana. Distribuiu a terra conquistada mente, como alguém em união direta com a comunidade e não
em guerras por Rômulo, permitiu que a ocupassem e esta- dela separado. Daí ser o indivíduo apenas um possuidor. O que
beleceu o culto de Terminus (o deus dos marcos de frontei- existe é apenas a propriedade comunal e a posse privada.
ras). Todos os antigos legisladores, sobretudo Moisés, ba- Circunstâncias históricas, locais, e t c , podem modificar o ca-
searam o sucesso de suas determinações em prol da ráter desta posse, em suas relações com a propriedade comu-
virtude, justiça, e moral (Sitte) na propriedade da nal de muitos modos diversos, conforme seja o trabalho reali-
terra ou, pelo menos, na garantia da posse hereditária da zado isoladamente pelo possuidor privado ou determinado
3

terra, para o maior número possível de cidadãos" (HISTÓ- pela comunidade ou pela unidade que paira sobre as comuni-
RIA ROMANA, vol. I, pág. 245, 2. ed.). O indivíduo é colo-
a
dades particulares). A terra (na comunidade germânica —
cado em condições tais de ganhar sua vida que seu objetivo E. H.) também não é ocupada pela comunidade, como na
não será aquisição de riqueza mas sim a auto-subsistência, sua forma greco-romana (ou, em síntese, na forma antiga clássi-
própria reprodução como um membro da comunidade; como ca) era a terra de Roma. (Na antigüidade clássica — E. H.),
um proprietário de parte do solo e, nesta qualidade, como parte da terra permanece em poder da comunidade, como tal,
membro da co mu n a. A sobrevivência da comuna é a
2
separada da dos membros, sob a forma de ager publicus
reprodução de seus componentes como camponeses auto- (terra comum) em suas várias formas. O remanescente é dis-
suficientes, cujo tempo excedente pertence, precisamente, à tribuído e cada gleba é romana em virtude de ser propriedade
comuna, para a guerra, etc. A propriedade do trabalho é me- privada, domínio, de um cidadão romano, parcela do labora-
diada pela propriedade das condições de trabalho — a tório que lhe pertence; reciprocamente, o indivíduo é romano
gleba, que por sua vez está garantida pela existência só na medida em que possui este direito soberano sobre parte
da comunidade, protegida esta pelo trabalho excedente de do solo romano. 4

seus membros, sob a forma de serviço militar, etc. O membro [Na antigüidade os ofícios e o comércio urbanos eram pou-
da comunidade se reproduz, não através da cooperação em co valorizados, ao contrário da agricultura; na Idade Média a
trabalho produtor de riqueza, mas cooperando em trabalhos situação se inverteu.]
para os interesses comunais (reais ou imaginários) destina-
dos à manutenção da união face a pressões externas ou 3 Isto pode ser lido como "iso ladamente d o " ou "isoladament e pelo".
internas (nach aussen und innen). A propriedade pertence, A segunda f o rma é preferida porque t e m mais sentido, dentr o do
formalmente, ao cidadão romano, o proprietário privado de contexto.
4 As seguintes passag en s entre colchetes, de ["Na antigüidade os
ofícios e o comércio u r b a n o s " . . . a t é . . . " co ns ti t uí r a m um c lã " ] f o -
2 E st a sentença está em inglês no original. r a m citadas por M a r x da ROMAN H I S T O R Y de Niebuhr, 1,418,436,
614,615,317-19,328-31,333,335.
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72
ocupação exclusiva e imutável. As tribus territoriais corres-
[O direito de uso da terra comum mediante a posse da
ponderam, originalmente, à divisão de uma região em dis-
mesma pertencia, originalmente, aos Patrícios que, mais tar-
tritos (Gaue) e aldeias; na Ática, sob Clístenes, qualquer ho-
de, concederam-no a seus clientes; a concessão de propriedade
mem estabelecido numa aldeia era registrado como um De-
sobre o ager publicus era um direito exclusivo dos plebeus;
motes (aldeão) desta aldeia e como um membro da Phyle
todas as concessões em favor dos plebeus e compensação
(tribo) da área a que a aldeia pertencia. Em regra, seus des-
por uma participação na terra comum. A propriedade da ter-
cendentes, independentemente do local de domicílio, perma-
ra, no senso estrito, excetuando a zona que circundava os mu-
neciam na mesma Phyle e na mesma Deme, de maneira que
ros da cidade, estava, originalmente, apenas nas mãos dos
esta divisão chegava a adquirir aspecto de estirpe. Os grupos
plebeus (formando comunidades rurais depois absorvidas).]
romanos de parentesco (gentes) não eram constituídos por
[Essência da Plebe Romana, como totalidade de agri- parentes consangüíneos; Cícero, quando se refere ao nome
cultores, como é descrita na sua propriedade quiritária (de familiar, salienta que descende de homens livres. Os membros
cidadãos). Os antigos, unanimemente, consideravam o tra- da gens romana tinham altares comuns (sacra), mas esta
balho da terra como atividade própria de homens livres, uma prática já desaparecera ao tempo de Cícero. A herança conjun-
escola de soldados. Com ela se preserva a antiga estirpe nacio- ta dos membros do grupo que morressem sem testamento e
nal , que se transforma nas cidades, onde se estabelecem mer-
5
sem parentes próximos era conservada por mais tempo que. as
cadores e artesãos estrangeiros à medida que os nativos emi- demais. Em épocas mais remotas os membros da gens tinham a
gram atraídos pela esperança de maiores riquezas. De qual- obrigação de ajudar parentes necessitados a suportar sobre-
quer modo, onde há escravidão, os libertos buscam sua subsis- cargas inusitadas. (Isto se dava universalmente, entre os
tência em tais atividades, muitas vezes acumulando riqueza: germânicos, persistindo por mais tempo entre os "Dithmar-
por isto, na antigüidade estas atividades estavam, geralmente, schen".) As "gentes" eram uma espécie de guilda. Não exis-
6

nas mãos deles e, portanto, eram consideradas impróprias tia, no mundo antigo, uma organização mais geral do que a
para os cidadãos; daí a opinião de que a admissão dos arte- dos grupos de parentesco. Assim, entre os gaélicos, os aristo-
sãos à cidadania plena seria procedimento arriscado (os gre- cráticos Campbells e seus vassalos constituem um clã.] Como
gos, em regra, os excluíam dela). "A nenhum romano era os Patrícios representassem a comunidade em seu mais alto
permitido levar a vida de um pequeno comerciante ou nível, eram os possuidores do ager publicus, usando-a por in-
artesão." Os antigos não tinham uma concepção de orgulhe termédio de seus clientes etc. (também, gradualmente, apro-
ou dignidade de guilda, como na história urbana medieval; priavam-se dela).
e, mesmo aí, o espírito militar declinou, na medida em que
as corporações superaram as linhagens (aristocráticas) e, A comunidade germânica não se concentrava na cidade;
finalmente, extinguiu-se; o mesmo ocorrendo com o respeito uma concentração — a cidade é o centro da vida rural, domi-
que os estranhos tinham pela cidade, bem como sua liber- cílio dos trabalhadores da terra e, também, núcleo das ati-
dade.] vidades guerreiras — que desse à comunidade, como tal, uma
existência exterior diferenciada da de seus membros indivi-
[As tribos (Stamme) dos antigos Estados constituíam-se duais. A história antiga clássica é a história das cidades, po-
de dois modos: por parentesco ou por localização geográfica. rém de cidades baseadas na propriedade da terra e na agri-
Historicamente, as tribos formadas por parentesco pre- cultura; a história asiática é uma espécie de unidade indife-
cederam as de base territorial sendo por estas substituídas, em renciada de cidade e campo (a grande cidade, propriamente
quase toda parte. Sua forma mais extrema e rígida está repre- dita, deve ser considerada como um acampamento dos prínci-
sentada pela instituição de castas, separadas uma das ou- pes, superposto à verdadeira estrutura econômica); a Idade
tras, sem direito a casamentos entre seus membros, com Média (período germânico) começa com o campo como cenário
"status" totalmente diversos, dedicando-se cada qual a uma
6 Ditmarsos — h abi ta nte s de uma região de Schleswig — Holstein.
5 A palav ra Stamm ta mbé m pode significar " tr ib o " NT.

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vidual e constitui propriedade apenas na medida em que, na
da história, cujo ulterior desenvolvimento ocorre, então, atra-
vés da oposição entre cidade e campo; a (história) moderna qualidade de propriedade comum da tribo, é defendida
consiste na urbanização do campo e não, como entre os anti- contra tribos hostis. A propriedade do indivíduo não está me-
gos, na ruralização da cidade. diada pela comunidade, mas a existência mesma da comuni-
* A concentração na cidade proporciona à comunidade como
7 dade e da propriedade comunal é que é da média pelos
tal a existência econômica; a mera presença da cidade é, em membros independentes — isto é por suas relações mútuas.
si mesma, algo diferente da simples multiplicidade de casas No fundo, cada família possui uma economia completa,
separadas. Neste caso, o todo não consiste apenas na reunião constituindo, realmente, um centro independente de produ-
de suas partes isoladas: é uma forma de organismo indepen- ção (onde a manufatura é apenas uma espécie de trabalho
dente. Entre os germânicos, cujos chefes de família estabele- doméstico subsidiário, realizado pelas mulheres, e t c ) . Na an-
ciam-se nas florestas, isolados e separados uns dos outros por tigüidade clássica a cidade com seu território anexo cons-
distâncias consideráveis, a comunidade existia, mesmo do tituía o todo econômico, mas, no mundo germânico, este todo
ponto de vista externo, somente em virtude dos atos de união será o lar individual, que se destaca apenas como um ponto
dos seus membros, embora sua unidade, existente por si na terra que lhe corresponde. Não existe concentração de
mesma, fosse corporalizada (gesetzt) na descendência, na lin- grande número de proprietários e a família é que atua co-
guagem , no passado e história comuns, etc. A comunidade, mo unidade independente. Na forma asiática (predominante-
portanto, se manifesta como uma associação, não como uma mente, pelo menos) não há propriedade, apenas posse indi-
união, ou seja: como um acordo (Einigung) cujos sujeitos vidual; o proprietário real é, de fato, a comunidade mesma
independentes são os proprietários de terras, e não como uma — por isto, há propriedade apenas como propriedade comu-
unidade. Portanto, a comunidade não existe, de fato, como nal da terra. Na antigüidade (da qual os romanos são o
um Estado, uma entidade política, à maneira dos antigos, exemplo clássico, pois, com eles este fenômeno adquire sua
porque não tem existência como cidade. Para a comunidade forma mais pura e evidenciada) ocorre uma forma contradi-
adquirir existência real, os livres donos de terras devem pro- tória de propriedade estatal e de propriedade privada da
mover uma assembléia enquanto em Roma, por exemplo, ela terra, de modo que ou a última está mediada pela primeira,
existe independentemente de tais assembléias, pela presença ou a primeira existe somente nesta dupla forma. O proprie-
da cidade em si e dos seus funcionários investidos em autori- tário privado da terra é, portanto, simultaneamente, um
dade, etc. cidadão urbano. Economicamente, a cidadania pode se ex-
Na verdade, o ager publicus, a terra comum ou terra do pressar simplesmente como uma forma na qual os agriculto-
povo, também existia entre os germanos como forma distinta res vivem na cidade. Na forma germânica o agricultor não é
da propriedade individual. Consistia em territórios de caça, um cidadão, vale dizer, não é um habitante da cidade, e sua
pastagens comuns ou florestas, ets., aquela parte da terra base é o estabelecimento familiar isolado, independente,
que não podia ser repartida por destinar-se a ser meio de pro- garantido pela associação com outros estabelecimentos seme-
dução nesta forma específica. Entretanto, diversamente do lhantes de homens da mesma tribo e por sua reunião
caso romano, o ager publicus não se apresenta como um bem ocasional para finalidades bélicas, religiosas, solução de dis-
econômico especial do Estado, paralelo ao dos proprietários putas legais, e t c , — que constituem a base da segurança
privados — que são, na verdade, proprietários privados somen- recíproca. A propriedade individual da terra não surge, aqui,
te na medida em que excluídos ou privados do uso do ager como uma forma contraditória da propriedade comunal, nem
publicus, como os plebeus. O ager publicus, entre os germa- como intermediada pela comunidade. Pelo contrário, a comu-
nos, tem um caráter de mero suplemento da propriedade indi- nidade existe apenas nas relações mútuas dos donos indivi-
duais da terra, como tais. A propriedade comunal só aparece
7 Aqui com eç a um novo caderno de notas do manuscrito de M a r x . num plano secundário, face às apropriações privadas da
intitulado " Ca de r n o de Notas V. Capítulo do Capital. C o n t i n ua çã o " terra e aos estabelecimentos individuais, baseados no
com da ta de janeir o de 1958, Lo ndres (co meçado a 22 de J a n e i r o ) .

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e não surge como simples conseqüência dela, sendo tanto uma
parentesco. A comunidade não é nem a substância, da qual pré-condição de sua atividade, como é sua própria pele, como
o indivíduo aparece como simples acidente, nem é a entidade são os seus órgãos sensoriais, pois toda a pele, e todos os
geral, que existe tanto na representação na mente dos homens órgãos dos sentidos são, também, desenvolvidos, reproduzidos,
quanto na realidade da cidade e suas exigências urbanas, e t c , no processo da vida, quanto pressupostos deste processo
diferenciada do existir econômico separado de seus membros. de reprodução. A mediação imediata desta atitude é a exis-
A premissa da existência do proprietário individual é, por um tência do indivíduo — mais ou menos naturalmente evoluída,
lado, o elemento comum da língua e do sangue e t c ; mas, por mais ou menos historicamente desenvolvida e modificada —
outro, a comunidade só tem existência real na união efetiva como membro de uma comunidade; isto é, sua existência natu-
para fins comunitários; e, na medida em que a comunidade ral como parte de uma tribo, etc.
tem existência econômica independente, nos prados, bosques Um indivíduo isolado, do mesmo modo que não poderia
de caça, comuns, e t c , é utilizada por cada proprietário in- falar, não poderia ser proprietário do solo. Quando muito po-
dividual como tal e não em seu caráter de representante do deria viver dele, como uma fonte de suprimentos, como vi-
Estado, como sucedia em Roma. Trata-se, genuinamente, de vem os animais. A relação com a terra, como propriedade,
propriedade comum de proprietários individuais, não de uma nasce da sua ocupação, pacífica ou violenta, pela tribo, pela
associação de proprietários com existência própria na cidade, comunidade em forma mais ou menos primitiva ou já histori-
diversa da dos membros individuais. camente desenvolvida. O indivíduo, aqui, nunca pode apare-
cer no completo isolamento do simples trabalhador livre. To-
* O ponto chave sobre a questão é: em todas estas formas, mando como pressuposto que lhe pertencem as condições ob-
nas quais a propriedade da terra e a agricultura constituem objetivas de seu trabalho, deve-se também pressupor que o
a base da ordem econômica e, conseqüentemente, o objetivo indivíduo pertença subjetivamente a uma comunidade que
econômico é a produção de valores de uso, isto é, a reprodu- serve de mediação de sua relação com as condições objetivas
ção dos indivíduos em determinadas relações com sua comu- de seu trabalho. Reciprocamente, a existência efetiva da co-
nidade, da qual constituem a base, encontramos os seguintes munidade é determinada pela forma específica da sua pro-
elementos: priedade, mediada por sua existência numa comunidade, pode
mostrar-se como propriedade comunal, que somente dê ao
1. Apropriação das condições naturais de trabalho: da indivíduo a posse e não a propriedade privada do solo; ou,
terra como o instrumento original de trabalho, ao mesmo tem- ainda, sob a forma dual de propriedade estatal e privada,
po laboratório e reservatório de matérias primas; entretanto, concomitantemente, mas de tal modo que a primeira seja
apropriação que se efetua não por meio do trabalho, mas um pressuposto da segunda, e, conseqüentemente, apenas o
como condição preliminar do trabalho. O indivíduo, simples- cidadão seja e deva ser um proprietário privado enquanto,
mente, considera as condições objetivas de trabalho como por outro lado, sua propriedade em função da cidadania tam-
próprias, como a natureza inorgânica de sua subjetividade, bém tenha uma existência autônoma. Por último, a proprie-
que se realiza através delas. A principal condição objetiva de dade comunal pode mostrar-se, meramente, como um suple-
trabalho, em si, não se mostra como o produto do trabalho mento da propriedade privada que, no caso, constitua a base;
mas ocorre como natureza. De um lado, temos o indivíduo nestas circunstâncias, a comunidade não terá existência, salvo
vivo, do outro a terra como a condição objetiva de sua re- na assembléia de seus membros e em sua associação para pro-
produção. pósitos comuns.

