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ARTE BANIW A

s índios Baniwa fazem cestaria,


O rica em grafismos, utilizando
o caule do arumã - uma planta her­
bácea (Iscinosiphon spp) cipós,
corantes e fixadores naturais.
Nas aldeias do Rio Içana as m u­
lheres usam cestaria de arumã no
processamento da mandioca brava,
como há pelo menos 2 m il anos.
COLÔMBIA
VENEZUELA

BRASIL

São G abriel.
da Cachoeira
ARTE BANIW A

CESTARIA DE ARUMÃ
TERC EIR A ED IÇÃ O C O R R IG ID A E ATU A LIZA D A

FOIRN

IN STITUTO
" ^ações SOCIOAMBIENTAL

SÃO G A B R I E L DA C A C H O E I R A - SÃO P AU L O
2001
ARTE BANIW A© FOIRN

te x to Beto Ricardo d e s i g n g r á f i c o e e d i t o r a ç ã o Sylvia M onteiro


fo to s Pedro M artin elli f o t o s c o m p l e m e n t a r e s e d a c a p a Beto Ricardo
c a p a logom arca baseada no liixíap o = "um bigo" ou "guia", inicio o b rig rató rio do
trançado de urutus e jarros; guando aparece no m eio do trançado é d enom inado
kettam árhi (u m tipo de desenho encontrado ñas costas de um b esouro)
c o l a b o r a d o r e s b a n i w a A ndré Fernando, Pedro da S ilva, Fernando José,
A urora M ig u el, B onifacio José, O távio H o racio, F ran klin, Raul, A rm ind o , Alicia,
lolanda, M arie la , C laudia, Laura e A n g elin a (de T ucum ã-R u p itã), M ário Farias
(Santa M arta), Paulo da S ilva (Tunuí), G uilherm e R odrigues, F élix Rodrigues,
Diva C ristina, Paulo R odrigues e Francisco G uilherm e (T rind ad e), B asilio
dos Santos, M au rícia M e lan ia (P u p u n h a ) e A rsindo M ig u el (S . Jo sé), A rm ando
Fontes (S . Rosa), Jaim e Paiva e André Paiva (Jacaré P oço), Jú lio Jo aq u im ,
Cesário G raciliano, A rm ind o G racilian o e N azário V alen tim (Jandu C ach oeira),
G erôncio Ju lio , C arlos M an d u e Laureano S antos (M a u á C ach oeira).
o u tr o s c o la b o r a d o r e s G eraldo A n d rello, Henri R am irez, Robin W right.
p ro d u ç ã o g r á fic aM árcia S ig n o rin i fo to lito s Bandeirante
r e v is ã o Vera Feitosa
A P O IO PA RA P U B L IC A Ç Ã O HONZOnt3000
d is t r ib u iç ã o F O IR N /IS A /O IB I

Os direitos relativos aos co n hecim ento s sobre as m atéria s-p rim as e o processo
de produção da cestaria de arum ã, tal co m o registrados nesta publicação
pertencem exclusivam en te ao povo Baniw a.

A renda p roveniente da venda desta p ub licação reverterá integralm ente


para a co n so lid ação e am pliação das ativid ad es de produção, d ivulgação
e com ercialização da cestaria baniw a de arum ã.

Fica p ro ib ida a reprodução total e parcial de q ualq u er form a, sem a prévia


e expressa autorização da O IBI - O rganização Ind ígena da Bacia do Içana, cuja
sede fica na co m u n id ad e de Tucum ã-R u p itã. Contatos p odem ser feitos pelo
endereço eletrôn ico < o ib i@ p o ran g an et.co m .b r> ou pelo telefo n e (9 2 ) 4 7 1 .2 8 2 9 ,
no entreposto da O IBI na cid ad e de S. G abriel da C ach oeira (A M ).
CESTARIA BANIWA DE ARUMÃ 4

OS HOMENS QUE FAZEM 16

AS MULHERES QUE USAM 42

SÍLABAS GRÁFICAS 56

OFICINA DE TUCUMÃ-RUPITÃ 60
INFORMAÇÕES SOBRE
O PROJETO E AS PARCERIAS 62

FONTES 63

GLOSSÁRIO 64

GUIA DE PRONÚNCIA
DAS PALAVRAS EM BANIWA 64
CESTARIA BANINA
DE ARUMÃ _ ^M L. i

4
cestaria de arumã é uma arte
milenar ensinada aos homens baniwa
pelos seus heróis criadores e cujos
graflsmos foram Inscritos pelos antepassados
nas pedras, em forma de petroglifos, para que
nunca fossem esquecidos. Para os Baniwa,
fazer arte de arumã é condição da pessoa
plenamente cultural.
Os Baniwa são um povo de língua aruak
que vive na fronteira do Brasil com a
Colôm bia e Venezuela, em aldeias localizadas
às margens do Rio Içana e seus afluentes
Culari, Aiarl e Cúbate, além de comunidades
no alto Rio Negro/Guainía e nos centros
urbanos rionegrinos de São Gabriel da
Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos (AM).
Os Baniwa fazem parte de um
com plexo cultural de 22 povos Indígenas
diferentes que habitam há séculos o extremo
noroeste da atual fronteira geopolítica da
Amazônia brasileira. Baniwa não é uma auto
denominação, mas um termo genérico utiliza­
do desde tempos coloniais para se referir aos
povos de língua aruak desta parte da
Amazônia. Entre si, se distinguem pelos
nomes de suas fratrías, com o Hohodene,
W alipere-dakenal, Dzaulnai e outros.
A população baniwa atual é estimada em
12 m il pessoas, das quais cerca de 4 mil
no Brasil, vivendo basicamente de agricultura
especializada na m andioca brava e da pesca,
em aproximadamente cem aldeias e sítios.
Desenvolveram uma adaptação fina a uma
região com baixa capacidade de suporte, isto
é, com solos ácidos e pobres, com manchas
descontínuas de terra firm e separadas por
campinaranas e igapós.
5
UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA
s B aniw a en traram em contato co m os c o lo n izad o res eu ro p eu s no início do
sécu lo 18. P ersegu ido s e escravizad o s p or es p a n h ó is e p ortug u eses, boa
parte da sua p op u lação foi d izim a d a por e p id e m ias de saram p o e varíola, trazi­
das pelos b rancos. F oram h o stilizad o s e ex p lo rad o s por co m ercian tes brancos,
aliad o s dos m ilita res dos fortes portug u eses de S. G abriel e M arab ita n a s. Em
m eados do sécu lo 19, os B aniw a e outros p ovos da região p ro tag on izaram
m o vim en to s m e ss iâ n ico s co n tra a opressão dos brancos. A p artir de 1 8 7 0 , com
o boo m da b orracha, fo ram ex p lo rad o s p or patrões do extrativism o nos seringais
do baixo Rio N egro.
No sécu lo 2 0 , ch eg aram na região do Rio N egro e aflu en tes os m iss io n ário s
católico s salesian o s e suas escolas civiliza d o ras. No final da d écada de 4 0 ,
S o ph ie M u ller, u m a m iss io n ária evan gélica n o rte-am eric an a da M is s ã o Novas
Tribos, inicio u a evan gelização dos C u rip aco na C o lô m b ia e cheg o u aos B aniw a
do alto Içana. O m u n do baniw a se d iv id iu entre católico s e evan gélicos.
A p artir dos anos 70 , os B aniw a assistiram à en trada de n ovos personagens
nas suas terras, com a tentativa de ab ertura de um trecho da R o d ovia Perim etral
N orte, a co n stru ção de p istas de p ouso para uso m ilitar, a invasão de em presas
de g arim p o e a retaliação de suas terras pelo govern o federal com a dem arcação
de "ilhas", o que eles rejeitaram .
D urante d écadas os h om en s baniw a se en d iv id aram co m patrões extrativistas
de balata, so rva e piaçava, no Brasil e na C o lô m b ia . Desta form a, ad q u iriam
roupas, arm as de fogo e outros bens ind u strializad os. A tu alm ente, a co m e rc ia­
lização de artesanato, es pecialm ente da cestaria de arum ã e ralos de m adeira,
é um a das poucas fontes regulares de renda m o n etária.
N os anos 9 0 , os B aniw a co m eçaram a se o rg an izar em as so ciações filiad as à
FO IR N (F ed eração das O rg an izaçõ es Ind ígenas do Rio N eg ro ), fu nd ad a em 1 9 8 7 .
Entre 1 9 9 6 /9 8 , o govern o federal fin a lm en te reconheceu os d ireitos coletivos
dos povos ind ígenas da região do alto e m édio Rio N egro e d em arcou um co n ­
jun to de cin co terras co n tín u as, co m cerca de 1 0 .6 m ilh õ es de hectares, nas
q uais estão inclu ídas as áreas de o cupação tradicio nal dos B aniw a no B rasil.

