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JUCELINO MOREIRA DE CARVALHO

Maria, mulher
eucarística
Jucelino Moreira de Carvalho

MARIA, MULHER EUCARÍSTICA

Alagoinhas - 2018

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SUMÁRIO

1. Introdução...........................................03

2. A relação entre Maria e a


Eucaristia.............................................07

3. Fundamentação Bíblica....................26

4. Dimensão Pastoral da relação entre


Maria e a Eucaristia..........................38

Conclusão......................................................43

Referências....................................................47

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1. Introdução

A Eucaristia, sacramento da caridade, é “a


doação que Jesus Cristo faz de si mesmo,
revelando-nos o amor infinito de Deus por cada
homem”. Eis como inicia a Encíclica
Sacramentum Caritatis do Papa Bento XVI,
onde ele nos coloca a Eucaristia como fonte e
ápice da vida e da missão da Igreja, pois, não é
um Sacramento isolado da vida Cristã, ela é o
cume e o centro, tornando-Se fonte e sustento.
É também o sacramento da unidade, sendo que
através da participação na mesa eucarística
entramos em comunhão com o Pai, no Filho
pelo Espírito, e entramos em comunhão com os
irmãos. É a celebração do encontro entre Deus e
o ser humano em Cristo, a partir da Nova

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Aliança em que fomos reconciliados através do
sangue derramado na Cruz. É o sacramento do
amor, um amor tão intenso que é preciso lançar
sobre ele o véu do Mistério, para que não
ofusque o nosso olhar.
Por isso, ao falarmos da Eucaristia falamos
também da contínua presença de Nosso Senhor
Jesus Cristo na Igreja, onde confirmamos o que
ele afirma “eis que estou convosco todos os dias,
até o fim dos séculos”. O Senhor continua
presente em cada celebração Eucarística,
memorial vivo da sua Paixão, Morte e
Ressurreição, sendo que celebramos em
comunhão com toda a Igreja, onde os fiéis
vivem o momento ápice da vitória de Cristo
sobre a morte, reunidos ao redor da mesa da
Palavra e da Eucaristia participando como

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convivas, na esperança de participar um dia
para sempre da festa do Reino definitivo. A
Igreja peregrina, continua celebrando a
Eucaristia, vivendo esse memorial, se
alimentando, nessa esperança “até que ele
venha” (1Cor 11,26b).
Sabemos que é muito forte a presença de
Maria na comunidade em que se celebra a
Eucaristia. Podemos dizer inicialmente que isso
acontece devido à relação que existe entre
Maria e a Igreja que a tem por mãe a Mãe de
Deus. No seu fiat na anunciação, quando o
Espírito Santo a cobre com sua sombra, ela se
torna Mãe do Cristo, sendo assim a Mãe de
Deus. O fiat de Maria é o “sim” humano de uma
criatura humana. Nele, tudo recebe seu valor
pela graça. Antes do “sim” decisivo de Cristo,

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tudo que há de consentimento humano à obra
da redenção está expresso neste fiat de Maria.
Sendo Mãe de Cristo Cabeça do Corpo Místico,
Maria torna-se também mãe da Igreja e nossa
mãe “por ter cooperado no seu amor”(LG 53)
ao pé da cruz, quando do lado de Cristo nascia a
Igreja, família dos redimidos, sendo assim
“nossa Mãe na ordem da graça”(LG 61). A sua
presença na obra redentora não foi
simplesmente de uma expectadora, e sim uma
cooperação ativa, associando-se ao Mistério da
Cruz.
Assim, se Maria é Mãe de Cristo, Mãe da
Igreja, seu corpo Místico, sabendo que a Igreja
faz a Eucaristia, mas é também a Eucaristia que
faz a Igreja, em que sempre a celebra “em
comunhão com a Virgem Maria Mãe de Deus”,

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podemos perceber que existe uma relação entre
Maria e a Eucaristia. É o que buscaremos
apresentar no presente trabalho, partindo da
“escola dos santos”, ou seja, aquilo que os
Padres da Igreja e os santos na sua história
foram nos mostrando, além de analisarmos de
uma forma objetiva a perspectiva bíblica e a
partir daí concluiremos observando as
implicações dessa relação na vida da Igreja,
tanto na sua espiritualidade como na sua
pastoral.