2. A atitude em relação à terra, à terra como proprie- Estas diversas formas de relacionamento dos membros
dade do indivíduo que trabalha, significa que o homem mos- da comunidade tribal com a terra tribal, isto é, com a ter-
tra-se, desde o princípio, como algo mais do que a abstração ra sobre a qual a comunidade está estabelecida, dependem,
do "indivíduo que trabalha", tendo um modo objetivo de exis- em parte, do caráter natural (Naturanlagen) da tribo e, em
tência na propriedade da terra, que antecede sua atividade
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Ti
parte, das condições econômicas em que a mesma exerce, a base e aparentavam ser meras extensões inofensivas dela,
de fato, a propriedade da terra, isto é, apropria-se dos seus ou excessos derivados da mesma. Podem verificar-se consi-
frutos por meio do trabalho. E isto, por sua vez, de- deráveis desenvolvimentos, assim, dentro dum âmbito deter-
penderá do clima, das características físicas do solo, do minado. Os indivíduos podem parecer grandes (notáveis).
Mas o livre e pleno desenvolvimento do indivíduo ou da socie-
condicionamento físico de sua utilização, do relacionamento
dade é inconcebível, porque tal evolução entra em contradição
com tribos hostis ou vizinhas, e das modificações introduzi-
com o relacionamento original.
das pelas migrações, acontecimentos históricos, etc. Para a
* Entre os antigos não encontramos uma única inves-
comunidade continuar sendo como antigamente, será neces-
tigação a propósito de qual a forma de propriedade, e t c ,
sária a reprodução de seus membros sob as condições objeti-
que seria a mais produtiva, que geraria o máximo de rique-
vas já pressupostas. A produção em si, o crescimento da po-
za. A riqueza não constituía o objetivo da produção, embora
pulação (também se enquadra sob o título de produção), com Catão pudesse ter investigado os mais lucrativos métodos de
o tempo eliminarão, necessariamente, estas condições, des- cultivo, ou Brutus pudesse, até, ter emprestado dinheiro à
truindo-as em vez de reproduzi-las, etc, e quando isto ocorrer taxa mais favorável de juros. A pesquisa, sempre, era sobre
a comunidade entrará em decadência e morrerá, juntamente qual o tipo de propriedade que geraria os melhores cidadãos.
com as relações de propriedade sobre as quais se baseava. A riqueza, como um fim em si, surgiu somente entre uns
A forma asiática necessariamente sobrevive por mais poucos povos comerciantes — monopolizadores do comércio
tempo e com mais tenacidade. Isto é devido ao princípio em do transporte — que viveram nas franjas do mundo antigo,
que se fundamenta, qual seja o de que os indivíduos não se como os judeus na sociedade medieval. A riqueza, por um
tornem independentes da comunidade, que o círculo de pro- lado, era um objeto materializado em objetos, em produtos
dução seja auto-sustentado e haja unidade da agricultura materiais, de certa forma contraposta ao homem, como um
com a manufatura artesanal, etc. Se o indivíduo alterar sua sujeito. Por outro lado, na qualidade de valor, se constituía
relação com a comunidade, modificará e minará tanto a co- simplesmente no direito de comandar o trabalho de outras
munidade quanto suas premissa econômica; por outro lado, pessoas, não com propósitos de domínio mas de prazer pes-
a modificação desta premissa econômica — produzida por sua soal, etc. Em todas as suas formas, mostrava-se sob a forma
própria dialética, a pauperização, etc. Observe-se, especial- de objetos, seja de coisas ou de relações por meio de coisas,
mente, a influência da guerra e da conquista. Embora, por que se situam fora do indivíduo e, por assim dizer aciden-
exemplo, em Roma isto fosse parte essencial das condições talmente, junto a ele.
econômicas da própria comunidade, rompe o vínculo real so- Assim, a antiga concepção segundo a qual o homem sem-
bre o qual baseia-se a comunidade. pre aparece (por mais estreitamente religiosa, nacional ou
Em todas estas formas, o fundamento da evolução é a política que seja a apreciação) como o objetivo da produção
reprodução das relações entre o indivíduo e sua comunidade parece muito mais elevada do que a do mundo moderno, na
aceitas corno dadas — que podem ser mais ou menos primi- qual a produção é o objetivo do homem, e a riqueza, o obje-
tivas, mais ou menos produtos da história, porém fixadas na tivo da produção. Na verdade, entretanto, quando despida
tradição — e uma existência objetiva, definitiva e predetermi- de sua estreita forma burguesa, o que é a riqueza, senão a
nada seja quanto ao relacionamento com as condições de totalidade das necessidades, capacidades, prazeres, potencia-
trabalho, como .quanto às relações do homem com seus com- lidades produtoras, e t c , dos indivíduos, adquirida no inter-
panheiros de trabalho, de tribo, etc. Tal evolução é, pois, limi- câmbio universal? O que é, senão o pleno desenvolvimento do
tada de início e se os limites forem transpostos seguir-se-á a controle humano sobre as forças naturais — tanto as suas
decadência e a desintegração. Evolução da escravidão, con- próprias quanto as da chamada "natureza"? O que é, senão
centração da propriedade da terra, troca, economia monetá- a plena elaboração de suas faculdades criadoras, sem outros
ria, conquista, e t c , como sucedeu entre os romanos. Todos pressupostos salvo a evolução histórica precedente que faz
estes elementos até um certo ponto pareciam compatíveis com
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79
da totalidade desta evolução — i.é, a evolução de todos os
poderes humanos em si, não medidos por qualquer padrão de propriedade, como trabalhadores abstratos — a troca que
previamente estabelecido — um fim em si mesmo? O que é tem lugar entre valor e trabalho vivo — supõem um processo
a riqueza, senão uma situação em que o homem não se repro- histórico, por mais que o capital e o trabalho assalariado,
duz a si mesmo numa forma determinada, limitada, mas sim eles mesmos, reproduzam esta relação e a elaborem tanto
em sua totalidade, se desvencilhando do passado e se inte- em seu alcance objetivo como em profundidade. E este pro-
grando no movimento absoluto do tornar-se? Na econo- cesso histórico, como vimos, é a história da evolução tanto
mia política burguesa — e na época de produção que lhe do capital como do trabalho-assalariado. Em outras palavras,
corresponde — este completo desenvolvimento das potencia- a origem extra-econômica da propriedade, simplesmente, sig-
lidades humanas aparece como uma total alienação, como nifica a gênese histórica da economia burguesa, das formas
destruição de todos os objetivos unilaterais determinados, de produção a que as categorias da economia política dão
como sacrifício do fim em si mesmo em proveito de forças expressão teórica ou ideal. Mas, proclamar que a história
que lhe são externas. Por isto, de certo modo, o mundo apa- pré-burguesa e cada uma de suas fases têm sua própria eco-
rentemente infantil dos antigos mostra-se superior; e é as- nomia e uma base econômica de seus movimentos é, no fun-
9

sim, pois, na medida em que buscarmos contornos fechados, do, simplesmente, insistir na tautologia de que a vida huma-
forma e limitação estabelecida. Os antigos proporcionavam na sempre se baseou em algum tipo de produção — produ-
satisfação limitada, enquanto o mundo moderno deixa-nos ção social — cujas relações são, exatamente, o que chamamos
insatisfeitos ou, quando parece satisfeito consigo mesmo, é de relações econômicas.
vulgar e mesquinho. 8 * As condições originais de produção não podem, inicialmen-
* O que o Sr. Proudhon chama de origem extra-econômica te, ser elas próprias produzidas — não são o resultado da
da propriedade — querendo referir-se à propriedade da ter- produção. (Em lugar de condições originais de produção po-
ra — é o relacionamento pré-burguês do indivíduo com as deríamos dizer: se esta reprodução mostra-se, por um lado,
condições objetivas do trabalho, sobretudo com as condições como a apropriação de objetos por sujeitos, igualmente mos-
objetivas naturais do trabalho. Pois, assim como o sujeito tra-se, por outro lado, como a conformação, a sujeição dos
trabalhador é um indivíduo natural, um ser natural, da mes- objetos por e para um propósito subjetivo; a transformação
ma forma a primeira condição objetiva de seu trabalho apa- dos objetos em resultados e repositórios da atividade subje-
rece como a natureza, a terra, como um corpo inorgânico. tiva) . O que exige explicação não é a unidade de seres hu-
O próprio indivíduo não é apenas o corpo orgânico mas, ain- manos vivos e ativos com as condições naturais e inorgâni-
da, esta natureza inorgânica como sujeito. Esta condição cas de seu metabolismo com a natureza e, portanto, sua apro-
não é algo que ele tenha produzido, mas algo que encontrou priação da natureza; nem isto é o resultado de um processo
a seu alcance, algo existente na natureza e que ele pressupõe. histórico. O que tem de ser explicado é a separação entre
essas condições inorgânicas da existência humana e a exis-
Antes de levar nossa análise a um ponto mais avançado acres-
tência ativa, uma separação somente completada, plenamen-
centemos que o pobre Proudhon não só poderia como
te, na relação entre o trabalho-assalariado e o capital.
deveria acusar o capital e o trabalho-assalariado —
enquanto formas de propriedade — de terem origem extra- No relacionamento de escravidão e de servidão não há
econômica. Pois o fato do trabalhador encontrar as condições tal separação; o que acontece é que uma parte da sociedade
é tratada pela outra como simples condição inorgânica e na-
objetivas de seu trabalho como algo separado dele, como capi-
tal, e o fato do capitalista encontrar os trabalhadores carentes 9 M ar x usa a pala v r a Okonomie neste pa r á g r a f o . Não fica escla -
recido se deveria significar " e co no my " ou " econo mics".
NT.: "economy": "a dm ini str a çã o de rendas, gastos, e t c , de um lar
8 A p al a v r a alemã "gemein" te m u m a variedade de sentidos (neste
ou governo ; cuidadosa administração da riqueza; sistema de produ-
caso, obviamente pejorativos) que nã o podem ser reproduzidos em
qualquer palavra isolada do Inglês moderno . ção e distribuição desta".
"economics": ciência que t r a t a da produção, distribuição e
consumo da riqueza. Cf. Webster's New World Dictionary.
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tural de sua própria reprodução. O escravo carece de qual- contradas, por exemplo, no Peru, são evidentemente, uma
quer espécie de relação com as condições objetivas de seu forma secundária introduzida e transmitida por tribos con-
trabalho. Antes, é trabalho em si, tanto na forma de escravo quistadores que, em seu próprio seio, estavam familiariza-
10

como na de servo, situado entre outros seres vivos (Na- das com a propriedade comum e a produção comunal na for-
turwesen) como condição inorgânica de produção, junta- ma mais antiga e mais simples, como aparece na índia e entre
mente com o gado ou como um apêndice do solo. Em outras os Eslavos. De modo semelhante, a forma descoberta, e . g . ,
palavras: as condições originais de produção surgem como entre os Celtas, em Gales, parece ter sido introduzida por con-
pré-requisitos naturais, como condições naturais de existên- quistadores mais adiantados, sendo, pois, secundária. A intei-
cia do produtor, do mesmo modo que seu corpo vivo, embora reza e a sistemática elaboração desses sistemas sob (a direção
reproduzido e desenvolvido por ele, não é, originalmente, es- de) uma autoridade suprema demonstra sua origem posterior.
tabelecido por ele, surgindo, antes, como seu pré-requisito; Do mesmo modo, o feudalismo introduzido na Inglaterra era,
seu próprio ser (físico) é um pressuposto natural não esta- formalmente, mais completo do que o feudalismo que havia
belecido por ele mesmo. Essas condições naturais de existên- se desenvolvido, naturalmente, na França.
cia, com as quais ele se relaciona como com um corpo inor- Entre as tribos pastoris nômades — e todos os povos pas-
gânico, têm caráter duplo: elas são (I) subjetivas e (II) tores são, originalmente, migratórios — a terra, como todas
objetivas. O produtor existe como membro de uma família, as demais condições naturais, aparece em sua elementar for-
de uma tribo, um agrupamento de sua gente, etc. — o que ma ilimitada, por exemplo, nas estepes asiáticas e nos altos
adquire, historicamente, formas diversas resultantes da mis- planaltos asiáticos. É coberta de pastagens, e t c , que alimen-
tura e conflitos com outros. É como membro comunal, as-
tam os rebanhos fornecedores dos meios de subsistência dos
sim, que ele estabelece relações com determinada (parte da)
povos nômades. Eles a consideram sua propriedade, embora
natureza (chamemo-la de terra, solo), como seu próprio ser
nunca fixem tal propriedade. Este é o caso dos territórios de
inorgânico, condição de sua produção e reprodução.
caça das tribos selvagens de índios americanos: a tribo con-
Na qualidade de membro natural da comunidade, ele parti-
sidera uma certa região o seu território de caça e o mantém
cipa da propriedade comunal e fica com uma porção sepa-
pela força contra outras tribos, ou trata de expulsar as de-
rada sob sua posse; assim, como um cidadão romano de
nascimento, ele tem direito ideal (pelo menos) à ager publicus mais do território que reclama. Entre as tribos pastoris nô-
e um direito real a um certo número de juggera (unidades) mades, a comunidade está, de fato, sempre reunida, como
de terra, etc. Sua propriedade, i.é, sua relação com os pré- um grupo de viajantes, uma caravana, ou horda e as formas
requisitos naturais de sua produção como seus é mediada por de posição social superior e inferior se desenvolvem a partir
sua qualidade de membro natural de uma comunidade. (A das condições deste modo de vida. O que é objeto de apro-
abstração de uma comunidade cujos membros nada tenham priação e reprodução resume-se, aqui, somente ao rebanho,
em comum além da linguagem, e t c , e, mesmo isto, escas- não incluindo o solo, sempre usado em temporária comu-
samente, é, sem dúvida, o produto de circunstâncias históri- nalidade, quando a tribo interrompe sua peregrinação.
cas muito posteriores). É evidente, por exemplo, que o indi- Passemos, agora, a considerar os povos estabelecidos. A
víduo relaciona-se com sua linguagem como sua própria, única barreira que a comunidade pode encontrar ao relacio-
apenas na qualidade de membro natural de uma comunida- nar-se com as condições naturais de produção como suas
de. Linguagem como produto individual é um absurdo. E pro- próprias — quanto à terra — serão as outras comunidades,
priedade também. que já a tenham reclamado para si, como seu corpo inorgâ-
nico. A guerra será, portanto, uma das primeiras tarefas de
* A própria linguagem é tanto o produto de uma comuni- toda comunidade primitiva desta espécie, tanto para a defe-
dade quanto, em outro aspecto, é a existência da comunida-
de: é como se fosse o ser comunal falando por si mesmo. A
produção comunal e a propriedade comunal, conforme en- 10 bei sich seibst pode significar, t a mb é m , " e m seu h abi ta t origi -

83 84
sa da propriedade quanto para a aquisição dela. (Será sufi- com a terra, como seu laboratório. (Na verdade, a proprie-
ciente falar da propriedade original da terra, pois entre os dade é, originalmente, móvel, porque em primeiro lugar o
povos pastoris a propriedade dos produtos naturais da ter- homem toma posse dos frutos disponíveis da terra, inclusive
ra, por exemplo, ovelhas, é, simultaneamente, a propriedade animais e, especialmente, os passíveis de domesticação. En-
das pastagens que atravessam. Em geral, a propriedade da tretanto, mesmo esta situação — pesca, caça, pastoreio, sub-
terra inclui a de seus produtos orgânicos.) Quando o pró- sistência pela coleta dos frutos das árvores, etc. — sempre
prio homem é capturado como um acessório orgânico da ter- pressupõe a apropriação da terra, seja como um local de fixa-
ra e junto com ela, sua captura dá-se na qualidade de uma ção ou um território para deslocamento, uma pastagem para
das condições de produção, e esta é a origem da escravidão e os animais, etc.)
da servidão, que logo degradaram e modificaram as formas * A propriedade, portanto, significa pertencer a uma tribo
originais de todas as comunidades, transformando-se na base (comunidade) (ter sua existência subjetiva/objetiva dentro
destas. Como resultado disto a estrutura simples é, desta for- dela) e, por meio do relacionamento desta comunidade com
ma, negativamente determinada. a terra, como seu corpo inorgânico, ocorre o relacionamento
* Assim, originalmente, propriedade significa nada mais do indivíduo com a terra, com a condição externa primária
do que a atitude do homem ao encarar suas condições na- de produção — porque a terra é, ao mesmo tempo, matéria
turais de produção como lhe pertencendo, como pré-requisi- prima, instrumento de trabalho e fruto — como as pré-condi-
tos de sua própria existência; sua atitude em relação a elas ções correspondentes à sua individualidade, como seu modo
como pré-requisitos naturais de si mesmo, que constituiriam, de existência. Reduzimos esta propriedade ao relacionamento
assim, prolongamentos de seu próprio corpo. De fato, ele não com as condições de produção. Por que não ao com as de con-
se mantém em qualquer relação com suas condições de pro- sumo se, originalmente, o ato de produção do indivíduo resu-
dução, mas tem uma dupla existência, subjetivamente como me-se à reprodução de seu próprio corpo através da apropria-
ele próprio e, objetivamente, nestas condições inorgânicas ção dos objetos previamente preparados pela natureza para
naturais de seu ser. As formas destas condições natu- consumo? A razão é que, mesmo quando estes devem ser ape-
rais de produção têm um duplo caráter: (1) sua existência nas encontrados e descobertos, o esforço, o trabalho — como a
como membro de uma comunidade que é, em sua forma ori- caça ou a pesca o pastoreio — e a produção (i.é, o desen-
;
ginal, uma comunidade tribal, mais ou menos modificada; volvimento) de certas capacidades pelo sujeito logo se fazem
(2) sua relação com a terra como algo próprio," em virtude necessários. Ainda mais, condições em que o homem precisa,
da comunidade, propriedade comunal da terra, simultanea- apenas, apanhar o que já está pronto, sem qualquer instru-
mente possessão individual do indivíduo, ou de tal modo que mento (isto é, sem produtos de trabalho já "destinados à
o solo e seu cultivo permaneçam comuns e somente seus pro-
produção), e t c , são muito transitórias e não podem, jamais,
dutos sejam divididos. (Entretanto, a habitação, ainda que li-
ser encaradas como normais; nem mesmo no estágio mais
mitada aos carros, como no caso dos citas, parece estar sem-
primitivo. Mais ainda, as condições originais de produção,
pre em poder dos indivíduos.)
automaticamente, incluem substâncias diretamente consu-
A filiação a uma sociedade naturalmente evoluída, uma míveis sem trabalho, como as frutas, animais, e t c ; conse-
tribo, e t c , é uma condição natural de produção de um ser qüentemente, o próprio fundo de consumo mostra-se como
humano. Esta filiação já é, por exemplo, uma condição de uma parte do fundo original de produção.
sua linguagem, e t c Sua própria existência produtiva somen- A condição fundamental da propriedade tribal (que se
te é possível sob tal condição. Sua própria existência subjetiva constitui, originalmente, a partir da comunidade ) é a filia-
12

é condicionada por ela tanto quanto pelo relacionamento


12 Est a frase obscura te m a seguinte expressão em ale mão : auf
11 ais dem seinigen pode, t a mb é m , significar : como sua (da co- dem Stammwesen (worein sich das Gemeinwesen ursprünglich
munidade) própria. auflöst).

