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Serge Kahili King

MAGIA E CURA KAHUNA


Saúde Holística e Práticas de Cura da Polinésia
Tradução Marcos Malvezzi Leal
Dedicatória
Este livro é dedicado a Harry L. King, meu pai e meu primeiro professor
Huna; a O., que manteve o Huna vivo em mim, enquanto eu crescia e me
tornava adulto; a M'Bala, que me ensinou tanto sobre energia psíquica; e
especialmente a Wana Kahili, cujo profundo conhecimento da filosofia e das
tradições Huna tornaram possível esta apresentação.
Índice
Prefácio
Capítulo 1
Os Kahunas
O Povo da Polinésia
O Sistema Kapu
Os Kahunas do Havaí
As Ordens Kahunas
A Ordem de Ku
A Ordem de Lono
A Ordem de Kane
Os Renegados
Os Kahunas Hoje
Capítulo 2
A Tradição Interior
A "Bíblia" Kahuna
O Conceito de Deus
Kane
Ku
Lono
Kanaloa
Homem Trino
A Divindade
Espíritos
Crenças e Realidade
Vida e Morte
Bem e Mal
Amor e Emoções
Relatividade
Capítulo 3
Práticas Psíquicas
Níveis de Consciência
Primeiro Nível: Físico (Ike Papakahi)
Segundo Nível: Psíquico (Ike Papalua)
Terceiro Nível: Relacionai (Ike Papakolu)
Quarto Nível: Místico (Ike Papakauna)
Mente, Energia e Matéria
Simbologia
Categorias de Poderes Psíquicos
Telepatia (Una)
Clarividência (Kilo/Nana Ao)
Pré-cognição (Wanana)
Psicocinesia (Kalakupua)
Destruição Psicocinética (Ana-ana)
Contrafeitiçaria
Habilidades Psíquicas são Neutras
Capítulo 4
Abordagem Mente/Corpo
O Eu Superior (Kane/Aumakua)
Mente Consciente (Lono)
O Subconsciente (Ku)
O Corpo (Kino)
Fluxo Biológico de Energia
Emoções
A Natureza e a Formação de Complexos
Pressuposições (Paulele)
Atitudes (Kuana)
Complexos (Hilina'i)
Feedback Ecológico
Capítulo 5
Métodos de Cura
"Terapia Estratégica"
A Abordagem Material
Remédios
Dieta
Ritual
Objetos Energizados
A Abordagem Energética
Manipulação Física
O Corpo (Kino)
Manipulação de Campo
A Abordagem Mental
Percepção dos Pensamentos (Ike)
Estabelecer Metas (Makiá)
Mudar (Kala)
Direcionar Energia (Manawa)
Falha no Tratamento
Cura Divina
Encerramento (Panina)
Epílogo
Apêndice
O Código Kahuna
Regras do Código
Exemplos
Bibliografia Comentada sobre Huna e os Kahunas
Outras Referências
Prefácio
'Tempestade de areia!" Camelos grunhindo, cavalos relinchando, e o pequeno
grupo de homens corria para proteger as cabeças de seus animais da poeira
cortante, antes de cobrir os próprios rostos com cachecóis de lã. Como era
típico em Gobi, a tempestade caíra sobre eles quase sem avisar. Os homens
tossiam e praguejavam em mongol e inglês, aglomerando-se e cambaleando
passos à frente. Um dos guias havia notado alguns montes de areia à
esquerda, antes da tempestade, e era para lá que ele guiava o grupo, na
esperança de encontrar alguma pequena proteção contra o vento e a areia.
Minutos depois, ele deparou com o que sobrara de um muro de tijolos de
barro, remanescente dos antigos vilarejos em ruínas que ainda pontilham o
deserto. "Abrigo! Abrigo aqui!", gritou.
Sua voz era abafada pelo vento e por seu cachecol, mas a mensagem foi
ouvida e passada adiante. Homens e animais marchavam adiante com esforço
e dificuldade, na tentativa de se esconder entre os recessos protetores de
muros caídos e pilhas de entulho.
Aparentemente, o acaso sorrira para eles.
Um dos homens, o mais jovem dos estrangeiros naquela expedição científica
e política, abrigou-se na junção de dois muros, a alguma distância dos outros.
Lá, agachou-se ao lado do cavalo para esperar que a tempestade passasse. A
expedição da qual fazia parte era uma dentre muitas, enviadas pela Inglaterra
no começo do século XX, quando a Ásia ainda era um joguete nas lutas por
poder entre os impérios britânico, russo e chinês. O jovem refletia sobre tudo
isso quando subitamente o solo na frente de seus pés pareceu partir-se,
abrindo um buraco diante dele. Em meio à claridade da luz do sol, ofuscada
péla cortina de areia, ele viu degraus que conduziam para o fundo escuro.
Percebeu que devia estar em cima do telhado de um velho edifício, e seus
passos até provavelmente tinham enfraquecido a sustentação. Extremamente
curioso e ignorando qualquer perigo, o jovem deixou o cavalo e desceu pelos
degraus.
Pela abertura, entrava luz suficiente para lhe permitir enxergar de forma
difusa o ambiente; e o que viu fê-lo suspirar, surpreso. Estava numa sala de
mais ou menos 9 metros de comprimento por 4,5 metros de largura. As
paredes de ambos os lados mostravam o que pareciam ser afrescos, mas a
iluminação filtrada através da abertura em cima não possibilitava distinguir
detalhes das imagens. Deu mais alguns passos e viu uma mesa na
extremidade oposta. Ao se aproximar dela, percebeu que parecia mais um
altar de pedra. Bem no centro desse altar, encontrava-se uma jóia, um
bracelete. Ao pegá-lo, ouviu um ruído atrás de si, e se voltou. Começava a
cair areia pela abertura, ameaçando enterrá-lo vivo. Enfiando o bracelete num
bolso, correu de volta aos degraus e quase rastejou para sair. O cavalo não
estava mais lá e a tempestade estava piorando. A única coisa que podia fazer
agora era encolher-se no canto entre os escombros e esperar.
Finalmente, a tempestade acabou. O rapaz, quase totalmente coberto de areia,
tirou o pano que lhe cobria a cabeça e apertou os olhos, observando um
mundo diferente. O sol brilhava através de um ar limpo e não havia mais
nenhum traço do buraco por onde ele se havia espremido para entrar. A areia
encobrira tudo, inclusive os pedaços do muro que serviam de abrigo. Foi
então que ouviu vozes. "Harry! Harry, onde está você?" "Aqui", ele gritou, e
abriu caminho entre a areia, saindo do ninho protetor. Os outros tinham
encontrado o seu cavalo, e ficaram muito aliviados ao ver que ele também
estava inteiro.
Ninguém se interessou por sua história sobre uma sala com afrescos e um
altar. Estavam ansiosos para sair daquela zona de areia e alcançar as estepes.
Após ouvir brincadeiras sobre ter sofrido uma insolação, ele não mencionou
mais sua aventura, e a expedição prosseguiu.
Alguns meses depois, Harry estava de volta a Londres, reportando-se ao seu
superior no departamento do governo onde trabalhava. Quase no fim de seu
recital sobre sua participação na expedição, enfiou a mão no bolso e tirou o
bracelete. "O que o senhor acha que é isto?", perguntou, colocando o objeto
sobre a mesa. "Parece um mapa do sistema solar, não parece?" Harry
esperava uma ligeira curiosidade, talvez alguma admiração, mas o homem do
outro lado da mesa parecia totalmente perplexo. Hesitante, ele apanhou o
bracelete e o examinou com cuidado. No centro, havia uma pedra amarela,
como topázio, ao redor da qual e aleatoriamente em círculos concêntricos se
encontravam outras pedras menores, em número total de nove. O homem
dirigiu um olhar profundo a Harry e disse:
"Onde conseguiu isso?" Harry lhe contou a história da tempestade e da sala
que descobrira por acaso. "Posso ficar com ele esta noite?", o homem
perguntou. "Garanto-lhe que estará em segurança." Embora surpreso, Harry
concordou.
E o dia seguinte seria o início da mais estranha aventura na vida de Harry. No
decorrer do mês seguinte, ele foi apresentado a um grupo de pessoas que não
acreditava no acaso, e para as quais a descoberta do bracelete tinha um
significado especial. Por fim, acabaria conhecendo' também ensinamentos
que, para ele, apresentariam um novo modo de ver e lidar com a realidade. E,
finalmente, Harry foi adotado/iniciado pelo grupo ao qual ele sempre chamou
de A Organização.
O jovem mencionado nessa narrativa era Harry Leland Loring King, meu pai,
e foi assim que ele me contou a história. Por intermédio dele, também me
associei à Organização, embora a chame por outro nome. Sinto que o
conhecimento obtido por meio dessa afiliação é tão importante para a saúde e
felicidade, tanto em escala individual quanto mundial, que quero partilhá-lo
com você de uma forma que o torne uma realidade viva em sua vida
cotidiana.
Mas, antes, gostaria de lhe falar um pouco sobre mim e o grupo. Alguns dos
leitores podem achar difícil acreditar naquilo que vou dizer, e se quiserem
ouvir-me com um pé atrás, não me incomodo. O verdadeiro prato servido
pelo livro começa no capítulo 2, e quem quiser poderá ir direto para ele.
Outros, porém, talvez se beneficiem ao compreender que há visões do mundo
e algumas coisas acontecendo na vida muito diferentes daquilo que a maioria
de nós, no Ocidente, é levada a acreditar.
Minha primeira lembrança de algo relacionado ao grupo de que estou falando
é de quando eu tinha 7 anos, e meu pai me leu uma carta de um homem que,
segundo ele, "observava o meu desenvolvimento". Nunca conheci tal homem,
mas, mais ou menos naquela época, comecei a cultivar um intenso interesse
por astronomia, que nunca diminuiu. De meu pai, herdei uma profunda
paixão por ciência e pela natureza, e aprendi muitas lições práticas sobre o
poder da mente. Quando estava com 14 anos, meu pai me iniciou no grupo e
disse que eu seria procurado por outros professores, com o passar do tempo.
Um ano após a morte dele, enquanto eu fazia o primeiro ano de faculdade, fui
contatado por um homem do grupo que me disse que, por algum tempo, eu
seria mais tutorado através de meus sonhos. Na época, eu estava mais
interessado na sobrevivência física, por isso não dei muita importância à
informação. Em vez de fazer o segundo ano da faculdade, alistei-me na
Marinha e mudei-me para a Califórnia. Poucos meses depois, fui procurado
por outra pessoa do grupo, e passamos a nos encontrar regularmente durante
todo tempo que durara meu alistamento. Entre outras coisas, fui orientado
para um estudo de arqueologia e técnicas de examinar o passado distante.
Pouco antes de terminar meu período militar, fui ordenado kahuna da Ordem
de Kane, tema ao qual voltarei mais adiante. Nos cinco anos seguintes, meus
estudos "extracurriculares" se centralizaram em antropologia, filosofia e
religião.
Em 1964, já tinha constituído família, e trabalhava para uma Agência
Voluntária Americana, administrando programas de assistência e
desenvolvimento no oeste da África. Lá, fui contatado por um membro
africano do grupo, e com sua ajuda vivi alguns dos anos mais aventurosos de
minha vida. Na África, envolvi-me profundamente com as técnicas de
mudança social e a natureza da força vital, particularmente em sua
aplicabilidade à cura. Enquanto trabalhava com os aldeãos e os burocratas do
governo, promovendo o desenvolvimento socioeconômico, comecei a ver
como as abordagens mais ortodoxas eram ineficazes para induzir qualquer
tipo de mudança duradoura. O jeito ortodoxo — e isso se aplica à medicina,
psicoterapia e educação, bem como às questões socioeconômicas — é
estabelecer um método garantido, certo, lógico e inflexível de operação, e
aplicá-lo como lei.
Isso ficou maravilhosamente explícito numa experiência que observei em um
encontro entre militantes do Corpo de Paz e uma repartição governamental
local para o desenvolvimento comunitário. Os membros do Corpo de Paz
estavam muito desgostosos com o modo como o governo local estava lidando
com o programa de desenvolvimento, pois este não funcionava naquele
campo. Em outras palavras, o método não estava resultando nas mudanças
desejadas, e a visão do Corpo de Paz era de que o governo não levava em
conta o que os aldeãos sentiam. Um porta-voz do governo ficou muito
irritado e disse: "Não há nada errado com o método. Ele foi elaborado com
muita reflexão e é perfeitamente apropriado para a situação. Não há nada
errado com o método. São as pessoas que devem mudar!" Ele bem podia falar
em nome de todos os ortodoxos, de qualquer lugar e época.
Mas, um sistema assim não funciona muito bem por muito tempo,
principalmente porque as pessoas mudam continuamente. Pode parecer um
paradoxo à primeira vista, mas um sistema rígido imposto de fora realmente
pressupõe que as pessoas não mudam, e que há menos variedade em suas
necessidades do que de fato há. Trabalhando diretamente com as
necessidades sentidas pelas pessoas, no contexto de suas situações, pude
apresentar uma abordagem flexível de desenvolvimento que teve grande
sucesso.
Realizei coisas que o governo local, o governo federal norte-americano, e às
vezes até o Corpo de Paz e os próprios aldeãos achavam, a princípio,
impossíveis. E o fiz com poucos recursos e alguns simples e básicos
conceitos. O que descobri em meus anos de treinamento individual é que os
mesmos princípios básicos se aplicam ao desenvolvimento pessoal bem como
ao desenvolvimento social e econômico.
No que diz respeito à cura, tive o privilégio na África de estabelecer uma
profunda interação com vários curandeiros tradicionais que realmente
conheciam seu ofício. Eles me ensinaram algumas coisas fascinantes sobre o
que os pesquisadores modernos chamam de campos e correntes de
bioenergia, e também sobre as relações entre mente e corpo, e entre corpo e
desenvolvimento. Aprendi que é possível para qualquer um tornar-se
consciente da fonte de energia emocional, aumentá-la, direcioná-la e usá-la
para curar a si próprio ou outras pessoas. O que mais me impressionou foi o
conhecimento de que as emoções podem curar ou ferir. Comecei a usar essa
ideia em minha família, depois ensinei a eles como aplicá-la livremente
sozinhos. Agora, ensinamos os outros.
Ao voltar para os Estados Unidos, em 1971, fiz contato com um homem a
quem chamarei de WK, o qual eu conhecera numa viagem anterior. WK é um
kahuna havaiano, e o que ele me ensinou nos três anos seguintes mudou
profundamente a minha vida e me permitiu ajudar muitas outras pessoas a
conseguir melhoras duradouras em todo aspecto de suas vidas. Os temas
eram suficientemente simples: amor, imaginação, crenças e a natureza do
sucesso. Mas a compreensão que WK tinha deles era diferente de tudo o que
normalmente é ensinado nesta sociedade. Comecei a ver que sua visão se
refletia em minha experiência pessoal. Percebi que havia nela algo a ser
compartilhado. O jeito como eu queria fazer isso, porém, causou uma
calorosa discussão. Por vários motivos, há muito tempo os kahunas de minha
ordem fazem seu trabalho de maneira privada, longe do olhar do público.
Minha noção era incomum, mas finalmente foi concordado que eu deveria
fundar uma nova ordem para o propósito de ensinar publicamente o
conhecimento Huna.
O resultado foi a Order of Huna International (Ordem de Huna
Internacional), fundada em 1973 e registrada pelo estado da Califórnia como
uma ordem religiosa não-sectária e sem fins lucrativos.
Entretanto, Huna — o nome comum dado ao conhecimento kahuna — não é
uma religião. É uma filosofia de realizações que pode ser aplicada em
qualquer contexto: religioso, científico, social ou pessoal. Os próprios
membros da Huna International não precisam abandonar sua fé tradicional
para entrar na ordem, e isso inclui os kahunas.
Temos cristãos Huna, judeus Huna, budistas Huna, muçulmanos Huna e
assim por diante, e todos chegando à conclusão de que Huna aumenta a
apreciação de suas origens religiosas.
Qualquer que seja a sua religião, você é afetado pela gravidade. O
conhecimento Huna é essa base. O motivo pelo qual as pessoas entram para a
ordem é participar de um empreendimento mutuamente cooperativo e
benéfico, pois estamos tornando esse conhecimento acessível a todos. Nosso
lema é tirado de uma antiga aclamação que os kahunas havaianos faziam do
alto de uma torre, e que era um oráculo: Que aquilo que é desconhecido se
torne conhecido!
Entre 1973 e 1992, a Huna International se desenvolveu numa organização
mundial de pessoas praticando e partilhando conhecimento Huna, e sua base
de operações mudou para uma antiga sede de sabedoria — a ilha de Kauai, no
estado do Havaí. A partir de lá, grande variedade de projetos foi iniciada:
Aloha International— educação e contatos.
Hawaiian Shaman Training — cursos e aulas (treinamento xa-manista).
Kino Mana — cursos de trabalhos corporais havaianos.
Kauai Village Museum — exibições e exposições culturais havaianas.
Finding Each Other International — contatos para desenvolver
relacionamentos.
Voices ofthe Earth — um fórum para povos nativos.
Além desses, existem agora novos capítulos, professores e conselheiros em
todo o mundo.
Talvez você esteja pensando agora: "Afinal, o que é esse Huna e o que é um
kahuna?"
Huna é uma palavra havaiana que significa "aquilo que é oculto, ou não
óbvio". As vezes, nós chamamos a isso de Conhecimento Oculto, ou a
Realidade Secreta. A ideia não é que alguém propositalmente a esconda, mas
apenas que ela é difícil de ver. O termo kahuna pode ser traduzido como "um
transmissor do segredo" e era usado originalmente para designar aqueles que
pertenciam a uma ordem que praticava e ensinava o conhecimento.
No Havaí moderno, porém, a palavra é usada para tudo, desde um sacerdote
ou ministro ocidental até curandeiros e paranormais comuns, e também para
charlatões que exploram os crédulos. Aqui, nós o usamos em seu sentido
original.
Entre as pessoas que conhecem Huna atualmente, a maioria só tem
conhecimento das obras de Max Freedom Long sobre o tema. Max Long foi
um estudante de psicologia, religião e ciência psíquica que fez um brilhante
trabalho de desvendar boa parte do conhecimento Huna codificado na língua
havaiana. Os poucos erros e distorções que aparecem em seu trabalho inicial
são compreensíveis, considerando que ele nunca teve uma oportunidade de
discutir suas descobertas com um kahuna. Na época em que ele vivia no
Havaí, no início do século XX, era contra a lei ser ou afirmar ser um kahuna,
e isso perdurou até tempos relativamente recentes. É admirável que Long
tenha realizado tanto, baseando-se apenas em histórias, superstições e
conhecimento distorcido. Felizmente, ele tinha o tipo de raciocínio excelente
em fazer correlações com conhecimentos de outras áreas e culturas, e foi
capaz de enxergar através da distorção em sua maior parte.
Para expandir um pouco mais a sua mente, gostaria de lhe passar um pouco
da história da filosofia Huna. Dizem que a história é mais um reflexo do
presente que do passado, porque os historiadores tendem a escrever sobre o
passado em termos do que a atual geração está disposta a aceitar. O que as
pessoas não aceitam não será escrito, ou pelo menos não publicado. À
medida que a sociedade muda, também mudam os livros de história. Um
exemplo menor é a história dos negros nos Estados Unidos. Antes do
movimento pelos direitos civis, a história deles era inexistente. Nada era
ensinado nas escolas, ninguém estudava a respeito, e para todos os efeitos
não existia tal coisa na mente das pessoas, mesmo as negras. Hoje se sabe
que houve muitos negros americanos heroicos e importantes, e os livros de
história estão sendo reescritos; mas somente porque a sociedade está disposta
a olhar nessa direção.
Boa parte do que é escrito como história não passa de palpite, com o
historiador desempenhando o papel de um detetive que viaja no tempo e
cujas pistas são esparsas.
Quanto mais distante você mergulha no passado, mais esparsas são essas
pistas. Se há registros históricos, eles ajudam, como os hieróglifos no Egito;
mas muitos povos têm histórias orais que indicam o início de suas
civilizações num passado muito mais remoto do que os historiadores
modernos gostariam de admitir. Essas histórias geralmente são consideradas
mitos ou lendas, com a implicação de que provavelmente não são
verdadeiras.
A história que vou contar é parcialmente oral e parcialmente registrada. Mas
a parte registrada não existe de uma forma escrita que você entenderia. Você
talvez se surpreenda ao saber que algumas pessoas podem "ler" figuras
pintadas em sequência e desenhos entalhados em cavernas com a mesma
facilidade com que você lê esta página. De qualquer modo, esta é a história
de uma filosofia que me foi contada por WK. Se você a achar inaceitável
como fato, pense nela como uma tradição. Isto não afetará a sua habilidade
para usar o conhecimento Huna.
*******
"Em algum lugar no passado, muito tempo antes da ascensão de Atlântida,
uma raça de homens chegou a este sistema solar, vinda de um grupo de
estrelas conhecido como as Plêiades. Alguns aterrissaram na Terra e outros
em outro planeta que não existe mais.
Naquela época, a Terra ficava mais próxima do Sol e a duração do ano era de
exatamente 360 dias. Os homens que vieram das estrelas fugiam de uma
catástrofe, e tinham a intenção de encontrar paz na Terra. O processo foi
lento, porém, pois encontraram aqui outros homens, remanescentes de uma
civilização anterior que se havia dizimado. Também encontraram dinossauros
inteligentes, e surgiram muitas batalhas por controle territorial.
Finalmente, a maior parte dos homens das estrelas se estabeleceu num
continente no Pacífico, conhecido hoje em lendas como Mu. Eles chamavam
a si próprios de Povo de Mu, mas outros os chamavam de Manahuna ou
Menehune, 'o povo do poder secreto', por causa de sua tecnologia avançada e
de seus poderes psíquicos. Eram indivíduos pequenos, com aspecto de
pigmeus pelos padrões modernos, e muito laboriosos. Ó conhecimento deles
era Huna, uma filosofia para se viver com sucesso. Quando perceberam estar
assentados em segurança, começaram a ensinar esse .conhecimento aos
homens da Terra. Como muitas línguas eram faladas e a língua deles era
parcialmente telepática e difícil de aprender, os professores de Mu criaram
uma nova língua, bem mais fácil. Esse idioma era estruturado para conter o
conhecimento Huna de forma a garantir sua sobrevivência enquanto a língua
permanecesse em uso. Hoje, conhecemos essa língua como polinésia, e traços
dela são encontrados no mundo todo.
Vinham homens ao continente de Mu para aprender, e Mu também enviava
missões de professores a outras partes do mundo para montar escolas de
vários tipos. Um bom número de casamentos interraciais ocorreu entre o
povo de Mu e seus vizinhos, resultando em crianças possuidoras de
habilidades genéticas e memórias de seus pais nascidos nas estrelas.
Gradualmente, aqueles que estudavam com o povo de Mu foram sendo
organizados em três ordens diferentes, cada uma praticando o conhecimento
Huna com ênfase um pouco diferente. Usando termos em inglês, as ordens
poderiam ser chamadas de Intuitionists (Intuitivos), lntellectuals
(Intelectuais) e Emotionals (Emocionais).
De modo geral, os Intuitivos se desenvolveram no que chamaríamos de
místicos, metafísicos e psicólogos ou psicoterapeutas. Os Intelectuais se
tornaram o equivalente dos cientistas, técnicos e engenheiros. Os Emocionais
eram mais interessados em atividades políticas, econômicas e atléticas. Os
três tipos utilizavam em seu trabalho habilidades psíquicas treinadas, e cada
grupo ensinava e praticava várias formas de cura física.
A parte básica da filosofia Huna é que todo ser humano tem habilidades
psíquicas. As ordens treinavam as pessoas em seu uso consciente e
disciplinado. No entanto, havia pessoas na Terra antes da chegada do povo de
Mu que sabiam usar esse poder à vontade; e ainda hoje existem indivíduos
sem a menor ligação com as ordens que podem usar esses poderes psíquicos
da mesma maneira.
Por muitos séculos, as coisas estavam indo bem na Terra e uma civilização
mundial estava sendo formada, quando o povo de Mu cometeu um erro fatal.
Eles vinham mantendo contatos regula- res com seus irmãos que se haviam
instalado no outro planeta deste sistema solar, mas, com o passar do tempo,
viraram as costas para eles, concentrando-se somente na Terra. Chegou um
momento em que o planeta irmão começou a enviar desesperados pedidos de
ajuda. O povo de lá estava à beira da autodestruição, e havia a necessidade de
uma rápida intervenção. Infelizmente, o povo de Mu, na Terra, ficara
complacente e não queria que nada perturbasse sua paz; por isso, não deram
ouvidos aos apelos e tentaram fingir que não lhes diziam respeito. Tal ato era
contrário à sua própria filosofia.
Sem que nada pudesse impedi-las, as pessoas do outro planeta criavam cada
vez mais terríveis armas de destruição para usar contra os outros até o
momento horrível e derradeiro. Chegaram a um ponto em que destruíram
todo o planeta, num enorme cataclismo que abalou o sistema solar. O
completo desaparecimento de um planeta inteiro causou imenso
desequilíbrio, mas as forças da natureza tentaram corrigi-lo. Com isso, as
órbitas dos planetas remanescentes foram perturbadas e o efeito sobre a
Terra, foi devastador. Nosso planeta foi arremessado para uma nova órbita,
um pouco mais distante do sol, e a força da mudança acarretou intensa
atividade vulcânica e sísmica. Velhas terras afundaram no mar em alguns
lugares, e novas terras subiram em outros. O nível de morte e destruição era
indescritível.
Com o retorno de uma pequena estabilidade, os sobreviventes observavam
uma nova Terra. O continente de Mu não existia mais. Apenas algumas ilhas
espalhadas ainda permaneciam intactas, num oceano imenso e vazio. Em
todo o mundo, as pessoas revertiam a uma sobrevivência primitiva e
iniciavam a árdua escalada de volta à civilização. Em muitos lugares, o povo
de Mu era responsabilizado pelo que acontecera, e tinha de se esconder para
não ser perseguido. Esses grupos esparsos e solitários deram origem às
histórias dos mágicos "pequeninos" ( little people) encontradas em quase
todas as culturas. As ordens que tinham criado continuaram sem eles, exceto
por um raro contato com um número muito limitado de adeptos.
Outras civilizações se desenvolveram e caíram. Entre elas, os brilhantes
atlantes, que quase alcançaram o domínio do mundo, numa imitação menor
de Mu, mas que acabaram aniquilando-se numa guerra que os enviou para o
fundo do oceano. Enquanto isso, a tradição de Huna era mantida viva por
pequenos grupos que inseriam o ensinamento na cultura do lugar onde se
instalavam. A maioria deles perdeu o contato entre si, mas todos continuavam
a ensinar, curar e treinar. Em alguns casos, foram capazes çlè manter intacta a
simplicidade de Huna, mas em outros houve tamanhas distorções que o
conhecimento fundamental foi praticamente perdido, e boas práticas eram
realizadas com uma falsa compreensão de sua natureza.
Após a perturbação causada pela queda de Mu, sobreviventes na Bacia do
Pacífico, aos quais hoje chamamos de polinésios, aos quais reuniram-se em
dois lugares para reconstruir suas cidades — Samoa e as Ilhas Sociedade.
Entre eles, havia membros das três ordens que atuavam como sacerdotes,
curandeiros e especialistas técnicos. Só os Intuitivos mantinham contato com
seus colegas no resto do mundo. Lentamente, desenvolveram sua tecnologia
até o ponto de poderem construir grandes embarcações a vela, capazes de
transportar cem pessoas ou mais, e partiram para explorar o que sobrara de
Mu. A maioria permaneceu dentro dos toscos limites do velho continente, só
ocasionalmente se aventurando nas terras fronteiriças.
O grupo que conseguiu ir mais longe, fora das fronteiras continentais, foi o
dos maoris, que se assentaram na Nova Zelândia. O nome maori significa "o
povo verdadeiro" ou os habitantes originais, referindo-se tanto à origem do
velho continente de Mu (como descendentes mistos da raça estelar) quanto ao
fato de serem os primeiros a se estabelecer nas novas terras descobertas. Em
pouco tempo, eles perderam contato com os outros polinésios e, exceto pela
lembrança em velhos cânticos e entoações, os dois grupos foram esquecendo-
se entre si, até que os exploradores ocidentais os unissem novamente.
Outro grupo, seguindo antigas informações navegacionais contidas em
antigos cânticos tradicionais, se fez ao norte a partir do Taiti e das Marquesas
para aportar e se assentar nas ilhas havaianas. A primeira ilha onde aportaram
foi Kauai, a mais antiga das ilhas principais, e lá eles descobriram alguns dos
habitantes Menehune originais, aos quais também chamavam de Mu. Esse
povo Mu era muito tímido, mas não belicoso, e às vezes ajudava os recém-
chegados. Eles tinham templos de pedra e aquedutos, e eram especialistas em
irrigação e construção de lagoas para peixes. Por muitos anos, os dois povos
conviveram muito bem, e houve um bom número de casamentos inter-raciais.
Foi essa última questão, porém, que levou o rei de Mu a tomar uma decisão
dura. Ele percebeu que, se o casamento inter-racial continuasse, o povo de
Mu deixaria de existir como grupo separado, por isso resolveu que deveriam
ir embora. Diz a tradição que numa noite todo o povo de Mu partiu do
extremo norte de Kauai, mas ninguém sabe como ou para onde foi.
A princípio, as três ordens de kahunas no Havaí viviam em base de
igualdade, e o comércio continuava entre o Havaí, Samoa e Taiti. No século
XIII d.C., porém, um kahuna sedento de poder, da ordem dos Emocionais,
veio de Samoa para ajudar ostensivamente na reorganização dos Emocionais
do Havaí. Em pouco tempo, ele conseguiu o controle religioso e político das
ilhas, o que resultou na perda de contato entre o Havaí e o resto da Polinésia;
a construção dos grandes veleiros marítimos foi interrompida, as escolas de
navegação e astronomia foram abandonadas e as pessoas se tornaram sujeitas
a uma religião de superstição e restrição. A ordem dos Intelectuais foi a que
mais sofreu, e muito conhecimento foi perdido. Os Intuitivos, na maioria,
foram obrigados a se esconder, e um número cada vez maior de Emocionais
recorria a práticas distorcidas. Por seiscentos anos, o povo do Havaí sofreu a
repressão de um governo autoritário, do terrorismo psíquico e da desordem
social. Na época da chegada do capitão Cook, todas as ilhas estavam em
guerra.
A natureza idílica da vida polinésia era, na verdade, um grande mito
perpetuado por estrangeiros que não enxergavam além da superfície.
Enquanto tudo isso acontecia, um pequeno grupo de Intuitivos mantinha
contato telepático com o resto de sua ordem espalhada pelo mundo, e se
satisfazia em trabalhar nos bastidores do cenário mundial para a paz da
humanidade. Agora os tempos mudaram, e, por causa da rapidez de
comunicação, da expansão da consciência em boa parte do mundo, e do
crescente entendimento das realidades alternativas, começa-se a sentir que o
conhecimento de Huna precisa ser difundido ao máximo e à maior distância
possível."
CAPÍTULO 1
Os Kahunas
Desde os tempos das primeiras explorações europeias no Oceano Pacífico, o
mundo ocidental acalenta uma imagem romântica dos Mares do Sul, baseada
no conceito de uma sociedade primitiva simples, livre de preocupações. Tem
sido o sonho de muitos homens abandonar o fardo do trabalho e da família e
fugir para uma ilha tropical onde só o que você tem a fazer é deitar-se numa
rede, bebendo ponche de frutas, enquanto os nativos de aparência infantil
cuidam de todas as suas necessidades. Outra atitude ocidental, menos
romântica, é que antes das bênçãos da civilização, os habitantes das ilhas
eram selvagens ignorantes, dominados por medos supersticiosos e por uma
sensualidade indisciplinada.
Paralela a essa atitude é a ideia de que essas pessoas não tinham um
pensamento filosófico nem conceitos abstratos, não conheciam a arte, exceto
para decoração, não possuíam livros e certamente não dispunham de nenhum
tipo de ciência ou tecnologia que valesse a pena mencionar.
A verdade, porém, estabelecida por pesquisa científica em muitas áreas, é que
as sociedades da Polinésia eram tão complexas quanto a nossa: seus códigos
morais, éticos e legais eram igualmente estritos; sua arte e literatura tão ricas
quanto as nossas; e sua ciência, igualmente especializada. Entretanto, a
orientação na qual tinham desenvolvido esses aspectos era muito diferente.
Como indicam os modernos psicólogos sociais, se tentarmos julgar as
realizações de outras culturas usando a nossa como padrão, arriscaremos
distorcer esse julgamento e limitar severamente qualquer benefício que
poderíamos receber do contato com a cultura em questão. E a cultura da
Polinésia tem aspectos que nos podem beneficiar em todas as esferas da vida.
O Povo da Polinésia Polinésia é um termo aplicado igualmente a uma área
geográfica e a um povo que partilha da mesma origem histórica, linguística,
cultural e física. A área geralmente é definida como um triângulo que se
estende da Nova Zelândia no sudoeste do Pacífico ao Havaí, no norte,
descendo até a Ilha de Páscoa, sudeste, e de volta à Nova Zelândia. E uma
área imensa, maior que o continente sul-americano, e salpicada de ilhas
vulcânicas e de corais, geralmente separadas a uma distância de 3,2
quilômetros entre si. O mais notável é que toda essa área fora explorada e
colonizada, e havia comércio regular entre as ilhas por centenas, talvez
milhares, de anos antes de Colombo atravessar o Atlântico.
O povo dessa área, os polinésios, inclui os maoris, samoanos, tonganeses,
taitianos, marquesanos, havaianos, pascoenses e outros, cujos nomes nos
tempos modernos se baseiam em suas regiões. Embora esses grupos sejam
separados por vastas distâncias, e em alguns casos não mantenham contato
entre si há séculos, há menos diferenças entre eles do que entre vizinhos
próximos como os franceses e alemães. Um Maori de nariz fino e um
havaiano de nariz grosso podem não parecer irmãos, e seus estilos de vida
moldados ao ambiente podem variar muito, mas eles compartilham da mesma
língua básica, dos heróis culturais, das lendas e do conhecimento interior. E
aceitam uns aos outros como descendentes da mesma raça original, como
descobriu Peter Buck, um explorador mestiço maori, viajando para outras
ilhas que não tinham sequer na memória o registro de contato com um
"polinésio" de fora.
Uma questão ainda não resolvida pelos antropólogos é qual seria a terra natal
dos polinésios, além da questão da rota por eles tomada para chegar ao seu
atual lar. A teoria moderna mais aceita é que eles vieram da Indonésia, ou
possivelmente da índia, e passaram pelos grupos de ilhas da Melanésia e
Micronésia, no oeste do Pacífico, no caminho. Essa teoria se baseia em parte
em algumas semelhanças linguísticas menores, na suposta origem de muitas
plantas usadas pelos polinésios, em algumas similaridades tecnológicas e na
noção de que, como tinham de vir de algum lugar, a origem mais provável
seria a Ásia.
Max Freedom Long e outros propuseram que a terra natal dos polinésios
ficaria no Oriente Próximo. Long baseou sua idéia numa história sem
comprovações contada por um inglês que vivera com uma tribo berbere no
Saara. Essa tribo afirmava ter pertencido a um grupo que tinha construído as
pirâmides do Egito; eles se haviam separado do resto do grupo que buscava
uma nova terra no Pacífico. Eu passei, porém, quatro anos e meio, inciò é
vindo, com os berberes, e não fui capaz de verificar tal tradição. Mais
importante ainda, Long usou, de maneira impressionante, estudos linguísticos
para mostrar que o conhecimento kahuna foi incorporado em partes do
Antigo e do Novo Testamento da Bíblia. Ele foi mais longe ainda e traçou
uma rota dos grupos com destino ao Pacífico, descendo até o Mar Vermelho,
ao longo da costa da África até Madagascar (cuja língua tem afinidades com
o polinésio), atravessando o oceano e até a índia e de lá através da Indonésia
até o Pacífico, usando semelhanças filosóficas como seu principal argumento.
Entretanto, outra terra nativa para os polinésios foi proposta por Thor
Heyerdahl, de renome Kon Tiki, que tentou provar de uma maneira prática
que os polinésios poderiam ter vindo da América do Sul.
Como observamos no prólogo, meu mentor kahuna, WK, tem uma versão
bastante diferente, apoiada por pesquisadores como James Churchward, autor
de vários livros sobre o continente de Mu, e Leinani Melville, autor de
Children ofthe Rainbow (Filhos do Arco- íris). Segundo essa versão, a
Polinésia seria a fonte de semelhanças culturais em outro lugar e não o
recipiente final. Obvio que pode haver dúvida tanto com relação a essa teoria
quanto a qualquer outra, mas esta tem a virtude de ser uma versão polinésia e
responder a muitas perguntas. Ela explica, por exemplo, por que os
navegadores polinésios, extremamente habilidosos, nunca colonizaram
nenhuma área fora do triângulo mencionado aqui, e de que forma os
subgrupos como os maoris na Nova Zelândia podiam ter antigos cânticos de
navegação com instruções para viagens de barco até o Havaí.
Também explica por que os grupos como os maoris, havaianos e pascoenses
falam em suas lendas sobre pessoas que já viviam nas ilhas quando eles lá
chegaram. Na língua havaiana, essas pessoas eram até chamadas de Mu, e há
muitas histórias sobre conflitos e cooperação com eles. Na ilha de Kauai, no
arquipélago havaiano, vi pisos em templos e trabalhos de alvenaria que se
assemelham muito mais aos estilos de construção pré-incas do que a qualquer
outra coisa construída pelos primeiros colonizadores polinésios. Eles teriam
sido construídos pelo povo de Mu, também conhecido como os Menehune.
O Sistema Kapu
A questão da origem talvez nunca seja satisfatoriamente resolvida para todos,
mas é um fato que os polinésios já estavam lá quando os europeus chegaram
na Polinésia. Entre outras coisas, os primeiros exploradores ocidentais
encontraram um poderoso grupo de indivíduos conhecidos como kahunas,
que eram os líderes religiosos, mestres artistas e artesãos, médicos,
advogados, professores e conselheiros políticos da sociedade. Eles e as
famílias dos chefes governavam o povo através de um sistema que seria
chamado de kapu, embora a maioria dos ocidentais esteja mais acostumada
com a forma tongonesa da palavra, tabu ou taboo.
O sistema kapu tem sido muito difamado, porque nunca foi bem
compreendido. À palavra kapu foi associado o significado de "proibido" e ela
passou a ser interpretada como um misterioso alerta a respeito de coisas que
escapam ao domínio da razão. Uma compreensão mais completa da palavra,
porém, incluiria também os sentidos de "sagrado, santo ou consagrado". O
sistema kapu era na verdade um código de leis, necessário para que qualquer
sociedade funcione de maneira ordenada. Um certo bosque ou um local de
pesca especial podia ser declarado kapu durante uma ou mais temporadas,
para não ser superexplorado, por exemplo. Não seria diferente de nossas
atuais temporadas regulamentadas de caça e pesca, mas essa visão ambiental
era totalmente desconhecida pelos primeiros visitantes europeus à Polinésia,
os quais não entendiam por que uma árvore ou local era kapu e outro não era.
Certas partes de um templo ou pedaços de terra também podiam ser
declarados kapu porque~eram reservados para uso sacerdotal ou dos chefes.
O caminho até esses lugares era marcado por um par de varetas cruzadas,
encimadas por uma bola de pano branco, e os nativos se recusavam a transpor
esses indicadores porque a quebra de um kapu era severamente punida.
Entretanto, o mesmo europeu que hesitaria muito antes de violar um sinal da
Coroa em seu país, como "Não se aproximar" ou "Proibida a entrada", achava
que o nativo da ilha agia apenas por superstição.
Os kapus mais difíceis de entender para o estrangeiro eram, lógico, aqueles
relacionados aos costumes. Em algumas partes da Polinésia, havia um kapu
punível com morte que proibia que a sombra de uma pessoa comum se
projetasse sobre um chefe. A princípio, tal coisa parece a mais absurda
superstição, mas o estrangeiro provavelmente não saberia que a palavra para
sombra também significava "riso", e que o evento acima mencionado
podiãser interpretado como desrespeito ou lese majeste. Outro kapu proibia
que as mulheres comessem bananas, porque a palavra para banana é parecida
com o termo para genitais, e o ato seria tão ofensivo quanto o uso de
palavrões de conotação sexual em público nos Estados Unidos.
O kapu, portanto, formava a base para o sistema legal polinésio. Em sua
melhor aplicação, ele reforçava a coesão e a produtividade da sociedade, mas
o sistema podia ser — e freqüentemente era — usado por chefes e sacerdotes
gananciosos para exploração política e econômica. Não raro, as rebeliões
sociais e/ou emigrações eram inspiradas por kapus exageradamente restritivos
impostos ao povo pelos líderes. A severidade dos kapus empregada por
Kamehameha, o Grande, a exploração desmedida desses kapus por parte de
certos sacerdotes kahuna e a má interpretação psíquica de um líder kahuna
oportunista foram alguns dos principais motivos pelos quais todo o sistema
kapu no Havaí foi tão facilmente derrubado na época do filho de
Kamehameha.
Os Kahunas do Havaí Como tenho mais experiência com os kahunas
havaianos do que com os tahunas taitianos ou os tohungas dos maoris, a
seção seguinte tratará do sistema havaiano, com base no registro histórico e
nas discussões com WK.
Quando ancorou na costa a sotavento de Kauai em 19 de janeiro de 1778,o
capitão James Cook rompeu um isolamento de seiscentos anos das ilhas
havaianas do resto do mundo. Ao contrário da crença popular, porém, o
capitão Cook e os que vieram depois não invadiram uma simples ilha
paradisíaca. A beleza dessas ilhas vulcânicas era, de fato, espantosa, e quando
os habitantes eram amistosos, o eram de verdade. Mas os havaianos não eram
inocentes incorruptos nem selvagens ignorantes. A sociedade deles era
estruturada como um pleno sistema feudal, e Cook chegou em meio a um
violento tumulto social e político. Após o breve choque inicial do contato, os
europeus e sua superior tecnologia foram rapidamente explorados, com
propósitos políticos, pelos pragmáticos líderes havaianos, incluindo os
kahunas.
Nos livros de história, muito se fala do capitão Cook, e de como pensaram ser
ele o deus Lono, retornando às ilhas. De acordo com o historiador havaiano
Kamakau, o povo de Kauai ficou surpreso e assustado diante da visão inédita
dos navios britânicos desembarcando na costa. As pessoas não tinham idéia
de quem estava nos navios. Foi um kahuna, Kuohu, que chegou à conclusão
de que os barcos deviam ser o templo e os altares de Lono porque os mastros
e as velas pareciam a haste e as flâmulas usadas numa cerimônia anual
dedicada àquele deus. Cook e seus homens desceram na praia para uma curta
visita e depois partiram para a América. A notícia se espalhou rapidamente
pelas ilhas, e quando Cook retornou e parou na baía de Kealakekua, na Ilha
Grande do Havaí, o palco estava montado para uma manobra política
incrivelmente astuta, que teria dado certo se Cook não tivesse ficado lá muito
tempo.
A segunda chegada de Cook ocorreu numa área consagrada a Lono, e foi
perto do fim do festival anual dedicado a ele. Não há registros do que vou
sugerir e WK diz que não conhece nenhuma tradição que confirme ou negue,
mas a coincidência do momento e local onde Cook aportou, na segunda vez,
é tão grande que, desconfio, houve a mão dos kahunas por trás. Como
veremos mais adiante, eles sem dúvida tinham a capacidade de saber, por
clarividência, onde Cook estava e de enviar a ele mensagens telepáticas para
guiá-lo até a baía onde milhares de pessoas se reuniam para o festival de
Lono. Em seu diário, Cook escreveu que nunca tinha visto tanta gente
reunida, em nenhuma das ilhas. Uma vez que o rei da ilha do Havaí estava no
processo de consolidar seu poder sobre o povo, como parte de sua campanha
de guerra contra Maui, fora provavelmente por sugestão de seus conselheiros
kahunas que Cook foi aclamado como o próprio deus Lono, vindo para
emprestar seu mana (poder divino) ao lado que obviamente estava certo. Os
chefes e os kahunas não eram tolos. Podiam reconhecer uma tecnologia
superior, por mais estranha que fosse; conheciam um homem quando o viam;
e também sabiam como aproveitar uma oportunidade. Infelizmente, quanto
mais tempo Cook se demorava na ilha, mais difícil ficava manter a farsa de
que ele era um deus. Quando finalmente partiu, depois de algumas semanas,
não disfarçaram o alívio. Infelizmente, porém, Cook teve de voltar uma
semana depois para consertar um mastro quebrado. O festival já tinha
acabado, o povo estava disperso, e a recepção a Cook foi fria. As relações
entre os havaianos e europeus se deterioraram rapidamente nas duas semanas
seguintes, até que Cook resolveu fazer de refém a altamente sagrada pessoa
do rei por causa de um pequeno roubo por parte de um de seus súditos. Uma
batalha eclodiu na praia e Cook foi morto. A questão aqui é que a designação
de Cook como o deus Lono foi apenas uma farsa politicamente inspirada para
favorecer o regime do. rei Kalaniopuu. Os chefes e kahunas sabiam o que
estavam fazendo, mas àquela altura da história havaiana a "religião estatal"
era apenas uma ferramenta política usada para aumentar o poder dos chefes e
certos sacerdotes, e explorar as massas.
A medida que mais europeus começavam a visitar as ilhas, ouviam histórias
sobre os estranhos poderes exercidos por determinados indivíduos
conhecidos como kahunas.
Histórias de telepatia, clarividência, cura pelo toque, provocar morte a
distância e caminhar sobre lava incandescente se misturavam a observações
de cerimônias exóticas e cânticos, à prática de massagem e medicina de
ervas, e à aparente veneração de ídolos grotescos. Era fácil rotular essas
histórias como pura superstição, até alguém ficar diretamente envolvido,
numa experiência pessoal. Então, tornava-se óbvio para o indivíduo
inteligente que algo de fato acontecia por trás da fachada religiosa. Não havia
dúvida de que pelo menos alguns kahunas eram capazes de coisas que
pareciam desafiar as leis físicas. Quanto mais tempo se vivia nas ilhas, mais
se aprendia a aceitar esse fato.
Entretanto, por causa de quatro fatores principais, não era fácil descobrir o
que realmente estava acontecendo. O primeiro era a relutância natural do
cidadão ocidental, treinado em ciência, em aceitar tais habilidades como algo
possível. Se fizesse isso, ele
estaria regressando à Idade das Trevas da magia e superstição que o mundo
ocidental se esforçava em deixar para trás. O segundo era a tendência natural
dos visitantes de formação cristã para atribuir todas essas coisas à obra do
diabo, pois de que outra maneira os pagãos ignorantes poderiam ter esses
poderes?
O terceiro fator era que, na época da chegada dos primeiros europeus, as
principais práticas kahunas eram muito corruptas, e a maior parte do antigo
conhecimento fora perdida. Enquanto um pequeno grupo mantinha
praticamente intactos os antigos ensinamentos, a maioria dos kahunas —
especialmente aqueles envolvidos em política — tinha se degenerado a um
mero sacerdócio cerimonial, com pouquíssimos membros que ainda sabiam
os rudimentos de coisas como telepatia e clarividência. Isso se torna evidente
na história de Hewahewa, sumo sacerdote de Kamahmeha II. Em 1819,
pouco depois da morte de Kamehameha I, esse proeminente kahuna,
responsável pela imagem do deus da guerra do rei, teve uma visão na qual
distinguira representantes do que parecia ser um deus muito mais poderoso
aportando nas praias do Havaí. Sem dúvida influenciado por sua
familiaridade com a superior tecnologia européia e as histórias cristãs,
Hewahewa acabou conquistando o apoio de colegas kahunas, chefes
ambiciosos e esposas de reis insatisfeitas para obter a abolição do sistema
kapu e depor os velhos deuses. Com isso, ele esperava conseguir as graças
dos representantes do novo deus e ao mesmo tempo subjugar o poder de
qualquer kahuna rival. Kamehameha II, diferentemente de seu pai, era
homem de vontade fraca e, em novembro de 1819, cedeu às pressões de
Hewahewa e seus seguidores. Com o ato aparentemente simples de se sentar
para fazer uma refeição com as mulheres, Kamehameha II quebrou um sério
kapu e abriu um precedente para chefes e cidadãos comuns. A notícia se
espalhou por todo o arquipélago de ilhas, agora unido, e as pessoas, há muito
oprimidas por kapus exageradamente estritos, começaram a dar vazão aos
sentimentos, queimando e destruindo templos e estátuas. Um kahuna rival de
Hewahewa tentou impedir isso, mas ele e seus seguidores foram massacrados
em batalha.
Por seis meses, depois disso, o Havaí foi uma terra sem religião e sem leis.
Foi uma época de grande confusão, porque sem os kapus e sem os deuses,
não havia diretrizes firmes para conduzir um governo nem segurança
psicológica.
Finalmente, em 1820, os primeiros missionários cristãos de Boston aportaram
onde Hewahewa disse que os tinha visto. Ele e seus colegas kahunas tinham
trazido muitas pessoas aleijadas e doentes para o novo deus curar. Eles
cantaram uma canção de boas vindas e pediram aos missionários que
mostrassem o poder do novo deus, curando os necessitados. Obvio que os
missionários não podiam fazer isso, e, depois de muita confusão de ambos os
lados, Hewahewa foi obrigado a compreender que tinha interpretado
erroneamente sua visão e destruído toda a estrutura formal religiosa e legal de
sua nação por nada. Ele é conhecido nos livros de história como Hewahewa,
mas esse pode não ter sido seu nome verdadeiro. Os havaianos sempre
tiveram muito cuidado com a escolha de nomes baseada nos significados.
Parece óbvio que o infeliz sumo sacerdote recebeu o nome de Hewahewa
depois desse terrível engano, pois significa "o louco que não reconheceu o
significado".
O quarto fator que interferiu na compreensão inicial do conhecimento kahuna
foi a proibição de todas as práticas kahuna por parte dos missionários cristãos
convertidos em políticos, tão logo tiveram o poder de fazer isso. De acordo
com Max Long, que viveu nas ilhas enquanto essa lei era válida, a lei do
Havaí sobre o uso de magia para cura determinava o seguinte:
''Seção 1034.
Feitiçaria – penalidade. Qualquer pessoa que tente a cura de outra através da
prática de feitiçaria, bruxaria, ana-ana, hoopiopio, hoounauna, ou
hoomanamana (termos que descrevem práticas psíquicas), ou outras
superstições ou métodos enganadores, deverá, quando acusada, pagar multa
de uma quantia não inferior a cem dólares ou ser preso por no máximo seis
meses, cumprindo trabalhos forçados."
Há outra seção da lei que classifica o kahuna junto com os buncos e o define
como alguém que se apresenta como kahuna, aceita dinheiro sob a alegação
de ter poderes mágicos, ou admite que é um kahuna. Para tal coisa, a multa
sobe para mil dólares ou um ano de aprisionamento.1
Desnecessário dizer que isso era suficiente para levar todos os verdadeiros
kahunas a se esconder, o que tornava extremamente difícil para um não-
havaiano ter acesso ao conhecimento kahuna. Apesar da lei, porém, tanto os
havaianos quanto os não-havaianos livres de preconceitos continuavam a
procurar e receber ajuda de kahunas cuja identidade era bem protegida, e os
pseudo-kahunas eram freqüentemente exibidos em cerimônias e para fins
turísticos. Só recentemente a lei foi mudada, de modo que embora ainda
preveja salvaguarda contra fraude, já não é mais crime ser ou afirmar ser um
kahuna.
A autodestruição de suas tradições religiosas e o poderoso impacto do
Cristianismo e da tecnologia ocidental fizeram a maioria dos havaianos
rejeitar a influência e os ensinamentos kahunas. O conhecimento kahuna era
tradicionalmente passado para um filho natural ou adotado, cautelosamente;
mas os fatores citados, além dos casamentos inter-raciais e a dizimação da
população através de doenças introduzidas, deixaram um número muito
pequeno de indivíduos ainda dispostos ou capazes de continuar com os
passos de seus pais.
No entanto, em meio a toda dificuldade, continuou existindo um núcleo de
kahunas ativos que continuava a praticar cura mental, emocional e física; a
ajudar as pessoas a mudar o futuro; e até a praticar a grandemente temida
"oração de morte". Nada menos que o curador do Museu Bishop em
Honolulu, William Tufts Brigham, dedicou-se durante anos a tentar
desvendar o segredo daquelas que ele sabia ser práticas kahunas válidas.
Ele teve experiências pessoais de caminhar sobre o fogo, cura e oração de
morte telepática, e se convencer, sem a menor dúvida, de que algum
conhecimento altamente importante para a humanidade ainda esperava ser
dominado. Sua busca nunca teve sucesso, mas, antes de morrer, ele deixou
para Max Long um legado do que tinha aprendido, que pode ser assim
resumido:
"Sou capaz de provar que nenhuma das explicações populares da magia
kahuna tem fundamento. Não é sugestão, nem qualquer outra coisa conhecida
na psicologia. Eles usam algo que nós ainda temos de descobrir, e é uma
coisa de importância inestimável. Simplesmente, temos de descobrir.
Revolucionará o mundo, se o fizermos. Mudará todo o conceito da ciência. É
algo que traria ordem às crenças religiosas conflitantes...
Observe sempre três coisas no estudo dessa magia. Deve haver alguma forma
de consciência por trás dela, dirigindo seus processos. Controle de calor ao
caminhar sobre o fogo, por exemplo. Deve.haver também alguma forma de
força usada em exercer esse controle, se ao menos pudermos reconhecê-la. E,
finalmente, deve haver alguma forma de substância, visível ou invisível,
através da qual a força pode agir. Observe sempre essas coisas e, se puder
encontrar pelo menos uma, ela guiará até as outras".2
Long continuou a busca com base nessas orientações e, embora nunca tenha
estudado com um kahuna, por um período de muitos anos ele descobriu os
três elementos especificados por Brigham, conduziu experimentos para
comprovar a existência deles, encontrou correlações com as descobertas de
outros, em outros lugares, e descobriu ainda que o sistema kahuna de
conhecimento não era limitado à Polinésia, mas espalhava-se por todo o
mundo. Foi um feito notável, tornando os principais elementos desse
conhecimento acessíveis ao público pela primeira vez.
As coisas com que os kahunas lidam regularmente se tornaram hoje o tema
de uma investigação científica cada vez mais difundida bem como de um
crescente interesse popular. Há laboratórios estudando a comunicação
telepática, o fenômeno de estados alterados de consciência, e a influência
psicocinética sobre a matéria, enquanto um número cada-vez maior de
corajosos médicos e psicoterapeutas vem experimentando métodos de cura
não usuais, tais como imagem guiada, terapia de pressão e a transferência de
energia de uma pessoa para outra. Além da resistência conservadora a tudo
isso, as investigações são atrapalhadas pela falta de uma teoria coerente e
unificada que explique como essas práticas funcionam. O sistema kahuna
oferece tanto a prática funcional quanto uma boa teoria de fácil aplicação.
1 Max Fredom Long, The Secret Science Behind Miracles (Los Angeles: De Vorss & Co., 1954)

