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Sobre a Sabedoria da Profecia (al-hikmat an-nubūwiyah) no Verbo

de Jesus*

O Espírito (ar-rūh, o Cristo) foi manifestado da água de


Maria e do sopro de Gabriel,
Sob a forma de homem feito de argila,
Num corpo purificado da natureza [corruptível], que ele
chama de “prisão” (sijīn).
De tal modo que ele aí habita desde há mais de mil anos1.
Um “espírito de Deus”2, de mais ninguém:
É por isso que ressuscitava os mortos e criou o pássaro de
argila3.
Sua relação para com seu Senhor é tal
Que ele age por ela nos mundos superiores e inferiores.
Deus purificou seu corpo e o elevou em espírito
E fez dele o símbolo de Seu ato criador4.

Fica ciente de que os espíritos têm a virtude de comunicar a vida a


tudo quanto tocam. É por isso que as-Sāmirī5 [do qual se diz no Alcorão
que fabricou o bezerro de ouro adorado pelos israelitas na ausência de
Moisés6] tomou a poeira deixada pelas pegadas do enviado [divino], que
era [o arcanjo] Gabriel; pois as-Sāmirī conhecia essa virtude dos
espíritos, e, quando percebeu que o enviado era Gabriel, soube que a vida
se havia comunicado ao lugar que ele pisara com os pés; juntou então um
punhado de pó da terra7 e lançou-o no bezerro [de ouro], que “mugiu” em
seguida como fazem os bovídeos; — a estátua teria emitido a voz de
qualquer outro animal, inclusive do homem, se tivesse a forma desse
animal. — Esse poder vem da vida infusa nas coisas, vida que se chama
lāhūt (natureza divina), ao passo que o receptáculo vivificado pelo
*
Tradução de Marcelo Brandão Cipolla.
1
Ou seja, o tempo que se passou desde a ascensão do Cristo até o momento em
que este livro foi escrito; ele aí permanecerá até sua “nova descida” no fim do
ciclo.
2
“... O Messias, Jesus, filho de Maria, é o enviado de Deus e Seu Verbo que ele
projetou sobre Maria, e Seu espírito...” (Alcorão, IV, 170).
3
“[Jesus lhes disse]: Vis mostrar-vos sinais do vosso Senhor; formarei de argila a
figura de um pássaro, e soprarei sobre ele, e será um pássaro [vivente] pela
permissão de Deus...” (Alcorão, III, 43). O relato do menino Jesus dando vida a
um pássaro de argila encontra-se também nos evangelhos apócrifos.
4
Pois o Cristo ressuscitou mortos.
5
Não é claro o significado desse nome corânico; alguns o traduziram por “o
Samaritano”, mas trata-se de um anacronismo demasiado evidente.
6
“[Os israelitas disseram a Moisés]: De modo algum violamos nossas promessas
por um movimento de nossa parte, mas mandaram-nos juntar as arrecadas de
nossos ornamentos... As-Sāmirī lançou-os [no fogo] e retirou daí para o povo um
bezerro corporal, que mugia...” (Alcorão, XX,90).
7
“[Moisés disse]: E tu, ó as-Sāmirī, qual foi o teu desígnio? Ele respondeu: vi
aquilo que eles não viram. Tomei um punhado de poeira das pegadas do enviado
e lancei-o no novilho fundido; minha alma me sugeriu tal coisa” (Alcorão, XX,
96).

