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PANEGÍRICO

GUY DEBORD
i

N R A D
PANEGÍRICO
CONRAD EDITORA DO BRASIL LTDA.
DIREÇÃO
André Forastieri
Cristiane Monti
Rogério de Campos
GERENTE DE PRODUTOS
André Martins

CONRAD LIVROS
DIRETOR EDITORIAL
Rogério de Campos
COORDENADORA EDITORIAL
Priscila Ursula dos Santos
ASSISTENTE EDITORIAL
Ricardo Liberal
ASSISTENTE DE ARTE
Marcelo Ramos
PANEGÍRICO
GUY DEBORD

CLÁSSICOS CONRAD

CONRAD
LIVROS
Copyright © Editions Gallimard 1993.
Copyright desta edição © 2002, Conrad Editora do Brasil Ltda.

CAPA: Marcelo Ramos (ilustração de Asger Jorn)


TRADUÇÃO: Edison Cardoni
PRODUÇÃO GRÁFICA: Ed Wilson
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Anísio Arruda

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação


(CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Debord, Guy, 1931-


Panegírico / Guy Debord ; [tradução Edison Cardoni).
-- São Paulo : Conrad Editora do Brasil, 2002. --
(Clássicos Conrad)

Titulo original: Panégyrique.


ISBN 85-87193-77-5

1. Debord, Guy, 1931- 2. Radicais - França -


Biografia I. Título. II. Série.

n9 ,1nq CDD-303.484092

índices para catálogo sistemático:


1. Radicais : Mudanças sociais : Biografia 303.484092

CONRAD LIVROS
Rua Maracaí 185 Aclimação
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Fone: 11 3346.6088 Fax: 11 3346.6078
e.mail: livros@conradeditora.com.br
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"Panegírico significa mais que elogio. O elogio con-
tém, sem dúvida, o louvor do personagem, mas
não exclui uma ponta de crítica, uma certa censu-
ra. O panegírico não comporta nem censura nem
crítica."
Littré
Dictionnaire de la langue française

"Por que queres saber minha origem? Os homens


são como as folhas. Quando chega o outono, elas
caem e são arrastadas pela terra, e novamente vem
a primavera e reverdece tudo. Assim são os ho-
mens, nasce uma geração e a outra perece."
Riada, Canto VI
"Quanto a seu plano, podemos facilmente demons-
trar que ele não o tem, que escreve quase ao aca-
so, baralhando os fatos, relatando-os sem seqüên-
cia e sem ordem; confundindo, ao tratar de uma
época, o que pertence a outra; desdenhando justi-
ficar suas acusações e seus elogios; adotando sem
exame, e sem esse espírito crítico tão necessário
ao historiador, julgamentos falsos, produtos da
prevenção, rivalidade ou inimizade e dos exageros
de humor ou da malevolência; atribuindo a uns
ações e a outros discursos incompatíveis com suas
posições e características; nunca citando outro tes-
temunho que não seja o dele mesmo nem outra
referência além de suas próprias assertivas."

General Gourgaud
Examen critique de l'ouvrage de M.
le comte Philippe de Ségur

Toda minha vida transcorreu em tem-


pos turbulentos, de extremas perturbações
na sociedade e imensas destruições. Tomei
parte nesses tumultos. Tais circunstancias
são suficientes, sem dúvida, para impedir
que até o mais transparente dos meus atos
ou raciocínios receba aprovação universal.
Mas também acredito que numerosos entre
eles podem ter sido mal compreendidos.

Clausewitz, no início de sua história


sobre a campanha de 1815, dá este resumo
do seu método: "Em toda crítica estratégi-
ca, o essencial é colocar-se exatamente na
posição dos que têm um papel ativo nos
acontecimentos; é verdade que, freqüente-
mente, isso é muito difícil". A dificuldade
consiste em saber quais eram "todas as cir-
cunstâncias em que se encontravam os ato-
res" num momento determinado, a fim de
estar, assim, em condições de julgar escru-
pulosamente a série de suas escolhas na
condução de sua guerra: como fizeram o que
fizeram e o que, eventualmente, poderiam
ter feito de diferente. É necessário saber o
que eles pretendiam antes de tudo e, é cla-
ro, o que eles presumiam, sem esquecer o
que eles ignoravam. E o que eles ignoravam
não era somente o resultado, ainda por vir,
de suas próprias operações se chocando com
as operações que lhes seriam opostas, mas
também muito daquilo que já se fazia efeti-
vamente pesar contra eles, nas disposições
ou nas forças do campo adversário, e que,
no entanto, lhes permanecia desconhecido.
E no fundo eles não souberam o valor exato
que convinha atribuir às suas próprias for-
ças até que elas se deixassem conhecer, jus-
tamente no momento de sua utilização, cujo
resultado, ademais, algumas vezes modifi-
ca esse valor tanto quanto o põe à prova.

Aquele que tenha conduzido semelhante


ação, em virtude da qual grandes conse-
qüências repercutiram ao longe, no mais das
vezes terá sido praticamente o único a saber
de suas mais importantes facetas que, por
diversas razões, permaneceram desconheci-
das, enquanto outras foram desde então es-
quecidas, simplesmente porque seu tempo
passou ou porque morreram aqueles que
poderiam lembrá-las. E mesmo o testemu-
nho dos vivos não é sempre acessível. Um
não sabe verdadeiramente escrever; outro
está constrangido por interesses ou ambições
mais atuais; um terceiro pode ter medo; e o
último corre o risco de se inquietar com a
preocupação de preservar a própria reputa-
ção. Como veremos, não estou preso a ne-
nhum desses obstáculos. Então, falando tão
friamente quanto possível daquilo que sus-
citou muita paixão, vou contar o que fiz. Se-
guramente, uma grande quantidade de críti-
cas injustas, senão todas, logo se verão
varridas como pó. E eu me persuado de que
as grandes linhas da história de meu tempo
sobressairão mais claramente.

Serei obrigado a entrar em detalhes,


o que pode me levar para bem longe. Não
me recuso a encarar a amplidão da tarefa.
Dela me ocuparei pelo tempo que for ne-
cessário. Mas, ainda assim, não direi, como
Sterne fez ao começar a escrever Vida e as
Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy:
"Não vou me apressar, mas sim escrever
tranqüilamente e publicar minhas memó-
rias à razão de dois volumes por ano se o
leitor quiser suportar meu passo e se eu
chegar a um arranjo aceitável com meu
editor". Porque, seguramente, não quero me
comprometer a publicar dois volumes por
ano, nem mesmo prometer não importa
qual outro ritmo menos acelerado.

Meu método será muito simples. Fala-


rei do que amei. À luz disso, todo o resto se
evidenciará e se fará compreender suficien-
temente.
"O tempo enganoso nos dissimula seus
traços, mas ele passa, célere", diz o poeta Li
Po, que acrescenta: 'Talvez mantenhais ain-
da a índole alegre da juventude - mas vos-
sos cabelos já estão todos brancos. Para que
vos lastimardes?" Não pretendo me lastimar
por nada, e certamente não pela maneira
como pude viver.

Tanto menos eu quero dissimular-lhe


os traços que sei exemplares. Que alguém se
disponha a relatar precisa e efetivamente a
vida que levou é algo que sempre foi raro em
virtude das numerosas dificuldades do tema.
E talvez ainda mais precioso o será no pre-
sente, tratando-se de uma época em que tan-
tas coisas têm sido mudadas, na surpreen-
dente velocidade das catástrofes. Época da
qual se pode dizer que quase todas as refe-
rências e padrões têm sido subitamente tra-
gados juntamente com o próprio solo onde
estava edificada a antiga sociedade.

Em todo caso, me é fácil ser sincero.


Não me defronto com nada, em qualquer
assunto, que possa me provocar o menor
constrangimento. Jamais acreditei nos va-
lores assimilados por meus contemporâ-
neos, e eis que atualmente ninguém mais
reconhece nenhum deles. Lacenaire, talvez
ainda muito escrupuloso, me parece que
exagerou a responsabilidade em que tinha
diretamente incorrido pela morte violenta de
um número muito reduzido de pessoas:
"Penso valer mais que a maioria dos ho-
mens que conheci, mesmo com o sangue
que me tinge", escrevia ele a Jacques Arago.
("Mas vós estáveis lá conosco, senhor Arago,
nas barricadas, em 1832. Lembrai-vos do
Convento de Saint-Merry... Vós não conhe-
ceis a miséria, senhor Arago. Jamais tives-
tes fome", haveriam de responder um pou-
co mais tarde, não a ele, mas a seu irmão,
nas barricadas de junho de 1848, os ope-
rários a quem este último viera arengar, tal
qual tribuno romano, argumentando sobre
o abuso que é insurgir-se contra as leis da
República.)

Não há nada mais natural que alguém


enxergar todas as coisas a partir de si, con-
siderando-se o centro do mundo. Assim pro-
cedendo, descobre-se capaz de condenar o
mundo sem nem mesmo querer ouvir seus
discursos enganosos. É preciso apenas de-
marcar as fronteiras precisas que inevitavel-
mente limitam essa autoridade: seu próprio
lugar no decorrer do tempo e na sociedade; o
GUY DEBORD l i

que fez e o que conheceu; suas paixões do-


minantes. "Quem pode escrever a verdade
senão aqueles que a sentiram?" O autor das
mais belas Memórias escritas no século XVII,
que não escapou da inepta crítica de ter fa-
lado de sua conduta sem manter as aparên-
cias da mais fria objetividade, fizera a res-
peito dela essa oportuna observação, que
sustentava citando a opinião do presidente
de Thou, segundo a qual "apenas são verda-
deiras as histórias escritas por homens sin-
ceros o suficiente para contar a verdade a
respeito de si mesmos".

