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Editorial

editorial
Caro leitor,

Q
uando Jet Jackson, acossado por um perigo Hollywood. Analisa suas implicações na vida das pes-

Q mortal em algum canto remoto do planeta, tira-


va do seu cinturão metálico um aparelhinho
quadrado dotado de antena retrátil e pedia
soas e detalha seus aspectos funcionais. Aprofunda-se
nas questões de tecnologia, mas não deixa também de
induzir em alguns pontos, aqui e ali, em sutis pince-
socorro, num diálogo cheio de tensão e urgência, a uma ladas, o reclame urgente de uma reflexão menos
distante central de operações, a meninada dos anos 50 e otimista, como nos sugere o alerta de Orwell.
60, pregada diante de enormes TVs em preto e branco Os artigos, entrevistas e as matérias desta edição
— e chuviscos — , era tomada pela sensação maravi- falam de uma tecnologia que nasceu e desenvolveu-se
lhosa de estar diante do futuro. O maravilhamento atin- múltipla e heterogênea e que agora, para se postar a
gia o ponto máximo quando surgiam, no correr da serviço da sociedade como fator de simplificação da
trama, os telefones acoplados a telas que juntavam à vida das pessoas, de otimização do esforço humano no
voz a imagem do interlocutor. Além de se prestarem ao seu labor do dia-a-dia e como provedora de possibili-
diálogo, esses telefones também respondiam a compli- dades crescentes de lazer e contemplação estética, deve
cadas indagações, forneciam dados e, às vezes, davam empreender o gigantesco esforço da convergência. É
até conselhos. hora de se juntar as pontas de um complexo enredo tec-
A ficção daqueles deliciosos seriados futuristas nológico.
classe B (ou C), produzidos em algum fundo de estúdio Ao focar sua pauta nisso que vem sendo chama-
de Hollywood, longe de ser inócua, colocou para aque- do convergência digital, a revista aborda temas varia-
la geração de meninos marcos de modernidade que dos. Fala dos marcos regulatórios que orientam a
foram, de forma consciente ou inconsciente, persegui- implantação das diferentes tecnologias. Discute em
dos em sua vida adulta, e adquiriu, aos olhos de hoje, dois excelentes artigos algumas questões jurídicas que
foros de premonitória. não se colocavam há ainda muito pouco tempo. Em
Alguns anos antes, George Orwell havia apre- novo salto premonitório, agora racionalmente classifi-
sentado ao mundo, com 1984, sua novela de terror cado como tendências de curto prazo, fala do futuro da
político publicada em fins dos anos 40, uma visão integração de diversas tecnologias. Aborda as possibi-
menos benigna do futuro. A teletela, o onipresente olho lidades econômicas que o negócio pode oferecer.
tecnológico que disponibilizava ao Grande Irmão, E adverte: com o modelo educacional vigente no
chefe supremo de um regime totalitário, a visão da Brasil, estamos condenados a perder mais este bonde da
intimidade das pessoas, era a essência tecnológica história. Muito breve, só nos restará o destino de meros
de uma sociedade de pensamento único, violenta e caudatários de Índia e China. É urgente uma rápida
sombria. inflexão em nossas políticas, estratégias e metas nesse
E hoje, em nova profecia auto-realizada, quem campo.
duvida que esse implacável olho já começa a ser Em suma, temos aqui um panorama abrangente
perigosamente instalado entre nós? desse tema que mobiliza os meios universitários, os
Da forma como vão as coisas, a vida privada já institutos de pesquisa, os laboratórios, a indústria ele-
se delineia como o tributo que os indivíduos devem trônica, a indústria do lazer, os governos, os investi-
pagar pelo direito de usar seus maravilhosos brinque- dores e a cidadania no mundo todo.
dinhos eletrônicos. Nossas contas, nossos hábitos de Esperamos, com esta edição de Fonte, ter dado
consumo, nossos interlocutores, nada mais escapa de uma mínima contribuição para o entendimento e qua-
uma implacável teletela candidamente introduzida em lificação do debate.
nossas vidas por nós mesmos e monitorada por não se
sabe quem. Um abraço,
A presente edição de Fonte trata direta e exaus-
tivamente do futuro antevisto na ficção risonha de Maurício Azeredo Dias Costa

5
Inter@ção
Uma publicação da:

Ano 2 - nº 03 - Julho/Dezembro de 2005 A equipe da revista Fonte agradece o grande número de mensagens
enviadas à redação, dentre as quais selecionamos algumas para
publicação neste espaço destinado a acolher as opiniões e suges-
Filiada à Aberje
tões de nossos leitores. Continuem participando: o retorno de vocês
Governador do Estado de Minas Gerais é fundamental para que a revista evolua a cada edição.
Aécio Neves da Cunha
Secretário de Estado de Planejamento e Gestão e-mail: revistafonte@prodemge.gov.br
Antonio Augusto Junho Anastasia
Diretor-Presidente Rua da Bahia, 2277, Lourdes, Belo Horizonte, MG - CEP: 30160-012,
Maurício Azeredo Dias Costa
Diretora de Projetos e Negócios aos cuidados da Assessoria de Comunicação da Prodemge - Compa-
Glória Maria Menezes Mendes Ferreira nhia de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais.
Diretor de Tecnologia e Produção
Raul Monteiro de Barros Fulgêncio
Diretor Administrativo e Financeiro
Paulo Márcio Bruno
Diretor de Desenvolvimento Empresarial
SOLICITAÇÕES DE ASSINATURA
Nathan Lerman
CONSELHO EDITORIAL
Recentemente "descobri" a revista certamente muitos dos relevantes assun-
Antonio Augusto Junho Anastasia Fonte na empresa onde trabalho e achei tos que serão tratados auxiliarão a mim, a
Maurício Azeredo Dias Costa a publicação interessante. Gostaria de sa- meus colegas de trabalho e à comunidade
Marcio Luiz Bunte de Carvalho
Amílcar Vianna Martins Filho ber como posso adquiri-la, se existe assi- que se interesse pelos assuntos relaciona-
Gustavo da Gama Torres natura ou qual o formato de distribuição dos à informática, sobretudo a pública.
Paulo Kléber Duarte Pereira
Marcos Brafman da revista. Carlos Alberto da Costa
EDIÇÃO EXECUTIVA Matheus Eduardo Machado Moreira Técnico de Recursos Estratégicos
Assessoria de Comunicação Sun Certified Programmer Unidade de Coordenação de Informática
Dênis Kleber Gomide Leite
Assessoria da Presidência for the Java 2 Plataform 1.4 em Gestão Urbana - Prodabel
Pedro Marcos Fonte Boa Bueno
Edição, Reportagem e Redação A Biblioteca Setorial de Informática Conheci a revista Fonte, já em seu
Isabela Moreira de Abreu - MG 02378 JP
Coordenação do Projeto Editorial e Gráfico da PUC-Rio gostaria de saber da possi- número 2, e fiquei impressionada com a
Gustavo Grossi de Lacerda bilidade de receber, em doação, a revista qualidade. Quero parabenizar o Conse-
Reportagem e Redação
Júlia de Magalhães Carvalho - MG 10249 JP Fonte, a partir de seus primeiros fascí- lho Editorial pela iniciativa. Gostaria
Universidade Corporativa Prodemge culos. imensamente de receber um exemplar
Enilton Ferreira Rocha dessa edição e um exemplar da edição
Marta Beatriz Brandão P. e Albuquerque Rosane Telles Lins Castilho
Luiz Cláudio Silva Caldas
Assessoria de Biblioteca, anterior, se for possível. A partir de
Renata Moutinho Vilella
Consultoria Técnica Documentação e Informação agora, gostaria de ser assinante da
Sergio de Melo Daher revista, recebendo-a a cada publicação.
Revisão
Márcio Rubens Prado Gostei muito do conteúdo da revista, Glauciene da Costa Bertini
Diagramação bastante informativo e bem formatado, Prodabel
Carlos Weyne
Capa
com assuntos atuais e abordagem bastan-
Gabriel Jacques do Couto e Silva te abrangente. Vocês estão de parabéns. Gostaríamos de assinar a revista
Impressão Observei a revista de um amigo e sua Fonte, visto que é uma publicação muito
Gráfica e Editora Sigma
Tiragem versão via web. Como funciona a distri- rica em informações.
Quatro mil exemplares buição da versão impressa? Daniela Rodrigues Dias
Periodicidade
Semestral Carlos Lacerda Financeiro - Unimed João Monlevade
Patrocínio/Apoio Institucional Analista de Sistemas - Sun Certified Instructor
Lívia Maria Amaral Queiroga Mafra Faço parte do comitê para implan-
Gustavo Grossi de Lacerda Casa do Software S/A
(31) 3339-1204 / revistafonte@prodemge.gov.br tação do software livre no Serpro, além
Agradecimento especial Gostaria de receber os exemplares da de pertencer ao PSL/MG (Projeto
Assespro - MG
revista Fonte. Tive oportunidade de ler o Software Livre de Minas Gerais). Fico
Esta edição contou com o apoio: segundo volume e percebi a qualidade do feliz em saber que a Prodemge começa a
conteúdo abordado. desenvolver ações de fortalecimento do
software livre e da liberdade de conheci-
Céssia Freitas de Figueiredo
A revista Fonte visa à abertura de espaço para a divul- mento. Nesse sentido, solicito a gentileza
gação técnica, a reflexão e a promoção do debate acerca Diretoria de Tecnologia do Banco do Brasil
de visões plurais no âmbito da tecnologia da informação, de me enviar um exemplar da revista
sendo que o conteúdo dos artigos publicados nesta edição
Tomei contato com esta revista a par- Fonte.
é de responsabilidade exclusiva de seus autores.
tir do volume 2, por meio do exemplar de Margareth Alves de Almeida
Prodemge - Rua da Bahia, 2277 - Bairro Lourdes
CEP 30160-012 - Belo Horizonte - MG - Brasil um colega de trabalho. Para minha grata Divisão de Metodologias e
www.prodemge.mg.gov.br surpresa, dois dos assuntos nos quais Tecnologias Educacionais
prodemge@prodemge.gov.br tenho amplo interesse, sendo inclusive Universidade Corporativa Serpro
objetos de minhas atividades profis-
sionais e de estudo, foram abordados na Queremos parabenizá-los pela publi-
revista: software livre e geoprocessamen- cação da revista Fonte. Estamos inte-
to. Gostaria, portanto, de perguntar-lhes ressados em recebê-la periodicamente
os procedimentos para adquirir os dois em nossa instituição.
números da revista Fonte, bem como Maria Lúcia Coimbra Scalabrini
os demais a serem publicados, pois Bibliotecária - Biblioteca OAB/MG

7
AGRADECIMENTOS TEMAS
Agradeço o envio da revista e infor- Tive contato com um exemplar da revista Fonte e gostaria de dar os parabéns pelo
mo que já recebi o exemplar. Parabeni- trabalho, que se mostrou muito interessante, atual e de alta qualidade técnica, abordan-
zo-os pela eficiência e presteza do do temas que vêm preencher uma lacuna em se tratando de publicações para área de
atendimento. Fico orgulhoso dessa gestão pública, em especial a tecnologia da informação na administração pública.
Prodemge por abordar assuntos atuais de Gostaria de aproveitar a oportunidade para sugerir um tema que acredito ser de grande
interesse de municípios e sociedade. interesse para os profissionais e gestores de tecnologia da informação, tanto na área
Acho muito importante esse tipo de ini- pública quanto na iniciativa privada: licitações e contratos administrativos em tecnolo-
ciativa: mais uma vez, parabéns, e dese- gia da informação.
jo pleno êxito à revista.
Ubiratan C. Peloteiro
Engenheiro de Computação
Demétrios Batista da Silva
Núcleo de Processamento de Dados Universidade Federal do Espírito Santo
Pesquisador-adjunto da
Secretaria Municipal Adjunta de Tecnologia
da Informação - Gostaria de parabenizá-los pelo número 2 da nossa Fonte. Está uma obra de arte.
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte Parabéns a todos os que participaram desse projeto, que só engrandece o nome da infor-
mática mineira, seja pelo conteúdo, seja pela forma. Qual o tema da número 3?

Gostei muito da revista Fonte. Boa Luiz Morato Jr.


diagramação, bons artigos, bons autores. Analista de Sistemas Prodemge
Fiquei muito feliz em ver amigos meus
escrevendo na revista e, ainda por cima,
com propriedade e técnica. Parabéns pela O interessado em assinar a revista Fonte deve enviar para o e-mail
revista. revistafonte@prodemge.gov.br seu nome e endereço completo,
informando, quando for o caso, a empresa ou instituição a que é
Paulo Jurza, MSc
vinculado. Os exemplares da revista seguirão via Correios,
Mestre em Geografia
de acordo com a disponibilidade de exemplares.
Analista em Ciência e Tecnologia - IBGE

8 FONTE
Diálogo Diálogo
Tecnologia e convergência:
os impactos na comunicação social
Divulgação

Pollyana Ferrari, jornalista formada pela PUC/SP e mestre em Ciência


da Comunicação pela Escola de Comunicação e Arte da USP
(ECA/USP), com a tese Usabilidade e Exercício de Jornalismo
dentro do Formato Portal no Brasil. Atualmente é doutoranda na
ECA/USP na área de narrativas hipertextuais. Há 17 anos atua no
mercado editorial de informática, tendo dedicado os últimos dez anos à
internet, acumulando os cargos de diretora de conteúdo da Mandic,
diretora de portal do iG e diretora da Editora Globo On-line. Ministra
aulas nos cursos de Jornalismo (Edição Jornalística e Jornalismo
On-line) e Multimeios (Hipertexto 4), na graduação da PUC/SP.
Na pós-graduação da PUC/SP, ministra os cursos de Design,
Programação Visual e Infografia e Jornalismo On-line. No Centro
Universitário Fieo (Unifieo), responde pela disciplina de Jornalismo
On-line. É autora do livro Jornalismo Digital, editado pela Contexto.

s reflexos da convergência de diferentes tecnologias na comunicação social se concretizam na forma de


O uma nova linguagem, mais adequada às mídias que se integram, e na transformação profunda de para-
digmas para a produção de conteúdos. Os impactos da digitalização da informação estão na forma, no conteú-
do, na relação entre as pessoas e entre pessoas e equipamentos e, naturalmente, na percepção que a sociedade
passa a ter do mundo; na exigência de competências específicas para os profissionais que atuam nos diversos
setores envolvidos com novas tecnologias; e nas organizações que produzem ou utilizam recursos para essa
nova realidade.
Nesta entrevista, a jornalista Pollyana Ferrari, especialista na produção de conteúdos web e design para
ambientes digitais, mostra um panorama dessa transformação, enfocando a questão da comunicação. Ela fala
dos reflexos das novas mídias nas relações pessoais, da oferta de novos produtos e serviços e das peculiaridades
dos conteúdos para dispositivos móveis. Aponta as perspectivas da transmissão de recursos multimídia em
novas aplicações, considerando uma forma diferente de captação da informação pelo usuário.

FONTE 9
Com a experiência conquistada como editora de sites de informação, Pollyana Ferrari aborda a questão
da TV interativa e a perspectiva de maior participação do telespectador, orientando a elaboração de conteúdos
personalizados de acordo com as suas preferências; e a conseqüente possibilidade da comunicação individua-
lizada, por parte das produtoras, com a elaboração de conteúdos sob medida.
Ela fala dos reflexos que a convergência digital traz para o mercado, destacando as novas exigências para
os profissionais envolvidos no setor, e dos desafios para o setor público na prestação de serviços ao cidadão
dentro de novos padrões.

Fonte: Quais as aplicações práticas pos- de enviar fotos de alta definição, vídeos, apresen-
síveis com as novas mídias digitais, especialmente tações, textos extraídos dos moblogs (blogs
as móveis? Por favor, enumere novos serviços e mantidos por dispositivos móveis); editar galerias
soluções possíveis. pessoais com arquivos de som e imagem, enviar
Há dez anos tínhamos apenas 1,4 milhão de broadcast, customizar layout de sites, jogos, quiz e
pessoas com celulares no Brasil. A chegada da tec- muito mais.
nologia CDMA EV-DO, de 3G, por exemplo, com
os primeiros trechos oferecidos pela Vivo, trará um Fonte: O celular ameaça o espaço da TV, ao
grande diferencial na transmissão de recursos MMS transmitir conteúdo multimídia?
- Multimedia Message Service e taxas de download Não acredito nisso, pelo menos a curto
de até 2,4 Mbps, o que representa receber em seis prazo. O conteúdo para dispositivos móveis tem
segundos um videoclipe de 15 MB. Possuir um outra abordagem, outra formatação. Produzir con-
celular com capacidade multimídia, ou seja, com teúdo para uma tela de 150 x 150 pixels, por exem-
real possibilidade de trafegar som, imagem, vídeo, plo, exige um alto poder de síntese e condensação
animação, faz toda a diferença em matéria de apli- de informação, o que não ocorre no formato televi-
cações móveis, pois há um ano os aparelhos não sivo.
estavam preparados para essa realidade.
Fonte: Quais as peculiaridades na criação
Fonte: A Anatel anunciou em outubro que o de conteúdos para celulares, considerando-se suas
Brasil já tem 80 milhões de celulares habilitados. especificidades - como restrições de espaço (tela) e
O que isso significa em termos de uso desses ambiente em que o usuário se encontra ao receber
equipamentos como veículos potenciais para outras a informação?
aplicações além da transmissão de voz? Você tem que pensar diferentemente a edição
A primeira geração de celular (1G) foi do conteúdo, captar de outra forma a informação,
analógica e, a segunda (2G), digital de banda estrei- levando em conta o tempo de transmissão, o tempo
ta. Surge agora, comercialmente, a terceira geração de concentração do usuário em absorver aquela
(3G), digital de banda larga para multimídia. Com informação, além da questão do espaço restrito que
essa conexão, os dispositivos móveis serão capazes já expliquei na questão acima.

10 FONTE
Fonte: Como os governos podem adotar a Fonte: Em que medida a convergência de
convergência de tecnologias para melhoria da mídias, na velocidade em que se propagam, inter-
prestação de serviços à população em seus progra- fere na percepção que as pessoas têm da realidade,
mas de e-Gov? de seu ambiente, valores e papel social?
Atualmente o setor das telecomunicações O leitor tem papel fundamental, ele que
tem uma série de desafios para enfrentar. O que se decide onde quer clicar, por onde vai começar a ler.
deve fazer para dotar as redes de conteúdo? Como A TV aberta, por exemplo, trabalha com o conceito
devemos incentivar o desenvolvimento de apli- de mídia de massa no que diz respeito a disseminar
cações e conteúdos? Como criar serviços realmente uma informação para milhares de receptores pas-
massivos? O que se pode fazer para educar e fami- sivos, com exceção de programas em que o telespec-
liarizar o usuário comum com o uso dessas novas tador participa. Na internet, temos uma mídia que
tecnologias e serviços? Acredito que essas pergun- fala diretamente para o indivíduo, de um para um.
tas deveriam estar na pauta diária do Ministério da Quando um usuário responde a uma enquete, par-
Educação. O sistema pré-pago tem uma penetração ticipa de um fórum, ele está exprimindo a sua
de mais de 70% na América Latina devido às carac- opinião sobre o fato e não apenas assistindo e
terísticas das economias assimilando. O impacto
e os níveis de renda dos é grande, o jornalista
usuários, que mantêm "As relações pessoais precisa estar preparado
um controle rigoroso do para responder rapida-
consumo familiar. Com
começam a mente e de forma con-
essa constatação, os go- se construir num outro espaço vincente ao leitor. E com
vernos deveriam incenti- de trocas, essa rapidez, corporifica-
var e até subsidiar apli- se um novo sujeito, mui-
cações educacionais para
não mais geográfico, to mais crítico e partici-
celulares pré-pagos, por mas virtual" pativo. Acredito, como
exemplo. Pierre Lévy, que a rede
seja a grande revolução
Fonte: As novas tecnologias são causa ou do século XXI. Em que as relações pessoais
efeito da transformação da sociedade? começam a se construir num outro espaço de trocas,
É muito difícil separar uma coisa da outra. não mais o geográfico, mas o virtual.
Na Coréia do Sul, por exemplo, já existem 60 mil
usuários que pagam 13 dólares, por mês, para rece- Fonte: Quais os produtos possíveis a partir
ber a programação de televisão e rádio diretamente do encontro da convergência tecnológica e da
de um satélite para seus telefones celulares, tudo interdisciplinaridade?
através de um sinal captado por uma pequena ante- Todos. A tecnologia já foi incorporada ao
na presa ao aparelho móvel. Havia a demanda dos nosso dia-a-dia. Não pensamos mais em suportes,
coreanos e a tecnologia a supriu? Ou a tecnologia hardwares; mas em aplicações, softwares.
móvel avançou e criou a demanda no país citado?
Cada vez mais não saberemos distinguir o que veio Fonte: Comente sua afirmação de que a
primeiro, pois a rapidez de assimilação de um novo internet está causando uma simplificação do códi-
serviço é muito grande e se mistura com o cresci- go dos signos, resultando num "retorno quase
mento das teles. orgânico ao código primário" (II Congresso

FONTE 11
Internacional - Mídias: Multiplicação e Conver- usabilidade será total, pois teremos que produzir
gências - 2004). uma TV interativa de fácil acesso e que facilite a
A oralidade nunca esteve tão em uso como vida do usuário. Para se chegar a esse grau de pro-
agora, graças aos dispositivos móveis; e a facili- dução de serviços, sugiro que adotemos as ava-
dade de produção de arquivos de áudio virou quase liações heurísticas, em que os estudos, em profun-
uma brincadeira, um passatempo. didade, de interface, podem nos ajudar a observar
as propriedades inerentes ao meio e também apren-
Fonte: A TV digital, por utilizar um suporte der com a experiência do usuário.
já conhecido da população, irá facilitar a inclusão
digital e social? Fonte: Tendo como referência a experiência
A televisão interativa deve ser digital, mas da TV a cabo, quais são as perspectivas que a tele-
nem por isso as televisões digitais serão necessaria- visão digital proporciona à produção de conteúdo
mente interativas; existem aparelhos baseados em brasileiro?
tecnologia digital utilizados apenas para os fins Na TV interativa, poderemos ver os progra-
convencionais, isso porque essa tecnologia propor- mas que queremos ver e não os programas impostos
ciona uma melhor quali- pelas redes. A comuni-
dade de imagem. Já a cação individualizada
necessidade de digita- "A comunicação torna-se possível graças
lização para a interativi- à produção de conteúdo
dade fica clara quando
individualizada torna-se sob medida, um conteú-
entendemos o que signi- possível graças do personalizado de
fica digital e o que essa à produção de acordo com as preferên-
digitalização proporcio- cias do telespectador.
na em termos de proba-
conteúdo O projeto da In-
bilidades de desenvolvi- sob medida" dependent World Tele-
mento de uma inclusão vision, por exemplo, já
digital e social. pode ser visto em qual-
A sociedade está abordando pouco a questão quer lugar do mundo. Alguns telejornais na Europa
dos formatos e a situação do país perante a disputa passaram a convocar a participação "ao vivo" de
dos fabricantes internacionais por um monopólio de telespectadores. O uso de webcams em telejornais
mercado. Nossa estagnação como desenvolvedores também nos mostra essa tendência, assim como os
de uma versão brasileira de TV digital e a pouca telefones se tornaram essenciais para os programas
discussão sobre o futuro da TV podem atrapalhar a ao vivo nas rádios. Todos estes exemplos podem nos
evolução dessa mídia no país para sempre. ajudar a pensar a produção de conteúdo para TV na
internet, algo ainda pouco explorado no Brasil.
Fonte: Qual o papel da usabilidade nessa
inclusão? Fonte: Como a convergência tecnológica e a
Acredito numa democratização da televisão. mobilidade criam um novo canal e uma nova lin-
Ao invés de alguns poucos canais, teremos milhões guagem para a comunicação das corporações com
de opções. Nesse novo cenário, produzir televisão seus diversos públicos de relacionamento?
se torna tão acessível quanto as possibilidades Gosto muito do exemplo da CurrentTV
da internet. E, levando isso em conta, o papel da (www.current.tv), uma TV feita pelo público. O

12 FONTE
canal, lançado pelo ex-vice-presidente norte- Primeiramente, você tem uma mudança de
americano Al Gore, tem como parceiro o Google e, paradigma; o jornalista precisará trabalhar com
em agosto, mês de estréia, já estava presente recursos multimídia (áudio, vídeo, texto, imagens,
em cerca de 20 milhões de lares nos EUA. Gore animações) para construção de uma narrativa hiper-
disse em entrevistas que acredita que o projeto midiática. Pensar digitalmente significa esquecer o
possibilitará aos jovens se engajarem no diálogo pensamento analógico. É preciso esquecer o papel,
da democracia. Acho que esse exemplo nos inspira a tinta, a impressão. Olhar o espaço virtual como
a pensar em novas possibilidades de se fazer possibilidade de interação entre o jornalista e o
televisão. usuário. Mas, para um profissional que passou, por
exemplo, os últimos 15 anos trabalhando exclu-
Fonte: Que reflexos a convergência sivamente com TV, ainda é difícil entender
digital traz para o mercado na produção de con- uma mídia que não tem fechamento e que precisa
teúdos? de uma edição primorosa para o texto, para a
Antes de tudo, precisamos criar novas formas seleção das imagens, para o áudio, enfim, o repórter
de fazer televisão. Enquanto os apresentadores se precisa pensar em tudo ao mesmo tempo, para que
colocarem na frente das o trabalho fique pronto
câmeras, segurando o em um curto espaço de
microfone, não teremos tempo.
um novo mote de pro- "Pensar digitalmente
dução de conteúdo. Não significa esquecer Fonte: O que quer
adianta uma diversidade dizer exatamente o termo
de conteúdos "empacota-
o pensamento analógico. crossmídia?
dos" no padrão Globo de É preciso esquecer o papel, Troca entre for-
jornalismo. Isso ocorreu a tinta, a impressão" matos midiáticos. Sem-
em todos os portais e pre recorro ao exemplo
suas tentativas de pro- de Época On-line para
duzir noticiários televi- relembrar o primeiro
sivos na internet. E foi um fracasso. TV interativa exemplo de crossmídia da imprensa brasileira.
não é a simples transposição do formato televisivo No dia 23 de novembro de 1998, a revista Época
atual. publicou a capa Leia e ouça o grampo, propor-
cionando uma experiência única aos leitores: ler
Fonte: Em seu livro Jornalismo Digital e ouvir (na internet) as fitas que estavam no gram-
você destaca a importância do profissional na po do BNDES. Recurso que nos concedeu,
produção de conteúdo on-line hipermidiático. Qual na época, uma reportagem de meia página no
seria o perfil desse profissional e as principais jornal francês Le Monde e vários estudos acadê-
competências desejadas? micos.

FONTE 13
D o s s i ê

Convergência no século
da mobilidade:
a história vem de longe, a revolução ainda está no começo

As transformações vividas pela humanidade nos


últimos anos, com o crescimento e diversificação das
tecnologias, apenas sinalizam o muito que ainda está
por vir num futuro muito próximo. Um novo movimento
de abrangência mundial direciona essas várias tecnolo-
gias para uma mesma linguagem - a digitalização - con-
vergindo dados, voz, imagens, vídeo e som para redes
comuns. Uma verdadeira revolução, que traz reflexos
importantes para o mercado, organizações públicas e
privadas, pessoas e para a sociedade.
A convergência digital provoca um autêntico movi-
mento cultural, ao criar novos hábitos sociais, inaugurar
necessidades, estabelecer valores, exigir regras e regu-
lamentações. Por um lado, gera oportunidades de negó-
cios e, por outro, ameaça de forma implacável organiza-
ções estabelecidas sobre velhos paradigmas. Sinaliza ainda um alerta para as empre-
sas que ainda podem se adequar a essa nova ordem, sob pena de se desintegrarem
em meio à turbulência e à velocidade das mudanças.
Mas afinal, o que vem a ser a convergência digital? Segundo o assessor do
Conselho Diretor da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Marcelo
Andrade Pimenta, numa mesma infra-estrutura de rede podem hoje ser transporta-
dos e disponibilizados serviços de voz, dados e imagem; ou um mesmo serviço pode
estar disponível em diferentes tipos de redes; ou, ainda, um usuário pode, através de
um mesmo equipamento, acessar diversos serviços, de forma integrada. A con-
vergência se apóia, de forma mais efetiva, na própria internet ou nas redes a cabo,
que propiciam conexões de alta velocidade, na chamada banda larga.
O Livro Verde da Convergência da Comissão Européia define convergência
como "a capacidade de diferentes plataformas de rede servirem de veículo a
serviços essencialmente semelhantes ou a junção de equipamentos terminais para
uso do consumidor, como o telefone, a televisão e o computador pessoal".

14
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

MAS NA PRÁTICA, O QUE ISSO SIGNIFICA? dados, convertendo-se em voz novamente ao


Para Marcelo Pimenta, da Anatel, a convergência chegar a seu destino.
tecnológica e de serviços tem propiciado os meios Em teste no Brasil desde o mês de setembro,
necessários para que os produtores de conteúdo o rádio digital significa uma nova realidade também
(TV, rádio, internet, etc.) tenham capacidade de para os ouvintes: o novo sistema representa, para
disponibilizá-lo em vários terminais (TV digital, quem tem um aparelho digital, uma melhor quali-
computador, celular, etc.) através de diferentes dade do som, com transmissões AM sem interferên-
redes (satélite, ADSL, Wi-Fi, etc.). cia e com qualidade FM; e FM com qualidade de
A convergência abre, para o usuário comum, CD. As possibilidades da nova tecnologia são
um leque de novos serviços e aplicações, conside- muitas, especialmente relacionadas à interativi-
rado ilimitado pelos especialistas. O chamado dade. Exemplo disso é a transmissão simultânea de
"século da mobilidade" se inicia com novas utili- até três programas, na mesma freqüência e para
dades oferecidas pelos telefones celulares, que públicos diferentes, e a transmissão de informações
extrapolam suas funções originais de comunicação como autor e intérprete de músicas, notícias, pre-
de voz e se transformam em verdadeiros computa- visão do tempo, situação do trânsito e outros ser-
dores capazes de transmitir dados, informações, viços, além de imagens de shows e capas de CD no
imagens e serviços. As perspectivas para a telefo- visor do aparelho.
nia 3G, com taxas de transmissão de até 2Mbps, são Todas as novas perspectivas de serviços e
de tráfego multimídia com base no protocolo IP, o aplicações são possíveis pela popularização da
que fomentará um enorme mercado para a disponi- banda larga, que amplia a utilização da internet para
bilização de conteúdos que hoje utilizam outros ter- tráfego de arquivos multimídia, ao lado do tradi-
minais, como a TV e o computador. cional tráfego de dados. Aliado a isso, o surgimen-
A TV digital, por sua vez, promete um novo to de inovações como as redes wireless - banda
padrão de qualidade na recepção e a possibilidade larga sem fio, como Wi-Fi e Wi-Max - e novos
de oferta de novos serviços e aplicações por meio equipamentos, viabilizam a conectividade entre os
da interatividade. Com previsão para início de ope- mais diversos meios e sob as mais variadas
ração no Brasil em 2006, a TV digital neste condições.
momento é tema de discussões para a definição do Na opinião do professor e pesquisador
padrão a ser adotado no país, envolvendo governo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
fabricantes de aparelhos e concessionárias de TV, Mohammed Elhajji, no ensaio "Mídia Convergente
além de outros atores envolvidos no processo. enquanto meio e objeto de estudo" (em Tensões e
Já é realidade e se consolida de forma avas- Objetos da pesquisa em comunicação, editora
saladora em todo o mundo a comunicação de voz Sulina),"... não se trata apenas da substituição de
utilizando o protocolo internet - o VoIP - que muda um suporte físico por outro ou da otimização dos
o conceito de telefonia ao viabilizar um serviço meios ou métodos de armazenamento e gestão de
com a mesma qualidade dos telefones tradicionais, dados, mas antes, de uma maneira inédita e revolu-
porém gratuito - para ligações de computador para cionária de produção de sentido, uma mudança
computador - e com tarifas reduzidas para chama- radical em nossos modos de apreensão do fato sen-
das de computador para telefone fixo. Nesse ser- sível ou observável e sua transdução em fenômeno
viço, a voz, um sinal analógico, é digitalizada, pas- quantificável, inteligível e cientificamente anali-
sando a trafegar pela internet como pacote de sável".

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Aplicações públicas e ganhos sociais


A restrição orçamentária comum na adminis- da cidade de Ouro Preto (MG), que, além dos bene-
tração pública encontra na convergência digital fícios próprios dos novos serviços, atende limi-
uma série de benefícios, especialmente relaciona- tações de uma cidade tombada pelo patrimônio,
dos à redução de custos e melhoria na prestação de onde há restrições à instalação de cabos e fios.
seus serviços. Com relação aos ganhos sociais, o assessor
Um exemplo é o VoIP (tráfego de voz em da Anatel, Marcelo Pimenta, comenta resultados da
protocolo IP), que promete reduções substanciais Cúpula Mundial sobre Sociedade da Informação
nos gastos com telefonia. Se as organizações pri- (CMSI), cuja segunda fase se encerrou em novem-
vadas já adotam o serviço em todo o mundo, o setor bro deste ano, em Túnis (Tunísia). Segundo ele, o
público tem também procurado adequar-se para encontro deixou claros os desejos e compromissos
obter da tecnologia reduções que possibilitem o dos representantes dos povos no mundo, ou seja,
investimento dessa economia em ou- "construir uma Sociedade da Infor-

Divulgação
tras atividades. mação centrada na pessoa, incluída e
Em Minas Gerais, a Prodemge voltada para o desenvolvimento, na
conduz um importante projeto de qual todos possam criar, acessar, uti-
implementação de serviço de voz uti- lizar e compartilhar a informação e o
lizando a infra-estrutura de comuni- conhecimento, para que as pessoas, as
cações já existente para a transmissão comunidades e os povos possam
de dados, que serve à administração desenvolver seu pleno potencial na
pública estadual. O objetivo é a ma- promoção de um desenvolvimento
ximização de uso da estrutura instala- sustentável e melhorar sua qualidade
da, com o cuidado de manutenção da Marcelo Pimenta, da Anatel de vida, de acordo com os objetivos e
qualidade das aplicações e tráfego de princípios da Carta das Nações
dados. Unidas e respeitando e defendendo plenamente a
Segundo o superintendente de Tecnologia da Declaração Universal dos Direitos Humanos".
Prodemge, Sergio Daher, são cinco os aspectos con- Reconhece também a Declaração de Prin-
siderados no projeto, na análise custo/benefício cípios que "as vantagens da revolução da tecnologia
para o Estado: a sinalização e encaminhamento dos da informação estão desigualmente distribuídas
pacotes de voz; a qualidade do sinal de voz; o entre os países desenvolvidos e em desenvolvimen-
impacto do tráfego adicional de dados digitalizados to, bem como nas sociedades"; segundo o docu-
na rede; a qualidade necessária ao serviço; e a inter- mento, os representantes dos países se comprome-
conexão com os serviços públicos de telefonia. tem "a tornar esta brecha digital uma oportunidade
(Veja detalhes do projeto no artigo Uma solução de para todos, especialmente aqueles que correm peri-
voz sobre IP para Rede Estadual de Minas Gerais, go de ficar renegados e ainda mais marginalizados".
nesta edição). A partir dessas constatações, Marcelo
Outras iniciativas têm sido empregadas pelas Pimenta acrescenta que se deve considerar alguns
administrações públicas, especialmente no âmbito desafios que são impostos principalmente aos paí-
municipal. Leia na seção Benchmarking experiên- ses menos desenvolvidos ou em desenvolvimento
cias de sucesso na cidade de Piraí (RJ) e o projeto e promover políticas que permitam superá-los.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

"O papel dos agentes reguladores assume caráter dos equipamentos terminais no que diz respeito aos
importante, principalmente no setor de telecomuni- conteúdos acessados e integrando a infra-estrutura
cações, comunicação de massa e tecnologias da de rede para transportar serviços diversos".
informação e comunicação - TIC. Uma análise mais Para Marcelo Pimenta, a regulamentação
profunda das Diretrizes e do Plano de Ação da deve considerar a convergência, de forma equili-
CMSI demonstra a necessidade de fomentar marcos brada, como um fator que motive o surgimento
regulatórios através de um modelo que considere a constante de novas empresas e serviços, que imple-
interdisciplinaridade, complementaridade e a con- mentando soluções avançadas e alternativas de co-
vergência entre esses setores. É importante que pos- municação, alteram a todo momento a configuração
samos construir políticas que motivem o desen- do mercado, trazendo mais competição, redução de
volvimento tecnológico, aumentando a usabilidade custo e maior conforto para o usuário.

VoIP: novos paradigmas para a comunicação de voz


"VoIP representa a mais significativa mu- convergência. Obedecendo ao parâmetro de digita-
dança de paradigma em toda a história das teleco- lização de conteúdos para tráfego em redes comuns,
municações modernas desde a invenção do tele- a transformação da voz em dados e sua transmissão
fone". A afirmação de Michael Porter, chairman do via internet é uma realidade que ganha espaço em
FCC - Federal Communications Co- todo o mundo em escala geométrica,
Divulgação

mission (órgão regulador das teleco- muito embora ainda prescinda de for-
municações nos EUA), pode parecer, mas de regulamentação que garantam
num primeiro momento, exagerada. seu lugar no mercado junto aos
Mas o crescimento em todo o mundo serviços tradicionais de comunicação
do serviço que permite a comunicação de voz, prestados pelas operadoras de
por voz através do computador, uti- telefonia fixa e móvel.
lizando o protocolo da internet, com- O "telefone pela internet"
prova que o VoIP veio para ficar. requer do usuário uma conexão em
Daí ser considerado uma tec- banda larga, microfone, placa e cai-
nologia de ruptura ou de "disrupção", Cezar Taurion xinha de som, e um dos softwares
nomes dados a uma invenção ou ino- específicos para a conexão, normal-
vação que abala uma tecnologia já existente, poden- mente distribuídos de forma gratuita, como o
do representar, nesse caso, prenúncio de problemas Skype, MSN Messenger, ICQ ou Yahoo Messenger,
para as empresas de telefonia já estabelecidas. Tem entre outros.
se mostrado, por outro lado, agente poderoso de Na comunicação de computador para com-
aquecimento do mercado, oportunidade para novos putador, chamada peer-to-peer, o próprio equipa-
investimentos e surgimento de grandes organiza- mento é responsável pela sinalização e controle de
ções. Somente no Brasil já existem nada menos que chamadas, diferentemente da comunicação de com-
32 operadores de VoIP em atuação. putador para telefone convencional, na qual o gate-
Desse modo, considerado por especialistas a way é responsável por esse serviço. O gateway,
grande revolução das últimas décadas, destaca-se junto com a rede de telefonia fixa (Serviço de
na linha de frente das mudanças viabilizadas pela Telefonia Fixa Comutada - STFC), é necessário

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

para essa comunicação e utiliza serviços pagos delineia um crescimento bastante rápido para
como o SkypeOut, Net2Phone e V59. as ligações pessoais. No mundo inteiro, dos
Também é possível acessar o VoIP através de 150 bilhões de minutos de voz que trafegam
um aparelho chamado Telefone IP, que possui as por ano nas ligações de longa distância, cerca de
funcionalidades necessárias para processamento de 25% já são em redes IP.
sinais de áudio e conexão à rede, e é muito pareci- Outros aspectos que incentivam a popula-
do com um telefone comum. rização do VoIP são a expansão no número de
No Brasil, estima-se a existência de nove provedores de banda larga e a adoção da tecnologia
milhões de usuários da internet por meio de banda por um número cada vez maior de operadoras.
larga. Desses, 10% deverão usar serviços de telefo- Para o gerente de Novas Tecnologias
nia IP até 2008. Aplicadas da IBM, Cézar Taurion, estamos diante
Um dos problemas que o serviço VoIP pode de uma tecnologia de "disrupção", tecnologia de
trazer é o chamado "phone-spam", uma alusão aos ruptura que traz ao mercado uma nova proposição
e-mails indesejados e invasivos que circulam pela de valor, com o potencial de quebrar modelos de
internet. A maior parte dos novos serviços computa- negócio já existentes. "VoIP afeta toda a indústria
dorizados permite a criação de "máscaras" de iden- de telefonia, pois permite mudarmos por completo
tidade, utilizadas por hackers e piratas e que podem sua estrutura de custos e seus modelos de negócio.
passar também a utilizar o VoIP para seus golpes. Por exemplo: tarifas baseadas em distância, horário
Outro problema é com relação à sua dependência da e tempo de ligação perdem seu significado. VoIP
energia elétrica para funcionamento, o que não também permite criarmos novos modelos de negó-
ocorre com a telefonia tradicional. cio, diferentes dos tradicionais".
O site do Skype, um dos programas mais Para ele, adotar VoIP não é uma questão de
populares para a realização de chamadas VoIP, se, mas de quando. "A dúvida não é se VoIP vai ou
comemorou em novembro a superação da marca de não varrer a telefonia tradicional, mas sim a rapidez
200 milhões de downloads. São 57 milhões de com que isso vai acontecer", afirma.
usuários cadastrados, dos quais 2,8 milhões no Taurion alerta também para o aspecto da
Brasil, o maior contingente mundial de usuários segurança na convergência de mídias distintas:
Skype. O crescimento é de 150 mil novos usuários VoIP é uma rede de dados sujeita a todas as limi-
por dia, dos quais 7.000 no Brasil. tações das redes de dados existentes hoje: "Além
A tendência baseia-se principalmente nos das condições de segurança, devemos pensar em
custos dos serviços: o pagamento de uma mensali- aspectos de privacidade, uma vez que toda conver-
dade de cerca de R$80 - pelo serviço de banda larga sa pode ser armazenada como dados e eventual-
- garante ao usuário a gratuidade das ligações locais mente manuseada e modificada. Segurança é um
de computador para computador; e uma tarifa ponto que merece muita atenção".
reduzida para chamadas de longa distância, ou de Os fabricantes de equipamentos se adaptam
computador para telefone fixo. rapidamente ao novo serviço: já é possível adquirir
É justamente esse, na opinião dos especialis- aparelhos conversores para telefones analógicos ou
tas, o grande apelo para a crescente disseminação equipamentos em diferentes modelos de telefones
da tecnologia, especialmente entre as organizações. IP ou até mesmo PABX sob medida para o protoco-
No Brasil, a estimativa é de que cerca de 15% do lo internet.
tráfego de voz já são feitos em redes IP, ainda con- Segundo dados da pesquisa da consulto-
centrados no segmento corporativo, mas já se ria Signals Telecom, compilados pela União

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Internacional de Telecomunicações (UIT), num Brasil. O mercado residencial de voz sobre protoco-
estudo que faz um panorama da telefonia no conti- lo de internet no país deverá movimentar cerca
nente americano (Valor Econômico, 4/10), o serviço de US$ 100 milhões neste ano e saltar para quase
movimentará US$ 1,4 bilhão, até 2010, somente no US$ 1,4 bilhão, até 2010.