EXPERIÊNCIA DE MERCADO
s Baniw a produzem cestaria de arum ã para vender por d in h eiro ou trocar
por bens há décadas. D ependendo da posição da co m u n id ad e no Rio Içana,
o qual apresenta só no trecho b rasileiro 1 9 cach oeiras (ou co rred eiras fortes)
6
que d ificu ltam a navegação, os p ro du to res -co m ercian tes ban iw a saem para
ve n d er/tro c ar seus pro du to s em M itú (C o lô m b ia ) ou S. G abriel da C ach oeira.
N a d écada de 5 0 , a preferencia era vend er em M itú , o q ue im p lica va rem ar
forte rio ac im a e carregar a cestaria a pé pelo varado uro que ligava a B acía do
Içana ao U aupés, já na C o lo m b ia. N os anos 7 0 , co m erciantes c o lo m b ian o s p as­
saram a descer o Içana para co m p ra r nas ald eias baniw a, aviand o a produção
co m m ercad orias; m esm o assim havia q uem p referisse ir até M itú . D epo is houve
um tem p o dos co m erciantes b rasileiros, que su b ia m o Içana e o A iari tro cand o a
cestaria por m ercad orias nas co m u n id ad es , para revender d ep ois em M an au s;
alg u n s B aniw a se aven turaram a navegar até M an au s, em gran d es canoas com
m o to r de popa, para vend er artesanato d iretam en te.
Em S. G ab riel, os preços sem p re foram baixos. A m issão católica estabeleceu
o co stu m e d ep reciativo de tro car o artesanato ind ígena por roupas usadas.
Em 1 9 9 3 , a recém fu nd ad a O IBI (O rg an ização Ind ígena da B acia do Içana)
tentou o rg an izar a p ro du ção de cestaria de aru m ã para atend er a um p ed id o
de cin co m il u nid ad es, m as não co n seg u iu capital de giro para co m p letar
a transação. Em 1 9 9 7 , a FO IR N inaug u ro u um a loja de arte ind ígena na sua sede
em S. G ab riel.

NOVO SISTEMA
partir de 1 9 9 8 , d ep ois da d em arcação das terras indígenas na região do Rio
Negro, a FO IR N e as so ciações filiad as , em p arceria com o ISA, co m eçaram
a im p la n ta r um co n ju n to de p ro je to s -p ilo to para v iab iliza r alg u m as iniciativas
prio ritá rias das co m u n id ad es ind ígenas, na d ireção de u m Programa
Regional de Desenvolvimento Indígena Sustentável Entre estas, in c en ­
tivar a p ro du ção sustentável p or en co m e n d a de cestaria de aru m ã para co m e r­
cialização co m a gestão d ireta dos recursos pelas as so ciações b an iw a, ag re g a n ­
do va lo r cu ltural e am b ien tal aos p ro du to s e id e n tifican d o n icho s de m ercad o
ad eq u ad o s para obter preços co m p en sado res.
C o m e ça r por um co n ju n to de p ro du to res de 1 6 co m u n id ad es , re co n h ec id a­
m ente m estres no o fício , foi u m a opção ap o ia d a na capacid ad e de m o b ilizaçã o
da O IB I, no p otencial de gestão dos seus d irig en tes e na constatação de que a
arte da cestaria de aru m ã estava ali, n aq uele trecho do alto Rio Içana, plenam en te
em v ig o r (veja m a is so b re o percurso e os resu ltado s d esta ex p e riên cia p ilo to no
ú ltim o capítu lo desta p u b lic açã o ou no site do ISA: w w w .s o c io a m b ie n ta l.o rg ).
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URUTU
s Baniwa fazem esse tipo de cesta em form atos grandes, sem desenhos
marchetados, para reservar massa de m andioca (antes e depois de espre­
mer no tip iti) e tam bém para guardar farinha, beiju e roupa.
Para com ercializar, os Baniwa produzem urutus de vários tam anhos - tanto
de diâmetro quanto de altura - geralmente com grafism os coloridos marchetados.
Estes cestos paneiriform es têm grande aceitação nos mercados urbanos,
onde são utilizados com o cachepôs para vasos de plantas e flores ou para
colocar lápis, revistas, brinquedos e lixo seco.
Consta que esse tipo de cesta é de origem baniwa, pelo m enos na região
do Rio Negro.

Com grafismo colorido (kophe ittipi= peixe rabo) e na cor natural de arumã raspado.
8
BALAIO
s waláya aparecem na m ito lo gia e nos
rituais de iniciação das meninas
e m eninos baniwa. Tradicionalm ente,
os m eninos aprendem a fazer cestas deste
tipo e ofertá-las às suas am igas rituais,
ao térm ino do período de reclusão.
Os Baniwa usam os waláya makapóko
= balaios grandes, para recolher a massa de
mandioca (antes e depois de espremer no
tip iti) e para servir beiju e farinha nas refeições.
Serve de suporte para presentear com frutas
e outros alim entos.
Essa cesta tigeliform e é considerada pelos
artesãos baniwa a mais trabalhosa, especial­
mente pelo acabamento que requer o beirai
(no detalhe abaixo: beirai de cipó uambé e na
página ao lado, beirai de tira trançada sobre­
posta). Há vários tipos de acabamento: em
arumã natural ou apenas raspado, sem fin g i­
mento; ou com grafism os coloridos,
m archetados em uma ou nas duas faces.
Tem sido com ercializada em diferentes
tam anhos e acabamentos e utilizada com o cesta
para pães e frutas ou para colocar a correspon­
dência recebida em casa, e até com o embalagem
para produtos cosm éticos.