Talvez alguém se espante por eu pare-


cer implicitamente me comparar, aqui e ali,
a respeito de algum pormenor, a tal ou qual
grande espírito do passado ou simplesmen-
te a personalidades historicamente notáveis.
Cometerá um erro. Não pretendo me asse-
melhar a quem quer que seja e, ademais,
considero que a época atual é muito pouco
comparável ao passado. Mas diversos per-
sonagens do passado, muito diferentes en-
tre si, ainda são comumente bastante co-
nhecidos. Eles concentram uma significação
instantaneamente comunicável a respeito
das condutas ou inclinações humanas.
Quem ignore o que eles tenham sido poderá
verificá-lo facilmente. E fazer-se compreen-
der é sempre um mérito para quem escreve.

Deverei empregar um grande número


de citações. Jamais, acredito, para conferir
autoridade a uma demonstração qualquer,
mas apenas para fazer sentir do que terão
sido urdidos, em profundidade, esta aventu-
ra e eu mesmo. As citações são úteis nos
períodos de ignorância ou de crenças obscu-
rantistas. As alusões sem aspas a outros tex-
tos que se sabe muito célebres, como vemos
na poesia clássica chinesa, em Shakespeare ou
em Lautréamont, devem ser reservadas a tem-
pos mais abundantes em cérebros capazes
de reconhecer a frase original bem como a
perspectiva que sua nova aplicação introdu-
ziu. Atualmente, quando até mesmo a ironia
passa, comfreqüência,despercebida, corre-se
o risco de ver a expressão ser-nos abusiva-
mente atribuída e, com a mesma precipita-
ção, ser reproduzida em termos errados. A
deselegãncia do antigo procedimento das ci-
tações exatas será compensada, espero, pela
qualidade de sua seleção. Elas surgirão na-
turalmente no transcorrer deste relato: com-
putador nenhum poderia me fornecer essa
pertinente variedade.
Aqueles que querem escrever às pres-
sas, de forma despropositada, o que nin-
guém lerá uma só vez até o fim, nos jornais
ou nos livros, exaltam com multa convicção
o estilo da linguagem falada, porque a con-
sideram muito mais moderna, direta, fácil.
Mas eles mesmos não sabem falar. Seus lei-
tores tampouco, pois a linguagem efetiva-
mente falada nas modernas condições de
vida se encontra socialmente reduzida à sua
representação, eleita indiretamente pelo
sufrágio da mídia, composta por cerca de
seis ou oito expressões fastidiosamente re-
petidas e menos de duas centenas de vocá-
bulos, a maioria dos quais, neologismos,
estando esse conjunto sujeito à renovação
de um terço a cada seis meses. Tudo isso
favorece uma forma de empatia ligeira. Ao
contrário, eu por minha parte vou escrever
sem esforço e sem cansaço, como a coisa mais
natural e mais cômoda do mundo, a língua
que aprendi e, na maior parte das circuns-
tâncias, falei. Não cabe a mim modificá-la.
Os ciganos consideram, com razão, que so-
mente devemos dizer a verdade em nossa
própria língua; na do inimigo, a mentira deve
reinar. Outra vantagem: fazendo referência
ao vasto corpus de textos clássicos publica-
dos em francês ao longo dos cinco séculos
anteriores ao meu nascimento, sobretudo nos
dois últimos, será sempre fácil traduzir-me
convenientemente em qualquer idioma do
futuro, mesmo quando o francês já tiver se
tornado uma língua morta.

Quem poderia ignorar, em nosso sé-


culo, que aquele que se descobre interessa-
do em afirmar instantaneamente não impor-
ta o quê vai dizê-lo sempre não importa
como? O imenso crescimento dos meios da
dominação moderna marcou de tal modo o
estilo de seus enunciados que, se a com-
preensão acerca do desenvolvimento dos
obscuros raciocínios do poder fora, por
muito tempo, um privilégio de pessoas real-
mente inteligentes, agora ela se tornou for-
çosamente familiar até para os espíritos mais
vagarosos. É nesse sentido que é lícito pen-
sar que a veracidade desta narrativa sobre
meu tempo será satisfatoriamente compro-
vada por seu estilo. O próprio tom deste re-
lato será garantia suficiente, pois todos com-
preenderão que somente à força de ter vivido
desta maneira pode-se alcançar a excelên-
cia neste gênero de exposição.

Sabemos, com toda certeza, que a guer-


ra do Peloponeso ocorreu. Mas é somente
por intermédio de Tucídides que se conhece
seu desenrolar implacável e suas lições.
Nenhuma revisão é possível; mais que isso,
nenhuma seria útil, porque tanto a veraci-
dade dos fatos quanto a coerência do pen-
samento tão bem se impuseram aos con-
temporâneos e à posteridade próxima que
qualquer outro testemunho se sentiu desen-
corajado diante da dificuldade de apresen-
tar uma interpretação diferente dos aconte-
cimentos ou mesmo de fazer chicana acerca
de algum pormenor.

E creio que se deverá proceder do mes-


mo modo em relação à história que vou con-
tar agora. Porque ninguém, durante muito
tempo, terá a audácia de tentar demonstrar,
não importa em relação a qual aspecto das
coisas, o contrário do que eu tenha dito; quer
procurando encontrar o menor elemento ine-
xato nos fatos, quer sustentando outro ponto
de vista em relação a eles.

Por mais convencional que se possa


considerar o procedimento, penso não ser
inútil esboçar aqui, em primeiro lugar e cla-
ramente, a origem de tudo: a data e as con-
dições gerais às quais remonta uma narra-
tiva que, na seqüência, não deixarei de
abandonar a toda confusão que é exigida
por seu tema. É razoável supor que muitas
coisas surgem na juventude e nos acompa-
nham por muito tempo. Nasci em 1931, em
Paris. A fortuna da minha família estava,
desde então, muito abalada pelas conse-
qüências da crise econômica mundial que,
pouco antes, havia se iniciado nos Estados
Unidos. O que restava dela não parecia po-
der durar muito além da minha maiorida-
de, o que, de fato, veio a suceder. Portanto,
nasci virtualmente arruinado. Para ser exa-
to, eu não ignorava que não devia esperar
uma herança que, finalmente, não recebi.
Mas, simplesmente, eu não dava a mínima
importância a essas questões, tão abstra-
tas, relativas ao futuro. Assim, durante todo
o transcurso de minha adolescência, desli-
zei lenta mas inevitavelmente para uma vida
de aventuras, com os olhos abertos. Se, to-
davia, pode-se dizer que eu tinha os olhos
abertos a respeito dessa questão, eu os ti-
nha igualmente abertos a respeito da maior
parte das outras. Eu não podia sequer pen-
sar em aprender uma única dessas sábias
qualificações que conduzem a ocupar os em-
pregos porque elas me pareciam completa-
mente estranhas a minhas inclinações ou
contrárias a minhas opiniões. As pessoas
que eu admirava mais que ninguém no mun-
do eram Arthur Cravan e Lautréamont, e
eu sabia perfeitamente que, se tivesse con-
sentido em prosseguir estudos universitá-
rios, todos os seus amigos teriam me des-
prezado, tanto quanto se eu estivesse
resignado a exercer alguma atividade artís-
tica; e se eu não tivesse podido contar com
esses amigos certamente eu não admitiria
me consolar com outros. Doutor em nada,
eu me mantive firmemente afastado de toda
aparência de participação nos meios que
então se passavam por intelectuais ou ar-
tísticos. Confesso que, nesse caso, meu
mérito se encontrava bem temperado por
minha soberba preguiça, como também por
minhas escassas capacidades para enfren-
tar os trabalhos de semelhantes carreiras.

Nunca dei mais que pouquíssima aten-


ção às questões monetárias e absolutamente
nenhum lugar à ambição de vir a ocupar
alguma brilhante função na sociedade. É um
traço tão raro entre meus contemporâneos
que, por vezes, será, sem dúvida, conside-
rado como inacreditável, mesmo em meu
caso. No entanto, ele é verdadeiro e pôde
ser verificado tão constante e duradoura-
mente que o público terá de se acostumar
com isso. Imagino que a causa tenha sido
minha educação negligente, ministrada num
terreno favorável. Nunca vi os burgueses
trabalhando, com a vilania que forçosamente
comporta seu gênero especial de trabalho.
Quem sabe por essa razão, pude aprender
nessa indiferença alguma coisa de bom a
respeito da vida, mas, enfim, somente por
ausência e privação. O momento da deca-
dência de qualquer forma de superioridade
social tem, certamente, alguma coisa de
mais atraente do que seus vulgares pri-
mordios. Fiquei apegado a essa preferência,
que muito cedo comecei a sentir, e posso
dizer que a pobreza me concedeu, princi-
palmente, grandes períodos de ócio, por não
ter de administrar bens arruinados e nem
sonhar em recuperá-los participando da
gestão do Estado. É verdade que saboreei
prazeres pouco conhecidos das pessoas que
seguiram as lamentáveis leis dessa época.
É verdade, também, que cumpri rigorosa-
mente numerosas obrigações de cuja exis-
tência essas pessoas não fazem nem idéia.
"Porque de nossa vida, enunciava cruamente
em sua época a Règle du Temple, não vedes
senão a aparência que está por fora... mas
nada sabéis dos imperiosos mandamentos
que estão por dentro." Devo ainda ressal-
tar, para citar a totalidade das influências
favoráveis que encontrei por lá, o fato evi-
dente de então ter tido a oportunidade de
ler numerosos bons livros, a partir dos quais
sempre é possível chegar por si mesmo a
todos os outros e até escrever os que ainda
estiverem faltando. A síntese, bastante com-
pleta, ficará por aqui.

Vi terminar, antes dos 20 anos, essa


parte tranqüila da minha juventude. E mi-
nha única obrigação era seguir sem freios
todas as minhas inclinações, embora em
condições difíceis. De início, voltei-me para
um círculo muito atraente em que um
niilismo extremado não queria mais saber
de nada e muito menos prosseguir com o
que tinha sido anteriormente admitido como
o emprego da vida ou das artes. Sem difi-
culdade, esse meio me reconheceu como um
dos seus. Ali se extinguiram minhas últi-
mas possibilidades de um dia voltar ao cur-
so normal da existência. Assim pensei, e o
que se seguiu o comprovou.