2 Ib.

As Ordens Kahunas Kahuna é uma palavra que foi distorcida nos tempos
modernos. Originalmente usada para definir um adepto treinado, um guardião
e transmissor especializado em conhecimento e poder, ela passou a ser
aplicada mais recentemente aos sacerdotes e ministros de religiões ocidentais,
paranormais, curandeiros e até líderes de clubes de surfe. Embora isso seja
compreensível, pois tais pessoas devem ser especialistas naquilo que sabem,
WK afirma que um verdadeiro kahuna é aquele que foi iniciado por um pai
natural ou adotivo e treinado era conhecimento esotérico organizado, como
parte de um grupo identificável. O uso do termo com o significado de
"sacerdotes, ministro ou líder" é uma extensão moderna baseada num erro de
interpretação. O mesmo acontece com seu uso para designar para- normais
naturais e curandeiros, que podem ou não ter recebido conhecimento dos
pais. Os havaianos tinham muitos nomes para indivíduos que usam
habilidades psíquicas. Eis alguns:
kaula — profeta ou mágico
po'ko'i — feiticeiro ho'ola — curandeiro
mo'okiko — feiticeiro mau
ho'okalakupua — mágico ou adepto
kilo'uhane — espiritualista
ho 'ike papulua — paranormal
Os termos eram aplicados a pessoas que exerciam tais pode- res sem ser
kahunas. Os kahunas podiam fazer as mesmas coisas, mas como especialistas
treinados pertencentes a uma ordem tradicional. Nesse caso, o indivíduo seria
chamado de kahuna kaula, kahuna ho'ola, etc. Além disso, vários tipos de
kahunas eram treinados para ser especialistas em coisas que não
consideraríamos esotéricas hoje, tais como navegação, medicina, engenharia
e meteorologia. Os kahunas eram os cientistas e especialistas técnicos de sua
época, mas seu conhecimento se estendia a campos que mal começam a ser
explorados no mundo ocidental em ampla escala. Por exemplo, um
navegador seria não apenas tecnicamente habilitado, mas também treinado
para se comunicar com o vento e as ondas.
Originalmente, não havia uma hierarquia estruturada entre os kahunas, o que
ainda se observa em duas das ordens descritas a seguir. Na verdade, as ordens
eram e são mais parecidas com as guildas medievais do que com ordens
religiosas na tradição ocidental.
Um kahuna alcança a proeminência, não por promoção, herança ou eleição,
mas sim através do respeito por suas habilidades e conhecimento. A mais alta
"posição" a que um kahuna pode aspirar é puhi okaoka, que se refere a um
indivíduo bem versado em todos os ramos de conhecimento. Como não
possuem autoridade estruturada uns sobre os outros, os kahunas são
procurados e seguidos por causa do que são capazes de fazer e do que sabem.
Em determinado momento da história, os kahunas se dividiram em três
ordens amplamente definidas, como explicado por WK no prólogo. Cada
uma delas enfatizava uma abordagem específica de conhecimento e prática,
mas a diferença tem menos a ver com função do que com técnica. As três
utilizavam os elementos de magia descobertos por Max Long, e suas áreas de
perícia se sobrepunham consideravelmente. Com isso em mente, examinemos
agora cada uma dessas ordens.
A Ordem de Ku
Essa ordem era chamada de "os Emocionais" por WK e enfatiza uma
abordagem sensual/emocional da vida. Em termos de cura, os kahunas dessa
ordem são mais propensos a usar exercício, massagem e imposição das mãos
como métodos de tratamento. Assim como a psicoterapia, essas técnicas
trabalham a liberação de emoções reprimidas e a descoberta de eventos
passados que desencadearam os problemas atuais.
Quanto ao ambiente, a abordagem consiste particularmente em tentar o
controle direto de eventos e circunstâncias com a força de vontade e
influenciar as emoções das outras pessoas. Esportes, política, comércio e
guerra, bem como religião organizada e cerimonial, são os interesses naturais
dos kahunas desta ordem. Foi ela que dominou o Havaí após a chegada do
poderoso kahuna Paao Samoa, por volta de 1275 d.C. Ele instituiu uma
hierarquia estrita na ordem de Ku e introduziu o sacrifício humano, uma
prática que decididamente não faz parte da tradição kahuna. Depois da
chegada de Paao e do chefe por ele instalado, todo o tráfico entre o Havaí e o
mundo exterior cessou, até a vinda do capitão Cook.
A Ordem de Lono A abordagem desta ordem, os "Intelectuais" de WK, é
intelectual/mecânica. No Havaí, ela gerou os médicos e cirurgiões, os
agricultores, navegadores, astrônomos e astrólogos, os meteorologistas e os
projetistas de navios, que orientavam a construção das grandes canoas
oceânicas. Na cura e na psicoterapia, esses kahunas enfatizam o uso de ervas
e drogas, dieta e fontes naturais de energia curativa, tais como a luz do sol,
sal marinho, cristais e locais especiais descobertos da geomancia (uma forma
de adivinhação usando supostas correntes de energia na terra). Eles vêem o
ambiente como algo a ser manipulado por meio da compreensão da mecânica
de sua operação. No Havaí, essa ordem sofreu muito sob o domínio da
Ordem de Ku, e quando os europeus chegaram, boa parte de suas artes já
estava perdida.
A Ordem de Kane Esses "Intuitivos" possuem uma abordagem espiritual/
integrativa. As técnicas usadas pelas outras duas ordens são consideradas
ferramentas de uso temporário até se alcançar a compreensão básica de que o
mundo exterior é apenas uma reflexão do pensamento. A ênfase é a
unificação ou integração de espírito, mente e corpo com o propósito do
autocontrole, sendo ele a chave para o domínio da vida. Na cura, a
importância básica é dada aos efeitos do pensamento sobre o corpo, e as
crenças atuais são consideradas mais influentes do que as experiências
passadas. O ambiente é visto como uma extensão do corpo, igualmente
influenciado por pensamentos e crenças. A imaginação é a ferramenta mais
importante dessa ordem, e boa parte do treinamento diz respeito ao uso
disciplinado dela. Esses kahunas trabalham com estados alterados de
consciência e o uso refinado das habilidades psíquicas, mais do que as outras
ordens. Eles poderiam ser considerados filósofos pragmáticos e, em termos
de números, sempre foram menores que os kahunas de Ku e Lono. Na época
do domínio de Ku no Havaí, sofreram pouco, pois trabalhavam, por assim
dizer, "debaixo da terra". De acordo com WK, eles mantinham contato com o
resto do mundo por telepatia. Esta é a ordem na qual meu pai foi iniciado e
onde eu recebi meu treinamento.
Os Renegados
O fenômeno mais temido no Havaí era a "oração de morte", uma forma de
telepatia emocional destrutiva, freqüentemente combinada com sugestão
negativa. Quase todos os kahunas que a praticavam eram renegados da ordem
de Ku, embora houvesse também feiticeiros não-kahuna que a usavam
também. O epíteto mais comum aplicado a eles era kahuna'ai pilau (kahunas
que comem imundície). Fosse para ganhar poder sobre outros ou apenas por
ganho financeiro, eles usavam seu conhecimento de psiquismo, psicologia e
energia emocional para ferir ou matar. Como bem sabia William Brigham,
usava-se muito mais do que simples sugestão. A oração de morte podia
funcionar mesmo que não houvesse o conhecimento consciente do que estava
acontecendo; mas essa prática exigia considerável habilidade por parte do
praticante, e sempre que possível a sugestão era usada para facilitá-la.
Felizmente, cada ordem tinha um número de kahunas especializados em oki
ou kala, formas de magia contrária que anulavam a oração de morte,
tornando-a inofensiva. .
Os Kahunas hoje WK supõe não haver no Havaí atualmente mais que vinte e
cinco kahunas genuínos, dos quais apenas meia dúzia seria da ordem de
Kane. O resto está dividido quase de maneira regular entre Ku e Lono. No
entanto, muitos daqueles que se dizem kahunas são apenas paranormais e
curandeiros individuais, ou pessoas que dão um show aos turistas.
Com poucas exceções, os genuínos kahunas, ou se retiraram totalmente da
sociedade ou a ela se integraram, de modo que ninguém sabe quem são ou o
que podem fazer. O
conhecimento está vivo e operante, mas não é ostensivo. E, ao contrário do
que muitos turistas parecem pensar, a ancestralidade havaiana não confere
conhecimento kahuna.
Mesmo Leinani Melville escreve que praticamente nenhum havaiano ou
mestiço havaiano tem a menor compreensão do que é Huna, o conhecimento
kahuna. Fora do Havaí, os kahunas também são raros ou se escondem muito
bem. Conheci um kahuna maori que me disse que o conhecimento interior
praticamente não existe mais entre o seu povo, e meu professor kahuna na
África teve só três aprendizes durante os quase sete anos que o conheci.
Minhas tentativas de contatar os kahunas que meu pai conheceu na Inglaterra
não foram bem-sucedidas.
Alguns havaianos se irritam por eu chamar a mim mesmo de kahuna, pois
não tenho uma gota de sangue havaiano, embora haja precedentes suficientes
nas lendas e histórias do Havaí para pessoas não-polinésias se tomar em
kahunas. Lógico que qualquer um pode alegar ser kahuna, mas muito tempo
atrás alguém que WK e eu consideramos um grande kahuna nos mandou
aplicar este teste: "Pelos seus frutos os conhecereis".
CAPÍTULO 2
A Tradição Interior A filosofia kahuna pode ser resumida em quatro
afirmações, cada uma representada por uma única palavra-chave havaiana: 1.
"Você cria a sua realidade ( Ike)." Isso significa a sua experiência pessoal da
realidade, cada parte dela. Você a cria através de suas crenças, expectativas,
atitudes, desejos, medos, julgamentos, interpretações, sentimentos, intenções
e pensamentos constantes e persistentes.
2.
"Você recebe aquilo em que você se concentra ( Makia)." Os pensamentos e
sentimentos que você nutre, ciente ou não deles, formam o molde para trazer
à sua vida a experiência mais equivalente possível àqueles pensamentos e
sentimentos.
3.
"Você é ilimitado ( Kala)." Não há limites para o seu eu, não há limites entre
você e seu corpo, você e o mundo, ou você e Deus. Quaisquer divisões
usadas para discussão são termos de função e/ ou conveniência, pois o
isolamento é apenas uma útil ilusão.
"O seu momento de poder é agora ( Manawa)." Você não está preso a
nenhuma experiência do passado nem a qualquer percepção do futuro, pois o
passado é apenas uma memória e o futuro uma mera possibilidade. Você tem
o poder no momento presente de mudar as crenças limitantes e,
conscientemente, plantar as sementes para um futuro de sua escolha. Se você
muda o pensamento, muda a experiência.
Essas ideias não são exclusivas dos kahunas. Na verdade, tomei as frases
emprestadas de Seth/Jane Roberts para traduzir os conceitos Huna porque
elas se encaixam muito bem; mas as ideias transmitidas pelas palavras podem
ser encontradas em muitas fontes, nos escritos de várias épocas. Entretanto,
elas nunca foram muito populares porque declaram que, sem exceção, todo
indivíduo é responsável por sua experiência pessoal, e isso pode ser visto
como uma coisa subversiva pelos governantes e intolerável pelos governados.
Curiosamente, o mal-estar produzido pela implicação de responsabilidade
costuma cegar as pessoas para a tremenda liberdade inerente que essa
filosofia também contém.
Nas seções a seguir, abordarei outros aspectos da filosofia kahuna que estão
ligados aos anteriormente mencionados. Para esse material, bem como o dos
capítulos seguintes, conto com meu treinamento como kahuna da Ordem de
Kane, com a área pessoal e a pesquisa literária, além das discussões com
WK.
A "Bíblia" Kahuna Boa parte da filosofia kahuna está incorporada na assim
chamada "Canção da Criação", também conhecida como Kumulipo, que é o
termo mais próximo de uma "bíblia" kahuna que conhecemos hoje.
Originalmente parte de uma tradição oral passada aos kahunas treinados em
memória perfeita, ela provavelmente foi compilada mais ou menos na forma
atual em 1700, pelo kahuna Keaulumoku. Todas as traduções já feitas (não
muitas) são de um manuscrito que fora propriedade do rei Kalakaua, o qual
tinha grande interesse em preservar as tradições havaianas, incluindo os
segredos de Huna e a função dos kahunas como curandeiros.
Na filosofia kahuna, tanto o mundo espiritual quanto o material ganham
forma graças a uma interação entre forças relativas, freqüentemente
representadas por um homem e uma mulher. Para cada "deus" no panteão
havaiano, com poucas exceções, há um equivalente feminino para ajudar com
a criação. Muitos são mencionados nas sete primeiras seções do Kumulipo,
junto a versos que parecem contar a formação da vida animal e vegetal na
Terra. As entoações ou seções oitava e nona aparentemente falam do
nascimento do homem para a percepção consciente e de sua multiplicação
sobre a Terra.
O resto do total de 16 seções na versão Kalakaua parece ser basicamente
genealogias, exceto pelo relato do herói cultural, Maui.
Um problema que os estudiosos têm com o Kumulipo, porém, é que eles não
conseguem chegar a um acordo quanto à forma de traduzir. Numa tradição
oral com uma língua como a havaiana, muita coisa depende de sutilezas de
pronúncia e contexto que não podem ser adequadamente transmitidas por
palavras escritas. Para dificultar ainda mais as coisas, os kahunas tinham o
hábito de incorporar várias nuanças de significado em suas entoações, algo
que os chefes faziam mesmo em suas canções de amor. Durante uma visita
feita a amigos kahunas no Havaí, disseram-me que o Kumulipo tinha sete
nuanças de significado, e eu tive acesso a uma chave para uma dessas
nuanças, com a qual estou trabalhando no momento. Quando perguntei por
que eles mesmos não a traduziam, disseram que não tinham tanta experiência
com tradução quanto eu, não gostavam muito desse tipo de trabalho e tinham
coisas melhores para fazer.
Para dar um exemplo do que está envolvido, esta é a primeira linha do
Kumulipo:
O ke au i kahuli wela ka honua
E estas são as várias maneiras como ela foi traduzida:
A roda do tempo se volta para os vestígios queimados do mundo.

Adolf Bastion
Na época que mudou o calor do mundo.

Rainha Liluokalani
A época em que a terra mudou em calor.

