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DOCÊNCIA EM

SAÚDE
PSICOSSOMÁTICA
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Triagem Organização LTDA ME
Bibliotecário responsável: Rodrigo Pereira CRB 1/2167
Portal Educação

P842p Psicossomática / Portal Educação. - Campo Grande: Portal Educação,


2013.

132p. : il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-8241-665-5

1. Psicossomática – condições clínicas. 2. Doenças. I. Portal Educação. II.


Título.

CDD 616.89
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................................................4

1 A DOENÇA E O PROCESSO DE CURA: ALGUNS PARADIGMAS E CONCEITOS ....................6


2
1.1 O PARADIGMA PRIMITIVO .......................................................................................................6

1.2 O PARADIGMA GREGO ...........................................................................................................10

1.3 O PARADIGMA CARTESIANO .................................................................................................14

1.4 O PARADIGMA ROMÂNTICO ..................................................................................................16

1.5 O PARADIGMA BIOMÉDICO ....................................................................................................17

2 O DESENVOLVIMENTO DA PSICOSSOMÁTICA COMO UM CONCEITO ............................20

3 O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE PSICOSSOMÁTICA .........................................27

4 A PSICOSSOMÁTICA NOS DIAS ATUAIS ..............................................................................31

5 PSICOSSOMÁTICA: UMA DEFINIÇÃO ...................................................................................33

6 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA DIMENSÃO SOCIAL NA PSICOSSOMÁTICA ...............35

7 REFERENCIAIS TEÓRICOS EM PSICOSSOMÁTICA ............................................................39

8 ATUAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOSSOMÁTICA .............................................................41

10 A FORMAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA PSICOSSOMÁTICA E


REFLEXÕES SOBRE A ÁREA DE ATUAÇÃO EM PSICOSSOMÁTICA ..........................................44

11 PSICOSSOMÁTICA: PESQUISAS E EVIDÊNCIAS CLÍNICAS ...............................................51

11.1 DOENÇAS CARDIOVASCULARES X ASPECTOS PSICOLÓGICOS ......................................52

11.2 ARTRITE REUMATOIDE X ASPECTOS PSICOLÓGICOS ......................................................58

11.3 CÂNCER X ASPECTOS PSICOLÓGICOS ...............................................................................62


11.4 EVIDÊNCIAS CLÍNICAS X PSICOSSOMÁTICA .......................................................................68

12 ALGUMAS CONDIÇÕES CLÍNICAS E A PSICOSSOMÁTICA................................................75


12.1 SÍNDROME GERAL DE ADAPTAÇÃO .....................................................................................75
12.2 ESTRESSE E PROCESSO DE AVALIAÇÃO ............................................................................79
12.3 SÍNDROME DA FADIGA ...........................................................................................................81
3
12.4 DISTÚRBIOS DO SONO ...........................................................................................................84
12.5 DEPRESSÃO ............................................................................................................................87
12.6 LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS – LER ...................................................................91
12.7 DIABETES .................................................................................................................................94
12.8 CONSIDERAÇÕES SOBRE A PSICONEUROIMUNOLOGIA...................................................97
12.9 TRATAMENTOS ALTERNATIVOS ..........................................................................................107

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................................120
INTRODUÇÃO

É bem provável que seus avôs e avós, pais e até mesmo você tenha aprendido na
4
escola que o corpo humano se divide em cabeça, tronco e membros. Esta é uma divisão
essencialmente anatômica que já chegou aos extremos em muitas práticas científicas.
Parodiando, pode-se dizer que enquanto a Medicina acaba, muitas vezes, tratando do ser
humano como se este fosse apenas uma “máquina”, com alguma “peça” com defeito quando
doente e em perfeito estado quando saudável, a Psicologia pode olhar para este mesmo
indivíduo como se ele existisse apenas em espírito (psiquismo), não levando em consideração o
funcionamento do seu corpo.

A abordagem psicossomática tem por intuito mostrar que o ser humano reage como
um todo complexo, sendo que as dimensões psicológicas, sociais e biológicas funcionam e se
influenciam mutuamente. Assim, esta complexa e profunda inter-relação é inerente para a
compreensão dos processos de saúde e doença de qualquer pessoa. Contudo é importante
lembrar que cada indivíduo possui características humanas que contêm aspectos muito
especiais e que se diferenciam em termos de funcionamento e modos de reação, o que
caracteriza cada um de nós como um ser único.

Antes de avançar o tema, é importante clarificar o que se pressupõe por dimensões


biológicas, psicológicas e sociais:

a) A dimensão biológica refere-se às características que foram herdadas ou adquiridas


durante a vida. Inclui os órgãos e sistemas do corpo humano, o metabolismo, além
das resistências e a vulnerabilidade do organismo.

b) A dimensão psicológica lida com os aspectos afetivos, emocionais e intelectuais,


além dos processos conscientes e inconscientes que influenciam a personalidade, a
vida mental e a forma de se relacionar com as pessoas e com o mundo.
c) A dimensão social corresponde à incorporação e influência dos valores, das
crenças, da família, do trabalho, dos grupos aos quais pertence, das expectativas
das pessoas com as quais convive, do meio ambiente, da localização geográfica,
entre outros elementos que acompanham o indivíduo desde o seu nascimento e
percorre toda a sua vida.

Frente a essas dimensões, o organismo reage às situações da vida e em virtude da


integração desses aspectos, o corpo humano reage a impactos e tensões. No corpo de cada
pessoa está a marca de sua história de vida. Todo o processo biopsicossocial funciona a partir
de impactos internos e externos ao organismo.

Por sermos seres únicos com as dimensões biológicas, psicológicas e sociais


totalmente ligadas, muitas vezes, uma doença atinge os três setores, desencadeando problemas
nas três áreas. Entretanto, a maioria das pessoas não se dá conta desta inter-relação, atribuindo
o problema a somente um aspecto.

As respostas humanas estão vinculadas, ocorrendo simultaneamente em todo o


organismo. Por exemplo: caso levemos um susto (reação psicológica), no mesmo instante a
respiração se altera, a pressão arterial pode elevar-se, o pulso acelera, há palidez ou rubor
facial, aumento da produção de suor, entre outras alterações fisiológicas (reações biológicas) e,
muitas vezes, precisamos de outras pessoas para nos dar apoio (reação social).

Nesse contexto, os seres humanos, com suas manifestações biopsicossociais, podem


ser entendidos de forma mais abrangente nos quesitos saúde e doença, ou seja, de forma mais
completa. Em coerência com a definição da Organização Mundial da Saúde, que define como
saudável o indivíduo que possui “o completo bem-estar biológico, psicológico e social e não
apenas ausência de doença”.

A fim de entender melhor essas dimensões de saúde e doença, apresentaremos nos


próximos itens alguns mitos e paradigmas com intuito de levar ao estudante algumas noções a
respeito da doença e de processos de cura até chegar ao conceito de psicossomática.
1 A DOENÇA E O PROCESSO DE CURA: ALGUNS PARADIGMAS E CONCEITOS

Há inúmeros mitos e paradigmas que influenciam a maneira como o ser humano


6
relaciona-se com a saúde e a doença, e como lida com elas. Esta relação origina-se desde o
surgimento do homem e vem se desenvolvendo à medida que a sua consciência se amplia.

O indivíduo do século XXI ainda apela para os deuses no momento de dor, bem como
busca um significado para o seu sofrimento. Mesmo com o avanço da ciência e da tecnologia, os
mistérios da vida e da morte permanecem. Conceitos religiosos e científicos mesclam-se e
determinam as atitudes das pessoas frente à saúde e à doença.

Os mitos dão ao sujeito a possibilidade de moldar a sua percepção do mundo e dos


fenômenos, visto que florescem durante a busca do significado da vida e, por meio deles, passa-
se a ter uma compreensão mais racional sobre o mundo. Como nos lembra Campbell (1990,
p.6), “[...] mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano. Eles nos relacionam
com a natureza e com o mundo natural.” Assim, a prática científica da cura reflete a moral, a
ética, os mitos e o nível de desenvolvimento psicológico da cultura.

1.1 O PARADIGMA PRIMITIVO

Conforme aponta Ramos (2006), primordialmente o homem era subjugado ao poder


das forças ditas naturais, que a sua mente não conseguia assimilar. Desta maneira, igualou-se
aos poderes divinos, encontrando um apaziguamento temporário para suas angústias frente ao
inesperado.
Na maioria das religiões arcaicas, a natureza era vista como transcendente e, este
fato, levou ao desenvolvimento de uma medicina em que a consideração pelo espiritual e pela
busca de um significado maior para a saúde e a doença eram essenciais.

Nesse sentido, se a vida tinha de ser vivida de acordo com a ordem natural do espírito,
como nos propõe Maureci (1986), era esperado que o procedimento terapêutico em vigor tivesse
7
o mesmo enfoque. O curador era, portanto, considerado o mediador entre as forças cósmicas e
o doente, uma espécie de extensão entre o primitivo e o universo. Eis aqui a importância da
figura do xamã, considerado o único apto a intervir nas forças ocultas em prol da saúde do
enfermo. Contudo, ressalta-se que a cura nunca era atribuída a ele, mas sim ao mundo
espiritual. Seu status consistia em sua habilidade de levar o doente ao transe e, posteriormente,
ao êxtase.

FIGURA 1 - O XAMÃ

FONTE: Disponível em: <http://www.xamanismo.com.br/Universo/SubUniverso1186617496>.

Acesso em: 08 jan. 2012.


O “método” de cura xamânica fundamentava-se em ouvir o relato do paciente, com o
intuito de descobrir qual tinha sido o erro cometido por ele, e não para descobrir o sintoma. A
enfermidade era vista como uma consequência da violação de um tabu ou uma ofensa aos
deuses. Para atingir a cura, o doente deveria restabelecer sua ligação com o divino via
arrependimento e sacrifício. Assim, rituais, oferendas e sacrifícios eram utilizados para aplacar a
ira dos deuses. 8

Ramos (2006) traz como exemplo os índios tucanos da Amazônia. Na linguagem


destes, a doença é chamada de doré, palavra derivada do termo doréri, que significa enviado,
mandado. Para esta tribo indígena, a doença tem uma causa sobrenatural, enviada por um
agente oculto, como forma de punição àqueles que não estiveram de acordo com as regras
morais da tribo. Além disso, assinala a autora, doréri significa “transformar-se em alguma coisa
por meio da imaginação”, o que nesta ótica mostra que doença e transformação são conceitos
atrelados. Deste modo, a enfermidade, que pode ter sido causada por muitas transgressões
dentro desta visão, também tem a finalidade de levar o indivíduo à transformação.

Ressalta-se que tanto o xamã, quanto o pajé (uma mescla de feiticeiro, sacerdote e
profeta entre as tribos indígenas brasileiras), eram profundos conhecedores das propriedades
medicinais das ervas, das músicas que levavam ao transe e da terapia verbal (já que a palavra
exercia grande poder em uma cultura não letrada).

Solié (1976) descreve que em todas as civilizações que se seguiram à sociedade


primitiva houve a continuidade de uma linha de pensamento que ligasse os efeitos da
espiritualidade na saúde. Culturas hindus, egípcias, chinesas, babilônicas, caldeias, persas,
gregas, entre outras, conceberam a influência dos mitos oriundos do cosmo de maneira
semelhante, mostrando que em todas elas há a ligação entre o empírico, ou seja, a parte prática
e a crença espiritual.

Dessa forma, tanto as práticas terapêuticas quanto as concepções de vida, saúde e


morte eram atreladas às crenças dos rituais religiosos. Para exemplificar, podemos citar algumas
evidências históricas:
a) A civilização assírio-babilônica em III a.C. Com suas curas ritualísticas e mágicas
coexistiam com procedimentos baseados na mitologia, metafísica e astronomia.
b) O Egito Antigo, onde emergiram princípios associados às crenças religiosas que
levavam em consideração o raciocínio baseado em sistemas físico-matemáticos na
compreensão dos sintomas e na escolha terapêutica.
c) Papiros encontrados no século XX, datados de 1500 a.C, que esboçavam o corpo 9
humano com suas propriedades, doenças e quadros clínicos detalhados,
acompanhados de procedimentos terapêuticos e de prognósticos.
d) Heródoto, no século V a.C, que assinalava a divisão em especialidades na medicina
egípcia.
e) O Antigo Testamento, que aconselhava medidas de profilaxia e de higiene pessoal
e coletiva por intermédio de regras alimentares e de organização social, entre
outros.

Considera-se dentro desse paradigma principalmente a figura do sacerdote-curador-


médico que auxiliava na estabilidade física, emocional e espiritual do doente, ao mesmo tempo
em que contribuía para conservar a harmonia entre sua psique e a natureza. Ramos (2006)
destaca que o xamã foi o pioneiro no uso de técnicas de transe, psicodrama, análise de sonhos
e análise de imaginação. Para a autora, enquanto este relembrava ao paciente as normas e
valores de sua cultura por meio do mito coletivo, atualmente, o psicoterapeuta busca no passado
inconsciente do paciente seu mito pessoal.

Vale destacar que uma diferença relevante entre o homem primitivo e o


contemporâneo é o racionalismo do atual, que fez com que se dissociasse dos valores religiosos
e da natureza. O homem contemporâneo passou a acreditar que em razão de sua ampliação de
conhecimentos científicos e tecnológicos, a natureza estava dominada e, portanto, tudo o que
envolvesse espiritualidade era irrelevante, gerando um personalismo excessivo. Tal atitude foi
amplamente desenvolvida pelos gregos da Antiguidade, como poderá ser visto a seguir.
1.2 O PARADIGMA GREGO

Os precursores em dividir a categoria espiritual do material, além de desenvolver


teorias científicas baseadas em observação, análise e dedução foram os médicos gregos da 10
Antiguidade. É importante lembrar que essa divisão foi importante para que os filósofos gregos
conseguissem compreender os fenômenos naturais. Para os médicos gregos, tudo o que existia
no mundo e no cosmo eram passíveis de serem explorados e conhecidos.

Contudo, a ideia de um princípio cósmico controlador ainda foi mantida pela cultura
grega. Apesar de diferente da representação de Deus com forma humana, os gregos
denominaram de princípio do noûs, a força criadora que diferenciava o mundo material de sua
ação ordenadora, uma espécie de inteligência condutora descrita pelo filósofo Anaxágoras. Esse
princípio aproximava-se da concepção de um criador divino.

Como descrito por Ramos (2006), na Antiguidade, o uso da música e das palavras de
encantamento eram habituais nos processos de cura. Os povos, de maneira geral, admitiam o
poder curador e mágico destes elementos. Havia palavras que segundo a crença expeliam os
espíritos malévolos das enfermidades – chamados de daimons. Sendo assim, a recuperação e a
manutenção da saúde eram obtidas por intermédio das músicas, compreensão dos sonhos,
dietas e meditação, ou seja, de eventos que levavam ao equilíbrio entre psique e soma.

Vale ressaltar neste período, a importante contribuição dos filósofos pré-socráticos na


concepção sobre saúde e doença. No século VI a.C., estes filósofos estavam dispostos a situar o
corpo e suas doenças na trama das forças do Universo. Encontramos assim:

a) Tales de Mileto, que questionou a origem divina dos fenômenos da natureza;


b) Aleméon, de Cretone, o qual sustentava a ideia de que a saúde era expressão
do equilíbrio do homem com o Universo;
c) Empédocles, de Agrigento, que acreditava que o corpo era formado por quatro
elementos, fontes dos “humores”, subordinadas à luta permanente entre o amor
(fonte de integração) e o ódio (fonte de desintegração), entre outros.

Na concepção de Volich (2000), com o advento de Sócrates, gradualmente surgiu a


11
ideia de que o homem seria constituído não apenas por um substrato material, mas também de
uma essência imaterial, vinculada aos sentimentos e à atividade do pensamento, a alma. No
âmbito da medicina, essa discussão determinou diferentes vertentes na compreensão da
doença, da natureza humana e da função terapêutica.

Nos escritos do filósofo Platão (380 a.C), considerado um importante filósofo posterior
a Sócrates: “o grande erro de nossos dias no tratamento do corpo humano é que o médico
separa a alma do corpo”. Estes, entre outros trechos, mostram o quanto Platão atribui
importância à união corpo e alma e ao processo de cura que dava destaque às palavras.

Nesse mesmo período, foram criados mais de 200 templos de incubação que
rapidamente se espalharam pela Grécia, Turquia e Itália, em homenagem ao deus Esculápio
(seu nome em romano) ou Asclépio (em grego), o deus da medicina e da cura.

FIGURA 2 - TEMPLO GREGO

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:TempleOfHercules-


ForumBoarium.jpg>. Acesso em: 08 jan. 2012.
Nesses templos eram realizados tratamentos com ervas medicinais, banhos, arte
teatral, sono, interpretação dos sonhos, entre outras técnicas em ambiente belo e agradável. O
homem, nestes centros, era visto de uma forma global, sendo os prováveis precursores de locais
que oferecem tratamento holístico (SOLIÉ, 1976).

12
FIGURA 3 - DEUS ESCULÁPIO

FONTE: Disponível em: <http://www.alzheimermed.com.br/biografia-alois-alzheimer/sua-


vocacao-historia-mitologica-de-medicina>. Acesso em: 08 jan. 2012.

Entre 460 e 377 a.C. viveu Hipócrates, considerado até hoje uma das figuras mais
importantes da história da saúde, chamado "pai da Medicina". Hipócrates era um asclepíade, ou
seja, descendente de uma família que, durante várias gerações, praticara os cuidados em saúde.
Para ele, o corpo humano é um todo cujas partes se interpenetram. Hipócrates
introduziu a ideia de unidade funcional do corpo, em que a alma exerce uma função reguladora.
O homem, para ele, era uma unidade organizada, que poderia desorganizar-se, o que propiciaria
a emergência de uma doença.

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FIGURA 4 - HIPÓCRATES

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3crates>. Acesso em: 08 jan.


2013.

Com importantes considerações e deduções, Hipócrates foi o precursor da medicina


moderna. Todavia, por priorizar a racionalidade e a terapia orientada pela causalidade, seus
métodos de tratamento substituiram o uso e o valor que outrora eram dados às palavras.
Aqueles que eram partidários da visão de Hipócrates pressupunham que o cérebro era um
recipiente com uma mistura que era liberada para aliviar o corpo do calor extra, denominada de
plégma. O coração era a sede da alma na visão de seus seguidores. Simms (1980) cita que para
o pioneiro da medicina contemporânea, a raiva tinha o poder de contrair o coração, aumentando
o calor e, consequentemente, levando os fluidos para a cabeça, ao passo que em uma mente
tranquila, a eutimia, estendia o coração.

Ramos (2006) acredita que, no sentido simbólico, essas observações estão corretas,
visto que são formas de expressão dos sentimentos e das sensações do ponto de vista do
indivíduo que passa pelas alterações. Contudo, ressalta a autora, como a fala foi menosprezada,
a ligação psique e soma, alicerces da psicossomática, ficou limitada.

Os cientistas gregos buscaram conhecer a natureza, influenciando métodos e


procedimentos que se tornariam padrão na Medicina e na Psicologia até os dias atuais.
Possivelmente, a separação entre mente e corpo foi necessária para que o homem
14
desenvolvesse conhecimentos mais aprofundados sobre ciência, religião, filosofia, entre outros.
Tal rompimento foi acentuado com o tempo, até tornar-se explícita para aqueles que se
baseavam nas ideias de René Descartes, o qual foi interpretado como o introdutor de uma
concepção que distinguia mente (espírito) e matéria.

1.3 O PARADIGMA CARTESIANO

Na concepção de Descartes (1988), o corpo equivalia a uma máquina que funcionaria


igualmente bem ou mal, tendo ou não psique. Enfatizava que a matéria era uma realidade
separada da atividade mental, embora estejam ligadas pelo plano divino. Para ele o corpo não
era nada além de uma máquina ou estátua feita de terra, criada por Deus. Apesar de não duvidar
de que espírito e matéria provinham da origem divina, suas ideias foram interpretadas como
propulsoras de que espírito e matéria funcionavam separadamente.

Segundo Wilson (1980) e Brown (1990), Descartes não descreveu sobre uma cisão
entre mente e corpo, mas sim uma interação que apresentava bases somáticas profundas dos
estados afetivos e perceptivos. Dessa maneira, ele não negava a ligação entre mente e corpo,
acreditando que a glândula pineal era a responsável pela interação de ambos, embora o corpo
para o cientista pudesse funcionar sem a intervenção direta da alma e vice-versa.
FIGURA 5 - RENÉ DESCARTES EM PINTURA DE FRANS HALS

15

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes>.

Acesso em: 08 jan. 2013.

Em virtude da complexidade de suas ideias, coube a Descartes o estigma de ser o


precursor do dualismo mente-corpo. Este fato tem sua face positiva e negativa. Do lado positivo,
houve um maior incentivo ao pensamento científico. Sob o ponto de vista negativo, criou uma
dificuldade na compreensão de um ser humano mais global, com suas múltiplas potencialidades,
necessidades e complexidades.

Ao final do século XVIII, houve um maior destaque à razão. O racionalismo ganha


status, pois o conhecimento só poderia ser verificado por meio do intelecto. A religião e a ciência
separam-se cada vez mais, gerando um abismo entre as crenças espirituais e o conhecimento
objetivo.

Diante desta postura, supõe-se que, psicologicamente, houve uma ruptura entre o ego
e os conteúdos inconscientes, auxiliando uma desintegração no processo coletivo da
humanidade com relação à percepção da interconexão de seus conteúdos internos e externos.
1.4 O PARADIGMA ROMÂNTICO

Na primeira metade do século XIX, surgiu um novo paradigma que influenciou a forma
16
de lidar com estados de saúde. Surge, assim, a medicina romântica, um modelo que contestava
o racionalismo.

Gusdorf (1984) cita que, por meio de observações clínicas dos pacientes, houve uma
redescoberta da irracionalidade da psique e os seres humanos passaram a ser vistos como um
campo global e que não poderia ser contemplado apenas como um conjunto de partículas.

Estar ou não sadio é resultado da interação de diversos fatores. Nesta ótica, o


indivíduo doente estava submetido a um desequilíbrio não natural, causado por um conjunto de
fatores biológicos, psicológicos, morais e espirituais. Rozenkrantz (1985) destaca que, como
estes fatores eram muito subjetivos, os médicos dificilmente prescreviam tratamentos específicos
para uma enfermidade, mesmo quando a doença localizava-se em um determinado órgão, eles
observavam que o organismo reagia como um todo.

Nesse período, enfatiza-se a ideia de que as doenças corpóreas possivelmente


estavam expressando perturbações da consciência, da mesma forma que as doenças
psicológicas se relacionavam com o campo orgânico. Havia, portanto, uma correlação entre
corpo e mente que estava além das explicações mecanicistas.

Ramos (2006) menciona que nesta época a Psiquiatria foi incorporada à Medicina, é
quando surge o termo “psicossomática”. Além disso, a autora salienta que, neste paradigma, o
tratamento de alguma doença variava conforme as condições do paciente, sendo prescritos
medicamentos, dietas, mudanças de moradia, modificações de comportamento, que implicavam
em um profundo conhecimento da intimidade do enfermo pelo médico. Warner (1986) evidencia
que dentro deste paradigma, a relação entre médico e paciente tem um papel de destaque, bem
como a sensibilidade para os aspectos psicológicos.

Nota-se que centenas de artigos escritos no século XIX tratavam dos componentes
psicológicos em uma doença. Diante dessas concepções, o homem enfermo era considerado um
ser em relação com ele mesmo, com as pessoas e com o mundo, além de estar integrado à arte,
ciência e religião.

17
1.5 O PARADIGMA BIOMÉDICO

Contudo, já no final do século XIX, o paradigma romântico passou a ser rejeitado,


principalmente porque ele era baseado no empirismo, ou seja, na experiência do profissional que
tratava da enfermidade, situação que também não admitia qualquer generalização. Deste modo,
o conhecimento que havia sido obtido por meio de um paciente praticamente não se aplicava a
outro, afinal para se obter a cura era necessária uma observação clínica muito específica de
cada caso.

Myers e Benson (1992) propõem que o paradigma biomédico, que estava


fundamentado em pesquisas e na fisiologia experimental, fez-se mais influente. A doença
continuou a ser considerada como um desvio da normalidade, mas não era mais vista de forma
holística.

As interações entre diversos fatores tão enfatizados no paradigma anterior foram


praticamente substituídas apenas pelas anormalidades biológicas, proporcionando o advento do
reducionismo.

Gradualmente, a observação clínica perdeu seu status de importância prioritária para


as pesquisas experimentais, sendo que estas foram consideradas como a principal forma de se
obter um conhecimento científico fidedigno.

Sendo assim, a relação corpo e mente sofre uma cisão. Perde-se a visão da correlação
entre os mais variados aspectos e fatores, reduzindo os sistemas corporais em partes. Sai de
cena o olhar clínico individual e entra em voga a ênfase sobre os aspectos universais da
patologia, ou seja, o materialismo tomou lugar da tendência anterior que considerava fatores não
materiais no tratamento de um indivíduo. Segundo Myers e Benson (1992), os aspectos não
materiais não eram suscetíveis de serem medidos facilmente em laboratórios e, por isso, foram
negligenciados. Foss e Rothenberg (1987) citam que se as “ideias” não tinham poder “material”,
então não eram levadas em consideração, visto que não teriam nenhum efeito sobre as
condições corpóreas.