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JARRO
term o kaxadádali, em baniw a, refere-se ao fo rm ato bar­
rig ud o de u m a cesta ou cerâm ica, palavra que se ap lica
tam bém às pessoas (m u lh e res grávid as, p or e x e m p lo ) e aos
an im ais; an tig am en te era feito tam bém de cip ó e usado para
g uard ar m iu dezas, co m o b óias de m o lo n g ó e iscas para pescar,
fican d o su b m erso até o pescoço.
C onsta que, para os B aniw a, esse tip o de cesta tem
o form ato do universo.
A tu alm ente, os jarros p ro du zido s para a co m ercialização
em fo rm atos grandes, são u tilizad os co m o lu m in ária s, porta
g u a rd a-ch u va ou para co lo c ar roupas. M in iatu rizad o s, são
usados co m o p o rta-ve la e até co m o e m b a la g e m de perfum e.

*6


e
PENEIRA
s m ulheres baniwa se orgulham das suas peneiras, objetos de uso diário
que dem onstram a com petência artesanal dos seus m aridos.
As peneiras são cestos platlform es circulares, com talas afastadas,
usadas para cernir a farinha e para transportar o belju do forno até o
jlrau; suspensas por um tirante de cordas, servem com o suporte para
em pilhar belju seco.
Há vários tipos de peneira usados pelos baniwa atualmente:
dopitsipeethepóko, peneira para fazer belju;
dopitsi matsokapóko, peneira para fazer farinha;
báatsi, peneira de tallnhas m ulto finas de arumã,
usada exclusivam ente para coar
suco de frutas; ttíiroli, de
form ato tlgellform e,
conhecida também
com o cumatá, usada

■ para tirar goma de tap i­


oca da massa de m andio­
ca brava e para coar bebidas,
com o os vinhos de açaí e patauá.
Os Baniwa produzem peneiras para trocar e presentear
parentes e tam bém para vender no com ércio de S. Gabriel.
Fora da região, a com ercialização de peneiras tem encontra­
do mercado reduzido para exposições, decoração de paredes
ou com o bandeja para servir certos alim entos.
mmmm
16
ntre os Baniw a, cestaria de arum ã tradi­
cio nalm en te é trabalho m asculino, com o
a m aio r parte das tarefas artesanais, entre
elas fabricar ralos de m adeira, canoas e rem os,
além de pescar, (secundariam ente) cagar, der­
rubar a m ata para botar roça, construir casas,
lim par cam inhos e preparar arm adilhas de pesca.
A cestaria de aru m ã é ab so lu tam en te In d is­
pensável para o p ro cessam en to da m an d io ca
brava, base da alim en tação . Fazer cestaria de
aru m ã co m esm ero é to rn ar-s e ad u lto , atesta­
do de co m o so b reviver no m u n d o .
N o m ito de Kowai, filh o do criado r
Nhiãperikuli, três rapazes in ician d o s são d evo ­
rados p orqu e tra n s g rid em regras alim en tares.
Kowai, transform ad o em m o n stro , vo m ita seus
restos em b alaios e tip itis, co m o se fossem
m assa de m and ioca, co lo c a n d o -o s na praça da
a ld eia, defronte à casa ritual, sim b o lizan d o
suas "m ortes" co m o crianças. No ritual de in i­
ciação, os m e n in o s ban iw a em reclusão a p re n ­
dem a fazer cestaria de arum ã, cu jas peças
serão ofertadas às kamarara, suas am ig as ritu ­
ais. N o m esm o m ito , a cestaria de aru m ã
aparece tam b é m lig ad a à iniciação das m e n i­
nas, q ue recebem o b en zim en to final da
reclusão p isan do n um b alaio e ten d o outro
c o b rin d o a cabeça, os q uais serão rem o vid o s
d ep ois que as regras de co n vivê n c ia social
fo rem tra n s m itid as pelo benzedor.
H á d écadas os h om en s ban iw a tam bém
fazem cestaria de aru m ã para vender, tra b a­
lhando nos intervalo s das suas ativid ad es de
rotina, nos finais de sem ana, à tarde e à noite,
co m luz de lam p arin a; ev en tu a lm en te as
espo sas aju d a m seus m arid o s, es p e cialm e n te
na fase de acab am en to e em b a la g e m .
17
O ARUMÀ
aru m ã (Ischnosiphonspp.), é u m a p lanta da fa m ília das m arantáceas, que
cresce em to uceiras em terrenos ú m id o s ou s e m i-a la g a d o s e brota ap ó s o
corte. É u tilizad a p elos p ovos ind ígenas am azô nico s, a partir do M aran h ã o . Na
região do Içana é a m a té ria -p rim a por ex celência para se fazer a cestaria usada
no p ro cessam en to da m and ioca. M a s os B aniw a tam bém u sam outras plantas
para este fim , co m o a ¡acitara, o caranã e o javari, m e sm o p orqu e há c o m u n id a ­
des que não têm arum ã nas suas áreas de d o m ín io .
18
OS BANINA DISTINGUEM CINCO TIPOS DE ARUMÀ
1. (póapoa) halépana = arumã branco, de folha branca; m ais usado para fazer
cestaria destinada à com ercialização; ocorre nas cabeceiras de igarapé e nas
capoeiras de roças de terra firm e; colm os grossos e altura de até 5 m;
2. póapoa kántsa = arumã verdadeiro, fino, de folha verm elha (rosa), mais
resistente, usado para fazer cestaria de uso dom éstico; só ocorre nas cabeceiras
de igarapés de terra firm e e caatinga, nos igapós; altura m áxim a de 3 m;
3. oni-póapoani = arumã d’água, que ocorre som ente na beira de rio; serve para
fazer tupé e tip iti; chega a 3,5 m;
4. (póapoa) attíne híorhi= canela de jacam im; depois de raspado a tala é mais
avermelhada e brilhante que as demais variedades; bastante resistente; mais usado
para fazer peneiras; ocorre nas
capoeiras velhas e na caatinga;
chega a 10 m, mas apresenta nós
a cada metro, o que impede sua
utilização para fazer peças grandes;
5. (póapoa) tolípa = arum ã peludo,
bastante resistente, usado para
fazer todos os tipos de cestaria;
encontrado na capoeira velha;
só atinge 2 m.
PREPARAR OARUMÃ
o dado verde e d esb astad o co m au xílio de u m terçado,
um a to uceira de aru m ã resulta num co n ju n to de
"canas" de co lm o liso e reto, am arrad as em feixe [póa-poa
nako = aru m ã feixe), para fac ilitar o transpo rte até a ald eia.
0 co lm o do aru m ã oferece su p erfície plana, flexível,
que su p orta o corte de talas m ilim étric as. As talas para
trançar ( líipee) p o d em ser tirad as d iretam en te, "com
casca", o que resultará em cestas “ve rd es”, m ais
resistentes. M a s o artesão p od e d ecid ir raspar (para
rem o ver a líia) e arear os co lm o s n um Igarapé. C o m isso
obterá talas de co r clara laqueada, as quais, co m o tem po ,
assu m irão u m a cor caram elizad a, b rilh an te.
C aso o artesão q u e ira Im p rim ir gratísim os co lo rid o s
nas peças, terá q ue tin g ir os co lm o s antes de Iniciar
a retirada das talas (ver nas p ág in as 2 4 a 2 7 ).