1
espírito é chamado nāsūt (natureza humana); e esse nāsūt [que
compreende a forma corporal] é por sua vez considerado um espírito em
virtude daquilo que lhe conserva a existência8.
Quando o “Espírito Fiel” (ar-rūh al-āmīn), que é Gabriel, apareceu a
Maria “sob a forma de um homem harmonioso”, ela imaginou que se
tratasse de um homem que procurava conhecê-la segundo a carne, e,
ciente de que tal não era permitido, “buscou refúgio em Deus contra ele” 9
com todo o seu ser, e, por isso, foi tomada por um estado perfeito de
Presença divina, estado que se identificava ao espírito intelectual (ar-rūh
al-manāwī). Se Gabriel lhe tivesse transmitido seu sopro naquele mesmo
instante, enquanto ela se encontrasse nesse estado, Jesus teria nascido
tal que pessoa alguma o teria podido suportar em virtude de sua natureza
“cortante”, em conformidade com o estado de sua mãe quando de sua
concepção; mas quando Gabriel disse a Maria: “Em verdade, sou o
enviado do teu Senhor e vim para te dar um filho puro” 10, seu estado de
contração se distendeu e seu peito se dilatou; e foi então que Gabriel lhe
insuflou [o espírito de] Jesus. Gabriel — sobre ele a paz! — foi então o
veículo da palavra divina transmitida a Maria, da mesma maneira que o
enviado (ar-rasūl) transmite as palavras de Deus a seu povo, segundo a
palavra corânica: “[Jesus foi] Sua palavra que Ele projetou sobre Maria, e
Seu espírito.”11 Naquele instante, o desejo amoroso invadiu Maria, de tal
modo que o corpo de Jesus foi criado da verdadeira “água” (ou semente)
de Maria e da “água” (ou semente) puramente imaginária de Gabriel,
transmitida pela umidade que em princípio é inerente ao sopro — pois o
sopro dos entes animados contém o elemento água. Assim, o corpo de
Jesus foi constituído de “água” imaginária e de “água” verdadeira, e ele
foi gerado sob forma humana por causa de sua mãe e por causa da
aparição de Gabriel sob forma de homem; pois fora da lei comum não há
geração na espécie humana12.
Do mesmo modo, Jesus ressuscitou os mortos porque é o Espírito
divino — só Deus dá a vida; contudo, o sopro [que transmite a vida] era
de Jesus; da mesma maneira que o sopro inspirado a Maria era o sopro de
8
Essa passagem parece aludir às duas naturezas do Cristo. Estas podem ser
consideradas dois aspectos de seu Espírito ou de sua Essência.
9
“... Nós enviamos a ela o nosso Espírito e ele revestiu-se para ela da forma de
um homem harmonioso. Ela disse: Busco refúgio em Deus contra ti; se o
temes...” (Alcorão, XIX, 17-18).
10
“Ele respondeu: Sou o enviado do teu Senhor e vim para te dar um filho puro.
— Como, respondeu ela, poderei ter um filho? Pois não fui tocada por nenhum
homem, e não me conto entre as transgressoras. Ele respondeu: Eis o que diz o
teu Senhor: Isto é fácil para Mim. Ele será Nosso símbolo para os homens e uma
misericórdia de Nossa parte. Está dada a sentença...” (Alcorão, XIX, 19-21).
11
Alcorão, IV, 70.
12
Isto significa que o milagre não aboliu a ordem natural, mas a recapitulou
incidentalmente em seu princípio superior; no caso, a potência espiritual de
Gabriel recapitulou a ordem corporal em seu princípio sutil sem que a
polaridade da geração específica fosse destruída por isso. — Essa explicação
cosmológica da concepção de Jesus não foi dada com a finalidade de relativizar
a intervenção divina; seu propósito é antes o de facultar a compreensão da
constituição mesma do Cristo, a relação excepcional que liga seu elemento
“paternal” à sua substância “maternal”, como demonstra a seqüência do texto.

2
Gabriel, ao passo que o Verbo vinha de Deus. Por isso, a ressurreição dos
mortos é verdadeiramente uma ação de Jesus, uma vez que emanava de
seu sopro como ele mesmo emanara da forma de sua mãe; por outro lado,
é apenas segundo as aparências que a ressurreição foi operada por ele,
visto que é essencialmente um ato divino. Jesus unia em si essas duas
realidades em virtude da sua constituição, a qual dizemos ter sido
produzida simultaneamente por uma semente imaginária [ou criada pelo
poder de sugestão: al-wahm] e por uma semente real; de tal modo que o
ato de ressuscitar os mortos provém dele de uma maneira efetiva, por um
lado, e de uma maneira suposta, por outro. De acordo com o primeiro
desses dois aspectos, diz-se dele: “Ele vivifica os mortos” 13; e de acordo
com o segundo: “Ele sopra nele [no pássaro formado de argila] e este se
torna um pássaro, pela permissão de Deus”; o agente, nesse caso, está
logicamente ligado à expressão: “pela permissão de Deus” 14; — isso
significa que a transformação do pássaro de argila em pássaro real se fez
pela intervenção de Deus; entretanto, pode-se também relacionar a
permissão divina com o ato de soprar e não com a transformação [da
forma de argila] em pássaro, [cuja alma específica] seria então devida
simplesmente à forma aparente [do objeto que recebeu o sopro
vivificante]. O mesmo vale para a cura do cego de nascença e do leproso
e para todos os outros atos milagrosos atribuídos [segundo o Alcorão] a
Jesus, por um lado, e à permissão de Deus, por outro, permissão relatada
na primeira ou na segunda pessoa segundo as palavras corânicas: “pela
Minha permissão” ou “pela permissão de Deus” 15. Logo, se a permissão
de Deus se relaciona com o ato de soprar, o pássaro foi criado, com a
permissão divina, por aquele que soprou dentro [do objeto de argila]. Por
outro lado, se o ato de soprar não depende [diretamente] da permissão
divina, é a transformação do pássaro [de argila] em pássaro real que
depende dela, e o agente dessa transformação está então implícito no
termo: “ele se torna”. Se o ato de que se trata não comportasse em si
mesmo algo efetivo e algo imaginário, o acontecimento não poderia
assumir indiferentemente um e outro aspecto; mas isso acontece porque
a própria constituição de Jesus comporta os dois aspectos.
Jesus manifestou a humildade a tal ponto que deu à sua comunidade
o mandamento de dar o dízimo humilhando-se, e de, se alguém fosse
atingido na face, oferecer a outra face a quem o atingiu e não se revoltar
contra ele nem buscar vingança. Isso Jesus herdou de sua mãe, pois é a
mulher que se submete naturalmente, uma vez que é legal e fisicamente
sujeita ao homem. Seu poder vivificante e curativo, por outro lado, lhe
veio do sopro de Gabriel revestido de forma humana. É por isso que Jesus
pôde vivificar os mortos tendo a forma de homem. Se Gabriel não tivesse
aparecido [a Maria] sob forma humana, mas sim sob qualquer outra
forma sensível, animal, vegetal ou mineral, Jesus não teria ressuscitado
os mortos sem revestir-se nesse momento dessa forma não-humana e
manifestar-se nela; do mesmo modo, se Gabriel tivesse aparecido numa
forma de luz [espiritual] desprovida dos elementos e das qualidades