Eu devo ter menos propensão que ou-


tros para calcular por que essa escolha tão
abrupta, que tanto me comprometeu, foi
espontânea, produto de uma irreflexão da
qual jamais me arrependi e que, mais tar-
de, após ter tido a oportunidade de mensurar
detidamente as conseqüências, jamais la-
mentei. Pode-se bem dizer, pensando em
termos de riqueza ou reputação, que eu não
tinha nada a perder, mas acontece que tam-
bém não tinha nada a ganhar.

Mais claramente do que estiveram seus


precursores de duas ou três gerações pre-
cedentes, esse meio dos empreendedores de
demolições, estava, na época, inteiramente
entrelaçado com as classes perigosas. Ao se
viver com elas leva-se, em grande parte, a
mesma vida. Isso, evidentemente, deixa
marcas duradouras. Mais da metade das
pessoas que, ao longo dos anos, conheci de
perto tinha estado uma ou várias vezes em
prisões de diversos países; muitas, sem dú-
vida, por razões políticas, mas a grande
maioria por delitos ou crimes de direito co-
mum. Portanto, conheci sobretudo os rebel-
des e os pobres. Vi à minha volta, em gran-
de quantidade, indivíduos que morriam
jovens e nem sempre por suicídio, fato co-
mum naquela época. Sobre essa questão da
morte violenta, ressalto, sem poder avançar
uma explicação plenamente racional do fe-
nômeno, que o número de meus amigos que
foram mortos à bala constitui uma porcen-
tagem bastante inusitada, fora de operações
militares, bem entendido.

Nossas únicas manifestações, manten-


do-se raras e breves nos primeiros anos,
pretendiam ser completamente inaceitáveis;
de início sobretudo por sua forma e, mais
tarde, ao se aprofundarem, sobretudo por
seu conteúdo. E elas não foram aceitas. "A
destruição foi minha Beatriz", escrevia
Malarmé, que, em pessoa, havia sido o guia
de alguns outros em explorações muito ar-
riscadas. Para quem se dedica exclusiva-
mente a fazer tais demonstrações históri-
cas e, portanto, fora disso recusa o trabalho
existente, é indispensável saber viver sobre-
pujando o sistema do país. Eu tratarei do
assunto mais adiante, de maneira bem de-
talhada. Aqui, apenas para expor a questão
em suas linhas gerais, eu diria que tão-so-
mente me limitava a dar a vaga impressão
de possuir grandes qualidades intelectuais
e mesmo artísticas, das quais eu preferi pri-
var minha época, que não me parecia mere-
cer o seu emprego. Sempre encontrei gente
para lamentar meu afastamento e, parado-
xalmente, disposta a me ajudar a mantê-lo.
Mas isso só pôde ser levado a bom termo
porque nunca fui procurar ninguém onde
quer que fosse. Meu entourage sempre foi
composto apenas por aqueles que vieram por
si mesmos e souberam se fazer aceitar. Ig-
noro se um único outro ousou se conduzir
como eu, nessa época. É preciso convir, tam-
bém, que a degradação de todas as condi-
ções existentes emergiu justamente naque-
le momento, como que dando razão à minha
singular loucura.

Devo admitir da mesma forma - por-


que nada pode permanecer puramente inal-
terável no decurso do tempo -, que cerca
de vinte anos depois, ou pouco mais, uma
fração avançada de um público especializa-
do pareceu começar a não mais rejeitar a
idéia de que eu bem pudesse ter vários ta-
lentos verdadeiros, que se sobressaíam,
sobretudo, em comparação com a grande
pobreza das descobertas e das repetições
enfadonhas que por muito tempo eles acre-
ditaram ter a obrigação de admirar. E isso
apesar de o único emprego discernível de
meus dons dever ser encarado como com-
pletamente nefasto. E então, naturalmen-
te, fui eu que, de todas as maneiras, me
recusei a reconhecer a existência dessa
gente que, por assim dizer, começava a re-
conhecer alguma coisa da minha. É verda-
de que eles não estavam prontos a aceitar
tudo, e eu sempre dizia com franqueza que
seria tudo ou nada, colocando-me, assim,
definitivamente fora do alcance de suas
eventuais concessões. Minhas preferências
e minhas idéias não mudaram, mantendo-
se rigorosamente opostas ao que a socie-
dade era, bem como a tudo aquilo em que
ela anunciava querer se transformar.

O leopardo morre com suas manchas,


e eu nunca me propus nem me acreditei
capaz de melhorar. Realmente, eu jamais me
considerei como tendo algum tipo de virtu-
de, salvo, talvez, a de haver pensado que só
alguns crimes, de um gênero novo, que cer-
tamente não se ouviu nem citar no passa-
do, poderiam não ser indignos de mim; e a
de não ter mudado depois de um começo
tão ruim. Num instante crítico dos tumul-
tos da Fronda, Gondi, que deu de si gran-
des provas de capacidade na direção dos
negócios humanos e, notadamente, em seu
papel favorito de perturbador do sossego
público, com muita felicidade improvisou
perante o Parlamento de Paris uma bela ci-
tação atribuída a autor antigo, cujo nome
todos procuraram em vão, mas que poderia
ser aplicada com perfeição a seu próprio
panegírico: "In difficillimis Reipublicae
temporibus, urbem non deserui; in prosperis
nihil de publico delibavi; in desperatis, nihil
timui". Ele próprio a traduziu assim: "Nos
tempos ruins não abandonei a cidade; nos
bons, não me beneficiei; nos desesperados,
nada tenho a temer".
'Tais foram os acontecimentos deste inverno e as-
sim se completa o segundo ano da guerra cuja his-
tória Tucídides escreveu."

Tucídides
Guerra do Peloponeso

No bairro da perdição aonde veio parar


minha juventude, como que para terminar
de se instruir, parecia que haviam marcado
encontro os sinais precursores de um próxi-
mo desmoronamento de todo o edifício da
civilização. Ali permanentemente se encon-
travam indivíduos que só poderiam ser defi-
nidos negativamente, pela boa razão de não
terem nenhuma profissão, não se ocuparem
com nenhum tipo de estudo e não pratica-
rem arte alguma. Grande número deles ha-
via participado das guerras recém-ocorridas,
engajados nos vários exércitos que estiveram
disputando o continente: o alemão, o fran-
cês, o russo, o exército dos Estados Unidos,
os dois exércitos espanhóis e ainda numero-
sos outros. As pessoas restantes, cinco ou
seis anos mais jovens, tinham ido diretamen-
te para lá porque o conceito de família havia
começado a se dissolver, como todos os ou-
tros. Nenhuma doutrina reconhecida mode-
rava a conduta de ninguém e, mais que isso,
nenhuma vinha propor àquelas existências
alguma ilusória finalidade. Diversas práticas
de um instante estavam sempre prontas a
expressar, à luz da evidência, sua tranqüila
defesa. O niilismo é talhado para moralizar
assim que é tocado pela idéia de se justifi-
car: um roubava os bancos e se glorificava
por não roubar os pobres; outro nunca ha-
via matado ninguém quando não estava en-
furecido. Apesar de toda essa eloqüência dis-
ponível, eram as pessoas mais imprevisíveis
e, por vezes, muito perigosas. Foi o fato de
ter passado por tal meio que me permitiu,
depois, dizer algumas vezes, com a mesma
imponência do demagogo dos Cavaleiros de
Aristófanes: "Cresci nas ruas, eu também!"

Afinal de contas, foi a poesia moderna,


existindo há cem anos, que nos conduzira
para lá. Éramos um punhado querendo apli-
car seu programa na realidade e, em qual-
quer caso, não fazer mais nada. Às vezes
alguém se surpreende, a bem da verdade a
partir de uma data muito recente, ao des-
cobrir a atmosfera de ódio e maldição que
constantemente me cercou e, tanto quanto
possível, encobriu. Alguns pensam que se-
ria por causa da grave responsabilidade que
não poucas vezes me é atribuída pelas ori-
gens ou até mesmo pelo comando da revol-
ta de maio de 1968. Acredito, em vez disso,
que o que pesou contra mim de modo dura-
douro foi o que fiz em 1952. Certa feita, uma
enfurecida rainha da França lembrava ao
mais sedicioso de seus súditos: "Sentimos
revolta só de imaginar que alguém possa se
revoltar".

Foi justamente o que aconteceu. Em


tempos passados, um outro desprezador do
mundo, que dizia ter sido rei em Jerusa-
lém, havia evocado o fundo do problema,
quase com estas palavras: O espírito se vol-
ta para todas as direções e regressa a si
mesmo por meio de longos circuitos. Todas
as revoluções entram para a história, mas a
história não transborda de revoluções. Os
rios das revoluções retornam ao ponto de
partida para continuar correndo.
Sempre existiram artistas ou poetas
capazes de viver em meio à violência. O im-
paciente Marlowe morreu de faca na mão
discutindo por causa de uma conta. Admi-
te-se, em geral, que Shakespeare pensava
no sumiço de seu rival quando, sem se preo-
cupar muito com críticas pela grosseria, in-
cluiu esta zombaria em Como Você Quiser.
"Isso deita por terra um homem mais morto
do que conta alta em casa de má fama". O
fenômeno - que desta vez era absolutamen-
te novo e, naturalmente, deixou poucos ves-
tígios - é que o único princípio aceito por
todos era, justamente, que não podia mais
existir nem poesia nem arte, e que tínha-
mos que encontrar coisa melhor.