18
Dentro desse novo panorama, a doença é encarada como uma entidade separada,
uma espécie de desvio das normas fisiológicas, sendo o corpo pensado como um conjunto de
sistemas relacionados, mas relativamente independentes.

Ao buscar uma única causa para a doença, houve a promoção do pensamento


reducionista, que se por um lado não levava em consideração o ser humano em seus aspectos
mais subjetivos e também não tinha como meta o restabelecimento de um estado de equilíbrio
completo, por outro lado permitiu avanços a respeito de como cada parte funcionava no todo.

Ramos (2006) aponta que também houve uma mudança significativa para o
universalismo, que seria a ênfase colocada nos aspectos universais da doença. A autora
descreve que, com o advento do paradigma biomédico, foram descritas uma série de normas
para diversos parâmetros fisiológicos (como temperatura, pressão, batimentos cardíacos, entre
outros) e psicológicos (pensamentos, sensações e emoções).

Com o início do universalismo, a referência do paciente como um ser único foi posta de
lado e qualquer desvio das normas universais era considerado doença. Desta forma, os
diagnósticos eram realizados sem considerar as características pessoais, sociais, morais,
psicológicas e crenças espirituais dos pacientes. Aspectos sociais e psíquicos não eram mais
considerados como relevantes sobre o organismo em um tratamento clínico.

Diante deste contexto, Fabrega (1990) aponta que se deu início ao estudo
sistematizado da semiologia das doenças, ou seja, a ciência dos sinais da doença, em que
mente e comportamentos são observados como entidades praticamente físicas, divididas em
ideias, sensações e sentimentos, com um local próprio de representação no cérebro e eram
mensuráveis.

Com a ênfase sobre o reducionismo, universalismo e materialismo, o olhar com relação


às enfermidades foi radicalmente modificado, sendo as mesmas pensadas como compostos de
lesões anatômicas ou fisiológicas. Fabrega (1990) cita que somente mais tarde, houve a
diferenciação entre os sinais considerados internos dos vistos como externos. Para o autor, a
elaboração dos conceitos como neurose e alucinação como fenômenos de procedência interna e
psicológica auxiliou na diferenciação entre o considerado “puramente” psicológico do
“puramente” fisiológico, bem como para o desenvolvimento do estudo sobre as doenças mentais,
a psicopatologia. 19

Dessa forma, adentra-se no século XX com uma visão fragmentada de homem. O


pensamento sobre as doenças no campo médico dá um destaque para a objetividade,
concretude e padronização dos sintomas. O mito que emerge desta ótica é a de que o homem
pode, do mesmo modo que disseca um corpo, manipular e dominar a natureza. Tal concepção,
ainda exerce uma grande influência sobre o conceito de doença, da relação mente-corpo e, até
mesmo, sobre a psicossomática.
2 O DESENVOLVIMENTO DA PSICOSSOMÁTICA COMO UM CONCEITO – PARTE I

Primeiramente, é importante ressaltar que há uma grande confusão conceitual, tanto


20
da área médica como psicológica, quando se trata dos fenômenos relativos à psique-corpo e sua
relação com as enfermidades de modo geral. Em razão da falta de clareza, conceitos como
somatização, histeria, mecanismos de conversão e psicossomatização se mesclam e são
usados com o mesmo significado em diversos estudos. A maioria dos autores parte de
definições baseadas em seus estudos empíricos sem o cuidado de definir o conceito empregado,
dificultando o estabelecimento de um consenso para o significado de psicossomática. A fim de
entender melhor este conceito, buscar-se-á aqui esclarecer um pouco sobre como o termo foi
construído.

Lipowiski (1984) menciona que o termo “psicossomática” foi empregado pela primeira
vez em 1818, pelo psiquiatra alemão Heinroth. O médico usou o termo para explicar qual era a
causa da insônia, bem como a influência das paixões na tuberculose, epilepsia e câncer.

Na concepção “recém-criada”, psicossomática designava a influência dos aspectos


emocionais sobre uma enfermidade. Entretanto, mais tarde o termo foi adotado em demasia por
médicos alemães e ingleses. Em 1828, Heinroth também propôs o termo somatopsíquico, o qual
era dedicado a explicar as doenças em que o fator orgânico afetava o emocional.
FIGURA 6 - DOCUMENTO ONDE O TERMO PSICOSSOMÁTICA FOI USADO PELA PRIMEIRA
VEZ, EM 1818

21

FONTE: Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:194_Heinroth_1818.jpg>.

Acesso em: 08 jan. 2013.

Para Ramos (2006), Felix Deutsch é, atualmente, considerado o reintrodutor do termo


“medicina psicossomática”, em Viena, no ano de 1922. Vale ressaltar que foi a palavra e não o
seu conceito que permaneceu no limbo da história até esta época quando Deutsch, que era
discípulo de Freud, a retomou, enfatizando que a Medicina Psicossomática era uma prática que
buscava a promoção da saúde, levando em conta a integração entre funções corpóreas e
processos mentais.
FIGURA 7 - FELIX DEUTSCH, REINTRODUTOR DO TERMO PSICOSSOMÁTICA

22

FONTE: Disponível em:


<http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/67/Bundesarchiv_Bild_102-
05933,_Felix_Deutsch.jpg/180px-Bundesarchiv_Bild_102-05933,_Felix_Deutsch.jpg>.

Acesso em: 08 jan. 2013.

Entretanto, enfatiza a autora, foi Helen Dunbar que formulou, em 1935, a principal base
para a formação dessa área por meio de observações sistemáticas e aplicação de uma
metodologia científica em seu livro intitulado “Emotions and biology changes: a survey of
literature on psychosomatic interrelationships: 1910-1933” [Mudanças emocionais e biológicas:
uma pesquisa da literatura sobre inter-relações psicossomáticas: 1910-1933]. Apesar de Dunbar
não considerar o termo adequado, pois não expressa que mente e corpo são aspectos de uma
unidade fundamental, o conceito fora consagrado por falta de outro que tivesse uma maior
aplicabilidade, caindo em seguida no domínio público e científico. Na visão da autora, Carl
Gustav Jung também influenciou as ideias de Dunbar, visto que pouco antes de escrever seu
livro, ela esteve em Viena com Deutsch e em Zurique com Jung. Neste período, ele realizava
estudos de reações psicofisiológicas advindos da ativação de complexos e dos estudos da
tipologia e suas manifestações físicas. Para Jung (1971), a divisão entre corpo e mente era uma
dicotomia artificial, havendo na verdade um íntimo inter-relacionamento dos traços psíquicos e
corporais.

Dunbar é considerada a idealizadora e fundadora da American Psychosomatic Society


23
e da revista Psychosomatic Medicine em 1939. No editorial do primeiro número da revista, há a
definição que norteia os trabalhos dessa organização até o presente momento: “Seu objetivo é
estudar a inter-relação dos aspectos psicológicos e fisiológicos do funcionamento normal e
anormal do corpo e integrar a terapia somática na psicoterapia” (The Editors, 1939, p.3).

FIGURA 8 - HELEN DUBAR

FONTE: Disponível em: <http://silentladies.com/annex/Dunbar.jpg>. Acesso em: 08 jan. 2013.

Estudiosos da psicossomática acreditam que tanto a publicação do livro de Dunbar


quanto a fundação da American Psychosomatic Society são um marco no surgimento da
psicossomática como um campo organizado de pesquisa científica e deram início a um
movimento que tinha por objetivo transformar o atendimento clínico.

Todavia, como citado anteriormente os editores da revista definiram o campo de


estudos da psicossomática como a inter-relação dos aspectos psicológicos e fisiológicos das
funções do corpo, o que não deixa de ser uma afirmação tendenciosa, pois propõe a aplicação
24
de uma abordagem organicista na psicoterapia.

Na década de 1930, os cientistas Pavlov e Cannon desenvolveram importantes


estudos sobre psicofisiologia que contribuíram para o avanço da psicossomática ao focar sobre
os mecanismos que relacionavam as variáveis psicológicas às funções corpóreas. Em
contrapartida, como ambos se valiam da metodologia clássica experimental, acabavam por
reforçar a visão dualista de mente e corpo.

Heidberg (1964) expõe que, a fim de reagir a essa psicologia experimental e


laboratorial, por volta de 1920-1930 os estudiosos Kohler, Koffka e Wertheimer introduzem um
novo campo de estudo da Psicologia, que denominam de psicologia da Gestalt, que parte do
pressuposto de que o organismo não pode ser compreendido pelo estudo das suas partes
isoladas, mas sim como uma totalidade autônoma, irredutível e com leis próprias. Neste sentido,
Kohler enfatizava que cada elemento dependeria da estrutura do conjunto e das leis que a
regem.

Outro importante estudioso que merece destaque foi Seyle, que, na década de 1950,
descobriu a síndrome geral de adaptação, mais conhecida como síndrome do estresse.
Conforme Seyle (1956, p.42), estresse é “a soma de todos os efeitos específicos dos fatores
(atividade normal, produtores de doenças, drogas, entre outros) que podem atuar sobre o corpo”.
Para o pesquisador, o estresse é uma condição que pode ser mensurada por mudanças nos
órgãos do corpo. Além disso, também defende a ideia de que este estado é resultante da
autopreservação (homeostase) das partes dentro do todo. Apesar de suas pesquisas seguirem
um modelo mais redutivista e organicista, elas levam a importantes reflexões.

Para Seyle, em toda doença há um elemento de adaptação, o que o levou a escrever


sobre as doenças de adaptação, que seriam reações defensivas e adaptativas de um corpo, o
que resultaria em enfermidades que provêm ou pelo excesso de defesa ou pelo excedente de
reações corporais. Desta maneira, Seyle contribuiu demasiadamente com a área da
psicossomática, pois descobriu o quanto e como o corpo se transforma sob estresse.

FIGURA 9 - BUSTO DE HANS SELYE

25

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Selye>. Acesso em: 08 jan. 2013.

Outro importante estudioso que merece destaque é Sigmund Freud (1891/1954).


Conhecido mundialmente como o pai da psicanálise, Freud pesquisou com afinco sobre como as
emoções influenciavam o corpo, dando uma atenção especial ao papel da origem na formação
dos sintomas, ou seja, da etiologia. Conceitos como repressão e conversão auxiliaram no
embasamento das hipóteses psicossomáticas. Para o psicanalista, os sintomas histéricos
emergiam quando o afeto associado há uma ideia conflitava com o ego e, consequentemente,
resultava em uma repressão com posterior descarga em sintomas e inervações somáticas.

Por “conversão”, Freud entendia que se referia a um processo em que a excitação era
transformada em sintomas histéricos, e o termo “complacência somática” designava uma
suscetibilidade orgânica, anterior ou concomitante ao trauma, que exerceria a função de leito
para a conversão histérica. Todavia, suas hipóteses ficaram centradas somente à histeria e não
às demais doenças orgânicas.

Um dos maiores méritos de Freud (1895/ 1966) foi sem dúvida a sua teoria sobre o
inconsciente dentro do referencial científico que estava em voga na época, este sugeria que a
psique tinha um local e exercia atividades específicas e mensuráveis. Suas ideias sobre os
26
instintos, repressão, sublimação, culpa, neurose entre outros deram base para a formulação de
uma teoria sobre o comportamento dos seres humanos em sociedade.

Na concepção freudiana, os instintos eram as forças primárias que impulsionavam a


vida humana, e cada indivíduo tinha por objetivo chegar a um equilíbrio entre estas forças e as
pressões do mundo externo, resultantes das necessidades do superego e do princípio de
realidade. Neste processo, o indivíduo passa a reprimir a sua vida instintiva e,
consequentemente, seus desejos para que possa se inserir em um nível social, gerando assim,
ansiedade, depressão e doenças mentais.

A terapia baseada nestes pressupostos possui o intuito de conduzir a psique a uma


adaptação mais saudável do indivíduo com sua condição de vida, dando-lhe mais energia.
Contudo, sem muitas vezes dar razões suficientes para fazê-la, já que para Freud qualquer
pensamento que estivesse ligado a uma concepção religiosa ou atuação de força espiritual na
vida de um sujeito era visto como uma expressão de dependência psíquica atrelada à
necessidade de diminuir o medo frente ao desconhecido.
3 O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE PSICOSSOMÁTICA II (CONTINUAÇÃO)

27

Em virtude do desenvolvimento da psicanálise, até o final da década de 1940, grande


parte dos pesquisadores de psicossomática baseou seus estudos nesta abordagem. Um dos
exemplos de grande destaque foi a formação da Escola de Chicago, por Franz Alexander e
Thomas French.

Alexander foi influenciado pela abordagem psicanalítica e da psicologia da Gestalt,


além dos estudos da neurologia e da endocrinologia. O diretor da Escola de Chicago
desenvolveu a ideia de especificidade da doença, o que significa que uma resposta fisiológica a
um estímulo emocional varia conforme a natureza do estado emocional que a desencadeou.
Nesse sentido, haveria uma especificidade orgânica influenciada por uma força psicológica
propulsora, o que levaria cada doença a corresponder a um quadro emocional ou a um tipo de
personalidade. Alexander delineou sete doenças, que ficaram conhecidas mais tarde como
psicossomáticas, mas na sua concepção toda doença é psicossomática, visto que fatores
emocionais influenciam todos os processos do organismo, por meio das vias nervosas e
humorais (ALEXANDER, 1923/1989).

Considerado por muitos estudiosos como seguidor de um modelo linear, causal e


redutivista, Alexander realizou descrições e análises clínicas bastante significativas, que
contribuíram de modo expressivo para a área da psicossomática.

A partir dos trabalhos realizados por Spitz, em 1950, contatou-se a influência que a
ausência da figura materna exercia no plano da psicopatologia, e verificou-se que essa ou outras
ausências são sentidas no psiquismo, aumentando a disposição do indivíduo à doença.

Outra importante instituição dentro dos preceitos psicanalíticos que merece destaque é
a Escola Psicossomática de Paris, criada em 1962. Representada por Pierre Marty, Michel
M´Uzam e Christian David, com a finalidade de formar psicossomaticistas, promover a pesquisa
e fornecer atendimento clínico. Estes estudiosos partiam do pressuposto de que os pacientes
psicossomáticos apresentavam as seguintes características:

I) Escassa dificuldade de simbolizar;


II) Sonham pouco ou seus sonhos são demasiadamente concretos;
28
III) Pouca elaboração psíquica;
IV) Pensamento tipo operatório aprisionado no concreto;
V) Atitudes pragmáticas (baseadas na prática).

Desse modo, considera-se que este paciente tinha pouca ligação com seu
inconsciente, despontando em uma incapacidade de simbolizar, tornando-se vulnerável a
qualquer estresse e, como consequência, seu organismo poderia reagir com uma doença
somática. Conforme Ramos (2006), para esses estudiosos, as doenças orgânicas necessitam de
sentido e quando não há significado simbólico, há uma incompatibilidade entre doenças
psíquicas e orgânicas.

O objetivo inicial desses teóricos era compreender as patologias somáticas cuja


dinâmica não correspondiam ao modelo da conversão histérica, utilizando o conceito
psicanalítico de neurose atual. Entretanto, gradualmente foi se desenvolvendo um corpo clínico e
teórico que considera a sintomatologia a partir da ideia de que um menor grau de atividade
mental corresponde a uma maior vulnerabilidade somática. Diante de um traumatismo, por
exemplo, um indivíduo que apresenta uma atividade mental pouco desenvolvida não teria
recursos mentais suficientes para lidar com o excesso de estimulação, então haveria uma
desorganização psíquica que passaria a atingir as funções somáticas, menos evoluídas.

Em 1970, surge a Escola de Boston sob os cuidados de dois psicanalistas


americanos: Sífneos e Nehemiah, que desenvolvem uma opinião semelhante a dos
pesquisadores da escola francesa. Para Sífneos e Nehemiah (1970), os pacientes
psicossomáticos eram alexitímicos, ou seja, incapazes de nomear ou expressar sentimentos em
razão da incapacidade de reconhecê-los. Dessa maneira, por meio de observações, estes
autores consideraram que os pacientes com doenças psicossomáticas, apresentavam uma
desordem específica nas suas funções afetivas e simbólicas, acarretando uma forma de se
comunicar confusa e improdutiva.

Apesar do importante estudo realizado pelos autores, sua aceitação tem sido restrita,
já que contraria a maioria das observações clínicas feitas por diversos profissionais. Santos e
Otelo (1992), por exemplo, citam que na prática veem-se manifestações psicossomáticas em
29
histéricos, obsessivos e psicóticos, sendo que os sintomas psicossomáticos possuem cadeias
associativas significativas tanto nos neuróticos quanto nos delírios psicóticos.

Ramos (2006) acredita que a questão da conceituação psicanalítica no estudo da


psicossomática implica em trabalhar com o símbolo apenas no plano verbal, isto é, abstrato. Na
visão da autora, a Escola Psicossomática de Paris, ao considerar que as somatizações não
possuem significação simbólica, sinalizando apenas uma disfunção, perde contato com o
trabalho com o inconsciente e cria uma dificuldade técnica. Neste contexto, Marty (1990)
apresenta aos psicanalistas um trabalho terapêutico com técnicas de relaxamento para
pacientes com tendência a somatizar.

Segundo McDougall (1986,1989), os pacientes alexitímicos são normopatas, o que


quer dizer que para se adaptar usam uma normalidade falsa, não verdadeiramente afetiva. Para
esta psicanalista, grande parte dos pacientes orgânicos não se enquadra nesta categoria.

Nota-se que muitos conceitos e concepções sobre a psicossomática foram


desenvolvidos sem que se criasse um corpo coerente que reunisse ou possibilitasse um nexo
entre a teoria e a prática terapêutica.

Mello Filho et al. (1992) aponta que três fases foram de suma importância para a
evolução da psicossomática:

I) Fase inicial ou psicanalista → refere-se à origem inconsciente das


enfermidades, além das teorias da regressão e sobre os benefícios secundários do adoecer,
entre outros.
II) Fase intermediária ou behaviorista → que se distingue das demais pelo
estímulo à pesquisa em homens e animais com o intuito de enquadrar os achados à
cientificidade exata e dando estímulo aos estudos sobre estresse.
III) Fase atual ou multidisciplinar → que pretende dar foco ao social e à visão da
psicossomática como uma atividade fundamentalmente de interação e de interconexão entre
vários profissionais de saúde. 30

Atualmente, não encontramos uma teoria abrangente ou unificadora. Os modelos


vigentes ainda seguem predominantemente o paradigma biomédico. Sendo assim, o conceito de
psicossomatização, todavia, se encontra atrelado a este paradigma, o qual pode ser resumido da
seguinte maneira: o organismo funciona como uma máquina que deve ser analisada e reduzida
em pequenas partes. Psique e corpo mantêm uma relação causalista e determinista, sendo
possível separá-las de forma objetiva. Saúde é considerada como ausência de doença, a qual é
explicada como um mau funcionamento de mecanismos biológicos e ou psicológicos.
4 A PSICOSSOMÁTICA NOS DIAS ATUAIS

31
Em contrapartida, com o progresso da Medicina Molecular, da Neurobiologia, da
Genética e da aplicação da teoria quântica na Biologia o modo de ver a relação corpo-mente
está sendo continuamente ampliado, promovendo uma nova reflexão sobre saúde e doença.

Impulsionado pelo desenvolvimento de várias áreas científicas, como a Física,


Química, Biologia e Psicologia, a visão de mundo está se aproximando paulatinamente de um
princípio mais holístico, termo que designa como descrito por Weil (1990), a totalidade em que o
universo seria um conjunto em constante formação abrigando diferentes níveis como: ideológico,
biológico e psicológico que se influenciam mutuamente.

Atualmente, no campo da psicossomática encontramos algumas publicações que


buscam integrá-la em uma nova definição. Para Lipowiski (1984, p. 167):

Psicossomática é um termo que se refere à inseparabilidade e


interdependência dos aspectos psicológicos e biológicos da
humanidade. Essa conotação pode ser chamada de holística, na
medida em que ela implica uma visão de ser humano como uma
totalidade, um complexo mente-corpo imerso num ambiente social.

Na ótica de Capra (1982), uma abordagem de embasamento holístico na saúde, no


tratamento e na cura está de acordo com pensamentos e paradigmas mais tradicionais, bem
como é coerente com as teorias científicas modernas.

Se na Medicina e na Psicologia, até pouco tempo o conceito de psicossomática era


empregado para se referir a uma doença sem um diagnóstico claramente orgânico, seu uso atual
foi modificado. Hoje, o termo diz respeito a uma interdependência fundamental entre mente e
corpo em todos os estágios que contemplem a doença e a saúde. Considera-se um
reducionismo e mesmo uma ingenuidade tratar uma doença como de origem apenas psicológica
ou puramente orgânica. Há, portanto, uma tendência a considerar qualquer enfermidade como
psicossomática, visto que elas envolvem e inter-relação entre corpo e mente na origem,
desenvolvimento, tratamento e cura.

LeShan (1992), um importante pesquisador da área, principalmente da relação da


32
psicossomática com o câncer, descreveu três princípios que apoiam a Medicina psicossomática
atual:

I) O indivíduo existe em muitos níveis ou domínios, todos de similar importância.


Dividir o ser humano em corpo, mente e espírito é mais comum no Ocidente.
II) Cada pessoa é um ser único e deve ser tratado como tal.
III) Aquele que está doente deve ser encorajado a ter autonomia no processo de cura.

Com base nestes três princípios, os profissionais da área da saúde podem favorecer a
criação de um ambiente em que despontem as capacidades do indivíduo de se autocurar. Por
outro lado, esses princípios podem produzir uma supervalorização dos processos que ocorrem
no sistema imunológico, criando novamente um recorte quando fora de uma concepção
biopsicossocial.

Em vista de todos os pontos aqui levantados, nota-se que uma nova síntese faz-se
necessária. Ao reaver antigos conceitos, práticas, técnicas e métodos, o modelo holístico
procura integrá-los no mundo contemporâneo.
5 PSICOSSOMÁTICA: UMA DEFINIÇÃO

33
Para Riechelmann (1998), a psicossomática está inserida em dois campos, o filosófico,
pois envolve uma visão de ser humano, com um modo de defini-lo, e o científico, visto que
considera como objeto os mecanismos de interação entre as dimensões mentais, corporais e
sociais da pessoa. A integração biopsicossocial, como afirma o autor, é objeto da Ciência
Psicossomática.

Há ainda, a Psicossomática enquanto atuação profissional, que busca o trabalho com


os aspectos subjetivos e objetivos do paciente. Ressalta-se neste sentido que ela se difere da
postura clássica da Psicologia, a qual foca seu trabalho nas questões subjetivas e diferencia-se
igualmente da Medicina, que comumente considera os fatos objetivos, palpáveis e mensuráveis.

O profissional que trabalha com a Psicossomática, portanto, deve estar atento às


vertentes objetivas e subjetivas do paciente ao mesmo tempo, sem priorizar nenhuma delas em
detrimento da outra. Enquanto prática clínica, encontramos na Psicossomática um conjunto
teórico que se aproxima dos conteúdos das disciplinas como: Psicologia Médica e Psicologia
Hospitalar.

Riechelmann (1998) afirma que a Psicossomática não é, e nem pretende ser, uma
medicina alternativa, afinal a prática médica alternativa possui pressupostos teóricos diferentes
dos princípios teóricos da ciência convencional. O autor enfatiza que a Psicossomática se baseia
em princípios teóricos que estão inseridos na dita ciência convencional. Ao compreender que a
Medicina nasceu da Psicossomática, e não o contrário. Assim, a Psicossomática nada mais é
que a Medicina convencional resgatando a sua origem.

Como já mencionado, Hipócrates, o “pai da Medicina”, apesar de não dar muito valor à
fala dos pacientes, considerava, ao descrever uma doença como a úlcera, por exemplo, esta ser
frequente em pessoas que possuíam uma herança familiar semelhante, as quais faziam uso do
álcool, manifestando-se principalmente nos períodos em que as mesmas estavam sofrendo com
“turbulência da alma” e, além disto, estavam influenciadas por ventos úmidos do noroeste. Tais
concepções a respeito de uma enfermidade mostram que Hipócrates buscava integrar os mais
diferentes aspectos como: psicológicos, químicos, biológicos e até meteorológicos. Assim, no
princípio, a medicina era psicossomática, mas em virtude das já citadas influências que sofrera
sucessivamente distanciaram-se de sua origem.