13
Alcorão, III, 48.
14
Alcorão, III, 48.
15
Alcorão, V, 110.

3
sensíveis — embora compreendida na Natureza universal (at-tabī‘ah) —
Jesus não teria podido ressuscitar os mortos sem aparecer ele mesmo,
quando de sua ação, nessa forma de luz suprassensível, revestindo-se ao
mesmo tempo da forma humana que recebeu de sua mãe. Por causa disso
[quer dizer, por causa de sua identificação com Gabriel quando do ato
milagroso], diz-se dele que, quando ressuscitava os mortos, era ele e
porém não era ele; e os espectadores ficavam consternados ao vê-lo, da
mesma maneira que aquele que reflete sobre essa ação fica consternado
ao ver que uma pessoa humana vivifica os mortos quando a capacidade
de vivificar os seres dotados de palavra — não porém os outros animais
[que participam de algum modo da vida do homem perfeito] —é uma
propriedade divina; aquele que pensa sobre isso fica perplexo ao ver uma
ação divina emanando de uma forma humana. É isso que levou alguns a
postular a “localização” (hulūl) de Deus [na natureza humana de Jesus] e
levou outros a dizer que Jesus era Deus na medida em que ressuscitava
os mortos, e por isso o Alcorão atribui a esses o kufr (a incredulidade),
palavra que significa literalmente o véu (sitr), uma vez que “velam” a
Deus, Que ressuscita realmente os mortos pela forma humana de Jesus.
Deus diz [no Alcorão]: “São incrédulos os que dizem: em verdade, Deus é
Ele mesmo o Messias, filho de Maria”16, pois somam o extravio à
incredulidade em sua afirmação — não por dizerem que o Messias era
Deus, nem por chamá-lo filho de Maria, mas por identificar Deus, na
medida em que vivifica os mortos, com a forma humana terrestre
designada expressamente como o filho de Maria. É certo que Jesus era o
filho de Maria; e aquele que ouve a frase [condenada] poderia crer que os
que a dizem atribuem a Natureza divina (al-ulūhiyah) à forma de Jesus no
sentido de que a Divindade é a essência dessa forma; mas não se trata
disso, pois eles [pela expressão: “Deus é Ele mesmo etc.”] fazem da
Ipseidade (al-huwiyah) divina o sujeito da forma humana designada como
o filho de Maria; distinguem assim a forma [humana] como tal do
princípio [do qual ela é uma manifestação] e não identificam a forma
[crística] essencialmente a esse princípio [que se manifesta pela
revivificação dos mortos]17, do mesmo modo que se faz a distinção entre a
forma humana de que Gabriel se revestiu e o sopro que inspirou em
Maria; pois, embora o sopro emane dessa forma, ele não deriva dela
essencialmente.
Por isso, as diversas comunidades religiosas divergiram quanto à
identidade de Jesus — sobre ele a Paz! — alguns, considerando-o em vista
de sua forma humana terrestre, afirmavam que ele era o filho de Maria 18;
outros, considerando nele a forma aparentemente humana, vinculavam-
16
Alcorão, V, 19.
17
Ou seja, definem a forma de Jesus como forma humana terrestre, pelas
palavras “filho de Maria”, ao mesmo tempo em que identificam Deus com essa
forma. Trata-se evidentemente da confusão entre as duas naturezas do cristo, a
divina e a humana.
18
Ibn ‘Arabi não considera Maria sob seu aspecto de Theotokos, “Mãe de Deus”;
essa expressão seria mesmo completamente ininteligível do ponto de vista do
Islam, que sempre opera uma nítida distinção entre o criado e o incriado; mas a
idéia do “Deus manifestado”, no sentido direto e “concreto” dessa expressão, se
encontra no Sufismo — a saber, na identificação entre Deus e Seu Nome.

