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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS

ESCOLA SUPERIOR DE ARTES E TURISMO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS E ARTES

Do amarelo ao negro: a policromática escritura de si em Quarto de despejo,


de Carolina Maria de Jesus

Manaus – AM

2017
KALHIANNE DRIELLE ALVES FERREIRA

Do amarelo ao negro: a policromática escritura de si em Quarto de despejo,


de Carolina Maria de Jesus

Trabalho apresentado como pré-requisito para obtenção de nota na


disciplina Tópicos especiais sobre autoria, biografia e leitor,
ministrada pela Profa. Dra. Juciane dos Santos Cavalheiro e pelo Prof.
Dr. Mauricio Gomes de Matos.

Manaus – AM

2017
No drama cinematográfico Uma mente brilhante¸ que narra a trajetória
controversa e turbulenta do matemático John Nash, à certa altura da narrativa, ante um
quadro, a personagem interpretada por Jennifer Conelly afirma que Deus deveria ter
algo de artista para ter criado tantas cores. Não seria de duvidar. Ainda mais quando nos
deparamos com a obra de Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo. Com a
capacidade que a (re)criação literária confere aos que a ela se arriscam, Carolina Maria
dá cores ao mundo de cujos visgos da fome e da miséria não se pode livrar. Uma dessas
cores, seu entusiasta Audálio Dantas identifica à primeira vista: o amarelo. Repetido à
exaustão foi podado pelo próprio Dantas na revisão que compunha a versão final da
obra. A outra cor indubitavelmente é o negro.

Publicada pela primeira vez em agosto de 1960, através da Livraria e Editora


Francisco Alves, Quarto de despejo narra do cerne da vivência o que era a favela
naquela década. Foi editada dez vezes na mesma década e vertida para idiomas como
dinamarquês, holandês, alemão, francês, inglês, checo, italiano, japonês, castelhano,
húngaro, polonês, sueco, romeno e russo. Ganhou os palcos do teatro e a páginas de
jornais impressos, além de conferir a Carolina Maria de Jesus homenagens pela
Academia Paulista de Letras e Academia de Letras da Faculdade de Direito
(FERNANDEZ, 2011, p. 2). Mas o que os relatos de Carolina trazem à luz é
extremamente pungente: miséria, alcoolismo, violência e discriminação.
Ambientada na extinta favela do Canindé, em São Paulo, a obra narra em
primeira pessoa o cotidiano de Carolina, negra, mãe solteira e catadora de papel, e da
população, em boa parte negra, empurrada pela pobreza para as margens do rio Tietê.
Inaugura um gênero entre essa parcela da sociedade brasileira até então negada: a da
autobiografia de classes minoritárias. Para Philippe Lejeune, autor de O pacto
autobiográfico:
Escrever e publicar a narrativa da própria vida foi por muito tempo, e ainda
continua sendo, em grande medida, um privilégio reservado aos membros das
classes dominantes. O “silêncio” das outras classes parece totalmente natural:
a autobiografia não faz parte da cultura dos pobres (LEJEUNE, 2008, p. 113).

Dessa forma, neste artigo iremos enfocar a narrativa caroliniana, a partir de uma
perspectiva tripartite: o amarelo – a fome, o negro – o racismo, entre o amarelo e o
negro – a enunciação feminina, discutindo conceitos relativos à autoria e a escrita de si.
O amarelo
Resolvi tomar uma média e comprar um pão. Que efeito
surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu
que antes de comer via o céu, as árvores, as aves tudo
amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus
olhos. Commented [JC1]: Confere as palavras que estão em
vermelho. Podes deixar como estava, já percebi que é o
Carolina Maria de Jesus estilo dela.

Repetida com frequência irritante, segundo o prefaciador e entusiasta primeiro


de Carolina Maria de Jesus, Audálio Dantas, a cor amarela é praticamente suprimida da
obra. Entretanto, torna-se indelével quando da passagem da epígrafe que abre esse texto.
É amarela a cor da fome, segundo Carolina. É contra o amarelo que insurge-se sua
escrita, em boa medida. O amarelo torna indistintos o humano e o animal, o humano e o
mundo das coisas. Empalidece a perspectiva do que é o ser humano em si e no mundo.

Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentar-se porque é duro a gente vir


ao mundo e não poder nem comer. Pelo que observo Deus é o rei dos sábios.
Ele pois os homens e os animais no mundo, mas os animais quem lhes
alimenta é a Natureza porque se os animais fossem alimentados igual aos
homens, havia de sofrer muito. Eu penso isto, porque quando eu não tenho
nada para comer, invejo os animais. (JESUS, ano?, p. 55)

Em muitas passagens, Carolina, ao mensurar a fome e a pobreza, compara


humanos e animais, denunciando a desumanidade às quais estão submetidas pessoas em
condições como as que viveu na favela do Canindé. Assim, Carolina sabe que mais do
que habitante empurrada para as margens do rio Tietê, foi empurrada para as margens
da sociedade e não raro, vê-se empurrada para as margens do que se pode considerar
humanidade:
As mulheres da favela são horríveis numa briga. O que podem resolver com
palavras elas transformam em conflito. Parecem corvos, numa disputa.
...A Odete revoltou-se comigo por ter defendido o Alcino. Eu disse:
— Você tem quatro filhos para criar.
— Eu não me importo. Eu queria era matá-la. Quando eu empurrava a
mulher para dentro do carro, ela disse-me:
— Só a senhora é que é boa.
Eu tinha a impressão que estava retirando um pedaço de osso da boca dos
cachorros. (JESUS, ano?, p. 45)
Carolina vê-se sempre numa linha tênue e vacilante entre o ser e não-ser humana. Linha
essa demarcada pela fome: “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do
álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer” (JESUS, ano?, p. 39).
Mas através da escrita Carolina passa de um corpo abandonado e faminto como
nem o seriam os animais, não apenas detentora, mas atualizadora da faculdade da
linguagem humana. Seria seu reestabelecimento junto à humanidade através da
capacidade de traduzir em outras instâncias (simbólica, social, cultural) a experiência
vivenciada empiricamente. A fome, assim, também acaba sendo o vetor que produz
conhecimento, impulsionando a escrita de Carolina.

Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao


povo. Quem governa o nosso pais é quem tem dinheiro, quem não sabe o que
é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer
a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido.
Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores. (JESUS, ano?, p. 35)

Carolina escreve sobre si e seu desesperador e desesperançado dia a dia, mas em


muitas medidas, também acaba por escrever sobre um não-eu, um anti-eu, na tentativa
de purgar as misérias humanas às quais a pobreza e a fome a impingiram para delas
afastar-se.
Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num
castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as
luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as
flores de todas as qualidades. (...) É preciso criar este ambiente de fantasia,
para esquecer que estou na favela.( JESUS, ano?, p. 20)

Essa dissonância (eu/anti-eu) evidencia o que Leonor Arfuch discute em O


espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea (2010, p. 55), quando
traz a discussão encetada por Mikhail Bakhtin acerca da diferença entre autor e
personagem, já que não existiria identidade possível entre os dois, ainda que na
autobiografia, porque não existiria coincidência entre a experiência vivencial e a
totalidade artística. É como uma espécie de afastar-se de si para continuar sendo a si
mesma. Esse espaço entre os movimentos de aproximação e afastamento é denominado
por Bakhtin enquanto valor biográfico e sobre o qual Arfuch defende que:

Em minha hipótese, é esse valor biográfico – heroico ou cotidiano, fundado


no desejo de transcendência, ou no amor aos próximos – que impõem uma
ordem à própria vida – à do narrador, do leitor -, à vivencia por si só
fragmentária e caótica da identidade, o que constitui uma das maiores apostas
do gênero, e consequentemente, do espaço biográfico. (ARFUCH, 2010, p.
55-56)

