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01/04/2019 O MAL DA CIVILIZAÇÃO É A MENTE PATRIARCAL – Claudio Naranjo – Ação Transformativa

Ação Transformativa

MUDANÇA SOCIAL, UNCATEGORIZED

O MAL DA CIVILIZAÇÃO É A MENTE


PATRIARCAL – Claudio Naranjo

Publicado por ANGELICA RENTE em AGOSTO 13, 2015JULHO 1, 2017


O psiquiatra chileno Claudio Naranjo faz uma crítica contundente ao pensamento patriarcal e a seu papel na
crise planetária, assim como à educação como meio de perpetuação desta mentalidade nefasta.

Original em espanhol: h p://circulosdemujeres.blogspot.com.br/2010/06/claudio-naranjo-el-mal-de-la.html.


(h p://circulosdemujeres.blogspot.com.br/2010/06/claudio-naranjo-el-mal-de-la.html. )

Claudio Naranjo, chileno, estudou medicina, psiquiatria e música e acabou por se converter em
uma referência mundial na investigação da mente humana. Seu trabalho integra a sabedoria
tradicional e científica, oriental e ocidental, e o conhecimento histórico, antropológico, sociológico,
psicológico e espiritual do ser humano. Criador do programa SAT, a principio dirigido a
profissionais da psicoterapia, que deu origem a um programa de transformação individual e social
para uso pessoal e no âmbito educativo. Autor de mais de 20 livros, traduzidos para vários
idiomas.

A única saída para esta crise é a transformação interior

A crise atual tem abalado as estruturas do sistema e acabou por revelar algumas de suas muitas
fissuras. O comunismo se afundou devido às suas falhas de funcionamento, mas o capitalismo não
parece ter se dado melhor. Levamos séculos trocando governos, fazendo revoluções políticas e
sociais, mas nunca chegamos a um porto seguro, talvez porque nos esquecemos das

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01/04/2019 O MAL DA CIVILIZAÇÃO É A MENTE PATRIARCAL – Claudio Naranjo – Ação Transformativa

transformações mais básicas e elementares que têm lugar na revolução pessoal. Temos o mundo
que temos devido ao tipo de consciência que se desenvolve através da educação, segundo Claudio
Naranjo. E se queremos sair de verdade desta crise econômica, social e humana, temos que superar
o ego individualista e iniciar uma autêntica transformação interior.

A civilização está doente. De quê?

O mal da civilização é a mente patriarcal. Não me refiro somente à sociedade patriarcal que faz
com que os machos predominem sobre as mulheres e tenham um acesso mais fácil ao poder e à
economia. Refiro-me a uma forma de mentalidade que atualmente todos compartilhamos: homens,
mulheres e crianças, contaminados pelo mesmo vírus.

A que nos referimos exatamente com esta “mentalidade patriarcal”?

A uma paixão pela autoridade. Pelo ego, o ego patrístico, um complexo de violência, excesso,
voracidade, consciência isolada e egoísta, insensibilidade e perda de contato com uma identidade
mais profunda. Há quem acredite que tudo isto faz parte da natureza humana e que sempre foi
assim. Pois não é verdade. Há indícios da existência de um passado matrístico, e ainda hoje há
algumas sociedades indígenas com estas características, que não funcionam em absoluto alinhadas
às diretrizes e valores que conhecemos na civilização. Esta mente, longe de ser inerentemente
humana, em realidade começou a gestar-se há apenas por volta de 6000 anos atrás quando, frente a
uma crise de sobrevivência, certas populações agrícolas arcaicas indo-européias e semitas tiveram
que voltar a serem nômades e acabaram convertendo-se em comunidades de guerreiros
depredadores.

E como se manifesta esta mente patriarcal?

Nas relações de domínio-submissão e de paternalismo-dependência, que interferem na capacidade


de estabelecer vínculos adultos solidários e fraternais. O cérebro patriarcal-racional apela à
competição, enquanto que o feminino apela à cooperação. Esta dependência e obediência
compulsivas (aos governos e ao poder em geral) não só alienam os indivíduos, como também
constituem distorções, falsificações e caricaturas do amor.