85 86
ção à tribo. Conseqüentemente, uma tribo conquistada e é, ao mesmo tempo, necessariamente nova produção e des-
subjugada por outra torna-se sem-propriedade, parte das truição da velha forma.
condições inorgânicas da reprodução da tribo conquistado- Por exemplo, quando cada indivíduo deve possuir uma
ra, as quais esta última considera como sua propriedade. determinada quantidade de terras, o simples aumento da po-
A escravidão e a servidão são, portanto, simples desenvolvi- pulação constitui um obstáculo. Para que este seja superado,
mentos ulteriores da propriedade baseada na tribo; mas mo- deverá desenvolver-se a colonização e isto exigirá guerras de
dificam necessariamente todas as formas desta. Isto não acon- conquista. O que conduzirá à escravidão e t c , à ampliação da
tece de maneira tão ampla no modo asiático. Na unidade ager publicus e, por isto, ao advento do Patriciado que passa-
auto-suficiente de manufaturas e agricultura, que constitui rá a representar a comunidade, e t c . Assim, a preservação da
13

sua base, a conquista não é uma condição tão essencial como antiga comunidade implica a destruição das condições sobre
quando a propriedade da terra, a agricultura predominam as quais ela está baseada, tornando-se o seu contrário. Supo-
exclusivamente. Por outro lado, como o indivíduo, nesta for- nhamos, por exemplo, que a produtividade pudesse ser au-
ma, nunca se torna um proprietário, mas somente um pos- mentada sem acréscimo territorial, por meio do desenvolvi-
suidor, ele mesmo é, no fundo, a propriedade, o escravo da- mento das forças de produção (que, no caso da agricultura,
quilo que corporifica a unidade da comunidade. Neste caso, uma atividade das mais tradicionais, são as mais lentas). Isto
a escravidão não põe fim às condições de trabalho, nem mo- implicaria novos métodos e combinações de trabalho, aumento
difica a relação essencial. da jornada de trabalho dedicada àà agricultura, e t c , e, nova-
* Fica evidente, portanto, que: mente, as velhas condições econômicas da comunidade cessa-
* Na medida em que a propriedade for, meramente, uma riam de atuar. O ato de reprodução, em si, muda não apenas
atitude consciente em relação às condições de trabalho como as condições objetivas — e.g. transformando aldeias em cida-
próprias — uma atitude fixada pela comunidade para o in- des; regiões selvagens em terras agrícolas, etc. — mas os
divíduo, proclamada e garantida por lei; e na medida em que produtores mudam com ele, pela emergência de novas quali-
a existência do produtor mostrar-se como uma existência dades transformando-se e desenvolvendo-se na produção, ad-
dentro das condições objetivas pertencentes a ele, realizar- quirindo novas forças, novas concepções, novos modos de re-
se-á, somente, através da produção. A apropriação real não lacionamento mútuo, novas necessidades e novas maneiras
ocorrerá através do relacionamento com estas condições, co- de falar.
mo expressadas em pensamento, mas por meio de ativo e
real relacionamento com elas, no processo de situá-las como Quanto mais tradicional for o próprio modo de produção,
as condições da atividade subjetiva do homem. isto é, quanto mais o processo real de apropriação permanecer
o mesmo, tanto mais imutáveis serão as velhas formas de
* Mas isto significa, também, que estas condições mudam.
propriedade e portanto, também a comunidade como um todo.
O que faz com que uma região da terra seja um território (Observe-se que o modo tradicional persiste por longo tem-
de caça é, o fato das tribos caçarem nela; o que transforma o po na agricultura e, ainda mais, na combinação oriental de
solo num prolongamento do corpo do indivíduo é a agricul- agricultura e manufatura.) Quando os membros da comuni-
tura. Tendo sido construída a cidade de Roma e suas terras dade tiverem adquirido, como proprietários privados, existên-
circunvizinhas, cultivadas por seus cidadãos, as condições cia separada de sua existência coletiva como comunidade ur-
da comunidade diferiram das que haviam vigorado anterior- bana e donos do território urbano, já surgirão condições que
mente. O objetivo de todas estas comunidades é a preservação, permitirão ao indivíduo a perda de sua propriedade, isto
i.é, a produção de indivíduos que as constituam como pro- é o duplo relacionamento que o torna tanto um cidadão
prietários, i.é, no mesmo modo objetivo de existência que,
também, forma o relacionamento recíproco dos membros e, 13 A frase a lt a m e n t e condensada de M a r x tem ambigüidades: Damit
Sklaven etc. Vergrösserung des ager publicus z.B. auch, und damit die
portanto, forma a própria comunidade. Mas, esta reprodução Patrizier, die das Gemeinwasen repràsentieren, etc.

87 88
com status igual, um membro da comunidade, quanto volvimento das forças produtivas dos indivíduos trabalhado-
um proprietário. Na forma oriental esta perda seria difícil a res — a que correspondem relações específicas destes indiví-
menos que ocorra como resultado de influências completa- duos entre si e com a natureza. Até certo ponto, reprodução.
mente externas, pois os membros individuais da comunidade Depois disto, transforma-se em dissolução.
nunca estabelecem com ela relações tão independentes que Propriedade — e isto se aplica às suas formas asiática,
tornem possível a ruptura de suas ligações (econômicas, obje- eslava, antiga clássica e germânica — originalmente significa
tivas) com a mesma. O indivíduo está firmemente enraizado. uma relação do sujeito atuante (produtor) (ou um sujeito
Este é, também, um aspecto da união de manufatura e agri- que reproduz a si mesmo) com as condições de sua produção
cultura, da cidade (neste caso a aldeia) e campo. Entre os an- ou reprodução como suas, próprias. Portanto, conforme as
tigos, a manufatura já se apresenta como uma corrup- condições de produção, a propriedade terá formas diferentes.
ção (negócio adequado para libertos, clientes, estrangeiros), O objeto da produção, em si, é reproduzir o produtor em e si-
etc. O trabalho produtivo é liberado de sua pura subordinação multaneamente com aquelas condições objetivas de sua exis-
à agricultura, onde aparece como trabalho doméstico de pes- tência. Seu comportamento como proprietário — que não é
soas livres, destinado só aos propósitos da agricultura, serviços o resultado mas a condição prévia do trabalho, ou seja, da
religiosos, guerra e tarefas comunais, como a construção de
produção — toma a existência específica do indivíduo como
casas, estradas ou templos. Este desenvolvimento, conseqüên-
parte de uma entidade tribal ou comunal (da qual ele próprio
cia necessária das relações com estrangeiros e escravos, da
é, até certo ponto, propriedade). A escravidão, servidão, e t c ,
ânsia de trocar o produto excedente, e t c , desagrega o modo de
onde o próprio trabalhador aparece entre as condições natu-
produção sobre o qual a comunidade se apoia e, com ele, o
rais de produção de um terceiro, indivíduo ou comunidade —
homem objetivamente individual — i.é, o indivíduo determi-
e em que a propriedade, portanto, não mais constitui o rela-
nado como um grego, um romano, etc. A troca, o endivida-
mento, etc. surtem o mesmo efeito. cionamento de indivíduos, que trabalham independentemen-
te, com as condições objetivas do trabalho — é sempre uma
* Temos, assim, uma unidade original entre uma forma relação secundária, nunca primária, embora seja o necessá-
específica de comunidade, ou unidade tribal, e a propriedade rio e lógico resultado da propriedade baseada na comunidade
natural relacionada com ela, ou, o que dá no mesmo, a relação e no trabalho na comunidade. (Este caráter da escravidão
com as condições objetivas de produção, tal como existentes
não é aplicável ao caso da escravidão no oriente, em geral. É
na natureza, como o ser objetivo do indivíduo mediado pela co-
considerada assim apenas do ponto de vista europeu).
munidade. Ora, esta unidade que, em certo sentido, mostra-se
Naturalmente, é fácil imaginar uma pessoa poderosa, fi-
como a forma particular de propriedade, tem sua realidade
sicamente superior, que primeiro captura animais e depois
viva num modo de produção específico e este modo mostra-se,
captura homens para fazê-los apanhar mais animais para
igualmente, como o relacionamento de indivíduos uns com os
outros e como seu comportamento cotidiano, específico, fren- si. Em suma, alguém que use os homens como uma condição
te à natureza inorgânica, seu modo específico de traba- natural preexistente de sua reprodução, como qualquer ou-
lho (que é sempre trabalho familiar e muitas vezes comunal). tro ser da natureza; seu próprio trabalho esgota-se no ato de
A própria comunidade apresenta-se como a primeira grande dominação. Mas este modo de ver é estúpido, embora possa
força produtiva; tipos especiais de condições de produção ser correto do ponto de vista de uma dada entidade tribal ou
(e.g. criação, agricultura) conduzem à evolução de um modo comunal, pois toma o homem isolado como ponto de partida.
especial de produção, bem como forças produtivas especiais O homem só é individualizado, porém, mediante o processo
tanto objetivas como subjetivas, as últimas emergindo como histórico. Originalmente, ele se mostra como um ser genérico,
qualidades do indivíduo. um ser tribal, um animal de rebanho — embora, de modo al-
gum, como um "animal político" no sentido político do ter-
* Neste caso, a comunidade e a propriedade que nela se mo. A troca, em si, é um agente principal desta individua-
baseia podem ser reduzidas a um estágio específico do desen- lização. Torna supérfluo o caráter gregário e o dissolve. A

89 90
situação é de tal ordem que um homem, como pessoa isolada, prietário e o proprietário trabalha. Isto significa, antes de
mantendo relações apenas consigo mesmo, não terá outro mais nada:
meio de estabelecer-se como um indivíduo isolado senão atra- 1) uma dissolução da relação com a terra — ou solo
vés daquilo que lhe dá seu caráter geral, comunal. Numa tal
14
— como uma condição natural de produção que o homem tra-
comunidade a existência objetiva do indivíduo como proprie- ta como sua própria existência inorgânica, como o laboratório
tário, digamos um proprietário de terras, é pressuposta, em- de suas forças e o domínio de sua vontade. Todas as formas
bora seja proprietário sob certas condições que o prendem em que esta propriedade é encontrada presumem uma enti-
à comunidade, ou antes constituem um elo desta cadeia. Na dade comunal cujos membros, quaisquer que sejam as distin-
sociedade burguesa, por exemplo, o trabalhador existe apenas ções formais entre eles, são proprietários em função de serem
subjetivamente, sem objeto; porém aquilo que o enfrenta seus membros. Portanto, a forma original desta propriedade
tornou-se, agora, uma verdadeira entidade comum que ele é a propriedade comunal direta (forma oriental, modificada
trata de devorar e pela qual é devorado. entre os eslavos; desenvolvida até o ponto de contradição
* Todas as formas em que a comunidade pressupõe os su- na antigüidade clássica e na forma germânica de proprie-
jeitos numa unidade objetiva específica com as condições de dade, não obstante continuar sendo seu fundamento oculto,
sua produção, ou nas quais uma existência subjetiva deter- apesar de contraditório.)
minada pressupõe a própria entidade comunitária como con- 2) Dissolução das relações em que o homem mostra-se
dição de produção, necessariamente correspondem, apenas, como o proprietário do instrumento. Como a forma acima de
a um desenvolvimento das forças produtivas tanto limitado propriedade da terra pressupõe uma comunidade real, assim
de fato como em princípio. (Estas formas evoluíram mais ou também a propriedade do instrumento de trabalho pelo tra-
menos naturalmente, porém, ao mesmo tempo, são resul- balhador presume uma forma particular de desenvolvimento
tado de um processo histórico). A evolução das forças produ- da manufatura — expressamente, a forma de trabalho arte-
toras as dissolve e sua dissolução é, ela própria, uma evolução sanal. A guilda e as instituições corporativas estão ligadas a
das forças produtivas humanas. O trabalho é, inicialmente, este. (As atividades manufatureiras no antigo oriente podem
realizado em certa base — inicialmente primitiva — depois, ser incluídas no título (1) acima.) Aqui, o próprio trabalho é,
histórica. Mais tarde, entretanto, esta mesma base é supe-
15
em parte, a expressão da criação artística e, em parte, sua
rada, ou tende a desaparecer, uma vez tornada demasiada- própria recompensa, e t c . A instituição do "mestre artesão".
16

mente estreita para o desenvolvimento da horda humana em O capitalista é, ele próprio, ainda um mestre artesão. Especial
progresso. habilidade artesanal garante a propriedade do instrumento,
* Na medida em que a propriedade da terra da antigüidade e t c , etc. Em certo sentido, o modo de trabalho torna-se here-
clássica ressurge na moderna subdivisão da propriedade, inte- ditário, juntamente com a organização do trabalho e seu
gra-se na economia política e trataremos dela na seção sobre instrumento. Vida urbana medieval. O trabalho ainda per-
a propriedade da terra. tence ao homem; um certo desenvolvimento auto-suficiente
* (Tudo isto deverá ser analisado, novamente, com maior de capacidades especializadas (einseitige), etc.
profundidade e detalhes mais adiante.)
* Aqui, preocupa-nos, primeiramente, o seguinte: a relação 3) Implícito em ambos está o fato do homem possuir
do trabalho com o capital, ou com as condições objetivas do meios de consumo anteriores à àprodução, necessários a sua
trabalho como capital, pressupõe um processo histórico que manutenção como produtor — i.é, durante a produção, antes
dissolve as diversas formas nas quais o trabalhador é um pro- de acabá-la. Como um proprietário de terras, aparece direta-
mente provido do necessário fundo de consumo. Como um
mestre artesão ele herdou, ganhou ou poupou este fundo e
14 Seln Sich -All g eme in-un d-G eme inma che n .
como um jovem ele ainda é um aprendiz, não um trabalha-
15 Es wird erst gearbeitet von gewisser Grundlage aus — erst na-
turwüchsigdann histarische Vorassetzung. A sentença é elíptlca e
pr esta-se a várias inter pret ações . 16 Hier die Arbeit selbst noch halb künstlerisch, halb Selbstzweck.

91 92
dor independente propriamente dito, mas compartilha dos frutos espontâneos. Na forma mais original, isto significa que
meios de subsistência do mestre à moda patriarcal. Na quali- o indivíduo considera o solo como lhe pertencendo e nele en-
dade de um (genuíno) jornaleiro, há uma certa utilização contra sua matéria prima, instrumentos e meios de subsis-
comum do fundo de consumo que está na posse do mestre. tência não criados pelo próprio trabalho mas pela própria
Embora este não seja propriedade dos jornaleiros, a lei e os terra. Uma vez que esta relação seja reproduzida, instru-
costumes (etc.) da corporação, pelo menos, tornam-no um mentos secundários e os frutos da terra produzidos pelo tra-
co-possuidor. (Este ponto deve ser desenvolvido) balho surgem, imediatamente, incluídos na forma primitiva
de propriedade da terra. Esta situação histórica é a que, em
4) Por outro lado, há a dissolução das relações em que
primeiro lugar, é negada pela relação de propriedade mais
os trabalhadores mesmos, as unidades vivas da força de tra-
completa implícita na relação do trabalhador com as condi-
balho, ainda são parte direta das condições objetivas de pro-
dução e objetos de apropriação, nesta qualidade — sendo, por- ções de trabalho como capital. Esta é a situação histórica
tanto, escravos ou servos. Para o capital o trabalhador não N° 1, negada no novo relacionamento, ou pressuposta como
constitui uma condição de produção, mas apenas o trabalho tendo sido dissolvida pela história.
o é. Se este puder ser executado pela maquinaria ou, mesmo, Um segundo passo histórico está implícito na proprieda-
pela água ou pelo ar, tanto melhor. E o capital se apropria de do instrumento, i.é, na relação do trabalhador com o ins-
não do trabalhador mas de seu trabalho — e não diretamente, trumento como algo próprio, em que ele trabalha como pro-
mas por meio de troca. prietário do instrumento (o que pressupõe que o instrumento
esteja incluso em seu trabalho individual, i.é, presume uma
* Estes, então, por um lado, são pré-requisitos históricos especial e limitada fase de desenvolvimento da força produ-
sem os quais o trabalhador não pode aparecer como traba-
tiva do trabalho). Estamos considerando uma situação em
lhador livre, como capacidade de trabalho puramente subje-
que o trabalhador não apenas possua o instrumento, mas na
tiva, sem objetividade, enfrentando as condições objetivas da
qual esta forma do trabalhador como proprietário ou do pro-
produção como sua não-propriedade, como propriedade alheia,
prietário trabalhador já seja distinta, separada da proprie-
como valor existente por si mesmo, como capital. Por outro
dade da terra e não, como no primeiro caso, um acidente da
lado, devemos indagar que condições são necessárias para que
ele se defronte com o capital. propriedade da terra e nela incluída: em outras palavras, o
desenvolvimento artesanal e urbano do trabalho. Por isto,
também, encontramos aqui as matérias primas e meios de
subsistência mediados como propriedade do artesão, media-
II
dos através de seu ofício, de sua propriedade do instrumento.
Este segundo passo histórico existe, agora, distinto e sepa-
* A fórmula "capital", em que o trabalho vivo se apresenta rado do primeiro que, por sua vez, mostrar-se-á consideravel-
numa relação de não-propriedade relativamente à matéria mente modificado pelo mero fato deste segundo tipo de pro-
prima, aos instrumentos e meios de subsistência necessários priedade ou do proprietário que trabalha ter estabelecido sua
durante o período de produção, implica, em primeira instân- existência independente.
cia, a não-propriedade da terra; i.é, a ausência de um estado Como o instrumento, em si, já é o produto do trabalho,
em que o indivíduo trabalhador considere a terra, o solo, como i.é, o elemento que constitui propriedade já está estabelecido
seu próprio e o trabalhe como seu proprietário. No caso mais pelo trabalho, a comunidade não pode mais aparecer, aqui.
favorável ele mantém-se tanto na relação do trabalhador com como aparecia no primeiro caso, em sua forma primitiva. A
a terra quanto na relação do dono da terra consigo mesmo, comunidade na qual esta forma de propriedade está baseada
enquanto sujeito trabalhador. Potencialmente, a propriedade já se mostra como algo produzido, secundário, algo que
da terra inclui a propriedade das matérias primas e a do ins- foi gerado, uma comunidade produzida pelo próprio traba-
trumento original de trabalho, o solo, e, também, a de seus lhador. É claro que, quando a propriedade do instrumento

94
93
é o relacionamento com as condições do trabalho como pro- — a maestria artesanal e, conseqüentemente, a propriedade
priedade, no trabalho real o instrumento surge, meramente, dos instrumentos de trabalho — eqüivale à propriedade das
como um meio de trabalho individual e a arte de, efetivamen- condições de produção, o que exclui, reconhecidamente, a es-
te, apropriar-se do instrumento para empregá-lo como um cravidão e a servidão. Entretanto pode conduzir a um desen-
meio de trabalho aparece como uma habilidade especial do volvimento negativo análogo, sob a forma de um sistema de
trabalhador, que faz dele o dono de seus instrumentos. Re- castas.
sumidamente, o caráter essencial dos sistemas de guildas, ou A terceira forma, a da propriedade dos meios de subsis-
corporativos (trabalho artesanal como sujeito e elemento cons- tência, não pode conter qualquer relacionamento do indiví-
tituinte da propriedade) é analisável em termos de uma re-
17
duo que trabalha com as condições de produção e, portanto,
lação com o instrumento de produção: a ferramenta como de existência, a não ser que seja dissolvida na passagem
propriedade. Isto difere da relação com a terra, com a terra para a escravidão e servidão. Pode, ser apenas, ser a
como propriedade sua, que é, antes, a da matéria prima como relação dos membros da comunidade primitiva baseada
propriedade. Neste estado histórico N° 2 a propriedade é, sobre a propriedade da terra, que perderam sua pro-
pois, constituída pela relação do sujeito que trabalha com priedade sem terem, ainda, progredido até a proprie-
este elemento único das condições de produção, que faz dele dade N° 2; foi o caso da plebe romana ao tempo do "pão e
um proprietário que trabalha; e este estado somente pode circo". " A relação dos dependentes com seus senhores, ou as
existir como uma contradição do estado N.° 1 ou, se quiser- de serviço pessoal, são essencialmente diferentes. Pois estes
mos, como suplementar a um estado N.° 1 modificado. A pri- (serviços pessoais) constituem, no fundo, simplesmente o mo-
meira fórmula de capital nega este estado histórico, também. do de existência do senhor das terras, que não mais trabalha
A terceira forma possível é nem agir como proprietário pessoalmente, mas cuja propriedade inclui os próprios traba-
da terra nem do instrumento (i.é, nem do próprio trabalho), lhadores na qualidade de servos, etc., entre as condições de
mas, somente, dos meios de subsistência, que são encontrados, produção. O que temos aí como uma relação essencial de
então, como a condição natural do sujeito que trabalha. Esta apropriação é a relação de dominação. A apropriação não
é, no fundo a fórmula da escravidão ou servidão, que tam- pode criar tal relação com animais, solo, e t c , mesmo que o
bém é negada ou pressuposta como tendo sido historicamente animal sirva seu amo. A apropriação da própria vontade de
dissolvida na relação do trabalhador com as condições de outrem é pressuposta no relacionamento de domínio. Seres
produção como capital. sem vontade, como animais, podem prestar serviços, de fato,
As formas originárias de propriedade, necessariamente, mas seus proprietários não são, entretanto, senhores e amos.
reduzem-se à relação de propriedade com os diferentes ele- Entretanto, o que vemos aí é como as relações de domínio e
mentos objetivos que condicionam a produção; elas são a servidão incluem-se nesta fórmula de apropriação dos instru-
base econômica de diferentes formas de comunidade e, por mentos de produção; e constituem um fermento necessário
sua vez, pressupõem formas específicas de comunidade. Tais do desenvolvimento e decadência de todas as primitivas rela-
formas são significativamente modificadas logo que o próprio ções de propriedade e produção. Ao mesmo tempo, elas ex-
trabalho é situado entre as condições objetivas de produção pressam suas limitações. Na verdade, elas são, também, re-
(como na escravidão e servidão), disso resultando a perda e produzidas no capital, embora de uma forma indireta (inter-
modificação do caráter afirmativo simples de todas as formas mediada) e, por isto, também constituem um fermento de sua
de propriedade compreendidas no N° 1. Todas estas incluem dissolução e são os símbolos de suas limitações.
a escravidão como possibilidade e, portanto, sua própria abo-
* "O direito de vender-se e a seus dependentes, em momen-
lição. No que concerne à N° 2, um tipo especial de trabalho
tos de miséria, era infelizmente geral; prevalecia tanto no
norte, entre os gregos, como na Ásia. O direito do credor re-
17 O tex to original reza: der handwerksmüssigen Arbeit ais ihr
Subjeèt, ais Eigentuemer konstituierend. Isto não escapa a ambigüi- 18 NOTA DO TRADUTOR PARA LÍNGUA INGL ESA : i.é, a ma ss a
dades. sem-propriedade que vivia de contribuições públicas.