4
no a Gabriel; outros ainda, pelo fato de a vivificação dos mortos emanar
dele, vinculavam-no a Deus pelo Espírito, dizendo que era o Espírito de
Deus, ou seja, que era ele que comunicava a vida a quem recebia seu
sopro. Assim, sucessivamente, supõe-se nele ou Deus, ou o Anjo, ou a
natureza humana; de modo que ele é para cada espectador aquilo que
para esse espectador se impõe: é o Verbo de Deus, é o Espírito de Deus e
é o servo [isto é, a criatura] de Deus. Há aí algo que não acontece com
nenhum outro homem considerado em sua forma aparente, pois toda
pessoa se liga naturalmente ao seu pai formal e não àquele que insuflou
seu espírito na forma humana. Isso porque quando Deus “forma” — como
Ele mesmo diz — o corpo humano e em seguida “insufla” nele o Seu
Espírito19, esse Espírito se liga, assim pela existência como pela essência,
a Deus somente. Ora, não é assim que as coisas acontecem com Jesus: a
preparação de seu corpo e de sua forma está implicada no sopro
espiritual [que Gabriel projetou sobre Maria]. Como acabamos de dizer,
não é esse o caso dos outros seres humanos [em que a preparação do
corpo precede a inspiração do espírito].
Todas as existências são “as Palavras de Deus que não se esgotam
jamais”20; pois todas elas não são outra coisa senão a palavra “sê!” (kun),
que é o Verbo de Deus. Ora, será preciso crer que a Palavra se vincula
imediatamente a Deus em Seu estado principial? Se assim for, nos é
impossível conhecer sua qüididade; ou senão é Deus que “desce” em
direção à forma daquele que diz: “sê”, de tal modo que a palavra “sê” é a
realidade essencial (al-haqīqah) da forma em direção à qual Deus “desce”
ou na qual Se manifesta. Certos conhecedores de Deus afirmam a
primeira coisa, outros afirmam a segunda, e outros ainda se calam diante
da ambigüidade dos aspectos. Essa questão só pode ser sondada pela
intuição. Abu Yazīd, que soprou sobre a formiga que havia matado
[inadvertidamente] e a fez reviver, soube muito bem por quem soprava e
que era por Ele que soprava; sua contemplação foi crística.
Já a vivificação pelo conhecimento é a Vida divina, essencial,
superior, luminosa, da qual Deus diz [no Alcorão]: “... ou bem aquele que
estava morto e que Nós vivificamos, concedendo-lhe uma luz por meio da
qual caminha entre os homens...”21. Quem quer que vivifique pela vida do
conhecimento uma alma morta, em qualquer um dos domínios vinculados
ao conhecimento de Deus, esse a vivifica realmente, uma vez que esse
conhecimento particular é para essa alma como uma luz com a qual ela
caminha entre as gentes, ou seja, entre aqueles que a ela se assemelham
pela forma.

Sem ele [como princípio ativo] e sem nós [como receptáculos


de seu ato] nada existiria.
Adoro-O em verdade;
E Deus é nosso Mestre.
19
“Quando Eu o tiver formado e tiver insuflado nele o Meu Espírito...” (Alcorão,
XV, 29).
20
“Dize: Se o Oceano fosse tinta para as palavras de meu Senhor, o Oceano se
esgotaria antes que se esgotassem as palavras de meu Senhor, mesmo se
produzíssemos ainda uma vez o mesmo tanto de tinta” (Alcorão, XVIII, 109).
21
VI, 122.

5
Mas eu, eu sou Ele Mesmo (‘aynuh)
Na medida em que vês [em mim] o Homem [universal].
Não te deixes pois obcecar pelo véu do homem individual,
E ele será para ti um símbolo evidente.
Sê a um só tempo Deus [em tua essência] e criatura [por tua
forma],
E serás por Deus o dispensador de Sua misericórdia.
Nutris por Ele a Sua criação.
Serás um “repouso libertador e um perfume de vida”
(rawhān wa raïhānā)22.
[Como determinações] nós Lhe damos aquilo por meio do
qual Ele se manifesta em nós;
Ao passo que Ele nos dá o Ser
De tal modo que o Ato (al-amr) procede a um só tempo d’Ele
e de nós.
Aquele que conhece por meu coração, no momento em que
Ele nos dá a vida, o vivifica [pelo conhecimento]23.
Nós éramos n’Ele existências, determinações e relações de
tempo.
Esse estado [de contemplação de nossas possibilidades
permanentes em Deus] não persiste em nós,
Mas é ele que nos vivifica.