Tínhamos muitos traços de semelhança


com outros partidários da vida perigosa que,
exatamente quinhentos anos antes, passaram
seu tempo na mesma cidade e do mesmo lado
do rio. Não posso, evidentemente, ser compa-
rado a alguém que tenha dominado sua arte
como François Villon. Nem me engajei tão ir-
remediavelmente quanto ele no grande ban-
ditismo. Enfim, também não fiz tão bons es-
tudos universitários. Mas entre meus amigos
havia esse "nobre homem", que se mostrou o
perfeito equivalente de Régnier de Montigny,
e muitos outros rebeldes destinados a maus
fins. Também desfrutamos o prazer e o es-
plendor dessas jovens perdidas que tão boa
companhia nos davam em nossos botequins
e que não deviam andar longe das que os ou-
tros conheceram sob os nomes de Marión
1'Idole ou Catherine, Biétrix e Bellet. O que
éramos então, eu o direi na gíria dos cúmpli-
ces de Villon que, com certeza, há muito dei-
xou de ser uma impenetrável linguagem se-
creta. Pelo contrário, ela é bastante acessível
às pessoas informadas. Dessa maneira, po-
rém, acabarei por apresentar a inevitável di-
mensão criminológica a partir de uma tranqüi-
lizadora distância filológica.

J'y ai connu quelques sues que rebignait le marieux,


froarts et envoyeurs; tres süres louches comme
assoses, n'étant à jue pour aruer à ruel; souvent
greffis par les anges de la marine, mais longs pouvant
babigner jusqu'á les blanchir. C'est là que j'ai appris
comment être beau soyant, à ce point qu'encore
icicaille, sur de telles questions, je préfère rester ferme
en la mauhe. Nos hurteries et nos gaudies sur la
dure se sont embrouées. Pourtant, mes contres sans
caire qui entervaient si bien ce monde gailleur, je me
souviens vivement d'eux: quand nous étions à la
mathe, sur la tarde à Parouart.1

1. Tradução livre do original escrito na linguagem


dos Coquillards (século XV), associação da qual teria
Quanto a isso, eu tenho o orgulho de
nada ter esquecido, nem aprendido. Havia
as ruas frias e a neve, e as cheias do rio:
"Na metade do leito - o rio é profundo". Aque-
las estudantes fugiam da escola, com seus
olhos atrevidos e seus lábios doces. A polí-
cia realizava freqüentes buscas. O tempo
passava com um rumor de catarata. "Nun-
ca mais beberemos tão jovens."

Pode-se dizer que sempre gostei das es-


trangeiras. Elas vinham da Hungria e da
Espanha, da China e da Alemanha, da
Rússia e da Itália, e encheram de alegrias
minha juventude. Mais tarde, quando já
estava de cabelos brancos, perdi, por uma

feito parte o poeta François Villon: "Lá conheci cabe-


ças aguardadas pelo carrasco: ladrões e assassinos.
Podia-se contar com eles como cúmplices porque
nunca hesitavam quando tinham de recorrer à força.
Estavam sempre sendo presos, mas eram hábeis em
fingir inocência até conseguir enganar os policiais.
Foi aí que aprendi como é importante iludir quem o
interroga, de modo que muito tempo depois, e ainda
agora, prefiro manter a boca fechada sobre esse tipo
de coisa. Nossas violências e nossas farras terrenas
já estão distantes. Mas ainda me lembro vivamente
dos meus camaradas sem um tostão, que tão bem
entendiam este mundo ilusório, quando nos encon-
trávamos em nossos pontos habituais, nas noites de
Paris". (N.T.)
garota de Córdoba, o pouco de razão que, a
duras penas, o longo fluxo do tempo talvez
houvera conseguido me incutir. Ornar
Khayyam, depois de muita ponderação, teve
de admitir: "De fato, os ídolos que por tanto
tempo venerei / muito me depreciaram aos
olhos dos homens. / Afoguei minha glória
numa taça pouco profunda / e vendi minha
reputação por uma canção". Quem, melhor
do que eu, poderia sentir a justeza dessa
observação? Mas também quem, como eu,
teria desprezado a totalidade das opiniões
correntes em minha época, bem como as
reputações que ela propiciou? A continua-
ção estava já contida no início desta viagem.

Isso se situa entre o outono de 1952 e


a primavera de 1953, em Paris, ao sul do
Rio Sena e ao norte da Rua de Vaugirard, a
leste do cruzamento da Cruz Vermelha e a
oeste da Rua Dauphine. Arquíloco escreveu:
"Dá-nos o que beber. / Verte o vinho tinto
sem revolver a borra. / Porque sóbrios nes-
te posto não podemos ficar".

Entre a Rua do Four e a de Buci, onde


nossa juventude tão completamente se per-
deu, bebendo alguns copos, podia-se com
toda certeza sentir que jamais faríamos coi-
sa melhor.
"Eu tenho observado que a maior parte dos que
deixaram Memórias só mostra claramente suas
más tendências ou ações quando, por acaso, as
tomou por proezas ou bons instintos, o que, por
vezes, aconteceu."

Alexis de Tocqueville
Souuenirs

Depois das circunstâncias que acabo de


rememorar, o que sem sombra de dúvida
marcou minha vida inteira foi o hábito de
beber, muito cedo adquirido. Os vinhos, os
destilados e as cervejas; os momentos em que
alguns destes se impunham e os momentos
em que simplesmente apareciam foram deli-
neando o curso principal e os meandros dos
dias, das semanas, dos anos. Duas ou três
outras paixões, que vou revelar, ocuparam
de modo quase tão permanente um lugar
importante na minha vida. Mas a bebida foi
a mais constante e a mais presente. No re-
duzido número de coisas que me agradaram
e que eu soube fazer bem, o que seguramen-
te fiz melhor foi beber. Mesmo que tenha lido
muito, bebi ainda mais. Escrevi muito me-
nos do que a maioria das pessoas que escre-
vem; mas bebi muito mais do que a maioria
das pessoas que bebem. Eu bem posso me
incluir entre aqueles de quem Baltasar
Gracián, pensando em uma elite que ele se-
lecionava somente entre os alemães - neste
ponto muito injusto para com os franceses,
como julgo ter demonstrado -, pôde dizer:
"Há os que se embriagam uma única vez, e
assim permanecem por toda a vida".

Aliás, eu, que com tanta freqüência fui


obrigado a ler a meu respeito as calúnias mais
extravagantes ou críticas extremamente in-
justas, estou um pouco surpreso ao verificar
que se escoaram cerca de trinta anos, ou até
mais, sem que nenhum detrator tivesse se
utilizado da minha embriaguez como argu-
mento, nem mesmo implícito, contra minhas
idéias escandalosas. A única exceção, ade-
mais tardia, é um escrito de alguns jovens
drogados na Inglaterra, que revelava, por
volta de 1980, que dali em diante eu estava
embrutecido pelo álcool e, por isso, havia
deixado de ser nocivo. Nem por um instante
sonhei em dissimular esse aspecto talvez
questionável da minha personalidade e que
esteve fora de dúvida para todos os que me
encontraram mais de uma ou duas vezes.
Posso mesmo ressaltar que, em todas as oca-
siões, me bastaram poucos dias para ser
enormemente estimado tanto em Veneza
quanto em Cádiz, e em Hamburgo como em
Lisboa, por pessoas que conheci tão-somen-
te por freqüentar certos cafés.

Comecei por apreciar, como todo mun-


do, o efeito da ligeira embriaguez para de-
pois, muito rapidamente, passar a gostar
daquela que está para além da bebedeira
violenta, quando transpomos esse estado:
uma paz magnífica e terrível, o autêntico sa-
bor da passagem do tempo. Embora deixan-
do transparecer, talvez, durante as primei-
ras décadas, apenas sinais ligeiros, uma ou
duas vezes por semana, o fato é que eu esti-
ve permanentemente de porre por períodos
inteiros de vários meses; e no restante do
tempo ainda bebia muito.

Um ar de desordem, na grande varie-


dade de garrafas esvaziadas, mesmo assim
ainda é suscetível de uma classificação a
posteriori. Posso começar por distinguir
entre as bebidas que bebi em seu país de
origem e aquelas que tomei em Paris; mas
podia-se encontrar quase tudo que existia
para beber na Paris da metade do século.
Todos os lugares podem se subdividir, sim-
plesmente, entre o que eu bebia em casa e
na casa de amigos, nos cafés, adegas, ba-
res, restaurantes ou nas ruas, principal-
mente nas mesas colocadas nas calçadas
defronte aos cafés.

As horas e suas condições variáveis


exercem, quase sempre, um papel deter-
minante na necessária renovação dos mo-
mentos de uma bebedeira; e cada uma de-
las contribui com sua sensata preferência
entre as possibilidades que se oferecem. Há
o que se bebe pela manhã, e por muito tem-
po esse foi o momento das cervejas. Em
Boêmios Errantes, um personagem que logo
verificamos ser um conhecedor, sustenta:
"Pela manhã, não há nada melhor que a
cerveja". Mas muitas vezes precisei, ao des-
pertar, da vodca da Rússia. Há o que se
bebe às refeições e durante as tardes que
se estendem entre elas. Há o vinho das
noites, com seus destilados; e depois deles
as cervejas ainda são agradáveis porque,
então, a cerveja dá sede. Há o que se bebe
no fim das noites, no momento em que o
dia recomeça. É fácil imaginar que tudo isso
me deixou bem pouco tempo para escrever
e é justamente o que convém: a escrita deve
permanecer rara, pois para atingir a exce-
lência é preciso beber por muito tempo.

Vaguei bastante por inúmeras grandes


cidades da Europa e apreciei tudo o que o
merecia ser apreciado. Nesse caso, a lista
poderia ser vasta: as cervejas da Inglaterra,
onde se misturavam as suaves com as for-
tes na caneca; os canecões de chope de
Munique; as irlandesas; a cerveja Pilsen
tcheca, a mais clássica; e o admirável
barroquismo da Gueuze, nos arredores de
Bruxelas, quando ela ainda tinha um sabor
distinto em cada cervejaria artesanal e não
tolerava ser transportada para longe; os li-
cores de frutas da Alsácia; o rum da Jamai-
ca; os ponches; a aquavita de Aalborg e a
grapa de Turim; o conhaque, os coquetéis;
o incomparável mescal do México; todos os
vinhos da França, os melhores oriundos da
Borgonha; os vinhos da Itália e, sobretudo,
o Barolo de Langhe, os Chianti da Toscana;
os vinhos da Espanha, os Rioja de Cas tilla-
la-Vieja ou o Jumilla de Múrcia.
Eu teria tido bem poucas doenças se, ao
longo do tempo, o álcool não tivesse me apre-
sentado a algumas: da insônia às vertigens,
passando pela gota. "Belo como o tremor das
mãos no alcoolismo", disse Lautréamont. Há
manhãs comoventes, mas difíceis.