Isso também produz uma cisão entre aquela Carolina que escreve e aquela
Carolina que é escrita, pois como alude Cavalheiro (2008, p. 71) sobre os estudos de
Barthes, não é o autor que fala, é a linguagem. Essa asserção é representativa na Commented [JC2]:

seguinte passagem de Quarto de despejo: Commented [JC3]: Mudaria para: (2010, p. 79) sobre os
estudos de Bakhtin, no universo ficcional, temos o autor-
criador, que é caracterizado essencialmente como uma
posição axiológica. Já mudei nas referências.
Fui na dona Juana, ela deu-me pães. Passei na fabrica para ver se tinha
tomates. Havia muitas lenhas. Eu ia pegar uns pedaços quando ouvi um preto
dizer para eu não meche nas lenhas que ele ia bater-me. Eu disse para bater
que eu não tenho medo. Ele estava pondo as lenhas dentro do
caminhão. Olhou-me com desprezo e disse:
— Maloqueira!
— Por eu ser de maloca é que você não deve mecher comigo. Eu estou
habituada a tudo. A roubar, brigar e beber. Eu passo 15 dias em casa e quinze
dias na prisão. Já fui sentenciada em Santos. Ele fez menção de agredir-me e
eu disse-lhe:
— Eu sou da favela do Canindé. Sei cortar de gilete e navalhae estou
aprendendo a manejar a peixeira. Um nordestino está me dando aulas. Se vai
me bater pode vir.
Comecei apalpar os bolsos.
— Onde será que está minha navalha? Hoje o senhor fica só com uma orelha.
Quando eu bebo umas pingas fico meio louca. Na favela é assim, tudo que
aparece por lá nós batemos e roubamos o dinheiro e tudo que tiver no bolso.
O preto ficou quieto. Eu vim embora. Quando alguem nos insulta, é só falar
que é da favela e pronto. Nos deixa em paz. Percebi que nós da favela somos
temido. Eu desafiei o preto porque sabia que ele não ia vir. Eu não gosto de
briga. (p. 73)

Ou seja, Carolina sabe que é essa capacidade de transitar entre linguagens que a Commented [JC4]: Posições axiológicas

faz negociar sua identidade a cada contexto com o qual precisa lidar. Carolina adona-
apropria-se do discurso estereotipado reservado à favela e aos seus habitantes, que lhes
define enquanto essencialmente violentos e criminosos, transformando-o em dispositivo
discursivo, revertendo a seu favor a situação conflitante no qual encontrava-se, usando
da linguagem para livrar-se do risco de mais opressão e violência.
Também é o que faz com que Carolina inaugure, segundo Silva (2016, p. 125),
um tipo de literatura conhecida como literatura marginal, que dá voz aos que
historicamente não a tiveram e que se difundem fora do campo literário, por diversos
pontos da periferia de grandes centros urbanos. Marginalidade essa que por diversas
vezes, colocou o valor de sua obra em dúvida pela crítica literária, mas que como afirma
Fonseca (2016, p.89)
Ela, entretanto, teimava em afrontar as ordens culturais e sociais que
legitimam, por exemplo, as características textuais do texto autobiográfico,
do testemunho e do diário. Indiferente à guerra pelas classificações e
determinações dos gêneros textuais, ela registrou, nos apontamentos quase
que diários que fez do cotidiano da favela e de sua peregrinação em busca do
que pudesse ser vendido como lixo aproveitável.