O que dizíamos do Sopro espiritual que age através da forma


humana terrestre é corroborado pelo fato de Deus atribuir a Si Mesmo a
“Expiração de Absoluta Bondade” (an-nafas ar-rahmāni). Ora, a atribuição
de uma qualidade acarreta necessariamente tudo quanto [o simbolismo
dessa] qualidade comporta; no caso em pauta, bem sabes quais
[características elementares] a Expiração [animal] comporta [como a
dilatação, a propagação, a produção do som, etc.]. É por isso que se diz
que a Expiração divina engloba todas as formas do mundo; com efeito, ela
é para elas como a Matéria Prima (al-jawhar al-hayūlānī), que, esta, não é
outra coisa senão a determinação primeira da Natureza universal (at-
tabī‘ah). Os quatro elementos24 não são senão formas, entre outras, de
todas aquelas que essa Natureza contém; o que está acima dos elementos
e acima de tudo que é constituído pelos elementos também faz parte, na
qualidade de “formas”, da Natureza universal; isso significa que não
somente os espíritos e as essências das sete esferas celestes 25, mas
também os “espíritos superiores” (al-malā’ al-a‘lā), são produzidos pela
Natureza universal; é por causa disso, aliás, que Deus diz que eles
rivalizam uns com os outros: porque a Natureza comporta a polarização;
a oposição recíproca dos Nomes divinos — que são as relações
22
Alcorão, LVI, 88.
23
Esse verso pode também ser traduzido da maneira seguinte: Aquele que O
reconhece pelo meu coração, no momento em que Ele nos dá a vida, atribui-Lhe
a vida individual.
24
Considerados como quatro fundamentos “naturais”, tanto do mundo sutil
quanto mundo corporal.
25
Que são “elementares” por participar das modalidades sutis dos quatro
elementos.

6
[universais] — provém exatamente da “Expiração de Absoluta Bondade”,
ao passo que a Essência (adh-dhāt), que não está submetida a essa
condição [de polarização], é “independente dos mundos”. Quanto ao
mundo, foi produzido “na forma” de seu princípio manifestante, que não é
outro senão a Expiração divina26.
A Expiração divina se “eleva” em virtude do calor que lhe é
inerente; “desce” em virtude do frio e da umidade; e se “fixa” e
“solidifica” em virtude da secura. Logo, a “precipitação” [do mundo
grosseiro] provém do frio e da umidade [ou seja, daquilo que corresponde
a essas qualidades na ordem universal]. É o mesmo que podemos
constatar na medicina: para administrar um remédio que acelere a
digestão, o médico espera até observar uma precipitação na urina do
doente, precipitação que se produzirá por uma predominância, no
organismo, do frio e da umidade naturais.
Além disso, [a polarização primordial que qualifica a Natureza
universal é simbolizada pelo fato de que Deus] moldou a argila do homem
“com Suas duas mãos”, que são evidentemente opostas uma à outra;
embora cada uma delas seja, em certo sentido, e como já se disse, uma
“mão direita”, a distinção entre elas não é menos real por isso, quanto
mais não seja pelo simples fatos de serem duas e não uma. Isso porque a
Natureza, que comporta a oposição, é regida por aquilo que lhe
corresponde. De resto, é por causa dessa moldagem por suas duas mãos
que Deus chamou ao homem bashar27, palavra que faz alusão à “ternura”
(al-mubāsharah) prodigalizada ao homem pelas duas Mãos divinas que o
moldaram; o que significa um favor divino particular concedido ao gênero
humano, uma vez que [segundo o Alcorão] Deus disse ao que se recusou a
prostrar-se diante de Adão: “O que te impede de prosternar-te diante
deste que criei com Minhas duas mãos? És acaso orgulhoso (em relação a
este que é igual a ti, ou seja, que é feito dos elementos como tu), ou és
um dos seres superiores (al-‘ālīn)28 — que, eles, ultrapassam o domínio
dos elementos, o que contudo não acontece contigo?!” — Entendemos
portanto por espíritos superiores aqueles que, por sua essência e em sua
natureza luminosa, se elevam por sobre os elementos, embora dependam
da Natureza universal. O único motivo pelo qual o homem ultrapassa as
outras espécies do domínio elementar é por ter sido “moldado” pelas
“duas Mãos” divinas; é por isso que sua espécie é mais nobre que toda
outra espécie formada dos elementos sem esse duplo contato divino [que
corresponde à natureza “central” do homem]; isso significa que o homem
possui uma dignidade superior não só à dos anjos terrestres [dos quais
fazem parte os gênios] como também à dos anjos celestes [que povoam as
sete esferas celestes, formadas de modalidades sutis dos elementos], ao
passo que os Anjos superiores, segundo o texto sagrado, são melhores do
que o gênero humano [pois não tiveram de prosternar-se diante de Adão].
Aquele que deseja conhecer a Expiração (nafas) divina, que
considere o mundo: pois, [segundo a palavra do Profeta], “aquele que

26
Segundo essa concepção, a Natureza universal — ou a Expiração divina — é
análoga ao que a doutrina hindu chama de Shakti ou Māyā.
27
Alcorão, XV, 28.
28
Alcorão, XXXVIII, 75.

7
conhece sua alma (nafsahu) conhece a seu Senhor” que se manifesta
nele; entendo aí que o mundo se manifesta na Expiração do
Absolutamente Bom, pela qual Deus “dilatou” (naffasa) as possibilidades
implícitas nos Nomes divinos, aliviando-os (naffasa) por assim dizer da
contração de seu estado de não-manifestação; fazendo isso, Ele foi
generoso Consigo Mesmo (nafsahu) por meio daquilo que manifesta em Si
Mesmo (fī nafsihi); de tal modo que é assim que se afirma o primeiro ato
da Expiração (an-nafas) divina. Em seguida, o Ato divino não deixa de
descer gradualmente pelo “alívio (tanfīs) das angústias”29 até a
derradeira das manifestações.