"Melhor esconder sua loucura, mas é


difícil na devassidão e na bebedeira", podia
pensar Heráclito. No entanto, Maquiavel
escreveu a Francesco Vettori: "Quem visse
nossas cartas... a princípio pareceria que
somos gente séria, inteiramente dedicada a
afazeres importantes, que nossos corações
só podem conceber pensamentos honrados
e grandiosos. Mas, em seguida, virando a
página, pareceríamos gente ligeira, incons-
tante, luxuriosa, inteiramente voltada a fu-
tilidades. E, se alguém julga indigna essa
maneira de ser, eu a considero louvável por-
que imitamos a natureza, que é inconstan-
te". Vauvenargues formulou um preceito
com muita freqüência esquecido: "Um au-
tor se contradiz se é impossível conciliá-lo
consigo mesmo".

Além disso, alguns dos meus motivos


para beber são respeitáveis. Posso bem
exteriorizar minha satisfação como Li Po:
"Há trinta anos eu escondo minha fama nas
tavernas".

A maioria dos vinhos, quase todos os


destilados e a totalidade das cervejas cuja
lembrança aqui evoquei perderam hoje em
dia inteiramente seus sabores, de início no
mercado mundial e depois localmente, com
o progresso da indústria e também com o
movimento de desaparecimento ou reedu-
cação econômica das classes sociais que, por
muito tempo, haviam permanecido indepen-
dentes da grande produção industrial; e, em
conseqüência, graças ã aplicação dos diver-
sos regulamentos estatais que, doravante,
proíbem quase tudo que não seja fabricado
industrialmente. As garrafas, para continuar
sendo vendidas, conservam fielmente seus
rótulos, e essa exatidão fornece a garantia
de que nós podemos fotografá-las como elas
eram, mas não bebê-las.

Nem eu nem as pessoas que beberam


comigo nos sentimos em algum momento
incomodados em virtude de nossos exces-
sos. "No banquete da vida", ao menos aí bons
convivas, estivemos sentados sem pensar,
nem por um instante, que tudo o que bebía-
mos com tamanha prodigalidade não seria
ulteriormente reposto para os que viessem
depois de nós. Até onde remonta a memoria
dos ébrios, nunca se imaginou que seria
possível ver as bebidas desaparecerem do
mundo antes do bebedor.
"É verdade que Júlio César escreveu ele próprio a
história de suas proezas: mas a modéstia desse herói
nos seus Comentários se iguala a seu valor; parece
até que ele empreendeu essa obra apenas para ti-
rar à adulação toda esperança de, nos séculos fu-
turos, se impor sobre sua história."

Baltasar Gracián
El Hombre Universal

Portanto, conheci muito bem o mundo,


sua história e sua geografia, seus ambientes
e aqueles que os povoavam, suas diversas
práticas e especialmente "o que é a sobera-
nia, quantas espécies dela existem, como
alcançá-la, como mantê-la, como perdê-la".

Eu não tinha necessidade de viajar


para muito longe, mas considerava as coi-
sas com um certo rigor, atribuindo-lhes em
cada ocasião a plena medida dos meses ou
anos que elas me parecessem valer. Na pri-
meira parte da vida, morei quase todo o tem-
po em Paris, precisamente no interior de um
triângulo definido pelas intersecções da Rua
Saint-Jacques com a Royer-Collard; da Rua
Saint-Martin com a Greneta; da Rua du Bac
com a Commailles. E efetivamente passei
meus dias e noites dentro desse espaço res-
trito e também na estreita margem fron-
teiriça que é seu prolongamento imediato;
com mais freqüência no seu lado leste e
menos no lado noroeste.

Nunca, ou raramente, eu teria deixa-


do essa região, perfeita para minhas conve-
niências, se algumas necessidades históri-
cas não houvessem inúmeras vezes me
obrigado a sair de lá. Sempre por breves
períodos durante minha juventude, quan-
do sentia necessidade de arriscar algumas
curtas incursões ao estrangeiro para esten-
der a perturbação para mais longe, mas
depois muito mais prolongadamente, quan-
do a cidade foi saqueada e integralmente
destruído o gênero de vida que nós leváva-
mos. Isso aconteceu a partir de 1970.

Acredito que essa cidade foi devastada


um pouco antes de todas as outras porque
suas revoluções, sempre recomeçadas, ti-
nham inquietado e chocado demais o mun-
do; e porque infelizmente elas sempre ma-
lograram. No fim, acabamos punidos por
uma destruição tão completa quanto aque-
la com que outrora nos haviam ameaçado o
Manifesto de Brunswick ou o discurso do
girondino Isnard: a fim de sepultar tantas
lembranças temíveis e o grande nome de
Paris. (O infame Isnard, presidindo a Con-
venção, em maio de 1793, tinha tido já a
ousadia de antecipadamente anunciar: "Se,
em virtude dessas incessantes insurreições,
chegar-se a ameaçar a representação nacio-
nal, eu vos declaro, em nome de toda a Fran-
ça, que Paris será aniquilada; brevemente
haverá que se esquadrinhar as margens do
Sena para saber se essa cidade existiu".)

Quem vê as margens do Sena vê nos-


sas penas: não existe nada além de apressa-
das colunas de um formigueiro de escravos
motorizados. O historiador Guichardin, que
vivenciou o fim da libertação de Florença,
registrou em seu Memento: 'Todas as cida-
des, todos os Estados, todos os reinos são
mortais; todas as coisas, seja naturalmente
seja por acidente, cedo ou tarde chegam ao
seu limite e têm de acabar; de maneira que
um cidadão que veja a derrocada de sua ter-
ra não tem de se lamentar tanto pela infelici-
dade dessa terra e pela desventura que, des-
sa vez, ela encontrou; mas, em vez disso, deve
chorar sua própria infelicidade; porque à ci-
dade aconteceu o que forçosamente iria acon-
tecer, e a verdadeira infelicidade foi nascer
no momento em que tinha de se produzir ta-
manho desastre".

Quase se poderia acreditar, apesar dos


incontáveis testemunhos anteriores da his-
tória e das artes, que eu tinha sido o único
a amar Paris, pois a princípio vi-me sozinho
reagindo sobre essa questão, nos repugnan-
tes "anos 1970". Mas logo em seguida sou-
be que Louis Chevalier, seu velho historia-
dor, havia então publicado, sem grande
repercussão, L'Assassinat de Paris. De modo
que, naquele momento, éramos pelo menos
dois justos na cidade. Eu não quis conti-
nuar assistindo a esse declínio de Paris. Em
geral, deve-se dar bem pouca importância à
opinião dos que condenam alguma coisa
sem fazer tudo quanto se imponha para des-
truí-la; ou, pelo menos, para se mostrarem
sempre tão alheios em relação a ela que haja,
efetivamente, a possibilidade de o serem.
Chateaubriand insistia, com muita exa-
tidão, afinal de contas: "Entre os modernos
autoresfrancesesmeus contemporâneos, sou
também o único cuja vida se assemelha às
obras". Em todo caso, eu seguramente vivi
como disse que era preciso viver; isso talvez
tenha sido ainda mais estranho entre meus
contemporâneos, todos parecendo acreditar
que tinham de viver conforme as instruções
daqueles que atualmente detêm a produção
econômica e o poder de comunicação com o
qual ela se armou. Morei na Itália e na
Espanha, particularmente em Florença e
Sevilha - Babilônia, como se dizia no Sécu-
lo do Ouro -, mas também em outras cida-
des que ainda estavam vivas, e até mesmo
no campo. Ganhei, assim, alguns agradá-
veis anos. Bem mais tarde, quando a maré
de destruições, poluições, falsificações se
estendeu por toda a superfície do planeta,
ao mesmo tempo em que nele penetrava pro-
fundamente, eu pude voltar às ruínas que
subsistiram de Paris, pois, então, não ha-
via restado nada de melhor em outra par-
te. Em um mundo unificado, não é possí-
vel exilar-se.

O que fiz, então, nesse período? Não


me preocupei muito em evitar encontros
perigosos; pode-se dar como certo que, em
alguns casos, eu os procurei friamente.

Na Itália, com certeza eu não era bem-


visto por todos; mas felizmente eu pude co-
nhecer as sfacciate dormefiorentine, na épo-
ca em que vivi em Florença, no bairro de
Oltrarno. Por lá andava aquela garota floren-
tina, tão graciosa. Ao anoitecer, ela atraves-
sava o rio para vir a San Frediano. Eu me
apaixonei muito inesperadamente, talvez por
causa de seu belo sorriso amargo. Em suma,
eu lhe disse: "Não se cale porque estou dian-
te de ti como um estrangeiro e um viajante.
Conceda-me algum repouso antes que eu
parta e não esteja mais aqui". Também na-
quele instante, a Itália se perdia uma vez
mais; foi preciso voltar a guardar uma pru-
dente distância em relação a essas prisões
onde acabaram aqueles que se demoraram
em demasia nas festas de Florença.

Outrora, o jovem Musset chamou a


atenção com sua pergunta irrefletida: "Vis-
te tu, em Barcelona, / uma andaluza de
seios bronzeados?" Ah, sim!, sou obrigado
a dizer desde 1980. Vivi minha parte das
loucuras da Espanha, e talvez essa, a maior.
Mas foi em outra região que apareceu aque-
la irremediável princesa, com sua beleza
selvagem e sua voz. "Mira como vengo yo",
dizia muito verdadeiramente a canção que
ela cantava. Nesse dia, não a ouvimos mais.
Amei essa andaluza por muito tempo. Quan-
to? "Um tempo proporcional ã nossa dura-
ção vã e mesquinha", disse Pascal.