Kakahi
Na época em que a terra se tornou quente.
Martha Beckwith
Na época em que esta terra evoluiu como uma bola de fogo.
Leinani Melville
Sem negar que qualquer uma das traduções acima pode estar correta, eu fiz
três outras. A última é parte da tradução em que venho trabalhando
atualmente: Houve uma época em que a terra sofreu uma mudança violenta.
A semente ativa transformou a terra com paixão.
O pensamento muda as coisas terrestres.
O Conceito de Deus
A religião popular do Havaí era repleta de deuses e deusas, fantasmas, fadas,
elfos, duendes e espíritos que mudavam de forma a seu bel-prazer e podiam
ser amistosos ou hostis com o homem, dependendo da maneira como fossem
tratados. Entretanto, essa vi-são popular era apenas uma distorção do
conhecimento kahuna.
Quando os primeiros missionários no Havaí tentavam entender a língua dos
insulanos, depararam com conceitos tão estranhos ao pensamento deles que
certas palavras recebem definições completamente injustificadas. Uma dessas
palavras era akua, que foi traduzida como deus. Quando os missionários
perguntaram aos havaianos qual nome davam às grandes estátuas que
pareciam objetos de veneração, os nativos lhes disseram que o nome delas era
akua. Quando perguntaram para quem eles rezavam pedindo conselho,
proteção ou a realização de alguma coisa, eles disseram akua. Mas os
missionários ficaram confusos quando perceberam que os havaianos usavam
o mesmo termo para coisas que não pareciam divinas, incluindo a casta muito
desprezada dos escravos. Como escreveu o missionário Lorrin Andrews em
seu dicionário de havaiano em 1865, "quando da visita de estrangeiros, a
palavra era aplicada a objetos artificiais, à natureza ou propriedade de algo
que os havaianos não compreendiam, como um relógio de bolso, uma bússola
ou o badalo de um relógio grande, etc." Baseando-se no fato de que akua
também era o nome para a noite da lua cheia, Andrews acrescentou: "Parece
que a antiga ideia de um akua incorporava algo incompreensível, poderoso e,
no entanto, completo".3 Andrews estava na pista certa, mas tanto ele quanto a
maioria dos ocidentais descartaram as aparentes anomalias e continuaram
pensando que os havaianos e seus kahunas simplesmente veneravam ídolos
aos quais chamavam de deuses.
A verdade, de importância vital para compreendermos a filosofia e as práticas
dos kahunas, é que akua significa "uma ideia em ação plenamente formada".
É uma idéia ativa que manifesta efeitos. As raízes da palavra contêm
significados que têm a ver com movimento ou tendência de uma pessoa para
fora de si, para uma transformação e uma ação completada. Os kahunas
sabiamente utilizavam algumas dessas estruturas idealizadas para a cura. Os
quatro maiores akua eram Kane, Ku, Lono e Kanaloa. Se pudermos conceber
que um tipo específico de ideia pode ser uma essência energética inteligente,
então essas ideias podem legitimamente ser chamadas de deuses; do
contrário, não.
3 Lorrin Andrews, A Dictionary of the Hawaiian Language (Rultand, Vermont, e Tóquio: Charles E.
Tuttle Co., Inc., 1974)

Kane
Externamente, Kane era considerado o deus superior e mais espiritual, nunca
representado por uma imagem esculpida. No máximo, ele seria representado
por um objeto natural, geralmente uma pedra ereta, sem ornamentos. Era tido
como um deus de paz e amor, e seu equivalente feminino era Wahine. Em
diálogos banais, kane significa "homem" e wahine "mulher". Kane e Wahine
eram, portanto, símbolos equivalentes ao conceito chinês de yin e yang. Para
os kahunas, Kane e sua companheira representavam o eu- deus de natureza
dual presente em cada ser humano, semelhante ao "Cristo interior" dos
cristãos ou à mente do Buda dos budistas. Ele/ela é, em outras palavras, a
essência espiritual e a fonte do indivíduo, a alma, o Eu Superior ou Eu Maior.
Outro termo para esse "deus pessoal" é aumakua, que Long primorosamente
traduziu como "espírito parental totalmente fiel"; e dois outros termos para o
mesmo conceito, kumupa'a e 'ao'ao, têm as conotações de professor e guia.
Quando os europeus chegaram ao Havaí, a maioria dos havaianos
reverenciava esse espírito interior apenas como uma espécie de ancestral
guardião, porque as pessoas haviam misturado a fonte física de sua existência
com a espiritual. Falarei mais desse akua e dos dois seguintes no capítulo
sobre o método de cura mente/corpo dos kahunas.
Ku
Ku era externamente associado à fertilidade, chuva, feitiçaria e guerra. Como
termo comum, seus significados têm a ver com simbologia generativa; uma
base ou estrutura para algo; uma coisa que pode ser mudada ou transformada;
e algo que pode ter complexos emocionais. Psicologicamente, Ku representa
o que pode ser chamado de "corpo/mente"; a consciência organizadora do
corpo, o recebedor de informações sobre o mundo físico (visíveis e
invisíveis), e o executor da ação. É tentador chamá-lo de "subconsciente",
como já fiz, mas, se não compreendida a associação integral com o corpo, o
termo pode ser mal entendido. Em quase toda loja para turistas no Havaí,
você pôde comprar uma estatueta de gesso de Ku, que é um lindo exemplo da
"escrita" kahuna de símbolos. A estatueta desse akua mostra um ser
praticamente sem cocar (sua província é a imaginação da memória), com
serpentinas descendo até o chão (envolvimento primário com o mundo
físico), e os olhos fechados (percepção limitada).
Lono
Lono era o deus da agricultura, medicina e meteorologia na religião exterior.
Na psicologia kahuna, ele representa o intelecto, a porção da mente que
percebe, interpreta e dirige. Uma decodificação da raiz do nome revela os
significados de receber informação e agir de acordo com a informação
recebida; cérebro, principalmente o cérebro anterior, e inteligência; buscar
metas; criar desejos; e pensamento imaginativo. A estatueta de Lono é um ser
com um cocar alto (imaginação criativa), serpentinas curtas que não chegam
ao chão (contato indireto com o físico), e sem olhos (dependente de outra
fonte para ter informações sobre o mundo).
Kanaloa
Nas lendas havaianas mais antigas, Kanaloa é sempre mencionado como o
companheiro de Kane, e os dois viajavam pelas ilhas em busca de fontes de
água. Kanaloa era conhecido como um deus de cura e dos oceanos, e
costumava ser representado por um polvo ou uma lula, bem como por uma
figura esculpida específica. O uso do polvo/lula como símbolo tem a ver com
a significância sagrada do número 8 e o fato de que a palavra para as duas
criaturas, he'e, significa "fluir" (como no fluxo da força vital) e "livrar"
(como livrar-se de uma doença). Após a chegada do Cristianismo às ilhas,
Kane, Ku e Lono foram comparados à Trindade, enquanto Kanaloa assumiu o
papel de satanás.
A palavra kanaloa significa "seguro, firme, inconquistável", e é usada como
uma referência poética para comida, um símbolo para poder. Na tradição
kahuna interior, Kanaloa representa o Homem Ideal — plenamente ciente,
plenamente físico e ao mesmo tempo totalmente espiritual, amando e sendo
amado e vivendo em contato com sua fonte.
A figura esculpida mostra um ser com um cocar alto (o poder do pensamento
criativo), serpentinas chegando ao chão (envolvimento direto com o físico), e
os olhos bem abertos (percepção completa do mundo físico e do espiritual).
Homem Trino
Na filosofia e psicologia kahuna, o homem é um ser espiritual com três
aspectos representados por Kane, Ku e Lono. No estado ideal, os três
funcionam como um, representado por Kanaloa, e nesse estado o homem
também é capaz de expressar seu pleno potencial. Por motivos que serão
mencionados em capítulos posteriores, pode ocorrer a desunião, causando
uma quebra de comunicação entre os três aspectos e uma diminuição da
efetividade do homem na vida. Para reconquistar essa efetividade, os kahunas
devem primeiro ensinar como reunificar Lono e Ku, o intelecto e o corpo, ou
o consciente e subconsciente. Dependendo do sucesso dessa reunificação, a
união com o Kane também ocorre. Evidentemente, não falamos aqui de uma
reunificação física, pois não existe uma real separação, e sim da reunificação
através da percepção aumentada. Simbolicamente, quando as figuras
esculpidas de Lono e Ku são combinadas, o resultado é Kanaloa, o
companheiro de Deus.
A Divindade
Quando Kane se refere a Deus, trata-se de uma referência ao eu-deus muito
pessoal do indivíduo. Os kahunas também reconhecem uma Divindade ou um
Deus supremo, infinito, e o termo que usam para isso é Kumulipo, a mesma
palavra usada para a Canção da Criação e que pode ser traduzida como "fonte
de vida". Kumulipo é considerado imanente na natureza, e a unicidade
inerente de todas as coisas é aceita como uma verdade básica. Como seres
concentrados na realidade física, porém, os kahunas sentem que este mundo é
o objeto mais prático para estudo e desenvolvimento. A visão que eles têm
deste mundo é muito mais ampla do que a visão tradicional na cultura
ocidental, e sua percepção do mundo envolve pontos de vista de vários
estados de consciência; por isso, eles sentem que há muito campo para
trabalho no "aqui-e-agora" sem especulações inúteis 27 sobre a natureza da
Divindade. Huna é uma filosofia pragmática, e não existem teólogos entre os
kahunas. Kumulipo é tudo o que existe, infinito, inerentemente amando tudo.
Não há muito mais o que dizer sobre isso.
Espíritos
O deus pessoal, ou o eu-deus ( Kane ou aumakua), não é limitado à
humanidade, na filosofia kahuna. Como Deus está em tudo (ou tudo está em
Deus — os kahunas concordam com as duas premissas), tudo tem uma forma
própria de percepção. Num sentido profundo, tudo é vivo, ciente e
responsivo. E tudo, até mesmo aquilo que os cientistas ocidentais consideram
matéria "morta", tem um Eu Superior com o qual se pode comunicar
conscientemente. A comunicação inconsciente, ou a telepatia subconsciente,
está sempre ocorrendo entre nós e nosso ambiente, porque é a forma primária
na qual o mundo interage consigo mesmo. Um exemplo seria a maneira como
as plantas reagem à dor ou ao prazer de outros seres vivos nas proximidades.
Como humanos, porém, temos o potencial para a comunicação telepática
consciente, deliberada, com qualquer coisa, e, portanto, o potencial para
influenciar propositalmente o ambiente através de meios não físicos. Daí
surge a ideia de que existem identidades-deus ( aumakuas ou simplesmente
akuas) para grupos de coisas, assim como para os indivíduos, e de que a
essência grupai é mais do que a soma de suas partes. Assim, uma árvore tem
seu próprio aumakua, e a floresta — da qual ela faz parte — também, o
mesmo acontecendo no resto do mundo, — e além dele. Antigamente, um
kahuna pedia permissão ao espírito de uma árvore antes de cortá-la, ao
espírito de um vale antes de atravessá-lo. Ele fazia isso por respeito pela fonte
que vivia em tudo, para garantir cooperação. Hoje, um kahuna pode falar com
seu carro ou sua casa da mesma maneira, e usar o mesmo conceito em seu
trabalho de cura.
Como já expliquei em outros textos, a palavra inglesa spirit (espírito), aborda
grande variedade de fenômenos que os kahunas reconhecem como muito
diferentes. Para sermos breves, dentro dessa vasta categoria, os kahunas
reconhecem formas-pensamento, manifestações de campos de energia,
complexos aparecendo como personalidades separadas, efeitos de extrema
sensibilidade telepática ou clarividente, o equivalente dos anjos, bem como
"ideias em ação". Apesar dos contos e lendas populares, a filosofia kahuna
não inclui a ideia de verdadeiros diabos, demônios ou espíritos dos mortos
vagando. Estes são vistos como formas-pensamento criadas consciente ou
inconscientemente, ou manifestações de complexos negativos. Entretanto, um
kahuna pode agir como se essas coisas existissem caso esteja tratando de
alguém que acredita nelas.
Crenças e Realidade
Para os kahunas, a crença é a base para a experiência de qualquer realidade.
A ideia é que nossa experiência é condicionada pelo que acreditamos, e só
podemos experimentar aquilo que acreditamos ser possível em algum nível
de consciência. Quanto mais acreditarmos numa coisa, mais profundamente
ela afeta nossa experiência. Obviamente, uma das principais tarefas do
curandeiro kahuna é ajudar as pessoas a mudar suas crenças doentias em
crenças saudáveis.
As crenças acalentadas pelas pessoas podem ser divididas em três tipos, todos
mantidos ao mesmo tempo. O primeiro tipo é a pressuposição (paulele), um
estado de crença no qual não há dúvida nenhuma e a experiência consiste no
que se acredita. O
segundo é a atitude ( kuana), ou as crenças que abrem margem para dúvidas,
mas, por serem tão habituais, continuam a influenciar a experiência. O
terceiro tipo é a opinião ( mana 'o), uma crença facilmente mudada à luz de
um novo conhecimento. Em contraste, o novo conhecimento que contradiz
pressuposições e atitudes, sozinho, raramente produz mudança. Entrarei em
pormenores sobre essas crenças e seus efeitos na saúde no capítulo sobre
mente/corpo.
Você cria a sua realidade por meio de suas crenças, dizem os kahunas, e as
espécies de realidades criadas também podem ser classificadas em três
categorias. Os psicólogos ocidentais estão familiarizados com as assim
chamadas realidades subjetivas e objetivas. A essas, os kahunas acrescentam
uma terceira, que eu chamo de projetiva.
A realidade subjetiva é pono'i, uma palavra referente ao sentido que uma
pessoa tem do que é certo, apropriado, bom, moral, correto, bem- sucedido,
útil, etc. É a realidade do julgamento, e aquela que tem o maior efeito, na
saúde e felicidade. Por exemplo, em minha realidade pessoal, fazer
caminhadas carregando minha mochila é uma atividade positiva e benéfica,
mas na realidade pessoal de minha mulher é negativa e dolorosa. Não se trata
de uma simples diferença de opinião; é uma diferença em experiência
subjetiva.
Em seguida, vem a experiência objetiva, ou, como prefiro chamá-la, realidade
compartilhada. A palavra para isso é oia'i'o, que tem significados de
substância e fatos, e se refere ao modo como as coisas parecem ser,
independentemente de atitudes e opiniões. É a realidade da aparência e
interpretação, da tecnologia e da lida prática com o mundo material. Os
"fatos" de seu ambiente imediato lhe permitem comer, respirar, trabalhar,
brincar e interagir com os outros, e essa é a realidade do oia'i'o. Essa
realidade é mais facilmente mudada por meio de uma nova interpretação dos
fatos, como frequentemente fazem os inventores.
O terceiro tipo de realidade é maoli, que significa "devido à vibração". Essa é
a realidade que começa como subjetiva e se torna objetivada por meio de
contínua projeção mental. E uma realidade que você cria ou partilha da
criação propositalmente, levando o seu desejo do nível de uma ideia ou
imagem ao nível da experiência física. Não é uma coisa estranha que só os
adeptos podem fazer após muitos anos depois de prática disciplinada.
Você faz isso sempre que planeja e executa um projeto. Praticamente o
mesmo processo pode ser usado para efetuar uma cura. Os kahunas não veem
a realidade como algo separado ou fora de nós mesmos, mas tratam-na como
parte essencial de um estado psicológico. O potencial que temos é enfatizado
pelo fato de que maoli também pode ser traduzido como "um estado de
alegria".
Vida e Morte
A palavra havaiana para vida é ola, e a mesma palavra é usada para "um meio
de sustento ou renda, curar ou ser curado, bem-estar, bem, salvação, conceder
vida", e outros significados semelhantes. As raízes dão um significado básico
de emitir ou encher-se de luz, e os kahunas usam a luz como um símbolo de
energia e também de perfeição. Uma ideia fundamental por trás disso é que
uma vida saudável, produtiva e satisfatória está intimamente ligada a um
contínuo aumento de percepção. Duas outras palavras que significam luz, ea
e ha, também têm o sentido de "respiração", o que exemplifica que o duplo
sentido era, aparentemente, comum em muitas filosofias antigas. Além disso,
essas duas palavras carregam significados associados ao movimento da água;
e a própria água (wai) também é usada como um símbolo da vida. Portanto, a
vida é percebida pelos kahunas como algo que flui e se move em ciclos,
como a respiração e a água. De fato, uma frase recorrente em lendas e
orações do Havaí, wai ola, pode significar igualmente "a água da vida" e "o
fluxo da vida".
Do ponto de vista ocidental, parece natural olhar a morte como o oposto da
vida, e esperar que a palavra kahuna para ela se refira a uma parada do fluxo.
Em vez disso, porém, a filosofia kahuna trata a morte como continuação da
vida numa direção ou estado diferente. Isso fica evidente nos significados
alternativos para os temas comuns e poéticos para a morte, em havaiano,
como vemos a seguir:
make loa — "forte desejo por algo "
hiamoe loa — "desejo de um longo sono "
ua makukoa'a'e'oia — "vida que se mantém fluindo "
ala ho'i ole mai — "o caminho sem volta"
waiho na iwi — "deixar para trás os ossos"
moe kau a ho'oilo — "tempo de sono para germinar (renascimento)"
a lele nui ka mauli — "o espírito (ou vida) fluiu "
lele ka hoaka — "o espírito (ou corpo astral) fluiu "
ha'ule — "começar a fazer algo "
Um problema importante para muitos filósofos não é apenas por que a morte
ocorre, mas por que naquele momento e daquela forma. Superficialmente,
parece uma coisa ilógica, sem padrão ou motivo, mas isso acontece porque a
cultura ocidental tende a ver a morte como o fim, algo imposto a nós contra a
nossa vontade, e pela qual não temos responsabilidade exceto em caso de
suicídio. A visão kahuna é muito diferente. A morte é vista como parte da
vida, tão natural quanto a mudança das estações ou a metamorfose de uma
lagarta em borboleta. Ela ocorre porque faz parte do contínuo processo de
vida. O quando e o como são questões de crença pessoal e cultural. Por
exemplo, se você desenvolver a crença de que a velhice é uma coisa horrível,
que preferiria morrer a ficar velho, provavelmente morrerá, ainda que tenha
de criar subconscientemente uma doença ou um acidente como modo de
partir. E, se você tem uma crença profundamente arraigada de que, pode
envelhecer com dignidade, de maneira agradável e com boa saúde,
provavelmente será um centenário ativo e a sua passagem será tranquila e
pacífica quando você sentir que sua vida já se cumpriu. E até o último
momento da vida física, uma mudança de crença pode mudar suas
circunstâncias. Como frequentemente digo a meus alunos, você tem um
propósito e o seu Eu Superior providenciará para que esse propósito seja
cumprido, seja em poucas horas ou cem anos, quer você esperneie e berre o
tempo todo, quer se divirta e se delicie.
Os kahunas não se importam muito com a vida após a morte porque estão
mais interessados na experiência da vida presente. De modo geral, a vida
após a morte é considerada um lugar para se reavaliar a vida, renovar-se e
rever velhos conhecidos, e ter nova experiência e crescimento. O nome para
esse estado é Po, e os kahunas dizem que o visitamos todas as noites em
sonhos, quando estamos livres do corpo, e também em certos estados de
transe. Nós nascemos de Po, visitamos Po regularmente, e a ele retomaremos,
talvez para dele nascer novamente. Quando dizemos nós, a referência é ao
intelecto e ao corpo (porção Lono/Ku do eu inteiro), pois o Eu Superior (
dumakua) existe continuamente em Po. A língua inglesa às vezes é uma
ferramenta imprecisa para a discussão de certos aspectos de Huna. E fácil ter-
se a impressão de que Po é um lugar, mas isso não é correto.
Po é mais como um estado multidimensional existindo simultaneamente e
ocupando o mesmo espaço que a vida física. Uma analogia grosseira seria
como vários programas de televisão sendo transmitidos à sua volta agora,
mas numa forma que você normalmente não percebe. A vida desperta, em
vigília, de acordo com Huna, é como se sintonizar a um canal específico da
realidade para obter certos tipos de experiência. A comunicação entre Po e
Ao (vida desperta) é possível porque a pessoa inteira existe nos dois mundos
ao mesmo tempo, e é só uma questão de mudança de percepção. Em alguns
contextos, Po também significa "Mente".
A reencarnação faz parte da filosofia kahuna, mas o conceito é radicalmente
diferente da maioria dos outros sistemas de pensamento, porque o conceito
kahuna de tempo também é radicalmente diferente. Sucintamente, o tempo é
uma forma de vibração energética, como o som ou a luz, e que — como eles
— possui campos de frequência.
Todos os "tempos" estão acontecendo ao mesmo tempo, mas nossos sentidos
físicos normalmente restringem nossa percepção a um campo específico que
chamamos de presente. Com nossas mentes, somos capazes de transcender
limites físicos e ter consciência daquelas porções de nosso eu total que
"agora" existem em outros tempos e lugares. O resultado prático desse
conceito é que os kahunas não veem a vida presente como o resultado ou
efeito de condições numa vida "anterior". Em suma, eles não aceitam a ideia
de uma "dívida cármica", que a pessoa deve pagar ou compensar por
experiências e ações em uma vida passada. Em vez disso, segundo os
kahunas, você contém todas as experiências de reencarnação dentro de si,
neste momento, na forma de dados mais ou menos latentes, e a sua vida atual
consiste em dados latentes para suas outras vidas. Elas o afetam assim como
você as afeta. O relacionamento é antes de reflexão paralela que de causa e
efeito, e o seu atual sistema de crenças determina partes de suas outras vidas
que você pode conhecer. Você pode mudar sua crença, explorando,
compreendendo e afetando vidas "passadas", ou explorando, compreendendo
e afetando esta vida. De acordo com os kahunas, tudo é a mesma coisa, e o
importante é chegar aos resultados desejados.
Bem e Mal
Qualquer filosofia cujo objetivo é servir de diretriz para a conduta humana
deve lidar com o problema do bem e do mal, conforme ele aparece no
mundo. O método kahuna é extremamente prático e simples. Para começar,
não há um paralelo em Huna à noção de um ser maligno como satanás, que
tenta e captura as almas dos homens, e que pode convenientemente levar a
culpa pelos desvios humanos dos padrões estabelecidos por outros homens.
Os kahunas consideram satanás e outros equivalentes personificações das
ideias humanas sobre o mal. Eles ensinam que cada ser humano é responsável
por suas próprias ações e pelos resultados destas. Tampouco existe um
conceito de pecado contra Deus, no sentido ocidental. As leis de Deus são
leis naturais, tais como a gravidade, impulso, magnetismo, etc. Por sua
natureza, essas leis não podem ser "quebradas por pecado" sem efeitos
imediatos. Experimente pecar contra a gravidade, pulando de um penhasco.
"Viver em pecado, desafiando as leis de Deus" é, portanto, uma
impossibilidade na visão kahuna. Por outro lado, isso não significa que os
homens não possam cometer atos ruins.
Há três palavras em havaiano normalmente traduzidas como pecado, e um
exame apurado delas revela muita coisa sobre o pensamento kahuna nessa
área. A primeira palavra é hala, e seu significado essencial é "errar por
omissão". É a perda do caminho, a falha em fazer algo que deve ser feito.
Diferentemente do pecado no sentido ocidental, o conceito se refere ao erro,
um julgamento equivocado que pode e deve ser corrigido para o bem do
indivíduo, e da sociedade. Abandonar o local de um acidente ou não pagar
impostos são omissões que se encaixariam nessa categoria. O segundo tipo de
pecado é
hewa, o erro do exagero, de fazer alguma coisa em excesso e, portanto, não
para o bem do indivíduo e da sociedade. Esse erro também pode e deve ser
retificado. Alcoolismo, dirigir sem cuidado e perturbar a paz são atividades
hewa. Nem hala nem hewa são considerados atos malignos — estúpidos e
loucos, talvez, mas não malignos. A verdadeira palavra para mal é 'ino, que
significa prejudicar alguém intencionalmente. A palavra-chave é intencional,
o desejo de prejudicar deliberadamente. Isso é mais do que um erro, pois se
trata de um ato consciente. É um pecado contra si próprio ou outra pessoa,
um pecado contra a vida. E como a chave é o intento, só o indivíduo que
comete o ato pode de fato julgar o que fez, pois atos semelhantes podem ser
cometidos por razões diferentes. Na guerra, por exemplo, as pessoas são
mortas por outras. Mas há alguns que matam por prazer, outros por medo de
ser mortos, e outros ainda para defender a quem amam. O intento faz a
diferença, e o indivíduo é o juiz de si mesmo, no sentido ético.
Usando a palavra sociedade em referência a qualquer tipo de grupo, os
kahunas reconhecem que uma sociedade pode estabelecer qualquer regra, lei
ou padrão ético que desejar e estipular formas de punição para a
desobediência. Ao mesmo tempo, um indivíduo nessa sociedade tem o direito
de obedecer às leis e receber os benefícios da sociedade, ou quebrá-las e
sofrer as consequências. Uma sociedade pode até estabelecer o que considera
leis morais, mas elas continuam sendo as leis dessa sociedade específica e
não são necessariamente apropriadas para aplicação universal.
Independentemente disso, um indivíduo que acredita ser pecado quebrar as
leis de sua sociedade encontrará um meio de punir a si próprio, mesmo que a
sociedade não o faça, geralmente através de uma doença ou acidente. Mas,
independentemente do que uma sociedade possa ou não fazer com uma
pessoa que quebra as leis, o juiz final é o eu-deus da própria pessoa. O único
pecado universal é a violência contra a vida. Isso inclui dano intencional de
qualquer espécie, e se aplica também a plantas, animais ou à própria Terra,
bem como aos seres humanos.
Amor e Emoções
Max Long formulou um "mandamento" Huna, o qual definiu como "Não
prejudicar".
Entre os kahunas, porém, esse princípio é afirmado mais positivamente como
um chamado para o amor. Não há mandamentos em Huna. Há, isto sim,
lógica, no sentido de uma ligação necessária entre os eventos. Se você
comete violência, recebe violência. Se ama, é amado. Isso nada tem a ver
com mandamentos; é a natureza da vida. Seguindo a visão kahuna segundo a
qual a experiência segue o pensamento e tudo é parte de um todo, você não
pode cometer violência sem antes se sentir violento a respeito de si mesmo;
não pode odiar os outros sem antes se odiar; e não pode amar sem amar a si
próprio. Como disse WK: "Se você não tem uma coisa, não pode dar". O
amor é orientado para o crescimento e desenvolvimento, enquanto a violência
é restritiva e repressiva. O chamado para o amor, portanto, é muito prático.
Se você quiser crescer e se desenvolver e apreciar a vida, pratique o amor. E,
em proporção ao grau de sua prática, começando consigo mesmo, você
crescerá, se desenvolverá e apreciará a vida.
Para praticar o amor, porém, você precisa entender o que ele é. Para muitas
pessoas da cultura ocidental, parece ser uma espécie de doença ou uma forma
de trauma emocional, a julgar pelas descrições. A palavra havaiana para amor
é aloha, que a maioria dos turistas em Honolulu sabe que também significa
"olá" e "adeus". Mas aloha é usada para esses cumprimentos justamente
porque significa amor, pois a melhor maneira de cumprimentar ou se
despedir das pessoas é com amor. Agora, o que é o amor? A própria palavra
responde. De acordo com as raízes, significa "crescer e prosperar alegremente
juntos", "compartilhar a experiência da vida", e "ser feliz com (alguém)". O
amor é um modo de agir em relação às outras pessoas e de sentir algo por si
mesmo e pelos outros.
Esse modo de agir é sempre uma espécie de cura, incentivando o objeto
amado a prosperar e brilhar. Pode-se dizer, portanto, que amar é curar, e curar
é amar. Lógico que qualquer coisa pode ser chamada de amor, mas o
verdadeiro teste é se essa coisa incentiva o crescimento e a felicidade.
As emoções são vistas pelos kahunas como uma excitação de energia por
todo o corpo, e todas as palavras havaianas relacionadas às emoções refletem
essa ideia, geralmente com o uso de imagens aquáticas, como ondas, borrifos
ou água fluindo de uma forma ou de outra. O nome específico dado a uma
emoção em particular depende dos pensamentos que a acompanham. Em
termos de pura sensação, você não verá uma diferença entre raiva e
entusiasmo, ou ansiedade e expectativa animada. A estimulação do fluxo
emocional pode vir dos seus pensamentos ou de um evento externo, mas de
qualquer forma são os pensamentos que perpetuam a emoção, e uma
mudança de pensamento pode mudar as emoções que você experimenta.
Relatividade
O conceito de relatividade é muito importante na filosofia kahuna,
especialmente em relação à cura. A ideia Huna é muito semelhante ao
conceito yin/yang dos chineses: tudo é relativo a alguma coisa. Nada pode ser
descrito ou experimentado exceto em relação a alguma outra coisa, pois não
existem absolutos no mundo de nossa percepção. Essa é uma extensão lógica
de uma pressuposição kahuna básica de que Deus, a Divindade, é infinita, e
infinito significa ilimitado. Daí, podemos ter a seguinte proposição:
Deus é infinito;
Portanto Deus é toda a verdade;
Portanto a verdade é infinita;
Portanto tudoxjue é, é verdadeiro.
Como o homem não percebe a infinidade, nunca pode enxergar mais do que
uma porção da verdade, e essa porção depende inteiramente de seu sistema de
crenças. A medida que mudam suas crenças, também muda sua verdade, e
portanto, sua experiência.
A percepção da verdade, portanto, é relativa ao estado mental. Em qualquer
momento específico, você só consegue experimentar uma verdade relativa.
Esse conceito se expressa efetivamente na linguagem de Huna porque a
maioria das palavras "código" contém significados relativos. A palavra
sagrado (la 'a) também significa "amaldiçoado e deflagrado", e mesmo a
palavra aloha, tão fortemente associada a alcançar, fazer contato e partilhar,
tem em sua raiz significados adicionais de evitar e reter. A ideia por trás
dessas traduções paradoxais é que o significado depende das circunstâncias.
O significado só pode ser compreendido em relação ao seu ambiente.
Portanto, as palavras só fazem pleno sentido no contexto.
Num sentido mais amplo, qualquer porção do universo é o que parece ser em
relação a alguma outra parte com que possa ser comparada. Não existem
absolutos; não há significado sem relacionamentos; todas as coisas são não
apenas interativas, mas interdependentes. Os kahunas usam essa idéia para
ajudar uma pessoa a desenvolver um senso de significância poderosamente
seguro, enquanto, ao mesmo tempo, ensinam a essa pessoa que curar a si
própria é o mesmo que curar o mundo, e curar o mundo é curar a si própria.
Não se trata de uma perda de individualidade, mas, de uma compreensão de
que a própria individualidade é um relacionamento com o ambiente.
As ideias filosóficas gerais brevemente apresentadas acima formam a base
para as práticas kahuna descritas nos capítulos seguintes.
CAPÍTULO 3
Práticas Psíquicas
Em lendas, narrativas históricas e anedotas de viajantes, há muitos contos
sobre as práticas psíquicas dos kahunas do Havaí, práticas essas ainda
observadas hoje em dia e que são uma parte essencial dos métodos de cura
kahuna. Embora ainda exista muita controvérsia, não nos cabe aqui tentar
provar a existência de habilidades psíquicas. Neste capítulo, eu me
concentrarei na explicação dos kahunas e no uso que fazem de tais
habilidades.
Níveis de Consciência
Como descrevi no capítulo anterior, os kahunas reconhecem vários modos de
perceber a realidade, e também usam vários níveis de percepção ao realizar
suas práticas, cada qual com seu conjunto de regras ou estrutura de crenças.
Com isso, eles seguem o conceito psicológico de que vivemos num universo
multidimensional, e que podemos alcançar diferentes efeitos e experiências,
mudando nosso foco de uma dimensão, ou nível, para outra. Esses níveis
supostamente coexistem, de modo que a mudança de um para outro envolve
apenas um desvio de atenção. É algo que pode ser comparado a viver num
apartamento com um único cômodo, que pode ser usado para dormir, jantar,
ler ou fazer algum trabalho criativo. Enquanto fazemos uma coisa ou outra, o
cômodo não muda, mas apenas o seu uso e o conceito que temos dele. WK
gosta de dividir esses níveis em quatro tipos diferentes. Entretanto, os
kahunas consideram todas as categorizações ou divisões de qualquer espécie
potencialmente úteis, porém arbitrárias. O isolamento é apenas uma ilusão
conveniente. Assim, os kahunas se sentem à vontade para desenvolver
qualquer tipo de estrutura explanatória que sirva aos seus propósitos. Com
isso em mente, vejamos os quatro níveis de WK:
Primeiro Nível: Físico (Ike Papakahi) Este é o nível do que poderia ser
definido como a experiência física bruta. Refere-se ao reino cotidiano
comum que conhecemos e no qual trabalhamos com a visão, audição, tato,
paladar, olfato e sentimento. Embora não seja irreal, este é um nível de
percepção apenas parcial. É um nível pragmático onde se constroem casas,
consomem-se alimentos e as pessoas se relacionam com certa independência.
Sua característica dominante é o senso da experiência objetiva, de um
isolamento entre as pessoas, objetos e eventos.
Segundo Nível: Psíquico (Ike Papalua) Esse é o nível da maior parte da
experiência psíquica. Nesse estado, a experiência objetiva não é definida de
maneira tão acentuada, pois nele você pode comunicar-se com o seu ambiente
e influenciá-lo de modos que não seriam possíveis em ação estrita do
primeiro nível. A subjetividade se torna mais importante, mas ela é usada
como meio de atuar no mundo exterior. Daqui, você pode usar técnicas
mentais para criar eventos objetivos.
Terceiro Nível: Relacionai (Ike Papakolu) Este é o estado da inter-relação ou
da relatividade. Tempo, espaço, matéria, energia, humanos, plantas e animais
se tornam conceitos relativos que interagem constantemente e que não têm
significado, exceto em relação uns aos outros. Enquanto os dois primeiros
estados são orientados primariamente pela ação, este e o seguinte são mais
orientados pela informação. Por exemplo: um adepto kahuna pode usar este
estado para aprender a verdadeira natureza da doença de uma pessoa, mudar
para o segundo estado a fim de realizar uma cura psíquica, e voltar depois ao
primeiro para dar uma massagem ou um remédio de ervas, ou ainda para
fazer um ritual que impressione o paciente.
Quarto Nível: Místico (Ike Papakauna) Este é um estado de percepção
mística da unicidade do universo. Alguns escritores o chamam de consciência
cósmica, e, embora a vivência desse nível possa alterar o modo como uma
pessoa vê a vida e resolve agir a partir de então, é um estado puramente
subjetivo e não pode ser usado de nenhuma maneira "prática". Como
exemplo, se um kahuna, sem nenhum meio de proteção física, deparasse com
um leão devorador de homens, poderia usar o segundo nível para influenciar
o animal telepaticamente e mandá-lo embora, e poderia mudar para o terceiro
nível e determinar por que se deixou cair numa situação assim, aprendendo a
mudar" seu modo de pensar e não repetir o ato. Se ele mudasse para o quarto
nível, compreenderia que ele e o leão estão unidos no grande esquema das
coisas e o que quer que acontecesse estaria certo aos olhos do universo.
Entretanto, se ele contasse somente com este estado, provavelmente seria
devorado.
Mente, Energia e Matéria
Em sua busca pelo conhecimento dos kahunas, Max Long disse que foi
orientado a procurar três fatores: uma forma de consciência ( no'ono'o), uma
forma de força (mana), e uma forma de substância ( aka). Como as três são
essenciais às práticas psíquicas kahunas, será necessário uma breve
explicação de cada uma.
Nesse contexto, a consciência (no'ono'o) é vista na forma de imaginação e
tem dois aspectos. Um é o de "olhos do subconsciente" (makaku), a
imaginação baseada em crenças atuais. Pode mani- festar-se como imagens
da memória, sonhos, devaneios habituais ou espontâneos, e até preocupações
visualizadas ou expectativas. Esse aspecto é usado na coleta de informações
psíquicas (a imaginação não é só fantasia), e geralmente é chamado de
"sintonização" por sensitivos e paranormais. O segundo aspecto (laulele) tem
na raiz os significados de padrão embrionário e de espalhar ou voar para
fora. Trata-se de imaginação conscientemente desejada e dirigida, do tipo que
um arquiteto usa antes de colocar suas ideias no papel. Com laulele, o kahuna
estabelece um padrão mental para o que ele deseja alcançar, que se encaixe
com a ideia filosófica da realidade projetiva. Essa ideia está contida na raiz
'ono de no'ono'o, que significa "ansiar por algo, desejar obter alguma coisa".
A ideia pretendida aqui é de uma vontade emocionalmente fortalecida e
fortemente dirigida. Dos vários termos havaianos equivalentes à palavra
inglesa desire (desejo), só 'ono traz a ideia de intenção de conseguir algo.
No'ono'o é, portanto, a imaginação criativa com propósito.
Para o kahuna, a verdadeira chave do trabalho psíquico é a força psíquica ou
o poder divino (mana). Isso se refere ao poder de qualquer espécie, mas
principalmente a confiança e a energia. Como energia, é a força vital que
permeia o universo, altamente concentrada nas coisas vivas. Pode ser
acumulada, focalizada e transferida de uma pessoa ou um objeto para outro.
Mana parece ter muitas das características da eletricidade, do magnetismo e
da gravidade, e os kahunas interpretam essas três coisas como variações de
mana.
A efetividade de todas as práticas psíquicas é determinada por sua
abundância ou escassez. Portanto, muita atenção deve ser dada ao modo
como se aprende a aumentar conscientemente o suprimento disponível. Um
modo de fazer isso é usar a imaginação consciente ou a visualização,
imaginando que o mana está aumentando — como, de fato, aumenta. Quando
as práticas dessa natureza são feitas, você chega a experimentar sensações
físicas no corpo, tais como correntes, formigamento ou calor, todos os sinais
do fluxo do mana aumentado. Outro modo é praticar várias formas de
respiração especializada e exercícios, semelhantes aos usados pelos iogues.
Isso se baseia na ideia de que mana também se encontra no ar e pode ser
atraído de maneira mais abundante pela respiração controlada
conscientemente. Certos alimentos que contêm fortes concentrações de mana
podem ser comidos, e alguns objetos como grandes quantidades de mana
podem ser manuseados de várias maneiras. O som na forma de canções,
entoações e música também pode ser usado. Sem dúvida, a prática mais
comum, porém, é o desenrolar consciente da emoção. Para os kahunas, a
emoção é mais do que o mero sentimento; é o movimento de mana no corpo
acompanhado por um pensamento específico. A emoção forte é comparada à
presença de uma grande concentração de mana.
O kahuna proficiente deve ser um mestre das emoções, capaz de gerá-las,
dirigi-las e dissipá-las à vontade. Praticamente todas as palavras descritivas
usadas em Huna para práticas psíquicas contêm raízes que indicam
nitidamente o uso da emoção ao realizá-las.
Observe, no entanto, o seguinte: quanto mais mana-como-confiança você
tiver, menos mana-como-energia precisará; e quanto menos mana-como-
confiança tiver, mais mana-como-energia precisará.
Aka é a "matéria" básica do universo físico, da qual toda manifestação
material é formada. A palavra tem o significado de "luminoso, transparente,
sombra, reflexo, espelho, essência". Aka funciona como um espelho que
reflete padrões de pensamento no nível tanto psíquico quanto físico.
Comparado ao reino do pensamento puro, é uma mera sombra. Os kahunas
acreditam que essa "matéria" pode ser formada e moldada por meio do
pensamento consciente e inconsciente, e age como um contêiner de mana.
Quanto mais
mana ela contém, mais densa parece. Algumas formas de aka são conhecidas
pelos sensitivos como matéria etérea ou astral, e, sob certas condições no
estado psíquico de percepção, ela aparece como algo luminosamente
transparente. As características refletoras dessa matéria possibilitam a um
curandeiro kahuna mudar as condições, mudando o pensamento.
Simbologia
Ao ensinar e praticar suas artes psíquicas, os kahunas fazem grande uso de
ferramentas e símbolos metafóricos. Diferentemente de alguns ocultistas
ocidentais, que podem atribuir propriedades mágicas inerentes às ferramentas
físicas de seu ofício, os kahunas sabem muito bem que o propósito primário
de tais ferramentas é estimular a produção de mana pelo subconsciente, e
direcionar seu fluxo em determinado sentido pela mente consciente. É
evidente que qualquer objeto específico pode ser infundido com um
suprimento extra de mana, o que pode torná-lo um estimulante mais eficaz;
mas as ferramentas usadas pelos kahunas são mais honradas pelo duplo
sentido de seus nomes do que por qualquer eficácia natural que possam ter.
Por exemplo, uma ferramenta tradicional usada em muitos antigos rituais
kahuna era uma bebida narcótica feita de raiz de awa (kava). A lógica por trás
disso era que a palavra awa significa uma "experiência desagradável ou
trágica e também um canal ou passagem através de um recife até um porto
tranqüilo". Ao oferecer o awa aos deuses, o kahuna estava na verdade
realizando um ritual para convencer o subconsciente de que as experiências
amargas estavam sendo substituídas pela paz interior. Outra ferramenta ainda
usada no Havaí para várias práticas, geralmente de proteção, é a folha de ki
(ti), porque outros significados de ki são "força, ataque, amarrar e tirar".
Animais, plantas, flores, peixes, pássaros, pedras e outros objetos eram todos
utilizados de acordo com os vários significados em seus nomes,
independentemente de seu uso como fonte extra de mana ou por quaisquer
características químicas ou nutricionais. Os kahunas sabem que o poder real
de uma palavra está em sua significância psicológica. O som, sozinho, pode
estimular um fluxo de mana, mas o som formado em uma palavra com
impacto psicológico tem um efeito muito maior.
Tanto para ensinar quanto para aprender, geralmente é útil aplicar metáforas.
Ao aprender a teoria da eletricidade, por exemplo, um estudante pode ouvir
que a eletricidade é como água passando por um cano, o fluxo é parecido
com uma corrente, a pressão é como uma voltagem, e a fricção contra o cano
é parecida com a resistência. Os kahunas também usam metáforas de uma
maneira semelhante para explicar os diferentes aspectos dos conceitos que
ensinam. Veja a seguir algumas das metáforas usadas por kahunas havaianos
para descrever os efeitos e as ações dos três fatores principais — pensamento
imaginativo, energia ou poder, e matéria: Pacotes, agrupamentos, sementes,
redes, teias, quaisquer Pensamentos instrumentos contundentes, clubes,
brotos e filhotes de animais, peixes e flores.
Poder
Água, chuva, nevoeiro e neblina, ondas e vagas, fogo, comida, ramos ou
galhos, e cores (especialmente a vermelha).
Matéria
Uma ponte, arco, um arco-íris, uma caverna ou gruta, corda, fio (etérea) ou
cordão, sombras, um embrião, articulações do corpo, ganchos e nuvens.
Com esse simbolismo, os kahunas são capazes de ensinar seus conceitos.de
uma maneira que os estudantes possam facilmente fazer associações ao
mundo natural.
Categorias de Poderes Psíquicos A classificação das práticas psíquicas dos
kahunas apresenta um certo problema porque as categorias ocidentais são
baseadas em pressuposições muito diferentes. Para os kahunas, todas as
práticas kahunas são apenas variações de um processo básico que utiliza o
pensamento, a energia e a matéria etérea, ou para comunicar ou mudar
condições, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Além disso, eles
acreditam que tais práticas envolvem extensões de nossos sentidos existentes,
não "extras". Entretanto, para o propósito de nossa discussão, dividirei as
práticas psíquicas kahunas nas áreas de telepatia, clarividência, pré-cognição
e psicocinesia. O leitor deve compreender, porém, que essas são
características de função, não de natureza, e na prática real elas se
sobrepõem. A. interpretação kahuna delas difere da ocidental, em muitos
aspectos.
Telepatia ( Una)
Nesse uso kahuna mais estrito, una (telepatia) é a transmissão de
pensamentos ou ideias por uma ação da mente e da energia psíquica. Refere-
se somente a enviar, não receber, e apenas à telepatia intencional. Os kahunas
acreditam que a comunicação mental é uma função natural de todos os seres
humanos, e que está em constante operação, apesar da limitada percepção das
pessoas. Essa forma de comunicação inconsciente é chamada de ike hanau,
que pode traduzir-se como "instinto". Una é diferente, pois é aplicada com o
uso da vontade, e o processo é muito simples. Você focaliza sua atenção na
pessoa com quem quer fazer contato, acumula um suprimento de mana, fixa
claramente o pensamento que quer transmitir, e controla o caminho pela força
da vontade. A efetividade prática, porém, só é alcançada através do exercício
disciplinado e de um apurado conhecimento da natureza da mente, da energia
e da matéria. Nesse sentido, não é diferente de nenhuma outra habilidade que
exija prática e conhecimento. Na cura, um kahuna usará a telepatia
intencional para transmitir sugestões positivas de cura ao paciente, além de
quaisquer outras técnicas que possam ser usadas. Os kahunas ensinam que
essa habilidade não é afetada pela distância; mas, ao se transmitir a um
paciente fora do campo de visão, é ainda mais importante ter uma imagem
muito nítida dele. Antigamente, eram usados pedaços de objetos pessoais do
paciente, para incrementar a concentração; hoje em dia um kahuna pode usar
uma assinatura ou fotografia.
Clarividência ( Kilo/NanaAo)
A palavra clarividência se refere a dois fenômenos distintos: a habilidade
para receber informações mentalmente ( kilo); e a habilidade para ver auras e
formas livres de energia ( nana ao).
A recepção mental inclui a ideia ocidental de receber mensagens telepáticas e
a técnica conhecida como "psicometria", um processo pelo qual alguém
recebe informações sobre pessoas e eventos a partir de um objeto que, de
certa forma, esteja a eles relacionados. Também se incluem aí aquelas formas
de clarividência nas quais é usada uma ferramenta intermediária, como uma
bola de cristal, leitura de cartas e a interpretação de augúrios. Todas elas
usam a mesma técnica básica para se alcançar um estado de comunicação
mental ( ike papalua) através de vários exercícios de concentração e
dissociação: focar a mente na pretendida fonte de informação; estar alerta à
entrada de informação na forma de imagens, sensações e sentimentos durante
o período da focalização; traduzir essa entrada de dados em uma saída
significativa. Aplicadas à cura, essas práticas são usadas basicamente para
diagnosticar as causas mentais e comportamentais de doenças e para localizar
as áreas de tensão no corpo. Percebemos o problema de usar categorias
ocidentais quando os kahunas não veem nenhuma diferença entre receber
informações telepáticas de um ser humano ou clarividentes de uma rocha.
WK diz que o termo nana ao se refere à habilidade para ver coisas como
auras, campos de energia e corpos etéreos ou astrais, embora a frase seja
traduzida no dicionário havaiano como "interpretação de nuvem" (no sentido
de interpretar as formas das nuvens no céu como augúrios). Eu demonstrei
em centenas de casos que qualquer pessoa pode ver auras e campos de
energia, se souber o que procurar e como procurar, mas a maioria não tem
esse conhecimento. Nana ao, porém, inclui a habilidade para interpretar
aquilo que se vê. Os kahunas que praticam nana ao como cura, usam-na para
determinar áreas de tensão no corpo. Eles também avaliam estados
emocionais interpretando visualmente as cores que aparecem e/ou as áreas de
relativa luz e sombra. Como uma variação, alguns kahunas usam o sentido do
tato em vez da interpretação visual, e isso é chamado de haha.
Nesse caso, o kahuna pode passar as mãos sobre o corpo do paciente ou
alguns centímetros acima da pele e sentir áreas de "maciez" ou "dureza", esta
última indicando regiões com problemas. Um kahuna praticante de
clarividência raramente conta só com isso, mas inclui também a telepatia,
como parte do processo.
Pré-cognição ( Wanana)
A pré-cognição — arte da adivinhação - é um conceito que assombra e ao
mesmo tempo frustra os cientistas e filósofos. Entretanto, o peso das
evidências demonstra que aparentemente é possível ver o futuro e ter um pré-
conhecimento de eventos ainda por vir, embora não exista uma prova de
alguém que faça isso com cem por cento de acuidade.
De fato, a incorreção das previsões paranormais deixa os pesquisadores ainda
mais perplexos. A grande pergunta é por que algumas previsões são
altamente corretas, outras parcialmente, é outras totalmente incorretas, ainda
que todas sejam feitas pela mesma pessoa.
Adivinhação, ou pré-cognição, é uma prática kahuna muito comum, e todos
os kahunas adeptos a usam, pelo menos até certo ponto. Por ser incluída no
treinamento kahuna, não nos surpreende que as raízes da língua contenham
informações definitivas sobre a natureza do tempo e da pré-cognição. A
principal palavra para adivinhação,
wanana, significa "observar os padrões do tempo".
Nossos sentidos normais e psíquicos nos dizem que o passado é constituído
de eventos já ocorridos, e o futuro, de eventos ainda não ocorridos. Parece
lógico deduzir, portanto, que o presente consiste em eventos que estão
ocorrendo e sendo percebidos. A ideia do tempo presente, porém, apresenta
um problema para aqueles que se acostumaram a pensar em passado e futuro
como conceitos objetivos. Algumas filosofias orientais afirmam que o
presente é uma ilusão porque o tempo é um fluxo contínuo do passado até o
futuro. Num certo sentido, alguns cientistas ocidentais concordam, dizendo
que, como o presente não pode ser medido objetivamente, ele é apenas uma
interface entre o passado e o futuro. Em contraste, a visão kahuna do presente
é que ele envolve a gama de eventos em que estamos no processo de perceber
e com os quais podemos interagir. Uma expressão usada para designar o
presente é i keia manawa, significando "neste fluxo de mana", ou "nesta
autoridade de espaço/tempo". Essa idéia nos dá uma visão mais ampla do
presente, a qual se encaixa mais com nossas percepções.
A palavra mais significativa para o passado é wa'ae'oia, que significa "o
período de concordância duradoura". Ela reflete a ideia de que o passado é
aquilo que lembramos dele e o que concordamos que ele é, bem como as
lembranças existentes no presente.
Podemos compreender melhor a ideia kahuna sobre adivinhação na frase
usada para futuro: ka wa mahope. Literalmente, significa "o tempo que vem
depois", mas mahope também significa "resultado, consequência", indicando
o ensinamento kahuna de que o futuro é um resultado do que acontece no
presente. Outra palavra para o presente, 'ano, contém essa ideia também. Seus
outros significados são "semente, prole". Os kahunas ensinam que o presente
é o fruto do passado, e a semente do futuro. Portanto, ao examinarmos com
atenção o presente, podemos prever o futuro. Não há necessidade de desviar
ou transcender o tempo, pois essa seria uma possibilidade duvidosa, de
qualquer forma. O futuro cresce a partir do que está acontecendo agora.
Entretanto, isso não implica nenhuma espécie de determinação, porque o
momento atual é dinâmico, fluídico, não estático. Toda mudança de
pensamento ou ação introduz novas variáveis que podem mudar o curso do
futuro, e uma dessas variáveis é o próprio adivinho. Os kahunas sabem que o
mero fato de expressar uma previsão já afeta o futuro.
Quase todas as palavras Huna relativas a profecias contêm alusões a isso. E
os kahunas também sabem que quanto mais informações tivermos sobre o
presente, mais corretas serão nossas previsões. Portanto, eles não limitam
suas informações ao que existe fisicamente, mas abrem as mentes, de maneira
telepática e clarividente, para coletar informações de tantas fontes quanto
forem possíveis.
Assim, a adivinhação consiste em expandirmos nossa percepção para incluir
aspectos invisíveis do momento atual, bem como conhecimento comum, e
depois tirarmos conclusões quanto ao mais provável resultado em qualquer
tempo futuro. Essa coleta psíquica de informação costuma ser um processo
subconsciente, ou seja, a massa de informações não precisa ser acessível à
mente consciente. Tendo recebido a ordem de coletar informações, o
subconsciente do adivinho faz uma espécie de "estimativa provável" do
futuro e a apresenta ao consciente em forma de palavras ou imagens. Os
kahunas dizem que esse é o processo empregado por todos os adivinhadores
paranormais, quer eles saibam disso quer não. A forma mais correta de
previsão é a referente ao futuro próximo ou àqueles eventos cujas "sementes"
passadas já germinaram abundantemente, pois nesses casos há menos
oportunidade para a introdução de novas variáveis. A verdadeira capacidade
do adivinho kahuna está em sua habilidade para receber e interpretar
informações, sem preconceitos. Dependendo de quanto ele consegue fazer
isso, suas previsões serão as mais corretas possíveis, num mundo de potencial
infinito.
(Falta nos modernos videntes essa última habilidade, pois eles preveem
aquilo que gostariam que acontecesse, e não o mais provável.) Quando usada
num contexto de cura, a adivinhação é feita para verificar o curso potencial
de uma doença e o possível .resultado de vários métodos de tratamento. Com
base nessas informações, o kahuna prossegue com seu plano ou o modifica.
Ele usará as mesmas informações para dar conselhos ao paciente sobre como
fazer o autotratamento e dirigir a própria vida.
A ideia de influenciar conscientemente o futuro é inseparável da adivinhação
kahuna.
Tendo visto os prováveis resultados dos pensamentos e das ações de hoje, ele
pode tomar medidas para mudar esses mesmos pensamentos e ações, ou seja,
propositadamente introduz novas variáveis para mudar o provável resultado.
E nesse ponto que a adivinhação se funde com a psicocinesia, em termos
kahuna.
Psicocinesia ( Kalakupua)
Os pesquisadores ocidentais definem a psicociesia como "fazer um objeto
mover-se só a com a força da vontade", mas essa definição limitada não serve
para os kahunas. Em primeiro lugar, eles ensinam que só a vontade ('ono) não
é capaz de fazer nada. Também é necessário ter imaginação (no'ono'o) para
proporcionar o padrão do movimento, energia
(mana) para suprir o poder, e um meio reativo (aka) através do qual o poder
pode operar.
Sem esses, nem a mais intensa vontade funciona. Na verdade, a existência da
psicocinesia inconsciente, como no fenômeno poltergeist, parece excluir
totalmente a necessidade da vontade. Em segundo lugar, na categoria de
psicocinesia os kahunas incluiriam todas as práticas nas quais o mana
dirigido pela mente é usado para produzir efeitos sem uma intervenção física
direta. A noção deles é que atividades tão variadas como os movimentos não-
físicos dos objetos, a cura psíquica, controle psíquico do clima e a mudança
do futuro são realizadas pelo mesmo processo. Só o intento difere. Como
acreditam que o mundo físico é um reflexo do pensamento, os kahunas
acreditam que todas as mudanças em condições são causadas pela
psicocinesia, estendendo sua interpretação, e que isso é um processo natural
empregado inconscientemente por qualquer pessoa, em menor ou maior grau.
Para a psicocinesia controlada consciente, WK me deu a palavra kalakupua,
que os antigos missionários traduziram como magia. Um significado oculto
dessa palavra baseado em suas raízes seria "liberar os poderes pessoais e
transformar desejos em ação completa". O termo kupua e suas raízes é um
sinônimo para mana ou para alguém que possua mana, e suas raízes contêm
muitas referências a realizar coisas por meio do pensamento, particularmente
o pensamento persistente.
Destruição Psicocinética ( Ana-ana)
Embora aborde a cura kahuna, este livro não seria completo sem uma clara
explicação de como se pode prejudicar outra pessoa pelo mesmo processo.
Os kahunas ensinam que a única diferença entre cura psicocinética e
destruição psicocinética é o intento do praticante, pois o processo usado para
ambas é quase o mesmo, e o resultado final é determinado pelos tipos de
pensamentos e emoções em ação. Essa explicação não tem a intenção de
assustar nem ensinar alguém a abusar de suas habilidades psíquicas. O
objetivo aqui é esclarecer um processo raro e há muito tempo mal
compreendido, para que você veja que há menos coisas a temer do que
imagina.
Praticamente todas as culturas têm histórias de bruxos e feiticeiros que
podem causar mal a suas vítimas a distância. Quando morei no oeste da
África, vi que esse era um medo comum entre as pessoas, e alguns desses
feiticeiros ganhavam a vida chantageando as vítimas com uma espécie de
escudo protetor. No Havaí, até hoje, os feiticeiros ana-ana são temidos
porque podem usar a horrível "oração de morte" em alguém que quebre um
antigo kapu ou simplesmente irrite o feiticeiro. Os "especialistas" que não
têm grandes conhecimentos sobre o fenômeno descartam-no como mera
superstição baseada no medo da vítima. Infelizmente, no Havaí a prática é
associada aos kahunas em geral. Mesmo Max Long, aquele incansável
pesquisador de conhecimento Huna, achava que os kahunas, em determinada
época, usavam a oração da morte para punir os malfeitores. Na verdade, só
kahunas renegados e independentes, feiticeiros pervertidos, recorriam a essa
prática.
Seria um erro grave considerar a destruição telepática meramente uma
superstição baseada só no medo. Experiências bem-sucedidas com a
transmissão telepática de ideias, emoções e diretrizes, feitas por
pesquisadores de parapsicologia, fornecem uma base níti-da para a aceitação
do conceito, por mais repugnante que isso seja. O termo ana-ana, usado em
havaiano, implica fazer algo em excesso segundo um plano, e é usado
genericamente para englobar todas as práticas que poderiam ser chamadas de
"magia negra", mas principalmente a assim chamada oração de morte. Max
Long registrou a seguinte oração de morte, feita como uma'ordem ao "deus"
Lono. Essa tradução só faz sentido no contexto dos significados alternados
das palavras em si, e se compreendermos o pensamento kahuna sobre a
natureza da mente.
O Lono
Ouve a minha voz.
Este é o meu plano:
Lança-te sobre _ e entra;
Entra e envolve;
Envolve e conserta 4

