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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0009680-35.2016.8.05.0001

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : AMANDA PRISCILA BARBOSA OLIVEIRA

Recorrido(s) : BANCO BRADESCO S A

Origem : 6ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO- E M E N T A

RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS C/C


OBRIGAÇÃO DE FAZER. NEGATIVAÇÃO INDEVIDA EM FACE DE DÉBITO
NÃO CONTRAÍDO PELA PARTE AUTORA. VENTILADA HIPÓTESE DE
FRAUDE. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO. JULGADO QUE ENTENDEU
PELA INCOMPETÊNCIA ABSOLUTA DO JUIZADO EXTINGUINDO O
PROCESSO. INCOMPETÊNCIA AFASTADA. ANULAÇÃO DO JULGADO.
APLICAÇÃO DA TEORIA DA CAUSA MADURA. ART. 1013 DO CPC. RÉU QUE
NÃO FAZ PROVA DA EXISTÊNCIA DA RELAÇÃO JURÍDICA. DANOS MORAIS
IN RE IPSA. QUANTUM A SER ARBITRADO. SENTENÇA REFORMADA
1. Trata-se de recurso inominado interposto contra sentença que extinguiu o
processo sem julgamento de mérito, nestes termos: “ De mais a mais, tal qual a
incompetência absoluta (art. 64, § 1º, do novo CPC), a ausência de pressuposto processual pode
ser conhecida até mesmo de ofício, em qualquer tempo e grau de jurisdição, antes de proferida a
sentença de mérito, nos termos do art. 485, § 3º, do novo CPC.Assim, ante o exposto e tudo mais
que dos autos consta, com fundamento no art. 51, inciso III, da Lei 9.099/95, c/c arts. 64, § 1º, e
485, IV, do novo CPC, extingo a presente queixa, sem resolução do mérito..”

2. Na origem, alega a autora que tivera os seus dados indevidamente incluídos


nos cadastros de proteção ao crédito por dívida que alega desconhecer,
requerendo a declaração da inexigibilidade da dívida, bem como indenização pelos
danos morais sofridos, na modalidade in re ipsa.
3. A parte recorrente busca a reforma da sentença, aduzindo, em síntese, que
não fora comprovada a relação jurídica entre as partes, da qual decorreu a irregular
constituição da dívida que fora objeto de impugnação; que não é caso de extinção
do processo sem julgamento de mérito, fazendo jus, portanto, à indenização pelos
danos morais sofridos.
4. A sentença recorrida carece de reforma, pois a alegação de inexistência de
contratação não afasta a competência dos Juizados Especiais Cíveis de Defesa do
Consumidor, vez que no caso em análise estamos diante do consumidor por
equiparação, conforme dispõe o art. 29 do CDC.
5. Neste sentido diz a jurisprudência:
6. CONSUMIDOR. CONTRATO DE CARTÃO DE CRÉDITO.
FRAUDE. FATO DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE
OBJETIVA. CONSUMIDOR BYSTANDER. INVERSÃO DO
ÔNUS DA PROVA. DANO MORAL. DANUM IN RE IPSA.
QUANTUM INDENIZATÓRIO. PROPORCIONALIDADE. Nas
hipóteses em que terceiro de má-fé realizar contrato de
crédito com instituição financeira, em nome de outrem,
causando prejuízos, a vítima enquadrar-se-á no conceito de
consumidor por equiparação ou bystander (artigo 17, do
Estatuto Consumerista), pois, apesar de não ter participado
da relação contratual, foi atingida reflexamente em virtude do
descumprimento, pelo fornecedor, do dever de cuidado. A
celebração de contrato fraudulento pela instituição bancária
configura fato do serviço, atraindo, por conseguinte, a
responsabilidade objetiva, baseada no risco da atividade (artigo
14, do Código de Defesa do Consumidor). Não há que perquirir
sobre a existência de efetivo prejuízo para o consumidor, uma vez
que, neste caso, o dano moral é in re ipsa, ou seja, opera
independentemente de prova do prejuízo, bastando a mera
ocorrência do fato para surgir o direito à reparação. O quantum
indenizatório baseia-se em princípios de prudência e de bom
senso, cuja mensuração se dá com lastro em ponderado critério
de proporcionalidade e razoabilidade, observando-se a gravidade
da repercussão da ofensa e as circunstâncias específicas do
evento, os incômodos sofridos pelo ofendido, bem como a
natureza do direito subjetivo fundamental violado. (Acórdão n.º
817490, 20120111780063APC, Relator: ESDRAS NEVES,
Revisora: ANA CANTARINO, 6ª Turma Cível, Data de
Julgamento: 03/09/2014, Publicado no DJE: 09/09/2014. Pág.:
261)
7. Assim, consoante regra expressa no Código de Defesa do Consumidor, a)
equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que
indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo, bem como b)
equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento e as pessoas
determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas (hipótese in
concreto).
8. Estando a causa madura para julgamento, presentes os requisitos
necessários para a análise do mérito, mister se faz a aplicação da teoria da causa
madura, albergada pelo novo CPC no art. 1013.