34
Atualmente, a Psicossomática dentro da sociedade científica, representa um foco de
visão holística, que leva em conta tanto o avanço tecnológico da Medicina moderna e suas
especializações quanto àquilo que há de mais humano nas profissões de saúde. Mais adiante
explicaremos melhor o termo holismo.
6 A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA DIMENSÃO SOCIAL NA PSICOSSOMÁTICA

Como mencionado por França e Rodrigues (2007), o ser humano pode ser
35
considerado um animal social que está atrelado a um meio cultural humano. Nota-se que desde
o princípio de seu desenvolvimento há uma busca pela adaptação, para conseguir se sobressair
ao seu meio sociocultural (aqui entendido como um meio dirigido por normas, regras, conceitos
econômicos, políticos, legais, religiosos, científicos, artísticos, morais, costumes e atitudes, entre
outros fatores que constituem uma comunidade, nação ou civilização).

O primeiro grupo em que o indivíduo começa a interagir é, geralmente, o familiar, onde


ele progressivamente passa a significar as coisas que lhe rodeiam, além de encontrar
entendimento e ser entendido por aqueles com os quais convive em uma constante interação.
De maneira gradual, essas interações vão se ampliando, estendendo para relações sociais,
como por exemplo: para vizinhos, primos, amigos da escola, professores, grupos que frequenta,
entre outros.

Primeiramente, a família é a responsável por situar o seu novo membro em uma


determinada posição social por meio dos grupos sociais nos quais insere a criança e, estes,
provavelmente, influenciarão suas demais escolhas sociais em curto, médio e longo prazo, como
escolas, clubes, grupos de jovens e demais organizações culturais futuramente.

É importante deixar clara a importância das características de personalidade, que em


parte são herdadas e em parte são constituídas pela assimilação das experiências com o seu
meio, bem como o conjunto de regras e costumes assimilados influenciam de maneira direta o
comportamento da pessoa no seu grupo. Assim, em qualquer grupo no qual ela se insira, haverá
um condicionamento, um ensinamento e uma educação que procura uma adaptação às normas
e aos valores predominantes dos pais, avós, irmãos, amigos, professores e mais adiante: chefes,
líderes, costumes culturais, entre outros.

Para França e Rodrigues (2007), esta forma de aprendizado ocorre até o fim da vida,
em experiências ininterruptas que reforçam certas atitudes e padrões comportamentais por meio
de gratificações ou pela inibição ou supressão destas mesmas atitudes e padrões
comportamentais por punições e frustrações. Os autores enfatizam que há figuras-chave como
pais, professores, líderes formais e informais que cumprem um importante papel, ao ensinar
aquele indivíduo a agir como elas, não só naquele momento, mas também no futuro.

Nesse sentido, as experiências serão incorporadas pela pessoa e passarão a fazer


36
parte dela, da sua personalidade. Todavia, grande parte desse processo é inconsciente, então:

► potencial genético + personalidade das figuras-chave =

comportamento do ser humano.

Dessa forma, o ser humano é considerado um ser social e histórico e suas ações não
podem ser consideradas isoladamente. Como cada acontecimento social ocorre em função de
padrões de comportamento que são determinados pela personalidade das pessoas que estão
envolvidas pelas regras culturais e hábitos previamente assimilados e que determinam o que
deve ou não ser feito ou realizado.

Dessa maneira, como a Psicossomática parte do pressuposto que a saúde e a doença


são estados que resultam de um equilíbrio harmônico ou uma desarmonia (desregulação) dos
campos biológico, psicológico e social. Esta última dimensão adquiri fundamental importância ao
influenciar as demais, já que favorecerá ou não as atitudes do indivíduo, a percepção de suas
possibilidades, modo de se relacionar, forma de ver o mundo, processos mentais, atividades
psíquicas, processos afetivos, maneira de lidar com o corpo, entre outras.

Um conceito importante a ser trabalhado na área da Psicossomática é o do holismo, do


qual holístico provém. O termo origina-se da palavra grega “holos”, que significa todo.
Introduzida por Smuts, no ano de 1926, a expressão designa a natureza biopsicossocial do
homem, incluindo aspectos da saúde e doença, sendo que o estudo, a pesquisa e o tratamento
devem, sempre, levar em consideração a pessoa em sua totalidade e não as partes isoladas.
Como já vimos, essa noção é tão antiga quanto a Medicina. Em uma passagem do diálogo de
Platão chamado Charmides, ele argumenta que:

A cura de muitas doenças é desconhecida para os médicos de Hellas


(nome que se dava ao atual país da Grécia), porque eles desprezam o
37
todo, que deve também ser estudado, porque a parte nunca pode estar
bem, a menos que o todo esteja bem.

Esta afirmação mostra que a Medicina, desde o princípio, luta com o problema mente-
corpo e que alguns estudiosos, como o filósofo Platão, propunham-se a olhar o indivíduo de
forma integral. Entretanto, esta tarefa não tem sido fácil em razão da visão biomédica ainda em
voga no mundo ocidental.

Por meio da Psicossomática pode-se averiguar e encontrar caminhos para a prática na


promoção de saúde mais voltada para o paciente. Afinal, como apontam França e Rodrigues
(2007), não chegam para a consulta um fígado, um estômago ou um coração, mas sim uma
pessoa, que está em sofrimento, que pode estar sendo expresso por seus órgãos. Neste sentido,
constantemente, seu adoecimento está relacionado com a sua condição e modo de vida
(dimensão social). Nas palavras dos autores: “no corpo humano estão as marcas de sua história,
de seu esforço, de suas perdas e de suas vitórias. Assim o ser humano é seu corpo e não
apenas tem um corpo” (FRANÇA E RODRIGUES, p.87).

Qualquer pessoa no transcorrer de seu desenvolvimento, constrói e estrutura modos


de ser e reagir às mais diferentes solicitações as quais é impelido a agir (tanto no nível mental
como corpóreo) com o sentido de manter seu organismo equilibrado.

A pessoa é o resultado das inúmeras experiências a que foi submetida no decorrer de


sua história. Ao reagir às diversas situações da vida, estas provocam marcas e modificam o
corpo. O intuito da abordagem Psicossomática é compreender os processos de adoecimento
como uma resposta do ser humano que vive em sociedade e é parte ativa de uma microestrutura
familiar, que está dentro de uma macroestrutura social e cultural, situada em um determinado
ambiente físico e que procura dar um significado (variando a maneira conforme a pessoa) a sua
existência no mundo. Observe o diagrama abaixo:

FIGURA 10 - REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA DO SER HUMANO

38
IMERSO NA MICROESTRUTURA FAMILIAR E NA MACROESTRUTURA SOCIOECONÔMICA-
CULTURAL

FONTE: Sampaio, Galasso, Ribeiro. Reproduzido do livro Stress e Trabalho, uma abordagem
Psicossomática.
7 REFERENCIAIS TEÓRICOS EM PSICOSSOMÁTICA

Primeiramente, é importante ressaltar que o conceito mais amplo de Psicossomática


implica na existência de um referencial teórico que estude o psiquismo. Sendo assim, pode ser 39
psicodinâmico, comportamental, existencial, analítico, entre outros. Além de uma abordagem
psicológica, há a necessidade de um referencial teórico que estude a dinâmica grupal e social do
indivíduo, que pode ser sociológico, antropológico, cultural, entre outros.

Ao juntar uma teoria que estude o corpo, outra que estude a mente, mais uma que leve
em consideração o estudo do grupo, há uma visão psicossomática. A partir disto, começa-se a
ter particularizações, ou seja, várias composições de referenciais possíveis. Com uma teoria
para o fato biológico, outra para o psicológico e outra para o social, tem-se uma concepção de
Psicossomática montada.

Independente do referencial teórico é de fundamental importância para aquele que


quer atuar em Psicossomática que este obtenha conhecimento sobre a anamnese biográfica (a
história de vida) do sujeito que está tratando. Nela devem estar inclusos alguns itens como:

 Antecedentes pessoais: aquilo que sabe a respeito do histórico familiar e sobre a sua
gestação.
 Condições de nascimento.
 Alimentação: o que, como e onde se alimenta e se houve ou não mudanças.
 Sono: qual é o padrão de horas e a qualidade do sono.
 Desenvolvimento Neuropsicomotor.
 Escolaridade.
 Religiosidade: como lida com questões que transcendem a ele.
 Doenças: investigar desde a infância, se são agudas ou crônicas e o quanto afetam a
qualidade de vida do indivíduo.
 Sexualidade.
 Sociabilidade.
 Cuidados pessoais, entre outros.
A proposta da Psicossomática é um exercício de integração dos mais variados
referenciais teóricos com a meta de atingir um objetivo maior que é a compreensão do ser
humano. Entretanto, esta compreensão não está simplesmente em somar pedaços, mas sim em
entender o organismo como um sistema que funciona de forma integrada e dinâmica, com 40
movimentos que se transformam ininterruptamente. Todos os dados citados devem ser
compreendidos junto com os motivos que levaram o paciente a buscar uma consulta. De acordo
com a Psicossomática, o ser humano deve ser compreendido como o resultado da intersecção
entre corpo (dimensão biológica), mente (dimensão psicológica) e meio externo com seus
aspectos socioculturais e físicos. Observe o diagrama abaixo:

FIGURA 11 - ALTERAÇÃO DO CORPO, DOS PROCESSOS MENTAIS E

DO MEIO EXTERNO

FONTE: Sampaio, Galasso, Ribeiro. Reproduzido do livro Stress e Trabalho, uma abordagem
Psicossomática.
8 ATUAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOSSOMÁTICA

Ao se aprofundar nos estudos sobre Psicossomática, com suas concepções


41
biopsicossociais e modo holístico de se abordar as dimensões de saúde e doença é muito
comum achar que o profissional que trabalha nesta abordagem é capaz de resolver todos os
tipos de problemas. Entretanto, como destaca Riechelmann (1998), a Psicossomática não
pressupõe que o profissional tenha um conhecimento de todas as especialidades. Segundo o
autor, é importante entender que há dois procedimentos básicos em qualquer profissão ligada à
saúde: o de compreender/ diagnosticar e o de intervir/proceder. Neste sentido, a Psicossomática
é, antes de tudo, algo que amplia a habilidade do procedimento que envolve a compreensão e o
diagnóstico. Consequentemente irá ocorrer uma ampliação na capacidade da intervenção
enquanto profissional, porém não no nível que concerne à tecnologia especializada. Ou seja, o
profissional que compreende seu paciente de modo mais holístico, no momento de intervir,
continua apenas habilitado na especialidade em que foi treinado.

É importante ressaltar que na hora de compreender um paciente, o profissional precisa


estar atento ao que ele precisa, qual é a sua real demanda, buscando enxergá-lo como um todo,
pois a pessoa adoecida está imersa em um contexto. Somente assim e tecnicamente preparado
na especialidade, pode-se intervir com maior clareza.

O profissional que atua em Psicossomática necessita saber seus limites técnicos e


éticos no momento de atuar, providenciando encaminhamento para outros profissionais que
darão conta daquilo em que ele não é especialista. Riechelmann (1998, p. 26) acredita que há
uma “vocação multiprofissional e interdisciplinar do trabalho psicossomático”, visto que o diálogo
e a interação com as demais especialidades são importantíssimas quando foca-se em uma
compreensão mais holística.

Quanto ao mercado de trabalho, pode-se dizer que lentamente tem surgido um espaço
maior para a Psicossomática, já que na prática os profissionais da área de saúde e
administradores hospitalares (por meio da diminuição de custos) observaram que, quando é
oferecido um tratamento para esta abordagem, aumenta-se o grau de resolução das
enfermidades.

Riechelmann (1998) expõe que ao se calcular o número de consultas que são


necessárias entre um determinado diagnóstico e o término de um tratamento, observa-se que o
profissional que trabalha psicossomaticamente chega a um diagnóstico e estabelece um
42
tratamento terapêutico que possibilita alcançar resultados práticos com um número menor de
consultas. Além disto, o autor comenta:

Por ser mais demorada, a consulta na linha da Psicossomática deve


ser melhor remunerada pelas empresas de convênio médico do que a
consulta tradicional; mesmo assim, a despesa para quem paga a conta
acaba sendo menor, em função do reduzido número de consultas,
exames de laboratório e exames de imagem (RIECHELMANN, 1998,
p.32).

Ou seja, o atendimento que trata do paciente psicossomaticamente colabora tanto para


uma maior eficiência no diagnóstico da pessoa enferma quanto para aliviar seu quadro de
somatização. O resultado é uma maior satisfação do paciente desde os primeiros atendimentos,
já que as suas demandas implícitas e subjetivas são detectadas e passam a receber um cuidado
profissional.

Na década de 1990, uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde,


abrangendo os cinco continentes, avaliou o grau de comprometimento emocional envolvido na
patologia de pacientes que procuravam hospitais gerais e prontos-socorros. Na América do Sul,
o local escolhido para a realização da pesquisa foi o Rio de Janeiro. Os pacientes buscavam
apenas uma consulta médica convencional, não possuindo a priori qualquer ideia a respeito de
questões emocionais que pudessem estar envolvidas na sua patologia. O resultado da pesquisa
mostrou que 30% na média mundial e 40% dos entrevistados no Rio de Janeiro eram pacientes
somatizados. São, portanto, pacientes que passaram por diversos departamentos hospitalares,
realizaram vários exames a acabavam apresentando resultado normal em suas avaliações
laboratoriais, radiológicas, ultrassonográficas e clínicas.
Dentro deste panorama, observa-se que um terço dos pacientes que buscam
tratamento em hospitais gerais e prontos-socorros, somatizam e, este mesmo número realiza um
alto número de consultas e exames, além de, provavelmente serem operados de forma abusiva.
Com isso, há uma despesa com procedimentos médicos que pode vir a superar o total de
despesas dos outros dois terços, já que cada paciente somatizado repete os mesmos
procedimentos médicos várias vezes. 43

Paralelamente, é importante ressaltar que a formação dos profissionais da área da


saúde, muitas vezes, tem que priorizar em atender de acordo com as necessidades do mercado,
ou seja, realizar consultas rápidas e exames laboratoriais para garantir seu sustento.

Os profissionais que trabalham com psicossomática são, então, vistos pelo mercado
como uma alternativa de aumento de resolução com barateamento de custos para a prática
médica. Entretanto, a psicossomática ao ser vista como uma prática “fast-food”, principalmente,
pelas empresas médicas, pode vir a prejudicar o profissional da área, que acaba recebendo
propostas de trabalho que incluem fazer um diagnóstico rápido e sendo mal remunerado por
isso. Além de afetar os pacientes em grande escala em função de um atendimento deficitário
pelo profissional insatisfeito.

Riechelmann (1998) cita que um profissional de psicossomática, com o decorrer dos


anos, desenvolve uma fácil compreensão dos conteúdos emocionais que ocultam por trás das
queixas físicas. O problema não é o tempo externo de quanto dura a consulta, mas sim o tempo
interno do profissional ► o espaço dentro dele que está aberto e disponível para receber a
pessoa do paciente, que envolve sua percepção e sensibilidade durante a consulta para captar
do paciente conteúdos emocionais que estão escondidos pelas queixas físicas. Tal tempo
interno resulta de um treinamento e de uma habilitação em Psicossomática e é importantíssima
na atuação de profissionais da área da Psicologia e Psiquiatria.
9 A FORMAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MEDICINA PSICOSSOMÁTICA E
REFLEXÕES SOBRE A ÁREA DE ATUAÇÃO EM PSICOSSOMÁTICA

44
Foi fundada em 11 de setembro de 1965, pela iniciativa de uma comissão organizadora
formada por profissionais de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, entre eles: Abram
J. Eksterman (RJ), Danilo Perestrello (RJ), Helláido Franscisco Capisano (SP), José Fernandes
Pontes (SP), Milton Pecis Abramovich (RS), Oswaldo Arantes Pereira (RS), Precila Pinheiro (RS)
e Wilhelm Kenzler (SP).

Em seus dez primeiros anos, a presidência desta associação foi ocupada por Danilo
Perestrello, autor de um dos livros mais usados como referência na área da Psicossomática no
Brasil, chamado “A Medicina da Pessoa”, o qual é altamente recomendado para todos aqueles
que estão interessados em tomar contato com o tema e se aprofundar em seu estudo.

Segundo Riechelman (1998), o desenvolvimento da ABMP se deu em virtude dos


seguintes objetivos:

 Difundir a visão psicossomática de ser humano.


 Divulgar o processo de saúde e doença como forma de humanizar o atendimento
médico no Brasil.
 Apoiar, desenvolver, facilitar e divulgar pesquisas na área da medicina psicossomática.

A associação hoje se caracteriza por uma atuação multiprofissional, contando com:


médicos de quase todas as especialidades, psicólogos com diferentes abordagens, enfermeiros,
assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, entre outros.

Segundo Mello Filho (2003), a história da ABMP pode ser considerada vitoriosa,
entretanto como grande parte das organizações institucionais enfrentou crises, dificuldades e
passou por fases de pouca produção. Tais fatos repercutiram em críticas e reflexões sobre o seu
desenvolvimento, bem como seus acertos e erros.

Como já mencionado, a ABMP foi fundada por renomadas figuras da área médica
advindas de Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, que se juntaram a importantes figuras de
outros Estados, como Minas Gerais e Pernambuco, entre outros. Para Mello Filho (2003),
45
Perestrello e Eksterman e Capisano e Miller foram as grandes personalidades que incentivaram
o movimento da Psicossomática no Brasil, permitindo criar a Associação. Refere que a
capacidade organizacional de Eksterman permitiu à Psicossomática tornar-se uma entidade
física. Pouco depois da sua fundação, o próprio autor entrou para a ABMP. Dessa forma,
considera-se que Psicossomática nasceu sob a base de uma amizade.

Vale ressaltar que, em São Paulo, surgiu outro grupo muito ativo com os mesmos
objetivos, liderado por Fernandes Pontes, que atua em clínica geral e é Professor de Medicina. É
interessante assinalar que todos os profissionais que compunham ambos os grupos eram
professores de Medicina e/ou psicanalistas.

Conforme Mello Filho (2003), o primeiro problema que se apresentou foi a dificuldade
na relação entre os dois grupos de São Paulo, situação esta que começou a melhorar após o
Congresso no Rio de Janeiro, em 1982. Após este evento, o movimento se estruturou nas duas
grandes capitais e, em seguida, em Porto Alegre com mais intensidade.

A ABMP, em virtude da formação dos profissionais que a compunham, iniciou-se sob a


influência da Psicanálise, inspirada pelas concepções (anteriormente mencionadas) de Freud
sobre a histeria de conversão.

Enfatiza-se que o movimento de divulgação dos estudos da Psicossomática foi iniciado


na Psicanálise, pois na época somente esta possuía e propunha uma compreensão mais global
da doença, além de fornecer instrumentos como a psicoterapia para a prática clínica.

Ainda hoje, as teorias psicanalíticas continuam em voga na psicossomática


institucional, como é o caso da Escola de Psicossomática de Paris (IPSO).

Mello Filho (2003) aponta que com a finalidade de combater uma visão fortemente
psicanalista que “rotulava” pacientes que apresentavam determinadas doenças, como por
exemplo, pessoas com doenças musculoesqueléticas eram arrogantes, o autor e o Dr. Abram e
J. Eksterman, para evitar o efeito negativo que estas ideias poderiam ter nos psicólogos,
opuseram-se à divulgação de palestras, congressos e outros eventos provindos do Dr. Chiozza,
de Buenos Aires, que era o principal promotor destas concepções.

Outras abordagens também merecem destaque pela sua difusão, entre elas a
46
Psicossomática Junguiana, a qual tem como precursora a Dra. Denise Gimenez Ramos, no
Brasil. Segundo Ferreira (2004), a Dra. Denise desenvolveu e introduziu no país um estudo de
modelo psicológico em que os fenômenos devem ser observados como totalidades dinâmicas,
evolucionárias e criativas dentro de uma concepção entre a problemática psique-corpo, situando-
a no modelo científico-holístico da Psicossomática Junguiana.

O próprio Mello Filho (2003) cita que o objetivo maior do movimento da Psicossomática
é conquistar cada vez mais médicos em todo o mundo. Acredita-se que os estudos das teorias
psicossomáticas funcionavam como uma espécie de complemento do curso médico,
possibilitando uma formação integral do médico, visto que os cursos de medicina dominados
ainda permeados por uma visão fortemente biomédica não ofereciam. Dentro das próprias
universidades surgiram as disciplinas de Psicologia Médica para auxiliar a questão.

Observa-se que, antes da década de 1980, os médicos eram seguidos


tradicionalmente pelos psicólogos e enfermeiras. Os demais profissionais de saúde, não existiam
como uma classe atuante no movimento; os dentistas e assistentes sociais, apesar de serem
categorias organizadas funcionavam tradicionalmente apenas como apêndices médicos.

Apesar da abertura para estudos que tentavam reintegrar a ideia de mente-corpo,


todavia na medida em que a classe médica foi sendo sucateada pela previdência, Ministério da
Saúde ou rede conveniada, não houve mais interesse em se melhorar a relação médico-paciente
(uma das propostas da Psicossomática), passando o profissional a atender em consultas com
duração de apenas dez minutos. Desse modo, poucos profissionais trabalhavam dentro de uma
perspectiva psicossomática.

Mello Filho (2003) relata que já teve grupos com 40 pessoas na UFRJ, na década de
60, possui dificuldades para formar turmas que possuam interesse em se aperfeiçoar na área da
Psicossomática. Destaca que os enfermeiros estão procurando cada vez mais estudar o tema.
Para ele, os enfermeiros estão se afirmando como classe, libertando-se do domínio que os
acorrentava aos médicos, estão a cada dia mais tratando seus pacientes como pessoas globais
e interessados pelos aspectos psicológicos de suas práticas. Atualmente, percebemos este
movimento pelo alto número de pesquisas realizadas pela classe que envolvam temas
relacionados com a Psicologia.

47
Quanto aos psicólogos, Mello Filho (2003) coloca que a maioria ingressou na
Sociedade de Psicologia Hospitalar, criada ao perceberem que tinham diante de si uma imensa
casuística de pacientes psicossomáticos ou somatopsíquicos para tratar. A área da Psicologia
Hospitalar tem crescido rapidamente, promovendo diversos cursos e congressos pelo Brasil,
além de programas científicos de qualidade.

Há um imenso campo em comum entre a Medicina e a Psicologia, sendo necessária


uma abertura de diálogo entre ambas como entidades com muitos pontos de intersecção. Além
dos outros campos profissionais que ainda não se organizaram como entidades
psicossomáticas, mas que podem colaborar imensamente com o movimento, como os
enfermeiros, assistentes sociais, odontólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Somente desta
forma, irá se concretizar o ideal de transformar o movimento em verdadeira prática
interdisciplinar.

Mello Filho (2003) salienta que para o fato de que, de modo geral, profissionais como
ele, que são altamente atuantes na área da Psicossomática, considerados por muitos como
líderes, possuem personalidades narcísicas atuando dentro de um movimento no qual o
narcisismo só atrapalha. No seu ponto de vista, todos que atuam nesta área precisam
desenvolver muito senso de fraternidade e humildade para realizarem suas intenções com
sucesso. Neste sentido, todos os psicossomaticistas devem procurar sempre refletir sobre os
erros e acertos de suas condutas, reconhecendo e modificando os erros e aprendendo com os
acertos, para que estes surjam também em outras circunstâncias. Acima de tudo, reconhecer o
quanto se aprende com os pacientes e com os alunos, que têm muito a contribuir com uma visão
abrangente sobre os assuntos.

Mello Filho (2003) discorre também sobre a estrutura da ABMP. Explica que para
facilitar a gestão, há um deslocamento da sede nacional para a cidade do presidente eleito, que
funciona em consonância com o esqueleto que a sustenta, as regionais. De um modo geral, o
presidente é aquele que mais se destaca, eleito por aclamação. Esse compõe uma diretoria com
representantes dos vários Estados e com uma parte administrativa formada por nomes locais. A
eleição é realizada bianualmente, na vigência de um congresso nacional que representa o ponto
técnico-científico mais alto do movimento. A maioria dos presidentes foram médicos, pois as
demais categorias estão ainda pouco representadas na ABMP, com exceção dos psicólogos.

48
A princípio, o movimento organizava-se somente por meio da Diretoria Nacional, mas
com sua expansão, houve necessidade da fundação de seções regionais que possibilitassem a
construção de sedes extras nos diversos Estados e cidades do Brasil. Além do Rio de Janeiro,
São Paulo e Porto Alegre, as primeiras regionais fundadas foram em Salvador e Presidente
Prudente, por Abram Eksterman.

Na presidência de Mello Filho, as regionais de Belém do Pará, São Luiz, Recife,


Vitória, Londrina e Goiânia foram extintas. Frente à presidência da Regional do Recife, Samuel
Hulak, organizou uma rede de regionais por todo o nordeste, abrangendo Fortaleza, João
Pessoa, Maceió, Aracaju e Natal esta última por um trabalho realizado por José Roberto Siqueira
de Castro. Hulak também organizou o primeiro grande Congresso Nacional da ABMP em 1998,
no Recife.

Outra poderosa seção regional está localizada em Minas Gerais, em Belo Horizonte,
gerada à custa da liderança de Geraldo Caldeira. Lá, ocorre um importante curso de formação
em psicossomática e Caldeira tem um importante livro publicado sobre nossa matéria. Minas
Gerais tem ainda duas outras regionais, a Sul Mineira, dirigida por Cacilda Maciel, com sede em
Itajubá e a de Barbacena, sob a liderança de Sebastião Vidigal.