Mas as coisas podem ser de outra forma. Você diz que, na realidade, somos seres “tricerebrados”

Certamente. Em uma linguagem anatômica, possuímos um cérebro instintivo, que partilhamos


com todos os répteis; um emocional, como o do resto dos mamíferos; e um racional, que é o último
que se desenvolveu e que, sem dúvidas, acabou por impor-se sobre os outros dois. É como se, em
nosso interior, carregássemos três pessoas: uma de tipo intelectual-normativa, que seria o pai; uma
pessoa emocional, que representa o princípio do amor, que é a mãe; e uma instintiva, que seria o
filho. Pois bem, na sociedade atual, que denominamos de civilização, predomina o cérebro racional
e tem lugar o imperialismo da razão sobre o emocional e o instintivo.

Mas esta razão que impera é realmente racional ou, na verdade, é irracional?

Esta é a questão, porque, na realidade, não é racional, nem inteligente, do ponto de vista dos
resultados em relação ao bem estar social e pessoal. Ela corrompeu conceitos como o de
inteligência, eficácia ou da própria racionalidade. É uma mente rígida, isolada, autoritária e
normativa que busca resultados e ganhos em curto prazo, mas ganhos do ponto de vista
competitivo, materialista e consumista, não em relação ao bem estar profundo, desenvolvimento
pessoal ou convívio com o meio. E, em consequência, toda a educação está sujeita a este paradigma
racionalista.

Que se manifesta como…?


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Ao considerar a educação como um mero transmitir de informação, afastada de objetivos como o


autoconhecimento, que deveria ser prioritário. E então vemos coisas na escola como, por exemplo,
uma criança chorar e lhe chamarem a atenção.

E se dão risada, são expulsas da sala

As emoções estão proibidas. E o instintivo, ainda mais. E, sem dúvida, para que a pessoas seja
saudável em uma sociedade saudável seria preciso o equilíbrio entre os três cérebros. Harmonizar
os binômios competição/colaboração, agressividade/ternura. Desenvolver uma agressividade
saudável, em vez da agressividade depredadora que impera. E, sobretudo, desenvolver a
capacidade de amar, a ternura.

Estamos no caminho? Você fala do ocaso do patriarcado

Por um lado, vemos que o autoritarismo nas famílias diminuiu, assim como nos governos. Mas as
empresas tomaram o poder e seu controle é enorme. Mas talvez sim, podemos dizer que o navio
está afundando, mas as pessoas estão mais preocupadas em manter o status do que em salvarem-
se; em defenderem o pouco que lhes resta, ainda que em vista do pouco que vale, do que com a
transformação, em abandonar tudo e começar a construir do zero.

Por isso você insiste tanto na importância da educação

Claro, porque é mais fácil prevenir do que curar. Temos que prevenir a destruição da mente. A
educação atual conta com uma agenda oculta que requer que os filhos sejam iguais a seus pais,
quando os pais são o problema. Dizemos que a educação serve para transmitir nossos valores e não
nos damos conta de que estamos transmitindo nossas pragas.

E isso é responsabilidade da escola, da família, dos meios de comunicação?

Das autoridades em todos os âmbitos, desde os professores até a opinião pública. Os pais aspiram
a que os filhos triunfem neste mundo de competição econômica, não importa que também seja um
mundo de pobreza crescente, desde que não os atinja. Preferem a educação que serve como uma
máquina de certificação. Não lhes interessa educar, mas sim servir ao mundo do trabalho. Insistem
que desejam o bem de seus filhos, mas, na realidade, o bem dos filhos interessa menos do que a
eficácia nos negócios. Temos o mundo que temos devido ao tipo de consciência que se desenvolve
através da educação, que é uma educação implicitamente exploradora.

Você é muito critico com a educação, em especial em relação aos educadores

Porque não considero a educação como mero repasse de informações, como uma forma mais de
produção, de formação e exploração de novos trabalhadores, que é no que consiste a escola atual.
Devemos voltar às raízes da educação como autoconhecimento, como busca do “conhece-te a ti
mesmo” de Sócrates. Ao conhecimento transformador que possibilita a mudança.

Existem, contudo, algumas iniciativas educativas diferentes, como, por exemplo, as escolas
internacionais de Krishnamurti.