A oração tinha a dupla função de estimular o subconsciente do praticante e


enviar uma forte sugestão telepática à vítima. Claro que o processo todo
envolve muito mais que a simples recitação de uma oração.
O praticante ana-ana estabelece primeiramente um contato mental com a
vítima pretendida. Isso pode ser feito diretamente, conjurando-se uma
imagem da vítima na mente do praticante, ou da forma mais comum, quando
ele segura algo pertencente à vítima. A segunda técnica se baseia na ideia de
que o padrão etéreo de um indivíduo deixa uma impressão invisível e
duradoura no campo energético de qualquer objeto com que tenha contato.
Essa impressão costuma ser simbolizada em Huna como um fio pegajoso que
liga o objeto e a pessoa. Outra ideia é que essa impressão pode ser "lida" por
um paranormal habilidoso e também usada para fazer contato mental com a
pessoa que manuseou o objeto. Por esse motivo os antigos chefes havaianos
faziam questão de que os fios cortados de seus cabelos, as aparas de unhas,
excreções e até os ossos depois da morte fossem escondidos ou jogados fora
de uma maneira que nenhum feiticeiro pudesse obtê-los. Isso, porém, não
passa de superstição, pois um paranormal treinado não precisa de coisa física
nenhuma para fazer esse tipo de contato, embora objetos assim sejam
frequentemente usados porque facilitam a concentração.
Os medos e a culpa da vítima formam a base do "gancho" psíquico que o
praticante estabelece por meio da transmissão telepática de pensamento e
emoção, e o sucesso de ana-ana se baseia no exagero e na distorção desses
sentimentos. Quanto mais medos e culpas dominarem seus pensamentos,
mais rapidamente a vítima sucumbe.
Como o intento do feiticeiro ana-ana não é provar um método, e sim alcançar
um fim, qualquer técnica que possa acelerar o processo também é usada.
Assim, se uma vítima sabe que estão usando ana-ana contra ela, isso age
como uma forte sugestão para enfraquecer sua resistência. Na verdade, em
alguns casos, o feiticeiro não precisa fazer mais nada, pois o verdadeiro ato
de destruição é executado pela própria vítima, o que fez nascer a crença
ocidental de que nada mais se envolve no processo. Em outras ocasiões, o
praticante pode usar uma técnica através da qual um objeto é "energizado"
com um pensamento emocionalmente carregado, correspondente aos medos e
culpas da vítima, e colocado perto dela, de preferência em suas mãos. Esse
tipo de objeto, quando usado com esse propósito, é chamado de "isca" (
maunu). Também pode afetar algumas pessoas que se encontrem próximas à
vítima e que sofram de algum grau dos mesmos medos e culpas.
4 Long, Secret Science.
O feiticeiro ana-ana pode usar truques, sugestão, rumores, veneno ou
qualquer outra coisa, para fazer a vítima sucumbir. Mas a parte psíquica do
processo é quase idêntica àquela usada pelos kahunas curandeiros para a cura
a distância. As principais diferenças são o intento, a natureza dos
pensamentos e emoções usados, e o fato de que as forças do recebedor são
enfatizadas, em vez de seus medos e culpas.
Felizmente para a humanidade, há três fatores naturais que diminuem os
perigos da feitiçaria destrutiva. O primeiro é o instinto de sobrevivência que
ajuda a proteger todos, até certo ponto, dos efeitos das emoções e dos
pensamentos negativos. Se isso não fosse verdade, a terra já teria sido
despovoada há muito tempo. O segundo é o fato de que a feitiçaria ana-ana
exige grande dose de habilidade e treinamento, e são pouquíssimas as pessoas
que se submeteriam a isso, pois trata-se de algo que envolve um processo
desumano extremamente repugnante. O terceiro é o fato de que os feiticeiros
destrutivos em qualquer cultura têm uma vida curta porque as poderosas
emoções negativas que eles geram acabam destruindo suas próprias mentes e
corpos. Apesar das histórias e lendas populares, não existem bruxos malignos
velhos. Eles apenas parecem velhos. Um quarto fator importante é que
aqueles que praticam as várias formas de ana-ana e até outras mais amenas,
como a "magia do amor" ( hana aloha), nunca passaram impunes.
Alguns kahunas curandeiros se especializam em determinados modos de
proteger os fracos contra influência prejudicial. A seguir discutirei alguns
métodos por eles usados.
Contrafeitiçaria
Há três categorias gerais de técnicas usadas na contrafeitiçaria kahuna. A
mais comum, por causa de sua eficácia generalizada, é pale. As raízes da
palavra se referem a uma barreira contra ondas, indicando proteção contra
ondas de emoção usadas em ana-ana ou até emoções transmitidas
inconscientemente. Em sua forma mais simples, pale é a visualização de um
escudo envolvente de luz branca ( la 'a kea), acompanhada por fortes
emoções positivas e sugestões de força e proteção. Pale tem melhor efeito se
o indivíduo aprende a usar a técnica sozinho e quando acredita em sua
eficácia. Entretanto, desde que não haja uma descrença ativa, a crença
completa não é necessária. Se você praticar isso, nunca precisará preocupar-
se com as emoções e pensamentos negativos dos outros, sejam eles
deliberados ou inconscientes.
Outra categoria de métodos de contrafeitiçaria, usada principalmente pelos
Emocionais da Ordem de Ku, envolve uma espécie de filosofia "olho por
olho". Todas essas técnicas (kuni, ho'i-ho'i e 'a 'e) têm a ver com infligir
destruição ao feiticeiro pelo mesmo meio usado na vítima. Numa história
contada a Max Long, o ex-curador do Museu Bishop no Havaí usou uma
técnica de retorno para proteger seu jovem porteiro e matar o feiticeiro
atacante.
A terceira técnica usada em contrafeitiçaria, principalmente pelas Ordens de
Lone e Kane (Intelectuais e Intuitivos) é kala, que entre outras coisas
significa "libertar uma pessoa de influência maligna". Seu fundamento é
libertar a vítima dos próprios medos e culpas, e "desfazer os ganchos."
Essencialmente, é uma forma de psicoterapia aplicável à feitiçaria ana-ana,
bem como uma eliminação de complexos negativos. Quero lembrar o leitor
que os verdadeiros kahunas não acreditam em possessão por espíritos maus,
como se fala no Ocidente, sejam eles enviados por um feiticeiro ou não. Isso
fica evidente nos
significados da raiz da palavra para exorcismo, mahiki, que indica remover as
crenças negativas do passado.
Habilidades Psíquicas são Neutras As habilidades psíquicas, de acordo com
os kahunas, são uma parte natural do ser humano. Todos nós as usamos
diariamente e, sem elas, não poderíamos sobreviver. A comunicação
telepática com amigos e estranhos, as impressões clarividentes vindas do
ambiente, os palpites e sonhos divinatórios sobre o futuro, e a influência
psicocinética de eventos ocorrem espontaneamente em todo homem, mulher
e criança. Aqui no Ocidente, a parcialidade cultural da sociedade moderna
suprimiu grandemente nossa percepção desses acontecimentos, exceto
quando eles nos chocam ou assustam. Poucos indivíduos que geralmente são
chamados de paranormais (a antiga palavra sensitivos talvez seja mais
correta), por sua vez, não suprimiram esse tipo de percepção, fazendo uso
dela de maneira mais ou menos aberta. Mas raramente têm a compreensão ou
o controle do que fazem.
Uma análise da vida dessas pessoas mostra, porém, que a perfeição espiritual,
mental, emocional ou física certamente não é uma exigência para a conquista
dessas habilidades psíquicas. Isso porque elas são inerentes a todos nós, e não
dádivas especiais de um deus caprichoso nem qualidades que não temos, mas
precisamos obter. O que devemos obter é a capacidade de usá-las.
Os kahunas são homens e mulheres treinados para desenvolver habilidades
que eles já possuem, para entender o que estão fazendo e controlar as práticas
psíquicas à vontade.
Como em todo empreendimento humano, alguns kahunas são mais
habilidosos em certas áreas do que outros, e alguns preferem determinadas
práticas a outras, mas todos os kahunas têm a mesma preparação e passam
pelo mesmo treinamento básico.
Independentemente da orientação do indivíduo, cada kahuna aprende quatro
áreas que são usadas como estrutura para maior desenvolvimento. As
palavras-chave para essas áreas são aquelas mesmas usadas para a filosofia
em geral ( ike, makia, kala e manawa).
Percepção (Ike). Implica a percepção expandida de seus pensamentos,
sentimentos, crenças e comportamento; a percepção destes em outras
pessoas; a percepção do ambiente visível e invisível.
Concentração (Makia). Inclui não só a concentração para aprender, mas
também a manipulação da imaginação e das emoções.
Libertação (Kala). É um processo pela qual você se liberta das ideias e
crenças limitantes; libera seus recursos interiores de energia e habilidade;
aprende a ajudar os outros a fazer o mesmo.
Direcionamento (Manawa). Essa área lida com a aprendizagem de como
dirigir um contínuo fluxo de mana para se alcançar um propósito específico.
O uso dos poderes psíquicos é fundamental para o modo de vida kahuna. Na
crença deles, a humanidade não pode alcançar seus plenos potenciais a menos
que esses poderes sejam conscientemente usados e desenvolvidos.
CAPÍTULO 4