Novo cenário para as operadoras de telefonia


O crescimento desenfreado do uso do VoIP por meio de uso das restrições legais e regulatórias
tem levado as operadoras de telefonia fixa a se - as regulações sempre estão atrasadas em relação
adaptarem a essa nova realidade, buscando solu- às novas tecnologias - ou mesmo por contra-ataques
ções criativas que garantam seus resultados. Se por comerciais, baixando o preço de seus próprios pro-
um lado o novo serviço resulta para o usuário em dutos. Finalmente, acabam se rendendo e adotando
uma alternativa vantajosa, para as operadoras a as novas tecnologias".
situação pode representar quedas significativas no Segundo ele, as empresas de telefonia já esta-
faturamento. belecidas estão diante de um grande desafio e a
O governo federal recomenda, através do mi- velocidade de suas respostas irá definir o futuro
nistério das Comunicações, que as operadoras de te- dessas empresas. "Se ignorarem a nova tecnologia
lefonia fixa voltem seus investimentos para as clas- ou remarem contra a maré por tempo excessivo,
ses C e D, para quem o acesso à internet é limitado correm o risco de sair do mercado ou ser absorvidas
pelo poder aquisitivo. Para atender a população de por outras", adverte. Por outro lado, se a adotarem,
menor poder aquisitivo, no entanto, as teles terão incorporando-a em seus negócios - de maneira
que adaptar as tarifas atuais, que são também restri- transformadora -, têm o potencial de crescerem
tivas. Entre as opções, estão a gratuidade da assi- ainda mais. "VoIP não será o fim das empresas de
natura básica e barateamento das tarifas. telefonia, mas será o fim do modelo atual da telefo-
No mínimo, o VoIP reconfigura o modelo de nia, como a própria telefonia decretou o fim do telé-
tarifação existente hoje, uma vez que, com a inter- grafo".
net em banda larga, questões como horário, distân- O governo do Japão informou que pretende
cia e tempo das chamadas se tornam parâmetros oferecer serviço de VoIP para celulares em 2007.
sem nenhum valor. Com esse serviço, os usuários não precisariam
Parte das chamadas de voz perdidas para o acessar redes Wi-Fi ou ter computador para fazer
VoIP pelas operadoras tradicionais de telefonia pas- ligações de longa distância com custo reduzido. A
sam a ser recuperadas também pelo tráfego de previsão é de que a taxa de transmissão de dados
dados. Muitas dessas organizações já oferecem em nessa rede seja de 15 Mbps (muitas vezes mais rápi-
seus portfólios de serviços a comunicação de dados do que os telefones de terceira geração disponíveis
em banda larga, o que pode fazer com que uma atualmente), que pode diminuir de acordo com o
estratégia eficaz provoque a migração de clientes de volume de tráfego ou a quantidade de assinantes
um serviço para o outro. numa área. A proposta está sendo discutida entre
Na opinião de Cezar Taurion, de maneira ministros e especialistas do setor e a decisão oficial
geral as empresas que dominam o mercado tendem, deve ser tomada em dezembro deste ano. Segundo
no início, "a ignorar uma nova e ameaçadora (para a agência de notícias Associated Press, outros
elas) tecnologia. Depois tentam eliminá-las - seja países planejam fazer o mesmo.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

A questão da regulamentação do VoIP


A flexibilidade e a velocidade com que a tec- argumenta ainda que as prestadoras de serviços de
nologia evolui não encontram eco na legislação que telecomunicações pagam tributos, taxas de acesso e
a regulamenta. Essa é a opinião quase unânime dos concessão de licenças.
diversos setores interessados em definir sua estraté- "O problema da regulamentação do VoIP
gia de posicionamento no mercado de forma plane- passa necessariamente pela questão legal", argu-
jada. No Brasil, ainda não existe uma regulamen- menta. A questão que destaca é: "Afinal, trata-se de
tação específica para VoIP, uma vez que a Agência um serviço de telecomunicação, uma tecnologia
Nacional de Telecomunicações (Anatel) regula- diferente, não enquadrada nesse conceito; ou um
menta os serviços de telecomunicações e não as tec- aplicativo para a internet?" A resposta a essa
nologias usadas para implementá-los. No caso do questão levaria o problema a diferentes fóruns de
VoIP, essas tecnologias são o meio e não o fim para discussão e regulamentação.
os serviços de telefonia. Ou, segundo "Caso se considere como um

Sebastião Jacinto Junior


o juiz de Direito e diretor do Instituto aplicativo", explica, "estaria na alça-
Brasileiro de Política e Direito da da do Comitê Gestor da Internet no
Informática (IBDI), Demócrito Rei- Brasil - CGI-Brasil; se na área de
naldo Filho, trata-se de uma tecnolo- telecomunicações, na Anatel". Ele
gia com características que reúnem conclui afirmando tratar-se de um
elementos comuns às telecomuni- serviço de telecom, "é telefonia por
cações tradicionais e à comunicação cabo. Nesse caso, a Anatel é que tem
na internet. competência para regulamentar."
O VoIP é uma questão de fato Segundo o assessor do Con-
polêmica. Atualmente as empresas Demócrito Filho selho Diretor da Anatel, Marcelo
que prestam o serviço o fazem me- Pimenta, "a Agência ainda não regu-
diante uma licença específica expedida pela Anatel lamenta explicitamente o ambiente convergente,
para prestação de serviço de comunicação multimí- embora venha estudando profundamente o assunto
dia - SCM. e acompanhando os movimentos internacionais".
A própria Anatel reconhece a necessidade de Ele explica que o serviço de telecomunicações que
legislação específica para disciplinar os serviços no mais se aproxima atualmente de um modelo con-
Brasil. A discussão não se limita à tecnologia ado- vergente é o SCM - Serviço de Comunicações Mul-
tada, mas à natureza do serviço prestado, se telefo- timídia: um serviço fixo de telecomunicações de
nia ou não. interesse coletivo, prestado em âmbito nacional e
Para Demócrito Reinaldo Filho, a atual si- internacional, que possibilita a oferta de capacidade
tuação do VoIP envolve interesses de empresas já de transmissão, emissão e recepção de informações
estabelecidas no mercado, ameaçando o sistema multimídia, utilizando quaisquer meios, a assi-
tradicional de telefonia. Esse fator justificaria a nantes dentro de uma área de prestação de serviço.
necessidade de regulamentação, mas há outras "Neste caso - explica - são consideradas in-
questões que devem ser consideradas, como a formações multimídia os sinais de áudio, vídeo, voz
necessidade de arrecadação de taxas de fiscaliza- e outros sons, imagens, textos e outras informações
ção e licenças para exploração da atividade. Ele de qualquer natureza. Ao SCM, entretanto, não é

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

permitida a oferta de serviço com as características internet, de escolha do usuário. Basicamente,


do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC), em para propiciar inclusão digital, usando recursos
especial o encaminhamento de tráfego telefônico do Fust.
por meio da rede de SCM simultaneamente origina- A Anatel esclarece, em comunicado do dia 9
do e terminado nas redes de STFC". de novembro de 2005, que não há restrição regula-
Iniciativa importante dentro do conceito con- mentar que impeça uma prestadora de Serviço de
vergente - ainda não efetivada - é o SCD - Serviço Comunicação Multimídia (SCM) de usar a tecno-
de Comunicações Digitais, acrescenta Marcelo logia Voz sobre IP no provimento de comunicação
Pimenta. O SCD é classificado, quanto à sua de voz. Também ressalta que contratos de prestação
abrangência, como serviço de telecomunicações de de SCM não podem impor restrições à transmissão
interesse coletivo, prestado em âmbito nacional e de nenhum tipo de sinal (áudio, vídeo, dados, voz
internacional. O SCD é o serviço de telecomuni- e outros sons, imagens, textos e outras infor-
cações que permite, dentre outras, a utilização de mações), por ser um serviço abrangente que, por
serviços de redes digitais de informações, em definição, possibilita a oferta de capacidade de
alta velocidade, destinadas ao acesso público, transmissão, emissão e recepção de todo tipo de
inclusive para conexão aos provedores de acesso à informações.

Sebastião Jacinto Júnior


Dossiê Entrevista Dossiê Entrevista

Entrevista com
Otávio Marques Azevedo,
da AG Telecom

Nesta entrevista, o presidente da AG Telecom e conselheiro da Telemar, Otávio Marques


Azevedo, sugere aplicações práticas da convergência na melhoria dos serviços prestados
pela administração pública, fala sobre o impacto da convergência nas empresas de telefonia
e defende uma regulamentação com foco no cidadão.

Como os governos podem adotar a conver- banda larga, por exemplo, instalar Postos de
gência de tecnologias para melhoria da prestação Serviços Integrados Urbanos em várias cidades do
de serviços à população em seus programas de interior. O atendimento em banda larga e um apa-
e-Gov? relho integrado - um telefone público conectado a
Há várias formas. Vamos falar especifica- uma tela - permite que você, com um teclado
mente do governo de Minas e dos Psius. Nós acoplado, possa acessar a internet, conferir contas,
poderíamos, com a convergência e atendimento em solicitar a emissão de segunda via de documentos.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Se for acoplado também um leitor de código de bar- exterior ou no Brasil. Não se trata do Psiu como o
ras, é possível fazer a leitura da conta, e com um de hoje - o espaço físico teria uma utilização dife-
slot para uso do cartão de débito, pagar a conta sem rente.
ter que ir ao banco. Tudo isso num único sistema,
numa única máquina e até, eventualmente, sem A convergência de mídias distintas requer
assistência de outras pessoas. uma regulamentação específica? Como a questão
Você tem, nesse caso, um terminal de com- legal tem interferido no desenvolvimento do setor?
pras, podendo fazer convênios com magazines ou Quais seriam as perspectivas?
lojas virtuais; pode fazer compras, pagar com Deveria haver uma convergência de leis.
cartão de débito, fazer pagamento de compras, usar Hoje, as leis tratam de perspectivas diferenciadas.
o telefone para fazer uma ligação, desde que esse Uma com foco específico na telefonia, na teleco-
municação, e outra muito na mídia. E esse mundo
convergido é um mundo em que a convergência
está, na verdade, no cidadão, uma entidade única e
também convergida. É um ser único e como tal
consome as mídias, as informações, os mecanismos
de comunicação e telecomunicações, de acordo
com a vontade dele. Na minha opinião, a conver-
gência das leis é um compromisso com a vontade
“A convergência das leis é um do consumidor, do cidadão.

compromisso com a vontade do Qual o impacto do VoIP sobre as operado-


ras tradicionais de telefonia?
consumidor, do cidadão” Na medida em que os acessos se dêem numa
conexão em banda larga, qualquer conexão, qual-
quer serviço que venha dentro dessa conexão terá
sistema seja ligado em banda larga. Só para se ter que ser disponibilizado. Se isso causa impacto às
uma idéia bem clara do benefício que a população empresas de telefonia fixa no começo, ou na empre-
pode ter, além do mais esse sistema poderia, num sa de telefonia móvel, não é um grande problema.
ambiente adequado, ser acoplado a uma tela maior É parte da vontade do consumidor, que está tendo
e acessar sistemas de vídeo on demand para acesso aos benefícios da evolução tecnológica. As
exibição de filmes para a comunidade; o espaço se empresas têm que se preparar para essa nova ge-
transformaria, então, numa sala de cinema. ração de serviços, porque o impacto na longa dis-
Com um único equipamento, você pode ter tância já é absolutamente visível. Têm que entender
uma variedade de aplicações. Além do mais, que isso é uma nova geração de serviços, não é um
estando ligado ao sistema de e-gov dos governos serviço novo. É comunicação de voz do mesmo
estadual ou federal, através da internet, nesse termi- jeito, só que dentro de uma nova geração de
nal você poderia fazer qualquer tipo de serviço, prestação de serviços. Por outro lado, o VoIP deve
como cadastrar pequenas e microempresas, parti- ter um compromisso com a qualidade, com a con-
cipar de licitações para pequena e média empresas tinuidade, e deveria ter um compromisso também
de fornecimento de materiais e serviços. Também com o sigilo. Desde que esses princípios que regem
on demand, realizar um tour guiado num museu no o desejo do consumidor sejam preservados, a forma

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

em que a comunicação se estabelece é uma questão média mensal de menos de R$20. Temos que nos
da tecnologia que está sendo oferecida. lembrar que há nicho de alto consumo, que está den-
tro do pós-pago, para acesso aos novos conteúdos,
Como as empresas de telefonia podem se uma vez que os preços são altos. Dentro dos 20% de
adequar a esse novo movimento do mercado? usuários do sistema pós-pago há cerca de 25% - em
Podem oferecer também VoIP, por exemplo, torno de quatro milhões de usuários - com real capa-
com qualidade melhor do que está sendo oferecido. cidade de pagamento de serviços mais avançados.
Com mais garantia de sigilo, com menos risco de São quatro milhões de um total de 80 milhões. Como
invasão. Por exemplo, quando você utiliza um site de a tecnologia é nova, está tudo muito caro, mas daqui
comunicação de voz sobre IP, por meio do seu com- a dois anos os preços estarão em condições muito
putador, tem que saber que o seu firewall precisa ser mais acessíveis e o Brasil irá se beneficiar disso.
potente o suficiente para protegê-lo de potenciais
invasões que essa porta aberta possibilita a terceiros.

O que esperar, em termos de conteúdo, com


os celulares 3G? Quando teremos essa realidade
no Brasil? Por enquanto, o que esperar com o
CDMA e GSM?
Telefonia 3G está sendo implantada agora, é
uma tecnologia muito nova. No Brasil, eu acredito “Daqui a dois anos os preços
que o serviço estará operando, de fato, com a co- estarão em condições
mercialização de telefones, a partir de 2008. O
Brasil, nesse momento, irá se beneficiar da escala
muito mais acessíveis e o Brasil
mundial dos equipamentos, de sistemas a serem im- irá se beneficiar disso”
plantados, e também dos preços que estarão
mais adequados. Também a população irá se benefi-
ciar dos handsets (aparelhos): hoje a quantidade de Quais os reflexos da convergência na rotina
handset no mercado mundial é pequena, o custo das pessoas?
ainda é muito alto. Não é razoável você oferecer um Eu acho que realmente a convergência
serviço ao qual a população não tenha acesso. Mas em comunicações é muito fruto das necessidades,
muitos dos serviços de 3G já estão sendo prestados das demandas do ser humano, do cidadão, que
em 2G, como é o caso dos sistemas de vídeo, ofe- busca uma vida mais confortável. Ele quer
recidos por empresas de GSM e CDMA ou o GPS. pagar de maneira mais adequada pelos serviços,
O serviço mais visível de 3G, que costuma ser o podendo ter o conforto de utilizar-se da con-
primeiro a ser oferecido, é o de videoconferência - é vergência para facilitar sua vida; evitar entrar em
você se comunicar vendo e falando com a outra pes- filas; comprar ingressos de jogos, de teatro e de
soa. Mas há muitas outras aplicações, como jogos, cinema pelo telefone, até pelo celular. Poder fazer
filmes, a própria televisão; enfim, coisas que vão pagamentos via celular ou via telefone fixo,
trazendo melhorias de qualidade. Mas temos que estando em casa, em telecentros ou no Psiu.
nos lembrar sempre que hoje, no Brasil, nós temos Enfim, poder usufruir, fazer com que a tecnologia
uma base de telefones celulares instalada em que sirva no seu máximo de esplendor em benefício
80% utilizam o sistema pré-pago, com uma receita dele, cidadão.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

O mercado: oportunidades, ameaças


Os reflexos da convergência de tecnologias "O Brasil é o sétimo mercado de software no
se concretizam na mesma velocidade na convergên- mundo, movimenta cerca de nove bilhões de
cia dos mercados, que passam a conviver com no- dólares/ano e vem crescendo, desde 1995, a uma
vos desafios e a necessidade de respostas imediatas taxa média anual de 11%, sendo três vezes maior do
para sua adequação. Para o assessor da Anatel, que a de hardware e cerca de cinco vezes maior do
Marcelo Pimenta, assiste-se a um ciclo econômico que a taxa de crescimento do PIB", explica.
propenso à convergência de mercados, resultante Brafman defende uma indústria de software
precisamente da convergência de redes, equipa- realmente competitiva em termos mundiais:
mentos e serviços. "Estaremos garantindo a participação em um dos
"Essa tendência consubstancia-se na asso- últimos mercados globais de considerável valor
ciação de conglomerados posicionados em áreas de intrínseco e que ainda está em formação". A conso-
negócios diferenciadas e na correlativa abertura a lidação dessa realidade, para ele, é a criação de um
outros setores" - explica. Por exemplo, os opera- fórum permanente de debate e adoção de ações
dores de televisão por cabo têm expandido a sua necessárias e urgentes, tais como: a inclusão no sis-
atividade aos domínios das telecomunicações e das tema tributário simplificado; a definição clara da
tecnologias da informação, prestando serviços tele- natureza jurídica do software e demais marcos
fônicos e de acesso à internet. “Por seu turno, os regulatórios das operações de mercado; a regula-
operadores de telecomunicações estendem as suas mentação profissional; a utilização correta do poder
linhas de interesse à produção e distribuição de con- de compra governamental; a possibilidade legal de
teúdos audiovisuais e multimídia, através de ope- uso da terceirização em atividades produtivas;
rações de aquisição de empresas de conteúdos". incentivos à exportação, dentre outras. (Leia nesta
Marcelo Pimenta explica que o que ocorre é edição o artigo O desafio do software nacional
uma reconfiguração no mercado, nas várias partes perante a convergência digital).
da cadeia de valor, que precisa ter um certo nível de Outra iniciativa para aquecimento do merca-
regulamentação para evitar concentrações, horizon- do brasileiro de software vem do Instituto Brasi-
tais e verticais, que possam representar práticas leiro para Convergência Digital, que desenvolve
anticompetitivas e restrições à liberdade de escolha projeto para o setor de software e serviços de TI e
e acesso a conteúdos. BPO (Business Process Outsourcing). O objetivo é
A Associação das Empresas Brasileiras de mobilizar o governo brasileiro para que sejam in-
Software, Tecnologia da Informação e Internet corporados os interesses das empresas exportadoras
(Assespro) reconhece a oportunidade que essas nas negociações de acordos internacionais de
transformações representam e se mobiliza com o comércio de serviços, além de procurar conhecer as
propósito de conquistar novos mercados, tanto na- experiências de outros países e seu posicionamento
cionais quanto internacionais. Segundo o vice-pre- na Organização Mundial do Comércio.
sidente da entidade, Marcos Brafman, o software é, O secretário do Desenvolvimento da
em última análise, a base de todas as inovações tec- Produção do Ministério do Desenvolvimento,
nológicas e "seguramente será o responsável, nos Indústria e Comércio Exterior, Antônio Sérgio
próximos anos, pelos maiores índices de crescimen- Martins Mello, define a convergência digital, do
to da economia mundial". ponto de vista empresarial, como o ambiente de

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

mercado e de políticas públicas que faz com que cada cadeia produtiva. Defende ainda o estabeleci-
as indústrias tenham de atuar juntas, criando um mento de ações e metas, configurando uma política
ecossistema industrial de novo tipo, assentado para o desenvolvimento do complexo eletrônico
numa convergência tecnológica que proporciona, como um todo. As discussões iniciais destacam
como conseqüência, a passagem dos processos como pontos a serem aprofundados: políticas de
analógicos para digitais e oferece à sociedade pro- desenvolvimento econômico-social centradas em
dutos, serviços e formas de organização não expe- convergência digital; capacitação tecnológica; mar-
rimentadas. (Leia nesta edição o artigo Os desafios co regulatório e propriedade intelectual e industrial;
da sociedade brasileira frente à convergência inserção externa; e apoio à cadeia de convergência
digital). digital, nos pontos de relação com a política
O secretário defende, para isso, a integração industrial, tecnológica e de comércio exterior,
entre empresários, trabalhadores, governo e como elementos sinérgicos da sociedade do conhe-
Congresso Nacional para solução dos problemas de cimento.

Fórum de convergência digital


Nesse sentido, o governo federal anunciou a mação, telecomunicações e mídia, a fim de colocar
criação de um Fórum de Competitividade de o Brasil numa posição de destaque e aumentar a
Convergência Digital, que agregará todas as áreas participação no mercado mundial.
de tecnologia da informação e mídia relacionadas Uma das ações prioritárias é a estruturação
com a questão da convergência digital e deverá de uma agenda objetiva, com ênfase na ampliação
definir uma agenda objetiva para o setor. do mercado interno e no aumento das exporta-
O Fórum será uma instância de diálogo e de ções. Há preocupação em buscar unidade das leis e
debate com o objetivo de inserir o país nos padrões marcos regulatórios do setor e auxiliar nas políticas
internacionais de desenvolvimento de empresas de de exportação, investimentos e financiamentos.
software, hardware, serviços da tecnologia da infor-

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Oportunidades no
mercado internacional
O consultor norte-americano, especialista em tecnologia, John Wen, esteve em
Belo Horizonte a convite da Assespro, para participar do Encontro Nacional das Empresas
Brasileiras de Software, Tecnologia da Informação e Internet (Enesi), promovido pela entidade.
Em entrevista concedida à Hipertexto Comunicação Empresarial,
ele fala da posição do Brasil no cenário mundial e faz recomendações para
Sebastião Jacinto Júnior
que o país se enquadre nesse quadro de oportunidades.
"O mercado sempre é de oportunidades em TI. E é importante
reconhecer e explorar essas oportunidades quando aparecem". Esse é o
principal conselho do especialista. A princípio pode parecer simples, mas
saber aproveitar as chances exige bem mais que apenas bom tino
comercial.
Mesmo que timidamente, o Brasil tem atentado para o mercado mundial
de tecnologia, principalmente no que tange ao desenvolvimento de soluções
para clientes estrangeiros, que buscam nos países em desenvolvimento
mão-de-obra com custo mais baixo. A expectativa do governo brasileiro na
área de TI é de atingir US$2 bilhões em exportações nos próximos cinco
John Wen* anos. Soa grandioso, mas o quadro muda se lembrarmos que, somente as três
principais companhias de tecnologia de informação da Índia têm,
individualmente, rendimentos anuais de aproximadamente US$2 bilhões.
Wen aponta alternativas para empresários brasileiros do setor de TI e saídas bastante viáveis para
o mercado.

Quais são os principais mercados para a Na área de serviços, o maior importador con-
"venda" desse tipo de desenvolvimento? tinuam sendo os Estados Unidos; a Europa Ocidental
vem longe em segundo e o Japão está em um dis-
Primeiramente, é importante definir o que tante terceiro lugar. Os motivos continuam sendo os
você quer dizer com "desenvolvimento". Alguns custos. Contudo, nas áreas de produtos e integração
usam esse termo para significar apenas serviços de de soluções, virtualmente cada país no mundo
TI "além-mar", como a Índia. Eu prefiro uma procura ou procurará essas ofertas. Não somente os
definição mais ampla que inclui produtos de soft- países avançados como os da Europa, EUA e Japão,
ware, serviços e soluções integradas. mas todos os países G-21 (grupo formado por

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

países em desenvolvimento). O Brasil deveria olhar Além disso, o governo também deve ir atrás
os países G-21 como mercados potenciais para seus de sua rede de contatos em outros países, para ele-
produtos e expertise em integração. var a valorização da tecnologia brasileira e propor-
cionar incentivos para os clientes estrangeiros na
Qual a posição do Brasil nesse quadro? compra de produtos locais, além de criar produtos
O Brasil não é um exportador significativo de com a marca nacional. O governo também deve
TI, embora o país esteja entre os três maiores do fortalecer e impor os direitos de propriedade inte-
G-21 (China, Índia, Brasil). Nos termos do poder lectual. Isso promoverá o trabalho de terceirização
econômico e de desenvolvimento, o Brasil fica de P&D no Brasil, proveniente de países avança-
substancialmente atrás dos outros dois na indústria dos. Outro ponto importante é que o Brasil deve ser
de exportação de tecnologia. Historicamente, a duro com os hackers. A segurança, em todas as for-
maioria dos produtos e serviços de software criados mas, é um assunto sensível em países desenvolvidos.
pelo Brasil tem sido para consumo interno. Desde o
final da década de 90, diversas das maiores empre- Ainda existem muitas oportunidades a
sas de TI brasileiras tentaram penetrar nos merca- serem exploradas?
dos internacionais, especialmente nos EUA, mas O mercado sempre é de oportunidades em TI.
fizeram um progresso insignificante. Como um E é importante reconhecer e explorar essas oportu-
exportador de TI, o Brasil continua um país com um nidades quando aparecem. Entretanto, essa habili-
potencial considerável a ser preenchido. Para dar dade (de reconhecer e reagir às oportunidades) se
um sentido relativo de valor, o governo brasileiro torna mais fácil se você tem presença no mercado.
declarou recentemente que um de seus objetivos A inteligência de mercado em tempo real e uma
nacionais é atingir US$2 bilhões nas exportações da rede dos contatos são a chave para manter o pulso
tecnologia de informação em cinco anos. Contudo, dentro desse mercado. Obviamente, todos esperam
somente as três principais companhias de tecnolo- fazer muito dinheiro inventando uma aplicação que
gia de informação indianas, Tata (TCS), Infosys e vai desbancar o mercado. Entretanto, há também
Wipro têm, individualmente, rendimentos anuais de muito dinheiro a ser feito melhorando produtos
aproximadamente U$2 bilhões. existentes, "construindo melhor a ratoeira", ou,
ainda, desenvolvendo alguma coisa que permita
O que falta ao país para melhorar seu posi- que outras empresas trabalhem melhor.
cionamento?
A longo prazo, o Brasil precisa realmente Como as novas tecnologias de convergência
melhorar seu sistema de ensino, aumentando o digital, como o VoIP ou SMS, podem gerar novos
número de talentos, conciliando os interesses e negócios nos países?
atraindo os melhores e mais inteligentes profissio- A maioria de países em desenvolvimento,
nais para participar numa economia baseada em incluindo o Brasil, está concluindo que é mais
informação. O percentual de brasileiros que têm econômico investir em infra-estrutura wireless (sem
acesso ao ensino superior e a porcentagem que fio) do que em uma tradicional. Conseqüentemente,
entra na área da ciência e engenharia são mínimos, eu espero um crescimento explosivo no wireless, ou
atrasados, e ainda figuram atrás da China e Índia. o mobile, desde as aplicações até os serviços.
Os estudantes também devem ser melhor prepara- Enquanto os EUA tendem a favorecer os PDAs
dos e estimulados para seguir os estudos de pós- (palm tops), o resto do mundo adotou telefones
graduação na área da tecnologia e negócios no exte- celulares como o dispositivo wireless de escolha,
rior, especialmente nos EUA e Reino Unido. um middleware que permite o acesso a conteúdo

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

em dispositivos múltiplos. Essa será uma área Em sua visão, qual a posição do Brasil em
quente. relação a produtos e serviços que utilizam várias
A segurança é atualmente a preocupação tecnologias emergentes?
número um, tanto entre o mercado quanto com os
consumidores. As aplicações que operam sobre Ainda está na infância, mas desenvolvendo-
telefones celulares estão em alta na Ásia e na se rapidamente desde 2004, à medida que a indús-
Europa. Há enormes oportunidades nos países em tria de telecomunicações se recupera. Existe um
desenvolvimento, especialmente no setor do con- poder considerável nas mãos dos profissionais de
sumo, porque esses países vão investir na infra- telecomunicações que agem como "os cobradores
estrutura de wireless. de pedágio" controlando o fluxo de conteúdo
através das redes. À medida que a indústria das tele-
Qual país está mais avançado nesse setor? comunicações se consolida, esse controle se tornará
De uma forma geral, todos os países G-7 mais concentrado. É importante que o governo
continuam como líderes em incubação das novas monitore esse controle de modo que não se trans-
tecnologias, devido ao fato de suas economias forme em um oligopólio. O Brasil deve apostar em
serem maiores, com infra-estrutura avançada e alo- uma maior capacidade de banda larga e abaixar os
cação eficiente de capital. Embora eu considere os custos de telecomunicações. Deve também encora-
EUA como líderes em novas tecnologias, nenhum jar a padronização de voz e dados. Se o governo
país tem monopólio. Alguns peritos da indústria conseguir isso sem criar grande burocracia ou taxar
acreditam que a próxima onda da inovação está no até a morte a indústria, a população brasileira e a
computador móvel, especialmente na área de con- base de tecnologia da informação terão uma ge-
vergência digital - acessando e movendo a voz e ração de produtos wireless inovadora.
conteúdo "através do ar" - ou seja, através dos
múltiplos dispositivos e plataformas. Em sua opinião, quais as novas oportuni-
No setor de criação, entrega e uso de tecnolo- dades que o Brasil ainda pode aproveitar nessa
gia wireless, a Ásia é o líder, e Europa ocidental fica área?
bem de perto, em segundo lugar. Até o momento, os Na área de computação wireless, as oportu-
EUA não são vistos como líderes em computação nidades estão sendo criadas enquanto nos falamos.
móvel, mas o mercado é enorme. O Brasil deve focar tanto o setor de consumo quan-
Prediz-se que China, Índia e Brasil experi- to o de negócios. Na África, os fazendeiros estão
mentarão um crescimento substancial em vendas de usando telefones celulares conectados à internet
telefone móvel e, com isso, haverá demanda para para pegar preços no mercado de futuros, a fim de
aplicações wireless em telefones. Isso, bem determinar se vale a pena transportar a colheita para
provavelmente, irá incubar novos produtos e os centros de leilões. Não pense só na tecnologia.
serviços dentro dos mercados locais. A demanda em Pense em oferecer soluções para os problemas das
serviços wireless também crescerá rapidamente em pessoas. Uma tecnologia comum, mas aplicada em
todos os países G-21. uma situação comercial específica, pode ter um

* John Wen - Consultor internacional, especialista em análises de 'offshore development.'


Diretor da JP Wen & Associates, empresa especializada em prospecção,
análise e consultoria de tercerização offshore de projetos de desenvolvimento em TI.
Tem 25 anos de experiência em finanças e em gerenciamento de risco de projetos de tecnologia.
Nesta capacidade, já trabalhou para Merrill Lynch, JP Morgan, Irving Trust Company e American Express.
Tem vários trabalhos desenvolvidos no Brasil na orientação de oportunidades de exportação para empresas brasileiras.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

TV Digital:
qualidade e interatividade
A televisão aberta no Brasil surgiu em 1950 e atuais de televisão possuem 525 linhas e menos de
registrou um crescimento vertiginoso desde sua 500 mil pixels. Outras vantagens que a TV digital
implantação. Hoje, são aproximadamente 53 mi- proporciona são a multiprogramação, que é a possi-
lhões de aparelhos de TV, presentes em 38 milhões bilidade de transmitir vários programas em um
de lares. Ela é fonte de cultura, informação, mesmo canal, permitindo ao usuário escolher qual o
entretenimento e lazer e exerce papel importante na ângulo do programa ou jogo que ele quer ver; inte-
vida social, política e econômica do país. Por esses ratividade; acesso a e-mails e serviços.
motivos, é de extrema relevância a transição pela O uso de algumas aplicações da TV digital,
qual o meio passa: a migração da tecnologia como aquelas viabilizadas pela interatividade, sem
analógica para a digital. Esse novo sistema deve se necessidade de troca de aparelho pelo usuário, será
tornar padrão dentro de alguns anos no mundo todo. possível através de conversores, chamados set-top-
A nova tecnologia não mudará, no entanto, as box, que custam aproximadamente US$150. Para
características da televisão, mas agregará novos usufruir da alta definição da imagem, no entanto,
serviços e vantagens ao meio. A televisão digital será necessário adquirir uma TV adequada à tec-
(DTV) inclui, por exemplo, a televisão de alta nologia digital.
definição (HDTV - High Definition Television), que A transição vem gerando debates e estudos
é um conjunto de padrões de qualidade para sinais em vários países do mundo, que devem decidir se
de vídeo e áudio. adotam um padrão de tecnologia já desenvolvido
Os televisores atuais recebem sinais de rádio (como o dos Estados Unidos, da Europa e do
através de ondas ou sinais elétricos via cabo. A Japão); se trabalham na adaptação desses padrões,
amplitude das ondas de rádio ou a variação de agregando características próprias; ou se criam um
intensidade dos sinais elétricos é que informam ao padrão próprio.
aparelho qual a cor e que brilho apresentar em cada O padrão tecnológico adotado pelos Estados
pixel específico da tela. Com a tecnologia digital, o Unidos é o ATSC (Advanced Television Systems
televisor também recebe sinais elétricos, mas eles Committee), primeiro sistema a ser desenvolvido,
representam zeros ou uns. É necessário, então, um no início dos anos 90. Seu lançamento aconteceu
decodificador, que transforma esses bits em padrões em 1998 e foi também adotado pelo Canadá, Coréia
de pixels na tela. do Sul e Taiwan. Ele utiliza a modulação 8-VSB,
O novo sistema possui qualidade de som e que usa apenas uma portadora para que os bits
imagem semelhante ao das exibições em telas de sejam transmitidos para os receptores dentro da
cinema. São cinco canais de áudio surround e sem área de cobertura do canal. Sua principal aplicação
ruídos; as imagens são formadas por até 1.080 li- é a TV de alta definição.
nhas horizontais e possuem cerca de dois milhões O modelo europeu, ou DVB (Digital Video
de pixels. Elas também têm maior nitidez de cores, Broadcasting), está sendo adotado por vários países
texturas e contornos, não desaparecendo da tela desse continente, além de Austrália e Cingapura.
se o receptor estiver distante. Para se ter uma idéia Ele privilegia a multiprogramação, por causa da
da diferença entre os dois sistemas, os aparelhos demanda reprimida existente na Europa por mais

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

emissoras e também pela pouca receptividade desse Homologado em 1999, é uma derivação do modelo
mercado aos aparelhos de tela grande. Sua modu- DVB, utilizando a mesma modulação. Ele integra a
lação é a Codificação por Multiplexação de televisão de alta definição, múltiplos programas,
Freqüências Ortogonais (COFDM), que usa mi- TV móvel e portátil e datacasting (transmissão de
lhares de portadoras para que os bits sejam transmi- informações e outros serviços usando o canal de TV
tidos para os receptores dentro da área de cobertura digital); e foi desenvolvido pensando na convergên-
do canal. cia com outros equipamentos, como celulares 3G e
O último padrão criado foi o japonês, chama- computadores de mão, que devem possuir um chip
do ISDB (Integrated Services Digital Broadcasting). receptor.

A história da TV Digital no mundo


Nos Estados Unidos, a história da TV digital começou em 1987, com o reconheci-
mento, por parte do governo e de empresas do setor, da importância tecnológica e
estratégica do novo serviço. Mas somente em 1991 o Federal Communications
Commission (FCC) - agência governamental independente, responsável por comandar
a regulamentação interestadual e internacional das comunicações via rádio, televisão,
telefonia, satélite e cabo nos EUA - estabeleceu as diretrizes do emprego da tecnolo-
gia digital. Várias empresas então estabeleceram propostas e, depois de testes, os
desenvolvedores dos quatro melhores sistemas entraram em um acordo, formando a
Grande Aliança em 1993. Ela então propôs um sistema comum, que agregava carac-
terísticas de cada um dos sistemas propostos, e, em 1995, esse sistema foi recomen-
dado pelo comitê consultor. No ano seguinte, o FCC adotou o padrão ATSC para a TV
digital e, em 1998, aconteceram as primeiras transmissões.
Na Europa, as discussões sobre TV digital começaram em 1991, quando empresas
transmissoras, produtoras de equipamentos eletrônicos e órgãos reguladores se uni-
ram para formar o European Lauching Group (ELG), grupo responsável por examinar
a viabilidade de desenvolver a televisão digital. Ele se expandiu e agregou outros gru-
pos, públicos e privados, interessados no tema. Foi então elaborado um memorando,
chamado MoU (Memorandum of Understanding), que estabelecia regras para o ELG, e
assinado pelos participantes em 1993. Nessa data, o MoU passou a ser chamado
Digital Video Broadcasting (DVB). Estudos foram conduzidos sobre a viabilidade e
perspectivas da TV digital terrestre no continente, cujo objetivo era desenvolver um sis-
tema digital baseado em um padrão único para atender aos vários países e suas
especificidades. E as primeiras transmissões aconteceram em 1995. A decisão da Aus-
trália de adotar o padrão DVB foi tomada pelo Australian Broadcasting Authority (ABA).
Já o padrão japonês foi desenvolvido mais tarde. Começou em 1995 com a criação
do Advanced Digital Television Broadcasting Laboratory (ADTV-LAB), formado por
emissoras de TV e indústrias do setor com o apoio do governo e que tinha o objetivo
de digitalizar as transmissões de TV no país. O laboratório adotou então o padrão de
modulação COFDM, também utilizado pela Europa. Dois anos mais tarde, foi formado
o Digital Broadcasting Experts Group (Dibeg) pelos integrantes do ADTV-LAB junto com
outras empresas não japonesas. Os objetivos são promover o intercâmbio de infor-
mações técnicas e realizar a cooperação técnica. Foi somente em 1999 que o padrão
digital japonês, Integrated Services of Digital Broadcasting (ISDB), foi criado.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Sistema brasileiro em discussão


No Brasil, as discussões em torno da TV digi- A execução do projeto do SBTVD foi dividi-
tal iniciaram-se há algum tempo. O governo fede- da em três fases. A primeira está em andamento e é
ral, responsável pelo sistema de telecomunicações, chamada de "apoio à decisão". Consiste no estudo
assumiu a responsabilidade de decidir o que vai das diferentes alternativas e na sugestão de um
acontecer no país ao criar o Sistema Brasileiro de modelo de referência. Ao mesmo tempo em que
Televisão Digital (SBTVD). Ele foi instituído pelo avalia os três padrões de TV digital já existentes e
decreto 4.901, de 26 de novembro de 2003, e tem disponíveis no mercado, o Brasil estuda a possibi-
como objetivos, dentre outros: planejar e viabilizar lidade de desenvolver um sistema e um padrão
o processo de transição do padrão tecnológico de próprios, sozinho, ou em conjunto com outros paí-
televisão de analógico para digital; estimular a ses, como a China.
expansão do setor de tecnologia digital e o desen- Para isso, estão trabalhando em rede 79 insti-
volvimento de seus serviços; estabelecer ações e tuições de pesquisa, incluindo empresas e universi-
modelos de negócios para a televisão digital; e dades de várias regiões do país, agrupadas em 22
estimular a pesquisa e o desenvolvimento de consórcios. As pesquisas envolvem seis temas prio-
tecnologias brasileiras de informação e comuni- ritários: transmissão, recepção e codificação; trans-
cação (veja box). porte; interatividade; codificação de sinais-fonte;
O SBTVD é composto por um Comitê middleware; e serviços, aplicações e conteúdo.
Consultivo, um Conselho Gestor e um Comitê de O gerenciamento técnico é do Conselho
Desenvolvimento, vinculados à Presidência da Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) e
República e composto por representantes da Casa o gerenciamento financeiro é da Financiadora de
Civil, Secretaria de Comunicação e Ministérios da Estudos e Projetos (Finep), que administra e repas-
Comunicação; Ciência e Tecnologia; Cultura; sa recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tec-
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; nológico das Telecomunicações (Funttel). O prazo
Educação; Fazenda; Planejamento; Orçamento e para que o CPqD entregue o relatório de análise das
Gestão; e Relações Exteriores. pesquisas realizadas pelas instituições é no final de
Caberá a esse Comitê apresentar o relatório dezembro de 2005.
com propostas para a definição do modelo de refe- De acordo com o analista de projetos da
rência do sistema brasileiro de televisão digital, o Finep, André de Castro Pereira Nunes, o SBTVD já
padrão a ser adotado pelo país, a forma como a TV está trazendo benefícios ao Brasil, uma vez que
digital será explorada e o modelo de transição do envolve um grande número de institutos de pes-
sistema analógico para o digital. Já o Comitê quisas e está capacitando 1.200 pesquisadores na
Consultivo, formado por representantes de enti- área de TV digital. Isso permite ao país negociar
dades que trabalham com tecnologia de televisão melhor o padrão escolhido, atendendo às suas ne-
digital, tem a finalidade de propor ações e diretrizes cessidades, e com a participação dos pesquisadores.
fundamentais relativas ao SBTVD. E o Conselho Após a entrega das conclusões dos consór-
Gestor deve executar ações de gestão operacional e cios, o governo estabeleceu até a primeira semana
administrativa, voltadas para o cumprimento das de janeiro de 2006 para definir o padrão tecnológi-
estratégias e diretrizes estabelecidas pelo Comitê de co de TV digital. Imediatamente após essa defini-
Desenvolvimento. ção, inicia-se a segunda etapa: o desenvolvimento,

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

quando o modelo de referência produzido na etapa sobre o padrão digital brasileiro. Representantes do
anterior começa a ser preparado para implantação. setor afirmam que já estão preparados para a tele-
Essa é a terceira fase. Segundo o ministro das visão digital. Aparelhos de plasma ou LCD fabrica-
Comunicações, Hélio Costa, em entrevista para o dos no país podem transmitir DTV, só necessitando
jornal Diário do Comércio de 28 de setembro de de um decodificador (set-top-box) adaptado ao
2005, até julho de 2006 o sistema poderá ser im- padrão que o Brasil definir. Mas após a definição,
plantado em quatro capitais (inicialmente, Brasília, os aparelhos sairão da fábrica prontos, com os
São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte). A inten- decodificadores incorporados.
ção é que muitos telespectadores já possam assistir à O cronograma da transmissão digital será
Copa do Mundo da Alemanha através de imagens decidido pela Anatel. O que já se sabe é que a tran-
digitais. O evento será o primeiro a ser transmitido sição para o sistema digital será gradual, com os
digitalmente em alta definição para o mundo todo. dois sistemas coexistindo e as emissoras transmitin-
Daí a pressa da indústria brasileira para que o do sua programação por ambos. O objetivo é permi-
governo não adie para depois de fevereiro a decisão tir que os usuários tenham tempo para se adaptar,

Finalidades da TV Digital brasileira


- Promover a inclusão social, a diversidade cultural do país e a língua pátria por meio
do acesso à tecnologia digital, visando à democratização da informação
- Propiciar a criação de rede universal de educação a distância
- Estimular a pesquisa e o desenvolvimento e propiciar a expansão de tecnologias
brasileiras e da indústria nacional relacionadas à tecnologia de informação e comuni-
cação
- Planejar o processo de transição da televisão analógica para a digital, de modo a
garantir a gradual adesão de usuários a custos compatíveis com sua renda
- Viabilizar a transição do sistema analógico para o digital, possibilitando às conces-
sionárias do serviço de radiodifusão de sons e imagens, se necessário, o uso de faixa
adicional de radiofreqüência, observada a legislação específica
- Estimular a evolução das atuais exploradoras de serviço de televisão analógica, bem
como o ingresso de novas empresas, propiciando a expansão do setor e possibilitan-
do o desenvolvimento de inúmeros serviços decorrentes da tecnologia digital, con-
forme legislação específica
- Estabelecer ações e modelos de negócios para a televisão digital adequados à rea-
lidade econômica e empresarial do país
- Aperfeiçoar o uso do espectro de radiofreqüências
- Contribuir para a convergência tecnológica e empresarial dos serviços de comuni-
cações
- Aprimorar a qualidade de áudio, vídeo e serviços, consideradas as atuais condições
do parque de receptores instalado no Brasil; e
- Incentivar a indústria regional e local na produção de instrumentos e serviços digitais.
Fonte: www.planalto.gov.br

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

adquirindo o receptor. No Japão, Estados Unidos, transmissão simultânea em formatos analógico e di-
Canadá, Austrália e muitos países europeus, esta- gital, com a mesma área de cobertura e faixa de fre-
ções que transmitem televisão digital já existem. E qüência para cada emissora em operação no país.
a data para o fim da televisão analógica também já São 1.893 canais e 296 localidades, que
foi marcada: o prazo varia de 2006 a 2012. englobam todas as cidades que possuíam pelo
Um passo importante para a adoção da tec- menos uma estação geradora de televisão em ope-
nologia digital no Brasil aconteceu no dia 30 de ração em maio de 2003, quando o PBTVD foi con-
junho de 2005. Nessa data, a Anatel publicou o cluído. Segundo a Agência, esses são requisitos
Plano Básico de Distribuição de Canais de Tele- necessários para garantir que a TV digital seja intro-
visão Digital (PBTVD), aprovado pela agência no duzida com sucesso. E como o padrão ainda não foi
mês anterior. Ele atende às técnicas de modulação definido pelo Governo, o Plano engloba um outro
de transmissão terrestre de televisão digital ado- grupo de localidades, com duas alternativas para
tadas pelos padrões da União Internacional de Te- atender a capacidade técnica de modulação do sis-
lecomunicações (UIT) e assegura a possibilidade de tema a ser adotado.