2. A relação entre Maria e a


Eucaristia

Quando buscamos conhecer e analisar a

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relação existente entre Maria e a Eucaristia,
partimos desde os primórdios da Igreja, onde já
nos Padres, se estabelece uma “aproximação
entre o mistério da Encarnação, que é o seu
princípio, e, de igual maneira, eles deixaram
entrever, ou afirmam a relação da virgem com o
Sacramento do Corpo de Cristo.” Essa relação à
princípio é ocasional, entrando na perspectiva
da explicação do dogma da Maternidade divina,
na perspectiva do Filho de Deus que se encarna
no seio fa Virgem. Mas aos poucos esse
pensamento vai tomando forma, sendo
desenvolvido nos estudos teológicos e na
devoção através dos séculos.
Ao longo da história, a vivência eclesial foi
caracterizada em uma dimensão eucarística e
mariana, sendo que o culto mariano sempre foi

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presente na liturgia oriental e ocidental. Maria
foi sempre associada a Cristo, seu Filho, na
comunidade que se celebra a Eucaristia,
colocando-se assim como Aquela que tem um
ministério carismático de orientação dos fiéis
para a Eucaristia, apontando aos seus filhos
Jesus Cristo presente em corpo, sanguem, alma
e divindade no Sacramento do altar. Essa
verdade já era exprimida por S. Agostinho ao
afirmar que “nas mãos do sacerdote, como no
seio da Virgem Maria o Filho de Deus
encarnou-se”, pois considerando a ação
ocorrida na encarnação e na transubstanciação
em seus princípios, e em seu modo de ser, assim
como no seu fim, aparece uma perfeita
analogia.
Nos primeiros séculos, as afirmações

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patrísticas quanto a relação entre Maria e a
Eucaristia são simbólicas, onde podemos
considerar uma das primeiras afirmações um
texto do Bispo Abécio de Hierápolis, onde ele
fala de sua viajem a Roma e que voltando
visitou a Síria, Mesopotâmia e a Ásia Menor,
onde havia em toda parte cristãos. Nesse texto
ele afirma: “A fé me guiava e em toda a parte me
fornecia como alimento um peixe de fonte
límpida, imenso, puto, que uma casta virgem
pescou e distribuía aos amigos para que se
alimentassem perpetuamente. Ela possui um
vinho delicioso e o dá misturado com o pão”
(citar dicionário). Nesse texto, onde se fala do
Batismo e da Eucaristia representada no
acróstico muito comum aos primeiros cristãos
(ichthys = peixe) usado para Jesus Cristo Filho

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de Deus Salvador, aparece uma referência a
“casta virgem” que pescou tal peixe e distribuiu
aos amigos, sendo um alimento perpétuo,
distribuindo também pão e vinho. Muitos
autores como H. Crouzel viram nessa virgem, a
Virgem Maria, mãe do corpo de Cristo, é
também mãe da Eucaristia. Maria como a
Igreja, dá aos cristãos o Cristo eucarístico para
seu alimento espiritual.
No século IV, vemos em Santo Efrém o
sírio, os profundos laços existentes entre Maria
e a comunidade que celebra a Eucaristia. Pare
ele, não só a Igreja, mas também Maria nos dá a
Eucaristia, em oposição ao pão, fruto do esforço
que Eva nos deu: “A Igreja nos deu o pão vivo,
em vez do ázimo que o Egito havia oferecido.
Maria nos deu o pão que conforta, em lugar do

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pão que cansa e que nos foi dado por Eva”. Por
isso que ele considerava Maria como o
tabernáculo em que habitou o verbo feito carne,
símbolo da habitação do verbo na Eucaristia
presente na Igreja, pois Ela antes de conceber
em seu seio, concebeu em seu coração. Maria é
mãe do corpo de Cristo que se torna
sacramento de salvação. Com o dom do pão
eucarístico do seu Filho, Maria se torna a
verdadeira mãe dos viventes, pois tendo
apreciado de modo inefável as delícias da união
divina, contribuiu para que seus filhos não
fossem privados dessa união. O seu “sim” foi
causa imediata da encarnação e podemos
considerar causa mediata da Eucaristia, sendo
assim um dom materno.
Na tradição patrística percorre a

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constatação que no seio de Maria, Jesus se
tornou sacerdote, tomando o corpo que depois
deveria oferecer em sacrifício. É mediante a
encarnação no seio da Virgem que Jesus se
torna sacerdote e pode assim oferecer o seu
sacrifício ao Pai, ao Verbo o seu ser humano,
uma outra natureza sem a qual não haveria nem
sacramento, nem sacrifício. Como afirma o
Patriarca Proclo de Jerusalém, (454 d.C.),
Maria é o templo em que Deus se tornou
sacerdote e vítima. Por isso, podemos falar da
fecundidade sacerdotal misteriosa de Maria que
nos valeu o verdadeiro e único sacerdote. É no
seio de Maria que está a fonte do sacerdócio de
Cristo e da Igreja.
Na Idade Média surgem várias
controvérsias quanto à presença de Jesus na