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PREPARAR O FIXADOR

22
ing ir o aru m ã dá trabalh o .
A os p ig m e n to s (ve rm e lh o
e p reto ) d eve -se ad icio n ar um
fixad o r natural.
F ixad ores ou bases são
vern izes ou selvas viscosas
extraídas da en trecasca do
ingá ou outras árvores.
T ira -s e co m cu idado a
casca e rasp a-se a entrecasca
com facão para extrair finas
lascas em b e b id as do verniz.
E sm ig alh ad as, estas lascas
são es p rem id as no tipiti
e, as sim , o su m o estará
pro nto para ser m istu rado
aos p ig m ento s.

N as fotos, P au lo, da c o m u ­
n id ad e T uc u m ã-R u p itã , extrai
o ó leo fixad o r do tro n co de
u m a árvo re d e n o m in a d a em
ban iw a weráama.
VERMELHO URUCU
p ig m e n to ve rm elh o é o btid o a p artir de p lantas cultivadas: o urucu
O (Bixa orellana L .) e o caraju ru kerrawídzo (Arrabidaeae chica H .& B .),
um co rante v e rm e lh o -tijo lo ou ve rm e lh o -o c re , extraído das fo lh as de um a
p lanta da fam ília das B ig no n iáceas e co n sid erad a u m a tinta m ais nobre,
p orqu e só pode ser o b tid a por troca ou co m p ra de trib os q ue se es p e­
cializaram no seu p rep aro, entre as q uais alg u n s clãs b an iw a, no Içana
(cf. R ib eiro , B.: 1 9 8 0 , p. 3 7 4 ).
25
PRETO FULIGEM

26
ara tin g ir de preto, usa­
se fu lig em de q uerosene
ou de óleo diesel ac u m u lad a
em urna lata ou na lam p arin a.
P o d e -se usar tam b ém , co m o
tra d icio n a lm en te, a cinza dos
to rn os ou potes de cerám ica.
O utra o pção é q u e im ar pau
de em b aú b a, tirar o carvão,
s o c á -lo bem no p ilão e coar
em paño fino seco.
Jarros e urutus com
g rafism os co lo rid o s exig em
q ue os co lm o s do arum ã
sejam tin g id o s so m ente pela
m etade. S ecad os ao sol,
estarão p rontos para serem
transform ad o s em talas.
DESCORTICAR
ep arar a casca lisa do
m io lo dos c o lm o s de
aru m ã ( líipee, parte nobre
co m a qual se trança) e p ro ­
d uzir talas u n ifo rm e s na
larg u ra e na espessura é urna
operação q ue exig e precisão
de m o vim e n to s. O m io lo
ain da é d iv id id o em duas
partes, separand o a líixa para
fazer em b a la g e n s e outros
panei ros, da lílxami, parte
central, ú m id a , que será
descartada.
Para descorticar, além
das m ãos, de urna faca
e de urna cruzeta de to q u i-
nhos de arum ã, os artesãos
u sam os pés e até a boca.

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29
TRANÇAR
rançar é u m ato so litá rio , q ue exig e
atenção, p aciên cia e ded icação . A
cestaria b an iw a é feita com rig orosa s i­
m etria gráfica e com esm ero, para durar.
In iciar o trançado se faz com duas
ou três talas. C o m e ça r co m quatro
rende m ais, m as é co n sid erad a um a
opção exag erad a, u tilizad a em situ a­
ções e m e rg e n c e s .
0 n úm ero de talas para co m eçar o
trançado é d efinid o em fu nção da
largura das talas ou do tipo de d ese­
nho, exceto no caso da peneira.
H á n om es d iferen tes que d efinem o
ato de trançar, relacio nado s ao n úm ero
de talas u tilizad as no início: dzamaita
(p ara d uas), madalitapenali (p ara três)
e Hcoetakapenali (p ara q uatro ).
S e o artesão vai fazer urutu ou jarro,
ele pode usar q u a lq u er um dos jeitos
de trançar. A gora, caso ele vá fazer
pen eira, só pode usar a m o d alid ad e
dzamaita, a ú nica que garante um a
tram a ad eq u ad a para cern ir a m assa de
m and ioca, seja para fazer farin h a ou
beiju , ou para reter a b orra de frutas.
U rutu s e jarros co m g rafism os
m archetad os co lo rid o s, exig em talas
previam ente p in tad as ao m eio , d ife ren ­
tem ente de p en eiras e b alaios que são
trançad os com talas m o n ocro m áticas.
H á varios tipo s de trançado especí­
ficos para fazer tip iti (co m o , por ex em ­
plo, phitíema dente de cotia e porhe
iiw i escam a de je jú ).

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DAR ACABAMENTO

32
á vários tipos de acaba­
m ento das cestas de
arum ã, com o uso de cipós e
am arrilhos naturais.
Os m ais com uns para se
fazer os aros são: o heemáphi
(e s p in h a d e a n ta ), um tipo
de árvore-cipó; o cipó titic a
[Heteropsis spp.), dapikántsa,
epífita da fam ília das Aráceas,
em pregado tam bém para fazer
aturás e peneiras; e o cipó
u a m b é (ou A m bê-A çu) = okána,
cip ó-trep ad eira ( Philodendron
spp., tam bém da fam ília das
Aráceas) que se enrosca em
árvores de até 5 0 m etros de
altura, com diâm etro de 2 cm ,
que um a vez descascado, é
usado para fazer os aros de
contorno da borda das apás.
Os am arrilh os são feitos de
curauá ( Bromelia sp.), heríwai
pokoda, planta de roça da qual
se extrai a fibra (heriwaíkhaa).
U m a vez torcida é utilizada para
fazer cordas e, passada no breu,
para fazer linhas para pescar e
fios para am arrar o acabam ento
das apás e urutus. O breu máini
é um a resina coagulada no tron­
co de várias espécies de
Burseráceas, m isturada com
carvão, é em pregada para
endurecer e dar durabilidade ao
fio de curauá.