95
96
duzir o devedor faltoso à servidão e saldar seu débito, seja pelo valores existentes. Tais indivíduos confrontam todas as con-
seu trabalho seja pela venda de sua pessoa, era quase igual- dições objetivas de produção como propriedade alheia, como
mente generalizado" (Niebuhr, I,600). sua não-propriedade mas, ao mesmo tempo, como algo inter-
Em outro trecho, Niebuhr explica as dificuldades e in- cambiável como valor e, portanto, até certo ponto, apropriada
compreensões dos escritores gregos do período de Augusto pelo trabalho vivo. Tais processos históricos de, dissolução são
sobre as relações entre Patrícios e Plebeus, e sua confusão os seguintes: a dissolução do relacionamento servil que liga o
deste relacionamento com o dos Patronos e Clientes, como trabalhador ao solo e ao senhor do solo mas, de fato, presume
sendo devidas ao fato deles "estarem escrevendo num tempo sua propriedade dos meios de subsistência (que corresponde,
em que pobres e ricos constituíam as únicas classes reais de na verdade, a sua separação do solo); a dissolução das rela-
cidadãos; em que o homem necessitado, por mais nobre que ções de propriedade que fazem dele um "yeoman", pequeno
fosse sua origem, precisava de um Patrono e os milionários proprietário de terras ou arrendatário (colonus) livre e que
ainda que apenas libertos, eram solicitados como Patronos. trabalha, ou um camponês livre; a dissolução das relações
19

Dificilmente encontravam um vestígio de relações hereditárias corporativas que pressupõem a propriedade do trabalhador
de dependência" (I.620). "Os artesãos podiam ser encontra- quanto aos instrumentos de produção e ao trabalho em si,
dos nas duas classes (residentes estrangeiros * e libertos com como uma certa forma de capacidade a rtesa na l não apenas
20

seus descendentes), e os plebeus que abandonavam a agricul- como fonte de propriedade, mas como a própria propriedade;
tura passavam ao nível de cidadania limitada, desfrutado por também, a dissolução das relações de clientela em seus diver-
estes. Nem lhes faltava a honra de guildas legalmente reco- sos tipos, em que não-proprietários figuram como co-consu-
nhecidas e estas corporações eram tão altamente considera- midores do excedente de produto no séquito de seus senhores
das que Numa era tido como seu fundador. Havia nove cor- e, em troca, usam sua libré, participam de seus conflitos, rea-
porações: a dos tocadores de pífanos, a dos ourives, a dos car- lizam atos reais ou imaginários de serviço pessoal, etc. Análise
mais acurada mostrará que são dissolvidas, em todos estes
pinteiros, a dos tintureiros, a dos seleiros, a dos curtidores, a
processos de dissolução, as relações de produção em que pre-
dos trabalhadores em cobre, a dos oleiros, a nona corporação
domina o valor de uso, a produção para uso imediato. O valor
abrangendo os restantes artesãos. Aqueles que fossem cida-
de troca e sua produção pressupõem a predominância da ou-
dãos independentes, ou desfrutassem de um nível equivalente
tra forma. Assim, em todas as circunstâncias acima, contri-
ao da cidadania, independentemente de qualquer patrono
buições em espécie e prestação de serviços (Naturaldienste)
(supondo-se que isto fosse admitido); ou os descendentes de
predominam sobre pagamentos em dinheiro e serviços remu-
homens dependentes cujos laços houvessem desaparecido com nerados em dinheiro. Mas isto é apenas incidental. Nova- 21

a extinção da linhagem de seus patronos: estes, indiscutivel- mente, um exame mais cuidadoso revelará que todas as rela-
mente, conservavam-se tão alheios às querelas dos antigos ci- ções dissolvidas só se tornaram possíveis, por um certo grau
dadãos e da comunidade (der Gemeinde) quanto as guildas de desenvolvimento das forças produtivas materiais (e, por-
florentinas mantiveram distância das lutas de Guelfos e Gui- tanto, também mentais).
belinos. É provável que a população servil estivesse, como um
todo, à disposição dos patrícios (I,623). * O que nos interessa, neste ponto, é o que segue. O pro-
cesso de dissolução que transforma a massa de indivíduos de
* Por outro lado, são pressupostos processos históricos que uma nação, e t c , em potenciais trabalhadores-assalariados
transformem a massa de indivíduos de uma nação, se não em
trabalhadores genuinamente livres, imediatamente, em 19 NOTA DE M A R X : A dissolução das fo r ma s ainda mais antigas
de propriedade comuna l e de comunidade real é to m ada como algo
trabalhadores potencialmente livres, cuja única propriedade óbvio.
seja sua força de trabalho e a possibilidade de trocá-la pelos 20 handwerksmüssig bestimmte Geschicklichkeit.
21 A frase de M a r x pode também ser entendida assim: "Mas esta
(•) N.R.: no original de M a rx , "m e t e c o s ".
observação é feita de passagem."

97 98
ainda está no processo histórico formador. Consideremos
livres — indivíduos forçados, simplesmente por sua carência
a transformação original de dinheiro em capital, o processo
de propriedade, a trabalhar e a vender seu trabalho — não
de troca entre capital (existente apenas potencialmente) por
pressupõe a desaparição das fontes anteriores de renda ou (em
um lado, e os trabalhadores livres (potencialmente existentes)
parte) das condições anteriores de propriedade destes indi-
por outro. Vemo-nos, naturalmente, fazendo a simples
víduos. Ao contrário, presume que, somente, seu uso tenha
sido alterado, que seu modo de existência tenha sido transfor- observação a que os economistas dão muita importân-
mado, que tenham passado para outras mãos como um fundo cia — expressamente, que o lado que figura como capital tem
livre, ou, talvez, que tenham permanecido, em parte, nas de possuir matérias primas, ferramentas e alimento bastante
mesmas mãos. Porém, isto é evidente. O processo que, de um para permitir que o trabalhador subsista antes da produção
modo ou outro, separou a massa de indivíduos de suas ante- ficar pronta. Mais ainda, pareceria que a acumulação — uma
riores relações afirmativas com as condições objetivas de tra- acumulação anterior ao trabalho e não dele oriunda — tivesse
balho, que negou tais relações e, portanto, transformou tais de ocorrer do lado do capitalista, o que lhe permitiria fazer
indivíduos em trabalhadores livres é, também, o mesmo pro- o trabalhador trabalhar e mantê-lo em atividade, como
cesso que liberou estas condições objetivas de trabalho, po- uma força viva de trabalho. Este ato do capital, que é inde-
24

tencialmente, de suas ligações prévias com os indivíduos ago- pendente e não estabelecido pelo trabalho, é transferido, en-
ra delas separados. (Estas condições de trabalho incluem ter- tão, desta história de sua origem para. o presente e transfor-
ra, matérias primas, meios de subsistência, instrumentos de mado em um fator de sua realidade e fetividade, de sua
trabalho, dinheiro, ou todos estes juntos.) Estão ainda pre- auto-criação (Selbstformation). Finalmente, o eterno direito
sentes, mas de um modo diferente: como um fundo livre, no do capital aos frutos do trabalho de outros homens origina-
qual todas as velhas relações políticas, e t c , foram anuladas; se neste estado de coisas, ou melhor, o que acontece é que
e, agora, confrontam aqueles indivíduos sem-propriedade, o modo de aquisição do capital é deduzido das leis simples e
isolados, simplesmente sob a forma de valores, de valores que "justas" da troca de equivalentes.
se mantêm a si próprios e uns aos outros. O mesmo processo
22
* A riqueza existente sob a forma de dinheiro só poderá
que contrapõe a massa de trabalhadores livres às condições
ser trocada pelas condições objetivas de trabalho, porque e
objetivas de trabalho também contrapôs os mesmos a tais con-
se estas tiverem sido separadas do próprio trabalho. Já vi-
dições como capital. O processo histórico consistiu na separa-
ção dos elementos até então combinados; seu resultado não
é, portanto, a desaparição de um destes elementos, mas uma 24 OBSERVAÇÃO DE M A R X : U m a vez estabelecidos o capita l e o
trabalh o assalariado como seus próprios pré-requisitos, i.é, com o um a
situação em que cada um deles surja negativamente relacio- base pressuposta da produção, o seguinte estado de coisas pa r ec e i m -
nado com o outro: o trabalhador, (potencialmente) livre por pl a nt a r - s e : em primeiro lugar, pa re c e que o capitalista tem de pos-
um lado, o capital (potencial) do outro. A separação das con- suir não a pen as um fundo de m a t é r i a s p ri ma s e meios de subsistên-
dições objetivas das classes que agora são transformadas em cia suficiente p a r a que o tr aba lhado r reproduza a si mesmo , produza
os necessário s meios de subsistência, realize o trabalho necessário;
trabalhadores livres deve, igualmente, surgir no pólo oposto mas, ainda, um fundo de ma té r ia s pr ima s e instrumento s de pr odu-
como a autonomização destas mesmas condições. ção por meio do qual o tr abalh ado r realize seu trabalho excedente,
I.é, o lucro do capitalista. Análise ulterior revelará que o t ra b al ha do r
* Consideremos o relacionamento do capital e o trabalho está, co n st an te me nt e , criando um duplo fundo pa r a p capitalista,
assalariado não como algo que já alcançou importância deci- ou em f or m a de capital. Uma part e deste fundo c o ns ta n te me n t e p r e -
siva e vai invadindo a produção inteira, mas como algo que
23
enche as condições de sua própria existência , a outr a par t e as co n -
d ções da existência do capital. Como vimos, o capital ex ce dente — e
!

capital excedente em sua relaçã o co m sua relaçã o pré -histó rica co m o


22 an sich festhaltenden Werten. trabalho _— Inclui a apropriação de todo capital presente, real, e de
23 OBSERVAÇÃO DE M A R X : Pois, nest e caso, o capital, pressupos- cad a elemento deste capital, que é apropriado unifor memente como
to, como condição do tr abalho assalariado , é o produto do próprio trabalho alheio transf or mado em um objeto e apropriado pelo capital,
trabalho assalariado, e estabelecido co mo uma condição pelo próprio sem troca, sem transf erênci a de um equivalente por ele.
trabalho, criado pelo trabalho como seu próprio pressuposto.

100
99
Entretanto, a outra condição do trabalho — uma certa
mos que o dinheiro pode, em parte, ser acumulado pela sim- capacidade artesanal, a existência do instrumento como um
ples troca de equivalentes; entretanto, esta é uma fonte tão meio de trabalho, etc. — o capital já encontra pronta para
insignificante que não merece menção, historicamente — usar neste período preparatório, ou inicial, do capital.
uma vez que se presuma, isto é, que se considere que este Isto é, em parte, o resultado do sistema urbano corporativo,
dinheiro tenha sido ganho pela troca do trabalho próprio. em parte da indústria doméstica, indústria que já existe co-
É, preferencialmente, o dinheiro acumulado pela usura — mo acessória da agricultura. O processo histórico não é o
especialmente a usura relacionada à propriedade da terra resultado do capital mas seu pré-requisito. Por meio deste
— e a riqueza móvel (monetária) acumulada através de lu- processo, o capitalista insere-se como um intermediário (his-
cros mercantis que se transformam em capital no estrito tórico) entre a propriedade da terra, ou qualquer tipo de pro-
senso, em capital industrial. Teremos ocasião, posteriormen- priedade, e o trabalho. A história ignora as ilusões sentimen-
te, de tratar de ambas estas formas — isto é, na medida em tais sobre uma associação formada pelo capitalista e o traba-
que elas próprias se mostrarem, não como formas de capi- lhador, e t c ; nem existe um vestígio de tais ilusões no desen-
tal, mas como formas anteriores de riqueza, como pressupos- volvimento do conceito de capital. Esporadicamente, a manu-
tos do capital. fatura pode desenvolver-se localmente em uma estrutura per-
tencente a período bem diverso, como nas cidades italianas,
* Como vimos, o conceito de capital — a origem — impli- lado a lado com as corporações. Mas se o capital destinar-se
ca dinheiro como ponto de partida e, portanto, implica a a ser a forma dominante de uma época, suas condições terão
existência de riqueza em forma de dinheiro. Está igualmente de desenvolver-se não apenas localmente, mas em grande es-
implícita sua procedência da circulação; o capital surge como cala. (Isto é compatível com a possibilidade de, durante a
o produto da circulação. A formação do capital, portanto, dissolução das guildas, alguns mestres artesãos transforma-
não se origina da propriedade da terra (embora possa derivar rem-se em capitalistas industriais; entretanto, dada a nature-
dos arrendatários agrícolas na medida em que sejam, tam- za do fenômeno, isto ocorre raramente. Como um todo, o sis-
bém, comerciantes de produtos agropecuários), nem das cor- tema completo de corporações perecerá — tanto mestres como
porações (embora estas constituam, também, uma possibili- oficiais — quando emergirem o capitalista e o operário.)
dade) mas da riqueza mercantil e usurária. Porém, os comer-
ciantes e usurários somente encontram condições que permi- * Entretanto, é evidente, e exposto por análise mais pro-
tem a compra de trabalho livre quando este foi separado das funda da época histórica ora discutida, que a época de dis-
condições objetivas de sua existência, em conseqüência de um solução dos modos de produção anteriores e das relações do
processo histórico. Aí, torna-se possível, também, comprar as trabalhador com as condições objetivas ao trabalho é, simul-
próprias condições. Nas condições da organização corporativa, taneamente, uma época na qual a riqueza monetária já se
por exemplo, apenas o dinheiro (a menos que seja dinheiro desenvolveu até certo ponto e, também, em que cresce e se
dos mestres das guildas) não pode comprar teares para que expande, rapidamente, em virtude das circunstâncias que
neles trabalhem homens; há regulamentos determinando aceleram esta dissolução. Ela própria é, em si, um agente
quantas máquinas de tecer um homem pode usar, etc. Em desta dissolução, como a dissolução é a condição de sua trans-
resumo, o instrumento de trabalho ainda está tão intima- formação em capital. Mas a mera existência da riqueza mo-
mente fundido ao trabalho vivo, tão incluído no domínio netária, mesmo sua conquista de uma espécie de supremacia,
deste último que, na realidade, não circula. O que possibilita não é bastante para esta dissolução resultar em capital. Se
a transformação da riqueza monetária em capital é, por fosse, a Roma antiga, Bizâncio, e t c , teriam concluído sua his-
um lado, o fato de encontrar trabalhadores livres, e por tória com trabalho livre e capital ou melhor, teriam começado
outro lado o fato de encontrar os meios de subsistência, as uma nova história. Ali a dissolução das velhas relações de
matérias primas, e t c , que seriam, em outras circunstâncias, propriedade estava ligada, também, ao desenvolvimento da
de uma forma ou doutra, propriedade das massas agora sem riqueza monetária — do comércio, etc. Entretanto, concreta-
objetivo e que estão também livres e disponíveis para venda.
102
101
mente, o resultado desta dissolução não foi a indústria mas das velhas relações de dependência, servidão ou prestação de
o domínio do campo sobre a cidade. serviço e livre, também, de todos os bens e propriedades pes-
A formação original do capital não ocorre, como tantas soais, de toda forma real e objetiva de existência, livre de toda
vezes foi suposto, pela acumulação de alimento, instrumentos, propriedade. Uma tal massa ficou reduzida ou a vender sua for-
matérias primas ou, em resumo, de condições objetivas de tra- ça de trabalho ou a mendigar, a vagabundear ou a assaltar. A
balho separadas do solo e já fundidas ao trabalho humano. 25 história registra o fato de que ela primeiro tentou a mendi-
Não em virtude do capital criar as condições objetivas de tra- cância, a vagabundagem e o crime, mas foi forçada a abando-
balho. Sua formação original ocorre, simplesmente, porque o nar este rumo e a tomar o estreito sendeiro que conduz ao
processo de dissolução de um velho modo de produção per- mercado de trabalho por meio da forca, do pelourinho e do
mite que o valor, existente como riqueza monetária, adquira, chicote. (Por isto, os governos de Henrique VII, VIII, e t c ,
de um lado, as condições objetivas do trabalho para, do outro constituem condições do processo histórico de dissolução e
lado, trocar o trabalho vivo dos trabalhadores, agora livres, são os criadores das condições de existência do capital.) In-
por dinheiro. Todos estes elementos já existem. O que os se- versamente, os meios de subsistência anteriormente consumi-
para é um processo histórico, um processo de dissolução e é dos pelos senhores de terras e seus dependentes, agora tor-
este que possibilita ao dinheiro o transformar-se em capital. naram-se disponíveis para ser comprados com dinheiro, e o
O dinheiro, em si, embora participe do processo histórico, fá-lo, dinheiro desejava comprá-los para, através de sua instrumen-
apenas, na medida em que é, ele próprio, um agente extrema- talidade, comprar trabalho. O dinheiro nem havia criado nem
mente poderoso de dissolução que intervém no mesmo e, por acumulado estes meios de subsistência. Eles já existiam, eram
isto, contribui para a criação de trabalhadores livres, despo- consumidos e se reproduziam, antes de passar a ser consumi-
jados, sem objetivo; mas, certamente, não porque crie para dos e reproduzidos por intermédio da intervenção do dinheiro.
eles as condições objetivas de sua existência mas, antes, por A única alteração consistia em que tais meios de produção,
acelerar sua separação das mesmas, isto é, apressar sua perda agora, eram lançados no mercado de trocas. Eram, agora,
da propriedade. separados de sua conexão imediata com as bocas dos de-
Por exemplo, quando os grandes proprietários territoriais pendentes, e t c , e transformados de valores de uso em valores
ingleses expulsaram seus dependentes (*) que consumiam de troca, assim submetendo-se à supremacia e domínio da
riqueza monetária. O mesmo vale para os instrumentos de
uma parte da produção excedente de suas terras e, além dis-
trabalho. A riqueza monetária nem descobriu nem fabricou
to, seus arrendatários livraram-se dos pequenos camponeses
a roda de fiar e o tear. Mas, quando foram separados da terra
sem terra, etc. — grande massa de força de trabalho viva
duplamente livre foi lançada no mercado de trabalho: livre os fiandeiros e tecelões, com suas rodas e teares, ficaram sob
o império da riqueza monetária, etc. O capital reúne as mas-
25 OBSERVAÇÃO DE M A R X : Nada é mais óbvia e superficialmente
sas de mãos e os instrumentos preexistentes. É isto, e somen-
circular do que o raciocínio que aleg a ( a ) que os trabalhadores que te isto, que o caracteriza. Ele os reúne sob seu domínio. Esta
devem ser empregados pelo c api tal , se este tem de existir; devem é sua acumulação real; a acumulação de trabalhadores, com
ser, primeiro, criados e to rnad o s possíveis pela sua ac u m u l a ç ã o seus instrumentos, em determinados pontos. Trataremos dis-
(a g u ar d a n d o , por assim dizer, seu " F a ç a - s e o t r a b a l h o " ) ; porquan to
(b) o capit al nã o poderia acumular-se sem o tr abal h o alheio, salvo,
to, mais profundamente, quando nos detivermos na chamada
talvez, o acúmulo do próprio trabalho. Isto é, o cap ital poderia existir acumulação do capital.
primeiro sob a forma de não-capital e não-dinheiro, pois ante s da
existênci a do capital o t rab al h o apenas pode realizar seu valor na
É de admitir-se que a riqueza monetária, como patrimô-
fo rm a d e t rab alh o artesanal , de pequen a agricultu ra, e t c ; em resumo, nio mercantil, ajudara a acelerar e a dissolver as antigas re-
de form as , tod as elas, que perm i te m pequena ou nenhuma acumula- lações de produção, possibilitando, por exemplo, ao proprietá-
ção, con du centes apen as a pequeno excedente de produção e ao con-
sumo da maior parte desta. Re t o rn a re mo s ao conceito de acumula- rio de terras trocar seus cereais, gado, e t c , por valores de uso
ção, mais t ard e. importados, em lugar de desperdiçar sua própria produção
(•) " re t a i n er s " .
com dependentes, cujo número, de fato se tomava em grande