Cheguei mesmo a ficar em uma inaces-


sível casa circundada por bosques, afastada
dos povoados, numa região extremamente
estéril, de esgotadas terras de montanha, na
parte mais longínqua de uma Auvergne aban-
donada. Lá passei vários invernos. A neve
caía por dias inteiros sem parar. O vento a
carregava, amontoando-a em dunas. Barrei-
ras mantinham a estrada desimpedida. Mas
no pátio, apesar dos muros exteriores, a neve
se acumulava. Muita lenha ardia na lareira.

A casa parecia se abrir diretamente


sobre a Via Láctea. À noite, as estrelas pró-
ximas, que num momento brilhavam inten-
samente, no instante seguinte podiam ser
apagadas pela passagem de uma névoa li-
geira. Assim como nossas conversas e nos-
sas festas, nossos encontros e nossas pai-
xões tenazes.
Era uma região de tempestades. Elas
se aproximavam sem barulho, a princípio
anunciadas pela rápida passagem de um
vento que serpenteava sobre a relva ou por
uma série de repentinos clarões no horizon-
te. Depois desencadeavam trovões e raios
que passavam a nos bombardear por muito
tempo, de todos os lados, como numa forta-
leza sitiada. Uma única vez, à noite, vi um
raio cair perto de mim, do lado de fora: não
se consegue nem ver o local que ele atinge;
toda a paisagem é iluminada por igual no
lapso de um instante surpreendente. Nada
nas artes me pareceu proporcionar essa im-
pressão de esplendor sem retorno, exceto a
prosa que Lautréamont empregou na pro-
gramática exposição a que ele chamou
Poésies. Mas nada mais: nem a página em
branco de Mallarmé, nem o quadrado bran-
co sobre fundo branco de Malevitch, e nem
mesmo os últimos quadros de Goya, em que
o negro invade tudo, como Saturno devo-
rando seus filhos.

As árvores eram sacudidas por ventos


violentos que a todo instante podiam se le-
vantar de três diferentes direções. As da
charneca ao norte, mais dispersas, se cur-
vavam e rangiam como navios surpreendi-
dos, ancorados em uma enseada desprote-
gida. As que guardavam a colina diante da
casa, mais agrupadas, se apoiavam umas
nas outras para resistir, a primeira linha
refreando a investida logo renovada do ven-
to oeste. Mais ao longe, o alinhamento dos
bosques dispostos em quadrados, sobre todo
o semicírculo de colinas, lembrava as tro-
pas em formação enxadrezada, retratadas
em certos quadros de batalhas do século
XVIII. E as cargas da ventania, quase sem-
pre vãs, algumas vezes abriam brechas aba-
tendo uma fileira. Nuvens carregadas cru-
zavam o céu, velozes. Com a mesma rapidez,
uma mudança brusca do vento podia colocá-
las em fuga; outras nuvens seriam lançadas
em sua perseguição.

Também estavam lá, nas manhãs cal-


mas, todos os pássaros da aurora, o fres-
cor perfeito do ar e essa nuança deslum-
brante do verde tenro que resplandecia
sobre a copa das árvores, ao refletir a lumi-
nosidade rasante do sol nascendo de fren-
te para elas.

As semanas passavam imperceptivel-


mente. O ar matutino, um dia, anunciava o
outono. Noutra vez, por um sabor de gran-
de doçura desse mesmo ar, sensível na boca,
se declarava, qual rápida promessa sempre
mantida, "o sopro da primavera".

A propósito de alguém que tem sido,


tão essencial e continuamente como eu, um
homem das ruas e das cidades - com isso
pode-se avaliar até que ponto minhas pre-
ferências não virão falsear muito meus jul-
gamentos -, convém ressaltar que o encan-
to e a harmonia dessas poucas temporadas
de grandioso isolamento não me passaram
despercebidos. Era uma agradável e impres-
sionante solidão. Mas, na verdade, eu não
estava só: estava com Alice.

Nas noites de meados do inverno de


1988, no largo das Missões Estrangeiras,
uma coruja repetia obstinadamente seus
apelos, talvez enganada pelas desordens cli-
máticas. E a insólita série desses encontros
com o pássaro de Minerva, seu ar de sur-
presa e indignação, de maneira nenhuma
me pareceram constituir uma alusão à con-
duta imprudente ou aos diferentes desva-
rios de minha vida. Eu jamais compreendi
em que ela poderia ter sido diferente, nem
como se deveria justificá-la.
"Sendo letrado, um homem realmente culto e, nes-
se sentido, um gentleman, imagino que eu possa
me considerar um membro indigno dessa mal de-
finida categoria formada pelos gentlemen. Essa é
a opinião de meus vizinhos. Em parte, talvez, pe-
las razões que acabo de apresentar e em parte
porque não me vêem exercer nenhuma profissão
nem comércio."

Thomas de Quincey
Corifissões de um Comedor de Ópio

Uma combinação de circunstâncias


acabou por marcar quase tudo o que fiz com
uma certa aura de conspiração. Exatamen-
te naquela época, muitas profissões novas
estavam sendo criadas, com muito investi-
mento, unicamente para mostrar quanta
beleza a sociedade tinha sido capaz de al-
cançar nos últimos tempos e como ela racio-
cinava com perfeição em todos os seus dis-
cursos e projetos. Mas eu, sem salário, dava
antes o exemplo de comportamentos total-
mente opostos; obviamente, isso foi mal re-
cebido. E também me levou a conhecer, em
vários países, pessoas que com toda razão
eram consideradas como perdidas. As polí-
cias as vigiam. Esse pensamento especial, que
podemos encarar como a forma de conheci-
mento da polícia, se exprimia assim a meu
respeito, em 1984, no Journal du Dimanche,
de 18 de março: "Para muitos policiais, se-
jam eles da área criminal, da D.S.T. ou de
Informações Gerais, a pista mais séria leva
ao círculo de Guy Debord... O mínimo que
se pode dizer é que, fiel à sua lenda, Guy
Debord não se mostra nem um pouco lo-
quaz". E já antes disso, no Le Nouvel
Observateur de 22 de maio de 1972: "O au-
tor de A Sociedade do Espetáculo sempre foi
tido como o cérebro, discreto mas incontes-
tável... no centro da constelação mutante
dos brilhantes conjurados subversivos da In-
ternacional Situacionista, uma espécie de
frio enxadrista, conduzindo com rigor... a
partida da qual ele previu cada lance. Con-
gregando à sua volta, com uma autoridade
velada, talentos e boas vontades. Desagre-
gando-os, depois, com o mesmo virtuosismo
negligente, manobrando seus acólitos como
peões ingênuos, desbravando o tabuleiro jo-
gada após jogada, emergindo enfim como
único mestre, e sempre dominando o jogo".

Diante de tais coisas, meu gênero de


espírito me leva a uma reação inicial que é
de espanto; mas há que se reconhecer que
muitas experiências da vida não fazem mais
que comprovar e ilustrar as idéias mais con-
vencionais, que já tivéramos oportunidade
de encontrar em numerosos livros mas sem
lhes dar crédito. Ao lançar mão do que co-
nhecemos por experiência própria, não há
necessidade de investigar a observação nun-
ca feita ou o surpreendente paradoxo. É
nesses termos que, abem da verdade, devo
registrar, depois de outros, que a polícia in-
glesa me pareceu a mais desconfiada e a
mais educada; a francesa, a mais perigosa-
mente treinada na interpretação histórica;
a italiana, a mais cínica; a belga, a mais
rude; a alemã, a mais arrogante; e foi a polí-
cia espanhola que ainda se mostrava a me-
nos racional e a mais incapaz.

Para um autor que escreva com certa


qualidade e saiba, em conseqüência, o que
significa falar, geralmente é uma triste pro-
vação ter de reler e consentir em assinar
suas próprias respostas em um depoimen-
to para a polícia. Para começar, o conjunto
do texto é guiado pelas perguntas dos in-
vestigadores, as quais, na maioria das ve-
zes, não estão mencionadas; e elas não sur-
gem inocentemente, como por vezes se dão
ares, simples necessidades lógicas de uma
informação precisa ou de uma compreen-
são clara. As respostas que se é capaz de
formular não são, de fato, muito melhores
que seu resumo, ditado pelo mais graduado
dos policiais e transcrito com grande dose
de aparente inabilidade e numerosas impre-
cisões. Naturalmente, embora muitos ino-
centes o ignorem, se for imperioso fazer re-
tificar com precisão todo detalhe que registre
com deplorável infidelidade o pensamento
que se tenhamos exprimido, depressa será
preciso renunciar a mandar transcrevê-lo
na forma conveniente e satisfatória, que
antes havíamos espontaneamente emprega-
do, porque, nesse caso, seríamos obrigados
a duplicar o número dessas horas já fati-
gantes. Isso retiraria do mais purista a von-
tade de sê-lo a esse ponto. Por conseguinte,
declaro aqui que minhas respostas às polí-
cias não poderão mais tarde ser editadas
como parte de minhas obras completas, por
escrúpulos de forma, ainda que, quanto à
veracidade do conteúdo, eu as tenha assi-
nado sem tortura.

Tendo sem dúvida, graças a um dos


raros traços positivos de minha primeira
educação, o senso da discrição, vi-me por
vezes na necessidade de dar provas de uma
discrição ainda maior. Um número de hábi-
tos úteis foi dessa maneira se tornando algo
como uma segunda natureza para mim; eu
o digo para nada ceder às más línguas que
eventualmente seriam capazes de pretender
que todos eles em nada se distinguem de
minha própria natureza. Qualquer que fos-
se o assunto, eu me empenhava em ser mais
desinteressante quanto maiores fossem as
chances de ser ouvido. Em alguns casos,
também marquei encontros ou dei minha
opinião por meio de cartas endereçadas pes-
soalmente a amigos, e modestamente assi-
nei-as com nomes pouco conhecidos que fi-
guraram nos círculos de alguns poetas
famosos: Colin Decayeux ou Guido Caval-
canti, por exemplo. Mas é evidente que nun-
ca me rebaixei publicando o que quer que
fosse sob pseudônimo, apesar do que alguns
caluniadores remunerados foram capazes,
por vezes, de insinuar na imprensa, com uma
extraordinária segurança, mas, ao mesmo
tempo, limitando-se prudentemente à mais
abstrata generalidade.