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LOGOMARCA E ETIQUETA
cestaria de aru m ã tem
sido co m e rc ia lizad a em
dúzias. T rata-se de u nid ad e
m ín im a de produção
por en co m en d a, facilitan do
o transporte.
Para o produtor, a dúzia
é tam b é m u m a referência de
valor, para efeito de troca por
d in h eiro ou p or m ercad orias.
No caso dos urutus (foto
ao lad o), o artesão já p roduz
as cestas o bservan do an teci­
pad am ente o d iâm etro das
duas peças m aio res, em cada
qual serão encaixad as su ces­
sivam ente m ais cin co peças,
fo rm a n d o duas m eias dúzias,
po sterio rm en te am arrad as e
em b a la d a s (ver fotos na
pág in a segu inte).
Em cada peça, o artesão
am arra a etiq ueta com a
lo g o m arca “arte baniw a".
EMBALAGEM
trançado da em balagem é aberto, rápido de
fazer, do m esm o tipo utilizado tradicio nal­
m ente para a confecção de cestos descartáveis
de carga, d en om in ad o s aturás (tshéeto). S ão uti­
lizadas as sobras das próprias talas do arum ã,
depois de descortinadas. A lg um as têm alças,
para facilitar o trabalho de carregar e descarregar
tantas vezes, devido às cachoeiras.
P ara evitar que as cestas se ja m dan ificadas
no transpo rte, os B aniw a ain d a fazem , p o r d en ­
tro da em b a la g e m , u m a proteção co m fo lh as do
p ró p rio aru m ã ou de so ro ro ca.
A em b a la g e m foi criada e ap ro vada pelos
p articip an tes da O ficin a de M es tres da Arte de
A rum ã (ver capítu lo ad ian te), realizada na
co m u n id ad e ban iw a de T ucum ã R upitã, alto
Içana, em ab ril de 1 9 9 9 .

36
11
TRANSPORTAR
ransportar a cestaria de aru m ã das
co m u n id ad es do alto Içana até M an au s
é u m a en o rm e d ificu ld a d e e p od e levar até
duas sem anas.
A O IB I, as so ciação ind ígena do Içana, tem
u m a canoa grande íita mákali, reg io n alm en te
d en o m in ad a b on g o, co m um casco de loiro
escavado de 1 4 m etros e co b ertu ra de folhas
de caranã. Essa em barcação, com seis trip u ­
lantes, tem ca pacid ad e para transpo rtar cerca
de cem dúzias de urutus.
N a data m arcad a com an teced ên cia, os d iri­
gentes da A ssociação u sam esse b ongo,
m o vid o a m o to r de popa de 1 5 H P , para visitar
as co m u n id ad es e reco lh er a pro du ção.
38
úí

39
40
¡ii#f
CACHOEIRAS
cada cach oeira - e são pelo m eno s dez! - toda
a cestaria tem que ser d escarreg ad a e o b ongo arrasta­
do, m u itas vezes so b re a pedra.
A cach oeira de Tun u í é um a das m ais fortes do Içana, d ifí­
cil de ser u ltrap assad a co m a carga em barcad a, m esm o no
au g e nas chuvas. N este p onto, os viajantes têm que ped ir
aju d a aos m o rado res da c o m u n id ad e local.
C h eg an d o em S. G ab riel, a cestaria tem que v iaja r 3 0 km
pela estrada para ser em b arcad a no porto de C am an au s. Daí,
são 3 dias para navegar os cerca de 1 .0 0 0 km até M an au s,
onde co m eça u m a longa viag em de b alsa e ca m in h ão , até
B elém (m a is 1 .5 0 0 km ) e S ão Pau lo (m a is 2 .1 2 0 km ).
41
AS MULHERES QUE USAM
s m u lheres baniw a
usam cestaria de
aru m ã na roça e,
so b retu d o, na preparação dos
alim en to s à base de m a n d io ­
ca. A pro du ção artesanal fe­
m in in a de u ten sílio s d o m ésti­
cos re su m e -se tra d icio n a l­
m ente à cerâm ica (larg am en te
su b stituíd a h oje em d ia por
objetos de alu m ín io e ferro )
e às cuias.
As m u lheres vão d ia ria­
m ente à roça para lim par e,
pelo m eno s, duas vezes por
sem ana, para arrancar m an ­
dioca. N o rm alm e n te um a
fam ília tem três roças, um a
m adura, outra “ve lh a” e outra
“n ova”, com cerca de 1 0 0
m etros q uadrad os cada e ocu ­
padas q uase to talm ente por
dezenas de variedades de
m and ioca brava, além de
frutíferas e plantas m edicin ais.
P esqu isa recente sobre
m anejo tradicio nal da
m an d io ca na A m azô nia
registrou que nessa região do
alto Içana os B aniw a id e n tifi­
cam 7 4 varied ad es e que
cada fam ília, em m édia,
m aneja cerca de 3 0 delas
nas suas roças.
43
UM DIA DE CLÁUDIA
láudia, espo sa de A n d ré, m ãe de três
filh o s p eq ueno s, acordo u cedo e
prep arou um m in gau para a fam ília antes de ir
para a roça, ac o m p a n h ad a de su a m ãe Laura
e carreg an do S ilv an a, recé m -n asc id a.
Para ch eg ar à roça m a is perto da c o m u ­
n id ad e de T uc u m ã-R u p itã o nd e m o ra, C láu d ia
teve que rem ar três horas rio ac im a, no Içana
e, d ep ois, no igarapé P am ari.
F oram necessárias cin co horas para arran ­
car e ap arar raízes de m an d io ca em q uantid ad e
su ficien te e cu id a d o sa m e n te encaixad as para
en ch er d ois aturás. N a volta, a cano a de
C lá u d ia desceu m ais rápid o, ajo u jad a ao bote
de a lu m ín io co m m o to r q ue levou o fotógrafo
para registrar a cena.
A in d a a s s im ,...
45
...C lá u d ia e sua m ãe g astaram o resto da
tarde para lavar as raízes no igarapé, raspar, ralar
e esprem er, para p ro d u zir u m a q u a n tid ad e su fi­
cien te de idaitakapéthi = m assa ralada de m a n ­
dioca, de to xicid ad e reduzida, a qual foi ao forno
e viro u alg u n s b eiju s so m ente no d ia segu inte.
A lida da m an d io ca - das roças aos a lim e n ­
tos - to m a a m aio r parte do tem po da vid a das
m u lh eres baniw a. Exige en o rm e esforço físico e
h ab ilidade.

ATURÁ
erm o em lín g ua geral que d esig na cesto s-carg u eiro s
esféricos, em fo rm a de pan eiro s, p ro vido s de alça
para cin g ir a testa e levar nas costas e u tilizad o no trans­
porte de pro du to s da roça, da m ata e de o bjeto s durante
viagens; na região do alto Rio N egro, os M ak u fazem
aturas de cip o u am bé, kaámeem baniw a; aq u ele feito de
cip ó titica ou u am b é os Baniw a ch am am de tsheéto.
46
1
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RASPAR E RALAR
trabalh o de descascar é m ais am en o . As raízes
O já tratadas são reservadas em uru tus ou bacias
de alu m ín io . R alar exig e outra vez en o rm e esforço.
O trabalh o é feito co m o ap o io de um ralo de m adeira
cu ja fab ricação é esp e cialid a d e dos B aniw a e C u rip aco

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RALO
tilitário para ralar as raízes da m and ioca,
cu b iu , sem entes de um ari; feito a partir
de táb u a de m adeira da fam ilia do m o lon g ó
(adarukónale ou adapéna), talh ad a com
en xó , co m d iferen tes tipo s de gratísim os
riscados ( kowhíapu, saúva cam inh o ; arháipa,
pé de um tipo de cabeçudo; tsinotaráale, céu
da boca de cachorro; díakhe, tipo de co n s­
telação; konolíke, g alho de um tipo de
árvo re) que servem de g uia para incrustar
p ed rinh as de quartzo (b ran cas, ádai) que só
existem na serra de Tun u í ou de sílex (pretas
epíttii), ou ain da de p ed acin ho s de m etal.
Encontrável nos arm azéns do co m ércio em
São G ab riel, onde é vend ido co m o u tilitario .