103 104
parte como medida de sua riqueza. Como bem o demonstrou igualmente libertadas mas, agora, também desimpedidas e er-
A. Smith.) A riqueza monetária dera maior significação ao rantes forças vivas de trabalho, comprando umas com outras.
valor de troca de sua receita. Isto também é válido para seus Quanto à formação da riqueza monetária, em si, antes de
arrendatários, que já eram semi-capitalistas embora de modo sua transformação em capital: isto pertence à pré-história
muito disfarçado. A evolução do valor e troca foi favorecida da economia burguesa. Usura, comércio, cidades e a finança
pela existência de dinheiro sob a forma de uma ordem social governamental que surge com elas desempenham os papéis
de mercadores. E dissolveu uma produção cujo objetivo era, principais, agora. Também, o entesouramento pelos arrenda-
primariamente, o valor de uso imediato, e as formas de pro- tários, camponeses, e t c , embora em menor grau.
priedade correspondentes a tal produção — as relações do O comércio foi, por toda a parte, o intermediário do valor
trabalho com suas condições objetivas — assim dando im- de troca ou, alternativamente, a transferência de valores de
pulso à criação de um mercado de trabalho (que não deve ser troca pode ser descrita como comércio — pois, assim como a
confundido com um mercado de escravos). Entretanto, mes- circulação tem existência independente no comércio, tam-
mo este efeito do dinheiro seria possível, apenas, se pressu- bém o dinheiro a tem na camada social dos mercadores. Pode-
posta a existência de uma atividade artesanal urbana, baseada mos ver que o desenvolvimento da troca e do valor de troca
não no capital e trabalho assalariado mas na organização causa tanto a dissolução das relações de propriedade
do trabalho em corporações, etc. O trabalho urbano, em si, do trabalho quanto a suas condições de existência como
tinha criado os meios de produção para os quais as corpo- a dissolução do próprio trabalho como algo que é, em si,
rações (guildas) tornaram-se grandes obstáculos, tanto quan- parte das condições objetivas de produção. Todas estas são
to as antigas relações da propriedade da terra para uma agri- relações que expressam, simultaneamente, a predominância
cultura evoluída que, por sua vez, era, em parte, conseqüência do valor de uso e da produção orientada no sentido do con-
da maior venda de produtos agrícolas para as cidades, etc. sumo imediato e, também, a predominância de uma comuni-
Outras circunstâncias ajudaram a dissolução das antigas dade real, ainda presente como um pré-requisito imediato da
relações de produção, acelerando a separação do trabalhador produção. A produção baseada no valor de troca e uma comu-
ou do não-trabalhador capaz de trabalhar, das condições nidade baseada no intercâmbio destes valores de troca, e o
objetivas de sua reprodução e, assim, estimularam a trans- trabalho como condição geral da riqueza, tudo pressupõe e
formação do dinheiro em capital. Tais foram, por exemplo, produz a separação do trabalho de suas condições objetivas.
os fatores que incrementaram, no século XVI, a massa de Embora, como vimos no último capítulo sobre dinheiro, a
mercadorias em circulação, a massa circulante de dinheiro, produção para a troca e a comunidade baseada nesta
criando novas necessidades e, conseqüentemente, aumentando possam parecer colocar a propriedade como resultado,
o valor de troca dos produtos locais, elevando os preços, unicamente, do trabalho e a propriedade privada do produto
etc. Nada poderá, portanto, ser mais estúpido do que conce- do trabalho próprio como um pressuposto — trata-se de apa-
ber a formação original do capital como se significasse a rência enganadora. A troca de equivalentes ocorre (mas é
acumulação e criação das condições objetivas da produção — apenas) a camada superficial de uma produção que se fun-
alimentos, matérias primas, instrumentos — que foram, en- damenta na apropriação do trabalho alheio sem troca, mas
tão, oferecidas aos trabalhadores delas despojados. O que sob a aparência de troca. Este sistema de troca tem o
ocorreu, em verdade, foi que a riqueza monetária ajudou, em capital como base. Se o considerarmos isoladamente do capi-
parte, a privar destas condições a força de trabalho dos indi- tal, emergirá como se mostra na superfície, como um sistema
víduos capazes de trabalhar. O resto deste processo de sepa- autônomo, isto é, mera ilusão, ainda que ilusão necessária.
ração ocorreu sem a intervenção da riqueza monetária. Quan- Não constitui mais surpresa, pois, descobrir que o sistema de
do a formação original do capital chegara a certo nível, a valores de troca — a troca de equivalentes medidos em traba-
riqueza monetária pôde insinuar-se como intermediária en- lho — transforma-se em apropriação do trabalho alheio sem
tre as condições objetivas de vida, agora "liberadas" e as troca, a total separação do trabalho e da propriedade ou, en-
tão, revela esta apropriação como seu pano de fundo oculto.

105 106
As formas históricas originais em que o capital apare-
Pois as regras dos valores de troca e da produção orientada ce, primeiro, esporádica ou localmente, lado a lado com os
para a produção de valores de troca, pressupõem a própria antigos modos de produção, mas gradualmente destruindo-os
força de trabalho alheio como valor de troca. Isto é, pressu- formam a manufatura no sentido próprio do termo (ainda
põem a separação da força viva de trabalho de suas condições não a fábrica). Isto ocorre onde há produção em massa para
objetivas; um relacionamento com estas — ou com sua pró- exportar — portanto, sobre a base do comércio marítimo e
pria objetividade — como propriedade de outrem; numa pa-
terrestre em grande escala e nos centros deste comércio, como
lavra uma relação com elas como capital.
nas cidades da Itália, em Constantinopla, as cidades flamen-
A idade de ouro do trabalho emancipando-se a si próprio
gas e holandesas, em algumas da Espanha, como Barcelona,
ocorreu, apenas, naqueles períodos do feudalismo em ocaso
etc. A manufatura não submete, inicialmente, os chamados
mas ainda em luta intestina, como na Inglaterra do século
XIV e primeira metade do século XV. Para o trabalho, nova- ofícios urbanos, mas apenas as atividades rurais subsidiárias,
mente, relacionar-se às suas condições objetivas, como sua a fiação e a tecelagem, o tipo de trabalho que menos requer
propriedade, outro sistema terá de substituir o da troca habilidade artesanal, treinamento técnico. Além daqueles
privada, pois, como vimos, esta presume o intercâmbio de grandes empórios, em que encontra a base de um mercado
trabalho transformado em objetos, por força de trabalho e, de exportação e onde a produção é, por sua natureza espon-
portanto, a apropriação do trabalho vivo sem intercâmbio. tânea, orientada para o valor de troca — isto é, onde as ma-
Historicamente, o dinheiro é muitas vezes transformado nufaturas ligavam-se, diretamente, à navegação, inclusive a
em capital de um modo muito simples e óbvio. Assim, o comer- própria construção de navios, e t c , — a manufatura estabele-
ciante põe a trabalhar uma porção de fiandeiros e tecelões, ceu-se, primeiro, não nas cidades mas nas áreas rurais, nas
que anteriormente dedicavam-se a tais atividades como aldeias carentes de corporações, etc. As ocupações rurais
ocupações subsidiárias de seu trabalho agrícola; assim, trans- subsidiárias contêm a base ampla das manufaturas, enquan-
forma uma atividade subsidiária numa principal, com o que to um alto grau de progresso na produção é necessário para
coloca-os sob seu controle e comando, como trabalhadores as- orientar os ofícios urbanos no sentido da indústria fabril.
salariados. O passo seguinte será removê-los de seus lares e Ramos da produção como as fábricas de vidro, de metal, ser-
reuni-los numa única oficina de trabalho. Neste processo sim-
rarias, e t c , que desde o início demandam maior concentração
ples fica evidente que o capitalista não preparou nem maté-
de força de trabalho, empregam mais energia natural, e tam-
ria prima, nem instrumentos, nem meios de subsistência para
fiandeiros e tecelões. Tudo o que ele fez foi, gradualmente, bém requerem tanto produção em massa quanto concentração
limitá-los a uma espécie de trabalho que os torna dependen- de meios de produção, e t c : estes, também, se prestam para a
tes do comprador, o mercador e, assim, finalmente, eles manufatura. Dá-se o mesmo com as fábricas de papel, etc.
estarão produzindo exclusivamente para ele e por intermé- O outro aspecto deste processo é o advento do arrenda-
dio dele. Originalmente, comprava seu trabalho, apenas, me- tário e a transformação da população agrícola em trabalhado-
diante a compra de seu produto. Logo que se restringiram à res-diaristas livres. Embora o campo seja o último local em
produção deste valor de troca e, portanto, foram obrigados a que esta transformação triunfa em suas formas mais puras
produzir valores de troca imediatos e a trocar seu trabalho, e lógicas, alguns dos desenvolvimentos iniciais verificam-se
todo por dinheiro para poder prosseguir vivendo, caíram sob ali. Por isto os antigos, que nunca progrediram além dos ofí-
seu domínio. Finalmente, mesmo a ilusão de lhe vender seus cios especificamente urbanos e suas aplicações, jamais foram
produtos desaparece. O mercador compra seu trabalho e ar- capazes de chegar à indústria em grande escala. Pois seu
rebata-lhes, primeiramente, sua propriedade do produto, e,
primeiro pré-requisito é o envolvimento de toda a área rural
logo, sua propriedade dos instrumentos de trabalho, a menos
na produção, não de valores de uso mas de valores de troca.
que lhes permita a ilusão da propriedade para reduzir seus
custos de produção. A produção de fábricas de vidro, de papel, a elaboração do

108
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duzidas como valores de uso imediato em valores de troca.
ferro, etc., não podem ser organizadas corporativamente. Exi- Este processo é o resultado automático da separação dos tra-
gem produção em massa, vendas a um mercado geral, rique- balhadores do solo e da sua propriedade (ainda que apenas
za monetária na mão do empresário. Não que este crie as con- propriedade servil) das condições de produção.
dições objetivas ou subjetivas mas, porque sob as antigas * Embora o artesanato urbano seja baseado, substancial-
relações de propriedade e produção, tais condições não po- mente, na troca e na criação de valores de troca, o objetivo
dem ser reunidas. Depois disso, a dissolução das relações de ser- principal da produção não é o enriquecimento ou o valor de
vidão e o advento da manufatura, gradualmente, transfor- troca como valor de troca, mas a subsistência do homem
mam todos os ramos da produção em ramos operados pelo como artesão, como um mestre-artesão e, conseqüentemente,
capital.) Entretanto, as próprias cidades contêm um elemen- o valor de uso. A produção está, portanto, sempre subordi-
to para a formação do genuíno trabalho assalariado — ex- nada ao consumo pressuposto; a oferta à procura; sendo len-
pressamente, os trabalhadores jornaleiros excluídos do siste- ta sua expansão.
ma corporativo, trabalhadores não qualificados etc. * A produção de capitalistas e trabalhadores assalariados
* Vemos, pois, que a transformação de dinheiro em capi- é, portanto, um produto fundamental do processo pelo qual
tal pressupõe um processo histórico que tenha separado as o capital se transforma em valores. A economia política usual,
condições objetivas do trabalho, tornando-as independentes, que se concentra apenas nas coisas produzidas, esquece isto
e as volta contra os trabalhadores. Entretanto, desde que o inteiramente. Uma vez que este processo estabelece o trabalho
capital e seu processo existam, conquistam toda a produção reificado como o que é, simultaneamente a não-reificação do
e provocam e acentuam, por toda a parte, a separação entre trabalhador, como de uma subjetividade contraposta ao traba-
trabalho e propriedade, entre trabalho e as condições obje- lhador, como a propriedade de uma vontade alheia, o capital,
tivas de trabalho. Subseqüente desenvolvimento mostrará 26
necessariamente, é ao mesmo tempo o capitalista. A idéia de
como o capital destrói o trabalho artesanal, a pequena pro- alguns socialistas, de que precisamos de capital mas não de ca-
priedade de proprietários que trabalham, e t c , e até a si mes- pitalistas, é completamente falsa. O conceito de capital implica
mo, nas formas em que não se mostra em contradição com que as condições objetivas do trabalho — que são o próprio
o trabalho: no pequeno capital e nos tipos intermediários ou produto do capital — adquirem uma personalidade contra
híbridos, situados entre os modos de produção antigos (ou o trabalho, ou, o que vem a ser o mesmo, que passem a cons-
as formas que estes assumam em função de sua renovação tituir propriedade alheia, não do trabalhador. O conceito de
à base de capital) e o modo de produção clássico, adequado, capital contém o capitalista. Entretanto, este erro não é
do próprio capital. 27
maior, certamente, do que, por exemplo, o de todos os filó-
* A única acumulação que é pré-requisito do advento do logos que falam da existência do capital na antigüidade clás-
capital é a da riqueza monetária que, considerada isolada- sica e de capitalistas romanos e gregos. Isto é, apenas, outro
mente, é inteiramente improdutiva, emergindo somente da modo de dizer que em Roma e na Grécia o trabalho era livre,
circulação e pertencendo apenas à circulação. O capital, ra- afirmação que estes cavalheiros dificilmente fariam. Se fa-
pidamente, cria para si mesmo um mercado interno pela des- larmos, agora, dos proprietários de "plantations" na América
truição de todos os ofícios subsidiários rurais, i.é, fiando como capitalistas, e que sejam capitalistas, isto se baseará
e tecendo para todos, fornecendo roupas para todos, e t c ; em no fato deles existirem como anomalias em um mercado mun-
resumo, transformando as mercadorias anteriormente pro- dial baseado no trabalho livre. Se o termo capital fosse apli-
cável à antigüidade clássica — embora a palavra, realmente,
28