9. No mérito, o pleito autoral merece guarida. Com efeito, tendo a parte


autora alegado desconhecer a existência do débito objeto da negativação,
incumbia à empresa demandada a prova acerca da existência da relação jurídica,
através da apresentação do instrumento contratual que contivesse a assinatura da
parte autora, o que não fizera no caso em comento, sofrendo portanto as
consequências da inobservância da regra do ônus da prova, prevista no art.373 do
NCPC.

10. Ademais, a parte autora faz aos autos consulta da CDL no evento 01, em
que consta o apontamento indevido, por solicitação da demandada,
desincumbindo-se assim do ônus de provar o fato constitutivo de seu direito , nos
termos do art.373, inciso I do NCPC. É cediço na jurisprudência pátria que a
negativação do nome do consumidor nos cadastros de proteção ao crédito por
cobrança indevida gera dano moral in re ipsa, que prescinde de comprovação.

11. Reconhecida a existência dos danos morais por parte da ré contra o autor,
esses devem ser fixados com equilibrada reflexão, examinando a questão relativa
à fixação do valor da respectiva indenização.
12. No particular, o prudente arbítrio do magistrado exige não deva ser
considerada, apenas, a situação econômica do causador do dano, porque, se tal
for o critério, resvalar-se-á para o extremo oposto, com amplas possibilidades de
propiciar ao ofendido o enriquecimento sem causa. Há que se atender, porém, e
também com moderação, ao efeito inibidor da atitude repugnada.
13. Assim sendo, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO e DAR-LHE
PROVIMENTO , para reformar a sentença que extinguiu o processo sem
julgamento do mérito, e julgar o pedido procedente, para condenar o réu em R$
3.000,00 ( três mil reais) a título de danos morais, corrigidos desde a data do
arbitramento, nos termos da súmula 362 do STJ e juros de mora desde o evento
danoso, nos termos da súmula 54 do STJ. Sem custas processuais e honorários
advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 02 de Fevereiro de 2016.


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Presidente e Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo Nº. : 0009680-35.2016.8.05.0001

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : AMANDA PRISCILA BARBOSA OLIVEIRA

Recorrido(s) : BANCO BRADESCO S A

Origem : 6ª VSJE DO CONSUMIDOR (IMBUÍ VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA
AUXILIADORA SOBRAL LEITE –Presidente e Relatora , ISABELA SANTOS LAGO e
ALBÊNIO LIMA DA SILVA HONÓRIO, em proferir a seguinte decisão: RECURSO
CONHECIDO E PROVIDO . UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento. Sem custas
processuais e honorários advocatícios pelo êxito da parte no recurso.
Salvador, Sala das Sessões, 02 de Fevereiro de 2016.
BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Presidente e Relatora