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Eucaristia. Nesse período, os Padres e os
teólogos, em confronto com os adversários da
presença real de Jesus, em seus argumentos
partiram de Maria, da sua participação no
Mistério de Cristo. Na controvérsia com
Berengário de Tours (1088 d.C) que afirmava
um simbolismo que ameaçava esvaziar a
realidade física da encarnação e da Eucaristia,
os Padres recorrem ao Dogma da Maternidade
Divina, afirmando que “o corpo de Jesus Cristo
que está presente na Eucaristia é o mesmo
corpo que nasceu da Virgem Maria, o mesmo
corpo de que o Verbo se revestiu na
Encarnação, o mesmo corpo que padeceu na
cruz.” O mesmo argumento utilizado contra o
docetismo nos primeiros séculos, é aqui
utilizado para que afirmando a verdade da

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Encarnação, possam afirmar a verdade da
Eucaristia.
Podemos ver também a afirmação de
Santo Anselmo que dizia: “A carne que Jesus
tomou de Maria, a Igreja no-la dá diariamente
como alimento”. E completamos esse sentido do
alimento oferecido à Igreja, com São
Bernardino de Sena: “Que direi para melhor
exaltar esta carne tão digna que foi formada da
substância da Virgem gloriosa, senão que é
nesta carne tomada emprestada da Virgem
bendita, tirada de seu corpo, como a pedra da
montanha predita por Daniel. É nela que
consiste, que se completa este Sacramento, a
gloria e fundamento de todos os Sacramentos
da Igreja, isto é, a Santíssima Eucaristia”
Assim, também São Boaventura atribui a

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Maria uma mediação eucarística, a
apresentando como dispensadora da Eucaristia,
por isso que, assim como o corpo físico de
Cristo nos foi dado pelas mãos da Virgem,
também dessas mesmas mãos deve ser
recebido o seu corpo eucarístico. Podemos aqui
afirmar que depois de nos ter dado Jesus na
encarnação como princípio da graça, na paixão
como preço da graça, Maria no-lo dá na
Eucaristia como aplicação da graça. É a Mãe
que educa seus filhos e os alimenta. Sendo fiel a
essa tradição, São Tomás de Aquino que
compôs belos hinos eucarísticos como o “Ave
verum corpus / natum ex Maria Virgine”
(Salve verdadeiro corpo / Nascido da Virgem
Maria), como vemos claro nesses hinos, pensa
que o corpo de Cristo que está na Eucaristia e

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que devemos adorar é o verdadeiro corpo
humano nascido da Virgem Maria.
Assim, quem coroou essa Tradição de
forma refulgente, foi São Pedro Julião Eymard
(1811-1868) grande devoto da Virgem, fundador
dos Padres Sacramentinos da Adoração
Perpétua e das Irmãs Servas do Santíssimo
Sacramento da Adoração Perpétua, que um dia
arrebatado de amor, pronunciando uma de suas
homilias em louvor a Nossa Senhora, afirmou:
“Nossa Senhora, meus filhos, está de tal forma
intimamente unida com a Eucaristia, que
devemos tê-la como aquela que é padroeira dos
adoradores. Digamos com amor, digamos com
fé: Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,
Mãe e modelo dos adoradores, rogai por nós”. É
a partir dele que surge o título de Nossa

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Senhora do Santíssimo Sacramento e que os
teólogos, mariólogos voltaram os seus olhares
para as relações entre a Eucaristia e Nossa
Senhora.
Essas foram as bases para as afirmações
dos teólogos, que buscaram em certo sentido
determinar a natureza da influência de Maria
sobre o Mistério Eucarístico e sobre toda a
estrutura e função da obra redentora. Ela
cooperou na santíssima Eucaristia, pois, ao
consentir consciente e livremente na
encarnação do Filho de Deus, consentiu, pelo
menos implicitamente, também na Eucaristia,
que é o cumprimento e extensão da encarnação.
Maria, indissoluvelmente ligada à pessoa do
verbo encarnado na sua maternidade divina,
não pode ser separada do Cristo eucarístico,

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assim como não se separa do corpo místico de
Cristo que é a Igreja. Como afirma o padre Júlio
Maria:

A humanidade que o Verbo tomou


uma vez pela encarnação, na Virgem
Maria, nunca o abandonou. A
humanidade recebida de Maria, Cristo
nunca a abandonou. Cada vez, pois,
que o pão e o vinho se
transubstanciam em sangue e corpo de
Cristo, ali está em mistério a mesma
humanidade que nasceu de Maria, se
estendendo através do tempo de
espaço o Mistério da Encarnação. O
Verbo que se fez carne (em Maria), se
faz carne na Eucaristia. (Maria e a
Eucaristia p. 170)