Esse jogo discursivo estabelecido por Carolina nos remete ao constante jogo
entre três figuras distinguíveis nos textos autorreferenciais: da que escreve, da que narra
e da que vivencia os fatos extratextuais. O que por vezes pode resultar em discursos
contraditórios, contudo compreensíveis, quando levadas em conta a negociação entre as
três instâncias ao longo da obra. Sendo assim
Pode-se afirmar que Quarto de despejo é resultado da confluência de três
figuras distintas e simultaneamente complementares: a que escreve, a que
narra e a que vive. Quem observa e cria é uma autora favelada. Quem detém
as informações é a narradora e quem vive as ações é a personagem, que faz
parte do meio dos favelados. Facetas de um mesmo ser: Carolina Maria de
Jesus. A narradora tenta livrar a protagonista dos mesmos gestos,
pensamentos, comportamentos dos demais favelados, no entanto, as
aproximações são inevitáveis, pois a linguagem utilizada, assim como o
modo de vida protagonizado, faz parte do ambiente favelado.
(FERNANDEZ, 2011, P. 02-03)

O negro

A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que


sabemos o que encerra. E nós quando estamos no
fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu.
A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele.
Preto é o lugar onde eu moro.
Carolina Maria de Jesus

Se há um lugar de que fala Carolina esse é o do negro. Enquanto neta de um


negro escravizado, avô que chamava de Sócrates africano, faz alusão aos aspectos
históricos que impuseram aos negros condições sociais de subalternidade. Relembrando
o dia em que se decretou a abolição da escravatura no Brasil, mais de um século depois,
Carolina reflete sobre sua condição que ainda a faz escrava:

Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da


Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. . . .Nas prisões
os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E
não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos
sejam feliz. [...] E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a
escravatura atual — a fome! (JESUS, ano?, p. 27)

Também reflete, ainda que o faça sob o prisma religioso, sobre essa mesma
libertação que feita sem nenhuma política de inclusão dos negros ou de reparação social
aos anos de exploração de mão de obra, empurrando-os para as margens da sociedade,
inclusive geograficamente, o que resultou no surgimento de novos espaços e formas de
moradia: as favelas.

14 de setembro. Hoje é o dia da pascoa de Moysés. O Deus dos judeus. Que


libertou os judeus até hoje. O preto é perseguido porque a sua pele é da
cor da noite. E o judeu porque é inteligente. Moysés quando via os judeus
descalços e rotos orava pedindo a Deus para dar-lhe conforto e riquesas. É
por isso que os judeus quase todos são ricos. Já nós os pretos não tivemos um
profeta para orar por nós. (JESUS, ano?,p.?)

Ou seja, apesar de libertos, não havia um representante que fizesse a


intermediação entre os negros e as entidades superiores a seu favor, nem mesmo no
plano religioso. As diferenças sociais construídas entre negros e brancos nega, inclusive
em outros países como os Estado Unidos, direitos como à educação formal, fato que
Carolina vem a ter conhecimento:

Então começamos a falar sobre o preconceito. Ela disse-me que nos Estados
Unidos eles não querem negros nas escolas. Fico pensando: os norte-
americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não
convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não
pode lutar com os produtos da Natureza. (JESUS, ano?, p. 108)

Por vezes, o negro surge numa expressão metonímica para favela, chegando
quase a confundirem-se, indicando o caráter negativo e sofrido atribuído à cor, resultado
das injustiças históricas praticadas contra as pessoas negras. A favela indica o lugar
onde toda a humanidade e os princípios humanísticos se perderam, dando lugar à
corrupção e miséria.
Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os
lugares do lixo e dos marginais. Geme da favela é considerado marginais. Commented [JC5]: Seria gente?
Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, peno dos lixos. Os
homens desempregados substituíram os corvos.( JESUS, ano?, p. 48)

Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do
feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia. (JESUS,
ano?, p. 49)
Injustiças essas institucionalizadas contra os negros e denunciadas por Carolina,
como relata:
Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo
um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e
amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que
transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já
foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata? (JESUS, ano?,
p. 96)

A passagem em muito lembra um fato ocorrido em 2014, no Rio de Janeiro, em


que um adolescente negro acusado de roubo foi alvo de pauladas e acorrentado nu pelo
pescoço a um poste. O que parece nos indicar que decorridos quase setenta anos da
publicação de Quarto de despejo, os fatos presentes na obra continuam repetindo-se
com a mesma brutalidade contra os negros.
O preconceito também acaba atingindo Carolina em instância individual, uma
vez que dedicando-se à escrita e à leitura quando pode - ou seja à produção intelectual -
e fugindo das atividades então restritas à parcela negra da população – usualmente
trabalhos braçais e/ou domésticos -, acaba sendo discriminada nos seus intuitos
literários, já que como uma das personagens bem diz:

Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me:


— É pena você ser preta.
Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu
até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o
cabelo de preto onde põe fica. E obediente. E o cabelo de branco, é só dar um
movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe
reincarnações, eu quero voltar sempre preta....Um dia, um branco disse-me:
— Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os
brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto
conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que
superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A
enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o
negro tambem. A natureza não seleciona ninguem. (JESUS, ano?, p. 58)

Ao passo que gera de Carolina uma reação de autoafirmação racial e mais


adiante uma reflexão sobre a igualdade, já que não existiria nenhuma diferença
biológica entre brancos e negros. Discriminação essa vinda não apenas de pessoas
consideradas em uma hierarquia racial e social que a sua, mas mesmo de seus pares,
pessoas pobres e negras como ela mesma, como quando indagada por um vizinho:
“Quiz saber o que eu escrevia. Eu disse ser meu diário. – Nunca vi uma preta gostar
tanto de livros como você. Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler” (JESUS, ano?,
p. 23)

Mas assim como Carolina rompe com o discurso de superioridade racial do


branco, também incorre em alguns estereótipos sobre os negros, como por exemplo,
quando irrita-se com o atraso de seu companheiro:

— Eu estava te chingando. O senhor ouviu?


— Não ouvi.
— Eu estava dizendo aos filhos que eu desejava ser preta.
— E você não é preta?
— Eu sou. Mas eu queria ser destas negras escandalosas para bater e rasgar
as tuas roupas.
...Quando ele passa uns dias sem vir aqui, eu fico lhe chingando. Falo:
quando ele chegar eu quero expancar-lhe e lhe jogar agua. (JESUS, ano?, p.?)

Segundo esse estereótipo, os negros seriam portadores do escândalo, capazes de


atos violentos em razão de sua passionalidade e obscenidade. Atitudes condenáveis.
Tanto que receberiam uma espécie de classificação atribuída à cultura africana:

O Arnaldo é preto. Quando veio para a favela era menino. Mas que menino!
Era bom, iducado, meigo, obidiente. Era o orgulho do pai e de quem
lhe conhecia. — Este vai ser um negro, sim senhor! É que na Africa os
negros são classificados assim: — Negro tú. — Negro turututú. — E
negro sim senhor! Negro tú é o negro mais ou menos. Negro turututú é o que
não vale nada. E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade. Mas o Arnaldo
transformou-se em negro turututú depois que cresceu. Ficou estupido,
pornografico, obceno e alcoolatra. (JESUS, ano?, p. 46)

Contudo, outra imagem, diametralmente oposta, é apresentada sobre os negros: o


da extrema benevolência e generosidade, geralmente atribuídas às amas de leite ou mães
pretas, facilmente reconhecível na personagem de Tia Nastácia de Monteiro Lobato.
Assim Carolina descreve uma de suas vizinhas:
Dona Domingas é uma preta boa igual ao pão. Calma e util. Quando a Leila
ficou sem casa foi morar com a Dona Domingas.
...A Dona Domingas era quem lavava a roupa da Leila, que lhe obrigou a
dormir no chão e lhe dar o leito. (idem JESUS, ano?, p.)

No entanto, percebemos que embora a questão racial se interponha de forma marcante


em relação ao tratamento entre seus pares, há exigências outras que se fazem
perceptíveis com relação às condutas de comportamento, em especial das mulheres,
como vemos adiante.
Entre o amarelo e o negro

No ponto do bonde as tabuas escorregaram da


carrocinha. E o José Carlos vendo a minha luta disse-
me: — Porque é que a senhora não casou-se? Agora a
senhora tinha um homem para ajudar.