Tudo está contido na Expiração divina


Como o dia no crepúsculo da manhã.
O Conhecimento transmitido por demonstração é como a
aurora para aquele que dormita;
De tal modo que ele vê o que acabo de dizer como num
sonho, símbolo da Expiração divina,
Que, depois das trevas, o alivia de toda aflição.
Ele Se revelou outrora àquele que veio em busca de um
tição,
E que O viu como um fogo, a Ele que é uma luz dentro dos
reis [espirituais] e dos viajantes.
Se compreendes minhas palavras, sabes que tens
necessidade [da forma aparente]:
Se [Moisés] tivesse procurado outra coisa [que não o fogo],
O Teria visto nela, e não o contrário.

Quanto às palavras pelas quais Jesus respondeu [segundo o


Alcorão] a certa questão que Deus lhe propôs (sob o mesmo aspecto que
O levou a dizer também: “Nós os provaremos até que saibamos”, —
entendo, como se Ele quisesse saber se tal coisa atribuída a Jesus havia
acontecido de fato ou não, e isso apesar de sabê-lo desde toda
eternidade), quando lhe disse: “Acaso disseste às gentes que tomassem a
ti e à tua mãe por divindades ao lado de Deus?” 30, era preciso que a
29
Segundo a doutrina dos Padres gregos, o mundo foi criado “pelo Filho (o
Verbo) no Espírito Santo”, o qual também é chamado “Consolador”.
30
“E quando Deus disse a Jesus: Acasodisseste aos homens: Tomai a mim e à
minha mãe por divindades fora de Deus? Ele respondeu: Exaltado sejas! Não
cabe a mim dizer o que não tenho o direito de dizer [ou: o que não é para mim
segundo a verdade]. Se eu o disse, Tu o soubeste; Tu sabes o que há em mim e
eu não sei o que há em Ti, pois és Tu o Conhecedor dos segredos. Não lhes disse
senão o que Tu me ordenaste que lhes dissesse: Adorai a Deus, meu Senhor e
vosso Senhor. Enquanto estive entre eles, fui a testemunha deles, mas quando
me recolheste junto a Ti, Tu foste o seu observador, pois és a Testemunha de
todas as coisas. Se Tu os castigas, eles são Teus servos; e se os perdoas, Tu és o
Poderoso, o Sábio. — Deus disse: Este dia é um dia em que aproveitará aos
justos a sua justiça; os jardins banhados por rios serão sua morada perpétua.
Deus será satisfeito deles e eles serão satisfeitos de Deus. Esta é a beatitude
imensa” (Alcorão, V, 115-118). — Vale observar que a expressão “divindades
fora de Deus”, no começo dessa passagem corânica, define com perfeita
exatidão o erro que, embora não seja de modo algum justificado pela doutrina

8
resposta fosse conforme à relação e ao aspecto sob os quais revelara-Se o
interlocutor; ora, a Sabedoria exigiu, nesse caso, que a resposta
respeitasse a dualidade essencialmente contida na Unidade; e é por isso
que Jesus disse — antes de mais nada, exaltando Deus acima das formas e
definindo-O pelo pronome da segunda pessoa, que indica a confrontação
— : “Exaltado sejas, não cabe a mim” — quer dizer, ao meu ego, que se
distingue de Ti — “dizer o que não é para mim segundo a verdade” — em
nome de minha identidade ou de minha essência individual —, “se eu o
disse, Tu o soubeste”; — pois na realidade és Tu quem falas, e aquele que
fala sabe o que diz; Tu és a língua pela qual falo; (como nos ensinou o
Enviado de Deus — sobre ele a Paz! — relatando-nos a mensagem divina:
“... e sou a língua pela qual ele fala, etc.”: Deus identifica-se assim
essencialmente à língua do eleito que fala, vindo a palavra do indivíduo).
Em seguida, o servidor santo [Jesus] disse, dando continuidade à sua
resposta: “Tu sabes o que há em mim”, — e é [implicitamente] Deus quem
fala, — “e eu não sei o que há em Ti”; — ou seja, não sei o que há no Si
Mesmo: essa palavra nega somente o conhecimento da aseidade (al-
huwiyah) como tal [em sua infinitude], e não na medida em que é a autora
das palavras e dos atos [de Jesus]. “Em verdade, és Tu [o Conhecedor dos
segredos]”; pelo pronome Tu ele sublinha a distinção, uma vez que só
Deus [em sua infinitude] conhece todos os segredos. É assim que ele
separou [o indivíduo de sua essência divina] e uniu [os dois, quando disse:
“Se eu o disse, Tu o soubeste”]; afirmou a unicidade de Deus e a
multiplicidade [que ela implica]; considerou ao mesmo tempo o universal
e o particular.
Ao terminar sua resposta, ele falou: “Não lhes disse senão o que me
ordenaste que lhes dissesse”; começou pela negação, fazendo alusão ao
que não tinha existência [própria]; em seguida, compensou essa negação
com uma afirmação a respeito de seu interlocutor; se não tivesse agido
desse modo, seria por ter ignorado as Verdades divinas — e longe dele
uma tal ignorância! — Disse pois: “o que me ordenaste”, pois és Tu que
falas com minha língua, pois és Tu mesmo minha língua! Atenta para essa
consideração da polaridade espiritual e divina [do Ato divino e daquele
que o recebe]; que poderia haver de mais sutil? — “[Não lhes disse senão
o que me ordenaste que lhes dissesse:] Adorai a Deus”; empregou o nome
Deus (Allāh) por causa dos diferentes pontos de vista dos adoradores e
por causa da diferença dos cultos, uma vez que esse nome [Allāh]
compreende todos os aspectos divinos sem afirmar nenhum deles em
particular; e acrescentou: “meu Senhor e vosso Senhor”, pois é certo que
há algo de exclusivo na relação que faz da Divindade o senhor de um
determinado ser manifestado; e é por isso que ele fez, pelos respectivos
pronomes, a distinção entre “meu Senhor” e “vosso Senhor”. Pelas
palavras: “...senão o que me ordenaste que lhes dissesse”, ele se descreve
cristã, pode se introduzir na prática no culto do “Filho de Deus” e da “Mãe de
Deus”. Em virtude dos abusos ocorridos no seio da comunidade cristã, o Alcorão
afirma a transcendência divina. Não obstante, o simbolismo da Theotokos é
implicitamente afirmado na seguinte passagem corânica: “Fizemos do filho de
Maria e de sua mãe [ou seja, da mãe de Jesus] um símbolo. Demos-lhes como
morada um lugar elevado, tranqüilo [ou: imutável] e de fontes abundantes”
(XXIII, 49).