Resultados práticos
Os primeiros resultados práticos do SBTVD ruídos. Já o middleware, chamado FlexTV, é uma
foram apresentados na Exposição de Equipamentos base que permite que a mesma aplicação seja exe-
e Serviços - Broadcast & Cable e no congresso cutada em todos os receptores de televisão digital,
anual da Sociedade Brasileira de Engenharia de sem importar o fabricante. Ele oferece suporte para
Televisão e Telecomunicações (SET), em setembro aplicações desenvolvidas para vídeos HDTV,
de 2005. Foram demonstrados o sistema de modu- SDTV e LDTV e está alinhado com os padrões
lação, o terminal de acesso, o middleware, apli- internacionais. Essa característica permite a expor-
cações interativas e o Serviço de Saúde, resultados tação de conteúdo televisivo brasileiro e a impor-
dos primeiros seis meses de pesquisa e da inte- tação de conteúdo de outros países.
gração entre os trabalhos desenvolvidos. Os testes e Já o Serviço de Saúde desenvolve aplicações
as integrações foram centralizados na Universidade interativas na área médica, facilitando o acesso aos
Federal da Paraíba, que também desenvolveu serviços de saúde pública e trabalhando também
o middleware. Ele foi integrado inicialmente como ferramenta de inclusão digital. Além dele, foi
ao Serviço de Saúde, seguido pelas aplicações apresentada uma aplicação de governo eletrônico,
interativas e, por último, pelo sistema de modu- desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará,
lação. que permite ao cidadão simular sua participação em
Esse sistema foi desenvolvido pela votações do Congresso Nacional e outras esferas
Universidade Mackenzie, focado nas necessidades legislativas. Outra apresentação foi da Universi-
de transmissão da TV brasileira e baseado na tec- dade de São Paulo: um terminal de acesso baseado
nologia BST-OFDM. Segundo o coordenador do numa placa Intel com decodificação MPEG-2 em
projeto, Gunnar Bedicks, ele permite uma área de hardware e estudos da codificação MPEG-4 para
cobertura maior, com imagens livres de fantasmas e SDTV e HDTV.

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

Contribuições e críticas
O governo brasileiro também está recebendo o país a uma situação de isolamento tecnológico.
contribuições de outros membros da sociedade. Em Além de não permitir que o Brasil acompanhe todos
1994, um grupo técnico de TV digital foi formado os avanços e investimentos feitos para a evolução
pela SET e pela Associação Brasileira de Emissoras dos padrões internacionais e que o forçariam a
de Rádio e Televisão (Abert), também conhecido investir permanentemente na atualização do padrão
como Grupo Abert/SET, com o objetivo de acom- brasileiro.
panhar o desenvolvimento da DTV no mundo e Uma outra preocupação do Grupo é em
realizar estudos e análises sobre os padrões tec- relação à transmissão permanente de múltiplos pro-
nológicos e sistemas de televisão existentes e suas gramas, que ele não considera economicamente
aplicações para ajudar na definição do padrão a ser viável. O problema refere-se às verbas do mercado
adotado pelo Brasil. publicitário, que são o que sustenta as emissoras de
Testes regulamentados pela Anatel foram televisão no país e que, provavelmente, não acom-
realizados no período de 1998 a 2000 por empresas panhariam o crescimento de programas na TV. A
ligadas às duas instituições para avaliar comparati- opção de múltiplos programas, dizem, deve ser
vamente os sistemas existentes. Para isso, a Abert e temporária, para o período de transição das tecnolo-
a SET firmaram um convênio de cooperação técni- gias.
ca com o Instituto Mackenzie, que instalou o labo- Na opinião do Grupo Abert/SET, "a única
ratório com uma unidade móvel necessária às maneira de alcançarmos o desejado sucesso da tele-
medições. Todos os trabalhos foram coordenados visão digital brasileira, que não acontecerá sem o
pelo Grupo Abert/SET, sob orientação e supervisão HDTV, é a disponibilização em todos os receptores
da Anatel e do CPqD. O resultado foi um documen- da capacidade de receber a TV de alta definição". E
to intitulado Conjunto de Requisitos para a TV reitera: "Somos os principais interessados no suces-
Digital Brasileira, entregue à Anatel em maio de so da TV digital brasileira, pois dele depende a
2000, que recomenda tecnicamente a utilização do nossa sobrevivência como indústria, geradora de
padrão ISDB-T, referenda o DVB-T e aponta o empregos e de produção de conteúdo e cultura
padrão ATSC como o menos adequado às condições brasileiros".
nacionais. Na contramão do Grupo, entidades da
Segundo o Grupo Abert/SET, para que a tele- sociedade civil estão se manifestando criticamente
visão aberta continue sendo viável no país, é a respeito do modo como o governo está coorde-
necessário que o padrão a ser escolhido pelo gover- nando a tomada de decisão sobre a televisão digital
no ofereça televisão de alta definição com múltiplos no Brasil. A carta TV digital: um debate que precisa
programas, recepção móvel, recepção portátil, de audiência, assinada pelo Congresso Brasileiro
interatividade e multimídia. Essas aplicações de Cinema (CBC), Articulação Nacional pelo
devem ser flexíveis, para que cada emissora decida Direito Humano à Comunicação (Cris Brasil),
qual é a mais viável ou adequada a ela, sempre Fórum Nacional pela Democratização da
levando em consideração suas características. Comunicação (FNDC), Associação Brasileira de
O grupo, entretanto, apresenta-se reticente Canais Comunitários (ABBCOM), Associação
em relação ao desenvolvimento de um padrão de Brasileira de TV Universitária (ABTU) e
TV digital brasileiro, pois acredita que isso levaria Associação Brasileira de ONGs (Abong), atenta

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Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

para a necessidade de envolver nas discussões toda brasileiro. Segundo ele, as pesquisas já em anda-
a sociedade. mento sobre a televisão digital mostram a necessi-
Segundo o grupo, as decisões do governo dade da adoção das características dos padrões
"produzirão forte impacto no modo como assisti- americano, europeu e japonês, agregando elemen-
mos televisão, podem alterar o cenário de concen- tos que devam ser desenvolvidos no Brasil.
tração dos meios, contribuir para as políticas de O número de canais também é motivo de pre-
inclusão digital e permitir uma apropriação do ocupação para o grupo, que não vê interesse dos
público sobre o privado". Outra crítica é em relação empresários de comunicação em mudar a situação
à posição da mídia comercial, que polarizou todo o atual de concentração. Para ele, a implantação da
processo em duas possibilidades: adotar um dos TV digital é a oportunidade que se tem de mudar tal
padrões existentes ou desenvolver um próprio cenário, já que no final da transição, a TV digital

Vantagens e desvantagens dos modelos


Vantagens Desvantagens

ATSC - contribui para popularização de - receptores comerciais só


telas de alta definição funcionam razoavelmente com
- reduz preço de telas de alta antenas externas
definição - controlado pela Zenith, da LG,
- beneficia mercado de alta que não abre mão de
definição, independentemente pagamento de royalties
do padrão de transmissão - não oferece opção de televisão
móvel ou portátil

DVB - interface entre sistema e - sujeito a interferências


aplicativos tende a ser adotada prejudiciais de eletrodomésticos
mundialmente e motores elétricos
- concepção mais flexível que o - padrão tradicional apresenta
ATSC restrições à recepção móvel e
- recepção em dispositivos portátil
móveis está sendo - não permite transmissão
desenvolvida, o que permitirá simultânea de alta definição
convergência com 3G para receptores fixos e de
definição standard para
receptores portáteis

ISDB - transmite alta definição para - distanciamento entre culturas e


televisores fixos, equipados línguas dificulta a comunicação
com antenas internas ou exter- com firmas e órgãos
nas, e imagens standard para governamentais japoneses
dispositivos móveis ou portáteis - o middleware ARIB B-24 é
- convergência total com totalmente voltado para
celulares 3G caracteres orientais e
- flexibilidade, permitindo todas necessitaria de adaptações
as aplicações imagináveis - só foi adotado no Japão
Fonte: Instituto Brasil Para Convergência Digital, Centro de Mídia Independente e Revista Exame

35
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

irá ocupar o espaço do canal 7 do VHF ao 69 do geral. "Para que o interesse público prevaleça, a
UHF. Suficiente para a ampliação de emissoras de sociedade civil deve, com urgência, tornar-se pro-
televisão e, conseqüentemente, ampliação de pro- tagonista dos debates que envolvem a TV digital,
dutores de conteúdo televisivo. tanto pela valorização do Comitê Consultivo como
No final do documento, as entidades reivin- pela introdução de mecanismos que possibilitem a
dicam o aumento da participação da sociedade civil participação da sociedade civil nas principais
no processo, com a realização de audiências e dis- decisões relativas à digitalização da televisão
cussões com setores organizados e a população em brasileira."

Primeira transmissão
A primeira transmissão de TV digital de alta Para o teste, foi utilizado um canal concedido
definição do Brasil, com sinal aberto, foi realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações
no dia 12 de janeiro de 2005, em Santa Rita do (Anatel) especificamente para esse fim. O canal pôde
Sapucaí, Minas Gerais. O teste foi parte do projeto ser utilizado durante três meses, período em que
de desenvolvimento de sistemas de transmissão de foram avaliados a qualidade da transmissão, a
TV digital, realizado desde fevereiro de 2003 pelo robustez do sistema, efeitos de multipercurso, sincro-
Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) em nismo, ruídos, dentre outros aspectos. Todos os
parceria com a empresa Linear Equipamentos Ele- equipamentos usados nos testes foram de fabricação
trônicos. O projeto é financiado pelo Fundo Setorial nacional. Segundo o pró-diretor de Desenvolvimento
para Desenvolvimento Tecnológico das Telecomu- Institucional do Inatel, professor Adonias Costa da
nicações (Funttel) e o prazo para conclusão dos tra- Silveira, a transmissão comprovou a capacidade do
balhos é de três anos. Brasil na produção de equipamentos para a TV digital.

Inclusão social
O sistema brasileiro de televisão aberta é país. De acordo com a professora Esther Hamburger,
um dos maiores do mundo e, considerando-se a da Escola de Comunicação e Arte da Universidade
realidade social brasileira, o fato de atingir aproxi- de São Paulo, "as tecnologias possibilitam uma di-
madamente 80% dos lares brasileiros torna ainda versificação de opções e podem contribuir para a
mais importante sua característica de ser um serviço inclusão social". As discussões a respeito da TV
gratuito aos usuários. É esse o meio que grande digital sempre tocam nesse assunto e atentam para
parte da população brasileira utiliza para ter acesso a necessidade de uma legislação que vá além da
a informações e entretenimento. Por isso, a impor- mera regulação tecnológica.
tância de o sistema digital brasileiro continuar A TV digital também poderá ajudar na
sendo gratuito. inclusão digital dos brasileiros, já que permite o
Essa é também a oportunidade de inclusão acesso à internet. O televisor será, então, o primeiro
social desse enorme contigente de brasileiros que contato do cidadão com a interatividade. Mesmo
assistem televisão, mas estão afastados das políticas que não tenha acesso imediato à internet (o que
públicas e da vida econômica, política e social do pode ser facilitado pelo Governo), o processo de

36
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

datacasting lhe permitirá receber informações questões como inclusão social e digital, desenvolvi-
como as de governo eletrônico. mento tecnológico do país e pagamento de royalties
O problema brasileiro é muito maior que e, portanto, devem estar em constante processo de
somente decidir qual padrão adotar. Envolve discussão pelo governo e também pela sociedade.

Telecomunicações
A convergência digital, mais que a idéia de Com a fusão de habilidades trazidas pela
vários aparelhos e funções em um só, significa a convergência, quem passa a controlar o quê? A pro-
padronização de dados. Esse novo cenário, entran- posta da Associação Brasileira de Emissoras de
do cada vez mais nos lares das pessoas no mundo Rádio e Televisão (Abert) é regulamentar a pro-
todo, traz à tona discussões políticas e econômicas dução, programação e transmissão de conteúdo,
no Brasil. Um exemplo é a luta das emissoras de visto que não podem mais mexer na infra-estrutura.
televisão para regulamentar o setor. Já as ações do governo se referem às alterações nos
Com a convergência digital e, conseqüente- artigos 221 e 222 da Constituição Federal,
mente, a televisão digital, as emissoras de radiodi- chamadas de Lei Geral de Comunicação Eletrônica
fusão estão preocupadas em se proteger das empre- de Massa.
sas de telecomunicações, que estão cada vez mais Esses artigos tratam da responsabilidade
aptas a enviar conteúdo televisivo para os celulares social da radiodifusão e da propriedade. Para discu-
e com qualidade. Existe a preocupação das emisso- ti-los, foi criado no governo um grupo de trabalho
ras com a possível queda de audiência e perda de interministerial. As emissoras, principalmente,
receita. lutam para separar juridicamente radiodifusão e
As emissoras de radiodifusão são regulamen- telecomunicações, mas outros setores da sociedade
tadas pelo Congresso Nacional e o Ministério das pedem a junção das duas, para evitar a concentração
Comunicações. Sócios internacionais não podem do setor.
ter mais de 30% de participação, toda a receita vem Mas de acordo com o ex-presidente da
de anunciantes e, por isso, enfrentam problemas no Anatel, Elifas Gurgel, a questão da TV digital
caixa. Já as empresas de telecomunicações obede- nos telefones celulares ainda está distante da reali-
cem a regras da Agência Nacional de Telecomu- dade brasileira. A primeira preocupação, afirma,
nicações (Anatel). Não há restrições para a partici- é como a televisão digital será construída no
pação de sócios estrangeiros, sua fonte de receita país. Enquanto isso, continua somente a trans-
são os consumidores e há boas perspectivas de missão de conteúdo televisivo analógico pelo celu-
resultados. lar.

Rádio digital
O rádio também está entrando na era da e abrirão o canal de rádio para a transmissão de
convergência. Nada mais vai lembrar os antigos dados como textos e imagens.
aparelhos de válvulas de 1930 a 1950. Agora, com No Brasil, os novos tempos começaram no
a digitalização, os sinais de voz serão comprimidos dia 26 de setembro de 2005, quando foram feitas,

37
Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê Dossiê

em caráter experimental, as transmissões digitais de disponíveis no mundo, ainda não há previsão de um


rádio em 12 emissoras do Sistema Globo, Ban- cronograma para testes.
deirantes, Jovem Pan, RBS e Eldorado nas regiões Em entrevista ao Jornal do Brasil, no dia 26
metropolitanas de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de setembro de 2005, o coordenador de Imple-
de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Curitiba. mentação dos Pontos de Cultura Digital do Mi-
As transmissões foram aprovadas pela Anatel nistério da Cultura, Thiago Novaes, afirma que a
no dia 12 de setembro para um prazo inicial de seis implantação da rádio digital no Brasil deve estar
meses, que pode ser prorrogado. Nesse período, atrelada ao projeto de TV digital, o que seria deter-
estão sendo avaliados o desempenho do sistema, minante para a convergência tecnológica de ambas
qualidade do áudio, área de cobertura e robustez as mídias.
com relação a ruídos, interferências e efeitos dos Para se adaptar, as emissoras de rádio
múltiplos percursos. brasileiras (aproximadamente quatro mil) terão que
O sistema utilizado, chamado In Band On comprar novos transmissores ou "excitadores", e
Channel (Iboc), é americano, permite utilizar as adaptadores dos transmissores analógicos para
mesmas freqüências de hoje e funciona tanto no gerar o sinal. Por ser caro realizar essa transição (os
modelo analógico quanto no digital. Esse sistema custos são de, no mínimo, US$ 35 mil), o governo
foi aprovado pela União Internacional de Teleco- pretende estimular o desenvolvimento desses apa-
municações e, além dos Estados Unidos, é também relhos no país, barateando o processo e possibilitan-
aplicado no México e Canadá. do que pequenas emissoras e rádios comunitárias
Somente com a escolha do sistema de rádio passem a transmitir digitalmente.
digital a ser utilizado é que será possível saber qual O rádio digital apresenta uma melhor quali-
a nova cara do rádio no Brasil. Outros sistemas dade do som, com transmissões AM sem interferên-
existentes são o europeu, chamado Digital Audio cia e FM com qualidade de CD. As possibilidades
Broadcasting (DAB) para FM; Digital Radio da nova tecnologia são muitas, especialmente rela-
Mondiale (DRM) para AM; e o japonês, chamado cionadas à interatividade, como a transmissão
Integrated Services Digital Broadcasting (ISDB) ou simultânea de até três programas na mesma fre-
Integrated Services Digital Broadcasting qüência para públicos diferentes, e transmissão de
Terrestrial (ISDB-T). informações (como autor e intérprete de músicas,
De acordo com a Anatel, a decisão de realizar notícias, previsão do tempo, situação do trânsito e
as transmissões experimentais com o sistema Inboc outros serviços), e imagens de shows e capas de CD
foi tomada de acordo com avaliações do mercado, no visor do aparelho.
já que ele se mostrou o mais adequado às necessi- Essas mudanças na qualidade só são per-
dades da indústria. Mas somente os testes poderão ceptíveis com a utilização de receptores de rádio
mostrar se ele deve ser o sistema definitivo ou não. digital. Esses aparelhos ainda não estão disponíveis
O governo também já solicitou à Agência autoriza- no mercado brasileiro, mas espera-se que comecem
ção para que as rádios públicas iniciem testes com a ser vendidos em breve, já que as transmissões
o sistema europeu (DRM). Para os outros sistemas experimentais foram iniciadas.

38
Divulgação
A convergência
digitale o direito
Ricardo Capucio Borges*

onvergência digital é, em poucas palavras, a social, sempre enfrentou, em todos os ramos, um


C aproximação de diversas tecnologias em um
mesmo meio. Especificamente, telecomunicações,
processo constante de aprimoramento e modifi-
cação. Como ciência humana, a evolução da so-
radiodifusão e tecnologia da informação estão se ciedade exige uma constante adequação das normas
fundindo em ritmo acelerado. O resultado é a ine- à realidade social vivenciada. Portanto, não seria
xistência de sistemas isolados. Vídeo, voz e dados por demais equivocado dizer que o Direito vive
passam a coexistir no mesmo meio e ambiente de sempre um passo atrás da sociedade.
transporte, tornando-se desnecessária a manutenção Basta lembrar que, no Direito Penal, até há
de uma rede de telecomunicações em paralelo com bem pouco tempo, mulher honesta seria aquela que
uma rede de comunicação de dados. nunca havia tido uma experiência sexual; e, no anti-
E não estamos a falar sobre algo inédito ou go Direito Comercial, todas as atividades comer-
futurista. As diversas aplicações para essa nova era ciais seriam derivadas da mercancia, ou troca de
tecnológica estão presentes hoje no dia-a-dia de mercadorias.
milhares de pessoas, movimentando um mercado Nesse enredo, é no Direito da Tecnologia que
novo e altamente rentável. Quem nunca recebeu uma teremos, talvez, um dos ramos mais novos e, para-
mensagem promocional em seu celular? Ou assistiu doxalmente, com maior defasagem jurídico-norma-
à reprise do gol de seu time pelo telefone? Um tiva. Isso porque, na área da tecnologia, os avanços
videoclipe? Ou ainda falou (voz) com parentes e co- têm acontecido de maneira tão intensa e em interva-
laboradores de trabalho através de seu computador? los tão pequenos que, quando o legislador se sente
Vivemos hoje a era da convergência digital. confortável para realizar a norma, esta já nasceria
Nossa sociedade está, aos poucos, tendo que se ultrapassada, produzindo pouco resultado prático.
acostumar com novos padrões de tecnologia. Desta feita, várias correntes foram criadas
Interessante é pensar que, há cerca de dez anos, para conceituar essa nova seara do Direito como
pouquíssimas pessoas utilizavam o celular ou o Direito Eletrônico, Direito Virtual ou Direito de
computador como ferramenta de trabalho. Hoje, Informática. Em verdade, a nosso ver, todas essas
seria impossível imaginar qualquer atividade sem denominações são um pouco inadequadas, uma vez
essas ferramentas. E dentro desse contexto, vale que se referem a uma tecnologia (e portanto sus-
dizer, a internet foi e continua sendo o meio propul- ceptível de transformação), razão pela qual enten-
sor de todo esse processo de convergência digital. demos que esse novo ramo deve se ater a um con-
Paralelamente, enquanto as tecnologias e apli- ceito mais abrangente. Assim, segundo conceito
cações do mundo moderno avançam a largos passos, desenvolvido por nossa banca de advogados, defi-
as empresas, os mercados e, principalmente, o Di- nimos esse ramo como o Direito da Tecnologia,
reito, enfrentam situações limítrofes, que impõem cuja conceituação seria "o ramo jurídico que visa
aos cidadãos e empresários uma etiqueta cercada de responder em caráter multidisciplinar todas as
dúvidas, oportunidades e uma nova ordem social. implicações, criações e transformações de natureza
Nesse contexto, vale ressaltar que o Direito, tecnológica na sociedade, que constituam direitos,
como instrumento de harmonização do convívio deveres e obrigações". Sendo assim, acreditamos

39
que a única forma de o Direito responder com rapi- são diferentes, os pressupostos jurídicos devem ser
dez e seriedade aos avanços tecnológicos do merca- analisados caso a caso, de acordo com o modelo de
do é traçando apenas os parâmetros básicos cada negócio. Assim, concluímos que um bom tra-
norteadores, não adentrando no mérito técnico que balho de planejamento e a assessoria jurídica são
cada tecnologia proporciona, o que permitirá que a fundamentais para que as empresas possam desde já
norma não fique rapidamente defasada. atuar com segurança nesses novos segmentos.
E tendo em vista o momento de ebulição Finalmente, ressalte-se que, para preencher as
tecnológica que vivemos com a fusão das tecno- lacunas legais existentes e garantir o mínimo de
logias das telecomunicações, da radiodifusão e da segurança jurídica às empresas, a cada mês são ela-
informação, quais seriam os direitos, deveres e boradas normas e regulamentos administrativos de
obrigações das modo a formar uma malha jurídica inóspita e com
“VIVEMOS HOJE UM pessoas que estão margem a inúmeros questionamentos. Vale lembrar
momento propício para o profissionalmente que, por serem normas hierarquicamente inferiores
surgimento de um novo envolvidas nesse às leis e diretamente emanadas do poder executivo,
novo universo? Po- estas passam a receber uma forte influência de gru-
marco regulatório”
deriam as empre- pos de interesses, desvirtuando, em muitos casos, o
sas de telefonia ou interesse legítimo da sociedade.
radiodifusão, mercados restritos e operados me- Assim, estamos caminhando a passos largos
diante regime de outorgas e concessões, conviver para uma renovada estrutura legal que ditará as
com mercados de livre ingresso, como o da tecnolo- regras desse novo e importante mercado. Como é
gia da informação? sabido, já tramitaram no Congresso Nacional
Existem atualmente três mercados que deve- alguns projetos de lei dando tratamento jurídico
rão estar no foco de nossas atenções nos próximos unificado ao presente assunto como, por exemplo, o
dois anos e que implicarão significativas mudanças Projeto de Lei Geral de Conteúdo Eletrônico. Mas
legais e regulatórias: voz IP (telecomunicações + nenhum deles logrou êxito nessa difícil missão.
TI); TV digital (radiodifusão + TI); e telefonia mul- Vivemos hoje um momento propício para o
timídia (radiodifusão + telecomunicações). surgimento de um novo marco regulatório. A
Como ainda não existe uma legislação sociedade está se conscientizando, e o presente te-
específica para o setor ditando a forma de se explo- ma está em debate nos principais eventos e agendas
rar esse mercado, as empresas que já atuam, ou te- do país. Reiteramos, então, nosso alerta para que
nham interesse em atuar nesse segmento, devem cada um dos segmentos (TI, telecomunicações e
observar as regras anteriormente vigentes que radiodifusão) se organize e acompanhe de perto
sejam aplicáveis. Por exemplo, uma empresa que todo o processo, participando, influindo, mobilizan-
pretenda atuar no mercado de voz sobre IP deverá do nossas lideranças e, principalmente, apoiando
obter previamente uma licença SCM (Serviço de pessoas competentes que poderão elaborar, com
Comunicação Multimídia), respeitando os limites conhecimento, esse novo arcabouço jurídico. Como
de atuação desse tipo de serviço, bem como das dito, as normas definirão o futuro e os meandros
limitações de propriedade intelectual dos softwares desse mercado que nos afeta tão diretamente; e cada
e tecnologias que utilizará. Vale ressaltar que, se os um de nós definirá aqueles que irão elaborar as
serviços forem prestados concomitantemente com normas.
os serviços de provimento de acesso à internet,
sugerimos que a empresa ingresse com medida
judicial preventiva, a fim de obter maior segurança
quanto aos tributos aplicáveis, tendo em vista as * Ricardo Capucio Borges
inúmeras divergências existentes quanto ao enqua- Advogado. Especialista em Direito
da Tecnologia da Informação.
dramento tributário da referida atividade. Como em Diretor Secretário da Assespro.
cada segmento ou modelo de negócios os requisitos Diretor de Assuntos Jurídicos da Assespro.

40
Sebastião Jacinto Júnior
O desafio do
software nacional
perante a
convergência digital
Marcos Brafman*

Encontro Nacional das Empresas Brasileiras taxa média anual de 11%, sendo três vezes maior do
O de Software, Tecnologia da Informação e
Internet (Enesi 2005), realizado pela Assespro-MG
que a de hardware e cerca de cinco vezes maior do
que a taxa de crescimento do PIB. Esses dados
em Belo Horizonte no mês de outubro de 2005, teve demonstram que não foi por acaso que o governo
como tema-âncora a convergência digital. Durante federal definiu o software como um dos quatro
dois dias, tivemos palestras e debates abordando setores estratégicos para o desenvolvimento eco-
essa nova realidade tecnológica e as conseqüentes nômico do nosso país e para as exportações.
mudanças mercadológicas. O desafio é tornar a indústria nacional de
Voz sobre IP; internet móvel banda larga; e software cada vez mais competitiva nesse mercado
mensagens instantâneas SMS, TV digital e trans- globalizado, tanto interna quanto externamente, de
missão de áudio e vídeo pelo celular (TV no celu- modo que possamos aproveitar esse enorme leque
lar) são algumas das inovações alcançadas através de oportunidades comerciais que surge com a con-
da convergência digital. No Japão, por exemplo, vergência digital!
34% do uso de celular são para ouvir música e 23% Qualidade, criatividade e empreendedorismo
para assistir televisão. O Skype, em menos de dois são características inerentes às empresas brasileiras
anos, conquistou 43 milhões de usuários no mundo, de software e fundamentais para o sucesso nesse
sendo três milhões no Brasil. mercado. Mas como as empresas podem ser com-
Mas, além da convergência de tecnologias, petitivas se o país não é competitivo? Aliás, vem
existe por trás disso tudo um elemento fundamental: perdendo competitividade, tendo caído, este ano, da
o software! Esse produto exemplar da inteligência 57ª posição para a 65ª posição no ranking mundial
humana transformado em programa de computador de competitividade, ficando atrás de países como o
está inserido em praticamente todos os equipa- Chile e o Uruguai.
mentos utilizados atualmente pelo ser humano As empresas brasileiras de software con-
(automóveis, celulares, máquinas industriais, eletro- vivem com as mesmas dificuldades de todos os
domésticos, brinquedos), facilitando a rotina das setores econômicos. Exagerada carga tributária de
pessoas e proporcionando melhor qualidade de vida. 36% do PIB; legislação trabalhista arcaica, caduca
O software seguramente será o responsável, e incompatível com a atividade de desenvolvimen-
nos próximos anos, pelos maiores índices de cresci- to de software; disputa em igualdade de condições
mento na economia mundial. Vários países já têm com os gigantes multinacionais; rotina tumultuada
na indústria do software um dos pilares mais impor- por excessos burocráticos e fiscais; as mais altas
tantes no seu desenvolvimento econômico. taxas de juros do mundo, entre outros obstáculos
O Brasil é o sétimo mercado de software no para uma atividade empresarial competitiva.
mundo, movimenta cerca de nove bilhões de Mas as dificuldades do setor de software, no
dólares/ano e vem crescendo, desde 1995, a uma Brasil, ainda vão muito além disso. Apesar de

41
estratégico, não existe um projeto nacional para que permitam remover os entraves ao seu cresci-
impulsionar o desenvolvimento desse setor. Usando mento.
o jargão empresarial, o nosso país precisa de um O primeiro passo, com certeza, é o entendi-
plano de negócios para o software nacional. mento claro das necessidades do setor de software,
As oportunidades estão aí, batendo à nossa de modo que possam ser construídas políticas
porta todos os dias, mostrando um imenso mercado públicas e parcerias entre os principais atores
ansioso por usufruir das novas tecnologias de que já envolvidos nesse processo. É fundamental a criação
falamos no início deste artigo. As empresas de um fórum permanente de debate e consolidação,
brasileiras de software valem ouro para o futuro em nível nacional; e de ações necessárias e
econômico e social do nosso país. Se tivermos uma urgentes, tais como a inclusão no sistema tributário
indústria de software realmente competitiva simplificado, a definição clara da natureza jurídica
mundialmente, es- do software e demais marcos regulatórios das ope-
“MAIS QUE MELHORAR O taremos garantindo rações de mercado, regulamentação profissional,
desempenho financeiro a participação em utilização correta do poder de compra governamen-
das empresas, o um dos últimos tal, possibilidade legal de uso da terceirização em
aumento da produtivi- mercados globais atividades produtivas, incentivos à exportação,
dade, da eficiência e de considerável entre outros temas.
valor intrínseco e Em nível regional tivemos, há um ano, a
eficácia através do
que ainda está em criação da Câmara Setorial de Tecnologia da
uso de softwares traz formação. Além Informação de Minas Gerais, reunindo 30 entidades
uma cadeia de ganhos disso, é sempre dos setores empresarial, público e acadêmico para a
para todos” bom lembrar que o formulação de políticas públicas e inserção definiti-
software é ferra- va do setor de software na pauta de desenvolvimen-
menta fundamental para alavancar todos os demais to econômico do nosso Estado.
setores da economia, permitindo que se produza Os resultados já estão surgindo através do
mais, em menos tempo e com menos esforço. crescimento da indústria de software mineira, a
Mais que melhorar o desempenho financeiro atração de investimentos nacionais e internacionais
das empresas, o aumento da produtividade, da efi- para o nosso Estado, o aumento significativo de
ciência e eficácia através do uso de softwares traz empregos no setor e, principalmente, a confiança e
uma cadeia de ganhos para todos. Produzindo mais o sentimento de parceria entre o setor empresarial e
e com custos adequados, a empresa tem uma o governo mineiro.
margem maior para investir, expandir e gerar mais Esse é um belo exemplo a ser seguido no
contribuição fiscal. Assim, o Estado arrecada mais âmbito federal!
e melhor e pode aumentar seus investimentos, tanto
sociais quanto de infra-estrutura. Com mais investi-
mentos do Estado, a economia se desenvolve, gera
mais empregos e aplica mais em produtividade e
tecnologia, renovando esse círculo virtuoso.
A Associação das Empresas Brasileiras de
Tecnologia da Informação, Software e Internet
(Assespro) vem promovendo constante debate a
cada Enesi que realiza, no intuito de contribuir
para o desenvolvimento de um programa espe- * Marcos Brafman
Engenheiro, empresário,
cífico que envolva poder público, setor pri-
diretor da Maxis Informática,
vado, academia e sociedade, apresentando suges- ex-presidente da Assespro-MG e
tões de apoio e estímulo para o software brasileiro atual vice-presidente da Assespro Nacional.

42
Vagner Fall
A digitalização da vida:
do universo mecânico
ao código genético
Paula Sibilia*

convergência digital é um fenômeno bem livro A Origem das Espécies, de Darwin, a vida
A maior do que parece. Essa verdadeira mutação
tecnológica não abrange apenas todas as mídias e os
também foi mecanizada. Para se adequar aos
severos ritmos e exigências do século XIX, a
artefatos com os quais lidamos no dia-a-dia, que natureza foi reformulada, abandonando o ar miste-
gradativamente abandonam seus suportes analógi- rioso e sagrado que a envolvera na Idade Média. O
cos para se digitalizarem. Se adotarmos uma pers- novo quadro revelava uma feroz arena de luta, na
pectiva mais vasta - antropológica, filosófica ou até qual o nascimento era um acidente e a morte a única
mesmo cosmológica - logo vislumbraremos algo certeza.
inquietante: os tentáculos desses processos atingem Agora, porém, o nascimento pode ser plane-
zonas inesperadas, afetando inclusive as nossas jado e a morte está deixando de ser uma conde-
mais caras idéias sobre o que é a vida. nação certa, pelo menos no ambicioso horizonte da
O mundo e a natureza não são entidades mais nova tecnociência. E aquela natureza que
estáticas: ao sabor da história, costumam mudar as acompanhou o desenvolvimento do capitalismo
formas com que os pensamos e vivenciamos. E as industrial está em mutação. Hoje as espécies
turbulências atuais são evidentes: à medida que se biológicas desaparecem a uma velocidade inusita-
estende a vocação digitalizante da nossa tecnociên- da: antes da era industrial, a taxa de extinção era de
cia, vão perdendo força as velhas metáforas uma a cada mil anos, mas a seleção que atualmente
mecanicistas destiladas pela era industrial. Diante elimina várias espécies por mês não parece mais se
das novidades informáticas, esvaem-se aquelas enquadrar na velha categoria de natural. Aquele
imagens mais antigas, que explicavam a natureza mecanismo era extremamente lento: a criação de
como um mecanismo de relojoaria e o corpo uma nova espécie demorava um milhão de anos, e
humano como uma máquina de ossos, músculos e perdurava uns quatro milhões. Agora, não só a
órgãos. extinção se acelerou: graças à engenharia genética,
Foi no longínquo século XVII, quando o uni- novas espécies podem ser geradas mediante arti-
verso começou a ser percebido, explicado e mani- manhas não-naturais. Na última década, vegetais e
pulado em termos mecânicos. A ciência daquela animais geneticamente modificados saíram dos la-
época dedicou-se a observar um mundo que fun- boratórios para invadir a Terra: são os famosos
cionava de acordo com um conjunto de leis precisa- OGMs.
mente definidas e universalmente válidas. Em Estaremos ingressando na era da pós-natu-
1859, foi instalada a última roldana nesse universo reza? Afetadas pelas incríveis proezas da tecnociên-
rigorosamente sincronizado: com a publicação do cia, tanto a vida como a natureza perderam sua

43
antiga definição. Em 1952, o alfabeto da vida corrigir eventuais problemas, prevenir certas
começou a ser decifrado, quando se soube que qua- tendências e efetuar outros ajustes.
tro letras químicas eram capazes de assumir infini- A distância com relação às velhas metáforas
tas combinações na dupla hélice do DNA, uma mecânicas não cessa de aumentar, pois aquela ciên-
complexa linguagem que permitiria captar a "essên- cia clássica que confiava no progresso gradativo e
cia" de todos os organismos. O código da vida é nas leis lentas, sábias e inexoráveis da Natureza,
muito eficaz na compactação de informações: bi- hoje assume novos tons e ambições. Não se trata
lhões de letras são arquivadas no núcleo das células. mais de aperfeiçoar o material genético que a
Dessa forma, a biologia molecular contribuiu para evolução natural legou a uma espécie; agora, o
digitalizar os seres vivos. objetivo é produzir seres com fins explícitos e uti-
Poderíamos dizer, inclusive, que essas litários. Essa reconfiguração tecnocientífica dos
instruções de DNA constituem software compatível. organismos vivos já não obedece às ordens arcaicas
O genoma do chimpanzé, por exemplo, difere do e vagarosas da evolução natural descrita pelos bió-
humano em menos de quatro por cento. Afinal, o logos do século XIX. E o homem não está à
homem foi reduzido aos três bilhões de letras que margem dessa atualização compulsória que vigora
compõem seu genoma, e esses ingredientes básicos para todos os seres vivos: definidos como organica-
são idênticos aos mente obsoletos, os corpos humanos devem se sub-
“UMA VEZ DECIFRADA A que conformam to- meter às tiranias (e às delícias) do upgrade cons-
programação genética, dos os demais se- tante - tanto do seu hardware corporal, como do seu
o grande sonho consiste res vivos com os software mental.
em manipular a vida que quais compartilha- A intenção deste artigo é desnaturalizar
anima cada organismo: mos o planeta, seja todas estas questões, assinalando sua raiz histórica
uma cenoura, um e inventada, e portanto mutável. Assim como há
corrigir defeitos,
cavalo ou uma algum tempo o mundo era pensado em termos
prevenir tendências e bactéria. Podería- mecânicos, como um grande relógio que podia (e
efetuar ajustes” mos dizer que o devia) ser azeitado e aperfeiçoado em seu funciona-
sistema operacio- mento regular, hoje o universo é compreendido em
nal é o mesmo para todos os organismos, mudando termos informáticos: como um imenso programa de
apenas a complexidade do programa, do código ou computador que pode (e deve) ser eficazmente edi-
genoma de cada espécie. tado e atualizado. Tais mutações obedecem a um
Assim, manipulando e reorganizando as projeto de sociedade que vigora em boa parte do
informações contidas nos códigos dos diversos nosso planeta globalizado, e levam a questionar:
organismos, os engenheiros da vida podem recon- o que é, hoje, a vida? Uma pergunta fascinante
figurar a natureza como quem edita software vital. e assustadora, cuja resposta não deveria ser deixada
A barreira que sempre separou as diversas espécies ao acaso.
pode ser atravessada, superando a clássica cisão
entre natureza e artifício. Com todas essas novi-
dades, a Natureza está perdendo sua opacidade e
sua rigidez tipicamente analógicas, para ingressar
no caminho da digitalização universal. O Projeto
Genoma Humano, por exemplo, foi divulgado
como um mapeamento que permitiria desprogra-
* Paula Sibilia
mar as doenças, o envelhecimento e a morte. Pois
autora do livro
uma vez decifrada a programação genética de cada O Homem Pós-Orgânico:
criatura, o grande sonho tecnocientífico consiste em corpo, subjetividade e tecnologias digitais.

44
Benchmarking

O uso crescente das tecnologias convergentes nas administrações públicas e privadas


revela uma série de aplicações, que agrega agilidade às organizações e redução
de custos. Há casos, no entanto, em que os benefícios extrapolam as questões
econômicas e contemplam aspectos sociais para grandes comunidades.
É o caso da adoção de redes - especialmente sem fio - por administrações municipais,
que promovem a democratização do acesso à informação através de novas tecnolo-
gias, com reflexos diretos na educação, na cultura e na economia dos municípios.

Nesta edição, a experiência da cidade fluminense de Piraí, que já conquistou prêmios


nacionais e internacionais, e da mineira Ouro Preto, que procura, na convergência, a
democratização de acesso à informação, vencendo os desafios impostos por seu
status de patrimônio cultural da humanidade.