A fundação de regionais depende imensamente da capacidade de liderança de um


profissional de saúde em determinada cidade, de sua possibilidade de aglutinar pessoas e de
organizar um ideário científico que mantenha estas pessoas unidas e em contínua participação.
De modo frequente, há um núcleo dirigente em torno de cinco pessoas que organiza e sustenta
o movimento. Este flutua muito em torno da vida pessoal do presidente e do núcleo dirigente,
sendo vulnerável às crises e mudanças desse contexto. Possivelmente, estas são as maiores
dificuldades que o movimento vem enfrentando, as flutuações das regionais. Em contrapartida, a
direção nacional flutua com menos intensidade, pois seus membros, segundo Mello Filho (2003)
são mais preparados para lidar com as contingências pessoais, grupais e ideológicas do
movimento.

Um dos principais problemas apontados pelo autor é a dificuldade de comunicação


entre a sede nacional e as regionais. Menciona que no que se refere ao convívio institucional, há
três entidades coirmãs: a Psicologia, a Psiquiatria e a Psicanálise. Com a Psicologia hospitalar,
49
acredita que as carreiras são atualmente paralelas e precisa apenas haver mais interpretação.
Já a Psiquiatria criou recentemente a chamada Interconsulta Psiquiátrica, fazendo com que
alguns nomes da ABMP migrassem para exclusivamente esta área. Quanto à Psicanálise,
parece que ainda há uma maior distância, visto que, na maioria das vezes, não reconhece a
amplitude do movimento psicossomático. É preciso haver um real debate sobre esta situação de
“irmãos” distantes num mesmo espaço contíguo. A fim de diminuir esta distância, foi criado o
Conselho de ex-presidentes, órgão consultivo da Diretoria Nacional que opina em todas as
decisões importantes, desde a escolha de nomes até nos impasses institucionais, e durante as
eleições. Antes da criação do Conselho de ex-presidentes, assim que um presidente terminava
sua gestão, esta permanecia em uma espécie de limbo, ou seja, ficava meio dentro, meio fora do
movimento.

Hoje, não há mais nomes “aposentados” no movimento, pois há a ideia de aproveitar a


experiência, a sapiência e a criatividade destes. A cada dois anos são realizados congressos
intercalados com encontros de regionais em diferentes localidades do Brasil com o intuito de
promover disseminação do movimento.

Não há como negar como o movimento de psicossomática pulverizou-se entre os


psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros, homeopatas, acupunturistas,
terapeutas corporais, entre outros.

Contudo, a divulgação e a disseminação do movimento, continua na maior parte por


meio dos livros publicados por médicos como: “A Medicina da Pessoa”, de Danilo Perestrello;
“Concepção Psicossomática e Psicossomática Hoje”, de Júlio Mello Filho e “Psicossomática:
Teoria e Prática”, de Geraldo Caldeira.
Os congressos realizados pela ABMP têm como foco apresentar temas a serem
esmiuçados e temas secundários, que abrangem os principais tópicos da psicossomática na
atualidade. Uma parte importante de cada congresso é dedicada à apresentação de temas livres.

Mello Filho (2003) situa que em virtude da preocupação com a questão da divulgação
do movimento e com a ideologia predominante na Associação já há muitos anos os dirigentes
50
têm se reunido para discutir este problema. Para sancionar a dificuldade, foi então constituída
uma comissão presidida por Eugênio Campos, que elaborou uma proposta de criação de um
Curso Básico Nuclear (CBN). O curso é oferecido às regionais, privilegiando o modelo
interdisciplinar como ideologia e prática. O ensino de psicossomática é feito basicamente por
meio do estudo de casos clínicos, privilegiando as dimensões biológica, psicológica e social, por
meio da atuação de um médico, um psicólogo e um assistente social.

Outro tema que tem sido muito debatido nos últimos anos é o nome do movimento, as
designações propostas no debate são: Associação Brasileira de Psicossomática e Associação
Brasileira de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica. No primeiro objetivava-se excluir o
nome Medicina para facilitar as relações com outras áreas. E, no segundo, adicionar Psicologia
Médica, considerada um importantíssimo campo de atividades. Contudo, foi decidido que a
mesma nomenclatura seria mantida. A justificativa foi continuar mantendo a já conhecida
identidade. Assim, apesar de ainda ser uma entidade pequena, o movimento difundido pela
ABMP vem caminhando com diretorias comprometidas, dinâmicas e empreendedoras na área da
Psicossomática.
10 PSICOSSOMÁTICA: PESQUISAS E EVIDÊNCIAS CLÍNICAS

Como abordado nos módulos anteriores, o estudo da relação psique-corpo, da


51
importância da atuação das experiências emocionais, da personalidade e do estilo de vida sobre
a saúde remonta, como vimos, à Antiguidade. Atualmente, em virtude do avanço das pesquisas
na área da Psicossomática, nota-se fortemente a relação dos fatores citados com variados tipos
de doenças, bem como a sua evolução, que é igualmente encontrada nas mais diversas
observações clínicas.

Contudo, como podemos observar, a descoberta dos agentes patogênicos como causa
das doenças infecciosas, levou a adoção do modelo biomédico e/ou farmacológico como foco
das pesquisas. Foi a partir da década de 1970, que houve um ressurgimento do interesse pelo
estudo dos fatores emocionais nas doenças em geral, especialmente pelas doenças cardíacas,
autoimunes e no câncer. É importante ressaltar que este interesse tem sido progressivo e
acelerado, levando muitos pesquisadores a abordarem sobre a notoriedade das emoções em
seus estudos.

Ao se realizar uma pesquisa na área da Psicossomática, nota-se a riqueza e o


desenvolvimento da área, revelando dados bastante significativos. Citaremos aqui algumas
pesquisas e evidências clínicas que mostram a intersecção entre a psique e a mente nos
estudos psicossomáticos.

Para Myers e Benson (1992) podemos dividir as evidências em três categorias:

a) Correlações entre fatores psicológicos e efeitos fisiológicos, em que são


encontradas as pesquisas que tentam fazer uma conexão entre uma tipologia e
uma enfermidade. Ou por exemplo, a observação da resposta de relaxamento que
decorrem de padrões específicos de pensamento que resultam em alterações
fisiológicas (diminuição do consumo de oxigênio, eliminação do dióxido de carbono
e mudanças na pressão arterial).
b) Correlações entre um evento psicológico e um efeito biomolecular. Como no
caso dos linfócitos de viúvos enlutados que apresentam uma marcada redução de
atividade quando comparados com os dos sujeitos de uma amostra chamada de
grupo controle.
c) A intercomunicação entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico,
visto que as células imunológicas carregam receptores hormonais e substâncias 52
semelhantes ao hormônio provêm das células imunológicas. Tais pesquisas
sugerem fortemente a interação psicofisiológica no nível orgânico. Mais adiante
falaremos de alguns aspectos da Psiconeuroimunologia.

Trataremos aqui de pesquisas sobre doenças cardiovasculares, artrite reumatoide,


câncer – as quais estão centradas principalmente na primeira categoria e faremos também
algumas referências a pesquisas da segunda. Além disso, abordaremos sobre as evidências
clínicas na área da Psicossomática, comumente relacionadas com síndrome geral de
adaptação, síndrome da fadiga, distúrbios do sono, depressão, lesões por esforços
repetitivos (LER ou também conhecido como DORT, que significa distúrbio osteomuscular
relacionado com o trabalho) e diabetes, as quais serão mais bem trabalhadas no próximo
módulo. Ressalta-se que esta revisão não tem a menor pretensão de esgotar o vasto campo em
que se desenvolvem essas pesquisas, mas apenas elucidar ao estudante os fatores que mais se
destacaram nesse campo de estudo ainda em desenvolvimento.

10.1 DOENÇAS CARDIOVASCULARES X ASPECTOS PSICOLÓGICOS

Por meio da descrição dos fatores neurogenéticos envolvidos na origem das doenças
cardíacas coronarianas, Friedman e Rosenman (1974) deram início a um fértil campo de
pesquisas que constitui nos dias atuais a área com maior concentração de pesquisas científicas.
Ao estudarem pacientes cardíacos, os autores observaram que os mesmos apresentavam as
seguintes características:

 Impaciência;
 Comportamentos voltados para a excelência do desempenho de modo muito 53
determinado;
 Sentimentos exagerados de urgência de tempo;
 Envolvimento excessivo com o trabalho;
 Agressividade;
 Competitividade;
 Vigorosa atividade linguística e motora.

Para os autores, esse conjunto de comportamentos forma um tipo bem particular de


personalidade, denominado por eles de Tipo A, o qual possui uma ligação com as doenças
cardíacas.

Zumoff (1984) e outros autores indicam que os homens que pertencem ao Tipo A
apresentam elevado nível de excreção de testosterona glucuronide, o que explica elevada
incidência de doenças cardiovasculares neste grupo.

Diversos estudos foram realizados para diferenciar os pacientes cardíacos da


população normal (entenda-se aqui sem doenças cardiovasculares), como os testes de
personalidade MMPI (Multiple Multiphase Personality Inventory) e a CMHS (Cook-Medley
Hostility Scale), além de entrevistas estruturadas. À medida que os estudos foram se
aperfeiçoando, apenas uma característica tornou-se evidente: a hostilidade, a qual pode
“despertar” alguns dos comportamentos citados.

Conforme Dembroski (1985), Costa et al. (1987), Siegman, Dembroski e Ringel (1987),
podemos entender hostilidade como um modo de interação interpessoal que produz repulsa e/ou
não cooperação, que inclui expressões de arrogância, indelicadeza e mau humor. Segundo
Ramos (2006), foi descoberto que as pessoas com estas características elevadas, têm maior
dificuldade para se recuperar do estresse, com maior propensão a um aumento da pressão
arterial. A autora também menciona que alguns estudos revelam que sujeitos tanto com alto,
quanto com baixo grau de hostilidade manifestam diferenças quanto à reatividade cardiovascular
quando em grande conflito interpessoal.

Suarez e Williams (1990) propuseram que homens com elevada hostilidade têm
54
tendência a apresentarem maior pressão sistólica em momentos conflituosos que estejam
carregados de emoção, visto que reagem mais rapidamente com raiva e irritação. Neste sentido,
há uma propensão desta população masculina a ter doenças cardiovasculares. Em estudos
apresentados por Williams et al. (1991), Chesney et al. (1990) e Van Egeren e Sparrow (1990)
há evidências que sugerem uma alta ligação entre raiva e doenças cardiovasculares.
Engebretson e Matthews (1992), que pesquisaram homens entre 35 a 55 anos de idade, afirmam
que indivíduos hostis, que diariamente se envolvem em conflitos interpessoais têm mais chance
de desenvolver doenças deste tipo.

Russek et al. (1990) cita um estudo prospectivo de 35 anos de duração, efetuado pela
Universidade de Harvard, que averiguou junto a 126 estudantes universitários em laboratório a
resposta dos mesmos quando submetidos a situações de estresse. Constatou que a variável
mais confiável para o aumento da suscetibilidade a doenças cardiovasculares foi a de “alta
ansiedade”, definida como resultado de impulsos hostis projetados sobre os outros. O autor
também aponta que foram significativas as expressões intra e extrapunitivas associadas à culpa.

Almada et al. (1991) estudaram 1.871 homens empregados de meia-idade da Western


Electric Company utilizando o MMPI. O autor concluiu que o cinismo (descrito aqui como
antagonismo crônico, teimosia, caráter rude e vingativo) estava ligado aos que morreram em
razão de doenças cardiovasculares. Jamner et al. (1991) e Pope e Smith (1991), em virtude das
amplas pesquisas que realizaram, notaram que homens cronicamente hostis e mais defensivos
manifestaram maior reatividade cardiovascular e neuro-hormonal, fatores estes que podem
propiciar ou piorar uma doença cardiovascular. Outros estudos, tais como os de Jorgensen et al.
(2001) e Niaura et al. (2002) mostram que a hostilidade sozinha ou atrelada a uma maior
tendência ao isolamento social está relacionada com o desenvolvimento de doenças
cardiovasculares.
Desse modo, é provável que a hostilidade, entendida como a expressão de
pensamentos cínicos e degradantes, possa aumentar o risco do surgimento de doenças
cardiovasculares em virtude da resposta que ocorrerá frente aos eventos interpretados como
hostis, que frequentemente são de raiva. Gallancher et al. (1999), após a realização de
pesquisas sobre a incidência da raiva em correlação a doenças cardiovasculares, verificaram
que tanto a “raiva para fora” (expressão do sentimento contra outra pessoa durante um episódio 55
de raiva extrema), quanto a “raiva suprimida” (repressão ou não expressão do sentimento
durante o episódio que levaria o sujeito a sentir raiva) predisporiam o indivíduo a ter doenças
cardíacas isquêmicas.

Dentro dessa mesma perspectiva, Atchison e Condon (1993) indicaram que a


experiência de raiva súbita com explosão verbal de raiva eram os fatores psicológicos que mais
aumentavam a probabilidade de ocorrência de uma doença cardiovascular. Siegman et al.
(2000) verifica que a expressão da raiva de maneira explosiva unida ao autoritarismo são um
fator de risco cardiovascular em homens, enquanto que as expressões mais sutis, com desafio
indireto são fatores de risco cardiovascular em mulheres.

Dessa forma, parece haver uma nítida relação entre hostilidade, raiva e doenças
cardiovasculares, sendo que a hostilidade pode ser encarada como um fator de risco de infarto
do miocárdio e de morte. Tais resultados foram constatados em ambos os sexos (Lahad et al.,
1997; Chapud et al., 2002) e em diversas culturas, como na Dinamarca (Barefoot et al., 1995) e
no México (Gloria et al., 1996). Estes estudos nos levam a confirmar a natureza psicológica das
enfermidades, independentemente das características do meio cultural.

Com base nesses e em outros estudos, Ulmer e Friedman (1984) colocam que foram
desenvolvidas técnicas baseadas na abordagem comportamental para modificação do
comportamento e que têm por objetivo controlar ou eliminar todas as manifestações de
hostilidade com base no reforço, punição, exercícios respiratórios e aumento da autoestima.

Ramos (2006) que valida a importância dessas técnicas, ressalta a necessidade de se


trabalhar aspectos provindos do inconsciente, os quais ocorrem paralelamente aos
comportamentos de raiva e hostilidade. Somente desta maneira, acredita a autora, a cura pode
acontecer.
Há estudos que apontam que outras emoções negativas, como a depressão e a
ansiedade, também podem anteceder o início de síndromes coronarianas e influenciar o curso
destas doenças. Frasure-Smith et al. (1999) comprovaram que a depressão durante a internação
hospitalar após um infarto do miocárdio é um fator que predispõe à mortalidade cardíaca tanto
em homens, quanto em mulheres em um ano. Lespérance et al. (1996) observou que 40% dos
pacientes que haviam tido um histórico anterior de depressão morreram no máximo um ano 56
depois.

Pesquisas como essas nos levam a refletir sobre a depressão ser um fator de risco
considerável para a mortalidade e morbidade cardíaca dos pacientes, além de indicar dados
sobre a qualidade de vida destas pessoas.

FIGURA 12 - DOENÇAS CARDIOVASCULARES ATINGEM CADA VEZ MAIS JOVENS. CERCA


DE 1 MILHÃO DE BRASILEIROS POSSUI ALGUM TIPO DE PROBLEMA CARDIOVASCULAR
E A MAIORIA ESTÁ NA FAIXA DE 0 A 34 ANOS

FONTE: Disponível em: <portaldocoracao.uol.com.br/adm/interatividade>. Acesso em: 08 jan.


2013.
Strik et al. (2003) relatam que a ansiedade por si só pode ser considerada um fator que
predispõe complicações cardíacas. Os autores sugerem que pode haver relações significativas
entre estados emocionais e funcionamento do sistema nervoso parassimpático, sistema
imunológico e variabilidade da frequência cardíaca. De acordo com esta concepção, uma
redução da variabilidade da frequência cardíaca em razão da falta de habilidade para responder
por meio da variabilidade e complexidade fisiológica, pode tornar o organismo fisiologicamente 57
rígido e, possivelmente, mais vulnerável.

Horsten et al. (1999) destacam que a variabilidade da frequência cardíaca é menor em


pessoas que são socialmente isoladas e incapazes de se expressar, aliviando desta forma, a
raiva.

Atualmente, muito tem se falado sobre a repercussão que o apoio e os vínculos


sociais têm sobre as pessoas que sofrem com as doenças cardiovasculares. Segundo Gerin et
al. (1992), quando o indivíduo tem apoio emocional, a probabilidade de sofrer um infarto do
miocárdio durante as situações de estresse torna-se reduzida.

Assim, o apoio social parece oferecer uma estabilidade que auxilia o indivíduo nos
momentos de transição e estresse. Gore (1978) realizou um estudo com 110 homens que foram
demitidos de uma fábrica e descobriu que aqueles que tinham recebido um forte apoio de suas
esposas, familiares e amigos tiveram menos problemas cardíacos quando comparados àqueles
que vivenciaram esta situação isoladamente.

Um estudo realizado na Suécia por mais de dez anos examinou em 150 homens
suecos o significado dos riscos psicossociais e médicos, concluiu que havia um maior índice de
mortalidade entre aqueles que tinham escassez de apoio social ou eram isolados socialmente,
principalmente com relação aos indivíduos do Tipo A (ORTH-GÓMER E UNDÉN, 1990). Esta
pesquisa sugere que em virtude do comportamento hostil que estes indivíduos apresentam, os
mesmos rejeitam e/ou são rejeitados nos contatos sociais, possuindo pouco ou nenhum
relacionamento afetivo.

Frente a todos estes estudos, podemos notar que a descoberta do Tipo A estimulou
inúmeras pesquisas, estabelecendo uma relação entre os eventos psicológicos e as doenças do
coração. Dessa forma, os fatores comportamentais e psicossociais estão relacionados com as
doenças cardiovasculares. Todavia, apesar da literatura revelar um forte vínculo entre laços
sociais e risco cardiovascular, ainda não estão esclarecidos os mecanismos que atuam neste
processo. Ramos (2006) propõe que para entendermos melhor como atuam estes mecanismos,
não nos limitemos apenas aos comportamentos sociais e conscientes, mas também ao estudo
dos complexos mecanismos psíquicos do indivíduo que apresenta a enfermidade.

58

FIGURA 13 - CORAÇÃO

FONTE: Disponível em: <http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-


cardiovascular/imagens/coracao.jpg>. Acesso em: 08 jan. 2013.

10.2 ARTRITE REUMATOIDE X ASPECTOS PSICOLÓGICOS


Como já descrito por pesquisadores sobre o sistema imunológico, caso funcione de
modo acelerado, este pode não distinguir quais são as células do organismo e quais lhe são
estranhas. Inicia-se então um ataque do organismo contra ele mesmo, que dará origem às
chamadas doenças autoimunes, como a artrite reumatoide e o câncer.

Como destaca Ramos (2006), é significativo o número de estudos e pesquisas que


59
tratam sobre a possibilidade de que eventos mentais tenham efeito sobre o sistema imunológico
e suas prováveis disfunções. Trataremos a seguir sobre alguns estudos que trabalham com esta
ideia.

Tanto Solomon (1981) quanto Moos (1964) propõem que aquelas pessoas que
apresentam doenças ditas autoimunes são, de maneira geral, mais quietas, conformistas,
introvertidas, restritas na expressão de suas emoções, rígidas, confiáveis, hiperativas e
autossacrificadoras.

Conforme o relatório de Symmons et al. (2000) para a Organização Mundial da Saúde,


as mulheres têm duas vezes mais propensão de manifestarem estas doenças quando
comparadas aos homens. O estudo de Cabral et al. (1988) mostrou que as mulheres que são
acometidas por artrite reumatoide frequentemente apresentam padrão de comportamento
obsessivo e hiperativo com relação ao trabalho, principalmente se este se concentra no
ambiente doméstico. Nesta pesquisa, realizada com 59 mulheres, entre 18 a 55 anos, com artrite
reumatoide, concluiu-se que o ato de trabalhar representa para elas uma tentativa de fuga de
seus conflitos emocionais. Tal padrão é visto como resultado de uma personalidade com
características obsessivas, que primam pela organização, perseverança, procedimentos
metódicos e rigidez quanto a condutas e deveres. Os estudiosos interpretam os dados obtidos
como uma reação à baixa valorização do trabalho doméstico.

Diante dessas observações, podemos também pensar sobre como é a autoestima


destas mulheres. Será que além de fatores genéticos e hormonais, existe algum
descontentamento com relação à própria produção? Caso haja a não expressão do potencial
criativo em virtude das suas atividades ficarem restritas às tarefas domésticas ou trabalhos
repetitivos, o comportamento, como nos lembra Ramos (2006), pode passar a se manifestar em
padrões obsessivo-compulsivos, o qual apresenta-se sob a forma de uma preocupação
exagerada ao trabalho doméstico. Desta maneira, o efeito sobre a autoestima é imediato,
mesmo que possivelmente velado na forma de uma doença.

Reisine et al. (1998) investigaram a saúde das mulheres diagnosticadas com artrite
reumatoide e descobriram que as mulheres que estavam empregadas possuíam um quadro mais
saudável do que as desempregadas. Para os autores, o trabalho exerce um efeito benéfico para
60
a saúde de uma pessoa e um efeito protetor no alívio da dor, sofrimento psicológico e limitações
físicas.

Além dos fatores mencionados acima, outros estudos apontam que a artrite reumatoide
pode surgir após eventos estressantes graves, como o falecimento de uma pessoa próxima.
Marcenaro et al. (1999) chegaram a conclusão que eventos estressantes em pequena e larga
escala precederam o início da artrite reumatoide em 86% dos casos. Também há uma
correlação entre o estresse e o reaparecimento dos sintomas da enfermidade em 60% da
amostra.

Zautra et al. (1999) e Zautra e Smith (2001) notam que a depressão parece estar
relacionada a níveis mais altos de dor, ao mesmo tempo que os eventos estressantes estão
demasiadamente relacionados com irrupções da artrite reumatoide. Fatos que nos levam a
pensar sobre a influência de questões interpessoais sobre a manifestação da doença.

Sobre os tipos de tratamento psicológico, estes são normalmente avaliados com


relação a sua eficácia junto ao funcionamento imunológico. Atualmente, as intervenções estão
baseadas em técnicas cognitivas e comportamentais com foco sobre o controle do estresse.

Dentro desta linha, Bradley et al. (1987) se propuseram a estudar o efeito de diferentes
tipos de tratamento e consideraram que a intervenção cognitiva, usando técnicas de
relaxamento, foi capaz de diminuir níveis de reumatoide e, por consequência, a inflamação nas
articulações.

Em outra pesquisa, com 53 pacientes com artrite reumatoide em tempo inferior a dois
anos, Sharpe et al. (2001, 2003) descrevem que todos passaram por tratamento médico de
rotina e que metade da amostra também recebeu intervenção cognitivo-comportamental durante
oito semanas. Relatam que houve significativas melhoras no índice de depressão e nas funções
de articulação desses pacientes, além de uma redução nos níveis de proteína C-reativa.
Em um interessante estudo, Lindberg et al. (1996) submeteram 15 pacientes a terapias
de insigth analítico de 60 a 90 minutos semanais pelo período de 3,3 anos. Seis destes
pacientes apresentaram melhoras contínuas, tanto no nível psíquico, quanto no físico por longos
períodos pós-terapêuticos. Os outros pacientes também apresentaram melhoras significativas,
entretanto o curso da enfermidade tornou-se mais variável depois que questões emocionais mais
profundas foram tocadas. 61

Neste sentido, podemos concluir a respeito dos efeitos benéficos da psicoterapia sobre
o funcionamento orgânico das pessoas acometidas por artrite reumatoide.

Compartilhando da concepção de Ramos (2006), podemos também considerar que a


expressão orgânica dessa doença é encontrada na gradativa paralisação dos movimentos, a
qual simboliza uma lentidão psíquica e atua como mecanismo compensatório que força as
pacientes a pararem com suas atividades compulsivas e encaradas como sem propósito. A
autora afirma que estudos com pacientes homens poderão esclarecer se este é um padrão
exclusivo do gênero feminino.

FIGURA 14 - PACIENTE COM ARTRITE REUMATOIDE NOS PÉS

FONTE: Disponível em: <http://noticiasrx.blogspot.com.br/p/patologias.html>.

Acesso em: 08 jan. 2013.


FIGURA 15 - PACIENTE COM ARTRITE REUMATOIDE NAS MÃOS

62

FONTE: Disponível em: <http://www.assimsefaz.com.br/sabercomo/artrite-reumatoide-saiba-


mais>. Acesso em: 08 jan. 2013

10.3 CÂNCER X ASPECTOS PSICOLÓGICOS

São muitos os pesquisadores que tentam estabelecer relações entre o surgimento de


um câncer com causas psicológicas. Nota-se que em razão da alta complexidade das variáveis
envolvidas, os resultados ainda não são suficientemente conclusivos. Críticas à metodologia e
baixo número de sujeitos envolvidos nas pesquisas que dificultam a compreensão da
psicodinâmica envolvida, são os itens que mais podem nos impedir de obter dados mais
conclusivos.