Carolina Maria de Jesus

Em Quarto de despejo, há uma perspectiva quase paradoxal acerca do


feminino. Ao longo da obra, Carolina Maria adota um discurso patriarcal quando alude
às ações das outras mulheres com quem convive na favela do Canindé. Chegando
mesmo a atribuir à a elas a responsabilidade pelas maiores desordens por lá causadas:
“São os adultos que contribue para delinquir os menores. Temos os professores de
escandalos: A Leila, a Meiry, a Zefa, a Pitita e a Deolinda.” (JESUS, ano?, p. 79). São as
mulheres que entram em sua casa e agridem seus filhos, insultam e a aterrorizam:
“Quando os meus filhos eram menores eu deixava eles fechado e saía para catar papel.
Um dia eu cheguei e encontrei o João chorando. Ele disse-me: - Sabe mamãe, a Dona
Rosa me jogou bosta no rosto.” (JESUS, ano?, p. 72). Delas são cobradas os deveres com
a casa, o marido e os filhos, e quando falta a figura do pai-provedor a elas também é
delegado o sustento do lar: “A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou
para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados
dos avós.” (JESUS, ano?, p. 72). São também em boa medida graves vítimas da pobreza,
do alcoolismo e da violência, vendo até mesmo seus corpos como forma de negociação
para tentar aliviar o flagelo da fome.

Quando cheguei na favela tinha um purtuguês vendendo miudo de vaca.


Comprei meio quilo de bucho. Mas eu não gosto de negociar com purtuguês.
Eles não tem iducação. São obcenos, pornograficos e estupidos. Quando
procura uma preta é pensando explorá-la. Eles pensam que são mais
inteligentes do que os outros. O purtuguês disse para a Fernanda que lhe dava
um pedaço de figado se ela lhe aceitasse. Ela não quiz. Tem preta que
não gosta de branco. Ela saiu sem comprar. Ele deixou de vender por ser
atrevido. (JESUS, ano?, p. 83)

Contudo Carolina Maria de Jesus reserva para si um outro discurso em alguns


momentos da obra, como no da epígrafe acima. Quando indagada pelo filho, deixa a
resposta em suspenso. Talvez pela fome que em muito a indispunha fisicamente e/ou
pelos rigores que sua profissão lhe impunha. Mas em outros momentos deixa claro o
motivo de sua escolha em manter-se longe da vida matrimonial:

Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatórios.
Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas
tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por
associações de caridade. Os meus filhos não, são sustentados com pão de
igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas,
tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas
pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses.
Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos
dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam
vida de escravas indianas. Não casei e não estou descontente. Os que preferiu
me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis.
(JESUS, ano?, p. 14)

Na favela, o casamento nada mais seria que uma forma a mais de violência,
opressão e exploração. Fugindo do matrimônio, atrai para si e para os filhos a antipatia
de outros moradores da favela, já que foge da conduta mais apropriada às mulheres,
dentro do discurso ideológico patriarcal e no qual o valor da mulher é pautado pela
figura masculina que a patenteia enquanto ser digno. Entretanto, Carolina não se furta
de vivenciar sua vida amorosa, através de incursões noturnas: “Esperei até as 11 horas
um certo alguém. Ele não veio.” (JESUS, ano?, p. 6), e com homens a quem escolhe:

Seu Gino veio dizer-me para eu ir no quarto dele. Que eu estou lhe
despresando. Disse-lhe: Não! É que eu estou escrevendo um livro, para
vendê-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela.
Não tenho tempo para ir na casa de ninguem. Seu Gino insistia. Ele disse: -
Bate que eu abro a porta. Mas o meu coração não pede para eu ir no quarto
dele. (JESUS, ano?, p. 25)

Dormi com ele. E a noite foi deliciosa. (JESUS, ano?, p. 146)

Carolina vive a contradição entre o discurso até então vigente, que alija as
mulheres de outras possibilidades de vida que não a de dona de casa e mãe, e o desejo
de dele libertar-se sem ter até o momento nenhum outro referencial discursivo no qual
mirar-se. Assim, não lhe resta nada mais que desejar as liberdades que os homens
possuem sobre a decisão de seus corpos, suas profissões, enfim, suas vidas. Isso fica
ilustrado na seguinte passagem:

Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o
Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo que existia guerra.
Só lia os nomes masculinos como defensor da patria. Então eu dizia para a
minha mãe: -Porque a senhora não faz eu virar homem?
Ela dizia: - Se você passar por debaixo do arco-iris você vira
homem. Quando o arco-íris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas o arco-
iris estava sempre distanciando. Igual os políticos distante do povo.
Eu cançava e sentava. Depois começava a chorar. Mas o povo não deve
cançar. Não deve chorar. Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos
filhos não sofrer o que estamos sofrendo. Eu voltava e dizia para a mamãe:
- O arco-iris foge de mim. (JESUS, ano?, p. 48)

Por vezes, o posicionamento de Carolina enquanto mulher dá lugar à Carolina enquanto


escritora. Como quando afirma:

O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu


não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de
gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para
escrever. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que
eu prefiro viver só para o meu ideal. (JESUS, ano?, p. 42)

Esse posicionamento enquanto mulher que escreve em vários momentos é


reiterado quando Carolina assume, por exemplo, a palavra poeta para se autodesignar.
Assumindo a forma para si, no lugar da forma flexionada em gênero, poetisa, arroga
igualdade através da escrita, já que por uma questão gramatical a palavra poetisa pode
não só indicar a mulher que escreve, mas também a cônjuge de um homem que se
dedica ao ofício da poesia. Adotando a palavra poeta como comum de dois gêneros,
Carolina aproxima-se de outra mulher que escreve, Cecília Meirelles, que no poema
Motivos, assim afirma “Não sou alegre nem triste: sou poeta”.
Entretanto, o posicionamento de Carolina pode ser encarado como resultado de
algumas possibilidades: a da co-autoria de Audálio Dantas, cuja pauta não tinha enfoque
sobre a construção do discurso feminino ou sobre o qual achava que não seria visto com
bons olhos pelo público leitor da obra, e pelo desconhecimento, por parte de Carolina,
do discurso e do movimento feminista, ainda restrito à parcela mais intelectualizada das
mulheres brasileiras. Lembremos que, segundo Celia Regina Jardim Pinto em Uma
história do feminismo no Brasil (2003), a primeira forma de manifestação feminista
ocorreu durante a luta pelo sufrágio, aproximadamente entre o final do século XIX e
pelas três décadas inicias do XX. Depois disso o movimento sofreu uma espécie de
dispersão e só veio a se articular novamente já nos anos de 1970. Ou seja, embora sua
escrita não seja direcionada ideologicamente pelo feminismo, ele antecipa em dez anos
o que viria a se consolidar enquanto movimento. Antecipa também, dentro da literatura,
o que ainda no século XXI é rarefeito.
Encabeçando uma pesquisa de quinze anos (1990-2004), dedicada a analisar
romances publicados por três expressivas editoras do país (Record, Companhia das
letras e Rocco), Regina Dalcastagnè, em uma de suas constatações iniciais afirma:

Assim, esta pesquisa tem início com um sentimento de desconforto diante da


literatura brasileira contemporânea, desconforto causado pela constatação da
ausência de dois grandes grupos em nossos romances: dos pobres e dos
negros. (DALCASTAGNÈ, ano? p. 14)

Mais tarde, Dalcastagnè quantifica o vazio da diversidade racial, social e de


gênero dos autores das obras. De 165 autores, 120 eram homens, 72,7%. Deste mesmo
número, 93,9% eram brancos, 36,4% eram jornalistas, 16,4% professores universitários,
13,3% escritores. Com relação aos personagens, das 773 levantadas, 63,1% eram
masculinas, contra 37,8% de femininas. Situação que se evidencia quando analisada a
posição narrativa dessas personagens, que resultaram em 28,9% de personagens
femininas protagonistas e 37,8% de narradoras. Destarte, a voz feminina na literatura
ainda se faz de forma tímida.
Dessa forma, Dalcastagnè, em sua pesquisa, constata que predomina na
esquadrinha a literatura brasileira e o que vê é a repetição em letras daquilo que
acontece no universo social. A literatura brasileira desse século continua falando tanto
de quem a faz como de quem a representa.