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TIPITI
tipiti é fab ricado p or to do s os povos indígenas da região do
Rio N egro. É um utensílio indispensável no preparo de alguns
tip o s de farin h as, beijus e m in gaus, alim en to s d erivado s da m a n ­
dioca. U sado pelas m u lheres baniw a para extrair o su m o que co n ­
tém o ácid o clan ídrlco, tóxico, e secar a m assa antes de Ir ao forno.
H o m e m que não sabe fazer tipiti não está pronto para casar.
T rata-se de um cesto cilín d rico elástico, fab ricado co m talas de
aru m ã ou jacitara sem raspar nem m archetar, co m ab ertura na parte
su p erio r e duas algas: a de cim a para p ren d ê-lo a um ponto fixo e a
de baixo para Introd u zir u m a alavan ca
e fazê -lo disten der-se.
Para uso na cozinha baniw a, os tip itis são fab ricado s com cerca
de 1 ,7 0 m de co m p rim ento ; é possível en co n trar peças deste tipo
no co m ércio de S ão G abriel da C ach oeira. Os B aniw a fab ricam
versões m in ia tu -
rizadas com talas
co lorid as, que são
vend idas co m o
souvenirs tam bém
em M a n au s e
Belém e já foram
u tilizad as co m o
em b a la g e m de p ro ­
dutos co sm ético s.

PEGA-MOÇA
um a espécie de m in i-tip iti, com cerca de 2 0 cm
de co m p rim e n to , usado nas b rincad eiras
entre joven s: en co lh e, en ca p s u la e prende
o dedo; é ve n d id o em lojas de arte­
sanato co m o b rinq u ed o.

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MASSA, MANICOERA, FARINHAS

ara extrair a m a n ico era da m assa ralada, os B aniw a u sam o cu m atá ttíiroli,
um cesto -co ad or, trançad o de talas de aru m ã co m as m a lh as cerrad as,
ap o ia d o n um trip é de varas. D o líq u id o co ad o resulta a tap io ca méenthi, um
p o lvilh o que d ecanta no fu nd o do pote, e a m anico era, que deve ser fervida pelo
m eno s por duas horas para lib erar o veneno.
Para esfarin har a m assa seca no tip iti, u sam p en eiras trançadas em arum ã
raspado, co m m a lh as abertas. A m assa p en eirad a vai ao forno p ara to rrar farin h a
ou assar b eiju s, com o ap o io de gran d es ab an o s de arum ã.
Os balaios e urutus de arum ã servem para reservar a m assa da m and ioca seca.

52
TIPOS DE FARINHA
PARA OS BANIWA
matsóka, farin h a d ’ág u a, que
m istu ra a m assa seca com
a que ficou de m olho;
matsóka mewídali, farin h a seca;
motóipe, m assoca, bem fina,
feita de m an d io ca m o le que
ficou de m o lh o três dias,
to rrada lentam ente no forno
m o m o , especial para fazer
ch ibé e b eiju zinh o para
crianças pequenas.

PANEIRO
es to -e m b a la g e m d escartável, de tram a
aberta, de cipó titic a /u a m b é /a ru m ã ,
forrado de fo lh as de aru m ã ou de soro ro ca
(d e d iversas M u sác ea s silvestres), onde se
aco n d ic io n a a farin h a de m a n d io c a para
uso e para venda.
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BEIJU
e iju s - c o m o as
B farin h as - são assa­
d os num forno póali,
tra d icio n a lm en te de
cerâm ica, ag o ra cada vez
m ais de ferro, ap o iado
sobre base de barro.
As m u lheres baniw a
fazem vários tipo s de beiju:
péethe tarhewali, beiju
seco (no sol);
péethe pothidzáite, beiju
doce (fresco);
péethe methíwa, curadá
(m assa m istu rada com
g om a de tap ioca);
péethe thaphéwa, beiju
de m assa de m and ioca
a m o lec id a na água, sem
uso d o tip iti.
0 trabalh o é feito com
a p o io de dois u tilitário s
o b rig ató rio s na cozinha
baniw a: cotimápa, u m a pá
de m adeira co m fo rm a de
m e ia lua, usada para
rem o ver o excesso de
m assa p en eirad a e acertar
as b ordas e kadoitsípa,
ab an o de aru m ã trançad o,
usado para ab an ar o fogo
sob o fo rn o, virar e tirar
o beiju.

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SÍLABAS GRÁFICAS
d esenh o do trançad o fo rm a n d o
q u ad rad o s co n cên trico s
(walálapoem b an iw a, b a la io -e le
vê), sem o uso de talas co lo rid as , é o
p rim eiro q ue to da criança aprende: é co m o
o alfab eto a p re n d id o para p o d er ler na
escola. A p arece no fu nd o de to do urutu.
A través das técnicas do trançad o, vários
m o tivo s g eo m étric o s p od em ser criado s,
to do s com um sig n ificad o sim b ó lico
específico . A lg u n s artefatos ap resentam um
único m o tivo , outros u m a co m b in a çã o de
vários deles.
A s diferen tes co m b in a çõ es de talas kettamárhi= desenho das costas de um
co lo rid as em preto ou ve rm elh o co m talas tipo de besouro
lisas, raspadas ou não, p erm item visu alizar
m e lh o r os d esenh o s do trançado,
assim co m o p ro d u zir pad rõ es ain d a m ais
variad os.
N o s cu m atás e p en eiras redondas, o
cam p o d eco rativo do tecido de aru m ã se m ­
pre aparece d iv id id o em quatro p or um a
cruz, osso ou sustento do cesto.
S o bre a varied ad e dos desenh o s em uso makowe íthi= ave noturna olho
na cestaria, re g istro u -se 2 7 n om es durante
a O ficin a de M es tres , realizada em Tucum ã
em 1 9 9 9 (ver ad ian te), p raticam ente o
m esm o n úm ero (2 8 ) an o tad o pela
an tro p ó lo g a Berta R ib eiro na d écada de 70 .
Na p ág in as segu intes aparece u m a
am ostra destes pad rõ es g ráfico s, co m os
n om es em b an iw a. A n tigam en te h aviam
alg u n s pad rõ es p rivativo s de d eterm inado s tssípa ittípi= pacu rabo
p ovos e clãs.
56
iwithoípa = massaiico pegada kettamárh¡= desenho das costas
de um tipo de besouro

diákhe = desenho/movimento infinito

dzaawi iphoakaromi = onça aakoro = tapuru


pegada

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rowidzokami = mulher peneirar marca kettamárhi= desenho das costas de
um tipo de besouro

