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INTEGRAÇÃO: EDUCAÇÃO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE

RESUMO: O uso do computador no Ensino Fundamental vem sendo difundido em todo o país, porém ainda não há consenso quanto à forma de utilizá-lo. Às vezes, utilizado como chamariz mercadológico, outras como um equipamento para atividades extra-classe, raramente é utilizado como ferramenta pedagógica. Embora, tenha se tornado lugar comum associá-lo ao progresso e à modernidade, há vozes discordantes. Seja como for, o grande desafio diante da revolução tecnológica que se faz cada vez mais presente na educação e no cotidiano da população de todo o planeta é integrar tecnologia, ética e educação, buscando uma sociedade onde não haja a dicotomia entre a cultura humanística e a cultura técnica.

PALAVRAS-CHAVE: tecnologia – educação – cultura humanística – cultura técnica

1. INTRODUÇÃO

A integração entre educação, tecnologia e sociedade é uma questão que se coloca a todos

aqueles que discutem a história da educação, a pedagogia e as relações sociais no mundo atual. De um lado, não é possível escamotear a presença cada vez mais constante da tecnologia no dia- a-dia dos cidadãos do mundo inteiro. Desde o saque bancário num caixa eletrônico, passando pelo exercício do voto nos sufrágios que se fazem na maioria das vezes através de urnas eletrônicas, até as complicadas operações envolvendo as grandes empresas, as bolsas de valores, enfim, a onipresença da informática torna impossível desconsiderá-la ao pensar as relações humanas no início do terceiro milênio.

Ao pensar a educação como espaço de sociabilização e a escola como um instrumento capaz de colocar as classes populares em contato com o conhecimento sistematizado ao longo da história da humanidade e em condições de enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, faz-se necessário, também, discutir a presença ou a ausência, além das formas de utilização, da tecnologia no mundo escolar.

Diz o senso comum que as escolas são instituições refratárias às inovações, que as mudanças sociais e de comportamento são incorporadas pelas mesmas apenas depois de já incorporadas pela sociedade. Dentro dessa visão, as escolas são, naturalmente, instituições em descompasso com as mudanças que acontecem ao seu redor. Logicamente, essa assertiva do senso comum precisaria ser melhor pesquisada, mas não é esse o objetivo deste trabalho.

O presente artigo apresenta alguns resultados de pesquisa acerca do uso da tecnologia em

escolas da região metropolitana de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e abre um espaço para as vozes discordantes quanto à presença da informática na vida das crianças. Além disso, discute a necessidade de integrar, no mundo acadêmico, as relações sociais entre tecnologia e a sociedade.

2. A INFORMÁTICA E O ENSINO FUNDAMENTAL

Não obstante ser facilmente encontrado ainda hoje um grande número de escolas públicas sem energia elétrica, outras funcionando em galpões e até mesmo debaixo de árvores, é cada vez

maior a demanda pela informatização nas escolas públicas e privadas do país. Essa discrepância entre as escolas das regiões centrais e urbanizadas e as escolas rurais, periféricas e, principalmente, das regiões Norte e Nordeste do país, reflete a desigualdade social e econômica do país. Mesmo assim, é possível afirmar que a ausência dos computadores, quase sempre, é

entendida como atraso e acredita-se que um indivíduo sem conhecimentos básicos sobre informática será marginalizado social e profissionalmente. Ao mesmo tempo, corre-se o risco de discutir a informática educativa como panacéia capaz de resolver todos os problemas educacionais

e o computador ser apresentado como o elemento mais importante da relação pedagógica, ao invés de mero auxiliar de ensino.