Podemos também contemplar essa relação


durante a consagração eucarística, onde Cristo
se dá a nós, oferecendo-se ao Pai em ato que é a

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reatualização da sua oferta sacrifical no
Calvário. Tendo em vista que Maria estava
presente neste sacrifício e a ele foi intimamente
associada, Ela viveu de uma forma perfeita o
que a Igreja continua a viver ao longo dos
séculos na celebração sacramental,
intimamente ligada ao seu Filho. Essa
comunhão que acontece a partir desse
sacrifício, que nos une a Cristo, foi precedida
por Maria, sendo ela modelo perfeito de
comunhão e de graça com Cristo. Com a sua
maternidade espiritual que nos foi revelada no
Calvário, Maria tem papel central na construção
dessa unidade entre os filhos dispersos, unindo-
os a Cristo em um só corpo.
Além disso, a Mãe de Deus que é
apresentada em nossa Mariologia, a quem

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veneramos, é o princípio, protótipo e síntese da
criatura humana, que coopera com a própria
salvação, servindo-se da graça que a previne,
sendo também om protótipo da Igreja. Sendo
essa figura ideal da Igreja, como foi afirmado no
Concilio Vaticano II, “ a Mãe de Deus é o 'typus'
da Igreja na ordem da fé, da caridade e da
perfeita união com Cristo”(LG 63). A Igreja, em
certo sentido, apreende de Maria o que é a
própria maternidade: ela reconhece esta
dimensão maternal da própria vocação, como
algo ligado essencialmente à sua natureza
sacramental, “contemplando a sua santidade
misteriosa, imitando a sua caridade e
cumprindo fielmente a vontade do Pai”. Assim,
Maria torna-se o “modelo exemplar da atitude
espiritual com que a Igreja celebra e vive os

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divinos mistérios (MC 16).
Podemos afirmar então que a Eucaristia
constitui-se assim culto da maternidade da
Igreja, pois a maternidade de Maria em relação
com a maternidade da Igreja tem referência
eucarística, já que em seu seio virginal Maria
gerou, cuidou, e educou o Cristo terreno, , a
Igreja gera, guarda e oferece ao mundo o Cristo
eucarístico, o mesmo Cristo imolado na sua
santa carne que fez surgir o novo povo de Deus.
Assim, na Igreja, o corpo e sangue eucarístico
tem o mesmo objetivo, gerar novos filhos de
Deus, alimentar a Igreja peregrina até o
banquete definitivo. Como afirmamos
anteriormente, do mesmo modo que Maria
esteve presente no sacrifício da cruz,
participando dele, a Igreja participa do santo

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sacrifício da missa, do qual é fiel depositária, e
no qual, como Maria, intercede pelos seus
filhos. Sem Maria, não haveria Eucaristia. Sem
a Eucaristia não existiria o “pão vivo descido do
céu”(Jo 6,51), para ser alimento dos homens,
não haveria “a participação no corpo e no
sangue do Senhor” (1Cor 10, 16), e sem a Igreja
não haveria essa continuidade celebrativa do
memorial.
Por isso que a Igreja nunca celebra a
Eucaristia sem invocar muitas vezes a
intercessão da Mãe do Senhor, pois “Ela está
presente com a Igreja e como Mãe da Igreja, em
cada uma das celebrações eucarísticas” (EE 57).
No seu Magnificat, Maria eleva ao Pai louvor e
ação de graças, a Eucaristia também é louvor e
ação de graças. Sendo que nós recebemos o

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corpo e sangue de Cristo sacramentalmente,
Maria de uma forma primeira, concebeu o Filho
divino também na realidade física. Assim a
Virgem oferece de modo admirável e eminente e
ao mesmo tempo prolonga o seu consentimento
e a sua intercessão materna e gloriosa em cada
celebração eucarística.
Assim, Maria é o tabernáculo que esconde
Deus e o mostra ao mundo, pois esse foi seu
principal papel, receber Deus encarnado em
Jesus Cristo neste mundo, e manifestá-lo à
humanidade. Por isso São João Paulo II
proclamou Nossa Senhora o Primeiro Sacrário
da Humanidade, pois toda a sua vida aconteceu
em função da Eucaristia, gerando o Filho de
Deus e sendo discípula fiel:
Maria antecipou também, no mistério
da encarnação, a fé eucarística da