Abordagem Mente/Corpo Toda a abordagem kahuna das inter-relações


mente/corpo se baseia em interpretações populares de três conceitos: mente,
energia e matéria. A filosofia e a ciência ocidental sempre foram fascinadas
pelas possíveis relações entre esses itens, mas até recentemente, a visão
predominante era de que a mente e o corpo fossem entidades separadas. Um
grande progresso já foi feito a partir dessa perspectiva dualística, com a
compreensão cada vez maior do papel das emoções na doença física; mas
uma verdadeira abordagem mente/corpo como a dos kahunas ainda é
considerada radical entre a maioria dos profissionais de saúde. Talvez o seja,
mas é altamente eficaz e absolutamente essencial para a prática da cura
kahuna. Ainda hoje a moderna frase havaiana "hang loose"
(literalmente, espairecer, relaxar) é uma referência popular à ideia kahuna de
que a infelicidade e as doenças físicas estão diretamente relacionadas a
atitudes mentais que produzem ou aumentam a tensão. Os antigos havaianos
tinham de lidar com as dificuldades da guerra, rupturas sociais e produção de
alimentos, e os modernos enfrentam a discriminação social e as pressões de
uma civilização tecnológica. Tanto hoje em dia quanto antigamente, a
filosofia do "espairecimento" ajuda a equilibrar a mente e o corpo.
Neste capítulo, discutirei mais detalhadamente o modo como os kahunas
vêem a mente, e seus efeitos na saúde e no comportamento; o fluxo biológico
de energia; a natureza e formação de complexos; e o fator do "feedback
ecológico". Incluirei também comentários comparados de psicólogos e outros
indivíduos do Ocidente.
No ensinamento kahuna, como já foi explicado, a mente possui três aspectos,
denominados kane, ku e lono. Três alternativas são, respectivamente,
aumakua, unihipili e uhane. Elas interagem intimamente com o corpo, kino.
O Eu Superior
( Kane/Aumakua)
Na psicologia moderna, o equivalente a esse aspecto do eu, ou do self, seria o
da "superalma" ou "superconsciente". Embora poucos sistemas da psicologia
moderna se ocupem de tal idéia, um deles é o modelo da psicossíntese de
Roberto Assagioli, que diz:
"O que distingue a psicossíntese de muitas outras tentativas de compreensão
psicológica é a posição que assumimos quanto à existência de um Eu
espiritual e de uma superconsciência, que são tão básicos quanto as energias
instintivas tão bem descritas por Freud".5
Ele prossegue fazendo uma distinção, com a qual os kahunas concordariam,
entre o superconsciente e os meros altos estados de percepção.
Os kahunas comparam a função do Eu Superior à de um professor e de um
artista criativo. Como professor, o Eu Superior é considerado a fonte de todo
conhecimento que você possa desejar ou de que possa precisar. Assim, em
qualquer estágio ou circunstância específica da vida, você tem acesso ao
conhecimento sobre o que fazer para alcançar determinado fim, e como fazê-
lo. Esse conhecimento pode ser apresentado por meio de sonhos, visões,
inspirações, palpites, ou através de contatos que você tem com pessoas e
objetos no mundo físico. Como ele é acessível também por intermédio de
uma forma de telepatia, é possível buscá-lo conscientemente, alterando o seu
estado de percepção.
Assaglioli prescreve uma técnica do tipo kahuna para isso, usando símbolos
específicos, e diz ao seu paciente que "há um sábio professor dentro dele, seu
Eu espiritual que já conhece seu problema, sua crise, sua perplexidade".6 Nem
um kahuna teria explicado melhor.
Huna ensina que o eu-deus nunca tenta forçar um determinado modo de
pensar ou agir sobre uma mente consciente individual. Em seu papel de
professor, ele é um transmissor de informação, e nada mais. Isso significa que
ele não lhe diz o que você deve fazer, mas apenas o que pode fazer. O
respeito pela liberdade da escolha consciente é sempre mantido, pois é parte
do propósito de sua existência aqui. De acordo com os kahunas, portanto, se
você espera que uma voz interior tome as decisões em seu lugar, acabará
ouvindo suas próprias crenças e hábitos de pensamento, ou os pensamentos
de outros, não mais sábios que você. Os kahunas instruem os estudantes a
tomar cuidado com as vozes interiores que tentam comandar o pensamento e
a ação, pois elas não são do Eu Superior. Na maioria dos casos, são
meramente complexos personalizados, que serão dis-cutidos mais tarde.
Assagioli reconhece o papel de ensinar quando diz que o propósito do contato
com o Eu Superior de um indivíduo é o propósito prático da "criatividade
aumentada, da maior habilidade em dar-se de si para algum campo".7 A
experiência mística, ou seja, a experiência subjetivamente jubilosa de se unir
a um aspecto maior de seu ser (o superconsciente), não é recomendada como
um fim em si pelos kahunas nem pelos praticantes da psicossíntese. Os
kahunas concordariam plenamente com a afirmação de Assagioli de que, a
partir de uma experiência assim, o "sujeito tem de atrair o fogo, o entusiasmo
e o incentivo para voltar ao mundo e servir a Deus e ao próximo".8
Em sua função criativa, dizem os kahunas, o eu-deus forma e sustenta o
corpo físico durante a vida do indivíduo, e também forma a experiência que o
indivíduo tem da realidade física. Para fazer isso, ele usa um "padrão grupai"
e também um "padrão pessoal". O primeiro consiste nas leis básicas da
natureza, ilimitadas pela opinião cultural sobre o que elas são. É como um
acordo geral feito por todos os Eus Superiores humanos (chamados de po'e
aumakua, como um grupo) quanto a quais serão as constrições básicas da
realidade física, tais como a operação da gravidade, luz, eletromagnetismo,
etc. O padrão pessoal é composto das crenças e atitudes do indivíduo,
incluindo aquelas opiniões culturais aceitas como fato, que o eu-deus usa
para formar a experiência subjetiva de eventos e circunstâncias.
5 Roberto Assaglioli, Psychosynthesis (Nova Iorque: Viking Press, 1971)
6 Ib.
7 Ib.
8 Ib.
Do ponto de vista kahuna, essa ideia tem valor prático. Embora você não
possa mudar o curso das estações, pode mudar o rumo dos eventos que
experimenta pessoalmente durantes essas estações, alterando o seu modo de
pensar. A ideia de mudar o pensamento para alterar os eventos não é uma
grande novidade para a lógica ocidental, mas transcende o pensamento
psicanalítico tradicional que, de acordo com Freud, tem como objetivo alterar
o modo de pensar para mudar as reações às circunstâncias. Maxwell Maltz,
M.D., autor de Psycho-Cybernetics, estende-se na descrição de como o modo
de pensar alterado leva a circunstâncias mudadas; Assigioli lista várias leis
físicas que governam esse conceito; o Dr. Irving Oyle, autor de The Healing
Mind, tem certeza de que as ideias podem deixar-nos doentes ou curar-nos; o
eminente psiquiatra e hipnoterapeuta Dr. William S. Kroeger diz que "sempre
que a atenção se concentrar numa ideia repetidamente, esta tende a se realizar
espontaneamente".9 Mas uma leitura meticulosa das assim chamadas "novas
psicologias" deixa claro que os escritores se referem ao pensamento afetando
o comportamento; e as mudanças comportamentais, portanto, levariam às
circunstâncias mudadas.
O conceito kahuna é decididamente diferente. Kristin Zambucka, autora com
profundos conhecimentos de Huna, escreve: "É só através de nossa
consciência que Deus pode entrar neste mundo. Então, Ele se translada em
nossa experiência humana".10 Nesse contexto, Deus é uma referência ao eu-
deus (aumakua). Os kahunas ensinam que as ideias
geram as circunstâncias, e não apenas condicionam a experiência que temos
delas. Como você verá, isso tem uma profunda influência em seus métodos
de cura.
De acordo com o ensinamento kahuna, o Eu Superior cria as condições de
vida geradas pelas crenças pessoais dentro das constrições gerais da realidade
física. Um eu-deus só interferirá em eventos gerados por padrões de crenças
pessoais se esses mesmos eventos conduzirem à morte iminente, dano físico
ou alguma situação que não se encaixe com o propósito global da vida.
Nesses momentos, você pode experimentar uma escapatória "miraculosa" ou
a resolução de uma situação e, num certo sentido, ganhar outra chance.
Acho que essa deve ser a explicação para um notável incidente que ocorreu
na África, quando eu regressava de um safári no Saara. Eu estava no banco
do passageiro de meu Land Rover. Meu motorista dirigia, e no banco traseiro
havia mais dois viajantes. Era noite e estávamos numa estrada de duas pistas,
atrás de outro veículo que seguia pelo meio das pistas. Meu motorista
resolveu passar, pegando metade do acostamento; e lá estávamos nós, a quase
90 km/ h, quando a luz dos faróis revelou o limite de uma ponte de uma única
pista. À esquerda, havia uma pronunciada queda até um rio; à direita, o outro
veículo já começava a cruzar a ponte. O motorista girou rapidamente o
volante para a direita, o carro deu um tranco e de repente estávamos na ponte,
mas o veículo deslizou descontrolado por um campo e batemos numa árvore.
Uma das portas traseiras foi arrancada e os outros passageiros caíram para
fora, mas nenhum de nós sofreu sequer um arranhão. O outro veículo, um
trailer, parou, e no meio dele podíamos ver uma leve ranhura que combinava
em altura e cor de tinta com um arranhão na borda direita do teto do Rover.
Todas as indicações eram de que tínhamos atravessado a ponte junto ao
trailer. Mas fazendo certas medições, descobrimos que este só saiu dela com
uns 90 cm de cada lado. É uma noção kahuna que esses "milagres" só
acontecem se essa possibilidade existir nas crenças dos indivíduos
envolvidos.
9 William S. Kroeger e William D. Fezler, Hypnosis and Behavior Modification: Imagery Conditioning
(Filadélfia: J.B. Lippincott Co., 1976).
10 Kristin Zambucka, Ano 'Ano: The Seed (Honolulu: Mana Publishing Co., 1978)
Mente Consciente
( Lono)
A mente ou o eu lono é mais ou menos análoga à "mente consciente", na
psicologia. É aquele aspecto da mente que se concentra na realidade física,
analisa-a, integra-a e forma crenças, atitudes e opiniões sobre ela. A mente
lono é uma receptora de informações sutis e brutas de várias fontes e uma
orientadora de ação. Se ela orienta bem ou não, é lógico, depende das crenças
aceitas. Enquanto ela se achar impotente, agirá de acordo com essa crença.
Os kahunas dizem que todas as convicções sobre a realidade ou são aceitas
ou estabelecidas pela mente consciente, estando portanto acessíveis a ela para
exame a qualquer momento. Essencialmente, essa é a descoberta de Freud de
que "a ideia patogênica... está sempre pronta e 'à mão'"11, exceto, porém, que
Freud se referia a lembranças, enquanto os kahunas se referem a crenças, das
quais as lembranças são apenas representações. A ideia kahuna também é
contrária ao modelo psicanalítico o qual implica que as lembranças e
memórias causadoras de efeitos são escondidas da mente consciente.
Quando as crenças sobre a realidade são aceitas pelo consciente (lono) como
fatos inalteráveis, então, para todos os fins práticos, a mente não pode "vê-
las" como crenças, sentindo-se indefesa diante de seus efeitos. Uma pessoa
que aceita o "fato" de ter uma doença incurável pode sucumbir à sua crença,
embora muitas outras pessoas tenham efetivamente curado a si próprias do
mesmo mal. Boa parte da cura kahuna envolve ajudar o lono de uma pessoa a
mudar sua visão dos fatos aparentes. Sentimentos e emoções são
considerados pelos kahunas respostas energéticas ao estímulo de padrões de
crenças, informando a mente consciente de quais crenças estão em operação.
Idealmente, o lono pode, a partir daí, escolher entre seguir as emoções, não
reagir a elas ou redirecioná-las.
Mas sem uma compreensão de sua natureza, um lono é propenso a tratar os
sentimentos e emoções como se fossem fatos, sobre os quais não tem
controle. Novamente, esse não é um conceito novo. Freud reconheceu que as
ideias podiam estimular sentimentos que podem ser convertidos através da
supressão em sintomas físicos, e essa é a base subjacente para a moderna
medicina psicossomática. Maltz diz que uma emoção está "na natureza de um
sinal ou sintoma", que ela é "como um termômetro que não causa o calor na
sala, mas o mede".12
Além das faculdades da percepção, análise, integração e vontade, os kahunas
atribuem à mente consciente a importante faculdade da imaginação criativa (
laulele), com a qual o indivíduo imagina propositalmente uma condição que
muito deseja experimentar, como uma realidade física. É com o uso dessa
faculdade que você pode desenvolver novas habilidades, expandir sua
percepção, resolver problemas, mudar crenças e direcionar energia. Os
kahunas insistem exaustivamente no treinamento dessa faculdade por .pausa
de sua tremenda importância em direcionar as atividades do subconsciente
(ku) e em proporcionar padrões para o Eu Superior. Carl Jung foi um dos
primeiros psicólogos ocidentais a enfatizar o uso da imaginação criativa, a
qual tem ficado cada vez mais popular à medida que as pessoas se tornam
cientes de seu potencial.
11 Josef Breuer e Sigmund Freud, Studies on Hysteria, traduzido para o inglês por James Strachey
(Londres: Horgarth Press and the Institute of Psychoanalysis).
12 Maxwell Maltz, Psycho-Cybenietics (Englewood Cliffs, N. J.: Prentice-Hall, Inc., 1960)
O Subconsciente (Ku)
De certa forma, o eu ku, ou "mente corpo" como pode ser chamado, é
análogo ao subconsciente na psicologia ocidental, mas uma analogia melhor
pode ser com um computador vivo, não material. Maltz usa essa analogia,
também, embora ele costume comparar o subconsciente com o cérebro. Os
kahunas diriam que o cérebro é a expressão física ou a ferramenta do ku, mas
essa distinção não parece ter quaisquer conseqüências sérias. Os kahunas
usam qualquer analogia apropriada para o seu propósito e que auxilie a
compreensão. No antigo Havaí, o ku era comparado a um servo. Um kahuna
moderno trabalhando numa sociedade industrializada provavelmente usaria a
analogia do computador.
Essencialmente, as funções do ku são manter a integridade do corpo e ter
uma visão geral de suas operações, receber percepções e transmiti-las ao
consciente, armazenar memória, gerar, guardar, distribuir e transmitir
energia, e seguir ordens. Na verdade, todas as funções dessa parte da mente
poderiam ser condensadas no último item. Acima de tudo, como um bom
servo ou um computador, ele segue ordens. O ku responde a dois tipos de
"programação": instinto e hábito. O instinto, como é definido aqui, refere-se a
todas as assim chamadas funções involuntárias do corpo, tais como
crescimento, desenvolvimento, manutenção e recepção/transmissão sensorial
e "extra-sensorial". A idéia kahuna é que essas funções são programadas no
ku pelo eu-deus ( aumakua) no momento da concepção. Sob esse ponto de
vista, a molécula do DNA seria uma expressão dessa programação, e não
uma causa. O hábito inclui todo o comportamento programado no ku, direta
ou indiretamente pelo consciente ( lono). E um comportamento aprendido,
oposto ao instintivo. A programação direta envolveria a vontade aplicada do
lono, como quando se aprende a dirigir um carro; a programação indireta
envolve o comportamento permitido, como por exemplo a aceitação e
incorporação do medo que um pai ou mãe tem de cobras ou a predisposição
hereditária para uma determinada espécie de doença. Nada disso parece
discordar muito das novas psicologias; Maltz e Assagioli dão descrições
semelhantes desse aspecto da mente.
O impulso para a formação e manutenção de hábitos é uma das principais
características do ku. Sem esse impulso, você não pode sobreviver, pois não
conseguiria aprender nem reter as técnicas de sobrevivência. Entretanto, os
hábitos podem inibir ou encorajar o crescimento e desenvolvimento,
dependendo da mente e do corpo, ou de sua natureza. Esse fato é a base para
as técnicas de modificação de comportamento, embora os kahunas não
concordem com a visão behaviorista de que os pensamentos podem ser
explicados em termos de comportamento muscular implícito. Em vez disso,
eles acreditam que todos os hábitos são mentais, e as respostas físicas são o
resultado. Mesmo Maltz, ao descrever a felicidade como um hábito mental,
está realmente falando sobre hábitos emocionais. Para os kahunas, a distinção
entre hábitos mentais, emocionais e físicos é importante, mas a moderna
psicologia ocidental não parece levar isso em conta.
Para continuarmos com a analogia do computador, pode-se dizer em termos
kahunas que um programa corresponde a uma crença ou um conjunto de
crenças, e que um hábito é o programa em operação, ou a execução de uma
crença. Todos os hábitos são baseados em uma ou mais crenças. Por um
processo cooperativo entre o consciente e o subconsciente, várias crenças e
hábitos são organizados numa gestalt que se torna a personalidade do
indivíduo. Como já foi mencionado, o aspecto lono tem a capacidade de
examinar essas crenças e mudá-las, daí arrolando a cooperação do ku e do
aumakua (Eu Superior) para mudar hábitos, personalidade e circunstância.
O Corpo
( Kino)
O corpo físico, kino, é concebido pelo kahunas como uma forma-pensamento
intensamente energizada. Isso é evidente nas raízes da palavra:
ki - emitir, um feixe (de pensamentos), força
kia - concentrar pensamento
ki'i - imagem
ino - muito, intensamente
no'o - pensamento
O corpo é considerado uma ideia do Eu Superior expressa em forma física,
modificada pelas crenças do consciente e mantida pelo mente-corpo ou pelo
subconsciente. E uma expressão do eu, assim como uma pintura ou escultura
é a expressão de um artista. O corpo é ao mesmo tempo um meio de projetar
ideias no mundo físico e um dispositivo d e feedback ideal para experimentar
os efeitos dessas ideias. O seu estado de saúde, seu desenvolvimento físico,
suas disposições e sentimentos são expressões de ideias, e estão sujeitos à
alteração por uma mudança em seu pensamento consciente. O conceito do
corpo como uma forma-pensamento é bastante esotérico, em comparação
com o moderno pensamento psicológico. Este último costuma considerar o
corpo uma entidade puramente material sujeita aos efeitos do pensamento,
mas certamente não um efeito do pensamento. Assagioli, que se aproxima da
lógica kahuna em vários sentidos, considera o corpo em termos mecânicos.
Ele ensina que o paciente deve se desidentificar com o corpo e enfatiza que
"ele é apenas um instrumento". Seu propósito é permitir que o paciente ou
sujeito se torne ciente de si mesmo como um centro de consciência e se livre
de interpretar a experiência só em termos de sensações físicas e
comportamento. A opinião de WK é que, embora possa ter efeitos
temporariamente benéficos, tal procedimento cria um falso sentido de
separação capaz de inibir o perfeito controle das funções do corpo e diminuir
o senso de responsabilidade de uma pessoa pelo comportamento de seu
corpo.
Como ele mesmo diz: "Claro que você não deve identificar-se com o seu
corpo; você é muito mais do que o corpo. Mas ele é a sua criação e por isso
responde aos seus pensamentos".
Relacionado ao corpo é o conceito do corpo etéreo (aka). Aqui, desviamos
muito do centro da moderna psicologia e nos dirigimos aos pontos extremos
de seus limites.
Sucintamente, o corpo aka é algo como um corpo invisível, duplicado,
ocupando o mesmo espaço que o corpo físico, e fornecendo o padrão
essencial em torno do qual se forma o corpo físico. O kino aka pode ser
considerado a forma-pensamento básica do Eu Superior
(aumakua), um tipo de molde. A tendência natural da mente-corpo (ku) é
seguir esse pa-drão, mas ela também tenta seguir o padrão do consciente
(lono), representado por crenças aprendidas. A distorção, ou seja, a doença,
resulta quando as ideias do lono são diferentes e suficientemente intensas
para entrar em conflito com o padrão básico. Os kahunas sentem que é por
causa da existência desse padrão etéreo básico que a cura do corpo pode
ocorrer, pois sem esse padrão geral nada haveria para guiar o ku nos reparos
necessários. Não consegui encontrar nada tão plausível na moderna literatura
psicológica ou médica relacionado ao meio pelo qual o corpo sabe como
retornar a um estado de saúde.
Fluxo Biológico de Energia Os kahunas dizem que o meio pelo qual a mente
afeta a matéria é mana, a força vital.
Em termos de corpo físico, essa energia se manifesta tanto como um fluxo ou
corrente quanto como um campo. Uma grosseira analogia é a de uma corrente
elétrica e seu campo magnético circundante. As propriedades elétricas
conhecidas do corpo são consideradas pelos kahunas como subprodutos da
corrente e do campo mana. A principal fonte dessa energia é o Eu Superior,
que a fornece de uma maneira inexplicável em termos estritamente físicos. A
melhor analogia que eu posso fazer seria a de um "buraco branco" no centro
de seu ser por meio do qual a energia flui livremente a partir de outro
universo.
Há também uma interação com campos e correntes no ambiente, em forma
primária através daquilo que costumamos chamar de chakras na filosofia da
ioga ou de pontos de acupuntura, segundo os líderes chineses. Os principais
pontos de interação ou intercâmbio são aqueles localizados ao longo da linha
que vai do períneo, frente e costas do corpo, até a fontanela, bem ' como
outros nas mãos e nos pés. Além disso, a força vital ou mana é absorvida do
ambiente quando você respira ou come. Técnicas para aumentar o seu
suprimento de mana além do normal (acumulando "sobrecarga", como diz
Long) são semelhantes a outras abordagens encontradas em todo o mundo, ou
seja, exercícios respiratórios especializados, consumo de alimentos e bebidas
especiais, visualização, o uso de "geradores de mana" naturais ou artificiais
como cristais e pirâmides, e a estimulação dos pontos de intercâmbio.
Também se usa a criação consciente de emoções.
A psicologia e a medicina ocidentais parecem estar cada vez mais
interessadas no conceito aqui exposto, e as pesquisas aumentam. Entretanto,
esse interesse não é novo.
Josef Breuer, um colega de Freud, escreveu extensivamente sobre a
"excitação tóxica", a transmissão de energia psíquica pelo sistema nervoso de
maneira semelhante à eletricidade fluindo através de um fio. Foi Wilhelm
Reich, porém, outro colega de Freud, que levou o conceito de energia
psíquica ao domínio de uma força física, mensurável. Suas extensas
pesquisas sobre a "energia orgônica", como ele chamava essa força,
resultaram em dispositivos de cura (proibidos para uso humano pela FDA) e
também levaram ao que hoje é conhecido como "terapia bioenergética".
Reich sem dúvida reconhecia o elo entre bioenergia (mana) e doença. Como
ele teria descrito uma paciente:
"O medo que ela tinha de mexer o pescoço existia muito antes do mal que lhe
comprometeu as vértebras. De fato, o modo como ela segurava a cabeça e o
pescoço era apenas parte de uma atitude biofísica geral que precisamos
entender não como o resultado, mas sim a causa do câncer.13
Aparentemente, porém, Reich nunca chegou a ver as crenças como a causa
das emoções, pelo menos não diretamente. Ele apresentou doze propriedades
da energia orgônica que também se aplicariam a mana como bioenergia.
Cinco das mais importantes são estas:
1. Ela seria fundamentalmente diferente da energia eletromagnética, embora
esteja relacionada a ela.
2. Teria de existir numa natureza não viva independente de organismos vivos.
3. Permearia e governaria o organismo inteiro, em vez de se limitar a células
nervosas individuais ou grupos de células.
4. Ela se manifestaria na produção de calor.
5. Seria capaz de energizar a matéria viva; portanto, teria um efeito positivo
de vida.14
Tendo construído e experimentado grande número de dispositivos de energia
orgônica, e trabalhado por muitos anos com várias formas de mana, posso dar
minha opinião definitiva que as duas são idênticas.
Maltz também fala de uma força vital não específica, como sendo "o segredo
da cura",15 mas, com exceção de algumas pessoas que seguem o trabalho de
Reich, a maior parte da atual pesquisa sobre a energia do tipo mana está
sendo conduzida por parapsicólogos em parceria com os chamados
curandeiros paranormais. A doutora Thelma Moss, uma psicóloga clínica da
UCLA ( University of Califórnia at Los Angeles), que tem realizado extensas
pesquisas com esses curandeiros através do uso da fotografia Kirlian, sente
que "há um 'fluxo de energia' do curandeiro que inicia e aumenta o sistema
auto-reparador do paciente".16 Entretanto, o conceito de uma força vital se
manifestando como uma corrente e um campo parece estar fora dos
fundamentos da prática médica psicossomática no Ocidente.
13 Reich, Wilhelm, The Câncer Biopathy, traduzido para o inglês por Andrew White (Nova Iorque:
Farrar, Strauss & Giroux, 1973).
14 Ib.
15 Maltz, Psycho-Cybernetics.
Emoções
Os kahunas veem a emoção como a sensação do movimento ou excitamento
da energia no corpo, acompanhada por um pensamento específico, e as raízes
de todas as palavras havaianas que se referem às emoções contêm essa ideia
de movimento. É muito comum na psicologia ocidental discutir as emoções
em termos de fluxo de energia, sejam elas consideradas uma energia real ou
não; mas para os kahunas é importante saber que uma emoção não é só um
movimento de energia. O movimento de energia pode ser sentido sem a
emoção. Fique de pé, faça os gestos de correr sem sair do lugar por alguns
segundos e você sentirá um formigamento energético por todo o corpo que
nada tem a ver com emoção, como normal- v mente a definimos. Para o
kahuna, o que distingue a emoção é o pensamento associado, pois é o
pensamento que a faz ser emoção em primeiro lugar.
Trabalhando com muitas pessoas, descobri que elas acham difícil, quando
não impossível, perceber a diferença entre ansiedade e expectativa ou entre
raiva e entusiasmo, uma vez que as imagens e os pensamentos associados
tenham sido eliminados. Na maior parte da literatura psicológica ocidental
que estudei, os autores falam de diferentes emoções e seus efeitos, mas
costumam compará-las com pensamentos ou separá-las dos pensamentos.
De acordo com o ensinamento kahuna, uma emoção surge quando uma
crença ou um complexo de crenças são estimulados por um evento externo ou
interno, como um pensamento ou uma lembrança. Isso causa a descarga de
uma corrente de energia pelo corpo, descarga esta que age como portadora do
conteúdo da crença, assim como a eletricidade passando por um fio
telefônico pode transmitir o conteúdo de uma conversa.
A mente consciente ( lono) percebe isso como um sentimento emocional, ao
mesmo tempo em que o subconsciente (ku) coloca em movimento uma
reação programada ou habitual à crença, a menos que tenha instruções
contrárias da mente consciente (lono). Um exemplo seria você se lembrar de
um insulto, ficar zangado novamente, fechar os punhos automaticamente e
sentir dor de cabeça. Parte do treinamento kahuna ensina a ajudar o
consciente a aprender como perceber as emoções sem deixar que o
subconsciente se engaje em ação habitual. O que pode parecer um controle
emocional num kahuna bem treinado é, na verdade, uma diretiva consciente
de não continuar com um padrão de hábito, alcançado pelo uso do
relaxamento muscular para separar o pensamento da ação (como será
descrito). O treinamento também consiste em aprender a "ler" o conteúdo
informativo da emoção para descobrir a crença que é sua fonte, se ela não for
imediatamente aparente. Quando essa fonte for conhecida, o kahuna poderá
introduzir uma nova crença para cancelar a antiga e criar um hábito melhor
que substitua o outro, menos efetivo.
O intento do kahuna determina o que acontece com a descarga energética da
emoção em si. Ele pode redirecioná-la de várias maneiras, mas a técnica mais
comum é relaxar e deixá-la dissipar-se. Como todas as emoções induzem
tensão muscular como preparação para agir — o que é mais facilmente
notado na bem conhecida resposta "fugir ou lutar"— o relaxamento
consciente dos músculos tem o efeito de desligar a reação do hábito,
dissociando assim a energia do pensamento que a estimula.
16 Thelma Moss, citada por Charles Panati, Super-senses: Our Potential for Parasensory Experience
(Nova Iorque: Quadrangle / N.Y. Times Book Co., 1974).
Você pode experimentar isso pessoalmente, relaxando os músculos ao
máximo e, depois, tentar zangar-se, usando a memória ou qualquer outro
meio. Você verá que, enquanto seus músculos permanecerem relaxados, é
fisiologicamente impossível zangar-se. Essa energia livre é, então,
automaticamente dispersada pelo corpo e o campo circundante. Se o kahuna
quiser usar a energia por outro motivo, como por exemplo a cura, deverá
relaxar os músculos e passar por um processo, talvez de visualização, para
canalizar a energia em outro padrão de resposta. E um processo bem parecido
com as técnicas de relaxamento e imagem propostas pelo Dr. William Kroger
com a ajuda da hipnose. Outras técnicas que o kahuna pode usar são a
simples atenção e a vontade, a respiração controlada, e o que poderíamos
chamar de "focalização sem julgamento". Esta é uma forma de percepção ou
meditação concentrada, não-analítica, muito relaxante e fisicamente benéfica.
A Natureza e a Formação de Complexos
Já discutimos as crenças e os complexos de crenças, mas agora quero falar
sobre isso com mais detalhes, para mostrar melhor a visão kahuna de como
tais coisas afetam a vida de uma pessoa.
Uma crença pode ser definida como qualquer ideia que você aceita como
verdadeira — uma ideia que valida ou invalida a experiência pessoal. Os
kahunas consideram as crenças padrões mais ou menos resistentes de
pensamento que são literalmente incorporados, em sua maioria absorvidos
pelo corpo, e que governam ou influenciam todo comportamento mental e
físico. Com a exceção dos behavioristas, quase todas as psicologias modernas
admitem a importância de crenças como fatores que influenciam a saúde e a
doença. Kroger enfatiza a necessidade de mudar tanto atitudes quanto
comportamentos, e sobre a autoimagem, Maltz diz:
"Quando uma ideia ou crença que temos sobre nós mesmos entra nesse
quadro, toma-se "verdadeira", pelo menos para nós. Não questionamos sua
legitimidade, mas procedemos com relação a ela como se fosse verdadeira".17
Frequentemente, porém, a palavra crença é usada para definir todo tipo de
ideia, pensamento, opinião, atitude, etc., sem a menor tentativa de diferenciar
crenças em termos de intensidade e efeitos que possam ter. Os kahunas fazem
distinções precisas entre o que sentem serem vitais para o processo de
tratamento para mudança positiva. O Dr. Oyle se aproxima bastante da visão
kahuna ao dizer: "Uma ideia munida de carga emocional de energia é
chamada de opinião. Uma opinião rigidamente cristalizada possui carga
emocional maior e é chamada de crença".18 Os kahunas vão mais longe ainda
e dividem as crenças em três categorias: pressuposições (paulele), atitudes (
kuana) e opiniões (mana'o). Essas traduções para o inglês [português] são
apenas aproximações usadas para facilitar a nossa discussão aqui. Será mais
fácil compreender as diferenças, se usarmos a analogia da água. As
pressuposições podem ser consideradas crenças que se tornaram cristalizadas
na consciência, como blocos de gelo. Elas tratam de generalidades sobre a
vida e o eu, e não mudam facilmente. As atitudes são crenças líquidas.
Mudam com mais facilidade, mas a mudança pode envolver um conflito
emocional. As opiniões são gasosas, como o vapor d'água, facilmente
mudadas com pouca emoção. A última espécie tem relativamente pouco
efeito sobre o comportamento habitual, por isso as discussões a seguir se
darão em torno das duas primeiras categorias e dos resultantes complexos de
crenças.
17 Maltz, Psycho-Cybernetics.
18 Irving Oyle, Time, Space & Mind (Millbrae, CA: Celestial Arts, 1976).
Pressuposições
( Paulele)
Paulele tem o significado de "confiança" e "parar de saltitar", implicando um
estado ou condição de segurança. As pressuposições que as pessoas têm
sobre si próprias e a vida em geral são consideradas pelos kahunas a fundação
sobre a qual baseiam todo o seu comportamento. As pressuposições fornecem
estrutura básica por meio da qual a experiência é medida, testada e avaliada, e
a qual determina a resposta à experiência.
Nessa qualidade, elas proporcionam uma sensação de segurança, mesmo
quando a experiência é negativa. As pressuposições são absolutamente
necessárias para que possamos operar neste mundo, e as aprendemos em sua
maioria no início da vida, com nossos pais, parentes, amigos e figuras de
autoridade. Uma criança tem de fazer pressuposições sobre a vida para
sobreviver, e uma das primeiras é que os pais devem saber como é a vida e,
portanto, as pressuposições deles devem ser válidas. Na verdade, as crianças
raramente aceitam todas as pressuposições dos pais e de outros, mas fazem
escolhas por meio de algum processo interior de decisão que ninguém
conhece totalmente. Numa determinada família, uma criança pode aceitar a
crença dos pais de que o mundo é um lugar perigoso. Outra criança na mesma
família pode rejeitar tal ideia e achar que o mundo é um lugar amistoso; e, no
entanto, essa mesma segunda criança pode aceitar a crença dos pais de que
algumas pessoas são inferiores. As pressuposições aceitas se tornam os
programas que determinam o comportamento, tanto mental quanto físico, e
53
também agem como moldes para o Eu Superior formar a experiência.
As pressuposições entram por meio da mente consciente (lono), o intérprete
da experiência, embora geralmente num nível que poderia ser chamado de
"semiconsciente".
Os kahunas não têm um conceito equivalente ao do "inconsciente" de Freud,
porque para eles não existe tal coisa como a não-percepção, mas apenas
diferentes graus de percepção ou estados de atenção ou não-atenção.
Se uma pressuposição sobre a realidade não é conscientemente rejeitada, ou
se não entra em conflito direto com as pressuposições existentes, então ela é
aceita como verdade pelo indivíduo. Uma vez incorporadas, as
pressuposições geralmente são esquecidas, embora continuem operando. Isso
não significa que estejam perdidas para a percepção consciente, mas apenas
que a mente lono já não presta mais atenção a elas. É mais ou menos como
você esquecer que está usando roupa de baixo no decorrer do dia, embora
sempre possa lembrar-se. No caso das pressuposições, elas se tomam um jeito
tão familiar de interpretar o mundo que acabam sendo ignoradas. Os kahunas
não aceitam a ideia de que as causas raízes do comportamento estão
enterradas no passado ou em alguma parte da mente acessível só para o
especialista treinado. Todas as crenças são acessíveis conscientemente e a
qualquer momento, mas por algum motivo não queremos olhar para elas. A
mente consciente é como uma sala escura cheia de móveis, e a percepção
consciente é como uma lanterna que só pode revelar um número limitado de
itens (crenças, lembranças, pensamentos) por vez, mas com o potencial de
iluminar qualquer coisa na sala. Se você se acostuma a olhar em uma direção,
pode esquecer as antiguidades nas prateleiras atrás; pode ignorar o papel de
parede e nem olhar mais para ele; e pode ter uma gaveta cheia de coisas
assustadoras que você nunca mais vai abrir, se puder evitar. Às vezes, um
especialista pode ajudar você a se lembrar do que esqueceu ou a ter coragem
para olhar aquilo que o assusta, mas não pode fazer nada que você mesmo
não seja capaz.
Num certo sentido, a mente subconsciente (ku) é encarregada de incorporar
as pressuposições em sua memória e no seu sistema comportamental. Não há
o uso da vontade aqui, mas só o impulso de seguir ordens, como um
computador. Uma pressuposição funciona como uma diretriz básica, e o ku
só pode obedecer de acordo com sua habilidade. Assagioli propôs a seguinte
lei psicológica, da qual os kahunas discordariam:
"Todas as funções, e suas múltiplas combinações em complexos e
subpersonalidades, adotam meios de alcançar seus objetivos sem a nossa
percepção, e independente de nossa vontade consciente, ou até em
contrariedade a ela".19
A ideia de uma batalha de vontades entre o consciente e o subconsciente é
considerada um conceito inválido, de acordo com o ensinamento kahuna. A
única batalha é entre a vontade atual do consciente e os efeitos contínuos
daquilo que foi desejado no passado.
Atitudes
( Kuana)
Se as pressuposições podem ser comparadas a uma fundação, as atitudes são
a estrutura construída sobre essa fundação. As atitudes também podem ser
chamadas de "crenças conciliatórias", porque elas se desenvolvem como
meio de conciliação com aspectos da experiência que não são perfeitamente
abordados pela pressuposição. São mais específicas do que as pressuposições,
e elas abordam as áreas cinzentas da experiência onde alguma crença se faz
necessária para que se possa agir, mas a crença ainda é aberta a dúvidas.
Como as atitudes são menos seguras que as pressuposições, as pessoas
frequentemente as defendem com mais emoção. Quando questionada, uma
pessoa se vê forçada a encarar suas inseguranças, e isso geralmente lhe dá a
sensação de ser atacada a ponto de necessitar uma defesa emocional. Essa
resistência a ideias ameaçadoras há muito vem sendo notada pelos psicólogos
ocidentais. Freud disse: "De fato, os psicólogos admitem, de modo geral, que
a aceitação de uma nova ideia (aceitação no sentido de acreditar ou
reconhecer como real) é dependente da natureza e da tendência das ideias já
unidas no ego".20
Ele acrescentou também que uma ideia não compatível com as ideias
existentes provocaria "uma força repelente cujo propósito seria a defesa
contra essa ideia incompatível". Como você sabe, algumas das reações mais
emocionais ocorrem quando são levantadas questões sobre raça, sexo,
religião e política, o que nos revela algo sobre a segurança das atitudes
envolvidas.
Contudo, quando as pressuposições são questionadas, a reação geralmente é
de surpresa pelo fato de algo tão óbvio ser posto em dúvida. Maltz descrevia
esse tipo de caso da seguinte maneira: "Diga a um garoto em idade escolar
que ele apenas 'pensa' que não entende álgebra, e ele duvidará de sua
sanidade".21 Como raramente ocorre uma reação emocional forte quando
uma pressuposição é questionada, alguns curandeiros kahuna identificam
atitudes e pressuposições pela reação ao desafio, e adaptam o tratamento de
acordo com o caso.
As atitudes derivam logicamente das pressuposições subjacentes, porque o ku
é profundamente lógico. Aqueles que sentem que o subconsciente é
irrazoável e ilógico sempre terão dificuldade em lidar com ele. Se você, por
outro lado, percebe que o subconsciente é tão lógico quanto um computador,
terá a chave para criar mudança.
19 Assagioli, Psychosynthesis.
20 Breuer e Freud, Studies on Hysteria.
21 Maltz, Psycho-Cybernetics.
Agora, uma vez que tenha incorporado uma pressuposição, o subconsciente
criará atitudes lógicas baseadas nela para conciliar a experiência direta, mas
sempre apresentará essas questões à mente consciente para aprovação, antes
de convertê-las em comportamento habitual. Dependendo de como a sua
mente funciona, você pode deliberar por muito tempo até aceitar a atitude, ou
pode aceitá-la num piscar de olhos e prontamente esquecê-la até ela lhe
causar problemas.
Atitudes são logicamente derivadas, mas nem todos usam o mesmo tipo de
lógica. A seguir, você encontrará algumas visões kahunas sobre como
diferentes atitudes podem surgir da mesma pressuposição básica. Nos dois
casos, uma pressuposição dependente também é notada. Essa é uma
pressuposição que você aceita como verdadeira a respeito da vida, mas cuja
existência depende da aceitação da pressuposição básica.
Sujeito 1. Pressuposição básica: Este é um mundo hostil. Pressuposição
dependente: A melhor proteção é a fuga. Atitudes derivativas: E este é um
mundo hostil e a melhor proteção é a fuga, então (a) minha melhor proteção
contra a hostilidade é evitá-la; (b) devo deixar os outros fazer o que quiserem,
e eu não serei molestado; (c) devo fingir que sou fraco ou supersimpático
para não convidar a um ataque.
Sujeito 2. Pressuposição básica: Este é um mundo hostil. Pressuposição
dependente: A melhor defesa é uma boa ofensiva. Atitudes derivativas: Se
este é um mundo hostil e a melhor defesa é uma boa ofensiva, então (a)
minha melhor proteção contra a hostilidade é contra-atacar imediatamente;
(b) devo ser suficientemente forte para me defender; (c) nunca devo
demonstrar fraqueza; (d) devo suspeitar dos motivos dos outros; (e) devo
obter o que eu puder antes que os outros levem tudo embora.
É evidente que estes exemplos estão simplificados para o propósito
ilustrativo.
Entretanto, mostra como as variadas atitudes de dois sujeitos podem resultar
em personalidades bem diferentes, mesmo que os dois tenham a mesma
pressuposição básica sobre a vida. Suas atitudes também governariam suas
reações a doenças, relacionamentos, metas e qualquer aspecto da vida. E suas
pressuposições, dizem os kahunas, garantiriam encontrar uma grande dose de
hostilidade. Se você interpretar a "autoimagem" como um conjunto de
pressuposições, Maltz parece estar falando pelos kahunas, quando diz:
"A autoimagem é uma "premissa", uma base, ou uma fundação sobre a qual
toda a nossa personalidade, nosso comportamento e até nossas circunstâncias
são construídas.
Por causa disso, nossas experiências parecem verificar, e daí fortalecer nossa
autoimagem, o que acaba gerando um círculo vicioso ou beneficente".22
Complexos
( Hilina'i) O complexo de crenças é um sistema de ideias associadas
compostas de uma ou mais pressuposições e das atitudes a elas apegadas. O
termo kahuna para um complexo de crenças, hilina'i, pode ser traduzido como
"uma trança para tentar entender algo". Na simbologia Huna, os complexos
são representados por tranças, redes, teias de aranha e feixes de amoreira-
preta. As duas primeiras são usadas para complexos em geral, enquanto os
dois últimos geralmente são reservados para complexos restritivos.
Na prática, as pessoas têm numerosos complexos, necessários para lidar com
a vida.
É como se disséssemos que você precisa ter crenças para experimentar e lidar
com qualquer coisa, e tudo o que você experimenta depende da natureza de
suas crenças. Em termos kahuna, um complexo pode ser positivo ou
negativo, e o único meio de saber a diferença é pelos efeitos do complexo na
vida. Como um complexo consiste em todas as suas crenças a respeito de
qualquer assunto específico, e que sejam compatíveis entre si, o problema se
torna grande se você tiver dois complexos conflitantes sobre o mesmo tema.
22 Ib.
Para escrever Psycho-Cybernetics, Maxwell Maltz inspirou-se muito em
Prescott Lecky, um psicólogo que ensinava que a personalidade é um sistema
de ideias (crenças) que devem parecer compatíveis para a pessoa que as
mantém. As ideias inconsistentes com esse sistema são rejeitadas,
desacreditadas, e permanecem desativadas. Do ponto de vista kahuna, isso é
generalização errônea. Eles veem a personalidade como um sistema de
sistemas, um agrupamento de complexos, alguns dos quais podem ou não ser
compatíveis porque se baseiam em diferentes pressuposições aceitas de
diferentes figuras de autoridade, em diferentes momentos. Por exemplo, os
dois sujeitos descritos na seção anterior tinham a mesma pressuposição
básica, mas diferentes pressuposições dependentes, e estas davam origem a
diferentes atitudes. Ora, seria possível para uma pessoa aceitar uma daquelas
pressuposições independentes de sua mãe e uma diferente do pai. O resultado
poderia ser dois complexos separados e em sério conflito, com resultantes
distorções de personalidade e muita infelicidade. Uma ideia que seja
inconsistente com todos os complexos de uma pessoa será rejeitada, como
propunha Lecky, mas, se for inconsistente só com alguns complexos, poderá
ser aceita por outros.
Em casos extremos, isso pode produzir "dupla personalidade", mas,
normalmente surgem apenas reações diferentes sob diferentes circunstâncias.
Um exemplo desse caso seria um homem que tem uma personalidade
"diferente" no trabalho, em casa ou quando está se divertindo. Cada uma
dessas situações desencadearia associações e reações de vários complexos
dentro de sua total capacidade.
Infelizmente, parece que muitas pessoas têm variados números de
pressuposições e atitudes conflitantes entrelaçadas em complexos restritivos
ou negativos. Negativo aqui se refere a complexos de crenças ineficazes, que
não resolvem satisfatoriamente os problemas da vida do ponto de vista do
indivíduo, e que vivem em conflito com outras crenças. Um termo para esse
tipo de complexo é kuku, que significa "amoreiras-pretas, espinhos, multidão,
estar em competição". A duplicação da palavra ku, o aspecto da mente
encarregado de manter as crenças, dá a conotação de um subconsciente
superestimulado.
Os kahunas ensinam que os complexos de crenças agem como sistemas de
orientação para o fluxo da força vital, mana. Onde há conflito, o fluxo é
distorcido, e essa distorção pode levar à tensão aguda ou crônica num nível
muscular, celular ou em algum órgão. Essa tensão pode causar dor e doença,
e essa é a base para o ensinamento kahuna de que a fonte de toda doença
pode ser encontrada em ideias conflitantes. O termo genérico para doença em
havaiano é ma'i, significando "um estado de tensão ou restrição", em outras
palavras, estresse. Alguns médicos e psicólogos definem o estresse como
condições ambientais que exigem ajuste comportamental, mas, para os
kahunas, fazer isso é colocar o carro na frente dos bois. Eles veem o estresse
como uma reação interna às condições ambientais (incluindo pensamentos
como parte do ambiente pessoal), por lhes parecer evidente que semelhantes
condições não causam semelhantes reações em todas as pessoas.
Feedback Ecológico No ensinamento kahuna, os complexos de crenças não
afetam apenas os pensamentos, emoções, reações e o corpo físico; eles
afetam também o modo como você vê o ambiente e até determinam como é o
seu ambiente. Uma maneira de entender esse conceito é compreender que
você vê as coisas de acordo com suas crianças, e o que não combina com
suas crenças é ignorado. Entretanto, os kahunas acrescentam uma dimensão
esotérica a isso, dizendo que as suas crenças são os canais através dos quais o
seu Eu Superior literalmente produz experiência. Assim, um indivíduo
completo — aumakua, lono e ku combinado — forma a própria experiência,
percebendo-a e reagindo a ela. A aplicação kahuna prática desse conceito
estaria sob o conceito que eu denomino feedback ecológico.
Feedback é um processo no qual o resultado modifica os fatores que
produzem o resultado. É como jogar tênis, ver onde a bola cai e ajustar o
modo de segurar a raquete para receber melhor, da próxima vez. Ecologia é a
inter-relação dos organismos com seu ambiente. O feedback ecológico, como
eu uso, descreve o processo pelo qual você se torna mais ciente de seu
ambiente (incluindo o corpo físico e suas cercanias) para descobrir que tipos
de crenças levaram à formação desse ambiente. O termo Huna equivalente é
unuhi ao, "interpretar o mundo desperto". Quando as crenças na raiz da
experiência são conscientemente reconhecidas, podem ser mudadas, se for
desejável, e mudar também o ambiente. Esse conceito, muito diferente do da
maioria dos psicólogos modernos, tem vastas implicações.
Se você estudar suas doenças, por exemplo, poderá descobrir primeiro as
atitudes e depois as pressuposições que produziram o tipo de doenças que
você costuma ter. À primeira vista, essa técnica não parece muito diferente da
usada por Freud de trabalhar de trás para a frente através de lembranças
cronologicamente associadas até chegar ao que ele chamava de "núcleo
patogênico". Mas a diferença é profunda, porque Freud trabalhava com as
lembranças de eventos e não com as crenças a respeito dos eventos. Quando
você desenterra crenças, podem surgir lembranças em qualquer ordem, ou
não surgir nada.
A maioria dos psicólogos e médicos modernos define certas doenças como
psicossomáticas (causadas pela mente ou por emoções) e outros como
estritamente orgânicas (causadas por agentes externos ou fatores
hereditários). Howard R. e Martha E.
Lewis, autores de um livro intitulado Psychosomatics, afirmam que "os
pesquisadores vêm descobrindo que as pessoas com certos traços de caráter
são passíveis de sofrer certas doenças". Eles dizem:
"Excluídas da maior das discussões sobre a psicossomática, porém, estão as
condições estritamente herdadas, tais como hemofilia e anemia profunda.
Também não são consideradas no campo da psicossomática as doenças
causadas por fatores ambientais tais como intoxicação alimentar, doenças
ocupacionais e envenenamento por poluentes.
Por outro lado, é possível que nesses casos o nível de dano seja causado por
estresse psíquico".23
Os kahunas diriam que não só o nível de dano mas também a atração da
condição em si são causados por estresse psíquico. Eles reconhecem a
predisposição genética para certas doenças, mas em termos de crenças
herdadas na memória celular, e não como uma herança física. Quanto a
condições como epidemia de gripe, WK as chama primariamente de "mídia-
gênicas", indicando que são causadas mais pela mídia do que por qualquer
outra coisa. Sua explicação para o fato de a infame "gripe de porco" nunca ter
atingido proporções epidêmicas é que as pessoas não gostaram do nome e
não acreditavam nela, pois achavam que servia a fins políticos. Segundo o
ensinamento Huna, todos os eventos experimentados, incluindo doenças e
acidentes, se originam na mente.
Já que tantas doenças são refletidas no corpo físico, os kahunas
especializados nessa área prestam mais atenção a onde uma doença se
manifesta do que ao tipo de doença. A moderna psicossomática parece
concordar com isso, até certo ponto. O ensinamento kahuna geral, conforme
o aprendi, diz que os conflitos em competência e comunicação se manifestam
na cabeça, nos ombros, braços e mãos; conflitos de afeições, responsabilidade
e autovalor se manifestam na área entre o plexo solar e o pescoço; conflitos
de segurança e autoridade ocorrem entre o plexo solar e a parte superior das
coxas; e conflitos referentes
a apoio e progresso se manifestam nas pernas e nos pés. Com essa estrutura
básica, o corpo — assim como o resto do ambiente — pode ser "lido" para
revelar crenças fontes. O feedback ecológico inclui a atenção aos
pensamentos e devaneios recorrentes, o conteúdo de padrões de fala
espontâneos, e as emoções recorrentes, todos sendo meios de determinar
nossas crenças. Esses fatores também são usados no tratamento
psicossomático moderno, mas nele a ênfase está mais em mudar o
comportamento do que as crenças. Os kahunas diriam que mudar o
comportamento é apenas um modo de reforçar mudanças de crença, e a
mudança comportamental em si é dependente das mudanças no pensar.
23 Howard R. Lewis e Martha E. Lewis, Psychosomatics (Nova Iorque: Pinnacle Books, 1975)
As crenças são a base de toda experiência, dizem os kahunas. A realidade não
é objetiva, e sim subjetiva. Kristin Zambucka, mencionada anteriormente,
diz: "Cabe a nós controlar uma atitude. Nós somos os criadores. Mude os
seus pensamentos e você muda o mundo".24 Curiosamente, essa ideia kahuna
da realidade sendo totalmente subjetiva encontra paralelos na moderna física
das partículas. Fritjof Capra, físico que comparou a física moderna à antiga
filosofia do leste da Ásia, fala de uma teoria da física atual nestes termos:
"As estruturas básicas do mundo físico são determinadas, em última
instância, pelo modo como olhamos este mundo... (e isso) reflete a
impossibilidade de separar o observador científico dos fenômenos
observados... em sua forma mais extrema, significa que as estruturas e os
fenômenos que observamos na natureza nada são além de criações de nossa
mente analítica e habituada a categorizar".25 E no entanto, como veremos no
capítulo seguinte, os kahunas são capazes de trabalhar com as crenças na
objetividade, para efetuar uma cura.
24 Zambucka, Ano 'Ano.
25 Fritjof Capra, citado por Oyle, Time, Space & the Mind.
CAPÍTULO 5
Métodos de Cura