Ouro Preto
Convergência no Projeto Ouro Preto Cidade Digital

patrimônio mundial
Na cidade mineira de Ouro sociedade: concebido em 2003,
Preto, a cem km de Belo Hori- em parceria do Ministério da Edu-
zonte, a convergência está não só cação e Cultura e Intel, o projeto
na aplicação de novas tecnologias, piloto de estruturação de uma rede
mas também em fatores que fazem sem fio na cidade, baseada na tec-
da cidade um verdadeiro desafio nologia Wi-Max, é coordenado por
para os pesquisadores, como a to- uma equipe de representantes da
pografia (a cidade está entre mon- prefeitura municipal de Ouro
tanhas) e sua condição de patri- Preto, da Universidade Federal de
mônio histórico da humanidade, Ouro Preto (UFOP) e do Centro
que restringe a instalação de cabos Federal de Educação Tecnológica Em Ouro Preto, laboratório móvel
e fios. (Cefet). O projeto conta ainda com experimental com rede Wi-Max
Convergem também para o apoio da Telemar (provimento
um objetivo maior - acesso à in- da conexão); o provedor local,
formação em locais onde as redes Barroco; a Fundação Gorceix; a
tradicionais não chegam - o inte- RNP (rede educação); a Anatel; o
resse de vários segmentos da Ministério das Comunicações e a

45
Secretaria de Estado da Educa- estamos entre montanhas e há comercial, dará certo em inúmeros
ção/MG. escolas justamente atrás das mon- municípios. Queremos testar um
Segundo um dos coorde- tanhas; seria necessária a instala- modelo que seja reaplicável Brasil
nadores do projeto, o professor ção de muitas antenas, o que tam- afora".
Américo Bernardes, do Departa- bém não é uma opção ideal", Segundo o professor Américo
mento de Física da UFOP, a cons- explica. Bernardes, uma premissa do pro-
trução de uma vontade política, Ele enumera outros pontos jeto é que o acesso não é um ser-
expressa por representantes da co- favoráveis, como a existência, na viço, mas patrimônio comunitário.
munidade, é um dos pontos fortes cidade, da universidade e do Outra preocupação é que o negócio
que garantem a continuidade da Cefet, "duas instituições aptas a tenha sustentabilidade: "Entende-
experiência. dar suporte, fazer aporte de tec- mos que é importante basear-se
O projeto inicial previa a nologia e capacitar". Do ponto de numa iniciativa comunitária. Há
conexão de escolas em uma rede vista sócioeconômico e de taman- interesses distintos por parte de
comunitária e então sua ligação à ho, Ouro Preto é considerada grandes e pequenas empresas. Há
internet. A escolha da cidade de ainda representativa de muitos nichos que podem ser explorados
Ouro Preto para o projeto, segun- municípios brasileiros. "É uma ci- por empresas locais".
do o professor Américo, reuniu dade com aproximadamente 50 mil O projeto está estruturado
uma série de argumentos: "Trata-se habitantes e índice de desenvolvi- em três frentes: a educação, com o
de um realidade ideal para estudar mento humano na média do país. desenvolvimento de ferramentas
o uso de tecnologia sem fio, devi- É portanto semelhante à média educacionais apoiadas em TIC; a
do às restrições de uma cidade que dos municípios brasileiros. Se o aplicação de um novo modelo de
é patrimônio histórico. A topogra- projeto dá certo em Ouro Preto, negócios; e a pesquisa em tecnolo-
fia é um desafio, uma vez que do ponto de vista topográfico e gia sem fio Wi-Max.

Resultados
Com relação ao aspecto tec- séries, reunindo cerca de cinco mil Segundo Américo, no Bra-
nológico, a equipe do projeto já alunos. Há ainda departamentos sil há cerca de 90 mil escolas com
conseguiu conexões com alcance da prefeitura utilizando a rede menos de cem alunos, um poten-
de dez km sem visada. Isso quer experimental, além do Departa- cial expressivo para esse tipo de
dizer que, apesar das montanhas, mento de Computação da UFOP, laboratório móvel. "É a possibili-
foi possível ligar pontos distantes com fins de pesquisa. dade de inclusão digital em distri-
sem que antenas estivessem Até meados de 2005 o proje- tos afastados", assegura.
visíveis mutuamente. Mais ou to utilizava uma "Kombi digital" - Com relação aos custos de
menos como acontece com a telefo- um laboratório digital móvel, com aplicação da tecnologia, o profes-
nia celular. "Temos uma nuvem de três computadores. "Há experiên- sor Américo explica que a aposta
conectividade cobrindo a cidade cias com laboratórios montados em do projeto é de que a definição de
inteira", comemora. carretas", explica Américo Bernar- um padrão e o crescimento do uso
O projeto piloto de Ouro des. "A Kombi oferece maior mo- tornem a tecnologia mais acessí-
Preto contempla laboratórios em bilidade. Fizemos essa adaptação vel. Ele demonstra o que ocorreu
escolas - já são seis concluídos ou devido às exigências da cidade, com a rede sem fio Wi-Fi: a insta-
em fase de finalização, com pers- onde não é permitido o tráfego de lação de um ponto de rede con-
pectiva de um total de dez até caminhões. Testamos, enfim, um vencional custa cerca de R$50. A
2006. Nessas primeiras escolas modelo que pode chegar a qualquer um custo de R$100, é possível a
está todo o ensino médio da lugar, independente de condições instalação de uma antena e, por-
cidade, além do de quinta a oitava de estradas, no meio do mato". tanto, de uma rede Wi-Fi.

46
Divulgação “Projeto Piraí”
Piraí Digital:
informação é um direito,
tecnologia é o meio

O site da cidade de Piraí Segundo o vice-prefeito e se-


conta a história de uma comu- cretário Municipal de Planejamento
nidade que vive a transformação e Ciência e Tecnologia, Luiz
Luiz Neves, gestor do projeto
de suas rotinas viabilizada pela Antônio da Silva Neves, gestor do
tecnologia. É exemplo reconheci- projeto, a convergência das tec-
do internacionalmente de aplica- nologias digitais acontece "magní- com acesso à internet em banda
ção da convergência digital na fica e apressadamente" na chama- larga, disponibilizando telecentros
administração pública, num proje- da internet em banda larga. "En- em cada distrito e diversos termi-
to que envolveu seus mais de 22 tretanto - questiona - a quem serve nais de acesso comunitário, todos
mil habitantes no uso intenso de tanta tecnologia? Para entender o gratuitos. Ao mesmo tempo, cada
recursos tecnológicos. A cidade que estamos fazendo em Piraí, é escola municipal passou a ter um
aprendeu a usufruir os benefícios necessário compreender que trata- laboratório digital. "Em paralelo,
da revolução digital. mos a questão da informação e do são trabalhados com a população
O Piraí Digital baseia-se conhecimento como um direito de em geral e, em especial, com pro-
atualmente em uma rede SHSW - cidadania. E, portanto, devemos fessores e alunos, os usos da tec-
Sistema Híbrido com Suporte levar a cada cidadão a oportu- nologia e de conteúdos digitais
Wireless - que interliga toda a ci- nidade de acesso às tecnologias, diversos".
dade, um total de 400 estações de bem como o conhecimento neces- Luiz Neves explica que a
trabalho, com alcance de até 20 sário para que seja capaz de operá- Prefeitura vem se estruturando na
km do seu ponto central. A rede las com autonomia". oferta de serviços, inclusive de
contempla todos os prédios da Ele explica que em Piraí foi comunicação pública usando Voz
administração municipal, escolas necessária a construção de uma sobre IP, disponibilizando conta
e telecentros, que atendem, em rede de comunicação que operasse de correio eletrônico para cada
média, 220 pessoas por dia. em todo o território do município cidadão e estimulando os micro

Telecentros atendem cerca de


200 pessoas por dia
Divulgação “Projeto Piraí”

47
Divulgação “Projeto Piraí”
e pequenos empresários a atuarem disponíveis para a população. Em
efetivamente em e-commerce. andamento também a versão web
"Enfim, as conquistas sociais do atendimento de Ouvidoria; e a
e econômicas são muitas, e as implantação da Casa do Futuro,
possibilidades, infinitas, para uma iniciativa já em funcionamento em
sociedade informacional que colo- outras cidades, visando ao desen-
ca o cidadão e a cidadania no cen- volvimento de cursos, empreende-
tro das atenções". dorismo e artesanato, entre outras
O assessor Executivo da atividades.
Secretaria Municipal de Plane- Segundo Fábio Souza e
jamento, Ciência e Tecnologia de Silva, o projeto Piraí Digital
Piraí, Fábio Marcelo de Souza e nasceu no Plano Diretor de
Silva, explica que está em anda- Informática da cidade, como
mento estudo de viabilidade para uma proposta para a área admi-
abertura das escolas nos fins de nistrativa, mas a obtenção de
semana, a fim de atender a comu- recursos do BNDES e o estabe-
nidade no acesso à internet. lecimento de parcerias públicas e
Além de serviços e infor- privadas - com universidades,
mações dos governos estadual e empresas privadas, ONGs e o
federal, alguns serviços munici- governo do Estado - ampliou seu
pais, como segunda via de impos- escopo, contemplando toda a
tos e consulta a processos, já estão comunidade.

Resultados
O projeto Piraí Digital con- exemplifica os princípios defendi-
quistou o reconhecimento na- dos na obra.
cional e internacional: ganhou em Piraí recebeu ainda o Top
2001 o Prêmio Gestão Pública e Seven Intelligent Communities em
Cidadania da Fundação Ford e Nova York, em junho de 2005,
FGV-SP; foi representado na destacando-se entre as sete cida-
cúpula mundial da Sociedade da des mais inteligentes do mundo no
Informação em Genebra, em de- ano de 2005. Recebeu a premia-
zembro de 2003; foi vencedor do ção de melhor iniciativa pública
Prêmio Cidades Digitais Latino- no planejamento e desenvolvi-
americanas, categoria Cidades de mento de uma região com infra-
Pequeno Porte, conferido pelo estrutura tecnológica wireless,
Instituto para a Conectividade nas concedida pela W2i, organização
Américas e pela Associação His- norte-americana que estuda a
pano-americana de Centros de adoção e as melhores práticas no
Investigação e Empresas de uso da tecnologia sem fio no
Telecomunicações, recebendo o mundo. A entrega do prêmio foi
prêmio em Bogotá, Colômbia, em em outubro, na cidade de São
junho de 2004. Foi escolhido Francisco - Califórnia.
pelos autores do livro e-gov.br - a A Prefeitura de Piraí rece-
próxima revolução brasileira (São beu em 2005 a chancela da
Paulo: Financial Times Prentice Unesco, pela iniciativa de demo-
Hall, 2004) para rece- cratizar o acesso aos meios de
Escolas do município estão conectadas ber direitos autorais provenien- informação e comunicação através
à rede Piraí Digital tes da venda do livro, porque das novas tecnologias.

48
Sebastião Jacinto Júnior
A era da
convergência digital
Marcellus Louroza*

A dinâmica VoIP revolucionará a indústria


da telecomunicação

onvergência digital é um termo que já parece Anatel americana), definiu essa inovação da
C cansado. Ultimamente, muito se tem falado
sobre convergência, suas vantagens e ameaças.
seguinte forma: "VoIP representa a mais significati-
va mudança de paradigma em toda a história das
Mas, afinal de contas, o que vem a ser essa telecomunicações modernas desde a invenção do
evolução tecnológica? Faz parte de um modismo? telefone." Segundo Clayton Crhistensen, renomado
Algo que os fabricantes de tecnologia tradicional- professor da universidade norte-americana de
mente criam, desenvolvem e ofertam às operadoras Harvard, em seu livro O Dilema da Inovação, não é
de telecomunicações? a tecnologia em si que é sustentadora ou disruptiva,
Nos anos 90, essa visão de convergência de mas como ela afeta o modelo de negócios existente.
redes foi compartilhada por todos os agentes do E, neste caso, a comunicação de voz sobre IP põe
mercado de dados e voz, sem que tal convergência em xeque o velho modelo de cobrança por pulso
se mostrasse convincente; pelo contrário, acentuou- telefônico e está originando um novo tipo de
se a divergência geral em torno dos padrões e empresa.
arquiteturas a serem adotados. E, hoje, o que faz Nas informações divulgadas no site oficial da
esse assunto voltar com um interesse tão forte e Anatel, existem atualmente 32 operadoras VoIP
amplo? Que fatores e agentes envolvidos podem atuando no Brasil. São novos entrantes, que
mudar o cenário atual, de forma a ameaçar um mo- aproveitam a baixa barreira de entrada para lançar
delo de negócios que vem sendo utilizado há serviços de voz a preços que chegam a 45% abaixo
décadas? Bom, podemos listar alguns fatores técni- do aplicado no mercado. Acompanhando a evo-
co-comerciais responsáveis por essa tendência de lução da qualidade de voz na comunicação VoIP,
convergência entre as redes fixas e móveis. Porém surgem tecnologias de convergência que possibili-
todos são conseqüências de uma inovação que, para tarão a gerência e a utilização do melhor de cada
a maioria das empresas do mercado, surge com um rede - telefonia fixa, celular e rede de dados via IP
conceito disruptivo de seus modelos de negócios: - permitindo a total mobilidade do usuário indepen-
VoIP - a possibilidade de transmitir voz sobre a rede dentemente do serviço ou aplicativo utilizado.
IP da internet. Dentre elas, podemos ressaltar o IMS (IP
Michael Porter, um dos ícones da adminis- Multimedia Subsystem) e NGN (Next Generation
tração empresarial mundial e chairman do FCC (a Network ou rede de próxima geração).

49
Diversos profissionais de telecomunicações conteúdo. O que também beneficia as operadoras,
conceituam a NGN de maneiras diferentes; no que poderão balancear e gerir de forma mais efi-
entanto, há um consenso: toda operadora precisa ter ciente todos os recursos disponíveis de sua infra-
uma estratégia de nova geração de rede para sobre- estrutura.
viver. As redes de nova geração baseiam-se intrin- Do outro lado das redes está a importante e
secamente em arquiteturas de protocolo IP e esse contínua evolução dos aparelhos celulares, que per-
protocolo tem se mostrado a forma mais flexível de mitirão a rápida concretização desse cenário de con-
oferecer serviço de voz, dados e vídeo através de vergência digital: aparelhos com maior capacidade
uma mesma rede. de memória, melhor resolução de tela, comunicação
Também não podemos nos esquecer das redes VoIP, videocâmeras digitais megapixels, soluções
de dados sem fio (WLAN), que complementarão as de e-mails e acesso banda larga. Da mesma forma,
redes celulares 3G em cobertura e disponibili- novos conteúdos e aplicações multimídia atenderão
dade de comuni- a uma nova demanda por elevada flexibilidade e
“DA CONVERGÊNCIA DE cação de dados mobilidade, tais quais vídeo on demand, TV intera-
redes resultam serviços em alta velocidade tiva, jogos interativos on-line, telemedicina, confe-
integrados de voz, (Bluetooth, Wi-Fi, rência web, mobile meeting, compartilhamento de
dados e multimída, Wi-Mesh e Wi-Max). vídeo, etc.
oferecendo ao usuário a As chamadas ci- Questões importantes, como regulamen-
dades-digitais são tação, portabilidade numérica, penetração de banda
conveniência do melhor
exemplos da rápi- larga e interoperabilidade exercerão grande
meio de comunicação
da evolução desse impacto na velocidade de assimilação desse novo
adequado ao conteúdo” cenário, utilizando modelo de negócios. A convergência de redes e
as redes de dados serviços multimídia traz para os operadores de co-
sem fio para acesso à internet e comunicação de municações (fixos, móveis, TV paga e VoIP)
voz. Cidades como Filadélfia, nos Estados Unidos, oportunidades e ameaças que dependerão de suas
e Taipé, em Taiwan, são pioneiras nesse projeto. visões estratégicas de negócios. Algumas, como
No Brasil existem dois exemplos de reper- SBC Comm, Telemar e BRT, já entenderam o reca-
cussão internacional: Piraí (Estado do Rio de Janei- do e iniciaram a unificação de suas redes, serviços
ro) e Sud Mennucci (Estado de São Paulo). No caso e parcerias. A telefonia, como tradicionalmente a
deste último, a prefeitura disponibilizou acesso gra- conhecemos, nunca mais será a mesma.
tuito à internet via rede sem fio para toda a popu-
lação, promovendo uma até então inexistente di-
nâmica na economia e no cotidiano dessa pequena
cidade de 7.500 habitantes. Essa iniciativa demons-
tra ser possível efetuar uma inclusão digital de
forma simples, barata e eficiente.
A crescente demanda por serviços multimí-
dia - talvez esta seja a palavra-chave - tanto no
ambiente residencial como no corporativo, viabiliza
uma extensa gama de novas aplicações e oportu-
nidades de crescimento. Da convergência de redes
resultam serviços integrados de voz, dados e mul-
* Marcellus Louroza
timídia, oferecendo ao usuário a conveniência Engenheiro de telecomunicações, com longa
do melhor meio de comunicação adequado ao experiência em telefonia celular e fixa.

50
Divulgação
Existe a
literatura digital?
Rodrigo Labriola*

Ascenso e declínio dos sonhos da ficção


em hipertexto

a atualidade, não seria exagero dizer que a e a redução do espaço para a armazenagem da
N quase totalidade das práticas de leitura e pro-
dução de escrita está ligada à utilização de com-
informação (até magnitudes que fariam parecer
gigantes os cidadãos liliputianos).
putadores. Afora certas formas teimosas e resis- A arte literária não se deixou abalar por essa
tentes do manuscrito - grafites, recados ocasionais tendência de modificações tecnológicas da palavra,
ao correr da caneta, mensagens de amor fatal ras- que começou a vislumbrar já em meados do século
cunhadas com batom no espelho de um banheiro, XX. Logo apropriou-se delas com a imaginação e
tatuagens? - a maioria de nossas letras passa, mais as aproveitou em benefício da criação ficcional. Ao
cedo ou mais tarde, pela digitalização informática. longo de várias décadas, a região digital incipiente
É verdade que a história da escrita e da leitu- foi alargando seus domínios, partindo do gênero da
ra sempre esteve vinculada às modificações de seus ficção-científica (por exemplo, no bem lembrado
suportes materiais (papiros, códices, livros impres- computador HAL do romance 2001 Odisséia do
sos, etc.). Nesse sentido, a convergência das práti- Espaço, de Arthur Clarke) para invadir a literatura
cas da linguagem com a tecnologia informática "séria", atingindo nos últimos anos uma onipresen-
apresentaria apenas um novo estágio evolutivo, que ça verificável em romances tão diversos quanto O
poderíamos denominar de hipertextual. Este possui pêndulo de Foucault, do famoso Umberto Eco, ou
pelo menos seis vantagens práticas, já amplamente Sonhos digitais, do boliviano Edmundo Paz Soldán.
difundidas: a edição eletrônica (que baixa o custo De fato, a quantidade de obras literárias que temati-
das publicações e conta com ferramentas úteis zam a convergência digital já é da ordem dos infini-
como a busca por palavras-chave); os links (que tos numeráveis. Não são essas, porém, as obras que
permitem incorporar vários textos diferentes e tam- levaram (nem saberiam levar) o ritmo da harmonia
bém imagens ou sons); as redes (que servem para digital no tempo adequado, pois todas elas apenas
atualizar permanentemente as pesquisas e pro- "mostram" o universo digital e não o "utilizam".
movem aproximações interdisciplinares e coletivas Ao contrário, herdeiras do gesto vanguardista
sobre um mesmo trabalho); as aplicações pedagó- da transgressão e da surpresa coruscante, as hiper-
gicas (tanto no apoio à docência como na explo- ficções (ou "hipertextos ficcionais") surgiram no
ração e interação dos alunos com os textos); a pos- final da década de 1980. A obra inaugural desse
sibilidade de uma circulação realmente massiva gênero que usava muitas das novas possibilidades
(em teoria, irrestrita e instantânea graças à internet); do digital foi Afternoon, a story, de Michael Joyce,

51
cuja primeira versão data de 1987. Composto para e hoje é hegemônica) tinham um âmago paranóico
ser lido mediante um programa chamado com relação às formas mutantes do hipertexto que
Storyspace na plataforma MacIntosh, ainda é a obra utilizavam. Condenados como estamos à analógica
mais conhecida desse tipo de engendro literário-di- ambigüidade da língua, cada vez que interatuamos
gital. Trata-se de uma narrativa fragmentária que com um texto eletrônico, nas suas profundezas es-
aproveita os links para criar múltiplos enredos taria sempre operando um outro código invisível,
simultâneos. Com o advento da internet e as novas diferente (e talvez incompatível) com a linguagem,
possibilidades inauguradas pela rede global, e cujo leitor não seria humano.
Afternoon iria se acrescentando com renovados Estranho? Nem tanto: trata-se da consciência
leitores-autores, até sua morte por esquecimento. indolente de que qualquer coisa que escrevamos ou
Outras hiperficções leiamos irá se transformar (ou foi antes transforma-
“A OBRA INAUGURAL DO dessa época vira- da) em elétrons. Pois todo o código da língua e sua
gênero de ficção em ram lenda, como o estetização literária mostra apenas a superfície plá-
hipertexto foi Afternoon, mítico Agrippa: A cida ou tempestuosa de um oceano, cujos abismos
a story de Michael Book of the Dead estão formados por uns e zeros organizados numa
Joyce, cuja primeira (1992), do roman- linguagem-máquina e destinados à leitura certa de
cista William um Céu Digital, um mundo cujo leitor informático
versão data de 1987.
Gibson, que aliás é o Estado, e no qual a Verdade existe: Um ou Zero,
Hoje já é obsoleta e foi o inventor do não há nuanças (indeterminações livres), nem se-
impossível de ser lida” termo "ciberespa- riam necessárias... Assim, é pouco o que a literatu-
ço" em seu livro ra tem para contribuir à convergência digital. E
Neuromancer; curiosamente, ninguém se lembra nada de realmente novo (nem sequer leitores)
mais de como era seu Agrippa, pois o texto se surgiu nos últimos anos, depois daquela primeira
autodeletava após cada leitura. No âmbito da crítica paranóia hipertextual - apenas alguns simpósios de
literária, a publicação do livro Hypertext (1992), de sábios e financiamentos para centros culturais.
George Landow, foi um ícone que tentava rela- Ainda bem que continuam a proliferar, por
cionar essas novas formas da literatura com ensaís- aí, os espelhos dos banheiros, os corpos das tatua-
tas como Roland Barthes ou Jacques Derrida. gens e os amores fatais! Clarice Lispector já sabia
Gostaria certamente de explicar quem foi o disso na manhã do 13 de julho de 1968. Com uma
general Agripa no século de Augusto na Roma fita de papel perfurada na mão, a grande escritora
Imperial (há mais de 2000 anos), ou bem qual é a brasileira escreveu: “Mas o amor é mais misterioso
importância política de Barthes e Derrida para os do que o cérebro eletrônico e no entanto já ousei
estudos humanísticos (na América Imperial, que falar de amor. É timidamente, é audaciosamente,
agora padecemos); no entanto, receio que não que ouso falar sobre o mundo”.*1
adiantaria. Apesar do ar high-tech que a literatura
ganhara no suporte digital (entre as quais estão
agora na moda os weblogs e fotologs), mesmo que
esses textos destinados ao esquecimento não cos- * Rodrigo Labriola
Graduado em Letras na Universidade de
tumem seduzir leitores apaixonados, o importante é Buenos Aires, mestre pela UFF e
que essas formas extremas do literário, inspiradas doutorando em Literatura Comparada pela UERJ.
na convergência digital (que antes estava nascendo Bolsista da FAPERJ.

*1 Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. RJ: Francisco Alves, 1992. p. 116.

52
Lyderwan Santos
EAD e a
convergência digital
Enilton Ferreira Rocha*

mbora a Educação a Distância (EAD), no competência do brasileiro em lidar com essa proposta.
E Brasil, tenha surgido em 1904 em sua forma
mais primitiva, com as Escolas Internacionais e
Grandes eram as dificuldades, se considerar-
mos a precariedade da logística dos correios, do
representação no Brasil oferecendo cursos pagos transporte brasileiro da época e o tempo gasto entre
por correspondência por meio de anúncios em jor- o registro da apostila para o destinatário e o seu
nais do Rio de Janeiro, temos ainda a sensação de recebimento. Em 2003, durante o meu trabalho de
sua adolescência nos dias atuais, dadas a complexi- pesquisa na iniciação científica do Centro
dade e as possibilidades de sua proposta. Haja vista Universitário Newton Paiva: "EAD: resistência e
o desenvolvimento acelerado das tecnologias de criação de uma visão portadora de sentido", tive
informação e comunicação (TIC), a virtualidade di- oportunidade de entrevistar um funcionário aposen-
gital e o impacto dessa evolução sobre as possibili- tado dos correios em Divinópolis e confesso que
dades educacionais decorrentes. fiquei surpreso com o que ouvi:
Mesmo acanhada, naquela época a EAD "Em 1962, fiz o curso de Radiotelegrafia
dava sinais dos seus desafios e convidava os mais pelo Instituto e recebia não só os equipamen-
incrédulos a experimentar uma nova forma de ensi- tos, como também o material de leitura. As
nar e aprender sem a presença física do professor. apostilas demoravam em torno de 20 a 35
Em 1923, com a criação do Rádio Educativo, por dias para chegar até a gente. Isso de certa
Edgard Roquete Pinto, surgem os primeiros sinais forma atrapalhava, porque o curso demorava
da mediação tecnológica, oferecendo cursos de por- mais do que o necessário, mas não interferia
tuguês, literatura e outros, mas ainda no campo das no resultado da aprendizagem. As dúvidas
tecnologias da comunicação. eram respondidas por meio de cartas e confir-
Credita-se a essa iniciativa um grande passo madas por telegramas".
na proposta da educação fora da sala de aula. Já em Observa-se que, nesse cenário, o rompimen-
1941, surge a ousadia dos cursos profissionalizantes to da barreira da sala de aula era difícil, mas não
oferecidos pelo Instituto Universal Brasileiro, tam- impossível, e que as dificuldades da época não
bém na modalidade de ensino por correspondência. impediam que essa nova forma de aprender tomasse
Foi um espanto: como acreditar que alguém seria ca- um novo rumo.
paz de se profissionalizar, sem o professor e a sala de Pois bem, veio então, na década de 70, a
aula, na modalidade a distância e recebendo pelos chamada era do "otimismo" brasileiro e a EAD
correios o material necessário para estudar? O IUB soube pegar carona. De 1971 a 1974, o Ministério
experimentava, assim, os primeiros passos na quebra da Educação (MEC) lança o Supletivo Primeiro
dos paradigmas educacionais brasileiros, demons- Grau - Fase I, programa radiofônico de ensino
trando de certa forma uma nova possibilidade e a supletivo. Dessa forma, preparava-se para, no final

53
do século passado, apresentar-se como uma alterna- utilização, de modo a prover o apoio tec-
tiva de reconhecimento público. Surgiram então os nológico ao setor produtivo, dar suporte à
novos modelos para o ensino a distância e, dessa concepção e à execução de políticas públicas
vez, com os primeiros sinais da mediação tecnoló- e aprimorar e disponibilizar seu acervo tec-
gica na aprendizagem. Dentre eles, destaco o Tele- nológico."
curso Segundo Grau, uma parceria entre a Tenho a convicção de que na EAD os conteú-
Fundação Roberto Marinho e a Fundação Padre dos virtuais e o software de interação e colaboração
Anchieta, que disponibilizava cursos de preparação evoluirão para formatos multimídia tridimensionais.
de candidatos aos exames oficiais de supletivo, ao A convergência digital na mediação da
estilo do antigo Madureza Colegial, pela progra- aprendizagem tem demonstrado ser um caminho
mação regular da TV Globo e TV Cultura. sem volta. Entre janeiro de 2004 e janeiro de 2005,
coordenei o planejamento, execução e gestão de
Novas dimensões e a resultados do curso de pós-graduação em Gestão
convergência digital Fiscal, na modalidade a distância, para 52 fun-
cionários de várias prefeituras dos Estados de
Com o avanço das tecnologias de comuni- Minas, Rio e São Paulo, cujas tecnologias se inte-
cação e informação, a mediação tecnológica e a gravam e se ajustavam ao modelo blended de
convergência entre elas passaram a ser estudadas e aprendizagem.
observadas como a Utilizamos no modelo misto os recursos tec-
“É PRECISO INVESTIR NO grande oportunida- nológicos da internet, DVD, Ambiente Virtual de
sujeito dessa nova de de implemen- Aprendizagem (AVA) e material impresso, integra-
sociedade, de modo a tação e difusão da dos às atividades dos encontros presenciais. Temos
permitir que a con- proposta da EAD outras experiências brasileiras de sucesso, com o
vergência digital, do no Brasil. Daí, o mix da internet, DVD, teleconferência, videocon-
surgimento de dis- ferência e material impresso. Vejo também com
ponto de vista educa-
sertações de mes- muito otimismo a chegada da TV digital e Web TV,
cional, atinja o seu prin- trado e pesquisas pois, além de incrementar a dialógica na relação
cipal objetivo: estabele- nessa área com o professor (tutor) e aluno (participante) virtuais,
cer e socializar a EAD” objetivo de avaliar introduzirão o modelo de colaboração síncrona na
as diversas formas aprendizagem virtual pela TV.
e modelos de aderência ao cenário educacional Do ponto de vista social, essa união tec-
brasileiro. nológica em prol da modernidade na educação
Nas minhas andanças e pesquisas pela EAD, assusta. No Brasil, notadamente, ainda perdura a
pude observar que existem duas realidades nessa desconfiança, aliada ao fantasma da exclusão digi-
proposta: como permitir que o sujeito da aprendiza- tal. Não acredito que essa situação nos deixe fora
gem pudesse se integrar e usufruir dessa nova desse novo cenário, mas o que me preocupa é o
forma de estudar e reaprender; e como as tecnolo- grande contingente de pobreza e as classes menos
gias educacionais poderiam encurtar esse caminho. favorecidas que poderiam não participar da rede
Observa-se que a convergência digital de digital. Porém, não são objetos de discussão aqui
serviços, redes virtuais e equipamentos ligados à algumas considerações sobre o papel do Estado na
sociedade da informação e aos "internautas" final- inversão desses valores.
mente tornou-se uma realidade do nosso cotidiano. Observa-se que o Estado e o cidadão têm
Segundo especialistas do Instituto de Pesqui- se encontrado no guichê virtual durante as relações
sas Tecnológicas (IPT): de cunho social, legal, do trabalho, cultural e
"As TIC ganharão em inteligência, miniatu- educacional, oficializando uma nova era entre
rização, segurança, rapidez e facilidade de a transparência do poder público e a cidadania.

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Reforça-se, dessa forma, a conveniência e a con- da EAD no Brasil e no mundo; mas, embora esteja
tinuidade do e-gov na proposta de modernidade da atrás dessa resposta há mais de oito anos, ainda
administração pública. tenho dúvidas sobre a sua eficácia. Isso em decor-
É preciso investir no sujeito dessa nova rência das desigualdades entre o estrutural e o
sociedade, de modo a permitir que a convergência sujeito na maioria dos modelos educacionais para
digital, do ponto de vista educacional, atinja o seu EAD existentes no Brasil.
principal objetivo: estabelecer e socializar a EAD Foi para mim motivo de muita alegria parti-
não só como uma nova modalidade de estudar e cipar dessa oportunidade, deixando aqui um extrato
reaprender, mas, principalmente, como um veículo do meu pensamento, da minha vivência e da expe-
para levar o conhecimento aos quatro cantos riência sobre a relação entre a EAD e a convergên-
do mundo, sem restrições, rompendo as barreiras cia digital.
da distância, das diferenças políticas, sociais e
culturais. Só assim poderei entender a dimensão e a
relevância dos benefícios do avanço tecnológico e
sua diversidade na mediação da aprendizagem
* Enilton Ferreira Rocha
em suas várias instâncias. Não consigo perceber a
Administrador de Empresas, com especialização
possibilidade de massificação da virtualidade na lato sensu em Docência para o Ensino Superior,
educação sem o conforto tecnológico dos seus Administração Financeira e Análise de Sistemas de
atores. Informação. Pesquisador em Educação a Distância.
No Centro Universitário Newton Paiva,
Entendo que a convergência digital, repre-
é professor e consultor em Educação a Distância.
sentada pela união das multimídias e multimeios, Na Prodemge, é responsável pela
tem contribuído significativamente para o sucesso Superintendência da Universidade Corporativa.

55
Júlia Magalhães

O desenvolvimento das tecnologias


e equipamentos de televisão e as
TVEs neste contexto
Luiz Meireles
Radialista, engenheiro eletricista pela PUC MG, projetista de equipamentos da
indústria de rádio e televisão, chefe de manutenção da Rede Globo Minas,
Engenheiro da indústria de alto vácuo, coordenador técnico de implantação e
diretor técnico da Rede Minas de Televisão, projetista e coordenador de
implantação de sistemas de televisão.

RESUMO
O artigo traça um histórico do desenvolvimento da televisão no Brasil, com
ênfase no aspecto das tecnologias adotadas, contextualizando o cenário
brasileiro no panorama mundial. É mostrada a evolução tecnológica aplicada
à produção e à veiculação na TV, apoiada no crescimento da indústria da infor-
mática, e a revolução no cenário das telecomunicações provocada pela adoção
da tecnologia digital. O autor situa a criação e a evolução das TVs Educativas
e sua adesão às novas tecnologias. Traça ainda uma perspectiva para o desen-
volvimento da TV digital no Brasil, fazendo uma análise comparativa com os
modelos adotados em outros países.

A televisão no Brasil incorpo- brasileira tinha o seguinte perfil, de vídeo, toda a programação
ra o modelo americano, baseado seis anos após o início das trans- era ao vivo, incluída a propa-
na geração de receitas opera- missões: ganda comercial.
cionais a partir do bolo da mídia 1- As três emissoras de televisão Os seriados, filmes de longa
publicitária, que hoje se encontra de São Paulo já arrecadavam metragem e alguns comer-
estagnada em 1% do PIB. mais que todas as emissoras ciais eram exibidos em pelí-
Com o início de suas opera- de rádio. culas de 16mm.
ções a partir dos anos 50, coinci- 2- A televisão já dispunha de 1,5 4- A programação de televisão
dindo com o das transmissões milhão de telespectadores no era eminentemente regional
regulares nos padrões de 525 ou Brasil. (o país ainda não dispunha de
625 linhas nos países do chamado 3- Como ainda não existiam rede nacional de microon-
primeiro mundo, a televisão equipamentos para gravação das).

58
5- Toda a infra-estrutura técnica A Fundação Padre Anchieta, televisão do ponto de vista de
era de procedência estran- órgão gestor da TV Cultura, investimentos:
geira, fabricada sob enco- criada pelo Governo do Estado 1. A implantação da Rede Na-
menda, com dispositivos de de São Paulo, com dotação cional de Microondas.
tubos de vácuo, de baixa con- orçamentária e autonomia admi- 2. O parque de televisores insta-
fiabilidade e alto custo de nistrativa, iniciava a nova lados.
implantação, operação e ma- fase da TV Cultura, que começou Em 1970, o Brasil já contava
nutenção. suas transmissões em junho de com quatro milhões de lares
Esse perfil vai se modificar 1969. com TV (25 milhões de teles-
de forma significativa na segunda Nessa época, a tecnologia de pectadores), resultado das
metade da década de 60, a partir equipamentos começava a sua ações do governo nos anos 60.
da utilização intensiva do vi- migração de dispositivos de tubo 3. Os investimentos dos empre-
deoteipe na TV, da inauguração de vácuo para eletrônica de esta- sários da área de TV broad-
da Rede Nacional de Microon- do sólido. casting em equipamentos já
das, do sistema de transmissão Não existiam ainda os equi- utilizados nos Estados Uni-
via satélite e do programa de pamentos ou padrões de equipa- dos. Esses equipamentos fo-
financiamento para a compra de mentos que viriam a ser adotados ram reformados no Brasil e
receptores de TV. Tais projetos em escala mundial, como o que tiveram uma utilização poste-
foram fomentados pelo Governo aconteceu mais tarde, nas déca- rior de pelo menos mais dez
Federal com o objetivo de im- das de 80 e 90. anos.
plantar o Programa Nacional de A grande questão era que os 4. O início da fabricação no
Telecomunicações e incentivar o investimentos demandados para a Brasil de equipamentos bási-
desenvolvimento da indústria constituição de centros de pro- cos utilizados em sistemas de
local de televisores. dução de televisão com capaci- televisão por empresários da
Foi exatamente nessa época dade de produção de conteúdo do indústria eletrônica.
que ficou definido o arcabouço ponto de vista qualitativo e quan- 5. A utilização de equipamentos
do modelo de televisão atual do titativo significavam alguns mi- de tecnologias alternativas,
Brasil e que também surgiram as lhões de dólares americanos. no caso da TV Educativa,
emissoras classificadas como Só para se ter uma idéia, as nessa época e até mesmo re-
"educativas". câmeras de televisão, denomi- centemente. Como exemplo
Dessas emissoras, a primeira nadas portáteis, categoria profis- desse caso, podemos citar a
foi a TV Cultura, canal 2 de São sional à época, eram constituídas utilização do formato
Paulo, que inicialmente fazia de um módulo, denominado Umatic, ao invés do Betacam,
parte dos Diários Associados. cabeça da câmera, e uma unidade e assim por diante.
Contava com infra-estrutura técni- adicional (processador), sendo 6. A regulamentação da for-
ca reduzidíssima e finalizou suas vendidas no mercado pela quan- mação de Rede Nacional de
operações em janeiro de 1968. tia "irrisória" de US$ 75 mil. Televisão pelo Programa Na-
A criação da Fundação Cen- Como então compatibilizar o cional de Telecomunicações.
tro Brasileiro de Televisão Edu- alto investimento requerido com A criação de redes nacionais
cativa (FCBTVE), em 1967, dava a capacidade de faturamento das e a legislação que limita em cinco
o respaldo do governo para o emissoras comerciais? E quanto o número de emissoras que cada
surgimento de canais com pro- às Educativas? concessionário pode ter levaram
gramação voltada para a edu- Vários fatores contribuíram esses concessionários a buscar
cação e a cultura. para a viabilização do negócio de parcerias com empresários do

59
ramo em outros Estados, com o sua tecnologia básica era a mes- de equipamentos dedicados, ba-
objetivo de aumentar a sua cober- ma usada nas máquinas de vi- seados em circuitos lógicos se-
tura, formando assim a categoria deoteipe convencionais, que uti- qüenciais (estruturas de hardware
de emissoras afiliadas. Trata-se lizavam fitas de duas polegadas programáveis), davam o diferen-
de emissoras que mantêm o de largura. cial dos grandes centros de pro-
arcabouço de sua programação Nessa época, só se falava em dução.
fundamentado no de uma rede vídeo composto e nem se cogita- Foi nessa época que surgiram
nacional, gerando uma parte va em vídeo componente, isto é, os Digital Video Effects (DVEs),
reduzida de programação local e formato de vídeo intermediário como, por exemplo, os fabrica-
mantendo a mesma identidade para a formação do vídeo com- dos pela empresa inglesa
visual e compromisso de progra- posto. Quantel, e o ADO da Ampex.
mação da emissora "mãe". Foi nessa ocasião que foi O surgimento de novas tec-
A necessidade de investimen- lançado no Brasil, pela Sony, o nologias digitais, o desenvolvi-
tos por parte dessas emissoras formato Umatic como alternativa mento e a adaptação dos com-
afiliadas, considerando-se o bai- de substituição do filme de 16mm putadores à indústria de televisão
xo índice de programação local, para aplicações de jornalismo. provocavam uma rápida obso-
resumia-se ao essencial para Quando falamos em alternati- lescência dos equipamentos em-
veicular o intervalo comercial, a va para jornalismo, isso significa pregados para efeitos digitais de
programação jornalística e uns que a tecnologia não é recomen- vídeo.
poucos programas locais. dada para outras aplicações em A segunda metade dos anos
Essa situação é a que vem se que se requer gerações de múlti- 80 foi marcada pelo lançamento
apresentando desde a segunda plas cópias. do primeiro equipamento que
metade da década de 70, explora- A tecnologia Umatic foi fazia gravação digital de áudio e
da intensivamente pela Rede muito utilizada para aplicações vídeo. Estávamos então entrando
Globo de Televisão, que criou o de jornalismo e mesmo para apli- na era da "televisão numérica",
chamado "Padrão Globo de cações de exibição de comerciais como dizem os europeus.
Qualidade", e que detém 70% do em emissoras geradoras fora o Nessa época, esses equipa-
bolo publicitário. eixo Rio-São Paulo, sede das ge- mentos de gravação digital de
Até o início da segunda me- radoras nacionais. áudio e vídeo tinham custos proi-
tade dos anos 70, as matérias de O início dos anos 80 é marca- bitivos e sua utilização no Brasil
jornalismo e os comerciais de do pela introdução do formato de ficou restrita a aplicações muito
televisão eram produzidos e vei- gravação analógica em vídeo específicas.
culados através de filmes de componente, que viria a se tornar O grande volume das aplica-
16mm. o padrão de gravação broadcast ções nas emissoras de televisão e
Nas cabeças de rede das em todo o mundo. produtoras convencionais ficava
grandes geradoras nacionais, a No Brasil, esse formato foi por conta das tecnologias analó-
exibição de comerciais começou adotado para aplicações de jorna- gicas (Betacam, Umatic, HI
a ser efetuada através de sistemas lismo e produção pelas principais Eight, Super VHS).
automatizados de videoteipes, cabeças de rede nacionais, pelas Gravar sinais de áudio e
construídos especificamente para produtoras de vídeo convencio- vídeo no formato digital significa
essa aplicação. nais e como mídia de distribuição impressionar a mídia com nú-
Devido a seu elevado custo, de produções "HI END". meros binários obtidos a partir de
tais sistemas só se justificavam Na área de pós-produção, sinais analógicos, isto é, varia-
em estações de porte nacional e com efeitos especiais, a utilização ções contínuas no tempo de tensão

60
elétrica em função das varia- anos. Essa iniciativa foi uma utilização da mídia de modo mais
ções das ondas de pressão ou da medida de proteção do segmento eficaz), desenvolvimento esse
intensidade da cor e da luz. de radiodifusão, em virtude da que iria culminar no surgimento
Essa técnica estava prestes a probabilidade de outros serviços dos formatos de gravação de
revolucionar o cenário das teleco- digitais se implantarem muito áudio e vídeo tipo DV, DVCAM,
municações e, especialmente, o rapidamente, gerando prejuízo DVCPRO, DVCPRO50,
da indústria da televisão no mun- para a mídia televisão. DVCPRO100, Digital S, Digital
do. Esse projeto, que durou de Betacam, Betacam SX, Betacam
Captar, gravar e transmitir 1987 a 1999, desde a sua con- IMX.
sinais no formato digital signifi- cepção até a sua consolidação, Enquanto isso, o desenvol-
ca: consumiu recursos estimados em vimento vertiginoso da indús-
a) Melhorar a qualidade sinal/ US$ 500 bilhões. tria de informática gerava tec-
ruído do produto final. Na Europa, em 1993, foi nologias que passaram a influir
b) Viabilizar múltiplas gerações constituído o consórcio DVB, diretamente na estrutura das
de cópias sem degradação composto por 240 membros em emissoras de televisão, reduzindo
significativa do material. todo o mundo, com o propósito seus custos de implantação e via-
c) Utilizar a mídia de forma da definição dos diversos padrões bilizando recursos de edição e
mais eficiente através da eli- de transmissão digital (DVB-C, pós-produção antes só disponí-
minação de redundâncias DVB-DSNG, DVB-S, DVB-T e veis em grandes centros de pro-
espaço-temporais e de fre- outros). dução.
qüência. Todas as normas relativas a A proposta de emissoras de
d) Utilização mais eficiente do esses padrões foram publicadas televisão inteiramente digitais já
espectro radioelétrico. em 98/99. se tornou uma realidade e, no
e) Melhora da autonomia e Cada um desses padrões de- Brasil, já temos implantados e em
portabilidade dos equipamen- fine as regras para as diversas operação vários canais comer-
tos de recepção. modalidades de transmissão. Co- ciais, educativos e de notícias
Em 1987, nos Estados Uni- mo exemplo, pode-se citar o pa- com os seus sistemas de estúdios
dos, a Federal Communications drão DVB-DSNG, que define a parcialmente ou totalmente digi-
Commission (FCC), atendendo estrutura do quadro, a codifi- tais.
a uma demanda de 58 emis- cação do canal, e o tipo de modu- Desde 1998, grande parte das
soras de televisão locais, inicia as lação utilizada para a transmissão emissoras brasileiras vem desen-
suas pesquisas sobre TV avança- digital via satélite, o tipo de volvendo o aumento de sua
da. captação para jornalismo e outras cobertura territorial, utilizando
Essas pesquisas culminaram contribuições. sistemas de transmissão digital
com a definição do padrão ameri- Da mesma forma, o DVB-T via satélite que usam o padrão
cano de televisão digital terrestre, apresenta as mesmas definições DVB.
que foi sancionado pela FCC em para transmissão digital terrestre. Em Belo Horizonte, cinco
dezembro de 1996. Na década de 90, a indústria das seis concessionárias da faixa
O projeto, que regulamentava de equipamentos para emissoras de VHF, uma da faixa de UHF,
um período de transmissão si- de televisão continuava os seus uma TV do Legislativo e uma
multânea de 15 anos, sofreu uma desenvolvimentos em novas tec- de cabo fazem regularmente
revisão no ano seguinte, bai- nologias de gravação de áudio e suas transmissões digitais via
xando esse tempo para oito vídeo com compressão (forma de satélite.