Entretanto, muitos estudos são realizados a partir de observações importantes, visto


que há também a necessidade de considerar as pesquisas realizadas com base no empirismo
dos profissionais que se predispõem a examinar os casos que envolvem o início, percurso,
tratamento e acompanhamento pós-tratamento do câncer.

Encontramos na literatura científica uma infinidade de sugestões de que a raiva e sua


expressão auxiliam no despontamento e progressão do câncer.

Desde a década de 1950, encontramos casos descritivos sobre a maior sobrevivência 63


de pacientes que são capazes de expressar sentimentos negativos, como a raiva, do que
aqueles que apresentam depressão e resignação.

Um estudo realizado por Greer e Morris (1975) revelou que as mulheres com tumores
malignos tinham mais dificuldade de expressar a raiva quando comparadas às portadoras de
tumores benignos. Derogatis et al. (1979) observaram que pacientes com câncer considerados
mais adeptos ao tratamento pela equipe hospitalar, viviam por mais tempo.

Em outra pesquisa efetuada por Greer et al. (1979), os autores consideraram que entre
os pacientes com câncer de mama, aqueles que possuíam um "espírito de luta" viviam por
mais tempo. Alguns autores como Hislop et al. (1987) e Goldstein e Antoni (1989) obtiveram
resultados semelhantes com pacientes com câncer de mama.

Dattore et al. (1980) foram uns dos estudiosos que buscaram entender possíveis traços
de personalidade que pudessem explicar o tão citado "espírito de luta" entre os pacientes que
permaneciam vivos por mais tempo ou mesmo que superavam a doença. Para verificar se havia
uma personalidade mais propensa ao câncer, 3000 veteranos do exército dos Estados Unidos da
América do Norte, foram avaliados por meio do teste MMPI em um estudo prospectivo realizado
entre 1969 e 1978. Nessa amostra, 75 homens manifestaram câncer. Comparado ao grupo
controle, os pesquisadores descobriram que aqueles que desenvolveram o câncer tinham mais
tendências repressivas.

Temoshok et al. (1985) trabalharam conceitualmente as variáveis "expressivo versus


repressivo", elaborando o que posteriormente foi chamado de comportamento Tipo C. Neste
tipo, estão os ditos pacientes cooperativos, não assertivos, que procuram anular as
emoções negativas de suas vidas (principalmente a raiva) e se subjugam à autoridade
externa, ou seja, exibem um padrão de respostas opostas ao Tipo A. Os autores encontraram
uma ampla ligação entre as medidas de tumor e o Tipo C, principalmente em pacientes com
idade inferior a 55 anos.

Shafter et al. (1987) realizaram uma pesquisa com 1337 estudantes de Medicina do
sexo masculino de um hospital norte-americano, usando 14 medidas de personalidade.
Acompanhados por 30 anos com o intuito de determinar a taxa de sobrevivência entre os que
64
não desenvolveram câncer, foi constatado que aqueles que eram mais expressivos
emocionalmente conquistaram resultados mais favoráveis. O grupo composto por “homens
solitários” obteve os piores resultados e tinha uma probabilidade 16 vezes maior de
manifestarem câncer do que o grupo emocionalmente mais expressivo.

Bleiker et al. (1996) buscaram características de personalidade em quase 10 mil


mulheres, na Holanda, que foram submetidas à mamografia entre 1989 e 1990. Depois de seis
anos de observação e monitoramento, os estudiosos concluíram que havia nessas pacientes um
alto escore de não expressividade dos sentimentos.

Essas e outras pesquisas parecem revelar que indivíduos que reprimem suas emoções
prejudicam o organismo, que debilitado, diminui sua defesa imunológica, favorecendo o
surgimento do câncer.

Pennebaker et al. (1989) mostraram que a alta contenção da expressão emocional


gera um aumento da excitação em alguns canais autônomos, como por exemplo, aqueles que
correspondem à condução elétrica da pele. Os autores notaram que quando há um processo
inibitório mantido por um extenso período, estes canais funcionam como um estressor
cumulativo, aumentando a probabilidade de adoecer.

Muitos estudos contemporâneos investigam a relação entre estresse, depressão


e função imunológica. Aprofundaremos em um tópico de maneira mais específica a área da
Psiconeuroimunologia, mas já adiantaremos aqui alguns dados sobre a área que fazem uma
correlação com o surgimento do câncer.

Schleifer et al. (1983) realizaram testes no sistema imunológico de homens cujas


esposas estavam com câncer de mama avançado. Descobriram que após dois meses do óbito
das pacientes, as defesas imunológicas deles estavam significativamente deprimidas, retornando
ao normal quatro a catorze meses depois. Esse estudo apontou que a dificuldade de expressar a
dor provavelmente tornou o organismo mais suscetível, ao passo que aqueles homens que
vivenciaram seu luto, procurando manifestarem seus sentimentos, recuperaram-se mais
rapidamente. Pennebarker et al. (1988) confirmaram esta relação: incapacidade de expressar
sofrimento e um declínio da imunidade em suas pesquisas. Fato que apoia a hipótese de que em
pessoas enlutadas há um aumento no risco de câncer.

65
Geyer (1991, 1993) avaliou 33 mulheres com idades entre 25 e 60 anos que foram
diagnosticadas com tumor maligno e 59 com tumor benigno. Para o autor, as pacientes que
haviam passado por traumas mais severos, como perdas significativas, estavam no grupo de
pacientes com câncer. Baseado em uma escala, as pacientes acometidas por tumores malignos,
quando comparadas ao grupo controle, percebiam os eventos traumáticos que viveram como
quatro vezes mais grave. Outro dado relevante: o grupo que apresentava câncer possuía mais
dificuldades graves e crônicas.

Kvikstad et al. (1994) estudaram sobre a possibilidade do aumento do risco de câncer


após o falecimento de um cônjuge ou divórcio em um grupo de 600.000 mulheres norueguesas
nascidas entre 1935 e 1954. Entre elas, 4.491 manifestaram câncer de mama. Os resultados
obtidos não demonstram clara evidência com a morte do marido ou a experiência de um divórcio
como responsáveis pelo surgimento da enfermidade. Entretanto, outros resultados foram obtidos
por Levav et al. (2000) ao realizarem uma pesquisa com 6.284 judeus israelenses, cujos filhos
foram mortos durante a guerra de Yom Kipur ou em um acidente durante o período entre 1970 e
1977. Os pesquisadores observaram uma maior incidência de câncer linfático, hematopoiético,
melanoma e câncer no trato respiratório entre aqueles que perderam um filho, quando
comparados com a população local.

Dessa maneira, as pesquisas apontam que a inabilidade de lidar com o luto e mesmo a
dificuldade de contar com apoio social aumentam a probabilidade de incidência do câncer.
Contudo, variáveis como o modo como estes indivíduos lidam com o luto, religiosidade e
diferenças culturais não foram levadas em consideração. É importante citar que a expressão ou
repressão da dor possui repercussões internas diferentes para cada um de nós. Assim, estudos
que levam em conta o estresse devem buscar entender qual é a expressividade emocional e o
significado atribuído a um determinado evento pela própria pessoa.
Assim como eventos traumáticos e estresse, os estados depressivos são
constantemente observados em indivíduos que desenvolvem câncer. A seguir, citaremos
alguns estudos sobre a relação do câncer com a depressão.

Shekelle et al. (1980) e Persky et al. (1987) realizaram um estudo epidemiológico com
2.020 empregados de uma grande companhia, utilizando-se do teste MMPI. Os autores notaram
66
que ao longo de vinte anos de acompanhamento a incidência de morte causada por câncer era
duas vezes maior quando os sintomas depressivos estavam presentes.

Irwin et al. (1992) mostraram que em indivíduos deprimidos a atividade do


funcionamento do sistema imunológico estava demasiadamente reduzida, havendo uma
diminuição da atividade do linfócito NK (a atividade citotóxica desse linfócito está envolvida
no reconhecimento e no extermínio de células malignas ou infectadas por vírus). Dentro dessa
mesma linha, Andersen et al. (1998) constataram com 116 pacientes com câncer de mama
testadas após os procedimentos cirúrgicos, que o nível de estresse estava correlacionado tanto
com uma diminuição das citotoxidades das células NK, quanto ao rebaixamento das respostas
dos linfócitos proliferativos.

O que este e outros estudos apontam é que a depressão pode alterar o


funcionamento do sistema imunológico, bem como o estresse, todavia não podemos afirmar
que um câncer se desenvolverá, mas que um organismo com seu sistema de proteção
enfraquecido possibilita o surgimento da doença. Além disso, ressalta-se que a maioria dos
estudos publicados não especifica se a depressão a qual se referem é um estado, traço ou uma
doença propriamente dita.

Pennix et al. (1998) estudaram 4.825 norte-americanos acima dos 71 anos de idade
com diagnóstico de depressão, baseado na escala do Center for Epidemiological Studies (CES-
D). Após fazerem inúmeros ajustes com relação à idade, ao sexo, à raça, ao comprometimento
físico, a admissões hospitalares, ao consumo de substâncias como álcool e fumo, foi descoberto
que a depressão (crônica) estava associada a um significativo aumento de surgimento da
maioria dos tipos de câncer, independentemente do fator tabagismo. Concluíram que quando a
depressão está presente pelo período mínimo de seis anos, há um aumento geral do risco de
câncer.
Alguns estudos verificaram que experiências infantis podem estar associadas à
manifestação do câncer e depressão. Felitti et al. (1998) descobriram que quatro ou mais
eventos considerados traumáticos aumentam consideravelmente o risco do despontamento de
uma depressão ou câncer de qualquer tipo.

Outro fator que comumente é associado ao câncer é a desesperança, que é um dos


67
aspectos da depressão. Everson et al. (1996) estudaram a desesperança como uma das
características relacionadas à morte e à incidência de infarto do miocárdio e câncer em 2.428
finlandeses, com um instrumento que mede esse fator. Os autores descobriram que aqueles que
possuíam notas de moderadas a altas na escala de desesperança estavam mais propensos a ter
câncer.

Um dos grandes líderes em estudo neste campo, Spiegel, acredita que podemos
afirmar que uma depressão é um fator que está ligado sim a uma alta incidência de câncer
(SPIEGEL e GIESE-DAVIS, 2003). Conforme Spiegel (1996), a depressão:

a) Dificulta o paciente a lidar com o câncer;


b) Atrapalha a aderência do paciente ao tratamento médico;
c) Afeta as funções endócrinas e imunológicas que podem interferir na resistência;
d) Afeta as funções endócrinas e imunológicas que podem auxiliar na progressão do
tumor.

Os estudos sobre doenças cardiovasculares, artrite reumatoide e câncer elucidam que


a não expressividade de uma emoção considerada socialmente como negativa, como a raiva
(visto que expressa e canalizada, esta pode auxiliar muito no desenvolvimento do indivíduo)
decorrente de eventos traumáticos constitui um fator que colabora para uma alteração no
funcionamento do sistema imunológico, tornando-o vulnerável e predispondo-o a tumores
malignos.

O estresse sempre é um agravante quando não há a possibilidade de exprimir a


emoção a ele associada. Porém, as pesquisas que se propuseram a medir o efeito do estresse
no surgimento do câncer têm encontrado dificuldades metodológicas que levem a dados mais
conclusivos a respeito de sua influência.

Notamos também as crescentes pesquisas sobre a relação entre o sistema


imunológico, ocorrências sociais e efeitos psicológicos, que contribuem para o crescimento e
maior entendimento da Psicossomática e, mais do que tudo, levam pacientes e profissionais da
68
área da Saúde a compreenderem suas doenças de uma forma mais integrada, alcançando
realmente, quando possível, a cura.

10.4 EVIDÊNCIAS CLÍNICAS X PSICOSSOMÁTICA

Conforme França e Rodrigues (2007), em 1952, Wolff, um dos fundadores e presidente


da Sociedade Americana de Psicossomática, demonstrou que os distúrbios da relação do
indivíduo com o seu meio físico e psicossocial pode gerar emoções desprazerosas e auxiliar no
surgimento de inúmeras reações, inclusive na manifestação de doenças. Os autores citam dois
importantes estudos de Wolff que merecem destaque:

I. Sobre a resposta do organismo humano a situações que proporcionam insegurança


e hostilidade, em que foi percebido um aumento do fluxo sanguíneo, dos
movimentos e da secreção no estômago das pessoas estudadas.
II. Foram organizados dois grupos, um de sujeitos com distúrbios de estômago e outro
com pessoas sem comprometimento físico. Ambos foram submetidos a uma
situação de estresse agudo. Verificou-se que em ambos os grupos apresentaram
respostas físicas, como aumento da produção de ácido clorídrico, de muco e dos
movimentos do estômago e da produção da pepsina (que é a enzima do suco
gástrico que ajuda no processo digestório). Em termos dos processos mentais,
houve um aumento da ansiedade, da insegurança e de sentimentos de culpa,
entretanto, no grupo que já apresentava um comprometimento físico, as reações
são muito mais intensas.

Dessa maneira, Wolff demonstrou que o medo e a angústia podem aumentar as


69
tensões cardíacas, musculares e digestivas. Como exemplo esquemático para o que foi
levantado no estudo II, temos a seguinte configuração:

Conflito psíquico

ESTRESSE

 Queda da resistência da mucosa do estômago


 Aumento da secreção ácida
 Aparecimento da bactéria helicobacter pylori

Úlcera duodenal

Sabe-se hoje que há uma intensa luta do organismo para se adaptar ao seu meio
social e biológico. Deste modo, as reações de estresse fazem parte do cotidiano. Porém, Cooper
(1988) destacou alguns indicadores de estresse que demonstram a dinâmica psicossomática:
TABELA 1

Psicológicos Sociais Físicos

Queda no desempenho
Instabilidade emocional Úlceras
profissional

70
Ansiedade Ausências Alergias

Depressão Acidentes Asma

Agressividade Conflitos domésticos Enxaquecas

Irritabilidade Apatia Alcoolismo

Disfunções coronárias e
circulatórias

Frente a uma situação de doença, há a necessidade de se investigar as possíveis


situações de conflito que estão ocorrendo com o indivíduo, seja com ele mesmo, seja com a
circunstância a qual ele está submetido, visto que o conflito pode propiciar o advento de
emoções, as quais possuem potencial para originar transtornos nas funções orgânicas, que, ao
se tornarem repetitivos e persistentes, podem alterar a vida celular. O resultado deste processo
são lesões orgânicas que geram enfermidades. Para Selye (1965), um dos maiores estudiosos
sobre as reações de estresse, as doenças de adaptação são uma consequência do excesso de
hostilidade ou de uma demasiada submissão.

Segundo o Prof. José Fernandes Pontes (1987), um dos fundadores e ex-presidente


da Associação Brasileira de Psicossomática, além de conhecido como o percussor da
gastroenterologia brasileira, as emoções são fenômenos que ocorrem de forma simultânea no
corpo e nos processos mentais, expressando-se de modo concomitante via modificações das
funções motoras, secretoras e na irrigação dos órgãos. Segundo o autor, o conjunto de reações
é coordenado pelo sistema nervoso central e, fundamentalmente, por um conjunto de estruturas
cerebrais conhecidas como eixo hipotálamo-hipófise e sistema límbico.

FIGURA 16 - REAÇÕES PSICOSSOMÁTICAS: SIMULTANEIDADE CORPO E MENTE DAS


REAÇÕES PSICOSSOMÁTICAS 71

FONTE: França e Rodrigues. Reproduzido do livro Stress e Trabalho, uma abordagem


Psicossomática.

Foram identificados alguns sintomas decorrentes das funções dos órgãos, entre eles
alguns resultantes das alterações das funções das fibras musculares lisas que provocam:

 No aparelho digestório ► vômitos, diarreia, prisão de ventre, alterações da


motilidade do estômago e intestinos.
 No aparelho respiratório ► asma e bronquite.
 No aparelho genitourinário ► dor ao urinar, cólicas menstruais, colinas renais,
aumento da frequência urinária, vaginismo e ejaculação precoce.
 No aparelho circulatório ► hipertensão arterial, enxaqueca e cefaleia de tensão.
 Na pele ► neurodermites, eczemas e pruridos.

72
Caso a alteração seja principalmente secretora, há modificações:

 Na produção de muco;
 Da secreção das glândulas endócrinas;
 Na produção de hormônios do aparelho digestório;
 Da secreção da pancreática;
 Da secreção biliar;
 Da secreção entérica.

Caso haja demasiada alteração da função de irrigação dos órgãos, ocorre a diminuição
da resistência da mucosa, tornando o organismo vulnerável ao surgimento de agentes
agressivos, o que pode resultar em hemorragias e ulcerações.

As alterações dessas funções (motora, secretora e de irrigação), as quais se


expressam via sintomas mencionados, sucedem-se em combinações múltiplas, advindas das
mais diferentes situações vivenciadas por um indivíduo, como: raiva, medo, dor, mal-estar, fome,
humilhação, desalento, desesperança, tristeza, melancolia, depressão, entre outros. E suas
manifestações clínicas são as mais diversas.

Para França e Rodrigues (2007), há dados já comprovados cientificamente que não


podem ser mais ignorados e deveriam servir como um alerta às autoridades. De acordo com os
autores, a porcentagem de pessoas com problemas psiquiátricos chega a 25% nos consultórios
de clínica geral, sendo que alguns autores ingleses apontam que este número é bem maior,
cerca de 33 a 60% de pessoas são acometidas por doenças psiquiátricas entre a população,
visto que muitos não são diagnosticados nos serviços de atenção primária à saúde em razão de
diversos fatores. Os autores ingleses ressaltam que os sintomas mentais, muitas vezes, não são
relatados pelos pacientes e/ou não são investigados pelo médico no momento da consulta, como
uma forma de conluio, como se ambos decidissem por centrar o problema somente em razões
físicas. Alguns dados que chamam atenção:

 52% das pacientes ginecológicas possuem problemas psiquiátricos;


 75% dos pacientes que frequentam os serviços de cuidado primário nos EUA
apresentam problemas psicossomáticos decorrentes de estresse psicossocial;
73
 2 a 4% da população mundial têm problemas de ansiedade com a necessidade de
tratamento médico;
 Só na Suécia, 13% da população adulta apresentam problemas psiquiátricos de
ansiedade;
 Nos EUA, 5 a 10% da população sofrem com problemas psiquiátricos, sendo que a
maior causa de suicídios é decorrente da depressão;
 Pelas estimativas da Organização Mundial da Saúde, há 200 milhões de pessoas
no mundo com depressão, entretanto apenas 12 a 15% procuram tratamento, e isso
é particularmente verdadeiro ao nos referirmos aos pacientes portadores de
“síndromes psicossomáticas” ou que apresentam as conhecidas doenças de
adaptação;
 20% de consultas médicas no Reino Unido são de pessoas que apresentam
problemas depressivos, mas somente 1/6 recebem auxílio especializado. Esta
situação é extremamente grave, já que a depressão pode aumentar enormemente o
risco de morte, principalmente se estiver associada à outra doença;
 Pesquisas apontam que pacientes deprimidos ficam 25% do tempo a mais
internados no hospital e demoram bem mais para retornar às suas atividades
profissionais;
 Nos EUA, o custo financeiro da depressão (que inclui gastos que estão
relacionados desde o tratamento até as tentativas de suicídio e prejuízos da
atividade profissional) chega a 43,7 bilhões de dólares por ano;
 No Reino Unido, os gastos com o tratamento para a depressão chegam a 333
milhões de libras esterlinas;
 A prescrição de tranquilizantes cresceu cerca de 65% desde 2004, sendo que os
clínicos gerais e os cardiologistas são os maiores responsáveis por prescrever este
tipo de medicamento, o que mostra que a grande maioria dos pacientes vêm
buscando auxílio em consultórios não psiquiátricos, já que muitas vezes seu
sofrimento mostra-se principalmente no nível corpóreo.

Situações como as apontadas acima já não podem ser mais ignoradas.


Paulatinamente, a sociedade e a Medicina estão se livrando dos preconceitos que carregaram
74
durante séculos em relação às necessidades psíquicas dos seres humanos. Atualmente, a
Psicologia e a Psiquiatria movem-se em direção a esta sociedade, alçando uma maior amplitude
em seus campos de atuação.
11 ALGUMAS CONDIÇÕES CLÍNICAS E A PSICOSSOMÁTICA

Daremos continuidade ao estudo sobre as evidências clínicas levantadas no Módulo III


por meio de algumas condições clínicas que são frequentemente abordadas pela
Psicossomática, lembrando que dentro desta área nada é puramente psicológico, pois dores, 75
queixas e outras manifestações clínicas são respostas às condições de vida, combinadas com
características de personalidade e estado fisiológico de uma pessoa.

11.1 SÍNDROME GERAL DE ADAPTAÇÃO

Seyle (1947) deu o nome de Síndrome Geral de Adaptação ao conjunto de


modificações não específicas que ocorrem no organismo, frente a situações estressantes. Esta
consiste em três fases:

1ª. : reação de alarme



2ª. : fase de resistência

3ª. : fase de exaustão

Sendo que não é necessário que ela se desenvolva até a última fase para que haja
estresse e apenas nas situações mais graves há a exaustão.
Podemos compreender a reação de alarme como a reação de emergência descrita
pelo fisiologista Cannon, responsável pelo desenvolvimento das noções de homeostase (a qual
se refere ao equilíbrio dinâmico do organismo). Para ele, quando um animal era submetido a
estímulos ameaçadores que colocam em risco o seu equilíbrio orgânico como medo, fome, dor e
raiva, apresentava uma reação de emergência, em que se preparava tanto para a luta quanto
para a fuga.

Assim como os animais, os seres humanos apresentam uma reação de alarme quando
se deparam com situações que colocam em risco o seu equilíbrio físico. O resultado é um
aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, permitindo que o sangue circule de forma
76
mais rápida e chegue aos tecidos levando mais oxigênio e nutrientes. Além disso, ocorrem
contrações no baço, levando mais glóbulos vermelhos à corrente sanguínea, o que também
acarretará em mais oxigênio para o organismo; o fígado libera o açúcar armazenado no sangue
para ser utilizado como alimento, fato que por vez proporciona mais energia para os músculos;
há uma redistribuição sanguínea, com diminuição do fluxo da pele e vísceras e aumento para
músculos e cérebro, aumento da frequência respiratória e dilatação dos brônquios, o que
proporciona um aumento na captação de mais oxigênio pelo organismo; dilatação da pupila com
exoftalmia (que é uma reação que faz com que os olhos fiquem profusos e salientes como se
estivessem arregalados) para aumentar a acuidade visual; aumento de linfócitos, que são as
células do sangue responsáveis pela defesa do organismo, prontificadas para reparar possíveis
danos aos tecidos e, por último, ansiedade.

Resumidamente, temos as seguintes mudanças corpóreas na 1ª fase:

• ↑ frequência cardíaca;

• ↑ pressão arterial;

• ↑ glóbulos vermelhos;

• ↑ açúcar no sangue;

• Redistribuição do sangue;

• ↑ frequência respiratória;

• Dilatação dos brônquios;

• Alargamento da pupila;

• ↑ glóbulos brancos;
• Ansiedade.

Em um momento posterior temos a fase de resistência, que ocorre caso o agente


estressor perpetue a sua ação. Nela há um aumento do córtex da suprarrenal, atrofia do timo,
baço e demais estruturas linfáticas, aumento do número de glóbulos sanguíneos, diminuição do
número de eosinófilos (células sanguíneas relacionadas com a defesa do organismo), aumento
77
da concentração de cloro no sangue; ulcerações no aparelho digestório, surgimento de sintomas
como: irritabilidade, insônia, mudanças de humor (por exemplo: depressão) e diminuição da
libido sexual. Estudos apontam que a hipófise, que é uma pequena glândula situada bem
próxima ao hipotálamo, na base do cérebro, exerce um importante papel na manifestação
dessas reações, pois os animais que tiveram esta glândula extirpada não as manifestaram.
De forma esquemática, temos as seguintes mudanças corpóreas e psicológicas na 2ª
fase:

 ↑ do córtex da suprarrenal;
 Manifestação de ulcerações no aparelho digestório;
 Atrofia de algumas estruturas relacionadas à produção de células do sangue;
 Irritabilidade;
 Insônia;
 Mudanças no humor;
 ↓ libido sexual.