A cura kahuna envolve toda a pessoa — o Eu Superior, a mente consciente, o


subconsciente e o corpo — e também o ambiente da pessoa. Uma vez que o
seu propósito é efetuar uma cura e não comprovar determinado método, ela é
direcionada para as necessidades individuais. O mesmo kahuna pode usar
métodos muito diferentes para tratar duas pessoas com sintomas idênticos
porque as crenças delas podem ser diferentes.
E as crenças, de acordo com Huna, estão na raiz de toda doença.
A ideia kahuna de trabalhar com crenças para iniciar a cura se reflete no
termo havaiano geral para saúde e cura, ola. Essa pequena palavra, que tem
muitos outros significados, todos relacionados à melhora da vida de uma
pessoa, talvez seja mais bem traduzida como iluminação ( o — entrar; la —
luz, um símbolo para entendimento e poder). Sintomas específicos são
tratados como parte do processo de cura total, porque se reconhece que eles
apenas servem para mascarar a verdadeira causa da doença. A palavra
havaiana para sintoma é ouli ( ou — esconder; li — emoções como medo e
raiva). Por algum motivo, os kahunas reconheceram bem cedo o que a
moderna psicossomática chama de reação de conversão, e que Freud
chamava de histeria, ou a conversão de uma condição emocional como a
raiva num sintoma físico como enxaqueca. A diferença é que os kahunas
consideravam todos os sintomas uma forma de reação de conversão, até o
ponto de incluir circunstâncias pessoais como a propensão a acidentes, a
pobreza ou a solidão.
Dizer que o trabalho com crenças é o fundamento de toda terapia bem
sucedida é quase o mesmo que dizer o que é a hipnose, definindo o termo de
maneira bem generalizada para incluir a ideia de aceitar a sugestão em todos
os níveis. Como afirma Jay Haley, em seu livro Uncommon Therapy: "A
influência da hipnose sobre todas as formas de terapia nunca foi devidamente
apreciada. Pode- se argumentar que a maioria das abordagens terapêuticas
tem sua origem nessa arte".26 Num certo sentido, podemos dizer que todos os
métodos de cura kahuna são baseados na sugestão hipnótica — compreendida
como mudança de crenças — e que todos os métodos não-hipnóticos usados
por eles servem meramente para facilitar esse processo.
"Terapia Estratégica"
A abordagem na qual o terapeuta inicia um tratamento baseado em
necessidades específicas do paciente é chamada por Haley de "terapia
estratégica", quando ele escreve sobre as técnicas psiquiátricas do doutor
Milton Erickson, autor de numerosos artigos sobre hipnoterapia e um dos
mais proeminentes praticantes dessa arte. "A terapia pode ser chamada de
estratégica", diz Haley, "se o clínico inicia o que acontece durante a terapia e
designa uma abordagem específica para cada problema".27 Não se sabe há
quanto tempo os kahunas vêm usando essa abordagem, mas WK afirma que
deve ser há séculos. Falando pelo Ocidente, Haley afirma que ela só começou
a proliferar a partir do meio do século XX.
26 Jay Haley, Uncommon Therapy. Nova Iorque: Ballantine Books, 1973.
27 Ib.
Os métodos de cura estratégica podem ser classificados nas categorias de
Abordagem Material, Abordagem Energética e Abordagem Mental. O modo
como elas são aplicadas e combinadas depende da natureza da doença e do
sistema de crenças do paciente. Os kahunas sempre trabalham dentro do
sistema de crenças do paciente, pois do contrário o tratamento seria um
convite à resistência ao processo de cura. Uma pessoa que acredita
firmemente no tratamento médico será tratada de acordo com sua crença, com
os métodos que mais se aproximem da causa, como fazem frequentemente os
modernos psiquiatras. Já alguém que acredita em pragas será tratado nesse
nível primeiro, embora os praticantes ocidentais dificilmente concordariam
com isso. Mesmo assim, a percepção do valor de tal abordagem por parte de
alguns terapeutas modernos fica evidente numa afirmação de Kroger: "Temos
total consciência de que a fé numa cura específica promove o sucesso dessa
mesma cura!"28
A Abordagem Material Essa categoria inclui o uso de remédios, dieta, ritual,
amuletos e qualquer outra coisa que envolva a introdução de um objeto ou
evento formal no processo de cura. Há duas bases lógicas para essa
abordagem. Uma é o fato de que geralmente as pessoas são levadas a
acreditar que a matéria ou os eventos exteriores são mais reais do que o
pensamento. Os kahunas convertem essa crença numa ferramenta para ajudar
na cura. A segunda base é o fato de que certos remédios, alimentos e objetos
energizados realmente interagem com o metabolismo do corpo.
Muito mais do que as outras abordagens, esta é altamente dependente da
aceitação da autoridade do curandeiro pelo paciente. WK diz que a medicina
moderna é basicamente cura pela fé. O motivo de os médicos terem tanto
sucesso, independentemente do tipo de tratamento que oferecem, é que muita
gente confia na habilidade e conhecimento deles.
Por isso, o placebo pode ser tão eficaz. Se o paciente acredita firmemente na
autoridade e habilidade do curandeiro, pode curar a si próprio mesmo sem o
"verdadeiro" remédio.
Remédios
Os kahunas têm uma visão distintamente não ortodoxa dos efeitos do
remédio, baseada em sua ideia de que a doença não é causada por bactérias,
vírus ou agentes carcinogênicos, mas sim por tensão resultante de conflitos
de pensamento e energia emocional. De acordo com essa visão, as epidemias
são causadas por reações individuais à telepatia social, e não pela
disseminação de infecções vindas de fatores exteriores. Embora não tenha
mencionado a telepatia como um fator na doença, Reich era de opinião que
os efeitos da infecção se originavam dentro do indivíduo como resultado de
tensão aguda ou crônica. Após examinar algumas das inconsistências das
teorias de infecção em voga na época, Reich disse: "Se essa questão for
considerada com atenção, teremos de admitir a inutilidade científica da teoria
dos germes no ar".29 Deixe-me explicar que os kahunas não dizem que os
germes e micróbios não existem, mas apenas que são catalisadores ou
subprodutos da doença e não sua causa. Se não houvesse medo ou tensão
indevida nas pessoas, não haveria doença, mesmo com a presença de
bactérias ou vírus associados a ela.
28 Kroger, Hypnosis and Behavior Modification.
29 Reich, Cancer Biopathy.
Cabe aqui uma palavra sobre as epidemias de varíola, sarampo e doenças
venéreas que quase dizimaram a população havaiana pouco depois da
chegada dos europeus e americanos. De acordo com a visão kahuna, esse foi
o resultado de infecção por meio de ideias, muito mais que através de
micróbios. Naquela época, os kahunas dominantes tinham perdido a maior
parte de seu conhecimento de curas, e os médicos Lono e herbanários eram
poucos, a estrutura religiosa e legal do Havaí estava caótica, e os estrangeiros
chegaram com incrível exibição de poder e conhecimento, acompanhados por
crenças igualmente fortes sobre culpa e pecado. Não é de admirar que tantos
havaianos tenham sucumbido e que pouquíssimos kahunas pudessem ajudar.
A crença kahuna de que a doença resulta de tensão é verificada nas raízes do
termo Huna para remédio e tratamento médico, la 'au lapa'au. Esse termo
indica nitidamente a posição kahuna de que a função do remédio é estimular
um excitamento de fluxo energético no corpo que ajudará a dissolver a
doença induzida por tensão. Por esse motivo, os kahunas definem o remédio,
ou medicamento, de maneira mais ampla que no Ocidente. Além de
elementos químicos e ervas, eles incluem partes de peixes, animais e plantas
cujos nomes, natureza e aparência significam características de cura. Luzes
coloridas, vestimentas e objetos também são usados por causa de seu efeito
psicológico e fisiológico. A lula seria usada porque seu nome em havaiano (
he'e) tem a conotação de doença sendo eliminada; carne de porco pode ser
usada por causa de uma semelhante conotação numa palavra havaiana que
lembra o nome usado para porco; cana-de-açúcar ( ko-kea) também pode ser
usada porque o nome significa "funcionar em limpar algo"; e um objeto
vermelho também serve porque a cor vermelha, que é sagrada, era associada
ao sangue e ao poder divino ou mana. Além desses efeitos psicológicos sobre
o subconsciente, os kahunas sabiam dos efeitos físicos de certos ingredientes,
mas somente por sua influência estimulante de energia e relaxante muscular,
não pela capacidade desses ingredientes de "atacar" qualquer coisa
supostamente invadindo o corpo, pois tal conceito é apenas o produto de uma
sociedade com crenças temerosas sobre a realidade.
WK mencionou uma forma de remédio kahuna havaiano que acredito ser
digno de mais investigação. Provavelmente, a melhor tradução para ele seria
"aromaterapia". Esse termo tem sido usado no Ocidente, referindo-se, porém,
ao uso de essência de flores que pode ser aplicada como pomada ou ingerida,
como no caso dos "florais de Bach"*, desenvolvidos por Edward Bach, M.D.
O uso kahuna envolve a inalação de fragrâncias diretamente, e pressupõe que
a essência do material sendo inalado vai diretamente para a corrente
sanguínea através dos pulmões, agindo com mais rapidez do que alguma
coisa engolida ou colocada na pele. Embora se usem incenso e perfume no
Ocidente para criar uma atmosfera e influenciar as emoções até certo ponto,
não considero o uso medicinal direto do aroma comparável à ideia kahuna,
exceto o uso de inalantes para aliviar congestão respiratória. Entretanto,
encontrei um comentário de um ensaísta francês, Michel Eyquem de
Montaigne, que, no século XVI, escreveu:
"Assim os médicos (na minha opinião) poderiam usar mais e melhor os
odores.
Pessoalmente, já observei com frequência que de acordo com sua força e
qualidade, os odores mudam e alteram, e enlevam meu espírito, e produzem
estranhos efeitos em mim"?30
Outra forma de "remédio" normalmente usada e apreciada pelos kahunas é a
água pura, infundida com mana do kahuna e suas formas-pensamento
acompanhantes.
Tipicamente, um kahuna faz isso focando mana que sai de suas mãos ou
hálito na água, ao mesmo tempo em que se concentra numa imagem de cura.
Obviamente, o efeito é maior quando se diz ao paciente o que a água vai fazer
por ele, e funciona melhor quando a água está "carregada" (energizada) do
que quando não está, mesmo que o paciente não tenha testemunhado o
processo de energização.
* Ver Autocura pelos Florais de Bach, Madras Editora, 2002.
30 Informações divulgadas mutuamente, sem referências.
Isso sem dúvida não faz parte do campo da ortodoxia ocidental, que
provavelmente afirmaria que a água estava funcionando apenas como uma
espécie de placebo. Entretanto, Charles Panati, escritor de parapsicologia,
fala sobre alguns experimentos realizados pelo bioquímico Justa Smith com
um curandeiro, os quais parecem mostrar de forma conclusiva que uma
espécie de energia transmitida das mãos do curandeiro de fato modificava
soluções enzimáticas. O mesmo curandeiro foi testado sob condições
rigorosas pelo Dr. Bernard Graf na Universidade McGill, no Canadá.
O curandeiro simplesmente segurava garrafas d'água entre as mãos por algum
tempo, todos os dias. As plantas regadas pelo conteúdo dessas garrafas
cresciam muito melhor que as do grupo de controle. Um jeito fácil de
energizar a água para o gosto tanto quanto para a saúde é deixar uma garrafa
cheia diretamente sob a luz do sol por uma hora ou mais, como as pessoas
que tomam "banho de sol". Fiz a experiência, embora eu não tivesse um
grupo de controle para comparação. Utilizei água energizada por esse
processo numa garrafa verde para dois cães pastores alemães, que iam ser
sacrificados porque punham para fora tudo o que comiam. Em duas semanas,
os dois estavam felizes e saudáveis.
Dieta
Os kahunas dão importância à dieta porque os alimentos que comemos
normalmente refletem nosso estado de espírito. Por isso, se você muda sua
dieta, isso pode ajudá-lo a mudar seu estado de espírito. Certa vez, eu estava
para comer com amigos, quando um deles me perguntou: "O que os kahunas
comem?" Sorrindo, respondi: "O que quiserem".
Menciono isso porque os kahunas, como grupo, não seguem nem
recomendam nenhum tipo especial de dieta. Alguns são vegetarianos e outros
comem carne, e eu desconfio que alguns nunca comem demais. Como um
grande kahuna teria dito, certa vez: "Não é o que entra pela boca do homem
que o deixa impuro, mas sim o que sai." No entanto, os kahunas costumam
recomendar muita fruta fresca ("viva"), e legumes e vegetais crus, por
conterem mais mana. Na verdade, os significados da raiz da palavra havaiana
para comida, 'ai, a associam diretamente a mana, e as raízes da palavra
kahuna incluem a ideia de ser ele um cozinheiro, aquele que prepara e divide
poder com outros. Num livro de June Gutmanis sobre os médicos herbanários
kahuna, é observado que o terapeuta kahuna preparava a refeição de cura.
Eles não acreditam que a falta de vitaminas e minerais no corpo de uma
pessoa seja causada por uma dieta inadequada, mas por certos tipos de
pensamento que resultam num desequilíbrio no metabolismo do corpo. O uso
de suplementos ajuda a restaurar o equilíbrio do corpo temporariamente, o
que pelo menos dá à pessoa oportunidade de melhorar seus pensamentos. Os
kahunas ensinam que quanto mais saudável estiver sua mente, mais capaz
você será de gerar por si próprio todas as vitaminas e minerais necessários,
seja qual for sua dieta.
Na tradição médica ocidental, a dieta é usada como importante ferramenta
para controlar o peso, mas com os kahunas a dieta tem um papel pequeno
nesse tratamento. O kahuna estaria mais preocupado com a atitude da pessoa
em relação a si própria e seu peso, e se esse peso interfere em sua capacidade
de viver efetivamente. Não há problema nenhum em ter uns quilos "a mais"
ou "a menos", segundo a visão kahuna: tais termos só fazem sentido em
relação a algum padrão social arbitrário. Uma pessoa gorda pode ser tão
saudável, feliz e eficaz quanto uma magra. Não é o peso em si que importa, e
sim o possível uso do peso para uma autopunição, ou uma desculpa para
evitar relacionamentos, uma substituição por afeição, supressão da expressão
emocional, etc. De modo geral, a visão kahuna é que o estado de excesso ou
falta de peso segundo as medidas sociais não é uma coisa a ser tratada, a
menos que seja um sintoma de conflito interior. São o pensamento e o
comportamento que devem receber mais atenção. Isso sendo cuidado, o corpo
se ajusta.
O jejum não fazia parte da tradição de cura havaiana, mas é usado por
kahunas em outros lugares. WK tem os seguintes comentários sobre este
assunto: normalmente, o corpo opera com a energia suprida pelos alimentos e
o arque ele recebe diariamente. No jejum, o corpo deve começar a operar
com suas próprias reservas de energia. Estas geralmente são gordura e
proteína armazenadas, mas a energia também é armazenada na forma de
tensão muscular crônica. Durante o jejum, essa energia da tensão é ativada
para operar no corpo, também. Como são intimamente ligadas aos conflitos
de crenças, as áreas de tensão virão à tona à medida que a energia for
utilizada e a tensão aliviada. Isso costuma ser acompanhado por uma
liberação emocional catártica e pela dramática eliminação de sintomas de
doenças. O jejum, usado como ferramenta, não é feito para a
"purificação" do corpo, mas como meio de expor e drenar a energia de
complexos profundamente arraigados. Mesmo assim, ele é só um passo no
processo de tratamento, pois, sem uma mudança no modo de pensar, os
benefícios do jejum serão temporários.
Em meus estudos de literatura relacionada, só encontrei em Reich alguma
coisa específica sobre liberações emocionais catárticas devido à liberação de
tensão muscular crônica, mas, para os seus pacientes, isso era gerado por
massagem e/ou uso de energia orgônica. Que eu saiba, a visão kahuna dos
efeitos do jejum é única.
Ritual
O ritual tem um papel importante na maioria das práticas de cura, tanto pelos
kahunas quanto pelos médicos modernos. Ele inclui tudo na situação de cura
que não tenha um efeito direto na cura, mas que sirva para convencer o
paciente de que a pessoa certa está fazendo a coisa certa. Assim, um ritual
nesse sentido incluiria qualquer coisa, desde uma antiga dança com cantaria
enquanto se esfregam folhas ti no paciente, até um médico moderno usando
avental branco, sentado num consultório cheio de símbolos de seu sucesso e
fama, calmamente dizendo ao paciente que ele sabe tudo o que tem a fazer. O
ritual ajuda a estabelecer confiança na autoridade, e isso por sua vez ajuda a
abrir a mente do paciente para o processo de cura. Outras formas de ritual
usadas no Ocidente são a hipnose formal, a meditação e sessões de terapia em
grupo. Lógico que o ritual também pode ser empregado pelo curandeiro para
convencer o seu próprio subconsciente de que ele tem o poder de curar.
Objetos Energizados Os objetos que os kahunas consideram fortes fontes de
mana são frequentemente usados porque a introdução de mais mana no
corpo, de qualquer que seja a fonte, costuma aliviar tensão e, portanto, os
sintomas. Os kahunas acham que podem energizar pessoalmente um objeto
com o mana deles para tal fim, e Long descreve isso extensivamente, ao lado
de relatos de experimentos para demonstrar sua validade. Na praia em
Waikiki perto do Hotel Surfrider, há quatro "pedras de cura" que, a lenda
local diz, foram energizadas com mana de kahunas que partiram séculos
atrás. Entretanto, os kahunas também usam fontes naturais de mana, como
pedras e cristais, certas madeiras, e lugares especiais onde o mana seja
supostamente mais abundante. Em Nana I Ke Kumu, Mary K. Pukui, uma
senhora havaiana com rico conhecimento de cultura do Havaí, diz que
"segundo a crença havaiana, mana pode ser emitido de uma rocha, dos ossos
dos mortos, do remédio que cura ou da poção que mata".31 Uma das
madeiras de cura favoritas era o ébano, chamado de lama em havaiano. O
Hawaiian Dictionary (Dicionário Havaiano) de Pukui-Elbert diz isto a
respeito do ébano: "A madeira lama era usada em medicina e colocada em
altares hula porque seu nome sugeria iluminação; cabanas eram feitas de
lama num único dia,
enquanto ainda houvesse a luz do sol (lama), e os doentes eram colocados
dentro delas para serem curados".
31 Mary K. Pukui, E. W. Haertig, e Catherine A. Lee, Nana 1 Ke Kumu (Honolulu: Hui Hanai, 1975)
32 _________, e Samuel H. Elbert, Hawaiian Dictionary (Honolulu: University Press of Hawaii,
1975).
É impossível, com certeza, separar completamente o efeito direto de remédio,
dieta e objetos energizados da reação do paciente ao ambiente ou ritual e à
autoridade do curandeiro; mas os kahunas não se interessam por essas
distinções desde que haja um efeito benéfico. Esse é um ponto de diferença
radical entre a abordagem kahuna de cura e as modernas abordagens
ocidentais. Os praticantes ortodoxos ocidentais são propensos a descartar ou
proibir qualquer método de tratamento que não se encaixe numa gama
relativamente estreita de aceitabilidade. Por exemplo, a seguinte visão de
Skinner ainda prevalece entre os psiquiatras e médicos ortodoxos: "Como os
eventos mentais ou psíquicos não possuem a dimensão das ciências físicas,
temos uma razão adicional para rejeitá-los". E Oyle, que é médico, diz: "A
maioria dos meus colegas acredita até hoje que no espaço onde supostamente
estão os órgãos só há matéria".33 Naturalmente, uma visão assim limita
drasticamente os tipos de tratamento aceitos e permitidos. Isso faz sentido
quando uma forma específica de tratamento representa perigo real para o
paciente, mas muitos métodos proibidos não se encaixam nessa categoria.
Parece que tais métodos foram banidos porque não fazem parte da tradição
aceita, e qualquer aplicação deles bem-sucedida é desconsiderada. E isso
ocorre apesar do fato de que muitos métodos aceitos têm perigosos efeitos
colaterais. Oyle diz que o Food and Drug Administration —
órgão norte-americano responsável pelo controle de alimentos e
medicamentos "anunciou que quinze pessoas morreram ao tomar
Clindamycin e Lincomycin que são frequentemente receitados por médicos
para o tratamento de acne e do resfriado comum.
Ele acrescenta também que sua clínica foi fechada por não ser nem um pouco
ortodoxa, pois lá não faz cirurgias nem prescreve drogas. A tradição ocidental
parece dar mais importância ao método que aos resultados, e os métodos não
ortodoxos costumam ser rigorosamente evitados e, às vezes, emocionalmente
atacados. Reich, cujos livros foram proibidos e queimados pelo governo
americano nos anos 50, chamou essa atitude de "praga emocional". Em
contraste, os kahunas usam qualquer método que funcione, desde que os
efeitos colaterais não sejam sérios. Sua ênfase é o resultado e eles sabem que
os métodos são sempre secundários às crenças.
A Abordagem Energética Essa abordagem assume três formas, que podem
ser chamadas de manipulação física, de corrente e de campo, embora essa
divisão possa ser confusa, pois os kahunas podem usar as três formas
simultaneamente. Todas têm o propósito de liberar energia que está
bloqueada por tensão, estimulando o fluxo de bioenergia para promover a
autocura, e reforçando as sugestões de cura dadas pelo curandeiro.
Manipulação Física Há três subdivisões dessa forma de estimulação
energética: lomi, lua e hula.
1. Lomi é uma técnica de massagem direta aplicada aos músculos em estado
de tensão aguda ou crônica. É geralmente feita com as mãos, como a
massagem sueca, mas antigamente no Havaí também se usava uma vareta
especialmente curvada para uma massagem mais profunda. Uma variação é
'a'e, referindo-se a um modo de massagear as costas com os pés.
33 Oyle, Time, Space & Mind.
2. Lua é uma forma de combate corpo-a-corpo, como o karatê, também
praticado por esporte, como exercício e um meio de descarregar tensão
emocional. Uma tradução da raiz da palavra é "eliminar completamente o
sofrimento".
3. Hula costuma ser conhecida no Ocidente apenas como uma forma graciosa
de dança polinésia, mas a diversão moderna se baseia num antigo sistema
para a iluminação do corpo e o desenvolvimento espiritual. Um significado
da raiz da palavra é "levantar a chama sagrada" uma referência a um fluxo de
energia como o da kundalini ioga.
Mesmo em sua forma atual, os movimentos das pernas, quadris e parte
superior do corpo conduzem à liberação de bloqueios de tensão muscular.
Efeito semelhante é conseguido pelo antigo T'ai Ch’i Ch'uan chinês e pela
moderna dança aeróbica, embora de maneiras diferentes.
O Corpo
( Kino)
Há duas formas principais de manipulação de corrente usadas pelos kahunas,
ambas baseadas na ideia de que o mana flui como uma corrente no corpo.
1. Kaomi é uma técnica semelhante à acupressão e consiste em aplicar uma
pressão para baixo em pontos especiais no corpo. A vareta usada em lomi às
vezes é usada em kaomi também, mas o mais comum é o uso dos dedos ou da
base da mão. Em casos de bloqueio, o paciente pode sentir uma dor aguda
como o cutucão de uma agulha, no lugar onde a pressão for aplicada.
Qualquer pessoa que tenha experimentado a reflexologia, um tipo de
massagem nos pés, saberá do que estou falando. As vezes, o alívio do
sintoma é imediato e outras vezes são necessários vários tratamentos,
dependendo do nível crônico da condição e de quanto medo o paciente tem
de mudança. O conceito é que a pressão estimula uma interação maior entre o
ponto de pressão e o mana no ambiente ou nas mãos do curandeiro,
resultando num fluxo maior que age para quebrar a tensão.
2. Kahi é uma técnica que consiste em aplicar pressão delicada às áreas de
tensão ou alisá-las levemente com a mão aberta. Aos olhos do observador, a
primeira pode parecer a "imposição de mãos" praticada por alguns
evangélicos ocidentais e por enfermeiras que usam o "toque terapêutico";
enquanto a segunda pode parecer-se mais com um carinho. O segredo da
efetividade dessa técnica em aliviar os sintomas é a quantidade de mana
emitida pelas mãos do curandeiro. Essa técnica pode ser usada por qualquer
pessoa, já que todos emitem mana; mas, quanto mais mana for emitido, mais
eficaz ela será. Para aumentar a emissão, um kahuna pode usar a
visualização, esfregar ligeiramente as palmas das mãos, ou experimentar uma
emoção positiva como o amor. Não é por acaso que uma palavra variante,
kahiau, significa "dar generosa ou abundantemente com o coração e sem
esperar retorno".
Manipulação de Campo
Esse método, às vezes chamado de manamana, tem a aparência do kahi,
exceto que as mãos do curandeiro não tocam o paciente. Em vez disso, eles
ficam a alguns centímetros (às vezes até 30 centímetros) acima da pele ou da
roupa. O curandeiro gera um excesso de mana em si por meio de várias
técnicas já descritas e transfere-o para o campo do paciente por meio de suas
mãos, sua vontade e imaginação. A ideia aqui é que um tipo de efeito por
indução ocorre, no qual o fluxo do curandeiro energiza o campo do paciente,
induzindo um fluxo de corrente no corpo deste.
Uma variação incomum às vezes usada é descarregar o campo do paciente,
que também parece induzir um fluxo de corrente. De modo geral, a
energização é mais útil em casos de fadiga, depressão e contusão, enquanto a
descarga é mais útil quando há hipertensão, ansiedade e inchaço. Os efeitos
subjetivos de energizar ou descarregar podem variar consideravelmente,
mesmo quando o paciente não tem noção do que o curandeiro está fazendo.
Em manipulação de campo, o paciente costuma relatar sensações de calor,
formigamento e/ou movimento interior ou liberação. Quase sempre o kahuna
usará sugestão verbal ou telepática para ajudar o processo. Sendo um método
de tratamento tão imaterial, essa técnica está totalmente fora do sistema
ocidental ortodoxo. Porém, o toque terapêutico, uma técnica moderna muito
semelhante a esse método kahuna, vem sendo cada vez mais aceito em
hospitais, onde as enfermeiras o usam como complemento à terapia ortodoxa.
É ensinado em uma das principais universidades, líder no treinamento de
enfermeiros, e que realiza workshops em hospitais dos Estados Unidos e
outros países.
Também já ouvi vários médicos mencionando confidencialmente que eles
próprios ou alguém que conhecem possuem e usam essa habilidade, mas têm
medo de informar seus pacientes sobre isso. O próprio Wilhelm Reich, nada
ortodoxo, jamais escreveu sobre esse método, mas numa conversa pessoal,
um antigo colega lhe disse que estava presente certa ocasião em que Reich
aparentemente usara o método para curar um bebê.
Gostaria de terminar esta seção apenas com algumas palavras sobre os
supostos efeitos desse tipo de cura sobre o curandeiro. Conheci vários
"curandeiros paranormais" que afirmam sentir-se completamente exaustos
após ministrar um número de curas usando as mãos. A partir de meus estudos
kahuna, aprendi que isso acontece porque eles estão tentando usar a própria
energia pessoal, em vez de gerar antecipadamente um excesso de energia ou,
melhor ainda, deixar que a energia flua através deles e não diretamente deles.
Além disso, eles podem estar subconscientemente resistindo ao processo ou
grande carga do paciente, ou qualquer outra coisa, causando tensão muscular
que resulta em fadiga.
Quem cura do modo kahuna acaba sentindo-se muito melhor do que quando
começou. O suposto efeito adverso é o curandeiro "pegar" a doença do
paciente através do campo de energia. Eu já vi (e usei) muitos meios simples
e com plexos de evitar isso. Aprendi, porém, que a doença não está no campo
de energia, mas nos pensamentos do paciente, e um curandeiro só pega a
doença se estiver aberto a esses pensamentos. Alguns curandeiros realizam
pequenos rituais, como sacudir os dedos para descartar ou descarregar a
energia do paciente. O único propósito desse gesto é convencer o
subconsciente do curandeiro de que ele está seguro. Não há nada errado
nisso, mas se você acredita firmemente que não será afetado, então não será,
com ou sem o ritual.
A Abordagem Mental Esse método consiste em ensinar ao paciente como
usar sua mente de forma mais eficaz, mas sem tentativas de controle mental
por parte do curandeiro. E, sem dúvida, o método mais importante no
repertório de cura dos kahunas e considerado o cerne de toda cura, uma vez
que toda experiência é um reflexo do pensamento.
Para fins de discussão, essa abordagem será apresentada em passos de um
processo, mas o leitor deve compreender que, na prática real, a aplicação dos
passos não é tão distinta quanto exponho aqui. O processo para você ensinar
uma pessoa como cuidar dos próprios pensamentos e da própria cura se
baseia num treinamento em quatro passos que o próprio kahuna faz.
Percepção dos Pensamentos ( Ike)
Se você pretende conscientemente mudar suas atitudes e pressuposições,
precisa antes estar ciente daquelas que tem. Pode parecer óbvio, mas a
maioria das pessoas não presta muita atenção consciente ao que pensa e diz
em termos dos efeitos potenciais que os pensamentos e palavras exercem na
vida. Portanto, no início do tratamento, um kahuna pode ajudar o paciente a
se tornar ciente dos padrões habituais de fala, do diálogo interior e dos temas
sugeridos em imagens. A atenção aos sentimentos e sonhos recorrentes e às
condições externas também .pode ser encorajada. Ao dedicar atenção a esses
fatores, o paciente começa a perceber como tem reforçado suas circunstâncias
indesejáveis.
Um paciente acostumado a suprimir pensamentos indesejáveis talvez precise
de uma considerável assistência para trazê-los à atenção consciente, como já
descobriram muitos psicólogos e psiquiatras. Uma técnica que os kahunas
usam para ajudar esse processo é a imagem guiada, a simulação da
imaginação makaku. Makaku pode ser traduzido como
"originando no ku" e se refere à imaginação espontânea ou estimulada que
revela padrões de crenças. Como mencionei antes, isso está se tornando cada
vez mais popular no Ocidente.
Às vezes, como acontece na psicanálise, a mera percepção de hábitos
indesejáveis de pensamento ou discurso já será suficiente para fazer o
paciente mudar imediatamente o modo de pensar, com benefícios resultantes
para o corpo ou as circunstâncias. Mas, com frequência, a percepção em si
não produz mudança nenhuma. Os kahunas ensinam que isso acontece
porque toda experiência contínua é mantida por hábitos, e só a percepção não
muda um hábito. O único modo de mudar um hábito é substituí-lo por outro,
o que nos leva ao passo seguinte.
Estabelecer Metas ( Makia)
As metas, neste contexto, incluem desenvolver novas crenças e hábitos e
também fazer planos para o futuro. O paciente recebe ajuda para desenvolver
uma ideia nítida quanto ao tipo de saúde, personalidade e ambiente que quer
ter, e é auxiliado também na compreensão do que será feito para ele alcançar
o que deseja. Uma importante técnica usada em makia é pa laulele, que eu
chamo de "ver e ser", e que consiste em imaginar com firmeza uma
circunstância desejável e colocar-se a si próprio no centro da imagem de
todos os sentidos. É mais ou menos como o estado de espírito de um mímico
durante uma apresentação. Essa técnica de imaginação "pré-treina" o
subconsciente e o corpo, preparando-os para a nova experiência. Por
exemplo, no caso de uma condição crônica — física, de personalidade ou
ambiental — você primeiro estabelece as novas metas/crenças/hábitos
aplicáveis, e depois usa a imaginação para pré-experimentar a nova condição.
Alguns psicólogos ocidentais também prescrevem essa técnica. Kroger a
chama de "condicionamento sensorial por imagem", e Maltz descreve uma
técnica praticamente idêntica. Assagioli justifica essa abordagem, expondo
uma lei psicológica segunda a qual "as imagens e quadros mentais tendem a
produzir as condições físicas e os atos externos a elas correspondentes".
Autossugestões ou afirmações curtas e emocionalmente carregadas também
são usadas com makia, mas é importante que o paciente seja bem treinado
para isso de modo eficaz, para que as sugestões realmente ajudem a provocar
a nova condição e não resultem simplesmente em suprimir aquilo que ele não
quer perceber. Para ser eficaz, uma sugestão ou afirmação tem de ser crível