61
A televisão digital terrestre
O título sugere o conjunto de externas e em ambientes de pou- O grande diferencial desse
técnicas utilizadas para proceder co ruído impulsivo (interferên- padrão é a questão da recepção
à transmissão aberta de sons e cias eletromagnéticas provocadas móvel, o ponto fraco do padrão
imagens usando o espectro radio- por sistemas de ignição de auto- europeu.
elétrico, através do uso de técni- móveis, motores elétricos, des-
cas de modulação digital. cargas elétricas atmosféricas, A avaliação brasileira
Como vimos anteriormente, etc.), não sendo adequado para
simultaneamente ao desenvolvi- funcionar em operações móveis e Com o objetivo de avaliar os
mento das tecnologias digitais com antenas internas. sistemas de TV digital até então
para captação e gravação digital O padrão DVB-T prioriza a existentes no mundo, em 1998 foi
de áudio e vídeo em mídias óticas recepção de sinais com antenas celebrado um convênio envol-
e magnéticas, foram desenvolvi- internas que, através da modu- vendo a Universidade Mackenzie,
dos projetos de televisão digital lação COFDM (Coded Ortogonal a Associação Brasileira de
terrestre que culminaram nos Frequency Division Multiplex), Emissoras de Rádio e Televisão
padrões ATSC (Advanced apresenta ótimo resultado. (Abert) e a Sociedade de En-
Television System Committee), Na Europa, privilegia-se a genharia de Televisão (SET).
DVB-T (Digital Video Broadcast multiprogramação (transmissão Foram desenvolvidos testes
Terrestrial) e o ISDB (Integrated de múltiplos canais de definição de laboratório e de campo dos
System Digital Broadcasting), padrão - SDTV) com o propósito três sistemas e emitido relatório
nos Estados Unidos, Europa e de suprir a demanda reprimida final, enviado à Anatel como sub-
Japão, respectivamente. por mais emissoras. sídio para decisão do sistema de
O padrão chinês encontra-se O espaço radioelétrico é TV Digital a ser adotado no Bra-
em desenvolvimento e cinco um meio escasso e a tecnologia sil, sob o ponto de vista técnico.
modelos já se encontram em de transmissão de televisão A recomendação técnica pro-
testes. Existe a probabilidade da digital terrestre abriu a possibili- posta pelo grupo de trabalho
adoção na China do padrão ATSC dade de se alocar até quatro SET-Abert pela utilização do
modificado. canais de televisão no mesmo padrão ISDB-T, as referendas ao
Cada um destes sistemas ex- espaço ocupado por um canal DVB-T e o apontamento do ATSC
plora algumas das características analógico. como o padrão menos adequado
proporcionadas pela transmissão Outro fator importante na às condições de nosso país rever-
da televisão digital terrestre. escolha da multiprogramação é a teram uma situação que parecia já
O padrão ATSC foi desenvol- aparente falta de receptividade do definida pela Argentina.
vido com o intuito de suportar mercado europeu aos aparelhos Vários países da América La-
transmissões de televisão de alta de telas grandes. tina esperam a solução brasileira
definição (tela no formato de O padrão DVB-T, além dos para a escolha de seus padrões de
16x9). países europeus, foi adotado pela televisão de próxima geração.
Utiliza o tipo de modula- Austrália e por Cingapura. A escolha do padrão, nesse
ção denominado 8-VSB (modu- O padrão japonês (ISDB) é caso, não depende somente da
lação de oito níveis utilizando téc- uma derivação do padrão DVB-T excelência técnica, passando
nica de banda lateral vestigial), europeu, utilizando inclusive o por questões de ordem econô-
ideal para recepção com antenas mesmo tipo de modulação. mica e política. Além do que, a

62
possibilidade de um padrão bra- pois as tecnologias, base do mo- padrões podem ser apenas tem-
sileiro não representa escala de delo de transmissão digital ter- porárias, sendo que o país está
produção no contexto mundial e restre, continuarão presentes. fazendo a escolha de um sistema
não reduziria significativamente As vantagens tecnológicas de transmissão para os próximos
as transferências de royalties, apresentadas por um ou outro dos 50 anos.

Dimensão dos mercados de DTV terrestre já definidos


A tabela a seguir mostra a di- conteúdo tecnológico existente amortização dos custos de
mensão dos mercados já definidos. nos set top boxes (receptores e pesquisa e desenvolvimento.
Os dados do nosso país foram decodificadores de DTV) e nos A adoção de um padrão por
considerados somente para fins aparelhos de DTV totalmente um número cada vez maior de
de comparação. integrados, necessita de altos países pode viabilizar a sua con-
Deve-se lembrar que o alto volumes de produção para a solidação.

Número atual
Lares com TV
Padrão Países de TVs
(Milhões)
(Milhões)

EUA, Canadá, Coréia do Sul 125 257


ATSC
Taiwan* e Argentina* 15 18

Países da União Européia, Austrália,


DVB 205 270
Nova Zelândia, Cingapura e Índia

ISDB Japão 45 100


A definir Brasil 38 53
* Revisão de padrão possível Fonte: Fundação CPqD / 2001

Estimativa do volume de negócios


Estima-se que o negócio de unidades geradoras de Dependendo do porte e layout
DTV no Brasil irá movimentar, conteúdo da emissora, deverão ser investidos
nos próximos 15 anos, durante o A análise do mercado de tele- até US$ 4,5 milhões per capita
período de transmissão simultâ- visores do Brasil (85% dos apare- para a implantação da transmissão
nea, aproximadamente US$ 100 lhos têm tela entre 14 e 21 polega- digital (estúdios, controle mestre,
das) sugere que a grande deman-
bilhões, decorrentes de: torres, transmissores, etc.).
da inicial ficará por conta dos set
- Pagamento de royalties Somente para a instalação de
top boxes (receptores decodifica-
- Fabricação de set-top- dores integrados), que fazem sistemas de transmissão digital
boxes e receptores de DTV interface imediata com esses tele- terrestre deverão ser investidos
- Implantação dos sistemas visores, sendo portanto a melhor até US$ 2 bilhões, consideran-
de transmissão de DTV opção de investimento para o do-se as outorgas de geradoras e
- Implantação de novas consumidor de baixa renda. retransmissoras atuais.

63
Djacir Almeida

Os desafios da sociedade brasileira


frente à convergência digital
Antônio Sérgio Martins Mello
Economista. Comendador da Ordem de Rio Branco e da Ordem do Mérito
Forte São Joaquim do Governo do Estado de Roraima. Especializado em
Qualidade Total pela Union of Japanese Scientists and Engineers (Juce),
Tóquio, Japão, 1991. Secretário do Desenvolvimento da Produção no Minis-
tério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, tendo exercido, no
mesmo Ministério, os cargos de Diretor do Departamento de Setores Inten-
sivos em Capital e Tecnologia, de 2001 a 2004, Superintendente da Zona
Franca Manaus (Suframa), de 1999 a 2001 e de Secretário de Política
Industrial, de 1993 a 1999.

RESUMO
O artigo analisa o papel da tecnologia como elemento transformador da
sociedade e sua importância para o desenvolvimento de uma nação no âmbito
econômico e social. Apresenta alguns pontos da agenda tecnológica de outros
países e a experiência brasileira em políticas públicas de desenvolvimento do
setor produtivo nas áreas relacionadas com a cadeia produtiva de convergência
digital, em especial a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior.
Aborda a convergência digital como um novo paradigma para a indústria do
conhecimento e aponta temas para discussão sobre uma política para o setor.

O papel da tecnologia como elemento transformador da sociedade


A tecnologia é fator determi- biotecnologia são exemplos de uma escala dimensional abaixo
nante da competitividade de em- áreas que, por sua sinergia com de 100 nm, engloba uma ampla
presas de todos os setores produ- os demais setores da economia, variedade de áreas de atuação,
tivos e razão da sua própria tornam-se a melhor alternativa de tais como: nanoeletrônica; indús-
subsistência. A tecnologia da um projeto de desenvolvimento tria química (em especial, catali-
informação (e o processo de digi- de uma sociedade. sadores); sensores (tanto para
talização da sociedade) e o pro- A nanotecnologia também aplicações eletrônicas como bio-
missor campo da exploração sus- merece destaque. Considerada lógicas e em medicina); entrega
tentável da biodiversidade via como a tecnologia voltada para controlada de princípios ativos

64
(drogas, fertilizantes, defensivos entretenimento, informação e for- do produto ao consumidor final,
agrícolas); etc. mação proporcionados. são significativas.
Não há dúvidas que os avan- Na prática, os cidadãos cons- Pesquisadores da Petrobras e
ços científicos proporcionados cientizaram-se de que só integra- da Universidade Federal de São
pela tecnologia da informação rão uma sociedade desenvolvida Carlos anunciaram, em 2004,
vão gradualmente moldando a se forem educados no mundo da como a nanotecnologia está au-
sociedade contemporânea, modi- informática e tiverem acesso a xiliando um ambicioso projeto de
ficando o cotidiano das pessoas e computadores, internet, celulares desenvolvimento sustentável na
suas interações sociais. Dessa e aos produtos oferecidos pelas planície amazônica.
forma, políticas ativas nessa área novas tecnologias. Na indústria O objetivo da empresa é evi-
destacam-se como importantes (mesmo em setores mais tradi- tar qualquer tipo de impacto
instrumentos no processo de ca- cionais da economia, como a biológico, social e econômico na
pacitação econômica das socie- agropecuária), muito pouco, no região e preparar a reação para
dades atualmente. futuro, será realizado sem esses casos extremos, como o de um
A tecnologia confere maior recursos. A formulação de novos derrame de óleo. Com essa meta,
autonomia e oportunidades de medicamentos, novos equipa- um grupo de 40 pesquisadores
progresso. Hoje, a internet e as mentos médicos, o aumento da desenvolveu biossensores em na-
novas tecnologias da informação produtividade agrícola, tudo noescala para medir diversos
têm servido para estabelecer passa pelo desenvolvimento da processos na biosfera local. Eles
novos valores e crenças, uma vez eletrônica e pelo aumento da devem detectar mudanças como a
que democratizam as oportunida- capacidade de processamento e cheia do rio Solimões que, em
des de comunicação, formação e da transmissão de dados. meses como junho e julho, sobe
informação. As oportunidades oferecidas até 14 metros. A idéia, inédita,
A verdade é que, com o pro- pelo agronegócio brasileiro, des- usa as reações químicas de uma
cesso de digitalização da socie- de novos métodos de fertilização proteína e um sistema desen-
dade experimentado nas últimas do solo e aplicação de defensivos volvido especialmente para regis-
décadas, torna-se impossível agrícolas, passando pelo senso- trar as alterações nessas molécu-
imaginá-la sem os avanços obti- riamento e controle de pragas, las. A previsão é que, em 2008, o
dos pela interação entre comuni- pelo monitoramento e controle do sistema esteja operando a todo
cação instantânea, baixo custo, nível de poluentes, até a entrega vapor.

Experiência internacional
A história recente demonstra países, mostra que a preocupação do cerca de 21 mil pessoas e ge-
que países que optaram por in- com tecnologia está presente em rando receitas de U$ 7,4 bilhões.
vestir maciçamente na digitali- praticamente todos os países,
zação da sociedade apresentaram, sejam desenvolvidos ou não, e Grã-Bretanha
em pouco tempo, excelentes ní- em qualquer continente. Busca colocar a tecnologia
veis de desenvolvimento. como centro dos negócios. Para
Levantamento realizado pelo Irlanda isso, pretende transformar os ser-
Instituto Brasil para Convergên- As exportações de software e viços públicos, estimular e am-
cia Digital (IBCD), acerca das serviços já alcançam 5% do total pliar o uso de tecnologias digitais
agendas de tecnologia de alguns das exportações do país, empregan- de maior qualidade e segurança.

65
Hoje, por exemplo, cerca de software já chegam a US$ 12 bi- empresas, tecnologia da informa-
50% da população têm acesso à lhões, sendo que estão trabalhan- ção e estrutura legal e de regula-
internet em casa, dos quais 25% do para aumentar o valor agrega- mentação. Pretende, entre outras
em banda larga; e 74% dos servi- do dos serviços prestados. iniciativas, ampliar a utilização
ços governamentais estão habili- da internet e a conectividade dos
tados eletronicamente. China serviços públicos.
Busca aliar baixo custo e boa
Índia oferta de mão-de-obra, alto cres- Canadá
Tem por objetivo alcançar a cimento econômico e estabilida- Estão investindo para melho-
convergência de tecnologia de de política para atrair e desenvol- rar a infra-estrutura de comunica-
informação, comunicação e mí- ver tecnologias. Investe fortemente ção e o acesso à internet. O foco
dia; implementar um plano na- na educação para a formação tec- é na pesquisa e no desenvolvi-
cional de governo eletrônico e nológica, bem como oferece mento em telecomunicações.
proporcionar melhorias na infra- benefícios fiscais para empresas
estrutura de comunicação. Tem nascentes. África do Sul
investido fortemente na prestação Desde 2003 conta com um
de serviços de TI, sendo o destino Chile sistema de entrega de declaração
da maior parte dos serviços de Conta com 34 iniciativas nas de imposto de renda pela internet
terceirização das empresas norte- áreas de acesso, educação e trei- e está disponibilizando outros ser-
americanas. As exportações de namento, governo eletrônico, viços públicos por via eletrônica.

A experiência brasileira
O governo lançou a Política permitam ao país trilhar um cami- saída de mercadorias e o estabe-
Industrial, Tecnológica e de Co- nho na direção do fortalecimento lecimento de isonomia no trata-
mércio Exterior (PITCE), que in- de suas instituições acadêmicas e mento fiscal e tributário. Esses,
corpora em suas prioridades os empresariais, bem como possa entre outros, são procedimentos
chamados setores do conheci- despertar o interesse de investi- que estão sendo trabalhados pelo
mento como semicondutores, bio- dores internacionais. Há, por par- governo brasileiro, nessa fase de
tecnologia e fármacos e medica- te de todos, consciência quanto às implementação da política.
mentos. O propósito é criar os dificuldades em alcançar resulta- Em relação à capacitação, o
requisitos necessários para que se dos de curto prazo. O êxito na êxito da política está condiciona-
possa viabilizar a fabricação, no implementação desses objetivos do ao esforço do país na for-
Brasil, de produtos que hoje res- demandará um esforço nacional. mação do capital intelectual.
pondem pelas transformações na Os estudos que precederam o Quando se compara o acúmulo de
atividade produtiva. lançamento da política indicaram conhecimento nos países líderes,
A Política Industrial confere alguns pré-requisitos: o fortaleci- bem como o número de seus
novo alento às perspectivas de o mento do capital intelectual atra- pesquisadores, cria-se uma pers-
país dispor de base industrial de vés de maciços investimentos pectiva pessimista, dado que o
alta tecnologia. Encerra-se a fase na formação de recursos acervo intelectual do Brasil é,
de questionamento sobre as opções humanos e, no caso das opções ainda, bastante tímido.
estratégicas. O momento agora é estratégicas, a simplificação das Por fim, ainda que o desafio
de se estabelecer parcerias que regras vigentes para entrada e seja ousado, o Brasil precisa

66
superar o paradigma da insufi- digitalização da sociedade, popu- Além disso, está em dis-
ciência tecnológica e pavimentar larizando as oportunidades de cussão a proposta originada no
um caminho pelo qual venha a comunicação, informação e for- MIT de um programa interna-
ocupar um papel de destaque no mação. cional de educação focado na
cenário internacional. Às indústrias do complexo idéia de um computador portátil
A experiência acumulada nos eletrônico estão associados um por aluno. Propõe-se o desen-
últimos anos mostra que a indús- rápido ritmo de inovação e um volvimento de uma solução tec-
tria do complexo eletrônico1 é elevado investimento em pes- nológica de baixo custo que aten-
muito sensível às políticas públi- quisa e desenvolvimento (P&D), da as necessidades dos alunos. O
cas. No período da reserva de o que gera crescentes oportu- Brasil pode se credenciar para ser
mercado, o Brasil ficou à mar- nidades de empregos qualifica- fornecedor de partes ou de mon-
gem do processo de evolução dos, tanto na indústria quanto na tagem final desse produto para
dessa indústria no mundo. A infra-estrutura de P&D exigida pa- fornecimento aos mercados inter-
primeira Lei de Informática, que ra suportar a atividade produtiva. no e externo.
se seguiu a esse período, foi a res- Em semicondutores, as ações No caso da indústria de soft-
posta do governo ao movimento de mobilização realizadas pelo ware, trata-se de setor de maior
de desnacionalização decorrente governo serviram para inserir o crescimento mundial: estima-se
da abertura comercial do início Brasil no mapa de possíveis que o mercado de software passe
da década de 90 e atraiu para o locais para receber investimen- de US$ 300 bilhões, em 2003,
país os principais fabricantes de tos. E os resultados já começam a para US$ 900 bilhões, em 2008.
produtos finais. Hoje, o consumi- aparecer com o anúncio dos in- A contratação de serviços
dor brasileiro tem à sua dispo- vestimentos da Smart Modular outsourcing/offshoring como um
sição bens que agregam a mesma Technologies, em São Paulo, que todo (hardware, infra-estrutura,
tecnologia existente nos merca- já abriu processo seletivo para a aplicativos e processos de negó-
dos dos países mais desenvolvi- contratação de novos funcioná- cios) deve superar US$ 1 trilhão
dos. rios e da criação do pólo de mi- já em 2006; segundo a IDC,
Os maiores desafios nesse croeletrônica em Minas Gerais, em 2001 atingiu US$ 712 bi-
setor são: (i) zerar o déficit da onde está sendo discutida a cons- lhões.
balança comercial do setor atra- trução de uma unidade que, ao O Brasil já dispõe de amplo
vés da substituição das impor- final, contemplará todas as fases mercado e produção sofisticada:
tações e da transformação do país de produção, inclusive a difusão. o mercado brasileiro é o sétimo
em plataforma exportadora, co- No caso de políticas de inclu- do mundo (US$ 7,7 bilhões em
mo ocorreu com o telefone celu- são digital, o governo anunciou 2001) e estamos no estado da arte
lar; (ii) aumentar a competitivi- recentemente o Programa Com- em vários segmentos, como o
dade das indústrias do setor via putador para Todos, que retirou financeiro e bancário (ex.: Sis-
adensamento da cadeia produtiva o PIS e a Cofins dos microcom- tema Brasileiro de Pagamentos,
e capacitação tecnológica e, putadores com valor inferior a Sistemas Integrados de Acompa-
(iii), disseminar o processo de R$ 2,5 mil. nhamento Financeiro (Siaf), etc.),

1 No complexo eletrônico, encontram-se agrupados, por sua base tecnológica comum, os segmentos de informática (hardware e
software), bens de consumo (áudio e vídeo), telecomunicações e componentes.

67
negócios eletrônicos, gestão maior inserção nas exportações de tendo a Finep lançado vários
empresarial e automação de ser- serviços de tecnologia da informa- editais previstos no Programa de
viços públicos (ex.: Imposto de ção (TI), com preços compatíveis Software.
Renda). O setor possui cerca de com os oferecidos no mercado in- O governo também apóia
5.400 empresas e emprega 158 ternacional, criando conseqüente- a Sociedade Brasscom na exe-
mil pessoas. mente estímulo à geração de divi- cução de um amplo e detalhado
A infra-estrutura de teleco- sas, incentivos à exportação de estudo internacional sobre o
municações brasileira é excelente serviços com valor agregado e alta setor, em especial para com-
e a incidência do custo Brasil no tecnologia, suporte a programas preender as oportunidades para o
setor é relativamente baixa, tor- de inclusão digital e facilitação do outsourcing, divulgar as poten-
nando-o amplamente competitivo acesso das pequenas e médias cialidades do Brasil e unir as em-
na produção mundial, inclusive empresas ao mercado de expor- presas nacionais em seu esforço
de soluções completas, em que o tação de serviços de TI. Proposta exportador.
valor agregado é maior. editada em medida provisória e O Instituto Nacional de
As empresas nacionais apre- em discussão no Congresso Na- Metrologia, Normalização e
sentam um alto grau de flexibili- cional para sua conversão em lei. Qualidade Industrial (Inmetro),
dade e criatividade, destacando-se O Repes contempla a sus- em conjunto com o Ministério do
em diversos nichos de mercado. pensão das contribuições do Desenvolvimento, Indústria e
A sofisticação dos mercados-alvo PIS/Pasep, da Cofins e do Im- Comércio Exterior (MDIC) e o
da indústria de software tem posto de Importação, na aquisição Ministério da Ciência e Tecno-
servido como indutora de solu- no mercado interno ou na impor- logia (MCT), lidera um processo
ções de elevada complexidade, tação de produtos incorporados que irá definir as bases para o sis-
valor adicionado e qualidade. ao ativo imobilizado, destinados tema de certificação da qualidade
A meta mobilizadora da ao desenvolvimento, no país, de do software, com a definição de
PITCE é o aumento das expor- software e de serviços de tecnolo- suas guias de implementação
tações brasileiras de software e gia da informação para exportação, (aderente ao modelo CMMI e às
serviços para US$ 2 bilhões quando adquiridos ou importados normas ISO), em processo apoia-
anuais, em 2007. Entre as ações diretamente pelos beneficiários do pela Financiadora de Estudos
já implementadas, ou em dis- do Repes, e incorporados ao seu e Projetos (Finep). A implemen-
cussão, para a concretização ativo imobilizado ou para comer- tação do programa em 240 em-
dessa meta, estão: cialização no mercado externo. presas contará com investimentos
Novo Prosoft (BNDES): pro- Além disso, propõe-se que a do MDIC.
grama para o desenvolvimento da suspensão dos tributos referentes Com as medidas que estão
indústria nacional de software e a aquisições de bens do ativo sendo tomadas pode-se esperar
serviços correlatos. Janeiro de imobilizado se converta em isen- uma injeção de ânimo no setor de
2005: 42 operações com um mon- ção após o decurso do prazo de software brasileiro. O crescimen-
tante de financiamento de R$ 194 cinco anos, contado da data da to desse setor deve obedecer a
milhões. ocorrência do respectivo fato ge- uma curva exponencial, parecida
Repes - Regime Especial de rador, ou no caso do bem ser com a que se observa hoje em re-
Tributação para a Plataforma destruído ou reexportado. lação às empresas exportadoras.
de Exportação de Serviços de O governo redesenhou as O permanente desafio lança-
Tecnologia da Informação: tem prioridades de investimentos dos do pelo governo nos últimos
por objetivo possibilitar ao Brasil fundos tecnológicos setoriais, anos, para que as empresas

68
busquem o mercado externo, exportações. por alguns empresários do setor).
começa a produzir seus efeitos No caso da indústria de soft- Algumas multinacionais já es-
de forma mais significativa nos ware, espera-se que os casos de tão trazendo para o país parte sig-
dias de hoje (em 2005, atingimos sucesso de conquista de mercado nificativa de seus negócios na área
US$ 100 bilhões de exportações). externo por algumas empresas de software (Novartis, IBM) e esses
O desempenho das exporta- que começam a aparecer, venham exemplos serão seguidos. Atual-
ções surpreende os especialistas, influenciar outros empreende- mente, HSBC, Johnson&Johnson
tanto em volume como em dores a buscar o mesmo caminho. e Rhodia estão organizando seus
sustentabilidade. A elevação Por isso, a meta mobilizadora centros globais de desenvolvimen-
constante das taxas de juros de US$ 2 bilhões não pode ser to e o Brasil deve concorrer para
e a apreciação do câmbio não vista como fantasia, mas como atrair esses investimentos.
impediram o crescimento das factível (previsão compartilhada

Um novo paradigma: a convergência tecnológica


Entende-se convergência di- Para tal, é importante a inte- estimular a geração de
gital, do ponto de vista empresa- gração entre empresários, traba- conteúdos que envolvam as
rial, como o ambiente de merca- lhadores, governo e Congresso várias mídias.
do e de políticas públicas que faz Nacional para solução dos pro- - Programa Brasileiro de TV
com que as indústrias tenham de blemas de cada cadeia produtiva Digital: estimular a produ-
atuar juntas, criando um ecossis- e estabelecimento de ações e ção de conteúdos, bem como
tema industrial de novo tipo metas, configurando uma política a de aplicativos. A intera-
assentado numa convergência para o desenvolvimento do com- tividade é o ponto forte da
tecnológica que proporciona, plexo eletrônico como um todo. mudança para o sistema de
como conseqüência, a passagem As discussões iniciais com o TV digital e excelente
dos processos analógicos para setor apontam como pontos a se- oportunidade de aproveita-
digitais e oferece à sociedade rem aprofundados: políticas de mento da convergência di-
produtos, serviços e formas orga- desenvolvimento econômico-so- gital.
nizativas não experimentadas. cial centradas em convergência - Expansão do número de
O desenvolvimento da cadeia digital; capacitação tecnológica; telecentros.
produtiva da convergência tec- marco regulatório e Propriedade O Telecentro de Informação e
nológica necessita da elaboração Intelectual e Industrial; inserção Negócios é um ambiente virtual
de um bom diagnóstico que externa; e apoio à cadeia de con- concebido para oferecer condi-
aponte as vantagens comparati- vergência digital, nos pontos de ções de acesso às novas tecnolo-
vas locais e as deficiências que relação com a PITCE, como ele- gias de informação e comunica-
devem ser alvo de uma ação mentos sinérgicos da sociedade ção, em especial à internet.
estatal para sua superação. É pre- do conhecimento. Insere-se como mais uma inicia-
ciso identificar os fluxos interna- tiva para difundir a utilização de
cionais de capital e comércio, Políticas de desenvolvimento tecnologias digitais pela popu-
pois a cadeia produtiva de con- econômico-social centradas lação.
vergência digital deve ser consi- em convergência digital Nesse ambiente, o empresá-
derada em sua dimensão interna- rio e a população em geral po-
cional. - Desenvolver ações para derão participar de programas de

69
capacitação e treinamento, obter - Desenvolver tecnologia pação do Brasil no fluxo in-
informações sobre temas como local, reduzindo a depen- ternacional de comércio da
comércio exterior, empreende- dência externa e, ainda, o cadeia produtiva, propor
dorismo, comércio eletrônico e déficit na balança de servi- medidas para superação
oportunidades de negócios, tec- ços do setor (ex.: pagamen- desses obstáculos e para
nologia e inovação, financiamen- to de royalties). transformar o país em pla-
to e créditos, etc. - Desenvolver articulações taforma exportadora de pro-
- Promoção e incentivo do junto aos fundos tecnológi- dutos e serviços envolvidos
aprendizado da língua in- cos que permitam canalizar com a convergência digital.
glesa, em nível de profi- fontes de recursos para o Acompanhar a implementa-
ciência, para melhorar o atendimento de demandas ção dessas medidas e moni-
acesso dos cidadãos às tec- empresariais. torar a eficácia das mesmas.
nologias digitais, e qualifi- - Construir, com o setor pro-
car os profissionais que Marco regulatório e dutivo, propostas de nego-
atuam na área. Requisito Propriedade Intelectual e ciação visando a subsidiar a
indispensável no caso de Industrial participação brasileira nas
prestação de serviços para o negociações internacionais:
exterior. - Utilização do poder de Mercosul, Alca, UE e Pacto
- Demais programas de in- compra do governo. Andino. Deve-se buscar ga-
clusão digital, como o Pro- - Avaliar os efeitos da atual rantir as condições de ma-
grama Um Computador por sistemática de concessão do nutenção e crescimento dos
Aluno, em discussão no direito à propriedade inte- investimentos locais, bem
governo. lectual no desenvolvimento como viabilizar exporta-
da capacitação tecnológica ções para os mercados par-
Capacitação Tecnológica nacional. ticipantes dos acordos fir-
- Programas de certificação mados pelo Brasil.
A capacitação tecnológica no caso de softwares (dis- - Promoção da marca Brasil.
das empresas também é requisito cussão acerca da criação ou
obrigatório para a manutenção do não de uma certificação Apoio à cadeia de
parque industrial da cadeia pro- nacional). convergência digital, nos
dutiva. O domínio da tecnologia - Aprovação da lei de pro- pontos de relação com a
é a palavra chave da competitivi- totipagem de circuitos im- Pitce, como elementos
dade dessa indústria, e investir pressos. sinérgicos da sociedade do
em P&D&I é o instrumento para - Estabelecer uma agenda conhecimento
a sua obtenção. A sua ausência legislativa para aprimorar
gera dependência de fornecedo- os instrumentos normativos - Nesse caso, deve-se buscar
res externos e é um limite ao que regulam o ecossistema a maior integração da
crescimento da empresa local. de convergência digital. Pitce com a cadeia produti-
- Promover a formação de va de convergência digital,
recursos humanos nas áreas Inserção externa com destaque para as ações
de conhecimento que con- relacionadas com os setores
centrem as tendências de - Diagnosticar os fatores que de software e semicon-
evolução tecnológica. inibem uma maior partici- dutores.

70
Conclusão
Um país é feito de pessoas e formação de recursos humanos
conhecimento. O sucesso na rea- qualificados quanto no incentivo
lização de um projeto para o à pesquisa, desenvolvimento e
Brasil está na otimização desses inovação) e a questão da política
recursos; nesse sentido, percebe- de comércio exterior; superar as
se a importância da tecnologia da dificuldades regulatórias e au-
informação como instrumento mentar a competitividade dos
transformador da sociedade. setores produtivos, como forma
A convergência digital pro- de expandir a capacidade de
porciona oportunidades tanto na desenvolvimento da cadeia pro-
otimização de produtos e proces- dutiva da convergência digital.
sos tradicionais como na criação Por fim, é preciso investir
de novos negócios. A grande maciçamente para aproveitar to-
questão da atualidade está em da essa sinergia em prol de políti-
como preparar as sociedades para cas de inclusão social. Devemos
enfrentar os desafios impostos trabalhar para preparar as gera-
por um mundo globalizado e cada ções futuras para enfrentar os
vez mais dependente do conheci- desafios que se apresentam e
mento. oferecer caminhos para a mini-
É preciso trabalhar a questão mização das desigualdades so-
da educação (tanto em termos da ciais.

71
Divulgação

A convergência digital e a
interpenetração de mercados
nas tecnologias da informação
João Antonio Zuffo
Professor titular da Escola Politécnica da USP e Coordenador Geral do Labo-
ratório de Sistemas Integráveis da USP. Autor de 19 livros, dentre eles "A
Sociedade e a Economia no Novo Milênio", tema de uma série de livros
recém-publicados, abordando as transformações em que a sociedade está
mergulhada em função do desenvolvimento das tecnologias da informação.

RESUMO
O autor contextualiza historicamente a evolução da tecnologia da informação,
reflete sobre o aumento da complexidade dos circuitos integrados e a conver-
gência de diferentes tecnologias e suas implicações mercadológicas e sociais.
Descreve a evolução da telefonia fixa, o surgimento da telefonia celular, a
comunicação sem fio na computação, a digitalização aplicada à fotografia, e
aos equipamentos de áudio e TV, destacando o novo ritmo imposto aos ciclos
tecnológicos e impactos dessas inovações na sociedade.

O que discutiremos no pre- nível informativo tão acentuados Focalizando essa dinâmica
sente artigo certamente criará um que apenas são limitados pela evolutiva no objeto do presente
certo sentimento de apreensão na capacidade do cérebro humano trabalho, há pelo menos dez anos
maior parte das pessoas, resul- em absorvê-los e pela adaptabili- que especialistas em ciências e
tante da crescente e gigantesca dade dos seres humanos às novas tecnologias da informação (TIs)
velocidade da evolução tecnoló- condições de vivência, ou mesmo prevêem, face à crescente com-
gica e de suas conseqüências de sobrevivência. Esse comporta- plexidade dos circuitos integra-
sociais e econômicas em nosso mento obcecativo dos seres vi- dos, a convergência das dife-
cotidiano. Todavia, observamos vos, e da própria inteligência, é rentes tecnologias, no sentido em
que as coisas ligadas à vida e à quase uma reação ao comporta- que redes de comunicação de da-
inteligência, não só à tecnologia, mento geral das coisas inani- dos, computadores, radiodifusão
tendem a desenvolver-se e a madas que, inexoravelmente, e televisão difusora, radiocomu-
crescer exponencialmente de tal obedecem à segunda lei da ter- nicação, telefonia fixa e celular,
forma que, atualmente, atingimos modinâmica, caminhando para sistemas de gravação e reprodu-
uma dinâmica de mudanças e um um estado de máxima entropia. ção de vídeo e som tenderiam, e

72
tendem, a serem combinadas e fotográficas e de vídeo e tendem, nosso país, a utilização de redes
colocadas em um único, ou cada vez mais, a serem sensíveis locais sem fio para acesso à
mesmo distribuídas, em poucos a comando de voz. internet, inclusive redes abertas e
tipos de equipamentos. Essa Um outro aspecto operacional serviços de acesso a cibercafés
visão, um tanto simplista por fundamental ligado à telefonia virtuais, prevalecendo hoje os
estar baseada em apenas uma móvel, que fugiu aos planeja- padrões Wi-Fi, IEEE 802.11b e
área das TIs, tornou-se não só dores do sistema, é que o telefone 802.11g, que permitem alcances
realidade, como vem trazendo móvel atende a uma pessoa, ou de até 200m. Já está em fase de
implicações mercadológicas e seja, é um dispositivo de natureza prototipagem, e para o final de
sociais que dificilmente pode- pessoal, contrariamente ao tele- 2006 estará disponível no merca-
riam ser previstas, há pouco fone fixo, que atende um local. do internacional, o padrão Wi-Fi
tempo, pelos mais argutos econo- Daí o fato de algumas cidades, e IEEE 802.11n, o qual permite
mistas e sociólogos. mesmo países, terem um número alcance de até 500m e faixa pas-
Ampliemos um pouco mais o de telefones celulares muito sante muito mais ampla, per-
foco da evolução tecnológica superior ao de telefones fixos e mitindo, por exemplo, em redes
num pequeno período histórico, superior ao número de seus habi- sem fio domésticas, tanto TV de
entre dez e quinze anos do passa- tantes. No Brasil, no início de alta definição ou vídeo de alta
do recente, e notemos a rápida outubro de 2005, a Anatel anun- qualidade, como também uma
ocupação do mercado por produ- ciou que temos ativados mais de nova plêiade de serviços de aces-
tos resultantes de diferentes tec- 80 milhões de celulares, mais do so e atendimento de comuni-
nologias. Na área de telefonia, a que o dobro do número de tele- cações sem fio em faixa larga.
telefonia fixa evoluiu no sentido fones fixos. Em Brasília, já exis- Porém, as coisas não param
da digitalização generalizada das tem cerca de 1,2 telefone celular por aqui. O padrão Wi-Max ou
centrais telefônicas, melhorando per capita. IEEE 802.16 de comunicação
a qualidade de serviço e ofere- Na mesma linha evolutiva, na sem fio visa, sobretudo, à área
cendo Rede Digital de Serviços área de computação, a mobili- corporativa e opera em frequên-
Integrados (RDSI, ou ISDN, em dade e a comunicação sem fio cias acima de 10 GHz, permitin-
inglês) em faixa larga, possibili- (wireless) têm sido os grandes do, desse modo, faixas de pas-
tando internet faixa larga a seus agentes motivadores da inovação santes muito amplas, abrangendo
usuários. Concomitantemente, nos últimos cinco anos. Os pa- um alcance de até um raio de 50
assistimos nos últimos 15 anos, drões de comunicação sem fio, km da antena, raio este muito
não só no Brasil mas em todo o como Home PNA, Blue-Tooth e maior do que o atingido pela tele-
mundo, o crescimento espetacu- Wi-Fi, já estão todos estabeleci- fonia celular convencional. No
lar da telefonia celular, que vem dos e consolidados, sendo rapida- Brasil, já existem instalados, em
passando pelas sucessivas gera- mente implementados e aperfei- fase experimental, três pontos
ções (1ª, 2ª, 2,5ª e 3ª) e se tornou çoados. Esses padrões operam, Wi-Max em Brasília, Rio de
totalmente digital, com crescente quer pela utilização das próprias Janeiro e Curitiba.
faixa passante, prometendo a linhas de alimentação de potên- No caso de Brasília, a antena
curto prazo uma plêiade de novos cia; quer pela utilização de raios Wi-Max cobre uma extensa área,
serviços, incluindo internet e infravermelhos; quer pela utiliza- relativamente pouco povoada, em
vídeo móvel, além do acesso a ção de sistemas de microondas, que a telefonia fixa seria anti-
sítios da teia de âmbito mundial na faixa de gigahertz. econômica e a telefonia móvel
(web) pela voz. Os telefones digi- Já é comum no exterior, e exigiria um número elevado de
tais fundiram-se com câmeras está se tornando comum em antenas, a um custo também

73
elevado. Não devemos nos es- conceito de mobilidade, darão um baixo custo, inferior a R$ 50,
quecer que o número de antenas imenso impulso inovador, não só com resolução VGA (640 x 480
com determinado raio de alcance ao setor industrial, mas a toda a pontéis). As pastilhas (chips)
cresce com o quadrado da área a sociedade, tornando as tecnolo- dessas máquinas atingem a capa-
ser coberta. O que prevalecerá gias da informação extremamen- cidade de armazenamento de até
nesse confronto tecnológico? A te pervasivas, desde as aplicações quatro gigabytes, permitindo que
tecnologia Wi-Max ou a quarta no campo até as aplicações em esses dispositivos operem inclu-
geração de telefonia celular? nosso cotidiano. sive como câmeras de vídeo.
Haverá espaço de mercado para Como fruto disso, podemos Outrossim, considerando a
essa quarta geração? destacar uma outra tecnologia, de área de áudio, os iPods de áudio
A combinação das tecnolo- utilização maciça pela população, estão substituindo rapidamente
gias de microeletrônica com as que surgiu nos últimos dez anos e os próprios discos compactos
tecnologias de fabricação de que se tornou dominante a partir (CDs) e já estão sendo lançados
microdispositivos, os microssen- de 2001: a fotografia digital. dispositivos equivalentes em vídeo
sores, microatuadores e micro e Hoje é possível a aquisição com crescente capacidade de
nanofotônica estão produzindo, e dessas máquinas digitais, desde memória, que poderão, até 2010,
produzirão, uma nova geração sistemas de altíssima definição, substituir os próprios Discos de
de equipamentos, utensílios e com 16 ou 24 megapontéis Vídeo Digital (DVDs), inclusive
objetos que, combinados com a (megapixels) em cada foto, até armazenando centenas de horas
comunicação sem fio e com o máquinas fotográficas digitais de de vídeo de alta definição.