26 O trecho , também, poderia ser assim traduzido: "Veremos mais


ta r d e " . 28 A frase co ndensa da de M a r x li mit a- s e a: " S e vamos fala r em
27 NT.: Estes desenvolvimentos não figuram no man uscr ito de capital". Pensamo s que exige esta ampl iaçã o .
1857-58.
110
109
mesma coisa pode ser incluída ora sob a denominação de
capital, ora sob outra denominação e bem contrária, e, de
não fosse conhecida dos antigos — então as hordas nômades
29

acordo com isso, é ou não é capital; este é uma relação e so-


que vagam com suas manadas pelas estepes da Ásia central mente pode ser uma relação de produção. 31

seriam as maiores capitalistas, pois o significado original da


palavra capital é gado. Por isto o contrato de "metairie" 30

usual no Sul da França, devido à escassez de capital, ainda


é chamado, às vezes, de "bail de bestes à cheptel" (contrato
de "leasing" de gado). Se nos permitirmos um pouco de mau
latim, nossos capitalistas ou Capitules Homines (homens
principais) seriam aqueles "que debent censura de capite"
(que pagam um imposto "per capita").
* Dificuldades que não surgiram na análise conceitual do
dinheiro surgem na do capital. O capital é, essencialmente,
o capitalista, mas, ao mesmo tempo, a produção em geral é
capital, como um elemento na existência do capitalista, bem
distinto dele. Assim, descobriremos mais tarde que no termo
capital há muita coisa incluída que, aparentemente, não per-
tence ao conceito. Ex.: o capital é emprestado, é acumula-
do, etc. Em todas estas relações ele figura como um mero
objeto e parece coincidir inteiramente com a matéria que o
constitui. Entretanto, análise mais aprofundada esclarecerá
este e outros problemas. Comentemos, de passagem, a seguin-
te e divertida observação: O bom Adam Müeller, que dá um
sentido místico a todas as frases figuradas, ouviu falar em
capital vivo, na vida comum, em oposição a capital morto e
revestiu tudo isto de roupagens teosóficas. O rei Ethelstan
poderia ter-lhe ensinado algo sobre isto: "Reddam de meo
próprio décimas Deo tam in Vivente Capitale quam in mor-
tuis fructuis terrae". (Darei um décimo de minha proprieda- 31 NT : Ai ter min a a tra duçã o de J a c é Cohen, do alemã o p a r a o In-
de a Deus, tanto em gado vivo como era frutos mortos do glês, que é a matriz da presente t r ad uçã o portuguesa. Mas, no t r a -
solo.) O dinheiro sempre mantém a mesma forma no mesmo balho de M. N. e Miguel Murmis, que pa ssar a m as FO R M E N do
alemã o p a r a o espanhol (Ediciones Pa sa do y Presente, Cordoba, 1971)
substrato e é, portanto, mais facilmente concebido como um há, ainda , o trecho que segue:
objeto. Mas a mesma coisa, mercadoria, dinheiro, e t c , pode "Vimos como a verdadeira n a t ur e z a do capital ape na s se a p r e -
representar capital ou receita, etc. Por isto é claro, até para sent a no final do segundo ciclo. T emo s de considerar a g o r a o pr ó -
prio ciclo ou circulação do capital. Originariamente . a pr odução p a r e -
os economistas, que o dinheiro não é tangível, porém que a cia esta r além da circulação e a circula çã o além da produção . O ciclo
do capital — a circulação considerad a como circulação do capital —
abrang e os dois momentos. Nele a produção figura co mo um ponto
29 NOTA DE M A R X : "Ma s, e ntr e os gregos a palav ra arkhais era final e inicial da circulaçã o e vice-versa . A autonomia da cir cul a -
usada no sentido do que os r o m an o s c h a m a v a m "principalis summa ção reduz-se a mera a pa rência , do mesmo modo que o esta r além
reincreditae" (o principal de um e m pr é s ti m o ) " . da pro d ução . "
30 NT.: Pa rcer ia a g r o - pe cu ár i a (em tr aduçã o liv re) .
112
111
dutivas, a divisão do trabalho e relações internas. Esta afir-
mação é amplamente aceita. Mas, não apenas as relações de
uma nação com outras, também toda a estrutura interna
da própria nação depende do estágio de desenvolvimento al-
cançado por sua produção e por suas relações interna e ex-
terna. O quanto as forças produtivas duma nação estão de-
senvolvidas é demonstrado, mais claramente, pelo grau até
Textos Suplementares de Marx e Engels sobre Problemas de onde levou a divisão do trabalho. Cada nova força produtiva,
na medida em que não seja, meramente, uma extensão quan-
Periodização Histórica titativa de forças produtivas já conhecidas (por exemplo, o
acréscimo de novas terras ao cultivo) trará maior desenvolvi-
1 — DA IDEOLOGIA ALEMÃ (Parte I) mento da divisão do trabalho.
A divisão do trabalho dentro duma nação leva, primeira-
(A) mente, à separação do trabalho industrial e comercial do
agrícola e, portanto, à separação da cidade e do campo e a
um conflito de interesses entre eles. O desenvolvimento pos-
terior conduz à separação das atividades industriais dás co-
merciais. Ao mesmo tempo, através da divisão do trabalho
desenvolvem-se mais, dentro dos vários ramos, divisões
entre os indivíduos que cooperam em espécies definidas
O modo pelo qual os homens produzem seus meios de de trabalho. A posição relativa destes grupos individuais
subsistência depende, antes de tudo, da natureza dos meios é determinada pelos métodos empregados na agricultura,
que eles encontram e têm de reproduzir. Este modo de pro- indústria e comércio (patriarcalismo, escravidão, estamentos,
dução não deve ser considerado, simplesmente, como a re- classes). Estas mesmas condições serão vistas (dado um re-
produção da existência física dos indivíduos. Trata-se, antes, lacionamento mais desenvolvido) nas relações das diferentes
de uma forma definida de atividade destes indivíduos, uma nações entre si.
forma definida de expressarem suas vidas, um definido mo- Os vários estágios de desenvolvimento da divisão do tra-
do de vida deles. Assim como os indivíduos expressam suas balho são, apenas, outras tantas formas diversas de proprie-
vidas, assim eles são. E o que eles são, portanto, coincide com dade; i. é, os estágios vigentes da divisão do trabalho deter-
sua produção, tanto com o que produzem quanto com o como
minam, também, as relações recíprocas dos indivíduos, rela-
produzem. A natureza dos indivíduos, portanto, depende das
tivamente às matérias primas, instrumentos e produtos do
condições materiais determinantes de sua produção.
trabalho.
Esta produção apenas se revela com o aumento da po- A primeira forma de propriedade é a propriedade tribal.
pulação. Por sua vez, isto pressupõe o relacionamento recí- Corresponde a um estágio não desenvolvido da produção em
proco dos indivíduos. A forma deste relacionamento é deter- que um povo vive da caça e da pesca, criando animais ou,
minada, ainda, pela produção.
na fase mais elevada, da agricultura. Este último caso pres-
As relações recíprocas de diferentes nações dependem supõe grandes extensões de terras não cultivadas. A divisão
da extensão em que cada qual desenvolveu suas forças pro- do trabalho, neste estágio, é muito elementar ainda, e está
limitada a uma extensão da divisão natural do trabalho im-
113 posta pela família: a estrutura social é, portanto, resumida a
uma extensão da própria família; lideranças familiares patriar-
cais, os membros da tribo abaixo delas e, finalmente, os es-

114
Na Itália, entretanto, as coisas passaram-se doutro modo. A
cravos. A escravidão latente na família só se desenvolve,
concentração de propriedade territorial (causada não apenas
gradualmente, com o aumento da população, a maior pres-
pela compra e endividamentos, mas por herança, pois a vida
são das necessidades e a ampliação das relações exteriores,
livre sendo comum e o matrimônio raro, as velhas famí-
de guerra ou de comércio.
lias extinguiam-se e suas possessões caíam nas mãos duma
A segunda forma é a antiga propriedade comunal e do
minoria) e sua transformação em pastagens (devido não so-
Estado, que provém, particularmente, da união de várias tri-
mente a forças econômicas que ainda atuam hoje em dia,
bos numa cidade, por acordo ou conquista, e ainda é acompa-
mas à importação de cereais saqueados e recolhidos a título
nhada pela escravidão. Ao lado da propriedade comunal já en-
de tributos, com a resultante queda da demanda da produção
contramos a propriedade privada móvel, e mais tarde a imó-
italiano) levaram à quase total desaparição da população
vel, em desenvolvimento, mas como forma anormal, subor-
livre. Inclusive, os escravos morriam e tinham de ser substi-
dinada à propriedade comunal. É somente como comunidade
tuídos por novos. A escravidão continuava como base de todo
que os cidadãos exercem poder sobre seus escravos que traba-
o sistema produtivo. Os plebeus, meio-termo entre homens
lham — e somente por esta condição, portanto, eles ficam
livres e escravos, nunca passaram de multidão proletária des-
vinculados à forma de propriedade comunal. A propriedade
prezível *. Roma, na verdade, nunca foi mais do que uma ci-
privada comunal é que força os cidadãos ativos a permane-
dade: suas conexões com as províncias eram quase exclusi-
cerem nesta forma natural de associação em oposição a seus
vamente políticas e podiam ser facilmente rompidas de no-
escravos. Por este motivo, toda a estrutura da sociedade ba-
vo por acontecimentos políticos.
seada em tal propriedade comunal, e com ela o poder
do povo, entra em decadência na mesma medida em que Com o desenvolvimento da propriedade privada, encon-
progride a propriedade privada imóvel. A divisão do trabalho tramos ali, pela primeira vez, as mesmas condições que sur-
já está mais desenvolvida. Já encontramos o antagonismo girão posteriormente, porém em escala mais extensiva, com
entre a cidade e o campo, depois o antagonismo entre aque- a moderna propriedade privada. Por um lado, a concentra-
les estados que representam interesses urbanos e os que re- rão da propriedade privada, que começou muito cedo em
presentam interesses rurais e, dentro das próprias cidades, o Roma (como é provado pelas leis agrárias de Licínio) e, ra-
antagonismo entre a indústria e o comércio marítimo. As re- pidamente, se desenvolveu a partir do tempo das guerras civis
lações de classe entre os cidadãos e os escravos estão, agora, e, especialmente, sob os imperadores; e, por outro lado junta-
completamente desenvolvidas. mente com isto, houve a transformação dos pequenos campo-
Toda esta interpretação da história parece ser contesta- neses plebeus em um proletariado, o qual, entretanto, devido
da pelo fato da conquista. Até este momento a violência, a a sua situação intermediária entre cidadãos proprietários e os
guerra, a pilhagem, a violação de mulheres e a matança, e t c , escravos, jamais alcançou um desenvolvimento independente.
têm sido aceitas como a força motora da história. Aqui, te- A terceira forma de propriedade é a feudal ou por esta-
remos de nos limitar aos pontos principais e a apresentar, por- mentos. Se a antigüidade originou-se da cidade com seu pe-
tanto, só um exemplo frisante — a destruição de uma antiga queno território, a Idade Média teve o campo como ponto de
civilização por um povo bárbaro e a conseqüente formação partida. Este diferente marco inicial foi determinado pela
de uma organização social inteiramente nova (Roma e os distribuição da população à época, esparsa sobre grande área
bárbaros: o Feudalismo e os gauleses; o Império Bizantino e sem ser muito aumentada pelos conquistadores. Em con-
e os turcos). Para os povos bárbaros conquistadores a própria traste com a Grécia e Roma, o desenvolvimento feudal, por-
guerra, como indicamos anteriormente, é ainda uma forma tanto, estende-se por um campo muito mais amplo, prepa-
regular de relacionamento, mais intensamente explorada à
medida em que a população aumenta, impondo a necessidade (*) Em inglês, "pro letaria n rabble" . Adiante (págs. 118, 120 etc.)
de novos meios de produção que superem o rude modo de "r a b bl e " — que indica uma multidão desorganizada ou desordeira,
ou pessoas dos grupos sociais mais baixos — foi traduzida por ralé,
produção tradicional e, para esse povo, o único possível. ou turba. (N.R.)

115 116
rado pela conquista romana e a disseminação da agricultura, ções da produção — o cultivo da terra em pequena escala e
inicialmente associada com ela. Os derradeiros séculos do de- primitivo, o tipo artesanal de indústria. Havia pouca divisão
cadente Império Romano e sua conquista pelos bárbaros des- do trabalho, no apogeu do feudalismo. Cada região continha,
truíram grande quantidade de forças produtivas: a agricul- em si mesma, o conflito da cidade com o campo e a divisão em
tura declinara, a indústria decaíra por falta de um mercado, estamentos era fortemente marcada; mas, além da diferen-
o comércio morrera ou fora violentamente interrompido, a ciação de príncipes, nobres, clérigos e camponeses, no cam-
população rural decrescera. A partir destas condições e do po, e dos mestres, jornaleiros, aprendizes e, cedo, também,
modo de organização da conquista por elas determinado, a a ralé de trabalhadores eventuais, nas cidades, não ha-
propriedade feudal desenvolveu-se sob a influência da estru- via qualquer divisão importante. Na agricultura isso torna-
tura militar germânica. Como ocorreu com a propriedade tri- va-se difícil pelo sistema de cultivo por faixas, ao lado do qual
bal e comunal, a base foi novamente a comunidade, mas a surgira, como outro fator, a indústria caseira dos próprios
classe diretamente produtora que se defronta com essa pro- camponeses. Na indústria não havia qualquer divisão de tra-
priedade não foi, como no caso da antiga comunidade, a dos balho dentro dos próprios ofícios e muito pouca entre estes.
escravos, mas a do pequeno camponês reduzido à servidão. Tão A separação de indústria e comércio já existia nas cidades
pronto o feudalismo desenvolveu-se plenamente, surgiu o an- mais antigas, nas mais novas apenas desenvolveu-se poste-
tagonismo com as cidades. O sistema hierárquico de proprie- riormente, quando as cidades estabeleceram relações recí-
dade da terra e os corpos armados de dependentes a ele asso- procas.
ciados, deram à nobreza o poder sobre os servos. Esta organi- O agrupamento de territórios mais extensos em reinos
zação feudal era, tanto quanto a antiga propriedade comunal, feudais fez-se uma necessidade para a nobreza integrada pe-
uma associação contra uma classe produtiva subjugada, mas los proprietários rurais e para as cidades. A organização da
a forma de associação e a relação com os produtores diretos classe dominante, a nobreza, passou a ter, por toda a par-
eram diferentes, devido às diferentes condições de produção. te, um monarca em sua chefia.
Esta organização feudal de propriedade da terra tinha
sua contrapartida nas cidades sob a forma de propriedade (B)
corporativa, a organização feudal dos ofícios. Aí, a pro-
priedade consistia, principalmente, no trabalho de cada pes- A maior divisão do trabalho material e mental é a
soa, individualmente. A necessidade de associação contra os separação da cidade e campo. O antagonismo entre
organizados nobres-assaltantes, a necessidade de mercados co- cidade e campo começa com a transição da barbárie para a
munais protegidos, numa época em que o industrial era simul- civilização, da tribo para o Estado, da localidade para a na-
taneamente um comerciante, a crescente competição de servos ção, e percorre toda a história da civilização, até nossos dias
fugitivos reunidos em cidades que nasciam, a estrutura feudal (a LIGA CONTRA A LEI DOS CERE AIS) . A existência da
de todo o território: tudo combinou-se para levar às corpora- cidade implica, ao mesmo tempo, a necessidade de adminis-
ções. Além do mais, o capital de artesãos específicos, gra- tração, de polícia, de impostos, e t c , em resumo: do municí-
dualmente acumulado, e o número estável deles em oposição pio e, pois, da política em geral. Aí, primeiramente, tornou-
à crescente população, desembocaram na relação dos jorna- se expressa a divisão da população em duas grandes clas-
leiros e aprendizes, o que produziu nas cidades uma hierar- ses, diretamente baseada na divisão do trabalho e nos ins-
quia similar à do campo. trumentos de produção. A cidade já é, na realidade, a con-
centração de população, de instrumentos de produção, de
Assim, a principal forma de propriedade durante a épo- capital, de prazeres, de necessidades, enquanto o campo re-
ca feudal era por um lado a propriedade da terra, com o tra- presenta, justamente, o oposto, seu isolamento e separação.
balho servil ligado a ela e, por outro lado, o trabalho individual O antagonismo da cidade e campo só pode existir como con-
com pequeno capital dirigindo o trabalho dos jornaleiros. A or- seqüência da propriedade privada. É a mais crassa expres-
ganização de ambos era determinada pelas restritas condi- são da submissão do indivíduo sob a divisão do trabalho, a uma

117 11 8
contra a qual eram impotentes, na qual eles tinham de sub-
atividade definida que lhe é imposta — uma sujeição que meter-se à posição que lhes fosse designada pela demanda de
transforma um homem num limitado animal citadino e o
seu trabalho e pelos interesses de seus competidores urbanos
outro num restrito animal do campo e, diariamente, renova o
organizados. Estes trabalhadores, chegando separadamente,
conflito entre seus interesses. O trabalho é, aqui, nova-
jamais eram capazes de conseguir qualquer poder, pois sendo
mente, o elemento principal, o poder sobre os indiví-
seu trabalho do tipo corporativo que devia ser aprendido,
duos e enquanto este existir a propriedade privada terá
os mestres das guildas dobravam-nos a seu talante e os orga-
de existir. A abolição do antagonismo entre cidade e campo
nizavam conforme seus interesses; ou, sendo seu trabalho
é uma das primeiras condições da vida comunal, uma con-
de outra natureza, que não necessitasse de aprendizado e,
dição que, também, depende de uma porção de premissas
portanto, não pertencente ao tipo corporativo, transforma-
materiais e que não pode ser atendida pela simples vontade,
vam-se em jornaleiros e jamais conseguiam organizar-se,
como qualquer um poderá constatar à primeira vista. (Estas
permanecendo na condição de massa desorganizada. A ne-
condições estão ainda para ser enumeradas.) A separação
cessidade de jornaleiros na cidade criava a ralé. Estas
da cidade e campo poderá ser entendida, também, como se-
cidades eram verdadeiras "associações", que emergiam da
paração do capital e da propriedade territorial, como o co-
necessidade direta de proteger a propriedade e multiplicar
meço da existência e desenvolvimento do capital como algo
os meios de produção e defesa dos membros individuais. A
independente da propriedade da terra — o começo da pro-
turba destas cidades estava destituída de qualquer poder,
priedade que tem por base, somente, o trabalho e a troca.
composta, como era, por indivíduos estranhos entre si que
Nas cidades que não chegaram à Idade Média já cons-
haviam chegado separadamente e que permaneciam desor-
tituídas em períodos anteriores, mas que foram erigidas en-
ganizados diante de uma força organizada, armada para a
tão pelos servos que se libertavam, o trabalho privado de
guerra, e, ciumentamente, a vigiá-los. Os jornaleiros e apren-
cada homem era sua única propriedade, independentemente
dizes eram organizados em cada ofício da forma mais ade-
do pouco capital que ele tivesse trazido consigo, consistindo
quada aos interesses de seus mestres. O relacionamento filial
este quase somente nos mais necessários instrumentos
que mantinham com os mestres dava aos últimos um poder
de seu ofício. Esta competição de servos, que constantemen-
duplo — de um lado, devido à influência que exerciam
te fugiam para a cidade, a guerra permanente do campo
sobre toda a vida dos jornaleiros, pelo outro, devido, no que
contra a cidade e, pois, a necessidade de uma força militar
diz respeito aos que trabalhavam para o mesmo mestre, ao
municipal organizada, o laço da propriedade comum de um
laço real que os unia contra os jornaleiros de outros mestres
determinado produto do trabalho, a necessidade de edificações separando os destes dos daquele. E, finalmente, os jornalei-
comuns para a venda de suas manufaturas num tempo em que
ros ficavam ligados à ordem existente pelo próprio interesse
os artesão também eram negociantes, e a conseqüente exclusão
de se tornarem mestres, eles próprios. Quando, entretanto,
dos não credenciados de tais edifícios, o conflito entre os
a ralé se revoltava contra a ordem municipal inteira, re-
interesses dos vários ofícios, a necessidade de proteger sua
voltas que eram completamente inefetivas devido à sua im-
destreza laboriosamente adquirida, e a organização feudal
potência, os jornaleiros nunca passavam de pequenos atos
de toda a área rural: tais foram as causas da união dos tra-
de insubordinação dentro das corporações isoladas, como é
balhadores de cada ofício em corporações. Não precisamos,
próprio da natureza das guildas. Os grandes levantes da Ida-
neste ponto, prosseguir até as inúmeras modificações do sis-
de Média irradiavam-se da área rural, mas eram totalmente
tema corporativo, surgidas de desenvolvimentos históricos
inócuos devido ao isolamento e à conseqüente rudez dos cam-
ulteriores.
poneses.
A fuga de servos para as cidades continuou, sem inter-
Nas cidades, a divisão de trabalho entre as corporações
rupção, através de toda a Idade Média. Estes servos, perse-
era, até então, muito natural e, nas próprias guildas, não es-
guidos por seus amos na área rural, chegavam isoladamente
tava absolutamente desenvolvida entre os diversos traba-
às cidades, onde encontravam uma comunidade organizada
120
119
com as outras, novos instrumentos foram levados duma ci-
dade para outra, e a separação entre a produção e o comér-
lhadores. Cada trabalhador tinha de ser versado em toda
cio cedo exigiu nova divisão da produção entre as cidades,
gama de tarefas, uma de ser capaz de fazer tudo o que
cada uma das quais passando a explorar um ramo predomi-
pudesse ser feito com seus instrumentos. O limitado comércio
nante da indústria. As restrições locais de tempos anterio-
e as difíceis comunicações entre as cidades, a escassez de
res começaram, gradualmente, a ser rompidas.
população e as necessidades reduzidas não favoreciam uma
Na Idade Média, os cidadãos de cada cidade eram obri-
maior divisão do trabalho e, portanto, todo homem que qui-
gados a se unir contra a nobreza proprietária da terra, para
sesse tornar-se um mestre tinha de ser proficiente em todo preservar a própria pele. A ampliação do comércio, o esta-
seu ofício. Assim, havia entre os artesãos medievais especial belecimento de comunicações levou cidades isoladas a conhe-
interesse pelo trabalho e pela excelência nele, ao ponto cer outras cidades, que tinham afirmado os mesmos inte-
de despertar um certo senso artístico. Por esta mes- resses na luta contra idêntico antagonista. Das muitas cor-
ma razão, entretanto, cada artesão medieval estava comple- porações de habitantes de burgos nasceu, gradualmente, a
1