até certo ponto. Dizer "estou saudável" quando se está doente, ou "sou feliz"
quando se está triste, pode funcionar com uns e não com outros. 34 Assagioli,
Psychosynthesis. O uso da emoção forte ajuda aqui, assim como as técnicas como
hipnose que acalmam a parte crítica/analítica do consciente. Se
aparentemente houver uma significativa resistência subconsciente à mudança,
então o kahuna aplica o passo seguinte.
Mudar
( Kala)
Essa palavra tem os significados externos de liberação, liberdade e perdão,
mas as raízes trazem o sentido de mudar o caminho de uma pessoa. Perdoar,
por exemplo, é mudar o modo como você pensa sobre alguém ou alguma
coisa. Para kala funcionar, você deve estar conscientemente disposto a fazer a
mudança e abandonar os velhos hábitos.
Sem alguma motivação positiva para mudança por parte do paciente, mesmo
que recebida telepaticamente, o kahuna geralmente nem tenta efetuar a cura.
Kroger concordaria. A respeito dos alcoólatras crônicos, ele diz que aquele
que "não deseja ser ajudado, ou que é literalmente arrastado contra a vontade,
não pode ser ajudado por nenhuma abordagem psicoterápica".
Quando o paciente tem consciência do conflito interior a respeito de mudar
um hábito, uma técnica comum é imediatamente substituir a ação,
pensamento ou sentimento negativo por seu oposto. Como a tensão muscular
crônica é provocada por uma distorção do fluxo de energia sustentada por
hábitos específicos de pensamento, segundo a teoria Huna, uma liberação de
tensão ocorrerá quando os pensamentos indesejáveis forem substituídos por
pensamentos benéficos. Freud às vezes conseguia esse efeito, "apagando" as
lembranças negativas e substituindo-as por positivas. O fator-chave aqui para
os kahunas, porém, é a troca, não a supressão seguida por substituição. Para
algumas pessoas, isso não é fácil porque seus hábitos podem servir a um
propósito desconhecido.
Assim, quando o kahuna sente que é apropriado, pode explorar a memória do
paciente com ele para interpretar por outro prisma ou até modificar eventos
passados. O kahuna pode também ensinar técnicas de relaxamento muscular,
pois, quando os músculos estão relaxados, é fisicamente impossível surgirem
emoções negativas ou ocorrerem ações indesejáveis. Os pensamentos
negativos ainda podem ocorrer, mas, com os músculos relaxados, a reação
habitual a eles é desligada e o subconsciente (ku) é mais receptivo à
instalação de um novo padrão de hábito. É exatamente isso que acontece na
hipnoterapia.
A principal ferramenta usada para alterar um modo de pensamento negativo é
a imaginação voluntária, ou laulele. Como você deve lembrar-se, essa é a
imaginação em que o conteúdo é conscientemente escolhido pelo indivíduo.
Seria mais correto dizer o conteúdo vital, pois quase todo tipo de imaginação
inclui pelos menos alguns elementos espontâneos (makaku). A imaginação
deliberada (laulele) atua como um padrão para canalizar os pensamentos,
emoções e ações em novas direções. Uma vez que esse padrão imaginativo
esteja estabelecido como um novo hábito, ele se toma makaku ou espontâneo.
Isso, porém, envolve o passo seguinte.
Direcionar Energia ( Manawa) 35 Kroger, Hypnosis and Behavior
Modification.
Essa palavra tem os significados de canalizar e direcionar mana contínua e
persistentemente. Envolve o real estabelecimento e a manutenção de novos
hábitos de pensamento e comportamento, o que só se consegue com prática e
mais prática. Manawa inclui também o uso de qualquer coisa que reforce os
novos hábitos que você está tentando estabelecer, tais como livros, palestras,
imagens e objetos simbólicos, rituais, ambientes físicos, associação com
pessoas que possuem qualidades desejáveis, etc. Mais do que qualquer outra
coisa, porém, envolve ação e emoção, o que significa a participação do
subconsciente (ku). A lógica kahuna é que as ideias não se tornam
materialmente efetivas a menos que façam parte da mente ku. O
conhecimento que permanece intelectual nada mais é que uma opinião, e
como tal tem pouco efeito no mundo ou no indivíduo. Por isso, outra palavra
em Huna para iluminação é na 'auao, cuja melhor tradução seria
"conhecimento instintivo".
Falha no Tratamento Apesar do hábil tratamento e das melhores intenções,
muitas tentativas de cura falham ou são apenas temporárias. Embora os
kahunas saibam que o tratamento mal aplicado pode ser um fator, eles não
concordariam com a afirmação de Kroger de que "se um procedimento
terapêutico deixa de produzir uma mudança no paciente, a falha está na
técnica experimental, e não no paciente".36 A falha não é a questão, e o
sucesso da terapia depende muito da habilidade, do conhecimento e da
flexibilidade dos curandeiros. Mas, para os kahunas, a única razão subjacente
a todas as outras na falha do tratamento é que não houve uma mudança nos
hábitos de pensamento por parte do paciente. Isso é visto não como uma
falha, mas como um fato. Métodos melhores podem ajudar ou não, mas nada
acontecerá, independentemente do método, se o modo de pensar do paciente
não for mudado. Os kahunas mencionam vários motivos pelos quais o
paciente pode não estar disposto a fazer a mudança.
O primeiro motivo pode ser chamado de "resistência custo-benefício". Isso
ocorre quando o paciente afirma ter um desejo de ser curado, mas está
recebendo benefícios psicológicos, emocionais ou físicos da condição
existente, que superam, na visão dele, os benefícios de uma possível cura. Em
outras palavras, o custo da cura incluirá abandonar os atuais benefícios da
condição, e o paciente não está disposto, consciente ou inconscientemente, a
fazer esse sacrifício. Os benefícios atuais podem incluir solidariedade,
atenção, vingança, desejo de controle, segurança financeira (no caso de quem
recebe pensão por incapacidade), segurança emocional (deverá lidar com
responsabilidades indesejáveis se for curado), sofrimento (a pessoa que
acredita que deve ser punida), e a segurança da familiaridade com o atual
estado. Quando essa espécie de resistência é encontrada, só será obtido um
alívio temporário, quando existir, seja qual for o método de tratamento usado.
Caberia, então, ao terapeuta ou curandeiro convencer o paciente de que ele
teria mais benefícios com a mudança do que persistir no presente estado,
embora em alguns casos seja o subconsciente (ku) do paciente que precisa ser
convencido.
O outro motivo é a falta de confiança no curandeiro ou no método de
tratamento usado. O ceticismo de uma mente aberta não costuma ser
problema, desde que o curandeiro tenha fé em si mesmo e no que está
fazendo. Mas medo e desconfiança por parte do paciente, se persistidos,
resultarão no máximo em um efeito temporário. A habilidade do terapeuta ou
curandeiro é sem dúvida um fator importante nesse tipo de falha no
tratamento, mas os kahunas insistem que não é o fator determinante, pois a
fonte do medo e da desconfiança do paciente pode não ter nada a ver com a
capacidade do terapeuta.
O motivo marcante para a falha no tratamento é a falta de atenção aos
aspectos das atitudes da condição. Quando só os sintomas são tratados e não
há mudança correspondente nas atitudes do paciente, o alívio é sempre
temporário. O que confunde os médicos ocidentais, dizem os kahunas, é que
o paciente pode expressar as mesmas crenças negativas através de diferentes
sintomas. Os médicos tratam os sintomas como entidades diferentes,
enquanto a causa subjacente é a mesma. Os chamados "curandeiros de fé"
enfrentam o mesmo problema. A verdadeira cura pela fé é uma cura de
crenças; e, quando isso acontece, a cura é permanente. A maior parte das
coisas feitas em nome da fé, porém, não passa de manipulação de energia.
Quando a energia é suficientemente intensa, como num encontro da
renovação carismática, resultados espetaculares podem ser obtidos.
Entretanto, horas, dias ou semanas depois, se o pensamento da pessoa
envolvida não mudou permanentemente, a energia se dissipa e o velho
sintoma retorna. Também sob essa categoria de falta de atenção às atitudes
causativas está o fato de não se levar em conta o lar ou o ambiente de
trabalho do paciente, particularmente as pessoas ali presentes. Como os
sintomas são expressões de atitudes, alguns são os resultados de atitudes em
relação a outras pessoas; e na presença delas os sintomas podem ser
agravados. Por isso, uma pessoa pode ser "curada" num hospital, e adoecer
novamente quando chega em casa. Sempre que possível, os kahunas incluem
a família, os amigos e os inimigos no tratamento, mesmo que só na
imaginação.
Finalmente, quando o Eu Superior do indivíduo toma a decisão de que o eu
físico deve morrer, nada mais pode ser feito, exceto talvez aliviar os
sintomas. Entretanto, ninguém mais pode saber se essa decisão foi tomada
irrevogavelmente; portanto, os kahunas acham relevante continuar o
tratamento enquanto o paciente estiver disposto e for capaz de recebê-lo. Eles
não acreditam na ideia de "interferência cármica". Alguns curandeiros se
preocupam por estar interferindo no carma da pessoa, ou seu destino
preestabelecido, se insistirem na cura, e costumam achar que essa é a causa
da dificuldade na cura. Os kahunas consideram a dificuldade um desafio. A
palavra deles para destino é hopena, que significa "o resultado do que
aconteceu antes". Para eles, isso significa você criar a sua realidade. Se você
é um curandeiro e há uma pessoa na sua vida que precisa de cura, então você
faz parte do destino dessa pessoa, e ela do seu. Como o destino não é
preestabelecido, de acordo com os kahunas, você não pode interferir nele no
sentido de obstruí-lo, mas pode mudá-lo desde que todas as partes envolvidas
concordem, até certo ponto, com a mudança.
Cura Divina
Até agora o elemento mais importante na cura kahuna não foi mencionado. É
o eu-deus, aumakua, ou, em termos simples, Deus. Toda cura, na visão
kahuna, na verdade nada mais é do que o resultado de uma comunhão natural
com o eu-deus, ou permitir que sua fonte de energia flua livremente ao longo
do padrão original no corpo etéreo ( aka).
Doença e distorção de qualquer espécie resultam da interferência nesse fluxo.
A cura mais direta do corpo, da mente e das circunstâncias vem quando você
envolve o eu-deus em sua vida diária e nos pensamentos, de maneira que
inspire amor e confiança. A prática de amor ( aloha) que inclui a experiência
de partilhar alegria, é o modo de tomar essa união materialmente efetiva. A
alegria gera vida e é expansiva, e, quando faz parte de sua vida,
automaticamente libera a tensão e age como um convite para que o Eu
Superior se torne um parceiro total na manifestação de saúde, felicidade e
realização. Como ensinam os kahunas, a cooperação jovial com o "deus-em-
tudo" é o melhor remédio para todos os males, a melhor solução de todos os
problemas, o melhor meio de alcançar a realização pessoal. Fazer isso,
porém, requer um comprometimento de se lembrar constantemente da
presença de Deus em todas as pessoas, lugares, coisas e situações. Essa
prática me trouxe mais alegria, felicidade, saúde e sucesso do que qualquer
outra coisa que eu tenha feito. Como se faz isso; essa cooperação com o deus-
em-tudo? Bem, pessoalmente experimentei muitos métodos e o melhor para
mim veio de um livro de ficção científica de Robert Heinlein, intitulado
Stranger In a Strange Land (Estranho numa Terra Estranha) que, aliás,
contém um antigo ritual kahuna de partilha da água. No livro, há uma frase
simples usada pelo herói: "Tu és Deus". Diga isso mentalmente a todas as
coisas, incluindo a si próprio, do momento em que você acorda até a hora de
dormir; acredite nisso e sua vida será renovada.
Encerramento
( Panina) Algumas pessoas perguntam como eu justifico revelar desse modo
o conhecimento kahuna. Elas estão acostumadas com outros grupos que
guardam seus segredos como pedras preciosas, os quais seriam deflagrados se
outra pessoa olhasse para eles, ou por medo de que outros descubram que não
possuem pedras preciosas. Eu não preciso de justificativa porque não temos
segredos. Huna é o segredo a ser revelado; os kahunas são seus guardiões,
não seus carcereiros. Comunico o grito dos oráculos do antigo Havaí que
soava desde os templos: Que o desconhecido se torne conhecido!
Epílogo
A seguir, apresento o relato de uma experiência que tive e que, agora, parece
ter acontecido com outra pessoa. Escrevi logo após o ocorrido; e agora,
olhando para o passado depois de vários anos, quase me envergonho pelo
fervor e pela improbabilidade da experiência, e pelo fato de não ter cumprido
devidamente a tarefa que me foi designada. Mas, de fato, ela ocorreu e ainda
estou tentando fazer minha parte, e o nome Kaula hoje evoca um tipo de "eu
futuro" que me ajuda a ajudar os outros. Foi uma experiência mística em
ambiente físico, do tipo que não deixa de mudar a vida de uma pessoa.
"No fim de semana do Dia do Trabalho, em 1975, estava acampando com
minha família e vários amigos num lugar chamado Happy Gulch (Vale
Feliz), no sopé de Mt. Able, na floresta nacional de Los Padres. Durante a
noite de 30 de agosto,37 estávamos apreciando o brilho das estrelas e o
número de meteoros que cortavam o céu. O frio, porém, logo nos obrigou a
refugiar-nos no conforto dos sacos de dormir.
No meio da noite, fui despertado por uma voz interior. Olhei meu relógio e vi
que eram 2 horas da manhã. A voz insistia para que eu me vestisse e saísse, o
que fiz sem hesitação. A noite estava clara e mais quente do que antes,
quando fomos dormir. As estrelas pareciam mais brilhantes e a lua ainda não
tinha aparecido. O ar trepidava com aquele peculiar movimento de onda que
indica um intenso campo de mana, e notei um zumbido profundo que vibrava
em tudo. Não era um som mecânico, mas parecia uma pulsação viva. A voz
interior me impelia a tomar a trilha até o monte, o que eu fiz prontamente,
passando por meus companheiros, ainda adormecidos. Depois fiquei sabendo
que eles também ouviram o zumbido, sentiram uma força no ar e também
tinham sido chamados por uma voz interior. Mas, não estando familiarizados
com a área, eles acharam melhor permanecer no acampamento.
Andei bastante, ciente apenas do zumbido e do mana, até minha voz interior
me mandar parar e sentar num ponto que tinha uma vista do vale, a oeste.
Sentei-me e olhei para as estrelas; elas estavam movendo-se em grandes
círculos irregulares, por todo o céu.
Pisquei e balancei a cabeça, achando que era uma ilusão de ótica, mas por
mais que olhasse, elas continuavam movendo-se. De repente, o zumbido
aumentou, senti um formigamento por todo o corpo, e um arco-íris cintilante
apareceu à minha frente, pairando no ar, além da beira do penhasco. No
mesmo instante, comecei a ouvir o murmúrio de milhões de vozes à minha
volta e até dentro de mim, das estrelas, do ar, das plantas, da terra, das
células, moléculas e átomos. Aos poucos, pude perceber que aquela miríade
de sons falava como Um, em uníssono. E estavam falando comigo,
chamando- me por meu nome iniciatório.
'Kaula, Kaula, saiba que EU SOU, sempre, em todo lugar, tudo. EU SOU
Aquele Sem Nome de muitos nomes, Aquele Sem Som de muitas vozes.
Kaula, seja meu profeta, meu guerreiro de Luz, meu emissário, meu Filho do
Arco-íris. Reúna meus filhos e ajude-os a experimentar Minha Presença.
Ensine Amor, Kaula, pois o Amor é a chave de tudo. O Amor é o Caminho; o
Amor é o Segredo. Ensine Amor, Kaula, e Ame-Me.'
Incapaz de falar, enviei um sentimento de amor a todo o universo e fui
instantaneamente inundado com um fluxo de retorno tão grande que entrei
num estado sem tempo e espaço de pura bem- aventurança, no qual todo
pensamento consciente desaparecera. Eu era eu mesmo, e no entanto era
TUDO. Era uma folha de grama, vibrando com uma tremenda força interior,
enquanto me esfregava lenta e inexoravelmente contra uma rocha milhares de
vezes mais pesada e mais dura que eu. Eu era a rocha, encerrada num
estranho ciclo de vida cristalina afinado ao tempo galáctico. Era um pássaro,
bem aquecido e aconchegado em minhas penas, dormindo e tendo meus
sonhos impartilháveis.
E uma árvore, um coiote, uma formiga, uma casa, um cometa, uma nuvem, o
universo inteiro, uma coisa de cada vez e tudo ao mesmo tempo. E eu era eu.
N. do T.: nos EUA, o Dia do Trabalho é na l1 segunda-feira de setembro.
Em determinado momento, fui trazido de volta à percepção física do (aqui-e-
agora), ainda tremendo de êxtase. O arco-íris tinha desaparecido e as vozes se
calaram, mas sentados à minha volta estavam todos os professores que me
ajudaram nesta vida. Meu pai terrestre estava lá, usando a vestimenta do
Círculo de Prata. Também estava Wana Kahili, que me iniciou como kahuna;
M'Bala, o fetichista do oeste da África; Sufi Joe, o persa; Gordo, o bruxo; Fa
Hsien, o lama chinês; Ra Ptah, Manea, Lucius, Rufus, Jarod, Naran e outros.
Eram todos tão reais quanto o solo onde eu estava sentado, e queria muito
cumprimentar a todos com um abraço, mas senti que a ocasião era solene
demais para aquilo. No entanto, sentia o caloroso cumprimento de seus
pensamentos. Depois da.alguns momentos, um aguçado sentimento de
expectativa se tornou evidente. Então, Wana Kahili e meu pai, que estavam
sentados diretamente à minha frente, separaram-se e uma figura vestida de
branco e com um capuz subitamente apareceu no meio dos dois. Seguiu-se
um período de intenso silêncio, até que a figura de branco jogou o capuz para
trás e revelou uma face de tal beleza que eu mal podia desviar os olhos dela,
mas senti-me impelido a fazer isso. A cada instante, o rosto mudava de
forma, nacionalidade e sexo, mantendo seu brilho interior durante todo o
processo. Conforme a face mudava, eu recebia uma imagem interior de
associação. Ele era um artista de Mu, um cientista atlante, um explorador
lumaniano. Era Gautama, o Buda, Moisés sobre a montanha, Jesus de Nazaré
e o profeta Maomé. Ele era Pele, Kuan Yin e Maria, Viracocha, Quetzalcoatl
e Kanaloa. Era o Cristo manifesto, o Iluminado, o Professor de Luz.
Algum tempo se passou, e então ele e todos os meus professores falaram
numa única voz, telepaticamente, em contato direto com minha mente.
Primeiro, lembraram-me do plano formado eras terrestres atrás, quando eu
tinha concordado em exercer uma função, junto a centenas de outros. Depois,
recordaram minha vida atual da infância em diante, incluindo meus erros e
desvios do caminho, bem como minhas iniciações e sucessos. Eles apontaram
para as fraquezas que permaneciam e as forças negligenciadas e me
aconselha-ram quanto às medidas corretivas para que eu fosse capaz de
cumprir minha missão.
Finalmente, eles confirmaram o que eu tinha lido nas placas no Havaí e
explicaram a relação com minha missão. Quando a preleção acabou, o Cristo
se adiantou em minha direção, estendendo as mãos sobre minha cabeça.
Imediatamente senti seu poder fluindo até mim e me enchendo de Luz,
enquanto ele falava estas palavras: Kaula, que tu sejas ungido com o poder do
Espírito Santo como um de meus sacerdotes e profetas na Nova Era. Vai e
ensina e escreve sobre a presença de Deus, do significado e do caminho do
Amor, do vasto poder e do potencial da mente humana. Vai e cura os doentes
de corpo, coração e mente, e ensina-lhes também como curar a si próprios e
aos outros. Aconselha, instrui e abre as mentes de todos os que te
procurarem, usando esse conhecimento da mente, matéria e energia que te foi
passado, e profetiza, sendo guiado pela luz interior. Estabelece templos de
sabedoria na região onde esse conhecimento possa ser ensinado e praticado, e
cria também comunidades onde o amor e a liberdade prevaleçam. Ajunta ao
teu redor fervorosos discípulos para que sejam treinados e ordenados para
também fazer essas coisas. Usa os meios do mundo para obter tais fins. Tu
sempre serás guiado pela luz interior. O teu é o caminho de Huna, a ciência
do Amor, o caminho da Harmonia sobre a Terra e com a Terra, o
conhecimento universal. Tu e aqueles por ti guiados sereis chamados Filhos
do Arco-íris, como nos dias de outrora. O arco-íris, a estrela de sete pontas e
a cruz da vida serão os símbolos de vosso caminho.
Inumeráveis são os caminhos até Deus, portanto fica em paz com os
caminhos dos outros, pois eles, mesmo sem saber, estão seguindo Huna, se o
caminho escolhido for certo. Como uma última palavra, começa a preparar
teu povo para o tempo da Grande Emigração, pois certamente a humanidade
já escolheu como seu destino um retorno às estrelas.
Agora de ti despedimos, embora permaneçamos em contato através do
Espírito. Não digas a ninguém o que viste ou ouviste até receberes um sinal.
Então, tomarás conhecida esta experiência, começarás a escrever o
conhecimento das placas e iniciarás a grande obra. E lembra-te sempre: o
Amor é a chave.
Com isso, a face do Cristo ficou mais reluzente e se estabilizou nos traços
sorridentes de um grande ser, oriundo de um lugar distante, e o qual eu já vira
em visões anteriores.
Então, ele tocou-me no alto da cabeça com o dedo e eu fiquei inconsciente.
Quando acordei, estava sozinho em meio ao silêncio. E um novo dia
amanhecia, enquanto eu voltava ao acampamento.
APÊNDICE
O Código Kahuna Uma ocorrência relativamente frequente entre alguns seres
humanos é tentar esconder o que sabem dos outros, e o modo mais comum de
fazer isso em toda a história da humanidade é usar um tipo de código secreto
para a comunicação. Isso obviamente tem vantagens práticas na política, nas
guerras e nos tempos de perseguição religiosa.
Leonardo da Vinci aprendeu sozinho a escrever de cima para baixo e de trás
para a frente, de modo que ninguém conseguisse ler suas notas, a menos que
conhecessem o truque do espelho. As vezes, é usada também uma língua rara.
Não é incomum entre os sacerdócios o uso de alguma língua especial antiga
só conhecida pelos iniciados; e, durante a Segunda Guerra Mundial, os
Estados Unidos usaram com sucesso comunicadores em navajo para
confundir os inimigos. As linguagens inventadas de brincadeira, como a
língua do "P" ou coisa parecida também servem ao mesmo propósito. No
antigo Havaí, os chefes tinham construído línguas secretas artificiais,
conhecidas genericamente como kake, para poder conversar entre os cidadãos
comuns sem ser compreendidos.
Entretanto, aquilo que conhecemos como "código kahuna" não se encaixa
nessa mesma categoria. O propósito do código não era manter certas coisas
em segredo, mas tornar o conhecimento acessível. Eu tenho uma teoria,
exposta em outras fontes, de que a língua polinésia foi artificialmente
construída mais ou menos da mesma maneira que o esperanto, porém com
maior sucesso. De qualquer forma, os kahunas transmitiam seu conhecimento
através dos significados das raízes em sua língua, usando regras especiais
para estender esses significados. Com essa técnica, grande quantidade de
informações podia ser transmitida por uma única palavra, quando
devidamente separada. Enquanto a língua continuasse existindo, o
conhecimento continuaria disponível para qualquer pessoa que entendesse a
técnica. Evidentemente, se a técnica fosse esquecida, então a informação
codificada estaria perdida, mesmo que a língua continuasse viva. Parece que
foi isso que aconteceu no Havaí depois da chegada de Paao, no século XIII.
Na verdade, uma tradução do nome desse sacerdote é "uma limitação do
conhecimento".
WK e Long acham que o código kahuna é mais facilmente interpretado a
partir do dialeto havaiano do polinésio; por isso, essa é a base para as
referências neste livro. A fonte usada para os significados de raiz é Hawaiian
Dictionary, de Pukui e Elbert, com elaborações fornecidas por WK e meu
conhecimento da cultura havaiana.
O havaiano é uma língua simples e altamente flexível, baseada num número
relativamente pequeno de sons. Transliterado para o inglês, há apenas sete
consoantes, H, K, L, M, N, P e W (às vezes pronunciado como V), e as cinco
vogais A, E, I, O e U, totalizando doze letras. Há também um sinal de aspa
única (') que substitui um som pesado, usado em outras partes da Polinésia e
que, portanto, pode ser considerado uma letra. Porém, no havaiano moderno,
especialmente usado por não-nativos, esse sinal costuma ser omitido.
Entre alguns havaianos com forte ancestralidade do Taiti, a letra K é, em
alguns casos, substituída por T. Os ocidentais já se familiarizaram com a
planta ti e as bonecas tiki, embora no original havaiano, a pronúncia seria ki e
ki'i, respectivamente. Devemos observar que Melville discorda disso, e
afirma que o T era usado no original havaiano e que, por algum motivo
misterioso, os missionários obrigaram os havaianos a usar K.
Como as nuanças linguísticas não são importantes para este livro, limito-me a
explicar que o som da aspa única entre as sílabas é como da exclamação
típica da língua inglesa "oh-oh", expressando surpresa ou preocupação.
Regras do Código Segundo WK, as regras a seguir são usadas para desvendar
as informações codificadas numa palavra, usando a palavra kahuna como
exemplo.
1. Primeiro, os significados da palavra inteira são explicados.
2. Depois, sempre que possível, a palavra é dividida em palavras separadas,
como ka huna e ka.hu na.
3. Em seguida, são procuradas palavras dentro da palavra, como kahu, ahu,
huna e una.
4. As sílabas individuais também são examinadas: ka, hu e na.
5. As vogais são duplicadas também: ka'a, hu'u e na'a.
6. E as sílabas são duplicadas: kaka, huhu, e nana.
7. Outras extensões de significado podem ser encontradas ao se
acrescentarem várias vogais às sílabas individuais, como em kai, hui e nai.
8. Mais extensões ainda são reveladas quando você trata a palavra como um
anagrama, gerando combinações como haka, aka, hana e kanu.
9. Finalmente, uma decodificação apropriada exige conhecimento de
referências poéticas, lendárias, figurativas e simbólicas, bem como do sentido
do contexto.
Decodificar a informação numa palavra-chave havaiana pode ser considerado
uma arte e uma ciência. Entretanto, os significados, na maioria dos casos,
podem ser determinados por qualquer pessoa com acesso a um bom
dicionário havaiano.
Exemplos
Já que a palavra kahuna foi usada para demonstrar as regras de decodificação,
examinemo-la de acordo com essas regras para descobrirmos o que os
kahunas pensavam da própria profissão.
Kahuna significa "sacerdote, ministro, feiticeiro, especialista em qualquer
profissão; agir como um sacerdote ou especialista".
Ka é uma raiz com muitos significados, embora geralmente seja traduzida
como os artigos "o/a, os/as". Outros significados são "bater, golpear, impelir;
tirar água; limpar (no sentido de tirar ervas daninhas ou lama de uma lagoa,
por exemplo); fazer redes e tricotar; revirar o solo ou virar uma corda (como
na brincadeira de pula-corda); remover (catarata de um olho, por exemplo);
prender (pássaros numa gaiola); amaldiçoar; jogar um cipó ou dardos;
entrada (de uma corrente); fazer alguma coisa acontecer". Aplicada na
palavra kahuna, o significado de bater ou impelir se refere ao uso forçoso da
energia de mana.
Tirar água se refere à habilidade kahuna para reduzir ou puxar a força vital
(mana) de outra pessoa. Esse é um efeito da oração de morte, mas também
pode ser usado como cura, para acalmar um indivíduo altamente emocional.
Extrair ervas daninhas tem a ver com a remoção da barreira da atitude e dar
espaço ao fluxo livre da força vital, já que um dos símbolos dessa força é a
água. Uma rede é o símbolo para um complexo psicológico ou um conjunto
de crenças, não necessariamente negativas. Fazer uma rede ou tricotar,
portanto, refere-se a uma técnica kahuna para construir um novo conjunto de
crenças.
Revirar o solo se refere à função do kahuna como agente de mudança.
Remover (catarata) também tem a ver com a remoção de bloqueios
psicológicos. Um pássaro é frequentemente usado para simbolizar uma ideia
ou uma pessoa. Prender significa capturar ideias ou influenciar fortemente
uma pessoa. A referência à maldição é usada para mostrar que os poderes
kahuna podem ser usados para o bem ou o mal. Uma corrente de entrada
(como da água) se refere à técnica kahuna de aumentar o suprimento
disponível de força vital. Fazer algo acontecer é uma referência direta à
habilidade kahuna em manipular circunstâncias.
Huna significa "partícula diminuta, pequena, miúda; escondido, secreto,
esconder ou disfarçar". Huna é o termo genérico para o conhecimento dos
kahunas. Ka-huna, portanto, pode ser traduzido como "o secreto", ou mais
exatamente "aquilo que está oculto, escondido ou que não é óbvio". O
significado de "partícula diminuta" revela que huna é uma coisa difícil de ver
ou reconhecer, não necessariamente escondida de propósito. Há outras
palavras com esse significado.
Kahu significa "mestre, atendente honorável, guardião, enfermeiro,
mantenedor, administrador, pastor; cuidar ou cozinhar num forno; queimar
(como lima num fogo aceso); ferver com raiva". Essa palavra demonstra a
função do kahuna como mestre e guardião do conhecimento oculto ( kahu-
huna) e também alguém que se importa com os outros. A ideia de ferver com
raiva e queimar (como lima) refere-se ao uso kahuna de uma energia
emocional intensificada (mana) para cura e outras obras, já que o fogo é outro
símbolo para mana. O conceito de um kahuna como cozinheiro será abordado
no parágrafo seguinte.
Ahu significa "uma pilha ou coleção; um altar ou santuário; um forno; um
capa curta ou manto". Aqui é necessário uma certa extensão do conhecimento
para compreender o pleno sentido dessa palavra e a referência anterior a
cozinhar. Com relação a cozinhar num forno, há referência implícita a
comida particularmente de origem vegetal, pois a carne é cozida sobre um
fogo aberto. A palavra para comida vegetal é 'ai, com os significados
adicionais de "comer; e exercer e desfrutar os privilégios e responsabilidades
do poder ou de governar". Para a mente havaiana,,o cozinheiro (kahu) que
usa fogo
(mana) num forno (ahu) para preparar (kahu) comida ('ai) é uma
representação direta do guardião ou do mestre (kahu) que usa a força vital
(mana) num altar (ahu) para acumular ou coletar (ahu) poder ou autoridade (
'ai) — em outras palavras, um kahuna. A capa curta ou manto usado pelos
chefes e kahunas do antigo Havaí era um símbolo de sua autoridade e poder.
Una significa "enviar ou transmitir, comandar, pôr em ação; enviar espíritos
para cumprir uma tarefa; fatigado, cansado; esquadrinhar; insistir, perturbar,
incomodar". Aqui a referência é à prática kahuna de influência telepática,
curando ou até fazendo mal. A fadiga ou cansaço, ou seja, uma perda de força
vital, era sintoma da ação da oração de morte.
Hu como palavra significa "subir ou inchar (como o fermento); fermentar,
transbordar, percolar, efervescer, ferver, vir à tona (como a emoção); rosnar,
grunhido, zumbido; um pião; desviar do curso certo, errar o caminho; unir ou
juntar-se a". As referências a transbordar e a subir à tona têm a ver com o uso
consciente da energia emocional para realizar determinadas práticas kahunas.
Rosnar, grunhir e zumbir referem-se ao uso do som, gerando tal energia, e o
pião simboliza a energia em movimento. Desviar do curso certo mostra
novamente que a energia pode ser mal usada. A ideia de unir-se e juntar-se
nesse contexto se refere ao uso da energia para fazer contato com o objetivo
de uma prática específica, e também a uma espécie de integração psicológica.
Na significa "calmo, tranquilo, em paz, saciado, aliviado, assentado ou
resolvido; gemer, soluçar ou chorar". Essa é uma referência à habilidade
kahuna de curar e resolver problemas. Os gemidos, etc. se referem à função
do som em aliviar o estresse e atingir um estado de calma.
Kaka repete alguns dos significados de ka, como bater e golpear, e tem a
conotação adicional de "pescar com uma rede". O peixe e a água eram
símbolos para lembranças no subconsciente (é peixe; lembrança é hali'a, que
significa essencialmente "carregar um peixe"). Pescar com rede, portanto, é
uma referência a uma prática kahuna um pouco semelhante à psicanálise.
Huhu significa "acalentar; apodrecer; zangado, ofendido; repreender ou ficar
bravo".