A terceira fase, a de exaustão, significa que pode ter havido uma falha no mecanismo
de adaptação. De modo parcial, há um retorno à fase de alarme e, posteriormente, caso o
estímulo estressor continue potente, poderá levar o indivíduo à morte. Assim, na exaustão
temos:

 Retorno parcial e breve à reação de alarme;


 Falha dos mecanismos adaptativos;
 Esgotamento por sobrecarga fisiológica;
 Morte.
 Segundo Seyle (1947), a Síndrome Geral de Adaptação representa um conjunto de
respostas inespecíficas que se manifestam no organismo diante de uma determinada
situação que exija do sujeito um esforço para se adaptar, inclusive psicossocial.
 França e Rodrigues (2007) concordam que o estresse resulta dos esforços para se
adaptar, entretanto, se a reação ao estímulo interpretado como agressor for muito 78
intenso, ou mesmo se o agente do estresse for muito potente e/ou prolongado,
consequentemente poderá haver uma doença ou uma maior predisposição para o
surgimento de uma doença, já que a Síndrome Geral de Adaptação instiga o
organismo a manifestar uma série de reações, deixando-o mais vulnerável às
enfermidades.
 Levy (1971), diretor do Karolinska Institute, instituição altamente conceituada e que é
encarregada da distribuição do Prêmio Nobel, acredita que apesar do ser humano ter a
capacidade de adaptar-se ao meio ambiente desfavorável, tal adaptação não se dá
impunemente. Para o autor, os agentes estressores psicossociais atuam de forma
efetiva sobre o organismo. Os estudos de Levy receberam e recebem reconhecimento
da Organização Mundial da Saúde até hoje, sendo que a OMS elegeu o Karolinska
Institute como instituição de referência no estudo do estresse psicossocial e saúde.
 Atualmente, a importância dos agentes psicossociais é demasiadamente reconhecida,
sendo tão potentes quanto os microrganismos no desencadeamento de doenças. Já
em 1986, a OMS afirmava que havia uma multiplicação das manifestações das
enfermidades, derivadas de desequilíbrios psicossociais, sendo apontados como a
razão mais frequente para as consultas médicas. Estima-se que chegariam a 50% em
regiões mais desenvolvidas, afetando todas as classes sociais.
 Podemos perceber os mecanismos envolvidos na Síndrome Geral de Adaptação mais
facilmente em doenças que envolvem componentes de esforço e adaptação como:
 Gastrite;
 Úlcera digestiva resultante do estresse;
 Crises de hemorroida;
 Alterações na pressão arterial;
 Artrites reumáticas e reumatoides;
 Doenças renais;
 Afecções dermatológicas de caráter inflamatório;
 Dificuldades emocionais;
 Alterações metabólicas;
 Perturbações e/ou dificuldades sexuais;
 Alergias; 79
 Infecções, entre outros.

11.2 ESTRESSE E PROCESSO DE AVALIAÇÃO

É importante frisar que reações de estresse são naturais e até mesmo necessárias na
vida, contudo frente a algumas circunstâncias elas podem ser nocivas ao funcionamento do
indivíduo. Assim, encontramos os seguintes tipos de estresse:

  Eustress: quando há tensão com equilíbrio entre esforço, tempo, realização e


resultados. É o “estresse positivo” de certa forma, pois o esforço para se adaptar produz
sensação de realização pessoal, bem-estar e satisfação das necessidades, mesmo que
em muitos momentos a pessoa teve de usar esforços inesperados. É um esforço sadio na
garantia da sobrevivência. Ao fazermos algo que nos agrade, nos sentimos valorizados
por isso e pelo esforço desprendido há o eustress.
  Distress: quando há tensão com rompimento do equilíbrio biopsicossocial por excesso
ou falta de esforço, incompatível com tempo, resultados e realização.

A tabela abaixo mostra três momentos diferentes em que se sucedem períodos de


distress e eustress.
TABELA 2
1) Distress 2) Eustress 3) Distress
Monotonia Área de melhor Sobrecarga
(menos esforço) desempenho e conforto (mais esforço)
Manifestações e sintomas de Manifestações e sintomas
enfermidades de enfermidades 80

Mesmo que muitos estímulos estressores sejam suficientemente potentes para


desencadear um distress, há diferenças individuais ou grupais de como um evento é percebido,
variando tanto da forma quantitativa, quanto qualitativa. É esse processo que irá mostrar se uma
situação é estressante ou não para a pessoa, ou seja, se ela implica em ameaça ou desafio.
Segundo França e Rodrigues (2007), ao fazer uma avaliação, realizamos uma
atividade mental que é em parte racional e, em parte, emocional. Contudo, a parte emocional,
não é necessariamente consciente. Fazemos um reconhecimento e uma estimativa da situação
presente, baseando-nos em experiências passadas que influenciaram não só na forma como
percebemos o estresse, como também na maneira como iremos enfrentá-las, além de apoiados
em experiências prévias, determinarmos o tipo e a intensidade da resposta que será produzida.
É uma avaliação que nos dá um significado para aquilo que estamos vivendo. Esse processo é
muito importante, pois um mesmo acontecimento estressante pode ser encarado com muita
alegria ou ser a causa de muito sofrimento.
Os fatores que influenciam o processo de avaliação de um indivíduo são:

a) Compromissos: aquilo que a pessoa julga importante. Quanto maior for o seu
comprometimento com o que está acontecendo, maior será o seu grau de compromisso
e isto poderá influenciar o seu processo de avaliação. À medida que se está
intensamente envolvido com o compromisso, pode-se sentir mais vulnerável, mas
também com mais impulso para desenvolver recursos frente aos obstáculos que possam
surgir.
b) Crenças: são baseadas em convicções sobre as mais diferentes circunstâncias da
realidade e acabam influenciando a percepção da pessoa sobre suas vivências.
c) Situações novas: caso uma situação seja identificada como potencialmente
estressante, principalmente se for associada a uma ocorrência anterior que gerou
ameaça ou dano, poderá despertar sentimentos que vão desde a incerteza até o temor.
d) Impossibilidade de prever um acontecimento: quando não se foi preparado para viver
uma situação dolorosa ou aversiva, as reações de estresse tendem a ser muito mais 81
intensas.
e) Incerteza de uma situação: quando não se sabe se um determinado evento irá ocorrer
ou não, maior será a capacidade dele suscitar uma sensação de ameaça, constituindo
um dos fatores mais potentes para impedir uma adaptação apropriada e pode levar à
imobilidade. Quanto maior a incerteza, maior será o tempo para a avaliação, o que
acaba por gerar sentimentos e atitudes conflituosas.
f) Proximidade de um acontecimento: quanto mais perto estiver um evento significativo,
maior será o impacto no processo de avaliação e, desta maneira, mais intensa pode ser
a reação ao estresse.
g) Duração do processo estressante: caso o evento estressante seja muito longo, as
consequências podem ser extremamente danosas ao organismo, levando ao desgaste e
ao esgotamento.
h) Incerteza sobre quando ocorrerá uma situação: principalmente se ele é interpretado
como ameaçador.
i) Ambiguidade: ocorre quando não se tem informações suficientes para avaliar um
evento. Surgem aqui dúvidas sobre como e quando proceder.

11.3 SÍNDROME DA FADIGA

Para o Royal College of Psysicians (Real Sociedade Médica) de Londres,


aproximadamente 50% da população mundial queixa-se de fadiga e, dentro deste percentual,
2,6% apresenta Síndrome da Fadiga Crônica. Desta forma, a fadiga é, provavelmente, um dos
sintomas mais comuns na Medicina e na Psicologia.
Segundo França e Rodrigues (2007), a síndrome da fadiga crônica é um dos
problemas de saúde mais complexos para ser tratado, visto que há inúmeras condições que
podem desencadear esta condição. Sendo uma síndrome, isto é, um conjunto de sinais e
sintomas que podem ser produzidos por mais de uma causa, a fadiga deve ser compreendida
em toda a sua amplitude.
A fadiga pode ser compreendida como um desgaste de energia física e mental, que
pode ser recuperada com repouso, nutrição adequada ou via orientação clínica. Entretanto, o 82
esforço prolongado e/ou repetitivo tem, conforme França e Rodrigues (2007), repercussões
sobre diversos sistemas do organismo. Os resultados são múltiplas alterações:

 Na parte orgânica: dores musculares e nas articulações, tonturas, dores de cabeça


em virtude da tensão emocional, perturbações no sono, sonolência excessiva,
alterações digestivas, gânglios sensíveis e dolorosos.
 Na parte orgânica relacionada à ansiedade: aceleração da frequência da pulsação,
sudorese, aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da frequência
respiratória, sensação de falta de ar (com ou sem aumento da pressão arterial),
palidez ou vermelhidão e diminuição da libido.
 Reações depressivas leves: diminuição de prazer nas atividades, afastamento de
parentes e amigos, falta de vontade, desatenção, irritação ou desânimo fácil, menor
interesse sexual e/ou menor prazer na relação com o parceiro, menor energia nas
tarefas.
 Introversão.
 Dificuldade em tomar decisões.
 Diminuição da capacidade de concentração.
 Comprometimento na memória.

Sabe-se que muitas doenças físicas podem provocar a Síndrome da Fadiga, como por
exemplo: distúrbios endócrinos em razão do hiperfuncionamento da tireoide, além de alterações
no metabolismo, principalmente aquelas que envolvem potássio e distúrbios do sono.
Hipocondria, depressão, psicose e outros distúrbios psiquiátricos também podem suscitar o
aparecimento da Síndrome da Fadiga.
Sendo assim, o diagnóstico dessa síndrome exige uma investigação minuciosa,
todavia percebemos que muitos autores afirmam que a causa mais comum é o estado de tensão
prolongada. França e Rodrigues (2007) citam o estudo da Síndrome Geral de Adaptação, o qual
demonstra que quando o indivíduo se esforça para se adaptar, ele pode produzir alterações no
funcionamento dos seus sistemas orgânicos, desta forma, estados prolongados e/ou intensos de
estresse podem colaborar para debilitar o organismo, deixando-o mais vulnerável nos mais
diversos ambientes (infecciosos ou não), provocando até mesmo problemas no sistema 83
glandular ou digestivo, entre outros.
O gráfico abaixo mostra as diferentes vias de alívio da tensão:

► Endógeno (interno)
1 - Estímulos → 2 - Provocam TENSÃO que é disparada
sob “coordenação” do Sistema Nervoso Central

► Exógeno (externo)
↓ ↓ ↓ ↓
3 - Aparelho mental Sist. Neuroendócrino Sist. Imunológico Sist. Nervoso
Vegetativo

Aparelho Musculoesquelético

Caso não haja a adequada descarga da tensão, parte dela será represada,
acumulando-se no aparelho mental e causando ainda mais tensão e, consequentemente,
desprazer e sofrimento, o que pode conduzir à fadiga. Outra parte da energia será disparada
para as vias locomotoras e vegetativas. Com a sobrecarga dessas vias, pode haver o surgimento
ou a reagudização de várias enfermidades.
A fim de sintetizar esta ideia, apresentamos o esquema abaixo referente à
fisiopatologia da fadiga:
► Endógeno (interno)

Estímulos → TENSÃO (Sistema Nervoso Central)


► Exógeno (externo)
↓ ↓
Aparelho mental 84
↓ ▼
Tensão,
Desprazer Aparelho Musculoesquelético

↓ ↓
FADIGA Sistema Nervoso Vegetativo
Sistema Neuroendócrino
Sistema Imunológico Intenso e persistente

↓ ↓
Sintomas psicossomáticos ou somatização

Ressalta-se que a regulação do organismo se dá por meio do sistema nervoso e suas


mais variadas funções, algumas são conhecidas como vegetativas, como a respiração,
circulação sanguínea, digestão, entre outras. No caso da Síndrome da Fadiga Crônica, o sistema
vegetativo atua de duas formas: a primeira sintetizada acima e a segunda ocorre quando parte
desse sistema vegetativo é estimulado por uma tarefa em que a pessoa esteja envolvida e esta
lhe desperta entusiasmo, prazer ou raiva, preparando o organismo para a ação. Contudo, caso a
atividade seja monótona ou desagradável, o indivíduo não é preparado física e emocionalmente
para desenvolvê-la, o que acaba criando uma falta de sintonia entre esforço e funções
vegetativas. Neste sentido, o indivíduo exige de si mesmo um determinado esforço, mas as
funções vegetativas permanecem em repouso. É diante destas condições que a Síndrome da
Fadiga se instala.
11.4 DISTÚRBIOS DO SONO

Provavelmente os distúrbios do sono sejam um dos sintomas mais comuns que uma
pessoa possa apresentar quando está diante de uma situação que exija dela empenho
(lembrando que não é o único fator etiológico para o problema). 85
Para França e Rodrigues (2007), os estudiosos desses distúrbios calculam que 1/3 da
população adulta apresenta dificuldades em relação a dormir, mas apenas 17% dessa população
buscam tratamento. Atualmente, esses distúrbios são divididos em:

a) Dificuldade em iniciar ou manter o sono (insônia);


b) Sonolência excessiva;
c) Distúrbios do padrão sono-vigília;
d) Parassonias.

Trataremos agora de cada uma delas:

a) A insônia pode decorrer de inúmeras enfermidades, sendo que o diagnóstico é


fundamental para o estabelecimento de um tratamento adequado. Alterações em nossos
cotidianos favorecem o seu aparecimento. Em muitos momentos, ela é transitória e relacionada
a um momento estressante e, neste caso, ela desaparece espontaneamente quando o problema
que a gerou foi solucionado. Em outros momentos ela é secundária a quadros psicológicos,
como: ansiedade, depressão, uso de drogas, abuso de álcool, cafeína, medicamentos, entre
outros, que podem ter efeito estimulante ao sistema nervoso central ou ainda quando ocorrem a
interrupção do uso de drogas depressoras sobre o sistema. A insônia pode ainda ser secundária
a problemas respiratórios que são induzidos pelo sono, como a apneia ou outros problemas
orgânicos de saúde, como distúrbios da tireoide e doenças que levam à dor crônica e, ainda por
movimentações musculares noturnas involuntárias.

b) As causas mais comuns de distúrbio de sonolência excessiva são conhecidas


como apneias do sono (50% dos casos em distúrbio de sonolência excessiva) e a narcolepsia
(20% dos casos em distúrbio de sonolência excessiva).
A apneia do sono caracteriza-se por interrupções na respiração durante o sono, sendo
que este distúrbio se dá fundamentalmente pela obstrução das vias aéreas respiratórias em
razão de um relaxamento dos músculos da orofaringe (parte situada na faringe, entre o palato
mole e a glote). Em virtude dessa obstrução, a pessoa desperta em poucos segundos, liberando
a obstrução em seguida e voltando a dormir em poucos segundos. Entretanto, este ciclo 86
obstrução x despertar repete-se inúmeras vezes durante a noite. Geralmente, como são
despertares muito breves, o indivíduo não se recorda deles pela manhã e não tem consciência
do seu distúrbio. As pessoas que sofrem de apneia do sono costumam ter sonolência diurna,
que pode ser constante, chegando até mesmo a dormirem em alguma atividade quando o
quadro é muito grave. Tal situação leva muitas pessoas com apneia a serem tachadas de
preguiçosas ou sem motivação por aqueles que estão a sua volta. Essa sonolência aparece
mesmo quando a pessoa conta que dormiu durante toda a noite e não melhora com cochilos
eventuais. Outra característica muito comum é o roncar. O método mais eficaz para diagnóstico
é a polissonografia existente nos laboratórios de sono. Via este aparelho, consegue-se detectar
a patologia. Destaca-se que também se deve estar atento aos problemas de depressão e uso de
drogas depressoras do sistema nervoso central, como álcool, barbitúricos, medicamentos para
epilepsia, anti-histamínicos, entre outras.
c) Distúrbios do padrão sono-vigília são comuns e crescentes em países
industrializados, principalmente, quando os trabalhadores são submetidos a constantes
mudanças de turno. Em consequência há um aumento do desgaste individual dos trabalhadores
em relação a sua atividade, cai o rendimento, surgem dificuldades para conciliar e manter o sono
e há um aumento na sensação de cansaço e sonolência. Paralelamente podem surgir no
organismo (que também funciona por ciclos) problemas como a secreção do cortisol plasmático
(hormônio que também está envolvido na Síndrome Geral de Adaptação), a secreção do
hormônio de crescimento e a temperatura corpórea, que favorecem o aparecimento de
problemas de saúde.
d) Dentro das parassonias está inclusa uma série de distúrbios, como terror noturno,
sonambulismo, alguns tipos de enxaqueca, bruxismo – também conhecido como “ranger de
dentes noturno” – que é muito mais intenso em situações de distress – provocando um desgaste
do esmalte dos dentes e também disfunções nas articulações da mandíbula.
11.5 DEPRESSÃO

Situações de desapontamento e momentos de tristeza são reações comuns na vida de


qualquer indivíduo que geralmente emergem de fatos cotidianos e são desencadeadas por
acontecimentos que envolvem luto e decepções atribuídas de importância pela pessoa. Nessas 87
situações há, contudo, um limite de tempo e intensidade que não deve ser confundido com o
transtorno de humor (ou transtorno afetivo) depressivo.
A depressão é uma doença que influencia as atitudes das pessoas frente as suas vidas
e das que estão ao seu redor. Altera sentimentos, reduz sensações de bem-estar, muda a forma
de pensar, interfere nas escolhas, altera o comportamento e as crenças de um ser humano.
Requer tratamento médico e psicológico porque interfere diretamente no organismo e na psique
do indivíduo, gerando, consequentemente, problemas de trato social para o sujeito. Os sintomas
depressivos são variados em intensidade (leve, moderada ou grave), o que pode levar a um
comprometimento severo na vida das pessoas que apresentam o problema.

Os principais sinais e sintomas são:

a) Tristeza ou irritação a maior parte do dia ou quase todos os dias;


b) Perda de interesse por atividades que antes eram agradáveis durante a maior parte do
dia ou quase todos os dias;
c) Mudanças súbitas no apetite ou peso sem explicação;
d) Insônia ou necessidade de sono aumentada;
e) Agitação ou prostração – observada pelos outros;
f) Sensação de cansaço constante ou perda de energia;
g) Sentimentos frequentes de inferioridade e culpa;
h) Dificuldade de concentração e em tomar decisões;
i) Pensamentos frequentes de morte ou suicídio.

Ressalta-se que para receber o diagnóstico de depressão a pessoa deve preencher,


pelo tempo mínimo de duas semanas, pelo menos quatro desses itens, sendo que os itens a e b
devem estar necessariamente presentes. O item i geralmente aponta para uma depressão de
grau mais grave.
Por ser uma doença que afeta o humor (em graus que vão da tristeza à melancolia), a
disposição, o estado de ânimo, além da qualidade, as perspectivas de vida, as atitudes e até o
funcionamento do organismo, a depressão recebe uma considerável atenção da Psicossomática.
Gulledge e Calabrese (1988) reuniram pesquisas que apontam que cerca de 20% das
mulheres e 8 a 12% dos homens provavelmente apresentarão pelo menos um episódio de 88
transtorno depressivo durante a vida. Apesar do alto índice, segundo Kaplan et al. (1980) apenas
20 a 25% dos pacientes com depressão recebem atenção médica e psicológica adequadas.
É um estado que compromete as atividades profissionais e de relacionamento pessoal,
visto que, o indivíduo não consegue desenvolver suas funções de maneira afetiva, apresenta
dificuldade de concentração, cansaço, diminuição da libido, diminuição da autoestima, crises de
angústia e lentificação do pensamento e/ou movimentos.
Inúmeras são as causas que propiciam o surgimento da depressão, entre elas:
a) Para a Psicanálise, em que temos como os principais expoentes Sigmund Freud e
Melaine Klein, o estado depressivo é causado na relação que, ainda bebê, o indivíduo
estabelece com os chamados objetos primordiais, que mais tarde serão representados pelos
objetos significativos como pessoas próximas, ideais, status, entre outros. Segundo
Dalgalarrondo (2000), para Freud ao se perder um objeto significativo o sujeito tende, para não
perdê-lo totalmente, a identificar-se com ele de forma narcísica e a introjetá-lo ao seu próprio eu.
Caso este objeto fosse ao mesmo tempo amado, mas inconscientemente odiado (fato
denominado de investimento libidinal ambivalente) pela pessoa, o rancor e o ódio inconscientes
que guardava pelo objeto tenderia a ser revertido sobre o próprio eu expressando-se sob a forma
de depressão.
Já para Klein, segundo Dalgalarrondo (2000), os afetos estão intimamente associados
a fantasias primitivas e às denominadas relações de objetos (por objeto entendam-se
representações mentais, que na maior parte das vezes são inconscientes de pessoas ou
personagens reais ou fantasiados, completos ou parciais). Nessa concepção, haveria afetos
primários primitivos no bebê, como o ódio, a inveja, o medo de ser retaliado, entre outros, assim
como afetos que demonstrariam uma maior maturidade psíquica como gratidão, reparação e
amor. Dentro desta ótica os afetos resultariam, em grande parte do tipo de qualidade das
relações do indivíduo com os seus objetos internos (tanto conscientes quanto inconscientes).
Assim, as fantasias de ataque invejoso e destrutivo a objetos internos em função da voracidade
e/ou destrutividade, dependendo da fase em que o bebê se encontra, gerariam temores de
retaliação que mais tarde se converteria em depressão. Nesse sentido, para a Psicanálise,
quando a agressão não é suficientemente dirigida ao meio, esta é introjetada e volta-se para o
indivíduo posteriormente por meio de estados depressivos.

b) Já para abordagem Comportamental, a depressão decorreria de falhas nos 89


mecanismos de reforço que levariam a respostas mal adaptadas, bem como à diminuição ou até
mesmo à extinção de respostas adaptativas. Há também casos em que a pessoa só recebe
atenção por parte dos amigos, parentes e cônjuge quando está doente, fato que reforça
positivamente a manutenção do comportamento. Dentro desta linha de atuação, pode ter
ocorrido muitas vezes um excesso de punição e uma escassa gratificação que auxiliou no
surgimento de uma depressão.

c) Segundo a abordagem Cognitiva, a depressão decorre de pensamentos negativos


e autodestrutivos que a pessoa assimilou. Tais pensamentos não são, portanto, um mero
sintoma, mas um importante fator na manutenção do quadro clínico.

d) Em termos biológicos, a depressão decorre de um desequilíbrio das aminas


biogenéticas, especialmente nos neurotransmissores químicos: norepinefrina, serotonina,
noradrenalina. Frente a um estresse, a pessoa pode ter uma mobilização inadequada ou
excessiva de neurotransmissores, como a noradrenalina, que pode causar problemas nos
receptores noradrenérgicos que exercem um importante papel no humor da pessoa. Na
depressão ocorre uma falha no sistema serotoninérgico, o qual modula respostas contra eventos
aversivos continuados e proporciona uma melhor vivência destes eventos.
Atualmente, entende-se que há uma mescla de todas estas visões (biológica
psicológica e social) e o resultado é a apresentação de um quadro depressivo. Provavelmente
também há uma vulnerabilidade do sujeito para ter a doença, além de dificuldades ou ausência
de suporte social, muitos têm a perda da mãe (ou cuidador principal) na primeira infância e baixa
autoestima. Outros fatores igualmente observados são: dificuldade em lidar com experiências de
vida (como morte, perda do emprego, fim de relacionamento, entre outras), abuso de drogas e
álcool, alguns medicamentos ou doenças que propiciam o surgimento da depressão, mudanças
hormonais em mulheres, pós-parto, histórico familiar de depressão, câncer, Parkinson, Alzheimer
e esclerose.
O tratamento para uma doença como esta envolve tanto antidepressivos quanto
psicoterapia. Enquanto o medicamento ajuda a controlar os sintomas, o acompanhamento
psicológico atua como suporte emocional e auxilia na reformulação do pensamento e cognição
do paciente. Os dois métodos combinados garantem 80% de recuperação dos casos de 90
depressão e, o que é mais importante, voltam a proporcionar qualidade de vida ao indivíduo.

11.6 LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS – LER

As lesões por esforços repetitivos, a conhecida LER, é considerada uma importante


patologia que envolve estresse e atividade, principalmente se esta for o trabalho. Segundo Codo
(1995), a LER pode ser considerada a metáfora das condições de trabalho contemporâneas,
visto que demonstra como o exercício da atividade incessante pode prejudicar o organismo.
A fim de compreendermos a LER, é importante frisar que no decorrer do seu
desenvolvimento, o ser humano constrói e estrutura formas, tanto corpóreas, quanto mentais na
sua maneira de ser e reagir aos mais diferentes estímulos aos quais possa ser submetido,
sempre com a intenção de manter o seu organismo em equilíbrio constante. Como apontado por
França e Rodrigues (2007), a pessoa é o resultado das inúmeras experiências pelas quais foi
submetida. Ao reagir a um impacto do seu cotidiano, o seu organismo tende nesse processo a
voltar ao equilíbrio. Entretanto, apesar desses impactos fazerem parte da vida, as tensões que
eles promovem atuam e modificam o corpo. Dessa maneira, a metáfora a qual se refere Codo
está dentro desta perspectiva.
A LER é considerada por muitos estudiosos como uma epidemia. No Estado de
Massachusetts, quase metade dos custos distribuídos para doenças ocupacionais (cerca de 2,5
milhões de dólares) é destinado ao tratamento de pessoas que são acometidas por esta
enfermidade.
Conforme Mattar e Azze (1995), a LER apresenta-se de modo mais frequente como:
dor mal definida, de intensidade variável, a qual pode levar à impotência funcional, sendo que
nem sempre é bem localizada, apesar de que sinais e sintomas inflamatórios em articulações
nas mãos e punho podem ser encontrados.
A causa do seu surgimento gera muita controvérsia. Alguns autores reconhecem que
existem fatores ligados à organização do trabalho, o qual fez com que o trabalhador realizasse 91
um maior número de movimentos repetitivos e/ou movimentos de força usando o membro
superior. Contudo, os exames complementares com Raios X, tomografia, entre outros,
costumam não revelar muitas alterações que justifiquem a presença dos sintomas citados acima.