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Igreja. E, na visitação, quando leva no
seu ventre o Verbo encarnado, de certo
modo Ela serve de “sacrário” - o
primeiro “sacrário” da história – para
o Filho de Deus que, ainda invisível
aos olhos dos homens, Se presta à
adoração de Isabel, como que
“irradiando” a sua luz através dos
olhos e da voz de Maria. […] É nisso
que consiste a verdadeira atitude
eucarística. (EE 55)

Assim, a Igreja em cada fiel é chamada a ter


essa atitude eucarística de irradiar Jesus onde
se fizer presente, assumindo essa atitude de
Maria, sendo também adoradores como Isabel,
que fica extasiada diante da presença do
Senhor. A Igreja povo de Deus a caminho,
continua vivendo da Eucaristia, fruto do seio da
Virgem. Por isso, podemos dizer que é
impossível falar da Eucaristia sem falar de

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Maria, pois o culto da Eucaristia pressupõe o
reconhecimento e o culto de Maria, e o culto de
Maria deve nos conduzir ao culto perfeito da
Eucaristia, sendo ela o modelo de acolhimento e
entrega ao Senhor.

3. Fundamentação Bíblica

Dentro da apresentação desse tema, Maria


e sua relação com a eucaristia, já ficou claro
para nós a sua fundamentação na tradição, nos
Padres da Igreja, nos Santos, o que torna este
tema realmente com bases teológicas plausíveis.
Porém, para compreendermos melhor, faz-se
necessário dar fundamentos bíblicos, onde
podemos encontrar na revelação essa presença
de Maria e sua relação com o Cristo eucarístico

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em três mistérios da sua vida e da vida da
Igreja, além de outros momentos que a Sagrada
Escritura torna clara essa relação.
Um primeiro momento importante e
central na história da Salvação em que Maria
tem papel preponderante é o Mistério da
Encarnação, um mistério revelado, onde
fundamentamos nossa fé no Verbo que se fez
carne, que assumiu nossa humanidade para
habitar no meio de nós. É aqui que
encontramos a primeira relação, pois o Verbo se
fez carne em Maria, como podemos ver nos
evangelhos, em Maria, o Verbo assume a
corporeidade, fazendo-se homem. Esse fato é
tão importante que a genealogia como vemos
em Mateus, por exemplo, que é totalmente
patriarcal, muda o seu sentido no final, dando

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ênfase a Mãe: “Maria, da qual nasceu Jesus
chamado Cristo” (Mt 1, 16). E em outros lugares
Maria é sempre afirmada como Mãe de Jesus
(Lc 1,26-39; 2,15).
Vale ressaltar, que no evangelho de São
João, mesmo não aparecendo as narrativas do
nascimento de Jesus, aparece a afirmação que é
crucial para entendermos a encarnação, que
este Cristo que nasceu de Maria é o Verbo. Esse
Filho que toma carne no seio de Maria, que
nasce da virgindade (Mt 1, 22-24), que foi
anunciado pelos profetas, é o Verbo que
estando desde o princípio com Deus e sendo
Deus, na plenitude dos tempos “se fez carne e
habitou entre nós”(Jo 1,14). Foi no seio de
Maria que o Verbo recebeu nossa natureza, do
homem verdadeiro, nos mostrando assim que o

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mesmo corpo que se imola por nós é Aquele que
veio da carne virginal de sua Mãe, pois “na
plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho
nascido de uma mulher e sob a lei”(Gl 4,4).
Assim, podemos mais uma vez afirmar aqui
que Maria é causa instrumental da Eucaristia,
pois como se afirma na teologia, o que o Verbo
assumiu, nunca deixou, assumindo a forma
humana, ele nunca a deixou, tendo assim uma
relação perpétua para com sua Mãe. Portanto,
onde estiver o Verbo feito carne, podemos
observar aí uma relação íntima com Maria na
continuidade da sua maternidade, pois o corpo
de Jesus foi formado pelos mesmos elementos
formadores do corpo de Maria, isto é, pelo seu
sangue, pelo seu DNA, pelo seu leite materno.
No entanto vale aqui ressaltar que não podemos

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cair no perigo de afirmar que haja um pedaço
da carne de Maria no corpo de Jesus, como
aconteceu no século XVI, pois, quando o Verbo
assume a humanidade, Ele é pessoa, única,
indivisa.
Então aqui nos perguntamos: Quem está na
Eucaristia? Logo afirmaremos que é o Verbo
feito carne sacrificado e glorificado, pois foi Sua
mesmo instituição “Isto é meu corpo que é dado
por vós... Este cálice é a nova aliança em meu
sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,19-21).
Quando Jesus faz essa afirmação, muitos o
abandonam, por não consegui compreender
que Ele venha a dar sua carne e seu sangue
como alimento. É aqui que entra a confissão de
Pedro que deve ser também de cada cristão: “A
quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de