Ciclos tecnológicos cada vez mais curtos - O fim do CD

Disco de 78 Long-Play Compact Disc


MP3
rotações (LP) (CD)

cinco minutos em 20 minutos em Uma hora e


Capacidade Até mil horas
cada lado cada lado 20 minutos

Qualidade de
Ruim Regular Boa Ótima
gravação

Período áureo 1910-1955 1955-1985 1985-2010 Início em 2003

Duração 45 anos 30 anos 25 anos Não se sabe

Figura 1 - Os aparelhos de CD devem ser substituídos pelos reprodutores de MP3 num prazo de apenas
cinco anos, pois as tecnologias de áudio demoram cada vez menos tempo para serem trocadas.

Paralelamente ao aumento da (CODECs) de áudio e de vídeo. A rigor, essas técnicas podem ser
capacidade de armazenamento, te- Essas técnicas operam através da classificadas em duas grandes
mos observado também um gran- eliminação de redundâncias, per- categorias:
de desenvolvimento das técnicas mitindo faixas de compressão a) Técnicas que admitem
de compressão/descompressão cada vez mais significativas. pequenas perdas, como

74
é o caso do MP-3 em bits e com a introdução genera- A dificuldade maior desse siste-
áudio. lizada dos dutos PCI express, que ma é justamente esta: a necessi-
b) Técnicas que não admitem podem permitir, no limite, uma dade de aquisição de rádios digi-
perdas, restaurando a plena taxa de comunicação com o exte- tais compatíveis para garantia de
qualidade do som ou do rior de 16 Gbps (16 bilhões de qualidade e recebimento de men-
vídeo originais. bits por segundo), ampliando em sagens, embora esteja assegurada
No caso de vídeo, estão se um fator de dez sua capacidade e mantida a qualidade atual e a
tornando prevalentes em nível de processamento e revolucio- compatibilidade com receptores
internacional, para TV digital, os nando a área de computação grá- atualmente existentes no merca-
métodos de compressão utiliza- fica e de imagens. Máquinas com do. Aperfeiçoamentos futuros
dos dentro do padrão MPEG-4 essa capacidade de processamen- nas taxas de compressão poderão
(H.264), que não só permitem to permitirão, sem margem de não só ampliar a qualidade mas
significativa compressão de ar- dúvida, operações muito mais também possibilitar maior núme-
quivos, como também permitem complexas de recuperação rápida ro ainda de estações transmisso-
significativa redução da taxa de em tempo real de imagens que ras.
transmissão de bits. tenham sido armazenadas com Aos poucos, a televisão digi-
Destacamos, todavia, que as alta taxa de compressão, além de tal está se estabelecendo em nível
possibilidades de compressão de permitirem também sistemas planetário e os padrões de TV
arquivos de áudio e de vídeo, neuronais complexos operando digital estão, atualmente, sendo
com pequenas perdas (lossies) ou em tempo real, tornando, por escolhidos e fixados no Brasil.
sem perdas, não param por aqui. exemplo, muito mais precisa e No sistema brasileiro, pretende-
Existem sistemas experimentais robusta a comunicação homem- se estabelecer compatibilidade
em nível de laboratório, que máquina pela voz, bem como a com os demais sistemas existen-
através da eliminação total das interpretação de fonemas, inde- tes (japonês, americano, europeu
redundâncias espaciais e tempo- pendentemente do locutor. Em e eventual chinês) e permitir que
rais das imagens de vídeo, con- um prazo de cinco anos, podemos a atual faixa passante de seis
seguem reduzir a faixa de trans- pensar em tradutores de voz em MHz possibilite várias opções:
missão de um vídeo conven- tempo real, de um idioma para o ou uma estação de TV digital de
cional a uns meros quilohertz, à outro, com taxas de erros razoa- alta definição, ou duas de defini-
custa, obviamente, de uma quan- velmente baixas, possibilitando ção média ou quatro de definição
tidade maior de processamento teleconferências com pessoas em convencional, permitindo dessa
no equipamento receptor. diferentes países, falando suas forma, dependendo da finalidade
É preciso ter presente, tam- línguas nativas. e do público-alvo, multiplicar o
bém, que estamos em frente a um Há poucas semanas, o gover- número de estações. Procura-se
novo e gigantesco salto de quali- no brasileiro anunciou a escolha também garantir a mobilidade e a
dade em relação aos próprios com- do sistema norte-americano de interatividade, de modo que o sis-
putadores pessoais e aos micros rádio digital que, compatível com tema de TV digital brasileiro seja
pessoais portáteis. Na verdade, a os atuais rádio AM e FM, permite também um agente da inclusão
partir de 2006, os micros pessoais dobrar o número de estações, digital. Dentro da faixa de seis
e laptops sofrerão uma ampliação passando a transmissão AM a ter MHz, espera-se também reservar
de potência de processamento e qualidade de transmissão FM e as uma pequena faixa de frequên-
comunicação muito acentuadas, estações FM qualidade de trans- cias para uso governamental,
com a introdução dos modelos missão de CD, desde que existam interatividade e para situações
multinúcleos (multicore) de 64 os receptores digitais adequados. emergenciais.

75
Acreditamos piamente que o Os especialistas internacio- pretende, através do sistema Wi-
desenvolvimento do sistema de nais não têm dúvidas de que os Max, oferecer faixa larga gratuita
TV digital brasileiro por brasi- modelos de exploração do merca- a todos os seus usuários, com
leiros possa alavancar não só a do deverão ser reformulados. A todos os benefícios de telefonia
engenharia de sistemas eletrôni- dúvida será de quão profunda e gratuita e acesso a canais de TV
cos, como também a própria mi- veloz será essa mudança. em nível mundial. Teremos as
croeletrônica nacional, puxando As mudanças mercadológicas concessionárias de fibras ópticas
o correspondente setor industrial, na área de tecnologia da informa- e TV a cabo oferecendo internet
em termos de qualidade e confia- ção, entretanto, não se restringem faixa larga e telefonia sobre
bilidade, e tornando-o competiti- apenas ao subsetor de telefonia Protocolo Internet. Teremos as
vo internacionalmente. fixa. Na verdade, a convergência TVs difusoras e as transmissoras
No meio de toda essa agi- dessas diferentes tecnologias está de TV por satélite permitindo TV
tação e efervescência, temos o fazendo emergir todo um novo digital interativa e oferecendo
surgimento e a generalização de ambiente de convergência mer- acesso à internet. Enfim, toda
novos sistemas de comunicação, cadológica: estamos assistindo à essa efervescência está a exigir
como Voz sobre Protocolo fusão rápida dos mercados de um estudo profundo do intenso
Internet (VoIP). Não só pelo uso telefonia, radiodifusão, televisão remanejamento que irá ocorrer no
do Skype, como também pelo difusora, TV a cabo, TV por mercado de TIs, levando inclu-
surgimento de pequenas empre- satélite, fibras ópticas, internet, sive a novos sistemas que estarão
sas nacionais, que junto com teia de âmbito mundial (www), disponíveis ao usuário final como
empresas internacionais já esta- telefonia através de linhas de os apoiadores digitais pessoais
belecidas, oferecem serviços de potência. Enfim, todos os possí- (PDA) e os micros pessoais por-
telefonia a baixo custo para qual- veis mercados de serviços em táteis, comandados pela voz.
quer parte do mundo. Em breve, telecomunicações convergindo A tendência para a mobili-
teremos também vídeo sobre pro- para uma nova forma de atendi- dade e para o uso muito intenso
tocolo internet, permitindo o mento ao usuário final, para o da internet é avassaladora. Não
recebimento de televisão aberta qual o número de opções tecno- temos dúvida que é apenas ques-
de todo mundo pela internet. lógicas e de serviços será muito tão de tempo que ocorra com os
Embora até agora tenhamos ampliado. micros pessoais portáteis o mes-
nos concentrado em aspectos Nesse novo ambiente, tere- mo fenômeno de migração que
tecnológicos, naturalmente emer- mos as concessionárias de telefo- ocorreu com a telefonia fixa e
gem novos ângulos da con- nias fixas oferecendo mobilidade celular. O micro de mesa atende a
vergência, agora do ponto de e faixa larga através da internet um local. O micro pessoal portá-
vista do mercado. Focalizando localizada nos Laços Locais Sem til atende a um indivíduo. Com o
inicialmente o caso da telefonia Fio (WLL) e de sistemas Wi- adensamento da rede de comuni-
fixa, perguntamos: os sistemas de Max, oferecendo serviços de cação sem fio, o micro portátil
Voz sobre Protocolo Internet áudio e vídeo generalizados, tornar-se-á indispensável aos
(VoIP) irão tumultuar completa- nacionais e internacionais. Tere- indivíduos, já que todas as ope-
mente, em futuro próximo, o mos os provedores da internet rações tendem a ser eletrônicas,
mercado de telefonia? E a Voz nacionais e internacionais ofere- realizadas pela internet, desde o
sobre Protocolo Internet não será cendo, em muitos casos gratui- governo eletrônico (Governo-E),
seguida quase que imediata- tamente, internet em faixa larga passando pelo home banking,
mente por Vídeo sobre Protocolo e acesso à TV mundial. Exis- electronic broker, até compras e
Internet? tem rumores de que a Google reservas de passagens e tíquetes

76
para jogos de futebol. Por exem- levar todo acervo de seu trabalho pessoais portáteis é a duração de
plo, hoje as reservas em muitos a distância para qualquer lugar sua bateria, problema que, infe-
hotéis e o aluguel e a reserva de que esteja, em viagens de negó- lizmente, está sendo contornado
carros no exterior, incluindo pa- cios ou em lazer, entrando imedi- de forma relativamente lenta.
gamentos e seus respectivos reci- atamente em teleconferência em Sob o manto das discussões
bos, são feitos e enviados exclu- caso de necessidade. Poderá, que aqui colocamos, existe um
sivamente pela internet. Em bre- também em movimento, praticar aspecto extremamente impor-
ve, a maior parte das atividades atividades de lazer ou mesmo vi- tante, que é bastante valorizado
será comandada e dependerá de sitar mundos virtuais, através de agora e deverá ser muito mais no
acessos à internet, à teia de sistemas de realidade virtual e futuro: a geração de conteúdos
âmbito mundial. Essas operações realidade aumentada. Os serviços criativos e a comercialização des-
estender-se-ão rapidamente não aplicativos para essas novas áreas ses conteúdos. Quando nos refe-
só à área financeira, mas a todas estão sendo rapidamente desen- rimos a conteúdos, englobamos
as demais áreas da atividade volvidos. não só as logicionarias (soft-
humana e, provavelmente, as É claro que essas intensas in- wares), mas também toda a imen-
pessoas terão seus micros indivi- formatização social e utilização sidade de trabalhos intelectuais e
dualizados por chaves privadas das comunicações sem fio trarão artísticos, como obras literárias e
próprias, dependendo deles como uma série de consequências nos artísticas, criações e interpre-
se dependessem de um elemento próximos anos. Os micros pes- tações musicais, novelas, filmes,
essencial para as atividades numa soais portáteis poderão e deverão apresentações, enfim, qualquer
sociedade moderna. O micro por- obrigatoriamente cair substan- manifestação científica, tecno-
tátil de mão, o telefone celular ou cialmente de preço, já que, lógica ou artístico-cultural. A
o acesso à internet e à teia de estando permanentemente conec- qualidade e a originalidade na
âmbito mundial já estão ou po- tados em rede por ter seu sistema geração de conteúdo serão cada
derão estar em futuro próximo operacional colocado em memó- vez mais fundamentais, face a um
incorporados numa espécie de ria apenas de leitura (ROM), consumidor pleno de opções de
micro pessoal de bolso, coman- podem ter a maior parte de seus lazer.
dado diretamente pela voz. dados e processamentos feitos No Brasil, já estamos assis-
A mobilidade associada com através da rede. Acreditamos que tindo uma intensa disputa das
o micro pessoal portátil, em em cinco anos esses dispositivos concessionárias de telefonia mó-
prazo médio, ampliará uma série irão custar naturalmente menos vel pelo uso de sinais de TV difu-
de novos serviços, como o lar vir- que US$ 100, prometido pelo siva aberta no atendimento dos
tual, onde uma pessoa, onde quer MIT. Só essa possibilidade abrirá seus clientes, com a particulari-
que esteja, pode comandar qual- um extenso leque de novas ativi- dade de não quererem utilizar
quer dispositivo em seu lar ligado dades para as micro, pequenas e esse conteúdo gratuitamente, tal-
na rede, desde microondas e médias empresas, não só como vez eliminando a própria propa-
geladeiras, até câmeras de vídeo provedoras de novos serviços, ganda. À medida que se expanda
de segurança e fechamento de como também atendendo neces- a teia de âmbito mundial (www),
janelas. Será possível a essa pes- sidades de entretenimento, como essa disputa estender-se-á natu-
soa observar cada cômodo de sua de identificação de locais associa- ralmente aos provedores, abrindo
residência a distância. O traba- dos com serviços de GPS e outros um amplo leque de debates e
lhador em futuro próximo poderá de localização e segurança. direitos de uso.
utilizar conceito de escritório Tecnicamente, uma das maiores Novos aspectos informativos
virtual móvel, em que poderá dificuldades atuais dos micros e educacionais estarão em grande

77
alta, no sentido de atendimento dessas mudanças, um número todas estas mudanças é exata-
do usuário, não só com relação às significativo de jornais está não mente o ser humano. Sem uma
suas necessidades, mas também só perdendo anunciantes, como verdadeira cruzada educacional,
em termos de educação a distân- também perdendo seus leitores grande parte de nossa sociedade
cia, com caráter lúdico, bem para as novas mídias, natural- estará alijada de todo esse proces-
como em atividades culturais. O mente mais dinâmicas e interati- so. No mundo extremamente
usuário, o cliente, o radiouvinte, vas. dinâmico, essa situação será ex-
o telespectador de amanhã serão No mundo de serviços de tremamente indesejável, diria
cada vez mais exigentes e terão amanhã, poderemos ter uma mesmo explosiva, pois embora
mais consciência do valor do seu plêiade de possibilidades como alijados do processo de informa-
tempo. Não desejarão desperdi- traduções simultâneas em confe- tização social, essas pessoas
çar seu tempo com assuntos fora rências de vídeo internacionais e saberão e se conscientizarão de
do seu gosto particular, exigindo outras funcionalidades que aqui sua situação injusta e inevitavel-
também uma interatividade cres- já discutimos. Em nenhum mo- mente se revoltarão. Cabe a nós
cente com o meio de comunica- mento podemos esquecer que estabelecermos a base de um
ção. Essa mudança de atitude estamos diante de um oceano de mundo que pode ser muito me-
envolve inclusive mudanças pro- inovações e novidades que afe- lhor do que este em que vivemos
fundas de hábitos. Nos países tarão drasticamente e rapida- e onde o homem e a mulher final-
desenvolvidos, apenas para citar- mente nosso modo de vida. E o mente possam se realizar como
mos um caso da profundidade fator mais lentamente adaptável a seres humanos dignos.

Agradecimento: agradeço, de forma especial, minha secretária,


Sra. Claudia Ferreira de Souza Leite,
pela contribuição ativa na didática e digitação deste trabalho.

78
Júlia Magalhães
Sistema Brasileiro de Televisão Digital:
uma televisão livre e
soberana para todos?
Regina Mota
Professora do Departamento de Comunicação Social/UFMG,
doutora em Comunicação e Semiótica - Tecnologias da Informação
pela PUC-SP, fez bolsa-sanduíche na Sorbonne I e III,
em Paris, França. É pesquisadora das áreas do audiovisual eletrônico
e digital e de políticas públicas de comunicação.
Coordenou a pesquisa para o CPqD sobre inclusão social na
plataforma digital do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD).

RESUMO
O decreto nº 4.901, de 23 de novembro de 2003, que institui o Sistema Brasileiro de Televisão Digital
(SBTVD), afirma, em seu art. 1º, inciso I 1, que seu objetivo precípuo é promover a inclusão social. Este
artigo faz uma reflexão acerca do impacto sociotécnico da digitalização da plataforma analógica de sinais
terrestres de televisão na sociedade brasileira, marcada, sobretudo, pela profunda diferença do grau de
acesso aos bens simbólicos, tais como livros, discos, filmes e informações diversas em suporte digital.
Ao privilegiar o fenômeno cultural, a análise põe em relevo os principais aspectos a serem considerados
para a elaboração de uma possível política pública para a televisão digital brasileira.

1 Art. 1º - Fica instituído o Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), que tem por finalidade alcançar, entre outros, os
seguintes objetivos:
I- promover a inclusão social, a diversidade cultural do país e a língua pátria, por meio do acesso à tecnologia digital, visando à
democratização da informação; II- propiciar a criação de rede universal de educação a distância; III- estimular a pesquisa e o desen-
volvimento e propiciar a expansão de tecnologias brasileiras e da indústria nacional relacionadas à tecnologia de informação e comu-
nicação; IV- planejar o processo de transição da televisão analógica para a digital, de modo a garantir a gradual adesão de usuários
a custos compatíveis com sua renda; V- viabilizar a transição do sistema analógico para o digital, possibilitando às concessionárias
do serviço de radiodifusão de sons e imagens, se necessário, o uso de faixa adicional de radiofreqüência, possibilitando o desen-
volvimento de inúmeros serviços decorrentes da tecnologia digital, conforme legislação específica; VI- estimular a evolução das
atuais exploradoras de serviço de televisão analógica, bem assim o ingresso de novas empresas, propiciando a expansão do setor e
possibilitando o desenvolvimento de inúmeros serviços decorrentes da tecnologia digital, conforme legislação específica; VII- esta-
belecer ações e modelos de negócios para a televisão digital adequados à realidade econômica e empresarial do país; VIII- aper-
feiçoar o uso do espectro de radiofreqüências a legislação específica; IX- estimular a evolução das atuais exploradoras de serviço
de televisão analógica, bem assim o ingresso de novas empresas, propiciando a expansão do setor; X- contribuir para a convergên-
cia tecnológica e empresarial dos serviços de comunicações; XI- aprimorar a qualidade de áudio, vídeo e serviços, consideradas as
atuais condições do parque instalado de receptores no Brasil; e, XII- incentivar a indústria regional e local na produção de instru-
mentos e serviços digitais.

79
“A democracia não é um modelo ou uma estrutura acabada;
é algo que constantemente deve ser sonhado, imaginado ou recriado.
A busca de ser livre, igual, diverso, solidário e participante é um princípio
que deve fermentar nosso constante sonhar e imaginar
a democracia como guia de intervenção cidadã.”
Betinho

Um outro conceito para a técnica


Os artistas modernistas, em O que estamos afirmando é atenção do verdadeiro negócio
particular os futuristas, foram os que não existe técnica neutra e implicado na mudança que irá
primeiros a perceber as mu- que cada dispositivo sociotécnico ocorrer, a partir das possibilida-
danças culturais operadas pela colocado à disposição de uma des de convergência tecnológica
proliferação de fábricas, má- sociedade depende da compreen- permitidas pela televisão digital.
quinas a vapor, meios de loco- são e domínio conceitual de sua A meu ver, o maior problema
moção e de entretenimento, no natureza, para ser direcionado ao do debate da TV digital no Brasil
início do século XX. Essa per- bem comum. Como afirma é a persistência da visão do mo-
cepção ficou registrada nas obras MacLuhan, pouco importa o que delo analógico, cuja estrutura
literárias, artes plásticas, música, a luz elétrica ilumina, se um vertical e centralizada, de um
teatro, cinema e fotografia, que campo de futebol ou uma cirur- para todos, ainda orienta as aná-
incorporavam, na linguagem, os gia, mas sim como ela reconfigu- lises e perspectivas mercadológi-
novos modos de ser e ver do ra o espaço e as formas de inte- cas, viciando boa parte dos rela-
homem urbano. Um século de- ração decorrentes do evento em tórios que servirão de medida
pois, na fronteira de outra radical questão. Portanto, a insistência para a tomada de decisão. O mo-
mudança nos hábitos de vida, em pautar a discussão sobre a delo mais correto para se pensar a
podemos pensar que, se é possí- televisão digital apenas a partir mudança em questão é o da rede
vel aprender com a visão históri- da melhoria da qualidade de seus Internet, que é horizontal, descen-
ca dos acontecimentos, é preciso produtos, do som e da imagem, tralizada e cujo direcionamento da
garantir que a forma de circu- assemelha-se à artimanha do la- informação é de todos para todos.
lação e de acesso à informação, drão que oferece a bola de carne Digo isso para defender a neces-
permitida pelos novos meios, envenenada para distrair o cão de sidade de se pensar o modelo de
não sirva apenas para ampliar as guarda, antes de invadir a casa. implantação de uma nova tec-
diferenças e injustiças crescentes Segundo essa metáfora, proposta nologia a partir de suas próprias
nas sociedades ditas avançadas e pelo mesmo autor, a bola de características e não das caracte-
em desenvolvimento. carne é o conteúdo para distrair a rísticas da tecnologia precedente.

Qual é o negócio da TV digital


Temos então duas perspecti- cinco redes abertas de televisão, para a informação e o entreteni-
vas conflitantes para a definição que disputam, de forma desigual, mento. Por isso, a Associação
do novo modelo. De um lado, um o mercado publicitário que sus- Brasileira de Emissoras de Rádio
negócio gigantesco, liderado por tenta as programações voltadas e Televisão (Abert) quer um

80
sistema que permita a alta de- produtos anunciados estarão pre- nos colocar em acordo com
finição, garantindo que o conteú- sentes em todas as imagens, nas relação ao que é mais evidente
do possa ter melhor recepção, telenovelas, no telejornal ou, no uso da internet e que diz
mesmo que isso signifique a como já é corrente, nos progra- respeito ao acesso a ferramentas
aquisição de aparelhos hoje ao mas de auditório, à distância de mais simples, melhoria da comu-
custo de US$500. A briga fica apenas um clique na tela. nicação e ampliação de domínio
então pela faixa do espectro que Seria útil visitar algumas for- técnico, que se traduz, a meu
será utilizada só para um canal mas de relacionamento, criação e ver, num desejo ilimitado de
de HDTV (televisão de alta defi- circulação de informação que a compartilhamento. Os copyleft,
nição) ou para quatro canais, que internet possibilita e que podem Wikipedia, Creative Commons e a
poderiam ser veiculados no modo ser potencializadas pela TV digi- filosofia do software livre, bem
standard SDTV, que ocupa ape- tal, quando forem solucionados como a multiplicação exponen-
nas um quarto dessa mesma faixa. os desafios tecnológicos de cria- cial de blogs são apenas alguns
Dentro da perspectiva que ção de canais de retorno, prove- exemplos de reversão da lógica
estou privilegiando, tais proble- dores e processadores das pági- do mercado na luta pelo domínio
mas são falsos. O verdadeiro nas de HTML. Essa nova mídia, da internet.
negócio da TV digital é a con- que não será nem televisão nem Por isso, insisto em afirmar
vergência tecnológica que terá a internet, teoricamente permitirá que o verdadeiro mercado da TV
interatividade e a reversibilidade uma ampliação sem precedentes digital é a ampliação do acesso à
como autênticos diferenciais. Ao de comunidades virtuais, não comunicação. Um fenômeno
ser empacotada, toda informação apenas daquelas alfabetizadas na correlato que pode ser observa-
poderá ser utilizada da maneira linearidade do texto escrito, mas do, já que se reproduz mais entre
como hoje funciona a internet, possivelmente uma outra, que os desconectados, é o da rádio
baseada no espaço e não no possa emergir de novas lingua- comunitária. Hoje, é praticamen-
tempo, ampliando a autonomia gens, que se utilizam de sons, te impossível precisar o número
do espectador, transformado em imagens e da tatibilidade. O es- de rádios de baixa potência que
usuário, que poderá utilizar as pantoso sucesso da televisão bra- estão no ar, apesar da repressão
ofertas a partir de suas próprias sileira, presente em 99% dos mu- dos órgãos fiscalizadores. Mais
demandas e não da prisão da nicípios e domicílios brasileiros, do que uma desobediência, esse
grade de programação, que orde- e seus milhões de telespectadores fato sinaliza claramente que a
na, ainda hoje, a vida de boa antenados nos acontecimentos oferta e a qualidade da comuni-
parte da população brasileira. reais e fictícios, que vão ao ar de cação gerada pelas emissoras de
Essa interação está prevista nos sul a norte do país, se deve, em rádio e pelas grandes redes de
estudos que visam assegurar o grande medida, à nossa tradição televisão não suprem totalmente
uso de merchandising para a oral, que se mantém viva, a os anseios de comunicação de
venda direta, já que será impos- despeito da pasteurização sofrida parte da população. Ao lado
sível manter a funcionalidade nas interpretações generalistas disso, as iniciativas de inclusão
dos atuais intervalos comerciais. que ela veicula. digital, que hoje se multiplicam
Ou seja, mesmo quando o recur- O aspecto fático de canal de no país por meio de acesso a
so é novo, o pensamento sobre o mão dupla, ensejado pela rever- telecentros, demonstram o quan-
seu uso é conservador. Para man- sibilidade da TV digital, permi- to é necessário e desejável o
ter o negócio da televisão lucrati- tirá um desdobramento de usos contato com essas tecnologias
vo, será preciso transformá-la que hoje só podem ser timida- por uma população marginali-
num imenso shoptime, no qual os mente imaginados. Mas podemos zada.

81
Novas regras para um novo meio
Ao afirmar que a televisão pelo anacrônico Código Nacional marco regulatório, cuja principal
não se transforma quando digita- das Telecomunicações de 1962. função seria garantir a inclusão
lizada, mas apenas muda a forma Apesar de revogado pela Lei Geral social, que não virá em conse-
de veiculação do seu conteúdo, das Telecomunicações de 1997, qüência do privilégio que histori-
os atuais concessionários da tele- ele se manteve válido apenas para camente tem sido conferido aos
visão comercial no Brasil querem a radiodifusão de som e imagem, exploradores comerciais do ser-
duas coisas: que as concessões se por meio de uma estranha emen- viço público de radiodifusão so-
mantenham com as mesmas ca- da constitucional (nº 8), que se- nora e de sons e imagens.
racterísticas da época em que parou radiodifusão e telecomuni- Mais do que definir se o pa-
foram outorgadas para a TV ana- cações. Por pressão dos radiodi- drão de digitalização que interes-
lógica (6 MHz e faixa de segu- fusores, também a Anatel, agên- sa ao país é o japonês ou o eu-
rança) e que não se construa um cia reguladora do setor, não tem ropeu, acoplado ou não a módu-
novo marco regulatório. Ora, jurisdição sobre as concessões, los nacionais aqui e acolá, o
essa seria a grande oportunidade limitando-se a definir o plano bá- SBTVD poderia criar as condi-
para rever direitos e deveres da sico de utilização das freqüên- ções para que essa mudança be-
exploração comercial, garantir cias. Essa questão primordial está neficiasse todos os brasileiros,
melhores condições de financia- sendo resolvida sem qualquer especialmente aqueles que estão
mento para as emissoras públi- debate, como se se tratasse de um isolados dos grandes centros, dis-
cas, estabelecer regras viáveis pa- aspecto burocrático. Pelo plano tantes dos principais serviços do
ra a ocupação da baixa potência básico de distribuição dos canais Estado e sem acesso à informa-
de rádio e televisão, definir re- digitais 2, as emissoras consegui- ção que possa permitir o exercí-
gras que controlem as possibili- ram garantir aquilo que desejavam, cio pleno da cidadania, como
dades de comunicação e novos ou seja, tudo ficará como está. figurar em cadastros que garan-
serviços permitidos pela conver- É incompreensível que não se tam a sua existência.
gência tecnológica, tanto públi- tenha garantido, na verba de R$ Um novo marco regulatório
cos quanto privados. 65 milhões arrecadados pelo permitiria a definição de serviços
Esse último ponto é nevrálgi- Funttel 3 e alocados para o que prioritariamente devem ser
co, já que as atuais concessões SBTVD, a criação de um grupo prestados pelo Estado, para cum-
são apenas para a produção e de especialistas nas áreas de di- prir preceitos constitucionais que
emissão de imagem e som. reito, comunicação, educação, in- determinam que é sua obrigação
Qualquer outro tipo de serviço formática e engenharias, para a estabelecer políticas capazes de
não está previsto nem autorizado elaboração da proposta de um diminuir as desigualdades 4.

Política pública de comunicação não é censura


Há uma unanimidade em ção da Rede Globo de Televisão, que diz respeito à produção de
relação à qualidade da televisão que se situa entre as melhores conteúdo, apesar da constante
brasileira, particularmente a produ- redes de TV de todo o mundo. No redução de público, ela se man-

2 CF. Site Anatel. http://www.anatel.gov.br/biblioteca/templates/leis/leis.asp


3 Chamada Pública MC/MCT/Finep/Funttel - 01/2004
4 Art. 3º, inciso III - "Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais".

82
tém em níveis sempre superiores e individuais. A ausência de ins- políticos, muitas vezes coinci-
à audiência (jamais inferiores a trumentos de controle social dentes.
30%) das redes norte-americanas desses meios é uma herança de A meu ver, a televisão digital,
e de qualquer outra televisão, em governos autoritários e não do por suas potencialidades inclusi-
qualquer parte do mundo onde processo de democratização. vas, proporciona apropriação
haja algum tipo de concorrência. A sociedade civil no Brasil para todos, pelo menos teorica-
Esses evidentes sinais de prefe- vem se manifestando há duas mente, já que amplia a utilização
rência e concentração de audiên- décadas, desde a Assembléia do espectro eletromagnético;
cia são denotativos de um atraso, Constituinte 6 (1986-1988), pro- permite a descentralização das
quando se levam em conta os sis- pondo e politizando o debate operações de programação e
temas de regulação e controle da sobre a comunicação, com vistas transmissão, multiplicando os
mídia eletrônica e seus cruza- a estabelecer regras que possam concessionários; promove o de-
mentos com a mídia impressa, ampliar o direito à comunicação, senvolvimento de pesquisas nas
em países desenvolvidos. que não se limita ao acesso à in- universidades e a criação de pro-
Nesse particular, figuramos formação e ao entretenimento, dutos para um mercado nacional.
entre os piores modelos de regu- amplamente suprido pelas redes Sua possível convergência com a
lação existentes, juntamente com de televisão e emissoras de rádio rede Internet propiciará, em alguns
Portugal, Espanha, Itália e Méxi- brasileiras. anos, um novo modelo de comu-
co, que tendem, como o Brasil, a Uma política pública de mí- nicação, não apenas plenamente
uma fraca regulação que possa dia eletrônica e digital, já ensaia- interativo, mas reversível, com o
limitar a concentração e cruza- da em inúmeros documentos surgimento de novas mídias e
mento da propriedade de mídia engavetados pelo Ministério das serviços, unindo o telefone, a TV,
nesses países. 5 Esse traço reforça Comunicações 7, esbarra num úni- o rádio, o CD, o DVD, a tele-
uma perspectiva liberal e se justi- co e temido instrumento – a par- ducação, a telemedicina, o acesso
fica sobretudo pelo princípio da ticipação dos interessados, o ao governo eletrônico, a banco de
liberdade de expressão. Parado- debate público e a transparência dados, a bibliotecas virtuais e,
xalmente, se há algo em comum em processos deliberativos des- principalmente, à conexão entre
entre quase todos os países cita- ses agenciamentos sociotécnicos, um número ilimitado de pessoas
dos é o fato de terem passado por historicamente submetidos aos que querem compartilhar o que
longos períodos de ditadura e cer- poderosos lobbies dos interesses sabem e aprender juntas aquilo
ceamento de liberdades políticas do mercado e dos interesses que ainda não conhecemos.

Referências bibliográficas
MCLUHAN, Marshall (1969). O meio é a mensagem. IN: Os meios como extensões do homem. São Paulo, Cultrix, p.21-37.
MOTA, M.R. Proposições de políticas públicas de inclusão social através da plataforma de TV Digital Interativa. FUN-
DEP/CPqD. Outubro de 2004.
QUERINO, Ana Carolina (2002). Legislação de radiodifusão e democracia: uma perspectiva comparada. In: Comunicação
e política. Vol. IX, nº 2, nova série, maio-agosto, 2002. p.152-189.

5 CF. a análise feita por QUERINO (2002).


6 MOTA, M.R.P. Televisão Pública, a democracia no ar. Dissertação de mestrado, FAE/UFMG, 1993. 200p.
7 As leis de imprensa e eletrônica de comunicação de massas devem somar mais de 30 versões. A última consulta pública foi durante
a gestão de Pimenta da Veiga no MiniCom, retirada após receber um sem número de críticas.

83
Lyderwan Santos

Gestão Eletrônica de Documentos:


a convergência digital da informação
Nelson Spangler
Analista consultor em tecnologia da informação da Prodemge. Graduado em
Engenharia Elétrica, com especialização em Engenharia de Sistemas pela
PUC - RJ. Mestre em "Sistemas de Gestão - Informática e Administração
Pública" pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro e Departa-
mento da Ciência da Computação da UFMG. MBA em Gestão Empresarial
pela Fundação Getúlio Vargas. Possui trabalhos em publicações técnicas e
apresentados em congressos de informática no Brasil e exterior.

RESUMO
O Gerenciamento Eletrônico de Documentos (GED), embora raramente foca-
lizado quando se trata de convergência digital, representa uma das primeiras
iniciativas bem sucedidas de integração da informação analógica e da infor-
mação digital. Baseado nas ciências da informação e da computação, o GED,
vem agregando, ano a ano, novas tecnologias que o tornam uma das mais
profícuas ferramentas para acesso e recuperação de informações através de
redes de computadores, principalmente a internet.
As novas premissas de mobilidade da convergência digital estão agregando
novas funcionalidades ao GED e estendendo sua área de atuação.

Convergência digital
A expressão “convergência di- - Fusão de vários nichos massas e entretenimento.
gital” está em voga nos dias atuais. tecnológicos através de - Tendência tecnológica pela
É tema de simpósios, seminários, dispositivos que trocam qual dispositivos digitais
discussões, painéis, livros e arti- informações em formato como computadores, tele-
gos. Convergência digital reflete digital. Estes nichos são, visores, telefones móveis e
integração e interação de tecnolo- principalmente: computa- até geladeiras e fornos de
gias, como atestam as definições ção, telecomunicação, ele- microondas estão conver-
abaixo, disponíveis na internet: trônica, comunicação de gindo para aplicações

84
multiuso, geralmente atra- mento portátil, robótica, nano- serviços e mercados sobre uma
vés da internet. tecnologia... base tecnológica de comunica-
Trata-se, de fato, de uma De maneira mais abrangente, ção, baseada em tecnologia da
clara tendência tecnológica e citando o professor Eduardo informação".
industrial, representada por temas Morgado, da Universidade Esta- Um mote da convergência
como redes sem fio, televisão dual de São Paulo (Unesp): digital é a convergência da infor-
digital de alta resolução, servi- "Convergência digital é a macro- mação analógica para a informa-
dores de mídia, voz sobre IP, casa tendência tecnológica que marca ção digital. Ou a convivência de
digital, carro digital, entreteni- a integração de dispositivos, ambas.

Documento analógico e digital


O documento é comumente século XX, surgiu o microfilme permitiu que em poucas décadas
definido como a unidade de re- como outro tipo de suporte uti- a informação digital ou o docu-
gistro de informações indepen- lizado em larga escala para arma- mento em suporte digital ga-
dentemente de seu suporte. Su- zenamento massivo de infor- nhassem uma série de vantagens
porte é o meio em que a infor- mações. Ambos, entretanto, papel competitivas sobre a informação
mação é registrada. No correr dos e microfilme, continuam, como os em meio analógico. A evolução
séculos, desde que o homem anteriormente citados, sendo teórica e prática de disciplinas
aprendeu a preservar sua história suportes analógicos. como a multimídia, as redes de
através dos símbolos e da escrita, A ciência e tecnologia da comunicação, o processamento
tem sido utilizado o suporte físi- computação introduziram, a partir digital de imagens, os modelos de
co ou analógico para represen- da década de 40, os computadores bancos de dados, o reconheci-
tação da informação: pedras, ma- e com eles a informação digital, mento de padrões, as técnicas
deira, placas de argila, pergami- representada por arquivos consti- de compactação e as arquiteturas
nho, papiro, etc. Nos últimos tuídos por cadeias de símbolos de computadores, permitiu que
séculos, principalmente após a binários (zero e um), formando se tornassem tecnologicamente
descoberta de Gutemberg no uma unidade interpretável por um disponíveis alternativas de recu-
século XV, o papel, produzido em software ou programa. Surge um peração e acesso, on-line e con-
larga escala, é o principal suporte contraponto irreversível ao domí- corrente, com volumes de in-
para a preservação da história e nio da informação analógica. formações inimagináveis para o
do conhecimento. Muito poste- A rápida evolução tecnológi- suporte analógico. E com custos
riormente, na primeira metade do ca, que caracteriza a informática, cada vez mais exeqüíveis.

A tecnologia GED
O documento sempre estará das empresas e das pessoas. Ain- considerando cada vez mais enfa-
atrelado ao compartilhamento do da hoje, é gerada e armazenada ticamente a alternativa de trans-
conhecimento, à tomada de deci- imensa quantidade de documentos formação do documento analógi-
sões, à concretização de negó- em papel ou microfilme. Devido co em documento digital.
cios, aos processos de compra e a isso, as empresas estão sempre A Gestão Eletrônica de Docu-
venda, à jurisprudência e outras criando estratégias para gerenciá- mentos ou Gerência Eletrônica de
importantes ações do dia-a-dia los de forma eficiente e rápida, Documentos ou, abreviadamente,

85
GED, é uma disciplina que une a transposição do documen- A par da grande evolução tec-
ciência da informação e a ciência to analógico (papel, micro- nológica que torna cada vez
da computação, sendo composta filme) para o meio digital. mais eficaz e barato o desen-
por um conjunto de ferramentas Esse tipo de serviço é ge- volvimento de soluções GED,
que permite a convergência e a ralmente usado para docu- uma série de benefícios incentiva
administração de documentos mentos prontos, estáveis, sua adoção:
analógicos e digitais através do que não sofrerão altera- - Alta velocidade e precisão
uso de computadores. Tais docu- ções, como por ex.: docu- na localização de documen-
mentos podem ser das mais va- mentos fiscais, leis e tos, através de ilimitadas
riadas origens e mídias, como decretos, documentos his- possibilidades para inde-
papel, microfilme, arquivos de tóricos, e que necessitam xação.
som e imagem e arquivos, já ser recuperados e exibidos - Integração com a web, uni-
criados ou convertidos em forma- com rapidez e freqüência. versalizando o acesso si-
to digital. A literatura técnica - Document Management multâneo e concorrente.
define também a Gerência de (DM): trata do controle do - Gerenciamento automati-
Documentos Eletrônicos (GDE), fluxo do documento desde zado de processos, aumen-
como um subconjunto do GED, a sua criação até o descarte tando a produtividade.
que trata exclusivamente de do- ou arquivamento definiti- - Auxílio no processo de to-
cumentos no formato digital. vo. Está naturalmente asso- mada de decisões.
Tecnologias, como workflow, ciado a processos de work- - Melhor aproveitamento de
document imaging, document flow. espaço físico.
management e outras, foram - Engineering Document Ma- - Integração com outros sis-
sendo agregadas ao GED na nagement System (EDMS): temas e tecnologias.
medida em que, com o passar do trata-se do GED aplicado - Aproveitamento da base de
tempo, surgiu a necessidade de ao gerenciamento de docu- informática já instalada
ferramentas mais completas para mentos técnicos, como ma- nas empresas.
o gerenciamento de documentos. pas, plantas, projetos, etc. - Maior agilidade nas transa-
Para implementar um sistema de Em geral, são documentos ções entre empresas.
GED é necessário unir novos de grandes dimensões físi- - Redução de custos com
recursos aos já existentes nos cas. cópias, já que há disponi-
tradicionais sistemas de infor- - Enterprise Report Mana- bilidade dos documentos
mação. gement (ERM): tem por em rede.
Existem várias nomencla- objetivo manejar relatórios O GED pode ser aplicado em
turas e divisões de serviços de oriundos de sistemas lega- qualquer atividade que trabalha
GED na literatura. Citam-se a dos, normalmente de am- com documentos, ou seja, em to-
seguir alguns dos mais referen- biente mainframe. das as áreas de atuação humana:
ciados pelo mercado: Cada um desses tipos de gestão de pessoas; gestão admi-
- Document Imaging ou Ge- serviço envolve software, equipa- nistrativa, financeira e contábil;
renciamento de Imagens mentos, funcionalidades e conhe- medicina; engenharia, projetos;
de Documentos (DI): trata cimentos específicos. geoprocessamento; arquivologia,
do processamento, arqui- Por que as empresas estão, nos museologia, biblioteconomia,
vamento, indexação e re- últimos anos, se voltando para o história; jornalismo; jurispru-
cuperação de documentos GED, para a substituição do dência, legislação, cartórios;
digitalizados. Considera a suporte analógico pelo digital? marketing, vendas, propaganda;

86
seguridade; educação, capacita- confortável ler um livro impresso equipamentos portáteis de uso
ção, treinamento; finanças; servi- do que através de uma tela de pessoal e doméstico, capazes de
ços públicos. monitor), e pela base industrial acessar a miríade de informações
A rigor, já existem capaci- instalada. disponíveis na internet, eliminam
tação tecnológica e viabilidade A burocracia instituída du- muitas das restrições de descon-
econômica para se substituir o rante séculos, a cultura cartorial, forto ainda associadas ao suporte
documento analógico pelo digital. a existência de toda uma juris- digital e permitem a difusão
O jornal, a revista, o livro já são prudência baseada no papel são irrestrita da informação.
confrontados pelas publicações outros fatores para a sobrevida Um outro grande benefício do
digitais, mais ágeis e dinâmicas, a dos suportes analógicos da infor- GED é que a conversão do analó-
biblioteca tradicional pelas biblio- mação. O valor legal do docu- gico para o digital pode ser feita
tecas digitais. Mesmo arquivos mento digital foi sempre um de modo gradual, mantendo os
públicos e privados, que tratam entrave à proliferação do uso do dois suportes pelo tempo neces-
com acervos permanentes, estão documento digital no Brasil. sário para se alcançar uma con-
aderindo ao documento digital. Estas barreiras estão sendo versão definitiva. O suporte ana-
A força dos suportes analógi- progressivamente derrubadas. lógico (papel e microfilme) pode
cos, principalmente o papel, se A convergência digital agre- ser reservado para fins de pre-
sustenta pela sua tradição, pela ga novas facilidades ao GED. servação e backup, encarregando-
sua praticidade em algumas A mobilidade e a abrangência se o suporte digital pela pesquisa
situações (é mais cômodo e das redes sem fio interligando e acesso imediato à informação.