FIGURA 17 - PONTOS SUSCETÍVEIS AO SURGIMENTO DA LER

FONTE: Disponível em:<http://www.chapadinhaanuncios.com.br/2011/01/ler-lesao-por-esforco-


repetitivo.html>. Acesso em: 08 jan. 2013
A LER abrange um grupo de comprometimentos que recai fundamentalmente sobre os
membros superiores, como a tenossinovite. Primeiramente, como sugerido pelo desenho acima,
ela foi muito diagnosticada entre os digitadores, mas atualmente já é detectada em qualquer
trabalhador que exerça funções de caráter repetitivo.
Sua natureza etiológica pode ser um exemplo para a abordagem Psicossomática 92
graças a seu caráter multifatorial. Segundo França e Rodrigues (2007), esta parece ser uma das
grandes dificuldades da Medicina em tentar entender a patologia em função de seu modelo,
muitas vezes, biomédico. Para os autores, a LER é somática em razão de seus aspectos
fisiopatológicos; psíquica porque envolve características de personalidade do indivíduo e social
porque se dá em relação a uma organização e divisão do trabalho.
Caso o fator causal fosse somente os esforços realizados de modo repetitivo, como a
terminologia propõe, todos os trabalhadores submetidos a esse tipo de atividade manifestariam
este tipo de doença, todavia não é isso que se observa. Os fatos apontam que devemos ter um
olhar cuidadoso sobre a LER e observá-la sempre dentro de uma perspectiva mais ampla, como
sugere a Psicossomática.
Almeida (1995) descreve os portadores de LER como pessoas perfeccionistas que não
admitem falhas, apresentam a necessidade de transpor limites, de serem reconhecidas, de
ocultar erros do passado, apresentam grande insatisfação pessoal, demasiada preocupação com
a produção (tanto no que se refere à qualidade, quanto em quantidade) e dificuldade em admitir
sentimentos de impotência. Mas a tentativa de se caracterizar o perfil psicológico dos indivíduos
acometidos por LER, conforme França e Rodrigues (2007), não agrega muito ao nosso
conhecimento, visto que encontramos as características descritas em muitas outras patologias e
em trabalhadores que exercem outros tipos de função. Entretanto, não podemos negar as
contribuições de Almeida no que se refere à maneira como o trabalhador se relaciona com o seu
trabalho. Para esta autora, o campo dos conflitos e dos processos patológicos não se restringe
aos limites que a pele exerce para o ser humano, os processos sociais devem ser
compreendidos como inseridos dentro de um contexto interpessoal e socioeconômico-cultural.
Dessa maneira, diante de um trabalho repetitivo e burocratizado, que
consequentemente, dificulta a expressão da criatividade, a rotina impossibilita a atuação do
trabalhador de forma que o mesmo possa também se transformar a partir dele. O resultado é um
indivíduo com uma autoestima abalada, que exerce um trabalho desinteressante ou sem
importância, além de não ser reconhecido socialmente e o qual não cria uma identidade para
com ele. Diante desses aspectos, a dignidade do trabalhador fica extremamente abalada,
levando-o muitas vezes à frustração, raiva e sofrimento.
França e Rodrigues (2007) colocam que quando uma pessoa sente que não pode lidar
de forma adequada com a subjetividade e sua expressão, os mecanismos de defesa (ou
enfrentamento) podem ser ineficazes ou inadequados. O resultado é a manifestação de uma 93
enfermidade, já que a energia que foi mobilizada pelo estresse, resultado dessa condição, não
foi consumida de forma eficaz.
A LER, pode ser exemplo de uma doença que remete a uma metáfora das relações de
trabalho da contemporaneidade, em que há uma desvalorização do trabalho humano em
detrimento da máquina. Em resposta a esta desvalorização, reações psicossomáticas são
“criadas”, que repetidas e/ou intensas originam doenças como a LER.
11.7 DIABETES

O diabetes mellitus é referido como o transtorno endócrino mais frequente pelos


pesquisadores. Em 1983, acometia cerca de 11 milhões de pessoas nos EUA, em 1995, chegou
à casa dos 16 milhões. É uma enfermidade que surge da alteração da produção de insulina pelo
pâncreas. Tal hormônio tem como função transformar o açúcar que está presente no sangue em
energia. Os sintomas mais comuns são:

 Muita sede;
 Aumento de sudorese e do apetite;
 Vontade de urinar diversas vezes;
 Fadiga;
 Perda de peso (mesmo sentindo mais fome e comendo mais do que o habitual);
 Náuseas, que podem vir acompanhadas de vômito;
 Visão embaçada, turva ou borrada;
 Infecções repetidas na pele ou mucosas;
 Machucados que demoram a cicatrizar;
 Dores nas pernas por causa da má circulação;
 Na mulher, há um aumento das infecções;
 No homem, impotência.

Conhecido há muitos anos, somente na década de 1920, quando a insulina foi


descoberta, o seu tratamento foi aprimorado. Em função do seu quadro clínico, os médicos
classificam o diabetes em Tipo I e Tipo II.
No Tipo I, encontram-se as pessoas que são dependentes completamente do 94
fornecimento de insulina, visto que o pâncreas secreta pouca ou nenhuma insulina. Geralmente
os adolescentes estão dentro desta classificação, a doença é conhecida então como diabetes
juvenil.
Já no Tipo II, os diabéticos produzem insulina mesmo que de forma não eficiente. O
problema, neste caso, advém da dificuldade do organismo em produzir de maneira adequada
esse hormônio. É mais comum em adultos com idade superior a 40 anos e, muitas vezes, está
ligada ao excesso de peso, ao sedentarismo e ao estresse, acometendo cerca de 90% dos
portadores de diabetes. Uma forma muito similar ao diabetes Tipo II pode ocorrer com algumas
grávidas. Apesar de a doença ser considerada transitória nesta situação, a mulher merece
cuidados especiais, principalmente em função da gravidez.
Segundo o site da Sociedade Brasileira de Diabetes, em alguns casos não há
sintomas. Isto ocorre com maior frequência no diabetes Tipo II. Neste caso, a pessoa pode
passar muitos meses, às vezes anos, para descobrir a doença. Os sintomas, muitas vezes, são
sutis, como formigamento nas mãos e pés. Portanto, conforme proposto pelo site, é importante
pesquisar diabetes em todas as pessoas com mais de 40 anos de idade. Assim, toda pessoa
que estiver dentro dos critérios descritos abaixo pode se considerar como potencialmente
diabética (Tipo II):

 Peso acima do normal (para a sua altura e idade);


 Antecedentes hereditários da doença na família;
 Mais de 40 anos;
 Níveis de pressão arterial acima de 140/90 mmhg;
 Níveis de colesterol HDL ao redor de 35 mg/dl ou níveis de triglicérides de 250 mg/dl
ou acima;
 Vida sedentária;
 Momento de vida ou atividade que gere estresse;
 Nível de glicemia nos limites máximos ou próximos a ele.

São vários os cuidados que o paciente com diabetes deve assumir, entre eles:
acompanhamento médico frequente de um especialista da área; dietas especiais prescritas sob
95
supervisão médica; eventualmente o uso de medicamentos e exercer uma atividade física, o que
aumenta a captação de glicose pelo músculo e nessa ação coloca em funcionamento os
mecanismos que transformam a glicose em energia para o organismo.
O controle de glicemia (que corresponde à concentração de açúcar no sangue) deve
ser realizado periodicamente. A qualidade desses cuidados é de fundamental importância para o
tipo de diabetes que será desenvolvido, além de que asseguram maior qualidade de vida e
praticamente sem grandes complicações ou consequências em longo prazo. Caso não seguidas
as devidas recomendações, os resultados podem ser extremamente graves. Os controles
citados têm por finalidade evitar que o paciente apresente hipoglicemia, quando o açúcar
sanguíneo apresenta-se em concentração inferior à apropriada para o bom funcionamento do
organismo. Para que isso se resolva, basta que o paciente ingira alguma quantidade de açúcar
ou glicose, devendo consultar um médico posteriormente para adequar o seu medicamento e a
sua alimentação.
Um acontecimento mais grave que pode ocorrer com o diabético é a cetoacidose, a
qual corresponde a um acúmulo de substâncias ácidas (corpos cetônicos) na corrente
sanguínea. Na maioria das vezes, ocorre em diabetes Tipo I e significa que a insulina que o
paciente recebe por meio da medicação injetável não está sendo suficiente, então o organismo
começa a buscar outras fontes para captar energia, como a gordura e músculos – o que pode
levar o indivíduo ao coma. França e Rodrigues (2007) mencionam que são diversas as causas
que podem provocar um desequilíbrio entre a insulina e a glicose, como o estresse
psicológico e físico.
Em longo prazo, as complicações provocadas pelo diabetes podem ser:

a) Retinopatia diabética, que é uma alteração na retina e surge por alterações nas
pequenas arteríolas que a suprem de sangue.
b) Pacientes que apresentam diabetes há mais de 30 anos tendem a manifestar algum
grau de retinopatia diabética e também são mais propensos a terem cataratas e
glaucomas.
c) Comprometimento do sistema nervoso, tanto periférico como central.
d) Funcionamento renal prejudicado.
e) Sistema cardiovascular comprometido, com tendência ao aumento da pressão 96
arterial e maior vulnerabilidade a infartos do miocárdio.
f) Maior possibilidade de apresentarem problemas periodentais.
g) Menor resistência a infecções.
h) Cortes e ferimentos tendem a cicatrizar com maior dificuldade e mais lentamente.
i) Dificuldades de circulação, o que favorece o desenvolvimento de úlceras de pele,
cãibras e gangrenas.
j) Caso haja alteração nas arteríolas, podem surgir complicações renais que
influenciam na falência das funções dos rins.
Os pesquisadores de portadores de diabetes e os médicos especialistas na área têm
considerado necessário um enfoque sobre a depressão. Notam que muitos diabéticos
apresentam quadros depressivos acentuados. É praticamente um consenso de que a melhora no
quadro depressivo contribui para a melhora no quadro orgânico e que determinados
antidepressivos colaboram no tratamento da diabetes, pois auxiliam no controle da concentração
de açúcar na corrente sanguínea.
De certa forma, a depressão colabora para um controle deficiente sobre a glicose e seu
tratamento não só melhora a qualidade de vida do portador de diabetes, como também influencia
na evolução do quadro de diabetes. Por outro lado, estudos mostram que o estresse interfere na
produção da insulina pelo pâncreas e, deste modo, nas taxas de açúcar no sangue.

11.8 CONSIDERAÇÕES SOBRE A PSICONEUROIMUNOLOGIA

Agora vamos falar de um ramo da ciência que, por mais que importantes pesquisas e
evidências clínicas caminhem para ela, esta ainda não é considerada como devidamente
importante. A Psiconeuroimunologia, a área da ciência que relaciona o Psiquismo, Neurologia e
Imunologia, ou seja, é o campo de estudo que compreende a interação do psiquismo no sistema
nervoso e sua influência sobre a imunidade e, por consequência, da saúde do ser humano de
uma forma geral.
Para compreender como se dá essa interação, não é necessário gastar muito fosfato,
nem mesmo fazer longas pesquisas em livros e sites de busca. Basta que você se recorde da 97
última vez que ficou doente. Procure lembrar-se dos fatos que antecederam a sua doença.
Frequentemente, as doenças são precedidas de situações que geraram desgaste emocional,
preocupações ou conflitos. Então, como aponta Quilici (2001), quando achamos que tudo irá se
acomodar vem a doença. Pode ser gripe, alergia, gastrite, herpes, pneumonia, entre tantas
outras. Isso ocorre porque, frente a uma tensão, o indivíduo fica abalado emocionalmente em
menor ou em maior grau, então o organismo sofre um desgaste que interfere na imunidade a
ponto de fazer cessar parcialmente ou totalmente uma de suas principais funções que é a
proteção de nosso corpo.
Mesmo tendo consciência disso, dificilmente vemos um médico perguntando ao seu
paciente sobre as circunstâncias que antecederam o surgimento de uma enfermidade. Por que a
maioria dos médicos age assim? Descuido? Falta de interesse? Não, com certeza não se trata
disso. O problema é que, a nossa cultura, assim como todo o Ocidente, permaneceu
estacionada entre os paradigmas cartesianos e biomédicos, cindindo corpo e mente. Vale
lembrar que nem mesmo os gregos antigos consideravam esta visão dualista de que o corpo e a
mente fossem coisas separadas. Todavia, foi esta a ideia que se conservou para nós e o que
dominou toda cultura ocidental e, ainda hoje, permanece para o prejuízo de milhares de pessoas
e dos campos que envolvem a área da Saúde.
Por outro lado, muitas pessoas se “beneficiam" desse caráter dualista, pois assim não
precisam pensar muito. Porém, correm o perigo de esgotarem o corpo, até não conseguirem
rever mais um quadro.
Unir corpo e mente é, infelizmente, uma condição que não interessa a muitas pessoas,
ainda que atinja todos, sem exceção. Primeiramente, essa integração não interessa aos
laboratórios farmacêuticos, em segundo lugar para os empresários e, por último, a população de
um modo geral. Não precisamos discutir as razões dos laboratórios farmacêuticos por serem
óbvias pelos lucros que estas podem obter. Já o empresário partilha do ponto de vista do
fabricante de remédios na medida em que um medicamento diminui demasiadamente o tempo
de recuperação do seu funcionário doente e permite que este volte ao trabalho mais rápido.
A maioria das pessoas, por sua vez, não suporta desconfortos de qualquer espécie por
muito tempo e assim, diante de um sofrimento ou um mal-estar dirige-se até a farmácia mais
próxima, compram um remédio e pronto! Lá estão novamente retomando suas atividades e sua
rotina, sem se conscientizarem de sua participação na doença que foi manifestada em seu 98
organismo.
Entretanto, esta falta de conscientização tem seu preço, visto que inúmeras pesquisas
demonstram que os medicamentos atualmente são os grandes responsáveis por ocasionarem
danos ao organismo, alguns até com efeitos colaterais bem pesados e permanentes.
Os empresários, ao se depararem com o desgaste, o estresse e, em alguns
momentos, com as faltas dos funcionários, não conseguindo contar muito com a eficiência do
empregado, começam a perceber que, dependendo do grau do estresse e das características de
personalidade do indivíduo, não há um medicamento específico que dê jeito. Por meio dessas
constatações, as pessoas começam a fazer um movimento em direção a tratamentos
considerados alternativos. Contudo, logo surgem artigos na mídia, falando sobre o perigo desses
tipos de tratamento.
É claro que devemos tomar cuidado com pessoas que usam de má fé na área da cura
e da saúde. Contudo devemos também lembrar que há alguns tratamentos alternativos que
podem ser válidos, como os que fazem uso de ervas, que também são fonte primária de muitos
remédios e que muitos grupos humanos (como indígenas isolados) conseguiram sobreviver até
agora, sem a presença dos laboratórios. Basta relembramos sobre o paradigma primitivo. Além
disso, nos ditos tratamentos alternativos também se encontram terapias que partem do
pressuposto biopsicossocial e até mesmo o espiritual (levando em conta crenças e valores de
cada indivíduo), olhando-o de maneira holística, como um todo, que se adoeceu é porque os
demais aspectos (psicológico, social e espiritual) também adoeceram.
A grande questão hoje é que a medicina preventiva deu lugar à medicina curativa e
nesta, as enfermidades são vistas de forma bélica, ou seja, precisam ser combatidas a todo
custo, perdendo-se assim, a visão de que se há uma desarmonia, isto se deu porque o corpo e a
mente foram influenciados por eventos, principalmente aqueles que envolvem aspectos
emocionais. Os profissionais das áreas da saúde ainda brigam muito por espaço e com isso o
cenário permanece quase que estagnado. Contudo, pouco a pouco termos como qualidade de
vida, realização pessoal, responsabilidade social, entre outros, vão se inserindo no cotidiano das
pessoas (infelizmente após muita negligência com o impacto dos aspectos psicológicos e
sociais).
Como propõe Quilici (2001), é natural que o ser humano, com o passar do tempo,
fosse observando fatos e desenvolvendo remédios que lhe ajudassem a manter a saúde da
humanidade. E, ainda hoje, estes medicamentos funcionam. Muita gente se trata com eles e 99
passa bem. No entanto, os modos de vida mudaram radicalmente e com essa mudança,
surgiram diferentes níveis de desgaste emocional. E isso veio com tal velocidade que, as
pessoas não tiveram capacidade suficiente para se adaptarem, muito menos os medicamentos.
Muitas mudanças no cérebro humano levaram milhares de anos para ocorrer, porém somos
obrigados a nos adaptar em menos de uma década. Desse modo, muitas vezes, não são os
remédios naturais que deixaram de fazer efeito, é a constância quase que diária de nossos
desgastes que nos deixam em eterno estado de alerta, levando antes do surgimento das
doenças, a manifestação da síndrome de adaptação. Então, talvez seja relevante conhecer uma
ciência que vem procurando se colocar e que pode nos ensinar muitas coisas sobre as emoções
e as doenças: a Psiconeuroimunologia, conhecida também por PNI.
A PNI significa a interação entre esses três sistemas, que podem causar danos ao
nosso organismo. É importante ressaltar que não se trata de uma ciência nova. Afinal, como já é
do conhecimento de todos que tiveram contato com os módulos anteriores, com o transcorrer
dos tempos e das culturas, médicos e sábios, procuraram unificar o bem-estar físico buscando
suas origens no psiquismo. Foi um médico da Transilvânia, Papai Pariz, que praticamente
reiterou Aristóteles e antecipou o surgimento da Psiconeuroimunologia (PNI), quando declarou,
no ano de 1680, que “quando as partes do corpo e seus humores não estão em harmonia, então
a mente se desequilibra e a melancolia aparece, mas por outro lado, uma mente calma e feliz faz
com que todo corpo fique saudável”. Os mecanismos subjacentes a essa ligação serão
compreendidos a seguir.
Caso assumamos uma racionalidade adaptativa para o processo evolucionário, faz
sentido crer que o sistema nervoso e o sistema imune podem ser compreendidos como um
sistema único e integrado de adaptação defensiva. Ambos têm em comum:

a) Senso de identidade, ou seja, sabem o que é o ser e o não ser.


b) Interferem no relacionamento do indivíduo com o ambiente e ignoram os elementos
externos, independente de serem eles, amigáveis ou perigosos.
c) Permitem ao organismo sobreviver em um ambiente hostil pelos mecanismos físicos de
adaptação e também das defesas psíquicas, sendo que para fazer isso, esses dois
sistemas, possuem memória e aprendem por meio da experiência.
d) Monitoram o mundo interno e avaliam o que é egossintônico ou distônico, ou seja, 100
identificam o que está de acordo com o self (si mesmo) e o que não está, e instituem
defesas contra os componentes contrários ao mundo interno.
e) Cérebro/psiquismo e sistema imune cometem “enganos” que podem favorecer o
surgimento de doenças e até mesmo levar à morte. Neste sentido, fatos ou organismos
inócuos podem ser percebidos como perigosos e provocar desde fobias até alergias. O
verdadeiro self pode não ser aceito e, então, a depressão se instala, conduzindo em
muitos casos para tristes desfechos, como o suicídio. O mesmo acontece com as reações
autoimunes que, algumas vezes, podem sobrevir de forma fatal.

Sabe-se que as pessoas, de um modo geral, tornam-se mais propensas a


apresentarem quadros depressivos e autoimunes com o avanço da idade. Memórias recentes
(não as de longo prazo) tendem a falhar mais frequentemente com a idade e a senilidade imune
é caracterizada pela pobreza das respostas primárias ao nível dos novos antígenos e uma
resposta secundária relativamente forte para antígenos antigos.
Quilici (2001) descreve casos de doenças de pele em pacientes nos quais a deficiência
com a autoestima era a regra. Relata que um paciente em especial, tinha sérios e variados
problemas de pele e muitos eram autoimunes. O autor notou que, esse paciente tinha um nível
de autoestima tão baixo que toda vez em que se pronunciava, reproduzia somente coisas que
ele tinha ouvido. Em alguns momentos, ele parecia ter dupla personalidade porque surgia com
formas completamente diferentes de ser. Com um nível tão alto de rejeição a si mesmo, o
paciente em questão desenvolvia alergias extremamente agressivas. Outros pacientes com
alergias de pele, principalmente, aqueles com dermatites resgatarem sua autoestima e
começaram a apresentar remissão definitiva dos sintomas.
Outros dois cientistas da Psiconeuroimunologia, Roger Booth e Kevin Ashbridge,
afirmam:
Há necessidade de reavaliar e talvez re-definir (sic) os conceitos,
símbolos e a linguagem da imunologia e da psicologia, de forma que
permitam estabelecer uma relação entre os processos imunológicos e
psicológicos. Esses processos devem ser expressos em termos de
uma perspectiva teleológica coerente. Para que as relações entre o
psiquismo e a imunidade, façam sentido, seria necessário que nos
livrássemos de alguns de nossos preconceitos no que diz respeito à
natureza de sistema imune e de nosso psiquismo (BOOTH;
ASHBRIDGE). 101