Há hoje diversos estudos que buscam redimensionar a prática educativa e valorizar a utilização da informática como ferramenta pedagógica, que facilite aos estudantes o desenvolvimento das habilidades cognitivas. Entre os princípios que norteiam esses estudos estão a importância de reconhecer que professores e livros didáticos não possuem a verdade finalizada, que o computador pode ser uma ferramenta de experimentação, um espaço onde o aluno possa procurar e, aos poucos, dominar uma nova linguagem. Pressupõe-se também uma mudança nos papéis tradicionalmente desempenhados por professores e alunos. Os primeiros deixariam de ser aqueles que repassam informações, convertendo-se em coordenadores de um trabalho de pesquisa. Os últimos deixariam de ser aqueles que recebem passivamente as informações, transformando-se naqueles que buscam e analisam dados.

Numa sociedade desigual como a brasileira,

são enormes os desafios colocados pela informatização do mundo do trabalho e da escola. Em

sua pesquisa acerca do computador como mediador dos processos pedagógicos, a educadora mineira Sheila Alessandra Brasileiro afirma que

Logicamente, são muitos os problemas que surgem

“Em Belo Horizonte, enquanto os filhos das camadas médias, estudam com informática, os filhos das camadas baixas procuram estudar informática. Os primeiros vão à escola que tem computador, os segundos vão à escola de computação, quando conseguem pagar, fazendo, às vezes, o sacrifício de depositar todo o seu salário neste investimento.” (BRASILEIRO, 1996: 87)

É fundamental, pois, vencer esse primeiro desafio, qual seja: democratizar o acesso à informática.

Do contrário, aprofundar-se-á o fosso que atualmente separa as classes populares das classes

altas. Percebe-se claramente, como mostram Ferreti (1994), Gentili (1995) e outros, que atualmente a relação entre informação e poder torna-se sempre mais complexa. E essa relação tem nítidas implicações para a questão da organização do sistema de ensino.

A

pesquisa de Brasileiro, publicada pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra

o

óbvio: as escolas privadas têm sempre melhor infra-estrutura em termos de informática que as

públicas. Porém, seu trabalho procura também analisar se as escolas utilizam o computador e a informática como ferramenta pedagógica, como atividades extra-classe ou apenas como chamariz

Em algumas escolas públicas

encontra-se a disposição dos educadores em utilizar os computadores como ferramentas

pedagógicas, elaborando projetos pedagógicos e buscando ministrar os conteúdos escolares através da informática, levando os alunos a pesquisarem e a criarem a partir dos mesmos. Esbarram, porém, quase sempre no pequeno número de computadores, nos altos preços dos

softwares, no despreparo dos profissionais

para atividades extra-classe e são oferecidos cursos básicos de computação aos alunos e à comunidade escolar. Sem desmerecer essa iniciativa que tem como pontos positivos o fato de oferecer uma qualificação ainda que mínima aos alunos e, principalmente, de aproximar a comunidade da escola, é preciso afirmar que essa prática está ainda muito distante das reais possibilidades de um trabalho pedagógico com a informática. Na verdade, continuam sendo reafirmadas as práticas pedagógicas tradicionais e a informática sendo utilizada como algo

Noutras, também públicas, o computador é utilizado

mercadológico. Nesse item, as conclusões são preocupantes

estanque, completamente isolada do mundo pedagógico e da relação ensino-aprendiazagem.

Nas escolas privadas, com exceção daquelas que têm feito um maior investimento na elaboração

de projetos pedagógicos, o computador também é utilizado como atividade extra-classe

um diferencial quanto às escolas públicas: os cursos de computação que essas escolas oferecem não são apenas básicos, tendo os alunos um acesso maior à utilização da informática. Porém, no que diz respeito ao essencial – a utilização do computador como ferramenta pedagógica – a situação continua a mesma. A maior barreira que essas escolas enfrentam para transformar essa prática pedagógica está na formação dos profissionais da educação, na maioria das vezes, ainda despreparados quanto à informática educativa, por mais que dominem a aplicativa.

Há aqui

Outra constatação revela a perversidade social e pedagógica da relação que se estabelece entre informática e educação. Como as escolas privadas sobrevivem do dinheiro que seus alunos pagam para freqüentá-la, muitas vezes o computador (os mais velozes, número de computador por aluno etc) é utilizado por elas como chamariz mercadológico. O perverso dessa situação está exatamente em que a questão pedagógica é relegada a segundo plano num ambiente em que deveria ser a prioridade absoluta.