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como aquele que se sujeita à Ordem (al-amr), o que corresponde a seu
estado de servo [perfeito], pois ninguém recebe ordens se não se espera
que ele as execute, mesmo que depois não venha a executá-las.
Uma vez que a Ordem divina [ou o Ato divino] se revela em
conformidade com a hierarquia da Existência, tudo quanto surge num
grau qualquer dessa hierarquia toma a cor da realidade própria desse
grau. O grau daquele que se sofre a Ordem [ou o Ato] implica uma certa
condição que surge em tudo quanto recebe uma ordem; do mesmo modo,
o grau da Ordem [ou do Ato] implica uma condição que surge em tudo
quanto ordena [ou age]. Assim, Deus diz: “Cumpri a oração!” Nisso, é Ele
quem ordena, ao passo que o ser obrigado ao culto recebe a ordem; por
outro lado, o adorador diz: “Senhor, perdoa-me!” E dessa vez é ele quem
ordena, ao passo que Deus recebe a ordem. Ora, o que Deus exige do
adorador por Sua ordem não é diferente do que o adorador exige de Deus
por sua ordem; e é por isso, aliás, que toda oração é atendida, mesmo que
a resposta demore. Do mesmo modo, acontece de certos adoradores, que
receberam a ordem divina de cumprir a oração a tal hora, atrasarem-na
ou cumprirem-na somente na hora em que podem fazê-lo; também nesse
caso a obediência é retardada, embora ela certamente exista [no caso do
adorador verdadeiro], mesmo que pela simples intenção [de cumprir o
rito determinado].
Em seguida, Jesus diz: “Eu era a testemunha deles” — não se
implica a si mesmo como fez ao dizer: “meu Senhor” e “vosso Senhor” —
“enquanto estive entre eles”; pois os profetas são as testemunhas de suas
comunidades enquanto vivem no meio delas: “mas quando Tu me
recolheste” — ou seja, quando me elevaste para perto de Ti, me ocultaste
deles e os ocultaste de mim, — “Tu mesmo eras o seu Observador”, — já
não através da minha substância, mas nas próprias substâncias deles,
uma vez que eras o próprio olhar interior deles que os observava; pois a
consciência que o homem tem de si mesmo é a consciência de Deus a seu
respeito. Jesus chama Deus pelo nome de Observador (ar-raqīb) depois de
designar-se a si mesmo como testemunha (ash-shahīd) para ressaltar a
diferença entre ele mesmo e seu Senhor, a fim de dar a conhecer que se
considerava a si mesmo como servo e a Deus como seu próprio Senhor.
Ora, fica ciente de que a Deus, o Observador, pertence também o nome
que Jesus, segundo sua palavra “fui a testemunha deles”, atribuiu a si
mesmo, pois Jesus disse também: “E és Tu a Testemunha de todas as
coisas”; disse “coisa” (shay’) no sentido de uma negação das negações, de
modo que a expressão “todas as coisas” compreende absolutamente tudo;
e empregou o Nome divino “A Testemunha” no sentido de que Deus
contempla a realidade própria e essencial de todas as coisas. Assim,
indicou que o próprio Deus era a Testemunha de sua comunidade, da qual
havia dito: “eu era a testemunha deles enquanto estive entre eles”; trata-
se aí da Testemunha divina na substância de Jesus, segundo o sentido da
mensagem divina bem conhecida que afirma que Deus é a língua, a
audição e a visão [do eleito]. Disse em seguida uma palavra que é ao
mesmo tempo de Jesus e de Muhammad; de Jesus, por que é a ele que ela
é atribuída pela Escritura divina; de Muhammad, porque em certa
ocasião ele a recitou uma noite inteira, sem falar nenhuma outra coisa,
até o raiar da manhã: “Se Tu os castigas, eles são Teus servos; e se os