tamente absorvido por seu trabalho, com o qual desenvolvia classe dos burgueses. As condições de vida de cada habitante
um relacionamento gratificador e escravizador e ao qual dos burgos tornaram-se existente e do modo de trabalho de-
submetia-se muito mais do que o trabalhador moderno, terminado por este, condições comuns a todos eles indepen-
cujo trabalho é assunto que o deixa indiferente. dentemente de cada indivíduo. Os burgueses tinham errado
O capital, nessas cidades, era um capital natural, con- as condições na medida em que se libertavam dos laços feu-
sistindo numa casa, nos instrumentos do ofício e nos fregue- dais, e eram criados por elas na medida em que eram deter-
ses naturais, hereditários; e, não sendo realizável, devido ao minadas por seu antagonismo ao sistema feudal que encon-
atraso do comércio e à falta de circulação, passava de pai a traram em vigor. Quando as cidades começaram a estabelecer
filho. Diferentemente do capital moderno, que pode ser ava- associações, estas condições comuns evoluíram para condições
liado em dinheiro e indiferentemente investido nestas coisas de classe, as mesmas condições, o mesmo antagonismo, os mes-
ou naquelas, este capital ligava-se diretamente ao trabalho mos interesses necessariamente geraram costumes semelhan-
específico do proprietário, era inseparável dele e, neste sen- tes por toda a parte. A própria burguesia, com suas condições,
tido, um capital "de estamento". desenvolveu-se apenas gradualmente, dividida, em consonân-
O passo seguinte na divisão do trabalho foi a separação cia com a divisão do trabalho, em várias facções e, finalmen-
da produção e do comércio, a constituição de uma classe es- te, absorveu todas as classes dantes possuidoras (enquanto
pecial de mercadores; uma separação que, nas cidades vin- desenvolvia a maioria das classes que, antes, eram não-pos-
das de período anterior, já se verificara (entre outros fatores, suidoras, e parte das anteriormente proprietárias, em uma
com os Judeus) e que muito cedo surgiu nas recém-constituí- nova classe, o proletariado) na medida em que toda a pro-
das. Com isto, houve a possibilidade das comunicações comer- priedade anterior era transformada em capital industrial ou
ciais transcenderem a vizinhança imediata, uma possibilidade comercial. Os indivíduos isolados constituem uma classe, ape-
cuja realização dependia dos meios de comunicação existen- nas, na medida em que têm de travar batalha comum con-
tes, do estado de segurança pública no campo, o que era tra outra classe; do contrário, permanecem em posição re-
determinado pelas condições políticas (durante toda a Idade ciprocamente hostil, como concorrentes. Por outro lado, a
Média, como é sabido, os mercadores viajavam em caravanas classe alcança existência independente acima e contra os in-
armadas) e das necessidades mais rústicas ou mais refinadas divíduos de modo que estes últimos encontram suas condi-
(determinadas pelo estágio cultural alcançado) das regiões ções de existência predestinadas, e por isto têm posição na
acessíveis ao relacionamento. Sendo o comércio a prerroga-
tiva de uma classe especial, com a expansão do comércio, 1 N T . : "burghers", no original. A pa lav r a burgo, em portuguê.3, tem
através dos mercadores, para além das vizinhanças imedia- significado idêntico e ta m bé m é a raiz de "burg uesia", cf. Caldas
tas da cidade, logo surge uma ação recíproca entre a pro- Aulete.
dução e o comércio. As cidades estabeleceram relações umas
122
121
O trabalho que, de início, pressupunha a máquina, ain-
da que a mais rústica, cedo mostrou-se o mais capacitado a
vida e desenvolvimento pessoal que lhes forem atribuídos desenvolver-se. A tecelagem, a princípio praticada no campo
por sua classe, integrando-se nela. Este é fenômeno idêntico pelos camponeses, como ocupação secundária, para proverem-
ao da submissão de indivíduos isolados à divisão do trabalho se de roupas, foi o primeiro trabalho a receber um impulso
e somente poderá ser removido pela abolição da propriedade e um maior desenvolvimento através da extensão do comér-
privada e do próprio trabalho. Já indicamos, várias vezes, cio. A tecelagem foi a primeira manufatura e continuou a
que esta integração do indivíduo na classe acarreta sua sub- ser a principal. O aumento da demanda de materiais de ves-
missão a toda espécie de idéias, etc. tuário, conseqüência do crescimento populacional, o aumento
Depende apenas da extensão do comércio que as forças da acumulação do capital natural e sua mobilização através
produtivas alcançadas numa localidade, especialmente as in- da circulação acelerada, a demanda de artigos de luxo pro-
venções, percam-se ou não em ulterior desenvolvimento. En- vocada por esta e favorecida, geralmente, pela gradual am-
quanto não existir comércio que ultrapasse a vizinhança ime- pliação do comércio deram à tecelagem um estímulo quali-
diata, cada invenção tem de ser realizada, separadamente, tativo e quantitativo que a arrebatou da forma de produção
em cada localidade e fatos ocasionais como a irrupção de po- até então existente. Ao lado dos camponeses que teciam para
vos bárbaros, ou guerras comuns, seriam suficientes para uso próprio, e que continuaram a fazê-lo, emergiu uma nova
fazer com que um país adiantado em forças produtoras e classe de tecelões nas cidades, cujos tecidos visavam tanto a
necessidades tivesse de começar de novo do ponto inicial. Na todo o mercado interno como, normalmente, ao mercado ex-
história primitiva, cada invenção tinha de ser diariamente terior, também. A tecelagem, uma atividade que exigia,
renovada em cada localidade, independentemente. Quão pou- na maioria dos casos, pouca capacitação e que cedo di-
co forças produtivas altamente desenvolvidas estão a co- vidiu-se em incontáveis ramos, por sua própria natureza
berto de completa destruição, mesmo havendo um comércio resistiu às restrições corporativas. A tecelagem era, assim,
relativamente muito extensivo, é provado pelos fenícios, cujas praticada principalmente nas aldeias e centros de mer-
invenções estiveram perdidas, na sua maior parte, durante cado sem organização corporativa, que gradualmente se
muito tempo em virtude da eliminação do país do co- transformaram em cidades e, de fato, nas mais florescentes
mércio, sua conquista por Alexandre e a conseqüente deca- cidades de cada região. Com a manufatura libertada das cor-
dência. O mesmo deu-se, por exemplo, com a pintura-em-vi- porações, a propriedade teve suas relações rapidamente trans-
dro na Idade Média. Apenas quando o comércio tornou-se formadas. O primeiro progresso além do capital natural, ca-
comércio mundial, com base na grande indústria, e todas as pital de estamento, foi proporcionado pela ascensão de mer-
nações foram arrastadas à luta competitiva, ficou assegurada cadores cujo capital foi móvel desde o início, capital no mo-
a persistência das forças produtivas adquiridas. derno sentido, na extensão que se pode dar ao termo,
A conseqüência imediata da divisão do trabalho entre dadas as circunstâncias daquela época. O segundo progres-
várias cidades foi o desenvolvimento das manufaturas, ramos so veio da manufatura, que constituiu, novamente, do capital
de produção que superaram o sistema corporativo. As ma- natural, uma massa de capital móvel e no conjunto aumen-
nufaturas floresceram na Itália e, depois, em Flandres, sob tou a massa de capital móvel em relação ao capital natu-
a premissa histórica do comércio com nações estrangeiras. ral. Ao mesmo tempo, a manufatura tornou-se o refúgio dos
Nos outros países, Inglaterra e França, por exemplo, as ma- camponeses, alternativa das corporações que os excluíam ou
nufaturas foram confinadas, de início, ao mercado interno. pagavam mal, tal qual, anteriormente, as cidades corporati-
Além das premissas já mencionadas as manufaturas de- vas tinham servido de refúgio para os camponeses oprimidos
pendiam de uma outra, ainda: uma já avançada concen- pela nobreza rural.
tração populacional, particularmente na área rural, e de ca- Simultaneamente ao advento das manufaturas, hou-
pital, que começou a acumular-se em mãos individuais, par- ve um período de vagabundagem causado pela decadência dos
cialmente nas corporações, a despeito dos seus regulamentos,
e em parte entre os mercadores.
124
123
Através da colonização das terras recentemente descobertas
corpos feudais de dependentes, a dispensa dos dilatados exér- a luta comercial das nações entre si recebeu novo combustível
citos que haviam acorrido para servir aos reis contra seus e, conseqüentemente, maior amplitude e animosidade.
vassalos, o progresso da agricultura e a transformação de A expansão do comércio e da manufatura acelerou a
grandes faixas de cultivo em pastagens. Isto, só, deixa escla- acumulação de capital móvel, enquanto nas guildas, que não
recido como esta vagabundagem está estreitamente ligada à eram estimuladas a ampliar sua produção, o capital natural
desintegração do sistema feudal. Já no século X III encon- permanecia estacionário ou, até, declinava. O comércio e a
tramos períodos isolados desta natureza, mas somente no manufatura criaram a grande burguesia, nas corporações con-
fim do XV e começo do XVI a vagabundagem fez-se geral e centrava-se a pequena burguesia não mais dominante nas
permanente. Estes vagabundos, tão numerosos que Henrique pequenas cidades, como anteriormente, mas tendo de cur-
VIII da Inglaterra enforcou 72.000 deles, apenas podiam ser var-se ante o poder dos grandes mercadores e manufatores.
reencaminhados ao trabalho com a máxima dificuldade e Daí o declínio das guildas, tão pronto entraram em contato
pela mais extrema necessidade e, mesmo assim, depois de com a manufatura.
longa resistência. O rápido advento dos manufatores, es- As relações materiais, comerciais, entre as nações assu-
pecialmente na Inglaterra, absorveu-os pouco a pouco. Com miram, à época de que falamos, dois aspectos diversos. A prin-
a emergência das manufaturas as várias nações passaram a cípio, a pequena quantidade de ouro e prata em circulação
um tipo de relações competitivas, à luta pelo comércio, dispu- implicou a proibição da exportação destes metais; e a indús-
tado em guerras, direitos e proibições protecionistas enquanto tria, na sua maior parte importada do exterior e tornada
anteriormente as nações, na medida em que se relacionavam, imprescindível pela necessidade de empregar a crescente po-
tinham realizado um intercâmbio inofensivo. Mas de agora pulação urbana, não poderia subsistir sem aqueles privilé-
em diante o comércio assumiu um significado político. gios que teriam de ser proporcionados não apenas contra a
Com a manufatura houve, simultaneamente, uma mu- concorrência doméstica, é claro, porém contra a estrangeira,
dança nas relações entre o trabalhador e o empregador. Nas principalmente. O privilégio local da corporação, as proibi-
corporações, o relacionamento patriarcal entre mestres e jor- ções originais, passaram a ser ampliados para toda a nação.
naleiros se manteve; na manufatura seu lugar foi ocupado Direitos alfandegários oriundos dos tributos cobrados pelos
pelas relações monetárias entre o trabalhador e o capitalista senhores feudais sobre mercadorias que os mercadores trans-
— um relacionamento que, nas áreas rurais e pequenas ci- portavam através de seus territórios, igualmente os tributos
dades, conservou tintas patriarcais, mas, nas grandes cida- aplicados, depois, pelas cidades e que, com o advento do es-
des, as verdadeiras cidades manufatureiras, muito cedo aban- tado moderno, passaram a ser o meio mais óbvio de le-
donou qualquer aparência patriarcal. vantar dinheiro para o tesouro. A aparição do ouro e prata
A manufatura e o movimento da produção, em geral, americanos nos mercados europeus, o gradual desenvolvi-
receberam enorme impulso através da ampliação do comér- mento da indústria, a rápida expansão do comércio e a con-
cio oriunda da descoberta da América e da rota marítima seqüente emergência da burguesia não corporativa e do di-
das índias orientais. Os novos produtos então importados, nheiro deram a tais medidas outra significação. O Estado, cada
especialmente as massas de ouro e prata que entraram em vez menos e menos capaz de subsistir sem dinheiro, agora
circulação e mudaram completamente a posição relativa das mantinha a proibição da exportação de ouro e prata por mo-
classes, desfechando pesado golpe na propriedade territorial tivos fiscais; os burgueses, que tinham por objetivo básico
feudal e nos trabalhadores; as expedições de aventureiros, a açambarcar as massas de dinheiro lançadas no mercado,
colonização e, sobretudo, a ampliação dos mercados para um estavam plenamente satisfeitos com isto; privilégios conce-
mercado mundial, que agora se tornara possível, e dia a dia didos anteriormente tornaram-se fontes de renda do gover-
mais se realizava, causaram o advento de uma nova fase de no, sendc vendidos por dinheiro; na legislação alfandegária.
desenvolvimento histórico que, aqui, não discutiremos a fundo.
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125
comerciantes e os armadores que, mais do que quaisquer ou-
surgiu o direito de exportação que, criando apenas um obs- tros, pressionaram o Estado para que concedesse proteção e
táculo para a indústria, tinha objetivo puramente fiscal. monopólios; os manufatores solicitavam e, de fato, recebiam
O segundo período começou no meio do século XVII, per- proteção, mas tinham, sempre, menor importância política
durando quase até o fim do XVIII. O comércio e a navegação do que os comerciantes. As cidades comerciais, especialmente
haviam se expandido mais rapidamente do que a manufatura, as marítimas, chegaram a um certo grau da aparência civi-
que desempenhava papel secundário; as colônias torna- lizada da grande burguesia, mas as cidades industriais con-
vam-se consumidoras consideráveis. E, depois de longas tinuaram a manter em grau extremo o aspecto pequeno bur-
lutas, as diversas nações partilharam o mercado mundial em guês. Cf. Aikin, etc. O século XVIII foi o século do comércio.
expansão entre elas. Este período começa com as Leis de Pinto diz isto expressamente: "Le commerce fait la ma-
Navegação e os monopólios coloniais. A competição das na- rotte du siècle" ("O comércio é a fúria do século"); e, "de-
ções umas com as outras foi eliminada, tanto quanto possí- puis quelque temps il n'est plus question que de commerce,
vel, pelas tarifas, proibições e tratados; e, em última instân- de navigation et de marine" ("há algum tempo ninguém fala
cia, a luta competitiva se travava e decidia por guerras (espe- a não ser em comércio, navegação e marinha de g uerra") .
cialmente guerras navais). A mais poderosa das nações ma- Este período é também caracterizado pela suspensão
rítimas, a Inglaterra, mantinha a preponderância no comér- das proibições de exportação de ouro e prata e pelo início do
cio e na manufatura. Aqui, já encontramos a concentração comércio de ouro metálico; pelos bancos, débitos nacionais,
num só país. A manufatura era constantemente defendida papel moeda; pela especulação com títulos, ações e correta-
por tarifas protecionistas no mercado interno, por mono- gem sobre todos os artigos; pelo desenvolvimento das finanças
pólios no mercado colonial e, no estrangeiro, tanto quanto em geral. Novamente, o capital perdeu grande parte do ca-
possível, por impostos diferenciais. A elaboração de matérias ráter natural que se prendera a ele.
primas produzidas no país era encorajada (lã e linho na
Inglaterra, seda na F r a n ça ) , a exportação de matéria pri-
ma de produção doméstica proibida (lã na Inglaterra) e 2 — MARX a ENGELS, 14 de março de 1868
a de matérias importadas negligenciada ou suprimida (al-
godão na Inglaterra). A nação dominante em poder colo- . . . Ocasionalmente, trabalhei no Museu, entre outras
nial e comercial-marítimo, naturalmente, assegurava para coisas, sobre textos do velho M a u r e r . . . relativos à Alema-
si mesma, também, a maior expansão manufatureira, em nha, ao Marco, à Aldeia, etc. Constituição. Ele demonstrou
termos quantitativos e qualitativos. A manufatura não po- plenamente que a propriedade privada da terra é de origem
deria desenvolver-se sem proteção pois, se a mais leve alte-
tardia, etc. Refutou completamente o ponto de vista idiota
ração se verificasse em outros países, isto implicaria a perda
de mercados e a ruína; sob condições razoavelmente favorá- de Junker da Westfália (Möser, etc.) de que os germanos
veis, poderia ser facilmente implantada num país mas, por estabeleciam-se individualmente e só depois formavam al-
esta mesma razão, poderia ser facilmente destruída. Ao mes- deias, Gaue, etc. É interessante logo neste momento, que a
mo tempo, através do modo de desenvolver-se, particularmen- prática russa de redistribuição de terras a intervalos fixos
te no século XVIII, na área rural, estava tão entrelaçada ao (na Germânia, inicialmente, a cada ano) sobreviveu em re-
relacionamento vital de grande massa de indivíduos que ne- giões da Alemanha até o século XVIII e mesmo X I X . Embora
nhum país se atreveria a ameaçar sua existência com a per- M(aurer) nada soubesse do ponto de vista que levantei, se-
missão da livre concorrência. Se conseguia exportar, por- gundo o qual as formas de propriedade asiática ou indiana
tanto, dependia inteiramente da amplitude ou limitações constituem as primeiras por toda a Europa, ele proporcio-
do comércio e exercia influência relativamente pequena sobre na mais provas disto. Os russos, agora, perdem até os últi-
o último. Por isto, sua importância secundária e a influência mos vestígios de uma reivindicação de originalidade, mesmo
dos mercadores no século XVIII. Foram especialmente os
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127
nesta linha. Tudo o que fica para eles é que ainda se man-
2