Segundo Quilici (2001), a Psicossomática, que data do final da década de 1930 e


começo da década de 1940, foi antecipada por clínicos antigos que, já previam, por meio de
suas ideias a Psiconeuroimunologia; enquanto que a área da Imunologia pré-contemporânea
não o fez. O campo da imunologia estabeleceu na época que o sistema imune era autônomo e
autorregulável, respondendo somente aos desafios antigênicos, ou seja, só reage se um invasor
entra no organismo e provoca uma ação.
Quilici (2001) cita que em um encontro de um grupo de estudos de
Psiconeuroimunologia, David Felten, lembrou-se de uma famosa crítica, que foi batizada como:
“Folha Rosa”. Nesse documento, afirmava com humor: “A inervação dos órgãos imunes,
obviamente não deve ter nada a ver com as respostas imunes, uma vez que essas reações
podem ocorrer em tubos de ensaio, que, por sua vez, não têm nervos”.
Todavia, no início da década de 1940, Franz Alexander observou que a patologia
psicossomática era o resultante fisiológico de emoções conscientes ou mesmo, daquelas que
estariam reprimidas.
Os alemães, Thorwald Dethlefsen e Rudiger Dahlke, que escreveram “A Doença como
Caminho” (1983) e “A Doença como Símbolo” (1996) têm vários trabalhos na área de
psicossomática, nos quais se referem às doenças como um fenômeno que possui sentido e que
o entendimento deste proporciona uma conscientização sobre os conflitos ainda não
solucionados pelo indivíduo. Abaixo vamos discutir a questão da ligação entre doenças e
emoções.
Como vimos no item Síndrome de Adaptação, na década de 1940, Selye começa a
conceitualizar o estresse como uma influência perturbadora e não específica, fazendo um
paralelo com o conceito de homeostase (equilíbrio interno) de Cannon. Dessa maneira, um
evento estressante, mobiliza um comportamento adaptativo do organismo, implicando em
inúmeras e rápidas alterações fisiológicas. Sua resolução depende de moderadores externos tal
como suporte social e amoroso ou, de moderadores internos tais como habilidade de vigilância,
e nos mostram, que podem auxiliar para o crescimento psicossocial, ou para uma mudança
extremamente prejudicial à saúde, que muitas vezes pode conduzir à morte em caso de
exaustão extrema.
Selye apontou o eixo hipotálamo-hipofisário, adrenal cortical como os determinantes 102
dos efeitos do estresse sobre a saúde do organismo. Na década de 1960, o psiquiatra George
Angel estabeleceu seu modelo biopsíquico social para todas as doenças. Dependendo da
eficácia dos mecanismos psíquicos, que compreendem uma variedade de reações, reflexões e
atitudes, a homeostase psíquica (ou equilíbrio) pode se restabelecer, mas, caso isso não
suceda, o estresse pode funcionar como um alarme para uma fase mais perigosa. Os
mecanismos psíquicos de vigilância tendem a ser relativamente estáveis e característicos de
cada indivíduo, mas podem variar de muitas maneiras. Desde modos mais maduros e eficientes
de resolver os problemas até mecanismos mais primitivos de negação, repressão e fuga
psíquica, ou ainda de desprendimento e retraimento.
A Psicossomática tem se preocupado com estes tipos especiais de padrões de
vigilância e a indicação de que determinadas características, podem estar associadas com
algumas doenças em particular. Como apontam algumas pesquisas que vimos anteriormente,
indivíduos que apresentam um padrão mais competitivo e hostil têm sido associados, por causa
de muitas evidências, com as doenças coronarianas e é rotulado como padrão tipo A. As
pesquisas mostraram que tais indivíduos estão mais propensos a ter doenças cardíacas. Flavio
Rotman (1985) faz importantes referências a estudos com esses tipos de pessoas.
Em uma série de estudos controlados, de pessoas com doenças autoimunes como
artrite reumatoide, Rudolf Moos e seus parceiros concluíram que os artríticos, em comparação
com seus irmãos não artríticos, mostravam características como submissão, dificuldade de
expressão da raiva, sensibilidade para a raiva alheia, conservadorismo e autossacrifício, além de
serem pessoas mais ansiosas e deprimidas. Na ótica de Quilici (2001), pacientes com outras
doenças autoimunes tal como Lupus Erimatoso Sistêmico e Tireoidites parecem ter padrões
similares.
Porém, há alguma causa e qual o efeito da personalidade e estresse x doença? Quilici
(2001) aponta que em um dos melhores trabalhos sobre psicossomática, feitos na atualidade,
cientistas compararam dois grupos de pacientes e seu status de saúde. Um dos grupos era de
pessoas com artrite reumatoide (grupo 1), o outro grupo de pessoas sem artrite reumatoide
(grupo 2). Do grupo 1, todos tinham “disponibilidade genética”. Cerca de 20% eram portadores
da doença e os outros 80% apresentam ausência de anticorpos característicos de Artrite
Reumatoide, um anti IgG ou anticorpos contra os anticorpos envolvidos no surgimento da
doença.
Observou-se que, no primeiro grupo, as pessoas com autoanticorpos, estavam em 103
condições emocionais perfeitas, sem ansiedade, depressão ou alienação, relatando estarem
satisfeitas com o trabalho e com as relações pessoais. Para o autor, isso pode ser um indício de
que o bem-estar psicológico provavelmente funciona como uma proteção diante da
determinação genética, a qual os predispunha a uma doença imune. Sabe-se que pessoas com
artrite reumatoide, e que são assintomáticas, têm grandes chances de desenvolverem a artrite
na medida em que, um padrão fixo de doenças autoimunes, relativamente frequentes se segue a
um evento de vida extremamente estressante, tal como a morte de alguém que significava muito
do ponto de vista emocional.
Quilici (2001) menciona outro estudo realizado com crianças que eram filhos de pais
psicóticos. Nele, as crianças que foram adotadas por casais equilibrados e que lhes propiciaram
um ambiente saudável, não demonstraram indícios da doença até a idade adulta, mas nos casos
em que as crianças foram adotadas por famílias com situações complicadas do ponto de vista
emocional, todos acabaram por apresentar um quadro psicótico. Para o autor, os ambientes
podem favorecer ou não a manifestação de uma doença. Dessa forma, a seguinte questão é
levantada: ambientes saudáveis e amorosos podem funcionar como uma proteção contra a
determinação genética?
Quidici (2001) cita que David Felten e seu colega Jeffrey Fessel, ambos os
pesquisadores de PNI, ficaram impressionados com um trabalho realizado em uma clínica de
doenças reumatoides. Lá foi observado o fato de que a condição A. A. A. (Anticorpos
Antinucleares Associados) pode produzir sérias doenças psiquiátricas, com frequência,
semelhantes à esquizofrenia, algumas vezes, como um sintoma inicial. Em função dessa
associação imunopsiquiátrica, alguns cientistas começaram a procurar por níveis anormais de
imunoglobulinas e a presença de vários anticorpos naqueles pacientes que sofriam de
esquizofrenia e os encontraram em alguns deles.
Rudy Moos e David Felten publicaram, em 1964, um trabalho que foi denominado:
“Teoria Especulativa de Integração: Emoções, Imunidade e Doenças”, que tratava da regulação
neuroendócrina da imunidade e os efeitos experienciais sobre o sistema imunológico.
Nota-se que muitos dos experimentos foram iniciados em animais com a finalidade de
conhecer as reações da imunidade. Os cientistas tinham por objetivo observar a interação entre
Sistema Nervoso Central e Imunidade, bem como os efeitos do estresse sobre a resistência 104
imunológica e sua mediação nas doenças.
Muitos experimentos antigos foram retomados e iniciados no Laboratório de
Psiconeuroimunologia, em Stanford, que era filiado ao Hospital VA de Palo Alto. A primeira
grande pesquisa foi efetuada com fundos privados da fundação, porque houve uma
impossibilidade inicial de obter verba com o NIH (Departamento de Saúde dos Estados Unidos) e
com o próprio VA, porque, segundo eles, tal pesquisa estava muito distante do que seria
considerada uma disciplina médica e comportamental. Na verdade, a Psiconeuroimunologia é
sentida como uma quebra dessas disciplinas.
Entretanto, o que colocou a Psiconeuroimunologia no campo científico, mesmo com
tanto ceticismo a sua volta, foi um relatório de 1975, de Bob Ader e Nick Cohen. Nesse são
relatados experimentos sobre paladar e aversão que condicionavam a imunossupressão. Se a
sacarina sozinha produz imunossupressão, o cérebro, obviamente, está envolvido.
Estudos realizados em seres humanos demonstram que estresse e imunidade baixa
têm estreita ligação. Trabalhos mostram continuadamente a comprovação dessas hipóteses,
observadas em situações naturais tais como luto, brigas conjugais, exames e naqueles que
cuidam de pacientes com doença de Alzheimer e até mesmo com estressores experimentais
como é o caso da aritmética mental. Há inúmeras referências desse tipo de experiência no livro
já citado de Fábio Rotman.
A relação entre o estresse com eventos naturais e a imunidade, foi avaliada
especialmente em doenças depressivas, como mostrou inicialmente um relatório de Schleifer,
Keller e Stein, sobre a função das células T, e também um relatório de Irwim K, sobre a função
das células NK. Mas para compreender bastante bem os efeitos do estresse social, importantes
experimentos foram iniciados com primatas, por Laudenslager e por Coe. Eles demonstram que
ir a um encontro desagradável (estressante) é mais desgastante do que o encontro em si
mesmo. Faysal e seus colegas da UCLA demonstraram também a imunossupressão causada
pela derrota, num peixe lutador.
Destaca-se aqui que a Psiconeuroimunologia passou a buscar, além de subsídios
concretos para as doenças, como no caso da Psicossomática, a interação do psíquico com os
demais sistemas, neurológico e imunológico, bem como os efeitos destes sobre o psicológico. A
PNI quer saber como um pensamento pode transformar uma célula e isto gerar efeitos no corpo.
Segundo o Prof. Dr. Esdras Vasconcelos, um grande pesquisador da área, em uma palestra
realizada em 2005 sobre Psiconeuroimunologia, aquilo que pensamos, sentimos e vivemos 105
altera toda a nossa morfologia. Um corpo fatigado, segundo ele, tem o poder de alterar um órgão
se permanecer muito tempo neste estado, ou seja, ocorre uma mudança morfológica. Explica
que a amígdala, que está localizada dentro do sistema límbico, é a responsável pela elaboração
das emoções: tudo o que ocorre no corpo passa por ela, além do tálamo e hipotálamo. Assim,
primeiramente há uma elaboração cognitiva, seguida posteriormente pela elaboração das
emoções. O professor esclarece que ocorre o seguinte processo no organismo:
Emoção “x”


Hipotálamo

Estímulo do hormônio CRH 41 – que o responsável conectar o sistema imunológico com o
sistema endócrino. 106

Hipófise

Libera cortisol, ACTH

Influencia o sistema imunológico, órgãos, corpo, entre outros.

O pesquisador lembra que o próprio organismo tem o seu processo de


autorregulagem, detectando na maioria, por exemplo, o surgimento de células tumorais. Dessa
forma, 70% das doenças se curam espontaneamente. Entretanto, 30% delas não, e são estas
que a PNI procura compreender. Nota que pacientes com câncer produzem muito cortisol, e este
provoca a imunodepressão que tem um efeito direto sobre o organismo. Segundo Vasconcelos,
os indivíduos possuem uma parte do corpo que é considerada mais vulnerável – que é “eleita”
dependendo da genética e história de vida de cada um, além de aspectos inconscientes estarem
envolvidos neste processo. Ao ocorrer falhas no sistema bioquímico e límbico até que uma
doença seja manifestada.
Desse modo, pesquisas psiconeuroimunológicas contribuíram para a construção de
novas hipóteses sobre o funcionamento psicossomático. A incidência de patologias somáticas
em pessoas que se encontram em estados depressivos chamou a atenção para as relações
entre as emoções e o sistema imunológico, estimulando a busca por mecanismos de natureza
celular e fisiológica que poderiam operar como mediadores entre a percepção de eventos
internos e externos, produzindo efeitos no organismo.
A descoberta de substâncias químicas altamente especializadas que atuam nas
interfaces entre os sistemas nervoso, hormonal e de defesa trouxe à luz a existência de redes
neurobiológicas complexas que incluem também os órgãos e o sistema neuroendócrino.
Nesse sentido, qualquer estado emocional pode se refletir em um funcionamento
particular do sistema imunológico, marcando e modificando a história somática de cada um e
dando a este sistema uma dimensão relacional. A PNI é uma área promissora para a
investigação dos enigmas da mediação psicossomática, da relação entre a doença e as
emoções. Apesar de ainda ser considerada uma área recente, ela já permite compreender como
um choque emocional pode produzir alterações orgânicas. 107
Tais descobertas, mesmo que não suficientemente precisas, estão auxiliando na
compreensão de como um estado emocional pode gerar um desequilíbrio da rede
neuroimunológica e este repercutir em todo o organismo ou em um órgão específico. Dessa
maneira, os profissionais que trabalham na área da saúde devem cada vez mais buscar
compreender a história somada à experiência de vida de seu paciente para que se produza não
apenas o eclipse de seus sintomas, mas uma verdadeira superação do seu sofrimento.

11.9 TRATAMENTOS ALTERNATIVOS

Ao longo da realização dos módulos, falamos um pouco sobre os tipos de tratamentos.


A Medicina ocidental, ainda muito centrada no modelo alopático, acredita que é necessário fazer
de tudo para retirar o sintoma via remédios e tratamentos que “combatem” a doença. Longe de
fazer qualquer crítica a respeito de sua eficiência, apenas abriremos espaço para mostrar que
existem outras medicinas e outros tipos de tratamento que buscam integrar corpo e mente.
A) Medicina Complementar e Alternativa

Os termos “Medicina Alternativa” e “Medicina Complementar” são utilizados para


designar todas as terapêuticas que não estão dentro da conhecida Medicina Ocidental Moderna,
conhecida como “convencional”. Por Medicina Alternativa entende-se a terapêutica aplicada em
108
substituição ao tratamento desta Medicina Ocidental Moderna. Originalmente, a expressão
possuía a conotação de uma prática médica que se contrapunha à convencional.

B) Medicina Complementar

O termo Medicina Complementar não sugere a ideia de uma terapêutica oposta à


ocidental moderna, mas sim, como o próprio nome sugere, de uma Medicina que a complementa
quando não conseguir obter uma eficiência de tratamento.

C) Medicinas Complementares e Alternativas

Atualmente, o conceito de medicina “Complementar e Alternativa”, pode ser entendido


como uma abordagem de cuidados médicos que complementam ou substituem a Medicina
Ocidental Moderna, começam a ser aceitas como resultado das tentativas para denominar de
forma ampla as várias modalidades terapêuticas que a Medicina ocidental não dá conta. O
Instituto Nacional da Saúde dos Estados Unidos da América adotou esta denominação,
popularizando-a sob a sigla CAM (Complementary and Alternative Medicine). As práticas
conhecidas pelo nome de Medicinas Complementares e Alternativas compreendem em geral as
medicinas tradicionais ou terapias populares características de determinados países ou regiões
onde, ainda hoje, continuam a cumprir um importante papel na área da saúde.
D) Classificação das Medicinas Complementares e Alternativas

A classificação das Medicinas Complementares e Alternativas pode diferir de país para


país ou de região para região segundo os critérios das diferentes sociedades científicas. Aqui,
usaremos a classificação feita pelo Centro Nacional de Medicina Complementar e Alternativa dos
109
EUA, órgão que lidera mundialmente as pesquisas e as contribuições nesta área.

E) Sistemas Médicos Completos

São terapêuticas criadas com base em um sistema completo de teoria e prática e que
tiveram uma evolução independente e mesmo anterior à da Medicina Ocidental Moderna.
Frequentemente estas mantêm relações íntimas com a cultura ou religião da região de onde se
originaram, sendo as mais representativas as que se discriminam a seguir:

 Medicina Tradicional Chinesa

É um sistema de tratamento médico praticado na China desde a Antiguidade. Países


como a China e a Coreia possuem escolas próprias para a formação de clínicos especializados
nesta área. No Japão, contudo, este genero de medicina conhecido como “kampô” é exercido
exclusivamente por profissionais da medicina ocidental, dada a inexistência de cursos da
modalidade. Tal situação está no fato de os farmacêuticos estarem habilitados a prescrever
receitas destes medicamentos e de as práticas como acupuntura, por exemplo, serem exercidas
por terapeutas legalmente habilitados.

 Medicina Ayurveda
Conhecida como a Medicina tradicional da Índia, seu nome quer dizer “conhecimento
da vida”. Busca integrar o equilíbrio das funções fisiológicas, com o fortalecimento da capacidade
curativa natural. No Brasil, é muito aplicada nos salões de estética.

 Homeopatia 110

Este método terapêutico foi criado no início do século XIX pelo médico alemão
Christian Hahnemann (1755-1843). A nomenclatura de formação grega significa “conformidade
de afecções”. Seus pressupostos estão baseados na ministração em doses infinitesimais de
fármacos capazes de produzir em um indivíduo saudável os mesmos sintomas da doença a
tratar. A diarreia, por exemplo, é tratada com um laxante. Dentro desta concepção, há um
favorecimento das defesas do corpo, agindo no mesmo sentido da doença.

 Naturopatias

São métodos terapêuticos ou métodos de saúde que pretendem aproveitar ao máximo


as propriedades dos elementos naturais ou o próprio ambiente. Entre elas estão a fitoterapia, a
talassoterapia, a balneoterapia.

 Terapêuticas da Mente e do Corpo

São formas de tratamento psicoterápico, que procuram estimular o estado psíquico e


repercutir favoravelmente nas funções ou sintomas físicos. Descrevem-se a seguir as mais
representativas:
a) Terapias da Mente

São técnicas que têm por objetivo tratar doenças por estímulos mentais, como
recursos os métodos psicológicos, tais como hipnose, sugestão, psicanálise, psicologia analítica,
entre outras. 111

b) Bio-feedback

Consiste em uma espécie de terapia comportamental que aplica o reflexo


condicionado. Caracteriza-se em informar por meios mecânicos a atividade involuntária, sendo
que o paciente deve controlá-las conscientemente. É utilizada no tratamento de distúrbios
psicossomáticos, mediante a regulação do estado mental e físico, por meio, por exemplo, da
estimulação da emissão de ondas α (alfa) do cérebro, indicada por sinais luminosos ou sonoros.

c) Meditação

Prática que consiste no ato de, de olhos cerrados, concentrar a atenção e suspender o
fluxo de pensamentos que normalmente ocupam a mente. Neste processo, garatem os
praticantes, há um maior contato com os recursos interiores, o que promove o autoconhecimento
e, assim, a superação de sua problemática.

d) Terapia da Oração

Não se pode mais negar os benefícios que a oração exerce sobre a saúde, e que
recentemente foram demonstrados em investigações conduzidas pela organização protestante
Ciência Cristã. Em relatório publicado em 2004 pelo NCCAM, a terapia da oração aparece como
o primeiro dos métodos mais utilizados pelos usuários das medicinas complementares e
alternativas.

e) Aconselhamento Psicológico 112

É o apoio dado por especialistas em Psicologia. O psicólogo e o doente conversam


sobre os mais diferentes problemas gerados pelo psíquico deste, na procura de soluções para
manifestações de ansiedade, depressão, entre outras.

f) Musicoterapia

A música, nas suas diversas expressões, é usada para curar ou minorar o sofrimento
físico ou psíquico. É muito empregada no tratamento e educação de crianças portadoras de
deficiências.

g) Terapia do Riso

Há resultados de pesquisas realizadas por profissionais da Medicina que comprovam


que as defesas imunitárias aumentam por meio do riso. Este é mais um indício de como o
sistema emocional e sistema imunológico podem estar intimamente atrelados.

 Terapias Biológicas
Caracterizam-se pelo emprego de substâncias encontradas na natureza tais como
plantas medicinais, produtos alimentares e outras.

a) Farmacologia “kampô”

113

Esta é a denominação geral para o receituário preparado segundo os fundamentos


teóricos de uma das escolas da medicina nascida na China e que se difundiu para a península
coreana e o arquipélago nipônico, onde seguiu um curso evolutivo próprio.

b) Herboterapia

Consiste na utilização de plantas com propriedades medicinais que são empregadas


com fins curativos sob a forma de condimentos, banhos, infusões, entre outros.

c) Suplementos Dietéticos

São nutrientes ingeridos oralmente em cápsulas ou outros veículos que são


complementares eventuais de deficiências da dieta trivial e têm como finalidade contribuir para a
manutenção da saúde ou para fins estéticos.

d) Aromaterapia
Vale-se de componentes aromáticos de origem vegetal e de outras procedências para
tratar a saúde física e mental, à medida que diminui o estresse, acalma os nervos e produz
outros resultados benéficos.

 Técnicas de Manipulação 114

Consiste em tratamentos que se caracterizam pelo emprego de estímulos físicos


mediante o uso da mão ou de instrumentos específicos de cada área.

a) Massagem

Baseada em realizar movimentos de fricção, compressão ou percussão do tecido


muscular ou de outras partes do corpo para a obtenção de resultados terapêuticos que gerem
alívio. Leva à melhora da circulação sanguínea, revigorando as funções musculares e nervosas,
provoca o relaxamento geral e o atenuamento do cansaço. É aplicada com fins higiênicos e
estéticos.

b) Digitopunctura (também conhecido como Shiatsu)

É a massagem feita com a polpa dos dedos, com o objetivo de revigorar as funções
musculares e nervosas.
c) Quiropraxia

Foi um método criado em fins do século XIX, nos Estados Unidos da América, para o
tratamento e prevenção dos problemas do sistema neuromúsculoesquelético. A prática da
quiropraxia concentra-se na relação entre a estrutura (primariamente a coluna vertebral) e a 115
função (coordenada pelo sistema nervoso), e como esta relação afeta a preservação e
restauração da saúde.

d) Osteopatia

Terapia que percebe determinadas doenças como resultantes dos desvios do sistema
osteomuscular, tratando-as pela manutenção e restauração da mobilidade deste mesmo
sistema.

e) Reflexologia

Técnica de relaxamento do estresse que estimula a circulação sanguínea com uma


massagem na planta dos pés.

f) Acupuntura

Método terapêutico originado na China. Praticada há milênios como método higiênico,


que emprega agulhas para provocar estímulos nos chamados meridianos localizados na
superfície da pele para o tratamento de várias enfremidades.
 Terapias Energéticas

Tratamentos que utilizam energia de origem magnética, elécrica, calorífica ou uma que
ainda não foi cientificamente esclarecida, chamada de a energia vital ou sutil, e cuja eficácia, por
conseguinte, todavia ainda não foi comprovada. 116

a) Terapia Magnética

Caracteriza-se por empregar anéis, colares e outros adereços e objetos magnetizados


que teriam efeito no alívio da dor e na ativação do fluxo sanguíneo. Alguns especialistas neste
método também se valem do uso de pedras que teriam efeito terapêutico sobre o indivíduo.

b) Qi gong

Método higiênico praticado na China desde a antiguidade e do qual existem mais de


2000 correntes. É uma prática de promoção da saúde na medida em que aumenta a imunidade e
a força curativa do indivíduo pela manipulação do qi (energia vital). O qi pode ser tanto
exercitado em proveito próprio, quanto canalizado para o tratamento de terceiros.

c) Toque Terapêutico

Deriva de uma técnica antiga denominada aplicação das mãos, tendo sido
desenvolvida pela Dra. Dolores Krieger, professora da Faculdade de Enfermagem de Nova
Iorque. Baseia-se na premissa de que o poder curativo do terapeuta repercute na recuperação
do paciente. A cura é facilitada quando as energias do corpo estão em harmonia. O terapeuta é
capaz de identificar os desequilíbrios energéticos do enfermo passando as mãos sobre ele. Está
começando a ser adotado por muitas enfermeiras nos hospitais norte-americanos.

d) Cura Espiritual

117

Tradicionalmente praticado no Reino Unido, este método consiste na canalização de


uma energia curativa frequentemente descrita como “luz e amor”, que produz relaxamento físico,
estimula as funções imunitárias e a capacidade natural de cura, entre outros benefícios. No
Reino Unido, há a National Federation of Spiritual Healers com mais de 6000 membros que
exercem a sua atividade sob a proteção da lei.

e) Reiki

Já muito conhecido no Brasil, este método terapêutico originalmente iniciado no Japão,


por Mikao Usui (1865-1926), e desenvolvido fora deste, consiste na posição de mãos no corpo
do doente, com o propósito de lhe suprir de prana (energia vital).

 Medicina Integrativa

A dita Medicina integrativa é uma expressão surgida muito recentemente, para a qual
ainda não existe, no Japão, uma definição precisa. Na grande parte dos casos, indica os
cuidados médicos que conjugam eficazmente tanto a Medicina Ocidental Moderna, dita
convencional, com as restantes, chamadas complementares e alternativas.

É importante ressaltar que o mérito da Medicina Convencional reside na explicação


das estruturas e funções básicas do corpo humano, bem como no funcionamento de vários
sistemas com o substrato científico da Anatomia, Patologia, Fisiologia, Imunologia e tantas
outras. Além de colaborar com o estabelecimento em instituições de métodos de exames,
análises e diagnósticos e da comprovação objetiva da eficácia da sua terapêutica.

Entretanto, ainda assim, falta-lhe explicação para a causa de um número considerável


de doenças, para as quais também não existe um tratamento efetivo. Por embasar-se, grande
118
parte das vezes, em informações estatísticas, tem a tendência a não levar em consideração o
ambiente e as peculiaridades individuais.

Por meio de vários estudos vistos até aqui (e tantos outros que aqui não foram
descritos) nota-se que sobre as enfermidades exerce uma influência psíquica, assim como o
estilo de vida e as características pessoais - todas influem de sobremaneira para o curso
evolutivo tanto da doença como da cura.

Hoje, a sociedade necessita de uma medicina centrada no indivíduo, dando atenção às


características pessoais e ao estado psicológico. Esta necessidade, segundo alguns expoentes,
pode ser preenchida pela combinação da medicina convencional com as complementares e
alternativas. Mas ressaltam que é essencial que os profissionais destas vertentes cooperem
entre si, no reconhecimento dos pontos positivos mútuos e na construção de um novo sistema
terapêutico. Segue abaixo alguns pareceres de elementos que estão na base de uma medicina
integrativa, para melhor clarificar este conceito.

a) Uma medicina que enfatize o indivíduo

Um paciente difere dos demais não só pelo sexo, idade, personalidade, ambiente em
que se encontra inserido, mas também pela natureza e condição da sua doença. A Medicina que
privilegia o indivíduo é a que dá importância, no diagnóstico e tratamento, tanto às variáveis
descritas acima quanto às peculariedades da constituição do paciente.
b) Uma medicina que se caracteriza pela diversidade

Seres humanos são diferentes e, portanto, possuem necessidades diferentes, por isso
não é suficiente que a Medicina Integrativa concilie ou unifique as duas correntes citadas do
tratamento médico, em virtude de os resultados das medicinas complementares e alternativas 119
nem sempre poderem ser comprovados tecnicamente pela medicina convencional. É preciso,
então oferecer ao paciente, opções para que ele possa escolher o tratamento que mais lhe
convém.

c) Uma medicina que contemple a essência do ser humano

A Organização Mundial da Saúde, na sua conceituação sobre saúde começa a


introduzir a ideia de espiritualidade, como um dos aspectos determinantes do estado de conforto
e bem-estar humano, ao lado dos demais componentes físico, mental e social.

O Dr. Kazuhiko Atsumi, professor honorário da Universidade de Tóquio e um dos


grandes incentivadores da Medicina Integrativa, diz: “Confrontamo-nos com a questão da
espiritualidade, da alma do indivíduo. Donde viemos? Para onde vamos? Qual a razão da nossa
existência? Quero acreditar que, quando elucidarmos estas dúvidas, o significado da doença
será esclarecido.”

Pouco a pouco, emerge um movimento que pretende rever o exclusivismo da Medicina


Ocidental Moderna e alcança dimensões mundiais a nova corrente da diversidade proposta pela
Medicina Integrativa, trazendo uma abordagem terapêutica com raízes naquilo que é a essência
do homem: a sua espiritualidade.

Com o gradual avanço desta nova abordagem, é de se prever que haja um debate
profundo com vista à criação de um sistema médico e de profissionais da área da saúde que
sejam mais humanos, que contemple as necessidades dos pacientes e não apenas intelectualiza
as emoções, adentrando no território da alma e do próprio modo de estarmos no mundo.
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