GED e o mercado nacional


O Gerenciamento Eletrônico soluções com custo decrescente, acervos documentais analógicos.
de Documentos começou a ser aliada ao crescimento da deman- Aproximadamente 150 pro-
utilizado no Brasil na década de da por soluções capazes de dutos, nacionais e estrangeiros,
80. Seu uso vem crescendo, prin- fornecer informações confiáveis segundo o Cenadem, estão dis-
cipalmente a partir do final da a qualquer hora e em qualquer lu- poníveis atualmente no mercado
década seguinte. Trata-se de um gar, coloca o GED como uma li- brasileiro de GED.
mercado atualmente em franca ex- nha de negócio promissora para No início, década de 80, a
pansão, que está longe de demons- as empresas prestadoras de servi- totalidade dos produtos era es-
trar esgotamento ou saturação. ços em tecnologia da informação. trangeira. Atualmente, apesar da
Segundo pesquisa do Centro O GED é suportado por um ainda forte presença do software
Nacional de Desenvolvimento do software, um sistema capaz de importado, é considerável o nú-
Gerenciamento da Informação aumentar a produtividade das mero de opções de produtos
(Cenadem), após o século XX a várias etapas do processo, envol- nacionais. Estes últimos têm a
demanda por serviços e produtos vendo documentos analógicos e vantagem de serem mais facil-
de GED vem crescendo a taxas digitais: digitalização, controle mente customizáveis para as nos-
anuais próximas de 50%. Apesar de qualidade, edição, armazena- sas necessidades, podendo evo-
disso, trata-se de uma tecnologia mento, indexação, pesquisa e luir com as necessidades e os
ainda pouco disseminada no mer- recuperação. Alguns softwares, objetivos do cliente. O software
cado nacional. abarcando a Gestão Documental, nacional contorna a barreira do
A constante evolução tecno- também dão suporte às etapas de idioma e permite uma maior fa-
lógica, gerando mais e melhores classificação e organização de cilidade de treinamento e suporte.

87
Possui boa qualidade e facilidade qualidade, têm, geralmente, custo dificuldade de customização e de
de treinamento. Os softwares alto para os padrões nacionais, acesso ao fabricante para suporte
importados, muitos de altíssima interface restrita ao idioma inglês, e treinamento.

O GED e a administração pública


A administração pública no No decorrer dos anos, os espaço físico para armazenamen-
Brasil ainda funciona predomi- órgãos públicos municipais, esta- to. Os métodos de classificação e
nantemente através da utilização duais e federais vêm gerando e indexação para a mídia analógica
de documentos em papel. Os acumulando dezenas de milhões de são restritos e não suportam a
processos relativos à gestão de documentos em mídia analógica demanda de informações rápidas
pessoal, controle da máquina (papel e microfilme). Com este e geograficamente distribuídas,
pública, execução e arrecadação aumento progressivo e contínuo exigidas nos processos atuais de
financeira, tramitação de proces- da massa documental analógica gestão. Os acervos analógicos
sos, elaboração de atos e normas, evidenciam-se as suas maiores ainda podem ser relevantes do
formulação de políticas públicas, deficiências: dificuldade de orga- ponto de vista legal e probatório e
educação, segurança, saúde e nização, de indexação dos docu- como backup, devido à sua dura-
muitos outros, baseiam-se na ge- mentos e acesso às informações bilidade e custo, mas são insufi-
ração, tramitação, controle e nos locais e momentos necessá- cientes quanto ao acesso e dis-
guarda de documentos. rios, e a necessidade de grande tribuição.

O aspecto legal do documento digital


Para os documentos produzi- de uma série de resoluções sobre estabelecida no Brasil. Projetos
dos em papel já está disciplinado, a gestão documental pública. A de leis apresentados no Con-
por vasta legislação, seu valor Constituição Federal de 1988 cita gresso Nacional não lograram
legal e probatório. Os documen- a responsabilidade do Estado em êxito, principalmente pelo temor
tos gerados pelo poder público proteger e dar acesso à documen- da adulteração de um documento
são regulados por legislação que tação pública, salvo em casos digital através das técnicas de
disciplina sua produção, armaze- específicos. computação.
namento e descarte. A lei federal A microfilmagem teve seu Nos últimos anos, entretanto,
8.159 de 08/01/1991 dispõe sobre valor legal estabelecido pela lei o cenário se altera: as tecnologias
a política nacional de arquivos federal 5.433 de 08/05/1968 e de assinatura e certificação
públicos, define a gestão docu- tem sido por este e outros fatores digital, que agregam veracidade e
mental, a competência para rea- (como o custo e longevidade) lar- confiabilidade ao documento
lizá-la e trata da produção e des- gamente utilizada como alterna- digital, vêm sendo adotadas
carte de documentos públicos. tiva ou complemento ao docu- pelo poder público, primeira-
Em junho de 1994, foi criado o mento em papel, apesar de suas mente no governo federal e
Conselho Nacional de Arquivos claras deficiências com relação à depois nos Estados e municípios.
(Conarq), decreto 1.173, que trata disponibilidade, pesquisa e acesso. Essa prática vem aumentando a
dos documentos produzidos por A definição da legalidade do utilização do documento digital
órgãos públicos. Esse Conselho, documento digitalizado não foi, na administração pública e no
ao longo dos anos, vem tratando durante muitos anos, claramente setor privado.

88
Com a criação da Infra- de 24/08/2001, estabeleceu-se ficadoras foram criadas e se jun-
estrutura de Chaves Públicas a legalidade do documento certi- taram ao ICP Brasil, constituindo
Brasileira (ICP Brasil), através ficado de forma digital. Uma uma cadeia que abrange todo o
da medida provisória 2.200 série de Autoridades Certi- país.

O GED como negócio para a Prodemge


A Prodemge tem na adminis- e certificação digital significa mento, apresentando custos
tração pública mineira uma série novas e reais possibilidades de progressivamente baixos.
de clientes em que o GED se apli- negócio e vai ao encontro das - Na dificuldade de acesso e
ca e se faz necessário. Alguns ór- necessidades de muitos clientes. recuperação de documen-
gãos já demandam soluções. As oportunidades inserem-se: tos em grandes acervos em
Trata-se de oportunidade para - No aumento da produção e papel e microfilme.
aumentar o portfólio da Pro- arquivamento de registros - Na economia de escala
demge com produtos necessários de informação analógicos. representada pela digitali-
ao poder público. - Na iminência de aprovação zação de grandes volumes
A Prodemge foi designada de projeto lei que esta- de documentos.
pelo governo do Estado como a beleça definitivamente o - No alto nível de exigência
autoridade certificadora no âm- valor legal do documento da sociedade, resultante
bito do poder público, função que digital. das facilidades na utiliza-
passou a exercer plenamente a - No surgimento de equipa- ção e visualização da in-
partir de dezembro de 2004. O mentos de digitalização, formação, principalmente
casamento entre GED, workflow processamento e armazena- através da web.

Referências
___ Guia de software para GED e ECM. São Paulo: Cenadem, 2005.
Baldam R. et al. GED - Gerenciamento eletrônico de documentos. São Paulo: Érica, 200p.
Koch, K. K. Gerenciamento eletrônico de documentos - GED - Conceitos, tecnologias e considerações gerais. São Paulo:
Cenadem, 150 p.
Siqueira, E. Dez tendências da convergência digital. Disponível em novembro/2005 no sítio http://www.estadao.
com.br/tecnologia/coluna/ethevaldo/2005/jan/29/6.htm
Zuffo, João Antônio. A convergência digital e a interpenetração de mercados nas Tecnologias da Informação.

89
Divulgação

Formação profissional em tempos de


convergência tecnológica
José Geraldo de Souza
Professor. Mestre em Educação pela PUC-Campinas e Doutor em Educação
pela Unicamp. Pró-diretor Acadêmico do Instituto Nacional de Telecomunica-
ções (Inatel), em Santa Rita do Sapucaí (MG). Professor no Departamento
de Física e Matemática do Inatel e no Instituto Superior de Educação do
Educandário Santa-ritense.

RESUMO
Os cenários sociais e os ambientes de produção de tecnologias oferecem sem-
pre desafios à concepção e estruturação da formação profissional, especial-
mente na área tecnológica. Neste texto, são expostas reflexões e considerações
sobre a formação profissional tecnológica, nos contextos de convergência
tecnológica, responsabilidade social e diretrizes curriculares nacionais. Relata-
se um projeto de educação tecnológica estruturado sob as referências desses
contextos.

Palavras-chave: convergência tecnológica, responsabilidade social,


educação tecnológica.

Introdução
É uma questão de sobrevi- produção de tecnologias nos publicadas pelo Ministério da
vência as instituições de ensino quais emergem conceitos como Educação em 2002, já apontam
superior perceberem e entende- ética planetária, responsabilidade mudanças estruturais nos currícu-
rem as transformações estruturais social e convergência tecnológi- los dos cursos de Engenharia,
e educacionais na sociedade mun- ca, obrigam à definição de novos incluindo-se aí o ensino por com-
dial e brasileira, para repensarem parâmetros e orientações para a petências e habilidades.
e atualizarem seus projetos políti- formação profissional na área Este texto oferece à discussão
co-pedagógicos, para atender as tecnológica. um conjunto de reflexões e con-
demandas sociais presentes. As Diretrizes Curriculares siderações acerca da formação
Os cenários sociais e edu- Nacionais para o Curso de profissional do engenheiro, nos
cacionais e os ambientes de Graduação em Engenharia [1], c o n t e x t o s d a c o n v e rg ê n c i a

90
tecnológica e da responsabilidade pensou-se em subvalorizar outros da responsabilidade social. Nesse
social, pessoal e institucional. A contextos influentes na educação sentido, o texto relata uma expe-
escolha desses dois contextos tecnológica. riência de organização curricular
alicerça-se na relevância do seu A questão que se coloca é o que se orienta por parâmetros que
conteúdo para a discussão da for- que se tem e o que esperar da promovem interessante aproxi-
mação profissional na área tec- educação tecnológica nos contex- mação entre o modelo de edu-
nológica. Em nenhum momento tos da convergência tecnológica e cação e aqueles contextos sociais.

Convergência tecnológica e responsabilidade social


O aumento significativo de população em locais de trabalho, do cidadão e do profissional para
conteúdos produzidos e distribuí- escolas, universidades e telecen- os contextos sociais presentes
dos em formato digital é respon- tros [2]. (operar, intervir e decidir em
sável pela invasão de novos No Brasil e em outras partes ambientes de negócios pactuados
produtos e serviços de telecomu- do planeta também, a convergên- pela competitividade, pela ino-
nicações e comunicação social na cia tecnológica é um fato para vação, pela cooperação em rede,
vida do cidadão comum, afirmam uma pequena parcela da popu- pela qualidade dos serviços,
atentos observadores das trans- lação. Esses números trazem pelo melhor preço). Por outro
formações sociais provocadas junto com a "boa nova" a cons- lado, é urgente que se reflita nos
pelo desenvolvimento tecnológi- tatação: para mais de 70% da ambientes acadêmicos e nos
co. Serviços e produtos de telefo- população brasileira a convergên- laboratórios de produção de tec-
nia, de vídeo, de música e de cia tecnológica é (e por quanto nologias sobre a utilização dos
internet são providos por uma tempo continuará a ser?) uma aparatos tecnológicos, conver-
mesma rede de telecomunica- ficção. Aliás, para boa parte des- gentes ou isolados, não apenas
ções. Aí está a convergência tec- ses 70%, o computador ainda é para o mercado, mas também
nológica transformando a vida uma ficção. A responsabilidade para o desenvolvimento social
dos cidadãos, criando novos social institucional não pode das comunidades e do país, o
padrões de relações sociais, igno- ignorar essa realidade. Ao con- que exige inclusão sócio-eco-
rando fronteiras entre nações e trário, sem deixar de incorporar nômica.
desenhando novos modelos de as facilidades da convergência Que esperança a academia é
negócios entre as empresas e de tecnológica aos seus procedimen- capaz (ainda) de produzir para a
relações de trabalho. tos e programas de estudo, a população excluída, digital e
A convergência tecnológica instituição de educação tecnoló- socialmente? Que pensamentos e
bate à nossa porta, já está dentro gica, principalmente, não pode atitudes a academia pode provo-
do quarto dos nossos filhos e deixar de refletir e agir sobre essa car nos seus freqüentadores pri-
netos, se eles estiverem entre os realidade, considerando as possi- vilegiados em relação à exclusão
privilegiados 14% da população bilidades da inclusão social dos digital da população? Não se
brasileira que têm acesso a com- cidadãos pela utilização dos encontra aqui, nessa produção de
putadores em casa, segundo recursos da tecnologia. pensamentos e atitudes, uma das
dados oficiais do governo federal A responsabilidade educa- missões da universidade? Não
em 2005. Está disponível cional da instituição de ensino seria essa a sua função mais
também para outros 12% da impõe que se realize a formação nobre?

91
Educação tecnológica: apenas saber fazer?
A educação das pessoas é O saber fazer, em qualquer bem? Não há que se produzir
uma ação humana para o futuro. modalidade de educação, inclu- mais saberes sem descuidar dos
Educa-se agora, realizam-se no sive na tecnológica, é competên- fazeres?
presente as ações educativas e os cia a ser desenvolvida juntamente Especificamente, a Educação
resultados são esperados no com outras que conduzam à Tecnológica não pode ignorar e
futuro (muito próximo, próximo nem subestimar os contextos tec-
ou distante). Espera-se que os ...capacidade de pensar e nológicos e sociais que têm
resultados e os efeitos dessas refletir sobre a pluralidade influência direta sobre seus
ações permaneçam e se desen- dos problemas que enfrenta a propósitos e procedimentos. Isso
volvam no futuro, estimulando humanidade, diante dos dife- comporta um rol de ações de
mudanças e transformações nas rentes contextos culturais acompanhamento, avaliação e
pessoas, nos ambientes onde vi- de uma sociedade que se adequação que passam pela con-
vem as pessoas e nas culturas por modifica e se ressignifica cepção de projetos político-
elas produzidas. A educação dá continuamente [7]. pedagógicos, pela arquitetura de
significação à sociedade e produz currículos, pela formação dos
pertinência do ser humano ao seu A formação profissional é docentes, pela gestão acadêmica,
grupo social restrito ou amplo. aparato educacional para o ho- entre outros, cujos resultados
Essas considerações iniciais mem intervir nos contextos so- são, em determinado momento,
são apresentadas a propósito da ciais a que está ligado, munido de a educação de profissionais
reflexão sobre a educação tec- conteúdos e atitudes (habilidades para o futuro (muito próximo,
nológica ou formação profissio- e competências) em benefício do próximo ou distante, repetimos).
nal para as áreas tecnológicas, no homem. As tecnologias, novas e Se essa educação é fiel aos obje-
ensino superior, especificamente. antigas, são recursos poderosos tivos maiores da educação do
Nesse caso, a palavra de do homem para o homem ou con- homem, se a escola assume a
ordem é o desenvolvimento de tra o homem; a convergência responsabilidade por uma edu-
competências para a vida profis- tecnológica é um novíssimo cação para a preservação da vida
sional, como se pode verificar, resultado do desenvolvimento com qualidade no planeta, ela
por exemplo, nas Diretrizes tecnológico que está ressignifi- tem que ir além do saber fazer
Curriculares Nacionais para a cando a sociedade, neste exato bem.
área da engenharia, já mencio- momento, e tornando melhor o As instituições de educação
nadas neste texto. saber fazer bem; a responsabili- tecnológica podem construir
O que se quer considerar aqui dade ambiental é atitude ética que esse caminho, através de seus
é que o conceito de competência diz respeito à preservação da vida projetos de educação, e precisam
não pode ser reduzido apenas ao no planeta; a responsabilidade estar dispostas a aprender o cami-
saber fazer ou mesmo ao saber social é demanda e condição para nho na medida que o empreen-
fazer bem. Vários autores têm se a vida em comunidade. dem. O Instituto Nacional de
debruçado sobre esse tema, lan- Como dar conta dessas ques- Telecomunicações (Inatel) tem
çando luzes sobre ele e aprofun- tões - e elas todas são, neste procurado, há vários anos, cons-
dando-o [3], [4], [5]. Recente- exato momento, determinantes truir seu projeto de educação ori-
mente, GIOSTRI [6] publicou do tipo de vida que estamos pro- entado pelas reflexões aqui
interessante análise do tema que jetando para os que virão depois expostas, como é exposto a
referencia as reflexões aqui postas. de nós - apenas sabendo fazer seguir.

92
Educação em engenharia: o projeto de educação do Inatel
O Inatel foi criado em 1965 e competências necessárias para o diferenças; de liberdade com
está localizado em Santa Rita do engenheiro referenciar o seu responsabilidade em relação às
Sapucaí, no sul do Estado de exercício profissional: competên- conseqüências e aos limites das
Minas Gerais. É pioneiro, no cias técnico-científicas, que com- ações individuais e grupais; de
Brasil, no ensino de engenharia preendem competências e ha- solidariedade com as pessoas e
de telecomunicações. Atualmen- bilidades científicas e técnicas com os grupos sociais; de recusa
te, oferece os cursos de gradua- da formação profissional do à injustiça e às desigualdades
ção em engenharia elétrica (com engenheiro; competências com- sociais.
especificidade em telecomuni- plementares, que reúnem com- Para a realização desses
cações) e em engenharia da com- petências e habilidades para o propósitos e dessas finalidades, o
putação; programas de pós-gra- engenheiro compreender, contex- Instituto assume sua condição de
duação em engenharia de redes e tualizar e desenvolver seu traba- instituição de educação tecnoló-
sistemas de telecomunicações e lho (visão empreendedora, plane- gica em uma sociedade em trans-
em engenharia de TV digital; e jamento do trabalho e do tempo, formação, compreende o proces-
mestrado em telecomunicações. capacidade de trabalho em equi- so de ensino e aprendizagem
Possui um Centro de Desenvolvi- pe, capacidade de relacionamen- como um processo contínuo para
mento de Software para Tele- tos, etc.); atitudes complemen- o desenvolvimento autônomo dos
comunicações e de Educação tares, que resultam de uma base educandos, através da elaboração
Continuada para empresas e de educação para relacionar e reelaboração do conhecimento
profissionais do mercado. sociedade e tecnologia através de em situações e ambientes de edu-
O Inatel foi importante par- uma visão sistêmica da enge- cação diversificados, nos quais
ceiro do município para a criação nharia e de uma compreensão são compartilhadas vivências e
e implantação do Pólo Tecno- crítica da realidade. experiências dos sujeitos do
lógico de Santa Rita do Sapucaí e Tais competências e habili- processo educativo.
hoje é um dos seus destacados dades, que, no propósito, vão Atividades diversificadas,
apoiadores [8]. além do saber fazer bem e que além das atividades acadêmicas
Conforme relatam KALLÁS congregam ação e atitude, são tradicionais, oferecem aos estu-
e SOUZA [9], ao longo de sua desenvolvidas no âmbito dos cur- dantes oportunidades de testar e
história o Inatel vem desenvol- sos de graduação do Inatel, que aplicar o modelo de educação que
vendo um projeto de educação privilegiam uma formação pro- recebem: feira para a apresen-
que resulte na formação de um fissional generalista sustentada tação de projetos e produtos de-
engenheiro qualificado tecnica- em referências éticas, huma- senvolvidos por alunos; Progra-
mente para as atividades de nísticas e educacionais para aten- ma Institucional de Iniciação
engenharia e atento às impli- der às demandas da sociedade. Científica; desenvolvimento de
cações sociais da tecnologia na Elas sintetizam o propósito de projetos em disciplinas; Progra-
vida das pessoas e das comu- desenvolvimento integral do ma de Pré-incubação de Projetos;
nidades. A esse modelo de edu- homem e sua formação profis- Programa de Incubação de
cação tecnológica imprime-se, sional para atuar na sociedade, Empresas e Produtos; concurso
internamente, o lema de Formar através do exercício da enge- de planos de negócio; partici-
o Homem para a Engenharia. nharia e se orientam por princí- pação voluntária em programas e
O projeto educativo do Inatel pios basilares de respeito ao projetos de alcance social e
propõe desenvolver as seguintes indivíduo, aos diferentes e às cultural desenvolvidos para a

93
comunidade local; Empresa Jú- princípios dão consistência à e ecológicas têm apontado. Para
nior; entre outros. concepção do projeto pedagógico o futuro, estão reservados para o
Três princípios orientadores para aplicar-se à formação profis- Inatel (e para as instituições de
caracterizam o projeto pedagógi- sional dos engenheiros num fu- educação tecnológica) esta
co do Inatel: construção do turo próximo. Porém, a estrutura reflexão e este desafio: como se
conhecimento; interação entre atual, o modelo estrutural atual dos organizar, como se estruturar e
estudantes, professores e o am- cursos de engenharia, em geral, como gerir um curso de formação
biente educacional; e reelabo- não incrementam a formação dos profissional na área tecnológica,
ração do conhecimento e profissionais que as necessidades a partir de um projeto educativo
práticas interdisciplinares. Tais tecnológicas, econômicas, sociais pertinente e consistente?

Considerações finais
A convergência tecnológica, área tecnológica, porque altera se reorganizar para formar profis-
como todas as conquistas tec- substancialmente as demandas sionais para os novos contextos e
nológicas anteriores e posteriores sociais, impõe cuidados novos as novas demandas sociais. Saber
a ela, está aí para estabelecer pro- com o meio ambiente e com os fazer melhor não será (não é)
fundas mudanças nas relações recursos naturais, estabelece mais suficiente, porque também
sociais, nos negócios, no acesso novas bases para a produção de há que se saber conhecer, se sa-
às informações, na produção bens e serviços, projeta novas ber conviver e se saber ser [3],
do conhecimento. Traz também relações de trabalho. saberes esses demandados hoje
enorme desafio para a formação Com isso, a educação tec- pelo mundo do trabalho e tam-
profissional, principalmente na nológica tem que se reestruturar e bém pelo futuro da humanidade.

Referências
[1] BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução n.º 11, de 11 de março de 2002.
Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia.
Brasília, DF: DOU de 09/04/2002, seção I, p.32.
[2] CASTRO, Cosette. Tempos de Convergência Tecnológica.
http://www.comunicacao.pro.br/setepontos/convtec.htm, 01/11/2005.
[3] DELORS, Jacques (coord.). Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo/Brasília: Cortez/UNESCO/MEC, 1998.
[4] MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.
[5] BAZZO, W. A.; PEREIRA, L. T. V.; LINSINGEN, I. Educação Tecnológica: enfoques para o ensino de engenharia.
Florianópolis: Editora da UFSC, 2000.
[6] GIOSTRI, E. C. As Diretrizes Curriculares e a Polêmica do Ensino por Competências. Revista ABENGE (Revista de
Ensino de Engenharia), Brasília, n.º 2 , dez 2004, p.1 a 8.
[7] Idem, idem, p. 2.
[8] INATEL, home page: http://www.inatel.br
[9] KALLÁS, E.; SOUZA, J. G. Formação para a Responsabilidade Social em Ambientes de Tecnologia. São Paulo:
BRASILTEC - Salão e Seminário Internacional de Convergência Digital, julho de 2003.

94
Sebastião Jacinto Júnior
Aspectos jurídicos do VoIP -
as dificuldades para sua
regulamentação
Demócrito Reinaldo Filho
Juiz de Direito em PE. Presidente do Instituto Brasileiro de Política e Direito
da Informática (IBDI).

RESUMO
O artigo trata do desenvolvimento do VoIP no Brasil e as ações adotadas pelas
empresas para se adaptarem ao novo serviço. Define o processo de transmissão
de voz pela internet e os reflexos do crescimento da tecnologia no mercado,
abordando a urgência de criação de mecanismos regulatórios, considerando os
interesses da sociedade e dos diversos segmentos envolvidos no processo.
Trata ainda da questão da ameaça que o VoIP pode representar para o serviço
de telefonia fixa e discute as competências para regulamentar o serviço.
Aborda ainda a natureza do serviço e seu enquadramento no setor de tecnolo-
gia da informação ou telecomunicações, propondo soluções para essa exigên-
cia do mercado.

1- Introdução
No presente trabalho, explo- Anatel. Como órgão regulador telecomunicações, o que, obvia-
ramos as dificuldades de enten- dos serviços de telecomunicações mente, irá apresentar algumas
der e definir o que exatamente no país, a Anatel ainda não dificuldades, sabendo-se que o
constitui a "Telefonia Internet". definiu regras claras sobre as VoIP é uma nova tecnologia com
Também discorremos sobre o atividades de empresas que ofe- características que reúnem ele-
crescimento da telefonia na inter- recem serviços de telefonia de mentos comuns às telecomuni-
net como uma potencial ameaça voz, mediante protocolo IP. O cações tradicionais e à comuni-
ao tradicional sistema de telefo- que se espera é que venha, dentro cação na internet. Mencionamos
nia, com especial ênfase para as de algum tempo, a exercer sua essas dificuldades e apontamos
atividades regulatórias, que se atividade regulatória para disci- tendências para a resolução des-
espera sejam desenvolvidas pela plinar esse setor específico das ses problemas.

95
2- O desenvolvimento do VoIP no mercado corporativo brasileiro
Várias empresas estão mi- prever que as empresas decidam puro sustentaram 71% das ven-
grando para a telefonia IP, trocan- trocar suas antigas redes de tele- das, enquanto as soluções do tipo
do suas centrais telefônicas pela fonia pelas novas soluções dentro IP-enable (que suportam linhas
nova tecnologia, com o objetivo dos próximos anos, ainda que, TDM e IP) responderam pelos
principal de redução de custos. num primeiro momento, essa mi- restantes 29%.
Ainda assim, por mais rapida- gração se limite àquelas de médio Em termos de ramais instala-
mente que ocorra a evolução das e grande porte. dos, a participação ainda é peque-
telecomunicações, poucas são as De acordo com estudo da na frente à base instalada.
empresas que se sentem seguras Frost & Sullivan, o mercado lati- Especialistas afirmam que 90%
para ingressar na tecnologia VoIP. no-americano de telefonia IP das portas em uso no Brasil são
Algumas estão optando, num teria movimentado receita da analógicas. Os outros 10% esta-
momento inicial, por soluções ordem de US$ 150 milhões em riam divididos entre ramais digi-
híbridas, deixando centrais tradi- 2004, volume que correspondeu a tais e IP, com tendência para o
cionais e IP convivendo de ma- um incremento de 44,2% sobre equilíbrio entre as duas tecnolo-
neira integrada, ou centrais IP os US$ 103,7 milhões registrados gias. A Associação Brasileira da
que suportam também ramais no ano anterior. Mantida a parti- Indústria Elétrica e Eletrônica
tradicionais. Mas, como parece cipação do Brasil nesse bolo em (Abinee) estima que foram ven-
não haver dúvidas de que a evo- torno dos 12%, os contratos fe- didos 1,4 milhão de ramais para o
lução tecnológica passa pela chados no país ao longo do ano mercado corporativo em 2004,
adoção de telefonia IP, e como a passado alcançaram US$ 31 mas não especifica a participação
diminuição dos custos de liga- milhões, com a venda de IP nesse total. No mundo, as
ções de longa distância nacional e equipamentos e software. Do pesquisas indicam que foram
internacional é fator sensível para total negociado na região no comercializados 10 milhões de
os usuários corporativos, é fácil período, as instalações de IP aparelhos IP.

3- O que é a telefonia sobre internet?


Como o próprio nome sugere, que, assim, trafegam sobre a rede comunicação utilizada fica in-
a telefonia na internet ou VoIP até chegar ao local do destina- disponível para outras chamadas.
(Voice over IP), ou ainda VON tário final da mensagem, onde Na telefonia que se baseia numa
(Voice on the Net), envolve o uso são reagrupados. Na telefonia rede de protocolo IP, todos os ele-
da rede internet para a transmis- tradicional, formada pelas redes mentos da comunicação (sejam
são em tempo real de sons convencionais de circuitos comu- textos, gráficos ou arquivos de
(arquivos de áudio) de um com- tados, uma banda fixa (ou circui- áudio) são comprimidos e que-
putador para outro ou, em alguns to, em outras palavras) entre as brados em pequenos pedaços
casos, de um computador para duas extremidades das pessoas ("pacotes" de informação), assim
um aparelho de telefone. que se comunicam fica disponibi- transitando até atingir o receptor
O processo de transmissão de lizada somente para aquela co- da mensagem. O canal ou banda
voz sobre a internet ocorre da municação, com a banda ficando de comunicação que está sendo
seguinte maneira: o arquivo de inutilizada durante os minutos de utilizado, por esse motivo pode
áudio é comprimido e dividido em silêncio ou intervalos da conver- ser recuperado e ficar disponível
pedaços (pacotes) de informação sa. Por isso, a faixa de banda de para outros usuários durante os

96
momentos de silêncio que ocor- mundial de comunicação ou a um custo bem abaixo
rem na conversação originária. (a internet), os usuários po- dos valores cobrados pelas
A grande vantagem do VoIP dem fazer ligações de longa companhias telefônicas tradicio-
é que, utilizando-se da rede distância sem qualquer custo nais.

3.1- O VoIP "phone-to-phone": a terceira geração da telefonia na internet

A simples definição da telefo- conecta à internet e, através da telefone para outro via internet
nia VoIP como a transmissão em utilização de um programa funciona assim: o usuário faz a
tempo real de sinais de áudio específico, realiza uma "ligação" ligação através de um aparelho
(voz) através da rede internet não para o computador ou aparelho telefônico comum, discando para
é suficientemente clara de modo telefônico da outra. A terceira o número desejado. O adaptador,
a explicar a verdadeira dimensão espécie de telefonia VoIP, consi- que trabalha como uma porta de
desse tipo de serviço de comuni- derada a modalidade de telefonia entrada (gateway) para a rede
cação. A falha da definição está pura via internet (em contra- internet, converte os sinais de
em omitir uma modalidade de posição às duas outras espécies, áudio (voz) para arquivos de
VoIP cada vez mais promissora e que seriam modalidades "híbri- dados ("pacotes" de informação)
em expansão, que poderíamos das" de telefonia), é aquela pela compatíveis com o protocolo IP,
chamar de "telefonia internet de qual as pessoas tanto fazem como que trafegam desse modo na rede
terceira geração", justamente a recebem chamadas de qualquer até chegar ao ponto de destino,
que permite uma chamada de voz aparelho telefônico comum, por onde são decodificados e trans-
entre dois aparelhos telefônicos. meio de um acessório denomina- formados novamente em voz.
As duas primeiras modali- do ATA (adaptador de telefone A grande desvantagem dos
dades da telefonia internet seriam analógico). Nessa terceira moda- serviços de telefonia VoIP pura é
aquelas que permitem a realiza- lidade, os usuários não se utili- que o usuário necessita trocar de
ção de ligações de computador zam de computador. número telefônico e (em algumas
para computador (PC-to-PC) ou Numa ligação de telefone modalidades do serviço) ter que
de computador para telefone para telefone via internet, o manter uma conta de acesso
(PC-to-phone). A terceira gera- usuário se utiliza de um aparelho (banda larga) à internet. A van-
ção seria a que possibilita a rea- telefônico comum (com o adapta- tagem, além da economia dos
lização de uma conversa em dor conectado à entrada da co- custos com as ligações, está na
tempo real entre duas pessoas, nexão de internet banda larga) mobilidade que algumas soluções
utilizando-se ambas de aparelhos para fazer a chamada, que é feita desse tipo de serviço propor-
de telefone (phone-to-phone), ao para um número de telefone de cionam. Não é uma comodidade
invés de computadores. acordo com o sistema de dis- que se compare aos telefones
As duas primeiras modali- tribuição de números da telefonia celulares, mas quando for de
dades estão essencialmente vin- tradicional (que obedece a planos um lugar a outro e dispuser de
culadas à utilização de um com- de outorga dentro do território um ponto de conexão (banda
putador pessoal (PC), pelo menos nacional e, no que diz respeito larga) à internet, o usuário po-
em uma das extremidades. Um aos códigos dos países, a tratados derá utilizar o serviço VoIP
dos atores dessas modalidades de e convenções internacionais). como se estivesse em casa, bas-
comunicação participa fazendo Do ponto de vista técnico, a rea- tando carregar consigo o adapta-
uso de um computador. Ele se lização de uma chamada de um dor.

97
4- A concorrência no mercado de telefonia e a necessidade de
regulamentação da telefonia VoIP
À primeira vista, a nova tec- específico no sentido de exigir da empresas ou grupos empresariais
nologia de telefonia somente Anatel ou de outro órgão regu- quanto à obtenção de licença
aparenta trazer benefícios, já que lador, a definição de um marco (concessões, permissões ou auto-
permite sensível redução de cus- regulatório para a telefonia sobre rizações) para exploração de
tos nas ligações de longa distân- internet. Afinal, como se disse, as serviços de telefona IP. Nos ter-
cia. Como permite que aplicações empresas privadas que adquiri- mos do art. 6º da lei 9.472/97, os
de telefones e computadores ope- ram o controle acionário das serviços de telecomunicações
rem numa mesma rede, favorece antigas empresas estatais de tele- devem ser organizados "com
o uso mais eficaz dessa infra- fonia fixa (e mesmo suas sub- base no princípio da livre, ampla
estrutura, gerando a redução de sidiárias criadas para exploração e justa competição entre todas as
custos. do serviço móvel celular) fizeram prestadoras, devendo o Poder
No entanto, justamente por a implantação e expansão das Público atuar para propiciá-la,
ter esse potencial de se tornar redes de telecomunicações, não bem como para corrigir os efeitos
uma alternativa viável à telefonia só como obrigação prevista no da competição imperfeita e
tradicional, um setor específico processo de alienação - que pre- reprimir as infrações da ordem
se sente contrariado em seus via a reestruturação das redes de econômica". Como se observa, as
interesses, justamente o que con- telefonia - mas também para dar normas gerais de proteção à
grega as atuais prestadoras do melhor suporte de qualidade téc- ordem econômica são aplicáveis
Serviço Telefônico Fixo Comuta- nica à prestação dos serviços. ao setor de telecomunicações
do (STFC). Algumas das presta- Depois do processo de reestrutu- (art. 7º), devendo o Estado asse-
doras desses serviços enxergam a ração e desestatização das empre- gurar às empresas que atuam
tecnologia VoIP como uma po- sas federais de telecomunicações, nesse campo não apenas o direito
tencial ameaça ao sistema de tele- as companhias privadas que à livre competição, mas que esta
fonia tradicional. As grandes adquiriram o direito à exploração se faça de uma maneira justa.
companhias de telefonia fizeram desses serviços fizeram pesados Considerando-se o novo qua-
pesados investimentos em termos investimentos para o desenvolvi- dro que se desenha no ambiente
de infra-estrutura de rede (após o mento desse setor em nosso país, de competição, observados o
processo de desestatização do e esperam ver o retorno desses princípio do maior benefício ao
sistema Telebrás) e não querem custos de operação e melhoria da usuário e o interesse social e
perder poder econômico ou abrir malha de telefonia através de econômico do país, de modo a
mão de monopólios regionais nas lucros na cobrança de tarifas pela propiciar a justa remuneração das
telecomunicações. Essas empre- prestação dos serviços, dentro de prestadoras das diversas modali-
sas detêm o controle de parte físi- um ambiente de competição livre dades de serviços de telecomuni-
ca essencial das redes de telefo- e justa. cações e a justa competição entre
nia fixa e se sentem ameaçadas A garantia de regras ade- elas, o órgão regulador deverá
diante de qualquer possibilidade quadas de competição (de uma decidir se o aparecimento da tele-
de perda de lucros ou comprome- justa competição) não é uma exi- fonia VoIP provoca uma com-
timento de seus modelos comer- gência irrazoável. Visando a pro- petição imperfeita no setor das
ciais já estabelecidos. piciar competição efetiva e justa, telecomunicações, de modo a se
Já se pode pressentir, portan- a Agência regulatória brasileira fazer necessária a edição de um
to, um movimento desse setor poderia estabelecer condições a novo feixe regulatório.