Em havaiano, uma sílaba costuma ser duplicada para mostrar intensificação.
Nesse caso, a referência é à emoção intensa, que pode ser positiva ou
negativa.
Nana significa "trançar, tecer ou tricotar; plácido, calmo; profetizar; vir à
vida ou ser posto em atividade, mostrar vivacidade, animação, ânimo de vida;
espalhar; rosnado, suportar, sexualmente excitado, agressivo; olhar para,
observar, prestar atenção a, cuidar de; tranquilizar ou aquietar". O ato de
tricotar, etc., repete um significado de ka, e as referências à placidez e calma
se relacionam a na. Frequentemente acontece que as palavras-código incluem
significados opostos, o que serve para demonstrar a filosofia kahuna da
relatividade da vida, semelhante ao conceito yin/yang dos chineses. Portanto,
nesse caso temos uma palavra que significa calma, mas também atividade e
agressão. A agressão deve ser interpretada num sentido positivo de
movimento ou comunicação.
Provavelmente assertividade seria um termo melhor. Prestar atenção e
observar são significados relacionados à necessidade de um kahuna alcançar
um alto estado de percepção para realizar práticas como a profecia, por
exemplo.
Ka'a significa "rolar, torcer, trançar, girar, revolver; alcançar ou estar num
estado de; ter efeito; ausente, passado, revolto, transferido, entregue; pagar,
pago; administrar, ser encarregado de; bem versado, habilitado; conto, lenda;
fio, linha". Vemos aqui algumas repetições dos significados de ka com
extensões interessantes. A referência é novamente à função do kahuna como
um agente de mudança, ajudando as pessoas a superar os efeitos do passado e
aprender a administrar e assumir responsabilidade pela própria vida, o que
requer habilidade. Contos e lendas se referem à informação contida em
eventos passados e também ao uso kahuna de histórias instrutivas, e o fio se
refere ao elo entre passado e presente e o uso da telepatia.
Hu'u não é usado como uma palavra em havaiano.
Na'a duplica os significados de na.
Kai tem vários dos mesmos significados de ka, e também significa "liderar,
direcionar, ou fazer algo deliberadamente; treinar (como que para uma
corrida)". A referência é clara, especialmente a ideia da necessidade de
prática e aplicação consciente.
Kae tem significados opostos, referindo-se a emoções e ações negativas e
positivas. Kao significa bater e golpear, mas também faz referências à
necessidade de autodisciplina e aos perigos do uso de poder excessivo. Kau é
uma palavra com muitos sentidos, dentre os quais o mais importante tem a
ver com a habilidade para realizar coisas dentro de um contexto de tempo e o
uso da razão. Também duplica os significados de várias raízes anteriores.
Hua significa "fruta, semente, prole, resultado, efeito; falar; e emoção". Aqui,
a palavra se refere aos efeitos produzidos por palavras e pela energia
emocional, e tem outro significado de "persistência", mostrando que a prática
e a repetição são importantes.
Hue significa '"um recipiente para água (referindo-se ao kahuna como um
receptáculo para mana)-, mover-se rapidamente (em referência à ação de
mana); remover, expor, abrir, empurrar, apalpar, forçar, lavar (tudo em
referência à remoção de complexos com o uso de mana)". Os principais
significados de hui têm a ver com unir e formar uma organização, uma
referência às ordens kahuna. Huo não tem significado algum.
Nai significa "conquistar, e lutar para obter, esforçar-se para examinar ou
compreender", objetivos e qualidades do kahuna. Nae significa "respiração
apertada"
(falta de mana); fragrante ou de doce odor (uma referência simbólica ao
perigo de se tornar viciado naquilo que se faz); e dividir em partes iguais (um
apelo à abordagem equilibrada)". Nao tem a ver com impelir e apalpar, e um
intenso uso de mana. Nau significa "mastigar (com a mesma conotação de
nosso conhecimento digerível) e prolongar, ou prender a respiração
(referência a uma técnica)".
Essas informações são suficientes para mostrar quanto ensinamento pode
emergir de uma única palavra numa sociedade que valoriza muito as
tradições orais. Da palavra simples kahuna, podemos obter um quadro
relativamente nítido de um psicólogo/metafísico/ curandeiro altamente
habilidoso que usa habilidades psíquicas e força vital para atingir seus fins,
mas que também se deve precaver contra o abuso de seus poderes. Deve ser
mais fácil ver agora como a língua em si pode ser usada como ferramenta de
ensino.
Um dos meios favoritos para os kahunas instruírem seus aprendizes era
apresentar os ensinamentos na forma de uma história ou lenda. Entretanto, o
conhecimento não estava na história em si, que apenas servia como veículo,
mas nos nomes dos personagens principais, nos locais e suas inter-relações. O
que pode parecer um conto absurdamente exagerado aos ouvidos ocidentais
seria, para o kahuna, uma afirmação da filosofia ou a explicação de uma
técnica.
Como exemplo, citarei a lenda de Moikeha, antigo chefe havaiano. E uma
versão condensada da história recontada por Martha Beckwith em Hawaiian
Mythology: "Depois de muitas provações e sofrimentos e longas viagens,
Moikeha chegou à vila do popular chefe Puna, apaixonou-se pela filha dele,
Ho'oipo, ganhou a mão dela num concurso de habilidades, tornou-se o
próximo chefe e foi o pai de doze filhos".
Para efeito de aparências, essa é apenas uma excitante história de aventuras.
No entanto, em código o nome Moikeha descreve aquele que segue o curso
da ação (mo) para dominar (mo'i) o conhecimento (ike) espiritual (ha) e
alcançar grandes alturas (keha), superando os obstáculos (ke) e o sofrimento
(eha). Puna é também uma terma ou fonte de água (mana), e o lar de uma
pessoa, e contém significados relativos à união com o eu superior do
indivíduo. Ho'oipo, o nome da filha do chefe, significa "fazer amor ou
cortejar", e contém os significados ocultos de alcançar ou se unir à verdade
no reino dos deuses.
Doze é um número significativo no conhecimento kahuna, e os doze filhos
representam os frutos do esforço bem-sucedido. Por trás do conto de
aventuras, encontra-se a história de uma jornada espiritual.
Bibliografia Comentada sobre Huna e os Kahunas
Esta bibliografia não pretende ser uma lista detalhada de todos os livros sobre
Huna e kahunas já publicados. Selecionei livros que considero importantes
para este estudo, que me permitem expandir e esclarecer numerosos conceitos
kahunas, que são simplesmente raros ou interessantes; e que merecem ser
comentados. Citarei aqui apenas a edição que tenho em minha biblioteca.
The Secret Science Behind Miracles, de Max Freedom Long. Los Angeles:
DeVorss & Co., 1954. Max Freedom foi um estudioso de filosofia e
psicologia, com conhecimentos também em teosofia, e que passou 14 anos
(1917-1931) nas ilhas do Havaí, como professor e comerciante. Pouco depois
de sua chegada, ele passou a se interessar pelas práticas dos kahunas, e, com
a ajuda do ex-curador do Museu Bishop, William Brigham, iniciou os estudos
que durariam a vida toda, tentando descobrir os segredos do conhecimento
deles. Nunca conseguiu obter nenhum diretamente de um kahuna, pois a
prática desses conhecimentos estava proibida na época de sua estada nas ilhas
e, quando ele retornou ao continente algum tempo depois, percebeu que a
descoberta dos segredos kahunas era uma causa sem esperança. Entretanto,
sua mente continuou trabalhando na questão, e em 1935 ele teve uma súbita
inspiração de examinar as palavras raízes da língua havaiana em busca de
pistas para esse conhecimento.
Durante um período de 36 anos, ele realizou tremendo trabalho de
codificação da língua, realizando experimentos para testar o conhecimento
obtido, e detectando o conhecimento codificado em várias culturas e religiões
no mundo todo. Publicou seis livros, um número de panfletos e fitas, muitos
volumes de um boletim, todos a respeito do estudo de Huna. Hoje em dia,
suas obras ainda são a principal fonte de conhecimento do sistema kahuna, e
ele costuma ser citado com frequência em livros de parapsicologia, hipnose e
áreas relacionadas.
Do ponto de vista de WK, porém, embora o que conseguiu seja notável, Long
cometeu vários erros que levaram à compreensão distorcida de certos ponto
de Huna.
Bem no início de The Secret Science, Long fez uma suposição sobre a
natureza psico-espiritual do homem, a qual, posteriormente, tratou como fato,
chegando a atribuí-la a um ensinamento dos kahunas, o que não era verdade.
Ao investigar a crença comum no Havaí de que um homem tem duas almas
(um conceito Huna mal compreendido na mentalidade popular havaiana), ele
identificou corretamente duas palavras descritivas para esses aspectos do
homem — uhane e unihipili. Acertou também ao associar a primeira alma
com o que podia ser chamado de "consciente" e a segunda como o
"inconsciente". Infelizmente, prosseguiu depois com sua suposição errônea
(na página 19):
"A raiz em uhane significa falar; por isso, o espírito cujo nome vem dessa
raiz pode falar. Como só os seres humanos falam, o espírito deve ser humano.
Isso levanta a questão da natureza do outro espírito. Ele é capaz de sofrer, e
os animais também são. Pode não ser um homem que fala, mas pelo menos é
um espírito do tipo animal, que sofre".
Baseando-se somente nessa ideia, depois ele afirmou abertamente na página
100 que "se os kahunas estão certos em afirmar que temos em nós um espírito
inferior, menos desenvolvido, que vem do reino animal..." Tanto WK quanto
Leinani Melville corroboram a existência de informação codificada na língua
havaiana e sua importância para a compreensão do sistema Huna, mas em
nenhuma parte dos ensinamentos kahuna há indicação de que o espírito ou
aspecto subconsciente é considerado menos evoluído, nem que tenha
"ascendido gradualmente" (termo de Long) à forma humana após ter sido um
animal. Tampouco Long, em seus textos, tentou mostrar que o código diz
isso. Ele começou com um palpite que, por algum motivo, interpretou como
algo aprendido através do código, e depois passou a tratá-lo como fato
comprovado.
O segundo erro de Long foi quanto ao fenômeno da possessão.
Provavelmente por causa de sua extensa leitura esotérica, Long tinha grande
familiaridade com a ideia de que os espíritos dos mortos podem "invadir"
uma pessoa viva e "tomar" sua vida. De fato, essa crença é comum em muitas
culturas no mundo, e também era popular na religião havaiana externa. Com
o apoio desta última, Long concluiu que esse era um ensinamento kahuna, e
fez uma investigação apenas superficial das várias palavras para possessão e
espíritos obsessores na língua havaiana. Porém, o código kahuna é muito
evidente em sua revelação de que a possessão não envolve entidades
externas. Num livreto Huna intitulado "Spirits & Possession", eu mostrei que
a possessão é um processo pelo qual partes ocultas do eu são expressadas
como personalidades separadas, que podem ser benignas ou malévolas, e que
em nenhuma parte do código há a menor justificativa para a ideia de que uma
pessoa possa ser dominada por algo de fora. Nesse caso, o ensinamento
kahuna é muito próximo ao conceito da maioria dos psicólogos.
O terceiro erro tem a ver com a função dos chamados espíritos nos
fenômenos parapsicológicos. Em seus dois primeiros livros, Long deu muita
ênfase a essa questão, embora ao mesmo tempo concordasse que a maioria
dos fenômenos poderia ser produzida sem tais espíritos. No entanto,
provavelmente estava muito influenciado por suas leituras e relatos contados
por terceiros no Havaí para abandonar de vez a ideia de espíritos. WK diz —
e o código mostra — que qualquer coisa parecida com um espírito na
atividade parapsicológica é de fato uma "forma-pensamento", uma
condensação de matéria etérea gerada pelo uso voluntário ou involuntário de
mana e também pelo uso intenso de imagens. Isso, óbvio, transcende o que a
maioria dos modernos psicólogos aceitaria, mas é um ensinamento kahuna.
Por questão de justiça, devemos reconhecer que Long teve de lidar com
muitas limitações. Sua formação religiosa e esotérica; sua falta de acesso a
um professor kahuna e sua confiança em versões não-kahunas de práticas
kahunas; e o dicionário que ele usava, são vários exemplos dessas limitações.
O dicionário adotado por Long para o trabalho de decodificação, por
exemplo, era a obra de 1865 de Lorrin Andrews (15 mil palavras) que,
segundo Pukui e Elbert, continha muitos erros de ortografia e frases
truncadas. O estudante moderno tem a vantagem de usar a edição altamente
pesquisada de 1971 do Hawaiian Dictionary, de Mary Pukui e Samuel Elbert,
com 26 mil verbetes.
Huna: The Ancient Religion of Positive Thinking, de William R. Glover.
Sunset Beach, Cal.: publicação independente, sem data. Um livro pequeno e
excelente sobre a versão de Huna de Max Long, e muito bem organizado.
Quando eu digo "versão de Long", refiro- me a numerosas ideias sobre Huna
por parte de Long, que não fizeram parte de meu treinamento e/ou para as
quais não encontro justificativa na linguagem do código kahuna.
Entre elas, a ideia de que temos três eus separados evoluindo desde a
condição de animais; que os kahunas acreditavam em três "graus" de mana-,
e algumas ideias históricas sobre os kahunas. De modo geral, essas são
diferenças de opinião, e são relativamente pouco importantes, comparadas à
essência da filosofia Huna, ou seja, que temos o poder de alterar nossa
experiência. Glover enfatiza esse aspecto e devota a maior parte de seu livro à
"oração efetiva", num formato positivo e bem escrito que eu recomendaria a
qualquer pessoa. O uso da lógica para fazer o subconsciente mudar crenças
habituais é particularmente bem apresentado e é uma das técnicas mais úteis
que já encontrei. (Nota: Glover comete um erro de ortografia na palavra
havaiana para estrangeiro ou brancos, escrevendo ha-oli ou holi, quando o
termo certo é haole.)
Kahuna La'au Lapa'au, de Jane Gutmanis. Norfolk Island, Austrália: Island
Heritage Ltd. 1977). Embora trate exclusivamente dos médicos herbanários
kahuna do Havaí, esse livro contém riqueza de informações sobre a
abordagem kahuna para a saúde e mostra que mesmo aqueles que se
especializam em ervas podem melhorar a técnica com boa psicologia e
manipulação física, bem como telepatia, clarividência, cores, astrologia e
mana. Embora os psicólogos modernos questionem a validades das últimas,
para o kahuna elas simplesmente fazem parte do repertório do tratamento.
Em seu Prólogo, Gutmanis descreve o tratamento kahuna de uma mulher, por
volta do ano de 1900. O notável no processo é o óbvio entendimento, por
parte do kahuna, da psicogênese da doença; e isso ocorreu apenas cinco anos
depois da publicação Studies on Hysteria, de Freud e Breuer. Também
fascinante é que a mulher foi aconselhada por seu médico não havaiano a
procurar um kahuna, pois ele não fora capaz de tratar suas dores de cabeça e a
garganta inflamada.
O kahuna começou o tratamento de maneira surpreendentemente moderna,
pedindo o "histórico" da paciente; isto é, perguntando-lhe que problemas a
preocupavam.
Imediatamente, ela relatou uma briga feia com o filho, que o fizera sair de
casa. As dores começaram logo depois disso. Quando a história acabou, o
kahuna ordenou que a família ajuntasse determinados itens necessários para o
ritual de cura. Seu diagnóstico era que ela cometera um erro e estava sofrendo
as consequências. As dores eram o resultado de uma culpa extrema, e os
"deuses" teriam de ser invocados para ajudar. Primeiro, ele pediu que a
mulher fizesse uma confissão completa de sua culpa na presença da família.
Em seguida, ele realizou uma purificação da casa, do quintal e de tudo nela
existente para limpar a atmosfera emocional deixada pela briga. Esse
procedimento faz parte da crença kahuna de que as emoções são uma forma
de energia verdadeira que pode afetar o ambiente e as pessoas que entram em
contato com ele. Em seguida, ele preparou a comida e as ervas, explicou sua
simbologia, consagrou-as, e começou a rezar. Como a mulher era cristã,
primeiro ele rezou à Trindade, pedindo ajuda para a cura. Mas como ela era
havaiana, ele rezou também aos antigos deuses havaianos. Dessa forma, ele
incorporou todas as crenças religiosas da mulher, num procedimento
condizente com a ideia de que o tratamento deve sempre ser adaptado às
crenças do paciente e que o resultado é mais importante que o método.
Após as orações, a maior parte da comida foi dada à mulher, e o resto
dividido entre os familiares. Todos os presentes compreenderam isso como
uma forma de comunhão, mas foi um momento agradável e feliz. Até esse
ponto, o tratamento tinha levado oito horas, com a mulher sendo o centro das
atenções. Então, o kahuna lhe disse para ir dormir e que os deuses lhe dariam
um sonho, caso estivessem satisfeitos com suas oferendas. Na manhã
seguinte, ela contou um sonho sobre seu filho, no qual tudo era perdoado
entre os dois. Entretanto, em vez de terminar o tratamento aí, o kahuna
prosseguiu e fez a mulher passar por uma cerimônia de purificação no mar
para "selar" a cura. Parte dessa cerimônia envolvia o visível efeito placebo de
passar uma lei (guirlanda de flores) sobre as áreas afetadas para eliminar os
últimos vestígios da doença. Antes de sair, o kahuna prescreveu que a
paciente consumisse ouriço-do-mar, rico em vitaminas, todos os dias, até
recuperar todo o seu vigor.
A semelhança com a psiquiatria moderna nessa história é tão óbvia que
nenhum outro comentário é necessário. O resto do livro trata basicamente da
prática da medicina com ervas, mas Gutmanis inclui mais alguns relatos de
tratamentos semelhantes a esse.
Huna: A Beginner's Guide, de Enid Hoffman, Gloucester, Mass.:
ParaResearch, 1976.
Um livro com linguagem informal, amigável, baseado nos ensinamentos de
Max Long, mas enfatizando a comunicação e o treinamento com o
subconsciente. É uma ótima introdução a Huna, e contém alguns conselhos
excelentes sobre como usar o pêndulo para a autopercepção e o
autodesenvolvimento. Hoffman observa corretamente que foi Long quem
iniciou o uso do pêndulo em ligação ao conceito Huna de comunicação e
treinamento subconsciente.
Imagineering for Health, de Serge King. Wheaton, Ill.: Theosofical
Publishing House, Quest Books, 1981. Esse livro de minha autoria não
contém uma única palavra havaiana nem qualquer menção aos kahunas, mas
se baseia inteiramente em meu treinamento e estudo kahuna. A primeira parte
trata da natureza das crenças e da mente; a segunda parte relaciona crenças e
doenças a áreas específicas do corpo; e a terceira parte é repleta de técnicas
de cura práticas.
The Kahunas: Versatile Mystics of Old Hawaii, de L. R. McBride. Hilo,
Havaí: Petroglyph Press, 1972. É um excelente livrinho, escrito por um
homem que obviamente tem profundo amor e grande respeito pelas coisas
havaianas. No segundo capítulo, ele fala das lendas sobre os sacerdotes ou
kahunas brancos trazidos de terras estrangeiras, e cita uma fonte histórica que
diz que "dois dos sumos sacerdotes mais proeminentes em todas as ilhas eram
descendentes desses estrangeiros". Há muitas informações sobre vários tipos
de especialistas kahunas, incluindo curandeiros, e um bom capítulo sobre o
poder das palavras. Por todo o livro aparecem muitas palavras e frases
havaianas que seriam do interesse de qualquer pessoa que deseje fazer mais
pesquisas sobre Huna.
Children ofthe Rainbow, de Leinani Melville. Wheaton, 111.: Theosophical
Publishing House, Quest Books, 1969. Melville recebeu de sua avó, na
década de 1930, a tarefa de escrever esse livro sobre a religião, as lendas e os
deuses do Havaí pré-cristão. Ele só terminou o livro, porém, no fim dos anos
de 1960. Diz que foi ajudado por Lahilahi Webb, um ex-guarda de tesouros
havaianos no Museu Bishop em Honolulu, que lhe mostrou como decodificar
a língua havaiana. Também teve ajuda de uma senhora idosa havaiana que
lhe ensinou as verdades espirituais sobre as quais ele escreve. Melville insiste
em usar a pronúncia taitiana para palavras havaianas, dizendo em
determinado ponto que "os missionários, após se estabelecerem, criaram uma
nova língua para os 'pagãos que eles vieram salvar do abismo da escuridão',
usando uma de suas expressões. Eles removeram o R nativo e o substituíram
por um L, mudaram o 7 para K, e substituíram V por W. Isso é um absurdo
linguístico, mas Melville obviamente não via os missionários com bons
olhos. Ele relaciona um número de lendas, como as deve ter ouvido, e se
aventura em algumas traduções altamente criativas dos versos Kumulipo. A
origem dos polinésios é atribuída a Mu, que ele também chama de Ta Rua, e
os ensinamentos kahunas são apresentados em um estilo muito "espiritual".
Cerca de um terço do livro é tomado por antigos símbolos havaianos usados
em tecidos e outras coisas. Os símbolos são válidos, mas a interpretação de
Melville quanto ao significado é passível de questionamento.
The Kahunas: The Black — and White - Magicians of Hawaii, editado por
Sibley S.
Morrill. Boston: Branden Press, 1969. Uma coletânea de dez artigos curtos
sobre os kahunas, de autores do século XIX e XX, esse pequeno livro contém
interessantes materiais históricos e pontos de vista. Em um dos artigos,
Morril diz:
"Realmente, se fizermos uma tentativa razoável de julgar a questão das
evidências oferecidas, a única coisa sensata que podemos fazer é, no mínimo,
realizarmos um estudo sério das afirmações kahunas do Havaí — não com o
propósito de desmenti-las, mas apenas para descobrir quais são os fatos, um
procedimento que deveria ser adotado no exame de qualquer assunto de
interesse e disputa".
J. S. Emerson, cujo preconceito cristão é demonstrado em sua referência às
"inefáveis abominações de hula", mostra, porém, um bom discernimento
quando diz, em relação a uma cerimônia kahuna: "Em suma, o deus não faz o
kahuna, mas o kahuna frequentemente faz o seu deus". Francis J. Green
escreveu sobre o treinamento dos tohungas (kahunas) maoris, e disse que ao
fim de um período de cinco anos, o candidato tinha de passar em quatro
testes, o último dos quais era enfeitiçar um escravo ou nativo e fazê-lo cair
morto.
Como eles não eram renegados, acredito que esse teste tinha a ver com
hipnose e indução à inconsciência com uma grande carga de mana, em vez de
morte.
The Miracle of Mana-Force, de Madeleine C. Morris. West Nyack, N.Y.:
Parker Publishing Co., 1975. Há uma certa classe de livros que eu chamo de
"pop-positivos". Eles têm títulos sugestivos, técnicas com nomes
pseudotecnológicos e prometem riqueza, amor e poder além de nossa
imaginação. As vezes, apesar da "hipérbole", esses livros contêm boas
informações. O livro de Morris é um desses. Os títulos dos capítulos são
suficientes para afastar qualquer estudante sério de Huna (exemplos:
"Campodomia da Força Mana; Apertando o Botão Mágico MFP para
qualquer Quantidade de Dinheiro; Encantamétrica da Força Mana"), e a
"casuística" se torna cansativa. Entretanto, o livro está cheio de técnicas bem
organizadas e trabalháveis para situações muito específicas. Nesse sentido,
ele supre uma necessidade que a maioria dos outros livros não satisfaz.
Infelizmente, Morris afirma que obteve todo esse conhecimento sobre mana,
os três eus e aka diretamente de uma kahuna, quando é gritantemente óbvio, a
julgar pela fraseologia, que ela tirou tudo de Max Long, sem lhe dar os
devidos créditos.
Nana I Ke Kumu, de Mary K. Pukui, E. W. Haertig, e Catherine A. Lee.
Honolulu: Hui Hanai, 1975. Uma obra ímpar, Nana I Ke Kumu foi publicada
pelo Queen Liliuokalani Childrens Center, um centro para o bem-estar da
criança, com o propósito de apresentar e esclarecer conceitos culturais
havaianos e compará-los às modernas noções psiquiátricas e psicológicas.
Como dizem os autores, ele foi escrito basicamente para médicos, psiquiatras,
enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, membros do clero, etc., que
trabalham como os havaianos. Muitos equívocos culturais ocorreram entre os
havaianos necessitados e os não-havaianos envolvidos em profissões de
ajuda, e esses equívocos atrapalharam grandemente a assistência efetiva.
Quanto ao formato, o livro apresenta palavras ou frases havaianas
representando conceitos profundamente arraigados e os explica por meio de
casuística e análise. A maioria das explicações foi obtida por Mary Pukui,
cujos ancestrais havaianos incluem kahunas. Como resultado, foram
incluídos muitos conceitos e práticas kahuna tradicionais, além de referências
a experiências místicas e psíquicas. Nas palavras dos autores:
"Há muitas referências a ocorrências sobrenaturais ou místicas. Embora
sejam dadas interpretações e comparações psiquiátricas, necessárias para o
propósito deste livro, os autores não consideram sua prerrogativa concordar
ou discordar com o caráter sobrenatural dos incidentes. Essas experiências
místicas foram relatadas com a maior fidelidade possível. Sua inclusão neste
volume é essencial. A vida e o pensamento havaianos não podem ser
compreendidos sem que se saiba dessas experiências."
Por todo o livro, os autores explicam repetidamente quantos havaianos
modernos confundiram o conhecimento antigo e não entendem mais as
próprias tradições, conforme eram ensinadas pelos antigos kahunas. Isso
geralmente resulta em desordens psicogenéticas baseadas em crenças
errôneas; desordens de uma natureza com a qual os não-havaianos não
conseguem se identificar. Os autores mencionam ainda que experiências
como ver e falar com visões, que um psiquiatra moderno poderia classificar
de esquizofrenia, não são necessariamente patológicas no contexto havaiano.
Entre as importantes ideias presentes no livro, uma que se destaca nos termos
desta obra é a explicação do conceito ho'oponopono. É uma forma de terapia
em família/grupo praticada desde tempos antigos até os dias atuais,
geralmente conduzida por um kahuna ou membro mais velho da família. A
semelhança com as modernas terapias em grupo é notável. O formato básico,
tirado do livro, é o seguinte: Oração de abertura e orações sempre que
necessário.
Uma afirmação do problema óbvio a ser resolvido ou impedido de piorar.
A "resolução" de cada problema sucessivo que se torna evidente (chamada de
mahiki, "descascar").
Auto-escrutínio e discussão de condutas, atitudes e emoções individuais.
Uma qualidade de verdade e sinceridade absolutas.
Controle de emoções destrutivas, canalizando a discussão através do líder.
Questionamento dos participantes pelo líder.
Confissão honesta aos deuses (ou a Deus) e uns aos outros de erros, raivas e
ressentimentos.
Restituição imediata ou planos para fazer a restituição assim que possível.
Perdão mútuo e liberação de culpas, ressentimentos e tensões ocasionados
pela falha cometida.
Oração de encerramento (ritual).
Depois da resolução de uma disputa, o líder declararia ho'omalu (paz),
indicando que o assunto está encerrado de uma vez por todas e não deve ser
retomado. Um segundo volume de Nana I Ke Kumu tem ótimos capítulos
sobre os kahunas e cura, sonhos, PES e conceitos de autoimagem entre os
havaianos.
The Kahuna Sorcerers ofHawaii, Past and Present, de Julius Scammon
Rodman.
Hicksville, N.Y.: Exposition Press, 1979. Esse livro é muito interessante e
informativo sob vários pontos de vista, particularmente no que diz respeito ao
real conhecimento kahuna.
Nesse sentido, o livro é basicamente uma coletânea de superstições sobre os
kahunas, e, embora Rodman mencione os curandeiros kahuna, ele está mais
interessado em aterrorizar o leitor com histórias de maldições kahunas. O tom
do livro é definido no prefácio de Evelyn Wells, que diz:
"Se você encontrar um kahuna, sentado ao seu lado talvez diante de um
balcão para almoçar ou num bar, ele lhe parecerá uma pessoa comum, mas
você não deve dizer ou fazer coisa alguma que o ofenda. Você o reconhecerá
pelo brilho avermelhado em seus olhos, quando ele olhar para você. Os olhos
do kahuna são vermelhos assim por causa das poções mágicas que o ajudam a
desenvolver seus extraordinários poderes".
Essa descrição é tão pitoresca que um programa popular de TV no Havaí
usou-a como base para um programa envolvendo um kahuna, com efeitos
especiais e tudo. Na verdade, a superstição sobre uma kahuna com olhos
vermelhos ( kahuna makole) vem do fato de makole ser um trocadilho, um
dos entretenimentos havaianos favoritos. E uma contração de maka ole, um
eufemismo de maka ula, que significa "com olhos vermelhos", mas também
"profeta ou mago", quando pronunciada como uma única palavra, makaula. E
os kahunas não obtêm seus poderes de poções mágicas, mas de disciplinas
mentais. Além de fazer pleno uso de contos supersticiosos, Rodman emprega
insinuações quando não encontra fontes que sustentem suas idéias. Por
exemplo, ele diz: "Não há como saber atualmente até que ponto os chineses
influenciaram determinadas práticas kahunas havaianas". Prossegue dizendo
que eles exerceram alguma influência simplesmente porque estavam lá. ("Um
chinês fabricava açúcar em 1802"). Essa inconstância é geral.
Após reconhecer Mary K. Pukui como "a maior autoridade havaiana em
questões de cultura clássica", ele praticamente diz que as afirmações dela
sobre as práticas kahuna pré-descobertas não são confiáveis. Para dar algum
crédito a Rodman, ele inclui no livro algumas cartas e manuscritos muito
interessantes de Leinani Melville; comentário crítico de Charles Kenn,
autoridade em cultura havaiana e um dos poucos professores da arte de lua
(combate corpo-a-corpo); e boas fotos históricas. Cerca de um terço do livro
é dedicado a práticas funerárias antigas e modernas e sua busca pelo tesouro
de Kamehameha, duas coisas que nada têm a ver com os kahunas, embora
sejam assuntos interessantes.
Ano'Ano: The Seed, de Kristin Zambucka. Honolulu: Mana Publishing Co.,
1978. Um livro curto, escrito em estilo quase poético com lindas ilustrações,
repleto de ensinamentos kahuna em forma condensada. Os ensinamentos são
apresentados como uma história na qual os insulanos estão procurando a
verdade sobre si próprios e seu mundo. Zambucka diz que ela completou o
trabalho "após muitos anos de pesquisa e pintura na área do Pacífico". WK
recomenda esse livro como uma boa ilustração de ideias kahunas. Entre as
ideias apresentadas, há esta, que é uma premissa fundamental da abordagem
de cura psicossomática e muito apropriada como conclusão deste volume:
"Ainda que eu viaje longe, só conhecerei o que levo comigo, pois todo
homem é um espelho. Só vemos a nós mesmos refletidos naqueles que estão
à nossa volta. Suas atitudes e ações são reflexos das nossas. O mundo inteiro
e suas condições têm seus equivalentes dentro de nós. Olhe para dentro.
Corrija-se e o seu mundo mudará."
Outras Referências
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1974.
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Publicado originalmente em inglês sob o título Kahuna Healing — Holistic health and healing
practices of Polynesia, em Theosophical Publishing House, 306 Wes

Geneva Road Wheaton, Illinois 60187 USA © 1983, Serge King Tradução autorizada do inglês

Direitos de edição para todos os países de língua portuguesa © 2004, Madras Editora Ltda.

Editor:

Wagner Veneziani Costa

Produção e Capa: Equipe Técnica Madras

Tradução:

Marcos Malvezzi Leal Revisão:

Augusto do Nascimento Ana Maria Balboni Palma CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE


________ SINDICATO

NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. ____________________

K64m King, Serge Magia e Cura Kahuna: Saúde Holística e Práticas de cura da Polinésia/Serge Hahili
King;

tradução Marcos Malvezzi Leal. - São Paulo: Madras, 2004

Tradução de: Kahuna healing 2

Apêndice

Inclui bibliografia ISBN 85-7374-812-5

1. Cura pela mente. 2. Cura - Havaí. 3. Havaianos - Medicina. 4. Kahuna. I. Título.

04-0798.

CDD 615.851

CDU 615.85

23.03.04 __________________ 24.03.04 ________________________ 005926

Proibida a reprodução total ou parcia desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico,
mecânico, inclusive por meio de processos xerográ -

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