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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

Disciplina: LLV7733 – Literatura e Cinema


Aluno(a): Patrícia Araújo

PERSONA, INGMAR BERGMAN: O CONCEITO DE CARL JUNG E OS PAPÉIS


TEATRAIS ASSUMIDOS NA SOCIEDADE

Carl Jung, em 1969, com sua obra intitulada Os Arquétipos e o Inconsciente


Coletivo, trabalha com o conceito de persona, o qual, segundo o psicólogo analítico, é um
arquétipo que, visto de modo resumido, é uma função psíquica que auxilia o indivíduo
em suas relações diante do mundo externo, da sociedade. O nome 'persona' deriva do
termo romano que era usado para designar as máscaras usadas nos antigos teatros greco-
romanos. Portanto, é feita uma simbologia com as diversas máscaras — personalidades
— que nós usamos para podermos "atuar", nos adaptarmos em diferentes relações e
contextos postos em nossas respectivas sociedades.
Nas palavras de Jung (2008):

"A palavra persona é realmente uma expressão muito apropriada, porquanto


designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia
desempenhar. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique
coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos
outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não
passa de um papel, no qual fala a psique coletiva."

Quando nos deparamos com a obra cinematográfica de Bergman, é exatamente


essa questão de personalidades, de existencialismo, do ser em posição a si mesmo e ao
outro, das máscaras, que nos é entregue e nos faz pensar em como tudo isso é
desenvolvido e finalizado, de forma subjetiva e também não muito clara, dentro da
narrativa e faz com que pensemos em como esse jogo e troca de máscaras ocorre em
nossas próprias vidas e também ao nosso redor.
O conceito de Jung de persona nos remete, também, a uma ideia teatral, uma vez
que, quando assumimos uma máscara em algum contexto, estamos assumindo um
determinado papel social, que é diferente de todos os outros papéis sociais que
assumimos diante de outros contextos, estamos portanto, de certa forma, atuando dentro
da sociedade.
Bergman em seu trabalho aqui citado apresenta duas personagens, Alma e
Elisabet, Alma sendo a enfermeira responsável por cuidar de Elisabet após a mesma ter
tido um tipo de surto durante uma de suas atuações como atriz de teatro. Elas são, então,
enviadas para uma casa de praia, onde ficam sozinhas e Alma precisa acompanhar
Elisabet em sua melhora, entretanto, a atriz apresenta uma importante característica para
a narrativa do filme: ela não fala nenhuma palavra após seu episódio na peça e todo o
relacionamento das duas é baseado apenas nas falas de Alma e nas ações de Elisabet.
Existem diversas formas de se analisar o filme, a que eu mais compartilho ideias é
a de que Alma seria a persona de Elisabet, ou seja, as duas, na verdade, são a mesma
pessoa, Elisabet sendo a pessoa real por trás de uma de suas máscaras, enquanto Alma
representa uma dessas suas personalidades e a partir disso surge um conflito próprio, dela
com ela mesma, tentando buscar entender a si mesma melhor.
Voltando para a cena teatral, um ator ou atriz ao performar um papel precisa estar
ciente da relação papel adotado vs. platéia, onde ele designa as ações e falas de seu
personagem teatral e a partir daí, já pode pressupor uma reação da platéia que ali o
assiste. A mesma coisa acontece quando nós adotamos um papel social. Na verdade,
acredito que seja exatamente por isso que nós o fazemos. Estamos diante de diversas
platéias durante toda a nossa vida, precisamos adaptar nossas máscaras/personalidades de
acordo com a qual estamos inseridos no momento, e a partir das condutas e princípios
que nossa sociedade segue, desenhamos e planejamos as nossas ações e falas para
atendermos as reações esperadas daquele grupo social — platéia — e assim alcançarmos
a validação.
Talvez, Elisabet por ser atriz e ter tanto essa relação papel teatral vs. platéia
quanto papel social vs. sociedade tenha um maior conflito consigo mesma, porque como
é mostrado no filme, ela também apresenta um problema em seu relacionamento com seu
filho e seu marido. Acredito numa possibilidade de ela ter criado, imaginado Alma a
partir desses conflitos para buscar a compreensão dela em relação a esses aspectos de sua
vida e, talvez, em outros também. Sua falta de linguagem pode ter sido adotada para que
a voz de Alma predominasse e assim nós, os telespectadores, pudéssemos ter um maior
acesso, uma maior visão sobre seu conflito mental.
Quando fala-se de personagem dentro do teatro, fala-se também de ação,
atividade, aquilo que pode ser visto pelo espectador, ou seja, uma personagem só pode
existir dentro de um tempo e dentro de um espaço. Para entendermos e criarmos um
personagem precisamos dessa localização, segundo Aristotéles em sua Poética:

"E como a tragédia é a imitação de uma ação e se executa


mediante personagem que agem e de diversamente se apresentam,
conforme o próprio caráter e o pensamento (porque é segundo
essa diferenças de caráter e pensamento que nós qualificamos as
ações), daí vem por consequência o serem duas as causas naturais
que determinam as ações: pensamento e caráter; e, nas ações
[assim determinadas], tem origem a boa e má fortuna dos
homens. Ora, o mito é imitação de ações; e por “mito” entendo a
composição dos atos; por “caráter”, o que nos faz dizer das
personagens que elas têm tal ou tal qualidade; e por
“pensamento”, tudo quanto digam as personagens para
demonstrar o que seja ou para manifestar sua decisão (p.448)"

Nessa passagem da obra onde o filósofo trabalha a questão da tragédia e de


personagens, fica clara a evidência de que assumir e entender um personagem é
contextualiza-lo. Sempre que adotamos uma máscara estamos adotando-a apenas porque
ali existe um contexto e precisamos nos adaptarmos dentro dele.
Ainda tratando de ação, segundo Kusnet, ator, diretor e professor de teatro russo,
dois aspectos da ação coexistem:

"ela [a ação] tem sempre e simultaneamente dois aspectos ― ação


interior e ação exterior, ou seja, ação mental e ação física. Essas
duas formas de ação não podem existir em separado, elas se
processam sempre em simultaneidade, mesmo quando uma delas
aparentemente não está presente, mesmo quando uma delas
aparentemente está ausente. Por exemplo, a imobilidade total de
uma pessoa (ação exterior nula) simultaneamente com uma série
de pensamentos frenéticos (ação interior intensa) (1992, p.23)"

A ação interna diz respeito aos pensamentos, sentimentos, memórias,


"movimentos internos", que acontecem dentro do ator/personagem. Já a ação externa são
os dados observáveis, tudo aquilo que o espectador pode assistir.
Pensando na questão do longa de Bergman, podemos interpretar que Alma seria
uma mescla dessas duas características da ação. Ela é tanto a ação interna de Elisabet,
seus sentimentos e pensamentos, quanto sua ação externa, uma vez que, Elisabet está
sempre interagindo com ela e nós podemos assisti-la.
As personagens presentes na ação possuem cada uma um objetivo, ela sempre
será planejada para conseguir alcançar algo, todos os seus atos e suas falas tem por
objetivo conseguir atingir alguma coisa, assim como na questão de nossos papéis sociais,
apenas vestimos uma máscara para podermos chegar ao nosso objetivo, seja ele qual for,
diante da sociedade na qual estamos inseridos.
Quando Alma relata suas histórias do passado para Elisabet parece que, de alguma
forma, ela também possui aquelas memórias e a escuta relembrando com certa ternura e
também saudade. Talvez, Elisabet estivesse naquele momento olhando para trás,
trabalhando com sua ação interna, relembrando seus sentimentos de quando era mais
nova e agora estava ali, no presente, de frente com todas as suas frustrações e vendo que
agora seus objetivos não assumiam mais aquela máscara.
O conflito entre a Elisabet do presente e a possível versão de uma personalidade
diferente de Elisabet — Alma — nos mostra uma importante questão sobre as máscaras
adotadas: a de que é muito importante reconhecer a distinção entre essas máscaras, que
nos adaptamos de certa forma aos contextos que nos deparamos e que, portanto, caso essa
distinção não ocorra, torna-se muito difícil remover a máscara e isso gera conflitos de
personalidade. Elisabet agora enfrenta ela mesma e busca compreender melhor sua
questão existencial.
O papel social, assim como o teatral, é apenas uma função, uma fração, de quem
somos realmente por trás de todas essas personas, "a pessoa/o ator domina seus
papéis/suas personagens sociais da mesma forma que o ator teatral também domina suas
personagens em cena". É preciso manter em mente que o ator social precisa ser maior
que o papel social, uma vez que, as máscaras que usamos para podermos nos validarmos
e alcançarmos nossos objetivos são apenas um fragmento de quem somos de verdade.
Dentro do teatro existe uma concepção sagrada, a de que o que sustenta uma
personagem em sua ação são seus objetivos. O ator empresta seu corpo e sua voz para
que a personagem possa agir e alcançar o seu desejo, sendo assim, ator e personagem
sempre se diferem, nunca um pode ser o mesmo ser que o outro. Portanto, é necessário
sempre diferirmos as personalidades que adotamos em diversas situações de quem somos
por trás de todos esses papéis.
Se pensarmos o conceito de persona de Carl Jung juntamente com as concepções
de personagem e ação dentro do teatro e podendo, ainda, visualizar isso em uma obra
cinematográfica como Persona, percebemos como a atuação está presente em nossas
vidas, por mais que não percebamos, como estamos sempre usando uma máscara
diferente, dando corpo e voz para algum personagem que nos habita, buscando, cada um
de nós, nossos objetivos, seja ele a validação dentro da sociedade ou apenas um encaixe
dentro de um grupo e contexto qualquer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SALGUEIRO, JE. Ideias do teatro na formulação da ideia de pessoa. Rio de
Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais; ABRAPSO, 2011, pg. 41-58
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
Aristóteles. (1973) Poética. São Paulo: Abril Cultural. Col. Os Pensadores,
vol IV.