98
5- Tem a Anatel competência para regular a telefonia sobre IP?
Se alguma demanda regula- para regular os serviços de VoIP? Pensamos que não. O Comitê
tória sobre empresas que hoje Por exemplo, o Comitê Gestor da Gestor da Internet no Brasil
exploram soluções de telefonia Internet no Brasil (CGI.br), a (CGI.br), embora tenha atribui-
na internet vier a se tornar um quem cabe coordenar todas as ções amplas quanto à adminis-
fato irreversível, quer tenha ori- iniciativas de serviços de internet tração e uso da rede mundial,
gem em reclamações das opera- no país, não seria responsável por exerce com preponderância ape-
doras de telefonia fixa nacionais assegurar a regulação da presta- nas a função de administração e
(do STFC) ou mesmo como ção do serviço de telefonia sobre arrecadação dos valores de re-
exigência governamental para IP? Como se sabe, o Comitê Ges- gistros de nomes de domínio (do
impulsionar a arrecadação de tor foi criado pela portaria in- ccTLD.br). Tudo o que estiver
tributos, uma pergunta vem logo terministerial nº 147, de 31 de relacionado à organização e
à tona: teria a Anatel competência maio de 1995 e alterada pelo de- exploração dos serviços de tele-
para regular o mercado da telefo- creto presidencial nº 4.829, de 3 comunicações, nos termos das
nia na internet? de setembro de 2003, para coor- leis brasileiras, fica a cargo da
Até o presente momento, denar e integrar todas as iniciati- Agência Nacional de Telecomu-
pelo que se saiba, a Anatel não vas de serviços internet no país, nicações (Anatel), entidade inte-
baixou normas específicas regu- promovendo a qualidade técnica, grante da administração federal
lando a prestação do serviço de a inovação e a disseminação dos indireta, submetida a regime au-
VoIP, nem há indicações de que serviços ofertados. Também é tárquico especial e vinculada ao
venha a fazê-lo em breve. responsável por assegurar a justa Ministério das Comunicações,
O problema da regulamen- e livre competição entre os pro- com sede no Distrito Federal. É
tação da telefonia na internet vedores e garantir a manutenção essa autarquia que tem a função
passa necessariamente pela sua de adequados padrões de conduta de órgão regulador das telecomu-
definição. Podemos considerar o de usuários e provedores. Com- nicações no Brasil, agência cria-
VoIP como um serviço de teleco- posto por membros do governo, da pela lei 9.472, de 16 de julho
municação, uma tecnologia di- do setor empresarial, do terceiro de 1997 (art. 8º), podendo, nos
ferente não enquadrada nesse setor e da comunidade acadêmi- termos das políticas estabelecidas
conceito ou simplesmente um ca, o CGI.br representa um mo- pelos poderes executivo e legis-
aplicativo para a internet? delo de governança na internet, lativo (art. 1º), definir o discipli-
Se considerarmos que o VoIP pioneiro no que diz respeito à namento e a fiscalização da exe-
é um simples aplicativo para efetivação da participação da so- cução, comercialização e uso dos
internet, e não propriamente um ciedade nas decisões envolvendo serviços e da implantação e fun-
serviço de telecomunicação, difi- a implantação, administração e cionamento de redes de teleco-
cilmente se pode pretender um uso da rede. Não seria, portanto, municações, bem como da uti-
papel regulatório da Anatel mais condizente com suas fun- lização dos recursos de órbita e
(órgão regulador da União), na ções institucionais entregar a esse espectro de radiofreqüências
definição de políticas para orga- órgão a regulação dos serviços de (parágrafo único do art. 1º).
nização e exploração dessa tec- VoIP, já que ele toma decisões em Como órgão regulador das tele-
nologia. tudo que envolva a implantação, comunicações, à Anatel compete
Em sendo esse o caso, outros a administração e, sobretudo, o a adoção das medidas necessárias
órgãos não estariam mais aptos uso da internet no Brasil? para o desenvolvimento das

99
telecomunicações brasileiras, es- de combinação destas, conside- VoIP termina se utilizando da
pecialmente expedindo normas rando-se formas de telecomuni- rede fixa de telefonia tradicional,
sobre a prestação desses serviços, cação, entre outras, a telefonia, a nem que seja somente no trecho
quer quando prestados no regime telegrafia, a comunicação de da- entre a central da operadora local
público (art. 19, IV) ou no regime dos e a transmissão de imagens" e a sede (escritório ou residência)
privado (art. 19, X). (parágrafo único do art. 69). da pessoa que recebe uma chama-
O serviço de telefonia de voz Dentre as diversas formas de da em telefone convencional. As
sobre IP se enquadra juridica- telecomunicações, o serviço de redes de telecomunicações cada
mente, sob vários ângulos, como VoIP pode ser classificado como vez mais se fundem e se inter-
serviço de telecomunicações. telefonia, porque possibilita a conectam, num processo de con-
Como se sabe, a telefonia é transmissão de informações (si- vergência. Como a tecnologia IP
uma forma de telecomunicação, nais de áudio) por meio de fios e permite que o usuário dos seus
que se caracteriza pela transmis- cabos. O serviço de VoIP é típico serviços se comunique com um
são, emissão ou recepção de serviço de telefonia, pois a rede usuário da rede de telefonia fixa
sinais de áudio (sons) através internet é formada pela reunião tradicional, em algum momento
de fios e cabos. É o "meio da de pequenas redes de telecomuni- da comunicação haverá um
transmissão", portanto, que qua- cações, cabos e fios que se inter- ponto de interconexão. Assim, se
lifica a telefonia e a difere de ou- conectam, em que se destacam a comunicação via VoIP se inter-
tras formas de telecomunicação, grandes cabos de conexão que penetra ou cruza em algum trecho
mais propriamente do que o ma- formam sua "espinha dorsal" (os com as redes de serviços da tele-
terial informacional (tipo da backbones). A maior parte da fonia fixa tradicional, pode ser
informação) que é transmitida. malha da rede internet é formada conceituada como serviço de
Outras formas de telecomuni- por fios e cabos, daí porque a telefonia e, portanto, sujeita aos
cação, dentre as quais a tele- comunicação que nela trafega condicionamentos regulamenta-
grafia, a comunicação de dados e pode ser incluída no conceito de res da Anatel.
a transmissão de imagens, pro- telefonia, para efeitos legais. É Mesmo que se considere que
porcionam a transmissão, emis- uma rede formada pela reunião o acesso à rede internet pode ser
são ou recepção de informações de pequenas redes de telecomu- feito por ondas de rádio ou sa-
(de natureza diversa, como sím- nicações, que, embora tenham télite, ainda assim a tecnologia
bolos, caracteres, sinais, escritos, surgido paralelamente às redes de VoIP não escapa à qualificação de
imagens e sons) por meio de telefonia fixa das companhias serviço de telecomunicações e,
radioeletricidade, meios ópticos telefônicas, hoje com elas se portanto, sujeita aos poderes de
ou qualquer outro processo interconectam, num processo de fiscalização e regulamentação da
eletromagnético. A própria lei "convergência" que levou justa- Anatel. O art. 60 e seu parágrafo
(9.472/97), que dispõe sobre os mente ao aparecimento da telefo- 1º da lei 9.472, de 16 de julho de
serviços de telecomunicações em nia VoIP, possibilitada pelos 1997, define como serviço de
nosso país, deixa isso bem claro, softwares e adaptadores para pro- telecomunicações "o conjunto de
ao dizer que "forma de telecomu- tocolo IP, que permitiram apli- atividades que possibilita a oferta
nicação é o modo específico de cações de telefones e computa- de telecomunicação", sendo esta
transmitir informação, decorrente dores operarem como se estives- a "transmissão, emissão ou re-
de características particulares de sem numa mesma rede. cepção, por fio, radioeletricidade,
transdução, de transmissão, de Em algum ponto, a comunica- meios ópticos ou qualquer outro
apresentação da informação ou ção possibilitada pela tecnologia processo eletromagnético, de

100
símbolos, caracteres, sinais, com o qual não se confunde, em se considerar a Voz sobre IP
escritos, imagens, sons ou infor- novas utilidades relacionadas ao um serviço de telecomunicações,
mações de qualquer natureza". acesso, armazenamento, apresen- haja vista que a transmissão da
Serviço de telecomunicações tação, movimentação ou recupe- informação passa necessaria-
como um todo, independente- ração de informações". Nesse mente pela rede de telefonia
mente da forma de transmissão, sentido, "serviço de valor adicio- tradicional. Já quando a comuni-
está sujeito à competência do nado" não constitui propriamente cação se opera exclusivamente
órgão regulador no Brasil - a um serviço de telecomunicações, sobre a rede internet (de com-
Anatel. Então, mesmo que a sendo o seu provedor tratado putador-para-computador), fica
comunicação por protocolo IP como mero usuário do serviço de difícil aceitar que esse tipo de
não se operasse por meio de uma telecomunicações que lhe dá su- comunicação não possa ser com-
rede física de cabos e fios, mas porte, com os direitos e deveres preendido dentro do conceito de
exclusivamente por qualquer inerentes a essa condição (par. 1º "serviço de valor adicionado",
processo radioelétrico ou eletro- do art. 61). Existe uma corrente pois sua utilização depende ape-
magnético, a forma de transmis- que defende que, por ser ofereci- nas de uma conta de acesso à
são (por ondas) não a retiraria do da através de um protocolo apli- internet, serviço esse que já é
âmbito de regulamentação da cado à internet, e sendo o serviço definido como tal e prestado por
Anatel, pois continuaria dentro de acesso à internet um serviço provedores que são tratados, para
da conceituação de serviço de de valor adicionado (o qual acres- fins legais, como usuários dos
telecomunicações. centa novas funcionalidades a um serviços de telecomunicações. Os
Conclui-se, portanto, que serviço de telecomunicações pre- provedores de acesso à internet
quanto ao "meio de transmissão", existente), o VoIP também deve- são considerados prestadores de
a telefonia IP pode ser conceitua- ria ser considerado um serviço de "serviço de valor adicionado",
da como serviço de telecomuni- valor adicionado, não sujeita às tratados como meros usuários do
cações. É uma forma de teleco- regras e obrigações impostas aos serviço de telecomunicações que
municação surgida em função do prestadores de serviços de teleco- lhes dá suporte, com os direitos e
desenvolvimento de uma nova municações. deveres inerentes a essa condi-
tecnologia. Ainda que a rede Uma conceituação do VoIP ção. A comunicação VoIP que se
internet não pudesse ser consi- como simples "serviço de valor realiza toda sobre a internet, já
derada uma rede de telefonia adicionado", todavia, seria acei- que depende exclusivamente de o
(mas somente de telecomuni- tável apenas para uma de suas usuário ter que pagar pelo direito
cação), a Anatel não perderia seu modalidades, aquela em que a a uma conta de acesso à rede
poder regulador sobre o serviço comunicação é feita de computa- mundial, se confunde com esse
VoIP. dor para computador (PC-to-PC). serviço (de valor adicionado).
Pela conclusão acima esta- Nas duas outras modalidades, Em outras palavras, quem dispõe
belecida, afasta-se o argumento como se sabe, a comunicação se de serviço de acesso à internet -
de que o VoIP se trata de simples realiza através ou entrecruza a que se enquadra na definição de
"serviço de valor adicionado". rede de telefonia tradicional, pelo "serviço de valor adicionado"-,
Nos termos do art. 61 da Lei menos em uma das extremidades automaticamente adquire a possi-
9.472/97, "serviço de valor adi- da ligação - por essa razão essas bilidade de se utilizar do serviço
cionado é a atividade que acres- modalidades também são chama- de Voz sobre IP, já que os progra-
centa, a um serviço de telecomu- das de "interconnected VOIP". mas de comunicação PC-to-PC
nicações que lhe dá suporte e Nesses casos, não há dificuldade são oferecidos na rede mundial

101
de forma gratuita. Não haveria pacotes.... [em tal caso] o confunde com o serviço de aces-
como se taxar ou regular dife- provedor de serviço internet so à internet, a telefonia VoIP por
rentemente o serviço de VoIP que não parece estar 'provendo' meio de aparelhos telefônicos se
se confunde e depende exclusiva- telecomunicações para o seu assemelha à telefonia tradicional,
mente do serviço de acesso à subscritor". e como tal parece que deve ser
internet. tratada.
Em um relatório feito perante Se a telefonia PC-to-PC pa- Cabe à Anatel regular os con-
o Congresso dos EUA, em 10 de rece não poder ser regulada, por dicionamentos da telefonia VoIP
abril de 1998, a Federal Commu- se confundir com o serviço de (excluída a modalidade PC-to-
nications Commission (mais co- acesso à internet, pelo menos a PC), bem como o relacionamento
nhecida simplesmente pela sigla que permite ligações entre apare- entre os prestadores dessa tec-
FCC), entidade que vem a ser o lhos telefônicos não pode ser nologia com as prestadoras de
órgão regulador das telecomuni- tratada como simples serviço de serviço comutado de telefonia
cações naquele país, expressou valor adicionado. Do ponto de fixa. Parece que das empresas
seu entendimento de que a telefo- vista do usuário, que utiliza um que oferecem serviço VoIP
nia PC-to-PC se confunde com o aparelho de telefonia VoIP ou de phone-to-phone devem ser cobra-
serviço de acesso à internet, não telefonia comum (do STFC), não das tarifas pelo uso da rede de
havendo como separá-los ou há alteração na forma ou conteú- telefonia tradicional, em relação
atribuir-lhes disciplina diferente, do da informação. O usuário do aos trechos das redes das com-
na seguinte afirmação: serviço obtém apenas a transmis- panhias telefônicas locais. Além
são de voz, ao contrário de outros disso, a exploração desse serviço
"Os provedores de internet serviços de informação na inter- deve ficar sujeita à licença de
sobre cujas redes a infor- net. Por não utilizar um computa- funcionamento e fiscalização
mação passa podem nem dor, e sim um aparelho telefôni- permanente, sob pena de nosso
sequer estar cientes que um co, o usuário dessa modalidade país perder milhões em termos de
particular usuário esteja de serviço VoIP não tem acesso a taxas de licença e fiscalização,
usando um software para outras comodidades, como nave- que deveriam ser cobradas de
telefonia IP, isso porque gação na internet (por meio de companhias estrangeiras que es-
pacotes IP, carregando comu- browser), acesso a arquivos tão oferecendo livremente servi-
nicação de voz, são indistin- armazenados, envio de e-mails, ços de VoIP, sobretudo compa-
guíveis de outros tipos de etc. Se a telefonia PC-to-PC se nhias norte-americanas.

6- Da definição da telefonia de voz sobre IP dentre as modalidades de


serviços de telecomunicações
Nos termos do art. 69 da lei exploração da prestação de ser- com regulamentação inteiramen-
9.472/97, as modalidades de viços VoIP pode ser realizada te nova e específica.
serviços de telecomunicações são através de licenças e outorgas Acreditamos que, pela impor-
definidas pela Anatel em função previstas para modalidades de tância, disseminação e caráter
de sua finalidade, âmbito de serviços de telecomunicações já estratégico que o VoIP já tem e
prestação, forma, meio de trans- regulamentadas ou se, ao con- passará a ter ainda mais nos
missão, tecnologia empregada e trário, a Anatel deve tratá-la próximos anos, talvez não escape
outros atributos. Discute-se se a como uma nova modalidade, de uma regulamentação mais

102
estrita e especialmente criada, ten- fiscalização permanente (nos ter- população, deveres de expansão
do em vista suas características mos de uma regulamentação da rede de telecomunicações e
técnicas e importância sócio- própria ou submetida aos condi- serviços, dentre outras, por ser
econômica. O desenvolvimento cionamentos gerais do setor). considerado serviço de interesse
tecnológico do setor de telecomu- No exercício do seu poder público. Os condicionamentos re-
nicações implica em novos condi- regulatório, a Anatel não poderá gulatórios são muito maiores em
cionamentos impostos por lei e escapar de definir uma questão se tratando de serviço considera-
pela regulamentação da agência que tem a ver com política de do de interesse público. As moda-
reguladora. Nesse sentido, certa- efeitos sociais, mais especifica- lidades de interesse público, por
mente o VoIP será tratada em mente se a telefonia VoIP deve serem essenciais e sujeitas a
breve como nova modalidade de ser classificada como serviço de deveres de universalização e con-
serviço de telecomunicações, interesse coletivo ou serviço de tinuidade, não são deixadas à
objeto de licença distinta, com interesse restrito. Como se sabe, exploração sob o regime jurídico
clara determinação dos direitos e de acordo com a abrangência dos privado (art. 65, par. 1º), em que
deveres da empresa exploradora e interesses que atendem, os ser- os níveis de exigência são meno-
dos direitos dos usuários, além de viços de telecomunicações po- res. As prestadoras dos serviços
ser objeto de uma estrutura ta- dem ser classificados em serviços de telecomunicações sob o regi-
rifária também nova e distinta. de interesse coletivo e serviços de me privado (autorizatárias) podem
Em artigo publicado no site interesse restrito (art. 62 da Lei prover acesso somente a merca-
do IBDI, as advogadas Marcela 9.472/97). Dependendo da classi- dos de maior interesse econômi-
W. Ejnisman e Fernanda B. ficação que se adote, os deveres e co, sem as mesmas obrigações
Casella França apontam que a obrigações das empresas presta- contratuais que as concessioná-
Anatel apenas está indicando, de doras de telefonia VoIP serão rias (do regime público).
maneira informal, que os interes- mais ou menos extensos. Isso É preciso que a Anatel faça
sados em explorar serviços VoIP porque os serviços de interesse uma avaliação criteriosa antes de
devem requerer a mesma licença coletivo, considerados essenciais, se decidir pelo enquadramento
conferida para a prestação do são prestados sob o regime jurídi- dos serviços VoIP em um dos
Serviço de Comunicação Multi- co público (na forma de conces- regimes jurídicos. Qualquer mu-
mídia (SCM). Pensamos que tal são ou permissão), que sofre con- dança menos cuidadosa pode
posição do órgão regulador deve dicionamentos bem mais severos trazer impacto suficiente para
ser encarada como uma solução do que aqueles reservados aos quebrar o equilíbrio econômico-
paliativa e temporária, até que se serviços prestados sob o regime financeiro do setor de telecomu-
possa fazer um estudo mais com- jurídico privado (na forma de nicações. Se é certo que a exigên-
pleto das peculiaridades técnicas autorização), a exemplo das exi- cia de licenças em valores mais
do VoIP e de sua participação no gências de obrigações de univer- elevados e de obrigações sociais
mercado de telefonia. De qual- salização e de continuidade para pode dificultar ou impedir o de-
quer maneira, o que não pode é a a prestadora (arts. 63, par. únic., e senvolvimento dos pequenos em-
exploração de serviços de tele- 64). Por exemplo, as empresas preendedores, que começam a
comunicação - sob qualquer nova que exploram o serviço telefôni- explorar a nova tecnologia VoIP,
modalidade tecnológica ou forma co fixo comutado (STFC) sofrem também não é menos certo que
de transmissão dos sinais -, uma estrita regulação da Anatel um nível de exigências exage-
deixar de estar sujeita à licença sobre suas atividades, com exi- radamente baixo pode inviabi-
de funcionamento prévia e à gências de garantia de acesso à lizar a atividade econômica das

103
prestadoras do serviço comutado expectativa de retorno de longo outro grupo de empresas. O fun-
de telefonia fixa (que é prestado prazo. À Anatel caberá escolher damental é a garantia de um nível
sob o regime jurídico público). um nível de exigências regu- razoável de segurança jurídica
Estas últimas fizeram altos inves- latórias para a telefonia VoIP que para o setor das telecomuni-
timentos em infra-estrutura, com não desestimule nem um nem cações.

Conclusão
1. As empresas que exploram modalidades de serviços de tele- resultar em benefícios para um
o serviço telefônico fixo comuta- comunicações, ficando submeti- segmento específico do setor de
do, em vista do aparecimento e das aos regulamentos e normas serviços de telecomunicações,
das facilidades e conveniências gerais das telecomunicações e provocando desequilíbrio entre
da telefonia internet, não só para sob a fiscalização da Anatel. os competidores. O modelo de te-
o usuário como para o próprio 4. O poder regulamentar (ou lecomunicações em vigor foi
empresário, tenderão a oferecer os regulamentos já existentes estabelecido com o objetivo de
também (ainda que sob a forma sobre as modalidades de serviços promover a universalização, a
de outras pessoas jurídicas) ser- de telecomunicação) da Anatel qualidade do serviço e a justa
viços VoIP, caso a Anatel não não deve alcançar a atividade dos competição entre os prestadores.
defina ou demore a definir um fabricantes de softwares para A evolução regulatória não pode
novo esqueleto regulatório para soluções VoIP, que não são pro- se desprender desses valores ini-
esta última modalidade de priamente prestadores de servi- ciais, ligados à defesa da livre
serviço de telecomunicações. ços de telecomunicações. concorrência e aos princípios da
2. Os serviços VoIP, pelo me- 5. Na regulamentação sobre a ordem econômica (esculpidos na
nos a modalidade que permite telefonia VoIP, a Anatel terá que Constituição) para o setor de tele-
fazer chamadas entre aparelhos definir se enquadra sua prestação comunicações. Deve ser planeja-
telefônicos, devem ser considera- dentro do regime público ou pri- da com base em análises de sus-
dos serviços de telecomunica- vado, levando em conta qual tentabilidade, do espectro de
ções, para fins legais. público pretende atingir com essa usuários a ser atingido e da obe-
3. Enquanto não for editada modalidade de telefonia, em ter- diência a políticas de interesse
uma nova regulamentação espe- mos de promoção da qualidade e público, o que contribuirá positi-
cífica para o VoIP, as empresas universalização dos serviços. vamente para a estabilidade do
que pretendam explorar esse ser- 6. Uma avaliação mal feita setor de telecomunicações e a
viço deverão obter alguma forma pela Anatel sobre a natureza do manutenção de conquistas sociais
de concessão, permissão ou auto- serviço VoIP e as obrigações de- (em especial a da universalização
rização previstas para as outras correntes dos prestadores pode dos serviços).

104
Lyderwan Santos
Uma solução de Voz sobre IP
para a Rede Estadual de Minas Gerais
Sergio de Melo Daher
Graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais e MBA pela Fundação Getúlio Vargas.

RESUMO
Este artigo avalia as diversas tecnologias disponíveis para a implementação de
uma rede de comunicação de voz corporativa estadual, fazendo uso da rede de
comunicação de dados que serve à administração pública do Estado de Minas
Gerais, apontando as alternativas mais adequadas ao seu estabelecimento.

O tema da presente edição da território de interesse da adminis- contratos da quase totalidade das
revista Fonte, a convergência tração pública estadual. conexões de dados eram celebra-
digital, tem sido objeto de inú- Este artigo abordará a dos entre as concessionárias e a
meros debates sobre o futuro de possibilidade da utilização da Prodemge. Pelo modelo hoje em
variados setores da economia, rede de dados, já estabelecida vigor, os órgãos e entidades esta-
principalmente o de telecomuni- no Estado, para comportar duais contratam diretamente das
cações, que, pelas suas caracterís- também o tráfego de voz origi- concessionárias de telecomuni-
ticas, certamente terá, como já se nado e destinado às entidades cações as suas conexões, que
observa no cenário mundial, o por ela servidas, com o objetivo convergem para um único ponto
maior impacto em suas ope- de reduzir custos e, conseqüente- da rede, a Prodemge. Na Compa-
rações. mente, obter uma maior inte- nhia são alocados os equipamen-
O estabelecimento de cone- gração entre as diversas ativi- tos de roteamento e é estabeleci-
xões de voz ainda representa uma dades inerentes aos interesses da a interoperabilidade dos ser-
parcela significativa das despesas estaduais. viços.
do Estado com serviços públicos. No final do ano de 2003, foi Esse modelo obteve uma re-
Suplanta com vantagem aquelas realizada uma licitação para o dução dos custos de comunicação
decorrentes das conexões para registro de preços de recursos de de dados do Estado da ordem de
a comunicação de dados entre comunicação de dados para todo 45%, além de ter permitido a
as instalações das entidades o Estado, substituindo o modelo ampliação das taxas de trans-
governamentais, distribuídas no vigente à época, em que os missão com que são servidos os

105
pontos de presença da adminis- em circuitos terrestres; a Telemar sem que isso traga impactos ne-
tração pública estadual. provê ainda, através do uso de gativos do ponto de vista opera-
Uma da exigências contidas satélites, conexões em localida- cional e financeiro, devemos
na especificação técnica da con- des ainda não atendidas pelos analisar cinco aspectos que influ-
tratação é o suporte ao estabele- meios tradicionais, em veloci- enciam diretamente a razão custo
cimento de conexões de voz dades que variam de 64 Kbps a 2 - benefício de suas opções, que
sobre o protocolo IP, de forma a Mbps, de acordo com a demanda são:
preparar a infra-estrutura esta- identificada. - a sinalização e o encami-
dual de comunicação de dados Diante desse cenário, pode- nhamento dos pacotes de
para absorver o tráfego de voz em mos então vislumbrar as possibi- voz;
sua intranet. lidades do aproveitamento dos - a qualidade do sinal de
Como resultado da licitação, recursos alocados para a conver- voz;
que foi distribuída em lotes que gência voz/dados. - impacto do tráfego adi-
incentivaram uma acirrada con- Para que possamos tomar cional de dados digitaliza-
corrência nas áreas de concessão a decisão acertada na imple- dos na rede;
dos serviços, tivemos como ven- mentação dos serviços de voz, - qualidade necessária ao
cedoras as empresas CTBC, que utilizando a infra-estrutura de serviço; e
opera na região do Triângulo comunicações disponível da rede - a interconexão com os
Mineiro; a Embratel e a Telemar, de comunicação de dados que serviços públicos de tele-
estabelecendo conexões baseadas serve à administração estadual, fonia.

Sinalização e encaminhamento dos pacotes de voz


Do ponto de vista tecnológi- voz, a um servidor, que possui as tráfego de voz e vídeo na rede,
co, existem dois principais pa- tabelas de números de destino e sendo, por este motivo, bastante
drões de mercado, o SIP (Session seus respectivos endereços de mais complexo que o proto-
Initiation Protocol) padronizado rede, que traduz o destino deseja- colo SIP e especialmente impor-
pelo IETF (Internet Engineering do pelo seu endereçamento IP. A tante no estabelecimento de
Task Force) através da RFC-3261 partir deste momento, a conver- sessões de videoconferência,
(Request for Comments) e o sação poderá ser obtida em duas tanto nos ambientes baseados nos
H.323, advindo de recomendação modalidades: na primeira, os pa- serviços tradicionais de comuni-
do ITU-T (International Teleco- cotes de voz são roteados pelo cação quanto na internet.
mmunications Union - Telecom equipamento que hospeda o ser- Uma primeira decisão parece
Standardization). viço SIP; e, na segunda, a cone- estar clara no estabelecimento do
O protocolo SIP foi estabele- xão é estabelecida apenas entre serviço de voz sobre IP (VoIP)
cido pela comunidade da internet os equipamentos terminais de voz, utilizando a rede de comunicação
buscando uma implementação sem a interferência do servidor. de dados estadual: a escolha do
simples que suportasse o tráfego Já o protocolo H.323 foi protocolo SIP, na modalidade do
de voz digitalizada pela rede. A produzido pela demanda das estabelecimento das conexões
transmissão dos pacotes de voz é concessionárias dos serviços de entre os terminais de voz, dada a
iniciada através da consulta, pelo telecomunicação como uma sua simplicidade e facilidade de
dispositivo de comunicação de solução para as demandas de implementação.

106
Digitalização do sinal de voz
O sistema auditivo humano De forma geral, o ser humano maior freqüência presente no
funciona através da percepção é capaz de ouvir sinais acústicos sinal original, ou seja, para um
das variações de pressão acústica limitados na faixa de 20 a 20 mil sinal de voz, teoricamente, neces-
que atingem, em última análise, o oscilações por segundo ou 20 a sitaríamos de uma taxa de amos-
tímpano, uma fina membrana que 20 mil hertz (Hz), sendo a voz tragem de 4.800 Hz.
capta as oscilações da pressão do uma estreita fatia dessa faixa. O Conforme pode ser observa-
meio ambiente e as traduz em ser humano é capaz de compreen- do na figura abaixo, um sinal
sinais nervosos compreensíveis der uma conversação utilizando analógico, recomposto matemati-
pelo cérebro. um canal que possua um espectro camente após ter sido digitaliza-
O processo de escutar e en- de freqüência de 300 a 2.400 Hz, do com taxas de 72 e 18 amostras
tender traz consigo as peculiari- como o tradicional telefone que por ciclo da freqüência original
dades físicas dos componentes utilizamos habitualmente. do sinal, mostra claramente as
envolvidos, como o meio de pro- De acordo com a teoria da distorções de fase e amplitu-
pagação, a amplitude e a freqüên- informação, um sinal analógico de introduzidas no sinal original,
cia das variações de pressão nesse digitalizado, para ser recomposto ilustrando os efeitos indesejá-
meio acústico; e cognitivas, como com inteligibilidade, deve ser veis inseridos na recuperação
a capacidade de reconhecimento mostrado com freqüência, no do sinal no receptor da men-
de padrões de sons do cérebro. mínimo, duas vezes superior à sagem.

Sinal Original

Sinal reconstituído com taxa


de amostragem 72 vezes
superior à freqüência original

Sinal reconstituído com taxa


de amostragem 18 vezes
superior à freqüência original

107
Também podemos observar O processamento do sinal de conhecidos pelo público em geral,
na figura o processo de digitaliza- voz digitalizado é realizado por que são as técnicas padronizadas
ção em que tomamos uma amos- algoritmos de codificação e deco- pelo organismo internacional
tra do sinal e convertemos em dificação de sinais de áudio, co- ITU-T, que estabelecem, através
sinal binário o seu valor de nhecidos pela sigla Codec, que da série G.700, os mecanismos
amplitude, que será armazenado tratam o sinal digitalizado através usuais de compressão de voz.
até que a próxima amostra seja de técnicas de compressão de Essas recomendações garan-
capturada, momento em que sinais digitais, preservando a tem a interoperabilidade com os
novo armazenamento é realizado, inteligibilidade da informação diversos fabricantes de equipa-
e assim sucessivamente. original; este é o caso do formato mentos de telecomunicações, pro-
Os sinais mostrados são MP3, globalmente conhecido e vendo várias opções de tratamen-
então processados pelo dispo- padronizado na distribuição de to de sinais, que serão escolhidas
sitivo de digitalização, podendo áudio de alta fidelidade em conforme a relação custo/ benefí-
ser armazenados ou transmiti- arquivos de pequenas dimensões. cio requerida pela solução deseja-
dos, como no caso de voz sobre No campo da voz sobre da, de acordo com o que pode ser
IP. IP, utilizamos padrões menos avaliado na tabela a seguir:

Recomendação Processamento
Algoritmo Taxa(Kbps)
ITU (ms)
G.711 m -law / A-law 64 0.75

G723.1 MPC-MLQ 6.3 30

G.723.1 ACELP 5.3 30

G.728 LD-CELP 16 3a5

G.729 CS-ACELP 8 10

G.729a CS-ACELP 8 10

Outra decisão já pode ser implementação da facilidade de disponíveis, preserva a qualidade


definida quanto ao padrão de voz sobre IP, o G.723.1, uma vez de voz desejada e traz o menor
compressão de voz a ser utili- que o mesmo requer a menor impacto no tráfego corporativo
zado na rede estadual, para a banda dentre os padrões existente.

Tráfego adicional de dados digitalizados na rede


Considerando-se a utilização um tráfego bidirecional adicional, Considerando que possuímos
da recomendação G.723.1 para a útil, de 5,3 Kbps para cada canal hoje conexões operando com ve-
implementação da rede de comu- de comunicação de voz estabeleci- locidade de 64 Kbps e levando-se
nicação de voz sobre IP da admi- do entre as diversas localidades em conta o tráfego dos elementos
nistração pública estadual, teremos atendidas pela atual rede de dados. de controle do protocolo TCP-IP,

108
que facilmente ultrapassa 10% da de cada ponto envolvido para nível de utilização de cada um
banda útil necessária à comuni- cada conversação simultânea em dos pontos a serem atendidos
cação de voz, estaremos reduzin- curso em determinado instante. com a solução de VoIP confronta-
do em cerca de um oitavo a Tal constatação nos obriga a da com a demanda de voz e dados
capacidade de tráfego de dados uma avaliação meticulosa do pretendida.

Qualidade necessária ao serviço


Inicialmente, as aplicações jitter, largura de banda, perda de são claramente percebidos, dando
que faziam uso de redes baseadas pacotes e disponibilidade, não a impressão semelhante àquela
no protocolo IP não exigiam um eram garantidos pelos mecanis- experimentada quando utilizamos
controle rígido da qualidade do mos implementados no protocolo um canal de satélite para o esta-
serviço que era disponibilizado; tal IP em sua versão usual e corrente, belecimento da chamada.
situação não trazia maiores conse- a versão 4. Originalmente, o protocolo
qüências, uma vez que as aplica- Sem um mecanismo que prio- IP possuía um mecanismo de
ções não requeriam um tempo de rize os pacotes de voz digitaliza- classificação de pacotes denomi-
retardo pequeno e constante entre da, denominado habitualmente nado TOS (Type of Service), que
os pontos de comunicação. QOS (Quality of Service), a co- poderia ser utilizado para diferen-
Diferentemente das aplica- municação apresenta pequenas ciar os diversos tipos de tráfego
ções convencionais, como a na- interrupções e ruídos que com- que disputavam o recurso físico
vegação na internet (HTTP), a prometem a qualidade percebida de comunicação que interligava
transferência de arquivos (FTP), pelas pessoas envolvidas na con- os roteadores que compunham a
o envio de mensagens de correio versação, tornando-se incômodo internet; variados pacotes de da-
eletrônico (SMTP), dentre outras, o diálogo entre os interlocutores. dos provenientes das aplicações
a comunicação de voz apresenta Atrasos de aproximadamente implementadas sob os protocolos
requisitos de qualidade de ser- um décimo de segundo não são per- TCP e UDP concorriam pelo
viço relacionada com atraso na cebidos pelo processo de audição canal de comunicação de acordo
entrega dos pacotes; a variação dos seres humanos durante uma com a classificação marcada no
desses atrasos, conhecida como conversação; atrasos superiores cabeçalho do pacote.

Ver4 IHL TOS ...


Cabeçalho de um Pacote IP Versão 4
0 1 2 3 4 5 6 7
Precedência DTS (Delay, Throughput, Reliability) 0
111 - Controle da Rede 0000 - Normal
110 - Controle entre Redes 1000 - Minimizar Atraso
101 - Crítico 0100 - Maximizar Taxa de Transferência
100 - Urgentíssimo 0010 - Maximizar Confiabilidade
011 - Urgente 0001 - Minimizar Custo
101 - Imediato
001 - Prioritário
000 - Rotina
Byte TOS

109
O byte TOS do cabeçalho IP estabelecer a ordem de des- fluxo de dados, sendo os pacotes
possui três bits denominados pre- carte que prevalecerá; identificados pelo conjunto de
cedência, que classificam os pa- • a pequena quantidade de quatro parâmetros: endereço, nú-
cotes em uma das oito categorias oito categorias de priorida- mero da porta de origem e de des-
possíveis, conforme a sua priori- de, aliada ao fato de que as tino, e o protocolo de transporte.
dade na rede, ou seja, os de menor duas categorias de maior O RSVP, apesar de adequado
precedência poderão ser descar- relevância estão reservadas ao tráfego de dados sensíveis aos
tados no caso de congestiona- aos dispositivos de rotea- fenômenos associados com gran-
mento dos recursos físicos aloca- mento, reduzindo o número des redes como a internet, traz o
dos na rede, preservando os útil de categorias para seis; inconveniente de exigir a aloca-
pacotes de maior precedência. e ção em memória de todas as in-
Adicionalmente, cada pacote • a implementação prática formações pertinentes às sessões
poderá ser marcado para receber desse mecanismo pelos di- estabelecidas utilizando esse pro-
um dos dois níveis de atraso, taxa versos fabricantes não apre- tocolo, inviabilizando-o para a
de transferência e confiabilidade senta consistência, além do utilização em aplicações de gran-
para o seu prosseguimento, os que os bits DTS foram de abrangência.
bits DTS. redefinidos por RFC poste- Com a identificação da neces-
Pode parecer que esse meca- rior, eliminando o seu con- sidade de garantia de níveis rigo-
nismo seja suficiente para a im- ceito. rosos de serviço na rede, o IETF
plementação de qualidade de ser- Outro mecanismo disponível optou pela redefinição do esque-
viço na rede; entretanto, apresen- é o protocolo RSVP (Resource ma de priorização de pacotes esta-
ta limitações que não satisfazem Reservation Protocol) que reser- belecido pelo campo TOS, substi-
os requisitos necessários: va uma determinada qualidade de tuindo-o pelo DiffServ (Differen-
• entre dois pacotes de mes- serviço, em todos os dispositivos tiated Service), conforme pode ser
ma prioridade, não podemos envolvidos em um determinado observado na ilustração a seguir:

0 1 2 3 4 5 6 7
Seletor de Classes Sem uso
DSCP Differentiated Services Codepoint
Byte DiffServ

Esse pequeno conjunto de Service Codepoint) para classifi- com a implementação anterior,
bits presente em cada pacote, no carmos os pacotes, permitindo uma vez que preservou os estados
octeto TOS do IP versão 4 e no que tenhamos até 64 diferentes dos três primeiros bits, o seletor
octeto Classe de Tráfego no IP classes ou agregados de classes de classes, com os valores asso-
versão 6, marca como deverá ser aos quais podemos associar os ciados à precedência do mecanis-
tratado quando enviado por cada serviços necessários na rede. mo TOS anteriormente descrito.
nó de rede. A implementação desse me- Para o tráfego de voz sobre IP
Agora possuímos seis bits de- canismo de priorização dos pa- e demais aplicações que requei-
nominados DSCP (Differentiated cotes mantém compatibilidade ram um tratamento privilegiado,

110
foi estabelecida uma classe que prioritário que deve estar asso- tecnologias envolvidas em cada
determina a necessidade de enca- ciado aos pacotes privilegiados, um dos trechos trafegados, garan-
minhamento urgente dos pacotes em nosso caso, os pacotes de tindo-se a interoperabilidade dos
marcados com um determinado voz. ambientes envolvidos.
padrão de bits. O IETF recomen- Os pacotes identificados co- Analisando as possibilidades
da que o valor para estes seis bits mo prioritários são encaminha- apresentadas e a constatação de
deva estar ajustado na seqüência dos e preservados em precedên- que a esmagadora maioria de
binária "101110", conforme foi cia aos demais, garantindo dessa roteadores de que dispõe a
estabelecido na RFC-2598. forma a qualidade requerida pelas administração pública estadual é
Tal padronização é clara- conversações de voz que trafe- compatível com o mecanismo
mente necessária para obtermos a gam pela rede, desde que todos DiffServ, torna-se evidente que a
qualidade de serviço desejada e a os dispositivos por onde os paco- adoção desse mecanismo de
garantia da interoperabilidade tes trafeguem implementem o priorização de pacotes é a mais
com os diversos fornecedores de mesmo mecanismo ou sejam adequada à implementação do
dispositivos de roteamento de capazes de compreendê-los e desejado projeto que disponibi-
rede, quanto ao tratamento os regenerarem conforme as lizará voz sobre IP.

Interconexão com os serviços públicos de telefonia


A implementação do serviço diversos para o estabelecimento Para o funcionamento da im-
de voz sobre IP pode ser conse- de suas conversações, produzin- plementação, deverá ser também
guida com o uso de computa- do resistência na implantação do estabelecido um plano de numera-
dores pessoais, telefones IP, projeto. ção para toda a administração pú-
adaptadores para telefones analó- Com esse objetivo, devere- blica estadual, de forma a obter-
gicos, roteadores com portas es- mos optar pelo uso de equipa- mos uma solução administrativa-
pecíficas para conexão de tele- mentos roteadores modulares, mente coerente, expansível e mo-
fones analógicos, ou equipamen- capazes de se interconectarem dular, permitindo um crescimento
tos PABX através de entronca- com os recursos de telefonia suave em conformidade com os
mentos digitais e os próprios pública através de entroncamen- recursos orçamentários disponíveis.
equipamentos PABX equipados tos digitais ou analógicos, bem Esse plano de numeração de-
com portas para conexão em rede como com a rede interna da verá estabelecer os prefixos dos
local. entidade, seus aparelhos telefôni- números de cada uma das enti-
Em qualquer que seja a con- cos analógicos ou mesmo seu dades envolvidas, podendo tam-
figuração da solução, é impres- PABX, também disponibili- bém trazer um identificador da
cindível a sua interoperabilidade zando o recurso de voz sobre localidade geográfica em que o
com a rede pública de telefonia, IP em sua rede local para a escritório esteja instalado, faci-
de forma que as pessoas não conexão de adaptadores ou tele- litando a compreensão de todos
sejam obrigadas a procedimentos fones IP. os usuários do sistema.

111
Prodemge

FIM de PAPO
Algumas convergências
e outras nem tanto
Rádio, TV, internet, cinema, celular, sons e imagens:
a convergência avança, deixando vítimas e lixo
Luís Carlos Silva Eiras
Analista de sistema e mestre
em Ciência da Informação

Saí por aí procurando a chamada


"convergência digital" e achei o
seguinte: Britânica demorou a acreditar no
CD-ROM, e quando o fez, já era
tarde: os consumidores tinham mi-

“Dentro das
1. DENTRO DA EMISSORA DE RÁDIO, UMA grado para os micros, que eram me-
emissora de TV. Mas como a rádio nores, mais baratos e vinham com
casas, o lixo da ainda não tem conteúdo para trans- utilitários, jogos, dicionários e até
mitir, terceirizou a TV para uma com uma enciclopédia mais ou me-
convergência igreja evangélica. Não que seja tu- nos. Hoje existem os programas de
à espera do digital. A rádio é FM, meio ca- busca e a Wikipedia na internet.
minho entre as emissoras AM e as
de novas futuras rádios digitais. E a TV é a 3. A CONVERGÊNCIA NAS REDAÇÕES DOS
companhias” cabo, também meio caminho entre a jornais. Até os anos 80 (a data varia
TV aberta e a futura TV digital. conforme a empresa), o jornalista
Mas, ainda que as saídas não sejam batia suas mal traçadas linhas (pa-
digitais, toda a parte operacional já pel rascunho, tipos desalinhados,
é. Com grande economia: há 15 fita gasta, impressão irregular)
anos a rádio tinha 93 funcionários, numa Olivetti manual. O texto ia
hoje são 33. para o editor, que o arrumava na
página com o diagramador. Os tex-
2. A PRIMEIRA VÍTIMA DA DIGITALIZAÇÃO tos e o desenho da página seguiam
foi a tabela de logaritmo. A mais para os digitadores. As máquinas
comum era uma editada pelo MEC, imprimiam as tiras, que eram nova-
de capa vinho, obrigatória para os mente montadas numa página. Es-
estudantes até os anos 60. Nos anos sa página era fotografada para virar
70 vieram as calculadoras e, com fotolito. E o fotolito seguia para ser
elas, o fim da tabela de logaritmo. impresso na oficina. Com a "con-
Os logaritmos continuam nas fór- vergência", o jornalista faz o seu
mulas, mas as máquinas passaram trabalho e o dos digitadores, o dia-
a fazer tudo direto, sem necessi- gramador faz uma única montagem
dade de idas e vindas na tabela. da página; na Superinteressante,
Depois, nos anos 80, o CD-ROM por exemplo, não há fotolito, o
matou as enciclopédias de papel. A computador da montagem é o

113
FIM de PAPO
mesmo das impressoras. Do barulho infernal, as por exemplo, você irá votar ou fazer compras
redações silenciaram como nos hospitais de durante as novelas. Como consolo, elas irão
luxo. Não há estatísticas sobre a redução de pes- oferecer para a Copa de 2006 um aparelho para
soal. que sua atual TV possa pegar o sinal delas até
que você compre os novos aparelhos exigidos.
4. ATV A CABO VAI OFERECER SERVIÇO DE TELEFONIA?
É uma luta contra o tempo, já que, quem tem 8. AS TVS NÃO QUEREM QUE AS EMPRESAS DE CELU-
internet a cabo, pode usar programas gratuitos lar transmitam conteúdo próprio. Nada de pro-
para telefonar entre computadores (e pagos para duzir filmes, músicas, sons e programas intera-
ligar para telefones). O problema é que algumas tivos. O alerta veio quando a série de TV "24
empresas de TV a cabo têm como sócias empre- horas" teve a versão "24 minutos" disponível
sas de telefonia de longa distância: se demorar, para celulares e as TVs bronquearam: empresa
a voz sobre IP da internet a cabo domina; se de celular é só para transmitir, o conteúdo é dos
começar logo, provoca autofagia. usuários, suas conversas, fotos, vídeos e men-
sagens. Essa tese não se sustenta, já que as
5. MAS TENTE HOJE ALTERAR A PROGRAMAÇÃO DE SUA emissoras deveriam, então, apenas transmitir
TV a cabo, alugar outros canais, por exemplo. imagens de terceiros. Em tempo: "24 minutos"
Você não pode fazer isso pela própria TV, que tem uma vantagem - Kiefer Sutherland não tra-
não é interativa. Você tenta o telefone, que balha.
nunca atende. Então, tenta outro veículo: manda
um e-mail pela internet, que não é respondido. 9. PAGAR PARA OUVIR RÁDIO? BOM, VOCÊ JÁ PAGA
Então você manda uma carta pelo correio. É para ver TV a cabo. Com o rádio digital, vai ser
possível que esteja faltando aí uma certa con- a mesma coisa: pagamento mensal para ouvir
vergência. estações especializadas: uma de bossa nova,
outra de rock anos 50, mais outra de jazz anos
6. O CINEMA É QUE COMEÇOU SENDO CONVERGENTE. 40 e por aí vai. Como já são hoje as emissoras
Lá estavam o enredo como nos romances, os da internet. Mas o rádio terá um visor e lá
atores como no teatro, a música como nos con- estarão os nomes da música, do cantor, autores
certos, as fusões da fotografia, a montagem e notícias.
como no pensamento. Hoje a convergência dá
mais um salto. O roteiro vai para os atores e 10. OUTRA QUE DEMOROU A ENTENDER A CONVER-
para o programa de edição. Depois chegam as gência digital foi a Kodak. Primeiro, não acre-
imagens, que podem vir tanto do set como de ditou que fotografar tinha ido para as máquinas
programas de computador. A música e o som de baixa resolução, e que revelar tinha ido para
ficam a cargo dos "desenhistas de sons". E o as copiadoras e impressoras. Depois, quando
produto final vai para as salas de cinema e para lançou suas máquinas, fotografar já tinha ido
as fábricas de DVD pela internet. para os celulares.

7. TV DIGITAL OU TV DE ALTA DEFINIÇÃO? A TV DE 11. DENTRO DAS CASAS, O LIXO DA CONVERGÊNCIA.


alta definição vai ser ou quatro emissoras de Verifique você mesmo a parte de cima dos
baixa definição ou um programa de alta, con- armários, as gavetas e caixas, que há muito
forme o horário, com imagem até sete vezes tempo ninguém abre; verifique o que tem
melhor do que a TV atual e som surround. As mesmo no quarto do fundo. Lá estão celulares
atrizes e apresentadoras não gostam - essa TV analógicos, máquinas fotográficas de filmes
mostrará, digamos, as imperfeições. Daí exi- químicos, filmadoras, LPs, videolaser, equipa-
girem uma outra câmara, que faz automatica- mentos de som, calculadoras de bolso, video-
mente aquilo que os maquiadores fazem no cassetes, consoles de videogames, TVs de tela
Photoshop. Já a TV digital, com resolução dos pequena, rádio portátil, gravadores de fita, etc. -
atuais computadores, promete ser interativa; à espera de novas companhias.

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