É permitido, mas não desejável, per-


guntar-se aonde poderia positivamente con-
duzir tamanha disposição para contradizer
todas as autoridades. "Nunca buscamos as
coisas, mas a busca das coisas", a certeza
a esse respeito está há muito estabelecida.
"Gostamos mais da caçada que da presa..."

Esta nossa época de tecnicistas empre-


ga abundantemente um adjetivo substan-
tivado - "profissional" - e parece acreditar
que encontrou nele uma espécie de garan-
tia. Não se levando em conta meus honorá-
rios, evidentemente, mas somente minhas
competências, ninguém pode duvidar que
eu tenho sido um profissional muito bom.
Mas de quê? Esse terá sido meu mistério,
aos olhos de um mundo execrável.

Os senhores Blin, Chavanne e Drago,


que publicaram em conjunto, em 1969, um
Traité du Droit de la Presse, concluíram o
capítulo relativo ao "Perigo das apologias"
com autoridade e experiência tais que me
dão a felicidade de acreditar que devemos
lhes conceder grande crédito de confiança:
"Fazer a apologia de um ato delituoso,
apresentá-lo como glorioso, meritorio ou lí-
cito pode ter considerável poder de persua-
são. Os indivíduos de vontade fraca que vie-
rem a ler tais apologias se sentirão não
apenas absolvidos de antemão no caso de
cometerem aqueles atos, mas, além disso,
vislumbrarão em seu cometímento a oca-
sião de se tornarem celebridades. O conhe-
cimento da psicologia criminal mostra o pe-
rigo das apologias".
"E quando penso que todas essas pessoas mar-
cham lado a lado, numa longa e penosa viagem, a
fim de chegarem juntas a um mesmo lugar onde
vão correr incontáveis riscos para alcançar um
objetivo grandioso e nobre, essas reflexões dão a
esta exposição um sentido que me comove pro-
fundamente."

Cari von Clausewitz


Carta de 18 setembro de 1806

Eu me interesso muito pela guerra,


pelos teóricos da estratégia, pelas lembran-
ças das batalhas e tantas outras rupturas
que a história menciona, redemoinhos na
superfície do rio por onde o tempo se escoa.
Não ignoro ser a guerra o domínio do perigo
e da decepção, talvez mais até que outras
facetas da vida. Tal consideração, contudo,
não diminui a atração que eu senti justa-
mente por essa faceta.
Estudei, portanto, a lógica da guerra.
Mais que isso, consegui, já há muito, evi-
denciar o essencial de seus movimentos a
partir de um quadro muito simples: as for-
ças que se enfrentam e as necessidades con-
traditórias que vão se impondo às operações
de cada uma das duas partes. Joguei esse
jogo e, na conduta freqüentemente difícil de
minha vida, utilizei alguns ensinamentos
dele - para essa vida, eu também tinha fi-
xado uma regra do jogo, e a segui. As sur-
presas deste kriegspeil parecem inesgotá-
veis; e esta pode bem ser a única de minhas
obras, eu temo, à qual se ousará reconhe-
cer algum valor. Quanto à questão de saber
se fiz bom uso de tais ensinamentos, deixa-
rei a decisão a outros.

É preciso admitir que nós, os que te-


mos sido capazes de fazer maravilhas com a
escrita, demos muitas vezes provas menores
de capacidade no comando da guerra. Os
desgostos e fracassos sofridos nesse terreno
são incontáveis. O capitão Vauvenargues, na
retirada de Praga, voltou-se penosamente,
com tropas empurradas às pressas, para a
única direção ainda aberta. "A fome e a de-
sordem marcham sobre suas pegadas fugi-
tivas; a noite envolve seus passos e a morte
os segue em silêncio... Fogueiras acesas
sobre o gelo iluminam seus últimos momen-
tos; a terra é seu leito terrível." E Gondi vi-
veu a desolação de ver mudar bruscamente
de idéia, na ponte de Antony, o regimento
que ele acabara de sublevar, além de ouvir
comentarem essa debandada como a "Pri-
meira aos Corintios". E, no infeliz ataque de
Azincourte, Charles d'Orléans estava na
vanguarda, crivada de flechas ao longo de
todo o percurso, e no fim destroçada, onde
se viu "sofrer uma derrota acachapante toda
aquela cavalaria dos gentis e educados no-
bres da França que, face aos ingleses, con-
tavam bem dez contra um". Ele foi obrigado
a permanecer 25 anos cativo na Inglaterra,
pouco apreciando, ao regressar, os modos
de uma outra geração ("O mundo está abor-
recido comigo - e eu igualmente com ele").
E Tucídides, com a esquadra que comanda-
va, chegou tristemente algumas horas atra-
sado para impedir a queda de Anfípolis; res-
tou-lhe apenas evitar uma das numerosas
conseqüências do desastre lançando em
Egione sua infantaria embarcada, que sal-
va o lugar. O próprio tenente von Clausewitz,
com o admirável exército em marcha sobre
lena, estava longe de esperar pelo que lá vi-
ria a suceder.
1
j

Mas, do mesmo modo, o capitão Saint-


Simon, na batalha de Neerwinden, em Royal-
Roussillon, participou galantemente de cin-
co cargas da cavalaria antes exposta, imóvel,
ao fogo dos canhões inimigos, cujas balas
varriam filas inteiras enquanto iam se
realinhando as alas da "insolente nação". E
Stendhal, subtenente do 62 Regimento de
Dragões, na Itália, arrebatou uma bateria
austríaca. Cervantes, durante a batalha
marítima de Lepante, foi inabalável, à fren-
te de doze homens, sustentando o último
reduto de sua galera quando os turcos se
lançaram à abordagem. Diz-se que Arquíloco
era soldado de profissão. E o próprio Dante,
quando os cavaleiros florentinos arremete-
ram sobre Campaldino, também matou o
seu e ainda teve prazer em evocá-lo no can-
to cinco do Purgatório: "E eu lhe disse: qual
força ou qual destino / tão longe te extra-
viou em Campaldino / que teu corpo nunca
foi encontrado?"

A história é comovente. Se, participan-


do dessas lutas, os melhores autores às ve-
zes se mostraram menos exímios do que em
seus escritos, a história, em compensação,
para nos comunicar suas paixões, jamais
deixou de se servir de pessoas que tinham o
senso da fórmula oportuna. "Não há mais
Vendéia", escrevia o general Westermann à
Convenção, em novembro de 1793, após sua
vitória de Savenay. "Ela morreu sob nosso
sabre, com suas mulheres e crianças. Aca-
bo de enterrá-la nos pântanos e bosques de
Savenay. Esmaguei as crianças sob os cas-
cos de nossos cavalos, massacrei as mulhe-
res que, pelo menos essas, não mais darão
bandidos à luz. Não tenho nenhum prisio-
neiro do qual me arrepender. Tudo extermi-
nei. .. Não fazemos prisioneiros porque seria
preciso lhes dar o pão da liberdade, e a pie-
dade não é revolucionária." Alguns meses
mais tarde, Westermann seria executado
com os dantonistas, difamados com o epíteto
de "Indulgentes". Poucos dias antes da in-
surreição de 10 de agosto de 1792, também
um oficial da guarda suíça, cujos soldados
foram os derradeiros defensores da pessoa
do monarca, tinha, em uma carta, expres-
sado com exatidão o sentimento de seus ca-
maradas: 'Todos nós garantimos que, se o
pior acontecer ao rei e se não houver pelo
menos seiscentos uniformes vermelhos es-
tendidos ao pé de sua escada, estaremos
desonrados". Um pouco mais de seiscentos
guardas foram finalmente mortos quando o
mesmo Westermann, que a princípio tenta-
ra neutralizar os soldados avançando sozi-
nho em meio a eles, na escadaria do rei, e
dirigindo-lhes a palavra em alemão, com-
preendeu, finalmente, que não havia outra
coisa a fazer senão lançar o ataque.

Na Vendéia que ainda combatia, a can-


ção "Chant de ralliement pour les Chouans
en cas de déroute" dizia com a mesma obs-
tinação: 'Temos somente uma vida para vi-
ver / nós a devotamos à honra. / É seu es-
tandarte que temos de seguir..." Durante a
revolução mexicana, os partidários de Fran-
cisco Villa cantavam: "Daquela famosa Di-
visão do Norte / agora sobramos apenas al-
guns / ainda atravessando as montanhas /
em toda parte procurando com quem lutar".
E os voluntários norte-americanos do bata-
lhão Lincoln cantaram, em 1937: "Há na
Espanha um vale que se chama Jarama. /
É um lugar que todos nós conhecemos muito
bem. / Foi lá que consumimos nossa juven-
tude, / bem como a maior parte da nossa
velhice". Uma canção dos alemães da Le-
gião Estrangeira expressava uma melanco-
lia mais destacada: "Ana Maria, aonde vais
tu no mundo? / Vou à cidade onde os sol-
dados estão". Montaigne tinha suas citações,
eu tenho as minhas. Um passado marca os
soldados, mas nenhum futuro. É por isso
que suas canções podem nos sensibilizar.

Pierre Mac Orlan, em Villes, lembrou o


ataque de Bouchavesne, entregue aos jovens
vadios que serviam no exército francês,
mandados pela lei aos batalhões de infan-
taria ligeira da África: "Na estrada de
Bapaume, não muito longe de Bouchavesne
e de Rancourt, onde os Joyeux pagaram
seus pecados em algumas horas, subindo
as encostas e conquistando uma colina, a
do bosque de Berlingots, avistava-se a
Picardia e sua cobertura desfeita". Nas in-
clinações opostas dessa frase, de uma ina-
bilidade tão hábil que chega a pairar sobre
aquela colina, se reconhece a memória e
seus sentidos sobrepostos.