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vida eterna. E nós cremos que tu és o Santo de
Deus” (Jo 6,68-69). Parafraseando Pedro,
podemos afirmar com ele “Vós sois o Verbo que
se encarnou”. Eis o mistério da encarnação mais
uma vez, pois, este Verbo que está na Eucaristia
é o Verbo encarnado, e sendo Maria a mãe do
Verbo, ela continua o sendo para sempre, é Mãe
do Verbo também na Eucaristia.
Outra momento importante que podemos
encontrar a relação entre Maria e a eucaristia é
na redenção. O segundo polo no qual está
situado o fundamento e ápice da missão
redentora de Cristo. O primeiro é o seio de
Maria e agora o Calvário. Como vemos em
várias afirmações, que do lado de Cristo na cruz,
de onde brota sangue e água, nasce os
sacramentos da Igreja, podemos afirmar então

31
que no seio de Maria, Cristo foi gerado, e no
calvário a Igreja é gerada. Por isso, se a Igreja
nasce de Cristo que foi gerado no seio de Maria,
concluímos então que a Igreja nasce também de
Maria, e a podemos considerar Mãe da Igreja.
Isso se torna mais significativo quando
observamos que Ela estava presente no Calvário
como afirma São João: “Estava junto à cruz de
Jesus a sua Mãe” (Jo 19,25).
Maria, como afirma São João Paulo II,
sempre esteve preparando-se dia a dia para o
Calvário, “Maria vive uma espécie de
'Eucaristia antecipada', dir-se-ia uma
'comunhão espiritual' de desejo e oferta que
terá o seu cumprimento na união com o Filho
durante a Paixão”(EE 56). Essa presença de
Maria no Calvário, faz-nos perceber que Ela

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está junto do altar, por isso que a Igreja aos
pouco lhe dá o título de Corredentora, pois esse
sacerdote e essa vítima são fruto do seu seio
virginal e sobretudo do seu amor e entrega livre.
Pe. Júlio Maria tomando as afirmações de Pio
IX, afirma que mesmo a Virgem não tendo o
sacerdócio, dado por Cristo aos apóstolos, Ela
foi como que a “Virgem Sacrificadora”, não no
sentido sacerdotal, mas nos sentido que estando
Ela ao pé da cruz, se unia de tal forma à Vítima
para oferecer a Deus Pai o grande sacrifício de
expiação, que a sua intenções estava unidas às
intenções do Redentor, e a sua vontade unida à
d'Ele.
Podemos ainda perceber a relação entre
Maria e a Eucaristia, na sua presença no
Cenáculo, onde vemos no Atos dos Apóstolos

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que: “Todos unânimes, eram assíduos à oração
com algumas mulheres, entre as quais Maria
Mãe de jesus” (At 1, 14). No seio da Igreja que
tinha nascido no Calvário, Maria agora
continuava ali presente, principalmente no
momento em que a Igreja vai ser proclamada ao
mundo com a vinda do Espírito Santo. Se como
afirma o autor sagrado, Maria era assídua à
“fração do pão” (Eucaristia), é claro que a Mãe
de Jesus estava com os apóstolos no
desabrochar da Igreja, e a Eucaristia que tem
com ela uma relação de origem, era agora seu
alimento de cristã que caminhava com a Igreja
nas sendas da fé e da caridade. Como afirma
São João Paulo II, “receber a Eucaristia devia
significar para Maria quase acolher de novo no
seu ventre aquele coração que batera em

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uníssono com o d'Ela e reviver o que rinha
pessoalmente experimentado na Cruz” (EE 56).
Por isso, participar da mesa da eucaristia, é
sempre fazer de novo como João, levar conosco
aquela que sempre de novo nos é dada como
Mãe. Maria está presente, com a Igreja e como
Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações
eucarísticas. Ela agora caminha com a Igreja a
mesma caminhada que fez de Nazaré até o
Gólgota, crendo, acompanhando a Jesus, unida
a Ele, até a parusia, ou seja, o fim glorioso de
todo o Povo de Deus, do qual ela já é
participante através da sua Assunção, sendo
assim o primeiro membro da Igreja
transfigurada.
Essa ação e presença continuadora de
Maria na vida da Igreja, nos remonta a Caná da