têm nas formas que seus vizinhos abandonaram há m u i t o . . . foi, naturalmente, ver tudo como medieval e romântico, mes-
Aprendi com Maurer que os dinamarqueses iniciaram a mo um homem como Grimm não se livrou disto. A segunda
revolução nas opiniões aceitas sobre a história e desenvol- reação foi a de olhar, além da Idade Média, para dentro da
vimento da propriedade "Germânica", etc. Aparentemente, era primitiva de cada nação, e esta corresponde à tendência
desenvolvem grande atividade em todos os ramos da ar- socialista, embora aqueles homens eruditos não tivessem
queologia. Entretanto, mesmo que dêem o impulso aqui e idéia de que houvesse qualquer conexão entre elas. Ficam,
a l i sempre há alguma fragilidade. Eles não têm o correto
3
portanto, surpresos ao descobrir o que é o mais novo no
instinto crítico e, acima de tudo, o senso de proporção. Fi- que é o mais velho — mesmo os igualitários, a um ponto
quei tremendamente chocado pelo fato de Maurer, embora que faria Proudhon tremer.
se refira à África, México, e t c , a título de ilustração, não Para mostrar o quanto estamos todos atingidos por esta
conhecer absolutamente nada sobre os Celtas e, portanto, cegueira crítica: exatamente na minha própria vizinhança,
atribuir o desenvolvimento da propriedade da terra na Fran- no Hunsrücken, o velho sistema germânico sobreviveu até
ça, totalmente, aos conquistadores germânicos. "Como se" — recentes anos. Lembro-me, agora, de meu pai falando disto
diria Herr Bruno — "como se" não tivéssemos um livro de do ponto de vista de um advogado. Outra prova: Como os
leis dos celtas (galeses), do século X I , completamente co- geólogos, mesmo os melhores, como Cuvier, expuseram certos
munista, e "como se" os franceses não tivessem excavado fatos de modo completamente distorcido, também filólogos
comunidades originais de forma Céltica, aqui e ali, precisa- da estatura de Grimm traduziram mal as mais singelas sen-
mente nos últimos anos. "Como se"! Mas a explicação é bem tenças latinas, por estarem sob a influência de Möser e t c ,
simples. O velho Maurer apenas estudou as condições ger- que, ao que me lembro, encantava-se porque "liberdade" nunca
mânicas e romanas antigas e, além disto, somente as orien- existira entre os Germânicos, e sim "Luft macht eigen" (o ar
tais (greco-turcas). faz o servo) e outras. E . g . o bem conhecido trecho de Tácito:
1

"arva per annos mutant et superest ager", que significa


"eles trocam os campos, arva" (em lotes, por isto também
3 — MARX a ENGELS, 25 de março de 1868 sortes (lot) em todos os posteriores códigos de leis dos bár-
5

baros) "e a terra comum continua existindo" (ager, como


A propósito de Maurer. Seus livros são excepcionalmente terra pública, contrastada com arva) é traduzido por Grimm,
importantes. Não apenas os tempos primitivos mas todo o de- e t c : "eles cultivavam campos novos todos os anos e ainda
senvolvimento posterior das cidades imperiais livres, da imu- existia sempre terra (não cultivada)!"
nidade dos senhores de terras, da autoridade pública e da Da mesma forma, o trecho: "Colunt discreti ac diversi"
luta entre os camponeses livres e a servidão recebem tra- (suas culturas são separadas e espalhadas) é tomado como
tamento inteiramente novo. prova de que, desde tempos imemoriais, os germanos prati-
A história humana é como a paleontologia. Devido a uma cavam cultivos individuais como os junkers Westfalianos.
certa cegueira crítica, mesmo as melhores inteligências fa- Mas o trecho prossegue: "Vicos locant non in nostrum mo-
lham completamente, deixando de ver coisas que estão à fren- rem connexis et cohaerantibus aedificiis: suum quisque lo-
te de seus narizes. Mais tarde, quando chega o momento, cum spatio circundai" (eles não estabeleciam suas aldeias
surpreendemo-nos encontrando, por toda a parte, vestígios com edificações conectadas e ligadas segundo nossos costu-
do que não tínhamos visto. A primeira reação contra a Re-
volução Francesa e o período de Iluminismo ligado a ela 4 Um dito medieval g e rmâ nico que pretende dizer que pela mer a
razã o de existir e respirar o ar de c e r t a região um h o me m ficav a
escravizado — um servo ou ho m e m preso ao solo.
2 "Originality in this line", em inglês, no te xt o original de M ar x
5 NT.: O text o enfatiza a repetição da palavra " lo t" , primeiro com
3 'somewhere or else", em inglês, no texto original de Mar x. o sentido de lote, porção de terreno, e depois significando destino,
sorte. E ste trocadilho perde-se na tr a duç ã o par a o português.
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130
mes: cada qual cercava sua residência com uma faixa de sui a casa em que mora, pertencendo-lhe o jardim. Aí temos
terra ) ; e aldeias germânicas primitivas ainda existem, em o primeiro elemento dissolvente da formação arcaica, des-
vários locais da Dinamarca, assim como foram descritas. Ob- conhecido nos tipos mais velhos. Por outro lado, todos estes
viamente, a Escandinávia deve tornar-se tão importante baseiam-se nas relações de sangue dos membros da comuni-
para a jurisprudência e economia germânicas como para a dade, enquanto a comuna russa pertence a um tipo já eman-
mitologia germânica. E somente começando daqui seremos cipado destes laços acanhados, capaz, portanto, de maior
capazes de decifrar novamente nosso passado. Pois os demais, evolução. O isolamento das comunidades aldeãs, a falta
mesmo Grimm, e t c , descobriram, em César, que os germa- de laços entre suas vidas, este microcosmo localmente en-
nos sempre se fixaram com Geschlechtsgenossenschaften trelaçado, não é sempre uma característica imanente do úl-
e não como indivíduos: "gentibus cognationibusque qui uno timo dos tipos primitivos. Entretanto, onde quer que ocorra,
coiereant" (conforme os clãs e parentes, que se estabeleciam permite a emergência de um despotismo central sobre as co-
juntos). munidades. Parece-me que na Rússia o isolamento original,
Mas, o que diria o velho Hegel no próximo mundo se 7 causado pela grande extensão territorial, será facilmente eli-
tivesse ouvido que a geral (Allgemeine) em alemão ou escan- minável, quando as cadeias impostas pelo governo tiverem
dinavo antigo significaria nada mais do que a terra comum
8 sido rompidas.
(Gemeinland) e a particular, Sundre, Besondere, nada mais Agora chego ao ponto crucial do problema. Não podemos
do que a propriedade isolada, dividida da terra comum? Aqui, passar por alto o fato deste tipo arcaico, a que pertence a co-
as categorias lógicas estão surgindo muito bem de "nosso muna russa, esconder um dualismo interno, que pode, sob
relacionamento", afinal. certas circunstâncias históricas, conduzir à sua ruína. A pro-
priedade da terra é comunal, mas cada camponês cultiva e
4 — MARX a ZASULICH, 18 de março de 1881 administra seu lote por conta própria, de um modo que lem-
bra o pequeno camponês do ocidente. A propriedade comum,
Do segundo esboço pequenas culturas divididas: esta combinação que foi útil
em períodos mais remotos torna-se perigosa no nosso. Por
. . . apropriando-se dos resultados positivos do modo ca- um lado a propriedade móvel, um elemento que desempenha
pitalista de produção, (a Rússia) será capaz de desenvolver crescente papel, mesmo na agricultura, gradualmente con-
e transformar a forma arcaica de sua comunidade al- duz à diferenciação da riqueza entre os membros da comu-
deã em lugar de destruí-la. (Eu observo, a propósito, que a nidade e, portanto, torna possível um conflito de interesses,
forma de propriedade comunista na Rússia é a mais moder- especialmente sob a pressão fiscal do Estado. Por outro lado,
na forma do tipo arcaico que, por sua vez, passou por uma perde-se a superioridade econômica da propriedade comunal,
como base do trabalho cooperativo e combinado.. .
série de transformações evolutivas.)
A formação arcaica ou primitiva do nosso globo contém Do terceiro esboço
uma série de estratos de diversas eras, uns sobrepostos a ou-
tros. Da mesma maneira, a formação arcaica da sociedade As comunidades primitivas não são, todas, cortadas em
revela uma série de tipos diferentes, que caracterizam épocas um modelo único. Pelo contrário, consideradas em conjunto,
diferentes e sucessivas. A comunidade aldeã russa pertence ao constituem uma série de grupamentos sociais que diferem em
tipo mais jovem desta cadeia. Aí, o camponês que cultiva já pos- tipos e épocas, caracterizando fases sucessivas de desenvolvi-
mento. Ura desses tipos, por acordo geral chamado, agora,
6 Geschlechtsgenossenschaft — gens ou a família p atr ia rca l r eu - 'comunidade agrícola", é o tipo da comunidade russa. Sua
nida. contrapartida, no ocidente, é a comunidade germânica, de
7 NT.: no original inglês co nst a "in the n e x t world". data muito recente. Na época de Júlio César ainda não exis-
8 NT.: "Norse", relativo à velha Escandinávia, seu povo ou língua. tia e, quando as tribos germânicas conquistaram a Itália, a

131 132
5 — ENGELS a MARX, 15 de dezembro de 1882
Gália, a Espanha, e t c , já não mais funcionava. Ao tempo Incluso vai o apêndice sobre o Marco. Por obséquio, man-
de Júlio César havia, já, uma redivisão anual dos campos
de-o de volta domingo para que eu possa revisá-lo segunda
cultiváveis, entre os grupos — as gentes e tribos — mas ainda
feira — não pude concluir a revisão final, hoje.
não entre as famílias de uma comunidade; provavelmente o
Acho o ponto de vista aqui exposto, sobre a situa-
cultivo era, também, em grupos, comunal. No próprio terri-
ção dos camponeses na Idade Média e o advento de uma
tório germânico uma evolução natural transformou esta co-
segunda servidão depois do meio do século XV, no conjunto,
munidade de um tipo mais arcaico na comunidade agrícola,
que Tácito descreveu. Depois desse período, perdemo-la de incontrovertível. Examinei a obra de Maurer, a propósito de
vista. Morreu desapercebidamente no curso de guerras e mi- todos os trechos pertinentes, e encontrei quase todas as mi-
grações intermináveis, talvez tenha tido um fim violento. En- nhas conclusões ali, sustentadas, além disto, com evidências,
tretanto, sua viabilidade natural é demonstrada por dois fa- enquanto com as que lhes são paralelas ocorre exatamente
tos inquestionáveis. Uns poucos exemplos esparsos deste tipo o contrário, ou não estão sustentadas pelas evidências ou
sobreviveram a todas as vicissitudes da Idade Média, até nos- referem-se a um período que não está em causa, absoluta-
sos dias, e.g. na minha região natal, perto de Treves. Mas, mente. Isto, especialmente, aplica-se a Fronhöfe (terra que
o que é mais significativo, encontramos a nova comuni- responde por dívidas feudais), Volume 4, conclusão. Em Mau-
dade que emergiu desta mais velha, retendo sua marca a tal rer surgem tais contradições: (1) de seu hábito de apresentar
ponto que Maurer, que investigou a nova, foi capaz de evidências e exemplos de todos os períodos, lado a lado,
reconstruir a outra. A nova comunidade, na qual o solo cul- misturando-os todos; (2) dos restos de seus preconceitos
tivável pertence aos camponeses como propriedade privada legalistas, que sempre se atravessam em seu caminho onde
embora florestas, pastos e terras não utilizadas continuem quer que haja uma questão de compreensão de um desen-
a ser terra comum, também foi introduzida pelos germanos volvimento; (3) de sua grande falta de atenção para o papel
em todos os países que conquistaram. Devido às caracterís- desempenhado pela força; (4) de seu iluminado preconceito
ticas que herdou de seu protótipo, perdurou, através da Ida- de que desde a tenebrosa Idade Média um constante progresso
de Média, como único fortim da liberdade popular e da vida para melhores coisas deve seguramente ter ocorrido — isto
popular. o impede de ver não só o caráter antagônico do progresso real
A "comunidade aldeã" também ocorre na Ásia, entre os como, também, os retrocessos específicos.
afgãs, etc, mas é por toda a parte, o tipo realmente mais Você descobrirá que meu trabalho não é, de modo al-
jovem, por assim dizer, a última palavra da formação arcaica gum, uma obra completa, mas um regular apanhado. O pri-
das sociedades... meiro esboço teve mais unidade, porém, infelizmente, estava
Como a última fase da formação primitiva da sociedade, errado. Apenas dominei o material pouco a pouco e por isto
a comunidade agrícola é, ao mesmo tempo, uma fase de tran- há tant a coisa alinhavada.
sição para a formação secundária, i.é, transição da socieda- Incidentalmente, a reintrodução geral da servidão foi
de baseada na propriedade comum para a sociedade baseada uma das razões pelas quais nenhuma indústria pôde desen-
na propriedade privada. A formação secundária compreen- volver-se na Alemanha, nos séculos XVII e XVIII. Em pri-
de, como V. deve entender, as séries de sociedades baseadas meiro lugar, houve a divisão de trabalho invertida entre as
na escravidão e na servidão. corporações — o contrário da das manufaturas: o trabalho
Mas, isto significará que a trajetória histórica da comu- foi dividido entre as corporações, em lugar de sê-lo dentro
nidade agrícola deva, inevitavelmente, conduzir a tal resul- das oficinas. Na Inglaterra, neste estágio, ocorreu a migra-
tado? Certamente, não. Seu dualismo intrínseco proporcio- ção para território livre de corporações, mas na Alemanha
na uma alternativa: ou seu elemento de propriedade dominará isto foi impedido pela transformação da gente do campo e
o elemento coletivo, ou ocorrerá o contrário. Tudo depende- dos habitantes das cidades-mercados agrícolas em servos.
rá do ambiente histórico em que ela ocorrer.
134
133
Porém, isto também causou o colapso final do comércio das
corporações, tão cedo surgiu a competição da manufatura Espelho da Saxonia desistir
9
de qualquer tentativa de falar
estrangeira. As outras razões que, juntamente com esta, atra- em egen lüde recht (direitos sobre pessoas possuídas — i. é,
saram a manufatura alemã omitirei, por ora. escravos ou s e r v os * ) , isto se torna marcadamente simples
depois da Guerra dos Trinta Anos.
6 — ENGELS a MARX, 16 de dezembro de 1882
7 — ENGELS a MARX, 22 de dezembro de 1882
O tópico da quase total desaparição da servidão — legal
ou realmente — nos séculos XIII e XIV é o mais impor- Fico satisfeito porque, quanto à história da servidão,
tante para mim, porque, em outra ocasião, V. expressou "atuamos de acordo", como eles dizem nos negócios. É certo
uma opinião divergente sobre isto. Na região do Elba orien- que servidão e escravidão ** não são uma forma especifica-
tal a colonização prova que os camponeses germânicos eram mente medievais, achamo-las por todas as partes ou em quase
livres; em Schleswig-Holstein, Maurer admite que, por esta todas onde conquistadores tiveram terras cultivadas para
época, "todos" os camponeses tivessem recuperado sua liber- eles pelos velhos habitantes — e . g . em tempos bem recuados
dade (talvez, bem após o século X I V ) . Ele admite, tam- na Tessália. O fato até a mim desnorteou, e a m uit a gente,
bém, que no sul da Alemanha foi exatamente neste período no que se refere à escravidão *** na Idade Média; ficava-se
que os servos foram mais bem tratados. Na Baixa Saxônia muito, demasiadamente, inclinado a baseá-la, simplesmente,
deu-se mais ou menos o mesmo (e.g. os novos Mexer [agri- na conquista, o que tornava tudo tão claro e fácil. Veja Thier-
cultores arrendatários] que eram, realmente, foreiros). ry, entre outros.
Ele, apenas, opõe-se à opinião de Kindlinger de que a servi-
dão primeiro emergiu no século XVI. Mas que foi, novamen- A posição dos cristãos na Turquia, durante o auge do
te, reimplantada depois disto, e apareceu numa segunda edi- velho sistema semi-feudal turco, foi algo semelhante.
ção, parece-me indubitável. Meitzen indica as datas a partir
das quais os servos começam, de novo, a ser mencionados na
Prússia oriental, Brandenburgo, Silésia, em meado do século
XVI; Hanssen dá as mesmas para Schleswig — Holstein.
Mauer chama isto de forma atenuada de servidão e
está correto em comparação com os séculos IX e X I , quando
a velha escravidão germânica ainda persistia, e correto, tam-
bém, em relação aos poderes legais que os senhores tinham,
então e mais tarde — conforme os livros de leis do século XIII
— sobre os servos. Mas, comparada com a real posição dos
camponeses nos séculos XIII, no XIV e, na Alemanha do
Norte, no XV, a nova servidão seria tudo, exceto uma ate-
nuação. Especialmente depois da Guerra dos Trinta Anos!
Também é significativo que enquanto na Idade Média os
graus de sujeição * e servidão eram inúmeros, ao ponto do
9 Der Sachsenspiegel — o código legal do periodo.
i *> Em inglês "servitude and serfdom". O primeiro termo é mais (*) Em inglês, " b o n d s m e n " , isto é, pessoas sujeitas a ou tra s por
genérico, por isso traduzido por " suje iç ão " ; o 2º indica a condição um " b on d " , elo, vinculo. N.R.
do " ser f" , servo. Note-se que t amb é m em português o termo servi- (**) Em inglês, " s erfdom " (mentido específico) e "bondage" (m ai s
dão pode ser usado genérica ou especificamente (N . R . ) . g e n é r i c o ) . N.R.
(***) Em inglês, " s ervi tu de" . N.R.
135
136
ÍNDICE

Apresentação — 7
Observações sobre o texto, referências e tradução — 9
Nota do revisor — 11
Introdução — 13
Formações Econômicas Pré-Capitalistas — 65
Textos Suplementares de Marx e Engels sobre Problemas de
Periodicidade Histórica — 113
1 — DA IDEOLOGIA ALEMÃ (Parte I) — 113
2 — MARX A ENGELS, 14 de março de 1868 — 128
3 — MARX A ENGELS, 25 de março de 1868 — 129
4 — MARX A ZASULICH, 18 de março de 1881 — 131
5 — ENGELS A MARX, 15 de dezembro de 1882 — 134
6 — ENGELS A MARX, 16 de dezembro de 1882 — 135

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ECONÔMICO
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