Uma última questão observada pela pesquisadora diz respeito às dificuldades com os softwares educacionais. Segundo seus estudos, os poucos softwares nacionais não passam de uma transposição das tradicionais cartilhas para o computador, não atendendo também às divergências culturais e à heterogeneidade presente nas salas de aula. Como na maioria das vezes são feitos por informatas que nada entendem de educação, são atrativos, mas não chegam a ser superiores, em termos pedagógicos, à tradicional cartilha que afirma que “Ivo viu a uva”, ou seja: trabalha-se a alfabetização ou outro conteúdo qualquer totalmente descontextualizado e desvinculado da realidade do aluno, da realidade local e da realidade sócio-político-econômica nacional e mundial.

Finalizando, Brasileiro afirma:

“Constatamos que nas escolas investigadas existem duas formas de trabalhar com a informática na educação: a primeira, desenvolvida para ampliar as possibilidades de se trabalhar os conteúdos escolares, formando um indivíduo mais atuante na sociedade e a segunda desenvolvida para o consumo de pais, onde se tem computadores de última geração em toda escola, com laboratórios equipados e com aulas elaboradas por empresas de informática que pouco ou nada entendem de educação, e mais, gera uma forte dependência de softwares e, consequentemente, dos objetivos das aulas terceirizadas. O problema está que, ao invés do computador ajustar-se às necessidades e visões do aluno, muito freqüentemente as necessidades destes são forçadas a ajustar-se à própria tecnologia.” (BRASILEIRO, 1996:107)

Todas essas dificuldades, porém, não podem ser empecilhos para aqueles que percebem a necessidade de trabalhar com seus alunos utilizando uma ferramenta indispensável para capacitá- los quanto ao desenvolvimento do novo modelo de cognição da realidade do mundo contemporâneo.

3. VOZES DISCORDANTES

O avanço tecnológico torna cada dia mais evidente a necessidade de crianças e jovens estarem preparados para lidar com o tipo de informação presente na sociedade atual. Contudo, existem vozes discordantes que vêem o uso da informática como algo negativo para crianças e adolescentes. Um dos expoentes dessas vozes é Valdemar Setzer, engenheiro, professor titular de Ciência da Computação no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, consultor de informática da Promom e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo.

Autor de vários livros sobre o assunto, tem participado de programas de televisão ou proferido palestras em que acusa o computador de atropelar a infância e o uso da informática na educação como responsável pelo pensamento rígido, inevitavelmente associado à máquina. Segundo ele, é preciso deixar que as crianças sejam infantis e costuma pedir: “Não lhes dêem acesso a TVs, videogames e computadores” (SETZER, 1999: 4).

O autor vai mais longe, defendendo que os adolescentes devem ter acesso ao computador apenas

a partir dos 17 anos. Afirma que a utilização dos mesmos, no lar e principalmente no processo

educacional, é prejudicial porque força o pensamento lógico-simbólico e algorítimico. Mesmo concordando ser esse um pensamento muito particular, que todos gostariam de ver desenvolvido

nas pessoas adultas, o estudioso afirma ser extremamente prejudicial o seu desenvolvimento para

as crianças e adolescentes até os 15, 16 anos.

Justificando sua defesa de que crianças e adolescentes não devem ter acesso à informática,

Setzer afirma ser necessário, nessa faixa etária, estar integrado com o ambiente e com a fantasia. Assim, quando uma criança ouve uma história, ela cria imagens interiores a respeito daquilo que está sendo contado. Se essa história lhe é mostrada na televisão, por exemplo, seu pensamento torna-se menos criativo, não sendo necessário que as imagens sejam criadas pelo ouvinte. O autor exemplifica suas afirmações comparando a utilização por uma criança, de uma boneca de pano, que não tem bem definidos os traços e os membros, obrigando-a a imaginá-los e com uma boneca

de plástico, melhor elaborada e portanto menos exigente quanto à imaginação infantil. “Mais rígido

ainda é o funcionamento do computador” (SETZER, 1999: 4).