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perdoas, és Tu o Poderoso, o Sábio.” O pronome “eles”, como o pronome
“os”, exprime a ausência atual daqueles de quem se fala; e, nesse caso, a
ausência da qual Jesus diz: “Se Tu os castigas, etc.”, é como o véu que
ocultava Deus da vista deles. Assim, Jesus faz com que Deus se lembre
deles antes que apareçam diante d’Ele, para que o levedo possa agir
sobre a massa até a hora em que aparecerão diante de Deus e que a
massa [sua substância receptiva] puder tornar-se semelhante ao levedo
[sua consciência espiritual]. Ao dizer: “eles são Teus servos”, afirma que é
só a Deus que eles adoram; ao mesmo tempo, demonstra o estado
extremo de humilhação deles, pois não há ninguém mais humilde que o
servo ou escravo (al-‘abd), que não pode dispor de sua própria pessoa,
mas depende por completo da lei que lhe é imposta pelo seu senhor
único. Ao chamar-lhes “Teus servos” (ou escravos), exprime a soberania
exclusiva [de Deus sobre eles]; ora, o castigo acarreta humilhação; mas
eles já estão humilhados ao extremo porque são escravos; sua natureza
mesma implica a humilhação; [é como se ele dissesse:] o fato de serem
Teus servos basta como humilhação. “E se Tu os perdoas”, — ou seja, se
os recobres e os proteges do castigo que atraíram sobre si, — “és Tu o
Poderoso (al-‘aziz)” — a saber, o protetor. (Quando Deus confere o nome
de al-‘aziz [que significa também “o amado”, “o querido”, “o precioso”] a
um de Seus servos, torna-se Ele Mesmo o amante desse servo e o
preserva da ação do Nome “O Vingador”, do qual provém o castigo)
Por outro lado, Jesus distinguiu a Divindade da criatura,
recapitulando ademais essa distinção por afirmações análogas, como:
“pois és Tu o Conhecedor dos segredos”, “eras Tu o observador deles” e
“és Tu o Poderoso, o Sábio”.
A palavra: “Se Tu os castigas, etc.”, tornou-se, sobre os lábios do
Profeta, um pedido instante, pois ele a repetiu a seu Senhor durante toda
uma noite até o romper da aurora, implorando uma resposta. Se tivesse
ouvido a resposta na primeira vez em que fez o pedido, não teria
insistido; mas Deus lhe mostrou sucessivamente todas as razões pelas
quais eles mereciam o castigo, e a cada vez o Profeta Lhe disse: “Se Tu os
castigas, eles são Teus servos; e se os perdoas, és Tu o Poderoso, o
Sábio”; se tivesse conseguido reconhecer para que lado pendia a decisão
divina, teria pedido o perdão para eles segundo o sentido indicado;
entretanto, em conformidade com o versículo citado, Deus mostrou-lhe
tão-somente a dependência deles em relação ao perdão divino. Segundo o
dizer do Profeta, Deus, quando ama a voz do servo que Lhe ora, retarda o
atendimento da oração para que o servo repita sua oração; e não age
assim por voltar-lhe as costas, mas por amor. Por esse motivo, Jesus
mencionou o nome: o Sábio (al-hakim), pois esse nome designa aquele
que põe cada coisa em seu lugar e não permanece indiferente àquilo que
a realidade de cada coisa exige em virtude de suas qualidades
[particulares]; o sábio é, pois, aquele que conhece a ordem das coisas.
Repetindo esse versículo do Alcorão, o Profeta contemplava um
conhecimento imenso que Deus lhe havia dado; aquele que recita esse
versículo, que tenha consciência disso ou se cale! Quando Deus obriga
alguém a perseverar numa oração, só o faz em vista de atendê-lo e
satisfazer à sua necessidade. Que ninguém, pois, titubeie na oração que
lhe foi atribuída, mas que persista com a mesma perseverança que o

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Enviado de Deus teve ao recitar esse versículo; [que persista] em todos os
estados até ouvir a resposta com seu ouvido ou sua audição, — como
quiseres, ou como Deus te fizer compreender. Se Deus te conceder a
oração da língua, far-te-á ouvir Sua resposta pelo ouvido; se te conceder a
oração do espírito, far-te-á ouvir Sua resposta pela audição.

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