vv.wwv.uvv

kettamárhi= desenho das costas de ornai ttieda = piranha lombo


um tipo de besouro

dawaaki hiieidáphi= jandiá osso iwithpa = massarico pegada


cabeça

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kettamárhi= desenho das costas de kettamárhi= desenho das costas de
um tipo de besouro um tipo de besouro

diákhe = desenho/movimento rowidzokami= mulher peneirar marca


infinito

kowheapo = saúva caminho aalidali iekoa = tatu testa

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OFICINA DE TUCUMÃ-RUPITÃ
■m ab ril de 1 9 9 9 , ap ó s q uatro m eses de p rep aração , a O IB I, co m ap o io da
F O IR N e do IS A , o rg an izo u u m a o fic in a de m estres da arte de arum ã,
id e n tificad o s n u m a a s se m b lé ia da asso ciação no an o a n terio r e c o n vid a d o s
para o even to. D u rante u m a sem ana, es tiveram re u n id o s na casa co m u n itá ria de
T u c u m ã -R u p itã 2 0 artesão s de dez co m u n id a d e s do alto Içana. C ada qual
tro u xe um co n ju n to de peças p ro ntas para m o strar e m a té ria s -p rim a s para
prep arar e trançar até o ac ab am en to .
Essa situação de trabalh o e co n vivê n c ia p erm itiu u m a interação inédita entre
os artesãos, os d irig en tes da O IB I e a eq u ip e do ISA, que contou co m Beto
Ricardo (an tro p ó lo g o , co o rd en ad o r do P ro g ram a Rio N e g ro ) e Fáb io M o n te n e g ro
(en carreg ad o da elab o ração de um p lano de co m e rc ia lizaç ão ), e com a p artici­
pação especial do fotógrafo Pedro M a rtin e lli. A ped id o da artista gráfica S ylvia
M o n te iro , que vo lu n taria m e n te se en carreg ou do d esenh o e ed itoração desta
p ub licação, foi m o n tad o um estúd io na ald eia, para fo tog rafar as peças co m
fu nd o infin ito e luz natural.
C o n tan d o com o ap o io
dos m o rado res da c o m u ­
n id ad e h ospedeira, que
g arantiram um b om astral
e c o m id a farta, crio u -s e
um am b ien te que p erm itiu
d ocum en tar d etalh ad a­
m ente não só todos os
passos da p ro du ção da
60
cestaria p elos h om en s e de
uso pelas m u lh eres no pro­
cessam ento da m and ioca,
co m o passar a lim p o os
vários aspectos relacio nado s
ao m ercad o ( co m o co n tro le
de q u a lid ad e, em b a la g e m ,
custos e p reços).

61
INFORMAÇÕES SOBRE O PROJETO E AS PARCERIAS
Os objetivos centrais do projeto de p ro du ção e co m e rc ia lizaç ão de ces­
taria b an iw a de aru m ã são: (1 ) valo rizar o p atrim ô n io cu ltural; (2 ) an im a r a p ro ­
dução de o bjeto s de arum ã, co m o u m a fo rm a de re ciclag em e d is sem in a ção de
u m a tradição cultural m ilen ar; (3 ) identificar n icho s d u rad o u ro s de m ercad o,
co m p atíveis com a capacid ad e de p ro du ção das co m u n id ad es ; (4 ) gerar renda
p ara os p ro du to res ind ígenas e suas asso ciações; (5 ) c o n trib u ir para o uso
sustentável dos recursos n aturais; e (6 ) capacitar a FO IR N e as so ciações filiad as
no g eren ciam en to de projetos.
0 pro jeto AR TE B A N IW A é u m a p arceria entre a O IB I (O rg an ização Ind ígena
da Bacia do Içan a), a FO IR N (F ed eração das O rg an izaçõ es Ind ígenas do Rio
N e g ro ) e o IS A (In s titu to S o cio a m b ie n ta l).
A OIBI (O rg an ização
Ind ígena da Bacia do Içana)
fu nd ad a em 1 9 9 2 , filia d a à
F O IR N , representa 1 7 c o m u ­
n id ad es ban iw a (S. José,
Jacaré Poço, S an ta Rosa,
T ap ira-P o n ta , S an ta M arta,
Ju ivitera, A rapaço, Tarum ã,
P u pu n ha, T u c u m ã-R u p itã ,
J a n d ú -C a c h o e ira , M a u á -C a c h o e ira , Trindade, A racu -C a ch o e ira, S iu s i-C a c h o e ira ,
T u c u n aré-lag o e T am and u á), num trecho do alto Içana.
D esd e 1 9 9 4 , a FO IR N e o IS A es tab eleceram um a p arceria para d esenvolver
um P ro g ram a R egio nal de D e se n v o lvim e n to Ind ígena S u sten tável do A lto e
M é d io Rio N egro.
A FOIRN - Federação das O rg an izaçõ es Ind ígenas do Rio N egro - é um a
asso ciação civil, sem fin s lucrativos, fu nd ad a em 1 9 8 7 para o rg an izar os 2 2
p ovos ind ígenas da região e lutar pelo reco nh ecim en to dos seus d ireitos c o le ­
tivo s à terra, saúde, ed u cação e cu ltura. A sede da FO IR N é em S ão G abriel da
C ach oeira. Existem 3 4 asso ciações ind ígenas filiad as à F O IR N , represen tan do 3 0
m il pessoas de m a is de 6 0 0 co m u n id ad es.
O ISA - Instituto S o cio a m b ie n ta l - é u m a as so ciação civil, sem fins lucra­
tivos, fu nd ad a em 1 9 9 4 para p ro po r so luções integradas a q uestõ es so ciais e
am b ien tais. O ISA tem co m o o bjetivo d efender bens e d ireitos so ciais, co letivo s
e d ifu so s, relativos ao m eio am b ien te, ao p atrim ô n io cu ltural, aos d ireitos
62
h um an os e dos povos. C o m sede em São Paulo e um escritó rio em Brasília, o
ISA tem su b -sed es regio nais em S. G abriel da C ach oeira, no Rio N egro (A M ),
no X ing u (M T ) e no V ale do R ibeira (S P ).
A p arceria IS A /F O IR N inclui várias ativid ad es, com o: a instalação de um a rede
de radio fon ía e transporte, o d esenvolvim en to de pesquisas d irig id a s, a p u b li­
cação da p rim eira série de livros de autores indígenas no B rasil, a im p lantação
de escolas ind ígenas, de p ro jetos de p iscicu ltu ra e de m anejo ag ro florestal, a
fo rm ação de um banco de d ados so cio am b ien tais g eo rreferen ciad os, a d em a r­
cação, proteção e fiscalização das terras e o d esenvolvim en to de alternativas
ec o n ô m ica s ap ro p riad as, in c lu in d o a capacitação das o rg an izaçõ es indígenas.
Estas ativid ad es co n tam com ap o io s técnico s e financeiro s de várias p essoas e
o rg an izaçõ es g overn am en tais e n ão -g o ve rn am e n ta is, do Brasil e do exterior.
A pós vários testes de m ercad o, o ISA identificou a em presa T o k & S to k, do
segm en to de m ó veis e o bjeto s de d ecoração para co n su m id o re s específicos de
classe m éd ia dos gran d es centros u rb an os b rasileiros, e co n stru iu u m a p arceria
co m ercial que acolh eu a h istória da arte ban iw a e flexib ilizo u alg un s p ro ced i­
m ento s p ad ro nizad o s para os fo rn ecedo res, co m bons resultados. Os recursos
o btid os com a venda da cestaria ban iw a de aru m ã são u tilizad os integralm en te
para rem u nerar os pro du to res, co b rir custos o peracio n ais e ap lic ar em p ro jetos
de Interesse das asso ciações baniw a.

idem: Os índios das Águas Pretas, SP, Cia.