Sim, mas mesmo estas escolas levam ao debate, e está tudo bem, porque pelo menos dão a
oportunidade aos alunos de aprenderem a pensar por si mesmos. Mais o debate não transforma
nada. É preciso integrar processos de autoconhecimento transformador.

A transformação individual para transformar e curar a civilização

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Não há mudança possível sem passar pelo autoconhecimento individual. Séculos e séculos de
mudanças sociais e políticas fracassaram porque passaram por cima da mudança das pessoas. Só
podemos curar o tecido através das células, das pessoas. E para isto temos que plantar a semente
na escola. Mas deve ser uma nova escola, que tenha em conta os três aspectos das pessoas: o
conhecimento, a saúde amorosa e a saúde instintiva.

Soa diferente…

Mas necessário, se queremos transformar as coisas de verdade. Outro dia me convidaram a dar
uma conferência em uma universidade, e antes de começar me pediram que evitasse os temas
espirituais e psicológicos e me limitasse à pedagogia. Chocante. A educação resiste a integrar o
transcendental-espiritual e o terapêutico e segue considerando-os um campo a parte porque, se não
fosse assim, as coisas se complicariam. E é certo que se complicariam um pouco, porque significaria
permitir que as pessoas pensem por si mesmas. Então, não se assume o risco. Claro que não se
calcula o preço disto.

E qual é o preço?

A infelicidade coletiva.

E o que podemos fazer?

Em primeiro lugar, reconhecer que é um fato que as crianças chegam cada vez mais
emocionalmente prejudicadas à escola. Em muitos casos, os pais estão ausentes da educação dos
filhos. O tempo livre é escasso e quase não se desfruta do ócio, muito menos compartilhado em
família. E, sem dúvida, o ócio está ligado ao crescimento e ao espírito, já que nos oferece a
oportunidade de estarmos conosco mesmos.

O que mais?

Reconhecermos também que sentem falta de amor e desta parte do saber, não científico, a
sabedoria que nos permite tomar boas decisões na vida. Decisões que nos conduzem a sermos
verdadeiramente mais felizes.

A escola deve ocupar-se disto?

Sim, a escola tem que incorporar este aspecto humanizante. Revelar a insatisfação latente e
canalizá-la. Não somente para recuperar este sistema econômico em crise, mas principalmente pelo
custo pessoal e pelo sofrimento.

E a que você se refere com revelar a insatisfação?

Porque por trás de toda busca há uma insatisfação, e se queremos iniciar uma busca pessoal pelo
autoconhecimento e a transformação devemos estar conscientes, em primeiro lugar, de que este
estado de coisas não nos satisfaz. A insatisfação está ai, bem latente e bem visível, o que acontece é
que o consumismo nos dá respostas do tipo: compre um carro melhor, mude de casa, de cidade, de
parceiro, de trabalho. Mas a resposta do consumismo não é válida, porque a insatisfação não só
não se resolve desta forma, como também acaba fazendo com que nos viciemos nela e, na
realidade, é disso que o sistema precisa: que sejamos uns consumistas insatisfeitos crônicos.
Precisamos de respostas mais profundas que nos levem a fazer mudanças significativas.

Tenho a impressão de que a busca e a insatisfação não são bem vistas nem na escola, nem na
família

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E é assim mesmo. Porque nossa cultura não reconhece a busca como um valor, mas como um
sintoma. Ela só é admitida se está no caminho da ambição profissional, mas se é algo indefinido,
que é como deve ser a busca em estado puro, ela é rotulada. Dizem “que pessoa inquieta!”, e ela é
considerada estranha. Se, além disso, ela for muito apaixonada, a busca não compreendida e nem
apoiada se torna dolorosa e acaba numa consulta psiquiátrica. Existe a possibilidade de que se
acabe interpretando como um sintoma esquizofrênico, angústia, etc, quando, na realidade, não
passa de insatisfação natural frente à vida alienada, isolada e desestruturada que levamos.

De que maneira podemos agir a partir da família?

O máximo que os pais podem fazer por seus filhos é se ocuparem de seu próprio desenvolvimento
pessoal. Que o pai e a mãe se desenvolvam como pessoas e sejam exemplos. Que não aspirem só a
que seu filho ou filha tragam boas notas da escola. Que tomem consciência de tudo isto que está
faltando na educação e parece que ninguém nota.

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