Questionado acerca da possibilidade de se usar o computador de maneira lúdica, Setzer argumenta que a utilização de qualquer software exige comandos técnicos que nada têm de

intuitivos. É preciso que a criança saiba que acionando o ícone x, terá resultado y. Esse seria um pensamento extremamente quantitativo, que não abarca o “mais ou menos”, ou a intuição. O contrário acontece quando a criança anda de bicicleta, por exemplo. Nessa atividade, ela não

Ela sabe que cada curva

pensa com quantos metros ou centímetros deve fazer a próxima curva é diferente da anterior e da próxima. Tudo exige que se guie pela intuição.

Além de acusar o computador e a informática de embotar o pensamento intuitivo, o pesquisador é taxativo quanto ao uso dos mesmos no ensino fundamental:

“O maior problema é forçar o pensamento lógico-simbólico antes da época. Porque, na minha concepção de evolução do ser humano, de desenvolvimento pessoal, apenas depois da puberdade, a partir dos 14, 15 anos, é que a gente deveria exigir da pessoa um pensamento puramente abstrato. É o caso de uma demonstração de teoremas, por exemplo. É absurdo pedir provas de teoremas de matemática durante o ensino fundamental. Porque, simplesmente, não faz sentido para uma criança dessa idade ter que provar alguma coisa. Eu fui obrigado a provar teoremas de geometria, sobre semelhanças de triângulos, quando cursei o que é hoje a quinta série. Então, eu olhava para o livro, para dois triângulos semelhantes, com todos os ângulos iguais e pensava: ‘Mas eu estou vendo que eles são semelhantes. Por que eu tenho que provar uma coisa dessas?’ Para uma criança, não faz sentido provar um teorema, porque isso não faz parte da vida imediata. Já o jovem tem que ter um afastamento muito grande do mundo para perceber que demonstrar teoremas possui alguma importância. É uma importância puramente formal, não prática. É claro que é preciso desenvolver esse tipo de raciocínio, mas não antes da hora. Não há necessidade de acelerar a educação. Há tempo para tudo.” (SETZER, 1999: 6)

O autor critica ainda a concepção de que é preciso que as crianças e jovens lidem com

computadores para estarem preparados para o mercado de trabalho. Essa idéia é desconstruída através da afirmativa de que hoje é cada vez mais fácil lidar com computadores e que o mercado é incerto, não sendo possível prever as necessidades do mesmo daqui a cinco ou dez anos, quando

as atuais crianças e adolescentes estiverem na idade de procurar trabalho. E mais ainda: de

acordo com sua opinião, aqueles que passarem muitas horas diante da televisão, dos videogames

e dos computadores estarão menos aptos a concorrer no mercado de trabalho, porque serão menos criativos, e a cobrança pela criatividade tende a crescer.

Questionado sobre resultados científicos que confirmem suas afirmações, Valdemar Setzer diz que não tem pesquisas a respeito do uso precoce do computador, assim como não tinha pesquisas acerca do prejuízo que o uso da televisão traria para as crianças quando começou a falar sobre o assunto, em 1972:

“Eu parto de uma concepção do que é o ser humano, de como se dá o seu desenvolvimento, e também do que é o aparelho, de que atitudes ele força ou induz nos usuários. Juntando tudo isso, não é preciso nenhuma pesquisa. Da mesma forma que eu não preciso de uma pesquisa para saber o que acontece se um trator passar em cima de uma plantação de morangos.” (SETZER, 1999: 8)

Apesar de todas os questionamentos colocados, não se pode negar a presença da informática na sociedade atual, não sendo possível, portanto, ignorar essa realidade quando se quer pensar o sistema educacional e as relações sociais que o mesmo engendra e pelas quais é engendrado.

4. INTEGRAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E SOCIEDADE: O DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO SÉCULO XXI

Harold Benjamin, em seu livro “O currículo do tigre dos dentes de sabre” (apud Bustamante, 1997:

19), apresenta uma curiosa parábola acerca das discussões curriculares que acontecem nas escolas. Segundo essa parábola, em uma determinada sociedade, o currículo escolar era composto de três tarefas básicas: pegar peixes com as mãos livres, matar pôneis a porretadas e afugentar com tochas os tigres de dentes de sabre.

Muitos anos depois de terem sido inventados diversos tipos de redes de pesca, depois de os pôneis terem sido domesticados e os tigres de dentes de sabre estarem em extinção, essas três “matérias” continuavam compondo os currículos escolares da sociedade em questão. Alguns educadores liberais defendiam então a necessidade de uma mudança curricular, substituindo as antigas disciplinas por outras mais adequadas às necessidades dos homens contemporâneos. Outros esbravejavam que bastaria aos seres humanos desenvolver as habilidades técnicas e

racionais presentes nas disciplinas que ao longo do tempo vinham compondo os currículos, como

a habilidade para pegar peixes com mãos limpas, a força e cautela para matar pôneis a

porretadas, a coragem para afugentar tigres com tochas, para que estivessem aptos a desenvolver quaisquer outras capacidades e habilidades exigidas pelo mundo moderno. Outros, ainda, defendiam a permanência das antigas disciplinas no currículo por seus valores culturais.

A parábola mostra com clareza os dilemas que se colocam para educadores e estudantes atualmente. O papel da ciência e da tecnologia nas sociedades atuais é tão profundo que se torna difícil pensar um espaço, seja no trabalho, seja no lazer, em que não se façam presentes. As informações chegam às pessoas e aos mais diversos lugares em tempo e quantidades recordes. O futuro se vive antecipadamente – essa a impressão que se tem do mundo contemporâneo. E, nesse mundo, não são mais cabíveis as barreiras disciplinares e a estrutura curricular que moldaram e moldam ainda a maioria dos sistemas de ensino.

Há que se considerar, no entanto, que se vive um mundo dividido entre duas culturas: a cultura humanística, quase sempre alijada da vida cotidiana, dos meios de comunicação, dos eventos de massa e a cultura técnico-científica, que quase sempre é apresentada como algo que prescinde da

reflexão filosófica. Buscar o diálogo entre essas duas culturas talvez seja o grande desafio do mundo atual. Integrar ciência e tecnologia, em harmonia com a cultura, estabelecer um vocabulário comum que permita um acesso social a questões técnicas e a seu conteúdo, discutir as conseqüências políticas e sociais da tecnologia nas vidas humanas é sem sombra de dúvida um desafio que precisa ser enfrentado com urgência pelos educadores em geral.

Inicialmente, é preciso perceber que todas as atividades técnicas são essencialmente humanas, pois que realizadas por homens e mulheres que imprimem, nas mesmas, os seus sentimentos, as

suas idéias, a visão e percepção de mundo que têm

como se utiliza, como se concebe ou até mesmo como são rechaçados os produtos tecnológicos) estão profundamente imbricadas nos produtos técnico-científicos.

Essas dimensões não-técnicas (a maneira

Até algumas décadas atrás, a fé no progresso evitava qualquer tipo de crítica profunda a respeito da ciência e/ou da tecnologia. Pensava-se que seus efeitos, quando perversos, eram conseqüências de ações pontuais de indivíduos que atraiçoavam o ethos da ciência, que toda tecnologia é neutra em si mesma e que somente seu uso poderia conter um caráter moral. Que a tecnologia e a ciência estenderiam seus benefícios a todas as classes sociais e que o progresso traria uma nova “Idade do Ouro” por meio do conhecimento científico.