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Galileia, onde Maria tem o papel central ao lado
de Jesus. Esse episódio está estritamente ligado
ao acontecimento do Calvário, onde Jesus após
ter confiado a Mãe a João e João à Mãe, entrega
o Espírito e oferece os dons dos sacramentos,
no sangue e na água (Jo 19, 30.34). O sangue
que é ligado estritamente ao sinal do vinho, nos
leva a perceber que no começo do sinal do vinho
está a iniciativa de Maria, quando ela ordena
aos servos “fazei tudo o que ele vos disser”, após
ter anunciado ao Filho, “eles não tem mais
vinho”. É cabível então afirmar que em cada
celebração Eucarística, Maria está sempre de
novo a suplicar a seu Filho, “eles não tem mais
vinho”, e a ordenar para cada um de nós “fazei
tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
Assim, Caná representa o começo de uma

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nova economia sacramental, cujo o centro é
constituído pela eucaristia. Aqui Maria não é
chamada de Mãe, mas de mulher, fazendo-nos
assim conhecer que a Virgem santíssima é
princípio da nova geração, a geração da
comunidade eclesial, do novo Povo de Deus que
no seu caminho até o Reino definitivo se
alimenta e se nutre com o sangue e o corpo
eucarístico de Cristo. Através desse seu pedido
em Caná, e da ação de seu Filho, Ele nos mostra
que concedeu o sacramento eucarístico à sua
Igreja em atenção aos desejos de Maria
Santíssima. Por isso que São Gregório de Nissa
chama a Eucaristia de sacramento da Virgem,
pois Maria foi o principal objeto pela qual a
bondade de Deus operou esta maravilhas, como
Ela o proclamou no Magnificat “O todo

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poderoso fez em mim grandes coisas” (Lc 1,49).

4. Dimensão Pastoral da relação


entre Maria e a Eucaristia

Podemos afirmar com Paulo VI, que Maria


em face do mistério da encarnação e da
redenção é a virgem que escuta, ora, gera e
oferece. Com Ela, a comunidade que celebra e
vive a eucaristia também é comunidade que
escuta a palavra, ora em comunhão com os
irmãos, gera e oferece, no mistério celebrado. A
igreja sempre que convoca os fiéis para celebrar
a páscoa do Senhor até que ele volte, o “faz em
comunhão com os santos do céu e, em primeiro
lugar, com a bem-aventurada Virgem, de quem
imita a caridade ardente e a fé inabalável” (MC

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20). Maria sendo essa presença viva na
comunidade que celebra a eucaristia, convoca e
reúne a Igreja em torno do altar, convidando os
fiéis à conversão, e uma mudança radical de
vida.
Eucaristia é ação de graças, é a celebração
central onde a Igreja rende graças ao Pai. Maria
é modelo da Igreja nesta ação de graças com
toda a sua vida. Neste mistério, a comunidade
se une a Maria que estando presente no
momento crucial do Calvário, teve uma
presença ativa no plano da redenção, sendo
também a primeira redimida a gozar
plenamente a libertação trazida pelo Cristo
pascal. Na comunidade que celebra a eucaristia,
esperando também participar plenamente dessa
libertação, Maria é como que motivadora,

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entrando com seu Filho e por Ele na glória.
Na celebração eucarística, é o Espírito
Santo que age sobre o pão e o vinho
transformando-os em corpo e sangue de Cristo,
da mesma forma que participando a
comunidade do mesmo corpo e sangue, é
através do mesmo Espírito unida no corpo
eclesial. Maria é a esposa do Espírito Santo,
pois foi através d'Ele que se tornou mãe do
Filho de Deus encarnado. O mesmo Espírito
que agiu em Maria, age na Igreja para tornar
Cristo presente no mundo.
Além disso, a comunidade que celebra a
eucaristia, participa da missão de Cristo, se
inserindo no dinamismo da encarnação salvífica
da Palavra de Deus, da ação de Deus e da
presença de Deus, dando assim continuidade à

40
história da salvação. Essa é a ação missionária
de cada cristão: tornar Cristo presente no
mundo. Ninguém melhor do que Maria para
trazer para perto dos homens Cristo, o Messias
prometido. Por isso que Maria é a primeira
missionária, pois ela aproximou o ser humano
da Divindade. Essa aproximação continua
acontecendo na realidade sacramental, onde no
começo está Maria: “Fazei tudo o que ele vos
disser”(Jo 2,5). Essa realidade sacramental e
eucarística tem como base o “fazei”, onde vemos
nas palavras de Cristo: “Fazei isto em memória
de mim”(Lc 22,19). É essa a missão da Igreja,
esse “fazer” misterioso e onipotente que realiza
o que diz, que torna presentes o corpo e o
sangue de Cristo, como alimento da alma, como
sacrifício de louvor, como recriação do homem