FONTES das Letras/EDUSP, 1 9 9 5 ,270p.
CABALZAR Flora Dias: Iniciativas Indígenas VÁRIOS NARRADORES Waferinaipe
na Produção e Comercialização de artesanato lanhenke: a sabedoria dos nossos antepassados.
no alto rio Negro, relatório de atividades, Histórias dos Hohodene e dos Walipere-Dakenai
junho/dez 97, ISA, SP, 1998. do rio Aiari. AC IRA (Associação das Comunida­
FOIRN/ISA Povos Indígenas do alto e médio des Indígenas do Rio Aiari) e FOIRN, S. Gabriel
Rio Negro. M apa-livro. 1998, S. Gabriel da da Cachoeira (AM), Coleção Narradores
Cach oei ra/S. Pau Io, 128p. Indígenas do Rio Negro, v. 3,1999,191 p.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL VELTHEM Lúcia Hussak van: A Pele de
www.socioambiental.org Tuluperê: uma etnografía dos trançados
RIBEIRO Berta G.: A civilização da palha: a Wayana. Museu Paraense Emílio Goeldi,
arte dos trançados dos índios do Brasil, tese Coleção Eduardo Galvão, Belém, 1 9 9 8 ,251p.
de doutorado, USP, 1980. WRIGHT, Robin M.: Cosmos, Self and
idem Dicionário de Artesanato Indígena, Ed. History in Baniwa Religion. For Those
Itatiaia/EDUSP, 1988, 343p. Unborn. Austin: Univ. of Texas Press.

63
GLOSSÁRIO
(bw = baniwa; reg = regional; Ig = língua geral)
Chibé matsókaa (bw ), bebida que se tom a depois das refeições e durante as viagens;
deixa-se a farinha inchar na água fria; servida com cuia.
Manicoera kenítshiw¡(bw), sum o venenoso (ácido hidrociânico - ou cianídrico
(H C N ) ou prússico) extraído da m andioca brava (Manihot esculenta Cranz, tam bém
cham ada Manihot útilísima Pohl) no cum atá; deve ser fervido pelo m enos por duas
horas até liberar o sum o venenoso.
Mujeca (Ig) dzatíkhaa (bw ), ensopado de peixe engrossado com tapioca ou farinha,
tem perado com sal e pim enta e consum ido com beiju.
Quinhapira (Ig) ttímapa (bw ), cozido à base de pim enta e peixe, em cujo caldo se
um edece o beiju.
Tapioca mhéetti(bw ), polvllho que decanta no fundo do pote, depois que o líquido
da m anicoera é coado; tam bém existe farinha de tapioca, granulada.
Tucupi káinia (bw ), sum o venenoso extraído da m andioca brava, obtido após o cozi­
mento da polpa da m andioca puba, quando filtrada pelo tipiti. Depois da ebulição
torna-se escuro, xaroposo e um tanto ácido.

GUIA DE PRONÚNCIA DAS PALAVRAS EM BANIWA


0 pronuncia-se entre u (com o em português suco) e o fechado (de poço)
t corresponde ao t da língua portuguesa
tt este som é um tipo de t pronunciado com a lâm ina da língua bem
aplicada nos dentes superiores: com pare a pronúncia de íita canoa
(com o em português) e íitta fum aça (com a língua nos dentes)
ñ com o em português nh ou em espanhol n
ts com o em Inglês, no final da palavra cats
dz com o em inglês no final da palavra beds camas
w com o em inglês water água
y com o em inglês yes sim
h com o em inglês hat chapéu
1 som entre I (com o em português calo) e r (com o em português caro):
é um som típico do baniw a-curipaco
r é tam bém um som típico do baniw a-curipaco: pronuncia-se rr na palavra
perro cão, na pronúncia do espanhol da Argentina
aa ee ii oo vogais duas vezes m ais longas em duração que a e, i, o
ph th, tth kh, tsh mh, nh nh wh Ih rh consoantes aspiradas

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DO MATO ATÉ O MERCADO
Cortar o arumã no mato, fazer feixes
e carregar até a aldeia
Tirar e preparar os materiais para tingimento
e acabamento
Raspar, lavar e arear
Pintar e descorrear em talas
Trançar e fazer o acabamento
Trançar a embalagem
Colocar etiquetas, encaixar as peças
e embalar por dúzia
Transportar em canoa com motor até S. Gabriel,
passando por várias cachoeiras
De carro, do porto de cima
até o porto de Camanaus
Daí até Manaus, de barco
De onde segue de caminhão
embarcado em balsa, até Belém
Para chegar a São Paulo,
por estrada

OIBI - Organização Indígena da Bacia do Içana


Entreposto de S. Gabriel da Cachoeira (AM),
tel (92) 471.2829 - <oibi@poranganet.com.br>

FOIRN - Federação das Organizações


Indígenas do Rio Negro
Av. Álvaro Maia, 79 - Centro
cep 69750-000 S. Gabriel da Cachoeira - AM - Brasil
tel/fax (92) 471.1349 - <foirn@uol.com.br>

ISA - Instituto Socioambiental


www.socioambiental.org
Av. Higienópolis, 901 - Higienópolis
cep 01238-001 São Paulo - SP - Brasil
tel (11) 3825.5544/fax (11) 3825.7861
S. Gabriel da Cachoeira - tel (92) 471.1156
"TRANÇAR CESTOS A PARTIR DE FIBRAS VEGETAIS É
POSSIVELMENTE UMA DAS MANIFESTAÇÕES
TÉCNICAS E CULTURAIS DAS MAIS ANTIGAS NA
HISTÓRIA DA HUMANIDADE. A MATÉRIA-PRIMA
USADA NA CESTARIA É LEVE. FLEXÍVEL,
TRANSPORTÁVEL E RENOVÁVEL. ESTÉTICA E
FUNCIONAL, ELA É ENCONTRADA ENTRE TODOS OS
POVOS ABORÍGENES DA AMÉRICA, EUROPA,
ÁFRICA E ÁSIA, ASSIM COMO EM INÚMERAS
SOCIEDADES CAMPONESAS. ATÉ HOJE, O SEU USO
ESTÁ PRESENTE NAS CIDADES MODERNAS E
MAIS INDUSTRIALIZADAS, AINDA QUE SEJA POR
SAUDOSISMO OU INCLINAÇÃO ESTÉTICA."
( L U X V ID A L , A N T R O P Ó L O G A , IN V E L T H E M , L .H . V A N : 1 9 9 8 )

rÚ JL?

INSTITUTO
SOCIOAMBIENTAL