Nosso campo literário é um espaço excludente, constatação que não deve


causar espanto, já que ele se insere num universo social que é também
extremamente excludente. Falta ao romance brasileiro dos últimos quinze
anos, como os números da pesquisa indicam de maneira eloqüente,
incorporar as vivências, os dramas, as opressões, mas também as fantasias, as
esperanças e as utopias dos grupos sociais subalternos, sejam eles definidos
por classe, por sexo, por raça e cor, por orientação sexual ou por qualquer
outro critério. O resultado é que, como conjunto, nossa literatura apresenta
uma perspectiva social enviesada, tanto mais grave pelo fato de que os
grupos que estão excluídos da voz literária são os mesmos que são
silenciados nos outros espaços de produção do discurso – a política, a mídia,
em alguma medida ainda o mundo acadêmico. (DALCASTAGNÈ, ano?, p.
63-64)
Esse mesmo campo literário acabou demonstrando resistência com relação à
obra de Carolina Maria de Jesus, tanto em virtude dos erros gramaticais contidos na
obra quanto em relação à sua origem social e étnica. O que fez com que Carolina, ainda
que tivesse alcançado relativo sucesso e ascensão social através de sua literatura, fosse
discriminada pelo métier literato e pelas demais parcelas da população. Após o
lançamento de sua obra, passou a ser hostilizada na favela que morava, pelo fato de
denunciar as mazelas sociais e humanas e, depois, pelos novos vizinhos, quando se
mudou para sua tão almejada casa de alvenaria, pelo fato de ter vindo de uma favela.
Retornou às dificuldades financeiras e morreu incompreendida. Contudo, sua obra
continua sendo revisitada, nos mostrando a face cruel e ainda atual da condição das
classes menos favorecidas de nosso país.

Considerações finais

Carolina Maria de Jesus enfrentou a miséria, a discriminação racial e de gênero


munida de arte. Sua escrita é atravessada pelas contradições com as quais tinha que
conviver, mas também pela sensibilidade aguda que a permitiu transformar a dura
realidade que vivenciou em material estético para a confecção de Quarto de despejo.
Escreveu do cerne do eu, com as munições que dispunha: sua semialfabetização e a
consciência de que a arte pode se não eliminar o sofrimento humano, mas pelo menos
denunciá-lo. O que a fez ultrapassar os limites estabelecidos canonicamente,
incrustando-a como uma pérola negra na literatura brasileira, ainda incomoda e pouco
compreendida na atualidade.

Referências

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Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2010.

CAVALHEIRO, Juciane. Literatura e Enunciação. Manaus: UEA Edições, 2010.

DALCASTAGNÈ, Regina. Um território contestado. In: Revista Iberic@l, número 2,


2012.
FERNANDEZ, Raffaella. VOZES DISSONANTES NA PROCESSUALIDADE DA
REINVENÇÃO DO EU EM QUARTO DE DESPEJO. In: A. Anais do SILEL. Commented [JC6]: Colocar em caixa baixa
Volume 2, Número 2. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Catar papel se limita com escrever: rompendo os
muros da miséria silenciada. In: Memorialismo e resistência: estudos sobre Carolina
Maria de Jesus. Jundiaí: Paco Editorial, 2016.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo. 9 ed. São Paulo: Editora Ática, 2007.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo:
Fundação Perseu Abramo, 2003.

SILVA, Eliane da Conceição. A representação da mulher em Carolina Maria de Jesus:


entre o estereótipo e a escrita de si. In: Memorialismo e resistência: estudos sobre
Carolina Maria de Jesus. Jundiaí: Paco Editorial, 2016.