Historicamente, essa tem sido a visão predominante dos homens e mulheres diante do progresso técnico-científico. Assim foi nos séculos XVIII e XIX, no Iluminismo, quando pensadores de

diversos países e correntes filosóficas afirmavam estarem os seres humanos diante de uma forma de organizar o mundo, apregoando a capacidade de a ciência resolver todos os males até então

vividos pela humanidade: a fome, as doenças, a violência

Luzes”, porém, não viveriam o bastante para presenciar os desastres ecológicos, as bombas

atômicas, as guerras e tantos outros “benefícios” trazidos pelo progresso científico. Não veriam ou não teriam tempo suficiente para analisar as conseqüências do avanço industrial para os trabalhadores. Não teriam condições de perceber o quanto a máquina, ao invés de liberar o ser humano das tarefas pesadas e permitir-lhe tempo para o ócio, escravizou-o ainda mais e fez com que homens e mulheres do século XX exercessem uma jornada de trabalho diária maior do que a

Não tiveram ainda o distanciamento necessário para

perceber que as inovações técnicas aumentaram as desigualdades sociais, aumentaram a fome e

a miséria e que, muito embora permitissem ao mundo contemporâneo produzir alimento além do

necessário para atender as necessidades básicas da população mundial, mais de um terço do

planeta vive em condições miseráveis, subalimentados e famintos

exercida pelos camponeses medievais

Os protagonistas do “Século das

A informática, no século XX, teve trajetória semelhante. Vista por muitos como neutra e capaz de

facilitar a vida de toda a humanidade, precisa ser hoje repensada exatamente para que esteja a serviço da maioria da população. Por isso, em universidades norte-americanas, espanholas e francesas vêm surgindo disciplinas como filosofia da tecnologia, sociologia da tecnologia e outras. Essas disciplinas visam superar a dicotomia entre a cultura humanística e a cultura técnico-

científica, além de apresentar aos estudantes uma série de problemas que requerem um tratamento pluridisciplinar. Através delas, estaria aberto o espaço para debates em torno da ciência

e do papel determinante da economia, da distribuição do poder, da religião e da cultura nas

sociedades atuais. A análise do contexto histórico teria como objetivo perceber a forma como a tecnologia, aparentemente neutra, é utilizada a favor de um ou outro grupo social. E o viés filosófico buscaria perceber como os seres humanos vêm mudando suas relações com o mundo atual e, inclusive, como vem mudando o processo de cognição, mas, principalmente, seria um espaço onde se fariam presentes os questionamentos éticos a respeito da utilização da tecnologia nos mais variados espaços sociais.

Busca-se também diminuir o fosso existente entre uma parcela da população que domina os

conceitos científicos e uma grande maioria que passa ao largo de toda e qualquer discussão

Por fim, tem-se como objetivo capacitar os

científica, relegando esse debate aos especialistas

estudantes para a reflexão sobre as questões sociais geradas pela ciência e pela tecnologia, levando-o a exigir exposições e explicações claras dos diversos atores que intervêm no debate social sobre ciência e tecnologia, de maneira que a informação recebida se converta sempre em critério para consolidar uma opinião bem fundada sobre assuntos que cada vez mais têm relevância na vida social.

5. CONCLUSÃO

Espera-se que tudo isso possa ajudar a cultivar uma cultura sócio-técnica (social e técnica ao mesmo tempo) nos jovens estudantes que vão desenhar, através de decisões técnicas e políticas, o futuro desta sociedade. Numa sociedade que tem como meta aprofundar um conceito de democracia que implique uma participação cada vez mais ampla de todos os cidadãos na tomada de decisões que afetem suas vidas e seus interesses, uma cultura desse tipo se constituiria em uma verdadeira infra-estrutura de participação. Há que se salientar também que criar uma maior consciência da profundidade e alcance das relações entre a ciência, a tecnologia e a sociedade se revela como uma das metas mais importantes que a educação deve perseguir se se quer construir uma sociedade mais humana, justa e solidária, em que a ciência e a tecnologia sejam ferramentas fundamentais da promoção de fins socialmente relevantes.

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