Heródoto relata que no desfiladeiro de


Termopilas, onde as tropas comandadas por
Leónidas foram aniquiladas no desfecho de
sua útil ação de retardamento, ao lado das
inscrições que lembram o combate sem es-
perança dos "quatro mil homens vindos do
Peloponeso" ou dos Trezentos que, fazem di-
zer em Esparta, jazem aqui, "dóceis às suas
ordens", o adivinho Megisto está glorificado
em um epitafio especial: "Adivinho, ele sa-
bia que a morte estava aqui / mas não acei-
tou abandonar o chefe de Esparta". Não é
preciso ser adivinho para saber que não
existe uma posição tão boa que não possa
ser flanqueada por forças muito superiores
ou, até mesmo, ser suplantada por um ata-
que frontal. Mas é bom ser indiferente a esse
tipo de conhecimento em certos casos. O
mundo da guerra apresenta ao menos essa
vantagem de não deixar espaço para as ta-
garelices idiotas do otimismo. Sabe-se mui-
to bem que no fim todos vão morrer. Como
mais ou menos diz Pascal, por melhor que
seja a defesa e todo o resto, "o último ato é
sangrento".

Qual descoberta ainda se poderia es-


perar nesse domínio? O telegrama enviado
pelo rei da Prússia à rainha Augusta, na
noite da batalha de Saint-Privat, resume a
maioria das guerras: "As tropas realizaram
prodígios de valor contra um inimigo de igual
bravura". É conhecido o breve texto da or-
dem levianamente transmitida por um ofi-
cial que enviou a Brigada Ligeira para a
morte, em 25 de outubro de 1854, em
Balaklava: "Lorde Raglan anseia ver a cava-
laria avançar sem demora para o front e im-
pedir o inimigo de retirar os canhões..." É
verdade que a redação está um pouco im-
precisa mas, seja como for, ela não é mais
obscura nem mais errada que uma multi-
dão de planos e ordens que conduziram as
empreitadas históricas em direção a seus
fins incertos ou a seu desenlace inevitavel-
mente funesto. É engraçado ver a que ares
de superioridade se dão as cabeças pen-
santes do jornalismo e da universidade
quando se trata de externar sua opinião a
respeito de como se realizaram operações
militares. Sendo o resultado conhecido, eles
precisam ao menos de uma vitória no cam-
po de batalha para se absterem de fazer
chacotas e se limitarem, então, a observa-
ções sobre o custo excessivo em sangue e o
alcance relativo do êxito obtido, comparado
a outros que, segundo eles, teriam sido pos-
síveis naquele mesmo dia se medidas mais
inteligentes houvessem sido adotadas. São
os mesmos que sempre ouvem com muito
respeito os piores nefelibatas da tecnologia
e todas as quimeras da economia sem nem
mesmo pensar em verificar os resultados.

Masséna estava com 57 anos quando


declarou que o comando é desgastante, ao
falar perante seu Estado-maior no momen-
to em que tinha sido encarregado de dirigir
a conquista de Portugal: "Não se vive duas
vezes nesta nossa profissão, não mais do
que sobre esta terra". O tempo não espera.
Não se defende Gênova duas vezes; ninguém
sublevou Paris duas vezes. Xerxes, no mo-
mento em que seu numeroso exército cru-
zava o Hellespont, formulou numa só frase
talvez o axioma primeiro que está no fundo
de todo o raciocínio estratégico quando, para
explicar suas lágrimas, disse: "Estava pen-
sando na duração tão curta da vida dos se-
res humanos, pois, dessa multidão sob nos-
sos olhos, nenhum homem estará vivo daqui
a cem anos".
"Mas se estas Memorias vêem algum dia a luz, eu
não duvido que provoquem uma prodigiosa revol-
ta... e como na época em que escrevi, sobretudo
no período final, tudo se voltava para a decadên-
cia, para a confusão, para o caos, que desde então
só cresceu, enquanto estas Memórias não respi-
ram outra coisa que não seja ordem, regra, verda-
de, princípios indubitáveis e expõem abertamente
tudo o que é contrário a isso e que a cada dia reina
com mais ignorância e com a mais inflexível auto-
ridade; a convulsão, portanto, há de ser geral con-
tra este espelho de verdades."

Saint-Simon
Mémoires

Uma descrição da vida rural na Ingla-


terra, que Howitt publicou em 1840, podia
se concluir tomada de um contentamento
sem dúvida abusivamente generalizado:
'Todo homem que sabe apreciar os praze-
res da vida deve agradecer aos Céus por te-
rem-no permitido viver nesta terra e nesta
época". A nossa época, ao contrário, não se
arrisca a exprimir muito enfaticamente, em
relação à vida que se vive nos dias de hoje, a
repugnância geral e o terror que começam a
se ressentir em tantos terrenos. Eles são res-
sentidos mas nunca expressos antes das re-
voltas sangrentas. As razões para isso são
simples. Os prazeres da vida foram recente-
mente redefinidos de forma autoritária: pri-
meiro nas suas prioridades e em seguida na
totalidade de sua substância. E as autorida-
des que os redefiniam também podiam, a
qualquer momento, sem obstáculos de qual-
quer natureza, decidir qual modificação pode-
ria mais lucrativamente se fazer introduzir
nas técnicas de sua fabricação, inteiramen-
te liberadas da necessidade de agradar. Pela
primeira vez, os donos de tudo o que se faz
são também os mestres de tudo o que a res-
peito se diz. Assim, a demência "construiu
sua casa nos altos da cidade".

Aos homens que não desfrutavam de


uma autoridade tão indiscutível e univer-
sal, foi proposto apenas, nessa questão de
suas sensações dos prazeres da vida, que
se submetessem sem fazer a mais leve ob-
servação, do mesmo modo como eles já ti-
nham eleito, em todas as demais questões,
representantes de sua submissão. E ao se
deixarem privar dessas trivialidades, que
eram apontadas como indignas de sua aten-
ção, mostraram a mesma bonomia queja ti-
nham revelado ao olhar, a distância, esvaí-
rem-se as poucas grandezas da vida. Quando
"ser totalmente moderno" se tornou uma lei
especial proclamada pelo tirano, o que o es-
cravo honesto teme, acima de tudo, é que ele
possa ser suspeito de saudosismo.

Mais sábios que eu já explicaram mui-


tíssimo bem a origem do que sucedeu: "O
valor de troca só pôde surgir como agente
do valor de uso, mas ao vencer por suas
próprias armas criou as condições para seu
domínio autônomo. Mobilizando todo o cos-
tume humano e apropriando-se do mono-
pólio de sua satisfação, ele acabou por diri-
gir o uso. O processo de troca se identificou
a todo uso possível e o subjugou. O valor de
troca é o condottiere do valor de uso, que
acaba por empreender a guerra por conta
própria".

"O mundo é só desilusão", resumiu


Villon num único octossílabo ("Le monde
n'est qu'ábusion" é um octossílabo, ainda
que um diplomado dos dias de hoje prova-
velmente não consiga reconhecer mais de
seis sílabas nesse verso). A decadencia ge-
ral é um meio a serviço do império da servi-
dão, e é somente por ser esse meio que lhe é
permitido fazer-se denominar progresso.

É preciso saber que doravante a servi-


dão quer ser verdadeiramente amada por si
mesma e não mais porque proporcionaria
alguma vantagem extrínseca. Ela, que an-
teriormente podia passar por uma proteção,
já não protege mais nada. Agora, a servidão
não procura se justificar pretendendo ter
conservado, seja onde for, outro encanto que
não o simples prazer de conhecê-la.

Mais à frente direi como se desenrola-


ram certas fases de uma outra guerra pouco
conhecida: entre a tendência geral da domi-
nação social nesta época e o que, apesar de
tudo, pôde vir a perturbá-la, como se sabe.

Ainda que eu seja um notável exemplo


do que esta época não queria, saber o que
ela quis talvez não me pareça suficiente para
estabelecer minha superioridade. Swift dis-
se, com grande dose de verdade, no primeiro
capítulo de sua Histoire des quatre dernières
anriées du règne de la reine Anne: "E eu não
quero de modo nenhum misturar o panegí-
rico ou a sátira com a história, tendo ape-
nas a intenção de informar a posteridade e
instruir aqueles dentre meus contemporâ-
neos que sejam ignorantes ou tenham sido
induzidos a erro. Porque os fatos exatamente
relatados constituem os melhores elogios e
as mais duráveis censuras". Ninguém me-
lhor que Shakespeare soube como se passa
a vida. Ele avalia que "nós somos urdidos
do estofo com que se fazem os sonhos".
Calderón concluiu a mesma coisa. Pelo que
precede, eu estou seguro de, pelo menos,
ter conseguido transmitir elementos que
serão suficientes para que se faça compreen-
der muito precisamente, sem que possa res-
tar nenhum tipo de mistério ou de ilusão,
tudo o que sou.

O autor pára aqui sua história verda-


deira: perdoem-lhe seus erros.
"O autor de A Sociedade do Espetá-
culo sempre foi tido como o cére-
bro, discreto mas incontestável... no
centro da constelação mutante dos
brilhantes conjurados subversivos da
Internacional Situacionista, uma es-
pécie de frio enxadrista, conduzindo
com rigor... a partida da qual ele pre-
viu cada lance.
Congregando à sua volta, com uma
autoridade velada, talentos e boas
vontades. Desagregando-os, depois,
com o mesmo virtuosismo negligen-
te, manobrando seus acólitos como
peões ingênuos, desbravando o tabu-
leiro jogada após jogada, emergindo
enfim único mestre, e sempre domi-
nando o jogo."

Le Nouvel Observateur,
22 de maio de 1972

®
CONRAD
LIVROS

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