41
em Deus. Essa recriação, que é uma
aproximação do homem com Deus, simbolizado
no rasgar-se do véu do Templo, é o caminho da
missionariedade, cuidando para que o homem
chegue mais perto de Deus, isso nos foi dado
por Maria.
Assim, podemos dizer que em Maria se
resume toda a atividade missionária da Igreja
de Cristo, da comunidade eclesial que celebra o
sagrado mistério, gerando Cristo para tocar o
coração dos homens. É a Virgem que sendo Mãe
da Palavra, nos trouxe o perdão e a esperança,
contribuindo que Espírito Santo, espírito do
perdão e do amor estivesse nos homens. É a
Virgem que sendo Mãe e mulher eucarística nos
convida à ação evangelizadora através da
palavra, do testemunho, da presença e encontro

42
com os homens, através da unidade formada e
comprometida no “partir do pão”, na comunhão
eucarística, força e centro da comunhão eclesial.

Conclusão

Com São Pedro Julião Eymard, podemos


dizer que pertencer ao Filho é pertencer a
Maria, adorar ao Filho é honrar a sua Mãe, pois
na encarnação Jesus recebeu a natureza
humana de Maria, e foi por essa carne recebida
d'Ela que glorificou ao Pai, que nos salvou e que
continua a alimentar o mundo através do
Santíssimo Sacramento. Por isso que nesse
estudo vimos que há sim uma grande relação
entre Maria e a Eucaristia, pois ela por
excelência é a mulher eucarística, que sendo

43
Mãe do sumo e eterno Sacerdote, continua a sua
maternidade também em cada sacerdote que
celebra a Eucaristia.
Na Eucaristia Jesus se ofereceu a
humanidade de uma forma total, “pois não lhe
era possível dar-nos algo mais e melhor do que
a sua Humanidade hipostáticamente 1 unida à
divindade”. Ele continua se oferecendo em cada
Eucaristia, nas espécies do pão e do vinho. No
começo dessa entrega total de Jesus, estava sua
Mãe, pois como causa da encarnação, Ela como
intercessora e medianeira de todas as graças,
continua intercedendo por nos em cada
Eucaristia, continuação da Encarnação. Por isso
podemos dizer que a Eucaristia é um
sacramento marial, pois Ela é a precursora do

1
Unida à pessoa.

44
sol eucarístico.
Assim, Maria a mãe de Cristo, antes de
conceber em seu seio concebeu em seu coração,
acolhendo a Palavra de Deus e dizendo “sim” a
Sua vontade consentindo com a encarnação, Ela
então consente com todos os frutos
provenientes desse mistério, entre os quais está
em primeiro lugar a Eucaristia. Por isso, fica
claro para nós que Maria, antes de tudo, é a mãe
“eucaristizada”, ou seja, aquela que viveu
plenamente o mistério pascal de Cristo. Ela
também é a mãe “eucaristizante”, por levar
todos a comungarem e viverem uma vida de
comunhão com o Cristo Sacramentado. Ela
também se torna o nosso modelo de adoradora,
pois ensinou aos discípulos de Cristo como se
realiza a mais perfeita adoração ao Senhor, em

45
Espírito, quando concebeu em seu ventre, e em
Verdade, quando o acompanhou até a Cruz.
Proclamemos com São Pedro Julião Eymard:
Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, Mãe
e modelo dos adoradores, rogai por nós!

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REFERÊNCIAS

BENTO, X. V. I.; DOMINI, Exortação


Apostólica Pós-Sinodal Verbum. Exortação
apostólica pós-sinodal Sacramentum
Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.
PABLO II, J. U. A. N. Ecclesia de
eucharistia. São Paulo: Paulinas, 2003.
FRANCO, Fábio et al. Heinrich Denzinger.
Compêndio dos símbolos, definições e
declarações de fé e moral. Lumen Veritatis-
Revista tomista| Filosofia Teologia-Tomás de
Aquino, v. 1, n. 2, p. 127-128, 2008.
EYMARD, São Pedro Julião. Nossa Senhora
do Santíssimo Sacramento: Um mês com
Maria. São Paulo: Factash Editora, 2008, p. 16

47
– 18.
LOMBAERDE, Padre Júlio Maria. Maria e a
Eucaristia. São Paulo: Edições Santo Tomás,
1961.

48
Apresenta a visão da Igreja
tanto na doutrina como na
ação pastoral, sobre a relação
entre Maria e a Eucaristia.
Para isso, faz um percurso
tanto naquilo que a Palavra de
Deus pode nos oferecer sobre o
tema, como a história dos
santos testemunharam.

Licenciado em Filosofia pela


FAERPI; Bacharel em Teologia pela
FAERPI; Graduando em História
pela Universidade do Estado da
Bahia – UNEB. Especialização em
Filosofia pela UCAM e pesquisador
na área de História e Política na
Uneb.

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